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OMA Nº7·SINT


CAPA E CONTRACAPA Fausto Vicente


NÚMERO 7 ENSAIO O sono da digestão engendra monstros Júlio Mendes Rodrigo A petrificação e a ruína como sintomas de uma mutação violenta na obra de Raúl Perez Michele C. Rocha São precisas novas palavras Irene Loureiro, Joana Tavares, Joana Zózimo, Lichun Tseng, Patrícia Chaves Falso assintomático Xavier Rafael e Tiago Fontes Indício de perturbação Nuno Fragata A queda e o foguetão Pedro Xavier Mendonça

P06 P08 P12 P16 P20 P22

LITER ATUR A Se un sogno João B. Serra O cão que rodopia Gonçalo Fonseca Prelúdio possível aos assuntos da hipocondria Paulo Constâncio És uma pessoa no centro inútil da tua vida Paulo José Miranda Niagara José Manuel Teixeira da Silva Anne Frank interrompida Tatiana Faia Toque ferido de uma harpa António Tavares Peixes de asfalto Raquel Serejo Martins Economia de mercado Daniel Ferreira Telefonema-sintoma Jorge Muchagato O quadro As Bap

P28 P30 P34 P36 P37 P38 P40 P41 P42 P43 P46

RECENSÃO Sobre Víveres, de Miguel Cardoso Hugo Pinto Santos

P64


Sandra Roda


Edição: Gonçalo Fonseca Nuno Fragata Pedro Xavier Mendonça Rita Baptista

Design gráfico: Bruno Afonso Fausto Vicente Nuno Fragata

Revisão: Rafaela Fiandeiro

Ilustração de capa: Fausto Vicente

Impressão: Várzea da Rainha - Impressores Dep. Legal: 355130/13 ISSN 2182-7877

Colaboradores: Bruno Afonso, Fausto Vicente, Felipe Pathé Duarte, Gonçalo Fonseca, Isabel Xavier, José Ricardo Nunes, Nuno Fragata, Pedro Xavier Mendonça, Ricardo Norte e Rita Baptista.

Convidados: António Tavares, As Bap, Dalila Garcia, Daniel Ferreira, Headitor, Hugo Pinto Santos, Irene Loureiro, Joana Tavares, Joana Zózimo, João B. Serra, Jorge Muchagato, José Manuel Teixeira da Silva, Júlio Mendes Rodrigo, Lichun Tseng, Michele C. Rocha, Patrícia Chaves, Paulo Constâncio, Paulo José Miranda, Raquel Serejo Martins, Sandra Roda, Tatiana Faia, Tiago Fontes, Xavier Rafael.

É reservado aos autores o respeito pela utilização do acordo ortográfico ratificado em 2008. Os textos e imagens utilizados na revista Três Três são propriedade dos respetivos autores e não poderão ser reproduzidos ou utilizados sem a autorização prévia dos mesmos.

Contacto: revistatrestres@gmail.com

Website: www.revistatrestres.com

Maio 2017

APOIOS:


EDITORIAL SOBRE “SINTOMA”

Associamos sintoma a medicina, código que dá ao médico a leitura da doença. É o corpo a comunicar consigo próprio e com o exterior a urgência de atenção. Uma comunicação codificada para o efeito, como a dor; ou acaso que cria a legibilidade da experiência, como as mudanças de comportamento. O sintoma nunca vale por si. É sempre a porta para outra coisa, aquilo que interessa, onde residem as causas dos acontecimentos. O sintoma está no tempo, na cronologia. Possibilita inferir um futuro quando vemos cada momento como o anúncio do seguinte, quer a partir da descoberta de uma lei histórica, quer da intuição que radica na vida contada. O sintoma vale pela adivinha que permite. É quase sempre sinal de uma anormalidade, como se ela existisse. Enuncia a tempestade com surpresa como se as tempestades não fossem comuns. É nesta ambiguidade que de repente tudo é sintoma e doença ao mesmo tempo. A história é uma espiral horizontal. O sintoma pode não querer ser sintoma, antes uma fatalidade das nossas grelhas de leitura que procuram sinais em tudo, letras nas casas e nas janelas. Talvez o sintoma seja apenas um evento fortuito a que nos agarramos como se de um dizer se tratasse. A nossa grande ilusão seria pensar que a vida nos quer transmitir alguma coisa através de outra coisa que não ela própria. Talvez o corpo humano e a história não sejam mais do que rios sem fim que nunca desaguam. Nesta revista três três correm textos e imagens que são eles mesmos sintomas quando falam do sintoma. É um tema pouco tematizável. E quando o é, como na questão médica, é bom para desconstruir, para baralhar. A arte entra-nos pelos poros quando começamos a ver que as construções usam alfabetos de combinações infinitas. Não há como lhe resistir. Este número não é de textos, é de linguagens, espreitadelas de perspetiva variável. São elas que codificam os sintomas de outro mundo. É nesse lado de lá que o nosso acontecimento reside. É lá que o nosso coração bate. Tudo o resto é um sintoma que vivemos para espreitar o tempo. Os meios que usamos pouco interessam, desde que deixemos cair os códigos. Pedro Xavier Mendonça


Pânico e outros sintomas I Colagem, tinta-da-china e pós-produção digital Headitor, 2016


ENSAIO

O SONO DA DIGESTÃO ENGENDRA MONSTROS JÚLIO MENDES RODRIGO

ESQUISSO DE UMA GASTROESC ATOLOGIA ONÍRIC A EXCURSUS «He [Marcel Proust] informed the doctor that he could drink a quarter of glass of Vichy water before he went to bed, but that if he drank so much as a whole glass he would be kept awake by intolerable stomach pains.» Alain de Botton, How Proust Can Change Your Life «O livro de Henoch atribui as principais misérias do mundo aos anjos caídos, que começaram a cometer pecados contra os quadrúpedes, aves e seres vivos e a devorarem a sua carne.» Howard Williams, The Ethics of Diet Este texto-devaneio (sintomático dos impiedosos desarranjos gástricos que me molestam por entre o entrecruzamento paganizante das Estações) toma como inspiração directa os seguintes aspectos: a) uma afirmação homofóbica proferida por um compositor relativamente a um edil (entretanto desaparecido), suposto arauto da divisa “O corpo humano é um tubo”; b) a prática semanal do Chi Kung, uma disciplina oriental que me tem possibilitado aquilo que considero um melhor entendimento sobre a dualidade corpo/mente; c) a primeira citação em epígrafe a este texto (como todos os bons nativos do quarto signo do Zodíaco - no qual estou incluído também Proust teve uma propensão para problemas de estômago e indigestões); d) a figura acéfala, “ex-libris” de Georges Bataille, tatuada no meu braço direito em 2012, aquando de uma passagem fugaz por Nova Iorque. Os leitores familiarizados com o universo batailliano (que não apenas a dimensão povoada pelos buracos negros da licenciosidade e da pornografia, mas sim aquela da “caixa negra” que é o domínio do Sagrado, território em que incluo a Transgressão, a Soberania, e a Morte) terão em mente o periódico intempestivo que foi a Acéphale (do grego ἀκέφαλος,

ou seja, “sem cabeça”). Por debaixo do título Acéphale, encontravam-se inscritas as palavras Religião, Sociologia, Filosofia, às quais se seguia a expressão “la conjuration sacrée” (a conjuração sagrada). A capa da revista, ilustrada por André Masson, ostenta uma figura masculina (acéfala), cuja genitália se encontra oculta por uma caveira. Na sua mão direita segura um coração flamejante, enquanto a esquerda exibe um punhal. O intestino aparece destacado como se de uma serpente se tratasse. Aqui reside o fascínio que esta imagem exerce sobre mim há mais de duas décadas: a serpente enquanto metáfora perfeita da dimensão gastroepática que rege a vida dos indivíduos de estirpe ulcerosa.

A EXISTÊNCIA GASTROEPÁTICA E OS SONHOS – SINTOMA O termo Pythonidae designa uma família de répteis escamados da subordem Serpentes, na qual encontramos a píton (note-se que o nome pitonisa deriva de píton, um réptil “monstruoso” e digestivo que encarna o Inconsciente interpelado). O intestino é a “via régia” do Inconsciente, domínio ignoto da nossa existência, cuja porta de acesso privilegiada é o Sonho, ainda que este tenha perdido na actualidade a sua importância (excepto nos domínios literários, artísticos, científicos ou filosóficos). Enquanto Linguagem do Corpo, o Sonho é ainda mal conhecido. Poderá portanto o Sonho ser interpretado como um «sinal», ou mesmo um sintoma, no quadro dos anais clínicos e enquanto expressão orgânica? Adentremos seguidamente no território da biologia do Fantástico, no sentido de reflectirmos sobre os Sonhos e a Linguagem do Corpo. A mais simples gastralgia, o desarranjo gástrico, por mais ligeiro que seja (ou a indigestão mais banal), é susceptível de convocar imagens cataclísmicas de contornos extremamente violentos.


* Professor, investigador, editor e radialista.

Blogue pessoal - dieelektrischenvorspiele.wordpress.com Projecto profissional - andromedagenciamento.wordpress.com

PERORATIO O Pensamento do Corpo consiste simultaneamente numa impressão/expressão de um consciente colectivo ancestral. Este Pensamento, parcialmente evidenciado através das imagens oníricas, potencia a emanação de alguns quadros provenientes de uma dimensão surreal. O desenvolvimento milenar desta arquitectura viva (o Corpo), prenhe de emoções, necessidades e desejos, não é o fruto do acaso resultante de um qualquer mecanismo cego, incoerente e despido de lógica. Na verdade, a evolução é o resultado da inteligência e de uma lógica de contornos implacáveis, revestida por um campo de forças ainda muito mal conhecido, direccionada para uma imagem final (eschaton) necessariamente qualificada como metafísica. Actualmente a Psicanálise utiliza sobretudo o jogo das associações “livres” de ideias, tendo praticamente abandonado a análise dos Sonhos. Os Sonhos, no entanto, permitem-nos redescobrir as dimensões mais profundas do EU corporal. São a “via régia” do autoconhecimento. Itinerário tenazmente calcorreado por Freud. Porto, Noite de Walpurgis, anno 2016 BIBLIOGRAPHICA EUPÉPTICA SELECTA BOTTON, Alain de – How Proust Can Change Your Life. London: Picador, 1998. MORIN, Gérard – Les rêves et le langage du corps – la biologie du fantastique. Paris: Dervy-Livres, 1989. REGO, Teixeira – Nova Teoria do Sacrifício. Lisboa: Assírio & Alvim, 1989.

SINTOMA

Ainda assim, só devemos ficar alerta quando estes pesadelos se repetem ao longo de várias noites (que é quando entramos no domínio privilegiado dos sonhos premonitórios). Este factor de amplificação de problemas inconscientes permite-nos o mapeamento de uma afectação evolutiva, ainda sob forma larvar ou associada a lesões ainda pouco evidentes. Num estado mais avançado deste apelo onírico, a aparição de cenários gástricos ao raiar da aurora pode muito bem evocar uma úlcera de estômago. Convém notar que esta patologia pode ser entendida como o perfeito exemplo de uma doença psicossomática, verificando-se uma alternância entre os períodos depressivos no domínio mental com os períodos evolutivos no domínio somático. Em suma, a onirologia desta condição clínica caracteriza-se por sonhos muito agitados onde se dá livre curso a todas as formas de agressividade, simbolizada essencialmente através de animais munidos de grandes caninos ou dotados de garras extremamente afiadas. No decurso destes episódios gástricos é frequente ainda o recurso a todo o tipo de armas, particularmente as armas brancas, espadas, sabres, patentes em sonhos de violentas altercações e disputas. A análise psicossomática dos sonhos com a Espada encontra-se na base do estádio gástrico, simbolizando a sua agressividade e a sua força expansiva. Por vezes chega-se mesmo próximo de episódios de guerra, ou então de cenários de destruição apocalíptica. Encontramo-nos próximos da vontade de domínio pela força, e num plano mitológico o símbolo aqui presente é naturalmente o do deus MARTE.

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ENSAIO

A PETRIFICAÇÃO E A RUÍNA COMO SINTOMAS DE UMA MUTAÇÃO VIOLENTA NA OBRA DE RAÚL PEREZ MICHELE C. ROCHA A obra de Raúl Perez destaca-se no panorama do Surrealismo português não só pela singularidade técnica e expressiva mas sobretudo pela afirmação de um universo simbólico, marcadamente introspectivo, que oscila entre a afirmação de uma dimensão humana ideal, de unidade corporal e psíquica - contida na evocação do andrógino reconstituído na sua plenitude - e a fragmentação, extinção ou morte dessa realidade, implícita na petrificação e ruína do espaço e das personagens ou no dilúvio como memória de uma mutação violenta cristalizada no tempo, indício de destruição, perda ou ruptura. A obra datada dos anos 70 traduz a procura de uma dimensão humana ideal, materializada na beleza e perfeição do andrógino, como expressão do ser uno, reconstituído e expandido na sua totalidade. Nestas composições, o equilíbrio e harmonia das formas arquitectónicas participam da beleza e perfeição dos corpos andróginos. As fantásticas construções em pedra, muralhas com arcadas de inspiração medieval e torres aladas próximas do imaginário alquímico, surgem como vestígios de um espaço e tempo ideais que encontravam no equilíbrio e na harmonia das formas a expressão e realização total do indivíduo, reconstituído em toda a sua plenitude em harmonia consigo e com o cosmos. A partir da década de 80, as obras assumem uma expressão significativamente mais inquietante e perturbadora. As composições tornam-se tendencialmente desabitadas, sombrias e inanimadas. O espaço intimista povoado de figuras andróginas dá lugar a paisagens desertas, profundas e silenciosas, com perspectivas acentuadas ou distorcidas, que revelam dimensões sobre-humanas. Por vezes, línguas, fitas ondulantes, elementos vegetais, tentáculos ou monstros alados emergem das arcadas e portas circulares. Outras vezes, cabeças petrificadas ou fragmentos de estátuas surgem como vestígios de uma presença humana anterior, numa paisagem em ruínas. O líquido e o volátil assumem a consistência da pedra. Gigantescas ondas petrificadas invadem ou integram antigas construções arquitectónicas, enquanto nuvens de pedra pairam sobre castelos e muralhas com arcadas ou emanam de torres circulares.

Nestas obras, a petrificação, um dos traços mais marcantes da imagética de Raúl Perez, assume uma expressão degenerativa ou regressiva, implícita na tensão para a imobilidade ou inacção, para a morte ou extinção absoluta. Desde as primeiras obras do autor, a pedra surge como matéria fundamental na constituição dos elementos. Às sólidas construções de pedra, castelos com torres circulares ou extensas muralhas com arcadas, juntam-se frequentemente figuras humanas, animais ou elementos naturais petrificados. Nas obras dos anos 70, o corpo das figuras assume a aparência escultórica, com a superfície estalada ou fragmentada, à semelhança das construções, atingidas pelo efeito da erosão. A uniformidade cromática, lumínica e textural confere a todos os elementos a mesma aparência sensorial. Porém, nestas composições a petrificação da figura humana não significa inacção, morte ou extinção. O corpo esculpido evoca uma existência ideal, onde a beleza e a perfeição dos corpos, reflexo de uma harmonia interior, espelha o ser unificado, realizado e expandido na totalidade. A partir dos anos 80 a petrificação do espaço e das personagens assume progressivamente o aspecto de ruína. As fantásticas construções arquitectónicas de inspiração medieval e a figura humana apresentam marcas de erosão ou destruição, resultantes do efeito corrosivo do tempo sobre a matéria. Os elementos, fossilizados e imobilizados no tempo, são representados de forma fragmentada ou parcial, como um vestígio de algo que se extinguiu e que chega ao presente de forma incompleta, como um leve indício de uma unidade anterior. André Breton, no Primeiro Manifesto do Surrealismo, apresenta a ruína, juntamente com o manequim, como exemplos do maravilhoso surrealista: “O maravilhoso […] participa obscuramente de uma espécie de revelação geral de que só o pormenor chega até nós: são as ruínas românticas, o manequim moderno ou qualquer outro símbolo capaz de resolver a sensibilidade humana durante um tempo” (Breton 1993, 26). Os indícios ou vestígios de um determinado momento histórico, apresentados de forma parcelar ou fragmentada,


reveladores de indícios e sinais, têm inscrita a memória de uma existência humana oculta. A figura humana, em continuidade com a arquitectura, assume o aspecto de ruína e surge de forma fragmentada, como um ténue vestígio de uma unidade ou integridade corporal anterior. Numa composição de 1981 (fig. 1), cabeças petrificadas ou fragmentos de estátuas, testemunhos de uma presença humana que se extinguiu, integram uma paisagem com marcas de destruição, inerte e inanimada. Os vestígios humanos petrificados ou fragmentos escultóricos, tal como as realizações humana sujeitas ao efeito da erosão – fantásticas construções com arcadas e extensos muros com torres circulares de inspiração medieval – surgem como um breve indício de uma antiga civilização, testemunhos de um esplendor e grandiosidade que lentamente se fragmenta e desintegra, reabsorvida pela natureza.

Fig. 1. Raúl Perez, Sem título, 1981; óleo sobre tela, 65,5 x 86,5 cm; col. particular.

As cidades são espaços desabitados, mas nas construções arquitectónicas sente-se a presença, o vestígio das pessoas. É um paradoxo, são espaços desabitados, mas ao mesmo tempo profundamente habitados, as pessoas revelam-se na arquitectura e nos objectos de uma forma velada, deixam as suas marcas, vestígios de um tempo diferente deste, onde o passado, o presente e futuro estão interligados (Rocha, 2011, 238). As fantásticas construções arquitectónicas, castelos com torres circulares, ameias e torreões ou extensas muralhas com arcadas de inspiração medieval, surgem como um vestígio de um espaço e tempo que se inscreve directamente no imaginário do autor: “São histórias que vêm cá de dentro, interrogações muito profundas, não são coisas banais do quotidiano… é o meu interior (Idem, 239)” As torres aladas, recorrentes na obra do autor, surgem como metáfora de uma existência humana ideal. As asas, frequentemente associadas à imagem do andrógino, persistem noutras representações como evocação do ser ideal renascido na pureza original, liberto para uma nova existência, verdadeiramente enriquecedora. Em obras posteriores às torres aladas, juntam-se árvores e elementos vegetais representados com asas em paisagens inertes e sem vida, como testemunhos de uma vitalidade anterior, de um estado de libertação e harmonia perfeitas (fig. 2).

SINTOMA

No mesmo sentido, noutras composições a presença humana revela-se de modo parcelar. Rostos, ou apenas olhos, ocultam-se e desvendam-se por detrás de muros em ruínas ou integram a própria arquitectura. Em inúmeras representações, línguas gigantescas emergem de portas circulares, humanizando as construções arquitectónicas. A petrificação é levada ao extremo em obras

onde o humano, sujeito aos efeitos da erosão, passa a fazer parte integrante da arquitectura. Em obras mais recentes, cabeças petrificadas ou densas estruturas de pedra semelhantes a esfinges transformam-se em sólidas construções arquitectónicas com portas de acesso ao interior. Noutras representações, a figura humana desaparece totalmente das composições e assume uma expressão velada, implícita nas construções arquitectónicas ou nos artefactos. Na obra de Raúl Perez as realizações humanas guardam vestígios da presença e acção humanas, tal como testemunha o próprio autor:

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ENSAIO Fig. 3. Raúl Perez, Sem título, 1982; óleo sobre tela, 42 x 45 cm; col. particular.

Fig. 2. Raúl Perez, Sem título, 1982; óleo sobre tela, 32 x 32 cm; col. particular. A afirmação de uma dimensão idealizada como perfeita – implícita nas fantásticas construções arquitectónicas ou em imagens aladas que evocam o andrógino reconstituído na sua plenitude – confronta-se com a fragmentação, extinção ou morte dessa realidade, contida na petrificação e ruína do espaço e das personagens. Em algumas obras, os vestígios de uma presença humana ideal, de uma unidade corporal e psíquica, surgem implícitos em artefactos que testemunham a capacidade de realização e engenho humano. A roda, constante nestas composições, princípio básico ou matriz de todo o desenvolvimento tecnológico, evoca um determinado espaço-tempo situado nos primórdios da revolução tecnológica, como metáfora de uma existência humana ideal, anterior a qualquer forma de alienação ou perda. Numa composição (fig. 3), um veículo primitivo, abandonado aos efeitos destrutivos do tempo, numa paisagem desabitada e em ruínas, surge como um vestígio fragmentado de um determinado momento histórico, um vestígio que guarda marcas da acção humana. Em composições mais recentes, rodas gigantescas, símbolos do movimento e do devir, permanecem inertes, imobilizadas sobre extensas muralhas com torres circulares, como memória de uma existência humana que se extinguiu e que encontra eco na obra do autor.

Em composições anteriores, Raúl Perez representa frequentemente seres híbridos que integram na mesma realidade o humano e o artefacto. Em obras iniciais, que evocam a imagem do autor, é frequente a representação de cabeças posicionadas em planos movidos por rodas, que reúnem no mesmo corpo o carro e o condutor. Noutras composições, a roda surge directamente na continuidade do corpo e assume-se como extensão do ser. À semelhança do andrógino, expressão do ser enriquecido, reconstituído na sua totalidade que reúne em si a duplicidade masculina e feminina, a junção do humano e do artefacto numa mesma realidade significa um acréscimo das potencialidades humanas. A roda em constante rotação, à semelhança da asa, símbolo da deslocação e do devir, sugere a “libertação das contingências do lugar”, a “evolução do indivíduo e do universo” (Chevalier; Cheerbrant, 1994, 571). A evocação de uma dimensão humana ideal, implícita nas ruínas arquitectónicas, nos elementos alados de inspiração alquímica ou em artefactos que evocam os primórdios da revolução tecnológica, comporta igualmente a memória da extinção ou perda violenta dessa realidade. Em certas obras a petrificação do dilúvio assinala de forma inquietante o momento da dissolução, da reabsorção instantânea na água. As formas arquitectónicas são atingidas por ondas gigantescas que solidificam, restituindo à natureza as construções humanas. Noutras, vagas gigantescas solidificadas substituem-se à arquitectura. Em certas composições (fig. 4) a petrificação do elemento líquido, memória de uma mutação violenta, fossiliza todas as formas de vida no seu interior. Peixes e tentáculos são imobilizados e retidos para sempre na rigidez da pedra.


A cor, levemente sugerida, persiste como memória de uma vitalidade anterior, que se desvanecerá lentamente com o tempo.

REFERÊNCIAS

Fig. 4. Raúl Perez, Sem título, 1981; óleo sobre papel, 50,7 x 64,5 cm; col. particular.

SINTOMA

De uma forma geral, o dilúvio distingue-se pelo seu carácter não definitivo, é sinal de germinação e regeneração, tal como sucede na poética de Mário Cesariny, à destruição segue-se a possibilidade de uma nova humanidade e uma nova história. Em Raúl Perez, porém, a petrificação do dilúvio impede qualquer possibilidade de regeneração, tem um carácter definitivo que se prolonga no tempo, significa imobilidade, extinção e morte. Os indícios ou vestígios históricos que chegam de forma fragmentada, em imagens que evocam a ruína do espaço e das personagens, suscitam a memória de uma existência humana anterior, de uma unidade corporal e psíquica, ao mesmo tempo que evocam a extinção dessa realidade. Como lembra Hal Foster, “o surrealismo promove o retorno de conteúdos psíquicos reprimidos, isto é, imagens familiares que resultam estranhas ao sujeito pelo efeito da repressão, também através da evocação de conteúdos históricos recalcados” (Foster, 1997, 157). No entanto, a evocação dessa dimensão humana idealizada como perfeita comporta igualmente o trauma pela perda ou extinção dessa realidade. No mesmo sentido, na obra de Raúl Perez a afirmação de uma dimensão humana ideal, de intimidade psíquica e unidade corporal, contida na imagem do andrógino reconstituído na sua totalidade, persiste de forma residual num registo histórico – após a dissolução, extinção ou morte dessa realidade – na evocação da arquitectura medieval, nos elementos alados de inspiração alquímica ou em artefactos que evocam os primórdios da revolução tecnológica, como memória de uma unidade andrógina que se perdeu ou extinguiu.

BR ETON, André. 1993. Manifesto do Surrealismo. In André Breton, Manifestos do Surrealismo. Trad. Pedro Tamen. Lisboa: Edições Salamandra, pp. 13-53. CH EVA LIER, Jean and Cheerbrant, Alain. 1994. Dicionário dos símbolos: Mitos, Sonhos, Costumes, Figuras, Cores, Números. Trad. Cristina Rodriguez, Artur Guerra. Lisboa: Editorial Teorema. FOST ER, Hal. 1997. Compulsive Beauty. Cambridge: An October Book. The Mit Press. ROCH A, Michele. 2011. A Representação do Feminino no Surrealismo Português. Tese de Doutoramento em Belas-Artes/Pintura [texto policopiado]. Lisboa: Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa.

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IRENE LOUREIRO | JOA NA TAVA RES

ENSAIO

SÃO PRECISAS NOVAS PALAVRAS JOA N A ZÓZIMO | LICHUN T SENG

PATRÍCIA CHAV ES

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Quem tem medo da Doença Mental? Todos.

Lichum Tseng

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Será que, quando sentimos que uma palavra (independentemente do idioma) diz exatamente aquilo que estamos a sentir/pensar, isto quer dizer que existe uma essência da palavra? A essência da palavra seria o acto, o facto ou a substância que quer descrever/significar. Nesta perspectiva, há uma existência – que julgamos primeira – que se sente como mais bem expressa consoante a ligação entre os grafos, os fonemas, e a ideia, emoção, comoção ou imagem a que associamos determinada "coisa".

Esta essência, se existisse, porém, não poderia ser pensada/imaginada, senão deixaria de ser essencial e passaria a ser individual, social ou representacional. Pois a partir do momento em que está ali uma representação dessa essência, esta perde-se. Deixa de ser ela em si para ser a representação de um pedaço dela mesma, como capturado pelo olho de alguém. Assim, pensar-se que uma palavra, num determinado idioma, exprime melhor a essência de um acto/facto/substância (um substrato, provavelmente) pode ser uma contradição


Irene Loureiro. Espiral de símbolos que explora a relação entre o corpo físico e espírito, intrínseca à expressão popular “maus fígados”.

Pensando esses sinais enquanto balizas do que é e não é, um dos exercícios mais frutuosos que fiz em toda a minha vida – e que proponho aos leitores – foi o de procurar saber a interpretação desses sinais e balizas do ponto de vista de quem os tem, começando por mim. Quando falamos na tristeza enquanto sintoma de depressão – o que é que esta tristeza tem significado na minha existência? Depois, claro, sabendo que a minha experiência é necessariamente limitada, a procura dos especialistas nestes sintomas é apenas o seguinte passo lógico – explicar por que tão raras vezes é dado seria outro texto, porém. A distância entre o significado e o significante, usados para descrever alguma coisa, aumenta muitas vezes com a dimensão social da realidade que invocam. Deste ponto de vista, só a podemos compreender (à realidade) se nos aproximarmos dela, nos colocarmos ao lado de quem a está a viver (sentir) e a partir daí revermos o significado das palavras que usámos até então para a descrever.

SINTOMA

nos termos desta reflexão, mas talvez apenas aparente. O que é um sintoma e para que serve, de um ponto de vista sociológico? É uma etiqueta. Uma etiqueta convertida num sinal socialmente operacional. Permite-nos distinguir o saudável do doente, o normal do patológico, o bom do mau. Também nos diz muito sobre quem o tem e sobre quem o determina. A forma como a sociedade infiltra as vidas quotidianas das pessoas que nela vivem é mais ou menos evidente em diversos fenómenos, um deles é a doença mental. A infiltração permite-nos, enquanto pessoas, reconhecer o que aquelas duas palavras significam. E se calhar até sentir que, na essência, loucura seria uma palavra mais acertada. Essa sensação, porém, dever-se-á mais aos significados que impregnam os comportamentos atribuídos a quem é sinalizado como doente mental, do que à própria essência da condição. Se estudarmos mais de perto as categorias que dão lugar ao diagnóstico, ou até mesmo o processo de diagnóstico, percebemos que são pouco essenciais. Os próprios sintomas estão contaminados por uma miríade de efeitos contextuais que levam a um determinado veredicto. Este por sua vez, no percurso histórico ocidental, plasma aquilo que podemos sentir como mais bem expresso em loucura do que em doença.

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Joana Tavares, O Eclipse.

ENSAIO Patrícia Chaves,Allow yourself to be what you are.

Sintomas tornam-se assim sinais com significados pessoais e sociais que se entrelaçam entre si e com outras dimensões da vida. Saindo fora da tradição histórica e social de dramatização, moralização, diabolização (medo) desses sinais de doença, procurar a dimensão individual da pessoa, às vezes quase confessional, e da sua experiência quotidiana com eles pode presentear-nos com configurações da doença mental que, além do sofrimento já esperado, nos podem revelar a normalidade da mesma. i. e., a teórica infinitude de formas de lidar com estes sinais revela a possibilidade, mas também a necessidade, de operar além das conceções negativas sobre estes, permitindo entrever e aceitar também uma normalização. Conhecendo sociologicamente a importância do reino dos esperados no reino dos possíveis no reino dos existentes, esta aproximação a perspetivas apenas individuais – na aparência – mostra-nos o quotidiano daquilo que tentávamos representar linguisticamente ao extrapolar num sentido comum a quem usa a língua. Este movimento de descascar e limar as palavras, a partir da proximidade ao quotidiano experimentado, tem um duplo efeito. Por um lado esclarece-o tornando as palavras mais adequadas/ conformes/precisas. Por outro visibiliza-o e inclui-o no imaginário que dá significado a essas palavras. Ambos os efeitos operam ainda um outro: a inclusão de novas formas de ser alguém com uma experiência de doença mental dentro da categoria doente mental. Esta será uma das formas de responder à incompreensão sentida por estes e por aqueles que os conhecem de perto – como as suas famílias – mas também por aqueles que estão de fora. Esta incompreensão que é, na verdade, verdadeira em muitas situações (porque uns e outros estão a falar de coisas diferentes usando os mesmos significantes) provém, entre outros aspetos, de uma

sensação de invisibilidade que é ao mesmo tempo causa e efeito de uma solidão contrária à pulsão grupal que, enquanto humanos, a maioria de nós experiencia ao viver em sociedade. Por fim, do ponto de vista do experienciador, o sintoma pode ser positivo ou negativo em si porque significa, por exemplo, que o nosso corpo reage a algo que está mal. O sintoma neste prisma pode ser polissémico, produzir compreensão e solucionar um problema de linguagem. O envolvimento que a aproximação exige constrói novos significados e, assim, novas palavras. E como são precisas novas palavras. Joana Zózimo, Quem tem medo da doença mental. *** Nota à leitora e ao leitor. Este ensaio é um esforço de desacademização do discurso, para o qual estaremos provavelmente votadas ao falhanço, visto que a formação formal, recebida para tal, é nula ou quase nula. É por essa razão, muitas vezes, mais fácil cair-se na hiper-conceptualização da ciência ou da filosofia do que na redução da ideia e do texto e da imagem ao seu estado mais simples, do ponto de vista do autor. As muralhas de referências que usamos enquanto ensaístas impedem-nos frequentemente de dizermos aquilo que vemos e percebemos de forma clara. Torna-se vertiginoso, para não dizer hermético, navegar por entre cfs., sigs., e apuds, até se chegar ao fim da frase. Por essa razão, prometemos que não iríamos encher este texto de referências bibliográficas, e daí que estranhamente este objecto não tenha nenhuma. Preferimos deixar ao leitor e à leitora a liberdade de preencherem com as suas próprias referências: (Inserir referência aqui) (inserir a •sua• referência aqui) ****Lisboa, Porto, Roterdão, Outubro 2016****


ENSAIO

FALSO ASSINTOMÁTICO X AVIER R A FAEL & TIAGO FONTES

Guerra. Hospital de campanha. Médico olha para os corpos que chegam e tem de tomar uma decisão, fazer uma triagem, dar um diagnóstico em tempo anormalmente reduzido. Tudo isto sem acesso a algo fundamental, o próprio paciente. Não pode tentar obter informações sobre o que aconteceu, que dores são sentidas, onde e com que intensidade. Os homens mutilados à sua frente ou não estão conscientes ou então estão de tal maneira em pânico ou traumatizados que eventuais informações que consiga obter irão ter uma utilidade reduzida. Situação agravada após uma nova investida ou incursão em território inimigo e recorrente ao longo de uma guerra prolongada. Principalmente se essa mesma guerra prolongada gradualmente não corre de feição, sendo este um de entre muitos problemas que surgem e são ou não resolvidos pelos soldados e oficiais, por um lado, ou pelo Governo e Estado, por outro. Ainda por cima, em situações longe das ideais. Centremo-nos em dois cenários de guerra específicos: a Alemanha na frente russa da 2ª Guerra Mundial e Portugal na Guiné, Angola e Moçambique durante a Guerra Colonial, e noutro tipo de problema ocorrido nos dois exemplos com consequências tão funestas como as próprias baixas militares. Desde o início da campanha russa a cada vez maior ingerência por parte de Hitler em todo o tipo de decisões estratégicas, táticas e operacionais leva ao crescimento do descontentamento e insatisfação por parte de grande parte dos oficiais, quer a nível do Estado-maior quer a nível do terreno na chefia dos exércitos, divisões, regimentos, batalhões e companhias. Esta ingerência é vista como causa maior para a hesitação na escolha de objetivos claros para as próximas campanhas, originando derrotas ou então vitórias com grande custo material e humano, colocando em causa os objetivos de longo prazo. Esta situação agravou-se gradualmente, mas já durante 1941, no início da campanha, era bastante notória.

Num primeiro momento, o Estado-maior do exército tenta manobrar o Führer para tomar a decisão que mais lhe convinha, o ataque a Moscovo como objetivo principal. Apesar da pressão dos oficiais no terreno para uma decisão, perde-se tempo nesta via mais conciliatória tentando que os objetivos militares e político-económicos eventualmente convirjam. Quando se apercebem que tal não será possível, e o controlo e microgestão por parte do Führer se tornavam cada vez mais patentes, tenta-se uma rutura mas já é tarde demais. Apesar da guerra se ter prolongado até 1945, o tempo perdido em 1941 irá determinar a derrota a longo prazo. Esta análise é feita por historiadores a posteriori, na altura dos acontecimentos a rutura não originou mais do que a substituição de alguns generais e a campanha continuou com vitórias frequentes e a conquista de vastos territórios. O problema e o mal-estar criados não tiveram imediatamente reflexo em ações contra o Führer ou o Estado. Um sentimento de confiança mal direcionado na infalibilidade do Führer e na superioridade dos alemães em relação aos russos adiou o problema até 1943 com a derrota em Estalinegrado e Kursk - só aí se tornou óbvia a impossibilidade de novas ofensivas e a progressiva mas inevitável derrota, os oficiais de alta patente em conjunto com outros elementos oposicionistas tentaram a remoção violenta do Führer. Numa sociedade organizada desta maneira só com o apoio de altas patentes do exército se poderia ter a expectativa de algum sucesso. A mais famosa iniciativa foi o atentado no Quartel-general do Führer a 20 de julho de 1944, organizada entre outros pelo Coronel Claus von Stauffenberg. Esta tentativa, para além de não ter morto Hitler, não tinha ainda suficiente apoio por parte das Forças Armadas e da população.


mercenárias ou auxiliares”. Esta formação proposta por Maquiavel só viria à luz do dia com o Estado moderno e na situação alemã na 2ª Guerra Mundial encontrava-se totalmente desenvolvida. O outro ponto que gostaríamos de focar, e ainda mais relevante nesta relação entre Estado e exército, consiste no alerta que Maquiavel faz quando justifica as considerações sobre o exército. Afirma o seguinte: “(…) aquele que, num principado, não reconhece os males logo que eles surgem, não é verdadeiro sábio; mas são poucos os que têm esse dom”. Para além da rareza do dom ou da sageza, gostaríamos de salientar o necessário reconhecimento dos males por parte do governante, de forma a compreender para que lado pendem as armas. Como num apelo para o olhar perspicaz e treinado, Maquiavel revela a necessidade de estar alerta para o sintoma dos males antes que eles tomem conta do corpo político. É numa atitude preventiva que prevalece a ideia de um exército próprio, uma vez que se ele constituir, fundar esse próprio corpo, a ideia de se voltar contra si próprio equivaleria a uma amputação. Se no caso alemão o Estado conseguiu sobreviver até à vitória final dos Aliados, tal não aconteceu no caso português. No caso português a razão para uma rutura e insatisfação por parte do oficialato provém de uma questão ainda mais de classe, aparentemente ainda mais invisível para elementos exteriores ao exército. Devido a uma falta de oficiais de carreira (nomeadamente Capitães dos quadros permanentes) para responder a uma guerra prolongada e a um número crescente de efetivos do exército, o Governo tem de tomar medidas. A 3 de julho de 1973, o Ministro do Exército Sá Viana Rebelo aprova um decreto-lei para fazer face a essa escassez. É oferecida a oficiais milicianos, alferes, a entrada no Quadro Permanente do Exército após conclusão de um curso intensivo. Neste decreto era também considerado para efeitos de antiguidade o tempo decorrido como oficiais milicianos. Outras soluções já vinham sendo aplicadas através da chamada de oficiais milicianos que tinham prestado serviço militar ainda antes de a guerra ter começado e que depois de um curso intensivo eram graduados como Capitães. Estas medidas levaram à organização dos oficiais do Quadro Permanente em protesto. Organização que se desdobrou entre a então metrópole e as colónias. O Governo inicialmente recusou ouvir qualquer tipo de reivindicações existentes por parte destes oficiais.

SINTOMA

Os objetivos dos oficiais com a remoção do Führer eram sobretudo o fim da guerra e a tentativa de negociação de um tratado de paz em condições de manter a integridade da Alemanha. O que passava por uma recuperação do controlo das ações militares por parte do Exército tendo em vista a intenção acima descrita. Temos sobretudo uma série de reivindicações fechadas na classe militar que, apesar de englobarem um tratado de paz potencialmente beneficiador de uma parte mais vasta da sociedade, provinham da intenção de manter a integridade do exército garante da Pátria. Vários tribunais fantoche foram organizados e vários oficiais foram condenados por estas ações ou por mera conveniência do regime. A título de exemplo, o Marechal Erwin von Rommel, um dos favoritos de Hitler, cairá em desgraça. A sua ligação ao atentado acima descrito não está totalmente provada mas foi claramente utilizada pelo regime para mais uma vez denegrir o prestígio do exército. Estamos perante uma situação excecional que originou a exacerbação de um problema muito específico numa instituição tão conservadora e hierarquizada como o exército e nos seus elementos potencialmente menos avessos a mudanças, o próprio oficialato. Quando Maquiavel, na sua famosa obra O Príncipe, coloca a questão fundamental de manter o poder, é sobre o exército que recai a sua análise inicial defendendo a preferência de um exército próprio ao de um constituído por auxiliares ou mercenários. Dir-nos-á sem relutância: “Em suma, as armas alheias, ou nos caem no corpo, ou nos pesam, ou nos ficam apertadas”. Maquiavel não colocará esta questão por uma simples visão prática ou utilitária mas, defendemos nós, porque encontra no exército uma razão que fundamenta a própria constituição de um aparelho estatal, mesmo que a forma política à qual destinava o seu parecer não assumisse ainda a forma Estado. Gostaríamos de reter dois pontos que surgem na consideração de Maquiavel sobre o exército. Como primeiro ponto, há a necessidade de formar o próprio exército. E notamos que a ideia que a justifica não é a eficácia do mesmo ou, pelo menos, esta eficácia será a consequência de uma certa ação sobre os indivíduos. Segundo Maquiavel, este exército será constituído por «homens disciplinados e adestrados», e somente estes empunharão as armas sem que elas caiam, pesem ou apertem o príncipe. Antes da formação técnica do exército é necessário a formação do indivíduo disciplinado e adestrado, contextualizá-lo num conjunto de pressupostos ideológicos nos quais o soldado encontre a sua identidade. Por isso afirma: “E as forças próprias são as constituídas por súbditos, por cidadãos ou por gente que tu tenhas formado; todas as outras são

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Esta situação e o impasse militar existente conduzem ao agravamento das tensões dentro das Forças Armadas. Levam também a um aumento das reivindicações deste grupo que muito rapidamente passaram por uma mudança de regime. A própria cúpula do exército parece sentir essa necessidade, senão vejamos o surgimento do livro “Portugal e o Futuro” escrito por António de Spínola defendendo um solução federalista para a situação colonial. A resposta do Governo ao agudizar da crise é de oferecer o poder ao chefe e vice-chefe do estado-maior do Exército, Costa Gomes e António de Spínola. Estes recusam. Marcelo Caetano oferece a sua demissão ao Presidente da República Américo Thomaz que também a recusa. A solução encontrada para esta crise é o famoso episódio da “Brigada do Reumático”, a 14 de março de 1974, em que é encenada uma manifestação de subordinação e solidariedade por parte das chefias militares em relação ao regime. Costa Gomes e António de Spínola recusam participar e são exonerados. Estas ações por parte do Governo não solucionam o problema e apenas dois dias depois há o pronunciamento das Caldas e finalmente o 25 de Abril, organizado pelo Movimento dos Capitães (Movimento das Forças Armadas). Apesar de aqui darmos apenas dois exemplos, ao logo da história, várias foram as vezes em que se verificou este tipo de mutilação, onde exército e Estado se colocaram como elementos antagónicos reivindicando cada um deles uma razão distinta para alterar ou manter a união entre as armas e o poder político. Entender a natureza desta rutura, desta cisão interna do próprio Estado, poderá levar a compreender não a natureza do Estado mas os mecanismos que o engendram e os dispositivos que constituem objetivamente a sua função. Em último caso, diríamos, levaria a revelar um ponto nevrálgico no qual seria suficiente tocar para despoletar a sua implosão. Utilizando a ontologia social desenvolvida pelos filósofos Ernesto Laclau e Chantal Mouffe, será que podemos descortinar a razão que subsiste à particularidade do exército? Segundo estes autores, o Estado é o lugar do universal, constituindo-se a sociedade civil num composto de inúmeros casos particulares que, através de uma lógica hegemónica, perseguem os seus próprios interesses na direção do universal. Abandonando a sua condição autónoma, todo e qualquer particular que pretende afirmar-se no campo político envereda numa lógica hegemónica fazendo equivaler as suas reivindicações às da sociedade como uma totalidade. Esse particular assumirá assim um papel universal que espera ver e estar representado no Estado. A nossa questão

é a seguinte: poderá o exército ser visto como um elemento particular ou, pelo contrário, ser um elemento constitutivo do universal como condição já dada pela sua simples razão de ser? Vejamos como se desenvolve a lógica hegemónica referida. Um determinado universal assume inicialmente uma disposição diferencial, ou seja, assume a sua condição particular através das exigências que o delimitam e diferenciam dos outros particulares. A sua razão de ser avalia-se pela diferença. Contudo, a partir do momento em que as múltiplas exigências dos vários particulares não obtêm resposta por parte do Estado, os seus discursos começam a equivaler-se na forma negativa e a referência original começa a perder a intenção inicial. Os interesses comuns sobrepõem-se aos particulares e esta lógica tenderá inevitavelmente a apresentar-se como verdadeira e única representante do universal. Perante os casos expostos podemos considerar o exército como mais um determinado caso particular ou assumi-lo sempre como apêndice do universal? Ou, caso mais complexo, entendê-lo como uma mistura dos dois, em que a origem particular dos seus componentes poderá nunca perder a referência particular, mas, devido à sua função peculiar, nunca se desenvolverá a partir de uma disposição diferencial uma vez que já está numa posição de universalidade? Mesmo que assuma o papel do universal, nunca será através de uma lógica equivalencial, como nos mostram os casos de ditadura militar. Mas não é através deste caso extremo que procuramos analisar a relação exército/Estado, mas onde os interstícios da posição não extremada nos mostram a articulação da própria relação. Podemos levantar a hipótese de ver nos sintomas que se apresentam quando o exército se revolta contra o Estado que o sustem um duplo risco. Devido à sua natureza mista, em momentos críticos pode fazer um jogo duplo que nunca integrará as exigências quer do Estado quer do povo. Poderá, no limite, coincidir com eles, aproveitar-se do discurso político daquele que pretende ocupar o universal, mas nunca poderá fazer equivaler verdadeiramente o seu discurso com aquele que se lhe opõe. A sua posição será sempre diferencial e ela só o é porque tem o elemento universal que assegura essa posição. Assim sendo, quer no momento da reforma, quer no da revolução, o exército constitui somente uma coisa que se sobrepõe às suas particularidades constitutivas: preservação da sua posição diferencial.


Nuno Fragata


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INDÍCIO DE PERTURBAÇÃO NUNO FR AG ATA

Um rato entra no museu. Não é rato de biblioteca nem é rato de museu, é um rato. Que explora. Produz. E pensa: a imagem é representação da matéria, representação matérica que ganha significado e sentido por meio da intenção do leitor. A matéria, indício da existência do corpo físico, define uma fronteira entre exterior e interior. Fronteira que prende na observação da imagem, tensões criadas entre representação e expressão. Lança sinais para

o olhar, levando ao transpor da fronteira. Alerta para o temporal, para a possibilidade de constante mudança. Cada imagem é uma fixação, reflexo e refração de todo o resto, como matéria que flui. Aspeto do mundo fixado que ganha significado por fazer referência ao universo.

Inspirado por Ohne Titel, de Michael Biberstein


Um rato nada numa pintura. Uma tela que se tornou como que uma piscina olímpica com água precisamente à temperatura correta. No local certo, na hora concreta, na temperatura correta: fere. Observar é ler e mergulhar. Ler é como partir. Produzir a partir de uma imagem onde se mergulhou será como nadar, à descoberta de um território. Que

se expande a cada piscina. Um ato que poderá ser discreto, virado para si mesmo por possivelmente não interessar explodir mas sim a implosão, um trabalho interior. Um splish splash em vez de um BOOM. Um silêncio que mais adiante leve a revelação, talvez.

Inspirado por Composição Suprematista, de Kasimir Malevitch

LEITURAS: DELEUZE, G., 1997. Cinema I – The Movement Image. 5ªed. Minneapolis: The Athlone Press. ISBN: 0816616779 DELEUZE, G., 1997. Cinema II – The Time Image. 5ªed. Minneapolis: The Athlone Press. ISBN: 0816614008 REY, S., 2002. “Por uma abordagem metodológica da pesquisa em artes visuais”. Brites, B., Tessler, E., orgs. O meio como ponto zero: metodologia de pesquisa em artes plásticas. Porto Alegre: Ed. Da UFRGS. ISBN: 8570256248

SINTOMA

No silêncio unem-se pontos que se escondem. Reflexão centrada na inquietude. Em si mesma. Que se desvela e que se renova por o importante ser a produção de uma linha e não a produção de um ponto. Importa o meio, estar algures num percurso, manter pontos iniciais e finais escondidos. Sintoma de um produtor: o definir de relações com a inquietude. A leitura que outros façam do que se revela, que se lixe. Será a deles e só a eles interessa. Agouro de um rato em mergulho.

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A QUEDA E O FOGUETÃO: SOBRE A IMPOSSIBILIDADE DE CORRERMOS PARA SEMPRE PEDRO X AVIER MENDONÇ A

I Alguma coisa não valer por si mesma, mas remeter para uma outra, subentende que esta a que se refere é estável. Nela descansaremos. Depois de muito tempo num envio sináptico entre pontos de passagem, chegaremos a um lugar. Em face do espetáculo do presente, nada mais errado. Parece que nenhum ponto nos servirá de descanso ou de lugar final, paraíso perdido ou descoberto. A natureza, olhada com a devida distância, dir-nos-á isto. É esse o seu processo. Também é do seu interior que este movimento se dá. Ela mostra-se como lançar constante. O mundo e o não-mundo (enquanto ambiente não humano) são da ordem do envio. Um certo mito da chegada e do princípio permanece, não obstante. Queremos a finalidade, sem ela não nos mexemos. A mitologia de uma fixação é antiga. Estamos há muito enredados numa presença que se promete ou se pensa ter alcançado. A nossa relação com o tempo faz-se dessa chegada que desenha os lugares anteriores. A eleição do espaço como vazão da temporalidade depende da cronologia final. Até porque morremos. Neste caso, no morrer é que está o ganho. A não ser que afinal não haja sentido algum, qualquer que seja. Não ter onde cair em descanso, embora tendo onde cair morto, tornou-se cada vez mais real. Assumimos isto, ironicamente, como o valor social imanente, embora não dito (as outras narrativas da presença, tantas vezes desejadas, estão todas aí a ocupar espaços), e criámos as condições para que esse lado natural das forças cósmicas se manifestasse. Elegemo-las como as mais relevantes, ainda que lhes negando a pertença essencial ao natural. São as que temos desencadeado, com razões diversas. As tecnologias digitais, por exemplo, são isso e o seu esplendor: a ligação pela ligação, a rede pela rede, o cérebro gigante sem corpo, ou ele mesmo o único corpo disponível. Projetamos esse nosso órgão nos sonhos de

futuro imediato e nas técnicas do presente que passa, mas não numa estabilidade final, é um almejo que se mexe no vazio. O Iluminismo está aí inteiro, mas tão intenso que quebrou os limites morais que a si mesmo impunha. Uma porcelana que se fragmenta no chão, espalhando-se. Onde cada pedaço cai não importa, o que é relevante é a explosão. O princípio mobilizador é o da velocidade. Uma ginástica, não uma figura. Observar um lugar estático desestabiliza-nos para um lugar móvel. A estagnação é inaceitável. O futuro é um estar-à-mão que nunca acaba. A desorientação resulta da trepidação do aceleramento. Não há vestígios, há stress. O transporte foi reificado como coisa. A cibernética é a ciência de tudo ocultada como metafísica por trás das explicações que nos restam com dignidade. A narrativa do mundo é uma rede de fluxos interminável. Poética de si sobre si mesma. Caixinha de circuitos em expansão. A conquista do microcosmos faz-se da complexificação interna dos milímetros. A explosão é para fora e para dentro. Nada pode parar. O fluxo é um valor central que também está na política. O liberalismo como sistema social revê-se na troca e no valor criado por essa troca, fiel ao transporte entre nódulos. Esta dinâmica é um mundo. A materialização em tecnologia traz para o espaço público interações que sempre existiram mas que deste modo se tornaram mais visíveis, comuns e complexas. São estruturas que se adoram como monumentos. A projeção de uma personalidade construída, delimitada com cuidado, veio “humanizar” as ligações. Entre a ipseidade do sujeito e o seu fenótipo tecnológico (redes sociais digitais) há uma distância que tende a deixar de ser entre o real e o fictício para passar a ser entre um nódulo e outro. O sintoma é o sentimento e vice-versa. A simetria metodológica transforma-se em horizontalidade ontológica. O positivismo salta do interior da pós-modernidade para impor um rigor científico que justifica a relatividade de


tudo. O relativismo é o dispositivo epistémico perfeito na criação das condições ideais para o maior número possível de relações. Não há retas infinitas a determinar todas as interações. Há pontos vicariantes em interações infinitas, linhas e curvilíneas, não por causa de uma essência mas de uma função. Cresceremos sem fim, na pretensão de uma economia em expansão interminável. Teremos a produção de coisas e o seu consumo alcançados com o menor esforço possível, até chegarmos à geração espontânea, ao teletransporte, à telepatia, ao pensamento que produz um efeito tecnológico. Seremos unos com o mundo, o desejo e a satisfação num abraço de singularidade, o fim do esforço. Todos numa longa marcha de interseções imediatas até ao maciço.

SINTOMA

II Perante este diagnóstico, coloque-se uma hipótese metanarrativa. Conceba-se que vivemos um compasso de aceleramento tecnológico que está desconectado das nossas capacidades de projeção do futuro e da vivência de uma teleologia. Presenciamos um movimento, no qual somos mais participantes do que condutores, que será um empurrão técnico para lá da nossa adaptação física e metafísica. Um desencontro momentâneo entre a evolução tecnológica e a evolução humana. Uma interpretação deste tipo deve ser reexplicada: é um salto que impõe um telos, em termos de ponto de chegada, a uma dinâmica descontrolada. Não é crente na tecnologia, mas considera-a uma condição humana que, como tal, deve ser reconfigurada em função daquilo que o humano vai sendo e querendo ser, preservando ou não o planeta. Se o salto interpretativo assim feito verificar uma assimilação do discurso ecológico na construção do humano, ele fará parte dessa metafísica futura. Caso contrário, o imaginário desse homem porvir será constituído por um absoluto artificial e

não pelo culto da alteridade da “natureza”. A ficção científica dá-nos vários exemplos do que seria esse absoluto artificial, se é que não vivemos já nele. Salvar o ambiente é salvar o homem e nessa medida o discurso ecológico mantém-se. Não se confunda esta perspetiva com movimentos como os da singularidade ou do Zeitgeist. Pretende-se colocar uma hipótese de fundação pós-realização técnica. A questão é sobretudo humanista, conceito ainda possível numa forma de projeto e não de ontologia. É um problema que tem que ver com a nossa incompletude original e consciência evolutiva recente, mito da queda logo levantado pelo foguetão do Iluminismo. A técnica é essencial só por agora. Não antes, nem depois. Para já, este maravilhoso pesadelo. A herança grega mantém-se firme, desta feita substituindo de forma acelerada a escravatura pela tecnologia – pelo menos nos últimos duzentos anos. A sapiência de Platão e Aristóteles tinham um preço. Sócrates, moscardo vagabundo, não viu impostura ética nos escravos de Atenas. Não deixou de ser um aristocrata. O marxismo viu o fim das classes, há quem veja o fim do trabalho, veja-se o fim da tecnologia. Deixe-se a utopia ser ela própria. Aceite-se sem cinismo uma racionalidade para a destruição criadora demiúrgica. A sociedade tecnológica não tem na sua estrutura qualquer consciência ou inscrição explícita desta possibilidade. Na melhor das hipóteses é-lhe imanente sem o reconhecimento de si. Na pior, terá que ser o humano a impor-lhe um sentido, este ou qualquer outro. As narrativas teleológicas nunca desapareceram, religiosas ou políticas. Mas perderam hegemonia. Deixaram-se ficar, camadas empoeiradas na sequência histórica, atravessadas por grupos que as conservam ou reavivam. Ainda fazem o nosso tempo e podem voltar a fazer a história. Contudo, a linha tecno-liberal está aí com demasiada força a fazer o mundo e a alterar as condições que colocam

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as premissas das posições tradicionais religiosas e políticas. Por exemplo, a reconstrução biológica altera os dados criacionistas e a inovação consumista impede qualquer verosimilhança de uma sociedade sem classes ao virar da esquina. O que não impede que estas narrativas sobrevivam nos discursos e até em grupos maioritários. Mas não estão a fazer o mundo e a história do mesmo modo. A sua visibilidade não significa que tenham o mesmo poder que a ideologia do fluxo contínuo. Os revivalismos radicais do nacionalismo, do etnocentrismo ou do fundamentalismo religioso são mais um sinal da aceleração em curso do que uma oposição séria. Cai no fundamentalismo de um princípio quem não vê princípio nenhum na face da Terra. Por isso, a hipótese metafísica aqui exposta é de futuro e não de presente, de espectador e não de agente. Esta perspetiva assenta num discurso de legitimação parcial do desenvolvimento tecnológico como instrumento, primeiro, de sobrevivência e, depois, de conforto. Libertar o homem do esforço que a vida acarreta é um dos telos do fenómeno técnico. Aparece de forma explícita na publicidade à tecnologia, mas sobretudo nas intenções que reinam na inovação. A relação que estabelecemos com os dispositivos tem sido marcada pela diminuição da quantidade de gestos necessários para espoletar efeitos funcionais. Quanto menos corpo, melhor. Para quê, ninguém sabe, e essa é a incógnita inscrita no inconsciente corporal da tecnologia. Um dos aspetos que define o homem aristocrático é a dispensa do trabalho. É possivel que a escravatura tenha sido tolerada durante tanto tempo porque o discurso da sua legitimação era construído por esta classe. A emergência da burguesia e da revolução industrial contribuíram certamente para a abolição da escravatura, embora, numa primeira fase, esta tenha fornecido mão-de-obra para a extração de matérias-primas essenciais à indústria. A passagem do escravo ao assalariado e à máquina em nenhum momento abdicou do homem aristocrático, ainda que transferido para o burguês, o homem da cidade. As urbes são gigantescos sistemas de manutenção da ociosidade permanente ou esporádica, para lá dos mínimos de sobrevivência. O que fazer com isso, principalmente para aqueles que têm muita ociosidade ou para as massas desempregadas, é a questão que se segue. Problema que o marxismo não resolve: a sua ditadura do proletariado manteve uma classe dirigente proto-aristocrática; o seu controlo sobre os meios de produção não foi produtivo; e não ofereceu liberdade à ociosidade possível. É na clareira do homem livre que pode nascer a arte como possibilidade de ser humano, verdadeiramente. Só aí uma sociedade tecnológica faz sentido. A nossa incapacidade para transformar a ociosidade em criatividade é um dos sinais do desajuste entre possibilidades e realizações. Quando a arte se

cruza com a economia - por exemplo, na atividade industrial e comercial desenhada pelo quadro de referência estético – expressa-se a contradição que vivemos. Temos demasiados poderes para o que somos capazes de querer fazer. Por isso, a liberdade é engalfinhada na produtividade, quando deveriam ser os excessos desta que tornariam o homem livre. A estética é esse campo aberto por um sonho grego. Este seria o princípio metafísico que explicaria esta história. Sem ele, o sentido é outro, mas não teleológico. Só tem sentido as máquinas ocuparem todo o espaço se isso permitir ao humano abrir um novo caminho. Caso contrário, vieram substituir-nos. OBR A S DE R EFER ÊNCI A: BORGMANN, A. (1984) Technology and the Character of Contemporary Life: A Philosophical Inquiry. Chicago: The University of Chicago Press. GA RCI A, J.L. (2010) “Bioarte, biotecnociência e metacriação” in M. de L. L. dos Santos e J. M. Pais (edts.), Novos Trilhos Culturais. Práticas e Políticas, Lisboa: Imprensa de Ciências Sociais: 137-157. M A RTINS, H. (2011) Experimentum Humanum – civilização tecnológica e condição humana. Lisboa: Relógio D’Água. M USSO, P. (2003) Critique des réseaux. Paris: PUF. V IR ILIO, P. (2006 [1977]) Speed and Politics. Los Angeles: Smiotext(e).


Bruno Afonso


Pânico e outros sintomas II Marcadores de tinta, colagem e pós-produção digital Headitor, 2016


LITERATURA

SE UN SOGNO JOÃO B. SERR A

Pus o capacete de segurança que o agente da Polizia Municipal me entregou, antes de levantar a barreira metálica com a menção “Vietato l’acesso. Zona Rossa”. Ao fundo da rua podia ver-se um veículo militar. Desde Abril de 2009, que o acesso ao centro histórico de Aquila, generalizadamente atingido pelo sismo da madrugada do dia 9, tinha sido limitado a equipas de socorro e, mais tarde, às equipas técnicas de registo, avaliação e intervenção nos danos ou colapsos dos edifícios. O controlo e vigilância das áreas interditas ao público tinham sido cometidos ao exército e à polícia. O perímetro de segurança da Zona Rossa viera entretanto a diminuir, embora permanecesse ainda extenso. As obras de remoção de escombros e de aplicação de tapumes e estruturas de suporte do edificado avançaram muito, mas não as de requalificação. Percorremos ruas e ruas sem sinais de reconstrução. Em contrapartida, os perfis de metal e de madeira, as bielas, os esticadores e as braçadeiras, omnipresentes, uma parafernália de próteses, sobrepunham-se, às vezes por inteiro, às fachadas. Um espectáculo onde o cenário do espaço público urbano, outrora ritmado, fora ocultado por uma ostensiva armadura soldada ou aparafusada. Numa cidade deserta e vigiada por forças militares e policiais não deixava de ser surpreendente o recurso a correntes e cadeados para reforçar portarias. Também se podia arrolar, neste registo de aparentes contradições, as janelas rasgadas no reboco das fachadas pelas equipas de estudo, para inspecção do comportamento dos materiais e o estado das paredes, fissuras somadas às que a catástrofe originara. Paola caminhava ao meu lado. Indicava o uso que fora dos edifícios principais, o papel dominante desta ou daquela rua ou praça, sublinhando a importância histórica de alguns monumentos. Tudo nela era sóbrio, gestos, palavras, vestuário (jeans, parka comprida, ténis). Deslizava por aquele cenário com tal discrição, que eu não pude deixar de me sentir intruso, detendo-me passo a passo, incapaz de conter o manejo da máquina fotográfica. Pressenti uma nota emotiva quando se deteve perante o edifício da antiga Casa dello Studente de Aquila, e os vestígios da evocação das

vítimas pendurados ao longo das redes de protecção. Talvez tenha sido essa brecha que me deu coragem para lhe confessar, no regresso à Fontana Luminosa, onde ficava o meu hotel, que gostaria de lhe fazer mais algumas perguntas sobre a sua cidade. - Não sei se sou a pessoa indicada para responder às perguntas de um historiador do urbanismo. Eu insisti, admitindo que algumas perguntas fariam apelo à sua experiência pessoal. - Viveu sempre aqui? Pareceu-me que hesitava, como que avaliando a sua própria disposição para falar com um desconhecido sobre assuntos que consideraria privados. - Evito falar de Aquila, daquela Aquila que visitou, respondeu. Para os meus familiares, é um tema sempre tão difícil. Para mim e os meus amigos, passados estes anos todos, há um luto que não completámos. Talvez não o consigamos nunca concluir. Tínhamos tomado a direcção do Forte Spagnolo. Paola propôs-se mostrar-me o Auditorium del Parco, uma criação do arquitecto genovês Renzo Piano. O conjunto, formado por três cubos, revestidos de tábuas coloridas, simulando o resultado de uma queda de três dados num ambiente flexível (dois dos cubos estão deitados sobre um dos lados e um terceiro ficou preso ao chão por uma das arestas) fora oferecido pela Provincia Autonoma di Trento para substituir o Auditorium do Forte, destruído pelo terramoto. Sentámo-nos na esplanada exterior da sala de concertos. Paola desembaraçou-se da parka. Vislumbrei tatuagens nos seus ombros. - A implantação deste Auditorium é temporária e convertível. Guarda os arquivos musicais da cidade e poderá um dia, facilmente, ser deslocado para outro local. Fiz parte da equipa de montagem, com outros estudantes de engenharia e arquitectura de Trento e Aquila. Nos espaços relvados em volta havia gente a ler ou a conversar, aproveitando o sol do fim da tarde. Uma mãe dava de comer a um bebé. Acercando-se do castelo, surgiam grupos equipados com vestuário de corrida ou de marcha. Na Piazza Battaglione degli Alpini, o estacionamento de automóveis crescia. As


Dalila Garcia

tudo aquilo para que tanto trabalhei, está agora a ser destruído. E, como podem imaginar, ou sabem, é uma sensação infernal”. - Vi o filme, sim. Alice montou um dispositivo de alertas e exercícios contrariando a perda da memória. No discurso que refere, ela confessa que já não se identifica, nem é reconhecida, na pessoa que é com a pessoa que foi. Mas acrescenta: “É a nossa doença. As doenças têm uma causa e podem vir a ter uma cura”. - Mas entretanto vão fazendo vítimas. Quantas gerações serão sacrificadas? A dos meus pais, seguramente. A minha, também. Ficaremos por aqui? E, num murmúrio: - O meu namorado foi um dos que ficaram sepultados naquela residência. Por momentos, o seu olhar fixou o meu. Fui eu, desta vez, quem o desviou. Receio bem que o carácter próprio da cidade de Aquila se tenha perdido para sempre, quis confessá-lo. Mas em vez de o fazer, disse: - Uma cidade é uma história. Na história de Aquila, esta não foi a primeira catástrofe. Da mesma maneira que a história da cidade já integrou os traumatismos do passado mais longínquo, acabará também por integrar este último. Paola levantou-se. - Aceita um convite para o desfile de logo à noite? Vamos ter um meeting para denunciar a corrupção, o desvio de fundos da reconstrução pela máfia que controla a adjudicação de obras. Depois convido-o a tomar uma bebida no pub irlandês que abriu recentemente na Via Sassa. - Encontramo-nos ali - apontei - na esquina do Corso Vittorio Emanuele? Agarrei na parka, ajudando Paola a vesti-la. – Dá-me licença – perguntei, afastando ligeiramente as alças do top – que veja as suas tatuagens? Soletrei baixo a frase de Bob Marley que ela distribuíra pelos dois ombros: - “Se un sogno ha così tanti ostacoli,” “significa che è quello giusto”.

SINTOMA

barracas de vendas de sumos gelados, e sanduíches, nas imediações, iniciavam os preparativos de abertura. - Hoje à noite haverá uma concentração na Piazza del Duomo. Os aquilanos vão semanalmente em romaria à praça mais importante da sua cidade antiga. - É uma afirmação do seu desejo de voltar? – perguntei. - Não estou certa. Trata-se sobretudo de um movimento de jovens. Eram adolescentes em 2009, são agora teenagers. É, talvez inconscientemente, um expediente para combaterem ou atrasarem a perda da memória. - O tempo decorrido – e já lá vão cinco anos – vai dissolvendo o tempo da adolescência, substituindo as memórias antigas por outras mais recentes. É inevitável. - Não sei, a substituição seria uma transição. Neste caso, tivemos uma perda, há uma solução de continuidade – disse Paola. Eu não conseguia encontrar o seu olhar. - O centro histórico de Aquila tinha 20 mil habitantes. Fomos distribuídos pelas povoações vizinhas. De um dia para o outro, o nosso território mudou radicalmente. Fragmentou-se e dispersou-se. Ficámos sem centro. - Sem centro histórico!? - Sem centro, literalmente. Onde vivemos hoje? Na periferia. Mas na periferia de quê? O centro histórico de Aquila era o centro de uma constelação urbana. Onde quer que estivéssemos, sabíamos onde estava a nossa casa, quem eram os nossos vizinhos, onde moravam a família, os amigos. - É por isso que a Paola fala de ruptura? - A memória é também desejo, imaginação. É uma leitura, uma construção. Esse processo foi bloqueado. Viu o filme Still Alice, cuja personagem é afectada pela doença de Alzheimer? No discurso que faz perante a Conferência Anual sobre Tratamento da Demência, a Professora Alice Howland conta: “Toda a vida acumulei memórias. Elas são de certa forma o meu maior tesouro. Tudo aquilo que acumulei na vida,

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LITERATURA

O CÃO QUE RODOPIA GONÇ A LO FONSEC A

Regressou às palavras de Gabriel. Ao procurar um sentido para a existência seríamos nós como o cão que tenta apanhar a própria cauda num rodopio que entontece, mas que ele sabe que está ali, difícil de agarrar porém ao seu alcance? Ou seria tudo bem mais simples, básico porventura: nascei, crescei, multiplicai-vos, envelhecei, morrei e não penseis muito nisso porque não há muito para pensar? Visto desse prisma, o de que pouco há para além da banalidade do quotidiano e de que tudo o resto não passa de engodos enganos para nos manter ocupados na procura de um sentido ilusório da existência, os seus impulsos niilistas não só eram justificáveis como compreensíveis. No entanto, Leopoldo não gostava da palavra. Só a usava porque havia sido a primeira em que pensara e depois nunca mais lhe saíra da cabeça, explicava, desculpava-se que não se aplicava a ele. Associava-a aos jovens russos do final do século dezanove, todos os Barazov e Karamazov do mundo, indivíduos que considerava fracos de valores e moral. Gente desancorada. E esse não é o meu caso, afiançava, o problema residia na sua dificuldade em estabelecer um elo com os acontecimentos e as pessoas que se intensificara com a idade. Não era traço de carácter nem convicção, era um bloqueio. E mesmo que se esforçasse, tentasse escamoteá-lo, Leopoldo não se livrava do facto de que quanto mais tempo dedicasse à inquirição do passado mais óbvias se revelariam as dificuldades. Um caso exemplar, e quase caricato, era o do seu trabalho. Tinha consciência de que nunca gostara, mas agora não conseguia reanimar em pleno esse sentimento. Era como se o tédio, ou o repúdio que em certas ocasiões sentira, não tivesse tido significado. Coisas sem importância. Seria uma incapacidade da idade, espécie de falha neurológica proporcionalmente inversa à clareza das suas memórias? Ou tão-somente um mecanismo de defesa, um álibi? Perfeitamente aceitável, responderia Leopoldo em jeito de desagravo como se tivesse

sido presente a um juiz. Era o caso de Gabriel, por exemplo. Tinham passado tantos anos desde o seu desaparecimento que se tornara difícil, impossível mesmo, mantê-lo próximo. Não havia muito mais para argumentar, justificar, a idade desgasta, a distância rói, desfaz, apesar dele lhe lançar, como fazem todos os ausentes, iscos frequentes que Leopoldo não mordia. Já não mordia. Esta linha de defesa estendia-se, no entanto, a pessoas mais próximas e vivas. À irmã, pensava na irmã muito mais do alguma vez fizera. Possivelmente porque pouco sabia da sua vida após a saída de casa. No aparador continuavam expostas duas fotografias de Teresa. Numa, teria à volta de seis meses, uma recém-nascida rechonchuda sentada ao colo da mãe e com o pai de pé, mão assente no ombro da mulher e olhar dirigido à câmara numa pose repetida noutras fotografias. Na segunda, teria cerca de dez anos e nela via-se uma menina morena de vestido branco ou tons claros, cabelo escuro que descia sobre o peito em duas madeixas e rosto que já não enganava as semelhanças com a mãe. Sim, no dia em que a reviu após doze anos, Leopoldo confirmou isso, reparou que Teresa trazia no rosto os traços da mãe, tendo deixado escapar estás tão parecida com ela, excepto que continuava magra e nos olhos permanecia alojado o mesmo abrasamento de antigamente, o mesmo espanto permanente. Da infância da irmã, Leopoldo lembrava-se da mais calada das criaturas numa casa já de si propensa ao silêncio. Por regra evitava-a, afastava-a das brincadeiras, das suas e das que mantinha com outros miúdos. Mas ela ficava por ali, rondando, observando sem dizer palavra e quando o fazia nenhum deles a entendia. Além de miúda, a tua irmã é esquisita, diziam eles. Leopoldo não os contradizia, não a defendia, mas ela não parecia chatear-se, dir-se-ia até que gostava de os provocar. Nada disso, explicara-lhe o pai, é uma menina cheia de fantasia e havia na sua afirmação a vontade de protegê-la e justificar o seu comportamento, soando as palavras


sua condição frágil e que muitas delas aproveitavam para tirar proveito da depravação masculina. Apesar deste atenuante, o de saber que não estamos sós nos nossos actos, mesmo nos mais reprováveis, e naqueles a que somos forçados, Maria da Paz não conseguiu sustentar a situação e um dia deixou o serviço, tenho de voltar para a minha terra, cuidar dos pais velhos e desamparados. Não devia ter sido surpresa, mas foi. Semanas depois de ter saído de casa, Teresa enviou um bilhetepostal no qual dizia que não se preocupasse, estava bem e que o mais natural é não te voltar a escrever tão depressa, Leopoldo leu. O bilhete era uma fotografia a preto-e-branco de um claustro, a legenda esclarecia tratar-se do claustro do silêncio do Mosteiro de Santa Cruz, em Coimbra. E Leopoldo não se preocupou, efectivamente. Tinha tanto em que pensar, tantas indecisões na cabeça depois da morte do pai e de ter sido forçado a assumir o seu negócio. Nunca procurou saber do seu paradeiro nem o que fazia, não obstante que tudo indicasse que estaria em alguma casa religiosa ou convento. Qualquer coisa do género, foi o melhor que explicou à mãe. Esta pronunciou um trejeito que Leopoldo não conseguiu e não se esforçou por compreender. Nos doze anos seguintes recebeu exactamente seis bilhetes-postais, sempre o tal da fotografia do claustro do silêncio dentro de um envelope dirigido a Leopoldo Mendes Fortunato, Rua de Santa Catarina, n.º 5, Lisboa, sem remetente e com as mesmas palavras de que está tudo bem e que é escusado escreverem. Uma vontade súbita mas inconsequente levou Leopoldo a querer rever, reler esses bilhetes. Seriam realmente todos iguais, palavra por palavra, cópia uns dos outros? De pé, junto à janela da biblioteca, virou-se para mirar a gaveta onde eles estavam guardados juntamente com algumas das cartas do velho amigo Gabriel e toda a correspondência trocada com a sua mulher durante o namoro, as que recebera e as suas, pois escrevera-as em duplicado entre Outubro de 1935 e Maio de 1937, um mês antes do casamento que não pôde anunciar a Teresa, como não o fez da morte da mãe e do nascimento do filho. Fê-lo finalmente nessa manhã de Outono em que ela apareceu na casa comercial e ele reconheceu-a de imediato porque estava tão parecida com a mãe, apesar da magreza. Depois, sentados no Martinho da Arcada, Teresa falou-lhe da sua vida sem entrar em grandes pormenores e sem referir quais os planos para o futuro. A casa continua a ser a tua casa, assegurou-lhe Leopoldo. Por sua vez, Teresa não deu saída ao convite implícito e no silêncio da resposta que não chegava não chegou, Leopoldo pensou que gostaria que a irmã conhecesse Maria Antónia e o filho. Que voltasse, nem que por uma tarde, à sua casa. Contudo, ela não estaria interessada, pelo menos não o mostrava. Não, não está, tenho a certeza, e assim

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menina, dita com verdadeira ternura, e fantasia, termo raro e quase proscrito, estranhas na pessoa do seu pai. Mais tarde, Leopoldo meditaria bastante nesta defesa inusitada. O que lhe era impossível enquanto miúdo e depois enquanto jovem adulto, seria decifrar a irmã. Conseguir descrevê-la como uma rapariga perplexa perante as coisas do mundo e que por isso pretendia ir para além delas e que começava a amadurecer um compromisso com as visões radicais da vida, as de quem não assume o meio-termo e considera imperativo ir até ao fundo. Mas se tivesse a idade e a perspicácia suficientes, teria desconfiado da atitude do pai, que nunca dedicou muito esforço a encaminhar a filha em direcção ao futuro mais expectável para uma rapariga da sua condição naquela época: um casamento bem arranjado ou em última hipótese uma vida doméstica recatada. Que eram as duas hipóteses sugeridas pela mãe na sua absoluta estreiteza sobre as possibilidades da vida. Já o marido agia como se qualquer acção fosse escusada e soubesse disso, ao contrário do caso do filho, aparentemente mais problemático com as suas manias de intelectual e papa-livros indeciso, refilava, mas que não possuía a intensidade da irmã. Talvez fosse a mesma força que o agitara, agitava ainda, como homem de negócios bem-sucedido, virada é certo para outras matérias, outros propósitos que ele ainda não entendera. Em todo o caso, segundo Joana, a mãe, a resposta era bem mais prosaica. Tratava-se da habitual condescendência de pai para com a filha. Menina do papá. Não devia ter sido surpresa. Se na infância tinha a irmã como enfadonha, somente e apenas isso, à medida que haviam crescido passou a considerá-la de facto estranha, uma criatura ensimesmada pouco propensa a seguir os comportamentos das raparigas da sua idade e a quem de nada valiam as tentativas da mãe para ensiná-la a costurar e bordar nem as de levála consigo às retrosarias e lojas de roupa da Baixa ou as de acompanhar Gertrudes, a empregada, às compras no mercado da Ribeira ou então no da Figueira. Não vale a pena, dizia Gertrudes à mãe na assumpção de que a natureza humana é invariável, nasce moldada, vem feita e Joana, sentada no sofá, abanava a cabeça não sabendo se devia concordar ou discordar. No entanto, Leopoldo nunca reconheceu em Teresa propensão para a crença, para os arrebatamentos da fé apesar de desde nova ela ir com a mãe acender velas aos santos e à Virgem e de pedir contem-me histórias sobre os santos, aqueles que estão lá na igreja. Normalmente, os seus pedidos eram satisfeitos por Maria da Paz, espécie de governanta e amante ocasional do pai. Receptora dos seus desejos, era assim que se sentia e não propriamente amante, por mais dura que fosse a classificação a que recorria e soubesse que pela cidade inteira inúmeros patrões entravam nos quartos das criadas, insinuavam-se e abusavam da

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Fausto Vicente

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ficaram os dois a observar o movimento no Terreiro do Paço e Leopoldo a comentar acerca do dia magnífico que estava, bom para andar na rua, sim, e como estava quase na hora de almoço arriscou podíamos almoçar, o que achas? Obrigada, mas não costumo almoçar e tenho coisas a fazer. Antes de se despedirem, enquanto esperavam pela conta, Leopoldo lembrou-se da maneira como Gabriel descrevia a irmã na época em que a tentara seduzir. Ainda se abeirou da pergunta, ela se lembrava dele, porém não a fez, como também pensou em repetir a afirmação de que a casa continua a ser a tua casa, à qual ela teria dito que não, não é. Se calhar, nunca havia sido. Nessa noite de Novembro, antes de se deitar e depois de ter contado a Maria Antónia que estivera com a irmã, Leopoldo percebeu que a fé de Teresa pouca relação tinha com uma crença sólida e que era sim fruto do seu arrebatamento pelas vidas levadas ao extremo. Passariam vários anos até receber de novo notícias dela. Ter-se-ia sentido como o cão de Gabriel, ou pelo contrário Teresa havia cumprido à risca o segundo postulado? Em retrospectiva, Leopoldo inclinava-se para esta última possibilidade, mas o que sabia ele dos pensamentos mais fundos da irmã? Pior, estava tudo tão longe que era difícil tirar conclusões, aferir ideias acerca da irmã que continuava de vez em quando a enviar bilhetes-postais obedecendo ao preceito de antigamente, só que agora os postais não eram de um claustro, eram de um prado florido nos quais repetia que estava tudo bem numa caligrafia que, como eles próprios, também envelhecia. Era tremida e ia perdendo a elegância.


LITERATURA

PRELÚDIO POSSÍVEL AOS ASSUNTOS DA HIPOCONDRIA PAULO CONS TÂ NCIO

Quantos os que às portas da farmácia se sentem penetrando um reservatório de neurotoxinas? Quantos os que ponderam as suas vidas qual quadro de anomalias crónicas aberta a boca para o dentista? E os que procuram nos lavabos do hospital uma epígrafe para a doença? Pergunto-me se é a um passo dum cachecol de analgésicos que vamos dar esta auto-flagelação por tranquilizada. Mais outra série de interrogações que me intrometem no epicentro da obsessão a tal ordem que fazer espera em consultórios poder-se-ia tornar safra. Sejamos francos, ninguém quis dar uma idade ao corpo, estimar-lhe a longevidade, render o miolo consoante a necessidade de locomoção. Nenhum de nós quis viver a reboque do calendário à espera que o matrimónio civil com o esquife chegasse, esfrangalhasse-nos maliciosamente as manápulas mas fosse manchar os lençóis doutra arara. Porcamente reparamos – já não se pode confiar nos pressentimentos, sobretudo os nossos! Estava tudo errado. Foi apenas uma deficiência de alcance entre uma borrifadela de monóxido de carbono e um paraíso terapêutico. Por tal, é tão mais certo que o corpo não atinge a velocidade do pensamento que, a este ponto, o pensamento tornou-se o vigário da perturbação. No entanto, como o pensamento está intrinsecamente ligado ao corpo, mais não seja porque este último o hospeda, podemos afirmar que numa ínfima fracção temporal cabem os dois no mesmo receituário e por isso todos os sintomas podem ser simulados pela carne, pelo que os próprios tornam-se corpóreos e adquirem voz para se manifestarem, não fosse o seu idioma materno essa sombra que apelidamos de medo, horror, terror lubrificante e pentagonal. Desde já, tudo isso se revê exemplarmente no modo acobardado com que estas mãos burlando cada letra com precisão de relojoeiro (porque

têm um declarado pavor à tendinite e à gota), congeminam este testemunho sobre um estado de paranóia endógena. Para o comprovar, prossigamos com o seguinte facto (facto podre, velhíssimo e ultrapassado). A vida está constantemente em risco, à beira da extinção. Na verdade, nenhum de nós pode precisar conscientemente onde principia a substância que dá corda aos seus sapatos. Se culmina numa cartilha de reformas em pirâmide, com comodidades acessórias para o lento esboroamento dos ossos e para a extinção fragmentada das capacidades, ou no súbito embolorecimento de toda a imunidade e lucidez, ainda que se sinta nisso tudo um afrontamento totalitário à vida. Tal qual as presunções sucedidas na milagrosa recuperação dum invisual septuagenário. Primeiro cisma que é obra da tempestade, depois questiona quem raios provocou tal singularidade, seguindo-se o ponto de viragem em que interroga o mérito da acção e, por último e o motivo que nos é premente, se está doente, se estará para bater as botas! Ora ele está hirto, redivivo como um arrepio, revestido até aos óculos, com um coração de bisonte em época de coito e por isso o desconhecido concedeu-lhe esta diversão. Porém, nada lhe tira da mente que lhe concederam a vista em troca da picada dum mosquito portador do vírus Zika. De facto, tendo em conta essa analogia tão (in)coerente, a vida está terminantemente a terminar, a encerrar o último capítulo com uma rubrica a sangue cru na extremidade inferior direita. Como será inteligível a todos os que manipulem os sabres da sintomatologia com o rigor e classe que se exige, estamos muito seguramente a falar de alguém que o faz ao balanço da volatilidade que antigamente originava os boletins meteorológicos. É muito certo que numa arquetípica manhã de lamaçal e chuva oferecer-lhe-emos uma coroa de


É claro que uma dentadura em completa degradação ajuda muito ao mistério, e depois o facto de termos meio país a acumular emparedados de lazeira sob os olhos só porque é humanamente impossível aviar todas as receitas veio fortalecer este instinto certeiro de um dia cegar às mãos da própria literatura. E isso é um aspecto que parece sentir-se muito fluentemente na já opacidade que este texto transmite. Não é que as letras estejam tremidas ou tenham saído por demais encaracoladas, tão-pouco foram escritas após o recobro nalgum sanatório (faz hoje mais de ano e meio que não piso um hospital, ainda que não deixe de pensar na morte e na doença como tiranas demoníacas que nos querem lamber a testa à força), mas tomei uma posição radical contra o excesso de zelo que me toldou o canastro (o que na minha opinião é já uma gloriosa vitória sobre a Hipocondria e uma reforma pacífica de toda a quadratura sintomatológica). Isto é: trocar a farmácia pela sálvia; o psiquiatra pelo haxixe; o cardiologista pelo Doutor Sanha; o incómodo, a obsessão e a dor de cotovelo pelos soporíferos naturais; e por isso acabei denunciando a abjecção que é este andarmos podres sem dizer nada a ninguém. Para completar o quadro devidamente: vim pôr a nu esta sensação de se estar tão doente que a própria pestilência parece ter sido a entidade reguladora neste amontoado de palavras...

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flores antecedida duma laracha solene porque uma vez na vida esse monte de sebo esteve certo. Até aí tinha sido um mero coleccionador de pústulas menores e enganos perturbadores. Um sagitário zarolho de unhas encravadas. Enfim, um cordeiro excessivamente amargo e trombudo, possuidor dum sentimento muito íntimo com as cartomancias da insegurança e da frustração. Por palavras correntes, o público-alvo para qualquer experiência clínica sem prescrição médica, de efeito imediato e pouco abrasivo. Uma salva de palmas em honra das premonições desse fatalista que passou a vida errando milimetricamente os alvos! E assim foi que subentendi muito mal a amputação do pé direito (onde estava tão-só um minúsculo despojo de vidro), e assim foi que vislumbrei os testículos todos retorcidos à conta duma bifurcação no cóccix, e assim é que ainda hoje os percevejos me aprisionam num cativeiro intimidante, que são o inimigo número um prestes a empanturrarem-se do meu sangue apodrecido ou a expor a minha pele a toda a espécie de radioactividade. Assim é que associo estas picadelas furtivas nos pulmões, estes arrotos ensurdecedores de fígado, este ardor renal, não à causa do vício, não ao seu excesso, contudo a um futuro desastre cujos sintomas me deveriam já alertar. Na verdade e à imagem desse velho que ganhou a visão mas mesmo assim não deixa de estar eminentemente para morrer, eu espelho a pendência dum estado-limite em uníssono, sentimento de jogador compulsivo à beira da reincidência, a miopia ideal das descompensações, limbo que arrecada um prazer repugnante nas residências da dor, desejos de mandrágora a escorrer paralelamente a um negrume de morte, simulacros de histeria geral com sirenes de bombeiro a entoar num corpo amassado que só assim está porque viveu o tempo todo apoquentado.

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LITERATURA és uma pessoa no centro inútil da tua vida não sabes aquilo que queres muito menos o brinquedo que és imitas a tristeza dos horários as filas intermináveis de desgostos  junto aos semáforos pela manhã proteges-te como podes dos ramos espinhosos de um chefe engoles em seco e de uma vez por todas a cada dia  essa vaga ideia que fazes de ti um almoço muito pior do que o dinheiro  que recebes ao fim do mês  é o teu jantar de natal de um inteiro dia num pára arranca sem sentido  enfrentas um regresso a casa  onde também não tens ninguém Paulo José Miranda


NIAGARA [Bert Stern, The Last Sitting, Marilyn] Recuso esta imagem, faz lembrar o quarto sossegado sobre a catarata luz, abismo, os olhos presos Seria isso um filme, os pássaros despertavam muito cedo, uma cena  perfeita abandonada na versão final Repetiam-se os sonhos, havia impermeáveis de amarelo vivo entre as cordas de água e sobravam sapatos alinhados nos cacifos Só para que o corpo caísse lento e elegante, de pedra em pedra até ao derradeiro esparrinhar Estava depois escrito o nome fim Recuso-a com um dedo de sangue se tudo é apenas a nudez mais despida pronta para o tacto e as inocentes pisaduras Sei que acham bela a gravidade dos seios que começam a pender o aproximar das pernas unidas  no ponto onde acaba o retrato Adereços que daqui a pouco digamos, seis semanas se vão desvanecer deixando alguma espuma

José Manuel Teixeira da Silva SINTOMA

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ANNE FRANK INTERROMPIDA

LITERATURA

mantenho os meus escritores perto de mim ando a juntá-los em linha à espera pela calada da noite e estes quartos que se enchem de escuro como os vasos das danaides se enchem de água repetem-se em certos gestos e no descuido, na falta de memória são parados nos carris na força da sua velocidade mortal por uma operação de vigilância perpétua que não se confunde com toda esta censura que só pode ser redimida pelo resgatar dessa pedra trazida ao de cima pelo caminhante que vai por essas montanhas ao entardecer como se o inverno não existisse e a neve nos picos não o pudesse surpreender e entra por esses trilhos para falar mais tarde dessa tua tão difícil escalada e regressa ao fim do dia e onde tu vês nada ele vê caminhos que nem sequer ias alguma vez imaginar e o que ele te entregar vai ser a tua pressa uma urgência partida ao meio como pão o preço de uma noite bem dormida e eu que aqui me sento ao fim do dia e escrevo o corpo que não há-de vir tacteio a presença que me resta que no fundo só serve para que não me esqueça da presença que me falta é verão e é verdade que o mundo caminha para o caos devagarinho e eu me divirto a ouvir composições que dvorak escreveu para divertimento dos filhos em lugares perdidos em pensilvânia quando ele próprio parou de se preocupar com qualquer outra coisa que não fossem férias de agosto e penso que o mundo pára de existir depois de certos quartos de certos encontros de certas frases proferidas em certos cafés que voltam como o peixe da manhã que se contorce nas mãos de um pescador que endoideceu que puxou a sua presa para fora só para a ver morrer e para a atirar de novo ao mar


é verdade que vou escrever até ficar cega sem que as minhas manhãs alguma vez regressem porque os mesmos rios não entram nos mesmos homens duas vezes nem é nesta cara que habita o rosto do pai que há-de sobreviver à filha e o teu rosto vai ser para sempre a antecipação do lugar a confirmação de que um entardecer vigiado com a melhor atenção do meu escritor favorito é mais belo do que qualquer verdade ou qualquer esperança e pode ser que eu me escape mas imagino que isso seja alcançado como quando um náufrago se escapa em direcção ao fundo eu procurei-te anne frank no coração desta europa derrotada em sorrisos de gelo na minha cidade eu vi-te em duiven com o teu vestido de flores a mascar pastilha elástica e em ténis de pano a aura do beijo do teu namorado ainda estampada no teu rosto adolescente e as tuas frases regressam rompem como rios através das margens nos passos cansados de trabalhadores instrumentalizados pela rotina que regressam a casa pelo verde dos caminhos apenas para dormir tomar banho na manhã seguinte trocar de roupa fingir que não hão-de morrer nunca que nada é assim tão urgente nesta solidão podre e pobre que não se confunde com nada do que tu alguma vez escreveste pergunto-me que linha te devo o que há ainda a dizer se fracos e mansos com a contradição é o que vamos ser

Tatiana Faia Oxford, 16 de Junho de 2016

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eu espero que as tuas palavras me acertem como pedradas numa briga de infância eu abro as mãos espero pela limpidez de gelo e vidro dos charcos esta linha de aqui e agora perfeitamente interrompida pela longa luz da tua vida breve

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LITERATURA Toque ferido de uma harpa é longa a sombra da ruína do teu corpo vê-se pela porta aberta de casa. A paisagem é de ar parado mas diz-se que a agonia trouxe remadores às beiras do Mondego que os mineiros voltam ao carvão e a harpa afinal limpa o sangue das feridas nas suas mãos. Há uma agulha espetada no sofá onde te sentas. Enquanto não magoar é porque estás morto. António Tavares


PEIXES DE ASFALTO O despertador, rádio de pilhas, plástico e sonoro, toca, no escuro e a diário, à mesma hora. São 6:00 da manhã, menos uma nos Açores. O arquipélago onde chovem flores azuis do tamanho de bolas de futebol, sonhas acordado. Toca e sem vontade nem grua levantas-te, tomas um duche, o pequeno-almoço, nada com pevide ou caroço, não vás sufocar. E sonolento, lento, como sempre, ainda não te sentes gente, lavas os dentes, pões a gravata, a lógica uma batata, um gelado de nata, da vida a sucata, vestes o casaco, pegas na pasta, nas chaves de casa, do carro, pensas num café, num cigarro, fazes tudo mecânico, igual, ordinário. Fazes tudo espontâneo, diferente, fora do aquário, abres a janela, gostavas que no casaco uma flor na lapela, abres os braços, abres o sorriso, enches os pulmões e voas, voas como pássaro pescador em voo picado, voas e enfias-te no asfalto como se em mar alto.   Isto o que contou, em aflição, a vizinha do rés-do-chão, bom dia Dona Sofia, não tem quem se lembre como era bonita, lábios pintados, chinelos de quarto, robe rosa seco, ao microfone da televisão, dedo indicador como um vedor a apontar, no chão, o lugar, onde sumiste. A velha vizinha que para seu bem, asfaltaram num lar da terceira idade, asfaltando em sincronia o velho gato ao abandono. Raquel Serejo Martins

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LITERATURA

ECONOMIA DE MERCADO Desde cedo percebi que essa coisa de não riscar os livros, como nos ensinam na escola, é preocupação primordial de alfarrabista. Sempre que passo num ou é para comprar - mesmo riscado - ou é porque todos os livros têm potencial para o desprezo. Nunca vendo aqueles que sublinho, e não é puro acaso. Prefiro deturpar tudo aquilo que aprendi. Daniel Ferreira


TELEFONEMA-SINTOMA do sedimento argiloso do tempo a tua voz chega-me, inconsistente, encarnada no biombo translúcido da omissão que adquire ao meu entendimento a forma velada de uma mentira selvagem, sangrante por ter abolido, vencida, a verdade aproximas-te no cuidado da recusa furiosa ao toque, esperas que eu acredite na matéria da tua voz sem risco compreende, não transcorreu apenas o tempo mas também a cabeça e o meu silêncio expresso-me agora em outra língua que prescinde da violentação da voz e nessa condição falar mudou-se em pedras redondas amontoadas, uma doce e terminal alegoria do outro lado da linha onde circula a filosofia feliz da passagem dos comboios daqui, toda a reciprocidade embate e se fere até ao sangue na inutilidade, para ser refeita numa linguagem-vereda, alheia e indiferente a toda a decifração, o puro acto sem volta da minha existência onde nada pode ser nomeado e é claro, onde tudo deve ser reescrito, fora do tempo e contra o tempo, fora da arte e contra a arte fora disto e contra isto no radical não-traduzível da irredutibilidade onde o nada define a totalidade até que seja plausível o gesto e as consequências de um largo e livre traço brilhante de tinta-da-china pura no cartão pardo deitado ao lixo Charrua, 7 de Dezembro de 2016 Jorge Muchagato

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Pânico e outros sintomas III Tinta-da-china e assemblagem digital Headitor, 2016


Pânico e outros sintomas IV Composição digital Headitor, 2016


RECENSÃO

SOBRE

VÍVERES

DE MIGUEL CARDOSO HUGO PINTO SA NTOS

Na origem da palavra «víveres» está uma derivação do verbo «viver» (ou «vivre» no original francês da etimologia), porque o termo se refere ao alimento necessário, imprescindível à sobrevivência. Motivo por que se costuma empregar para jornadas, geralmente longas, situações de provação e/ou guerra, imprevistos, catástrofes. E é num lugar que confina com esses sentidos que se situa o sentido possível para o título do livro de Miguel Cardoso. Víveres são aquilo de que o sujeito dos poemas necessitará para a sua trajectória, e para que os passos que a precederam não percam o siso indispensável. Apresentando-se, como se apresenta, como um ser da falibilidade e de uma espécie de «precária idade», a entidade que percorre estes poemas constrói o seu lugar no pressuposto de que precisará de se alimentar apenas com o estritamente necessário. Não quer isso, de maneira nenhuma, dizer que tudo se atenha a um mínimo expressivo e referencial que seque tudo em seu redor. Pelo contrário. A atitude prevalecente é a de desagregar a máquina para que reste o infinitamente pequeno, e para que essa exiguidade mantenha um fulgor digno, mas caiba na algibeira do viajante que o sujeito, sem dúvida, é – «Levar nos bolsos preciosidades, fios, ruínas, espinhos, terra, covardias, pequenos purgatórios, bagos de arroz, colheres, anzóis, molhos inúteis de chaves, tempos, prodígios vários.» (p. 9) Como se pode perceber, não são apenas, ou não são sobretudo, os mantimentos limitativamente alimentares que fornecem estes versos. A abstracção de «ruínas» e «purgatórios» desequilibra o que poderia, rapidamente, tornar-se uma lista de mercearia, e é, em vez disso, um dos mais humanos e comprometidos relatos de um tempo e de um lugar. Os «prodígios» serão, verdadeiramente, «vários». Passarão em parte pela saciedade minimal do estômago, mas relatam um percurso de arco bem mais abrangente. O trajecto de um indivíduo que se cruza, se intercambia e

TINTA - DA - CHIN A 2016

se confunde com um universo social, histórico e político. Sem que nenhum dos dois domínios coarcte o outro. Esta é uma poesia que se apropria do quotidiano para o tornar memorável. Isto é, que toma o diário como tema, mas lhe atribui uma qualquer qualidade de superação do círculo individual. «A menos que se tornem estéticas», disse Hölderlin, «isto é, mitológicas, as ideias não têm interesse». É da criação de certo mito pessoal, e progressivamente social, que aqui se trata. O mito da amizade e do colectivo, a utopia da comunhão e o constatar de um inimigo sem rosto, mas com demasiados tentáculos o sistema capitalista, apostrofado de forma não nomeada, mas sempre diferida, merecidamente altiva, como num combate desigual mas sem perda de honra. O que Miguel Cardoso consegue através de um conjunto subtil de aproximações ao leitor. Estas, porém, não se fazem pela técnica do embuste e do enlevo – essas, deixemo-las para outros –, tão-pouco por via de uma táctica de pueril exortação. Antes por uma consonância dos factos que se tornam princípios operatórios de cidadania. A poesia de Miguel Cardoso encaminha-se, neste livro, para um reconhecimento da pólis cada vez mais maduro e reflectido. É política, sem dúvida, a perspectiva que os factos assumem, nos seus versos (e na prosa de alguns dos seus poemas). No sentido em que a condição do sujeito nunca é linearmente individual(ista), mas se equaciona em relação dialéctica com o(s) outro(s) e, no confronto com este(s), com a sociedade. Em vez de sujeito, melhor se falaria de agente. Está em plena acção de reconhecimento, o eu desta poesia. Muito menos uma entidade que afirme a sua individualidade subjectiva do que um instrumento de tratamento e análise de um quadro muito mais vasto. Portanto, menos um sujeito lírico do que sociológico e histórico. O mundo é, para ele, terreno por mapear. É frequentemente de uma deslocação no espaço que se trata nestes poemas. Um tropismo animado pelo estímulo problemático do mundo


de certa noção de sublime, segue-se uma aplanação terrestre, ínfima. O vestuário, que contrasta com os domínios da deusa, mais do que um sinal de húbris, é indício de uma incapacidade de pactuar com hierarquias, desníveis desta ordem de grandeza. Sobretudo, é o resultado de uma força que impele o sujeito poético e o propulsiona em direcções demasiado distintas – rumo à escalpelização do quotidiano e ao desvelo dos pormenores que mantêm o sujeito à tona. A grandiosidade que parece insinuar-se em certas proposições é logo contrabalançada por uma tonalidade entre o depreciativo e o derrisório – «Os anos furiosos deixaram-te/ aqui, sem fogo, à hora do almoço» (p. 16). Mas os deuses não deixam de ser escrutinados, e sãono desde o começo do livro, através das epígrafes de Hesíodo. Não é indiferente que Cardoso tivesse optado por dois momentos do texto hesiódico que se fixam no caso humano, sem se guindarem às esferas rarefeitas em que os deuses cogitam destinos alheios e próprios. A condição laboral do Homem, forçado a buscar o que os deuses ocultam, mas também compelido a um estado de alerta que o define.

SINTOMA

palpável. Problemático porque é inviável qualquer confiança do sujeito em tutorias ou direcções, sejam elas divinas ou terrenas – «onde não chega o olhar de deuses e poetas e burocratas» (p. 103). Um anarquismo por exclusão de partes, ou um que está na raiz de tudo? Não pode deixar de ser notado que Miguel Cardoso abre Víveres com uma dupla epígrafe, que integra Os Trabalhos e os Dias, de Hesíodo, e versos de José Afonso. Uma opção que não podia estar mais longe de um projecto de rebeldia. Tratar-se-á, pelo contrário, da assunção de dois paradigmas de grande importância para este poeta e para a poesia que ele escreve. De um lado, a compreensão de um passado de tradição cultural distante; do outro, uma voz mais próxima – mas a que o quotidiano imprime cada vez maior distância? Contudo, mais importante é o significado preciso de cada uma das citações. José Afonso, que pode parecer a convocatória mais óbvia, demarca, com menos previsibilidade do que seria de pensar, uma charneira para Víveres: a necessidade de um tecto e a epopeia do lugar. Não é impunemente que se fala em epopeia, mas em regime de tentativa de ombrear com o trilho descrito, com tacto e nobreza, onde todos os carris se desfazem, e os apeadeiros se perdem sem abrigo. A citação de Hesíodo não existe como forma de garantir a presença de um clássico, no sentido de elemento de devoção; um clássico, sim, mas na acepção de verdade humana e histórica. Localizado no tempo, mas suplantador de eras – «como nos ensinou Hesíodo/ sem que soubesse» (p.127), retomarão uns versos do livro. Em sentido similar, surge a convocação da deusa das colheitas – «então Deméter vou tratar da roupa/ como alguns fazem aos campos» (p.49). Uma ocorrência que assume um esquema seguido amiúde em Víveres. Após um elemento hierático, que pressuporia uma elevação de estilo, ou aquilo a que, no passado, se chamava uma dicção peculiar, o verso adquire, estrategicamente, um ânimo adverso. E àquela presença, que se aproxima

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RECENSÃO «Nós, deste tempo, avessos, imprecisos,/ hóspedes, apóstrofes, relicários, suaves/ por dentro, velozes na intimidade, leves,/ rubros, talvez sentimentais, a quem é dito/ que de nada vale antever erros ou soltura/ encher a cabeça de desejos facas fumos/ guerras surdas quartos vidas coisas vagas» (p. 131). Nem diagnóstico, nem elegia por mais uma geração perdida – «nada do que fica ou serve», poderia dizer-se com Jorge de Sena. Porque estes poemas de Miguel Cardoso também não serão «ao menos consolação dos tristes» (J. de Sena). E, no entanto, esta estrofe, citada na íntegra, é um testemunho de assinalável lucidez e premência sobre determinado tempo, e sobre os seres que nele entendem as suas existências. A acuidade dessa descrição, pela sua amplitude, em permanente e tenso oscilar entre objectivo e subjectivo, consegue, percutindo ritmo e conteúdo, a precisão sem obviedade, e uma assunção que começa no pronome, continua na acumulação em lista (técnica predilecta) e conclui num conhecimento que ganha muito em ser próprio. Ainda assim, a aceitação do plural é batalhada, nunca aceite impunemente – «usamos quando podemos/ a primeira pessoa do plural» (p. 162). Como se estes versos nos dissessem que a pertença é uma conquista; como se dissessem «não» ao embalo geracional. Ao poder de observação, a poesia de Miguel Cardoso une a disponibilidade para o aparentemente esquecível. São esses predicados que lhe permitem, com uma angulação de grande poder de síntese, fixar «a tristeza granulada das câmaras de vigilância» (p. 139). O grão presente numa captação de vídeo é factual, mas acrescenta-se-lhe a especificidade epocal, a permanência claustrofóbica deste facto num período histórico preciso. Fixá-lo numa imagem congelada, espectral – «os fotogramas da nossa graça interrompida» (id.) –, torna mais nítido que tudo perdeu a nitidez e a realidade. E que se reduz a um artefacto da técnica e do audiovisual o fluir do que vive. No entanto, não existe passividade, nem derrotismo; mas o espírito lúcido e tenaz que move estes poemas impede qualquer crença acrítica.

Uma constante focagem e desfocagem, aumento e diminuição de escala, resultam em produtos da expressão como «Há um outro jogo caseiro/ que é suster o coração/ empurrar fumos com os cotovelos/ manusear gases e mover-se/ em falso no terraço dos séculos/ e sair algures numa ponta de África/ algures no sul de alguma Londres/ e então sim tudo de novo» (p. 117); «Tomar de assalto Tunísias caseiras/ Desmanchar povoados, linhas férreas, calendários» (p. 8); «Partir para alguma Buenos Aires» (p. 25). Não são ludismos verbais, nem torções frásicas para desenfastiar, mas produtos de desagregações individuais, filtradas pela arte e posicionadas em perspectiva histórico-social pela técnica do poema. A descoordenação sintáctica e lógica obedece apenas a um mestre: a necessidade de ser leal à (complexa, conturbada) realidade que se pretende reconstruir. Pessoal, sem dúvida, mas necessariamente integrada em cambiantes de índole pragmática e de interacção em sociedade. Uma relação constante, que se diria dinâmica, reactiva, entre interioridade e espaço social – «Encolher ombros, para ver se abrem as portas automáticas» (p. 28) Ou de como um gesto quase reflexo, puramente individual na sua pertinência, na sua ocasião, se implica na realidade envolvente e globalizada. Um sinal, de resto, de um consumismo tão insidioso quanto pertinaz. Os poemas de Miguel Cardoso, nomeadamente os que procuram mantimentos e lugar de abrigo em Víveres, erguemse perante o aparentemente inevitável e desafiam-no para lutas disseminadas ao longo do tempo, através de mapas diversos. Os punhos ainda não se cerraram, descidos em desistência. O round final está longe de soar.


Fausto Vicente


Três três #7 Sintoma  

O sintoma está no tempo, na cronologia. Possibilita inferir um futuro quando vemos cada momento como o anúncio do seguinte, quer a partir da...

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