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Poesia Ana Duque* São migalhas, meu senhor 0 amor não se estraga. Dá-se aos bocadinhos, como pão para as pombas que correm a bicar nas migalhas. Enche-se uma mão e atira-se ao ar, esperando que fiquem presas pelo bico num voo alto, rasante ao nosso coração. Na praça da paixão eu passo as tardes sentada numa escada de igreja a vê-las juntar-se e afastar-se tontas nos caminhos. Apressadas. Depois param. Entortam a cabeça em movimento rápido e miram-me. De lado.

Sabem que te espero ao fim da tarde e tenho um punhado de pedaços do meu carinho para compores como uma manta de retalhos. Com migalhas fazemos o pão-nosso de cada dia juntos. Porque o amor, já lhe disse meu senhor, não se estraga. Amassa-se devagarinho e dá-se de comer aos corações.

* Pseudónimo de Arminda Rosa Pereira, natural do Porto. Foi actriz do Teatro Experimental do Porto e colabora na tertúlia Onda Poética de Espinho. Colaboradora da Notícias Magazine e do Jornal de Letras.


Villa da Feira 13