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SANDRA MARIA OLIVEIRA MARQUES

A PRODUÇÃO VARIÁVEL DO FONEMA /V/ EM JOÃO PESSOA

Dissertação apresentada à Universidade Federal da Paraíba, como parte das exigências do Curso de Pós-graduação em Letras, para obtenção do título de Mestre em Língua Portuguesa.

JOÃO PESSOA 2001


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A palavra

Já não quero dicionários Consultados em vão. Quero só a palavra Que nunca estará neles Nem se pode inventar.

Que resumiria o mundo E o substituiria. Mais sol do que o sol, Dentro da qual vivêssemos Todos em comunhão, Mudos, Saboreando-a.

Carlos Drummond de Andrade


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DEDICATÓRIA

A todos os professores que depositaram um pouco do seu tempo e do seu esforço no meu processo educacional e profissional.

Aos meus pais (Gilvan e Lourdes), por investirem na minha educação e por me incentivarem sempre.

Aos meus irmãos (Gilvana, Arthur e Ana Cristina), pelo apoio indispensável.


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AGRADECIMENTOS

Ao meu orientador, Dermeval da Hora, por ser responsável por grande parte do meu crescimento intelectual e profissional, por me incentivar, confiando e acreditando em mim e no meu trabalho, e pela sua amizade. Ao CNPq, pela bolsa concedida. A Marcelo, por me ajudar em algumas questões técnicas, por ser uma fonte de alegria e um bálsamo nos momentos difíceis. A Cida, secretária do VALPB, por se preocupar com o meu bem-estar. A Kátia, Mário, Verônica, Rubens, Ariadne, Sandra Espínola e Gilson por passarem pela minha vida e contribuírem para o meu progresso pessoal e acadêmico. A Cristiane pela imensa ajuda na etapa da transcrição dos dados e pela amizade. A Juliene, Rosângela e Iara pelo companheirismo, por serem pessoas maravilhosas, “por serem as amigas mais certas nas horas (in)certas” e por me estenderem as mãos sempre que precisei. Aos primeiros integrantes do projeto VALPB, responsáveis pela elaboração de grande parte das entrevistas que constituem seu corpus (arquivo sonoro do VALPB). A todos que contribuíram, direta e indiretamente, para a elaboração e conclusão desse trabalho.


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RESUMO

Este estudo trata de um fenômeno bastante freqüente na comunidade pessoense, que é a variação da produção intervocálica da fricativa sonora lábio-dental /v/, que ora é produzida como [v], ora como [h], uma vibrante velar (tava ~ taha, tivesse ~ tihesse, etc.). Este trabalho, à luz da Sociolingüística variacionista, ou laboviana, investiga as restrições sociais (sexo, faixa etária e anos de escolarização) e lingüísticas (contexto fonológico seguinte, contexto fonológico precedente, dimensão do vocábulo, classes de palavra e status morfológico do segmento) objetivando descrever seu comportamento na comunidade pessoense. Os dados de língua oral colhidos para a sua realização foram extraídos do corpus do Projeto Variação Lingüística no Estado da Paraíba (VALPB), que consta de 60 informantes. Seus resultados, obtidos através do pacote de programas VARBRUL (Pintzuk, 1988), evidenciam que esse fenômeno configura-se como uma variação estável em João Pessoa.


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ABSTRACT

This research deals with a quite common phenomenon in João Pessoa community, the intervocalic variation of the voiced labio-dental fricative /v/, performed such as [v] as well as [h], a trill (tava ~ taha, tivesse ~ tihesse, etc.). Based on Linguistic Variation Theory, this paper focuses on the social constraints (sex, age and education level) and linguistic constraints (next phonological content, previous phonological content, word length, word group and morphological aspect of the segment), aiming to describe their performance in João Pessoa community. Intending to achieve this p urpose, a speech data of 60 informants, extracted from the corpus of Projeto Variação Lingüística no Estado da Paraíba (VALPB), was properly analyzed. The statistic results, provided by the Varbrul programs (Pintzuk, 1988), point out the linguistic variation levels of this phenomenon in João Pessoa.


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SUMÁRIO

RESUMO ABSTRACT LISTA DE TABELAS E GRÁFICOS LISTA DE ABREVIATURAS

1 INTRODUÇÃO .............................................................................................................. 12 1.1 Objetivos ..................................................................................................................... 15 1.1.1

Objetivos gerais ...................................................................................................... 15

1.1.2 Objetivos específicos ................................................................................................ 16 1.2

Hipóteses ................................................................................................................... 17

1.2.1 Hipóteses gerais ........................................................................................................ 17 1.2.2 Hipóteses específicas ................................................................................................ 18

2 OBJETO DE ESTUDO ................................................................................................... 20 2.1 O fenômeno de enfraquecimento ................................................................................. 20 2.2 O enfraquecimento da fricativa /v/ ............................................................................... 22

3 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA ................................................................................. 25


8 3.1 O estudo da língua do século XVII ao século XIX ..................................................... 25 3.2 Século XX: Saussure ................................................................................................... 27 3.3 Meados do século XX: Gerativismo ........................................................................... 28 3.4 A Sociolingüística variacionista .................................................................................. 30

4 METODOLOGIA .......................................................................................................... 39 4.1 A amostra .................................................................................................................... 40 4.2 Caracterização dos informantes ................................................................................... 41 4.3 Método computacional ................................................................................................ 43 4.4 Definição operacional das variáveis ............................................................................ 45 4.4.1 Variáveis dependentes ............................................................................................... 45 4.4.2 Variáveis independentes lingüísticas ......................................................................... 46 4.4.2.1 Contextos fonológicos ............................................................................................ 46 4.4.2.1.1 Precedente a /v/ ................................................................................................... 47 4.4.2.2.2 Seguinte a /v/ ....................................................................................................... 48 4.4.2.2 Posição / tonicidade do segmento .......................................................................... 49 4.4.2.3 Status morfológico do segmento ............................................................................ 50 4.4.2.4 Dimensão do vocábulo ........................................................................................... 51 4.4.2.5 Classes de palavras ................................................................................................. 52 4.4.3 Variáveis independentes sociais ................................................................................ 53

5 DISTRIBUIÇÃO DOS DADOS .................................................................................... 54 5.1 Variáveis dependentes .................................................................................................. 54 5.2 Variáveis independentes ............................................................................................... 55 6 RESULTADOS DAS VARIÁVEIS LINGÚÍSTICAS ................................................... 58


9 6.1 Resultados lingüísticos obtidos pelo arq. 1 ................................................................. 59 6.1.1 Status morfológico do segmento .............................................................................. 59 6.1.2 Dimensão do vocábulo .............................................................................................. 61 6.1.3 Classes de palavras .................................................................................................... 63 6.2 Resultados lingüísticos obtidos pelo arq. 2 ................................................................ 65 6.2.1 Posição / tonicidade do segmento ............................................................................. 66 6.2.2 Contexto fonológico seguinte e precedente a /v/ ....................................................... 68 6.2.3 Classes de palavras .................................................................................................... 72

7 RESULTADOS DAS VARIÁVEIS SOCIAIS ............................................................... 74 7.1 Anos de escolarização ................................................................................................. 75 7.2 Faixa etária .................................................................................................................. 78 7.3 Sexo ............................................................................................................................. 83

8 CONCLUSÃO ................................................................................................................. 87

9 BIBLIOGRAFIA ............................................................................................................. 92


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LISTA DE TABELAS E GRÁFICOS

TABELA 1 : Resultados da distribuição das variáveis dependentes .............................. 54 TABELA2 : Resumo da distribuição dos dados .............................................................. 58 TABELA 3 : Resultados do grupo „Status morfológico do segmento‟ ........................... 60 TABELA 4 : Resultados do grupo „Dimensão do vocábulo‟ .......................................... 62 TABELA 5 : Cruzamento dos grupos „Dimensão do vocábulo‟ com „Status morfológico do segmento‟ ............................................................................................... 62

TABELA 6 : Resultados do grupo „Classes de palavras‟ ................................................ 63 TABELA 7 : Cruzamento entre „Classes de palavras‟ e „Status morfológico do segmento‟ ................................................................................................................... 64

TABELA 8 : Cruzamento entre „Classes de palavras‟ e „Dimensão do vocábulo‟ ......... 64 TABELA 9 : Resultados do grupo „Posição / tonicidade do segmento‟ ......................... 66 TABELA 10 : Resultados do grupo „Contexto fonológico seguinte‟ ............................. 69 TABELA 11 : Resultados do „Contexto fonológico precedente‟ ................................... 70 TABELA 12 : Cruzamento entre os „Contextos fonológicos seguintes‟ e „Contextos fonológicos precedente‟ ........................................................................... 70

TABELA 13 : Resultados do grupo „Classes de palavras' .............................................. 72 TABELA 14: Resultados do grupo „Anos de escolarização‟ ........................................ 76 TABELA 15: Resultados do grupo „Faixa etária‟ ......................................................... 79 TABELA 16: Resultados do grupo „Sexo‟ .................................................................... 84

GRÁFICO 1 : Resultados do fator „Anos de escolarização‟ .......................................... 76 GRÁFICO 2 : Resultados do fator „Faixa etária‟ ........................................................... 79 GRÁFICO 3 : Cruzamento dos fatores „Anos de escolarização‟ e „Faixa etária‟ ......... 80 GRÁFICO 4 : Cruzamento dos fatores „Sexo‟ e „Faixa etária‟ .................................... 85


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LISTA DE ABREVIATURAS

ENFR.(ENFRAQ.)

enfraquecimento

%

porcentagem

Arq. 1

arquivo formado por /a/ + /v/ + /a/

Arq. 2

arquivo formado pelos contextos restantes

Aplic.

aplicação da variável

Realiz. Padrão

realização da variável padrão

P. Relativo (P. Rel.)

peso relativo, ou seja, a probabilidade ocorrência do

fenômeno

de


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1 -

INTRODUÇÃO

Esse trabalho visa a descrever o fenômeno de enfraquecimento da fricativa sonora lábio-dental (/v/) no município de João Pessoa (PB). Até então, sua presença havia sido focalizada na zona urbana de Fortaleza (Roncarati, 1988) e em Salvador (Canovas, 1991). Na comunidade pessoense, também, pode-se perceber ocorrências de itens produzidos com o fonema /v/ de forma enfraquecida, ampliando, assim, a área afetada por esse fenômeno. Diferente do fenômeno de enfraquecimento mais conhecido no Brasil, que é o enfraquecimento do /s/ pós-vocálico, que atinge vocábulos como mesmo (> mehmo), desligar (> dehligar), as meninas (> ah menina ) etc, o fenômeno aqui estudado afeta o onset silábico e uma consoante sonora, a exemplo de: “(...) quando eu fala[h]a assim (...)”, (fala[v]a) “(...) ia le[h]a você (...)”. (le[v]a )

Os artifícios utilizados nessa pesquisa, para a obtenção dos dados de língua falada de informantes pessoenses, foram os parâmetros estabelecidos pelo Projeto Variação Lingüística no Estado da Paraíba (VALPB) (Hora, 1993), a proposta teórico-metodológica do lingüista norte-americano William Labov (Sociolingüística Variacionista) e o programa computacional VARBRUL (Pintzuk, 1988). Foram observados fatores lingüísticos e sociais, a fim de sistematizar o fenômeno em questão. Os fatores lingüísticos analisados foram: contexto fonológico precedente, contexto fonológico seguinte, dimensão do vocábulo, posição / tonicidade do segmento,


13 status morfológico do segmento e classes de palavras. Os fatores sociais foram: sexo, faixa etária e anos de escolarização. A descrição quantitativa informa qual a relevância de cada um para o fenômeno lingüístico ora estudado. A justificativa para a realização de um trabalho como esse, em nível de língua oral, é descrever um dos fenômenos que permeia a linguagem da comunidade pessoense e que lhe é bem peculiar, enriquecendo, assim, o mapa lingüístico brasileiro, além de trazer benefícios para a o ensino de língua portuguesa, fazendo com que os professores passem a dar mais importância ao contexto social em que o aluno está inserido, encarando-o como um fator modelador em sua produção oral. Com o objetivo de desenvolver as idéias de forma organizada, esse trabalho foi dividido em nove partes, cujos conteúdos serão descritos a seguir: No primeiro capítulo, juntamente com a introdução, serão expostos os objetivos gerais e os específicos; as hipóteses gerais, que relacionam o trabalho em questão com a teoria Sociolingüística, e as hipóteses específicas, que são as expectativas levantadas com relação à aplicação do fenômeno à língua falada na comunidade pessoense. O segundo capítulo diz respeito ao objeto de estudo dessa pesquisa, que é a variação existente entre a fricativa sonora /v/ (realização plena) e o seu enfraquecimento (/h/). Nesse capítulo, explicitar-se-á o processo de enfraquecimento e será apresentada uma retrospectiva acerca dos estudos sobre o enfraquecimento do fonema /v/. A fundamentação teórica será apresentada no terceiro capítulo. Uma breve apresentação de como a língua foi estudada nos séculos XVII até o século XIX; as principais idéias de Saussure no Estruturalismo (início do séc. XX) e de Chomsky no Gerativismo (meados do séc. XX). Os pressupostos básicos que fundamentam a teoria sociolingüística variacionista, suporte teórico dessa dissertação, foram expostos nesse capítulo.


14 No quarto capítulo, enfocar-se-á a metodologia utilizada nesse estudo. Será descrito o porquê de uma amostra com 60 informantes - e como foi trabalhada para detectar a heterogeneidade lingüística da comunidade em pauta -, como os informantes serão estratificados e como será utilizado o pacote de programas VARBRUL para a obtenção dos resultados. Serão, também, definidas as variáveis dependentes e independentes (extralingüísticas, ou sociais, e lingüísticas), que serão criadas a fim de refutar ou corroborar as hipóteses levantadas. No quinto capítulo serão expostos os índices numéricos obtidos pelas variáveis dependentes e como as variáveis independentes serão organizadas para a melhor descrição dos resultados obtidos. Os resultados das variáveis lingüísticas selecionadas pelo programa VARBRUL serão abordados no sexto capítulo, e os resultados das variáveis sociais no sétimo capítulo. Ambos os capítulos serão ilustrados com tabelas e gráficos para a melhor visualização dos números obtidos. Finalmente, no oitavo capítulo será apresentada a conclusão, e em seguida a bibliografia que alicerçou este trabalho.

1.1 Objetivos:

É através da determinação e formulação dos objetivos que se realiza uma pesquisa. Os objetivos servem para delimitar a área que a pesquisa se propõe a analisar.

1.1.1 Objetivos gerais:


15 Os objetivos comuns aos trabalhos que integram o projeto VALPB (Hora, 1993), como esse estudo, por exemplo, são:

traçar o perfil lingüístico, em nível fonético- fonológico e gramatical dos falantes da comunidade de João Pessoa, observando fatores lingüísticos e extralingüísticos que interferem no uso da língua;

desenvolver estudos, em nível fonético- fonológico e gramatical, visando a subsidiar o ensino da Língua Portuguesa em todos os graus;

estabelecer comparações, em nível regional e nacional, com estudos já realizados, salientando as divergências dialetais e as semelhanças.

1.1.2 Objetivos específicos :

O estudo sobre o enfraquecimento da fricativa /v/ faz parte do VALPB, mas tem seus próprios objetivos a serem alcançados. São eles:

interpretar e analisar os resultados seguindo os parâmetros do VALPB e da Teoria Variacionista;

descrever as variáveis lingüísticas e sociais que norteiam, de forma sistemática, a variação do fenômeno de enfraquecimento da fricativa sonora lábio-dental (/v/);


16 

identificar se o fenômeno reflete variação estável ou um processo de mudança;.

estabelecer comparações com estudos realizados em outras regiões, salientando os pontos de diferença e de semelhança entre os resultados.

1.2 Hipóteses :

As hipóteses levantadas a partir da observação preliminar dos dados são as seguintes:

1.2.1 Hipóteses gerais :

a alternância lingüística entre a fricativa sonora /v/ e seu respectivo enfraquecimento (/h/), na língua oral dos pessoenses, pode ser sistematizada baseada em índices numéricos;

a sociedade, representada pelos fatores sociais (sexo, anos de escolarização e faixa etária), exercerá influência positiva nessa variação;

determinados ambientes lingüísticos motivarão a ocorrência da variável não-padrão ou inovadora (enfraquecimento de /v/);


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a variável considerada padrão (/v/) ocorre mais do que a variável inovadora (/h/), pois se acredita que esta se apresenta estável na comunidade, ocorrendo, em muitos ambientes sociolingüísticos, de forma incipiente.

1.2.2 Hipóteses específicas :

a variação /v/ ~ /h/ está coexistindo na língua falada da comunidade pessoense, configurando, talvez, uma variação estável;

conforme uma tendência geral encontrada em trabalhos socio lingüísticos, os informantes pertencentes ao sexo masculino e não escolarizados lideram o processo inovador;

já que paira a expectativa de que o processo configure-se como uma variação estável, os informantes adultos (26 a 49 anos) favorecerão a aplicação do enfraquecimento de /v/;

trabalhos já realizados sobre o fenômeno de enfraquecimento de /v/, mas em outras comunidades de fala (Roncarati (CE - 1988) e Canovas (BA - 1991)), apresentaram, como item de maior relevância à aplicação do fenômeno, o morfema de pretérito imperfeito do indicativo em verbos da primeira conjugação (-ava). Em João Pessoa a


18 expectativa é que os resultados venham corroborar os já encontrados pelas autoras acima citadas;

os contextos fonológicos precedente e seguinte ao segmento /v/, quando preenchidos pela vogal /a/, favorecem a ocorrência de enfraquecimento;

as sílabas finais de palavras que contém o segmento /v/, principalmente se essa for uma sílaba postônica, apresentar-se-ão como relevantes ao enfraquecimento de /v/;

os

vocábulos

mais

extensos

condicionarão

positivamente

o

processo

de

enfraquecimento;

a categoria gramatical dos verbos se correlacionará mais favoravelmente à variante não-padrão ou inovadora.


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2 -

OBJETO DE ESTUDO

2.1 O fenômeno de enfraquecimento:

O processo de enfraquecimento obedece a uma „escala de força‟ (strength hierarchy) que se baseia no modo de articulação. Quanto mais obstrução um som tiver, mais forte ele será e, quanto menos obstrução, mais fraco ele será. A „escala de sonoridade‟ é uma reafirmação inversa da „escala de força‟. Tanto a sonorização, quanto o enfraquecimento, tendem à vocalização ou apagamento, como será demonstrado no esquema abaixo (Katamba, 1993: 104).

ESCALA DE SONORIDADE ( - Sonoridade) 1 2 3 4 5 6 7 8 ( + Sonoridade)

oclusivas surdas (p, t, k) oclusivas sonoras (b, d, g) fricativas surdas (f, s, š) fricativas sonoras (v, z, ž) nasais (m, n, nh) líquidas (r, l, lh) glides (y, w) vogais (a, e, é, i, o, ó, u)

ESCALA DE FORÇA ( + força) 8 7 6 5 4 3 2 1 ( - força)

Segundo Katamba (1996: 105), as oclusivas envolvem as obstruções mais fortes e as aproximantes (nasais, líquidas, glides e vogais) as mais fracas, com o restante dos sons


20 ficando entre elas. A perda total de um som é a forma final de enfraquecimento (OCLUSIVA > AFRICADA > FRICATIVA > APROXIMANTE > ZERO) 1 . Um conhecido “princípio” de mudança lingüística, segundo Coutinho (1969: 112), é que, quando em posição intervocálica, as consoantes mediais surdas latinas sonorizam-se em português nas suas homorgânicas, e as sonoras geralmente caem, a exemplo de: caballu > cavalo 2 , ibam > ia. Esse é um exemplo clássico de um processo de enfraquecimento. Segundo Katamba (1993: 105), quando um som surdo como /t/ torna-se sonoro, pode-se falar em „enfraquecimento‟ 3 . Pode-se falar em enfraquecimento e lenição indistintamente, pois ambos se equivalem. 4 Segundo Spencer (1996: 230), o processo de lenição é bastante conhecido em outras línguas. No espanhol, por exemplo, ocorre quando, entre vogais, as oclusivas sonoras /b, d, g/ tornam-se fricativas correspondente /β,ð,ɣ/ (b, d, g  β,ð,ɣ / V_V). No inglês, um processo de lenição bem conhecido é o flep (flapping), por exemplo, que atinge o /t/ e o /d/ precedidos de vogal, quando pronunciados como uma rápida batida da ponta da língua contra o alvéolo superior, produzindo um som de pouca duração [ɾ]. No português do Brasil, há o processo de lenição do /s/ em posição de coda (desligar ~ dehligar, mesmo ~ mehmo). Esse fenômeno já foi objeto de estudo em diversas comunidades do Brasil: Natal (RN), Fortaleza (CE), Cordeiro (RJ), Salvador (BA), Rio de Janeiro (RJ) (cf. Pessoa, 1986; Roncarati, 1988; Gryner e Macedo, 1981; Canovas, 1991; Scherre e Macedo, 1989. Com relação às fricativas, ao lado do enfraquecimento da fricativa /v/ na comunidade pessoense, o enfraquecimento das fricativas /z, ž/, nesta localidade, também

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(> indica u m passo em direção a u ma fraca pronunciação) OBS: A troca do b pelo –v remonta ao latim vulgar (vene (bene), birtus (virtus)). A permuta do –b- em –vsó se consolidou, em lat im, no século II: devere, provata, etc. (Coutinho, 1976: 111 e 113). 3 “When a voiceless sound like [t] becomes voiced, we can speak of „weakening ‟” 4 Neste trabalho os termos lenição e enfraquecimento serão utilizados alternada e indistintamente. 2


21 foi percebido (Marques, 1998), a exemplo de: “(...) fica em ca[h]a (casa) que ela (...)”, “(...) isso que a [h]ente (gente) vê (...)”. Esta variação também foi encontrada em Fortaleza (Roncarati, 1988) e em Salvador (Canovas, 1991). No presente trabalho, serão descritas as restrições que norteiam a ocorrência do enfraquecimento do fonema /v/, pois, após mapeado, os resultados serão de grande valia para pesquisas posteriores.

2.2. O enfraquecimento da fricativa /v/:

No vernáculo do pessoense é bastante perceptível a produção variável da fricativa sonora lábio-dental (/v/), que ora é produzida como /v/ (ex.: “... sempre roda[v]a o tambo...”), ora como /h/ (ex.: “... carro ta[h]a tão...”), um som vibrante velar, semelhante ao rr ou r em início de palavra (Roncarati 1988: 05). A fricativa sonora /v/ foi muito sujeita a variações ao longo do tempo. Mendes de Almeida (1960: 45) afirma que o v pode originar-se: 1) de um v etimológico: vidro de vitrum, vida de vitam, severo de severum; 2) de um f (ou ph): trevo de trifolium (= três folhas), Cristóvão de Cristophorum (= que transporta Cristo); 3) de um b: governo de gubernum, livro de librum; 4) de um p: escova de scopam (em latim significa vassoura)5 Há casos em que o v latino, quando intervocálico, desaparece: bovem deu boi.

5

Coutinho (1976: 116) afirma que o –b-, resultante do –p- , pode por sua vez modificar-se em –v-: scopa > escoba > escova, populu > poboo (arc.) > povo.


22 Na passagem do latim para o português, as consoantes fricativas fixaram-se simetricamente com suas respectivas homorgânicas. Simetria que no latim somente caracterizava o grupo das oclusivas. (...) a simetria que já existia nas oclusivas em latim é também trazida para as constritivas. Assim, correspondentes às já existentes constritivas /f/ e /s/, o português estabelece a contrapartida sonora desses dois fonemas, /v/ e /z/ (...) e depois cria (...) as constritivas médio-palatais, /š/ e /ž/. (Tarallo, 1990: 108)

Ainda conforme Tarallo (1990: 108), a evolução do sistema consonantal do latim para o português caracterizou-se através de dois processos: tendência à lenição articulatória e à palatalização. Atualmente, a fricativa sonora /v/ vem mostrando uma tendência, em alguns ambientes, a sofrer o processo de lenição, ou enfraquecimento, pois sua pronúncia varia entre sua realização padrão (/v/) e um som faucal6 ou enfraquecido (/h/), que é um som faringal ou glotal, produzido entre a base da língua e a garganta, como o “h sonoro de rosa”7 . Schubiger (apud Roncarati, 1988: 05) afirma que a realização mais freqüente do enfraquecimento é a de um som constritivo, glotal, sonoro, que acontece quando se produz uma leve vibração nas cordas vocais ao mesmo tempo em que se deixa passar entre elas ar sem vibração. Este fenômeno já foi objeto de estudo em Fortaleza / CE, por Roncarati (1988), e em Salvador / BA, por Canovas (1991). Roncarati, ao longo do seu texto, osc ilou entre os termos enfraquecimento ou heização para denominar o fenômeno em questão. Esse fenômeno já havia sido percebido por Silva Neto (1979: 627) como

6 7

Martin z de Aguiar apud Roncarati , 1988: 02 Macamb ira apud Roncarati, 1988: 06


23 um som muito interessante que se documenta em Alagoas e Pernambuco, mas se estende até o Ceará. É o v, da palavra cavalo, que se pronuncia como um h aspirado: assim uma expressão popular como “cavalo velho é teu padrinho” pronuncia-se entre os matutos do Ceará cah‟al héi é teu padim, em que as vogais átonas finais se perdem e o v se torna aspirado. Martins de Aguiar cita exemplos como estaha (estava), ahia (havia), hamo (vamos).

Gueiros (apud Roncarati 1988: 03) afirma que em Pernambuco, nas camadas analfabetas, a fricativa sonora lábio-dental estaria sendo pronunciada preguiçosamente, semelhante ao „h‟ aspirado em inglês. Em estudos mais antigos sobre o objeto em questão, foi atribuído um teor estigmatizante a esse fenômeno, pois sua produção foi designada como sendo própria do dialeto dos almocreves 8 , dos matutos do Ceará 9 , dos analfabetos 10 , das crianças e ou do povo rústico 11 . Apresentado o objeto de estudo, fundamentação teórica que norteia esse trabalho.

8

Flo risval Seraine apud Canovas, 1991: 43.) Silva Neto (1979: 627) 10 Gueiros (apud Roncarati, 1988: 03) 11 Martinz de Aguiar apud Roncarati, 1988: 02) 9

no capítulo seguinte,

tratar-se-á da


24

3 -

FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

3.1. O estudo da língua do século XVII ao século XIX:

O homem sempre foi alimentado pela curiosidade de desvendar os segredos que envolvem a linguagem. Em cada tempo, sob diferentes pontos de vista, e atendendo a interesses múltiplos, muitos estudos foram instaurados a fim de investigar os mistérios da comunicação verbal, no afã de responder a indagações tais como o que é a língua, qual a sua origem, qual o seu funcionamento e como se procede sua transformação. Segundo Orlandi (1986), os estudos da linguagem verbal ao longo dos anos têm se dividido em duas tendências: uma que se ocupa do percurso psíquico da linguagem (relação: linguagem / pensamento), que busca o que é único, universal e constante (formalismo); e outra que se ocupa com o aspecto social (relação: linguagem / sociedade), que procura o que é múltiplo, diverso e variado (sociologismo). Os estudos da linguagem do século XVII e XVIII, século das gramáticas gerais, são fortemente marcados pelo racionalismo, pois a linguagem era estudada como mera representação do pensamento. Segundo Orlandi (1986: 12) o alvo que esses estudos queriam atingir era a língua-ideal - língua universal, lógica, sem equívocos, sem ambigüidades, capaz de assegurar a unidade da comunicação do gênero humano. Nesses estudos, pressupunha-se uma fixidez da língua, consequentemente, as descrições gramaticais tinham um caráter essencialmente normativo e filosófico. Exemplos dessas


25 tendências, conforme Malmberg (1974: 24), encontram-se na Grammaire de Port-Royal (1660) e na teoria lingüística de Du Marsais (1729). A primeira metade do século XIX é marcada pela Lingüística Histórica, com as gramáticas comparadas. O ideal de universalidade cede lugar ao fato de que as línguas estão aptas a sofrerem mudanças com o tempo, de forma regular, sistemática. Não é mais a precisão, mas a mudança o que importa. Busca-se, então, a reconstrução da língua-mãe (protolíngua). Passa a vigorar o ideal romântico: uma tentativa de reconstruir o estado ideal da língua (estudo do indo-europeu). Esses estudiosos elencavam, conforme Tarallo (1990: 30), palavras cognatas de vários sistemas, com semelhanças de forma e sentido, e, através da comparação, buscavam o estabelecimento da protolíngua. Na década de 70 do século XIX, um grupo de acadêmicos germânicos da Universidade de Leipzig, conhecidos como neogramáticos, procuravam demonstrar a ação e o princípio da regularidade da mudança lingüística através de leis fonéticas (causa mecânica), e tudo aquilo que não pudesse ser explicado por essas leis seria explicado por analogia (associação de idéias – causa psicológica). Os cânones desta doutrina foram estabelecidos por Osthoff, Brugmann, Hermann Paul, Leskien.

3.2. Século

XX:

Saussure

No início do século XX os estudos da linguagem, com o advento da Lingüística, ascendem à categoria de ciência, com objeto (a língua, como fora antes, só que considerada em si mesma e por si mesma) e métodos próprios (não se utilizavam mais da filologia para


26 estudar a língua). Neste século dá-se atenção aos estudos descritivos da linguagem, e não mais a sua história. O começo do século XX é marcado pelo início do Estruturalismo, movimento identificável em Lingüística a partir da publicação do Cours de linguistique générale de Sussure em 1916. Ele conceitua a língua como um “sistema de signos”, ou seja, um conjunto de unidades que estão organizadas formando um todo (Orlandi, 1986: 22). A metodologia estruturalista preocupa-se com as relações no interior de um sistema. A intenção não era formar um sistema de uma língua particular, mas elaborar um sistema de conceitos gerais, que pudesse dar conta de todas as línguas. Para Saussure (1973) a linguagem é vista por dois ângulos: um individual (fala ou parole) e um social (língua ou langue) . O objeto de suas investigações é a língua (ideal) que é de natureza puramente psíquica. A língua para Saussure está depositada como produto social na mente de cada falante de uma comunidade. É exterior ao indivíduo, e este não pode nem criá- la, nem modificá- la. Assim delimitada, ela é de natureza homogênea. Já a fala, que tem uma natureza psicofísica, é a realização concreta da língua pelo sujeito falante, sendo circunstancial e variável, por isso ele a exclui de seus estudos. Estuda a língua, devido ao seu caráter estático e homogêneo, procurando, desta forma, descrevê- la e entende- la do ponto de vista de sua estrutura interna. Ao lado da dicotomia langue-parole, Saussure (1973, p. 105-6) também desenvolveu uma outra que diz respeito à divisão dos estudos lingüísticos em sincrônicos e diacrônicos. Saussure prefere estudar a língua sob o aspecto sincrônico, pois, segundo Hora (1997: 163), nesse nível a língua é concebida como um sistema completamente estático, homogêneo e regular. Já no nível diacrônico, ela é vista como um elemento evolutivo; a preocupação é com os termos que se substituem uns aos outros no te mpo a nível sincrônico, não com as relações entre os termos coexistentes de um estado de língua.


27 Tarallo (1990: 57) observa que, para os estruturalistas da 1ª metade do século, uma língua tem que ser estruturada para funcionar eficientemente. Defendiam e pregavam que a noção de estrutura implica em efetivo funcionamento do sistema, então, falar em mudança revelava problemas de concepção, pois, nos períodos de mudança os sistemas passariam por fases menos sistemáticas.

3.3. Meados do século XX: Gerativismo

Nos anos 50, surge o Gerativismo, com o lingüista americano Noam Chomsky, que via a língua como um conjunto de sentenças e dava uma atenção especial ao seu caráter sintático. Ele estabeleceu a distinção entre competência e desempenho. Segundo Mattoso (1978: 45), a “forma ideal da língua” começou a ser estudada através da teoria da “competência” e a atividade relacionada, a fala (parole), se estuda como o fenômeno de desempenho (performance). Chomsky acredita que

a competência é a porção do conhecimento do falante conhecimento do sistema lingüístico como tal - por intermédio do qual ele é capaz de produzir o conjunto infinitamente grande de sentenças que constitui a sua língua. O desempenho, por outro lado, é comportamento lingüístico; e é determinado não apenas pela competência lingüística do falante, mas também por uma variedade de fatores não lingüísticos que incluem por um lado, convenções sociais, crenças acerca do mundo, as atitudes emocionais do falante em relação ao que está dizendo, seus pressupostos sobre as atitudes de seu interlocutor, etc., e o funcionamento dos mecanismos psicológicos e filosóficos envolvidos nas produções dos enunciados (Lyons 1981: 215).


28 O escopo da gramática gerativa é descrever a competência de um falante-ouvinte ideal, pertencente a uma comunidade lingüisticamente homogênea, e que conhece sua língua perfeitamente. Este falante não é afetado por condições irrelevante de gramaticidade como limitações de memória, distrações, mudanças de atenção e interesse, e erros de aplicação de seu conhecimento da língua no desempenho real. Para Chomsky a língua só é lingüisticamente estudada até onde ela é homogênea, ou seja, na mente do falante. O que sai da mente, através da fala, e entra em contato como o meio externo, faz parte do desempenho do falante e é irrelevante para ser estudado. Conforme Chomsky (1994), através do estudo da língua, estuda-se, também, o funcionamento dos mecanismos mentais. Fazendo uso de métodos puramente lógicos e da intuição lingüística do pesquisador, julga-se a qualidade dos enunciados relegando-os o título de bem ou mal formados. A representação da competência lingüística de um falante individual passa por uma formalização analítica da faculdade humana da linguagem, que a Gramática Gerativa chama de Gramática Universal. Desse modo, a competência lingüística individual situa-se empiricamente numa faculdade da mente humana, não em padrões lingüísticos coletivos (Lucchesi, 1998: 211).

3.4. A Sociolingüistica variacionista

Na década de 60, um estudo sobre o inglês falado, realizado na ilha de Martha‟s Vineyard no estado de Massachusetts (EUA), e outro em Nova York, por William Labov (1966), deu início a um novo método de investigação lingüística, denominado


29 Sociolingüística, que se constituiu como um estudo independente e com uma metodologia própria. Com o texto Empirical Foundations for a Theory of Language Change (escrito em 1966 e 1968), U. Weinreich, W. Labov e M. Herzog, pretendiam apresentar uma teorização sobre a mudança lingüística, apoiada por uma sólida fundamentação empírica. Propõem a utilização de um modelo de análise (teorico- metodológico) que assume a variação lingüística como objeto de estudo. O modelo variacionista é empírico em seus métodos e tem como objeto de estudo o vernáculo, que é circunstancial e variável. O empirismo deste modelo está na dependência da coleta de dados de fala natural de falantes reais e de seus resultados quantitativos, para, a partir daí, poder chegar a alguma conclusão sobre fenômenos em análise. A ferramenta essencial da Sociolingüística variacionista é a quantificação. A quantificação representa um avanço nas técnicas descritivas. Segundo Milroy e Milroy (1997: 49), esta ferramenta permite aos investigadores fazerem declarações precisas entre falantes e grupos de falantes em uma comunidade. Consoante Hora (1997: 172), essa metodologia, que extrai as regularidades e tendência dos dados, tem resolvido muitas das dificuldades analíticas associadas aos julgamentos intuitivos usados em outros paradigmas. Desta forma, um modelo em que a língua seja vista como uma estrutura heterogênea ordenada elimina a busca dos falantes ideais e torna as comunidades lingüísticas acessíveis àqueles que se interessam pelo estudo da língua.

Com uma metodologia própria e original, pautada nos princípios quantitativos da análise dos dados de língua falada, a Sociolingüística, ou Teoria da Variação, através da análise estatística de fenômenos particulares das comunidades de fala, prevê a tendência que a língua desta comunidade irá seguir futuramente.


30 Weinreich, Labov & Herzog (1968: 101-2) afirmam que para se estudar a mudança é preciso saber quais são os fatores que a condicionam; como e por quais caminhos a língua muda (transição) e porque; como ela se encaixa no sistema circundante de relações sociais e lingüísticas; como os membros de uma determinada comunidade lingüística avaliam a mudança e quando e onde determinada mudança foi implementada. Ou seja, deve-se dar conta de cinco problemas que norteiam este tipo de estudo, que são: o problema das restrições (constraints problem), o problema da transição (transition problem), o problema do encaixamento (embedding problem), o problema da avaliação (avaluation problem) e o problema da implementação (actuation problem). A ideologia da Sociolingüística centra-se na crença de que a língua é heterogênea, e que essa heterogeneidade é ordenada. Para essa corrente, a língua é heterogênea e está em permanente dinamismo, por isso está exposta a processos de variação e mudança. A variação, ou heterogeneidade, existente na língua se assemelha, segundo Tarallo (1990), a um “caos”, a um “campo de batalha”, onde as diversas formas de se dizer a mesma coisa em um mesmo contexto e com o mesmo valor de verdade enfrentam-se num duelo de contemporização, por sua subsistência, coexistência ou extinção. Este “caos” é apenas aparente, pois além de não comprometer o conteúdo semântico dos enunciados, ainda é perfeitamente passível de sistematização por ser condicionado por fatores estruturais (lingüísticos) e sociais (extralingüísticos) que se correlacionam. Weinreich, Labov e Herzog (1968: 101) investigaram, no Problema das restrições, o conjunto de possíveis mudanças e possíveis condições para mudanças que podem acontecer numa estrutura de um determinado tipo, pois o processo de mudança lingüística raramente é um movimento de um sistema inteiro para outro, e sim o movimento de um conjunto limitado de variáveis de um sistema que altera gradualmente seus valores modais de um pólo a outro.


31 Enquanto alguns lingüistas anteriores aos variacionistas acreditavam que para cada forma há uma função correspondente, os variacionistas advogam que uma função pode ser desempenhada por duas, ou mais formas. Estas formas são chamadas de variantes lingüísticas. A um conjunto de variantes dá-se o nome de variável lingüística. Observar se a mudança lingüística se processa por estágios discretos ou faz parte de continuum consiste num Problema de Transição. Para os estudos estruturalistas a mudança se processava como uma sucessão de estágios discretos intercalados por períodos de transição, sendo que cada estado discreto constituiria um sistema autônomo em termos estruturais e funcionais; sendo, portanto, esses estados discretos o objeto próprio da análise sincrônica. 12 Os estruturalistas afirmam que para que a língua funcione eficientemente ela precisa ser estruturada. O objeto de estudo desses pesquisadores eram os estados da língua, que era uma sucessão de sistemas homogêneos e unitários permeado por períodos de instabilidade e mudança, ou melhor, por períodos de menor sistematicidade. Esses períodos, portanto, não eram investigados, pois eram considerados para alguns como irrelevantes 13 e para outros como estágios impossíveis de serem observados 14 . Weinreich, Labov, e Herzog (1968: 101) observaram que, apesar de nos períodos de transição haver, segundo os estruturalistas, pouca sistematicidade, a comunicação se processava eficientemente, logo perceberam que a heterogeneidade era perfeitamente sistemática. O recurso utilizado por Labov para superar a idéia de que só a homogeneidade é estruturada foi o de procurar entrever a mudança em progresso na variação observada na língua num determinado momento, o que ele definiu como o estudo da mudança no tempo

12 13

Lucchesi, 1998: 197. Jakobson (apud Lucchesi, 1998: 198)


32 aparente.

Assim, segundo Lucchesi (1998: 182), o estudo da mudança na análise

sincrônica abria os caminhos para a definitiva superação da dicotomia saussureana entre sincronia e diacronia. Desta forma, a mudança era estudada como fazendo parte de um continuum. Relegada a insignificância por estudos lingüísticos anteriores, a mudança em progresso não era investigada, pois a variação, que a determina, era considerada irrelevante. As diferenças encontradas nos hábitos de fala de uma comunidade eram encobertos como “variação livre” (Bright, 1974: 18) e, portanto, assistemática. Os variacionistas, ao contrário, postulam que a variação é perfeitamente sistematizável e que os resultados de uma análise variável propiciarão a formulação de regras gramaticais, que, devido à natureza da fala, que é o seu objeto de estudo, nunca poderão ser categóricas, optativas ou obrigatórias. Serão regras variáveis, pois o favorecimento de uma variante em detrimento de outra é motivado por condicionamentos lingüístico (estrutural) e extralingüístico (social) sistemáticos. Diferente dos outros paradigmas, que viam no indivíduo, ou em sua mente, o recinto da homogeneidade lingüística, os sociolingüistas acreditam que até na mente de um único indivíduo existe heterogeneidade. Weinreich, Labov e Herzog (1968: 101) queriam romper com a identificação entre estrutura e homogeneidade, acreditando que “o comando nativo de estruturas heterogêneas não é um problema de multidialetalismo ou “mero” desempenho, mas é parte da competência lingüística unilingüe”. 15 Para os sociolingüistas a estrutura é

intrinsecamente

heterogênea,

e

heterogeneidade e estrutura não são incompatíveis, como acreditavam os estruturalistas, ao contrário, são necessárias para o funcionamento real de qualquer língua. Prova-se isso pela

14

Bloo mfild (apud Labov, 1972: xix- xx) declarou que algumas flutuações observadas poderiam ser apenas casos de impréstimos diatetais. Hockett (apud Labov 1972: xix-xx) observou que enquanto mudanças sonoras eram mu ito lentas para serem observadas, mudanças estruturais eram mu ito rápidas.


33 competência do indivíduo em codificar essa heterogeneidade. Os falantes conhecem os mecanismos que formam as regras variáveis, o que faz com que a variação seja sistemática, controlável, e não aleatória e incontrolável, fato que conserva uma unidade comunicativa entre os usuários de uma língua. Na concepção estrutural- funcionalista a mudança lingüística só poderia ser compreendida considerando-se a sua inserção no sistema lingüístico afetado pela mudança. A Sociolingüística não pensa diferente, mas acredita que o estudo da mudança não se deve restringir apenas a observação da estrutura lingüística. É ai que se localiza o proble ma do encaixame nto. Os variacionistas reconheceram que uma análise estritamente lingüística é insuficiente para dar conta da mudança, então realizaram a interação desse sistema com a estrutura social da comunidade de fala. Dividiram, deste modo, o problema do encaixamento em dois ramos complementares: o encaixamento da estrutura lingüística e o encaixamento da estrutura social. Este último constitui um dos mais importantes avanços do modelo sociolingüístico e que o difere da concepção estrutural- funcionalista com relação a questão do encaixamento. Segundo Bright (1974: 17), a Sociolingüística difere de algumas preocupações anteriores com a relação língua-sociedade. Seguindo novas perspectivas da própria lingüística, considera tanto a língua quanto a sociedade como sendo uma estrutura e não uma coleção de itens. As correntes anteriores são essencialmente dicotômicas e descartam aspectos da língua como se eles não fossem importantes objetos de estudo. Na introdução de seu livro Sociolinguistic Patterns (1972), Labov diz que resistiu ao termo Sociolingüística por muito tempo, pois ele traz a tona uma idéia de que pode haver uma teoria ou prática lingüística que não seja social. Saussure, segundo Labov 15

“native like command of heterogeneous structures is not a matter of mu ltid ialectalis m or „mere‟ performance, but is part of unilingual linguistic co mpetence”.


34 (1972: 186), foi contraditório quando fez a divisão entre língua e fala e estabeleceu à primeira o fator social. A contradição está no fato de a língua nunca poder ser pesquisada nas suas manifestações reais, pois, assim, se estaria diante da fala. Por outro lado, a fala, postulada como individual, pode ser surpreendida apenas no contexto social. Labov denomina este fato de Paradoxo Saussuriano. Pride (1976: 277) afirma que a Sociolingüística não é apenas um amálgama de Lingüística e Sociologia (ou mesmo de Lingüística e qualquer outra ciência social). Ela abrange, em princípio pelo menos, todos os aspectos da estrutura e do uso da linguagem que digam respeito às suas funções sociais e culturais. O encaixamento do sistema lingüístico, segundo Lucchesi (1998: 191), não deve se situar no indivíduo (idioleto), e sim na comunidade de fala. A Sociolingüística variacionista focaliza em seus estudos a comunidade de fala, pois a partir dela pode-se investigar as origens e difusões da mudança lingüística em progresso, ou seja, como essas mudanças se espraiam na comunidade de fala e dela para outras comunidades. Analisa a mudança de grupos de falantes para grupo de falantes (Milroy & Milroy, 1997). Conforme Labov (1989: 02), A comunidade de fala tem sido definida como um agregado de falantes que compartilham um conjunto de normas para a interpretação da língua, como refletida no seu tratamento de variáveis lingüisticas: modelos de estratificação social, mudança de estilo e avaliações subjetivas16 . Cada comunidade de fala possui um perfil variacionista particular, mas, através da comparação dos estudos feitos em uma comunidade com os de outra comunidade podemos ter uma idéia dos universais da variação, ou seja, o(s) elemento(s), ou fator(es) que rege(m) determinado fenômeno variacionista.

16

The speech community has been definied as an aggregate of speakers who share a set of norms for the interpretation of language, as reflected in their treatment of linguistic variables: patterns of social stratification, style shifting, and subjective evaluations.


35 Fazendo um recorte transversal da amostra sincrônica em função da faixa etária dos informantes, ou seja, uma análise em tempo aparente, podemos saber se o processo em análise está apenas sofrendo variação (variantes lutando por sua subsistência ou coexistência), ou se há uma situação de mudança em progresso (morte de uma das variantes). Como a língua para a Sociolingüística é estudada como um elemento flexível, que pode ir e vir no tempo conforme a necessidade do estudo, então, em busca de melhores explanações para os processos de variação lingüística, pode-se proceder a um encaixamento histórico da variável no tempo real, a um estudo longitudinal da língua através do tempo (nível diacrônico), com base em fontes históricas (atlas, cartas pessoais, textos teatrais, gramáticas antigas, etc., por falta de material oral armazenado). Assim, a pesquisa Sociolingüística objetiva atacar a variação lingüística em todos os ângulos, visando obter um panorama descritivo da diversidade lingüística. A questão levantada por Saussure, de que o indivíduo aceita o processo de estruturação da língua passivamente, foi posta em xeque por Weinreich, Labov e Herzog (1968) como o Problema da avaliação. Os sociolingüistas dizem que estágios iniciais da mudança estão abaixo do nível de consciência social e os falantes não os percebem. Em estágios posteriores, conforme Labov (1982: 80), desvios estilísticos começam a aparecer, bem como a estratificação social. Testes de reação subjetiva revelam a avaliação social. Nas últimas etapas da mudança, quando a sociedade já é capaz de percebê-la, começam a surgir os esteriótipos ligados a atributos sociais negativos e, imediatamente, a reação do falante é a correção na direção das formas conservadoras, ou seja, os falantes, quando percebem, rejeitam as formas inovadoras.


36 Sendo assim, os falantes não aceitam passivamente o modo como a língua chega até ele. Ele avalia positivamente as formas com a quais se identifica dentro do grupo social a que pertence, ou as de um grupo que, para ele, é de prestígio, mas podendo, inconscientemente, produzir formas que julga ter uma avaliação social negativa. O Proble ma da imple mentação centra-se na dificuldade que estudos anteriores encontraram em determinar a direção que a mudança toma na estrutura social. Durante muito tempo, segundo Lucchesi (1998: 205), pensou-se que a mudança se desenvolveria de baixo para cima na escala social (lei do menor esforço e teoria dos substratos). Por outro lado, a idéia de que a mudança poderia se propagar através da imitação 17 conduz a uma posição diametralmente oposta: a mudança partiria das classes mais altas de maior prestígio social em direção às classes mais baixas.

Labov, através de estudos empíricos, descobriu que o padrão da mudança em progresso, encontrado em estudos nos centros urbanos, era que o grupo mais inovador nos processos de mudança provinha dos grupos sociais intermediários, e que, ao contrário das

correntes anteriores, que atribuíam

ao

uma

de

versa

direção

cima

para baixo,

ou

vice

movimento da mudança (gráfico

retilíneo), a

direção da implementação da mudança diagnosticada por Labov desenhava um gráfico curvilíneo. A língua pode ser considerada como sendo o patrimônio de um povo, onde estão contidos traços de sua cultura e que acompanham seu comportamento e evoluções político-sociais. O fato de a língua ser intrinsecamente um elemento que evolui, que transforma e é transformado por uma sociedade, faz com que a resposta à um questionamento levantado pelo problema da implementação possa ser respondido: Por

17

Bloo mfield apud Lucchesi, 1988: 205


37 que uma dada mudança ocorreu em um momento e em um lugar determinados, e não em outro momento e/ou em outro lugar? O que se fala e o que se ouve hoje pode ser considerado a fotografia da situação social da atualidade e, consequentemente, um dado histórico para pesquisas posteriores.


38

4 -

METODOLOGIA

Para a elaboração de um trabalho baseado no modelo teórico- metodológico da Sociolingüística, tem que se ter como ponto de partida um objeto. O objeto, o dado para análise, é a língua falada, o vernáculo. Segundo Tarallo (1990: 19), o vernáculo é a enunciação e expressão de fatos, proposições, idéias (o que) sem a preocupação de como enunciá-los. Trata-se, portanto, dos momentos em que o mínimo de atenção é prestado à língua, ao como da enunciação. Essas partes do discurso falado, caracterizadas aqui como o vernáculo, constituem o material básico para a análise sociolingüística.

Definido o objeto, partiu-se, então, para a coleta do material que foi submetido à análise. Neste caso, o material investigado faz parte de um projeto desenvolvido em João Pessoa denominado Variação Lingüística no Estado da Paraíba (VALPB). Foi iniciado em 1993 e, com a ajuda de alunos bolsistas (CNPq, PIBIC), os dados foram coletados e hoje já se encontram transcritos e armazenados. Esse material constitui um rico corpus, que, até então, sofreu apenas pequenas alterações. Contém uma amostra considerável (60 informantes) da fala da comunidade pessoense e alicerça vários trabalhos realizados na área de língua oral. A seleção e caracterização dos informantes e os instrumentos utilizados nessa pesquisa seguiram os parâmetros ditados pelo projeto VALPB e pelo modelo variacionista.


39

4.1 Amostra :

Segundo Oliveira e Silva (1994: 103), o tamanho da amostra é proporcional à freqüência de ocorrências do segmento analisado e do fenômeno ligado a ele. As amostras não podem ser idênticas para todos os fenômenos, pois a língua é mais homogênea para alguns do que para outros. Consoante a autora acima citada (op. cit), pela lei dos grandes números, sabe-se que, até certo ponto, a probabilidade de que os resultados sejam fidedignos é diretamente proporcional ao tamanho da amostra, isto porque o possível efeito de uma variável num indivíduo será somado ao de outros indivíduos, cada um com o seu efeito casual, do que nunca se estará completamente livre. Esses efeitos tendem a se anular mutuamente, já que, sendo casuais, agirão alguns numa direção e alguns em outra.

Nessa pesquisa, foi utilizado todo o corpus do VALPB, quantidade suficiente para mostrar o quanto é heterogêneo o fenômeno sob enfoque, que ora apresenta-se com a pronúncia padrão (fricativa sonora /v/); ora é proferido com sua pronuncia não-padrão (/h/). Segundo Mollica (1998: 15), Entende-se por padrão (...) um certo conjunto de marcas lingüísticas em acordo ou desacordo com os cânones da tradição gramatical: a variedade não-standard [não-padrão] é própria da modalidade oral, utilizada em contexto informal, de discurso espontâneo, não planejado. Ela se diferencia da denominada variedade culta ou norma culta, que se compõe de empregos típicos de discurso planejado, utilizada predominantemente na escrita e comprometida com a tradição literária.

Conforme Tarallo (1990: 12), Em geral, a variante considerada padrão é, ao mesmo tempo, conservadora e aquela que goza do prestígio sociolingüístico na comunidade. As variantes inovadoras, por outro lado, são quase sempre não-padrão e estigmatizadas pelos membros da comunidade.


40 Nesse trabalho serão utilizadas, alternadamente, as terminologias não-padrão e inovadora para a variante enfraquecimento de /v/. A análise probabilística desta amostra eliminará os itens caracteristicamente idiossincráticos, mostrando um resultado geral, que contempla a comunidade de fala observada. A descrição das restrições que favorecem a ocorrência de uma ou de outra variante é o que dará corpo a esse trabalho.

4.2 Caracterização dos informantes:

A língua falada é dinâmica e está viva e, segundo Luft (1997: 22), “Viver é modificar-se: vale para as pessoas e suas línguas”. Luft (1997: 66) diz ainda que “Língua é vida. Faz parte de toda a gama de nossos comportamentos sociais, como comer, morar, vestir-se, etc.” Portanto, como o universo social que circunda o homem é heterogêneo, seu comportamento refletirá essa heterogeneidade, logo, sua língua também. Por isso, serão controladas as direções tomadas pela variação lingüística dentro dos fatores sociais que caracterizam os indivíduos selecionados, como sexo, faixa etária (inerentes) e anos de escolarização (sócio- geográfico).

Sexo: Masculino (M) – 30 informantes Feminino (F) – 30 informantes


41 Faixa etária: 15 – 25 anos

(J) – 20 informantes

26 – 49 anos

(A) – 20 informantes

+ de 50 anos

(V) – 20 informantes

Anos de escolarização: Nenhum

(N) – 12 informantes

1 a 4 anos

(P) – 12 informantes

5 a 8 anos

(G) – 12 informantes

9 a 11 anos

(S) – 12 informantes

+ de 11 anos

(U) – 12 informantes

Estão assim distribuídos por células:

N (2) – FJN P (2) – FJP J (10)

G (2) – FJG S (2) – FJS U (2) – FJU N (2) – FA N P (2) – FAP

F (30)

A (10)

G (2) – FA G S (2) – FAS U (2) – FA U N (2) – FVN P (2) – FVP

V (10)

G (2) – FVG S (2) – FVS U (2) – FVU


42 N (2) – MJN P (2) – MJP J (10)

G (2) – MJG S (2) – MJS U (2) – MJU N (2) – MAN P (2) – MAP

M (30)

A (10)

G (2) – MA G S (2) – MAS U (2) – MAU N (2) – M VN P (2) – M VP

V (10)

G (2) – M VG S (2) – M VS U (2) – M VU

4.3 Método computacional :

Diante de uma amostra já pronta, o passo seguinte foi a transcrição e armazenamento dos dados. Realizou-se um recorte nas entrevistas, em que foi extraído todo o material existente no corpus necessário para essa pesquisa, ou seja, todas as ocorrências da fricativa sonora lábio-dental (/v/) entre vogais, para proceder, posteriormente, a sua análise. Transcritos e armazenados, partiu-se para a codificação dos dados. Através da observação dos dados colhidos, foram levantados os grupos de fatores lingüísticos e depois, juntamente com os fatores sociais, cada um foi codificado com


43 símbolos diferentes. Posteriormente, os dados foram digitados num arquivo de texto (.txt) com seus respectivos códigos. Uma vez digitados, os dados foram submetidos aos programas apropriados da série VARBRUL (Pintzuk, 1988) 18 , que são programas que trabalham com o modelo logístico descritivo. Segundo Scherre (1994: 130), O atual pacote VARBRUL é constituído por um conjunto de 10 programas 19 feitos nas linguagens PASCAL e FORTRAN. (...) Produzem como produto final resultados numéricos associados aos diversos fatores dos grupos de fatores ou variáveis independentes, que medem o peso relativo de cada fator no fenômeno variável sob análise. Juntamente com os pesos relativos, os programas apresentam também valores percentuais e medidas estatísticas diversas que indicam se os grupos de fatores considerados pelo pesquisador são significativos do ponto de vista estatístico. É conveniente salientar novamente que os resultados em si obtidos pelos programas só têm valor estatístico. O seu valor lingüístico é atribuído e interpretado pelo lingüista. (...). Nunca é demais repetir que a estatística é apenas um instrumento valioso que pode nos auxiliar a entender um pouco mais o comportamento de fenômenos lingüísticos variáveis.

Segundo Guy (1988: 29), uma análise tem que ser necessariamente multivariada, pois cada ocorrência de uma variável vem inserida em um enunciado e em um contexto social, que poderia abarcar um grande número de fatores que interagem e produzem uma medida numérica: o peso (. 50 = peso neutro). Na análise quantitativa, cada fator recebe um “peso” (“valor do fator” ou “probabilidade”) – um número entre zero e um que caracteriza o efeito deste fator sobre a regra variável em questão (quanto mais alto o número, maior a chance de a regra se aplicar quando este fator estiver presente no contexto). (Guy, 1988: 31)

18

Copyright 1986, 1987, 1988 por Susan Pintzu k. Baseado nos algorit mos e programas escritos por David Sankoff e Pascale Rousseau. 19 CHECKTOK, READTOK, MAKECELL, IVARB, TVARB, M VARB, CROSSTAB, TSORT, EXTSORT e COUNTUP.


44 Valores acima de . 50 possuem maior probabilidade de ocorrência, portanto, são os mais relevantes, ao passo que os inferiores à . 50, são valores que não favorecem a aplicação do fenômeno estudado.

4.4 Definição operacional das variáveis:

4.4.1 Variáveis dependentes:

As variáveis dependentes são aquelas que dependem de certos ambientes, ou seja, restringem-se a certos contextos para ocorrer. Esses podem ser do tipo estrutural (lingüístico), ou social (extralingüístico). No arquivo sonoro do Projeto VALPB, foram detectadas duas variantes para a fricativa sonora /v/, que ocorrem, alternadamente, ao longo de todas as entrevistas. São elas: a realização plena (/v/) e seu respectivo enfraquecimento ( /h/), constituindo-se, portanto, como uma variável binária.

a) /v/ (ex: “...a gente [v]eio embora...”) < v> b) /h/ (ex: “... fêra volta[h]a pra casa...”)

Enfraquecimento (/-h-/) x

realização plena (/-v-/)


45

4.4.2

Variáveis

independentes

lingüísticas:

As variáveis independentes são os contextos, ou grupos de fatores que norteiam a ocorrência das variáveis dependentes. Para determinar que tipos de vocábulos e morfemas apresentam a fricativa sonora /v/ enfraquecida, e assim chegar a uma sistematização, efetuou-se um levantamento nas entrevistas e chegou-se aos seguintes fatores lingüísticos: contexto fonológico precedente, contexto fonológico seguinte, posição / tonicidade do segmento, status morfológico do segmento, dimensão do vocábulo e classes de palavras.

4.4.2.1

Contextos fonológicos :

De acordo com Katamba (1996: 80), freqüentemente um fonema tem alofones que são dependentes, numa posição particular, de outros sons que são adjacentes a ele. A noção de direcionalidade é muito importante, pois se pode dizer se um fonema tem mais afinidade com o som que o precede ou que o antecede. No presente trabalho, será observada a circunvizinhança da fricativa sonora /v/, objetivando descrever que elemento mais se afina com o seu enfraquecimento, e em que posição ele se encontra (se precedente ou seguinte ao segmento analisado).


46

4.4.2.1.1

Precedente a /v/:

Levando em consideração a possível importância que os elementos que antecedem o segmento observado possa exercer sobre o fenômeno em questão, nesse estudo serão observados todos os elementos imediatamente anteriores à fricativa /v/ e o último elemento da palavra anterior, se o /v/ estiver no início do vocábulo observado.

 Vogais: a, e, é, i, o, ó, u, y, w, nasais início absoluto (#)

Exs.:

“... casinha que a [v]elha comprou...” “... já te[v]e lá...” “... ir me le[v]á no banheiro...” “# se eu ti[h]esse numa condição...” “... gente o go[v]erno só olha...” “... era no[v]enta dia...” “... veju [v]iolencia muito...” “... vay [v]e0 ne?...” “ # que ew [v]ejo lá ...” “... bom num [h]em de jeito...” “ # [v]endia sabe?...”.


47

4.4.2.1.2

Seguinte a /v/:

Este fator observa os elementos que estão imediatamente posteriores à fricativa sonora lábio-dental /v/. Esses elementos sempre estão no mesmo vocábulo, pois como a fricativa /v/ só preenche a posição de ataque silábico, nunca a posição de coda, sempre após a sua ocorrência haverá uma vogal que constitui, juntamente com ela, uma sílaba.

Vogal: a, e, é, i, o, ó, u, nasais

Exs.: “...vou le[v]ar pra casa...”

“...caba [v]eio mexe0...” “... mas no[v]ela eu num gosto...” “...a hente de[h]i faze0...” “... eu [v]ou consegui0...” “...oya a re[v]olta natural...” “...eles pru po[h]u pobri...” “...ele diz é [v]amo em payz...”


48

4.4.2.2

Posição

/

tonicidade

do

segmento :

Historicamente, pode-se constatar que a posição dentro da sílaba influenciou na variação dos fonemas. Tarallo (1990: 108) observa que as consoantes em início de palavra tenderam à preservação (/b/ = /b/: bonum > bom, /p/ = /p/: pedem > pé, etc.). Já com as consoantes mediais, segundo Tarallo (1990: 110), aconteceu o seguinte: (...) do início para o meio e fim das palavras, a tendência é diminuir a manutenção das consoantes latinas. Coutinho (1969: 112) formula uma hipótese muito específica sobre o comportamento das consoantes mediais, um “princípio” de mudança lingüística: “as consoantes mediais surdas latinas, quando intervocálicas, sonorizam-se em português nas suas homorgânicas, e as sonoras geralmente caem (...) (/b/ > /v/ ou cai: cibu > cevo, ibam > ia; /f/ > /v/: aurifice > ourives. Em Fortaleza (Roncarati, 1988: 47), os índices numéricos apresentam a posição não inicial da palavra como mais favorável ao enfraquecimento (. 60). Nesse grupo de fatores foi observada a posição em que o segmento /v/ se encontra dentro do vocábulo que o porta, com sua respectiva entonação, a fim de descrever, se esse for um aspecto relevante para o fenômeno, o ambiente que mais favorece a ocorrência de seu enfraquecimento.  Pretônica inicial: “# [v]oltei may0”, Pretônica não inicial: “... não lhe a[v]isei que isso...” Tônica inicial: “minha [v]ida sempre...”, Tônica medial: “... é uma mara[v]ilha meus...” Postônica: “... sempre roda[v]a o tambo0...”


49

4.4.2.3 Status mofológico do segmento:

Trabalhos sobre o mesmo fenômeno, realizados em outras localidades (Fortaleza (Roncarati, 1988) e Salvador (Canovas, 1991)), diagnosticaram como o elemento mais relevante a aplicação do enfraquecimento de /v/ o morfema verbal de pretérito imperfeito (–va), em verbos de primeira conjugação (-ava). Logo, intencionando verificar a relevância desse elemento para a aplicação do fenômeno na comunidade pessoense, foram criados os subfatores „morfema lexical‟ e „morfema não lexical‟.

 Morfema lexical:

“... ela [h]ai pensar...” “# ca[h]alo de pau...”

Morfema não lexical: “... eu chama[h ]a ele...”

“... que rodea[v]am ela...” “... nós já esta[v]amos aqui...” “... doença incurá[v]el vai...”


50

4.4.2.4

Dimensão do vocábulo:

Essa variável foi controlada para verificar se a extensão do vocábulo condiciona positiva ou negativamente esse fenômeno.

 Monossílabo: “... não [v]ai te0...”, Dissílabos:

“doze ano0 [h]im pra cá”

“... tenho [v]inte anos...”, “... carro ta[h]a tão...”

Trissílabos: “...esse muti[v]u de faze0”, “quando capta[h]a pelo...” Polissílabos: “... que o mo[h]imento taha...”, “... sê adi[h]ogada # ”

A hipótese para esse fator é que os vocábulos com mais de 3 sílabas (polissílabos) favorecerão a ocorrência de enfraquecimento. Mollica e Mattos (1989), a respeito do apagamento do fonema /d/ no

grupo

„-ndo‟, presente, em grande quantidade, no morfema de gerúndio, afirmam que quando as cadeias vocabulares são grandes, os segmentos tendem a não realização. Esse aspecto foi confirmado por Votre e Callou (apud Mollica e Mattos, 1989), sobre o segmento /-r/, que tendeu a ser preservado em vocábulos menos extensos, e sofreu apagamento nos mais extensos. Em João Pessoa, o estudo, também, sobre o apagamento do /d/ em „-ndo‟ (Martins, 1998: 341), reforça a idéia de Mollica e Mattos (1989), que acrescentam:

(...) observa-se que o contexto „ndo‟ é sempre átono e sempre se encontra no final de palavra. Se a atonicidade de sílaba em final de palavra já se afigura no português como um ambiente favorecedor à articulação branda ou mesmo à


51 queda de segmentos, maior razão para isso se o item é polissílabo. O fenômeno de apagamento do fonema /d/ no grupo „- ndo‟ assemelha-se bastante ao enfraquecimento de /v/, pois ambos ocorrem de forma bastante positiva em morfemas verbais: o primeiro no morfema de gerúndio (- ndo) e o segundo em morfema de imperfeito do indicativo (-ava), a pesar de o enfraquecimento de /v/, também, atingir consideravelmente outros itens.

4.4.2.5

Classes de palavras :

Nesse grupo de fatores, as palavras foram agrupadas em:

Substantivo: “... faze0 uma pro[h]a pra cai0...” Adjetivo: “...mulé [h]eia nua”,

“... ai o caba [h]eyo pegô...”

Verbo: “rapay, eu [v]ou conta0...” Outros: “... irmão de [v]inte ano...”.


52

4.4.3

Variáveis independentes sociais:

Nas variáveis extralingüísticas, ou também chamadas de variáveis sociais, encontram-se os fatores que levam em conta o indivíduo, como todos os aspectos sócioculturais que o envolvem. Os fatores estudados nesse item, já estratificados em 3.2., enfocam as características que são inerentes ao sujeito falante (sexo e faixa etária) e, também, suas características sociais-geográficas (nesse trabalho, apenas anos de escolarização).


53

5 -

DISTRIBUIÇÃO DOS DADOS

Neste capítulo serão explicitados os resultados obtidos pelo pacote de programas VARBRUL para o enfraquecimento da fricativa /v/. Os índices numéricos apresentados a seguir demonstram o comportamento sociolingüístico dos falantes pessoenses com relação a esse fenômeno.

5.1.Variáveis dependentes:

Do corpus do VALPB foram coletadas, ao todo, 9119 ocorrências, distribuídas da seguinte forma:

TABELA 1: Resultado da distribuição das variáveis dependentes. APLICAÇÃO %

PESO RELATIVO

ENFRAQUECIMENTO

1183

13

. 13

REALIZAÇÃO PLENA

7935

87

. 88

Pelos resultados, nota-se que a ocorrência da variante padrão ainda é bastante superior à variante inovadora. Tais resultados corroboraram as expectativas criadas e


54 demonstram que o enfraquecimento de /v/, na comunidade pessoense, está em estágio embrionário.

5.2

Variáveis independentes:

Na impossibilidade de todos os fatores dessa pesquisa serem rodados juntos, devido à formação de um grande número de células (mais de 9.000 e o MAKECELL só suporta, no máximo, 3.000 células), optou-se por rodar, primeiramente, os fatores lingüísticos e depois, separadamente, os fatores sociais. Efetuada a rodada dos fatores lingüísticos mais um problema foi detectado: trabalhos sociolingüísticos são realizados com base nos fatores que são selecionados como relevantes para o fenômeno, mas, nesse estudo, nenhum fator foi selecionado pelo programa, quer seja no stepup quer seja no stepdown. O mesmo aconteceu com os fatores sociais. Os resultados de Roncarati (1988: 42), quanto ao enfraquecimento de /v/, revelaram que: Em posição intervocálica, o agrupamento a + v + a apresentou os índices mais altos (freq. 62 / 245 = 25,31% e probabilidade .85).

Tendo em vista esse fato, e com o intuito de resolver o impasse, foram amalgamados, novamente, os dois tipos de fatores (sociais e lingüísticos) e a melhor solução encontrada foi isolar os contextos /a/ + /v/ + /a/ e observá- lo separadamente dos demais dados que tinham diferentes vogais, tanto precedente quanto seguinte a /v/, a


55 exemplo de: /i/ + /v/ + /e/ = tivesse. Fazendo isso foram divididos os dados em dois arquivos, que serão observados da seguinte forma:

FATORES DO ARQUIVO 1

FATORES DO ARQUIVO 2

SEXO

SEXO

FAIXA ETÁRIA

FAIXA ETÁRIA

ANOS DE ESCOLARIZAÇÃO

ANOS DE ESCOLARIZAÇÃO

-

CONTEXTO FONOLÓGICO PRECEDENTE

-

CONTEXTO FONOLÓGICO SEGUINTE

POSIÇÃO / TONICIDADE DO SEGMENTO

POSIÇÃO / TONICIDADE DO SEGMENTO

STATUS MORFOLÓGICO DO SEGMENTO STATUS MORFOLÓGICO DO SEGMENTO DIMENSÃO DO VOCÁBULO

DIMENSÃO DO VOCÁBULO

CLASSES DE PALAVRAS

CLASSES DE PALAVRAS

Exemplos para os arq. 1 e 2:

Arq. 1

Arq. 2

“... ele ta[h ] a saindo...”

“... só [v]ê sangue...”

“... ele arruma[h]a alguma...”

“... que le[v]o lá...”

“... quando eu fala[h]a assim...”

“... grávida grá[h]ida de mim...”

“... manda la[h]ar carro...”

“... nome da no[h]ela das oito...”

“... ca[h]alo de Tróia...”

“... noção ti[h]esse estudo...”

Vale salientar que não foram feitas duas pesquisas, os dados dos dois arquivos são frutos de uma única pesquisa, de um único arquivo de texto (.txt). Apenas um contexto específico (o caso do /v/ ser, simultaneamente, seguido e precedido por /a/) será observado separadamente. No final, os resultados dos dois tipos de contextos descreverão,


56 indistintamente, o comportamento do fenômeno na comunidade pessoense. Isso justifica o porquê de não se ter no arquivo 1 as restrições „Contexto fonológico precedente‟ e „Contexto fonológico seguinte‟.


57

6 - RESULTADOS

DAS VARIÁVEIS INGÜÍSTICAS

O arq. 1 obteve 27% (2.437) dos dados totais (equivalente a 9.119 ocorrências), enquanto que o arq. 2 atingiu 73% (6.682). Apesar de a quantidade de dados do arq. 2 ser mais volumosa, o arq. 1 possui uma heterogeneidade bem maior, pois 44% dos seus dados (1.076) são de enfraquecimento, contra 56% (1.361) de realização padrão. No arq. 2, apenas 2% (107) dos dados são de enfraquecimento, e 98% (6.575) são da variante padrão. Através da tabela 2 pode-se visualizar melhor os resultados.

TABELA 2: Resumo da distribuição dos dados. ENFRAQ.

REALIZ. PADRÃO

TOTAL

Aplic.

%

Aplic.

%

Aplic.

%

GERAL

1.183

13

7.936

87

9.119

100

ARQ. 1

1.076

44

1.361

56

2.437

27

ARQ. 2

107

2

6.575

98

6.682

73

6.1 Resultados lingüísticos obtidos pelo arq. 1:


58 Dos quatro grupos de fatores lingüísticos observados, três foram selecionados como relevantes à aplicação de enfraquecimento de /v/. Em ordem de importância, foram estes:

a) Status morfológico do segmento e b) Dimensão do vocábulo. c) Classes de palavras O único fator não selecionado pelo programa foi „Posição / tonicidade do segmento‟.

6.1.1

Status morfológico do segmento :

Com base nos resultados obtidos por outro trabalho sobre o enfraquecimento da fricativa /v/, realizado na cidade de Fortaleza (Roncarati, 1988), levantou-se a hipótese de que o morfema de pretérito imperfeito do indicativo (-ava) seria o item mais relevante para a aplicação do fenômeno, pois, na localidade acima citada, ele mostrou-se muito influente. Em Salvador (Canovas, 1991: 94), os resultados obtidos não foram os esperados. A autora verificou a concomitância da variação fônica de (/v, z, ž/), e esperava que o morfema de imperfeito enfraquecido fosse influenciar os resultados, ou seja, que sua aplicação auxiliasse os valores de /v/ a superarem o enfraquecimento nas outras fricativas. Seus resultados demonstram que a fricativa /h/ foi a mais atingida pelo fenômeno (12, 19%), ao passo que para o fonema /v/ apenas 3.32% dos dados foram de itens enfraquecidos. Sua pesquisa não mostra a porcentagem de enfraquecimento do morfema em questão perante estes 3.32%.


59 Nesse grupo de fatores, na comunidade pessoense, só foram observados os contextos em que o fonema /v/ estava simultaneamente ladeado pela vogal baixa /a/. Na tabela a seguir, pode-se ter acesso aos resultados numéricos obtidos na comunidade pessoense:

TABELA 3: Resultados do grupo „Status morfológico do segmento‟

MORFEMA LEXICAL MORFEMA NÃO-

ENFR. / TOTAL

%

PESO RELATIVO

22 / 278

8

. 12

1054 / 2159

49

. 57

LEXICAL

Com base na tabela 3, percebe-se que os morfemas lexicais tendem a reter a forma padrão /v/ (. 12), em quanto que os morfemas que não são lexicais, ou seja, que não fazem parte da forma básica e significativa do vocábulo, são mais favoráveis à aplicação do fenômeno (. 57). Mollica e Mattos (1989), a respeito do apagamento do /d/ nos gerúndios, apontam que este fato pode ser explicado por –ndo não fazer parte do radical da palavra, mas ser fixado como marca de desinência flexional, atuando, pois, como propulsora do apagamento de /d/. Essa observação foi corroborada por Martins (1998: 340) em João Pessoa, que verificou que quando /d/ faz parte de vocábulos como „quando‟, „pretendo‟, „mando‟, „mundo‟ e „Laurindo‟, por exemplo, há uma tendência maior à preservação da oclusiva /d/, pois esse segmento encontra-se na forma primitiva do vocábulo e não na flexional. Os resultados apresentados na tabela 3 confirmam a idéia de que os morfemas lexicais, a forma básica da palavra, são mais resistentes à inovações.


60

6.1.2

Dimensão do vocábulo:

Mollica e Mattos (1989), a respeito do apagamento da oclusiva /d/ no grupo „- ndo‟ no Rio de Janeiro, fenômeno muito parecido com o enfraquecimento de /v/, pois também atinge fortemente uma desinência verbal, observam que o contexto „-ndo‟ é sempre átono [semelhante a „-ava‟] e sempre se encontra no final de palavra. Se a tonicidade de sílaba em final de palavra já se afigura no português como um ambiente favorecedor à articulação branda ou mesmo à queda de segmentos, maior razão para isso se o item é polissílabo.

Em João Pessoa, o estudo sobre o mesmo fenômeno (Martins, 1998), apontou os vocábulos com mais de três sílabas como favorecedores ao apagamento, corroborando, dessa forma, o trabalho desenvolvido por Mollica e Mattos (1989) no Rio de Janeiro. Com relação ao enfraquecimento de /v/ na comunidade pessoense, a hipótese é que, semelhante ao fenômeno anteriormente citado, os vocábulos mais extensos venham a ser mais influentes para a realização do fenômeno. O fator „dimensão do vocábulo‟ foi selecionado pelo programa VARBRUL como o segundo fator mais influente para o processo em questão. Seus resultados apontam os itens dissílabos como fortes condicionadores do enfraquecimento, refutando, assim, as hipóteses levantadas. Esse fato pode ser observado na tabela 4 abaixo.


61 TABELA 4: Resultados do grupo „Dimensão do vocábulo‟ ENFR. / TOTAL

%

PESO RELATIVO

DISSÍLABO

367 / 606

61

. 66

MONOSSÍLABO

12 / 102

12

. 54

TRISSÍLABO

544 / 1266

43

. 48

POLISSÍLABO

153 / 463

33

. 34

Conforme a tabela 4, os itens dissílabos e monossílabos favorecem positivamente a aplicação do fenômeno, ao passo que os trissílabos (.48) e os polissílabos (.34) não favorecem a aplicação da regra variável. Através do cruzamento dos fatores „status morfológico do segmento‟ e „dimensão do vocábulo‟ pode-se visualizar a distribuição dos dados e a probabilidade de ocorrência do fenômeno em cada contexto.

TABELA 5: Cruzamento dos grupos „dimensão do vocábulo‟ com „status morfológico do segmento” MONOSS. DISSIL. TRISSIL. POLISSIL. MORFEMA LEXICAL

. 25

. 28

. 39

-

MORFEMA NÃO-

-20

. 69

. 50

. 37

LEXICAL

Os resultados probabilísticos expostos na tabela 5 corroboram a idéia da pouca variação em segmentos pertencentes a estrutura base da palavra, os morfemas lexicais, e a vulnerabilidade dos morfemas não lexicais às variações, principalmente em vocábulos pouco extensos, com, no máximo, três sílabas.

20

Sign ifica ausência de dados com essas características.


62

6.1.3. Classes de palavras:

O fator „Classes de palavras‟ foi a terceira variável selecionada pelo programa como relevante a aplicação do fenômeno de enfraquecimento. Os resultados desse grupo de fatores indicam que os verbos (. 53) são mais propícios ao enfraquecimento de /v/ (ver tabela 6). As outras categorias gramaticais foram amalgamadas, formando um grande grupo, devido a exigüidade de dados.

TABELA 6: Resultados do grupo „classes de palavras‟ ENFR. / TOTAL

%

PESO RELATIVO

VERBOS

1.074 / 2.313

46

. 53

OUTROS

02 / 124

02

. 13

Roncarati (1988: 68) observou em seus resultados que a variável inovadora já avançou bastante em „taha‟ e „gostaha‟, parecendo estar no meio do caminho em „ficaha‟, „daha‟ e „chegaha‟, podendo ocorrer esporadicamente com qualquer outro verbo como „deixaha‟, ‟enxergaha‟ ou „moraha‟, encontrados em sua amostra. Através do cruzamento entre os fatores „classes de palavras‟ e „status morfológico do segmento‟ (tabela 7 abaixo), pode-se perceber que parte verbal foi mais atingida pelo enfraquecimento: se a parte lexical ou flexional. E o cruzamento entre os grupos „classes de palavras‟ e „dimensão do vocábulo‟ indica a extensão verbal que mais favorece o processo de lenição em questão (tabela 8 abaixo).


63 TABELA 7: Cruzamento entre „classes de palavras‟ e „status morfológico do segmento‟ VERBOS

OUTROS

MORFEMA LEXICAL

. 33

. 04

MORFEMA NÃO LEXICAL

. 56

-

TABELA 8: Cruzamento entre „classes de palavras‟ e „dimensão do vocábulo‟ VERBOS

OUTROS

MONOSSÍLABOS

. 65

-

DISSÍLABOS

. 67

Knockout

TRISSÍLABOS

. 48

. 26

POLISSÍLABOS

. 35

Knockout

A ocorrência da variável inovadora no contexto „–ava‟ é fortemente marcada pelos verbos com morfema de imperfeito –ava (. 56), pricipalmente nos dissílabos (. 67). Já os vocábulos tri e polissílabos (. 48 e . 35 respectivamente) não foram favoráveis ao enfraquecimento. Em João Pessoa, a variável inovadora vem avançando bastante nos verbos dissílabos „taha‟, que já é uma variação da forma estava, e „daha‟. Dentre os verbos com três sílabas, o enfraquecimento encontra-se com facilidade em „ficaha‟, „brincaha‟, „gostaha‟, „botaha‟, „chegaha‟. Nos polissílabos se destacam os verbos „arengaha‟ e „trabalhaha‟. Verbos como enterrava e amarrava, com uma vibrante velar antecedendo o contexto „–ava‟, permaneceram categóricos quanto à padronização. A pronúncia destes, de forma enfraquecida, soa forçada e suas realizações são menos econômicas para o falante.


64 Com relação aos „morfemas lexicais‟ (. 33), o enfraquecimento é influenciado pelo verbo lavar nas formas lava > laha, lavar > lahaØ e lavava > lahava. A ocorrência de formas não- verbais enfraquecida foi exígua (. 04), resumindo-se a apenas dois itens trissilábicos (. 26) (“# cahalo de...”, “... # cahalo de tróia...”). Os vocábulos dissílabos e polissílabos não-verbais permaneceram invariáveis, na forma padrão, por isso sofreram knockout e foram retirados da rodada.

6.2 Resultados lingüísticos obtidos pelo arq. 2:

Dos seis fatores lingüísticos observados, quatro foram selecionados pelo VARBRUL como favorecedores à aplicação do enfraquecimento do fonema /v/. Em ordem de seleção, foram estes:

a) Posição / tonicidade do segmento; b) Contexto fonológico seguinte; c) Contexto fonológico precedente e d) Classes de palavras. Os grupos de fatores não relevantes para a ocorrência de enfraquecimento, no tipo de contexto ora estudado, foram „status morfológico do segmento‟ e „dimensão do vocábulo‟.


65

6.2.1 Posição / tonicidade do segmento :

Segundo Coutinho (1976: 137), a posição do segmento estudado dentro da palavra foi de extrema importância na evolução das consoantes do latim para o português. Para o fenômeno aqui estudado, este fator também foi bastante marcante, sendo selecionado em primeiro lugar pelo VARBRUL. As hipóteses levantadas para esse grupo foram: a) A posição medial será mais relevante à aplicação de enfraquecimento; b) As sílabas átonas favorecerão mais ao processo, especialmente as postônicas, semelhante ao ambiente do morfema de imperfeito.

TABELA 9: Resultados do grupo „Posição / tonicidade do segmento‟ ENFR. / TOTAL

%

PESO RELATIVO

TÔNICA MEDIAL

39 / 1020

4

. 73

POSTÔNICA

27 / 1283

2

. 71

MONOS. TÔNICO

27 / 1430

2

. 49

TÔNICA INICIAL

9 / 1311

1

. 39

PRETÔNICA

5 / 1638

0

. 27

A posição pretôncia inicial sofreu knockout, isto é, não apresentou variação. Para não ser eliminada da rodada, seus números foram amalgamados aos das pretônicas nãoiniciais, formando um só grupo: o das pretônicas, que não se apresentaram como favoráveis a ocorrência do fenômeno (. 27).


66 Conforme Coutinho (1976: 137), na passagem do latim para o português, as consoantes iniciais mostraram-se resistentes às mudanças, salvo raros casos, enquanto que as mediais e as finais apresentavam-se vulneráveis às alterações. O fenômeno ora estudado reforça e atualiza esse princípio. A hipótese levantada com relação à posição (hipótese (a)) foi confirmada. O início de palavra, realmente, não influencia o fenômeno, ao passo que a posição medial é fortemente marcada pelo enfraquecimento. Com base na tabela 5, pode-se observar que a posição inicial tanto das sílabas tônicas (. 39), quanto das átonas (pretônicas, . 27) obtiveram pesos relativos não favoráveis a regra variável. Os monossílabos tônicos, que também apresentam o fonema /v/ em início de palavra não condicionaram positivamente a ocorrência de enfraquecimento, com uma probabilidade de . 49 (índice obtido com base no fator „dimensão do vocábulo‟). A hipótese para a tonicidade do segmento (hipótese (b)) foi confirmada, pois as postônicas foram bastante influentes (. 71), mas, a tonicidade (tônica medial), também, foi, na mesma proporção que as átonas (postônicas), favorável ao fenômeno (. 73). Dessa forma, a posição em que se encontra o segmento parece ser o fator diferenciador, ou seja, a fricativa /v/, tanto em posição átona quanto tônica, quando medial, favorece positivamente à aplicação do enfraquecimento, ao passo que em início de vocábulo inibi-o. Dessa forma, a tonicidade em que o segmento se encontra dentro da palavra não se mostrou muito significativa, pois tanto em sílaba átona quanto tônica, a fricativa /v/ apresentou índices bem similares. Entretanto, a posição do segmento no vocábulo conseguiu formar grupos opositores, ou seja, revelou que a posição medial, ou interior do vocábulo (. 73 e . 71), é mais favorável à aplicação de enfraquecimento do que a inicial (. 49,. 39,. 27).


67

6.2.2

Contexto

fonológico

seguinte

e

precedente:

O contexto fonológico seguinte ao fonema /v/ foi o fator selecionado pelo VARBRUL como o segundo fator mais relevante para o fenômeno estudado. Por questões operacionais e considerando os índices de freqüência mais próximos, os resultados relativos a esse grupo de fatores foram amalgamados em quatro grupos, de acordo com a classificação articulatória das vogais: vogais altas (i, u), médias (e, o, é, ó ), baixa (a) e nasais. A hipótese para esse grupo de fatores era de que a vogal /a/, imitando o morfema de imperfeito, fosse favorecer a aplicação de enfraquecimento. Os resultados obtidos demonstram que a hipótese foi confirmada: o fonema /v/, quando sucedido pela vogal /a/, alcança a probabilidade de . 76 de ocorrer na forma enfraquecida.

TABELA 10: Resultados do grupo „contexto fonológico seguinte‟ ENFR. / TOTAL

%

PESO RELATIVO

VOGAL BAIXA

40 / 877

5

. 76

VOGAIS NASAIS

18 / 946

2

. 60

VOGAIS MÉDIAS

30 / 2405

1

. 52

VOGAIS ALTAS

19 / 2454

1

. 34

A tabela 10 indica que não só a vogal baixa (. 76), mas também as nasais e médias são favoráveis à aplicação do fenômeno. Estas apresentaram-se com probabilidades de


68 enfraquecimento acima do ponto neutro (ambas com .60 e . 52). Já as vogais altas, quando seguem o /v/, não favorecem a aplicação da regra variável (. 34). Com relação às vogais médias, as médias posteriores, tanto aberta ( Ɔ) quanto fechada (o) apresentaram-se como inibidoras à aplicação da regra sendo eliminada por knockout, não apresentando nenhuma forma de variação do fonema /v/, e a primeira apresentou pouquíssimos itens variáveis. A probabilidade alcançada pelas vogais médias (tabela 7) deve-se, em grande parte, às médias anteriores (e, é) , que, depois da vogal baixa (a), foram muito produtivas ao enfraquecimento (. 52), juntamente com as nasais (. 60). O contexto fonológico que antecede a fricativa /v/ foi selecionado em terceiro lugar como condicionador positivo à ocorrência do enfraquecimento. As vogais médias foram as mais relevantes (. 64), seguidas pela vogal baixa (. 60). Novamente, as vogais altas apresentaram-se como um ambiente pouco favorável à aplicação de enfraquecimento (. 38). As vogais nasais sofreram knockout por não apresentarem itens em variação. Através da tabela 11, pode-se ter acesso aos resultados numéricos do „contexto fonológico precedente‟.

TABELA 11: Resultados do „contexto fonológico precedente‟ ENFR. / TOTAL

%

PESO RELATIVO

VOGAIS MÉDIAS

53 / 1627

3

. 64

VOGAL BAIXA

17 / 1368

1

. 60

VOGAIS ALTAS

31 / 2938

1

. 38

Através do cruzamento entre os contextos fonológicos precedentes e os contextos fonológicos seguintes (ver tabela 9), percebe-se que quando o /v/ está precedido e antecedido por vogais altas não ocorre variação. Mas, quando /v/ esta antecedido por uma


69 média e sucedido por um /a/, ou, antecedido por /a/ e seguido por uma nasal, a probabilidade de variação é bastante positiva (. 77 e . 68). Através da tabela 9, pode-se ter acesso aos números obtidos:

TABELA 12: Cruzamento entre os contextos fonológicos precedente e seguinte CONTEX. FON. PRECEDENTE + /V/ +

PESO RELATIVO

SEGUINTE MÉDIA + /V/ + BAIXA

. 77

BAIXA + /V/ + NASAL

. 68

BAIXA + /V/ + MÉDIA

. 54

MÉDIA + /V/ + NASAL

. 50

ALTA + /V/ + NASAL

. 50

MÉDIA + /V/ + MÉDIA

. 49

MÉDIA + /V/ + NASAL

. 47

ALTA + /V/ + MÉDIA

. 42

BAIXA + /V/ + ALTA

. 40

ALTA + /V/ + BAIXA

. 40

ALTA + /V/ + ALTA

Knockout

Os vocábulos atingidos pelo enfraquecimento e que deram força aos índices numéricos acima expostos (tabela 9) foram:

Formas do verbo „ter' : tivesse > tihesse,

tiver > tiheØ, tiveram > tiheru, teve > tehe,

Formas do verbo „levar‟: levei > lehei,

levar > lehaØ,


70

leva > leha, levava > lehava,

Formas do verbo „ver‟:

vi > “...ainda hi a rede...”, vejo > “...eu hejo tu fazer...”, vendo > “...a gente henØo mais...”, ver > “...batalhando pra heØ se eu...”,

Formas do verbo „levantar‟ : levantava > lehantaha,

levanto > lehanto,

Formas do verbo „ir‟:

vamos > “...a gente hamoØ...”, vem > “...lá hem ele...”, vai > “...a gente hai falar...”, vim > “...ano him pra cá...”.

6.2.3 Classes de palavras :

Este fator foi selecionado em quarto e último lugar na escala de importância para a aplicação do fenômeno. A hipótese para este fator foi a de que os verbos apresentar-se-iam como mais relevantes do que os outros contextos (substantivo, adjetivo, numeral, etc.).


71 Através dos exemplos acima citados (4.2.1.2.b), percebe-se que as ocorrências de itens verbais atingidos pelo enfraquecimento foram bastante relevantes, co nfirmando, assim, as expectativas iniciais. Devido a exigüidade de dados dos outros contextos na forma enfraquecida, houve a necessidade de que todos fossem amalgamados, formando um grupo denominado „outros‟ que, dentro deste fator, foi confrontado com „verbos‟, grupo formado apenas pelos verbos.

TABELA 13: Resultados do grupo „classes de palavras‟ ENFR. / TOTAL

%

PESO RELATIVO

VERBOS

88 / 3992

2

. 60

OUTROS

19 / 2690

1

. 36

Através dos resultados da tabela 13, percebe-se que a probabilidade do enfraquecimento da fricativa /v/ ocorrer nos verbos é de . 60, enquanto que as outras categorias morfológicas apresentam-se como inibidoras à aplicação do fenômeno (.36). Através dos resultados expostos na tabela 6 e 13, conclui-se, assim, que a categoria gramatical dos verbos, estando /v/ no radical ou em desinências, é de extrema importância para o processo variável ora enfocado.


72

7 -

RESULTADO DAS VARIÁVEIS SOCIAIS

Apenas o arq. 1 (formado pelos contextos /a/ + /v/ + /a/) selecionou os três fato res sociais como relevantes ao enfraquecimento de /v/. O arq. 2 não foi motivado socialmente, pois não selecionou nenhum fator social. Devido ao grande número de dados no arq. 2, os fatores sociais foram observados separadamente dos fatores lingüísticos.

O arq. 1 selecionou, em ordem de importância, os seguintes fatores: a) Status morfológico do segmento; b) Anos de escolarização; c) Dimensão do vocábulos; d) Faixa etária; e) Sexo. O fator não selecionado pelo programa foi „posição / tonicidade do segmento‟.

Os resultados sociais para o enfraquecimento de /v/ na comunidade pessoense serão baseados nos resultados sociais obtidos pelo arq. 1, visto que o outro arquivo não selecionou nenhum fator social.

7.1 Anos de escolarização:


73 Labov (1966), estudando o inglês de Nova Iorque, destaca a importante influência do fator “anos de escolarização” em seus resultados. Labov observou que os falantes menos escolarizados, freqüentemente, usavam mais as formas não-padrão, enquanto que as formas padrão eram mais utilizadas pelos mais escolarizados. Esta é uma tendência encontrada em muitos trabalhos lingüísticos quantitativos até o presente momento. De acordo com Oliveira e Silva (1996: 350), seja direta ou indiretamente, a participação da escola acaba sendo decisiva na configuração lingüística da comunidade. A escola exerce um importante papel, seja para frear e/ou retardar o fluxo natural de uma mudança, seja para constituir-se em agente fundamental dela. Segundo Kemp (1981), o nível de escolarização se revela um poderoso condic ionante na escolha de variantes lingüísticas. Há uma grande tendência a falantes de nível universitário aplicarem mais as formas padrão do que os falantes de outros níveis escolares, e muitos trabalhos sociolingüísticos seguem essa tendência. A hipótese le vantada é a de que os informantes sem escolaridade liderem o processo inovador, corroborando, assim, a maioria dos trabalhos Sociolingüísticos. Os resultados obtidos por Roncarati (1988: 17), em Fortaleza, sobre esse mesmo fenômeno, indicam que as séries iniciais do 1º grau são as que mais favorecem à ocorrência do enfraquecimento. Já no trabalho de Canovas (1991: 106), em Salvador, contrariando a literatura pertinente, os resultados demonstram que os informantes com maior escolarização são os que mais produzem itens enfraquecidos. Na comunidade pessoense, quem mais se mostrou influente no processo de enfraquecimento foram os informantes sem escolaridade. À medida que esses informantes vão elevando seu grau de instrução vão utilizando menos a variante não-padrão, preferindo mais a considerada padrão. Através da tabela abaixo pode-se ter acesso aos resultados numéricos.


74 TABELA 14: Resultados do grupo „anos de escolarização‟ ENFR. / TOTAL

%

PESO RELATIVO

NENHUM ANO (analfabeto)

249 / 494

50

. 59

1 – 4 ANOS (primário)

264 / 542

49

. 58

5 – 8 ANOS (ginásio)

382 / 733

52

. 56

9 – 11 ANOS (secundário)

92 / 319

29

. 34

+ DE 11 ANOS (universitário)

89 / 349

26

. 29

Pelo gráfico 1 visualiza-se melhor a trajetória do fenômeno em relação ao grupo de fator „anos de escolarização‟.

GRÁFICO 1: Visualização dos resultados de „anos de escolarização‟

70 60 50

59

58

56

40 30 34

20

29

10 0

0 anos

1 - 4 anos

5 - 8 anos

9 - 11 anos

+ de 11 anos

Enfraquecimento Conforme Oliveira e Silva (1996: 344), mesmo alguns daqueles fenômenos que não são diretamente focalizados na programação escolar, como esse, por exemplo, mostra m-se quantitativamente tão condicionados pelo grau de escolarização, quanto os que são objeto de ensino escolar e/ou são alvos de correção por parte dos professores. Através do gráfico 1, observa-se que nos três primeiros anos de escolarização, a variável não-padrão ou inovadora vai, paulatinamente, perdendo sua força à medida que o


75 informante aumenta seu grau de formação escolar. Nos dois últimos anos de escolarização observados, a mudança é abrupta e o enfraquecimento de /v/ é produzido de forma mais sutil (. 34 e . 28 respectivamente). Segundo Oliveira e Silva (1996: 346-7) fenômenos não tão precocemente enfatizados na escola são de aquisição mais tardia. (...) Nesses fenômenos, as probabilidades de uso dos falantes de ginásio são iguais ou mais próximas das probabilidades do primário do que das do 2º grau. O maior contato com a língua literária, incentivado pela escola no fim do ginásio, contato esse que aumenta no 2º grau, deve concorrer para tal incremento.

O gráfico 1 indica, também, que o comportamento lingüístico dos pessoenses com relação ao enfraquecimento da fricativa /v/, pode ser dividido, em nível escolar, em dois grupos: o primeiro seria formado pelos informantes de 0 a 8 anos de escolarização, que apresentaram reação semelhante ao fenômeno; o segundo seria formado pelos outros indivíduos (9 – 11 anos de escolarização), que demonstraram possuir muita maturidade lingüística perante esse fenômeno, ou seja, variaram muito pouco. Fenômenos de mudança são detectados quando os falantes mais escolarizados aplicam mais a variável inovadora do que os menos escolarizados. O gráfico 1 demonstra um caso nítido de variação estável, pois são os menos escolarizados que favorecem mais a aplicação do fenômeno.

7.2 Faixa etária:

É datado de 1905 o primeiro estudo que detectou diferenças entre o comportamento lingüístico de pessoas de maior e de menor idade. O estudo de Gauchat (1905) numa aldeia suíça, sobre a lateral palatal /λ /, demonstrou que os mais jovens


76 estavam preferindo a pronúncia /y /, ficando o /λ /, mais conservadora, para os mais velhos. A classe intermediária utilizava ambas as realizações. Estudos feitos por Labov sobre a pronúncia retroflexa do /r/ pós-vocálico em Nova Iorque (1966), e em Martha‟s Vineyard, Massachussets (EUA), sobre a centra lização dos ditongos /ay/ e /aw/ (1963), por exemplo, corroboraram as descobertas de Gauchat. Seus resultados, também, anunciaram a tendência dos mais jovens em privilegiar as pronúncias mais inovadoras, enquanto que os mais velhos utilizam mais as formas conservadoras (padrão). O estado em que se encontra uma variável numa comunidade pode ser depreendido através desse fator. O comportamento da variável sob análise, dentro de cada faixa etária, pode indicar se o fenômeno está estável ou em processo de mudança. A comparação da linguagem de pessoas de diferentes idades pode revelar diferentes estágios de uma língua (estudo em tempo aparente, Labov, 1972). Nesse trabalho foram observados o comportamento lingüístico dos pessoenses em três faixas etárias: a) 15 – 25 anos; b) 26 – 49 anos; c) 50 anos acima.

Espera-se, para esse grupo de fatores, que os indivíduos de 15 – 25 anos favoreçam mais ao enfraquecimento, e diminuam a probabilidade de aplicação à medida que vão aumentando suas faixas etárias. De acordo com a estatística obtida (tabela 10), percebe-se que esta hipótese foi refutada. A tabela 12 mostra os resultados numéricos obtidos e, pelo


77 gráfico 2, pode-se perceber melhor a reação dos pessoenses, de diferentes idades, com relação a esse fenômeno.

TABELA 15: Resultados do grupo „faixa etária‟. ENFR. / TOTAL

%

PESO RELATIVO

15 – 25 ANOS

237 / 613

39

. 43

26 – 49 ANOS

445 / 859

52

. 58

50 ANOS ACIMA

394 / 965

47

. 47

GRÁFICO 2: Visualização dos resultados de „faixa etária‟

60 50 40

15 - 25 anos 26 - 49 anos 50 acima

30 20 10 0

Enfraquecimento

Os resultados apontaram os indivíduos na faixa de 26 – 49 anos como os maiores favorecedores à aplicação de enfraquecimento (. 58). Os falantes de 15 – 25 anos e os com 50 anos ou mais inibiram a aplicação do fenômeno (. 43 e . 47 respectivamente), contrariando, assim, as expectativas.


78 Os resultados dos trabalhos de Roncarati, em Fortaleza (1988), e os de Canovas, em Salvador (1991), obtiveram índices divergentes para esse fator. No primeiro, os maio res favorecedores à aplicação do fenômeno foram os jovens, enquanto que no segundo, os mais velhos (indivíduos de 46 a 70 anos) foram os que mais condicionaram positivamente a produção de enfraquecimento. Pode-se notar, assim, que nessas três localidades, o fenômeno em pauta, apresenta-se em diferentes estágios de implementação. Segundo Labov (1966), estudos no tempo aparente podem ser mais confiáveis, se as diferenças etárias forem reforçadas pelos resultados associados a outras variáveis independentes como, por exemplo, o fator anos de escolarização.

GRÁFICO 3: Cruzamento dos grupos „anos de escolarização‟ e „faixa etária‟

80 70 60 50 40 30 20 10 0 analfabeto

primário

15 - 25 anos

ginásio

26 - 49 anos

secundário

universitário

+ de 50 anos

O gráfico 1 indica que os informantes de 15 a 25 anos favorecem ao enfraquecimento de /v/ quando fazem parte das duas primeiras faixas de escolaridade, a partir daí, a produção do fenômeno, à medida que aumentam seus anos de escolarização, começa a cair.


79 Os informantes com mais de 50 anos de idade permanecem quase estáveis nas três primeiras faixas de escolaridade. A produção de enfraquecimento é equilibrada e relevante nesse período, a partir do grau secundário, o processo de enfraquecimento decresce abruptamente. A produção de /v/ enfraquecido é quase a mesma para os informantes de todas as idades e sem escolaridade. Esta estabilidade é abalada com o contato escolar. O gráfico 3 demonstra que o primeiro contato com a escola é positivo para os adultos, negativo para os mais jovens e estável para os mais velhos. Os adultos encaram com entusiasmo seus primeiros livros, cadernos e cada letra que conseguem escrever, pois nelas reside a esperança de melhores condições de vida; os mais velhos demoram mais a modificar o seu jeito de ser, para eles aprender a ler e escrever é uma ocupação, uma ampliação de horizontes. Já os mais novos, encaram os primeiros anos escolares de forma negativa, pois é nessa fase que eles têm contato com as regras que irão seguir por toda vida. Isso pode ser comprovado através do gráfico 3. Do ginásio em diante, os mais novos começam a encarar melhor, de forma progressiva, as regras sociais a eles impostas. Nos mais velhos, a evolução lingüística também é progressiva, alcançando picos nos dois últimos anos de escolarização, fase em que estão em plena maturidade profissional e pessoal. Passada a empolgação das pr imeiras letras, os indivíduos de meia- idade, já sabendo ler e escrever, preferem, ou por pura necessidade mesmo, dedicar-se a outras atividades: família, profissão... Na sociolinguística, um princípio existente para a análise do fator faixa etária diz que os jovens tendem a favorecer mais as formas inovadoras. Se isto acontece, está-se diante de uma mudança em progresso. Se os mais velhos, que são mais lingüisticamente conservadores, favorecerem à ocorrência da variante não padrão, indica que esta está em estágio de extinção, morte de uma das variantes. Se o grupo intermediário produzir mais as


80 formas inovadoras, existe aí uma relação de contemporização, coexistência das variantes, ou seja, uma variação estável. O trabalho de Labov (1966) sobre a pronúncia retroflexa do /r/ pós-vocálico, no inglês de Nova Iorque, demonstrou que os jovens privilegiam a forma inovadora (/r/ retroflexo) mais do que os mais velhos, desenhando, assim, um gráfico retilíneo para a variável idade, diagnosticando um fenômeno de mudança. Na comunidade pessoense o fator „faixa etária‟ configurou-se como um gráfico curvilíneo (gráfico 2), que atesta um processo de variação estável. Em João Pessoa, a „opção‟ dos indivíduos de meia-idade por outras ocupações, e não aos estudos, reflete-se bastante em sua linguagem. Pelo gráfico (3) percebe-se que estes informantes lideram o processo de enfraquecimento, e produzem mais a variante inovadora quando não têm escolarização do que quando são universitários.

7.3 Sexo:

A primeira vez que o fator sexo foi estudado como condicionador de um fenômeno de variação foi com Fischer (1958) em “Influências sociais na escolha de Variantes Lingüísticas”, sobre o estudo da variação entre –ing e –in no inglês. Os resultados desta pesquisa atestam que, freqüentemente, as mulheres utilizam as formas prestigiadas socialmente (padrão), neste caso –ing, e que os homens empregam mais as formas menos valorizadas socialmente (não-padrão [-in]). Questões sócio-culturais que estão nas entrelinhas desses resultados, como, por exemplo, a preocupação da mulher com a aparência, beleza e forma, com o seu papel mais


81 a(e)fetivo na socialização da criança (Oliveira e Silva, 1996: 367) 21 , em detrimento dos homens, podem ser algumas das respostas encontradas para justificar as d iferenças lingüísticas entre os dois sexos. Muitos estudos quantitativos vêm corroborando os resultados encontrados por Fischer, inclusive, espera-se que o presente trabalho também confirme tais resultados. O ambiente social exerce bastante influência no comportamento lingüístico, e esse varia de comunidade para comunidade e de fenômeno para fenômeno. Na comunidade pessoense, o fator sexo tem sido relevante para alguns e irrelevante para outros fenômenos lingüísticos. Em alguns trabalhos fonológicos do VALPB, o fator sexo não foi relevante, como, por exemplo, no trabalho sobre a ditongação (Aquino, 1998) e sobre a vibrante (Skeete, 1996) em que não houve diferença estatística entre os sexos. Já os trabalhos sobre a monotongação do [aj] (Silva, 1997) e sob re as vogais médias pretônicas (Pereira, 1997) apresentaram esse fator como relevante, e os homens como os maiores favorecedores à aplicação da variante inovadora. No trabalho de Roncarati (1988: 16), na zona urbana de Fortaleza, o fator sexo não obteve índices satisfatórios para ser relevante à aplicação do enfraquecimento de /v/. Em Salvador (Canovas, 1991: 68), estudos lingüísticos (Relatório final do projeto Censo, 1986) apontaram um comportamento lingüístico feminino conservador. A partir de uma amostra de 6 homens e 6 mulheres (dentre 45 informantes), essas evidências foram confirmadas. Neste trabalho, as estatísticas confirmam que as mulheres (. 54) são as maioress favorecedoras à realização de enfraquecimento, enquanto que os homens (.45) são

21

“Estudos neurológicos apontam cada vez mais para diferenças estruturais entre os hemisférios cerebrais que também poderiam causar diferenças entre o uso lingüístico dos dois sexos.”


82 inibidores, refutando, assim, as hipóteses levantadas 22 . A tabela 13 informa os resultados obtidos.

TABELA 16: Resultados do grupo „sexo‟. ENFR. / TOTAL

%

PESO RELATIVO

MASCULINO

456 / 1120

41

. 45

FEMININO

620 / 1317

47

. 54

O comportamento inovador feminino na comunidade pessoense é latente, ou seja, em certo momento, não se manifesta, mas é capaz de se revelar ou desenvolver quando as circunstâncias são favoráveis. É raro serem obtidos resultados lingüísticos em que a variável padrão seja mais favorecida pelos homens. Os resultados deste trabalho apresentam uma oscilação no comportamento entre os sexos nessa comunidade. A correlação sexo / variação, dentro de muitos estudos Sociolingüísticos, mostra que as mulheres tendem a preferir formas socialmente valorizadas, tendência esta freqüente em situação de variação estável. A tabela 13 mostra um resultado que não converge com os encontrados nos fatores „faixa etária‟ e „anos de escolarização‟, onde os informantes comportam-se numa situação de variação estável. O comportamento do fator „sexo‟ é melhor visualizado (ver gráfico 4) através de seu cruzamento com o fator „faixa etária‟.

22

Resultados encontrados para o arq. 1. O arq. 2 apresenta resultados bastante semelhantes a todos os fatores sociais do arq. 1.


83 GRÁFICO 4: Cruzamento dos fatores „sexo‟ e „faixa etária‟

60 50 40 30 20 10 0 15 - 25 anos

26 - 49 anos

Masculino

50 acima

Feminino

Pelo gráfico 4, pode-se visualizar o comportamento dos sexos com relação à faixa etária. Nota-se que os homens produzem enfraquecimento em todas as faixas etárias, principalmente, na intermediária. As mulheres só aplicam a variável inovadora quando pertencem à primeira faixa etária (. 52), um pouco mais do que os homens (. 50). Observa-se, então, com base no gráfico 4, que os homens são muito mais produtivos, com relação ao enfraquecimento de /v/, do que as mulheres. Com isso pode-se confirmar os resultados encontrados nos outros grupos de fatores, e afirmar que o fenômeno em questão, realmente, apresenta-se como uma variação estável. Os resultados obtidos pelo fator „sexo‟ indicam que não existem parâmetros preestabelecidos para o comportamento social da mulher e do homem com relação à linguagem, principalmente numa comunidade urbana, em que valores socioculturais são vulneráveis, muitas vezes, às necessidades e condições econômicas da sociedade.


84

8 -

CONCLUSÃO

Neste trabalho observou-se o processo de enfraquecimento da fricativa sonora lábio-dental (/v/) na comunidade pessoense, levando em consideração os aspectos sociolingüísticos favoráveis e inibidores à realização dessa variável. Através dos resultados, constatou-se que o enfraquecimento possui uma parcela de ocorrência relativamente pequena em relação à variante padrão (tabela 1), mas, pelo fato de ser bastante freqüente em alguns contextos, mereceu ser estudada. O fenômeno em questão atinge um ambiente bastante peculiar, que é o morfema de imperfeito do indicativo. Esse fato faz com que o enfraquecimento de /v/ assemelhe-se ao fenômeno de apagamento de /d/, pois ambos atingem um morfema verbal: o primeiro o pretérito imperfeito do indicativo (-ava) e o segundo o gerúndio (-ndo). Entre esses dois fenômenos, a diferença encontrada é que o enfraquecimento não se limita ao contexto –ava(-), já o apagamento de /d/ restringe-se à –ndo(-), ou –nd-. O enfraquecimento de /v/ ocorre, também, em ambientes em que a fricativa não está circundada por vogal /a/. Fato que resultou na divisão do dados em dois arquivos, para melhor visualização das contextos afetados: 

Arq. 1: formado pelos contextos em que /v/ está simultaneamente ladeado pela vogal /a/.

Arq. 2: restrito aos demais contextos em que /v/ está precedido e sucedido por vogais variadas (/i/ + /v/ + /e/ = tivesse). Os contextos formados por /a/ + /v/ + /a/ (arq. 1) mostraram-se mais

heterogêneos, apesar de possuir uma quantidade de dados bem inferior, em relação aos


85 outros contextos, onde a circunvizinhança de /v/ não era exclusivamente ocupada pela vogal /a/ (arq. 2) (tabela 2). O enfraquecimento da fricativa /v/ dentro dos elementos que compõem o arq. 1 foi fortemente motivado por fatores sociais e lingüísticos. Já os do arq. 2 não foram marcados socialmente, apenas lingüisticamente. A descrição do comportamento social de João Pessoa, com relação a esse fenômeno, baseou-se nos resultados encontrados no arq. 1, que, afinal, foi o mais relevante para esse estudo, devido à grande produção de itens enfraquecidos. Os verbos da primeira conjugação e com desinência de imperfeito do indicativo constituíram-se como um perfeito ambiente para a produção do fenômeno (tabela 3), principalmente os dissílabos (tabela 4), lexicalmente condicionados pelas formas taha e daha. Os trissílabos e os polissílabos, que possuíam oclusivas imediatamente anteriores a –ava, foram mais facilmente atingidos. O único fator não selecionado pelo programa para o arq. 1 foi „posição / tonicidade do segmento‟. Seus resultados apontaram, ao contrário do que era esperado, que /v/ na posição tônica é mais favorável ao enfraquecimento do que na posição átona. Porém, essa informação não foi relevante. Segundo a análise probabilística, /v/ fazer parte da desinência de imperfeito foi mais importante para o fenômeno. Para o arq. 2, a posição e a tonicidade em que o segmento /v/ se encontra dentro da palavra foram consideradas pelo programa como o ponto mais importante no processo de enfraquecimento. Os resultados informam que quando /v/ forma sílaba no interior da palavra, principalmente numa posição tônica, são maiores as probabilidades de produção de enfraquecimento. O início de vocábulo, seja átono, seja tônico, apresentou-se como não favorável à aplicação do fenômeno (tabela 9).


86 Quando a sílaba em interior de vocábulo for formada por /v/ seguido pela vogal /a/, principalmente, ou, decrescentemente, por vogal média, ou por vogal nasal, as chances de a fricativa ser enfraquecida são bem maiores do que quando seguida por vogais altas (tabela 10). A terceira restrição do arq. 2, que aumenta a probabilidade de enfraquecimento, é se a fricativa /v/, além de conter as características acima descritas, for precedida, principalmente, por uma vogal média ou baixa (/a/) (tabela 11). As vogais altas não foram favoráveis ao processo (tabelas 12). Quando esses contextos fazem parte de verbos (tabela 13), a tendência ao enfraquecimento é bem maior. Com relação à avaliação social na comunidade pessoense, de acordo com os dados, esse tipo de variação é produzida, indiscriminadamente, por pessoas de todas as idades, de ambos os sexos e em todos os âmbitos escolares, é certo que de maneira quantitativamente distinta. Nenhum recurso científico sobre atitude lingüística foi utilizado neste trabalho. Nas variáveis sociais, o fator „anos de escolarização‟ foi selecionado como mais relevante, em seguida encontram-se os fatores „faixa etária‟ e „sexo‟. Os resultados indicam que os informantes sem escolaridade produzem mais itens enfraquecidos, diminuindo a probabilidade à medida que aumentam os seus anos de escolarização: de forma paulatina nas primeiras faixas de escolaridade e abruptamente nas duas últimas (gráfico 1, tabela 11). Em se tratando da faixa etária dos informantes, aqueles que mais produziram itens enfraquecidos foram os pertencentes à faixa etária intermediária (26 – 49 anos) (tabela 12), configurando-se, assim, como um gráfico curvilíneo, que atesta que o fenômeno encontrase em variação estável (gráfico 2). Para confirmar essa afirmação, foi efetuado o cruzamento desse fator com

„anos de escolarização‟ e verificou-se, então, que os


87 informantes adultos (26 – 49 anos) e sem escolaridade aplicam mais a variante inovadora do que os universitários (gráfico 3). A princípio, o fator „sexo‟ mostrou-se contrário às expectativas (tabela 13), relacionando as mulheres como favorecedoras à aplicação do fenômeno. Através do cruzamento desse fator com „faixa etária‟, verificou-se que os homens são bem mais propensos à realização da variante inovadora, principalmente os da faixa etária intermediária (26 – 49 anos) (gráfico 4). Com base nos resultados obtidos pelos fatores sociais, observou-se que o comportamento social dos informantes pessoenses diferiu do comportamento observado em outras localidades (Fortaleza e Salvador), demonstrando, assim, que em todas elas, esse processo está em diferentes estágios de implementação. Assim está descrita a heterogeneidade lingüística dos pessoenses perante o fenômeno de enfraquecimento da fricativa sonora /v/. Espera-se que este fenômeno venha a ser encarado como um dos aspectos sócio-culturais dessa comunidade, pois demonstra um pouco das riquíssimas particularidades desse dialeto. Almeja-se, também, que este, como vários outros trabalhos Sociolingüísticos realizados nessa comunidade, venha subsidiar o ensino de língua portuguesa, mostrando a professores e alunos que a língua falada é dinâmica e está sujeita a variações. Essas variações devem ser encaradas como reflexos do contexto social em que o indivíduo está inserido, e não como “erro” gramatical. A par deste conhecimento, o professor deve ter em mente que sua função não é ensinar a falar, pois todos, sem que tenham problemas fisiológicos, sabem expressar-se verbalmente. As regras gramaticais devem servir como facilitadoras da comunicação, da transmissão do pensamento nas diversas situações cotidianas, e não como veículo de opressão.


88 O conhecimento da forma de falar de sua comunidade, faz com que o indivíduo passe a valorizar mais a sua cultura e aumente sua auto-estima, entendendo que não fala errado, feio, mas, sim, que fala um dialeto diferente, pois vive numa comunidade que tem seu próprio ritmo de vida, como cada uma tem o seu. Desse modo, evita-se o preconceito lingüístico, que marginaliza aqueles que não possuem a linguagem considerada como padrão nacional e / ou gramatical.


89

9 -

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A produção variável do fonema v  
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