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Cartas da Paisagem e da Liberdade 2013 e 2014. 3ª edição BIOS Projeto Anual Serviço Educativo do Museu do Douro dezembro de 2016


Fernando Giestas, ESCRITA - o que é para si paisajar?

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TELEGRAMAS – TEXTOS

04 DEZ 2016

Para o Cartas da Paisagem e da Liberdade 2013 e 2014 ________________________________________________________________________ ________________________________________________________________________ Samuel Guimarães* Pensar os lugares das paisagens e das liberdades em 2013 e 2014 a partir da ideia de CARTA arrancou com uma conversa com a Maria João Vicente (Teatro da Garagem) sobre o que se poderia fazer nos 40 anos do 25 de Abril? 1 Perguntámos a quem trabalha connosco e, neste momento preciso, a quem nos lê: - Que relações existem entre liberdade e paisagem? - Em que lugares nos sentimos livres? - E quais são os que nos enclausuram ou nos tiram a liberdade? - Que características têm estes diferentes lugares? - Onde é que gostamos de correr, de caminhar, de sentar, de berrar, de parar, de estar calado, de ver e olhar, de fazer, de contemplar? Agora, nesta zine, apresenta-se uma edição dos materiais deste projeto e propõe-se, aqui estes telegramas – textos de diferentes autores e origens que inspiraram e inspiram perplexidades, fúrias e medos, prazeres e vontades vividas ao longo do tempo do acontecer deste Cartas da Paisagem e da Liberdade (cf. Pf. roteiro do projeto). Estes constituem-se, agora, como textos – motores que continuam a alimentar a nossa vontade de fazermos perguntas às pessoas e às coisas nos lugares onde estamos e onde assistimos à rarefação das liberdades e dos acasos.

________________________________________________________________________ Telegrama – Liberdade. __________________________________________________________

“O conceito da liberdade revela-se muito problemático. Ser livre não significa somente ser independente ou não ter compromissos. Não são ausência de laços e a falta de enraizamento que nos fazem livres, mas antes as ligações e a integração. A carência absoluta de relações gera medo e inquietação. A raíz indogermânica fri, da qual derivam as formas “livre”, “paz” e “amigo” (frei, Friede, Freund) significa “amar” (lieben). Por conseguinte, originariamente “livre” significava “pertencente aos amigos ou aos amantes”. A pessoa sente-se livre numa relação de amor e de amizade. O compromisso, e não a sua ausência, é o que nos torna livres. A liberdade é uma palavra relacional por excelência. A liberdade não é possível sem um apoio que a sustente (…) Mas, a falta desse apoio, a vida actual não atina facilmente com o passo certo. A evidência do sempre permanente presente leva-nos a trabalhar numa impossibilidade gratificante. Como criticar algo em que se é interveniente principal e onde se tem uma falsa ideia de liberdade?” 2Byung-Chul Han

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* Responsável pela coordenação e programa do serviço educativo do Museu do Douro. Pertence ao Núcleo de Educação Artística do I2ADS. FBAUP-UP. 1 Ver pf Festas de Garagem em ‘correspondência recebida’. 2 Byung-Chul Han (2016). O aroma do tempo. Um ensaio filosófico sobre a arte de demora. Lisboa: Relógio d’Agua, p. 34, 52 e 53. (sublinhado meu)


________________________________________________________________________ Telegrama – Austeridade. _________________________________________________________

- “Corte dos subsídios de Natal e de Férias dos trabalhadores do Estado, mantendo a redução de 5% dos salários da função pública. - Alargamento do âmbito da aplicação da Contribuição Extraordinária de Solidariedade sobre as pensões. - Alteração do horário de trabalho de 35 para 40 horas, fim de alguns feriados, - Aumentos do IVA.” 3

________________________________________________________________________ Telegrama – Crise. _________________________________________________________

“A crise atual tornou-se um instrumento de dominação. Ela serve para legitimar decisões políticas e econômicas que de fato desapropriam cidadãos e os desproveem de qualquer possibilidade de decisão. (...) A palavra crise expressa duas raízes semânticas: a médica, que se refere ao curso de uma doença, e a teológica, que remete ao Juízo Final. Ambos significados, no entanto, sofreram uma transformação hoje, que os desprove da sua relação com o tempo. “Crise” na medicina antiga remetia a um julgamento, ao momento decisivo em que o médico percebia se o doente sobreviveria ou não. A conceção atual de crise, por outro lado, refere-se a um estado duradouro. Assim, essa incerteza é estendida ao futuro, ao infinito. Passa-se exatamente o mesmo com o sentido teológico: o Juízo Final era inseparável do fim dos tempos. Hoje, no entanto, o juízo é divorciado da ideia de resolução e repetidamente adiado (…) é um processo interminável de decisão que jamais se conclui. (… ) Devemos restaurar o significado original da palavra “crise”, como um momento de julgamento e de escolha. Para a Europa, não podemos adiá-la ao futuro indefinido.” 4 Giorgio Agamben

________________________________________________________________________ Telegrama – Neoliberalismo. _________________________________________________________

A liberdade é o elemento que a doutrina do liberalismo pressupôs, nos seus genes, como motor de pensamento para definir sistemas de controlo que garantissem a livre circulação das mercadorias, e por consequência do homem, bem como, do seu livre exercício do direito de expressão, de associação... A sua deriva, a partir dos anos 80 do século XX, para o neoliberalismo presente com Margaret Tatcher (entre outros) em Inglaterra, é uma herança das reformas económicas ensaiadas na década de 70 do século passado no Chile pelos Chicago Boys com o apoio da CIA. Este grupo de, aproximadamente, 25 jovens economistas chilenos, formados nos Estados Unidos no departamento de economia da Universidade de Chicago, formularam a política económica da ditadura de Augusto Pinochet, conhecida no meio económico como o milagre do chile.

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Dados retirados de jornal ‘Publico’. Consultado 15 de dezembro de 2015. Em linha https://www.publico.pt/ politica/noticia/cronologia-da-legislatura-1701182 4 A crise infindável como instrumento de poder. Uma conversa com Giorgio Agamben. Consultado junho de 2016. Em linha http://www.ihu.unisinos.br/noticias/533355-a-crise-infindavel-como-instrumento-de-poder-umaconversa-com-giorgio-agamben. 3


________________________________________________________________________ Telegrama – Mestre e Escravo. _____________________________________________________________

“O neoliberalismo transforma o trabalhador oprimido num empresário livre, um empreendedor de si mesmo. Hoje, cada um de nós é um trabalhador que se explora a si próprio na sua própria empresa. Cada um de nós é mestre e escravo na sua mesma pessoa. E também a luta de classes se transforma em luta interna de cada um consigo próprio. Hoje, aqueles que não conseguem atingir o sucesso culpam-se a si próprios e sentem-se envergonhados. As pessoas vêem-se a si próprias como o problema e não a sociedade. (…) É importante distinguir entre um poder que impõe e um poder que estabiliza. Hoje, o poder que estabiliza o sistema assume um disfarce amigável e smart, tornando-se invisível e inatacável. O sujeito submetido nem sequer tem consciência da sua submissão. O sujeito pensa-se livre. Esta técnica de dominação neutraliza a resistência de modo eficaz. A dominação que reprime e ataca a liberdade não é estável. Por isso o regime neoliberal é tão estável, ele imuniza-se contra toda a resistência porque faz uso da liberdade em vez de a reprimir. Suprimir a liberdade provoca imediatamente resistências, explorar a liberdade não.” 5Byung Chung Han

________________________________________________________________________ Telegrama – Vigilância. Avaliação. _____________________________________________________________

“(…) As limitações da liberdade que, hoje, o cidadão de países chamados democráticos está disposto a aceitar são incrivelmente mais amplas que aquelas que teria aceito há vinte anos trás (…)Mas basta pensar em como é transmitida a ideia de que os espaços públicos são monitorados por camaras de video. Um ambiente similar não é uma cidade, mas o interior de uma prisão! As empresas que fabricam os dispositivos biométricos sugerem que estes sejam instalados nas escolas fundamentais e nos refeitórios estudantis, de modo a habituar a pessoa desde a infância a esse tipo de controle. O objetivo é formar cidadãos completamente privados de liberdade e, o que é pior, que não se dêem conta disso.” 6Giorgio Agamben “A figura social do homem do século 21 é o "homem avaliado". A avaliação não se aplica só ao sistema educativo, mas ao campo social em geral. Os seus efeitos são múltiplos, criando um tipo particular de subjectividade enquanto diagrama "faz funcionar as relações de poder numa função" como diz Foucault: procede a uma hierarquização, selecciona, exclui e integra, distribui territórios fixos a uma população local (operários, professores, empregados). Desde logo, esta distribuição de trabalho e de riqueza cria funções que funcionam segundo

_______________________________ Byung-Chul Han Porque é que hoje nenhuma revolução é possível? Revista Punkto, 2 Dezembro de 2015 Em linha www.revistapunkto.com (sublinhado meu) 6 Giorgio Agamben refere-se neste texto com mais afinco aos perigos dos arquivos de DNA, nomeadamente, e de modo indirecto, ao ratificado no Tratado de Prüm (Alemanha, 27 de Maio de 2005) o qual prevê a colaboração dos países da União Européia no combate ao terrorismo, ao crime organizado internacional e à imigração ilegal. Fabio Milazzo Segurança e democracia liberal: o parecer de Agamben. Consultado em 29 novembro 2016. Em linha http://culturaebarbarie.org/sopro/outros/entrevistaagamben.html 5


relações de poder, como faz o diagrama. Por outro lado codifica através de normas restritas as relações de trabalho e as relações humanas, que também no trabalho ou fora dele, escapam normalmente aos códigos. O "ser avaliado" não adquire só um estatuto social; ele próprio, por inteiro, compõe um espaço de avaliações; não é já um ser singular, que entre outras relações, entretém com os outros a de "ser avaliado", é a avaliação que molda todo o seu ser, público e privado, pessoal e social. Porque a avaliação tende a aplicar se a todo o tipo, estende se da esfera da sexualidade e da saúde mental à do desporto, da cidadania e da integração social. Todos os campos avaliados, o ser homem mede-se pela sua posição nas escalas das performances a que incessantemente é submetido. (...) o preço pago por esta tecnologia biopolítica, é evidentemente, a mutilação de uma vida mais rica, a diminuição brutal dos possíveis, a restrição do aleatório, do acaso, da imprevisibilidade. Como estes serão transformados em funções - a famosa "criatividade" no trabalho, nas empresas, nos serviços, na publicidade, nos media, os próprios factores aparentemente incodificáveis serão avaliados, quantificados, normalizados.” 7José Gil ________________________________________________________________________________

Telegrama – Geografias ou “o ali”.

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As cartas e mensagens aqui recebidas e recolhidas são de: Califórnia | São Paulo | Santa Marta de Penaguião | Galafura | Armamar | Pinhão | Havana | Vila Real | Tomar | Luanda | Almeirim | Coimbra | São Cristóvão de Nogueira | Guiné Bissau | Resende | Londres | Mesão Frio | Lisboa | Indonésia | África do Sul | Colômbia | França | Norte de África| Viseu | Porto | Sintra | Tabuaço | Minas Gerais | Angola | Alexandria | Santo António de Arenilha “A totalização do aqui afasta o ali. A proximidade do aqui (por exemplo, a mensagem electrónica que apaga qualquer hipótese de distância material) destrói a aura do longínquo. Desaparecem os limiares que distinguem o ali daqui, o invisível do invisível, o desconhecido do conhecido, o inóspito do familiar. A ausência de limiares traz consigo uma visibilidade total e uma disponibilidade absoluta. O ali desvanece se numa sucessão ininterrupta de acontecimentos, sensações, e informações. Tudo está aqui. O ali já não tem qualquer importância.”8 Aqui, as liberdades e as paisagens, as inextricadas tramas que as ligam e que nos ligam mostram-nos as nossas perdas como animais de limiares. Os limiares provocam sofrimento e paixão mas também nos fazem felizes ou, pelo menos, vivos. O nosso maior obrigado a todas e todos os que, connosco vivem – de modos diversos e abertos – este trabalho. Continuaremos a escrever cartas. De mais modos. 4 de dezembro de 2016

________________________________________ 7 José Gil (2009), Em busca da identidade. O desnorte. Lisboa: Relógio d’Água. 8 Byung-Chul Han (2016). O aroma do tempo. Um ensaio filosófico sobre a arte de demora. Lisboa: Relógio d’Agua, 53. (sublinhado meu)


Era uma carta rectangular, quase branca, não fôra as letras quase desenhadas, o carimbo quase uma obra de arte. E o selo. O seu destino de carta marcara-a desde a fábrica até à loja onde estivera à venda. Entre tantas completamente brancas, havia sido ela a eleita, a deusa – a quase flecha. Quem assim a comprara, não pensara em momentos de eleição, mas ela, sim: quando o dono da loja a tirou do monte entre envelopes e folhas brancas, quando mãos desconhecidas lhe pegaram, num começo de amigas, o seu coração branco, dividido entre invólucro e matéria envolvida, revolveu-se um pouco. E assim ela foi mítico resultado do triângulo amoroso entre envelope, folhas e a mão que se segurava a caneta. Ana Luísa Amaral (1956-). Ara. Porto: Sextante, 2013, p.4


Sónia Santos, TINTURARIA NATURAL - técnica Hapa Zome


Quadro com síntese das Raças Humanas, mostrando a sua origem, a sua distribuição geográfica, as suas distintas características e povos procedentes. Edição Delalain, 1836. Coleção Biblioteca Macedo Pinto |

Tabuaço


Um objeto que te faça lembrar a Liberdade Mostra BIOS – Cartas da Liberdade e da Paisagem 2013 E 2014. Enara, 31 anos


Walter Salles.(1998). Central do Brasil


Ana Limpinho, CENOGRAFIA - o que estรก para lรก do portรฃo?


O que pode ser paisagem? O que pode ser liberdade? Resposta ao CORREIO DO PROJETO Ramo Nikiforova Daskolski, 12 anos |

Armamar

O que pode ser paisagem? O que pode ser liberdade? Resposta ao CORREIO DO PROJETO Artur Matos, 46 anos |

Santa Marta de PenaguiĂŁo


O QUE PODE SER PAISAGEM? O QUE PODE SER LIBERDADE?

Montagem a partir de desenho,

O que pode ser paisagem? Resposta ao CORREIO DO PROJETO | Rodrigo, 4 anos |

Peso da Régua


Fotografias enviadas pelo JI de Galafura |

Peso da Régua

A partir de TEATRO E SOMBRAS | Rafaela Santos

Carta à minha sombra Olá sombra! Está tudo bem? Eu queria mandar-te esta carta para me largares que tu andas sempre a seguir-me e nunca me deixas um pouco sozinho, quando vou para qualquer lugar, até na praia não me largas, nem um bocadinho! Eu espero que aprendas esta lição que te estou a dar neste momento. Vou ficar à espera da tua resposta.. Um abraço. Ricardo, 9 anos | Armamar


ROTEIRO DO PROJETO BIOS – Cartas 2013 e 2014 Projeto Anual Serviço Educativo do Museu do Douro | Cartas da Paisagem e da Liberdade

O Serviço Educativo, em parceria com os agentes culturais e educativos, com professores e educadores, com crianças, com jovens, com seniores e outros adultos interessados no trabalho em comum, implementa o BIOS – Cartas 2013 e 2014.

O BIOS – Cartas 2013 e 2014 age e pensa sobre as relações evidentes e menos evidentes entre os lugares e os seres humanos e não humanos que os habitam e que se influenciam mutuamente. Através da criação de cartas em vários suportes – da carta sonora à carta desenhada, da carta escrita à carta em vídeo, da carta e mapa militar à carta oral, lida em voz alta - procuram-se modos de mais conhecer e viver estes lugares. O projeto BIOS insiste, no seu terceiro ano de vida, em indagar e pesquisar; em recolher e refletir sobre a vida humana e não humana - ou mais que humana - deste território. Em 2011 e 2012, partimos no BIOS – Biografias das “Histórias Singulares” de pessoas, coisas, árvores, bichos, pedras para continuar o trabalho de refletir e agir sobre as pes-soas e as paisagens destes lugares. Em 2012 e 2013 continuamos à procura das “Pequenas Grandes Coisas” com o BIOS – Segredos procuran-

do mais modos de interrogar o que não é evidente num lugar, numa pessoa, num ser, numa paisagem. Para 2013 e 2014, continuamos a interrogar os BIOS deste território. No entanto, centramo-nos, a partir de agora, na questão da Liberdade e da Paisagem: Que relações existem entre liberdade e paisagem? Em que lugares nos sentimos livres? E quais são os que nos enclausuram ou nos tiram a liberdade? Que características têm estes diferentes lugares? Onde é que gostamos de correr, de caminhar, de sentar, de parar, de ver e olhar, de contemplar? No ano de 2014, o 25 de abril comemora os seus quarenta anos e procuramos a liberdade. Procuramos as liberdades. E procuramo-las também nas paisagens.

BIOS – Cartas. Modos de usar e trocar Como podemos trocar estas pesquisas e como as podemos fazer circular? O BIOS – Cartas 2013 e 2014 assenta também na criação e invenção de modos de trocar ou usar de outros e, de mais modos, o correio tradicional, o correio eletrónico, as redes sociais ou a vídeo conferência. Como comunicamos o que vemos, o que cheiramos, o que ouvimos, o que sabo-


Porta-enxertos Poster do Programa

eu sou paisagem 2013 e 2014


reamos, o que recolhemos, o que registamos, o que filmamos, o que mexemos? Com cartas. Cartas sonoras ou cartas com Sons. Cartas com Filmes ou cartas filmadas. Cartas escritas ou cartas com Palavras. Cartas com Movimento ou cartas dançadas. Cartas com Teatro, com ou sem palavras. Cartas das paisagens e das liberdades.

os participantes. - Descobrir pontos de vista diferenciados sobre a mesma realidade. - Desenvolver as capacidades de resposta de pesquisa em diferentes suportes. - Expressar ideias e modos de as concretizar. - Saber trocar, partilhar, gerir recursos materiais e humanos.

Momentos do Projeto

Públicos

O projeto do serviço educativo compreende os seguintes momentos, entre o mês de setembro de 2013 e o mês de outubro de 2014: - Implementação do projeto entre os participantes e equipa do serviço educativo. - Suportes de pesquisa para construir e trocar cartas: vídeo, som, teatro, movimento, escrita. - Programa de oficinas para agentes educativos, sociais e culturais; professores e educadores; crianças; jovens e seniores. - Trocas entre os participantes das suas cartas em diferentes suportes. - Mostra de processos no edifício sede do museu. - Documentário vídeo do projeto. - Publicação.

Este projeto é dirigido a agentes educativos, sociais e culturais, profes-sores, educadores e aos seus grupos provenientes de todas as escolas da RDD e de todos os graus de ensino: Educação Pré-Escolar, Ensino Básico – 1º, 2º e 3º Ciclos, Ensino Profissional e Secundário e Grupos Seniores. O projeto BIOS conta também como parceiros com associações recreativas e culturais e outras instituições congéneres e com todos, a título individual, os que se interessam pela paisagem e pelo território e pelas pessoas que neles vivem.

Objetivos do Projeto - Pesquisar sobre a liberdade e a paisagem e as suas relações. - Procurar modos de troca de informação e criação entre


Transcrição do Documento ANÚNCIO Quem quiser alugar as casas que estão juntas aos armazéns da Companhia Geral do Alto Douro*, no cais do Loureiro, pode dirigir a sua proposta diretamente à Exma. Direção da mesma Companhia no Porto, ou em Pinhão a Joaquim José da Cruz Montes, com a condição de que o preço do aluguer e o bom tratamento dos prédios será garantido com fiador e principal pagador e dono. Aqui se faz público para quem interessar. Pinhão 30 de junho de 1866

Anúncio de casas para alugar Pinhão, 30 de junho de 1866 Manuscrito sobre papel Arquivo Museu do Douro *

Atual Edifício Sede do Museu do Douro

Fernando Giestas, ESCRITA


Joana Providência, MOVIMENTO

Uma carta traz-nos alguém


Douro, 10 de abril de 2014 Cara, caro Inspirado nesta carta de Eça de Queiroz, gostávamos também de te/lhe perguntar: “o que pensas, em que trabalhas, que preparas, que estudas, em que te fixas...”Porque Se a felicidade não tem história – o pensamento de certo tem-na. Neste ano de 2014 estamos a perguntar o que podem ser cartas da liberdade e da paisagem. Nos dias de hoje, e em especial neste ano em que o 25 de abril faz quarenta anos, como és/é livre e em que lugares? Recebe/receba um selo para a resposta e um abraço fraterno. Obrigado

Texto da carta enviada a vários amigos, pensadores, filósofos, responsáveis políticos e culturais, diretores e programadores de várias instituições, entre os quais, o Secretário de Estado da Cultura a Sua Excelência o Primeiro Ministro, do XIX Governo Constitucional da República Portuguesa, e a Sua Excelência o XIX Presidente da República


resposta ao CORREIO DO PROJETO João Alves, 17 anos Peso da Régua

O que pode ser paisagem? O que pode ser liberdade?


2º Correio do BIOS Cartas 2014 Cartas da paisagem e da liberdade. MODOS DE UTILIZAR Um portão | Uma direção | Um mapa Uma fotografia | Um envelope Aqui ficam algumas sugestões: Reúna o grupo em volta do envelope com o 2º correio do projeto. Abra p.f. o envelope com alguma solenidade ou mistério… o que terá mandado o Bios Cartas 2014? Identifique o que cada um vê. Um portão | Uma direção | Um mapa Um envelope | Uma fotografia. Um portão. Para onde dá? Para onde nos leva? Está aberto, fechado ou entreaberto? Uma direção. Para onde nos manda? Para que direção nos manda esta seta? Qual é a direção que queremos tomar? Podemos mesmo ir? Um mapa. Um mapa serve para quê? Será que posso neste mapa percorrer com o dedo os lugares que gostava de ir? E quais são os lugares que me deixam livres? Existem nos mapas os lugares que me deixam livre? Um envelope. O que pode ter lá dentro? O que posso lá guardar? A que cheira? O que quero pôr lá dentro? A quem o quero mandar? Uma fotografia. O que mostra? O fotógrafo prendeu a paisagem? Tirou-lhe a liberdade? Ou, guardou-a neste papel para a podermos ver todos? Fotografar é prender ou libertar?

E as paisagens são mesmo iguais quando as vemos na fotografia ou mudam quando passeamos por “dentro” delas? Proponha em grupos a criação de uma sequência narrativa para estas imagens. Cada grupo conta, desenha ou escreve uma história. PARA ENVIAR: Peça, p.f., a cada participante que pense, que escolha: Um objeto que lhe faça lembrar a liberdade – (um símbolo pessoal de liberdade) Um objeto que lhe faça lembrar a paisagem – (um símbolo pessoal de paisagem) Pedimos que nos enviem ou nos entreguem estes objetos devidamente identificados para fazerem parte da MOSTRA - BIOS CARTAS 2014 – cartas da liberdade e da paisagem que estará patente de junho a outubro de 2014 no edifício sede do Museu do Douro. Se não for possível a entrega destes objetos pedimos que os recortem de uma revista ou jornal e nos enviem o recorte do Objeto paisagem e do Objeto liberdade. Caro professor ou adulto responsável pelo grupo, contamos também com os seus objetos ou os seus recortes. OBRIGADO!


UM PORTÃO UMA DIREÇÃO UM MAPA UM ENVELOPE UMA FOTOGRAFIA

Coleção de cinco postais enviados aos grupos participantes CORREIO DO PROJETO


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Envelope comercial da Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro, com selo de D. Luís I, endereçado a Joaquim José da Cruz Montes, Pinhão, 1987. Arquivo Museu do Douro *

Atual Edifício sede do Museu do Douro


Carta pedida a isabel rego de barros

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Pensei… Mais um ano, mais um recomeço, mais um desafio: Cartas, liberdade e paisagem com um fio de Bios a unir tudo. Seria mais uma tentativa para perceber que do “quase nada” podemos construir, dançar, pintar, escrever e reescrever os nossos textos! Desta vez, senti mais a “rede” e parti com maior confiança! As cartas dariam para tanta comunicação, tanta brincadeira, tanta invenção. O entranhar-se do que se estranhou começava estranhamente a instalar-se. Talvez os sabores dos Bios já vividos tenham dado esta confiança na “partida”. Durou pouco, esta certeza. Mais uma vez o receio, sempre igual, de não conseguir. De não conseguir conduzir crianças tão pequenas por estas caminhadas tão exigentes. De não conseguir prever a viagem, ainda que guiada por “uma carta”! Pensei…A liberdade parece o mais fácil para o arranque. Atirei: “A liberdade é?”. A primeira frustração surgiu. Os ditos das crianças, as suas perceções e representações ligavam liberdade às coisas boas e às experiências positivas das suas vidas! Mas, só isso? Há mais coisas boas nas suas vidas e contudo…. “a liberdade é a liberdade”! As nossas representações cruzaram-se e desafiaram-se. Percebi que lhes falei pouco de liberdade, que não lhes mostrei como “era grandiosa” na minha, na nossa, vivência cultural. Elas, as crianças só podiam falar do que é essa vivência para elas! Pensei…Desaproveitei o que as cartas me podiam dar: dizermo-nos ou contarmo-nos as coisas que vivemos e que pensamos para as sentirmos, juntos! Depois veio a paisagem e o primeiro pedido: “A minha mãe é uma paisagem…” Logo a seguir veio a certeza de que tinha que desistir quando li no seu espanto: “Porque raio haveria a minha mãe de ser uma paisagem?” E logo me penalizei: “Talvez tenha lido pouca poesia este ano!” Mais uns dias, para retomar o folego e a

seguir novo desafio: “Sabem o que é uma paisagem?”. Claro, diz a Ana Rita, “é uma coisa que nós podemos ver…. Para mim, é ver uma fada a nascer!”. Não faço comentários, mas devo ter mostrado sinais de espanto….ou de ignorância! A Joana reforça: “Até pode ser uma rosa com joaninhas a fazer uma festa!”. Como quem diz: “Duvidas?” ou… “Percebes?” A conversa explodiu. Parei de escrever e desisti de por ordem na conversa! Na verdade, só valeu a pena ter perguntado, para eu ficar a saber: Afinal as paisagens existem algures entre o fora e o dentro de nós, Entre o que temos e nos pertence e o que desejamos alcançar, Entre o que palpamos e vemos e o que imaginamos! Pensei….Desta vez aproveitei o que as cartas me podiam dar: dizermo-nos ou contarmo-nos as coisas que vivemos e que sentimos para pensarmos, juntos! A dúvida de ser capaz de “sacar” o que as crianças pensam sobre o mundo, construindo as suas Bios com singularidade, começou a dissipar-se. A incerteza de ser capaz de as escutar verdadeiramente começou a dar lugar à certeza de que a escuta registada dos seus saberes e pensares faz dos educadores “escritores de cartas” da(s) cultura(s) da(s) infância(s) de hoje. Pensei… O Museu ajudou-nos na rara tarefa que consiste em levar os adultos educadores a ver o mundo “pelos olhos das crianças”, não para se renderem às suas interpretações mas tão simplesmente para compreenderem como as culturas são primordialmente infantis e recapitulam a humanidade. Quando o Gonçalo disse: “Vou gostar muito de aprender a ler e a escrever porque depois já posso escrever as minhas cartas”… Pensei… Estou certa que foi assim no início. Estou certa que cumpri mais um Bios!

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Educadora de infância, JI da Timpeira |

Vila Real


aquário Era uma vez um pintor que tinha um tranquilacom um peixe vermelho. Vivia o peixe até

melha mente acompanhado pela sua cor ver rtir de denque principiou a tornar-se negro a pa da. O nó tro, um nó preto atrás da cor encarna conta de desenvolvia-se alastrando e tomando tor assistia todo o peixe. Por fora do aquário o pin vo peisurpreendido ao aparecimento do no rigado a xe. O problema do artista era que, ob chegar o interromper o quadro onde estava a er da cor vermelho do peixe, não sabia que faz preta que ele agora lhe ensinava. Os elementos do problema tos e constituíam-se na observação dos fac melho, punham-se por esta ordem: peixe, ver tre o pintor – sendo o vermelho o nexo en preto peixe e o quadro através do pintor. O formava a insídia do real e abria um tor. abismo na primitiva fidelidade do pin nça Ao meditar sobre as razões de muda fidelidade, exactamente quando assentava na sua um número o pintor supôs que o peixe, efectuando as uma lei de mágica, mostrava que existia apen s como abrangendo tanto o mundo das coisa ose. o da imaginação. Era a lei da metamorf de o artista Compreendida esta espécie de fidelida pintou um peixe amarelo. Herberto Helder


Como preservar cartas? Do panorama material o que são cartas? Quais os principais agentes ou fatores de degradação? As cartas do ponto de vista material são geralmente constituídas por folhas de papel, de formato variável, onde a celulose é o constituinte principal. Apresentam impressões ou registos escritos a tinta ou até grafite, e num dado momento foram fechadas num envelope, também de papel, selado por uma estampilha postal, adesiva ou fixa. A celulose do papel e o amido dos adesivos são constituintes atrativos para alguns agentes biológicos, que se alimentam e consequentemente degradam estes materiais. Mas existem outros agentes ou fatores de degradação que, de entre os quais, destacamos: a acidez do próprio papel, que varia de acordo com o método usado na sua obtenção; a luz quer natural quer artificial, já que emite radiação nociva enfraquece e acelera o envelhecimento destes materiais; a temperatura e a humidade, cujas flutuações bruscas favorecem o desenvolvimento de pragas e fragilizam os constituintes; os agentes químicos presentes na poluição ambiental, o pó a fuligem e a diversidade de gases, conjugados com oxigénio e água degradam irremediavelmente as cartas. O que podemos fazer para reduzir os efeitos nocivos destes agentes ou fatores de degradação? Primeiro: será importante encontrarmos um espaço para conservarmos as nossas cartas. Um ficheiro metálico com gavetas para capas de suspensão será uma solução recomendável para acondicionar um elevado número de cartas. O envelope e a(s) bolha(s)

devem ser arquivados conjuntamente num fólio de suspensão, de preferência de papel livre de ácidos. Quando se incorpora uma carta num fólio deve-se ter particular cuidado em fechar a aba do envelope para evitar o contacto do adesivo com a ou as folhas da carta. Estas devem ser arquivadas desdobradas de forma a prevenir eventuais ras-

gões, geralmente provocados pelos vincos das folhas, resultantes das sucessivas dobras e desdobras que realizamos de forma automática quando pretendemos ler e guardar uma carta. Recomendamos que a sala onde instalamos o ficheiro metálico seja estável do ponto de vista termohigrométrico,


preferencialmente com índices baixos de temperatura e humidade relativa. Devendo encontrar-se perto dos 20°C, com variação diária de +/- 1°C e numa faixa segura de humidade relativa entre os 55%, com variação diária de +/- 5%. Segundo: as inspeções e limpezas periódicas ao espaço onde instalámos o

zada por técnicos credenciados, devendo optar-se pelo emprego de produtos, mais possível, “amigos do ambiente”. A higienização do espaço é uma tarefa nuclear para a preservação de qualquer bem que nele queiramos preservar, a utilização do aspirador é fundamental para esta tarefa. Varrer o chão levanta poeiras que irão depositar-se sobre os objetos, consequência que catalisará a sua degradação, devendo-se antes optar por um aspirador com filtros hepa de ar, dado que o equipamento remove a sujidade sem transferir poeiras para o ar. Caso seja necessária a lavagem do piso deve-se preferir água com um pouco de detergente neutro (teepol ou bio álcool), aplicados com esfregona ou pano bem torcidos. Por fim manusear as cartas que pretendemos preservar para as gerações futuras, por mais simples que pareça é sempre uma operação delicada, atuar incorretamente poderá causar danos irreversíveis. Estes objetos devem ser manuseados com luvas (na atualidade preferimos as de nitrilo), uma vez que o suor das mãos catalisa a sua degradação.

ficheiro arquivador devem ser realizadas com os propósitos de higienizar e controlar a existência de agentes degradadores biológicos. Caso se verifique a presença de alguns insetos, como os “peixes de prata” ou “carunchos”, desinfestar o espaço será essencial. Esta tarefa deverá ser reali-

Conservador - restaurador do Museu do Douro, Investigador do CITCEM

Carlos Mota


A carta é uma forma de correspondência com carácter público ou privado, que se dirige a uma pessoa singular ou coletiva. Em arquivo, este tipo de documento, é geralmente organizado por correspondência (recebida/expedida). Na organização, é classificada e ordenada respeitando sempre a ordem original utilizada pela instituição que a produziu. Na classificação são agrupadas segundo as suas características comuns e dentro dos grupos são ordenadas (cronologicamente, alfabeticamente, etc.) de forma a estarem acessíveis quando forem solicitadas.

Um arquivo é um lugar onde se guardam documentos criados por instituições ou pessoas, no decorrer de suas atividades. O documento de arquivo pode ser representado de diferentes formas, de acordo com a natureza das informações nele contido. Essa forma é conhecida como espécie documental. São exemplos de espécies documentais, um alvará, uma ata, um atestado, uma CARTA, uma certidão, um contrato, um diploma, entre outros.

Umbelina Silva, Arquivista e Bibliotecária do Museu do Douro


Cerejas José |

Resende

José Joaquim José, Adília Pinto com Artur Matos BIOS em construção


John Berger(1926-), Aqui nos encontramos. Porto: Civilização, 2006, p.100


Uma paisagem que me faça sentir livre A minha paisagem é de sol e mar. Uma ilha paradisíaca com um horizonte pleno onde mar e sol se tocam e amam. Os coqueiros dão uma pincelada verde à paisagem apaziguando o ambiente com a temperança que suas folhas nos oferecem. Pouca gente... o som é de mar beijando a areia, mergulho nas suas águas límpidas e cristalinas afastando de mim todas as energias negativas que o mundo citadino faz questão de impregnar. Volto cansada mas livre... liberta, leio o meu livro sentada na areia com os peixinhos mordiscando os meus pés. O chapéu protege os meus olhos hauridos de tanta beleza e harmonia. Levanto-me silenciosa rumo ao quotidiano da minha vida. Alzira Ribeiro, 65 anos, Universidade Sénior. 07.02.2014

Guia de remessa, J. J. Cruz Montes 16 de dezembro de 1890 Arquivo Museu do Douro


Paisajar – a ação de observar uma paisagem e captar/memorizar as emoções, sensações que esta nos transmite.


MOSTRA Cartas da Paisagem e da Liberdade BIOS – CARTAS. Projeto Anual 2013 e 2014 4 de junho a 31 de outubro de 2014 O serviço educativo, em parceria com os agentes culturais e educativos, com professores e educadores, com crianças, com jovens, com seniores e outros adultos interessados no trabalho em comum, no território da Região Demarcada do Douro implementa o projeto BIOS desde 2011, no âmbito da sua programação EU SOU PAISAGEM. Na sua 3ª edição, o BIOS – Cartas 2013 e 2014 cartas da liberdade e da paisagem age e pensa sobre as relações evidentes e menos evidentes entre os lugares e os seres humanos e não humanos que os habitam e que se influenciam mutuamente. Através da criação de cartas em vários suportes – da carta sonora à carta desenhada, da carta escrita à carta em vídeo, da carta e mapa militar à carta oral, lida em voz alta - procuram-se modos de mais conhecer e viver estes lugares. O projeto BIOS insiste, no seu terceiro ano de vida, em indagar e pesquisar; em recolher e refletir sobre a vida humana e não humana - ou mais que humana - deste território. Nestes anos de 2013 e 2014 a base de trabalho foi e é esta: como comunicar estas relações concretas, físicas, ficcionadas ou virtuais entre as paisagens e as pessoas.


Ao longo de 2013 e 2014, interrogamos e pesquisamos os BIOS deste território. Centramonos num eixo de relação concreto e urgente: Que relações existem entre liberdade e paisagem? Em que lugares nos sentimos livres? E quais são os que nos enclausuram ou nos tiram a liberdade? Que características têm estes diferentes lugares? Onde é que gostamos de correr, de caminhar, de sentar, de parar, de ver e olhar, de contemplar? A MOSTRA do BIOS – CARTAS resulta na apresentação de um ano de trabalho e é um ponto de situação de diferentes práticas, umas com mais estereótipos, outras mais questionadoras e consequentemente, mais problematizantes e indagadoras dos diferentes modos de falar das dinâmicas dos indivíduos com os lugares que habita. A mostra tem 4 tipos de materiais: Grandes Envelopes - seleções realizadas pelos grupos participantes das atividades realizadas que sintetizem o trabalho comum. Fotografias, textos, sons, filmes experimentais, desenhos, sons … + Envelopes com materiais usados nas oficinas do projeto propostos pelos nossos criadores de paisagens e liberdades. Mesa 1 | objetos paisagem - Mesa 2 | objetos liberdade – nestas mesas estão reunidos objetos que foram enviados e gentilmente cedidos pelos participantes. Estes objetos são impressões/reflexões concretas sobre o que é PAISAGEM e o que é LIBERDADE para cada uma destas pessoas.


puderam experimentar diferentes práticas artísticas de criadores de paisagens e de liberdades que trabalham com o serviço educativo: Ana Limpinho, cenógrafa; Inês Vicente, encenadora; Rafaela Santos, atriz e encenadora; Joana Providência, coreógrafa; Fernando Giestas, dramaturgo e jornalista; Rodrigo Malvar, ator e artista sonoro; Sónia Santos, designer e tinturaria natural. Desde 2011 e 2012, partimos no BIOS – Biografias das “Histórias Singulares” de pessoas, coisas, árvores, bichos, pedras para continuar o trabalho de refletir e agir sobre as pessoas e as paisagens destes lugares. Em 2012 e 2013 continuamos à procura das “Pequenas Grandes Coisas” com o BIOS – Segredos procurando mais modos de interrogar o que não é evidente num lugar, numa pessoa, num ser, numa paisagem. Em parceria com a Fundação EDP disseminamos o BIOS por mais concelhos: nos concelhos de Alfandega da Fé, Macedo Cavaleiros, Mogadouro, Torre de Moncorvo, Vila Flor, Mirandela, Murça, Alijó, Carrazeda de Ansiães, Miranda do Douro, incluindo neste último concelho a vila de Sendim, numa parceria que se prolongará ao longo de 2013 a 2016.

Os 815 participantes deste projeto, com idades compreendidas entre os 3 e os 85 anos e concelhos que quiseram aderir a este BIOS, habitantes dos concelhos de ARMAMAR| LAMEGO | PESO DA RÉGUA | SABROSA | VILA REAL contactaram em inúmeras atividades. De setembro de 2013 a junho de 2014

Neste ano de 2014 procuramos as liberdades. E procuramo-las também nas paisagens. No ano em que o 25 de abril comemora os seus quarenta anos, procuramos as liberdades e paisagens. A mostra CARTAS DA LIBERDADE E DA PAISAGEM está patente de 4 de junho a 31 de outubro no edifício sede do Museu do Douro, das 10h às 18h00. Texto da Mostra BIOS 2013 e 2014


PARTICIPANTES ARMAMAR JI Armamar - Maria Edite Ribeiro, Maria Glorinda Rodrigues, Rosália Botelho EB José Manuel Durão Barroso - Alice Sousa, Arminda Cardoso, César Carvalho, Estela Esteves, Isabel Oliveira, Karen Prinsloo, Maria de Fátima Martinho, Zélia Santos, Maria Taciana Almeida, Sofia Teixeira LAMEGO JI Valdigem – Maria de Lurdes Maravilha Centro Escolar Lamego N.º 2 - Isabel Rei PESO DA RÉGUA JI Galafura - Lúcia Oliveira Centro Escolar da Alameda - Céu Ramos, Maria do Céu Marques, Mariana Meireles Centro Escolar das Alagoas - Lígia Ramos Colégio Salesiano de Poiares – Carla Fernandes EB2/3 de Peso da Régua – Helena Ventura, Isabel Aguiar, Lídia Florisa ES/3 Dr. João de Araújo Correia - Artur Matos, Isilda Megre, Nair Santiago Escola Profissional de Desenvolvimento Rural do Rodo – Ana Pimentel, Mariana Alves Santa Casa da Misericórdia de Peso da Régua – Isabel Santos, Maria Fernanda Gomes Universidade Sénior - Cármen Vale SABROSA JI Gouvinhas – Ana Amélia JI Parada de Pinhão - Teresa Pereira JI S. Martinho de Anta - Lurdes Almeida JI Sobrados – Ana Paula Correia JI Souto Maior – Maria João Monteiro Centro Escolar Fernão Magalhães - Ana Fernandes, Maria Conceição de Carvalho, Maria José Bebiano

VILA REAL JI do Bairro S. Vicente Paula - Eugénia Necho JI EB Nº2 Vila Real - Lúcia Gonçalves JI da Escola N.º 6 - Isabel Barros NucliSol Jean Piaget de Vila Real – Isabel Dias, Joana Cardoso BIOS – Ficha artística e técnica: Equipa serviço educativo Museu do Douro: Marisa Adegas, Samuel Guimarães (programa e coordenação), Sara Monteiro, Susana Rosa. Convidados – Escrita – Fernando Giestas | Espaço – Ana Limpinho | Movimento – Joana Providência | Teatro – Inês Vicente, Rafaela Santos | Tinturaria Natural – Sónia Santos Registo de Vídeo: Artur Matos e Serviço Educativo Teaser: Artur Matos e Inês Meireles Publicação do projeto Edição: Marisa Adegas e Samuel Guimarães com Filipe Marado, Maquetagem: Marisa Adegas Montagem da Mostra: Carlos Mota; Filipe Barros, Luís Silva, Carolina Ferreira (estagiários) e equipa do Serviço Educativo.

AGRADECIMENTOS Em primeiro lugar a todas as crianças, jovens e adultos que construíram esta proposta de cartas de paisagem e de liberdade. Às Câmaras Municipais de Armamar, Peso da Régua e Sabrosa pelo apoio nas deslocações e transportes. À Banda de música de Sabrosa, pela cedência das instalações. Ao Carlos e à Umbelina pelas ideias e pelo texto. À Carla Cabral na arquitetura paisagista. A Andreia Guimarães, Fátima Pereira, Marco Aurélio, José Guimarães e Carolina Mano.


Carta que dobrada forma o prĂłprio envelope, dirigida a Henrique da Silva Avellar Casa da Companhia, RĂŠgua Arquivo Museu do Douro


CORRESPONDÊNCIA USADA E RECEBIDA CRSEMD*: João Vicente | Carlos J. Pessoa Artur Matos Pramoedya Ananta Toer Enara Teixeira Nelson Mandela Gisela Miguel Marisa Adegas | Camilo de Araújo Correia João Tomé Inês Vicente | Boris Vian Carlos Mota Bárbara Amaro Andreia Magalhães | Brian Keith ACAD | Arquivo Museu do Douro Samuel Guimarães | Lawrence Durrel

*Correspondência recebida serviço educativo do Museu do Douro


Eles vieram para aqui em festa, na Garagem, morreram tantas vezes, viveram outras tantas! Continuarão a morrer e a nascer, a viver como quem, como quem frequenta o regresso, a recordação, a vibração, o som de um universo antigo, anterior a tudo. Anterior à necessidade de questionar, de saber, de objectivar, de calcular, de responder... Eles frequentam essa porta fechada, que abre por vezes e fecha de seguida, sem conseguirem entrar mas querendo entrar. Entraremos um dia? Ficar à porta, à porta, espera à porta, ser o lado de fora da porta, a maçaneta redonda do lado de fora da porta. Ser tudo o que parece, tudo o que poderia, tudo o que não pode ser, tudo o que incendeia, que escapa, que está para lá da porta. Ainda bem que é assim, ainda bem que não podemos entrar! Se entrássemos não saberíamos nada, assim sabemos tudo sem sabermos nada, sabemos não sabendo, intuímos, apontamos, atiramos, falhamos e acertamos. Vivemos e podemos a certeza de continuar, de continuarmos a tentar entrar para o outro lado. Que há afinal do outro lado? A festa, adolescência omnipotente em que fomos deuses, em que os deuses nos sussurraram ao ouvido: “vem, és um de nós!”, e morremos nesse dia, morremos nesse dia, “vem, és um de nós!”, e contudo os deuses desvaneceram-se, morreram também, para sempre, e a experiência ficou, ficou no ouvido. Fantasmas, ecos, floresta nebulosa, ver tudo e nada ver que as nuvens permitem todas as formas e assim, assim, “vem, és um de nós, vem, vem!”. Ir, regressar, regressar à porta da festa, da festa, da festa onde tudo aconteceu, onde o essencial, aconteceu. A festa, alegria, a heterotopia aconteceu. Rostos, mãos, dedos, cabelos, lábios. Escuro, onde tudo aconteceu, no escuro, de porta fechada.

Excerto da peça Festas de Garagem, texto de Carlos J. Pessoa, 2014, p.50


JosĂŠ Artur Matos


Minha doce filha Yana, Fico muito feliz por saber que gostas de música - mas não, espero, do tipo melado, de qualidade duvidosa. Li já não sei onde que a mulher deve gostar de música, e aquela que não gosta achará a vida insuportável nos momentos em que tiver de enfrentar um grande desgosto. Não estou certo de que isto seja verdade, mas em todo caso estou contente por gostares de música - de boa música, claro. Para poderes apreciar a boa música, deves ouvi-la regularmente. Para começar, sugiro que ouças peças instrumentais. Uma cassete que penso que hás-de gostar é «A Alma Espanhola». Não é música pesada e contém mais de uma dúzia de canções espanholas. Ouve-a com muita atenção. Uma vez habituada a escutar canções, conseguirás cada uma das peças e os respectivos títulos. Dar-te-ei então outras sugestões. Muitos dos homens que aqui estão fabricam os seus próprios instrumentos musicais: violinos, guitarras, violoncelos e até tambores. Na minha nova unidade, em Indrapura , vários deles estudam violino clássico, felizmente não o tipo de música rá-rá que parece ter-se tornado tão popular nos nossos dias e que pode ser boa para ganhar dinheiro, mas que dificilmente terá qualquer valor duradouro. Quantos mais tipos de música conheceres, menos estrangeira te sentirás quando começares a explorar o mundo. É uma pena não teres ainda começado a estudar autodefesa. Se conseguisses dominar essa arte, não terias de ser tão tímida. Dar-te-ia muito mais confiança em ti mesma. Parabéns pelas tuas notas! E a tua caligrafia é tão bonita que dá gosto lê-la. Mesmo assim, fiquei surpreendido ao saber que sai da escola às 12:40 mas só chegas a casa à 1:30! Queres dizer «13:30», não é? És demasiado nova para ficar na rua até à uma e meia manhã. Na realidade, mesmo que estivesses em casa a estudar, não deverias estar a pé depois das dez da noite. Se precisares de estudar passada essa hora, toma dois comprimidos de vitamina B.

MÚSICA, DESPORTOS, AUTODEFESA E UMA HISTÓRIA In “Solidário Mudo”, Pramoedya Ananta Toer, pp. 302-3 texto usado na oficina de TEATRO| Inês Vicente


...A cela é o lugar ideal para nos conhecermos a nós próprios, para aprofundarmos de forma realista e regular os processos da nossa mente e dos nossos sentimentos. Ao avaliarmos a nossa evolução enquanto indivíduos tendemos a concentrar-nos em factores externos como a posição social, o poder de influência e a popularidade, a riqueza e o nível de instrução. Estes são, de facto, factores importantes para a avaliação do sucesso individual no que se refere a aspectos materiais e é perfeitamente compreensível que muitas pessoas se empenham em alcançalas. Existem no entanto factores internos que podem ser ainda mais decisivos na avaliação de uma pessoa enquanto ser humano: a honestidade, a sinceridade, a simplicidade, a humildade, a generosidade, a ausência de vaidade, a disponibilidade para ajudar os outros - qualidades ao alcance de todas as almas - constituem os alicerces da vida espiritual de cada um de nós. A evolução em matérias desta natureza é impensável sem uma introspecção séria, sem nos conhecermos a nós próprios, sem conhecermos as nossas fraquezas e os nossos erros. No mínimo, se não nos der mais nada, a cela proporciona-nos a oportunidade de analisarmos todos os dias a nossa conduta na sua globalidade, de ultrapassarmos o que mau houver em nós e desenvolvermos o que possamos ter de bom. A meditação frequente, nem que seja durante 15 minutos por dia antes de adormecer, pode ser muito proveitosa a este respeito. No início pode parecer-nos difícil identificar os aspectos negativos da nossa vida, mas com perseverança este exercício poderá revelar -se altamente compensador. Não devemos esquecer que um santo é um pecador que não cessa de se esforçar. Excerto de uma carta de Nelson Mandela a Winnie Mandela escrita na prisão de Kroonstad, datada de 1 de fevereiro de 1975 Mandela, N. (2010). Nelson Mandela: Arquivo íntimo. Lisboa: Objectiva, pp. 211-2 texto usado na oficina de TEATRO | Inês Vicente


RÉGUA, 16 JULHO DE 1944… Podemos, finalmente, dizer adeus ao calor. Adeus com um lenço a pingar de suor. Suor de uma testa mil vezes alagada, mil vezes enxuta, os dias todos, as noites todas de um Julho-Agosto cruel… A fama do calor da Régua corre mundo pela boca de quem o sofre, sofreu ou dele ouviu falar. A palavra “Régua” parece querer dizer “calor” no pensamento de toda a gente. Diálogo que se estabeleça, mesmo no Inverno, entre um reguense e um desconhecido, acaba sempre por fazer saltar a palavra “calor”. É fatal… - O senhor é da Régua? - Sou… - Safa!... Ia lá morrendo de calor! Estive lá nas Finanças a substituir um colega, em Agosto… Nunca mais! ………………………………………………………………. - Não me diga que é da Régua?!! - Não nasci lá, mas vivo lá… - Que é como quem diz… morre lá… - ?!? - De calor, é claro! Ouvi dizer que no verão até os pássaros caem das árvores e chegam ao chão já assados!! ………………………………………………………………. - A minha terra é muito linda, só é pena ser tão quente no Verão… - É a Régua? - É… - Eu logo vi! Quando me falam em terras quentes, penso logo na Régua. Bastou uma vez passar lá de comboio para saber como aquilo é. Enquanto estive na estação ouvi dizer que os ferroviários assavam sardinhas no carril… Assisti, há anos, na televisão a uma entrevista feita a um pintor de certa nomeada. A entrevistadora, depois de lhe ter passado o pente fino da curiosidade habitual das entrevistas, perguntou ainda: - Que temas gosta mais de pintar?


- Por mais estranho que pareça, pois sou um homem do interior, os temas que mais me seduzem são os da beira-mar. - É curioso… Então, estou mesmo a vê-lo passar as férias em Torremolinos… Benidorm… - Não!... Não!... Não!... eu se quisesse apanhar calor ia para a Régua! Não há volta a dar-lhe. A Régua nas bocas do mundo é uma ter--ra tropical. Ninguém fala dos seus Invernos de geada e palmo e nevoeiros de cortar à faca ou dos seus Outonos amenos, doces e aromáticos. Ninguém. A meu sentir, quem melhor definiu o calor da Régua foi meu pai, em crónica longínqua, que não pude encontrar, com a pressa de escrever. Disse, mais ou menos assim, o mais claro e penetrante observador da terra duriense: “… há dias na Régua em que as pessoas se olham com ódio, parecendo culpar-se mutuamente do calor que está…” Sempre achei um pouco exagerado o que se diz do calor da Régua, apesar de o sofrer quase todos os anos, estes anos todos. Mas há dias, todos os exageros caíram por terra, ao ler num dos nossos jornais diários uma interessante coluna de curiosidades. Dizia a coluna a certa altura: A temperatura mais alta registada em Portugal foi na Régua, em 16 de Julho de 1944 - 46° centígrados, à sombra. Está visto que a Princesa do Douro tem muito calor escondido na sua história de terra quente. Depois desta notícia de 14 de Julho de 1944, podem dizer o que quiserem do calor da Régua. Não terei coragem, sequer, para dizer, molemente: Não é bem assim… 12.Set.91 Camilo de Araújo Correia, Crónicas do meu vagar. - Régua: Garça Editores, 2005

A. M. Pires Cabral (2008). Douro Leituras II, Antologia de textos sobre o Alto Douro. Peso da Régua: Fundação Museu do Douro, pp 83-5.


Bรกrbara Amaro


Carta enviada por Andreia MagalhĂŁes


Carta dirigida à Diretora da Escola de Gronte Raimonde, Paços de Ferreira 25 de junho de 1991 Dactilografada Arquivo Museu do Douro


Cópia da carta cartográfica nº1 da Villa de Stº António de Arenilha. 1763 Coleção Arquivo da Real Companhia Velha, em depósito no Museu do Douro PT|MD|EMP|RCV| 1.001 Lv.22/62, pp.161-2


Segundo Castoriadis o indivíduo autónomo e a comunidade autónoma só existem juntos. Não se pode ser indivíduo numa sociedade totalitária. Tem de haver uma cooperação mútua entre as duas autonomias.

O perigo dessas autonomias estão na esfera do privado e do indivíduo. Atualmente não se discutem os problemas da sociedade, discutem-se problemas privados do indivíduo.

Há dois valores essenciais um é a SEGURANÇA e outro é a LIBERDADE. Não se consegue ter uma vida digna na ausência de um deles. Segurança sem liberdade é escravidão, liberdade sem segurança é um completo caos.

Zygmunt Bauman, Fronteiras do Pensamento, diálogos com o mundo pós-moderno,2015


Cartas seladas com lacre vermelho, azul e verde Arquivo Museu do Douro


Serviรงo Educativo do Museu do Douro Email: educativo@museudodouro.pt Facebook.com/servicoeducativodomuseudodouro Tel.: 254 310 190 | Fax: 254 310 199 _______ de 250


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BIOS Zine. Cartas da Paisagem e da Liberdade. 2013 e 2014. Serviço Educativo do Museu do Douro  

Que relações existem entre liberdade e paisagem? Em que lugares nos sentimos livres? E quais são os que nos enclausuram ou nos tiram a lib...

BIOS Zine. Cartas da Paisagem e da Liberdade. 2013 e 2014. Serviço Educativo do Museu do Douro  

Que relações existem entre liberdade e paisagem? Em que lugares nos sentimos livres? E quais são os que nos enclausuram ou nos tiram a lib...

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