Imaterialidades - Festa de Iemanjá

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Festa de Iemanjá de Fortaleza



Festa de Iemanjá de Fortaleza


FESTA DE IEMANJÁ DE FORTALEZA © 2021 Copyright by PREFEITURA MUNICIPAL DE FORTALEZA Impresso no Brasil / Printed in Brazil TODOS OS DIREITOS RESERVADOS

Ficha Catalográfica Bibliotecária: Perpétua Socorro Tavares Guimarães CRB 3/801-98 Prefeitura Municipal de Fortaleza Festa de Iemanjá de Fortaleza.- Fortaleza: Expressão Gráfica e Editora, 2021. 144 p. ISBN: 978-65-5556-308-5 1. Culto religioso 4. Memória cultural

2. Cultura afro-brasileira I. Título.

3. Iemanjá-festejos CDD: 299.6


Foto de Luiz Alves


PREFEITURA MUNICIPAL DE FORTALEZA José Sarto Nogueira Moreira Prefeito José Élcio Batista Vice-Prefeito SECRETARIA MUNICIPAL DA CULTURA DE FORTALEZA Elpídio Nogueira Moreira Secretário Francisco Evaldo Ferreira Lima Secretário Executivo Ponce Júnior Chefe de Gabinete Thiala Cavalcante Assessora Jurídica Fernanda Cavalli Assessora de Comunicação Eliane Luz Assessora de Planejamento Ana Cláudia Mourão Coordenadora Administrativo-Financeira Diego Zaranza Coordenador de Patrimônio Histórico-Cultural Gilberto Rodrigues Coordenador de Ação Cultural Cássia Cardoso Coordenadora de Criação e Fomento Mileide Flores Diretora do Complexo Cultural Vila das Artes Eduardo Pereira Diretor da Biblioteca Pública Municipal Dolor Barreira Sofia Dantas Diretora da Biblioteca Pública Infantil Herbênia Gurgel Karla Karenina Diretora do Teatro São José Mimi Rocha Diretor do Centro Cultural Belchior


EQUIPE DE PESQUISA DO DOSSIÊ

EQUIPE DE EDIÇÃO DO DOSSIÊ

Coordenador de Pesquisa Jean Souza dos Anjos

Produção Editorial Arquiteta Soluções

Pesquisadores Marcos Levi Ferreira Nunes de Sousa Janainna Edwiges de Oliveira Pereira Breno Taveira Mesquita Laís Cordeiro de Oliveira

Projeto e Coordenação Editorial Adson Rodrigo S. Pinheiro

Acompanhamento e Supervisão da Pesquisa Maria das Graças Almeida Martins

Fotografias Allan Taissuke Beto Skeff Éden Barbosa Jean dos Anjos Luiz Alves Manoel Filho Thiago Matine

Assistente de Pesquisa Lennon Martins Sousa Fotógrafos Éden Barbosa Luiz Alves Manoel Filho Allan Taissuke

Revisão de Textos Adriana Marly Sampaio Josino

Imagens Históricas Arquivo do Jornal Diário do Nordeste (DN) Projeto Gráfico e Diagramação Rachel Luzia Alves Melo Lima Supervisão Técnica Graça Martins Lennon Martins


Foto de Thiago Matine


Foto de Thiago Matine


“No fundo do mar tem areia Areia no fundo do mar No fundo do mar tem as ondas As ondas que vão me levar 8P EDUFR HQIHLWDGR GH ā RUHV Para ouvir a sereia cantar Odoyá! Iemanjá! ” (Ponto de Iemanjá, Domínio Público)


Dedicamos essa obra À sra. Balbina Freitas de Lima – Mãe Balbina do Caboclo Rei dos Índios

À sra. Maria Umbelina Almeida Campelo – Mãe Maria Branca

Ao sr. Wagner Pereira da Silva – Pai Wagner de Oxum

todos “in memoriam".


Foto de Jean dos Anjos


Foto de Jean dos Anjos


Sumário Apresentação

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Saudação a Iemanjá, patrimônio de Fortaleza

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As Festas de Iemanjá, vozes de resistência em Fortaleza Introdução

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Parte 1 – Iemanjá, águas que abrem caminhos

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Passos para a construção de um registro

31

Iemanjá, mitos e histórias

39

A Festa de Iemanjá, uma experiência humana

47

Aspectos históricos e contexto social da festa

55

A Festa de Iemanjá, memória de um povo

61


Parte 2 – Celebrar a Grande Mãe

68

Iemanjá, festa da resistência

71

Mãe Zimá, a trajetória de uma Mãe de Santo da Umbanda

81

A produção de entrevistas

87

Processos e etapas da produção da festa

97

Reportagens sobre a Festa de Iemanjá: recortes de 1984 a 2014

101

Vídeos sobre a Umbanda e a Festa de Iemanjá

111

Parte 3 – Odoyá! A Festa da Vida

116

Descrição pormenorizada da festa

119

Elementos que compõem a festa

122

A relevância da Festa de Iemanjá

125

Caminhos para a Salvaguarda

126

Referências

131

Homenagem

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Foto de Allan Taissuke


Foto de Allan Taissuke


Apresentação Elpídio Nogueira Moreira Secretário da Cultura de Fortaleza

A Festa de Iemanjá nas praias de Fortaleza representa, em sua essência, uma história de luta, de resistência e o mais puro desejo de celebrar a fé, passando adiante os ritos e a sabedoria às novas gerações. Expressão cultural africana celebrada em todo o Brasil, encontrou, no seio da comunidade religiosa da Umbanda da capital cearense, o combustível para seguir sendo difundida ao longo dos tempos no Ceará. Em 2018, a Prefeitura de Fortaleza, por meio da Secretaria Municipal da Cultura de Fortaleza (Secultfor), registrou a Festa de Iemanjá como Patrimônio Imaterial da capital cearense, conforme decreto n. 14.262, reconhecendo a importância e afirmando o compromisso do fomento e da promoção do festejo. O pedido de registro partiu da União Espírita Cearense de Umbanda (Uecum) e do Instituto de Difusão da Cultura Afro-Brasileira (Indica). Em Fortaleza, a celebração à Rainha do Mar conta com ritos tradicionais de cortejo, louvor, entrega de oferendas e saída da jangada, na Praia do Futuro e na Praia de Iracema, além de ações que buscam enaltecer a cultura popular de matriz africana, com apresentações de Afoxés e Tambor de Crioula. O festejo ainda aborda debates sobre pautas sociais como direitos humanos e intolerância religiosa. O Dossiê do Registro da Festa de Iemanjá é mais uma iniciativa de perpetuar a memória cultural da afrodescendência da nossa cidade, com registros fotográficos, informações educativas e depoimentos de quem faz parte da história dessa luta. Iemanjá é Dandalunda, Inaé, Ísis, Janaína e Marabô. É padroeira dos pescadores. A celebração é símbolo de resiliência, memória e perseverança. A Festa é comemorada anualmente em Fortaleza, no dia 15 de agosto, mas deve ser preservada em todos os outros dias do nosso calendário.

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Foto de Thiago19 Matine


Saudação a Iemanjá, patrimônio de Fortaleza Graça Martins Gerente da Célula de Patrimônio Imaterial

“Alodê! 2GRĀ DED Minha Mãe! Mãe D’Água! Odoyá! ” São muitas as formas de saudá-la e de chegarmos a ela, Iemanjá, a Rainha do Mar. Sua tradicional Festa, na cidade de Fortaleza, acontece há mais de meio século, como forma de refletir, ao longo de sua história, o seu valor simbólico e social, presente naqueles que resistem e insistem em vivenciar o festejo religioso, manifestado em gestos de fé, trazendo do além-mar sua memória. As comemorações à Rainha do Mar, em Fortaleza, acontecem no dia 15 de agosto, reunindo seus devotos, umbandistas, candomblecistas, juremeiros e simpatizantes, em um mar de homenagens pela orla da cidade, no Aterro da Praia de Iracema e na Praia do Futuro, num encontro marcado por celebrações, rituais e oferendas, ao som dos batuques, cantos e festejos dedicados a ela. É nesse cenário que a Festa acontece, como forma de afirmação da identidade cultural dos povos de terreiro e como expressão da diversidade cultural da cidade. Por muitas razões, a Festa de Iemanjá foi registrada como Patrimônio Imaterial de Fortaleza, no Livro das Celebrações, pelo Decreto n. 14.262 de 30 de julho de 2018, publicado no Diário Oficial do Município n. 16.320 de 10 de agosto de 2018, fortalecendo a memória e a pluralidade dessa manifestação.

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O instrumento do “Registro” foi criado para salvaguardar as manifestações culturais, reconhecendo e valorizando as celebrações, as formas de expressão, os saberes e os lugares, que têm seu protagonismo nos detentores que persistem em mantê-los vivos. Com o objetivo de fortalecer a política de Salvaguarda do Patrimônio Imaterial, que busca condições favoráveis para garantir a continuidade da manifestação, a Secretaria Municipal da Cultura de Fortaleza elaborou e vem executando o Projeto Ações de Salvaguarda do Patrimônio Imaterial de Fortaleza, com recursos oriundos de Emenda Parlamentar concedida pelo, então, Deputado Federal Chico Lopes, que tem por objeto o apoio e o fomento à produção, transmissão, mobilização, difusão, valorização e reprodução dos bens imateriais da cidade. O projeto é executado por meio do convênio n. 877441/2018, entre o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – IPHAN, por intermédio da Superintendência IPHAN no Ceará, e o Município de Fortaleza, com parceria da empresa licitada Arquiteta Soluções. Dentre os produtos do projeto, está a publicação do segundo volume da Coleção Imaterialidades, que acontece em um período pandêmico, em que os filhos e as filhas da Rainha do Mar não podem oferecer flores, pentes, perfumes nem espelhos para ela se enfeitar, mas oferecem sua dança, sua cantiga bonita, sua fé, e ela, por certo, compreendendo a necessidade do distanciamento do tempo pandêmico, acolherá cada gesto de afeto. Esperamos contribuir com a garantia da continuidade dessa manifestação, facilitando o acesso às escolas, às universidades, às bibliotecas, aos pesquisadores e ao público em geral. Que esse resultado chegue aos detentores do bem como forma de reconhecimento. Por fim, a Mãe Iemanjá se manterá sobre as ondas do mar e sua presença será sentida através do som dos ventos vindos de lá, e os filhos, tão queridos por ela, permanecerão na sincronia que emerge dessa força.

Salve a força que vem dela! Salve a força dessa Mãe! Salve Iemanjá! Odoyá! 21


Foto de Allan Taissuke


Foto de Jean dos Anjos


As Festas de Iemanjá, vozes de resistência em Fortaleza Adson Pinheiro Coordenador Editorial

A Coleção Imaterialidades vem a público apresentar, em forma de livro, os dados da pesquisa coordenada pelo antropólogo Jean dos Anjos, nos anos de 2016 e 2017, que resultaram no Registro dos polos das Festas de Iemanjá, nas praias do Futuro e de Iracema. Nesta publicação, propomos apresentar alguns dos significados simbólicos, sociais e culturais reunidos a partir de contato com os grupos e de levantamento documental e bibliográfico que envolve a devoção à Rainha do Mar. A ideia desta obra é oferecer aos detentores, aos trabalhadores da cultura e à sociedade um registro descritivo, documentado e imagético, de fontes de diversas naturezas, como as bibliográficas, filmográficas e hemerográficas, elaborado sobre a festa, ao longo de décadas, e protagonizado pelos agentes fazedores da manifestação. Nesta produção, trazemos um amplo documento que deve colaborar para o reconhecimento, o fortalecimento, a manutenção e a salvaguarda das memórias, em torno da devoção a Iemanjá, na capital cearense, além de subsidiar futuras pesquisas sobre a temática.

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É sempre importante reforçar o valor dessa tradição que congrega sentidos, expressões, identidades e memórias das religiões de matrizes afro-ameríndias da nossa cidade. Logo, reconhecer as festividades de Iemanjá, incluir os territórios dos terreiros como lugares de expressão da fé humana, é visibilizar a umbanda e as outras tradições afro-ameríndias da capital, e é criar uma forma de combater a desinformação e os preconceitos ainda existentes contra aqueles que querem homenagear seus orixás, como Iemanjá. Por isso, documentar as festas de Iemanjá em Fortaleza, pelo reconhecimento das realizadas nos polos das praias de Iracema e do Futuro, é trazer para o primeiro plano uma importante referência cultural de natureza imaterial, que se materializa com a ação coletiva da comunidade. A partir da reunião de seus membros, de vários e diferentes povos de santo, eles se encontram para repartir e ressignificar saberes, fazeres e orações, ligando suas histórias de vida à devoção a Iemanjá.

Salve a Rainha do Mar! Desejo um bom mergulho, meu caro leitor e minha cara leitora, nessas histórias de força, de resistência e de fé.

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Introdução A festa de Iemanjá é a maior celebração cultural e religiosa pública de matriz afro-indígena-brasileira que acontece em Fortaleza. Iemanjá, que é um Orixá feminino cultuado em todo Brasil, tem sua origem na África e seu culto foi trazido por negros e negras que povoaram o continente brasileiro durante a diáspora africana, quando milhares de homens e mulheres foram trazidos à força para o Brasil para o trabalho em regime de escravidão. Nos dias 14 e 15 de agosto, as praias da cidade ficam repletas de pessoas que saúdam Iemanjá com rosas, perfumes e oferendas. Fortalezenses e turistas, adeptos e não adeptos das diversas tradições religiosas afro-indígenas-brasileiras reconhecem a festa de Iemanjá como tradicional na cidade e consideram a prática da manifestação cultural como legítima e de fundamental importância para a cultura da cidade. Este livro é fruto da pesquisa que atende aos pedidos de Registro da Festa de Iemanjá de Fortaleza, que foram apresentados através do processo n. P158163/2011, de 05 de outubro de 2011, proposto pela União Espírita de Umbanda – UECUM, e através do processo n. P714189/2015, de 10 de agosto de 2015, proposto pelo Instituto de Difusão da Cultura Afro-Brasileira. O registro é um dos instrumentos utilizados para reconhecer um bem de natureza imaterial. Assim como o tombamento, seus procedimentos estão previstos na lei do Patrimônio n. 9.347, de 11 de março de 2008, vigente no âmbito do município de Fortaleza. Assim, o objetivo da pesquisa atende a duas perspectivas: a comunidade que detém o bem cultural e a política municipal de patrimônio cultural imaterial.

Foto de Thiago Matine

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O registro de um bem imaterial é de uma grande complexidade, principalmente quando levamos em conta a diversidade religiosa no Brasil. As festas religiosas brasileiras são frequentemente recriadas. As tradições são constantemente tencionadas e os sincretismos são repensados e ressignificados. São significativas as festas religiosas que têm ligação com o mar. As celebrações do Círio de Nossa Senhora de Nazaré (PA) e da Festa de Nossa Senhora dos Navegantes (RS) são exemplos de bens que foram se transformando ao longo do tempo, mesclando signos do sagrado e do profano e se misturando em associações de espaços públicos e privados. A religiosidade é tão antiga quanto o ser humano. A religião foi objeto de estudo de teólogos, historiadores, filósofos, mas foi apenas com o nascimento das Ciências Sociais, na passagem do século XIX para o XX, que a religiosidade mereceu a atenção dos pesquisadores, como fenômeno cultural, antes que teológico. Por ser um fator essencial da vida em sociedade, a religião e a magia ocuparam e ocupam lugar de destaque na compreensão antropológica das sociedades africanas e americanas. Do ponto de vista da cultura, a religiosidade pode ser considerada um conjunto de atividades que se articulam com as crenças e rituais (PELEGRINI; FUNARI, 2013). A transformação dessas atividades – crenças e rituais – em bens culturais se dá por ações de políticas públicas de afirmação, aplicadas por órgãos governamentais que se ocupam em reconhecer os interesses de preservação das identidades e memórias coletivas dos sujeitos, como, por exemplo, o fomento na realização das celebrações públicas. A pesquisa atende a necessidade de reconhecer a Festa de Iemanjá de Fortaleza como Patrimônio Cultural Imaterial.

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Parte 1

Arquivo/DN – 1982 Homenagens a Iemanjá na Praia do Futuro

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Iemanjá – Águas que abrem caminhos


Apresentação

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Passos para a construção de um registro


Esta obra partiu do relatório de pesquisa que atendeu às condições para o exercício de um trabalho científico de laudos antropológicos do Protocolo de Brasília (2015), da Associação Brasileira de Antropologia (ABA). A ABA sempre se preocupou com as condições sociais do trabalho científico eticamente responsável e o protocolo responde a anseios de antropólogos e antropólogas que elaboram laudos e relatórios antropológicos, abrangendo questões territoriais, ambientais, e de patrimônio cultural até direitos individuais e coletivos.

Antropólogos e antropólogas têm sido chamados(as) por órgãos de Estado para realizar Inventários de Referências Culturais e desempenhar as seguintes competências: realizar etnografias sobre o que os atores sociais consideram suas referências culturais a serem inventariadas; contribuir para a elaboração de planos de salvaguarda; descrever e analisar as configurações identitárias dos grupos estudados a partir dos processos de implementação dos dispositivos da Constituição Federal de 1988, particularmente dos seus artigos 215 e 216; debater as formas de incorporação dos direitos de povos e comunidades tradicionais à noção de patrimônio cultural brasileiro, levando em consideração os contextos atuais em que se encontram inseridos nas diferentes regiões do Brasil, atualmente em processo de reconhecimento cultural e territorial a partir da legislação em vigor. (Associação Brasileira de Antropologia, 2015)

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Arquivo/DN – 1992

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Culto a Iemanjá na Praia do Futuro


Deste modo, esta pesquisa segue rigorosamente às condições previstas no Código de Ética da ABA, respeitando os atores sociais da festa e as memórias sociais que são produzidas sobre ela. O trabalho do antropólogo na construção dos laudos e relatórios, além de obedecer a critérios rigorosos da produção científica, responde a demandas de povos historicamente perseguidos, como é o caso do Povo de Santo, que cultua e realiza a Festa de Iemanjá. A pesquisa foi realizada de agosto de 2016 a janeiro de 2017, atendendo ao prazo mínimo de tempo de trabalho para a pesquisa. Todos os dados são respeitados e a confidencialidade é resguardada. A metodologia da pesquisa foi a observação da Festa de Iemanjá nos dois principais polos de Fortaleza: a Praia do Futuro e a Praia de Iracema. Também foi realizado o registro fotográfico e audiovisual da festa que a documentou, conservando esses registros para a memória de Fortaleza. Cardoso de Oliveira (2006) nos indica que o trabalho do antropólogo é olhar, ouvir e escrever. A observação de campo permite interpretarmos e escrevemos sobre essa experiência que foi estar na Festa de Iemanjá, na orla marítima de Fortaleza.

Foto de Allan Taissuke

Foto de Allan Taissuke

Na festa, fizemos um levantamento inicial de quantos terreiros estavam participando. Encontramos quarenta e nove (49) na Praia do Futuro e vinte e três (23) na Praia de Iracema, entre terreiros de Fortaleza, Região Metropolitana e interior do Estado. A maior concentração de terreiros de Umbanda de Fortaleza está em bairros periféricos, como Bom Jardim e Barra do Ceará. 33


Após a festa, elegemos pessoas notáveis, isto é, pessoas que conhecem e organizam a celebração desde o início, para realizarmos entrevistas abertas. Mãe Suzana, Mãe Mocinha, Mãe Taquinha, Mãe Stela Pontes, Mãe Bia Pombagira, Mãe Balbina, Mãe Gardenia, Mãe Kelma de Iemanjá, Mãe Tecla, Pai Raimundinho Dente de Ouro, Pai Sebastião, Pai Castelo, Pai Neto Tranca Rua e Prof. Dr. Ismael Pordeus Jr. Buscamos, sobretudo, suas histórias de vida e suas implicações com a Umbanda e a Festa de Iemanjá. Realizaram-se reuniões com o Povo de Santo1 de Fortaleza, a fim de apresentar a equipe de pesquisa e refletir sobre a sua feitura. As reuniões serviram para que o Povo de Santo interagisse com a equipe de pesquisa e tirasse dúvidas sobre a sua execução. As reuniões foram momentos importantes de diálogo e escuta. E foi apresentada, em 06 de outubro de 2016, a metodologia da pesquisa e o seu andamento, na 79ª Reunião Ordinária do Conselho Municipal de Proteção ao Patrimônio Histórico-Cultural – COMPHIC, da Secretaria Municipal da Cultura de Fortaleza – SECULTFOR. A equipe de pesquisa apresentou detalhes do andamento do trabalho, como partes das entrevistas e imagens, que foi muito bem recebido pelo conselho. O Jornal Diário do Nordeste disponibilizou amplo acervo de reportagens e imagens sobre a festa e esse acervo faz parte desta publicação como fonte primária2. A equipe do dossiê realizou um trabalho no setor de pesquisa do jornal, localizado na Praça da Imprensa, s/n., bairro Dionísio Torres, buscando fotografias e referências sobre a Festa de Iemanjá, desde a década de 1980 até a data atual. O resultado foi cerca de setenta reportagens sobre a Festa de Iemanjá de Fortaleza e cento e cinquenta fotografias relacionadas com a festa, que nos ajudaram na sua compreensão, seus sentidos e significados.

1

Povo de Santo é como se chamam as comunidades que cultuam Orixás e Caboclos, ou seja, as comunidades tradicionais de Candomblé, Umbanda, Catimbó, Jurema, entre outros. Ver “Fortaleza tem Povo de Santo, sim”. Disponível em: <https://www20.opovo.com.br/app/jornaldoleitor/noticiassecundarias/artigos/2014/08/11/ noticiajornaldoleitorartigos,3296367/fortaleza-tem-povo-de-santo-sim.shtml>. Acesso em: 24 jun. 2018.

2

Agradecimento ao Arquivo do Jornal Diário do Nordeste pela disponibilidade de seu acervo para esta pesquisa.

Foto de Allan Taissuke

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Vídeos disponibilizados em canais como YouTube™ também foram selecionados, analisados e compõem parte desta pesquisa. Os vídeos mostram a beleza da festa e elementos rituais que a tornam singular para a cultura da cidade, como a entrega do presente ao Orixá, no final da tarde do dia 15 de agosto3.

Foto de Allan Taissuke

É caro à Antropologia o uso da produção de imagens e vídeos. Novaes (2009) lembra que os antropólogos se debruçam sobre mitos, máscaras e rituais procurando, mediante uma análise minuciosa, elementos que lhes permitam uma melhor compreensão da organização de determinada sociedade, os valores que orientam padrões de comportamento, as categorias básicas de um pensamento tipicamente humano. As imagens fotográficas revelam aspectos da organização social e outros elementos da cultura material, dados fundamentais sobre a nossa própria sociedade e sobre o nosso modo de pensar. Grieco (2015) afirma que a fotografia se tornou um eficaz instrumento para o campo da preservação cultural. A fotografia é um híbrido entre técnica e arte e, devido às suas características de fornecer registros, serve de fonte histórica como documento visual.

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Entrega do presente a Iemanjá na Praia de Iracema, 2014. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=jnMiCJz9oIY&t=32s>. Acesso em: 09 jun. 2021.

Foto de Allan Taissuke

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A fotografia também é um bem cultural sendo cheia de memória, identidade e valores individuais e coletivos. A documentação de bens culturais por meio da produção de imagens possibilita a exposição de costumes, habitações, monumentos, ritos, religiosidades, fatos sociais e políticos. As imagens produzidas nesta publicação são artefatos e fontes históricas para as futuras gerações que queiram se debruçar sobre a memória social da Festa de Iemanjá de Fortaleza. Os fotógrafos desta pesquisa captaram a grandeza, o extraordinário da Festa de Iemanjá de Fortaleza, empreendendo esforços para registrar os ritos, símbolos e signos mais relevantes que a celebração pública apresenta. E registraram também a beleza estética da Festa, seus personagens mais relevantes e os encontros sagrados que só uma Festa dessa proporção pode apresentar.

Foto de Luiz Alves

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Foto de Luiz Alves

Foto de Luiz Alves

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Foto de Allan Taissuke

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Iemanjá, mitos e histórias


Os mitos de Iemanjá são a fonte básica para o conhecimento do Orixá4. Esses mitos fazem parte da tradição oral dos diversos povos que formam o complexo linguístico-cultural iorubá. Países como Brasil e Cuba são os que mais preservaram essa cultura (VALLADO, 2008). Iemanjá é cultuada, celebrada e admirada em todo o litoral brasileiro e em cidades do interior do Brasil. É o mais popular dos Orixás do grande panteão da religiosidade que veio da África, porque é a Grande Mãe e foi associada a Nossa Senhora, principal divindade feminina do cristianismo. Pierre Fatumbi Verger (2002) nos conta que Iemanjá é uma divindade muito popular no Brasil e em Cuba. O dia da semana consagrado a Iemanjá é sábado, junto com outras divindades femininas. Suas vestes são, preferencialmente, azul-claro e suas guias5 são em contas de vidro transparente. Seu axé6 é assentado sobre conchas e pedras marinhas, guardadas em porcelanas azuis. Suas oferendas7 são feitas com carne de carneiro, pato e pratos preparados com milho branco,

Foto de Thiago Matine

azeite, sal e cebola. Sua dança simboliza as ondas do mar e os seus movimentos. Incorporada em suas iaôs8, Iemanjá segura um abano de metal, todos e todas a saúdam com “Odo Iya!”, que significa “Mãe do Rio!”.

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Oríxá, segundo Cacciatore (1988), significa divindade na língua iorubana. Muitos deles são antigos reis, rainhas ou heróis divinizados que representam as vibrações das forças da natureza.

5

Guia é um colar ritual, geralmente de contas de vidro ou louça, da cor especial de cada Orixá ou entidade. Adeptos de Umbanda e Candomblé, entre outras tradições afro-ameríndias, usam suas guias para identificarem suas entidades. As guias são consagradas e só devem ser tocadas por seus donos.

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O axé é a força dinâmica das divindades, é o poder de realização e a vitalidade que se individualiza em um determinado objeto que se torna sagrado para aquele indivíduo que se relaciona com o Orixá.

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Oferenda é o que se dá para o Orixá ou entidade. As oferendas são a retribuição do axé e podem ser de origem animal, vegetal ou mineral.

8

Iaô é o nome à iniciada do Candomblé.


Reginaldo Prandi (2001), em seu livro “Mitologia dos Orixás”, descreve vários mitos dos Orixás africanos, dentre eles, de Iemanjá. Vejamos um deles que dá conta da maternidade de Iemanjá, ou seja, de que ela é mãe de todos os Orixás.

Iemanjá dá à luz as estrelas, as nuvens e os orixás. Iemanjá vivia sozinha no Orum. Ali ela vivia, ali dormia, ali se alimentava. Um dia Olodumare decidiu que Iemanjá precisava ter uma família, ter com quem comer, conversar, brincar, viver. Então o estômago de Iemanjá cresceu e cresceu e dele nasceram todas as estrelas. Mas as estrelas foram se fixar na distante abóbada celeste. Iemanjá continuava solitária. Então da sua barriga crescida nasceram as nuvens. Mas as nuvens perambulavam pelo céu até se precipitarem em chuva sobre a terra. Iemanjá continuava solitária. De seu estômago, nasceram então os orixás, nasceram Xangô, Oiá, Ogum, Ossaim, Obaluaê e os Ibejis. Eles fizeram companhia a Iemanjá. (PRANDI, 2001, p.p. 385-386)

Armando Vallado (2008) ainda vai falar na obra “Iemanjá, a grande mãe africana do Brasil”, que uma multidão de pessoas, em várias datas distintas, vai à beira do mar saudar Iemanjá. Ele discorre sobre as festas da Bahia, de Pernambuco, do Rio Grande do Sul, de São Paulo, do Rio de Janeiro, entre outras, mas não comenta sobre a festa de Fortaleza. Esta publicação preenche a lacuna deixada pelo autor. Originária do continente africano, Iemanjá é uma divindade das águas doces, ninfa do Rio Ogum, sendo primordialmente cultuada pelos ebás (ègbá), povo situado numa região entre Ifé e Ibadan. Iemanjá foi levada para Abeocutá e demais povoações ao longo do rio Ogum, sendo, então, associada a ele. Assim, passou a ser cultuada em quase todo o território iorubano. Seu nome, Yemoja, Yeye Omo Eja, significa Mãe dos Filhos Peixes e está associada aos rios e suas desembocaduras. É associada, também, à fertilidade das mulheres, à maternidade e à criação do mundo. É uma divindade regente da pesca (VALLADO, 2008). E Iemanjá também é Mãe D’Água. É sereia dos rios no imaginário indígena brasileiro. Iemanjá também é Iara, mulher bonita e provocante. Zora A. O. Seljan (1973) nos mostra uma história da Mãe D’Água do Amazonas. 41


Certo dia, um valente guerreiro das margens do rio Amazonas, não podendo mais resistir aos seus encantos sedutores, resolveu procurar a Mãe-d’água, aquela feiticeira que vinha encantando e engolindo seus irmãos. Inúteis foram as súplicas para que não fosse à procura da senhora das águas. Tudo foi em vão. Naquele dia, quando o sol começara a morrer sobre o rio, deixando na floresta uma atmosfera de encantamento, despediu-se e entrou na canoa, tomou dos remos e começou a deslizar pelas águas sulcadas de peixes. O calor, a mata saturada de perfumes e mistérios, despertavam-lhe ainda mais o desejo de ver e amar a Mãed’água. A boca ardia de desejos e queimava, só em pensar na boca sensual daquela mulher nua, de longos cabelos pretos sedutores, que vivia no fundo do rio, naquele ponto onde as águas redemoinhavam. Sempre alerta, o índio cada vez mais excitado, vagava nas águas mansas do rio, quando começou a ouvir uma voz cálida, embaladora e dormente, de mulher sedutora. Parando de remar, quedou-se elevado, deliciando-se, enquanto a canoa riscava a superfície do rio em direção ao redemoinho, deixando pelo caminho um véu de espuma branca. O canto sedutor aumentava de momento a momento, enquanto nas águas surgia imagem encantadora que lhe acenava do fundo do rio, em movimentos de provocante tentação. Sentindo-se arrebatado ao contemplar a perfeição das formas, os lindos cabelos pretos e ondulantes, enquanto a Mãe-d’água o contemplava com seus olhos verdes transbordantes de amor, não percebeu que a canoa entrava no redemoinho do rio, em lugar perigoso e traiçoeiro. Só via a figura lindamente amorosa que o olhava meigamente, como a convidá-lo para voluptuosos prazeres sobrenaturais. Quando a canoa virou atirando o valente guerreiro nas águas do rio, ele só pensava em ter nos braços, em possuir aquela força ardente e misteriosa que era a Mãe-d’água, de lindos olhos verdes e longos cabelos pretos, afundando sem reagir e desaparecendo no fundo do rio. (SELJAN, 1973, p.p. 149-150)

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São muitas as lendas e os mitos sobre Iemanjá. E são muitos os seus nomes: Dandalunda, Janaína, Iara, Caiala, Marabô, Princesa de Aiocá, Inaê, Sereia, Mucunã, Maria, Mamãe Guiomar, Dona Iemanjá. Zora A. O. Seljan (1973) e Jorge Amado reuniram vinte e quanto lendas da Mãe D’Água. Iemanjá africana, Iara indígena, Dona da lua, Sereias europeias, Moça morena, Nossa Senhora. No Brasil, a figura de Iemanjá se liga à imagem de Rainha do Mar, da maior importância na vida dos pescadores. As sereias europeias e africanas também estão no imaginário dos brasileiros e das brasileiras. Seljan (1973) cita Luís da Câmara Cascudo e conta sobre as três sereias conhecidas em Angola. A primeira é chamada Quianda, uma sereia marítima que vive nos arredores de Luanda e por toda orla do Atlântico angolano. A segunda é Quituta, que mora nos rios e lagoas, montes e matas, uma espécie de Iemanjá terrestre. A terceira é Quiximbi, que vive em Ambaca e pode ser masculina ou feminina, vivendo nos rios e lagoas da região. A liberdade de culto e de crenças permite que Iemanjá seja adorada nas suas mais variadas, sincréticas e híbridas formas. Segundo Saraceni (2008), Iemanjá, na teologia e doutrina umbandista, surge gerada da qualidade criativa e gerada de Olorum, tornando-a também de qualidade criativa e geradora. Iemanjá é unigênita e, por isso, tanto gera em si quanto gera de si. As naturezas de Iemanjá são de criação e geração e podem se manifestar em qualquer uma das duas. Iemanjá é a “Mãe da Vida” e seu amor maternal é uma característica marcante. Foto de Luiz Alves

Foto de Manuel Filho

Foto de Allan Taissuke

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O Orixá rege sobre a maternidade, o amparo materno, a mãe propriamente. As oferendas para Iemanjá são velas brancas, azuis e rosas; champanhe, calda de ameixa ou de pêssego, manjar, melão de arroz-doce; rosas e palmas brancas, tudo depositado na beira do mar. Para lavar a cabeça é apropriado água de fonte com pétalas de rosas brancas e erva-cidreira maceradas e curtidas por sete dias. A doutrina e a teologia da Umbanda Sagrada, como se vê, afirma que Iemanjá é essa força criadora e geradora. E é, também, relacional. Iemanjá se relaciona com os demais Orixás, gerando mais energias e mais vida. E Iemanjá também se torna Iemanjás. Iemanjá se desdobra em outras, fazendo com que as suas atuações sejam diversas. Apesar de complexa, a Teologia da Umbanda mostra que Iemanjá é a Mãe da Vida e suas diversas qualidades podem comandar diversas linhas de trabalho dentro da diversidade que é a Umbanda Sagrada.

Foto de Manuel Filho

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Foto de Thiago Matine

Foto de Jean dos Anjos

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Foto de Allan Taissuke

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A Festa de Iemanjá, uma experiência humana


A Festa de Iemanjá do Ceará existe há mais de 50 anos. Pordeus Jr. (2002; 2011) nos indica que foi Mãe Júlia Barbosa Condante que começou a festa da Praia do Futuro, na Região Leste de Fortaleza, no final da década de 1960. A Praia do Futuro, nessa época, era um local de difícil acesso. O lugar foi escolhido por Mãe Júlia para evitar possíveis ataques da polícia. Jean Duvignaud, juntamente com Geraldo Markan, Luiz Fernando Raposo Fontenelle, Paulo Elpídio Menezes Neto e Helio Barros, professores do Instituto de Antropologia da Universidade Federal do Ceará (UFC), estiveram na Praia do Futuro para assistir à festa de Iemanjá, quando Duvignaud veio ao Brasil em missão de trabalho pela UNESCO, também no final da década de 1960. Algumas notas de campo dessa visita à Festa serviram para o livro “Festas e Civilizações” (1983), um clássico dos estudos sobre festas nas Ciências Sociais. Para o autor, o poder da festa não é exclusivo de uma cultura, mas um padrão universal.

A festa corta a sequência da vida cotidiana (DUVIGNAUD, 1984). E, na vida diária, rompe com a ligação dos acontecimentos que o processo civilizatório nos apresentou como lógico e insuperável. É, ainda, produto da realidade social e, como tal, expressa ativamente essa realidade, seus conflitos, suas tensões, suas cesuras, ao mesmo tempo que atua sobre ela (GUARINELO, 2001). A festa representa um conjunto muito mais complexo. Ela comporta a eliminação dos resíduos produzidos pelo funcionamento de qualquer economia, das máculas ligadas ao exercício de qualquer poder (CAILLOIS, 1979). Durkheim (1996) afirma que a festa é associada à religião, mais especificamente à distinção entre o sagrado e o profano, e articulada à noção de efervescência coletiva. Léa Perez (2011; 2012), uma das maiores especialistas brasileiras em festa da atualidade diz que esta ocupa um lugar central na Antropologia.

Arquivo/DN – 2005 Culto a Iemanjá na Praia do Futuro

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Afirma-se, então, que a festa ocupa um lugar central nas Ciências Sociais e Humanas, seja pela construção dos ritos sociais e manifestações públicas (DUVIGNAUD, 1984), seja pelo movimento de ruptura e destruição que produz (BATAILLE, 2005). Os estudos sobre o tema movimentam saberes que desconstroem os limites humanos e possibilitam acessos a conhecimentos que salvaguardam as resistências de ordem íntima, de modo individual e/ou coletivo, da destruição e da angústia sagrada do indivíduo. A Festa de Iemanjá é excepcional, é rara. Sua excepcionalidade é sentida na comunidade que a espera durante todo o ano. É uma festa que marca, para todo o Povo de Santo de Fortaleza, uma passagem do tempo. É por isso que, a cada dia, tem sido cada vez mais elaborada e organizada para que todos e todas possam participar. O princípio da Festa de Iemanjá é a alegria, a música, a dança e a celebração dos corpos que estão nas praias. Os atabaques soam na beira da praia e os corpos de homens e mulheres dançam celebrando a grande mãe. Sua excepcionalidade é algo que garante seu sucesso. É espontânea, não é forçada. Espontânea, porque ninguém é obrigado a ir, mesmo assim as praias ficam totalmente cheias. A festa tem se superado a cada ano e cada vez mais pessoas, mesmo aquelas que não são adeptas da Umbanda, contribuem para que ela aconteça. Existe uma característica na Umbanda que é a de dar liberdade aos filhos e filhas de Santo, portanto, só contribui financeiramente para a festa quem pode. É visível na praia a presença de adeptos em condições financeiras precárias, porém eles contribuem com o que podem para estarem na festa, por exemplo, ajudando na montagem e desmontagem da estrutura na praia. A festa valoriza os tempos outros. O tempo do eterno retorno (ELIADE, 1992). O que é invisível e sensível. A emoção de estar com o Orixá, encantados e encantadas, caboclos e caboclas, sereias, marinheiros, dançar com eles e com elas. Na festa, o cosmo se integra e os mundos materiais e espirituais se encontram. Homens e mulheres dançam com deuses e deusas. Homens e mulheres tornam-se deuses e deusas. Falar de alguma coisa perdida é falar de algo que faz falta. A festa cobre a falta, cobre aquilo que não está lá, mas ao mesmo tempo está porque se faz acontecer na memória. E é na memória coletiva que realiza seu júbilo. Todas as coisas perdidas se fazem presentes, para depois se guardarem novamente.

Foto de Thiago Matine

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Em si mesma, na sua própria experiência, a festa é gozo, é alegria, é guerra. É gozo, porque ali jorra toda a potência humana das vontades e dos desejos. Vê-se nos corpos em transe, no grito da cabocla, na sede do marinheiro, na gira das rainhas que estão em terra. É alegria, porque é lá que se manifestam a liberdade e as paixões individuais e coletivas. É guerra, porque também faz e é resistência nos/dos corpos. É agonística. A Festa de Iemanjá é potência e resistência, ela acontece marcando posicionamentos políticos, éticos e estéticos.

Foto de Thiago Matine

A qualidade da Festa da Iemanjá se ressalta além da quantidade. Porque há esmero na preparação dos rituais. Existe todo um preparo litúrgico para acontecer a festa onde os segredos sagrados são depositados, os mistérios da Umbanda que não podem ser revelados. Porque tudo é feito com muito amor, afeto e engajamento pela comunidade, garantindo, assim, o sucesso da festa. Os detalhes são pensados durante todo o ano. Desde as vestes, geralmente azuis, brancas e prateadas, dos participantes, até as lembrancinhas que são dadas aos convidados, passando pela decoração do terreiro, adereços e alimentação. As lembrancinhas são desde certificados de participação até fitas de lembranças da festa. Nos espaços sagrados, a decoração pode ser com balões azuis e brancos, enfeites com rosas naturais e/ou artificiais e adereços feitos com TNT azul e branco. A alimentação é parte importante da festa. Todos e todas devem voltar alimentados para casa. Geralmente os terreiros levam quentinhas, com arroz, feijão e carne, que são distribuídas aos seus membros, logo depois das cerimônias.

Foto de Thiago Matine

Foto de Thiago Matine

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E Iemanjá é contemplada por todos e todas que estão na festa. Ela é festejada com os olhares, as mãos em palmas ou louvores, os gestos, os sorrisos, os corpos curvados a ela em reverência. É abraçada, beijada, presenteada com rosas, champanhes, sidras e joias. É, sobretudo, amada. A festa é a oportunidade da contemplação da entidade manifestada no mundo. É a contemplação da memória da grande mãe que é, também, a mulher que ama e cuida de seus filhos, de suas filhas. A possibilidade da liberdade é motivo de festa, comunhão e prazer. A Festa de Iemanjá também pode ser renúncia, porque muitos filhos e filhas de santo, como os próprios pais e mães de santo, deixam de se dedicar às suas vidas pessoais para cuidarem, pelo menos por alguns dias, da sua preparação. “Estou morto, mas ficou tudo lindo, do jeito que queríamos que ficasse”, disse um filho de santo que encontramos antes de a festa começar. Como foi dito antes, há muita dedicação da comunidade de terreiro. Muitos deixam as suas casas e passam dias no terreiro, arrumando tudo para a festa. Às vezes, os filhos de santo moram em outro bairro e fazem longos percursos de ônibus para ajudar na sua preparação.

Foto de Thiago Matine

Foto de Thiago Matine

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E, sim, há muito esbanjamento. Há muita comida e muita bebida na Festa da Iemanjá. Mais do que isso, há esbanjamento dos corpos, das risadas, dos trejeitos, dos modos de ser. É afeto, é fruição, é memória, é afirmação do mundo. A Festa de Iemanjá é a festa dos afetos, das relações construídas ao longo de muitos anos, de cumplicidade e respeito. É vantagem para os que têm a oportunidade de estar perto da Rainha do Mar e podem usufruir da sua caridade e do seu cuidado. É memória, porque revela a ancestralidade que não se perde. É memória da pele, perfume de mulher, força de mulher que veio do continente africano e se reinventa todos os dias no Brasil. É memória de resistências que nela se faz. E, finalmente, é afirmação do mundo. É a cosmogonia da Umbanda, religiosidade brasileira que agrega múltiplas culturas e crenças. É a afirmação da força da mulher. É a festa da mulher brasileira que precisa se reinventar todo dia. É mãe, é rainha, é cuidadora, é zelosa, é mulher.

Foto de Thiago Matine

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Foto de Thiago Matine

Foto de Luiz Alves

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Foto de Jean dos Anjos

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Aspectos históricos e contexto social da festa


Pordeus Jr. (2002) indica que a Festa de Iemanjá de Fortaleza começa na década de 1960, inaugurada por Mãe Julia na Praia do Futuro, próximo ao bairro Serviluz. Mãe Júlia consegue federalizar a Umbanda no Ceará e, a partir da expedição de alvarás, os terreiros puderam realizar suas cerimônias religiosas. A Praia do Futuro foi escolhida por ser de difícil acesso e é importante dizer que, naquela época, as religiões de matrizes africanas não eram bem vistas pela sociedade, sendo, na maioria das vezes, perseguidas pela polícia. A intolerância e o racismo de estado, naquela época, eram evidentes e os umbandistas realizavam seus trabalhos e rituais em locais escondidos, para não serem presos e açoitados.

É característica do kardecismo o transe e a possessão. A mediunidade é capacidade de entrar em contato com o mundo invisível dos espíritos e cabe ao grupo religioso organizar esses contatos e atender as necessidades da comunidade. A legitimação dos cultos da Umbanda encontrou forte repressão durante o Estado Novo (1937-1946), mas, contraditoriamente, as elites intelectuais e artísticas que aderiram ao espiritismo kardecista e à cultura popular dos valores afros conseguiram muitas brechas para o enaltecimento das práticas religiosas umbandistas.

A Umbanda surge dentro da cultura brasileira, mostrando o valor do índio e do negro brasileiro, suas crenças e suas resistências. Ela nasce, como culto organizado, por volta das décadas de 1920 e 1930, quando espíritas kardecistas de classe média passaram a mesclar, com suas práticas, elementos das tradições religiosas afro-indígenas-brasileiras, e a professar e defender publicamente essa “mistura”, com o objetivo de tornar o culto legítimo e com status de nova religião. As origens da Umbanda remetem aos cultos das entidades africanas (os Orixás), das entidades indígenas (os caboclos) e aos santos do catolicismo popular, como São Sebastião e São Jorge. Outras entidades, como boiadeiros, ciganos e marinheiros, foram se agregando ao grande panteão de entidades que a Umbanda possui. O kardecismo chegou ao Brasil em meados do século XIX e teve grande adesão entre as famílias da classe média brasileira.

Pai Wagner de Oxum Foto de Thiago Matine

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Foto de Jean dos Anjos


Institucionalizou-se que a Umbanda nasceu em Niterói-RJ, no Centro Espírita Nossa Senhora da Piedade, liderado por Zélio Fernandino de Moraes, em 1908. Entretanto, o fenômeno do transe e da possessão nas culturas e religiosidades tradicionais afro-indígenas-brasileiras não tem data específica. É importante lembrar que as tradições afro e indígena eram passadas através da oralidade, dentro das suas comunidades e populações, o que não nos permite o aprofundamento dos contextos sócio-históricos. Com a federalização dos centros de Umbanda, em 1939, que passou a se chamar de Espiritismo de Umbanda, a religião e a cultura dessa população começaram a ser consideradas e uma organização começou a ser montada pelos seus adeptos. A Umbanda se constitui como a religião promotora da caridade e da ajuda por intermédio de espíritos africanos e indígenas que contavam com saberes ancestrais de medicinas alternativas.

Foto de Allan Taissuke

Foto de Luiz Alves Foto de Thiago Matine

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É nesse contexto que nasce a Festa de Iemanjá de Fortaleza, promovida por Mãe Julia e sua comunidade de terreiro. Foi ela quem fundou a Federação que teve o primeiro terreiro registrado na polícia e no diário oficial. Mãe Julia esteve no Rio de Janeiro durante um ano e, quando retornou, fundou a Federação Espírita Cearense de Umbanda e registrou no Diário Oficial, em 1955, durante o governo de Paulo Sarasate. Apesar do registro, a Umbanda, assim como outros cultos afro-ameríndios, não deixa de ser atacada pelo estado e pelos movimentos religiosos extremistas. O racismo e a intolerância foram e ainda são grandes obstáculos para a liberdade de culto dessas tradições religiosas.

Foto de Manuel Filho

Foto de Manuel Filho

A Festa de Iemanjá de Fortaleza nasce num contexto de opressão e resistência, como as religiosidades e culturas afro-indígena-brasileiras vivem na atualidade. Desde o contexto de escravização dos diversos povos que chegaram da África e do genocídio das populações indígenas que não se submeteram à escravidão, até os atos de intolerância e racismo religioso acontecidos nos últimos dias, a Festa de Iemanjá acontece há mais de 50 anos, na resistência e na alegria do povo de terreiro de Fortaleza. 58

Foto de Manuel Filho


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Foto de Éden Barbosa

Foto de Manuel Filho

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Foto de Thiago Matine


A Festa de Iemanjá,

memória de um povo


A religiosidade, como fenômeno cultural, é observada no âmbito do Patrimônio Imaterial em estudos nas Ciências Sociais e é objeto de importantes reflexões. O Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal do Ceará (UFC) discute questões relacionadas ao patrimônio cultural, ora ao considerá-lo como centro das discussões, ora ao eleger os espaços elevados à categoria de patrimônio, para pensar questões sobre as cidades. Cita-se, como exemplos dessas pesquisas, as produções dos docentes Irlys Barreira e Eduardo Diathay Bezerra de Menezes. A primeira, com o livro intitulado “Cidades narradas: memória, representações e práticas de turismo”, lançado em 2012; o segundo, com o artigo publicado na Revista de Ciências Sociais, nomeado “Patrimônio cultural imaterial. Bem cultural de natureza imaterial: o que é isso?”. A dissertação de mestrado de Williams Lopes – “Requalificação do patrimônio: intervenções, estratégias e práticas na Praça dos Mártires (Passeio Público) de Fortaleza”, defendida e aprovada em 2013, é, também, um reconhecido trabalho sobre patrimônio na cidade.

Arquivo/DN – 1989 Mulher representa Iemanjá na Praia do Futuro

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O conceito de Patrimônio Imaterial busca-se em Pelegrini (2013) e a mesma indica que tudo começa com a cultura. A UNESCO – organismo das Nações Unidas que cuida da Educação, Ciência e Cultura – adotou, em 2003, uma Convenção sobre a Salvaguarda do Patrimônio Cultural Intangível ou Imaterial. O Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – IPHAN indica que os bens culturais de natureza imaterial dizem respeito àquelas práticas e àqueles domínios da vida social que se manifestam em saberes, ofícios e modos de fazer; celebrações; formas de expressão cênicas, plásticas, musicais ou lúdicas; e nos lugares. O Yaokwa, ritual do povo Enawene Nawe, na Amazônia meridional, e o Círio de Nazaré, em Belém-PA, são elementos do Brasil inscritos nas Listas do Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade da UNESCO, em 2013 e 2011, respectivamente. Nos artigos 215 e 216 da Constituição Federal de 1988, reconhece-se a inclusão, no patrimônio a ser preservado pelo Estado, em parceria com a sociedade, dos bens culturais que sejam referências dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira. O patrimônio imaterial é transmitido de geração a geração, constantemente recriado pelas comunidades e grupos em função de seu ambiente, de sua interação com a natureza e de sua história, gerando um sentimento de identidade e continuidade, contribuindo para promover o respeito à diversidade cultural e à criatividade humana9.

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Ver Patrimônio Imaterial em <http://portal.iphan.gov.br/pagina/detalhes/234>. Acesso em: 09 jun. 2021.

Foto de Luiz Alves

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Chuva (2015) nos apresenta, em seu artigo “Da referência cultural ao patrimônio imaterial: introdução à história das políticas de patrimônio imaterial no Brasil”, ampla bibliografia sobre as questões do Patrimônio Imaterial e convida para uma epistemologia profunda, tendo como finalidade a preservação cultural dos saberes singulares das memórias coletivas. Preservar o Patrimônio é preservar a vida. Conforme Chuva (2015), todo patrimônio se constitui a partir de uma forte carga simbólica, que é imaterial ou intangível. São os sentidos e significados atribuídos a um bem cultural que o tornam referência para que seja reconhecido como patrimônio. Mesmo assim, o patrimônio imaterial precisa de algum tipo de materialização para de concretizar como uma oficina de trabalho, os adereços das festas ou a localização dos espaços físicos onde as celebrações acontecem.

Atribuir sentidos e significados à Festa de Iemanjá de Fortaleza neste livro é, sem dúvida, uma escolha. E as escolhas implicam decisões e perdas. Decide-se por fazer uma coisa em detrimento de outra, uma memória permanece, enquanto outra se esvai. Mas o importante é garantir que a seleção de referenciais aqui tocados permita que a celebração da Rainha do Mar ganhe relevância na vida cultural da cidade a ponto de tornar-se patrimônio imaterial.

Foto de Thiago Matine

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Na pesquisa, privilegiamos as histórias contadas por quem faz a festa acontecer, o Povo de Santo. A importância da história oral nas comunidades tradicionais dá o norte deste trabalho em que a grandeza se faz no ouvir os mais velhos e as mais velhas da Umbanda de Fortaleza. A metodologia dialógica da abertura ao outro, da entrevista aberta e da sensibilidade do encontro permitiu encontrar a memória da Festa de Iemanjá de Fortaleza. Patrimônio é, também, a valorização da memória de uma comunidade.

Tratar

Foto de Thiago Matine

Foto de Luiz Alves

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Apresentação

Foto de Allan Taissuke

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Foto de Jean dos Anjos


Foto de Luiz Alves

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Parte 2

Foto de Allan Taissuke


Celebrar a Grande Mãe


Apresentação

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Iemanjá, Festa da Resistência


Jean Duvignaud (1983) relata que os caminhões dos umbandistas vinham de muito longe e traziam grupos de pessoas de vários lugares da costa e do interior do Ceará para a Festa de Iemanjá da Praia do Futuro, no final da década de 1960. Ele calcula que cerca de duas ou três mil pessoas praticavam a magia transmitida da África e transformada pela influência dos santos católicos. Ora, o autor está falando de uma crença que mistura influências religiosas e causa uma confusão animada e cantante em que os gestos e ritos desafiam o mundo pulsante da extraordinária Umbanda, religião genuinamente brasileira. O autor nos chama a atenção para o fato de que o mar se torna lugar de passagem, elemento comum entre o Brasil e a África, imagem de uma natureza agitada e indomável. O mar é lugar sagrado e Iemanjá tem o rosto com aparência de Virgem Maria e corpo de peixe, revelando um mundo intermediário, um fantástico entremeio onde colaboram cultura e natureza e cuja ambiguidade será a relação assustada e necessariamente confusa de uma grande festa. A Umbanda brasileira é essa grande novidade e esse encontro que torna a religião e a cultura um lugar de fascínio. Mãe Júlia, em entrevista ao professor Ismael Pordeus Jr., em 1979, revela:

Foi nesse tempo, depois que saiu o registro do Diário Oficial, parou a perseguição, não havia mais fantasma no jornal, aí pronto, eu não sosseguei mais. Fazia festa de São Jorge (Caboclos) e fazia festa de Iemanjá. A Praia do Futuro não era a Praia do Futuro (no sentido ‘urbanizada’) era toda esburacada. Eu cansei de ir com essas meninas me atolando naquele areal. Mas hoje a Praia do Futuro é outra, tanto que dizem que vão botar uma estátua muito grande de Iemanjá, no dia 15 de agosto. Eu já tenho dito aqui que não ia mais fazer essa festa, como eu faço todos os anos, os filiados, vai tudo pra praia. Não vou mais por causa da anarquia de muitas pessoas que vão tomar banho e não respeita.

Foto de Luiz Alves

(PORDEUS Jr., 2002, p. 93)

Mãe Júlia Barbosa Condante, mulher negra, portuguesa e filha de mulher escravizada, trouxe a tradição da Festa de Iemanjá do Rio de Janeiro onde, dia 15 de agosto, havia celebrações para a Rainha do Mar, no mesmo dia da padroeira da cidade, Nossa Senhora da Glória. As festas públicas, em homenagem aos orixás, sempre são feitas nos mesmos dias dos santos católicos. Seljan (1973) confirma que, no Rio, Iemanjá e Nossa Senhora da Glória recebiam homenagens no mesmo dia, 15 de agosto. Louvar a santa e louvar o orixá não era problema para os umbandistas cariocas, que se aprontavam com longas batas, saias de muitas anáguas, turbantes, panos da costa. Tudo muito alvo, muito engomado, de uma brancura de doer a vista, para as solenidades religiosas daquele dia. 72


Zora A. O. Seljan (1973) revela, também, que os cultos a Iemanjá, no Rio de Janeiro, nem sempre foram realizados de forma pública. Apenas a partir de 1952 a festa começou a ser feita publicamente. Isso significa que, antes disso, as celebrações para Iemanjá sofriam perseguições da polícia e só podiam ser realizadas em lugares ermos. As barcas enchiamse de grande número de centros e pessoas que levavam flores brancas e presentes para serem atirados durante a travessia e ofertados a Iemanjá. Os presentes são uma forma de agradecimento a Iemanjá pelas graças alcançadas. É preciso lembrar que os cultos de origem africana e indígena foram, por muito tempo, considerados “coisa de demônio”. Pai Raimundinho Dente de Ouro tem suas lembranças mais antigas da perseguição que sofria. Pai Neto lembra que, até 1965, a palavra Umbanda não era usada por conta das perseguições que o povo de santo sofria. Usava-se ainda o nome de Espiritismo. Assim como no Rio de Janeiro, em Fortaleza as festas públicas de Iemanjá só puderam acontecer muito depois da abolição da escravidão africana, pois a perseguição aos cultos fora da religião dominante, o cristianismo católico, continuou fortemente com o aparato do Estado. Antes, eram realizadas em lugares escondidos e de difícil acesso, dificultando, inclusive, a pesquisa sobre o tema, como indica Silva (2005).

Mãe Júlia Condante foi ao Rio de Janeiro e voltou, como conta sua filha de santo, Mãe Stela.

Aí, quando foi um dia, a Mãe Júlia disse que queria ir ao Rio de Janeiro. “Minha filha você vai com quem?” “Vou só.” Aí ficou, foi uma luta, foi uma luta, mas ela queria ir. Porque uma pessoa, um senhor, ela disse que não sabe quem foi, que lembrava bem as feições dele: bem velhinho, branquinho, cheio de sarna. Aí disse pra ela: “Você vai nessa rua tal, aqui no Rio de Janeiro, e fala com esta pessoa aqui, que ela vai dar um jeito na tua vida.” Aí a mãe Júlia nova, a vozinha não queria deixar ela ir só pro Rio de Janeiro, sem conhecer nada, sem ‘corra’ nenhuma. Ela fugiu. Fugiu foi sozinha. E foi bater lá onde esse senhor disse que ela fosse lá, que dava um jeito na vida dela. Ela chegou lá na casa da Vó Laura, no Rio de Janeiro. Que era uma mãe de santo que tinha lá. Aí ela tinha uns desmaios. Ela desmaiava em qualquer canto, mas não sabia o que era. Quando chegou lá, aí a vó Laura foi e disse a ela: “Minha filha, isso aí é uma mediunidade, você é de caboclo, você tem que...” Aí ela: “Como é que eu vou fazer isso?” Aí ela foi e disse assim: “Você veio com quem?” Aí ela foi, contou tudo para vó Laura, como tinha chegado lá. Através de um sonho que ela tinha sonhado e queria realizar aquele sonho. Aí ela foi e disse: “Então para. Aqui, daqui você não vai mais pra frente. Aqui você fica.” Aí ela volta, conversa com a vozinha e fala as coisas e diz que vai voltar, que tem que fazer isso, tem que fazer o que a mãe de santo lá tinha dito. Ela aceitou. Ela voltou para o Rio de Janeiro e ela vinha de três em três meses ela vinha. Mas até que ela desenvolveu a mediunidade dela e... Aí ela ficou indo e voltando. Quando foi uma vez, aí ela disse: “Eu vou embora e não volto mais não. Que minha mãe tá muito velha, muito doente e é só nós duas, nós não temos ninguém.” Ela foi e disse: “Tá certo, mas sempre me dê notícias. Agora você vai ter que fazer as suas obrigações e vai ter que arrumar uma pessoa que confie, que queira entender, que queira conversar com você para você estender a Umbanda no Ceará”. (Mãe Stela, 2016)

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Ser de caboclo significa que Mãe Júlia era de Umbanda, afinal os caboclos se incorporam nessa religião. Mãe Júlia se desenvolveu, isto é, organizou sua espiritualidade, na Umbanda carioca, e trouxe para a Fortaleza não só a possibilidade de registrar os terreiros de Umbanda na Federação que fundou, mas também a realização daquela que seria a maior festa pública da cidade: a Festa de Iemanjá. Segundo Mãe Júlia, em entrevista em 1978: Quando, dia 15 de agosto, ia com meus médiuns, ia cantar, aí levava flores, perfumes, champanhe para ela e tal, fazia aquela mesinha e botava tudo aqui, viu, pra ela, pros meninos. Agora quando eu comecei a fazer as festas levando Iemanjá, era tanta gente, tanta gente, ia até freira pra ver como era, como não era, viu? Eu levava a turma toda, os meninos, esse povo curioso, né? E eu, tudo bem, e de forma que aí foi chegando o tempo, o pessoal vendo e tal e teve uma ocasião que eu acabei de falar pela TV, o bispo entrou também falando... Ora, se parecia que tava... Nossa Senhora da Glória, que é a padroeira daqui, né? Pra nós, é da Nossa Senhora da Glória e é a Nossa Senhora da Assunção, parece que tava esquecida, não falar de procissão nem nada e eu fazia a minha, né? E a gente, quando esse pessoal viram isso, aí danou-se. A Praia do Futuro hoje tá outra, mas quem fez a Praia do Futuro foi Iemanjá.

A importância de se perceber que Iemanjá se aproxima de Nossa Senhora de forma intensa, não só em Fortaleza, mas em todo Brasil. No livro “Festa de Nossa Senhora dos Navegantes em Porto Alegre: sincretismo entre Maria e Iemanjá”, percebeu-se que, em entrevistas realizadas com aproximadamente cinquenta pessoas, 50% identificam Iemanjá e Nossa Senhora dos Navegantes como uma só: “Iemanjá ou Nossa Senhora dos Navegantes é a mesma coisa”; “É tudo igual”; “Eu considero todas elas iguais”; “Ela (a Imagem da Santa) representa as duas, mas pra para mim ela é um só”; “Ela (a Imagem da Santa) é uma só. Para mim, elas são iguais, as duas”; “Eu gosto das duas: para mim é a mesma santa”; “Eu, é das duas”; “Elas são iguais”; “As duas santas são a mesma”; “As duas santas são a mesma; só a diferença é as religiões”; “É a mesma Nossa Senhora”; “Para mim, as duas são a mesma coisa: as duas são santas, as duas são milagrosas”; “A santa é a mesma, a diferença é só a religião”; “As duas são Rainha do Mar, né?”; “Não consigo muito separar Nossa Senhora da Iemanjá”; “Eu acho que não tem diferença nenhuma, o que difere é a religião: uma é católica, a outra é umbanda”. (ORO, 2009, p. 51)

(PORDEUS Jr., 2002, p. 113)

30% dos entrevistados disseram que não reconheciam Iemanjá; os outros 20% afirmaram que Iemanjá e Nossa Senhora dos Navegantes não eram as mesmas entidades. A pesquisa é reveladora, pois identifica ambas as entidades “rainhas” e “donas do mar”. A santa é Nossa Senhora dos Navegantes, mas também é Iemanjá. Ambas compartilham os mesmos símbolos e cores. Mãe Stela nos confirma: Iemanjá, para mim, é Nossa Senhora das Candeias, eu acho, no meu pensamento. Que é uma santa milagrosa, que em outras partes por aí ela é Nossa Senhora das Candeias, explicação da minha mãe de santo, se eu estiver errada é porque ela me ensinou errado, mas que eu acho que tá certo. Ela foi uma santa de passar mão por cima de todos, de escutar as pessoas, só em você pedir e ela escutar e a pessoa alcançar, não precisava ver ela, nem pegar na mão dela. Porque tem muita história dela, de Iemanjá, e essas pessoas do mar. (Entrevista de Mãe Stela, 2016) 74


A Umbanda é uma religião que permite encontros e diálogos entre crenças. E, na Festa de Iemanjá de Fortaleza, encontramos pessoas que também têm devoção por Nossa Senhora da Assunção, padroeira da cidade. É comum, nos terreiros de Umbanda de Fortaleza, a presença de imagens de santos católicos e a invocação de seus cultos, como Santa Bárbara, São Jorge e São Sebastião. Nossa Senhora é presença constante nos altares umbandistas. Ela não concorre com Iemanjá, pelo contrário, as santas se complementam. Mãe Mona de Oiá, em entrevista à professora Zelma Madeira (2009, p. 103), explica:

Iemanjá, orixá feminino muito divulgado no Brasil por meio de comemorações anuais em várias cidades, sempre movimenta o grande número de pessoas adeptas das religiões afro-brasileiras e os simpatizantes. Há também uma analogia entre Iemanjá e Nossa Senhora da religião católica, pois ela é identificada com Maria, mãe de Jesus. Representa a Grande Mãe, deusa das águas, Rainha do Mar. Veja a forma como a mãe de santo define essa mãe. “Iemanjá, como mãe, pra mim, é tudo. A mãe de todas as cabeças, minha filha. Ela é a Grande Mãe, ela é o seio que todos mamam. Ela quem toma conta de nossas cabeças, apesar de termos os nossos orixás. Mas ela é a mãe que toma conta, até mesmo porque é a mãe de todos”. (CANTUÁRIO, 2009, p. 103)

Foto de Thiago Matine

A importância da Festa de Iemanjá é expressa na tese de doutoramento da Prof.ª Dr.ª Maria Zelma de Araújo Madeira Cantuário (2009), em que ela mostra o Orixá como o princípio gerador receptivo, matriz dos poderes da água. É a padroeira da fecundidade, protetora e nutridora, que sustenta, acalenta e mitiga o sofrimento dos seus filhos. Torna comum o ato de entregar no mar as oferendas, renovar a legitimidade da religião pelo ritual, partilhando a música, a dança, as indumentárias, nos tons claros do branco e do azul.

Assisti, a cada ano, desde 2004, a Festa de Iemanjá, como evento público com o significado sagrado de uma experiência religiosa. Trata-se de uma festa celebrada não no terreiro, mas na praia, onde ganha a grande audiência. Tornou-se parte da cultura do povo de Fortaleza e de outros municípios, que saem em caravana de ônibus para a Praia do Futuro. (CANTUÁRIO, 2009, p. 104)

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Em outro trabalho acadêmico, Pereira (2012), em sua dissertação de Mestrado, recorre às suas próprias memórias para escrever sobre a Festa de Iemanjá.

Comecei então a tentar remontar os quebra-cabeças da minha infância, a respeito do que se ouvia falar na década de 1980 e do que lembrava com mais intensidade. Recordei-me claramente de um final de tarde em que fui levado pelos meus pais para a festa de Iemanjá, que acontece no dia 15 de agosto na Praia do Futuro. Relembro de um grande movimento de pessoas. Na época, estava com oito anos de idade e o ano era 1987, fazia a segunda série do Ensino Fundamental I, e as lembranças ainda são nítidas, porque fomos depois que meus pais me buscaram na escola e já era perto do crepúsculo. O som dos tambores e o cheiro de alfazema tomavam conta do ar, lembro de rosas brancas jogadas ao mar e muitas mulheres trajando branco. Minha mãe nesse dia lavou minha cabeça com água de cheiro, mas não deixou tomar banho, disse que o dia não era feito para isso e logo fomos acender velas brancas na beira da praia para Iemanjá. (PEREIRA, 2012, p. 23)

Aprende-se, com as memórias, que a Festa de Iemanjá se expande, foge de qualquer controle, não é um objeto fechado, estagnado. É uma festividade viva e dinâmica, é um “emaranhado de acontecimentos”, é gente que frequenta, é rito que se faz, crença que se partilha, a música cantada, o que se come, aquilo que é bebido, é a roupa que se usa e o lugar do acontecido. Para além disso, a festa é feita de memórias, sejam as daqueles que a idealizaram, dos que vão desde o início e até a daqueles que foram e hoje apenas lembram. A festa é um processo que, mesmo possuindo elementos que se perpetuam, está em renovação a cada celebração. As “contações de um vivido” experienciado nas narrativas (RICOEUR, 1994) daqueles que têm mais autoridade para contar: seus próprios frequentadores.

Foto de Thiago Matine

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A partir das experiências do povo de terreiro que frequenta a festa, dá-se conta de tal empreendimento. E é sempre bom lembrar que narrações não são lineares, é outro tipo de real, o que é bom, pois não se fia na ideia de um real que é concreto, possuidor de uma linearidade, temporalidade precisa e estagnada. Constrói-se um arquivo onde caberão não apenas fotos, reportagens e listas de objetos da festa, mas, mais que isso, será um arquivo de vivências, de lutas e de resistências. Tem-se um arquivo das relações de uma festa viva e pulsante.

Foto de Allan Taissuke

Foto de Luiz Alves

Foto de Thiago Matine

A equipe de pesquisa, junto com o povo de terreiro convidado, teve uma oficina chamada “É possível biografar uma festa?”, com a Prof.ª Dr.ª Cristina Maria da Silva, do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal do Ceará (UFC). Sobre a formação, é impossível não mencionar a maestria da professora Cristina, sua condução às sutilezas dos conceitos, aos meandros das narrativas, das histórias, suas desconstruções epistemológicas sobre o fazer de uma biografia. Trazendo relatos, experiências e, ainda assim, abrindo constantemente o tempo para que os pais e as mães de santo também partilhassem seus saberes, fez com que o encontro fosse um momento cheio de aprendizagens e fortalecesse, particularmente, as ferramentas metodológicas que pesquisadores e pesquisadoras utilizariam nas entrevistas que aconteceriam a partir dali. 77


A formação também trouxe questões importantes sobre o significado das narrativas, a relação da história da festa com a história da cidade, a importância da escuta ativa, sobre o peso político na fala de algumas intervenções que reivindicavam a legitimidade da celebração da festa na Praia de Iracema, sobre como temos a constante prática de arquivar coisas (sejam fotos, cartas, lembranças…), ou mesmo sobre o caráter socio-metodológico do inventário sobre o qual nos deteremos. Cabe lembrar algo que consegue representar todo este arcabouço. Trata-se de uma fala proferida pela professora que dizia, salvo algum engano, que “uma colcha é tão boa quanto seus retalhos e, na construção da colcha, precisamos escolher com cuidado cada um dos retalhos e como ele harmoniza com as demais partes da colcha”. Pensa-se na Festa de Iemanjá e na responsabilidade de coletar as partes que comporão esse construto e que essa lição diz muito sobre a responsabilidade da equipe da pesquisa, diante da beleza do universo a ser pesquisado.

Arquivo/DN – 1989 Mulher representa Iemanjá na Praia do Futuro

A pergunta que dá nome à oficina nos impulsiona a realizar uma pesquisa como quem tece uma rede de artesanatos de vidas entrelaçadas. A festa é, como já se disse, uma tessitura de memórias de vida e tradições em movimentos. Este trabalho é construído como se faz uma rede de pescador a muitas mãos. As mãos de quem faz participam e celebram a festa. 78


Foto de Allan Taissuke

Foto de Allan Taissuke

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Foto de Allan Taissuke

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Mãe Zimá, a trajetória de uma mãe de santo da Umbanda


Escolhemos assistir ao documentário “Mãe de Santo, teu nome é Zimá”, sobre a Mestra da Cultura Cearense Mãe Zimá, por entendermos o quanto poderíamos absorver sobre a religiosidade e a tradição da Umbanda no Estado. Dirigido por Lilia Moema Santana, mostra o fruto de uma pesquisa realizada em, no mínimo, seis anos. Dessa forma, pode-se perceber a confiança que Mãe Zimá tem na pesquisadora, que registra diversos rituais realizados por ela e seus filhos de santo, tanto no espaço de seu terreiro como em lugares externos, como em um riacho, assim como rituais públicos e privados. O filme foi comentado pelo Prof. Dr. Antonio George Lopes Paulino, antropólogo e professor do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal do Ceará (UFC). Os rituais mostrados ultrapassam aqueles que normalmente são abertos ao público, como as festas no terreiro, sendo mostrados trabalhos de cura, de amarração, matança de animais. Ao mesmo tempo, ouvimos as explicações, sendo uma forma didática de compreender o universo da Umbanda, sendo possível quebrar certos tabus sobre a religião. Os relatos de pesquisadores, estudiosos sobre o assunto, como Zeca Ligiero, também são mostrados, o que é uma forma de legitimar a religião e apontar as especificidades da Umbanda no Ceará, como os elementos da pajelança, como as raízes, bastante utilizadas nos rituais de cura. A festa também é celebrada por populações indígenas do Ceará.

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Ver mais no site do filme “Mãe de Santo, teu nome é Zimá”. Disponível em: <http://www.maezima.com.br/home.html>. Acesso em: 13 jun. 2021.

Cartaz do Filme “Mãe de Santo, teu nome é Zimá”10


Por meio dos relatos de Mãe Zimá, que se mesclam entre suas vivências e o universo da Umbanda, o documentário também mostra a profunda relação desta com o catolicismo, com seus santos e rezas, além de outra característica forte da religião que é a caridade. Apesar de o filme não enfocar a Festa de Iemanjá, entendemos a sua importância por se tratar do cotidiano de um terreiro de Umbanda na cidade de Fortaleza. Mãe Zimá, que conta ter recebido seu orixá aos setes anos de idade e ter feito seu primeiro trabalho aos 14 anos, é uma das mais conhecidas e respeitadas sacerdotisas da cidade. O documentário abrange muitos elementos da Umbanda, muito do seu universo simbólico, mesmo focando na história de uma única mãe de santo, de um terreiro específico. Mesmo sabendo das especificidades que cada casa tem, é um registro rico para a história da Umbanda cearense. A história de Mãe Zimá e de vários dos interlocutores desta obra são narrativas de lutas, curas e conquistas. Em um dos momentos de sua vida, ela se encontrava viúva e com uma filha, sem dinheiro e sem casa, batalhou, sobreviveu, venceu “com a força de seus guias”. Hoje é dona de um grande terreiro e detentora de grande prestígio. É impressionante a quantidade de gente que ela consegue agregar ao seu redor, sua casa faz jus ao conhecido ditado “igual a coração de mãe, que sempre cabe mais um”. Ela é mãe de muitos filhos, biológicos ou não, como bem aponta a fala de um de seus filhos: “Uma frase que a caracteriza é que, do portão pra dentro, todos são filhos”. É uma mãe que cuida e protege seus filhos, mas que também repreende quando necessário. Sobre esse cuidado com os filhos, é muito interessante quando ela fala: “Não faço mal a ninguém, mas se mexer com um dos meus filhos...”. O documentário foi construído ao longo de muito tempo e não foi montado de forma cronológica. A confiança depositada na diretora por parte de Mãe Zimá fica evidente quando é permitido filmar o fazimento de alguns trabalhos – dentre eles, um de amarração. Em certo momento, é dito que, na casa de Mãe Zimá, pratica-se a “Umbanda do Ceará”, o que evoca toda a questão da tradição. Ao mesmo tempo, é mostrada a pluralidade na qual a Umbanda foi criada como, por exemplo, na cena em que mãe Zimá diz que a primeira coisa que faz quando chega ao pé do altar, localizado em seu galpão, é rezar uma Ave Maria e um Pai Nosso. Como é dito por Zeca Ligiero, a Umbanda teria como principal função a cura, herança de suas raízes católicas e espíritas; além da cura – muito presente nas dramatizações criadas para ilustrar o passado de mãe Zimá e de seu avô Dom Gastão – outro elemento muito importante é a caridade.

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O documentário nos ajuda a perceber também a questão das indumentárias, das cores e dos objetos: para cada Orixá, existe uma cor específica. Existem giras11 que demandam roupas de cores e paramentos específicos. Outros elementos que podemos citar são o cachimbo, que é fumado quando um preto velho se faz presente; o incenso, que é liberado antes de se começar uma gira; o baralho, que ela usa para jogar já há quarenta anos; suas guias – que, em certo momento, ela as coloca em cima da mesa para mostrar. E cada entidade tem seu lugar. Zé Pilintra tem um altar no seu quarto, onde fica o terço que ela reza toda noite antes de dormir. Há outro altar, dedicado ao seu Exu, com quem mantém uma curiosa e intrigante relação de amizade, reciprocidade e intimidade, já que “deixar ele sair” e depois voltar para a casa dela. Assim é Mãe Zimá, uma mulher forte e simples que vai todos os dias ao mercado São Sebastião, localizado no Centro de Fortaleza, tomar café da manhã e comprar charutos, velas, cachaça e aquilo que estiver faltando para sua gira. Todos esses elementos são fundamentais para a realização dos trabalhos espirituais, no terreiro de Umbanda, e fazem parte da liturgia sagrada da religião.

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“Gira” é o ritual de Umbanda. A gira é um trabalho espiritual com danças, cantos e é onde as entidades incorporam em seus médiuns.

Foto de Thiago Matine

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Tratar

Foto de Manuel Filho

Foto de Thiago Matine

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Foto de Thiago Matine

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A produção de entrevistas


As entrevistas, sempre abertas, mostraram-se marcantes, pois havia uma nítida emoção nos pais e mães de santo em saber que a Festa de Iemanjá seria registrada como Patrimônio Cultural Imaterial de Fortaleza. O antropólogo Ismael Pordeus Jr., que entrevistou Mãe Júlia Condante em 1978 e 1979, reconhece que já se pode falar em tradição da Umbanda no Ceará.

Já pode se falar de tradição dado ao próprio tempo. É uma festa que começa aqui em Fortaleza no final da década de 1940, significa mais de sessenta anos. Então já pode botar a palavra tradição no meio [...]. Eu acho importante a patrimonialização das representações dessa festa, porque num certo aspecto essa festa sempre foi uma heresia, um afrontamento ao próprio tipo de religiosidade daqui: católica, do seminário, da própria história do catolicismo daqui. A festa foi sempre uma confrontação à visão do mundo da população daqui. A de afirmação “nós somos”. Afirmação de persona. As pessoas terem o direito de festejar aquilo em que creem, aquilo que pensam. A patrimonialização assegura e protege o direito dos Umbandistas. (Entrevista Prof. Ismael Pordeus Jr., 2016)

Mãe Suzana, da UECUM, confirma o orgulho dos umbandistas em celebrar a Festa de Iemanjá. Iemanjá é considerada, como já dissemos, a Grande Mãe do Povo de Santo.

Minha filha, a festa é importante pelo seguinte. Porque os umbandistas ficam orgulhosos de se apresentar para o povo, ali o povo tá ali batendo retrato, tão filmando, eles se acham com muito valor, acham que a união é muito importante pra eles. Eu tô ali na barraca, os pobizinho chega, “Ô, mãe, nós estamos tão felizes, nós estamos trabalhando e o povo tudo assistindo trabalho”. (Entrevista Mãe Suzana, 2016)

Mãe Suzana Foto de Jean dos Anjos

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Pai Raimundinho Dente de Ouro compara o registro da Festa de Iemanjá como se estivesse registrando um filho que não tinha documento de nascimento. A festa como patrimônio é, no entendimento dele, uma garantia de direitos da existência dela.

Olhe, meu irmão, significa muita coisa. Eu sei que, para mim, significa um documento... É a mesma coisa, do patrimônio que está fazendo isso, é a mesma coisa d’eu ter um filho e conseguir registrar ele – para mim, certo? Para mim é a mesma coisa. (Entrevista Pai Raimundinho, 2016)

Pai Raimundinho Dente de Ouro Foto de Éden Barbosa

Mãe Mocinha de Oyá revela as oferendas que Iemanjá gosta de receber. Iemanjá é significada como uma entidade feminina que tem vaidade. Tudo que uma mulher vaidosa gosta faz sentido para presentear o Orixá. A oferenda quer dizer presente, que são os presentes para Iemanjá, que nós umbandistas, tanto a Umbanda e o Candomblé, fazemos oferenda de rosas, de frutas pra Iemanjá, tem pessoas que joga até ouro, oferenda é um presente. Tem um tipo de alimento que a gente dá pra Iemanjá, tem as alimentações deles, tem o arroz com mel, peixes, perfume, principalmente frutas. Tem gente que dá maquiagem, pente, champanhe, guaraná, espelho, tudo isso é ofertado pra Iemanjá nos dias da festa, não só na festa, no decorrer do ano faz uma oferenda, tá precisando de alguma coisa, faz um pedido a Iemanjá e dá aquela oferenda de rosas ou qualquer outra coisa das coisas que ela gosta. (Entrevista Mãe Mocinha, 2016) Mãe Mocinha de Oyá Foto de Jean dos Anjos

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Mãe Bia Pombagira confirma que Iemanjá é uma entidade que gosta de receber presentes.

É, festa para Iemanjá e para os umbandistas é em toda orla marítima. Seja lá onde for, mas é uma festa para Iemanjá, né? Onde a gente contrata um barco, faz as nossas oferendas, procura não levar coisas para não sujar muito o mar, pra não ficar muita coisa lá. Por exemplo, o perfume a gente derrama, o champanhe... Vai rosas, né? Até o balaio volta. O enfeite que a gente bota volta. Então tá indo só coisas que se desmancham logo, né, que é pra não matar peixe, alguma coisa que tem no mar. Então a gente tá querendo preservar a natureza né, porque a gente trabalha com a natureza. (Entrevista Mãe Bia Pombagira, 2016)

Mãe Bia Foto de Jean dos Anjos

Mãe Tecla discorre sobre a importância do registro da Festa de Iemanjá para Fortaleza e para o Ceará, já que chegam terreiros de todas as partes do Estado, para saudar Iemanjá. E faz destaque para Mãe Júlia Condante e Manoel Rodrigues de Oliveira. O registro, segundo a mãe de santo, assegura a vida plena da festa.

Então isso aí vai servir pra que fique, pra que não morra essa cultura, essa tradição, pra que, mais na frente, outras pessoas continuem fazendo a festa de Iemanjá, nunca deixe de ser feita a festa de Iemanjá. Quando nós não estivermos mais aqui, continue sendo feita a festa de Iemanjá, isso é muito importante. Tanto que, próximo ano, como foi dito, já podemos exigir tantos policiais, podemos exigir outras coisas. Então vai ter outro olhar pra festa de Iemanjá, mais segurança nós precisamos, né? Porque ali a Praia do Futuro é muito extensa, muito grande, então já sendo como patrimônio imaterial já vai ter outro olhar, outra questão por parte de todo mundo. [...] A importância é tudo, mãe Júlia também faleceu e, quando a mãe Júlia faleceu, também pediu pra continuar e, logo depois, Manoel Rodrigues de Oliveira também faleceu, então ficou nas nossas mãos. Então muita gente que faz, tem pessoas que fazem e vão deixar essas oferendas nas praias mais próximas, né, na Barra do Ceará. Agora, no interior do Estado, tem uma festa muito grande em Camocim, muito linda a festa de Iemanjá em Camocim, que é o nosso sócio que faz, o Jairo. Assim como tem outras nos interiores, mas você ver que aí tinha pessoa do Juazeiro do Norte, Crateús, de todo canto tinha caravana, de Baturité, tinha uns quatro ou seis ônibus de outro interior, é muita gente.

Mãe Tecla Foto de Jean dos Anjos

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(Entrevista Mãe Tecla, 2016)


Mãe Stela confirma que Iemanjá e Nossa Senhora estão próximas e é possível o diálogo inter-religioso. O respeito e a tolerância se apresentam nas palavras da mãe de santo, filha de Mãe Júlia Condante.

Com Nossa Senhora? É uma relação de paz e amor meu filho. Nossa Senhora é a mãe de todos, nos pertence a vida inteira. Eu sou católica, eu sou umbandista, mas todo umbandista ele é católico. Agora... tem algumas pessoas que acham que a Umbanda é uma coisa fora do catolicismo, mas não é não, porque na Umbanda a gente reza, na Umbanda a gente pede... Agora, na igreja, não tem caboclo, mas no centro de Umbanda tem, mas a reza existe, não é outra seita que tem que não reza, fala da igreja, fala do santo. A gente cultua os santos e trabalha com caboclo, mas a gente tem os santos. (Entrevista Mãe Stela, 2016)

Pai Neto Tranca Rua fala da importância do registo da Festa de Iemanjá e os desdobramentos da patrimonialização para a Umbanda.

O nosso interesse é um registro que fique na cidade. A nível municipal, tem que acontecer, a nível estadual também é muito importante. Mas a importância mesmo que ela passe por essas duas fases – municipal e estadual – para chegar ao IPHAN, porque, no momento que ela for reconhecida pelo IPHAN, ela passa a ter rubrica. Municipal e estadual não garante rubrica não. Mas, quando ela se tornar a nível do IPHAN, ela passa a ter uma rubrica própria. E no primeiro instante, a gente queria (gagueja um pouco), quando a gente chegou aqui, quando a gente inicia aqui no Ceará, mas nós já estamos também... transformar a própria Umbanda, porque a Umbanda é reconhecida como religião, mas não é reconhecida pelo IPHAN. A Umbanda não tem ainda recurso garantido no IPHAN. É, porque reconhecido pelo IPHAN, pode criar os conselhos estaduais, os conselhos estaduais passam a ter rubrica, a nossa preocupação é a autossustentação. Porque, até agora, nós vivemos com um peso na mão... de boa vontade de alguém que queira doar alguma coisa para realizar a festa, porque oficialmente nós não temos recurso garantido. (Entrevista Pai Neto Tranca Rua, 2016)

Pai Neto Foto de Jean dos Anjos

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Mãe Balbina, como todos os outros entrevistados, preocupa-se com a segurança da festa e lembra os momentos difíceis por que a Umbanda já passou.

Primeiro a festa de Iemanjá! A gente querer fazer uma reunião na praia e eles consentirem. Quem é doido de chegar em uma praia, tarde da noite, ou cedo, para fazer uma reunião de São Jorge? Iemanjá, porque já é... todo mundo sabe que é no dia 15 de agosto, mas e São Jorge, quem é que vai? A polícia barrava logo, se a gente fosse teimar, vinha logo com bala. Por isso que eu digo, não vê, em São Paulo, ou foi no Rio, que mataram um pai de santo? Não houve isso aí? Que muita gente diz “ter cuidado, para não chegar aqui em Fortaleza”, ave Maria! Ave Maria! De chegar, entrar na casa da gente, de matar, né? (Entrevista Mãe Balbina, 2016)

Mãe Balbina Foto de Beto Skeff

Mãe Gardenia de Iansã, filha de Mãe Balbina, relembra que a Umbanda faz parte da sua vida desde a infância e que a Festa de Iemanjá está em suas primeiras lembranças.

Era das festas de Iemanjá, que eu me lembro que a gente ia de caminhão. Como eu era muito pequena, eu ainda me lembro, a gente ia em cima de um caminhão. Aí a Mãe Balbina ia para a festa de Iemanjá e sempre a gente acompanhava, meu irmão tinha sete anos e já era ogam. (Entrevista Mãe Gardenia de Iansã, 2016)

Mãe Gardenia

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Foto de Beto Skeff


Pai Castelo lembra a tradição de passar a noite do dia 14 de agosto na praia.

Eu, quando ia trabalhar na praia, ficava um monte de pai de santo de noite, que a tradição sempre foi essa. Seis horas no dia antes. Seis horas todo mundo começava a cantar o hino. “Refletiu a luz divina, com todo seu esplendor”. Então, depois do hino, vinham as orações, todo mundo fazia as orações. Aí vinha, tinha um terreiro sempre para representar, fazer o trabalho. Muito bonito. (Entrevista Pai Castelo, 2016)

Pai Castelo Foto de Jean dos Anjos

E Pai Sebastião se despede de nós com um ponto de Ogum que emociona toda a equipe de pesquisa:

É o que eu digo: “Nesta casa de guerreiro de Ogum, vem de longe pra rezar. Eu rogo a Deus pelos doentes, Ogum, na fé de Obatalá, Ogum. Deus nos salve a casa santa, Ogum, os presentes e os ausentes, de Ogum. Salve a nossa esperança, Ogum, salve velhos e crianças, Ogum. Preto velho me ensinou na cartilha de Aruanda, Ogum, se Ogum já escreveu, Ogum, vamos vencer a quimbanda. Que Oxalá abençoe a nós todos!” (Entrevista Pai Sebastião, 2016)

Pai Sebastião Foto de Jean dos Anjos

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Conclui-se a seção das entrevistas com o emocionante relato de Mãe Kelma de Iemanjá, sobre a patrimonialização da Festa de Iemanjá:

O registro da festa de Iemanjá para a cidade de Fortaleza nos remete a pensar que essa cidade, ela está reconhecendo a importância da nossa participação como povo de terreiro. O terreiro como esse espaço construtor de resistência, de acolhimento, o terreiro como espaço de crescimento, como espaço de resguardo de direitos humanos, de direitos de cidadania. A não demonização das nossas casas. Reconhecer a festa de Iemanjá como patrimônio imaterial é reconhecer a importância da contribuição do povo de terreiro na própria constituição da sociedade cearense, da sociedade fortalezense, uma cidade que nasce apartada, dividida [...] Fortaleza é uma cidade conhecida, infelizmente, pelo alto grau de desigualdade socioeconômica e nós estamos dentro do processo, dentro da população, fazendo parte das periferias, onde a vida floresce, onde a vida resiste, onde as pessoas lutam, onde as pessoas constroem afetos, felicidade. Então o reconhecimento da festa de Iemanjá, logo Iemanjá, que eu tenho nela, não só o arquétipo da Grande Mãe, mas Iemanjá é acima de tudo a expressão da luta das mulheres, porque Iemanjá representa exatamente a nossa luta, nossa resistência, ela nos lembra da construção de uma sociedade a partir da mão das mulheres, do fazer das mulheres, do pensar das mulheres. (Entrevista Mãe Kelma de Iemanjá, 2017)

Mãe Kelma Foto de Jean dos Anjos

A importante fala de Mãe Kelma de Iemanjá revela o quanto o registro da festa é um forte momento político para a população de terreiro de Fortaleza. O reconhecimento da festa pública e o seu registro como bem imaterial é um marco para a luta de umbandistas da cidade e colabora com as políticas públicas contra o racismo e a intolerância religiosa. 94


Foto de Thiago Matine

Foto de Thiago Matine

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Foto de Éden Barbosa

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Processos e etapas de produção da festa


A Festa de Iemanjá de Fortaleza começa a ser preparada bem antes dos dias 14 e 15 de agosto. Os umbandistas precisam organizar e preparar a festa com meses de antecedência. A maior preocupação daqueles e daquelas que vão para a praia é o deslocamento. É preciso alugar ônibus ou vans para que a comunidade de terreiro chegue à praia para a festa. O custo financeiro é muito alto e esse fato dificulta que terreiros mais humildes possam chegar à orla marítima da cidade. Além disso, existe a preocupação com o vestuário, a comida e a bebida do Orixá e a alimentação da comunidade que vai à festa. Como já foi dito, a Festa de Iemanjá é de alegria e esbanjamento. De toda forma, a festa acontece com o espírito de comunidade do povo de terreiro. Os adeptos da Umbanda fazem cotas entre si para pagarem o transporte, a montagem do espaço e depois realizam juntos a escolha do local para instalar o terreiro nas areias da praia. Em ano eleitoral, é mais fácil conseguir verbas com o poder público ou com candidatos à eleição. É visível a presença de políticos em ano de eleição na cidade e a falta deles quando não há eleição. Portanto, a festa é também uma oportunidade para candidatos se promoverem. Iemanjá está associada popularmente a todos os símbolos marinhos, como conchas, búzios, estrelas-do-mar etc. Fazem parte também desse arsenal a âncora, o leme dos barcos e, evidentemente, os próprios barcos e seus marinheiros. Em quase todos os terreiros, esses símbolos estão presentes, principalmente perfumes, flores, garrafas de sidra e bijuterias. Todos esses presentes são entregues para Iemanjá, no final da tarde do dia 15 de agosto. As associações de Umbanda de Fortaleza, como a União Espírita Cearense de Umbanda e a Associação Cultural Afro-brasileira Pai Luiz de Aruanda, procuram o poder público para apoio financeiro. A Prefeitura e o Estado têm dado assistência às associações ao longo dos anos, mas nota-se que esse apoio ainda é precário. Há uma preocupação, principalmente, com a violência urbana que assola a cidade e o movimento de intolerância religiosa que acompanhamos pelas redes de comunidades afro-religiosas. É preciso que as instituições públicas olhem com mais zelo e fomentem a Festa de Iemanjá, com mais apoio para a sua realização plena.

Foto de Thiago Matine

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Foto de Thiago Matine


Foto de Thiago Matine

Foto de Thiago Matine

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Foto de Allan Taissuke


Reportagens sobre a Festa de Iemanjá: recortes de 1984 a 2014


Sabe-se que as tradições de origem afro-indígenas brasileiras são transmitidas oralmente. Sabe-se, também, que o preconceito e o racismo silenciaram por séculos essas manifestações culturais. “Vocês só encontrão fatos sobre a Umbanda nas páginas policiais”, disseram várias lideranças que foram entrevistadas. Com esforço, conseguiu-se acesso a algumas reportagens do Jornal Diário do Nordeste que, gentilmente, abriu seu arquivo para que se fizesse a memória da Festa de Iemanjá de Fortaleza. Reproduzimos aqui alguns trechos das reportagens mais antigas e relevantes para a pesquisa.

Antes do deslocamento para a Praia do Futuro, os umbandistas se concentraram na Praça Castro Carreira, por volta das 13 horas. De lá, seguiram para a praia, de ônibus ou caminhões ornamentados. Às 14 horas teve início o espetáculo umbandista em festejo ao Dia de Iemanjá. Segundo o presidente da União Espírita Cearense de Umbanda, Manoel Rodrigues, este ano cerca de 500 terreiros compareceram à Praia do Futuro. Ao todo são filiados à União 1.500 terreiros na capital e 2.880, em todo o Estado. “Apesar da crise, este ano a presença de terreiros e de outras pessoas superou as perspectivas”, disse Manoel Rodrigues; acrescentando que os umbandistas que não puderam comparecer foi devido a questões financeiras. “Nós somos um povo muito carente e que fazemos das fraquezas forças”.

Nota-se, na reportagem, a grande quantidade de terreiros filiados a UECUM. Se imaginarmos que cada terreiro levou quarenta pessoas no ano de 1984, podemos pensar em vinte mil pessoas na Praia do Futuro, saudando Iemanjá. Percebe-se que esse número poderia ser bem maior se não fossem as questões financeiras que Manoel Rodrigues cita. É importante pensar no cortejo com ônibus e caminhões ornamentados, saindo do Centro da cidade até a Praia do Futuro.

(Diário do Nordeste, 16/08/1984)

Iemanjá, a mais famosa dos orixás femininos cultuados no Brasil, pelos cerimoniais dedicados a ela nas praias, em diferentes dias e meses do ano, é festejada por excelência no Ceará, no dia de hoje, 15 de agosto. Neste dia, Iemanjá leva à sua morada, o mar, milhares de pessoas entre adeptos, turistas e curiosos, os quais levam à “Rainha das Águas” presentes ou oferendas, acompanhadas de cânticos de agradecimentos ou de pedidos de favores. O dia é santo para os umbandistas, que reunidos em comunhão de espírito vão prestar louvor à Senhora das Águas e pedir paz, luz e força para o povo da terra. O local escolhido há anos é a Praia do Futuro, onde os filhos de Iemanjá vão fazer seus cultos e oferendas. Este ano a estimativa é de que cerca de 100 mil pessoas comparecerão à praia. Os umbandistas, responsáveis pelos rituais, começaram a marcar presença com seus terreiros já na noite anterior, dia 14, e com seus cânticos, palmas e atabaques fazem a festa durante toda a noite e por todo o dia de hoje, que é consagrado à Rainha das Águas. (Diário do Nordeste, 15/08/1987) 102

A reportagem afirma que Iemanjá é a mais “famosa” Orixá do Brasil. Ora, Iemanjá é famosa exatamente por suas festas públicas, que são conhecidas em todo o mundo. A Festa de Iemanjá do Rio Vermelho, em Salvador, é a terceira maior festa da Bahia, perdendo apenas para a Lavagem do Bonfim e o Carnaval. Uma festa conhecida mundialmente. Nota-se, na reportagem de 1987, que, além dos fortalezenses, turistas também já celebram Iemanjá em Fortaleza. Os cânticos, palmas e atabaques são destaques nesta reportagem.


A cada ano, o número de adeptos de umbanda cresce. Tida como religião afroameríndia, foi originada no Brasil através do negro, índio, caboclo e de outras raças que povoaram o continente. O elemento da Rainha do Mar é a água salgada. Possui domínio sobre a maternidade e a pesca e o seu dia consagrado é o sábado. As cores de Iemanjá são o azul-claro e o branco. Também está associado à cor prata.

Em 1989, a reportagem confirma o que as tradições já dizem. Iemanjá tem o domínio sobre a maternidade e a pesca. Também coloca a Umbanda como uma rica religião que junta negros, índios, caboclos e outras raças que povoaram o Brasil. A Umbanda é de tradição africana e de tradição indígena. Mas devemos lembrar que a Umbanda bebe de inesgotáveis fontes e nunca deve ser colocada em uma “caixinha”. É preciso que se fale em Umbandas.

(Diário do Nordeste, 13/08/1989)

Divididos, os devotos de Iemanjá realizaram ontem, na Barra do Ceará e na Praia do Futuro, os festejos em homenagem à “Rainha do Mar”. Frutas, flores, perfumes e panelas de barro com oferendas foram jogados ao mar pelos seguidores da umbanda e do candomblé, que pediram paz para o Brasil no ano de eleição. Iemanjá, a Rainha do Mar, foi homenageada ontem por grande número de seguidores de umbanda e candomblé na Praia do Futuro. Centenas de curiosos e membros de terreiros ofereceram frutas, flores, perfumes e joias para a rainha das águas. Para muitos adeptos, a falta de incentivo das autoridades governamentais e a própria crise econômica foram dois fatores responsáveis pela redução no comparecimento do público. “Nós não recebemos nenhuma ajuda. A nossa programação também não foi cumprida”, reclama Carlos de Xangô.

A importante reportagem de 1989 mostra que, nesse ano, a Festa de Iemanjá aconteceu em duas praias da cidade: Praia do Futuro e Praia da Barra do Ceará. É preciso lembrar que os festejos da Rainha do Mar podem acontecer em qualquer praia de Fortaleza ou mesmo dentro dos terreiros. Hoje os dois polos estão concentrados nas Praias do Futuro e de Iracema, mas sabe-se que Mãe Júlia chegou a fazer a festa na Barra do Ceará, à época, de difícil acesso. Destaque para a falta de compromisso das autoridades públicas com a festa, reclamação própria dos organizadores, principalmente nos anos em que não há eleição.

(Diário do Nordeste, 16/08/1989)

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A festa de Iemanjá, orixá das águas na religião afro, é uma das mais tradicionais, acontecendo todos os anos nos dias 14 e 15 de agosto. Nessa data milhares de pessoas, adeptos ou não da religião, dirigem-se à Praia do Futuro para render homenagens à divindade e colocar oferendas. Somente a ACBUSB [Associação Cearense Beneficente de Umbanda Senhor do Bonfim] congrega cerca de três mil terreiros em Fortaleza, existindo ainda outras entidades. Ribeiro teme que insultos e provocações por parte dos fiéis da Universal terminem em tumulto generalizado. Visando justamente evitar isso, ele enviará ofício ao Comando da Polícia Militar e à Secretaria de Segurança Pública, solicitando reforço policial durante a festa. “É preferível evitar o desastre”.

Destaca-se, na reportagem de 1990, o ataque que a festa sofreu pela Igreja Universal do Reino de Deus (IURD). É preciso especial atenção com esse fato, que não é isolado. Cristãos fundamentalistas religiosos estão constantemente atacando pessoas de religiosidades de matriz afroindígena brasileira. O combate ao racismo e à intolerância religiosa deve ser constante.

(Diário do Nordeste, 26/07/1990)

O Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa, celebrado em 21 de janeiro, foi instituído em 2007 pela Lei n. 11.635. A data rememora o dia do falecimento da Iyalorixá Mãe Gilda, do terreiro Axé Abassá de Ogum (BA), vítima de intolerância por ser praticante de religião de matriz africana. A sacerdotisa foi acusada de charlatanismo, sua casa foi atacada e pessoas da comunidade foram agredidas. Ela faleceu no dia 21 de janeiro de 2000, vítima de infarto. Apenas em 2016, a ouvidoria da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir) recebeu cerca de sessenta e quatro denúncias de intolerância religiosa; em 2015, foram sessenta e um casos; em 2014, vinte e quatro registros; no ano de 2013, quarenta e nove ocorrências; e, em 2012, foram vinte e sete. Vítimas de intolerância registrada são, em sua maioria, praticantes de religiões de matriz africana12. Quase duas décadas após a trágica morte de Mãe Gilda, a intolerância persiste no país, com atentados a terreiros e agressões aos adeptos das religiões de matriz africana. A Fundação Cultural Palmares (FCP) tem como um de seus objetivos enfrentar qualquer forma de intolerância, além de promover o patrimônio imaterial dos Povos de Terreiro. Trata-se de uma luta que deve envolver não só o poder público, mas toda a sociedade. As denúncias contra esse tipo de crime podem ser feitas pelo Disque Direitos Humanos (Disque 100), do Ministério dos Direitos Humanos, e pela Ouvidoria da Secretaria Nacional de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir)13.

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Dia de Combate à Intolerância Religiosa é celebrado neste sábado (21). Disponível em: <http://www.brasil.gov.br/cidadania-e-justica/2017/01/dia-de-combate-a-intolerancia-religiosa-e-celebrado-a-intolerancia-religiosa-e-celebrado-neste-sabado-21>. Acesso em: 24 jun. 2018.

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Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa honra memória de vítima do preconceito. Disponível em: <http://www.palmares.gov.br/archives/48879>. Acesso em: 24 jun. 2018.


Um outro monumento a ser inaugurado por Juraci Magalhães é dedicado a Iemanjá. A estátua ficará localizada na Avenida Zezé Diogo, com a Rua Miguel Calmon (Praia do Futuro). O projeto é do escultor Zenon Barreto, erguendo-se num pilar de dois metros de altura, de forma retangular, de 80 por 60 centímetros, cercado por uma lâmina de água e de luz. A festa de inauguração está marcada para o dia 15 deste mês. (Diário do Nordeste, 06/08/1992)

A controversa estátua de Iemanjá, na Praia do Futuro, chega na reportagem de 1992. Controversa, porque esta pesquisa desvela que os umbandistas, ou parte deles, não reconhecem a estátua como Iemanjá, ou seja, a Iemanjá inaugurada não representa a Rainha do Mar de Fortaleza. “Uma afronta à umbanda”, disse um umbandista em entrevista. É preciso repensar como o Povo de Terreiro vê a Rainha do Mar e é necessário reestabelecer uma nova estátua de Iemanjá na Praia do Futuro. Em quase todas as praias das capitais do Nordeste brasileiro, existe uma Iemanjá na beira do mar e Fortaleza não deve ficar de fora.

Arquivo/DN – 1992 Escultura de Iemanjá produzida por Zenon Barreto

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Os umbandistas estão se preparando para a realização, no próximo dia 15 de agosto, da Festa de Iemanjá. Uma promoção já tradicional da União Espírita Cearense de Umbanda, o evento começa às 13 horas, com uma carreata saindo da sede da União (Rua 24 de maio, 410, Centro), em direção à Praia do Futuro, local onde acontecem as festividades até as 18h30min. A expectativa para esse ano, segundo a diretora financeira e social da União, Conceição Alves, é que haja a participação de 200 mil pessoas.

A reportagem de 1993 apresenta a fala de Mãe Conceição Alves, da UECUM, uma das principais articuladoras da Festa de Iemanjá nas décadas de 1990 e 2000. A presença de 200 mil pessoas na festa determina a importância desta como bem cultural na cidade, pois revela que a tradição está cada vez mais viva e pulsante.

(Diário do Nordeste, 03/08/1993)

Milhares de umbandistas estiveram presentes no encerramento da 37ª Festa de Iemanjá, ontem, na Praia do Futuro. O evento começou com um cortejo que saiu da sede da União Espírita Cearense de Umbanda (Uecum), responsável pela organização da festa, concentrou-se nas proximidades da barraca Tribus. Segundo informações da Polícia Militar, no período da manhã, as festividades transcorreram sem incidentes graves. A corporação destacou 75 homens para garantir a tranquilidade dos participantes do evento. “Curiosamente, está até mais tranquilo que nos dias normais”, garantiu o capitão Oriano Gomes, chefe da operação. “Esse ano, estamos com uma estrutura profissional. Contamos com o apoio da Polícia Militar, da Guarda Municipal, do Corpo de Bombeiros e da AMC”, afirmou o coordenador do evento, Nonato Fernandes. O apoio do poder público também pode ser notado nos banheiros químicos instalados na praia e nas duas equipes de socorristas que estiveram de plantão durante toda a festa. “As denúncias de insegurança na praia, durante a festa, no ano passado, preocuparam-nos bastante. Por isso fomos atrás do poder público para garantir a segurança das pessoas que vêm aqui homenagear Iemanjá”, explicou Fernandes. (Diário do Nordeste, 16/08/2005) 106

Fala-se em milhares de pessoas em 2005. E em uma festa mais tranquila do que no ano anterior. A presença de agentes de segurança é determinante para a realização da Festa de Iemanjá de Fortaleza. A questão da violência foi marcante nesta pesquisa, embora se compreenda que a violência não é um problema da festa, mas da cidade.


O bairro da Praia do Futuro é dividido em I e II. Entre alguns hotéis e grandes barracas de praia, que formam um complexo turístico, moram pessoas de baixa renda, que têm suas casas construídas em uma área sem planejamento urbano e sem estrutura proporcionada pelo governo municipal. O bairro está entre os que possuem os menores Índices de Desenvolvimento Humano (IDH) na cidade de Fortaleza14. Quando Mãe Júlia iniciou os festejos para Iemanjá, a Praia do Futuro era um terreno de difícil acesso, de topografia bastante irregular e distante do centro urbano. Fortaleza é uma cidade que cresceu assustadoramente em cinquenta anos e é uma das cidades de maior desigualdade social do país. Hoje em dia, na festa realizada na Praia do Futuro, devido aos diversos assaltos ocorridos durante os festejos, alguns terreiros estão preferindo realizar as homenagens a Iemanjá em praias da região metropolitana de Fortaleza.

Cerca de 150 mil pessoas estão sendo esperadas, hoje, na Praia do Futuro, durante as homenagens a Iemanjá, sincretizada no Ceará com Nossa Senhora da Assunção. As comemorações começaram ontem, quando foram entoados os primeiros sons dos agogôs, atabaques e triângulos e os preparativos para as oferendas. (Diário do Nordeste, 15/08/2006)

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A reportagem de 2006 fala da relação sincrética entre Iemanjá e Nossa Senhora da Assunção. As festas de Iemanjá no Brasil são, quase sempre, nas mesmas datas do dia da Padroeira da cidade. Por exemplo, a festa de 2 de fevereiro, em Salvador (BA), dia de Nossa Senhora das Candeias; em Porto Alegre (RS), dia de Nossa Senhora dos Navegantes. Os festejos de Iemanjá, no dia 15 de agosto, no Rio de Janeiro (RJ), dia de Nossa Senhora da Glória. A festa de 8 de dezembro em Belém (PA), João Pessoa (PB) e Praia Grande (SP), dia de Nossa Senhora da Conceição. E os festejos de 31 de dezembro em Santos (SP) e Rio de Janeiro (RJ), marcando a virada do ano novo. As datas das festas de Iemanjá, na grande diversidade de Nações Candomblés no território brasileiro, atendem a outros calendários específicos e, geralmente, são realizadas nos próprios terreiros.

Conforme reportagem sobre IDH na cidade de Fortaleza. Disponível em: <http://tribunadoceara.uol.com.br/noticias/cotidiano-2/moradores-do-bairro-de-fortaleza-com-pior-idh-reclamam-de-atencao-somente-em-eleicoes/>. Acesso em: 10 jan. 2017. 107


A tradicional Festa de Iemanjá celebrada nos dias 14 e 15 de agosto, a Rainha do Mar, aquela que caminha sobre as águas trazendo boa pesca, fertilidade e paz. No festejo, a população faz oferendas ao mar para comemorar a data. Em sua 48ª edição, a festa já faz parte do calendário cultural da cidade. A Prefeitura irá apoiar o evento com R$ 60 mil. São esperadas mais de 60 mil pessoas para as 24 horas de festejos, que têm início às 18h do dia 14 e perduram por todo o dia 15. Neste período, todos os terreiros irão realizar trabalhos para homenagear a Rainha do Mar. Inicialmente celebrada no Farol do Mucuripe, a festa passou pela Praia do Futuro e hoje acontece, principalmente, no Aterro da Praia de Iracema. É possível ver, em todo o litoral, terreiros em momento de celebração da mãe de todos os orixás. “Mudamos para o Aterro para ter visibilidade, todas as religiões estão lá e nós também estaremos. Queremos desconstruir a imagem preconceituosa dos povos afrobrasileiros e da umbanda”, afirma o diretor estadual do Movimento Político Umbandista (MPU), Ogan Lenon Farias. Os responsáveis pela celebração são a Associação Cultural Afro-brasileira Pai Luiz de Aruanda, Associação Espírita de Umbanda São Miguel, Centro Cultural de Umbanda Rainha da Justiça e o MPU. Nas demais praias, outros terreiros farão os trabalhos.

A reportagem marca duas informações importantes. A primeira é o dado novo de que a Festa de Iemanjá teria começado no Farol do Mucuripe. A segunda é sobre a cisão das associações de Umbanda da cidade, em que uma parte migra para o aterro da Praia de Iracema, local dos grandes eventos midiáticos. As duas festas continuam acontecendo simultaneamente e a cisão não apaga o brilho da Rainha do Mar, pelo contrário, reforça a diversidade do Orixá e afirma que Iemanjá é a Mãe de toda orla de Fortaleza.

(Diário do Nordeste, 13/08/2014)

No geral, as reportagens que foram encontradas no jornal Diário do Nordeste sobre a Festa de Iemanjá afirmam a sua importância para a cultura fortalezense. Destaca-se a expressiva presença de umbandistas e admiradores de Iemanjá na orla da cidade, as fotografias que hoje contribuem para o registro da festa com bem cultural, a resistência do Povo de Terreiro, superando o racismo e a intolerância religiosa, a questão da violência e falta de respeito durante a festa.

Foto de Thiago Matine

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Foto de Manuel Filho

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Foto de Éden Barbosa

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Vídeos sobre a Umbanda e a Festa de Iemanjá


A experiência da imagem na pesquisa traz importantes contribuições à construção de relatórios, dossiês e inventários para registros de bens culturais imateriais. Compreendem-se aqui as reflexões sobre as imagens em movimento e a fotografia que compõem esta obra. O tema da imagem ganhou, nas últimas décadas, lugar central nas reflexões antropológicas. As pesquisas sobre o patrimônio cultural só tiveram a ganhar com a emergência da reflexão sobre a experiência da imagem. Dos vídeos on-line encontrados, apresentamos dois de maior relevância.

Umbanda – 100 anos15

Esse registro é uma reportagem feita pela TV O Povo sobre os 100 anos da Umbanda. A publicação acompanha o seguinte texto: “Reportagem sobre o centenário da Umbanda. Foram entrevistadas: Mãe Mocinha, Mãe Suzana e Mãe Conceição Alves. Matéria do repórter Fábio Monteiro, exibida em 01/12/2008, no programa Viva Fortaleza, da TV O Povo – emissora afiliada à TV Cultura em Fortaleza, Ceará”.

Foto de Jean dos Anjos Mãe Conceição, por ocasião dos festejos de 100 anos da Umbanda em Fortaleza

A publicação inicia com o repórter destacando a historicidade da umbanda e o caráter de “única religião brasileira”, delineado por Gilberto Freyre. Logo em seguida, surge a primeira entrevista, Mãe Mocinha, que fala sobre as origens da umbanda, sua relação com a pajelança e “então juntou os índios com os escravos e transformou na umbanda”. A segunda entrevista é a “Mãe Suzana”, falando da importância de Iemanjá para o povo de terreiro. Depois desta entrevista é apresentada a sede da União Espírita de Umbanda, explicando um pouco dos santos que compõem o altar que fica na sede da União. Depois, Mãe Conceição Alves explica um pouco da história do nascedouro, no Rio de Janeiro, da Umbanda. Já no final do vídeo, o repórter destaca cinco pontos que fazem parte dos fundamentos da umbanda: a crença em um Deus único; a imortalidade da alma; a comunicação com os espíritos; a reencarnação e as leis cármicas; o novo testamento. O vídeo termina com Mãe Conceição afirmando que a umbanda é “importante não só como religião, [mas] como cultura, certo? Porque o homem precisa de alguma coisa mais forte, na qual ele acredite, em que ele tenha fé”.

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Publicado em 8 de setembro de 2010. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=WYWsUL3nvuM>. Acesso em: 14 jun. 2021. 112


Pai Silvio de Exu – Festa a Iemanjá16 Vídeo relativamente longo, com trinta minutos de duração, e produzido, segundo a descrição que surge logo no início, pelo Stúdio C/M Filmagens. Nos primeiros minutos, com imagens de conchas e espumas do mar ao fundo, surge um letreiro, indicando o vídeo como homenagem à “Rainha das Águas Salgadas – Iemanjá”. Ainda nessa descrição, é explicitado que o vídeo foi gravado na festa da Praia do Futuro, no dia 15 de agosto de 2012. Começa com imagens do altar, ainda no terreiro, para, logo depois, mostrar os filhos de santo e o Pai Silvio de Exu chegando às areias da Praia do Futuro, levando cestos e ornamentos. Depois de organizar o altar, é mostrado o pai de santo pedindo uma salva de palmas para o “terreiro da sua mãe”, para o seu terreiro e os agradecimentos aos “policiais e os seguranças que vão ficar na roda”. Ainda, pedindo respeito e o encerramento das “brincadeiras”, o líder religioso convida a todos para homenagear Iemanjá, que era o motivo de estarem reunidos. Nesse momento, começam os cânticos, os tambores e as palmas. O vídeo acompanha Pai Silvio de Exu durante toda a gira, sua dança, o uso do sino, o início da “incorporação”. É possível notar o cuidado das pessoas que compõem a roda, a estrutura agenciada e que dá suporte aos trabalhos, com palanque, tenda, microfones, bem como o trânsito dos curiosos que passam e ficam a assistir aos trabalhos.

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Pai Silvio de Exu chega em cortejo na Festa de Iemanjá da Praia do Futuro Foto de Jean dos Anjos

Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=YFwjZKBdE0Y&index=12&list=PL1yzL 9qX5tcq8 Euu39 k ukQF2TBMW5pDm8>. Acesso em: 14 jun. 2021. 113


Apresentação

Foto de Allan Taissuke

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Foto de Allan Taissuke


Foto de Allan Taissuke

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Parte 3

Foto de Jean dos Anjos

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Odoyá! A festa da vida


Apresentação

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Descrição pormenorizada da Festa


A Festa de Iemanjá de Fortaleza serve para “cortar” o tempo cotidiano e decadente. Ela recupera as origens e expressa socialmente vivências muito profundas. Na Festa de Iemanjá podem ser encontrados, em plenitude, o simbólico, o mítico e o ritual, além do teatral, do cômico, do lúdico, do imaginário e do político. Explosão do festivo da vida religiosa dos umbandistas de Fortaleza, ela é uma necessidade humana radical, um elemento constitutivo da Umbanda como de qualquer religião. Nesse sentido, a festa acontece como uma imitação dos grandes acontecimentos da vida do cosmo ou da terra e assim ela é um jogo cultural.

Do ponto de vista fenomenológico, a Festa de Iemanjá é uma experiência de comunhão com o sagrado, já que nela se celebram algumas de suas manifestações, como hierofânicas, cósmicas, históricas e pessoais.

A Festa de Iemanjá serve, objetivamente, para que os Umbandistas realizem a memória de seus ancestrais na orla de Fortaleza. É saudando Iemanjá e reverenciando o Orixá das águas que os(as) adeptos(as) da Umbanda revivem e reelaboram as suas vivências e existências. Todos e todas prestam homenagem a Iemanjá, atribuindo significações às tradições e culturas que vieram do continente africano e encontrando novos jeitos e resistências no Brasil.

Foto de Jean dos Anjos

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Nos dias 14 e 15 de agosto, os terreiros chegam às praias com seus andores, estandartes e todo aparato para montar um gongá17 na beira do mar. A maioria veste azul e branco, as cores do Orixá. Marcam seus territórios com uma tenda, uma cerca ou simplesmente um círculo de pessoas e realizam seus trabalhos espirituais. Acendem velas, fazem orações e entram em transe, recebendo guias e caboclos, entidades do mundo espiritual que realizam trabalhos de caridade no mundo material. A Festa de Iemanjá também é a ligação entre dois mundos e existe para firmar, no espaço terrestre, a caridade para os que mais necessitam. A Umbanda é a religião da união e da caridade. Os/as umbandistas são agentes que aportam na praia e chegam, principalmente, de bairros periféricos, como Bom Jardim e Parque Dois Irmãos. Numa cidade onde as diferenças sociais são abissais, a Festa de Iemanjá legitima a presença desses agentes em Fortaleza e libera a festa como instituição social no tempo e no espaço. Nos dias de festa, os/as umbandistas realizam suas experiências mediúnicas entre uma população curiosa que, geralmente, nunca teve acesso a um terreiro de Umbanda, seja por desconhecimento, seja por preconceito.

Foto de Jean dos Anjos

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Foto de Jean dos Anjos

“Gongá” é como se chama o altar na Umbanda. Geralmente, tem imagens de orixás, entidades da Umbanda e santos católicos, entre outros.

Foto de Jean dos Anjos

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Elementos que compõem a Festa Agora que conhecemos um pouco mais sobre como acontece a Festa de Iemanjá e a sua história, apresentaremos alguns de seus elementos básicos, a fim de possibilitar uma melhor compreensão acerca do seu cerimonial.

A religiosidade – A religiosidade é fundante na ação humana. Todas as culturas e todos os povos tiveram e têm uma expressão religiosa. Dizer “expressão” é falar de manifestações de ordem religiosa que têm seu veículo na simbologia, na linguagem, na literatura, na arte, em rituais variados, nos corpos doutrinados e em modelos de vida. Aquilo que é expresso de tantas maneiras, que de fato compreende todos os registros da atividade humana, é algum tipo de experiência do transcendente. Como toda experiencia humana, ela também tende à comunicação e à socialização. A experiência religiosa na Festa de Iemanjá é simbólica, abre caminhos e orienta. Na religiosidade, os mitos, os ritos e os símbolos materializam a presença de Iemanjá na festa, orientando e dando significado à mobilização dos umbandistas na orla da cidade.

O cortejo – Os cortejos saem dos terreiros até a orla marítima. Geralmente são feitos em ônibus fretados, para os quais os/as umbandistas realizam cotas para o pagamento. O cortejo é realizado com a maior alegria possível entre os umbandistas, que cantam para Iemanjá e louvam dentro do ônibus, tanto na ida à praia, como na volta para o terreiro. Os atabaques e os pontos cantados anunciam pelas ruas e avenidas, onde o povo de terreiro da cidade resiste e não deixa de celebrar a Rainha do Mar, no seu dia. O cortejo da União Espírita Cearense de Umbanda sai do Centro da cidade até a Praia do Futuro, em carro aberto com a imagem de Iemanjá em cima. Por onde passa, o cortejo é reverenciado e aplaudido.

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Mãe de Santo saúda Iemanjá na Praia de Iracema Foto de Manuel Filho


A imagem de Iemanjá – A imagem de Iemanjá, uma mulher vestida de azul, representa a presença da Grande Mãe de todas as cabeças. Em todos os terreiros, existe a presença da imagem de Iemanjá que é o centro da festa. Iemanjá é a Rainha do Mar, a cuidadora, a advogada, a amiga, a irmã, a companheira, a mãe. É também chamada de Dandalunda, Inaé, Ísis, Janaína, Marabô, Maria, Mucunã, Princesa de Aiocá, Princesa do Mar, Rainha do Mar, Sereia do Mar etc., de acordo com a tradição local. São diversas as qualidades de Iemanjá na Umbanda e no Candomblé e suas mitologias são contadas de diversas formas. Iemanjá é mãe de todos os Orixás, portanto, mãe do mundo.

O presente – O presente de Iemanjá são as oferendas que todos levam para o Orixá na praia. A entrega do presente é sempre uma grande emoção para todos e todas que estão na festa. Os/as umbandistas o entregam no mar, sempre seguido de cânticos, palmas e orações. Iemanjá recebe rosas e flores brancas, perfumes, sidra/ champanhe, adereços femininos, joias, entre outros mimos. Presentes são dádivas por graças alcançadas e precisam ser respeitados na hora de sua entrega.

O espaço sagrado – O espaço sagrado é um elemento imprescindível para a realização da Festa de Iemanjá. Em Fortaleza existem dois polos que precisam ser assegurados e preservados: a Praia do Futuro e a Praia de Iracema. O espaço sagrado é demarcado pelos terreiros que chegam à orla e é feito com tendas, cordões de isolamento, cercas ou mesmo com os próprios corpos dos umbandistas que forma um círculo. É nesse espaço que ocorre a gira, baia ou trabalho: a cerimônia religiosa sagrada para Iemanjá. Cada terreiro forma o seu espaço sagrado na areia da praia tornando aquele espaço profano em espaço sagrado.

A ancestralidade – A Festa de Iemanjá é a maior festa de Umbanda de Fortaleza, portanto é a maior festa da ancestralidade africana que existe na nossa cidade. Na África tradicional, o indivíduo é inseparável de sua linhagem, que continua a viver através dele e da qual ele é apenas um prolongamento. Ancestralidade é raiz, é corpo, é memória, é vida, é comunhão. A Festa de Iemanjá, como bem cultural, produz o sentimento de ancestralidade, pois revive a memória e a identidade dos povos africanos que aqui chegaram e dos povos indígenas que aqui estiveram, além do próprio sentimento dos santos católicos populares.

Imagem de Iemanjá na Praia do Futuro Foto de Jean dos Anjos

Foto de Jean dos Anjos

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A dança – Dançar para Iemanjá é viver a liberdade do Orixá e se integrar com ele. O corpo dançante para Iemanjá em sua festa é o que se integra com o sagrado, dando-lhe significado. Os tambores sagrados dão o ritmo da dança e da festa. São os tambores que vencem o medo e fazem a festa dos corpos. O ritmo frenético dá o tom da Festa de Iemanjá de Fortaleza, realiza e estimula as sensações, as superações e o êxtase.

Os tambores sagrados – Os tambores sagrados são o ponto alto da Festa de Iemanjá de Fortaleza. Não há festa sem música, ritmo e dança. São os tambores os responsáveis pelo chamamento das entidades, caboclos, caboclas e guias. Cada entidade tem o seu ritmo e os tambores são imprescindíveis para orientar para a chegada e a partida da entidade. O tambor é utilizado para enviar e receber mensagens espirituais, e é essencial na preservação da tradição oral. Na religião africana de culto aos Orixás e Ancestrais, é considerado sagrado, e seu tocador é classificado como um comunicador oral. Aquele que toca o tambor é um orador e um comunicador de mensagens sagradas. No ritual religioso, os tambores são o início de tudo, sempre representaram papel muito importante na cultura africana. Existe um antigo provérbio que diz: “Quando os tambores são tocados, eles não mentem”. Foto de Jean dos Anjos

Os pontos de Umbanda – Os pontos de Umbanda são os cânticos sagrados dessa religião afro-indígena brasileira que têm diversas funções como, por exemplo, homenagear uma entidade ou convidá-la ao convívio no centro. Quando os(as) umbandistas cantam os pontos de Umbanda, eles estão, ao mesmo tempo, fazendo uma prece e invocando as entidades, chamando-as para a terra. A Cabocla Mariana, conhecida encantada na Festa de Iemanjá, por exemplo, quando incorpora, canta o seu ponto: “No rio Negro, mururés viraram flores, na mata virgem o sabiá cantou... É ela a Cabocla Mariana, a bela turca que aqui raiou!”. Os pontos de Umbanda precisam ser cantados com cadência própria, em harmonia e sem exageros, pois a harmonia do ponto é essencial para dar a luz necessária, equilibrar a energia para a vinda dos guias e protetores espirituais e, também, para que os trabalhos realizados no terreiro sejam bem-sucedidos. Foto de Jean dos Anjos

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A relevância da Festa de Iemanjá A fundamentação para a pertinência do Registro da Festa de Iemanjá se dá:

Por reconhecer práticas e conhecimentos de culturas afrodescendentes, que expressam as culturas negras e indígenas em Fortaleza.

Por ser a principal festividade do calendário da Umbanda de Fortaleza, representando um movimento de resistência, apesar das perseguições sofridas pela intolerância religiosa;

Por todas as justificativas apresentadas, assim como pela singularidade e especificidade de cada uma, pela expressão da religiosidade e devoção a Iemanjá, por parte e desejo dos detentores, produtores e participantes em geral da manifestação, a pesquisa que gerou essa publicação aponta como favorável a inscrição da Festa de Iemanjá de Fortaleza no Livro das Celebrações. Neste, são inscritos rituais e festas que marcam a vivência coletiva do trabalho, da religiosidade, do entretenimento e de outras práticas da vida social, assim, reconhecendo-a como Patrimônio Imaterial de Fortaleza.

Por ser uma celebração de continuidade histórica, representativa que está sempre se (re)elaborando e se atualizando na construção e no fortalecimento da identidade religiosa e cultural, política, pública e popular, de matriz afro-indígena-brasileira dos fortalezenses; Por oferecer visibilidade e proporcionar a difusão de saberes do universo da Umbanda, que faz parte do repertório das manifestações tradicionais afro-indígenas-brasileiras na cidade; Por ser um instrumento no combate ao racismo e à intolerância religiosa, por meio de seus ritos e suas práticas, fortalecendo a compreensão da pluralidade cultural;

Cacique Kauã Pitaguary na Festa de Iemanjá Foto de Allan Taissuke

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Caminhos para a salvaguarda A salvaguarda dos patrimônios culturais é um aspecto primordial das políticas do registro dos bens culturais de natureza imaterial. A construção da cidadania e a afirmação da democracia no Brasil passam pela concretização de políticas públicas que assegurem e preservem os bens culturais intangíveis.

Salvaguardar um bem cultural de natureza imaterial é apoiar sua continuidade de modo sustentável, atuar para melhoria das condições sociais e materiais de transmissão e reprodução que possibilitam sua existência. O conhecimento gerado durante os processos de inventário e registro é o que permite identificar de modo bastante preciso as formas mais adequadas de salvaguarda. Essas formas podem variar da ajuda financeira a detentores de saberes específicos com vistas à sua transmissão, até, por exemplo, a organização comunitária ou a facilitação de acesso a matérias primas. (IPHAN, 2015)

Os atabaques ecoam na Festa de Iemanjá Foto de Luiz Alves

A pesquisa revelou que a maior questão da Festa de Iemanjá é a insegurança. É preciso um plano de segurança eficaz para garanti-la e seu pleno funcionamento. Os casos de assalto e arrastões foram mencionados por todos(as) os(as) entrevistados(as) que alertaram sobre os perigos da festa. Ainda há pouca fomentação pelos órgãos públicos municipais para que a Festa de Iemanjá desempenhe sua função social e educativa. É preciso, para além do apoio financeiro, que a Secretaria de Cultura realize, junto com outras secretarias, como a de Educação, ações afirmativas que lhe deem visibilidade.

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A construção de uma imagem de Iemanjá na Praia do Futuro, lugar de maior tradição da festa na cidade é uma ação afirmativa. A imagem construída foi destruída e não há nenhum demarcador, no local onde foi concebida. A construção de um local para que os umbandistas pudessem descansar, trocar de roupa, realizar higiene pessoal e se alimentar seria o ideal, pois eles não têm apoio logístico na praia. Dado aos limites da pesquisa, é preciso um aprofundamento nos aspectos históricos da Festa de Iemanjá de Fortaleza: um levantamento documental mais preciso no Arquivo Público da cidade e um levantamento de reportagens em jornais mais antigos, rádios e televisões seria muito oportuno. Concluímos desejando vida longa à Festa de Iemanjá de Fortaleza. Que ela continue sendo prática de resistência na cidade e que a alegria e a luta do seu povo de santo reverbere não só nos dias da festa, mas por todo o ano. Que a Festa de Iemanjá lembre a cidade de Fortaleza da importância da luta contra o racismo e a intolerância religiosa e que possa ser um marcador social e cultural relevante para o povo de terreiro. Odoyá! Salve Iemanjá!

Terreiro faz suas homenagens a Iemanjá na Praia de Iracema Foto de Éden Barbosa

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Foto de Jean dos Anjos

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Foto de Jean dos Anjos


Referências


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Foto de Allan Taissuke

Foto de Thiago Matine

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Foto de Manuel Filho

Foto de Thiago Matine

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Foto de Thiago Matine

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Foto de Éden Barbosa

Foto de Thiago Matine

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Foto de Thiago Matine

Foto de Thiago Matine

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ApresentaçãoIn memoriam

Mãe Maria Branca Foto de Jean dos Anjos

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Mãe Balbina

Pai Wagner de Oxum

Foto de Beto Skeff

Foto de Jean dos Anjos


Homenagem O Dossiê da Festa de Iemanjá presta homenagem póstuma ao escritor, pesquisador, jornalista e professor Gilmar de Carvalho. Guardião da Cultura Popular cearense, Gilmar era devoto das tradições em movimento, passadas de geração em geração. Nascido em Sobral, em 1949, Gilmar veio para Fortaleza logo cedo, quando tinha apenas um ano de idade. Amante dos livros, encontrou, ainda na infância, o mundo da religiosidade e das tradições populares. Foi curador de diversas exposições e autor de livros com temáticas sobre a literatura de cordel, a xilogravura, a poesia popular, os rabequeiros, os mestres da cultura, entre outras. Gilmar de Carvalho era bacharel em Direito e em Comunicação Social, pela Universidade Federal do Ceará; mestre em Comunicação Social, pela Universidade Metodista de São Paulo; e doutor em Comunicação e Semiótica, pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Sua tese, intitulada “Madeira Matriz – Cultura e Memória” recebeu o Prêmio Sílvio Romero, da Funarte, em 1999. Ganhou ainda o Prêmio Érico Vanucci Mendes, do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

Foto de Francisco Sousa

Como professor, Gilmar lecionou, ao longo de três décadas, no curso de Comunicação Social da Universidade Federal do Ceará, acompanhando e formando gerações de jornalistas e publicitários. Como escritor, foi autor de mais de 50 livros. Gilmar de Carvalho partiu aos 71 anos, no dia 17 de abril de 2021, deixando um legado para a Cultura e para a Comunicação do Ceará e do Brasil, sendo eternizado pelas próximas gerações.

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Este livro foi impresso em 2021. As fontes usadas no miolo são Alex Brush para títulos e Gandhi Serif para textos O papel do miolo é Couché fosco 170 gm/m2.


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