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UNIVERSIDADE FEDERAL DA PARAÍBA CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS, LETRAS E ARTES CURSO DE PÓS-GRADUAÇÃO EM LETRAS

UM ESTUDO VARIACIONISTA DA CONCORDÂNCIA VERBO-SUJEITO NA FALA DOS PESSOENSES

Sandra Espínola dos Anjos

João Pessoa – Pb 1999


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Sandra Espínola dos Anjos

UM ESTUDO VARIACIONISTA DA CONCORDÂNCIA VERBO-SUJEITO NA FALA DOS PESSOENSES

João Pessoa – UFPb 1999


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UNIVERSIDADE FEDERAL DA PARAÍBA CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS, LETRAS E ARTES CURSO DE PÓS-GRADUAÇÃO EM LETRAS

UM ESTUDO VARIACIONISTA DA CONCORDÂNCIA VERBO-SUJEITO NA FALA DOS PESSOENSES

Sandra Espínola dos Anjos

Profº. Drº. Dermeval da Hora (Orientador) Profª. Drª. Maria Marta P. Scherre (Co-orientadora)

João Pessoa – Pb 1999


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UM ESTUDO VARIACIONISTA DA CONCORDÂNCIA VERBO-SUJEITO NA FALA DOS PESSOENSES

por

SANDRA ESPÍNOLA DOS ANJOS

Dissertação

de

Mestrado

em

Língua

Portuguesa, apresentada à Coordenação do Curso de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal da Paraíba, em cumprimento às exigências para obtenção do grau de Mestre.

João Pessoa – Pb 1999


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UM ESTUDO VARIACIONISTA DA CONCORDÂNCIA VERBO-SUJEITO NA FALA DOS PESSOENSES

SANDRA ESPÍNOLA DOS ANJOS

Dissertação aprovada em: ______/_____/1999. Examinadores:

________________________________________________ Maria Marta Pereira Scherre

________________________________________________ Maria Elizabeth A. Christiano

________________________________________________ Eliane Ferraz Alves

João Pessoa – Pb 1999


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Dedico

A Deus, razão maior da existência humana; A meus pais e minha irmã, pelo carinho e pela compreensão tão constantes; A Waltércio, pelo companheirismo e apoio; A todos que contribuíram direta e indiretamente para a realização deste trabalho.


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AGRADECIMENTOS

Ao Profº. Drº. Dermeval da Hora, por seu empenho e dedicação à frente do Projeto VALPB; À Profª. Drª. Mª. Marta P. Scherre, por suas orientações, sua paciência e atenção; À Fundação Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), pela bolsa concedida; À Coordenação de Pós-Graduação em Letras, pelo auxílio dispensado; À Maria Aparecida, por suas palavras de otimismo; Aos colegas do Projeto VALPB: Alvanira Lúcia, Antônia Verônica, Ariadne Costa, Cristiane Baltor, Gilson Chicon, Iara Martins, Juliene Lopes, Kátia Lins, Mário Anastácio, Paula Franssinete, Rosângela Neres e Sandra Marques, pelo harmonioso convívio; À Edilma Catanduba, Maria Bernadete Feliciano e Nilza de Freitas, pelas palavras amigas nos momentos difíceis; Às professoras Fabiana de Souza e Hebe Machado, exemplos de dedicação e empenho; Em especial à Fabiana de Souza, Juliene Lopes e Rosângela Neres, por tantas vezes que as incomodei em busca e ajuda.


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LÍNGUA PORTUGUESA Última flor de Lácio, inculta e bela, És, a um tempo, esplendor e sepultura; Ouro nativo, que na ganga impurra A bruta mina entre os cascalhos vela... Amo-te assim, desconhecida e obscura, Tuba de alto clangor, lira singela, Que tens o trem e o silvo da procela, E o arrolo da saudade e da ternura! Amo o teu viço agreste e o teu aroma De virgens selvas e de oceano largo! Amo-te, ó rude e doloroso idioma, Em que da voz materna ouvi: “meu filho!” E em que Camões chorou, no exílio amargo, O gênio sem ventura e o amor sem brilho! (Olavo Bilac)


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SUMÁRIO LISTA DE QUADROS, TABELAS E GRÁFICOS

12

RESUMO

13

ABSTRACT

14

INTRODUÇÃO

15

Objetivos

17

Hipóteses

18

FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

20

Pressupostos básicos

20

A Teoria da Variação

25

O binômio variação e mudança

28

PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS

36

1 Seleção dos informantes

36

2 Caracterização dos informantes

36

3 Instrumentos de pesquisa

37

4 Caracterização dos dados

37

5 Método estatístico

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CONCORDÂNCIA VERBAL

42

1 Apresentação do problema

42

2 Abordagens sobre o tema

44


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APRESENTAÇÃO DAS VARIÁVEIS

60

1 Variáveis lingüísticas

60

Introdução

60

1.1 1.1.1

Saliência fônica

61

1.1.2

Paralelismo lingüístico

77

1.1.2.1

Paralelismo discursivo

79

1.1.2.2

Paralelismo oracional

86

1.1.3

Presença, posição e distância do sujeito

91

1.1.4

Animacidade

98

1.2

2

Considerações finais acerca das variáveis lingüísticas

Variáveis extralingüísticas

2.1

Introdução

102

104 104

2.1.1

Anos de escolarização

104

2.1.2

Faixa etária

111

2.1.3

Sexo

117

2.2

Considerações finais acerca das variáveis extralingüísticas

121

CONCLUSÃO

123

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

127


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LISTA DE QUADROS, TABELAS E GRテ:ICOS

QUADRO QUADRO 1 Caracterizaテァテ」o dos informantes

36

QUADRO 2 Pronomes pessoais na Lテュngua Inglesa

46

TABELAS Tabela 1

66

Tabela 2

67

Tabela 3

68

Tabela 4

71

Tabela 5

74

Tabela 6

76

Tabela 7

81

Tabela 8 Tabela 9

82

Tabela 10

85

Tabela 11

87

Tabela 12

88

Tabela 13

90

Tabela 14

94

Tabela 15

96

Tabela 16

97

Tabela 17

100

Tabela 18

101

Tabela 19

102

Tabela 20

106

Tabela 21

107

Tabela 22

109

Tabela 23

113

Tabela 24

115

Tabela 25

119


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GRÁFICOS Gráfico 1 Saliência Fônica – Gráfico comparativo

69

Gráfico 2 Atuação da escolarização e faixa etária na concordância verbo-sujeito

111

Gráfico 3 Atuação da faixa etária na concordância verbo-sujeito

114

Gráfico 4 Atuação da faixa etária e sexo na concordância verbo-sujeito

116


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RESUMO Baseando-se na relação língua-sociedade, propôs-se fazer um estudo da variação na relação verbo-sujeito de 3ª pessoa do plural no SV (Sintagma Verbal), em casos como Eles falam bem/Eles fala bem. O principal objetivo deste trabalho é detectar a influência exercida por fatores sociolingüísticos sobre o fenômeno acima citado. Para tanto, foi adotado o modelo teórico-metodológico da Teoria da Variação, proposto por William Labov. Para a análise foi utilizado o corpus do Projeto Variação Linguística no Estado da Paraíba – VALPB, no qual constam dados lingüísticos de 60 informantes da comunidade de João Pessoa, estratificados segundo as variáveis sociais: sexo (masculino e feminino), faixa etária (15 a 25, 26 a 49 e mais de 50 anos) e anos de escolarização (nenhum ano, 1 a 4, 5 a 8, 9 a 11 e mais de 11 anos). Foram controladas as variáveis estruturais, saliência fônica, paralelismo oracional, paralelismo discursivo, presença, posição e distância do sujeito, e animacidade do sujeito. Este trabalho, a partir das constatações das hipóteses obtidas através da coleta, codificação, armazenamento e tratamento estatístico dos dados, prossegue com a intenção, por um lado, de se constituir em uma importante contribuição para o Projeto VALPB, e, por outro lado, contribuir com a descrição do fenômeno da variação na concordância verbo-sujeito, na comunidade pessoense.


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ABSTRACT The main objective of this work is to detect the influence of sociolinguistics factors on the following phenomenon – a study on the variation of the relation verbsubject in the 3rd person plural in cases such as Eles falam bem/ Eles fala bem, based on the relationship between language and society. We adopted theoreticalmethodological model the Variation Theory proposed by William Labov to carry on the research. For the analysis we used the corpus of the Linguistic Variation Project in the State of Paraíba – VALPB, in which there is data of about 60 people of the João Pessoa community divided according to the social variables, sex, age (15 to 25, 26 to 49, and over 50) educational level (illiterates, 1 to 4, 5 to 8, 9 to 11, and over 11 year old). The structural variables controlled

were phonic saliency, clause

parallelism, discursive parallelism, presence, position and distance of the subject. This work, according to evidence of the hypotheses achieved through collection, codification, storage and statistical treatment of the data, points out the intention of offering an important contribution to the VALPB Project and a description of the variation phenomenon into the verb-subject agreement in the community of João Pessoa.


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INTRODUÇÃO Considerando como um dos principais problemas para o estudo lingüístico a permanente divergência entre as prescrições da Gramática normativa e o uso real e diário da língua, faz-se importante o estudo do português vernacular (o português falado na sua forma mais espontânea). É importante, também, ter em mente que o uso da língua, feito pelo falante, está estreitamente relacionado às usas (do falante) condições sociais, não podendo ser realizada a análise da variação lingüística dissociada do seu contexto social. Para este estudo, partiu-se dos seguintes pressupostos teóricos: a língua é um fato social, inerente ao indivíduo, dinâmica e heterogênea; a variação faz parte do sistema lingüístico e para o estudo desta deve-se levar em conta a atuação do falante; e, por último, a variação é condicionada por fatores lingüísticos e extralingüísticos, podendo refletir um processo de mudança em progresso ou de variação estável. Então, tendo como base a Teoria da Variação e o corpus coletado pelo Projeto Variação Lingüística no Estado da Paraíba – VALPB (Hora, 1993), propôs-se a fazer um levantamento significativo dos dados de língua falada, coletados na comunidade de João Pessoa, com o objetivo de descrever a variação na concordância verbo-sujeito na 3ª pessoa do plural no SV (Ex.: Eles cantam/ Eles canta) e analisar os possíveis fatores sociais e estruturais que favoreceriam a presença da variante explícita de plural ou da variante zero na forma verbal flexionada, como também o encaixamento deste fenômeno no contexto linguístico e social da comunidade em questão. Sabendo da existência de relevantes pesquisas que também tratam desse fenômeno, seja como um processo de mudança (Naro & Lemle, 1976) seja como um caso de variação estável (Nicolau, 1984), partiu-se para a análise da fala de informantes com nenhum ano de escolarização até aqueles com mais de 11 anos, identificando-se, assim, quais seriam os fatores responsáveis pela presença de marca explícita de concordância entre o sintagma nominal e o verbo, no português falado de João Pessoa, bem como se o fenômeno analisado se em um processo de variação estável ou de mudança lingüística em progresso. Para tanto, foram


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considerados o sexo, a faixa etária e os anos de escolarização dos falantes, segundo a estratificação do Projeto VALPB. A exposição deste estudo, no qual constam oito capítulos, será feita na seguinte ordem: No primeiro capítulo consta uma introdução acerca do tema abordado nesta dissertação, os objetivos e as hipóteses levantadas. No segundo capítulo consta a fundamentação teórica, na qual discute-se principalmente a Teoria da Variação, base de apoio para este estudo. A metodologia utilizada neste trabalho encontra-se no terceiro capítulo e nela são detalhadas a seleção e caracterização dos informantes, instrumentos de pesquisa, caracterização dos dados e o método computacional usado no tratamento estatístico destes. No quarto capítulo são apresentados um breve histórico do processo de concordância verbal do latim ao português contemporâneo e alguns trabalhos sobre a concordância verbal no português falado no Brasil à luz da Teoria da Variação. No quinto capítulo é tratada a apresentação e discussão das variáveis lingüísticas e extralingüísticas referentes ao fenômeno estudado. Por último, nos capítulos seis e sete, estão a conclusão e as referências bibliográficas. O estudo que aqui será desenvolvido poderá servir como base para pesquisas científicas nessa área, visto que, além de procurar descrever sistematicamente o uso da concordância verbal na 3ª pessoa do plural, busca explicações para o fato de esse uso estar passando por um processo de variação na comunidade pessoense. Outro motivo que intensifica a importância de tal estudo é a sua possível contribuição para professores, alunos e especialistas em educação, no sentido de fornecer subsídios para novas propostas nesta área de estudo, podendo orientá-los e conscientizá-los sobre a existência de variação na língua falada e sobre a possibilidade desta variação refletir-se na escrita.


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OBJETIVOS Tendo em vista que a ausência de concordância na relação verbo-sujeito é um fenômeno muito freqüente, não só na comunidade sob estudo, mas também no vernáculo de outras regiões do país, pretende-se com esse trabalho alcançar os objetivos gerais e específicos apresentados a seguir:

Objetivos Gerais Identificar os fatores sociais e estruturais condicionadores no uso variável da concordância verbal; Traçar o perfil sociolingüístico dos falantes de João Pessoa com relação à concordância verbo-sujeito na 3ª pessoa do plural no SV.

Objetivos Operacionais Verificar se a forma verbal flexionada é mais freqüente nos contextos em que o sujeito é anteposto ao verbo; Mostrar que, de acordo com o princípio do paralelismo linguístico, a presença de marcas de plural no SN sujeito e no SV anterior favorece a flexão verbal, ao passo que a ausência de marca conduz a menos concordância ou a mais variante zero, no plano oracional e no plano discursivo; Reafirmar o princípio de que formas verbais mais salientes elevam a probabilidade de concordância e as formas menos salientes abaixam-na; Testar se o traço [+ humano] do sujeito é mais favorável à presença de variante explícita de plural; Evidenciar que são os falantes do sexo feminino, os universitários e os que estão na faixa etária de 15 a 25 e mais de 50 anos os que mais usam a marca explícita de concordância; Verificar se o fenômeno da concordância verbo-sujeito na 3ª pessoa do plural reflete um estágio de variação estável ou um processo de mudança em progresso.


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HIPÓTESES Para o estudo do fenômeno da concordância verbo-sujeito de 3ª pessoa do plural parte-se das seguintes hipóteses:

A concordância verbo-sujeito na 3ª pessoa do plural no SV é mais freqüente em contextos de sujeito anteposto ao verbo, pois, segundo a literatura pertinente (Naro & Lemle, 1976; Naro & Scherre, 1996; Scherre & Naro, 1997; Nicolau, 1984; Graciosa, 1991 e Vieira, 1997) a posição mais à esquerda (anteposta) favorece a presença da marca de concordância, enquanto a posição mais à direita (posposta) favorece a não concordância.

Quanto maior a proximidade do sujeito com o verbo, maior a probabilidade de haver a presença explícita de concordância, pois, de acordo com Naro & Lemle (1976) e Naro (1981), a relação posicional é mais saliente quando o sujeito determinante precede imediatamente o verbo determinado.

Segundo o princípio do paralelismo linguístico de que marcas levam a marcas e zeros levam a zeros (Poplack, 1980; Scherre & Naro, 1993; Scherre, 1988; Carvalho, 1997b e Vieira, 1997), deseja-se verificar se a presença de marcas explícitas de plural no SN sujeito conduz à presença de marcas de plural no SV, e se a presença ou a ausência da marca de concordância em um verbo influencia o verbo seguinte.

As formas verbais mais salientes condicionam favoravelmente a variante explícita de concordância, ao contrário das menos salientes, de acordo com o princípio da saliência fônica, discutido por vários autores (Naro & Lemle, 1976; Naro, 1981 e Guy, 1981, 1986).

O sujeito [+ humano] favorece a retenção da marca, devido à possibilidade de ele vir a exercer a função de agente da oração (Scherre & Naro, 1998; Naro & Scherre, 1999; Graciosa, 1991 e Vieira, 1997).

As mulheres, mais do que os homens, conforme a literatura pertinente (Naro, 1981; Guy, 1981, etc.), apresentam uma tendência maior em aplicar a forma mais conservadora (a variante explícita de plural). Esta mesma tendência se manifesta entre os falantes de 15 a 25 anos e com mais de 11 anos de escolarização.


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O fenômeno da concordância verbal, na comunidade pessoense, passa por um processo de variação estável com duas formas convivendo dentro do mesmo sistema linguístico, ou seja, a permanência da forma conservadora (marca explícita de concordância) e a inclusão de uma forma inovadora (ausência de marca explícita de concordância).


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FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA Pressupostos Básicos O fato de a língua ser considerada um organismo vivo que se apresenta de forma heterogênea e dinâmica e está sujeita a variações e mudanças, já foi, há muito, discutido e aceito. Carvalho (1997a) aponta três fases distintas pelas quais passaram os estudos lingüísticos: a Filosófica, com os gregos e seus estudos sobre a origem da linguagem, baseados na Filosofia, Etimologia, Semântica, Retórica, Morfologia, Fonologia, Filologia e Sintaxe; a Filológica, preocupada com os textos escritos, e a histórico-comparatista, marcada justamente pela preocupação diacrônica, ou seja, com a evolução das línguas. Segundo Leroy (1974:34), um nome importante, nessa fase comparatista, foi o de Franz Bopp, em 1791, o qual afirmava que o “método comparativo devia permitir reconstituir o estado primitivo da linguagem, a língua da idade de ouro, sistema regular e – sonho de todos os gramáticos! – sem exceções.” Na primeira metade do século XIX, surge uma nova visão sobre a linguagem – a de Humboldt, o qual, de acordo com Leroy (1974), via a linguagem como uma criação contínua que só existe enquanto manifestação do espírito humano. Conforme Leroy (1974), na segunda geração de comparatistas, surge Augusto Schleicher, que, com uma visão totalmente diferente daquela de Humboldt, trata a linguagem como um elemento da natureza, interpretando-a como um organismo e tentando aplicar-lhe o conceito de evolução, desenvolvido por Charles Darwin para seu estudo das espécies. Opondo-se a essa visão scheleicheriana, surge a escola neogramática, que procura observar o princípio da regularidade da mudança lingüística, sendo a primeira escola a fazer tal observação. Os neogramáticos (Osthoff, Brugmann, A. Leskien e H. Paul) estabelecem dois princípios importantes para sua teoria: o princípio das leis fonéticas e o da analogia.


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De acordo com Camara Jr. (1979:75), “a chave da doutrina dos neogramáticos é a segura asserção das leis fonéticas que, como postulou Osthoff, trabalham com uma necessidade cega. Daí, a atribuição da evolução fonética a uma ação mecânica de forças fisiológicas e psíquicas que escapam ao controle humano. Neste sentido toda a atenção dos neogramáticos se concentrou nas mudanças fonéticas que parecem contradizer as referidas leis tão bem estabelecidas. Explicaram, de maneira constante e unilateral, estas discrepâncias, pelo que eles chamaram de analogia.”

Segundo Câmara Jr. (1979:77), Herman Paul, em sua obra Princípios de Lingüística Histórica, publicada em 1880, traz observações acerca do funcionamento linguístico, mas que são de caráter puramente histórico e, fora dessa perspectiva, segundo Câmara Jr., elas possuem um caráter paralingüístico, baseado em pura psicologia. Herman Paul tentou basear suas afirmações nos estudos sobre as mudanças sistemáticas, buscando as causas para tais mudanças, que, em sua opinião, processam-se na mente do falante. Ainda na visão de Câmara Jr. (1979:82), o lingüista austríaco Hugo Schuchardt foi o principal oponente da teoria neogramática. Segundo ele, Schuchardt achava que a linguagem é, sob todos os aspectos, o resultado de um processo de mistura, havendo mistura de formas de um falante para outro dentro da mesma língua, mistura de maneiras de falar local e mesmo mistura de línguas diferentes. Mais tarde, surge a Escola Estruturalista, liderada por seu principal representante, Ferdinand de Saussure; essa escola lingüística baseou seus estudos na concepção de língua como um sistema homogêneo, uniforme e imutável, admitindo que a possibilidade de a língua ser estudada nas estruturas internas do sistema. Saussure estabelece sua primeira dicotomia – langue/parole – no estudo da linguagem. Para ele, a língua é a parte social da linguagem, uma realidade psíquica formada por significados e imagens acústicas, enquanto a fala é a parte individual, o uso que cada membro dessa comunidade lingüística faz da língua. Uma outra dicotomia, paralela a essa, é a que distingue um estado da língua e uma fase de evolução, respectivamente, sincronia e diacronia. De acordo com Carvalho (1997a), essa dicotomia surge em oposição à visão comparativista que se


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limitava apenas ao estudo diacrônico da língua. Saussure, mesmo se preocupando com o processo pelo qual as línguas se modificam, volta sua atenção para o modo como elas funcionam, privilegiando assim o ponto de vista sincrônico. Saussure (1995:96) assinala a oposição entre Lingüística Sincrônica e Lingüística Diacrônica da seguinte forma: “é sincrônico tudo quanto se relacione com o aspecto estático da nossa ciência, diacrônico tudo que diz respeito às evoluções. Do mesmo modo, sincronia e diacronia designarão respectivamente um estado de língua e uma fase de evolução.” Mesmo sendo de natureza distinta, uma verdade não exclui a outra, nem tampouco se contradizem. Nas palavras de Saussure (1995:113), “não se deve pensar seja somente o fato histórico que importa e que baste para constituir uma língua.” Segundo Labov (1972), da divisão entre língua e fala estabelecida por Saussure surge um paradoxo (chamado por Labov de paradoxo saussuriano), que consiste na idéia de que o aspecto social da linguagem (langue) só poderia ser observado no seu uso individual, enquanto o aspecto individual (parole) apenas no seu contexto social. Em seguida a visão saussuriana, o estruturalismo americano surge através de um de seus maiores nomes, Leonard Bloomfield, que baseou seus estudos lingüísticos em uma abordagem “mecanicista”. Para Bloomfield, como foi para Herman Paul, a difusão da mudança se dá através do mecanismo de empréstimo linguístico e se processa de forma gradual em cada comunidade. Em 1957 surge o modelo gerativo transformacional, elaborado por Noam A. Chomsky, que incorpora as idéias estruturalistas ás suas idéias, à medida que formula

a

dicotomia

competence/perfomance

(competência/desempenho).

A

competence corresponderia a um conjunto abstrato de regras lingüísticas inatas, e a performance à atualização da competence na fala. Ao

estabelecer

essa

dicotomia,

Chomsky

(1971:6)

estabelece

que

competência é o conhecimento que o falante-ouvinte ideal tem de sua língua, e atuação é o uso real da língua em situações concretas.


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Chomsky (1971:5) afirma que: “o que concerne primariamente à teoria lingüística é um falanteouvinte ideal, em uma comunidade de fala completamente homogênea, que conhece sua língua perfeitamente e não é afetado por condições sem valor gramatical, como limitações de memória, distrações, mudanças de atenção e interesse e erros (casuais ou característicos) ao aplicar seus conhecimentos da língua no uso real.”1

O modelo gerativista tem como maior preocupação a categoricidade do modelo, não considerando o componente social e a variabilidade lingüística como objeto de estudo. Na década de 60, surge a Sociolingüística, uma nova proposta lingüística, que, ao contrário da anterior (gerativista), procura incorporar o aspecto social aos estudos lingüísticos, unindo dois campos de estudo: o social e o linguístico. De acordo com Romaine (apud Monteiro, 1997), o termo sociolingüística surgiu em 1950 para referir-se às perspectivas conjuntas que os lingüistas e sociólogos mantinham ante às questões sobre a influência lingüística na sociedade e, especialmente, sobre o aspecto social da diversidade lingüística. A gênese da iniciativa sociolingüística exigiu uma pesquisa sistemática na fala real, em seu contexto social. O próprio termo, ou pelo menos a homografia aproximada sociolingüística, foi criado antes de ser considerada qualquer pesquisa do tipo que veio a ser chamada sociolingüística. Como o próprio nome já diz, a Sociolingüística estuda as relações entre língua e sociedade, sendo que, língua deve ser entendida aqui como um sistema de vários níveis, integrados num todo historicamente estruturado, ocupando-se assim dos estratos fonológico, morfológico, sintático e semântico das línguas (Elia, 1987:40). Ao surgir, ela constituiu, por si só, algo diferente da Lingüística e da Sociologia, pois trouxe em sua própria denominação os componentes, social e lingüístico. Hudson (1980:5) afirma que a diferença Sociolingüística e Sociologia da linguagem é muito mais uma questão de ênfase, ou seja, se o investigador está mais 1

“Lo que concierne primariamente a La teoria lingüística es um hablante-oyente ideal, em una comunidad lingüística del todo homogénea, que sabe su lengua perfectamente y AL que no afectan condiciones sin valor gramatical, como son limitaciones de memória, distracciones, câmbios del centro de atención e interes, y errores (característicos o fortuitos) al aplicar su conocimiento de La lengua al uso real.”


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interessado na língua ou na sociedade e, também, se ele tem mais habilidade em analisar estruturas lingüísticas ou sociais. Para ele, a Sociolingüística pode ser definida como o estudo da língua em relação à sociedade, e seu interesse em focalizar o indivíduo explica-se pelo fato de que cada indivíduo tem uma experiência lingüística diferente, ou seja, cada indivíduo, em uma comunidade, é único em seu uso linguístico. Segundo ele: “O indivíduo falante, diferente de uma célula individual, é presumivelmente moldado muito mais por sua experiência (como ouvinte) do que por sua constituição genética, e sua experiência consiste no fato da fala produzida por outros falantes individuais ser única.” (Hudson, 1980:12)2

Na visão de Corvalán (1988:1): “a Sociolingüística é uma disciplina independente, com uma metodologia própria (...) que estuda a língua em seu contexto social e se preocupa essencialmente em explicar a variabilidade lingüística, sua interrelação com fatores sociais e o papel que esta variabilidade desempenha nos processos de mudança lingüística.” 3

Para Mollica (1992:13): “A Sociolingüística focaliza como objeto de estudo exatamente a variação, entendendo-a como um princípio geral e universal das línguas, passível de ser descrita e analisada. Ela parte do pressuposto de que toda variação é motivada, isto é, é controlada por fatores de maneira tal que a heterogeneidade se delineia sistemática e previsível. Isso corresponde a dizer que a aleatoriedade nos empregos de formas lingüísticas está fora de cogitação.”

Esta vertente lingüística busca segundo Elia (1987:21), identificar as relações entre estrutura lingüística e estrutura social, mas de um ponto de vista interno, ou seja, não se trata de contato de línguas, mas de diferenciação dentro de

2

“Unlike the individual cell, the individual speaker is presumably moulded much more by his experience (as a listener) than by his genetic make-up, and his experience consists in fact of speech produced by other individual speakers, each of whom is unique.” 3 “La sociolinguística es uma disciplina independiente, com una metodologia propia, (...) que estudia la lengua en su constexto social y se preocupa esencialmente de explicar la variabilidad lingüística, de su interrelación con factores sociales y del papel eu esta variabilidad desempeña en los procesos de cambio linguístico.


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uma só língua atribuível à casualidade social (níveis culturais da mesma língua, línguas especiais, gírias). Bright (1974:17) considera como tarefa da Sociolingüística, demonstrar a covariação sistemática das variações lingüísticas e social, e, talvez, até mesmo, demonstrar uma relação causal em uma ou outra direção. Enfim, a Sociolingüística volta-se para o estudo da diversidade lingüística, ou seja, para o fato de que os indivíduos têm diferentes códigos lingüísticos. Para muitos estudiosos, essa diversidade só é de interesse sociolingüístico quando pode ser correlacionada com traços sociais.

A Teoria da Variação A Teoria da Variação Lingüística ou Sociolingüística laboviana surge na década de 60, desenvolvida, principalmente, a partir da proposta de Weinreich, Labov e Herzog (1968) e se consolida nos estudos de Labov sobre a centralização dos ditongos (ay) e (aw), no inglês da Ilha de Martha´s Vineyard, no estado americano de Massachussets, em 1963, e no estudo realizado em Nova York em 1966, sobre a estratificação sociolingüística do (r). Além desses estudos de Labov, dois outros foram a base empírica dessa nova teoria: o estudo de Herzog sobre a dialectologia do Yiddish no Norte da Polônia, e o trabalho de Weinreich no Language and Culture Atlas of Ashkenazic Jewry (Labov, 1972). Os

precursores

desse

modelo

insistem

veementemente

na

relação

língua/sociedade, estabelecendo, assim, uma reação à ausência do componente social no modelo gerativo. Eles defendem a idéia de que a mudança é observável sincronicamente, ou seja, no seu estado atual, pela avaliação da heterogeneidade lingüística dos grupos sociais. A Teoria da Variação surge com o objetivo de desenvolver uma teoria que possa, além de descrever a língua e seus elementos sociais e lingüísticos determinantes, produzir uma teoria da mudança que trate da variabilidade na língua. Ao considerar de forma sistemática, regular e ordenada a variação inerente ao sistema linguístico, a teoria variacionista propõe-se a explicá-la e descrevê-la, relacionando-a aos contextos social e linguístico (Labov, 1972). Cabe observar que


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tanto a homogeneidade quanto a heterogeneidade lingüística não são aleatórias, mas, sim, governadas por um conjunto de regras variáveis, cuja presença estaria condicionada por fatores lingüísticos e extralinguísticos. Essas regras variáveis visam a descrever os fatos lingüísticos que, na abordagem gerativa dos anos sessenta, eram representados por meio de regras opcionais. Assim, como na língua existem regras invariantes que não são violadas ou infringidas, existem também as regras variáveis, que são aplicadas quando duas ou mais formas estão em estado de concorrência num mesmo contexto e a escolha de uma delas depende de fatores internos ou externos (Monteiro, 1997). Com a incorporação da regra variável à Teoria, procura-se estudar a língua como uma forma de comportamento social, através da quantificação e análise da fala vernacular, verificando, nesta, a interferência de fatores estruturais e sociais, os quais, ao interagir, motivam a escolha de determinada forma lingüística em detrimento de outra. Ao se referir à noção de regra variável, Sankoff (1988: 984) afirma que: “Sempre que uma escolha entre duas (ou mais) alternativas discretas puder ser percebida como tendo sido feita no curso do desempenho (performance) linguístico e sempre que essa escolha puder ser influenciada por fatores, como os traços do ambiente fonológico, o contexto sintático, a função discursiva da expressão, tópico, o estilo, a situação interacional ou características sociodemográficas ou pessoais do falante ou de outros participantes, então é apropriado invocar as noções e métodos estatísticos conhecidos por estudiosos de variação lingüística como regras variáveis.”4

Naro (1992: 17) expõe sua visão de regra variável nos seguintes termos: “(...) tal como existem condições ou regras que obrigam o falante a usar categoricamente certas formas (a casa) e não outras (casa a), também existem condições ou regras variáveis que funcionam para favorecer ou desfavorecer, variavelmente e com pesos específicos, o uso de uma ou outra das formas variáveis em cada contexto.”

Segundo Chambers (1995: 14), quando Fischer, em 1958, estudou o uso das formas –in e –ing em particípios, por parte de estudantes secundaristas da cidade de 4

“Whenever a choice among two (or more) discrete alternatives can be perceived as having been made in the course of linguistic performance, and where this choice may have been influenced by factors such as features in the phonological environment, the syntactic context, discursive function of the utterance, topic, style, interactional situation or personal or socidemographic characteristics of the speaker or other participants, then it is appropriate to invoke the statistical notions and methods known to students of linguistic variation as variable rules.”


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Boston, determinando a correlação entre essas formas e a classe social, o sexo e outras variáveis independentes, chegou à conclusão de que a variação livre é com certeza um rótulo, não uma explicação. Par Fischer, ela não diz de onde as variantes procedem, nem porque os falantes usam-nas em proporções diversas, mas, é ao invés disso, uma forma de excluir tais questões do âmbito da investigação imediata. Tarallo (1990a: 6) afirma que a Teoria da Variação considera o sistema linguístico heterogêneo

e dinâmico, procurando sistematizar o aparente “caos”

linguístico, que, para essa teoria, é condicionado social e estruturalmente, não existindo, pois, variação livre. Mollica (1992: 14) divide em dois grupos os fatores condicionadores da variação lingüística. No primeiro grupo, encontram-se os fatores fono-morfosintáticos, semânticos e discursivos e lexicais. No segundo, encontram-se agrupados os fatores inerentes ao indivíduo (como sexo, idade, etnia), os sóciogeográficos (como região, escolarização, nível de renda, profissão e classe social) e os contextuais (como grau de formalidade e tensão discursiva). Aqueles referem-se a traços próprios aos falantes, enquanto esses, às características circunstanciais que ora envolvem o falante, ora o evento da fala. Pretti (1994: 24-41) após considerar opiniões de alguns lingüistas, coloca o estudo da variedade lingüística subordinada a dois campos. O primeiro envolve as variedades geográficas ou diatópicas, que ocorrem num plano horizontal da língua. Essa variedade é responsável pelos chamados regionalismos, provenientes de dialetos ou falares locais e conduzem à oposição linguagem urbana/linguagem rural. O segundo campo abrange as variedades sócio-culturais (ou diastráticas) que ocorrem num plano vertical, ou seja, dentro da linguagem de uma comunidade específica

(urbana

ou

rural).

Essas

variações

sócio-culturais

podem

ser

influenciadas ainda por fatores ligados diretamente ao falante, no caso do sexo, raça ou cultura, posição social, profissão, grau de escolaridade e o local em que reside na comunidade, ou ao grupo a que pertence ou à situação ou a ambos simultaneamente. Milroy & Milroy (1997: 47) observam que, nas teorias dominantes até então (Teorias saussuriana, estruturalista americana, da Escola de Praga e a chomskyana), a variabilidade em uma língua ou dialeto e a variação através das


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línguas não são o ponto central. Uma conseqüência disso é que a teoria lingüística tem-se baseado nas formas standardizadas da língua, ao invés de focalizar formas variáveis de fala natural. Sankoff (1988: 141), a respeito da Teoria variacionista, afirma o seguinte: “O ponto de vista variacionista sobre a língua é determinado primeiro por um interesse científico em justificar a estrutura gramatical no discurso – seja uma conversa natural espontânea, narrativa ou argumentação formal ou vários gêneros escritos – e segundo por uma preocupação coma polivalência e aparente instabilidade das relações lingüísticas forma-função no discurso.”5

Resumindo, a Teoria da Variação, ao tratar da língua, estabelece uma relação sistemática entre esta e as pressões internas do sistema linguístico, e as forças sociais sobre a comunidade. Para ela, a variação é inerente ao sistema linguístico e a noção de heterogeneidade não é incompatível com a noção de sistema. Considera, ainda, que a variação não é aleatória, mas sim governada por restrições sociolingüísticas. Essa teoria busca seus dados em situações reais de fala, ou seja, dados empíricos que revelam a verdadeira configuração de uma dada língua, como também os seus caminhos de mudança.

O Binômio Variação e Mudança É do conhecimento geral que a língua sofre variações e está sempre mudando. A língua falada há vinte, trinta, cinqüenta anos ou mais não é a mesma que se ouve hoje. Ela passa por transformações que conduzem a ganhos e perdas em seus vários aspectos: fonológico, morfo-sintático, lexical. A todo momento novas mudanças surgem, são implementadas e difundidas. Há mudanças que acontecem de forma rápida e outras que são mais lentas e, enquanto algumas estruturas lingüísticas evoluem, outras permanecem estáveis. Dessa forma, é bastante compreensível que lingüistas tenham desejado e desejem entender as razões que levam à ocorrência de variações ou mudanças lingüísticas.

5

“The variationist viewpoint on language is determined first by a scientific interest in accounting for grammatical structure in discourse – be it spontaneous natural conversation, formal narrative or argumentation, or various written genres – and second by a preoccupation with the polyvalence and apparent instability in discourse of linguistic form-function relationships.”


29

A forma lingüística em variação pode permanecer estável por muito tempo, em relação de “contemporização”, como diz Tarallo (1990a: 63), co-existindo com sua forma rival. Chambers (1995) afirma que as variáveis estáveis são aquelas que estão bem estabelecidas na comunidade e não sofrem mudança. “Variáveis estáveis são aquelas que estão bem estabelecidas como indicadores em uma comunidade e não estão passando por uma mudança. No padrão prototípico para uma variável estável, cada grupo de idade da mesma classe, gênero e formação étnica, serão similares aos grupos dos velhos e jovens no uso das variantes e na de mudança de estilo.” Chambers (1995: 107)6

Para Labov (1994: 10), o fenômeno da mudança não é constante em qualquer direção, a não ser no fato de sua existência. Ele é irracional, violento e imprevisível, até ao ponto de parecer uma atividade quixotesca estabelecer os princípios que o regulam. Em sua obra Sociolinguistic Patterns (1972: 2), Labov já afirmava: “nem todas as mudanças são fortemente estruturadas e nenhuma mudança ocorre no vácuo social. Até mesmo a mais sistemática cadeia de mudança ocorre com a especificidade do tempo e do lugar os quais necessitam de uma explicação.”7 Na visão de Weinreich, Labov & Herzog (1968: 186), uma forma variante surge em um subgrupo, generalizando-se e adquirindo uma certa posição social para dali se espraiar. O progresso dessa mudança vai estar associado à aprovação e aceitação dos valore de um grupo pelos membros de outro. Com relação à mudança em progresso, Milroy (1992: 3) observa que: “(...) as mudanças linguísticas em progressos são comumente percebidas como “erros”. Assim, embora todos saibam que a língua é variável, muitas pessoas acreditam que a invariância deva, no entanto, ser desejada, e os professores de língua não são imunes as conseqüências dessas mesmas crenças.”8

6

“Stable variables are those that are well established as indicators in a community and are undergoing change. In the prototypical pattern for a stable variable, each other social characteristics, will be similar to older and younger groups in the use of variants and the amount of style-shifting.” 7 “Not all changes are highly structured, and no change takes place in a social vacuum. Even the most systematic chain shift occurs with a specificity of time and place that demands an explanation.” 8 “(...) linguistic changes in progress are commonly perceived as “errors”. Thus, although everyone knows that language is variable, many people believe that invariance is nonetheless to be desired, and professional scholars of language have not been immune to the consequences of these same beliefs.”


30

Weinreich, Herzog & Labov (1968: 183-187) estabelecem, pela primeira vez, cinco questões primordiais para a sistematização da mudança lingüística. São eles: a) Restrições – consiste em determinar uma série de possíveis mudanças e possíveis condições para uma mudança em uma determinada estrutura. b) Transição – refere-se ao espaço entre dois estágios de mudança em progresso; deve-se atentar para descobrir o estágio intermediário que define o caminho pelo qual uma estrutura A evolui para uma estrutura B. Para Milroy (1992: 15), esse fator diz respeito aos estágios intervenientes que podem ser observados ou que devem ser colocados entre duas formas de uma língua, definida por comunidade linguística em tempos diferentes. c) Encaixamento – pode ocorrer o encaixamento da mudança tanto na estrutura linguística como na estrutura social. Na primeira, ocorre a mudança de um traço de um sistema para outro. Segundo os autores, uma mudança linguística é raramente um movimento (deslocamento) de um sistema inteiro para outro. Na segunda, a estrutura da mudança linguística é encaixada num contexto maior da comunidade de fala, tal que as variações sociais e geográficas são elementos intrínsecos da estrutura. d) Avaliação – consiste em identificar as reações subjetivas dos falantes no desenvolvimento da mudança. A avaliação subjetiva das evoluções não pode ser deduzida do lugar ocupado pelas variáveis dentro da estrutura linguística. Segundo Milroy (1992: 15), esse fator é o que pode ser designado mais claramente como social, pois refere-se, principalmente, ás respostas sociais à mudança linguística, englobando as noções de prestígio, como também estereótipos lingüísticos e noções de correção. e) Implementação – consiste em identificar os possíveis fatores sociolingüísticos motivadores da mudança linguística, pois nesse processo como um todo podem estar envolvidos estímulo e restrições, ambos da sociedade e da estrutura linguística. De acordo com os autores Weinreich, Herzog & Labov, a mudança linguística começa quando um dos muitos traços característicos de variação na fala se espraia por todo um subgrupo específico da comunidade de fala. Quando então esse traço linguístico assume uma certa significação social, a mudança linguística encaixa-se na estrutura linguística e, gradualmente, estende-se a outros elementos do sistema.


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Weinreich, Herzog & Labov (1968: 187-8) apresentam, também, alguns princípios gerais sobre a natureza da mudança linguística, para o entendimento das questões, acima citadas: 1. A mudança linguística não deve ser identificada como uma tendência não direcionada procedente de variações inerentes na fala. A mudança linguística começa quando a generalização de uma alternância particular em um dado subgrupo da comunidade de fala assume a direção e toma o caráter de diferenciação sistemática. 2. A associação entre estrutura e homogeneidade é uma ilusão. A estrutura linguística inclui a diferenciação sistemática de falantes e estilos, por meio de regras que governam a variação na comunidade de fala. O domínio inato (natural) da língua inclui o controle de tais estruturas heterogêneas. 3. Nem toda variabilidade e heterogeneidade na estrutura linguística envolve mudança, mas toda mudança envolve variabilidade e heterogeneidade. 4. A generalização da mudança linguística através da estrutura linguística não é nem uniforme nem instantânea; ela envolve a covariação de mudanças associadas, ao longo de períodos substanciais de tempo, e é refletida na difusão de isoglossas em áreas de espaço geográfico. 5. As gramáticas nas quais a mudança linguística ocorre são gramáticas da comunidade de fala. Devido às estruturas variáveis contidas na língua serem determinadas por funções sociais, os idioletos não proporcionam a base para gramáticas autocontidas e internamente consistentes. 6. A mudança linguística se espraia dentro da comunidade como um todo; ela não está confinada a etapas discretas no seio da família. Quaisquer descontinuidades que são encontradas na mudança linguística, são produtos de descontinuidades específicas dentro da comunidade, mais do que produtos inevitáveis das disparidades de geração entre pais e filhos. 7. Fatores lingüísticos e sociais estão intimamente inter-relacionados no desenvolvimento da mudança linguística. As explicações que estão restritas a um ou outro aspecto, não importa quão bem construídas, não darão conta do rico conjunto de regularidades, que pode ser observado em estudos empíricos do comportamento linguístico.


32

Resta saber se estas mudanças podem ser observadas, e é essa a tarefa do pesquisador, ou seja, verificar as origens sociais e as motivações para uma dada inovação linguística através da observação da mudança em progresso. Esse processo de investigação da mudança pode ser feito sob dois aspectos: tempo aparente e tempo real. A investigação em tempo aparente consiste em comparar, na comunidade estudada, a fala das pessoas mais velhas com a das pessoas mais jovens. Se não houver correlação entre a regra variável e a faixa etária, poderá ser inferido um estado de estabilidade das variantes. Por outro lado, se a faixa etária mais jovem apresentar um maior uso da forma linguística inovadora e a faixa etária mais velha decrescer nesse uso, haverá uma indicação de mudança em progresso. No tempo real a observação se dá num período arbitrário do tempo com o encaixamento linguístico da variável (em estado de mudança já atestado no tempo aparente). A observação em tempo real seria um dos métodos mais adequados, porém mais difícil, recorrendo-se, neste caso, a textos escritos e cartas da época. Labov (1994: 75-6) aponta dois métodos básicos para a investigação do fenômeno da mudança: o estudo de tendência (Trend Study) e o estudo de painel (Panel Study). O primeiro, o estudo de tendência, consiste em entrevistar outros falantes com as mesmas características dos falantes da amostra anterior, depois de um número x de anos. Segundo o autor, para tal estudo produzir uma descrição significativa do desenvolvimento linguístico é essencial que a comunidade tenha permanecido mais ou menos estável durante o período decorrido. Se mudanças drásticas aconteceram em sua constituição demográfica, as mudanças que estão sendo observadas serão externas à língua e poderão ter pouca importância com a lógica da mudança linguística em progresso. O segundo método consiste em voltar à mesma comunidade estudada anteriormente e localizar os mesmos falantes e monitorar quaisquer mudanças em seu comportamento, submetendo-os aos mesmos questionários, entrevistas ou experimentos. O objetivo é verificar se a mudança tem avançado em tempo real ou se repete a mesma distribuição em tempo aparente. Esses dois métodos requerem um modelo subjacente, baseado em como os indivíduos mudam ou não durante o seu estágio de vida, como as comunidades mudam ou não ao longo do tempo, e o que pode resultar das combinações dessas


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duas possibilidades. O autor afirma que a combinação mais simples produz quatro padrões distintos: Stability, Age-grading, Generational Change e Communal Change. (cf. Labov, 1994: 83-4) Para Labov não há dificuldade em interpretar os dois primeiros padrões, mas os dois últimos não se mostram muito transparentes. O primeiro, Stability, caracteriza-se pela estabilidade, tanto do indivíduo quanto da comunidade, ou seja, a situação apresenta-se estável, invariante e homogênea, não havendo variação a analisar. O segundo, Age-grading, ocorre quando o indivíduo muda seu comportamento linguístico ao longo da vida, mas a comunidade, como um todo, permanece estável. Então, esse padrão pode ser caracterizado como gradação etária. O padrão Generational Change, segundo o autor, é, até o momento, o que tem sido considerado como um tipo normal de mudança linguística. Esse padrão é o mais típico de mudança sonora e morfológica. Os falantes ingressam na comunidade com uma freqüência característica para uma variável particular, permanecendo assim por toda sua existência. Contudo, um aumento regular nos valores adotados pelos indivíduos, geralmente “incrementado” por gerações, leva a mudança linguística para a comunidade, tornando-a instável. Ao contrário desse, no padrão Communal Change, falantes e comunidade apresentam-se instáveis. Segundo Labov, neste padrão (que é um padrão comum de mudança lexical) todos os membros da comunidade alteram juntos sua freqüência,ou adquirem, simultaneamente, novas formas. Segundo Eckert (1997: 153), através dos estudos em tempo real pode-se fazer um acompanhamento dos indivíduos (estudo de painel) ou pode-se coletar amostras de comparáveis, mas diferentes indivíduos, em sucessivos pontos no tempo (estudo de tendência). Um estudo de tendência com uma configuração de gradação etária pode, inequivocamente, mostrar a mudança em progresso, como mostram grupos sucessivos em cada estágio da vida. Já o estudo de painel pode mostrar a mudança na vida individual, como a mesma pessoa é vista em diferentes estágios de sua vida. Contudo, trend studies podem dar evidências convincentes de ambos os tipos de mudança. Para Monteiro (1997: 127-8): “Uma vez que os dados em tempo aparente tenham sido correlacionados com os dados em tempo real, é então possível


34 reconstruir uma cronologia dos vários estágios e associá-la com as características sociolingüísticas, bem como com o nível de consciência social, de cada um deles. Algumas variáveis se revelarão como estereótipos e serão tópicos de comentário social; outras não terão o mesmo alto nível de consciência social, mas revelarão uma consciente valorização social e estilística, caracterizando-se como marcadores; outras, finalmente, não são comentadas nem mesmo reconhecidas pelos falantes nativos, definindo como meros indicadores.”

De acordo com Bright (1997: 82-3), a mudança linguística pode ocorrer devido a vários tipos de influência: 1) Standardização – no caso de línguas em contato (como o espanhol e o inglês, nos Estados Unidos), em que o bilinguísmo torna-se comum, um único dialeto é estabelecido como oficial para uma área multidialetal inteira. Neste caso, a introdução de empréstimos de uma língua para outra e a assimilação dos padrões gramaticais da língua de maior poder social (no caso o inglês) podem levar a limitação no uso da língua espanhola (mais restrita ao uso familiar), até mesmo ao ponto dessa língua tornar-se obsoleta, em algumas comunidades, e ocorrer a mudança linguística na direção do inglês. 2) Pidgnização ou crioulização – no caso do contato de duas línguas que resulta em uma nova língua com vocabulário derivado, principalmente de uma língua socialmente dominante, mas com uma gramática “drasticamente” simplificada. 3) Mudanças lingüísticas iniciadas por um único indivíduo ou por um grupo de indivíduos e depois imitadas por outros, podendo espraiar-se por uma sociedade inteira. Segundo Guy (1986: 21-6 e 1990: 48-50), podem ser três os tipos de mudança: Espontânea – mudança “natural”, não direcionada, inconsciente; induzida por alguma dinâmica interna do sistema linguístico. Não há envolvimento de uma outra língua e os próprios falantes nativos são os agentes da mudança. Empréstimo – Direcionada, consciente, induzida externamente. Os agentes da mudança são falantes nativos e há envolvimento de outra língua. Imposição – Quando há imposição de variedades lingüísticas de falantes não nativos. As mudanças espontâneas são aquelas que surgem de uma simples (única) comunidade de fala, sem influência de modelo ou alvo linguístico externo, ou seja, os falantes não têm acesso a outra língua ou dialeto na comunidade, que sirva como fonte estrutural ou objetivo para uma mudança.


35

Empréstimo ou imposição são tipos de mudança realizados por contato induzido. As situações de contato surgem quando duas comunidades de fala, inteiramente separadas, entram em contato e desenvolvem algum nível de interação verbal. Casos de empréstimo linguístico ocorrem quando falantes nativos importam para sua língua traços lingüísticos de outra língua. No caso de imposição, os falantes que estudam uma segunda língua impõem sobre ela os traços de sua primeira língua, geralmente no curso de uma mudança linguística (cf. Guy, 1990: 4950). Para Labov (1972: 1-2), o problema em explicar uma mudança linguística parece resolver-se em três questões distintas: a origem da variação linguística; o espraiamento e propagação da mudança linguística e a regularidade desta. Subjaz ao modelo que envolve essas três questões, a necessidade de haver variação em uma ou mais palavras na fala de um ou mais falantes. Para o autor, estas variações podem ser induzidas por um processo de assimilação ou diferenciação, por analogia, empréstimo, fusão, contaminação, variação não direcionada, ou qualquer número de processos, nos quais o sistema linguístico interage com características fisiológicas ou psicológicas do indivíduo. Labov (1972: 3) afirma, ainda, que não se pode entender o desenvolvimento de uma mudança linguística dissociada do contexto (da vida) social da comunidade, na qual ela ocorre, pois pressões sociais estão continuamente operando sobre a língua, não de algum ponto remoto do passado, mas como uma força social imanente, atuante no presente. Enfim, compreendendo-se os princípios de variação estável e de mudança em progresso que regem a Teoria da Variação, pode-se passar aos procedimentos metodológicos utilizados neste trabalho.


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PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS Os dados para este estudo foram extraídos do corpus do Projeto Variação Linguística no Estado da Paraíba – VALPB que conta com uma amostra constituída de aproximadamente 60 horas de fala de informantes nascidos em João Pessoa.

1 Seleção dos Informantes Os informantes foram selecionados de forma aleatória. Primeiramente foram sorteados nove bairros e, em seguida, duas ruas por bairro, onde foram aplicados um total de 500 formulários. A partir da lista nominal dos informantes selecionados pelo primeiro formulário, foram escolhidos 60 para a amostragem final. Foram observados os seguintes critérios na escolha dos informantes: a) Ser natural de João Pessoa ou morar nesta cidade desde os cinco anos de idade; b) Nunca ter passado mais de dois anos consecutivos fora de João Pessoa.

2 Caracterização dos Informantes Os 60 informantes que compõem a amostragem da população foram estratificados em função do sexo, faixa etária e anos de escolarização e estão assim distribuídos:

Masculino

Total

15-25 anos

Nenhum Primário Ginásio 2º grau Superior

2 2 2 2 2

15-25 anos

Nenhum Primário Ginásio 2º grau Superior

2 2 2 2 2

26-49 anos

Nenhum Primário Ginásio 2º grau Superior

2 2 2 2 2

26-49 anos

Nenhum Primário Ginásio 2º grau Superior

2 2 2 2 2

+ de 50 anos

Nenhum Primário Ginásio 2º grau Superior

2 2 2 2 2

+ de 50 anos

Nenhum Primário Ginásio 2º grau Superior

2 2 2 2 2

30

Feminino

Total

30


37

3 Instrumentos de Pesquisa Para obtenção dos dados que constituem o corpus da pesquisa, foi aplicado um formulário e em seguida uma ficha social, com o objetivo de manter um primeiro contato com os informantes. Depois dessas duas etapas preliminares, na etapa seguinte, foram realizadas entrevistas, nas quais constaram questões voltadas para o cotidiano dos informantes, levando-se em conta as especificidades de cada um, detectadas a partir da ficha social aplicada. Os dados resultantes da entrevista foram, a partir de março de 1994, transcritos com base no sistema de transcrição do Programa de Estudo sobre o Uso da Língua (PEUL) – UFRJ (Scherre, 1996: 37-50). Este sistema, multilinear, foi projetado

para

principalmente,

transcrever registrar

fala

gravada

fenômenos

do

tipo

lingüísticos

entrevista,

variáveis

que

objetivando, deveriam,

posteriormente, ser submetidos à análise quantitativa laboviana. Depois de transcritos, os dados foram revisados, codificados, digitados e armazenados em computador, constituindo, assim, o banco de dados de língua falada de João Pessoa e tornando possível seu uso por parte de pesquisadores, não só da área de Sociolinguística, mas também de outras áreas.

4 Caracterização dos Dados Para proceder ao levantamento dos dados, foram ouvidas as 60 fitas que compõem o corpus do VALPB e retirados apenas os contextos que interessavam á presente pesquisa. Em seguida, foram codificadas as estruturas com sujeito (explícito ou zero) e seus respectivos verbos e analisadas cada forma verbal de acordo os grupos de fatores previamente estabelecidos e que poderão ser conferidos no próximo tópico. Foram utilizados 10 grupos de fatores, nesta etapa do trabalho. Cada dado analisado recebeu uma codificação, isto é, um código representando a variável dependente e nove códigos simbolizando os fatores das variáveis independentes. Além disso, a fim de um melhor entendimento, faz-se necessário caracterizar o tipo de dado que constitui o objeto de estudo desta pesquisa. De início houve a preocupação em selecionar os dados que apresentassem obrigatoriamente as marcas explícitas de plural no SV e os que apresentassem a


38

opcionalidade dessas marcas. Foram excluídos, desta pesquisa, os dados em que a presença da marca de concordância é considerada facultativa, como nos casos de SN complexo com expressão partitiva (a maioria de, a maior parte de, grande número de, etc.) e SN complexo com núcleo coletivo singular (uma série de, um grupo de). Com a exclusão desses casos, considerou-se todo SN sujeito com marca de plural que implicasse em marca em sua forma verbal correspondente. Foram considerados os casos de sujeito constituído por pronome (Ex.: “eles num ligam cum isso.”); sintagma nominal (Ex.: “as crianças são coisas lindas e interessantes.”); sujeito representado pelo pronome relativo que (Ex.: “[...] definir os critérios, os parâmetros que vão guiar [...].”); estrutura anteposta constituída por tudo/todo (Ex.: “As outras matérias pra mim tudo são ótimas.”); estrutura anteposta constituída por isso (Ex.: “isso são brincadeiras [...]”); estrutura posposta constituída por tudo/todo (Ex.: “[...] mas hoje em dia tão tudo assim: um pessoal mais distante.”) e os casos de sujeito indeterminado (Ex.: “[...] vim melhorar uns seis meseØ pra cá, que passaru outra insulina.”) Foram considerados os casos em que o sujeito (com ou sem sintagma preposicional [sprep]) da oração apresentasse todas as marcas formais de plural (Ex.: “[...] no dia que elas sairu, não quiseru nem vim se despedir de mim [...]”); ausência de marca formal apenas no último elemento do SN (Ex.: “Os filhoØ sai de noite, só chega de manhã.”); casos que apresentassem nenhuma marca formal (Ex.: Telê Santana e Raí ficaram quatro anos juntos no São Paulo”); casos cujo elemento final fosse um numeral (Ex.: “Eles dois foru pra um canto muito deserto.”), e os casos de neutralização (Ex.: “Os objetivos são estes mesmos.”). Concluído o levantamento dos dados relevantes e a exclusão daqueles já citados, fez-se a codificação individual. Em seguida, os dados foram submetidos, para uma análise estatística, ao pacote de programas VARBRUL, composto por um conjunto de dez programas, entre os quais destacamos seis, utilizados para esta pesquisa (CHECKTOK, READTOK, MAKECELL, IVARB ou VARB2000, TVARB, MVARB, CROSSTAB, TEXTSORT, TSORT e COUNTUP) (cf. Pintzuk, 1988).


39

5 Método Estatístico A partir do conceito de regra variável, desenvolvido por Labov, e do estabelecimento dos fatores lingüísticos e extralinguísticos condicionadores

ou

inibidores de uma regra, a teoria variacionista tem condições de fazer uma avaliação quantitativa do efeito que esses fatores têm sobre o fenômeno variação/mudança no sistema linguístico. Para tanto, ela dispõe do pacote VARBRUL que faz o tratamento estatístico dos dados, fornecendo a freqüência e o índice de aplicação de uma regra linguística, condicionada tanto por restrições lingüísticas como sociais. Vários modelos estatísticos foram utilizados para o estudo da variação, mas o que se destacou foi o modelo desenvolvido por Rousseau e Sankoff em 1978, atualizado por Sankoff (1988a), e implementado para microcomputadores tipo IBM, em 1988 e 1992 por Pintzuk. Segundo Sankoff (1988a: 989), esse modelo (logístico) possui duas propriedades que o tornam superior a outros. Primeiro, para qualquer soma dos efeitos dos fatores, zero, um valor positivo ou um valor negativo, a percentagem prevista está sempre compreendida entre 0 e 100. Segundo, esse modelo é simétrico num sentido muito importante, com respeito as escolhas binárias (presença vs. ausência). Os atuais programas fornecidos pelo VARBRUL podem realizar análises binária e eneária: binária, se for uma análise de duas variantes da variável dependente; eneária, se a análise consistir em mais de duas, até um limite de cinco variantes. Na análise binária, o valor de referência intermediária dos pesos relativos é 0,50 e o programa, além de projetá-los, também efetua a seleção das variáveis em função de sua relevância estatística. Para a análise eneária, usa-se ou o programa que projeta os pesos relativos para três variantes ou o que projeta para quatro ou cinco variantes. Para a análise de três variantes, o peso relativo de referência é 0,333, na análise de quatro variantes o peso é 0,25, e na de cinco é 0,20. O programa que executa a análise binária (de duas variantes) é o IVARB ou VARB2000. Para a análise estatística dos dados armazenados que constituíram o corpus deste trabalho foram utilizados os quatro programas computacionais, CHECKTOK,


40

READTOK, MAKECELL e IVARB ou VARB2000 (descritos por Pintzuk, 1988), explicitados abaixo. A função do CHECKTOK, após receber o arquivo de dados criado pelo usuário, é comparar a codificação digitada neste arquivo com o arquivo de especificação, no qual é definida a ordem de utilização dos fatores utilizados. Se houver algum erro no arquivo de dados, o programa detecta-o, criando um arquivo de erros – FACSPEC.ERR. Após ser solucionado o problema, o CHECKTOK fornece como saída um arquivo que serve de entrada para o segundo programa, o READTOK, que gera um arquivo de ocorrências, utilizado como input para o MAKECELL, que por sua vez, conforme Pintzuk (1988):9 “gera um novo arquivo – o arquivo de células – no qual ele faz as modificações pretendidas pelo usuário. Neste arquivo é que deverão ser mencionados todos os grupos de fatores referentes á variável dependente e variáveis independentes com as quais se deseje trabalhar (...) e todas as recodificações que venham a ser feitas em quaisquer grupos de fatores.”

O arquivo gerado pelo MAKECELL serve como input para a execução do IVARB ou VARB2000, TVARB ou MVARB. No entanto, para executar estes programas é necessário não haver grupos com um único fator ou grupos sem fatores e, também, que nenhum fator de efeito categórico (que ocorre toda vez que um fator dentro de um grupo tem um comportamento não variável em relação às variantes em estudo) ocorra no arquivo de células. (Pintzuk, 1988). De acordo com Sankoff (1988a), o IVARB ou VARB2000 possui vários níveis de análise: no primeiro nível, o IVARB/VARB2000 faz o cálculo do peso relativo dos fatores de cada uma das variáveis, isoladamente, em relação ao input, atribuindo logo depois o log likelihood (cálculo de verossimilhança máxima)10 e o nível de significância11 (já mencionados) a cada uma das variáveis, selecionando, então uma

9

Maiores informações sobre a utilização do programa VARBRUL podem ser obtidas também em Scherre (1988, 1992, 1996), como também, no manual escrito por Pintzuk e traduzido para o português por Pinto & Fioreti (1992).

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Além do nível de significância, esse é um outro elemento que influencia na escolha de uma determinada variante. Mede o grau de adequação entre os pesos relativos projetados e as freqüências observadas. 11 “O VARBRUL 2S, além de calcular os pesos relativos de cada variável independente, apresenta uma solução estatística dos diversos grupos de variáveis analisados. Esta relação ocorre inicialmente em função de um valor estatístico, denominado nível de significância, previamente estabelecido. No


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delas. No segundo nível, esse programa trabalha com a variável que foi anteriormente selecionada, observando o seu comportamento em relação a cada uma das outras variáveis, duas a duas e, estabelecendo para a dupla o log-likehood e os níveis de significância com os valores probabilísticos de seus fatores, escolhe uma segunda variável. O programa repete o processo, comparando as variáveis, agora três a três, quatro a quatro e assim por diante, selecionando sempre a mais relevante de cada grupo para combinar com as demais. A esse processo de seleção das variáveis dá-se o nome de step up.12 Caso todos os grupos de fatores sejam significativos, conclui-se que todos eles afetam o processo de escolha. Depois desse processo de seleção de forma inversa, ou seja, de um grupo com todas as variáveis, ele elimina as não significativas. Desta forma, se um dos grupos for eliminado, logo o programa verifica se há um outro grupo não significativo dentre os restantes, e assim por diante. Esse processo chama-se step down (cf. Sankoff, 1988: 991). “O ideal é que a análise step down para de descartar grupos quando estes são deixados com o conjunto de grupos que foram adicionados na análise step up. Neste caso, podemos estar razoavelmente seguros que este é o grupo de fatores ideal. Ocasionalmente, as duas análises não coincidem nesta direção. Neste caso, os grupos que não foram adicionados pelo step up, nem descartados pelo step down e aqueles que foram ambos adicionados e descartados, permanecem com status incerto” (Sankoff, 1988: 991-2).13

Mesmo sabendo da importância de programas computacionais na realização da análise estatística dos dados, cabe diretamente ao pesquisador coletar, codificar, armazenar e estabelecer grupos de fatores que condicionam a ocorrência de determinado fenômeno, bem como a analisar os dados, à luz da teoria variacionista. O programa computacional tem um papel, se não secundário, mas coadjuvante, no processo de análise, enquanto o pesquisador detém o papel principal nesse processo. caso em questão, ele foi arbitrado em 0,05; o que significa que um grupo de fatores escolhido como estatisticamente significativo o é com uma margem de erro de 5% (Scherre, 1996: 47). 12 Para maiores esclarecimentos, veja-se também Naro, 1992 ou Scherre, 1996. 13 “Ideally, the step-down analysis stops discarding groups when it is left with just the set of groups that were added in the step-up analysis. In this case, we can be fairly sure that this is the optimal group of factors. Occasionally, the two analyses (sic!) do not coincide in this way. In this case, the groups which were neither added by the step-up nor discarded by the step-down, and those that were both added and discarded, remain of uncertain status.”


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CONCORDÂNCIA VERBAL 1 Apresentação do Problema A concordância verbal (CV) é um campo aberto para muitas e intrigantes questões. Esse fenômeno sintático é um dos pontos da Gramática Tradicional que mais chama a atenção por apresentar regras, que em número muito grande, acabam dificultando seu ensino e aprendizagem na escrita, levando o usuário da língua a um estado de insegurança ao fazer uso desse processo sintático. Um fator importante relacionado ao entendimento e uso da CV é o seu apelo social, ou seja, o usuário iletrado, que faz menos uso da concordância verbal e nominal, é estigmatizado por usuários escolarizados. O preconceito linguístico é só mais uma entre tantas formas de discriminação social; uma ponte que separa as classes alta e baixa. A gramática, com todas as suas prescrições, é um dos meios pelos quais a camada social mais alta se impõe sobre a mais baixa, tendo como aliada a língua escrita, difundida nas salas de aula e transformada em dogma pela escola. As gramáticas pedagógicas apresentam uma certa incoerência ao tratarem da CV. Primeiro, limitam-se à concordância do verbo ao seu sujeito correspondente, mas, em seguida, apontam outros termos com os quais o verbo pode concordar (predicativos, expressões numéricas e partitivas). Como é grande o número de prescrições, muitas vezes, a concordância se dá mais pelo critério semântico do que formal, como por exemplo: “Quando o sujeito é constituído por expressão partitiva (como: parte de, uma porção de, o grosso de, o resto de, metade de e equivalentes) e um substantivo ou pronome plural, o verbo pode ir para o singular ou para o plural (Cunha & Cintra, 1985: 488). A respeito disso, Cunha & Cintra (1985: 488) afirmam: “A cada uma destas possibilidades corresponde um novo matiz da expressão. Deixamos o verbo no singular quando queremos destacar o conjunto como uma unidade. Levamos o verbo ao plural para evidenciarmos os vários elementos que compõem o todo.”


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Segundo Bechara (1964: 362), “diz-se concordância verbal a que se verifica em número e pessoa entre o sujeito (e às vezes o predicativo) e o verbo da oração.” Da mesma forma, Almeida (1961: 380) revela que há certos casos curiosos em que o verbo deixa de concordar com o sujeito para concordar com o predicativo. Para ele, “(...) constitui esse um fenômeno de ‘concordância por atração’ e se opera sempre que na frase entra o verbo ser ou parecer e um sujeito constituído de o, aquilo, isso, isto, tudo: (...).” Para esse autor, “concordância é o processo sintático pelo qual uma palavra se acomoda na sua flexão, com a flexão de outra palavra de que depende” (Almeida, 1961: 368). Segundo ele, os termos que na oração devem concordar são: o verbo, que se acomoda ao sujeito; o adjetivo, que concorda com o substantivo; o predicativo, que concorda com o sujeito e o pronome, que concorda com o nome a que se refere. Assim é visto o processo de CV na língua escrita, e, com relação à língua falada, fonte linguística usada neste trabalho, alguns estudiosos possuem uma visão diferente e mais flexível. Por exemplo, Melo (1951) acredita que a ausência de concordância não afeta a clareza e a inteligibilidade da frase e que esse processo não passa de um reflexo da lei do menor esforço e a busca pela simplificação. Essa ausência significaria apenas uma maneira de dispensar um traço redundante. Para Said Ali (1964: 279), “A concordância não é, como parecerá à primeira vista, uma necessidade imperiosamente ditada pela lógica. Repetir, um termo determinante ou informativo, o gênero, número ou pessoa já marcados no termo determinado ou de que se fala, é antes uma redundância.”

A concordância verbal, no português brasileiro falado, pode ser observada sob duas perspectivas diferentes: a normativa prescritiva e a variacionista. Na visão normativa prescritiva da Gramática Tradicional (GT), a ausência da marca de plural no elemento verbal, quando determinado por um sujeito plural, é considerada erro. Conforme Silveira (1964: 218), a ausência de concordância entre o sujeito e o predicado ocorria com freqüência no português arcaico. Da mesma forma, segundo esse autor,


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“a língua moderna, sobretudo na sua modalidade popular, revela vestígios dessa antiga arbitrariedade, principalmente quando o sujeito do plural vem depois do predicado: tende este a ficar no singular como se, empregando primeiro o predicado, a pessoa que fala o deixasse no singular por ainda não ter pensado em que número vai dizer o respectivo do sujeito.”

Na perspectiva variacionista, por outro lado, a ausência de concordância entre os elementos do SV é vista como decorrente de fatores estruturais e sociais e esse fenômeno segue um curso evolutivo no português falado no Brasil. Segundo Scherre (1995: 1), “no português culto do Brasil, os fenômenos de concordância de número plural são considerados obrigatórios e redundantes uma vez eu repetem sistematicamente marcas contendo a mesma informação (normalmente caracterizada como “mais de um”) em pontos diversos da cadeia sintagmática.” ............................................................................................................... “Todavia, estudiosos diversos têm mostrado que, no português falado no Brasil, a concordância de número plural é um fenômeno de natureza variável, condicionado por fatores lingüísticos e não lingüísticos.”

2 Abordagens sobre o Tema A concordância verbal é um fenômeno gramatical (de cunho estigmatizante, quando não realizada) que possui uma relação muito próxima com o domínio social e cultural, pois sua aplicação é condicionada por fatores sociolingüísticos. Melo (1946: 63) já apontava a dimensão social como forte condicionadora da concordância de número. Segundo ele, a simplificação das flexões nominal e verbal constitui o elemento mais original e característico da fala popular brasileira, tendo sido determinada pela influência conjugada tupi-negra. O resultado dessa influência, principalmente da africana sobre o português, foi, segundo o autor, a simplificação das flexões verbal e nominal de número que se pode perceber na fala popular. Ao se referir a essa influência afro-tupi, Melo (1946: 60) afirma: “Quer-me parecer que a influência na língua até certo ponto correu parelhas como a miscigenação racial e com a importância social do negro na formação histórica do Brasil, e que ao africano muito mais


45 que ao índio se deve a tendência à simplificação das flexões e certas deturpações fonéticas extra-românicas que se notam na fala popular brasileira.”

Segundo Melo (1946), o sinal de plural só aparece no determinante, e o verbo, de regra, só apresenta oposição de formas entre a primeira e as demais pessoas. Exemplos: Presente do indicativo (Pode conter uma forma para a primeira pessoa e outra para as demais pessoas ou pode conter três formas). Eu amo

Eu vivo

Eu parto

Tu ama

Tu veve (vive)

Tu parte

Ele ama

Ele veve (vive)

Ele parte

Nós ama (ou amamo)

Nós veve (vivemo)

Nós parte (partimo)

Eles ama

Eles veve (vive)

Eles parte

Imperfeito (uma forma para todas as pessoas)

Perfeito (podem ocorrer quatro formas)

Eu amava

Eu vivia

Eu amei

Tu amava

Tu vivia

Tu amô

Ele amava

Ele vivia

Ele amô

Nós amava

Nós vivia

Nós amô

Eles amava

Eles vivia

Eles amô ( amárum ou amaro)

Em sua visão tradicional, Melo (1946: 83) acredita ser a simplificação flexional um desvio (passível de correção) que está lado a lado com uma forma padrão, para ele, uma língua-padrão, amplamente flexionada e que continua a representar o ideal linguístico da comunidade. Diante da crença de que a simplificação flexional é um desvio da norma, Melo (1946: 84) vê a instrução como um mecanismo de reajustamento linguístico, pois, segundo ele, à medida que se eleva na escala social ou que recebe instrução, o


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negro, o matuto ou o urbano atrasado começa a falar “melhor” (conforme palavras de Melo [1946: 84]), flexionando os nomes e os verbos. Marroquim (1934: 69) menciona o desaparecimento dos ditongos ao, em e am quando o primeiro, sendo átono, vale o [u] (Estêvo, órfo etc.); o segundo, átono final, soa como i, com o desaparecimento da nasalidade (virgi, hómi, etc.); e o terceiro, referente à 3ª pessoa do plural, tem essa terminação transformada em o [u] (fizéro, quiséro, amaro, etc.). Afirma o autor: “Não creio que a transformação do am em o seja uma forma mais recente, nem uma reação culteranista da dialetação. Antes quer-me parecer a persistência de uma forma arcaica do português, petrificada na conjugação matuta, sendo assim, mais antiga que as outras flexões.”

Segundo João Ribeiro e Leite de Vasconcelos (apud Marroquim, 1934: 69-70, 135), no séc. XVI, quando o Brasil foi descoberto, os aventureiros, exploradores e o povo que emigrou para essa terra, levaram consigo, não a língua culta dos quinhentistas, mas a linguagem documentada pelo séc. XV: uma língua popular e plebéia, formada e documentada na literatura daquele século e que se estendeu na literatura do séc. XVI (até a metade deste século), quando tornou-se vulgar. Para Marroquim (1934: 71), formas com quizerom, matarom, pedirom, poderom transformaram-se em quizéro, matáro, pediro, podéro na língua popular, devido a uma força fisiológica que age na eliminação da nasal. O autor acrescenta, ainda, que o dialeto popular do matuto se caracteriza pela tendência em uniformizar, abolindo a flexão verbal e deixando ao pronome sujeito o encargo de indicar as pessoas gramaticais do discurso. Essa simplificação lembra a língua inglesa, em que o pronome indica a pessoa, o sujeito do discurso, e o verbo não sofre flexão. Ex.: We

He

I have

She

You It

has

You They

have


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O pretérito do indicativo, entretanto, foge a essa regra e flexional a 3ª pessoa do plural, resultando nas formas que foram vistas acima. Isto, segundo Marroquim (1934: 72), deve-se a duas causas: a tradição da forma arcaica e o exemplo das formas atuais, como fizeram, pediram, quiseram, que são ouvidas entre as pessoas que, nas palavras do autor, “falam bem”. A explicação para o fenômeno da simplificação verbal, segundo Silva Neto (1977: 13), encontra-se na influência linguística herdada dos portugueses, escravos e índios durante a colonização brasileira, no período colonial. Para ele, “É natural, portanto, que no decorrer deste primeiro século de colonização, se tenha formado entre estes índios, negros e mestiços, uma linguagem rude de gente inculta, denominada crioulo, ou semi-crioulo pela linguística moderna.” Essa influência foi sendo eliminada, nos grandes centros, graças à escola, porém, na zona rural, essa linguagem sobreviveu, principalmente nos pontos mais isolados. O autor fala, ainda, do papel do aloglota, isto é, “daquele que se encontra subitamente diante de uma língua nova, que deve aprender de outiva, e falar sem a necessária preparação.” (Silva Neto, 1977: 115). O autor diz mais: “(...) desde há muito, há uma deriva indo-européia que caminhava no sentido da simplificação das flexões. Apenas, no caso do aloglota, a simplificação é brusca e extrema, é uma dinâmica que realiza de chofre o que só se daria no curso de várias gerações.”

Então, pode-se dizer que, segundo o autor, na constituição do português brasileiro, desde o séc. XVI, existem duas derivas: uma bastante conservadora, que se desenvolve muito lentamente, e outra a que condições sociais próprias imprimem velocidade inesperada. Ao tratar de alguns exemplos de pronúncias regionais, Silva Neto (1977) volta-se para o fenômeno da perda da nasalidade final na linguagem popular e regional de todo o país. Essa perda ocorre em formas como virgem>virge, homem>home, quiseram>quiséro, foram>foro. Da mesma forma que Marroquim (1934), Silva Neto (1977) considera essa redução paralela à órfão>órfo, Cristovão>Cristovo, Estêvão>Estevo. Essas formas também são conhecidas no português de Portugal, onde são encontradas ainda: andaro, biero, home, fugiro, erguero.


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Nascentes (1953 apud Nicolau, 1984: 45), ao tratar das formas de 3ª pessoa do plural do indicativo, registra amaru, deveru, partiru, e ressalta que: “Houve uma forma arcaica –arom, lat. –arunt, que por analogia com a terminação do imperfeito teria dado –aram (Meyer-Luke, Grammaire, II, §276), mas a forma popular –aro não representa a conservação do arcaísmo denasalado mas sim uma corruptela da forma correta – aram.”

Para Melo (1946: 62), os africanos, ao se estabelecerem no Brasil, adotaram o português como segunda língua e nela imprimiram seus hábitos linguísticos, um deles, a simplificação da morfologia através da redução das flexões. Essa redução atingiu mais uma camada social do que outra, ou seja, a camada de status social mais baixo. O autor diz ainda (1946: 64): “À medida que se vai subindo a escala social, via diminuindo esta força simplificadora. Nas camadas menos baixas e nas médias já se faz melhor a concordância, mas, até nas camadas acima de médias, ainda se pode pescar aqui e ali no falar descuidado, ausência de flexão numérica nos nomes e nas 3ªs pessoas dos verbos.”

A passagem do ao para o surdo, [ãw]>[-u], na 3ª pessoa do plural do perfeito do indicativo, como: fizeram>fizero, andaram>andaro, etc., Mendonça (1973 apud Melo, 1946: 66) considera como um fato, entre outros, devido à influência africana, porém Melo (1946: 67) contesta essa opinião, ao afirmar, baseado na obra de Leite de Vasconcelos, em 1928, que essa forma verbal já existia em dialetos portugueses, seguindo a seguinte evolução: -unt>-om>-o – amarunt>amarom>amaro. Há também uma tendência em pluralizar o determinante, embora não aconteça o mesmo com o verbo, pois a pluralização deste daria um caráter redundante à frase. O sinal de plural tende a ocorrer no determinante, o que não afeta em nada a clareza da frase (Melo, 1946: 63). A respeito desse fato, Said Ali (1964: 279) afirma o seguinte: “O sistema de sufixos de pessoa, tão desenvolvido no verbo das antigas línguas sintéticas, e que caracterizava a concordância do verbo com o sujeito, perdeu o seu valor em muitas línguas modernas, bastando nestas mencionar-se o pronome sujeito.”


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Na linguagem popular e, mais frequentemente, nas camadas mais baixas da sociedade, em geral rareiam as desinências de plural, que tendem a se restringir ao primeiro determinante da frase. Essa atitude simplista do menor esforço traz conseqüências ao verbo. Ocorre, muitas vezes, a oposição apenas entre a primeira e as demais pessoas do verbo. Em casos como: “ele compra”, “nós compra”, “eis compra” (cf. Melo, 1946: 63). Outros exemplos desse processo podem ser encontrados em Melo (1946: 80): “Aquelas cadera chego”, “Os homi chego.” No português arcaico, Silveira (1964: 219) aponta a ausência de concordância entre o sujeito e o predicado como tendo influência principalmente na posposição do sujeito. Segundo ele: “A língua portuguesa, sobretudo na sua modalidade popular, ainda revela vestígios dessa antiga arbitrariedade, principalmente quando o sujeito do plural vem depois do predicado: tende este a ficar no singular como se, empregando primeiro o predicado, a pessoa que fala o deixasse no singular por ainda não ter pensado em que número vai dizer o respectivo sujeito.”

Com o objetivo de estudarem a mudança na sintaxe de concordância, no português brasileiro, Naro & Lemle (1976: 260) partem do pressuposto de que a perda de concordância ocorre mais precisamente com aquelas formas verbais menos salientes ou perceptíveis. Assim, para esses autores, a CV no português do Brasil é uma regra sintática variável, e sua aplicação em contextos de 3ª pessoa do plural é determinada pelo grau de saliência fônica que estabelece a oposição entre as formas do singular e as do plural. Segundo Naro (1981: 64), no português padrão, um verbo deve concordar com seu sujeito, caso este elemento recente esteja explícito ou apagado, anteposto ou posposto. Guy (1981: 91-108), ao estudar o português popular do Brasil no falar carioca, com dados do Projeto de Pesquisa Competências Básicas do Português, observa que no português popular do Brasil pode ser encontrada variabilidade nos elementos que compõem o SN e nos que compõem o SV, podendo ser encontrados formas, como: as casaØ, eles cantaØ. Segundo ele, o sistema de concordância do português é caracterizado, primariamente, por um sufixo –s no sistema nominal e nasalização da vogal final,


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representada por –m e morfofonemicamente como –N, no sistema verbal. Portanto, para muitas palavras, a variação na concordância de número se dá quando há um apagamento da sibilante final ou uma desnasalização das vogais finais. O português brasileiro padrão (PB) possui um sistema de concordância bastante extenso e obrigatório. Os padrões de concordância do PB do período arcaico incorporaram novas formas, ao longo do tempo, com a crescente influência latino-clássica e pela evolução natural do idioma. Para Guy (1981) é muito comum, no português brasileiro não padrão (PB), ouvirem-se sentenças com sujeito no plural e verbo no singular, acontecendo essencialmente nas formas de 3ª pessoa. Dois são os motivos para este fato: primeiro é a posposição do sujeito, que é muito menos provável de ser marcado quando assume essa posição, e o segundo envolve a morfologia de marcação do plural do verbo português. Para esse autor, essas variações (nominal e verbal) não são distribuídas uniformemente na comunidade. Por exemplo, os falantes das classes média e alta apresentam um maior uso das regras de concordância nominal e verbal do que a classe baixa. Segundo Naro (1981: 64), ‘As variantes populares tendem a ocorrer mais frequentemente na fala das classes de nível sócio-econômico mais baixo. Enquanto as variantes standard são mais freqüentes na fala dos níveis sócio-econômicos mais altos, em rádio e televisão, etc..’14 Guy (1981: 107) menciona, ainda, que o marcador de plural absolutamente regular na 3ª pessoa do português padrão é a nasalização da sílaba final (ditongo ou vogal) e essa nasalização é acompanhada regularmente por uma ditongação, que ocorre devido ao fato de algumas vogais, no singular, passarem por um alongamento, quando são não acentuadas, Para ele: “(...) a origem do ditongo [ey], em formas plurais como sabem [sabey], como como homem [õmey]. Contudo ~~ ~ ~ também em nomes ~ /ãw/ (que é foneticamente /ew/), encontrado em plurais verbais, como ~~ estão [istew] e falam [falew] é um diferente. ~ ~ assunto completamente A ditongação fonética simples da nasal /ã/ produz /eã/ com um glide, ~ 14

“The popular variants tend to occur more frequently in the speech of the lower sócio-economic levels, while the standard variants are found more frequently in the speech of the higher sócioeconomic levels, on radio and television, etc.”


51 ao invés de um [w].15 A forma /ãw/ surge no séc. XIV durante o qual as formas finais –aN e oN do português arcaico decaíram simultaneamente com –ão (do subjacente /-aNo/).” (Guy, 1981: 117)

Guy (1981: 119) faz outras considerações acerca dos dialetos populares no PB. Por exemplo, palavras terminadas em –em /eN/ algumas vezes são realizadas ~ ~ ou [fali]* e palavras terminadas em –am, frequentemente como [i] (Ex.: falem [faley] ~ ou [u] (Ex.: mataram [matarew], ~ ~ [mataru] ~ ou [mataru]).** realizadas como [u]

Segundo ele, uma das possíveis explicações para esses fatos é que: ~ u] de palavras que têm “as pronúncias [ ~i ] e todas as pronúncias [u, um /oN/ subjacente podem ser descritas como uma modificação menor da regra de elevação que permite aplicá-la às vogais nasais. No sistema verbal isto incluiria todos os plurais –e ≠N, mais todos os plurais do pretérito, que vêm do Latim –unt, por via do português arcaico –om. Porém todos os outros plurais verbais (que vêm do latim –ant) mais palavras como órfão (do latim orphanu) não podem ser explicadas como exemplos de elevação, e requerem uma explicação baseada em um processo fonológico que reduz um ditongo não acentuado pela contração dos núcleos em um glide.” (Guy, 1981: 119)16

Portanto, na visão de Guy (1981), a ausência de CV na 3ª pessoa do plural deve-se a dois processos variáveis: à não aplicação da marca de concordância verbal e ao efeito de desnasalização que incide sobre a forma verbal, mesmo quando esta sofre a flexão pedida pelo sujeito plural. Segundo Guy (1986: 7), para Naro & Lemle (1976), o português popular do Brasil (PPB) é descendente, via mudança sintática “natural”, de alguma variedade anterior do português que teve as regras de concordância de número categóricas e obrigatórias, como no standard moderno. A inovação, para eles, é a ausência de 15

“(...) The source of the dipthong [ey] in verbal plurals like sabem [sabey], as well as in nouns like homem [ômey]. However, the diphthong /ãw/ (which is phonetically [ew], found in verbal plurals like estão [istew] and falam [falew], is an entirely different matter. The simple phonetic diphthongization of th nasal /ã/ yields [eã] with an inglide rather than a [w]. The /ãw/ form results from the 14 Century merger described above during which old Portuguese –aN and –oN fall together with –ão (from underlying /-aNo/).” * ** exemplos de Anjos (1999); 16 “The [ i ] pronunciations, and all the [u, u] pronunciations of words which have an undelying /oN/ could be accounted for with a minor modification of the Raising rule (30) to let it apply to nasal vowels. In the verbal system this would include all -e≠N plurals, plus all the preterite plurals, which come from Latin –unt via Old Portuguese –om. But all the other verbal plurals (which come from Latin –ant), plus words like órfão (from the Latin orphan) cannot be explained as instances of Raising, and require an explanation based on a phonological process which reduces an unstressed diphthong by contracting the nucleus into the glide.” (Tradução própria)


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concordância em contextos onde a língua padrão a requer, e interpretam a saliência, mostrando que ocorre mais inovação (isto é, mais ausência de concordância) nos ambientes menos salientes. Essa perda de concordância de número no PPB levanta uma discussão entre alguns estudiosos como Guy (1981, 1986, 1989), que acredita na influência ancestral de uma variedade de pidgin ou crioulo sobre o fenômeno da CV, atualmente, segundo ele, passando por um processo de descrioulização; Naro (1981), Naro & Scherre (1993), Baxter & Lucchesi (1997) e Lucchesi (1998b) que divergem dessa visão, mesmo sob ótica diferente. Inicialmente, para que fique mais clara esta exposição, faz-se necessário explicitar termos como pidgin, crioulo, descrioulização, pois assim será melhor entendida a visão, não só de Guy, mas também dos outros autores que divergem de sua opinião. Conforme Tarallo & Alkmin (1987: 14-5), em seu livro sobre os falares crioulos, as línguas pidgin nasceram na costa ocidental da África, de início, como resultado de uma mistura entre o português e línguas africanas, há quase quinhentos anos. Esse surgimento pode ter sido motivado por meio de relações ~

~

estritamente comerciais, ou através do deslocamento de grupos étnicos distintos para uma mesma região, via escravidão. Segundo esses autores, a urgência de um meio de comunicação pode gerar uma língua de emergência com funções básicas e restritas. Servindo para fins comerciais, o pidgin assume uma posição secundária na comunidade, mas quando é transmitido de pai para filho, segundo as tradições, pode passar a uma posição de uso por parte de falantes nativos, e assumir o estatuto de língua natural. Assim, como diz a literatura pertinente, o pidgin se criouliza. Nas palavras de Tarallo & Alkmin (1987), a partir do momento em que o pidgin passa a ser primeira língua (língua-mãe) de um grupo, tem-se um crioulo. “Uma vez crioulizada, circunstâncias sociais, históricas e políticas podem determinar o retorno dessa língua natural emergente para um dos pais que a gerou, o supestrato, a língua do dominador. Neste caso (...) estaremos presenciando o contínuo pós-crioulo, isto é, o crioulo se descrioulizando.” (Tarallo & Alkmin, 1987: 15)


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Enquanto as línguas pidgin preenchem funções limitadas na comunidade, as crioulas constituem um conjunto de línguas cuja história conhecida é ligada a uma situação de contato entre populações lingüísticas, cultural e etnicamente distintas. Estas distinguem-se, ainda, das línguas pidgin por possuírem uma comunidade de falantes nativos e desempenharem funções sociais amplas, como qualquer outra língua natural (cf. Tarallo & Alkmin, 1987: 95). Então, segundo alguns autores, com a vinda de escravos negros da África para o Brasil, veio uma forma linguística de concordância de número não marcada. Já no Brasil, supõe-se que com o contato desta com a forma marcada dos portugueses colonizadores, houve um processo de aquisição da forma padrão do supestrato dominador. Desse contato o pidgin pode ter se expandido, passando de pai para filho e tornando-se uma língua crioula. A descrioulização pode ter surgido justamente do contato com traços irregulares da forma padrão portuguesa, ou seja, um crioulo adquirindo formas não-crioulas. Guy (1981: 1986: 10, 1989: 232-3) propõe que a concordância de número no português popular do Brasil estaria passando por um processo de descrioulização que, basicamente, estaria ligado a um antecedente crioulo do português brasileiro, ao qual faltava marcas de concordância de número e que seguiu em direção ao dialeto padrão, através da aquisição destas marcas. Segundo este autor, há evidências de que os ancestrais de muitos falantes do português popular do Brasil (PPB) moderno não falavam o standard histórico, mas sim, uma variedade de pidgin ou crioulo. Conforme Guy (1989: 233), as línguas africanas que mais influenciaram o PPB (que foi falado pela maioria dos escravos vindos ao Brasil) pertenciam a dois grupos: o grupo Kwa da África Ocidental, especialmente Ibo e Yorubá, e as línguas Bantu de Angola e da Bacia do Rio Congo. Todas estas línguas, segundo o autor, aplicavam marcadores de plural no início do SN. Ibo, por exemplo, indica pluralidade por um marcador, ómo, no início do SN, e não usa concordância nem sufixo. Yorubá marca pluralidade por meio do pronome pessoal de terceira pessoa awon, também localizado no início do SN. E as línguas Bantu, embora não tenham regras de concordância, marcam a pluralidade através de prefixos, isto é, classificadores obrigatórios de nomes que indicam ambos o número (singular e plural) e a classe gramatical.


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Guy (1986: 8) levanta a hipótese de que o antecedente crioulo do PPB moderno não tinha regras de concordância, como é o caso de muitas línguas crioulas atestadas. Assim, a atual situação pode ter resultado de um processo de mudança direcionada, associado à descrioulização. Por isso, as inovações que deram origem à concordância variável do moderno português popular brasileiro teriam sido uma aquisição gradual e parcial das regras de concordância de número, e daí sua expansão para novos contextos. Além disso, segundo Guy (1986: 8), essas mudanças teriam envolvido empréstimo ou imitação (por parte de outros falantes) do uso do português padrão dos falantes de maior prestígio, sendo, portanto, deliberadas ou mudanças direcionadas, diferente das “naturais”, que são inconscientes. E se a inovação foi a presença, e não a ausência da concordância de número, então os dados da saliência significaram a mais recente e mais extensiva adoção da inovação naqueles ambientes mais salientes ou perceptíveis para o falante descrioulizar. Para Guy, de acordo com Lucchesi (1998b: 75): “após a perda das regras de concordância decorrentes do processo prévio de crioulização, estaria em curso um processo de (re)aquisição dessas regras a partir dos contextos em que elas fossem mais salientes, caracterizando assim um processo de descrioulização, pois o processo de mudança se daria em direção à língua alvo: o português standard.”

Diferentemente de Guy, Naro (1981) considera que a concordância de número no português brasileiro, mais especificamente a verbal, está passando por um processo de mudança, caminhando em duas direções opostas: uma em direção a um sistema sem marcas, envolvendo um mecanismo de perda pela comunidade; outra em direção a um sistema com marcas, envolvendo, portanto, um mecanismo de aquisição dessas mesmas marcas, por parte do indivíduo. Assim, na comunidade observada por Naro, pode haver falantes num processo de aquisição da forma marcada, enquanto outros podem estar, ao mesmo tempo, num processo de perda dessa forma. Naro & Scherre (1993: 437) apontam três forças atuantes na produção do português popular do Brasil: algumas vindas da Europa, outras da América, e outras da África. Segundo eles, deve-se lembrar do importante papel desempenhado pelos


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índios, pelos primeiros colonos portugueses, além de outras forças em interação com a deriva secular trazida da Europa, e não apenas atribuir um papel exclusivo a um suposto pidgin ou crioulo de base lexical portuguesa. “Parece então improvável que tenha existido no Brasil uma língua pidgin ou crioula de base lexical portuguesa associada predominantemente com a etnia afro-brasileira ou ameríndia. Tal língua era dispensável, dada a existência de outras ‘línguas gerais’, de bases não européias, que já preenchiam as necessidades comunicativas da população.” (Naro & Scherre, 1993: 441)

Baxter & Lucchesi (1997: 75 – 81) e Lucchesi (1998b: 94) divergem, parcialmente, da ideia de Guy sobre a crioulização, lançando uma outra hipótese sobre o processo aquisitivo, especialmente no português do Brasil. De acordo com ele, o contato entre a língua trazida pelos escravos e a dos portugueses, durante a colonização, gerou um dialeto que tinha como alvo a língua dos senhores, mas como o contato entre escravos e senhores não era possível, esse dialeto foi se afastando da língua alvo e transformando-se em um pidgin, que influenciou irregularmente os descendentes desses escravos, gerando assim, um semi-crioulo. Em outras palavras, uma Língua 2 (L2) dos pais, devido à dificuldade de acesso à língua alvo, serve como modelo irregular para a Língua 1 (L1) dos filhos, gerando uma nova língua. Considerando que a população de escravos era formada principalmente por adultos e era constantemente renovada pela chegada de novos escravos, e que a maioria destes não entrava em contato direto com os senhores, fica evidente, nas palavras de Baxter & Lucchesi (1997), a limitação a um bom modelo linguístico de superstrato. Assim, segundo Baxter & Lucchesi (1997: 71-2) “teria faltado um modelo nítido para a primeira geração de falantes do crioulo. O modelo do seu processo de aquisição teria sido de fato uma língua segunda (L2) que não passava de uma versão defectiva da língua de superstrato, ou seja, uma L2 adquirida unicamente através de um contato precário.”

Baxter & Lucchesi (1997: 79-81) e Lucchesi (1998b: 73-4) faz uma distinção entre norma culta e norma vernacular, chamando-as de standard e substandard,


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respectivamente. A primeira corresponderia às camadas mais escolarizadas da sociedade, e a segunda às camadas menos escolarizadas. À semelhança do que acontecera no passado (na colonização e no período imperial), neste século, as camadas socialmente mais baixas estariam passando por influências da norma culta, através dos meios de comunicação, ensino, muitas vezes precário e, até mesmo do contato direto, e assim estariam perdendo as marcas das alterações produzidas pelo contato entre línguas, que ocorreu nos séculos passados, mesmo nos dialetos rurais mais afastados a zona urbana. Então, segundo Lucchesi (1998b: 93-4), haveria duas normas no português brasileiro: a norma culta, que mostra uma tendência de mudança em direção ao afastamento do padrão normativo, partindo das classes mais altas para as mais baixas (<<mudança de cima para baixo>>), e a norma vernacular, com uma tendência de mudança em direção ao padrão culto (<<mudança de baixo para cima>>), mostrando um caráter descrioulizante. Lucchesi (1998a: 94) chega à seguinte conclusão: “(...) acho mais razoável supor a existência de processos de pidginização/crioulização de tipo lev, dentro da visão mais ampla de uma transmissão linguística irregular; sendo mais apropriado falar, no âmbito da história do português brasileiro substandard, em termos de sistemas com características crioulizantes, ou semi-crioulos, e não propriamente em pidgins e crioulos típicos.”

Sabendo um pouco sobre a evolução e a variação da concordância verbosujeito, pode-se prosseguir, apresentando alguns trabalhos que abordam esse fenômeno. A Sociolinguística pode avaliar quais os fatores estruturais e sociais que condicionam as variantes explícita e zero na concordância verbo-sujeito, pelo desta apresentar-se como um fenômeno variável. Os estudos sociolingüísticos, acerca da concordância verbal, tiveram início no Brasil com os trabalhos pioneiros de Naro e Lemle. O primeiro (1976: 262) foi realizado com apenas três informantes do Rio de Janeiro, mais tarde, em 1977, foi feita uma pesquisa mais extensiva com vinte informantes integrantes do Movimento Brasileiro de Alfabetização (MOBRAL), na mesma localidade, e que fazem parte do Projeto de Pesquisa Competências Básicas do Português. Para esses autores, a regra de CV mostra-se, ainda, categórica nas classes média e alta, mas na classe


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sócio-economicamente mais baixa essa regra estaria seguindo um curso evolutivo, em direção a um sistema sem marcas. O trabalho de Naro (1981: 96) retoma os mesmos dados do Projeto Competências Básicas do Português e reanalisa a variação da regra de concordância verbal no português. Ele conclui que “dois aspectos do processo global de mudança linguística podem ser distinguidos para propostas analíticas: a atuação (origem), isto é, o ponto inicial, ou, primeiro contexto, de uma mudança e a difusão, isto é, o espraiamento subseqüente da mudança para outros ambientes. Naro argumenta, ainda, que, na perda da CV, a força linguística atuante é a de uma regra de desnasalização das vogais finais que atua sobre as formas verbais do tipo comem, produzindo formas que coincidem exatamente com as do singular (come). Esta perda de oposição singular/plural causa uma confusão na estrutura de superfície da língua. Para Naro (1981: 96), a difusão do sistema sem concordância se dá de acordo com o princípio da saliência, que se estende mais fortemente em contextos onde a mudança é menos perceptível e consiste no princípio de que as formas mais salientes são mais favoráveis à presença da marca de concordância, enquanto as menos salientes são desfavoráveis. Nicolau (1984: 7-8, 31) estuda a variação da concordância entre o verbo e sujeito plural, observando os resultados, no português coloquial de Belo Horizonte. Para tanto, ela utiliza dados de 32 informantes de quatro grupos sociais diferentes, de ambos os sexos e distribuídos em dois grupos etários distintos (4 jovens e 4 adultos). Ela observou apenas os casos de sujeito plural (simples ou composto, anteposto ou posposto) perfeitamente identificável. Vale salientar que essa autora trabalha com a não-aplicação da concordância verbal, ou seja, a aplicação, para ela, é a variante zero. Os resultados obtidos por Nicolau (1984: 159) mostram, primeiro, que a ausência de concordância verbal é determinada muito mais pela posição do SN sujeito em relação ao verbo do que pela constituição do SN sujeito; nos casos em que é dificilmente percebida a relação SN/SV (sujeito posposto ao verbo na oração e sujeito constituído de pronome relativo antecedido de SN plural), a ausência de concordância é bastante favorecida. Segundo, um fator condicionador da flexão verbal no SV, nos casos de 3ª pessoa do plural, é o estilo informal de fala, mas apenas em três (baixo padrão de


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vida, operários e médio padrão de vida) dos quatro grupos estratificados. No outro grupo social que representa o alto padrão de vida, é no estilo formal que a ausência de CV se faz mais presente. Finalizando, de acordo com Nicolau (1984: 160), “a ausência de concordância verbal no Português coloquial de Belo Horizonte caracteriza-se como uma variável estável que apresenta nítida estratificação social.” Um outro trabalho que aborda o fenômeno variável da CV é o de Graciosa (1991), que analisa a fala de 18 informantes de nível superior de instrução, pertencentes ao corpus do Projeto de Estudo na Norma Linguística Urbana Culta (NURC), montado na década de 70, na cidade do Rio de Janeiro. Os resultados de seu estudo apontam que as condições favoráveis à presença da marca de CV são a anteposição do sujeito ao verbo, a proximidade entre o SN e o verbo e a formação de sequência pelo verbo na cadeia discursiva, condicionada ao efeito do paralelismo. Bortoni Ricardo (1981) selecionou, com o objetivo de examinar as reações subjetivas à falta de CV na 3ª pessoa do plural no português, dois grupos de falantes (11 homens e 13 mulheres), de diferentes graus de escolarização (superior e supletivo) e alunos da disciplina Língua Portuguesa I. Na realização dos dois experimentos a autora procurou, no primeiro, distinguir duas comunidades de fala em termos de suas reações ao traço de CV; e no segundo, avaliar as reações de universitários à falta de CV nos diversos ambientes morfossintáticos que provaram ser relevantes à presença da marca de concordância na pesquisa de Naro e Lemle (1976). No resultado obtido pela autora, o experimento demonstrou que os falantes universitários estigmatizam a concordância verbal não-padrão, ao contrário dos falantes que freqüentam o curso supletivo, os quais, mesmo quando residem na área urbana e possuem curso primário, não estigmatizam essa forma. A autora também constatou que, nas classes desfavoráveis, a incidência da forma nãopadrão é mais alta do que entre os estratos de melhor nível de escolarização. Para realizar um segundo experimento, a autora retoma duas variáveis de alta relevância utilizadas por Naro & Lemle (1976: classe morfológica do verbo, dividida em seis níveis, que se distinguem entre si pelo grau de saliência fônica, e posição linear do sujeito na estrutura superficial.


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A autora chega a conclusão de que, neste segundo experimento, foi confirmada a hipótese de que a estigmatização do traço de concordância verbal não-padrão varia na razão inversa de seu uso generalizado, ou seja, nos casos em que esse traço ocorre mais frequentemente, ele é minimamente estigmatizado. Conclui também que o experimento, mesmo que indiretamente, confirma a hipótese de Naro & Lemle (1976), segundo a qual a CV em Português é menos provável precisamente onde sua ausência é menos saliente. Além desses trabalhos sobre a CV, tem-se referência a outros trabalhos, como: Língua e contexto sociolingüístico: Concordância verbal no português popular de São Paulo – Ângela S. Rodrigues (1992); A não-concordância em dialetos populares: uma regra variável – Sílvia Rodrigues Vieira (1997); A concordância de número nos predicativos e nos particípios passivos – Scherre (1991), entre outros.


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APRESENTAÇÃO DAS VARIÁVEIS 1 Variáveis Linguísticas 1.1 Introdução Nesta seção, considerou-se, como dado de análise, o verbo flexionável dos SVs plurais. Caso o verbo apresentasse marca explícita, seria considerada a presença de concordância; caso contrário, seria a ausência desta. Será feita, de início, uma apresentação geral com discussão sobre os resultados obtidos das variáveis lingüísticas, tendo como base o valor de uso da variante explícita de plural. Em seguida, serão apresentados os resultados referentes às rodadas feitas em função de cada faixa de escolaridade aqui trabalhada, ou seja, rodadas com dados de informantes com 1 a 4 anos, 5 a 8 anos, 9 a 11 anos e mais de 11 anos de escolarização, separadamente. Depois,

serão

apresentadas as variáveis extralingüísticas sexo, faixa etária e anos de escolarização, com seus respectivos resultados, e, por último, o resultado dos cruzamentos entre essas variáveis. Os dados apontaram uma percentagem global de presença de plural explícito da ordem de 54%. Os resultados a serem apresentados correspondem à interação de 7 (sete) variáveis que obtiveram um input (valor que reflete a probabilidade de presença da marca de concordância) de 0,56 com um grau de significância de .005. Com um número de 3034 dados, foi eliminada pelo programa apenas uma variável – o sexo – por não se mostrar estatisticamente significativa, e forma selecionadas sete, englobando um número de 31 fatores que se mostraram mais relevantes para este estudo sobre a concordância verbal, na comunidade pessoense. As variáveis selecionadas, por ordem de relevância, foram as seguintes: 1ª Escolaridade 2ª Saliência Fônica 3ª Paralelismo Discursivo 4ª Paralelismo Oracional 5ª Presença, posição e distância do sujeito 6ª Faixa Etária 7ª Animacidade


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À medida que forem apresentadas as variáveis, serão apontados alguns estudos anteriores acerca destas, como também seus resultados, para compará-los aos aqui obtidos, caso seja necessário. Vale lembrar que serão expostas primeiro as variáveis lingüísticas e, em seguida, as extralingüísticas. As tabelas que serão expostas trazem a presença de variante explícita de plural, a freqüência total, a porcentagem e o peso relativo referentes à concordância verbal.

1.1.1 Saliência Fônica Em estudo realizado com falantes alfabetizandos, integrantes do Projeto Competências Básicas do Português, Naro & Lemle (1976: 259) propõem um modelo de mudança sintática baseado no estudo quantitativo da regra de concordância sujeito-verbo no falar português brasileiro. Eles apontam os falantes de nível socioeconômico mais baixo como favorecedores ao processo de eliminação da concordância. Naro (1981: 63) observa a forte interferência do princípio da saliência que atua no sentido de que as formas mais perceptíveis e salientes favorecem a concordância, enquanto as formas menos salientes desfavorecem-na. Segundo esses autores, algumas formas verbais podem apresentar mais concordância com seus respectivos sujeitos do que outras formas verbais, ou seja, os verbos que se apresentam em sílabas não-acentuadas e com pouca oposição (apenas nasalização e ditongação da vogal final) na forma plural são menos marcados. Enquanto os verbos que se encontram em sílabas acentuadas e que apresentam uma maior oposição na forma plural são mais frequentemente marcados. Naro (1981: 74) estabelece dois níveis para a hierarquia morfológica (cf. escala de saliência fônica [p. 64]): “o primeiro nível contém aqueles pares nos quais os segmentos fonéticos que realizam a oposição são NÃO-ACENTUADOS em ambos os membros. O segundo nível contém aqueles pares nos quais esses segmentos são ACENTUADOS em pelo menos um membro. Dada esta distinção fundamental, em termos de acento, fica claro que todas as oposições, no primeiro nível, são menos salientes do que qualquer uma do segundo nível.”17 17

“The first level contains those pairs in which the phonetic segments that realize the opposition are UNSTRESSED in both members, the second level cotains those pairs in which these segments are STRESSED in at least one member of the opposition. Given this fundamental distinctionin terms of stress, it is clear that all oppositions on the first level are less salient than any on the second level.”


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Ao estudar a saliência fônica, na cidade do Rio de Janeiro, Guy (1986: 3 e 1989: 235-6) afirma que a saliência não é realmente uma categoria gramatical, um traço interno do sistema linguístico. Ao contrário, ela é, por natureza, um fenômeno essencialmente extralingüístico ou psicolingüístico que afeta a mudança linguística, por meio de processos de percepção e aprendizagem, que mediam o desenvolvimento e a disseminação através de novas formas lingüísticas da comunidade de fala. Sendo assim, deve-se, pois, buscar as origens da restrição da saliência na forma como a linguagem é processada e aprendida, e não na história interna da sintaxe. Segundo ele, a probabilidade de haver concordância no PPB parece ser determinada pela saliência ou distinção morfológica entre as formas singular e plural, ou seja, quanto mais houver saliência na forma verbal, mais frequentemente haverá concordância. De acordo com Guy (1986: 2), a saliência foi proposta por Naro e Lemle em 1976 como uma restrição universal, na direção de uma mudança sintática natural (não direcionada), tal que as mudanças começam em um ponto onde a diferença entre as formas singular e plural é MENOS saliente e perceptível. Guy (1986: 7-8) expõe uma visão oposta a de Naro e Lemle, acerca da variável saliência fônica. Enquanto para estes autores a saliência é vista como uma restrição universal que segue na direção de uma mudança sintática natural, e a mudança começa em um ponto onde as diferenças entre as formas do singular e plural são menos salientes ou perceptíveis; par Guy, a concordância tem sua origem em um ancestral crioulo ao qual faltava concordância e que seguiu em direção ao dialeto padrão através do processo de aquisição de concordância, ou seja, através de um processo de descrioulização. Segundo ele, atualmente, o sistema está em um processo de variação estável. Bortoni-Ricardo (1981: 81) refere-se a esse processo, em seu estudo sobre a significação social da CV em português, a saber: “Os fenômenos de redução flexional no português parecem ser acionados e implementados por fatores fonéticos de articulação e percepção. A desnasalização das vogais átonas finais, que concorre para a neutralização dos sufixos verbais na terceira pessoa do singular e do plural (ama/amam), explica-se posto que as sílabas átonas finais são pouco perceptíveis em nossa língua.”


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Naro (1981: 75), em sua escala de saliência fônica, reúne na classe 2c os casos do futuro subjuntivo e o par veio/vieram. O autor considerava, inicialmente, veio/vieram como integrante da classe 2c, mas como na 3ª pessoa do pretérito perfeito surgiu a forma variável vinheram, que permaneceu lado a lado com a forma vieram, fazendo decrescer o índice de concordância, visto que os falantes mais jovens tendiam a usar mais a forma veio (eles veio), assim, Naro (1986: 76-77) resolveu retirar os casos de veio/vieram presentes nos dados dos falantes mais jovens, da análise quantitativa, e separar aquele par da classe 2c e criar a classe 2e para abrigá-lo. Depois, ele testou a diferença estatística entre estes três fatores, como não se mostraram estatisticamente significativas, ele resolveu amalgamá-las. Vale salientar que, juntamente com o par veio/vieram, Naro incluiu os pares trouxe/trouxeram, pode/puderam. Assim, o nível 2 tinha cinco categorias (2a, 2b, 2c, 2d e 2e), que foram amalgamadas em três (2a, 2b e 2c), esta última (2c) englobando as antigas 2c/2d/2e. No presente estudo, decidiu-se analisar esses casos separadamente, visto apresentarem um comportamento distinto, agrupando-os como casos especiais, e incluindo a eles as formas do infinitivo. Com isso, a classe 2c (é/são, falou/falaram, trouxe/trouxeram), desse estudo, engloba as classes 2c, 2d e 2e de Naro (veja-se melhor Naro 1981), e os três casos, assim controlados, serão agora denominados 2d, 2e e 2f (veja-se a seguir). Assim, fazendo-se uma comparação entre os resultados obtidos neste estudo (especificado como Anjos [1999] nas comparações), os de Naro (1981) e os de Scherre & Naro (1997), tem-se a seguinte escala: Nível 1 (Oposição não-acentuada) contém os pares nos quais os segmentos que estabelecem a oposição são não-acentuados em ambos os membros. 1a – Não envolve mudança na qualidade da vogal. - “Elas entende0 isso devagarinho (...).” (TCS-2pf) - “Meus meninos são pequenos e não entendEM (...).” (JPNA – 2uf) 1b – Envolve mudança na qualidade da forma plural. - “As pessoas que fala0, fala pior do que eu.” (TCS – 3pf) - “Às vezes eles falaM comigo (...).” (TOS – 2pf) 1c – Envolve acréscimo de segmentos na forma plural.


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- “As pessoas mais jovens não quer0 num quer aceitar.” (TCS – 3pf) - “Muitos querEM mudar até o jeito de viver.” (HMG – 2pf) Nível 2 (Oposição acentuada) contém os pares nos quais os segmentos que estabelecem a oposição são acentuados em ambos os membros. 2a – Envolve mudança na qualidade da vogal na forma plural e ditongação. - “O rapazes de hoje em dia num dá0 valor a moça (...).” (JPS – 2pf) - “(...) porque se for entregar eleh num fay nada, dÃO tudim.” (HMG – 2pf) 2b – Envolve acréscimo de segmentos sem mudanças vocálicas na forma plural, inclui o par foi/foram que perde a semivogal. - “Aquelas danadinhas foi0 as que casaru (...)” (AAM – 3uf) - Quando foRU me encontrar eu tava numa cidade (...).” (JPS – 2pf) - “ai morrEU os doi0 na casa pegando fogo.” (IMS – 2nf) - “muitas pessoas morreRAM (...)” (PAM – 1uf) 2c – Envolve acréscimo de segmentos e mudanças diversas na forma plural: mudanças vocálicas na desinência, mudanças na raiz e até mudanças completas. - “Aí muita gente não acredita, né? Que essas coisa não é0 carregada.” (JAS – 1pf)

- “As mulheres SÃO tratadas assim (...)” (TOS – 2pf) - “os menino0 entrou lá na casa dela, sabe? Aí quebrOU lá o galho do mato (...).” (MLS – 1nf) - “quebrARU minha boneca todinha (...).” (MLS – 1nf)

Casos Especiais: 2d – Mudança na tonicidade do vocábulo, acréscimo de segmentos, diferenciação fônica entre as formas singular e plural quase completa – apenas um fonema se mantém inalterado nas duas formas /v/ (caso único: veio/IERAM) - “Elas veio perguntar uma coisa a mim (...).” (EPS – 1pf) - “(...) eles vIERU morar comigo (...).” (TCS – 2pf) 2e – Caso específico do futuro do subjuntivo (falar/falarEM) - “(...) o nosso jeito de falar pra o jeito deles falar0.” (LGP – 2gm)


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- “Quando eu vejo as minhas primas que são cariocas falarEM, eu vejo que até o nosso falar diz aquilo que somos.” (SCP – 1sf) 2f – Casos do infinitivo - “vejo aquelas moças ir0, usar0 short, se pintar0, e eu num posso...” (GSF – 1gf)

- “(...) dá oportunidade pra eles trabalharEM, né?” (PAM – 1uf)

Apresentação dos resultados Segundo a literatura pertinente observada anteriormente, verbos que apresentam uma maior diferenciação material fônico entre as formas singular/plural elevam a possibilidade de presença18 de concordância verbal. Para a análise da variável saliência fônica, utilizou-se a escala proposta por Naro (1981), a qual se fez algumas adaptações: o par veio/vieram foi separado, no nível 2 (oposição acentuada), da classe 2c que envolve pares como é/são, pois apresentava um comportamento diferente; houve a inclusão de mais duas classes: casos específicos do futuro do subjuntivo e casos de infinitivo. Na rodada inicial seguintes com amalgamações diversas e utilizando apenas o MAKE3000, os fatores dessa variável não apresentaram muitas alterações nos seus valores, exceto algumas inversões percentuais na ordem da escala proposta. Na primeira rodada com VARB2000, a fim de obter a interação entre todas as variáveis em termos de pesos relativos, foi feita a amalgamação entre a classe 1c e os casos de futuro do subjuntivo (2e) por estes terem um ponto em comum – envolverem acréscimo de segmentos na forma plural (diz/dizEM; falar/falarEM), e sua amalgamação não interferir nos resultados. Dessa forma foram obtidos os seguintes resultados:

18

Esse termo é utilizado em substituição à aplicação da regra, pois trabalha-se em termos de polarização: presença/ausência de variante explícita (cf. Ramos, 1999: 85-88)


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Tabela 1 Marcas explícitas de plural nos verbos em função da variável saliência fônica na oposição singular/plural ( I ) Fatores Nível 1 1a. come/comem 1b. ama/amam 1c. faz/fazem

Presença de variante explícita/Frequência %

Pesos

146/463 = 32% 591/1240 = 48% 114/240 = 47%

0,25 0,41 0,45

217/334 = 65% 123/162 = 76% 462/595 = 78% 10/18 = 56% 9/101 = 9% 1672/3153 = 53%

0,62 0,82 0,80 0,79 0,07

Nível 2 2a. dá/dão 2b. foi/foram, bateu/bateram

2c. é/são, falou/falaram 2d. veio/vieram 2f. pintar/pintarem Total de dados

Observando-se esses resultados, vê-se que, no Nível 1, no qual estão reunidas as formas não-acentuadas e menos salientes, a probabilidade de presença da variante explícita de CV é menor do que no Nível 2 que apresenta pares mais salientes e com maior probabilidade de presença da variante explícita, exceto para os casos de infinitivo. A escala mostra pesos relativos que seguem uma linha crescente dos menos aos mais salientes (0,25, 0,41, 0,45, 0,62, 0,82, 0,80 e 0,79). Contrariando um pouco o que se esperava, a escala apresenta um peso relativo praticamente semelhante para as classes 2b (foi/foram, bateu/bateram), em que a classe 2c (é/são, falou/falaram), fato que não ocorre nos resultados de Scherre & Naro (1997), em que a classe 2c aparece sempre com um peso maior do que a classe 2b, visto estar no último grau da escala da saliência fônica. Já o par veio/vieram da classe 2d alcançou peso de 0,79, ficando entre as formas mais favorecedoras da variante explícita de plural, já que possui um alto grau de saliência. A classe 2f, que envolve os casos de infinitivo, ficou na última posição com um peso de 0,07, mostrando o seu quase que completo favorecimento da forma não-padrão. Realizou-se outra rodada, desta vez retirando os fatores das 2d (veio/vieram) e 2f (casos do infinitivo), com o fim de obter resultados mais comparáveis à Scherre & Naro (1997), os quais utilizam a escala proposta por Naro (1981), apresentada anteriormente, excluindo a subdivisão 2d, 2e e 2f. Neste estudo eles se detêm na análise das variáveis posição e saliência fônica na concordância de número no


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português brasileiro. Desse modo, após feitas as devidas alterações, foram obtidos os resultados que se encontram na Tabela 2 abaixo.

Tabela 2 Marcas explícitas de plural nos verbos em função da variável saliência fônica na oposição singular/plural ( II ) Fatores Nível 1

Presença de variante explícita/Frequência %

Pesos

146/463 = 32% 591/1240 = 48% 114/240 = 47%

0,24 0,39 0,43

217/334 = 65% 123/162 = 76% 462/595 = 78% 1653/3034 = 54%

0,60 0,81 0,79

1a. come/comem 1b. ama/amam 1c. faz/fazem

Nível 2 2a. dá/dão 2b. foi/foram, bateu/bateram

2c. é/são, falou/falaram Total de dados

Com esses resultados pode-se perceber novamente que a ausência de concordância se intensifica à medida que diminui a diferença material fônica entre as formas singular e plural dos verbos. Esse

comportamento

apresentado

pelos

fatores

demonstra

que

a

probabilidade de uso da forma explícita de concordância está relacionada aos dois níveis de acentuação da variável saliência fônica, ou seja, o segundo nível, composto pelos fatores mais salientes, com 0,60, 0,81 e 0,79, respectivamente, apresenta um maior favorecimento da variante explícita. O primeiro nível com 0,24, 0,39 e 0,43 de pesos relativos (ver tabela anterior) é composto pelas formas verbais menos salientes e, por isto, mais favorecedoras da variante zero. Esse resultado vem confirmar o princípio da saliência fônica, segundo o qual as formas mais salientes favorecem a concordância. Scherre & Naro (1997: 97 – 8) constatam também que os níveis mais baixos da hierarquia da saliência favorecem menos a concordância do que os níveis mais altos. Os fenômenos variáveis das concordâncias verbal e nominal e nos predicativos e particípios quando correlacionados às variáveis sexo e anos de escolarização demonstram que esses fenômenos são sensíveis a variáveis sociais, revelando as pressões que os falantes sofrem pelo fato de a variante ser estigmatizada pelos padrões gramaticais. Os falantes com mais anos de


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escolarização e do sexo feminino apresentam-se mais favorecedores a regra, da mesma forma, os falantes com faixa etária entre 26 – 49 anos (mais pressionados pela idade profissionalmente produtiva) usam as formas de prestígio. Deve-se salientar que novamente houve uma semelhança de comportamento entre as classes 2b e 2c, o que supõe-se ser provocada pela atuação da escolaridade, visto que durante a execução do programa que fornece resultados probabilísticos da interação entre todas as variáveis, percebeu-se que, quando correlacionada à variável anos de escolarização, ocorria a leve inversão entre as classes 2b (foi/foram, bateu/bateram) e 2c (é/são, falou/falaram), permanecendo assim até o final da rodada. Fazendo-se uma comparação entre os dados obtidos neste estudo e o de Naro (1981) e Scherre & Naro (1997) tem-se a seguinte escala: Tabela 3 Marcas explícitas de plural nos verbos em função da variável saliência fônica na oposição singular/plural Resultados comparativos ( I ) (Naro, 1981; Scherre & Naro, 1997 e Anjos, 1999) Naro (1981)

Scherre & Naro (1997)

Anjos (1999)

Presença/Frequência/%Pesos

Presença/Frequência/%Pesos

Presença/Frequência/%Pesos

110/755 = 15% 0,11 763/2540 = 30% 0,26 99/273 = 36% 0,35

202/463 = 44% 0,16 1159/1766 = 66% 0,37 188/267 = 70% 0,38

146/463 = 32% 0,24 591/1240 = 48% 0,39 114/240 = 47% 0,43

Foi/foram, bateu/bateram

604/927 = 65% 0,68 6/365 = 73% 0,78

585/718 = 81% 0,64 212/260 = 82% 0,66

217/334 = 65% 0,60 123/162 = 76% 0,81

É/são, falou/falaram

1160/1450 = 80% 0,85

1023/1158 = 88% 0,75

462/595 = 78% 0,79

Total

3002/6310 = 48%

3369/4632 = 73%

1653/3034 = 54%

Fatores Nível 1 Come/comem Ama/amam Faz/fazem

Nível 2 Dá/dão

Com exceção do caso de leve inversão (classes 2b e 2c), em Anjos (1999), os resultados dos três estudos são muito parecidos: os níveis mais baixos na hierarquia da saliência (Nível 1) apresentam menos probabilidade de presença da variante explícita de CV do que os níveis mais altos (Nível 2). Vale salientar que os


69

resultados de Scherre & Naro (1997) se referem a dados de falantes com 1 a 11 anos de escolarização e os de Naro (1981) a falantes com nenhum ano de escolarização, enquanto os resultados deste trabalho envolvem, além de falantes com 1 a 11 anos, também aqueles com nenhum ano e com mais de 11 anos de escolarização. Scherre & Naro (1997: 98) consideram que os resultados de Naro (1981) “evidenciam uma amplitude maior de variação, apresentando uma separação mais nítida entre as diversas categorias de cada um dos níveis.” Em Anjos (1999), os dados referentes à comunidade pessoense, nas classes 2b e 2c, mostram resultados, tanto percentuais quanto probabilísticos, muitos próximos, embora não demonstrem uma maior nitidez, como os de Naro. Mesmo assim, esses resultados refletem os de Scherre & Naro (1997) e Naro (1981) no que se refere às duas maiores oposições: as formas mais acentuadas e mais salientes favorecem a concordância, enquanto as não-acentuadas e menos salientes desfavorecem-na. Revelam, ainda, um alto índice de concordância da classe que ocupa o topo da escala (0,81) em relação a que ocupa a base dessa mesma escala (0,24). Também no Gráfico 1 abaixo, pode-se ver melhor os resultados da análise comparativa apresentada. Gráfico 1

Saliência Fônica Gráfico Comparativo 0,9

0,85 0,75

0,8 0,7 0,6

0,78 0,68

0,66 0,64

0,5 0,4

0,35

0,1

0,79

0,26 0,11

1b

0,43

1c

0,39

Nível 2

0,24

2a 2b

0,16

2c

0 Naro (1981)

Nível 1 1a

0,6

0,37

0,3 0,2

0,38

0,81

Scherre; Naro (1997)

Anjos (1999)


70

Tendo em vista que as variáveis selecionadas em primeiro e segundo lugares, respectivamente, foram escolaridade e saliência fônica, e que, da mesma forma que Scherre & Naro (1997), aqui também procura-se verificar se a nitidez da escala da saliência tem alguma relação com a escolaridade do falante, apresenta-se a seguir um quadro com os resultados obtidos através de rodadas em função dos anos de escolarização dos informantes. Serão apresentados, juntamente, os resultados, também em função dos anos de escolarização, de Scherre & Naro (1997) e Naro (1981), a fim de se realizar uma análise comparativa. Vale lembrar que Scherre & Naro (1997) não incluem em sua amostra os falantes analfabetos e universitários em sua amostra pelo fato de já existirem outros corpora que analisam dados de tais falantes: os Projetos NURC e Competências Básicas do Português (este realizado junto à Fundação Movimento Brasileiro de Alfabetização – MOBRAL). Na estratificação da variável escolaridade, no estudo aqui realizado, são incluídos os falantes com 1 a 4 anos, 5 a 8 anos (antigos primário e ginásio) e 9 a 11 anos (segundo grau). Os resultados deste trabalho, juntamente com os Scherre & Naro (1997) e Naro (1981), referentes à variável saliência fônica em função da escolaridade estão expostos na Tabela 4 a seguir.


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Tabela 4 Marcas explícitas de plural nos verbos em função da variável saliência fônica na oposição singular/plural em função dos anos de escolarização dos falantes Resultados comparativos ( II ) (Naro, 1981; Scherre & Naro, 1997; Anjos, 1999) Naro (1981) Nenhum ano Presença/Freq./%Pesos

Scherre & Naro (1997) 1-4 anos

5-8 anos

9-11 anos

Presença/Freq./%Pesos

Anjos (1999) Nenhum

1-4 anos

5-8 anos

9-11 anos

Mais de 11 anos

Presença/Freq./%Pesos

N1 1a

110/755 = 15%

0,11

58/192=30% 0,15 77/142=54% 0,18

67/129=52% 0,13

6/61=44% 0,22 14/115=12% 0,22 11/64=17% 0,12 45/96=47% 0,25 66/105=63% 0,32

1b

763/2540 = 30%

0,26

393/725=54% 0,36 466/652=71% 0,37 300/389=77% 0,39

15/174=9% 0,19 65/231=28% 0,42 115/248=46% 0,38 184/281=65% 0,43 199/278=72% 0,43

1c

99/273 = 36%

0,35

64/110=58% 0,40

15/55=27% 0,52 15/48=31% 0,48

69/90=77% 0,35 55/67=82% 0,36

20/49=41% 0,34 31/46=67%

0,37 32/41=78%

0,50

N2 2a

604/927 = 65%

0,68

161/227=71% 0,64 236/290=81% 0,58 188/201=94% 0,77

19/43=44% 0,73 34/69=49% 0,68 27/46=59% 0,52 55/70=79% 0,67 78/100=78% 0,49

2b

266/365 = 73%

0,78

63/81=78% 0,68 108/132=82% 0,64 41/47=87% 0,67

26/38=68% 0,86 14/25=56% 0,78 42/46=91% 0,91 18/19=95% 0,85 17/23=74% 0,51

2c

1160/1450 = 80%

0,85

386/452=85% 0,80 402/446=90% 0,74 235/260=90% 0,67

61/99=62% 0,89 62/93=67% 0,82 108/141=77% 0,77 108/129=84% 0,72 123/136=90% 0,77


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Conforme a Tabela 4, percebe-se que os dados de Naro (1981) e Scherre & Naro (1997) apresentam com maior nitidez as diferenças entre os níveis de saliência, como também a grande oposição entre a forma menos e a mais saliente em todas as faixas de escolaridade. Na posição não-acentuada, a separação entre a classe 1a e as outras duas classes da mesma posição, salvo a leve inversão entre as classes 1b e 1c, nos dados de Scherre & Naro (1997), referentes aos falantes com 9 a 11 anos de escolarização (0,39/0,36), deixa mais clara a ordem crescente que as categorias seguem em direção a um maior uso da concordância verbal, nas formas mais salientes. Nesse estudo, Scherre & Naro (1997: 99) identificam que os seus resultados e os de Naro (1981) refletem com maior nitidez a escala da saliência entre os falantes com menos anos de escolarização, sendo entre estes também que os autores verificam haver um distanciamento maior entre os pesos relativos, associados às categorias de saliência mais baixa e mais alta, da forma como foi proposta por Naro (1981). Em Anjos (1999), a escala apresenta-se sem inversões entre os falantes com menos anos de escolarização (nenhum ano e 1 a 4 anos), principalmente neste último, onde não ocorre qualquer inversão, e a escala segue uma linha crescente (0,22, 0,42, 0,48, 0,68, 0,78 e 0,82), embora os pesos relativos estejam sempre muito próximos. Da mesma forma que Scherre & Naro (1997:99), neste trabalho também pressupõe-se que a nitidez da escala da saliência na concordância verbal está relacionada com as diferenças entre os anos de escolarização dos falantes. Ao contrário desses, nos casos de maior escolaridade, a escala da saliência sofre várias oscilações. Ocorrem inversões nos resultados dos falantes do ginásio, entre as classes 1b e 2b (0,38/0,91) e 1c e 2c (0,34/0,77), e do segundo grau 1b e 2b (0,43/0,85) e 1c e 2c (0,37/0,72), com uma diferença probabilística sempre maior no Nível 2 (formas acentuadas). No cômputo geral dos resultados, a escala da saliência segue, em termos probabilísticos, gradativamente da forma menos acentuada à forma mais acentuada, indicando um aumento da taxa de concordância verbo-sujeito à medida que as formas verbais assumem uma posição mais saliente ou perceptível. Assim, de


73

acordo com a escolaridade do falante, a probabilidade da forma menos acentuada em relação à mais acentuada é: nenhum ano de escolarização (0,22/0,89), 1 a 4 anos (0,22/0,82), 5 a 8 anos (0,12/0,91), 9 a 11 anos (0,25/0,85) e mais de 11 anos (0,32/0,77). Tendo em vista que, os resultados obtidos neste estudo, acerca da concordância verbal na comunidade pessoense, mostraram semelhança de comportamento entre 2b e 2c, decidiu-se realizar uma rodada com a variável saliência fônica, em termos de seus traços componentes, como fez Naro (1981: 78). Em seu estudo, Naro discute a atuação de duas forças principais: acento e diferenciação material fônica sobre a saliência oposicional, e que a análise desta seria mais perceptivelmente analisada se feita em termos de seus traços componentes. Assim, o autor postula dois novos grupos de fatores – acento e diferenciação. ACENTO Classe a – não acentuada (Classes Morfológicas 1a – c) Classe b – acentuada (Classes Morfológicas 2a – c) DIFERENCIAÇÃO MATERIAL Classe a – menor diferenciação (Classes Morfológicas 1a, 2a) Classe b – maior diferenciação (Classes Morfológicas 1b, 2b) Classe c – completa diferenciação (Classes Morfológicas 1c, 2c)19 Desse modo, também foi realizada uma análise comparativa entre os resultados aqui obtidos e os de Naro (1981), em função do acento e da diferenciação material, conseguindo, assim, uma escala de saliência que indica mais explicitamente as formas mais favorecedoras da concordância verbal.

19

Quanto a essas classes morfológicas veja-se escala de saliência fônica, p. 64-5.


74

Tabela 5 Marcas explícitas de plural nos verbos em função dos traços acento e diferenciação material fônica da variável saliência fônica Naro (1981) Fatores

Classes

Anjos (1999)

Presença/Frequência/% Pesos

Presença/Frequência/%

Pesos

Acento A Não acentuada

972/3568 = 27,2%

0,22

851/1092 = 44%

0,36

B

2030/2742 = 74,0%

0,78

802/1091 = 74%

0,74

Acentuada

Diferenciação Material A

Menor

714/1682 = 42,4%

0,35

363/797 = 46%

0,35

B

Maior

1029/2905 = 35,4%

0,54

714/1402 = 51%

0,55

C

Completa

1259/1723 = 73,1%

0,62

576/835 = 69%

0,57

Pode-se observar que, da mesma forma que Naro, neste estudo também fica constatada a influência da classe acentuada e de uma maior diferenciação material entre as formas do singular e plural para a presença da variante explícita de concordância. Os pesos relativos de ambos os estudos seguem uma ordem crescente, deixando mais clara a oposição entre as classes morfológicas acentuadas e não acentuadas (0,22/0,78; 0,36/0,74) e com uma menor, maior ou completa diferenciação material (Naro [0,35/0,54/0,62]) (Anjos [0,35/0,55/0,57]). Nos resultados de Anjos (1999), a diferença, com relação ao fator acento é de 0,38, mostrando como estão separadas essas duas classes. No tocante ao segundo fator, a diferença entre as classes com menor e maior diferenciação material fônica é de 0,20, entre as classes com maior e completa diferenciação é de apenas 0,02, e entre as classes com menor e completa diferenciação é de 0,22. Comparando os resultados dos dois estudos, vê-se que as diferenças não foram muito grandes, na verdade, chegaram a coincidir, como no caso da menor diferenciação material (0,35 em ambos), ou ficar muito próximas, como no caso das classes acentuadas (0,78/0,74 – Naro [1981] e Anjos [1999], respectivamente). No geral, os resultados apresentam a mesma oposição da qual se vinha falando, ou seja, as formas verbais mais foneticamente salientes e que se enquadram no nível da oposição acentuada, apresentando também uma maior


75

diferenciação material, mostram um alto índice de retenção de plural na relação verbo-sujeito de 3ª pessoa. Embora haja altos e baixos na hierarquia da saliência, nos resultados deste trabalho, a oposição acentuada/ não acentuada, menos saliente/ mais saliente é mantida, corroborando os estudos nos quais esta análise se baseou (Naro & Lemle, 1976; Naro, 1981; Guy, 1981, 1986; Scherre & Naro, 1997, entre outros). A fim de demonstrar a atuação da escolaridade sobre esses dois fatores, decidiu-se fazer uma última rodada que será a apresentada a seguir.


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Tabela 6 Marcas explícitas de plural nos verbos em função dos traços acento e diferenciação material fônica por anos de escolarização Anos de escolarização Traços

Nenhum ano

1 a 4 anos

5 a 8 anos

9 a 11 anos

Mais de 11 anos

Presença/Freq./%Pesos

Presença/Freq./%Pesos

Presença/Freq./%Pesos

Presença/Freq./%Pesos

Presença/Freq./%Pesos

36/290 = 12%

94/390 = 24%

144/357 = 40%

260/423 = 61%

297/424 = 70%

0,28

0,36

0,30

0,36

0,43

105/177 = 59%

107/184 = 58%

174/226 = 77%

179/215 = 83%

212/253 = 84%

0,82

0,76

0,79

0,76

0,61

141/467 = 30%

201/574 = 35%

318/583 = 55%

439/638 = 69%

509/677 = 75%

25/104 = 24%

48/184 = 26%

38/110 = 35%

100/165 = 61%

144/205 = 70%

0,38

0,37

0,23

0,39

0,39

41/212 = 19%

79/252 = 31%

155/290 = 53%

202/300 = 67%

216/301 = 72%

0,44

0,55

0,61

0,58

0,50

75/151 = 50%

74/138 = 54%

125/183 = 68%

137/173 = 79%

149/171 = 87%

Completa

0,66

0,58

0,51

0,47

0,64

Total de dados

141/467 = 30%

201/574 = 35%

318/583 = 55%

439/638 = 69%

509/677 = 75%

Acento Não acentuada Acentuada

Total de dados Diferenciação Material Menor Maior


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Os resultados mostram que as oposições se mantêm: com relação ao acento, as formas acentuadas não chegam a 0,50, enquanto as formas não acentuadas ultrapassam em muito esse peso relativo, em todos os níveis de escolaridade. Na diferenciação material fônica, os resultados seguem a mesma linha, já vista na Tabela 5 (p.74), ou seja, as diferenças não são muito grandes, mas as oposições se mantêm. A classe com maior diferenciação fônica apresenta os maiores índices de concordância, enquanto a classe com menor diferenciação apresenta os menores índices. Vale observar que, entre os falantes com 5 a 8 anos e 9 a 11 anos, percebe-se uma inversão entre as classes com maior e completa diferenciação material fônica (0,61/0,51 e 0,58/0,47), mas que não influi nos resultados gerais, pois as diferenças são de 0,10 para os falantes com 5 a 8 anos de escolarização e de 0,11 para aqueles com 9 a 11 anos. Dessa forma, o estudo da concordância na comunidade pessoense, no tocante aos traços acento e diferenciação material fônica, corrobora aos resultados obtidos por Naro (1981), ou seja, as formas acentuadas e com maior ou completa diferenciação fônica elevam o índice de concordância verbal, ao contrário das formas não acentuadas e com uma menor diferenciação.

1.1.2 Paralelismo Linguístico O paralelismo linguístico foi atestado primeiramente por Poplack (1980), em seu estudo sobre o ( s ) no espanhol de Porto Rico e de porto-riquenhos residentes na Filadélfia (EUA). Nesse estudo, a autora observa o enfraquecimento e cancelamento do ( s ). Ela constata que a manutenção da variante explícita de plural é favorecida pelo determinante, elemento que ocupa usualmente a primeira posição da frase, e esta, por sua vez, mostra-se mais conservadora da marca de plural. Poplack (1980: 63), ao estudar o espanhol de Porto Rico, também constata que uma marcador conduz a outro mais, e o cancelamento de um marcador conduz a outro cancelamento. Essa autora afirma que: “a presença de uma marca de plural antes de um token favorece a retenção de marca neste token, enquanto a ausência de uma marca precedente favorece o apagamento. O efeito maior é produzido quando uma precede imediatamente o token (...)”20 20

“Presence of a plural marker before the token favors marker retention on that token, whereas absence of a preceding marker favors deletion. The greatest effect is produced when a marker immediately precedes the token (…)”


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Segundo Labov (1994: 556), o estudo de Poplack sobre o espanhol de Porto Rico, na Filadélfia, mostrou um poderoso e consistente efeito de concordância. Neste estudo ela constatou que um zero precedente leva a um zero seguinte, e um /s/ precedente a um /s/ seguinte. Poplack (1980: 66-7) afirma que “os resultados desse estudo, além disso, indicam que os problemas causados por essas restrições em competição, no apagamento do (s) não podem ser resolvidos conclusivamente pelo exame do sintagma nominal. A resposta para essa questão pode estar em outras áreas da estrutura linguística, tais como o sintagma verbal. Um estudo funcional da variabilidade no marcador verbal nos permitiria obter conclusões mais claras, acerca do apagamento e da desambiguação, no espanhol de Porto Rico.” Fenômeno comparável, no sistema verbal do Português, foi estudado por Scherre & Naro (1991). Construções que envolvem concordância verbal, nominal e com o predicativo foram amplamente estudadas, visto que apresentam variação na fala. Quando se processa a repetição das variantes (zero ou explícita) da variável dependente dessas construções, tem-se a presença de um fator restritivo, que há muito tempo vem sendo usado na análise de fenômenos linguísticos, em várias línguas. De acordo com Scherre (1998: 30), esse fator restritivo, ou variável independente, “ocorre entre as cláusulas (plano discursivo), no interior da oração (plano oracional), no interior do sintagma (plano sintagmático), entre palavras e no interior da palavra (plano da palavra).” Ainda segundo Scherre (1998: 30), “recebendo denominações diferenciadas dentro da literatura variacionista, ela é hoje bastante conhecida como paralelismo linguístico (...). Embora essa variável tenha um efeito uniforme e geral – candidata à universal de uso e processamento linguístico (cf. Scherre & Naro, 1991) –, sua interpretação ainda é bastante diversificada.”

Scherre & Naro (1991: 23), ao estudarem o efeito do paralelismo sobre os sistemas de concordância no PB, afirmam que este fenômeno está em contradição direta com o princípio da economia linguística, visto que marcas tendem a ocorrer precisamente naqueles contextos em que são altamente mais redundantes, e por


79

isso, podem ser descartadas sem perda de informação. Além disso, as marcas sucessivas de ocorrências em série não podem ser consideradas estatisticamente eventos independentes, visto que a presença de marcas precedentes regula o efeito de marcas seguintes. Para Scherre (1988: 3), “Na concordância de número no português do Brasil, o funcionamento do paralelismo é particularmente interessante, porque, em algumas circunstâncias, tende-se a repetir variantes explícitas de plural – codificando mais o que é mais previsível – e tende-se a repetir variantes zero de plural – codificando menos o que é menos previsível. Todavia, na interpretação de fenômenos variáveis de concordância explícita – fenômenos de codificação redundante –, evocou-se sistematicamente (e ainda evoca-se) o princípio da economia, associado pelo senso comum à lei do menor esforço, com o objetivo de dar contas da variante zero plural – interpretada como falta de concordância.”

A seguir será discutido o efeito do paralelismo linguístico no plano oracional e no plano discursivo.

1.1.2.1 Paralelismo Discursivo Inicialmente foram classificados todos os casos de sujeito semanticamente plural de acordo como ambiente discursivo, ou seja, se a ocorrência verbal precedente e mais próxima, com o mesmo sujeito plural, fosse morfologicamente marcada ou não (cf. Scherre & Naro, 1991: 24). Foram separadas, por um lado, todas as construções seriadas, e, por outro, todas as construções isoladas. Para a codificação, a série (ou sequência) foi definida de acordo com dois critérios: a construção analisada deveria ter o sujeito com a mesma referência que o sujeito da construção anterior e não deveria estar separada desta construção por mais de 10 cláusulas, e nem pelo discurso do entrevistador (cf. Scherre & Naro, 1993: 8). Neste plano (discursivo), o verbo precedente, quando referente ao mesmo sujeito ou a um sujeito do mesmo campo semântico, e apresentando variante explícita, favorece a presença de verbo subseqüente igualmente marcado. Enquanto um verbo precedente com variante zero de plural favorece a presença de zero no verbo seguinte.


80

Com o objetivo de observar se a presença de um SV anterior marcado conduz à presença de marca no SV seguinte, a variável foi dividida em seis fatores: 1. SV isolado Ex.: “O que pudesse fazer pelas pessoa que precisasse eu fazia.” (SMPS0faniq!&h)

2. Primeiro SV de uma série Ex.: “Eles ficavam lá os dois, mas nunca se falaru assim.” (JRM-1fvna#o{?h) 3. SV precedido de outro marcado no discurso do documentador Ex.:

Entrevistador: “Você acha que as mulheres devem trabalhar fora?” Informante: “Acho que deve trabalhar fora.” (SMPS-0fand9o[&h)

4. SV precedido de outro marcado no discurso do informante Ex.: “Então essas pessoas me conhecem, também acham que eu sou uma católica.” (PAM-fjud7o+$h) 5. SV precedido de outro não-marcado no discurso do documentador Ex.:

Entrevistador: “Você acha que as pessoas do Rio, São Paulo fala

diferente de você?” Informante: “Fala, fala muito diferente.” 6. SV precedido de outro não-marcado no discurso do informante Ex.: “(...) têm outros que fala demais e num diz nada que se aproveite.

Apresentação dos resultados O paralelismo discursivo foi a terceira variável selecionada como significativa para a análise e seus resultados revelaram que formas verbais anteriormente marcadas favorecem a presença de marcas no verbo seguinte. Na rodada inicial, os resultados percentuais mostraram que, á semelhança de Scherre & Naro (1993: 8-12), neste estudo, a concordância verbal é favorecida pelos fatores SV precedido de outro SV marcado tanto no discurso do informante como no


81

discurso do documentador, enquanto as formas não marcadas nos discursos do informante e do documentador desfavorecem a concordância. Depois de várias rodadas, chegou-se aos seguintes resultados com todos os fatores da variável paralelismo discursivo: Tabela 7 Influência do paralelismo discursivo sobre a presença da variante explícita de plural na concordância verbal ( I ) Fatores SV precedido de outro marcado no discurso do informante SV precedido de outro marcado no discurso do documentador SV precedido de outro não marcado no discurso do informante SV precedido de outro não marcado no discurso do documentador SV isolado Primeiro SV de uma série Total de dados

Presença/ Frequência/ %

Pesos

588/787 = 75%

0,64

10/17 = 59%

0,71

131/546 = 24%

0,22

2/4 = 50%

0,60

528/1026 = 51%

0,50

394/654 = 60%

0,58

1653/3034 = 54%

Conforme a Tabela 7, os resultados demonstram, de forma geral, que marcas conduzem a marcas e zeros conduzem a zeros, pois os verbos que apresentam formas verbais anteriores marcadas tendem a reter a marca (0,64 e 0,71), enquanto aqueles que apresentam a variante zero como forma anterior, tendem a eliminar a marca de plural (0,22). Os fatores SV isolado e primeiro de uma série mostraram-se com efeito intermediário, aproximando-se, relativamente, mais das formas favorecedoras, especialmente o fator primeiro de uma série. O resultado referente ao fator SV precedido de outro não marcado no discurso do documentador fugiu às expectativas, mas esse resultado inesperado não tem qualquer significado estatístico. Sendo assim, os resultados favoráveis ao uso da marca de plural (0,64 e 0,71) se opõem àqueles que desfavorecem este mesmo uso (0,22).


82

O SV isolado e o primeiro de uma série, embora se aproximem mais do resultado das formas marcadas apresentam um efeito intermediário, especialmente, o SV isolado. Já o caso de SV não marcado no discurso do documentador, ao contrário do que se esperava, apresentou um alto índice de concordância (0,60), porém, neste caso, não se pode ignorar o pequeno número de dados, apenas quatro, que pode ter influenciado no resultado final. Com esses resultados, vê-se que esta variável não envolve só a repetição de formas com marcas, mas também a repetição das formas zero. Ainda, vê-se que os verbos precedidos de outros anteriormente marcados tendem a ser muito mais marcados do que aqueles que são precedidos de formas não marcadas. Buscando comparar os resultados deste estudo com os de Scherre & Naro (1993: 10), decidiu-se amalgamar os fatores referentes às formas marcadas em único grupo, e as formas não marcadas em outro, e também as formas de SV isolado com as formas primeiras de uma série por ficarem entre os dois extremos. Dessa forma, tem-se: Comparando os resultados acima com os de Scherre & Naro (1993: 10), temse a seguinte tabela: Tabela 9 Influência do paralelismo discursivo sobre a presença da variante explícita de plural na concordância verbal Resultados comparativos (Scherre & Naro, 1993 e Anjos, 1999) Scherre & Naro (1993) Fatores SV precedido de outro marcado no discurso do informante e do documentador SV precedido de outro não-marcado no discurso do informante e do documentador SV isolado ou primeiro de uma série Total de dados

Presença/Frequência/%

Anjos (1999)

Pesos

Presença/Frequência/%

Pesos

1553/1840 = 84%

0,66

598/804 = 74%

0,64

234/648 = 36%

0,18

133/550 = 24%

0,22

1579/2128 = 74%

0,48

922/1680 = 55%

0,53

3366/4616 = 73%

1653/3034 = 54%


83

Os resultados de cada pesquisa mostram que a diferença nos intervalos entre as formas marcadas e não marcadas é, para Scherre e Naro de 0,48, e para Anjos de 0,42, diferença de apenas 0,06, mostrando de forma clara, nos dois estudos, a oposição entre essas duas formas. Dessa forma, os resultados probabilísticos obtidos, na análise do paralelismo discursivo, muito se aproximam dos já obtidos por Scherre & Naro (1993: 11), ratificando a correlação entre o surgimento de um verbo marcado e a presença de marcas explícitas no verbo seguinte. Os resultados confirmam ainda que o surgimento de um verbo não marcado provoca a ausência de marca explícita na forma verbal seguinte (0,18/0,22). Ao contrário desses casos, a presença de um verbo isolado ou primeiro de uma série não apresenta muita influência sobre a presença ou não de marcas explícitas de concordância, pois, neste caso, o peso relativo obtido por Scherre e Naro ficou abaixo do ponto neutro (0,48), e em Anjos ficou um pouco acima (0,53), posicionado-se entre os dois extremos. Neste caso, a diferença, em Scherre & Naro (1993), entre as formas isoladas e primeiras de uma série (0,48) e as formas marcadas do SV (0,66) é de 0,18 e em Anjos (0,53) e (0,64) é de 0,11. Isso mostra como os resultados se assemelham, apresentando pequenas diferenças probabilísticas. Mostra também como essas formas estão mais próximas daquelas anteriormente marcadas. Vale observar que, primeiro, a amostra utilizada por Scherre e Naro não inclui falantes com nenhum ano ou com mais de 11 anos de escolarização, segundo, entre os dois estudos há uma diferença grande no número de dados, encontrada, principalmente, no fator que inclui as formas marcadas no discurso do informante e do documentador. Mesmo com essas diferenças, os resultados estão muito próximos, mostrando que, nos estudos em questão, independente da localidade e do corpus pesquisado, o princípio do paralelismo de que marcas levam a marcas e zeros levam a zeros é confirmado, evidenciando-se, como afirmam Scherre & Naro (1993: 11), a tendência de formas gramaticais particulares ocorrerem juntas. Nas rodadas por anos de escolarização os resultados não se alteraram: o fator que inclui as formas marcadas apresentou-se como mais favorável à presença da marca de concordância do que aquele referente às formas não marcadas. As formas isoladas ou primeiras de uma série permaneceram no ponto intermediário


84

entre as outras duas, sempre próximas a 0,50, com exceção do resultado referente aos falantes com nenhum ano de escolarização, no qual alcançaram 0,60 de peso relativo, mostrando-se neutras com relação ao fenômeno da concordância verbal. Veja-se Tabela 10 a seguir.


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Tabela 10 Influência do paralelismo discursivo sobre a presença da variante explícita de plural na concordância verbal por anos de escolarização

Anos de escolarização Fatores

SV precedido de outro marcado no discurso do informante e do documentador

SV precedido de outro não marcado no discurso do informante e do documentador SV isolado ou primeiro de uma série Total de dados

Nenhum ano

1 a 4 anos

5 a 8 anos

9 a 11 anos

Mais de 11 anos

Presença/Frequência/%

Presença/Frequência/%

Presença/Frequência/%

Presença/Frequência/%

Presença/Frequência/%

Pesos

Pesos

Pesos

Pesos

Pesos

31/59 = 53%

0,66

54/88 = 61%

0,74

103/143 = 72%

0,60

184/232 = 79%

12/120 = 10%

0,21

33/164 = 20%

0,34

31/105 = 30%

0,27

27/76 = 36%

98/288 = 34%

0,60

114/322 = 35%

0,51

184/335 = 55%

0,53

228/330 = 69%

141/467 = 30%

201/574 = 35%

318/583 = 55%

0,58

0,19

0,53

439/638 = 69%

203/247 = 82%

27/63 = 43%

279/367 = 76%

0,57

0,18

0,52

509/677 = 75%


86

1.1.2.2 Paralelismo Oracional De acordo com Scherre & Naro (1991: 28, 1993: 4-5), partindo do princípio de que formas gramaticais tendem a ocorrer juntas, espera-se que um sujeito com marcas explícitas de plural influencie a presença de marcas explícitas no verbo e, inversamente, espera-se que um sujeito com as últimas marcas apresentando zero de plural favoreça a um verbo com marca zero de plural. Com essa variável objetiva-se verificar se a presença de marcas explícitas de plural no SN sujeito conduz a presença de marcas de plural no SV, tendo como base o princípio geral do paralelismo de que marcas levam a marcas e zeros levam a zeros. Os fatores dessa variável estão assim distribuídos: 1 Sujeito com a última marca sem sprep Ex.: “(...) no dia que elas sairu, não quiseru nem vim se despedir de mim (...)”. (GPS – 3gf)

2 Sujeito sem nenhuma marca sem sprep Ex.: “Telê Santana e Raí ficaram quatro anos juntos no São Paulo.” (HBC-1sm) “a dificuldade são porque eu (inint) por causa da minha idade.” (IFS – 3gf) 3 Sujeito sem a(s) última(s) marca(s) sem sprep Ex.: “Os filho0 sai de noite, só chega de manhã.” (MLS – 1nf) 4 Sujeito com a última marca neutralizada sem sprep Ex.: “Os objetivos são estes mesmos.” (AAM – 3uf) 5 Sujeito com a última marca com sprep Ex.: “Gosto de todos os tipos de músicas que me envolvam (...)” (MVSC-1m) 6 Sujeito sem nenhuma marca com sprep Ex.: “Tanto a mãe de Giuliano como Gisele se lembra muito.” (GPS – 3gf) 7 Sujeito sem a(s) última(s) marca(s) com sprep Ex.: “As pessoa0 do auditório pede faz um pedido a eles.” (IMS – 2nf) 8 Sujeito com a última marca neutralizada com sprep Nenhum caso encontrado no corpus 9 Presença de numeral no último elemento


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Ex.: “Eles dois foru pra um canto muito deserto.” (IMS – 2nf)

Apresentação de resultados O Paralelismo oracional foi a quarta variável selecionada como significativa para a análise, e seus resultados revelaram que a presença de marcas no sujeito conduz à presença de marcas no verbo. A constatação desse fato veio confirmar o princípio do paralelismo linguístico, já mencionado. Vale relembrar que trabalhou-se apenas com construções que apresentassem sujeito formalmente plural, ou seja, todos os SNs sujeitos deveriam ter uma marca formal de plural, exceto os casos de numeral ou neutralização, que foram devidamente controlados. Os casos de orações complexas com sintagma preposicional encaixado e aqueles em que o sujeito não apresentasse qualquer marca (casos de sujeito coletivo ou alguns compostos) também foram controlados. Na primeira rodada, com todos os fatores, os resultados percentuais atuaram no sentido de favorecer a concordância verbal. Os sujeitos com marcas elevaram a presença de marcas no verbo, ao contrário das formas nominais não marcadas. Para executar então o VARB2000 foram necessárias a retirada e a amalgamação de alguns fatores, mas isto em nenhum momento prejudicou os resultados. Ver a Tabela 11 abaixo. Tabela 11 Influência do paralelismo oracional sobre a presença da variante explícita de plural na concordância verbal ( I ) Fatores

Presença de variante explícita/Frequência/%

Pesos

Sujeito com a(s) última(s) marca(s) com ou sem sprep

970/1643 = 59%

0,53

Sujeito sem a(s) última(s) marca(s) com ou sem sprep

136/429 = 32%

0,26

Presença de numeral no último elemento do SN

6/18 = 33%

0,18

174/206 = 84%

0,79

Sujeito com a última marca neutralizada sem sprep Total de dados

1286/2296 = 56%


88

Observa-se nos resultados acima que o sujeito com a(s) última(s) marca(s) como ou sem sintagma preposicional (0,53) supera, em termos probabilísticos, o sujeito sem a(s) última(s) marca(s) com ou sem sintagma preposicional (0,26), com uma diferença de 0,27. O sujeito que apresenta um numeral como último elemento obteve um peso relativo muito baixo (0,18), em relação aos outros fatores. Além de serem poucos dados, apenas 18, o uso de marca explícita ficou aquém do que se esperava, mostrando que, neste estudo, a presença de numeral no SN sujeito, pelo menos como último elemento, não favorece a concordância verbal. Ao contrário deste, o fator que inclui formas neutralizadas no último elemento sem sintagma preposicional foi o que mais favoreceu a concordância (0,79), visto que ocorreu mais frequentemente com o verbo ser, em casos como eles são, que apresentaram um índice probabilístico de concordância muito alto, podendo ter influenciado no peso relativo da saliência fônica. No futuro, um estudo de difusão lexical talvez possa explicar esse caso. Tendo as formas neutralizadas apresentado tão alta probabilidade de concordância, decidiu-se amalgamá-las com as formas marcadas no último elemento, para assim detectar qualquer alteração nos dados que pudesse interferir na probabilidade de concordância. Desta forma, na rodada final os dados, depois das alterações realizadas, apresentaram os seguintes resultados: Tabela 12 Influência do paralelismo oracional sobre a presença da variante explícita de plural na concordância verbal ( II ) Fatores

Presença de variante explícita/Frequência/%

Sujeito com a(s) última(s) marca(s) com ou sem Sprep Sujeito sem a(s) última(s) marca(s) com ou com ou sem Sprep

1144/1849 = 62%

Presença de numeral no último elemento Total de dados

136/429 = 32% 6/18 = 33%

Pesos

0,56 0,27 0,19

1286/2296 = 56%

Após amalgamar os fatores de acordo com a presença ou ausência de marcas nos últimos elementos, obteve-se um resultado mais consistente e de forma a explicitar o princípio de que formas gramaticais particulares tendem a ocorrer juntas, ou seja, a possibilidade de um sujeito com marcas explícitas de plural


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influenciar a presença de marcas explícitas no verbo, ou ao contrário, um sujeito com marca zero de plural explícito influenciar a presença de marca zero de plural em seu verbo correspondente. (cf. Scherre & Naro, 1993: 4) Como os resultados mostram, os sujeitos com a(s) marca(s) com ou sem sprep (0,56) favorecem a forma marcada de concordância, ao contrário das formas não marcadas no(s) último(s) elemento(s) com ou sem sprep que desfavorecem-na. Os casos de sujeito com presença de numeral no último elemento (0,18) apresentaram-se estatisticamente em um ponto intermediário entre o primeiro e o segundo. O caso do sujeito sem a última marca com sprep (0,27) mostra que a ausência de marca, onde deveria existir, conduz à não concordância. Com relação às rodadas por escolarização, em todas as faixas de escolaridade, as formas nominais marcadas se sobressaíram às formas não marcadas, no uso da marca de concordância. Nestas rodadas, os sujeitos constituídos no último elemento por um numeral, foram retirados, restando apenas a oposição formas marcadas/formas não marcadas. Com isso, pretendia-se observar apenas a atuação destas duas formas, e assim obter um resultado final que demonstrasse o uso da concordância verbo-sujeito favorecida pela presença de –s no(s) último(s) elemento(s) do SN, quer inserido em um sintagma preposicional quer não.

Tabela 13 Influência do paralelismo oracional sobre a presença da variante explícita de plural na concordância verbal por anos de escolarização Fatores

Anos de escolarização


90 Nenhum ano

1 a 4 anos

5 a 8 anos

9 a 11 anos

Mais de 11 anos

Presença de variante explícita/ Frequência/%/Pesos Sujeito com a(s) última(s) marca(s) com e sem Sprep Sujeito sem a(s) última(s) marca(s) com e sem Sprep Total dos dados

91/238 = 38% 0,60

139/346=40% 0,56

225/367=61% 0,57

324/428=76% 0,56

364/470=77% 0,51

25/131 = 19% 0,33

26/106 = 25% 0,32

34/95 = 36% 0,25

28/65 = 43% 0,18

25/39 = 64% 0,35

116/369=31%

165/452=37%

259/462=56%

352/493=71%

389/509=76%

Estes resultados não ficam muito distantes dos obtidos por Scherre & Naro (1993), salvo as amalgamações e o baixo índice de concordância envolvendo os numerais. Nesse estudo sobre as duas dimensões do paralelismo formal na CV no português popular do Brasil, os autores obtêm os seguintes resultados: presença de –s no último elemento não sprep (0,56), presença de zero no último elemento não sprep (0,17), presença de –s no último elemento do sprep (0,61), presença de zero no último elemento do sprep (0,24), presença de numeral no último elemento (0,34) e presença de neutralização no último elemento (0,58). De acordo com esses resultados, a concordância no verbo é favorecida pela presença de marca no último elemento do SN com ou sem sprep (0,56/0,61), enquanto as formas não marcadas do SN desfavorecem a concordância (0,17/0,24). As formas que incluem numerais ficam em uma posição intermediária entre os mais e os menos marcados (0,34). As formas neutralizadas (0,58) têm um efeito semelhante às formas precedentes marcadas. Portanto, os resultados de Anjos (1999), à semelhança dos obtidos por Scherre & Naro (1993), confirmam o princípio do paralelismo linguístico de que marcas conduzem a marcas e zeros conduzem a zeros.

1.1.3 Presença, posição e distância do sujeito Naro & Scherre (no prelo) apontam diversas características importantes com relação à explicitação e localização do sujeito da oração. Segundo eles, é fundamental, primeiramente, saber se o sujeito está ou não explícito. Se estiver


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explícito, precisa-se saber se está anteposto ou posposto ao verbo. Caso esteja anteposto, precisa-se verificar a que distância ele se encontra do verbo. Naro & Lemle (1976: 260) incluem a variável posição e distância do sujeito em seu estudo, distinguindo os sujeitos em posição pré-verbal, os sujeitos em posição pós-verbal e aqueles que se encontram distantes ou apagados. Para eles, a concordância é muito mais provável quando o sujeito precede o seu respectivo verbo, do que quando vem depois dele, ademais, quando o sujeito está apagado ou distante a concordância é mais provável. Naro (1981: 67-8), ao estudar a concordância sujeito-verbo no falar do português do Brasil, utiliza, na categoria posicional, quatro tipos de sujeito: o sujeito imediatamente anteposto, sujeito anteposto e distante, sujeito posposto e o sujeito apagado. Ele observa que: “a perda de concordância é mais saliente quando o sujeito plural ocorre imediatamente antes do seu verbo correspondente, do que quando é separado deste por elementos intervenientes (advérbios, orações relativas, etc.) que separam física e temporariamente o verbo plural determinado do sujeito plural determinante. Igualmente menos saliente é o caso em que o sujeito segue o verbo.”21

Naro aponta ainda que esta categoria posicional foi guiada pela mesma noção central de saliência usada na categoria morfológica, contudo, nessa categoria, o tipo de saliência não será oposicional, pois dependerá da posição relativa do sujeito. Guy (1986: 39), com relação à posição do sujeito na oração, aponta, assim como Naro, o sujeito imediatamente anteposto como o mais favorecedor da concordância, enquanto o sujeito posposto mostra uma queda substancial no emprego da concordância. Para Guy, casos de sujeito apagado ou extra-sentencial apresentam alta taxa de concordância, mas também apresentam problemas funcionais e metodológicos, pois como se o sujeito é plural ou não, se ele não está determinado? A respeito do sujeito posposto, Peres & Móia (1995: 452) afirmam que no português são bastante freqüentes as ocorrências de inversão da ordem SV (sujeito/verbo) e que esta “posição atípica tende por vezes a originar o não 21

“lack of agreement is more salient when the plural subject occurs immediately preposed to the corresponding verb than when it is separated from the verb by intervening elements (adverbs, relative clauses, etc.) which phycically and temporally separate the dependent plural verb from the determining plural subject. Even less salient is the case in which the subject follows the verb.


92

reconhecimento da sua função sintática, que se traduz na ausência da concordância imposta pela sintaxe.” Tendo também em vista que a presença de qualquer material fônico interveniente entre o sujeito e o verbo pode condicionar a presença da marca de concordância, deseja-se verificar se uma maior proximidade entre o sujeito e o verbo provoca maior índice de concordância. Com base nisto, propõe-se o seguinte grupo de fatores: 1. Sujeito imediatamente anteposto ao verbo Ex.: “Elas veio perguntar uma coisa a mim (...)” (EFS – 1pf) 2. Sujeito anteposto separado do verbo por 1 a 4 sílabas Ex.: “Meus filho sempre diz: ‘ – A senhora diz isso’ (...)” (TOS – 3pf) 3. Sujeito anteposto separado do verbo por 5 sílabas Ex.: “Uns policiais (hesitação) sincero, que saiba trabalhar (...).” (JPS – 2pf) 4. Sujeito anteposto separado do verbo por mais de 5 sílabas Ex.: “(...) eles, como é que se diz, puxam muito pela criança.” (IFS – 3gf) 5. Sujeito especial, inesperado Ex.: “É umas histórias séria, né? Tem uns negócio feio.” (MLS – 1nf) “(...) ele começaru a começar esse negócio de funk.” (MJS – 3nf) 6. Sujeito posposto Ex.: “Eu tava cuidando da minha janta, aí chegou ah menina do colégio.” (EFS – 1pf)

7. Sujeito oculto próximo (separado do verbo por um raio de dez cláusulas sem interrupção pelo entrevistador) Ex.: “Eles não vão- não vão resolver só em prender, não vão resolver.” (TOS – 3pf)

8. Sujeito oculto distante (separado do verbo por um raio de dez cláusulas ou mais com interrupção do entrevistador) Ex.: Informante: “Você arrume um trabalho pra suas irmã. Que elah vão trabalhar, de lá vão pra o- pro colejo e eu vou buscar à noite, de dez hora eu to no colejo (inint) num quero nem saber.” Entrevistador: “Muito bem!”


93

Informante: “Agora, eu quero que vão trabalhar, estudar pra poder me ajudar (...)” (NPL – 2pm) 9. Sujeito oculto na fala do entrevistador Ex.:

Entrevistador: “Você acha que as mulheres devem trabalhar fora?” Informante: “Acho que deve trabalhar fora.”

Apresentação dos resultados Presença, posição e distância do sujeito foi a quinta variável selecionada. Seus resultados confirmaram a hipótese de que a posição do SN sujeito mais à esquerda do verbo favorece a concordância verbal, ao contrário da posição à direita (posposta) que favorece o cancelamento. Os resultados iniciais mostraram uma maior percentagem de presença explícita de concordância entre as formas mais próximas e antepostas ao verbo. O sujeito oculto distante também obteve um percentual alto de concordância, pois a ausência de um sujeito explícito favorece a flexão verbal, já que esta seria a única forma de indicar a pessoa verbal. Para uma primeira rodada com o VARB2000, decidiu-se retirar os casos de sujeito especial e inesperado da variável posição, pois, mesmo apresentando um alto percentual de concordância (da ordem de 67%), nas rodadas iniciais, registraram, na última rodada com o programa MAKE3000, um número de 30 aplicações para um total de 39 casos de concordância, o que equivale a 77%, só que apresentaram knockout e foi necessária a sua retirada para que pudesse ser feita a última rodada com o VARB2000. Dessa forma, esse fator merecerá um estudo à parte, que poderá ser realizado posteriormente. Assim, na Tabela 14 a seguir, tem-se os resultados referentes a essa variável, com a exclusão do fator referente aos casos inesperados.

Tabela 14 Marcas explícitas de plural nos verbos em função da variável presença, posição e distância do sujeito em relação ao verbo Fatores

Presença de variante explícita/Frequência/%

Pesos

Sujeito imediatamente anteposto ao verbo Sujeito anteposto separado do verbo por 1

747/1310 = 57% 510/936 = 54%

0,53 0,53


94 a 4 sílabas Sujeito anteposto separado do verbo por 5 sílabas Sujeito anteposto separado do verbo por mais de 5 sílabas Sujeito posposto Sujeito oculto próximo Sujeito oculto distante Sujeito oculto na fala do documentador Total dos dados

18/30 = 60%

0,52

14/26 = 54%

0,45

48/195 = 25% 277/460 = 60% 16/20 = 80% 23/57 = 40% 1653/3034 = 54%

0,19 0,53 0,67 0,37

Conforme os resultados acima, as formas nominais imediatamente antepostas e separadas por 1 a 4 sílabas apresentam os mesmos pesos (0,53); as formas separadas por 5 sílabas apresentam um peso relativo praticamente igual as duas primeiras (0,52), ao contrário destas, aquelas formas separadas por mais de 5 sílabas apresentam um peso de 0,45, mostrando que são menos influentes para preservação da marca de concordância. Quanto às formas ocultas, a que favorece mais a concordância é a que se refere ao sujeito oculto distante (0,67). O sujeito oculto próximo apresentou um resultado equivalente (0,53) aos dois primeiros fatores já citados, enquanto o sujeito oculto com referência na fala do documentador obteve um peso muito baixo (0,37). Esses dados revelam uma tendência, já apontada em outros estudos, de as formas nominais mais à esquerda do verbo favorecerem a retenção da marca de concordância, ao contrário das formas na posição mais à direita. Já foi constatado também em outros estudos (Guy, 1986: 39-40; Rodrigues, 1992: 161; Scherre & Naro, 1997: 102-3, etc.) que o sujeito apagado ou oculto favorece a marca de concordância, e, no caso do uso marcado da concordância ter sido maior entre as formas de sujeito oculto mais distante, explica-se, pelo fato de esta forma conter em sua flexão a única informação de plural no sintagma, visto que o seu respectivo sujeito está ausente. Já o terceiro tipo de sujeito oculto (oculto na fala do entrevistador) apresentou um resultado diferente do que se esperava, ficando em um ponto muito abaixo dos outros sujeitos ocultos, possivelmente pelo fato desse tipo de sujeito ter sua referência na fala do documentador e assim dificultar a recuperabilidade da informação. Scherre & Naro (1997: 102), ao analisarem em seus dados esse tipo de sujeito, constatam que:


95 “o fator sujeito zero próximo desfavorece a variante explícita enquanto o fator sujeito zero distante a favorece (...). Neste caso, entra em jogo a recuperabilidade da informação: o zero próximo, e não o zero distante, presumivelmente contém a informação de plural mais facilmente recuperável. E, consoante com o princípio da economia linguística nos termos de Haiman (1983, p. 802), codificase menos a informação mais previsível e codifica-se mais a menos previsível.”

Rodrigues (1992: 158-9), em seu estudo sobre a concordância verbal no português popular de São Paulo, afirma que “se o sujeito não se encontra na frase, a desinência verbal não é redundante, e as relações entre o verbo e o seu sujeito extra-sentencial só podem ser estabelecidas por meio da concordância.” A autora diz ainda que é possível formular a hipótese de que o sujeito oculto favorece o uso de formas verbais marcadas, ou a presença da marca de concordância padrão de concordância; por outro lado, as formas verbais não marcadas devem ser, preferentemente, usadas com sujeito pronominal explícito. A fim de obter resultados mais comparáveis aos de Scherre & Naro (1997), realizou-se a amalgamação dos seguintes fatores: sujeito anteposto separado do verbo por 1 a 4 sílabas e sujeito anteposto separado do verbo por 5 sílabas, cujos pesos relativos eram praticamente os mesmos. Com isto, a escala de saliência posicional ficaria mais nítida e a oposição entre as formas mais próximas e as mais distantes do verbo mais visível (ver Tabela 15 abaixo).

Tabela 15 Marcas explícitas de plural nos verbos em função da variável presença, posição e distância do sujeito em relação ao verbo Resultados comparativos (Scherre & Naro, 1997 e Anjos, 1999)


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Fatores Sujeito imediatamente anteposto ao verbo Sujeito anteposto separado do verbo por 1 a 5 sílabas Sujeito anteposto separado do verbo por mais de 5 sílabas Sujeito posposto ao verbo Sujeito oculto próximo Sujeito oculto distante Sujeito oculto na fala do documentador

Scherre & Naro (1997)22

Anjos (1999)

Presença/Freq./%

Pesos

Presença/Freq./%

Pesos

1529/1857 = 82%

0,62

747/1310 = 57%

0,53

756/1025 = 74%

0,55

528/966 = 55%

0,52

83/135 = 61%

0,39

14/26 = 54%

0,42

50/194 = 26% 731/1166 = 63% 220/255 = 86%

0,08 0,35 0,63

48/195 = 25% 277/460 = 60% 16/20 = 80%

0,18 0,53 0,68

23/57 = 40%

0,42

Os resultados mostram que os dois primeiros fatores dessa variável, coerentemente com os resultados obtidos por Scherre & Naro (1997: 102-3) e por outros estudos, atuam no sentido de que a posição mais à esquerda e mais próxima ao verbo favorece a ocorrência da forma explícita de concordância, enquanto a posição à direita desfavorece essa ocorrência. Os resultados referentes aos sujeitos zero também mostram uma certa uniformidade, da mesma forma que em Scherre & Naro (1997: 102-3). O fator correspondente ao sujeito zero próximo desfavorece a variante explícita, enquanto o sujeito zero distante a favorece. Por outro lado, o fator correspondente ao sujeito zero na fala do documentador (foi amalgamado com o sujeito oculto distante pelos citados autores) mostra-se menos favorável à presença da marca formal de concordância. De acordo com Guy (1986: 41), “quando um sujeito ocorre na posição relativamente rara pós-verbal, sua conexão com o verbo é acentuadamente obscurecida e, por isso, o desenvolvimento de concordância nesta posição seria desfavorecida.”23 Os resultados obtidos por Guy (1986: 39-40) apontam a posição do sujeito imediatamente anterior ao verbo como mais favorecedora da concordância verbal do que a posição posposta ou distante do verbo.

22

Scherre & Naro (1997) utilizam, para o segundo fator desta variável, a escala que separa o sujeito do verbo por 1 a 4 sílabas, também utilizam o fator referente ao sujeito oculto na fala do documentador, só que amalgamado com o sujeito oculto distante. 23 “(...) when a subject occurs in the relatively rare postverbal position, its connection with the verb is markedly obscured, and therefore development of agreement in this position would be disfavored.”


97

Mattos e Silva (1992: 96), ao trabalhar com dados do português arcaico do século XIII à XV, constata que a maior distância entre sujeito e verbo favorece a variação. Graciosa (1991: 80) também reconhece, em seus dados, o cancelamento da CV, devido ao posicionamento do sujeito à direita do verbo. De acordo com a autora, a posposição do sujeito a um verbo transitivo ou a um intransitivo (ordem SV) é uma das circunstâncias que desfavorecem a presença da marca de CV, pois quando deixa de ser o foco da informação, o sujeito perde a posição favorecedora da concordância, à esquerda, na cláusula. Com relação às rodadas por escolarização, fizeram-se algumas alterações: retiraram-se os sujeitos ocultos distante e na fala do documentador, e reuniram-se todos os fatores antepostos próximos e distantes do verbo em um único grupo. Permaneceu o sujeito posposto. Assim, a escala de posição ficou com três fatores que representam, de forma mais clara, os pontos mais e menos salientes da escala, e, por conseguinte, os que favorecem e os que desfavorecem a concordância verbosujeito. Na tabela 16 apresentam-se os resultados. Tabela 16 Marcas explícitas de plural nos verbos em função da variável presença, posição e distância do sujeito em relação ao verbo por anos de escolarização Anos de Escolarização Fatores

Nenhum ano

1 a 4 anos

5 a 8 anos

9 a 11 anos

Mais de 11 anos

Presença de variante explícita/ Frequência/ %/ Pesos Sujeito anteposto separado do verbo por zero ou mais sílabas Sujeito posposto Sujeito oculto próximo Total dos dados

116/371=31% 0,52 5/25 = 20% 0,20 21/74 = 28% 0,52 142/470=30%

165/452=37% 0,53

259/462=56% 0,54

352/493=71% 09,53

399/520=77% 0,52

14/64 = 22% 0,31

11/46 = 24% 0,12

11/40 = 27% 0,10

12/31 = 39% 0,22

25/65 = 38% 0,51 204/581=355

53/86 = 62% 0,55 323/594=54%

78/108 = 72% 0,55 441/641=69%

104/132=79% 0,51 515/683=75%

Primeiramente, deve-se dizer que, nas duas primeiras faixas de escolaridade, a variável posição foi eliminada pelo programa; já nas faixas seguintes (5 a 8 e 9 a 11 anos de escolarização), ela foi a última a ser selecionada, e na faixa de escolaridade dos falantes com mais de 11 anos de escolarização, foi a penúltima variável selecionada. O fato de esta variável ocupar as últimas posições, quando


98

não, ser descartada deve-se possivelmente à distribuição pouco equilibrada dos dados. Contudo, isso não interfere nos resultados, pois, nestas rodadas, da mesma forma que na rodada geral, os resultados não se alteraram: o primeiro e o terceiro fatores tiveram seus pesos relativos sempre muito próximos ao ponto neutro e com uma diferença d, no máximo 0,02; o segundo fator (sujeito posposto) apresentou-se com um peso muito abaixo dos outros (0,20; 0,31; 0,12;0,10;0,22), corroborando o que já foi dito, logo no início, sobre esta posição não ser favorável à concordância verbal. Em vista desses resultados, pode-se dizer que, seguindo a escala de saliência posicional, as formas mais favorecedoras da concordância verbal são a posição anteposta, por ser mais saliente ou distinguível; a proximidade do sujeito ao verbo, pela maior recuperabilidade da informação de plural, e o sujeito zero distante, por ser a maior distância do sujeito zero em relação ao verbo favorável à presença da marca explícita.

1.1.4 Animacidade Segundo Naro & Scherre (1999), além das duas saliências, a de posição e a de oposição singular e plural, consta também a saliência do traço humano, que diz respeito ao traço humano do núcleo do sujeito ou do sprep. Com relação ao núcleo do sujeito na língua falada, a forma plural é mais usada em construções do tipo “antigamente os pais eram muito mais rígidoØ, né?”, com sujeito de um só núcleo [+humano], do que em construções do tipo “porque agora as coisaØ é maiØ difici (...)”, com sujeito [-humano]. Como os próprios autores afirmam: traço [humano] desempenha um papel importante na concordância verbal. Na língua falada, sujeito [+humano] controla a concordância explícita de plural de forma mais acentuada do que sujeito com traço [humano]” (cf. Scherre & Naro, 1998: 48). O traço [+humano] não é observado por Scherre & Naro (1998:57) apenas na língua falada, mas também na escrita atual e no português antigo. Na língua escrita padrão, eles constatam que, se o sujeito for de estrutura simples (sem sintagma preposicional), não ocorre variação e o controle da concordância se dá em função do número gramatical expresso pelo sujeito. Já em estruturas complexas, verifica-se variação, exceto nos casos em que o sujeito apresenta o traço [+humano].


99

No português antigo, os autores observam que o fato de maior interesse, com relação à variação da CV, é que, igualmente ao português moderno, o traço [humano] a restringe de forma bastante acentuada. De acordo com Graciosa (1991: 46-7), o traço semântico [-humano] tende a apresentar SVs com menor incidência de marca de plural, enquanto o [+humano], por ser mais saliente, favorece mais a concordância. Vieira (1997: 117), em seu estudo sobre a não-concordância em dialetos populares, afirma que: “o estabelecimento dessa variável teve como motivação a hipótese de que o traço [animado], dada a possibilidade de o sujeito constituir o agente da oração, viesse a favorecer a concordância, uma vez que se correlacionaria com o valor semântico que se supõe ser o mais predominantemente veiculado pela classe dos verbos – a expressão de uma ação.”

Com intuito de verificar se, no corpus aqui analisado, o traço [+humano] também iria favorecer a presença de marcas explícitas de plural, estabeleceu-se o seguinte grupo e fatores: 1 Humano Ex.: “As minhas filhas são as pessoas que também ajudam.” (EFS – 1pf) 2 Não-humano/não-animado Ex.: “Dois tiros atingiu ele, né? Atingiu oh pulmão.” (JAS – 1pf) 3 Humano figurado Ex.: "Ninguém é mió que ninguém, não, eu acho que ninguém é mió de que ninguém o povo tão muito enganado." (RTO – 2uf) 4 Não-humano/animado Ex.: "Os bichos tão solto, eu vou pegar." (JRM – 3nf)

Apresentação de resultados


100

Esta foi a última variável, dentre as sete selecionadas, seus resultados iniciais demonstraram que os sujeitos [+humano] e [-humano] obtiveram percentuais praticamente iguais, próximo à média global de concordância. O sujeito humano figurado foi o que apresentou o percentual mais alto, seguido pelo sujeito humano coletivo e, por último, o sujeito não-humano/animado, que apresentou o percentual mais baixo. Como a oposição maior está entre os traços humano e não-humano do sujeito, que reuniram o maior número de dados, decidiu-se amalgamá-los aos fatores humano figurado, coletivo e não-humano/animado, obtendo-se assim os seguintes resultados: Tabela 17 Marcas explícitas de plural nos verbos em função do traço [humano] Fatores

Presença de variante explícita/ Frequência/ %

Pesos

[+humano]

1416/2582 = 55%

0,51

[-humano]

237/452 = 52%

0,42

Total de dados

1653/3034 = 54%

Pelos resultados apresentados acima pode-se perceber que a diferença probabilística entre os dois traços [humano] e [não-humano] não é muito grande (0.09), e os pesos são pouco polarizados. Mesmo assim, constata-se que o traço [+humano], relativamente, favorece mais a concordância (0,51) do que o [-humano] (0,42). Isto se deve ao fato de o traço [humano] apresentar-se com mais frequência na função de sujeito-agente da oração. Scherre & Naro (1998), ao estudarem a concordância no português moderno e nos textos arcaicos, constatam em seus dados que um verbo com sujeito [+humano] plural apresenta maior probabilidade de concordar com seu sujeito do que um verbo com um sujeito [-humano] plural.


101

Tabela 18 Marcas explícitas de plural nos verbos em função do traço [humano] Resultados comparativos (Scherre & Naro, 1998 e Anjos, 1999) Fatores

Scherre & Naro (1998)24

Anjos (1999)

Presença/Frequência/% Pesos Presença/Frequência/%

Pesos

[+humano]

3017/3981 = 76%

0,53

1416/2582 = 55%

0,51

[-humano]

264/505 = 52%

0,29

237/452 = 52%

0,42

Total de dados

3281/4486 = 73%

1653/3034 = 54%

De acordo com a tabela acima, percebe-se que a diferença em Scherre & Naro (1998), entre os traços humano e não-humano, é bem maior, deixando bem nítido que o traço humano é mais favorável à presença da marca da concordância. Embora a diferença probabilística entre os dois traços tenha sido pequena, Anjos (1999) também constata que o sujeito [+humano] apresenta uma tendência a uma maior presença da marca de concordância. Como já foi observado, outros trabalhos também apontam essa diferença entre os traços [+humano]/[-humano]. Graciosa (1991:72) e Vieira (1997: 127), constatam em seus dados que o traço menos humano apresenta uma inclinação para o não uso da concordância verbal. Nos dois casos, essa variável apresentou pouca relevância para o processo de concordância, chegando a ser eliminada pelo VARBRUL, no estudo de Graciosa. Nas rodadas por escolarização, a diferença se manteve. Inclusive, entre os menos escolarizados a diferença foi mais acentuada, caracterizando melhor a atuação de ambos os traços.

Tabela 19

24

Esses resultados referem-se a dados do português falado no Brasil na década de 80.


102

Marcas explícitas de plural nos verbos em função do traço [humano] por anos de escolarização Anos de escolarização Fatores

Nenhum ano

1 a 4 anos

5 a 8 anos

9 a 11 anos

[+humano]

Presença/Freq./ % Pesos 133/429 = 31% 0,53 9/41 = 22% 0,21

Presença/Freq./% Pesos 192/516 = 37% 0,53 12/65 = 18% 0,26

Presença/Freq./% Pesos 265/480 = 55% 0,50 58/114 = 51% 0,49

Presença/Freq./ % Pesos 369/531 = 69% 0,51 72/110 = 65% 0,46

Mais de 11 anos Presença/Freq./ % Pesos 431/563 = 77% 0,52 84/120 = 70% 0,39

142/470 = 30%

204/581 = 35%

323/594 = 54%

441/641 = 69%

515/683 = 75%

[-humano] Total de dados

Vale salientar que, nas rodadas com os falantes com 5 a 8 anos e 9 a 11 anos de escolaridade, a variável animacidade foi eliminada pelo programa, por não ser estatisticamente significativa para a análise. A diferença entre os dois traços é mais visível entre os menos escolarizados (0,53/0,21 e 0,53/0,26), como já foi mencionado, e os mais escolarizados (0,52/0,39). Devido a essa diferença probabilística ter sido tão pequena, a variável não mostrou muito influência sobre o fenômeno da CV, sendo, então, eliminada em algumas rodadas por escolarização, e ocupando a última posição, entre as variáveis selecionadas, na rodada geral. Contudo,

pode-se

afirmar

que

o

traço

[+humano],

frequentemente

caracterizado como o agente da oração, e, por conseguinte, mais saliente, é o que, de forma geral, mais favorece a concordância verbo-sujeito, na comunidade sob estudo. 1.2 Considerações finais acerca das variáveis linguísticas Os resultados aqui apresentados, se comparados aos de Naro (1981) e Scherre & Naro (1993, 1997, 1998), apontam para algumas semelhanças que parecem bastante significativas. Utilizou-se o mesmo programa para análise, e constatou-se que algumas das variáveis selecionadas como mais significativas foram, de forma geral, as mesmas selecionadas no estudo daqueles autores com falantes do Rio de Janeiro. Com a variável saliência fônica obteve-se resultados como os de Naro (1981) e Scherre & Naro (1997), com uma pequena inversão no nível 2 que reúne as formas mais salientes, ou seja, para o fator 2b (verbos como conheceu/conheceram; foi/foram) Naro (1981:77) e Scherre & Naro (1997: 97-8) obtiveram um peso relativo


103

menor do que para as da classe 2c (é/são, falou/falaram), que são as formas mais salientes da escala, enquanto que, nos resultados aqui obtidos, aconteceu o contrário, as formas verbais que compõem a classe 2b apresentaram um peso relativo um pouco maior. Mesmo assim, o princípio da saliência fônica, segundo o qual formas mais salientes ou perceptíveis favorecem a presença da forma padrão, foi confirmado. Os resultados obtidos para a variável paralelismo linguístico no plano oracional e discursivo se assemelham aos obtidos por Scherre & Naro (1993). No plano oracional, os sujeitos que apresentam marca(s) no(s) último(s) elemento(s) favorecem a concordância, enquanto aqueles que não apresentam essas marcas desfavorecem-na. No plano discursivo, da mesma forma que os citados autores, agrupou-se os SVs que apresentavam marcas anteriores em um grupo e os que não apresentavam em outro, agrupou-se também os SVs isolados com os SVs primeiros de uma série. Os SVs com marcas anteriores mostraram um maior uso da variante explícita de plural e os SVs sem marcas anteriores um menor uso da forma explícita. Os SVs isolados e primeiros de uma série ficaram em uma posição intermediária entre os outros dois fatores. Da mesma forma que em estudos anteriores (Naro & Lemle, 1976: 263, Naro & Scherre, 1996: 8, Scherre & Naro, 1997: 102-3), a posição anteposta e mais próxima do SN sujeito em relação ao verbo é a mais favorável à presença da concordância verbo-sujeito de 3ª pessoa do plural, pois apresenta-se em uma posição típica, canônica e mais saliente. Enquanto a posição posposta do sujeito em relação ao verbo por ser mais atípica e menos perceptível desfavorece a presença da CV. A presença de um sujeito com o traço [+humano] também oferece forte influência na manutenção da forma explícita de plural, pois geralmente identifica o sujeito-agente da oração. Em linhas gerais, os resultados apontam evidências de que a variação no uso da CV é inerente ao sistema linguístico, visto que os fatores linguísticos condicionantes revelaram-se pertinentes na amostra.

2 Variáveis Extralinguísticas


104

2.1 Introdução Nesta seção, será tratada a apresentação e análise das variáveis sociais (sexo, faixa etária e anos de escolarização), e, inicialmente, será dada uma rápida visão da literatura pertinente, para, logo em seguida, ser feita a apresentação e discussão destas variáveis. Dentro da literatura linguística, a influência de fatores sociais em fenômenos linguísticos é uma questão que há muito tem sido abordada. Em vista disso, buscase estabelecer a relação entre os contextos social e linguístico, com o objetivo de verificar a integração entre eles e sua possível atuação sobre o fenômeno da concordância verbal. Nas palavras de Tarallo & Alkmin (1987: 25), "ao se analisar e, por conseguinte, captar a estratificação sociolinguística de uma comunidade, busca-se descobrir como e quanto os informantes se afastam ou se aproximam da norma de prestígio." A análise foi realizada, observando-se a interação entre todos os fatores linguísticos e sociais isoladamente, ou seja, sem estabelecer qualquer cruzamento entre eles. Os resultados mostraram a seguinte ordem de seleção para as variáveis sociais: 1ª Anos de escolarização 2ª Faixa etária 3ª Sexo (excluída)

2.1.1 Anos de escolarização A literatura pertinente indica a escolarização como fator de grande relevância para estudos que incluam o comportamento social, pois é utilizada, em geral, para distinguir o falar padrão do falar não-padrão, e essa forma não-padrão está quase sempre ligada ao aspecto inovador e estigmatizado e, por isso, combatida pela forma de prestígio, que, neste caso, marca o uso da concordância verbal. De acordo com Votre (1992: 75), essas duas formas (marcada e não marcada) se distinguem por ocorrerem em contextos sociais diferentes. Enquanto a forma marcada (de prestígio) ocorre em contextos mais formais e entre interlocutores que ocupam posições mais elevadas na escala social, a forma não marcada (desprestigiada) tende a despertar uma reação negativa na maioria dos


105

usuários da língua e ser objeto de críticas por parte de usuários da norma prestigiada. Segundo Votre (1992: 75): "A forma estigmatizada tende a despertar uma reação negativa na maioria dos usuários da língua, é objeto de crítica aberta por parte dos usuários das formas prestigiadas e é registrada como problemática nas gramáticas escolares e nos manuais de ensino e estudo da língua, sobretudo nos cursos de primeiro e segundo graus."

Para Silva & Paiva (1996: 343), após realizarem um exaustivo levantamento de trabalhos em torno da variável anos de escolarização, há a existência de um padrão geral que associa um maior uso das formas padronizadas a falantes com mais anos de escolarização. As autoras constatam que esses falantes tendem a privilegiar mudanças que implementam formas socialmente aceitas, desfavorecendo as que se opõem à forma padrão. Anos de escolarização é o fator social de maior influência sobre a CV, pois revela o caráter estigmatizante da classe mais escolarizada diante da menos escolarizada. Os informantes foram selecionados de acordo com os anos de escolarização. Nenhum ano 1 – 4 anos 5 – 8 anos 9 – 11 anos Acima de 11 anos Objetiva-se, com a inclusão dessa variável na análise da variação na CV, constatar se, com o aumento da escolarização do falante, aumenta a probabilidade de uso da variante explícita de concordância. Os resultados referentes a essa variável podem ser conferidos na tabela 20 a seguir.

Apresentação de resultados


106

Tabela 20 Marcas explícitas de plural em função da variável anos de escolarização Fatores

Presença de variante explícita/ Frequência/ %

Pesos

Nenhum ano

147/484 = 30%

0,26

1 a 4 anos

209/597 = 35%

0,34

5 a 8 anos

326/595 = 55%

0,50

9 a 11 anos

447/654 = 68%

0,63

Mais 11 anos de escolarização Total de dados

524/704 = 74%

0,69

1653/3034 = 54%

A variável extralinguística mais significativa é a escolarização, cujos dados revelam o alto índice que separa os mais escolarizados dos menos escolarizados. Sendo assim, pode-se dizer que, de forma geral, a presença de flexão na forma verbal, na relação verbo-sujeito de 3ª pessoa do plural, é diretamente proporcional aos anos de escolarização dos falantes, pois foram obtidos os seguintes pesos relativos: para os falantes que possuem nenhum ano de escolarização (0,26), para os que possuem 1 a 4 anos (0,34), para aqueles com 5 a 8 anos (0,50), (0,63) para aqueles com 9 a 11 anos e (0,69) para os que possuem mais de 11 anos de escolarização. Com esses resultados, verificou-se uma diferença significativa entre os grupos extremos (0,69 e 0,26). Os grupos que englobam 1 a 8 anos de escolarização ficaram em posição intermediária, enquanto aquele referente a 9 a 11 anos (0,63) foi o que mais se aproximou do grupo, cuja probabilidade de presença da marca de CV foi maior. Foi constatado que, desde as rodadas iniciais até a última, essa variável mostrou uma gradação no sentido de favorecer a variável explícita de plural, e, sendo assim, como já se esperava, os resultados mostraram uma correlação entre a influência da escolaridade e o fenômeno aqui estudado. Em outras palavras, quanto mais anos de escolarização, mais o falante está exposto à forma prestigiada. Com o intuito de observar mais detalhadamente o comportamento da variável escolarização, fez-se um cruzamento entre esta e a variável sexo, para assim, ser possível verificar se, de acordo com a literatura pertinente, as mulheres são mais favoráveis à presença da CV, mesmo quando possuem pouca escolarização.


107

Essa tentativa de verificar o comportamento feminino em relação ao fenômeno analisado explica-se pelo fato de, segundo Silva & Paiva (1996: 349–350), haver uma tendência por parte das mulheres para uma melhor resposta perante a escolarização, e isso ser coerente com o que se sabe sobre a socialização na escola. De acordo com as autoras, é do conhecimento geral que o papel das escolas é diferente entre os rapazes e as moças, pois, enquanto as meninas e moças se orgulham de serem boas alunas e de competir pelos primeiros lugares, os meninos alegam que o gosto pela escola se dá mais pelo recreio e a camaradagem entre os colegas do que pelas aulas. Pode-se conferir na tabela 21 e no gráfico 2 os resultados referentes ao cruzamento entre as variáveis anos de escolarização e sexo.

Tabela 21 Atuação da escolarização e sexo na presença da variante explícita de plural na concordância verbo-sujeito Sexo Escolarização

Masculino

Feminino

Presença/Frequência/%

Pesos

Presença/Frequência/%

Pesos

Nenhum

67/176 = 38%

0,31

75/294 = 26%

0,22

1 a 4 anos

89/285 = 31%

0,30

115/296 = 39%

0,38

5 a 8 anos

203/352 = 58%

0,53

120/242 = 50%

0,45

9 a 11 anos

277/387 = 72%

0,66

164/254 = 65%

0,62

Mais de 11 anos

217/300 = 72%

0,65

298/383 = 78%

0,72

Total de dados

1625/2969 = 55%

Pode-se observar que a diferença entre os dados dos sexos masculino e feminino não é muito significativa. A menor diferença (0,04) está entre os dados referentes aos falantes com 9 a 11 anos de escolarização, enquanto a maior é entre os dados dos falantes com nenhum ano de escolarização (0,09). Nos dados de fala do sexo masculino percebe-se uma semelhança entre os resultados dos falantes dos grupos extremos (mais escolarizados e menos escolarizados), ou seja, aqueles com nenhum ano (0,31) e com 1 a 4 anos de escolarização (0,30), e entre os falantes com 9 a 11 anos (0,66) e com mais de 11


108

anos de escolarização (0,65). Mesmo que a diferença seja praticamente nenhuma, foge da sequência gradativa que se esperava, e que ocorreu nos dados de fala do sexo feminino. Salvo as inversões, os resultados apresentam uma ordem crescente na probabilidade de uso da variante explícita de concordância verbal em função dos anos de escolarização, em ambos os sexos, com cinco faixas para as mulheres e três para os homens. Vale observar ainda que, analisando, isoladamente, o resultado referente ao sexo feminino, a escala de escolarização das mulheres é mais nítida do que a dos homens, pois apresenta uma sequência crescente no uso da concordância (0,22/0,38/0,45/0,62/0,72 [mulheres]), (0,31/0,30/0,53/0,66/0,65 [homens]). Além disso, pode-se ver também que as diferenças entre os intervalos do resultado probabilístico referente ao sexo feminino são mais claras do que os dos sexo masculino, ou seja, a diferença entre os resultados dos falantes com nenhum ano e os falantes com 1 a 4 anos de escolarização é 0,16; entre estes e os de 5 a 8 anos 0,07; entre estes e os de 9 a 11 anos 0,17 e entre estes e os de mais de 11 anos de escolarização é de 0,10. Silva & Paiva (1996: 349), após realizarem um levantamento de vários estudos com base variacionista, concluem que, cruzando as variáveis escolarização e sexo, quer transformando-as numa só, quer analisando os dados de ambos os sexos separadamente e comparando os resultados, de forma geral, as mulheres são mais sensíveis à escolarização do que os homens, no sentido de apresentarem, segundo as autoras, ou maiores polarizações entre os resultados máximos e mínimos ou maior regularidade nestes. Após observar a atuação da escolarização sobre o sexo, decidiu-se cruzar também a variável faixa etária à escolarização, e assim verificar se a escolaridade teria influência sobre os falantes entre 15 e 25 anos e os com mais de 50 anos (já que esses favoreceram a forma explícita de CV na rodada geral)25 no uso da variante explícita.

Tabela 22

25

Veja-se item 2.1.2 a seguir, referente à variável faixa etária.


109

Atuação da escolarização e faixa etária na presença da variante explícita de plural na concordância verbo-sujeito Faixa etária Escolarização Nenhum 1 a 4 anos 5 a 8 anos 9 a 11 anos Mais de 11 anos Total de dados

15 – 25 anos

26 – 49 anos

Mais de 50 anos

Presença/Freq./%/Pesos

Presença/Freq./%/Pesos

Presença/Freq./%/Pesos

30/106 = 28%

48/194 = 25%

64/170 = 38%

0,18

0,21

0,29

78/217 = 36%

56/144 = 39%

70/220 = 32%

0,40

0,32

0,29

82/146 = 56%

79/199 = 40%

162/249 = 65%

0,47

0,32

0,61

227/285 = 80%

95/151 = 63%

119/205 = 58%

0,77

0,63

0,49

286/344 = 83%

138/204 = 68%

91/135 = 67%

0,78

0,59

0,65

1625/2969 = 55%

De acordo com a tabela acima, os resultados apontam, em linhas gerais, uma ordem crescente de uso da marca de concordância em função dos anos de escolarização, ou seja, os falantes menos escolarizados apresentam menos marcas explícitas do que os mais escolarizados, em todas as faixas etárias apontadas. Os falantes de 15 a 25 anos mantêm uma gradação linear dos menos aos mais escolarizados, apresentando pesos relativos que respondem à escolarização de forma regular (0,18; 0,40; 0,47; 0,77 e 0,78), enquanto aqueles que compreendem as faixas entre 26 e 49 e mais de 50 anos apresentam inversões em seus resultados. No caso da faixa etária de 26 a 49 anos, a inversão ocorre nos pesos referentes aos falantes com 9 a 11 (0,63) e com os de mais de 11 anos de escolarização (0,59). Já com a faixa etária mais de 50 anos, a inversão ocorre entre os falantes de 5 a 8 (0,61) e de 9 a 11 anos de escolarização (0,49). Isso mostra que há mais em jogo a ser descoberto que apenas a escolaridade, no tocante ao uso da marca explícita de CV, entre os falantes das referidas faixas etárias. Analisando esses resultados pelos anos de escolarização, percebe-se que há três padrões atuantes no processo de concordância verbal na comunidade pessoense – perda, aquisição e manutenção de marcas. A perda de marcas de concordância pode ser detectada entre os falantes de 15 a 25 anos com nenhum


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ano de escolarização, que apresentam um peso relativo de 0,18 e, que se comparado ao dos falantes de 26 a 49 anos (0,21), registra uma pequena diferença de 0,03, e em relação aos falantes com mais de 50 anos (0,29) uma diferença de 0,11. Ao contrário desses, os falantes com 1 a 4, 9 a 11 e mais de 11 anos de escolarização apresentam um padrão de aquisição de marcas, pois são os jovens, desses faixas de escolaridade, que apresentam pesos relativos mais altos (0,40 jovens/ 0,32 adultos/ 0,29 mais velhos [1 a 4 anos de escolarização]), (0,77 jovens/ 0,63 adultos/ 0,49 mais velhos [9 a 11 anos de escolarização]), (0,78 jovens/ 0,59 adultos/ 0,65 mais velhos [mais de 11 anos]). Já os falantes com 5 a 8 anos de escolarização apresentam um padrão de manutenção de marcas, pois os falantes mais jovens (0,47) e os mais velhos (0,61), ao contrário dos adultos (0,32), usam mais as formas marcadas. Dessa forma, pode-se dizer que os resultados, pelos anos de escolarização, formam um padrão retilíneo, ou seja, a taxa de concordância aumenta à medida que aumentam os anos de escolarização. Em se tratando da faixa etária, o padrão encontrado as maiores estão nas classes extremas. Esse padrão indica um possível processo de variação estável, mas em um padrão inverso, pois ao invés do pico (índice mais alto de concordância) ser entre os falantes da classe intermediária, formando um u, de "cabeça para baixo", forma um v. Isso poderia indicar um processo de variação estável, mas de forma inversa. Esses resultados vão ao encontro dos obtidos por Naro & Scherre (1991: 145) com falantes do Rio de Janeiro, ou seja, os autores mostram que há indícios de três linhas, uma de perda em função da faixa etária, variação estável também em função da faixa etária e aquisição em função dos anos de escolarização.


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Gráfico 2 Atuação da escolarização e faixa etária na concordância verbo-sujeito 0,9 0,8 0,7 0,6 0,5 0,4 0,3 0,2 0,1 0

15-25 anos 26-49 anos Mais de 50 anos

Nenhum 1 a 4 anos 5 a 8 anos 9 a 11 anosMais de 11 anos

De acordo com o Gráfico 2, pode-se visualizar melhor a atuação da escolarização sobre a CV, à medida que aumenta o contato do falante com o ambiente escolar, a taxa de variante explícita também tende a aumentar, principalmente entre os falantes de 15 a 25 anos e mais de 50 anos. A faixa intermediária apresenta um aumento no uso da forma de prestígio com os falantes que possuem 9 a 11 anos de escolarização, mas esse resultado cai com os falantes de nível superior.

2.1.2 Faixa etária "O amadurecimento é central para a experiência humana. É o apogeu das capacidades e habilidades físicas e sociais, um desdobramento contínuo da participação do indivíduo no mundo, construção da história pessoal e movimento através da história da comunidade e da sociedade. Se amadurecimento é um movimento através do tempo, idade é o lugar da pessoa em um dado momento, em relação à ordem social: um estágio, uma condição, um lugar na história. Idade e amadurecimento são experienciados tanto individualmente como parte de um grupo de pessoas que divide um 26 estágio de vida e/ou uma experiência da história." (Eckert, 1997: 151)

26

"Aging is central to human experience. It is the achievement of physical and social capacities and skills, a continual unfolding of the individual´s participation in the world, construction of personal history, and movement through the history the community and of society. If aging is movement through time, age is a person´s place at a given time in relation to the social order: a stage, a condition, a place in history. Age and aging are experienced both individually and as part a cohort of people who share a life stage, and/or one experience of history."


112

O estudo da idade em relação à língua pode fornecer subsídios para um possível entendimento de como a variação se processa no vernáculo da comunidade linguística. "O estudo da correlação entre idade e variação linguística aponta para duas direções básicas: a relação de estabilidade entre variantes linguísticas – ou a existência de mudanças na língua." (Silva & Paiva, 1996: 350) Segundo Eckert (1997: 152), com o aumento da idade, o conservadorismo na fala tende a aumentar. A autora levanta a questão da ambiguidade em se identificar o padrão linguístico (que muda com o tempo) da comunidade, se os falantes estão se tornando mais conservadores, ou se ambos ocorrem. Para ela, sem o estudo em tempo real não há evidência de que os padrões de variação da estratificação etária refletem uma mudança em progresso. A variável faixa etária quando correlacionada com a classe social pode fornecer evidências de mudança em progresso ou de variação estável. No caso desta, geralmente, a variante linguística se correlaciona com a classe social, seguindo um padrão linear, ou seja, as variantes estigmatizadas pela sociedade caracterizam a linguagem das classes mais baixas, ao contrário das variantes socialmente prestigiadas que caracterizam a fala das classes mais altas. Porém, quando as variantes de prestígio ocorrem entre os integrantes da classe média (classe intermediária), ocorre o chamado padrão curvilíneo, indicando um processo de mudança. Para Naro (1992: 81): "(...) as mudanças linguísticas normalmente se processam de maneira gradual em várias dimensões. Nos eixos sociais, por exemplo, os falantes mais velhos costumam preservar as formas antigas, o que pode acontecer também com as pessoas mais escolarizadas, ou das camadas da população que gozam de maior prestígio social, ou ainda de grupos sociais que sofrem pressão social normalizadora, a exemplo do sexo feminino de maneira geral, ou das pessoas que exerçam atividades sócio-econômicas que exigem uma boa apresentação para o público."

Considerando que em diferentes idades os indivíduos estão sujeitos a pressões sociais e normativas distintas, pode-se tentar justificar abaixo a estratificação das três faixas etárias utilizadas pelo Projeto VALPB e que serviram para o corpus desta pesquisa. (cf. Labov, 1972 e Loregian, 1996). 1) 15 – 25 anos: nesta faixa etária estão os adolescentes e jovens adultos que estão ingressando no mercado de trabalho ou voltando sua atenção para tal. Os


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integrantes dessa faixa etária são, geralmente, apontados, por indivíduos de maior idade, como inovadores, insatisfeitos, ou mesmo, revolucionários. 2) 26 – 49 anos: nesta faixa etária estão incluídos os "adultos maduros" que se encontram quase plenamente inseridos no mercado de trabalho, tornando-se mais públicos, e há, de certa forma, certo acomodamento aos padrões de comportamento estabelecidos socialmente. 3) Mais de 50 anos: esta faixa etária é composta por indivíduos aposentados ou prestes a se aposentar. Pode-se dizer que neste período já não há tanta pressão social, mas os indivíduos mostram-se menos conservadores com os mais jovens, tanto no sentido social quanto linguístico. Deseja-se, portanto, verificar qual a faixa etária, dentre as trabalhadas, mais favorecedora da CV, e se esta reflete um estágio de variação estável ou de mudança em progresso.

Apresentação de resultados Os resultados obtidos através da última rodada, considerando apenas as variáveis mais significativas para a análise, apontaram a faixa etária como a sexta variável selecionada. A Tabela 23 e Gráfico 4 apresentam os resultados referentes a essa variável, na qual os falantes de 15 a 25 anos (0,57) aplicaram mais a variante explícita de CV do que aqueles que compreendem a faixa etária intermediária (26 a 49 anos) cujo resultado probabilístico foi de 0,42. Os falantes com mais de 50 anos ficam quase equidistantes dos de 15 – 25 anos (com uma diferença de 0,08) e dos de 26 – 49 anos (diferença de 0,07). Tabela 23 Marcas explícitas de plural em função da variável faixa etária Fatores

Presença de variante explícita/Frequência/ %

Pesos

15 – 25 anos

711/1117 = 64%

0,57

26 – 49 anos

425/915 = 46%

0,42

Mais de 50 anos

517/1002 = 52%

0,49

Total dos dados

1653/3034 = 54%

De acordo com os resultados apresentados, pode-se perceber que a diferença probabilística entre as duas primeiras faixas chega a 0,15, enquanto a


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diferença entre a primeira e a terceira é de 0,08, mostrando que os de mais de 50 anos ficam quase equidistantes dos de 15 a 25 anos e de 26 a 49 anos. Isto mostra que a variação na concordância verbo-sujeito de 3ª pessoa do plural segue um padrão curvilíneo; iniciando-se na faixa etária intermediária (26 – 49 anos), seguindo em direção à faixa mais alta (mais de 50 anos) e decaindo na mais baixa (15 a 25 anos). O gráfico a seguir exemplifica melhor o padrão demonstrado pela variável faixa etária com relação ao fenômeno da concordância verbal.

Gráfico 3

Atuação da faixa etária na concordância verbo-sujeito 0,6

0,57

0,49

0,5 0,4

0,42

0,3

Colunas1

0,2 0,1 0 15 - 25 anos

26 - 49 anos

Mais de 50 anos

Pode-se perceber que os resultados não formam um padrão retilíneo, que aconteceria se o resultado da faixa intermediária fosse mais alto que o da faixa etária mais de 50 anos, e o desta fosse mais baixo que o das duas primeiras faixas. Caso os integrantes do grupo 15 a 25 anos apresentassem uma probabilidade maior de concordância e este padrão decrescesse em direção aos outros grupos, teria-se um caso de mudança em progresso iniciada pelos falantes mais jovens. Caso ocorresse de a probabilidade maior ser entre os falantes com mais de 50 anos, caindo gradativamente em relação aos outros grupos, haveria um caso de extinção de uma das variantes (a inovadora ou a padrão). Em se tratando da concordância verbal na comunidade pessoense, os dados revelam três linhas – perda, aquisição e manutenção de marcas. Pode-se voltar ao cruzamento entre escolaridade e faixa etária, já apresentado, que revela um padrão


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de aquisição por parte dos jovens, perda por parte dos adultos e manutenção da marca, com os mais jovens e os mais velhos usando as formas marcadas. A constatação desse fato leva à suposição de que, na comunidade estudada, três processos estão ocorrendo: a penetração de uma forma inovadora (ausência de concordância); a aquisição da forma de prestígio (presença de concordância) e a manutenção dessa forma. Naro (1981) considera que a concordância de número em português, especificamente a verbal, encontra-se num processo de mudança, caminhando em duas direções opostas: uma em direção a sistema sem marcas, que envolve um mecanismo de perda das marcas de concordância; e outra em direção a um sistema com marcas, envolvendo um mecanismo de aquisição destas mesmas marcas. Esses resultados remetem também a Naro & Scherre (1991: 9) quando estes, em seu estudo com falantes do extinto MOBRAL, afirmam que a comunidade de fala caminha em direções opostas: algumas pessoas podem está num processo de variação estável, outras num processo de aquisição e outras num processo de eliminação da forma. Na tentativa de entender melhor o resultado do comportamento das variáveis sociais, decidiu-se cruzar as variáveis faixa etária e sexo. Tabela 24 Marcas explícitas de plural em função das variáveis: faixa etária e sexo Sexo Faixa etária

Masculino

Feminino

Presença/Frequência/ %

Pesos

Presença/Frequência/ %

Pesos

15 – 25 anos

379/615 = 62%

0,56

324/483 = 67%

0,58

26 – 49 anos

232/441 = 53%

0,43

184/451 = 41%

0,41

Mais de 50 anos

242/444 = 55%

0,50

264/535 = 49%

0,48

Total de dados

1625/2969 = 55%


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Gráfico 4 (os dados não conferem)

Atuação da Faixa etária e Sexo na concordância verbo-sujeito 1,2 1 0,8 0,6

Masculino

0,4

Feminino

0,2 0 15 - 25 anos

26 - 49 anos

Mais de 50 anos

Observando-se os dados apresentados na Tabela 24 e no Gráfico 4, constata-se que a diferença probabilística entre os sexos é muito pequena, chegando a apenas 0,02 para os de 15 a 25 anos. A probabilidade de concordância diminui na faixa etária mais de 50 anos dos falantes do sexo masculino, pois enquanto a primeira faixa atinge 0,56, essa cai para 0,50. O mesmo acontece com os falantes do sexo feminino, de 0,58 cai para 0,48. Na faixa etária intermediária, os homens mostram-se levemente mais favorecedores (0,43) do que as mulheres (0,41). No comportamento indistinto da variável sexo, pode haver uma indicação de mudança linguística em progresso. Carvalho (1997b: 131, 139), ao estudar o fenômeno da concordância nominal, no falar pessoense, também constata em seus dados que os falantes de 15 – 25 anos e os de mais de 50 anos favorecem o uso da variante padrão, enquanto os de 26 – 49 anos favorecem a variante inovadora ( a não-concordância). Com relação à diferença entre os falantes de 15 a 25 anos e os de mais de 50 anos, pode-se mencionar Carvalho Nina, que, segundo Silva & Paiva (1996: 361), ao estudar a concordância nominal e verbal, na região de Bragantina – PA, obteve resultados que mostram que os falantes mais jovens apresentam índices de concordância mais altos que os mais velhos. No fenômeno da concordância verbo-sujeito de 3ª pessoa do plural, constatou-se, portanto, que os resultados da variável faixa etária, como também do cruzamento entre esta e a variável sexo, apontaram os falantes de 15 – 25 e


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aqueles com mais de 50 anos, de ambos os sexos, como os mais favorecedores da concordância verbo-sujeito.

2.1.3 Sexo Vários estudos de base sociolinguística abordam a variável sexo como um dos condicionantes da heterogeneidade linguística, indicando que homens e mulheres diferem em seu uso linguístico. Muitos desses estudos, apontam que os falantes do sexo feminino tendem a usar as formas de prestígio mais frequentemente do que os do sexo masculino (cf. Guy, 1981; Scherre, 1988). Esse uso mais conservador por parte das mulheres encontra respaldo no fato de as mulheres, na sociedade atual, terem mais consciência das formas de status do que os homens; serem responsáveis pela educação dos filhos e, por isso mesmo, serem mais atentas e cuidadosas com sua forma de falar. Labov (1972) constata, em seu estudo sobre o inglês em Nova Iorque, que a pronúncia das mulheres varia muito mais do que a dos homens entre os contextos formais e menos formais, com relação ao uso da variável a, (eh). De acordo com os dados obtidos pelo autor, as mulheres usam mais as formas novas na fala casual do que os homens. Ao contrário desses resultados, no trabalho sobre a ilha de Martha´s Vineyard, Labov (1972) observa que são os homens que iniciam a mudança (a centralização de /ay/ e /aw/), enquanto as mulheres mostram uma fraca tendência para tal. Para esse autor, a diferença de sexo na fala, frequentemente, desempenha um papel importante no mecanismo de evolução linguística, estando ligada aos padrões de interação social da vida diária. No Brasil, estudos como o de Naro (1981) e Guy (1981) mostram que a diferença de sexo não é um fator operante e decisivo em relação à mudança linguística. Em seu artigo The social and structural dimensions of a syntactic change (1981: 82-3) sobre o português falado no Brasil, Naro constata que as mulheres utilizam a forma prestigiada, mas numa proporção mínima. No mencionado trabalho sobre o dialeto carioca, Guy (1981), ao analisar a concordância de número no SN e o efeito da desnasalização, afirma que as


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mulheres demonstram ser mais conservadoras do que os homens, no primeiro estudo, mantendo a concordância, e no segundo, mantendo o uso da nasal. Diferente destas, na análise da CV, o fator sexo não apresentou efeito significativo. Silva & Paiva (1996: 366), baseadas em um extenso levantamento de estudos sobre a variável sexo, afirmam que "a manifesta preferência feminina pelas formas aceitas socialmente se verifica tanto nos fenômenos considerados de variação quanto nos de mudança." Para Scherre (1988: 430-1): "a conclusão mais segura que parece se pode estabelecer até o presente momento é que há tendência geral de as mulheres se aproximarem do padrão e de os homens se distanciarem dele, independente de o fenômeno linguístico envolver variação estável ou mudança linguística."

Segunda Paiva (1992: 70-1), estudos sobre a mudança linguística apresentam resultados contraditórios que não permitem definir com precisão um padrão comportamental da variável sexo e sua atuação nesse processo de mudança. De acordo com essa autora, a mudança pode caminhar em direção a uma forma prestigiada ou em direção a uma forma desprestigiada. Quando se trata de implementar na língua uma forma considerada de prestígio, as mulheres tendem a liderar o processo de mudança, mas quando se dá o contrário, ou seja, a implementação de uma forma desprestigiada, os homens lideram o processo de mudança e as mulheres se mostram conservadoras. Para Labov (1972: 303, 1990: 214-19), as mulheres têm um papel importante no mecanismo de mudança linguística. Elas são mais expressivas ou usam mais símbolos expressivos do que os homens. As mulheres têm uma influência direta na formação da criança, quando ela está formando suas regras linguísticas com maior eficiência e rapidez. Labov (1990) afirma que, em todas as comunidades mencionadas em seu estudo sobre interseção entre sexo e classe social, no curso da mudança linguística, as crianças aprendem os rudimentos da língua nativa através de suas babás. Embora os modelos masculinos estejam presentes, o contato inicial aos expoentes fonéticos das categorias linguísticas se dá através da exposição ao padrão feminino. Segundo Gordon (1997: 47), muitos estudos relatam que, em sociedades onde a estratificação social é refletida na fala, as mulheres, especialmente as da


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classe média, tendem a usar a variante padrão ou de prestígio mais do que os homens. Pesquisas realizadas em diferentes tipos de comunidades, usando metodologias diferentes revelaram esse uso por parte das mulheres como um padrão comum, mostrando que, em situações formais, as mulheres mudam de estilo mais "gramaticalmente" do que os homens. Segundo a autora, há muitas explicações para essa diferença. Algumas relacionam esse comportamento feminino ao fato de que as mulheres têm menos poder e status social do que os homens, e que elas parecem mais conscientes de sua posição social. Tendo-se conhecimento desses trabalhos acerca da variável sexo, pode-se passar à apresentação dos resultados aqui obtidos.

Apresentação dos resultados Procurando-se verificar neste estudo se a variável sexo atua no sentido de as mulheres favorecerem a presença da marca de CV mais do que os homens, constatou-se, em uma última rodada com os dados já devidamente amalgamados, na análise que considera todos os grupos de fatores, que a variável sexo não foi selecionada. Na Tabela 25 a seguir, pode-se conferir os resultados referentes a essa variável. Tabela 25 Marcas explícitas de plural em função da variável sexo Fatores

Presença de variante explícita/ Frequência/ %

Pesos

Feminino

773/1485 = 52%

0,49

Masculino

880/1549 = 57%

0,51

Total de dados

1653/3034 = 54%

Diante desses valores, percebe-se que a diferença em termos percentuais entre homens (57%) e mulheres (52%) é de apenas 5%. Em termos probabilísticos, praticamente não há diferença entre os resultados, pois os pesos (0,49 e 0,51) ficaram muito próximos ao ponto neutro, mostrando que essa variável não foi significativa para a análise do fenômeno em questão, tendo sido por isso descartada na maioria das rodadas. Nas rodadas feitas em função da escolarização, essa variável só foi selecionada entre os falantes com nenhum ano de escolarização,


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assumindo a quinta posição de um grupo no qual seis variáveis foram selecionadas. Nesta rodada os falantes do sexo feminino obtiveram 0,44 de peso relativo e os do sexo masculino 0,60, mostrando a maior diferença entre os dois sexos, dentre todas as rodadas. Na rodada só com os falantes com 1 a 4 anos de escolarização, essa variável não foi selecionada, nem para o step up nem eliminada para o step down, mostrando, assim, um caráter indefinido. Nas outras rodadas os resultados quase não se alteraram: com os falantes que possuem 5 a 8 anos de escolarização foi 0,48 para as mulheres e 0,51 para os homens; falantes com 9 a 11 anos 0,50 para ambos os sexos, e para aqueles com mais de 11 anos foi 0,53 para as mulheres e 0,46 para os homens. Portanto, apenas entre os falantes universitários, as mulheres superaram os homens no uso da variante padrão de CV, o que corrobora o resultado da tabela de cruzamento entre sexo e escolarização apresentada no item 5.2.1.1 sobre a variável anos de escolarização, cujo uso da variante explícita de plural ocorreu mais entre as mulheres universitárias. No estudo de Guy (1981) sobre vários fenômenos variáveis na fala de alfabetizandos do Rio de Janeiro, com relação à concordância verbal, a variável sexo não se revelou significativa. Loregian (1996: 101) constata em seus dados, referentes á concordância verbal com o pronome TU, que a diferença probabilística entre os falantes do sexo feminino e masculino é praticamente inexistente, mostrando um comportamento similar entre esses falantes. Da mesma forma que nos resultados aqui obtidos, a variável sexo foi eliminada da rodada, Loregian aponta essa variável como a única estatisticamente não significativa par o seu estudo, tendo sido, por isso, descartada pelo programa. Scherre & Naro (1997: 107) constatam em seus resultados sobre a concordância de número no SV, SN e nos predicativos e particípios passivos, na comunidade do Rio de Janeiro, que a variável sexo exerce influência, que atua no sentido de que, as mulheres favorecem a variante explícita de plural. Os resultados referentes à diferença de homens e mulheres podem ser resumidos em dois princípios distintos, segundo Labov (1990: 205 – 6): (1) Em se tratando de estratificação sociolinguística estável, os homens usam uma frequência


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maior de formas não-padrão do que as mulheres; (2) Na maioria das mudanças linguísticas, as mulheres usam uma frequência de formas novas maior do que os homens. Contudo, segundo Labov, o comportamento linguístico de homens e mulheres, nas diversas segmentações da sociedade, não é uniforme, sendo necessário considerar a interação entre sexo e outras categorias sociais, através de uma análise multivariacionista.

2.2 Considerações finais acerca das variáveis extralinguísticas Visto os resultados, pôde-se constatar que a análise das variáveis sociais é importante por revelar padrões de uso diferentes, dependendo do sexo, da idade e da escolarização do falante. Com a análise da variável anos de escolarização, observou-se que ela exerce uma forte influência na realização da variante explícita de CV, pois quanto mais alto o nível de escolaridade, maior a probabilidade de haver a presença da marca formal de concordância. Através do cruzamento das variáveis escolarização e sexo, observou-se que praticamente não havia diferenças probabilísticas entre os dois sexos, exceto no grupo intermediário (5 a 8 anos de escolarização), tendo sido feitas, por isso, algumas amalgamações que, no final, revelaram pesos iguais para os falantes de ambos os sexos com nenhum ano até 4 anos de escolarização, e uma diferença mínima para aqueles com 9 a mais de 11 anos de escolarização. No cruzamento entre escolarização e faixa etária, constatou-se que, com relação aos falantes de 15 a 25 anos, a escala segue uma ordem crescente linear, desde os menos escolarizados até os mais escolarizados, enquanto nas outras faixas etárias, essa escala sofre inversões (entre os falantes com 9 a 11 anos de escolarização e aqueles com mais de 11 anos, e entre os falantes com 5 a 8 anos e aqueles com mais de 11 anos). Com relação à variável faixa etária, os resultados referentes ao seu desempenho, sem o cruzamento com outras variáveis sociais, revelaram que os falantes de 15 a 25 anos e os com mais de 50 anos mostraram-se mais favorecedores da presença da concordância verbal, mesmo os jovens sem escolaridade tendo apresentado um padrão de perda de variante explícita, enquanto


122

os falantes da faixa etária intermediária (26 – 49 anos) desfavoreceram a presença desta. Esse resultado parece paradoxal, pois ao invés de ter-se uma linha em forma de u, indicadora de variação estável, tem-se uma linha que apresenta um formato de v, representando uma variação estável de forma inversa, ou seja, nos dois picos, falantes de 15 a 25 e mais de 50 anos, e na base, falantes de 26 a 49 anos. No tocante à variável sexo, viu-se que ela não se mostrou significativa para a análise, tendo sido descartada pelo programa, contrariando a hipótese proposta inicialmente. Isso mostra que os falantes de ambos os sexos mostram um comportamento similar no que se refere ao uso da variante explícita de concordância. Esses resultados revelam indícios de três linhas distintas: aquisição entre os falantes com 1 a 4 anos, 9 a 11 e mais de 11 anos de escolarização; perda entre os menos escolarizados; e entre os falantes com 5 a 8 anos manutenção da marca.


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CONCLUSÃO

Chegando a parte final do trabalho, serão tomadas algumas considerações que julga-se serem pertinentes na descrição do comportamento dos falantes analisados, em relação à concordância verbo-sujeito de 3ª pessoa do plural. Quanto às variáveis linguísticas, procurou-se testar as hipóteses propostas por Naro & Lemle (1976), Naro (1981), Scherre & Naro (1993, 1997, 1998), com o intuito de observar, primeiro, sua aplicação aos dados de concordância verbal da comunidade pessoense e, segundo, se os resultados obtidos apresentariam regularidades com os dos citados autores. Quanto à variável saliência fônica, constatou-se que as formas verbais mais salientes ou perceptíveis são as que mais favorecem a presença da marca de concordância, corroborando a literatura pertinente. Os resultados referentes a essa variável demonstraram uma ordem crescente na escala, no sentido de as formas mais salientes aplicarem mais a marca de concordância. Salvo algumas leves inversões nos dados, em relação ao que se esperava, esses resultados mostraram-se muito próximos aos obtidos por Scherre & Naro (1997). Inclusive nas rodadas por escolarização, da mesma forma que estes autores constataram, a escala da saliência apresentou-se mais nítida entre os falantes com menos anos de escolarização, pois à medida que aumentava o grau de escolaridade, as inversões apareciam e os pesos relativos ficavam muito próximos. Porém, deve-se relembrar que nos dados de Scherre não estão incluídos os falantes com nenhum ano de escolarização e com mais de 11 anos, e os de Naro referem-se apenas a falantes alfabetizados. Mesmo com a inclusão de falantes de faixas etárias intermediárias, o princípio da saliência fônica foi obedecido, e a inversão ocorrida foi mínima, possivelmente ocorrida pela divergência das classes 2b (foi/foram, bateu/bateram) e 2c (é/são, falou/falaram), envolvidas nessa inversão, e pela atuação da escolaridade, que mostrou grande influência sobre os fatores linguísticos. Assim, a hipótese inicial foi confirmada, pois, obedecendo a escala da saliência oposicional, as formas mais salientes e perceptíveis favoreceram mais a concordância verbal.


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Na análise do paralelismo linguístico, nas suas duas dimensões, constatou-se que as formas marcadas no elemento anterior (sujeito ou verbo) elevavam a probabilidade do elemento seguinte também a ser marcado. Com relação à variável paralelismo discursivo, a análise evidenciou, a exemplo de outros estudos, que marcas levam a marcas e zeros levam a zeros, isto é, a presença de marcas precedendo o SV analisado elevou a probabilidade de este ser marcado. De forma inversa, a presença de zero anterior ao SV analisado elevou a probabilidade de cancelamento da marca de plural. Os SVs isolados e primeiros de uma série também mostraram-se favorecedores da presença da concordância verbal, mesmo quando amalgamados. Eles apresentam efeito intermediário, especialmente os SVs isolados, embora os primeiros de uma série evidenciem tendência a favorecimento da variante explícita. Da mesma forma, no nível oracional do paralelismo, as diferenças mais significativas tiveram uma concentração maior nas formas marcadas e não marcadas do SN sujeito anterior ao verbo, estabelecendo uma oposição, que atuou no sentido de que marcas conduziram a marcas e zeros conduziram a zeros. Os resultados referentes à variável presença, posição e distância do sujeito demonstraram que a concordância verbal é mais frequente quando o sujeito da oração vem em uma posição anterior e mais próxima ao verbo, e quando há a presença de sujeito zero, a posição mais distante é a que mais favorece, visto ser menos previsível. Nas rodadas em função dos anos de escolarização, a escala posicional apresentou-se mais nítida, visto que, depois de algumas alterações, os fatores amalgamados ocuparam as posições extremas (anteposta/posposta), indicando que, à semelhança de Scherre & Naro (1997), o sujeito em sua posição canônica, mais à esquerda do verbo, favorece mais a variante explícita de plural do que a posição mais à direita, visto ser esta menos típica e menos saliente. Quanto à animacidade do sujeito, os resultados confirmaram a hipótese levantada de início, ou seja, o SN sujeito que apresenta o traço [+humano] favorece mais a presença de CV do que o sujeito [-humano], visto que, frequentemente, apresenta-se como o agente da oração. Isto vem corroborar os resultados obtidos por Scherre & Naro (1998).


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De forma geral, quanto às variáveis linguísticas, as hipóteses iniciais foram confirmadas, mostrando o caráter universal dessas variáveis, que independente de amostra, localidade, etc., atuaram conforme as expectativas. No que concerne às variáveis sociais, os dados revelaram que os mais falantes escolarizados utilizam mais a forma padrão (como já se esperava) do que os menos escolarizados. Esses dados, além de confirmar a hipótese, inicialmente apresentada, mostram a importância da escolarização para estudos que incluam o componente social, pois esta é utilizada em geral para distinguir o falar padrão do não-padrão. Assim, o padrão encontrado para esta variável é um padrão retilíneo, ou seja, a taxa de CV aumenta à medida que aumentam os anos de escolarização. Quanto à variável faixa etária, pôde-se constatar que os falantes mais jovens e os mais velhos utilizaram mais a forma padrão, ao contrário dos adultos (nível intermediário) que favoreceram a forma não-padrão. Nesse caso, o padrão encontrado é curvilíneo, pois a menor taxa de CV está entre os falantes da classe intermediária, enquanto as maiores estão nas classes extremas. Esse padrão indica um possível processo de variação estável, mas num padrão inverso, pois ao invés do pico ser entre os intermediários, formando um u de "cabeça para cima", forma um v. Os resultados do cruzamento das variáveis anos de escolarização e faixa etária indicaram três linhas: perda, aquisição e manutenção de formas. Esses resultados vêm confirmar Naro & Scherre (1991: 15), quando estes afirmam haver fluxos e contrafluxos na comunidade de fala, ou seja, a comunidade caminha em direções opostas: com formas variantes apresentando um padrão estável, outras num processo aquisitivo, e outras ainda sofrendo um processo de eliminação. No tocante à variável sexo, a hipótese inicial não foi confirmada, pois, além de as mulheres não terem se mostrado mais favoráveis à CV do que os homens (como se esperava) essa variável foi a única descartada pelo programa, mostrando-se pouco significativa para análise. Portanto, os resultados referentes a essas variáveis sociais revelaram duas formas convivendo dentro do mesmo sistema linguístico, ou seja, a entrada no sistema linguístico da comunidade de uma forma inovadora (ausência de variante explícita de plural) e a permanência da forma conservadora (presença de variante explícita). Contudo, deve-se levar em consideração a coleta de dados feita em


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tempo aparente, como também a ideia de que a comunidade de fala pode estar caminhando em direções diversas. Acredita-se ser importante, na investigação do fenômeno da CV, a realização de pesquisas futuras, baseadas em tempo real. Enfim, sabendo da forte influência sócio-cultural sobre o fenômeno ora abordado, fica mais evidente a necessidade de se trabalhar os aspectos sociais e linguísticos, relacionando-os, a fim de minimizar o impacto sofrido pelos usuários das formas desprestigiadas, que ao chegarem em sala de aula sofrem uma pressão maior por parte de outros alunos, professores e até dos livros didáticos para o uso das formas de prestígio (mais especificamente da CV, visto ser uma das áreas da gramática normativa de maior apelo social). Espera-se que este trabalho venha a contribuir para pesquisas futuras, servindo para o entendimento da variação na concordância verbo-sujeito na 3ª pessoa do plural, reunindo-se assim a outros, já realizados em diversas regiões do país.


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Um estudo variacionista da concordância verbo sujeito na fala dos pessoenses  
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