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Revista da Universidade Federal do Espírito Santo •

UFES

SETEMBRO 2019 • Nº 10 ISSN 2359-2095

Evolução

Aos 65 anos, Ufes consolida seu papel no desenvolvimento econômico e social Menos sódio na comida

Aquicultura

Pesquisa busca reduzir o uso de ingredientes não saudáveis • Pág. 15

Na Base oceanográfica, estudos buscam otimizar atividade pesqueira • Pág. 41


Marcia Helena Moreira Paiva

Universidade Federal do Espírito Santo • Ufes Reitor Reinaldo Centoducatte Vice-Reitora Ethel Leonor Noia Maciel Pró-Reitora de Administração Teresa Cristina Janes Carneiro Pró-Reitor de Assuntos Estudantis e Cidadania Gustavo Henrique de Araújo Forde Pró-Reitora de Extensão Tânia Mara Zanotti Guerra Frizzera Delboni Pró-Reitor de Gestão de Pessoas Cleison Faé Pró-Reitora de Graduação Zenólia Christina Campos Figueiredo Pró-Reitor de Planejamento e Desenvolvimento Institucional Anilton Salles Garcia Pró-Reitor de Pesquisa e Pós-Graduação Neyval Costa Reis Junior UNIVERSIDADE Revista de divulgação científica e cultural, e de temas institucionais, produzida pela Superintendência de Comunicação (Supec) da Universidade Federal do Espírito Santo Superintendente de Comunicação Thereza Marinho Editora Lidia Neves Reportagem Adriana Damasceno • Ana Paula Vieira • Camila Fregona • Hélio Marchioni • Jorge Medina • Lidia Neves • Luiz Vital • Nábila Corrêa • Cássia Rocha (bolsista) • Laís Santana (bolsista) Fotografia Arquivo Supec, Adriana Damasceno, Danielle Gonçalves, Jorge Medina, Laís Santana, Lidia Neves, Marcia Helena Moreira Paiva Design Leonardo Paiva Revisão Monick Barbosa Capa Foto: Laís Santana Universidade Federal do Espírito Santo Superintendência de Comunicação - Supec Av. Fernando Ferrari, nº 514, Campus de Goiabeiras Prédio da Reitoria, 1º andar, CEP: 29.075-910 Vitória/ES - Brasil Telefone: (27) 4009-2204 E-mail: revistauniversidade@ufes.br ISSN 2359-2095 O conteúdo desta revista pode ser reproduzido, desde que citada a fonte.

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UNIVERSIDADE - Revista da Ufes - Setembro 2019


Prezado leitor

Sumário

Neste 2019, ano em que a Ufes completa 65 anos, a Revista Universidade se une às comemora-

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ções para mostrar que, ao longo da história, a instituição tem avançado, e muito. A pós-graduação apresentou um crescimento marcante nos últimos anos, e com ela, ampliou-se também a pes-

Em entrevista, o reitor da Ufes destaca o protagonismo da instituição

quisa. A graduação viveu um aumento do número de cursos e de vagas, as quais tiveram um maior preenchimento. A extensão tem se fortalecido, atendendo a 2 milhões de pessoas e consolidando

30 Ciência para todos

seu papel. Apesar de dificuldades e percalços, como os cortes orçamentários, a presença marcante da Universidade gera contribuições para o Espírito Santo, o Brasil e o mundo. Apresentamos aqui algumas dessas contri-

Projetos ampliam o acesso da sociedade ao conhecimento produzido na Universidade

buições para a sustentabilidade econômica e ambiental (trazemos abordagens sobre o cultivo pesqueiro e sobre produtos com contribuição ambiental), para a saúde e a qualidade de vida (como as pesquisas relativas ao Zika Vírus e à redução de sódio em biscoito), para o ensino (neste número, apresentamos matérias sobre inclusão e brincadeiras na educação infantil) e para a cultura (com estudo sobre as relações entre literatura e música). Aprofundar o conhecimento sobre o que a Ufes faz de melhor é fundamental para podermos defendê-la e trabalhar para que ela siga em constante evolução. Boa leitura! Lidia Neves Editora

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Políticas públicas para o zika vírus Inclusão na educação infantil Redução de sódio no biscoito Literatura e música Especial: 65 anos da Ufes Crescimento da pós-graduação Ações de extensão abrangem todo o ES Expansão da graduação Aquicultura na Base Oceanográfica Lutinha levada a sério Biblioteca em transformação Lama de Mariana torna-se produto Novo pavimento reduz alagamentos Ideia premiada

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Foto: Pixabay

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Zika vírus

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Políticas públicas em situação de emergência Hélio Marchioni

Em 2015, o Brasil vivenciou um crescimento explosivo dos casos de microcefalia, principalmente nos estados da Bahia, de Pernambuco e do Rio Grande do Norte. Em Pernambuco, o aumento foi de 500%. Pesquisas apresentadas em novembro daquele ano apontaram que o zika vírus, transmitido pelo mosquito Aedes aegypti, era o causador das malformações congênitas no cérebro. De lá pra cá, as pesquisas sobre esse vírus, até então pouco conhecido, foram ampliadas, e a Ufes se tornou uma das referências nessa área

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Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) apoia 17 pesquisas sobre o zika na América Latina e no Caribe, sendo seis brasileiras. Entre elas, está uma pesquisa da Ufes que pretende identificar soluções no enfrentamento ao vírus responsável por causar distúrbios cerebrais congênitos, quando mulheres grávidas são infectadas. É o projeto “Políticas públicas de saúde em situações de emergência: a epidemia de zika vírus”, coordenado pela professora do Departamento de Enfermagem e do Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva Ethel Maciel, que também é vice-reitora da Universidade. Além da Ufes, foram contempladas pesquisas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), da Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD), da Universidade de São Paulo (USP) e do Instituto de Biologia Molecular do Paraná (IBMP), além de dois projetos da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Cada iniciativa

receberá US$ 20 mil do programa de pequenas doações da Organização Mundial da Saúde (OMS). A pesquisa realizada na Ufes busca entender como o poder público se organizou para que as crianças com microcefalia tenham acesso aos serviços de saúde. O estudo indica uma “grande culpabilização das mães”, segundo a professora Ethel. “Se você olhar todas as propagandas de combate ao mosquito Aedes aegypti, transmissor da dengue e do zika vírus, você vê um foco muito grande na responsabilização das pessoas pela proliferação do mosquito e da doença. Não se fala do fracasso de todas as políticas públicas brasileiras, nos últimos 40 anos, com relação ao combate ao mosquito. Tal visão foi incorporada nessa epidemia de zika, culpando as mulheres pelo fato de não usarem repelente ou de não estarem protegidas com roupas adequadas”, relata a professora. Ela lembra ainda que os repelentes para as gestantes demoraram a chegar às unidades de saúde.

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Empobrecimento Outra pesquisa nessa área foi desenvolvida pela professora do Departamento de Enfermagem da Ufes Paula Freitas. Em sua tese de doutorado em Saúde Coletiva, orientada pela professora Ethel Maciel, Paula acompanhou, entre os anos de 2016 e 2017, 25 das 39 mães cujos filhos foram diagnosticados com microcefalia no Espírito Santo. Grande parte dessas mulheres saiu da pobreza para a extrema pobreza. Isso porque tais crianças demandam atenção integral e tratamento diferenciado, o que motivou muitas mães a deixar o emprego ou provocou sua demissão. O estudo identifica ainda que 70% das participantes foram abandonadas pelos maridos no momento do diagnóstico do distúrbio ou após o nascimento da criança. Além disso, essas mães também são vítimas de outras formas de desamparo, inclusive do poder público. “Metade delas não recebeu o Benefício de Prestação Continuada, um direito que deve ser pago pelo Governo Federal. Tudo isso empurra essas mulheres para uma situação de extrema pobreza”, detalha a professora Paula. Além disso, a pesquisadora aponta as dificuldades das mães na busca do tratamento adequado para seus filhos. Muitas vezes, é necessário recorrer a associações que ofereçam o serviço. “Essas crianças precisam ser corretamente estimuladas na idade de ouro, que vai de 0 a 3 anos, e isso não acontece. Como não existe uma rede de atendimento público, as mães procuram ajuda na Apae e na Pestalozzi, mas não é suficiente”, lamenta a professora, segundo a qual algumas mulheres acabam abandonando o tratamento. Também se constata na pesquisa que o vírus é responsável por diversos outros problemas neurológicos. “A síndrome congênita do zika vírus, como é chamada atualmente, não causa somente microcefalia, mas hidrocefalia e outros distúrbios neurológicos, como dificuldade de aprendizagem. Muitas crianças têm a síndrome congênita do zika e ninguém sabe ainda. Elas podem ter alteração na visão, na fala ou algum problema cognitivo que vai refletir na fase escolar. É preciso que se tenha um olhar muito atento para as crianças nascidas em 2015 e 2016”, alerta a professora.

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Gestão pública Diante da epidemia do zika vírus, Paula também analisou as políticas públicas de combate ao mosquito Aedes aegypti, que também transmite a dengue e a febre chikungunya: “As formas de combate ao mosquito são caras e ineficientes. Fumacê e larvicida não resolvem o problema. Temos que ter coleta de lixo, moradia adequada e educação. A gente faz a mesma coisa há 60 anos e sabe que isso não funciona”. Em sua tese de doutorado, intitulada “As políticas públicas de saúde em situações de emergência: o surto do zika vírus”, a professora Paula ouviu, além das mães de crianças com a síndrome congênita do vírus, gestores em saúde pública nos municípios da região metropolitana de Vitória. A pesquisa foi publicada em fevereiro deste ano na Revista Panamericana de Saúde Pública. A transmissão local vetorial do zika foi confirmada em 38 países e territórios na região das Américas desde 2015, segundo a Opas. Daquele ano até 2018, foram notificados 16.348 casos suspeitos de alterações no crescimento e desenvolvimento de crianças no Brasil, possivelmente relacionados à infecção pelo vírus e a outras etiologias infecciosas. Somente no Espírito Santo, em 2016, o primeiro ano contabilizado desde o início, foram confirmados 2.942 casos de infecção pelo vírus. Em 2018, o número caiu para 511. Um estudo realizado pela Fiocruz de Pernambuco, apresentado em 2018, aponta que, em dez anos, os gastos motivados pela síndrome congênita podem chegar a R$ 800 milhões no país. “Apesar de a epidemia de zika vírus ter saído das páginas dos jornais e de ter havido uma diminuição dos casos, essas crianças com microcefalia vão permanecer necessitando do sistema de saúde durante toda a vida delas. Mesmo ´invisibilizadas´, elas continuam precisando de uma rede de cuidados que não foi desenhada para atendê-las e, em sua grande maioria, dependem do Sistema Único de Saúde”, destaca a professora Ethel.


A experiência das mães de 25 minutos foi produzido pela Pai Grande Filmes e lançado no final de 2018. O documentário é resultado de uma parceria entre a Fiocruz e a Ufes (incluindo a VideoSaúde Regional Ufes/ES e o Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva) e pode ser assistido no YouTube da VideoSaúde Regional (youtube.com/watch?v=v3QnLD8judI). Confira:

Reprodução/ Todo Cuidado do Mundo

A tese de doutorado da professora Paula Freitas foi a base para a produção do documentário Todo Cuidado do Mundo, que conta a história de quatro mulheres cujos filhos foram diagnosticados com a síndrome congênita do zika vírus e desenvolveram microcefalia. Dirigido por Úrsula Dart e Hugo Reis, o filme

“A doutora falou comigo: ‘a sua filha não vai andar, a sua filha não vai enxergar, a sua filha não vai fazer nada, ela vai ser um vegetal’. Depois eu voltei no hospital com minha filha e disse para a doutora que fez meu parto: ‘a senhora se lembra de mim? Essa aqui é minha filha, aquela que a senhora afirmou pra mim, me limpando na hora do parto, que ela nunca ia enxergar. Eu tinha acabado de ganhar a Izadora, e não deveria se falar isso.’” Josileide de Andrade

“Foi uma fase bem difícil, agora que a gente está tentando superar um pouco. É bastante difícil lidar com uma criança como a Sthéfany. Tem que ter todo o cuidado do mundo. Ela entende o que a gente fala e quer se movimentar. Eu e minhas outras filhas procuramos mostrar para ela que ela não é diferente das outras meninas. Ajudem aquelas mães que passam pelo que eu passo, porque é difícil, é complicado.” Sabrina Ribeiro

“É preciso de estímulo para as coisas básicas: pegar alguma coisa, comer, se comunicar, para enxergar, para olhar, para chamar a atenção deles para alguma coisa. Isso precisa ser diário e intenso. E é o que eles não têm. Na minha casa, tudo na minha vida, tudo à minha volta é pra estimular a Helena. Se o governo oferecesse um tratamento digno de reabilitação já seria o máximo. Hoje a gente é atendido pelo SUS [Sistema Único de Saúde] com terapias convencionais. Desde que a Helena nasceu, eu participo de um grupo de mães onde a gente compartilha experiências e conhece outros métodos, isso é muito importante.” Glaucilene Farias

“Quando eu não consigo resolver no posto, vou à Secretaria de Saúde. Quando eles falam que não podem atender, vou à Defensoria Pública. E se precisar chamar a TV, eu chamo. Não tenho mais medo. Na Defensoria, eu consegui as fraldas. Depois que o Daniel nasceu, renovou as minhas energias. Me deu mais fôlego para correr atrás do direito dele.” Alessandra Catarino

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Inclusão desde a

educação infantil laÍs santana

no centro de Educação da Ufes, dois grupos estudam a inclusão no ambiente escolar. Para especialista, o ingresso na escola desde a educação infantil é fundamental para conhecer as particularidades do aluno com necessidades especiais

A

Constituição de 1988 assegura ao brasileiro o direito à educação básica obrigatória e gratuita dos 4 aos 17 anos de idade. No que se refere ao nível de ensino da educação infantil, é ofertado o atendimento em creches e pré-escolas às crianças de até 5 anos, incluindo aquelas com necessidades educacionais especiais. A atual organização do atendimento a este público foi regulamentada em 2008, com a publicação da Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva (PNEE-EI), e por meio de normas legais promulgadas posteriormente, como a Resolução nº 4/2009 e o Decreto nº 7.611/2011.

Um dos desdobramentos da referida política foi a criação das salas de recursos multifuncionais, para complementar ou suplementar a formação dos alunos. O atendimento realizado nesse espaço é oferecido no turno oposto ao da matrícula regular do estudante, e funciona com o trabalho colaborativo entre o professor de educação especial e o professor regente nas escolas. Mesmo assim, percebem-se muitas lacunas, sobretudo no quesito da inclusão: ainda é um desafi o operacionalizar o atendimento educacional especializado, a fim de garantir o acesso, a permanência e a apropriação dos conhecimentos por parte desses alunos.

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educacionais especiais. As iniciativas contam com a participação de outros grupos credenciados ao Neesp, formados por professores do ensino superior da Ufes e do Ensino Básico, Técnico e Tecnológico (EBTT) federal, além de alunos da graduação e da pós-graduação, bem como profissionais voluntários da educação básica. Pesquisas Atualmente, o Grupicis estuda o acesso, a permanência e a apropriação do conhecimento dos estudantes com necessidades especiais na educação infantil. Os pesquisadores discutem a superação do modelo clínico nos processos educacionais, as inovações de práticas médicas, a estimulação precoce na educação especial (para potencializar o desenvolvimento neuropsicomotor) e a necessidade de expansão do atendimento educacional especializado a crianças de 0 a 3 anos, uma faixa etária ainda pouco atendida. Além disso, o estudo também problematiza a situação de crianças que, a princípio, não possuem deficiência intelectual, mas são classificadas nessa condição visando ao atendimento de suas demandas de aprendizado. Desde 2010, pesquisadores da Ufes integram o Observatório Nacional de Educação Especial (Oneesp), que desenvolve estudos integrados sobre políticas públicas e discute as práticas direcionadas à inclusão escolar na realidade brasileira, com a participação de pesquisadores de 16 estados. Um dos temas investigados é a implantação da sala de recursos

Acervo pessoal

Dois grupos de pesquisa do Centro de Educação da Ufes se ocupam de analisar e problematizar a organização da educação brasileira para o público da educação especial: são o Núcleo de Ensino, Pesquisa e Extensão em Educação Especial (Neesp) e o Grupo de Pesquisa em Infância, Cultura, Inclusão e Subjetividade (Grupicis, com foco na interface entre educação especial e educação infantil), fundados em 1996 e 2010, respectivamente. Tanto o Neesp quanto o Grupicis são coordenados pela professora Sonia Lopes Victor, que também leciona no Programa de Pós-Graduação em Educação (PPGE). As pesquisas na área de educação especial na Ufes iniciaram-se em 1992, por meio da formação do Grupo Emergente em Educação Especial, com participação de docentes dos campi de Goiabeiras, Maruípe e Alegre. No ano seguinte, foi criado o Laboratório de Estudos em Educação Especial, um projeto experimental que visava atender a alunos do sistema público estadual de ensino com possível diagnóstico de deficiência intelectual. “Percebemos que, se os estudantes do projeto conseguissem aprender e se apropriar do conhecimento regular por meio dessa complementação, eles tinham mais chance de retornar à situação de ensino comum”, lembra a professora Sonia. A coordenadora explica ainda que os estudos atuais priorizam um diagnóstico social da deficiência intelectual, e não mais biológico. “Se a escola observar e atender as demandas [de quem tem comprometimento intelectual], o aluno tem muito mais condições de se desenvolver e aprender do que se a instituição reconhecer o comprometimento e não investigar. Esse era o objetivo do Laboratório à época, o de reintegrar o aluno ao sistema regular de ensino numa sala de aula comum.” Tal entendimento foi adotado na Declaração de Salamanca, da Assembleia Geral das Nações Unidas de 1994, e, no Brasil, passou a compor a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBEN) em 1996. Nessa esteira, o projeto do Laboratório passou a desenvolver ações permanentes de ensino, pesquisa e extensão e foi incluído no Neesp a partir de março de 1996. Com essa nova perspectiva de inclusão escolar, as pesquisas deixaram de focar a adaptação dos alunos na escola e passaram a enfatizar a adequação das escolas brasileiras e a formação de professores regentes para a educação especial. A partir do trabalho interdisciplinar do Neesp e do Grupicis, foi possível construir novos conceitos para alunos da rede pública com necessidades

A professora Sônia Lopes Victor (ao centro) coordena grupo de pesquisa sobre educação especial e infantil no Centro de Educação da Ufes


O problema sistemático O motivo pelo qual crianças atendidas pela educação especial não cultivaram o costume de permanecer no processo de escolarização nas décadas passadas tem raízes históricas mais profundas. Esse público não era incentivado a continuar os estudos, os quais ficavam a cargo de instituições especializadas. “Quando se tem um modelo médico de deficiência como base para compreender quem é essa pessoa, entende-se que ela é um sujeito que não vai contribuir para sociedade, se considerarmos a teoria do capital humano. Consequentemente, conclui-se que não compensaria investir na educação desses indivíduos”, analisa a professora Sonia. Ela explica que, porém, existe uma contradição nesse processo. “Essas pessoas ficaram muito tempo segregadas. Tal modelo educacional era oneroso porque fortalecia a dependência delas com o Estado.” A coordenadora avalia que a aplicação do modelo de inclusão também demonstra o interesse do poder público em torná-las uma comunidade ativa. “Ao inserir a pessoa na corrente comum da vida, ela irá ingressar no sistema educacional com atendimento escolar e, por fim, diminuir os valores da educação segregada.” “Mas também houve outros esforços da sociedade civil”, completa Sonia. “Os movimentos sociais, o avanço das tecnologias, das ciências e das políticas públicas foram além dessa contradição que o sistema antigo nos colocou”. A evolução do entendimento sobre o estudante com deficiência e seu aprendizado alavancou o surgimento de legislações e normas muito significativas para entender esse processo de formação humana. Diversas ações foram sendo estabelecidas pelo Estado, ao longo desse período, a fim de garantir a matrícula, a permanência, a aprendizagem e a reintegração desse público na escola comum e em outros âmbitos da sociedade.

Fotos: Lidia Neves

multifuncionais nas escolas brasileiras desde 2011. “Aqui no Espírito Santo, tivemos dois grupos de pesquisa envolvidos nesta investigação com 11 municípios. Tivemos diversos encontros com professores de escolas com educação especial para entender nossa realidade na educação comum”, conta Sonia. O estudo permeou três eixos: o atendimento educacional especializado, que é representado pelas salas de recursos multifuncionais; a questão da avaliação desse público; e, por fim, a formação de professores. Atualmente, o Observatório sistematiza o conjunto de dados apurados em todo o Brasil.

O estudante Davi, que tem autismo, foi incluído na educação infantil e participa de todas as atividades junto com as outras crianças

Resultados: a responsabilidade social As pesquisas do Neesp e do Grupicis apontam que o antigo sistema, sob o prisma de integração, afastava o estudante de uma situação regular de ensino. Os alunos da educação especial eram privados da convivência em salas comuns, nos horários de aulas regulares, para se recolherem em serviços exclusivos do atendimento especializado nas salas de recursos multifuncionais instaladas desde 2008. De acordo com a professora Sonia, os preceitos da integração, em vez da inclusão, valorizam as práticas clínicas, como a estimulação precoce, em detrimento das práticas pedagógicas. “Quando o modelo se volta para a questão biológica, o aluno é responsabilizado pela não aprendizagem. Mas quando a sociedade compreende que tem um papel de inserção social a ser cumprido, será dada uma rota de condição de vida completamente diferente a esse sujeito”, explica. Para ela, o ingresso da criança na educação infantil desde

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cedo é imprescindível para reconhecer as demandas e particularidades do aluno com necessidades especiais. “As políticas públicas têm de favorecer o atendimento das demandas desde a educação infantil”, defende. Esse foi o caso de Davi, autista não verbal e aluno do Centro Municipal de Educação Infantil (CMEI) Professora Cida Barreto. “Ele entende tudo, mas não fala”, explica a mãe de Davi, Letícia Alcure. “Meu filho tem dificuldade na coordenação motora fina. É muito difícil de ensinar ou de ter a atenção dele, mas a escola tem se esforçado muito para que ele se encaixe em todas as atividades”. A mãe

lembra que, devido a experiências ruins em outro Centro, precisou deixar Davi um ano longe da sala de aula. “Este CMEI foi um divisor na vida do Davi, e na minha também. Ele se adaptou muito rápido, e esse processo é mérito da escola”, relata Letícia. Ela conta que, desde o primeiro dia no CMEI, o filho era acompanhado por um profissional nas aulas, e esta presença foi imprescindível para fazê-lo se sentir mais confiante na classe regular. “A tia Vivi, que ficou com o Davi durante o ano passado, foi muito importante para que ele tivesse confiança. Meu filho se apoia em alguém para se sentir mais seguro”.

A experiência da educação hospitalar Em alguns casos, a deficiência torna impossível a inserção da criança no ambiente escolar. Um exemplo é o de Naruto, 6 anos, diagnosticado com craniofaringioma, que consiste em tumores benignos no crânio. A neoplasia provocou-lhe deficiência visual e pode gerar ainda vários efeitos colaterais. Por esse motivo, o menino, que adotou o nome fictício em homenagem ao personagem de animação japonês, tem direito à educação especial hospitalar. A experiência de Naruto foi abordada na dissertação de mestrado em Educação de Hedlamar Fernandes Silva Lima, intitulada “Naruto, um aluno com craniofaringioma na educação especial hospitalar: um estudo fenomenológico e existencial inspirado em Paulo Freire”. O trabalho, realizado em 2015, descreve e analisa as vivências do aluno na classe hospitalar do Hospital Infantil Nossa Senhora da Glória e em sua residência, ambas em Vitória. O objetivo era compreender os desafios de Naruto e explicitar os obstáculos que a vítima dessa enfermidade tem de enfrentar para se realizar como ser humano. Em sua base teórica, Hedlamar explica que a abordagem fenomenológica e existencial de Paulo Freire indica que o homem é um participante ativo da sociedade. Os sujeitos dependem uns dos outros

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e do mundo para se transformar e existir. Freire aponta que a educação ajuda o homem a tomar consciência do meio em que está inserido e de sua vivência no mundo. Durante a análise sobre pedagogia hospitalar e experiências próprias em classes hospitalares, Hedlamar Lima explicita a conquista de bases legais para alunos-pacientes em contraste com relatos das lacunas na parceria entre escolas e hospitais. De acordo com a autora, evidenciaram-se, na época, alguns aspectos a serem aprimorados pelo poder público. “A Secretaria de Educação deixou um pouco a desejar. Os pais precisavam cobrar muito deles”, narra. “A Secretaria deveria ser parceira dos hospitais e ter feito um controle maior, entrado em contato com o hospital, respondido às solicitações, enviado os conteúdos que deveriam ser trabalhados na classe hospitalar”. Apesar dos desafios e das dificuldades da patologia, os indivíduos envolvidos na educação hospitalar de Naruto possibilitaram a sua inclusão na escola comum, com as adaptações necessárias. Segundo a pesquisadora, “Naruto se encontra, atualmente, inserido na classe regular, com o uso do Braille e acompanhado de um profissional habilitado”.


Sabor com

menos sódio Cássia Rocha

Equipe do Departamento de Engenharia de Alimentos da Ufes realiza pesquisa para determinar o quanto se pode reduzir de sódio sem alterar a aceitação sensorial dos alimentos

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sódio é um metal natural essencial ao corpo humano e sua principal função é equilibrar a quantidade de água no organismo. Quando aliado ao potássio, a dupla participa de contrações musculares e do fornecimento de energia para o indivíduo. Apesar das vantagens, é preciso atentar-se à quantidade. O consumo excessivo de sódio acarreta vários problemas de saúde, dentre eles inchaço e aumento da pressão arterial, impulsionando o risco de doenças cardiovasculares, como o acidente vascular cerebral (AVC) e o ataque cardíaco. O sal tradicional de cozinha contém cerca de 39% de sódio e é a principal fonte deste elemento na alimentação.

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Fotos: acervo pessoal

O professor Tarcísio Lima Filho (de camisa azul-clara, ao centro) e sua equipe desenvolvem estudos para reduzir o uso de sal nos alimentos

A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda que a ingestão diária de sódio não ultrapasse 2 gramas (g) para indivíduos adultos, o que equivale a 5g de sal. No entanto, segundo o relatório “Cenário do consumo de sódio no Brasil”, estudo da Associação Brasileira das Indústrias da Alimentação (Abia) elaborado com base em dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 2013 (http://www.alimentosprocessados.com.br/ arquivos/Ingredientes-e-aditivos/Cenario-do-consumo-de-sodio-no-Brasil-ABIA.pdf), aproximadamente metade dos brasileiros que considera ter um consumo de sal médio ingere em torno de 12g de sal por dia, isso é, mais que o dobro do recomendado. Cientes desse fato, associações, sindicatos e indústrias do setor se comprometeram com o Ministério da Saúde, em abril de 2011, a cumprir metas para a redução de sódio em diversos alimentos industrializados. Mas, ainda enfrentam o desafio de evitar a perda de aceitação sensorial que decorre da redução de sal, o que poderia levar à diminuição nas vendas. Diante desse cenário, a equipe do Laboratório de Análise Sensorial do Departamento de Engenharia de Alimentos da Ufes está executando uma pesquisa, aprovada e financiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Espírito Santo

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(Fapes), relativa ao biscoito tipo salgado, o qual consta da lista de alimentos com meta para redução de sódio. Um dos objetivos do trabalho é determinar o quanto se pode diminuir de sódio sem resultar em alteração sensorial ou em rejeição do biscoito. O projeto é coordenado pelo professor Tarcísio Lima Filho, do Departamento de Engenharia de Alimentos, no campus de Alegre. Em 2015, o professor propôs e validou a Metodologia dos Limiares Hedônicos (MLH), para análise sensorial. O procedimento consiste em servir aos consumidores amostras do alimento com teor de sódio convencional (utilizado pela indústria) e outras com teor reduzido. Os participantes devem provar e informar o quanto gostaram ou desgostaram das amostras. De acordo com Lima Filho, os resultados são analisados a partir de testes estatísticos, que permitem determinar dois novos limiares afetivos: o Limiar de Aceitação Comprometida (LAC), o qual indica a intensidade de concentração de sódio em que começa a ocorrer a alteração da aceitação sensorial do produto; e o Limiar de Rejeição Hedônica (LRH), referente à intensidade em que se inicia a rejeição sensorial do produto, ou seja, indica o ponto de transição entre a aceitação e a rejeição do alimento.


A MLH já foi aplicada a diversos produtos desde sua criação. No desenvolvimento da Metodologia, a determinação dos limiares foi realizada para concentração de sacarose em néctar e de sódio em hambúrguer, e atualmente está sendo empregada no estudo para redução de sódio no biscoito salgado. Para o professor, “o LAC indica o quanto a indústria pode reduzir o uso de ingredientes prejudiciais à saúde (como sódio, sacarose e gordura) sem afetar a aceitação sensorial. Assim, de posse do LAC, as indústrias de biscoito poderão ofertar alimentos mais saudáveis sem receio de perder mercado, uma vez que a qualidade sensorial do produto não será afetada”. No estudo em curso, o objeto de teste é o biscoito salgado tipo aperitivo, no entanto a Metodologia dos Limiares Hedônicos pode ser utilizada para promover a redução de sódio, sacarose e gordura em outros alimentos. “Com uma maior oferta de produtos com menor teor de sódio e boa aceitação sensorial, o consumo de sódio pela população tende a diminuir, resultando numa menor incidência de doenças cardiovasculares”, enfatiza o pesquisador. A Metodologia ainda pode ser utilizada em outras aplicações. Na indústria e na ciência de alimentos, busca-se alterar ao máximo certo aspecto do produto sem alterar sua aceitação sensorial. Por exemplo, “fortificar os alimentos com compostos que trazem benefícios à saúde (como ferro, fibras, ômega 3 e 6, entre outros); aplicar tratamento térmico mais severo, visando ao aumento da vida de prateleira do produto; e reduzir certo ingrediente mais dispendioso na sua formulação”, aponta Lima Filho. “A MLH não se limita apenas às indústrias de alimentos, podendo ser utilizada também pelas indústrias cosméticas e farmacêuticas, entretanto, para tais aplicações, novos estudos se mostram necessários”, completa o professor, uma vez que a Metodologia ainda não foi empregada nessas áreas.

Antes da proposta da MLH, o método mais utilizado era a determinação do limiar de detecção, definido como a intensidade em que começa a ocorrer alteração sensorial perceptível pelo indivíduo. No entanto, essas primeiras alterações detectadas pelo consumidor podem não ser o bastante. “Normalmente, somente em uma intensidade superior ao limiar de detecção ocorre alteração da aceitação do alimento pelo consumidor. A Metodologia dos Limiares Hedônicos foi proposta para permitir a determinação dessa intensidade. Até então, nenhuma metodologia de análise sensorial permitia determinar esse ponto”, completa o pesquisador. De acordo com Lima Filho, o projeto de pesquisa com o biscoito ainda está em execução e ainda não foi possível determinar a porcentagem de sódio que poderá ser reduzida sem afetar a aceitação sensorial. “No entanto, já realizei estudo com redução de sódio em hambúrguer e verifiquei que, nesse produto, reduções acima de 27,33% de sódio comprometem a aceitação sensorial. Qualquer redução no teor de sódio menor do que essa não acarreta alteração sensorial do hambúrguer. Tal informação é de grande interesse da indústria e de elevado benefício para os consumidores”, conta. Participam da pesquisa duas mestrandas do Programa de Pós-Graduação em Ciência e Tecnologia de Alimentos da Ufes e dois bolsistas de iniciação científica, estudantes de Engenharia de Alimentos. O estudo tem ajudado a difundir as aplicações da MLH e os riscos de se consumir altas concentrações de sódio na dieta. O professor ressalta ainda que a equipe está aberta a parcerias com empresas do setor. “Como as informações fornecidas pela Metodologia dos Limiares Hedônicos são de grande interesse da indústria, estamos abertos para a realização de pesquisas em parceria. Assim, pretendemos que os benefícios cheguem para a indústria e para o consumidor final: todos saem ganhando. Além de aproximar ainda mais a Universidade do mercado e da comunidade”.

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Entre

palavras e sons Jorge Medina e Lidia Neves

Núcleo de Estudos Literários e Musicológicos se dedica a pesquisar as interseções entre esses dois campos artísticos

A

literatura e a música são manifestações artísticas que acompanham o ser humano desde os primórdios. Provocam sensações, emoções, revoltas, denúncias, compaixão e efeitos estéticos que ajudam a entender melhor as pessoas, o mundo e a nós mesmos. São manifestações que mexem com o imaginário coletivo da sociedade. Os grandes compositores – como Beethoven, Mozart, Noel Rosa e Caetano Veloso – e escritores – a exemplo de Dostoiévski, José Saramago, Camões e Clarice Lispector – deixaram obras que emocionam e ficarão eternizadas ao longo dos séculos. A música e a literatura sempre estiveram correlacionadas com a história da humanidade. O texto literário adapta-se perfeitamente à música e vice-versa. Um exemplo dessa interação se encontra na canção Monte Castelo, do grupo Legião Urbana, na voz de Renato Russo, que incorpora

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trechos do poema de Luís Vaz de Camões Amor é fogo que arde sem se ver. O teatro é outro exemplo que, além de ser literatura, também se conecta com a música para compor e enriquecer. Pensando nessa união artística, a professora do Centro de Artes da Ufes Viviana Mónica Vermes fundou, em 2006, o Núcleo de Estudos Literários e Musicológicos (NELM), coordenado por ela. O núcleo pesquisa as diversas maneiras por meio das quais a música e a literatura se sobrepõem e se alimentam reciprocamente. “Os objetos de estudo no Núcleo variam: podem ser obras musicais ou literárias, ou aspectos ligados aos circuitos e práticas. Variam também as perspectivas de análise, compreendendo a musicologia, os estudos literários, a história e a comunicação social”, explica Mónica Vermes, que é professora dos programas de pós-graduação em Letras e em Comunicação e Territorialidades. A pesquisadora aponta que um dos temas centrais de sua investigação é a relação entre o erudito e o popular. “Entendo que pensar a música e a história da música brasileira a partir dessa dicotomia é empobrecedor, pois tende a desprezar


Álbum do Rio de Janeiro / Acervo BN

peculiaridades, trânsitos e zonas de fronteira que são especialmente característicos no caso da música brasileira”, relata. Um dos estudos de destaque no Núcleo que exemplifica essa abordagem é o Música nos teatros cariocas: repertório, recepção e práticas culturais, com análise concentrada no período entre 1890 e 1920. Para o projeto, a professora Mónica recebeu financiamento pelo edital universal do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) de 2012, e posteriormente foi contemplada com uma bolsa de apoio à pesquisa da Fundação Biblioteca Nacional em 2016. Na pesquisa, foi realizado um levantamento sistemático do que ocorria a cada dia, em cada teatro do Rio de Janeiro, entre 1890 e 1920. “Os dados elucidam, por exemplo, sobre o processo dinâmico de uma peça em cartaz: não se tratava sempre da mesma apresentação, mas, à medida que a temporada se estendia, eram incluídas novas cenas, novos cenários, nova música. É interessante também pois esclarece o teor da música realizada nas peças: quando se tratava de peças estrangeiras, muito frequentemente a parte musical era adaptada,

incluindo peças de compositores ou compositoras locais, como Chiquinha Gonzaga”, explica a professora, que pretende usar a coleção de dados levantados para futuras pesquisas. Como desdobramento da iniciativa anterior, o Núcleo também estuda os Circuitos musicais e conflitos culturais no Rio de Janeiro da Belle Époque (1890-1920), projeto que contou com bolsa de produtividade em pesquisa, também do CNPq, em 2017. “Os dados coletados nesse projeto nos permitem observar o dia a dia de parte significativa da vida musical carioca: o trânsito de músicos, os repertórios e o público entre os diferentes espaços e registros. Um exemplo são os músicos que podiam tocar numa orquestra arregimentada para apresentar um concerto sinfônico, nas orquestras dos teatros – onde se praticavam gêneros teatrais-musicais de entretenimento – e nas rodas de choro. Tal fato mostra como essas categorias não podem ser pensadas de forma estanque”, detalha Mónica. Com o passar do tempo, o grupo incorporou pesquisadores de seis universidades brasileiras e realizou intercâmbios com instituições estrangeiras. O Núcleo integra a Rede de Crítica Musical

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(Music Criticism Network), articulação internacional de pesquisadores na área. A Rede organiza conferências e congressos internacionais, publica livros e pesquisas, edita revista especializada, entre outras ações. Em 2018, o congresso internacional organizado pela Rede aconteceu em São Paulo com o tema Intercâmbios Norte-Sul: colaborações, tensões, hibridações. No evento, a professora Mónica ministrou a palestra A crítica musical como fonte para o estudo da vida musical no Rio de Janeiro da Belle Époque (18901900). No Colóquio Por uma História das Relações Culturais das Américas, realizado em Lyon, na França, apresentou o trabalho Abul de Nepomuceno em Buenos Aires: a ópera como lugar de encontro. Já na 17ª Conferência Internacional Association Répertoire International d’Iconographie Musicale, em Atenas, na Grécia, participou com a pesquisa Novas Imagens para uma Nova Cidade: música e dança nas capas da Fon-Fon (Rio de Janeiro, 1907-1920). E na Conferência Internacional Music Criticism 1950-2000, em Barcelona, na Espanha, a professora apresentou o estudo sobre a crítica musical no jornal Folha de São Paulo, na década de 1990. Outra ação é a ampliação das atividades conjuntas com o Uruguai: a pesquisadora integra o Grupo de Investigación y Desarrollo Música y Sociedad (GIDMUS), da Universidad de la República. A professora participa de um projeto apoiado

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Professora Mónica Vermes (à esq., de blusa preta) e equipe estudam as relações entre literatura e música

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pelo Programa Artes Performáticas, Corporeidades e Teatralidade, que analisa manifestações populares e acadêmicas naquele país. “Contribuímos com informações sobre práticas e repertórios do Rio de Janeiro, como um contraponto ao que ocorria no Uruguai. Um dos objetivos é conhecer e publicar os trânsitos e diálogos musicais e teatrais entre os países do Cone Sul”, conta Mónica. “Já temos um projeto de pesquisa em comum com esse grupo e o trabalho deve se intensificar ainda mais a partir deste ano”. Ainda em relação à parceria com o GIDMUS, a professora Mónica edita duas edições do Journal of Music Criticism (music-criticism.com/journal-music-criticism), em conjunto com a professora Marita Fornaro, que coordena o grupo de pesquisa uruguaio. As duas pesquisadoras organizam juntas a mesa-redonda “Migração, Fronteiras, Territorialidades: cinco estudos de caso sobre as músicas populares latinoamericanas contemporâneas”, na 45ª Conferência Internacional do ICTM - International Council for the Study of Traditional Music, neste ano, em Bangkok, Tailândia.

Áreas de atuação O Programa de Pós-Graduação em Letras (PPGL) existe desde 1994, quando teve início o mestrado. Em 2010, passou a ter doutorado e, em 2012, o pós-doutorado. A finalidade é formar pessoal qualificado para o exercício de atividades profissionais de ensino e pesquisa em Letras. Tem como área de concentração os estudos literários e organiza-se em duas linhas de pesquisa – Literatura: Alteridade e Sociedade, e Poéticas da Antiguidade à Contemporaneidade, da qual participa a professora Mónica Vermes. Já o Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Territorialidades (PósCom) foi criado em 2014 e tem como área de concentração os estudos da comunicação na produção das territorialidades, bem como das práticas, processos e produtos midiáticos em ambientes particulares. O conceito de territorialidades inclui processos que constituem os espaços geográficos clássicos, bem como unicidades formadas a partir de interfaces socioeconômicas, políticas, culturais e simbólicas, inclusive as comunicacionais. A professora Mónica atua na linha de pesquisa Estéticas e Linguagens Comunicacionais, que compõe o PósCom juntamente com a linha de pesquisa de Comunicação e Poder.


E S P EC I A L


“A Ufes atua com o prota que a sociedade espera” Luiz Vital

Ao completar 65 anos de trajetória, a Ufes se consolida como importante instituição de ensino superior do país. Nesta entrevista, o reitor Reinaldo Centoducatte destaca o protagonismo da Universidade ao oferecer educação superior de qualidade, com excelência na produção de ciência e tecnologia e no desenvolvimento de projetos de extensão direcionados para as comunidades. Aborda o ensino de graduação e de pós-graduação, a pesquisa e diferentes projetos acadêmicos, ressalta os significativos indicadores de desempenho da instituição, resgata as complexidades do processo de criação da Universidade e a sua evolução acadêmica, explica a crise orçamentária imposta nos últimos anos e faz uma veemente defesa da universidade pública 22

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REVISTA UNIVERSIDADE – Reitor, por que é importante comemorar os 65 anos da Ufes? REINALDO CENTODUCATTE – Porque a Ufes é uma instituição de ensino superior fundamental e estratégica para o desenvolvimento do Espírito Santo e do Brasil. É uma universidade consolidada, com excelentes indicadores de desempenho, com forte presença regional, nacional e internacional, e que atua com o protagonismo que a sociedade espera. Também porque, ao longo de sua trajetória, proporcionou formação acadêmica qualificada para várias gerações nas mais diferentes áreas do conhecimento. A Ufes está em processo permanente de avanços na pesquisa científica e tecnológica, na inovação e no desenvolvimento


Jorge Medina

agonismo

de suas potencialidades extensionistas, que estão associadas às demandas sociais. A Universidade ainda impulsiona processos culturais que valorizam a produção regional e está sempre em busca da transformação e da modernização da gestão administrativa. Por isso são importantes as comemorações dos seus 65 anos.

Quais são os números que hoje expressam as potencialidades da Ufes? Os indicadores reafirmam a imensa capacidade de desenvolvimento da Ufes. Mostram a sua abrangência regional com quatro campi universitários: dois em Vitória; um no sul do estado, em Alegre; e um no norte capixaba, em São Mateus, com importantes unidades acadêmicas nos municípios de Jerônimo Monteiro, São José do Calçado e Aracruz. São cerca de

1.800 professores, 2 mil técnicos em educação, 20 mil estudantes na graduação presencial e mil na modalidade a distância, além de 3.500 na pós-graduação. São ofertados 103 cursos de graduação presencial e dez a distância, além de 93 cursos de pós-graduação. Os dados demonstram a importância da Universidade e revelam o elevado patamar que ela alcançou.

A história mostra que o processo de criação da Universidade foi complexo, em um momento de dificuldades para o estado e o país. De fato, a ideia de criação de uma universidade no Espírito Santo foi concebida num período histórico complexo – econômica e politicamente –, o que não impediu os capixabas de proporem esse desafio. Era

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um momento de crise do modelo produtor e exportador de café, no qual a economia local estava quase exclusivamente baseada.

Como a proposta de universidade se inseriu nesse cenário?

“A Ufes impulsiona processos culturais que valorizam a produção regional”

O projeto era visto pelo então governador Jones dos Santos Neves e por outras lideranças locais como uma nova possibilidade de desenvolvimento do estado, com busca de alternativas inovadoras de modelos econômicos. A intenção demonstrava uma estratégia empreendedora muito moderna para aqueles tempos, ainda que o Espírito Santo tivesse incapacidade financeira para manter a educação superior, que possui custos necessariamente elevados, mas que evidentemente são compensados pelos resultados econômicos e sociais que proporcionam. Naquela época, os jovens com condições financeiras saíam do estado para estudar em centros maiores, onde já havia universidades. Os outros interessados enfrentavam um rigoroso funil para alcançar o acesso à educação superior. Nesse cenário, a sociedade capixaba persistiu na vontade de construir a sua universidade pública.

Havia uma crise nacional. Sim, o país passava por uma crise muito acentuada. A economia estava desorganizada, e a crise política se agravara com o suicídio do presidente Getúlio Vargas, episódio que ocorreu três meses após a criação da universidade capixaba.

Como a Universidade conseguiu atravessar esse momento? Depois de quatro ou cinco anos, com o projeto de universidade estadual quase estagnado, os educadores de então, preocupados com a falência iminente da proposta, criaram um movimento que apontava para a federalização da Universidade, contando com a mobilização da sociedade e o engajamento de lideranças políticas.

E como o cor r e u o pr o ce s s o d e federalização? O que a história nos mostra é que, em 1959, o presidente da República Juscelino Kubistchek visitou o estado e foi abordado com a proposta de federalização da Universidade. Ele prometeu empenho e, de fato, no final do ano seguinte, enviou mensagem ao

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Congresso Nacional formalizando o pedido de aprovação da federalização. Em janeiro de 1961, o projeto foi, enfim, aprovado. A Ufes, então integrada ao Sistema Federal de Educação Superior, passou por transformações e, nos primeiros anos, foram operacionalizados os investimentos iniciais, que culminaram com a criação do campus universitário de Goiabeiras, em Vitória, em 1966.

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A par tir daí muitos momentos importantes, certamente, marcaram a trajetória da Ufes.

Sem dúvida. Claro que um percurso de 65 anos traz muitos momentos marcantes, e cada qual, ao seu tempo, tem o seu valor. A incorporação, na década de 1970, da Escola Superior de Agronomia, em Alegre, que era de âmbito estadual, é um exemplo, porque marca o início da interiorização da Ufes. No começo da década de 1990, a Universidade direcionou novas ações para o norte, com a oferta de cursos de graduação, e, em 2005, criou um centro de ensino em São Mateus. São momentos que marcaram a democratização do acesso à educação superior nos municípios do interior capixaba.

São muitos exemplos marcantes e históricos. Sim, outro exemplo é o ensino superior na modalidade a distância (EAD). No início dos anos 2000, a Ufes tornou-se uma das universidades pioneiras no país ao consolidar um projeto de EAD que se tornou modelo para outras instituições brasileiras de ensino. No seu início, a Ufes formou em Pedagogia cerca de 6 mil professores das séries iniciais para atuação na rede pública de todos os municípios capixabas, contemplando profissionais de educação que até então não tinham possibilidade de formação acadêmica.

Mais recentemente veio o projeto de inclusão social. Exatamente. Também nesse caso a Ufes foi uma das pioneiras no país. O processo de inclusão social na Universidade começou a ser debatido, inclusive com audiências públicas, no final da década passada e implantado em 2008, quando ainda nem havia a lei federal que estabeleceu a reserva de vagas. A iniciativa foi sendo aperfeiçoada e ampliada, e hoje está consolidada, o que possibilitou o ingresso de segmentos da população antes totalmente excluídos do ensino superior público e resultou em


grande transformação no perfil socioeconômico da Universidade.

O ensino de graduação acompanhou o histórico de evolução da Ufes? A expansão da Universidade nos anos 2000 alavancou o ensino de graduação na Ufes. Para se ter ideia, em 2002, a Ufes mantinha 47 cursos e ofertava 2.745 vagas, e fechou 2010 com 74 cursos e 3.995 vagas. Agora, em 2019, ofertamos 103 cursos e pouco mais de 5 mil vagas, evidenciando uma consistente evolução.

Esse montante é para manutenção e investimento, e a medida impacta as despesas com consumo de água, energia elétrica, contratos de prestação de serviços de limpeza e segurança, entre outros. O bloqueio do orçamento de capital e de emendas parlamentares afeta os investimentos em obras e em aquisição de equipamentos, repercutindo nas atividades de ensino, pesquisa e extensão. Acredito que, se o país prosseguir nesse cenário sombrio e que está se agravando, a tendência é a geração de déficit orçamentário que comprometerá gravemente o funcionamento das universidades antes mesmo de 2020, porque existem despesas que são obrigatórias. Estamos buscando modelos de gestão com foco na economicidade, de modo a manter a Ufes em pleno funcionamento, mas o fato é que há uma crise real e muito grave que atinge o conjunto das universidades federais.

“A inclusão social na Ufes começou quando nem havia lei federal estabelecendo a reserva de vagas”

A pós-graduação também seguiu o mesmo movimento? Sim. O primeiro mestrado aberto pela Ufes foi o de Educação, em 1978, e isso é muito marcante porque constitui o início da pós-graduação na Universidade. Na primeira década dos anos 2000, a Ufes acelerou a implantação de novos programas. Por exemplo, em 2002, mantínhamos três doutorados e 16 mestrados e, em 2010, esses números aumentaram para oito e 34, respectivamente. Em 2019, passamos a oferecer 31 cursos de doutorado e 62 de mestrado, com cerca de 4 mil estudantes. Foi esse avanço virtuoso da pós-graduação que impulsionou, inclusive, a criação da Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Espírito Santo (Fapes) e da Secretaria de Estado de Ciência, Tecnologia, Inovação e Educação Profissional, no começo deste milênio.

Então, há riscos iminentes quanto ao futuro das universidades públicas? Sem dúvida, e isso é muito preocupante. Há um emaranhado de situações que põe em risco as universidades federais, e que deixa a sociedade insegura em relação ao futuro da educação superior no país. Veja o desmantelamento dos órgãos de fomento à pesquisa, os bloqueios financeiros às instituições de ensino, os cortes de bolsas para pesquisa, as limitações para a assistência estudantil, a ausência de um projeto moderno e democrático para a educação brasileira, e diferentes ações que implicam precarização do ensino por meio de cortes orçamentários.

Falando dos tempos atuais e de uma temática preocupante, como está a realidade financeira da Ufes?

E qual poderia ser uma perspectiva mais otimista?

A sociedade capixaba tem acompanhado a realidade e os indicadores financeiros da Ufes, por meio do formato transparente que adotamos nos últimos anos. Estamos enfrentando um forte revés orçamentário desde 2014, com a imposição de cortes financeiros sucessivos. A partir de então, temos adotado um amplo programa de ajustes e de redução de despesas. Em 2019, o Ministério da Educação anunciou um bloqueio da ordem de 30% no orçamento das instituições federais de ensino superior, incluindo a Ufes. No nosso caso particular, o bloqueio gera impactos negativos de cerca de R$ 33 milhões, o que representa 33% do orçamento total inicialmente previsto, da ordem de R$ 99,4 milhões, incluindo recursos de custeio e capital.

O importante é que a sociedade brasileira tem demonstrado, em larga escala, estar na defesa da universidade pública, por entender a sua importância estratégica para o desenvolvimento do país, em todos os níveis. Não ter essa compreensão é estar na contramão dos avanços alcançados ao longo dos anos. As universidades públicas constituem o eixo principal de um sistema eficiente e de qualidade na formação de recursos humanos, de produção de conhecimento, de desenvolvimento científico e tecnológico, de prestação de importantes serviços à sociedade e de promoção da cidadania. A Ufes e o conjunto das universidades públicas são conquistas fundamentais que precisam ser mantidas.

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Jorge Medina

Pós-graduação em e

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Nábila Corrêa

Em dez anos, quantidade de mestrados da Ufes dobra e de doutorados mais que triplica, elevando o patamar da pesquisa a níveis de excelência

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O

Pós-Graduação (PRPPG). Lacerda Júnior explica que a avaliação da Capes analisa, entre outros critérios, a produção científica do corpo docente e discente, a estrutura curricular do curso e a infraestrutura de pesquisa. Os PPGs avaliados com nota 3 são autorizados a manter curso de mestrado e os que recebem a partir de 4 podem abrir doutorado. O diretor ressalta que a elevação do nível de qualidade atual dos programas foi obtida por meio do planejamento estratégico, iniciado em 2012, com o Programa de Melhoria da Pós-Graduação (Propos), o qual estabeleceu metas de desempenho baseadas nos critérios de cada uma das 49 áreas de avaliação da Capes. Para atingir tais objetivos, os programas instituíram ações estratégicas na área acadêmica, na captação de recursos, na revisão de currículos e nos incentivos à produção científica e tecnológica. Em consequência, mais programas alcançaram avaliação 4 da Capes. Assim, a Ufes, que contava com oito cursos de doutorado em 2009, passou a ter 18 em 2013 e 30 em 2019. No ano passado, a Capes autorizou a Universidade a ter doutorado nas áreas de Economia, Ciências Contábeis, Filosofia e Ciências Sociais. “Com o aumento na oferta de doutorados, novas linhas de pesquisa são criadas, diversificando ainda mais a atuação dos programas de pós-graduação na Ufes”, acrescenta Lacerda Júnior. O Propos também foi responsável pelo aumento de programas avaliados com 5 pela Capes, nota que indica o alcance de maturidade científica. No período de dez anos, a instituição passou de apenas três programas com essa nota para 13 na última avaliação da Capes, em 2017. Laís Santana

crescimento de mais de 100% no número de cursos de mestrado da Ufes – de 30 para 62 – e superior a 300% na quantidade de cursos de doutorado – de oito para 31 – é motivo a ser celebrado. No cenário nacional, esse incremento, ocorrido na última década, coloca a Universidade no grupo das 21 instituições brasileiras que oferecem mais de 50 cursos de pós-graduação. Localmente, esses números têm relevância ainda maior, já que os 60 programas de pós-graduação (PPGs) da Ufes representam 76% do total do estado. Em relação aos cursos de doutorado, a instituição é responsável por 90% da oferta das vagas capixabas. Anualmente, a Universidade disponibiliza cerca de 1.200 vagas de pós-graduação. Em 2018, contabilizou 2.895 estudantes nos cursos de mestrado e 1.057 nos de doutorado, além de 1.322 nas especializações, totalizando mais de cinco mil acadêmicos comprometidos em cerca de 5.500 projetos em andamento, em todas as áreas do conhecimento: Ciências Exatas e da Terra, Ciências Biológicas, Engenharias, Ciências da Saúde, Ciências Agrárias, Ciências Sociais Aplicadas, Ciências Humanas e Linguística, Letras e Artes. Os programas de pós-graduação da Ufes, entretanto, não se destacam somente pela quantidade de cursos oferecidos, mas também pela qualidade, avaliada pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). “Os programas com conceito 4, considerados bons, e 5, muito bons, já representam 58% dos oferecidos pela Universidade”, destaca o professor Valdemar Lacerda Júnior, que é diretor do Departamento de Pós-Graduação da Pró-Reitoria de Pesquisa e

Os programas de pós-graduação em Engenharia Ambiental (pág. anterior) e em Química (à dir.) participam de iniciativas para a internacionalização

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Danielle Gonçalves

O próximo passo é tornar os cursos da Universidade aptos a receber nota 6 pela Capes, o que representa que a área de pesquisa tem desempenho equiparável ao dos centros internacionais de excelência. Para alcançar esse fim, Lacerda Júnior enfatiza a importância da colaboração com outros países: “a internacionalização é um instrumento de apoio na busca da excelência, passando pela qualificação da produção intelectual, mobilidade de pesquisadores e estudantes, colaborações com universidades estrangeiras, compartilhamento de projetos e publicações, entre outras iniciativas”, ressalta o professor, destacando o apoio da Secretaria de Relações Internacionais (SRI) nas ações implementadas pelos PPGs da Ufes nessa área. Entre os resultados alcançados, está a escolha da Universidade pela Capes para receber fomento, por quatro anos, por meio do Programa Institucional de Internacionalização (PrInt). O programa prevê recursos para pesquisa, além de bolsas no exterior para professores e pós-graduandos, e auxílios para atrair pesquisadores estrangeiros. Os esforços da Ufes para avançar na colaboração internacional em sua pesquisa vão ao encontro de iniciativas semelhantes em outros centros de pesquisa nacionais. “Globalmente, a ciência torna-se cada vez mais colaborativa, e os pesquisadores brasileiros estão ultrapassando as fronteiras do país e da América Latina”, conclui o diretor de Pós-Graduação, segundo o qual o Brasil é o 13º maior produtor mundial de publicações de pesquisa (papers).

Lacerda Júnior destaca o aumento de publicações da Ufes indexadas em bases de dados internacionais

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Ranking Além das avaliações da Capes, o desempenho da pesquisa desenvolvida na Ufes pode ser medido pela posição da Universidade em rankings no país e no exterior. Em 2018, a instituição se destacou entre as melhores universidades brasileiras, na classificação do Ranking Universitário do Jornal Folha de São Paulo (RUF), que considera cinco indicadores: pesquisa, internacionalização, inovação, ensino e mercado. Na área de pesquisa, a Ufes alcançou o 30º lugar, após análise do total de publicações científicas e citações, e de publicações em revistas nacionais, além de recursos captados, número de bolsistas CNPq, defesa de teses, entre outros aspectos relacionados. Internacionalmente, a Ufes foi classificada entre as 40 melhores universidades latino-americanas em relação ao número de trabalhos de pesquisa, pelo Scimago Institutions Rankings, também em 2018. A classificação utiliza as informações sobre citações em trabalhos de pesquisa acessíveis na base de dados Scopus (da Editora Multinacional Elsevier). Em 2017, a Ufes ultrapassou o número de mil publicações indexadas nessa base. Lacerda Júnior explica que o número de citações recebidas por um paper reflete o impacto que ele teve em trabalhos posteriores. “As publicações científicas citam documentos anteriores para validar uma contribuição intelectual. Portanto, pode-se dizer que uma publicação com uma contagem de citações mais elevada teve um impacto maior no campo de conhecimento ao qual se relacionou”, ressalta.


Jorge Medina

Pesquisas nas áreas de Engenharia Ambiental, Tecnologia de Equipamentos, Tecnologia Industrial Básica e Tecnologia de Informação são realizadas no Centro de Pesquisa, Inovação e Desenvolvimento Eliezer Batista da Silva (CPID), inaugurado há um ano em Cariacica, na Grande Vitória

Restrição de verbas Os avanços na pesquisa, na Ufes e nas demais instituições públicas brasileiras, todavia, podem ficar comprometidos se essa área continuar sofrendo reduções no orçamento. Segundo Lacerda Júnior, a pesquisa e a pós-graduação vêm sofrendo perdas desde a crise de 2014. “Os constantes cortes financeiros que o setor de Ciência e Tecnologia vem sofrendo são muito preocupantes e, se não forem revertidos rapidamente, certamente trarão algum retrocesso nos próximos anos”, argumenta o diretor de Pós-Graduação. Em 2019, a pesquisa do país sofreu um forte impacto com a redução de oferta de bolsas de pós-graduação pela Capes, anunciada em maio. A Ufes dispunha de 656 bolsas de mestrado e 367 de doutorado. “Em um primeiro momento, houve o recolhimento de 17 bolsas de mestrado e 11 de doutorado, que seriam concedidas a novos pesquisadores”, explica Lacerda Júnior. As áreas que já foram prejudicadas pelo corte, com pesquisas canceladas, foram as de

Biotecnologia, Ciências Fisiológicas, Doenças Infecciosas, Informática e Saúde Coletiva. Dentre as pesquisas que serão afetadas, o diretor destaca a do Núcleo de Pesquisa Neurofeedback: Aplicação nas Desordens Neuropsiquiátricas, que reúne o conhecimento técnico e científico das áreas de Medicina, Psicologia e Engenharia, valendo-se da interação homem-máquina e de ambiente virtual para o restabelecimento, a formação ou a substituição de conexões cerebrais, com o objetivo de recuperar ou compensar funções comprometidas; e a de estudos dos efeitos das areias monazíticas de Guarapari sobre os sistemas biológicos, a qual busca a comprovação da eficácia terapêutica da radioatividade da areia preta das praias da cidade do litoral do Espírito Santo. Lacerda Júnior ainda acrescenta a pesquisa de avaliação dos riscos cardiovasculares de pacientes com câncer, realizada em parceria com o Hospital Universitário Cassiano Antonio Moraes (Hucam-Ufes), o Hospital Santa Rita, o Hospital Evangélico, o Centro Capixaba de Oncologia (Cecon) e o Departamento de Odontologia da Ufes.

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Ciência acessível projetos aproximam a Universidade da sociedade Ana Paula Vieira

Ações de pesquisa e de extensão criam novas formas de mostrar ao público o conhecimento desenvolvido na Ufes

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ara muitas pessoas, a ciência é uma utopia, algo distante que pertence a um mundo inacessível e, portanto, inalcançável”. Essa constatação é do professor do Departamento de Morfologia do Centro de Ciências da Saúde (CCS) da Ufes Marco Guimarães, um dos responsáveis por pesquisa que visa justamente aproximar a ciência da população e torná-la acessível a deficientes visuais. Juntamente com sua equipe, o professor desenvolveu modelos tridimensionais de células sanguíneas com o objetivo de levar o conhecimento a estudantes cegos ou com alguma dificuldade visual. O projeto, vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Bioquímica e Farmacologia, foi realizado no Laboratório de Ultraestrutura Celular Carlos Alberto Redins, da Ufes, em colaboração com o Laboratório de Ultraestrutura Celular Hertha Meyer, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). O professor Marco explica que os modelos

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celulares foram criados a partir de imagens reais (bidimensionais) obtidas por microscopia eletrônica de transmissão: “Nós coletamos o sangue, separamos as células e depois processamos esse material, que é desidratado e fixado com produto químico. Isso é o que chamamos de pré-microscopia”. Depois dessa etapa, o material é levado ao microscópio em um bloco de resina, de onde é possível obter uma imagem real da célula, a qual é vetorizada em um computador e levada para impressão em equipamento 3D. As imagens obtidas pelo professor no laboratório da Ufes foram impressas no Instituto Nacional de Tecnologia (INT), por meio de uma parceria com o pesquisador Jorge Lopes. A ideia de criar os modelos surgiu de observação feita pelo professor Athelson Bittencourt, coordenador do Museu de Ciências da Vida (MCV) da Ufes, que identificou a demanda de atender a estudantes com deficiência visual a partir de peças que eles pudessem tocar. O Museu apresenta cerca de 250


Fotos: Jorge Medina

itens que mostram a anatomia do corpo humano – incluindo ossos, espécimes naturais mumificadas, plastinadas ou fixadas em formol –, réplicas de fósseis de hominídeos e de animais pré-históricos e modelos anatômicos didáticos de órgãos e sistemas. “A visualização de estruturas tridimensionais, por si só, já é um atrativo. Acreditamos que a popularização da ciência ocorra por conta do maior interesse que as pessoas terão em entender como aquilo foi gerado”, afirma Guimarães. A pesquisa também pretende colaborar com a criação de um banco de dados mundial de imagens vetorizadas de modelos celulares. A partir daí, pessoas interessadas poderiam acessá-lo on-line, baixar livremente e produzir os modelos em impressoras 3D para fins educacionais. Essa iniciativa é desenvolvida em parceria com o professor da UFRJ Kildare Miranda, e a expectativa é que o banco fique pronto no final de 2019. Outra solução para o ensino de Biologia aos deficientes visuais foi desenvolvida pela mestra em Ensino na Educação Básica Andressa Antônio de Oliveira: o biscuit, massa de modelar feita com amido de milho e vinagre, usada no artesanato e também chamada de porcelana fria. Andressa começou a desenvolver a ideia ainda na graduação em Ciências Biológicas, no campus da Ufes de São Mateus, em 2012, quando participou de um projeto de iniciação científica. A orientadora, professora Karina Carvalho Mancini, também incentivou Andressa a integrar o projeto de extensão Biologia Celular na Prática, que desenvolve materiais para o ensino do tema nas escolas, e a continuar a pesquisa no mestrado. O resultado foi a dissertação intitulada “Um olhar sobre o ensino de Ciências e Biologia para alunos deficientes visuais”, defendida em 2018.

Professor Marco Guimarães desenvolve modelos tridimensionais de células sanguíneas, para facilitar o aprendizado de estudantes com deficiência visual

Durante a graduação, Andressa teve a oportunidade de aplicar seus modelos celulares em aulas para um estudante cego na escola Wallace Castello Dutra, em São Mateus. “Eu dava minha aula com o modelo e depois fazia perguntas para avaliar se foi útil para o aluno. Os resultados foram satisfatórios. Após três semanas de trabalho, ele sentiu curiosidade de saber como eram feitos os modelos. Levei a massa de biscuit e o estudante construiu uma célula com riqueza de detalhes”, conta.

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No mestrado, Andressa ampliou sua pesquisa e fez um levantamento para identificar os materiais existentes no Brasil voltados ao ensino da Biologia para estudantes com deficiência visual, sejam eles cegos ou com baixa visão. “O resultado mostrou 31 trabalhos e indicou que faltam conteúdos nas áreas de Genética, Evolução e Botânica, que foram meu foco”, explica. Ela cria os modelos priorizando materiais acessíveis e de baixo custo – além do biscuit, usa o isopor. A pesquisadora explica que são representações da realidade, diferente dos modelos desenvolvidos pelo professor Marco Guimarães, que são realísticos. “É um material de fácil acesso. O professor pode fazer a massa de biscuit com materiais que tem em casa”, diz Andressa. Assim como Guimarães ressaltou, Andressa também acredita que os modelos aproximam os jovens da ciência e facilitam o ensino: “O aluno dito normal tem o livro didático, mas com imagens planas. Elas não atendem aos deficientes visuais, que só ouvem o que o professor fala. Então, os modelos são um material inclusivo, que serve para todos”, destaca a mestra. Ela ressalta ainda que, por serem coloridos, os materiais também favorecem a compreensão de estudantes com baixa visão que, dependendo do nível da deficiência, conseguem compreender o contraste de cores. Extensão Para fortalecer as ações de divulgação e popularização da ciência, a Pró-Reitoria de Extensão (Proex) da Ufes também tem projetos sobre o assunto e criou, em julho de 2018, um novo setor dedicado a esse trabalho: o Departamento de Inovação e Divulgação da Ciência, sob a coordenação do professor Laercio Ferracioli. Laercio lembra que a Universidade já tem uma série de iniciativas de divulgação da ciência: “Esses projetos conversam com a sociedade de maneira natural, então a ideia do Departamento é dar uma organicidade às ações, incluindo as áreas de ciências exatas, naturais, da saúde, humanas e sociais”, afirma. O professor também ressalta que a Proex é a pró-reitoria responsável pela interlocução entre a Universidade e a sociedade, e por isso a divulgação deve estar aliada à comunicação: “Temos que estar abertos para receber o questionamento do cidadão e ter essa conversa com ele, visando à produção do conhecimento de maneira geral”, aponta. Para o coordenador do Departamento, é preciso capacitar a comunidade universitária para dialogar

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A mestra em Ensino na Educação Básica Andressa Antônio de Oliveira desenvolveu modelos de células em biscuit para facilitar o ensino de Biologia

com a sociedade como um todo, e não só com os especialistas da academia. “Preparar um pôster, um resumo e apresentar uma pesquisa em um congresso são partes naturais da formação do estudante. Mas o congresso é um restrito clube de pessoas que entendem do assunto. A proposta é ampliar essa conversa”, explica. Por isso, o recém-criado setor oferece oficinas de divulgação científica para alunos de graduação e de pós-graduação e para especialistas. Elas ocorrem sob demanda, e os interessados devem entrar em contato com o Departamento pelo telefone (27) 4009-2330. Nesses primeiros meses de trabalho, Laercio enfatiza que o setor está fazendo um levantamento inicial dos projetos de extensão envolvidos com divulgação e comunicação da ciência. Uma das ações realizadas recentemente foi o Pint of Science, festival internacional que ocorreu pela primeira vez no Espírito Santo em maio de 2018. A ideia é levar a divulgação científica para os bares: pesquisadores da Ufes falaram sobre seus estudos em diferentes pontos de Vitória. “Via de regra, esses especialistas estão acostumados a falar com os pares, conversar com um seleto grupo de pessoas que entendem


daquele assunto. Com o Pint of Science, a intenção foi preparar esses pesquisadores para divulgar, desempacotar todo o conhecimento técnico específico, de forma que eles pudessem apresentá-lo para o cidadão comum”, resume Laercio, responsável pelo festival em Vitória. Ainda em 2018, a Ufes também lançou o Ciência Móvel, um programa que conta com duas unidades móveis – um furgão e uma van – equipadas com kits pedagógicos e adaptadas para transportar cerca de 40 experimentos que podem ser levados para todo o estado, incluindo atividades como

exposições interativas, oficinas, minicursos, palestras, observações astronômicas e apresentações multimídias. Outra novidade foi a inauguração do Museu de Ciências da Vida, programa de extensão que ganhou um espaço permanente no campus de Goiabeiras, aberto à visitação. No mês de junho, também foi realizado o I Workshop de Comunicação Científica, com palestras, atividades práticas e competição de comunicação científica. O evento, aberto e gratuito, recebeu 108 inscritos de nove instituições, com formação em ciências da vida, da saúde, humanas, exatas e agrárias.

Professor dá dicas de comunicação científica Comunicar ciência exige técnica e a Ufes tem um professor que é especialista no assunto: Breno Salgado, do Departamento de Patologia do CCS. Ele foi um dos onze finalistas da etapa nacional de 2018 do Famelab, uma das maiores competições de comunicação científica do mundo, realizada pelo British Council em 32 países. O único capixaba na final dá a dica: toda a estrutura da mensagem deve ser planejada e, para isso, conhecer o seu público e a si mesmo são os pontos principais. Para o professor Breno, dentro do ambiente acadêmico, os pesquisadores refinam o conhecimento a um nível muito elevado, e isso faz com que eles usem muitos termos técnicos e jargões. “Temos que lembrar que do outro lado podem estar pessoas que não entendem do assunto. Conhecendo o nosso público, temos que rever a mensagem de forma a torná-la acessível, concisa e objetiva, evitar linguagem técnica e torná-la atrativa”, explica. Uma das estratégias para a comunicação da ciência é o uso de analogias. Salgado dá um exemplo: “Trabalho com o sistema imunitário, que é o nosso sistema de defesa contra infecções, câncer, todos os desafios que temos em termos de doença. Hoje, estão muito em voga os filmes de super-heróis, então eu posso fazer uma analogia de que o nosso sistema de defesa são nossos super-heróis, combatendo os vilões”. Para o professor, as analogias facilitam à pessoa que ouve a mensagem conseguir se colocar na situação e entender a ideia.

Na comunicação científica, a concisão das mensagens é um desafio, conta Salgado. Ele se lembra das TED Talks, formato de palestra que virou febre mundial e alcança grande circulação na internet. As TED Talks são apresentações com 18 minutos e, segundo o professor, pesquisas já comprovaram que nesse tempo específico a absorção da mensagem é maior. “Além disso, como você fala, se veste, caminha, interage com o público e utiliza recursos audiovisuais fazem parte da comunicação”, explica. Para ele, conhecimento do conteúdo é fundamental: “Você pode apresentar sua mensagem sem recurso audiovisual nenhum, mas também não adianta colocar um recurso audiovisual, deixar um slide lá durante toda a sua palestra e ficar falando como se você estivesse sem esse recurso”. Breno também sugere que se evite copiar modelos. “Por exemplo, se eu gosto muito de alguém, acho que ele se apresenta bem, fala bem, tem uma oratória muito boa, então vou imitá-lo. É pouco provável que dê certo, porque não vai ser em uma semana ou duas que você vai conseguir adquirir certa característica e, além disso, você tem as suas próprias características”, defende. Na opinião do professor, existe uma grande divulgação acadêmica de pesquisas – por meio de artigos e de entrevistas –, mas também é preciso alcançar a sociedade em geral: “Como servidores que prezam pelos preceitos do que é uma universidade, nós não podemos esquecer que a população também tem que ser comunicada. Nós temos que prestar contas”, finaliza.

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E n t r e v is t a – A n g é l ica Espin o sa

Ações da Ufes chegam a 2 milhões de pessoas em todo o estado Ana Paula Vieira

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esponsável por fazer a conexão entre a Universidade e a sociedade, a Pró-Reitoria de Extensão (Proex) da Ufes contabiliza 851 ações registradas, que chegam a todo o Espírito Santo e, somente em 2018, atenderam a um público estimado de 2 milhões de pessoas. No ano em que a Ufes comemora 65 anos, a Proex passa por uma importante adaptação gerada por novas regulamentações do Ministério da Educação (MEC): até 2021, todos os cursos de graduação de todas as universidades públicas brasileiras devem ter, no mínimo, 10% de extensão universitária em seus planos pedagógicos. Esse é um dos desafios da Proex, destacados pela então pró-reitora Angélica Espinosa Barbosa Miranda, que assumiu a gestão da política extensionista da Universidade em fevereiro de 2014 e deixou o cargo em maio deste ano. Angélica faz um balanço sobre o desenvolvimento da área nos últimos cinco anos e aponta perspectivas e desafios.

Acervo/ Ufes

Projeto de extensão Brinquedoteca: Aprender Brincando, que ganhou o Prêmio Maria Filina 2018

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O que é extensão universitária e qual a sua importância? A função da extensão é fazer a interface entre a universidade e a comunidade. Nas instituições públicas de ensino superior, a extensão é duplamente importante, porque elas são financiadas com recursos vindos do pagamento de impostos, então tudo o que é produzido aqui é de direito da sociedade. Temos de dar a devolução do que fazemos em termos de pesquisa, ensino e produção de conhecimento. Para isso, desenvolvemos ações de extensão em diversas áreas, com o compromisso social de melhorar a vida das pessoas. Qual a abrangência das ações de extensão da Ufes? Em 2018, tivemos 851 ações de extensão registradas, sendo 106 programas, 547 projetos, 85 cursos e 113 eventos, com um público alcançado de 2.062.544 pessoas. Há projetos provenientes de todos os Centros de Ensino e nas diversas áreas temáticas. Para dar visibilidade a essas iniciativas, promovemos anualmente a Jornada de Extensão, que faz parte da Semana do Conhecimento na Ufes. Nessa oportunidade, são apresentadas as ações realizadas durante o ano, e os principais resultados recebem o Prêmio de Mérito Extensionista Professora Maria Filina, nome instituído, em 2014, em homenagem à primeira mulher pró-reitora de Extensão da nossa Universidade. O que mudou nas políticas de extensão nos últimos cinco anos? Quais foram os principais avanços e quais são os desafios ainda a serem enfrentados? Recentemente, o MEC lançou uma nova regulamentação, via Conselho Nacional de Educação, que modificou as diretrizes da extensão universitária no país: a Resolução nº 7, de 18 de dezembro de 2018. Isso está sendo uma revolução, e nós temos trabalhado junto com a Pró-Reitoria de Graduação (Prograd), pois essa resolução determina que, até 2021, todos os cursos de todas as universidades


públicas brasileiras devem ter, no mínimo, 10% de extensão universitária em seus planos pedagógicos. Esse foi o maior impacto, porque ou cumpre a regra ou o curso é descredenciado. Aqui na Ufes, as licenciaturas já estão todas trabalhando nesse sentido, mas será preciso fazer uma movimentação para nos adequarmos a essa realidade, com a revisão de todos os planos pedagógicos de cursos. Outra resolução vinda do MEC estabelece a regulamentação das empresas juniores, que devem estar vinculadas aos órgãos de extensão das universidades. Aqui na Ufes, temos 28 empresas juniores atualmente, todas vinculadas à Proex. Em sua opinião, essas mudanças foram positivas? Para o aluno será muito bom, inclusive ele poderá fazer a extensão em outros cursos, o que é uma coisa muito interessante, porque gera a troca de conhecimento. Outra mudança que eu achei muito positiva é a obrigatoriedade de a extensão ter o envolvimento da comunidade externa. Essa era uma demanda da área há muito tempo, que eu considero benéfica, porque cria realmente aquele espaço que é a finalidade de existir da extensão universitária: fazer parcerias com governo de estado, prefeituras e instituições privadas, a fim de levar o conhecimento para fora da universidade. Essas ações de extensão da Ufes trazem quais impactos para a sociedade capixaba? O impacto se dá na modificação de condutas e de comportamentos das pessoas. A extensão traz diversas contribuições para a sociedade, pois oferece ações em várias áreas temáticas, como saúde, meio ambiente, tecnologia e produção, trabalho, direitos humanos e justiça, comunicação e cultura. As ações estão presentes em todos os municípios capixabas e proporcionam o contato dos estudantes e servidores com o público em geral. Elas propiciam que as teorias aprendidas durante o curso se concretizem na vivência prática. A população recebe o aprendizado gerado pela Universidade e é beneficiada no que se refere ao desenvolvimento de ações que produzem transformação social. Um exemplo disso ocorreu em 2017, quando a Ufes se tornou ponto de vacinação da campanha contra febre amarela. Nós fizemos uma mobilização social tremenda. Isso não é obrigação da Universidade, mas é uma resposta social. Em 2013, tivemos o projeto Ufes Solidária, quando desenvolvemos várias ações

voltadas para a situação emergencial gerada pelas enchentes daquele ano. Nesses casos, mobilizamos diferentes setores no intuito de tentar trazer melhorias para a sociedade, aplicando o conhecimento que a gente tem aqui. Em relação à Pró-Reitoria de Extensão, quais foram as novidades nos últimos cinco anos? Entre os avanços mais recentes, temos o novo sistema de informação da Proex, lançado em maio de 2019 e disponível no endereço projetos.ufes.br. Somos a primeira Pró-Reitoria a ser incluída, mas ele também será utilizado pelas Pró-Reitorias de Graduação (Prograd) e de Pesquisa e Pós-Graduação (PRPPG), além de, futuramente, ser integrado ao Lepisma (sistema de protocolo da Universidade). Essa é uma grande mudança e uma grande demanda da comunidade acadêmica já há algum tempo. O sistema foi desenvolvido pelo Núcleo de Tecnologia da Informação (NTI) da Ufes. Em termos de estrutura, a Proex passou por uma readequação, com o melhor aproveitamento dos servidores nas unidades. Demos mais empoderamento à Divisão de Suporte a Projetos, nossa unidade que tem maior número de servidores, porque ela é a responsável por receber tudo dos projetos, é o nosso ponto de contato com a comunidade interna da Ufes: servidores técnico-administrativos, docentes e estudantes que fazem o registro dos projetos. Outra evolução foi o processo de digitalização de emissão de certificados, que antes era manual. Isso deu muita agilidade aos eventos, principalmente. Entre as mudanças mais recentes, foi criado um novo departamento: de Inovação e Divulgação da Ciência, para trabalharmos mais de perto com a PRPPG na divulgação dos resultados das pesquisas para a sociedade em geral. A PRPPG tem todo o fluxo voltado para a divulgação dos projetos na comunidade científica, então o objetivo com esse novo Departamento é buscar esses resultados para serem divulgados à comunidade leiga, para facilitar a interação com as pessoas. Quanto ao investimento destinado à extensão, como tem sido o incentivo nos últimos anos? Apesar de os recursos para a extensão terem sido menores nos últimos anos, temos tentado otimizá-los e providenciar suporte aos projetos para a realização das atividades extensionistas. Em 2015, lançamos um edital de fomento à extensão e planejamos reeditá-lo neste ano. Também temos o edital anual do Programa Extensão (Pibex), que oferece 150 bolsas.

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Mais

oportunidades e diversidade na graduação Camila Fregona

Nos últimos cinco anos, o número de cursos de graduação da Ufes cresceu. A oferta de vagas para os estudantes foi ampliada e inclui opções exclusivas de formação no estado e no país

C

riada há 65 anos com o desafio de formar profissionais, a Universidade Federal do Espírito Santo segue evoluindo nessa tarefa, junto a outras relativas a desenvolver e compartilhar conhecimentos. De 2014 a 2019, o ensino de graduação foi marcado pela alteração na forma de ingresso à Universidade: do tradicional vestibular em duas etapas, houve a migração, concluída em 2017, para o Sistema de Seleção Unificada (Sisu) do Ministério da Educação (MEC), que avalia os estudantes exclusivamente pela nota obtida no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Também

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foram ampliados a oferta de cursos e o número vagas e, paralelamente, foram reduzidas as vagas ociosas, o que reafirma o crescimento e o compromisso da Ufes com o ensino superior público. Nos últimos cinco anos, o número de vagas aumentou 10%, totalizando 5.531 em 2019. A ampliação foi resultado do incremento na quantidade de cursos de graduação presencial, que subiu de 92 em 2014 para 104 neste ano. Entre as novidades, está a Licenciatura em Educação do Campo, criada em 2014 com o objetivo de formar professores para atuar em escolas do ensino básico localizadas em áreas rurais.


A graduação pode ser cursada nos campi de Goiabeiras e de São Mateus e tem 160 vagas anuais. Como o curso se dirige a um público que possui vínculo com o campo, a seleção é feita por edital específico. “Esses cursos formam professores que compreendem a cultura do lugar, que entendem que a formação e a atuação não são descontextualizadas. São cursos que também revelam o compromisso da instituição com o desenvolvimento social”, explica a pró-reitora de Graduação, Zenólia Figueiredo. Outro exemplo é a Licenciatura Intercultural Indígena, destinada a professores Tupinikim e Guarani que lecionam em aldeias no território capixaba. O curso, criado em 2015 com 70 vagas, acontece na Base Oceanográfica da Ufes, no município de Aracruz, e sua primeira turma de estudantes se forma em 2019. Nesse período, muitas graduações existentes ampliaram as habilitações ofertadas e o número de turmas e de estudantes. Em 2016, a Engenharia de Produção, no campus de Goiabeiras, passou a ser oferecida no período noturno, uma ampliação de 40 vagas, e as oportunidades no período vespertino dobraram, passando de 20 para 40. No Direito, também houve o aumento de dez vagas anuais a partir de 2017, chegando a 120. Democratização do acesso Além de ampliar as vagas, a Ufes adotou, desde 2007, um sistema de inclusão social em seus processos seletivos. Inicialmente, esse método reservava 40% das oportunidades disponíveis para os estudantes que cursaram pelo menos quatro anos das séries do ensino fundamental e todo o ensino médio em escola pública, que tivessem renda familiar de até sete salários mínimos e que não possuíssem nenhum curso de graduação completo. A primeira resolução aprovada na Ufes no sentido de democratizar o acesso ao ensino superior ocorreu cinco anos

antes da regulamentação federal, que veio em 2012, com a Lei nº 12.711. Por meio dela, 50% das vagas da Universidade passaram a ser reservadas para alunos que cursaram integralmente o ensino médio em escolas públicas, com renda familiar inferior a 1,5 salário mínimo por pessoa, autodeclarados pretos, pardos ou indígenas, ou que possuam deficiência. A partir de então, esse modelo foi o adotado por todas as instituições federais de ensino superior do país. A experiência antecipada da Ufes com o sistema de reserva de vagas possibilitou o desenvolvimento, desde 2008, de um plano de assistência aos estudantes de graduação presencial, a fim de favorecer a sua permanência e a conclusão do curso. Em 2010, o Plano Nacional de Assistência Estudantil (Pnaes) estabeleceu um recorte de renda familiar para assistidos, de até 1,5 salário mínimo por pessoa. Atualmente, seis mil alunos estão cadastrados no Programa de Assistência Estudantil da Pró-Reitoria de Assuntos Estudantis e Cidadania (Proaeci) da Ufes e recebem auxílio para transporte, moradia, creche, material de consumo e alimentação (acesso gratuito ao Restaurante Universitário), além de empréstimo estendido de livros. Outra medida de democratização do acesso ao ensino superior público foi a adoção do Sisu a partir de 2014. Naquele ano, o Sisu serviu como forma de ingresso aos cursos com início no segundo semestre nos campi de Alegre e São Mateus. A experiência positiva legitimou a decisão de tornar o Sisu a única forma de ingresso nos cursos de graduação presencial da instituição a partir de 2017. Eliminou-se, assim, o modelo anterior, composto por uma primeira etapa classificatória, com base nas notas do Enem, e uma segunda etapa discursiva, com provas de redação e conhecimentos específicos. Algumas graduações – como Música, Letras Libras e Licenciatura em Educação do Campo – permaneceram com editais de

Fotos: Reprodução/ TV Ufes

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Jorge Medina

Segundo a pró-reitora de Graduação, professora Zenólia Figueiredo, a oferta de vagas pelo Sisu possibilitou aumentar a taxa de preenchimento dos cursos

ingresso em separado, devido a especificidades no processo seletivo. Em 2019, a Ufes passou a participar de duas edições anuais do Sisu, separando as entradas para o primeiro e o segundo semestre. A oferta de vagas por meio do Sisu promoveu uma grande mudança no acesso à universidade: com o sistema nacional, estudantes de qualquer lugar do país poderiam participar do processo seletivo sem ter de se deslocar para realizar as provas. A facilidade, contudo, não afetou o perfil de origem dos ingressantes: segundo a Pró-Reitoria de Graduação (Prograd) da Ufes, o percentual de alunos vindos de outros estados se manteve na casa dos 25%. O maior diferencial, com o Sisu, foi o aumento da taxa de preenchimento dos cursos e a consequente redução do número de vagas remanescentes. Em 2015, por exemplo, das 4.178 oportunidades ofertadas no VestUfes, 978 não foram preenchidas e passaram por outros processos seletivos de remanejamento, tal como o de vagas surgidas. Em uma análise comparativa, o número representava uma ocupação em torno de 70%. Já em 2018, a taxa saltou para 99%. Isso porque, no Sisu, o candidato já

conhece a nota de corte dos cursos na hora de fazer sua escolha e, além disso, pode selecionar uma segunda opção de graduação, caso não seja classificado na primeira. Apesar da facilidade para inscrição e visualização das chances em determinada área, a Prograd garante que as notas de corte dos cursos foram mantidas no mesmo patamar do vestibular. Avaliações Em termos qualitativos, as graduações da Ufes têm apresentado melhoria constante nos últimos cinco anos, segundo o Índice Geral de Cursos do MEC. Desde 2012, a quase totalidade dos cursos da Ufes foi avaliada positivamente, com nota igual ou maior que 3 no Conceito Preliminar de Curso (CPC). O indicador considera a nota no Exame Nacional

Ensino a distância amplia interiorização Desde 2001, o ensino a distância na Ufes promove cursos de graduação e de especialização na modalidade semipresencial. Nesse modelo, as aulas são acompanhadas de forma on-line, por meio do Ambiente Virtual de Aprendizagem, e há encontros semanais nos polos de apoio presencial, onde tutores orientaram os estudantes. Ao todo, dos 78 municípios capixabas, 27 contam com os polos de ensino (ver mapa na página ao lado), o que distribui as bases da Ufes para o interior das regiões capixabas e possibilita a democratização do acesso à formação em nível superior. Em 2014, a Secretaria de Ensino a Distância (Sead) da Ufes ofertou cursos de licenciatura nas

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áreas de Artes Visuais, Ciências Biológicas, Filosofia, Física, História, Pedagogia e Química. Em 2018, essas turmas (à exceção de Ciências Biológicas) formaram 850 pessoas em 19 municípios capixabas. No mesmo ano, foram oferecidas vagas para a licenciatura em Letras Italiano — curso previsto para ser concluído em 2021. O ensino a distância contribui para a formação e a atuação de professores em regiões do Espírito Santo que estão distantes dos campi universitários, tal como Ecoporanga e Mantenópolis, no norte; Mimoso do Sul e Bom Jesus do Norte, no sul; Afonso Cláudio e Venda Nova do Imigrante, na região serrana. “A interiorização da Ufes por meio da modalidade a


de Desempenho dos Estudantes (Enade); o Indicador de Diferença entre os Desempenhos Esperado e Observado (IDD), que mede o quanto o curso de graduação agregou ao desenvolvimento do discente; o perfil dos professores, incluindo o regime de trabalho e a titulação; e o questionário aplicado aos alunos sobre as percepções do processo formativo. Dos 86 cursos avaliados no último ciclo do Enade, 50 obtiveram conceito 4 no CPC e 35 deles, igual a 3. O MEC também realiza avaliações in loco, tanto para cursos que não participaram do Enade naquele período quanto para aqueles que obtiveram CPC menor do que 3. Desde 2014, foram visitados 42 cursos da Ufes, e todos obtiveram conceito de curso positivo (maior ou igual a 3). Quatro deles alcançaram a nota máxima (5): Estatística, em 2019; Filosofia (a distância), em 2018; Pedagogia, no campus de São Mateus, em 2017; e Arquivologia, em 2016. De acordo com a Secretaria de Avaliação Institucional (Seavin), os números se refletem em boas classificações para a Ufes, por exemplo, a 26ª posição no Ranking Universitário Folha, entre as 196 instituições brasileiras avaliadas.

No Espírito Santo, algumas graduações, na modalidade presencial, são encontradas exclusivamente na Ufes. Alguns exemplos são Arquivologia, Artes Plásticas, Biblioteconomia, Cinema e Audiovisual, Engenharia de Alimentos, Geologia, Oceanografia, Terapia Ocupacional e Zootecnia. Além desses bacharelados, as licenciaturas em Ciências Biológicas, Educação Física, Filosofia, Física, Geografia, História, Letras e Química são diferenciais para os que pretendem atuar na educação, como professores dos ensinos fundamental e médio. A Universidade também conta com cursos oferecidos em poucas instituições federais do país. O bacharelado em Letras Libras (que visa formar tradutores e intérpretes da Língua Brasileira de Sinais) existe também em apenas outras quatro federais. A graduação em Matemática Industrial é outro exemplo, disponível no campus de São Mateus e em outras quatro instituições. Engenharia Madeireira, ofertada no campus de Alegre, é encontrada em outras duas instituições. Já o curso de Gemologia, que forma profissionais para atuar na cadeia produtiva de gemas e joias, é o único em nível superior no país.

Referência Única universidade pública no Espírito Santo, a Ufes se faz presente em todo o estado, por meio de seus 27 polos de ensino a distância (ver quadro) e dos campi universitários de Alegre, no sul do estado, e São Mateus, no norte.

distância impactou qualitativamente os níveis oficiais que avaliam a educação deste estado, melhorando-os de forma considerável, especialmente em razão das mudanças nas práticas dos professores, bem como suas concepções teóricas de ensino e de aprendizagem. Ao longo de sua história, o ensino a distância formou e capacitou mais de 22 mil pessoas entre os cursos de graduação, aperfeiçoamento e pós-graduação”, ressalta o diretor acadêmico da Sead, Júlio Francelino Ferreira Filho. O material didático é desenvolvido pelos professores da Ufes e oferecido gratuitamente aos alunos. Os recursos produzidos para cursos, tais como videoaulas, livros, jogos e animações, são acessíveis ao público e estão disponíveis no endereço sead.ufes.br.

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“A contar pelo que esta universidade já produziu em apenas 65 anos, o que ela terá feito quando completar 100, 200 anos? Muito! Para contribuir não só com a formação de profissionais qualificados para servir à sociedade, com a produção de conhecimento, mas também com o relacionar-se cotidianamente com a sociedade na qual estamos inseridos. Esse é o nosso trabalho, esse é o nosso papel. Por isso, esse momento de comemoração dos 65 anos da nossa universidade é um motivo de felicidade e de orgulho”

Viviane Mosé, filósofa


Laboratório da Ufes é destaque nas pesquisas em

AQUICULTURA Cássia Rocha

A atividade cresce rapidamente em vários países e é promissora para a segurança alimentar mundial. Pesquisadores da Base Oceanográfica da Ufes pretendem compartilhar o conhecimento científico sobre a prática com a comunidade, a fim de otimizar a atividade pesqueira do estado

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aquicultura ou cultivo de organismos aquáticos consiste na criação e reprodução de peixes, algas, crustáceos ou moluscos em ambientes confinados e sob condições controladas. Uma das vantagens desse modelo em relação à pesca exploratória é a preservação dos ecossistemas marítimos, já que não há o risco de extinção de espécies na criação em cativeiro. Estudos da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) mostram que 80% dos estoques pesqueiros estão sobre-explorados, o que indica a importância da aquicultura para a segurança alimentar. Estimativas da FAO apontam que este será o setor produtor de alimentos que mais crescerá no mundo. Além disso, o cultivo é mais previsível, o que aumenta a homogeneidade dos alimentos e reduz os custos, garantindo um produto mais barato. Apesar de ter sido introduzida no Brasil há mais de um século, a aquicultura ainda está nos primeiros passos, se comparada a outras atividades de produção animal em que o país se destaca mundialmente.

A participação brasileira no cultivo de organismos aquáticos é de cerca de 0,8%, aponta a FAO. A produção nacional se baseia principalmente em unidades de pequena escala (com exceção do camarão marinho, que corresponde a até 14% do total). São aproximadamente cem mil fazendas aquícolas, ocupando 80 mil hectares, o que equivale ao território do município capixaba de Cachoeiro de Itapemirim. Segundo a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), a área ocupada é semelhante à dos principais países produtores, e, devido à grande região costeira e ao clima, o Brasil tem potencial para ampliar a atividade. Diante desse cenário, a aquicultura despertou o interesse de pesquisadores de vários lugares do mundo, inclusive de estudiosos da Ufes que atuam na Base Oceanográfica localizada em Santa Cruz, no município de Aracruz. Três unidades constituem os Laboratórios Integrados da Base Oceanográfica e trabalham de forma integrada na temática da aquicultura: o Laboratório de Zooplâncton, o de Ecotoxicologia e o de Cultivo de Organismos Marinhos (LabCOM).

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Da microalga ao peixe A Base Oceanográfica está instalada em espaço cedido pela prefeitura de Aracruz, onde há água com qualidade adequada para a aquicultura. Além disso, o município conta com ampla oferta de espécies nativas, localiza-se em uma região de grande desembarque pesqueiro e tem intensa atividade nesse ramo, com destaque para o camarão e o robalo. A equipe de pesquisadores conta com bolsistas de iniciação científica, mestrandos, doutorandos e pós-doutorandos auxiliados por técnicos de laboratório, sob coordenação do professor Luiz Fernando Loureiro Fernandes. Como a maioria dos estudantes reside na Grande Vitória, um dos desafios para desenvolver os estudos é o transporte até a Base. No laboratório, são desenvolvidos projetos de pesquisa e inovação em larvicultura, alimentação de organismos, desova e repovoamento de espécies ameaçadas por sobre-exploração. “O objetivo do LabCOM é disponibilizar para a comunidade local pacotes tecnológicos compostos por pesquisas relacionadas à vida marinha, a fim de otimizar a atividade pesqueira do estado. A aquicultura é o principal objeto de estudo atualmente”, diz Fernandes. As pesquisas relativas à aquicultura incluem toda a cadeia alimentar. “A base é o cultivo de microalgas. Elas servem de alimento para os zooplânctons, que vêm logo acima na cadeia alimentar. Temos outro laboratório para cultivo do zooplâncton, que é alimento vivo para as larvas de peixe”, explica. O laboratório começou com estudos sobre caranguejo-uçá, o que lhe rendeu o Prêmio Mercocidades, em 2011. O projeto feito junto à prefeitura de Vitória visou ao repovoamento da espécie. “Os caranguejos sofrem sobrecata. Além disso, na década passada, a chamada doença do caranguejo letárgico acometeu

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a região. As populações ainda estão em fase de recuperação, já que demoram cerca de sete anos para se desenvolver e os manguezais sofrem impacto direto por poluição e ocupação”, destaca o coordenador. Depois dessa pesquisa, o laboratório ampliou o seu trabalho e incluiu os peixes, porque era uma demanda social. Foram realizados experimentos, principalmente para a engorda de algumas espécies. Potencial não explorado O Espírito Santo possui uma grande diversidade de espécies nativas altamente favoráveis ao desenvolvimento da aquicultura, porém, para Fernandes, esse potencial não é aproveitado: “A técnica quase não é utilizada no estado. Predomina a pesca em mar aberto, na região costeira. Hoje se tem basicamente o cultivo que ocorre em Guarapari”. Na avaliação do professor, o método mais adequado para o Espírito Santo é a maricultura, ou seja, a aquicultura desenvolvida exclusivamente em água salgada. Nessa modalidade, os organismos são mantidos em seu habitat natural, porém se delimita a área a que eles terão acesso. A maricultura é mais utilizada no Brasil para o cultivo de camarões, ostras e mariscos. “A aquicultura ainda vai ter um grande impacto sobre a alimentação, porque o estado tem um grande problema com sobrepesca e uma série de outros impactos antrópicos que afetam a qualidade do pescado, principalmente depois do desastre no Rio Doce. O laboratório acompanha o desenvolvimento das espécies nativas para tentar minimizar esses impactos”, salienta Fernandes. O professor acrescenta que novas pesquisas buscam promover ações de repovoamento, por meio da introdução das espécies que perderam população devido à tragédia.


Acervo pessoal

No intuito de ampliar a atuação dos laboratórios, encontra-se em andamento um projeto de adequação das instalações visando a pesquisas voltadas para a larvicultura de espécies marinhas nativas. Tais estudos subsidiarão programas governamentais de incentivo a projetos de maricultura para os pescadores artesanais do Espírito Santo e demais entidades interessadas. As pesquisas também têm em mira a recomposição dos estoques pesqueiros por meio do repovoamento das espécies ameaçadas ou de interesse econômico. Presente e futuro Atualmente, a equipe desenvolve um projeto inovador com o peixe vermelho dentão (Lutjanus jocu), para fazer sua desova em laboratório, o que será realizado pela primeira vez. O LabCOM tem as espécies que compõem todo o ciclo da cadeia alimentar, desde a base até o topo: quando os peixes se reproduzirem, já haverá alimento para as larvas. “O laboratório acompanha todas as fases, desde que a fêmea produz o alevino, até o desenvolvimento dele nos primeiros estágios, juvenis”, ressalta Fernandes. A iniciativa é financiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Espírito Santo (Fapes) e tem parceria com o Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper) e com o Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes, campus de Piúma). O Incaper é responsável por providenciar o alimento vivo para os recém-nascidos e por produzir a ração; o Ifes se encarrega do fornecimento de óleos para incrementar a ração e ainda da reutilização do refugo da pesca para alimentação dos peixes. O objetivo do projeto é fechar todo o ciclo de desenvolvimento dessa espécie: da reprodução à produção

Fernandes coordena as pesquisas na Base Oceanográfica, que envolvem toda a cadeia alimentar da aquicultura

de alevinos, alimentação com alimento vivo, desmame (início do uso da ração) e crescimento, até chegar à comercialização, feita pela comunidade. Entre os programas em andamento, também está a criação de misídeos (grupos de crustáceos) em laboratório para estudos ecotoxicológicos e alimentares, financiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). “Além desses, temos um projeto com tainhas e outro que visa ao aproveitamento do resto de alimento vivo, que é trabalhado com copépodos (microcrustáceos), ambos em parceria com o Incaper. E temos o cultivo de microalgas, que é uma atividade contínua. Por conta da restrição de espaço, é o que é possível ser feito”, destaca o coordenador. Os estudos buscam se dedicar a espécies que têm melhor crescimento e que se revertem em maior benefício para a comunidade como fonte de renda. O professor destaca que “o objetivo de gerar este ‘pacote tecnológico’, este modo de fazer a coisa, é transferir o conhecimento para a comunidade”. Os dados gerados nos Laboratórios Integrados são tabulados, para traçar diagnósticos e cenários futuros. “As pesquisas são desenvolvidas por meio de tentativas, testes aplicados em cada espécie. Toda a informação obtida passa a fazer parte de um ‘pacote tecnológico’ que serve de base para os próximos experimentos do laboratório”, afirma Fernandes. Os dados poderão suprir a ausência de estatísticas e estudos sobre o setor da aquicultura e seu desenvolvimento produtivo, além de serem usados para o planejamento de políticas públicas.

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lutinha levada a sério Brincadeira de

CAMILA FREGONA

Pesquisa revela como os elementos lúdico-agressivos contribuem para o desenvolvimento da criança

O

brincar da criança pode parecer simples, mas representa uma de suas principais formas de expressividade. Por meio de jogos e brincadeiras, ela interage com o meio físico e social, constrói e internaliza conhecimentos e produz cultura. E também cria e afirma o seu modo peculiar de ser e estar no mundo. “Quando brincam, as crianças constroem, por meio de sua cultura de pares, diferentes modos de jogar e de brincar, que nem sempre são compreendidos por um

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observador externo, mas que conferem a elas coesão e sentido. Por meio do jogo e da brincadeira, a criança cria pontes entre a fantasia e a realidade, interage e se constitui socialmente”, explica a pesquisadora e professora de Educação Física Raquel Firmino Magalhães Barbosa. Ao ingressar no mestrado, Raquel iniciou um estudo para conhecer o imaginário infantil sob as influências da mídia televisiva na cultura lúdica contemporânea. Naquele momento, a pesquisa


revelou que o componente da ludicidade, da luta e da agressividade se fazia presente na maioria das brincadeiras observadas e registradas com as crianças. Ele surgia de forma espontânea e intensamente associado aos desenhos animados. No doutorado, concluído na Ufes em 2018, a professora aprofundou esses estudos e construiu a tese sobre o que definiu como hibridismo brincante. A criança, ao brincar, combina fantasias, linguagens e comportamentos. Independentemente do tipo de brincadeira, uma característica comum é a ligação entre o mundo real e o da fantasia. Observando esses aspectos, a pesquisadora considerou a condição de hibridismo da brincadeira. Ela conta que “O hibridismo brincante é compreendido por entrecruzamentos de ações e de aspectos simbólicos que podem surgir da junção de comportamentos distintos durante o jogo. Neste estudo, o que ficou evidenciado nas brincadeiras infantis foi a articulação entre três rubricas: da ludicidade, da agressividade e do nonsense”. As três características fundamentaram o conceito do hibridismo brincante, que compreende o homo ludens como o ser da ludicidade e da fantasia, o homo violens como o ser da agressividade e do poder, e o homo demens como o ser do nonsense, da desrazão e da incoerência. Segundo a autora, entre as possibilidades do hibridismo brincante, destacam-se as brincadeiras lúdico-agressivas. “Elas se caracterizam por alguma disputa ou confronto de natureza simbólica e corporal, evidenciando a prevalência de elementos lúdicos juntamente com a busca de excitação, de poder, de agressividade, de combate, de nonsense e de transformação. Esse tipo de brincadeira mostrou que pode ser uma maneira de as crianças se expressarem ludicamente e ressignificarem a cultura de que fazem parte”, explica.

com a professora, isso ocorre pelo fato de as crianças estarem descobrindo o mundo, a si mesmas e quem está à sua volta. Anunciam, em seus gestos e relações, uma linguagem brincante repleta de desejos e de imaginações transgressoras. No entanto, Raquel ressalta que, na maioria das vezes, as brincadeiras lúdico-agressivas são coibidas no contexto escolar, sob o argumento de que geram violência e indisciplina. Para ir de encontro a essa ideia, fundamentada na visão do adulto, as crianças usam táticas com o objetivo de manipular e alterar a disciplina imposta. “Ao produzir suas brincadeiras lúdico-agressivas, as crianças transformam aquilo que é danoso e destrutivo em algo bom e prazeroso, porque nesse momento elas estão usufruindo da vida, apresentam um descompromisso com o resultado. É aí que está a graça do jogo”, aponta. Para Raquel Barbosa, há crianças, infâncias e brincadeiras na escola que não devem ser marginalizadas. Desse modo, as brincadeiras lúdico-agressivas poderiam ser vistas e compreendidas como uma vontade de brincar de forma mais corporal e enérgica, buscando desmistificar o que se encontra na superfície desses jogos. “É necessário reforçar a necessidade de (re)construir um olhar sensível, que se caracterize por ser curioso, isso é, um olhar que busca ver além do que o jogo pode aparentar, abrindo espaços para novas descobertas e para o que ele pode revelar”.

Acervo pessoal

Brincadeiras coibidas As brincadeiras de “lutinha” ou a imaginação de histórias com super-heróis, monstros, armas, batalhas e textos envolventes podem ocorrer na escola, sobretudo na educação infantil, etapa da educação básica na qual a pesquisa foi realizada. De acordo

Brincadeiras estudadas articulam ludicidade, agressividade e nonsense, aponta Raquel Barbosa em seu doutorado

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Pesquisa de campo Para compreender esse fenômeno, Raquel estudou sobre o hibridismo brincante ao longo de quatro anos, entre 2014 e 2018. Em 2015, realizou a pesquisa de campo em um Centro Municipal de Educação Infantil de Vitória, no Espírito Santo, com 60 crianças de 4 a 5 anos e com uma equipe composta por professores e por funcionários administrativos. “O estudo teve uma abordagem etnográfica. Devido a isso, foi necessário que eu, como pesquisadora, estabelecesse uma interação com os sujeitos pesquisados, que envolveu a imersão, a convivência, a observação, a produção de dados brincantes e de imagens que nasciam dessas relações no cotidiano com as crianças”, fundamenta. De acordo com a autora, o objetivo foi apresentar outra lógica de compreender as interações brincantes entre as crianças, construindo a possibilidade de a brincadeira se desenvolver em um contexto turbulento, desde que houvesse ludicidade. Tal olhar diferenciado mostrou a importância dessas brincadeiras no extravasamento das emoções, na apropriação e na (res)significação da realidade e na produção de sentidos nas interações, proporcionando uma leitura mais sensível para as manifestações da cultura infantil. Aprendizado Após a análise de cerca de 1.500 dados coletados, a pesquisa mostrou que o corpo, o movimento, as interações sociais e as (re)invenções infantis são elementos centrais nas brincadeiras lúdico-agressivas. O estudo também evidenciou que o recreio é o momento em que as crianças (re)constroem brincadeiras relacionadas ao que elas vivenciam em seu

Variações de brincadeiras lúdico-agressivas • Disputas agonísticas: caracterizadas pela competitividade lúdica, são identificadas nas corridas, nos piques e na brincadeira de polícia e ladrão. • Confrontos de luta: há constante superação e demonstração de força e hedonismo; são constatados em brincadeiras com socos, chutes, empurrões e puxões, em brincadeiras de agarrar e de medir forças, e em imitações de armas e de elementos da capoeira.

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cotidiano, incluindo o conteúdo que veem na tevê. Cinco variações de brincadeiras lúdico-agressivas foram identificadas (ver quadro). Para Raquel, esses tipos de brincadeiras representam um antídoto para a violência. “Brincar com comportamentos agressivos é uma forma de evitar essa atitude, como pensa o estudioso da mídia infantil Gerard Jones”. O jogo e a brincadeira que incluem a agressividade podem ser utilizados pela equipe da educação infantil como “objeto de aprendizado”, apropriando-se do capital lúdico infantil e da produção cultural da criança, e valorizando-os. Contudo, Raquel Barbosa alerta que esse processo não deve desconsiderar o cotidiano da escola, o papel do professor na mediação pedagógica e o equilíbrio entre trabalho e jogo, uma vez que ambos são igualmente importantes para a vida. “Diferente de pensar o jogo como meio, com seu ‘didatismo’, pela intenção exclusiva do adulto em estimular certas aprendizagens nas crianças, as brincadeiras lúdico-agressivas poderiam se tornar um grande potencializador do trabalho docente nos espaços-tempos da Educação Física na educação infantil”, exemplifica. Com base nas estratégias de ensino de conhecer as culturas infantis, de proporcionar espaço para a construção coletiva da aula com as crianças e de mediação de práticas articuladas às experiências desses alunos, pode ser possível oportunizar ambientes inovadores, criativos e significativos de socialização e de protagonismo para as crianças na educação infantil.

• Brincadeiras com objetos: uso de objetos na brincadeira ou na composição do cenário brincante, tal como itens de plástico, casinha, muro, folhas e galhos de árvores. • Desenhos animados: simulação ou apropriação de personagens e de enredos, como representações de heróis e de vilões de filmes, de personagens de desenho animado e de monstros. • Brincadeiras historiadas: teatro que dissimula ou reinventa as realidades vivenciadas, como observado na presença de temas violentos, na imitação de animais e nas histórias de mãe e filha.


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Em

transformação Adriana Damasceno

Biblioteca Central da Ufes celebra 56 anos e busca se reinventar num contexto de amplo acesso a conteúdos disponíveis em plataformas digitais

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B

iblioteca. Na origem grega, a palavra queria dizer caixa (théke) de livros (biblion), e designa o lugar onde são guardados documentos, publicações e outros itens do acervo, armazenado também em formato digital. A caixa de livros da Ufes, com sede no campus de Goiabeiras e com dez unidades setoriais, possui 351 mil exemplares e 151 mil títulos, o maior acervo bibliográfico do Espírito Santo.


Fotos: Adriana Damasceno

Fábio Medina: aumento da disponibilidade de informações digitais modificou o papel das bibliotecas

Aos 56 anos, completados em julho, a Biblioteca Central (BC) da Ufes vem passando por uma reformulação da sua atividade, que acompanha a transição da “era Gutenberg” (alemão que, no século XV, desenvolveu a máquina que possibilitou a impressão mecânica e a reprodução de textos) para a “era Zuckerberg” (o programador americano que foi um dos fundadores da rede social Facebook), possibilitada pela invenção da web, em 1992, pelas novas tecnologias e diferentes opções de acesso à informação. Com as mudanças, as caixas de livros viram-se obrigadas a adaptar grande parte do seu acervo às plataformas digitais e ampliar a acessibilidade. Fábio Medina dirige a BC desde 2016. Bibliotecário por formação, ele define as bibliotecas como “guardiãs de obras intelectuais publicadas, sendo depositárias dos materiais” e percebe que uma das alterações trazidas com o advento das novas tecnologias é a perda do protagonismo dos livros frente às mídias digitais. “Agora, as pessoas não precisam mais vir fisicamente até a Biblioteca para obter informação. Com o aumento da disponibilidade dos recursos eletrônicos e digitais, a comunidade pode

ter acesso aos dados contidos aqui ou mesmo solicitar que sejam transformados em versão digital para acessá-los remotamente”, diz. Cerca de 35 mil pessoas estão aptas a retirar obras da Biblioteca, entre alunos, professores e técnicos-administrativos com vínculo ativo na Ufes. No ano passado, foram registrados aproximadamente 146 mil empréstimos (12.211 por mês). “Observamos que tem acontecido uma sensível diminuição nos empréstimos ao longo dos anos, reflexo, dentre outros fatores, da nova era digital”, aponta Medina. Reinvenção Para enfrentar esse novo cenário informacional, a Biblioteca Central vem se reinventando na tentativa de atrair novos e antigos visitantes. Busca tornar-se cada vez mais um espaço de estudo e um centro de referência sociocultural. Por ser um espaço universitário, a BC é, além de depositária do saber, local de produção de conhecimento, onde as comunidades interna e externa podem se encontrar para pesquisar, trocar e criar informações. Medina defende que a biblioteca universitária deve estar integrada à vida acadêmica, possibilitando

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Em tempo de informação via internet, Biblioteca amplia espaços para ações culturais e científicas e investe em digitalização de obras raras

encontros e formações. “Temos buscado readequar as áreas administrativas para ampliar os espaços destinados aos usuários e deixar entrar também as manifestações culturais, artísticas e científicas, de forma que a comunidade interaja com a Biblioteca. O espaço pode e deve ter um múltiplo uso”, ressalta. Uma das medidas nesse sentido foi a liberação de 400 metros quadrados (m2) – de uma área total de 5.300 m2 – para estudos em grupo ou individuais, após o remanejamento de um acervo de periódicos. O diretor da BC explica que, ainda que muitos conteúdos estejam dispersos na web, o acesso a algumas bases de dados específicas continua sendo possível somente por meio de uma biblioteca. “Essa é a dualidade hoje. A biblioteca é guardiã do material, mas queremos que ele seja disseminado”, analisa. Como exemplo, Medina cita as obras produzidas pelos programas de pós-graduação da Universidade que, até os anos 2000, só eram disponibilizadas pelos pesquisadores na versão impressa e, atualmente, também são oferecidas na versão digital. Serviços A Biblioteca oferece uma variada gama de serviços à comunidade, como Repositório Institucional (que garante o livre acesso a publicações antes possibilitado somente por assinatura ou compra); autoempréstimo (o próprio usuário pode realizar seus empréstimos por meio de um terminal de autoatendimento); capacitação de usuários; assessoria editorial (em procedimentos de solicitação de ISBN e ISSN e em normas de editoração de publicação); e laboratório de informática.

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Quanto aos livros do acervo que estão disponíveis para uso irrestrito e, portanto, mais sujeitos a deteriorações, a Biblioteca dispõe do Setor de Reparações. Nessa seção, as obras que apresentam mais degradação – o que poderia levar ao comprometimento estrutural – passam por minucioso trabalho que visa reverter os danos físicos causados por manipulação, umidade ou calor. É oferecido, ainda, o Programa de Comutação Bibliográfica (Comut), um serviço que permite ao usuário obter, mediante pagamento, cópias de documentos técnico-científicos disponíveis em acervos bibliotecários de todo o Brasil, respeitando-se a Lei de Direitos Autorais. “O material solicitado, se estiver no formato impresso, é digitalizado ou fotocopiado e enviado ao solicitante. Dessa forma, ampliamos o acesso ao nosso acervo”, explica Medina. Além das novas tecnologias, a Biblioteca Central vem investindo em melhorias no espaço físico. Entre as novidades que começaram a ser implementadas em 2018, estão uma sala multiuso equipada para realização de projeções e videoconferência; um miniauditório; mesas de estudo com conexão à rede elétrica; cadeiras estofadas e ergonômicas; guarda-volumes biométricos; e equipamentos de informática. A BC conta também com o Auditório Carlos Drummond de Andrade, localizado no segundo andar, com capacidade para 70 pessoas, onde são realizadas defesas de teses e palestras. Acessibilidade Para atender adequadamente às pessoas com deficiência, a Ufes está implantando na Biblioteca


Central uma sala com recursos de tecnologia assistiva, na qual serão oferecidos serviços de acessibilidade informacional. “Nesse espaço, o usuário vai ter o material que precisar convertido para se adequar à necessidade dele. Por exemplo, o deficiente visual vai ter o texto transformado em audiolivro ou em arquivo passível de leitura por softwares”, explica o diretor. O edifício conta ainda com elevador, banheiros e bebedouros acessíveis. “Estamos adquirindo também uma impressora em Braille a fim de imprimir páginas para os deficientes visuais”, diz Medina, ressaltando a importância da atitude de gestores e usuários. “É preciso que as pessoas se conscientizem e passem a deixar os acessos livres de obstáculos para auxiliar a circulação dentro da Biblioteca. Durante as exposições, temos a preocupação de que as peças não impeçam nenhum tipo de mobilidade dentro do espaço. É a exposição que se adapta à Biblioteca, nunca o contrário”. Obras raras Atualmente, o acervo da Biblioteca Central conta com 13 mil títulos de dissertações e 18 mil exemplares de teses, 2.200 títulos com 3.100 exemplares de multimeios e 5.600 títulos com 138 mil fascículos de

periódicos – um montante que está em constante processo de atualização para atender as necessidades acadêmicas e da comunidade externa. Dentre tantos livros de literatura, registros científicos, jornalísticos e de pesquisa, a Biblioteca Central abriga obras raras e exclusivas, como o acervo pessoal do esportista e ex-professor da Ufes Mário Ribeiro Cantarino Filho, pioneiro no atletismo universitário no Espírito Santo e no Brasil, que morreu em 2012. Ele possuía uma das maiores bibliotecas esportivas particulares do país, com cerca de cinco mil volumes e milhares de recortes de reportagens sobre educação e esporte. A Biblioteca detém, ainda, outras importantes coleções, como a Aloyr Queiroz de Araújo, a Brasiliana, a Ceciliano Abel de Almeida, a Guilherme Santos Neves, a Heráclito Amâncio Pereira, a Mário Aristides Freire, a Nelson Abel de Almeida, a Portuguesa e a Espírito Santo, além de fotografias de ex-reitores da Universidade. “Esse rico material só é encontrado aqui na Ufes”, conta Medina. As obras raras ficam em um espaço anexo à BC e possuem restrições ao seu manuseio. Devido à fragilidade desses materiais e ao fato de muitos serem itens únicos, está em andamento um trabalho de digitalização, com o objetivo de evitar a degradação. “É uma forma de resguardar o impresso e conseguir disponibilizar essa informação sem riscos”, explica o diretor.

Caixa de livros com história Localizada em ponto alto e estratégico no campus de Goiabeiras, a atual Biblioteca Central Fernando Castro de Moraes foi inaugurada em 1982 e batizada com o nome do médico que foi também professor e subreitor da Universidade. Antes de se tornar a imponente caixa de livros, com projeto do arquiteto José Galbinski, era conhecida como Serviço Central de Bibliotecas, que foi criado em 1963 e teve como primeira sede o antigo prédio da Faculdade de Ciências Econômicas, em Vitória. Atualmente, a Biblioteca Central é responsável por coordenar os procedimentos técnicos das onze unidades que compõem o Sistema de Bibliotecas (SIB/Ufes): além da BC, a Universidade conta com as bibliotecas setoriais Tecnológica, de Artes, do Centro de Ciências Humanas e Naturais, do Centro de Educação, do Centro de Educação Física e Desportos, e do Centro de Ciências Exatas, no

campus de Goiabeiras; de Ciências da Saúde, no campus de Maruípe; do Ceunes, no campus de São Mateus; Setorial Sul, no campus de Alegre; e do Núcleo de Estudos e de Difusão de Tecnologia em Florestas, Recursos Hídricos e Agricultura Sustentável (Nedtec), no município de Jerônimo Monteiro. Como parte das comemorações dos 65 anos da Ufes, a Biblioteca iniciou, em maio, a mostra Obsoletos? A história do audiovisual na Biblioteca Central, com materiais que já fizeram parte da trajetória do espaço. São equipamentos raros, como disquetes, projetor de 16 milímetros, mapas, fitas VHS, aparelho de som 4 em 1, discos de vinil, televisor, retroprojetor e fitas cassete, objetos que ficarão permanentemente expostos no saguão da Biblioteca, fazendo alusão ao acervo iconográfico da Ufes.

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Madeira sustentável com a lama de Mariana Laís Santana

Quatro universidades, incluindo a Ufes, desenvolvem pesquisa para produzir madeira sustentável com os rejeitos da barragem que se rompeu no município mineiro

U

Acervo pessoal

m projeto entre universidades mineiras e capixabas busca alternativas para lidar com os rejeitos de minério de ferro da barragem de Fundão, em Mariana (MG), que se rompeu em novembro de 2015. No Departamento de Química da Ufes, pesquisadores desenvolvem uma madeira sintética feita a partir da lama da barragem como alternativa à matéria-prima tradicional. Os estudos fazem parte do Projeto Candonga, que tem a missão de propor soluções tecnológicas para problemas socioambientais e dedica-se a transformar em materiais de valor agregado os rejeitos da lama dragada pela hidrelétrica Risoleta Neves (MG), também conhecida como Candongas. Na Ufes, o projeto conta com a orientação dos professores Maria de Fátima Lelis e Marcos de Freitas, e com a participação de cinco alunos de graduação,

Com a lama, a professora Maria de Fátima Lelis (à dir.) e equipe desenvolveram a madeira plástica

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quatro de mestrado e três de doutorado. A partir da análise científica, surgiu a proposta de utilizar o rejeito para fabricar madeira plástica. “Estudos nos mostraram que essa lama possui características e propriedades interessantes”, aponta a professora Maria de Fátima. “A madeira plástica é obtida utilizando resíduo plástico – de embalagens, por exemplo –, lama e alguns aditivos”, completa. Ao aproveitar resíduos já descartados, esse processo evita a geração de mais poluentes, além de atenuar o volume de detritos em aterros sanitários e nas barragens de contenção das mineradoras. A pesquisadora acrescenta que, a cada 30 m² de madeira sustentável produzida, uma árvore grande adulta é preservada e 180 mil sacolas plásticas são retiradas da natureza. O produto pode ser aplicado em mobília e objetos de decoração, brinquedos e até em construções leves, como postes, casas coloniais, fachadas, cercas, playgrounds e sustentação para fixar trilhos ferroviários. A madeira plástica apresenta benefícios em comparação com a convencional. Segundo a professora, “é um material de fácil limpeza, que pode ser feita com água e sabão; não exige muita manutenção; o processo de obtenção da madeira, chamado moldagem, não é poluente; é resistente a fenômenos climáticos, como umidade, maresia e corrosão; é imune a pragas, como o cupim; não solta farpas, tem baixíssima dilatação e seu custo-benefício é obtido de médio a longo prazo”. Além da Ufes, participam do grupo de pesquisa a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), a Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM, no nordeste mineiro) e a Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop).


Laís Santana

Novo pavimento,

menos inundações Laís Santana

Pesquisa desenvolvida na Ufes possibilitará reduzir os alagamentos nas ruas da Barra do Jucu, em Vila Velha

U

ma dissertação de mestrado realizada no Programa de Pós-Graduação em Engenharia e Desenvolvimento Sustentável da Ufes buscou, por meio da adoção de novos conceitos em drenagem, a aplicação de um modelo de pavimento que possibilitará reduzir os alagamentos nas ruas da Barra do Jucu, bairro de Vila Velha. O engenheiro civil Luciano Motta verificou, no estudo, que o uso de blocos de concreto poroso, em substituição aos revestimentos tradicionais de asfalto, contribui para mitigar inundações. A pavimentação das ruas com asfalto impermeável exige um sistema de escoamento que afaste a água da chuva por meio de obras de canalização, sobrecarregando os córregos receptores. Contudo, essa técnica vem se demonstrando ultrapassada: o aumento da urbanização e da impermeabilização do solo resulta em inundações, como ocorre no município de Vila Velha. “Nesses momentos difíceis para

todos, por causa dos alagamentos, reforçamos o conceito de combater a impermeabilização do solo e de utilizar medidas sustentáveis, a exemplo do pavimento permeável”, explica Motta. O novo pavimento em blocos de concreto poroso é fabricado com maior quantidade de cimento e menos areia, no intuito de aumentar a sua permeabilidade e possibilitar a infiltração da água. De acordo com os estudos sobre o Coeficiente de Escoamento Superficial, o valor esperado de absorção do pavimento permeável é de 60% da água das chuvas. Esse padrão é de 20% no caso dos blocos de concreto convencionais e de 5% no de asfalto. “O bloco de concreto permeável permite mais tempo para levar a água às caixas coletoras e aos ralos. Como resultado, o pico de inundação é atenuado”, afirma o professor de Engenharia Ambiental Daniel Rigo, orientador da pesquisa. Rigo acrescenta que o novo conceito rompe com o raciocínio de tirar a água das ruas o mais rápido

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Jorge Medina

Além de reduzir enchentes, solução tem custo equivalente ao do pavimento convencional, explica o pesquisador Luciano Motta

possível. “O pavimento também precisa ter uma função drenante. Essa é a novidade.” A Barra do Jucu será o primeiro caso de pavimento permeável instalado por um órgão público no Espírito Santo. A obra será executada pela Prefeitura Municipal de Vila Velha, a qual espera que a solução auxilie na redução dos alagamentos que o município enfrenta há décadas. Valores Motta conta que, quando o trabalho teve início, percebeu-se que não havia muitos fornecedores desse tipo de bloco no Espírito Santo, já que é pequena a demanda pelo produto. No decorrer das pesquisas, averiguou que o valor da produção do pavimento permeável é aproximadamente 15% superior ao dos blocos tradicionais, devido à retirada de parte da areia do concreto e ao acréscimo de cimento. Mas, os benefícios associados ao novo material compensam o custo da obra, como a retenção das águas de chuva, a recarga do lençol freático, a filtragem de poluentes e a diminuição das chamadas “ilhas de calor”. A redução de gastos se dá na parte de tubulações da rede de drenagem, o que deixa o valor total equivalente àquele das técnicas comuns. “Em condições normais, precisaríamos coletar a água das chuvas e levá-la para uma tubulação em declive para depois lançá-la no canal receptor. Se parte da água é infiltrada, o escoamento superficial é reduzido e, portanto, o diâmetro das tubulações será menor. Com uma vazão menor, a declividade pode ser menor também”, aponta Daniel Rigo. No primeiro momento das obras de pavimentação com o novo bloco de concreto, serão calçadas dez ruas da Barra do Jucu: Albatroz, Guignard, Toulouse-Lautrec, Paul Cézanne, Van Gogh, Édouard Manet, Humberto Lodi, Auguste

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Renoir, Odilon Redon e Rua da Sereia, e ainda a Av. Anderssen Fidalgo. No total, 27 ruas e avenidas do bairro receberão o novo pavimento poroso. Aplicação A base do pavimento é considerada fundamental para o funcionamento da função drenante. “A estrutura que vem abaixo do pavimento deve funcionar como reservatório e permitir que a camada superficial transmita a água para o solo. Ela também deve ser porosa, feita com materiais como brita ou areia”, diz o professor Rigo. “Sem a camada debaixo devidamente preparada, o pavimento não poderá ser considerado permeável”, acrescenta. Ele também explica que o pavimento poroso tem uma resistência mecânica menor do que os convencionais. Por isso, o bloco de concreto permeável não pode ser utilizado em áreas de tráfego pesado, como avenidas e rodovias. “Esse tipo de bloco tem um local específico de aplicação, não é uma solução generalizada. Por sorte, as vias de tráfego intenso são minoria no Brasil, a maior quantidade são ruas de bairros. O novo pavimento também pode ser colocado em calçadas e ciclovias, já que são submetidas a tráfego leve comparadas a avenidas e rodovias”, afirma. Exemplos internacionais Diversas cidades no mundo que sofrem com fortes volumes de chuvas e enchentes já se adaptaram e investiram em mecanismos para controlar inundações em áreas urbanas. Na China, as chamadas cidades-esponja substituem superfícies de asfalto ou concreto por pavimentos que absorvem águas de chuvas ou rios alagados. A infiltração das águas pluviais imita o ciclo hidrológico natural e pretende substituir o escoamento superficial do ciclo hidrológico urbano. É o caso de Hong Kong e Berlim, além de outras regiões dos Estados Unidos, do Japão, da França, da Austrália e do Reino Unido, que se adequaram à técnica da permeabilização para resistirem às mudanças climáticas. No Brasil, a primeira medida foi uma certificação da Prefeitura do Rio de Janeiro criada em 2012 para incentivar empresas a utilizarem pavimentos permeáveis. Em 2013, São Paulo realizou uma especificação técnica sobre uso, aplicação e produção do asfalto poroso. Em agosto de 2015, a Associação Brasileira de Normas e Técnicas (ABNT) publicou a norma NBR 16416/2015, contendo requisitos e procedimentos sobre pavimentos permeáveis de concreto, elaborada pelo Comitê Brasileiro de Cimento, Concreto e Agregados.


i d e ia pr e mia d a

Os estudantes da Ufes Vinicius Viana e Lucas Santos ganharam, em junho, o Prêmio Expocom (Exposição de Pesquisa Experimental em Comunicação), pela reportagem em radiojornalismo Whisperpop: quando os sussurros falaram mais alto no rádio. Os dois alunos do sétimo período de Comunicação Social-Jornalismo receberam o reconhecimento na edição regional do Congresso da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação, o Intercom Sudeste, realizado em Vitória, no campus de Goiabeiras. O Prêmio Expocom se destina aos melhores trabalhos produzidos por alunos de graduação em Comunicação Social. A premiação é dividida em três etapas – local, regional e nacional –, nas quais concorrem trabalhos indicados pela instituição de ensino superior na qual foram produzidos, em um total de 70 categorias. A reportagem da Ufes que recebeu o reconhecimento neste ano analisa os rumos e as tendências da música pop e explora o resgate, por artistas contemporâneos como Lana del Rey, Selena Gomez, Julia Michaels e Pabllo Vittar, da antiga técnica do canto sussurrado. A apuração e a produção contaram com a orientação do professor Pedro Marra, na disciplina de Laboratório de Radiojornalismo. Os alunos também entrevistaram a maestrina e professora de canto Ângela Volpato, a fim de esclarecer o impacto do emprego do ar para produzir sons musicais com a voz e os problemas do uso indevido das cordas vocais. A dupla ressalta a contribuição da Ufes para a criação desse projeto e acredita que o prêmio comprova a qualidade do ensino superior público. “Conseguimos chegar à classificação nacional de um dos maiores prêmios de trabalhos acadêmicos experimentais. Ganhar esse prêmio não é uma vitória só nossa, mas também da Universidade”, diz

Laís Santana

Reportagem sobre o canto com sussurros ganha prêmio regional de comunicação

Lucas Santos e Vinícius Viana foram reconhecidos na categoria radiojornalismo, em evento sediado na Ufes

Santos, que demonstra interesse em trabalhar na área radiofônica. “Nosso objetivo é também ganhar a premiação nacional e demonstrar o potencial da Ufes e do nosso jornalismo”, completa.   Vinicius Viana e Lucas Santos levarão o trabalho sobre whisperpop para o Intercom Nacional, que acontecerá em Belém (PA) de 2 a 7 de setembro de 2019, para concorrer com os finalistas dos demais congressos regionais. No Intercom Sudeste de 2018, a Ufes também foi premiada nas categorias Fotografia Publicitária e Charge/ caricatura/ilustração.

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i d e ia pr e mia d a

Acervo pessoal

Projeto de inclusão de mães no mercado de trabalho é premiado no Desafio Renault Experience 2018/2019

Projeto que capacita jovens mães de baixa renda para trabalhar com mídias sociais foi desenvolvido por equipe multidisciplinar de estudantes

Os estudantes da Ufes Athus Cavalini (Ciência da Computação), Jhonatan Cruz (Engenharia Elétrica) e Lhais Gaigher (Engenharia de Produção), além da psicóloga Rachel Canuto, formaram uma das três equipes vencedoras do Desafio Renault Experience 2018/2019, programa nacional que visa fomentar o empreendedorismo universitário. Na final, que aconteceu em maio, a equipe da Ufes, de nome EVA, venceu depois de concorrer com mais de 350 grupos de todo o Brasil. Nesta edição, o tema do programa foi Tornar nossas cidades melhores, e as equipes concorreram com desenvolvimento de projetos nas categorias Desafio Twizy (de veículo elétrico); Soluções de Mobilidade (de experiência urbana transformadora); e Negócios Sociais (de iniciativas com potencial de gerar impacto positivo nas cidades). A equipe EVA venceu na categoria Negócios Sociais, apresentando o projeto homônimo que promove a capacitação gratuita em gestão de mídias sociais para mães jovens de baixa renda,

inserindo conteúdos e discussões relacionadas aos fatores de proteção à criança. Essas mulheres têm seus serviços disponibilizados em um marketplace para que empresas e pessoas físicas possam contratá-las como freelancers. A primeira turma do projeto EVA, composta por seis mães, foi capacitada entre maio e abril, no bairro São Benedito, em Vitória. “Conseguimos que duas empresas adquirissem um pacote com quatro publicações de duas alunas”, conta Jhonatan Cruz. Os membros da equipe contaram com a mentoria de Thiago Alves, representante da Renault, e da administradora capixaba Tatiane Oliveira. A professora Míriam de Magdala, do Departamento de Engenharia de Produção da Ufes, foi a orientadora do projeto. Míriam, que coordena a disciplina de Empreendedorismo (oferecida a todos os estudantes da Ufes), diz que esse tipo de premiação é importante porque fortalece o valor do empreendedorismo e dos grupos multidisciplinares. “Isso mostra para os alunos a possibilidade de criar negócios e, ao mesmo tempo, atuar com o propósito de impactar positivamente a sociedade e o meio ambiente”, explica. Para Cruz, a importância do concurso está na oportunidade oferecida aos estudantes de contar com a assessoria de uma empresa de nível mundial para desenvolver o negócio, auxiliando os jovens empreendedores a criar soluções que ganhem projeção nacional. “Além disso, nossa equipe vai levar o nome da Ufes para outros estados, apresentando-a como uma universidade incentivadora do empreendedorismo”, destaca. Após passar pelas três etapas do concurso, a equipe EVA recebeu um prêmio de R$ 5 mil reais, valor que deve ser investido nos primeiros passos da startup. Além disso, ganhou um período de imersão no ecossistema de empreendedorismo da Renault, no Paraná, para auxiliar os participantes do projeto na alavancagem de seus negócios.


i d e ia pr e mia d a

Grupo da Ufes alcança 1º

lugar em competição nacional de veículos off-road Desempenho Além do primeiro lugar em aceleração, os estudantes ficaram em quinto lugar por desempenho dinâmico, sexto lugar em velocidade final, oitavo lugar em enduro de resistência e décimo lugar geral na competição. “Queremos aperfeiçoar ainda mais o carro”, almeja Lucas Merçon, aluno de Engenharia Mecânica na Ufes e um dos integrantes do time automobilístico. “O nosso baja teve um desempenho muito bom para a primeira competição. Vamos explorar ao máximo o potencial dele para alcançarmos uma colocação entre os três melhores carros do próximo evento nacional”, planeja. O estudante afirma que, se esse objetivo for atingido, estará garantida a vaga da equipe na competição mundial, nos Estados Unidos, o que seria uma conquista inédita para o grupo.

Divulgação

Uma equipe formada por 25 estudantes de Engenharia da Ufes foi premiada na Baja SAE Brasil, competição nacional de miniveículos realizada em São Paulo pela Sociedade de Engenheiros da Mobilidade, em fevereiro deste ano. A equipe Vitória Baja (foto), da Universidade, ficou em primeiro lugar na categoria Aceleração. No evento, foram analisados os carros montados de acordo com as exigências da categoria baja, uma espécie de off-road. O veículo é avaliado ao passar por terrenos acidentados, obstáculos, valetas, troncos, rampas e lama. Ele deve ser o mais rápido possível, independentemente de o motor padrão da competição ser de baixa potência, com apenas dez cavalos. A Baja SAE Brasil premia as equipes pelo desempenho dos carros em modalidades como aceleração, velocidade máxima, tração e manobrabilidade. A etapa nacional da competição contou com a primeira exposição desse carro capixaba, construído em comemoração aos 20 anos da equipe automobilística da Ufes, que envolve os alunos no desenvolvimento de veículos off-road.

Competição marcou a primeira exposição do carro construído em comemoração aos 20 anos da equipe automobilística da Ufes

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Patente concedida O Instituto Nacional de Propriedade Industrial (Inpi) concedeu à Ufes o reconhecimento da patente Processo e Sistema para extração de Sais de Petróleo Leves e Pesados. Trata-se de um invento construído pela Ufes que oportuniza o tratamento do óleo do petróleo com uma extração de sais mais eficaz e segura. O Inpi é um órgão federal, vinculado ao Ministério da Economia, responsável pelo registro e pela concessão de marcas e patentes. Os procedimentos do invento se destacam dos processos já existentes devido à sua eficiência e

à diminuição de riscos de explosão e acidentes, já que a extração dos sais ocorre em frascos maiores que no método padrão. O invento apresenta ainda as vantagens de ter um custo reduzido e mais segurança, quando comparado às outras tecnologias. Essa patente, datada de fevereiro deste ano, foi a primeira concedida à Ufes pelo Inpi e é resultante de uma parceria entre a Universidade e a Petrobras que, juntas, vêm realizando pesquisas na área de petróleo e inovações tecnológicas nas últimas décadas.

A pesquisa

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Além de Cristina Maria dos Santos Sad, participaram da pesquisa os servidores técnico-administrativos Roberta Quintino Frinhani Chimin e Carlos José Fraga, e os professores Milton Koiti Morigaki e Eustáquio Vinícius Ribeiro de Castro, todos do Departamento de Química da Ufes. A Ufes possui, atualmente, 98 pedidos de patentes que estão depositados no Inpi esperando o registro, sendo 11 do LabPetro. No Brasil, uma pesquisa ou um trabalho leva, em média, 12 anos para ser aprovado e se tornar uma patente.

Divulgação

Pesquisadora do Laboratório de Pesquisa e Desenvolvimento de Metodologias para Análises de Petróleo (LabPetro) da Ufes e uma das idealizadoras dos estudos que resultaram no reconhecimento da patente, Cristina Maria dos Santos Sad explica que a porcentagem de sal existente no petróleo deve ser mantida abaixo de certos limites, pois o petróleo com excesso de sal afeta a carga das unidades, ocasionando a sua redução. “Produzir óleos com boa qualidade e com baixa quantidade de sal também ajuda a minimizar a energia requerida para o seu bombeamento e transporte, pois os sais contidos no petróleo constituem uma grande fonte de corrosão nos equipamentos de destilação das refinarias. Essa inovação é um processo para extração de sais de óleo cru, de modo a extrair o teor de sais por meio de agitação mecânica, sem aquecimento constante”, explica a pesquisadora. A nova tecnologia apresenta também método para melhorar a dessalinização de óleo, formando emulsões instáveis de água em óleo. “A invenção inclui ainda uma melhoria no método eletrostático e no aparelho para tratamento de emulsões de água e óleo, secagem e dessalinização. A emulsão é introduzida em um campo eletrostático onde a água da emulsão é separada do petróleo”, afirma Cristina, acrescentando que o invento pode contribuir para diminuir os custos da exploração do petróleo da camada do pré-sal.

Redução de sal no petróleo gera economia no bombeamento e no transporte do produto, explica a professora Cristina


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Simone Guimarães - sem título, 1981, fotografia p/b sobre madeira, 29,4 x 23,3 cm. Nº de identificação: 0191 Obra do acervo da Universidade Federal do Espírito Santo que integrou a exposição Múltiplo Comum, em homenagem aos 40 anos da Galeria de Arte Espaço Universitário (Gaeu)

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Revista Universidade | nº 10  

Revista de Jornalismo Científico, Cultura, Variedades produzida pela Superintendência de Cultura e Comunicação da Universidade Federal do Es...

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