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| Julho de 2021 |

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Barreira ou brecha? PORTAS CERRADAS, ISOLAMENTO A SER VENCIDO. A AMEAÇA IMPOSTA PELO CORONAVÍRUS TAMBÉM ESTIMULA O SURGIMENTO DE ANTÍDOTOS. O MUNDO BALANÇA ENTRE ESSE FECHAR E ESSE ABRIR. DAS OPORTUNIDADES. E DAS VIDAS



> editorial

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A pandemia como tema

echamento ou abertura. A simbologia sugerida pelas busca contribuir para a História, ao mostrar como se faz o imagens de portas e janelas está presente nas páginas enfrentamento dessa brutal crise de origem sanitária, que se desta edição, como metáfora do momento vivido espalha pelas demais áreas da vida cotidiana. pela humanidade. Um momento cuja origem está Fruto do trabalho conjunto das turmas de Jornalismo no final de 2019, com o aparecimento dos primei- Literário e de Projeto Experimental em Jornalismo, ros casos de coronavírus, na China, e que no ano seguinte se esta edição cumpre, ainda, uma vocação que acompanha o transformou na pandemia em que ainda seu fazer ao longo dos semestres: inovar nos encontramos. As reportagens que nas práticas experimentais, na direção do se seguem abordam o assunto sob uma profissionalismo que se aproxima, pois visão humanística dessa oposição entre os alunos de ambas as disciplinas estão MEDIUM medium.com/primeira-impressão abrir e fechar. em final do curso. A formidável novidade FA C E B O O K A Primeira Impressão 55 toma o da PI 55 está na sua versão expandida, /revistaprimeiraimpressao formato físico tradicional de uma revista, que avança do espaço tradicional das I N S TA G R A M como as 54 que lhe antecederam, mas a páginas impressas e invade plataformas /revistaprimeiraimpressao partir de uma produção remota, que se distintas, valendo-se do aporte das novas SPOTIFY Audiomagazine Revista Primeira Impressão repete pelo terceiro semestre consecue das novíssimas tecnologias. TIK TOK tivo. Sim, como a vida lá fora, o espaço Assim, o tema, as abordagens e os @revistaprimeiraimpressao acadêmico e o jornalismo experimental textos produzidos pelos alunos de JornaYOUTUBE também buscaram saídas alternativas lismo Literário, ilustrados pelas fotograRevista Primeira Impressão em tempos de isolamento. Os textos e fias dos alunos de Projeto Experimental ISSUU issuu.com/unisinosagexcom imagens desta edição partem de histórias em Jornalismo, ainda inspiraram estes particulares, matéria-prima essencial últimos a novos voos. São criações ardo Jornalismo Literário, para refletir tísticas, jornalísticas e literárias a que circunstâncias a que permanecemos condicionados em 2021: foram desafiados e estão expressas na forma de ensaios o enfrentamento do coronavírus, o distanciamento social, os fotográficos, colagens, áudios, vídeos, crônicas e poemas a hospitais superlotados, empregos e vidas perdidos – e tam- circularem no ambiente digital, por redes sociais como Instabém os esforços científicos, a solidariedade, a criatividade a gram, Facebook, Medium, Tik Tok e Spotify, estendendo essa serviço da superação, as vidas recuperadas. cobertura do tema da pandemia, das páginas para as telas. Fechar equivale ao fim; abrir representa a esperança. O Boa leitura! material aqui colocado pelos jornalistas em formação busca refletir essas condições, em textos e fotografias que pretendem ir além do mero registro, da mera leitura. No conjunto, Cybeli Moraes, Flavio Dutra e Nikão Duarte esse conteúdo constitui um breve e singelo documento que Professores

Leila Donhauser > primeira impressão > 3


> índice Armadilhas da mente / 06 A passagem para os que vão e a ressignificação para os que ficam / 10 As portas fechadas da Cinemateca Capitólio / 14 Fronteiras fechadas e sonhos interrompidos / 18 A imprevisibilidade do retorno / 22 Ensaio / 26 4 > primeira impressão >

Adriana Corrêa


30 / Gerações diferentes em um mesmo desafio 34 / O inesperado na realização de um sonho 38 / A rotina de quem faz da vida uma entrega 42 / Espaço para a amizade 46 / Humanização por uma tela 50 / Portas da maternidade primeira impressão > 5


Armadilhas da mente REPORTAGEM CRISTINA BIEGER IMAGENS E ILUSTRAÇÃO AMANDA BORMIDA

O alastramento do novo coronavírus agravou doenças mentais, como a ansiedade e a depressão, gerando a necessidade de buscar ajuda

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ano era 2009. Mais especificamente, 17 de novembro. O clima estava bom, a primavera vinha abrindo espaço para o verão caloroso do Rio Grande do Sul. A noite era limpa e o famoso vento nordestão já dava suas caras. O casal de universitários prestava as provas finais do semestre e por isso também, naquela única noite, decidiu ir de carro para a Unisinos. Jennifer Pacini, então estudante de Comércio Exterior e Economia, de 18 anos, sempre acreditou muito em forças energéticas, tendo provas de que sua intuição dificilmente falhava. A sensação de falta de ar e aperto no peito começou no trecho entre São José do Sul e Salvador do Sul, onde o casal morava. Em torno de 20 minutos depois, o acidente aconteceu. “Ele embalou um pouco o carro na reta, entrou em uma curva, mas não conseguiu vencer. Como o carro era rebaixado, o mato do acostamento ajudou a segurar, impedindo de puxá-lo para o centro da pista. Capotamos e caímos no penhasco abaixo. Se o carro não tivesse parado onde parou não teríamos sobrevivido”, relata Jennifer. Já no hospital, o raio - X de Jenni indicava que testa e nariz estavam quebrados. Já era março de 2010 quando o quadro de Jennifer piorou, apresentando perdas de memória. Os meses seguintes foram de muitos exames, trocas de médicos e efeitos colaterais da forte medicação que tomava. Convulsões e muita dor tornaram-se frequentes e pioravam conforme as emoções que sentia. “Se eu tivesse um dia ruim, eu acabava desmaiando’’, comenta. O uso da terapia holística do Reiki e meditação a ajudou durante essas crises. Em setembro de 2010, com 19 anos, decidiu não depender mais dos medicamentos, e procurou técnicas naturais para recuperar sua memória. Através de um livro, encontrado na biblioteca da Unisinos, se conectou com a ioga. A prática solitária era feita com o acompanhamento de um DVD e se tornou sua filosofia de vida. A memória curta, de apenas um dia, exigia a escrita de diários. E foi durante o segundo

semestre de 2011 que os avanços com a meditação puderam ser percebidos e as páginas serem completamente preenchidas. “A meditação foi de extrema importância nesse período. A ioga me ensinou sobre muitas questões da vida, que me fizeram reformular algumas relações que eu tinha”, conta. “Essa fase da minha vida, do acidente à recuperação, que durou em torno de dois anos, foi uma luta diária de aceitação dessa nova realidade e mexeu muito com minha autoestima. E hoje, quando estou em um dia ruim ou sofrendo por algo, eu penso que eu já superei coisas piores, e é só mais um teste da vida para mostrar o quanto eu quero ser feliz e viver. Eu quero ser inspiração para mim e para outras pessoas”, garante. Jennifer, que também é instrutora de ioga, entende que a prática traz uma reflexão sobre o comportamento com o corpo e um olhar voltado ao interior. “A ioga se tornou ainda mais essencial nesse período, para diminuir as preocupações e o estresse e melhorar o nosso equilíbrio. Estimula nosso sistema imunológico e o fluxo de pensamentos em uma frequência de mais confiança e tranquilidade”, comenta. “Vai muito além daquele tapetinho que a gente usa, a ioga é do tapete para fora. Ele nunca vai ser apenas movimentar o corpo físico. Ele ensina valores para diminuir a roda do sofrimento que a gente vê no mundo”, enfatiza Jennifer. A instrutora comenta que a ioga cria uma consciência de que estamos interligados. “Assim, como contemplamos os dias de sol, sua plenitude, vitalidade e energia, os dias de chuva são tão importantes para fazer florir, crescer, para limpar e purificar”, completa.

Quando o inesperado aparece Era domingo quando a sensação de estranheza tomou conta: palpitações, coração acelerado e febre baixa evidenciavam os primeiros sinais de uma crise de ansiedade ainda desconhecida. A ida ao hospital rendeu uma bateria de exames, mas sem resultados. O médico plantonista realizou exercícios primeira impressão > 7


Jennifer Pacini recuperou a memória através da meditação e fez do yoga sua filosofia de vida

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> Arquivo pessoal / Jennifer Pacini


respiratórios e indicou a procura de práticas relaxantes, como a ioga, e um cardiologista. O diagnóstico com o especialista apresentou os melhores resultados possíveis, o batimento cardíaco acelerado revelava um coração mais jovem do que a idade cronológica, mas era preciso desacelerar, e novamente a sugestão da ioga. Paula Fernanda Kirch, de 39 anos, é coordenadora de marketing e já havia recebido a mesma indicação de três profissionais diferentes, e decidiu tentar. A ansiedade em resolver assuntos cotidianos de forma rápida e eficaz, há dois anos a faz praticar ioga, mas foi quando trocou de professora que entendeu o sentido da atividade. Os primeiros resultados estavam justamente relacionados à mente. Os exercícios respiratórios tornaram-se práticas frequentes. “Quando eu percebo que estou ansiosa e estressada, eu já vou praticando exercícios de respiração e direcionando meus pensamentos para coisas positivas”, explica. “A ioga trabalha muito a questão do equilíbrio, tanto corporal quanto mental, é um conjunto de coisas, e eu tenho dificuldade nisso. Sinto muito medo, de altura, de água, de profundidade, e a ioga me ajuda a superá-los”, explica Paula. “É uma prática que exige que a nossa mente esteja conectada no agora, no movimento que está sendo realizado”, complementa. Paula deu início às aulas antes da pandemia, e agora, tem notado a diferença. “A prática não acontece só quando você está lá, mas depois da aula também. Quando eu leio o noticiário, chego a ficar nervosa e desesperada em função de tudo que está acontecendo e a ioga ajuda a manter o autocontrole e buscar a tranquilidade da mente. Isso está sendo fundamental durante a pandemia”, enfatiza.

Aceitar é o primeiro passo Júlia Cardoso, de 20 anos, é estudante de Processos Gerenciais e estagiária da Trensurb, já sofreu com a ansiedade em 2018, quando procurou ajuda profissional através do convênio médico. “Eu procurei o atendimento psicoterapêutico após uma crise de ansiedade bem

forte. No ano anterior, 2017, eu estudava no ensino médio e fazia cursinhos pré-vestibular. Na semana da prova da UFRGS tive uma crise de ansiedade bem longa e complicada, foi quando percebi que precisava de ajuda”, comenta. Durante as consultas, foi diagnosticada com crise de pânico e crise de ansiedade, porém, elas foram interrompidas antes da alta, devido ao cancelamento do convênio. “Durante a pandemia eu fiquei parada o ano de 2020 inteiro, e agora vou voltar a trabalhar, meu estágio e a faculdade também vão iniciar. Decidi voltar a ir na psicóloga, por ser importante para mim e antes de ter outra crise”, ressalta. Atualmente os atendimentos são online e quinzenais, duram em média 1 hora. “Eu até prefiro o atendimento online, posso conversar com a psicóloga no conforto de casa, e o atendimento tem sido tão bom quanto o presencial”, completa.

Janelas de ajuda e acolhimento Em um cenário de crise sanitária e econômica, doenças como a depressão e a ansiedade, que atingem milhões de pessoas em todo o mundo, se intensificaram. Uma pesquisa realizada pela Universidade de São Paulo (USP) em onze países e veiculada pela CNN, revela que o Brasil lidera os casos de depressão (59%) e ansiedade (63%) durante a epidemia do novo coronavírus. As medidas restritivas e o isolamento social que ajudam a conter o vírus têm gerado resultados negativos para a saúde mental. Atividades de lazer e ajuda profissional podem ajudar nessa situação. Práticas meditativas como a ioga e consultas psicoterapêuticas têm registrado um número maior de procura relacionada a esses casos, conforme comentam a professora Suzany Katrine Paixão Lopes e as psicólogas Tais Reuse Rech e Nicole Bárbara Artus. Todas trabalham na região do Vale do Caí e se adaptaram para o atendimento online. “Em época de pandemia nos deparamos com inúmeras incertezas e momentos desafiadores, o que desencadeia diversas emoções e sentimentos. A maioria de nós não sabe lidar com isso, abrindo espaço para a ansiedade, depressão e outras doenças causadas pela nossa mente. A ioga vem para ensinar a lidar com isso de uma forma mais natural e gentil”, explica a instrutora Suzany. Desde 2018, o atendimento psicoterapêutico online é permitido pelo Conselho Federal de Psicologia (CFP). Taís também comenta sobre o aumento considerável de procura nos atendimentos: “as pessoas foram percebendo que estava realmente muito difícil e que não conseguiriam dar conta sozinhas, elas estão ficando mais incomodadas, mais frágeis e vulneráveis, onde é impossível não se afetar com tudo que vem acontecendo”, ressalta. “Cada paciente tem a sua demanda. Na terapia cognitivo-comportamental, com a qual eu trabalho, identificamos que o paciente pode ter pensamentos e comportamentos disfuncionais, ou seja, situações não realistas ou que não são saudáveis. No processo da psicoterapia isso é trabalhado, para lidar melhor com essas questões. A evolução ocorre nos pequenos detalhes, quando o paciente consegue identificá-las sozinho e como resolvê-las da melhor forma”, finaliza a psicóloga Nicole. n

MAIS NA WEB Medium Confira uma curadoria funcional de conteúdos sobre saúde mental, por Tainara Pietrobelli. Spotify Ouça a reportagem na Audiomagazine da PI.

IMPRESSÕES DE REPÓRTER “Pensar sobre a pandemia e as questões que ela traz à tona é também voltar esse olhar para nosso interior. Esse foi o objetivo central da reportagem, entender as portas internas que se abrem em períodos desafiadores como esse. Ansiedade e depressão não são assuntos recentes, mas se tornaram ainda mais frequentes e até mesmo assustadores. Nós, repórteres, assim como nossos personagens, também somos envolvidos e atingidos pela pandemia. Esse é o interessante de produzir uma reportagem que fale sobre questões psicológicas, perceber que nos encaixamos em muitas das situações retratadas e nos autoquestionarmos sobre elas, foi o que aconteceu comigo. Ouvir os relatos das fontes me fez repensar em quantas vezes ignoramos nossos sentimentos e os sinais do nosso corpo. Assumir e falar sobre problemas psicológicos é delicado, por isso, sou grata às pessoas que aceitaram meu convite para contar suas histórias. O tema central da revista ‘Portas da Pandemia’ é um convite para conhecer pessoas fundamentais, que vivem e enfrentam esse evento global.”

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A passagem para os que vão e a ressignificação para os que ficam 10 > primeira impressão


Espiritualidade é um ponto de apoio para lidar com as perdas, que já passaram de 500 mil no Brasil REPORTAGEM JULIANA COIN IMAGENS RAFAEL MONTEIRO

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o início da pandemia, em maio de 2020, Francys Hoffmann Soares mandou uma mensagem para Ma ria Andressa pedindo que ela fosse até o portão de casa. Era aniversário dela, que estava triste por não poder celebrar a data com os amigos do Curso de Liderança Juvenil (CLJ) de Alvorada, do qual os dois faziam parte. Ao abrir a janela de casa, Andressa viu Francys no seu portão, com luva, máscara e segurando uma cesta com presentes. “Ele sempre dizia que ele era a última opção, todos ao redor dele precisavam se sentir em primeiro lugar”, relembra Andressa. Mas cuidar de todos não preveniu Francys de se contaminar por Sars-Cov-2. O vírus fez com que setembro daquele ano se tornasse um dos meses mais tristes para todos que o conheciam. Assim como ele, sua mãe, seu irmão e seu pai desenvolveram covid-19 e precisaram ser entubados. Da família, apenas a mãe e o irmão sobreviveram. Francys morreu no dia 17, numa noite fria, nos últimos dias de inverno. A espiritualidade que unia os amigos foi essencial para que Andressa lidasse com a perda. “Eu sei o tamanho da fé que ele tinha e sei que está em um bom lugar pela pessoa incrível que era. Acreditar em Deus me conforta”. No catolicismo, a morte significa caminhar ao encontro da eternidade, onde a vida não é tirada, mas transformada. “Para superar essa dificuldade, para ter algum alento ou esperança, é preciso ter fé”, explica Padre Luciano Honório Correia, da paróquia Santa Catarina, em Porto Alegre. “Quanto maior a perda, mais necessária é. Recordo o que Papa Francisco aconselhou sobre como enfrentar essa situação de luto: com fé e um maior trabalho de amor”. O Brasil superou 500 mil mortes no primeiro semestre de 2021. Desse número, mais de 30 mil aconteceram no Rio Grande do Sul. Em um contexto de vacinação, disputa de poder político e negociações internacionais pelo tão desejado insumo para produção dos imunizantes, todos vivem uma constante perda. Alguns destes indivíduos que compõem o montante de mortos eram jovens em plena saúde e sem comorbidades. Outros eram idosos que estavam em quase 100% de isolamento. Alguns faziam projetos sociais, outros eram músicos. Alguns trabalhavam na linha de frente, outros eram familiares de quem trabalhava com serviços essenciais. Todos eles tiveram a passagem menos aguardada da vida: a morte. primeira impressão > 11


A quem vai, a passagem é uma dúvida: para onde? Católicos acreditam no céu. Umbandistas, em reencarnação. Para quem fica, a passagem é uma certeza: a dor. É tentar transformar aquela pessoa do cotidiano em uma nova situação. Deixar ir alguém a quem se ama é abrir uma porta que nos leva a um caminho com paralelepípedos. Possível, mas difícil de atravessar. Se despedir propriamente e buscar apoio na espiritualidade é uma estratégia cheia de rituais que geram o conforto emocional necessário. A psicóloga Tatiene Ciribelli Santos Almeida, em seu estudo “Espiritualidade e resiliência: enfrentamento em situações de luto”, explica que a experiência de perder alguém querido parece ser uma grande mola propulsora para a busca da espiritualidade. “O sofrimento faz com que as pessoas busquem algo a mais para se confortar, é preciso se agarrar a algo maior e mais poderoso para conseguir reunir forças para continuar vivendo”, reflete. A espiritualidade se transforma em um apoio positivo ao amparar os enlutados, fazendo com que se sintam capazes de ressignificar a vida após grande sofrimento. Segundo a pesquisadora, a espiritualidade e o luto se relacionam com a capacidade de ser resiliente que um indivíduo possui diante do sofrimento, que muitas vezes é inevitável. “O resiliente consegue manifestar uma esperança de que tudo acabará bem, que a vida precisa e deve continuar. E daí vem a superação, o levantar. Isto não quer dizer que o resiliente não sofra, que ele possui uma armadura que

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irá fazer com que ele fique imune às adversida - des”, aponta em seu estudo. Segundo Padre Luciano, esse momento do luto é vivenciado de maneira singular e não existe um padrão de reação. Para que o apoio ao enlutado possa ser efetivo, é necessário considerar as culturas, as crenças, os contextos e as dinâmicas dos relacionamentos familiares, identificar fatores que possam prejudicar o enfrentamento do luto, como a não manifestação dos sentimentos, o adiamento do processo ou a negação da perda. “Mesmo quando o processo de luto é considerado normal, não significa que não exista sofrimento ou necessidade de adaptação à nova estrutura familiar. Encontrar espaços onde seja possível expressar livremente, compartilhar a dor e se deparar com outras pessoas que experimentam sentimentos e dificuldades semelhantes ameniza o sofrimento e favorece a busca pelas soluções dos problemas enfrentados”, reforça o pároco. “Eu fico com um nó na garganta de lembrar”, diz Andres-


sa. Ao pensar nos momentos de internação do amigo, ela conta que fazia videochamadas com os colegas do CLJ para rezarem o terço. Faziam isso toda semana enquanto Francys estava internado. “Eu rezo muito por ele, rezo o terço em intercessão da alma dele. Coloco o nome dele no caderno de intenções da missa”. Antes de iniciar a missa, uma pessoa fica na porta da igreja com o caderno para que possa ser colocado o nome de algum falecido ou alguém que precise de orações pela saúde. Andressa faz suas orações pedindo por acalento da alma do amigo que se foi. “O significado disso é que quando as pessoas morrem, elas precisam de orações dos vivos para levá-las até o céu”, comenta. Padre Luciano conta que, segundo a tradição cristã católica, há três destinos para a alma: o céu, o purgatório e o inferno. Entretanto, não são lugares palpáveis - como a cena clássica descrita por Ariano Suassuna em “O Auto da Compadecida” – mas, sim, estados sobrenaturais onde a alma viverá. O Céu é o prêmio, ou seja, o destino para os que em sua vida terrena desejaram o bem, “e, sobretudo, o Sumo Bem que é Deus”, conta ele. “O Purgatório é o caminho que a maioria dos homens irá trilhar até o céu, onde precisam pagar as penas dos seus pecados para chegar à visão beatífica de Deus. O Inferno é o castigo, o destino para os que em sua vida terrena desejaram o mal, fizeram o mal e rejeitaram o Sumo Bem que é Deus e a sua salvação”. Na realidade brasileira também é comum que os católicos rezem uma Missa de Sétimo Dia, que inicialmente acontecia por causa da extensão territorial do país. Os parentes que não podiam chegar a tempo para velar o morto vinham depois de alguns dias. Assim, a Missa de Sétimo Dia permitia que o parente distante pudesse estar com a família e rezar pelo falecido. “Ainda uma oportunidade, para aqueles que ficaram louvem a Deus pelo dom da vida daquele que partiu. Rezar uma missa de sétimo dia, para aqueles que ficaram, é uma oportunidade de pensar como está a própria vida”, conta o pároco. Tatiane Ciribeli reforça que entender e aceitar que as perdas

e a morte são parte do ciclo vital e que isso dinamiza o entendimento da própria vida, tirando uma visão mais negativa e sofrida para lidar com a morte. “É sempre vivido com tristeza e pesar, o objetivo não é negar esse fato. Porém, ele pode ser mais bem entendido e verificado de uma maneira mais amena e leve, levando a ressignificação da própria vida”. É dessa forma, resiliente e persistente, que o presidente da Federação Afro Umbandista e Espiritualista do Rio Grande do Sul (Fauers), Everton Alfonsin, vive seus dias. Em dezembro de 2020, ele perdeu seu irmão, a pessoa que o trouxe para a religião. Everton também perdeu dois “filhos” - como ele se refere a idosos que vivem sob seus cuidados em seu abrigo -, com 74 e 82 anos. “Nós já perdemos 153 líderes religiosos durante a pandemia. Fora os frequentadores dos terreiros e os médiuns das casas. Para um estado que tem 70 mil terreiros, é bastante gente”, desabafa, entre suspiros. Entretanto, diz estar tranquilo com o que aconteceu com seu irmão: “eu fico pensando que a gente poderia ter feito mais coisas juntos, fico com alguns questionamentos. Mas o aceitar é o ponto principal. Quanto mais esclarecemos a Umbanda para nós, mais fica fácil lidar com situações de dor. Isso fortalece o espírito”. Umbandista há 31 anos, Everton conta que reviu seus conceitos sobre a vida quando entrou para a religião. Os rituais clássicos como aniversário, ele diz não se tratar mais sobre “ser mais um ano de vida”, mas sim “menos um dia no que está escrito para você”. Da mesma forma, ele ressignificou a perda. A Umbanda vê a vida apenas como uma passagem, um caminho que já está traçado. Não há perda, há uma missão concluída. “Nós da religião sempre dissemos: o ontem não tem mais nada a fazer, amanhã pode ser que eu não tenha nada a fazer. Então eu tenho que viver o hoje”. Ele conta que a espiritualidade o auxilia a entender que a morte é só o corpo, mas o espírito nunca morre e por isso é preciso se desapegar do que é material. Na Umbanda, se evita acender velas até 30 dias após a morte. Também não se chora pela perda de alguém, mas se fica feliz por essa pessoa ter terminado a missão neste plano. A ritualística é de, ao se enterrar o falecido, colocar junto ao corpo as guias para que sejam enterradas juntas. Também se abençoa água para que aquele espírito faça o próprio caminho. Quando Everton perdeu seu irmão, fez todos os rituais e seguiu em frente, se despedindo do que é material e agradecendo pela jornada do companheiro. Na visão do presidente da instituição, a pandemia surgiu para que uma limpeza espiritual acontecesse. “Temos que curar o espírito. Enquanto a gente se preocupa com o bem material, não nos preocupamos com o espírito”. Já Padre Luciano reflete sobre os impactos da pandemia: “O novo coronavírus revelou que somos capazes de mudar drasticamente. Adaptar é reconhecer que nem sempre o nosso jeito de fazer as coisas estava sendo o melhor para todos. É se colocar em posição de humildade e compreender que estamos aqui para servir o contexto. É mudar a si mesmo em prol de um bem coletivo. Desapegar do menor pelo maior. Abrir mão do apego e da ganância pela empatia e a compaixão”. n

PI NA WEB Medium Leia o poema Companhia Invisível, de Amanda Krohn. Spotify Ouça a reportagem na Audiomagazine da PI.

IMPRESSÕES DE REPÓRTER “Lidar com a dor é difícil. Cada suspiro longo, cada palavra engasgada é uma facada no peito de quem escuta e precisa insistir no assunto para poder descrever quem está no outro lado da ligação. Não é fácil ser jornalista numa pandemia, onde é preciso estar atento aos próprios sentimentos e as sutilezas emocionais dos entrevistados. Uma pesquisa feita em junho de 2020 pela Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ) mostrou que 61% dos jornalistas reportaram aumento da ansiedade e do estresse durante o apocalipse que estamos vivendo. Estar ouvindo sobre as perdas e perdendo pessoas ao mesmo tempo não é algo que estávamos preparados. Não há curso, disciplina ou workshop que nos ensine a lidar com o medo e a dor. Mas há resiliência, empatia e serenidade. E o que eu aprendi com todas as fontes com quem conversei nesta reportagem serve para todos que enfrentam uma transformação em suas rotinas ou uma dor sem precedentes: o luto desaparece aos poucos, o que não deve desaparecer são as memórias de quem amamos. Enquanto seus nomes forem lembrados, estarão vivos dentro de nós.”

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As portas fechadas da

Lidar com a impossibilidade de sair não é fácil e isso se acentua para os amantes do cinema 14 > primeira impressão

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oradora da pequena cidade de Quaraí, no interior do Rio Grande do Sul, a pequena Aida Wailer Ferrás, na época com dois anos, ia até o grupo escolar do destacamento da Brigada Militar, onde seu pai trabalhava, para assistir aos filmes de seu ídolo máximo na infância: Charles Chaplin. Aquelas primeiras sessões de cinema, para ela, foram catárticas, mudando sua forma de ver o mundo e de se relacionar

REPORTAGEM ANDRÉ CARDOSO CURADORIA FOTOGRÁFICA JORDANA FIORAVANTI


Cinemateca Capitólio

com as pessoas. Isso se intensificou cada vez mais a partir da mudança da família para Porto Alegre, onde, todos domingos, a pequena ia a pé para o Cineteatro Capitólio. Décadas depois daquelas primeiras experiências na frente da tela grande vendo, se emocionando e rindo com os filmes de Carlitos, Aida tornou-se uma das maiores frequentadoras da Cinemateca Capitólio que, neste 2021, completa seis anos desde sua reinauguração. A paixão pela sétima arte é tamanha que Aida comenta

que sua estadia em casa é só casual. “Minha cinefilia era tão consolidada antes da pandemia que mal ficava em casa. Via tantos filmes que resolvi anotar o título para não me perder e ver duas vezes o mesmo. Primeiro, numa agenda velha e depois numa em ordem alfabética e por ano, pois estava ficando complicado”, diz.

A ida aos cinemas era algo intocável na rotina da Aida. Diariamente, às vezes até mesmo duas ou três vezes ao dia, ela se sentava em uma poltrona e ficava vidrada por horas em frente a uma tela. Boa parte dessas horas eram gastas no Capitólio, que ela define como mais do que uma sala de cinema. “A criação da

Superior: Associação dos Amigos da Cinemateca Capitólio (Aamica) e Família Faillace. Inferior: Aamica, Luiza Castro/Sul21 e Site Cinemateca Capitólio > primeira impressão > 15


Cinemateca Capitólio foi um marco significativo para o cinema no Rio Grande do Sul e muito importante para Porto Alegre”, pontua.

Geração diferente, paixão igual Mesmo depois de 126 anos de sua invenção, o cinema continua emocionando diferentes pessoas e gerações. A experiência de ver um filme em uma sala de cinema é especial, dizem aqueles que frequentam assiduamente esses espaços. Para Jener Gomes, a máxima se confirma. A Cinemateca Capitólio é uma segunda casa e a ausência dela, seja momentânea ou permanente, é inaceitável. “Não gostaria de imaginar o meu futuro sem a Cinemateca Capitólio ou uma sala equivalente”. Assim como Aida, Jener veio morar em Porto Alegre quando jovem, com 15 anos. Foi com essa idade que ele vivenciou pela primeira vez a experiência que é assistir a um filme na tela do cinema. “Foi fascinante, incrível”. Para ele, a Era de Ouro do cinema em Porto Alegre foi justamente na década de 1990, quando a Casa de Cultura Mario Quintana tinha uma programação variada. “As pessoas faziam filas para assistir os filmes lá. Fiz muitas amizades nessas filas e vi filmes lá que mudaram minha forma de enxergar o mundo”, conta. As mesmas filas enfrentadas por ele nos anos 1990 em frente à Casa de Cultura Mario Quintana passaram a ser vistas nos últimos seis anos, em frente à Cinemateca Capitólio. Para o técnico em cultura da Secretaria Municipal de Cultura de Porto Alegre e membro da equipe da Cinemateca, Marcus Mello, o Capitólio e a sala P.F Gastal, localizada na Usina do Gasômetro, foram responsáveis por resgatar uma cena cinéfila na cidade. “As mostras que fizemos na P.F Gastal, trazendo diretores internacionais como a francesa Claire Denis, ajudaram nesse resgaste de uma cinefilia que estava adormecida desde os anos 1980. O mesmo acontece no Capitólio. Tem toda uma nova geração de pessoas que começaram a frequentar a sala, com programação qualificada. Isso criou um público fiel. A gente conseguiu mostrar que a cinefilia está muito viva na cidade”. O cinema na vida de Marcus teve início também no interior do Estado, em Santa Cruz do Sul. Lá, pôde experimentar tudo aquilo que um jovem 16 > primeira impressão

cinéfilo sonha em fazer: ter um cineclube, com uma programação mensal pensada por ele, escrever resenhas no pequeno jornal da cidade e ir a todas as sessões nos domingos à tarde, no cinema da cidade. “Esse meu interesse foi crescendo ao longo dos anos, mas nunca pensei em trabalhar na área, com programação e pesquisa”. Formado em Letras, em 1996 Marcus prestou concurso para Prefeitura Municipal de Porto Alegre para técnicos de nível superior na recém-criada Secretaria da Cultura. Aprovado, passou a trabalhar na coordenadoria de cinema, vídeo e fotografia. Atuou como coordenador de cinema por quatro anos e, hoje, participa da área de pesquisa da Cinemateca. “Fazemos um trabalho de organização, localização e catalogação do cinema rio-grandense. Temos um banco de dados muito organizado e é importante ressaltar que o Capitólio não é só uma sala de cinema, mas sim um espaço de memória do cinema no Rio Grande do Sul”.

Papel na cena cultural da cidade Como impactar a vida de uma cidade em tão pouco tempo? Em seis anos, a Cinemateca Capitólio movimenta a cena cultural de Porto Alegre como poucos locais. Para Leonardo Bomfim, jornalista e programador da Capitólio, a cinemateca construiu uma relação muito intensa com o público. Mesmo reconhecendo uma cena cinéfila pré-Capitólio na cidade, ele vê uma diferenciação no público de agora. “É um público diferente. Não são só os cinéfilos, mas pessoas que passaram a gostar mais de cinema a partir da relação com a cinemateca e com a programação. Em um momento complicado para a cidade, a Capitólio é uma coisa que faz sentido para toda a comunidade, para as pessoas que querem ir para a rua e sair de casa”. Mas o que atrai tanto o público? Para Jener, é uma combinação entre a beleza estética da sala e a programação qualificada. “É a sala de cinema mais bonita da cidade, quiçá do país. Mas a qualidade da programação se sobressai. Os debates, ter os cineastas, atores ali para discutir o filme… Sou apaixonado pela sala”, afirma. Marcus vai além: para ele, o Capitólio é um dos espaços mais importantes do Estado. “O Capitólio tem essa abertura para diferentes manifestações cinematográficas. Junta esse combo, de prédio

lindo, programação, e pessoas bacanas, com sessões lotadas. Certamente é uma das salas de cinema mais invejadas do Brasil. As pessoas que vêm de fora ficam absolutamente encantadas. São poucas as cidades que têm”.

Ausência Há uma diferença imensa entre ver um filme na sua televisão de casa ou em uma sala de cinema como a Capitólio. Lidar com a ausência não é fácil para aqueles que amam ter essa experiência no cinema. “Ver o filme em casa é acessível, mas tem uma hora que cansa. Não só pela tela, mas pela questão de sair de casa e ir ver um filme com pessoas conhecidas ou desconhecidas”, diz Leonardo. O programador também nota que, nas redes sociais, o interesse por festivais e o cinema em si diminuiu. “A gente não vê as pessoas falando sobre esses festivais e a minha impressão é que a maioria desse público que a Cinemateca cativou nesses anos não está acompanhando esses filmes. As pessoas saiam de casa para ver eles no cinema e não necessariamente esse público migrou para o online”. Mesmo com essa ausência no dia a dia da cena cultural da cidade, o fechamento da Capitólio é necessário, nesse momento, para garantir a segurança de todos. “A gente sente falta desses encontros com as pessoas e dessa experiência tão vibrante que é assistir um filme numa sala


MAIS NA WEB YouTube Assista ao vídeo com depoimentos sobre a Cinemateca Capitólio, por Luana Ely Quintana. Spotify Ouça a reportagem na Audiomagazine da PI.

IMPRESSÕES DE REPÓRTER

cheia. Poucas experiências na vida são tão boas quanto essa. Por exemplo, ver um filme de comédia com a sala toda rindo. Está durando mais tempo, mas prefiro que a gente passe por isso para, em breve, lotar a sala com segurança, sem ter o risco das pessoas se contaminarem por causa de uma ida ao cinema”, diz Marcus.

Trabalho durante a pandemia Com a chegada da Covid-19 no Brasil, um dos setores mais atingidos pela crise econômica foi o cultural. Entretanto, é necessário ver as coisas com uma perspectiva diferente: assim como muitas salas de cinema estão fechadas, outros campos passam por dificuldades até maiores. “Temos que entender que é um momento de exceção no mundo, e que nos cabe viver. Se a gente pensar que na Segunda Guerra Mundial, grandes cidades da Europa como Roma e Paris tiveram

seus teatros e cinemas fechados porque foram bombardeados e destruídos... Vamos ter um pouco de paciência, que poderia ser pior e isso vai passar “, afirma Marcus. Para alimentar a sede dos porto-alegrenses e reviver histórias do cinema que ocorreram na cidade, a equipe da Cinemateca está produzindo duas séries de publicações nas redes sociais. Uma, são as “Histórias do Cinema Gaúcho”, em que são resgatadas anedotas, encontros, sessões, visitas de cineastas e histórias curiosas que permeiam esses mais de cem anos de história audiovisual aqui. A outra, chamada de “Cartazes do Cinema Gaúcho”, tem uma identidade bem simples. É uma ficha técnica, a arte do cartaz, uma sinopse curta e um pequeno comentário sobre o filme. “Não pode ser muito texto que não funciona. No começo fazíamos todos os dias, agora demos uma espaçada para aumentar o interesse. Foi uma forma de difundir para um público maior o que fazemos no acervo. Antes era mais conhecido por pesquisadores da área”, diz Marcus. Além das publicações, Leonardo também buscou compartilhar links de filmes disponíveis virtualmente a fim de resgatar o histórico de programação dos cinco anos de Capitólio. “Muita coisa importante aconteceu e ficamos alguns meses compartilhando esses filmes disponíveis em vários canais. Foi um primeiro momento, sem muito planejamento e orçamento”. n

“Assim como as fontes da matéria sentem falta de ir até a Cinemateca Capitólio, a impossibilidade de sair e fazer a entrevista com todos, olhando nos olhos, dificultou ainda mais a realização desta reportagem. Embora frequentasse o Capitólio com menos assiduidade do que todos eles, a ausência de ir até o espaço e ao centro de Porto Alegre, me faz falta e foi isso que tentei transportar para a minha reportagem. As entrevistas foram feitas do jeito possível durante uma pandemia: todas online, seja por videochamada, e-mail ou ligação. Ainda assim, mesmo com a impossibilidade de fazer as coisas presencialmente, foi bom falar e conhecer a história dessas pessoas que poderiam estar nas mesmas sessões que eu durante vários dias na Cinemateca Capitólio e da cinefilia em Porto Alegre. Ao falar com elas, acredito que eu e os meus entrevistados podemos passar um pouco da saudade do mundo antes da pandemia, além de mostrar o quão importante esses espaços culturais são para a vida da cidade.”

Família Faillace, Aamica e Acervo Cinemateca Capitólio > primeira impressão > 17


Fronteiras fechadas e sonhos interrompidos Com o mundo paralisado, gaúchos ficam sem bolsas internacionais de estudos

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REPORTAGEM VITÓRIA DREHMER DIREÇÃO FOTOGRÁFICA JORDANA FIORAVANTI

ronteira. Assim como está escrito no Dicionário Popular de Língua Portuguesa, fronteira, palavra feminina do singular, significa limite, linha que separa duas regiões, estados, ou países. Foi essa palavra, tão banal, tão comum e também tão pouco falada, que atrapalhou os sonhos de muitas pessoas durante a pandemia, incluindo o de Henrique Bitencourt Gulart e o de Alana Lange Weiss, que, por caminhos diferentes, acabaram no mesmo lugar: sem a tão sonhada bolsa de estudos internacional. A história de Henrique Bitencourt, de 21 anos, começa a muitos quilômetros do Brasil. Tantos quilômetros que nem o Google Maps consegue calcular. O lugar tão distante é Queensland, na Austrália, no outro lado do Planeta Terra. O estado australiano localizado no nordeste da Oceania, que conta com um litoral de aproximadamente sete mil quilômetros de extensão, foi onde o jovem sonhador resolveu passar um ano de sua vida fazendo um intercâmbio para aprender inglês. Foi lá, trabalhando de garçom e como motorista de aplicativo, que Henrique acredita ter se tornado mais humano. Também foi lá que Henrique percebeu que o seu lugar não era mais o Brasil, e que ele deveria expandir os horizontes. Porém, o que o garoto cheio de decisões não esperava é que aquela palavra citada antes, fronteira, começaria a atrapalhar seus planos tão cedo. Em uma viagem de despedida com os amigos para destinos entre Indonésia e Tailândia, lugares aos quais o renomado aplicativo de localizações também não consegue calcular a distância, Henrique viu a pandemia começar e a fronteira da Austrália fechar. Apesar de ter rimado, o fato não traz boas recordações ao rapaz nascido na capital gaúcha, 18 > primeira impressão

que não teve como se despedir do local e muito menos buscar o restante de suas coisas. A única opção foi retornar ao país natal de maneira antecipada. Demorou até Henrique se readaptar à sua antiga rotina e começar a pensar em novos planos, mas foi exatamente em junho de 2020 que as pesquisas para ingressar em uma universidade portuguesa começaram. A escolha do local não foi pela familiaridade com a língua, até porque o morador de Esteio preferiria virar fluente em inglês, de vez, na Austrália, mas os custos mais baixos e a oportunidade de garantir uma cidadania europeia o fizeram chegar, ou quase chegar, na Universidade do Algarve. A nota do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) dele, parada há dois anos, foi usada para garantir uma bolsa de 70% para o curso de Engenharia Civil em uma das instituições mais renomadas do sul de Portugal. Primeiro, o futuro estudante nem acreditava que iria realmente virar um estudante internacional. Ele só acreditou quando a aprovação chegou. E até hoje acha que foi sorte. Dessa vez, a localização não era tão distante assim. O Google Maps consegue calcular rapidamente: cerca de 8.700 quilômetros de casa.

> Alana Weiss: Arquivo pessoal. Henrique Bitencourt: Arquivo pessoal

Falando assim até parece fácil, mas Henrique enfrentou algumas dificuldades até conseguir o tão esperado visto português. Para começar, o gaúcho percebeu que não daria tempo de iniciar os estudos no primeiro semestre, que tem sempre início marcado para setembro, e logo pediu para ingressar no segundo semestre, em fevereiro. Ainda que a universidade tenha segurado a vaga, ele teve que bancar os custos do ano inteiro igual. Porém, o jovem, que não desiste fácil, seguiu com o plano, mas mal imaginaria ele que essa mudança de data seria o maior de seus problemas. Apesar de ter garantido mais tempo para se organizar e começar uma nova vida, a pandemia teve o seu pior momento em Portugal, com aproximadamente 300 mortes por dia, exatamente no mês de embarque de Henrique. Adivinhem: mais uma fronteira fechada. A verdade é que o país europeu cancelou absolutamente todos os voos com destinos marcados para lá com a intenção de diminuir o contágio do pior vírus que o mundo já teve que conviver até hoje. Foi exatamente nesse momento que o caos tomou conta da situação. As aulas da universidade passaram a ser online, e


Alana espera uma nova porta de oportunidades ser aberta

Henrique aguarda um novo carimbo no passaporte para poder fechar as malas primeira impressão > 19


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> Ingrid Alves Viegas


Henrique até poderia ter iniciado por esse modo, mas ele acreditou que isso fugiria completamente de sua ideia inicial. Assim, um contato com a instituição foi feito, para tentar mais uma vez adiar a chegada ao curso, mas dessa vez a história mudou de rumo, já que essa escolha acabou custando sua bolsa de estudos. “Foi aí que eu comecei a pensar, comecei a calcular meus novos custos, que seriam sem ajuda nenhuma. Como a gente ainda segue sem ter certeza sobre a pandemia, eu resolvi desistir de tudo. Acho que não era a hora para eu ir. Eu tentei ver como se simplesmente não fosse uma coisa para acontecer naquele momento”, diz Henrique. Agora, os planos são outros. Enquanto a pandemia continua e o medo de Henrique de ter que enfrentar mais uma fronteira fechada também, ele pretende começar uma faculdade no Brasil. Além da localização, o curso também será novo: Engenharia Elétrica, em vez de Civil. O provável é que ele não demore muito para garantir uma vaga como estudante nacional, já que uma nova prova do ENEM foi realizada por ele neste ano, mais uma vez sem nenhuma pretensão, e a nota foi ainda maior. Mas quem pensa que sonho de Henrique de se tornar um estudante internacional foi deixado de lado, está muito enganado. Esse período de incertezas sobre o que fazer no futuro o fez pensar sobre outros lugares do mundo. Mesmo assim, ele pretende se organizar mais na próxima vez, para não ter que lidar com mais uma porta fechada pela pandemia. O destino ele ainda não sabe, talvez o Google Maps o ajude a encontrar. Agora a história é em Marshall, uma cidade do interior do Missouri, nos Estados Unidos. Com a ajuda de um aplicativo muito usado por aí, rapidamente se sabe que Marshall fica a quase nove mil quilômetros de Novo Hamburgo, cidade onde Alana Weiss nasceu. Foi exatamente nesse lugar, ou melhor, no Missouri Valley College, que a estudante conseguiu uma bolsa de estudos para cursar Ciência da Computação. Apesar de sempre ter sonhado em fazer um intercâmbio, Alana

imaginava que passaria no máximo três meses fora do país para aprender inglês. Porém, quando ela menos esperava, a chance de unir a vontade de entrar para a faculdade e ao mesmo tempo de viver uma outra realidade apareceu. Foi através de uma conversa com um amigo, que tinha ido para os Estados Unidos jogar futebol para uma universidade, que a gaúcha começou a ir atrás dessa nova vida. Com a ajuda de uma agência de viagem, Alana iniciou as provas e os processos necessários para se tornar uma estudante internacional. Como a pandemia ainda não tinha tomado conta do mundo nessa época, em 2018, os problemas foram muito menores, quase inexistentes. Com a aprovação em três universidades, ela começou precisando abrir mão do desejo de morar em um grande centro americano, já que a universidade localizada em Marshall, que tem pouco mais de 13 mil habitantes, foi quem ofereceu uma ajuda financeira melhor, de 80% de desconto do valor total do curso. Mas é claro que o sonho não seria interrompido pela localização. Assim, em janeiro de 2019, Alana passou pela porta do aeroporto de Porto Alegre para embarcar em uma aventura que não tinha imaginado viver tão cedo: a independência. O começo foi realmente complicado, tendo que depender de ajuda financeira dos pais e precisando se adaptar à fala cheia de sotaque dos moradores de sua nova cidade. Porém, com a chegada de um rosto conhecido, o de seu namorado, que também tinha garantido uma bolsa de estudos, e com a garantia de um emprego na cafeteria da universidade, a situação começou a melhorar. O que Alana não imaginava é que as portas dessa cafeteria, que a bancava fora de seu país natal, precisariam ser fechadas, assim como todas as outras da faculdade, por causa de um vírus que tomou conta do mundo. Em abril de 2020, em meio ao caos e faltando apenas um semestre para a formatura, o casal percebeu que a única opção seria retornar para o Brasil. “Então com tudo fechado, sem lugar para trabalhar e com a situação aqui no Brasil ruim também, não tinha como depender outra vez da minha família, ainda mais com o dólar mais alto. Aí, em comum acordo, a gente entendeu que essa seria a hora de voltar”, diz Alana. Mesmo no Brasil, a tentativa de seguir com os estudos através das famosas aulas online continuaram, mas Alana percebeu que não teria como manter esse método por muito tempo e acabou desistindo da ideia de ter um diploma internacional. Mesmo assim, aos 21 anos, ela não esperou muito tempo para seguir a vida. Aproveitou as disciplinas cursadas no Missouri e seguiu em busca da sonhada formatura, que terá que ser em território nacional, em uma nova universidade. Apesar do coronavírus ter trazido Alana de volta, ela não pretende ficar muito tempo. Uma pós-graduação na Europa já está fazendo parte de seus novos planos. O destino da gaúcha, assim como o de Henrique, já parece estar traçado fora do Brasil de qualquer maneira. O que resta saber agora é quando as portas da pandemia vão parar de fechar para tantos sonhos espalhados pelo mundo. n

MAIS NA WEB Medium Confira o projeto Viagem pela linha invisível, de Marco Antonio Filho e Eduardo Veras. Spotify Ouça a reportagem na Audiomagazine da PI.

IMPRESSÕES DE REPÓRTER “Escrever todos os dias sobre notícias de esporte, que raramente tratam do lado humano das pessoas, me deixou com medo de não conseguir fazer uma reportagem literária. Apesar de estar muito animada com a proposta, meu medo ficou ainda maior quando decidimos o tema da nova edição da PI: portas da pandemia. Estamos vivendo a pandemia há um ano e meio, e com certeza ela é o assunto mais falado dos nossos dias nesse período. E é exatamente por isso que eu tive medo. Medo de não conseguir sair fora do padrão do que a gente vê todos os dias em qualquer canal de comunicação. Mas agora, depois das entrevistas e do meu texto estar pronto, fico feliz em ter conseguido exercer meu papel de jornalista. Consegui dar voz a pessoas que foram afetadas pela pandemia de uma maneira que foge do comum, tratando de um assunto que eu tenho muito interesse, e que com certeza não faria parte dos jornais diários.”

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A imprevisibili

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Com o agravamento do novo coronavírus, jovens contam suas experiências com o fechamento das fronteiras

dade do retorno REPORTAGEM ÂNGELO GABRIEL IMAGENS AMANDA BIER

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de um país cheio de cores, vida e natureza, que os três personagens desta história partem, em busca de novas experiências, com o coração de fogo ardendo no peito. Maria Eduarda Tomasini, Bruno José Santos Lima e Vitória Araújo saem do quente e familiar Brasil rumo ao conhecimento e à diversidade, com sorrisos frescos nos rostos e a expectativa de conquistar momentos incríveis. No entanto, o destino interfere nessa narrativa e prega uma peça, provocado pela pandemia do coronavírus e o fechamento das oportunidades e das fronteiras dos países. Quando escolheu o México para realizar seu intercâmbio, Maria Eduarda, de 22 anos, tinha como objetivo, além de estudar, viajar e conhecer as paisagens naturais do país. Recém graduada em Relações Internacionais, a moradora de Sapucaia do Sul conseguiu uma bolsa de estudos através do programa Ibero-Americano do Banco Santander. “Ele é muito rico em paisagens, porque tem de tudo. Se tu queres praia, tem praia. Se tu queres vulcão, tem vulcão. Se tu queres neve, tem neve”, ela relata, com empolgação. Com a curiosidade aflorada, Maria também queria conhecer as marcantes culturas e culinária mexicanas. Quando chegou, em janeiro de 2020, não imaginava o rumo que a situação tomaria. O país também foi escolhido por Bruno Lima como destino de seu intercâmbio, mas por outros motivos. O estudante de Medicina, de 23 anos, tinha o desejo de viajar e conhecer outras localidades, mas sempre pensava nessa oportunidade como algo distante da realidade. No entanto, ao ingressar na faculdade de Tiradentes, no Sergipe, o destino abriu as portas para ele e colocou-o em outro rumo. Desenvolveu o seu currículo e teve a oportunidade de passar um semestre estudando em outro país. Assim como aconteceu com Maria Eduarda, as coisas começaram a desandar em março. Vitória Araújo, de 23 anos, tinha em mente outro país para conhecer: a Austrália. Ela e o naprimeira impressão > 23


morado decidiram, em 2018, mudar-se para o país para estudar inglês e ter outras experiências no exterior. A mudança, de fato, só ocorreu em 2019. Diferentemente de Maria Eduarda e de Bruno, a porta que o destino fechou para Vitória foi relacionada à sua família. Atualmente morando em Sydney, ela não regressa para casa desde quando chegou ao exterior. A controladora de tráfego passou por um delicado momento em 2020, quando sua avó materna, que possuía asma e hepatite, adoeceu e precisou ser internada em um hospital, em março. Os três lidaram de maneiras diferentes com o surgimento dos problemas após estarem longe da sua terra natal, em países desconhecidos, no meio do agravamento de uma das piores pandemias mundiais que já existiram.

A difícil porta do destino A ponta do iceberg começou quando a pandemia tornou virtuais as aulas da Universidade de Anáhuac Mayab, na cidade de Mérida, no México. Bruno começou a perceber, aos poucos, as dificuldades que enfrentaria. “O Brasil pode chegar em uma situação sanitária muito grave e podem haver muitos efeitos da recessão econômica. Nossos pais podem parar de trabalhar... Então o nervosismo foi o retorno”, conta 24 > primeira impressão

ele. O estudante não sabia quando poderia voltar ao país, uma vez que os voos comerciais eram sequencialmente cancelados. Maria Eduarda encontrou os mesmos problemas durante o período. As aulas da Universidade La Salle, da Cidade do México, assumiram o ambiente virtual, aumentando a sensação de medo e incerteza entre os alunos. Ela convivia com estudantes de diversos países em uma casa de família mexicana. “A maioria dos alunos de intercâmbio que estavam comigo conseguiu voltar em abril, maio e eu já tinha o voo de volta para julho”, explica. Ela não contava com o cancelamento de sua passagem pela companhia aérea, que reconheceu o direito de Maria Eduarda de escolher uma nova data, sem muitas opções disponíveis. Tentou remarcar o voo para agosto, setembro e outubro, com o cancelamento surgindo em todas as alternativas. Maria não sabia como retornaria para a sua família, no Brasil. “Eu fiquei bem ansiosa porque eu não tinha nenhuma previsão, eu não sabia quando eu ia conseguir voltar, se eu ia conseguir voltar...”, relata. Ela possuía o visto de estudante e precisou entrar em contato com o consulado brasileiro para ampliá-lo e não residir ilegalmente no México. “Eu me sentia muito culpada de estar aqui. ‘Qualquer coisa que acontecer, eu não sei se eu consigo chegar rápido, não sei

se eu consigo ir’. E a sensação de não poder estar cuidando dos meus pais, por exemplo, como lá eu estava cuidando da família [com quem estava morando]”, relata Maria Eduarda. Procurar o consulado brasileiro foi uma atitude tomada por Bruno para resolver seu problema e retornar. “O consulado fez um voo humanitário e fez uma seleção sem transparência”, relata o sergipano, que expôs a situação em um vídeo publicado em sua conta no Instagram. O post chamou a atenção de parlamentares brasileiros. Bruno também entrou em contato com a imprensa local para relatar o desinteresse e o descaso da entidade brasileira de planejar outros voos de repatriação. O vídeo foi gravado após o segundo voo humanitário, que, segundo ele explica, não foi tão humanitário assim. “Foi um voo pago, fretado por algumas famílias de maior poder aquisitivo do Brasil aqui para trazer intercambistas jovens, menores de idade, de volta. Então os pais desse pessoal de uma instituição de intercâmbio forte no Brasil acabaram fretando 70% do voo”, explicou o estudante de Medicina, que afirmou que a embaixada brasileira apresentou o voo como dela.

A resiliente porta da superação Uma semana após o fechamento das fronteiras dos países, Vitória precisou lidar com a internação e intubação de sua avó materna. De longe, ela acompanhou o desenrolar dos acontecimentos. A gaúcha conta que a avó, de apenas 53 anos, foi levada ao hospital após uma crise de asma. Após uma intubação desnecessária, os equipamentos não supriram a demanda dos pulmões dela, que faleceu. O atestado de óbito afirma que a causa da morte foi insuficiência respiratória, mas Vitória se questiona até hoje sobre o real motivo. “Até hoje a gente não sabe se foi Covid ou só realmente asma”, conta ela. Na época que o vírus chegou ao Brasil, os certificados de óbito relatavam a causa da morte como insuficiência respiratória, pela falta de conhecimento do vírus. Na Austrália, Vitória forneceu, de longe, con-


solo e apoio à mãe. “A minha mãe queria muito que eu fosse. Se fosse por ela, eu estaria no Brasil, presa aí. Ela viu voos, viu tudo. Mas eu falei que eu não tinha como simplesmente abandonar a minha vida aqui, mas foi muito difícil, porque era só eu que ela tinha”, conta. As fronteiras ainda não estão abertas para brasileiros entrarem no país, então Vitória não conseguiria retornar. Não entra ninguém no país, a menos que a viagem seja a trabalho e que a pessoa possa alegar isso ao governo. A pessoa que precisar entrar na Austrália também tem que pagar 14 dias de quarentena em um hotel. Enquanto isso acontecia, Bruno lidava com o desejo de retornar para sua casa. No terceiro voo humanitário, uma empresa mexicana de turismo foi contratada para enviar um voo para o Brasil e trazer de volta os mexicanos que possuíam interesse em retornar para o país de origem. Sabendo do interesse que alguns brasileiros tinham de voltar para sua terra natal, o país vizinho conversou com o consulado do Brasil para fazer um acordo. “O voo, de tão humanitário que era, custava R$ 5 mil (cerca de 900 dólares). Isso já selecionou muita gente”, conta. O sergipano continuava dando entrevistas para veículos de comunicação e entrando em contato com o consulado brasileiro para resolver a situação dos colegas de intercâmbio.

A porta que finalmente se abre Após entrar em contato com o Departamento de Imigração do México, enfrentar filas enormes do lado de fora do prédio e renovar seu visto de estudante, Maria Eduarda tentava resolver o problema do cancelamento de sua passagem aérea para retornar ao Brasil. Aumentavam, cada vez mais, a sua ansiedade e a dúvida sobre o regresso. O destino continuou pregando peças na estudante de Relações Internacionais, até que Maria cancelou o voo da companhia aérea e conseguiu comprar de outra empresa. Assim como Bruno, ela também havia entrado em contato com o consulado brasileiro pedindo o voo de repatriação, sem sucesso. Depois de cinco meses de imprevistos, a jovem chegou ao Brasil em 1° de setembro. Bruno, no entanto, teve mais sorte. Após ter de lidar com ameaças de processos, o estudante de Medicina recebeu uma ligação da embaixada oferecendo a oportunidade de retornar para o país. Ele teve suas despesas cobertas e conseguiu voltar para o Brasil. Mas sua luta não parou. Continuou gravando vídeos e denunciando a realidade dos intercambistas que estavam no México. Quando chegou em sua casa, em 6 de junho, passou as funções de comunicador oficial dos brasileiros para outros colegas, para que eles pudessem continuar cobrando a resolução do problema dos voos de repatriação. Os problemas e as dificuldades de retorno dos brasileiros continuaram. Até o fechamento desta reportagem, ainda existiam restrições de entrada e saída de brasileiros de diversos países do globo. Estados Unidos, Peru, Turquia, Alemanha, Japão e outras 64 nações estão com fortes restrições contra a entrada de brasileiros. Ou seja, as viagens podem estar suspensas, o país pode estar fechado ou a entrada só é permitida para cidadãos ou se você atender requisitos rígidos. Outros 85 países, como Argentina, México, Canadá e Rússia ainda estão com restrições moderadas para a entrada de brasileiros. n

MAIS NA WEB YouTube Saiba mais sobre os voos humanitários no vídeo de Amanda Bormida. Spotify Ouça a reportagem na Audiomagazine da PI.

IMPRESSÕES DE REPÓRTER “Quando me matriculei na atividade acadêmica de Jornalismo Literário, imediatamente fiquei com vontade de conversar com pessoas e falar sobre viagens a outros países. Durante o último ano, foram poucas as vezes que saí de casa e senti que precisava ouvir sobre experiências de outras pessoas para satisfazer esse meu desejo. No entanto, um questionamento surgiu: como falar de viagens internacionais se as fronteiras foram fechadas e muitas pessoas foram impossibilitadas de conhecer outros países, paisagens e culturas? Daí surgiu a ideia de falar sobre brasileiros que tiveram dificuldades de regressar para o país e que encontraram diferentes problemas, sejam familiares ou governamentais. Conhecer as histórias de Maria Eduarda, Bruno Lima e Vitória Araújo me deixou reflexivo acerca dos problemas do retorno encontrados por eles. Eu mesmo não sei como lidaria com essas situações. Dessa forma, escrever sobre esse tema me deixou muito satisfeito e atenuou minha vontade de estar em outro país neste momento.” primeira impressão > 25


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Portas de esperança Com acesso restrito, as portas dos hospitais são locais por onde nenhum de nós quer passar. Neste período de pandemia da Covid-19, elas viraram protagonistas. Simbolizam agonia, apreensão e tensão. Por elas passam trabalhadores da área da saúde com a importante missão de preservar vidas. Pessoas doentes entram por essas portas sem saber se vão sair. Muitos aguardam que elas tragam seus familiares de volta. Do lado de fora, almejamos nosso normal de novo. Para todos nós, essas portas de hospitais representam o mesmo sentido: a esperança. ADRIANA CORRÊA

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Portas por·ta sf

1 Abertura feita em parede, ao nível do solo, que permite a entrada e a saída. 2 Meio de acesso para algum lugar. 3 Forma de sair de uma situação de grande dificuldade. Todas as portas foram fechadas pela pandemia. Isolados e presos numa situação de desesperança, não conseguimos mais enxergar saídas e a vida foi se acumulando numa rotina estranha. Portas que antes nos permitiam ir e vir, passagens para um objetivo, agora existem como lembranças daquilo que não é mais, perderam seu sentido e sua função. Por estarem fechadas, se tornaram o que nunca quiseram: uma mera lembrança do que deveriam ser. RAFAEL MONTEIRO

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Gerações diferentes em um mesmo desafio

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> Pintando no caderno: Giulia Godoy. Mesa com laptop: Kamila Stein

A casa virou sala de aula: estudantes e professores contam quais são as angústias e aprendizados


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REPORTAGEM KETLIN DA FONSECA DE SIQUEIRA

e repente, tudo mudou. Era terceiro semestre de Direito, Nubia ColCURADORIA o mês de março de 2020 e lasiol Sentier, de 21 anos, que não precisa DE IMAGENS a notícia se instalou entre pegar mais ônibus de Garibaldi até a GIULIA GODOY professores e alunos de Unisinos, em São Leopoldo, mas tem que todo o país: para garantir estar atenta ao calendário com o link da a saúde de todos, a medida segura aula, na plataforma em que alunos da faculdade era começar o processo de migração das aulas estão dividindo neste momento: o Teams. presenciais para o ambiente virtual. Seriam dias, Nubia conta que ser estudante na pandemia semanas, meses ou anos? Ninguém conseguia está sendo desafiador, principalmente com a difiprever. Estava inaugurado o tempo da incerteza, culdade que tem com a concentração. “Foi difícil da insegurança e de novos aprendizados. Hoje, me acostumar com as aulas remotas. Eu precisei no lugar do olho no olho, classe, cadeira, lousa, mudar a rotina de estudo, por mais que tenha os alunos somente vêm a tela do computador e um canto para estudar, eu não consigo manter seu canto de estudo. Como é o caso da aluna do a concentração. Eu também tive que me orga-

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A professora Andrea e os alunos Bernardo e Kamila contam sobre a mudança de rotina e o quanto desafiador está sendo estudar ou lecionar de casa nizar com o acesso à internet, pois antes somente usava em casos esporádicos, mas agora, como é para estudar, precisei aumentar os megabytes”. A estudante de Direito cursa quatro disciplinas, de terça-feira a sexta-feira à noite. Núbia diz que voltaria às aulas presenciais, mas usando os protocolos de segurança diante da Covid-19. “Voltaria, mas depende da disciplina. Uma cadeira mais especifica do curso voltaria, mas as cadeiras que envolvam outros cursos, que são mais genéricas, não teria necessidade”.

Ano de estudo para vestibular e Enem Quando as aulas foram paralisadas em março de 2020, a estudante de uma escola Estadual do Ensino Médio de Bento Gonçalves, Kamila Stein, de 17 anos, estava no segundo ano. A expectativa era de que logo a escola retornasse ao presencial. Hoje, depois de ter cursado praticamente todo ano passado de forma remota e de ter dado início ao terceiro e último ano também pelo computador, ela sente que tudo mudou. Os professores da adolescente marcam aula remotamente no mesmo horário da aula presencial, através da plataforma Google Sala de Aula – aplicativo 32 > primeira impressão

disponibilizado pelo governo do Estado para as aulas das escolas públicas estaduais. A estudante conta que precisou se adaptar às aulas online, com a compra de um novo notebook e ter uma rotina de estudo. “Foi tudo inesperado, os professores diziam que íamos ficar somente duas semanas em casa e assim já faz mais de um ano. Eu não estava preparada, na verdade, ninguém estava”. Na parte da tarde, Kamila faz preparatório para o vestibular e o Enem e na segunda-feira à noite tem aulas online de inglês. “Os preparatórios não contratei, eu estou fazendo por conta própria, através de site e vídeo aulas no YouTube. Eu desejo cursar Biomedicina”, diz. Kamila ressalta que voltaria às aulas presencias, pois percebe que não está conseguindo absorver todo conteúdo necessário, mesmo se dedicando ao máximo. A adolescente conta que estudar em casa exige mais da concentração do aluno e pode acontecer empecilhos durante as aulas. “Uma vez estávamos tendo aula e vazaram o link, e um indivíduo começou a exibir vídeo pornográfico. Além dessas situações, às vezes algum aluno liga o microfone para comentar e surgem alguns barulhos de TV ao fundo ou vozes de outras pessoas. São situações de uma aula remota”, conta.

O papel dos pais é muito importante Na casa do Bernardo Zuchi, de 7 anos, não foi muito diferente. Toda rotina de aula e estudo migrou para livros e folhas impressas, disponibilizados pela professora a cada 15 dias. A mãe, Andreia Zuchi, de 42 anos, vê valor atividades feitas em casa, mas diz que é um desafio para ela também, pois ele está em idade de alfabetização. Andreia conta que a escola em que Bernardo estuda optou por não terem aulas através de plataformas online, pois havia colegas que não tinham acesso à internet em casa. “Eu também prefiro que seja através de folhas, pois assim eu consigo ajudar, porque se fosse através do computador, eu precisaria me adaptar, pois em casa somente temos celular”. A mãe também ressalta que Bernardo já consegue realizar sozinho algumas tarefas, mas em outras ela precisa ficar ao lado. “Se ele vê que não consegue fazer ou está com preguiça, ele faz de tudo para não realizar a atividade, começa a dizer que quer ir ao banheiro, que está com fome ou que fará mais tarde, mas tento contornar a situação e mostrar que se ele fizer naquele momento, o resto do dia ele está livre para brincar”. “Sinto vontade de rever meus amigos de escola, e de brincar com eles nos intervalos. Não gosto de fazer atividade em casa, prefiro aprender na escola e somente fazer o tema em casa”, diz Bernardo sobre as aulas presenciais.

Nunca se precisou tanto dos professores O esforço redobrado para atender as necessidades dos estudantes ultrapassou qualquer rotina de aulas presencias. “Os professores tiveram que ressignificar todo o processo que tinham de conhecimentos sobre os processos de aprendizagem

> Bernardo: Ketlin Fonseca. Andrea: Gabriel Guarnieri. Kamila Stein: Kamila Stein


e criar um novo método de ensino remoto. Estamos fazendo muito mais do que fazemos na sala de aula. É um esforço gigantesco para que os alunos não sejam prejudicados”, pondera Jucele Glowacki, de 30 anos, professora de Matemática. Jucele leciona há 12 anos. Ela é professora do nono ano do Ensino Fundamental e do primeiro ao terceiro ano do Ensino Médio. A professora diz que antes mesmo do governo do Estado direcionar as aulas das escolas públicas estaduais por meio da plataforma Google Classroom, professores do ensino médio já trabalhavam com outras ferramentas, tendo em vista manter uma rotina de estudos aos alunos, sobretudo para a realização de aulas por videoconferência. A professora conta que sempre foi de conversar com os alunos, saber das dificuldades deles. Já em aulas remotas é difícil ter essa interação. Outro desafio é passar os conteúdos aos estudantes de forma clara e objetiva. Antes do remoto, a carga horária já era maior, mas agora ainda mais, além dos professores mudarem sua rotina, os alunos também mudaram. “Muitas vezes tem aluno cuidando do irmão mais novo e ajudando sua família. Assim ele tem aquele momento somente para fazer, se ele mandar uma dúvida fora do horário do meu

trabalho, eu vou responder, porque vai saber se ele terá outro momento para realizar a tarefa, nossa carga horária aumentou, até por toda a burocracia para provar que estamos trabalhando”.

Processo do ensino e aprendizagem se transforma De acordo com a professora Andrea Caselani Palharini, que leciona há 36 anos, o processo de ensino e aprendizagem se transformou radicalmente nesse contexto de distanciamento social. “Nunca imaginei um professor em home office. A profissão de professor envolve muita relação interpessoal e acolhimento. Talvez aqui esteja a maior perda. A falta do olho no olho e das interações entre professores e alunos, assim como entre alunos e os colegas”. Uma das desvantagens das aulas não presencias é que o acesso à internet ainda é limitado para alguns alunos, principalmente os de baixa renda. Em 2020, Andrea era professora e este ano está como supervisora da escola em que trabalha na cidade de Garibaldi. E percebe que muitos alunos não conseguem ter acesso às aulas. Assim, neste ano de 2021 a escola optou por todas as turmas do Ensino Médio terem tarefas através de folhas impressas, disponibilização de livros e uso do WhatsApp, caso algum pai tenha dúvida sobre como auxiliar ou o aluno não saiba realizar a determinada atividade. Andrea ressalta que os demais desafios são a falta de infraestrutura necessária para aulas a distância nos lares, especialmente em se tratando de estudantes da escola pública. A falta de tempo e preparo das famílias para mediar a realização de atividades pedagógicas torna o ensino ainda mais complexo. “No nosso caso, tivemos não apenas que trazer os alunos. Tivemos que trazer os pais”, lembra a professora, destacando que a participação dos responsáveis é necessária, em especial, para os alunos principalmente de ensino fundamental. n

MAIS NA WEB Medium Leia o poema Essência 21, de Daniela Gonzatto. Spotify Ouça a reportagem na Audiomagazine da PI.

IMPRESSÕES DE REPÓRTER “Achava que seria um grande desafio fazer uma reportagem em meio a uma pandemia pois, como sempre foi dito, o repórter deve estar onde os acontecimentos se passam e de olhos nos olhos do entrevistado. As informações coletadas virtualmente impossibilitaram a interação mais intensa com as fontes da reportagem, mas mesmo assim a matéria contribui para aprender como fazer Jornalismo remotamente. Este é um texto em que tratamos com pessoas que atuam na educação. Um direito fundamental de todos, que perpassa o desenvolvimento humano por meio do ensino e da aprendizagem. A tecnologia se tornou uma aliada nesse processo, pois entramos nos lares de cada entrevistados através de telas de computadores e assim conseguimos realizar mais uma edição da Primeira Impressão.”

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ssim que o período pannesse contexto clausREPORTAGEM dêmico se tornou uma MATHEUS RAMOS trofóbico. Essa nova realidade no território realidade era ainda IMAGENS brasileiro, Patricia Fon- AMANDA BORMIDA mais difícil para alguém toura permaneceu os que estava habituada primeiros quatro meses isolada a propiciar conhecimento para em seu apartamento. A sua solidão foi potencia- mais de 300 alunos e interagir lizada pelo fato do filho Bruno e da namorada com mais de 100 colegas que do jovem universitário, chamada Gabriela, que também possuíam o mesmo moravam com ela, terem resolvido se mudar desejo de disseminar saberes para constituir uma vida mais independente. O no âmbito educacional. casal ainda levou os gatinhos de estimação pelos Patricia possuía um sonho de quais a educadora tinha grande apreço. longa data, que se tratava de se A gaúcha de 41 anos, formada em Biologia, que mudar para o litoral e levar uma leciona há 12 na rede municipal de Porto Alegre, vida em um ritmo menos agitado. revela que jamais havia passado por nenhuma Ao relembrar como esse sonho experiência semelhante. Patricia destaca que a havia sido concebido, a professosua rotina profissional acabou passando por uma ra conta que a sua irmã já morava repaginada completa, adotando o isolamento total. havia 15 anos em Florianópolis, O contato humano foi possível somente a partir o que ajudou a despertar o seu das potencialidades tecnológicas contidas nas interesse pela cidade. Durante redes sociais e também ao frequentar o mercado um longo período de nove anos mais próximo de sua residência para realizar com- se deslocando para o local de pras, sendo incapaz de conter o receio inevitável natureza acolhedora nas férias de de se contaminar com a Covid-19. Ainda que o verão, essa experiência fez com meio digital possibilitasse que um determina- que ela fosse desenvolvendo um do nível de interação com outras pessoas fosse verdadeiro encantamento pela estabelecido, era impossível conter a angústia beleza envolvente que se fazia

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> Patricia: Arquivo pessoal


O inesperado na realização de um sonho Trocar de cidade ficou mais viável para Paty em meio à pandemia

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presente na praia, também constatando uma diferença de praticidade em atividades rotineiras em relação a Porto Alegre. A professora não imaginava que esse desejo seria realizado diante de um contexto tão caótico. Ao relembrar sobre o seu processo de adaptação para tentar manter a lucidez por conta da pandemia, a profissional de Educação destaca que foi necessário recorrer a diversas atividades, desde participar de inúmeras lives, realizar cursos a distância, praticar artesanato, trocar alguns móveis em sua casa e pintar as paredes. Essa busca constante para manter a mente ocupada foi intensificada pelo fato de que desde agosto de 2020 o exercício da sua profissão havia começado a ser realizado de forma remota, o que fez com que se sentisse ainda mais isolada. Temáticas como saúde mental estão ganhando cada vez mais visibilidade na sociedade. A falta de diálogo, compreensão, relações interpessoais e o alto índice de estresse são alguns dos fatores que acarretam danos psicológicos, com esses elementos estando presentes em jovens, adultos e idosos de todas as classes sociais e estilos de vida. Contudo, sintomas de ansiedade também acabaram se manifestando em uma parcela abrangente da população em decorrência do período pandêmico, como também foi o caso de Patricia. A gaúcha relata que o fato de não ser possível realizar um planejamento preciso e não saber por quanto tempo a pandemia irá se estender fez com que fosse impossível não se sentir ansiosa, além do afastamento do ambiente de trabalho e também da própria família potencializar esse sintoma. A educadora destaca que a pior experiência possível trata-se de lidar com a perda de colegas da profissão e amigos que acabaram falecendo por contaminação pelo do vírus. Patricia, que não perdeu nenhum de seus familiares, diz que todo o seu núcleo permanece seguindo as orientações de segurança sanitária, para diminuir ao máximo a possibilidade de contaminação. Assim como a professora, que ficou apreensiva de se contaminar e acabar transmitindo a 36 > primeira impressão


Covid-19, a família inteira considerou que a melhor opção era que todos permanecessem seguros em suas residências. Antes da incorporação completa do modelo remoto na realização das aulas, ela, apelidada de Paty pelos seus semelhantes mais próximos, havia identificado uma grande dificuldade de permanecer mantendo contato com os seus alunos de maneira eficiente, já que poucos tinham acesso às ferramentas para interação disponíveis naquele estágio inicial de migração para a ambiência digital, com uma quantidade baixa de estudantes conseguindo retomá-la. Porém, assim que as plataformas concebidas para o modelo remoto foram disponibilizadas, os alunos começaram a adquirir um maior entendimento de onde poderiam acessar os materiais de cada disciplina. Influenciada por essa nova realidade, Paty resolveu colocar o seu sonho em prática. A educadora já tinha realizado um concurso para a localidade desejada em 2014 e, ao obter um bom nível de classificação, acabou criando esperanças de que seria chamada. Em razão dessa expectativa, ficou monitorando as nomeações, mas a vigência do concurso foi encerrada sem que ela recebesse qualquer notificação. Porém, em 2017 Paty ingressou em um concurso na capital para obter uma vaga no estado de Santa Catarina, tendo sido chamada em 2019 para lecionar. Como o seu único filho ainda permanecia morando com ela durante aquele período e recém ingressou na graduação, a educadora acabou optando por adiar os seus planos por mais um tempo. Patricia realizou a mudança em agosto, mas possuindo plena consciência de que precisaria retornar para a capital gaúcha assim que as aulas presenciais fossem retomadas. O período pandêmico fez com que o modelo remoto fosse adotado de forma predominante na maioria das instituições de ensino, possibilitando que ela conseguisse trabalhar da sua nova residência. Ao não haver mais nenhum motivo para manter-se na cidade

natal após ter ficado sozinha com a mudança de Bruno, decidiu colocar o seu sonho em prática de maneira definitiva. Embora o governo do município possua como prática chamar professores através de processos seletivos com contrato temporário, ao invés de incorporar profissionais concursados, a pandemia impossibilitou que as avaliações de seleção ocorressem, fazendo com que a administração governamental optasse por direcionar a sua atenção para essa categoria usualmente não levada em consideração, que se encontrava contida no cadastro reserva. Assim sendo, em novembro entrou em contato com a Secretaria de Educação de Santa Catarina, com o anseio de obter uma oportunidade, descobrindo que estava previsto que um edital com vagas para lecionar em Florianópolis em 2021 seria aberto. Ao terem lhe passado uma lista de instituições de ensino, uma delas especialmente a deixou interessada. Ao adquirir o endereço da organização educacional, se dirigiu até ela para ganhar as informações requeridas. A escola, chamada Henrique Veras, fica localizada na Lagoa da Conceição, tratando-se de um local encantador e com um alto nível de organização. A professora foi recepcionada pelo diretor Bruno, que possui o mesmo nome de seu filho, o que só poderia ser um sinal, como apontado com entusiasmo pela protagonista desta aventura. Ao ter sido muito bem recebida por todos os colegas e pelos funcionários que lhe ofereceram o auxílio que fosse necessário até que ela conseguisse se estabelecer e obtivesse uma carga horária mais elevada, percebeu de maneira instantânea que havia encontrado o lugar certo, deixando de pesquisar outras instituições que também se localizavam naquela área, encaminhando a documentação requerida e exames para nomeação e posse. Por conta desse alinhamento de eventos, Patricia começou a lecionar nessa instituição. A professora revela que a sua qualidade de vida melhorou desde que realizou a mudança para Florianópolis. Contudo, a preocupação da educadora permanece, pelo fato das aulas presenciais terem sido retomadas, mesmo sem uma aplicação mais abrangente das vacinas, além da sobrecarga por precisar conciliar essa rotina com as atividades remotas. Porém, ao mesmo tempo, Paty se sente privilegiada por saber que a região conta com mais áreas de lazer que não envolvam aglomerações, o que lhe possibilita fazer trilhas, caminhadas e retomar o hábito de nadar, que se trata de uma das suas maiores paixões. Ela, que é uma verdadeira apreciadora de ambientes naturais, integra um grupo de natação que faz algumas travessias no mar, levando-se em consideração que piscinas atualmente não são viáveis, por se constituírem como um espaço propício para contaminação. Essa nova rotina jamais poderia ser efetuada em Porto Alegre, já que a capital gaúcha não conta com ambiências de entretenimento que não ofereçam risco no contexto atual, ao se encontrarem lotadas na maioria. Paty lembra que, por isso, permanecia em completo isolamento na capital gaúcha, sem poder desempenhar nenhum tipo de atividade física. n

MAIS NA WEB Medium Que sonho você realizou ou adiou durante a pandemia? Confira os depoimentos coletados por Leonardo Oberherr. Spotify Ouça a reportagem na Audiomagazine da PI.

IMPRESSÕES DE REPÓRTER “Entre todos os segmentos da profissão escolhida por mim, sempre tive preferência pelo jornalismo impresso. Devido a isso, meu interesse nessa disciplina foi instantâneo, já que poderia realizar uma atividade alinhada aos meus objetivos e ao mesmo tempo pôr em prática os conhecimentos que obtive em aula. A possibilidade de enfim conseguir desenvolver uma reportagem mais aprofundada e participar do desenvolvimento desse conteúdo jornalístico foi imensamente animadora, pelo simples fato de, além de poder realizar uma atividade prazerosa, incrementar meu repertório com bagagem prática e não somente teórica. Ao concluir desde cedo que o meu amor pela escrita poderia ser mais bem aproveitado como um contador de histórias presentes na realidade, além das minhas aptidões parecerem mais alinhadas a essa profissão, outro aspecto decisivo para o meu interesse pelo jornalismo literário foi o fato de que as pretensões desse segmento me pareceram mais atrativas. A trajetória de Patricia me deixou particularmente envolvido por se relacionar com tanta intensidade com o contexto atual no qual estamos inseridos, onde se faz necessário que façamos uma auto avaliação sobre as nossas dificuldades, como sintomas de ansiedade propiciados pelo isolamento, e também a respeito das nossas prioridades, como a realização de um sonho que havia sido negligenciado em decorrência de fatores externos. Essa experiência de explorar a perspectiva particular de alguém diante de um cenário de ordem excepcional foi algo enriquecedor.”

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A rotina de quem faz da vida uma entrega

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apacete, colete refletivo, máscara e álcool gel. Os principais acessórios no combate à disseminação do coronavírus passaram a fazer parte dos equipamentos obrigatórios de proteção de motoboys e motogirls durante a pandemia. “É como diz um colega nosso: deixem com os motoboys, fiquem em casa”, brinca o entregador Alex da Silva, de 31 anos. A principal diferença entre o antes e o depois do ano de 2020 na vida desses profissionais talvez esteja na visibilidade lançada sobre a categoria, ainda vista com certo grau de preconceito por boa parte da sociedade. À medida que o distanciamento social se tornou uma das principais providências adotadas para conter o avanço da Covid-19, o serviço de entrega passou a ser considerado essencial, evidenciando a importância dos entregadores diante da nova realidade imposta pelo vírus. Segundo o Sindicato dos Motociclistas Profissionais do Rio Grande do Sul (Sindimoto-RS), são aproximadamente 75 mil motofretistas atuando em Porto Ale-

Um ano e meio após o início da crise sanitária mundial, profissionais de motofrete seguem como uma das atividades mais essenciais para a população REPORTAGEM GRÉGORI SORANSO IMAGENS ADRIANA CORRÊA

gre e Região Metropolitana. Motoboy desde a época do nascimento do filho João Pedro, há oito anos, quando encontrou na atividade uma forma de superar o desemprego, Alex tem dedicado a maior parte do tempo às entregas por aplicativos de delivery, além de atender alguns clientes fixos de forma autônoma durante o dia. De uma hora para outra, ele viu a procura pelo serviço aumentar consideravelmente. Apesar do perigo envolvido, o leopoldense garante que após trabalhar com “as teles” é difícil se acostumar novamente com um regime fixo de horários dentro de uma empresa. Até pouco tempo atrás, sua rotina diária de entregas começava às 9 horas e ia até por volta das 15 horas, quando fazia o intervalo para o almoço e um rápido descanso. Uma hora e meia depois, estava a postos novamente para iniciar a segunda jornada do dia, até às 22 ou 23 horas, dependendo da demanda. No entanto, desde o falecimento do sogro, até então responsável por ficar com João Pedro durante o horário de expediente dos pais, Alex tem dividido a tarefa de cuidar do filho junto com a esposa, que é socorrista do SAMU. “Eu me organizo de acordo com os horários dela, mas acabo trabalhando em média cinco dias por semana, contando com os finais de semana”. Ciente dos riscos a que está exposto diariamente, o motoboy adquiriu um novo hábito ao chegar em casa. “Deixo um borrifador na porta e passo álcool líquido em toda a roupa antes de entrar. Depois vou direto pro banho”, conta Alex. Mesmo seguindo as recomendações de higiene e as orientações da esposa, ele acabou se infectando em março deste ano, tendo desenvolvido os sintomas característicos da covid-19, como a perda de olfato e paladar e o cansaço extremo. “Ainda hoje, se caminho muito, sinto um pouco de falta de ar”, comenta.

Entre adversidades e oportunidades Há 22 anos trabalhando como motofretista, Ana Paula Provenci de Moraes, mais conhecida como Aninha Motogirl, de 42 anos, nunca imaginou que fosse enfrentar um período tão atípico como o atual. Com curso superior em Logístiprimeira impressão > 39


ca, atualmente é gestora de uma Cumplicidade entre cooperativa de entregadores que os motociclistas reúne 400 associados na capital, com os quais divide as angústias Formada em Segurança do diárias da profissão em meio à Trabalho desde 2017, a porto-aleescalada da pandemia. grense Tiene Francisco Souza, de No final de abril de 2020, bus- 31 anos, não chegou a atuar na área cando atender àqueles que não de formação por falta de oportuconseguiam ter acesso a uma ali- nidades. No final do ano seguinte, mentação equilibrada em razão do passou a fazer entregas para uma isolamento, teve a ideia de montar loja de autopeças, mas a pandemia uma fruteira delivery. “Certo dia, trouxe junto a crise econômica e a sentada em frente a uma grande demissão foi inevitável. A perda lancheria de Porto Alegre, comecei abrupta do emprego, porém, sera imaginar a minha mãe e de alguns viu de incentivo para o início da clientes idosos passando a com- atuação como motogirl particular. prar fast food todo dia. Naquele “Ser mulher ajuda, por conta de a momento percebi que precisava profissão ainda ser muito margifazer alguma coisa para mudar nalizada. Então, algumas clientes essa situação”, recorda. preferem contratar a mim do que Após um períoum motoboy”, revela. do de afastamen- Além de gerenciar Pelo fato de atender printo da cooperativa uma frota de cipalmente empresas, Tiene para abrir o próprio motoboys, Aninha consegue estabelecer uma rotinegócio, hoje a ro- Motogirl abriu o na mais convencional, atuando tina de Ana Paula próprio negócio em horário comercial durante a se divide entre a durante semana e aos sábados pela mafruteira durante o a pandemia dia e a gestão da frota de motoboys à noite, numa jornada diária que inicia às 9 horas e segue até a meia noite. “A gente realmente tem que trabalhar bastante, mas tem o retorno”, garante Ana Paula. Na visão dela e de vários colegas, dificilmente outra função possibilita ganhos de até quatro salários mínimos no final do mês, sem que se exija uma larga experiência comprovada ou uma formação acadêmica específica. A baixa exigência, no entanto, não diminui a importância da profissão. “O motofrete é muito mais que o rapaz que entrega pizza. Já chegamos a atender um hospital de Novo Hamburgo que estava com uma cirurgia parada devido à falta de um instrumento para concluir a operação. Nós abrangemos todos os segmentos do mercado”. Assim como Alex, a motogirl Ana Paula acredita que os aplicativos são uma boa ferramenta tanto para os usuários quanto para os trabalhadores. A discordância se dá na falta de garantias por parte das empresas de aplicativos para com os prestadores de serviço. “No caso de algum acidente de trabalho, por exemplo, muitas vezes o motoboy autônomo fica desamparado. Daí também vem a importância da cooperativa”, salienta Ana. 40 > primeira impressão

nhã. Ainda assim, em razão do fechamento das escolas desde o ano passado, o filho Anthony Lucas, de apenas três anos, passa a semana sob os cuidados da avó, na cidade de Butiá, para que Tiene possa trabalhar. Registrada como microempreendedora individual há dois anos, a principal dificuldade, segundo ela, são os dias chuvosos. “Nunca gostei de dirigir na chuva, mas o principal fator é o risco. Só neste ano foram pelo menos seis colegas da capital e região que perderam a vida em acidentes”, lamenta. Tiene relata que o machismo existe como em qualquer outra área, mas sente uma cumplicidade maior no meio dos motociclistas. “Quem anda de moto sabe dos riscos que corremos, então se acontece algum problema na estrada, é muito mais fácil outro motociclista parar e te ajudar do que quando se fica empenhado de carro”, afirma.

Reconhecimento e mercado de trabalho Alex, Aninha e Tiene são unânimes em afirmar que a pandemia trouxe mais reconhecimento para os motoboys e motogirls, tanto pela importância na promoção do isolamento quanto para a manutenção da economia. “Tem muita gente agradecida pelo nosso trabalho. Às vezes o motoboy vai fazer uma entrega


MAIS NA WEB YouTube Saiba mais sobre a rotina de um entregador na Alemanha, no vídeo de Jordana Fioravanti. Spotify Ouça a reportagem na Audiomagazine da PI.

IMPRESSÕES DE REPÓRTER

de lanche e o cliente diz Focada no Contudo, estamos diariamente expostos, não que comprou de presen- atendimento só carregando comida, mas transportando te para o entregador”, a empresas, material hospitalar, remédios, ferramentas”, relata Aninha. “Assim Tiene não vê a pontua Ana Paula. “Sabemos que todo mundo como tem aqueles mais concorrência dos é prioridade praticamente, mas se somos estressados por conta do aplicativos como considerados essenciais, precisamos ser tracontexto, que tem medo uma ameaça tados como tal”, complementa Tiene. de receber a encomenda Com o desemprego em alta no país, aliado da nossa mão”, completa. a popularização dos aplicativos de telentrega, Para Alex, incomoda o fato de muitas pessoas acabaram buscando no motofrete uma que algumas pessoas não compreen- alternativa de sustento. Em 2020, algumas capitais dem a entrega a domicílio como uma brasileiras, inclusive Porto Alegre, registraram greves prestação de serviço, o que presu- de entregadores que exigiam melhores condições de me certas obrigações do recebedor. trabalho. O movimento dos “Motoboys Antifascistas” “Tem condomínios nos quais não ganhou repercussão nacional, porém não obteve grandes podemos acessar com a moto. Nesse resultados práticos, na observação de Alex. “Particularcaso, é importante que o cliente re- mente, penso que não serviu para nada. Como tem uma ceba a encomenda na portaria, pois grande fila de espera de motoboys para entrar no serviço, se demoramos demais em uma en- o aplicativo simplesmente libera novas contas de entretrega, prejudicamos não só os próxi- gadores no lugar daqueles que resolveram parar”. mos clientes, como a nossa remuneExperientes no ramo e consolidados no merração também”, exemplifica. cado de trabalho, Alex, Aninha e Tiene não se asJá Ana Paula e Tiene frisam a sustam com a concorrência, tampouco com os penecessidade da discussão sobre a rigos das ruas ou as longas jornadas de expediente. vacinação da categoria. “Até o mo- Mais do que isso, os três afirmam que gostam do mento, não vemos ninguém lembrar que fazem e tem orgulho das conquistas alcanda gente como grupo prioritário. çadas com o trabalho sobre duas rodas. n

“A escolha do tema ‘Portas da Pandemia’ me fez pensar sobre quem tem chegado até as nossas portas desde que a Covid-19 passou a fazer parte do cotidiano e introduziu a lógica do distanciamento social na rotina de todos. Quase que instantaneamente, lembrei dos inúmeros motoboys e motogirls que passaram a ser muito mais frequentes do que antes no interfone. Além das compras do mercado, da farmácia ou do restaurante, as entregas também trazem um pouco de normalidade durante esse período de confinamento forçado. Esse pensamento me instigou a conhecer melhor alguns desses trabalhadores, embora o momento tenha exigido encontros a distância. As histórias do Alex, da Ana Paula e da Tiene trouxeram uma nova perspectiva sobre o papel dos profissionais do motofrete, ao passo que escancararam uma realidade brasileira difícil de compreender: como pode persistir o preconceito contra uma classe de trabalhadores, tão presentes em nossas vidas, apenas pelo tipo de atividade que eles exercem?”

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na Paula Meira da Rocha, popularmente conhecida no meio artístico como Polaca Rocha — o seu nome de usuário no Twitter - publicou que sua vizinha de 80 anos estava passando uns dias sozinha longe da filha e que conversavam diariamente pela janela. Na postagem, ficou claro como Claudet Ávila Nogueira entristece-se quando as duas não conseguem dialogar, sempre a distância, com cada uma em seu apartamento. De acordo com Polaca, naquele dia estava reclusa no apartamento, tendo deixado tudo fechado, o que parece ter despertado a atenção da vizinha, pois não abriu a janela da casa. Pela relação muito próxima e afetuosa, Claudet percebeu como a vizinha estava num momento ruim e, como aquela avó que gosta de agradar o neto com a sua comida favorita, levou um prato com salada de maionese caseira e risoto de camarão. Para retribuir o agrado recebido, Polaca compartilhou uma fatia de pizza de sardinha com Claudet. Tal situação, por mais simplória que possa parecer, revela o vínculo de amizade cultivado pelas duas residentes do bairro Bom Fim, em Porto Alegre. Em 18 de abril, na conversa por videochamada, Polaca precisou pedir licença para ir até a janela comentar com Claudet que estava concedendo a entrevista por causa da relação delas. “Ela ficou bem feliz, é superquerida mesmo”, orgulha-se, sorridente. Polaca e Claudet são vizinhas de porta e andar no mesmo edifício, localizado em frente ao Parque da Redenção, há muitos anos. “Naquele dia, do tweet, ela apareceu com um monte de comidinha e eu estava precisando muito, broderagem de quem tá pertinho”, relembra Polaca, com carinho. Nos últimos dois anos, Polaca chorou muito por passar o aniversário longe do filho, o que a deixou bem emocionada. “Não dou um abraço nele há muito tempo, dói muito para uma mãe”, revela. Para ela, situações como essa são de extrema tristeza, definindo-a como sentimento individual, pois faz a separação daquilo considerado coletivo. Pensando no contexto comunitário, reflete e reforça o quanto fica entristecida pelo momento enfrentado pelo Brasil. O seu quintal é a Redenção, parque arborizado com espaços propícios para atividades físicas, local em que costuma pegar sol como antidepressivo. Como sempre gostou de frequentar academia, tem aberto mão de ir para se proteger, mesmo com a permissão para funcionamento de espaços assim na cidade. A alternativa é andar de bicicleta pela capital gaúcha em outro dos principais cartões postais da cidade: a Orla do Gasômetro. Ela Acredita que o período de pandemia tem deixado as pessoas mais solidárias, especialmente com aqueles que conhecem. “Como as pessoas estão ficando mais em casa, nos aproximamos das vizinhanças, o que é algo positivo”.

A amizade entre jovens e idoso que nasceu pela janela A Avenida Salgado Filho é movimentada: está situada no Centro Histórico, no Centro Histórico, no 42 > primeira impressão

Espaço para a amizade

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REPORTAGEM IVAN JUNIOR IMAGENS GIULIA GODOY


Relação cultivada pela janela do apartamento

coração da capital gaúcha. Na via, além dos ônibus com destino às zonas sul e leste da cidade e dos milhares de transeuntes que circulam e se batem pela calçada, podem ser vistos diversos prédios comerciais e residenciais. Um grupo de amigos de um desses edifícios residenciais avistou, enquanto aproveitava a festa junina no seu apartamento, um homem de 62 anos no prédio no lado oposto. Sem lembrar precisamente da data de começo da amizade, Paulo Henrique Vasconcelos Junior tem claramente na memória o momento no qual a relação do seu grupo de amigos iniciou com James Russo. Naquele dia, o apartamento em que Vasconcelos morava e dividia com o namorado e mais quatros amigos estava com decorações alusivas aos festejos juninos. A ideia deles era fazer a festa e criar uma atmosfera divertida com o intuito de tornar menos difícil o período de distanciamento e de isolamento social. Em seu apartamento espaçoso, ainda mais para quem divide com dois bichinhos de estimação, quase todos os cômodos são visíveis dos prédios vizinhos. Quando estava na sacada do seu prédio, o agitado Centro Histórico estava deserto, James Russo, de 62 anos, avistou e elogiou a decoração da festa junina realizada num prédio no lado oposto da avenida. Ainda que a relação dos vizinhos da Salgado Filho tenha iniciado assim, sob o ponto de vista do aposentado, a aproximação se tornou mais íntima no aniversário de Russo. O motivo pelo qual os vizinhos de avenida se aproximaram foi a decoração feita para a confraternização. Vasconcelos lembra que, antes mesmo daquele dia, observavam atentamente aquele senhor, que aparentava morar sozinho, enquanto caminhava pelo apartamento. Na data do primeiro contato visual entre eles, o jovem lembra que James Russo elogiou a decoração e depois mostrou os dois gatinhos de estimação, embora pela distância, tenha sido difícil identificar os bichinhos. Depois desse primeiro contato, tornou-se comum na rotina do grupo acenar para James todos os dias. Num certo dia, o aposentado prometeu mandar algo, não especificando o que iria enviar para o apartamento. Vasconcelos lembra do grupo ter ficado parcialmente desconfiado. A promessa veio em forma de bolo comemorativo e com carta com recado para os amigos. Como explica Vasconcelos, o motivo fez todos se emocionarem: “Lemos o cartão postal e o coração derreteu. Ele passou o aniversário sozinho e pensamos o quão difícil foi por ser uma pessoa de idade. Então, decidimos enviar uma cesta de café da manhã para ele”, recorda, sorridente. Conforme o aposentado, para co memorar o seu aniversário com a sobrinha, comprou dois bolos. Entretanto, naquele dia estava chovendo e recusou a visita da familiar, visto que ficou seguro quanto passar a data sozinho naquele momento. Passadas 48 horas, o aposentado teve a ideia de compartilhar uma das tortas com aquele grupo de amigos cujo contato começou por adereços decorativos alusivos ao festejo junino. Com a memória lembrando de cada detalhe, Russo diz que uma hora e meia depois chegou um café da manhã em seu apartamento. O presente era dos jovens e aquele aceno trocado no dia da festa no prédio vizinho culminou no nascimento de uma amiprimeira impressão > 43


zade em meio à pandemia. Naquele momento iniciou a relação do grupo de amigos formado por Paulo Henrique Vasconcelos Junior, de 27anos, Richard Eduardo Pereira Dehring, de 22, Natália Fernandes Nunes, de 25, Gabryel Prado de Oliveira, de 24, Tatiane Carrer, de 31, Cauê Tavares Prado, de 25, e James Russo, de 62. O que ninguém esperava era que a amizade seria notícia de veículos de comunicação locais, chegando a um dos principais programas da Rede Globo: o “Fantástico”. A matéria repercutiu no Brasil em meados de setembro de 2020, causando muita surpresa em to-

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dos: “Assim, não entendia muito bem porquê virou uma história nesse nível, por ser algo muito comum. Mas ficou como se fosse uma história de esperança na pandemia”, reconhece Vasconcelos. Mas como tudo começou? Paulo Vasconcelos e Pablito Aguiar são responsáveis diretos pelo alcance tomado pela história. Conforme Vasconcelos, Aguiar havia postado no status do Instagram que procurava relatos de idosos na pandemia para seu espaço quinzenal na revista virtual Parêntese, chamado “Fala que eu Desenho”. Vasconcelos viu a publicação e entrou em contato com Aguiar para relatar como iniciou a amizade dos jovens com o idoso. O quadrinista alvoradense demorou em torno de quatro dias para desenhar e construir a narrativa, após conversar com Vasconcelos pela rede social. Embora tenham se aproximado de James, vizinho que morava no prédio da frente, o contato com

> Porta aberta: Paulo Vasconcelos (dirigida por Giulia Godoy)

quem dividia o andar com eles era inexistente. “O povo que mora no Centro parece mais fechado”, resume. Para Vasconcelos, a diferença de idade, ao invés de distanciá-los, os aproximou e a explicação é bem simples: o fato de estarem distantes dos pais, ele ser idoso e não ter filhos ou morar com pessoas mais jovens, aproximou as duas gerações. James Russo também não tinha contato com pessoas da vizinhança e acredita que o tempo sozinho permitiu observar o entorno do local em que vive. No fim do ano, o grupo de amigos se mudou e deixaram de morar juntos. Mas a amizade se-


gue mantida e cultivada diariamente pelo WhastApp criado no início da relação, com a participação dos sete. Vasconcelos conta que ele manda normalmente aqueles memes de bom dia, vídeos engraçadinhos e de política. Outro ponto são as citações ou as leituras consideradas interessantes por James, as quais são compartilhadas no grupo. Para o aposentado, cuja rotina era bem ativa antes da pandemia, o grupo no WhatsApp permitiu que identificassem afinidades, além das trocas de elogios. Um exemplo é o dia em que enalteceram o pijama usado por James: “Disseram que parecia o pôr do sol na Orla”, lembra, sorridente. “Tempos difíceis mostram como são pequenas coisas que terminam se fazendo grandes, por exemplo, a gentileza entre vizinhos”. Embora a grande diferença de idade, James reforça como deve se observar a relação de amizade cultivada por eles sem partir para o estereótipo. “Procurar ver

as pessoas como são, aceitar como são e ser gentil sempre”, pondera o aposentado. Como ainda não haviam sido vacinados à época da produção desta reportagem, o encontro entre James, Paulo, Richard, Natália, Gabryel, Tatiane e Cauê permanecia virtual, mas a certeza é que tão logo seja seguro, estarão todos juntos. Vasconcelos revela que estão cogitando, inclusive, começar a confraternização num café da tarde e emendar com a janta, pois além de Cauê e Tatiane serem cozinheiros, todos apreciam uma boa comida e bebida, especialmente o James, que sempre conversa sobre o assunto. n

MAIS NA WEB Medium Confira o ensaio Conhecidos de vista, de Letícia Lampert. Spotify Ouça a reportagem na Audiomagazine da PI.

IMPRESSÕES DE REPÓRTER “Quando identifiquei o tema para esta reportagem, queria abordar como a relação de trabalho alterou-se fortemente na vida das pessoas. Contudo, na apresentação das pautas, o entusiasmo dos professores frente à outra possibilidade - amizades que nasceram ou foram cultivadas nesta época - me deixou em dúvida. Como podem ver, minha opção foi a segunda e fico bem feliz de ter seguido por este caminho. O primeiro passo para construção da reportagem foi contatar Ana Paula Meira da Rocha, a Polaca, pois a ideia surgiu de um tweet feito por ela. Depois, seguindo a sugestão da professora Cybeli Moraes, procurei os personagens envolvidos na história contada em quadrinhos pelo talentoso e solícito Pablito Aguiar, que me ajudou a chegar no Paulo Henrique Vasconcelos Junior, e este, a conversar com James Russo. O resultado do material os leitores puderam acompanhar. Para mim, a experiência me ajudou a perceber a necessidade de observar o outro e aproveitar cada momento de contemplação ou de ócio. Pois, embora a vida seja agitada, sempre há a possibilidade de descobrir quem está na janela ou na porta ao lado.”

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É

uma tarde de quinta-feira de abril. Início de outono. O sol que brilha no céu até que esquenta, mas já quase não o suficiente para quem caminha pela cidade. Algumas pessoas usam mangas longas. Do lado de dentro do Hospital Municipal Getúlio Vargas, único de Estância Velha, cidade com cerca de 50 mil habitantes e que fica a 45 quilômetros de Porto Alegre, os pacientes já precisam de uma coberta para se aquecer. O ambiente que, para muitos, é sombrio, também está 46 > primeira impressão

REPORTAGEM ISAÍAS RHEINHEIMER IMAGENS RAFAEL MONTEIRO

gelado. As árvores da volta, que, por vezes, oportunizam uma sombra boa, também potencializam o frio nesta época do ano. O motorista Léo Jairo dos Santos, de 54 anos, é um dos seis pacientes internados na Ala Covid. Teve época, em fins de fevereiro, que o número de internados chegou a 30. Faltou espaço, e o leito no corredor virou realidade. A aparência de Léo, três dias depois da hospitalização, é boa. Apesar de disposto, a tosse o impede de completar uma frase. A falta de ar também, apesar de a equipe médica ter reduzido a intensi-


Humanização por uma tela Chamadas de vídeo diminuem o sofrimento das vítimas da Covid

dade do oxigênio que sopra pelo colar nasal. Léo está sentado sobre a cama, usa calça de abrigo e uma camiseta branca meio esgaçada. É a primeira vez que aceita que uma videochamada seja feita a um familiar. No primeiro dia que passou no hospital, não aceitou a chamada por acreditar que teria alta no dia seguinte. No outro, o fator turrão pesou. No terceiro dia, a saudade bateu mais forte. A psicóloga Maria Caroline Kayser se aproxima do paciente já com a chamada em curso e o aparelho voltado para ele. Léo esboça um sorri-

so antes da filha atender. — Oi, pai! Ver e ouvir a voz de Janaísa Graciele dos Santos, de 24 anos, emociona Léo. O choro é silencioso, mas as lágrimas brotam dos olhos e o entregam. O silêncio invadiu o quarto pelo tempo suficiente para conseguir ouvir nitidamente as batidas das marretas contra uma parede de concreto e o

ranger da esmerilhadeira cortando aço. No andar de cima, há uma reforma em andamento. O motorista está amparado pela psicóloga, que aguarda Léo se recompor para interagir com Janaísa. “Agora, vou te entregar, seu Léo! Olha, quem não quis fazer as chamadas nos outros dias foi ele, hein”, explica Caroline. Léo sorri e começa a primeira impressão > 47


conversar com a filha. Questiona sobre todos e quer saber onde está a netinha, Maitê, de apenas um ano. Revela que o volume de oxigênio foi diminuído. Fala que a equipe o trata bem. Projeta ter alta no sábado. Ouve da filha que tudo ficará bem e que poder vê-lo a deixa mais calma. Antes de desligar, pai e filha firmam um acordo, entre sorrisos: no dia seguinte, a neta participará da videochamada desde que ele não negue mais que sejam feitas. O “eu amo vocês” também sai, timidamente, da boca de Léo. A filha devolve a mensagem de amor. Depois de falar com a filha, o paciente volta a demonstrar vigor. Na terceira pessoa, discorre: “Aqui dentro, a gente só se preocupa com a recuperação. Mas nossa autoestima é a nossa família, que nos acompanha lá de fora sem ter noção do que acontece aqui dentro. E esse contato ajuda a matar a saudade e diminuir o sofrimento, tanto para nós quanto para eles”. Já a filha do motorista relata que a experiência foi incrível. “Estou aliviada. Enquanto são os outros falando que ele está melhor, a gente não quer acreditar, fica duvidando. Poder falar com ele dessa forma me devolve a esperança de que ele ficará bem”. Porém, no começo, as experiências de Janaísa e Léo com o hospital não foram boas. A atendente de telemarketing relata que a falta de informação sobre a situação do pai só aumentou sua aflição. “Não me ligaram para informar que ele havia sido internado”, reclamou. A relação melhorou somente quando Janaísa voltou ao hospital e exigiu explicações.

Os impactos das videochamadas O som dos aparelhos monitorando a saturação e os sinais vitais acompanham os pacientes com Covid que necessitam de internação do Hospital Municipal Getúlio Vargas. Por longas horas, esses sinais sonoros se tornam únicos no ambiente, o que potencializa a aflição de quem sofre com a doença. O sopro do cilindro de oxigênio é contínuo e ninguém mais se dá 48 > primeira impressão

conta de que ele está ali. O paciente infectado com o vírus – e que é hospitalizado – não sofre apenas pelo isolamento, mas também por estar em um local em que a morte é próxima, e cujo som ambiente é a trilha para um filme de terror. A distância necessária da família por, no mínimo, 14 dias, é só mais um ingrediente nesse quadro de horrores. Porém, quem está ali só tem um foco: a cura. É em busca dela que tudo se move. Porta afora o drama vivido pelas famílias é ainda maior. Não é só a distância que afeta o estado psicológico. As notícias tristes relativas à pandemia trazem ainda mais incertezas. Para diminuir o sofrimento, o hospital de Estância Velha passou a usar a tecnologia a seu favor e começou a fazer chamadas de vídeos, via WhatsApp, para que familiares possam conversar com os pacientes. São as televisitas.

Experiência dos dois lados A interação entre paciente e família através de uma pequena tela de um aparelho celular tem resultados incríveis, que podem se equiparar a um fármaco. Essa é a opinião de quem está na linha de frente do projeto e já viveu essa experiência

dos dois lados. A psicóloga Danúbia Nunes, responsável pela equipe de psicólogos do hospital e quem implementou a “televisita”, explica que a ideia surgiu de uma experiência pessoal. Os pais de Danúbia foram infectados pelo novo coronavírus em março de 2020 e precisaram ser internados na UTI do Hospital Municipal de Novo Hamburgo. “Com a internação, a gente não pôde visitá-los. Foi, então, que consegui que a médica que cuidava de ambos realizasse uma chamada de vídeo para que nós pudéssemos conversar com eles, apesar de estarem sedados”, relembra. Depois de viver esta experiência, Danúbia apresentou a ideia à direção do hospital estanciense, que gostou da proposta. A psicóloga relata que, quando os familiares estão do lado de fora de um hospital, muitas vezes sem notícias do estado de saúde do paciente, e até mesmo sem poder vê-lo, isso gera uma “angústia grande”. Com a televisita, esse sofrimento diminui. “É perceptível o conforto, o acolhimento que isso gera. Com a videochamada, conseguimos tranquilizar as partes, e estabelecer uma aproximação”, aponta Danúbia. A profissional acrescenta que a questão psicológica melhora o quadro clínico e reduz o nível de ansiedade do paciente. “A ansiedade, aliás, acaba potencializando a falta de ar, o que não é nada bom”. Não há estudos que comprovem a eficácia das videochamadas para a cura de pacientes com Covid. Porém, os indicativos mostram que possuem valor. Não fosse isso, outros hospitais não repetiriam a receita. As televisitas não são uma exclusividade de Estância Velha. O Hospital Municipal e o Hospital Regina, de Novo Hamburgo, além do Hospital Centenário, de São Leopoldo, também promovem as videochamadas. A psicóloga Bárbara Belotto, que trabalha no Regina, explica que as ações de humanização não param nas televisitas. “Também oferecemos


assistência psicológica aos pacientes e familiares, para dar um suporte emocional e amenizar o sentimento de quem vive essa situação e construir com eles estratégia para lidar com os dias, com o momento”.

O dia de um intensivista É fim de abril e os indicadores apontam para uma nova estabilização, com tendência de queda, dos casos de Covid-19 no Estado. O noticiário revela que, pela primeira vez depois de meses, começam a sobrar leitos de UTI nos hospitais gaúchos. Mas, também, que o Rio Grande do Sul registra mais mortes do que nascimentos pela primeira vez na história recente. Para profissionais da saúde, como é o caso do fisioterapeuta Marcio Luiz Ferreira de Camillis, de 39 anos, isso é um sinal de que os dias de paz ainda estão distantes. Enquanto em uma ponta da rede de saúde há profissionais colocando toda a criatividade para humanizar o atendimento, na outra, estão aqueles que precisam trabalhar de maneira técnica e atenta até exaurir as doses de esperança. Marcio faz parte do segundo grupo. Trabalhando na UTI de dois importantes hospitais, o Moinhos de

Vento, em Porto Alegre, e o de Aeronáutica, em Canoas, o fisioterapeuta ainda sai de casa sabendo dos percalços que poderá encontrar, mas disposto a cumprir sua missão, que é salvar vidas. Não foi diferente naquela terça-feira, que viria a terminar só no dia seguinte, por que tem dessas para quem atua na linha de frente da Covid. Ainda era madrugada quando ele saiu de casa rumo a Base Área. Foi dormir à meia-noite, acordou às quatro, e às cinco já estava dentro de um avião, rumo a Governador Valadares, interior de Minas Gerais. A missão do dia era buscar uma paciente Covid no município do Vale do Rio Doce e levá-la até Brasília. “Era uma paciente com quadro grave, mas ela ainda não estava entubada. Aplicamos uma sedação leve, pois estava agitada, mas a viagem terminou bem”, recorda. A maca-bolha – cápsula de isolamento usada principalmente para o transporte em aeronaves de pacientes com doenças infecciosas – também serve para alterar o estado de ânimo da paciente. O tempo bom favorece o voo, mas a cidade reluzente abaixo não chama a atenção da tripulação. A viagem longa cansa e faz com que pormenores passem batido. O relógio marca 19h15 quando o avião aterrissa em Canoas. Marcio passa a mão na sua mala e segue reto para o Moinhos, onde 10 pacientes Covid, em estado gravíssimo, o aguardam. O banho o ajuda a revigorar. “Ao contrário da viagem, o plantão noturno foi muito agitado, com pacientes entubados e em ventilação mecânica, tendo que manejar sedação”, relata o fisioterapeuta. Dos dez, apenas nove venceram a noite. Não basta a perda de um paciente, a equipe médica encerra o turno em frangalhos. Uma paciente de 36 anos, gestante de 32 semanas, não apresenta melhoras e desafia a equipe. O parto induzido correu tudo bem. A mãe-paciente é induzida ao coma e entubada. É o percalço do dia. Ela morreu no dia seguinte. n

MAIS NA WEB Medium Leia a crônica Na saúde, na doença, no Brasil, de Clarice Almeida. YouTube Confira o depoimento de um profissional da saúde no vídeo de Adriana Corrêa. Spotify Ouça a reportagem na Audiomagazine da PI.

IMPRESSÕES DE REPÓRTER “Estar “dentro” da história teve um valor crucial, a meu ver. Essa pauta somente ganhou vida – e, talvez, sentido – depois que consegui participar das videochamadas entre pacientes e familiares. Foi assim que tudo brilhou, numa quinta-feira ensolarada de outono. Uma experiência virtual que serviu para reforçar uma velha máxima: jornalismo “só” se faz estando presente – e foi o que aconteceu quando pude acompanhar o fato em tempo real. Sentir o “cheiro” do ambiente, perceber as reações e emoções das pessoas, ouvir o entrevistado e o que acontece à sua volta fazem toda a diferença na hora de contar uma história. O silêncio, então, permite uma imensidão de conclusões. A história que reporto aqui, que tem Léo como protagonista, contudo, é uma história incompleta, como todas as histórias jornalísticas. É que no amanhã tudo pode ser diferente. Mas o Léo... eu tenho certeza que ele poderá se declarar um vencedor para o resto da sua vida. Ele há de vencer esse vírus violento que só em Estância Velha arruinou a vida de mais de 110 famílias”.

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Portas da maternidade Como são os dias de quem luta por uma nova vida em meio aos riscos da Covid-19 REPORTAGEM SARA NEDEL PAZ IMAGENS LEILA DONHAUSER

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isos, abraços, surpresas, mimos e revelações. Essas são algumas das expectativas de uma gestação vivenciada por uma família em tempos normais. Mas em época de pandemia, muitas mães têm esse sonho interrompido e passam a escutar apenas o silêncio de um corredor, o pavor de outros pacientes, o frio do hospital e a solidão de dias em uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI), sem as pessoas que ama por perto. Com um intervalo menor do que duas semanas, a técnica em contabilidade, Keli Carine Ribeiro, de 41 anos, descobriu sua gravidez pouco antes de precisar ser internada com Covid-19. Ao realizar o teste e entrar em isolamento social, teve um sangramento e precisou buscar socorro médico na Fundação Hospital Centenário, em São Leopoldo. O que ela não esperava é que após receber alta teria que voltar lá em uma situação totalmente diferente. O dia, que tinha começado normal e com uma alimentação saudável, foi interrompido por dores intensas. Já dependente de oxigênio na UTI, a futura mamãe precisou agarrar a sua fé em Deus e no apoio médico para controlar as emoções na notificação de risco à vida do seu bebê, que tinha apenas entre seis e oito semanas de gestação. “Priorizando a minha vida, o médico dizia: É um feto ainda, não é um bebê. E eu falei para ele, mas ainda é uma vida”, enfatiza a mãe com a voz trêmula. Planejar uma gestação e pensar em todos os cuidados que ocorrem após a chegada de uma criança costuma gerar grandes incertezas em muitas fa50 > primeira impressão


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mílias. O mundo já vivia uma série de mudanças políticas e econômicas que vinham dando sinais de uma significativa redução da expectativa de nascimentos. Com as restrições de isolamento social decorrentes da pandemia, acreditava-se que o número de partos seria maior através do fenômeno baby boom – definição genérica para o aumento súbito de natalidade – uma vez que a maioria dos casais estaria, em tese, dentro de casa. Entretanto, a perspectiva foi invertida por uma fase histórica, onde atualmente, o número de mortalidade no mundo ultrapassa a taxa de natalidade. Débora Becker, mestre em Psicologia e integrante da equipe Centro de Estudos Relacionados ao Bebê (CER Bebê), que atua principalmente nos temas ligados à gestação, maternidade, paternidade e os processos de interação do bebê com os pais, conta que durante a pandemia as gestantes têm sofrido inúmeros impactos e mudanças psicológicas. “O fato da vacinação ainda não estar disponível para mulheres grávidas tem sido uma razão de angústia. Acaba sendo um somatório de medos, pois os sentimentos evocados nesse momento somam-se aos já experimentados naturalmente pelas mulheres nesse período de gestar uma vida. Muitas estão adiando a maternidade, pelo medo do futuro, das incertezas diante da pandemia. Além disso, ao longo deste último ano, houve uma queda muito grande nos nascimentos, o que certamente impactará em diferentes esferas da nossa sociedade”. Muitos são os riscos e preocupações nesse momento de crise mundial. Alguns casais passaram a adiar seus planos por inúmeros receios de criar uma nova vida. Mesmo com tantas incertezas, algumas pessoas levaram adiante o sonho da maternidade, contando com o apoio de seus parceiros. Keli argumenta que essa fase, tão importante em tempos de Covid-19, é um ato de coragem e de fé, já que tanto as famílias, quanto as mães em si, passam por um período de desafio e provação.

A força da fé “Num primeiro momento a gente fica assustada. Mas eu me apeguei muito em Deus. O tempo todos os médicos foram muito realistas e falavam sobre o grande risco de perda. Eu tive que tomar medicações como a morfina, e fiquei com o coração apertado com relação a esses medicamentos”, conta 52 > primeira impressão

Keli. Debilitada, ela se sentia dependente e precisou fazer uso de inúmeros remédios e fraldas, coisas que não imaginou serem necessárias na sua idade. Foram cerca de 35 dias internadas e oito na UTI. Keli e Jessy Campos estavam unidas pelo laço de mãe e filha. Mas o medo diário de perder sua pequena era muito grande. Além dos riscos “padrões” da doença do novo coronavírus, Keli ainda sofreu com agravamentos como a tromboembolia pulmonar e o intestino grosso elevado. O envolvimento dessas doenças com o SARS-COV-2 ainda está sob estudo de especialistas. Várias especulações de profissionais já vêm sendo desenvolvidas sobre a perspectiva de que o vírus pode causar uma forte inflamação no organismo, desgastando o sistema imunológico do paciente, facilitando outras doenças. Segundo a gestante, durante todos os dias, ela estava sozinha em um espaço cheio de pessoas doentes e apreensivas, e a família estava ciente de que aquela gestação poderia não ser levada para frente. Mas a fé era mais forte. “Foi um tempo de muita intimidade com Deus. Eu precisava

fazer exames invasivos e de risco para o bebê, como raio-X e a cintilografia – precisei escrever de próprio punho uma autorização. Eu comecei a chorar e falei para as enfermeiras que se era necessário os exames que eu ia fazer, mas antes eu ia orar! E quando eu abro meus olhos, estavam as duas enfermeiras orando comigo. Era uma mistura de sentimentos de ansiedade e de coração de mãe – mas ao mesmo tempo de gratidão”, diz, emocionada. Keli lembra que após uma bateria de exames, já estava muito cansada, mas que mesmo com todos os riscos, Jessy continuava crescendo. “Um dos meus incômodos é que devido minhas complicações, os médicos só podiam me virar para o lado direito. Eu me sentia limitada. E quando eu pude sentar na UTI, foi maravilhoso”, disse. Conforme ela, o trabalho da equipe do Hospital foi sensacional e responsável por uma grande sensação de amparo, mas que mesmo com toda a boa intenção do mundo era impossível aliviar o desconforto e as escaras – também conhecidas como feridas e úlceras de pressão – que começaram a aparecer pelo corpo ao ficar somente de barriga para cima.

Uma nova internação Com um risco de parto precoce, em fevereiro de 2021 Keli precisou de mais 12 dias de hospitalização. “Senti dores muito fortes. No começo, pensei serem apenas gases, devido à fase da gestação, mas quando se intensificou, olhei pro meu marido e disse: ‘eu preciso ir pro hospital!’”. Por conta de sua internação anterior, os rins de Keli foram prejudicados por uma bactéria da sonda.


apenas esperando o nascimento. “A gente ainda fica com medo e alguns receios. Com todos os sustos, e ela já se movimentando bastante, separei cada roupinhaparaessemomento.Alémdisso, por indicação da equipe do Hospital Centenário, passei a fazer meu pré-natal em outro Hospital”, conta empolgada. Na reta final, alguns imprevistos ainda aconteceram e como as sequelas do Coviddeixamdificuldadesrespiratórias, o parto acabou tendo que ser agendado. Mesmo com algumas complicações, Jessy, ainda com a pele rosada, chegou cheia de saúde para a alegria de toda a família e da mamãe guerreira no HospitalConceição,de PortoAlegre.

A importância de buscar apoio

“Eles não faziam ideia se me colocavam na Área Covid ou nos leitos clínicos. Afinal, era uma complicação do vírus, mas eu já não testava mais positivo”. O SARS-COV-2 deixou muitas marcas na vida dessa família. Após ganhar alta mais uma vez, Keli seguiu com a gestação de risco e supercontrolada, através de grandes doses de anticoagulantes para a prevenção da trombose e demais complicações de um possível coágulo. “As sequelas são grandes, mas é tudo por amor”, afirma Keli.

Sentimentos do nascimento De acordo com Débora, “a maternidade é um dos grandes desafios da vida de uma mulher. É uma construção. Inclusive, ela tem início muito antes do bebê ser concebido – quando há o desejo de ter um bebê. Com o nascimento de um filho, ocorre também o nascimento psicológico de uma mãe, que é permeado por angústias e muitas expectativas.” Ela ainda relata que para a família, a chegada de uma bebê gera muitas transformações. “Tornar-se mãe, tornar-se pai, é uma experiência que permite aos pais, reviver, de alguma forma, as primeiras interações que os bebês estabelecem com seus pais. Além disso, é um momento que deixam de ser filhos, para serem também pais”. “A gente se move por fé e crendo que Deus está no controle, porque foram dois livramentos durante a gestação e a bebê graças a Deus está bem. São coisas que passam e a gente só vai agradecendo”, conta Keli, aliviada. Após essas batalhas, foi numa sexta-feira, 19 de abril, que Jessy veio ao mundo. Com o bebê já encaixado, Keli deixou tudo pronto

Débora fala que vivências traumáticas durante a gestação, assim como no parto, deixam marcas na mãe e no bebê. “Não que signifique que essas marcas impossibilitem que os vínculos mãe-bebê aconteçam e sejam bem sucedidos” mas, de qualquer forma, ela argumenta que a mãe experimenta um sentimento de perda, uma angústia de separação, enquanto o bebê passa por uma sensação de desamparo, pois é apresentado de forma abrupta ao mundo. “Nascer é traumático para todos nós”, enfatiza. A profissional ainda diz que é importante que a mãe tente se conectar com ela mesma, tentando esquecer um pouco sobre tudo que tem acontecido no mundo, procurando enxergar sua própria força e o vínculo com sua família. “A mãe deve poder contar com uma rede de apoio. E se for necessário, deve poder buscar ajuda psicológica. Emboraamulhersempreachequedeve dar conta de tudo, até porque também existe uma pressão social de que ela precisa ser multitarefas, é importante que ela consiga perceber suas limitações ereconheceranecessidadedeumapoio, sobretudo emocional. Essa mãe, tendo todaaassistênciaadequadaehumanizadaduranteesseperíodo,poderáteruma experiênciamenostraumáticaecarregar boas lembranças desse momento”. As mães precisam ser acolhidas durante a gestação, no parto e no pós-parto. “Nós que trabalhamos com bebês defendemos muito a importância das intervenções precoces, no sentido de investir nos primeiros meses de vida da criança e no potencialqueasprimeirasinterações,estabelecidasentreobebêeseusprincipais cuidadores,têmnoseudesenvolvimento e na qualidade deste vínculo”. n

MAIS NA WEB Medium Leia a crônica Cápsula do Tempo, de Amanda Krohn. Spotify Ouça a reportagem na Audiomagazine da PI.

IMPRESSÕES DE REPÓRTER “A pandemia do novo coronavírus trouxe grandes desafios para toda a população. Vivemos momentos de angústia, adaptação e de grandes mudanças do nosso cotidiano. Sonhos são adiados e preocupações são constantes. Ainda assim, algumas famílias como a de Keli, batalham nesse período tão caótico por uma nova vida, abrindo assim as Portas da Maternidade. Histórias como essa merecem ser contadas, observadas e servir como inspiração – independentemente de qual seja seu sonho ou fé. É impossível não se emocionar ao falar com uma mãe que luta pela sua própria vida e da sua filha. Ouvir a voz trêmula de quem narra o desespero do isolamento e decisões impostas pela recuperação e sobrevivência. Lidar com essas situações fazem parte da nossa profissão, que busca dar voz para esses anseios. Assim como eu, espero que todos que leiam essa matéria consigam entender e se motivar com a força da fé de uma mãe que luta por sua vida, rezando pelo bem-estar de algo tão desejado – sua filha.”

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