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A tourada é um espectáculo perigoso para os jovens? Dr. JP RICHIER, psiquiatra, abril de 2008

Sumário: - Por que razão a questão do acesso dos jovens às touradas é uma questão importante? - Especificidade da violência do espectáculo tauromáquico - O efeito traumático do espectáculo tauromáquico - A habituação ou a incitação à violência - A cultura protege do efeito dos espectáculos violentos? - Os pais que levam as suas crianças às touradas são maus pais? - As escolas tauromáquicas. - A questão das provas estatísticas do impacto das touradas nos jovens


Por que razão a questão do acesso dos jovens às touradas é uma questão importante? Os franceses estão preocupados pelos problemas que a juventude enfrenta, e num lugar destacado encontra-se com frequência o problema da violência: a violência sofrida, a violência observada ou a violência exercida. Nos últimos anos tem-se assistido a um especial interesse pela questão da violência observada pelas crianças e pelos adolescentes. Distinguem-se neste caso dois tipos de situação: - por um lado, a criança como testemunha de violências reais, seja fora da família, seja mais frequentemente dentro da família; - por outro lado, a criança como espectadora de violências virtuais, e entra aqui o debate sobre o efeito dos filmes, da televisão e dos jogos de vídeo.

Sobre o segundo tipo de situação, nomeadamente os filmes, dois relatórios ministeriais foram elaborados em 2002: o “relatório Brisset” (As crianças face às imagens e às mensagens violentas difundidas pelos diferentes meios de comunicação – Relatório de Claire Brisset, Defensora das crianças, para Dominique Perben, Ministro de Justiça, dezembro de 2002) e o “relatório Kriegel” (A violência na televisão – Relatório de Blandine Kriegel, para Jean-Jacques Aillagon, Ministro da Cultura e Comunicação, novembro de 2002).

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Há também um capítulo dedicado ao “Impacto dos media” no relatório colectivo de peritos publicado pelo Inserm em setembro de 2005 intitulado “Problemas de conduta nas crianças e nos adolescentes”, no âmbito mais específico dos comportamentos agressivos. Os espectáculos de violência humana que eles analisam referem-se implícita ou explicitamente a uma violência exercida sobre outros humanos, e as suas conclusões devem ser tomadas dentro desse enquadramento. No entanto, fica aberta a questão de saber se certas conclusões destes relatórios podem ser alargadas à violência do espectáculo das touradas. É notório que as touradas escapam à distinção antes referida, devido a que a violência é ao mesmo tempo real e constituída em espectáculo. Fogem também às análises habituais pelo facto de se referirem não a violências contra seres humanos, mas contra animais. Colocam desde este ponto de vista duas questões, por um lado a questão em si da violência contra os animais, por outro lado a questão da relação entre a violência contra os animais e a violência contra os seres humanos. A literatura médica sobre o impacto dos espectáculos violentos nas crianças e adolescentes incide geralmente sobre dois tipos de efeito: - o efeito traumático; - a incitação e/ou a habituação à violência. Outras reflexões referem-se à fragilização do sentido moral e à perturbação da escala de valores, e são mais difíceis de definir, analisar e validar.

Especificidade da violência do espectáculo tauromáquico Foi já referido que as touradas escapam às distinções habituais sob as quais se estuda a violência no mundo moderno por causa da violência ser ao mesmo tempo real e estar constituída em espectáculo. De facto, há nas touradas uma violência central e um sofrimento imposto, que associam algumas características fundamentais: - esta violência e este sofrimento são impostos no âmbito duma relação radicalmente desigual, isto é, entre homens e um animal obrigado a estar presente; - esta violência e este sofrimento impostos ao animal não têm nenhuma utilidade, existem unicamente para divertimento do homem; - esta violência e este sofrimento impostos ao animal são constituídos em espectáculo.

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Se isto relembra evidentemente os jogos de circo da antiguidade, existem no mundo contemporâneo muito poucos exemplos que cumpram estas mesmas condições. No entanto, existe uma prática que apresenta sob estas características uma similitude estrutural com as touradas, isto é, caracteriza-se por este tipo particular de relações entre uma vítima, um ou vários agressores, e os espectadores. Voltamos infelizmente ao tema da violência na juventude, pois trata-se daquilo que se agrupa desde o principio de 2005 sob o vocábulo “happy slapping”, que se poderia traduzir por “batamos alegremente”. Esta prática consiste em filmar por divertimento, geralmente com a ajuda dum telemóvel, a agressão física gratuita contra uma pessoa, contra a sua vontade, por parte dum jovem ou dum grupo de jovens. Tratava-se no começo de dar uma estalada por surpresa (daí o termo happy slapping), mas o fenómeno alargou-se actualmente à agressão com brutalidade, a violações ou a ferimentos por armas, podendo ir até à morte. Estas práticas, que se inscrevem facilmente numa subcultura, têm apelado particularmente aos sociólogos como sendo emblemáticas da confusão dos valores morais nalguns adolescentes. E têm inquietado suficientemente o legislador francês ao ponto de ter sido acrescentado no código penal, pela lei de 5 de março de 2007, um artigo penalizando a gravação e a difusão de imagens de violência. No entanto, estamos no caso concreto em que a vítima é um homem e não um animal, o que implica linhas de análise que não se podem sobrepor.

O efeito traumático do espectáculo tauromáquico A reacção normal duma criança ao ver um animal a sangrar sob os golpes dum homem é em regra geral, no principio, uma reacção de rejeição, de desconforto e de medo. Naturalmente, nas sociedades rurais tradicionais, onde a relação do homem com o animal está marcada pela rudeza, a criança é bem cedo confrontada e habitua-se duma forma ou doutra. Mas todos sabemos que a famosa cena do porco que é sangrado no quintal da casa não é mesmo assim facilmente aceite por todos, sendo evitada pelas pessoas mais sensíveis. E sabemos que as mentalidades evoluem pouco a pouco com a mudança das sociedades. Como é que uma criança levada a uma arena pode reagir? 4


No começo, o sentimento principal será a curiosidade. Na medida em que o espectáculo é visto ao longe, desde as bancadas, e que a tourada espanhola é marcada por uma dimensão hierática, esta curiosidade poderá mudar para indiferença, talvez aborrecimento. Noutras crianças, esta curiosidade poderá mudar em interesse, talvez fascinação, porque neste lugar pratica-se colectivamente aquilo que está proibido lá fora. Noutras, haverá uma reacção negativa, um protesto, uma recusa de olhar, eventualmente choros. Noutras, finalmente, esta reacção negativa chegará a ter um efeito chocante, um efeito traumático. Fala-se aqui de trauma psíquico quando uma experiência ultrapassa a capacidade de encaixe do psiquismo, da mesma forma que há traumatismo físico quando um golpe ultrapassa as capacidades de encaixe do corpo. Assim, os ferimentos sucessivos, os derramamentos de sangue, o enfraquecimento e depois a morte frequentemente dificultosa do animal vão chocar de uma forma profunda e duradoura algumas crianças. Este risco será mais grave pelo facto das crianças, como sabemos, se identificarem mais facilmente com os animais, nomeadamente com os mamíferos, e poderem estabelecer com eles relações afectivas fortes.

A confiança das crianças nos adultos pode ressentir-se. O relatório Brisset (2002) aponta que as mensagens violentas podem ter um impacto não só no desenvolvimento da criança, mas também na sua confiança no adulto: “Se, acrescenta [o Pr. Jeammet], é muito difícil estabelecer causalidades lineares, não é menos verdade que as imagens ou 5


mensagens violentas […] podem provocar uma reorganização da personalidade da criança de forma a travar em parte o seu desenvolvimento. A criança pode certamente perder a confiança no adulto que o submeteu ou o deixou assistir a cenas incompreensíveis para ele, e ter desde então uma grande dificuldade para a identificação com aqueles, mais velhos que ele, de que precisa para se estruturar.” Aqueles que defendem o acesso às arenas dos menores de idade dizem que não há risco de trauma porque a violência presenciada pela criança se inscreve num ritual partilhado e porque as palavras são ditas claramente, ao contrário por exemplo das cenas vistas num filme. Eles esquecem que um ritual precisa dum sentido (a sangria do porco tem um sentido alimentício, o sacrifício dum carneiro tem um sentido religioso) enquanto que para encontrar um sentido às touradas, os seus partidários devem citar artistas, antropólogos, filósofos, às vezes psicanalistas. E eles esquecem também que para que as palavras tenham uma função apaziguadora para o jovem, é preciso primeiro que ele as perceba. Ora o jargão estético, mitológico ou espiritual ao qual devem recorrer os aficionados é inacessível aos jovens, da mesma forma que o seu léxico técnico espanholista é incompreensível ao comum dos mortais. E se os adultos que acompanham as crianças às touradas não são especialistas no mundo da tauromaquia, eles não disporão de muitos mais termos do que "Olé!". Aquilo que a criança vai ver na arena é o espectáculo da violência, e aquilo que perceberá, desde as bancadas, são as expressões e os movimentos de prazer da multidão a cada ferimento infligido ao touro. A criança vai ver perfeitamente que o touro foi obrigado a estar na arena e que lhe são demoradamente infligidos ferimentos e depois a morte, sem possibilidade de defesa ou de protecção. Isto convida a reflectir sobre as seguintes observações do relatório Brisset (2002): "[As imagens violentas] mais intoleráveis são aquelas às quais é impossível dar um sentido qualquer, isto é, as mensagens que apresentam a violência como uma acção gratuita de aniquilamento, de sacrifício, de submissão do outro, sem nenhum elemento de compreensão." Ou também sobre o conceito de violência perversa, que foi objecto duma análise psicanalítica no relatório Kriegel (2002): "Assim, a violência gratuita é aquela que surge deste jogo pulsional para afirmar o prazer gratuito e perverso. A destruição do outro serve unicamente para satisfazer o prazer de destruir o outro" Numerosos defensores do acesso dos menores de idade às arenas afirmam simplesmente que o espectáculo das touradas não é capaz de provocar nenhum trauma psíquico no jovem. Dizendo isto, em vez de acalmar as nossas inquietudes, aumentam-nas. Porque a sua atitude em psiquiatria tem um nome: chama-se negação. Eles negam a possibilidade de efeitos traumáticos que foram confirmados por testemunhos, os quais trataremos mais adiante. Apoiando-se com força nesta atitude de negação, não somente mostram a sua falta de credibilidade, mas fazem este efeito traumático ainda mais temível. Efectivamente, a possibilidade de expressar-se livremente é uma garantia, senão suficiente pelo menos necessária, para ultrapassar aquilo que se denomina stress post-traumático. Ora, se um jovem levado pelos adultos suporta mal este tipo de espectáculo, eles negarão então 6


todo o efeito negativo, reagirão rejeitando ouvi-lo, optando pela banalização, ou mesmo pela troça. O jovem ficará então na incapacidade de expressar-lhes aquilo que sofreu, por consequência ele não poderá elaborar psiquicamente o seu excesso de emoções e o efeito do trauma fixar-se-á ainda mais. Certos testemunhos de adultos que ficaram fortemente chocados sendo crianças pelo espectáculo das touradas indicam que a dificuldade para expressar o seu mal-estar, estando num meio dominado pela tauromaquia, aumentou o grau da sua perturbação. Finalmente, alguns defensores do acesso dos menores de idade às arenas assinalam um efeito catártico nas touradas. Talvez este efeito “libertador” aconteça nalguns casos, mas não se pode tomar como um principio, porque o jovem, como dissemos, pode perceber as reacções da multidão não como um entusiasmo comunicativo, mas como uma agressão suplementar.

No que se refere ao impacto dos meios de comunicação, o relatório Kriegel (2002) avisava que segundo o “principio de precaução: é melhor não contar com o efeito catártico”. E os autores do colectivo de peritos de Inserm (2005) insistiam também que “o efeito catártico alegado por alguns não ter sido nunca demonstrado”. Dispomos de testemunhos escritos concretos que infelizmente ilustram o efeito traumatizante que uma tourada pode exercer num espectador. A maior parte destes testemunhos vêm de pessoas que assistiram a uma tourada sendo menores de idade (a partir de 6 anos). Temos também testemunhos de pessoas que ficaram chocadas por assistirem a uma tourada sendo adultos, o que mostra que este espectáculo pode chocar ainda mais fortemente uma criança. E certas pessoas, adultas ou menores, ficaram igualmente chocadas por sequências de touradas vistas na televisão, na internet, ou mesmo em vídeos exibidos na escola. A análise destes testemunhos encontra frequentemente os seguintes pontos comuns: Durante a tourada: - um sentimento de surpresa quando a violência começa e quando surge o sangue; 7


- a percepção do sofrimento do animal, com a identificação com o touro, e forte sentimento de piedade; - um sentimento de intensa injustiça; - um sentimento de impotência; - uma incompreensão por parte da multidão dos espectadores; - um sentimento de cólera, de revolta, mesmo de raiva, às vezes com reacções de protesto; - choros ou gritos; - uma sensação de mal-estar psíquico; - uma vontade de não olhar, de fugir, às vezes com saída antecipada. Depois da tourada: - a lembrança, gravada na memória, dalgumas imagens e dalguns sons; - uma hipersensibilidade a tudo aquilo que se refere às touradas e às arenas, com uma clara recusa a voltar. Encontramos também a possibilidade, por sinais vistos menos frequentemente nos testemunhos espontâneos, dum ressentimento para com os adultos acompanhantes, muitas vezes os pais, e pesadelos repetidos. Enfim, a longo prazo encontramos a lembrança persistente da experiência, mesmo após longos anos, associada a afectos claramente negativos.

A habituação ou a incitação à violência Os adultos que levam crianças às touradas arrastam-nas, quer queiram quer não, a uma forma de violência muito crua, real e não fictícia, mesmo estando circunscrita à arena. O relatório Brisset (2002), o relatório Kriegel (2002) ou o relatório de peritos do Inserm (2005) comprovaram bem o impacto que tem a violência nos meios de comunicação sobre a habituação e a incitação à violência. É preciso questionar-se muito seriamente o 8


problema de até que ponto estas conclusões não poderão aplicar-se também ao espectáculo reiterado das touradas. O relatório de peritos do Inserm (2005) assinalava que a maior parte dos estudos “vêm documentar a existência duma ligação significativa entre a violência veiculada pelos diferentes meios de comunicação e os comportamentos agressivos das crianças e adolescentes”, e que “Os espectáculos de violência estimulam a violência, mas arrastam também outros fenómenos, nomeadamente uma dessensibilização dos sujeitos. A exposição repetida a cenas violentas diminui a reactividade dos espectadores. Produz-se uma habituação à violência, com a instalação duma passividade e duma apatia face aos gestos violentos.” Nas touradas, excepto no caso do visionamento de filmes, o jovem assiste a um espectáculo que se inscreve numa realidade vivente. Assiste a actos de suplício sobre um animal que têm lugar ante os seus próprios olhos. O contexto muito particular das touradas vai sobrepor-se, no espírito do jovem, às próprias imagens dos suplícios. Estas imagens vão estar apoiadas pelo calor do ambiente, pelas reacções colectivas uníssonas dos adultos. Este contexto tanto pode amortecer a violência das imagens como favorecer a fascinação, como também, noutros casos, participar no efeito traumático. A habituação à violência não evita, por outra parte, certas formas de trauma. Alguns apaixonados pelas touradas têm relatado uma primeira experiência, na infância, marcada pelos choros e pela perturbação. A posterior repetição da experiência violenta pode gerar, ao mesmo tempo, um trauma e uma impregnação da violência, que aparece como um mecanismo de defesa para absorver esse trauma. Por outra parte o relatório Brisset (2002) menciona o seguinte: “Enfim, os peritos sublinham que a violência é tanto mais traumatizante quanto ela é repetitiva, mesmo que uma só imagem ou uma só cena já o possam ser segundo algumas vivências ou na opinião dalgumas personalidades. A repetição da imagem violenta favorece, segundo certo número de psiquiatras, uma espécie de impregnação da violência.” Esta habituação à violência pode tomar a forma duma dependência. É esta a definição mesma da “afición”, a paixão pelas touradas. Por que razão os aficionados não podem passar sem touradas? Por que razão o simples facto de pôr em causa as touradas suscita tanta emoção, tanta cólera, tantas reacções?... Os defensores do acesso às arenas aos menores de idade dizem que para as crianças e os adolescentes, o toureiro é um herói cheio de virtudes positivas, um modelo de identificação, um ideal de coragem e de mestria. Fazendo isto, caem numa surpreendente apreciação, pois de facto: - os toureiros, sejam quais forem as palavras utilizadas para o encobrir, dedicam-se à prática de suplícios graves e a actos de crueldade sobre um animal. Não utilizamos assim outros termos além dos utilizados no Código Penal (521-1 A), o qual curiosamente os exonera das penas previstas com o argumento da tradição local não 9


interrompida. São, sob este aspecto, um modelo de identificação mais do que surpreendente. - os toureiros, se acreditamos nos aficionados às touradas, colocam a sua vida em jogo na arena. Entre parênteses, felizmente não houve mais do que um punhado de matadores mortos na arena no decorrer do último meio século. Mas quando se sabe que os comportamentos de risco constituem a problemática de numerosos pré-adolescentes e adolescentes, são assim um modelo de identificação ainda mais surpreendente. As notícias proporcionam-nos duas ilustrações bastante malfadadas deste tipo de identificação: - Em 1991, o Midi-Libre informava que em Alès dans le Gard um cão tinha servido de alvo para umas grossas setas recuperadas no terreno duma feira, e depois tinha sido atirado para o leito do Gardon, onde empregados municipais o encontraram morto. O responsável local da Sociedade Protectora dos Animais pôde estabelecer através dum inquérito minucioso que esta sombria historia se devia a uns garotos que tomaram por exemplo o espectáculo duma tourada. - Tem sido falado recentemente nos meios de comunicação aquilo que se chama o “jogo do toureiro”, onde os jovens esquivam um comboio tal como o toureiro esquiva o touro. Foi devido ao desafio que cinco colegiais queriam fazer ao comboio de alta velocidade Paris-Marseille, no passado mês de janeiro, em Bouches-du-Rhone, que este assunto, que inquieta a companhia de caminhos-de-ferro, acabou por ser de actualidade. É evidente que estas reflexões se aplicam com muito mais razão àquilo que se chama "escolas taurinas", que em França existem em Arles, Nîmes, Béziers ou Hagetmau, onde as crianças podem ser admitidas com 10 anos ou menos e não tardam em se exercitar sobre bezerros nas chamadas "bezerradas" e depois em "novilhadas".

A cultura protege do efeito dos espectáculos violentos? A palavra-chave utilizada pelos defensores das touradas e do acesso livre de menores às arenas é a “cultura”. Podem-se incluir muitas coisas nesta palavra, e neste caso eles estão a utilizar a cultura sob uma concepção imobilista. De facto, eles a empregam indistintamente junto com o termo “tradição”. Ora, embora a cultura se defina pela sua transmissão, horizontal ou intergeracional, ela define-se igualmente pelo seu carácter 10


evolutivo, pois é devido a esta evolução da cultura que as sociedades progridem e que o homem se adapta. Se a cultura fosse imutável, nós estaríamos ainda na idade de pedra e não na era dos computadores. Se a cultura fosse imutável, nós defenderíamos ainda os sacrifícios humanos e não os direitos do homem. Aquilo que devemos transmitir aos nossos filhos não são valores ou práticas imutáveis, mas sim valores e práticas que têm sentido e ideal no nosso mundo actual. Não há dúvidas de que os valores, não só culturais mas também morais, sociais ou técnicos, têm sido muito rapidamente alterados nos últimos decénios, e é normal que as pessoas estejam hoje à procura de referências. Mas, por outra parte, confundir “cultura” com “tradição” é condenar-se ao imobilismo e à repetição. Desta forma, o mundo contemporâneo conhece agora profundas mudanças na concepção da violência, tal como também na relação existente entre o homem e a natureza, ou ainda no estatuto ético dado aos animais. Numerosas formas de violência socialmente aceites no passado são actualmente condenadas, sejam elas formas de violência dos Estados sobre os indivíduos, dos militares sobre civis e prisioneiros, ou dos mais fortes sobre os mais fracos (mulheres, crianças, animais…). Poucas pessoas aceitariam hoje em dia que fossem restabelecidos os suplícios em praça pública, e ainda menos pessoas aceitariam que se fizesse às crianças assistir a eles como forma de inculcar exemplaridade. Assim, práticas antigamente aceites devem ser reavaliadas à luz das mudanças nas mentalidades. Querer fechar-se numa concepção imobilista da cultura significa querer arriscar-se a uma fragilização do sentido moral e a uma perturbação da escala de valores das crianças e os adolescentes. Constata-se muitas vezes que numerosas dificuldades de que sofre a nossa sociedade são consequência das incoerências do sistema de regras do indivíduo. Nós ensinamos às nossas crianças, nas escolas e no contexto familiar, que a violência é condenável e que não se deve fazer sofrer aos outros seres. Não é bom ensinar-lhes, ao mesmo tempo, que a violência gratuita pode ser legítima, ou mesmo recomendada. Não é nada bom ensinar-lhes que se tem o direito de fazer sofrer a certos seres com a desculpa da arte, da tradição e da cultura. A luta contra a violência sofrida, observada ou exercida pelos jovens é uma preocupação importante da nossa sociedade. Não é anódino apresentar-lhes o espectáculo do sofrimento, do sangue e da morte como podendo revestir um valor estético, como podendo ser justificado por uma tradição, ou como podendo ser o testemunho duma identidade cultural. 11


A nossa sociedade está repensando profundamente a nossa relação com os animais e com a natureza. Não é portanto anódino apresentar às crianças o espectáculo de homens atormentando um animal por prazer.

Os pais que levam as suas crianças às touradas são maus pais? Não, não são maus pais. Como a maior parte dos pais do mundo, amam os seus filhos, querem que tenham a melhor vida possível e não pensam estar a fazer-lhes mal levandoos a assistir a este tipo de espectáculo, no qual eles próprios encontram prazer. Mas se bem que certos problemas são da responsabilidade educativa dos pais, outros reclamam a intervenção dos poderes públicos. Alguns pais quererão administrar aos seus filhos castigos físicos extremamente severos que eles pensam ser para o seu bem, e talvez eles tenham sofrido semelhantes práticas vindas dos seus próprios pais. Mas nos dias de hoje, em França, os poderes públicos julgarão desproporcionado este tipo de castigos. Ou, num exemplo mais banal, alguns pais poderão pensar que os filmes violentos podem ter um efeito catártico, ou que os filmes eróticos podem ter alguma vertente educativa. Isto não impede que a entrada a este tipo de filmes seja proibida a menores de 12, 16 ou 18 anos, quer os pais queiram quer não. Assim, obrigar a manter as crianças afastadas das touradas não constitui de forma nenhuma um atentado contra a responsabilidade educativa dos pais, mas constitui uma medida de precaução que todos devem aceitar. Isto está em concordância com a Convenção Internacional dos Direitos da Criança das Nações Unidas, em vigor na França desde o 6 de setembro de 1990 sob a competência do Defensor da Criança, que assinala na alínea n.º 1 do artigo 19.º que “Os Estados 12


Partes adoptarão todas as medidas legislativas, administrativas, sociais e educacionais apropriadas para proteger a criança contra todas as formas de violência, de dano ou de brutalidade física ou mental”. E deve lembrar-se também a seguinte formulação do relatório Kriegel (2002): “em caso de conflito perpendicular entre a liberdade dum adulto e a protecção duma criança menor de idade, é a protecção da criança que deve prevalecer.”

As escolas tauromáquicas. Certas reflexões desenvolvidas até aqui fazem referência especificamente ao carácter traumatizante dum espectáculo e não se aplicam à iniciação na prática das touradas nas “escolas taurinas”. Pelo contrário, outras reflexões sobre a incitação e/ou a habituação à violência, a fragilização do sentido moral e a perturbação da escala de valores aplicam-se com muito maior razão à iniciação na prática das touradas. Pois aqui não se trata só de violências observadas, mas de violências exercidas. Ensina-se às crianças e aos adolescentes a infligir eles próprios sofrimento gratuito. Que tipo de influência exercem assim os adultos sobre a construção psíquica das crianças incitando-as a desenvolver os seus impulsos sádicos, no lugar de as ajudar a sublimá-los? Desta forma, “as escolas taurinas” acolhem as crianças a partir dos 10 anos ou menos nas quartas-feiras e/ou nos sábados à tarde. Existem actualmente em França quatro escolas taurinas onde se ensina a tourada espanhola, isto é, se ensina às crianças a ferir e a matar bezerros e novilhos com a ajuda de instrumentos de metal. São, por ordem de antiguidade: Nîmes (Gard) desde 1984, Arles (Bouches-du-Rhône) desde 1988, Hagetmau (Landes) desde 2003, e Béziers (Hérault) desde 2003. Estas escolas deveriam estar proibidas aos menores de 16 anos. Da mesma forma que deveria estar também proibido todo tipo de iniciação na prática da tourada, num contexto menos formal, desde que implique actos violentos sobre o animal por parte de menores de 16 anos.

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A questão das provas estatísticas do impacto das touradas nos jovens Esta é uma questão legítima no enquadramento dum estudo científico. Para a abordar de forma coerente, é preciso termos bem presente o enquadramento do problema analisado, isto é: o espectáculo das touradas pode causar efeitos traumáticos nas crianças, tal como pode ser também um factor de violência?

A – A noção de efeitos traumáticos. 1. No menor de idade, só as desordens suficientemente graves levam a um atendimento “especializado”. Os sintomas habituais pelos quais se exprime uma doença na criança ou no adolescente consistem em ansiedade, crises de angústia, uma atitude de retracção, distúrbios do carácter, distúrbios do comportamento, distúrbios do sono ou ainda distúrbios somáticos. Estes tanto podem ser considerados pelos pais como problemas típicos do crescimento, como podem ser também um sinal de alarme para um médico generalista ou um pediatra. 2. Os pedopsiquiatras quase nunca tratam menores por um trauma identificável excepto nos casos mais graves e muito particulares de abuso, negligências ou acontecimentos dramáticos afectando directamente a criança ou os seus familiares. Os outros traumas, caso sejam atendidos, vão inscrever-se tanto nas patologias psiquiátricas comprovadas, como também nas problemáticas complexas. 3. Para que um menor de idade seja levado à consulta dum profissional, uma condição necessária é que o entorno familiar reconheça a aparição de transtornos que precisem de atendimento. Ora, considerando que o menor terá sido levado a uma tourada pelos seus familiares, ou em todo caso por adultos, estes estarão em negação, enquanto aficionados às touradas, sobre o efeito traumatizante deste espectáculo. É fácil imaginar que uma família de aficionados não vai levar a sua criança ao médico e dizer “nós temo-lo 14


traumatizado levando-o a uma tourada”. O poder da negação é de tal ordem que mesmo psiquiatras e psicólogos aficionados proclamam que o espectáculo das touradas não pode ser senão benéfico para a criança, ainda que os testemunhos mostrem o contrário. Esta terceira observação leva-nos à seguinte reflexão: para que os efeitos traumáticos sejam identificados à escala individual, é preciso primeiro que a sua existência seja reconhecida pelo corpo social. Há cinquenta ou mesmo trinta anos, ninguém tinha sido aparentemente traumatizado na sua infância por abusos sexuais ou simplesmente por maus tratos psíquicos, devido simplesmente a que na realidade não se falava nunca deste assunto. B – A noção de violência. A violência não se manifesta necessariamente dum modo socialmente visível e penalmente punível, como acontece por exemplo quando se exerce sobre animais. Por outro lado, sabe-se que o espectáculo das touradas pode originar sem dúvida, mais do que uma tendência à violência activa, uma habituação à violência. Por outras palavras, o sujeito reagirá menos negativamente à violência de que venha a ser espectador, ou obterá mesmo um certo prazer. É portanto evidente que a recolha de dados precisa assim dum protocolo muito particular. C – A metodologia estatística Na medida em que a questão do impacto do espectáculo tauromáquico não tem sido considerado até ao presente, também não tem sido objecto de recolha de dados. No caso de se querer obter uma resposta estatística a esta questão, é preciso realizar inquéritos específicos dos quais não se pode negar a complexidade, isto pelo menos por três razões: 1. Para realizar estudos estatísticos sobre os efeitos psíquicos ou sociais das touradas, não bastaria comparar as zonas geográficas “taurinas” e as zonas “não taurinas”. Por um lado, não se sabe, para uma determinada região ou departamento, que percentagem da população tem assistido a touradas. Por outro lado, os inquéritos de opinião mostram que, nos departamentos taurinos e nos departamentos não taurinos, há proporções comparáveis de aficionados e de não aficionados às touradas, ou de partidários e de opositores às touradas. É portanto a experiência particular de cada pessoa com as touradas (antecedentes, tipo de frequência, contexto familiar…) que será preciso ter em conta, e não uma distribuição geográfica que não aportaria grande coisa. 2. Fenómenos tão complexos como os distúrbios psíquicos ou os desvios são multifactoriais. Intervêm neles numerosos parâmetros sociológicos, económicos, culturais, familiares, etc. Estes fenómenos só podem portanto ser estudados por métodos de análise multivariada, como a análise de correlações parciais ou a análise em regressão múltipla, tomando em conta o total destes parâmetros. 3. Dado que o parâmetro estudado (a frequência a touradas) é fraco na população geral (devido aos factores habitualmente estudados, de ordem familiar, socio-económico, 15


ambiental…), será preciso, para obter uma correlação, que o inquérito abarque um número considerável de sujeitos. É evidente que a concepção e a realização de estudos tão complexos, por mais desejáveis que sejam, precisarão dum investimento de fundos e de meios muito importante. Não é fácil que os poderes públicos cheguem a implicar-se. Na sua ausência, é totalmente obrigatório limitar-se a reflexões de bom senso, corroborados por um bom número de argumentos teóricos, por testemunhos, e pelo parecer de profissionais da saúde mental. E é preciso aplicar o princípio da precaução exigido pela maior parte dos cidadãos franceses.

Texto original disponível na página: NON À L'ACCÈS DES MOINS DE 16 ANS AUX CORRIDAS

Argumentaire présenté lors des Rencontres Animal et Société http://pas-de-corridas-pour-les-enfants.over-blog.fr/pages/Argumentaire_presente_lors_des_Rencontres_Animal_et_Societe8450248.html

Não ao acesso de menores de 16 anos às touradas. Argumentos apresentados nos Encontros “Animais e Sociedade”. Estes argumentos foram apresentados em 2008 para o atelier “Touradas e jogos taurinos” dos “Encontros Animal e Sociedade”. Estes Encontros foram organizados na altura pelo governo, com o objectivo de reflectir sobre o lugar dos animais na nossa sociedade. Nota: a única correcção a fazer diz respeito às "escolas taurinas" que formam para a tourada à espanhola: a de Hagetmau desapareceu em 2009, no entanto, outra surgiu em Cauna, nas Landes.

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Richier a tourada e um espectaculo perigoso para os jovens