Jun2017 "Limonov"

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JUNHO DE 2017 Limonov


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Ao Leitor No mês de dezembro de 2016, enviamos o livro Ainda estou aqui, de Marcelo Rubens Paiva, com dedicatória especial do autor para todos os associados. Na época, a relação com o Marcelo foi tão boa que o convidamos a participar novamente do clube, mas desta vez como curador. O escritor paulista aproveitou o centenário da Revolução Russa para recomendar uma obra que estabelece um panorama da antiga União Soviética e as consequências de seu fim. Nela, o autor francês Emmanuel Carrère narra a vida

controversa de Eduard Savenko, conhecido como Limonov, e sua inacreditável trajetória. Em função das diversas referências a personagens históricos durante a narrativa, optamos por adicionar um glossário na edição exclusiva deste mês, tornando a leitura uma experiência mais completa. Seguindo a mesma lógica, o mimo enviado reúne fotografias dos momentos mais importantes de Limonov: não gostaríamos de chamá-lo de álbum fotográfico, pois não combinaria com o personagem. Está mais para um dossiê.



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O curador: Marcelo Rubens Paiva O livro indicado: Limonov

Limonov e a conturbada Rússia Pós-Guerra

O percurso de Limonov

Romances de não ficção

Dentro e fora da História

A próxima indicação



O curador: Marcelo Rubens Paiva

mento, passar argamassa nas paredes, almoçar na marmita e carregar o martelo na cintura. Nos finais de semana, ia à praia com a família, onde passava horas no mar com o pai, pegando jacaré em suas costas. Até que, de repente, não havia mais Rubens Paiva.

Nascido em 1959, na cidade de São Paulo, Marcelo Rubens Paiva mudou-se para o Rio de Janeiro aos sete anos com seu pai, o deputado federal Rubens Paiva, sua mãe, Eunice, e suas quatro irmãs. Eunice representava a figura disciplinadora, com quem Marcelo discutia por suas notas baixas e que o obrigava a estudar. Rubens era a válvula de escape para suas travessuras.

“Nas salas das casas em que morei, não tinha tv, mas livros, do chão ao teto. Nas paredes, as estantes eram recheadas de livros. Lembro de passar tardes brincando com livros abertos.”

Enquanto os pais dos amigos convidavam seus filhos para jogar futebol ou tênis, Rubens Paiva levava Marcelo para um bairro operário da Zona Norte do Rio, onde estavam sendo construídas casas populares. Lá, Marcelo aprendeu, com o maior orgulho, a fazer ci-

– Marcelo Rubens Paiva

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Em 1971, seis militares armados com metralhadoras invadiram sua casa e deram ordem de prisão a seu pai, que nunca mais foi visto. A partir desse momento, Eunice teve de assumir também o papel de pai e cuidou sozinha dos cinco filhos. Devido às origens paulistanas, em 1974, a família decidiu retornar e se estabelecer na capital. No final da década de 70, Marcelo Paiva ingressou na Universidade Estadual de Campinas para estudar engenharia. Aos vinte anos, no dia 14 de dezembro de 1979, sofreu um acidente que o deixou tetraplégico, ao saltar em um lago em Campinas e fraturar uma vértebra.

“Feliz ano velho foi a forma que encontrei para me reapresentar à sociedade, falar: sou deficiente, mas sou um cara legal, gosto de rock’n’roll, vou às baladas, quero namorar, quero trabalhar, quero ser feliz.” – Marcelo Rubens Paiva

Na obra, Paiva relata a mudança radical pela qual passou. Seus dias no hospital, as visitas que recebeu e as histórias que viveu são analisados sob uma nova perspectiva: a de um jovem que sempre fez tudo o que podia e queria, mas que, confinado a uma cadeira de rodas, vê-se impotente diante dos acontecimentos, dependendo da ajuda de amigos e familiares para reaprender a viver. “É um livro sobre construção de identidade, de fé, não é só um livro sobre o acidente”, afirma. Foram doze meses de uma recuperação lenta e dolorosa: dias e noites intermináveis na UTI, o colete de ferro, a descoberta de que teria como extensão do seu corpo uma cadeira de rodas, os momentos em que chegou a contemplar o suicídio.

Após muito tratamento e fisioterapia, o autor conseguiu recuperar os movimentos dos braços e das mãos, necessitando de menos auxílio externo e obtendo autonomia. O trauma é retratado com detalhes em Feliz ano velho, publicado apenas três anos após o acidente – em uma retomada de Paiva à paixão pela escrita, que havia sido despertada, quando pequeno, ao escrever artigos para o jornal do colégio.

Apesar do tema trágico, Feliz ano velho tem momentos de humor, ternura e erotismo. O autor confere à narrativa a mesma energia e o mesmo fôlego com que superou o Foto: Felipe Hellmeister

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acidente. Sincero em suas descrições, Paiva utiliza o que considera a linguagem das ruas, e não poupa palavrões ao contar sobre seu envolvimento com bebidas, drogas e amores. “Eu falei de coisas em Feliz ano velho de que hoje eu não falaria. Eu abri o peito, esse foi o segredo do livro. Foi uma dissecação de alma, que dificilmente eu teria coragem hoje de refazer. Foi um livro importante para mim, para os deficientes e para a literatura brasileira naquele momento, já que ele foi escrito em uma linguagem totalmente coloquial, que rompia com a norma culta e que mostrava que estava para nascer uma nova literatura urbana.”

da estou aqui (2015), esta indicada pelo humorista Helio de la Peña à TAG em dezembro do ano passado. No livro, Marcelo parte do desaparecimento do seu pai para expor outras atrocidades perpetradas durante a ditadura, não reprimindo uma forte crítica a esse período do país. Com relatos chocantes, o livro é, por vezes, incômodo. Para o autor, a narradora do livro deveria ser Eunice Paiva. Quando a mãe foi diagnosticada com Alzheimer, Marcelo decidiu fazer, então, aquilo que sempre havia evitado: reviver o passado, sentir novamente a dor pelo desaparecimento do seu pai e narrar como sua mãe conseguiu lutar pela verdade enquanto cuidava da família.

A obra atingiu estrondoso sucesso. Vendeu milhares de cópias, venceu o Prêmio Jabuti em 1983, foi adaptada para o teatro e o cinema e, muitas vezes, foi considerada símbolo de uma geração. Desde então, Paiva publicou mais de dez livros, com destaque para Blecaute (1986), Bala na agulha (1994), Malu de bicicleta (2004) e A segunda vez que te conheci (2008). Hoje, atua como colunista semanal do jornal O Estado de São Paulo. Entre suas obras, um assunto constante: o relacionamento, que normalmente envolve traições, sexo e divórcios.

Em termos estéticos, Meninos em fúria e Ainda estou aqui – um dos livros mais bem recebidos pelos associados da TAG no último ano – também dialogam com o livro deste mês: somos apresentados a acontecimentos verídicos envolvendo cultura e política por meio de uma estrutura narrativa envolvente, composta por técnicas que se aproximam das utilizadas em romances. O resultado é fascinante, porque as histórias também o são; Limonov, o livro indicado por Marcelo, no entanto, narra uma vida tão fora do comum que o questionamento durante a leitura é constante: será mesmo uma história real?

As obras mais recentes de Marcelo são Meninos em fúria (2016), que registra o surgimento do movimento punk em São Paulo, e Ain-

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conheço. Ele foi delinquente na Ucrânia, ídolo do

pós-comunismo na Rússia, velho chefe carismático de um partido de jovens desesperados. Ele mesmo se vê como herói, podemos considerá-lo um tratante: suspendo neste ponto meu julgamento. É uma vida perigosa, ambígua: um verdadeiro romance de aventuras. É também, creio eu, uma vida que conta alguma coisa. Não apenas sobre ele, Limonov, não apenas sobre a Rússia, mas sobre a história de nós todos desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Alguma coisa, sim, mas o quê? Começo este livro para saber.

ISBN 978-85-5652-040-1

Limonov_TAG.indd All Pages

9 788556 520401

Emmanuel Carrère

LIMONOV

perdido nas guerras dos Bálcãs; e agora, no imenso caos do

Emmanuel Carrère

Limonov não é um personagem de ficção. Ele existe. Eu o underground soviético; mendigo, depois mordomo de um bilionário em Manhattan; escritor da moda em Paris; soldado

Emmanuel Carrère

4/5/17 17:21

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O livro indicado: Limonov

fortável, crescendo em uma família burguesa e se tornando um jovem bobo, acrônimo francês que significa burguês boêmio (bourgeois bohème). Sua mãe, uma prestigiada historiadora, e seu pai, um alto funcionário do Ministério, deram-lhe condições para desenvolver sua trajetória como escritor, roteirista, diretor e jornalista, formado no Institut d’Études Politiques de Paris, a faculdade mais prestigiada de ensino superior francesa.

Emmanuel Carrère é um escritor com apreço por polêmicas. Em mais de três décadas de carreira, entre romances, obras de não ficção e um improvável encontro dos dois gêneros, o francês de cinquenta e nove anos demonstra o hábito de abordar temas e personagens que causam desconforto. O fascínio pelo que choca, entretanto, diz muito mais sobre sua personalidade do que apenas uma vontade de estar em evidência. Carrère diz-se confrontar a si mesmo toda vez que toca em temas obscuros e distantes e é franco ao elucidar o próprio lado sombrio ao longo das suas narrativas.

Ainda jovem, depois da graduação e de uma temporada de serviços militares na Indonésia, Emmanuel voltou a Paris e tornou-se crítico de cinema, trabalhando para os periódicos Télérama e Positif. Mais tarde, deu início à carreira literária escrevendo ensaios e romances; a

Filho de Louis Édouard Carrère e Hélène Carrère d’Encausse, Emmanuel teve uma infância con-

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partir da história fantástica sobre um homem que raspa seu bigode e descobre que ninguém percebera a mudança, Carrère publicou O bigode (1986), consolidando seu nome entre os principais escritores franceses contemporâneos. Uma adaptação do livro para o cinema foi lançada em 2005, sob a direção do próprio Carrère, e o Rio de Janeiro conheceu uma adaptação teatral em 2016. Outros dois romances ainda seriam publicados: A colônia de férias (1988), história de um homem compulsivo por jogos, e Class trip (1995), sobre um pedófilo assassino. No âmbito da não ficção, um dos livros de destaque é Eu estou vivo e vocês estão mortos (1993), biografia do escritor de ficção científica Philip K. Dick, cuja obra é conhecida por inspirar os filmes Blade runner (1982) e O vingador do futuro (1990).

de quase vinte anos vivendo uma mentira – ele fingia ser médico. O autor esteve em seu julgamento como jornalista, teve breves encontros com ele na prisão e passou seis anos elaborando a melhor maneira de conceber o livro. Quando estava desistindo de escrevê-lo, percebeu que, ao contar a história de Romand sob um ponto de vista mais parcial, transferindo a narrativa em terceira para a primeira pessoa, eliminaria a sensação de verdade absoluta que o narrador onisciente sugeriria ao leitor e poderia conferir mais relevância às suas impressões. O que ele planejava era abrir uma brecha nas sisudas concepções literárias e remodelar o pacto de veracidade estabelecido entre obra e leitor: ele esteve lá e nos conta essa história, mesmo que já tenhamos acesso a ela de outra forma. Considerado o “A sangue frio francês”, em referência ao livro de Truman Capote, tornou-se best-seller e foi traduzido para vinte e três idiomas.

Depois de anos dedicando-se à ficção e à não ficção separadamente, o autor passou a publicar obras que incorporam uma espécie de simbiose entre os dois gêneros: podemos chamá-las de “romances de não ficção” – é assim que Carrère as identifica. A primeira experiência utilizando-se desse recurso foi publicada a partir de um relato chocante. Para escrever O adversário (2000), Carrère trocou correspondências com Jean-Claude Romand, homem que matou sua família depois

A partir de então, Emmanuel trocou a ficção clássica pelo singular estilo de contar histórias reais em

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primeira pessoa. Depois de sentir-se “fisicamente vazio” devido ao esgotamento causado pela última obra, viveu uma série de experiências traumáticas que posteriormente tornaram-se tema de dois livros. Um romance russo, de 2007, aborda a busca por informações sobre seu avô – um russo que colaborou com os nazistas e desapareceu durante a Segunda Guerra; já em Outras vidas que não a minha (2009), Carrère relembra o tsunami e as muitas tragédias familiares que testemunhou em 2004, no Sri Lanka, além de uma pessoal: o falecimento da irmã de sua esposa, vítima de câncer.

na Ucrânia, filho de um militar soviético e uma dona de casa. Ao longo de sua infância em Kharkov, presenciou a placidez da monotonia diária soviética; jovem, interessou-se pelo mundo da literatura e, principalmente, pela fama que esta poderia lhe proporcionar. Decidido a se tornar uma personalidade tanto reconhecida quanto controversa, Limonov vivenciou, a partir de então, situações que denotam um percurso irregular e surpreendente: de operário russo a mendigo em Nova York; de mordomo de bilionário a escritor de sucesso; de vendedor de calças boca-de-sino a líder político de um partido de tendências fascistas. Ainda mais impressionante que a trajetória é sua personalidade e como ele busca transparecê-la: segura, convicta, porém ao mesmo tempo inconstante – e frequentemente violenta.

Lendo Carrère, é possível perceber uma incessante busca por compreender melhor seus personagens e a si mesmo através da escrita. Seus primeiros romances de não ficção, que funcionam nessa dialética entre eu-outro, deram-lhe margem para a criação de uma sensibilidade específica, a ponto de não ser surpreendente o interesse por um personagem tão incongruente quanto o russo Eduard Limonov.

“A única vida digna dele é uma vida de herói, quer que o mundo inteiro o admire e pensa que qualquer outro critério, a vida de família sossegada e harmoniosa, as alegrias simples, o jardim cultivado ao abrigo dos olhares, não passa da autojustificação de perdedores [...].”

O jornal francês Le Monde Internacional sintetizou de forma precisa quem é Limonov: um filho do século XX, um russo que nasce no caos e que, depois, irá procurá-lo ao longo de toda sua vida. Em 1943, em meio à Segunda Guerra, nasceu Eduard Savenko,

– Emannuel Carrère

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Foto: coleção pessoal Emmanuel Carrère

Eduard Limonov e Emmanuel Carrère em Moscou, outubro de 2007

“Eu o conheci nos anos 80, em Paris. A maioria dos escritores da Era Soviética formava-se por dissidentes com barbas enormes. Limonov estava mais para um punk”, afirmou Carrère, em 2013. Alguns anos antes, o escritor encontrara Eduard em Moscou e, intrigado com suas contradições, decidira entrevistá-lo. As duas semanas de conversa necessitaram de mais quatro anos de pesquisa para, finalmente, em 2011, ele publicar Limonov, livro vencedor dos prêmios Prix de la langue française e Prix Renaudot. O autor parte da interrogação Quem é Limonov? e conduz as páginas temporalmente, narrando os caminhos de Eduard desde o underground russo até os momentos em que esteve preso.

importantes acontecimentos da história da Rússia, como o fim da União Soviética, as transições de poder no Kremlin e a implementação da Glasnost e da Perestroika nos campos político e econômico. As descrições históricas e sociais de Carrère são interessantes do ponto de vista informativo, ao mesmo tempo em que demonstram um desconforto do escritor por, concomitantemente, elucidar as opiniões do polêmico Limonov frente aos mesmos acontecimentos e personagens. Nesse sentido, o livro é uma incrível aula de história às avessas, onde aprendemos a respeito de personagens sobre os quais geralmente pouco se fala, como o líder político Brejnev e o escritor Brodsky – este odiado por Limonov –, a partir da opinião de um homem tão controverso.

Acompanham-se, na trama, os diversos e frequentemente inóspitos cenários pelos quais o protagonista transita, a contextualização de seu ambiente e os hábitos do povo russo, tão contrastantes com os do mundo ocidental. Sua trajetória é ainda permeada pelos mais

O próprio autor afirma: ele não é um personagem de ficção. No livro, porém, não deixa de sê-lo, pois a não ficção clássica seria definitivamente mais crua – e cruel. Essa diferença é evidente na me-

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dida em que o autor, utilizando-se de um espaço indefinido, no limiar entre os dois gêneros, potencializa as combinações possíveis desse encontro, lapidando sensivelmente uma forma de narrar acontecimentos reais, ainda que tudo o que aconteça nesta obra seja naturalmente absurdo. Como disse o crítico literário Sergio Rodrigues em um artigo para a revista Veja, se o livro fosse mais uma história inventada por um escritor, as ações do personagem seriam completamente inverossímeis, beirando o surreal; o fato delas terem realmente acontecido é o que instiga e convida o leitor a conhecê-las.

é quem estabelece esse vai e vem entre observações e pontos de vista, dos quais ora nos aproximamos, ora saímos correndo o mais depressa possível.

“Limonov é um tremendo escritor, personagem incrível, contraditório. Era um inquieto que não se enquadrava no perfil de operário padrão do partido. Gostava de roupas coloridas, era poeta marginal, bissexual.” – Marcelo Rubens Paiva

Apresentado como rock star, mendigo, exilado, proletário, escritor, mordomo, guerrilheiro, político, entre tantos adjetivos, também é difícil escolher sobre qual Limonov opinar. Uma análise, seja literária, seja amadora, é unânime: Limonov é polêmico.

O QUE DIZ A CRÍTICA Seguindo a sugestão do associado Umbertonio Lima, postada no aplicativo da TAG, incluiremos na revista links para textos de apoio e críticas literárias, visando a aprofundar e enriquecer as experiências de leitura.

Não há escapatória. Isentar-se de opiniões sobre o anti-herói descrito por Carrère não deixa de ser um posicionamento e, por isso, ao ler a última página, o leitor sente um desejo estranho, latente. O que ele quer é virar para o lado, encontrar o outro, discutir, rejeitar ou aprovar. De certo modo, continuar o processo de leitura, de alteridade que se intensifica no contato com o texto, pois o diálogo já está dado e é feito com Carrère. O escritor

http://bit.ly/2oXl0fj Crítica de Limonov por Sergio Rodrigues http://bit.ly/2oieAq2 Matéria do jornal The Guardian sobre Carrère e Limonov (em inglês)

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ECOS da leitura



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O IM

v O N

E A CONTURBADA RÚSSIA PÓS-GUERRA

Com a contribuição do Professor Dionathas Moreno Boenavides, mestrando e graduado em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e professor de História

“Quem pretende restaurar o comunismo não tem cabeça. Quem não sente saudades dele não tem coração.”

pleta agora seu primeiro centenário. Mas, principalmente, no quesito divisor de opiniões, Limonov pode ser considerado um ícone. Eduard Limonov nasceu em 1943, dois anos antes da Segunda Guerra Mundial chegar ao fim. Tinha três anos de idade quando Churchill estava nos EUA, ao lado do presidente Truman, proferindo o discurso que inaugurou a Guerra Fria, opondo formalmente os dois principais blocos econômicos existentes: o capitalista, liderado pelos EUA, e o socialista, dirigido pela URSS. Cresceu assistindo à ascensão de grandes lideranças na União Soviética. Até seu décimo aniversário, é Stálin quem está no poder.

É com essa emblemática frase, proferida por Vladimir Putin, que Emmanuel Carrère abre seu livro sobre Limonov. O comunismo dividiu e divide opiniões como poucas outras ideologias ao longo da história. O mesmo pode ser dito da União Soviética, berço do personagem principal, e da Revolução Russa que a originou – e que com-

O século XX é certamente um dos mais conturbados da história, com

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idas e vindas intermináveis e fascinantes. Limonov vê a escalada ao poder, por exemplo, de Nikita Krushev (1953-1964) e o seu projeto de “desestalinização”. Por outro lado, também pôde acompanhar o líder Leonid Brejnev (1964-1982), responsável por “reestalinizar” o país. Sofreu ao ver sua terra vivendo profundas crises econômicas que prenunciavam a desintegração da URSS. Como se não bastasse, temos Mikhail Gorbachev, a quem Limonov gostaria de ver fuzilado, no poder soviético a partir de 1985. Uma série de reformas começam a ser implementadas a partir de então.

Com uma vida tão atenta a todos esses acontecimentos, Limonov representa curiosamente bem o que foi esse conturbado século XX. Ele, um ícone da contracultura, também dirigente de um partido com uma ideologia extremamente dúbia que chega a dialogar com o fascismo. Tantas idas e vindas quanto o próprio século que o viu se formar. A Guerra dos Balcãs foi um dos mais importantes conflitos armados ocorridos no final do século XX. Entre 1992 e 1995, a região da Bósnia e Herzegovina foi tomada por uma guerra de grandes proporções que gerou mais de um milhão de refugiados. Os principais

A Glasnost foi uma reforma de cunho político que incentivava a transparência das ações do governo soviético e a liberdade de expressão. A Perestroika, mais econômica, promovia a abertura dessa economia tradicionalmente fechada e pretendia uma reestruturação do sistema produtivo. As consequências foram profundas: reformas neoliberais começaram a ser implementadas nos países do Bloco Socialista, o Partido Comunista ficou cada vez mais enfraquecido, o mundo assistiu à queda do muro de Berlim em 1989 e, por fim, a URSS se desintegrou em 1991.

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M I L

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Quando do seu retorno à Rússia, Limonov fundou o Partido Nacional-Bolchevique, em 1993. Tendo crescido em uma União Soviética em que o nacionalismo vencera o internacionalismo, Limonov lidera um movimento que aproxima ideologias opostas, como o comunismo e o fascismo. Normalmente defensores de um estilo específico de comunismo, seus membros se consideram adeptos do stalinismo e projetam a criação de um império russo. Economicamente, visam a uma aliança entre a economia proposta por Lênin e a concepção corporativista de Mussolini. Como conceituar Limonov a partir disso?

envolvidos foram a Bósnia, a Croácia e a Sérvia e Montenegro, nações que formavam a antiga Iugoslávia. O povo sérvio atuou com grande força no conflito, sintoma de um contexto em que muitas reestruturações políticas e geográficas aconteciam concomitantemente, tornando alguns embates praticamente inevitáveis. Como conta Carrère no prólogo de Limonov, o personagem detinha certo gosto por acontecimentos desse porte. Em um livro de sua própria autoria, afirmou sonhar com uma insurreição violenta. Então, encontrou nos Balcãs a sua oportunidade, combatendo ao lado dos sérvios antes de voltar à sua terra natal.

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Boa parte dos comunistas russos o rejeita e essa é só uma parte de sua atuação política. Em Limonov, é necessário reconhecer o trabalho árduo de Carrère ao se propor a narrar a vida de alguém como Éduard Savenko. Ficção sobre um personagem real? Biografia de um personagem quase fictício? Talvez seja, na verdade, como todas as histórias: uma mescla de ficção e realidade que, por possuir tão belos entrecruzamentos, dá origem a algo realmente fascinante.

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O PERCURSO Tão impressionante quanto a história de Limonov é a quantidade de espaços e contextos diferentes que ele percorreu. Elaboramos, como um recurso visual interativo para facilitar a leitura, um mapa traçando as andanças do russo ao longo da narrativa.

3 Nova York 1975-1980

4 Paris 1980-1989

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DE LIMONOV 2

Moscou 1967-1974

1

República Sérvia de Krajina 1990-1993

7 Saratov

Ucrânia

6

1943-1967

5

Saravejo 1991-1992

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Romances de não ficção

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ração massacre (1957) o primeiro romance de não ficção publicado. A obra narra os bastidores de uma ação policial que resultou no fuzilamento clandestino de doze civis acusados de conspirar contra o governo ditatorial que depusera Juan Domingo Perón no ano anterior. A sinopse do livro sintetiza: “Para reconstituir o percurso dos prisioneiros na noite do fuzilamento, o autor valeu-se de diálogos, contraposição de pontos de vista e outros recursos emprestados da ficção, conferindo à narrativa um ritmo ágil e tenso, próprio do romance policial – gênero com o qual Walsh tinha familiaridade, sendo primeiramente conhecido do público argentino como autor de contos e novelas de suspense”.

ontando histórias reais através de técnicas narrativas geralmente utilizadas em ficções, Carrère opta por não se posicionar como um observador; pelo contrário, dá passos em direção a um ponto de vista mais presente e subjetivo – envolvido e conscientemente parcial em suas posições sobre o que presencia. É o caso de Limonov e de outras publicações do francês. Outros autores já se utilizaram da mesma simbiose de gêneros – que também já foi chamada de jornalismo literário. Embora o maior sucesso do escritor americano Truman Capote, A sangue frio (1966), seja creditado como o responsável pelo estabelecimento formal do gênero no universo da literatura, especialistas afirmam que foi o argentino Rodolfo Walsh e seu Ope-

Quase dez anos depois, o americano Capote publicou, dividida em

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Depois de publicada, a obra influenciou diversos autores e estabeleceu o recurso narrativo como uma nova tendência. Em 1973, Tom Wolfe lançou a coleção de artigos jornalísticos The new jornalism, com textos de Gay Talese, Capote, Joan Didion, Hunter Thompson e outros, além do próprio Wolfe. A publicação acabou por popularizar o termo e indicar inéditas possibilidades literárias.

quatro partes na revista The New Yorker, a história do assassinato da família Clutter, em Holcomb, Kansas, e dos autores da chacina. Na sinopse do site da Companhia das Letras, lemos: “A intensa relação que Capote estabeleceu com suas fontes foi determinante para o êxito da obra. Além de passar mais de um ano na região de Holcomb, investigando e conversando com moradores, ele se aproximou dos criminosos e conquistou sua confiança. Traçou um perfil humano e eloquente dos dois ‘meninos’, como costumava chamá-los. Por seu estilo que combina a precisão factual com a força emotiva da criação artística – um romance de não ficção, nas palavras do próprio autor –, A sangue frio é um marco na história do jornalismo e da literatura dos Estados Unidos”.

O final dos anos setenta representou uma escassez do gênero, apesar de ser possível encontrar resquícios de suas técnicas em ensaios, memoirs e biografias posteriores. Carrère, jornalista de formação, vem desde o início dos anos 2000 dando fôlego e novas perspectivas ao que ele chama de romances de não ficção.

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Dentro e fora daia Histór

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urante a leitura de Limonov, somos apresentados a um grande número de personalidades históricas. Pensando nisso, resolvemos facilitar a fluência da leitura incluin-

do um glossário exclusivo na edição da TAG. Neste Eco, aprofundamos um pouco mais a história de quatro desses personagens para melhor situar o leitor no contexto da obra.

Leonid Brejnev

Anna Politkovskaia

Leonid Brejnev foi secretário-geral do Partido Comunista da União Soviética, o principal dirigente da URSS, de 1964 a 1982. Durante os anos setenta, quando exerceu sua maior influência, Brejnev conduziu a Doutrina da Soberania Limitada, cujo preceito era o de controlar o avanço do liberalismo. Devido ao seu caráter expansionista, agressivo e revolucionário, é considerado neostalinista.

Anna Politkovskaia foi uma jornalista russa amplamente conhecida pelo seu envolvimento de oposição às decisões do presidente Vladimir Putin quanto à Guerra da Tchetchênia. Em 2006, foi assassinada com cinco tiros de pistola. Até o momento, apesar de dois homens terem sido condenados à pena de morte pelo crime, ainda não foi descoberto quem ordenou sua morte nem por quê.

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Joseph Brodsky Odiado por Limonov, Joseph Brodsky foi um poeta russo, nascido em Leningrado, no ano de 1940. Em 1987, sagrou-se vencedor do Prêmio Nobel de Literatura, cujo discurso de recebimento foi marcado pela referência aos artistas que o influenciaram, entre eles, Robert Frost. Sua obra revela influências da poesia anglófona, de quem busca inspiração para sua inquietude metafísica, propondo uma reflexão intensa sobre a existência humana, a língua e as matérias de escrita.

Alexandre Soljenitsyn Nascido em 1918 e morto aos oitenta e nove anos, Alexandre Soljenitsyn foi um escritor russo e dissidente soviético, conhecido principalmente pelo seu livro O arquipélago Gulag, em que descreve o funcionamento dos gulags, campos de concentração e trabalho forçado que eram comuns na época de Josef Stálin no poder. Em 1970, Soljenitsyn recebeu o Prêmio Nobel de Literatura. Em função de suas posições contrárias ao totalitarismo, foi exilado em 1974..

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Espaço do Leitor da córnea, podendo levar, inclusive, à perda total da visão. Quando percebeu que poderia ficar cego, Quenani tentou recuperar o tempo perdido: “A partir dali, tentei manter uma média regular de carga de leitura”.

Segundo um estudo realizado por The New School for Social Research, de Nova York, pessoas que leem ficção apresentam maior habilidade em detectar e entender emoções alheias. Tal estudo provou-se verdadeiro em um grupo de leitores da TAG: comovidos com a história de um associado, uniram-se para ajudá-lo a continuar desfrutando do amor pela literatura.

No final do ano passado, um novo diagnóstico apontou que um transplante seria necessário. Caso a cirurgia não fosse feita em um prazo máximo de seis meses, Quenani poderia perder definitivamente a visão. Nesse meio-tempo, ele conheceu a TAG e, nas suas palavras, ficou “namorando” o clube por alguns meses até que, em janeiro de 2017, efetuou sua associação. Em seguida, começou a participar de um grupo no WhatsApp que reúne associados de todo o Brasil.

O fotógrafo Quenani Leal, de trinta e quatro anos, não era apaixonado por livros durante a infância e adolescência. Sua mãe, dona de uma livraria em São Leopoldo, no Rio Grande do Sul, indicava livros de que ele não gostava, e isso o afastou do mundo da leitura. Aos dezenove anos, porém, ele descobriu que tinha ceratocone, uma doença que afeta o formato e a espessura

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Foto: Rúbia Leal

que a internet ou que as conexões digitais não têm muita relevância na nossa vida. Mas os avatares são pessoas! Por mais que a gente pense que um post só deu tantos views, ou que um grupo só tem tantas pessoas, realmente algumas conexões são especiais. As pessoas às vezes acham que isso é bobagem, porque só conseguiram doar dez ou vinte reais. Eu fico pensando que talvez 99% delas eu não conheço. Entrei na TAG agora! Como pode alguém ter tanta empatia? Isso não está resumido à vaquinha. É muito mais profundo. Isso está nas pessoas, que querem ver algo de bom acontecendo de verdade. Não é só fazer o bem. Não tenho como medir o quanto isso vai melhorar a minha vida.”

Quando contou aos outros membros a respeito de sua situação, muitas pessoas ficaram preocupadas. Quenani respirou fundo e foi sincero: contou que necessitava de um transplante de córnea para não perder a visão. Rapidamente, os membros do grupo preocuparam-se com o valor da cirurgia e questionaram como poderiam ajudar. Decidiram, então, criar uma vaquinha, que apenas em quatro dias alcançou o valor necessário. Com a quantia restante, Quenani pôde pagar, ainda, uma parte das despesas hospitalares. Quando conversamos, ele garantiu que está em um bom processo de recuperação da cirurgia. “Por muitas vezes, a gente pensa

“É impressionante ver o que uma comunidade de leitores pode fazer. É uma lição para mim, uma coisa à qual eu não consigo mais ficar indiferente.” - Quenani Leal

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O mês de

Para o aniversário de três anos da TAG, realizamos um antigo sonho: lançar uma obra original, idealizada e concebida como um presente ao associado do clube. Dez autores da língua portuguesa, Ivana Arruda Leite, Luiz Antonio de Assis Brasil, Beatriz Bracher, Milton Hatoum, Eliane Brum, Paulo Lins, Ana Maria Gonçalves, José Luis Peixoto, Maria Valéria Rezende e Cristovão Tezza, relevantes dentro do cenário atual pela densidade e singularidade de seus escritos, foram convidados a escrever uma releitura de um conto clássico compondo uma coletânea cuja organização ficou a cargo de Luiz Ruffato e Helena Terra.. Investidos de total liberdade para a escolha do conto e do escritor com quem queriam dialogar, com suas particulares vozes e visões de mundo, os dez formaram pares com autores renomados da literatura mundial. Estes ficarão em segredo até que a obra chegue às suas mãos.

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ERRATA: O kit que apareceu na revista anterior é o de novembro de 2016 e não 2017.

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A verdadeira verdade é sempre inverossímil. – Dostoiévski


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