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Ficha Técnica Título: Villa da Feira - Terra de Santa Maria Propriedade: LAF - Liga dos Amigos da Feira ® Director: Celestino Portela Director Adjunto: Fernando Sampaio Maia Colectivo Editorial - Fundadores LAF: Alberto Rodrigues Camboa; António Luís Carneiro; Carlos Gomes Maia; Celestino Augusto Portela; Joaquim Carneiro Processamento de Texto: Carla Maria Costa Ferreira Coordenação Científica: J. M. Costa e Silva Revisão Gráfica: Equipa Villa da Feira Colaboração do TOC, Belmiro da Silva Resende Periodicidade: Quadrimestral Assinatura anual: 30 euros Assinatura auxiliar: 50 euros Este número: 15 euros Pagamentos por: Transferência bancária NIB 007900001127152910124 Cheque à ordem de LAF - Liga dos Amigos da Feira Capa: Monumento a Fernando Pessoa. Óleo sobre tela de Joaquim Pereira Fotografias: Óscar Maia, Arquivos particulares e LAF Redacção e Administração: Apartado 230 • 4524-909 Feira

Publicidade: Telef.: 256 362 028 | 256 379 604 Fax: 256 379 607 Tiragem: 500 exemplares Edição: N.º 13 - Junho 2006 Pré-impressão, Impressão e Acabamento: Empresa Gráfica Feirense, S. A. Apartado 4 - 4524-909 Santa Maria da Feira Sede Social: Largo de Camões, 9, Apartado 230 4524-909 Santa Maria da Feira Email: villadafeira@portugalmail.pt Depósito Legal: 180748/02 ISSN: 1645-4480 Reg. ICS: 124038 Depositária: Livraria Vício das Letras Rua Dr. José Correia e Sá, 59 4520-208 Santa Maria da Feira Apoios: Câmara Municipal Santa Maria da Feira Irmãos Cavaco S.A. Zoo Lourosa - Parque Ornitológico Rhode - Sociedade Industrial de Calçado Luso-Alemã, Lda Termas das Caldas de S. Jorge Sociedade de Turismo de Santa Maria da Feira Patrícios, S.A.


PÓRTICO Iniciamos o 5º. Ano de publicação regular. Editámos vários livros e separatas em 2005, já editámos três volumes em 2006, com especial destaque para o volume dedicado a D. Sebastião Soares de Resende, com apresentação pública no dia 29 de Abril e em cerimónia presidida por D. Carlos Moreira Azevedo, que constituiu um momento alto de cultura santamariana e em que todos sentimos que “pagamos aos passados e servimos aos futuros”. Neste número concluímos o estudo sobre a inauguração do “Monumento a Fernando Pessoa”, registando todas as intervenções feitas pelos ilustres palestrantes, a viagem do sonho até à realidade e a reportagem documental dessas vivências.

natural de Lobão, que surpreendeu o Monumento em pleno Outono, em que as árvores desfolhadas são outras manifestações da unidade, diversidade e pluralidade pessoanas, a que se associam as nuvens que o envolveram. É também motivo de incentivo, o apoio que temos recebido de estudiosos colaboradores, de dedicados apoiantes e assíduos leitores, o suporte que nos mantém firmes e capazes de resistir “aos ventos e marés” de qualquer adversidade, e prosseguir em frente rumo ao Futuro... Bem hajam pelo estímulo e entusiasmo que nos dão. A Vêr o Sol, 01/05/2006 O Director

Apresentamos, como motivo de capa, um belo quadro de Joaquim Pereira, ilustre Santamariano,

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Sumário

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Pórtico

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Memorandum Mário Fernandes da Silva Cancela

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Saudação no Castelo da Feira P.e Albano de Paiva Alferes

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Homilia na festa das Fogaceiras. S. M. da Feira - S. Sebastião 2006 D Carlos A. Moreira Azevedo

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Poesia Ana Duque

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Milheirós de Poiares (Século XVI a XVIII) Manuel Joaquim Santos Conceição

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Apêndice Documental

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Poesia João Pedro Mésseder

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Triângulo Litigioso - Os Lóios da Feira, Nogueira da Regedoura e Malta-Rio Meão David Simões Rodrigues

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Poesia Judite Lopes

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A Pirataria Norte-Africana no século XVII Manuel Leão

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Poesia Edgar Carneiro

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Antologia Prática de um Devocionário Tradicional Popular - II P.e Domingos Moreira

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O Vidro (2) Jorge António Marques

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Para a Biografia de Manuel de Arriaga Maria da Conceição Vilhena

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Recordações Desportivas Joaquim Máximo

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Monumento a Fernando Pessoa. No Castelo de S. Maria da Feira - X (Conclusão) Executivo LAF

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Poesia Anthero Monteiro

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A Propósito de Uma Fogaça! António Gil Carneiro Alves Correia

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A Medalhística no Concelho de Santa Maria da Feira - IX José Rodrigues

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Postais do Concelho da Feira Ceomar Tranquilo

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MEMORANDUM Mário Fernandes da Silva Cancela* Por iniciativa de um grupo de Feirenses que integram a Associação Cultural da Liga dos Amigos da Feira foi inaugurado no dia 30 de Novembro de 1983, em Santa Maria da Feira, o primeiro monumento nacional em homenagem a Fernando Pessoa. Após as cerimónias da inauguração presididas por Sua Ex.cia o Presidente da República, General António dos Santos Ramalho Eanes, este, com toda a sua comitiva, dirigiu-se, já ao anoitecer, para o Castelo da Feira, o ex-libris de Santa Maria da Feira, onde tiveram lugar as cerimónias de encerramento. Chegado ao castelo, lugar onde a história e a natureza se fundem, num dos mais belos recantos do país, foi, efusivamente, saudado pelo Presidente da Comissão de Vigilância, Padre Albano de Paiva Alferes. Após a saudação teve lugar no Salão Nobre um jantar em que estiveram presentes altas autoridades nacionais, distritais e concelhias, muitas individualidades da Política, da Literatura e das Artes e, ainda, cidadãos ilustres de Santa Maria da Feira e dos concelhos vizinhos. * Juiz Conselheiro do Supremo Tribunal de Justiça.

Foi uma noite de autêntica e sã fraternidade vívida entre paredes cheias de história e que se prolongou até alta madrugada, possibilitando às pessoas uma maior aproximação à história e à cultura, sobretudo das Terras de Santa Maria. Foi, talvez, a noite mais bela vivida em Santa Maria da Feira, uma daquelas noites que se desejava não tivesse fim. De quase tudo se falou um pouco, designadamente das belezas naturais das terras de Santa Maria, dos seus valores artísticos e monumentais, das suas tradições e dos seus costumes, dalgumas das suas mais nobres e relevantes figuras históricas. Fruto de espíritos cultos e inteligentes, a Liga dos Amigos da Feira homenageou o homem que, embora sendo uma das mais sedutoras e admiráveis figuras da literatura contemporânea, só após sua morte surgiu a revelação das dimensões da sua obra e a sua consagração nacional e internacional. Deixou Fernando Pessoa atrás de si os primores do seu espírito e o seu vulto mais se agiganta com o decorrer do tempo. Associação cultural por excelência, a Liga dos Amigos da Feira não se limitou ao longo da sua existência a homenagear Fernando Pessoa, mas tem vindo a homenagear, embora em moldes diferentes, também

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os Feirenses que mais se têm distinguido no domínio da ciência, das artes, da religião e da economia. E não deixará, também, de continuar a homenagear aqueles que, pelos seus méritos, o mereçam. Criou, também, a Liga dos Amigos da Feira a revista Villa da Feira – Terra de Santa Maria, prestigioso órgão cultural que tem publicado importantes estudos de variado objecto e diferente natureza e representa já parte indissolúvel do património do concelho de Santa Maria da Feira. Revista de espírito aberto e equilibrado, continuará, certamente, a contribuir para o melhor e mais perfeito conhecimento das Terras de Santa Maria.


Saudação no Castelo da Feira P.e Albano de Paiva Alferes* Ex.mo. Senhor Presidente da República Senhor representante do Governador Civil de Aveiro, protector deste Castelo, Senhor Presidente da Câmara, minhas Senhoras, meus Senhores. Pesa sobre mim, na qualidade de Presidente da Comissão de Vigilância do Castelo da Feira, apresentar ao senhor Presidente da República o nosso melhor saudar, de mistura com votos de boas-vindas. E assim eu saúdo na Pessoa de Vossa Excelência o Presidente da República de espírito esclarecido e coração limpo. O senhor Presidente encontra-se, nestas horas meridianas para a Vila de Feira, dentro dum dos mais belos Castelos Portugueses; verdadeiro exlíbris das Terras de Santa Maria da Feira. E, apesar de silencioso e triste, está perfeitamente integrado nesta deslumbrante paisagem feirense sendo mesmo o seu melhor componente. Disse Alguém que: “o Castelo deve ser a Acrópole Sagrada, o lugar eleito das peregrinações patrióticas”... * Historiador. Sócio Fundador da Liga dos Amigos da Feira. Faleceu a 1 de Fevereiro de 1994.

E é, pois, como peregrino da História e da arte militar que o senhor Presidente acaba de transpor os limiares deste Castelo, glorioso padrão evocativo de belas páginas da História Pátria e que a Comissão de Vigilância desde 1909, tem envidado todos os esforços para o restaurar, conservar e guardar como valioso espécime de arte medieval, carregado de válidas recordações históricas, que urge transmitir às gerações que surgem mas sem as distorcer, sem as apoucar ou diminuir, lutando, sem tréguas, contra uma nefanda doença desta conturbada época em que vivemos – o neo-vandalismo – que aparece apostado em destruir, mais que as intempéries do tempo, estes gloriosos monumentos que foram sentinelas avançadas e vigilantes desta Terra bendita que constitui a nossa Pátria e, desta forma, ficamos a chorar a perda de ricos exemplares que a ignorância duns e a imbecilidade e espírito de destruição doutros fizeram desaparecer para sempre. Admiráveis exemplares de arquitectura militar, os nossos Castelos são também testemunhos permanentes e vivos da fundação e consolidação da Nacionalidade Portuguesa, em cujos movimentos o Castelo da Feira tomou, sempre, um lugar de vanguarda, participando nos grandes sucessos da nossa História, alvoraçando-se, alegremente, com as suas horas de triunfo e penando nos seus momentos de infortúnio,

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sem nunca deixar de enaltecer a raça portuguesa com os seus rasgos de bravura e heroísmo. Granito nu e denegrido pelo bafo dos séculos... Pedras velhinhas queimadas e douradas pelo sol que parecem querer falar para vos ler páginas gloriosas da nossa História ou, então, contar-nos perfumadas e belas lendas de sabor mourisco... Testemunho de épocas e escolas várias não podia deixar, o nosso Castelo, de reflectir diversas correntes arquitectónicas. A sua solidez e dignidade exteriores esmagamnos, enquanto o seu interior, este salão onde nos encontramos, encimado por uma cúpula de manifesta influência gótica, seduz pela sua magnificência e elegantes proporções de linhas artísticas que, aliadas a certos pormenores romanos, deveras predominantes, nos levam a afirmar que estamos em presença dum Castelo romano-gótico. Tem sido tarefa árdua e difícil encontrar a certidão de nascimento deste Castelo e, subsequentemente, a sua filiação... Será oriundo dum velho Castro com que os romanos fortificavam as suas estradas ou de outra fortificação anterior? É possível...

É, porém, certa a estadia dos Romanos neste Castelo, como estão a atestá-lo não só os pormenores arquitectónicos, mas também “aras”, peças de cerâmica e moedas romanas, aqui encontradas. Com a expulsão dos Romanos da Península Ibérica, é de presumir que os Visigodos tenham ocupado e reparado este Castelo, o que se depreende pelas seteiras cruciformes e por outras particularidades de construção. É, no entanto, fruto da arabização a construção daquele Castelo amouriscado, parte do qual foi posto a descoberto com as obras aqui realizadas em 1938, e que, reinando, em Leão, Bermudo III, tio-bisavô de D. Afonso Henriques, foi conquistado aos Mouros por Mem Guterres e Mem Lucílio condes locais, que, sequiosos de presúrias se entregavam denodadamente às lutas da Reconquista. Reconstruíram o Castelo e a povoação envolvente, a quem deram o nome de “Terra de Santa Maria” cuja história começou a andar ligada à do Castelo, chegando mesmo a fundir-se uma com a outra, principalmente no século X e nos primórdios da nossa nacionalidade. Crê-se que teria sido no “Castelo de Santa Maria da Feira” onde começou a urdir-se a conjura de bravos e ilustres portugueses, ciosos da liberdade e


Independência da sua Terra, contra o domínio nefasto de Dona Tareja, patrocinando assim a causa de seu filho, D. Afonso Henriques. Segundo Herculano, entra agora em cena um dos três ilustres Monizes – o Hermígio – que, sendo senhor da “Terra de Santa Maria da Feira”, teria sido o verdadeiro chefe da insurreição que contribuiu para a vitória de São Mamede, em 1128, que pôs termo à desavença entre mãe e filho. E assim o historiador local, Doutor Vaz Ferreira, firmado no citado testemunho de Herculano e em descobertas feitas aqui no Castelo, em 1938, apresentando uma tese erudita mas infeliz, proclamava, “alto e bom som”, em 1939, encostado a uma ameia mourisca que acabava de encontrar: “AQUI NASCEU PORTUGAL”. Com a emancipação, o Castelo da Feira entra nos caminhos válidos da História. Em 1448, D. Afonso V cede-o a D.Fernão Pereira, pai do 1º Conde da Feira, D. Rui. Na posse dos Pereiras, o Castelo da Feira sofreu grandiosa reconstrução praticamente como hoje se encontra, com adaptação a armas de fogo, o que o tornou um dos castelos mais característicos dessa modalidade. Este período áureo veio, porém a terminar

com a morte do 8º e último Conde da Feira, sem descendência, em 1700. O Castelo passa, então, para a Casa do Infantado e, ao mesmo tempo, entra nos caminhos da ruína e perdição da História, por onde andou perdido e esquecido, cerca de duzentos anos, até que, em 1909, o verdadeiro espírito feirense despertou do letargo a que se tinha abandonado e lançou-se à procura do seu Castelo e foi encontrá-lo coberto de chagas e tombado na rota do esquecimento e desamparo da História, onde tinha tropeçado e caído. Condoídos do seu estado, os feirenses organizados em Comissão, levantam-no da queda, pensam-lhe as feridas, até que, na década de 30, a Direcção dos Monumentos Nacionais renova-o “dos pés à cabeça” e, desta forma, o nosso Castelo, “são e salvo” e teimando viver o nosso tempo, reentra nos trilhos gloriosos da História. Durante este século três Chefes de Estado visitaram este Castelo. Em 1908, o Rei D. Manuel II, a inaugurar o Caminhode-ferro do Vale do Vouga; em 1970, o Presidente da República, Almirante Américo Tomaz, a assistir à inauguração de várias obras concelhias; e hoje, Vossa Excelência, deu-nos a subida honra de vir até nós, a comungar connosco nos sentimentos belos de

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homenagem ao insigne Poeta Fernando Pessoa. O nosso melhor agradecer. A terminar não ficaria completa esta mal alinhavada resenha se não me reportasse à Capela do Castelo: uma verdadeira jóia arquitectónica, em granito da região e no estilo maneirista, obra seiscentista, hexagonal, que se encontra à ilharga deste Castelo a perpetuar a devoção da sua fundadora, a Condessa da Feira, Dona Joana Pereira, a Nossa Senhora da Encarnação. E assim quando, cá em cima, no Castelo, ecoava o fragor das armas, lá em baixo, na Capela, ciciava o murmúrio da prece, modalidade da vida da Lusa-Grei. Nesta despretensiosa exposição, esforcei-me por seguir o conhecido adágio latino: “Esto brevis et placebis”. (Sê breve e agradarás). Eu de facto consegui ser breve... mas não agradei, do que peço perdão. Bem-haja Senhor Presidente. Bem-haja. Muito Obrigado.


Homilia na festa das Fogaceiras. Santa Maria da Feira - S. Sebastião 2006 D. Carlos A. Moreira Azevedo* Leituras Isaías 50, 4-11 Hebreus 10,32-36 Mateus 10,17-22 Após há um ano de vos ter comunicado os conhecimentos possíveis que nos ajudem a entrar no coração da vida e percurso do culto a São Sebastião, parecia-me redundante vir repetir saber para avivarmos a memória e celebrarmos o Mártir. A condição episcopal era para vós novidade suficiente para me exigir a presença neste lugar. Acedi. Agradeço o sentido amigo do vosso gesto. Convosco celebro, convosco louvo a força de Deus que concede confiança ao seu povo nas horas dramáticas, nas experiências aflitivas, nas aparentes derrotas. Olhar para o nosso Mártir reanima a fortaleza. * Bispo auxiliar de Lisboa. Natural de Milheirós de Poiares.

“É de perseverança que tendes necessidade para cumprirdes a vontade de Deus”, afirma a Carta aos Hebreus (10, 36); “O que perseverar até ao fim, esse será salvo” proclama o Evangelho (Mt 10, 22). Quero aprofundar convosco a actualidade desta resistência perseverante diante de legislação desrespeitadora da dignidade da pessoa humana e do valor da família, perante a moda do agnosticismo e ante a cedência fácil a comportamentos incoerentes com a novidade evangélica. 1. Apesar do perigo de ser denunciado ao Imperador, Sebastião partilha o sofrimento dos irmãos presos por causa da sua fé. Possuí ouvido de discípulo (Is. 50). Não tem mais ninguém a quem obedecer, se não ao Mestre que é Cristo. A luz para guiar as suas atitudes procura-a na comunhão de amor com o seu único Senhor. O mártir é coerente com essa escuta interior usando uma língua de discípulo, como o servo descrito por Isaías. Por isso se dedica a consolar os presos. Está firme no amor, porque sabe que só essa

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atitude agrada a Deus, ainda que desagrade aos chefes. Em São Sebastião não evocamos apenas a fortaleza do soldado que resiste, descobrimos sobretudo a fortaleza, dom do Espírito, que relativiza qualquer obediência à lógica humana. De onde poderá vir o dom de agradar a Deus, se não da inspiração do próprio Deus? Tomar decisões que tenham em conta o juízo de Deus, será que amedronta? Mas se é Deus que as inspira, que importa o juízo do mundo? Na Escritura, o juízo de Deus é uma boa notícia, um sinal de que o amor de Deus pelo mundo não teme adversidades, nem admite atitudes nocivas ou destrutivas. Deus julga quem destrói a vida humana e desfaz o tecido da criação. O Juízo de Deus não resulta de um Deus zangado que se ira com os pecadores e os atinge por represália. O Juízo de Deus é bom, põe as coisas no lugar e recupera, cura a criação estragada pela maldade, restaura com persistência a ordem da vontade de Deus no concreto da história. O cristão vive desta graça, inspira-se nesta força, bebe desta energia. É esta certeza que não o deixa na confusão. A condenação pelos chefes não abafa o fogo da verdade. É uma graça e uma enorme responsabilidade repousar nas mãos de Deus que vive e que salva. Não nos garante berço de embalar, mas tormentos, contrariedades ao seu projecto de salvação e de vida abundante. Como poderia um discípulo de Cristo, ouvinte atento de Deus e executor da sua vontade, fazer aliança com a morte, dedicar-se a servir a morte, entrar nessa experiência terrível. Mesmo que os legisladores deste reino lusitano queiram aprovar leis contra a vida, desde a concepção até à morte natural, os cristãos são convocados para não recorrer às permissões legais de

quem atente contra inocentes em gestação. Mesmo que os senhores do poder estabeleçam o recurso a técnicas de procriação medicamente assistida, sem ter em conta as fronteiras da dignidade humana do embrião, sem dar à criança a nascer as melhores condições afectivas de uma família para o seu desenvolvimento, os cristãos são chamados a não fazer uso de tais medidas, procurando formas alternativas para solucionar o sofrimento de casais estéreis. Mesmo que a família venha a ser adulterada e o matrimónio reduzido a mero contrato, os cristãos serão convidados o ousar o caminho resistente da fidelidade, como serviço único à sociedade do futuro. Mesmo que a eutanásia venha a ser permitida sob formas mitigadas, os cristãos serão animados a resistir à tentação de antecipar o momento do fim, ainda que provando sofrimento inerente à condição humana, apesar de aliviado pelos meios adequados. 2. A perseverança na fé assume hoje carácter mais exigente, porque o ambiente não favorece a permanência da obediência aos critérios de Deus. É bem actual a fortaleza de acreditar, perante a moda de ser agnóstico ou laico. É um enorme benefício à sociedade, um dom essencial para o futuro da história ter ouvidos de discípulo, ser humildes mendigos de Deus, acolher o dom da fé e retirar os preconceitos que impedem uma adesão religiosa. Voltar as costas à graça de acreditar é ficar na terrível solidão, abandonado ao juízo da história, recusar uma ajuda interior incomparável. A apostasia é saber, na profundidade de si mesmos, que a morte foi submetida (1Cor 15, 54) e escolher plantar a tenda no campo da morte, é construir a casa no local do terramoto, é crescer junto da terra da liberdade


e optar pela escravidão, é ser salvo por uma corda robusta e atirar-se novamente ao mar furioso. Imploremos de Deus a fortaleza do Mártir para renovar a fé e ter a coragem de acreditar nesta acentuada pressão do ambiente contrário. É duro aguentar ser crente, não sucumbir à atracção da indiferença, não ceder ao sorriso irónico dos que põem a ridículo os maus crentes, os exemplos negativos para arrastar em falsas conclusões. A frontalidade de quem afirma com orgulho e militância não acreditar exige a verticalidade activa de anunciar as razões que nos movem, o Deus que orienta a nossa existência, a alegria de seguir a sabedoria de Deus. A todos os que se abrem à verdade e ao bem, à beleza e à justiça e deixam crescer dentro de si sementes do Espírito dediquemos tempo de diálogo cheio de respeito. A perseverança paciente verá os corações abrirem-se à fé, reconhecerem a energia da proposta de felicidade do Evangelho. 3. Seria pouco ficar seduzido pela grandeza de Deus e com humildade entrar na aventura da fé. Porque quando essa fé tem o sabor do cristianismo há uma coerência de vida implicada. E, também aqui, o isolamento é tantas vezes a companhia da coerência com a novidade evangélica. Não festejaríamos São Sebastião se ele tivesse serenado a consciência com o refrão: “Agora é assim! Todos fazem isso!” Assim nos adequamos passivamente às modas, às ideias dominantes, à mentalidade espalhada. A debilidade moral e espiritual cede a compromissos negativos, na realização do dever. A determinação por ideais não permite ceder no recurso a qualquer meio para chegar aos objectivos. Na realização do dever moral, não se pode ceder a impulsos

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primários, a pressões externas, a paixões interiores. Numa sociedade do acomodamento, da cedência, a firmeza não é jogo triste de quem é fraco e vil com os poderosos e prepotente para com os indefesos. A firmeza é, antes, vigor da alma em condições difíceis. A coerência do amor pela verdade e pelo bem não dá lugar à intolerância ou à discriminação, porque os discípulos de Jesus aprendem dele que um comportamento decisivo não é intransigente, de que só o afastar da vingança interrompe a violência. Essa é uma fortaleza fundamental que interrompe o círculo vicioso da maldade.


invenção, fantasia. Sebastião não atendia os presos com discursos, mas unia a caridade das palavras com a caridade das obras. O mar das palavras anda cheio, inunda os dias. Obras que alterem as situações do país ou da Igreja escasseiam. As pobres campanhas eleitorais, quando não se reduzem a suspeitas mentirosas, a ataques injustos de gente sem escrúpulos, podem evidenciar problemas, mas raramente apontam soluções realistas – doa a quem doer – caminhos eficazes para o bem de todos – ditados por valores, em vez de gerados por interesses solapados. A falta de verdade de alguns políticos desaconselha claramente que lhes votemos confiança. Os cristãos, no momento de votar, não podem deixar de lado os princípios em que acreditam, os valores morais que defendem, as perspectivas do futuro por que anseiam. É preciso perseverar na coerência dos princípios, na coragem perante hostilidades, na honestidade mesmo circundados de corrupção, firmes no bem quando a doença nos atinge.

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De facto, a forma concreta de evidenciar a coerência é o exercício da caridade. Se vencemos o mal é pelo amor com que Deus nos ama (Rom 8). Não podemos contentar-nos com evitar o mal. O amor leva a dar frutos para a vida do mundo, reconhecendo que os pobres não são uma ameaça. São um apelo à nossa conversão. Para atender a tantas formas actuais de pobreza, a configurações que não existiam no tempo de São Sebastião nem na Idade Média, que provocou o voto desde concelho ao mártir, requer-se

5. Os lamentos não criam mudança. As condições de crise não justificam marasmo. Só rasgo de profecia e ousadia de horizontes moverão as mentes da peste da depressão. São muitos os seguidores de Cristo que, em todos os tempos, da época de São Sebastião à nossa, conhecem o martírio, em íntima união com Cristo. A sua vida profética é testemunho que nos atrai. Não queria finalizar sem lembrar um profeta feirense do século XX, que deve o nome ao santo hoje celebrado, o bispo cujo centenário ocorre neste ano 2006, o incansável pastor da Beira, D. Sebastião Soares de Resende, nascido em Milheirós de Poiares.


Para além de investigador sério dedicado à história da teologia, doutrinador inteligente que publicou dezassete longas cartas pastorais, pastor activo e missionário inovador, foi um profeta para a sociedade do seu tempo. Quando, em 1943, entra em Moçambique enfrenta os erros do colonialismo, preocupa-se pelos problemas sociais, denuncia a deslealdade do ministro do Ultramar em 1957, vê apreendida pela PIDE a carta pastoral de 1959, que chega a ser falada na ONU. O jornal da diocese, Diário de Moçambique, seria suspenso três vezes. O encontro com Salazar, em 1965, tem ecos na imprensa italiana. Chegam a sugerir o nome do corajoso bispo para Patriarca de Lisboa... Não foi um resistente por razões políticas, mas por fidelidade à verdade, por profeticamente abrir caminhos à justiça e ansiar por um mundo ao estilo de Jesus. Não era contra ninguém, nem antigovernamental. Simplesmente era fiel à sua missão. Se levantava a voz não era por temperamento, mas as situações empurravam-no para ser profeta. O vigor da sua coerência de vida não admitia recuos doutrinais, cedências aos princípios, acomodação a injustiças clamorosas. Gente com fé inabalável até ao fim não teme ler a realidade à luz do Evangelho, não receia reflectir sobre a vida do povo. Quando Sebastião Soares Resende, segundo a sua própria expressão, “escrevia a última pastoral”, na agonia do leito, minado por um cancro, no templo ortodoxo grego rezava-se pelas suas melhoras, na mesquita muçulmana havia preces pelo bispo, os hindus interessavam-se pelo prelado. A coerência da sua vida cristã aproximava e congregava todos. São Sebastião perdoa-me se evoco o seu homónimo, unindo-os no testemunho da resistência às adversidades, na valentia de espírito diante das condições, na actividade persistente em dedicação ao bem.

Caríssimos irmãos e irmãs: ao cumprir o voto renovemos a firmeza da fé. O Mártir venceu a atrocidade das setas. Imploremos ao Deus que o libertou fortaleza para perseverar até ao fim na profecia audaz de discípulos de Jesus, na coragem de homens e mulheres crentes, determinados na defesa da vida, do valor da religião, na coerência da verdade e na imaginação do bem.

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Poesia Ana Duque* São migalhas, meu senhor 0 amor não se estraga. Dá-se aos bocadinhos, como pão para as pombas que correm a bicar nas migalhas. Enche-se uma mão e atira-se ao ar, esperando que fiquem presas pelo bico num voo alto, rasante ao nosso coração. Na praça da paixão eu passo as tardes sentada numa escada de igreja a vê-las juntar-se e afastar-se tontas nos caminhos. Apressadas. Depois param. Entortam a cabeça em movimento rápido e miram-me. De lado.

Sabem que te espero ao fim da tarde e tenho um punhado de pedaços do meu carinho para compores como uma manta de retalhos. Com migalhas fazemos o pão-nosso de cada dia juntos. Porque o amor, já lhe disse meu senhor, não se estraga. Amassa-se devagarinho e dá-se de comer aos corações.

* Pseudónimo de Arminda Rosa Pereira, natural do Porto. Foi actriz do Teatro Experimental do Porto e colabora na tertúlia Onda Poética de Espinho. Colaboradora da Notícias Magazine e do Jornal de Letras.


contemplar também os lugares da Laranjeira, da Costa, do Fundo da Aldeia, do Cimo da Aldeia, da Igreja e dos Casais; de Gaiate que passou a englobar também os lugares da Mámoa, do Casal, do Pinheiro, do Carvalho e do Fundo da Aldeia de Gaiate. Outras atrofiaram. É o caso de Vale Escuro e Valar ou Vadar, que deixaram de ser povoadas, continuando no entanto a ser cultivadas. Actualmente nem sequer cultivadas são (3). TOMBO DO MOSTEIRO DE PEDROSO DE 1575

MILHEIRÓS DE POIARES (SÉCULO XVI A XVIII) Manuel Joaquim Santos Conceição* Este trabalho incide fundamentalmente sobre a análise de dois documentos, relacionados com vários lugares da freguesia de Milheirós de Poiares, especialmente a antiga povoação de Gaiate, um o Tombo de Mosteiro de Pedroso do ano de 1575, que designaremos pela abreviatura TMP, outro o Tombo do Condado da Casa da Feira de 1706 a 1754, que designaremos pela abreviatura TCCF. Milheirós de Poiares, do concelho de Santa Maria da Feira, no século XVI, era uma freguesia constituída pelas várias povoações que resultaram dos núcleos medievais primitivos documentados (1), designados villas, a saber: Casal Docio, Dentazes, Gaiate, Milheirós, Valar ou Vadar e Vale Escuro. Umas, a maior parte, desenvolveram-se, vindo a agregar vários lugares. É o caso de: Casal Docio que se desmembrou nos lugares do Pereiro, Seixal, Trofa (2), Vale e Outeiro, desaparecendo o topónimo inicial; de Milheirós, que deu o nome à freguesia, e que veio a (1) Maria Lisdália de Oliveira e Silva, MILHEIRÓS DE POIARES (Santa Maria da Feira) na Idade Média, in VILLA DA FEIRA TERRA DE SANTA MARIA, ano III, número 9, 2005, LIGA DOS AMIGOS DA FEIRA, p.87-108.

Grande parte da antiga povoação de Gaiate, incluindo os lugares acima referidos, pertenceu ao Mosteiro de Pedroso. Por volta de 1550, este mosteiro encontravase em franco declínio, sem comendatário, sem prior, sem abade e com escassos religiosos. Daí que a rainha D. Catarina, com autorização do Papa Pio IV, em 14 de Junho de 1560, extinguiu o dito mosteiro e anexou os seus bens ao Colégio Jesuíta de Coimbra. A partir desta data, o referido Colégio iniciou a elaboração dum tombo, registando com o rigor, que lhe é peculiar, todas as propriedades pertencentes ao dito mosteiro, tendo ficado concluído no ano de 1575. É este Tombo de Propriedades, que se encontra no Arquivo Distrital do Porto, que vai ser objecto do nosso estudo e de Topónimo que foi sendo substituído sucessivamente por Ervilhaca e Corujeira. (3) O topónimo Vale Escuro ainda existe na actualidade designando uma área considerável de terreno predominantemente florestal próximo das freguesias vizinhas de Arrifana e Escapães, com as quais Milheirós de Poiares confina. O lugar de Valar ou Vadar é mais problemático, mas, salvo melhor opinião, situar-se-ia em Porto Carreiro ou nas suas proximidades, onde outrora houve um casal com este nome pertencente ao Mosteiro de Grijó e que ficava perto da freguesia vizinha de Pigeiros, com propriedades situadas dum e doutro lado do rio Uíma. Este casal está documentado com este nome desde 1519 pelo menos, como se pode verificar num livro de prazos deste mosteiro, à guarda do Arquivo Distrital do Porto. Nele se mencionam as seguintes propriedades: Chão da Espinheira, topónimo ainda hoje existente, a Norte do lugar do Pereiro; Chão de Baixo, que confrontava do Nascente com o antiquíssimo caminho que vai para o Carvoeiro, do Sul com o rio Uíma e o dito Chão da Espinheira; campo chamado de Pigeiros, localizado um pouco mais a Nascente; o Chão de Riba, que confrontava do Poente e Norte com o mesmo rio Uíma. A este propósito, veja-se Domingos A. Moreira, SANTA MARIA DE PIGEIROS NA TERRA DA FEIRA, Porto, 1968, p. 47, p.371 e nota 299 da p. 382, que aponta como hipótese de localização da villa de Valar ou Vadar próximo dos Passadouros de Cima e de Baixo do mesmo rio Uíma. (2)

* Natural de Milheirós de Poiares, licenciado em Línguas e Literaturas Clássicas e professor da Escola Secundária João da Silva Correia de S. João da Madeira.

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Casa antiga do lugar da Corujeira.

Casa do séc. XVIII, no lugar de Dentazes, respeitante ao Casal de Riba.

transcrição no que respeita à freguesia de Milheirós de Poiares. Trata-se dum livro manuscrito, com capas de madeira, de 576 folhas, das quais 9 têm a ver com Milheirós de Poiares, ou seja, desde a fol. 252 até à fol. 260. Tanto quanto sabemos, a obra ainda não foi impressa, embora já tenha sido objecto de vários estudos, dos quais se destaca a tese de licenciatura de Isilda Braga da Costa Monteiro, intitulada A Administração Jesuíta do Mosteiro de Pedroso de 1560 aos finais do Século XVII (4). No TMP, verifica-se que o Mosteiro era senhorio de 6 casais na povoação de Gaiate, chamados: Gaiate, outro casal de Gaiate, Casal, Mámoa, Pinheiro e Carvalho. Além disso, tinha uma quebrada na Regada, fora de Gaiate, situada na povoação de Milheirós, e um censo em Fundo da Aldeia de Gaiate. Os grandes senhorios eram de fora da freguesia, caso do Mosteiro de Pedroso, Mosteiro de Santo Agostinho da Serra (Igreja e Passais), e Gaspar Leitão, de Arrifana (5). No entanto, as propriedades da Igreja e Passais do Mosteiro de Santo Agostinho da Serra, embora confrontem com algumas da povoação de Gaiate, situam-se a Sul de Gaiate e pertencem,

portanto, à povoação de Milheirós. Assim sendo, os grandes senhorios da povoação de Gaiate propriamente dita, no século XVI, são o Mosteiro de Pedroso, o maior, e Gaspar Leitão Coelho, como aliás se pode comprovar com as confrontações das diversas propriedades. Os senhorios da freguesia seriam pequenos lavradores que trabalhavam as suas próprias terras e outras, que arrendavam aos grandes senhorios e enfiteutas. É o caso de Afonso Anes, morador no casal do Carvalho, Roque Pires, que também é enfiteuta do casal da Mámoa, António Gonçalves, Gonçalo Afonso, Júlio Fernandes e Bastião Luís. O casal de Gaiate está emprazado a Bastião Luís e a sua mulher Inês Anes; o da Mámoa a Roque

Isilda Braga da Costa Monteiro, A ADMINISTRAÇÃO JESUÍTA DO MOSTEIRO DE PEDROSO DE 1560 AOS FINAIS DO SÉC. XVII, Porto, Universidade Portucalense, 1993.

(4)

(5) Este Gaspar Leitão Coelho, inquiridor na Comarca da Feira, já viúvo e pai de Gaspar Leitão Coelho com o mesmo nome, mas licenciado e desembargador, casou em segundas núpcias com Eva Machada, filha de Sebastião Lopes e de Joana Fogaça, senhores da Torre de Cesar e da Honra de Gaiate. Faleceu em Milheirós de Poiares a 21 de Novembro de 1598 e foi sepultado em Arrifana. Joana Fogaça, após a morte de seu marido, ocorrida a 21 de Junho de 1590, doou ao genro e filha Eva Machada a sua parte das propriedades em Gaiate e Cesar. Eva e Gaspar, por sua vez, doaram esses bens ao seu enteado e filho, Gaspar Leitão Coelho, licenciado em direito. Este Gaspar, nascido em Gaiate, freguesia de Milheirós de Poiares, casou com D. Joana de Mesquita e terão ficado a residir na casa das Justas, em Vila da Feira. Uma sua filha chamada Luísa de Melo casou com Sebastião de Carvalho, desembargador, e herdou os bens de Gaiate e Cesar, pelo que o seu marido passou a intitular-se Sebastião de Carvalho, Senhor da Honra de Gaiate e da Torre de Cesar. Tiveram um filho chamado Sebastião de Carvalho e Melo, avô do Marquês de Pombal, Sebastião José de Carvalho e Melo.


Em segundo plano, povoação de Gaiate e lugares agregados

Viela dos Almocreves, caminho principal no TMP.

Pires e sua mulher Filipa Fernandes; outro casal de Gaiate a Maria Moreira, filha de Heitor Moreira e casada com Gaspar Danhaia, moradora no Porto; a quebrada da Regada a Francisco Fernandes, clérigo de missa, morador na freguesia de Milheirós; o casal do Casal a Isabel Afonso viúva, António Gil e mulher Inácia Rodrigues, Jorge Anes viúvo, Brás Afonso e sua mulher Catarina Francisca; o do Pinheiro e o do Carvalho a Manuel da Cunha, celeiro, morador no Porto. Por conseguinte, três casais e a quebrada estão arrendados a pessoas de

Milheirós e outros três a pessoas da cidade do Porto. O casal de Fundo da Aldeia de Gaiate é de Gaspar Leitão, segundo ele diz, apenas paga ao mosteiro 60 réis. Os enfiteutas de Milheirós de Poiares são muito provavelmente lavradores que exploram directamente as propriedades emprazadas, exceptuando o enfiteuta da quebrada da Regada, que é clérigo de missa. Aquele que aparenta melhor situação económica parece ser Roque Pires, uma vez que é simultaneamente senhorio de algumas poucas propriedades agrícolas, como acima dissemos, nomeadamente junto à Ribeirinha e ao Carregal. Os emprazamentos são de três vidas, contando-se o marido e a mulher como primeira e segunda e um filho ou filha como a terceira; exceptuase obviamente o caso de Francisco Fernandes, clérigo de missa, que nomeará a segunda e esta a terceira. O outro casal também chamado de Gaiate, fol. 255 e seguintes, foi emprazado em quartos, desencadeando a sua fragmentação, como aliás os prazos futuros o confirmam. As rendas são pagas em géneros e em dinheiro. Os géneros são: pão meado, carneiros, capões e galinhas. A lutuosa é igual à renda dum ano. O domínio quando existe é de ¼, no casal da Mámoa, e 1/5, no outro casal também chamado de Gaiate. Além

Entretanto, Sebastião de Carvalho e Melo vendeu os seus bens de Cesar e Gaiate a António de Magalhães e Meneses, fidalgo do Côvo, razão por que este, no TCCF, aparece como senhorio em Gaiate. Ver a este propósito: Vaz Ferreira, O Marquês de Pombal Oriundo da Feira, in Arquivo do Distrito de Aveiro, vol. XI, p. 174, 1945; Roberto Vaz de Oliveira, Freguesia de S. Nicolau da Vila da Feira, in Aveiro e o seu Distrito, n.º 17, p. 55, 1974. É crível que esta honra de Gaiate esteja relacionada de algum modo com as Inquirições Régias no Julgado da Feira da Terra de Santa Maria, mandadas realizar pelo rei D. Dinis em 1288, onde se lê expressamente: «De parrochia Sancti Michaelis de Mileyroos [...] perguntado se en esta freegesia há casa de cavaleyro ou de dona que se deffenda por honrra disse que nom e disse que en toda a freegesia entra o mordomo salvo em huum casal que he de Johan Soarez en Gayati mays entra hi o porteyro e en todo o al da fregessia entra o moordomo salvo en aquel casal pero tanto que sae o gaado do casal logo lho filha o moordomo [...]». Já antes, em 1251, as Inquirições de D. Afonso III, aparentam acautelar esta situação em Gaiate: «Item de freguesia de Milleiroos, Stepphanus Pelagij, Martinus Pelagij, Petrus Pelagij, Fernandus Martini, Pelagius Pelagij, jurati, dixerunt quod in Dentazes comedit vester maiordomus minor, et in Casal Dozio, et in Gaiate in hereditate de Petroso, et non in hereditate de militibus [...]». O sublinhado é nosso.

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À esquerda, casa do séc. XVIII, no sítio do antigo Casal do Carvalho; À direita, campo da eira e levada (TMP).

Casario antigo, respeitante ao Casal de Gaiate (TMP), na travessa dos Perestrelos.

disso, os enfiteutas ainda pagam 10 réis sempre que o Padre Santo lançar décimas e outros 10 ao Rei ou Príncipe, excepto a quebrada da Regada e os casais da Mámoa, Carvalho e Pinheiro. A renda é entregue no próprio Mosteiro de Pedroso por S. Miguel de Setembro. O Mosteiro recebe anualmente de Milheirós de Poiares 1 780 réis em dinheiro, 25 alqueires de pão meado, 3 carneiros, 2 capões e 8 galinhas, sem contar com a lutuosa e o laudémio. Quanto a construções, genericamente os casais têm casa(s) de morada térrea(s) e diversas dependências tais como currais, palheiros e eiras. Não há registo de casas sobradadas. Há levadas, destinadas a conduzirem as águas para a rega dos campos e para movimentar os moinhos. Há referências directas a dois moinhos no casal da Mámoa, fol.253, a um campo com um moinho dentro, no mesmo casal, fol.253. E há referências indirectas, topónimos, tais como: a Ribeira do Moinho no casal de Gaiate, fol. 252V, e o Campo do Moinho noutro casal de Gaiate, fol. 255V. Além disso, há referência a caminhos e uma ponte. O TMP não distingue infelizmente os caminhos principais dos secundários ou até simplesmente de servidão. Nem uma única vez fala de estrada. A referência

mais pormenorizada é, a propósito da confrontação do campo das Infestas, pelo lado Poente, “caminho que vai pera a Jgreja”. Apesar disso, pensamos que há alusão a um caminho, a que vamos chamar principal, por considerarmos que é o que faria a ligação entre Arrifana e Cabeçais. Este caminho, melhor dizendo, esta estrada, no troço da povoação de Gaiate, passava pelos sítios de Felgueiras, Corredoura, Carvalho, Campo da Eira, Choupelo, Lavoura, Pinheiro, Cortinhas, Pomar, Infestas, Moutidos e Mámoa, prosseguindo para Romariz por Mouquim. Este caminho poderá remontar a uma antiquíssima estrada, medieval, romana ou pré-romana, tendo em consideração os seguintes fundamentos: - O topónimo Mámoa é vestígio duma construção funerária pré-histórica. No TMP, o casal da Mámoa é contornado parcialmente pelo dito caminho quer a Oriente quer a Norte. - Miguel Elísio de Castro(6), no seu artigo intitulado Trajecto da Via Militar Romana, afirma a certa altura que: «Na travessia de S. João da Madeira, já na freguesia de Arrifana, no primeiro desvio, quem segue para o Porto, parece que desviava para a Portela de Romariz, rumo ao Miguel Elísio de Castro, TRAJECTO DA VIA MILITAR ROMANA (Desde a Branca a Fiães da Feira), in ACTAS, I JORNADAS DE HISTÓRIA E ARQUEOLOGIA DO CONCELHO DE AROUCA, Arouca, 1987, p. 47-52.

(6)


Capela da Gaiate.

Moinho do séc. XVIII, no lugar da Mámoa, único em uso na actualidade.

Douro para atingir Braga. Passava portanto pelo lugar de Cabeçais.». Se é verdade que havia este desvio, é provável que passasse pela povoação de Gaiate e Mámoa. E é plausível que o seu percurso seja o de que fala o TMP nas confrontações das suas propriedades.

entrada principal do seu palacete, indo entroncar na actual Rua Doutor Guilherme Alves Moreira, por onde continuaria presumivelmente até à Rua do Pereiro e daí até à Rua de Gaiate até ao entroncamento com a Rua do Conselheiro Costa. Próximo desta Rua, partindo em direcção ao Nascente até ao sítio onde entronca com o caminho de acesso ao Mourigo, o dito caminho seguia paralelamente a esta, pelo lado Sul, podendo ver-se por enquanto vestígios dele muito acentuados na configuração morfológica do terreno. A partir deste entroncamento, atravessava o referido caminho de acesso ao Mourigo e prosseguia paralelamente à actual Rua Conselheiro Costa ou pela própria Rua até à Viela dos Almocreves, próximo das alminhas do Fundo da Aldeia, onde virava à esquerda prosseguindo pela dita Viela dos Almocreves, Travessa dos Perestrelos, Rua do Mosteiro de Pedroso, Rua da Venda, Rua do Autarca Eleito até ao seu entroncamento com a Rua de Gaiate. A partir daí seguia paralelamente à actual Rua da Casa da Mámoa, pelo lado Nascente. A certa altura virava para Nascente em direcção a Mouquim. Para além deste caminho, há referência a outro que é o que fazia a ligação de Gaiate com a igreja paroquial, ao qual já aludimos acima muito sumariamente. Este caminho também já foi alvo

- Também, a propósito de vias de comunicação, P.e Manuel Fernandes dos Santos(7), afirma: «De Cabeçais, sede do concelho, partia uma transversal [à velha estrada de Viseu] que atravessa esta freguesia [Romariz] (...) transpunha o rio em Mouquim e seguia por Gaiate até à via romana de Aeminium a Cale, que atravessava em Arrifana e ia depois estabelecer a ligação com Vila da Feira.». - No TCCF, de que falaremos adiante, este caminho aparece com as designações “caminho que vai para Cabeçais”, “estrada e caminho que vay para Cabeçais”, etc.. Ainda é possível actualmente visualizar grande parte do percurso deste vetusto caminho, apesar de, em alguns troços ter sido alargado e noutros ter sido alvo de ligeiras correcções de traçado. Partindo do Souto de Arrifana, contornava a actual Quinta do Seixal, pelo Sul, entrava na Quinta, passando encostado à P.e M. Fernandes dos Santos, A MINHA TERRA, BREVES APONTAMENTOS SOBRE ROMARIZ, edição de P.e Rodrigo Fontes, Cucujães, 1984, p. 11.

(7)

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S. João Baptista, imagem de pedra do séc. XVIII, antigo padroeiro da Capela de Gaiate. 24

Interior da Capela de Gaiate

de alargamentos e de alterações de traçado. Partia da actual Rua Comendador Domingos Bastos, desde o fontenário, até ao entroncamento com a Rua Conselheiro Costa, por onde prosseguia até ao entroncamento com a Rua das Relvas, por onde prosseguia até à ponte junto à Ribeira e ao Arieiro. A partir daí, não há indicações precisas. Mas é possível, primeira hipótese e mais plausível, que continuasse por caminho de pé até encontrar o caminho proveniente do Outeiro, que fazia a ligação à igreja. Ou poderia continuar pela Rua das Relvas, segunda hipótese e menos provável, até à Avenida Dr. Crispim, atravessando-a, e correndo paralelo até à curva próxima, onde prosseguiria até à igreja(8). Os outros caminhos registados no Tombo eram caminhos de servidão, de acesso aos campos, devesas e montes.

No TCCF, em 1706, a propósito das confrontações da leira do Carregal, situada na Rua das Relvas já depois da ponte, está escrito que confronta «do poente e norte com o Ribeiro e com a estrada de S. Giraldo». Ora, a capela do S. Geraldo, datará de 1682, pelo que ainda não existia no tempo do TMP, mas já existia no tempo do TCCF. A igreja, nessa altura, localizava-se num patamar inferior ao actual, ocupando o lado Norte da actual Rua da Igreja Velha, pelo que a distância entre esta e a dita capela era maior. É curioso que na dita confrontação se fala do caminho de S. Geraldo e não do caminho da igreja, razão por que optamos pela primeira hipótese.

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Alminhas do lugar do Fundo d’Aldeia de Gaiate, do séc. XVIII, na Corredoura.

Geograficamente, a povoação de Gaiate estende-se por um vale que acompanha o rio Ul, que o TMP ora denomina ribeiro ora rio, sem preocupação de o distinguir dum dos seus pequenos afluentes, junto à ponte. Ocupa sobretudo a margem direita deste rio. Algumas propriedades, no entanto, sobretudo campos e algumas devesas, também ocupam a margem esquerda. Estas, dum modo geral, confrontam do lado Sul ou com o monte maninho, caso do casal da Mámoa, ou com propriedades da povoação de Milheirós, pertencentes ao Mosteiro de Santo Agostinho da Serra. O núcleo habitacional e agrário está limitado, portanto, dum modo geral, a Norte, Nascente, Poente e parte do Sul por montes maninhos. Confronta pela outra parte do Sul com a povoação de Milheirós. Quanto à ocupação, as pessoas vivem essencialmente da agricultura, criação de animais, arboricultura e moagem. Os produtos agrícolas mais evidenciados são o milho, o centeio (pão meado), o trigo (tendo em conta o topónimo Ribeirinha de Trigo),vinho e fruta. Criam galinhas e carneiros. O pinheiro, o sobreiro, o carvalho e o castanheiro, tendo em conta os topónimos, parecem ser as árvores mais exploradas.


Quanto à toponímia, Gaiate é, sem dúvida, o nome mais abrangente e com maior antiguidade documentada(9). Sobre a etimologia de Gaiate, remetemos para P.e Domingos Moreira(10). No Tombo de Pedroso, fala-se de três casais sitos em Gaiate e no Fundo da Aldeia de Gaiate. Os dois primeiros localizados no caminho principal acima descrito, um na actual Travessa dos Perestrelos e outro na Rua do Mosteiro de Pedroso. O do Fundo da Aldeia de Gaiate, como o próprio nome sugere, situava-se num plano bastante mais abaixo, próximo do rio. A sua casa, currais, eira, cortinha, pomar, vinhas e devesa, pertencentes a Gaspar Leitão Coelho localizavamse a Nascente da actual Calçada do Fundo da Aldeia e a Norte do caminho que com ela entronca, se nos posicionarmos na direcção do Sul. Mámoa situa-se a Nascente de Gaiate. É vestígio duma câmara funerária pré-histórica(11). O casal chamado o Casal exprime a ideia de unidade agrícola. A antiga villa, unidade agrícola Efectivamente, está documentado desde 1020, como villa e mais tarde como centro religioso efémero. Para além da múltipla documentação publicada no trabalho indicado na nota 1, completamos com mais os seguintes dados, apesar de serem transcrições de originais e consequentemente sujeitos a eventuais incorrecções. Referimo-nos ao Livro Segundo Authentico dos Padroados das Igrejas do Real Mosteiro de Santo Agostinho da Serra da Cidade do Porto, com termo de encerramento datado de 15 de Setembro de 1764. Em 1270, diz-se que foi dada a igreja de Gaiate ao reitor da igreja de Milheirós, Pedro Martins (ver Apêndice Documental 2). Em 1272, em documento feito no Porto pelo notário Martinho Soares, confirma-se a concessão anterior, mas acrescenta-se que esta igreja de São João de Gaiate era sufragânea do prelado do Mosteiro de Pedroso (ver Apêndice Documental 3). Em 1304, Domingos Pedro, morador na Vila de Moura, afirmandose descendente de Paio Aires, fundador da igreja de Milheirós, doa ao Mosteiro de Pedroso os direitos que tem na dita igreja de Milheirós e no casal da Mámoa, situado no lugar de Gaiate (Ver Apêndice Documental 4). No mesmo ano, Marina Peres, também declarando-se descendente de Paio Aires, moradora na Vila da Feira, doa ao Mosteiro de Pedroso os direitos que tem na dita igreja de Milheirós e no dito casal da Mámoa, situado em Gaiate (Ver Apêndice Documental 5). Gaiate foi efectivamente um curato efémero. A sua igreja/capela serviu temporariamente a religiosidade dos seus habitantes. Um dos seus lugares, relativamente extenso, chamava-se Sanoane, topónimo relacionado com este padroeiro, como adiante desenvolveremos. Era sufragânea da igreja de Milheirós? Do prelado do Mosteiro de Pedroso? Os documentos não são esclarecedores, embora pareça mais lógico ser sufragânea da de Milheirós. (10) Domingos A. Moreira, Observações Toponímicas, p. 39-41, IN VILLA DA FEIRA TERRA DE SANTA MARIA, n.º 1, 2002, (11) Mámoa está documentado em 1270 e 1304, como se constata nos respectivos documentos indicados na nota 9. No de 1270 diz-se que meio casal da Mámoa era do Mosteiro de Pedroso e que o trazia Estêvão Pais, reitor da igreja de Milheirós, juntamente com outras propriedades da Villa de Gaiate. (9)

remontando presumivelmente ao tempo da romanização, desmembrou-se em vários casais, que passaram a ser as novas unidades agrícolas, constituídas por casas de habitação dos caseiros, currais para o gado, eiras e outras dependências anexas, para além do conjunto dos campos, leiras, devesas, moinhos e matos. O Casal confronta a Norte e Poente com monte maninho, a Sul com monte maninho e caminho principal, e a Nascente com o caminho principal, com o casal do Pinheiro e com o de Gaiate. Carvalho situa-se a Nascente, Norte e Poente respectivamente das actuais Ruas da Calçada, Conselheiro Costa e das Relvas, que na altura do TMP eram caminhos. Já há séculos que este topónimo desapareceu. Encontra-se nos livros de registos paroquiais dos séculos XVI, XVII e XVIII. Pinheiro situa-se a Poente da actual Travessa da Capela e a Nascente do casal do Casal. Já há muito que deixou de se usar este topónimo. Chegou a ser substituído por Eirado, que também deixou de se usar. Quer um e outro encontram-se algumas vezes nos livros de registos paroquiais dos séculos XVI, XVII e XVIII. Vamos falar de seguida de alguns micro-topónimos mais relevantes. Abregô pronuncia-se assim mesmo Abregô, mas no TMP não está acentuado. Estará relacionado com ábrego? José Pedro Machado(12) afirma que ábrego é um substantivo arcaico, hoje apenas existente na toponímia. Provém do latim africu “vento Sul”. Aparece no TMP, fol. 257, a confrontar do Oriente com o caminho. Este caminho foi alargado e hoje chama-se a Rua das Relvas. Fica a Sul da Corredoura. Campo da Eira confronta do Nascente, Sul e Poente com caminhos, que correspondem às actuais Ruas Comendador Domingos Bastos, Conselheiro Costa e Viela dos Almocreves, respectivamente. No TMP está registado na fol. 252V. Cancelo, no TMP, tem a forma cansello. Provém do latim cancellu, segundo José Pedro Machado(13), significando barra, varão, rede, grade, balaustrada. Localiza-se a Nascente da actual Rua Comendador Domingos Bastos, fazendo fronteira com as Infestas. (12) (13)

José Pedro Machado, Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa. Ibidem.

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Cruzeiro da Capela da Gaiate, de 1753.

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Capela particular de Santo António, junto à padieira da porta fronha respeitante ao Casal da Gândara de Dentazes (TCCF).

S. Miguel Arcanjo, padroeiro da freguesia, imagem setecentista.

Carregal, segundo P.e Domingos A. Moreira(14), está relacionada esta palavra com o termo latinoromânico carex, caricis «cana». No TMP aparece na fol. 258; no TCCF, fol. 484 e 484V. Localiza-se na Rua das Relvas, junto ao pequeno afluente do rio Ul. Choupelo aparece no Tombo fol. 257V, com a forma chopello. Localiza-se entre a actual Viela dos Almocreves, do lado Poente e Rua Comendador Domingos Bastos, do lado Nascente. Deve relacionarse com choupo, isto é, lugar onde há choupos. Corredoura relaciona-se com o nome comum corredoura, em sentido viário,(15). De facto, ao longo deste local, passava o dito caminho principal. No TMP aparece nas fol. 253V, 259V e 260. Localiza-se a Poente das actuais Viela dos Almocreves e Rua das Relvas e a Norte e Sul da actual Rua Conselheiro Costa, pelo lado Sul. Felgueira relaciona-se com vegetação. Segundo José Pedro Machado(16) provém do latim filicaria, com o sentido de onde há fetos. Situa-se do lado oposto ao Mourigo, ou seja, a Poente do caminho que entronca na actual Rua Conselheiro Costa. No TMP está registado nas fol. 252V, 258, 258V e 260. Neste último registo,

além do caminho referido há indicação doutro caminho por onde confronta pelo lado Norte. Trata-se do caminho principal, que corria paralelamente à actual Rua do Conselheiro Costa. Infestas relaciona-se com o latim infestu – empinado, a subir, íngreme(17). É esse o caso. Aparece referido na fol. 255V do TMP. Confronta do Norte com o caminho pincipal e do Poente com o caminho que vai para a igreja, ou seja, a actual Travessa dos Perestrelos e Rua Comendador Domingos Bastos respectivamente. A Sul Confronta com o campo do Cancelo, atrás referido. Mourigo também registado Morigo relaciona-se com nome de homem, do latim Mauricus(18). Localiza-se junto ao rio, no TMP, fol.252, e do caminho, do lado Poente, fol. 254V e 258V. Este caminho é o que entronca na actual Rua Conselheiro Costa, usado no acesso a campos e matos. Moutidos é um topónimo frequente no país e relaciona-se com vegetação. Segundo P.e Domingos A. Moreira(19) formou-se a partir de mouta “conjunto espesso de plantas arborescentes”, palavra de tipo prélatino. Localiza-se grosso modo a Nascente da actual Rua do Mosteiro de Pedroso e dum lado e do outro

Padre Domingos A. Moreira, Paisagem Toponímica da Maia, Maia, 1969, p. 45. A. de Almeida Fernandes e Filomeno Silva, Toponímia Arouquense, Arouca, 1995, p. 74. (16) Ver nota 12.

(17)

(14)

(15)

A. de Almeida Fernandes e Filomeno Silva, Toponímia Arouquense, Arouca, 1995, p. 240. (18) I. Xavier Fernandes, Topónimos e Gentílicos, II vol., Porto, 1943, p. 340 e 341. (19) Padre Domingos A. Moreira, Paisagem Toponímica da Maia, Maia, 1969, p. 43.


Casa muito antiga, sita junto à Capela de Gaiate, no antigo caminho principal (TMP).

da actual Rua de Gaiate, entre a Rua do Mosteiro de Pedroso e a Rua do Autarca Eleito/Rua da Casa da Mámoa. Está registado no TMP duas vezes, na fol. 252, a propósito do casal de Gaiate, e outra na fol.256V, a propósito do casal do Pinheiro. Também está implícito no casal da Mámoa, tendo em conta emprazamentos posteriores mais pormenorizados. Ribeirinha, Ribeirinha do Trigo, Ribeira do Moinho, Ribeira, Ribeira do Lago, Ribeira da Ponte e Arieiro relacionam-se com o nome comum ribeiro. De facto estes terrenos localizam-se junto ao rio Ul ou muito próximo dele. Eram obviamente os terrenos mais valiosos e cobiçados. No Tombo aparecem nas fol. 252, 252V, 253, 253V, 255V, 256, 257, 257V e 258V. Situam-se ou ao longo da actual Rua das Relvas, quando esta corre paralela ao rio Ul, ou ao longo do dito rio. Em qualquer dos casos localizam-se sempre a Sul quer da dita rua quer do rio, ou seja, na sua margem esquerda. Do lado oposto, a Norte, localizam-se o Mourigo, o Areeiro e Cortinhas. A Ribeira da Ponte e Arieiro deverá interpretar-se como a Ribeira que está junto à ponte e ao campo do Arieiro. Esta ponte seria certamente de madeira(20). Roteia, em vez de Arroteia, vocábulo relacionado com arrotear(21), daí, terra cavada. Está registada no Tombo nas fol. 252V, 256 e 259V. Localiza-se no

limite do lado Sul/Nascente do Povoação de Gaiate. Normalmente confronta por algum dos lados com monte maninho, sinal indicativo de que foi terra cavada mais recentemente. Sanoane, topónimo de origem medieval, formado dos elementos Sam Joanne. O antigo padroeiro da capela de Gaiate era S. João Baptista, como consta dos documentos acima mencionados. Actualmente é Nossa Senhora das Dores. É crível que este topónimo esteja relacionado com o primitivo padroeiro. De facto, este sítio localiza-se junto à capela que foi igreja de S. João de Gaiate. No Tombo está registado nas fol. 254V e 255. Este espaço confronta a Sul com o actual Caminho de Sanoane e a Nascente com a Rua da Gândara, num comprimento de cerca de 200 metros(22). Sintetizando, os topónimos e micro-topónimos da povoação de Gaiate relacionam-se com: nomes de pessoas – Gaiate e Mourigo; arqueologia – Mámoa; água – Córrega, Levada, Ribeira, Ribeirinha, Ribeira do Lago, Ribeirinho do Trigo, Ribeirinha do Moinho, Ribeira da Ponte e Arieiro; características do solo e relevo - Infestas, Arieiro, Vales; flora – Moutidos, Carvalho, Pinheiro, Ameal, Meal, Carregal, Sobreiro, Felgueira, Castanheiros e Choupelo; religião – Sanoane; exploração agrária e outras actividades – Casal, Devesa, Leira, Cortinha, Ribeira do Moinho, Campo do Moinho, Cancelo e Roteia; clima – Abregô. (20) Efectivamente o Padre Teodósio Correia Mendes, nas Memórias Paroquiais de Milheirós de Poiares enviadas em 1758 e guardadas no A.N.T.T., a propósito de pontes, nesta paróquia, diz que não havia «pontes de cantaria; só sim 2 de pau». (21) Padre Domingos A. Moreira, Paisagem Toponímica da Maia, Maia, 1969, p. 59. (22) Em Novembro de 2003, fomos informados pelo Sr. António da Costa Alves, construtor civil, morador em Milheirós de Poiares, de que, quando, havia poucos anos, se procedia ao desaterro do local onde ia ser construída uma casa, na actual Rua de Gaiate, junto à actual Capela, próximo de Sanoane, apareceu a cerca de 2 metros da superfície uma espécie de tanque atulhado de terra e de ossos, já em estado de decomposição de tal modo adiantada que não lhe foi possível distinguir se eram de pessoas ou de animais. Aparentemente o tanque não tinha cobertura. Tinha um fundo, constituído por três lages de diferentes dimensões, e paredes, feitas de pedras toscas encasteladas umas nas outras fazendo cantos arredondados. A medida aproximada do tanque era de 2 metros de comprimento por 1 metro de largura. A configuração das paredes e fundo pareceram-lhe de construção muito antiga. Infelizmente, na altura, não lhe deu grande importância e as pessoas que ali trabalhavam desfizeram e transportaram tudo isto junto com o outro entulho, sem qualquer exame dum perito competente. Tratar-se-ia de uma sepultura? Seria ali o antigo lugar da capela/igreja de Gaiate, com sepultura(s) no interior? Seria um túmulo préhistórico?

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TOMBO DO CONDADO DA CASA DA FEIRA DE 1706

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O rei D. Pedro II, por resolução de 12 de Outubro de 1701, devido ao falecimento do Conde da Feira, D. Fernando, e tendo em vista a preservação das terras do condado da Feira, encarregou o licenciado António da Rocha Manrique, que fora Corregedor da Comarca de Pinhel, de dar início ao processo de elaboração do Tombo do Condado da Casa da Feira, abreviadamente TCCF. A grande parte do TCCF, que diz respeito a Milheirós de Poiares, foi presidida por este juiz, no decorrer do ano de 1706. Mas em 1753, o rei D. José nomeara juiz do Tombo o bacharel José dos Santos Ramalho, juiz de fora da Vila da Feira, para substituir o bacharel Luís Monteiro Ferreira, que era nesta altura o juiz do Tombo e que se encontrava impedido de continuar. E assim, a partir desta data, é aquele juiz que passa a presidir aos respectivos actos, que datam do ano de 1754. No apêndice documental transcrevemos toda a parte respeitante a Milheirós de Poiares, desde a folha 466 até 543V, embora com algumas supressões por serem repetitivas e meramente formais. Na transcrição, sublinhamos os topónimos e outras referências importantes e inserimos entre parêntesis recto a localização dalguns prédios. O TCCF constitui uma fonte invulgar de informações, pois identifica claramente os casais, relaciona-os com as verbas do Foral de 1514 dado à Vila da Feira pelo rei D. Manuel I, indica o senhorio directo, os caseiros, distinguindo entre cabeça e mais possuidores, o foro a pagar, as propriedades e seus possuidores, confrontações, medições, estradas, caminhos, rios, fontes, moinhos, etc. É muito mais rico em informações do que o TMP. Contempla casais e outras propriedades localizados em Gaiate, Seixal e Dentazes. No que toca a Gaiate, os casais em referência são os mesmos do TMP, à excepção do casal da Mámoa e do Censo do Fundo da Aldeia, que não constam, por não pagarem foros ao Conde da Feira. Dum modo geral as propriedades de cada casal, nesta povoação, também são as mesmas referenciadas no TMP, havendo, no entanto, alguns acrescentos quer de propriedades agrícolas quer de casas de habitação.

No Seixal, há o casal reguengo do Rego do Vale e o Souto do Seixal. Quanto ao casal reguengo do Rego do Vale localizar-se-ia no espaço compreendido entre a Rua de Doutor Guilherme Alves Moreira e a Rua Eng.º Mário Alves Moreira. Em 1514, designava-se casal da Carregosa. Em Dentazes, há o casal de Baixo, o casal de Riba, o casal da Gândara e o casal de Macieira. O Casal de Riba, fol. 511 e seguintes, está claramente identificado. Possivelmente algumas construções aí descritas ainda existem. Há uma casade sobrado, com janelas de vergas curvas, já desabitada e em vias de ser demolida, segundo nos confessou o seu actual proprietário, António Ribeiro, e mais dependências localizadas na confluência das Ruas de Dentazes e da Fonte da Piolha, que parecem remontar parcialmente ao tempo do TCCF. Junto a estas construções está o campo chamado Reguengo, hoje chamado Reengo. O casal da Gândara localiza-se na Rua de Dentazes, e não no actual lugar da Gândara, existente no lado oposto da freguesia. Portanto, quando no foral de 1514 se refere Gândara, esta Gândara pertence a Dentazes. O actual lugar da Gândara, quer no tempo do TMP quer no do TCCF, ainda não era habitado. Na folha 531 do TCCF, este casal da Gândara de Dentazes, em 1754, era possuído por Caetano Alves e sua mulher Ana Maria Henriques. Curiosamente, encostada à capela particular de Santo António, em Dentazes, existe uma casa muito antiga, quase em ruínas, com portas fronhas, em cuja padieira há uma inscrição do seguinte teor: «MANDOU QUAETANNO ALVES/ ANNO MDCCLXII». O nome incluso nesta inscrição está com certeza relacionado com o possuidor do casal da Gândara de Dentazes, referido na fol. 525 do TCCF. Tendo em conta as confrontações e a dita padieira, este casal tinha ali a sua sede. Além disso, inclui outro conjunto de casas térreas localizadas em Cimo de Vila, que confrontam do Sul com o caminho. Este caminho é a actual Rua de Cimo de Vila. Obviamente este topónimo, Cimo de Vila, evoca a Medieval Villa de Dentazes. Quanto ao casal de Macieira, ainda não nos foi possível localizá-lo convenientemente.


Os senhorios são, além do Conde da Feira, que recebe foros e é senhorio directo do casal reguengo do Rego do Vale, o Mosteiro de Pedroso, o Mosteiro de Grijó e António de Magalhães de Meneses, fidalgo do Covo, de Oliveira de Azeméis, que é senhorio das terras outrora pertencentes a Gaspar Leitão Coelho, de Arrifana. Os casais estão emprazados directamente a caseiros que vivem em Milheirós de Poiares e exploram as terras, à excepção dos casais do Pinheiro e do Carvalho, que têm como enfiteuta Francisco Matos da Curveira, da cidade do Porto. Os cabeças são todos de Milheirós à excepção do casal de Macieira, localizado em Dentazes, que tem como cabeça Leandro Moutinho e sua mulher Antónia da Costa, que residem na freguesia vizinha de Macieira de Sarnes. Os outros possuidores são também de Milheirós de Poiares, à excepção de Domingos de Pinho, do casal do Carvalho, que é de Pigeiros; Pedro Vidal, do casal reguengo do Rego do Vale, que é de Arrifana; e Manuel de Resende, do casal da Gandra de Dentazes, que é de S. Fins. Os casais e mais propriedades rendem ao Conde da Feira um total de 32,75 alqueires de milho, 8 alqueires de trigo, 12,75 calaças e 353 réis em dinheiro. Além disso, tem no casal reguengo a melhor peça de lutuosa e o domínio de cinco um. Quanto às casas, nota-se uma evolução. Já aparecem casas de sobrado, telhadas, embora continuem a existir as térreas quer telhadas quer colmassas. Algumas têm anteportas e porta fronha. Em cada casal, para além das casas de habitação, normalmente continua a haver também currais, palheiros, eira, pomar, horta e, às vezes, uma cortinha. Quanto à viação viária, alude-se a estradas, estradas públicas, caminhos, caminhos do lugar, caminhos da lavoura, atalho, carreira de serventia, etc. A distinção entre estrada, estrada pública e caminho nem sempre é clara, dada a ausência dum critério rigoroso. A estrada de Arrifana a Cabeçais, que no TMP designámos como caminho principal, aparece agora mais nítida, apesar da terminologia variável: “caminho que vay em volta para Cabeçaes”, fol. 468; “caminho que vay para Cabeçaes”, fol 470 e 471; “estrada”, fol 496 e 496V; “estrada publica”, 496V; “caminho que vem de Arrifana de Santa Maria”, fol. 504.

Além desta estrada, há outros registos de caminhos não referenciados anteriormente. É o caso de: “caminho que vay para pigeiros”, fol.468, inexistente no tempo do TMP e que corresponde grosso modo à actual Rua da Gândara; atalho que vay para o outeiro”, fol. 470V;”estrada de São Giraldo”, fol. 484V e 491V, que corresponde à actual Rua das Relvas; “estrada que vem de Macieira”, fol. 537. Na delimitação do casal do Casal, há referência ao cruzeiro respeitante à capela próxima, de Gaiate, de que falámos acima (23). Quanto à actividade humana, para além da agricultura, as informações constantes do TCCF são escassas e apenas estas: na folha 494V, alude-se ao P.e Manuel de Pinho (24), do Casal; na fol.523 e 531, ao P.e Manuel Borges da Silva, de Milheirós (25); na fol. 532, ao P.e Caetano António de Pinho, do lugar de Dentazes; e, na fol. 531, ao cordador António Alves. É um cruzeiro anterior ao actual e possivelmente localizado algumas dezenas de metros mais a Poente. De facto, o cruzeiro que ainda existe a cerca de cem metros da capela foi construído posteriormente como o comprova uma inscrição em volta do seu pedestal, segundo a sequência Poente, Sul, Nascente e Norte, que decifrámos com dificuldade, do seguinte teor: «DR JZ.E LT.E DE RZ.DE / COMSTROIV ESTE CR/OZEIRO NO ANN/ O 1753», ou seja, Dr. José Leite de Resende construiu este cruzeiro no ano de 1753. Este Dr. José Leite de Resende, filho de Manuel Leite de Resende e de Sebastiana Rodrigues dos Reis, do lugar de Gaiate, casou a 13/11/1748 com Maria Teresa Soares de Resende, filha de Manuel Valente da Silva e Ana Soares de Resende, do lugar do Casal, parentes em 4.º grau de consanguinidade. Tiveram um filho chamado João Leite de Resende, que defendeu Conclusões de Filosofia na Congregação do Porto e no ano de 1769 andava matriculado em Coimbra. Ver Samuel de Bastos Oliveira, Oliveira de Azeméis e Freguesias entre o Rio Antuã e Ul na Visitação de 1769, p. 28. Mais tarde, em 1796, é conhecido por João Leite Soares de Resende e Reis, Presbítero Secular, graduado e formado nos Sagrados Cânones, de Gaiate. Dr. José Leite de Resende é irmão de Dionísio da Costa de Resende, que casou com Maria Borges de Almeida. Deste casamento nasceu Caetana Leite Borges de Resende, que, por sua vez, casou em primeiras núpcias com Manuel Francisco Milheiros, da casa da Mámoa. (24) P.e Manuel de Pinho da Silva, filho de Manuel de Pinho. É irmão de João de Pinho, a quem deixou os seus bens de prazo, como consta do livro de óbitos. Faleceu a 5 de Dezembro de 1744. (25) Padre Manuel Borges da Silva, com 75 anos em 1769, ordenado e aprovado para confessor em 1718. Sacerdote do Cabido de S. Pedro, morador em Milheirós de Poiares, a quem, em 1743, foi feito prazo de um casal dos Casais. Era do lugar das Relvas, conforme renovação dum prazo de Gaiate feito pelo Mosteiro de Pedroso. Faleceu a 8 de Fevereiro de 1771, na Quinta das Relvas, conforme registo de óbito. Não fez testamento. Seu sobrinho o Licenciado José Jacinto da Costa Reis lhe mandou fazer os três ofícios de vinte padres cada um. É irmão do P.e António Borges da Silva, ordenado em 1723 e falecido em Março de 1779, com 81 anos de idade. Foi assistente em Gaiate. Foi seu herdeiro e testamenteiro Manuel Borges de Lima Perestrelo. (23)

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APÊNDICE DOCUMENTAL Nota Prévia

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Procurou-se tanto quanto possível reproduzir a ortografia original e as abreviaturas. No entanto, tendo em vista uma melhor compreensão do texto, por um lado, e a dificuldade técnica de manter determinados símbolos hoje em desuso, por outro, procedeu-se a algumas ligeiras alterações e ou omissões. Assim: separámos as palavras que no original aparecem juntas; não usámos o sinal indicativo de abreviatura por ser para nós tecnicamente inviável como, por exemplo, no nome próprio Pires que, desde já prevenimos, estando escrito muitas vezes de modo abreviado, aparece na reprodução simplesmente piz; e, no caso concreto dos artigos indefinidos, usámos as consoantes nasais. Para proporcionar uma pesquisa mais eficiente de alguns aspectos, sublinhámos na transcrição os topónimos, construções diversas, caminhos, estradas, rios, montes, ribeiros, alguns nomes de pessoas, etc. Sobretudo, reprodução do TCCF, acrescentamos entre parêntesis recto a localização de alguns topónimos e casas. A ordem usada não obedece à sequência cronológica dos acontecimentos, mas sim à do nosso trabalho. 1 - TOMBO DO MOSTEIRO DE PEDROSO DE 1575 (Arquivo Distrital do Porto, Convento de São Pedro de Pedroso) “252 GAIATE Tem o Mostr.º de São P.º de Pedroso outro casal que se chama de Gaiate que estaa na freguesia de São Miguel de Milheiros. terra da Feira no qual estão as propriedades seguintes. Hum lugar que se chama gaiate com a casa de morada terrea curral palheiro eyra cortinhas campos v.ª pumar. E devesa tudo iunto q parte da banda do Oriente com terra do dito Mosteiro de pedroso q trazem Jurdão piz e Maria Luis e tem pella dita banda cento e trinta e quatro uaras. E parte da banda do norte com terra do

dito Mosteiro q traz A.º Annes e com o campo do motido deste casal abaixo escrito e tem pella dita banda cento e vinte e sete uaras. E parte da banda do poente com o caminho e tem pela dita banda setenta e duas uaras. E parte da banda do Sul com terra do dito Mosteiro que trazem os ditos A.º Annes e Maria Luis e tem pella dita banda cento e cinquoenta uaras. Hum campo que se chama motido que parte da banda do oriente com terras do dito Mosteiro de pedroso que traz o dito Jurdão piz e tem pella dita banda dezoito uaras. E parte da banda do norte com terra do dito Mosteiro que traz Antº Gil tem pella dita banda oitenta e cinquo uaras. E parte da banda do poente com terra do dito Mosteiro que traz Manoel piz tem pella dita banda trinta uaras. E parte da banda do Sul com o lugar deste casal acima escrito e com terra do dito Mosteiro que traz o dito Jurdão piz tem pella dita banda oitenta e seis uaras. Outro campo que se chama a Ribeirinha que parte da banda do oriente com terra de Aº Annes tem pella dita banda vinte e seis uaras. E parte da banda do norte com o Ribeiro tem pella dita banda uinte e quatro uaras. E parte da banda do poente com o Ribeiro, tem pella dita banda uinte e seis uaras. E parte da banda do Sul com terra de Roque pîz tem pella dita banda uinte e seis uaras. Outro campo que se chama Mourigo que parte da banda do oriente com o Ribeiro tem pella dita banda cinquoenta e cinquo uaras. E parte da banda do norte com terra do dito Mosteiro de pedroso que traz Maria Luis. tem pella dita banda cinquoenta e seis uaras. E parte da banda do poente com terra do dito Mosteiro que traz bráz [252V] Afonso tem pella dita banda cinquoenta e tres uaras. E parte da banda do Sul com terra do Mosteiro de grijo que traz Aº piz tem pella dita banda trinta uaras. Outro campo que se chama Relgeira [em vez de Felgueira] que parte da banda do oriente com o caminho tem pella dita banda cinquoenta e huma uaras. E parte da banda do norte com terra do dito Mosteiro de pedroso que traz o dito Aº Annes tem pella dita banda cento e cinquoenta e sete uaras. E parte da banda do poente com terra de Antonio Glz tem pella dita banda setenta e cinquo uaras. E parte da banda do Sul com terra do dito


Moesteiro de pedroso que traz o dito bras Aº tem pella dita banda cento e quorenta e sete uaras. Outro campo que se chama a Devesa da Felgueira que parte da banda do oriente com terra do dito Aº Annes tem pella dita banda quorenta e tres uaras. E parte da banda do norte com terra do dito Mosteiro de pedroso que traz o dito Aº Annes tem pella dita banda trinta e tres uaras. E parte da banda do poente com o caminho tem pella dita banda uinte e oito uaras. E parte da banda do Sul com terra do dito Mosteiro de pedroso que traz Gº pîz tem polla dita banda cinquo uaras. Outro campo que se chama da eyra que parte da banda do oriente com o caminho tem pella dita banda dezasete uaras. E parte da banda do norte com terra do dito Mosteiro de pedroso que traz o dito Afonso Annes tem pella dita banda setenta e sete uaras. E parte da banda do poente com o caminho tem pella dita banda cincoenta uaras. E parte da banda do Sul com o caminho tem pella dita banda sesenta uaras. Outro campo que se chama a Ribeirinha do trigo que parte da banda do oriente com o Ribeiro tem pella dita banda corenta uaras. E parte da banda do norte com terra do dito Mosteiro de pedroso que traz Jorge Annes tem pella dita banda cincoenta e seis uaras. E parte da banda do poente com terra do dito Aº Annes tem pela dita banda dezoito uaras. E parte da banda do Sul com terra do dito Antº Glz tem pela dita banda sesenta uaras. Outro campo que se chama a Rotea que parte da banda do oriente com terra da JgreJa e com terra do dito Moesteiro de pedroso que traz a dita Maria Luis tem pella dita banda nouenta uaras. E parte da banda do norte com terra do dito Mosteiro que traz o dito Aº Annes tem pella dita banda cinquoenta e tres uaras. E parte da banda do poente com terra do dito Mosteiro que traz o dito bras Aº tem pella dita banda nouenta uaras. E parte da banda do Sul com o Monte Maninho tem pella dita banda quinze uaras. Outro campo que se chama a Ribeira do Moinho que parte do oriente com o Monte Maninho e terra do dito Aº Annes tem pella dita banda oitenta uaras. E parte da banda do norte com o caminho tem pella dita banda dezoito uaras. E parte da banda do poente com terra do /253 do dito Mosteiro de pedroso que traz o

dito gonçalo piz tem pella dita banda oitenta uaras. E parte da banda do Sul com terra do dito Mosteiro que traz a dita Maria Luis tem polla dita banda uinte uaras. Outro campo que se chama o chão grande que parte da banda do oriente com o caminho tem pella dita banda trinta e quatro uaras. E parte da banda do norte com terra do dito Mosteiro de pedroso que traz o dito Aº Annes tem pela dita banda cento e noue uaras. E parte da banda do poente com terra do dito Mosteiro que traz o dito Aº Annes tem pela dita banda trinta varas. E parte da banda do Sul com terra do dito Mosteiro que traz o dito Manoel piz e gº piz tem pella dita banda cento e dezanoue uaras. Esta emprazado este casal a bastião Luis e a sua molher Jnes Annes em tres vidas. Elles ambos em duas as quaes o trazem agora pagam de pensão ao Conuento do dito casal trezentos rs em dinheiro e tres alqueires de pão meado e hum carneiro e dous capões, tudo dentro no Mosteiro por São Miguel de Setembro E de lutuosa outro tanto como de Renda. E cada vez que o Padre Santo lançar decimas pagarão dez rs e asi outros dez rs a pasaJem De LRey ou principe. MAMOA Tem o Mostrº de São Pedro de pedroso outro casal que se chama a Mamoa na freguesia de São Miguel de Milheiros. terra da Feira e no qual estão as propriedades seguintes. Hum lugar que se chama a mamoa com duas casas de morada terreas cuintaes palheyros eyras cortinhas campos pomar. e vinha Monte e deuesas. E dous Moinhos tudo iunto que parte da banda do oriente com a levada e rio tem pella dita banda doze uaras de midir. E parte da banda do norte com o Monte Maninho tem pella dita banda nouenta e tres uaras. Torna a partir da banda do oriente com o dito Monte e com o caminho tem pella dita banda quatrocentas. E trinta e duas varas. E torna a partir da banda do norte com o caminho tem polla dita banda [253V] cemto e uinte e tres uaras. E parte da banda do poente com terra do dito Mosteiro que trazem Gº piz e Aº Annes António Gil bastião Luis e Maria Luis uiuua e com terra

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de gaspar Leitão Darrifana que traz Aº Annes tem pela dita banda seiscentas e corenta e huma uaras. E parte da banda do Sul com o Monte Maninho tem pella dita banda seiscentas e sesenta e duas varas. Hum campo que se chama a leira da Corredoura que parte do oriente com o caminho tem pella dita banda seis uaras. E parte da banda do norte com terra do dito Mosteiro de pedroso que traz a dita Maria Luis tem pella dita banda nouenta uaras digo nouenta e cinquo uaras. E parte da banda do poente com terra do dito Mosteiro que traz Aº Annes tem pela dita banda oito uaras. E parte da banda do Sul com a dita terra tem pella dita banda nouenta e cinquo uaras. Outro campo que se chama a Ribeira que parte da banda do Oriente com terra do dito Mosteiro que traz António Gil, tem pella dita banda vinte varas. E parte da banda do Norte com terra do dito Mosteiro que traz o dito Aº Annes, tem pella dita banda cento e treze varas. E parte da banda do Poente com o Ribeiro, tem pella dita banda dezoito varas. E parte da banda do Sul com terra do dito Mosteiro que traz a dita Maria Luís, tem pella dita banda cento e quorenta varas. Hum chão com hum moinho dentro que se chama pedama que parte da banda do oriente com o Monte tem pella dita banda oito uaras. E parte da banda do norte com o dito Monte tem pella dita banda uinte e sete uaras. E parte da banda do poente com a levada tem pela dita banda uinte uaras. E parte da banda do Sul com o Rio tem pela dita banda uinte e oito uaras. Foi emprazado este casal a heytor Moreira em tres vidas de nomeação a segunda he sua filha Maria Moreira casada com gaspar Danhaia morador no porto. Trazemno agora os ditos gaspar Danhaia e sua Molher Maria moreira. Pagam de pensão Ao conuento. do dito casal quatrocentos e sesenta rs em dinheyro e duas galinhas ou corenta rs por ellas. dentro no Mosteiro por São Miguel de Setembro E de lutuosa quatrocentos rs e de domínio a quarta parte do preco pera o Mosteiro o laurador que Mora no dito casal he Jurdão piz. /254

de Milheiros no qual estão as propriedades seguintes. Hum lugar que se chama o casal com duas casas de morada terreas curraes palheiros eyra cortinha campos. pomar vinha e deuesas tudo iunto que parte da banda do oriente com terra do dito Mostrº de pedroso que trazem Jorge Annes, António Gil, Manoel piz tem pela dita banda duzentas e sesenta e oito uaras E parte da banda do norte com o Monte Maninho tem pella dita banda duzentas e tres uaras. E parte da banda do poente com o Monte Maninho tem pella dita banda trezentas e trinta uaras. E parte da banda do Sul com o Monte Maninho. e com o caminho tem pella dita banda cento e cinquoenta uaras. E torna a partir da banda do Oriente com o caminho e com terra do dito Moesteiro de pedroso que traz Aº Annes. do Carualho tem pella dita banda nouenta uaras. E torna apartir da banda do Sul com a dita terra do dito Moesteiro de pedroso que traz o dito Aº Annes. Tem pella dita banda cento e cinquoenta uaras. E torna apartir da banda do oriente com o caminho tem pella dita banda trinta uaras. E torna a partir da banda do Sul com terra do dito Mosteiro de pedroso que traz gº piz tem pella dita banda setenta e duas uaras. E torna a partir da banda do oriente com a dita terra do dito Mosteiro que traz o dito gº piz tem pella dita banda quorenta e oito uaras. E torna a partir da banda do Sul com terra do dito Mosteiro que traz Maria Luis tem pela dita banda cento e cinquo uaras. E torna a partir da banda do oriente com a dita terra tem pella dita banda dezanove uaras. E torna a partir da banda do Sul com terras do dito Mosteiro que trazem os ditos Jorge Annes e Maria Luis. tem pella dita banda cento e uinte uaras digo cento e uinte e cimquo uaras. Outro Hum campo que se chama o Morigo que parte da banda do oriente com terra do dito Mosteiro de pedroso que trazem os ditos Jorge Annes. E gº piz e Maria Luís. tem pella dita banda sesenta e quatro uaras. E parte da banda do norte com terra do dito Moesteiro que trazem os ditos A.º Annes e bastião Luis tem pella dita banda sesenta e seis varas. E torna a partir da banda do [254V]

CASAL Tem o Moesteiro de pedroso outro casal que se chama o casal que estaa na dita freguesia de São Miguel

oriente com terra do dito Mosteiro de pedroso que trazem os ditos pº Annes digo Aº Annes. E gº piz tem pella dita banda cincoenta e sete uaras. E torna a partir da


banda do norte com terras do dito Mosteiro que trazem os ditos bastião Luis e Aº Annes tem pella dita banda trinta e quatro varas. E parte da banda do poente com o caminho tem pella dita banda sesenta e quatro varas. E parte da banda do Sul com terra do dito Mosteiro de pedroso que traz o dito Aº Annes tem pella dita banda oitenta e sete varas. Trazem este casal Roque piz e sua Molher Fillypa Fz. Foy emprazado por hum prazo de tres vidas. Pagão de pensão Ao conuento pello dito casal cimquo alqueires de pão Meado e oitenta rs em dinheiro e hum carneiro pago tudo dentro no dito Mosteiro por São Miguel de Setembro e pagaram de lutuosa por por falecimento de cada pessoa outro tanto como de Renda. E passando el Rey ou principe pagarão dez rs e cada vez que lançar o padre Santo decimas pagarão outros dez rs. QUEBRADA DA REGADA

com terra do dito Moestrº de Grijo que traz Pº Aº tem pella dita banda quorenta e duas uaras. E parte da banda do oente com terra do dito Moesteiro de pedroso que traz a dita Maria Luis tem pella dita banda trinta uaras. E parte da banda do Sul com a dita terra do dito Mosteiro de pedroso que traz a dita Maria Luis tem pella dita banda corenta e duas uaras. Traz esta quebrada por hum prazo de tres vidas Frco Frz clérigo de misa Elle nomeara a segunda; E a segunda nomeara a terceira mora o dito Frco Fernandez na dita freguesia paga de pensão Ao Mosteiro dous alqueires de pão meado e oitenta rs em dinheiro por Sam Miguel de Setembro dentro no Moestrº e de lutuosa outro tanto como de Renda. GAIATE

Tem o Mosteiro de pedroso huma quebrada que se chama a Regada que estaa na freguesia de São Miguel de Milheiros. Tem as propriedades seguintes. Hum lugar que se chama a Regada com huma casa de morada terrea hum cural e hum palheiro eyra cortinha vinha pomar campos deuesas e Montes tudo iunto que parte da banda do oriente com o Monte Maninho tem pella dita banda cento e uinte e cinquo varas. E parte da banda do norte com terra de Gonçallo Afonso tem pella dita banda cento e uinte uaras. E parte da banda do poente com os pasaes da igreia de Sam Miguel de Milheiros que traz Jº Frz tem pella dita banda uinte e sete uaras. E parte da banda do Sul com terra do dito gº Aº tem pella dita banda setenta e duas uaras. E torna a partir da banda do poente com terras do dito Gº Afonso e do dito Jº Frz tem pella dita banda cento e cinquoenta e tres uaras. E torna a partir /255

Tem o Mosteirº de pedroso outro casal que também se chama de gaiate que esta na freguesia de São Miguel de Milheiros o qual tem as propriedades seguintes. Hum lugar que se chama gaiate com quatro casas de Morada terreas curraes palheiros eyras cortinhas campos e lata tudo Junto que parte da banda do oriente com tera do dito Mosteiro de pedroso que traz Manoel piz tem pella dita banda quorenta e duas uaras. E parte da banda do norte com terra do dito Mosteiro que traz o dito Manoel piz tem pella dita banda trinta e noue uaras. E parte da banda do poente com terra do dito Mostrº que trazem Roque piz e o dito Manoel piz tem pella dita banda cento e uinte varas. E parte da banda do Sul com o caminho tem pella dita banda nouenta e tres uaras. Outro lugar que se chama Sanhoanes com huma casa de Morada terrea curral palheiro eyra cortinha tudo iunto [255V]

da banda do Sul com terra do Mosteiro de grijo que traz Jº Jorge tem pella dita banda cento e uinte uaras. Outro campo que se chama Dantre as Deuesas que parte da banda do oriente com terra do dito Mosteiro de pedroso que traz Maria Luis ueuua tem pella dita banda dezasete uaras. E parte da banda do norte com a dita terra do dito Mosteiro que traz a dita Maria Luis e

que parte da banda do oriente com o Monte Maninho tem pella dita banda çento e oitenta uaras. E parte da banda do norte com o dito Monte. tem pella dita banda sesenta uaras. E parte da banda do poente com terra do dito Mosteiro que traz o dito Manoel piz, tem pella dita banda cento e setenta e seis uaras. E parte da banda do Sul com o caminho tem pella dita banda nouenta uaras.

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Outro campo que se chama as Jnfestas que parte da banda do oriente com terra do dito Mosteiro de pedroso que trazem Manoel piz e Gº piz tem pella dita banda nouenta e sete uaras. E parte da banda do norte com o caminho tem pella dita banda cento e sete uaras. E parte da banda do poente com o caminho que vai pera a Jgreja tem pela dita banda oitenta e seis uaras. E parte da banda do Sul com terra do dito Mostrº que traz Aº Annes tem pella dita banda nouenta e seis uaras. Hum campo que se chama o Campo do Moinho que parte da banda do oriente com terra do dito Mostrº de Pedroso que traz Jordão piz tem pella dita banda trinta uaras. E parte da banda do norte com terra do dito Mostrº que traz o dito Aº Annes tem pella dita banda oitenta e oito uaras. E parte da banda do poente com terra do dito Mosteiro que traz o dito Manoel piz tem polla dita banda dezaseis uaras. E parte da banda do Sul com terra do dito Moesteiro que traz o dito bastião Luis tem pella dita banda oitenta e huma uaras. Item outro campo que se chama o chão das ualles que parte da banda do oriente com terra do dito Mosteiro de pedroso que traz o dito bastião Luis. tem pella dita banda cimquoenta e oito uaras. E parte da banda do norte com terra do dito Mosteiro que traz o dito bastião Luis tem pella dita banda cento e cinquoenta e quatro uaras. E parte da banda do poente com o dito Antonio glz tem pella dita banda sesenta e cinquo uaras. E parte da banda do Sul com terra do dito Antonio glz tem pella dita banda sesenta e cinquo uaras. Outro campo que se chama o campo da ribeirinha que parte da banda do oriente com terra do dito Mosteiro de pedroso que traz a dita Maria Luis tem pella dita banda uinte e cinquo uaras. E parte da banda do norte com terra do dito Mosteiro de pedroso que traz o dito Aº Annes tem pella dita banda cinquoenta e cinquo uaras. E parte da banda do poente com terra do dito Mosteiro que trazem os ditos gaspar Leitão e Aº Annes, tem polla dita banda uinte e quatro uaras. E parte da banda do Sul com terra do dito Mosteiro de pedroso que traz o dito bastião Luís tem pella dita banda cinquoenta e quatro uaras. /256 Outro campo que se chama o campo da Rotea que parte da banda do oriente com terra do dito Moesteiro de pedroso que traz o dito bastião Luís tem

pella dita banda cinquoenta e seis uaras. E parte da banda do norte com terra do dito Mosteiro que traz o dito Aº Annes tem pella dita banda quatorze uaras. E parte da banda do poente com terra do dito Mosteiro que trazem os ditos gº piz e Maria Luis tem pella dita banda oitenta e cinquo uaras. E parte da banda do Sul com terra do dito Mostrº que traz o dito bastião Luis tem pella dita banda dezasete uaras. Outro campo que se chama a Ribeirinha que parte da banda do oriente com terra do dito Mosteiro que traz o dito Manoel piz tem pella dita banda nouenta e huma uaras. E parte da banda do norte com o Rio, tem pella dita banda tres uaras. E parte da banda do poente com terra do dito Aº Annes tem pella dita banda nouenta e huma uaras. E parte da banda do Sul com o dito Mosteiro de Pedroso que trazem os ditos Aº Annes. E Maria Luis tem pella dita banda uinte e sete uaras. Outro campo que se chama o chão dos castanheiros que parte da banda do oriente com o caminho tem pella dita banda uinte e huma uaras. E parte da banda do norte com terra do dito Mosteiro de pedroso que traz o dito gº piz tem pella dita banda cento e doze uaras. E parte da banda do poente com terra do dito Mosteiro que traz o dito Roque piz tem pella dita banda uinte e sete uaras. E parte da banda do Sul com terra do dito Mosteiro que trazem os ditos Maria Luis. E Roque piz tem pella dita banda cento e doze uaras. Trazem este casal Jsabel Aº ueuua António gil Jorge Annes brás Afonso que lhes foi emprazado em quartos. S. a Jsabel Aº hum quarto por hum prazo de tres vidas. com pensão pera o conuento de tres alqueires de pão meado e huma galinha e hum quarto de carneiro tudo bom e de receber dentro no Moesteiro e de lutuosa outro tanto como de Renda e de domínio a quinta parte e cada uez que o padre sancto lançar decimas. dez rs e cada uez que El Rey príncipes ou Jnfantes pasarem o Douro pagara por cada hum dez rs do outro quarto que estaa emprazado a Antº gil e a sua molher Jnacia Roiz em tres uidas pagão tres Alqueires de pão meado e hum quarto de carneiro e huma galinha e outro tanto como fica acima no primeiro quarto o outro quarto traz Jorge Annes ueuuo paga outro tanto como fica acima o outro quarto traz brás Aº e Caterina Frca sua molher paga outro tanto de Maneira que são todos os quartos


Jgoaes. na pensão e nas condiçoens. da Maneira que fiqua declarado no primeiro quarto. [256V] PINHEIRO Tem o Mosteiro de pedroso hum casal que se chama Pinheiro que estaa na freguesia de São Miguel de Milheiros o quoal tem as propriedades seguintes. Hum lugar que se chama o Pinheiro com duas casas de morada terreas. curraes palheiros eyra cortinhas uinhas campos tudo iunto que parte da banda do oriente com o caminho e terra do dito Mostrº de pedroso que traz Jorge Annes tem pella dita banda trezentas e trinta e duas uaras. E parte da banda do Norte com o Monte Maninho tem pella dita banda quorenta e cinquo uaras. E parte da banda do poente com terra do dito Mosteiro de pedroso que trazem Roque piz e o dito Jorge Annes. e com o caminho tem pella dita banda trezentas e sesenta e seis uaras. E parte da banda do Sul com terra do dito Mostrº que traz Aº Annes tem pella dita banda nouenta e seis uaras. Outro campo que se chama o pomar que parte da banda do oriente com o caminho tem pella dita banda uinte e cinquo uaras. E parte da banda do norte com terra do dito Mosteiro de pedroso que trazem Antonio Gil e Maria Luis. tem pella dita banda oitenta e duas uaras. E parte da banda do poente com terra do dito Mosteiro de pedroso que traz o dito Roque piz tem pella dita banda cinquoenta uaras. E parte da banda do Sul com terra do dito Mosteiro que traz o dito Roque piz tem pella dita banda setenta e cinquo uaras. Outro campo que se chama moutidos que parte da banda do oriente com terra do dito Mosteiro que traz Jordão piz tem pella dita banda trinta e noue uaras. E parte da banda do Norte com o Monte Maninho tem pella dita banda nouenta uaras. E parte da banda do poente com terra do dito Mostrº que traz o dito Antonio gil tem pella dita banda cento e cinquo uaras. E parte da banda do Sul com terra do dito Mosteiro que traz o dito Aº Annes tem pella dita banda quorenta uaras. E torna a partir da banda do poente com terra do dito Mostrº que trazem bastião Luis e os ditos Antº gil e Aº Annes. tem pella dita banda sesenta e cinquo uaras. Torna a partir da banda do Sul com terra do dito Mosteiro que traz o

dito Aº Annes tem pella dita banda oitenta e duas uaras. /257 Outro campo que se chama Abrego que parte da banda do oriente com o caminho tem pella dita banda uinte e huma uaras. E parte da banda do norte com terra do dito Mosteiro que traz o dito bastião Luis. tem pella dita banda cento e tres uaras. E parte da banda do poente com terra do dito Moesteiro que traz o dito Roque piz tem pella dita banda uinte uaras e parte da banda do Sul com terra do dito Mosteiro de pedroso que traz o dito Jorge Annes. tem pella dita banda cento e onze uaras. Outro campo que se chama a Ribeira do Lago parte da banda do oriente com terra do dito MoMoestrº [sic] que traz o dito bastião Luís. tem pella dita banda setenta e duas uaras. E parte da banda do norte com o caminho tem pella dita banda uinte uaras. E parte da banda do poente com terra do dito Mostrº que traz o dito Antº Gil tem pella dita banda setenta e seis uaras. E parte da banda do Sul com o Ribeiro tem pella dita banda dezoito uaras. Outro campo que se chama as Leiras que parte da banda do oriente com o ribeiro tem pella dita banda onze uaras. E parte da banda do norte com terra de gaspar Leitão tem pella dita banda setenta e oito uaras. E parte da banda do poente com o caminho tem pella dita banda uinte e huma uaras. E parte da banda do Sul com terra do dito Mosteiro que traz Maria Luis tem pella dita banda setenta e oito uaras. Outro campo que se chama a Rotea que parte da banda do oriente com terra do dito Mosteiro que trazem bras Aº e o dito bastião Luis tem pella dita banda cento e uinte e tres uaras. E parte da banda do norte com terra do dito Mosteiro que tras. a dita Maria Luis tem pella dita banda trinta e noue uaras. E parte da banda do poente com terra do dito Mosteiro que trazem os ditos Aº Annes. bastião Luis. e Roque piz tem pella dita banda cento e dezanoue uaras. E parte da banda do Sul com os pasaes da Jgreja de Sam Miguel de Milheiros de poaeires [sic] que traz Jº Aº tem pella dita banda sesenta e noue uaras. Traz este casal Manoel da Cunha celeiro morador no porto por hum prazo de tres uidas. paga Ao conuento a pensão que neste casal abaixo escrito

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he dita a qual he destes dous casaes que se chamão do pinheiro e do carvalho porque se não sabe qto paga por cada hum senão por ambos de dous iuntos uiuem neste casal Manoel piz e gº piz. [257V] CARVALHO

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Tem o Moesteiro de São Pedro de Pedroso outro casal que se chama do Carvalho que está na freguesia de São Miguel de Milheiros de poiares no qual estam as propriedades seguintes. Hum lugar que se chama o Carvalho com duas casas de morada terreas. curaes palheiros eira cortinha e vinha tudo iunto que parte da banda do oriente com o caminho tem pella dita banda trinta uaras. E parte da banda do norte com o caminho tem pella dita banda cinquoenta e seis uaras. E parte da banda do poente com o caminho tem pella dita banda cinquoenta e tres uaras. E parte da banda do Sul com terras de gaspar Leitão e de Aº Annes tem pella dita banda oitenta e noue uaras. Hum campo que se chama a Ribeira que parte da banda do oriente com o Ribeiro tem pela dita banda trinta e tres uaras. E parte da banda do norte com terras do dito Mosteiro de pedroso que traz Maria Luis. tem pella dita banda corenta e noue uaras. E parte da banda do poente com terra de gaspar Leitão e do dito Aº Annes tem pella dita banda uinte e seis uaras. E parte da banda do Sul com terra do dito Mosteiro de pedroso que traz Jorge Annes tem pela dita banda cinquoenta uaras. Outro campo que se chama a corredoura que parte da banda do oriente com o caminho tem pella dita banda uinte e seis uaras. E parte da banda do norte com terra do dito Mosteiro de pedroso que traz Roque piz tem pella dita banda cento e huma uaras. E parte da banda do poente com terra do dito Mosteiro de pedroso que traz o dito Roque piz tem pela dita banda onze varas. E parte da banda do Sul com o caminho tem pella dita banda cento e dez uaras. Outro campo que se chama o chopello que parte da banda do oriente com o caminho. tem pela dita banda trinta e sete uaras. E parte da banda do norte com terra do dito Mosteiro que traz manoel piz tem pella dita banda sesenta [ou setenta] uaras. E parte da banda

do poente com terra do dito Mostrº de pedroso que traz o dito Manoel piz e com o caminho tem pella dita banda sesenta [ou setenta] uaras. E parte /258 da banda do Sul com terra do dito Moesteiro de pedroso que traz bastião piz tem pella dita banda setenta e noue uaras. Outro campo que se chama o cansello que parte da banda do oriente com terra do dito bastião Luis. tem pella dita banda dez uaras. E parte da banda do norte com terra do dito Mosteiro de pedroso que traz glo pîz tem pella dita banda nouenta uaras. E parte da banda do poente com terra do dito Mosteiro que traz braz Aº e com o caminho tem pella dita banda corenta e sete uaras. E parte da banda do Sul com terra do dito Mosteiro de pedroso que traz o dito bastião Luís tem pella dita banda cento e seis uaras. Outro campo que se chama a Felgueira que parte da banda do oriente com o caminho tem pella dita banda setenta e seis uaras. E parte da banda do norte com terra do dito Mosteiro de pedroso que traz a dita Maria Luis. tem pella dita banda cento e cinquoenta e sete uaras. E parte da banda do poente com o Monte Maninho tem pella dita banda corenta e seis varas. E parte da banda do Sul com terra do dito Mostrº que traz o dito bastião Luis tem pella dita banda cento e cinquoenta e sete uaras. Outro campo que chamam o carregal que parte da banda do oriente com terra do dito Mosteiro de pedroso que traz Manoel piz tem pella dita banda nouenta e sete uaras. E parte da banda do norte com terra do dito Roque piz tem pella dita banda sete uaras. E parte da banda do poente com terra de Roque piz tem pella dita banda nouenta e sete uaras. E parte da banda do Sul com terra da Jgreja de Milheiros que traz Jº Aº tem pella dita banda sete uaras. Outro campo que se chama o Ameal que parte da banda do oriente com terra do dito Mosteiro de pedroso que traz a dita Maria Luis tem pella dita banda cento e setenta e cinco uaras. E parte da banda do norte com terra do dito Mostrº de pedroso que traz a dita Maria Luis. tem pella dita banda setenta uaras. E parte da banda do poente com terra do dito Mosteiro de pedroso que traz a dita Maria Luis tem pella dita banda trinta uaras. E parte da banda do Sul com terra do dito


Mosteiro de Pedroso que traz a dita Maria Luis tem pela dita banda cento e sesenta uaras. [258V] Outro campo que se chama a Ribeira da ponte e areeiro que parte da banda do oriente com terra de Aº Annes tem pella dita banda cento e sete uaras. E parte da banda do norte com o Ribeiro tem pella dita banda sesenta varas. E parte da banda do poente com o Ribeiro tem pela dita banda setenta e duas uaras. E parte da banda do Sul com terra do dito Mosteiro de pedroso que traz a dita Maria Luís tem pella dita banda setenta e huma varas. Outro campo que se chama a Devesa da Felgueira que parte do oriente com terra do dito Mosteiro de pedroso que traz o dito Roque piz tem pella dita banda noue uaras. E parte da banda do norte com terra do dito Mosteiro de pedroso que traz o dito Roque piz tem pella dita banda dezanoue uaras. E parte da bando do poente com o caminho. tem pella dita banda uinte e tres uaras. E parte da banda do Sul com terra do dito Moesteiro de pedroso que traz o dito bastião Luis tem pella dita banda trinta uaras. Outro campo que se chama a correga que parte da banda do oriente com o caminho tem pella dita banda dezasete uaras. E parte da banda do norte com terra do dito Mosteiro de pedroso que traz a dita Maria Luis tem pela dita banda cento e cinquoenta uaras. E parte da banda do poente com o caminho tem pella dita banda cento e dezaseis uaras. E parte da banda do Sul com terra do dito Mosteiro de pedroso que traz o dito bastião Luis. tem pella dita banda cento e sesenta e seis varas. Outro campo que se chama a Leira do Mourigo que parte do oriente com terra do dito Mostrº de pedroso que traz Manoel piz, tem pella dita banda trinta uaras. E parte da banda do norte com terra do dito Mosteiro de pedroso que traz o dito glo piz tem pela dita banda nouenta uaras. E parte da banda do poente com terra do dito Mostrº de pedroso que traz o dito glo piz tem pella dita banda uinte. e duas uaras. E parte da banda do Sul com terra de Antonio Glz tem pella dita banda nouenta uaras. E traz este casal Manoel da Cunha celleiro morador no porto por hum prazo de tres vidas. Elle e sua

molher Caterina de pina em duas. paga ao conuento por este casal e pello do pinheiro que esta acima escrito oitocentos rs em dinheiro e tres alqueires de pão meado e duas galinhas. o laurador que mora neste casal chamase Aº Annes. /259 CENSO EM GAIATE Tem o Moesteiro em o casal de Fundo daldea de gaiate da freguesia de São Miguel de Milheiros hum censo tem o dito casal as propriedades seguintes. Hum lugar que se chama do Fundo daldea de gaiate com huma casa de morada terrea e dous curraes e eyra cortinha pomar vinhas e deuesa tudo Junto que parte da banda do oriente com terra de gaspar Leitão que traz Aº Annes. tem pella dita banda corenta e oito uaras de medir de cinquo palmos a uara. E parte da banda do norte com terra do dito Mostrº de pedroso que traz bastião Luis e com terra do dito gaspar Leitão que traz o dito Aº Annes. tem pella dita banda oitenta e huma uaras. E parte da banda do Poente com o caminho, tem pella dita banda trinta uaras. E parte da banda do Sul com o caminho e com terra do dito Mosteiro de Pedroso que traz o dito Jurdão piz tem pella dita banda sesenta e quatro uaras. Outro campo que se chama a cortinha que parte da banda do oriente com terra do dito Mosteiro que traz o dito Jurdão piz tem pella dita banda sesenta e duas uaras. E parte da banda do norte com terra do dito Mostrº de pedroso que traz o dito Jurdão piz tem pella dita banda setenta e cinquo uaras. E parte da banda do poente com terra do dito gaspar Leytão que traz o dito Aº Annes. tem pella dita banda nouenta e cinquo uaras. E parte da banda do Sul com o Rio, tem pella dita banda cento e vinte e seis uaras. Outro campo que se chama o Arieiro que parte da banda do Oriente com o caminho tem pella dita banda oito uaras. E parte da banda do norte com terra do dito Mosteiro que traz Jorge Annes, tem pella dita banda quarenta e duas uaras. E parte da banda do poente com terra do dito. Mostrº que traz Roque piz tem pella dita banda uinte e huma uaras. E parte da banda do Sul com terra do dito gaspar Leitão que traz o dito Aº Annes tem polla dita banda quarenta e duas uaras.

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Outro campo que se chama da Ribeira que parte da banda do oriente com terra do dito Mosteiro que traz o dito Aº Annes tem polla dita banda duas uaras. E parte da banda do norte com terra do dito Moesteiro que traz o dito Jurdão piz tem pella dita banda cento e quatro uaras. E parte da banda do Poente com o Ribeiro tem polla [259V]

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dita banda trinta e noue uaras. E parte da banda do Sul com terra do dito gaspar Leitão que traz o dito Aº Annes. e com terra do dito Mostrº que traz Aº Annes do Carvalho tem polla dita banda cento uinte e duas uaras. Outro campo que se chama a Rotea que parte da banda do oriente com terra do dito Mosteiro de pedroso que traz braz Aº tem pella dita banda trinta uaras. E parte da banda do norte com terra do dito Mosteiro que traz o dito Aº Annes. do Carvalho tem polla dita banda quarenta e cinquo uaras. E parte da banda (sic) com o Ribeiro tem pella dita banda trinta e seis uaras. E parte da banda do Sul com terra do dito Mosteiro que traz g.lo pirez tem pella dita banda trinta e noue uaras. Outro campo que se chama a Rotea de cima que parte da banda do oriente com o Monte Maninho e com terra da Igreja de São Miguel de Milheirós que traz Jº Aº, tem polla dita banda sesenta e cinco uaras. E parte da banda do norte com terra do dito Mosteiro que traz o dito Aº Annes tem polla dita banda trinta e quatro uaras.[à margem esquerda foi acrescentado: E parte da banda do poente com tra do dto q traz o dito bastião Luis tem pla dta banda trinta uaras.] E parte da banda do Sul com terra da dita Igreja que traz o dito Jº Aº tem polla dita banda trinta e noue uaras. Outro campo que se chama o Ameal que parte da banda do oriente com o Monte Maninho tem pella dita banda setenta e oito uaras. E parte da banda do norte com terrra do dito Mosteiro que trazem o dito glo piz e Antonio gil tem pella dita banda sesenta e duas uaras. E parte da banda do poente com terra do dito Mostrº que traz o dito Aº Annes tem polla dita banda sesenta e quatro uaras. E parte da banda do sul com o caminho tem pella dita banda trinta uaras. Outro campo que se chama o chão da Leuada que parte da banda do oriente com terra do dito Mosteiro que traz Jurdão piz e com o Monte Maninho tem pella

dita banda uinte e quatro uaras. E parte da banda do norte com o Ribeiro tem pella dita banda trinta e quatro uaras. E parte da banda do Sul com o Monte Maninho tem polla dita banda trinta uaras. Outro campo que se chama a leira de sob o casal que parte da banda do oriente com terras do dito Mosteiro que traz Jorge Annes tem polla dita banda onze uaras. E parte da banda do norte com terra do dito Mosteiro que traz Roque piz tem pella dita banda cento e quinze uaras. E parte da banda do poente com terra do dito Mosteiro que traz o dito Roque piz tem polla dita banda dezasete uaras. E parte da banda do Sul com terra do dito Mosteiro que trazem o dito Roque piz e Manoel piz tem polla dita banda cento e doze uaras. Outro campo que se chama a corredoura que parte da banda do oriente com o caminho tem polla dita banda quatorze uaras. E parte da /260 banda do norte com terra de Aº Annes tem polla dita banda nouenta e noue uaras e parte da banda do poente com terra do dito Mosteiro de pedroso que traz o dito Aº Annes tem polla dita banda uinte e cinquo uaras. E parte da banda do Sul com terra do dito Mosteiro de pedroso que traz o dito Aº Annes tem pella dita banda oitenta e cinquo uaras. Outro campo que se chama a Felgueira que parte da banda do oriente com o caminho tem polla dita banda cento e oito uaras. E parte da banda do norte com o caminho tem pella dita banda dezoito uaras. E parte da banda do poente com terra do dito Aº Annes tem polla dita banda cento e dezanoue uaras. E parte da banda do Sul com terra do dito Moesteiro de pedroso que traz o dito Aº Annes. Tem pella dita banda nouenta e oito uaras. Outro campo que se chama as Leiras que parte da banda do oriente com o Rio tem polla dita banda quinze uaras. E parte da banda do norte com terra do dito Mosteiro de pedroso que traz o dito glo piz tem pella dita banda setenta e cinquo uaras. E parte da banda do poente com o caminho tem pella dita banda uinte e sete uaras. E parte da banda do Sul com terra do dito Mosteiro de pedroso que tarz o dito bastião Luis. Tem pella dita banda setenta e cinquo uaras.


Huma deuesa que se chama dantre as cortinhas do casal de bastião Luis que parte da banda do oriente com terra do dito Mosteiro de pedroso que traz o dito bastião Luis. tem polla dita banda quinze uaras. E parte da banda do norte com terra do dito Mosteiro de pedroso que traz o dito bastião Luis. tem pola dita banda setenta e duas uaras. E parte da banda do poente com terra do dito Mosteiro que traz o dito bastião Luis tem polla dita banda oito uaras. E parte da banda do Sul com terra do dito Mosteiro que traz o dito bastião Luis. Tem pella dita banda setenta e duas uaras. Outro campo que se chama a Leira do Souereiro da Mamoa que parte da banda do oriente com terra do dito Mosteiro de pedroso que traz o dito Jurdão piz tem pella dita banda nouenta e cinquo uaras e parte da banda do norte com terra do dito Moesteiro que traz o dito bastião Luis. tem pella dita banda sete uaras. E parte da banda do poente com terra do dito gaspar Leitão que traz Aº Annes tem pola dita banda nouenta e cinquo uaras e parte da banda do Sul com terra do dito Mosteiro de pedroso que traz a dita Maria Luis. tem pella dita banda seis uaras. Paga gaspar Leitão morador na aRifana sesenta rs deste casal ao conuento porque diz que o casal e seu.” 2 – Livro Segundo Authentico dos Padroados das Igrejas do Real Mosteiro de Sancto Agostinho da Serra da Cidade do Porto, fol. 50 verso e 51. (Arquivo Distrital do Porto, Convento de Santo Agostinho da Serra, Títulos do padroado, 1764) “In era millesima trecentesima octava secundo Idus Aprilis. Sciant omnes praesentes et posteri quod isti sunt testes quando Petrus Martini Rector Ecclesiae de Milheiroos petivit ecclesiam de Gaiate ad Dominicum Stephani Abbas de Petroso et ejus Conventui et promisit in bona fide; et Dominicus Martini Rector Ecclesiae de Ulveira et Stephanus Pelagii de Feira et Alfonsus Stephani scutifer et Fernandus Simeonis rogaverunt et petierunt ut darent Ecclesiam de Gaiate ad Petrum Martini. Et ut non impediret Ecclesiam ad illum et promisit /51 promisit pro illa ut facerent servitium pro illa Ecclesia de

Milheiroos ad Dominus Abbas et ad fratres de Monasterio de Pedroso quomodo numquam melius solebant facere ad illos Abbates et fratres de Petroso. Insuper Domnus Abbas dedit ecclesiam de Gaiate ad Petrus Martini sub tali conditione quomodo de sursum resonat. Johannes Suerii frater testis et Dominicus Martini frater et Martinus Stephani filius de Stephanus Pelagii clericus testis et Dominicus Johannis frater qui vocitant minor testis, et Johannes Martini de Sancto Martino et Dominicus Pelagii de Figueiredo et Gundisalvus Nogueira scutifer et Rodericus Nogueira et Stephanus Simeonis scutifer et Duram Dominici de Casal, et Johannes Spada et Petrus Dominici frater, et Dominicus Johannis frater, et Duram Laurentius de Bolpelhares et Johannes Petri clericus de Feira, et Martinus Dias clericus de Milheiroos et Geraldus Petri de Guardam et Johannes de Guim et Dominicus Mazudom clericus. Insuper in ipso die cognoverunt et dixerunt quod medium casale quem vocitant de Mamoa erat de Monasterio Petroso quia tenebat illum Stephanus Pelagii Rector Ecclesiae de Milheiroos in praestimonio cum aleas hereditates in ipsa Villa de Gaiati. Johannes Nogueira testis Martinus Petri germanus de Episcopo de Portu Dominus Vincentius testis.” 3 - Livro Segundo Authentico dos Padroados das Igrejas do Real Mosteiro de Sancto Agostinho da Serra da Cidade do Porto, fol. 51 e 51 verso. (Ibidem) “In Dei nomine amen. Noverint universi praesentis instrumenti seriem inspecturi quod in era millesima trecentesima decima feria quarta scilicet decimo calendas Septembris coram viro venerabili Domno Johanni Johannis Canonico Vicario Portugalensi Reverendi Patris Domini Vincentii ejusdem Episcopi in Romana Curia existentis me Martino Suarii publico tabelione civitatis Portugalensis adhibito et praesentes Stephanus Alfonsi Clericus dictus de Feira [51V] Feira in terra Sanctae Mariae procurator Petri Martini Rectoris Ecclesiae Sancti Michaelis de Milheiroos in terra Sanctae Mariae, Dominici Martini Rectoris Ecclesiae Sancti Michaelis de Ulveira et Alfonsi Stephani Armigeri et fratris de Gaia quorum procurator existebat et aliorum haeredum Ecclesiae supradictae de Milheiroos recognocit

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quod petierat Ecclesiam Sancti Johannis de Gaiate Abbati Conventui Monasterii de Petroso quae erat sufragania Monasterii praelati et ut hoc postea non redundaret in Monasterio prejudicium et gravamen Religiosus uir Fernandus Petri Prior et procurator monasterii supradicti super causa dictae Ecclesiae Sancti Johannis de Gaiati petiit per me supradictum Tabelionem sibi fieri quoddam publicum instrumentum in testimonium huijus rei. Actum est hoc apud civitatem Portugalensem era et die supradictis. Praesentibus Vincentio Johannis Vicario Portugalensi, Vincentio Petri Portionario de esto facta Laurentio Petri Praesbitero Dominico Pelagii et aliis quam plurimis. Et ego supradictus Tabelio rogatus a praedicto Priore Monasterii de Petroso hoc publicum instrumentum propria manu scripsi et in testimonium praemissorum hoc meum signum apposui in eodem.” 40

4 - Livro Segundo Authentico dos Padroados das Igrejas do Real Mosteiro de Sancto Agostinho da Serra da Cidade do Porto, fol. 51 verso, 52 e52 verso. (Ibidem) “In Dei nomine amen. Noverint universi praesentis instrumenti Seriem inspecturi quod ego Dominicus Petri dictus do Valle morator in Villa de Moura olim filius Sanciae Petri filiae Domnae Elvirae olim filiae Johannis Pelagii fratris Menendi Pelagii qui quidem Johannes Pelagii et Menendus Pelagii fuerunt filii Pelagii Arie de Milheiroos tamquam heres et verus Patronus Ecclesiae Sancti Michaelis de Milheiroos de terra Sanctae Mariae Portugalensis Dioecesis mea libera et spontanea voluntate pro mea et animabus omnium praedictorum ac ad honorem Dei et laudem et Beatae Virginis Mariae suae Matris do dono et concedo venerabilibus et religiosis viris Domno Petro Johannis Abbati et Conventui Monasterii de Pedroso dictae Portugalensis dioecesis / 52 Dioeccesis totum jus Patronatus et Dominii e totum jus et possessionem praesentandi quod et quam habeo et de jure habere debeo in dicta Ecclesia Sancti Michaelis de Milheiroos cum omni jure et possessione et dominio ac proprietate quod et quam habeo et de jure

habere debeo in quoddam casale quod vocatur de Mamoa quod est in loco qui dicitur Gaiate tam de fogaciis quam etiam a sterius cujuscumque modi quod quidem casale est dicti Monasterii. Do in quam et concedo praedictis Abbati et Conventui et Monasterio suo praedicto omne jus Patronatus et possessionem praesentandi Ecclesiae supradictae et totum jus in proprietatem et dominium vel honorem casalis praedicti quod et quam in dicta Ecclesia et in dicto casale mihi obvenit ex parte dictae matris meae indictum Abbatem et Conventum et Monasterium suum plenarie transferendo. Ita quod eis hinc liceat praedictis Abbati et conventui et Monasterio suo facere et ordinare et etiam disponere de omnibus supradictis tamquam de sua propria possessione quodquid suae placuerit voluntati nihilque juris et proprietatis in dicta Ecclesia et in dicto casali mihi et successoribus meis retineo seu reservo et promito bona fide contra hanc donationem per me uel per alium palam vel occulte non venire. Et ut hoc indubium in posterum non veniret rogavi Antonium Stephani Tabelionem Portugalensem ut de praedictis donatione et consessione conficeret dictis Abbati et conventui et Monasterio suo praedicto publicum instrumentum. Actum est hoc apud Monasterium supradictum de Petroso sexto die mensis Martii era milesima trecentesima quadragesima secunda. Testibus praesentibus Martino Vallasci Rectore Ecclesiae de Villa Cova de Ul Pelagio (?) Juliano Geraldi Stephano Martini, Dominico Bartholomeo Monachis dicti Monasterii et me Antonio Stephani publico tabelione in dicta civitate Portugalense in temporalibus et in loca Dioecesi [52V] Dioecesi in spiritualibus qui promissis omnibus interfui et ad instantiam dicti Dominici Petri hoc publicum instrumentum manu propria scripsi et signum meum apposui in eodem quod tale est. 5 - Livro Segundo Authentico dos Padroados das Igrejas do Real Mosteiro de Sancto Agostinho da Serra da Cidade do Porto, fol. 52 verso e 53. (Ibidem) “In Dei nomine amen. Noverint Universi praesentis instrumenti seriem inspecturi quod ego Marina Petri nunc morator in Villa de Feira olim filia Sanciae Petri filiae Domnae Elvirae olim filiae Johannis Pelagii


fratris Menendi Pelagii qui quidem Johannes Pelagii et Menendus Pelagii fuerunt filii Pelagii Arie de Milheiroos tanquam heres et vera Patrona Ecclesiae Sancti Michaelis de Milheiroos de terra Sanctae Mariae Portugalensis Dioecesis mea libera et spontanea voluntate ac pro mea et animabus omnium praedictorum ad honorem Dei et Laudem et Beatae Virginis Mariae suae Matris do dono et concedo venerabilibus et Religiosis viris Domno Petro Johannes Abbati et Conventui Monasterii de Petroso dicto Portugalensis Dioecesis totum jus Patronatus et Dominii et totum jus et possessionem praesentandi quod et quam habeo et de jure habere debeo in dicta Ecclesia de Milheiroos cum omni jure et possessione et dominio et proprietate quod et quam habeo et de jure habere debeo in quoddam casali quod vocatur de Mamoa quod est in loco qui dicitur Gaiate tam de fogaciis quam etiam alterius cujuscumque modo quod quidem casale est dicti Monasterii. Do in quam et concedo dictis Abbati et conventui et Monasterio suo praedicto omne jus Patronatus et possessionem praesentandi Ecclesiae supradictae et totum jus proprietatem et dominium vel honorem casalis praedicti quod et quam in dicta Ecclesia et in dicto casali mihi obvenit ex parte dictae Matris meae in dictum Abbatem et Conventum et Monasterium suum plenarie transferendo ita quod eis hunc liceat praedictis Abbati et conventui et Monasterio /53 Monasterio suo facere et ordinare et etiam disponere de omnibus supradictis tamquam de sua propria possessione quodquid sua placuerit voluntate nihilque juris et proprietatis in dicta Ecclesia et in dicto casali mihi et successoribus meis retineo seu reservo et promitto bona fide contra hanc donationem per me vel per alium palam vel occulte non venire. Et hoc in dubium in posterum non veniret rogavi Antonium Stephani Tabelionem Portugalensem ut de praemissis donatione et consessione conficeret dictis Abbati et Conventui et Monasterio suo praedicto publicum instrumentum. Actum est hoc apud Monasterium supradictum de Petroso decimo die mensis Madii era millesima trecentesima quadragesima secunda. Testibus praesentibus Stephano Petri dicto Lavandeira Martino Vallasci Rectore Ecclesia Sancti Jacobi de Ul Domno Petro Dominici Priore, Dominico Bartholomeo

Monacho dicti Monasterii de Petroso, Stephano Petri Dominico Andreae Johanne Stephani fratre, Petro Stephani Monacho ejusdem et me Antonio Stephani tabelione memorato qui omnibus praemissis interfui et ad instantiam dictae Marinae Petri ex inde hoc publicum instrumentum manu propria conscripsi et signum meum ibidem apposui in testimonium praemissorum quod tale est.” 6 – TOMBO DO CONDADO DA CASA DA FEIRA, fol. 466- 543 verso (Arquivo da Biblioteca Municipal de Santa Maria da Feira, 1705) “466 Freguezia de Milheirós de Poares lugar de Gayate Titolo do cazal de sima da aldea que he o de que falla o foral folhaz 43.vs.º na verba que diz Affonso Annes de milho seis alqueires e duas callasaz. De que he cabeça Manoel Gomes e sua molher Marianna de Pinho, e os maiz possuidores ao diante declarados. Direito Senhorio o Mostr.º de Pedrozo Paga de foro ao Castello: Milho seis alqueires.................................................6 Callaçaz duaz..........................................................2 Reconhecimento No anno do Nascimento de nosso Senhor Jesus Christo de mil setecentos e seis annos Aos noue dias do mez de Junho do ditto anno nezta freguezia de Milhei/ [466V] de Milheiros de poares em o lugar de gayate no sitio do cazal de sima da aldea adonde foi vindo o Doutor Antonio da Rocha Manrique do Dezembargo de Sua Magestade Juiz da fazenda e Tombo Real do estado e caza da feira por especial Alvará do dito Senhor comigo esccriuão e maiz officiaes ahi a requerimento do procurador do Tombo foi requerido a elle juiz mandasse atombar medir e demarcar o dito cazal porquanto delle era direito Senhorio a caza da feira a quem pagaua de

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foro em cada hum anno seis alqueires de milho e duaz callaçaz de carne de que era cabeça Manoel Gomes e sua Molher Mariana de Pinho e erão mais possuidores Manoel Coelho e sua molher Maria Gomes Manoel Coelho Gomes e sua molher Maria de Rezende Anna Dias viuua Antonio da Costa e Manoel de Rezende solteiros Manoel Antonio de Milheiroz e sua molher Isabel Francisca Manoel Aluez e sua molher Maria Francisca Domingos Dias e sua molher Domingas Fernandes que prezentes estauão. E logo elle juiz lhes fez preguntas se com todas as propriedades que possuião do dito cazal reconhecião a caza da feira por direito Senhorio com a dita renda atrás de/ 467

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atrás declarada e por ellles cazeiros foi dito que o dito cazal era de prazo e delle direito Senhorio o mosteiro de pedrozo, e que somente reconhecião a caza da feira com o dito foro atrás declarado e não tinhão duuida a pagalo como thequi pagauão nem que fosse lançado em tombo o que uisto por elle juiz lhes deo o juramento dos Sanctos Evangelhos e lhes encarregou dessem a medição todas as terras do dito cazal com penna de que ficando algumas de fora se tomarem por devolutas para a Coroa, e de cahirem em comisso o que elles prometerão fazer, e que para a medição se louuauão em o mesmo medidor tomado pella caza. O que visto por elle juiz e lhe constar por fee de min escriuão estarem citados os confrontantes que mandou apreguar e por não apareuresserem as suas reuelias debaixo do segundo pregão mandou fazer a medição e o prezente termo que assinou com os cazeiros e procurador sendo testemunhas prezentes Manoel Francisco Manoel Dias do mesmo lugar e eu Manoel Pinto Leal da Cunha escriuão do Tombo escreuy e assiney dis a entrelinha (duuida) dito o escreuy. [Seguem-se as assinaturas de :] Manrique Mel P.to Leal da Cunha João Frr.ª da Cruz M.el da Silua M.el Gomes Manoel Coelho Gomes De D.os +Dias

De João+Als De Paulo+An.to De M.el + Fran.co T.ª De M.el + Dias T.ª An.to da Costa Manoel de Rezende da Silua, /468 Medição Primeiramente hum assento de cazas terreas e de sobrado curraes palheiros eira com sua horta que tem pella parte do nascente quarenta e tres varas e meya e pello norte nouenta e tres varas e pello poente sesenta e huma varas e pello sul nouenta e tres varas e meya leuara de semeadura tres coartas de centeo parte do Nascente e sul com o caminho que vay em volta para Cabeçaes e do norte com Antonio Fernandes e do poente com Domingos Manoel e André Antonio. [Travessa dos Perestrelos do lado Nascente, próximo da Rua da Gândara.] Item o campo de Sanoane que possue elle cabeça que tem pella parte do nascente oitenta e sete varas e pella parte [sic] setenta e duas varas pello poente cento trinta e huma varas e pella parte do sul setenta e sinco digo quarenta e sinco varas e mea parte do nascente com o caminho que vay para pigeiros e do norte com o monte maninho e do poente com Antonio e do Sul com Antonio Fernandes leuara de semeadura seis alqueires de centeo. [ Rua da Gândara.] Item o campo da Infesta que possue elle cabeça que tem pella parte do/ [468V] pella parte do nascente sincoenta e tres varas e meya e pella parte do Sul vinte e sinco varas, e pella parte do Norte trinta e huma varas e pello poente sincoenta e noue varas leuará de semeadura alqueire e meo de centeo parte do nascente com Manoel Coelho e do norte com o mesmo e com caminho e do poente com o mesmo cazal e do sul com terras do mosteiro de pedrozo. [A Sul da Travessa dos Perestrelos.] Item o campo da Infesta que possue Manoel Coelho que tem pella parte do norte sincoenta e três varas e meya e pello nascente sincoenta e sinco varas e meya e pello sul vinte e tres varas e meya leuará de


semeadura dois alqueires de centeo parte do nascente com jerónima solteira e do sul com Manoel Fernandes e do norte com o caminho e do poente com terras do mesmo cazal. [A Sul da Travessa dos Perestrelos.] Item o campo do moutido que possue Manoel Antonio e Manoel Coelho que tem de comprido pello norte oitenta e seis varas e pello nascente vinte e noue varas e pello sul quarenta e noue e meya e pello poente dezasete varas e mea leuará de semeadura dois alqueires e meo de centeo par/ 469 de centeo parte do norte com João Antonio das mámoas e do nascente o mesmo e do sul com Domingos Dias e do Poente com Domingos Manoel. [próximo da Rua de Gaiate, a Poente da Rua do Autarca Eleito e da Rua da Casa da Mámoa.] Item outro campo de Sanoane que possue Manoel Coelho que tem de comprido pella parte do norte sincoenta e noue varas e meya e pello poente dezaseis varas e pella parte do sul setenta e oito varas e pello nascente quinze varas e mea parte do nascente com o caminho e do poente com André Antonio e do norte com Anna solteira e do sul com a mesma leuará de semeadura alqueire e meyo de centeo. [O caminho corresponde à actual Rua da Gândara.] Item o Chamsinho que possue elle cabeça e Antonio da Costa e Manoel de Rezende que tem de comprido pella parte do nascente quarenta varas e pello sul vinte varas e meya e pella parte do norte trinta e duas e mea e pello poente o mesmo leuará de semeadura hum alqueire de centeo parte do nascente com André Antonio e do sul com Gracia de Rezende e do norte e poente com elle cabeça e o dito Gracia de Rezende. Item o Ribeiro que possue Manoel Coelho/ [469V] Manoel Coelho que tem de comprido pella parte dezanoue varas e meya e pello nascente quinze varas e meya e pella parte do norte quatorze varas e meya e pello sul sete varas parte do nascente com a preza e do norte com André Antonio e do sul e poente com Gracia de Rezende leuará de semeadura meyo alqueire de centeo. [Junto à presa e tanque do Casal.] Item a Cortinha que possui elle cabeça que

tem quarenta e tres varas e meya e pello sul sincoenta e quatro varas e meya parte do nascente com elles cazeiros e do sul com Anna solteira e do poente com Francisco Paes levará de semeadura dois alqueires de centeo. [Junto ao poço e presa, mais a Nascente do Ribeiro acima referido.] Item outro campo do Ribeiro que possui elle cabeça que em redondo tem quarenta e quatro varas e mea parte de todas as partes com terras do dito mosteiro levará de semeadura meo salami de centeo. [junto ao Ribeiro acima descrito.] Item o apozento que possue Manoel Coelho com sua eira e orta parte do poente com terras do mesmo/ 470 do mesmo cazal e do sul com Domingos Fernandes e das mais partes com terras do mesmo cazal tem de comprido pello sul trinta e duas varas e meya e pello norte vinte e seis varas e meya e pella parte do nascente vinte varas e meya e pello poente vinte e seis varas e mea levará de semeadura tres quartas de centeo. Item a Cortinha que possue o mesmo assima com huma orta tem de comprido pella parte do sul sessenta e quatro varas e pello norte as mesmas e pello poente dezoito varas e pello nascente e a orta huma vara que acaba em agudo parte do sul com António da Costa e do Poente com Domingos Manoel e das mais partes com terras do mosteiro de pedrozo levará de semeadura alqueire e meyo de centeo. Item o Chamcinho que possue Antonio da Costa e Manoel de Rezende que tem pella parte do norte quarenta e noue varas e pello poente tem trinta e sinco varas e pello sul trinta e seis varas e pello nascente vinte e quatro varas levará de semeadura alqueire e meyo de centeo parte do nascente com o caminho que vay para Cabeçaes do poente com Manoel Coelho e do Norte com Anna Dias e do Sul/ [470V] e do Sul com a mesma. Item o campo dos Vallez que possue Manoel Coelho Gomes que tem de comprido pello sul cento e sete varas e mea e pello nascente sessenta e sete varas e pello poente vinte e oito varas e pello norte cento e vinte e tres varas levará de semeadura tres alqueires de

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centeo parte do nascente com o atalho que vay para o outeiro e do poente e sul com Maria de Azevedo e Gonçallo João e do Norte com Manoel Alves. [Entre as Ribeiras junto ao rio e o lugar do Outeiro.] Item o campo da Rotea que possue Anna Dias que tem pella banda do nascente e sul nouenta e tres varas e do poente e norte otenta e huma varas levará de semedura quatro alqueires de centeo parte do nascente e sul com Manoel Alvres e do poente com Manoel fernandez Andre Antonio e Manoel Coelho e do norte com o mesmo Manoel fernandez .[Por detrás da Leira do Moinho, da Ribeira e da Ribeira do Lago]. Item o campo da Infesta que possue Manoel Coelho que tem de comprido de Nascente e sul nouenta e noue varas e pella banda do poente e norte nouenta e sinco varas parte do nascente com o cabeça e do poente com a quingosta e do norte o mesmo e do sul com Manoel fernandez levará de se/ 471 levará de semeadura quatro alqr.es de senteo.[A Nascente da Rua do Comendador Domingos Bastos.] Item a Ribeira do Lago que possue Manoel Alues e Domingos Dias que tem pella parte do nascente trinta e tres varas e mea e pello poente oitente e noue varas e pello sul dezasete varas e mea e pello sul quatorze varas e mea [sic] parte do nascente com Domingos Manoel e do poente com quingosta que vaj para a Ribeira e do norte com o Rio e do sul com Manoel fernandez e Manoel Coelho levará de semeadura alqueire e meo de centeo. [Entre o caminho que cruza com a actual Rua das Relvas junto à ponte, próximo dela, tendo a Nascente o campo da Ribeira que, por sua vez, fica antes da Leira do Moinho.] Item huãs cazas palheiros cortes e pumar em que viue Anna Dias que tem pella parte do Norte dez varas e mea e pello nascente trinta e noue varas e pello sul vinte e tres varas e pello poente vinte varas e mea parte do nascente com caminho que vaj para Cabeçaez e do poente com Manoel Coelho e do norte com Domingos Manoel e do sul com Antonio da Costa e Manoel de Rezende. [Próximo da Rua do Mosteiro de Pedroso no cruzamento com a Rua de Gaiate.] Item a leira piquena do Sanoane que possue a mesma que tem pella parte do poente trinta e sete

varas e mea e pello norte setenta e duas/ [471V] setenta e duas varas e pello nascente quarente e noue varas e pello sul oitenta e sete varas e mea parte do nascente com o caminho e do poente com André Antonio e do norte com elle cabeça e do sul com Manoel Coelho levará de semeadura tres alqueires de centeo. [O caminho corresponde à Rua da Gândara.] Item a Cortinha que possue a mesma tem pella parte do sul sincoenta e noue varas e pello norte oitenta varas e pello nascente sinco varas e mea e pello poente vinte varas levará de semeadura alqueire e meo de centeo parte do nascente com elles cazeiros e do poente com Antonio Gomes e Manoel Gomes e do norte com elle cabeça e do sul com Manoel Coelho. Item a deuezinha que possue a mesma tem pella parte do poente vinte e noue varas e pello nascente e norte faz volta tem trinta varas e pello sul seis varas levará de semeadura meo alqueire de centeo parte do nascente com o caminho e do poente e norte com Antonio da Costa e Manoel de Rezende e do sul com Domingos Manoel. Item o Chão dos Castanheiros que possue/472 que possue a mesma que tem pella parte do sul vinte duas varas e pello poente cento e dezanoue varas e pello norte trinta varas e pello nascente cento e dezanoue varas levará de semeadura tres alqueires de centeo parte do nascente com o caminho e do poente com Francisco Paez e do norte com André Antonio e do Sul com Francisco Paez e Manoel Coelho. Item o campo da Ribeira que possue a mesma que tem pella parte do nascente vinte e noue varas e pello poente vinte e seis e pello norte quarenta e noue varas e mea e pello sul sincoenta e sete varas levará de semeadura alqueire e meo de centeo parte do nascente com Manoel Leite e Manoel Coelho e do poente com Francisco Leite e do norte com Manoel Fernandes e do Sul com Manoel Alves. Termo Logo no dito dia mes e anno atraz declarado por elles ditos cazeiros foi dito que não tinhão mais terras


que dar a esta medição a qual/ [472V] a qual havião por bem feita e acabada firme e valioza e se obrigarão a todas as clauzulas e condiçois do termo atraz declarado a tudo cumprirem e guardarem e logo parecerão prezentes Marianna de Pinho Maria Gomes Maria de Rezende Anna Dias viuua Izabel Francisca Maria Francisca e Domingas Fernandes molheres dos ditos cazeiros e por ellas foi dito que a todo o feito pellos ditos seus maridos dauão cada huma pella sua parte suas autorgas e consentimentos e se obrigarão como elles o estauão a tudo cumprirem e guardarem e elle juis lhes encarregou conseruassem as terras do dito cazal assim e da maneira que no dito Tombo hião declaradas sob penna de que assim o não fazendo pagarem de suas cazas as perdas e dannos o que prometerão fazer de que fiz este termo que elle juis assinou com elles cazeiros e pellas sobreditas molheres não saberem escreuer rogarão a Manoel da Silva que assinou a seu rogo sendo testemunhas prezentes o dito Mano/ 473 Manoel Dias e Manoel Francisco e Manoel Pinto Leal da Cunha escriuão do Tombo o escreuj e assinei. [Segue-se as assinaturas:] Manrique M.el P.to Leal da Cunha João Frr.ª da Crux M.el Gomes Manoel Coelho Gomes A rrogo M.el da Silua De João+Als De D.os+Dias De M.el+ Dias T.ª De Paulo+Ant.º De Manoel Fran.co T.ª De Manoel Rezende da Silua An.to da Costa Depois de tudo isto assim prossessado como dito fica por elle Doutor Juiz do Tombo foi mandado a mim escriuão lhe fizese estes autos concluzos para os sentencear de que fiz este termo eu Manoel Pinto Leal da Cunha escriuão do Tombo escreuj./

[473V] Julgo o reconhecimt.º por vr.º e as mediçoes por boas u.tos os autos e citaçoes das p.tes lançese em Tombo a renda contheuda no d.to reconhecm. to e citemse os R.dos P.es do Mostr.º de Pedrozo p.ª mostrarem os tt.os porque são s.rio deste cazal. Fr.ª Julho. 15. de 1706. An. to da Rocha Manrique E logo no dito dia mes e anno asima declarado por elle Doutor Juiz do Tombo foi publicado sua sentença asima em prezença das partes que mandou se cumprisse como nella se contem de que fiz este termo eu Manoel Pinto Leal da Cunha o escreuj. 474 Conta Auto------------------------------------------------40 Tr.os------------------------------------------------07 m.dor-----------------------------------------------20 R.as-----------------------------------------------294 Raza----------------------------------------------160 cl.am-----------------------------------------------36 Soma------------------------557 Da conta--------------------------------36 Importou a raza e conta Donde este sahiu--------------------108 Tudo---------------701 Manrique/ [474V] [Folha em branco.] 475 Milheiros lugar de gayate Titolo do cazal de Pedrozo que he o de que falla o foral a follhas 43 v.so na verba que diz, e o filho de Alvaro de gayate outro tanto; de que hoje he cabeça Domingos Dias e sua molher Domingas Fernandes, e os mais possuidores adiante declarados. Direito Senhorio o mostr.o de prdrozo Paga de foro Milho seis alqueires-------------------------------6 Calaças duas---------------------------------------2

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Reconhecimento Anno do Nascimento de nosso senhor Jesus Christo de mil setecentos e seis annos aos honze dias do mez/ [475V] do mez de Junho do dito anno nesta freguezia de Milheiros de Poares em o lugar de gayate della no sitio do cazal chamado de Pedrozo adonde foi vindo o Doutor Antonio da Rocha Manrique[...] de que era cabeça Domingos Dias e sua molher Domingas Fernandes e erão mais possuidores Manoel Alues e sua molher Maria Francisca e Antonio Eytor e sua molher Izabel Francisca que prezentes estauão [...] /476

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sendo testemunhas peszentes Manoel Dias e Manoel Francisco do mesmo lugar e eu Manoel Pinto Leal da Cunha esciuão do Tombo escreuj e assinej. [Seguem-se as assinaturas:] Manrique Mel P.to Leal da Cunha João Frrª da Crux De D.os+Dias cabeça De M.el+Dias T.ª M.el da Silua De João+Als De M.el fran.co T.ª [476V] [...] Medição Primeiramente um assento de cazas terreas telhadas com seus curraes e eira e huma cortinha chamada de sima em que viue elle cabeça que tudo tem de comprido de nascente a poente cento quarenta e huma varas e de llargo pello nascente trinta e duas varas e pello poente sincoenta varas levará de semeadura sinco alqueires parte do nascente com Manoel Francisco e do poente com o caminho e do norte com Manoel/477 Manoel Fernandes e do sul com Manoel Leite e Manoel Coelho tem hum bocado de deueza para a parte do

nascente e agoa de rega. [A Nascente da Rua do Mosteiro de Pedroso.] Item huma cortinha de baixo que possue elle cabeça e Manoel Alues que tem de comprido de nascente a poente cento e sinco varas e de largo trinta e duas varas leuará de semeadura quatro alqueires parte do nascente com Antonio Francisco e do poente com o mesmo cazal e do norte com a leuada do Rio e do Sul com Antonio de Magalhães de Menezes tem algumas uueiras. Item o campo do moutido que possuem os mesmos que tem de comprido de nascente a poente oitenta e noue varas e de largo vinte e huã varas e mea leuará de semeadura dois alqueires parte do nascente com Antonio Francisco e Antonio Dias e do poente com o mesmo cazal e do Norte com Manoel Coelho e do sul com Antonio Dias e Antonio Francisco. [a Nascente das casas acima referidas.] Item o campo da Rotea que possuem os mesmos tem de comprido de norte a sul cento e honze varas e de largo quarenta e noue varas leuará de semeadura tres alqueires e meo de centeo parte do nascente com Manoel Coelho e do poente com/ [477V] Anna Dias e do Norte com o caminho da laboura e do sul com Catherina Aranha [Junto à Rua das Relvas e Travessa do Moinho, por detrás da Leira do Moinho, da Ribeira e da Ribeira do Lago.] Item o campo da Ribeira que possuem os mesmos asima que tem de nascente a poente sincoenta e sinco varas e de largo trinta leuará de semeadura dois alqueires de centeio parte do nascente com o campo da Ribeira digo do Nascente com o Ribeiro e do poente com Francisco Leite e do Norte com Anna Dias e do sul com Manoel Gomes. [Junto à ponte da Rua das Relvas.] Item Outro campo da Ribeira que possuem os mesmos que tem de comprido de norte a sul trinta e oito varas e de largo trinta e seis varas leuará de semeadura hum alqueire de centeo parte do nascente com Agostinho Fernandes e do poente e norte com o Rio e do sul com Manoel Gomes. [Junto ao prédio mencionado anteriormente.] Item o campo do Mourigo que possuem os mesmos que tem de comprido de norte a sul setenta


varas e de largo sincoenta leuará de semeadura tres alqueires parte de nascente com o Rio e do poente e norte com Manoel Coelho e do sul com Maria Francisca e Manoel Gomes tem uueiraz. [A Nascente do caminho de acesso às Felgueiras e ao Mourigo.] Item a deuezinha da felgueira que possuem/ 478 que possuem os mesmos que tem de comprido de norte a sul quarenta e noue varas e largo vinte e duas e tres quartas leuará de semeadura huma quarta de centeo parte do nascente com Francisco Leite e do poente e sul com o caminho e do norte com Domingos Pedro e Manoel Gomes. [Confrontante com o caminho de acesso às Felgueiras e ao Mourigo.] Item a leira da felgueira que he de mato e lavradio que possuem os mesmos que tem de comprido de nascente a poente cento e vinte e noue varas e de largo quarenta varas leuará de semeadura digo de nascente a poente cento setenta e sete varas e de largo sincoenta e sete varas leuará de semeadura seis de centeo parte digo seis alqueires de centeo parte do nascente com o caminho e do poente com Maria de Azevedo do Seixal e do norte com Manoel Gomes e do sul com Manoel Coelho. [A Poente do caminho citado.] Item o campo do chão grande que possuem os mesmos que tem de comprido de nascente a poente cento e vinte e noue varas e de largo quarenta varas leuará de semeadura sinco alqueires de centeo parte do nascente com o caminho e do norte com Manoel Francisco e do poente com Antonio Dias e do sul com Domingos Manoel tem agoa de rega do Rio. [478V] Item a Ribeira do Lago que possuem os mesmos que tem de comprido de nascente a poente nouenta e huma varas e de largo dezanoue varas leuará de semeadura dois alqueires de centeo parte de nascente com Domingos Manoel e André Antonio e do poente com quingosta e do norte com o Rio e do sul com Manoel Coelho tem agoa de rega do rio. [Já acima posicionado, fica a Poente da Leira do Moinho a seguir medida.] Item a leira do moinho que possue elle cabeça e Antonio Eytor que tem de comprido de norte a sul

oitenta e seis varas e de largo vinte e duas varas e tres quartas leuará de semeadura alqueire e meo de centeo parte do nascente com Francisco Leite e do poente com André Antonio e do norte com o Rio e do sul com Manoel Leite tem agoa de rega do rio. [A Nascente da Ribeira do Lago acima localizada.] Item hum assento de cazas terreas e de sobrado com seus curraes e sua cortinha a que chamão o chão deira em que viue Manoel Alues que tudo tem de comprido de nascente a poente oiytenta e seis varas e de largo quarenta e tres varas leuará de semeadura dois alqueires parte do nascente poente e sul/ 479 e sul com caminhos e do norte com Manoel Gomes tem uueiras e fruteiras. [Na confluência das Ruas do Comendador Domingos Bastos, do Conselheiro Costa e da Viela dos Almocreves, ou seja, no antigo campo da Eira do TMP.] Termo [...] [479V] [...] 480 [...] de que fiz este termo que elle juiz assinou com os cazeiros e poellas sobreditas[suas mulheres] dizerem não sabião escreuer rogarão a Manoel da Silua que assinou a seu rogo sendo testemunhas os ditos Manoel Dias e Manoel Francisco e eu Manoel Pinto Leal da Cunha escriuão do Tombo escreuj e assinej. [...] 481 Milheiros lugar de gayate Titolodo cazal do Carvalho que he o de que falla o foral a follhas 43 v.so na verba que diz, Alvaro de gayate de que hoje he cabeça Manoel Francisco e sua molher Maria Fernandes, e os mais possuidores adiante declarados.

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Direito Senhorio o mostr.o de pe Drozo e imphiteuta Fran.co de Matos Cruvr.ª da cid.e do Porto Paga de foro Milho quatro alqueires----------------------------4 Calaças huma--------------------------------------1 Reconhecimento Anno do Nascimento de nosso senhor Jesus Christo de mil setecentos e seis annos aos honze dias do mez de/ [481V]

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do mez de Junho do dito anno nesta freguezia de Milheiros de Poares em o lugar de gayate no sitio do cazal do Carvalho adonde foi vindo o Doutor Antonio da Rocha Manrique[...] de que era cabeça Manoel Francisco e sua molher Maria Fernandes e erão mais possuidores João da Rocha e sua molher Anna Francisca Manoel Fernandes e sua molher Maria Francisca Manoel Gomes e sua molher Marianna de Pinho Antonio Francisco e sua molher Marianna Francisca digo Domingas Francisca Manoel de Rezende e Antonio da Costa solteiros Antonio Dias solteiro da mamoa Manoel Antonio e sua molher Manoel Fereira e sua molher Francisca Gomez e Domingos de Pinho de Pijeiroz que prezentes/ 482 que prezentes estauão [...] sendo testemunhas peszentes Manoel Dias e Manoel Francisco do mesmo lugar e eu Manoel Pinto Leal da Cunha esciuão do Tombo escreuj e assinej. [Seguem-se as assinaturas.] /483 Medição Primeiramente hum assento de cazas terreas telhadas com seus curraes anteportas e porta fronha e eira com huma cortinha e uideiras a roda e fruteiras que possue João Fernandes e João da Rocha que tem de comprido de nascente a poente setenta e huma varas e de largo sesenta e sinco leuará de semeadura dois alqueires de centeo parte do nascente poente e norte com caminhos e do sul com Francisco Leite. [Entre as Ruas das Relvas, Conselheiro Costa e da Calçada do

Fundo d`Aldeia.] Item o campo da Corga que possue Manoel de Rezende Antonio da Costa e Antonio Dias e João da Rocha e Manoel Gomes que tem de comprido de norte a sul cento e dezasete varas e de largo pello meo quarenta e quatro leuará de semeadura sinco alqueires de centeo parte do nascente com D.oz Dias e elle cabeça e do poente com o caminho da laboura e do norte com Francisco Leite e com a estrada e do sul com Francisco Paiz. Item o campo do Abregô que possue João da Rocha e Manoel Gomez que tem de comprido de nascente a/ [483V] de nascente a poente cento e quinze varas e de largo pello poente vinte e oito varas e pelo nascente dezanovue varas leuará de semeadura dois alqueires de centeo com o caminho (sic) e do poente com elles possuidores e do norte com Manoel Leite e do sul com Domingos Dias tem agoa de rega e algumas uueiras. [Rua das Relvas próximo do Arieiro.] Item o campo do Arieiro que possue João da Rocha e Anna Dias e Manoel Fernandes que tem de comprido do nascente a poente oitenta e seis varas e de largo trinta e oito leuará de semeadura dois alqueires de centeo parte do nascente com o caminho e do poente com Agostinho Fernandes e do norte com Francisco Leite e do sul com o Rio tem uueiras ao redor. [Situa-se junto à ponte da Rua das Relvas.] Item o campo da Ribeira que possue Manoel Gomez e Manoel Antonio de Milheiros que tem de comprido de norte a sul oitenta e sete varas e de largo na cabeça do norte vinte e huma varas e na do sul quarenta e quatro leuará de semeadura dois alqueires e meyo de centeo parte do nascente com Manoel Leite e do poente e norte com o Rio e do sul com/ 484 e do sul com Manoel Coelho tem uueiras. [Junto à ponte da Rua das Relvas.] Item o campo do Meal cercado de parede que tem de comprido digo que possue Manoel Fernandes que tem de comprido de nascente a poente nouenta e seis varas e de largo sesenta e noue varas leuará


de semeadura tres alqueires parte do nascente com Manoel Coelho e do norte e poente com Domingos Dias e regato e do sul com Anna Dias viuua e Manoel Coelho tem uueiras. [Por detrás da Ribeira do Lago.] Item o pinhal do barreiro cercado de parede que possue Manoel Pereira Manoel Fernandes e João da Rocha que tem de comprido de nascente a poente oitenta varas e de largo sincoenta e tres leuará de semeadura dois alqueires e meo de centeo parte do nascente com Dionizio Borges e do poente com João Alues e do norte com caminho da laboura e do sul com Catherina Aranha viuua. Item a leira do Carregal que possue Anna Dias João da Rocha e Manoel Fernandes que tem de comprido de norte a sul nouenta e tres varas e de largo dezanoue varas leuará de semeadura dois alqueires/[484V] dois alqueires parte do nascente com Domingos Manoel e do poente e norte com o Ribeiro e com a estrada de São Giraldo tem para a parte do norte hum bocado de souto. [Fica na Rua das Relvas.] Item o campo da Ribeira que possue Manoel Fernandes que tem de comprido de nascente a poente quarenta e noue varas e de largo trinta e duas varas leuará de semeadura alqueire e quarta de centeo parte de nascente com o Ribeiro e poente com Francisco Leite e do norte com Manoel Coelho e do sul com Anna Dias. [Entre o ribeiro e o rio próximo da ponte da Rua das Relvas.] Item hum bocado de deueza chamadada felgueira que possue Domingos de Pinho e Manoel Gomes que tem de comprido de nascente a poente pella parte do sul ao sisgo trinta e oito varas e de largo e de largo pello poente oitenta e tres varas digo trinta e tres varas parte do nascente e norte com João de Pinho e do poente com o caminho e do sul com Domingos Dias leuará de semeadura hum salami de centeo. [Situa-se na sequência do Mourigo.] Item os campos das felgueiras que possue Manoel Pereira Antonio da Costa Manoel de Rezende João da Rocha e Manoel Fernandes e Manoel Gomez que estão deue/ 485 que estão deuedidos por valeos e comoros com

carvalhaes para a parte do poente tem de comprido de nascente a poente cento setenta e seis varas e de largo sincoenta e sete leuará de semeadura seis alqueires de centeo parte do nascente com o caminho e do poente e norte com Manoel Coelho e do sul com Domingos Dias. [A Poente do caminho de acesso ao Mourigo e Felgueiras.] Item a leira da Corredoura que possue Manoel Gomes Antonio da Costa e Manoel de Rezende que tem de comprido de nascente a poente cento e sincoenta e huma varas e de largo pello nascente vinte e oito varas e mea e pello poente doze varas parte do nascente e sul com caminhos e do poente e norte com Francisco Paez leuará de semeadura dois alqueires e meo e mete algumas uueiras. [Situa-se na confluência das Ruas do Conselheiro Costa, a Sul, e dos Almocreves, a Nascente.] Item o campo do choupello que possue Antonio Francisco João da Rocha e Manoel Gomes que tem de comprido de nascente a poente nouenta e huma varas e de largo quarenta e tres varas leuará de semeadura dois alqueires e meo parte do nascente e poente com caminhos e do norte com Domingos Antonio e Domingos Manoel e do sul com Manoel Alues entra/ [485V] entra nesta medição a caza em que viue Antonio Francisco tem agoa de rega. [Situa-se entre a Rua do Comendador Domingos Bastos a Nascente, Viela dos Almocreves a Poente, Chão da Eira a Sul, e Cortinha a Norte, onde outrora havia uma antiquíssima casa que foi demolida, dando lugar a uma moderna.] Item o Moutido que possue Antonio Dias da mamoa João da Rocha e Manoel Fernandes que tem de comprido de nascente a poente cento e seis varas e de largo trinta e oito varas e mea leuará de semeadura tres alqueires de centeo parte do nascente com Antonio Francisco e do poente com Domingos Manoel e do norte com Andre Antonio e do sul com Manoel Coelho. Item o campo do Canssello que possue Manoel Fernandes que tem de comprido de nascente a poente cento e vinte e sinco varas e de largo pello meo sincoenta e tres varas leuará de semeadura quatro alqueires de centeo parte do nascente com Manoel Aluez e do poente com o caminho e do norte com Manoel Coelho

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e do sul com Domingos Dias tem uueiras e agoa de rega das prezas que tem em si. [Localiza-se na Rua do Comendador Domingos Bastos, a seguir ao campo das Infestas, na direcção do Sul.] [...] /486 [...] e logo parecerão prezentes Maria Fernandes Anna Francisca Maria Francisca Marianna de Pinho Domingas Francisca Francisca Gomes molheres delles ditos cazeiros [...] /488 Milheiros lugar de gayate Titolodo cazal do Pinheiro que he o de que falla o foral a follhas 43 v.so na verba que diz Alvaro de gayate de que hoje he cabeça Domingos Manoel e sua molher Joanna Dias e os mais possuidores adiante declarados. 50

Direito Senhorio o mostr.o de pedrozo, e imphiteuta Fran.co de Matos Cruvr.ª do Porto Paga de foro Milho quatro alq.res-------------------------------4 Calaças huma--------------------------------------1 Reconhecim.to Anno do Nascimento de nosso senhor Jesus Christo de mil setecentos e seis annos aos des dias do mez de Junho do dito anno nesta freguezia de Milheiros de poares em o lugar de gayate no sitio do cazal do Pinheiro adonde foi vin/[488V] do o Doutor Antonio da Rocha Manrique[...] de que era cabeça Domingos Manoel e sua molher Joanna Dias e sam mais possuidores Andre Antonio e sua molher Maria Francisca e Manoel Antonio e sua molher Thereza Francisca que prezentes que prezentes estauão [...] 489 [...] sendo testemunhas pezentes Manoel Dias e Manoel Francisco e eu Manoel Pinto Leal da Cunha esciuão do

Tombo escreuj e assinej. [Seguem-se as assinaturas.] [...] [489V] [...] Medição Primeiramente hum assento de cazas terreas telhadas e colmassas com sua eira e curraes em que viue elle cabeça e os mais comedores (sic) que tudo tem de comprido de norte a sul trinta e sinco varas e de largo trinta varas parte do nascente com Manoel Gomes e Manoel Coelho, e do poente com Manoel Coelho e do norte com o mesmo cazal e do sul com o caminho de seruidão. [Esta propriedade, tendo em conta as duas propriedades seguintes situava-se a Sul do campo de S. João e a Poente da leira pegada na dita eira, ou seja, um espaço ligeiramente por detrás da Travessa da Capela e da Rua dos Almocreves.] Item a leira assim chamada pegada na dita eira que pessue Andre Antonio que tem de comprido de norte a sul sesenta varas e de largo dezasete varas leuará de semeadura hum alqueire de centeo, parte do nascente e sul com terras do mesmo cazal e do poente com João Antonio do Cazal e do norte com o mezmo tem uueiraz. Item o campo de Sam João que pessue elle/ 490 que possue elle cabeça e os mais possuidores que tem de comprido de norte a sul cento e sesenta varas e de largo sesenta e oito varas leuará de semeadura des alqueires parte do nascente com Manoel Gomes Anna Dias e Manoel Coelho e do poente e sul com elles possuidores e do norte com o monte maninho. [Localiza-se a Poente do Sanoane.] Item o campo do Moutido de Riba que possue os mesmos que tem de comprido de nascente a poente setenta e seis varas e de largo setenta e tres varas leuará de semeadura sinco alqueires parte do nascente com Antonio Francisco e Francisco Leite e do poente com caminho da laboura e do norte com o monte maninho e do sul com Manoel Fernandez do Carvalho tem para a


parte do norte hum pedaço de pinhal. Item o campo do Moutido de Bajxo que pessuem os mesmos que tem de comprido de Norte a sul sincoenta e duas varas e de largo quarenta e quatro varas leuará de semeadura quatro alqueires de centeo parte de nascente com João Alues e Manoel Coelho e do poente com o dito Manoel Coelho e do norte com o caminho da laboura e do sul com Mano/ [490V] com Manoel Fernandes tem hum pedasso de matto para o norte. Item a cortinha que possuem os mesmos que tem de comprido de norte a sul oitenta e seis varas e de largo pelo norte trinta varas e pello sul setenta e quatro varas leuará de semeadura seis alqueires de centeo entra nesta medição huma corrente de curraes parte do nascente norte e poente com caminhos do lugar e do sul com Antonio Francisco do Choupello tem agoa de rega e uueiras. [Salvo melhor opinião, parece situar-se na confluência da Rua Comendador Domingos Bastos e Viela dos Almocreves, no topo Norte, pelo que seguirse-ia ao Choupello na direcção do Norte.] Item a leira da deuezinha que possuem os mesmos que tem de comprido de norte a sul trinta varas e de largo vinte varas leuará de semeadura hum alqueire de centeo parte do nascente e sul com Amtonio Francisco e do poente com o caminho e do norte com elles possuidores. Item o campo do Pomar que possuem os mesmos que tem de comprido de nascente a poente setenta e tres varas e de largo quarenta e sete varas leuará de semeadura sinco alqueires de centeo parte do nascente com o caminho do lugar e do poente com João Antonio e do norte com Anna Dias e com Manoel Coelho e do sul/491 e do sul com o dito João Antonio tem agoa de rega. [Situa-se na Viela dos Almocreves.] O campo do abregó que possuem os mesmos que tem de comprido de nascente a poente cento e seis varas e de largo vinte etres leuará de semedura tres alqueires e meo de centeo parte do nascente com a estrada e do poente com Francisco Paez e do norte com Manoel Alues e do sul com Anna Dias tem agoa de

rega e uueiras.[Situa-se na Rua das Relvas, próximo do Arieiro.] Item o campo das leiras que possuem os mesmos que tem de comprido de norte a sul oitenta e seis varas e de largo quinze varas e tres quartas leuará de semeadura dois alqueires parte do nascente com Agostinho Fernandes e Francisco Leite e do poente com o caminho e do norte com Francisco Leite e do sul com Manoel Leite tem agoa de rega do Rio. Item o campo da Rotea que possuem os mesmos que he de mato e carvalhal que tem de comprido de norte a sul cento e trinta e huma varas e de largo pello norte quarenta e huma varas e pello sul sesenta e seis leuará de semeadura sete alqueires de centeo parte do nascente/[491V] do nascente com Catherina Aranha e do poente com Domingos Dias e Anna Dias e do norte com Manoel Leite e do sul com a estrada de Sam Giraldo. [Esta estrada do S. Geraldo corresponde à actual Rua das Relvas, próximo da Travessa do Moinho.] Item a leira da Ribeirinha que possuem os mesmos que tem de comprido de norte a sul setenta e quatro varas e de largo dezanove varas leuará de semeadura alqueire e meo de centeo parte do nascente com Domingos Dias e Antonio Eytor digo Domingos Dias e João Alues e do norte com o Rio e do sul com Manoel Leite tem agoa de rega. [Localiza-se próximo da ponte da Rua das relvas.] [...] /494 Milheiros lugar de gayate Titolo do cazal chamado do Cazal que he o de que falla o foral a follhas 43 v.so na verba que diz Gonsallo Affonso outro tanto de que hoje he cabeça Francisco Paez e sua molher Anna Vallente e os mais possuidores adiante declarados. Direito Senhorio o mostr.o de Pedrozo Paga de foro Milho oito alq.res----------------------------------8 Calaças duas---------------------------------------2

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Reconhecim.to Anno do Nascimento de nosso senhor Jesus Christo de mil setecentos e seis annos aos des dias do mez de Junho do dito anno nesta freguezia de Mi/ [494V] de Milheiros de poares em o lugar de gayate della no sitio do cazal chamado o Cazal adonde foi vindo o Doutor Antonio da Rocha Manrique[...] de que era cabeça Francisco Paez e sua molher Anna Vallente e erão mais possuidores Antonio Gomes e sua molher Maria Aranha João Antonio e sua molher Luiza Dias os filhos que ficarão de Manoel de Pinho que he o Padre Manoel de Pinho e seu irmão João de Pinho que prezentes que prezentes estauão [...] /495 [...] 52

sendo testemunhas peszentes Manoel Dias e Manoel Francisco e eu Manoel Pinto Leal da Cunha esciuão do Tombo escreuj e assinej. [Seguem-se as assinaturas.] [495V] [...] Medição Primeiramente hum sarrado circuitado de parede e vallo chamado o cham de riba e o chão de bajxo e apozentos de cazas terreas e de sobrado e curraes com hum (sic) deueza de castanho que possue elle cabeça com os mais possuidores e comessando a medição a cancella da cortinha do nascente para o poente pella carreira de serventia abajxo the o cruzeiro e dahi virando para o norte por fora pella parte do norte para o nascente the chegar ao canto/496 ao canto onde parte com Domingos Manoel tem quinhentas e sincoenta varas e dahi pella parte do nascente para o sul e virando the a dita cancella onde onde [sic] comessou a medição tem duzentas sincoenta e oito varas leuará de semeadura vinte alqueires de centeo tem hum pedaço de carvalhal mato e pinhal para a parte do norte parte do nascente com Domingos Manoel Manoel Gomes e Andre Antonio e do poente e

norte com o maninho e do sul com elles cazeiros leuará de semeadura vinte alqueires de centeo. [Localiza-se sensivelmente a Poente do campo de S. João.] Item as cortinhas e pomares com cazas terreas e de sobrado e curraes que pessue elle cabeça e os mais possuidores tudo circuitado de parede e vallo o que tudo medido por fora e comessando a medição a canssella da cortinha da parte do nascente para o poente pella carreira abaixo the o cruzeiro e dahi virando para o sul pella parte do poente e dahi pella parte do sul pella estrada para o nascente the chegar onde faz esquina na parede do campo de Manoel Gomes tem setecentas quarenta e quatro varas e dahi the adonde comessou a medição tem trezentas e sesenta e noue varas/ [496V] e sesenta e noue varas leuará de semeadura trinta alqueires de centeo tem mato de deuezas de carvalho e castanho parte do nascente com Manoel Gomes e com Anna Dias e do poente com o maninho e do sul com a estrada e do norte com elles possuidores tem uueiras.[Localiza-se do lado Sul das propriedades acima referidas.] Item o campo da laboura que possuem os mesmos possuidores que tem de comprido de nascente a poente cento e sesenta e noue varas e de largo pella cabeça do nascente vinte e tres varas e pella do poente que faz chaue para o norte oitenta e huma varas leuará de semeadura sete alqueires de centeo parte do nascente com a estrada publica e poente com elles cazeiros e do norte com Manoel Leite de Gaiate e com Andre Antonio e Domingos Manoel e do sul com Manoel de Rezende tem agoa de rega. [A estrada pública corresponde à actual Viela dos Almocreves.] Item o campo do Mourigo que possuem os mesmos que tem de comprido de nascente cento e treze varas e de largo pello nascente trinta e sete varas e pello poente sesenta e sete varas leuará de semeadura seis alqueirez de centeo parte do nascente com Manoel Leite e Manoel Coelho/497 Manoel Coelho e do poente com caminho da laboura e do norte com Anna Dias e Antonio solteiro e do sul com Francisco Leite tem agoa de rega do rio e uueiras.


[O caminho da lavoura é aquele que dá acesso ao Mourigo e Felgueiras e entronca com a actual Rua do Conselheiro Costa.] [...] /499 Milheiros lugar do seyxal Titolo do direito de agoa q.e pagão os possuidores dos cazaes de grijó de que falla o foral a follhas 43 v.so na verba que diz, e paga mais dos cazaes de grijo quarenta e tres reis de que he cabeça Antonio Francisco e sua molher Domingas Fran.ca e os mais possuidores adiante declarados. Paga de foro dagoa Em dinheiro quarenta e tres reis-----------43 rs

Milheiros de Poares lugar do seixal Titolo do cazal reguengo do rego do valle no monte das mouriscas que he o de que falla o foral a follhas 43 v.so na verba que diz Pedro Annes do Pereiro do cazal da carregossa no monte das mouriscas per prazo novo, de que hoje he cabeça Manoel da Sylua e sua molher Maria Francisca, e os mais possuidores adiante declarados. Prazo da caza Paga de foro Trigo oito alq.res-----------------------------------8 Em dinhr.º duzentos reis-------------------200 rs Lutoza a melhor peça movel da caza De acrescento do novo prazo-------------100 rs Dominio de sinco hum

Reconhecim.to Reconhecim.to Anno do Nascimento de nosso senhor Jesus Christo de mil setecentos e seis annos aos honze dias do mez de Junho do dito anno nesta freguezia de Milheiros de poares em o lugar de seixal e Pereiro adonde foi vindo o Doutor Antonio da Rocha Manrique [...][499V]

Anno do Nascimento de nosso senhor Jesus Christo de mil setecentos e seis annos aos honze dias do mez de Junho do dito anno nesta freguezia de Milhei/[502V]

de que era cabeça Antonio Francisco e sua molher Domingas Francisca e erão mais possuidores Maria Francisca viuua, Manoel da Costa viuuo Catherina de Almejda viuua Manoel Gomes de Gayate e sua molher Marianna de Pinho Saluador Carualho e sua molher Maria Gomes Francisca Gomes viuua João de Pinho e sua molher [sic] Francisco Alues e sua molher Domingas Fernandes Manoel Pereira e sua molher Francisca Gomes Gonssallo João viuuo Maria de Azeuedo viuua Maria Borges viuua Brás de Azevedo solteiro Simão Luis e sua molher Anna Francisca Manoel da Silua e sua molher Maria Antonia Dionizio Godinho e sua molher Maria Gomes Maria Leite viuua que prezentes estauão [...] /500

de Milheiros de Poares e no lugar do seixal no sitio do cazal reguengo chamado do rego do valle no monte das mouriscas adonde foi vindo o Doutor Antonio da Rocha Manrique[...] porque delle era direito senhorio a caza da feira e era de prazo na forma que declara o foral, a quem se pagaua de renda [...] de que era cabeça Manoel da Sylua e sua molher Maria Antonia e erão mais possuidores Manoel Francisco da Mamoa e sua molher Maria Francisca Domingos Dias de gayate e sua molher Domingas Fernandes Gonçallo João viuuo Maria de Azeuedo viuua Bras de Azeuedo solteiro Francisco Gomes viuuo Domingos Alues e sua molher Geronima dos Sanctos João Eytor e sua molher Marianna de Azeuedo Simão Luis e sua molher Anna Francisca Domingos Antonio da Corigeira e sua/503

[...] de que foram testemunhas prezentes M.el solteiro e Joseph solteiro do mesmo lugar [...] /502

e sua molher Maria Aluares andre Manoel de Pinho Henriques Pedro Vidal de Arrifana e sua molher Antonia

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de Saa Maria de Pinho viuua Antonio Alues e sua molher Maria Francisca que prezentes estavão [...] /504 Medição

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Primeiramente o reguengo do rego do valle que esta circuitado de vallo e parede terra de matto e lauradia que foi medido em redondo pella parte de fora, e comessando a medição por sima da fonte boa ao canto onde esta hum boeiro dagoa e hindo com a medição pella parte do nascente contra o norte the chegar ao caminho que vem do lugar de Arrifanna de Sancta Maria tem trezentas setenta e sinco varas, e dahi correndo com a medição pella parte do norte ao poente the chegar a fonte da fontanheira pella parte de sima tem setecentas e sesenta e huma varas e dahi hindo pella parte do sul the chegar onde comessou a medição tem oitocentas quarenta e sete varas leuará de semeadura sincoenta alqueires de centeo parte do sul em parte com Antonio Fernandes e Domingos Francisco e das mais partes com caminhos e monte maninho tem uueiras e pinhaes e agoa de rega. [...] /506 Manoel Pinto Leal da Cunha escriuão do Tombo da caza da feira certifico e faço fee que reuendo o foral, e nelle as folhas quarenta e tres verso esta huã verba do teor seguinte Item Pedro Annes do Pereiro do cazal da carregossa no monte das mouriscas per prazo nouo; e não diz mais a dita verba que aqui trasladej do foral a que me reporto quinze de Julho de mil setecentos e seis eu Manoel Pinto Leal da Cunha escriuão do Tombo o escreuj e assinej. [...] Julgo o reconhecim.to por Ir.ª e vista a certidão do foral e ser prazo de vydas este cazal façase emprazam.to q.e declarará os Louuados e lançese em tombo Fr.ª iulho 20. de 706. An.to da Rocha Manrique [...] /507

Freguezia de Milheiros de poares Dentazes Titolo do cazal de João Gil que he o de que falla o foral a follhas 43 v.so na verba que diz João Gil de que he cabeça Manoel Ribeiro e os mais possuidores adiante declarados. Direito Senhorio o mos teiro de Grijo Paga de foro Milho hum alq.re-----------------------------------1 Calaças huã-----------------------------------------1 Dinheiro noue reis------------------------------9 rs Digo vinte reis em dinheiro------------------20 rs Reconhecim.to Anno do Nascimento de nosso senhor Jesus Christo de mil setecentos e seis annos aos des dias do mez de Junho do dito anno nesta freguezia de Milheiros/ [507V] de de Milheiros de Poares no cazal de João Gil que hoje se chama o cazal de bayxo de Dentazes adonde foi vindo o Doutor Antonio da Rocha Manrique[...] de que era cabeça Manoel Ribeiro viuuo e erão mais possuidores Antonio de pinho viuuo que prezentes estauão [...] [508V] Medição Primeiramente o assento de cazas em que viue e os campos chamados a costa e as bereiras, e o choupelinho que possue elle cabeça e Antonio de Pinho que tudo está circuitado por vallos e comoros e por hum ribeiro da cortinha do rego e comessando a medição a esquina da orta do dito Antonio de Pinho e caminhando com ella pello caminho abajxo para o poente the chegar ao canto da bereira de bajxo tem cento e doze varas e da (sic) caminhando a medição pella parte do sul para o nascente the o canto do fundo do castanhal tem sesenta e quatro varas e dahi para o mesmo nascente the chegar ao canto da Cortinha do


rego tem cento quarenta e tres varas e dahi correndo a medição para o norte the chegar a esquina da caza de bajxo tem oitenta e noue varas e da dita esquina da caza de bajxo tornando para o sul the a cancella tem cento e sinco varas e tres quartas e dahi para o nascente the chegar ao caminho dos lagos tem oitenta e tres varas e dahi caminhando para o norte the donde comessou a medição tem honze varas/509

que era cabeça Antonio de Pinho viuuo e erão mais possuidores Manoel Ribeiro viuuo Manoel Francisco e sua molher Maria Lopes Antonio Leite e sua molher Sebastiana de Pinho e João Henriques solteiro que prezentes estauão [...] [512V]

tem honze varas leuará de semeadura vinte e quatro alqueires de centeo tem agoa de rega parte do nascente norte e poente com caminho da laboura e do sul com o rego do castanhal e Antonio de Pinho e Manoel Henriques e elle cabeça tem todas estas terras uueiras por comoros e ao redor e pomares de fruto e outras arvores sem elle. [A Sul da Rua da Fonte da Piolha, próximo do entrocamento com a Rua de Dentazes.] [...] /511

Primeiramente huns assentos de cazas de sobrado e terreas com suas anteportas e curraes em que viue elle cabeça Manoel Fernandes viuuo Manoel Francisco e João Henriques solteiro com seus pomares e hum sarrado circundado de parede e vallo a que chamão as cortinhas reguengo e reluas que possuem os mesmos asima que tudo tem comessando a medição a porta fronha delle cabeça e hindo com ella da parte do nascente para o sul pello/513

Milheiros lugar de Dentazes

pello caminho abajxo the chegar a canssella da lagoa cento e setenta e seis varas e dahi pella parte do poente the chegar ao canto do campo chamado o reguengo cento e vinte e noue varas e dahi caminhando para o norte pella parte do norte the chegar ao caminho e dahi the a porta fronha onde comessou a medição tem trezentas e quatorze varas leuará de semeadura vinte e sinco alqueires de centeo parte do nascente e sul com caminho do lugar e do norte com o monte maninho e do poente com Manoel Ribeiro e Pedro Fernandes tem para a parte do norte hum pedaço de carualhal e matto.[A Poente da Rua de Dentazes e a Norte da Rua da Fonte da Piolha, Junto ao seu entroncamento.] Item o campo do Sargedo que possue Antonio Leite que tem de comprido de nascente a poente sesenta e huma varas e de largo pelo meyo quarenta e duas varas leuará de semeadura dois alqueires de centeo parte do nascente com Pedro Fernandes e do poente com Manoel Ribeiro e Francisco Alues e do norte com Manoel de Rezende e do sul com Francisco Alues tem agoa de rega e uueiras e outras aruores sem fruto para aparte do norte.[A Sul da Rua Floriano Borges e a Poente da Rua da Castanheira.] Item o monte de tornoballo que possue Ant/ [513V]

Titolo do cazal de Dentazes chamado o cazal de riba que he o de que falla o foral follhas 43 v.so na verba que diz Joanne Annes filho de João da Gandra de que Hoje he cabeça Antonio de Pinho viuuo e os mais possuidores adiante declarados. Direito Senhorio o mos teiro de Grijo Paga de foro Milho alqueire e me.º----------------------1 e m.º Calassas huã e m.ª------------------------1 e m.ª Dinheiro vinte reis--------------------------------20 Reconhecimento Anno do Nascimento de nosso senhor Jesus Christo de mil setecentos e seis annos ao primeiro dia do mez de Julho do dito anno/[511V] do dito anno nesta freguezia de Milheiros de Poares e no lugar de Dentazes no cazal chamado de riba adonde foi vindo o Doutor Antonio da Rocha Manrique[...] de

Medição

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que possue Antonio Leite que tem de comprido de nascente a poente sesenta e huma varas e de largo pello meyo quarenta e duas varas leuará de semeadura digo que possue Antonio Leite e João Henriques que tem de comprido de norte a sul oitenta e tres varas e de largo setenta e huma varas leuará de semeadura tres alqueires de centeo parte do nascente e sul com o caminho da laboura e do norte com João Francisco e Manoel Francisco dos Cazaes e do poente com Pedro Fernandes tem aruores de sobreiros e carualhos he terra de matto. Item outro mato de tornoballo que possue Antonio Leite que tem de comprido de nascente a poente sincoenta e noue varas e de largo vinte e oito varas parte do nascente com Pedro Fernandes e João Francisco e do poente com João de Souza e do norte com o caminho da laboura e do sul com João Francisco leuará de semeadura dois alqueires de centeo he terra de mato e carualhal. [...] /516 Milheiros de poares lugar de Dentazes T.º do cazal chamado da gamdra de dentazes que sam hoje possuidores Antonio de Freitas e de sua mulher e os mais declarados no termo que vaj no fim do dito reconhesimento, ao qual se prosedeo por requerimento do procurador do Tombo, por se achar o dito reconhecimento, por menos huma quarta de calassa, e daqui em diante ham de pagar a renda abaicho declarada e consta do dito termo. Pagão de foro a saber De milho hum alqueire e coarta----------1 e 4.ª Calassas huã e huma coarta--------------1 e 4.ª Dinheiro vinte reis-----------------------------20 rs 517

hoje cabeça João de Souza viuuo e os mais possuidores adiante declarados. Direito Senhorio o mostr.º de Grijo Paga de foro Milho alqueire e quarta--------------------1 e 4.ª Calassas huã -------------------------------1 e 4.ª [À margem direita a letra diferente diz: «falta nesta hum coarto de calaça»] Dinheiro vinte reis--------------------------------20 Reconhecim.to Anno do Nascimento de nosso senhor Jesus Christo de mil setecentos e seis annos aos dois dias do mez de Julho do dito anno nesta freguezia de Milheiros de Poares em o lugar de Dentazes no sítio do cazal da gandra de Den/ [517V] de Dentazes adonde foi vindo o Doutor Antonio da Rocha Manrique [...] de que era cabeça João de Souza viuuo e erão mais possuidores João de Souza o nouo e sua molher Izabel de Bastos Francisco Alues e sua molher Maria Fernandes Manoel Francisco e sua molher Maria Lopes Antonio de Pinho viuuo Manoel Fernandes e sua molher Maria Borges Maria Fernandes viuua e Domingos de Rezende e sua molher Maria Fernandes Manoel de Rezende e sua molher Catherina Fernandes que prezentes estauão [...] [518V] [...] Medição Primeiramente hum assento de cazas terreas telhadas e colmassas que possue elle cabeça e João de Souza o nouo Manoel Fernandes e Manoel de Rezende com sua eira e huma leira chamada da porta que tem de com/519

Milheiros lugar de Dentazes Titolo do cazal chamado da gandra de Dentazes que he o de que falla o foral follhas 43 v.so na verba que diz, outro tanto João Pires com Joanne Annes de que he

que tem de comprido de norte a sul setenta e tres varas e de largo na cabeça do norte dezanoue varas e mea e pello sul vinte e duas varas leuará de semeadura quatro alqueires parte do nascente com Antonio Leite e João


Francisco e do poente com as filhas de Diogo Alues e do norte com o caminho do lugar e do sul com Manoel Francisco tem pomar de fruta e agoa de rega. Item a leira da cortinha que possue Francisco Alues que tem de comprido de nascente a poente cento e dezoito varas e no largo mais largo des varas leuará de semeadura dois alqueires de centeo parte do nascente com o caminho da laboura e do poente com o ribeiro do castanhal e do norte com Pedro Fernandes e do sul o mesmo tem agoa de rega. Item o campo da cauada belha que possue Antonio de Pinho e elle cabeça e João de Souza o nouo circumdado de vallo e comoro que tem de comprido de norte a sul quarenta e tres varas e de largo outro tanto leuará de semeadura alqueire e meo de centeo parte do nascente com Antonio Leite e do poente com o caminho e do norte com Manoel Francisco e do sul/[519V] e do sul com o mesmo tem mato para a parte do nascente e agoa de rega. [Localiza-se a Sul da Rua Floriano Borges e a Norte da Rua da Castanheira.] Item outro campo da cauadavelha que possue Manoel Francisco que tem de comprido de norte a sul trinta e seis varas e duas terças e de largo vinte seis e tres quartas leuará de semeadura alqueire e meyo de centeo parte do nascente com Manoel Francisco e do poente com Manoel Fernandes e do norte com Pedro Fernandes e do sul com caminho tem agoa de rega. [Ver localização acima referida.] Item o campo do moutido que possue Manoel Fernandes João de Souza e elle cabeça que tem de comprido de norte a sul oitenta e seis varas e de largo dezanoue varas leuará de semeadura tres alqueires de centeo parte do nascente e sul com o caminho da laboura e do poente com Antonio Leite e do norte com Antonio de Pinho tem agoa de rega. Item o campo da Ortiga que possue Domingos de Rezende que tem de comprido de nacscente a poente dezanoue varas e mea e de largo pella cabeça do norte vinte e duas varas e mea e pella do sul trinta e tres varas leuará de semeadura dois alqueires de centeo parte do nascente com Siluestre Fernandes e do/520 e do poente com Francisco Alues e do norte com Pedro Fernandes e do sul com Pedro Fernandes digo do sul

com Maria Fernandes tem uueiras e agoa de rega. Item o campo do Sargedo que possue Manoel de Rezende de Sam Fins que tem de comprido de nascente a poente oitenta e quatro varas e de largo no meyo dezanoue varas e mea e levará de semeadura dois alqueires de centeo parte do nascente com o caminho da laboura e do poente com o ribeiro de souto laboura e do norte com a estrada e do sul com Manoel Ribeiro tem algumas uueiras e agoa de rega. [Ver loacalização anteriormente indicada] [...] /522 Termo Aos catorze dias do mes de Majo de mil e setecentos e sincoenta e coatro annos nesta freguezia de Macieyra de Sarnes que he do termo da villa da Feira terra de Santa Maria e de sua Altheza que Deos goarde e nas cazas das moradas de Francisco de Pinho aqui morador ahonde foi vindo o Doutor Joseph dos Santos Ramalho juiz do Tombo dos bens e rendas pertensentes ao estado e caza da mesma villa por prouizam do dito Senhor aqui comigo escriuão e mais ofiçiaes do mesmo Tombo, e a requerimento do procurador delle o lesençiado Manoel de Pinho pello qual foi dito que os pessuidores que foj do digo os possuidores do cazal que foj de João Pires que he o que consta do reconhecimento retro se achaua com demenuisom na renda pois delle pagauão a Caza da Feira em cada hum anno, hum alqueire e huma coarta de milho e huma calassa e em dinheiro vinte reis, e para refazerem a renda que consta do foral dejuião pagar mais alem da dita renda, mais huma coarta de calassa e para reconhecerem com ella no prezente Tombo, fizera/[522V] fizera sitar aos possuidores que de prezente som das terras do dito cazal, as quaes heram, Antonio de Freitas e sua mulher Maria Borges e Françisco Pais e sua mulher Françisca Soares Cipriano Alues e sua mulher Maria Francisca as quais se achauão prezentes e requeria a elle Doutor juiz do Tombo lhe fizese pregunta se tinhão ou não duuida em reconheser a dita Caza da Feira com mais o dito coarto de calassa de carne, alem da renda que já pagauão e atras se declara e consta

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do reconhesimento Antigo o que ouuido por elle D.r juiz do Tombo seu requerimento e os pusuidores do dito cazal se acharem prezentes lhe fez as sobre ditas preguntas, pellas coais logo foj respondido que hera verdade pusuhirem o dito cazal e as terras que constão da medisom retro, e junta ao reconhesimento Antigo, e que suposto athe o prezente so pagauão a Caza da Feira hum alqueire e coarta de milho e huma calassa de carne, e em dinheiro vinte reis, com tudo como se mostraua que deuião pagar mais huma coarta de calassa, com ella mais reconhesião no prezente Tombo, e se obrigauão a pagar daqui em diante com a mais renda que athe aqui pa/523

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Aqui pagauão se obrigauão a reconheser a Caza da Feira em cada hum anno por dia de Sam Miguel posto tudo a sua custa no castello da d.ª villa no seleiro ahonde se costumão arecadar as rendas pertensentes a caza da mesma villa, e logo pello procurador do Tombo foj dito aseitaua a prezente confisom e reconhesimento que requeria se julgasse por Stm.ça pr.ª se lansar em Tombo, sem que se proseda a noua medisom vista a confisom que os pusuidores reconhetes (sic) fizerão de que herão os pesuidores das propriedades que constão da medisom retro, e de tudo fiz este termo que todos asignarom com elle D.or juiz do Tombo que mandou se refizesse este reconhesimento comcluzo, sendo testemunhas João Coelho meirinho que asignou a rogo das mulheres sendo mais o P.e Manoel Borges da Silua de Milheiros e Antonio da Costa de Dentazes da mesma frg.ª que tambem aqui asignaram Joze Caet.º Corr.ª Gomes que o escreuj e asignej. Joze Caet.º Corr.ª Gomes Manoel Francisco Pais da Silua Antonio da Costa Cipriano Alues Tiago+Fernandes M.el de Pinho An.to de Freitas O P.e Manoel Borges da S.ª/ [523V]

Por mim e a rogo João Coelho [...] /525 Milheiros lugar de Dentazes T.º do cazal da Gandra de dentazes de que som hoje possuidores Caetano Alves e sua mulher e os mais declarados no termo da retificasom que fizeram da renda que paguavão e consta do Reconhecimento, e de mais que faltaua que hera uma coarta de capão, por cuja rezom se prosedeo, ao dito termo de retificasom, a requerimento do Procurador do Tombo, para se emteirar a renda que consta do foral que tudo consta do dito termo no fim do Reconhecimento; e a que agorase hã de pagar he a que se segue. De milho hum alqueire e coarta----------1 e 4.ª Calasas huma e coarta--------------------1 e 4.ª Dinheiro vinte reis-----------------------------20 rs 526 Milheiros lugar de dentazes Titolo do cazal da Gandra de dentazes que he o de que falla o foral a folhas 43vs.º na verba que dis, e outro tanto paga João Alues, de que he cabeça hoie João Francisco e sua molher Maria Alves e os mais possuidores ao diante declarados. Direito senhorio o mosteiro de Grijó Paga de foro Milho alqr.e e coarta-----------------------1 e 4.ª Callaças huma e 4.ª------------------------1 e 4.ª Dinheiro vinte reis-----------------------------20 rs Reconhecim.to Anno do nascimento de nosso Senhor Jesus Christo de mil e setecentos e seis annos ao primeiro dia do mês de Julho do dito anno nesta freguezia de Milheiros de Poares em o lugar de Dentazes no sítio do


cazal/ [526V] do cazal da gandra de dentazes adonde foi vindo o Doutor Antonio da Rocha Manrique do Dezembargo de Sua Magestade Juiz da fazenda e Tombo Real do estado e caza da feira por especial Alvará do dito Senhor comigo esccriuão e maiz officiaes ahi a requerimento do procurador do Tombo foi requerido a elle juiz mandasse atombar medir e demarcar o dito cazal porquanto delle era direito Senhorio a caza da feira a quem pagaua de foro em cada hum anno hum alqueire e quarta de milho, huma callaça de carne e hum vintém em dinheiro de que era cabeça João Francisco e sua Molher Maria Alues e erão mais possuidores Pedro Fernandes e sua molher Catherina Ferreira Francisco Alues e sua molher Maria Fernandes Manoel Francisco e sua molher Brites de Payua Manoel Fernandes viuuo Antonio da Costa solteiro Antonia Duarte viúva as filhas que ficarão de Diogo Alues, e as filhas de Antonio Ferreira que prezentes estauão. E elle juiz lhes fez preguntas se com todas as propriedades que possuião do dito cazal reconhecião a caza da feira por direito Senhorio com/527 com a dita renda atrás declarada e por ellles foi dito que o dito cazal era de prazo e delle direito Senhorio o mosteiro de Grijó, e que somente reconhecião a caza da feira com o dito foro atrás declarado e não tinhão duuida a pagalo como thequi pagauão nem que fosse lançado em tombo o que uisto por elle juiz lhes deo o juramento dos Sanctos Evangelhos e lhes encarregou dessem a medição todas as terras que pessuião do dito cazal com penna de que ficando algumas de fora se tomarem por devolutas para a Coroa, e de cahirem em comisso o que elles prometerão fazer, e que para a medição se louuauão em o mesmo medidor tomado pella caza. O que visto por elle juiz e lhe constar por fee de min escriuão estarem citados os confrontantes que não parecerão os quaes mandou apregoar e por não parecerem as suas reuelias debaixo do segundo pregão mandou fazer a medição e o prezente termo que assinou com o procurador e os cazeiros de que forão testemunhas prezentes João de Souza o Nouo e João de Souza o Velho e eu Manoel Pinto Leal da Cunha es/ [527V]

criuão do Tombo escreuy e assiney .[Seguem-se assinaturas.] Medição Primeiramente hum assento de cazas térreas telhadas com sua eira em que uiue elle cabeça e juntamente o bacello e terras que possue o mesmo e Manoel/528 Manoel Francisco que tem tudo de comprido pella parte do norte ao sul oitenta e seis varas e de largo sesenta e sinco tem suas uveiras leuará de semeadura três alqueires de centeo tem agoa de rega parte do nascente e norte com o caminho e do Poente com o carreiro de laboura e do sul com Antonio Leite. [Presumimos referir-se ao espaço ocupado pela casa, encostada à capela particular de Santo António, cuja padieira da porta fronha tem o registo «Caetano Alves».] Item hum assento de cazas terreas telhadas e que se chama simo de villa com seus campos e pumares e hum pedasso de mato para a parte do nascente que possuem as filhas que ficarão de Antonio Ferreira e as filhas que ficarão de Diogo Alues e Manoel Fernandes que tudo tem de comprido pella parte do nascente de norte a sul sessenta e oito varas e pello poente cento e vinte e huma varas e pello norte sesenta varas e pello sul pello caminho abaixo cem varas leuará de semeadura oito alqueires de centeo parte do nascente com o monte maninho e do poente com Francisco Alues e do Norte com Manoel de Pinho e do Sul com o caminho do lugar. [O caminho do lugar é a actual Rua do Cimo de Vila.] Item a leira de baixo que possue Antonio da Costa Antonia Duarte e Manoel/[529] Manoel Francisco que tem de comprido de norte de norte a sul sesenta e quatro varas e mea e de llargo na cabeça do norte vinte varas e na do sul sinco varas leuará de semeadura hum alqueire de centeo parte do nascente com Pedro Fernandes e do poente e norte com o caminho da laboura e do sul com Manoel Francisco tem agoa de rega. Item o campo da bessada que possue Francisco Alues que tem de comprido de nascente a poente

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quarenta e sinco varas e de llargo pello meo leuará de semeadura dois alqueires de centeo parte do nascente com Manoel Francisco e do Poente com Antonio Duarte e do norte com o Ribeiro da Castanheira e do sul com Antonio Leite tem algumas uueiras. Item o campo do Sargedo que possue Pedro fernandes Manoel francisco e João francisco que tem de comprido de nascente a poente sincoenta e noue varas e quarta e de llargo trinta e sete leuará de semeadura dois alqueires parte do nascente com o caminho e do poente com o Ribeiro da Castanheira e do/530

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e do norte com Antonio Leite e do sul com Antonio de Pinho tem agoa de rega. [Confronta com a Rua Floriano Borges e Rua da Castanheira.] Item o campo e mato da Cabada velha que possue Antonio da Costa e Pedro fernandes que tem de comprido de nascente sincoenta e quatro varas e tres quartas e de llargo na cabeça do nascente sete varas e do poente dezanoue varas leuará de semeadura hum alqueire de centeo parte do nascente com hum rego forreiro digo com hum rego foreiro e do poente e sul com Manoel francisco. [Esta propriedade já foi acima localizada. O rego foreiro de que se fala ainda existe e passa junto à Rua de Dentazes, pelo que este lugar da Cavada Velha fica na área circunscrita pela dita Rua de Dentazes, Rua Floriano Borges, Rua da Castanheira e Rua de Sargedo.] /531 Termo que fazem os possuidores abaixo declarados Aos catorze dias do mês de maio de mil e sete sentos e sincoenta e quoatro annos nesta villa digo annos nesta freguezia de Maçieyra de Sarnes que he do termo da villa da Feira terra de Santa Maria e de Sua Alteza que Deus guarde e nas cazas das moradas de Francisco de Pinho aqui morador ahonde foi vindo o Doutor Jozeph dos Santos Ramalho juiz do Tombo dos bens e rendas pertensentes a despacho e caza da mesma villa aqui pello Lesençiado Manoel de Pinho procurador do mesmo tombo foi dito, que o reconhecimento retro que he o do cazal da gandra de que sam hoje pessuidores Caetano Alues e sua molher Anna Maria Hemriques do lugar de Dentazes e António de Freitas e sua molher Maria

Borges e Visente Joze da Cruz e sua mulher Damazia Maria de Jezus, e o Padre Manoel Borges da Sylua e Antonio da Costa viuuo e Thereza Francisca viuua que ficou de Fran.co Alues e Antonio Alues Cordador viuuo, aos quais todos fizera sitar para virem declarar se tinhão ou não duuida em reconheser no recente Tombo, com hum quarto de calassa que mais debem pagar em cada hum anno/ [531V] Anno a Caza da Feira alem da renda renda que athe aqui pagauão conforme a verba do foral, e que os ditos pessuidores das terras do dito cazal e constauão da medisom retro, se achauão prezentes,e assim requeria a elle Doutor juiz do Tombo lhe fizesse pregunta se tinhão ou não duuida em reconheser a Caza da Feira com o dito quarto de calassa alem da que abre a recente paguação e constaua do reconhecimento retro, o que ouuido por elle Doutor juiz do Tombo seu requerimento, e estarem os ditos consortes prezentes lhe fez as sobreditas preguntas e por elles logo foi respondido todos juntos e cada hum de per si que elles e entre todos pessuhião as terras declaradas e confrontadas na medisom retro das quais athe o prezente pagauão a Caza da Feira em cada hum anno hum alqueire e coarta de milho huma calassa e vinte reis em dinheiro, e que alem desta não tinhão duuida pagarem mais o dito coarto de calassa, visto serem as ditas terras ahisso obrigadas, e feitas para se emteirar conforme o foral, a que tudo/532 [...] sendo mais testemunhas o Padre Caetano Antonio de Pinho do lugar de Dentazes freguezia de/[532V] de Milheiros e Antonio soltr.º filho de Bento Ferr.ª da Silua ferrador da villa da Feira [...] /534 Milheiros lugar de dentazes Titolo do cazal de Macieira que he o de que falla o foral a folhas 43vs.º na verba que dis, e outro tanto este Joanne Annes da gandra por Vaso Vicente de Macieira de que hoje he cabeça Leandro Moutinho e


sua molher Antonia da Costa e os mais possuidores ao diante declarados. Direito senhorio o mostr.º de Grijó Paga de foro Milho hum alq.re-----------------------------------1 Callaças huma--------------------------------------1 [À margem a letra de diferente cor: «neste q. não tem dr.º lhe faltão 17 rs p.ª inteirar a conta do foral.] Reconhecim.to Anno do nascimento de nosso Senhor Jesus Christo de mil e setecentos e seis annos Aos dois dias do mês de Julho do dito anno nesta freguezia de Milheiros de poares em o lugar de Dentazes no sítio do cazal de/ [534V] de Macieira adonde foi vindo o Doutor Antonio da Rocha Manrique do Dezembargo de Sua Magestade Juiz da fazenda e Tombo Real do estado e caza da feira por especial Alvará do dito Senhor comigo esccriuão e maiz officiaes ahi a requerimento do procurador do Tombo foi requerido a elle juiz mandasse atombar medir e demarcar o dito cazal [...] do qual era cabeça Leandro Moutinho e sua molher Antonia da Costa da freguezia de Macieira de Sarnes, e erão mais possuidores Antonio Dias e sua molher Anna da Costa Domingos Pacheco e sua molher Thereza Borges Paschoal Alues solteiro Maria Fernandes da deueza viuua Francisco de Pinho e sua molher Maria Fernandes viuua Manoel Dias e sua molher Joanna Fernandes Antonio de Pinho viuuo, Antonia Ribeira viuua Saluador Carualho do Outeiro e sua molher Maria Francisca Martim Vas Correa e sua molher Maria de Pinho Manoel Francisco e sua molher Catherina Antonia/535 Catherina Antonia João Manoel e sua molher Maria Fernandes Dionizio da Silua e sua molher Domingas Dias Andre Gomes e sua molher Maria Aranha que prezentes estauão e elle juiz lhes fez preguntas se com todas as propriedades [...] /536

Medição Primeiramente hum assento de cazas terreas telhadas e colmassas com seus curraes eira e cortinha da porta que possue elle cabeça e Manoel Dias que tudo tem de comprido de norte a sul oitenta e seis e de largo quarenta varas e mea leuará de semeadura dois alqueires e meyo parte do nascente com o caminho e do poente com Domingos Fernandes e caminho e do norte com o caminho e do sul com Manoel Correa tem uueiras e agoa de rega. Item a leira das peneiras que possue Maria Frnandes viuua que tem de comprido de nascente a poente quarenta e seis varas e de largo tres varas e mea leuará de semeadura huma quarta de centeo parte do nascente com Manoel de Pinho e do poente com Paschoal solteiro e do norte com Domingos Alues e do sul com João Manoel. Item o campo da fontella que possue elle cabeça e Manoel Francisco que tem de comprido de norte a sul cento e vinte e sinco varas e mea e de largo oitenta e oito va/[536V] e oito varas e mea leuará de semeadura oito alqueires de centeo parte do nascente com Manoel Francisco e Antonia Duarte e do poente com a quingosta da laboura e do norte com Antonio de Pinho e Antonia Ribeira e do sul com Pedro Fernandes e com o rego da agoa tem para a parte do norte hum pedaço de matto e tem uueiras e agoa de rega. [Localiza-se próximo da Viela da Fontela e da Rua de Sargedo.] Item outro campo da fontella circuitado de parede e vallo que possue Antonio de Pinho e Antonia Ribeira viuua que tem de comprido de norte a sul cento trinta e duas varas e de largo nouenta e duas varas leurá de semeadura oito alqueires de centeo parte do nascente com o monte maninho e do poente com a quingosta da laboura e do sul com elle cabeça tem algumas uueiras e hum pedaço de matto e sobreiral para a parte do norte.[Ver localização anterior.] Item o campo daleuegada que possue Antonio Dias e Dionizio da Silua que tem de comprido de norte a sul cento e sesenta e sinco varas e de largo na cabeça do norte trinta e seis varas e terça e na cabeça do sul

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sesenta varas leuará de semeadura sete alqueires de centeo par/537

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Antonio Dias e Domingos Alues e Ma/538

parte do nascente com Pedro Fernandes e Manoel Ribeiro e do poente com João de Souza e monte maninho e do norte com hum rego e do sul com Domingos Fernandes e Pedro Pinto da Silua tem agoa de rega e uueiras e hum pedaço de matto e deueza de castanho para a parte do poente. Item o campo das cauadas e mato de sob a jgreia que possue elle cabeça Domingos Pacheco Domingos Alues solteiro e Andre e Andre Gomes que tem de comprido de norte a sul duzentas sesenta e tres varas e mea e de largo na cabeça do norte treze varas e na do sul vinte e sinco varas leuará de semeadura sinco alqueires de centeo parte do nascente com Manoel Correa e Antonio Francisco e do poente com Manoel Fernandes e Domingos Alues e do norte com caminho da laboura e do sul com a estrada que vem de Macieira tem no norte e sul matos e sobreiros. Item o sarrado da vinha com hum apozento de cazas que possue Domingos Alues Domingos Pacheco e Andre Gomes que tem de comprido/[537V]

e Manoel Dias que tem de comprido de norte a sul oitenta e sinco varas e mea e de largo pella cabeça do norte sesenta e huma varas e mea e pella do sul sincoenta e noue varas e leuará de semeadura quatro alqueires de centeo parte do nascente e sul com o caminho e do poente com Antonio Eytor e Domingos Alues e do norte com Dionizio da Silua tem agoa de rega e uueiras. Item o campo da ortiga que possue João Manoel e elle cabeça Manoel Francisco Domingos Alues Domingos Pacheco e Andre Gomes que tem de comprido de norte a sul quarenta e tres varas e de largo quarenta e huma varas parte do nascente com Domingos Alues e do poente com Pedro Fernandes e Francisco Alues e Domingos de Rezende e do sul com Antonio Eytor tem agoa de rega e algumas uueiras leuará de semadura alqueire e meyo de centeo. Item o campo da Corga que possue Maria Fernandes viuua que tem de comprido de nascente a poente sincoenta e oito varas e tres quartas e delargo pello meo quarenta e huma varas leuará de seme/ [538V]

de comprido de norte a sul pella parte do poente pello caminho quarenta e oito varas e pello meo de nascente a poente setenta e tres varas e de largo pello meo sesenta e tres varas leuará de semeadura quatro alqueires parte do nascente com Diogo Frnandes e Antonio Francisco e do poente com o caminho e do norte com Pedro Francisco e do sul com Manoel Francisco tem agoa de rega e algumas uueiras. Item a cortinha das eiras com seus apozentos de cazas que possue Domingos Pacheco e Andre Gomes e Domingos Alues e Izabel Moutinho viuua e Maria Fernandes viuua e Antonio Dias que tem de comprido de nascente a poente cento e dezaseis varas e de largo pello nascente pello caminho quarenta e duas varas e pello poente trinta e tres varas leuará de semeadura tres alqueires de centeo parte do nascente e poente com caminhos e do norte com Manoel Correa e Jozeph Fernandes e do sul com Antonio Dias tem uueiras e agoa de rega. Item os campos dos pereiros que possue

de semeadura dois alqueires e meo de centeo parte do nascente com Leandro Moutinho e do poente com o rego e do norte com Antonio de Pinho e a mesma Maria Fernandes e do sul com outro rego tem uueiras e agoa de rega. Item a leira das peneiras que possue Domingos Alues e Antonio Dias que tem de comprido de norte a sul cento e quatorze varas e de largo dezasete varas leuará de semeadura dois alqueires e meo parte do nascente com Manoel francisco e do poente com Francisco de Pinho e do norte com Paschoal solteiro e do sul com Manoel de Pinho. Item outra leira das peneiras que possue Paschoal solteiro que tem de comprido de norte a sul cento e quatorze varas e de largo doze varas leuará de semeadura alqueire e meyo parte do nascente com o mesmo possuidor e do poente com Martim Vaz Correa e do norte com o mesmo possuidor e do sul com João Manoel. Item a leirinha do vizo que possue Saluador


Carualho que tem de comprido de nascente a poente cento e vinte e tres varas e de largo quinze varas e quarta parte do nascente com o mesmo/ 539 com o mesmo possuidor e do poente com Martim Vas e do norte com os mesmo possuidor e do sul com Thome Pereira leuará de semeadura alqueire e meo de centeo. Item a leira do Cortinhal que possue Antonio de Pinho que tem de comprido de nascente a poente sesenta e huma varas e duas terças e de largo na cabeça do nascente quatro varas e duas terças e pella do sul dezoito varas e quarta parte do nascente com o caminho e do poente com o mesmo possuidor do norte com Pedro Fernandes e do Sul com Manoel Ribeiro luará de semeadura sinco quartas de centeo tem agoa de rega. [Do caminho já só há ligeiros vestígios e corria paralelamente, pelo lado Poente, à actual Rua D. Afonso Henriques e a leira faz parte do espaço hoje ocupado pelo primitivo campo de jogos do Grupo Desportivo Milheiroense.] [...] /542 Milheiros de Poares T.º de reconhesimento que fazem Simão Martins e sua molher Maria Gomes de Pinho do lugar do Pereiro freguezia de Milheiros, de hum souto chamado o do Seixal. Paga de foro sincoenta reis--------------------50 Anno do Nasçimento de Nosso Senhor Jezus Christo de mil e setecentos e sincoenta e coatro annos e aos catorze dias do mês de Majo do dito anno nesta freguezia de Maçieyra de Sarnes que he do termo da Villa da Feira terra de Santa Maria e de sua Altheza que Deos goarde e nas cazas das moradas de Fran.co de Pinho aqui morador ahonde foi vindo o Doutor Joze dos Santos Ramalho juiz do Tombo [...] [543V]

Medisom E logo no mesmo dia mês e anno retro se prosedeo a medisom a qual se fez pella forma e maneira seguinte. Item o Souto do Seixal que pusue Simão Martins e sua mulher Maria Gomes de Pinho do lugar do Pereiro freguezia de Milheiros de Poares que tem de comprido de norte a sul setenta e sete varas e meja e tem de largo pella vanda do nascente pella parte do norte tem do nascente ao poente vinte e coatro varas parte do nascente com huma leira de monte que he dos mesmos pesuidores e do poente com Manoel da Costa e joão Martins do Outeiro e do norte com Manoel de Azeuedo do Seixal e do sul com Domingos Francisco e Manoel da Costa do pereiro.” 63


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Poesia JOÃO PEDRO MÉSSEDER* Doxy (Miles Davies, Sonny Rollins, Harace Silver...) Naquela tarde, seguiste-a na avenida, passos de leoa onde os olhos se detinham. Investiste com toda a delicadeza do sopro, dos teus lábios negros, calejados. Sonny depois. Mas a sua pose e a voz eram as dos grandes procriadores. Horace tinha também um jeito próprio. Lábia fina, pequenas fulgurações — aprendera a manha com o pai a quem tanto queria. Se Frank — que os deuses tenham — vos visse, diria que a dama era vagabunda e acabaríeis mal. Certo é que alguns de vós já não calcorreiam as ruas. Os outros em breve vos seguirão. A leoa, essa, continua a descer a avenida, altiva e lenta, soltando volutas de fumo e ondas de perfume

* Nasceu em 1957, no Porto, onde completou os seus estudos universitários e exerceu a docência. Publicou seis livros de poesia (os últimos intitulam-se Abrasivas e Elucidário de Youkali seguido de Ordem Alfabética), catorze títulos na área da literatura para a infância e uma antologia da poesia de Carlos de Oliveira. Três dos seus livros foram premiados.


TRIÂNGULO LITIGIOSO Os Lóios da Feira, Nogueira da Regedoura e Malta-Rio Meão David Simões Rodrigues* Trazemos hoje à consideração dos leitores mais uma interessante página da história da Feira, de que são principais actores reis, príncipes e rainhas; cardeais, bispos, abades e comendador disseminados por espaços, como Roma, Lisboa, Lamego, Viseu, Porto, Vilar de Frades, Pombeiro, Braga, Campanhã, Évora, Nogueira da Regedoura, Travanca, São Nicolau, Rio Meão e a Feira. Aqui se revelam importantes factos da vida feirense que substancialmente envolvem os Padres do seu Convento, a Freguesia de Nogueira da Regedoura e a Comenda de Rio Meão , da Ordem de Malta. 1. Estado da Questão 1.1. Fundados o Padres Lóios em Lisboa, em

1423, circunstâncias históricas imediatas trouxeramnos para o Norte onde passaram, sucessivamente, por Campanhã, Vilar de Frades e, em 1560, Feira. Circunstâncias sócio-religiosas da fundação e estilo de vida adoptado tornaram-nos tão famosos a ponto de serem carinhosamente chamados «Os bons homens de Vilar», evidente sinal da aura de invulgar simpatia criada à sua volta, concorrendo assim para reacender a chama do apagado fervor religioso e chamar às suas fileiras conventuais universitários e gente de algo, entre eles dois filhos dos Condes da Feira. Dados à espiritualidade, não descuram todavia o aspecto material. Assim, conhecendo bem os casais dos respectivos conventos nas freguesias circunvizinhas familiarizam-se com o seu estado económico destas. 1.2. A Comenda de Rio Meão, desde os finais do séc. XI que, por doação dos primeiros monarcas, estava na posse continuada e pacífica da apresentação do cura de São Cristóvão de Nogueira da Regedoura, sua anexa, bem como da percepção dos rendimentos

* Licenciado em Filosofia e Literatura Grega e Latina, Clássicas, com as variantes de Literatura Brasileira e Literaturas Africanas de Expressão Portuguesa. Diplomado em HistóricoFilosóficas. Curso de Teologia. Dedica-se à investigação Científica.

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com a obrigação de prover aos consertos necessários na igreja e na residência do cura, como se verá da inquirição ordenada pelo bispo do Porto em 1534. Do documento consta que havia nesta freguesia três casais do convento beneditino de Pombeiro a confrontar com os extensos passais, constituindo invejável fonte de receita. Os Lóios usam dos privilégios de directos dependentes do Papa, aproveitam os bons ofícios da rainha D. Isabel e, como haviam procedido para a Feira, tratam da renúncia do pároco, pois tornada vaga mais fácil seria obter a sua anexação ao convento. Dito e feito.

Deixam o velho, escuro e anquilosado edifício para a Misericórdia, tratam de avocar a si também as rendas da «freguesia» da Senhora de Campos, unidas que haviam sido a São Nicolau já desde o rei D. Dinis, sob cujo padroado1 se encontravam. 1.4. O estatuto paroquial de Travanca era já o de anexa à de São Nicolau da Feira por renúncia do respectivo cura, sendo por isso simplesmente consagrada a continuidade. 2. Os Passais de Nogueira e a Igreja

1.2.1. Daqui nasce o complicado e moroso 66

litígio. Arrastou consigo um conjunto de problemas cuja documentação nos veio ao conhecimento por investigação e que serviu de base para o presente tratamento histórico. Ora, aparentemente apanhado de surpresa e sentindo-se lesado nos seculares direitos de patrono de Nogueira da Regedoura, o comendador de Rio Meão, Eduardo de Melo Ferreira, instaura aos frades Lóios um processo por usurpação. O pleito arrasta-se por cerca de três dezenas de anos e, se em 1596 teve seu termo, foi mais por desistência dos queixosos que o fizeram a conselho e insistência de terceiros do que por convicção, depreende-se da documentação em análise. 1.3. Em 1560, os Lóios, a convite dos Condes da Feira, aqui se estabelecem. Organizam vida, erguem convento e igreja. Por vontade do povo, Câmara e Condes passou a servir de paroquial com todos os direitos próprios, negociada que foi também a renúncia do pároco.

Aumentados os bens patrimoniais com a agregação das igrejas de São Nicolau da Feira, - que arrastou consigo a Senhora de Campos -, da anexa de Travanca a que juntaram agora a de Nogueira da Regedoura, os Padres Lóios puderam: a) Cuidar melhor da monumentalidade da nova paroquial da Feira e do seu convento; b) Fazer a mudança da igreja, residência paroquial e celeiros de Nogueira cá de baixo do sítio da igreja no Barreiro lá para cima, para o Souto da Estrada, onde se encontra hoje, com o cemitério, dentro ainda dos passais, tão extensos eles eram. Barreiro, onde, em 1534, precisamente no topográfico ou sítio ainda hoje na tradição reconhecido como «igreja». E assim «igreja» ficou consagrado pelo povo que Aqui, direito de apresentar ao superior eclesiástico o presbítero para ocupar o cargo do pároco ou abade vago por morte ou renúncia. Direito criado a partir do uso na Idade Média de o senhor construir para si ou comunidade capela ou igreja em território seu e reservar-se a honra e direito de, ordinariamente, apresentar o respectivo pastor de almas, que recaía em familiar ou amigo próximo. Arrastava consigo outros direitos, como: hospedagem gratuita, cavalaria, casamento, resgate de cativeiro e contribuições em géneros ou moeda retirados das rendas.

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sempre dizia «vou à igreja» 2 quando, pelos séculos fora, precisava de qualquer produto do campo deste sítio, também reconhecido mais recentemente por Rua dos Depósitos, e onde se está a levantar edifício de vários andares e apartamentos. 2.1. Mudança da igreja e cisão no povo A mudança da igreja abriu grave e profunda cisão entre os moradores dos lugares de baixo e os de cima da freguesia, partindo a freguesia em duas. A principal razão para a mudança parece residir na necessidade da reconstrução da velha e arruinada igreja do Barreiro, e, a fazê-la de raiz, aproveitam o amplo espaço dos passais para a tornar, quanto possível, mais central e dentro dos Passais. Eis a razão da sua construção no lugar do Souto da Estrada. 2.2. Utilidade do conhecimento histórico da nossa terra Aqui fica explícito quanto de um passado distante, pelos seus documentos, podemos hoje reconstituir, unindo o historiador as diferentes peças do seu todo tornado próximo de cada um dos presentes, arrancado dos tumulares arquivos para lhes dar a função libertadora que só o vivo poderá ter. E também porque só podemos amar o conhecido e só conhecendo se previne o erro. Nada se ama sem antes se conhecer. E aqui estamos para que o Feirense aprecie mais ainda a

2 Vê-se que a expressão corrente até há pouco, antes dessa larga propriedade do Sr. «Facas» se tornar na urbanização em curso, mostra claramente a conservação na mente do povo o histórico lugar onde a primitiva igreja paroquial de São Cristóvão da Regedoura se sedeava. Servindo as igrejas para enterramentos, tivemos o cuidado de indagar se por ali apareciam vestígios de peças do esqueleto humano. Nada de nada, foi a resposta.

sua Terra conhecendo a sua História. A Feira é a minha História. Antes, porém, de prosseguir, aproveite-se a oportunidade para, sem ponta de crítica, desfazer pequeno erro. Efectivamente, vimos em publicação monográfica recente afirmação errada: «Isto passa-se em 1288 3numa altura em que já se tinha organizado a freguesia e o cura era dos Lóios da Vila da Feira.»4, diz-se ali. Os acontecimentos a que se reporta o autor podiam dar-se em 1288 quando esta Nogueira, umas vezes dita da Regedoura e outras de Livaes5, era já freguesia. Porém, o que não podia de forma alguma acontecer, era ter um cura vindo dos Lóios da Vila da Feira, ou qualquer outro, secular ou não, por eles nomeado, e isto pela simples razão de ainda estarem os Lóios no mundo dos futuríveis. Nesta data pertencia à Comenda de Rio Meão, da Ordem do Hospital de Jerusalém, sedeada em Leça do Balio. Esta Ordem Militar passou a designar-se «Ordem e Malta», só depois de 1530, pelo simples facto de se terem sediado nesta ilha do Mediterrâneo, oferecida por Carlos V de Espanha 4 A freguesia é «São Cristóvão de Nogueira da Regedoura», encontra-se na sua Monografia, pg. 21, 2ª coluna. Não tem a referência qualquer sentido minimizador do louvável esforço dos ilustres autores mas tão-somente o de corrigir erro que só não acontece aos que nada fazem. Aliás detectado só porque na sequência dos preparatórios estudos do presente trabalho já estruturado, conteúdo e forma. Alunos nossos, naturais desta, nos questionavam e incitavam à publicação sobre o que por vezes em nossas aulas se ventilava também da história local. Tomando conhecimento da muito recente obra, procurámos ver o conteúdo, não fôssemos repetir o que seria já do domínio público. Constatados infundados os nossos receios, anotámos o erro histórico cujo esclarecimento achamos por bem fazer, aproveitando o ensejo e o material adrede encontrado no decurso das pesquisas. Esperamos sejam contributo, modesto embora, para conhecer a história local, ao lançar mais esta gota no oceano da história feirense, cientes, e lucidamente conscientes, de que em História, nada é grande nem pequeno, tudo é, na justa medida em que esclarece e completa o que estará sempre por completar, como o próprio Homem. 5 Parece, com bastante margem de certeza, ser este «Livaes» forma aferética da actual povoação «Olivães», que por outro lado apresenta fugaz hegemonia toponímica relativamente a «Regedoura». Em 1108, Bilães; Baio Ferrado; em 1117, Livães, ibiem; em 1155, Luviães, ibidem. 3

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3. Razões claras e simples para a nossa certeza assertiva:

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3.1. Primeiro: Só em 1423/1425, os Lóios,6 ou frades azuis,7 ou beguinos,8 ou Cónegos Regulares de São João Evangelista,9 viriam a ser fundados em Portugal e os factos apontados reportam-se a 1288. Logo, a situação aqui apresentada afigura-se claramente anacrónica, porque fora do tempo próprio da acção. Como não existiam em Portugal, de modo algum podiam ter a cura da paróquia como se verá. Por outro lado, a paróquia de Nogueira da Regedoura estava anexa à Comenda da Igreja de Rio Meão, nesse tempo ainda da Militar Ordem do Templo que, em 1530, se passaria a designar «Ordem de Malta»10. 3.2. Segundo: Admitindo, muito embora academicamente, a sua existência, a verdade é que

Assim designados por terem habitado em Lisboa um convento cuja igreja seria dedicada a Santo Elói. Esta é a mais comum e clássica explicação. Há todavia quem prefira dizer que é obscura a origem, forma de dizer, não sei. 7 Era esta a forma comum por que eram conhecidos e nomeados, devido à cor azul/roxa do seu hábito. 8 Reflecte a grande simpatia com que foram recebidos e a forma de vida que deixavam transparecer: «Homens, frades penitentes e pobres,» com que logo começaram a ser conhecidos os «bons homens de Vilar de Frades». 9 Designação canónica e oficial com que foram fundados por meia dúzia de intelectuais e eclesiásticos de Lisboa em 1420/23, chefiados pelo venerável Mestre João, médico da corte e professor de Medicina na Universidade, mais tarde bispo de Lamego e Viseu, que, tendo indo expressamente a Roma, conseguiu colocar a sua ordem sob a dependência directa do Papa, eximindoa à jurisdição dos bispos que lhe não levaram a bem este seu gesto por eles tomado como ingratidão. Assim se consolidaram sob a protecção do rei D. Duarte, do príncipe D. Pedro, do rei D. Afonso V, e sobretudo da mulher deste, a rainha D. Isabel. Daí, e por outras adjuntas razões, resultaram dissensões e dissabores delas mais ou menos graves, mais ou menos longas, entre as quais se conta esta que se tornou objecto do presente trabalho. 10 Pelas razões que pode consultar na obra do autor, edição da Junta e da Câmara, 2001, «Rio Meão – a Terra e o Povo na História», 2 vols. 6

só em 1550 a Congregação dos Lóios chega à Vila da Feira pela mão dos seus condes. E mesmo assim, só em 1566, estabelecidos já definitiva e efectivamente aqui, é que recebem Nogueira da Regedoura como sua anexa, retirada ao secular direito de apresentação por parte da Comenda de Rio Meão. E porque o facto surpreendeu o Comendador Eduardo ou Duarte de Melo Ferreira que se via esbulhado desse direito secular sem prévio acordo ou negociações, parece, procura ele fazer valer seus direitos junto das competentes instâncias interpondo acção judicial contra os eventuais usurpadores,11 os Lóios, numa tentativa de reaver esses benefícios em Nogueira. E é nestas precisas circunstâncias que vamos apresentar mais um dos quadros históricos da cidade da Feira em que, como espectadores, vemos dirimindo cada qual as suas razões: 3.2.1. O Comendador de Rio Meão, porque possuidor de Nogueira como anexa com direito de apresentação do cura desde a fundação da nacionalidade, havia por isso pelo menos 300 anos, de forma continuada e pacífica e sem contradição alguma. 3.2.2. Os Lóios do Convento da Feira, por seu turno, porque Nogueira lhes fora anexada, dizem eles que por bula do papa sob cuja directa jurisdição se encontravam. Mas, informamos desde já o leitor que a famosa bula alegadamente no seu cartório nunca foi Desde quando assistia aos comendadores de Rio Meão o direito da apresentação do cura de Nogueira da Regedoura? Não encontrámos data. É certo que o haviam recebido de D. Afonso Henriques, ou D. Teresa, ou ainda, possivelmente, de D. Sancho I (n. 1154, 1185-1211). Até porque ainda se ignoram coisas da nota seguinte.

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publicamente apresentada, nem em qualquer parte transcrita sob pretexto infantil, ou maldoso?, de não se querer quebrar-lhe os selos papais. Mas como poderiam eles conhecer o conteúdo da bula com seus pormenores se a não quebra dos selos equivalia a ficar fechado o conteúdo? E foi nesta contingência das investigações que demos com o apontado erro de 1288, cujo esclarecimento aqui fica integrado.12 4. A Fundação dos Lóios em Portugal 4.1. Como ficou acima dito, os «Cónegos Regulares de São João Evangelista» tiveram a sua fundação por 1423 / 1425, em Lisboa, a que não foi estranha a notícia dos frades de São João Evangelista de Alga, Veneza, Itália, notícia que circulava já no país. Tal projecto de vida agradava e atraía o espírito destas almas inquietas por um estado religioso mais à imagem do evangelho. 13 Foram seus fundadores três sábios quanto santos homens: Mestre João Vicente, Martim Lourenço e D. Afonso Nogueira. Costumavam reunirse em casa do Padre Lourenço Eanes, prior de São Julião, discutindo problemas sobretudo relacionados com o relaxamento de costumes e ignorância de muitos clérigos. Muitas igrejas não tinham párocos porque as havia trocado pela participação nas guerras. O primeiro a passar à prática foi Mestre João entrando no convento

dominicano de Benfica. E foi aqui que entraram Lourenço Eanes, Martim Lourenço e Afonso Nogueira a aconselhar juntarem-se numa grande empresa e eles próprios fundarem uma nova congregação com estatutos e projectos evangélicos específicos. Logo a estes outras almas de boa vontade se juntaram. Efectivamente: 4.1.1 Em 1423, fala-se já na tentativa de constituir-se uma sociedade religiosa capaz de romper com o estado de coisas em que mergulhara também a sociedade portuguesa do tempo a urgir mudanças e reformas a todos os níveis, nomeadamente religioso e sacerdotal. Assim é que leigos universitários e padres, cientes da necessidade urgente de mexer com os instalados e de regressar à pureza evangélica, unem-se e decidem fundar o que veio a ser a austera «Ordem de São João Evangelista de Jerusalém». 4.1.2. Em 1424, constitui-se o grupo com projecto definido, em que o médico do infante D. Pedro, mestre João Vicente,14 participou como guia e director. Instalaram-se logo na igreja de Nossa Senhora dos Olivais, perto de Lisboa, mas, passado algum tempo é próprio prior que os convida a retirarem-se. Perante tão inesperada como desagradável surpresa geradora de desânimo resolvem dirigir-se ao Mestre de Artes e lente de Medicina na Univ. de Lx, onde nasceu a 2.3.1380, filho de Estêvão Rodrigues Machado e de D. Maria Ponce, parente de D. Maria Ponde casada com o condestável do reino e Conde de Arraiolos, D. Álvaro de Castro. Ali cursara também Filosofia e completara o de Teologia. Homem de muita fé e piedade, ordena-se sendo ele sucessivamente bispo de Lamego e Viseu. Daí vermos citadas estas dioceses no litígio que envolveu a Ordem de Malta e os Lóios. Na fundação desta participou e muito ajudou na solução de problemas nos primeiros tempos de vida da congregação. A nota seguinte contém mais informações úteis a propósito do assunto em estudo. Reformou a Ordem de Cristo. Morre em 30.8.1463, aos 83 anos de idade. Conf. entre outros, principalmente, o Padre Francisco de Santa Maria, em «O Ceo aberto na Terra», Lx. 1697, pg. 209-212, 235-236, 472, 551-552- 611, 565.

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Ignora-se a data da entrada dos Hospitalários em Portugal, cuja primeira casa foi Leça do Balio, doação talvez por D. Teresa. Certo, em 1194, D. Sancho I doa-lhes a terra de Belver onde edificam castelo. Iniciada em Jerusalém como instituição de beneficência a doentes peregrinos e cruzados, no hospital de São João Baptista, em 1120 assumem o carácter conjunto de militar. Em 1187, mudam-se para Acre; em 1291 para Rodes e em 1522 para Malta, donde lhes adveio o novo título, Ordem de Malta, e aqui ficam até 1798.

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Colocamos entre parênteses porque «Itália», estado no sentido que desde 1870 assumiu ainda não existia. Até aí pelo território semeavam-se uma série de estados, de Norte a Sul, independentes, ou melhor, parte deles sujeitos a outros estados e Nações.

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paço do bispo do Porto, D. Vasco, a quem havia curado de grave enfermidade, quando ambos prestavam serviço na corte. O grato bispo, conhecidos os santos propósitos do médico que lhe salvara a vida, dá-lhe a igreja de Santa Maria de Campanhã onde continuam os mesmos santos procedimentos que em Lisboa e conquistam de imediato a simpatia das populações. Como a dor de cotovelo é de todos os tempos e não olha a condições, estava assim cozinhada nova contrariedade. Na verdade, retirado o bispo para a sé de Évora em que fora provido, mal se ausentou, logo o prior de Campanhã, acordado com o novo bispo do Porto, corre com os religiosos. 15 70

E é por isso que, em 1425, estão a bater à porta do arcebispo de Braga, D. Fernando da Guerra,16 também ele devedor e grato pelos providenciais serviços clínicos do douto médico de uma vez em que gravemente enfermara em Lisboa. Por isso encontraram muito cordial recepção de tal sorte que o albergou no próprio paço com a promessa da primeira igreja que vagasse. Assim, no próprio dia em que o arcebispo declara extinto o convento beneditino de Vilar de Frades, devoluto havia anos, e com sinais de ruína, lho entrega em 1 de Junho de 1427.17 Aceite e com morada fixa, deixa em Vilar João Rodrigues e vai a Lisboa buscar os seus Não podemos deixar de observar que D. Vasco queria que estes o acompanhassem para Évora, tendo recusado o convite. Nesta altura todos abandonaram Mestre João, ficando apenas com ele João Rodrigues. Já nos Olivais haviam ficado alguns pelo caminho. Mas Mestre João não desiste e vai bater a outra porta. Braga é a nova etapa. 16 Figura de arcebispo das mais ilustres que presidiram aos destinos de Braga, 1417 a 1467. Vasta a sua cultura. 17 Devoluto, mas ainda vivo o último abade, D. Frei Estêvão Lourenço. Vilar de Frades vagou com a sua morte. E por isso no próprio dia satisfaz a promessa dando-o a Mestre João, que o foi ver para saber o que é que aceitava. De facto encontra-o «... mui danificado com a clausura velhíssima que servia de corte de gado e a igreja de celeiro e adega...», p. 355. BPB – Ms. 924, «Epílogo e Compendio...», do Padre Mestre Jorge de São Paulo, 1658, fl. 355, de que se serviu o Padre Francisco de Santa Maria para o seu «O Ceo Aberto na Terra». 15

companheiros. Estava aberto o caminho para que a nova Ordem florescesse e daqui fizesse as suas ligações históricas a Nogueira da Regedoura e a Sta Maria da Feira. 18 O arcebispo fê-lo também em atendimento à súplica por eles feita ao papa Martinho V a quem pediram o privilégio para anexar igrejas paroquiais com seus direitos e padroados de modo a prover à sua sustentação, construir suas igrejas e restaurar outros degradados edifícios. Implicava para eles o cuidado da nomeação dos respectivos curas entre os presbíteros da ordem. Viram a súplica atendida na totalidade em 18.10.1430. «Esta congregação de origem portuguesa, embora aprovada com as constituições de outra estrangeira, deve os seus princípios a Mestre João, catedrático de Medicina na Universidade e médico de El - Rei D. João I; Martim Lourenço, nascido em Lx. Em 1403, filho de Lourenço Vasques Arvelo e de D. Beatriz da Orta, doutor em Teologia; colega e amigo de Mestre João, falecendo em Lx. Em 17.3.1446. Grande pregador. D. Afonso Nogueira, filho do alcaide mor de Lisboa Afonso Eanes Nogueira, e de D. Joana Vaz de Almada. Doutor in utroque jure pela Universidade de Bolonha.» Foi quem trouxe de Veneza a regra e hábito azul dos Cónegos de São Jorge de Alga. Esteve à frente das dioceses de Coimbra e depois de Lisboa. Falece em 16.9.1467, em Alenquer, para onde fora levado já muito doente. O mosteiro beneditino de S. Salvador de Vilar de Frades havia tempos abandonado é dado pelo bispo como extinto e no mesmo dia entregue e aceite apesar da penúria de meios de sobrevivência. Aqui receberam o nome de «Bons Homens de Vilar», confirmados os estatutos pelo papa Eugénio IV, isentos e com todos os restantes privilégios concedidos aos cónegos de Veneza. Receberam então o nome de «Congregação dos Cónegos de S. Salvador de Vilar de Frades». D. Isabel, mulher do nosso rei D. Afonso V, grande devota de São João Baptista, obteve de Pio II a faculdade de designar o mesmo por Congregação dos Cónegos Seculares de S. João Evangelista, também chamados Lóios, por lhes ser entregue, em 1442, pelo príncipe regente D. Pedro, para que o restaurassem, o Hospital de S.to Elói fundado por D. Domingos Jardo. Ditos «cónegos azuis» pela cor do hábito. Regressam a Lisboa, para a igreja de Xabregas, onde encontram a particular protecção do célebre, controverso e poderoso D. Jorge da Costa, mais conhecido por «Cardeal de Alpedrinha», entretanto escapado para Roma, porque não tinha a vida segura com D. João II. Outros conventos beneditinos, devido à penúria e à ignorância até das regras canónicas foram convertidos em simples igrejas paroquiais, entre eles o de Recião, também de beneditinas.

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Davam os primeiros passos da sua história, mas não estavam sós pois contavam também com a ajuda da rainha D. Isabel, mulher de D. Afonso V, rei que a apresentou como protectora deles ao papa Eugénio IV que naturalmente se mostrou favorável à Ordem despachando o seu pedido em 7-3-1446. 4.1.3. Em 1462, nessa sequência, a Congregação de S. Salvador de Vilar de Frades, 19 que foi a casa mãe até este momento, transfere-se para Lisboa onde toma o nome de Congregação de S. João Evangelista do convento de São Bento de Xabregas.20 A esta transferência para Lisboa não foram alheias as desinteligências entretanto surgidas com o arcebispo de Braga que os acolhera, com boa vontade, pelo menos aparente, pois a documentação nunca o mostra reticente em aceitá-los, pelo que se vê que posteriormente se deterioraram. Causas, não vêm para aqui por não se ajustarem ao fim do presente trabalho, deixado em título. Mas conservaram o mosteiro que continuou como principal. 4.2. Os Lóios, sua vinda para a Feira. 4.2.1. D. Leonis e D. Rodrigo, filhos do conde da Feira, legítimo e ilegítimo, professam nesta Entre Barcelos e Braga. Aqui empreenderam os Lóios grandes obras de transformação secundados pelo arceb. D. Fernando Guerra, neto de D. Pedro I e D. Inês de Castro. De muitas rendas, tornou-se um dos mais ricos desta região. Em 1898, vitimado por devastador incêndio. Hoje é hospício de alienados. A igreja conserva o magnífico portal românico dos mais notáveis de Entre Douro e Minho e os admiráveis painéis de Bartolomeu Antunes, 1742 , representando «A Natividade» e «A Adoração». Confer Prof. Dr. Padre Avelino de Jesus Costa e Padre Manuel d’Aguiar Barreiros, A Egreja de Vilar de Frades, hoje Areias. Fuga à confusão com Vila de Frades, Vidigueira?

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Hoje conhecido o local da cidade de Lx., como o «Beato», do Beato António da Conceição, (1522/1602) padre lóio falecido em odor de santidade, e que promovera a reedificação do Convento de São Bento (ao Beato).

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Vilar de Frades - Antiga Torre defensiva, tornada simeira na reedificação da Igreja.

congregação que despertava pelo país grande simpatia. E foi assim que tratou de preparar tudo para que ela viesse estabelecer-se no seu condado. Em 1560, por bula do papa Pio IV (1559-1565) os Lóios chegam à Feira por intervenção do conde D. Diogo Forjaz Pereira e sua mulher D. Ana de Meneses. E julgamos ter sido determinante para a sua vinda o facto histórico de o conde ter nesta congregação como padres professos estes dois familiares. Aqui, em 6 de Maio de 1553, falece um deles, Padre Frei Rodrigo de Santa Maria, filho dos condes D. Manuel Pereira e D. Isabel de Castro, quando, gravemente doente, se dirigia de Lisboa para Vilar de Frades.21 Se não estavam já em negociações, Saiu-lhe ao encontro a condessa sua mãe que vencendo o propósito contrário conseguiu que ele se abrigasse no castelo todavia acaba por fechar-lhe os olhos e amortalhá-lo com veneração de santo. «Jaz sepultado no cruzeiro da igreja nova do nosso convento da Feira com este epitáfio:« Aqui jáz o...P. Rodrigo da Madre de Deos filho do Conde D. Manoel Pereira e da Condeça D. Isabel de Castro.. sendo Pregador e de Missa se recolheo em Vilar de Frades e tomou o habito dos Padres de S. João Evangelista e nele morreo estando por Inquisidor em Lisboa: falleceo no castello da Feyra a 6 de Mayo de 1553. O Conde seu irmão.. mandou fazer esta sepultura.» In «O Ceo Aberto na Terra», 1697, pg. 942, citado. Proposto bispo de Angra, não aceitou.

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pelo menos pensam os condes em trazer para junto de si a Congregação em que acaba de falecer o filho. Por isso, sete anos passados, chegam aqui nos primeiros meses de 1560. Mal chegam e, em 6 de Maio desse ano, lançam os fundamentos do convento e da igreja em que se concentra a atenção geral da vila e arredores: Acresce a boa fama que os precede, o ambiente rapidamente criado à sua volta, as suas pregações, a monumentalidade da edificação, as celebrações litúrgicas, a propaganda dos condes, de tal sorte que os fazem curas da freguesia. «Correo a obra não vagarosamente, porque no de 1566 o convento estava capaz de ser habitado e a igreja em tal forma que os moradores da Vila a cobiçaram para Freguesia.»22 4.2.2. Assim, acertam os interessados a renúncia do abade vigente, o dominicano Dr. Frei Pedro Soares, e em 17 de Abril de 1566, seis anos após a vinda, tomam posse da freguesia para, a 1 de Maio desse 1566, transferirem o Santíssimo da antiga matriz, hoje Misericórdia, para o convento do Espírito Santo, assim dito porque erguido sobre a capela desta invocação. A procissão da transferência deitou tal espavento, revestiu-se de tanta solenidade, grandeza e imponência próprios que ecoou por toda a parte. Por si própria, mas também por virtude da intencional impressionabilidade que ficaria nas mentes do povo e que passaria de pessoa em pessoa, de terra em terra, pelos tempos fora. Ora, tudo isto em muito facilitaria a acção dos novos actores da vida religiosa e social Isto diz no «O Céu Aberto na Terra» o P.e Francisco de Santa Maria. Mas, após leitura, o comentário síntese que nos merece é: diz de mais o que não deveria e omite o que deveria.

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do burgo e arredores, ademais seria trituradora de escolhos aplainando o caminho nos mais reticentes em aderir às mudanças várias operadas no momento. Entre estas contava-se a mudança da secular matriz, hoje Misericórdia, para o convento do Espírito Santo, onde hoje é a paroquial. 4.3. Anexações de igrejas e razão para estas 4.3.1. A criação de condições de sustentação. A igreja de Nogueira possuía extensos passais que davam rendas pingues que, somadas aos réditos da própria igreja, da de Campos e de Travanca, constituíam para os Lóios base económica capaz de os sustentar e às suas obras. Entrava na sua posse a igreja e seus passais, mas os cinco casais continuavam na posse do antigo senhorio, a Comenda de Malta de Rio Meão, estado que se mantinha em 1758, a dar fé nas informações do respectivo cura enviadas à Academia Real da História. Apontou-se acima o problema da anexação de igrejas, procedimento inevitável à luz das estruturas económicas, mentais, culturais e religiosas do tempo. Para alargar e consolidar as ditas bases de sustentação dos conventos em todas as suas dimensões, recorria-se frequentemente à anexação e padroado de igrejas e às vezes até de outros conventos. E foi o que aconteceu na Feira com os Lóios de cuja solução se sentiu vítima o Comendador de Rio Meão, porque privado do padroado da igreja de São Cristóvão de Nogueira da Regedoura, em benefício dos Lóios. Em 21 de Março de 1555, os padres Brás de Santa Maria, Reitor do convento da Feira, o procurador do Padre Geral Diogo da Ressurreição, e outros membros


do mesmo convento, em presença de Conde D. Diogo e do padre Nuno de Carvalho cura da dita igreja de São Nicolau, e diante da maior parte da freguesia, tomou posse desta pacificamente sem contradição alguma despedindo ao dito cura Nuno de Carvalho e ao rendeiro de Campos Diogo Tavares, fazendo todas as demais cerimónias requeridas em tais circunstâncias segundo os usos e costumes do tempo e que consistiam, até 1910. Por isso: Tocou o sino, colocou as mãos sobre o altar, pegou no cálice, sentou-se na cadeira paroquial, andou pelos passais e adro, apanhou terra dos mesmos, abriu e fechou o missal, entrou na residência paroquial, abrilhe as portas e janelas e tomou telhas da casa e da igreja. 23

a dita igreja em mosteiro da Ordem de São João Evangelista e por bem das bulas que se passaram e da necessidade duma igreja que eles haviam já feito (...) pois tem necessidade de pastor que seja próprio da Ordem proposto na dita Igreja »24

Estes os sinais de tomada de posse de uma igreja pelo seu cura que, depois destes rituais nela ficava investido com todos os direitos e deveres inerentes ao múnus de cura. Assinava com testemunhas presentes atestando como o ritual se cumpriu sem oposição alguma de outrem.

A manter a data de 1538 e se correctas as informações relativas ela, pode inferir-se que já vinha de então a ideia de chamar para a Feira os Lóios para cuja vinda se preparava o terreno.

Ainda, e na sequência das circunstâncias expostas, naquele ano de 1560, por intervenção dos fundadores do convento, D. Diogo e sua mulher D. Ana de Meneses, dirigem ao papa Pio IV, súplica para obter a união das igrejas a ele anexas obtidas, dizem eles, por bula papal datada de 14 de Maio de 1560. Na verdade, em 30 de Abril de 1566, há « Súplica ao Papa pela Câmara e Povo desta Vila a respeito da união desta Igreja e haver Vigário Religioso da mesma Ordem em 30 de Abril de 1566....» a fim de que houvesse «por bem erigir AHCMSMF – Convento Lóios, L. 5, Letra C, fls. 242 a 246 ; e L. 9, fls. 282 a 283v..

23

«Diz Frei Pedro Soares,25 Religioso Dominicano que com dispensação apostólica hera actualmente ( 1538 ) prior desta Igreja de São Nicolau» da Feira de que renunciou a favor da Congregação dos Padres Lóios.» 26 Como se vê, ainda nesse ano de 1538, Frei Pedro Soares empraza, a Luiz Tavares, o casal de Campos, feito à sua igreja de São Nicolau, confirmação dada em 1539. 73

AHCMSMF – Convento dos Lóios, Livro 9, fl. 44, citada a gaveta 4, nº 36, e Livro 10, Letra S. 25 Frei Pedro Soares. A troco de missas e ofícios de sufrágio, Luís Tavares deixa «hum casal que se chamava do Espargo e pera à tal data ser valiosa (a doação) houvera licença del-rei D. João que apresentava o prior que então hera da dita igreja (S. Nicolau), Frei Pedro Soares...» Suposta pertença ao Casal da Senhora de Campos, foi colocado sob sequestro levantado por Filipe III em 25.1.1623, a pedido dos Lóios verificada a sua não pertença a esta ermida de Campos. Confirma o facto, em 13.5.1623, o Corregedor de Esgueira a que então o juizado da Feira pertencia. Dada ordem de execução em 3.10.1624 por Teodoro de Oliveira? Azevedo?. Aí encontrámos a «Carta de levantamento do sequestro dos Padres de Santo Eloy da Feira feito no Casal de Campos.» como também a respectiva «Sentença do alevantamento do embargo ...por mando de S. Majestade em o Casal de Esparzo (Espargo) que deixou a este convento Luís Tavares», Gaveta 2ª, nº 4.» « O qual casal se soquestrou por se entender pertencia à capela de N. Sra. de Campos que naquele tempo do governo de Castela se procurava como do padroado Real por se achar na Torre do Tombo o título de capella da Sra. de Campos na Terra da Feira.» Fl. 291 v. Confer: AHCMSMF – Convento dos Lóios, citado, Livro 1, fls. 291 a 294. Provavelmente por confusão com a de Nossa Senhora de Campos de Argoncilhe. 26 AHCMSMF – Convento dos Lóios, Livro 9, fl. 282., 282 v, 283 e 283 v. Frei Pedro Soares era licenciado, presumimos pela Universidade de Coimbra 24


Coisa não difícil de aceitar dada a ligação familiar referida dos Condes à Ordem. Depois, em 1576, o mesmo prior, (Frei Pedro Soares?), foi confirmado como se vê do Padre Francisco de Santa Maria, «Céu aberto na Terra...» 4.3.2. O envolvimento da Senhora de Campos

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Porém, não por esta bula papal, mas porque D. Dinis assim decidira fazê-lo com todos os seus bens à paroquial de S. Nicolau. Agora, 1560, encontra-se sob cura dos ditos padres da Congregação de São Evangelista que a tomaram enquanto adstrita à paroquial mudada para o convento e com ela tudo o que lhe pertencia, instalando-se em seu lugar a Misericórdia, vinda de outro espaço, e a capela de São Francisco. São curiosos estes circuitos de criação e aproveitamento de espaços, muito próprio das instituições de Santa Maria da Feira. 4.3.2.1. Antes de 1238, séc. XIII, é elaborada nova lista das igrejas da Diocese do Porto, mas esta concernente apenas às «igrejas de que o rei era padroeiro na Terra de Santa Maria». Aí se menciona a «Ecclesia de Feira», sem especificar, se de São Nicolau, se de Santa Maria de Campos. Mas aquela «ecclesia de Feira» do padroado real, só a da Senhora de Campos, pois já nesse tempo a igreja de São Nicolau figurava como freguesia e em parte alguma consta que estivesse sob o padroado do rei. Porque duas entidades diferentes é que D. Dinis pegou nela e a colocou sob São Nicolau 27 Logo a seguir a mesma lista continua a mencionar as que, na mesma Terra de Santa Maria, se encontravam «fora do padroado régio», entre elas lá vem a «Ecclesia de Nogeira».28

4.3.2.2. Em 1288, ainda séc. XIII, nas inquirições de D. Dinis, entre as freguesias do «Julgado da Feira de Santa Maria», encontramos a de «Sam Cristovam de Nogueira»29 Em 1320, séc. XIV, por bula dada em Avinhão a 23 de Maio daquele ano, João XXII taxa a «ecclesiam de Nogueira de Regedoira ad triginta libras» destinadas a custear a guerra que então D. Dinis teve de sustentar contra tentativas Islâmicas para reconquistar Portugal. Por esse documento ficou o monarca autorizado a arrecadar a décima parte das rendas eclesiásticas, excepto as pertencentes à Ordem do Hospital, também dita de Malta. Encontramos Maceda e Arada isentas dessas taxas, porque anexas. A situação de Nogueira era diferente, porque estava-lhe sujeita apenas no recebimento de rendas dos casais de seu senhorio e no direito que à comenda de Rio Meão assistia de apresentar o respectivo abade. Claro que estamos aqui em 1320, e os factos a que nos reportamos situam-se na segunda metade do século XVI, mais exactamente em 14.6.1560, data em que o papa Pio IV (1559-1565) uniu perpetuamente Nogueira da Regedoura à de São Nicolau da Feira, então, sim, já sob cura dos padres Lóios.30

A «Ecclesia de Feira», estamos convencidos, será «Santa Maria de Campos», esta sim que aparece sempre na documentação antiga como do padroado real. Além disso é várias vezes mencionada a «freguesia de baixo» e não a parte baixa da freguesia. E tem sido a leitura desta documentação referente à Senhora de Campos que vem formando esta convicção. Não vimos ainda estudo aprofundado e documentalmente fundado como merecia, constituindo, assim, matéria de sério desafio para estudiosos da história de Cidade de Santa Maria da Feira. 28 P.e Dr. Avelino de Jesus Costa, «A evolução paroquial portuguesa» e P.e Miguel de Oliveira, loc. Cit., pg. 233. 29 Inquirições de D. Dinis, liv. 4, fl. 13 v, fl. 18. Conf. Arquivo Hist. de Portugal, vol. II, pág. 115 e sgs Lx 1935. 30 ANTT – Dicionário Geográfico de Portugal, vol. XV, fls. 195 a 220. 27


A partir deste momento, para todos os efeitos, Nogueira fica em igualdade de circunstâncias sob a tutela dos Lóios da Feira como as ditas freguesia em relação à Comenda de Rio Meão. É conveniente dizer-se desde já que o convento beneditino de Pombeiro, «Columbariu», 31 veio a ceder os seus Casais ao de Vilar de Frades,.32 agora dos Lóios, por ter sido extinto e transferidos os seus bens. Por isso, e por outras razões, se tornaram estes muito ricos e o convento e igreja de Vilar de Frades esplendorosos. 4.3.2.3. A união de Campos a São Nicolau vem já de D. Dinis Deixámos insinuado ali atrás. Em 10 de Novembro de 1572, eram foreiros Diogo Tavares e sua mulher Antónia do Couto em cujas casas de morada esteve o «Padre Miguel de Santa Maria Reitor do mosteiro novo do Espírito Santo nesta vila,« para tratar do «escambo do Casal de Campos que traziam por título de prazo da igreja de S. Nicolau desta vila que hora se mudou para este mosteiro com outros casais ... sitos no lugar de Nadais termo desta vila possuídos estes por lavradores por título da mesma igreja de S. Nicolau a que pagam foro cada ano...» 33 Em Setembro de 1527, Jorge Fernandes veio à Vila da Feira fazer o recenseamento mandado por D. João III, por alvará de 17.7.1527. Chega à Feira, não encontra «juiz nem pessoa com quem tomasse

Mosteiro cuja fundação remonta a antes de 1102, extinto em 1834 por Joaquim de Aguiar. 32 Aqui se estabeleceram os Lóios em 1428, como veremos pormenorizadamente. Temos ideia de ver em escrito qualquer ter aqui Vilar de Frades os seus Casais. =AHCMSMF – Lóios, Livro 5, fls..345 a 349, 33 AHCMSMF – Convento dos Lóios, Livro 7, 1572, fl. 1. 31

enformação...» e «me fui ao logar d’Arrifana, termo della, e ahi soube...» que «A Vila da Feira tem 59 vizinhos no corpo da vila, ... com sua freguesia da villa.» (....) Item Aldea de Campos e sua freguesia, 18 vizinhos.» 34Aqui, há claramente duas distintas freguesias, a da Vila e a de Campos. Poderia Jorge Fernandes, que não era de cá, ser levado ao engano por menos atentos informadores. Mas não. Assinou, lido o conteúdo, «Eitor Lopez d’Almeida, escrivão dos Órfãos e procurador na dita vila» da Feira. 35 «A Vila da Feira....com sua freguesia da villa.». A «Aldea de Campos e sua freguesia.» Razão por que se encontra em documentos vários de várias épocas da Feira, a recorrente dicotomia «freguesia de baixo», «freguesia de cima». Não se coloca de longe sequer o problema de substituição de orago, porque se conservou a de Santa Maria de Campos. 4.3.2.4. São Mamede de Travanca, já desde tempos antigos, anexa de S. Nicolau. Anexa, talvez por contiguidade da «freguesia de Santa Maria de Campos» desaparecida, possivelmente, porque «esmagada» entre Travanca e o burgo e em consequência da criação da de S. Nicolau. 36 E, como entretanto, cada qual seguindo Não se estranhe tão diminuta quantidade de famílias numa freguesia, pois a de Fiães continha 16 e Oliveira de Azeméis, nomeada simples aldeia, 74. Escapães 33 e Travanca e freguesia, 42. Nogueira da Regedoura e freg. 22. 35 «Actas das Comarcas dantre Tejo e Odiana e da Beira.», in «Archivo Histórico Português», vols.III, 1905, pg. 241, com notas de Braamcamp Ferreira, e VI, Jan. e Fev. 1908, p. 276. «Cadastro da população do Reino (1527). 36 Parece que São Nicolau entrou para orago das igrejas portuguesas só a partir do séc. XIII, 1200. Opinião de Pierre David, «Études Historiques», Lx. , 1947, pg. 237, citado por José Matoso em «Religião e Cultura na Idade Média», Temas Portugueses, Maio de 1981. No caso da Feira terá havido excepção porque o contexto histórico e documental nos leva a pressenti-lo antes dos finais de séc. XI, aliás em Braga duas excepções aponta o Padre Prof. Dr. Avelino de Jesus Costa, «O Bispo D. Pedro e a organização da diocese de Braga, Coimbra, 1959, pgs.293, 294 e 348, em que além disso substituiu invocações mais antigas. 34

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Igreja Românica de Riomeão.

Igreja Paroquial de Nogueira da Regedoura.

seu percurso de desenvolvimento populacional, deixaram parada e obliterada no tempo a descampada ermida que lhe terá servido de matriz nos primitivos tempos. Já na romanização, nos Godos? A verdade é que a documentação antiga deixa entrever no longo túnel da tradição uma réstia de luz que ilumina a deia de «A Senhora de Campos» terá sido a primeira igreja cristã desta comunidade e que por isso daí terá recebido o nome de «Terras de Santa Maria». É que repetidas vezes temos encontrado e em circunstâncias diversas referência à «freguesia de baixo» por oposição expressa à «freguesia de cima», e expressões similares, o que seriamente nos tem vindo a interpelar. O estranho é que nesta matéria ninguém tenha ainda pegado. E constituiria tema dos mais interessantes no complexo histórico do burgo da Feira.

E o que mais nos confirmou a ideia de « a Senhora de Campos» ter sido também muito primitiva freguesia, foi o seguinte:

Até de Nossa Senhora. Por São Bartolomeu no convento cisterciense de Santa Maria das Neves, dito dos Tamarães, Caxarias, Ourém, Conf. ‹‹Caxarias – a Terra e o Povo» do mesmo autor deste trabalho.

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4.3.2.5. Em 3 de Julho de 1550, Travanca estava prometida ao convento do Espírito Santo dos Lóios com o estatuto de anexa. Na sua posse plena entrariam logo que o prior Tristão de Pinho falecesse ou dela renunciasse. Optando por esta solução em que interfere o Conde D. Diogo Forjaz Pereira, o padre Tristão apresenta a sua renúncia e deixa Travanca nas mãos do cardeal João Sepontino,37 então Núncio do Papa em Portugal de é prova o documento seguinte: «Fundado nos seus poderes de legado a latere e na petição do conde D. Diogo e do Padre Geral e mais clérigos da Congregação alevantou em colegiada Apesar dos vários anos de desempenho dessa missão, desconhecemos a razão da sua ausência no elenco de núncios em Portugal citados por Fortunato de Almeida na sua «História da Igreja em Portugal».


a dita igreja de São Nicolau com sua anexa de Travanca ...e lhe concedeu todas as graças e privilégios...e que pudessem tomar logo posse das ditas igrejas e curar sem dependência ou licença alguma do ordinário. Esta graça foi concedida per suas bullas apostólicas aos 3 de Julho de 1550.» 38 «Porém insinuando-lhe (juntando-lhe) o tempo da renúncia do Dr. Frei Pedro Soares que foi no princípio ...de 1550, e a sentença do Núncio que foi em Julho do mesmo ano, e o tempo da confirmação de Júlio 3º que foi a 16 de Outubro de 1553, foram mais ou menos 3 anos ... porque logo haviam de tomar posse o que per descuido se não lançaria no cartório. Para mais segurança da nova erecção deste mosteiro, prevenindo possíveis e eventuais impugnações, o padre Geral em nome dos mais cónegos da Congregação agradece a Sua Santidade Júlio 3º onde relata a graça que o Cardeal Núncio do Reino tinha feito a esta Congregação em alevantar em igreja Colegiada a paroquial de São Nicolau e sua anexa de Travanca. O papa Júlio 3º passa o seu fiat em 15 de Setembro de 1553, e em 16 de Outubro de 1553, as Bullas da confirmação da graça concedida pelo cardeal Núncio ... e manda instituir as duas igrejas em Mosteiro Colegiada dos Cónegos seculares da Congregação de São João Evangelista e que as pudessem curar per Religiosos idóneos ... e que este novo mosteiro pudesse gozar de todos os privilégios, graças e indultos ... iguais aos mais Conventos da Congregação ... como consta nas ditas Bullas ... no Cartório, nº 3 e nº 4.» É assim que em 27 de Julho de 1554, o papa Júlio 3º passa a bula executória na qual concede aos provisores de Viseu e Lamego poderes de execução 38

Frei António de Santa Maria, «O Céo Aberto na Terra», pg. 282.

delas para que a Igreja de S. Nicolau e a de São Mamede de Travanca sua anexa se levantassem em Mosteiro Colegiada de Cónegos Seculares de São João Evangelista. 4..3.2.6. Como se vê destas transcrições dos documentos directamente respeitantes à fundação do convento do Espírito Santo da Feira, nem a mais ténue referência a Nogueira da Regedoura, nem à Comenda de Rio Meão. Mas temos por certo que o problema se levantou logo a seguir aos factos acabados de relatar, como é natural, e que logo as partes entre si procurassem solucioná-lo antes de o introduzir nos circuitos judiciais próprios. Terão os Lóios endurecido as negociações, conscientes de que o êxito da demanda era seguro por estarem directamente sob a jurisdição papal e protecção do rei. Estas, a nosso ver, as razões principais por que na matéria se não encontra qualquer interferência do bispo do Porto. Ao invés dos tribunais com jurisdição eclesiástica e civil em matéria de direito litigioso, chamados a dirimir o diferendo entre os Lóios da Feira e a Comenda de Rio Meão que reclamavam, cada um para si a posse da igreja de Nogueira com seus passais. 4.3.2.7. Como não encontrámos a introdução do processo, não fazemos ideia do preciso início da demanda, pelo que nos ficamos pelas fundadas conjecturas. Veja-se o documento: Não sabemos o que se terá passado entre aquele 16 de Outubro de 1553 e 15.6.1594. A verdade é que mais de 40 anos depois do facto aparentemente consumado o Comendador de Rio Meão, Roças e Frossos, Frei Duarte de

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Melo Ferreira vem com embargos contra o Reitor e Padres do Mosteiro da Feira sobre o direito de apresentação da Igreja de São Cristóvão de Nogueira sempre que esta vagasse por renúncia ou morte do Vigário, reitor, cura ou abade e ainda de receber as rendas e demais direitos que afinal a eles hospitalários de Malta cabiam por direito da idade da nacionalidade. Os Lóios da Feira fizeram-se representar por António Godinho, mercador de madeiras de naus, morador na cidade do Porto, «à porta do douro». Contradizem os Padres que há mais de 40 anos possuem pacificamente por bula de união ao Colégio da Feira in perpetuum da dita igreja e passais, publicada em 16 de Agosto de 1595 pela Santa Sé Apostólica por virtude de um rescrito de comissão do dito Patriarca de Jerusalém Fábio Biondo, Vice-legado,39 que por sua vez remete o caso para o Dr. Domingos Ribeiro, da Cúria de Braga que o remete para o Dr. Francisco Roiz Veloso, assessor da cúria, sob mandato do Patriarca de Jerusalém Fábio Biondo, em carta dada em Lisboa em 7.11.1596, sendo papa Clemente 8º, no 4º ano do seu pontificado. Até que chega a «Sentença:- Em 29 de Maio de 1596, vistos os autos foram os apelantes condenados pelo Dr. Domingos Ribeiro Cirne coadjuvado por Francisco Botelho de Figueiredo. Pagaria 9.848 rs.» 5. O Comendador de Rio Meão à partida, era um perdedor. Porquê? O problema ficou já apontado acima. 5.1. Mas, para além do que fica, e não seria pouco, os Lóios tinham também do seu lado a opinião pública. Homens surgidos num tempo de profunda 39

AHCMSMF – Convento dos Lóios, Livro 5, fls. 350 a 356, 359, 360 e segs.

degradação moral e social, a opção por um estilo de vida eclesial mereceu-lhes, logo de início, o apodo de «bons homens de Vilar». A nobre tentativa de conduzir a sociedade e a prática do cristianismo a caminhos mais de harmonia com o Evangelho necessariamente criava o efeito de vespeiro de que acabaram por ser vítimas. Surgem-lhes aqui e além novos conflitos em outras dioceses. Mas o caso de Nogueira é diferente, não único. E esta forma de atropelo de direitos adquiridos não podia ser-lhes favorável e sobretudo vinha manchar aquele apodo de «bons homens de Vilar», pela simples razão de que ninguém concordará com um empurrão para fora do caminho a outro que vai direito no seu. Sem consentimento, não é impunemente que alguém desaloja outro da cadeira ocupada por direito próprio. E, no fundo, foi o que aconteceu com os Lóios que expulsaram a Comenda de Rio Meão dos seus direitos relativos a Nogueira da Regedoura. Aos privilégios concedidos aos Lóios por vários pontífices, acrescenta D. Manuel, em 12.3.1516, a decisão de tomá-los sob a sua real protecção atendendo à isenção da jurisdição dos bispos. Apesar de todas as isenções e privilégios, o caso de Nogueira não podia deixar de criar dificuldades e atritos que levaram os nossos contendores aos tribunais civis e religiosos. Por quanto foi dito o Comendador de Rio Meão estava condenado ao fracasso. 5.2. Arbitrária a anexação de Nogueira? Perante o facto é legítima a interpelação. Porquê Nogueira e não outra, mesmo na esfera do domínio da Comenda de Rio Meão, como «Santiago de Lourosa, Escapães, Comenda de Santiago de Rio Meão, Maceda e Arada; Paços de Brandão e Nogueira


da Regedoura», eram do Padroado da Ordem do Hospital. 40 Para mais, sendo o pároco da apresentação da Comenda praticamente do início da nacionalidade? Para mais, todas as mencionadas estavam na Comenda por direito da apresentação do abade e por senhorio de vários casais.41 Perante o exposto mais ressaltam os passais que nenhuma possuía com a dimensão e rendimentos dos de Nogueira da Regedoura, e esse é que era o nó górdio da questão. Basta ter presente que o interesse pelos concursos dos abades do tempo à cura das paróquias se dimensionavam, infelizmente, na proporção directa dos rendimentos da paróquia e estes na directa dos réditos dos passais que os concorrentes bem conheciam. Realmente vastos, os passais da freguesia despertam e concitam o interesse das partes. Os Lóíos estão com as vultuosas obras da igreja nova e do convento. Perante as dificuldades de momento, valem-se da cobertura papal, entendemse com o núncio apostólico, negociam com o pároco Nuno de Carvalho a renúncia de modo a deixá-la vaga e consequentemente o caminho desimpedido para entrarem na sua posse. E desta forma «chamam» a si o senhorio sobre Nogueira.

«O Censual da Mitra do Porto, Diocese do Porto no século XVI», ed. 1972, pg. 114. Então São Nicolau da Feira era do padroado capitular, isto é, do Cabido da Sé do Porto. 41 «Rio Meão – a Terra e o Povo, na História», 2001, ed. Junta e Câmara, autor David Simões Rodrigues. 42 AHCMSMF – C/L, Lóios, Livro 5, pgs. 345, 1543. Documento além de em mau estado, de muito difícil leitura paleográfica de que apresentamos oportunamente neste trabalho fac-símile. 43 Deste modo, em 18 de Abril 1758, inicia o «Pároco Pedro Nolasco de Mattos». a sua resposta à Academia Real da História, aos interrogatórios contidos na carta de sua majestade por intermédio do bispo do Porto, D. Frei António de Sousa, Bispo da família dos Távoras, que assim assinava, após a sentença do marquês que condenou estes desgraçados aos mais terríveis e bárbaros suplícios. Obrigado a mudar o apelido, escolhe o «de Sousa». 40

A conclusão encontra suporte na leitura da documentação apresentada, e na ausência absoluta de outra de registo de documentos respeitantes ao caso conhecendo-se a escrupulosa celeridade dos frades em registar nos livros os direitos, pertenças e tenças, a menos que o caso constituísse excepção às suas regras, admissível só por academismo. 5.3. Nogueira da Regedoura, ligação com os Lóios 5.3.1. A Igreja de Nogueira da Regedoura em 1543 D. Frei Baltazar Limpo (1537-1550), já referido, procura, em 1543, inteirar-se da situação económica dos párocos e coadjutores, a partir dos rendimentos paroquiais, incluído o passal, determinando que, em todas as paróquias da diocese do Porto se faça tombo dos seus bens. Da interpelação episcopal ao abade de Nogueira nos chega a resposta, precioso documento cujo conteúdo serve para mais aprofundado conhecimento do percurso histórico de freguesia. E é assim que, em 22 de Setembro de 1543, na igreja de S. Cristóvão de Nogueira, felizmente, se faz «tombo das propriedades pertencentes à igreja... executado a pedido do seu abade Padre Rui de Carvalho», «d’apresentaçam da Comenda do Rio Meiom».42 Ao caso não será estranho o facto de os Lóios estarem ligados a Nogueira pelos casais entrados nos seus Tombos enquanto herdeiros dos conventos beneditinos de Vilar de Frades, Recião e Pombeiro, aqui em «Regedoura de Nogueira»,43 onde três casais confrontam com os passais cuja considerável área

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territorial ia desde o Barreiro, incluído, onde se situava a «igreja velha», até Souto da Estrada, também incluído, onde, pouco depois de 1534, se veio a construir a «igreja nova». Recorde-se que se antevia fácil a obtenção desta igreja e passais. Militavam a seu favor, por um lado, as boas graças do papa sob cuja directa dependência se haviam colocado; por outro, a protecção expressa de «D. Manuel (que) encarregou o seu embaixador de interceder em Roma a favor das isenções e privilégios da ordem.»44 Mas, do privilégio, documento algum é apresentado e a justificação não se mostra apodíctica. Por isso, como se vê, Nogueira da Regedoura encontrase, historicamente, no cruzamento das linhas da história dos Lóios da Feira. Ora, por força destas e de outras Corpo Diplomático, tomo XI, pg. 185 e segs.; Frei Francisco de Santa Maria, «O Céu Aberto na Terra», pg. 317 e segs.; Fortunato de Almeida, «História da Igreja em Portugal» vol. I, pg. 168 e II, pg. 340. 45 «A Terra da Maia», vol. 1, pag. 95, Porto, 1939, Padre Agostinho de Azevedo. Citado pelo Padre Miguel de Oliveira, «Ovar na Idade Média, pg. 223, ediç. Câmara de Ovar, 1967. 44

circunstâncias estavam criadas as condições para um conflito de choque de interesses. Os de Malta, Comenda de Rio Meão, porque privados de benefícios seculares; os Lóios porque não dispostos a abrir mão de benesse tão apetecível. 5.3.2. São Cristóvão de Nogueira da Regedoura. Nogueira da Regedoura consta já da relação de igrejas inserta no Censual do Cabido do Porto a propósito e enquadrada nos censos que devia cada uma pagar ao seu bispo. Ora o Censual em questão deve remontar ao séc. XII, organizado possivelmente entre 1174 e 1185. Por isso, finais do século XII. Constitui, assim, a mais antiga lista das paróquias da diocese portucalense.45 Nessa lista nomeia-se a «Ecclesia S. Christofori de Nucaria de Rugidoira.» 5.3.3. As Inquirições de D. Afonso II em 1220 sobre as terras da propriedade das igrejas, ordens


religiosas conventuais e militares, na Terra de Santa Maria, na menção 34 dizem: «In frigisia de Nogeira de Livaes habet Ecclesiola V casalia, et Palumbario III casalia media et Ospital V casalia et ipsam ecclesiam.»46 Claramente se vê que em 1220, séc. XIII, na inquirição ordenada por D. Afonso II (1211-1223) destinada a identificar as propriedades das igrejas, Mosteiros, Ordens Militares e outras entidades sitas em cada uma dessas freguesias, diz-se que, na de Nogueira de (O)Livaes, o convento de Grijó tem 5 casais, o convento dos beneditinos de Pombeiro, tem 3 casais e meio, a Ordem Militar do Hospital47 tem 5 casais e a própria igreja.48 Da jurisdição da Comenda de Rio Meão saiu apenas o direito de apresentação e o que isso representava na percepção dos rendimentos ou réditos da igreja. Na verdade os 5 casais que já em 1220 a Ordem do Hospital possuía aqui continuavam em 1731, pois constam do Tombo da Comenda de Rio Meão elaborado neste ano. O convento de Pombeiro detentor aqui de 3 (três) casais é que se viu deles esbulhado a

Ovar na Idade Média, P.e Miguel de Oliveira, ed. da Câmara M. de Ovar, 1967, pg. 227 e 229. Rio Meão a Terra e o Povo, Vol. I, pg. 60, edição da Junta de Freguesia e Câmara da Feira, 2001, David Simões Rodrigues,. ANTT, Gaveta I, Maço 7, nº 20. 47 Ordem militar fundada em Jerusalém no tempo das Cruzadas destinada a cuidar dos doentes e feridos nos combates para desalojar os maometanos do Santo Sepulcro. Tomaram de início o nome de Ordem dos Hospitalários ou Cavaleiros de São João de Jerusalém. Estabelecidos em 1530 na ilha mediterrânea de Malta, concedida por Carlos V de Espanha, passaram a ser conhecidos mais por Cavaleiros de Malta ou, mais frequentemente, Ordem de Malta. 48 «In frigisia de Nogeira de Livaes habet Ecclesiola V casalia, et Palumbario IIJ casalia media, et Ospital V casalia et ipsam ecclesiam. » - Neste «Ospital» leiase: «Ordem de Malta», Comenda de Rio Meão. 49 Para mais pormenores, consultar «Rio Meão – a Terra e o Povo», edição da Junta e da Câmara da Feira, 2 vols., edição de 2001, autor, David Simões Rodrigues. 46

favor dos Lóios, no mesmo processo que lhes deu o direito de padroado sobre a respectiva igreja em 1566. 6. A anexação de Nogueira da Regedoura, os problemas daí resultantes As anexações das igrejas aos Lóios foram em geral pacíficas. Nogueira da Regedoura foi a grande excepção. Compreende-se na medida em que estava na posse da Comenda de Rio Meão, da Ordem de Malta, e foi-lhe subtraída diríamos, à falsa fé. 6.1. Os Lóios, ou frades azuis, uma vez na Feira, 1560, e tratam de avocar a si esta freguesia cujos passais seriam dos maiores das freguesias suas vizinhas. Ora o facto não podia deixar de levantar séria celeuma entre as partes, 49 Lóios e Comenda de Rio Meão, dirimindo cada qual argumentos pelas formas e meios ao seu alcance. Mas os Azuis e seus defensores não nos convenceram de todo com os argumentos e a forma da apresentação que deles fizeram os abades de Escapães e de Travanca convidados pelos Lóios. Vê-se que aceitaram o convite de defensores mais como quem faz o jeito que por convicção da justiça a prestar. O cura de Travanca desde o início que foi da nomeação do convento, sua anexa. Dizem-se escudados em documento pontifício alegadamente arquivado no cartório do convento. Porém, sendo fundamental num processo probatório como o destas reivindicações, nunca nada exibiram, nem transcreveram, que mostrasse existir sequer pública forma. Ora, tal procedimento deveria ser o primeiro, porque essencial em qualquer processo que se preza da mínima consistência para desfazer dúvidas reais, aqui no sentido jurídico do termo, Reais.

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Gastaram tempo, latim, papel e palavras em digressão por sumidades da jurisprudência civil e eclesiástica, em que se detiveram citando a despropósito num evidente e puro eruditismo exibicionista de argumentação barroca. Estava-se no tempo desta forma de estado de alma colectivo, cujos reflexos são por demais evidentes em todas as formas de expressão das letras e das artes plásticas. A verdade é que, uma vez mais, apenas vão referindo à distância a documentação, mas quanto a transcrevê-la, mostrar dela algo por exíguo que possa servir de base e dar alguma consistência à argumentação produzida, absolutamente nada, bem ao contrário de situações similares do tempo.50 Longa de 30 anos a 82

polémica, tantos quantos os que vão de 1566, logo após a anexação, e 1596 em que teve seu termo. Ainda que os frades e os defensores abades de Escapães e de Travanca vão fazendo render o peixe dizendo que seriam mais de 40 anos. 6.2. Documentação do processo dos dois contendores. Resposta ao recurso. 6.2.1. O padroado no Livro 9, Convento dos Lóios, Feira. Em 15 de Junho de 1594, «O Dr. Domingos Ribeiro Cirne, Arcipreste na Santa See de Braga ... nesta corte do desembargo de El-Rey nosso Senhor, Juiz Conservador das Ordens Militares nesta Corte, Juiz Haja vista o longo litígio que opôs também novos direitos de apresentação adquiridos pelos padres Jesuítas do Colégio de Coimbra sobre as igrejas de Sanguedo, Vila Maior e Paramos, entre outras, antigamente do convento beneditino de Pedroso, e os caducados direitos da cúria e cabido do Porto. Neste processo de muitas centenas de folhas, encontramos os breves e bulas pontifícios transcritos de verbo ad verbum a suportarem a argumentação de cada uma das partes em confronto. Porém, aqui, absolutamente nada.

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Comissário Apostólico do negócio e causa de que ao diante se fará menção, a quantos esta minha carta de sentença for apresentada e o conhecimento della tiverem, saúde e paz em Deos Nosso Senhor, faço saber que por vertude da comissão do Ilustríssimo e Rev.mo Sr. D. Fábio Patriarcha de hierusalem vice legado em estes Reinos e negócios de Portugal do nosso Santíssimo Padre o papa.. por apelação ao Dr. Provedor de Olivença Auditor da causa da alegação entre partes, convém a saber... Frei Duarte de Mello Ferreira, Comendador da Comenda de Rio Meão, Roças e Froços da Ordem de São João de hierusalem, apelante contra o Reitor e Padres do Mosteiro de São Nicolau da terra da Feira bispado do Porto, da ordem de Santo Eloy Reus apellados pellos quais o autor entre outras cousas ... se mostrava .... impetrando ao dito senhor vice legado concedesse rescrito e comissão appostólica ao dito Auditor em primeira instância havendo conhecimento da causa que queriam intentar ... contra o Padre Pedro da Assunção e outros Religiosos e o Padre Geral da Ordem de Santo Eloy sobre a apresentação do Vigário da igreja de São Cristóvão de Nogueira da Regedoura do bispado do Porto... (f. 351 v.) Por isso requeriam que continuassem a apresentar o Reitor, cura ou abade, sempre que vagasse, e ainda fazer o recebimento das rendas e demais direitos que a eles hospitaleiros de Malta lhes cabiam por direito antigo...» Era 15 de Junho de 1594. (Fl. 353 v e 354) 6.2.2. Vem o Reitor dos Lóios com a Bula papal dita publicada em 16 de Agosto de 1595. Alega existir esta no cartório do convento e nela, dizem, o Papa consignara a união da igreja de Nogueira


da Regedoura ao Colégio da Feira na forma e teor seguinte: «Ilustríssimo e Reverendíssimo Senhor segundo aos autos da causa apresentada ao Sereníssimo legado Auditor em que são partes de um lado o impetrante, Ilustríssimo e Reverendíssimo comendador Eduardo de Mello Ferreira e do outro os padres de São Nicolau da Feira da ordem de S. João de Jerusalém disputando sobre direitos sobre a igreja de S. Chrisóvão de Nogueira da Regedoura e também sobre a união da mesma igreja sobre que o dito Comendador recebeu definitiva sentença contrária ao direito, estando por isso na disposição de recorrer para a Santa Sé. (fl. 355 v) Em vista disso foi a causa entregue ao licenciado Francisco Roiz Veloso também residdente na cúria como assessor da justiça. Fabius Patriarcha hierosolimitanus, legatus. Datum ulixbone septimo idus Novembris Pontificatus sanctissimi Domini nostri Clementis papa octavi anno quarto pro omnibus....»51 (7.11.1596) Remetido o processo ao Dr. Domingos Ribeiro Cyrne, para que ouça as partes. (fl. 360 e v) «In Dei nomine Amen. Saybão quantos este estromento de justiça virem que a requerimento do Padre Balthesar de Christos Rector que se diz ser do Mosteiro de S. Nicolau junto da Villa da Feyra, deste Bispado do Porto, da Ordem de Santo Eloy com ho traslado da carta citatoria, inibitoria, compulsoria, por vertude da qual ... lhe fiz a tal citação ao diante escripta de verbo ad verbum he o seguinte : « O Doutor Pero de Olivença do desembarguo de Sua Alteza nosso Senhor em sua corte e casa da Suplicação e do inquisidor apostoliquo na cidade 51

O papa Clemente 8º, 1592-1605. Se foi no seu quarto no de pontificado, 1596.

de Evora ... e do muito alto e sereníssimo (fl. 361) príncipe Alberto, Archiduque de Austria, por mercê de Deos e da Santa Igreja de Roma Cardeal do título da Santa Cruz em Hierusalem, legado a latere nestes Reynos e Senhorios de Portugal pelo nosso Santo Padre Clemente pela divina providência papa oitavo... Juiz Comissário apostolico da causa e negocio de que ao diante se fará declarada... paz e bem... faço saber que por parte de Duarte de Mello Ferreira da Ordem de São João de Jerusalem, Comendador da Igreja de Rio Meão da dita Ordem me foi apresentada sua súplica com sua comissão ao pee della, do Ilustríssimo e Rev.mo sr. Dom Fábio Biondo Patriarcha de Jerusalem vice legado nos ditos reinos pelo dito sereníssimo príncipe Alberto cardeal legado e com ella me foi requerido em nome do dito impetrante houvesse por bem aceitar e me pronunciar... e eu como filho obediente aos mandatos apostólicos aceitei... e prometi dar a devida execução... ...O devoto impetrante Frei Eduardo, ou Duarte, de Melo, Comendador da igreja de Rio Meão da Ordem de São João de Jerusalem tem um libelo contra Frei Pedro da Assunção e outros Religiosos, incluso o padre Geral da Ordem de Santo Elói, ainda que isentos, respeitante ao direito de apresentação do cura na Igreja de São Cristóvão da freguesia de Nogueira da diocese do Porto, igreja que, com todas as suas rendas, legitimamente pertencia a ele comendador da referida igreja de Rio Meão que gozava o legitimo direito de prover a dita de Nogueira com a nomeação de um clérigo probo e douto, que estivesse investido na dignidade ecclesiastica,e pede a sua continuidade.»fl. 362 No fim desta súplica segue a comissão do dito Patriarca vice-legado e por ele assinada, com

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seu traslado na forma da tradução seguinte, segundo permite o mal transcrito e truncado latim: «Mandamos que o Auditor do sereníssimo legado cite..e proceda na forma pedida e faça justiça, pois tem o assentimento do Cardeal Fábio Patriarca de Jerusalém vice-legado do Papa. Dada em Lisboa no décimo sexto dia antes das calendas de Junho,(17 de Maio de 1594), no terceiro ano do pontificado do Papa Clemente oitavo. Por tudo pagou de emolumentos Duc. 3, e U, 2,. Christophorus Rannolinus.» 6.2.3. Diz Pedro de Olivença:

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«Aceite assim por mim a dita comissão me foi requerido com muita instância em nome do dito Duarte de Mello impetrante na dita súplica primeiramente nomeado procedesse à sua execução ...e mandasse passar minha carta citatória, inibitória e compulsória. Por seu dizer e pedido lhe mandei passar a presente pelo teor da qual autoridade apostólica sob pena de excomunhão ipso facto incurrenda e de 50 cruzados applicados para a Santa Cruzada...(f. 362 v) determino que sendo-vos esta apresentada ... logo, com muita diligência e segredo, lhe deis execução... Chegue ao padre Pedro da Assunção na dita súplica segundariamente nomeado e bem assim a quaisquer outras pessoas eclesiásticas e seculares que na execução desta forem nomeadas aos quais e cada um citareis em suas pessoas se para isso comodamente Sintomática esta expressão referente à localização do convento dos Lóios que o dá como fora de portas da vila. Não é a primeira vez. Seria curioso o trabalho que definisse o sítio exacto do início da Vila desses tempos, 1500/ 1600. Como já dissemos algures, o âmbito urbano da «Vila da Feira» era mesmo muito restrito, pois não ia além da Rua, stricto sensu, e não passaria da igreja da Misericórdia, e não teria bem início na curva da estrada que passando pela frente da igreja matriz dá acesso às Justas. A Feira urbana era a Rua. À volta campos de Quintas.

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as poderdes haver e achar, quando não, em pessoa de hum familiar da casa onde morem ... ou vizinho mais chegado... » Lisboa, 5 de Maio de 1594. a) Pedro de Olivença» (f. 364 v) 6.2.4. Audição do Padre Baltazar de Cristos, Reitor dos Lóios da Feira. 1.6.1594. «Cópia do requerimento do Rev. P.e Balthesar de Christos que diz ser Reitor do dito mosteiro de São Nicolau da Ordem de Santo Eloy sito junto da villa da Feira.52 Certifiquo, eu Gaspar Correia, publico notario aprovado pelo ordinario deste bispado da cidade do Porto e nella morador e dou fé que, ao primeiro dia do mês de Junho de 1594 anos, nesta cidade do Porto, a requerimento do Ilustrissimo Frei Duarte de Mello Ferreira, comendador da Igreja de Rio Meão, citei e emprazei por vertude da propria carta citatoria, inibitoria e compulsória do senhor Doctor Pedro de Olivença auditor da legacia de sua Alteza donde he o traslado que emanou do Reverendo Padre Balthesar de Christos ... do convento de São Nicolau ... sito junto da Vila da Feira ... e lhe assinei aos nove dias para as ditas diligências...» «... e estando eu para por o meu sinal publico nesta certidão apareceu à porta de mim notário e se apeou da sua cavalgadura e surgiu à minha casa lendo eu a dita certidão ao dito Padre da sua resposta, foi dito por António Ribeiro, criado e requerente do dito comendador, que chegando que tão bem fez, que o dito padre andava a cavalo pola cidade e vinha a minha casa e declaro eu Pedro (de Olivença) que o dito Padre Balthesar disse a mim notario que ele não era Pero de Assunção mas que era Rector do dito Mosteiro de São Nicolau da Feyra e por


passar na cidade aqui (estava) e assinei de meu publiquo sinal por me ser rogado e requerido.» «Tu és Petrus et super edificabo ecclesiam meam». Gaspar Correa. Em 9 de Maio 1594. (f. 365 v) O Dr. Pedro de Olivença, Inquisidor Apostólico do distrito e cidade de Évora, do Desembargo de El Rei em sua corte e Casa da Suplicação, Tesoureiro na Santa Sé da cidade de Braga, nesta corte residente, Auditor Geral das causas da legacia do Príncipe Alberto cardeal do título da Santa Cruz em Jerusalém, Arquiduque de Áustria, legado a latere do papa Clemente oitavo,(f. 366 e v) «... por comissão do patriarca de Jerusalem Fabio vice legado aparece Duarte de Mello Comendador da Ordem de São João de Jerusalém impetrando contra os padres do Colégio de terra da Feira sobre a apresentação da igreja de Rio Meão. Dada a sentença definitiva em favor dos ditos padres e seu mosteiro da qual sentença se apelou por parte do dito Frei Duarte de Mello e lhe recebi sua apelação... onde os padres incitavam a que abandonasse a sua apelação o que fez e aconteceu tendo sdo dada sentença em 9 de Novembro de 1595. Pedro de Olivença. (f. 368 v, --- 12.12.1595 f. 369 --- 19.12.1595, certifica e autentica. Em 15 de Julho de 1594, o Dr. Domingos Ribeiro Cirne, 53 por comissão do Patriarca de Jerusalém, D. Fábio Biondo,54 por apelação para o Dr. Provedor de Olivença, Auditor da alegação entre as partes, ainda sentenciava neste processo a favor do Comendador da igreja de Rio Meão e contra o Reitor e Padres do mosteiro da Feira, da Ordem de Santo Elói, mosteiro representado pelo Padre Frei Pedro da Assunção. Por aqui obtiveram os Hospitaleiros sentença condenatória dos Padres sobre o direito de apresentação

do Vigário da Igreja de São Cristóvão de Nogueira da Regedoura a qual apresentação queriam continuar sempre que vagasse. Mais requeriam a recolha das rendas e demais direitos que a eles hospitaleiros de Malta lhes cabiam por direito antigo. Isto representaram eles ao Provedor de Olivença, Auditor nomeado para esta causa, sentença em 15 de Junho de 1594 contra os ditos Lóios representados nos autos por António Godinho, mercador de madeiras de naus, morador na cidade do Porto «à porta de ouro». E logo disse que ficava fiador e principal pagador de Frei Duarte de Melo Ferreira.55 Contraditaram os Lóios que não, que os de Malta já não estavam na posse pacífica de Nogueira por esta ter sido unida « in perpetuum» com suas rendas ao seu mosteiro, havia mais de 40 anos. Contas feitas, por 1556, quando se estavam a instalar na Feira. Desse facto mencionam que do arquivo do seu convento consta «Uma executorial das bulas da anexação da nossa igreja de Nogueira da Regedoira.» 56 6.2.5. Desfecho de todo este processo. Em 9 de Novembro de 1595,57 o Dr. Pedro de Olivença, inquisidor apostólico do distrito e cidade de Évora, Senhor do Desembargo do Paço de El-Rei D. Filipe I e casa da Suplicação, tesoureiro na Sé de Este Cirne era Arcipreste da Sé de Braga, do desembargo de El-Rei, Juiz conservador das ordens militares nesta corte, Juiz comissário apostólico dos negócios e causas litigiosas. 54 Patriarca de Jerusalém, vice-legado papal nestes Reinos de Portugal para tratar dos assuntos papais, mas por comissão do príncipe e cardeal D. Alberto, Arquiduque de Áustria que fora já cardeal a latere do pontífice de Roma em Portugal. Era cardeal do título de Santa Cruz de Jerusalém., legado a latere do papa Clemente VIII. 55 ACMSMF – Convento dos Lóios, Livro 5, fls. 350, a 352 v. 56 ADA – Revista Distrital de Documentação, História e cultura, Vol. XVII, pg. 57. 57 AHMSMF – Convento dos Lóios, L. 9, pg. 366,) 53

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Braga, residente nesta corte, Auditor Geral das causas da legacia do muito excelente príncipe Alberto, cardeal 58 do título de Santa Cruz de Jerusalém, Arquiduque de Áustria, legado a latere do papa Clemente oitavo, por comissão do Patriarca de Jerusalém, vice- legado, Fábio Biondo, deu sentença definitiva contra o comendador da Comenda de Malta de Rio Meão (Feira) D. Eduardo de Melo Ferreira, a favor dos padres do convento do Espírito Santo da Feira, sobre a apresentação do abade da igreja de Nogueira da Regedoura de que o dito Comendador havia já apelado. Dada a sentença decisória em 12 de Dezembro de 1595, dela é notificado, em 19 seguinte, pelo Dr. Pedro de Olivença que passa dela o respectivo certificado.59 Mas curioso é que o Lóio alega em seu favor a publicação de uma bula em 16 de Agosto de 1595, e logo a seguir se introduz a data de 1596. (ibidem pg. 354), transcrevendo a pg. 356 ao centro, uma sentença de 29 de Maio de 1596, embora a pg. 355v, se faça referência ao documento datado de Lisboa em 7 de Novembro de 1596 onde o Dr. Francisco Roiz Veloso, assessor da justiça, é convidado a agir de harmonia com o disposto pelo Patriarca de Jerusalém, Fábio Biondo, sob a autoridade do papa Clemente VIII. (ibidem pg. 355v) Também não entendemos como os Lóios referenciam bulas de concessão da igreja de Nogueira, como se o acto de posse validasse nesta altura quando contraditoriamente referem bula de idêntico teor passada por 1556, como se viu acima. Algo está errado. Cardeal Alberto, da família real portuguesa e desempenhava na altura funções de núncio e de elo de ligação dos assuntos portugueses com a Áustria. 59 AHCMSF – Convento dos Lóios, L. 9, pg. 366 v a 369 60 ACMSMF – Conventos dos Lóios, Livro 5, fls. 44 e 350; ibidem, Livro 9, fls., 46.. 58

Em 29 de Maio de 1596 referido, os Lóios apresentam sentença contra os moradores de Rio Meão sobre a Igreja de Nogueira alcançada em Braga em 1596. Aí, além da proposta de resolução de direito sobre os embargos do Comendador de Rio Meão à união da Igreja de S. Cristóvão, consta a sentença ditando a impossibilidade de reaver a igreja, o direito de nomeação, e a revelação das custas do perdedor, no montante de 9.848 réis. (fl. 356/7v) 60 Fosse por que fosse, o Comendador de Rio Meão, Frei Duarte de Melo Ferreira, perdeu a demanda a favor dos Lóios. Mas estava escrito que aos Lóios a igreja de Nogueira havia de pertencer. Muito simples as contas: Eles queriam-na; o rei D. Manuel tomara-os sob sua protecção e sob protecção real continuaram; por outro lado colocaram-se fora da jurisdição episcopal, para ficarem na dependência da autoridade papal. O resto estava por conta dos reis e rainhas que tratariam directamente dos assuntos emergentes com os soberanos pontífices de Roma. Por isso, com as coisas neste pé, tudo estava de antemão resolvido, insinuados que estavam nos ânimos reais. Ora haviam criado sólida situação porque dotada de todos os condimentos políticos, sociais e religiosos favoráveis a uma demanda vitoriosa. Foi o que aconteceu. Por isso dizíamos que logo à partida os queixosos eram perdedores. Para cumprimento das formalidades legais e apresentação de razões sem razão, nomearam os Lóios defensores dois abades, o de Escapães e o de Travanca, que apenas se limitaram a debitar palavras, nada dizendo que não estivesse já dito, que era nada.


6.3. Diz o abade de Escapães «Vy as bullas da união da Igreja de Nogueira e vistas as clausulas me parece o seguinte: Primeiramente ainda que a igreja seja do dereyto de padroado de Rio Meão que he comenda da Ordem de Malta, e ainda que em seus privilégios e indultos o santo padre lhes tenha concedido que lhe não lhes possam tirar os benefícios sem fazer menção especial da sua ordem ou derroguar seus privilégios e indultos, e ainda que tenham decreto irritante pello qual o santo padre aja por nullo e de nenhum vigor tudo o que se fizer contra a forma das suas concessões,... com tudo isto me parece que as letras estão boas e válidas». (f.. 370) Primo por que na bulla se faz expressamente menção de que este benefício he do dereyto de padroado da ordem de Malta, e sabendo isto o Santo Padre, hoc non obstante, a quis unir (ao convento dos Lóios) pello que quis derroguar a seus indultos. Nem obsta que os indultos dos de Malta diguão que não possão ser derroguados, se não derrogarem especialmente os tais privilégios. E, como na bulla, ainda que se faz menção do direito de padroado, o papa não o derrogou especialmente, podia fazer duujda. Mas a isto respondo que hua clausula derroguatoria que vem na bulla.» 61 6.4. O Padre António da Costa, cura de Travanca, vem e debita Tendo eu visto as letras estou certo de que devem ser julgadas por boas, pois: a). Os padres na súplica tudo declaram a sua santidade: que Nogueira estava anexa à de Rio

Meão da Ordem de Malta pelos antigos pontífices de Roma e que, não obstante, pediram a união dela à sua do Convento da Feira, o que lhes foi concedido. b). Nas tais bulas, dizem eles que visto a igreja ter vagado pela renunciação feita à Cúria Romana pelo seu prior que colocou nas mãos desta, foi declarado o Jus patronatus. Nestas circunstâncias, a mesma Cúria uniu a freguesia de Nogueira à de São Nicolau, in perpetuum, pese soubesse que o seu padroado pertencia à Ordem de Malta de Rio Meão. c). Além de tudo o mais, o papa, senhor de plenos poderes eclesiásticos, os que estiverem vagos, pode legitimamente dá-los a quem muito bem entender. E foi o que aconteceu62 d). Acresce ainda que o papa estaria muito bem informado da situação pelo que no caso não teve dúvida em usar dos seus poderes e uni-la in perpetuum. «....sempre as igrejas de S. Cristóvão de Nogueira da Regedoura, de Lourosa e Escapães cujas apresentações, embora pertença de Rio Meão, sempre foram costumeiras andarem em clérigos do hábito de São Pedro. Nem basta que o Sr. Comendador alegue que andou em clérigos do hábito de Malta, porque assim como para introduzir costume bastão dez anos assim para desfazer o costume bastam outros dez anos... nesta igreja há mais de 40 anos que não esteve clérigo do hábito( de Malta) mas sim todos (do hábito) de São Pedro... mandando o Santo Papa Pio V na última bulla que os apresentem aos bispos ... é grave não lhos apresentem os da Ordem de Malta, e julguem da sua idoneidade e lhes concedam as necessárias jurisdições para confessar, casar,...» sujeitando à nulidade actos para os quais carecem de jurisdição.(f. 373) ACMSMF – Convento dos Lóios, L. 5, f. 370 e 371. Estas salsadas também fazem parte da história. 62 AHCMSF – Convento dos Lóios, Livro 5, pg. 371 v e 372 e v 61

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«Vi as letras da união da igreja de São Cristóvão à de São Nicolau e estudei sobre elas e por graça os padres as quiseram mostrar a todo o mundo mas como não querem quebrar (os selos?) ... ficaram em seus cartórios....» f. 374 e 374 v. Julgo por isso, prossegue o Cura de Travanca, «...que o Sr. Comendador de Rio Meão em consciência deve desistir de toda a pretensão e demanda que traz contra os padres Lóios da Feira pois estão em pacífica posse da sua boa união feita pelo santo padre... que quis unir in perpetuum para património ao dito convento da feira...me parece se deviam de condenar e repreender os ditos padres Lóios mais de pusilânimes que louvar de constantes em não querer amostrar as bulas da união pois estão tão claras e tão confirmadas com sua posse de tanto tempo...»63 6.5. A réplica do Comendador de Rio Meão Bem replicou o Comendador alegando que a famigerada e invisível bula de união perpétua não menciona o papa que a emitiu para além de que sempre fora provida de curas do hábito de Malta. Contraditou o P.e António da Costa com os mesmos inconsistentes argumentos: vi as bulas, (fechadas ainda com os selos?); foi vontade do papa uni-la in perpetuum, (como viu que era vontade do papa se as mantiveram fechadas para lhes não quebrar os selos?) 64 Estava escrito que os Lóios haviam de ser os apresentadores do cura e recebedores das rendas da igreja e de seus vastos passais. Quanto aos 5 casais de Malta nesta freguesia informa o cura , em 1758, que os cavaleiros de Malta da Comenda de Rio Meão continuavam na sua posse .65

6.5.1. O tombo da igreja de Nogueira de 22.9.1543 e as terras de outras Ordens. Confluente com a Ordem do Hospital encontramos o convento beneditino de Recião cuja extinção levou os seus bens ao de Vilar de Frades de que os Lóios se tornaram senhores por mercê do arcebispo de Braga, D. Fernando da Guerra, que lhes deu guarida. Chegámos ao conhecimento destes circuitos ao encontrar a tombação dos passais da igreja de Nogueira feita, em 22 de Setembro de 1543, a que se procedeu, por ordem do bispo do Porto, D. Frei Baltazar Limpo, 66 extensiva a toda a diocese. Aí três cortinhas dos passais da igreja partem com três «terras dos casays do mosteiro de Vilar de Frades...:» Os passais da igreja protraíam-se por considerável área de solo fértil. Cobriam nada menos que 14.746,5 passos de extensão, que consumiam, de semeadura, 47 alqueires de pão; mais 2 alqueires Aqui se diz, a título de exemplo, que, além de Nogueira, eram providas pelos Ferreiras de Malta da Comenda de Rio Meão com clérigos do hábito de São Pedro, as igrejas de: Lourosa e Escapães. Acrescentamos, também a de Paços de Brandão, nem sempre pacífica, rebeldia dos próprios apresentados insubmissos ao Comendador. Conf. «Rio Meão- a Terra e o Povo» do mesmo autor. 64 AHCMSF – Convento dos Lóios, Livro 5, pg. 374 e v) 65 ANTT – Dicionário Geográfico de Portugal , 1758, vol. , fl. 66 O bispo, no ano seguinte à sua sagração episcopal, visita todas as paróquias da diocese, vê o estado de descuido em que as tinham os curas oficiais, muitos deles ausentes, deixando-se substituídos a troco de côdea seca por clérigos sem curato naturais da própria ou nela residentes. Vendo os problemas espirituais daí resultantes e a exploração do homem pelo homem em claro abuso da posição de superioridade, o bispo decide tomar a peito a solução de problemas sociais e religiosos tão graves. Nesta ronda pela diocese fica tristemente surpreso com o espectáculo mais grave que suspeitava como era a exploração escrava a que muitos párocos titulares sujeitavam outros padres e tão padres como eles a quem, a troco de miserável remuneração, punham a cuidar das paróquias para que haviam feito concurso e nelas empossados. Para agir com conhecimento de causa, firmeza, autoridade e de harmonia com as novas orientações do Concílio de Trento ainda em curso, de modo a extirpar tão lamentável estado de exploração dos servos e de abandono espiritual das paróquias, reúne o sínodo diocesano, em 1540 publica as constituições que vieram actualizar as publicadas por D. Diogo de Sousa, em 1496. 63


de semente de linhaça; fora as vinhas que davam 15 a 20 almudes de vinho uns anos por outros, a que se deve acrescer «um milheiro de arcos67 de castanho de 5 em 5 anos» para além das rendas das casas dos caseiros. As terras de Vilar de Frades que passaram aos Lóios. 1) «Item outra cortynha que está detrás da ousya da dita igreja... da banda do soam (Sul)... com terras de casays do mosteiro de Vilar de Frades...» 2) «Item outra cortynha que se chama ha da Vinha que parte... do soam com terras dos casais de Vylar de Frades... » 3) «Item... huã irmida dentro na freigesya que se chama Santo André que tem harredor de sy huãs teRas que levaram de semeadura qynze ou vynte alqueires de pam pouquo mais ou menos e que partem do vendaval com terras dos casais de Vylar de Frades».69 68

6.5.2. Em 1543, Nogueira e a apalaçada casa paroquial, sita junto à igreja no Barreiro Da mesma tombação constam casas e sua descrição, adega e aidos. Poucas freguesias se podem orgulhar de ter os pormenores da sua vida paroquial antiga como Nogueira da Regedoura. E aqui está o lado Medida de madeiras em rolos. « Ousia», provém do étimo grego «απsιδε», no latim «abside ou absidia», cuja evolução fonética veio a originar «ousia», aqui, significando, por extensão, a parte exterior da igreja atrás da capela-mor. 69 ACMSF – Convento dos Lóios, Livro 5, fls. 345 a 349. «Auto do tombo das propriedades pertencentes à igreja de S. Cristóvão de Nogueira (C. Feira), executado a pedido do seu abade, P.e Rui Carvalho.» Este o documento pelo qual ficámos a saber que em 1543, no cartório paroquial, (que não existia), nem um documento havia dos aforamentos, nem registo algum de quaisquer actos paroquiais: baptismos, casamento e óbitos. Por isso não havia cartório. Assim declarou neste tombo o abade interveniente Rui Carvalho perante as testemunhas e o tabelião da Feira Pêro Fernandes, que em 1560 renuncia do seu curato em favor dos Lóios que ali colocam padre seu. 67 68

bom da questão que envolveu os Lóios e o Comendador de Rio Meão que deixou imensa informação histórica da sua vida de há 450 anos. Eis: Huãs casas térreas repartidas em quatro 70 casas scilicet huã sala e duas camaras huã em huã banda, houtra em outra, he huã adegua, em que vive he se recolhe ho dito abade.71 Item huã varanda diante das casas do comprimento delas as quais varandas he casas som todas telhadas. Item outras casas defronte delas em que ora vive ho caseiro tãobem terreas, collmadas a mor parte, hua outra telhada e no cabo destas casas do caseiro hum palheiro colmado. Item hum corrall grande de gado que esta junto da emtrada do adro ( da igreja antiga, de certo) hum pouquo hafastado dele e tem mais hum coberto a padeeira colmado em que se recolhe o povo no tempo do malhar da novydade, has quais casas tem darredor de sy os quampos he terras he vinhas e devesas segyntes: 1. Item os ditos passays tem cinquo cortynhas// (Fl. 346vº) scilicet hua cortynha que se chama do Carvalho... 2. Item outra...que se chama da Eira... 3. Item outra... que se chama do Castynheiro... 4. Item outra... que está detrás da ousya 72da dita igreja... 5. Item outra ... que se chama da Vinha..... Aqui,. entenda-se «casas» no sentido de «compartimentos.» Poderá parecer que o abade se recolhia na adega, nada impossível, mas o que se diz em deficiente construção sintagmática geradora de caricata ambiguidade é que o abade habitava a casa que tinha a sua adega. 72 Trata-se da ΑΠοσιδε, ábside, absídea> ausidea > ausiea > ausia > ousia, parte atrás do altar mor. Aqui, por metonimização, a parte exterior da igreja do lado do altar mor, por onde se estendiam os largos passais da freguesia, aqui em tratamento histórico. O cemitério está dentro dos antigos passais que vinham desde o Barreiro. 70 71

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6. Item uma devesa de castanho... 7. Item outro pedaço de campo... detras das casa do caseiro, pegado com elas, pyqueno, que esta cheo de fygueiras he outras arvores de fruito que levará de semeadura dois alqueires de linhaça. 8. Item... huã irmida dentro na freigesya que se chama Santo André que tem harredor de sy huãs terras que levaram de semeadura qynze ou vynte alqueires de pam... »73

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6.6. O cura de Nogueira da Regedoura, Rui de Carvalho, em 1543. O abade da Feira Nuno de Carvalho, em 1572 e os Lóios tomaram parte na mudança. A mudança da igreja ter-se-á dado antes de 1572. Em 1712, já estava construída no lugar actual. 6.6.1. Em 16 de Fevereiro de 1712,74 os Lóios da Feira possuíam o passal da igreja e do cura de Nogueira da Regedoura. Estes, por inerência dos seus direitos sobre a freguesia como anexa, faziam a apresentação do cura em cada ano e, conjuntamente usando das mesmas prerrogativas aforavam as propriedades e casais dela. O templo encontrar-se-ia já em estado de ruína, porventura acanhado para a crescente demografia paroquial. Porém, a construção da nova e para mais noutro lugar em substituição da AHCMSMF – Convento dos Lóios, Livro 5, fls. 345 v, a 348. Informaramnos haver ali o rio a que chamam Santo André, próximo da velha fábrica de papel, arruinada, na direcção de São Paio de Oleiros, e também ali um monte chamado Caramulo, talvez por analogia com a serra do mesmo nome. Mas esta indicação e o sítio da extensão dos passais encontram-se em oposição geográfica. Quanto à ermida não sabemos, porque dá a impressão de que ficaria dentro dos passais. Por outro lado, pela quantidade de semeadura, parece que não, mas seria outra. 74 AHCMSMF – Convento dos Lóios, CL, Livro 7, fl. 9 e segs.. 73

antiga trouxe graves problemas de vária ordem não só aos paroquianos mas também aos foreiros dos passais da igreja de Nogueira. Junte-se a tudo isto a questão do direito de apresentação do cura. Os antigos patronos, Freires de Malta, e os alegados novos, os Padres do convento. E ainda bem que surgiram todos estes problemas, pois para além dos benefícios históricos acima apontados, trouxeram troca de razões, esclarecimentos, réplicas e recursos às autoridades superintendentes no assunto, desde os Papas de Roma aos seus representantes nacionais e locais, excepto o bispo da diocese por estarem fora da sua jurisdição. O importante acervo de documentação produzida na tentativa de solução trouxe ao nosso conhecimento elementos da história local que, de outra modo, ficaria mal conhecida. Assim: 6.6.2. Foi a partir do emprazamento do Passal da Igreja, chamado também «Casal dos Pares», mas só o que se situava no Souto da Estrada onde a nova igreja fora levantada, que recebemos algumas informações sobre as alterações do local da igreja, antes da sua mudança dos «passais de baixo», no lugar do Barreiro, para os «passais de cima», no lugar do Souto da Estrada, onde foi edificada e onde hoje se encontra com o seu cemitério. Muito próximo desse ano de 1572, os paroquianos de Nogueira, porque a antiga igreja paroquial se encontrava velha, acanhada e ameaçando ruína, instigados pelo zelo do culto dos novos padroeiros, lançaram mãos à construção de uma nova paroquial. Só que ficou «muito mais acima» da antiga, mas dentro ainda dos seus passais cuja área representava


considerável parcela de terras do centro da freguesia de Nogueira a avaliar pelas medições a seguir apresentadas.75 A mudança, como se depreende dos escritos, deveu-se a duas principais ordens de factores : a). A igreja primitiva de Nogueira sita desde a sua fundação no lugar do Barreiro apresentava-se muito velha, ameaçaria até ruína, e muito acanhada para a crescente população da freguesia. Evidenciaria urgente necessidade de construção de uma nova desde os fundamentos. Para mais, encontrava-se demasiado descentrada do aro paroquial. b). Em conformidade, impunha-se a sua aproximação mais do centro da paróquia e para lugar menos acidentado. E podiam fazê-lo dentro dos seus passais. E como urgia uma nova, impunha-se a mudança. E assim aconteceu, facilitada a solução por toda aquela extensão do passal da igreja. Obedecendo a tal imperativo incorria-se no perigo de ruptura da população. E assim aconteceu entre os de baixo onde estava desde a primitiva construção, pois a viam sair da sua beira, e os de cima, onde a nova ia ser construída Aceitando o que se diz, por tradição, e conferindo-o com o presente documento, essa velha e primitiva igreja paroquial ter-se-ia localizado no lugar do Barreiro. Deslocada do centro, velha e acanhada, carecia de obras ou de substituição. Teria um só corpo e uma só nave. Esta igreja nova do séc. XVI, continuou, mas em condições albergar os fiéis sem apertos nas celebrações litúrgicas. O segundo corpo foi introduzido, na maior das probabilidades, em 1924/1929, por, de novo, se considerar muito acanhada. Há notícia de que em 1906, já apresentaria evidentes sinais a urgir obras. Todavia: a agitação política prenunciadora da revolução republicana entretanto surgida em 5.10.1910; o agravamento das condições sociais, económicas, políticas e religiosas que esta arrastou; o surgimento da primeira Grande Guerra, 1914-1918, a grande peste da pneumónica que em 1918 se lhe seguiu arrastaram o momento propício até àquele ano de 1924. O pároco que esteve para se lançar no que foi protelado até 1924 , P.e David da Mota Pinho, fora abade de Rio Meão de 1904 a 1905 . Natural de S. Vicente de Pereira onde nasce em 1877, e foi sepultado. Falecido de súbito em casa da rua 22, Espinho, em 17.1.1922. Mais pormenores: «Rio Meão a Terra e o Povo», I vol. p. 155/6, do autor deste.

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de raiz, tornados vítimas expiatórias da mudança, ainda que pela simples razão de lhes ser colocada mais próxima e se não terem oposto formalmente. 6.6.3. Os Lóios comprometem-se a construir. Freguesia dividida, os de baixo e de cima: Em 16.2.1712, os Frades Lóios emprazam os passais: «... e porque os moradores das parte de Baixo da dita freguesia tiveram com os da parte de Cima pleito afim da igreja ... se mudar para o meio dela e com efeito se mudou e se fez de novo muito mais acima em o SOUTO DA ESTRADA adonde eles Reverendos padres e seu mosteiro fazem nova residência e passal ao Reverendo Padre Cura que he e foi da dita igreja e freguesia da Regedoura (. 9 v. ) lhe ficava o dito campo e terrado da casa da residência antigua e do celeiro ahi peguado de por tudo se fazer de novo no cítio da Jgreija nova muito distante Assim deste mosteiro como da nova residencia e porque hera em prol da utilidade deste mosteiro e suas rendas emprazavam o dito campo do passal e terrado das casas e Residência e seleiro velho e unirem isto ao casal chamado dos PARES à dita igreja e à residência e seleiro velho junto que também tinham sido passais da igreja da dita freguesia e este mosteiro emprazava os ditos Passais chamados o CASAL DOS PARES, já dos entepassados do dito Manuel Francisco, que vem do tempo em que a igreja e freguesia de Nogueira da Regedoura foi dada e unida a este mosteiro em virtude do Breve e Licença e mais documentos que para isso este mosteiro houve. E agora, usando da dita Licença e mais documentos, posse em que está, para emprazar e aforar os Prazos

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dos ditos Passais, se contratou com Manuel Francisco para esse efeito de emprazar o Campo chamado PASSAL DA IGREJA, terrado das casas da residência velha e celeiro velho com todas as suas pertenças... águas de rega e de ameruge, árvores de fruto e sem ele...» dos ditos passsais.76

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Por este novo emprazamento, obriga-se o enfiteuta a pagar ao convento dos Lóios da Feira: Renda: 2 alqueires de milho graúdo e centeio pela medida grande, cada ano pelo S. Miguel de Setembro. Lutuosa: cada uma das três vida outrotanto e da mesma forma. Domínio de cinco um.

tem tudo de comprido Nascente/Poente, 20 varas (22 metros) e de largo Norte/Sul 19 varas (20,9 metros), as varas são de 5 palmos.(palmo, 22 cm) Intervieram: O Padre António da Esperança, Reitor do mosteiro do Espírito. Santo. O Padre Manuel da Anunciação Procurador, o Padre Francisco Dias Pinto, e ainda Manuel Francisco, António Leite, João de Santa Maria e Manuel de São José e Melo.

Confrontações do prazo: Do Nascente com terras deste prazo deste mosteiro que ele caseiro já possui. Do Sul: com o adro velho e terras do mesmo prazo. Do Poente com terras do dito prazo velho. Do Norte com João Domingues do Casalinho, terras do Mosteiro da Serra (do Pilar). Tem de comprido, Norte/Sul, 77 varas ( 84,7 metros) e de largura Nascente Poente pela parte do Norte, 27 varas (29,7 metros, e pela parte do Sul 31 varas (34,1 metros). O terrado das casas da residência velha e celeiro velho parte de todas as partes, excepto do Nascente, com ele dito caseiro Manuel Francisco, que são terras do Prazo Velho deste mosteiro da Feira e AHCMSMF – C/L, Livro 7. Estamos em 1712, e o caseiro recebera os ditos prazos que vinham na sucessão familiar já desde antepassados muito antigos. Por isso sempre na mesma família.

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Fac-símile da escritura de 1534, do emprazamento em referência no texto e cujo resumo ficou acima nos «item».


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Apêndice I Personagens

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1. Padre Baltazar de Cristos, reitor do convento de Santo Elói da Feira. A ele se dirige o Dr. Pedro de Olivença sobre queixa apresentada pelo Comendador de Rio Meão sobre o padroado da Igreja de Nogueira da Regedoura. Em 1 de Junho de 1594, na cidade do Porto, é citado pelo notário público aprovado pelo ordinário da diocese, Gaspar Correia a 9.6.1594. Andava a cavalo pela cidade do Porto, foi visto pelo criado do comendador, e chegou ao cartório do notário Gaspar Correia a tempo de desfazer o equívoco na altura própria, lia este o documento, preparava o encerramento e aposição do selo. 2. Pedro ou Pêro da Assunção, um dos citados para depor na acção que contra o convento moveu o Comendador de Malta da Comenda de Rio Meão para reaver o padroado da igreja de Nogueira da Regedoura que passara aos Lóios. Está citado em segundo lugar, caso não pudesse comparecer o Padre Baltazar de Cristos. O caso gerou certa confusão desfeita pelo criado ou mandatário do Comendador, António Ribeiro, que ali se encontrava destinado a representar o Comendador e por isso encontrara o Padre a andar de cavalo pela cidade do Porto. 3. Dr. Pêro ou Pedro de Olivença – do Desembargo real e Casa da Suplicação do Inquisidor Apostólico do distrito e cidade de Évora, e do príncipe Alberto cardeal do título de

Santa Cruz de Jerusalém, Tesoureiro na Santa Sé da cidade de Braga, residente na corte, onde é Auditor Geral das causas da legacia do dito príncipe Alberto. Como Juiz Comissário deste litígio, em Lisboa, em 5 de Maio de 1594, determina que chegue ao Padre Pedro da Assunção a queixa do Comendador de Rio Meão de modo a apresentar a sua justificação. Em 9.11.1595, de novo despacha a queixa insistente do Comendador. Mas como os padres incitam este a desistir da querela com os Lóios, acede. Assim, o Dr. Pêro dá a sua sentença, definitivamente pondo fim a esta longa demanda do Comendador com os Padres Lóios tendo como pomo da discórdia o direito de apresentação do Cura de Nogueira e da arrecadação das rendas da freguesia e seus passais. 4. D. Frei Duarte de Melo Ferreira – Freire da Ordem de Malta e comendador de Rio Meão, apresentou queixa contra o Padre Pedro da Assunção e os restantes religiosos do convento da Feira por causa da alegada usurpação do direito de apresentação do vigário da igreja de Nogueira da Regedoura. 5. António Ribeiro – negociante de madeiras, mandado criado e requerente do comendador em nome de quem foi ao notário Gaspar Correia, no Porto, a quem avisou que o Padre Baltazar de Cristos andava pela cidade a cavalo o que era certo porque veio ao cartório e a tempo de desfazer equívoco entre ele o Pêro da Assunção.


Convento dos Loios - Santa Maria da Feira

6. Príncipe Alberto, arquiduque de Áustria, cardeal a latere do papa Clemente. 7. D. Fábio Biondo – patriarca de Jerusalém, vice legado em Portugal do legado papal Cardeal Alberto. Chegando-lhe a queixa do Comendador de Rio Meão, da Ordem de Malta, manda em 17 de Maio de 1595 se façam diligências probatórias. 8. Os Papas: Júlio III (1550-1555). Pio IV (1559-1565), Clemente VIII (1592-1605), 9. Cardeais: Príncipe Alberto, arquiduque de Áustria; João Sepontino Biondo, cardeal a latere de São João de Jerusalém.

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Poesia Judite Lopes* Ecos de saudade Na voz do silêncio ecoa a saudade escrita no peito do vento com dedos cegos. Do espelho das águas emerge um sorriso bêbado de luz crepuscular em jogos simples de poeta apaixonado. Soltam-se as âncoras da fantasia e o corpo do sonho rasga-se numa agonia imensa! A saudade tinge o horizonte com tintas de fogo e a alma agarra o infinito com as mãos atadas do pensamento em fuga.

*Licenciada em Animação Sociocultural. Autora do livro de poemas “Vislumbres”.


A Pirataria Norte-Africana no século XVII Manuel Leão* O lado trágico da existência humana mereceu ao teatro antigo um lugar quase de consagração, por ter acentuado uma sombra inseparável da grandeza humana. Os naufrágios encontram-se nessa mesma linha, embora tenha faltado aos narradores a capacidade épica para lhes dar dignidade literária. A face negativa dos descobrimentos quinhentistas dispersou-se por relatos feitos ou por participantes sobreviventes ou por recolhas orais retocadas. Bernardo Gomes de Brito fez a primeira recolha desse vasto material que foi publicado em 1735 e 1736, em dois volumes, com o título História TrágicoMarítima. Os naufrágios descritos situam-se entre 1552 e 1602. Camões deve ter tido conhecimento destas narrativas, para descrever o naufrágio de Manuel de Sousa Sepúlveda e família.

Há anos, apareceu em França um estudo feito com base no relato de cativeiro de João Mascarenhas (1621-1626), escrito pelo próprio cativo (1). Na abertura sóbria do seu relato dirigida ao leitor, Mascarenhas lamenta que ninguém tivesse feito um trabalho literário capaz sobre este assunto, quando os argelinos tinham feito uma perseguição perpétua aos cristãos, traduzida em pirataria e resgates, porque nenhum país tinha lá tantos cativos como Portugal. A resposta a esta observação de Mascarenhas continua por dar, mas uns apontamentos sobre a matéria, colhidos no Arquivo Distrital do Porto, permitem apresentar alguns aspectos desta faceta da nossa história marítima, no século XVII. O norte de África tinha duas imagens contraditórias na memória colectiva portuguesa: Ceuta e, mais tarde, o empenhamento de D. Afonso V pareceram situar-se na rota expansionista começada pela política africana. Mas o desastre de Tânger e, especialmente, a TEYSSIER, Paul, Esclave à Alger, récit de captivité de João Mascarenhas (1621-1626). Éditions chandeigne. Paris,1993.

(1)

* Natural de Milheirós de Poiares, concelho de Santa Maria da Feira, fez os seus estudos no Porto, tendo concluído o curso de Teologia e sido ordenado presbítero, na Sé do Porto, em 1943. Dedicou-se à educação e ensino, dirigindo o Colégio de Gaia, durante décadas. Esteve ligado à Fundação do Instituto Superior Politécnico de Gaia e Escola Profissional de Gaia, a cujas direcções pertence. Tem publicado numerosos estudos sobre história cultural do Porto e Vila Nova de Gaia, com incidência nos domínios da arte, da actividade livreira e do teatro portuense antigo. Tem promovido várias iniciativas de carácter social. Criou, em 1996, a Fundação Manuel Leão, com fins culturais e sociocaritativos.

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derrocada nacional em Alcácer Quibir deixaram um longo rasto negro. Ainda, em 1628 (2), Isabel Andreia, viúva de Baltasar Fernandes, do Lugar de Gaia, passa procuração genérica. Evoca o seu marido que se chamaua o catiuo dalcunha por cauza de o ser na jornada de El Rey Dom Sebastião que Deos haja. Houve épocas, em que os navios tinham um sistema oficial criado para a defesa das pessoas e das cargas. Dos vários nomes que teve, predominou o de comboio. Nenhum barco podia desviar-se da formação, sob pena de procedimento judicial. Em 1699 (3), o

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capitão do navio Tres Reis Magos, António de Morais Varela, de Massarelos, estava no tribunal, acusado de se ter desviado do comboio, em viagem do Brasil. Os cativos contam-se geralmente entre homens do mar, embora, no século XVII, não se distinguisse bem a tripulação em relação aos passageiros, porque havia tarefas a bordo nas quais participavam os passageiros. Num relance sobre os elementos colhidos, aparecem diversas pessoas não especificamente dedicadas à faina marítima: cirurgiões(4), negros(5), calafates (6), mercadores (7) , homens de negócio (8), mestres carpinteiros (9), capitães (10), contramestres de navio (11). A carreira do Brasil foi a maior vítima, porque as cargas tinham interesse, em qualquer das direcções. Houve barcos que foram atacados quase à vista da barra do Douro. A libertação ou resgate dos cativos também era expressa pelo verbo descativar (12). A recolha de esmolas era apoiada por meios legalmente estabelecidos, a cargo de manposteiros, ou mesmo com provisão régia para poder esmolar em determinadas áreas. Os pedidos dirigidos à corte eram (2) (3)

ADP Po 5, 1ª s., 26, 26v - 27. Ibid Po 2, 164, 95 - 95v.

correntes. Há um caso curioso com a viúva Francisca Gonçalves, em 1630 (13), que tinha vivido em Lisboa, mas voltara a Matosinhos, sua terra natal. Tinha obtido provisão régia para pedir esmolas, para resgate do filho Manuel e do sobrinho Gaspar, filho da sobrinha Leonor Pires. Como ela não podia andar pelo Reino, passou procuração a Luís Carneiro, de Vila Meã, Tarouca, para a substituir. Um dos documentos indica quanto tinha recolhido de esmolas de entidades cujo nome refere. Maria Dias, mulher de Martinho Jorge, do lugar de Gaia, tinha recebido, em 1656 (14), quantia razoável, restando-lhe responsabilizar-se apenas por uma parte: O Rei Misericórdia de Lisboa Misericórdia do Porto Câmara do Porto Cabido da Sé do Porto

28$800 reis 4$000 reis 5$400 reis 8$000 reis 4$000 reis.

O costume de renunciar a créditos difíceis de cobrar durou séculos, antes da introdução legal da prescrição. Em 1639 (15), António Ribeiro Girão, de Águeda, mas, na ocasião, a viver no Porto, legou, por doação, ao resgate dos catyuos que de ordinario tem nesisidades, dois créditos, reconhecidos por sentença. Um era de Miguel de Mesquita de Lima, de Barcelos, Ibid. Po 1º, 4ª s., 179, 32/3; Po 9, 1ª s., 25, em 16 -12-1699. Ibid. Po 9, lª s.,22, 13v - 14v. (6) Ibid Po 9, lª s., 22, 24v. (7) Ibid. Po 2, 71, 176 (8) Ibid. Lº 130, 218v - 219v. (9) Ibid. Lº 136, 136/7. (10) Ibid. Lº 165, 209/10v. (11) Ibid. Lº 165, 316/7. (12) Ibid. Em 1627 ( Po 2, 71, 143) e 1630, (Po 2, 78, 135/7v). (13) Ibid. Po 2, 80, 154/5. (14) Ibid. Po 1º, 4ª s., 147, 85-86. (15) Ibid. Po 1º, 3ª s., 174, 38-38v. (4) (5)


no valor de em Silvares. Em referência à apesar de africana (16).

160$000 reis e outro, de menor valor, alguns contratos de resgate, aparece variação do câmbio da moeda europeia, ser mais valiosa do que a moeda

Houve casos em que o dinheiro adiantado para resgate teve de ser devolvido: em 1633 (17), Francisco Pereira não tinha sido resgatado por nenhum dos que se tinham comprometido; Manuel Ferreira Robalo, em 1665 (18), nem ao fim de quatro anos tinha sido descativado; em 1667 (19), Manuel João, de Massarelos, tinha morrido, antes do resgate; em 1674(20), a Misericórdia do Porto dá esmola, estabelecendo a cláusula da devolução, se o cativeiro não acabasse. O preço do resgate não tinha quantia fixa: a idade, a posição social, a categoria profissional, entre outras circunstâncias, deviam influir na despesa final a pagar ao primeiro intermediário. Em 1634 (21), João Gonçalves, moço de 19 anos, tinha sido levado a Salé e vendido por 600 patacas. Um contrato dos mais caros foi celebrado com Henrique Sinel, um mercador de origem flamenga que, durante o governo filipino, teve muita importância no Porto e na Galiza. Gaspar Afonso, primo do piloto, Gaspar Pires Martelo, custou 250$000 reis, em 1624 (22). (16) Em 1668 (Po 1º, 4ª s., 161, 155v - 156), no corpo da escritura a pataca é cotada em 820 reis, mas, no fim, é cotada a 840 reis. Em 1640 (Po 2, 97, 26v/8), é reconhecido o alto câmbio da moeda europeia. O cuidado com o câmbio está patente em 1699 (Po 2, 165, 209-210v). ESCLAVE, p.168, apresenta um quadro comparativo do câmbio. (17) ADP Po 2, 87, 155/6v. (18) Ibid. Po 1º, 4ª s., 157, 76/6v. (19) Ibid. Lº 175, 219. (20) Ibid. Lº 172-A, 225/5v. (21) Ibid. Po 2, 89, 124/4v. (22)

Ibid. Po lº, 4ª s.,148, 128v.

A libertação, umas vezes incluía viagens de regresso; outras, apenas obrigava a trazer o fiel libertado para a próxima terra de cristãos, por exemplo, Ceuta, como se lê na escritura de resgate de Domingos de Crasto Guimarães, em 1629 (23). Muitos cristãos terão morrido no cativeiro, por falta de recursos dos familiares. Outros cativos demorariam a ver-se livres do tormento. Gaspar Pereira, da Foz, esteve dezasseis anos à espera, para ser resgatado em 1688 (24). A falta de comunicações criou situações estranhas. Domingos Jorge, de Massarelos, demorou trinta anos a regressar. Os pais, moradores em Paranhos, pensaram que ele nunca mais voltaria e administraram os bens nessa convicção. O próprio diz que veio pobre e miserável, mas vai para o Brasil, em 1659 (25), depois de vender os seus direitos a terceiro. No século XVIII, houve casos de requerimentos pedindo à corte a troca de prisioneiros, visto que nas abordagens dos barcos nem sempre as coisas corriam de feição para os assaltantes. Além disso, poderiam também ser apreendidos escravos que iam ao serviço da tripulação. O certo é que, em 1603 (26), no Porto, é lavrada escritura de venda de dois escravos cativos, Duarte e Antónia, por 45$000 reis. Galaaz VeIoso de Araújo, de Caria, vende-os a António Gomes, mercador, do Fundão. Manuel dos Santos Varacão, da Foz, tinha um negro que ia para a Baía, quando foi cativado e levado para Tunes. Daniel foi objecto de escritura, em 1693 (27). Ibid. Po 2, 77, 60v - 61v. ADP Po 9, 1ª s., 20, 31. (25) Ibid. Po 1º, 4ª s., 150, 171v - 172. (23) (24)

(26) (27)

Ibid. Po 1º, 3ª s., 122, 34v. Ibid. Po 9,1ª s., 22, 13v - 14v.

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As contas das despesas feitas para o resgate nem sempre estariam certas. Em 1670 (28), um vianense levantou dúvidas, embora o resgate tivesse sido feito por intermédio de ingleses, um residente na Argélia. Os intermediários para o negócio do resgate foram muitos, neste período de século: António de Almeida Felgueiras António Bravo António da Costa Soares António de Castro Guimarães António Moreira António Rodrigues Mogadouro Bartolomeu Dias de Pontes Bento de Araújo Bento Cardoso Cristóvão Rodrigues Domingos da Costa Guimarães Domingos Gonçalves dos Santos Francisco de Andrade Abreu (28)

Ibid. Po 2, 130, 218v - 219v.

Francisco Pereira Gaspar da Costa Heitor Mendes Setúbal Henrique Sinel João Álvares João Correia Botelho João Ribeiro de Campos João Soares da Costa Manuel Domingues Pereira Manuel Fernandes Manuel Homem Freire Manuel Velho Ribeiro Pedro de Larre Pedro Pedrossem A maioria apenas contratou um resgate. António de Castro Guimarães contratou quatro; João Correia Botelho e Cristóvão Rodrigues contrataram seis resgates cada um. Nos documentos estudados, seis portugueses morreram antes de serem resgatados. Vários


resgates foram feitos através das repúblicas italianas, com relevo para Pisa e Livorno. Não é de estranhar esta mediação italiana, visto que, no século XVI, as repúblicas italianas não se resignaram a perder o monopólio marítimo-comercial do Mediterrâneo, sem fornecer armas aos inimigos da expansão portuguesa. Havia mercadorias que também eram objecto de apropriação dos norte-africanos. Em 1631 (29), uma nao de peyxe vinha consignada a Leonardo Buller, mercador inglês da rua da Reboleira, remetida por comerciante de Inglaterra, e foi roubada dos Turcos. Buller passa procuração para Peniche para receber valor correspondente. Não sabemos se existia algum parentesco entre o autor João de Mascarenhas, escravo na Argélia e objecto da edição francesa (30) e D. Jorge de Mascarenhas, fidalgo da Casa de Sua Majestade, casado com D. Francisca de Vilhena, nomeado para capitão e governador de Mazagão, em 1620 (31), proprietário de casa na rua de S. Miguel, perto da igreja da Vitória, que vende por procuração. Duas cartas de cativo foram transcritas em nota, em 1698 (32), dando impressões da vida em cativeiro e indicando pistas para o resgate. As fugas aos captores eram raras, ainda que o ataque se desse junto da barra. No entanto, uma procuração para aproveitamento de salvados, passada por João de Cavagne, capitão dum navio de Bayonne, indica circunstâncias da fuga aos captores. O navio trazia mercadoria para a Figueira, onde descarregaria para levar sal para a França. Lê-se nessa procuração: e uindo sobre a altura de Villa de Ouar auistara embarcações de mouros os quais vinhão sobre o dito nauio e vendo elle João de Cavagne que lhe não poderia escapar tratou de se saluar a si e a mais gente que uinha no nauio para o que se embarcarão no batel com aquillo que nelle puderão

trazer e sairão na Villa de Ouar e o nauio se perdeo e deo a costa. Foi em 1681 (33). A mesma sorte não tiveram outros marinheiros, junto do porto de Viana, no regresso do Brasil. Tinham sido roubados e capturados pelos piratas de Salé, onde ainda se encontrava Bartolomeu Duarte, passados cinco anos, em 1680 (34). A Congregação do Oratório do Porto colaborou no resgate de cativos e escriturou a partir de 1685 (35). As verbas destinadas são significativas, atendendo aos números que apresentam. Moradas dos que foram cativos: Foz do Douro Gaia Grijó Leça da Palmeira Lordelo do Ouro Massarelos Matosinhos Miragaia Porto Viana do Castelo Vila do Conde Vila Nova (de Gaia) Total

33 6 1 6 1 18 1 7 19 1 2 2 97

Ibid. Lº 82, 33v - 34v. Esclave à Alger (31) ADP Po 2, 56, 44 - 49v. (32) Ibid. Lº 163, 231v - 233. (33) Ibid. Lº 140, 126v - 127v. (34) Ibid. Lº 139, 86/7. (35) ANTT, Congregação do Oratório do Porto, índice n.º 283, vol. n.º 7. O primeiro beneficiado foi Gaspar Afonso Martelo, casado com Leonor Dias, que foi socorrido com 24$000 reis. Manuel Pires Mormiga, casado com Maria Francisca, morreu no cativeiro. A esmola foi dada para o resgate de Luís da Costa Lima, marido de Maria da Silva, de Vila Nova de Gaia, que tinha regressado do cativeiro. Os cativos protegidos pela Congregação do Oratório eram da cidade, de Lordelo do Ouro, Massarelos, Leça da Palmeira, Guidões, entre outras localidades. (29) (30)

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Índice Cronológico dos Documentos 1607 1617 1624 1626 1627

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1630

1631 1633 1634 1635 1638 1639

1640 1644 1645

Po 2, 26, 250 Po 1º, 3ª s., 139, 210v/2 Ibid. Lº 148, 128v Ibid. Lº 149, 227/8 Po 2, 71, 137v/9v Ibid. Lº 71, 143/4v. Ibid. Lº 71, 176 Ibid. Lº 72, 48 Ibid. Lº 72, 186v/8 Po 5, 1ª s., 26, 26v/7 Po 2, 74, 146v/0 Ibid. Lº 74, 167v/9 Ibid. Lº 75, 168/0 Ibid. Lº 76, 16/8 Ibid. Lº 76, 63/4 Ibid. Lº 77, 60v/1v Ibid. Lº 78, 135/7v Ibid. Lº 80 , 97v/9 Ibid. Lº 80, 154/5 Ibid. Lº 82, 33v/4v Po 1º, 3ª s., 161, 135/5v Po 2, 87, 155/6v Po 2, 89, 124/4v. Ibid. Lº 89, 142/3 Ibid. Lº 92, 20/1 Po 1º 3ª s., 165, 35/6v Ibid. Lº 173, 64v/5 Ibid. Lº 173, 172 Ibid. Lº 174, 38/8v Ibid. Lº 174, 46/6v Po 2, 97,26v/8 Po 9, 1ª s., 1, em 10-XI Ibid. Lº 1, 122v

1652 1653 1656

1659 1662 1665 1668 1669 1670 1671 1672 1673 1674 1675 1676

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Po 8, 14, 141/1v Ibid. Lº 14, 183v’4 Po 1º,4ª s., 146, 168v/9v Ibid. Lº 147, 85/6 Po 8, 17, 97v/8 Po 8, 20, 119 Po 1º, 4ª s., 150, 171v/2 Po 1º, 4ª s., 154, 5v/6 Po 2, 123, 119v/0v Po 1º, 4ª s., 157, 76/6v Ibid. Lº 161, 155v/6 Po 9,1ª s., 7, 14/6v Ibid. Lº 7, ex 4-XII Po 2, 130, 54v/5 Ibid. Lº 130, 218v/9v Ibid. Lº 131, 136/7v Po 1º, 4ª s.,168, 88 Ibid. Lº 169, 202v/3v Ibid. Lº 171, 68v/9 Po 1º , 4ª s., 172-A, 225/5v Po 8, 53, 30/1 Po 2, 135, 28v/0 Ibid. Lº 136, 65v/6v Po 1º,4ª s., 173, 206v/7 Ibid. Lº 174, 82/2v Ibid. Lº 174, 203v/4 Ibid. Lº 175, 26v/7 Po 2, 136, 136/7 Ibid. Lº 137, 114v Po 1º, 4ª s., 175, 197/7v Ibid. Lº 175, 219 Ibid. Lº 176, 143v/4 Po 2, 138, 68v/9v Ibid. Lº 138, 117/8 Po 9, 1ª s., 14, 7/7v


1680 1681 1684 1688 1689 1691 1692 1693

1694 1695

1696 1697 1698 1699

Po 2, 139, 8 Po 1º, 4ª s., 177, 47/7v Po 2, 139, 86/7 Po 5, 1ª s., 77, 236/7 Po 1º, 4ª s., 179, 32/3 Ibid. Lº 179, 33/3v Ibid. Lº 183, 37 Ibid. Lº 187, 74v/6 Po 9, 1º s., 20, 31 Ibid. Lº 20, 47 Po 2, 140, 126v/7v Ibid. Lº 152, 47v/9 Po 9,1ª s., 22, 13v/4v Ibid. Lº 22, 20 Ibid. Lº 22, 24v Po 8, 102, 197v/9 Ibid. Lº 102, 200v - 2 Po 9,1ª s., 23, 74v Po 8, 104, 240v/2 Ibid. 105, 249/0 Po 9, 1ª s., 23, 132 Ibid. Lº 23, em 23 - IX Po 8, 110, 172v/4 Po 9, 1ª s., 114, 43v Po 2, 163, 231v/3 Ibid. Lº 165, 30/1 Ibid. Lº 165, 209/0v Ibid. Lº 165, 316/7 Po 9, 1ª s., 25, em 16 - XII Po 8, 116, 63v Ibid. Lº 116, 186v/8v

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Poesia Edgar Carneiro* NO PRINCÍPIO ERA O FIM No princípio era Adão, o ente imaginado. Era eu a sentir a nudez do pecado. No princípio era o fruto antes do gosto; era a sede ancestral antes de erguer o mosto. No princípio era o verbo antes da fala incerta; era o tempo a passar voando além de mim. A vida tem seu custo. Agora só me resta ser Abel ou ser Caim.

* Nasceu em Chaves em 1913. Licenciado em Ciências Histórico-Filosóficas pela Universidade de Coimbra. Foi professor dos ensinos técnico-profissional e secundário. De 1967 a 1974, dirigiu a Escola D. Pedro V, a primeira a funcionar em Fiães, neste concelho. Reside há 36 anos em Espinho, foi distinguido pela Câmara local com a Medalha de Mérito. Tem 11 livros de poesia publicados, o último dos quais saiu a lume em 2003 e tem por título «Depois de Amanhã».


Antologia Prática de um Devocionário Tradicional Popular – II Pe. Domingos Moreira* ORAÇÃO DA MANHÃ E OFERECIMENTOS DAS OBRAS DO DIA (oração popularizada) Ouvi, Senhor, a minha oração, nesta manhã para que eu possa realizar a caridade, seja este dia todo para Vós, sejam as minhas orações, os meus pensamentos, as minhas palavras e os meus desejos uma adesão perfeita ao Vosso Amor e às necessidades do meu próximo. Que eu saiba cumprir o meu dever de cristão, para que a todos edifique numa verdadeira caridade. Glória ao Pai... * Pároco de Pigeiros.

Meu Deus, eu creio, adoro, espero e amo-vos, peço-vos perdão, para os que não crêem, não adoram, não esperam e não vos amam. Creio em Vós porque me ensinastes a amar e me remistes na cruz para me salvar, adoro-vos presente no Sacrário e nos corações dos meus irmãos que vos hão-de receber neste dia. Espero na minha salvação e na de todos os meus irmãos, amo-vos porque Vós sois o verdadeiro amor. Senhor, avivai a minha fé, a minha esperança e a minha caridade, não me deixeis sozinho nas lutas deste dia, para que não desanime, nem me deixe vencer pela tentação. Sem Vós, não poderei realizar o bem evitando o mal, a má companhia ou a conversa inútil e perversa, ajudai-me, Senhor, para que, pelo meu exemplo,

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pela minha palavra e sobretudo pela minha caridade, eu possa socorrer os que me rodeiam, atraindo-os ao vosso amor. Minha Mãe do Céu, sede neste dia a minha guia, a minha alegria e a minha companhia. Aceitai a minha entrega total à vossa protecção. Pai Nosso... Senhor, ofereço-vos este dia, com todas as lutas, sofrimentos, trabalhos, alegrias e esperanças, pela união de todos os meus irmãos. No vosso amor e pela salvação de toda a nossa família [cristã, aceitai a minha vida e o meu amor. Pela conversão daqueles que mais longe andam do vosso caminho e que mais nos fazem sofrer. Que na minha comunidade cristã haja caridade, amor e paz e muitos santos para santificarem os outros meus irmãos que buscam a salvação, que a minha paróquia seja uma união de verdadeira família cristã Pai Nosso... (O 18-19)

Pai Nosso e Ave-Maria. (L 38)

Bendito seja Jesus Cristo E mai-la Virgem Maria. Bendito seja também O santo ou a santa deste dia E o Padroeiro desta freguesia. Eu lhes ofereço os meus trabalhos E boas obras deste dia Em desconto dos meus pecados.

Da minha cama me vou levantar À luz que me acordou, Ao sol que me alumiou. Nossa Senhora da Guia me guarde De noite e de dia. Pelo amor de Deus Pai Nosso, Ave Maria. (RP 62)

Com Deus m’alevanto Com Deus m’asseio Eu me abraço a Deus E ao Divino Espírito Santo, Que me acompanhe Nos meus caminhos E em todo o lugar Adonde m’eu encontre Anjinho da guarda, Minha companhia, Guarde a minha alma De noite e de dia. Anjinho da guarda Vizinho da minha porta, Esteja a minha alma com Deus Que o resto nada me importa. (BB 300) Pranto os meus pés em terra E o meu corpo entrego À Virgem Maria Padre Nosso e Avé Maria. (BB 300)


Ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo, Santíssima Trindade, Jesus e Maria, Anjos benditos, Santos e Santas do Paraíso, Alcançai esta graça que eu peço: Pelo Preciosíssimo sangue de Jesus, Fazer sempre a vontade de Deus, Estar sempre unida com Deus; Não pensar senão em Deus, Praticar todas as acções, só por Deus, Só buscar as glórias de Deus; Levar com paciência e gosto Os trabalhos da vida, Nas seguranças finais (sic) Para merecer na outra A coroa da eterna glória. Amen. Seja louvado Nosso Senhor Jesus Cristo, Para sempre, no céu e na terra, E Sua Mãe, Maria Santíssima. Ó meu Anjinho da Guarda, Minha doce companhia Não me desamparai (sic) Nem de noite, nem de dia. Se vós me desamparais, Que será de mim? Ó Anjo da minha guarda Rogai a Jesus por mim.

E os bons me encaminharão Para o caminho do Céu. Arquinha do Céu, Arquinha da Trindade, Jesus, credo, amén. (BB 298-299) De joelhos em terra O meu corpo ao dia Minha alma entrego À Virgem Maria. Peço-Vos, amada Virgem Maria Que é muito minha amiga, Rosa encarnada, sucena florida Guardai-me hoje, neste dia: Que o meu corpo não seja morto Nem a minha alma perdida, Nem o meu sangue derramado, Jesus, José e Maria. Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo, Para sempre, amen. Em nome de Jesus Cristo m’alevanto Queira Ele abençoar-me, proteger-me, Defender-me e conduzir-me À vida eterna, amen. Eu Vos adoro, meu Deus, Eu Vos amo do meu coração.

Ao sair do quarto Por estas portas vou saindo, Por caminhos escuros andarei Bons e maus encontrarei. Os maus não me verão

Eu Vos dou muitas graças Por me teres criado e feito cristão, E conservado a vida. Rogo-vos, Senhor, que me concedais a graça Principalmente neste dia.

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Ofereço-vos todas as minhas obras E palavras e pensamentos bons Que eu, neste dia, tiver. Anjo de Deus, Anjo da minha guarda A Vós encomendada a piedade. Neste dia, dirigi-me, governai-me e livrai-me, Senhor, Onde fui nada e criada. (BB 299-300)

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Com Deus m’alevanto, E com Deus ao peito E com Deus ao lado, Com Deus amado. (3 vezes) Ó meu dulcíssimo Jesus, Salvador meu, Em meu juízo, haja-me Deus! (3 vezes) (Col-Cuc 9) Em bom dia, em boa hora Eu saio da minha cama para fora. Em honra e louvor de S. Francisco Seja louvado Nosso Senhor Jesus Cristo. P’ra sempre seja louvado E bendito nos céus e na terra Com sua Mãe Maria Santíssima. (O 17) Meus pés ponho na terra, Meu corpo ao dia, A minha alma a Deus Mais à Virgem Maria, Que é muito minha amiga. Minha rosa encarnada, Açucena florida Guarda a minha alma

Neste dia Para que ela nunca seja perdida. Eu me entrego a Jesus À Mãe que O deu à luz, À Hóstia consagrada, Ao meu Anjo da Guarda Que me livrem de todos os demónios Pequenos e grandes e até dos maiores. Coração Sagrado de Maria, Sede a minha ajuda e guia! Coração Imaculado de Maria, Valei-me no tremendo dia! Coração Aflito de Maria, Alcançai-me paz e alegria! Santo Anjo do Senhor, Meu zeloso guardador, Se a ti me confia a piedade divina Que sempre me derrege Me governa e me alumeia. Meu Divino Senhor, Eu Vos ofereço todas as orações, Actos de piedade e boas obras Que eu neste dia fizer. Que todas elas façam votos de renúncia Bem como todos esses no Purgatório (sic) Em favor daquelas Almas Que a Nossa Senhora escolher. (Diz-se uma Avé-Maria). (BB 297-298)


Ao lavar-se Nesta manhã me lavo, Nesta manhã do alvor Estou lavando a minha cara E dando graças ao Senhor. (FCV I. 52) Esta água me lave As manchas da minha cara E Jesus Cristo me limpe As culpas da minha alma. (FCV I: 47) Lavo as minhas mãos P’ra que Nossa Senhora me lave o coração. Lavo a minha cara P’ra que Nossa Senhora me lave a minh’alma. (RL 12.288)

Com esta água me lavo, Com Jesus Cristo me salvo. Lavai, Senhor, a minha alma, Para que apareça limpa Na sua santa presença. (L 41) A minha cara vou lavar P’ra minha alma se salvar, P’rò demónio não me atentar (Mens 91. 17) Do Jordão a Siloé, De Sicar a Jerusalém, Nossa Senhora me lave A minha cara também. (FCV I. 48) Com esta água me lavo, Com Jesus Cristo me salvo. Lavai, Senhor, as manchas da minha consciência

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P’ra que eu me ponha pura e limpa Diante da vossa santíssima presença. (Mont 178) Nesta água me lavo, Com pobreza e limpeza Do Filho da Virgem Maria. Deus queira que o pecado Não pegue no que eu faço De noite e dia, Avé Maria.

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Lavai, Senhor, As manchas da minha consciência Para que me apresente Limpa e pura Na Vossa Divina presência. (BB 299) Senhor, dai-me água p’ra me lavar, Toalha p’ra me alimpar, Parte na missa p’ra me salvar: Divina Luz-Jesus, Divina Guia-Maria, Como assim é Jesus, Maria José (RL 38. 75) Já lá vem a luz do dia. Pai de toda a companhia. Senhor, dai-me o remédio Que destes à Virgem Maria. Àquela santa mulher Que T’acompanhou no Calvário, Dai-me a paga que Vós lhe destes, Meu Senhor: o Santo-Sudário, Amém (RL 38. 74)

Ao abrir a porta (para sair): Minha porta vou abrir P’ra Jesus Cristo entrar E meus santos protectores Me virem acompanhar E todos os males de inveja Daqui poderem tirar (L 41) O Senhor nos abra As portas do Céu. Feche as do inferno À hora da nossa morte (EP 9. 467) Deus comigo E eu com ele. Ele adiante E eu atrás dEle. Eu olho para trás: Não é para ver ninguém, É para ver Jesus Cristo Qu’atrás de mim vem (RP 63) Em bom dia, em boa hora, Eu saio da minha cama para fora. Em honra e louvor de S. Francisco Seja louvado Nosso Senhor Jesus Cristo. P’ra sempre seja louvado E bendito nos céus e na terra Com sua mãe, Maria Santíssima. (...) Valei-me, Senhor, e andai comigo, Não desampares, Senhor,


A minha alma, o meu espírito (...) Ó meu Jesus, dai-nos luz, Livrai-nos pelo teu sofrimento Da tua pesada cruz. De manhã ao abrir a porta, O Santíssimo Sacramento Entre pela minha porta dentro. Quem em Deus quer E em Deus confia, Não lhe faltará o pão de cada dia (O 17) Ao Nascer do Sol: Vem-te com Deus ao meu claro dia, Eu me entrego a Deus e à Virgem Maria. A Senhora do Monte do Calvário Que nos livre (...) Dos maus inimigos. Pai Nosso e Ave Maria. (MC-E 15) Observação final Estas orações da manhã, destinadas a santificar ou a dar um ambiente sacralizante aos diversos momentos desde o acordar até sair para fora do quarto, onde não faltava o sentimento da presença benéfica de Maria, anjos e santos e pensamentos como o perdão dos pecados e até a agonia da futura morte, causam estranheza às pessoas de hoje, uma época em que se reza pouco ou nada. a) Ora a religião muçulmana tem 5 orações diárias, desde manhãzinha até à noite, em horas diferentes (o que lembra o caso cristão da Liturgia

das Horas, desconhecidas da maioria das pessoas). Além disso, os muçulmanos têm outras orações particulares que passamos a expor segundo a reportagem da revista “Notícias Magazine”, n.º506, suplemento do Jornal de Notícias de 3-2-2002, pág. 52 e 54 (a palavra Aláh é o nome de Deus para os muçulmanos, como El da palavra Manuel “Deus connosco” é para os judeus): Ao lavar as mãos: “ Ó Aláh, peço-te a rectidão, a bênção e a preservação contra o azar e a destruição”. Ao enxaguar a boca: “ Ó Aláh, ajuda-me a ler o Alcorão, a pensar em ti, a agradecer-te e a adorar-te convenientemente”. Ao deitar água no nariz: “ Ó Aláh, faz-me cheirar o perfume do Paraíso e não me faças cheirar o odor do inferno”. Ao lavar a cara: “ Ó Aláh, ilumina a minha cara no dia em que umas caras serão iluminadas e outras enegrecidas (no dia do juízo)”. Ao lavar o braço direito: “ Ó Aláh, concede-me a minha lista na mão direita e torna a minha conta mais fácil”. Ao lavar o braço esquerdo: “ Ó Aláh, não me dês a minha lista na mão esquerda nem por detrás das minhas costas”. Ao passar as mãos molhadas pela cabeça: “ Ó Aláh, dá-me um lugar debaixo da sombra do teu trono no dia em que não haverá outra sombra senão a do teu trono”. Ao passar as mãos molhadas pelas orelhas: “ Ó Aláh, põe-me entre o número daqueles que dão ouvidos à boa palavra, pois seguem a melhor dela”. Ao passar as mãos molhadas pelo pescoço: “ Ó Aláh, liberta do inferno a minha nuca”.

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Ao lavar o pé direito: “ Ó Aláh, firma os meus passos sobre a ponte Sirat no dia (de Kyamate) onde os pés escorregam”. Ao lavar o pé esquerdo: “ Ó Aláh, torna os meus pecados perdoados, o esforço agradecido e o negócio sem perda”.

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b) Também na religião judaica acontece coisa parecida como se pode ver da reportagem do livro de Maria Antonieta Garcia, Os Judeus de Belmonte – Os caminhos da Memória, Lisboa, 2000, pp.185-186, donde citamos como amostra apenas uma parte e que é a seguinte: “Louvado seja o Senhor que me deu água para me [limpar, Louvado seja o Senhor que me deu pano para me [limpar Louvado seja o Senhor que me deu pernas para andar Louvado seja o Senhor que me deu braços para [trabalhar Louvado seja o Senhor que me deu ouvidos para ouvir Louvado seja o Senhor que me deu olhos para ver Louvado seja o Senhor que me deu nariz para cheirar Louvado seja o Senhor que me deu boca para falar O Senhor me dê graça e juízo para O servir e louvar, (...) Põe-me em estado de graça, Meu Divino Criador. Estarei bem inclinado Ao Vosso santo e divino amor, Amém, Senhor”.

Na oração ao anjo da guarda, há, entre outras coisas, o seguinte: “Anjo bem-aventurado Te peço e rogo: Que me livres do pecado Ao rigor do dia (...) O Altíssimo Senhor me queira valer, Amparar e favorecer À alma e ao corpo Amém, Senhor O Senhor nos dê bom dia Na alma e no corpo, Salvação para a alma, Paz aos vivos e glória aos mortos”. Como se vê, muitos cristãos na vida da oração já estão infelizmente abaixo dos judeus e muçulmanos.


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O Vidro (2)

Arquivo Distrital de Aveiro

Jorge António Marques*

Livro de Baptismos de Vila Chã de S. Roque

Dona Antónia, filha de Gonçalo Vaz, matrimoniouse com Gaspar de Sampaio Ribeiro, havendo desse enlace, os seguintes filhos: - António, o primogénito, herdeiro da casa do Covo. - João, Antónia e Serafina, sabendo-se que seguiram vida eclesiástica.

Ano

Nome

Nascimento

Baptismo

Livro

Folha

1662

António

-

26 Novembro

01

79/V

1666

Gaspar

-

27 Maio

01

83/V

1668

Manuel

-

12 Fevereiro

01

85/V

1669

Fernando

12 Julho

25 Julho

01

87

1671

Maria

12 Abril

01

89

1672

Mafalda

15 Julho

01

92

30 Junho

Nota O filho Manuel foi nado-morto.

António Magalhães de Menezes, filho de Dona Antónia de Magalhães e Menezes e de seu marido – Gaspar Sampaio Ribeiro –, casou com Dona Antónia Ângela Bárbara Tinoca e houve geração, nascida, na Casa e Quinta do Covo, como se demonstra pelo seguinte quadro:

* Historiador-Investigador

Dona Antónia Ângela Bárbara Tinoca faleceu, aos 22 dias de Julho de 1673, na sua casa e quinta do Covo – in Arquivo Distrital de Aveiro – Livro 1 – a folhas 213. Este António de Magalhães e Menezes foi o homem a quem a Casa e fábrica do Covo mais devem, pelo impulso imprimido. Faleceu, na sua casa do Covo, em 3 de Janeiro de 1717.


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O quarto filho de António Magalhães de Menezes – nascido, como se referiu – em 1669, de seu nome Fernando, foi fidalgo da casa real, alcaide-mor de Vila do Conde e o superintendente das caudelarias das Terras de Santa Maria da Feira e, por carta de 19 de Setembro de 1720, teve o cargo de familiar do Santo Ofício. Mas – note-se – Dona Luiza Joanna de Sousa era filha de Bernardo Carvalho de Lemos e de sua mulher Dona Maria Madalena Sousa de Menezes, estes, os senhores da Trofa do Vouga, neta paterna de Jerónimo de Carvalho de Vasconcelos e de sua mulher, Dona Jerónima de Lemos. Deste matrimónio surgiram duas filhas. Maria Madalena e Ângela. A Ângela faleceu, em idade inocente e sua irmã, após a morte do pai – que ocorreu a 17 de Março de 1726 –, torna-se a única e universal herdeira do Covo. Mas a Dona Maria Madalena contraiu matrimónio com seu primo directo – Sebastião António de Castro e Lemos, filho de António de Castro e de sua mulher Dona Joanna Luiza Sousa de Menezes, esta, irmã da mãe de Dona Maria Madalena, senhora, também, da Casa da Trofa do Vouga. E, no clássico hábito dos casamentos, por clãs de famílias, o certo é que se unem duas casas: a de V. N. Cerveira, pelos Castros e a da Trofa do Vouga, pelos Lemos. Sebastião António de Castro contraiu o seu matrimónio com Dona Maria Madalena, como se reconhece pela seguinte transcrição que, por si só, é um imperativo, visto que irão surgir mais Madalenas.

Arquivo Distrital de Aveiro Livro de Recebimentos de Vila Chã de S. Roque Quinta do Covo Número 2 – Folhas 260 À margem: – Ano de 1737 “Em os dezassete dias do mes de Novembro de mil sete centos e trinta e sete anos pelas honze horas da manham foram recebidos na capella da Quinta do Covo desta freguesia para o que se me apresentaram licença do Muito Reverendo deste Bispado – Sebastião de Castro Lemos, filho legítimo de António Carlos de Castro e de Dona Joanna Luiza de Noronha e Menezes, natural de Vila Nova de Cerveira arcebispado de Braga e morador na freguesia de Santos-o-Velho, da cidade de Lisboa, – com – Dona Maria Madalena e Menezes, filha legitima de Fernando de Magalhães Menezes e de Dona Luiza Joanna de Sousa Menezes, natural da Quinta do Covo, com palavras de presente pelo doutor Ignácio Francisco de Castro, cónego probendado na Sé de Évora, para o ques dei licença e se celebrou o dito matrimónio na minha presença tendo banhos correntes e não havendo impedimento algum além o segundo grau de consanguinidade.” Prole resultante do matrimónio supra, por paróquias onde a descendência nasceu. Trata-se, com efeito, de uma descendência de quinze filhos. O presente mapa agrupa-os por locais de nascimento.. Vejamos pois.


Arquivo Distrital de Aveiro Livro de Baptismos da Paróquia de S. Roque Ano

Nome

Nascimento

Baptismo

Livro

1738

Luiza

31 de Outubro

26 de Novembro

02

Folha 94

1757

Margarite

17 de Outubro

28 de Novembro

03

15/V

Paróquia do Espírito Santo – Aveiro Ano

Nome

1744

António

Nascimento

Baptismo

Livro

Folha

5 de Novembro

03

55/V

Paróquia de São Miguel – Aveiro Ano

Nome

Nascimento

Baptismo

Livro

Folha

1746

Ignácio

7 de Janeiro

25 de Janeiro

10

54/V

1750

Pedro

25 de Maio

10

96

1751

Luiz

16 de Agosto

10

105/V

Filhos em relação aos quais se ignora o local e data de nascimento: Bernardo Fernando Carlos Joana Duarte Diogo Ana José Antónia

Nota António Carlos de Castro, avô paterno dos neófitos em referência, na sua qualidade de homem do exército, possuía, pelos anos de 1740 a 1750, a patente de coronel de cavalaria e fora comandante do regimento de Dragões, aquartel do no lugar do Mamodeiro, termo de Aveiro.

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Sebastião António Castro Lemos e Menezes, ao tempo governador de Caminha, naquela terra faleceu, no dia 27 de Maio de 1786 – in óbitos do Covo livro 4 – folhas 190. Dona Maria Madalena Magalhães e Meneses faleceu, no Covo, no dia 22 de Setembro de 1787 – in livro 4 a folhas 193.

– mesmo com descrição minuciosa – indicar onde se situa o Paço Velho.

Pela morte de Sebastião António de Castro Lemos, seguida, como de imediato, da esposa, o filho primogénito António herdara a imensa casa de seus pais – Casas, Quinta e Fábrica, tudo no Covo. Pelas partilhas amigáveis, António de Castro tem, para com os irmãos, o arrumo de contas e de graves problemas daquele mundo, que era o Covo. Homem dotado de vistas largas, é ainda, em Oliveira de Azeméis, que alarga o valioso património. Há, nesse seu gesto, que destacar uma importante e muito valiosa aquisição. Refiro-me à compra do Paço Velho. Para quem não conheceu o meio geográfico de Oliveira de Azeméis e seus arredores, não é fácil

Pinho Leal foi homem da inteira confiança da família dos Magalhães e Menezes, do Covo. Ali se fixara, aquele Pinho Leal, com a mera finalidade, pelo contrato, de colocar em ordem um valioso e imenso espólio da Casa do Covo. Acontece, porém, que pelo único interesse de Pinho Leal – qual fosse o de colher elementos para o seu Dicionário – Portugal Antigo e Moderno – aquele autor não é completo sobre o Covo, porque, entretanto, descoberta a sua finalidade, é despedido. Mas diga-se, em abono da verdade, que muito ficou escrito sobre o Covo, tanto pelos paroquiais

O Paço Velho constituía um vasto património, tipicamente banhado pelos açudes na conservação de todos os terrenos que o Pero Moreno – castelhano – emprazara, em 1514, aos condes da Feira.


como pelos notariais, esses livros imprescindíveis à verdadeira história. Sebastião de Carvalho, bisavô do célebre Marquês de Pombal, aquele, o senhor da Arrifana, fortemente contestado dado o seu temperamento larápio, também vendeu os seus bens da Quinta de Cesar e de Gaiate, à Casa do Covo. António Castro de Lemos e Meneses havia casado com Dona Maria Isabel Pereira Lencastre, a filha de Gonçalo Pereira de Sousa e de sua Mulher, a Dona Ignez Correia de Lencastre. Aquele Gonçalo Pereira de Sousa era o senhor da possante casa de Pentieiros, sita em Estourãos – Fafe. António Castro de Meneses e Lemos, homem com forte percepção dos factos, muito cedo entendeu que a dispersão dos imensos bens da Casa do Covo, pelos mais variados pontos do Reino, justificava a instituição de um vínculo, até para evitar,

após a sua morte, futuras complicações familiares. Mas tal não era viável, face aos pressupostos legais. Com efeito, só aos bens livres – ditos alodiais – isto é, não aforados ou aprazados, perpetuamente, era permitido o vínculo. Aquela nefasta casa do Infantado, pelos senhores da Feira, já do tempo do Pero Moreno, constituía um óbice ao desejo do senhor do Covo. Houve, porém, pelo Desembargo do Paço, a inteligência, por licença de 1789, face ao resolvido pelo rei, em 22 de Junho desse ano, de ser consentida, – embora sob certas e determinadas condições – o vínculo da Quinta. Dada a morte de António de Castro de Lemos e Menezes, sem descendência, seu irmão – Ignácio de Castro Lemos e Menezes – este, o quinto filho de Sebastião António Lemos – nascido a 6 de Janeiro de 1746, como já referi, torna-se o herdeiro de todos os bens, honras, vínculos e o morgado de Vila Nova de Cerveira.

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Entre esses bens e, pelas honrarias, é fidalgo da Casa Real. Provedor da comarca de Aveiro, assim é instituído, por carta régia de 20 de Julho de 1782. Em 1800 – a sete de Fevereiro – contraiu matrimónio com Dona Rita Teles de Melo Lencastre. Ela era prima de Pedro de Melo Breyner. Ignácio de Castro foi pessoa culta, influente e activa. Sabe-se que aos 17 dias de Dezembro de 1802 obtém o cargo de Desembargador da Casa da Suplicação de Lisboa e é eleito deputado à mesa da Consciência e Ordens, em 17 de Dezembro de 1804, sendo, a 17 de Janeiro de 1805, membro do Conselho Real. Foi homem impoluto e, não fugindo à inteligência do irmão António, deu um forte incremento à Casa e Fábrica do Covo. Faleceu, em Lisboa, em 1807, sem descendência. Algumas facetas de Ignácio de Castro Lemos e Menezes Ignácio de Castro Lemos e Menezes já não via um futuro abastado em relação a todo um esplendor e poderio dos seus antepassados. Assim, em 1793, suplica à soberana, da forma seguinte: “Senhora! – Representa a Vossa Magestade Ignácio de Castro Lemos e Menezes, actual senhor e proprietário do Covo, termo da Villa da Feira, que conservando a ditta fábrica há muitos séculos no domínio dos seus antepassados, sendo a mais antiga das Espanhas e a primeira que se eregio neste Reino, lhe concedera o Senhor Rey D. João Terceiro, de glorioza

memória, o privilégio excluzivo para se não estabelecer outra semelhante fábrica desde a villa de Coruche athe às raias da Galiza e ao través; que este privilégio tem sido sucessivamente confirmado pelos Augustos Predecessores de Vossa Magestade athe a May do suplicante a quem sucede por haver falecido, tanto nos bens da Coroa e Ordens como nos vínculos da sua Casa, sendo hum delles a refferida fábrica, a qual se faz muito digna da Real Protecção de Vossa Magestade, tanto pela publica utelidade que della resulta e como por ser a única que há tantos séculos se tem conservado existente, passando de uns a outros possuidores, que cuidadosamente a tem sustentado e promovido, à custa de muitas despezas e fadigas, pedindo portanto a Vossa Magestade que, em attenção a todo o refferido, haja por bem de confirmar o sobreditto privilegio exclusivo que a fábrica tem gozado athe ao falecimento de sua May, para que do mesmo modo se verifique no suplicante, seu ultimo possuidor, e que outro sim seja servida de lhe conceder os idênticos privilégios de que goza a fábrica dos Vidros da Marinha, assim pelo que respeita à izenção de direitos para todas as suas manufacturas, como para todos os materiais que forem necessários à sua laboração”


Para a Biografia de Manuel de Arriaga Maria da Conceição Vilhena* 1. Quando fazíamos pesquisas com vista à publicação do livro Alice Moderno, a Mulher e a Obra (Angra do Heroísmo, SREC, 1987), demo-nos conta de que esta escritora havia mantido relações amigáveis com Manuel de Arriaga; e, ao lermos as suas 34 crónicas, intituladas Cartas das Ilhas (in A Folha de 19-X-1911 a 23-VI-1912), aí encontrámos o relato de uma visita a casa da família Arriaga, na Horta (ilha do Faial). É, pois, com base nestes e noutros escritos de Alice Moderno que vamos fazer o presente trabalho, esperando fornecer, sem dúvida, um contributo para a elaboração de uma biografia de Manuel de Arriaga 2. Alice Moderno conhecia a família de Manuel de Arriaga desde muitos anos antes da implantação da República. Sabemo-lo pela correspondência com as irmãs deste, Cristina e Mariana de Arriaga, existente no

seu espólio, cedido à Universidade dos Açores. Dessa correspondência, devorada pelo incêndio de 12-VI1989, salvámos apenas uma carta, que transcrevemos, por nos dar algumas informações sobre a personalidade da autora. Eis o seu texto original: Horta 14-9-1901 Excelentíssima Senhora Agradabilíssima foi a impressão que me causou a leitura da amável e mimosa carta de V. Excia, traçada com a sua pena de ouro tão apreciada por todos os que têm o prazer de ler os delicados versos de V. Excia. Confundida e grata do íntimo da alma agradeço tão lisonjeiros dizeres. Quem é artista tem coração, por isso V. Excia que o é encontra belezas nos versos de As Flores da Alma, ditados por um cérebro cansado da vida de onde tem provado amarguras. A não ser o valioso auxílio dos meus distintos colaboradores, eu nunca me atreveria a publicar aquele livro para os

* Licenciada em Filologia Românica, pela Faculdade de Letras de Lisboa, 1965. Doutoramento de Estado ès-Lettres, pela Sorbonne, Paris, 1975; Professora Catedrática. Leccionou na Universidade de Aix-en-Provence, França; na Universidade dos Açores; na Universidade Aberta de Lisboa e na Universidade da Ásia Oriental, em Macau. Tem publicado perto de cento e cinquenta trabalhos (livros e artigos) sobre literatura, linguística, etnografia e história. Actualmente é aposentada e Presidente da Associação de Solidariedade dos Professores (4º mandato).

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pobres. Com especialidade ao Rev. Sn r. Osório Goulart, que a nossa boa e inteligente amiga D. Olga Sarmento da Silveira bem conheceu e apreciou devidamente, eu nada teria feito, ele com o seu espírito fino e belo de coração de poeta tomou a si o pesado encargo de rever e emendar todo o trabalho de impressão como se fosse seu, e então a ele somente devo o prazer de ter sido bem recebida do público aquela pequena publicação, e de poder alcançar a soma para o meu fim, a Cozinha Económica. Deus queira que possa ver realizado este meu empreendimento. V. Excia quis honrar-me com o nome de colega! Feliz seria se assim o fosse, Exª Senhora. Aqui neste cantinho do mundo fica ao dispor de V. Excia quem é admiradora muito devotada e agradecida, De V. Excia Maria Cristina de Arriaga Contudo, e apesar de se corresponderem desde o princípio do século, Alice Moderno e Cristina de Arriaga só se conheceram pessoalmente no dia 17 de Outubro de 1911, conforme lemos na Carta VI: “... na escada do Hotel, encontramos uma senhora vestida de seda preta, com esplêndidos olhos azuis e lindos cabelos brancos, a qual se dirige ao sr. Lacerda, perguntando-lhe por mim. Aproximo-me, naturalmente, e trocamos nomes. É a sr.ª D. Maria Cristina, a primogénita da família Arriaga, uma das ilustres e a mais veneranda das irmãs do Presidente da República”. Na carta VII, Alice Moderno conta a conversa que então se travou entre ambas a propósito de Manuel

de Arriaga, amaldiçoado pelo pai em razão das suas ideias republicanas: Conhecia, de há muito, tradicionalmente, a sr.ª D. Maria Cristina de Arriaga, com a qual, de há bastantes anos, me venho correspondendo. Não tinha, porém, a honra de pessoalmente haver privado com s. ex.ª. Volto, pois, atrás, e conduzo-a para um dos canapés da sala, saboreando, durante largo tempo, o prazer de conversar com uma senhora inteligente, bondosa, ilustrada e perspicaz. Em todos os membros da família Arriaga existe esse ar de família que tão raramente falha. São todos de estatura menos que média, e todos têm o nariz aquilino que, a não ser excepcionalmente, é uma das características das raças apuradas. Entre a sr ª D. Maria Cristina e o Dr. Manuel de Arriaga, porém, a semelhança é frisante. Têm ambos os mesmos olhos azuis, límpidos e cheios de luz, o mesmo nariz aristocrático, os mesmos cabelos alvos de neve e finos como flocos de seda, o mesmo porte distinto, a mesma expressão fisionómica, em que se vê o cunho da maior bondade e da sensibilidade mais requintada. Naturalmente, logicamente, falo-lhe em seu irmão, e logo vejo fulgurar nos olhos da minha interlocutora a mais pura e franca alegria. E conta-me, então, o desgosto profundo porque passaram, ela, a sua mãe, e as suas três irmãs, no dia em que seu pai, verdadeiro capitão-mór, de inflexível severidade, amaldiçoou o filho mais velho, o sucessor imediato do seu nome, ao saber que este se filiara no partido dos réprobos, como então se chamava aos republicanos! - Se este, acrescentou o rígido ancião, se lembrasse de vir ao Faial e de me bater à porta, eu


A câmara municipal daquele concelho aproveitou a solenidade desse dia para que fosse colocada uma lápide comemorativa na casa patronímica da família Arriaga, casa onde nasceu o homem que hoje preside aos destinos da nação lusitana. Houve sessão solene e cortejo cívico, sendo afinal descoberta a lápide previamente colocada. Não se realizou, é claro, esse cerimonial sem que fossem queimadas muitas girândolas de foguetes... Dali a algumas horas, notava a vizinhança que, de cima do telhado da casa das senhoras Arriagas, na mesma direcção em que fora colocada a lápide, em coluna vertical, se erguia um grosso rolo de fumo... Correu logo a notícia de incêndio, verificando-se que este começara, de facto, em consequência do telhado ter sido inflamado por uma bomba de morteiro, no próprio sítio em que, em plano interior, na parede, fora colocada a lápide!

Manuel de Arriaga.

faria o mesmo que Manuel de Sousa Coutinho, ao saber que ia receber a visita dos governadores espanhóis! Incendiaria a minha casa para que ele lhe não pudesse transpor os umbrais! E, a propósito, conta-me a minha ilustre visitante um caso sucedido, notável pela correlação existente entre o mesmo e as palavras do falecido e autocrático morgado. Foi no dia 5 do próximo passado mês de Outubro, dia em que, na Horta como em todo o país, se festejava o primeiro aniversário da república portuguesa.

Riem-se ambas as senhoras, ao pensarem nos supersticiosos monárquicos, que teriam certamente ficado convencidos de um castigo divino, ou talvez de uma vingança da alma do pai, a cumprir as ameaças de incêndio feitas em vida. Depois despedem-se, ficando Alice Moderno convidada a passar lá por casa. 3. Republicana convicta e entusiasta, Alice Moderno rejubilou de alegria quando, ao terminar o governo provisório de Teófilo Braga, seu grande amigo e admirador, vê a presidência da república ser novamente ocupada por um açoriano. Foi nessa altura que publicou no seu jornal A Folha, de 27-VIII-1911, o seguinte artigo:

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O novo Presidente da República

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Na última quinta-feira aguardavam-se com vivo interesse as notícias telegráficas da capital. Tratava-se, nem mais nem menos, do que de saber quem assumiria a chefatura do país, durante os próximos quatro anos. Eram candidatos à mesma o velho democrata Manuel de Arriaga e o brilhante diplomata Bernardino Machado. Foi eleito o primeiro. Republicano convicto, Manuel de Arriaga bem merecia da pátria essa suprema consagração! Formou-se com sacrifício, viveu pobre, ostentou sempre a sua bandeira, recusou altos cargos, ganhou dificultosamente, dia a dia, na sua banca de advogado, o pão de sua numerosa família. No centenário de Luís de Camões, com a cabeça erguida, passou diante da tribuna real sobraçando uma coroa de loiros ornada de várias fitas verdes e vermelhas. D. Luís I, dizem, empalideceu, retirando-se pouco depois. Decorridos meses, foi Manuel de Arriaga convidado para preceptor dos príncipes. Honradamente, lealmente, escusou a distinção que lhe queriam fazer. Na cadeira presidencial, está consequentemente, sentado um homem dotado de rija têmpera, e o país honrou-se, honrando o antigo patriota. Natural da Horta, Manuel de Arriaga não é para nós um desconhecido. Vimo-lo pela primeira vez no palco do Teatro Micaelense, onde, de passagem da ilha natal para o continente, realizou uma conferência a convite do partido republicano local. Revelou-se, então, um verdadeiro artista da palavra, um charmeur. E que o público se encontrava catequizado, bem o provou, no cais, onde, ao embarcar, recebeu

vibrante ovação. Vimo-lo bem mais recentemente, e ainda por ocasião de passar vindo do Faial, onde fora visitar as suas irmãs, as ex.mas sr.as D. Mariana e D. Maria Cristina. Convidara-o para jantar em sua casa o sr. João Machado de Faria e Maia, seu íntimo amigo e antigo companheiro de Coimbra, e tivemos o prazer e a honra de assistir ao mesmo jantar e de levantar um brinde ao ilustre republicano. Na galeria que os vindoiros fizerem, dos presidentes da República Portuguesa, figurarão em primeiro lugar dois açorianos: um micaelense e um faialense. A protestar contra o abandono a que os poderes públicos têm votado este arquipélago, ergue-se, em toda a sua pujança, a forte intelectual idade dos homens das ilhas, como se diz no continente português. Honra seja feita ao país, que tão bem tem sabido escolher os indivíduos encarregados da sua representação. Viva a Pátria! Viva a República! Viva a intelectualidade açoriana! 4. No dia seguinte ao do seu encontro com Cristina de Arriaga, Alice Moderno recebe a visita de outra irmã, que assim descreve na Carta IX: A sr.ª D. Mariana de Arriaga, com quem de há anos troco bilhetes, possui um temperamento artístico de notável envergadura. Assim, escreve versos (alguns dos quais me faz a honra de recitar) com grande facilidade, e compõe música com a mesma espontaneidade. Promete-me, para o dia em que eu for a sua casa, a audição da sua última composição musical, A Marcha da Revolução que fico, como é natural, aguardando com o mais vivo interesse.


Na Carta X, Alice Moderno conta então a sua visita à residência da família Arriaga: “...casa apalaçada, de aspecto fidalgo, no frontispício da qual acaba de ser colocada a célebre lápide comemorativa que deu causa a um começo de incêndio. No largo patamar que se segue ao primeiro lance de escada, está colocada uma linda planta ornamental, cujo cache-pot, verdadeira marca da casa, ostenta as cores da bandeira nacional. Atravesso uma sala, e entro no vasto império, onde logo surgem a receber-me, alegres e hospitaleiras, as simpáticas e talentosas irmãs do presidente da República Portuguesa. São, pela ordem das respectivas idades, a sr.ª D. Maria Cristina, prosadora e poetisa, com os seus lindos cabelos brancos, os seus esplêndidos olhos azuis e o seu ar ancien régime, a sr.ª D. Mariana, compositora e poetisa, com a sua atormentada fisionomia de artista dupla, en mal de création, a sr.ª D. Amélia, simpática e resignada figura de mulher, de olhos já enevoados pela próxima partida de uns travessos sobrinhos, a quem ama como se fossem seus filhos, e a sr.ª D. Adelaide de Arriaga Linhares, a mais moça das sr.as Arrriagas, casada com o sr. Augusto César de Sá Linhares, tesoureiro da alfândega da Horta (...). Escreve Alice Moderno que precisa de muito espaço para transmitir as impressões que lhe deixou essa visita. Por isso resume: Maria Cristina mostralhe a sua biblioteca e convida-a a visitar o Asilo de Mendicidade, estabelecimento de caridade fundado por sua iniciativa e a que dedica a maior parte do seu tempo. Quanto a Mariana, senta-se ao piano e executa entusiasticamente a Marcha da Revolução; enquanto que Adelaide se compraz em apresentar-lhe os filhos,

Berta e Luís Linhares, de 19 e 13 anos respectivamente. Em seguida é a visita ao jardim: Convidam-me em seguida a visitar o castanheiro, o célebre e secular castanheiro da família Arriaga, que eu já conhecia tradicionalmente; conta mais de duzentos anos, e é uma lindíssima árvore. Na passagem para o mesmo, sito a um dos lados da vastíssima quinta familial, e num átrio situado em frente da parte traseira da casa, apresento os meus respeitos à D. Rita, engraçadíssima macaca, que seria um dos animais domésticos de maior estimação, se lhe não disputasse preferências e blandícias uma gentil catatua, que lhe faz pendant, branca, de poupa amarelada, e olhos e bico negros como amoras maduras. O castanheiro das senhoras Arriagas, ao tempo coberto de frutos, constitui uma das curiosidades da Horta, e não há estrangeiro que o não visite, visto que o ingresso à quinta é sempre graciosamente franqueado pelas suas ilustres proprietárias. Traz-se um fio, mede-se-Ihe a circunferência e verifica-se que esse castanheiro frondosíssimo tem já nove metros de circunferência! Regressados de novo ao salão, Alice Moderno vai agora apreciar os retratos dos antepassados de Manuel de Arriaga e conhecer a sua genealogia: Regressando ao salão, mostra-me a sr.ª D. Maria Cristina os retratos ancestrais, nalguns dos quais há tipos de verdadeira formosura, e, em todos, o selo da raça apurada de que é oriundo o grande democrata que hoje preside aos destinos do país. Soube então ter nascido na ilha de S. Miguel o pai do actual presidente da República, nascimento que se realizou a 22 de Março de 1776. Chamou-se Miguel de Arriaga Brum da Silveira e foram seus pais o dr. José

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de Arriaga Brum da Silveira, desembargador da Relação do Porto, e D. Francisca Josefa Borges da Câmara Corte Real, sua esposa. Seu avô paterno, João de Arriaga, nasceu em Bayonne, em 1652, e obteve carta de brasão de armas, passada em 1678, carta em que se diz que os Arriagas “pouco tempo depois do dilúvio, aportaram a San Sebastian, e edificaram o seu solar em Alza. “ João de Arriaga, filho de Salvador de Arriaga e de Maria de Izibarreu, foi nomeado cônsul francês e vice-cônsul genovês na ilha do Faial, indo então fazer souche na mesma, onde casou com D. Catarina de Brum da Silveira, descendente dos capitães donatários, de origem flamenga, a quem fora dado o domínio daquela ilha, pouco depois de descoberta. A mãe do ouvidor Miguel de Arriaga Brum da Silveira tinha nas veias o sangue dos Borges, Câmaras e Corte Reais, e a sua avó paterna, D. Catarina Nandim de Peyrelongue era sobrinha de Manuel José de Peyrelongue, súbdito francês, residente em Lisboa, onde intimamente convivia com os primeiros marqueses de Pombal, que assistiram na pia baptismal a Sebastião de Arriaga, seu filho primogénito, que foi o primeiro deputado que as ilhas do Faial e Pico elegeram, em 1821. Este oficial, que tomou parte na guerra peninsular, foi condecorado pelos governos português e francês, e casou com D. Maria da Piedade Cabral da Cunha Godolphim de La Rocca, de quem houve o pai do actual presidente. D. Catarina Nandim de Peyrelongue, avó do primeiro Arriaga estabelecido nos Açores, era XV.ª neta do rei D. Afonso III.º , IX.ª neta de Fernando de Castela, e XXIII.ª neta de Hugo Capeto, duque de Orléans e conde de Paris e Orléans, segundo documentos existentes na

Torre do Tombo. E assim dá-se o caso curioso da rainha proscrita de Portugal ter ainda laços de parentesco com o primeiro presidente da República, eleito pelas assembleias constituintes da nação portuguesa!!! Alice Moderno parte nesse dia 20 de Outubro de 1911, para a Terceira; e assim terminou a sua visita à família Arriaga e à ilha do Faial. 5. Em Lisboa, o presidente da República conhecia enormes dificuldades políticas, em razão da atitude ambígua de Pimenta de Castro perante a primeira incursão monárquica, sob o comando de Paiva Couceiro, nos princípios desse mês de Outubro. Nessa data, Alice Moderno publicara um outro artigo sobre Manuel de Arriaga (Rev. Pedagógica, 5-X-1911), muito semelhante ao anterior, mas que lhe é complementar. É o 1º aniversário da implantação da república; e a escritora procura exaltar os méritos do presidente, naquela região açoriana: República Portuguesa 1910-1911 Dr. Manuel de Arriaga Vi-o duas vezes. Na primeira era conferencista, e, em plena monarquia, com a sua sedução irresistível de artista da palavra, logrou quebrar o gelo do auditório rebarbativo que o escutava. De estatura média, trajando correctamente a casaca, irrepreensível na apresentação, possui isso a que os franceses chamam une belle tête d’étude: perfil distinto, vincado, com um tanto ou quanto nazarénico,


olhos expressivos, bigode e pera alvíssimos e cabeleira romântica. E reportando o meu pensamento ao passado, parece-me estar a vê-lo, no palco do Teatro Micaelense, e a ouvi-lo falar em progresso, em democracia, em solidariedade, em confraternização. Decorridos anos, encontrei-me com o actual presidente da República Portuguesa em convívio íntimo, por ocasião de, à sua passagem do Faial para Lisboa, lhe ser oferecido um jantar pelo nosso comum amigo, o sr. João Machado de Faria e Maia. E, desta vez ainda, não me é infiel a memória, e revejo o nosso chefe de estado, sentado à direita da veneranda viúva do Dr. José Pereira Botelho (um grande e sincero democrata, também, e um dos meus nunca esquecidos mortos!), sogra do anfitrião e servindo-se rasgadamente, com esse sorriso expansivo e alegre que têm, à mesa, os grandes trabalhadores, de um esplêndido pargo cozido, servido com batatas, ramos de salsa e molho de alcaparras, e dizendo à propos de um desses mil nadas que ocorrem na conversação: “Há uma coisa em que eu sou terrivelmente aristocrata... é em assuntos de educação...” Quem, nestes últimos tempos, tem recordado a vida de Manuel de Arriaga, desde o momento em que foi para Coimbra, estudar direito, comer caldo de Esparta, e ensinar inglês, até ao dia de hoje, em que assumiu a chefatura máxima do seu país, não poderá deixar de reconhecer que ninguém com mais direito venceu, que ninguém com mais abnegação triunfou. De uma inteireza absoluta, de uma têmpera inquebrantável, quanto às convicções, e de um feitio palaciano, pela superioridade da educação que desde o berço recebeu, encaneceu na luta, tendo sacrificado toda a sua mocidade, toda a sua idade viril, e ainda o

bem estar da sua numerosa família, pelo seu ideal. E sempre erguido no pedestal inderrocável do respeito dos seus concidadãos, justo era que, nesta ocasião suprema, recebesse dos mesmos a também suprema consagração! Alice Moderno Fazer uma revolução não custa; o que custa é levá-Ia a bom termo. Passa o tempo; as dificuldades aumentam; e Manuel de Arriaga tenta a conciliação das ideias e a reconciliação dos homens. Numa das suas viagens a Lisboa, Alice Moderno encontra-se pela terceira vez com Manuel de Arriaga. Desta vez, é por ele recebida no palácio de Belém; ora, nas várias alusões que virá a fazer sobre essa visita, as suas palavras sempre incidirão na tristeza e desânimo do Presidente da República; cansado de discórdias e intrigas, Manuel de Arriaga teve para com Alice Moderno “a dolorosa expansão de um minuto de desabafo”: “Eu, que sou o autor das Harmonias Sociais, não vejo, em toda a parte, senão desarmonias”. E a jornalista comenta: “Como sempre acontece depois das revoluções, pairam no ambiente frémitos de revolta, que são outras tantas ambições destruídas, outros tantos privilégios derrocados, outros tantos direitos herdados que se tornou mister consolidar pelo merecimento próprio. Passa o tempo e os descontentamentos aumentam. Também no jornal de Alice Moderno, A Folha, o discurso é de desilusão. Se a soberania residia no Povo, pela voz dos seus representantes, como poderá aceitar-se que, ao fim de quatro anos de república, se tenha uma ditadura?! O nome que se aponta é o do

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general Pimenta de Castro, mas acusa-se o Presidente da República de “sancionar toda essa incomensurável vergonha: o republicano de há 40 anos em poucos meses destruiu todo o seu lídimo passado!”

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No dia 14 de Maio, Manuel de Arriaga, com 75 anos de idade, é forçado a deixar a Presidência da República. Alice Moderno dá as notícias, refere a alegria em Ponta Delgada, pela queda da ditadura, mas não cita o nome de Manuel de Arriaga; aliás já de há muito que o não fazia. Poucos dias depois dá a notícia da morte de Cristina de Arriaga. Fala das suas virtudes (grande benemérita, fundadora do Asilo de Mendicidade, do Albergue nocturno e de um estabelecimento balnear), diz ser a irmã mais velha do Sr. Dr. Manuel de Arriaga, mas muito friamente, sem lhe atribuir qualquer qualificativo. A decepção de Alice Moderno traduzia-se por um respeitoso silêncio.


RECORDAÇÕES DESPORTIVAS Joaquim Máximo* Tenho aqui, na minha frente, uma medalha com a seguinte inscrição: «A.N.C. C.R. 1500 – L.H.P. 1941». Ao pequeno aro que dela faz parte está presa uma fita com duas cores: roxa e amarela. A inscrição tem o seguinte significado: «Associação de Natação de Coimbra – Campeonato Regional – 1500 Metros – Livres Homens Principiantes». As cores da fita são as da cidade de Coimbra. Esta medalha encontrava-se esquecida, há muito tempo, numa gaveta que hoje, por acaso, abri, ao procurar qualquer coisa totalmente diferente. Ao olhar para ela senti-me transportado para um passado muito distante, feliz, em que havia tempo para praticar desporto, sem prejuízo dos estudos. Tinha obtido a medalha, aos 15 anos de idade, com o título de Campeão Regional de 1500 metros livres, na categoria de principiantes. Fazia então parte da equipe de natação da Associação Académica de Coimbra. O clube rival

da Académica era o Santa Clara, de que fazia parte o Luís Lopes da Conceição, que foi o melhor nadador de Coimbra e nadador internacional. Havia ainda mais dois clubes em Coimbra: o Nacional e o União de Coimbra. Lembro-me bem que não foi por grande mérito que ganhei a medalha. É que era o único concorrente à prova. E lembro-me bem porque o era. É que todos aqueles, da minha idade, mas melhores nadadores que eu, que certamente me venceriam na prova, tinham já ganho outras e, como tal, de acordo com a regulamentação daquele tempo, tinham passado automaticamente à categoria de juniores. E os poucos que eram piores nadadores que eu, não estavam dispostos a nadar 1500 metros, sem esperança de ganhar a prova. O facto de obter um título de campeão regional quando único concorrente não me sucedeu só na natação. Também o obtive, no atletismo, na modalidade de salto à vara, parece-me que no mesmo ano. Mas aí foi em representação de outro clube, o Académico, já que a Académica não dispunha ainda, na ocasião,

* Joaquim Máximo de Melo e Albuquerque de Moura Relvas, nasceu em Coimbra e reside em Vila Nova de Gaia. Tem o curso de Engenharia Electrónica da Universidade do Porto. Exerceu a actividade profissional na Administração Geral dos CTT e obteve a especialidade de Instalações Exteriores de Transmissão; União Eléctrica Portuguesa, integrada depois na EDP; Professor da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, como Professor Associado; Colégio de Gaia onde leccionou disciplinas relacionadas com a Electrónica Digital, actualmente rege disciplinas de Sistemas Digitais e Microcomputadores no ISPGAYA. Faz parte da Direcção da revista Politécnica. É membro da Ordem dos Engenheiros da “American Association for the Advancement of Science”, da “New Iork Academy of Sciences” e da “Planetary Society”.

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de qualquer modalidade do atletismo. Isso foi depois. Nessa época até nem havia quase ninguém em Coimbra que praticasse a modalidade do salto à vara. Praticavaa eu e outros amigos, utilizando uma vara de bambu, conjuntamente com outras modalidades de atletismo, num terreiro com 16 metros de comprimento e 10 de largura, que havia na casa dos meus pais. Inicialmente era um terreno com canteiros de morangos, que a minha mãe mandou terraplanar para ser transformado num campo de «volley» com uma caixa de saltos numa das extremidades. Já não me lembro se foi ainda nesse ano, ou se foi no ano seguinte, em 1942, que se realizou na piscina fluvial de Coimbra o campeonato nacional de natação. Vieram concorrentes de todo o país. Os melhores clubes da época eram o Sport Algés e Dafundo, com o Mário Simas, o Herculano Trovão, etc., e o Alhandra, com o Baptista Pereira e o Jofre de Carvalho. Não estava prevista a minha participação em qualquer das provas do campeonato nacional porque

não tinha categoria para isso. Estava apenas previsto que participasse numas provas complementares, a intercalar entre as do campeonato nacional. Na prova de 1500 metros livres do campeonato nacional estava prevista a participação da Associação de Natação de Coimbra, com o Adelino Lebre pela Associação Académica de Coimbra e com o Luís Lopes da Conceição pelo Santa Clara. Encontrava-me muito tranquilo à espera de assistir, como simples espectador, a esta prova, quando o Manuel Gaspar, treinador da Académica, veio ter comigo e me disse: – Ouça, Quim! Resolvi que o Lebre não participasse nesta prova porque, em primeiro lugar, não quero dar a satisfação aos do Santa Clara de ele ficar atrás do Luís Lopes da Conceição e, em segundo lugar, porque quero que o Lebre reserve as suas forças para a prova dos 400 metros livres. Mas, como não é prestigiador para a Académica deixar a sua pista vazia, resolvi que você fosse substituir o Adelino Lebre na prova.


– Mas oh Gaspar! – respondi eu – Com os melhores nadadores do país a participar nesta prova, vou ficar, com certeza, no último lugar, e vai ser uma vergonha para a Académica e desagradável para mim. – Garanto-lhe que, indo você substituir o Lebre, não é vergonha nenhuma para a Académica e, quanto a si, vai ser um excelente treino para as provas complementares que vai disputar amanhã! E foi assim que tive de tirar a roupa, vestir o fato de banho e, por cima dele, o meu fato de treino preto, com o emblema da Académica. Naquele tempo, o fato de banho tinha de tapar o peito todo e, anos depois, tinha de ter três centímetros de perna, por causa das regras de moralidade impostas por uma tal Guardiola, feia que eu sei lá, e que assim actuava por ir muito à missa e por ordem do Salazar. Depois o Júri começou a fazer a chamada: – Atenção aos concorrentes à prova dos 1500 metros livres, do campeonato nacional! À pista l: Jofre de Carvalho, do Alhandra! À pista 2: Herculano Trovão, do Sport Algés e Dafundo! À pista 3: Luís Lopes de Conceição, do Santa Clara de Coimbra! À pista 4: Baptista Pereira, do Alhandra! – E assim sucessivamente até chegar a mim, que nadava na última pista. E depois, como era costume naquela época: – Mantenham-se calmos e descontraídos. E a seguir: – Aos seus lugares! – E, instantes depois, deu o tiro de largada, com uma pistola de pólvora seca. Largámos e eu, para fazer um brilharete, fiz a primeira piscina (33 metros) em «sprint», acompanhando os outros. Mas depois pensei para mim mesmo: – Quim, ainda faltam mais 44 voltas e, com esse andar, não aguentas chegar ao fim e isso é que é

uma vergonha! – tendo então abrandado o andamento em conformidade com as minhas possibilidades. Depois de ter percorrido trinta e tal voltas, ouvi muitas palmas. Tinha provavelmente ganho a prova o Baptista Pereira. Pouco depois, ouvi novamente palmas. Se calhar tinha chegado ao fim o Jofre de Carvalho. E fui contando as salvas de palmas, até que cheguei à conclusão que era apenas eu que estava em prova. Depois de ter nadado mais algumas voltas cheguei à última. Aí fiz um «sprint» como era habitual, naquele tempo, fazer na última volta. E então ouvi um brado, vindo da bancada, que depois soube ter vindo de um adepto do Santa Clara para troçar da Académica: – Anda, Gaspar! Ao chegar ao fim da prova, estranhei não ouvir os aplausos de consolo que, naquela época,era habitual dedicar ao último concorrente a chegar. A causa disso compreendi-a quando, logo a seguir, olhei para a bancada: havia enorme pancadaria entre os adeptos da Académica e os do Santa Clara, que tinha sido originada pelo Manuel Gaspar que, ao ouvir aquele brado, correu à bancada para dar dois murros no seu autor. Dali à generalização, a toda a bancada, desta cena de socos, decorreu muito pouco tempo. E foi assim que, com a minha triste actuação, desencadeei a primeira cena de pancadaria ocorrida num campeonato de natação. Todo este episódio se pode resumir como se mostra no seguinte soneto: VIDA DESPORTIVA Em tempos que já lá vão, Era um grande desportista: Entrava em provas de pista E em provas de natação.

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Na pista era o salto à vara, Na natação era o “crawl”. E jogava o voleibol. Que nem era coisa cara. E, numa prova nacional, Eu cheguei para meu mal, Bem atrás de toda a gente. Não era já coisa nova, Pois eu só ganhava a prova Sendo só eu concorrente.

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D. Madalena Sá Ferreira faz a entrega das chaves do Castelo ao Senhor Presidente da República.

O Senhor General Ramalho Eanes abre a porta do Castelo.

MONUMENTO A FERNANDO PESSOA No Castelo de Santa Maria da Feira – X (Conclusão)

Foi, até ao presente, o segundo Chefe de Estado que subiu ao eirado. Do Castelo seguiu para a Praça Fernando Pessoa onde inaugurou o Monumento, conjuntamente com Miguel Torga, e participou depois na Sessão Solene que teve lugar na Escola Preparatória. De novo para o Castelo, para o Jantar de Honra, a que presidiu. No Salão Nobre foi saudado pelo Presidente da Comissão de Vigilância, Padre Albano de Paiva Alferes, com palavras de muita erudição, que integramos neste número a partir da página 9. O Senhor General Eanes descerrou uma placa comemorativa desta visita Presidencial, «A recordar a visita a este Castelo do Senhor Presidente da República, António Ramalho Eanes, na inauguração do 1º. Monumento Nacional a Fernando Pessoa. 30-11-1983 C.V.C.F. » (1)

Executivo LAF* O Senhor Presidente da República chegou ao Castelo cerca das 15 horas, depois da visita que efectuou ao Concelho. Após receber cumprimentos das individualidades, foram-lhe entregues as chaves do Castelo pela jovem Madalena Sá Ferreira. O Senhor Presidente da República foi sempre acompanhado pelo Senhor Padre Albano de Paiva Alferes que ia descrevendo a História do Castelo. Passou pelo Salão Nobre, onde iria ser servido o Jantar de Honra, e quis subir ao eirado, a contemplar a paisagem de maravilha e sonho, que se estende até ao mar oceano e à ria de Aveiro, e de que tão bem fala Miguel Torga. *Liga dos Amigos da Feira

C.V.C.F. – Comissão de Vigilância do Castelo da Feira. A placa foi mandada retirar em 1985, às ordens do Presidente do IPPAR.

(1)

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A Comissão de Vigilância do Castelo fez entrega ao Senhor Presidente da República de uma miniatura em filigrana de prata do Castelo, tendo a LAF oferecido a medalha de prata com que comemorou o 47º. Aniversário da morte de Fernando Pessoa aos 47 anos de idade e a medalha em bronze com que a Câmara Municipal da Feira comemorou em 1977 o 1º. Centenário do nascimento de Manuel Laranjeira. O Centro da mesa, muito lindo e muito apreciado, foi um arranjo artístico da companheira Maria de Lurdes. Com as mesas repletas de iguarias, os quentes foram servidos de pé, permitindo um agradável convívio entre todos. (2)

“O cronista só pode terminar repetindo as palavras do Senhor Presidente da República na sessão de boas vindas na Câmara Municipal, após levantar os olhos do discurso escrito: “Àqueles homens que promoveram esta homenagem, justa e tardia, o agradecimento da Nação. “ (3)

Momentos de muita alegria, de muito entusiasmo, de muito contentamento “O copo de água decorreu num tom de felicidade e encantamento, em que os ilustres visitantes comungaram com os demais presentes em espírito de autêntica e sã fraternidade. Como que desapareceram as altas individualidades e ficaram António Ramalho Eanes, Miguel Torga, Agustina Bessa Luís, Eduardo Lourenço, Rebordão Navarro, Aureliano Lima, Salvato Trigo, José Augusto Seabra, Norma Tasca, Clara Crabbé Rocha, Andrée Crabbé Rocha, Virgínia Navarro, Alberto Luís, José de Melo, Mário Cancela, Cortez Albuquerque, Couto Mendonça, Asdrúbal Cerdeira, Gil Félix, Frederico de Moura e outros mais a conviverem com aqueles que tiveram a honra de serem os seus anfitriões, em noite inesquecível, noite memorável, noite que se desejava infindável e que se prolongou até alta madrugada. “Tinha sido escrita, quem sabe, a mais bela página cultural da história do Concelho da Feira. (2)

Remetemos o leitor para a Revista nº. 6, p. 99.

(3)

Jornal Correio da Feira, nº. 4399 – 16 de Dezembro de 1983.


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O “Alcaide� Albano Alferes disserta sobre o Castelo.

No castelo.


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Manuel Plácido - Joaquim Ribeiro - Fernando Neves - Carlos Gomes Maia - Joaquim Correia Leite - Manuel Cunha Rodrigues - Pe. Albano Alferes Senhor Presidente da República General Ramalho Eanes - Celestino Portela - Santos Pinto - Anídio Azevedo - Francisco Rodrigues.

Em destaque - a placa comemorativa desta Visita Presidencial.


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Visita ao catelo.

Entrega de lembranças.

Um pormenor do convívio.

Entrega de lembranças.


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O arranjo artĂ­stico de DÂŞ. Maria de Lurdes Maia.

A partilha do bolo.


Na hora da despedida...

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António Luis Carneiro - Avelino Fontes Costa - Celestino Augusto Portela - Coronel Lencastre Berardo, Celestino Portela, Senhor Presidente da República - Aníbal Campos - Alcides Branco - Pe. Albano Alferes - Eduardo Vaz de Oliveira - Anídio Azevedo - Manuel Cunha Rodrigues - Joaquim Dias Carvalho e Joaquim Correia Leite.


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Poesia Anthero Monteiro* (OBS)CENA é ali que o rio coagula por instantes junto ao semáforo no topo da rua a mulher planta a vara do corpo na margem e não sei se é da boca se do avental que retira pétalas obscenas para as arremessar é estranho vê-la desentranhar-se também e esvaziar a seiva toda fel para não ser mais que a sombra de um caule os homens sorriem sem nada compreender o sinal muda a cor sem nada compreender o rio volta a fluir sem nada compreender e a vara esguia esgueira-se sem compreender que ninguém a compreenda a rua rescende agora a flores pisadas inultimente venenosas Espinho, 15 de Outubro 1999

* Escritor e poeta natural de S. Paio de Oleiros. Acaba de publicar mais um trabalho: O Misticismo Laico de Manuel Laranjeira (Roma Editora), um ensaio sobre o genial escritor nascido na Vergada.


A Propósito de Uma Fogaça! António Gil Carneiro Alves Correia* Esta fogaça que se vê na foto, morreria esquecida, no fundo de uma gaveta de recordações, se não estivéssemos no 500º Ano Comemorativo das Fogaceiras e a dita não tivesse sido confeccionada por mim, sem nunca ter sido padeiro. Cá vai a “história”... Corria o ano de 1968 e, em 20 de Janeiro, estava eu a cumprir o serviço militar obrigatório, como expedicionário em Angola, mais precisamente em Zala, localidade da região dos Dembos, no norte. Fazia parte de um Pelotão de Morteiros e estava adido a um Batalhão de Caçadores. Estávamos, desde Agosto de 67, isolados, pois não existia população civil e, com as saudades e as recordações da nossa Terra a apertarem o coração, veio-me à ideia comemorar o dia 20 das Fogaças. * Bancário. Aposentado

Naquele destacamento militar estavam mais 3 rapazes do nosso concelho (1 de São João de Ver, 1 de Riomeão e 1 de Argoncilhe). Tomei a iniciativa. Fui à nossa padaria de campanha, pedi-lhes 3 Kg de farinha, ovos, fermento e açúcar e no dia 20 a fogaça foi para o forno. Hoje em dia toda a gente já viu como se faz a fogaça feirense, pois em feiras artesanais e até na televisão, os curiosos e interessados têm acesso à sua confecção. Mas, no meu “tempo”, era um segredo. E que me lembre só existiam 3 casas da especialidade na Feira. Eram elas, o Café Castelo (Sr. João Araújo), Casa Calado (Sr. Francisco Matos) e Padaria Central (Sr. Manuel Araújo). Tive o privilégio de, quando miúdo, ir frequentemente para casa da minha avó materna, na Rua Direita, onde existiu o extinto Hotel Carneiro, propriedade da família. No pátio do referido Hotel, existia um forno que estava cedido ao Sr. Francisco Matos (Xico Calado),

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A fogaça Angolana.

À porta do Hotel Carneiro - As Senhorinhas Lídia Carneiro (Lili) - Maria da Conceição (São) - Maria Emília Carneiro e Maria Ângela Carneiro (Quenina)

para a confecção de doces (fogaças e caladinhos). Como andava por ali, a brincar, metia o “nariz” na sala onde estava o forno, na esperança, sempre concretizada, de receber uma fogaça das pequeninas (Esc. 1$00) oferecidas pelo Sr. Xico ou pelo irmão. Estas fornadas dos sábados eram para venderem nos domingos, aos forasteiros que visitavam a nossa “Vila” e Castelo. Assim, sem nunca ter sido padeiro, aprendi como se fazia a fogaça, com a técnica secreta dos feirenses, tanto na batida da massa, torcida para enrolar e corte dos “bicos do castelo”, com a sua pincelada final para ficar brilhante...

Escrevi à minha mãe (felizmente ainda entre nós e com 90 anos), contei-lhe o “acontecimento” e enviei a fotografia. Ela, com o seu “bairrismo”, foi contar e mostrar a fotografia ao Sr. João Araújo do Café Castelo. O saudoso Sr. João, ficou emocionado e ao mesmo tempo encantado por um feirense se lembrar de fazer uma fogaça, naquelas circunstâncias e tão longe... Como prova do seu reconhecimento, escreveu-me e enviou-me pela Cruz Vermelha, uma fogaça das dele “verdadeira” e enorme, com um par de bandeirinhas de “pratas”, que tinham ido na procissão e um “postal” do Mártir S. Sebastião benzido. Quando lá chegou, passados 20 dias, convidei de novo os mesmos colegas para então comermos a “original”. Com o tempo de transporte e o calor, ela “secou” um bocado e o comentário foi o seguinte: - Oh Gil, a tua era melhor!

Mas retomemos a “história”. No dia 20 de Janeiro de 1968, tirou-se a fotografia, comeu-se a fogaça e beberam-se umas cervejas para comemorarmos, os quatro feirenses e alguns vizinhos, nomeadamente de São João da Madeira, Oliveira de Azeméis, Ovar e Gaia.

Fiães, 04 de Janeiro de 2006


A Medalhística no Concelho de Santa Maria da Feira – IX JOSÉ RODRIGUES Celestino Portela* | Joaquim Carneiro**

O homem que “fez a Cooperativa Árvore, o criador da Bienal de Vila Nova de Cerveira, que vive recolhido no seu Convento”, nasceu em Luanda em 1936. Veio para Portugal em 1950, para casa dos Avós em Alfândega da Fé, de onde estudou no Liceu de Bragança. Frequentou a Escola Decorativa Soares dos Reis e a Escola de Belas Artes do Porto, cujo curso concluiu com 20 valores, e onde ficou como Professor. O ensino roubava-lhe muito tempo que precisava para a obra de criação, pelo que cedo deixou as aulas passando a dedicar-se em exclusividade à escultura, pintura, cerâmica, desenho, ilustração, cenografia... *Advogado | **Designer Gráfico

Foi em 1972 que comprou o Convento de S. Payo que se encontrava em ruínas e que paulatinamente foi transformando no acolhedor centro de arte, onde recebe os amigos, no seu atelier, onde trabalha horas sem fim em completo isolamento, onde concebe, imagina, estuda, esboça, molda as obras maravilhosas que apresenta, desde o simples traço, à escultura gigantesca até à escultura mínima e breve. Coleccionador de arte, o convento foi sendo transformado em Museu. Orgulha-se da harmonia panteísta que conseguiu, reunindo na capela peças representativas de todas as religiões, desde Cristo, Buda, Ídolos das religiões Americanas, Africanas, Orientais... De uma criatividade que se não esgota na criação de arte e se estende a variadíssimas iniciativas culturais de tal forma que ao seu redor, a vida não pára como se dissesse que para descansar tem toda uma eternidade! As suas obras encontram-se espalhadas por todo o Mundo, em espaços públicos, Museus, Galerias,

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Colecções particulares ou em qualquer casa como objecto de arte, pois está ao alcance de todos. A sua reflexão sobre a paz faz-nos pensar: “Vivemos numa Sociedade em que as pessoas falam, falam, e não dizem nada. Queríamos mudar o destino. E vamos descrendo de tudo. Eu, para não ir ao psiquiatra, faço o que faço...” (JL- nº. 860-17 a 30 de Setembro de 2003). No nosso concelho conheço duas medalhas, que são maravilhas artísticas, dois troféus medalhas, que vamos apresentar. 17 – CINCA – 25 ANOS. Na apresentação do escultor, Eduardo Paz Barroso refere “A CINCA reconhece, na sua expansão, a necessidade de associar a sua imagem a um registo de qualidade, e por isso mesmo, sensível à inteligência criativa. A evocação de vegetações e folhagens adormecidas, – imaginário que ecoa ainda na concepção

desta peça – o reconhecimento de corpos e memórias, simbologias fálicas e anatomias íntimas, fissuras, o esplendor da criação com as suas analogias bíblicas...” A medalha auto-sustentável é apresentada em caixa triangular cujo rosto nos apresenta um ramo de folhagem em cor verde, que admitimos ser de oliveira, símbolo da paz, esperança e riqueza simbolizada pelos frutos espalhados. O grafismo da caixa é uma pequena maravilha em que vemos o designer gráfico que o autor também é. Num corpo mais saliente, em forma triangular, uma referência com dois dígitos de grande dimensão: 25, gravados em baixo relevo numa superfície polida. Na base, também em baixo relevo, num espaço assinalado por traços verticais, um nome: CINCA. Este corpo tem embutido um cubo de maiores dimensões, que nele apoia por um dos vértices. Neste cubo, em baixo relevo, ramos de folhagens que nos deixam ver no fundo os vestígios vegetais, como se de fóssil se tratasse, assinalando assim a contemporaneidade da Empresa nascida há um quarto de século.


No bordo lateral esquerdo, num plano superior, uma argola que perfura o cubo e onde se prendem duas mensagens, soltas, livres, lembrando fitas rectangulares que o vento pode agitar, que referem as datas precisas da criação e da comemoração que se exalta: “1964 e 1989”. No reverso aparece-nos em plano mais saliente o cubo, com folhagens em baixo-relevo e, no fundo, a mesma composição lembrando fósseis. O triângulo inferior, em plano menos saliente, apresenta-nos também a continuação da mesma folhagem. Toda a restante face é polida, apresenta-nos no plano superior direito a argola que prende as fitas e no plano inferior direito do cubo a assinatura do Mestre: J. Rodrigues. Todo o conjunto, com imagens triangulares, quadradas e cúbicas sugerem-nos um conjunto de mosaicos, a actividade industrial da Empresa de Cerâmica CINCA.

18 - BOMBEIROS VOLUNTÁRIOS DE LOUROSA. Medalha uniface que assenta em triângulo escaleno-acutângulo representando a unidade do esforço e sacrifício e a multiplicidade dos serviços prestados pelos Bombeiros. No plano superior o emblema da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Lourosa, cujo 30º. Aniversário da Fundação a medalha comemora. No plano lateral esquerdo a legenda “1968 – 8 – Abril – 1998”. Na base vemos folhagens, simbolizando o elemento vegetal que sustenta o incêndio, que o incêndio consome e destrói e que os Bombeiros combatem. Em alto-relevo a linha sinuosa de duas chamas com a face polida, lembrando o brilho intenso do fogo, com a mais elevada seguindo sensivelmente o traçado de uma ceviana, passando pelo ortocentro, projectando-se para além do triângulo base, sugerindo a intensidade devastadora do fogo.

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Esta chama é sustentada por uma superfície não polida, representando o combate ao incêndio, a diminuição da sua intensidade, o caminho para o controle do fogo pela acção dos Bombeiros. O sulco existente entre a base triangular e a superfície não polida em que assenta a chama representa o corte feito no incêndio para o seu controle. No plano superior esquerdo uma asa aberta, em pleno voo, em actividade, sugerindo a prontidão, com que os Bombeiros se deslocam para o Quartel e daí para o cumprimento da missão. Os Bombeiros têm asas nos pés para correrem para os sinistros e têm asas nos braços para socorrer as vítimas, as salvarem e protegerem. Magalhães de Lima na pagela de apresentação do Escultor e da Medalha refere: “ Lá em cima, no topo esquerdo, bem demarcada, a asa da águia, que nada ataca, nada queima, nada atinge... Ela significa os gloriosos Bombeiros de Portugal, mais de 600 anos de dedicação ao semelhante que sofre, e agora ufana, feliz, honrada por 30 anos de criação dos Bombeiros Voluntários de Lourosa!” Desta medalha foram executados 31 exemplares em prata, 300 exemplares de bronze e 31 troféus de maiores dimensões.


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Postais do Concelho da Feira A – Postais Ilustrados Ceomar Tranquilo*

33 – (A.) 47, Emílio Biel e C. Porto Castelo da Villa da Feira. *Caminheiro por feiras, lojas e mercados.


33-A – Reverso do mesmo postal. Ornamento colorido, diferente dos postais nº. 29-A, 30A – 31-A e 32-A. 146

33- B – 44. O mesmo postal circulado para Lisboa, onde chegou a 9-6-906. Circulado com selo de 10 Reis, série D. Carlos.


34 – Emílio Biel e C. – Porto – Vista Geral da Villa da Feira. Fotografia que parece tirada do Castelo, onde se vê o casario da “Rua”, da Matriz à Misericórdia e no Rossio. 147

34-A – O reverso do mesmo postal.


35 – Emilio Biel e C.- Porto – castelo da Villa da Feira. Fotografia que evidencia o estado do Castelo, vergado ao abandono de várias gerações. 148

35-A – Reverso do mesmo postal. Circulado de 24 de Junho 1913 para Pezo da Regoa, onde chegou a 25-6-1913, com selo de 1 centavo, cor verde. “Querida M. Leonor. Eis uma vista do Castelo que visitei Domingo e achei muito bonito”


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36 – Custume (Villa da Feira) vendedeira com açafate.


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Lojas de venda de calçado directamente da fábrica ao público Santa Maria da Feira Pinhel Lordelo/Guimarães Póvoa de Varzim Viseu

Rohde - Sociedade Industrial de Calçado Luso - Alemã, Lda. Lugar do Cavaco Santa Maria da Feira

Apartado 11 4524-909 Feira Portugal

Tel. 00 351 256 377 000 Fax. 00 351 256 377 008 E-mail: rohdefeira@rohde.pt


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Villa da Feira 13  

Revista, Villa

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