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As cidades são construídas de histórias, memórias e mistérios, feitas de um estuário de afetos, retóricas, discordâncias, interesses, apegos, datas e festas. Grandes celebrações. São os homens com seus sólidos perfis que constroem e desmancham as cidades todos os dias. A Coleção Pajeú, publicada por meio da Secretaria da Cultura do Município de Fortaleza, é uma proposta editorial que pretende reafirmar o patrimônio material e imaterial dos bairros da nossa cidade, permeada por uma consciência histórica e cidadã. Esta terceira etapa contempla os livros Conjunto Palmeiras, José Walter, Montese, Pirambu, Praia de Iracema e Rodolfo Teófilo. Além de Música de Fortaleza, da Série Fortaleza Plural; e os infantis Teatro São José e Maracatu. Foto da capa Trecho da Praia de Iracema vendo-se ao fundo a Ponte dos Ingleses, também chamada de Ponte Metálica.


Praia de Iracema


Obra realizada com o apoio da Prefeitura Municipal de Fortaleza, por meio da Secretaria Municipal da Cultura de Fortaleza – Secultfor. Prefeito de Fortaleza Roberto Cláudio Rodrigues Bezerra Vice-Prefeito de Fortaleza Gaudêncio Gonçalves de Lucena Secretário Municipal da Cultura de Fortaleza Francisco Geraldo de Magela Lima Filho Secretária-Executiva Paola Braga de Medeiros Assessora de Políticas Culturais Nilde Ferreira Assessor Jurídico Vitor Melo Studart Assessora de Comunicação Paula Neves Coordenadora de Ação Cultural Germana Coelho Vitoriano Coordenadora de Criação e Fomento Rejane Reinaldo

Coordenador de Patrimônio Histórico e Cultural Jober José de Souza Pinto Coordenadora Administrativo-Financeiro Rosanne Bezerra Diretora da Vila das Artes Cláudia Pires da Costa Diretora da Biblioteca Pública Dolor Barreira Herbênia Gurgel Diretor do Teatro São José Pedro Domingues

Secretário da Regional II Cláudio Nelson Araújo Brandão


Roselane Gomes Bezerra

Praia de Iracema


Copyright © 2016, Roselane Gomes Bezerra

Concepção e Coordenação Editorial Gylmar Chaves Projeto Gráfico e Diagramação Khalil Gibran Revisão Milena Bandeira Lívia Leitão Fotos da Capa e Contracapa Rafael Crisóstomo Assessoria Técnica Adson Pinheiro Graça Martins Dados Internacionais de Catalogação na Publicação B 574 p

Bezerra, Roselane Gomes Praia de Iracema/ Roselane Gomes Bezerra. - Fortaleza: Expressão Gráfica e Editora, 2016. 84 p. ISBN: 978-85-420-0801-2 1. Bairros - aspectos sociais 2. Praia de Iracema - Usos e custumes 3. História e memórias 4. Espaço turístico I.Título CDD: 918.1310


Sumário Para começar: narrativas do passado e do presente 9 Os encantos da praia que se tornou de Iracema 15 O mar, um bar e um violão 29 Praia de Iracema by night 43 Desencantos de Iracema 55 Trazer a Praia de Iracema de volta 67 A saideira: o eterno retorno 73 Fontes orais 77 Referências 79


Apresentação Neste ano de 2016, a nossa cidade de Fortaleza completa 290 anos e continua a nos envolver com seu traçado urbano, história de lutas, celebrações e benquerença de nossa gente. Ao editarmos a Coleção Pajeú, que reúne escritores, memorialistas, pesquisadores, fotógrafos, revisores e designers, queremos reafirmar a trajetória histórica da nossa Capital, ao mesmo tempo que anunciamos ao universo dos nossos bairros um itinerário constituído de litoral e sertão, espaços de afetos e de memórias, singularidades e pluralidades que compõem o conjunto de nossas relações enquanto cidade e cidadãos. Nossa Coleção percorre oralidades, referências bibliográficas, travessias, séculos, perfis, datas e festas. Uma escrita fina que, muito bem, pode ser lida sob a brisa forte de nossa terra e a sombra dos palmares, mas, sobretudo, que resgata e eterniza nossos traços e belezas. Parabéns, Fortaleza! Roberto Cláudio Rodrigues Bezerra Prefeito de Fortaleza


Para começar: narrativas do passado e do presente

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importância simbólica do bairro Praia de Iracema para a cidade de Fortaleza foi sendo construída ao longo de todo o século XX. O valor emblemático desse espaço envolve representações referentes ao bucólico ou à boemia, mas há também uma antítese dessas representações, como a ênfase ao “adeus”, relacionada à destruição ou à degradação do bairro. Foi nas primeiras décadas do século XX que o bairro Praia de Iracema passou a ser reconhecido como um lugar bucólico e aprazível da cidade, porém, ao longo desse século, diferentes usos e apropriações foram fortalecendo ou modificando essa imagem e é assim que emergem narrativas que conectam o lugar ao apogeu ou à decadência. As diversas fases da história do bairro abrigam narrativas sobre acontecimentos, lugares e personagens com características relevantes para mapear processos de mudanças, sentimentos e valores do lugar, o que torna a Praia de Iracema um espaço emblemático para pensar a trajetória do crescimento de Fortaleza e também os diversos sentidos de pertencer à cidade. 9


Os novos usos e ocupações do bairro, por sua vez, de forma diversificada, foram gerando narrativas em torno da nostalgia de um tempo passado. Mas foi, especialmente, o avanço do mar, nos anos 1950, e, mais recentemente, a degradação da área costeira, nos anos 1990, que fortaleceram os argumentos da Praia de Iracema como um lugar que ficou na passado. Nesse sentido, falar do bairro Praia de Iracema é identificar narrativas de afetos e saudades e é, também, visualizar conflitos tanto entre o velho e o novo como entre o nós e o outro, visto que, em diferentes fases da história do lugar, fomos colocados frente a quem não é “espelho” e, como bem se sabe, é nesses encontros com o diferente, seja o estrangeiro ou pessoas de outras classes sociais, que são reveladas características do que somos. É nessa relação entre a saudade e o presente, entre o nós e o outro ou entre o “adeus” e a “boemia” que podemos entender um pouco da história desse bairro, em narrativas que envolvem a classificação de usos e apropriações como legítimas ou não para esse espaço da cidade. Como podemos visualizar a seguir, identifiquei algumas fases que narram a trajetória do bairro e também do desenvolvimento da cidade de Fortaleza. Dentre as diversas formas que podemos narrar a história de um bairro, optei por apresentar a Praia de Iracema 10


a partir dessas diferentes fases, que contam a sua trajetória espacial e social, e que, como vamos poder ver ao longo da leitura, são faces complementares de uma mesma realidade. Como uma primeira fase, apresento a história do nascimento oficial e simbólico da Praia de Iracema, que emerge no lugar da antiga Praia de Peixe. Foi nesse período, início do século XX, que esse espaço da cidade consolidou-se como uma praia de veraneio e estação balnear. Após o apogeu, a Praia de Iracema vivenciou o seu primeiro “adeus” nos anos 1950, com o avanço do mar e a destruição das residências à beira-mar. Em uma segunda fase, a partir da década de 1950 até o início dos anos 1990, a Praia de Iracema, mesmo apresentando uma degradação espacial decorrente da destruição causada pelo avanço das marés, torna-se conhecida como o lugar de boêmios, artistas e intelectuais. A partir da década de 1990, esse espaço da cidade vive mais uma ruptura, na qual é apropriado por grandes intervenções por parte do poder público, bem como pela iniciativa privada. Torna-se, então, a “PI”, um lugar “requalificado”, que passou a ser disputado por habitantes da cidade, moradores do bairro, comerciantes e turistas. Segundo relatos de antigos moradores nesse período, iniciou-se um novo momento da boemia da Praia de Iracema, a qual descrevem como “boemia high tech”, “nova boemia” ou “modernização da boemia”. 11


Após esse período de apogeu, novos usos e apropriações vão contribuir para a construção de mais uma nova fase na Praia de Iracema. Nessa, que começa no final dos anos 1990, teve início a degradação dos espaços públicos por falta de manutenção e segurança e o predomínio da ocupação por turistas, identificados pela população local como “gringos”. Nesse período, o bairro passa a ser classificado como um lugar de prostituição. Esse, então, é o momento em que o bairro vivencia um aumento da degradação espacial da área costeira e em que surgem vários estabelecimentos associados à prostituição. Tal fenômeno foi acompanhado de um abandono dos frequentadores habituais que buscavam o lazer nos bares e restaurantes do bairro “requalificado”. Em contramão a esse abandono, surgiram diversas manifestações da população de Fortaleza, especialmente nos meios de comunicação, em defesa do bairro como um lugar tradicional da cidade. Nesse contexto, iniciou-se uma nova fase de requalificação ou “re-requalificação” com a apresentação de diversos projetos de intervenção, como a reforma do calçadão e o início das obras para a construção de um grande equipamento, o Acquário Ceará. É importante ressaltar que o bairro Praia de Iracema está situado entre as ruas João Cordeiro, Monsenhor Tabosa, Almirante Jaceguai, Almirante Tamandaré e avenida Beira-Mar. Esse bairro, um dos menores da cidade 12


de Fortaleza, pertence à Secretaria Executiva Regional II – SER II, e, conforme o Censo Demográfico de 2010, apresenta uma população de 3.130 habitantes. Narrar a trajetória do bairro Praia de Iracema é resgatar memórias afetivas dos melhores anos de algumas gerações de fortalezenses, algumas registradas em canções e poesias inspiradas por esse lugar. Escritores e estudiosos também passaram pela Praia de Iracema e produziram livros e teses que nos ajudam a compreender a história do bairro e da cidade. Nesse sentido, a minha relação com o bairro Praia de Iracema engloba as lembranças de adolescência e, também, as narrações decorrentes da pesquisa etnográfica que realizei, durante dois anos, no bairro e que resultou na minha tese de doutorado e em um livro sobre os processos de “requalificação” e “degradação” desse espaço da cidade. Escrever esse livro para a Coleção Pajeú proporcionou o retorno às minhas memórias, enquanto frequentadora; o retorno ao meu diário de campo, enquanto pesquisadora; e também o reencontro com pessoas que ainda habitam ou trabalham na Praia de Iracema. Retornar ao bairro foi encontrar um lugar que abriga moradores e empresários, os quais viveram as diversas transformações da história recente do bairro, e é também perceber que as suas vivências refletem o sentimento da 13


saudade, sentimento este muito presente, também, em diferentes narrativas da própria cidade de Fortaleza. Mas, como as fases se completam, a percepção de renovação do bairro é também um sentimento constante.

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Os encantos da praia que se tornou de Iracema

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antiga Praia do Peixe, que deu lugar ao nascimento do bairro Praia de Iracema, encontra-se, hoje, registrada em algumas imagens e narrativas que descrevem a Fortaleza antiga, tais como as fotografias do Álbum Vistas do Ceará (1908), do Arquivo Nirez e textos no blogue Fortaleza Nobre. Poucos antigos moradores da cidade ainda lembram das belezas desse encantador espaço, que teve seus usos transformados ainda no início do século XX, mas as memórias documentadas ajudam a preservar os encantos que povoam as narrativas sobre o nascimento desse bairro de Fortaleza. Foi, em decorrência de novos usos e apropriações deste espaço por parte da elite econômica de Fortaleza, no início do século XX, que a Praia do Peixe, até então ocupada por pescadores e também conhecida como Praia Formosa, Porto das Jangadas ou Grauçá, passou a ser reconhecida na cidade como um lugar encantador e bucólico, inclusive, adquirindo a alcunha de Praia dos Amores. Esse espaço da cidade foi também o cenário para o início da prática do banho de mar como medida terapêutica, e mesmo como contemplação e lazer, nos anos 1920. Além disso, foi um lugar de 15


transformação do espaço urbano, por meio da construção de casas alpendradas ou do tipo bangalôs de frente para o mar. Nesse período, a Praia de Iracema foi consolidada como uma praia de veraneio e, também, como uma estação balnear da cidade de Fortaleza. Porém, esses novos usos revelaram, por meio de um movimento apoiado pela imprensa local, a necessidade de transformação da denominação Praia do Peixe. Nesse sentido, a jornalista Adília de Albuquerque projetou a ideia de que fosse erguido, na praia, um monumento à Iracema, em homenagem à heroína do romance de José de Alencar. Então, alguns meios de comunicação passaram a sugerir outra denominação, desqualificando a antiga, como pode ser constatado neste jornal: “Aquella estação balnear, com os seus confortáveis chalets de stylo moderno, requer, por certo, outra denominação menos repulsiva” (O Nordeste, 2 de julho de 1925 apud BEZERRA, 2008). Motivados pela imprensa, os moradores do bairro já haviam encaminhando ao então prefeito de Fortaleza, Godofredo Maciel, um abaixo-assinado para oficializar essa mudança, como pode ser visto neste relato: “Solicitamos que mude a denominação imprópria e vulgar por que é conhecido aquelle encantador trecho de Fortaleza para a de Praia de Iracema” (Revista Ceará Ilustrado, nº. 70, 8 de novembro de 1925 apud BEZERRA, 2009)1. 1 Matérias colhidas a partir da dissertação de Schramm (2001) e do livro de Bezerra (2009).

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Com a nova designação, as ruas ganharam nomes de etnias indígenas como, Tabajaras, Pacajus, Arariús, Potiguaras, Groaíras, Cariris, Tremembés e Guanacés. Em meados dos anos 1920, a Praia de Iracema passa a ser noticiada nos meios de comunicação como um lugar de hábitos e sociabilidades seletos, como sugere este título: “Está chic agora a praia” (Revista Ceará Ilustrado, nº. 70, 8 de novembro de 1925 apud BEZERRA, 2009)2. Esse período coincide com o fim simbólico da belle époque3 em Fortaleza, iniciando uma nova organização espacial da cidade. Ponte (2000) esclarece que, se a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), dizimando populações e devastando cidades, é considerada o marco que decreta o fim da belle époque europeia, os conflitos vividos em Fortaleza entre 1912 e 1914 – com a destruição, a depredação e o incêndios de ícones da modernidade –, comandados pelos coronéis aciolistas juazeirenses contra Franco Rabelo, significaram o início do declínio da belle époque experimentada por nossa capital. Ponte (2000) justifica essa demarcação temporal como o marco do fim da nossa belle époque devido à remodelação da Praça do Ferreira na gestão do prefeito 2 Matérias colhidas a partir da dissertação de Schramm (2001) e do livro de Bezerra (2009). 3 Momento histórico de euforia e despreocupação vivido na Europa do século XIX, mas que chegou a ser importado para outros lugares – inclusive Fortaleza –, caracterizado por grande produção artística, literária, arquitetônica e pelo desenvolvimento tecnológico.

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Godofredo Maciel, em 1925, que alargou as alamedas laterais da praça para facilitar o trânsito, demolindo os quatro cafés afrancesados – Java, Elegante, Iracema e do Comércio – e o jardim 7 de Setembro. Segundo o autor, os cafés e o jardim eram símbolos da modernidade em Fortaleza, marcada pelos ideais de “civilização” e “aformoseamento” da belle époque fortalezense. Ponte (2000) acrescenta que a transformação da Praça do Ferreira, por ser esta o centro da cidade, onde as principais mudanças e novidades ocorriam com maior ressonância, é exemplar para demonstrar, também, que, nos ruidosos e congestionados anos 20, tem início a constituição de uma nova organização do espaço urbano fortalezense, mais pautada pela racionalidade do que pelo embelezamento (PONTE, 2000, p. 186).

É nessa perspectiva de transformação no desenvolvimento urbano que, em 1927, o bairro Praia de Iracema foi ligado ao centro da cidade por meio de um sistema de avenidas. Vale ressaltar que essa expansão da cidade de Fortaleza é assentada numa acentuada segregação socioespacial. Nos anos 40, por exemplo, o número de habitantes de Fortaleza cresceu cerca de 50%4, porém a sua estética

4 Esse acréscimo populacional foi consequência do fluxo migratório campo-cidade e decréscimo das taxas de mortalidade, provavelmente em decorrência de medidas de saúde pública, como a vacinação (GONDIM, 2007).

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urbana foi vinculada à “fuga” das elites para a Aldeota5 devido à presença de uma vizinhança indesejada, ou seja, do proletariado, principalmente no, até então, nobre bairro Jacarecanga. Essa época registra também um grande processo de urbanização, que transformou a aparência da parte nobre da cidade por meio de pavimentação das vias, uso de meios-fios de pedra, nivelamento das calçadas, iluminação elétrica de logradouros públicos, arborização de ruas centrais, difusão de bungalows como forma de moradia, arranha-céus com uso de concreto armado e uma disseminação da estética Art Déco, adotada como símbolo de modernidade, conforme afirma Castro (1988). Nessa época, o bairro Praia de Iracema figurava na cidade como espaço de lazer, de residências e de pescadores. Ao lado das jangadas que ainda restavam, encontravam-se os banhistas, tendo em vista que a prática do banho de mar já havia se consolidado entre os fortalezenses. Para o Sr. Cristiano Câmara, falecido no ano de 2016, aos 81 anos, aquele espaço da cidade estava presente nas suas lembranças de quando ainda era um menino na cidade de Fortaleza. Antigo frequentador da Praia de Iracema em diferentes fases do bairro, o Sr. Cristiano guardava ainda as memórias dos banhos de mar na Praia de Iracema. 5 O bairro Aldeota surge nos anos 30 como uma zona nobre. Como informa Ponte (2005), a designação Aldeota extrapola o sentido de nomeação de área geográfica, reforçando a ideia de um modus vivendi e de status social.

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“A praia de Iracema era uma praia lindíssima, era plana, tanto é que eu alcancei com oito, nove anos a mamãe levando a gente pra tomar banho aqui na praia, cujo nome era praia Formosa, depois passou a ter o nome de praia da Ponte, por causa da Ponte Metálica. O mar... ele morria lá adiante, tinha um estiral (sic) de terra tão grande que a gente jogava futebol na beira da praia.” (Informação verbal)6

No bairro, encontravam-se também os balneários, estabelecimentos com bar, local para troca de roupa, aluguéis de calções de banho e guarda de pertences dos frequentadores, como o famoso Gruta da Praia, localizado na esquina da Rua dos Tabajaras com Tremembés. Outros estabelecimentos que contribuíram para a associação do bairro a um espaço de lazer foram o Praia Clube, o América Jangada Clube e o Hotel Pacajus; existiam também bares e restaurantes, como o Ramón. O novo estilo de vida que estava se consolidando na Praia de Iracema era noticiado na Revista Ceará Ilustrado com muito requinte; eram comuns descrições da ocupação da elite da cidade nesse bairro, o qual começou a abrigar estabelecimentos frequentados por pessoas elegantes.

6 Entrevista realizada com ao Sr. Cristiano Câmara por Roselane Gomes Bezerra em 8 de novembro de 2015.

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Um imóvel deste bairro, que alcançou grande destaque na estética da cidade, foi o Clube dos Americanos ou United States Organization7, instalado, em 1944, na antiga residência de veraneio do comerciante José Magalhães Porto. Situado na rua dos Tabajaras, esse antigo casarão foi, inicialmente, denominado de Vila Morena. Em uma segunda fase do bairro, o casarão tornou-se um restaurante e passou a ser denominado de Estoril. Como veremos a seguir, essa edificação tornou-se um ícone da boemia da Praia de Iracema e foi tombada como Patrimônio Cultural da cidade de Fortaleza pela Prefeitura Municipal em 1992. Hoje, esse antigo casarão é considerado um elemento simbólico do bairro e da cidade de Fortaleza. Vale ressaltar que a construção do casarão é contemporânea da oficialização dessa área da cidade como bairro Praia de Iracema. Foi construído em 1925 como residência de veraneio da família Porto e tornou-se um elemento simbólico nas diferentes fases do bairro. Mas foi durante a Segunda Guerra Mundial que o casarão ganhou um lugar de destaque ao ser arrendado às tropas americanas e transformado em um cassino pelos oficiais, sob a denominação de U.S.O. (United States Organization). Neste período, o clube, de acesso quase exclusivo dos estrangeiros, ganhou visibilidade social, conferindo uma fase de glamour para o bairro Praia de Iracema, e abrigou festas 7 Edificação atualmente conhecida como Estoril.

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patrocinadas pelo governo americano, com danças, jogos e shows de célebres artistas do cinema, como a famosa Heddy Lamar. São comuns narrativas de que esse clube tornouse um atrativo para as moças, que se dirigiam ao local para namorar os oficiais americanos, ficando conhecidas na cidade como coca-colas, referência ao refrigerante que ainda não era consumido em Fortaleza. Relatos de antigos moradores da cidade afirmam que a alcunha de coca-cola era uma forma pejorativa que os rapazes da cidade, enciumados, utilizavam para identificar as moças da sociedade que frequentavam o Clube dos Americanos. Segundo conta Raimundo de Menezes (2000), José Magalhães Porto, além de representante comercial do industrial Delmiro Gouveia, correspondente no Nordeste da empresa britânica Rossbach Brazil Company, empresa instalada na Praia de Iracema, teve relevante contribuição na construção de uma personagem simbólica da história da capital cearense, o bode Ioiô. Trazido a Fortaleza, em 1915, por retirantes sertanejos, esse animal foi adquirido e mantido por José de Magalhães Porto. São comuns narrativas que descrevem o cotidiano do bode, que bebia cachaça e tinha preferência pelas moças, como sendo um amigo dos boêmios e escritores de Fortaleza. Há muitas informações sobre o bode Ioiô em 22


livros de memorialistas cearenses, como Otacílio de Azevedo, Raimundo Girão e Raimundo Menezes. O bode – que virou símbolo da cidade, tornandose, posteriormente, tema de documentários, histórias de cordel e livros infantis – passeava entre os cafés da Praça do Ferreira e, ao entardecer, dirigia-se à Praia de Iracema para pernoitar. Foi devido à repetição diária desse mesmo trajeto, entre a Praça do Ferreira e a Praia de Iracema, que o bode recebeu o nome de “Ioiô”. Um fato inusitado que consta nas páginas de nossa história é que, por conta da popularidade do bode Ioiô, a população, como um sinal de protesto e revolta pelos desmandos e corrupções exercidos pelos políticos da época, nas eleições de 1922, votou no animal e o elegeu simbolicamente como vereador da cidade de Fortaleza. O certo é que o bode tornou-se conhecido e querido por todos e faz parte da história da Praia de Iracema e da cidade de Fortaleza. Vale ressaltar que as histórias em torno desse personagem ajudam a construir a imagem do Ceará Moleque8. Nos anos 1940, foram comuns, em Fortaleza, as lutas sociais e a repressão. E um outro acontecimento importante 8 Designação que faz referência ao caráter irreverente e brincante atribuído, pelo senso comum, ao povo cearense.

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na trajetória do bairro Praia de Iracema diz respeito ao episódio da saga dos pescadores Jacaré, Tatá, Manuel Preto e Jerônimo. Eles viajaram, em 1941, durante 61 dias, de Fortaleza ao Rio de Janeiro, numa jangada, levando manifestações trabalhistas ao então presidente, Getúlio Vargas. No ano seguinte, 1942, Orson Welles veio ao Brasil para as filmagens do longa It’s all true (Isso é tudo verdade), que, além de retratar o carnaval carioca, descreveu também a aventura dos heróis cearenses. Jacaré, um dos personagens da saga, presidia a colônia de pescadores da Praia de Iracema e era um líder que se alfabetizou já adulto e fazia denúncias sobre a precariedade no setor da pesca. Na segunda metade dos anos 1940, um desastre ambiental provocou fortes transformações na Praia de Iracema. Transformações estas que provocaram consequências sociais, econômicas e também simbólicas para toda a cidade. A construção do porto do Mucuripe, no litoral leste da cidade, distante cerca de seis quilômetros da Praia de Iracema, provocou o avanço do mar, o que, por sua vez, causou danos irreparáveis à, então, nobre Praia de Iracema. O status de “nobreza” desse espaço da cidade, que valorizou os terrenos à beira-mar, já estava consolidado em Fortaleza graças às sociabilidades que foram sendo construídas a partir dos anos 1920, como a presença da elite da cidade na praia para a prática de lazer, e, também, nas habitações construídas à beira-mar. 24


No entanto, decorrente da construção do novo porto na praia do Mucuripe, a Praia de Iracema começou a apresentar outra configuração espacial em virtude do avanço do mar. A erosão, causada pelo avanço das marés, suscitou uma alteração no movimento das correntes marítimas, acarretando uma significativa diminuição da faixa de praia e o desmoronamento dos bangalôs construídos de frente para o mar. As imagens dos destroços das edificações e as matérias jornalísticas noticiando este acontecimento contribuíram para dar visibilidade ao “fim” da Praia de Iracema enquanto um lugar nobre e de destaque para a estética da cidade, como pode ser lido nas matérias abaixo: Encantos da velha Praia do Peixe são cousas do passado. (Jornal O Povo, 6 de abril de 1946 apud BEZERRA, 2008, p. 39) Nestes próximos dias, a maré investirá com grande violência, vindo a atingir, talvez, os ricos ‘bungalows’ da nossa aristocrática praia. Destacam-se entre os prédios mais visados pela fúria do mar os de propriedade da família João Gentil, do Sr. José Porto, a antiga sede da United States Organization (U.S.O) e o do antigo ‘Ideal Clube’(...). O fato é que estamos mais uma vez diante de uma situação difícil, pois se a maré próxima for impetuosa, assistiremos à eliminação 25


dos ‘bungalows’, com prejuízos para a própria estética da cidade (Jornal O Povo, 27 de abril de 1946 apud BEZERRA, 2008, p. 40).9

Em decorrência da destruição de parte do casario e da redução da faixa de praia, bastante noticiada nos meios de comunicação, houve algumas mudanças nos usos, apropriações e representações daquele espaço. Não havendo mais banhistas, os balneários entraram em decadência. Os pescadores que ainda ocupavam esse espaço migraram para outras praias. Além de destruir as casas, o mar também devastou a praia, que fora cenário de passeios à beira-mar e já estava consolidado como um lugar de lazer da cidade. Com base no que nos afirma Jucá (2003), o avanço das marés passou a impor restrições ao trânsito nas ruas próximas à praia. Segundo notícias dos jornais da época, publicadas em estudos sobre a cidade de Fortaleza em meados do século XX, cerca de duzentos metros de extensão da praia foram atingidos pelas águas do mar. As marés chegaram a alcançar os trilhos dos bondes, avançando até as casas localizadas no outro lado da rua. Nesse período, o Hotel Pacajus foi perdendo clientela devido à ameaça de desabamento. Com o avanço das marés, muitas casas foram destruídas. 9 Matérias jornalísticas colhidas a partir da dissertação de Schramm (2001).

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A representação do fim da praia foi eternizada em canção do cantor e compositor Luiz Assumpção intitulada “Adeus Praia de Iracema”, que se popularizou no carnaval de 1954. O fim anunciado nesta canção arroga um sentimento de perda para a cidade, por meio das palavras adeus, saudades, passou e fracasso. A canção reproduz também a visibilidade de usos no bairro associados ao idílico, como a descrição de casais apaixonados que entre beijos e abraços trocavam juras de amor. Adeus, adeus Só o nome ficou Adeus, Praia de Iracema Praia dos Amores que o mar carregou Quando a lua te procura Também sente saudades Do tempo que passou De um casal apaixonado Entre beijos e abraços Que tanta coisa jurou Mas a causa do fracasso Foi o mar enciumado Que da praia se vingou (ASSUMPÇÃO, 1954)

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O mar, um bar e um violão

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omo consequência do avanço das marés, que causou a destruição de bangalôs e diminuiu a faixa de praia, o bairro Paria de Iracema foi adquirindo outra configuração. Os “paredões” de pedras, que foram construídos para diminuir o impacto do avanço do mar, transformaram a praia em piscinas naturais. Com essa nova configuração da praia, outras sociabilidades em torno do lazer e do banho de mar foram se consolidando no bairro. Porém, a partir dessa época, já não seria mais a elite econômica da cidade a usufruir dos banhos de mar nas “piscininhas”, como foram carinhosamente apelidadas pela população. A praia começou a ser frequentada por pessoas de diferentes bairros e de diferentes classes sociais, visto que o banho de mar já havia se popularizado como uma opção de lazer. Outra característica dessa nova configuração da Praia de Iracema, que contribuiu para a associação do bairro à boemia, foi a presença de diversos bares e restaurantes, que, desde os anos 1950, já faziam parte das sociabilidades no bairro. 29


Vale a pena ressaltar que o primeiro edifício construído na Praia de Iracema, o qual também contribuiu para a imagem do bairro como um lugar boêmio, foi o Iracema Plaza Hotel, inaugurado em 1951. Esse edifício, cuja arquitetura assemelha-se à forma de um navio, foi construído pelo empresário Pedro Philomeno Gomes10 e ficou conhecido, nos anos 1950, como “Copacabana Palace”, e, além de um hotel, abrigou também um restaurante, o Panela. Esse restaurante, por sua vez, que pertencia ao conhecido colunista social Lúcio Brasileiro, era frequentado pela elite econômica da cidade. A edificação, hoje conhecida como Edifício São Pedro, ainda resiste no bairro, estando quase em ruínas. Nessa mesma década de 1950, foi inaugurado o restaurante Lido, que permaneceu no bairro até os anos 1970. Esse local também reunia a elite fortalezense e ficou afamado como um local de vida boêmia. Nessa período, a Praia de Iracema também abrigava clubes como o Jangada Clube – que se localizava defronte à atual escultura Iracema Guardiã –, o Praia Clube e o Gruta Praia. Alguns novos bares também foram surgindo nas ruas de toponímia indígena, em meio às residências, como o Tonny’s Bar, o El Dourado, o Nick Bar e o Jangadeiro.

10 Ao empresário, atribui-se, ainda, a responsabilidade pelo Lord Hotel, tradicional hotel do centro da cidade. Pedro Philomeno também investiu em atividades nos ramos de usinas de algodão, têxtil, imobiliário e da industrialização do caju.

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Nessa época, o bairro Aldeota já havia se consolidado como o novo bairro nobre da cidade, seus terrenos já estavam muito valorizados. As famílias de classe alta que habitavam antigos bairros, como Jacarecanga, Benfica e também a Praia de Iracema, haviam se mudado para lá. O Restaurante Estoril, que começou a funcionar em 1948 na antiga residência da família Porto, onde funcionara também o cassino dos americanos, tornou-se um espaço que atraía os boêmios seresteiros da cidade11. Durante alguns anos, esse restaurante congregou pessoas identificadas com o meio artístico e a intelectualidade boêmia. Tal período é descrito no livro Estoril, de Luciano Maia, com muita nostalgia: [...] o Estoril era principalmente visitado por gente que lá ia [...] para um longo sarau: pandeiros, violões, cavacos e bandolins. Por esse tempo a turma jovem não havia descoberto o lugar. Os donos da noite do Estoril eram cobras criadas, músicos e poetas maduros (MAIA, 1995, p. 25).

Um outro local afetivo nas memórias dos antigos frequentadores da Praia de Iracema é a Ponte dos Ingleses, conhecida como “Ponte Metálica”. Essa ponte teve a sua construção iniciada em 1920 por engenheiros da empresa 11 Algumas informações sobre a fase boêmia da Praia de Iracema podem ser consultadas na dissertação de Schramm (2001) e no livro de Bezerra (2009).

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inglesa Norton Griftts, daí a denominação Ponte dos Ingleses. Seu objetivo era suprir as necessidades da demanda de desembarque da Ponte da Alfândega, nomeada à época como Ponte Metálica. Entretanto, como a obra ficou inacabada devido à construção do Porto do Mucuripe, esse espaço sempre foi utilizado para atividades lúdicas, como passeios e pescarias. Nos anos 1970, 1980 e até o início da década de 1990 a sua ocupação foi intensificada também por jovens universitários para contemplação do pôr do sol, encontros, rodas de conversa, rodas de violão e apreciação da paisagem. Alguns antigos frequentadores utilizam expressões como: “Uma ponte para o céu” ou “Uma ponte que leva ao pôr do sol” para designar os usos naquele espaço do bairro. Instalado em 1985, o Cais Bar foi um outro lugar do bairro Praia de Iracema que se transformou em um dos referenciais da boemia. São comuns narrativas afetivas de antigos frequentadores que descrevem o bar como um local onde se reuniam intelectuais, artistas, jornalistas, entre outros profissionais liberais da cidade. Essa associação com a boemia está presente em relatos como o dessa matéria: [...] Ao som de um dos mais ricos ‘cardápios’ musicais, regido pelo sensível ‘Barry White’ (que sempre solta a música que a gente quer ouvir), pelas mesas do Cais já ancoraram pessoas como Luís Carlos Prestes, Lula, Roberto Freire, Luís Melodia, Djavan... (JAGUARIBE, 1991). 32


Conforme Leitão (2000), em meados dos anos 1980, foi fundada, na rua Pacajus, a Casa do Mincharia, que era um bar e restaurante de acesso restrito aos sócios. Esse estabelecimento foi idealizado por amigos do Sr. Antonio Aurilo Gurgel Nepomuceno, conhecido por Mincharia, que era comerciante bem-sucedido e também um frequentador do universo boêmio da Praia de Iracema. Após o seu falecimento, em 1985, a Casa do Mincharia foi fundada como uma homenagem que os seus amigos prestaram ao boêmio. Este espaço era uma sociedade privada, contando com, inicialmente, 86 sócios. Após a urbanização do calçadão, nos anos 1990, o largo defronte a essa associação passou a denominar-se Largo do Mincharia. Nesse contexto, de constantes inaugurações de novos bares e restaurantes, a representação da boemia expandiu-se para além das paredes do antigo Estoril e do Cais Bar e, no início dos anos 1990, narrativas de antigos frequentadores informam que, ao darem uma volta pela Praia de Iracema, os “novos boêmios” tinham como opção diversos bares e restaurantes. Também tenho memórias afetivas desse período, e, além do Cais Bar, frequentei muitos desses novos estabelecimentos da Praia de Iracema, como o La Trattoria, o Pontal de Iracema, o Deck Bar e o El Paredon12, situados à beira12 Vale lembrar que esse estabelecimento estava instalado em um casarão abandonado, quase em ruínas.

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-mar. Haviam outros estabelecimentos nas ruas adjacentes do bairro, como o restaurante La Belle Époque, na Rua dos Tremembés; o Hawai Drinks Bar; o AP-134; e o Kabaré da Pi Rita, na Rua dos Potiguaras. Na Rua dos Tabajaras, além do Estoril, havia o restaurante Gettys, um dos mais sofisticados, e o Pirata Bar, que existe no bairro desde 1986. Nesse período, mesmo com um ar decadente nos espaços públicos, como o resultado da degradação espacial na parte costeira do bairro, e abrigando algumas ruínas ainda decorrentes do avanço do mar, o bairro Praia de Iracema era um ícone da boemia da cidade. Frequentado especialmente por pessoas intelectualizadas, como artistas, políticos de esquerda e jovens universitários. Esse “pedaço” da cidade figurou durante décadas como uma espécie de refúgio em meio ao duro período da ditadura militar, implantada no país até meados dos anos 1980. Outro dado importante para situar a Praia de Iracema no contexto de lazer da cidade é o fato de que, a partir da década de 1980, a cidade de Fortaleza vivenciou uma transformação nos espaços relacionados ao lazer. Nesse período, o centro da cidade começou a ser abandonado pelas camadas da sociedade que buscavam, nele, lazer, cultura e serviços administrativos. Aos poucos, o centro tornou-se uma área tipicamente comercial e algumas praças tornaram-se terminais de ônibus. Os cinemas, que eram um atrativo para o centro, começaram a encerrar suas atividades. 34


Novos cinemas foram se instalando nos shoppings centers, enquanto elementos de modernização da cidade. A letra da música “Longarinas”, do cantor e compositor Ednardo, gravada no disco Berro, em 1976, já narrava, com a nostalgia do ritmo de um maracatu13, as transformações na cidade de Fortaleza e, de certa forma, antevia os novos usos e apropriações na Praia de Iracema. Na perspectiva do olhar de quem retornava para a cidade, as longarinas da velha ponte metálica foram descritas nessa canção como algo que ainda resistia em uma cidade que se modernizava, especialmente destruindo edificações antigas para dar lugar a novas apropriações, como o antigo Castelo do Plácido14, que daria lugar a um supermercado que, assim como as longarinas, também está descrito na canção. Faz muito tempo que eu não vejo O verde daquele mar quebrar Nas longarinas da ponte velha Que ainda não caiu Faz muito tempo 13 O maracatu é uma espécie de cortejo de origem afro-brasileira, em que umas pessoas, representando personagens históricas, como rei, rainha, embaixadores, ministros, vassalos, escravos e cortesãos, bailam ao som de percussão. 14 A edificação conhecida como Castelo do Plácido, situada na avenida Santos Dumont, foi derrubado em 1973 para a construção de um supermercado, mas este não foi concretizado. Hoje, o local abriga a praça Luiza Távora, onde funciona o Centro de Artesanato Luiza Távora, espaço conhecido também como praça da CEART.

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Que eu não vejo O branco da espuma espirrar Naquelas pedras com a sua eterna Briga com o mar Uma a uma, coisas vão sumindo Uma a uma, se desmilinguindo Só eu e a ponte velha teimam resistindo E a nova jangada de vela Pintada de verde e encarnado Só meu mote não muda a moda não muda nada... E o mar engolindo lindo, Antiga Praia de Iracema E os olhos verdes da menina Lendo o meu mais novo poema E a lua viu desconfiada A noiva do sol com mais Um supermercado Era uma vez meu castelo Entre mangueiras E jasmins florados E o mar engolindo lindo, E o mal engolindo rindo. Beira-mar, beira-mar. Êeee, maninha, Arma aquela rede branca Que eu tô chegando agora (EDNARDO, 1976). 36


Uma matéria do jornal O Povo, de 1991, descreve com detalhes tanto os novos usos relacionados à boemia, vividos no bairro até o início dos anos 1990, como, especialmente, a configuração do bairro em torno do lazer mais vernáculo, antes dos grandes projetos de requalificação:

Pelas ruas e becos de denominação indígena (Pacajus, Guanacés, Cariris, Tremembés, Potiguaras, Cariús), espíritos trôpegos de maresia, boêmios redivivos, criaturas amantes da noite vagam para um reencontro com os seus – e as suas. De tudo há para todo querer: barzinho, restaurante, buffet, chá, pizzaria, churrascaria, forró, jazz, cachaça, importados, lagosta, tucunaré, cabaré. Muita lembrança e indiferença; teoria e pilhação [sic] pelo meio ambiente; e à flor da pele, muita rima (MATOS, 1991).

Contemporâneo ao surgimento do Cais Bar, um outro estabelecimento, que também faz parte da história mais recente do bairro Praia de Iracema como um lugar de lazer, foi o então restaurante Pirata, fundado em novembro de 1986 pelo português Júlio Trindade. Segundo o depoimento de Júlio Trindade – a partir de uma entrevista que realizei, no ano de 2005, para a minha tese de doutorado –, nos anos 1980, o bairro Praia de Iracema encontrava-se em decadência, tendo sido o empresário, inclusive, 37


desaconselhado a abrir um estabelecimento nesse bairro, por ser reduto de “ladrões, maconheiros e petistas”. Contudo, vislumbrando um potencial no local, ele inaugurou o restaurante e, após alguns meses de funcionamento, passou a funcionar também um bar: o Bar e Restô Pirata. O objetivo desse estabelecimento era oferecer um espaço cultural frequentado por um público já tradicional do bairro, ou seja, profissionais liberais, artistas, intelectuais e políticos, pessoas identificadas com a imagem de boemia do bairro. A partir de 1987, esse estabelecimento passou a proporcionar outras opções de entretenimento, como um forró às segundas-feiras. Segundo relato do Sr. Júlio Trindade, o forró começou por acaso: “Uma senhora ‘da sociedade’ de Fortaleza escolheu o Pirata como local para comemorar o seu aniversário, numa segunda-feira, dia praticamente morto em termos de diversão noturna, na cidade. Então contratei um casal de palhaços holandeses, que estavam por aqui, para animar a festa, que era exclusivamente de mulheres. Depois que elas beberam ficaram mais animadas e quiseram dançar. Como não havia quase ninguém, chamei os garçons e cozinheiros e fomos dançar forró com elas. A animação chamou atenção de pessoas que 38


por ali passavam e se incorporaram. Na segundafeira seguinte, várias pessoas voltaram à procura do forró. E assim nasceu a tradição dos forrós às segundas-feiras” (Informação verbal)15.

Além do forró pé-de-serra16, o Pirata passou por diversas fases, abrigando diferentes eventos, como shows de MPB, lançamentos de livros, exposições de artistas plásticos, festivais de humor e de música brega. O Pirata também foi palco de festas para lançamentos de candidaturas de vereadores e prefeitos, como o forró dos “prefeiturados”, que aconteceu no ano de 1987. Outra atração nessa época era a famosa “grade do Pirata”, que consistia em assistir aos shows do estabelecimento por uma grade de ferro que separava o estabelecimento da praia, mas que permitia uma visão dos shows e demais eventos. Esse espaço era ocupado por uma grande quantidade de jovens da minha geração, que se reuniam para se divertir gratuitamente. No final da década de 1980, o forró do Pirata, assim como o Cais Bar e vários outros bares e restaurantes instalados no bairro, contribuiu para despertar, por parte do poder público, uma necessidade de “oficializar” esse espaço da cidade em um lugar de lazer e turismo. Foi, a partir 15 Entrevista realizada com o Sr. Júlio Trindade por Roselane Gomes Bezerra em 10 de maio de 2005. 16 Denominação dada ao forró que é tocado com sanfona, zabumba e triângulo.

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do início dos anos 1990, que a Praia de Iracema começou a ter o seu espaço público urbanizado. Com as intervenções do poder público, emergiu, na antiga Praia de Iracema, novos usos e apropriações que transformaram a tradicional boemia em uma espécie de mercadoria. Fato que passou a justificar diferentes projetos de requalificação por parte do poder público e, também, investimentos por parte da iniciativa privada, que se aproveitava da “vocação natural para o lazer” que esse espaço da cidade proporcionava. É importante lembrar que essa transformação do bairro em um lugar de lazer noturno, que se intensificou nos anos 1980, foi acompanhada por muitos conflitos entre moradores e comerciantes no que diz respeito à poluição sonora. Perante o processo de mudanças nos usos e ocupações na Praia de Iracema, em junho de 1991, o então prefeito de Fortaleza, Juraci Magalhães, juntamente com o arquiteto Paulo Simões, apresentou para os moradores e comerciantes do bairro um projeto de urbanização da parte costeira. O projeto previa a construção de um calçadão – que teria início no Poço da Draga17, terminando próximo ao antigo Hotel Iracema Plaza. O projeto de urbanização foi recebido com preocupação por parte de alguns moradores. 17 O Poço da Draga, conhecido pelos moradores da Praia de Iracema como “Favela do Baixa Pau”, é uma comunidade com cerca de 291 famílias que se localiza no final da rua dos Tabajaras.

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Em uma matéria vinculada ao jornal O Povo, em 9 de junho de 1991, o Dr. Hélio Rôla, que, nessa época, ainda residia no bairro, argumentou que a urbanização do calçadão traria impactos ambientais e também de natureza humana. O antigo morador temia que o calçadão proposto pela Prefeitura de Fortaleza se transformasse num imenso “camelódromo”. Como pode ser lido na matéria: “Nós precisamos vincular a apreciação do projeto à poluição sonora, ao trânsito indisciplinado e ao cumprimento de Código de Obras e Posturas do Município” (Jornal O Povo, 9 de junho de 1991 apud BEZERRA, 2008). Porém, independentemente das preocupações de alguns moradores, em 1994, o calçadão foi inaugurado. Este, diferente do projeto original, iniciava-se na Ponte Metálica, distante cerca de 500 metros da comunidade do Poço da Draga, e terminava em um largo denominado Luiz Assumpção, em homenagem ao compositor da canção “Adeus, Praia de Iracema”. Não foi instalada a Fundação Cultural de Fortaleza, como havia previsto o projeto de urbanização na parte costeira do bairro. Para finalizar essa fase da Praia de Iracema boêmia, apresento, a seguir, um discurso do então prefeito de Fortaleza, Juraci Magalhães, no ano de 1993. O nosso alcaide chamava a atenção, no seu discurso, para a importância da primeira intervenção, por parte do poder público, na Praia de Iracema. Com um texto intitulado “Felicidade que 41


ficou...”, o prefeito enfatizava a boemia enquanto símbolo de valorização da Praia de Iracema, tornando-a referência para uma nova representação desse bairro, que ressurgia como cartão-postal da cidade. “Transformar a cidade em um verdadeiro e íntegro ‘cenário de encontro’. Isto só seria possível se a grande preocupação fosse no sentido não só de resgatar a história da cidade, mas também de cultivar a poesia de sua cultura e revitalizar a antropologia da saudade (...). O importante é que a Praia de Iracema está aí como um cartão-postal, como uma recordação viva, um pedaço da história, como um poema de amor, para a felicidade de seus moradores e admiração dos olhos de todas as cores que a olham como um recanto mágico de beleza e como a concretização de uma decisão política fundamentada na humanização e na cidadania. O retorno da “praia dos amores que o mar carregou”, no fundo do meu coração, me envaidece e me desperta profundamente a saudade que, no dizer do poeta Manuel Bandeira: ‘é um bem maior que a felicidade porque é a felicidade que ficou” (Discurso do prefeito Juraci Magalhães apud BEZERRA, 2009).

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Praia de Iracema by night

C

om a construção do calçadão, outras formas de usos e apropriações foram surgindo no bairro. O espaço de arquitetura vernácula, constituído por construções antigas, algumas em ruínas, sem iluminação pública ou pavimentação e banhado pelas águas da praia, transformou-se em um território de lazer urbanizado, tornando-se ,também, um lugar com um grande potencial para investimentos privados relacionados ao lazer e ao turismo. Nesse contexto, foram surgindo conflitos entre moradores, antigos frequentadores e os novos usos que estavam se manifestando no bairro. Segundo um antigo morador, entrevistado quando realizei a minha pesquisa de doutorado, a Praia de Iracema tornou-se, nos anos 1990, “um canteiro de obras”, parecia existir uma disputa administrativa entre o prefeito e o governador: “O prefeito constrói o calçadão, aí o Ciro (governador) faz a reforma da ponte, o prefeito faz uma coisa, aí o Ciro faz outra coisa, então a Praia de Iracema passa a ser o alvo de todas as ações, parecia que o 43


Estado do Ceará era a Praia de Iracema. Ela era a vitrine, havia se transformado num canteiro de obras” (Infomação verbal)18.

Um outro problema apontado pelos antigos moradores foi a liberação de alvarás para comércios sem nenhuma restrição, desencadeando um processo de monofuncionalidade no bairro. Ou seja, a Praia de Iracema, que antes era um bairro onde havia uma convivência entre residências e comércios, tornou-se um lugar que abrigava, predominantemente, bares e restaurantes. A partir desses novos usos, os problemas relacionados à poluição sonora foram se agravando ao ponto de expulsar muitos dos antigos moradores. Olhando hoje para o passado recente do bairro, percebemos que existiu um processo de urbanização, mas faltou um planejamento adequado, uma proposta oficial para as novas apropriações daquele espaço. Faltou, especialmente, a participação da população nos processos de intervenção e também de especialistas em planejamento urbano. Membros da antiga Associação de Moradores da Praia de Iracema – AMPI, fundada em 1984, ainda hoje lamentam uma falta de discussão com os moradores no período de grandes intervenções nesse bairro. 18 Entrevista realizada com morador da Praia de Iracema por Roselane Gomes Bezerra em 19 de maio de 2005.

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Segundo Hélio Rôla, professor universitário, artista plástico, antigo morador da Praia de Iracema e membro dessa associação, existiu, ainda nos anos 1980, um grande movimento pela preservação do bairro, com adesão de artistas e intelectuais. Nesse sentido, o objetivo da AMPI era o ordenamento da ocupação do solo: “a luta era contra a especulação imobiliária [...], era preservar aqui e agora; a nossa luta era ecológica, era sobre o uso e ocupação do solo, o zoneamento e as leis”19. A preocupação com as novas apropriações e os usos do bairro intensificaram-se nos anos 1990, mas vale ressaltar que o movimento de moradores, que já anteviam as transformações no bairro, teve início na década anterior. Além da especulação imobiliária, os moradores já travaram lutas intensas e protestos contra a poluição sonora que vinha se intensificando no bairro desde o final dos anos 1980. A narrativa do professor universitário Ismael Pordeus, antigo morador e, ainda hoje, residente no bairro, descreve com clareza esse processo de transformação da Praia de Iracema “boêmia” para um “lugar turístico”: Havia uma imagem da Praia de Iracema que estava na música que o “mar carregou”. Em períodos anteriores, aqui tinha o bar do Tony, ali teve o Panela, do colunista Lúcio Brasileiro, mas isso há muito 19 Entrevista realizada com Hélio Rôla por Roselane Gomes Bezerra em 27 de julho de 2005.

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tempo. Aí teve toda a decadência, a decadência gostosíssima, eu peguei essa parte bucólica que era a decadência (…) então, puxado por uma figura de proa que foi o restaurante da Sandra Gentil que ela puxou a society de Fortaleza para olhar para a Praia de Iracema. Depois veio o Júlio Pirata que pirateou tudo, ele veio de roldão, é um empresário muito dinâmico e deu uma vida noturna e claro que foram surgindo outros bares e chegou ao ponto que ficou intolerável para os moradores (Informação verbal)20.

As narrativas dos meus entrevistados, durante minha pesquisa em 2005, apontam para alguns indicadores que contribuíram para profundas transformações no bairro. Bares, restaurantes e casas de show, como o Cais Bar, o restaurante da Sandra Gentil e o Pirata são referências para o aumento de frequentadores no bairro. Além desses ícones das transformações nos usos do bairro, a construção do calçadão veio consolidar a imagem da Praia de Iracema como um lugar de lazer noturno e, também, agravar a convivência entre bares, restaurantes e residências em um espaço restrito do bairro, especialmente, na Rua dos Tabajaras e o seu entorno. Outra intervenção que acompanhou e contribuiu para esse processo de transformação do bairro em um lugar 20 Entrevista realizada com Ismael Pordeus por Roselane Gomes Bezerra em 10 de março de 2006.

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de turismo e lazer foi a reforma da Ponte dos Ingleses, ou Ponte Metálica, como é popularmente conhecida, inaugurada em 1994. Na ponte, foram edificados estabelecimentos privados, como um restaurante e uma sorveteria. Havia também um espaço cedido à Universidade Federal do Ceará para exposições da vida marinha e um observatório de golfinhos. Foram colocados, também, postes de iluminação elétrica, bancos e uma cerca de proteção. Contíguos à nova estrutura em madeira, permaneceram cerca de 80 metros da estrutura original de concreto e ferro, assim o projeto deu destaque às “longarinas da ponte velha”. É importante ressaltar que, nessa nova fase do bairro, diferentes grupos passaram a dividir um mesmo espaço. O bairro, que, em meio a sua “decadência”, abrigava um certo tipo de frequentador fiel a esse espaço bucólico da cidade, após a urbanização do calçadão e a reforma da Ponte dos Ingleses, passou a receber um grande número de pessoas, moradores da cidade e turistas. Os novos frequentadores e visitantes passaram a ocupar os recém inaugurados espaço públicos e também os bares e restaurantes. Ou seja, com essas intervenções, muitos e diversos fortalezenses e turistas “descobriram” a Praia de Iracema como um lugar de lazer da cidade. A ideia de que as intervenções acarretam conflitos simbólicos entre os velhos e os novos usos da Praia de Iracema está muito presente em narrativas saudosistas que atribuem mais qualidade ao espaço antes dos projetos de 47


urbanização. A pesquisa etnográfica que realizei no bairro e que me possibilitou um contato direto com muitos moradores revelou sentimentos de que as intervenções urbanísticas trouxeram consigo uma ruptura com a representação da boemia. Para alguns moradores, a reforma da ponte e a urbanização do calçadão foram indícios do “fim da Praia de Iracema”. A nostalgia presente nessas narrativas denuncia, também, uma falta de identificação com a representação da Praia de Iracema como um bairro turístico da cidade. Nessa década de intensas transformações do espaço, o Estoril, enquanto ícone da boemia do bairro, também foi “requalificado” e teve um lugar de destaque. No ano de 1992, a edificação foi desapropriada pela Prefeitura Municipal, e, em 1993, foi tombada como Patrimônio Cultural, com o objetivo de ser transformada em um Centro Cultural. Porém, em virtude do seu péssimo estado de conservação, em 1994, o prédio desmoronou em decorrência de uma forte chuva. Após esse fato, largamente noticiado pelos jornais da cidade devido ao seu valor simbólico, a prefeitura assumiu a sua imediata reconstrução. No mês de maio do ano de 1995, o Estoril foi reinaugurado. Um dos principais jornais da cidade noticiou essa data com uma matéria na primeira página intitulada “Prédio abrigará Centro Cultural – Prefeitura reabre Estoril”. Outra matéria, intitulada “Novo Estoril será entregue à cidade a partir das 19h”, descrevia o Estoril como o “ponto de encontro de 48


boêmios, poetas e escritores da cidade”. Porém, após a intervenção por parte do poder público, o Estoril foi alugado para um restaurante e o novo estabelecimento do bairro atendia a um público de classe média e média alta da cidade e turistas. Um outro fato importante na história mais recente da Praia de Iracema é o papel dos meios de comunicação. Considero esses veículos como uma espécie de “mensageiros” da representação da boemia e também de classificações positivas ou negativas para novos usos e apropriações que foram surgindo no bairro. Uma pesquisa nos principais jornais da cidade revelou que, nos anos 1990, os frequentadores desse bairro eram classificados como “novos boémios”. Nesse sentido, só no ano de 1995, identifiquei trinta matérias jornalísticas sobre a Praia de Iracema, das quais dez referiam-se ao bairro como “reduto da boémia”. Foi nesse mesmo ano o aniversário de 10 anos do Cais Bar, com direito à matéria jornalística intitulada “Bar símbolo da boémia cearense comemora 10 anos de existência” (Jornal O Povo, 18 de janeiro de 1995 apud BEZERRA, 2008); foi também a comemoração dos 70 anos do bairro, que ganhou um caderno especial no jornal O Povo, fazendo referência à Praia de Iracema como um dos recantos da orla marítima mais procurados por turistas e fortalezenses (GURGEL, 1995). Essa fase de mudanças proporcionadas por projetos de requalificação estava em sintonia com a construção da 49


imagem da cidade de Fortaleza e do Estado do Ceará como um lugar turístico. Vale ressaltar que essas representações do bairro como um lugar e lazer e, também, da cidade de Fortaleza como um lugar atrativo para visitantes contribuiu, segundo Benevides (1998), para uma expansão do turismo, que aumentou em 30% nos primeiros anos da década de 1990, chegando a ser, em 1997, a cidade mais procurada por turistas brasileiros. Ou seja, a construção simbólica de uma “Fortaleza turística” foi resultado da implantação do modelo administrativo que assumiu as intervenções urbanísticas para fins de turismo e lazer como prioridade. Nesse contexto, como estratégia de construção e reforço dessa imagem, foi gravada, na cidade de Fortaleza, em 1994, a novela “Tropicaliente”, exibida pela Rede Globo. A divulgação da cidade de Fortaleza, em todo o Brasil, como um lugar de belas praias e muito lazer contribuiu para que a capital cearense fosse classificada na imprensa nacional como “a Miami do Nordeste” ou o “Caribe Brasileiro”, como pode ser lido em matéria do jornal O Globo citada por Linda Gondim (2007): “Fortaleza, a capital do Ceará, está na moda. (...) A Miami do Nordeste”. Em meados dos anos 1990, a Praia de Iracema já havia se consolidado como um lugar de lazer e também um lugar turístico. Porém, devido à necessidade de um planejamento para as novas ocupações e preservação na parte costeira do bairro, no dia 30 de outubro de 1995 foi 50


votada, em regime de urgência, a Lei Nº. 7814, que dispunha sobre o parcelamento, o uso e a ocupação do solo na área de interesse urbanístico da Praia de Iracema, dividindo o bairro em três setores com funções distintas. Segundo a lei, o Setor 1 abrangia a comunidade do Poço da Draga; o prédio da Alfândega, onde passou a funcionar a Caixa Econômica Federal; a Casa Boris, que foi um estabelecimento de exportação e importação no final do século XIX e início do XX; e antigos armazéns, que tiveram seu apogeu comercial quando o porto localizava-se na Praia de Iracema, até meados do século XX. Esses prédios estavam, na sua maioria, fechados. Contudo, com a ascensão do lazer noturno mais “massificado” na parte costeira do bairro, alguns bares, como o Coração Materno e o Besame Mucho, instalaram-se nessa área, que, mesmo apresentando uma infraestrutura precária, atraía alguns frequentadores mais intelectualizados da cidade, como pode ser visto nesse título de uma matéria do jornal O Povo: “Frequentadores fogem do rebuliço e descobrem novos points” (Jornal O Povo, 3 de abril de 1993 apud BEZERRA, 2008). Esse Setor 1, outrora denominado Prainha, e que oficialmente está dentro das fronteiras do bairro Centro, foi destinado à revitalização com incentivo aos usos habitacional, cultural, de lazer e hotelaria, possibilitando a construção de edifícios com 16 pavimentos. Foi, como um grande projeto de “revitalização” dessa área, que o governo 51


do Estado apresentou a proposta da construção do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura. O Setor 2, compreendendo a Rua dos Tabajaras e entorno, entre a Ponte dos Ingleses e a Igreja de São Pedro, ou seja, onde já havia um grande número de bares e restaurantes foi considerado área de preservação. O Setor 3, definido ao norte da avenida Historiador Raimundo Girão até a rua Ildefonso Albano, foi destinado à renovação urbana. Após a inauguração do Centro Dragão do Mar, no final dos anos 199021, todo o entorno do centro cultural passou a ser ocupado por bares, restaurantes e casas de shows. Essa época coincidiu com o início da degradação espacial da parte costeira do bairro e o abandono de muitos frequentadores, que passaram o ocupar a “Praia de Iracema do Dragão”. Neste período, a Rua dos Tabajaras e o calçadão da Praia de Iracema passaram a ser noticiados nos meios de comunicação como “degradados” e, ao lado de títulos que ressaltavam a face boêmia da “PI”, havia alertas contra a insegurança e a poluição sonora, que estavam expulsando os antigos moradores. À época da entrevista concedida a mim, Hélio Rôla, que havia residido no bairro durante 25 anos, teceu duras críticas a todo o processo de requalificação da Praia 21 No dia 8 de agosto de 1998, o Centro Dragão do Mar começou a funcionar em caráter experimental, sendo inaugurado oficialmente no dia 28 de abril de 1999.

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de Iracema, especialmente ao predomínio de bares e restaurantes, que, do seu ponto de vista, foi o responsável pela degradação do espaço residencial. Ainda sob sua perspectiva, os antigos moradores foram prejudicados pela poluição sonora e também pela supervalorização dos imóveis, que passaram a ser cobiçados para fins comerciais, como ele relatou na entrevista: “Quem era proprietário tinha o poder de decidir se vendia ou se ficava; mas quem era inquilino não tinha poder nenhum, porque as casas eram solicitadas pelos proprietários para serem transformadas em casas comerciais que evidentemente os aluguéis ficavam mais altos” (Informação verbal)22.

A fase do turismo e lazer na Praia de Iracema também contribuiu para a consolidação da imagem do Ceará e da cidade de Fortaleza como um lugar turístico a nível nacional e internacional. Porém, a construção dessa imagem foi acompanhada de uma ruptura com a ideia do bairro Praia de Iracema como um lugar bucólico da cidade e a própria boemia, que sempre foi associada ao bairro, começou a ganhar um sentido pejorativo, relacionado a práticas não legítimas para esse espaço tradicional de Fortaleza. 22 Entrevista realizada com Hélio Rôla por Roselane Gomes Bezerra em 27 de julho de 2005.

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Nas narrativas dos antigos moradores, os principais problemas que contribuíram para essa mudança na imagem do bairro foram a poluição sonora, a privatização das áreas públicas, o desordenamento do trânsito e a falta de segurança. Nesse contexto de conflito simbólico que envolveu a emergência de novos usos no bairro, os antigos moradores organizaram algumas manifestações e movimentos em defesa da Praia de Iracema. Pintar os muros do bairro com painéis que denunciavam a degradação na qualidade de vida do bairro foi uma delas, como podemos ver nesse texto do antigo morador Hélio Rôla à coluna de Plínio Bortolotti, “Iracema by night / Pesadelo cult – Uma charge da cultura”: “No início dos anos 90, no século passado, como hoje, eu fazia parte do grupo Aranha com Alano, Kazane, Maurício Cals, Eduardo Eloy, Sérgio Pinheiro, ocasionalmente mais alguém, pintando muros na praia de Iracema quando, em alguns deles, surgiram as primeiras manifestações por parte ‘dos Aranhas’, nós, contra a degradação do habitar humano resultante, como se diz, da ‘operacionalização da cultura do forró pé-deserra-lambada-elétrica?’ que ali se impunha, sem lei e sem alma […]” (BORTOLOTTI, 2010).

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Desencantos de Iracema

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bairro Praia de Iracema que figurou, até o início dos anos 1990, como um lugar de lazer e da boemia, decorrente de memórias afetivas de moradores da cidade, chegou ao final do século XX como sendo um lugar associado a práticas ilícitas, como tráfico de drogas, ocupações irregulares no espaço público, prostituição e violência. O surgimento de toda essa imagem negativa do bairro foi abordado na pesquisa etnográfica que realizei no ano de 2005. Nesse ocasião, conversei com diversos empresários e moradores que descreveram o final dos anos 1990 como um período muito conflituoso em relação aos novos usos que começaram a ser estabelecidos na Praia de Iracema. A presença de turistas estrangeiros, que frequentavam os lugares de lazer do bairro, sozinhos, em grupos e/ou acompanhados de jovens da periferia da cidade, era, agora, uma constante no cenário do bairro. Essas jovens acompanhadas de estrangeiros são identificadas em diversas narrativas como prostitutas. Nesse período, surgiram também estabelecimentos, como bares e casas de shows, associados ao favorecimento da prostituição. 55


Os turistas estrangeiros começaram a chegar a Fortaleza ainda na década de 1980, provenientes de outros estados do Nordeste, principalmente da cidade de Recife, pois, nessa época, a cidade de Fortaleza ainda não possuía um aeroporto internacional.23 Em Fortaleza, o pouso de voos internacionais começou no início da década de 1990, com um voo direto, da empresa Varig, ligando Fortaleza a Milão. Segundo um empresário estabelecido na Praia de Iracema há quase vinte anos, esse voo foi o início de uma representação negativa do turista estrangeiro na cidade de Fortaleza, porque esse voo, proveniente da Itália, trazia predominantemente homens. Os dados da Secretaria de Turismo do Estado do Ceará – SETUR confirmam esse acréscimo da demanda turística internacional, principalmente ocasionado por italianos. Entre os anos 1995 e 1997, os italianos permaneceram em primeiro lugar no índice de turistas estrangeiros que desembarcavam em Fortaleza, seguidos por portugueses, no ano de 1995, e por residentes dos EUA, nos anos de 1996 e 1997. Vale ressaltar que os dados da SETUR identificam apenas a nacionalidade e a quantidade de estrangeiros que desembarcam em Fortaleza, não havendo, portanto, 23 Piscitelli (2001) informa que, no ano de 1987, uma matéria do jornal New York Times chamava atenção para o aumento de bordéis na cidade do Recife decorrente dos voos internacionais que desembarcavam na capital pernambucana.

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estatísticas quanto ao sexo dos visitantes. Porém, dados da Ficha Nacional de Registro de Hóspedes dão conta de que havia uma predominância do sexo masculino, cerca de 70% dos que vinham às terras cearenses. A presença desses novos frequentadores, que não conheciam o valor simbólico do bairro, foi sendo classificada pelos antigos frequentadores como não legítima para esse espaço. Esse fenômeno colaborou para um afastamento dos antigos frequentadores, especialmente da parte costeira do bairro, ou seja, onde havia o calçadão, que já se encontrava muito deteriorado, e os bares e restaurantes da Rua dos Tabajaras e seu entorno. As narrativas de moradores e de comerciantes do bairro denunciavam uma relação conflituosa na ocupação desse espaço, na qual o “outro”, ou seja, os novos frequentadores estrangeiros, era definido como “um incômodo aos antigos usos estabelecidos”. Isso se dava, especialmente, porque, antes, predominava o contato entre pessoas amigas ou conhecidas, o que já não mais existia. Essa mudança pode ser observada nesse relato de uma moradora da Praia de Iracema, justificando o seu afastamento dos espaços de lazer do bairro.

“Não frequento porque eu não tenho mais paciência de ir, porque só tem gringo, só tem aquele povo mesmo, se limitou, é só mesmo gringo e turista, 57


porque na época [até o final dos anos 1980] que eu ia, frequentava pessoas daqui da Praia [do bairro], meus amigos aqui da Praia, do colégio, aqui do bairro, era gostoso porque era todo mundo conhecido, apesar de ter pessoas de fora, mas eram pessoas conhecidas” (Informação verbal)24.

Como pode ser visto, o problema apontado pelos moradores do bairro nessa época foi o início de uma rede de usos e práticas ilícitos que trouxeram problemas de diversas ordens, em especial, a construção de uma imagem negativa para o bairro. E, então, esses novos usos contribuíram para consolidar a transformação da imagem do bairro, de um lugar bucólico e boêmio para um lugar de prostituição, como alegou uma moradora: O gringo traz o taxista, traz a prostituta, traz o menino de rua, traz os vendedores ambulantes, traz tudo porque o dinheiro é o que manda, é o dinheiro que traz tudo isso, entendeu? (Entrevista com uma moradora, que sempre residiu na Praia de Iracema, concedida em 19 de maio de 2005).

Essa imagem negativa, decorrente dessa presença de turistas estrangeiros acompanhados de jovens da cidade, que eram classificadas como “nativas”, foi agravando 24 Entrevista realizada com uma moradora da Praia de Iracema por Roselane Gomes Bezerra em 19 de maio de 2005.

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financeiramente toda uma rede de comércios e de serviços ligados ao lazer, especialmente, de bares e restaurantes tradicionais. O que pode ser visto no relato que segue: “Os bares começaram a fechar porque encheu de gringo, começou a chegar boates e o fortalezense deixou de andar aqui, porque o que mantém um restaurante não é o turista, o que mantém é o fortalezense, é o pessoal daqui que vai com a família, o turista melhora [o movimento], mas as despesas do dia-a-dia são tiradas com o pessoal daqui” (Informação verbal)25.

Ciente de que o bairro havia passado por um processo de degradação e abandono dos antigos frequentadores e, também, dos frequentadores que chegaram após a requalificação do início dos anos 1990, uma das questões da minha pesquisa de doutorado, em 2005, foi qual o motivo dessa degradação do bairro Praia de Iracema. Como resposta, ouvi diferentes justificativas para esse fenômeno. Porém, a resposta recorrente foi quanto à instalação de alguns estabelecimentos, conotados como espaço de favorecimento à prostituição. Em suma, do ponto de vista de alguns moradores e empresários, a instalação desses 25 Entrevista realizada com o proprietário de um bar da Praia de Iracema por Roselane Gomes Bezerra em 23 de agosto de 2005.

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estabelecimentos havia sido um dos principais causadores desse processo de degradação do bairro: “A deterioração começou por quê? Porque, em primeiro lugar, deixaram construir o África’s [boate identifica pelos moradores e pelos meios de comunicação social como lugar de favorecimento à prostituição] (...) a gente fez toda uma campanha pro África’s não se instalar porque a gente pensava assim: no dia que o África’s vier, se vier um puteiro vem todos os puteiros da praia, e foi dito e feito. Veio o África’s ai depois o Desigual [outra boate associada ao favorecimento à prostituição] inchou porque já tinha o África’s aí com o Desigual depois apareceu o Vagão Plaza [boate com show de stripper]” (Informação verbal)26.

Como consequência dessas novas apropriações espaciais, o ano de 2003 foi marcado pelo encerramento de estabelecimentos tradicionais do bairro como a Casa do Mincharia, o Cais Bar, inaugurado em 1985, e o restaurante La Trattoria, que funcionava desde 1981. O depoimento do proprietário da pizzaria Geppo’s, que também encerrou suas atividades no mesmo ano, resume o sentimento dos demais comerciantes que fecharam seus negócios: “saí de lá porque nosso negócio é para a família, que não frequenta 26 Entrevista realizada com morador da Praia de Iracema por Roselane Gomes Bezerra em 27 de abril de 2005.

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mais a Praia de Iracema. Porque virou prostíbulo” (Jornal O Povo, 26 de maio de 2003 apud SANTOS, 2010). As mudanças nos usos e apropriações desse espaço da cidade produziram uma representação estigmatizada do bairro Praia de Iracema e antagônica àquela de sua gênese de reduto bucólico e boêmio de Fortaleza. Esse período, conforme contam os moradores, foi marcado por uma intensa mobilização de protestos, inclusive por meio de grandes faixas nos muros do bairro, as quais denunciavam e protestavam contra a prostituição e o tráfico de drogas. Lia-se em algumas dessas faixas: “Praia de Iracema: turismo sim, prostituição não”; “Praia de Iracema: alegria sim, drogas não”; e “Turismo familiar sim, sexual não”. No ano de 2003, foi difundida uma campanha no jornal O Povo e também em outdoors espalhados pela cidade intitulada “Praia de Iracema, quem ama cuida”. Essa campanha apresentava imagens de pessoas em situações ilícitas, acompanhadas de frases como: “A Praia de Iracema tem amor para dar e não para vender”, “Adote a Praia de Iracema antes que um traficante o faça” e “O nosso mar lava a alma e não o dinheiro sujo”. A campanha chamava a atenção da sociedade de Fortaleza para os novos usos, muitos ilícitos, que haviam se instalado no bairro Praia de Iracema. Nesse período, foi lançado, também, o Movimento de Revitalização da Praia de Iracema, com o tema “Viva 61


a Praia de Iracema Viva”, apresentando exposições, apresentações musicais, oficinas educativas e programação especial nos restaurantes. No dia 31 de maio de 2003, foi divulgada uma nota no jornal O Povo sobre a instituição do “Dia de Iracema”. Este “dia” consistiria em eventos, como realização de shows, apresentações artísticas, exposições, palestras e oficinas educativas. No período da minha investigação, tive oportunidade de presenciar a organização do Fórum Permanente em Defesa da Praia de Iracema, que contou com a participação de comerciantes, empresários e moradores do bairro. O proprietário do Pirata, Júlio Trindade, foi um dos idealizadores dessa ideia. Com reuniões mensais, o fórum contava com a participação de muitos moradores, empresários e, também, de autoridades da cidade relacionadas à segurança pública, cultura, turismo, entre outras instituições, convidadas pelos organizadores do movimento. As diferentes associações, campanhas e manifestações foram organizadas no sentido de solicitar da prefeitura um maior rigor no ordenamento do bairro, a manutenção dos equipamentos e também a tomada de medidas de segurança. A relação entre a presença de estrangeiros como causa da degradação do bairro era uma narrativa comum entre os meus entrevistados, como pode ser visto nesse depoimento:

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“No início [após as intervenções] era muito bom, [o bairro era] frequentado exclusivamente por família. A Praia de Iracema era onde você encontrava os melhores restaurantes, os melhores barzinhos, aí foi que começou os estrangeiros vir pra cá, cresceram os olhos, investir aqui dentro e a prefeitura que eu falo e continuo falando, que a prefeitura começou a deixar criar bares e restaurantes tudo desordenadamente, não teve controle, aí foi que começou nossos problemas, vem o gringo, vem a prostituição atrás do gringo” (Informação verbal)27.

Esses usos ilícitos, classificados pela população como “não legítimos” do bairro, podem ser definidos como um marco simbólico da antítese, ou seja, do avesso de toda a representação idílica ou romântica que foi sendo construída em torno do bairro Praia de Iracema ao longo do século XX. A falta de planejamento no processo de requalificação, acarretou o surgimento de muitos problemas para o bairro, entretanto, são a degradação espacial, por falta de manutenção dos equipamentos construídos e requalificados, e os novos usos que foram, algumas vezes, definidos como um “adeus” às antigas práticas de lazer e boemia vivenciadas no bairro por várias gerações de fortalezenses. 27 Entrevista realizada com moradora que reside há 50 anos no bairro, por Roselane Gomes Bezerra, em 18 de maio de 2005.

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No entanto, as memórias afetivas em torno desse bairro, a beleza da paisagem, assim como a localização estratégica tornaram-se justificativas para novas intervenções por parte do poder público. Assim sendo, no início do século XXI, novos projetos de intervenção foram apresentados à sociedade. Entendo essa nova fase do bairro Praia de Iracema como um processo de “re-requalificação”. O início desse novo processo de intervenção deu-se com o lançamento, em novembro de 2007, de um “macroprojeto” de requalificação, por parte da Prefeitura Municipal de Fortaleza, que, segundo a então prefeita da cidade, Luizianne Lins, teria como objetivo “trazer a Praia de Iracema de volta, transformando-a, definitivamente, em um polo cultural, turístico e gastronômico” (Jornal Diário do Nordeste, 28 de novembro de 2007). Para mim, é importante registrar que deambulações pelo bairro, à época da minha pesquisa, em 2005, fizeram-me perceber que, mesmo com uma repercussão negativa quanto aos usos do bairro veículada nos meios de comunicação, havia ainda uma intensa presença de pessoas em diferentes locais de lazer do bairro Praia de Iracema. Notei também que as sociabilidades nestes espaços obedeciam a uma lógica referente aos tipos de usuários, locais, horários – manhã, tarde, noite ou madrugada – e dias da semana. 64


Nesse sentido, pontuo que, em 2005, por exemplo, a Ponte dos Ingleses possuía uma grande quantidade de frequentadores para a contemplação do pôr do sol; as casas de shows Pirata e Lupus Bier eram os estabelecimentos mais frequentados por turistas e alguns moradores da cidade, os quais, em sua maioria, acompanham os visitantes que têm curiosidade em conhecer essas casas enquanto pontos turísticos da cidade; assim como havia frequentadores em alguns restaurantes da rua dos Tabajaras. Esse fato é importante por demonstrar que, mesmo em momentos de decadência, a Praia de Iracema, ainda assim, guarda uma imagem de lugar de lazer da cidade de Fortaleza.

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Trazer a Praia de Iracema de volta

P

elo fato deste espaço possuir um valor histórico e simbólico para a cidade de Fortaleza, a degradação espacial e social que foi vivenciada no bairro Praia de Iracema, entre o final dos anos 1990 e início dos anos 2000, ganhou contornos expressivos por meio de denúncias e de diversas manifestações. A organização de moradores e comerciantes e a instituição de fóruns, como o “Fórum Permanente em Defesa da Praia de Iracema” e o “Praia de Iracema Reconstrução Já”, e de diversos debates com diferentes representantes do poder público, além de denúncias de descaso com a infraestrutura do bairro divulgadas na imprensa local foram fundamentais para chamar a atenção dos gestores para a necessidade de intervenções no bairro. Como consequência de todo esse movimento, ainda na primeira década dos anos 2000, o poder público apresentou uma série de projetos que visavam requalificar, mais uma vez, esse espaço da cidade de Fortaleza. O processo de novas intervenções, o qual denomino “re-requalificação”, foi uma segunda tentativa de intervenção do poder 67


público para tornar o bairro Praia de Iracema novamente um lugar de lazer frequentado por moradores da cidade e também um lugar turístico. Esse projeto de intervenção propôs a desapropriação de vários prédios e a construção de diversos equipamentos, como um boulevard, a Casa do Turista, a Casa da Lusofonia, o Museu do Olhar, o Museu do Forró, um Centro de Artesanatos e o Instituto Cultural Iracema. Estava contemplada nessa proposta de intervenção a reurbanização da comunidade do Poço da Draga e o “macroprojeto” também previa a construção de equipamentos como hotel, escola, creche, posto de saúde, delegacia de polícia civil e postos de segurança. Além desses projetos de intervenções, que tinham um claro apelo no desenvolvimento do lazer, cultura e turismo, foi apresentado à população, pelo Governo do Estado, o projeto do Acquario Ceará. Esse equipamento inseria-se no conjunto de obras que a prefeitura iria realizar no bairro Praia de Iracema e tinha como um dos principais objetivos desenvolver o turismo e transformar a imagem do bairro Praia de Iracema, que se tornou bastante negativa nos últimos anos. Segundo informações divulgadas nos meios de comunicação, o Acquario Ceará seria o maior da América Latina e iria contribuir para a preservação do meio ambiente e 68


para transformar a realidade social do Estado do Ceará através do turismo. A justificativa para esse projeto era atrair mais turistas e, também, melhorar o perfil dos visitantes de Fortaleza, trazendo famílias e jovens como uma tentativa de diminuir a prostituição e, consequentemente, o turismo sexual. Todos esses projetos revelam que, mesmo apresentando sinais de degradação espacial e sendo identificado com usos indesejados e ilícitos, o bairro Praia de Iracema ainda guarda um potencial simbólico muito caro à cidade de Fortaleza, pois abriga memórias afetivas que contribuem para construir a sua identidade. Assim, a efetivação de alguns desses projetos de debates por parte da população, como, por exemplo, a construção do Acquário Ceará. Seja contra ou a favor da intervenção, existe uma preocupação em como esse equipamento será inserido no bairro e na cidade. No entanto, com a realização dessa última reforma do calçadão, o bairro Praia de Iracema já vem oferecendo aos moradores e visitantes um lugar de lazer muito frequentado por pessoas de diferentes idades, especialmente jovens, com o intuito de contemplar a paisagem ou praticar esportes, como a patinação, o ciclismo, o slackline ou o skate – alguns equipamentos para esses esportes são alugados ao longo do Largo Luiz Assumpção. 69


Nesse sentido, sendo a Praia de Iracema identificada no discurso turístico e também nas narrativas de antigos moradores e frequentadores como o cartão-postal da cidade, esses projetos mais recentes de intervenção podem ser definidos como uma estratégia de reurbanização que deverá contribuir para a afirmação da imagem de Fortaleza como um lugar de turismo, cultura e lazer. A ideia de “trazer a Praia de Iracema de volta” e de que esse bairro é patrimônio da cidade está muito presente nas narrativas de gestores e dos responsáveis por projetos de intervenção no bairro. Outra característica que pode ser definida como um diferencial da Praia de Iracema em relação aos outros bairros da cidade, são as narrativas afetivas que descrevem o amor por esse espaço. Existe um romantismo saudoso que envolve as descrições, seja de moradores, ex-moradores ou frequentadores desse bairro, e, inclusive, dos decisores públicos, que sempre se referem ao bairro a partir de histórias pessoais que despertaram em si o seu amor pela Praia de Iracema. É importante ressaltar, também, que a memória da Praia de Iracema está sendo constantemente “atualizada” por meio de publicações, exposições fotográficas, páginas em redes sociais, sites e blogues que têm por objetivo narrar a história desse bairro por meio de fotografias, poemas, canções e depoimentos de antigos moradores, comerciantes e frequentadores. 70


Ostenta-se, deste modo, um sentimento de preservação, de apropriações e de usos tradicionais, revelado, também, no apelo constante à proteção e manutenção de alguns edifícios emblemáticos do bairro e da cidade, com destaque para o Estoril. A requalificação de alguns casarões, como o prédio que atualmente abriga a Casa de Cultura Digital; a reforma da praça do Largo do Mincharia, onde funciona um restaurante, reduto de antigos e novos frequentadores; e, especialmente, a reforma do calçadão são tentativas de concretizar o lema que é “trazer a Praia de Iracema de volta”. Esse retorno dá-se como uma forma de renascer após adversidades que marcaram a história do bairro, como a fúria do mar, o abandono do poder público, a degradação e a falta de manutenção de espaços públicos e, também, o encerramento de redutos da boemia, como o Cais bar, o La Tratoria e diversos outros bares e restaurantes que fazem parte da história do bairro. A partida de pessoas que se tornaram personagens da Praia de Iracema, como o saudoso Júlio Trindade, idealizador do Pirata, e também de antigos moradores, como o artista plástico, Hélio Rôla, obrigados a se mudar em busca do silêncio, também faz parte das perdas que fazem a história da Praia de Iracema. Mas, se as perdas e os ganhos ou a dor e o prazer são instâncias complementares, certamente a Praia de Iracema irá voltar, porque, na verdade, ela sempre esteve lá com todas as suas contradições. 71


A saideira: o eterno retorno

É

como o Eterno Retorno28 que vejo a trajetória do bairro Praia de Iracema. Apesar de descrever a história do bairro por meio de fases, o olhar mais atento, o caminhar mais devagar, a conversa com quem vive ou passa por aquele lugar demonstram que, nos altos e baixos vividos pelo bairro, está intrínseca a história desse lugar. Assim, entendo que, sem o adeus e a boemia, não existiria Praia de Iracema. Dessa forma, o apogeu e a decadência são instâncias que se alternam. Para finalizar esse passeio pela trajetória do bairro Praia de Iracema, é possível perceber como acontecimentos, personagens e narrativas foram importantes para consolidálo como representativo da história da cidade. Seja no apogeu ou na decadência, a Praia de Iracema passou por diferentes fases, sendo referência de um lugar de lazer e de belezas que se destacam na paisagem urbana. Todo o encanto que permeia a imagem da Praia de Iracema contribui para que esse bairro resista aos problemas 28 Conceito filosófico do tempo que propõe uma repetição do mundo, o qual se extingue para voltar a criar-se.

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espaciais e sociais e aguarde o seu momento de eterno renascer. Renascer para novos usos e apropriações, novos ciclos, nos quais o dia seja tão importante quanto a noite, que a boemia inclua projetos culturais e de requalificação em que os moradores da Praia de Iracema e também do Poço da Draga – que vivem tão próximos, mas tão distantes – não se sintam excluídos dos novos usos e apropriações no bairro e que esses novos usos sejam dinâmicos e ocupem as ruas do bairro em diferentes horas do dia. Nesse sentido, a querida Praia de Iracema aguarda projetos de planejamento com a participação de moradores, empresários e também de diversos profissionais, como arquitetos, urbanistas, sociólogos, antropólogos, advogados, geógrafos e estudiosos da questão urbana e de políticas públicas. Projetos que dialoguem com as necessidades de quem faz o bairro. Caminhar hoje pela Praia de Iracema é sentir que, em meio às edificações degradadas, há também edificações renovadas e, o mais importante, há muitas pessoas de diferentes idades e classes sociais ocupando os espaços de lazer do bairro. Há moradores, comerciantes, bares, restaurantes e instituições que alimentam o potencial daquele espaço da cidade. As reformas urbanas no trânsito, com a inclusão de ciclovias, a reforma do calçadão, a perspectiva da abertura de novos restaurantes e as muitas obras de intervenção 74


em ruas do bairro nos dão a perspectiva de que a Praia de Iracema estará sempre se renovando. A representação simbólica atribuída à Praia de Iracema e expressa na fala de muitos gestores de que o bairro tem uma “vocação natural para o lazer” pode ser definida como o diferencial da cidade de Fortaleza na tendência mundial de “reinvenção” das cidades a partir de projetos de requalificação. A “vocação” para o lazer da Praia de Iracema está nas lembranças da boemia e também da identificação do bairro como um lugar bucólico e aprazível. São sentimentos expressos em narrativas, poesias e canções que alicerçam o valor simbólico do bairro. Pois foram essas memórias que contribuíram para tornar a Praia de Iracema um lugar turístico da cidade de Fortaleza. Por fim, é importante relatar que a convivência e o diálogo com as diferentes pessoas que vivem o dia a dia no bairro, que exprimem diversas versões a respeito dos usos, apropriações e conflitos no bairro, são fundamentais para a execução de projetos de requalificação, sobretudo porque é o cotidiano dessas pessoas e suas memórias que dão sentido ao bairro Praia de Iracema. A poesia que expressa a beleza do mar, o amor e a esperança também fortalece esse constante renascer da velha Praia de Iracema. Como diz a canção, “nessa esquina do Brasil podemos esperar e cantar...”: 75


Jangadas vêm do mar Janelas dão pro sol Pra ver você chegar A noite é mais azul Na esquina do Brasil Pra ver você chegar Na praia de Iracema Ouviram o meu poema (GOUVEIA; NILO, 2007) Com esses versos, minha fala sobre a Praia de Iracema encerra-se para dar lugar a algo novo (re)começar.

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Fontes orais

1) Entrevista realizada com ao Sr. Cristiano Câmara por Roselane Gomes Bezerra em 8 de novembro de 2015. 2) Entrevista realizada com o Sr. Júlio Trindade por Roselane Gomes Bezerra em 10 de maio de 2005. 3) Entrevista realizada com Prof. Dr. Hélio Rôla por Roselane Gomes Bezerra em 19 de maio de 2005. 4) Entrevista realizada com Prof. Dr. Ismael Pordeus por Roselane Gomes Bezerra em 10 de março de 2006. 5) Entrevistas realizadas com moradores e empresários do bairro Praia de Iracema, porém sem identificação do entrevistado, por Roselane Gomes Bezerra, em 27 de abril de 2005, 18 de maio de 2005, em 19 de maio de 2005, 23 de agosto de 2005 e 10 de março de 2006.

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Referências

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Este livro foi impresso em Fortaleza (CE), no outono de 2016. A fonte usada no miolo é Times New Roman, corpo 11/13,5. O papel do miolo é pólen 90g/m², e o da capa é cartão supremo 250g/m².


ResidĂŞncia dos pescadores na Praia do Peixe, atual Praia de Iracema (1905). Fonte: Arquivo Nirez.


Ponte Metálica em 1906, ano de sua inauguração. Fonte: Arquivo Nirez.


Roselane Gomes Bezerra é doutora em Sociologia pela Universidade Federal do Ceará (UFC) e pós-doutora em Sociologia Urbana pelo Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra. É professora adjunta do curso Gestão de Políticas Públicas e do Programa de Pós-graduação em Avaliação de Políticas Públicas da UFC. Dentre outras publicações, é autora do livro O bairro Praia de Iracema entre o “adeus” e a “boemia”: usos e abusos num espaço urbano (LEO/UFC, 2009).

Foto da contracapa Estoril, antiga Vila Morena, uma das primeiras construções de destaque do bairro Praia de Iracema, quando ainda se chamava Praia do Peixe.


Praia de iracema roselane bezerra  
Praia de iracema roselane bezerra  
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