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Babélia

Publicação Experimental do curso de Jornalismo Unisinos (Campus São Leopoldo/RS) Julho de 2021 | Edição 35 LUCAS KOMINKIEWICZ

Protesto ignora história de ativista leopoldense Manifestação pró-Bolsonaro com caixa de cloroquina gigante em São Leopoldo ocorreu em frente ao busto que homenageia o médico João Carlos Haas Sobrinho, preso e morto na Ditadura Militar P ág i na 1 5

ED UC AÇ ÃO

SAÚ D E MEN TA L

EC ON OMI A

OPINIÃO

Projeto oferece aulas a migrantes e refugiados

Ansiedade desafia alunos em tempos de isolamento

Crise incentiva a criação de novos negócios

Desinformação fomenta ódio, gera o caos e pode matar

Entre diversas iniciativas transdisciplinares, programa TARIN investe no ensino do português como língua de acolhimento através de parceria entre a Unisinos e a Prefeitura de Esteio

Sem aulas presenciais há mais de um ano e com dificuldades para estágios, universitários lutam contra efeitos psicológicos da pandemia, mas nem todos conseguem seguir estudando

Jovem de Esteio investe o valor do auxílio emergencial para montar a sua própria confeitaria em casa e já pensa em ampliar o negócio após bons resultados

Nossos colunistas analisam o fenômeno das fake news, comentam sobre seus desdobramentos e alertam para os perigos de sua propagação. O jornalismo sério é o principal antídoto

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EDITORIAL

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filósofo alemão Peter Sloterdijk, em uma entrevista para o jornal espanhol El País, afirmou que “A vida atual não convida a pensar”. Na era dos dados e da (des)informação, tudo está ao alcance de um toque ou deslizar do dedo. Não temos mais a necessidade de desenvolver um pensamento ou lembrar de dados, informações ou acontecimentos históricos. A “nuvem” armazena tudo, todas as notícias, suposições e opiniões estão disponíveis, sejam elas verdadeiras ou não. A falta de um pensamento crítico e a dificuldade de interpretação também afetam a nossa capacidade de encontrar informações reais e de credibilidade. Entre 2015 e 2019 o Brasil perdeu 4,6 milhões de leitores, de acordo com a pesquisa “Retratos da leitura no Brasil”. Esse cenário é mais um dos agravantes dos problemas comunicacionais no país. Além disso, podemos citar o distanciamento entre jornalismo e população. Vivemos um momento no qual a classe é vista como vilã. Uma parceria entre Farol Jornalismo e Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) concluiu que “o jornalismo, a credibilidade das notícias

Jornalismo como forma de combate à desinformação POR DOUGLAS GLIER SCHÜTZ

e a função mediadora da profissão estão em risco”. Perdemos a confiança das pessoas e a grande mídia se distanciou do seu público. Não há uma tentativa visível de retomar o contato com a sociedade, dentro dos grandes jornais e emissoras de TV. Esse mesmo estudo também aposta no trabalho com a diversidade e a pluralidade para uma reconexão com a audiência. Porém, seria interessante pensar no problema como uma sequência de fatores. A queda na leitura e a facilidade em encontrar qualquer informação na internet tem

um grande percentual nesse cenário. Atualmente, quanto menos texto melhor. Todas as informações precisam estar presentes na manchete. O público não lê mais a notícia, quem dirá uma reportagem. Na TV, a polarização política divide quem assiste o canal X ou Y. Esses públicos também rivalizam entre si, duvidando das informações passadas em um telejornal ou no outro. Há cada vez mais dúvidas sobre quem está comunicando o fato correto. No meio disso tudo, os portais independentes parecem seguir no sentido contrário,

IMAGEM

captando mais leitores. Textos reais, sem se prender ao medo de usar essa ou aquela palavra. Matérias que apontam o dedo e redatores que não precisam se preocupar com o posicionamento político da chefia. Talvez essa seja uma das soluções, dissociar o jornalismo do posicionamento político. Não perder a crítica, mas apontar erros dos dois lados. Fazer isso com uma linguagem fácil e acessível, mostrar ao seu público que ler ainda é prazeroso. Ainda, trabalhar um jornalismo local. A dificuldade do morador da capital não é a mesma do interior. Não há necessidade de falar da mudança de trânsito no centro de Porto Alegre em um jornal de Uruguaiana. Ao invés disso, é melhor nos aproximarmos das nossas comunidades e entregar um material que ela se identifique. Por fim, lembrar que a profissão “Jornalista” está cem por cento ligada à verdade e nos adaptarmos a nova tecnologia. Se as informações falsas estão no WhatsApp, Facebook, Twitter ou outra rede, devemos estar lá. Criar formas de estarmos sempre mostrando para o público que temos o dado correto e servindo à população. Não podemos dar espaço aos falsos comunicadores ou aqueles que trabalham para o governo.

ARTHUR RECKZIEGEL

REALIDADE Na Ocupação Steigleder, no Bairro Santos Dumont, em São Leopoldo, a precária infraestrutura urbana dificulta até mesmo o deslocamento das pessoas. O aluno de Jornalismo Arthur Reckziegel flagrou o esforço de um morador em melhorar o acesso à sua residência. Arthur esteve no local realizando imagens para o jornal Enfoque São Leopoldo: Região Nordeste, produzido em sala de aula por estudantes e distribuído gratuitamente na região

JORNAL PRODUZIDO SEMESTRALMENTE PELOS ALUNOS DO CURSO DE JORNALISMO DA UNISINOS

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TEXTOS E IMAGENS: alunos das turmas 2021/1 das disciplinas de Jornalismo Impresso e Notícia, Jornalismo Impresso e Reportagem, Jornalismo Impresso e Opinião e Redação para Relações Públicas II, sob orientação dos professores Micael Vier Behs, Ronaldo Henn e Taís Seibt. PROJETO GRÁFICO: aluna da disciplina de Planejamento Gráfico (turma 2020/2) Sara Nedel Paz, sob orientação do professor Everton Cardoso. DIAGRAMAÇÃO: Marcelo Garcia (Agência Experimental de Comunicação - Agexcom). IMPRESSÃO: Gráfica UMA.

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Universidade do Vale do Rio dos Sinos - Campi São Leopoldo e Porto Alegre. Reitor: Marcelo Aquino. Vice-reitor: Pedro Gilberto Gomes. Pró-Reitor Acadêmico e de Relações Internacionais: Alsones Balestrin. Pró-reitor de Administração: Luiz Felipe Jostmeier Vallandro. Diretor de Graduação: Sérgio Eduardo Mariucci. Gerente dos Cursos de Graduação: Paula Campagnolo. Coordenador do Curso de Jornalismo: Micael Vier Behs.


EDUCAÇÃO

Estudantes ganham prêmios com projeto feito em casa Depois de quase um ano de dedicação, alunas de São Leopoldo vencem feira interna e vão alçar voos mais altos BÁRBARA SCHERER / ARQUIVO PESSOAL

POR LUCAS KOMINKIEWICZ

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mprovisando oficinas em casa e se reunindo por videoconferência, Andrielle Pereira e Bárbara Scherer, ambas de 18 anos e alunas do 4º ano do curso de Eletrotécnica da Escola Técnica Estadual Frederico Guilherme Schmidt, criaram o Sistema de Automação para Surdos (SAPS). O dispositivo consiste num smartwatch, um gadget que realiza atividades mediante determinados comandos dentro de uma residência, o que deve ampliar a acessibilidade para pessoas com deficiências auditivas severas. As estudantes começaram a pesquisa em março de 2020 e seguiram trabalhando após o início da pandemia de Covid-19. Através de um questionário direcionado ao Instituto Nacional de Educação para Surdos (INES), aplicado via Google Forms, foram obtidos dados sobre as necessidades desse público. O resultado mostrou que diariamente eles enfrentam dificuldades no quesito segurança, que consideram indispensável para realizarem suas atividades com autonomia. Também foi evidenciado que os futuros usuários do smartwatch não contam com muitas opções de dispositivos desse tipo no mercado, então acabam se acostumando com essa realidade. Foram quase seis meses de trabalho sem que o projeto tivesse um orientador. A professora de Física e de Projetos, Patricia Scalco, auxiliou as estudantes durante esse período. “Ficamos um pouco desnorteadas, pois como íamos dar sequência a um projeto que não atrai os professores da área técnica? Então a Patrícia nos deu um norte”, explica Andrielle. Toda semana as alunas recorriam à professora, pedindo por reuniões e orientação. Patrícia colaborou com elas até sair da escola em meados de 2020, após receber uma bolsa de pós-graduação. Em seguida, o professor Marcos Freire Machado aceitou o convite para orientar o SAPS, desde o início acreditando e apoiando as duas. Machado leciona História e Sociologia no Frederico, mas ele também é técnico em Eletromecânica formado pela instituição, atua há oito anos como professor do estado e há 12 como técnico de Laboratório de Eletromecânica na UFRGS. Atualmente, ocupa o cargo de Coordenador do Núcleo de Infraestrutura da Faculdade de Odontologia e possui um extenso currículo acadêmico. Agora, cursa Tecnólogo em Fabricação Mecânica pelo IFSUL.

Trabalhar em casa ajudou

Para Bárbara, apesar da adaptação ao ensino remoto não ter sido fácil, ela e a colega puderam se concentrar mais no projeto trabalhando em casa. “Não acho que tive meu melhor desempenho na escola no ano passado, por conta da pandemia, porém, se tivéssemos continuado com as aulas presenciais, penso que o nosso trabalho não teria progredido tanto”, diz. Os

ber prêmios, até porque, segundo elas, isso é consequência do trabalho desenvolvido. Em novembro, quando apresentaram o SAPS na Exposhimidt, receberam a primeira de cinco credenciais para participação na Mostratec 2021. “Até então, nós nem acreditávamos que iríamos tão longe, foi uma escadinha que fomos subindo quando passamos a acreditar em nós mesmas e no potencial do nosso projeto”, diz Andrielle. Cada conquista foi uma surpresa. “Foi muito engraçado, eram 20h, eu estava voltando do trabalho, olhando meu celular e subindo no ônibus e aí eu vi — 1º lugar Andrielle...Bárbara...orientador: Marcos...SAPS”, conta, rindo e dizendo que saiu comemorando a vitória para o cobrador do ônibus.

Novas conquistas

SUCESSO Após conquistar primeiro lugar na Exposhimidt, Andrielle e Bárbara comemoram a participação numa das feiras mais prestigiadas do país, a Febrace

encontros ocorriam por videochamada, com algumas exceções em que precisavam realizá-los pessoalmente, na casa de uma delas. “Chegamos a ficar uns três sábados inteiros envolvidas com a pesquisa, íamos até as 2h ou 3h da manhã escrevendo, era super produtivo”, conta. Para o professor, houve perda na construção do conhecimento nas aulas práticas, nos laboratórios. Os alunos foram orientados a construírem os protótipos ainda em 2020, tendo que improvisar oficinas em suas casas para finalizarem os projetos desenvolvidos em 2019. Ele conta que, em julho, depois de um mês treinando para utilizar a plataforma, com o início das aulas remotas através do Google Classroom, as reuniões de projeto passaram a acontecer semanalmente, nas terças-feiras. Também foram criadas pastas no Google Drive para armazenamento dos ma-

“Se tivéssemos continuado com as aulas presenciais, penso que o nosso trabalho não teria progredido tanto” Bárbara Scherer Estudante

teriais de pesquisa e documentos. Machado já tinha orientado cerca de 20 projetos desde 2015, tendo sido alguns apresentados em feiras e até premiados. No entanto, o foco das suas orientandas nunca foi simplesmente participar de eventos e rece-

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Com o 1º lugar elas ganharam também alguns cursos. “A gente conseguiu coisas que estão agregando muito na nossa vida. Tudo fruto da nossa jornada acadêmica”, explicam. Quanto à Mostratec, elas têm o objetivo de sair da feira com uma oportunidade de estudo, uma chance para subir mais um degrau. “Queremos aperfeiçoar os nossos conhecimentos, através de uma vaga em alguma instituição, uma bolsa de estudos, qualquer coisa assim seria um sonho”, reitera Andrielle. Passada a feira interna, uma assumiu a parte teórica, de escrita e formatação da pesquisa, por se identificar com a parte organizacional, descritiva; e a outra a parte prática, da montagem do protótipo. Em casa, com a ajuda do pai, que foi eletricista por muitos anos, Andrielle construiu o sistema. “Eles juntavam o conhecimento dele com o dela e os vídeos do YouTube, e foi assim que conseguimos ir adiante. Depois ela ia me passando as coisas”, conta Bárbara. “Eu tenho um perfil bem criativo, quero abraçar tudo que eu puder, quero botar tudo no trabalho. A Ba, não, a Ba é mais focada, mais objetiva. Então eu acho que a gente casou muito bem”, comenta Andrielle, chamando a amiga, carinhosamente, no diminutivo. O orientador diz que a dupla é muito persistente, indo em busca de respostas, que estão muito além dos ensinamentos aprendidos durante o curso técnico. Em março deste ano, elas apresentaram o projeto Feira Brasileira de Ciências e Engenharia (Febrace), também por videochamada. Depois de um primeiro dia de nervosismo, focaram na parte prática, para mostrar que o dispositivo é funcional e possivelmente vendável. A experiência junto a estudantes e pesquisadores de todo país foi um grande aprendizado, serviu para prepará-las para a Mostratec, que sempre foi um sonho das alunas. Foi a primeira vez que dois trabalhos da escola foram aprovados como finalistas pelos avaliadores, entre os mais de 1200 trabalhos inscritos para participar da Febrace. Ambos orientados pelo professor Marcos Machado.

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EDUCAÇÃO

Projeto acolhe migrantes e refugiados Programa TARIN promove interação social, econômica e cultural envolvendo alunos e professores da Unisinos POR CHAIANE ARMESTO

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TARIN é um programa de educação e atenção humanitária a migrantes e refugiados que vivem no Rio Grande do Sul, especialmente na região de abrangência da Unisinos. O projeto fomenta iniciativas formativas curriculares e extracurriculares, assim como pesquisas sobre o tema. O objetivo do TARIN é promover acolhimento humanitário através de ações de ensino, pesquisa e extensão junto a grupos de migrantes e refugiados alocados no estado. Uma das iniciativas do programa promove o ensino de Português como Língua de Acolhimento a migrantes e refugiados. Antes da pandemia, as aulas aconteciam em espaço cedido pela prefeitura de Esteio. Desde março do ano passado, em função do plano de contingência da Unisinos e da própria prefeitura, o grupo do projeto, em conjunto com os bolsistas, optou por continuar as aulas e o contato com os alunos através de um grupo criado no WhatsApp. Aluna de Letras da Unisinos, Marina Ohlweiler é bolsista do TARIN e conta que foi desafiador repensar estratégias de ensino

e aprendizagem com os alunos migrantes e refugiados desde o início da pandemia, especialmente porque muitos deles têm dificuldades de acesso a celular e internet móvel. Ela relata, também, que a proposta inicial de produzir e distribuir videoaulas não gerou o engajamento esperado, o que levou os professores a readaptar, uma vez mais, a forma de construir vínculos produtivos com o grupo de alunos do projeto. A partir de então, Marina começou a gerar interação com os alunos, via WhatsApp, abordando as suas questões diárias, tais como a organização dos seus afazeres diários e as transformações cotidianas geradas pela pandemia e pelas exigências de distanciamento social. Para sua surpresa, essa abordagem mobilizou o grupo, que passou a interagir regularmente a partir das atividades propostas. “O fundamental em uma aula de português como língua de acolhimento é estarmos com os ouvidos abertos para escutar estas pessoas. Afinal, os professores não estão apenas ensinando uma língua adicional, mas sendo um elo destas pessoas com a sociedade”, explica. Aluna do projeto, a venezuelana Josemar Marlene Díaz Morales, 25 anos, relata que a proposta do TARIN vai além

ELI SILVA / ARQUIVO PESSOAL

COOPERAÇÃO Aulas de Português como Língua de Acolhimento são promovidas através de parceria entre a Unisinos e a Prefeitura de Esteio

do ensino. A partir de orientação da professora Marina, ela conquistou uma vaga de emprego que tem contribuído para a sua permanência no Brasil. Josemar explica que, com a ajuda das aulas, já compreende perfeitamente a língua portuguesa, ainda que não consiga se expressar com total clareza no novo idioma. Além das aulas de português, o TARIN promove oficina de contos, trabalho educacional e de orientação de mães, bebês e crianças, desenvolvimento de software de estímulo ao empreendedorismo e divulgação de talentos, entre outras iniciativas de acolhida a migrantes e refugiados que vivem no Rio Grande do Sul. Para fazer parte do projeto é possível inscrever-se para atividades de voluntariado através do site da Unisinos Lab: www.unisinos. br/lab/programas/projeto-integrar O TARIN valoriza, por meio das ações desenvolvidas, a formação humana e profissional e está sempre aberto a acolher propostas que visem uma formação em mão dupla, proporcionando oportunidades de ensinar e de aprender para todos os envolvidos nos projetos realizados: alunos e professores da Unisinos, comunidade local e profissionais variados.

Aluna de curso gratuito consegue vaga na UFRGS NICOLE PATRICIO / ARQUIVO PESSOAL

POR FELIPE MACHADO

O projeto “Agarre o Saber” é um curso pré-vestibular de Gravataí destinado a alunos de escolas públicas que possuam acesso à internet. Foi através desse projeto que a estudante Nicole Patricio,19 anos, conquistou a aprovação para o curso de Química na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) no último vestibular. Idealizado para funcionar de forma presencial, em salas de aula cedidas por um colégio local, o cursinho precisou adaptar seu cronograma em função da pandemia e, a partir de junho, começou a oferecer aulas remotas. A medida ampliou o alcance do projeto. “No início estávamos com um pouco de medo, mas o nosso sistema funciona muito bem. Nós temos um grupo de WhatsApp, onde mandamos o link da chamada de manhã cedo, e dá tudo certo. No presencial, poderíamos atender no máximo 30 alunos por turma e, hoje, temos mais

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que o dobro”, relae acolhida e fui muito ta Thiago De Leon, bem recebida. Quanprofessor e idealido soube que passei, zador do cursinho. fiquei muito feliz. A As aulas aconteUFRGS era um socem aos sábados e nho da minha família são acompanhadas, e mandei mensagem em média, por 100 para a minha mãe e alunos. O projeto para minha irmã. Foi conta com 259 aluuma mistura de felinos inscritos, além cidade e gratidão”, de 36 colaboradores comemora. que trabalham de Isabela Petr y, forma voluntária. 21 anos, atua como “O Agarre o Saber professora de poré autossustentável. tuguês e redação no Para ser sincero, o cursinho desde o ano único gasto é de 100 passado. É uma das reais por mês para mais jovens colabomanter a plataforma radoras e foi quem em que hospedamos mais ajudou Nicole as chamadas e armaa se concentrar nos zenamos as grava- CONQUISTA Além da UFRGS, Nicole foi aprovada estudos. “Todos os ções”, afirma Thiago. para o curso de Química no Instituto Federal de professores são muiBolsista para o en- Santa Catarina, pelo Sisu to prestativos e atensino médio na Fundaciosos. Tenho uma ção Bradesco, Nicole Patricio se inscreveu no projeto na tentativa consideração muito grande formou em 2019 e conheceu o de realizar o sonho da aprovação pela professora Isabela, pois cursinho através de um amigo. numa universidade federal. “O tive um avanço na minha nota Na época, não possuía condições curso ajudou a ampliar meus co- de redação devido ao trabade pagar um curso particular e se nhecimentos. Me senti abraçada lho dela”, disse Nicole.

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“Bela”, como é chamada pelos colegas, é estudante de letras na UFRGS e começou a ministrar aulas no projeto no ano passado depois de ler um anúncio numa rede social. Para ela, a chave do funcionamento do curso é a união de todos. “Eu acho que o Agarre tem essa característica de andar todo mundo junto, com um objetivo muito certo e estamos dispostos a fazer de tudo para alcançá-lo. Nos apoiamos tanto, e quando dá certo, é muito gratificante. É como se uma parte de nós passasse junto com eles”, explica. Os próximos passos do projeto ainda são incertos. Migrar para aulas presenciais é um tema que, segundo Thiago, ainda não foi discutido pela direção. Quando projeta o futuro do cursinho, o idealizador da proposta manifesta uma única certeza. “O Agarre nunca vai ter um caráter financeiro. A ideia é deixar o legado de que somos o cursinho voluntário que mais ajudou pessoas em todo o Rio Grande do Sul”, finaliza.


SAÚDE MENTAL

Isolamento aumenta ansiedade entre estudantes universitários Alunos sofrem com efeitos invisíveis do distanciamento social durante a pandemia de Covid-19 e reduzem ritmo de estudos POR GABRIELLI ZANFRAN

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studantes universitários estão enfrentando um dos grandes impactos causados pela pandemia de coronavírus: casos de transtornos mentais, tais como ansiedade e depressão, estão afetando um número maior de universitários, devido ao isolamento social que a população mundial precisou aderir na tentativa de diminuir a contaminação do vírus Sars-CoV-2. Muitos alunos da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos) tiveram que adotar medidas drásticas para conseguir acompanhar o ritmo acadêmico da instituição, diminuindo a quantidade de cadeiras por semestre, e até mesmo, realizando o cancelamento da matrícula em casos mais severos desses transtornos psicológicos. Aluno do curso de Jornalismo da Unisinos, Gabriel Jaeger, contraiu o coronavírus em março deste ano e durante seu processo de recuperação da doença acabou desenvolvendo sintomas fortes de ansiedade. Posteriormente, foi diagnosticado por um psiquiatra que havia desenvolvido transtorno de ansiedade generalizada. “Acredito que o coronavírus tenha sido um gatilho para eu não suportar mais”, conta Jaeger. Ao ser questionado se antes da pandemia já possuía sintomas deste transtorno, ele diz nunca ter passado por algo parecido. “Já tive alguns estresses e ansiedades, mas nunca neste nível. Tudo se intensificou na pandemia e logo após eu ter contraído a Covid-19”, comenta. Em março, Jaeger trancou sua matrícula alegando não conseguir acompanhar o ritmo acadêmico do curso: “Percebi que a ansiedade estava me atrapalhando academicamente porque eu não conseguia fazer nada dos trabalhos. Não entendia os textos, não absorvia nenhum conteúdo. Eram atividades que eu

realizava sem probleprocurar o NAE a mas anteriormente. O qualquer momento curso de Jornalismo para conversar e consexige uma boa escritruir, junto do profista e interpretação e, sional, uma alternaneste semestre, eu tiva para a situação simplesmente não apresentada. O núcleo conseguia fazer nada é composto por uma disso”. O estudante assistente social, uma pretende retomar os psicóloga, um pedagoestudos acadêmicos go e uma profissional no segundo semestre, especialista em eduapós um período de cação inclusiva, além tratamento com mede quatro estagiárias dicações e terapias. de psicologia. Estudante do cur“O atendimento so de Relações Púpsicológico é um esblicas da Unisinos, paço de escuta, não Gabriel Jaeger Estudante de Jornalismo A m a n d a L e m e s, especificamente para também desenvolveu avaliação e diagnóstranstorno de ansiedatico. Porém, claro de durante o isolamento. “Na pandemia, eu que ao observar ou vir no relato do aluno perdi o emprego e a partir daí os sintomas se sintomas ou situações que sinalizam um intensificaram muito. Compulsão alimentar, quadro com ansiedade ou depressão, indiinsônia, pernas e mãos inquietas são apenas camos a procura de um profissional para alguns dos sintomas que tenho”, revela. uma avaliação mais profunda”, explica a Lemes não pensou em trancar o curso, mas coordenação do NAE, por meio de nota. admitiu ter dificuldade na sua vida acadê- “Podemos auxiliar na procura e indicação de mica: “O maior empecilho que tenho é a profissionais e esclarecemos o que são esses procrastinação das tarefas, por medo de sintomas, como uma psicoeducação sobre o errar e de produzir, com isso diminuí dras- que se está sentindo, proporcionando um moticamente as cadeiras que faço. Costumava mento de diferenciar esses sintomas de um fazer cinco por semestre e agora faço uma”. sentimento de tristeza, por exemplo”. A estudante realiza terapia semanal e faz uso de medicamentos que colaboram na dimi- Impacto da pandemia nuição dos sintomas de ansiedade. Em janeiro de 2020, o mundo entrou em estado de alerta após as primeiras mortes de Acolhimento acadêmico Covid-19 terem sido registradas na China. A Unisinos oferece um espaço de aco- Dois meses depois, o Brasil entrou na primeilhimento aos alunos chamado Núcleo de ra quarentena com o intuito de parar o avanço Atenção ao Estudante (NAE). O NAE existe do vírus em solo brasileiro. A única forma rehá 11 anos, disponibilizando um local de comendada para se proteger do vírus é através escuta e orientação nos contextos pessoais, do distanciamento social, porém enquanto familiares e acadêmicos. Os alunos podem ela aumentava a segurança contra a Covid-19,

“Percebi que a ansiedade estava me atrapalhando academicamente porque eu não conseguia fazer os trabalhos. Não entendia os textos, não absorvia conteúdo”

também estava causando efeitos colaterais na sociedade. O Brasil é o país campeão em níveis de ansiedade da população. Essa é uma doença mental que afeta principalmente os jovens. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 9,3% dos brasileiros possuem transtorno de ansiedade. A depressão foi, em grande parte, uma consequência do excesso de ansiedade na população. O medo e a insegurança começaram a tomar conta daqueles que não conseguiam acompanhar o ritmo acelerado da sociedade. Essa doença atinge cerca de 350 milhões de pessoas no mundo e a estimativa é que 19% da população mundial possua depressão em algum momento da vida. Com porcentagens elevadas em ambos os transtornos, basta olhar para o lado para perceber como o mundo acadêmico está sendo afetado por esses problemas. O mais importante é ficar atentos à forma como as pessoas ao redor estão se portando para, possivelmente, prevenir que cheguem a um nível baixo de saúde mental. Devido ao fato de ainda não ser possível realizar muitos encontros pessoalmente, a comunicação entre os jovens, muitas vezes, fica limitada a ligações e chamadas de vídeo, o que torna mais difícil perceber sinais de depressão ou ansiedade. O NAE oferece algumas dicas de como perceber que um colega, amigo ou familiar pode estar desenvolvendo algum transtorno psicológico: “Pensando nas mensagens de textos, podemos ficar atentos na repetição de palavras usadas, qual o tom da escrita, por exemplo, um tom melancólico, de queixa, de que tudo é difícil. Ou a demora na resposta de uma mensagem, diminuição no acesso a redes sociais, assim como o conteúdo postados nas redes. E nunca hesitar em perguntar como está a pessoa quando perceber essas questões, assim como averiguar quem é a rede de apoio que essa pessoa pode acessar”.

FERNANDO CFERDO / UNSPLASH

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SAÚDE

Controle da mente e do corpo para uma vida saudável Mesmo em época de pandemia, a procura por exercícios com segurança aumentou consideravelmente POR AMANDA WOLFF

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onciliar os horários de trabalho com hábitos de vida saudável ficou ainda mais difícil durante a pandemia de Covid-19. Assim como os alunos, os instrutores também tiveram que remodelar o formato de trabalho. Tendo em vista que até a metade do ano de 2020 academias estavam fechadas por normas de segurança sanitária, instrutores tiveram de avaliar alunos por redes sociais e auxiliá-los de longe, sugerindo, por exemplo, o uso de uma garrafa pet como peso para se exercitar. Segundo pesquisa feita pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), três a cada 10 pessoas estão com depressão (moderada ou grave) por falta de exercícios durante a pandemia. Mas o maior dos problemas é que comorbidades, como sobrepeso, hipertensão e diabetes, podem trazer mais complicações ao paciente contaminado pela Covid-19. Para não ficar sem se exercitar, muitas pessoas recorreram a aulas online, professores particulares ou treinamento ao ar livre. Uma pesquisa feita pelo aplicativo Freeletics, divulgada com exclusividade pela revista Exame, mostra um aumento no interesse de brasileiros por aplicativos que contam com personal trainers virtuais. O estudo, feito com mil pessoas das cinco regiões do país, indica que 77% das pessoas acreditam que um trei-

nador pode ajudar a atingir seus objetivos, como condicionamento físico, ganho de massa muscular ou perda de peso.

pôs ao aluno. Por um período de mais de dois meses, Castro ficou em casa sem dar suas aulas. Ele se sentia estranho tendo que Treinamento optar por aulas gradiferenciado vadas e repassadas De acordo com aos alunos ou por o professor Nelson acompanhamento Castro, de 26 anos, ao vivo. Segundo sua função é um ele, a sensação era pouco diferente das estranha, não sendo ofertadas pelos pero mesmo que estar ao Nelson Castro Educador físico sonal trainers. Ele é lado do aluno. Sem professor de aulas pandemia, suas aulas coletivas, como power tinham em torno de jump, spinning e ritmos, enquanto os per- 60 alunos. Já com a nova situação, depois sonal trainers oferecem um serviço mais da reabertura das academias, a quantidade individualista. Nas aulas coletivas, não é teve de ser dividida, tomando os cuidados possível realizar um acompanhamento do com o afastamento. O número diminuiu progresso de um único aluno. Dessa forma, para no máximo 10 pessoas na sala. os avanços são tidos através do tempo da aula, que varia de 50 a 60 minutos. Retorno às academias O personal foca nos objetivos que seu O retorno das academias segue normas cliente pretende alcançar em curto, médio como o uso de máscara e álcool gel, em ou longo prazo, estipula um treinamento alguns locais é exigido que o aluno leve uma específico com base naquilo que lhe foi toalha de uso pessoal para ter acesso ao pedido, mudando o treino de tempos em interior da academia. A academia fornece tempos de forma gradativa. Acompanha e panos e sprays com álcool, para que toda fica à disposição total do aluno dentro do vez que o aluno saia ou entre no equipahorário contratado. Uma das principais mento higienize-o, assim como é feito a hifunções é auxiliar nos exercícios que pro- gienização nas salas de uso coletivo antes e

“O exercício físico é importante desde pequeno até a velhice, ele quem vai tirar da pessoa aquela ansiedade, aquela depressão e outras doenças”

depois da aula que ocorre no local. Sempre atentos às medidas de prevenção, qualquer pessoa que apresente tosse constante ou algum sintoma relacionado à Covid-19, é explicado e pedido de forma educada e cuidadosa que ela se retire do local. Tendo dois trabalhos, atuando em três funções, como supervisor em escola, professor e instrutor de aulas coletivas em academia, é necessário organização, foco e determinação para Castro conciliar tudo. “O exercício físico é supremamente importante para o ser humano desde pequeno até a velhice, ele quem vai tirar da pessoa aquela ansiedade, aquela depressão e outras doenças que podem estar relacionadas ao monotonismo”, diz o profissional. “Estar numa vida monótona e não se permitir conhecer novos meios é ruim, fazer uma caminhada de 30 a 40 minutos, tu já estás praticando algum exercício que pode auxiliar no controle de uma vida mais saudável, por isso acredito que ele seja importante em todos os âmbitos”. De acordo com a Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) em 2019, divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), dentre a população de 18 anos ou mais, 40,3% foram classificadas como insuficientemente ativas, ou seja, não praticavam atividade física ou faziam exercícios por menos de 150 minutos, levando em consideração o deslocamento para o trabalho ou lazer.

NELSON CASTRO / ARQUIVO PESSOAL

ADAPTAÇÃO Aulas de zumba voltaram a ser presenciais, porém com número reduzido de alunos e todos usando máscara para reduzir risco de contaminação pelo coronavírus

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GERAL

Atividade física beneficia a saúde mental Isolamento social gerado pela pandemia aumentou casos de depressão e ansiedade FREEPIK.COM

POR BÁRBARA BÜHLER

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MENOS ESTRESSE A prática de atividade física regular libera neurotransmissores como a serotonina, responsáveis por gerar sensações de prazer e contentamento

Crise atinge o cenário artístico Em 2020, muitas empresas e setores da economia foram afetados pela pandemia. Nesse contexto, grupos de teatro e artistas têm sofrido com espetáculos cancelados, plateias vazias e receita diminuta. Ex-ator de um renomado grupo de teatro gaúcho, Vinicius Mendes ficou desconcertado no momento que soube da interrupção do seu contrato de trabalho. “Fiquei sem chão e sem renda. Era uma arte que eu vinha construindo com muito amor e saber que isso se encerraria me destruiu”, relembra. Vinicius relata que, após a demissão, buscou alternativas de renda em áreas diversas, atuando com higienização de estofados, como entregador e, até mesmo, abrindo o seu próprio negócio. Contudo, quando recebeu a proposta para gerenciar uma loja de serviços e produtos elétricos na cidade de Butiá, aceitou o desafio e se mudou com a esposa para o interior do RS. No entanto, não só os artistas sofrem em meio à pandemia. Sem plateia, os grupos teatrais precisaram se reinventar para não caírem no esquecimento. O Teatro Luz e Cena, de Novo Hamburgo, criou um canal no YouTube em que recria peças e esquetes em forma de curta-metragem, permitindo participações especiais de fãs. Para seguir difundindo sua arte e garantindo renda, o grupo também aposta em apresentações de rua em que o público pode se manter distanciado e as chances de contágio pelo novo coronavírus diminuem drasticamente. Desta forma, o Teatro Luz e Cena se mantém ativo e busca reinventar o formato de seus espetáculos em tempos de pandemia. POR MARCEL VOGT

m meio à pandemia, segundo pesquisa do instituto Ipsos, encomendada pelo Fórum Econômico Mundial e cedida à BBC News Brasil, a saúde mental dos brasileiros piorou 53%, visto que o isolamento social gera impacto direto no cotidiano. Entretanto, a prática regular de atividades físicas pode representar um importante aliado no combate ao estresse, auxiliando na promoção da qualidade de vida. Segundo o estagiário de educação física, Lucas Studzunski, 22 anos, que atua numa academia de crossfit de Porto Alegre, nos últimos meses muitas pessoas desenvolveram quadros de depressão e ansiedade, sendo que a prática de exercícios funciona como espécie de “bote salva-vidas”. Lucas explica que, ao praticar atividade física regular, o organismo libera neurotrans-

Pandemia aumenta casos de sedentarismo Segundo pesquisa da Organização Mundial da Saúde (OMS), publicada no site do Hospital Oswaldo Cruz, um em cada quatro adultos e quatro em cada cinco adolescentes (11 a 17 anos) no mundo não praticam atividade física regularmente. Nesse contexto, a instituição fez um recente alerta sobre o risco de uma nova pandemia de problemas de saúde decorrentes do sedentarismo, resultante do isolamento social causado pelo coronavírus. Em função da exigência de distanciamento social, imposta em março do ano passado, muitas pessoas passaram a enfrentar dificuldades para manter a saúde física, especialmente devido ao fechamento de academias e pelo temor de sair de casa e se expor ao vírus. Esse foi o caso de Vitor Michels Cardoso, 27 anos, que praticava exercícios físicos antes da pandemia, mas que, com a chegada da quarentena, acabou se rendendo ao sedentarismo. “Estar o tempo todo em casa dificulta muito na hora de praticar exercícios. Então, acabei me acomodando e fiquei sedentário. Mas recentemente comprei uma esteira nova e voltei a praticar exercícios. Vou, literalmente, correr atrás do prejuízo”, destaca. Para afastar o risco de sedentarismo, atletas amadores decidiram adaptar sua rotina de treinos às ferramentas disponíveis em casa. Com muita criatividade, Marcos Guilherme Flores, 23 anos, conseguiu manter a regularidade de exercícios, mesmo durante o isolamento. “No começo foi complicado, pois eu não tinha ideia de como começar. Mas fui pesquisando e comecei a improvisar uns pesos aqui e ali, fazer mais treinos aeróbicos e, com o tempo, foi se tornando um hábito”, afirma. POR LEONARDO MARTINS

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missores como a serotonina, responsáveis por gerar sensações de prazer e contentamento. Segundo a psicóloga Luiza Penna, a procura por tratamento psicológico aumentou na pandemia. Ela explica que o isolamento social e os cuidados com a saúde exigiram adaptações no estilo de vida e agravaram quadros de problemas mentais. Na avaliação da psicóloga, os principais afetados foram as pessoas diagnosticadas com transtornos prévios, sendo que “a prática contínua de atividades físicas pode ajudar a trazer sensações de bem-estar por trabalhar aspectos associados ao autocuidado e à promoção da saúde. O estudante de gestão e saúde, Rodrigo Laner dos Santos, 20 anos, chegou a interromper a academia durante a pandemia, mas, com o aumento da vacinação, decidiu retomar as atividades considerando que, para ele, os treinos ajudam a “extravasar um pouco os sentimentos ruins”.

Cais Mauá passa por revitalização Uma das principais reclamações dos moradores e frequentadores da região central de Porto Alegre diz respeito à falta de áreas públicas de lazer. Porém, em maio deste ano, após longo período de discussões burocráticas, foi iniciado o processo de revitalização e reabertura gradual do Cais Mauá, localizado no Centro Histórico da cidade. Com a abertura do espaço, os visitantes do local poderão desfrutar de boa gastronomia, espaços de lazer e cultura. A revitalização completa está prevista para terminar no prazo de cinco anos. A ideia é que o Embarcadero do Cais também possa acolher palestras e feiras de conhecimento. No momento, a estrutura já conta com restaurantes, lojas, quadras de esportes, praça náutica e playground. De acordo com o sócio-diretor da DC Set, Eugênio Corrêa, a revitalização do Cais Mauá representa uma necessidade urgente, na medida em que a população de Porto Alegre mantém uma relação afetiva com o espaço. Segundo ele, a abertura imediata do setor gastronômico possibilitará também que outras formas de ocupação sejam projetadas. Para moradores da região, o sentimento é de satisfação e alívio, pois a promessa de revitalização do espaço se arrastou por longo período. Rosangela Silva, 48 anos, é moradora do Centro Histórico e disse que a reabertura do Cais Mauá “dará ainda mais vida a essa zona já tão frequentada pelos moradores da cidade”. POR JOÃO VITOR VARGAS FIORIO

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ASSISTÊNCIA SOCIAL

Autistas sofrem com troca de rotina durante a pandemia Pessoas do espectro autista tiveram dificuldades para se adaptar ao “novo normal” sem atendimento especializado CALEB WOODS / UNSPLASH

POR MILENA SILOCCHI

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pós um ano de pandemia, e ainda somando os dias, é comum encontrar histórias de quem precisou se adaptar à realidade devastadora imposta pelo novo coronavírus. Com atividades suspensas em todo o Rio Grande do Sul, o jovem André Paesi Angrezani, 19 anos, da cidade de Farroupilha, sentiu logo os efeitos. Nas primeiras semanas, apresentou desordem emocional e desorganização nos estudos. De acordo com os relatos da família, era difícil para ele entender por que não podia frequentar as aulas. Não demorou muito para que André jogasse os próprios pertences no lixo. “Aquilo para ele não era escola, não tinha valor nenhum, porque faltou aquela figura da professora, do colega e da sala. Ele foi limpar o quarto e jogou tudo fora”, desabafa a mãe, Andréia Paesi, de 50 anos. O filho, que participa de alguns grupos e instituições para autistas, precisou mudar o ambiente de aprendizagem para dentro de casa. Uma dessas entidades é a Amafa - Associação de Pais e Amigos dos Autistas de Farroupilha, que voltou a abrir apenas no final do ano passado. Ao oferecer serviços assistenciais de saúde e educação, fechou as portas por tempo indeterminado, AUTISMO Dificuldade na comunicação social e comportamentos repetitivos são algumas das características do transtorno conforme previsto pelas regras das bandeiras, modelo anterior de congestão da foram essenciais neste momento. tura o cronograma de ações conforme explica que será necessário um processo de Covid-19 no Rio Grande do Sul. Entre as Outra família afetada pelo modelo re- a necessidade. Os pais procuraram uma adaptação, avaliando novamente os aten50 pessoas com Transtorno do Espectro moto, foi a da Júlia Baranoski da Silva, de psicóloga, Júlia realiza sessões há alguns dimentos adequados para cada um. Autista (TEA) atendidas, André frequen- 10 anos. A preocupação em contrair o ví- meses e já manifesta melhoras. tava lições de vida diária e terapias que o rus, mais problemas pessoais, fizeram com Entendendo o autismo auxiliavam no seu progresso cognitivo e que ela demorasse para retornar à Amafa. Prejuízos no atendimento A psicóloga infantil Tatiana Melo, que tem motor de acordo com Tanto os pais, SiliaCriada em 2002 por pais de autistas estudos sobre autismo e experiência de 10 anos na o seu crescimento. ne Baranoski, 40 de Farroupilha, a Amafa ficou fechada de área clínica, esclarece o Transtorno do Espectro Em 15 anos de anos, e José Orides março a outubro de 2020, o que gerou insta- Autista (TEA) como uma síndrome que atinge tratamento, estar na da Silva, 41, quan- bilidade na rotina dos autistas atendidos. De o neurodesenvolvimento. Esta é caracterizada Amafa já fazia parto os profissionais, acordo com Aline, alguns dos adultos apre- pela dificuldade na comunicação social, isto te do seu cotidiano. relataram regressão sentaram, principalmente, desordem emo- é, nas interações com outros pares, ou por um A coordenadora e em razão do tem- cional. “Eles estavam se mutilando em casa, comportamento repetitivo e interesses restritos. diretora, Aline da po parada. estavam se machucando, não conseguiam Em alguns, pode apresentar também privações Rosa, define a rotiA fisioterapeuta mais se organizar, não dormiam e se alimen- sensoriais. A realização do diagnóstico cedo na como fator deterTaynara Lodi Vi- tavam continuamente”, desabafa. - ideal até os dois anos - garante que a crianminante para manzioli acompanhou Após muitas tentativas com a Secre- ça seja estimulada, melhorando seu quadro ter a estabilidade e de perto o caso, já taria Municipal de Saúde da cidade, os clínico e cognitivo à medida que avança sua segurança. O mesque sua especiali- atendimentos terapêuticos foram liberados idade. Normalmente, é o pediatra que faz essa Andréia Paesi Mãe de estudante mo é relatado pela dade é também a como serviços essenciais. Em abril deste avaliação, contudo, outros profissionais, como mãe, que o descreve preferida de Júlia, a ano, a gestão foi autorizada a abrir todos neurologistas, também podem identificar. como imediatista, equoterapia. O mé- os atendimentos, inclusive os educacionais, A falta de preparo e conhecimento pela popois não consegue lidar com o antes e todo terapêutico utiliza o cavalo como mas com restrições no funcionamento. pulação brasileira é visto pela psicóloga como um o depois, característica esta apresenta- agente promotor de ganhos a níveis fí- “Foi algo fantástico, eles passavam as dos fatores que impede que autistas recebam o da em alguns casos de autismo. sicos e psíquicos, enviando impulsos ao mãos nas paredes, não acreditavam que tratamento adequado. Na Amafa, parte dos adulA educadora social e com formação em cérebro que estimulam o resto do corpo, estavam aqui. Eles têm essa simpatia de tos chegam sem parecer médico definido, prejupsicologia, Daniele Lino, explica que mes- mostrando resultados na postura, equi- aqui ser o lugar deles, se identificam”, dicando seu progresso, além de não conseguirem mo enviando tarefas, muito do trabalho re- líbrio e no caminhar da criança. conta a diretora, emocionada. verbalizar. A organização da rotina é primordial alizado é perdido. O isolamento e a falta de Com a volta, a funcionária percebeu No modelo remoto, era oferecido um para garantir uma estabilidade, o que foi interacompanhamento profissional especializa- diferenças no comportamento. “Ela per- número reduzido e simplificado de ativida- rompido pela pandemia e, consequentemente, do interrompem o processo, apresentando deu um pouco da confiança em cima do des por um grupo de WhatsApp, porém, de- aumentou a demanda e esforços dos profissionais novas dificuldades. Para André, as mudan- cavalo. Algumas atividades que fazia vido ao período extenso, muitos dos autistas para garantir o bem-estar de todos. Mesmo assim, ças foram um novo obstáculo, mas o apoio antes, ela recusou fazer”, relata. Para apresentaram comportamentos adversos, a gestão mantém expectativas altas para que as e carinho da irmã mais nova, Izabela, 16 retomar sua segurança com Chocolate, como ansiedade e compulsão na alimenta- medidas de controle do novo coronavírus siga anos, e da avó, Lúcia Vidor Paesi, 73 anos, animal da instituição, a equipe reestru- ção. Para conter, a educadora social Daniele permitindo o andamento das atividades.

“Aquilo para ele não era escola, não tinha valor nenhum. Ele foi limpar o quarto e jogou tudo fora”

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COTIDIANO

Atenção com higienização de alimentos faz bem à saúde Risco de contaminação na pandemia exige cuidados de consumidores na escolha dos produtos para compor refeições ALEXANDRE MORAES / DIVULGAÇÃO

Como higienizar produtos in natura PASSO 1 Lave as frutas, as verduras e legumes em água corrente.

pandemia, como é a de Covid-19, é importante saber de que forma podemos higienizar legumes e frutas que ficam expostos no setor de hortifrúti ábitos antigos e rotineiros deram es- dos mercados, o processo de preparação desses paço para o “novo normal”. Desde alimentos, e também como podemos consumarço de 2020, com a pandemia de mir substâncias necessárias para nutrir nosso Covid-19, foi necessário adotar novas regras e organismo sem risco de contaminação. normas para atividades Segundo a estudanque antes eram simples te de nutrição Pâmela do nosso dia a dia. Sair Salton, a melhor forma de casa exigiu aderir a de obter uma alimentamedidas essenciais ção saudável, rica em de cuidado e higiene, nutrientes, vitaminas e como o uso de máscara minerais, é dando pree álcool gel. Na lista de ferência para comestínovos costumes, não veis não processados e foi só o deslocamento sem adições, alimenaté o supermercado tos que chamamos para adquirir produtos carinhosamente de alimentícios que mu“comida de verdade”, dou. Também a pree ingerir bastante água. ocupação na hora de Ao chegar da feira ou adquirir principalmente mercado, é importanfrutas e verduras aute fazer a higienização mentou. Com o vírus correta das compras, causador da Covid-19 principalmente de Pâmela Salton Estudante de nutrição circulando, abre-se frutas e verduras, que um leque de precauna maioria das vezes ções e medidas que estão expostas e são devem ser colocadas em prática na hora consumidas com cascas. “A forma correta de ingerir esse tipo de alimento. para essa higienização é com água sanitária Além do conhecimento sobre quais ali- (hipoclorito de sódio), dando preferência para mentos devem ser consumidos diante de uma aquelas com concentração entre 0,1% e 0,5%. POR TORRIÊ ALIÊ BREIER

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“A forma correta para essa higienização é com água sanitária (hipoclorito de sódio), dando preferência para aquelas com concentração entre 0,1% e 0,5%”

PASSO 2 Deixe-as de molho, por 15 minutos, na solução de 1 colher de sopa de água sanitária diluída em 1 litro de água. PASSO 3 Lave-as em água corrente novamente, seque e guarde. Esse método também soluciona o problema de agrotóxicos que ficam armazenados na superfície do alimento.

É importante estar atento ao rótulo, pois nem todas as águas sanitárias são próprias para o uso em alimentos”, aconselha Pâmela.

Cuidados com hortifrúti

Para garantir segurança ao consumidor, também as empresas, principalmente do setor de hortifrutigranjeiros, precisam fazer adequações em questões sanitárias, seguindo as normas de vigilância e o manual de boas práticas, além de realização da higienização das hortaliças e dos frutos. Também o processamento (picar, ralar e cortar), para finalmente embalar de forma segura para que esse produto chegue protegido até o consumidor final são preocupações, conforme o diretor Jeferson Sauzen, da Sauzen Logística de Alimentos. A partir da compra de alimentos como frutas e hortaliças, que percorrem um longo caminho desde o produtor rural até a entrega,

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seja ela em feiras, supermercados, estabelecimentos comerciais ou até mesmo diretamente ao consumidor final, é importante que no contato com esse produto sejam aplicadas medidas importantes para higienização antes do preparo e consumo: lavar as hortaliças em água corrente, deixar de molho por 15 minutos na solução de uma colher de sopa de água sanitária diluída em 1 litro de água; lavar novamente em água corrente, para depois secar e guardar. Além da proteção contra o coronavírus, esse processo ajuda a afastar resíduos de agrotóxicos que possam ter sido usados no cultivo desses alimentos. Uma alimentação adequada e saudável contribui para a boa nutrição e garantia de funcionamento adequado do corpo, influenciando na saúde. É importante que diversos alimentos componham as refeições e que haja um planejamento adequado. O Guia Alimentar para a População Brasileira, editado pelo Ministério da Saúde, apresenta orientações práticas para cada uma das principais refeições (café da manhã, almoço e jantar). “O Brasil enfrenta um cenário marcado pelo aumento do sobrepeso e da obesidade, em todas as faixas etárias, e pelas doenças crônicas não transmissíveis, como as doenças do coração, câncer e diabetes, que se tornaram as principais causas de morte entre adultos”, diz o guia, que orienta a priorizar alimentos in natura e evitar produtos ultraprocessados para obter uma dieta mais balanceada.

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VIDA DIGITAL

Jogos assumem funções além do entretenimento Plataformas populares entre gamers servem como espaço de convívio social e até para o trabalho em tempos de home office

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om deslocamentos reduzidos devido à pandemia de Covid-19, muita gente ficou com mais tempo online disponível em casa. Nesse espaço, os jogos eletrônicos, ou videogames, ganharam popularidade por oferecerem além de uma atividade para passar o tempo, também um meio para a socialização com amigos e a realização de uma atividade em conjunto, mesmo que à distância. Segundo levantamento da Pesquisa Games Brasil (PGB), cerca de 72% dos brasileiros têm o costume de jogar em alguma plataforma, 46% deles concordam que jogaram mais durante o período de isolamento social. Também 42,2% concordam que gastaram mais dinheiro em jogos durante o período de isolamento social e 26,3% deles marcaram de jogar durante a pandemia. No total, 19,2% jogam de 8 a 20 horas por semana. Ao mesmo tempo, o mercado de jogos cresceu 19,6% em 2020, chegando a um valor de 174,9 bilhões de dólares, comparado ao valor de 148,8 bilhões de dólares em 2019. Além da pandemia, que pode ser um fator que colaborou com esse crescimento, no final de 2020 houve o lançamento dos consoles dedicados de jogos da Sony e Microsoft, o Playstation 5 e Xbox Series X, que deixaram os gamers ávidos por investimentos. Conjuntamente, aplicativos como o Discord, plataforma utilizada para interação por voz e vídeo voltada à comunidade gamer (todos aqueles que jogam), mostrou um notável crescimento do número de usuários e comunidades. Em 2018, o aplicativo contava com 45 milhões de usuários ativos, número que cresceu para 56 milhões em 2019. No ano seguinte, o número quase dobrou, contando com 100 milhões de usuários ativos em 2020. Nos primeiros meses de 2021, chegou a 140 milhões. Em 2018, o Discord contava com 4,4 milhões de comunidades ativas, número que cresceu para 6,7 milhões em 2020. O Discord é um aplicativo que apresenta opções de conversar por voz, vídeo ou texto, podendo ser separadas por conversas individuais ou pelos chamados “servidores”. Uma conta pode estar em até 100 servidores da plataforma, esses podem ser criados por qualquer pessoa para criar uma comunidade de amigos, colegas de trabalho, grupo de jogadores, etc. Um servidor pode agrupar um grupo de pessoas divididas em inúmeras salas de texto, áudio e vídeo,

ou seja, dentro de um servidor é possível acontecer mais de uma chamada ao mesmo tempo, cada um com seu assunto e na sua sala, sem a interferência de uma na outra. A capacidade máxima de um servidor é de 250 mil pessoas, podendo ser aumentado pela própria plataforma com 25 mil pessoas online simultaneamente.

Trabalho gameficado

O crescimento das interações virtuais teve repercussão no mundo real para muitos jogadores. Estudante de Realização Audiovisual da Unisinos Porto Alegre, Bruno Machado, de 21 anos, “profissionalizou” o entretenimento durante a pandemia. Ele

conta que de outubro de 2019 a outubro de 2020 permaneceu em um time de League of Legends, ou LoL, um jogo eletrônico online de batalha entre jogadores. Nesse período, entrava diariamente para conversar com os amigos que conheceu no time. A amizade foi além do Discord, contatando essas novas amizades por WhatsApp e em outras redes sociais, como Instagram e Twitter. Quando saiu do time, começou a pesquisar para se tornar treinador de times de LoL e hoje é treinador de dois times, Academy e Frostbite. Também é treinador assistente de outro time, o Line Principal. Atualmente, junto com um amigo, está montando uma plataforma de ensino e

GABRIEL M FERRI

POR GABRIEL M FERRI

MAIS CONECTADOS Aplicativos usados por jogadores ganharam protagonismo como ferramentas de interação durante o período de isolamento social

treinamento para jogadores de League of Legends, junto com um time próprio da plataforma para campeonatos. Já Carlos Oliveira, de 29 anos, morador de Caxias do Sul, passou a utilizar o Discord na empresa que trabalha, além de socializar com colegas de trabalho e amigos - a versão online do happy hour. Ele conta que todos os funcionários têm idades entre 19 e 26 anos, mais da metade é gamer. Logo, já conheciam ferramentas como Teamspeak (outra plataforma de voz voltada ao público gamer, semelhante ao Discord), Skype, entre outros. “A decisão pelo Discord foi tomada por já termos experiência com a ferramenta em partidas online, 25% dos funcionários seguem em home office utilizando o Discord para se manter conectado com os demais”, explica. Oliveira ainda comenta que utiliza a plataforma depois do horário de expediente, com os colegas de trabalho, para jogar, seja no servidor da empresa ou em um servidor separado. No início deste ano, segundo o The Wall Street Journal, houve conversas entre o Discord e a Microsoft para uma possível aquisição pela gigante da tecnologia, no valor de 10 bilhões de dólares, o que seria mais um indicativo do crescimento do aplicativo. O acordo não foi concretizado até agora. Já o mercado de jogos tem uma previsão de lucro para além de 200 bilhões de dólares em 2023, por mais que a projeção para 2021, segundo a Newzoo, seja uma queda de 1,1% comparado ao ano passado.

46% dos gamers concordam que jogaram mais no período de isolamento social e 42% concordam que gastaram mais dinheiro em jogos durante a pandemia

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PIXABAY

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CULTURA

O legado da Moenda da Canção Um dos mais longevos do Estado, a história do festival se entrelaça com a de muitos moendeiros em Santo Antônio da Patrulha RAFFAELA REIS / ARQUIVO PESSOAL

DESAFIO Raffaela ajudou na produção da 34ª Moenda da Canção, realizada em 2020. Devido à pandemia, Festival não contou com a presença de público

POR MAYANA SERAFINI

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ediada no município de Santo Antônio da Patrulha, a Moenda da Canção é um dos mais longevos festivais de música do Rio Grande do Sul. Criado em 1987 e ativo até os dias atuais, o evento não se tornou apenas um palco para a música, mas também um lugar de histórias e de encontros. Assim como a de muitos patrulhenses, a vida da jovem Raffaela Reis perpassou a Moenda da Canção. Do berço ao TCC, o festival sempre esteve presente em sua própria história. Raffaela relata que, desde pequena, nunca faltou a uma edição do festival, tradição essa que herdou de seus familiares. Seu pai, fundador de um dos maiores CTGs do município, ajudou na organização da primeira edição do concurso musical, que na época ainda continha um viés tradicionalista. Desde então, a família, grande apreciadora de música, não deixou de prestigiar a Moenda. Com 15 anos, a jovem deixou de ser apenas uma espectadora fiel e se voluntariou para participar da organização do evento. Através dessa experiência, ela descobriu sua paixão pela produção cultural. Raffa, como é normalmente chamada, conta que, inicialmente, devido à pouca idade, realizava pequenas tarefas administrativas, porém, com o tempo e a confiança conquistada com seus colegas, foi se destacando e adquirindo novas funções, chegando a ser vice-presidente da Moenda – Associação de Cultura e Arte Nativa em 2020. Foi ali, nos bastidores da Moenda da Can-

ção, que Raffaela decido festival e criar boas diu ingressar no curso lembranças. de Relações Públicas. Sobre memórias O festival esteve precolecionadas ali, Rasente até mesmo em ffaela pode falar com seu trabalho de conclupropriedade. Duransão de curso. Formada te os seus 26 anos de pela Universidade Feidade, ela viveu de Raffaela Reis Relações-públicas deral do Rio Grande modo literal o slogan do Sul em 2018, a pado evento que diz “a trulhense apresentou à gente cresce com múbanca um estudo de caso sobre o evento. Para sica”. Ao longo de sua história com o festiescrever a monografia, Raffa precisou entre- val, a relações públicas coleciona momentos vistar patrocinadores, produtores e o público inesquecíveis. Quando perguntada sobre sua in loco durante uma das edições, o que fez memória favorita, ela cita a performance com que ela ganhasse um novo olhar sobre o marcante que o intérprete Evandro Moah festival. Ela relata que com o seu trabalho pôde fez da canção “A Cidade” no palco da 15ª mostrar a importância da Moenda tanto na Moenda da Canção, sendo essa a grande sua vida pessoal, como na profissional. vencedora do concurso musical naquele ano. Outro momento destacado por Raffa foi a aprePaixão da comunidade sentação do renomado cantor nativista José A história de Raffaela é somente uma entre Cláudio Machado — morto em 2011 devido a história de centenas de moendeiros, nome a complicações pulmonares — em 2006, na dado aos ávidos admiradores do espetáculo. marca comemorativa de 20 edições do festiAo longo de suas 34 edições, a Moenda da val, onde foram performadas apenas canções Canção criou um grande vínculo afetivo com a de edições anteriores. O músico emocionou população local. Vínculo esse tão grande que, o público ao cantar seu sucesso “Milonga durante anos, os moradores abriram as portas Abaixo de Mau Tempo”, fazendo com que de suas residências para receber os músicos a plateia o acompanhasse em coro. participantes da competição. Como o principal evento cultural do município, a Moenda se Versão virtual tornou uma memória familiar, fazendo com Neste ano, Raffa completa 11 anos partique as arquibancadas do ginásio de esportes cipando ativamente na organização da Mo— palco do concurso — fossem tomadas por enda. Em 2020, enquanto ocupava o cargo de gerações de famílias que ali se encontravam vice-presidente da associação, encarou um dos para escutar boa música, cultivar o legado maiores desafios na organização do evento: a

“Desde pequena, nunca faltei a uma edição do festival”

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pandemia causada pela Covid-19. Segundo ela, o festival teve que ser todo repensado e a solução encontrada para a realização da 34ª edição foi apostar no formato híbrido, em que somente os músicos participaram presencialmente e o público acompanhou o show através das redes sociais. Assim como Raffaella, Sandreli Bandeira, produtora cultural que participou da organização atípica da competição musical, relata que um dos principais obstáculos na realização do evento foi a resistência dos próprios moendeiros voluntários. Isso ocorreu devido ao fato de que a maioria deles participa da associação desde a sua origem, fazendo com que a mudança repentina fosse refutada no início. No final, a experiência foi positiva e deve manter-se na 35ª edição, que ocorrerá em 2021. Com previsão para acontecer no final de setembro, o festival já está se movimentando para produzir mais uma edição memorável ao seu público. Segundo Sandreli, alguns estudos estão sendo realizados para garantir um maior auxílio financeiro aos músicos participantes, classe tão afetada pela crise ocasionada pela pandemia do novo coronavírus. Além disso, serão contratados para trabalhar no evento apenas profissionais habitantes do município, visando a valorização da mão de obra local. Por enquanto, o encontro presencial da Moenda da Canção com seu público fiel ainda é incerto. Porém a Moenda segue girando, criando seu legado entre gerações e entrelaçando sua história com a vida inúmeros moendeiros.

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CULTURA

Festival de Cinema resiste à crise Evento precisou se reinventar na pandemia, preservando o objetivo de incentivar a criação cinematográfica no país NATHALIA JUNG

POR NATHALIA JUNG

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ascido em 1973 e consagrado com o título de maior festival de cinema ininterrupto do Brasil, o Festival de Cinema de Gramado é realizado anualmente e, ao longo dos anos, foi palco de grandes obras cinematográficas e discussões sobre arte e cultura brasileira e latino-americana. Ao longo dos anos o evento atravessou crises políticas e econômicas, mas se manteve fiel ao propósito de trazer olhares inusitados para o cinema nacional e dar visibilidade à cidade de Gramado. “Essa missão não apenas foi cumprida, como tornou o evento um dos mais importantes da América Latina, consagrando Gramado no imaginário popular. Os impactos são gigantescos para a cidade”, relata Diego Scariot, diretor de eventos da Gramadotur, autarquia municipal responsável pela realização do evento. O Festival sempre ofereceu impulso ao setor audiovisual e, na edição de 2020 e também na edição que será realizada neste ano, o evento quebra barreiras e alcança novos patamares de importância nacional. “Toda a nossa equipe tinha a mesma certeza: de que precisávamos realizar o Festival. Muito em respeito ao nosso legado, mas também em respeito a todos que fazem cinema no Brasil e que estavam desamparados”, comenta. Para Boca Migotto, cineasta, pesquisador, fotógrafo, escritor e vencedor do prêmio de

SÍMBOLO Estátua do Kikito, exposta na entrada da cidade de Gramado, representa o prêmio máximo do Festival de Cinema

Melhor Direção na categoria Curtas-Metragens Gaúchos do Festival de Cinema de 2019, a pandemia apenas agravou um cenário já catastrófico. “Os artistas foram os primeiros a parar e serão os últimos a voltar. Ao mesmo tempo, foi uma das áreas da economia menos assistida pelos governos federal e estadual e pelas administrações municipais. Sabemos que as artes, a cultura e até a educação nunca foram prioridades no Brasil, apesar dos

discursos. Cultura e arte não apenas não importam a esse governo como foram eleitas inimigas a serem destruídas”, critica. Diante desse cenário, o Festival se torna um espaço de luta e resistência para o mercado audiovisual, pois se mostra um meio de divulgação e incentivo à criação cinematográfica. “Manter um evento do porte do Festival de Cinema de Gramado, mesmo em pandemia e em um cenário tão desafiador, reforça

Mister Francis quer viajar o mundo com apenas uma mágica JOSÉ AIRTON DA SILVA FRANCELINO / ARQUIVO PESSOAL

POR GABRIEL MUNIZ

Elaborado e executado por José Airton da Silva Francelino, 55 anos, conhecido como o Mister Francis, o Projeto Sinal Mágico quer ganhar visibilidade no livro dos recordes. O mágico estuda formas de concorrer em diferentes categorias do Guinness como, por exemplo, menor show do mundo e volta ao mundo com apenas uma mágica. O projeto é concebido a partir da apresentação de uma única mágica, protagonizada nos intervalos entre um semáforo e outro, em São Leopoldo. O show, justamente por ser curto e objetivo, poderá oferecer as condições exigidas para que Mister Francis ganhe seu lugar no concorrido “Guinness Book”. Porém, para que este sonho seja realizado, é exigido uma contagem exata de quantas pessoas viram a apresentação em determinado período, sendo preciso registrar tudo sem cortes na filmagem.

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GUINNESS José Airton sonha em carimbar seu nome no livro dos recordes com a menor apresentação de mágica do mundo

“Dinheiro, fama e sucesso só vêm antes do trabalho no dicionário”, relata o mágico leopoldense, que há cerca de dois anos organiza o projeto em quatro diferentes etapas: municipal, regional, nacional e mundial. No momento, Mister Francis está na fase nacional, que começou no ano passado, em São Paulo. Ele aguarda ser vacinado contra a Covid-19 para poder viajar ao Rio de Janeiro e

dar seguimento ao projeto. Trajado de fraque e cartola, Mister Francis chama a atenção dos motoristas em suas apresentações nas sinaleiras de São Leopoldo e, também, das outras cidades por onde expande seu projeto. “É muito legal. Passo por aqui voltando do trabalho e é sempre um mini show”, relata o motorista Alyson Silva, de São Leopoldo.

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nosso compromisso com os realizadores e acredito que dê fôlego para que todos sigam produzindo filmes”, comenta Diego. O evento seguirá os moldes da edição do ano passado, mesclando o digital com a televisão. Entre os dias 12 e 21 de agosto, o Canal Brasil transmitirá as principais Mostras Competitivas e exibirá os longas-metragens gaúchos na grade da programação, dando visibilidade às produções do Festival. O Canal ainda fará a cobertura jornalística e a transmissão ao vivo da cerimônia de premiação. Além do Canal Brasil, a emissora pública TVE-RS será palco da Coletiva de Lançamento do evento e do anúncio dos filmes concorrentes, prevista para a primeira quinzena de julho. A 49º edição do Festival de Gramado já conta com 760 produções inscritas, o que representa um aumento de 14% no número de participantes em relação ao ano passado. A Gramadotur espera alcançar o público de 2020 e realizar o evento com a mesma excelência das outras edições. “Com as transmissões pelo nosso site, YouTube, Facebook, Canal Brasil e TVE-RS, ultrapassamos os 2 milhões de espectadores no último evento. Foi de longe a nossa maior plateia. Isso significa um aumento de 18.000% na audiência se levarmos em conta a última edição presencial, realizada em 2019. Este ano, esperamos que o público siga conosco e que possamos levar o melhor do cinema brasileiro e latino para a maior quantidade de lares possíveis”, finaliza Diego.

Documentário resgata narrativas trans Aprovado pelo Edital “Criação e Formação - Diversidade das Culturas”, vinculado à Secretaria de Estado da Cultura do Rio Grande do Sul e Fundação Marcopolo, “Intransitivo: um documentário sobre narrativas trans”, está disponível no YouTube e apresenta narrativas de oito pessoas trans de diferentes cidades gaúchas. O objetivo do projeto é oferecer protagonismo e partilhar a essência dessas histórias no contexto de um sistema em que direitos e sonhos são vulnerabilizados. O Brasil é um dos países que mais matam transgêneros no mundo. Gabz 404, Gustavo Deon, Lau Graef Dutra Camargo e Luka Machado, pessoas trans, multi-artistas, ativistas e idealizadores do projeto, se uniram para dar vida e visibilidade ao documentário. “Buscamos através desse projeto ser representatividade trans em meio a tantos conteúdos audiovisuais transfóbicos e excludentes que vêm sendo produzidos, destaca Luka. As gravações do projeto iniciaram no dia 21 de maio em locais escolhidos pelos próprios entrevistados. As pessoas que participam do projeto foram selecionadas através de um formulário online que obteve 304 inscrições e mais de 80 mil visualizações no Instagram, contando com o apoio de diversas figuras de representatividade LGBTQIA+. “Falar sobre pessoas trans sempre foi um desejo meu e das pessoas que me rodeiam”, explica Gustavo. O grupo tem o desejo de que suas vozes sejam cada vez mais fortes e poderosas e que mais pessoas possam se unir a essa luta. Afinal, a transgeneridade não deve ser um assunto discutido somente por pessoas trans. POR NATALIA BARIVIERA


CULTURA

Peça trata sobre arte e Alzheimer Cia Teatral Una, de Gravataí, apresenta espetáculo inédito que conta a história de Rodolfo, idoso que desde cedo se descobriu artista FERNANDA NAIMAIER

POR FERNANDA NAIMAIER

C

om previsão de estreia para novembro, a Cia Teatral Una apresentará o espetáculo teatral “Il Vecchio” (O Velho, em italiano). A peça conta a história do velho Rodolfo, personagem fictício que narra sua trajetória de vida em meio à arte e o mal de Alzheimer. A apresentação será gravada no Teatro Sesc Gravataí e, posteriormente, disponibilizada gratuitamente ao público através das redes sociais da companhia. Trazendo uma nova proposta em relação aos trabalhos anteriores da Cia, a Una se viu motivada a retratar a arte na perspectiva da velhice. A escolha do tema deu-se em meados de 2018, após o diretor do espetáculo, Israel Rosa, e alguns atores debateram despretensiosamente sobre Alzheimer e sua relação com os idosos da família acometidos pela doença. A construção do personagem central e de sua trajetória de vida será baseada, portanto, nas experiências dos atores com familiares e pessoas próximas, além de relatos que serão coletados com idosos em asilos de Gravataí. “Além das histórias que conhecemos, queremos montar o personagem nos baseando em momentos e histórias de pessoas reais que convivem diariamente com a doença. Claro que respeitando muito o espaço do idoso e o que devemos usar ou não no nosso roteiro”, declara Israel.

Para a coleta de informações, bailarina? Mesmo com Alzheias entrevistas serão registradas mer e depois de muitos anos ela em áudio e vídeo e, depois, ainda se lembra da coreografia transcritas para serem inseridas do espetáculo do Cisne Negro. ao texto final e na preparação Acho incrível essa força que a dos atores. Juliano Bittencourt é dança, o teatro e a música têm o ator que representará Rodolfo na gente, pois mesmo com a e participará das entrevistas. Ele memória enfraquecida a codestaca a importância de expereografia ainda se faz presente rimentar esse momento. “Para na vida da artista”. O vídeo mim a vivência com os idosos ao qual Israel faz menção foi será fundamental para a prepaproduzido em 2019 com a bairação do personagem, permitinlarina espanhola Marta Cinta, do saber das histórias que ainda no asilo onde residia. No trelembram e como nos contam cho, a bailarina ouve a músielas, as marcas que o Alzheimer ca clássica da coreografia do deixa nessas pessoas e nas suas Lago dos Cisnes e ensaia alguns famílias e também a percepção passos, mesmo já debilitada e dos profissionais que trabalham numa cadeira de rodas. diariamente com eles”, destaca. Perpassando dificuldades, Ao falar sobre Rodolfo, Isarte e amor, o espetáculo “Il rael o descreve como um hoVecchio” apresenta ao público mem simples que se percebe ara vida e obra de Rodolfo para tista desde muito cedo e tem sua abordar os desafios da “melhor escolha profissional questionada idade” e do Alzheimer de forpela família. Isso o faz sair de ma leve e lúdica, mas de forma casa e ganhar o mundo em busca TRAJETÓRIA DE VIDA David (à esquerda) e Juliano vivem o alguma menos séria. do seu futuro através da arte. personagem principal, Rodolfo, nas fases jovem e adulta A Companhia Teatral Una, Jonathan Madeira, responde Gravataí, atua desde 2012, sável pelo teatro do Sesc Gravataí, ressalta do grupo, quanto para nós que convivemos ano que ganhou o 1º Edital do Fundo a importância da temática apresentada no diariamente com eles”, enfatiza. Municipal de Cultura com o espetáculo espetáculo. “No Sesc temos o grupo MaturiO diretor da peça destaca ainda a im- infantil “Os Mochileiros”. Desde então, dade Ativa, então é muito importante apre- portância e o papel da arte no tratamento a Cia atua com apresentações de teatro, sentar temas como esse, tanto para o pessoal de doenças senis. “Já viu aquele vídeo da música e contação de histórias.

Relembrando a história de uma sociedade isolada POR PETRA KARENINA

A cerca de 50 quilômetros de Porto Alegre, no município de Viamão, fica uma microcidade construída para abrigar indivíduos portadores de hanseníase, uma doença contagiosa para a qual, nos anos quarenta do século passado, não se conhecia a cura. Com o objetivo de evitar a propagação e controlar a enfermidade, foram implantadas, durante o período do Estado Novo, políticas de saúde pública que visavam separar os infectados do convívio em sociedade com a criação de leprosários em todo o país. O lugar é conhecido como Colônia Itapuã e, segundo a auxiliar administrativa Isabel Ropertti, contava com recursos para funcionar de forma autônoma. A colônia atendeu 1.454 mil pessoas internadas compulsoriamente, todas privadas do contato com amigos e familiares. Pessoas próximas podiam visitá-las somente através da cerca que

separava a “área suja”, composta por pacientes, da “área limpa”, onde ficavam funcionários, médicos, visitantes e as Irmãs Franciscanas que ajudavam nos afazeres da Colônia. A organização inter na acontecia em pavilhões que separavam homens e mulheres. Também havia o pavilhão dos casados e o internato para as crianças. Apesar do isolamento, eventos, futebol e bailes tentavam reproduzir as cerimônias do mundo externo e, na tentativa de restaurar seus direitos e normalidades como cidadãos, muitos casaram e tentaram construir uma família no local. Os casamentos aconteciam após a aprovação da administração local e, então, o casal se mudava para seu respectivo pavilhão. Para as mães que concebiam na Colônia, os relatos são dolorosos, pois seus bebês eram levados após o nascimento, obedecendo a um decreto que proibia até mesmo a amamentação. As crianças eram entregues ao Amparo Santa Cruz,

PETRA KARENINA

LEPROSÁRIO O portão dividia a área dos sadios da área dos doentes, e trazia a frase simbólica “nós não caminhamos sós”

onde permaneceriam até os 16 anos. A polêmica e controversa decisão trouxe problemas às famílias, que, posteriormente, com o avanço do tratamento da doença e a abolição da internação compulsória, em 1954, sofriam com o processo de adaptação e reintegração entre a família e a sociedade. Quando os internos resti-

tuíram sua liberdade de ir e vir, os anos de exclusão social voltaram a interferir em suas reintegrações. Muitos já não tinham mais vínculo com o mundo externo e, alguns, tentaram sair e não foram aceitos em suas comunidades. Outros precisaram mudar de nome e esconder seu passado. Foi nesse contexto que mui-

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tos retornaram à Colônia e vivem lá até hoje. Mais de 81 anos após sua inauguração, restam apenas seis residentes ex-hansenianos dentro dos portões e, outros 15, vivendo nas proximidades. Os antigos pacientes, já com idade avançada, contam com o suporte do espaço e do governo, tem veículo disponível para sua locomoção, recebem rancho e, antes da pandemia, faziam visitas anuais à praia, iam a Gramado, acampavam, participavam da Festa do Peixe (celebração anual de Itapuã) e recebiam visitas. Se o passado reserva cicatrizes, hoje eles fazem sua felicidade entre amigos e família, se encontram para tomar café colonial, rezam a missa, zelam por sua casa e não pretendem ir embora. “Eles têm um vínculo tão grande com a Colônia que alguns não querem ser enterrados fora do hospital. Querem continuar aqui para sempre”, relata Isabel sobre os residentes que encontraram paz em Itapuã.

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OPINIÃO

Anitta, a nova “Girl From Rio” POR AMANDA BIER

A cantora Anitta causou, mais uma vez, alvoroço na internet com sua mais nova produção “Girl From Rio”, lançada na última semana de abril. Quem costuma acessar as redes sociais digitais, com certeza viu imagens da cantora em uma cadeira de plástico azul na frente de um ônibus. Como todo projeto grandioso da artista, a divulgação do clipe ganhou um excelente trabalho de marketing antes da estreia. Desta vez, Anitta quis mostrar um Rio de Janeiro cheio de contrastes e diversidades para desmitificar a imagem romantizada de “cidade glamurosa” com “mulheres esculturais” que se vendeu por décadas mundo à fora. Para desconstruir esse estereótipo, o clipe é dividido em duas temáticas: uma mais retrô, com tons pastéis, dos anos 1960, que fazem referência à bossa nova e ao clássico “Garota de Ipanema”, composta por Tom Jobim e Vinicius de Moraes, e a outra mais contemporânea, com festa, churrasco, cerveja e pegação no Piscinão de Ramos. De uma mulher bem arrumada e recatada, surge, de repente, uma mulher livre, dona de seu corpo e de sua sexualidade. Nesse cenário, também aparecem corpos múltiplos, de todos os tamanhos, majoritariamente negros, que quebram o

padrão idealizado na música “Garota de Ipanema”. Em sua nova canção, Anitta mostra suas origens e também passa para o mundo a mensagem que as garotas do Rio de Janeiro não seriam modelos, mas reais. Diz a letra: “Garotas gostosas de onde eu venho/ Nós não parecemos modelos/ Linhas bronzeadas, grandes curvas/ E a energia brilha”. Para este novo momento, Anitta apostou no que é mais conhecido: a bossa nova e o MPB. Ao fazer uso do sample de “Garota de Ipanema”, uma das canções brasileiras mais conhecidas do mundo, a artista aproveitou para incluir algumas batidas de funk, pop e traços do trap norte-americano. Para alavancar ainda mais a carreira internacional, a faixa é completamente em inglês. Além disso, 30 dias antes do lançamento do seu hit, foi construída uma campanha de marketing nas redes sociais para a divulgação do clipe. No Instagram, Anitta postou diariamente fotos de mulheres famosas e anônimas em seu perfil e imagens de momentos históricos da cidade maravilhosa para gerar curiosidade e ganhar a atenção do público. O resultado é uma narrativa audiovisual, no mínimo, provocativa. Todo esse trabalho de divulgação foi essencial para mostrar ao mundo um pouco da cultura carioca. E se há algum artista capaz de fazer isso hoje, definitivamente, é a Anitta, a Girl From Rio.

Cruella cruel? A vilã fashion da Disney POR LAURA CATHARINA PERES SANTOS

“Dizem que existem cinco estágios no luto: negação, raiva, negociação, depressão e aceitação...Eu gostaria de adicionar mais um, a vingança”. É com essa frase que Estella, brilhantemente interpretada por Emma Stone, uma jovem com talento e equilibrada, passa a ser, de vez, Cruella de Vil, um símbolo da moda que busca vingança a todo custo. No novo live action da Disney, Cruella, lançado no último dia 28 de maio na plataforma de streaming Disney+, para quem compra o acesso ao filme, somos apresentados a uma nova face de uma das vilãs mais icônicas dos estúdios Disney. Com um passado triste após a perda da mãe, a jovem Estella passou dez anos de sua vida se culpando pela tragédia que acarretou na morte de Catherine. Na Londres punk dos anos 70, muito bem retratada através da trilha sonora e do figurino, com seus novos amigos Jasper e Horácio, Estella passa a roubar para sobreviver. Ela acaba se envolvendo com a moda e a estilista Baronesa – uma mulher sem muito caráter e humanidade - vê nela um grande talento para a criação de peças fashionistas, iniciando, indiretamente, uma disputa no mundo da moda. O universo fashion da produção, inclusive, já rendeu uma intensa onda de

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postagens sobre o filme entre os especialistas da temática, nas redes sociais. Com o decorrer da trama a Disney consegue fazer com que criemos uma ligação com a personagem principal quando, desde pequena, mostra uma vida cheia de provações e dificuldades. Apesar do brilhantismo na hora de escolher o elenco, a trilha sonora e o figurino, o filme peca muito na questão de roteiro, sendo todos os outros personagens meros agregados na história. Além disso, a Cruella não parece ser tão maligna assim, tendo como um de seus melhores amigos o cachorro Buddy. Foi um filme muito bem dirigido, mas que pecou na hora de narrar e contar a história dos personagens principais. Anita e Roger, casal protagonista da animação dos 101 Dálmatas, não recebem espaço algum no longa, algo que poderia ser melhor explorado. Falta um requinte de crueldade em uma das maiores vilãs de animação, porém conseguimos interpretar que ela se tornará uma pessoa má. Apesar desses pequenos erros, Cruella é um filme bom, que traz um novo nível para os live action da Disney. A qualidade de atuação e direção que o filme apresenta faz com que esqueçamos esses deslizes e mais uma vez acabamos com pena e entendendo a existência de Cruella. O filme está em cartaz nos cinemas e a partir de julho estará disponível para todos os assinantes do Disney+.

Pose chega ao fim com aula de amor e luta POR ANDRESSA MORAIS

A série Pose foi aclamada no Brasil e nos Estados Unidos desde a primeira temporada, em 2018. Criada por Ryan Murphy, Steven Canals e Brad Falchuk, ficou conhecida por ter o maior elenco de atores transexuais da história da televisão americana. A trama tem como cenário a cultura ballroom dos anos 80 e 90, em Nova York, e acompanha a história de Blanca, uma mulher trans que abriga jovens da comunidade LGBTQIA+ em sua casa. Em maio de 2021, estreou a terceira e última temporada da produção, que trouxe mais emoção, detalhes e amarrou todas as pontas soltas. Nas temporadas anteriores, conhecemos mais a Blanca, mãe da casa Evangelista e um pouco dos seus filhos. Já na terceira temporada, a narrativa mostra outras histórias, como dos organizadores dos bailes, membros de outras casas, a médica Nurse Judy (Sandra Bernhard), que lutava pelas comunidades trans e gay, e da incrível Elektra (Dominique Jackson), um dos momentos mais emocionantes e esclarecedores da trama. Ainda no começo dos episódios, a série mostra o passado da Elektra, que permeia entre a história da personagem e a realidade vivida por muitas mulheres trans, a falta de espaço, representatividade e o preconceito protagonizado por uma sociedade cis-heteronormativa e branca, inclusive por parte da própria família. São nessas cenas que os

criadores deixam claro o motivo dela ter uma personalidade forte, que acaba afastando as pessoas que a amam na trama. Mesmo com cenas que são tristes e dolorosas de assistir, Murphy tem muito cuidado ao abordá-las. A produção mostra realidades vividas nos anos 80 e 90, que se estendem até 2021, mas não de forma vaga, eles fazem isso com contextos históricos, culturais, emoção e protagonismo dos personagens, o que torna a trama ainda mais rica, assim como a representatividade. Na terceira temporada, vemos os personagens conquistando os espaços e empregos que querem estar. Assim como na primeira e segunda temporada, os figurinos luxuosos dos bailes surpreendem. A fotografia segue com a proposta de telespectador quem assiste para outra época e para os ballrooms. Os atores, principalmente a MJ Rodriguez (Blanca), o Billy Porter (Pray Tell), Dominique Jackson (Elektra) e Indya Moore (Angel), tornam as cenas muito emocionantes com interpretações realistas. Os diretores não exploraram grandes reviravoltas ou mudanças extremas, mas se fizessem, talvez pudesse estragar o final de uma construção que foi emocionante do começo ao fim. A atenção do público é direcionada para as subtramas dos personagens, passando por presente e futuro, para que fique claro o porquê de tudo e como cada história de liga ao longo da série. Quando for assistir, prepare o lencinho, mas fique atento em cada cena, porque é uma aula de amor e muita luta.

O conto de Aia: entre o político e o pessoal POR RODRIGO WESTPHALEN

Em maio deste ano, a quarta temporada de O conto da Aia (The Handmaid’s Tale) teve início e, então, passou a ter seus episódios pingados semanalmente no serviço de streaming da Paramount+ aqui no Brasil. A série notabilizou-se pelos inevitáveis paralelos com a ascensão de uma extrema direita despótica que começou a se insinuar pelo mundo, sobretudo entre nós, brasileiros. A continuidade da narrativa, no que pese sua contundência, parece dar sinais de cansaço. A tragédia dramática e aterrorizante, que caracterizou a série desde a primeira temporada, passa a ganhar outras tonalidades. A transformação no arco da protagonista começa a ficar mais evidente, ainda que não tão tragável, e a esperança de que é possível destruir Gilead - o país controlado por uma teocracia sexista, em que mulheres férteis são apenas capital reprodutivo - começa a dar as caras. Nesse sentido, a atmosfera de intensa distopia da série, parece arrefecer-se. Mas, honestamente, já é meio tarde. Ainda que com pequenos momentos de alívio e renovação, a narrativa já vinha se estendendo de forma massante. Agora, no final da quarta temporada e com a confirmação da quinta, fica a sensação de que perdeu o timing de

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encerrar. O sofrimento da protagonista, June Osborne, e daqueles que ela gosta há muito não parece desenvolver o enredo. De certo modo, a série, na tentativa de se manter por mais uma temporada - e então mais outra -, acabou por ofuscar a crítica política e resultar em uma catarse sádica de vingança. O arco da protagonista começou a se resolver em uma personalidade muito autocentrada e de crescente violência - um quadro mental onde restam poucos afetos positivos. Fica cada vez mais evidente uma história de um anti-herói cujo único propósito é causar dor e dano ao sistema que tanto o machucou (vide O Coringa e Bom dia, Verônica). Uma narrativa que nos faz ter uma empatia ambígua com a causa do protagonista e seus sentimentos, mas falha em trazer uma solução estrutural para o problema que catalisou todo o processo lá no início e cuja razão é sistêmica, não individual. A temporada, por outro lado, trouxe de relance uma crítica social que não ficara tão evidente até então: o mercado, deixado livre, também pode ser violento contra as mulheres de sua própria maneira. Infelizmente, essa pincelada dura um único episódio e também não desenvolve como poderia. Quem pegou, pegou, quem não pegou... voltamos à programação normal de causar dor à protagonista.


MEMÓRIA LOCAL

Ironia histórica em protesto no centro de São Leopoldo Manifestação a favor do “tratamento precoce” contra Covid-19 ocorreu em frente à estátua de médico preso na Ditadura Militar POR THOMÁS DOMANSKI

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Preso na Ditadura

João Carlos realizou um de seus sonhos ao cursar Medicina na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), onde começou a conhecer um pouco mais sobre a realidade do Brasil e de diversos outros países da América Latina. Sem dúvida, foi um aluno bastante inquieto e levantou muitas questões referentes a causas humanitárias, como conta Sônia. Em 1964, ano em que se iniciava a ditadura militar no Brasil, foi preso por ser presidente do centro acadêmico. Nessa época, os militares fizeram varreduras nas principais lideranças das universidades, onde os pensamentos de esquerda estavam efervescendo. Após sua prisão, por exigência do reitor e dos professores, Dr. Juca foi solto e pôde

guerrilha começou historinha que eu não a ser noticiada em estava entendendo. jornais alternativos Era uma relação muie o livro ‘’Guerra de ta bonita!’’. Guerrilhas do AraApesar da morte guaia’’ de Fernando de João Carlos ter Morais foi publicado, ocorrido em 1972, a a família tomou cofamília ficou sete anos nhecimento de sua sem informações. Por morte. Em 1996, os isso, o processo de familiares conquistaluto só teve início a ram um atestado de partir de 1979, mas óbito, mas apenas 47 foi um algo muito anos depois de seu difícil, afinal não desaparecimento foi existia corpo, não realizada uma retiexistia documento ficação na certidão e não existia certede óbito, reconheza. Sônia conta que Maria Eduarda Magro Historiadora cendo que a morte apesar da conquista foi causada pelo do atestado de óbito, Estado brasileiro. não houve uma ceriSônia lembra que a relação com o ir- mônia de despedida e isso continua famão sempre foi pautada pela admiração. zendo falta até hoje. Para a historiadoComo João Carlos ingressou no curso de ra Maria Eduarda, essa vida que não se Medicina, exatamente no ano em que ela pode velar ainda se mostra presente por nasceu, os dois se viam apenas nos finais tudo o que Dr. Juca deixou de legado e de semana. Mesmo assim, ele sempre foi por suas atuações humanitárias. muito atencioso e carinhoso, e deixou marcas em sua infância: ‘’Ele era um sonho, Homenagem na terra natal Morte no Araguaia uma esperança do final de semana, de me A iniciativa de criar um busto de João No ano de 1972, o médico supostamente dar uma atenção, de conversar sobre minha Carlos partiu da própria prefeitura de São foi morto em combate pelos militares. Ape- bicicleta que tinha um problema, sobre al- Leopoldo, na gestão de Ary Vanazzi. A nas no final de 1979, quando a história da gum joguinho que eu não sabia jogar, uma ideia não era apenas prestar uma homenagem, mas também manter a história viva. Como lembra Maria Eduarda, Dr. Juca se definia pela formação e pela atuação política. São duas coisas que caminharam juntas. Ele foi um médico que sempre teve uma preocupação social, com uma atuação voltada para populações mais vulneráveis e marginalizadas, então a medicina foi aliada da militância política. Sônia se diz muito grata pela cidade reconhecer esse cidadão como alguém que teve uma atitude de coragem e que lutou pelo povo brasileiro. Em 2021, João Carlos estaria completando 80 anos, o que simboliza um marco importante para falar sobre sua memória. Ao ser questionada sobre o ato em frente à prefeitura, Sônia admite que se sentiu chateada e pensou em quais marcas foram deixadas para que algo assim esteja acontecendo nos dias de hoje. Para Maria Eduarda, a manifestação fala muito sobre a postura do governo federal em contraste com os ideais sociais defendidos pelo médico. ‘’Lembrar tudo que é feito, ou o que não é feito, em relação à memória da ditadura mostra a relação que a gente tem com esse passado’’, diz a historiadora. O país que não prezou pela memória do regime militar é o mesmo que vive uma onda de conservadorismo, onde pedidos pela volta da ditadura, negacionismo dos fatos históricos e descrença pela ciência ganham força, enquanto o número de mortos por Covid-19, apeCONTRADIÇÃO No local escolhido para o ato, fica o busto em homenagem ao médico nas três meses depois do fatídico proe ativista político João Carlos Haas Sobrinho, que completaria 80 anos em 2021 testo, já se aproxima de 500 mil.

“Ele sempre teve uma preocupação social, com atuação voltada para populações vulneráveis e marginalizadas, a medicina foi aliada da militância política”

PALOMA BATISTA

ra 25 de março de 2021, o Brasil já acumulava mais de 300 mil mortes por Covid-19. Em São Leopoldo, cerca de 100 pessoas protestavam em frente à prefeitura. O ato proclamava palavras de ordem contra as medidas de distanciamento social impostas pelo governo municipal e defendia o “tratamento precoce”, que já havia sido cientificamente comprovado ineficaz. Ironicamente, o que talvez os participantes não soubessem, é que o local carrega uma simbologia especial sobre a saúde pública da cidade. Levada pelos manifestantes, a caixa de hidroxicloroquina gigante foi posicionada a apenas alguns passos da estátua do médico João Carlos Haas Sobrinho. Sua história sofreu várias tentativas de apagamento, e talvez seja por isso que uma parcela da população leopoldense nem conheça quem é a personalidade homenageada com um busto em frente à prefeitura. Dr. Juca, como ficou conhecido, nasceu em São Leopoldo em 24 de junho de 1941. Aquela foi uma noite fria, como todas as de São João, e os pais Ildefonso Haas e Ilma Linck Haas escolheram batizar o filho como João Carlos em função deste dia. O papel de liderança e conquista de espaços já se iniciou durante a trajetória escolar. Como demonstrava interesse pelo estudo desde cedo, João Carlos entrou na escola com cinco anos e serviu como um incentivo para o irmão mais velho. Em seu primeiro ano, foi premiado como um dos melhores alunos, o que se repetiu nas séries seguintes. Também escrevia artigos para o boletim escolar - uma espécie de revista feita no colégio – o que já demonstrou sua habilidade e vontade de se comunicar. Após estudar em São Leopoldo e em Novo Hamburgo, foi para Porto Alegre, para cursar o ensino médio no Anchieta, onde teria uma preparação melhor para o vestibular. Segundo a irmã, Sônia Haas, Juca foi um aluno diferenciado e marcou presença por onde passou.

se formar no final do ano. Atuou na Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre, onde fez uma revolução, aumentando o número de leitos e solucionando problemas de espaço. Em Porto Franco, no Maranhão, atendeu em consultório a população vulnerável. Apesar de não ter convivido com o irmão como médico, Sônia lembra que Juca sempre acreditou no tratamento com afeto e cuidado. ‘’As lembranças que eu tenho é que ele cuidava das pessoas que estavam doentes com muito carinho e as pessoas devolviam esse carinho para ele’’, diz. Ao se interessar por política, o médico se filiou ao PCdoB, e assim como outros militantes do partido, João Carlos foi para a região do Araguaia, onde hoje fica Tocantins, para trabalhar com os camponeses e oferecer suporte médico. Segundo a historiadora e mestranda em História Maria Eduarda Magro, a ideia era criar foco guerrilheiro com início no interior, que posteriormente iria se espalhar pelo restante do país. Quando o Exército descobriu que o grupo estava atuando no local, começou um embate que durou quase dois anos, marcando um dos processos de revolução na tentativa de derrubada da ditadura militar.

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ECONOMIA

Pandemia impulsiona novos negócios Jovem de Esteio utiliza recursos do Auxílio Emergencial do Governo Federal para investir na produção de bolos artesanais POR CRISTIANE HÜNNIG

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esde o ano passado, com o início da pandemia, as rotinas de trabalho sofreram transformações. No caso de Lidiane Hünnig de Jesus, 26 anos, moradora de Esteio, o momento representou uma oportunidade de empreendimento e uma forma de aumentar seus ganhos em meio à crise. Formanda em Recursos Humanos pela Unisinos, Lidiane buscava uma oportunidade na área há mais de um ano, mas com a pandemia viu as chances de emprego na área ficarem ainda mais escassas. Para superar o período de dificuldades, decidiu investir o valor do Auxílio Emergencial para empreender e abriu a sua própria confeitaria, em casa, com foco na produção de bolos artesanais. Em agosto de 2020, quando recebeu a primeira parcela do auxílio no valor de 600 reais, Lidiane comprou os ingredientes e os materiais necessários para iniciar a produção dos bolos. Aos poucos, ela consolidou a empresa Sra Gulosa e promoveu a divulgação dos seus produtos através das redes sociais. “Sempre gostei muito de doces e bolos e precisava trabalhar. A minha família me apoiou. Achou que eu tinha

potencial e, por isso, decidi investir neste ramo”, relata a nova empreendedora. Logo no primeiro mês, o sucesso da empresa foi tão grande que Lidiane utilizou a segunda parcela do auxílio para comprar um forno industrial e aumentar a produção. “Comecei aplicando poucos recursos para ver como seria, mas, desde então, a resposta tem sido muito boa. Com o dinheiro das vendas e das parcelas do auxílio já consegui investir em materiais e utensílios que deixam o meu trabalho mais eficiente”, explica. Atualmente, a Sra Gulosa produz e vende, somente por encomenda, entre 15 e 20 bolos por semana. Os novos clientes geralmente chegam por indicação dos mais antigos ou então através do esforço de divulgação da empresa nas redes sociais. Entre a diversidade de sabores, o bolo mais pedido é o de chocolate. O primeiro cliente, Felipe Souza, 26 anos, morador de Esteio, relata que conheceu os bolos da Sra Gulosa através de divulgações na internet e resolveu experimentar. “Eu vi um post sobre a empresa e a foto do bolo me chamou atenção. Resolvi experimentar. Comprei um bolo de chocolate e levei para o serviço, onde todos gostaram”, disse. Para ampliar a visibilidade de seus pro-

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APOSTA Lidiane investiu no ramo de confeitaria em meio à pandemia e comemora bons resultados

Mercado de ações conquista novos investidores até 10 mil reais investidos. Esse é o caso do estudante de arquitetura e empresário Michel Com a queda dos juros, a Bolsa Segalotto, 25 anos. Ele começou a de Valores se tornou assunto corinvestir na Bolsa em 2021 e, antes riqueiro nas rodas de conversa disso, aplicava na caderneta de entre investidores. Valendo-se poupança. “Um dos fatores das redes sociais e de aplicatique me levou a investir, jusvos de mensagens, influenciatamente no período da pandores e educadores financeiros demia, foi olhar para o meu conseguiram se aproximar de futuro. A pandemia me trouxe possíveis investidores, aumenincertezas do que poderia vir tando o número de interessaadiante e resolvi que já era dos pelo mercado de ações. hora de começar a pensar a De acordo com relatório longo prazo. Com isso, me inda Bolsa de Valores Brasileira teressei na B3”, explica. (B3), publicado em abril de Estudante e novata na B3, 2021, o número de pessoas a estudante de análise e defísicas com conta na B3 atingiu senvolvimento de sistemas, a marca de 3,6 milhões. Outra Daniela Farias, 25 anos, foi marca significativa revela um influenciada por um grupo crescimento de 20% no númede amigas que, na virada enro de mulheres investindo na tre 2019 e 2020, decidiu que Bolsa de Valores em relação ao era chegado o momento de ano de 2020. Elas já totalizam apostar no mercado de ações. 1 milhão de investidoras. “Acredito que a ascensão dos Contudo, o perfil do inves- DE OLHO NO FUTURO Michel utiliza as influenciadores de finanças tidor da B3 ainda indica a pre- horas vagas para analisar as altas e nesse período tenha papel fundominância de homens entre baixas do mercado financeiro damental nisso”, revela. POR PEDRO DELLA NINA

25 e 39 anos. A maior parte desses investidores aplicou menos de 500 reais no momento da abertura da carteira, sendo que 54% daqueles que aplicam na B3 possuem

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dutos, Lidiane realizou parcerias com padarias do bairro onde reside e, atualmente, fornece seus bolos para serem vendidos nestes estabelecimentos locais. “Eu fiquei surpresa, pois não esperava que fossem me procurar para oferecer este tipo de parceria. Com certeza, essa oportunidade alavancou as minhas vendas”, indica. Silvia Rossi, 41 anos, proprietária da Padaria Tentação, também localizada em Esteio, conheceu os bolos de Lidiane através da indicação de amigos. Ela precisava aumentar a diversidade dos produtos em sua padaria e viu uma grande oportunidade de negócio. “Fiquei curiosa, pois todos falavam muito bem dos bolos da Sra Gulosa e logo pensei em trazer esses produtos também para a minha padaria. Fiz a proposta para a Lidiane e ela aceitou. As vendas estão sendo um sucesso”, comemora. A jovem empreendedora tem muitos planos e pretende fazer o seu pequeno negócio crescer ainda mais. “Não quero trabalhar com isso apenas na pandemia, mas vou investir muito para ter um local aconchegante onde eu possa receber os meus clientes e vender os meus bolos a pronta-entrega. No futuro, espero ter muito mais sucesso e muitos mais clientes satisfeitos”, relatou Lidiane.

Clube Esportivo Aimoré cria alternativas de renda Em 2020, o Clube Esportivo Aimoré garantiu vaga para a série D do Campeonato Brasileiro, mas, devido à crise provocada pela Covid-19, teve que se reinventar financeiramente. Redução de jogadores, diminuição de salários e a produção de uma marca própria de roupas esportivas, a TABA, contribuíram para garantir o orçamento do time de São Leopoldo. Os treinos foram retomados em junho do ano passado, seguindo as restrições impostas pelos decretos municipal e estadual. O uso de álcool gel tornou-se indispensável nas dependências do clube, assim como os testes de Covid, realizados semanalmente nos jogadores e comissão técnica. A redução do quadro de jogadores também foi definida como prioridade. O grupo, que contava com cerca de 30 jogadores antes da pandemia tem, agora, somente 18. Contudo, a base tem sido essencial para reforçar a equipe. Em 2021, o Aimoré criou uma marca que comercializa seu próprio material esportivo. Além de garantir renda extra, as vendas contribuíram para o time capilé evitar uma possível crise financeira. O nome da marca homenageia a primeira casa do time, a Taba Índia. “Num ano histórico em que disputamos o Brasileirão na Série D, queremos projetar o futuro do clube reverenciando nossa tradição”, destaca o assessor de imprensa do Aimoré, Fernando Campos. Para a assessoria de comunicação do clube é complicado, em tempos de pandemia, gerenciar o formato das entrevistas coletivas e garantir a visibilidade do clube com estádio vazio, o que também compromete o caixa. “As ferramentas digitais vieram para ficar e mostraram que o jornalista pode atuar de forma presencial ou virtual para realizar uma entrevista coletiva e, até mesmo, a cobertura do clube”, disse Fernando. POR BRUNA PEDROTTI


POLÍTICA

Sangue novo no Vale do Caí 37 jovens foram eleitos vereadores na região em 2020, o que representa 20% das vagas nas câmaras municipais dessas cidades QUELI ARENS / CÂMARA MUNICIPAL DE SÃO JOSÉ DO SUL

SÃO JOSÉ DO SUL Bárbara Schaedler incentiva à representação jovem-mulher no contexto político

CÉSAR FUHR / PHOTOARTE

TUPANDI Eleito presidente da Câmara de Vereadores, Matheus Klassmann busca alternativas para a região

cidade. Visando o potencial da região, o representante busca alternativas para o desenvolvimento social da população. Vale do Caí escolheu a voz da “Como político, quero para o Vale do renovação nas eleições munici- Caí, aquilo que seja melhor para as pespais de 2020. Conforme dados soas que aqui vivem. Para isso, sendo redo Tribunal Superior Eleitoral do Rio presentante da população no Legislativo, Grande do Sul (TSE-RS), 37 jovens po- precisamos buscar ações que promovam líticos, com idade entre 18 e 35 anos, mais oportunidades para os munícipes, foram eleitos vereadores nos 20 muni- seja nas áreas da educação, saúde ou na cípios da região. Além disso, a juven- geração de empregos”, destaca. tude ocupa três vagas de vice-prefeito: Além disso, o vereador reforça a imem Alto Feliz, Harportância da união monia e Vale Real. entre gestores, tendo O fato curioso em vista a evolução é a estabilidade em das políticas públirelação às eleições cas. “O potencial de 2016. Inclusive, humano aqui temos. naquela oportunidaPara avançarmos, de, também foram no entanto, precieleitos 37 vereasamos de ideias e dores da ala da juprojetos concretos ventude. O número para alcançar o representa que, a d e s e nvo l v i m e n t o Bárbara Schaedler cada cinco vereade toda a nossa reVereadora pelo PSD de São José do Sul dores, um tem até gião. Se eles forem 35 anos na região. trabalhados em Formado por 20 conjunto, através municípios, o Vale do Caí conta com dos poderes Executivo e Legislativo, 183 vagas no Poder Legislativo. Com das 20 cidades que compõem o Vale, uma população de aproximadamente isso será ainda mais fácil de aconte260 mil habitantes, a região foi predo- c e r ” , c o m p l e t a K l a s s m a n n . minantemente colonizada por alemães, Já em Harmonia, cidade com aproxiaçorianos e italianos. Os 20 municípios madamente 5 mil habitantes, parte dos que integram a região são Alto Feliz, eleitores acreditaram na força do jovem Barão, Bom Princípio, Brochier, Ca- Mateus Specht. Eleito pelo PTB, com pela de Santana, Feliz, Harmonia, Li- 19 anos, consagrou-se o membro mais nha Nova, Maratá, Montenegro, Pareci jovem da história do município. “É uma Novo, Portão, Salvador do Sul, São José satisfação enorme representar minha do Hortêncio, São José do Sul, São Pe- amada Harmonia. Ao mesmo tempo, dro da Serra, São Sebastião do Caí, São a responsabilidade e o compromisso Vendelino, Tupandi e Vale Real. com a população me acompanham. Não quero ser só mais um. A política Legislativo renovado deve ser realizada com honestidade, Em Tupandi, sete das nove cadeiras lealdade e trabalho”, afirma. na Câmara Municipal foram assumidas pela juventude este ano. O vereador Desafios de Matheus Klassmann (MDB), 24 anos, representatividade foi eleito o candidato mais votado da A política, de certa forma, é problePOR HENRIQUE KIRCH

DIVULGAÇÃO / PREFEITURA MUNICIPAL DE HARMONIA

HARMONIA Mateus Specht (à direita) conta com o apoio de deputados federais para o futuro do município

Vereadores com menos de 35 anos

O

“Precisamos ter voz ativa nesses espaços, que muitas vezes decidem o nosso futuro”

matizada por alguma parte da juventude. Escândalos, máquinas burocráticas emperradas e partidos sem identificação popular são alguns dos fatores que afastam os jovens do processo político. Na ausência de projeto ético e de uma sinalização comprometida com mudanças, os jovens acabam destinando sua atenção para outras prioridades. Embora o contexto polarizado e rodeado de estereótipos, muitos jovens tomaram gosto pela política na região do Rio Caí. A vereadora de São José do Sul Bárbara Schaedler (PSD), 31 anos, contextualiza a importância da relação jovem-mulher neste cenário. “Nós jovens precisamos ter voz ativa nesses espaços, que muitas vezes decidem o nosso futuro”, comenta. “Como mulher, carrego bandeiras extremamente importantes e que precisam ser discutidas, e através da formulação das políticas públicas elas se concretizam”. Além do simples fato de ser político, a responsabilidade dobra à frente do cargo eletivo. “Somos exemplo para muitos jovens. E, ao mesmo tempo, incentivadores de novos nomes na po-

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lítica e na própria sociedade, cujos se espelham nas nossas atitudes e ações”, diz a vereadora. “Conseguimos contagiar esse público. Por isso, devemos entender o compromisso e o impacto que temos perante a sociedade na esfera municipal”, completa. De acordo com dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), os municípios do Vale do Caí estão em alta no Rio Grande do Sul. A região destaca-se pelo crescimento e pela diversificação da economia local. Ademais, as lideranças políticas do leste gaúcho estão trabalhando para o desenvolvimento em todas as áreas públicas, visando deixar as cidades às margens do Rio Caí em relevância quando trata-se de qualidade de vida. O Vale do Caí é uma das regiões mais importantes para a economia do Rio Grande do Sul, e ter uma boa perspectiva de futuro para todos esses municípios é uma meta das jovens lideranças políticas. Olhando para diferentes setores, buscando novos caminhos de desenvolvimento social e econômico.

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OPINIÃO

Quando o excesso vira desinformação POR AMANDA KROHN

Com a difusão da internet, atualmente temos acesso à informação na palma de nossas mãos – seja essa informação confiável ou não. Este excesso de conteúdos teria tudo para ser positivo: se estamos em dúvida sobre algum assunto, seja político, cultural, ou algo relacionado à saúde, basta pesquisarmos no Google e teremos a resposta. Quem dera fosse tão simples. Os algoritmos personalizam as respostas das pesquisas com base nos assuntos de interesse dos usuários. E este mapeamento é feito a partir do tipo de conteúdo que as pessoas consomem diariamente (informação disponibilizada pelo próprio aplicativo). Isso significa que, ao pesquisar “eficácia da vacina”, por exemplo, os resultados não serão iguais para todos. Quem é a favor da vacinação, encontrará notícias recentes sobre os imunizantes que foram testados e aprovados pelas autoridades sanitárias. E quem é contra, encontrará artigos alarmantes sobre os supostos perigos que permeiam a vacinação, ou afirmando que a imunização é inútil no combate à pandemia, por exemplo. Tudo configurado por conta de discussões que os usuários se envolveram no Facebook e nos links que clicaram. As pessoas tendem a acreditar apenas

no que elas desejam crer. Elas não leem notícias com o objetivo de se informar e aprender sobre um determinado assunto, e sim para provarem que estavam certas o tempo todo. O que torna ainda mais perigoso o algoritmo que personaliza resultados de busca apenas direcionado pelos interesses do usuário, pois este tipo de comportamento fomenta a propagação da desinformação. Creio que a única forma de combater esse problema é o avanço de tecnologias como mecanismos de checagem automática. Estes dispositivos poderiam filtrar links de notícias falsas e identificar quando o texto aponta que uma informação é nova. Por exemplo, se em um texto estiver escrito que vacinas causam autismo, o mecanismo iria filtrá-lo e ele não apareceria nos resultados, pois essa informação já foi desmentida pela comunidade científica. Quando uma notícia tiver características peculiares, mas não entrar em contraste com nenhuma informação anterior, o mecanismo pode colocar um alerta, avisando que ela pode ser falsa e dando dicas de como conferir se o conteúdo é verdadeiro. No Facebook já tem um mecanismo similar para identificar notícias falsas, entretanto ele é um pouco falho e depende que diversos usuários denunciem uma mesma publicação. Porém, esse tipo de tecnologia pode funcionar se for aprimorada o suficiente.

Copa América: quem realmente politizou? POR GABRIEL REIS

No mês de junho, após Argentina e Colômbia se recusarem a sediar a Copa América, a Conmebol recorreu ao Brasil que prontamente aceitou a sediar o evento, mesmo estando diante de uma 3° onda da Covid-19 e com uma média de diária de dois mil óbitos pela doença viral. Diante de todo o desgosto causado pela situação, os jogadores da seleção se recusaram a jogar, tendo a decisão apoiada pelo até então técnico Tite. Após a divulgação dessas informações, prontamente Jair Bolsonaro e toda a rede bolsonarista de proliferação de discurso de ódio e fake news caiu matando em cima dos jogadores e do técnico, os acusando de discursar ao lado da oposição do governo e de politizar a Copa América e o futebol. Contudo, antes de apontarmos os verdadeiros culpados por toda a balbúrdia envolvendo a CBF, a Conmebol e o governo federal, precisamos nos desfazer das narrativas apolíticas que assolam o Brasil. Na atualidade, comportamento apolítico mão passa de um fenômeno que visa cegar às pessoas perante aos conflitos de classe presentes na sociedade. Após toda a movimentação da equipe que compõe a seleção em se recusar

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a jogar, Bolsonaro decidiu intervir diretamente, através de sua amizade com o até então presidente da CBF, afastado do cargo por acusações de abuso sexual, Rogério Cabloco. De acordo com uma matéria publicada no Globo Esporte, Cabloco e Bolsonaro conversaram sobre a possibilidade da demissão de Tite e a colocação de Renato Portaluppi, apoiador declarado de Jair Bolsonaro, a comandar a seleção. Tal interferência na CBF gerou um desgosto até mesmo na FIFA, que ameaçou barrar a seleção brasileira da próxima Copa do Mundo. No fim, caso quisermos culpar alguma entidade pela politização da Copa América, essa entidade é Jair Bolsonaro; o mesmo responsável por politizar de forma negacionista a vacina contra uma doença com índice expressivo de letalidade. Mas precisamos ter cautela em não cair na despolitização que ronda o Brasil. O esporte sempre foi além do pão e circo e sempre contou com atletas de ousadia e que muitas vezes não aceitavam se submeter as estruturas sociais e políticas. Quem politizou a Copa América foi o próprio esporte; o próprio futebol. Porém, quem politizou visando a eterna autopromoção e a emancipação do projeto de poder neofascista brasileiro foi Jair Bolsonaro.

Perigo: fake news desinforma e pode matar POR BÁBITON LEÃO

Muitas pessoas acham que as fakes news são coisa do mundo de agora, mas não são. Isso já existe desde que o mundo é mundo. Elas são muito semelhantes as fofocas existentes em todos lugares e ambientes da sociedade. Poucas vezes são usadas para o bem. Na maioria são para prejudicar alguém ou algo. No mundo atual, com o grande avanço das tecnologias e internet, as fakes news se tornaram algo normal. É muito fácil de produzir notícias falsas. Existem muitas maneiras de espalhar fatos. Há recursos disponíveis que permitem qualquer pessoa postar informações falsas ou não e, ainda impulsionar para atingir um grande número de visualizações. Perante todo este avanço, o ser humano, ao invés de usar os recursos disponíveis para fazer o bem, ele usa para fazer o mal. Vivemos uma pandemia terrível, com uma taxa de mortalidade assustadora e, notícias falsas, neste momento, contribuem muito para mortes de pessoas. Duvido alguém que já não tenha recebido alguma postagem sem nenhuma credibilidade que, garanta um tratamento médico eficaz ou um fato político preocupante para um país. É um desserviço para a humanidade. É preciso estar muito antenado e ajudar as pessoas a saberem o tamanho de uma fake news. Certa vez recebi de um amigo

que no México haviam descoberto que aspirina curava o corona vírus. Isso é um insulto aos cientistas e a medicina. Outra ocasião recebi um vídeo com a seguinte legenda: Pescador muito humilde humilha Luciano Hulk. Assista o vídeo e compartilhe, pois, a Rede Globo está tentando tirar o vídeo de circulação. Então fui conferir o material. Ao abrir o vídeo me deparei com o grande compositor brasileiro de Samba e Rap, Criolo Doido, que cedeu uma entrevista no programa Caldeirão do Hulk criticando o governo. Então eu fui até a pessoa que me mandou o vídeo e expliquei a situação. Ali notei o tamanho do estrago que uma notícia falsa pode fazer. Este meu conhecido, uma pessoa mais de idade, já tinha enviado o vídeo para toda sua lista de contatos e, pior, ele nem sabia que o artista existia, muito menos que ali era ele. Hoje o Brasil conta com o grande projeto do Sleeping Giants, que já era ativo em outros países, inclusive aqui, mas não era usado da mesma maneira. O Sleeping Giants é um grupo liberal de ativistas digitais que combate discursos de ódio e desinformação de forma anônima na internet. Esse grupo vem fazendo um trabalho espetacular expondo grandes marcas que são financiadas por sites que divulgam fakes news. Grandes empresas estão sendo obrigadas a abrir mão destes financiamentos para manter seu nome do lado limpo da história.

Na trave: considerações sobre torcedora acidental POR VITÓRIA PIMENTEL

Era para ser Vitor, mas veio Vitória. Grávida aos 17 anos, minha mãe esperava um menininho que pudesse sair correndo por aí, que jogasse bola e subisse em árvores. Aos 8 meses de gestação, quando teve condições financeiras de fazer a primeira ecografia, descobriu que seu Vitor na verdade seria Vitória. Cresci rodeada de bonecas, ursos e roupas cor-de-rosa. As brincadeiras que poderiam resultar em um joelho ralado eram evitadas para que minha mãe pudesse preservar a perfeição da menininha arrumada e limpinha. Apesar de parecer uma queixa, isso não foi de modo nenhum um problema - eu gostava de ser mimada e bem cuidada. Desenvolvi um traço de minha personalidade que carrego até hoje: o desinteresse por jogos e competições. Não todos os tipos, mas mais especificamente as competições esportivas. Nas aulas de educação física, arranjava qualquer desculpa para evitar os jogos de vôlei, basquete e futebol. Quando era obrigada a participar, tentava me esquivar e não atrapalhar quem sabia o que estava fazendo. Hoje, os únicos momentos em que paro para assistir um jogo - seja ele de que modalidade for -, é durante as Olimpíadas ou a Copa. A emoção da torcida, os gritos quando o time qua-

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se faz um ponto e a pipoca na sala são um ritual do qual gosto de fazer parte. Além disso, é um momento em que posso compartilhar com o meu pai, que é tão apegado ao seu time do coração, o Internacional. Quando eu tinha por volta de 4 anos, ele me deu a primeira camiseta do time. Pronto, me fez colorada até o fim da vida. Entendo algo das partidas ou sei como funcionam os campeonatos? Não, mas vou feliz assistir os jogos no estádio quando ele me convida. Apesar da franqueza sobre minha falta de aptidão e interesse pelos esportes, isso não é algo do qual me orgulho. Hoje, no início da minha vida adulta, entendo a importância dessas competições para o desenvolvimento de uma criança. Além do sentimento de pertencimento, o esporte também é capaz de aproximar as pessoas de sua própria cultura e criar laços que durarão pelo resto da vida. Essa importância se torna ainda maior quando falamos de uma cultura do Brasil, o país do futebol em que as crianças das favelas têm a chance de fugir da pobreza se tornando astros da bola. Por enquanto, sigo com o interesse pela parte histórica e antropológica dos esportes. Para mim, é mais interessante compreender como o futebol chegou ao Brasil do que quantos gols o Grêmio fez no Brasileirão. Mas, acho que pode ser um começo, né?


ESPORTE

Luta livre perde espaço no Brasil após fazer sucesso nos anos 90 Modalidade é aclamada em países como Estados Unidos e México e mescla artes marciais e entretenimento nos ringues CINTIA SIQUEIRA/BWF

POR JARDEL AGUIRRE DIAS

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luta livre (“pro-wrestling”, em inglês) tem milhões de fãs ao redor do mundo. A modalidade mistura golpes de artes marciais e entretenimento, envolvendo mocinhos e vilões. Maior empresa do ramo, a World Wrestling Entertainment (WWE) conta com grandes estrelas em seu plantel, como John Cena, Dwayne “The Rock” Johnson e Sasha Banks. Fenômeno de popularidade nos Estados Unidos, a luta livre perdeu prestígio com o passar dos anos no Brasil. Na década de 70, astros como Ted Boy Marino, Aquiles, Michel Serdan e Mr. Argentina popularizaram a luta livre no Brasil. Os shows eram exibidos na televisão aberta e contavam com grande audiência. O jornalista e fã de luta livre, Gabriel Munhoz, explica que, nos tempos da ditadura, os programas de wrestling da televisão brasileira precisaram informar ao telespectador que o que faziam não era real, mas sim um grande espetáculo. “O público não gostou de se sentir enganado e, desde então, há um preconceito em torno da modalidade”, afirma. Gabriel acredita que a falta de um astro brasileiro nas grandes empresas do cenário mundial do pro-wrestling prejudica o envolvimento dos brasileiros com a modalidade. “O Brasil precisa ter o seu Neymar da luta

CONFRONTO Dois dos principais nomes da luta livre nacional, Rapha Luque e Barrabas se enfrentaram no BWF In House, disputado em 2018, em São Paulo

livre. Precisamos de brasileiros atuando nas principais empresas de pro-wrestling do mundo, como WWE, All Elite Wrestling (AEW) e New Japan Pro-Wrestling (NJPW). Não só atuando, mas vencendo”, destaca. Recentemente, a lutadora Taynara Conti entrou para a história como a primeira atleta brasileira a disputar o título mundial de uma das principais empresas de luta livre do mundo. Ela enfrentou a japonesa Hikaru Shida pelo título feminino da AEW, mas foi derrotada no ringue.

O fã de wrestling, Jean Gonçalves, acompanha as principais empresas do ramo há 15 anos. Ao avaliar a diminuição da popularidade dessa modalidade de luta no Brasil, ele esclarece que o maior problema para a aceitação do grande público é entender que pro-wrestling não é uma modalidade de luta, mas “sim um espetáculo que envolve lutas, histórias e personagens”. O Brasil conta com federações nacionais da modalidade. A mais popular é a Brazilian Wrestling Federation (BWF), sediada em

São Paulo. Mesmo sendo o principal nome da luta livre nacional, a BWF sofre com a falta de interesse do público e o pequeno número de lutadores no plantel. Em 2020, a empresa chegou a ganhar um programa na grade de transmissão da Band, porém, se manteve no ar por pouco meses. Em 2016, em seu maior evento do ano, a WrestleMania, a WWE recebeu mais de 101 mil fãs no AT&T Stadium, em Arlington, no Texas. Esse foi o recorde de público da empresa na história. O show contou com a participação de Dwayne “The Rock” Johnson, famoso mundialmente por seus filmes. Realidade diferente do único show que a WWE promoveu no Brasil, em 2012, quando precisou cancelar o evento do Rio de Janeiro por falta de público. O show agendado para São Paulo ocorreu, mas registrou baixa audiência, mesmo contando com a presença de John Cena e CM Punk, maiores nomes da luta livre mundial na época. Atualmente, os principais shows da WWE são transmitidos nas noites de segunda e sexta-feira no canal Fox Sports 2, ambos às 21h (Horário de Brasília). A AEW tem seu principal show, o AEW Dynamite, exibido no Space Brasil aos sábados às 21h. Para os fãs dos clássicos, a Fox Sports 2 transmite nas tardes de quarta o WWE Vintage, show que conta somente com combates clássicos da empresa americana e grandes astros do passado.

Projeto transforma vidas através do esporte POR ARTHUR RECKZIEGEL

O Futsal Social representa uma forma de refúgio e um instrumento de transformação através do esporte para 600 jovens de Novo Hamburgo. O projeto envolve uma equipe de 21 profissionais das áreas de educação física, psicologia e pedagogia, atendendo meninos e meninas em seis núcleos divididos nas comunidades da Boa Saúde, Santo Afonso, Canudos, Rincão, Roselândia e Vila Redentora. A ideia de criar o Projeto Futsal Social surgiu em junho de 2004, através da cooperação entre a União Jovem do Rincão (UJR) e a Universidade Feevale. Atualmente, o programa é realizado por meio de parceria entre o clube, a instituição de ensino e a Prefeitura Municipal de Novo Hamburgo e conta com recursos da Lei de Incentivo ao Esporte, do Governo Federal.

O trabalho ocorre juntamente com as famílias, as escolas e, em alguns casos, com o conselho tutelar e outras intuições de assistência social. Normalmente as próprias instituições parceiras entram em contato com a UJR para encaminhar estudantes ao projeto e disponibilizar um espaço de desenvolvimento pessoal. O projeto vai muito além das quadras. Prova disso é que a equipe multidisciplinar de funcionários atua também junto às famílias dos alunos. As atividades têm como intuito ajudar jovens em situação de vulnerabilidade social, descobrir novos talentos esportivos, além de identificar alunos com perfil de liderança e facilitar a entrada no mercado de trabalho. “Meu filho tem adquirido muito conhecimento durante as aulas, o que será muito importante não só no esporte, como também no dia a dia. Sou muito grato ao projeto”, comentou Luís Ferreira,

EDUARDO BETTIO/UJR

RETOMADA Alunos do projeto retornam gradualmente às atividades presenciais respeitando o distanciamento social

pai de um dos alunos. A metodologia utilizada pela equipe visa o acolhimento individual, a inclusão e a promoção da cidadania. A linha de transformação social é pensada sob uma perspectiva qualitativa, e não quantitativa. “Nossa metodologia é poder acolher a singularidade de cada educando e educanda, respeitando as diferenças que se constituem, sejam elas de gênero,

classe, religiosa ou racial”, disse Everson Jaques Vargas, estudante de psicologia e coordenador de um dos núcleos do projeto. A pandemia afetou a rotina de ações do programa social, mas não impediu que os professores se dedicassem ao máximo para trazer o melhor conteúdo online. “Nesse período estamos buscando formas de se aproximar através de reuniões virtuais e do envio

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de atividades pelo WhatsApp para os alunos executarem em casa, mas, como acontece com as escolas no ensino remoto, a adesão é muito pequena. Reinventar-se é fundamental para nós professores nesse momento delicado”, explica Claiton Rodrigo Nunes, profissional de educação física que atua como professor no núcleo Boa Saúde. Apesar das dificuldades momentâneas, Claiton enfatiza a importância do projeto e sua alegria por fazer parte dele, contribuindo para o desenvolvimento de diversas pessoas. “Cada aluno me marca de forma diferente, pois o meu trabalho é gratificante. Cada abraço, cada sorriso ou palavra de carinho me faz querer continuar lutando. É uma luta por algo muito maior do que eu e o projeto. É fazer com que pessoas muitas vezes desacreditadas possam sonhar. Cada indivíduo e suas histórias são ímpar e têm um significado especial”, comenta.

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VELOCIDADE

Kartismo desacelera diante dos desafios da pandemia Pilotos, preparadores de equipe e outros profissionais envolvidos no esporte precisaram buscar alternativas SILVIO VERNIERI / ARQUIVO PESSOAL

ERNO DREHMER / PORTAL KART MOTOR

DIFICULDADES Kartódromo do Velopark sem público em função dos protocolos sanitários do coronavírus

SILVIO VERNIERI em um dia de treinos na pista com um dos pilotos de sua equipe MISTER SHADOW / DIVULGAÇÃO

EDUARDO LAZZARI ao lado de seus preparadores e com seu kart POR VITÓRIA DREHMER

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ssim como na maioria dos esportes, o kartismo brasileiro profissional, e gaúcho, berços do automobilismo, também precisaram atravessar momentos difíceis durante a pandemia de coronavírus. Com corridas canceladas e kartódromos fechados, pilotos, preparadores de equipe, mecânicos e outros profissionais do esporte foram os principais prejudicados no Rio Grande do Sul, seja pela falta de renda ou pela falta de preparo físico. Logo que a pandemia começou, em março de 2020, o Kartódromo do Velopark, que é o principal espaço automobilístico do Estado, precisou ficar completamente fechado por quatro meses. Depois, quando os protocolos sanitários começaram a ficar menos rígidos, a pista localizada em Nova Santa Rita pôde reabrir para treinos, com muita batalha dos administradores. “A principal dificuldade foi conseguir manter o Velopark aberto com todos os custos que temos mensalmente sem um impacto tão grande de demissões”, comenta a diretora do local, Sofia Costa. “2019 foi um ano muito positivo para nós e com isso conseguimos segurar o primeiro semestre de 2020, que não teve faturamento. Depois, com as liberações de treinos e outras receitas que fomos gerando, fomos conseguindo manter com muita dificuldade nossos custos e obrigações”.

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Apesar do kartódromo ter recebido a liberação de reabertura em julho do ano passado, a única competição oficial desde então foi o Campeonato Gaúcho, que reuniu cerca de 120 pilotos em outubro. Mesmo que o torneio estadual tenha sido realizado, o Sul-Americano de Kart, que conta com os melhores pilotos da América do Sul e que aconteceria pela terceira vez consecutiva no Velopark, precisou ser cancelado na última temporada. Inicialmente, o mais importante campeonato do esporte realizado no Rio Grande do Sul deveria ter acontecido em abril de 2020, mas os organizadores decidiram adiar o evento para setembro. Entretanto, o cancelamento acabou se tornando a única opção possível para evitar a circulação de pessoas e mercadorias pelas fronteiras em um momento de aumento de casos de coronavírus muito grande no Brasil.

Prejuízo para esportistas

Essa consequência da pandemia, porém, acabou prejudicando muitos pilotos e equipes. O gaúcho Eduardo Lazzari, de Bento Gonçalves, foi um dos grandes afetados, já que agora ele tem chances concretas de perder até seu patrocínio da Secretaria do Esporte e Lazer do Rio Grande do Sul. “O Sul-Americano seria o principal campeonato que eu iria disputar na temporada, e eu tinha contrato fechado com um patrocínio, mas provavelmente vou perder

esta verba”, declara de corridas foi conso piloto de 18 anos. tante e sua principal Além dessa difonte de renda deificuldade, o jovem xou de existir. profissional também “ Tu d o q u e a precisou lidar com a gente planejou e sofalta de espaços para nhou não foi realitreinar nesse períozado. Pensamos em do. Como os pilotos participar de cerca não podem deixar de de 40 eventos no fazer seus treinamenano passado, mas tos para pelo menos a verdade é que fomanter a forma físimos apenas para uns ca, o gaúcho explidez. Por isso que a Silvio Vernieri Preparador de equipes cou que intensificou gente teve que mudar suas idas à academia. o foco, trabalhando “A maior dificulna preparação físidade foi encontrar lugar para treinar, já que ca dos pilotos. Não foi fácil”, explica o as pistas ficaram um bom tempo fechadas. profissional gaúcho de 48 anos. Nós, como pilotos, procuramos manter uma Agora, a situação do kartismo gaúcho e frequência de treinos e corridas para ter um brasileiro já está mais controlada. A maioritmo de pista, o que é muito importante ria das pistas localizadas no Rio Grande no mundo do kartismo profissional. Por do Sul continuam recebendo pilotos para isso, tive que manter o treinamento fora treinos com horas marcadas. Mesmo que dos kartódromos, com atividades funcio- os campeonatos estaduais continuem esnais e de resistência”, releva Lazzari. cassos por serem menores, os principais Por outro lado, foi exatamente nesse torneios nacionais estão acontecendo pelo necessário reforço de treinos que Silvio Brasil. Porém, os profissionais envolvidos Vernieri, preparador de equipes, conse- com o Sul-Americano terão que seguir guiu se reinventar durante a pandemia. seus planejamentos sem contar com uma Morador de Bagé, o profissional usou nova edição, já que o evento exige um mosua formação em Educação Física para vimento maior por receber um público de ajudar seus pilotos com os treinamentos fora do país e ainda não tem previsão para físicos, já que o adiamento e cancelamento voltar a fazer parte do calendário.

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“Tudo que a gente planejou e sonhou não foi realizado. Pensamos em participar de cerca de 40 eventos no ano passado”


FUTEBOL

Aimoré vive seu maior desafio ao disputar a Série D do Brasileiro Clube de São Leopoldo joga pela primeira vez a quarta divisão nacional e gera expectativa na mídia local TODAS DA PÁGINA: DIGUE CARDOSO / SITE ÍNDIO CAPILÉ

POR ARTHUR SCHNEIDER

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m dos principais clubes de futebol do Vale do Sinos, o Aimoré, de São Leopoldo, vive o grande momento de seus 85 anos de história: em 2021, o Índio Capilé disputa a Série D do Campeonato Brasileiro pela primeira vez. A disputa é motivo de orgulho para a cidade de São Leopoldo, que ganha mais visibilidade no cenário nacional na carona do clube. Jornalista esportivo do Grupo Sinos, Matheus Beck considera importante aproveitar o momento para reforçar a identificação local com o clube e resgatar sua história. Beck lembra que Luiz Felipe Scolari, o Felipão, iniciou como jogador no Aimoré, assim como Mengálvio, que jogou com Pelé e na seleção brasileira, mas há também personagens anônimos que mostram a força do clube na cidade, como dona Alaídes, uma senhora que vive, literalmente, debaixo das arquibancadas, pois seu marido, já falecido, trabalhava no clube. “O Cristo Rei é um ambiente acolhedor, te garanto que quem vai lá sente esse respiro do futebol efetivamente raiz”, comenta Beck. Ele mesmo se diz torcedor do clube: “Sou de São Leopoldo e sempre tive um imenso carinho pelo Índio. Meu avô morou na Avenida Cristo Rei, desde pequeno assistia aos jogos. Então é sempre um misto de torcida com profissionalismo, para que eu possa ser crítico em relação aos desempenhos e análises. Por logo cedo pelo Cuiabá, de Mato Grosso. toda essa carga Índia que carrego, posso te O clube tem um projeto bastante ambigarantir que o sentimento é especial”. cioso para os próximos anos. O primeiro O jornalista considera o momento mar- degrau é com a participação na Série D. cante também para o jornalismo esportivo Segundo o jornalista Matheus Beck, por na cidade, pois até mesmo clubes de ou- ser a primeira participação e por não hatros estados podem “beber” da mídia local ver um grande poderio de investimentos, para buscar informao primeiro objetivo ções sobre o Capilé. em 2021 é conhecer “Toda a exposição a competição, avanas nossas páginas liar o nível dos prinimpressas, site e redes cipais adversários e sociais são marcos hiscriar uma experiêntóricos que caminham cia para as próximas com as conquistas do temporadas. A méclube. Sem dúvida, é dio e longo prazo, o gratificante acompaÍndio espera consenhar esse processo guir a classificação e, de certa forma, para a Série C. sonhar junto”, diz. O presidente do Para o radialista da clube, Ronaldo Vieiwebrádio Índio Capilé ra, coloca como obNatan Dalprá, narrar jetivo principal estruMatheus Beck Repórter do VS as partidas do Aimoré turar administrativa na Série D será um e financeiramente o momento único, já clube para que possa que a emissora pretende transmitir todos crescer no plano nacional e chegar entre os jogos que o clube disputar na competi- as 40 principais equipes que disputam as ção direto dos estádios. “Acompanhar o Séries A e B. Até 2024, ano que se comecrescimento do time nos últimos anos tem mora o bicentenário de São Leopoldo, sido muito gratificante”, comenta. o Aimoré sonha estar na Série C. A pandemia prejudicou a preparação Sonhando alto do time no ano de 2020 e continua prejudiO Aimoré já havia disputado a Copa cando em 2021, ainda mais sem a particido Brasil em 2018, mas acabou eliminado pação do público nos estádios. Conforme

“Sempre tive carinho pelo Índio. Meu avô morou na Avenida Cristo Rei, desde pequeno assistia jogos. É um misto de torcida e profissionalismo”

PROJEÇÃO Equipe leopoldense busca visibilidade no cenário do futebol nacional e já sonha em jogar pela Série C no estádio Cristo Rei nas próximas temporadas

o presidente, o Aimoré perdeu receitas de bilheteria, copa e patrocinadores locais. Superar a pandemia para retomar um nível mínimo de normalidade, que possibilite atrair novamente torcedores e comunidade para apoiar o clube, é fundamental. Para se ter uma ideia, jogos contra Inter ou Grêmio no Gauchão chegam render de R$120 a R$150 mil para os cofres do clube, segundo o jornalista Matheus Beck. “Para um clube do interior, é difícil inclusive pagar conta da luz. Pequenos valores que entram são essenciais. Tem que ter muita persistência por parte dos dirigentes para manter as portas abertas e os sonhos nacionais vivos”, analisa. Apesar das dificuldades, o presidente do clube acredita que o momento atual com a disputa da Série D seja o momento mais importante da história do Aimoré. “Do ponto de vista financeiro, a Copa do Brasil em 2018 foi importantíssima porque possibilitou investimento no futebol, o

BABÉLIA | SÃO LEOPOLDO | JULHO DE 2021

que garantiu o retorno à elite do futebol gaúcho, mas a Série D tem a vantagem de buscar uma ascensão dentro do futebol nacional”, comenta Vieira. “São competições com objetivos diferentes. O casamento perfeito é conseguir vaga para as duas competições, e nós vamos em busca da vaga também na Copa do Brasil através da Copa da FGF”. Para os torcedores do Aimoré ou moradores de São Leopoldo que querem acompanhar a participação do clube na Série D, é possível assistir os jogos na plataforma mycujoo.com.br. Há ainda a webrádio Índio Capilé, que conta com narração, comentários e reportagem de torcedores Aimoresistas em todos os jogos do Aimoré na Série D direto do estádio, seja no Cristo Rei ou em outro Estado. No site, impresso e redes sociais do Jornal VS, do Grupo Sinos, também é possível acompanhar as novidades do Índio Capilé no campeonato nacional.

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