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CENTRO UNIVERSITÁRIO SENAC

Suellen da Silva Luciano

Novos valores para o espaço público: Revisão da hierarquia e requalificação do entorno do Parque Augusta

São Paulo 2016


Suellen da Silva Luciano

Novos valores para o espaço público: Revisão da hierarquia e requalificação do entorno do Parque Augusta

Monografia apresentada ao Curso de Arquitetura e Urbanismo do Centro Universitário Senac como requisito para a obtenção do título de Bacharel em Arquitetura e Urbanismo. Orientador: Prof. Dr. Ricardo Dualde

São Paulo 2016


Suellen da Silva Luciano

Título: Novos valores para o espaço público: Revisão da Hierarquia e requalificação do entorno do Parque Augusta Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Centro Universitário Senac – Campus Santo Amaro, como exigência parcial para a obtenção do título de Bacharel em Arquitetura e Urbanismo. Orientador: Prof. Dr. Ricardo Dualde

A banca examinadora dos Trabalhos de Conclusão de Curso em sessão pública realizada em 13/12/2016 considerou o candidato:

( ) aprovado

( ) reprovado

1) Examinador (a): __________________________________________

2) Examinador (a): __________________________________________

3) Presidente: ______________________________________________


AGRADECIMENTOS

Agradeรงo ao meu pai, por todo o esforรงo e apoio aos meus estudos. Aos meus professores, por todos os ensinamentos durante a faculdade. Ao professor e meu orientador Ricardo Dualde, pelo apoio e compreensรฃo. A todos os que estiveram envolvidos durante o desenvolvimento do trabalho.


90% do sucesso se baseia simplesmente em insistir. Woody Allen


RESUMO Este trabalho tem como objetivo o estudo das transformações ocorridas nas áreas centrais da cidade de São Paulo e a análise área de intervenção do projeto: a Rua Augusta. Analisando as drásticas mudanças territoriais sofridas através da saída de importantes setores econômicos e da migração do mercado imobiliário para os “novos Centros”, iniciou-se uma fase de abandono e perda do aspecto simbólico local, resultando na ascensão de locais como a Augusta. O comércio especializado que atendia às camadas mais ricas da população foi transferido para locais próximos desses novos Centros, como a Rua Augusta, que passou a desempenhar o papel do antigo Centro e se tornou um dos novos locais de compra para os mais ricos. A Augusta passa por importantes fases, que vão de sua ascensão até o declínio completo, onde se observa o abandono desta área em decorrência da crise, fazendo com que a prostituição, o tráfico de drogas, entre outras atividades ilícitas, tomassem o lugar dos antigos estabelecimentos que fizeram da Augusta um local culturalmente rico. O início da recuperação deu-se a partir dos anos 2000, com diversas ações do poder público para se iniciar um plano de revitalização da rua. O plano de revitalização passa a gerar resultados positivos, que podem ser observados na retomada da valorização imobiliária, que antes estava em constante queda, impactando financeiramente o comércio e serviços locais. O aumento gradativo do valor do m² da região fez com que muitos desses serviços, como as casas de prostituição, fechassem e se deslocassem para outras regiões da cidade, por não terem condições de arcar com os altos valores da rua. A saída desses agentes despertou o interesse das incorporadoras em investir na Augusta, iniciando–se, assim, um boom no mercado imobiliário, que se observa até os dias atuais, atraindo novamente o público, que observa as constantes transformações da rua. A Augusta é destacada como local de estudo e implantação do projeto justamente por essas características tão ricas e por ser uma rua em plena transição, tornando-a um local propício a este tipo de intervenção, valorizando o espaço público e a escala do pedestre na cidade. Palavras-chave: 1. Revitalização. 2 Centro. 3 Espaço público. 4 Rua Augusta. 5 São Paulo. 6 Escala do pedestre.


ABSTRACT The object of this study was the changes that occured on central areas of São Paulo and the area analysis of intervention of the Project: The Augusta Street. Analyzing the drastic territorial changes suffered by the exit of importante economic sectors and the migration of the real state Market to the “new centers”, a stage of abandonment and loss of symbolic aspect of the place begun, resulting in the ascension of places like the Augusta. The specialized local Market that atended the richer layers of the population were tranfered to near locations of these new centers, like Augusta Street, wich started to play the role of the old center and became one of the new places for the richer people shopping. The Augusta went through importante stages that goes from its ascencion to the complete decay, where it is observed the abandonment of this area as a result of the crisis, making prostitution, drug dealing, amog other ilegal activities, take over the old establishments that mad Augusta such a culturally rich place. The recovery started in 2000, with a number of actions by the public Power to ignite a revitalization plan of the street. The plan starts to generate positive results, that can be observed by the resumption of the real state value the were in constant drop, financially impacting the local Market and services. The gradual increase of m² value of the region make with a lot of these services, like the prostitution houses, close down e went to other city regions due to not be able to afford the high costs of the street. The exit of these agents aroused interest of the incorporators to invest on the Augusta, starting a boom on the real state market that can be seen to this day, attracting the public again, wich can see the constant tranformations of the street. The Augusta is highlighted as the object of this study and projec implementation precisely because of those rich characteristics and for being a street still in transition, making it the perfect place for this kind of intervention, valuing the public space and the pedestrian scale in the city. Keywords: 1 Revitalization. 2 Center. 3 Public space. 4 Augusta street. 5 São Paulo. 6 Pedestrian scale.


LISTAS DE ILUSTRAÇÕES Figura 1 – Rua Doutor Miguel Couto (1957) ............................................................................ 13 Figura 2– Hotel Othon com ocupação de movimento dos sem–teto. ..................................... 15 Figura 3 – Plano de Avenidas – Prestes Maia. ........................................................................ 16 Figura 4 – Mapa do Quadrante Sudoeste................................................................................ 18 Figura 5 – Camelôs na Rua 25 de Março. ............................................................................... 19 Figura 6 – Vista aérea do Vale do Anhangabaú (Sentido Norte–Sul). ................................... 21 Figura 7 – Perspectiva geral do Vale do Anhangabaú ............................................................ 22 Figura 8 – Abril de 1988 – Obras de reurbanização do Vale do Anhangabaú. ...................... 23 Figura 9 – Logotipo da Associação Viva o Centro................................................................... 24 Figura 10 –1º Shopping Center construído em São Paulo (Shopping Iguatemi).................... 27 Figura 11 – Anúncio do lançamento do Shopping Iguatemi. ................................................... 27 Figura 12 –Centro Aberto no Largo São Francisco ................................................................. 30 Figura 13 –Antes da intervenção Figura 14 –Depois da intervenção .. 31 Figura 15 – Gráfico de registro de atividades de permanência – Centro Aberto.................... 32 Figura 16 – Gráfico de permanência – análise dos horários e dias da semana ..................... 33 Figura 17 –Rua Augusta .......................................................................................................... 35 Figura 18 – Área de atuação (Rua Augusta) ........................................................................... 36 Figura 19 – Colégio Des Oiseaux ............................................................................................ 38 Figura 20 – Rua Augusta no final dos anos 60........................................................................ 40 Figura 21 – Tradicional salão de beleza – Jacques Janine (Rua Augusta –1958)................ 40 Figura 22 – Edifício Ibaté (1953) – projetado por Franz Heep ................................................ 41 Figura 23 – Letreiro luminoso................................................................................................... 42 Figura 24 –Boate Las Vegas .................................................................................................... 43 Figura 25 – Hotel Augusta Boulevard ...................................................................................... 44 Figura 26 – Tribos na Augusta ................................................................................................. 46 Figura 27 – Boate masculina encerrando as atividades em 2010 .......................................... 47 Figura 28 – Público na Rua Augusta ....................................................................................... 48 Figura 29 – Limite geográfico do bairro da Consolação. ......................................................... 49 Figura 30 – Limite geográfico do bairro de Higienópolis ......................................................... 49 Figura 31 – Caracterização do território – Consolação. .......................................................... 50 Figura 32 – Caracterização do território – Higienópolis. ........................................................ 50 Figura 33 –IDHM da Consolação ............................................................................................. 51 Figura 34 – IDHM de Higienópolis ........................................................................................... 51 Figura 35 – Renda, Pobreza e Desigualdade – Consolação. ................................................. 52 Figura 36 – Renda, Pobreza e Desigualdade – Higienópolis.................................................. 52 Figura 37 – Valor do m² das quadras em destaque – Rua Augusta. ...................................... 53 Figura 38 – Valor do m² da quadra em destaque – Avenida Paulista..................................... 54 Figura 39 – Planta de Valores Genéricos de 1990 (Rua Augusta e Avenida Paulista) .......... 54 Figura 40 – Valor do m² de 2014 – Planta QGIS (Paulista). ................................................... 55 Figura 41 – Valor do m² de 2014 – Planta QGIS (Augusta). ................................................... 55 Figura 42 –New Road antes da revitalização .......................................................................... 57 Figura 43 – New Road depois da revitalização ....................................................................... 58 Figura 44 – Desenho em 3D da extensão da rua New Road.................................................. 59 Figura 45 – Desenho em 3D. Vista superior ............................................................................ 59 Figura 46 – Maquete eletrônica do Centro de Curitiba ............................................................ 60 Figura 47 – Imagem 3D – praça no cruzamento ..................................................................... 61


Figura 48 – Nova calçada entre a Rua 13 de Maio e a travessa Nestor de Castro ............... 62 Figura 49 – Imagem do calçadão............................................................................................. 63 Figura 50 – Imagem do calçadão da Rua Sete. ...................................................................... 64 Figura 51 – Implantação do projeto de revitalização. .............................................................. 65 Figura 52 – Área de intervenção .............................................................................................. 66 Figura 53 – Trecho de intervenção na Rua Augusta ............................................................... 67 Figura 54 – Foto do local de intervenção................................................................................. 68 Figura 55 – Foto do local de intervenção................................................................................. 68 Figura 56 – Foto do local de intervenção................................................................................. 69


SUMÁRIO

1

INTRODUÇÃO ........................................................................................................ 11

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AS CIDADES E O VALOR SIMBÓLICO DAS ÁREAS CENTRAIS ................... 13 2.1 A saída dos agentes ............................................................................................ 15 2.2 As novas centralidades........................................................................................ 17 2.3 O surgimento de novas ocupações e usos no Centro. ...................................... 18

3 POLÍTICAS PÚBLICAS NO CENTRO E O INÍCIO DA RECUPERAÇÃO NOS ANOS DE 1990 ............................................................................................................. 20 4

NOVOS REFERENCIAIS ....................................................................................... 26

5

RECUPERAÇÃO DOS ASPECTOS FÍSICOS E SIMBÓLICOS ........................ 29 5.1 Para quem faz sentido a revitalização? .............................................................. 33

6

“AUGUSTAS” ........................................................................................................ 35 6.1 Histórico da Rua Augusta .................................................................................... 36 6.2 Anos dourados – A ascensão da Rua Augusta na cidade de São Paulo. ...... 38 6.3 A queda! O declínio econômico, cultural e social da rua................................... 41 6.4 Guetos: uma visão sobre a segregação espacial e social. ............................... 45 6.5 Um novo respiro ................................................................................................... 46

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DADOS SOCIAIS DO BAIRRO DA CONSOLAÇÃO .......................................... 49 7.1 O interesse do capital privado e a ascensão do mercado imobiliário na Rua Augusta. ...................................................................................................................... 53

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ESTUDOS DE CASO ............................................................................................. 57 8.1 New Road (Londres) ............................................................................................ 57 8.2 Centro de Curitiba ................................................................................................ 60 8.3 Rua Sete ............................................................................................................... 63

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ÁREA DE INTERVENÇÃO E OBJETIVO DO PROJETO ................................... 66

CONCLUSÃO ................................................................................................................ 70 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ............................................................................ 71


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1 INTRODUÇÃO

A discussão sobre a cidade vai muito além da questão espacial, da sua expansão, atinge diversos tópicos de estudo. O entendimento da sua importância e as suas transformações deixam claro os seus percursos durante todo esse tempo e, consequentemente, os próximos rumos a serem tomados, pois a cidade vive em constante transformação. Através destes questionamentos, conseguimos perceber a amplitude e os impactos gerados pelas intervenções na cidade e, com isso, se faz necessária uma maior sensibilidade nas ações tomadas – principalmente quando as pessoas irão fazer parte disso. Este trabalho de conclusão de curso tem como principal caminho o simbolismo do lugar, simbolismo da centralidade de São Paulo e suas peculiaridades. Inicialmente, é necessário entender as transformações ocorridas no Centro, do ápice ao declínio. As mudanças de uso, de padrão e de significado para o resto da cidade e, principalmente, para as pessoas. A partir disso, analisa–se as mudanças, não somente no Centro, mas sim, em toda a cidade. Novas centralidades nascem e outras morrem. O resgate deste caráter simbólico traz ganhos imensuráveis para a vida na cidade. Entender com clareza que é preciso priorizar o ser humano (escala do pedestre), pois isso traz movimento à cidade e os espaços aos poucos vão sendo “retomados”. As mudanças na paisagem urbana, nos deslocamentos, nas atividades, refletem um novo olhar para estas localidades. Um novo movimento em prol da revitalização destas áreas, mesmo que ainda um pouco modesto, já transforma e impacta positivamente. Ações como essa são aplicadas de modo mais firme no exterior, e provam que são eficazes na reestruturação de áreas degradadas, porém com muito potencial. Consequentemente fica claro que estas áreas passam a exercer novamente seus papéis na configuração da cidade. Impactando na vida social, no deslocamento, na segurança e outros aspectos mais.


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Através de importantes autores como: Jan Gehl, Flávio Villaça e Raquel Rolnik, usados como referência para a elaboração deste trabalho, o entendimento sobre as dinâmicas sociais e territoriais descritas por eles abordam a importância de um olhar mais direcionado para as pessoas, e não somente para a cidade, no momento de se projetar espaços – principalmente os espaços públicos. A escolha da Rua Augusta para estudo foi decidida pelo fato da rua possuir fortes características e principalmente por estar em um processo de retomada e mudança das características locais. A rua, que já passou pelo ápice e pela degradação, agora passa por um processo de recuperação simbólica, tornando–a um interessante objeto de estudo.


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2 AS CIDADES E O VALOR SIMBÓLICO DAS ÁREAS CENTRAIS Figura 1 – Rua Doutor Miguel Couto (1957)

Fonte: Almanaque Photographias.

“[...]Por isso, além de continente das experiências humanas, a cidade é também um registro, uma escrita, materialização de sua própria história” (ROLNIK,1995, p.09). A cidade em sua definição mais simplória é basicamente um território ocupado densamente por pessoas e edificações. Essa definição não deixa de estar errada, porém para se entender uma cidade é necessário se ter uma visão mais ampla, refinada, sobre o que é de fato o conjunto de agentes que a compõem. As cidades possuem características singulares e são vistas de modos diferentes por seus habitantes. Essas singularidades trazem riqueza de informações para quem as tem como objeto de estudo e, consequentemente, bons e maus exemplos de urbanização. As ruas, as praças, as calçadas e todos os outros elementos que as formam são frutos de uma intervenção coletiva e gradual. As relações sociais e, principalmente, políticas são necessárias para a manutenção organizacional das cidades. A participação do indivíduo na vida pública, agrega ao processo de urbanização e a uma forma mais humana de se conviver nestes territórios.


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Os deslocamentos rápidos, os encontros, o convívio, a interação, são ações resultantes de uma cidade onde estes princípios são levados a sério, preservados e principalmente ampliados. As políticas públicas exercem um papel importantíssimo na preservação da vida urbana de qualidade e na recuperação de áreas degradadas, observa–se o grande descaso sobre essas áreas e os prejuízos tanto financeiros quanto sociais, pois geralmente são regiões centrais providas de infraestrutura e de fácil acesso, que não cumprem com o papel social e de desenvolvimento das cidades. “A vida na cidade é um conceito relativo. Não é o número de pessoas que importa, mas a sensação de que o lugar é habitado e está sendo usado. ” (GEHL, 2010, p.62). A região central de uma cidade vem sempre acompanhada de muita história e de um forte simbolismo, que a caracteriza como principal ponto de desenvolvimento econômico e concentração de atividades de lazer. A arquitetura é um elemento crucial da história de qualquer Centro urbano, principalmente do Centro de São Paulo, o qual este trabalho aborda. Através dos edifícios, é possível analisar a cronologia dos fatos e entender o impacto que estas edificações tiveram nos momentos de ascensão da centralidade e como elas se adaptaram a nova situação imposta, que levou a degradação destas. “Desta forma, para cada uma das cidades é preciso identificar qual é a habilidade que determinado Centro perdeu, e para isso trabalha–se com o território urbano e não com políticas setoriais isoladas. Pode–se dizer que a importância dos Centros e das suas habilidades é a de que ele é um bairro comum a todos. Cada pessoa tem um bairro e, além dele, o Centro.” (MINISTÉRIO DAS CIDADES,2005, p.10)


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Figura 2– Hotel Othon com ocupação de movimento dos sem–teto.

Fonte: J. Duran Machfee / Futura Press.

Um exemplo disso é o famoso Hotel Othon localizado no Centro de São Paulo, inaugurado em 1954 e que foi um dos ícones da era de ouro do Centro. Era frequentado pela elite entre as décadas de 1950 a 1970 (ascensão do Centro). Sofreu com a saída da elite, que se voltou para outras áreas da cidade e continuou funcionando até 2008, quando não havia mais nenhum resquício do glamour antigo. Cria–se um forte elo entre a centralidade e seus habitantes, um elo sentimental, um sentimento de pertencimento e de identidade, que deixa claro a importância dessas centralidades, que são, por tantas vezes, negligenciadas e abandonadas, mas que são, de fato, parte importante da história de uma cidade e, definitivamente, de quem as habita.

2.1 A saída dos agentes

O Centro de São Paulo viveu e vive transformações intensas em seu território, e isso trouxe muito além de simples mudanças, trouxe uma forte degradação dessa área e total abandono pelo poder público. Os anos 50 foram marcados pelo grande crescimento dessa área (década de ouro). Altos investimentos nos mais variados setores, como o Plano de Avenidas realizado por Prestes Maia em 1945, despertaram


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o interesse de grandes bancos, que implantaram suas sedes naquela região e, principalmente, do comércio e serviço, voltado para as camadas mais nobres da população. Além de tornar–se um polo econômico forte, o Centro de São Paulo era o principal ponto de encontro para compras e para o lazer.

Figura 3 – Plano de Avenidas – Prestes Maia.

Fonte: Site Respira São Paulo.

Os anos 60 foram uma fase de transição, o mercado imobiliário, antes aquecido e fortemente presente na área, começa a mostrar indícios de desaceleração e interesse por outras regiões da cidade de São Paulo. A diminuição da atuação do mercado imobiliário no Centro desencadeou um impacto negativo em outros setores instalados no local. Os bancos seguiram a expansão juntamente com a classe rica (classe dominante) e a partir dos anos 70 foi que de fato a migração dessas sedes de bancos fez–se mais efetiva. Surgiu uma nova configuração da cidade, onde estas atividades, então instaladas no Centro, foram redirecionadas para as novas centralidades recém surgidas, mudando de fato diversas características dos bairros e principalmente das ruas que seguiam em direção a elas. Entre elas, a Rua Augusta, foco deste estudo, tornou–se importante eixo de ligação entre o Centro e os novos bairros de elite, sendo um importante vetor no desenvolvimento do quadrante sudoeste.


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2.2 As novas centralidades

“Entretanto a classe dominante precisa inculcar a fazer com que ela aceite a ideia de que o seu (da classe dominante) é o Centro da cidade. Aceite que o novo Centro da cidade é o Centro da minoria. Isso não é fácil. Afinal, justamente agora que a maioria tomou conta do Centro da cidade, ele deixou de ser o Centro da cidade! ” (VILLAÇA, 1993, p.6)

O processo de migração dos principais setores atuantes no Centro (bancos, comércio e serviço), seguiu os deslocamentos da classe dominante, que se expandiu para outros lugares da cidade. Os investimentos do poder público e privado se direcionaram a esses novos locais que surgiram e, consequentemente, o Centro deixou de ser o principal polo econômico da cidade. Por mais que o Centro estivesse em um processo acelerado de deterioração, o valor de permanecer ali continuava alto e inviabilizou a instalação de novos grupos que se voltaram para as novas centralidades criadas. Nos anos 70 e 80, uma grande parte das sedes dos bancos antes implantados no Centro foram deslocados para a Avenida Paulista. As migrações continuaram a acontecer, só que para outras centralidades que surgiram: Faria Lima – Berrini – Marginal Pinheiros. Iniciando–se um processo de consolidação de mais um novo centro da cidade. O poder público, que claramente priorizou a parcela mais nobre da população, acompanhou o surgimento desse novo centro com a implantação de diversas melhorias que iriam facilitar ainda mais o desenvolvimento dessa região. O investimento no sistema viário com a abertura de novas vias, projetos de novos túneis, extensão de vias já existentes, colaborou para que o boom imobiliário fosse ainda mais perceptível.


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Figura 4 – Mapa do Quadrante Sudoeste

Fonte: São Paulo: Segregação Urbana e Desigualdade Social.

2.3 O surgimento de novas ocupações e usos no Centro.

Os fortes impactos sofridos pelo Centro de São Paulo com a saída de inúmeros bancos e a migração da classe alta culminou em uma crescente deterioração da área. Essas mudanças afetaram o Centro em grande escala, atingindo outros segmentos que a caracterizavam. O segmento do comércio no Centro atraía milhares de pessoas, principalmente as com maior poder aquisitivo, para usufruírem de suas diversas lojas com suas lindas vitrines, dando certo ar parisiense ao Centro paulista. Consequentemente, todo esse sucesso comercial trazia ainda mais fama e prestígio ao Centro. O início do declínio financeiro e social do Centro levou com que estas classes que a compunham fossem perdendo o interesse de forma gradativa em continuar a residir lá. A urbanização capitalista teve como consequência a fragmentação da cidade com o objetivo de gerar ainda mais lucros para si. O comércio varejista migrou para outros locais de compras, fazendo com que o comércio de rua, tradicional do Centro, diminuísse e fosse realocado, por exemplo,


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na Rua Augusta, que passou a atender as classes mais abastadas. Com a migração da camada mais nobre para as novas centralidades, o Centro necessitou se adaptar as novas condições de uso. As mudanças de padrão da população, que passou a ser de menor poder aquisitivo, transformaram aquele Centro da burguesia em Centro da classe média. A mudança na tipologia da população alterou também o comércio, que passou de um comércio que visava atender a uma camada mais rica, com artigo exclusivos, para um comércio de artigos mais populares, justamente para que esta nova classe pudesse consumir. Aí se observa que outro tipo de comércio se instala no Centro, os camelôs, que em definitivo transformam a paisagem do Centro. Além disso, a inserção de um novo tipo de Centro de compras fragilizou ainda mais o comércio de rua: os Shoppings Centers, o que consequentemente também atingiu importantes ruas de comércio para onde a classe média havia migrado e a Rua Augusta foi um desses locais fortemente transformados. Assunto este que será abordado no Capítulo 4.

Figura 5 – Camelôs na Rua 25 de Março.

Fonte: O Estadão.


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POLÍTICAS PÚBLICAS NO CENTRO E O INÍCIO DA RECUPERAÇÃO NOS ANOS DE 1990.

“Nos anos 90, a ideia de revitalização surge com representações diversas: há tentativa de se trazer de volta as elites, através da reversão da degradação vista como existência de situações sociais indesejadas – camelôs, moradores de rua, espaços públicos descuidados – e da recuperação do antigo glamour.” (KARA, 2010, p. 38)

Com os novos Centros já consolidados na cidade e os novos investimentos do setor público e privado sendo aplicados nessas áreas, tornou–se ainda mais alarmante a situação em que se encontrava o Centro, porém algumas ações públicas foram realizadas, antecedendo a esta década, afim de “recuperar” tanto de forma física como simbólica o Centro de São Paulo. Os anos 90 marcaram uma nova etapa para o início da recuperação da área central, aplicando–se também em especial na Rua Augusta, onde se observa as fortes transformações que ocorreram simultaneamente com o Centro Velho. Transformações estas que serão abordadas de maneira mais detalhada no capítulo 7. Algumas ações citadas de forma cronológica mostram em que momentos e em quais gestões o Centro de São Paulo foi colocado em pauta, quais os projetos destinados a este território e se estes obtiveram resultados positivos, no que se refere à valorização da infraestrutura e da recuperação do simbolismo local. Olavo Egydio Setúbal, em sua gestão (1975 – 1979), implantou ações que visavam a reestruturação e revitalização do Centro. O Plano de Revitalização do Centro, implantado por Setúbal, abrangia questões ligadas à restauração e tombamento de edifícios antigos, à ampliação de ruas para pedestres, à implantação de sistema de transporte coletivo, à revitalização e criação de novas praças, entre outras pontuais ações. Dentre as ações citadas, há o projeto Ação Centro em 1976, no qual a circulação de carros em algumas áreas do Centro foi substituída por calçadões, favorecendo os pedestres, mas o resultado não se tornou satisfatório, devido ao fato dos calçadões terem sido tomados por vendedores ambulantes, não tendo o mesmo êxito de projetos com o mesmo caráter aplicados na Europa. Entre 1979 e 1982, na gestão de Reynaldo de Barros, foi criado o plano de reurbanização do Vale do Anhangabaú, que previa melhorias em infraestruturas já


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existentes, mas o foco principal foi o concurso realizado para o para a reurbanização do Vale do Anhangabaú, que

previa a criação de um parque, para priorizar a

segurança dos transeuntes. A obra foi finalizada em 1991 e tinha aspirações de ser exclusivamente do pedestre, mas o que se observa atualmente é a intenção de recolocar o carro neste espaço, pois já há o deslocamento destes de forma ilegal sobre as passagens de pedestres. Figura 6 – Vista aérea do Vale do Anhangabaú (Sentido Norte–Sul).

Fonte: Site do arquiteto Jorge Wilheim. Fotografia: Nelson


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Figura 7 – Perspectiva geral do Vale do Anhangabaú

Fonte: Site do arquiteto Jorge Wilheim.

Mario Covas, durante a sua gestão, que foi de 1983 a 1985, não teve o Centro de São Paulo como parte prioritária de suas ações. Covas elaborou o Projeto Nova Luz em parceria com o governo federal, como um meio de recolocar o Centro em pauta, mas com projetos simplórios e sem grandes transformações. O sucessor de Mário Covas, Jânio Quadros (gestão de 1986 – 1988), retomou as discussões sobre projetos de melhoramentos no Centro de São Paulo. O projeto de mais destaque na sua gestão foi a de reurbanização do Vale do Anhangabaú, com a criação de um corredor interligando a região sudoeste ao Centro. O projeto não agradou em nada do ponto de vista urbanístico, tornando a cidade ainda mais fragmentada espacialmente. Foi uma gestão que visou o favorecimento do setor privado. Luiza Erundina, quando prefeita de São Paulo, de 1989 a 1992, deu continuidade a algumas ações da gestão anterior, como o término do túnel idealizado na gestão de Jânio Quadros. Algumas das ações realizadas foram a restauração de prédios tombados, a revitalização de espaços públicos e o ponto mais incomum e marcante de sua gestão foi a mudança do gabinete da prefeita para a área central,


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trazendo, de uma certa maneira, novos ares e agregando uma nova importância para o Centro, antes extinta. Figura 8 – Abril de 1988 – Obras de reurbanização do Vale do Anhangabaú.

Fonte: Veja SP 06/04/88

Durante as gestões de Luiza Erundina e Paulo Maluf, é criado um importante agente de atuação nas questões relacionadas ao Centro de São Paulo: a Associação Viva o Centro. Criada em 1991, a Associação Viva o Centro (AVC) é uma organização não governamental criada pelo Banco de Boston em parceria com outras instituições financeiras, incluindo as Bolsas de Valores, sindicato dos bancários, entre outras. O que se observa é que esta associação possui atualmente uma extensa lista de patrocinadores e parceiros, que colaboram com doações e principalmente com a divulgação da associação. Esta que foi criada pelo setor privado a fim de dialogar diretamente com o poder público visando a elaboração de políticas públicas consistentes para a revitalização e na recuperação do valor da área central de São Paulo, tornando–se assim uma organização extremamente ativa nas questões do Centro, através de diversos meios, como: debates, estudos específicos, projetos, elaboração de documentos e publicações.


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Figura 9 – Logotipo da Associação Viva o Centro

Fonte: Site da Associação Viva o Centro

A AVC esteve ativa desde sua criação, mostrando que de fato faria diferença nas questões políticas que envolvessem o Centro. Durante as gestões de Paulo Maluf (1993–1996) e de Celso Pitta (1997–2000), o Centro de São Paulo não foi colocado como área prioritária para investimento do governo e, com isso, o papel da AVC foi de suma importância para reivindicar e pressionar o poder público. Em 1993 a AVC pressionou o então prefeito de São Paulo, Paulo Maluf, para a criação do Programa de Requalificação Urbana e Funcional do Centro de São Paulo (PROCENTRO)1 funcionando em conjunto com Secretaria de Habitação e Desenvolvimento Urbano (SEHAB), que previa inúmeras intervenções em espaços e prédios públicos e a revisão do zoneamento, devido às muitas restrições impostas por esta. Os anos 90 foram de fato um ponta pé para a inserção do Centro nas políticas governamentais, tendo reflexos positivos nos anos posteriores. A partir de 2000 é que

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PROCENTRO – Lei nº 33.389 de 14 de julho de 1993.


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as ações do governo foram mais direcionadas e realizadas de um modo mais enfático do que nos anos anteriores. É clara a importância da década de 90 no histórico do Centro, pois foi a partir dessa época que é que o Centro foi realmente “visto com outros olhos”. O que se observa é que o Centro de São Paulo como um todo sofreu com a forte fragmentação e descontinuidade nas políticas públicas. Áreas com mais fragilidades, como o Centro, são as que mais perderam do ponto de vista urbanístico e social.


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NOVOS REFERENCIAIS

As novas ocupações e usos do Centro de São Paulo, abordados na seção 2.3, narram as pressões sofridas pelo território e, com isso, a crescente decadência resultante dessas transformações. O mercado imobiliário foi um dos fatores que desencadearam este cenário, informação citada nos capítulos anteriores e com isso um novo referencial surgiu, modificando fortemente a dinâmica da cidade: os Shoppings Centers. Antes dos anos 70, o comércio de rua era o que movimentava financeiramente a cidade, atraindo principalmente a elite, que consumia muito no Centro de São Paulo. O novo núcleo de compras foi transferido para o Centro expandido, com isso alguns pontos da cidade se tornaram os novos points do comércio de luxo e lazer das classes mais ricas. Um exemplo disso é a Rua Augusta, que se transformou totalmente e se destacou com um dos novos referenciais do comércio dentro da cidade. O que se observa é que o consumo se fazia de acordo com o fluxo do capital e, com isso, esses locais recém “criados” para compras, como a Rua Augusta, passaram pelo mesmo processo de desvalorização tal qual o Centro velho havia passado anteriormente. Isso ocorreu no início dos anos 70, marcado pela inserção de um novo tipo de polo comercial, como citado acima: os shoppings centers. Esse novo Centro de compras unia conforto e praticidade, pois nesses locais eram possíveis realizar diversas atividades de um modo mais concentrado. Amplos espaços e a diversidade de lojas chamou a atenção das camadas mais ricas, que progressivamente abandonaram o comércio tradicional de rua.


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Figura 10 –1º Shopping Center construído em São Paulo (Shopping Iguatemi).

Fonte: Site – São Paulo in Foco.

Figura 11 – Anúncio do lançamento do Shopping Iguatemi.

Fonte: Site – São Paulo in Foco.


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A cultura e o consumo nas cidades transformaram–se rapidamente através dos novos acontecimentos nos anos 70, observa–se os reais impactos na cidade, onde é possível reconhecer os efeitos espaciais e sociais incrustrados nela.


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RECUPERAÇÃO DOS ASPECTOS FÍSICOS E SIMBÓLICOS

Os aspectos simbólico e físico de uma cidade não deveriam ser, de nenhuma maneira, negligenciados pelos habitantes e pelo poder público, pois há um conjunto de causas responsáveis por tais atos e a principal delas é a transferência de importância de um local para o outro. O lugar descartável. As áreas centrais de São Paulo, assunto deste estudo, estão sendo colocadas novamente em foco pelo poder público e, principalmente, sendo reivindicadas pela população, que busca uma revalorização das áreas degradadas da cidade. Uma das ações mais atuais sendo realizadas na cidade a fim de trazer novos usos e incentivar a apropriação dos espaços públicos da cidade pelas pessoas através de simples intervenções é o projeto Centro Aberto. O Centro Aberto, projeto da prefeitura de São Paulo, intervém nos espaços degradados do Centro através de diretrizes como: implantação de mobiliário de mobiliário fixo e permanente (possibilitando uma maior flexibilidade de layout), melhora da iluminação e da sinalização, ciclovias, etc. Ações que valorizam o espaço, dando mais segurança, aumento do tempo de permanência, tudo isso contribuindo para uma cidade mais viva/ativa e, ao mesmo tempo, recuperando seu valor territorial perante o resto da cidade.


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Figura 12 –Centro Aberto no Largo São Francisco

Fonte: Gestão Urbana – Foto: Everton Ballardin.

A figura 12 retrata um dos pontos de intervenção do projeto do Centro Aberto2, o Largo São Francisco, que interveio no espaço degradado e possibilitou um novo uso deste pela população como: festival de curtas metragens, destacado na imagem a cima. Abaixo, nas imagens 13 e 14, é possível observar o local antes e depois de maneira mais ampla. Pequenas alterações que proporcionaram um ambiente mais agradável, priorizando também a circulação dos ciclistas, pois não havia um espaço adequado para este tipo de atividade. No livro Cidade para pessoas, de Jan Gehl, é discutido a importância de uma cidade convidativa: “Reforça–se a potencialidade para a cidade tornar–se viva, sempre que mais pessoas se sintam convidadas a caminhar, pedalar ou permanecer nos espaços da cidade” (GEHL,2010, p.06).

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Além das intervenções realizadas no Largo São Francisco, Largo do Paissandu, Praça Ouvidor Pacheco e Silva e Av. São João, o Centro Aberto prevê outras localidades na cidade para fazerem parte deste projeto. Não é possível saber quais são exatamente, pois estão sendo realizados estudos nessas áreas.


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Figura 13 –Antes da intervenção

Figura 14 –Depois da intervenção

Fonte: Gestão Urbana (Largo São Francisco)

Os dados catalogados antes e depois destes projetos implantados, mostram um aumento significativo da permanência e do uso ativo destes “novos espaços”. Nos gráficos abaixo, disponibilizados no caderno do Centro Aberto, é possível analisar os diferentes dados que os compõe. No primeiro, são comparados os tipos de atividades realizadas antes do projeto e após a implantação do mesmo. Observa– se o aumento significativo de novas atividades, que antes não eram realizadas no local, pelo fato de não haver infraestrutura adequada para a área. Na segunda tabela são comparados a permanência dos habitantes em diferentes horários ao longo do dia e os fluxos nos dias úteis e finais de semana. Houve um aumento significativo nos dois períodos, mas a permanência durante a semana mais do que dobrou, isso mostra que estes locais se tornaram agradáveis e, com isso, mais pessoas os escolhem como ponto de descanso durante o período do almoço.


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É mais do que comprovado que a recuperação destes espaços traz diversos benefícios, não apenas nos aspectos físicos e simbólicos, mas principalmente no aspecto social, na convivência com a cidade e principalmente com outros indivíduos. Figura 15 – Gráfico de registro de atividades de permanência – Centro Aberto

Fonte: Centro Aberto


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Figura 16 – Gráfico de permanência – análise dos horários e dias da semana

Fonte: Centro Aberto

5.1 Para quem faz sentido a revitalização?

Para as pessoas! O sentido de se revitalizar um local, um território é direcionado para as pessoas, pois são elas que irão se apropriar futuramente deste espaço após o processo de recuperação. A cidade é um organismo vivo, porém para que este organismo esteja de fato vivo, as pessoas precisam participar de seu desenvolvimento e principalmente criar ações que visem a sua recuperação. “As cidades se diferem. Não há uma igual à outra, mas são, ao mesmo tempo, suficientemente parecidas. A cidade é uma entidade que tem vida. Sob a ação do indivíduo no espaço urbano, ela muda cotidianamente”. (SANTOS,2002, p.24) Milton Santos explica de forma clara a importância das ações realizadas pelo individuo no processo de urbanização das cidades, pois a partir de decisões tomadas


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é que as cidades vão desenvolvendo características próprias que as diferem de outras cidades existentes. O ser humano faz o lugar! “Mas o que a cidade viva realmente precisa é uma combinação de espaços públicos bons e convidativos e certa massa crítica de pessoas que queira utilizá–los”. (GEHL,2010, p.68) Uma cidade composta de espaços públicos adequados incentiva ainda mais a população a cuidar e usufruir destes espaços. Essa teoria foi comprovada e foi nomeada como o “Princípio da Janela Quebrada”, criada por James Wilson e George Killing. A teoria basicamente explica a relação de casualidade x desordem, ou seja, se em um edifício há uma janela quebrada e não é consertada isso acaba passando uma ideia de deterioração e possivelmente irá instigar a depredação. Isso se aplica também ao cotidiano das cidades. Cidades sujas e depredadas passam a sensação de abandono, cidades limpas e organizadas combatem a prática da depredação e desenvolvem o respeito da população pelo cuidado dos espaços. A revitalização é um passo inicial, mas é importante que além dessa recuperação, as pessoas preservem os espaços posteriormente e os utilizem com consciência e respeito.


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“AUGUSTAS” Figura 17 –Rua Augusta

Fonte: SP 360 graus Foto: Marcelo Cerri Rodini

Durante a elaboração do trabalho observou–se diferentes locais para a implantação do projeto que será elaborado na próxima etapa. Ao ler sobre as transformações ocorridas na cidade de São Paulo, havia a necessidade de se encontrar uma localidade com fortes características e principalmente em constante transformação territorial e social. Após a análise de alguns locais, a Rua Augusta foi a área escolhida para ser analisada e posteriormente para receber o projeto que será elaborado. A Augusta é um local que passou e passa por constantes transformações, pois há um forte processo de retomada pela população e alguns importantes movimentos que lutam pelas transformações do bairro. A próxima etapa de trabalho será a elaboração de uma análise mais profunda do histórico da rua (do ápice à decadência), os tipos de uso predominantes da área, fluxos, movimentos de bairro atuantes, setor imobiliário, entre outros aspectos que a compõem.


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Figura 18 – Área de atuação (Rua Augusta)

Fonte: Google Earth

A figura 30 mostra toda a extensão da Rua Augusta, que possui um papel importante na conexão de grandes avenidas e entre diversos bairros como: Higienópolis, Consolação, Cerqueira César, Jardim América e Jardim Europa. Após o estudo da área será feita a catalogação das necessidades para assim definir o local apropriado e as diretrizes para implantar o projeto.

6.1 Histórico da Rua Augusta

Criada no final do século XIX, a Rua Augusta surgiu dentro de um território delimitado apenas para a elite cafeeira da época, composta por bairros e importantes avenidas na região sudoeste da cidade de São Paulo como: Campos Elíseos, Avenida Paulista e Higienópolis. Espacialmente, a Rua Augusta era composta por duas grandes chácaras pertencentes a Mariano Antônio Vieira (Chácara do Capão) e Martinho prado (chácara de mesmo nome do proprietário).


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O proprietário Mariano Antônio Vieira, possuidor do maior número de hectares, adquiriu a chácara como um investimento, tendo o objetivo de criar um loteamento semelhante aos de cidades europeias, tornando–se um bairro voltado exclusivamente para a elite, porém, as tentativas para a criação do loteamento foram frustradas, fazendo com que o proprietário vendesse a chácara para outros empreendedores. Os novos proprietários executaram um importante papel na urbanização dos bairros lindeiros à Rua Augusta. Grandes mudanças ocorreram na cidade de São Paulo, fazendo com que diversas áreas da cidade tivessem um forte desenvolvimento, inclusive o vetor sudoeste. A Rua Augusta passa a ter um papel notável na interligação dos bairros, facilitando a instalação de equipamentos urbanos e melhorias na infraestrutura, como: calçamento, iluminação pública e, sobretudo, a inserção do transporte público de bondes à burro (Companhia Viação Paulista) e posteriormente de bondes elétricos (Cia Ferro Carril), primeira empresa de bondes elétricos de São Paulo. O enorme sucesso dos bondes elétricos possibilitou que novas empresas surgissem na cidade, inclusive uma das mais notáveis: A The São Paulo Railway Light and Power, conhecida como Light, inaugura uma linha de bonde com o nome da rua, bonde 45 (Rua Augusta), afirmando ainda mais o seu papel estratégico na conexão dos novos bairros e na valorização das residências locais. O seu caráter luxuoso fez–se ainda mais aparente quando, em 1910, os carros começam a circular na rua, gerando mudanças no modo de locomoção e inclusive no cotidiano dos moradores. A Rua Augusta possuía um forte caráter residencial, contando com diversos palacetes, residências de classe média e em trechos específicos, com moradias modestas destinadas a classe operária. Alguns pequenos comércios surgem a fim de abastecer o bairro, como mercearias e farmácias. Em 1920 as escolas estrangeiras instaladas na rua eram referência e destinadas exclusivamente à elite paulista, as que mais se destacam são: A Escola Alemã, o Colégio Des Oiseaux e o São Luiz. Atualmente o terreno onde antes se situava o Colégio Des Oiseaux é alvo de uma disputa, entre incorporadoras que preveem a construção de grandes prédios e os moradores, que lutam para que esta área seja destinada à criação de um parque (Parque Augusta). Este assunto será abordado no capítulo 7.4.


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Figura 19 – Colégio Des Oiseaux

Fonte: Veja SP

Além das importantes escolas instaladas ali, os clubes esportivos tornaram a Augusta ainda mais atrativa para a elite da época, tornando–se um importante polo de lazer urbano. Os clubes Velódromo Paulista (1895), São Paulo Athletic Club (1888) e o Club Athlético Paulistano (1900), foram alguns dos mais importantes, que atraíam membros da alta sociedade para a realização de festas, reuniões e torneios esportivos. Todas estas atratividades contribuíram para que a rua fosse cada vez mais valorizada e apreciada pelo público.

6.2 Anos dourados – A ascensão da Rua Augusta na cidade de São Paulo.

Dos anos 40 até os 60, a Rua Augusta passa por uma fase de pleno desenvolvimento econômico e social. A rua já se caracterizava como importante núcleo esportivo da cidade de São Paulo e, consequentemente, estava se


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desenvolvendo comercialmente, pois já havia uma grande circulação de pessoas na via. Um dos fatores que ajudou a alavancar o processo de desenvolvimento da rua foi em relação ao sistema de mobilidade urbana da época, onde o projeto do plano de avenidas realizado por Prestes Maia, assunto abordado no capítulo 2.1, não conseguiu controlar o imenso fluxo de carros no Centro e consequentemente grandes congestionamentos se formaram nessa área, tornando a Rua Augusta uma via de escoamento do trânsito, possibilitando o acesso a outros bairros. Além da importância para a mobilidade na área central da cidade, a Augusta se tornou um núcleo de compras para a elite paulista, processo esse que foi desencadeado devido as transformações no Centro Velho, que desencadearam a sua decadência nos anos 60 (assunto abordado no capítulo 2.2). Através destas transformações, a Rua Augusta concentrou diversas boutiques luxuosas, cinemas, docerias, lanchonetes, entre outros estabelecimentos que atraiam um grande público à rua. A supervalorização da área atraiu cada vez mais investidores, deixando ainda mais claro o importante papel econômico e social que a rua estava desempenhando, trazendo mudanças principalmente tipológicas.


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Figura 20 – Rua Augusta no final dos anos 60

Foto: Sebastião de Assis Ferreira

Figura 21 – Tradicional salão de beleza – Jacques Janine (Rua Augusta –1958)

Fonte: Veja – Sp


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O uso residencial que antes era predominante na rua, passa a sofrer alterações devido à forte valorização da área, fazendo com que antigos palacetes da rua passassem a exercer atividades comerciais. A partir da década de 50, a verticalização na Rua Augusta se torna mais presente e consequentemente mais divulgada, incentivando a vinda de novos investidores e moradores para a rua com projetos de edifícios multifuncionais (comércio no térreo), exemplo disso é o Edifício Ibaté projetado por Franz Heep, oferecia moradia por um preço acessível, próximo ao Centro e de rápida valorização. Figura 22 – Edifício Ibaté (1953) – projetado por Franz Heep

Fonte: Marco O. Costa

A segunda metade da década de 50 foi o ápice da rua, como novo local de encontro da alta sociedade e de importantes estabelecimentos de compras, tendo ainda grande visibilidade nos anúncios publicitários. Até o final dos anos 60 a Rua Augusta conservou a imagem de uma rua singular, atraindo grande público e concentrando o que há de melhor em serviços.

6.3 A queda! O declínio econômico, cultural e social da rua.

A partir da década de 70, novos referenciais e transformações alteram as dinâmicas da cidade de São Paulo, alterando profundamente as características da Rua Augusta e assim levando–a a outro momento importante de sua trajetória: A decadência.


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O surgimento do Shopping Center (capítulo 4) no final dos anos 60 impactou diretamente no consumo da rua, pois o público–alvo passou a migrar para este novo espaço de compras. O resultado foi uma alteração no tipo de comércio da rua onde o comércio de luxo deixa de dominar, sendo substituído por um comércio mais popular e, com isso, o público pertencente às classes médias e altas para de frequentar a rua, contribuindo para o fechamento de alguns estabelecimentos e a desvalorização dos imóveis locais, como cinemas, boates e restaurantes, agravando ainda mais a crise em que a rua se encontrava. As novas centralidades que surgiram, como Faria Lima, Berrini e Marginal Pinheiros, citadas no capítulo 2.2, colaboraram muito para o declínio simbólico da rua, atraindo boa parte de seu antigo público. O lado central da Rua Augusta foi a mais afetada, sofrendo uma gradativa deterioração, possibilitando o surgimento de uma nova atividade que se tornaria referência na rua: a prostituição. No final dos anos 70, as casas de massagem instaladas na Rua Augusta foram os primeiros estabelecimentos voltados à prática, exercendo suas atividades de um modo mais oculto, mas apenas nos anos 80 é que estas atividades estavam realmente incorporadas ao cotidiano da rua, tornando a Augusta uns dos locais de maior concentração deste tipo de atividade. Figura 23 – Letreiro luminoso


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Figura 24 –Boate Las Vegas

A proximidade da Rua Augusta com a Avenida Paulista configurou–a como um local propício a esta prática, pois, apesar de estar passando por um momento de transição (social e cultural) havia ainda alguns hotéis de luxo e também de acomodações mais modestas, que atraiam os clientes mais abastados que usufruíam dos serviços prestados pelas garotas de programa e dos outros estabelecimentos existentes. Este tipo de movimento fez com a Augusta ainda estivesse ativa, porém de uma forma não muito suntuosa.


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Figura 25 – Hotel Augusta Boulevard

Fonte: Site Hotéis.com

Com a prostituição, consequentemente o tráfico de drogas surge como mais um elemento degradante da rua, sendo comercializado livremente pelos traficantes como também pelas garotas de programa, que usam desse artificio como meio de ganhar dinheiro além dos programas sexuais. A atenção da mídia e a divulgação da grave situação em relação a prostituição, drogas, degradação dos espaços e desvalorização do mercado imobiliário fez com que o poder público elaborasse um plano de combate as práticas ilegais na Augusta e iniciasse uma nova fase de recuperação da via.


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6.4 Guetos: uma visão sobre a segregação espacial e social.

“O gueto denota uma área urbana restrita, uma rede de instituições ligadas a grupos específicos e uma constelação cultural e cognitiva (valores, formas de pensar ou mentalidades) que implica tanto o isolamento sócio moral de uma categoria estigmatizada quanto o truncamento sistemático do espaço e das oportunidades de vida de seus integrantes.” (WACQUANT,2004, p.155)

As características sociais e econômicas de uma cidade, que geram desigualdades explícitas, possuem uma grande importância no surgimento de locais de exclusão pela cidade. A segregação espacial e social desses locais traz aspectos negativos, resultando na paralisação das relações com outros grupos da mesma região e carência nos serviços e equipamentos. “Não existem impedimentos culturais, sociológicos nem econômicos para conseguir menores graus de segregação social do espaço nas cidades latino–americanas, objetivo que deve ocupar um lugar crítico na política pública considerando que os bairros populares segregados estão se “guetizando” (drogas, crime e abandono escola, entre outros problemas)”. (SABATINI e BRAIN,2008, p.06)

Esses processos de “guetização” estimulam o aumento no índice de crime e de violência e o processo de reinserção do grupo excluído torna–se mais conturbada e demorada. A cidade é essencialmente um lugar onde os agentes possuem um papel diretamente ligado na produção dos espaços e se estes são culturalmente ativos, organizados e não segregados, refletem diretamente no meio físico (arquitetura) e também no meio social. Observa–se que estas características podem ser aplicadas no cotidiano da Rua Augusta em seu período de degradação. A rua possui uma clara divisão social e econômica, sendo cortada pela Avenida Paulista, o lado dos Jardins se torna o lado que concentra os serviços de luxo e possui uma maior valorização em relação ao lado em direção do Centro, conhecido como Baixo Augusta, que concentra as boates, casas de massagem e é um local com grande concentração de garotas de programa, gerando uma enorme desvalorização desse lado da rua. Com estas características o Baixo Augusta se torna um novo gueto em São Paulo, pois observa–se o controle da classe alta na segregação dos espaços na cidade de acordo com o interesse.


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A segregação transforma profundamente um território, trazendo consequências graves ao desenvolvimento de todos os aspectos que compõem uma localidade integrada ao resto da cidade, colocando também em pauta a responsabilidade do poder público em criar diretrizes que combatam a formação de guetos (marginalização e exclusão) ou a recuperação de áreas que tenham sido afetadas por este fenômeno.

6.5 Um novo respiro

Figura 26 – Tribos na Augusta

Fonte: Catraca Livre.

A Augusta, convivendo com a grave crise e com outros difíceis problemas gerados pela exclusão, que vão da prostituição até diversos delitos, geraram um enorme preconceito por parte da população que antes frequentava a rua. Durante anos essa foi a realidade da Rua Augusta, esquecida e marginalizada. Essa realidade se estendeu até os anos 90, quando a situação da rua estava no ápice da decadência, se tornando cada vez mais divulgada na mídia. A divulgação dessas informações despertou o sinal de alerta da prefeitura, que iniciou um plano de ação no combate das práticas ilegais na Augusta, com a intenção de iniciar um processo de revitalização da rua. No ano de 2000 é que se inicia o combate da prefeitura às ações ilegais de forma mais efetiva. Com isso, o resultado é a drástica diminuição do público e o impacto nos estabelecimentos, causando seus fechamentos. O fechamento resultou


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na mudança de uso desses locais: onde eram os antigos “inferninhos”, deram lugar, gradativamente, a bares e casas noturnas descoladas, tirando cada vez mais o foco da prostituição e atraindo novamente o público jovem, que passou a frequentar esses novos locais. Esse início de ascensão fez com que o valor dos imóveis subisse rapidamente, tornando para os donos desses locais financeiramente inviável mantê–los abertos. A volta da valorização da Augusta despertou o interesse de grandes incorporadoras, iniciando uma nova fase do mercado imobiliário com o surgimento de vários lançamentos comerciais e residenciais, fenômeno este que continua presente na Rua Augusta até os dias atuais. Figura 27 – Boate masculina encerrando as atividades em 2010

Fonte: Catraca Livre.

A reapropriação do espaço pela população e a incorporação das atividades culturais foi vital para a recuperação da rua enquanto local de permanência, fazendo com que a rua perdesse o caráter de local de atividades ilícitas e passasse a ser percebido como local em plena expansão cultural, social e territorial.


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Figura 28 – Público na Rua Augusta

Fonte: Foto tirada pela autora.

O processo de gentrificação foi uma consequência da supervalorização pela qual a rua está passando: observa–se a saída de muitos moradores e comerciantes que antes residiam ali por não conseguirem mais arcar com os altos valores impostos e isso tem trazido cada vez mais estabelecimentos com um perfil mais elitizado, recuperando aos poucos o antigo glamour da rua. Os dias atuais refletem o processo de resgate do simbolismo da Augusta, que se perdeu durante alguns anos, deixando clara a importância da recuperação dos locais degradados da nossa cidade e entender que essas experiências trazem diversos benefícios aos espaços, a cidade como um todo e principalmente as pessoas.


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DADOS SOCIAIS DO BAIRRO DA CONSOLAÇÃO

A área de intervenção para a implantação do projeto está inserida no bairro da Consolação e através dos dados fornecidos pelo Atlas do Desenvolvimento Humano no Brasil (PNUD, Ipea e FJP)3 é possível observar as características que compõem o bairro e com isso fazer uma análise onde seja possível traçar o perfil de modo mais claro. A coleta dos dados também foi realizada no bairro de Higienópolis, bairro que margeia a Consolação, para que assim se pudesse criar um estudo comparativo de um outro bairro com a Consolação e entender os principais pontos que as diferem. Figura 29 – Limite geográfico do bairro da Consolação.

Fonte: PNUD, Ipea e FJP. Figura 30 – Limite geográfico do bairro de Higienópolis

Fonte: PNUD, Ipea e FJP.

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PNUD – Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento Ipea - Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada FJP Fundação João Pinheiro


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Figura 31 – Caracterização do território – Consolação.

Fonte: PNUD, Ipea e FJP.

Figura 32 – Caracterização do território – Higienópolis.

Fonte: PNUD, Ipea e FJP.

Os quadros acima mostram os dados de IDHM (Índice de Desenvolvimento Humano Municipal), onde observa–se que os dois bairros possuem um altíssimo número, este que vai de 0,800 até 1. O IDHM mede três diferentes indicadores: longevidade, educação e renda. O índice desses indicadores vai de 0 a 1 e quanto mais próximo de 1, maior o desenvolvimento humano da área. Entende–se que estas duas localidades concentram uma população de alta renda e proporcionam qualidade de vida para os habitantes, resultando no aumento da expectativa de vida.


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Figura 33 –IDHM da Consolação

Fonte: PNUD. Ipea e FJP.

Figura 34 – IDHM de Higienópolis

Fonte: PNUD, Ipea e FJP


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Figura 35 – Renda, Pobreza e Desigualdade – Consolação.

Fonte: PNUD, Ipea e FJP.

Figura 36 – Renda, Pobreza e Desigualdade – Higienópolis

Fonte: PNUD, Ipea e FJP.

A renda per capita da Consolação subiu consideravelmente entre os anos de 2000 e 2010, um aumento de aproximadamente 67,15%. Essa crescente em dez anos pode ser analisada pelas diferentes ações realizadas no bairro. Em 2000 é quando se inicia um plano de revitalização da Augusta e consequentemente a volta da valorização da rua e de seu entorno, impactando diretamente na renda dos habitantes, no mercado imobiliario, no comércio e serviço local. O bairro vive constantes transformações e isso colabora para a continua valorização. Em Higienópolis a valorização entre 2000 e 2010 não foi tão significativa, tendo um aumento de 5,97% em comparação ao aumento visto na Consolação. Higienópolis, por ser um bairro mais consolidado, não sofreu com mudanças bruscas, portanto, manteve sua valorização quase que a mesma durante o periodo de 10 anos. Os dados catalogados mostram que a Consolação, onde a Rua Augusta está inserida, é um local com otima infraestrutura e em plena expansão, facilitando a implantação do projeto que pode trazer ainda mais investimentos à área e consequentemente valorizá–la ainda mais.


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7.1 O interesse do capital privado e a ascensão do mercado imobiliário na Rua Augusta

A partir da década de 80 observa–se o surgimento de novos tipos de prédios residenciais, os condomínios fechados. Esse novo conceito de morar se dissemina na cidade de São Paulo, chegando também à Rua Augusta. No ano de 2005, após o início da revitalização que se iniciou em 2000, a rua passa a ser bastante procurada em relação à moradia, tornando–se espaço de concentração de artistas, destacando a importância da rua no que se refere a espaços culturalmente ricos e a proximidade dos mais diversos meios de transportes. Todas estas características favoreceram a valorização imobiliária e m² da rua. Ao analisar essa valorização, foram destacadas três quadras na Rua Augusta próximas ao local de intervenção, estas quadras foram analisadas em diferentes momentos: 1990, 2002 e 2014. Figura 37 – Valor do m² das quadras em destaque – Rua Augusta.

Fonte: GEOSAMPA.

A planta acima destaca quais quadras na Rua Augusta foram analisadas nos anos de 1990, 2002 e 2014. A quadra F014 é a quadra que abrange o local de intervenção do projeto.


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Figura 38 – Valor do m² da quadra em destaque – Avenida Paulista

Fonte: GEOSAMPA.

A segunda planta destaca a quadra F054 na Avenida Paulista, que foi usada para a comparação de valores do m² com a Rua Augusta. Figura 39 – Planta de Valores Genéricos de 1990 (Rua Augusta e Avenida Paulista)

Fonte: Secretária Municipal de Finanças e Desenvolvimento Econômico.

O quadro acima representa a planta de valores genéricos (valor do m²) de 1990 da Rua Augusta e da Avenida Paulista, em destaque vermelho estão as quadras F012, F014, F024 e F054. Os valores do m² quadrado destas áreas estão em Cruzeiros (Cr$), moeda da época.


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Figura 40 – Valor do m² de 2014 – Planta QGIS (Paulista).

Fonte: QGIS E GEOSAMPA.

Figura 41 – Valor do m² de 2014 – Planta QGIS (Augusta).

Fonte: QGIS E GEOSAMPA.

As figuras acima representam as plantas de valores do m² obtidas através do QGIS referentes ao ano de 2014.


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Representação por tabelas da valorização de cada ano correspondente ao estudo, mostrando as diferenças e aumento dos valores a cada 12 anos.

A tabela de evolução retrata a crescente valorização do m² da Rua Augusta ao longo dos anos, destacando as porcentagens máximas entre 2002 e 2014, onde o aumento foi mais significativo devido ao processo de recuperação da rua, antes degradada, favorecendo todos os aspectos que compõe a rua e seu entorno: comércio, serviço e residências.


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8 ESTUDOS DE CASO

É necessário a observação de diferentes projetos implantados para o entendimento das diretrizes aplicadas, o impacto causado com o entorno e os resultados positivos ou negativos depois de implantados. Nos capítulos 8.1, 8.2 e 8.3 serão abordados exemplos que responderam de forma positiva expectativas impostas. 8.1 New Road (Londres)

New Road é uma rua pertencente a cidade de Brighton & Hove em Londres. Possui um papel importante na conexão com os principais pontos culturais da cidade. Dominada pelo interesse dos veículos, possuía a necessidade de se inserir o pedestre, dando mais conforto aos visitantes e moradores locais. Inicialmente a ideia era a de retirar definitivamente a circulação dos carros dessa via. Na foto abaixo é possível ver uma parte da New Road antes da revitalização proposta pelo arquiteto Jan Gehl em parceria com a Landscape Projects. A ideia de se retirar os veículos foi descartada e a nova proposta foi a de incorporar o carro junto ao pedestre de uma forma harmoniosa. Figura 42 –New Road antes da revitalização

Fonte: Gehl Architects


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Figura 43 – New Road depois da revitalização

Fonte: Gehl Architects

O projeto teve como ponto forte a relação do pedestre com a cidade, criando mais um local adequado de permanência e para outras diversas atividades. Após a implantação do projeto o tráfego de veículos na área diminuiu consideravelmente, em torno de 93%, enquanto o número de ciclistas e pedestres aumentou em 162%. Um número considerável e que, ao analisarmos o projeto, vemos a forte revalorização da área e da parte comercial. A obra teve a sua conclusão no verão de 2007.


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Figura 44 – Desenho em 3D da extensão da rua New Road

Fonte: Landezine

Figura 45 – Desenho em 3D. Vista superior

Fonte: Landezine


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8.2 Centro de Curitiba Figura 46 – Maquete eletrônica do Centro de Curitiba

Fonte: Estúdio 41 Arquitetura

O projeto previsto pelo Estúdio 41 possui algumas premissas similares ao projeto do Gehl, a prioridade do pedestre no espaço e sua convivência com o automóvel de forma segura. Este projeto para o centro de Curitiba abrange as ruas: Barão do Cerro Azul, São Francisco, 13 de Maio e a travessa Nestor de Castro. Por serem importantes vias de conexão, foi necessária uma maior atenção para o deslocamento dos automóveis. O cruzamento foi projetado para ser um local seguros para os pedestres, para isso o piso de paralelepípedos, que se inicia no Largo da Ordem, é estendido até a rua São Francisco,

criando

uma

praça

para

a

permanência

dos

transeuntes

e

consequentemente faz com o que os automóveis tenham que diminuir a velocidade ao se aproxima


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Figura 47 – Imagem 3D – praça no cruzamento

Fonte: Estúdio 41 Arquitetura

Entre a travessa Nestor de Castro e rua 13 de Maio foi proposto uma nova paginação de piso, trazendo um desenho linear e que traz conforto e segurança ao caminhar. A iluminação e o mobiliário adequado agregam ainda mais qualidade ao espaço público. A proposta deste projeto foi apresentada em 2015, portanto ainda não foi iniciado.


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Figura 48 – Nova calçada entre a Rua 13 de Maio e a travessa Nestor de Castro

Fonte: Estúdio 41 Arquitetura

Figura 49 – Implantação do projeto

Fonte: Estúdio 41 Arquitetura


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8.3 Rua Sete

Figura 49 – Imagem do calçadão

Fonte: Gema Arquitetura

O escritório GEMA ARQUITETURA, de Belo Horizonte, realizou um projeto de revitalização do calçadão da Rua Sete localizada em Itanhandu – MG. Esta via foi destinada para pedestres desde 1980, possuindo um espaço comercial bastante utilizado pela população.


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Figura 50 – Imagem do calçadão da Rua Sete.

Fonte: Gema Arquitetura.

A utilização constante do calçadão tornou necessária a realização da revitalização para que os habitantes tivessem um espaço adequado para caminhada e um agradável espaço de convivência. O projeto visa a simplicidade do desenho e o foco é na funcionalidade. A vegetação com árvores de meio porte e jardineiras ajudam no sombreamento e embelezamento da via em conjunto com o mobiliário simples e arrojado, e os bicicletários facilitam a vida de quem se locomove com ela, tendo um local apropriado para deixa–lá. Abaixo a implantação do projeto de revitalização da Rua Sete, mostrando que mesmo com um espaço mais estreito é possível criar espaços públicos agradáveis e funcionais.


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Figura 51 – Implantação do projeto de revitalização.

Fonte: Gema Arquitetura.


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9 ÁREA DE INTERVENÇÃO E OBJETIVO DO PROJETO

Figura 52 – Área de intervenção

Fonte: Google Earth

O local escolhido para o projeto é um trecho da Rua Augusta, entre a rua Caio Prado e Marquês de Paranaguá, localizado a frente do chamado Parque Augusta, uma importante área de mata atlântica com 23.500m² concentrada na parte baixa da Augusta. Essa importante área da cidade, e que sofre com a especulação imobiliária, que se encontra em plena ascensão na rua, afeta diretamente na questão da preservação ambiental, pois esta é deixada em segundo plano para o favorecimento das incorporadoras. O Parque Augusta ainda não está assegurado oficialmente como parque pela dificuldade em se fechar um acordo com as duas incorporadoras responsáveis pela área (Setin – Cyrela), mas a Câmara Municipal modificou o zoneamento do terreno que passou a ser uma ZEPAM (Zona Especial de Proteção Ambiental), aumentando as restrições de ocupação do mesmo. Os locais de lazer na cidade de São Paulo são escassos, por isso a implantação do projeto do calçadão em frente ao futuro parque só reforça a necessidade da


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ampliação de áreas como essas, onde o pedestre tenha liberdade de usufruir o espaço público de maneira mais ativa. Este novo calçadão agrega ainda mais como espaço de encontro da população e possibilitando atividades ao ar livre em conjunto com o parque. Figura 53 – Trecho de intervenção na Rua Augusta

Fonte: Google Earth.

A implantação do projeto entre as ruas Caio Prado e Marquês de Paranaguá busca entender as principais características e dinâmicas que tornam a Augusta um objeto de estudo em constantes transformações/ transições. O diagnóstico do local explicita a pluralidade da rua a torna um rico objeto de estudo e apropriado para a implantação do calçadão. Na figura acima é destacada o trecho da intervenção (em verde) e a linha (vermelha) indica a alteração do fluxo de automóveis. Esta alteração no fluxo foi necessária para que não houvesse interferência no desenho e na proposta do projeto (Priorização do pedestre). O calçadão prevê a diminuição do número de faixas de circulação, estipulando apenas uma para o tráfego de ônibus. A rua Frei Caneca será usada para como uma nova alternativa para o desvio dos carros para que continuem trafegando na Augusta ou acessar a rua Caio Prado.


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Todas estas diretrizes têm como objetivo final a valorização do pedestre e a sua priorização em relação aos transportes individuais. Figura 54 – Foto do local de intervenção.

Fonte: Foto tirada pela autora. Figura 55 – Foto do local de intervenção.

Fonte: Foto tirada pela autora.


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Figura 56 – Foto do local de intervenção

Fonte: Foto tirada pela autora.

O objetivo do projeto é criação de um calçadão que se conecta com o Parque Augusta, tornando–se mais um espaço de permanência e lazer para os pedestres, frequentadores ou não do parque. O projeto visa um desenho com linhas mais simples e espaços funcionais, com diversas possibilidades de uso. A vegetação é parte importante do projeto, criando espaços sombreados e confortáveis de se estar proporcionando a sensação de que o Parque Augusta saiu para a rua, como uma extensão. A calçada do outro lado da rua também passou por uma revitalização com a implantação de mobiliário, como bancos e lixeiras e de árvores de pequeno porte que ajudam no sombreamento e na estética da calçada, trazendo benefícios para o comércio e serviços locais.


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10 CONCLUSÃO

Durante o processo de pesquisa para a elaboração deste trabalho, ficou evidente que as transformações ocorridas nas áreas centrais por muitas vezes foram resultadas de ações sem planejamento prévio e como processos de degradação podem se repetir em outras áreas da cidade, como na Augusta. A decadência dessas áreas deu–se em um primeiro momento pela forte influência do mercado imobiliário, que, se observado, exerce essa mesma influência até os dias atuais, gerando prejuízos e estagnando o desenvolvimento de muitas áreas da cidade. A Rua Augusta, foco de intervenção deste trabalho, demonstra os complexos processos pelos quais a rua passou e passa atualmente. Os diversos períodos que se iniciaram a partir da degradação do Centro velho e que impactaram e diversificaram os aspectos sociais e espaciais da rua, tornando–a o novo ponto de encontro da alta sociedade. Em outro momento, o período de decadência vivida pelo Centro velho se repete, desta vez na Augusta, iniciando um período negro e de desgaste da imagem da rua, sendo associada à prostituição e drogas. A recuperação da vitalidade da rua traz benefícios locais e ao seu entorno, gerando uma crescente valorização dos imóveis e, principalmente, na mudança de estereótipos, e atualmente a Augusta é associada a um espaço de cultura, diversão e de ótima localização. Todas as peculiaridades fazem da Rua Augusta um local com grandes desafios para a implantação do calçadão, porém essa incerteza de qual seria o real impacto dessa intervenção é o que faz dela um local inda mais fascinante.


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Novos valores para o espaço público: Revisão da hierarquia e requalificação do entorno do P. Augusta  

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