Enfoque Osório 1

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ENFOQUE O

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LUCAS HENRIQUE MARQUES

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I

Nova marca de roupa é inspirada na cidade Criada por morador de Atlântida Sul e aluno do curso de Design da Unisinos, New se inspira na cultura, vivências e elementos materiais e imateriais do município Página 5

OSÓRIO / RS JANEIRO DE 2022

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O

Tribo Maçambiqueira

Uma experiência no ar

A riqueza cultural dos povos africanos é cantada ao ritmo do tambor pelo grupo que registra seus 20 anos de história em documentário

Morador dirige o Projeto Sarayu Vôo Livre que ensina a prática do parapentismo recompensando os corajosos com belíssimas paisagens

Página 4

Página 13

ALESSANDRA RIBEIRO

As riquezas naturais dão à cidade de Osório uma beleza singular e um ar de mistério que origina inúmeras fábulas e crenças Páginas 10 a 12 / 14 a 18

Cidade das

águas


2. Editorial

ENFOQUE OSÓRIO | JANEIRO DE 2022

ENZO REIS AUZANI

ANGELO SANTOS

TYNAN BARCELOS

VINICIUS BORBA

Em Osório, em casa

O

jornal Enfoque ganha uma nova perspectiva em sua 100º edição. Após anos tendo como objetivo retratar as comunidades de São Leopoldo, o material agora produzido abre novos caminhos que sopram rumo à cidade dos ventos, a mais de 100 km de distância do nosso ponto natural de partida, a Universidade do Vale do Rio dos Sinos, Unisinos. Os alunos da disciplina Jornalismo Comunitário e Cidadão tiveram a oportunidade de retratar o município de Osório e as suas riquezas humanas e naturais da porta de entrada ao litoral norte gaúcho. Mesmo antes de pisar em solo osoriense, já entendemos que o nosso objetivo era cobrir o número máximo de histórias. Reunimos algumas, muitas serão contadas ainda em próximas edições. O município e seus moradores nos receberam de braços abertos. As horas em Osório nos proporcionaram revelações ligadas a um território de

memórias da cultura negra e maçambiqueira, italiana, portuguesa, alemã, indígena. Histórias de pescadores ao longo das lagoas, de produtores e agricultores no morro. Histórias de fé, trabalho duro, criação. Ver Osório com olhos curiosos nos proporcionou alcançar ótimas histórias, e essa é apenas a primeira visita de muitas que estão por vir, afinal nos provou que tem muito a oferecer. A parceria entre Unisinos e a Prefeitura

QUEM FAZ O JORNAL

JÚLIA MÖLLER LEILA DONHAUSER MILENA SILOCCHI SARA NEDEL PAZ ANGELO SANTOS ENZO REIS AUZANI TYNAN BARCELOS VINICIUS BORBA

A CIDADE QUE REÚNE LAGOA, SERRA E MAR

O Enfoque Osório é um jornal-laboratório dirigido à cidade de Osório (RS) e região. A publicação tem tiragem de 1 mil exemplares, que são distribuídos gratuitamente. A produção jornalística é realizada por alunos do curso de Jornalismo da Unisinos (campus de São Leopoldo). | REDAÇÃO | REPORTAGENS – Disciplina: Jornalismo Comunitário e Cidadão. Orientação: Sonia Montaño (soniam@unisinos.br). Repórteres: João Teixeira, Júlia Möller, Leila Donhauser, Lohana Souza, Milena Silocchi, Sara Nedel Paz e Vitória Drehmer. Editores: Júlia Möller, Leila Donhauser, Milena Silocchi e Sara Nedel Paz. Estagiária docente: Letícia Rossa. Colaboradores: Alessandra Ribeiro, Ângelo Santos, Carlos Vargas, Maurício Borges de Medeiros, Maurício Madalena, Ricardo Becker, Tynan Barcelos e Vinícius Borba. IMAGENS – Disciplina: Fotojornalismo. Orientação: Beatriz Sallet (bsallet@unisinos.br). Repórteres fotográficos: Adriana Franco, Ana Paula de Oliveira, Bárbara Andrade, Camila Nunes, Camila Pisoni Moreira, Dandara Toniolo, Enzo Reis Auzani, Gabriel Barcelos Encarnação, Gabriele Conceição Soares, Karolina Kraemer, Luan Ávila, Maria Carolina Vargas de Souza e Thaís Meneguetti. Monitoria: Juliana Borgmann. | ARTE | Realização: Agência Experimental de Comunicação (Agexcom). Projeto gráfico, diagramação e arte-finalização: Marcelo Garcia. | IMPRESSÃO | Gráfica UMA / Grupo RBS. Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos. Avenida Unisinos, 950. Bairro Cristo Rei. São Leopoldo (RS). Cep: 93022 750. Telefone: (51) 3591 1122. E-mail: unisinos@unisinos.br. Reitor: Pe. Sérgio Mariucci. Vicereitor: Artur Eugênio Jacobus. Pró-reitor Acadêmico e de Relações Internacionais: Guilherme Trez. Pró-reitor de Administração: Luiz Felipe Vallandro. Diretora da Unidade de Graduação: Paula Campagnolo. Gerente dos Cursos de Graduação: Tiago Lopes. Coordenador do Curso de Jornalismo: Micael Vier Behs.

/ver.osorio.unisinos

Municipal foi de suma importância para que a gente conseguisse produzir um jornal que contasse um pouquinho dos 164 anos de existência. Contudo, a parceria é fundamental pelo que ainda virá em quatro anos de um projeto em conjunto com a cidade. O Ver Osório: rotas que contam histórias reúne moradores, artistas, pesquisadores, poder público e iniciativa privada para dar destaque às belezas locais naturais e culturais que tornam a cidade única.

/ver_osorio

ver.osorio@unisinos.br


Rota das Artes e Cultura .3

ENFOQUE OSÓRIO | JANEIRO DE 2022

Territórios que falam A preservação de prédios e outros espaços com valor histórico e cultural é preocupação de moradores

M

MARCAS DE UM TEMPO QUE NÃO VOLTA MAIS

Mesmo as poucas edificações que restaram guardam traços de

CAMILA NUNES

ais que a cidade dos bons ventos, Osório também é cenário de outras belezas e esconde vestígios de épocas passadas.Apesar de muito ter se perdido com o tempo, ainda é possível encontrar marcas da influência açoriana com a vinda dos portugueses e de outras imigrações que constituem a identidade plural do município. Resgatar essa história oral tem sido um desafio para moradores e alunos da disciplina de “Cidades audiovisuais, inteligentes e sustentáveis”, da Unisinos. As arquitetas e urbanistas Mariana Pelisoli e Graziela Agliardi, ambas de 31 anos e osorienses, cursaram a disciplina e se integraram no projeto Ver Osório: rotas que contam histórias.Em fase inicial,junto com a professora Ana Meira e outros profissionais estudantes de graduação e mestrado,organizam um inventário prévio do patrimônio históricoecultural.Atéomomento, mapearam mais de 20 itens, mas a previsão é que este número dobre até o final do trabalho. Entre os bens que fazem parte do acervo estão os de valor material compostos por construções, e os imateriais que reúnem conhecimentos, práticas, modos de vida e de expressão. Contudo, a maior dificuldade encontrada por elas está na preservação desses lugares. O receio de “perder” o direito sob a construção tem feito com que os proprietários se desfaçam ou recusem o tombamento. Na cidade, somente o Hotel Amaral,construído em 1927 - hoje com 95 anos, é o único bem material tombado como patrimônio oficial. Já como patrimônio cultural de natureza imaterial, foram tombadas diversas práticas religiosas e da cultura local. A guia turística Vera Bueno de Oliveira, de 66 anos, conhece bem essa e outras histórias.Ao recordar dos dias de trabalho, conta que já presenciou cenas dedonosdescontentes com as visitas dos turistas, ameaças de demolição, ou ainda chegar no local e não existir mais nada para ser fotografado e apreciado.“Há pouco tempo começou a haver mais pontos valorizados na cidade. Antes não se tinha a cultura de preservar o patrimônio histórico'', lamenta.

Na ordem: Biblioteca Pública Municipal Fernandes Bastos, Igreja Matríz, réplica da primeira Igreja de Osório, réplica da Locomotiva, Travessia do Largo dos Estudantes, Igreja Santa Rita de Cássia, Casarão dos Famer e antigo Teatro Paulino Chaves uma memória que insiste em não desaparecer. A faixa litorânea foi território da colonização, sendo conhecida pela grande procura de gado xucro (selvagem) por tropeiros paulistas e lagunenses, que os usavam para chegar até as invasões castelhanas. A rota ficou popularmente conhecida como Estrada da Laguna, na época aberta a facão. Outro fato curioso da colonização ocorreu no Morro da Borússia, onde índios e quilombolas refugiavam-se.Alocalidade de difícil acesso-não havia estrada-impedia que eles fossem caçados.SegundoVera, acredita-se que alguns se escondiam embaixo do solo e que seria possível encontrar rastros deixados para trás, porém nunca foram coletadas provas suficientes. O que hoje conhecemos como o centro, por sua vez, cresceu em

torno da primeira capela,em 1742. vizinhas, trazendo prosperidaEla abrigava a imagem da Nossa de ao litoral norte. Anos depois, Senhora da Conceição,encontrada o transporte de mercadorias por escravos emArroioAfluente do deu-se por meio da construção atual Arroio do Camarão, e poste- da linha férrea, mais tarde usariormente tornou-se a padroeira da para as festividades locais e da cidade. A construção simples para as crianças se locomoverem feita de madeira foi transformada até a escola no centro. em Igreja Matriz Vera conta em 1773 e desigainda que nessa nada nos anos “Quando tu época existia uma como Catedral conheces a "rixa"entre as duas nos anos 50, pasregiões - centro e história, te sando por diversas lagoas. A disputa reformas estrutu- conectas mais, acontecia dentro rais e estéticas. te identificas, do campo por Nas lagoas a conta do futebol, te orgulha, vais exploração da nacomo também vegação lacustre, querer valorizar fora, quando os entre 1921 a 1960, e fomentar o namoros eram só possibilitou o deentre os jovens da senvolvimento turismo” mesma localidaeconômico ao Mariana Pelisoli de. Infelizmente, interligar cidades Arquiteta e urbanista após a destruição

do Porto, os únicos registros estão no Memorial dasÁguas,mas ainda é possível conhecer as réplicas da Estação do Trem. Para Mariana e Graziela,as réplicas possuem outro tipo de valor, diferente de quando a comunidade decide cuidar o passado no presente.A dificuldade de preservar é grande porque muitas vezesnãosecompreendeopassado como algo vivo.Juntas,pretendem mudar essa realidade por meio de ações que valorizem Osório como patrimônio.Aideia é que mais pessoas,principalmenteosmoradores, vejam a cidade como uma construção de todos, um espaço que fala de tudo o que aconteceu, aquilo que é importante conservar para as próximas gerações porque tem valor para a comunidade. MILENA SILOCCHI BÁRBARA ANDRADE


4. Rota das Artes e Cultura

ENFOQUE OSÓRIO | JANEIRO DE 2022

GABRIEL BARCELOS ENCARNAÇÃO

KAROLINA KRAEMER

KAROLINA KRAEMER

A historiadora Isabel Ferreira dos Santos descreve a luta da população negra para conseguir oportunidades e reconhecimento

Memórias negras O esforço por registrar histórias de resistência ainda não narradas que ajudaram a construir a cidade

P

essoas negras sempre foram narradores e protagonistas de suas próprias histórias. Os antigos transmitiram conhecimento para seus filhos que, por sua vez, fizeram o mesmo com os filhos deles, mantendo viva a história do povo negro até os dias atuais. A historiadora e doutora Isabel Ferreira dos Santos, de 55 anos, abraçou a causa de contar essas narrativas nas salas de aula. A desenvoltura de contar histórias ela herdou da família, quando os ouvia ao redor do fogão. Isabel é filha de uma doméstica, Maria Ereni, e de um pedreiro, Marcelino dos Santos, que sempre priorizavam a educação dos filhos. Aprendeu a ler cedo, buscando saber mais sobre seu povo, mas logo que iniciou no mundo dos livros se entristeceu pela falta de narrativas e perspectivas sobre os negros. Mesmo após a aprovação da Lei 10.639 de 2003, que tornou obrigatório no país o ensino de história e de cultura africana e afro-brasileira, esse conhecimento pouco chegou às salas de aula. “Era um incômodo ter a memória dos negros resumida somente à escravidão, portanto inviabilizada. A população fez muita coisa além de ser escravizada.

Foram profissionais liberais, foram engenheiros, médicos, professores. Então, a ideia é sempre mostrar esse outro lado também”, destaca. A educadora que já ganhou um prêmio da Fundação dos Palmares com a dissertação “Abram-se as Cortinas: Representações Étnico-raciais e Pedagogias do Palco no Teatro de Arthur Rocha” se mostra apaixonada pela causa. Na pesquisa, realizou um trabalho de procura do material sobre peças de teatro que abordavam a questão racial entre 1859 e 1878. Participou ativamente da organização dos memoriais das águas e do Centro Cultural José do Patrocínio. Os registros em preto e branco narram a história das ruas, das casas, das pessoas e da navegação em Osório. Os detalhes seguem presentes na memória de Isabel, que se lembra de brincar nos trilhos dos trens na infância, dos armazéns da cidade na época da navegação, além das oficinas do trem com um armazém de bananas, as quais não pagavam impostos na época. O Brasil foi o maior território escravista da América, com quase 5 milhões de cativos africanos. Isso resulta em 40% do total de africanos escravizados que embarcaram para o Novo Mundo, estimado em 12,5 milhões. É o país que mais tempo demorou para acabar com o tráfico negreiro, com a Lei Eusébio de Queirós,

em 1850, e o último a acabar já foi alvo de disputa de tercom a própria escravidão, ras. O conflito tem origem no em 1888. As informações são final do século XIX. Em meio da The Trans-Atlantic Slave a campanhas abolicionistas, Trade Database, um esforço Rosa Osório Marques, viúva e internacional de catalogação sem filhos, deixou em testade dados sobre o tráfico de mento as terras para 24 escraescravos - que inclui, entre vos. O documento registrado outros, a Universidade de Har- em cartório desapareceu até a vard. Nesses mais de 500 anos, década de 80, quando as termuitos negros ras já haviam e negras ajuda- “Era um incomodo sido vendidas ram a escrever para os Itaa história do ter a memória lianos. nosso país, mas Francisca dos negros infelizmente, Dias, popunão recebem resumida somente larmente coo devido reconhecida como nhecimento. a escravidão e Preta, de 60 A professo- inviabilizada” anos, é a rainha ra Isabel ainda Ginga na culbusca que esses Isabel Ferreira dos Santos tura Maçamrelatos sejam Historiadora bique. Nascida contados com no Quilombo mais detalhes na cidade. Já de Morro Alto, já ganhou o se candidatou a vereadora, prêmio “Comenda João Cândiapesar de não ter coro sufi- do Felisberto” concedido pela ciente para assumir, e foi a Ceppir do Hospital Conceição segunda mulher mais votada como reconhecimento por sua do litoral. “Já vimos e escu- luta pela defesa e fomento tamos comentários racistas, da cultura negra. “A cultura até mesmo em placas da BR- afro na cidade é muito rica e 101. O racismo infelizmente presente, o patrimônio cultué muito presente, ainda sigo ral imaterial do Maçambique lutando para que o cenário resiste por mais de 100 anos. É se modifique”, ressalta. muito mais reconhecido fora do município, seja na capital, CULTURA NEGRA ou fora do Estado. Ganhamos importantes prêmios nacioEM OSÓRIO A cultura afro também nais e estaduais, tais como ajudou a construir o municí- Prêmio Dona Izabel e Leanpio. Nas fazendas se plantava dro Barros do Ministério da cana, mandioca, arroz e outros Cultura. Porém nunca receprodutos com a mão de obra bemos recursos financeiros de escravizados. O Quilombo da prefeitura municipal, em de Morro Alto ainda existe e comparação com as inú-

meras instituições, inclusive privadas”, relata.

A RESISTÊNCIA NOS QUILOMBOS

No Brasil, conforme dados disponíveis no governo federal, calcula-se a existência de mais de 3.000 comunidades quilombolas distribuídas por todas as regiões do país, desde o Sul até a Amazônia. O Rio Grande do Sul possui 146 comunidades quilombolas identificadas. Há uma diversidade no processo de formação dos quilombos. Alguns se formaram por fugas de escravos, outros por meio de escravos que conseguiram comprar sua liberdade, e outros ainda que ganharam terras de herança de seus antigos senhores. A pandemia mostrou mais dificuldades financeiras, mas a rainha se mantém esperançosa com relação ao futuro. “Está para sair os registros em um catálogo realizado por um grande fotógrafo sobre Maçambique. Nós tivemos muitas dificuldades neste período, mas conseguimos realizar mesmo com precariedade a festa da Nossa Senhora do Rosário, a festa de Maçambique, com os rituais religiosos e apresentações culturais junto à comunidade. Vejo muita luz no fim do túnel para o Quilombo e para Maçambique”, finaliza. LOHANA SOUZA GABRIEL BARCELOS ENCARNAÇÃO KAROLINA KRAEMER


Rota das Artes e Cultura .5

ENFOQUE OSÓRIO | JANEIRO DE 2022

FOTOS LUCAS HENRIQUE MARQUES

Vestir Osório

A estampa ao lado faz alusão à igreja que levou 80 anos para ser construída. Abaixo, à esquerda, o look Albatroz homenageia o bairro e o aeroclube. Aventura no Morro marca o ponto turístico da cidade mais visitado

Morador cria coleção de roupas inspiradas na cidade

N

ascido na capital, mas com raízes firmadas no litoral norte gaúcho, Lucas Henrique Batista Marques, de 21 anos, é idealizador da New. A marca de origem e produção local em Osório com o propósito de representar a cultura, vivências e elementos materiais e imateriais do município de maneira livre e criativa. Carregada de símbolos e representatividade, a New se prepara para o próximo lançamento. Com entrega prevista para o final do ano e primeiro semestre de 2022, a linha “Tour por Osório” é composta por cinco peças, as quais traçam um roteiro pela cidade. As estampas criadas por Lucas, também estudante de Design na Unisinos, ilustram pontos turísticos e cenários que fizeram parte de momentos marcantes da sua trajetória. O itinerário começa pela Catedral Nossa Senhora da Conceição, localizada no centro, que abriga a imagem da padroeira encontrada por escravos durante a colonização. Seguido do cartão postal, o

Morro da Borússia: a paisagem é frequentemente visitada por turistas e apreciadores da natureza. E por fim, a última parada é em Albatroz, bairro que hospeda o aeroclube e que possui relação afetiva direta com Lucas - onde estudou e fez amigos ao se mudar com a família quando criança. A coleção destaca-se ainda pelas cores características da região e pelo material usado na fabricação. Contudo, o maior desafio para a New está em fazer com que a matéria-prima seja o mais local

“Pretendo continuar do jeito mais local possível e mostrar que aqui também podemos ter confecção de qualidade e com magnitude nacional” Lucas Henrique Marques Idealizador da New

possível. Como a cidade não tem histórico de confecção, alguns recursos precisam ser encomendados de outros Estados do país. Mesmo assim, parte dos tecidos e aviamentos provém da faixa litorânea do Rio Grande do Sul. Enquanto o osoriense é a alma do negócio, o seu braço direito é a designer de moda Larissa Fritzen, de 30 anos. A BÁRBARA ANDRADE

Lucas e Larissa firmaram parceria há quase um ano

parceria começou há alguns meses, depois de ela também escolher o município para morar. Única costureira da marca, ela é mãe de um menino de três anos e ainda divide a carga horária com outro serviço, em um atelier. Larissa começou aos 15 anos com cursos de corte e costura, mas sua maior experiência veio quando precisou ficar três dias sozinha com uma máquina durante um estágio. A partir dali decidiu seguir na área, se profissionalizando anos mais tarde na graduação. O quadro de funcionários se resume ao Lucas e a Larissa, que juntos criam os modelos, definem o estilo para que ele seja funcional, confortável e com a cara da marca. O tempo de produção para camisetas dura em média 50 minutos, enquanto outras exigem até nove horas, por se tratarem de um grau maior de complexidade. No processo incluem ainda as peças piloto, em que são testadas considerando qualidade do material, possibilidade de encolhimento do tecido e a sua durabilidade. A intenção de ambos é ser sus-

tentável, pensando em reduzir o número de trocas, por isso também aproveitam retalhos e já estudam um método de descarte mais eficiente. Assim como Larissa, todos colaboradores que participam do projeto são pessoas próximas e também moradores da região. “Eu os vejo como uma extensão da marca, porque eles possuem características que combinam com o propósito da New”, explica Lucas. Agora, o time se prepara para registrar formalmente e ter como meta três coleções por ano, mantendo o reconhecimento local de que ali também é possível produzir algo bom. Em conversa, eles adiantam que o público pode esperar em breve por algo novo, e com chances de ser no estilo sport clássico. Mas, por hora, quem tiver interesse já pode acessar o perfil no Instagram: @nw.development e conferir as novidades que estão chegando para todo o país. MILENA SILOCCHI BÁRBARA ANDRADE LUCAS HENRIQUE MARQUES


6. Rota das Artes e Cultura

ENFOQUE OSÓRIO | JANEIRO DE 2022 CAMILA PISONI MOREIRA

Música e maçambique A

riqueza cultural que os povos africanos trouxeram para o Brasil ainda é pouco conhecida, e o intuito da Tribo Maçambiqueira é justamente de contar essas histórias a partir da música. O grupo é composto por quatro integrantes: Paulinho Dicasa, cantor e compositor, Mário Duleodato, tamboreiro, Geferson de Lima e Cau Silva, ambos percussionistas. “Quem é aquele santo que vem no andor, é São Benedito batendo tambor, é São Benedito que já foi pastor, nele eu acredito, é o mouro protetor”. Esse trecho da música São Benedito descreve bem a Tribo. Todas as músicas e ritmos são pensados em cima do tambor. A turma destaca que tanto o tambor quanto a própria tribo tem uma história. O ponto de referência da tribo é Mário Duleodato, de 63 anos. Desde pequeno acompanhava os pais nas festas de Nossa Senhora do Rosário. Além de contos que traz para contribuir com as composições do grupo, ele também fica responsável de vários instrumentos, entre eles o tambor, que já o acompanha desde 1974. Os guizos que Mário carrega são de bronze e hoje nem são mais fabricados. Já a Maçaquaia, um instrumento que é amarrado nas pernas, é feito de porongos, bambu, cipó São José, e no interior vão as chamadas

lágrimas de nossa senhora, normalmente usadas também para fazer terços, que deixam a maçaquaia “praticamente inquebrável”. Paulinho Dicasa, de 65 anos, explica que os guizos eram exatamente um sinal para os negros não fugirem, e também para que soubessem por onde andavam.

PRODUÇÕES DO GRUPO

Em comemoração aos 20 anos foi produzido recentemente a Rendeira, produção cultural, que coordenou um documentário do grupo com o nome “20 anos Tribo Maçambiqueira”, um projeto desenvolvido através do Edital de Criação e Formação Diversidade das Culturas com recursos da Lei n 14.017/20, conhecida como Lei Aldir Blanc, e também com

apoio da Fundação Marcopolo. A Tribo MaçambiqueiO documentário, disponível ra também lançou um CD, o no canal da Tribo no YouTu- Trupicado, produzido apenas be, conta e canta a história e com tambor, violão e vocal. as devoções do grupo. O álbum foi pensado para reHoje o Magistrar as batiçambique é um “A Tribo tem das que Mário gênero musical trazia desde a para além das uma coisa que sua infância. festas do mês de chama para Já na música outubro, como ex“A laguna e o plica Paulinho. O dançar, ela mexe mar” é possísom e o ritmo do vel perceber a com o coração” tambor maçambijunção de mais queiro são as ba- Paulinho Dicasa instrumentos, ses para o grupo Cantor e compositor como o piano, cantar sobre amor, e mais vozes, geografia e cultura local. O trazendo bastante harmogrupo explica como a músi- nia, mas sempre dando mais ca “Trenzinho”, por exemplo, destaque ao tambor. fala da antiga Maria Fumaça As composições seguem da região e foi desenvolvida uma regra universal. Se um em cima da batida do tambor. assunto ou texto interessa “O tambor é a nossa alma”, ao grupo musicalmente, ele é destaca Paulinho. transformado em música. “O

Para assistir o “Documentário 20 anos de Tribo Maçambiqueira”, aponte a câmera para o qr code e acesse o YouTube FOTOS ADRIANA FRANCO

A Tribo Maçambiqueira completa 20 anos de existência no ritmo do tambor e de Nossa Senhora do Rosário

A cultura Maçambiqueira acompanha Mário (acima) desde a sua infância, quando frequentava as festas com seu pai. O violão de Paulinho é personalizado: sua filha fez o desenho com referências da cidade

O desejo é levar a história do Maçambique para outros lugares, e isso, Mário e Paulinho, junto com a Tribo estão alcançando

Maçambique é um gênero em que você não consegue ficar parado, é algo automático. Tu tá no bar, tomando um chope, de papo com um amigo, aí daqui a pouco começa a tocar uma música, e o pezinho já começa a tamborilar aqui, e daqui a pouco tu tá no oba oba”, brinca Mário Duleodato. “A música contagia, ela tem uma pegada onde você é obrigado a se mexer”, reforça. Mas é Geferson de Lima, o caçula de 35 anos, quem vai até o meio da plateia e faz a dança do Maçambique acontecer. O grupo conta com homens de diferentes idades e bagagens culturais. Geferson é o jovem que a Tribo tem para levar essa história. A ideia é que ele, futuramente, continue levando essa cultura para outros lugares e a Tribo se renove. O maçambique possui um passo próprio, e tem um trecho de uma música que Paulinho e Mário cantaram enquanto essa entrevista estava acontecendo. “Quando ouvir o tambor tira o pé do chão, os dois se der, os dois se der, os dois se der”. Para Paulinho o grupo se realiza quando o povo dança. “O importante é que dance do jeito que der, do jeito que eles quiserem”, completa. O grupo, em busca de divulgação e retorno financeiro, já passou por diversas cidades, entre elas Santa Rosa, Lajeado e Rio de Janeiro. Mas foi no festival internacional, Musicanto, que eles lançaram o maçambique para o mundo. LEILA DONHAUSER ADRIANA FRANCO CAMILA PISONI MOREIRA


Rota da Terra .7

ENFOQUE OSÓRIO | JANEIRO DE 2022

O morro, uma boa comida e um carrinho de rolimã Proprietário do Restaurante Dodô relembra origens e infância na serra osoriense

E

m Osório, o Morro da Borússia é uma parada quase que obrigatória para quem visita a cidade. O local virou um ponto turístico e revela uma bela paisagem para quem gosta de desfrutar da natureza. Lá em cima, as pessoas podem encontrar diversos comércios, entre eles o de Claudiomir Dias Silveira. Ele conta um pouco como é viver no litoral norte gaúcho e qual a história por traz de um dos restaurantes mais famosos da cidade.

Enfoque – O que Osório significa para você? Claudiomir – Sempre tive consciência que piso em uma grama bem verde e que vivo em um lugar maravilhoso, o qual me deu a oportunidade de fazer parte da história, de construir, de ver nascer o asfalto, a energia elétrica, o primeiro comércio, a igreja, a escola infantil. Com certeza tenho muito orgulho de onde eu vivo e valorizo muito esse chão. Eu brinco que o pessoal da cidade é da vila, então eu falo “descer na vila”. Porque é como era chamado antigamente: os vilarejos. E a Borússia, um interior da cidade. Eu estudei lá na cidade de baixo, hoje esse estudo já está mais avançado aqui na comunidade. Então a gente fez 5º, 6º e 7º série lá, descendo o morro e subindo, depois fiz o ensino médio também descendo o morro e subindo, isso saindo daqui às 6h30 da manhã e voltando às 18h30. Diariamente. Isso tudo para poder fazer uma formação média. Me ajudou, não sou praticamente da profissão na qual me formei - técnico em agrícola - mas pelo meu pai trabalhar na lavoura achei que seria um conhecimento bom, porém com o convívio do comércio e o DNA empreendedor na veia: estou aqui. Na escola a gente sofreu bullying, porque nós éramos os “borussianos” e hoje eu lavo a alma porque nós viramos ponto turístico. Sendo um dos pontos da região, ou até mesmo do Estado, mais visitados. A gente ajudou nessa história, nos orgulha e nos emociona. Enfoque – Na tua infância e juventude, teve alguma brincadeira que envolvesse o morro? Claudiomir – Cicatrizes não ficaram, mas a gente andou de carrinho de rolimã - que aqui a gente chama de carrinho de lomba, até porque lomba é o que não nos falta. Eu era um dos menores entre os 10 irmãos. Para andar no carrinho tinha o Pedro, o Miro e eu, éramos grudados. Então ia eles nas pontas e eu no meio. A estrutura envergava

O restaurante do Dodô virou um ponto turístico do Morro da Borússia

no meio, a mãozinha por baixo ralava Enfoque – Como o restaurante cono chão. As nossas rodas não eram meçou? de rolimã, eram de madeira, bem Claudiomir – Meu pai é um portuartesanal. Os irmãos mais velhos guês açoriano, Domingos Silveira. Daí que confeccionavam. A gente botava a origem do Dodô. Desde pequeno ele uma lata furada com braseiro dentro era chamado de Dodô e há 53 anos eu e na velocidade do vento aquele bra- sou o Dodô. Registrei a marca, desde o botequinho do Dodô, até seiro virava o farol do hoje, o restaurante. Meu carrinho de noite. Hoje “Sempre tive pai era o proprietário do não está a disposição, Botequinho junto com o por conta da pandemia, consciência que irmão dele, depois se camas eu desenvolvi dois piso em uma sando ele adquiriu a parcarrinhos em série que te do meu tio. Nós somos são conectados a uma grama bem em 10 filhos, então os mais bicicleta. Ando aqui verde e que vivo velhos iam para roça e os dentro com eles, como mais novos ficavam fazenum carrinho de rolimã, em um lugar do os afazeres domésticos pelo estacionamento. maravilhoso, no com a mãe. No meu caso, Pena que a pandemia eu ficava com os menores. hoje nos tirou muitas qual me deu a que é daí o meu gosiniciativas, a gente teve oportunidade de Acho to, a minha aptidão, talvez, que recolher muitos jopelo comércio, pela lida do gos e brincadeiras dis- fazer parte da fogão. Isso era uma cultura poníveis para os clienhistória” de família e uma tradição tes. Mas a alma está ter 15 até uns 18 filhos. aqui e daqui a pouco Claudiomir Dias tudo volta ao normal. Proprietário do Restaurante Dodô 12 era pouco, o pai até foi

modesto e teve 10. Isso significava mão de obra para a lavoura. Eu ficava vendo a minha mãe fazendo aquela “comidinha caseira”, via o freguês chegar. Enfoque – Você tem algum ideal para o comércio local? Claudiomir – A minha ideia sempre foi fazer com que o osoriense, o aposentado, a pessoa que quer adquirir o produto colonial, pegue aos sábados o chimarrão, esquente a água, sirva seu chimarrão e suba o morro. Dessa forma, vai ter na frente de cada casa uma placa explicando “aqui vende-se tal produto”. Com inspeção, fiscalização e acompanhamento de uma secretária. Eu vou ter o “fulano” vendendo queijo, ovo, aipim, outro vendendo rapadura, farinha. Vamos ter um roteiro e as pessoas vão vir aqui. Vai ser gostoso. Dessa forma a gente faz toda essa parceria e valorização do produto. JÚLIA MÖLLER Colaborou Mauricio Madalena, Ricardo Becker e Carlos Vargas ENZO REIS AUZANI


8. Rota da Terra

ENFOQUE OSÓRIO | JANEIRO DE 2022

DANDARA TONIOLO

José Luis Menoti segue tradição familiar de produção de cachaça desde seus seis anos. Para Carine Dadda, produção de licores de diversos sabores é renda extra Cana-deaçúcar passa por vários processos até se tornar cachaça. A chegada da energia elétrica facilitou a moagem para os produtores

Alambiques centenários Produtores de cachaças reinventam seus empreendimentos para dar conta dos novos desafios

O

ano é 2021, mas isso não impede que essa história revele um pouco das realidades da década de 60. Isso porque foi exatamente nesse período que a Açúcar Gaúcho S.A. (Agasa), responsável pelo potencial industrial da cana-de-açúcar no Rio Grande do Sul, foi instalada em Santo Antônio da Patrulha, cidade que faz divisa com Osório. E o ponto mais importante: o funcionamento de longos 25 anos da empresa deixou legados na região até hoje. A plantação de cana-de-açúcar começou a fazer parte da história de José Luis Menoti antes mesmo de seus pais pensarem em colocá-lo no mundo. Morador do Morro da Borússia, o senhor de 59 anos conta que a lavoura de seis hectares de cana já está na quarta geração de sua família. “Tudo começou com o meu avô, que trabalhava com açúcar mascavo. Depois, quando o meu pai assumiu o negócio, começamos a produzir cachaça. Eu comecei a ajudar no trabalho quando tinha só seis anos, e sigo até hoje, junto com meus dois filhos”, conta.

Vale lembrar que o Brasil é o maior produtor de cana-de-açúcar do mundo. Na safra 2020/21, nosso país foi responsável pela produção de 654,5 milhões de toneladas, que são usadas para o próprio açúcar, ou então para o álcool, como a cachaça produzida pela família Menoti. E apesar de já terem passados mais de 100 anos desde o início desse empreendimento, José Luiz explica que a produção continua da mesma forma. “Nós seguimos fazendo até hoje a mesma cachaça: branca e pura. A única coisa que mudou foi que antes fazíamos a moagem da cana com a ajuda da força do boi, e depois, com o motor a óleo. Hoje é tudo com energia elétrica”, explica. Desde que a família começou a produção, a cachaça virou a renda principal. Junto dos filhos, José Luis fabrica mais de 80 litros por dia, que são vendidos a seis reais cada. No início, Armando Menoti, pai de seu José, vendia tudo para uma única pessoa, que revendia pela região. Agora ele próprio tem clientes mensais e semanais, seja em pequenos botecos ou pessoas físicas. No entanto, o que parece tranquilo e agradável, poderia ser ainda mais. Além de vender menos no verão, época em que as pessoas preferem outras bebidas, como cerveja, José

enfrenta uma dificuldade ao longo de toda a temporada: a falta de rótulos em seus produtos. Esse problema impossibilita que o produtor venda suas cachaças nas prateleiras de mercados da região. Segundo ele, a grande indústria tomou conta do mercado.

A CONTINUAÇÃO DA CACHAÇA

Quem passa pela mesma dificuldade da falta de recursos é Carine Cortinove Dadda, produtora de licores do Morro da Borússia. A diferença é que a empreendedora tem seu negócio apenas como renda extra, já que seu trabalho principal é no Frigorífico da Borússia. Mesmo assim, a fabricante não deixa de expor sua insatisfação. “O problema é que as pessoas querem que coloque rótulo. Mas eu não coloco, faço assim mesmo, quem quiser comprar que compre assim. A vizinhança sabe que eu faço, aí eles vêm aqui e pegam”, diz a moradora. As produções a partir da cana-de-açúcar também começaram há muito tempo na família de Carine. No caso dela, foi o avô de seu marido que iniciou o negócio, fabricando também cachaça. Depois, o empreendimento passou para o pai de Alcides Dadda, e em seguida, o casal assumiu o negócio, até cerca de 15 anos atrás, quando

decidiram encerrar o ciclo. selos e o Programa Esta“Paramos porque não estava dual de Incentivo à Cachamais rendendo, não conse- ça da Agricultura Familiar guíamos vender. Tinha um do Rio Grande do Sul. período que a gente lucrava Em resumo, a lei quer dar bem, mas foi diminuindo. E mais oportunidades aos petambém é uma coisa muito quenos agricultores, legalitrabalhosa”, comenta a pro- zando essas agroindústrias. dutora de 40 anos. A lei vai colaborar com os Porém, ciclos são difíceis produtores que tiverem suas de serem encachaças feitas cerrados, e por com no mínimo “Eu comecei isso, em menos 50% de canade cinco anos, a ajudar no -de-açúcar da Carine voltou às colheita trabalho quando própria produções. Dese com a quantisa vez, a cachaça tinha só seis dade máxima já chega pronta, de 20 mil litros anos, e sigo até comprada de um anuais. Outro dos produtores hoje, junto com ponto é que da região para os fabricantes transformar em meus dois filhos” precisam fazer licor. A diversi- José Luis Menoti o envase excludade de sabo- Produtor artesanal de cachaça sivamente em res do cardápio suas propriedadepende muito da época do des, sob a supervisão de um ano, já que a maioria das fru- responsável técnico. Além distas são colhidas no próprio so, a comercialização da Capátio. Assim, a empreende- chaça Artesanal Gaúcha deve dora consegue vender cerca ser realizada diretamente com de 10 litros de licor por se- os consumidores finais, como mana. Mas quanto ela ven- feiras ou estabelecimentos que deria se tivesse rótulo? possuam o selo de revenda. A esperança que fica é de que A MUDANÇA a mudança da lei possibilite Pensando exatamente realmente melhores condições em melhores condições de de trabalho não só para o José trabalho para os produtores Luis e a Carine, mas para tode cachaça artesanais do Es- dos os produtores artesanais tado, o atual governador do do Morro da Borússia. Rio Grande do Sul, Eduardo VITÓRIA DREHMER Leite, regulamentou a Lei MILENA MELLO Estadual 15.551, que cria


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Rota da Terra .9 MILENA MELLO

Agricultura faz parte da vida de Roberto Minotti desde criança

Trabalhar a terra em família Agricultores plantam, cultivam e distribuem alimentos em feiras locais e outras redes

de Consumo e Comercialização dos Pequenos Produtores Rurais do Litoral Norte). “Eu sou sócio da cooperativa, então tudo que eu planto vai para lá, que istoricamente, a agricul- são cerca de quatro hectares de tura é um dos pontos for- terra”, explica Roberto. tes do Rio Grande do Sul Apesar da Coopviva ter sede por ofertar produtos de forma em Osório, a iniciativa, fundanacional. No entanto, o que a da em 2009, também atende maioria não sabe é que grande produtores de Caraá, Maquiné, parte desses estabelecimentos Tavares, Rolante e Santo Antôse enquadram em critérios defi- nio da Patrulha. Assim, são mais nidos como agricultura familiar. de 60 associados que trabalham De acordo com dados do Insti- para o PNAE (Programa Naciotuto Brasileiro de Geografia e nal de Alimentação Escolar) e Estatística (IBGE), PAA (Programa de o nosso Estado ti- “Eu trabalho Aquisição de Alinha cerca de 294 mentos) fornecenmil estabeleci- apenas com do frutas, polpas, mentos envol- a agricultura, legumes, verduvidos nessa proras, feijão, mel dução em 2017. sempre e sucos. Além disso, No caso de Roum dos traços trabalhei assim” berto, os produtos significativos da Ricardo Bertoli vão exclusivamenagricultura fami- Agricultor mais antigo te para as merenliar do RS é a coo- da feira do produtor das escolares da peração. Segundo região. No entano Sindicato e Organização das to, a situação financeira do agriCooperativas do Rio Grande do cultor não foi tão fácil durante os Sul (Ocergs), havia 138 coopera- últimos meses, já que as escolas tivas agropecuárias no Estado em ficaram fechadas.“Esses últimos 2014, que contavam com mais tempos foram bem ruins porque de 290 mil associados e empre- as merendas pararam em função gavam 32,5 mil pessoas. da pandemia. A sorte é que a coA história de Roberto Minotti, operativa adaptou as entregas morador do Morro da Borússia e forneceu sacolas de comidas é um desses casos. O agricultor para as famílias. Não foi bom de 70 anos trabalha com plan- como devia, mas conseguimos tações desde criança, e tem hoje nos virar.Agora tudo está voltancomo renda principal as produ- do ao normal”, declara. ções de aipim, banana e feijão, Antes de vender seus alimenque são completamente desti- tos para a cooperativa, Roberto nadas à Coopviva (Cooperativa trabalhou por um longo período

H

Feira do produtor é ponto turístico de Osório todos os sábados. A banana é um dos principais alimentos utilizados nas merendas escolares da região

na feira do produtor de Osório, que existe há mais de 20 anos. No entanto, como essa já não era sua única forma de comercialização, o produtor acabou se dedicando apenas à organização de merendas da região. Diferente dele, Ricardo Bertoli, de 50 anos, segue com seu empreendimento na feira, e é hoje o produtor mais antigo do local, trabalhando desde 2001 com sua família. Com cerca de seis hectares de plantação também localizadas na Borússia, o trabalhador vende hortaliças, sementes e raízes variadas e totalmente orgânicas. “Eu trabalho apenas com a agricultura, sempre trabalhei assim”, explica Ricardo. Atualmente, a produção de Ricardo consegue ir além da feira do produtor, e por isso o agricultor expandiu seu negócio para entregas. “Eu trabalho apenas em uma feira, mas nós temos um grupo de entregas do litoral no WhatsApp. Lá eu envio a minha lista de produtos, que tem hoje 35 itens, junto com os valores. Se o cliente quiser, entregamos na porta dele”, relata. A feira do produtor de Osório acontece todas as manhãs de sábados no Largo do Estudantes. Nos outros dias, a comercialização acontece em diversos bairros da cidade. Para quem preferir receber os produtos orgânicos em casa, é possível entrar em contato com Ricardo Bertoli pelo número (51) 99746-3557. VITÓRIA DREHMER BÁRBARA ANDRADE


10. Ver Osório

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ANA PAULA DE OLIVEIRA

Rotas que contam histórias

Parceria entre prefeitura e universidade articula esforços que já vinham acontecendo na cidade

Parceria entre prefeitura e universidade articula esforços que já vinham acontecendo na cidade

Complexo Eólico de Osório é formado por nove parques de energia, com 150 aerogeradores, tornando-se um dos cartões-postais da cidade

O

projeto Ver Osório: rotas que contam histórias nasceu entre os bastidores da cidade, da Prefeitura de Osório e da pesquisa na Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), em São Leopoldo e Porto Alegre. Com o propósito de tornar a cidade um território lúdico e interativo por meio de dispositivos técnicos de construção audiovisual, o projeto multidisciplinar acredita no potencial que as mídias trazem na alteração da percepção de uma cidade. A iniciativa, coordenada pela professora Sonia Montaño, pesquisadora na área de Comunicação, também inclui professores e estudantes de Mestrado e Doutorado - e abriu um braço curricular e extensionista com a disciplina Cidades audiovisuais, inteligentes e sustentáveis, que encerrou

sua primeira edição. Na entrevista a seguir, Sonia relata o processo que colocou em pé um projeto complexo que está dando seus primeiros passos. Enfoque – Como definiria o projeto Ver Osório: rotas que contam histórias? Sônia – O projeto surgiu de várias questões que se deram simultaneamente. Com a pandemia e a necessidade de ficar em casa, comecei a prestar muito mais atenção nos arredores da região de Osório em que morava, o Palmital, muito próxima à lagoa do Lessa. Uma pausa no trabalho me permitia ver o sol se por atrás dos morros com os pés na lagoa, observar a variedade de peixes, ver e ouvir a diversidade de pássaros. Possibilidades que muitas pessoas não têm e que eu tinha morando num lu-

gar muito simples, mas repleto de belezas naturais. Me chamava também a atenção que na corrida eleitoral os candidatos a prefeito percorriam diversos lugares e insistiam na necessidade de valorizar a cidade. Por outro lado, temos na Unisinos diversos alunos de Osório que não conhecem boa parte da região, apesar de não ser uma cidade tão grande. A percepção de muita gente é que Osório é uma cidade de passagem, mas quem vem aqui descobre um paraíso natural. Por outro lado, o momento atual demanda cada vez mais um diálogo, coisa sempre difícil de acontecer. Diálogo entre a pesquisa e a sociedade, diálogo entre as diversas áreas do saber, diálogo entre as diversas esferas da sociedade. Começamos a perceber que a Biologia, a Geologia, a História e a Arquitetura tinham um bom territó-

rio de pesquisa aqui na cidade, contando uma história oral que só está na vida e memória dos moradores, mostrando a vida milenar presente nas regiões naturais e sua importância para o convívio de todas as formas de vida. Por outro lado, e aí vem principalmente minha área e minha pesquisa dentro do projeto, a Comunicação, o Design e a Computação podem fazer com que todo esse patrimônio histórico e esse patrimônio natural fiquem visíveis de modos diferentes aos atuais. Enfoque – Qual foi a forma que esses primeiros movimentos foram tomando? Sônia – Tivemos alguns encontros entre os programas de Pós-Graduação em Comunicação, História, Arquitetura, Design, Computação, Biologia e Geologia e iniciamos uma

série de conversas para pensar o que podia ser feito. Ao mesmo tempo, iniciamos um conjunto de conversas com o prefeito e a Secretaria de Cultura e Turismo. A prefeitura se mostrou muito entusiasta desde o início. Lembro que no primeiro encontro, o prefeito Roger Caputi comentou da importância das memórias da cidade, que muitas vezes morrem com seus idosos e da importância do projeto durante e depois de um momento devastador em vários sentidos como foi e ainda é a pandemia. Ao longo das diversas conversas internas e com os parceiros foi surgindo a proposta da construção de quatro rotas temáticas que tenham um viés lúdico, interativo e que contribuam para ver Osório: sua riqueza, seu presente, seu passado, suas possibilidades.


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Enfoque – E como entra a disciplina curricular e optativa de Cidades audiovisuais, inteligentes e sustentáveis, criada com o projeto? Sônia – As coisas foram acontecendo de forma tão colaborativa e dialógica que no caminho se perde um pouco a noção de quem sugeriu o que e quem completou a ideia. A equipe inicial com cada representante dos sete programas de Pós-Graduação envolvidos foi muito importante, tanto nas suas reuniões conjuntas, quanto nas reuniões paralelas que foram acontecendo com inúmeras ideias e sugestões. Vale a pena lembrar aqui também o grande apoio da coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Unisinos, Ana Paula Rosa, da então coordenadora da unidade de Pós-Graduação, Dorotea Kersch, e dos professores e alunos do grupo de pesquisa que integro, Audiovisualidades e Tecnocultura: comunicação, memória e Design (TCAv). A disciplina também foi um espaço experimental bem produtivo. Ao mesmo tempo ela foi disciplina curricular dos diversos programas de Pós-Graduação e dos diversos cursos de graduação. Cinco dias antes de iniciar, surgiram alguns profissionais da cidade de Osório que ouviram falar sobre a disciplina e tinham interesse de participar. Como não tinham vínculo com a universidade, tornamos esse espaço também um curso de extensão. A disciplina tem conteúdos multidisciplinares para formar um olhar que pense a cidade como um todo. Muitos dos alunos relatam ter redescoberto suas próprias cidades. Em um segundo momento, os conteúdos se voltam para Osório e o litoral norte com três saídas a campo para realizar uma experiência de inserção no projeto em execução desde cada área do saber. Esperamos que a disciplina se estenda durante todo o projeto.

As praias da região também estão incluídas nas rotas traçadas no projeto. A Lagoa dos Barros integra o roteiro que envolve as águas do município

ANA PAULA DE OLIVEIRA

Enfoque – Qual é a principal novidade do projeto? Sônia – Essa é uma boa questão, porque vamos conhecendo que muitas iniciativas e esforços parecidos já existem na cidade. Talvez a principal riqueza seja a capacidade de articular, de colocar em diálogo as mais diversas práticas e saberes. Sabemos que é difícil o poder público consultar a universidade que está produzindo conhecimento em várias direções e poderia contribuir muito. Por outro lado, a universidade tende a falar com seus pares e tem iniciativas tímidas de diálogo com a população, ao mesmo tempo em que precisa cada vez mais de diálogo entre as áreas de conhecimento. O projeto, então, é mais um ensaio de comunicação como pesquisa, ensino e extensão entre várias esferas da sociedade.

GABRIELE CONCEIÇÃO SOARES

Enfoque – Como vem sendo pensadas essas rotas temáticas? Como uma rota pode ajudar a “ver Osório”? Sônia – A ideia de rotas veio ao pensar como o projeto podia não simplesmente, por exemplo, entrar nas escolas - e sim fazer as escolas andar na cidade. A cidade, o território, seria a principal escola para todos pensado a partir de quatro grandes riquezas naturais e histórico-culturais: o vento, as águas, a terra e as artes e cultura. O lema de Osório é “a cidade dos bons ventos”, inclusive porque tem um dos maiores parques eólicos do continente, mas o vento faz parte de muitas formas no cotidiano e na história da cidade. Com 23 lagoas, duas praias, diversas cascatas no morro da Borússia, a cidade tem espaços belíssimos, muitas fábulas e uma rede de relações humanas e não humanas em torno das águas. Os agricultores que plantam em suas chácaras podem se tornar um ponto de atração e um espaço de apren- “A cidade é der sobre plantação e cultivo, mas também o território como pensada a partir um todo, os parques, as pis- do vento, das tas de skates, os tipos de solo tão diversos que fazem parte águas, da terra e da mesma cidade, podem se das artes” apreendidos ludicamente na rota da terra. Poder andar na Sônia Montaño cidade e ver como ela foi um Coordenadora do projeto dia, recuperar o patrimônio arquitetônico, conhecer os artistas e as formas mais locais de culturas, artes e festas religiosas, por exemplo, estariam inclusas na rota das artes e das culturas. Em setembro de 2021 formamos uma comissão especial integrada por historiadores da região, como Marina Raimundo, Rodrigo Trespach e Vera Barroso, mas também por arquitetos, outros profissionais e representantes de diferentes instituições para ajudar a pensar por onde devem passar as quatro grandes rotas temáticas. A equipe está em pleno trabalho.

Ver Osório .11


12. Ver Osório

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CONFEDERAÇÃO BRASILEIRA DE VOO LIVRE (CBVL)

O patrimônio natural e cultural nos morros de Osório deverão ser ainda mais pesquisados e apresentados nas rotas do Ver Osório

Em 2022 já está confirmada a segunda edição, que acontecerá segundas à noite em modalidade à distância com as saídas de campo presenciais. Enfoque – O nome da disciplina parece apontar para além do projeto específico de Osório. Foi pensada para outros projetos também? Sônia – Sim. Vários colegas da equipe inicial insistiam na possibilidade de fazer desse projeto na cidade de Osório uma experiência para a criação de um protótipo a compartilhar posteriormente com outras cidades. Produzir um modelo que ajude a perceber as riquezas de

uma cidade tornando-a sustentável e inteligente através de dispositivos audiovisuais e de comunicação que alteram as formas de percepção de quem percorre o território. Enfoque – Como o projeto se relaciona com sua pesquisa em comunicação audiovisual e o trabalho do Laboratório de Audiovisual em Rede (LAR/TCAv)? Sônia – A questão central está em pensar as cidades audiovisuais. O LAR nasceu para estudar as formas contemporâneas do vídeo que se espalham nas mais diversas formas e fogem, muitas vezes,

dos seus ambientes “naturais”, as mídias. Hoje a Psicologia usa realidade aumentada para cura de fobias tendo o vídeo no centro desse procedimento e o esporte desenvolve dispositivos para ver movimentos em ultra câmera lenta e ajudar a aperfeiçoar a performance do atleta. Isso sem entrar na presença do árbitro de vídeo no futebol, as câmeras de segurança por toda a cidade e a constante prática de produzir e compartilhar vídeos em poucos segundos com um celular e uma plataforma. Entender como o vídeo vem se ressignificando na cultura e a cultura se ressignificando

no vídeo é o objetivo do laboratório. Quando nos deparamos com a necessidade de perceber a cidade de novas formas, entendemos que as mídias e particularmente as mídias audiovisuais são centrais para a construção de outras percepções do cotidiano, das mídias e do mundo como um todo. Posso passar tantas vezes na frente de um ou outro prédio que já não olho mais para ele, parece que nada tem a me dizer. Se um bom dia eu passar mais uma vez e vejo o prédio em chamas ou vejo o prédio com moradores antigos se movimentado, tomando café e chego a ouvir o ranger

das xícaras através de alguma forma de montagem visual e sonora, alguma coisa acorda, se amplia. A minha percepção é tensionada para outras formas de ver esse prédio assim como se amplia também a compreensão de que o que chamamos de realidade se constrói por conta de muitos atores, inclusive as técnicas audiovisuais. Essas relações e ressignificações são técnicas e culturais e interessam muito à pesquisa do LAR/TCAv. LETÍCIA ROSSA ANA PAULA DE OLIVEIRA GABRIELE CONCEIÇÃO SOARES TYNAN BARCELOS

Em destaque Maurício de Andrade Madalena Arquiteto e mestrando no Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo

Uma ponte entre o propósito do projeto e os atores sociais de Osório: esta é uma das contribuições do arquiteto e urbanista Maurício de Andrade Madalena, de 35 anos, para o Ver Osório. O mestrando (que reside no município) ingressou na iniciativa por meio do Programa de Pós-Graduação em Arquitetura da Unisinos, do qual é discente. “Ajudei a estreitar o relacionamento entre os idealizadores do projeto, a prefeitura e a Associação dos Comerciantes de Osório. Ou seja, atuei de início junto à região, apresentando pessoas à nossa ideia”, explica. Este processo aconteceu porque, segundo Maurício, havia um consenso de que o Ver Osório deveria abarcar a comunidade local a fim de garantir engajamento e legitimidade. “O projeto tem o potencial de transformar a cidade. Acredito que o trabalho que desenvolvemos pode ter um impacto significativo na organização de Osório e nas oportunidades que a cidade gera – tanto para trabalho quanto para o desenvolvimento da educação e da cultura”, sinaliza o mestrando. A intenção do grupo é, portanto, que a comunidade se aproprie de todas as ações para que o Ver Osório deixe de ser um projeto e se torne, de fato, parte do funcionamento da cidade.

Ana Lúcia Goelzer Meira Docente no Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo da Unisinos

“Como professora do Mestrado de Arquitetura e Urbanismo, achei a experiência em Osório interessante e proveitosa pela diversidade de olhares que concorreram no lugar. Tanto em termos dos diferentes campos porque a gente teve ali História, Biologia, patrimônio material e imaterial, Geologia, Comunicação; como também pelo fato de que houve uma troca de alunos de diferentes âmbitos, com estudantes da Graduação, mestrandos e egressos. Esse cruzamento de disciplinas e de âmbitos diferentes gerou uma riqueza muito grande para essa experiência. Espero que continue assim e que o projeto não pare por aí”.


Rota da Terra .13

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Os desafios da Ocupação C

erca de 12 anos atrás, trabalhadores vindos de diversos municípios do Rio Grande do Sul ocuparam terrenos na região de Atlântida Sul e Mariápolis, em Osório. Trabalhando como qualquer outro morador da cidade, em diversas áreas como marcenaria, restaurantes, reciclagem e demais profissões, a comunidade chama atenção para seu reconhecimento e desvinculação de preconceitos. A luta pela moradia existe O projeto Art’icultura em todo Brasil, mas quem se educa crianças preocupa e ajuda na causa de e adolescentes forma voluntária é uma raripara a vida dade. Felizmente, esse é o caso do projeto Art’icultura, que surgiu há três anos oferecendo apoio às famílias e crianças dos mais de 3 mil habitantes da Vila Verde. Carlos Leandro Hebert Peres gerencia uma barbearia e é pastor na igreja Toca do Clã. Ele e alguns apoiadores e voluntários da igreja são os responsáveis pelo projeto que vem ajudando na organização da ocupação. Como ele nasceu e se criou em uma comunidade parecida em Porto Alegre, ele entende como é para os moradores da Vila Verde. “Esse não é um sonho só meu, é da minha família toda - esposa e filhos. Participei de projetos assim na minha infância e sempre quis fazer o mesmo pelos outros, disse que estão trabalhando mas de uma forma diferen- na regularização da igreja te”, comenta. As forças do para poder aumentar os Art’icultura também vem dos projetos internos, oferecendo clientes e amigos do barbeiro, uma nova oficina de arte e que ajudam com doações ou cultura, ensino estendido, organização de eventos para q u a t r o n o v o s c u r s o s juntar recursos que mantêm profissionalizantes (barbeiro, montador de móveis, manicuo projeto funcionando. Conforme Hebert, tudo re e pedicure) e também apoio surgiu com o intuito de tra- com doações internas e externas de materiais balhar com as e eletrodomésticrianças, ado- “Seria muito cos para os molescentes e joradores. vens de Mariá- bom conseguir “Poder ter os polis e Atlântida cursinhos, sair Sul para que eles a regularização com diploma possam ter uma das moradias” para poder ter nova perspectiva um emprego, é de vida. “A ideia Carlos Leandro Peres só o que a gente na realidade é Voluntário na Vila Verde quer”, diz Naura trazer um ensino para essas crianças, para Estela Cavalheiro, que trabaque elas possam ser inseri- lha há quatro anos com recidas na sociedade da maneira clagem na Vila Verde. Como que sonharem. Afinal, elas tem nove filhos e sete deles são os futuros pais e mães”, ainda moram com ela, uma destaca. Além disso, o pastor das coisas que mais admira no

FOTOS ARQUIVO PESSOAL DOS ENTREVISTADOS

Entre projetos voluntários e reciclagem, famílias da Associação Vila Verde inventam seu presente e seu futuro

Estela e seu marido Julio puxam juntos o carrinho pela cidade

projeto é o planejamento de cursos e também de um turno inverso com atividades para as crianças. Para ela, morar na Vila é maravilhoso. “Mudei para cá há mais de cinco anos, pois minha família mora aqui. Para ficar melhor, só se tivesse um apoio maior das pessoas da cidade para ajudar o pastor a ampliar o projeto. Com certeza seria maravilhoso um turno a mais para as crianças estudarem além da oferta de cursos, já que a maioria dos pais trabalha o dia todo”, enfatiza. Mas essa oportunidade é apenas uma das batalhas. “Eles não têm acesso à luz e água. Seria bom se conseguirmos ajudar com a regularização das moradias. A renda da maioria vem principalmente da reciclagem, por isso projetos relacionados, como uma cooperativa, também são importantes. Eles ainda não têm

um lugar específico de coleta adequada, somente alguns pontos de venda, como um ferro velho, onde os caminhões vêm recolher esses materiais de acordo com a quantia”, explica Hebert. Estela reforça que a maioria dos trabalhadores da região não possui carteira assinada. “A maior parte são recicladores como eu, mas quando a gente passa na rua nos olham com preconceito, com nojo. Mas a gente está trabalhando, não somos ladrões ou arruaceiros. Eu já ouvi tanta coisa. Precisamos de mais respeito no mundo, porque estamos todos juntos”, reivindica a trabalhadora. Ela e o marido se revezam para puxar o carrinho pelas ruas da cidade litorânea. “Todos os dias andamos muito e não é em todas as ruas que achamos material reciclável. Mas já achei muita coisa boa,

panelas, brinquedos, fogão e muito mais. De vez em quando a gente passa para quem precisa ou então até a gente mesmo usa. Aqui mesmo, na nossa casa, a gente usou material reciclável. Ela foi feita com madeiras que os caminhões colocam fora para queimar. Pegamos, separamos e construímos”, relata. Estela tem grandes esperanças com o futuro da comunidade, principalmente por conta das ações da igreja. “Vai ser incrível o projeto que eles estão fazendo, vai ser uma benção para todos. As crianças vão ser muito bem cuidadas e protegidas, porque são pais e mães que vão cuidar deles. Só de imaginar a oportunidade de ver meus filhos fazendo os cursos ali já me enche de felicidade”, comemora. SARA NEDEL PAZ


14. Rota dos Bons Ventos

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Sopro de liberdade Projeto ajuda moradores a realizar o sonho de voar

Diego Soares (E), Raquel Lima e Emerson Petaty fazem parte do projeto  Sarayu Voo Livre

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s ventos sopram quase que ininterruptamente nas terras de Osório, reconhecida legalmente - de acordo com a Lei nº 13.169 - como a terra dos bons ventos. Essa corrente de ar tem grandes admiradores: são os entusiasmados por aventura e adrenalina que veem no litoral uma grande oportunidade para praticar aquilo no qual são apaixonados: voar. O morro da Borússia, localizado no município, tem uma rampa com uma altitude de quase 400 metros, o que garante não somente o vento que os atletas precisam, mas também o presenteiam com uma paisagem linda da cidade em conjunto com as lagoas que a cercam. Uma dessas pessoas é Emerson da Silveira, conhecido por Petaty, de 49 anos, motorista que ministra o Projeto Sarayu Voo Livre, ensina a prática do parapentismo e vem proporcionando aos corajosos o sentimento de liberdade no qual diz tanto amar. “Eu sempre tive o sonho de voar, desde os 10 anos. Era esse o super poder que eu queria ter quando era criança. Ainda sonhava em construir um avião”, conta o instrutor. A

felicidade de Petaty ao falar sobre o hobbie é muito perceptível, seus olhos lacrimejam e seu sorriso fica largo a cada nova frase sobre a sua experiência em voos. Praticante desde 2013, ele destaca que encontrou nesse esporte a facilidade na logística. “Tudo que eu preciso cabe dentro de um porta-mala”, afirma. O parapente é considerado uma atividade bem semelhante a do paraquedas, tem uma estrutura flexível designada por ele como “asa invertebrada”. É considerado uma espécie de voo livre pois não utiliza nenhum tipo de ferramenta motorizada. Nesta prática somente as condições naturais são necessárias para alçar a subida. E apesar de ser considerado um esporte radical, o instrutor promete muita segurança na hora do voo. Questionado sobre o seu sentimento sobre o parapente, Petaty brinca que a sua resposta pode até causar separação, pois não tem nada que o faça trocar o esporte. “Trabalho é necessário, é a minha renda. A patroa é insubstituível, os amigos também, mas o parapente está em primeiro lugar em tudo”, arrisca. Além de

sobrevoar a cidade de Osório, sofre de disfunção muscular e o instrutor já pode aprovei- atualmente utiliza cadeira de tar outras diversas paisagens rodas para poder se locomover. do Rio Grande do Sul, Santa Junto a outros companheiros, Catarina e até Goias. “O voar Petaty conseguiu realizar este fora da tua zona de confor- grande desejo. “Foi muito bom to te faz adquirir experiência poder fazer com que ele voe conhecimento. Te abre a asse na condição que ele está hoje. Muito emocionante”, diz mente”, complementa. Engana quem pensa que a o entrevistado com a voz embargada. felicidade de PeA co m p a taty está contida “O voar fora nheira do instrusomente no ato tor só reafirma a de voar. O ins- da tua zona paixão dele pelo trutor se realiza de conforto te esporte. Raquel ao poder passar Lima, de 47, cono seu conhe- faz adquirir ta que o conhecimento para experiência e ce há 32 anos e outras pessoas. que ele sempre “O que mais me conhecimento. nvidava edifica é eu faTe abre a mente” aparac ovoar. “Não zer tu voar e tu tinha coragem, me agradecer Emerson da Silveira foi só quando por isso, tu ficar Instrutor de parapente a gente ficou realizado por isso”, explica. As lembranças junto que eu comecei a prade tantas pessoas que apren- ticar. Já voei umas 10 vezes, é deram a voar vão aparecendo, muito bom”, relata. Ela ainda porém, tem uma história que lembra da primeira vez que se evidencia entre as demais, saltou de parapente, uma exo dia em que ele levou um periência indescritível tanto a amigo tetraplégico para voar. sensação quanto a vista. “Não Foi em uma tarde de muito adianta tirar foto ou filmar, vento, na rampa nordeste do tudo que você vê lá de cima Morro da Borússia, que o ins- é diferente”, insiste. O técnico em eletrônitrutor pôde ministrar um voo duplo ao lado do amigo que ca Diego Soares, de 37 anos,

conta que começou a praticar asa delta em 2010 após um curso em Sapiranga, mas foi após conhecer Petaty que começou a praticar o Parapente. “Teve uma época que eu fiquei afastado por um tempo, tentei outros esportes, mas nenhum é como voar”, garante. Ele destaca que embora a sensação é de aventura, a segurança é grande, tanto que hoje voa com sua filha de sete ano. “A pequena até observa o céu ao acordar para saber se o dia está bom para voarmos juntos. O Petaty sempre me ajuda em todos os voos que eu faço com ela”, destaca Diego. Uma cidade que oferece grandes ventos e lindas paisagens combina da melhor maneira possível com um projeto que oportuniza a prática de voo livre e uma pessoa que visa ajudar quem quer aproveitar o melhor que essas possibilidades podem oferecer. Para conhecer mais sobre o projeto acesse o Instagram @emerson_petaty ou entre em contato pelo WhatsApp com o instrutor: (51) 995.824.399. JÚLIA MÖLLER CAMILA NUNES


Rota das Águas .15

ENFOQUE OSÓRIO | JANEIRO DE 2022

A vida ao redor das lagoas Animais exóticos integram o ecossistema do município

M

orar no meio da natureza e contemplar a beleza de uma lagoa todos os dias deve ser o sonho de muitas pessoas. A cidade de Osório possui 23 delas em seu território, e entre essas há uma rede de lagoas interligadas por canais e rios navegáveis até Torres, sendo um dos maiores complexos lagunares do Brasil com 29 lagoas. Contudo, não é só charme, existem uma série de fatores que prejudicam moradores e ambiente. Edson Luís Ferreira de Oliveira, de 57 anos, pescador, mora há dois anos entre as lagoas do Lessa e da Pinguela e conta que morar na região é tranquilo. “Não existem furtos e roubos e nem mau cheiro”, destaca. Edson afirma que a Lagoa do Lessa não tem ligação com esgoto fazendo com que a água fique bem cristalina e própria à banho, ao contrário da Pinguela. Pássaros de diferentes espécies, capivaras, ratões do banhado e lontras são bem frequentes na região. O pescador ressalta que boa parte dos moradores vivem da pesca e enfrentam muitas dificuldades, logo que a maioria dos acessos às lagoas são fechados devido aos condomínios que foram e estão sendo construídos, principalmente na Lagoa da Pinguela. “Várias reuniões foram feitas com a Emater para solucionar o problema, mas até agora não se achou a solução”, afirma. O professor de Sociologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Alex Mengel, de 37 anos, mudou-se há quatro meses para o município por motivos de trabalho e conta que viver ao lado, mais precisamente, na beira da Lagoa do Peixoto, é uma experiência bem diferente, extremamente relaxante, tanto por sua beleza natural como pela tranquilidade. Para que ele e sua esposa e tantas outras pessoas pudessem habitar a região é necessária a aprovação de um projeto ambiental, requisito que somente acontece devido à preocupação com os alagamentos. De acordo com o professor, o regime de chuvas afeta o nível de água da lagoa, mas por ter ligação com outras lagoas,

possuem um sistema de drenagem, que foram abertos humanamente por conta da navegação e da pesca. Alex ressalta que outro motivo pelo qual existe cuidado extremo na aprovação dos projetos ambientais é a presença de animais exóticos, que por sua vez sentem-se ameaçados e prejudicados pela presença do ser humano no ambiente natural, afetando a vida silvestre. “Tartarugas

migram por terra para fazer o cruzamento de uma lagoa a outra pela estrada e acabam atropeladas.”, pontua. Além de moradores, nas redondezas das lagoas do município podem ser encontrados lugares como campings para que o turista ou morador possa curtir a paisagem e a natureza. Proprietário do Camping da Lagoa Peixoto há menos de um ano, Paulo Roberto da Silva, de 63 anos, relata

“É uma experiência bem diferente morar de frente para a lagoa” Alex Mengel

Professor de Sociologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul

que através de uma licitação da Prefeitura de Osório conseguiu a posse do terreno. Paulo destaca que o ambiente, inaugurado em novembro de 2021 foi melhorado para acolher todo tipo de evento, festas, aniversários e formaturas, além de acomodar trailers e barracas. “Quero tornar o camping o lugar mais bonito de Osório”, projeta. JOÃO TEIXEIRA GABRIELE CONCEIÇÃO SOARES

Lagoa do Marcelino é cartão postal para o município e abriga diversas espécies de animais silvestres. As chamadas “prainhas” recebem milhares de turistas por ano. Trapiches são vistos ao longo de diversas lagoas para moradores e visitantes praticarem a pesca

Edson Luís Ferreira de Oliveira é pescador e enfrenta dificuldades para acessar algumas regiões lagunares para trabalhar


16. Rota das Águas

ENFOQUE OSÓRIO | JANEIRO DE 2022

O passado no presente da Lagoa do Marcelino Âncora encontrada faz parte do Porto Lacustre, inaugurado em 1921

A

s ruas de Osório contam histórias. A cada esquina, ponto turístico, casa, praça ou escola, existe uma narrativa que perpetua gerações de moradores que transitam pelos espaços e são afetados. As histórias e identidades de um local também podem ser contadas através de objetos, incluindo uma âncora, um pedaço de hélice de navio e um atracador de barco que foram encontrados pelo operador de máquinas pesadas, Roberto Brum, na Lagoa do Marcelino, durante uma limpeza em outubro de 2021.

O objeto de ferro foi retirado das águas no local onde funcionou por quase quatro décadas, o Porto Lacustre. A navegação entre as lagoas teve início no final do século 19, com as famílias de imigrantes alemães que ficaram na região. O objetivo era levar aos centros comerciais a produção das colônias, produtos como farinha, banana, telhas e cachaça. Com base no Plano Geral de Viação do Estado de 1913, novos canais foram construídos, resolvendo o problema de ligação entre os

“É um pedaço da nossa história, fico feliz em poder fazer parte e ser lembrado por isso”

pequenos portos. Na cidade, a Lagoa do Marcelino foi ligada à Lagoa do Peixoto, que foi conectada à da Pinguela. A rede de transporte fluvial chegou a uma ferrovia com 53 quilômetros, do porto de Osório ao de Palmares do Sul. Pela Lagoa dos Patos e pelo Guaíba, mercadorias do Litoral podiam alcançar Porto Alegre. A história de Roberto se mistura com a da cidade. O osoriense pai de três filhos atualmente está trabalhando na revitalização da lagoa do Marcelino - que não irá acontecer até o final do período de reprodução das tartarugas no início de 2022. Os artefatos foram encontrados em um dia comum de serviço, e entregues à prefeitura para

uma futura exposição. O morador que precisou parar de estudar muito novo para trabalhar e auxiliar no cuidado com a mãe com câncer, contou da sensação de ajudar a cidade natal. “É um pedaço da nossa história, fico feliz em poder fazer parte e ser lembrado por isso. Sempre trabalhei e passei por inúmeras dificuldades, contando com o apoio e base da minha família. Então, poder ser lembrado por encontrar esses objetos, que também são memórias da minha cidade natal, me deixa muito orgulhoso”, diz.

A HISTÓRIA DO PORTO DE OSÓRIO

A inauguração do complexo com o porto de Osório

e a ferrovia ocorreu em 1921. A região atingiu grande desenvolvimento sócio-econômico que atraiu gente até de Santa Catarina e chegou ao ápice na década de 40. Em dezembro de 1960, a empresa foi desativada e o porto desmantelado. Hoje, a área está sendo revitalizada. O local ainda é um dos principais pontos turísticos da cidade. De acordo com a prefeitura, a obra na lagoa tem o objetivo de recompor as relações ecológicas, que tem uma funcionalidade social, histórica e cultural do município. LOHANA SOUZA KAROLINA KRAEMER

Roberto Brum

Operador de máquinas

Objetos encontrados por Roberto ajudam a contar a história do Porto Lacustre


Rota das Águas .17

ENFOQUE OSÓRIO | JANEIRO DE 2022

Água e criatividade FOTOS GABRIELE CONCEIÇÃO SOARES

Guilherme estuda, cuida de galinhas e cabritos, trabalha com ferro velho e é inventor nas horas vagas

Sempre com um sorriso no rosto Guilherme retrata a sua vivência em torno da Lagoa do Palmital. Ao lado, o jovem mostra a bicicleta motorizada que ele mesmo transformou. Além da venda de sucata, sua família ainda possui animais, como cabritos e galinhas

A

prando que modificou a sua bicicleta, colocando um motor e transformando-a em uma bicicleta motorizada. A partir de suas habilidades com a mecânica, Guilherme também construiu um projeto de balsa com materiais recicláveis. Usou dois paletes e garrafas pet. “Preguei os dois paletes juntos, coloquei garrafas no meio, daí ela boia, dá para pescar, andar, cabem até duas pessoas”, explica. A distância do centro do município até a Lagoa do Palmital leva cerca de 15 minutos de carro, por esse motivo Guilherme frequenta pouco o centro da cidade. O jovem destaca como a lagoa traz momentos de lazer, principalmente para os irmãos que se refrescam em dias de calor. Já ele prefere pegar a sua balsa e pescar na lagoa. “Eu acho a lagoa melhor que a praia”, conclui. LEILA DONHAUSER CAMILA PISONI MOREIRA GABRIELE CONCEIÇÃO SOARES

FOTOS CAMILA PISONI MOREIRA

produção de entulhos gerados por nós, seres humanos, vem crescendo a cada ano. De acordo com dados da Abrelpe, Panorama dos Resíduos Sólidos no Brasil, no ano de 2020 a região sul foi responsável por 7,1 milhões desse lixo. A família Silveira faz sua parte para que esses dejetos tenham um destino correto. Guilherme Santos da Silveira Júnior, de 17 anos, mora num terreno muito próximo da Lagoa do Lessa, junto de seus pais e três irmãos. Natural de Capão da Canoa, ele relata que antes de se instalar em Osório, também morou em Xangri-lá. “No começo não foi muito bom porque nós não tínhamos muita amizade com as pessoas, elas pensavam que a gente mexia nas coisas dos outros”, explica o adolescente que se sentiu bem melhor quando os vizinhos começaram a confiar neles e inclusive, oferecer trabalhos como o de cortar grama. O pai do jovem é pedreiro e a família toda também junta sucata para vender. Além de criar alguns animais. Na parte da manhã Guilherme frequenta a escola e à tarde trabalha com um dos vizinhos cortando grama e fazendo algumas limpezas. Quando sobra um média 60 galinhas, mas a venda tempo, ele ainda dá auxílio desses animais fez a quantiaos pescadores da região. Além dade diminuir. Agora são em disso, o jovem ainda ajuda o torno de oito cabritos que não produzem leite, e pai a recolher ferro algumas galinhas. velho. Segundo ele, “Meu sonho “A gente também quando moradores tem um cavalo e precisam tirar su- mesmo é ser uma carroça, que cata do pátio, eles jogador de usamos como meio chamam os dois. de transporte para Quando a família futebol, mas trazer a sucata”, junta uma quan- como não co n t i n u a . tia grande desses Guilherme desdestroços, eles tenho muita vendem para a em- oportunidade, taca que a família gosta de morar na presa Gerdau, em localidade e não Osório. Contudo, quero ser tem planos de sair já venderam tam- mecânico, de lá. Já ele, quanbém para vizinhos do for mais velho, que transformam estudar para pretende se mudar as rodas de bicicle- mexer com a praia. “Meu tas em luminárias carro e moto” para sonho mesmo é ser ou as cadeiras em jogador de futebol, estilosas estantes. Guilherme Santos mas como não teAlém dos traba- da Silveira Júnior nho muita oportulhos que realiza na Estudante nidade, quero ser parte da tarde, o jovem ainda auxilia nos afazeres mecânico, estudar para mede casa, cuidando dos animais xer com carro e moto”, relata. que criam. No local já haviam Foi através de materiais que em torno de 14 cabritos e em juntou e outros que foi com-


18. Rota das Águas

ENFOQUE OSÓRIO | JANEIRO DE 2022

CAMILA NUNES

Lendas que vem das profundezas Lagoas, morros e diversos pontos da cidade escondem vivências inimagináveis

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Por receio, muitas embarcações deixaram de ser usadas na Lagoa dos Barros. Pedro Paulo Mendes conta sobre histórias de colegas pescadores

transformado em versos que passavam de mão em mão. “Contou meu pai de uma mulher que tinha um marido muito malandro, que deixava ela em casa dormindo e se ia para os bailes. Então ela passou um mês inteiro fazendo suas necessidades dentro de um porongo enorme e numa dessas ela foi atrás, esperou o salão encher e atirou a cumbuca que explodiu, respingando tudo nos que estavam dançando. Isso foi real e virou literatura de cordel”, alega. Ainda existem inúmeras histórias

ANA PAULA DE OLIVEIRA

ara um viajante principiante, observar belezas naturais pela primeira vez, seja no trajeto, ou por curiosidade turística, pode trazer experiências diversas e inusitadas. Alguns chegam a um determinado local querendo saber sobre possíveis fatos que ocorreram ali, outros apenas se deslumbram ou admiram algum detalhe sem ao menos imaginar o que pode ter acontecido em outra época. Um exemplo, é a famosa Lagoa dos Barros, em Osório - próximo a Santo Antônio da Patrulha, no Rio Grande do Sul. A verdade é que alguns moradores têm medo de se aproximar, por conta dos boatos que circulam na região. Uma pena, já que a Lagoa dos Barros é considerada excelente para banhos e navegações, pois suas águas não são poluídas. Além disso, ela possui a maior captação de água do planalto, com uma rica fauna e flora. Ainda assim, sob os fortes ventos do litoral gaúcho, murmuram pelas noites geladas, contos diversos sobre uma cidade submersa, sons de sinos ou lamúrias de uma pobre noiva assassinada pelo companheiro ciumento. É claro que toda cidade, bairro ou vila costuma contar suas histórias e guardar suas memória de fatos pitorescos. O pescador da região Pedro Paulo Mendes revelou que realmente circulam muitos relatos entre os pescadores, principalmente relacionados com a lagoa. Para ele, o “Ficou o dito principal é a história da noiva. “Eu nunca vi, mas popular por tenho medo. Todos dizem aqueles lados de que ela aparece flutuando sobre as águas de ma- que ‘mais vale a drugada e assustando as fé que o pau da pessoas, mas confesso que prefiro não tombar com barca não é’ ” ela”, brinca. A história por Katia Coimbra trás das aparições mencio- Moradora de Osório nadas é a da jovem noiva Maria Luiza Haüssler, que conforme reza a lenda, aparece na estrada como espírito desde 17 de agosto de 1940, após ser morta em sua noite de núpcias. Nas redes sociais, Katia Coimbra, de 59 anos, expôs de suas memórias dois outros momentos curiosos narrados por seu falecido pai. De acordo com que passam anos flutuando e ficam ela, ele que nasceu na Lagoa Vermelha, negros - e puseram na mão dela e disfoi ainda pequeno para Terra de Areia seram que era um pedaço da Arca de e contou que essa região foi muito rica Noé. A velhinha se agarrou no toquinho em literatura de cordel - uma manifes- com toda fé e se recuperou completatação literária do interior do nordeste mente. Então ficou o dito popular por brasileiro, caracterizado pela oralidade, aqueles lados de que ‘mais vale a fé rima e por uma linguagem informal. Por que o pau da barca não é’, e meu pai ter morado lá, “contava sempre sobre repetia isso lá em casa”, recorda. Ela também mencionou que a região uma velhinha daquela região que estava de cama, já quase morrendo, e alguém de Osório é uma colonização açoriana, trouxe um pedacinho de madeira, de então naquele tempo qualquer aconteuma dessas lagoas - desses toquinhos cimento que corria de boca em boca era

escondidas pelas praias, morros e demais pontos de Osório e trazer elas para o Enfoque seria sensacional. Por esse motivo, deixamos aqui o convite para você: se souber de algum conto, fato, ou até mesmo lenda, encaminhe para o e-mail ver.osorio@unisinos.br para ser “resgatado” da memória popular em uma próxima edição. SARA NEDEL PAZ ANA PAULA DE OLIVEIRA CAMILA NUNES


ENFOQUE OSÓRIO | JANEIRO DE 2022

Rota das Artes e Cultura .19

A cidade nas telas Elementos naturais fazem moldura ao filme “A primeira morte de Joana”

O

s valores sociais e os costumes empregados na comunidade de Osório costuram a história de Joana, que aos 13 anos se inquieta com uma dúvida: por que sua tia-avó faleceu aos 70, sem nunca ter namorado alguém? A pergunta é atravessada por questões familiares da adolescente, que percebe que todas as mulheres do seu entorno guardam segredos. Este é o eixo do filme “A primeira morte de Joana”, da Okna Produções, produzido e gravado com o cenário da cidade litorânea como referência. A obra gravada em 2018 (e lançada em 2019) é dirigida pela cineasta Cristiane Oliveira – e traz no elenco os nomes de Letícia Kacperski, Isabela Bressane, Joana Vieira, e Pedro Nambuco. O resultado desta somatória de talentos é a seleção, entre mais de 300 projetos de todo o mundo, para que o longa participasse do Co-production Market, evento com foco em mercado do Festival de Berlim. A estreia internacional de “A primeira morte de Joana” data de janeiro de 2021, no 51º International Film Festival of India. Cristiane Oliveira lembra que a primeira vez que foi no Morro da Borússia foi muito marcante. “Eu estava sozinha e não consegui entrar, dei um passo atrás. A vida sonora do lugar me impactou, era muito intensa, e achei melhor esperar os amigos para avançar acompanhada”, lembra a diretora. Anos mais tarde ela viu a região se transformar com a construção do Parque Eólico. “O cenário em transformação me atraiu para contar a história de uma adolescente em transformação. Uma paisagem especial, com seu complexo de lagoas e sua riqueza história, tendo uma trajetória que fala muito sobre a constituição da diversidade étnica do nosso “Osório é país”, destaca Cristiane. uma cidade Os laços que vinculam o cenário de Osório à história do encantadora, filme se encontram no trabacheia de lho desenvolvido pelo diretor de fotografia Bruno Polidomistérios para ro. O gaúcho que também é se descobrir” professor do Curso de Realização Audiovisual (CRAv) Bruno Polidoro da Unisinos, se inspirou Diretor de fotografia do filme A primeira morte de Joana em três elementos centrais para a construção imagética da obra: a mata verde e densa, as montanhas escuras e imponentes, e o azul das lagoas. “Essas cores vão se misturando e se modificando com a presença do vento, que é muito marcante. Seja pelo giro das hélices dos cataventos, seja como ele imprime sonoramente o movimento das matas”, relata. O vento (fenômeno que faz parte da essência de Osório) aparece, para Bruno Polidoro, como um personagem. Deste modo, optou-se não por lutar contra este elemento, mas por pensar nas formas de utilizá-lo no filme. “O que a gente queria muito era ver o vento como algo sedutor visualmente. O mais legal disso é que mesmo quando se está mais no centro da cidade, a natureza está sempre presente. Ao fundo você consegue ver uma montanha, e no entardecer ela começa a escurecer e gerar grandes sombras, por exemplo”, pontua. A equipe que produziu o filme se encantou com a cidade, reconhecendo nela um grande potencial para contar histórias e criar fábulas. “Sem dúvida, Osório é uma cidade encantadora, cheia de mistérios para se descobrir”, sintetiza o diretor de fotografia. A estreia comercial está prevista para o primeiro semestre de 2022, após o filme ter rodado por mais de 30 festivais internacionais e ter ganho dez prêmios por onde passou desde 2021. LETÍCIA ROSSA Colaboração Maurício Borges de Medeiros DIVULGAÇÃO / OKNA PRODUÇÕES

O filme fala de transformação e descoberta. A beleza dos cenários naturais tomam conta da narrativa

A diretora Cristiane Oliveira e o diretor de fotografia, Bruno Polidoro, em trabalho de gravação de cena


ENFOQUE O

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JANEIRO DE 2022 | EDIÇÃO 1

Olhando de cima Crianças do Morro da Borússia sonham e desenham a cidade

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lunas e alunos do sexto ao nono ano da escola Municipal Ângelo Gamba, localizada no Morro da Borússia vem desenvolvendo um trabalho de construção da história oral da região. O trabalho fez parte das aulas de Geografia com a Professora Isabel Ferreira dos Santos e busca não somente instigar a curiosidade das crianças por conhecer a própria história, mas também despertar o imaginário com relação a cidade. A primeira atividade levou a refletir sobre o local onde a maioria dos alunos morava. Já a partir dessas referências, os estudantes construíram um mapa do caminho que percorriam diariamente entre a casa e a escola. Esse mapa permitiu delimitar a região a ser pesquisada através da história oral, para conhecer o passado e presente das famílias do morro.

Trajeto de casa para escola Mapa inicial para conhecer a história da região João, 6º ano

O que queremos para a Borússia?

Sonhar a cidade O grupo também foi desafiado a desenhar como gostariam que o Município fosse no futuro.

As crianças foram motivadas a sonhar o morro e desenhar como eles gostariam que fosse no futuro. Karoline, 9º ano

Alexsandro, 8º ano

Enfoque Osório indica

Cidade dos ventos Rodrigo Trespach 2014, Editora Pragmatha O livro aborda a presença do vento no cotidiano da cidade de Osório. Ao mesmo tempo, trata de assuntos que ajudam a compreender a região como religião, imigração europeia, genética e revoluções políticas do século 19.

A Coberta D'Alma no Litoral Norte do Rio Grande do Sul Marina Raymundo da Silva 2015, Editora Evangraf Os esforços para a preservação de um antigo costume das famílias açorianas no Litoral Norte são retratados na obra. Trata-se de um ritual em que os vivos usam as roupas dos mortos para conseguir a libertação da alma do falecido.

Navegação Lacustre Osório-Torres Marina Raymundo da Silva 2014, Editora Evangraf O livro aborda o complexo lagunar da Bacia Hidrográfica do Rio Tramandaí com seu sistema de transporte agrícola, auxiliada no trecho Osório - Palmares do Sul, por uma ferrovia.

Ruas da Cidade Marina Raymundo da Silva 2011, Editora Nova Prova A autora traz uma pesquisa sobre as ruas da cidade, os projetos de lei e o histórico dos homenageados.

Raízes de Osório (Encontro dos Municípios Originários de Antônio da Patrulha) Organizado por Ana Inez Klein, Marly Scholl e Véra Barroso 2004, Editora EST A obra de mais de 800 páginas faz parte do projeto “Raízes” que conta a história dos municípios que se emanciparam de Santo Antônio da Patrulha. Em Raízes de Osório há um grande esforço de história oral, onde os osorienses narram como foi se construindo o município e suas culturas.