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UMA ANÁLISE VARIACIONISTA DAS VOGAIS MÉDIAS PRETÔNICAS

REGINA CELI MENDES PEREIRA

2009


Dedico este livro a Ravic, Renan e Raíra que representam a fonte de meu equilíbrio e a motivação para meu trabalho.


“A coletividade é necessária para estabelecer valores cuja única razão de ser está no uso e no consentimento geral: o indivíduo sozinho é incapaz de fixar qualquer valor”. Saussure


SUMÁRIO

INTRODUÇÃO

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1. OS FUNDAMENTOS DA TEORIA DA VARIAÇÃO ---------------------

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2. PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS E DELIMITAÇÃO DO OBJETO DE ESTUDO

-------------------------------------------------------------

2.1 Variáveis dependente e independentes 2.2 Variáveis linguísticas

-----------------------------------------------------------------------------

18 19 20

2.3 Variáveis extralingüísticas

---------------------------------------

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2.4 Amostragem e informantes

----------------------------------------

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2.5 Análise estatística dos dados

----------------------------------------

25

-----------------------------------------------

29

3. VOGAL DA SÍLBA SEGUINTE 3.1

As pretônicas na perspectiva estruturalista ---------------------------------

29

3.2

As pretônicas à luz do modelo variacionista

30

-----------------------------

4. ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS ----------------------------------

34

4. 1 Formalização do condicionamento exercido pela vogal seguinte na realização das variantes pretônicas ------------------------------------------------------------------

48

4.2 Conclusão parcial

----------------------------------------------------------------

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5. CONTEXTOS FONOLÓGICOS PRECEDENTE E SEGUINTE ----------

52


5.1 Revisão da literatura

---------------------------------------------------------------

52

5.2

Contextos precedentes favoráveis à elevação --------------------------------

54

5.3

Contextos precedentes favoráveis à abertura --------------------------------

59

5.4

Contextos precedentes favoráveis ao fechamento ----------------------------

61

5.5 Contextos seguintes favoráveis à elevação ------------------------------------

62

5.6

Contextos seguintes favoráveis à abertura -----------------------------------

66

5.7

Contextos seguintes favoráveis ao fechamento ------------------------------

67

5.8

Representação dos condicionamentos fonológicos registrados -------------

69

5.9

Conclusão parcial --------------------------------------------------------------------

72

6. VARIÁVEIS LINGUÍSTICAS NÃO DETERMINANTES COMPORTAMENTO DAS PRETÔNICAS -----------------------------------------

DO 74

6.1

Distância da sílaba tônica --------------------------------------------------------

74

6.2

Classificação morfológica ----------------------------------------------------------

76

6.3

Atonicidade da pretônica ---------------------------------------------------------

78

6.4

Conclusão parcial

81

7. VARIÁVEIS

-------------------------------------------------------------------

SOCIAIS

-----------------------------------------------------------

82

7.1 Sexo --------------------------------------------------------------------------------------

82

7.2 Faixa etária ----------------------------------------------------------------------------

85

7.3 Anos de escolarização --------------------------------------------------------------

88

7.4 Conclusão parcial

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--------------------------------------------------------------------

CONSIDERAÇÕES FINAIS

----------------------------------------------------------

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS -------------------------------------------------

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LISTA DE TABELAS TABELA 1 - Vogal da sílaba seguinte - resultados para / e / ---------------

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TABELA 2 - Vogal da sílaba seguinte - resultados para / o / ---------------

36

TABELA 3 - Médias antes de altas orais e nasais - resultados para / e /------ 37 TABELA 4 - Médias antes de altas orais e nasais - resultados para / o /------

37

TABELA 5 - Médias antes de [é] , [ó] , [a] e das não altas nasais resultados para / e / --------------------------------------------------------------------

41

TABELA 6 - Médias antes de [é], [ó], [a] e das não altas nasais resultados para / o / ------------------------------------------------------------------------------------ 41 TABELA 7 - Médias antes de [ê], [ô] e de ditongos - resultados para / e / --- 44 TABELA 8 - Médias antes de [ê] , [ô] e de ditongos - resultados para /o / --- 44 TABELA 9 - Contexto fonológico precedente - resultados para / e / -------- 54 TABELA 10 - Contexto fonológico precedente - resultados para / o / ------- 57 TABELA 11 - Contexto fonológico seguinte - resultados para / e /----------- 62 TABELA 12 - Contexto fonológico seguinte - resultados para / o /----------- 65 TABELA 13 - Distância da sílaba tônica - resultados para / e / --------------- 75 TABELA 14 - Distância da sílaba tônica - resultados para / o / -------------

75


TABELA 14 a - Posição contígua e peso relativo -----------------------------

76

TABELA 15 - Classificação morfológica - resultados para / e /-------------

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TABELA 16 - Classificação morfológica - resultados para / o /-------------

77

TABELA 17 - Atonicidade da pretônica - resultados para / e /--------------

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TABELA 18 - Atonicidade da pretônica - resultados para / o /--------------

79

TABELA 19 - Resultados de Battisti sobre a variável sexo -----------------

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TABELA 20 - Sexo - resultados para / e /----------------------------------------

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TABELA 21 - Sexo - resultados para / o /----------------------------------------

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TABELA 22 - Faixa etária - resultados para / e /------------------------------

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TABELA 23 - Faixa etária - resultados para / o /------------------------------

86

TABELA 24 - Sexo e faixa etária ------------------------------------------------

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TABELA 25 - Anos de escolarização - resultados para / e /-------------------

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TABELA 26 - Anos de escolarização - resultados para / o /-------------------

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TABELA 27 - Anos de escolarização e faixa etária - resultados para / e /---

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TABELA 28 - Anos de escolarização e faixa etária - resultados para / o /---

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TABELA 29 - Anos de escolarização e sexo ---------------------------------

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APRESENTAÇÃO Este livro é fruto de uma pesquisa sobre o comportamento variável das vogais médias pretônicas na fala do pessoense urbano, desenvolvida na Universidade Federal da Paraíba . Os dados utilizados compõem o corpus do Projeto Variação Linguística no Estado da Paraíba (VALPB), que já serviu como fonte de investigação para a realização de dezenas de outros trabalhos de natureza fonológica, sintática, morfológica, semântica e textual por alunos e professores pesquisadores vinculados a essa instituição. Tendo como respaldo teórico-metodológico a Sociolinguística Quantitativa Variacionista de orientação Laboviana, a pesquisa apresenta os elementos condicionadores da realização variável das vogais médias pretônicas /e/ e /o/, destacando, dentre eles, os que mais interferem no comportamento das vogais. Concomitantemente, é feito um levantamento comparativo com os dados de outros trabalhos realizados no país (Natal, Salvador, Brasília e Porto Alegre), com os quais compartilha a metodologia de análise variacionista, apontando os pontos de convergência e divergência entre os diferentes falares. Este trabalho, de cunho essencialmente descritivo-comparativo, vem contribuir para o delineamento do mapa das variantes pretônicas e pode ser utilizado como fonte de consulta para os pesquisadores que investigam as variantes fonológicas nos diversos dialetos brasileiros, em nível de pesquisas de Iniciação Científica, Mestrado e Doutorado.


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INTRODUÇÃO

O leque de variação que a língua portuguesa oferece para distinguir os diversos falares existentes no nosso país é bastante amplo e, particularmente, a área da fonologia talvez seja aquela que apresente as diferenças dialetais de maneira mais explícita, quando coexistem, num mesmo ambiente, falantes de diferentes regiões. Nesse contexto de variação fonológica, o comportamento das médias pretônicas se apresenta como uma marca dialetal de grande relevância na caracterização dos falares regionais. Essas vogais já têm sido objeto de estudo de vários pesquisadores aqui no Brasil (Bisol (1981), Callou e Leite (1986), Silva (1989), Bortoni (1992) e Battisti (1993)). De forma geral, eles têm reforçado a idéia geral de que o / e / e / o / pretônicos recebem uma pronúncia predominantemente fechada nas regiões Sul-Sudeste, enquanto que no Norte-Nordeste prevalece uma realização mais aberta. Antenor Nascentes (1953) já considerava a alternância das pré-acentuadas como um divisor de águas entre os falares do Norte e do Sul. Outro aspecto que também foi registrado nesses trabalhos refere-se ao fenômeno de elevação a que essas vogais se submetem pela tendência a se harmonizarem com as vogais altas seguintes /i / e / u /, tendência que não se apresenta como um traço diferenciador entre as duas pronúncias, e sim, como um ponto de convergência existente dentro desse ambiente de variação dialetal. No entanto, sem desmerecer a importância desses trabalhos pioneiros, foi só, especificamente aqui no Brasil, na década de oitenta, que floresceram significativos trabalhos que focalizaram a pretônica, seguindo a orientação da Sociolinguística Quantitativa Laboviana, tanto sob a forma de artigos, como de dissertações de mestrado e de teses de doutoramento. Bisol (1981) descreveu a regra de Harmonia Vocálica no falar gaúcho; Callou e Leite (1986) investigaram a ação da regra de Harmonia Vocálica na Norma Culta do Rio de Janeiro; Maia (1986) estudou o comportamento das vogais pretônicas médias na fala de Natal; Silva (1989), as vogais pretônicas na variedade


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culta de Salvador; Bortoni (1992), os condicionamentos das regras de elevação e abaixamento no dialeto de Brasília; e Battisti (1993), elevação das médias pretônicas em sílaba inicial de vocábulo na fala gaúcha. A nossa pesquisa utilizou essa mesma metodologia, através da qual nos propusemos a descrever o comportamento das médias pretônicas em sílaba inicial de vocábulo, na fala do pessoense urbano. Partimos da hipótese de que as variantes abertas [ з ] e [ Ɔ ] são predominantes no nosso dialeto, conforme as conclusões obtidas nos trabalhos citados acima, e que tal fenômeno estaria correlacionado a fatores linguísticos e extralinguísticos. Utilizamos o corpus do Projeto Variação Linguística no Estado da Paraíba (VALPB), financiado pelo CNPQ e coordenado pelo Professor Dr. Dermeval da Hora – meu orientador na pesquisa de mestrado, hoje, colega de departamento – que teve como proposta o delineamento do perfil linguístico do pessoense urbano. O que se iniciou em 1993, em forma de projeto, firmou-se anos mais tarde na comunidade acadêmica em nível nacional, proporcionando a realização e divulgação de dezenas de outros trabalhos de natureza fonológica, sintática, morfológica, semântica e textual por alunos e professores pesquisadores vinculados a nossa instituição. Este trabalho, portanto, de cunho essencialmente descritivo-comparativo veio se unir aos já existentes no esforço de delinear o mapa das variantes pretônicas e justificar suas ocorrências. Agora, em forma de livro, pretende contribuir para dar visibilidade aos resultados de pesquisas que muitas vezes ficam restritos aos programas de pós-graduação das universidades.


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CAPÍTULO 1 OS FUNDAMENTOS DA TEORIA DA VARIAÇÃO

Iniciaremos nossas reflexões com uma revisão dos modelos linguísticos, que parte da abordagem dos neogramáticos até chegarmos aos fundamentos da Sociolinguística Laboviana, evidenciando a evolução das teorias que se ocupam da mudança da língua, seus aspectos convergentes e divergentes, e aqueles universais lingüísticos que subsistem nos sistemas independentemente de limitações cronológicas e metodológicas. Ao longo desse breve percurso, fica evidente que a compreensão de que a língua é um organismo mutável é bem anterior ao século dezenove. No entanto, a postura predominante dos estudiosos da época era a de considerar a língua como um sistema uniforme, sistema esse que fosse passível de uma descrição estrutural. Por essa razão, aquelas formas variantes que não se enquadrassem no sistema, enquanto norma, eram desconsideradas. A postura neogramática influenciou estruturalistas e gerativistas, no que se refere à aceitação da homogeneidade e da sincronia como base para os estudos linguísticos. Não obstante esse posicionamento, remontam a esse período as primeiras discussões acerca da mudança lingüística, e permanecem até os dias atuais. Labov (1981) se pronuncia a respeito da controvérsia neogramática, afirmando que freqüentemente nos encontramos a debater os mesmos temas por décadas, sem resolvê-los, até as pessoas perderem o interesse e partirem para outros questionamentos. Argumenta ainda que os dois paradigmas opostos podem se conciliar sob certas condições específicas a determinadas regras. A controvérsia se estabeleceu, na medida em que de um lado, se posicionavam os neogramáticos (Brugmann, Osthoff, Delbrück, Hermann Paul, Leskien e Wackernagel), para quem a mudança sonora era condicionada apenas pelo contexto fonológico, e não por fatores semânticos ou gramaticais. Ou seja, a mudança seria foneticamente gradual e lexicalmente abrupta. Eles advogavam que as leis fonéticas eram categoricamente aplicáveis. Sendo assim, as demais ocorrências que não estivessem inseridas nesse paradigma seriam explicáveis pela analogia. Essa


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postura foi a pioneira e predominante, até surgirem os linguistas sino-americanos Wang, Chen e Cheng (CHEN e WANG, 1975; WANG e CHENG, 1977) que apresentaram dados referentes à evolução dos dialetos chineses contrários ao axioma da regularidade neogramática, defendendo que o ponto de partida da mudança seria a palavra e não o som. Esse modelo preconizava que as mudanças eram foneticamente abruptas e lexicalmente graduais, sendo denominado, pois, de Difusão Lexical. A doutrina neogramática consolidou-se ainda mais com a introdução da dicotomia langue-parole de Saussure (1916/1973), em que a langue assume a posição de legítimo objeto de estudo linguístico, deixando a parole à margem da descrição linguística. A langue é um conjunto de signos linguísticos, de natureza homogênea e concreta, exterior ao indivíduo, e que não pode ser por ele criado ou modificado. É o sistema, depositado no cérebro de cada indivíduo de uma comunidade linguística, que permite associações entre sentido e imagem acústica coletivamente aceitos, tornando-se então o padrão linguístico subjacente a todo ato de discurso. A parole, por outro lado, é o ato individual de utilização da língua para expressão de um pensamento pessoal, sujeito as influências externas, e, portanto, de natureza heterogênea. Dessa forma, por se tratar de registros variáveis e particulares a cada indivíduo, não se enquadrava no estudo científico da língua. Essa visão, sustentada nas anotações dos alunos de Saussure e nas quais se basearam os editores do Curso de Linguística Geral, consolidaram por muito tempo uma visão equivocada e reducionista sobre as concepções de língua e fala atribuídas a Saussure. Na verdade, respaldados por uma leitura mais recente e coerente com princípios saussurianos (cf. BRONCKART, 2008), constata-se que o autor reconhecia também na parole a sua contraparte social. Labov, Weinreich e Herzog (1966) defendiam que, ao distinguir língua de fala, Saussure rompeu com o psicologismo característico do pensamento neogramático, por considerar a língua como social, e a fala como individual. Acrescentam ainda que Saussure não tinha nada a dizer sobre a comunidade vista como a matriz da performance da fala individual. Segundo eles, Saussure via a heterogeneidade inserida no uso linguístico de uma comunidade não como um objeto


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de descrição sistemática, e, sim, como um tipo de tolerável imprecisão da performance. Essa visão, sustentada nas anotações dos alunos de Saussure e nas quais se basearam os editores do Curso de Linguística Geral, consolidaram por muito tempo uma avaliação equivocada e reducionista das concepções de língua e fala atribuídas a Saussure. Na verdade, respaldados por uma leitura mais recente e coerente com princípios saussurianos, constatamos que o autor reconhecia também na parole a sua contraparte social: “a fala é a realização de uma dessas potencialidades, por meio de um ato que pode ser primeiro singular (isto é, vir de um indivíduo particular), mas que é submetido a coerções sociais” (cf. BRONCKART, 2008, p. 32). Também nos trabalhos dos descritivistas americanos, podemos observar que, apesar de esses teóricos admitirem a existência de formas variantes na língua, essas formas não chegaram a receber uma detalhada descrição. Para Bloomfield (1933), representante maior da lingüística descritiva, essas formas não passavam de abstração, portanto, não observáveis. Segundo ele, o processo de mudança, em si mesmo, escapa da nossa observação. É inútil querer saber que pessoas, ou grupos de pessoas, foram os primeiros a favorecer certas variantes. Acrescenta ainda que quando a mudança sonora torna-se finalmente observável, seus efeitos já têm-se espalhado por meio de um

processo gradativo, que se mantém dentro de cada

comunidade. Com o advento do gerativismo, acentuou-se ainda mais a noção da existência de uma língua uniforme e independente de suas condições de uso. Chomsky (1965) afirma que a teoria linguística está relacionada com um falante-ouvinte ideal, em uma comunidade de fala completamente homogênea, que conhece sua língua perfeitamente, e não é afetado por condições gramaticalmente irrelevantes, como limitações de memória, distrações, mudanças de atenção e interesse, e erros (aleatórios e característicos) na aplicação de seu conhecimento da língua em uma performance real. Na verdade, com as devidas ressalvas, podemos fazer um paralelo entre a dicotomia saussuriana langue-parole e a dicotomia chomskiana competenceperformance (cf. CHAMBERS, 1995, p. 26). A competência linguística representa a


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comunidade, na medida em que essa comunidade linguística é homogênea e tem o indivíduo como seu legítimo representante. É exatamente com base nesse sistema homogêneo, que os gerativistas elaboram as regras categóricas que dão conta da competence e sugerem a existência das regras opcionais para tentar explicar as ocorrências que escapam do paradigma da categorização, ou axioma da categoricidade, segundo Chambers (1995). Essas ocorrências passam a ser conhecidas, então, como formas variantes. A teoria da variação elege essas formas variantes como legítimo objeto da descrição linguística. O que antes era aleatório, passa a ser motivado e sistemático. Aquilo que era considerado não observável pelos estruturalistas recebe uma fundamentação empírica, tornando-se, portanto, observável. Apesar de Labov não ter sido o primeiro linguista a estabelecer a estreita relação entre língua-sociedade-heterogeneidade, foi só a partir dele que uma teoria linguística, que se ocupasse das formas variantes da língua, pôde finalmente ser formulada, denominando-se Sociolinguística Quantitativa. O próprio Labov não gostava do termo sociolinguística, por considerá-lo redundante. Na introdução do seu livro Sociolinguistic Patterns (1972), ele afirma que resistiu, por vários anos, à utilização desse termo, uma vez que isso implicaria a existência de uma bem sucedida teoria linguística cuja prática não fosse social. De fato, remontam ao início e meados deste século os primeiros questionamentos sobre a estreita relação entre a língua e o social. Para Whitney (1901), a fala não é uma possessão pessoal, e sim social; ela não pertence ao indivíduo, mas ao membro da sociedade. Identificamos nesse posicionamento um alinhamento com a concepção dialética da relação língua-fala proposta por Saussure: [...] “a língua não é senão a consagração do que foi evocado pela fala” (KOMATSU e WOLF, 1996, p.65). Meillet (1951) também reforça a mesma tese quando afirma que a língua é um fato social por excelência, o resultado do contato social. Tem se tornado um dos mais fortes elos unindo sociedades, e deve sua existência ao grupo social (apud LABOV, 1972).


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Sturtvant (1947) apresenta propostas para o mecanismo da mudança linguística, dando uma ênfase especial à influência do social no processo de variação. Segundo ele, não se pode compreender a regularidade das leis fonéticas até que se entenda como a disputa entre fonemas leva à vitória de um deles. Antes que um fonema possa se espraiar de uma palavra para outra, é necessário que uma das duas formas rivais adquira algum tipo de prestígio. Labov, juntamente com Uriel Weinreich e Marvin Herzog (1966), lançam os fundamentos da teoria da variação, estabelecendo os métodos e princípios empíricos que devem nortear uma teoria de mudança. Eles apresentam cinco problemas que devem ser considerados na análise de um fenômeno de mudança linguística. São eles: 1 – Os fatores restritivos: Objetivam determinar as possíveis mudanças e as possíveis condições para mudança que podem ocorrer em uma estrutura de um determinado tipo; 2 – O problema da transição: Estabelece que todas as mudanças submetidas a uma cuidadosa análise empírica devem mostrar uma distribuição contínua, através de sucessivas faixas etárias da população; 3 – O problema do encaixamento: Determina que as mudanças da língua devem estar encaixadas no sistema lingüístico como um todo: tanto na estrutura lingüística, como na estrutura social; 4 – O problema da avaliação: Propõe que a teoria da mudança da língua deve estabelecer empiricamente os correlatos subjetivos das várias camadas e variáveis em uma estrutura heterogênea; 5 – O problema da implementação: Estabelece que a mudança da língua começa quando um dos traços característicos da variação da fala se espalha por todo um subgrupo específico da comunidade de fala. Labov manteve esses questionamentos em seus trabalhos posteriores (1972, 1994), acrescentando no primeiro que muitos dos problemas apontados por alguns linguistas, no que diz respeito às dificuldades existentes em se trabalhar com dados de língua real, revelaram-se inconsistentes. Ficou demonstrado através de observações empíricas que a agramaticalidade da fala cotidiana é um mito; a


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existência da variação nas estruturas heterogêneas provou não ser disfuncional; e também ficou evidente que a análise estatística não exigia um número excessivo de informantes. Cedergren e Sankoff (1974) forneceram a fundamentação teórica para a análise estatística a que os dados deveriam ser submetidos. A análise, na pesquisa variacionista, deve ser multivariada, uma vez que a ocorrência das formas variantes pode ser resultado da interferência simultânea de fatores independentes (sociais e estruturais). Aplica-se, então, um valor matemático a cada fator considerado, de maneira a revelar o seu grau de interferência na aplicação da regra. Nessa nova perspectiva de análise, adiciona-se a regra variável às regras categóricas já existentes. O efeito de cada fator na regra variável é avaliado em um intervalo (ϕ) de 0 a 1, através de uma função matemática aperfeiçoada por Rousseau e Sankoff em 1978, mais conhecida como Função Logística. Esse modelo de análise quantitativa propõe que, se o resultado for um número superior a 0.5, há probabilidade de a regra ser aplicada quando ocorrer no contexto aquele determinado fator. Um resultado inferior a 0.5 demonstrará que a presença daquele fator no contexto não favorece a aplicação da regra. Já valores próximos a 0.5 indicam que o fator não desempenha papel condicionante na aplicação da regra. Dessa forma, fica definitivamente descartado o caráter opcional da regra, provando, então, a sistematicidade e previsibilidade da regra variável. Tarallo (1986) introduz o termo caos quando se refere à coexistência de variantes num determinado sistema lingüístico, denominando “a Teoria da Variação Lingüística um modelo teórico-metodológico que assume o caos lingüístico como objeto de estudo” (p. 6). Na verdade, por trás do aparente caos típico a qualquer ambiente de variação, subjaz uma organização bem fundamentada em cálculos matemáticos, submetidos a interpretações sociolinguísticas, que proporciona ao pesquisador um conhecimento mais concreto e previsível dos fenômenos de variação e de mudança, aos quais está sujeita a língua falada. De fato, todos os trabalhos elaborados à luz dessa teoria pretendem descrever a língua no seu estágio mais intrigante: o que serve de moldura para retratar todas as diversidades e peculiaridades do fato social.


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CAPÍTULO 2 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS E DELIMITAÇÃO DO OBJETO DE ESTUDO

No desenvolvimento da pesquisa, examinamos o comportamento das vogais médias pretônicas / e / e / o / em sílaba inicial de vocábulo, nos padrões silábicos CVe CVC-. Comportamento esse que se traduz na variação i : ê : é \ u : ô : ó, apresentados aqui respectivamente pelos termos elevação (altas), fechamento (médias) e abertura (baixas). 1 Ex:

d [i] spesa, s [u] frimento r [e] torno, m [o] leza d [ε] dicada, pr [Ɔ] fissão

Optamos por excluir do corpus as ocorrências das vogais pretônicas em posição inicial absoluta, como é o caso de escola, elevador, educação, omelete. Seguimos o posicionamento de Bisol (1981, pp.33-35), que justifica a exclusão da vogal inicial uma vez que os princípios que regem a elevação da vogal inicial não se identificam com os que elevam uma vogal pretônica interna, mas devem estar em concordância com outros. Ela conclui, então, que a vogal inicial deve ser estudada à parte. Da mesma forma, foram desconsiderados os hiatos e prefixos da amostra. Já que, no caso dos hiatos, segundo Bisol (1981, p.35,37), a elevação dessa vogal sobrepuja à da vogal interna. Por essa razão, e pelo efeito diversificado da vogal seguinte, não foi ela incluída no seu estudo. Quanto aos prefixos, por conta de haver um grupo deles que guarda uma evidente autonomia em relação ao vocábulo de que faz parte, defende que eles merecem uma abordagem diferenciada. Mas faz uma ressalva: “Quando o prefixo se incorpora de todo à palavra como se fora um sufixo ou quando se tem perdida a sua

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Utilizamos os sinais de acentuação ortográfica para indicar as ocorrências de elevação, fechamento e abertura, nas ocasiões em que não for feita a representação fonética.


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origem, então a harmonização passa a atuar: retiro ~ ritiro (subst.), porvir ~ purvir (subst.)”. Além desses casos, foram também eliminados da amostra os contextos fonológicos em que ocorre a nasalização das vogais pretônicas como em conhecimento, comida, nenhuma, vendia, mentira etc., uma vez que o fenômeno mencionado compromete a realização variável da vogal. Naro (1973), ao investigar esse aspecto, ressaltou que a tendência de / e / elevar-se diante de /n / e / s / é comprovada historicamente. Ele também atribui como uma das causas da elevação de pretônicas no português de Portugal, a confusão de prefixos (cf. NARO, 1971). E como na nossa pesquisa, não é apenas o fenômeno específico de elevação que iremos focalizar, decidimos desconsiderar da análise essas ocorrências. Não incluímos também os substantivos próprios e siglas e retiramos da análise vocábulos como pessoa, professor e prefeitura, que se revelaram completamente invariáveis em toda a amostra. Todos eles apresentaram sempre a realização fechada: ê - ô. 2.1 VARIÁVEL DEPENDENTE Consideramos como objeto de análise a elevação (i, u), abaixamento (é, ó) ou fechamento (ê, ô) das vogais médias pretônicas em sílaba inicial de vocábulo, nos padrões silábicos CV- e CVC-. 2.2 VARIÁVEIS INDEPENDENTES Objetivando depreender os contextos que interferissem mais diretamente na realização da variável dependente, dividimos as variáveis independentes em lingüísticas e extralingüísticas, ainda que, segundo Mollica (1994, p.15), a explicação didática (em unidades) do efeito das variáveis em separado é um artifício utilizado que não reflete a atuação simultânea da rede de fatores que interage na variação linguística.


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2.3 VARIÁVEIS LINGUÍSTICAS

2.3.1 TIPO DE VOGAL: [ - Recuada ] / e / e [ + Recuada ] / o / Esse contexto, na verdade, faz parte da própria definição operacional da variável. Caso contrário, não poderíamos controlar qual das duas vogais / e / ou / o / estaria mais sujeita à influência de cada fator observado. a) - Recuada

= felicidade

b) + Recuada 2

= sofrimento

2.3.2 VOGAL DA SÍLABA SEGUINTE Partindo da premissa de que a vogal da sílaba seguinte seria o contexto mais condicionador da altura da média pretônica, controlamos o efeito de cada uma das vogais isoladamente, de acordo com a altura \ zona de articulação de cada uma delas. a) alta - recuada oral ( i )-----------------------------bonita b) alta + recuada oral ( u )----------------------------seguro c) média - recuada oral ( e )--------------------------beleza d) média + recuada oral ( o )-------------------------gostoso e) baixa - recuada oral ( é )-------------------------- depressa f) baixa + recuada arredondada oral ( ó )---------- coloca g) baixa posterior não-arredondada oral ( a )--------metade h) alta nasal - recuada ( ĩ ) ---------------------------seguinte i) alta nasal + recuada ( ũ)-------------------------

segundo

j) não - altas nasais ( ã , ẽ , õ )------------------------chegando, bebendo k) ditongos-----------------------------------------------bebeu, tomei

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Utilizamos nesse trabalho o modelo fonológico de Chomsky & Halle (1968) que classifica o / e / como - recuada/ - posterior, e o / o / como + recuada / + posterior.


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2.3.3 DISTÂNCIA DA SÍLABA TÔNICA Utilizamos essa variável com base em estudos existentes no Rio Grande do Sul (BISOL, 1981; BATTISTI, 1993) e Salvador (SILVA, 1989) que atestam a estreita relação entre a proximidade com a sílaba tônica e a tendência de elevação a que se submete a vogal pretônica. Consideramos assim quatro níveis de distância: a) contígua-------------------------------menina b) distância de 1 sílaba---------------recebendo c) distância de 2 sílabas--------------necessidade d) distância de 3 ou mais sílabas---colaboração 2.3..4 CLASSIFICAÇÃO MORFOLÓGICA DA PALAVRA Objetivando verificar se o modelo da Difusão Lexical, que apresenta a palavra como ponto de partida para a mudança da língua, seria aplicável ao estudo das médias pretônicas, utilizamos a seguinte classificação: a) verbo------------------------------------------------decorei, tocou b) nome------------------------------------------------severo, coletivo c) pronome-------------------------------------------- comigo d) advérbio--------------------------------------------depressa e) conjunção------------------------------------------ senão f) numeral---------------------------------------------dezenove 2.3.5 NATUREZA DA PRETÔNICA A fim de verificar até que ponto o caráter de atonicidade da vogal pretônica interferiria na sua realização, consideramos:


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a) átona casual: aquela que por consequência do processo derivacional pode vir a adquirir tonicidade. Ex.: sofrimento (sofro), corrida (corre), beber (bebo), perder (perco). b) átona permanente: a que se mantém sempre átona por todo paradigma. Ex.: boneca, governante, desejado, vermelho. 2.3.6 CONTEXTO FONOLÓGICO PRECEDENTE Acreditando que as consoantes que precedem as vogais têm influência sobre o comportamento das pretônicas, utilizamos a seguinte classificação, de acordo com o ponto de articulação: 3 a) dental - alveolar: [ t, d, n, r, l ] tomando, delegacia, neguinho, trocando, loteria b) labial: [ p, b, m, f, v ] político, boneca, mordida, fogões, vegetais c) velar: [ k, g ] colégio, governo d ) palatal : [ ʃ,  ] chocante, jogador e) sibilante: [s, z ] sossego, zeloso f) vibrante posterior: [ r ] 4 3

regular

Apesar de utilizarmos o ponto de articulação como base da classificação, isolamos as sibilantes e a vibrante posterior, por considerá-las merecedoras de uma análise diferenciada. Battisti (1993) adotou o mesmo procedimento. 4 Em virtude de a vibrante posterior poder apresentar várias realizações fonéticas, desde velar até glotal, utilizamos o símbolo único [ r ] para representá-la.


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2.3.7 CONTEXTO FONOLÓGICO SEGUINTE Da mesma forma que o contexto fonológico precedente, também acreditamos na influência exercida pelo contexto fonológico seguinte no condicionamento das médias pretônicas. Usamos, portanto, a mesma classificação, de acordo com o ponto de articulação: a) dental - alveolar: [ t, d, n , r, l ] rotina, produzir, pronunciar, coruja, colega b) labial: [ p, b, m, f, v ] propaganda, bobagem, remunerada, fofoqueira, deveremos c) velar: [ k, g ] decorei, pegou d) palatal: [ ʃ , , λ ] mexer, nojento, colher e) sibilante: [ s, z ] possuir, desafio f) vibrante posterior : [ r ] terminar, cortina 2.4 VARIÁVEIS EXTRALINGUÍSTICAS 2.4.1 SEXO Os estudos variacionistas indicam que a variável sexo se revela como condicionadora dos fenômenos linguísticos. Geralmente, a correlação sexo/variação mostra que as mulheres tendem a preferir formas socialmente valorizadas; tendência


24

frequente em situação de variação estável (LABOV, 1966; 1981). Por essa razão, a amostra do corpus é composta por homens e mulheres. 2.4.2 IDADE Pressupondo-se que a idade do indivíduo é um condicionador social que também reflete as variações existentes na língua, consideramos três faixas etárias, assim discriminadas: J = 15 a 25 anos / A = 26 a 49 anos / V = 49 em diante 2.4.3 ANOS DE ESCOLARIZAÇÃO O nível de escolarização do informante apresenta-se como o critério que mais imediatamente retrata as variações linguísticas presentes na fala do indivíduo, tanto em nível do registro falado, como do escrito. Dessa forma, estratificamos os informantes de acordo com a seguinte hierarquia: a) analfabetos ( N ) - nenhum ano de escolarização b) fundamental 1 ( P ) - 1 a 4 anos c) fundamental 2 ( G ) - 5 a 8 anos d) nível médio ( S ) - 9 a 11 anos e) universitários ( U ) - mais de 11 anos 2.4.4 AMOSTRAGEM E INFORMANTES O corpus do projeto é composto de 60 informantes, 30 homens e 30 mulheres, estratificados de acordo com faixa etária e anos de escolarização, como foi descrito na seção anterior. Os informantes foram selecionados aleatoriamente, mas de maneira a representar os vários segmentos da sociedade pessoense: moradores de favela, dos bairros da periferia, do centro, e da orla marítima. Uma das exigências seletivas do


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projeto foi a de que os informantes deveriam ter nascido em João Pessoa, ou que tivessem se deslocado para essa cidade até uma idade limite de cinco anos. As gravações foram realizadas na residência dos informantes, com duração média de uma hora cada. Os entrevistadores conduziram a entrevista de modo a levar os informantes a falar livremente sobre temas variados e relatar fatos de natureza pessoal, objetivando assim, interferir o menos possível no relato dos entrevistados, tentando, com isso, evitar o que Labov (1972) descreve como o paradoxo do observador. No total, foram examinadas cinquenta e quatro horas de gravação. Essas entrevistas gravadas foram transcritas com base no sistema de transcrição do Programa de Estudos Sobre o Uso da Língua (PEUL) - UFRJ, e atualmente se encontram armazenadas no banco de dados de língua falada da cidade de João Pessoa . 2.4.5 ANÁLISE ESTATÍSTICA DOS DADOS Os dados foram submetidos ao pacote VARBRUL, que consiste de um conjunto de programas idealizados para a análise de fenômenos variáveis vistos à luz da Teoria da Variação. No período de realização da pesquisa (1995), utilizamos o VARBRUL (cf. PINTZUK, 1988) que representava, na época, a versão mais recente do programa, desde que fora criado por Cedergren e Sankoff em 1974. Este pacote é constituído por 10 programas: CHECKTOK, READTOK, MAKECELL, IVARB, TVARB, MVARB, CROSSTAB, TSORT, TEXTSORT e COUNTUP. Antes de submeter os dados ao primeiro programa da série, é necessário inserílos numa cadeia de codificação. Assim, para cada fator observado, atribuímos um código específico. Exemplifiquemos com o seguinte contexto: Ocorrência

-

Aplicação

-

Variáveis Controladas Códigos - F A N 4 a 6 T $ P Z

p[ ε ] sada

2

Feminino Adulto Analfabeto Vogal [- recuada ]


26

Vogal seguinte ( a ) Posição contígua à tônica ( 6 ) Nome Átona Casual Segmento precedente: labial Segmento seguinte: sibilante A ocorrência representada através da classificação acima revela que o numeral 2 indica a realização aberta da variável dependente, numa escala numérica em que temos o 1 para indicar a elevação e o 3 para o fechamento. Em seguida, observando as variáveis independentes controladas, inferimos que o informante é do sexo feminino, adulto e analfabeto. Daí, temos a informação de que a vogal pretônica é - recuada, sua vogal seguinte é [ a ]; a posição da pretônica é contígua à tônica; a natureza morfológica do vocábulo exemplificado é nome; a atonicidade da pretônica é casual; o contexto fonológico precedente é labial; e o seguinte é sibilante. Realizada a codificação, executa-se o CHECKTOK que tem como função localizar os erros existentes na codificação do arquivo de dados. O CHECKTOK gera um arquivo corrigido que vai servir de INPUT para o READTOK, que organiza os dados num único arquivo para ser recebido pelo MAKECELL, cuja função básica é preparar os dados para os programas de regra variável que fazem a análise dos pesos relativos (análise probabilística) nas formas binária, ternária ou eniária, que são executados respectivamente pelo IVARB, TVARB ou MVARB. O MAKECELL também gera os valores percentuais que refletem a relação entre as variantes estudadas e os grupos de fatores controlados. No entanto, o pesquisador não pode se apoiar apenas nos valores percentuais, já que eles não retratam o nível de significância de cada grupo de fator isolado sobre a variável dependente. Tarefa essa realizada pelo IVARB. Essas influências são avaliadas em um intervalo (ϕ) de 0 a 1, através do modelo logístico desenvolvido por Rousseau e Sankoff (1978), onde se lê:


27

P

=

P

x

p1

x

...

pn

______

______

_______

_______

(1-P)

(1-P)

( 1 - P1 )

( 1 - Pn )

em que P é a probabilidade global de aplicação da regra em presença de um fator de cada grupo; Po é a probabilidade INPUT e p1... pn correspondem ao peso relativo de cada fator. Na execução do programa, quando ocorre um índice percentual de 0% ou 100% para algum fator, o MAKECELL acusa Knockout, inviabilizando a rodada no IVARB, uma vez que o IVARB não opera com dados categóricos. Daí surge a necessidade de o pesquisador realizar amalgamações até tornar viável a execução do programa. No caso específico da nossa pesquisa, em que consideramos três realizações da variável dependente (elevação, abertura e fechamento), a análise será efetuada ternariamente. Dessa forma, tomando por base a escala de valores entre 0 e 1, mencionada acima, o modelo ternário estabelece, então, que 0.30 representa a neutralidade de influência de um determinado fator sobre a variável dependente. Quando o número for superior a 0.30 significa que ele favorece a aplicação da regra, e se for inferior, inibe. Optamos pela rodada ternária depois de efetuarmos quatro rodadas binárias, e constatarmos a inadequação do método binário na análise de nossa variável dependente. Assim, confrontamos inicialmente: a) alta - recuada versus b) alta - recuada versus

média - recuada = [ i ] x [ e ] média aberta - recuada = [ i ] x [ ε ]

c) alta + recuada versus média + recuada = [ u ] x [ o ] d) alta + recuada versus média aberta + recuada = [ u ] x [ Ɔ ] A extensão do corpus levou-nos a segmentar os dados dessa maneira para que pudéssemos submetê-los ao programa MAKECELL, já que a quantidade de células ultrapassou a capacidade do programa, cujo limite é de 999. Essas quatro rodadas revelaram as variáveis linguísticas que demonstraram ser mais significativas no


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condicionamento das vogais. Também foi possível constatar que as variáveis sociais sempre foram preteridas pelo programa em ordem de significância. Inclusive em três das quatro rodadas efetuadas, o programa eliminou a variável sexo. Apresentamos a seguir, em ordem hierárquica de significação selecionada pelo programa, as variáveis que mais condicionaram a realização da vogal pretônica. - Vogal da sílaba seguinte, contexto fonológico precedente e contexto fonológico seguinte. Os capítulos seguintes apresentam a descrição de cada uma dessas variáveis, iniciando pela mais significativa


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CAPÍTULO 3 VOGAL DA SÍLABA SEGUINTE

Na descrição dos resultados referentes à vogal da sílaba seguinte, que se apresentou como a variável dependente mais significativa no condicionamento das médias pretônicas (nas quatro rodadas binárias efetuadas, esta variável foi sempre selecionada em primeiro lugar pelo programa), faremos primeiramente uma revisão da literatura que já abordou o tema, estabelecendo uma comparação com os trabalhos que estiverem mais relacionados a esta pesquisa. Em seguida, procederemos à análise propriamente dita dos nossos resultados. 3.1 AS PRETÔNICAS EM UMA PERSPECTIVA ESTRUTURALISTA A constatação da grande influência exercida pela vogal da sílaba seguinte vem ratificar as conclusões a que chegaram os trabalhos existentes que descrevem o comportamento dessas vogais. Na verdade, remontam aos meados deste século, quando ainda não havia um tratamento quantitativo sistemático para a descrição dos fenômenos linguísticos variáveis aqui no Brasil, as primeiras observações sobre a relevância do contexto vocálico seguinte. Um dos primeiros a chamar a atenção para o fato foi Antônio Houaiss (1958, p. 274), quando afirma: A flutuação ou oscilação do [ e ] para [ i ], como se disse, parece condicionada na área (e quiçá no Brasil, mas então com tendências diferentes), a dois fatores que se contrabalançam ou se corroboram: um, certa“ harmonia vocálica”, e o outro, a “regularização morfológica”...

Serafim da Silva Neto (1960, p.34) também acrescenta:


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[...] no Brasil o e pretônico está sujeito a dois tipos de harmonização vocálica: e - i > i - i e e - u > i - u. Com relação ao o pretônico há também flutuações. O meu depoimento concorda com o de Souza da Silveira, para quem, na pronúncia carioca, há três pronúncias para o: ó, ô e u: mócótó, côlôsso, côrônel, coruja ( u ), boneca ( u ), sotaque ( u ) [...] Parece haver tendência, igualmente, para uma harmonização vocálica do tipo o - u > u - u: gordura > gurdura; fortuna > furtuna [...]

Ainda dentro de uma perspectiva de análise estruturalista, temos o posicionamento de Mattoso (1970, p.44): No registro informal do dialeto carioca, as oposições, no quadro 2, entre / o / e / u /, de um lado, e, de outro lado, entre / e / e / i / ficam prejudicadas pela tendência a harmonizar a altura da vogal pretônica com a da vogal tônica quando esta é átona.

Mattoso esclarece também que a terminologia harmonização vocálica é de autoria de Souza da Silveira (1939), quando tratou, em termos fonéticos, desse fenômeno. 3.2 AS PRETÔNICAS À LUZ DO MODELO VARIACIONISTA Modernamente, seguindo a metodologia laboviana, temos os resultados dos trabalhos desenvolvidos nas cidades de Porto Alegre (RS), Brasília (DF), Rio de Janeiro (RJ), Natal (RN) e Salvador (BA), que dão respaldo à aplicação do princípio da harmonia vocálica influenciando o comportamento das vogais. No caso de Porto Alegre, Bisol (1981) e Battisti (1993) constatam que a alteração de médias a altas se dá, principalmente, em presença da vogal homorgânica alta /e /, tônica ou não, na sílaba seguinte (ratificando a tese de harmonização vocálica), e se deve também ao contexto fonológico que envolve a vogal.


31

Na cidade do Rio de Janeiro, Lemle (1974) chega a postular uma regra morfofonológica responsável pelas alternâncias e : i, o : u do registro coloquial do dialeto carioca e as condições que regem a sua aplicabilidade. Ou seja, a elevação das vogais / e / e / o / é condicionada pela presença de uma vogal alta, / i / ou / u /, na sílaba tônica. Dinah Callou e Yonne Leite (1986) ampliam o contexto vocálico seguinte observado e incluem na análise as vogais com ponto de realização médio (fechado) e baixo (aberto): ê : ô : é : ó. Acrescentam ainda que a influência na elevação da pretônica por uma vogal alta na sílaba seguinte independe do caráter tônico ou átono dessa sílaba. Em Brasília, Bortoni (1992) também considerou as variantes fechadas e abertas e constatou a influência das altas orais e nasais na elevação das pretônicas. As variantes abertas, que são as menos frequentes no dialeto de Brasília, têm uma ocorrência expressiva determinada pela presença de vogais da mesma altura na sílaba subsequente: [é], [ó] e /a/. Também a nasal [õ] favorece a abertura de / e /, assim como [ẽ] favorece a abertura de /o/. Os resultados das pesquisas desenvolvidas em Natal e Salvador são os que melhor se prestam a uma demonstração comparativa com os nossos dados, uma vez que, nesses dialetos, também predomina a realização de / e / e / o / mais abertos: é e ó. O princípio da harmonização vocálica é estudado não só em função da elevação a que as vogais se submetem, mas também como responsável pelas realizações de timbre fechado e aberto. Analisando os dados referentes ao dialeto de Natal, Maia (1986, p.216) afirma que o comportamento da pretônica é dependente do tipo de vogal que lhe segue de imediato. Acrescenta também que a tonicidade mostrou ser um fator estrutural que parecia afetar o comportamento das átonas médias apenas antes de / i /. Nos outros casos, a tonicidade revelou-se irrelevante. Em Salvador, Silva (1989, p.92) constata que a altura da pretônica é determinada não só pela vogal acentuada, mas também pela inacentuada, ambas na sílaba subsequente. Dos trabalhos citados, este último foi de especial interesse para a nossa pesquisa. Em primeiro lugar, por se tratar de um dialeto nordestino, o que forçosamente


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incluiria a realização das médias abertas é e ó, de ocorrência majoritária em nossa região. E, em segundo lugar, por se tratar de um trabalho realizado sob uma orientação metodológica coincidente com o procedimento aqui adotado. No caso da pesquisa realizada em Natal, apesar de ser capital vizinha de João Pessoa, fato este que naturalmente estabeleceria uma maior aproximação linguística, não nos foi possível estabelecer grandes comparações porque os critérios adotados naquela pesquisa divergiram significativamente. Maia excluiu do seu levantamento as ocorrências das médias elevadas / i / e / u /, por considerar esses traços não diferenciadores, e, sim, convergentes entre as pronúncias do Nordeste e Sudeste (especificamente Rio de Janeiro, cidade em que a pesquisadora morou alguns anos). Além disso, o corpus de Natal fazia parte do projeto piloto de uma pesquisa denominada O português de Natal: Variantes Sociolinguísticas, composto por quatro mulheres e dois homens, na faixa de 20 a 30 anos, divididos igualmente entre universitários e semi-analfabetos. Percebendose, portanto, que o fator faixa etária não foi considerado. Já o corpus de Salvador se constituiu de oito horas de gravação do projeto NURC-SSA, distribuídas entre 24 informantes (12 masculinos e 12 femininos), e por três faixas etárias (25 a 30 anos, 36 a 56 anos e 56 em diante). Silva (1989) considerou as pretônicas em sílaba inicial e interna, abertas e fechadas, e em ditongos e hiatos. Ela constatou que as médias fechadas ocorrem apenas antes de vogais orais da mesma altura, e que, por outro lado, as médias abertas podem ocorrer nos demais contextos. Constatou também que a alternância entre u :: ô :: ó e i :: ê :: é ocorre apenas antes de vogal alta na sílaba seguinte. Nos outros contextos, a variação é binária, entre a vogal alta e uma das variantes não-altas (médias e baixas), que se excluem mutuamente, numa relação de complementaridade. Silva propôs uma série de regras para descrever as alternâncias da pauta pretônica baiana, podendo ser condensadas em três principais: 1) Regra categórica de timbre → torna média as vogais que estiverem no contexto de mesma altura, ou seja, antes de ô ou de ê; e promove o abaixamento das vogais que estiverem nos demais contextos: antes de a, ó, é, u, i, e ã, õ, ẽ, ĩ, ũ. Ex.:

[ - baixo ] cêrveja, côrreio, êfeito, ôrelha, môer


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[ + baixo ] espórtivo, apélar, éclipse, ócasião 2) Regra variável de elevação → eleva as médias no contexto de vogais altas, e também no contexto de certas consoantes. Ex.: bruchura, curtina, pirigoso, prisunto, prufessor. 3) Regra variável de timbre → torna as vogais médias especialmente no contexto de vogais altas, e também antes de outras vogais [+ nasal] e num determinado contexto social. Segundo a autora, a ocorrência de médias fechadas antes de altas está restrita à fala culta, e se deve à interferência da fala sulista no falar baiano, de maior prestígio nos meios de irradiação cultural. Ex.: bôrracha, rêstaurante, pêscaria No final de nossa análise, tentaremos estabelecer um paralelo entre as regras propostas por Silva e as nossas próprias conclusões.


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CAPÍTULO 4 ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS

Para avaliar melhor a influência das vogais seguintes sobre as médias, organizamos duas tabelas: uma com os dados da não-recuada / e /, e outra com os dados da recuada / o /. Foram examinadas 8.679 realizações para / e / e 6.401 para /o /, perfazendo um total de 15.080 ocorrências. O fator atonicidade da vogal seguinte não foi considerado em virtude das razões apresentadas no início desse capítulo: Bisol (1981), Maia (1986), Silva (1989) e Battisti (1993) demonstraram a irrelevância desse fator no condicionamento das vogais / e / e / o / em sílaba inicial. Diferentemente do critério adotado por essas pesquisadoras, optamos por separar as altas orais / i / e / u /, e as altas nasais / ĩ / e / ũ /, a fim de controlarmos, sob o ponto de vista articulatório (MATTOSO, 1970, p. 44), a influência da anterior / i / e da posterior / u /, separadamente. Bortoni (1992) adotou o mesmo procedimento. Por outro lado, agrupamos num mesmo contexto, as não altas nasais: ã, ẽ, õ. Essa atitude se justifica, primeiramente, pelo comportamento de ã e õ que se revelaram coincidentes no favorecimento da abertura das médias. E, finalmente, pela ocorrência mínima do contexto vocálico seguinte õ, ao longo de todo corpus, restringindo-se a três únicos vocábulos: personagem, vergonha e responsável, todos de realização aberta. Observemos os resultados referentes às tabelas 1 e 2 nas páginas seguintes.


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TABELA 1 - VOGAL DA SÍLABA SEGUINTE RESULTADOS PARA / E /

i

é Apli/tot F P Apli/tot 1233/2069 60% .65 483/2069

F 30%

P .16

Apli/tot 202/2069

F P 10% .19

92/476

19%

.17 317/476

67%

.55

67/476

14% .26

40/321

12%

.7

17/321

5%

.2

264/321

82% .91

17/224

8%

.7

45/224

20%

.9

162/224

72% .84

20/405

5%

.6

330/405

81% .59

55/405

14% .35

155/765

20% .19

543/765

71% .59

67/765

9% .22

98/1237

8% .10

982/1237

79%

.77

157/1237

13% .13

632/760

83% .97

124/760

16%

.2

4/760

1%

.1

101/226

45% .83

122/226

54% .14

3/226

1%

.3

82/985

8%

803/985

82% .74

100/985

10% .17

276/1211

23% .15

253/1211

21% .11

682/1211

56% .74

5

I Revista U Verdura Ê Cerveja Ô Nervoso É Vegetais Ó

6

ê

Velocidade

A Verdade Ĩ Menina Ũ Segundo ã ẽ õ vergonha Dit Levou

5

.9

As abreviaturas Apli/tot correspondem, respectivamente, aos termos aplicação e total, indicando que no total de realizações de determinada palavra, por exemplo, revista (2069), houve 1233 ocorrências de aplicação da regra de elevação da vogal não-recuada /e/ naquele contexto. Exemplificando em outros termos, representa 1233 ocorrências para a variante rivista. 6 Usaremos as iniciais F para indicar frequência ou percentual de ocorrência e P para indicar o peso relativo. É conveniente lembrar que são valores que apontam ocorrências diferentes, mas não contraditórias. O caso de um valor de frequência alto acompanhado por um peso relativo baixo indica que o contexto analisado não favorece a realização da variável, apesar do elevado número de ocorrência da palavra no corpus coletado.


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TABELA 2 - VOGAL DA SÍLABA SEGUINTE RESULTADOS PARA / O /

u I Policial U Procurar Ê Governo Ô Gostoso É Novela Ó A Votar Ĩ Cozinha ũ profundo ã ẽ õ momento Dit Comeu

Apli/tot 654/839

F 78%

P .82

ó Apli/tot F P 143/839 17% .8

Apli/tot 42/839

ô F 5%

P .10

27/301

9%

.14

239/301

79% .55

35/301

12%

.31

933/1889

49% .30

24/1889

1% .2

932/1889 49% .68

29/104

28% .8

2/104

2% .1

73/104

70% .91

75/568

13% .9

465/568

82% .76

28/568

5% .14

190/1154

16% .6

948/1154

82% .92

16/1154

1% .2

162/171

95% .95

4/171

2% .1

5/171

3% .4

11/51

22%

.27

38/51

75% .66

2/51

4% .7

27/624

4%

.1

562/624

90% .95

35/624

6%

64/466

14%

.8

192/466

41% .23

210/466

45% .68

.4

De modo geral, os números correspondentes à não-recuada / e /, e à recuada / o / não apresentam grandes diferenças entre si. Vejamos, inicialmente, a distribuição dos índices de probabilidade e frequência no contexto das altas orais e nasais: [ i ], [ u ], [ ĩ ] e [ ũ ].


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TABELA 3 - MÉDIAS ANTES DE ALTAS ORAIS E NASAIS [ i ], [ u ], [ ĩ ] e [ ũ ] RESULTADOS PARA / E / i ___i

revista ___u verdura ___ĩ menina ___ũ segundo

é

Apli/tot 1233/2069 pidia 92/476 sigure 632/760 siguinte 101/226 sigunda

F P 60% .65 19% .17 83% .97 45% .83

Apli/tot 483/2069 pésquisa 317/476 péssual 124/760 términar 122/226 pérgunta

ê F P 30% .16 67% .55 16%

.2

54% .14

Apli/tot 202/2069 têcido 67/476 pêssual 4/760 sêringa 3/226 pêrgunta

F 10%

P .19

14%

.28

1%

.1

1%

.3

F 5%

P .10

12%

.31

3%

.4

4%

.7

TABELA 4 - MÉDIAS ANTES DE ALTAS ORAIS NASAIS [ i ], [ u ], [ ĩ ] e [ ũ ] RESULTADOS PARA / O / u ___i

policial ___u procurar ___ĩ cozinha ___ũ profunda

Apli/tot F P 654/839 78% .82 pulitica 27/301 9% .14 custura 162/171 95% .95 dumingo 11/51 22% .27 custumo

ó Apli/tot F 143/839 17% Cópiar 239/301 79% sólução 4/171 2% Sorrindo 38/51 75% Coluna

P .8 .55 .1 .66

ô Apli/tot 42/839 sôfrida 35/301 pôstura 5/171 rôtina 2/51 prônuncia

Confirmando as hipóteses levantadas, os índices mais altos de elevação ocorrem diante de [ i ] e [ ĩ ], tanto para / e /, como para / o /. No caso específico da nasal [ ĩ ], a aplicação da regra de elevação tem caráter categórico (.97 para / e / e .95 para / o /). Os


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únicos vocábulos que apresentam variação para / o / são: s [ô] rrindo (1), r [ô] tina (4) e r [ó] tina (3). Os demais permanecem invariavelmente altos. Ex.: c [u] zinha, d [u] rmindo, d [u] mingo, s [u] brinha, f [u] cinho, m [u] ringa. No que se refere às variantes para / e /, podemos dizer que a mesma tendência se mantém. Só registramos quatro ocorrências da variante ê, e três delas pertencentes a informantes universitários, grupo em que se constatou a maior ocorrência da variante fechada. Ex.: n [ê] guinho, s [ê] ringa, r [ê] cinto e s [ê] guinte. Excetuando-se o vocábulo seguinte, que também se apresentou como variante fechada (s [ê] guinte), todos os outros que se realizaram com a variante i permaneceram invariáveis. Ex.: m [i] nina, s [i] rvindo, p [i] dindo, d [i] fini. Apesar de dispormos de um percentual de (16%) para é, que poderia comprometer a natureza categórica da regra, constatamos que das 760 ocorrências disponíveis para / e / apenas 124 se realizaram como é, e dentre essas realizações (92%) são do verbo terminar e derivados, e o restante das ocorrências representada por vocábulos portadores do sufixo diminutivo -inho ( a ), daí termos a explicação para o baixo valor atribuído ao peso relativo (.0,2). Isto é, a representatividade desse percentual é irrelevante, não interferindo, portanto nos resultados. Além disso, no caso específico do vocábulo terminar, ocorre a sobreposição de fatores, uma vez que, no contexto fonológico seguinte (trataremos desse contexto nas seções seguintes), a vibrante posterior / r / demonstrou favorecer a abertura das vogais.


39

No que concerne aos vocábulos portadores do sufixo diminutivo, tivemos registro de apenas oito ocorrências invariáveis: Ex.: r [é]zinha ( 1 ), p [é] stinha ( 1 ), r [é] stinho ( 1 ), p [é] rtinho ( 3 ) f [é] stinha ( 2 ) Silva (1989, p. 193) constatou que, também no dialeto de Salvador, as pretônicas desses derivados não se modificam em função da vogal dos sufixos, mantendo o acento de origem. A tendência da atonicidade casual da pretônica manter o acento de origem, inibindo assim a elevação, será melhor retratada no capítulo 6 que descreve a influência dessa variável independente no condicionamento das médias pretônicas. Por outro lado, quando temos [ u ] e [ ũ ] no contexto vocálico seguinte, a tendência se inverte. A alta oral posterior / u / não favorece a elevação nem de / e /, nem de / o /. Os valores percentuais revelam, ao contrário, a ocorrência majoritária das realizações abertas (é = 67% e ó = 79%). Bisol (1981) já registrara que a alta não homorgânica / u / tem influência menor na elevação das médias. Ex.: p [é] ssual, v [é] rdura, d [é] putado, r [é] gular, p [é] lúcia, v [é]stuário, p [é] ruca, t [ó] rtura, c [ó] rrupto, p [ó] pulação, pr [ó] duzir, s [ó] lução, pr [ó] curar Quando consideramos o peso relativo (é = .55 e ó = .55), verificamos que, apesar de esses valores serem inferiores aos registrados para o percentual (é = 67% e ó =79%), ainda assim a influência desse contexto sobre a realização aberta é significativa, uma vez que, na análise ternária, conforme descrito na Metodologia, números superiores a .30 demonstram o favorecimento da variável. É conveniente ressaltar que [ i ] e [ u ] na sílaba seguinte se apresentam como os maiores favorecedores da realização variável nos três níveis: elevação, abertura e fechamento. Silva (1989) constatou que o mesmo fenômeno ocorre no dialeto de


40

Salvador: a alternância entre i :: ê :: é e u :: ô :: ó ocorre penas antes de vogais altas na sílaba seguinte. Foi possível encontrar as seguintes formas variantes no nosso corpus: sufrimento

-

sófrimento

- sôfrimento

turcida

-

tórcida

- tôrcida

prunúncia ( 1 ocor. )

-

prónúncia

- prônúncia ( 5 ocor.)

prisidente

-

présidente

- prêsidente

rivista

-

révista

- rêvista

filiz

-

féliz

- fêliz

pricisa

-

précisa

- prêcisa

purtuguês

- pórtuguês

- pôrtuguês

sigurança

- ségurança

- sêgurança

No que diz respeito à alta posterior nasal [ũ ], percebemos um comportamento diferenciado para / e / e para / o /. Retomemos os dados das Tabela 3 e 4 (apenas com as médias antes de [ ũ ]). u

ó

ô

i

é

ê

(prónúncia) Peso relativo =

. 27

.66

.0,7

.83

.14

.0,3

(pérgunta) Frequência

22%

75%

4%

45%

54%

/ e / e / o / antes de [ ũ ] =

1%

Se por um lado, o [ ũ ] favorece a abertura de / o /, por outro, favorece a elevação de / e /. Note-se também que a aparente falta de paralelismo entre os valores do peso relativo e do percentual se justifica pela co-ocorrência de fatores. Apesar de os valores percentuais serem muito próximos para as variantes (i = 45% e é = 54%), o peso relativo se distancia de maneira acentuada (i = .83 e é = .14), e a referência ao peso relativo é mais importante na avaliação das tabelas. Essa sobreposição de fatores se manifesta por conta da interferência da vibrante posterior / r /, favorecedora da abertura, já que a maioria das ocorrências verificou-se em vocábulos como: pergunta, perguntaram e derivados. É muito precipitado também fazer qualquer inferência


41

definitiva a respeito da elevação de / e / diante de [ ũ ], já que 93% das ocorrências se restringem a sigunda e sigundo. Vejamos agora, nas Tabelas 5 e 6, os contextos que se revelaram mais favorecedores da abertura das médias pretônicas.

TABELA 5 - MÉDIAS ANTES DE [ ε ], [ Ɔ ], [ a ] E DAS NÃO ALTAS NASAIS RESULTADOS PARA / E

____é vegetais ____ó relógio ____a verdade _ã ẽ õ vergonha

i Apli/tot F 20/405 5% dipressa 155/765 20% milhor 98/1237 8% divagar 82/985 8% piqueno

P .6

.19 .10 .9

é Apli/tot F 330/405 81% séleção 543/765 71% resposta 982/1237 79% Relação 803/985 82% levanta

P .59 .59 .77 .74

ê Apli/tot F P 55/405 14% .35 vêgetais 67/765 9% .22 rêmoto 157/1237 13% .13 fêchado 100/985 10% .17 sêmana

TABELA 6 MÉDIAS ANTES DE [ ε ], [ Ɔ ] e [ a ] E DAS NÃO ALTAS NASAIS RESULTADOS PARA / O / u _____ é novela _____ó colocar _____a votar __ã ẽ õ momento

Apli/tot 75/568 buneca

ó

F P 13% .9

190/1154 16% butar 64/624 14% butando

.6 .1

Apli/tot 465/568 Projeto

F P 82% .76

948/1154 Coração 562/624 problema

82% .92 90% .95

ô Apli/tot 5/568 côlheres

16/1154 Porcaria 35/624 mômento

F P 5% .14

1% .2 6% .4


42

Vemos novamente se confirmarem as expectativas. As ocorrências de variantes abertas são predominantes em contexto de mesma altura, e diante das não-altas nasais [ã], [ ẽ ], [ õ ]. Temos aí a aplicação da regra de harmonização vocálica atuando outra vez. Observamos também que, em termos gerais, a vogal recuada / o / está mais sujeita à regra de abertura do que a não-recuada / e /. Os valores probabilísticos e percentuais atribuídos à / o / são inequivocamente mais altos em todos os contextos considerados. Inclusive diante de [ Ɔ ], a realização aberta foi categórica: nenhum caso de elevação foi registrado, e os casos de fechamento se restringem a cinco ocorrências do verbo colocar e derivados. Ex.: c [ô] locava ( 2 ), c [ô] locar ( 2 ), c [ô] locarem ( 1 ) Nos demais registros, temos a ocorrência categórica de vocábulos como: Ex. : c [ó] locar, pr [ó] posta, f [ó] rmosa, pr [ó] vocar, g [ó]stosa, g [ó] stosona, ch [ó] colate, f [ó] foca, c [ó] lorau, pr [ó] tocolo

Convém explicar que a ligeira desproporção existente entre os valores atribuídos a u e ô se deve ao fato de que a grande maioria das ocorrências registradas para indicar a elevação de / o / antes de [ ε ] são do vocábulo b[u]neca. Por essa razão, na medida em que eleva o percentual, diminui o peso relativo. Retomemos, portanto, os valores presentes na tabela 6 (Médias antes de [ ε ], [ Ɔ ], [ a ] e das não altas nasais), especificamente no que se refere ao contexto de / o / antes de [ ε ]. u

/ o / antes de [ ε ] (boneca)

ô

Peso relativo

= .0,9

.14

Frequência

= 13%

5%

Em relação a / e / diante de [ Ɔ ], os resultados são bem diferenciados:


43

i

é

ê

/ e / antes de [ Ɔ ]

P=

.19

.59

.22

(medrosa)

F=

20%

71%

9%

Os valores percentuais revelam o que já é consensual: a predominância da variante é. Por outro lado, quando observamos os valores probabilísticos referentes às variantes i e ê, constatamos sua grande proximidade (i = .19 e ê = .22), provocando, então, um certo desequilíbrio quando comparado aos valores percentuais (i = 20% e ê = 9%). A explicação para essa falta de paralelismo reside também na sobreposição de fatores, como já foi demonstrado anteriormente. Nas ocorrências registradas para a elevação de / e /, tivemos a absoluta maioria (98%) do advérbio melhor e seus derivados verbais e nominais. Ex.: m[i]lhores, m[i]lhorar, m[i]lhorando, m[i]lhoramos, m[i]lhorava, m[i]lhorasse. As outras ocorrências mínimas são de: distroçu ( 1 ) e disolações ( 1 ), que recebem a influência direta da sibilante / s / que já demonstrou, nos trabalhos aqui mencionados, favorecer significativamente a elevação. Trataremos detalhadamente do contexto fonológico seguinte no próximo capítulo. Já para a variante ê, apesar da ocorrência predominante (75%) do advérbio mêlhor, houve uma variedade maior de vocábulos com realização fechada, elevando, portanto, o peso relativo. Ex.: nêgócio, rêmoto, dêmocrático É

interessante

observar

que

o

único

vocábulo

que se apresentou

predominantemente variável nos três níveis foi o advérbio melhor e seus derivados. Esses dados nos levam a concluir, então, que esses vocábulos, por si sós, não podem


44

comprometer a predominância da realização aberta nesse contexto, já que existe uma grande diversidade de vocábulos para a variante é. Ex.: résposta, réfogo, sérrote, debochando, nérvosa, décorativo, pérgolado, séboza, négócio, rélógio, férvorosa, etc.

As tabelas 7 e 8 apresentam os contextos favoráveis ao fechamento das médias. TABELA 7 - / e / diante de [ ê ], [ ô ] e ditongo i

é

Apli/tot 40/321 Bizerro 17/224 milhorei 276/1211 pidiu

___ê cereja ___ô nervoso ___dit levou

F 12%

P .7

8%

.7

23%

.15

Apli/tot F 17/321 5% Mercearia 45/224 20% Pessoal 253/1211 21% geléia

P .2 .9 .11

ê Apli/tot 264/321 pêrder 162/224 chêgou 682/1211 rêspeito

F 82%

P .91

72%

.84

56%

.74

TABELA 8 - / o / diante de [ ê ], [ ô ] e ditongo u ___ê governo ___ô gostoso ___dit comeu

Apli/tot 933/1889 sussego 29/104 buto(u) 64/466 cubriu

ó F P 49% .30 28% .8 14% .8

Apli/tot 24/1889 Loteria 2/104 Córonel 192/466 jórnais

ô F 1%

P .2

2%

.1

41%

.23

Apli/tot 932/1889 côrrer 73/104 côlocou 210/466 môrreu

F P 49% .68 70%

.91

45% .68

Analisando cuidadosamente os valores presentes na tabela acima, vemos a confirmação da hipótese de que as variantes fechadas ê e ô só predominam nos contextos de mesma altura, e de ditongos. Vale esclarecer que o ditongo foi tratado indistintamente, não importando se fosse crescente ou decrescente. Os ditongos nasais não foram considerados porque tiveram ocorrência inexpressiva, apenas cinco: pórtão, córdão, pôrão e quéstão.


45

Apesar de não termos controlado estatisticamente essa diferenciação entre os ditongos, pudemos observar que a distribuição das variantes nesse contexto ocorre de maneira previsível. Ex.: i - preferencialmente diante de iu pidiu, firiu, sirviu, vistiu (excetuando-se: dimais e dibaixo) é - preferencialmente diante de: légaw, réawmente, réstaurante, géléia, pérfiw ê - preferencialmente diante de: rêspeito, dêpois, pêrdeu, pêguei u - preferencialmente diante de: cubriu, durmiu, pruveito ó - preferencialmente diante de: jornais, móraw, fórmaw, locaw ô - preferencialmente diante de: môrreu, nôtei, sôfreu, pôrão, bôtei De modo geral, os resultados expostos nas Tabelas 7 e 8 não revelam surpresas. Os valores percentuais e probabilísticos mais altos, quase categóricos, atribuídos à realização fechada de / e / e / o /, se restringem aos contextos de mesma altura ê e ô, diminuindo um pouco diante dos ditongos. No entanto, é interessante observar que no nosso dialeto, a vogal não recuada /e/ está mais favorável ao fechamento do que à elevação. Considerando o consenso existente entre os pesquisadores já citados neste trabalho, de que a realização fechada das vogais pretônicas é pouco provável no nordeste, e que o fenômeno de elevação é uma tendência convergente entre os dialetos brasileiros, causa uma certa surpresa, então, verificar que dos onze contextos vocálicos considerados, a variante i só predomina sobre ê, quando se encontra diante de [i ], [ ĩ ], [ ũ ]. Nos outros oito contextos restantes, ê é mais provável de ocorrer (consultar TABELA 2). No que se refere à vogal recuada / o /, o número de contextos em que ô predomina sobre u cai para seis. Sendo que, em três


46

desses contextos, a diferença entre os pesos relativos das variantes u e ô revelou-se inexpressiva. Os únicos resultados da Tabela 8 que merecem um esclarecimento particular são os referentes a / o / antes de [ e ]. Vejamos a distribuição dos valores:

RESULTADOS PARA / O / DIANTE DE [ e ] / o / diante de [ e ] (governo)

Peso relativo Freqüência

u

ó

ô

.30

.0,2

.68

49% _______

Aplic./ total

933/1889

1%

49%

______

______

24/1889

932/1889

Em primeiro lugar, o que mais chama a atenção nesses dados é o alto número de ocorrências e a perfeita distribuição existente para as variantes u e ô. Isso se explica pela presença da conjunção porque, já que apesar de o fator classe de palavras não ter sido escolhido pelo programa como significativo no condicionamento da realização da média, mantivemos a codificação para a conjunção a fim de acompanhar o comportamento variável da vogal nessas condições. Porque se realiza variavelmente como p[u]rque ou p[ô]rque indistintamente: das 1650 ocorrências da conjunção, 869 foram de p[u]rque e 781 de p[ô]rque. Em segundo lugar, já que a labial precedente demonstrou favorecer a elevação das vogais pretônicas, justifica-se assim a diminuição no peso relativo da variante u (u = .30 e ô = .68), devido à sobreposição de fatores (ver o capítulo seguinte que trata do contexto fonológico precedente).


47

Comparando, então, os nossos resultados gerais com os do dialeto de Salvador, observamos que existem poucas diferenças entre os dois dialetos, apesar de serem bem significativas. Dialeto de Salvador: i = 20,3%

é = 60,3%

ê = 19,4%

u = 24,9%

ó = 57,8%

ô = 17,3%

Dialeto de João Pessoa: i = 34%

é = 44%

ê = 21%

u = 35%

ó = 42%

ô = 22%

Essas diferenças se tornam mais significativas, à medida em que consideramos que a amostra de Salvador se constitui apenas de falantes universitários, que demonstraram ser os mais favorecedores das variantes ê e ô (Silva, 1991, pp.84-86). Como em nossa pesquisa trabalhamos com cinco níveis de escolaridade, podemos concluir que, em termos gerais e percentuais, o pessoense eleva e fecha mais as vogais, ao mesmo tempo em que abre menos que os soteropolitanos. No entanto, analisando horizontalmente os resultados, constatamos que os valores são coincidentes, apesar de diferirem proporcionalmente. Em primeiro lugar, temos as ocorrências abertas, seguidas pelas altas, e finalmente pelas fechadas. Só que no caso de Salvador, as variantes abertas são superiores às altas e fechadas juntas. Já no que diz respeito às conclusões obtidas, os resultados são extremamente parecidos. Silva afirma que a alternância u :: ó :: ô e i :: é :: ê, só se configura diante de vogais altas orais e nasais (i, u, ĩ, ũ). Nos outros casos, ocorre uma relação de complementaridade entre as vogais médias, que não ocorrem antes de vogais de mesma altura; e as baixas que ocorrem nos outros contextos restantes.


48

No nosso caso, a alternância entre as três variantes i, é, ê e u, ó, ô também ocorre antes de altas orais, mas não diante das altas nasais. Também registramos uma alternância entre os três níveis de altura para / e / diante de [ Ɔ ], bem exemplificada pelos vocábulos: milhor, mélhor e mêlhor. Nos outros contextos, as variantes se encontram em distribuição complementar: médias fechadas antes de vogais fechadas, e médias abertas antes de vogais abertas. Em relação às altas nasais [ ĩ ] e [ ũ ], temos um comportamento diferenciado. A nasal [ ĩb ] favorece a elevação categórica tanto de / e / como de / o /. Enquanto que a nasal [ ũ ] favorece a abertura de / o /, e a elevação de / e /. Podemos então, reconhecer que as três regras básicas sugeridas por Silva (1989), para descrever o comportamento da pauta pretônica baiana, podem perfeitamente se aplicar ao nosso dialeto, com uma pequena alteração na regra variável de elevação.

4.1 FORMALIZAÇÃO DO CONDICIONAMENTO EXERCIDO PELA VOGAL SEGUINTE NA REALIZAÇÃO DAS VARIANTES PRETÔNICAS 1) Regra Categórica de Timbre → determina para as pretônicas de traço [ -alto-nasal] o traço [ - baixo ] para as vogais que estiverem no contexto de mesma altura (ê e ô); e o traço [ + baixo ] às que estiverem nos seguintes contextos: antes de a, é, ó, ã, ẽ, õ. Ex.: [ - baixo ] fêvereiro, mêxer, bêber, rêceber, sêmelhante, vêrmelho sêtor, dêcorei, nêrvosismo, têrrorista, pêscoço, pêssoal môrrer, gôverno, pôbreza, bôletim, sôfrer, côrrer, prôteger gôstoso, fôfoqueira, môtorista, sôcorrer, côlorida, chorou [ + baixo ]

féderal, déterminado, sémestre, véterano, répresentante résposta, négócio, rélógio, nérvosa, décorativo, médrosa


49

cólégio, flóresta, lóteria, nóvela, prócesso, tólerante cólocar, próposta, fófoca, góstosa, chócolate, fórmosa rélação, vérdade, mércado, pédaço, gérados, sécar, lévar córação, jógava, lótado, fórmar, chórar, tócar, mórava désenho, pésando, résponsável, réclama, pérsonagem próblemas, córtando, nóvembro, chócando, mórrendo 2) Regra Categórica de Elevação → determina para as pretônicas de traço [ - alto - nasal ], o traço [ + alto ] quando estiverem no contexto de vogal [ + alta, + anterior, + nasal] Ex.:

minina, pidindo, siguindo, siguinte, sirvindo, difini cuzinha, dumingo, durmindo, fucinho, subrinha, muringa

3) Regra Variável de Elevação → determina para as pretônicas de traço [ - alto - nasal ], a troca do sinal [ - alto ], preferencialmente, no contexto de vogais altas e de certas consoantes. Ex.:

tiria

téria

-

têria

pricisa -

précisa

-

prêcisa

sigurança -

ségurança

-

sêgurança

récusam

-

rêcusam

sufrimento - sófrimento

-

sôfrimento

purtuguês

-

-

pôrtuguês

turcida

- tórcida

-

torcida

_____

-

-

pórtuguês

4) Regra Variável de Timbre → determina para as pretônicas de traço [ - alto , nasal ], a troca do traço [ + baixo ], preferencialmente no contexto de vogais altas não


50

nasais, dos ditongos, e especificamente para / e /, também no contexto de é; e inseridas num determinado contexto social. Ex.:

_____

- pésquisa

- pêsquisa

_____

- péssual

- pêssual

_____

- péríodo

- pêríodo

_____

- pérdia

- pêrdido

_____

- tórtura

- tôrtura

_____

- nóturno

- nôturno

_____

- córrupto

- côrrupto

_____

- prócurar

- prôcurar

dipois

- _______

- dêpois

_____

- crésceu

- crêsceu

butei

- _______

- bôtei

Só para / e / : ______ -

nécessitada - nêcessitada

_______ - féderal

- fêderal

_______ - célebração - cêlebrando _______ - répresentava - rêpresentante _______ - véterano

- vêterano

4.2 CONCLUSÃO PARCIAL Concluímos, portanto, que os resultados obtidos são previsíveis. As variantes abertas [é] e [ó] são majoritárias no dialeto pessoense, apesar de haver ocorrência significativa de variantes elevadas [i] e [u] e fechadas [ê ] e [ô], que estão sempre subordinadas à presença de vogais de mesma altura na sílaba seguinte. Logo, médias altas ocorrem predominantemente antes de [ i ], [ ĩ ] e [ ũ ], e as médias fechadas exclusivamente antes de [ e ], [ o ] e de certos ditongos.


51

Na verdade, é o princípio da harmonização vocálica que rege a variação da pauta pretônica no dialeto pessoense. Isso justifica a posição da variável vogal da sílaba seguinte que se evidencia como a mais importante em relação às demais variáveis lingüísticas e sociais consideradas em nossa pesquisa. O capítulo seguinte descreve a influência exercida pelos contextos fonológicos

precedente

e

seguinte,

onde

fica

claro

que,

salvo

alguns

condicionamentos exercidos por fonemas específicos no comportamento das vogais médias pretônicas, a vogal da sílaba seguinte interfere simultaneamente com as outras variáveis controladas.


52

CAPÍTULO 5 CONTEXTOS FONOLÓGICOS PRECEDENTE E SEGUINTE

Selecionados pelo programa como segunda variável independente a interferir no comportamento das vogais médias pretônicas, os contextos fonológicos precedente e seguinte têm recebido uma abordagem detalhada por parte dos pesquisadores já citados neste trabalho. Iniciaremos nossa análise por uma breve revisão bibliográfica do que se tem registrado sobre esses contextos, para, em seguida, aprofundarmos no nosso próprio trabalho, tentando, finalmente, uma formalização dessa interferência, não exatamente no que diz respeito à formulação de regras, quer sejam categóricas ou variáveis, pois ambas se mostraram inaplicáveis, mas sim na mera representação variável das vogais pretônicas diante desses ambientes fonológicos.

5. 1 REVISÃO DA LITERATURA Os trabalhos de cunho variacionista já mencionados nessa pesquisa, excetuandose o de Bortoni (1992), têm considerado os contextos fonológicos precedente e seguinte, em função da aplicação da regra de elevação a que as médias pretônicas estariam sujeitas. Assim, os resultados apresentados por Bisol (1981), Silva (1989) e Battisti (1993) não apresentam grandes divergências entre si. Inicialmente, Bisol (1981) constatou que, das consoantes que precedem ou seguem as médias, são as palatais e labiais as que apresentam resultados mais significativos. A consoante palatal, entretanto, só demonstra maior influência no favorecimento da elevação, quando vem na posição seguinte, tanto para / e / quanto para / o /. Se, por um lado, a labial e a velar favorecem a elevação de / o / tanto na posição precedente quanto na seguinte, é só a velar que favorece a elevação de / e / nessas mesmas condições, ou seja, quando precede ou segue a média pretônica. Battisti (1993), cujo trabalho também retrata a fala gaúcha, selecionou para análise os dados que haviam sido excluídos por Bisol (as médias em início de vocábulo,


53

hiato e prefixo). Apesar desse recorte diferenciado na abordagem dos dados, em linhas gerais, a tendência observada por Bisol se mantém nos resultados de Battisti. A palatal continua a apresentar-se como contexto favorável à elevação em posição seguinte à média. A labial e a velar permanecem, respectivamente, como contextos condicionadores para a elevação de / e / e / o /, tanto em posição precedente quanto seguinte. Bortoni (1992) também reconhece a palatal precedente como contexto favorecedor da elevação das médias. Igualmente a labial e a velar apresentaram valores probabilísticos significativos para a elevação de / o /, respectivamente: .61 e .71. Como contextos seguintes favoráveis à elevação de ambas as médias, destacam-se a vogal (em hiato) e a labial. A palatal só atuou na elevação de / o /. Silva (1989) chegou à conclusão semelhante no que se refere ao comportamento de / o /, uma vez que a velar e a labial precedentes favorecem sua elevação, enquanto na posição seguinte, só a labial demonstrou essa influência. Já no que concerne a / e /, os resultados não foram coincidentes, por conta do critério utilizado pela pesquisadora. A fim de avaliar a interferência das consoantes sobre as médias pretônicas, Silva observou primeiramente as consoantes diante de qualquer contexto vocálico; em seguida, observou as consoantes precedentes e seguintes apenas em contextos desfavorecedores, isto é, diante de vogais que não determinassem a elevação das médias. Comparando os dois resultados, foi possível concluir que em posição precedente são as labiais e as dento-alveolares não laterais as mais favorecedoras da elevação de / e /. Por outro lado, no contexto fonológico seguinte, nenhuma consoante demonstrou favorecer a elevação de /e/. Antes de limitar sua análise aos contextos desfavorecedores da elevação, Silva (1989, pp. 176-177) também reconheceu a palatal como um ambiente favorável para a elevação de / e / e de / o /. Em seguida, ela constatou que a quantidade mínima de vocábulos existentes no corpus que apresentava esse contexto desautorizava-a a fazer generalizações. Das 16 ocorrências da palatal em posição seguinte, 14 eram do advérbio m [ i ] lhor. No nosso caso, iremos analisar a influência das consoantes precedentes e seguintes no condicionamento de i - é - ê e u - ó- ô . Tentaremos, então, descrever


54

quais os contextos fonológicos favorecedores da elevação, da abertura e do fechamento de / e / e / o /. A fim de obtermos uma melhor compreensão dos resultados, optamos por apresentar esses dois grupos de fatores independentes num só capítulo, bem como cada contexto fonológico vinculado a suas respectivas variáveis (elevação, abertura e fechamento).

5.2 CONTEXTOS PRECEDENTES FAVORÁVEIS À ELEVAÇAO

À primeira vista, a análise dos dados da tabela 9 causa uma certa surpresa, em virtude do expressivo número de contextos precedentes favoráveis à elevação de / e /.

TABELA 9 - CONTEXTO FONOLÓGICO PRECEDENTE DIANTE DE / E / i Apl/tot Labial 1095/2412 bibida Alveolar 890/2580 divagar Sibilante 387/804 siguinte Velar 303/437 quiria Vibrante 56/1880 Posterior ritira Palatal 2/392 jirimum

F P 45% .53 34% .50 48%

.47

69% .79 5%

.8

1%

.1

é Apli/tot 942/2412 bébendo 1132/2580 présidente 254/804 sériedade 96/437 quérendo 903/1180 régião 101/392 chéfia

F P 39% .22 44% .34 32% .17 22% .14 77% .73 26% .10

ê Apli/tot 375/2412 bêrçário 558/2580 prêdileta 163/804 sêmana 38/437 quêbrou 221/1180 rêspeito 289/392 chêgar

F 16

P .25

22% .15 20% .35 9%

.6

19% .18 74% .88

Apresentaram valores superiores a .30 as consoantes labiais, dento-alveolares, velares e sibilantes precedentes. Analisando criteriosamente, percebemos que a vogal alta da sílaba seguinte tem presença majoritária em todos esses contextos citados; interferindo, então, no favorecimento da elevação. Não consideramos conveniente fazer outras rodadas para as três variáveis estudadas (elevação, abertura e fechamento) e seus


55

respectivos contextos desfavorecedores, porque implicaria uma fragmentação dos dados, prejudicando a visão de conjunto do corpus. Além disso, o próprio levantamento no T SORT nos permite fazer inferências a respeito da influência e sobreposição de outros fatores no fenômeno estudado. Analisemos inicialmente os valores relativos à labial no conportamento de / e /, retomados da tabela 9, objetivando uma melhor exposição do contexto. labial

______i________________é_______________ê______

precedente __P______F________P_______F_______P______F___ .53 aplic/total

45% 1095/2412

22 942/2412

39%

.25

16%

375/2412

Como foi mencionado anteriormente, é consensual a constatação do favorecimento da labial na elevação das médias pretônicas, principalmente da recuada /o/. Mas essa probabilidade (.53) pode revelar-se enganosa quando analisamos cuidadosamente os exemplos onde ocorreram os casos de elevação. Na verdade, com exceção de m [ i ] lhor, p[ i ]quena e b [ i ]zerro (1 ocorrência), todos os outros exemplos apresentam vogal alta na sílaba seguinte. Além disso, a grande maioria das ocorrências foi dos vocábulos m [ i ] nina e m [ i ] nino, que se revelaram invariáveis. Vejamos agora outros vocábulos que apresentam a labial precedente, simultaneamente com a vogal alta na sílaba seguinte, reforçando ainda mais a idéia de que a elevação é decorrente da influência dessas vogais altas. Ex.: m [ i ] nina, f [ i ] lizes, p [ i ] rigoso, p [ i ] di, b [ i ] bida, m [ i ] rici, m [ i ] tido, b [ i ] xiga, f [ i ] riu, p [ i ] ru

O aparente desequilíbrio entre os valores percentuais e probabilísticos atribuídos a é e ê se deve também à interferência da vogal seguinte. Ou seja, o


56

percentual de aplicação é mais alto, não por conta da interferência da labial precedente, e, sim, devido ao contexto vocálico seguinte favorecedor da abertura.

Ex.: v [ é ] rdade, p [ é ] cado, m [ é ] drosa, f [ é ] rmento, b [ é ] bendo

E essa interferência explicará todos os outros desequilíbrios presentes nas tabelas referentes aos contextos fonológicos precedente e seguinte. Isso só vem ratificar a forte influência exercida pela vogal da sílaba seguinte no comportamento da média pretônica. A mesma explicação se aplica às alveolares e sibilantes precedentes que só apresentam valores altos para elevação, porque o ambiente vocálico é extremamente favorável à realização de i. No caso das alveolares, só houve a ocorrência de sete vocábulos que não apresentaram vogal alta na sílaba seguinte.

Ex.: d [ i ] baixo, d [ i ] vagar, d [ i ] mais, d [ i ] sastre, d [ i ] scarto, d [ i ] sgosto e d [ i ] slocou.

As três primeiras ocorrências se devem à influência da labial seguinte, e as quatro últimas sofrem a interferência direta da sibilante seguinte que demonstrou favorecer a elevação de / e /. Com a sibilante precedente ocorre uma situação semelhante. Os contextos favoráveis à variante i já eram previsíveis para a sua elevação. O vocábulo s [ i ] guinte foi predominante, revelando ao mesmo tempo, o caráter categórico do [ i ] nasal seguinte, na elevação de / e /, bem como a influência positiva da velar seguinte também na elevação de / e /. As demais ocorrências não revelaram surpresas, nem se apresentaram diversificadas, predominando os vocábulos com consoante velar: s [ i ] ria, s [ i ] gure, s [ i ] gurança, s [ i ] gunda, s [ i ] viço.


57

Dentre os contextos fonológicos precedentes citados aqui, como favorecedores da elevação, é a velar que apresenta peso relativo mais alto (.79). No entanto, não podemos fazer generalizações, uma vez que todas as 303 realizações para esse contexto são de um único vocábulo: quiria. Vejamos agora a Tabela 10 que apresenta o comportamento de / o / sob as influências do contexto precedente.

TABELA 10 - CONTEXTO FONOLÓGICO PRECEDENTE DIANTE DE / O / u Labial Alveolar Sibilante Velar Vibrante Posterior Palatal

Apli/tot 1593/3195 muleque 211/1145 dumingo 153/291 sufrimento 194/1185 guverno 10/55 rumance 11/296 chuvendo

ó F P 50% .68 18% .18 53% .46 16% .31 18%

.7

4% .10

Apli/tot 578/3195 móvimento 852/1145 nóvicentos 93/291 sócial 809/1185 cólega 21/55 ródízio 264/296 jógava

F P 18% .12 74% .70 32% .14 68% .47 38%

.3

89% .85

ô Apli/tot 1024/3195 pôsição 82/1145 prôduto 45/291 sôcorrer 182/1185 côrrida 24/55 rômântico 21/296 chôrei

F P 32% .20 7% .12 15% .40 15% .22 44% .90 7%

.5

Os resultados referentes a / o / são mais precisos. A labial se apresenta como o contexto fonológico mais favorável a sua elevação (.68). Apesar de existirem no corpus numerosas ocorrências da elevação de / o / diante de contexto favorecedor [ i ], é possível verificar que a labial precedente favorece a variante u, mesmo diante de contexto vocálico desfavorável. Dessa forma, temos: b [u ] tar, b [ u ] tando, b [u ] neca, b [ u ]cado, b [ u ] lacha, m [ u ] leque, m [ u ] derna, f [ u ] gueirinha, f [u] gão. Coexistindo com as ocorrências de [ i ] seguinte, que se apresenta como um forte favorecedor à elevação de ambas as médias.


58

Ex.: p [ u ] lítico, b [ u ] nito, p [ u ] sição, m [ u ] tivo, m [ u ] dificou, p [ u ] sitivista, p [ u ] licial, p [ u ] ssível, m [ u ]squito.

Bisol (1981, p.95,96) já havia constatado esse favorecimento em virtude do traço de labialidade compartilhado pela consoante e por / o /. Com a elevação, o traço de labialidade da vogal recuada se acentua, facilitando o ajustamento da vogal à articulação da labial. Além da labial, só a sibilante / s / demonstrou alguma influência positiva na elevação de / o /, que se neutraliza diante do peso relativo atribuído ao fechamento. Assim, nós temos a influência da sibilante surda / s /, apresentando uma probabilidade de (.46) para a elevação, e de (.40) para o fechamento de / o /. Nos dois casos, a maioria das ocorrências se registra com o vocábulo sofrimento, que se realiza variavelmente como s [ u ] frimento ou s[ ô ] frimento. As demais ocorrências recebem a influência direta da vogal seguinte, salvo algumas exceções. Para a variante u, temos: Ex.: s [ u ] fri, s [ u ] brinha, s [ u ] taque, s [ u ] ssego. Para a variante ô, temos:

Ex.: s [ ô ] frida, s [ ô ] frer, s [ ô ] correr, s [ ô ] brou, s [ ô ] rteada, s [ ô ] rteio, s [ ô ] lução.

Pelas razões expostas até agora, não nos é permitido apresentar nenhum contexto fonológico precedente como legítimo favorecedor da elevação de / e /. Por


59

outro lado, no que se refere a / o /, podemos afirmar que a labial precedente se coloca como forte condicionador de sua elevação.

5.3 CONTEXTOS PRECEDENTES FAVORÁVEIS À ABERTURA

A vibrante posterior precedente apresenta-se como a única favorecedora da abertura de /e/, independentemente do contexto vocálico subseqüente. Esse resultado, quando confrontado com os de Bortoni (1992), surpreeende, uma vez que no dialeto de Brasília, foram as alveolares, labiais e velares que atuaram nesse favorecimento. Retomemos novamente os valores da tabela 9. Tabela 9

i

Vibrante posterior P

é F

P

ê F

P

F

/r/ .0,8 5% .73 77% .18 19% Aplicação/total

56/1180

903/1180

222/1180

Os exemplos confirmam que mesmo as vogais i, ĩ, ũ subsequentes (contextos vocálicos extremamente condicionadores da elevação de /e/, em conformidade com as conclusões apresentadas no capítulo anterior, que trata da Vogal da sílaba seguinte) não inibem a realização aberta de /e/. Ex.: r[é]visão, r[é]gião, r[é]gime, r[é]sumo, r[é]tiro, r[é]ligião, r[é]sistiu, r[é]vista, r[é]gistrar, r[é]frigerante. Em relação a /o/, os únicos contextos que demonstraram influência positiva na sua abertura foram a consoante alveolar (principalmente no grupo consonantal pr) e a palatal. Bortoni (1992) também reconhece a alveolar como favorecedora da variante [ó].


60

Encontramos em nosso corpus: pr[ó]fissão (maioria), pr[ó]prietário, pr[ó]dutividade, pr[ó]cura. Observemos os valores extraídos da tabela 10 referentes a esses contextos fonológicos específicos. TABELA 10

u P

alveolar

ó F

P

ô F

P

.18 18% .70 74% .12

F 7%

Aplicação/total 211/1145

852/1145

palatal

.85 89% .0,5 7%

.10 4%

Aplicação/total 11/296

246/296

82/1145

21/296

Apesar de a palatal apresentar valores mais altos, as ocorrências não são diversificadas e se limitam a determinados vocábulos. Tanto é que, especificamente no caso da elevação, pudemos constatar que as onze realizações de u se restringem ao vocábulo chover e seus derivados (chuvia, chuvendo, chuvesse). A respeito das variantes abertas, os dados revelam que as ocorrências se limitam a contextos vocálicos favorecedores a ó. Apesar de essas ocorrências serem mais diversificadas e numerosas do que as registradas para u, as palavras se repetem muito. Ex.: j[ó]gar, j[ó]gava, ch[ó]rar, ch[ó]rando, j[o]rnalista, ch[ó]fer e ch[ó]colate. A variante ô coincidentemente só se realiza em contextos favoráveis ao fechamento: j[ô]guei, j[ô]gou, ch[ô]rei, ch[ô]rou, ch[ô]cou .


61

5.4 CONTEXTO PRECEDENTE FAVORÁVEL AO FECHAMENTO

A palatal precedente se apresenta como contexto favorecedor ao fechamento de /e/, especificamente com o vocábulo chegar. Os números da tabela 9 reforçam essa afirmação. TABELA 9

i P

palatal

é F

P

ê F

P

F

.0,1 1% .10 26% .88 74%

Aplicação/total 2/392

101/392

289/392

Das 289 realizações da variante ê, só duas fogem a essa especificação: g[ê]neralizado (1 ocorrência) e g[ê]ralmente (1 ocorrência). Os demais casos são do verbo chegar e derivados, independentemente da influência da vogal seguinte. Temos então: ch[ê]guei, ch[ê]gou, ch[ê]gava, ch[ê]garam, ch[ê]gando, ch[ê]gasse, ch[ê]gado. Para o fechamento de /o/, foi a vibrante posterior que se apresentou como a mais forte favorecedora. Observemos, mais uma vez, os valores da tabela 10. TABELA 10

u P

ó F

P

ô F

P

F

Vibrante posterior .0,7 18% .0,3 38% .90 44% Aplicação/total

10/55

21/55

24/55

Mesmo que os valores percentuais para ó e ô estejam bem próximos, o peso relativo atribuído a ô é bem maior em virtude do fechamento de /o/ ocorrer também em contexto vocálico desfavorecedor.


62

Ex.: r[ô]mântico (14 ocor.), r[ô]tina (5 ocor.), r[ô]mance (2 ocor.), r[ô]lei, r[ô]lou e r[ô]dou.

5. 5 CONTEXTOS SEGUINTES FAVORÁVEIS À ELEVAÇÃO

Observemos agora os resultados da tabela 11 que trata do contexto fonológico seguinte.

TABELA 11 - CONTEXTO FONOLÓGICO SEGUINTE RESULTADOS PARA /E/

Labial Alveolar Sibilante Velar Vibrante Posterior Palatal

i Apli/tot F 478/1753 27% divagar 1131/2229 51% quiria 473/1543 31% disastre 417/1418 29% sigure 13/874 1% sirviço 234/862 27% bixiga

é P .54 .47 .52 .60 .1 .50

Apli/tot F 735/1753 42% réfrigerante 877/2229 39% réligião 720/1543 47% précisar 603/1418 43% légumes 727/874 83% pérgunta 493/862 57% régime

ê P .11 .37 .17 .17 .79 .23

Apli/tot F 540/1753 31% prêparo 221/2229 10% fêliz 350/1543 23% pêssual 398/1418 28% sêguir 134/874 15% sêrviço 135/862 16% fêchada

P .35 .16 .31 .23 .20 .27

Observando a tabela 11, verificamos que, pelo menos no que se refere à elevação de /e/, todos os contextos seguintes, com exceção da vibrante posterior, apresentam valores probabilísticos acima de .30 (entre .47 e .60), favorecendo portanto a variante elevada i. Essa constatação exige uma análise mais cuidadosa dos dados, levando-nos a restringir os contextos favorecedores da elevação apenas a dois (a


63

sibilante e a palatal), já que os outros revelaram sofrer a interferência direta ou do contexto fonológico precedente ou da vogal seguinte. Vejamos, inicialmente, o valor do peso relativo referente à labial seguinte: .54. À primeira vista, o número é bastante significativo. No entanto, quando examinamos os dados, verificamos que, excetuando-se d[i]vagar, d[i]baixo e d[i]mais (que foram predominantes), as outras poucas ocorrências recebem a influência direta da vogal seguinte, tornando irrelevante a influência da labial seguinte. Ex.: d[i]vido, b[i]bida, pr[i]firo, s[i]rviço, r[i]vista, r[i]pitir, d[i]viria. A mesma interferência ocorre com a alveolar. O peso relativo (.47) reflete uma situação que não corresponde inteiramente àquela resultante da influência do contexto alveolar seguinte. Os exemplos existentes no corpus demonstram que a maioria dos vocábulos sofre a interferência da vogal seguinte, associada, em alguns casos, à labial precedente. As ocorrências de qu[i]ria, s[i]ria, m[i]nina e f[i]licidade são maioria absoluta, reforçando assim as conclusões obtidas acima. No caso da velar, observou-se uma situação semelhante. Apesar de termos uma probabilidade alta (.60), esse resultado fica comprometido porque a grande maioria das ocorrências se concentra nos vocábulos s[i]guinte, s[i]gunda e p[i]quena. No capítulo anterior, vimos que a vogal nasal [ĩ], na sílaba seguinte, demonstrou influência categórica na elevação de /e/. Temos aí a explicação para a variante i em s [i]guinte. Por outro lado, o vocábulo s[i]gunda revelou-se invariável em todo o corpus. Resta, então, o vocábulo p[i]quena, que por sua vez, recebe a influência simultânea da labial precedente no favorecimento da elevação. Os demais exemplos ou estão comprometidos com o contexto precedente (s[i]gure, s[i]gurança) ou com a vogal seguinte (pr[i]guiça, fr[i]guisia, r[i]quirimento). Por essa razão, não achamos prudente fazer generalizações, nem tirar conclusões a respeito desses três contextos fonológicos seguintes citados aqui (labial, alveolar e velar) no favorecimento da elevação de /e/. O programa pode até fornecer resultados que apontem um ou outro contexto como positivos no condicionamento de


64

um dado fenômeno, mas cabe ao pesquisador interpretar esses resultados com base na visão integral do corpus estudado. Temos, então, como favorecedoras da elevação de /e/ apenas as consoantes sibilante e palatal. Retomemos os resultados da tabela 11.

TABELA 11

i P

sibilante

é F

F

P

F

.52 31% .17 47% .31 23%

Aplicação/total 473/1543

palatal

P

ê

720/1543

350/1543

.50 27% .23 57% .27 16%

Aplicação/total 234/862

493/862

135/862

A probabilidade de /e/ elevar-se diante da sibilante é maior do que diante da palatal, apesar de os números serem bem próximos (sibilante .52 e palatal .50). A multivariedade de ocorrências nos permite fazer previsões sobre o comportamento da média pretônica não-recuada diante desse contexto específico, principalmente no agrupamento silábico onde temos a alveolar sonora /d/ na posição de ataque, e a sibilante surda /s/ na coda: des-. Em vocábulos como: d[i]squitou-se, d[i]sgraça, d[i]sfile, d[i]spacha, d[i]smaia, d[i]svia, d[i]spejo, d[i]scubri, d[i]spesa, d[i]scarto, d[i]sgosto, d[i]sperdício. As ocorrências também são variadas quando a sílaba não é fechada pela sibilante (sonora e surda), e, sim, quando inicia o segmento silábico seguinte. É o caso de: b[i]zerro, d[i]safio, d[i]savença, d[i]sispero, d[i]serto, d[i]cidi, pr[i]sidente, d[i]sastre, d[i]simpenho, d[i]sinvolvido, d[i]samparado. A influência da sibilante no favorecimento da elevação já tem sido amplamente comprovada nos trabalhos citados anteriormente. Bisol (1981), Silva (1989), Bortoni (1992) e Battisti (1993) admitem a influência quase categórica de /s/ na elevação de /e/ em posição inicial absoluta. É o caso de [i]scola, [i]stojo, [i]studo.


65

Mesmo que nós não estejamos considerando, nesse estudo, as médias em posição inicial absoluta, a influência da sibilante aqui também se faz pertinente. Inclusive nossos resultados coincidem com os de Battisti que também apresentou a sibilante e a palatal seguintes como contextos favoráveis à elevação de /e/. No que concerne à palatal, percebemos que as ocorrências da variante i se limitam a vocábulos específicos. A maioria dos casos é representada pelo advérbio m[i]lhor e pelo substantivo v[i]stido, bem como seus respectivos derivados verbais: m[i]lhorava, m[i]lhorei, v[i]stia. As demais ocorrências são de b[i]xiga, d[i]stino, t[i]stimunha, d[i]struir, d[i]staque. Esses quatro últimos, apesar de serem ortografados com a sibilante surda (s), recebem sempre uma pronúncia palatalizada em nosso dialeto. Já os resultados relativos a /o/ são bastante diferenciados. Vejamos a tabela 12 que trata do comportamento da vogal recuada diante do contexto fonológico seguinte

TABELA 12 - CONTEXTO FONOLÓGICO SEGUINTE RESULTADOS PARA /O/

Labial Alveolar Sibilante Velar Vibrante Posterior Palatal

Apli/tot 237/927 guverno 717/1561 buneca 133/198 sussego 484/938 bucado 548/1962 purtuguês 53/581 custureira

u F 26%

P .30

46%

.46

67%

.27

52%

.65

28%

.11

9%

.21

Apli/to 585/927 prófissão 708/1561 córação 59/198 sócial 387/938 dócumento 447/1962 córrupto 431/581 góstaria

ó F P 63% .33 45% .27 30%

.64

41%

.17

23% .35 74% .16

ô Apli/tot 105/927 rômântico 136/1561 sôlução 6/198 pôsição 67/938 prôgrama 967/1962 môrdida 97/581 gôstaria

F 11%

P .37

9%

.27

3%

.9

7%

.18

49% .54 17%

.63

Apenas a alveolar e a velar apresentam valores acima de .30 para a elevação de /o/, respectivamente .46 e .65, valores que se revelaram ilusórios diante da checagem dos dados. Ficou constatado que todas as ocorrências de alveolar seguinte apresentam


66

uma labial precedente, neutralizando, assim, a suposta interferência da alveolar, já que a labial precedente é, comprovadamente, o único condicionador da elevação de /o/, como já foi dito na seção anterior que se refere ao contexto fonológico precedente. Exemplifiquemos com os vocábulos: p[u]lítico, p[u]lícia, b[u]nita, m[u]chila, b[u]neca, m[u]delo, b[u]lacha, m[u]tivo, b[u]tei. A observação dos dados referentes à velar seguinte revelou uma surpresa: 86% das ocorrências é constituída pela forma variante p[u]quê, o restante pela palavra b[u]cado, e apenas uma ocorrência de f[u]gão e outra de f[u]guerinha. Percebe-se, que, além da inexpressiva representatividade de contextos para a velar seguinte, todos os quatro exemplos têm a labial em posição precedente. Dessa forma, não nos é possível apresentar nenhum contexto fonológico seguinte como condicionador da elevação de /o/. 5.6 CONTEXTOS SEGUINTES FAVORÁVEIS À ABERTURA

A vibrante posterior seguinte se apresenta como única favorecedora da abertura de /e/. Voltemos aos valores apresentados na tabela 11. TABELA 11

i P

é F

P

ê F

P

F

Vibrante posterior .0,1 1% .79 83% .20 15% Aplicação/total

13/874

727/874

134/874

A variante aberta é só não se realiza quando na sílaba seguinte ocorre ê, ô, ou o ditongo ei. Ex.: c[ê]rteza, c[ê]rveja, v[ê]rmelho, n[ê]rvosismo, t[ê]rrorista, t[ê]rreiro, p[ê]rfeito, t[ê]rceiro. Nos demais contextos, a variante aberta predomina.


67

Ex.: t[é]rminar, p[é]rmissão, v[é]rdura, s[é]rviço, m[é]rcúrio, s[é]rtaneja, p[é]rfume, v[é]rgonha, p[é]rfil, p[é]rdão. Por outro lado, no que se refere a /o/, o único contexto fonológico seguinte favorável a sua abertura é o da sibilante. Retomando os resultados da tabela 12, temos: TABELA 12

u P

sibilante

ó F

P

ô F

P

F

.27 67% .64 30% .0,9 3%

Aplicação/total 133/198

59/198

6/198

Apesar de termos tido uma grande ocorrência dos vocábulos sociedade e social, o que poderia comprometer os resultados apresentados acima, o corpus levantado revelou

exemplos

variados

para

esse contexto,

tais

como:

pr[ó]cidimento,

p[ó]ssibilidade, p[ó]ssuir, pr[ó]cesso, g[ó]zado, n[ó] ção, d[ó]cente. 5.7 CONTEXTO SEGUINTE FAVORÁVEL AO FECHAMENTO A vogal não-recuada /e/ demonstrou não sofrer influência de nenhum contexto fonológico seguinte. Os resultados obtidos oscilaram sempre entre a neutralidade ( .35, .31 , 27 ) e a inibição do fenômeno ( .16, .23, .20). No que se refere a /o/, podemos apontar dois contextos favoráveis ao fechamento: a vibrante posterior (.54 ) e a palatal (.63). Os demais revelaram-se desfavorecedores ou neutros. Observemos os valores da tabela 12 apenas referentes a esses dois contextos. TABELA 12

u P

ó F

P

ô F

P

F

Vibrante posterior .11 28% .35 23% .54 49% Palatal

.21 9%

.16 74% .63 17%


68

Nos contextos onde ocorre a vibrante posterior seguinte, existe uma predominância do vocábulo porquê , seguido por outros vocábulos que apresentam vogal de mesma altura na sílaba seguinte . Ex.: m [ô] rrer ( e derivados ) , f [ô] rmei , c [ô] rreu , f [ô] rnecedores , c [ô] rredor , t [ô] rnou. Também registramos ocorrências menos numerosas com vocábulos que não apresentam vogais favorecedoras ao fechamento, tais como: s [ô] rrindo, m [ô] rdida, m [ô] rrido, c [ô] rrida, c [ô] rriqueiro, t [ô] rtura, t [ô] rcida. Ainda que a vibrante posterior ocorra em unidades vocabulares bem variadas, também não podemos pensar em termos de elaboração de regras, uma vez que a oscilação existente entre elevação e fechamento de / o / nesses vocábulos é bastante significativa. Assim temos: m [u] rrido - m [ô] rrido t [u] rcida - t [ô] rcida m [u] rdida - m [ô] rdida c [u] rrida - c [ô] rrida p [u] rtuguês - p [ô] rtuguês p [u] rque - p [ô] rque A palatal, como vimos, apresenta resultados mais significativos. O fechamento de / o / ocorre mesmo diante de contextos vocálicos que favoreçam a abertura das médias, tais como: g [ô] staria, p [ô] stura, c [ô] lheres, c [ô] stumava, p [ô] steriores. As outras ocorrências são previsíveis, já que apresentam uma vogal da mesma altura na sílaba seguinte: g [ô] stei, g [ô] stoso, f [ô] lheando, m [ô] strou. Tomando como base os resultados até agora expostos referentes às

tabelas

9, 10, 11 e 12, que tratam respectivamente do contexto fonológico precedente e seguinte, constatamos a impossibilidade de elaborar regras categóricas que descrevam o comportamento das vogais diante desses contextos. Battisti (1993, p.93) chegou a


69

conclusão semelhante quando constatou que excetuando-se o caso da elevação de / e / antes de / s / e / n / não há regra específica que atinja exclusivamente a sílaba inicial, objeto do seu estudo. Outro aspecto que dificulta a formalização de regras resultantes da interferência do contexto fonológico precedente e seguinte refere-se à influência simultânea da vogal da sílaba seguinte no comportamento da média pretônica. Influência essa que se revelou predominante, conforme já foi mencionado anteriormente . Por essas razões, no que se refere a / e /, podemos formalizar o condicionamento exercido pelo contexto fonológico da seguinte maneira:

5.8

REPRESENTAÇÕES

DA

INFLUÊNCIA

DO

COMPONENTE

FONOLÓGICO NA REALIZAÇÃO DAS VARIANTES PRETÔNICAS

1ª Representação :

V → < + alta > / X C ___________ C ___ V [-ac.]

[+ant.]

[+ant.]

[-rec.]

[-cor.]

[+cor.]

[-lat.]

Onde se lê : A vogal /e/ torna-se variavelmente i, em sílaba inicial de vocábulo, preferencialmente se vier precedida pela consoante labial ou pela sibilante seguinte. Ex.: b[i]bida, b[i]zerro, p[i]quena, m[i]nina, m[i]lhor, d[i]sfile, d[i]spejo, d[i]sastre, d[i]serto.


70

2ª Representação :

V → < + aberta > / X C ____________ C _____ V [- ac. ]

[ + cont.]

[- rec.]

[ - cor.] [ - ant.]

[ + cont.] [ - cor.]

[ - ant.]

Onde se lê : A vogal / e / torna-se variavelmente é, em sílaba inicial de vocábulo, quando vier precedida , ou seguida pela vibrante posterior . Ex.: r[é]visão, r[é]gião, r[é]ssuscitou, p[é]rgunta, t[é]rminar, s[é]rviço. 3ª Representação :

V → < - aberta > / X C ___________ C ______ V [- ac. ]

[- ant.]

[- rec.]

[+ cor.] [- son.] Onde se lê: A vogal / e / torna-se variavelmente ê , em sílaba inicial de vocábulo ,

quando vier precedida pela palatal . Ex.:ch[ê]gar,ch[ê]guei,ch[ê]gou,ch[ê]gava,ch[ê]gando,ch[ê]gasse, ch[ê]gado Para a vogal recuada / o /, tivemos as seguintes representações.


71

1ª Representação :

V → < + alt. > / X C _____________ C _______ V [ - ac.] [ + rec.]

[ + ant.] [- cor.] Onde se lê : A vogal / o / torna-se variavelmente u, em sílaba inicial, quando vier

precedida por uma labial e seguida por qualquer consoante. Ex.: m [u] leque, b [u] neca, p [u] rtuguês, b [u] nito, f [u] gão 2ª Representação :

V → < + aberta > / X C ______________ C _______ V [- ac.] [ + rec.]

[ - ant. ] [ + cor.] [ - lat. ] [ + ant. ]

[ + ant.]

[ + ab. ]

[ + cor.] [ + cen. ]

[ + cont ]

[ + nas.]

[ + cor. ] [ - lat. ] Onde se lê: A vogal / o / torna-se variavelmente ó, em sílaba inicial de vocábulo, quando vier precedida por uma palatal ou alveolar não lateral, seguida por uma sibilante, e apresentar na sílaba seguinte vogal da mesma altura, ou a nasal ã. Ex.: j[ó]gava, j[ó]rnalista, ch[ó]colate, ch[ó]fer, ch[ó]cante, ch[ó]rando pr[ó]fissão, pr[ó]cura, pr[ó]prietário, pr[ó]grama, s[ó]cial, pr[ó]cesso, g[ó]zado, d[ó]cente


72

3ª Representação :

V → < - ab. > X C _____________ C __________ V [ - ac. ]

[ - cor.]

[ + rec.]

[ - ant..]

[ + cont.]

[+ cor.] [- ant.]

[ - nas.]

Onde se lê : A vogal / o / torna-se variavelmente ô , em sílaba inicial de vocábulo , quando vier precedida pela vibrante posterior ou seguida pela palatal . Ex.: r[ô]mântico, r[ô]tina, r[ô]lou, r[ô]dou, r[ô]mance, p[ô]stura,c[ô]lheres,g[ô]staria,f[ô]lheando,c[ô]stumava.

5.9 CONCLUSÃO PARCIAL

De acordo com o que foi exposto neste capítulo, constatamos que a influência do contexto fonológico se restringe a alguns fonemas específicos que se impõem como favorecedores das variantes consideradas, apesar da ação simultânea da vogal da sílaba seguinte determinante no condicionamento das médias pretônicas. Podemos

condensar

todas

as

informações

vistas

nas

seguintes

considerações:

1. A labial precedente favorece a elevação de ambas as médias, enquanto que a sibilante seguinte atua só na elevação de / e /. 2. A vibrante posterior favorece a abertura de / e / tanto na posição precedente como na posição seguinte. Já no que concerne a / o /, são a


73

palatal e a alveolar precedentes (no grupo consonantal pr), e a sibilante seguinte que atuam favoravelmente na sua abertura. 3. Como contexto favorável ao fechamento de / e / destaca-se a palatal precedente, enquanto que são a vibrante posterior precedente e a palatal seguinte que favorecem a variante [ ô ].

No próximo capítulo apresentaremos os resultados das variáveis linguísticas que não exerceram condicionamento decisivo sobre as variantes pretônicas, mas que permitem estabelecer certas comparações com os trabalhos mencionados aqui.


74

CAPÍTULO 6 VARIÁVEIS LINGUÍSTICAS NÃO DETERMINANTES DO COMPORTAMENTO DAS PRETÔNICAS

Apresentaremos neste capítulo os resultados referentes às variáveis lingüísticas que não desempenharam papel determinante no condicionamento das vogais médias pretônicas. Mesmo que não tenham sido efetivamente eliminadas pelo programa, essas variáveis revelaram sempre valores representativos da neutralidade de influência sobre o fenômeno estudado. A exposição desses resultados, no entanto, serve para estabelecer uma comparação com os outros trabalhos já mencionados aqui. Diferentemente do critério adotado até agora, a referência a esses trabalhos será feita simultaneamente à descrição dos nossos resultados, já que não houve unanimidade entre eles na utilização de todas essas variáveis mencionadas nesse capítulo.

6. 1 DISTÂNCIA DA SÍLABA TÔNICA

As variáveis linguísticas controladas (Distância da sílaba tônica, Classificação morfológica da palavra e Atonicidade da pretônica ) não demonstraram ter influência significativa no comportamento variável das médias pretônicas. Apesar de o programa computacional não ter efetivamente eliminado essas variáveis das rodadas, os respectivos valores probabilísticos estiveram sempre beirando a neutralidade, que especificamente na nossa pesquisa é de .30, conforme já foi mencionado anteriormente, no capítulo 2 que trata da Metodologia. Tomemos inicialmente para análise a tabela 13 que retrata os resultados referentes à Distância da sílaba tônica.


75

TABELA 13 - DISTÂNCIA DA SÍLABA TÔNICA RESULTADOS PARA / E / i Contígua Não Contígua

é

Apli/tot 1750/4834

F P 36% .44

Apli/tot 2043/4834

F 42%

P .24

ê Apli/tot 1041/4834

486/2209

22% .24

1377/2209

62%

.43

346/2209

F 22%

P .32

16%

.33

TABELA 14 - DISTÂNCIA DA SÍLABA TÔNICA RESULTADOS PARA / O /

Contígua Não contígua

u Apli/tot F 1297/3820 34%

P .57

Apli/tot 1982/3820

F 52%

P .17

ô Apli/tot 541/3820

F P 14% .26

135/894

.15

670/894

75%

.52

89/894

10% .33

15%

ó

Os valores apresentados na tabela 13 e 14 ratificam os resultados dos trabalhos citados nesse estudo. Bisol ( 1981 ), Silva ( 1989 ) e Battisti ( 1993 ) foram coincidentes quando apresentaram a posição contígua à tônica como favorecedora da elevação de ambas as médias. A mesma tendência observada naqueles trabalhos se mantém no nosso. A posição contígua favorece a elevação, enquanto a não contígua favorece a abertura das médias7. Vale salientar que / o / apresentou valores um pouco mais elevados que / e /, sem, contudo, permitir-nos tirar alguma conclusão a respeito disso, já que oscilações inferiores a 10 são inconsistentes.

7

Marta Scherre nos forneceu valiosas informações sobre a análise estatística efetuada pelo VARBRUL, quando ministrou o curso sobre o programa, em 1996, na Universidade Federal da Paraíba.


76

Retomemos novamente os valores referentes ao peso relativo, extraídos das tabelas 13 e 14. TABELA 14 . a ( POSIÇÃO CONTÍGUA E PESO RELATIVO ) Posição contígua ________ i = .44

u = .57

s[i]gure g[u]verno Posição não contígua ______ é = .43

ó = .52

n[é]cessidade d[ó]cumento As variantes ê e ô, por sua vez, não sofrem quaisquer condicionamentos por parte da distância da sílaba tônica.

6. 2 CLASSIFICAÇÃO MORFOLÓGICA

A classificação morfológica também não pode ser usada como parâmetro para generalizações. De acordo com o que foi apresentado na descrição das variáveis independentes, agrupamos as palavras, para efeito de codificação, em verbos, nomes, advérbio, pronome, numeral e conjunção. Depois de executadas as primeiras rodadas binárias, constatamos a não aplicabilidade de nossa hipótese inicial no que se refere à interferência do aspecto morfológico no condicionamento das médias (através do modelo da Difusão Lexical). Além disso, houve a necessidade de eliminar das rodadas as codificações usadas para advérbio, pronome, numeral e conjunção; ou por terem apresentado knockout, ou pela exigüidade de ocorrências existentes no corpus. Dentre estas últimas categorias morfológicas citadas, o advérbio foi a única a apresentar uma maior diversidade de ocorrências. Para os pronomes só houve o registro de cumigo. Não houve casos de pronomes com variantes abertas e fechadas, daí o programa ter acusado knockout. Na categoria dos numerais, predominaram as variantes abertas (nóventa, sétenta, séssenta, nóvicentos, séticentos e trézentos). Apresentando apenas dois


77

exemplos para a variante [ i ]: s [ i ] gunda, s [ i ] gundo, apesar de esses dois vocábulos terem tido um número expressivo de ocorrências. No caso da variante [ ê ], registramos apenas 12 ocorrências de t [ ê ] rceiro, 1 de s [ ê ] gunda e 1 de s [ ê ] tenta. Não houve casos de elevação, nem de fechamento para a vogal / o /. No que se refere às conjunções, podemos dizer que o falante pessoense praticamente só utiliza a conjunção porque. Do total de 1666 conjunções, tivemos apenas 2 ocorrências de p [ ó ]rém e 3 de p [ ô ]rtanto. Pelas razões expostas acima, a classificação morfológica se bipartiu entre nome e verbo, e ainda assim não apresentou resultados que nos levasse a fazer inferências a respeito de quaisquer condicionamentos que porventura o componente morfológico pudesse exercer sobre as médias pretônicas. As tabelas seguintes retratam bem a neutralidade de influência exercida por essa variável independente.

TABELA 15 - CLASSIFICAÇÃO MORFOLÓGICA RESULTADOS PARA / E /

i Apli/tot F 1131/3664 31%

é

ê

P .28

Apli/tot F 1938/3664 53%

P .36

Apli/tot 595/3664

F 16%

P .36

1105/3379 33%

.39

1482/3379 44%

.30

792/3379

23%

.31

Nome Verbo

TABELA 16 - CLASSIFICAÇÃO MORFOLÓGICA RESULTADOS PARA / O / u Apli/tot 1030/2767

F P 37% .44

ó Apli/tot F P 1529/2767 55% .35

Apli/tot 208/2767

ô F 8%

P .21

402/1947

21% .23

1123/1947 58%

422/1947

22%

.48

Nome Verbo

.29


78

De acordo com os resultados expostos nas Tabelas 15 e 16, percebe-se a razão da inconsistência de nossas hipóteses iniciais. Os valores probabilísticos referentes a / e / estiveram sempre próximos a .30, apresentando uma oscilação entre uma variante e outra de apenas 8 ou 9 dígitos; tornando sem efeito, portanto, a diferenciação entre nome e verbo. No que se refere a / o /, podemos observar uma oscilação apenas entre as variantes i e ô, porque os valores atribuídos à variante ó revelaram neutralidade. Retomemos então, os resultados da Tabela 16 correspondentes a / o /. TABELA 16 - CLASSIFICAÇÃO MORFOLÓGICA RESULTADOS PARA / O / u Apli/tot F 1030/2767 37%

ó P .44

Apli/tot 1529/2767

F 55%

P .35

ô Apli/tot F 208/2767 8%

402/1947

.23

1123/1947

58%

.29

422/1947 22% .48

P .21

Nome 21%

Verbo

Na verdade, a única conclusão que podemos tirar desses resultados é que à medida que os nomes estão mais sujeitos ao processo de elevação, e inibem mais o fechamento, os verbos apresentam um comportamento exatamente inverso: inibem a variante u e favorecem a variante ô.

6 . 3 ATONICIDADE DA PRETÔNICA

No que se refere à atonicidade da pretônica, os resultados são coincidentes com os já existentes. Conforme constatou Bisol ( 1981 ), as pretônicas que permanecem sempre átonas durante toda a derivação paradigmática estão mais sujeitas à elevação do que as átonas anteriormente acentuadas. Isso ocorre porque a lembrança do acento subjacente de uma sílaba leva o falante a ouvi-la como forte, ainda que não sustente acento primário.


79

Silva (1989) também observou que a mesma tendência se mantém no dialeto baiano. A condição de a pretônica ser átona permanente favorece sua elevação, no entanto, quando a atonicidade é casual, a tendência verificada é a manutenção do acento de origem. Ex.: festa - f [ é ] stinha , reza - r [ é ] zinha Bortoni ( 1992 ) chegou à mesma conclusão, registrando que o fator átona permanente favorece a elevação e desfavorece o abaixamento. Acrescenta ainda que o efeito do fator átona eventual é justamente o oposto. Em nossa pesquisa, verificamos que os índices mais altos para as variantes [i] e [ u ] ocorrem especificamente quando a pretônica é átona permanente. Vejamos as Tabelas 17 e 18: TABELA 17 - ATONICIDADE DA PRETÔNICA RESULTADOS PARA / E /

permanente

i Apli/tot F 1306/4432 29%

P .44

é Apli/tot F P 2466/4432 56% .34

ê Apli/tot F P 660/4432 15% .22

Casual

930/2611

.24

954/2611

727/2611 28% .46

36%

37% .30

TABELA 18 - ATONICIDADE DA PRETÔNICA RESULTADOS PARA / O / u

ó

ô

Permanente

Apli/tot F P 910/2505 36% .38

Apli/tot F 1407/2505 56%

P .37

Apli/tot 188/2505

F P 8% .25

Casual

522/2209 24% .28

1245/2209 56%

.29

442/2209

20% .43


80

Esses valores, no entanto, merecem uma apreciação cautelosa, já que as diferenças no peso relativo entre as variantes são pequenas. Os exemplos que o corpus fornece para ilustrar as ocorrências de elevação, em sua maioria, são coincidentes com os contextos vocálicos da sílaba seguinte, favorecedores da realização das variantes altas, ou entram em choque com os contextos fonológicos precedente e seguinte. Assim, temos:

Átonas permanentes: p [ u ] lítico, p [ u ] sitivo, b [ u ] nito, d [ u ] mingo, d [ i ] cidi, d [ i ] stino, r [ i ] tiro, s [ i ] gura, pr [ i ] firo

Átonas casuais: s [ u ] friam, p [ u ] ssível, d [ u ] rmindo, c [ u ] rria s [ i ] guinte, t [ i ] ria, b [ i ] bida, d [ i ] scida, p [ i ] dia

É facilmente observável que em ambas as situações de atonicidade, os contextos vocálicos seguintes favoráveis à elevação das pretônicas são os mesmos, além disso, como não foram registrados casos significativos de elevação em ambientes vocálicos seguintes desfavorecedores das variantes / i / e / u /, concluímos forçosamente que não é a atonicidade permanente a responsável pela elevação. Pudemos observar que o mesmo fenômeno ocorre quando verificamos as ocorrências das variantes abertas e fechadas. Constatamos que essas variantes têm suas realizações

condicionadas

ao

contexto

vocálico

seguinte

favorecedor,

independentemente de serem átonas permanentes ou casuais. Daí termos no corpus: Átonas permanentes: r [ é ] sposta, r [ é ] visão, v [ é ] rdade, d [ é ] pende abertas

c [ ó ] loca, pr [ ó ] fissão, pr [ ó ] blema, c [ ó ] lapso

Átonas casuais:

n [ é ] rvosa, m [ é ] dicina, p [ é ] sada, t [ é ] rreno

abertas

m [ ó ] rando, s [ ó ] lidão, m [ ó ] rrendo, v [ ó ] tar


81

Átonas permanentes: r [ ê ] cebeu, r [ ê ] speito, r [ ê ] ligião, s [ ê ] mana fechadas

pr [ ô ] tetores, c [ ô ] locou, p [ ô ] rtuguês

Átonas casuais: p [ ê ] rder, ch [ ê ] guei, s [ ê ] ria, b [ ê ] rçário fechadas

gr [ ô ] sseria, s [ ô ] frida, m [ ô ] rreu, b [ ô ] bagem

Diante de tais evidências, optamos por considerar irrelevante a influência desse fator no condicionamento das vogais pretônicas no dialeto pessoense, sem desconsiderar, no entanto, o fato de que as átonas casuais seguem a tendência de manter o acento de origem, quer seja aberto ou fechado. Principalmente quando se trata das variantes [ ê ] e [ ô ] que têm ocorrência minoritária em nossa cidade, e se realizam diante de contextos não favoráveis ao seu fechamento. Ex.: berço → b [ ê ] rçário

bobo → b [ ô ] bagem

6.4 CONCLUSÃO PARCIAL A constatação de que as variáveis linguísticas Distância da Sílaba Tônica, Classificação Morfológica e Atonicidade da Pretônica não são determinantes do comportamento das médias pretônicas no dialeto pessoense não causa surpresa. Observamos, na verdade, que os nossos resultados são coincidentes com os já registrados pela literatura pertinente. Excetuando-se a variável Classificação Morfológica, que não foi considerada em nenhum dos trabalhos citados aqui, observamos que as pressuposições básicas se mantiveram: a atonicidade permanente da pretônica e a sua posição contígua à tônica favorecem sua elevação, assim como a atonicidade casual favorece a preservação do acento de origem, seja ele fechado ou aberto.


82

CAPÍTULO 7 VARIÁVEIS

SOCIAIS

As variáveis sociais, de maneira geral, não desempenharam um papel relevante no condicionamento das médias pretônicas, principalmente a variável sexo que chegou mesmo a ser eliminada pelo programa em algumas rodadas. No entanto, efetuando o cruzamento entre as variáveis, foi possível tirar algumas conclusões pertinentes e descobrir algumas peculiaridades do nosso dialeto. Seguindo o procedimento predominante adotado até agora, antes de descrevermos a análise dessas variáveis, revisaremos os resultados dos trabalhos já mencionados aqui, objetivando detectar as semelhanças e diferenças entre eles. 7. 1 - SEXO As pesquisas sociolinguísticas têm revelado que a variável sexo se apresenta como um traço diferenciador no comportamento lingüístico entre homens e mulheres. Alguns fenômenos variacionistas específicos retratam de maneira acentuada as influências exercidas por essa variável. Silva e Scherre (1996) organizaram uma coletânea dos trabalhos de cunho variacionista realizados no Rio de Janeiro por pesquisadores do Programa de Estudos sobre o Uso da Língua (PEUL) onde ratificam a opinião geral de que cabe à mulher o papel de favorecer o emprego de formas mais prestigiadas nos meios sociais se estiver em jogo a variação estável. Quando está sendo implementado um processo de mudança, as mulheres só lideram o processo se a forma em foco for prestigiada, caso contrário, são os homens que favorecem a forma inovadora. Isso se justificaria pela função social da mulher em nossa sociedade, onde apesar de já ter ingressado no mercado de trabalho, e em muitos casos contribuir significativamente no orçamento doméstico, cabe ainda à mulher a responsabilidade maior na educação dos filhos, reproduzindo as formas mais prestigiadas da língua veiculadas pela escola. Enquanto que aos homens é permitido ir de encontro às regras sociais, incluindo-se aí também as regras linguísticas.


83

Não nos parece prudente afirmar que essa hipótese se confirma plenamente nos estudos citados aqui nesse trabalho. Os resultados obtidos por Bisol não permitem atribuir à variável sexo uma função na regra de elevação da pretônica. O fato de Bisol trabalhar com informantes de diferentes etnias dificultou, ainda mais, a visão de conjunto das influências exercidas pela variável sexo no comportamento lingüístico do homem e da mulher. Os resultados mostraram-se inconsistentes e diversificados. Apenas no grupo dos fronteiriços as mulheres apresentaram índices mais altos de elevação, levando Bisol a suspeitar de que nesse caso as mulheres estão mais sujeitas à inovação lingüística, já que a forma padrão naquele dialeto é a realização das médias fechadas. Na análise de Battisti, que também trabalhou com diferentes etnias, os índices mais altos de elevação foram atribuídos aos homens metropolitanos cultos e às mulheres descendentes de italianos. Portanto, no primeiro grupo são os homens que assumem o papel de inovadores, enquanto que, no segundo, são as mulheres que lideram o processo (1993, p. 55, 56). Logo, percebe-se que são resultados oscilantes que não autorizam grandes conclusões a respeito da interferência dessa variável. Além disso, os valores percentuais e probabilísticos são bastante aproximados. Como podemos constatar na tabela abaixo: TABELA 19 - RESULTADOS DE BATTISTI SOBRE A VARIÁVEL SEXO Regra de elevação metropolitanos (fala culta) - italianos e P homem

o F

F

.54 36% .55 26%

apli/total 303/845 mulher

P

e

118/532

.46 36% .45 22%

apli/total 407/1146

146/653

P

o F

P

F

.46 41% .45 21% 530/1299

198/937

.54 38% .55 27% 340/902

158/595

Essa mesma aproximação de valores se verifica nos resultados de Brasília. Bortoni (1992) analisou apenas os resultados referentes às variantes abertas, já que para


84

ela, os casos de elevação estão sob efeito de uma regra suprarregional. Foi registrado que tanto para a abertura de / e / como de / o /, as mulheres apresentam probabilidade ligeiramente superior à dos homens, M = .51 e H = .49, respectivamente, para / e /, e M = .51 e H = .48, para / o /. Esses resultados poderiam ter alguma significação especial se os valores fossem distanciados, no entanto, os números falam por si mesmos, desautorizando conclusões precipitadas. Nos dados de Salvador, Silva (1989) observou que a variável sexo não exerceu grande influência no condicionamento das médias pretônicas. No caso da vogal recuada / o /, a variável não é selecionada pelo programa; no outro, o da não-recuada /e/, as probabilidades se aproximam de 0,50, que nesse caso representa a neutralidade. Apenas nos valores percentuais notou-se uma pequena diferença em favor das mulheres, tanto para [ ê ] (M = 7,7% e H = 6,4%), quanto para [ ô ] (M = 8,3% e H = 6,4%), sem demonstrar, contudo grande expressividade. Os resultados só se tornaram um pouco mais significativos depois de efetuados os cruzamentos entre as variáveis sexo, idade e procedência social. Silva pôde constatar, então, que as mulheres que não têm os pais graduados (representantes da primeira geração de universitários) favorecem mais a regra de fechamento (regra variável de timbre). Essas mulheres apresentaram probabilidade .70, enquanto que os valores atribuídos aos homens (.59) indicam neutralidade (SILVA, op. cit., p. 302-304). Nesse caso, é confirmada a tendência de a mulher favorecer as formas mais prestigiadas. Em

nosso

trabalho,

a

variável

sexo

revelou-se

irrelevante

no

condicionamento das médias. Na verdade, como já dissemos anteriormente, em quatro das seis rodadas binárias efetuadas essa variável foi eliminada, e nas restantes ela se apresentou em último lugar. Confirmemos esse posicionamento com a tabela 20 que descreve os resultados da variável sexo. TABELA 20 - SEXO RESULTADOS PARA / E / i

é

ê

homem

Apli/tot 1010/3421

F P 30% .32

Apli/tot 1764/3421

F P 52% .34

Apli/tot 647/3421

F P 19% .34

mulher

1226/3622

34% .34

1656/3622 46% .33

740/3622

20% .33


85

TABELA 21 - SEXO RESULTADOS PARA / O / u

ó

homem

Apli/tot 651/2317

F P 28% .28

Apli/tot F P 1388/2317 60% .39

ô Apli/tot 278/2317

mulher

781/2397

33% .38

1264/2397 53% .28

352/2397

F P 12% .33 15% .34

A tabela mostra que os valores estão extremamente próximos, não permitindo outra conclusão que não seja a da neutralidade de influência desse fator sobre a variável estudada. No entanto, assim como ocorreu no trabalho de Silva (1989), só com o cruzamento da variável sexo com idade e escolaridade foi possível fazer algumas inferências a respeito do papel das variáveis sociais na realização das médias. Resultados esses que serão apresentados mais adiante. 7. 2 FAIXA ETÁRIA Nos trabalhos realizados no Rio Grande do Sul, a variável faixa etária teve pequeno efeito na aplicação da regra de elevação. Bisol (1981, p. 86) observou que os mais jovens tendem a elevar menos as vogais / e / e / o / pretônicas, o que implicaria, segundo a autora, que a alteração dessas vogais, no dialeto gaúcho, fosse uma regra em vias de um processo de regressão. Bisol classificou os informantes apenas em dois grupos, jovens (25 a 45 anos) e velhos (46 anos em diante), fazendo uma ressalva de que os valores obtidos referentes a esses grupos etários não apresentaram diferenças significativas. Battisti, por outro lado, nem chegou a considerar essa variável extralinguística na sua análise. Observando as tabelas 22 e 23 que descrevem a variável faixa etária, costatamos também que a idade, isoladamente, não exerce grande influência na realização das variantes i / u, é / ó, ê / ô. Elas se distribuem uniformemente entre os três grupos etários (J = 15 a 25 anos, A = 26 a 49 anos e V = 49 anos em diante), principalmente no que se refere às variantes elevadas [ i / u ], e às abertas [ é / ó].


86

TABELA 22 - FAIXA ETÁRIA RESULTADOS PARA / E / i Apli/tot 15 a 25 589/2076 anos (J) 26 a 49 792/2555 anos(A) 49 ... 855/2412 (V)

é F 28%

P .32

Apli/tot 1057/2076

F P 51% .33

ê Apli/tot 430/2076

31%

.30

1145/2555

45% .30

618/2555

24% .40

35%

.37

1218/2412

50% .37

339/2412

14% .26

F P 21% .35

TABELA 23 - FAIXA ETÁRIA RESULTADOS PARA / O / u Apli/tot 411/1391

15 a 25 anos (J) 26 a 49 506/1768 anos(A) 49... 515/1555 (V)

F 30%

P .31

Apli/tot 815/1391

ó F P 59% .33

ô Apli/tot 165/1391

F P 12% .36

29%

.29

957/1768

54% .33

305/1768

17% .38

33%

.41

880/1555

57% .33

160/1555

10% .26

No entanto, no que diz respeito às variantes fechadas, que representam a forma inovadora e de maior prestígio, já que são predominantes nos estados das regiões sulsudeste, eixo geográfico que polariza maior desenvolvimento econômico e cultural do país, retrata-se um quadro típico de variação estável. Retomemos os valores das tabelas 22 e 23, especificamente no que concerne às variantes fechadas [ê ] e [ ô ]. ê

ô

P

F

P

F

J (15 a 25 anos ) =

.35

21%

.36

12%

A ( 26 a 49 anos ) =

.40

24%

.38

17%

V ( 49 em diante ) =

.26

14%

.26

10%


87

Os informantes que compreendem a faixa etária de 26 a 49 anos são os que mais fecham as vogais, mas quando atingem uma idade mais avançada (49 em diante) apresentam uma queda na aplicação da regra. Isso se justificaria, em parte, por se tratar da faixa etária que menos sofre as influências do mercado ocupacional. Sankoff, Kemp & Cedergren (1978) constataram a relevância do mercado lingüístico para o uso da forma padrão: falantes com maior cotação nesse mercado tendem a empregar mais freqüentemente a variante padrão do que a variante de menos prestígio. Aqui no Brasil, Silva e Paiva (1996, p. 373) observaram que, em ambos os sexos, a atuação do mercado ocupacional decresce ou se anula na faixa de 50 anos em diante. 8 Quando efetuamos o cruzamento entre sexo e faixa etária, constatamos que a

situação

não

se

altera

substancialmente. Os resultados da tabela 24

confirmaram nossas expectativas.

TABELA 24 - SEXO

i F.Et J A V

H 27% 31% 34%

é M H 31% 50% 32% 51% 39% 49%

M H 48% 23% 39% 18% 47% 17%

E

ê M 20% 29% 15%

FAIXA ETÁRIA

u ó ô H M H M H M 27% 33% 60% 57% 13% 11% 29% 28% 60% 50% 11% 22% 28% 39% 59% 53% 12% 08%

Efetuando o cruzamento entre sexo e faixa etária podemos confirmar que são as mulheres da faixa etária de 25 a 49 anos as que menos abrem as 8

Apesar de não termos trabalhado com essa variável, ficou evidente nos trabalhos integrantes do PEUL (Programa de Estudos sobre o uso da língua) que os falantes de 45 anos em diante estão menos expostos à influência do mercado ocupacional. Por isso, lançamos mão desse argumento como uma tentativa de explicação para a situação revelada no nosso corpus. Segundo Bordieu (1977; 1980) os componentes do mercado linguístico são a escolarização e o mercado ocupacional, que por sua vez seria a correlação entre o tipo de atividade desenvolvida por uma pessoa ao longo de sua vida e a necessidade do uso de formas linguísticas de prestígio. Daí, porque algumas profissões têm maior cotação no mercado ocupacional que outras. Isso explica também porque os falantes mais velhos são mais resistentes a essa influência, já que é nessa faixa etária que se encontram os aposentados, desligados, pois, do mercado de trabalho.


88

vogais, e, conseqüentemente, as que mais fecham e mais elevam as médias. Portanto, apesar de os valores atribuídos a cada variante não serem muito extremados entre si, há uma indicação de que as mulheres parecem favorecer mais as formas inovadoras ê, ô e i, u. Os mesmos resultados foram obtidos por Silva ( 1989 ) para os dados de ê e ô. Conserva-se, no caso das mulheres, o padrão curvilíneo característico de variação estável, e, no caso dos homens, apesar de as faixas etárias mais jovens aplicarem menos a regra de fechamento, isso não é suficiente para modificar as conclusões obtidas sobre a natureza da variação. Outro ponto coincidente é que são as mulheres da faixa etária intermediária que lideram o processo de fechamento das vogais ( p. 304). Vale salientar que, em nossos dados, o comportamento da não - recuada /e / se assemelha ao da recuada / o /, com uma única ressalva para o fato de que a vogal / e / está mais sujeita ao fenômeno do fechamento do que / o /.

7. 3 ANOS DE ESCOLARIZAÇÃO

Nos estudos variacionistas realizados tanto aqui no Brasil como no exterior é de considerável relevância o efeito que a variável escolaridade exerce sobre determinados fenômenos lingüísticos. Quanto mais estigmatizada for a forma não padrão, mais estreita será a correlação entre as variantes e o nível de escolarização dos falantes. De maneira geral, a tendência registrada em todos esses trabalhos é a que leva os falantes com mais anos de escolarização a usarem mais as formas padrão do que os menos escolarizados. Em nenhum dos quatro trabalhos citados como referência em nosso estudo, foi considerada a variável anos de escolarização. Três deles utilizaram os dados do projeto NURC (Norma Urbana Culta) que é composto apenas por falantes universitários. Em Brasília, Bortoni considerou mais a classe social e a ocupação profissional do que propriamente a escolaridade. Por essa razão, não nos é


89

possível traçar um parâmetro comparativo, a fim de verificar se as mesmas tendências registradas naqueles trabalhos são confirmadas no nosso. No entanto, apesar de não trabalharmos com variantes linguísticas estigmatizadas socialmente, são os universitários que apresentaram os índices mais altos para a aplicação da regra de fechamento, que representa a forma de maior prestígio na cidade de João Pessoa. Vejamos o efeito da escolarização, apresentado nas tabelas 25 e 26. TABELA 25 - ANOS DE ESCOLARIZAÇÃO RESULTADOS PARA / E / i Apli/tot 439/1397

F P 31% .36

é Apli/tot 675/1397

Fundamental 1 (P)

538/1469

37% .37

741/1469

50% .36

190/1469

13% .27

Fundamental 2 (G)

574/1604

36% .37

705/1604

44% .29

325/1604

20% .34

Nível médio (S) Universitário (U)

305/1046

29% .34

565/1046

54% .36

176/1046

17% .30

380/1527

25% .24

734/1527

48% .30

413/1527

27% .46

analfabeto (N)

F P 48% .34

ê Apli/tot 283/1397

F P 20% .30

TABELA 26 - ANOS DE ESCOLARIZAÇÃO RESULTADOS PARA / O / u

ó

analfabeto (N)

316/907

35% .37

442/907

39% .27

ô 149/907

Fundamental 1 (P) Fundamental 2 (G) Nível médio (S) Universitário (U)

394/1068

37% .41

538/1068

50% .28

136/1068

13% .31

319/1006

32% .40

580/1006

58% .38

107/1006

11% .22

161/735

22% .27

488/735

66% .37

86/735

12% .36

242/998

24% .23

604/998

61% .34

1052/998

15% .43

16% .36


90

Constatamos que, ao mesmo tempo em que favorecem mais as variantes fechadas ê / ô, os universitários são os que apresentam os índices mais baixos para a elevação das médias i / u. Assim, são os falantes com menos anos de escolarização (analfabetos e os do nível fundamental) os que apresentam os maiores índices de elevação. Um aspecto curioso nessa análise diz respeito à constatação de que os anos de escolarização não exercem quaisquer condicionamentos sobre a regra de abertura, que é a nossa forma padrão. Segundo Kemp (1981, apud SILVA e PAIVA, p. 369), o efeito do fator escolarização está relacionado ao fator idade. Assim, as diferenças de escolarização parecem mais significativas entre falantes mais

velhos

do

que entre falantes

mais

jovens. Por essa razão, fizemos

inicialmente o cruzamento de anos de escolarização com faixa etária, e, logo em seguida, com

sexo, a

fim

de

constatarmos

se

essas

expectativas

seriam

confirmadas no nosso corpus, ou se esses cruzamentos alterariam substancialmente os resultados prévios. Com o objetivo de tornar a visualização dos resultados mais clara, isolamos os dados de / e /, dos dados de / o /.

TABELA 27 - ANOS DE ESCOLARIZAÇÃO E FAIXA ETÁRIA RESULTADOS PARA / E / J n p g s u

i 23% 37% 37% 25% 21%

é 56% 54% 41% 57% 48%

A ê 21% 08% 22% 18% 31%

i 31% 34% 32% 26% 30%

é 50% 48% 37% 50% 42%

ê 20% 18% 31% 24% 27%

i 35% 39% 40% 43% 24%

V é 44% 50% 54% 56% 54%

ê 21% 11% 06% 01% 22%


91

TABELA 28 - ESCOLARIDADE E FAIXA ETÁRIA RESULTADOS PARA / O /

n p g s u

u 36% 43% 31% 17% 27%

J ó 50% 49% 62% 69% 59%

ô 14% 09% 07% 14% 14%

u 31% 30% 28% 28% 26%

A ó 48% 53% 57% 59% 54%

ô 21% 17% 15% 13% 20%

u 37% 42% 38% 22% 20%

V ó 48% 49% 55% 74% 68%

ô 14% 10% 07% 03% 12%

Os resultados mostraram-se diversificados, contrariando, parcialmente, as expectativas levantadas, de que a diferença de escolaridade se refletisse mais entre os falantes mais velhos. Também registramos comportamentos distintos entre os mais jovens, só os adultos mantiveram um comportamento razoavelmente regular. Apesar de a diversidade dos resultados inviabilizar uma leitura mais sistemática do cruzamento desses fatores, percebemos que a tendência demonstrada nas tabelas 25 e 26 (anos de escolarização) permanece. Os jovens e velhos menos escolarizados são os que apresentam os níveis mais altos de elevação, enquanto aos universitários são atribuídos os valores mais baixos. Além disso, são os universitários, independentemente de faixa etária, aqueles que mais fecham as vogais. O fato mais surpreendente na observação dos dados, foi a constatação de que os analfabetos e universitários mais velhos (49 anos em diante ) apresentam praticamente os mesmos índices para o fechamento de ambas as médias. Retomemos os valores percentuais das tabelas 27 e 28 que apresentam o cruzamento entre faixa etária e anos de escolarização, apenas para as variantes fechadas. ê

_

ô

analfabetos

21%

_

14%

universitários

22%

_

12%

( 49 anos em diante )

No caso da recuada / o /, a semelhança nos índices de fechamento ocorre também nas outras duas faixas etárias ( jovens e adultos ). De qualquer maneira,


92

porém, especificamente para / e /, permanecem ainda os universitários jovens e adultos como os maiores favorecedores da regra de elevação. Ainda que as maiores oscilações percentuais tenham ocorrido entre as variantes i / u

e ê / ô, observamos nos dados referentes a / o /, os índices mais

altos na aplicação da regra de abertura, entre os de nível fundamental, médio e universitários, nas três faixas etárias. Decidimos, finalmente, fazer o cruzamento entre escolaridade e sexo, com o intuito de verificar se a mesma tendência observada na tabela 24 (sexo e faixa etária) se manteria: as mulheres apresentaram uniformemente valores inferiores na aplicação das variantes é / ó, e superiores na aplicação das variantes ê / ô e i / u. Confrontemos agora esses resultados com os da tabela 29. TABELA 29 - ANOS DE ESCOLARIZAÇÃO E SEXO

i Esc. n p g s u

H 33% 34% 37% 26% 20%

é M 31% 39% 35% 36% 30%

H 43% 52% 46% 59% 51%

ê M 48% 42% 37% 46% 45%

H 24% 13% 17% 15% 28%

u M 21% 19% 28% 18% 25%

H 29% 31% 35% 23% 22%

ó M 39% 43% 29% 20% 26%

H 54% 56% 60% 67% 62%

ô M 45% 44% 56% 65% 59%

H 17% 13% 06% 10% 16%

M 16% 13% 16% 15% 15%

Observando detalhadamente os valores da tabela acima, podemos concluir que não houve mudanças substanciais. De modo geral, as mulheres continuam a aplicar menos do que os homens a regra de abertura, excetuando-se, apenas, o caso da vogal / e /, em que as analfabetas ( 48% ) superam os homens (43% ) por cinco pontos percentuais. Também foram as mulheres analfabetas, juntamente com

as

de nível

fundamental 2, que inverteram o posicionamento predominantemente feminino na aplicação da regra de elevação. Só nesses grupos os homens lideram o processo,


93

apesar de exibirem diferenças mínimas. Os homens analfabetos e do fundamental 2 apresentaram, respectivamente, valores percentuais de 33% e 37% para a variante [ i ], contra os 31% e 35% registrados para as mulheres. Em se tratando das variantes fechadas, as mulheres também apresentam valores superiores aos dos homens grupos

de

analfabetos

e

na maioria dos grupos, excetuando-se os

universitários, onde

os

homens

assumem

o

comportamento oposto, passando a liderar o processo. Ressaltamos que, novamente, as

diferenças

são

praticamente

insignificantes, especialmente para [ ô ].

Observemos, mais uma vez, os valores da tabela 20 que descreve o cruzamento entre anos de escolarização e sexo, apenas para as variantes [ê] e [ô]. ê

ô

homem - mulher

homem - mulher

analfabetos

24%

21%

17%

16%

universitários

28%

25%

16%

15%

Curiosamente, assim como nos foi revelado nas tabelas 18 e 19, os valores referentes aos analfabetos e universitários apresentam grandes semelhanças. Como já havíamos constatado que eram os analfabetos e universitários (de 49 anos em diante ) aqueles que demonstravam os valores mais aproximados para a freqüência no uso das variantes [ ê ] e [ ô ], podemos então complementar agora que essa tendência se estende a ambos os sexos. No entanto, a explicação para esta aproximação de valores referentes a dois grupos de escolarização completamente distanciados permanece em aberto. A nossa expectativa era a de que o fator escolaridade fosse relevante no condicionamento das variantes fechadas [ ê ] e [ ô ]. Quanto mais escolarizado o falante, mais alto o uso dessas variantes, em qualquer faixa etária. E isso não ocorreu no grupo dos mais velhos. Retomemos novamente os valores referentes às tabelas 27 e 28 que descrevem o cruzamento entre anos de escolarização e faixa etária .


94

( 49 anos em diante ) -

N

-

P

-

G

-

S

- U

ê

-

21%

11%

6%

1%

22%

ô

-

14%

10%

7%

3%

12%

É possível observar que os analfabetos exibem um índice de frequência que

vai

decaindo

à

medida

que

os

falantes

se

encontram

nos

níveis

intermediários de escolaridade, até atingir seu ponto inicial com os universitários. Esses valores descrevem um quadro de frequência completamente atípico e estranho em comparação aos já citados pela literatura pertinente que tratam da influência do fator escolarização nos fenômenos variacionistas. Podemos acrescentar também que a variação nos níveis fundamental 1, fundamental 2 e médio, nessa faixa etária específica (49 anos em diante ), praticamente ocorre binariamente, apenas entre as variantes abertas e as elevadas.

7 . 4 CONCLUSÃO PARCIAL

O cruzamento entre as variáveis sociais nos permitiu tirar algumas conclusões sobre a influência que os fatores extralinguísticos exercem no condicionamento

das

médias

pretônicas. Esses

resultados, na

concordantes com as tendências registradas nos trabalhos

verdade, são

variacionistas que

descrevem essas vogais. As mulheres se mostram mais favoráveis à realização das variantes

[ê]

e [ô], principalmente as que se encontram na faixa etária que vai dos 26 aos 49 anos. São os universitários também os que mais favorecem essas variantes fechadas, confirmando nossas suspeitas iniciais de que essas são as variantes de maior prestígio na nossa cidade, já que, de acordo com a literatura específica são as mulheres, e os falantes com maior escolarização aqueles que mais favorecem as variantes de prestígio.


95

É aconselhável, contudo, ter uma certa prudência nas afirmações referentes às variáveis sociais, já que, como foi demonstrado pelas tabelas expostas nesse capítulo, de maneira geral, os valores são muito aproximados, o que coloca em risco conclusões definitivas sobre o fenômeno observado.


96

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O estudo das vogais pretônicas na fala do pessoense urbano confirmou a nossa hipótese inicial de que as médias abertas fossem majoritárias no nosso dialeto, no entanto, essa predominância não ocorreu na dimensão esperada, uma vez que, em comparação com o dialeto de Salvador, a ocorrência de variantes elevadas e fechadas apresentou níveis bem

significativos. Suspeitávamos de que

os nossos índices fossem inferiores ou aproximados aos apresentados pelos soteropolitanos, já que, naquela pesquisa, o corpus é formado só por falantes universitários que demonstraram ser os mais favorecedores das variantes fechadas. As nossas expectativas de que os fatores sociais, além dos estruturais, pudessem exercer algum tipo de condicionamento sobre a realização das médias também

foram

definitivas

a

frustradas. Os resultados obtidos respeito da

influência

não

autorizam

conclusões

exercida pelos fatores sociais (apenas

idade e anos de escolarização), já que a variável sexo foi até eliminada pelo programa . Só nos foi possível fazer algumas inferências tomando por base apenas os valores percentuais, decorrentes dos cruzamentos efetuados entre as três variáveis sociais consideradas . Esses resultados, no entanto, não surpreendem muito porque, salvo algumas ressalvas, a mesma tendência foi registrada nos trabalhos de Bisol (1981), Silva (1989), Bortoni (1992) e Battisti (1993). Por outro lado, das variáveis linguísticas

consideradas, três

delas

se

apresentaram como determinantes da realização das médias. Foram elas: vogal da sílaba seguinte, contexto fonológico precedente e contexto fonológico seguinte. No que diz respeito à Vogal da Sílaba Seguinte, podemos até pensar na formalização de regras, ao invés de um mero relato de tendências, uma vez que essa variável demonstrou ser a mais forte condicionadora da realização das pretônicas. Daí, podemos elencar os seguintes resultados:


97

1. As variantes altas [ i ] e [ u ] ocorrem categoricamente diante de [ ĩ ], como em: m [i] nina, d [u] mingo; e, predominantemente, diante de / i /: p [i] dia, p [u] lítica. 2. As vogais médias abertas ocorrem predominantemente diante de vogais de mesma altura e das não altas nasais ( ã , ẽ , õ ), além disso, ocorrem casos significativos de abertura diante de / u /, e especificamente para / o /, também diante de [ ũ ]: c [ó] luna, pr [ó] funda. 3. As médias fechadas ocorrem restritamente diante de vogais de mesma altura e de certos ditongos: r [ê] speito, d [ê] pois, m [ô] rreu, n [ô] tei. 4. A alternância

i :: é :: ê

e u :: ó :: ô só é possível diante das altas orais / i /

e / u /. Com base nesses resultados, constatamos que, a grosso modo, a altura da pretônica está sempre condicionada à da vogal seguinte, seja ela alta, aberta ou fechada. E apesar de não termos trabalhado dentro de uma perspectiva de análise autossegmental, intuímos que todas essas variantes se submetem aos mesmos princípios que regem a Harmonia Vocálica descrita por Bisol (1981), e que, segundo Battisti (1993, p.120), a representação autossegmental do fenômeno (Harmonia Vocálica) mostrou se tratar de uma única operação na árvore, de espraiamento / assimilação de traço, tendo como consequência a alteração de um traço de abertura da vogal média. Dessa forma, concluímos que a mesma operação de espraiamento / assimilação de traço também se configuraria numa árvore que representasse os contextos favoráveis à abertura e ao fechamento. A respeito do condicionamento exercido pelos contextos fonológicos precedente e seguinte, podemos observar que, inicialmente, no que concerne à elevação das médias, a labial precedente favorece mais a elevação de / o / do que de / e /, enquanto a sibilante seguinte atua só sobre / e /.


98

No condicionamento da abertura, foi registrado que a vibrante posterior, tanto precedente como seguinte, favorece a abertura de / e /. Para / o /, mostraramse favoráveis apenas a alveolar e a palatal precedentes. Como contexto fonológico favorável ao fechamento de / e /, sobressaiuse unicamente a palatal precedente; no caso de / o /, demonstraram influência positiva a vibrante posterior precedente e seguinte, e a palatal seguinte. Os demais contextos fonológicos estiveram sempre subordinados à forte influência da vogal seguinte, que em muitos casos anulava a interferência do contexto. Além disso, de maneira geral, a vogal não-recuada / e / está mais sujeita à elevação e ao fechamento do que a recuada / o /, que, por sua vez, apresentou sempre, em toda a amostra, índices superiores ao de / e / para as variantes abertas. Ainda que as variáveis extralinguísticas não possam conclusões

precisas, o

cruzamento

escolarização nos sugere

que as

efetuado

entre

ser

sexo, idade

e

objeto

de

anos

de

mulheres favorecem mais as variantes não-

padrão [i], [u] e [ê], [ô] (que são as de maior prestígio no nosso dialeto) do que os homens. São confirmadas, portanto, as tendências observadas nos trabalhos de cunho variacionista, segundo as quais, as mulheres são favorecedoras das formas lingüísticas mais prestigiadas nas situações de variação estável. Observamos também que são os jovens e adultos universitários os maiores favorecedores das variantes fechadas. Resultado também previsto pela literatura específica. Ao longo de nossa pesquisa buscamos construir um quadro do comportamento dessas vogais em nossa comunidade, ao mesmo tempo em que procuramos confrontar como os dados coletados em outras localidades. Esperamos, portanto, que os nossos resultados venham a colaborar com outras pesquisas em desenvolvimento, em outras regiões, no sentido de fornecer um parâmetro da realização das vogais em nível nacional.


99

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Uma análise variacionista das vogais