Este caráter holístico e interdisciplinar da Dermatologia, estabelecido desde a concepção da SBD no Pavilhão São Miguel da Santa Casa do Rio de Janeiro, consolidou-se ao longo do primeiro século e intensifica‑se nesta abertura do segundo centenário como um norte a apontar as veredas a seguir. A amplitude da especialidade, a extensão de suas áreas, a tecnologia e, sobretudo, o olhar dos dermatologistas do século 21 para o seu papel na compreensão das doenças sistêmicas, põe em relevo esta função extraordinária da pele como espelho da saúde.
O S E G U N D O S É C U L O
G
raduação em Medicina pela Faculdade Nacional de Medicina da Universidade do Brasil (atual Universidade Federal do Rio de Janeiro), doutorado em Ciências da Saúde pela Faculdade Estadual de Medicina de São José do Rio Preto -SP e Professor Emérito de Dermatologia desta instituição. Um dos nove primeiros dermatologistas no Brasil a obter o titulo de especialista em Dermatologia, por concurso, em 1967. “Maestro de la Dermatologia” CILAD Presidente da Sociedade Brasileira de Dermatologia-RESP, 2009 e da Sociedade Brasileira de Cirurgia Dermatológica, 2005-2006. Presidente do 18º Congresso da Sociedade Brasileira de Cirurgia Dermatológica, em 2006. Promoveu a 14ª RADESP, em 2009. Foi representante brasileiro na RADLA por vários anos. É membro da American Academy of Dermatology (AAD), do Colégio IberoLatino Americano de Dermatologia (CILAD), da International Society for Dermatologic Surgery, da International Academy of Cosmetic Dermatology e da European Academy of Dermatology and Venereology. Publicou artigos em revistas médicas e capítulos em livros, nacionais e internacionais. Participou de eventos nacionais e internacionais, como autor ou coautor de trabalhos científicos e conferencista. Autor do Livro On-Line de Dermatologia www.ipele.com.br
Gabriel Gontijo João Roberto Antônio
Dr. JOÃO ROBERTO ANTÔNIO
O segundo século começou, em 2012, sobre uma base sólida para a Sociedade Brasileira de Dermatologia. O primeiro centenário proporcionou um período de estabelecimento dos fundamentos da Sociedade a partir de fundamentos científicos desenvolvidos por seus ilustres primeiros patronos. Este grupo de pioneiros, constituído por sanitaristas, infectologistas e pesquisadores que se debruçavam sobre o estudo e o tratamento das doenças da pele alinharam-se aos dermatologistas na formação do núcleo da especialidade que, desde os primórdios, seria caracterizada pelas interfaces com outras áreas da medicina.
O Segundo Século destaca a importância da sólida e ampla formação deste dermatologista com descortino e compreensão da saúde em seu sentido mais completo, a partir da pele como ponto de observação.
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SOCIEDADE BRASILEIRA DE DERMATOLOGIA Dr. GABRIEL GONTIJO
O S E G U N D O S É C U L O As grandes veredas de uma sociedade centenária
Gabriel Gontijo João Roberto Antônio
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raduação em Medicina pela Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais, residência em Dermatologia pela Santa Casa de Misericórdia de Belo Horizonte, especialização em Dermatologia pela Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, especialização em Cirurgia Dermatológica pela Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Sua maior área de atuação é a Cirurgia Dermatológica, especialmente a Cirurgia Oncológica e Cirurgia Micrográfica de Mohs, obtendo seu treinamento no Baylor College of Medicine, Houston, EUA. Mestre em Dermatologia e professor de Dermatologia e Cirurgia Dermatológica na Faculdade de Medicina e Hospital das Clínicas da UFMG. Título de Especialista da Sociedade Brasileira de Dermatologia, membro da Sociedade Brasileira de Cirurgia Dermatológica, do Grupo Brasileiro de Melanoma, da Sociedade Brasileira de Laser e da American Academy of Dermatology. Presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Dermatológica, 1997-1998; da Sociedade Brasileira de Dermatologia/Regional Minas Gerais, 1990-1991 e da Sociedade Brasileira de Dermatologia, 2015-2016.
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O SEGUNDO SÉCULO AS GRANDES VEREDAS DE UMA SOCIEDADE CENTENÁRIA
O SEGUNDO SÉCULO - AS GRANDES VEREDAS DE UMA SOCIEDADE CENTENÁRIA
FICHA CATALOGRÁFICA G641s Gontijo, Gabriel, 1956 O segundo século: as grandes veredas de uma sociedade centenária / Gabriel Gontijo; João Roberto Antônio. – Rio de Janeiro: Sociedade Brasileira de Dermatologia, 2016. 240 p.; il.; 26x21cm.
SOCIEDADE BRASILEIRA DE DERMATOLOGIA
ISBN 978-85-89240-07-9
1 Sociedade Brasileira de Dermatologia – História 2 Dermatologia – História I Gontijo, Gabriel II Antônio, João Roberto III Título
CDD 616.50981
DIRETORIA 2015 - 2016 PRESIDENTE: GABRIEL GONTIJO | MG VICE-PRESIDENTE: JAYME DE OLIVEIRA FILHO | SP
COORDENAÇÃO EDITORIAL
ANTONIO ALBERTO PRADO
PROJETO GRÁFICO E EDITORAÇÃO ELETRÔNICA
NAZARENO N. DE SOUZA
SECRETÁRIA GERAL: LEANDRA METSAVAHT | RJ
CAPA E DESIGN DA LINHA DO TEMPO
GUSTAVO ABUMRAD
TESOUREIRO: LENINHA V. DO NASCIMENTO | RJ
FOTO DA CAPA: CÉLULAS-TRONCO MESENQUIMAIS MARCADAS COM MOLÉCULAS FLUORESCENTES. VSHIVKOVA.ISTOCKPHOTO
1ª SECRETÁRIA: FLÁVIA ALVIM S. ADDOR | SP
4 - SOCIEDADE BRASILEIRA DE DERMATOLOGIA
S U M Á R I O 1
O APITO DO TREM E A CIBERNÉTICA
P. 11
2
O INTERIOR. MINHA LINHA DO TEMPO
P. 31
3
A LUTA INFINDÁVEL CONTRA A DOENÇA
P. 49
4
A SOCIEDADE DE CARÁTER MULTIDISCIPLINAR
P. 59
5
A SANTA CASA E A MODERNA MEDICINA
P. 69
6
110 ANOS DA DERMATOLOGIA DE SÃO PAULO
P. 81
7
DO OUTRO LADO DA BAÍA DA GUANABARA
P. 89
8
MINAS NASCEU DERMATOLÓGICA
P.101
9
A LONGEVIDADE E NOVAS VISÕES
P. 125
10
O NORDESTE. LIDERANÇAS E DESCOBERTAS
P. 133
11
UM DERMATOLOGISTA E SUAS PAÍXÕES
P. 145
12
NO CERRADO. PESQUISA E CLÍNICA
P. 161
13
DESCENTRALIZAÇÃO, NOVOS POLOS
P. 173
14
O AVANÇO E O ÚLTIMO DOS RADICAIS
P. 185
15
LIDERANÇAS INSPIRADORAS E CARREIRAS
P. 195
16
O ENCANTAMENTO AMAZÔNICO
P. 209
17
SOB OS VENTOS DO MINUANO. A ESPECIALIDADE AVANÇA NO SUL
P. 219 SOCIEDADE BRASILEIRA DE DERMATOLOGIA - 5
GABRIEL GONTIJO | JOÃO ROBERTO ANTÔNIO
Apresentação
E
SETEMBRO E A CONSTRUÇÃO DOS SONHOS
m setembro de 1962, John Kennedy, presidente dos Estados Unidos, proferiu o seu famoso “discurso da Lua”, que passou para a história como a decisão de lançar a conquista espacial. “Escolhemos ir à Lua não porque é fácil, mas porque é difícil”, disse ele. E completou, apontando para o céu: “A Lua e os planetas estão lá”. Em setembro de 2015, durante nosso 70º Congresso da Sociedade Brasileira de Dermatologia, em São Paulo, reunimo-nos para lançar um projeto que nos remete ao início da atual gestão: publicar um livro que comemorasse o centenário da nossa sociedade e lançasse luzes sobre o raiar do segundo século que se abre.
Tendo como eixo marcos históricos que pudessem perpetuar fatos relevantes desde a fundação da SBD, em 1912, a marcha para o segundo centenário deveria apontar as veredas que indicam os rumos de nossa comunidade a seu destino promissor. Esta obra marcaria, também, o início da construção de um projeto mais amplo, o Centro de Memória da Dermatologia Brasileira. Não se tratava de tarefa fácil. Por ser difícil, estimulou-nos. O cronograma desafiador, diante da meta de completar o trabalho à tempo de entregá-lo neste 71º Congresso, em Porto Alegre, impunha trabalho duro.
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O SEGUNDO SÉCULO - AS GRANDES VEREDAS DE UMA SOCIEDADE CENTENÁRIA
Com o apoio do jornalista Antonio Alberto Prado, iniciamos o processo de informar e solicitar apoio às nossas regionais, serviços e associados sobre o conteúdo que desejávamos apurar. Logo iniciamos as centenas de entrevistas, coleta de depoimentos e informações que nos permitiriam o resgate de relatos e experiências para esta história, apresentadas numa narrativa agradável e ilustrada. Empenhamo-nos em não esquecer pessoas e fatos que marcaram esta jornada. Ao longo da tarefa, logo percebemos que, para atingirmos completamente esta meta, seria necessário ouvir cada um de nossos quase oito mil associados, pois todos, por todo o país, em seus consultórios, clínicas, bancadas de pesquisa e universidades, muitas vezes anonimamente, contribuem para escrever a saga permanente da Dermatologia brasileira. Como esta história escreve-se no dia a dia, de forma permanente, nas próximas décadas outros relatos serão acrescentados e as lacunas que, porventura, involuntariamente, ocorreram serão preenchidas. Com o objetivo de contextualizar nossa caminhada ao andar da humanidade, da medicina e da Dermatologia
mundial, buscamos inovar com o traçado de uma ampla linha do tempo que descortina o período de um século e oferece paralelos entre os grandes momentos da história mundial. Em setembro de 2015, nossa lua parecia distante. Neste setembro de 2016, em Porto Alegre, o sonho torna-se realidade e traz consigo a alegria de termos cumprido a missão de agregar à história da Dermatologia brasileira este livro que pretende oferecer um texto elegante e estimulante para um amplo público que envolve nossos associados, a classe médica, formadores de opinião e lideranças que, ao conhecerem mais de nossa história, virão alinhar-se à SBD para a consecução de nossos objetivos de avançar cientificamente e de prestar serviços de qualidade à sociedade. Agradecemos a todos que nos ajudaram a superar os desafios, a indispensável colaboração dos colegas que se dispuseram a nos fornecer fatos e fotos importantes, à diretoria da SBD pela confiança e apoio indispensáveis para que, finalmente, cumpríssemos nosso compromisso, dentro do prazo estabelecido. DR. GABRIEL GONTIJO. DR. JOÃO ROBERTO ANTONIO Setembro de 2016
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GABRIEL GONTIJO | JOÃO ROBERTO ANTÔNIO
O
Segundo Século, um marco do Centro de Memória da Dermatologia Brasileira, criado na gestão 2015/16 da SBD, propõe-se a resgatar a saga dos pioneiros, suas conquistas e expectativas, desde a fundação da Sociedade Brasileira de Dermatologia, em 1912, e descerrar as cortinas deste segundo centenário com suas amplas perspectivas e proporcionais desafios. A obra traz uma sugestiva linha do tempo, que começa na abertura do século 20, e sinaliza as veredas desta história a começar pelo movimento do mundo e os grandes feitos, desde as descobertas e contribuições de cientistas, até episódios que deslustram a civilização, como as guerras. Uma segunda vertente remete-nos às conquistas da Medicina, estas, sim, edificantes, que enobrecem as pessoas em seus momentos mais sublimes. A terceira faixa descreve a construção da especialidade e põe em relevo a velocidade de uma área que, provavelmente, mais terá avançado até esta segunda década do século 21. A quarta vertente acompanha o desenrolar das atividades de nossa Sociedade Brasileira de Dermatologia, com os registros científicos proporcionados por pesquisadores, os primeiros transformadores que revolucionaram a Dermatologia Sanitária, até os mais recentes, no domínio da tecnologia e das novas terapias. Neste segundo século a SBD tornou-se a segunda maior sociedade dermatológica do mundo, ao lado de instituições mundiais fundadas muito antes da nossa. Neste relato despontam os pioneiros, sanitaristas, infectologistas, sifilógrafos e clínicos que se debruçaram
Prefácio
A RODA DOS SÉCULOS sobre doenças da pele, alinhados com os primeiros dermatologistas, a sinalizar o caráter holístico da Dermatologia, visão que perdura, fortalece-se e confirma a ampliação de fronteiras e os numerosos pontos de contato com outras especialidades. O espetáculo retratado nesta linha do tempo alerta para a urgência de soluções para questões básicas de saúde que subsistem ao lado dos avanços extraordinários proporcionados pela tecnologia. Mazelas seculares ainda perduram, a desafiar a imaginação e o talento de nossos melhores especialistas. Lamentavelmente, um mesmo personagem crava marcos tanto no começo da série, em 1900, quando ao final, no século 21. Trata-se do impertinente e onipresente mosquito, o Aedes aegypti que, desalojado das matas pelo avanço da ocupação do território, associou-se aos invasores e mantém-se firme neste segundo século. Um contraste emblemático de um mundo no qual a última palavra da tecnologia ainda convive com questões ancestrais que desafiam os mais privilegiados cérebros da humanidade. A roda desta história gira e parece retornar a seu ponto de partida. A comunidade dermatológica, debruça-se sobre suas origens científicas e resgata a eficácia do conhecimento e combate de doenças que ainda atormentam as pessoas com o tropel dos velhos cavaleiros do apocalipse - a hanseníase, a sífilis, a leishmaniose. ANTONIO ALBERTO PRADO Jornalista, Coordenador editorial SOCIEDADE BRASILEIRA DE DERMATOLOGIA - 9
10
Capítulo
1
O APITO DO TREM E A CIBERNÉTICA Dr. Gabriel Gontijo | Presidente da SBD
11
O SEGUNDO SÉCULO - AS GRANDES VEREDAS DE UMA SOCIEDADE CENTENÁRIA
Dr. Gabriel Gontijo - Presidente da Sociedade Brasileira de Dermatologia
LÁ VAI O TREM COM O MENINO LÁ VAI A VIDA A RODAR (Da letra de Ferreira Gullar para Bachianas Brasileiras nº2, tocata, O Trenzinho do Caipira,de Villa-Lobos)
12 - SOCIEDADE BRASILEIRA DE DERMATOLOGIA
A
Bom Despacho, polo regional mineiro no Alto São Francisco
locomotiva a vapor da Rede Mineira partia bem cedo de Bom Despacho, onde nasci, puxando o trem que serpenteava por entre os morros, corria pelos pastos e apitava para anunciar que a bordo ia o médico. Quando havia médico o apito era especial para que os moradores das vilas e fazendas fossem à estação para as consultas. Num vagão, em acomodações especialmente preparadas, viajava meu pai, Dr. Juca Gontijo, com sua maleta, instrumentos e remédios. Ao ouvirem o apito característico, as pessoas acorriam à estação.
GABRIEL GONTIJO | JOÃO ROBERTO ANTÔNIO
Se o doente estava na fazenda, um cavalo arreado já aguardava o médico. Ele amarrava seus pertences nas laterais e partia. O trem esperaria. Os passageiros estavam acostumados à essas ocasiões. Havia um dever nobre e inadiável a ser cumprido. Já o vi operando apendicite em baixo de uma mangueira, sobre um carro de bois. Todos eram atendidos. Quando não havia dinheiro, os honorários eram pagos com galinhas, sacos de mandioca e produtos da roça que eram devidamente embarcados no trem. Aprendi lições extraordinárias com aquele clínico geral do interior, que me têm sido valiosas ao longo da vida. Venho de uma família de médicos. Na vida acadêmica, na Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais, na Santa Casa de Belo Horizonte e em outros instituições veneráveis e exemplares, ampliei este convívio e procurei observar e adotar a postura de mestres que me impressionaram.
Os professores João Gontijo (que eu chamava de tio João); Tancredo Furtado, Cid Ferreira Lopes, Antonio Carlos Viegas, Osvaldo Costa foram luzeiros que sinalizaram a beleza e o fascínio da Dermatologia com suas amplas possibilidades e perspectivas. Seguiram-se, nos anos posteriores, grandes expoentes como os professores Sebastião Sampaio e Luiz Henrique Paschoal, na residência da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e muitos outros na galeria das personalidades que têm construído a velha e boa Dermatologia. Em Belo Horizonte tínhamos dois serviços dermatológicos: a Santa Casa e o Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da UFMG. Os dois tinham como chefe, à época, o Professor Tancredo Furtado. Após um ano na Santa Casa, fui para São Paulo onde acolheu-me meu pai dermatológico, o Professor Sebastião Sampaio, em seu serviço no Hospital das Clínicas da Faculda-
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O SEGUNDO SÉCULO - AS GRANDES VEREDAS DE UMA SOCIEDADE CENTENÁRIA
de de Medicina da USP onde, em 1983, terminei a residência em Dermatologia. Sampaio era um refinado descobridor e incentivador de jovens talentos. Tinha o dom de inspirar e liderar pessoas. Costumava convidar alguns de seus alunos para visitar seu consultório, depois das jornadas no HC, para ampliar a experiência prática de contato com pacientes. Aquela foi uma das épocas mais interessantes e enriquecedoras de minha formação profissional. Estudávamos muito e o convívio com a equipe do Hospital das Clínicas permitiu a construção de fortes e duradouras amizades Sampaio anteviu a importância da cirurgia dermatológica e a necessidade de que fosse logo desenvolvida no Brasil. Começou a estimular seus discípulos para que transitassem da clínica para a cirurgia pois estava convencido de que, como vira nos Estados Unidos, era importante que dermatologistas soubessem operar, numa época em que nem simples biópsias fazíamos. Sampaio convidou-me a ficar em São Paulo mais um ano para aprimorar a técnica cirúrgica. Pertinaz em seus projetos, ele próprio conseguiu uma bolsa no CNPQ para que eu atuasse em projeto de pesquisa cirurgia oncológica. Os professores Benjamin Golcman, cirurgião plástico recrutado por Sampaio para ensinar os dermatologistas e Eugênio Pimentel foram mestres que construíram importantes veredas da subespecialidade. O destino proporcionou-me, ainda, outro momento transformador graças à aproximação com o cirurgião plástico Dr. Haroldo Calonge, do Serviço de Cirurgia Plástica e Queimaduras do HC da Faculdade de Medicina da USP. Essa interação com os mestres da cirurgia plástica foi essencial para a construção da área de Cirurgia Dermatológica no Brasil pois nossos dermatologistas ainda 14 - SOCIEDADE BRASILEIRA DE DERMATOLOGIA
estavam em formação. Debruçávamo-nos sobre os livros e, num processo de autodidatismo reforçado pelos preceptores do serviço do Professor Sampaio, desbravávamos os caminhos ainda virgens deste conhecimento. Este movimento conduziu à fundação da Sociedade Brasileira de Cirurgia Dermatologia, sob a liderança de Sampaio e Luiz Henrique Paschoal e outros pioneiros. Acompanhei esta ação desde os seus primórdios e tive a honra de presidir a nova Sociedade, coirmã da Sociedade Brasileira de Dermatologia, em 1988. Ao lado do Professor Luiz Henrique Paschoal realizamos, em Salvador, o 19º Congresso da ISDS - Sociedade Internacional de Cirurgia Dermatológica, em paralelo ao 10º Congresso Brasileiro de Cirurgia Dermatológica, com o apoio decisivo do Dr. Paulo Barbosa, da Dra. Ariene Paixão e da Dra. Vitória Regina Rego, entre outros. Pela primeira vez, apresentávamos pacientes ao vivo em nossas aulas, inovação que surpreendeu e empolgou até mesmos experts internacionais que vieram à Bahia. A nova área de atuação da Dermatologia brasileira inovava e instalava-se de maneira sólida no cenário da medicina. Mas o topo da montanha não significa o fim da caminhada. O cenário que se vislumbrava mostrava a imensidão da paisagem que se abria. Mais uma vez graças ao descortino e estímulo de Sampaio, busquei especialização em cirurgia micrográfica de Mohs, no Baylor College of Medicine, em Houston, Texas. De volta a Belo Horizonte, aprovado em concurso, passei a integrar, em 1995, como professor de Dermatologia, o corpo docente da Faculdade de Medicina da Universidade de Minas Gerais e, também, o ensino da cirurgia dermatológica no Hospital das Clínicas da UFMG. Na mesma época fui, também, preceptor voluntário de cirurgia dermatológica na Santa Casa de Belo Horizonte, uma colaboração que se prolongou por vários anos.
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A conquista das fronteiras da especialidade. Novas técnicas
Caminhamos um longo caminho, desde então. A disseminação das técnicas cirúrgicas para dermatologistas talentosos e interessados avançou de forma consistente. Passamos a ter um ambulatório de cirurgia oncológica, do qual sou responsável, com contribuições importantes para a comunidade e para o ensino em cirurgia de tumores de pele e reconstruções extensas, entre outros procedimentos, que se tornaram um dos pontos de destaque do serviço. Em vários centros dermatológicos de vanguarda no Brasil começou a despertar o interesse pelas técnicas cirúrgicas, num movimento progressivo que resultou na consolidação de núcleos importantes de especialistas que se organizaram para pesquisa e troca de experiências. Assim nasceu o Grupo Brasileiro de Cirurgia Micrográfica de Mohs, com a participação de referências na área, como a Dra. Selma Cernéa, que se destacou em serviço exemplar no Hospital do Servidor Público Municipal, em São Paulo; Dr. Eugênio Pimental, na USP; Dr. Roberto Tarle, em Curitiba, Dr. Pedro Briggs, no Rio de Janeiro, entre outros precursores da grande marcha. Este grupo frutificou e posteriormente tornou-se Departamento de Cirurgia Micrográfica da SBD. A amplitude de visão do Professor Luiz Henrique Paschoal permitiu, ainda, a formação de outro núcleo expressivo na Faculdade de Medicina do ABC, em São Paulo, liderado, posteriormente, pelo Professor Carlos Machado e seu grupo de especialistas. Estabelecidas as bases da cirurgia dermatológica, cosmiatria e laser com tecnologias de ponta, estas áreas de atuação incorporaram-se, definitivamente ao portfólio do dermatologista moderno, reforçando o núcleo duro fundamental, a clínica.
Em Minas, nossos especialistas têm estado a par dos avanços significativos da especialidade. Assim, logo nos albores dessas novas tecnologias, criamos a primeira escola de laser do país, em Minas Gerais - a Lumina Laser, com a participação de 15 dermatologistas. Pesquisávamos os avanços tecnológicos à nível mundial, estudávamos profundamente os aparelhos por meio de seus manuais e avaliações técnicas independentes, elaborávamos apostilas de manual prático sobre as aplicações de laser, acompanhávamos fichas de pacientes e possíveis complicações. Os cursos eram oferecidos a dermatologistas interessados em dominar as novas tecnologias. Eram cursos teóricos e práticos, com pacientes ao vivo e aplicações reais. Os especialistas recebiam certificados de aproveitamento e, a alguns deles, oferecíamos a opção de se tornarem membros do grupo e atuarem na clínica. Posteriormente, fundamos uma outra escola de laser, a segunda do país, também em Belo Horizonte - a Allora Laser, na qual chegamos a ter mais de 70 alunos. Também elaborávamos apostilas, pesquisávamos a literatura especializada em busca de artigos científicos de interesse, exclusivos sempre aos sócios da SBD. Estes modelos multiplicaram-se por vários estados e permitiram que as novas tecnologias viessem a complementar núcleos de excelência existentes em importantes centros dermatológicos. Em São Paulo, a chegada dos primeiros equipamentos está ligada ao trabalho dos dermatologistas Simão Cohen e Mário Grinblat. No começo, eram aparelhos caríssimos e pouco atraíram os especialistas. No início deste processo, as aulas de laser nos congressos interessavam a um número diminuto de pessoas, pois poucos tinham condições de comprar os equipamentos. Aos poucos, grupos de especialistas que se inclinavam para a nova área começaram a organizar-se para compras cooperadas. SOCIEDADE BRASILEIRA DE DERMATOLOGIA - 15
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No início a aplicação mais comum era depilação com laser diodo. Mas logo banalizou-se de tal forma que profissionais de outras áreas e mesmo não médicos, passaram a realizar a técnica com vários tipos de aparelhos. Aos poucos, a competição entre fabricantes de diferentes países e o avanço das pesquisas resultaram na ampliação do leque de produtos. O uso cresceu e, paralelamente, sua eficácia no tratamento de lesões vasculares, hemangiomas, lesões pigmentadas, rejuvenescimento, entre outras condições da pele. Num movimento crescente, começaram a entrar novas tecnologias, entre as quais a luz intensa pulsada, que não é a mesma fonte de energia do laser, mas é uma fonte de luz com indicações importantes em terapias de rejuvenescimento, manchas, vasos, capaz de melhorar a qualidade da pele. Um novo marco nesse processo foi a entrada do laser de CO2 que, em seus primórdios, não tinha a forma fracionada, mas um único feixe de luz fortíssima. O tempo de recuperação de paciente, após as aplicações, era longo, embora os resultados fossem magníficos. Nunca havíamos alcançado resultados tão bons, mas o tratamento exigia internação, anestesia, curativos feitos por enfermeiro na casa do paciente, entre outros obstáculos que tornavam o procedimento invasivo e de recuperação prolongada. Embora os resultados fossem adequados, poucos aceitavam esse tratamento. O avanço da tecnologia permitiu o fracionamento desse laser. Ao invés do feixe compacto, sua pulverização na forma de chuveiro, com feixes de luzes intercalados em áreas onde a pele não é atingida, favorecia a cicatrização das partes submetidas à aplicação. A recuperação passou a ser de uma semana a dez dias, com resultados extraordinários que ajudaram a popularizar a técnica. O progresso das tecnologias fez crescer o ritmo do lançamento de novos aparelhos. Logo entraram os lasers 16 - SOCIEDADE BRASILEIRA DE DERMATOLOGIA
para pigmentos, como o Nd-YAG e o laser de rubi que imprimiram maior eficácia aos procedimentos, entre os quais a remoção de manchas e tatuagens. O passo seguinte foi marcado pela velocidade da diversificação das tecnologias. Assim chegaram o dye laser, com corante amarelo, que se tornou padrão ouro para tratamento de lesões vasculares, mas pouco acessível à maioria dos dermatologistas em função do custo. O movimento contínuo do aprimoramento da tecnologia, tornando-a mais amigável para o paciente, aliada à custos mais baixos, trouxe ao mercado algumas importantes diversificações, entre as quais a radiofrequência, que não é luz, mas calor. O aparelho emite ondas de calor na pele para provocar a contração do colágeno. Este foi outro movimento importante, que veio a ocupar espaço no arsenal terapêutico do dermatologista. A conquista tecnológica seguinte foi possibilitada pelo ultrassom microfocado, que também emite calor e visa reduzir a flacidez e rejuvenescer, entre outros objetivos. O leque ampliou-se com a criolipólise, tratamento de gordura localizada por meio do congelamento.
Novas tecnologias veem estruturas A rapidez do processo tem aberto as portas para uma infinidade de tecnologias cujo foco é atingir tecidos e partes da pele para objetivos determinados. A evolução que se antecipa é a ampliação do escopo da utilização do laser com a incorporação de tecnologias que permitam, por exemplo, “enxergar” estruturas da pele que ainda não são acessíveis à visão, a fototermólise seletiva (FTS). Esta vereda começou a ser explorada por Rox Anderson e John Parrish, do Departamento de Dermatologia da Harvard Medical School, que publicaram, em 1983, ar-
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tigo intitulado Fotodermólise Seletiva: a Microcirurgia Precisa por Meio da Absorção Seletiva de Radiação Pulsada. O conceito tem como foco a destruição seletiva de alvos na pele mediante a aplicação de um laser com comprimentos de ondas absorvidos pelos pontos desejados, com duração de pulso que limite o dano térmico, mantendo íntegros os tecidos próximos. Esses novos aparelhos emitem pulsos breves e adequados de radiação que são seletivamente absorvidos e causam danos seletivos à estruturas pigmentadas, células e órgãos. Em resumo, obtém-se, assim, um comprimento de onda de luz que atinge o pigmento - pelo, tatuagem e outros alvos. Mas há pigmentos que são pouco atingidos pois esses aparelhos identificam, principalmente, as cores escuras. Amarelo, verde, entre outros, são pigmentos mais refratários à absorção da luz.
Temos ouvido em congressos internacionais relatos expressivos sobre a evolução dessas tecnologias de laser para tratamento de acne e outras doenças relacionadas à oleosidade da pele. Um dos obstáculos é a impossibilidade das glândulas sebáceas absorverem luz por não terem pigmento. Um dos caminhos que estão sendo avaliados para superar esta dificuldade é a aplicação de algum pigmento nestas glândulas para que absorvam o laser e, portanto, permitam a terapia. Abrem-se, assim, as cortinas para um novo horizonte científico: o drug-delivery, ou a entrega de medicação diretamente ao órgão, ou célula, que irá processá-la. Trata-se de procedimentos que pretendem ser minimamente invasivos, realizados através de diminutas perfurações promovidas em áreas da pele visando a promover a penetração de substância que possa absorver a luz do laser para tratamento de doenças.
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O SEGUNDO SÉCULO
O microagulhamento facilita a perfusão cutânea de medicamentos ao permitir que o produto seja colocado no alvo exato desejado, o que resulta em aumento exponencial da absorção. Mas vemos riscos neste cenário da tecnologia de ponta diante dos desdobramentos que podem ocorrer, entre os quais riscos desencadeados por doses elevadas de medicamentos concentrados em pontos do organismo. Esses fatores ainda não totalmente conhecidos devem ser levados em consideração pois, no vasto e maravilhoso universo dos avanços tecnológicos, a prática algumas vezes pode atropelar a evidência científica. Em resumo, ainda não sabemos até que ponto é seguro perfurar a pele e introduzir medicamentos que serão absorvidos de forma sistêmica. Esta prática vem sendo divulgada e incorporada de forma mais veloz do que a pesquisa básica, com impactos ainda não totalmente desvendados quanto à segurança para o paciente. Trata-se de questão importante quando nos empolgamos com a evolução das tecnologias e dos equipamentos. Devemos observar com a devida cautela as novidades, muitas vezes apresentadas com fundamentos científicos frouxos, que entram no mercado à revelia dos órgãos fiscalizadores e com preços convidativos que levam os médicos a decisões de compra das quais poderão lamentar-se. Ao longo dos próximos anos deveremos nos surpreender ainda mais com a chegada de novos produtos. Será difícil, mas imperiosa, a avaliação acurada da eficácia e da segurança de cada um deles. Uma das tendências mais fascinantes neste segundo século serão os aparelhos de aplicação ultra rápida de luz, ou calor, na pele. A velocidade em nanosegundos, que nos surpreendeu, abriu espaço para os picosegundos.Estamos no limiar do domínio das máquinas que trabalham ao compasso dos 18 - SOCIEDADE BRASILEIRA DE DERMATOLOGIA
femtosegundos, isto é, uma rapidez inimaginável no tempo de liberação de energia na pele. Os benefícios esperados envolvem eficácia e segurança visando a evitar queimaduras, ao mesmo que se busca o equilíbrio ideal entre a liberação de energia de forma muito rápida, em contraposição à liberação da mesma energia de forma lenta e mais segura, porém menos eficaz. É possível que a tendência venha a privilegiar as máquinas que produzem energia mais baixa aplicada com extrema rapidez. Espera-se que uma dose menor, aplicada de forma rápida, possa garantir eficácia, com maior segurança. Em 2015 já tínhamos no Brasil equipamentos com emissão de luz em velocidade de picosegundos, isto é, um segundo dividido por um bilhão. Os instrumentos que emitem luz em lapsos de tempo de femtosegundos, isto é, um segundo dividido por um trilhão, são a última palavra desta tecnologia no mundo e deverão estar nos consultórios dos dermatologistas. Esses aparelhos permitem que, na prática, por exemplo, uma tatuagem que demande 20 aplicações para ser removida em equipamentos convencionais, possa ser completada em apenas seis sessões, utilizando-se a luz em lapsos de tempo de picosegundos.
Os super microscópios e seus benefícios à oncologia cutânea. Avanços notáveis
O tratamento de tumores será, também, beneficiado, neste segundo século, com o compasso mais veloz das pesquisas no campo da microscopia avançada. A prática convencional da cirurgia micrográfica de Mohs que envolve a retirada de amostras de pele que serão
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coradas, cortadas e examinadas ao microscópio com o objetivo de determinar as margens ainda acometidas pela doença, que devem ser removidas até alcançar-se tecido saudável, poderá ser simplificada de forma extraordinária. A nova e avançada tecnologia está focada na maximização dos recursos da microscopia confocal, aliados às vantagens do ultrassom. Esta aliança tem como resultado aparelhos que permitem que o cirurgião dermatológico, antes do procedimento cirúrgico, seja capaz de identificar com precisão a extensão do tumor por meio da observação direta. A remoção dar-se-á, desta forma, de forma segura e na extensão completa do tumor, um grande avanço diante das sucessivas retiradas de tecido durante o procedimento cirúrgico consagrado há muitos anos. O novo equipamento será, em resumo, capaz de “ver” a lesão e determinar com precisão sua extensão e, até mesmo, observar o movimento das células. O segundo século nos oferecerá, ainda, avanços promissores no campo dos novos medicamentos, entre os quais os imunobiológicos, capazes de agir no bloqueio eficaz das vias de acesso às células e, desta forma, possibilitar novas veredas para o tratamento de doenças como o melanoma e carcinoma basocelular avançado, entre outras. Em síntese, os imunobiológicos atuam como anticorpos ao interagirem com as interleucinas que fazem parte do processo inflamatório em doenças como a psoríase, por exemplo, ao bloquear o caminho de evolução da enfermidade. Estes medicamentos têm influenciado o curso dos tratamentos tradicionais para pacientes acometidos de psoríase grave. Permitem melhorar a qualidade de vida e prometem ainda mais benefícios ao longo dos próximos anos graças ao avanço das pesquisas. A lista dos medicamentos imunobiológicos vem crescendo de forma consistente e significativa e traz avanSOCIEDADE BRASILEIRA DE DERMATOLOGIA - 19
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ços importantes para o tratamento e para o prognóstico de várias doenças. Em oncologia essas drogas enquadram-se na área das chamadas terapias-alvo cujo mecanismo de ação consiste em bloquear as vias de transformação da célula maligna, numa explicação simplificada. Entre os últimos registros, no início de 2016, imunobiológicos oncológicos foram liberados para tratamento de melanoma metastático, o que pode ser considerado um marco na lista de novas terapias para a doença. A comunidade médica aguarda que, ao longo da década, venham a ser desenvolvidos outros medicamentos importantes com indicações para tratamento de melanoma metastático, carcinoma basocelular e outras neoplasias cutâneas agressivas.
Os novos medicamentos e a formação do dermatologista do 2º século
Os avanços na área de medicamentos impõe requisitos de formação ainda mais complexos aos dermatologistas para que eles possam destacar-se no conjunto da comunidade médica como especialistas competentes e capazes de tratar psoríase e câncer da pele e o amplo universo de doenças ainda desafiadoras para medicina, com armas cada vez mais modernas. Desta forma, os dermatologistas deverão, neste futuro que já começou, debruçar-se sobre o estudo dos imunobiológicos e de drogas de última geração para ampliarem seu arsenal terapêutico. Trata-se, certamente, de um desafio e tanto para a formação dos dermatologistas. Aqueles com descortino e preocupados com o cenário mais amplo de seu campo de 20 - SOCIEDADE BRASILEIRA DE DERMATOLOGIA
atuação devem posicionar-se na vanguarda deste conhecimento para que possam aumentar suas competências. O panorama que se abre à frente é desafiador para a formação de dermatologistas especializados em doenças como colagenoses, autoimunes, neoplasias, DST, infecções e outras que perpassam várias áreas de conhecimento científico e que constituem especializações dentro da Dermatologia. Estas considerações remetem-nos, necessariamente, a questão da formação tradicional da Dermatologia clássica e ampla. Este é o norte que deve ser apontado para os acadêmicos de medicina visando a destacar a dimensão completa da Dermatologia como especialidade que vai muito além da sedução dos ganhos financeiros rápidos com procedimentos estéticos. O universo da beleza, inflado pelo marketing das empresas de cosméticos, é facilmente invadido por outras especialidades, além de profissionais não médicos. Trata-se de área que atrai interesses movidos por promessas de ganhos financeiros imediatos, capaz de atrair profissionais sem a devida formação e competência para realizar esses procedimentos. O canto da sereia da atividade profissional e suas contradições têm sido levados à discussão pela SBD aos acadêmicos de medicina no sentido de orientar a escolha da especialidade com dados reais da dimensão maior das áreas clínica, cirúrgica e cosmiátrica que a compõe. A formação ampla e profunda neste elenco de áreas de atuação é uma característica inerente à boa e verdadeira Dermatologia. O amplo campo de conhecimento de nossa especialidade inclui novas drogas, diversidade de técnicas cirúrgicas, microscopia e possibilidades ainda insuspeitas a serem abertas pelos novos conhecimentos de genética, biologia molecular e outras áreas do saber científico e tec-
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nológico que influenciarão e transformarão com grande dinamismo as formas de atuação do dermatologista. Os dermatologistas preocupados em manterem-se atualizados e atentos aos rigores da ampla e qualificada formação que caracteriza a especialidade, devem acompanhar os eventos científicos, a produção acadêmica e assegurar um nível elevado de educação médica continuada. A SBD tem acompanhado a evolução do conhecimento em todas as suas dimensões com a oferta de eventos científicos de qualidade. Em 2015, por exemplo, promovemos um Simpósio de Oncologia Cutânea com a participação de experts brasileiros e estrangeiros que abordaram os aspectos de maior interesse sobre novas drogas, as perspectivas da cirurgia dermatológica, o tratamento de tumores, as novas visões sobre abordagem do melanoma, entre outras áreas de conhecimento que permitem que o dermatologista esteja qualificado para o tratamento das neoplasias cutâneas. Em 2016, a estratégia de disseminação de conhecimento aprofundou-se com o Melanoma Day e o Simpósio de Dermatoscopia que tiveram como foco capacitar o dermatologista para o diagnóstico precoce de várias afecções dermatológicas. Esta visão ampla do especialista é que irá diferenciá-lo. O conhecimento sólido do dermatologista bem preparado será a melhor salvaguarda do paciente quanto ao risco, por exemplo, de submeter-se a um tratamento cosmiátrico de laser em área onde há uma mancha que poderá ser maligna. Esta será a hora da verdade que diferenciará a formação do dermatologista preparado para diagnosticar doenças.
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Dermatologia clínica, cirúrgica, oncológica e cosmiátrica
A Dermatologia, que até meados de seu primeiro século tinha seus focos de atuação na hanseníase e na sifilografia, foi uma das especialidades médicas que mais se ampliou em seu segundo século, à medida que expandiam-se suas áreas de atuação, uma tendência que deverá aprofundar-se nas décadas vindouras. Além da oferta de educação médica continuada para a formação completa do dermatologista, a SBD tem agido, também, na esfera judicial, junto ao Conselho Federal de Medicina e a instituições que controlam o exercício profissional no sentido de impedir que pessoas sem formação médica invadam áreas de atuação da especialidade. Esta preocupação visa,em suma, à proteção de pacientes que se expõem a procedimentos que, eventualmente, levam a complicações graves ocasionados por erros decorrentes da falta de competência profissional. A luta deverá aprofundar-se ao longo dos próximos anos à medida que a Dermatologia sofistica seus procedimentos, abre novos horizontes, apura a tecnologia e, consequentemente, atrai interesses mercantilistas. Paralelamente, a Sociedade, Brasileira de Dermatologia tem orientado os acadêmicos de medicina sobre a prova para residência em Dermatologia, alertando para as falsas vantagens alardeadas por cursos de graduação chamados de “lato sensu”, muitas vezes oferecidos em finais de semana e com conteúdos frágeis, que podem atrair um grupo crescente de jovens recém egressos das faculdades de medicina, que se interessam pela especialidade e buscam formas de acesso a vagas cada vez mais
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disputadas. A formação científica que muitos desses cursos oferecem, com objetivo meramente financeiro, poderá induzir o médico a pensar que está sendo formado como dermatologista, quando não está. O sucateamento das faculdades, o esvaziamento dos currículos que deveriam permitir uma formação sólida e o crescimento do número de escolas médicas sem hospitais conduzem à uma formação de qualidade questionável com a entrada de profissionais com qualificação insuficiente no mercado de trabalho, num cenário preocupante.
O TED - Título de Especialista em Dermatologia. A vereda certa
A Sociedade Brasileira de Dermatologia é a única sociedade da Especialidade reconhecida pela Associação Médica Brasileira e pelo Conselho Federal de Medicina. O título de Especialista da SDB é conferido após aprovação em exame realizado anualmente sendo valorizado como uma chancela de qualidade que assegura ao paciente que seu titular percorreu os caminhos mais eficazes conhecidos para chegar à porta de entrada da especialidade. Esse caminho passa por serviços dermatológicos credenciados, fiscalizados e acompanhados pela SBD visando ao aprimoramento e qualificação dos especialistas. A SBD tem se empenhado no apoio a estes serviços para que disponham de equipamentos que permitam uma formação de qualidade para os residentes. Por meio do inovador projeto SBD Capacita, equipamentos e cursos são oferecidos aos serviços para melhoria continua dos conteúdos e técnicas transferidas aos futuros dermatologistas.
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O principal instrumento para o reconhecimento da qualidade desta formação é o exame para a obtenção do título de Especialista - o TED - que vem sendo aprimorado ao longo dos anos. Assim, em 2013, na gestão da Dra. Denise Steiner, empenhei-me para a implantação da prova oral para os candidatos, em adição à tradicional prova escrita. Este foi, certamente, um avanço no processo de titulação, capaz de aferir com mais acuidade a formação do candidato. A prova oral é feita mediante a apresentação de imagens, descrição de casos clínicos e exames cujo objetivo é comprovar a capacidade do candidato reconhecer, diagnosticar e tratar doenças dermatológicas. Os resultados obtidos têm sido excelentes e adequados para completar a avaliação do pretendente ao Título de Especialista. Este foi um importante passo para o aprimoramento da avaliação dos futuros dermatologistas que contou, em 2015, com a participação de mais de 70 doutores para produzir e conduzir a prova, com índice de aprovação dos candidatos formados em serviços credenciados da SBD mais alto do que os oriundos de outra formação. É possível que esta inovação possa evoluir, no futuro, com a incorporação de um exame prático de procedimentos em pacientes, ou em modelos artificiais que reproduzam com fidedignidade condições dermatológicas de interesse para os examinadores. As últimas décadas do primeiro século foram marcadas, também, por campanhas crescentes e densas de conteúdo promovidas pela SBD, com resultados que se refletem numa maior percepção do papel do dermatologista junto à cidadania. Esta é uma tendência que deverá fortalecer-se no segundo século sob a influência dos meios de comunicação e a pressão dos interesses econômicos em torno de áreas da Dermatologia.
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Campanhas de valorização do dermatologista e esclarecimento à população pela mídia tradicional e por novos canais proporcionados pela internet constituem uma rede a ser cada vez mais explorada. Os desafios das redes sociais é um fenômeno deste século que oferece oportunidades e cria riscos. O marketing e a publicidade das empresas farmacêuticas e de cosméticos descobriu que as redes sociais são altamente eficazes e surpreendentemente baratas, comparando-se com a mídia impresa e TV. A contratação de blogueiros para trombetear a pretensa qualidade de produtos cosméticos permite milhares de visualizações e coloca os produtos como top trends na lista de mais acessados, com curtidas e outros índices informais que mostram a eficácia da rede mundial. Tornou-se fácil e rápido transformar produtos em itens indispensáveis na cesta de compras da família. Esta exposição irrefreável faz com que alguns dermatologistas ao prescreverem medicamentos, sejam surpreendidos com o desapontamento do paciente por já tê-los conhecido num blog, desvalorizando assim a consulta médica.
TED 2015 - prova oral 24 - SOCIEDADE BRASILEIRA DE DERMATOLOGIA
Os novos paradigmas da comunicação impõem desafios inusitados à SBD e levam à revisão do relacionamento da entidade com a indústria farmacêutica diante do risco de pressões indevidas sobre o médico via meios de comunicação na luta por margens de mercado e aumento de vendas de medicamentos sujeitos à automedicação, estimuladas por blogueiros remunerados. É importante, e esta foi a estratégia adotada mais fortemente a partir de 2015, questionar a indústria sobre o público alvo de eventos com objetivos científicos e certificar-se de que a comunicação destina-se exclusivamente a dermatologistas, antes de apoiá-los. A banalização de produtos farmacêuticos nas redes sociais, o estímulo a compras coletivas para procedimentos, ferem a ética médica e, muitas vezes, iludem as pessoas, expondo-as a riscos. A magia da internet, seu poder de atração e a maravilha da democratização da informação, têm sido utilizadas, por vezes, de forma perversa e deletéria, arruinando os objetivos mais nobres da comunicação. Blogueiros que se acham dermatologistas e dermatologistas que atuam como blogueiros denigrem a imagem e banalizam a profissão médica.
Dr. Mauro Enokihara, Dra. Flávia Bittencourt, Dr. Gabriel Gontijo, Dr. Nilton Di Chiacchio, Dra. Ana Maria Roselino, Dr. Walter Belda Jr, Dra. Francisca Regina Carneiro, Dr. Heitor de Sá Gonçalves, Dr. Lourival Lopes Filho
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À caça de top trends. A saúde como
Telemedicina - banda larga e
É lamentável que alguns jovens dermatologistas, com ótima formação, sintam-se tentados pelo canto da sereia do ganho fácil e desvalorizem o patrimônio mais valioso da profissão médica - a credibilidade. Este é um sinal indesejável do novo século. A contraofensiva da SBD deve utilizar de forma eficiente os atributos da internet e incrementar ações já implantadas nas redes sociais. Este início do segundo século tem sido marcado por iniciativas inovadoras e surpreendentes em torno da valorização do dermatologista, entre as quais a Declaração dos Direitos da Pele que estimula as pessoas a olharem para seu corpo como um bem a ser melhor cuidado por dermatologistas da SBD. A proteção solar tem sido abordada com enfoque mais abrangente e elucidativo, com ênfase no bom senso e nos benefícios, se devidamente exercida. Outras ações inovadoras incluíram a Campanha Dezembro Laranja que aumentou a visibilidade do dermatologista e a consagrada Campanha de Prevenção do Câncer da Pele. Um novo movimento de grande repercussão na mídia de massas foi a ação social de apoio aos pacientes de xeroderma pigmentoso promovida na localidade de Araras, interior de Goiás, bem como a produção de filme institucional sobre a SBD divulgada pelas redes de televisão. A ação de relacionamento com a mídia tem permitido exposição diferenciada aferida por pesquisas e incluiu visitas pessoais da diretoria da SBD às principais editoras do País.
A telemedicina encontra na Dermatologia possibilidades ímpares para realizar-se como forma de aproximação do especialista com pacientes nos rincões mais afastados. Nos últimos anos a SBD tem apoiado iniciativas de teledermatologia sob a liderança de serviços credenciados que apostam no papel desta ferramenta de comunicação científica para o atendimento à distância, com qualidade e competência. Bem conduzida e dentro de programas governamentais estruturados e livres de ingerências políticas e interesses empresariais, a assistência à população e o ensino incorporam um instrumento poderoso que poderá vir a dispensar a importação de médicos estrangeiros
mercadoria. A celebridade fugaz
qualidade de imagem. Novas veredas
Andy Warhol, ícone da pop art, antecipou as celebridades instantâneas SOCIEDADE BRASILEIRA DE DERMATOLOGIA - 25
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e maximizar o aproveitamento de especialistas brasileiros estrategicamente situados em serviços e universidades de todo o país para prestação de assistência médica remota a pacientes, em apoio ao médico local. A ampliação das redes de internet e a melhoria crescente da qualidade de imagem abrem um campo atraente para a atividade do dermatologista graças ao que poderá oferecer em consultorias remotas que incluem avaliação de exames e troca de ideias sobre diagnósticos e tratamentos que serão conduzidos pelos médicos situados em campo.
O homem virtual. Contribuições
para o ensino médico de excelência Os efeitos destas medidas podem ser sentidos nas iniciativas ainda isoladas existentes no país, que têm como consequência melhor atendimento, custos reduzidos e menos tempo de espera para atendimento. Há exemplos emblemáticos em todo o país dos efeitos da telemedicina na disseminação do conhecimento médico e apoio a médicos e pacientes. O Dr. Chao Lung Wen, da Faculdade de Medicina da USP, uma das referências mundiais na disciplina tem entre seus projetos o Homem Virtual, uma iniciativa da telemedicina do Departamento de Patologia daquela universidade. Com recursos de computação gráfica, ele oferece imagens tridimensionais de estruturas do corpo em quase duas centenas de cursos. Graças à clarividência do Dr. Jayme de Oliveira Filho essas técnicas têm sido incorporadas à Dermatologia. As imagens permitem o estudo de órgãos e sistemas do corpo humano, desde as moléculas, e envolve ana26 - SOCIEDADE BRASILEIRA DE DERMATOLOGIA
tomia, fisiologia e demonstração de patologias, bem como a ação de medicamentos e de procedimentos cirúrgicos. O Departamento desenvolve, também, projetos de estruturas anatômicas produzidas a partir de impressoras 3D para educação médica e formação profissional na área da saúde, no âmbito do Laboratório de Mídias Interativas em Saúde. As contribuições do sistema são numerosas e relevantes. Mesmo na rotina da residência, a comunicação imprime rapidez ao aprendizado pois visitas a pacientes internados podem ser debatidas por mídias tão simples como aplicativos que permitem o estímulo à formação de grupos de estudos. O caso debatido eletronicamente estimula sinergias e move o interesse por conhecimento, que é completado pelo preceptor.
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Empresas que exploram a medicina já vislumbram, contudo, novas oportunidades para fazer dinheiro com o ciclo virtuoso desta tecnologia. O movimento começou nos Estados Unidos com planos de saúde cadastrando médicos especialistas para atendimento remoto a pacientes que são atraídos para o plano pelo baixo custo e pela possibilidade de não precisar ir aos consultórios para consultar-se com o médico. No Brasil, a lei impede este tipo de assistência médica virtual médico-paciente. Mas é preciso ficar atento para que o que deve ser uma oportunidade de apoio aos médicos em todo o Brasil, não seja desvirtuado na forma de uma jogada fácil e rápida para iludir pessoas com a falsa solução de seus problemas via internet, sem sair de casa. É ilegal o diagnóstico não presencial. Devemos lutar para que continue assim. Se esta oportunidade magnífica de ampliação do conhecimento médico pelas ondas da internet for abiscoitada por empresários que exploram a medicina, uma das consequências imediatas, além da piora da assistência médica, será a deterioração acelerada da relação médico-paciente e a desqualificação de um criativo sistema de comunicação médica. Com o apoio da SBD, alguns serviços importantes destacam-se com suas ações de teledermatologia, tendência que será acompanhada no futuro. O Dr. Maurício Paixão, médico e engenheiro especializado em telecomunicações, discípulo do Dr. Chao e doutor pela Universidade de São Paulo, e o Dr. Daniel Holthausen Nunes, da Universidade de Santa Catarina, são dermatologistas que oferecem bons exemplos de uso eficaz da teledermatologia como apoio à ação médica. Redes de teledermatologia abrangendo centenas de pontos permitem a realização de exames dermatológicos em unidades básicas de saúde - UBS. Este processo tem início no momento em que o médico local suspeita de alguma lesão. Ao invés de encaminhar o paciente à clínica
especializada, como seria a rotina, com perda de tempo e, muitas vezes, desistência do paciente, o médico solicita um exame através da teledermatologia. A coleta de fotos e informações devem seguir os requisitos de um protocolo. Muitas lesões são identificadas desta forma e os pacientes tratados pelos médicos das unidades onde foram atendidos inicialmente, sob orientação dos especialistas situados à distância. É importante deixar claro que esta interação sempre é entre o médico que atende o paciente na ponta dos sistema e o especialista que se encontra no serviço credenciado, nunca diretamente entre o especialista e o paciente, por via eletrônica. Trata-se de um trabalho extraordinário e um modelo a ser aprofundado e institucionalizado pelo poder público como paradigma para assistência à distância, sem dispensar a presença do médico, mas estimulando sinergias para facilitar diagnósticos e tratamentos para pacientes que podem, assim, beneficiar-se dos centros de referência. Não pode, contudo, tornar-se uma mera fonte de lucro extra para as operadoras e mais um expediente para explorar os médicos.
Honorários pouco honrosos A origem do conceito de honorário vem do latim e significa uma ação que tem por objetivo honrar alguém por seus méritos, ou por seu trabalho, com o sentido de remuneração. Visto sob esta ótica. os honorários pagos aos médicos que prestam serviços aos planos de saúde estão longe de enquadrarem-se neste conceito de honrar alguém por sua contribuição. Ao longo dos anos, numa luta que remonta às origens da SBD, a Sociedade tem estado permanentemente SOCIEDADE BRASILEIRA DE DERMATOLOGIA - 27
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empenhada na valorização do trabalho de seus associados junto à Agência Nacional de Saúde e planos de saúde com vistas à conquista de honorários minimamente honrosos. Trata-se de debate permanente que envolve os órgãos regulatórios, as sociedades de especialistas, as entidades médicas e os planos de saúde. A Classificação Brasileira Hierarquizada de Procedimentos Médicos (CBHPM) é vista pela Agência Nacional de Saúde (ANS) como documento básico para que os procedimentos sejam incorporados à Terminologia Unificada da Saúde Suplementar (TUSS). Este cipoal de siglas não vai, contudo, ao cerne da questão: a fixação de honorários e a valorização do trabalho do médico. A SBD tem estado permanentemente mobilizada, com apoio jurídico e diálogo com as instituições públicas e privadas reivindicando remuneração justa e digna junto aos planos de saúde e governos. Paralelamente, temos produzido manuais que visam a orientar os associados a respeito de como aproveitar a tabela de honorários de forma mais adequada. Entre as orientações consta um manual sobre contratos dos médicos com as operadoras de saúde, com alertas sobre cláusulas que possam ocultar ciladas visando a explorar o profissional. Em essência, parece haver um conflito insanável entre os interesses dos planos de saúde que querem lucrar com base na exploração do trabalho dos médicos e a justa ambição dos médicos que precisam dispor de recursos financeiros para custear sua formação continuada. Este ponto de equilíbrio tem sido difícil de encontrar.
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Como livrar-se dos planos de saúde? Este é um tema bastante popular entre os médicos e acadêmicos de Medicina e costuma despertar grande interesse, pois todos querem identificar a chave desta porta de saída. A resposta está, em síntese, na essência do espírito do trenzinho da Rede Mineira e seu apito anunciando a chegada do médico. A riqueza verdadeira do médico está contida na preservação do prestígio profissional que decorre da boa formação, da credibilidade que angariou como resultado de seu comprometimento com os pacientes, de sua competência e de seus valores éticos. Questões que envolvem valores morais devem ser fortalecidas. Coisas simples, mas fundamentais, como o atendimento ao paciente, com respeito e atenção, seja ele do SUS ou cliente privado, devem ser cultivadas. Atender com postura.e humanismo fortalece a relação médico-paciente. Resgatar a velha e boa forma da comunicação interpessoal, da prosa mineira, do olho no olho que valoriza o médico e o paciente. Observar os bons modos aprendidos em família, como receber o visitante em pé, à porta, cumprimentá-lo diante da mesa e convidá-lo a sentar-se primeiro. Conduzir a anamnese com perguntas clássicas ensinadas por nossos grandes mestres, mostrando interesse pelas condições gerais de saúde do paciente, de acordo com suas faixa etária, indo além das questões específicas da especialidade. Este tempo inicial dedicado ao ser humano torna-se um grande diferencial na técnica de diagnóstico e faz com que o médico seja notado com um verdadeiro parceiro na busca de soluções para o paciente.
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Nos fundamentos dessa atenção e cordialidade há razões científicas que justificam a importância de abordagens com enfoque mais humanístico que podem influenciar o tratamento. Na raiz de uma doença, eventualmente poderá haver uma questão de desequilíbrio emocional, depressão, ansiedade, que constituirá o elemento desencadeador, ou agravador, da enfermidade. Na complexidade do organismo humano, o folheto embrionário que forma o sistema nervoso central é o mesmo da pele. Há, portanto, uma conexão biológica entre a pele e o sistema nervoso, que não se interrompe. Os médicos devem estar atentos à essa inter-relação psicossomática. A compreensão das pessoas em todas as sua dimensões e circunstâncias favorece a construção de redes de amizades com fundamentos em relações de respeito pessoal e cuidados médicos que devem ser iguais tanto no con-
sultório privado, quanto no ambulatório do serviço público. Vamos ouvir o apito do trenzinho da Rede Mineira que partia de Bom Despacho para bem depois do ano 2000 anunciando a cada curva a presença do médico à bordo, sem planos de saúde, munido apenas de sua maleta com a modesta tecnologia da época, receituário e de alguns remédios. Trazendo consigo a alegria de servir e a disposição para atender a todos, sem distinção de classe ou tamanho do bolso, este médico construiu o prestígio e o respeito da classe, que devem ser preservados como valores que emanam do contato com o corpo e com a alma das pessoas. E lembremo-nos sempre do ensinamento que Carl Yung, o ilustre psicoterapeuta suíço, nos legou: Conheça todas as teorias, domine todas as técnicas mas, ao tocar uma alma humana, seja apenas outra alma humana. i
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Capítulo
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A FORÇA DO INTERIOR, NOVAS VEREDAS. A MINHA LINHA DO TEMPO Dr. João Roberto Antonio
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A
Dr. João Roberto Antonio
linha do tempo da humanidade dá voltas; não é, necessariamente, reta. Pode retornar ao lugar de origem, pois as pessoas constroem a sua história, porém as escolhas são determinadas por circunstâncias e influenciadas por múltiplos fatores. A tragédia do século 21 dos refugiados sírios que procuram cruzar o Mediterrâneo em busca de liberdade e condições dignas de vida é um desses fatos trazidos pela roda do tempo de volta ao ponto inicial e que fazem relembrar a saga de meus avós. 32 - SOCIEDADE BRASILEIRA DE DERMATOLOGIA
São José do Rio Preto, metrópole regional e centro universitário no interior paulista
Na primeira década do século 20, no limiar da I Guerra Mundial, tangidos pelo sonho de “fazer a América”, eles embarcaram num navio, no Líbano, rumo a Santos. Coincidentemente, na mesma época da fundação de nossa SBD, como mostra nossa linha tempo e que, por razões insuspeitadas, viria a fazer parte, um século mais tarde, da história de nossa família. Vieram de Miziara, cidade próxima a Trípoli, no norte do país, perto da fronteira com a Síria. A região estava sob o poder do império otomano e os imigrantes saíam com
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passaporte turco. Por esta razão passaram a ser assim conhecidos no Brasil e em outros países que os receberam. Além da nacionalidade, perdiam também seus nomes de família ao terem novas identidades impostas pelas autoridades da imigração, que rejeitavam os sobrenomes árabes. Assim surgiram novas famílias como os Miguel, Jorge, Gabriel, Antonio e outras que traziam consigo tradições milenares. Em nosso caso, a família árabe Minaes transmutou-se no brasileiríssimo Antonio, por obra e graça do emissor do documento de identidade no porto de chegada. Meu avô Salim El Badui Minaes foi rebatizado como Felipe Antonio e meu pai Yussef, que na época tinha 15 anos, adotou uma nova identidade como José Felipe Antonio. Um tio, Antun, para não ser Antonio Antonio, teve seu nome mudado para Antonio Felipe. E, assim, sem sua árvore genealógica libanesa, porém vivos e esperançosos, a família foi à luta na nova terra. O destino inicial dos que vinham de Miziara era a Rua 25 de Março, em São Paulo, a Meca dos mascates árabes e da irmandade que começou a forjar seus laços de solidariedade na nova terra. Meu avô recebeu o seu primeiro kit de trabalho: uma mala e sacos com mercadorias, roupas, bijuterias e utilidades domésticas. Com o domínio de um limitado vocabulário em português, embarcou num trem para o interior paulista. É interessante lembrar que foram esses primeiros mascates libaneses que introduziram no interior brasileiro o sistema de crédito para financiamento de bens que acabou por facilitar a inserção de pessoas de baixa renda na sociedade de consumo. Hábeis negociantes e abertos às transações, vendiam fiado e parcelavam a longo prazo, com a cuidadosa anotação dos devedores numa caderneta. Os mascates, aos poucos, capitalizaram-se e começaram a construir os seus empreendimentos. Das roupas
prontas passaram para as confecções, dos tecidos avançaram para a tecelagem e, assim, ocuparam espaço na sociedade brasileira. Na linha do tempo familiar, um marco importante foi o estabelecimento de um empório, em Catanduva, interior paulista, onde meu pai ajudava os avós. O passo seguinte foi uma fábrica de sabão, até a mudança de minha família para São José do Rio Preto, um centro maior, com quatro filhos, sendo eu o caçula com dois anos de idade. A opção mostrou-se acertada. As dificuldades financeiras na primeira década eram grandes, porém as iniciativas começaram a prosperar. Entre os feitos notáveis registra-se a instalação, por meu pai, da primeira usina de pasteurização de leite e de um laticínio, na região de Rio Preto, ideia visionária para uma cidade do interior cujo abastecimento era feito por meio de latões transportados em carroças, sem nenhuma higiene. Novos padrões sanitários vieram mudar esse negócio. Enquanto isso, os filhos frequentavam a escola pública, excelente, por sinal, à época. Meu pai não permitia que trabalhássemos em sua empresa para que não tomássemos “gosto” pelo comércio. A ascensão familiar planejada passava, necessariamente, pela formação universitária. “Formar” os filhos era missão definitiva e indeclinável. Nada deveria faltar para a realização deste projeto. Desse modo se formaram as duas filhas professoras e os dois filhos médicos. A família construía, também, o seu sentido de compromisso e solidariedade com a nova terra por meio de manifestações patrióticas e de inspiração coletiva. Assim, em meus 18 anos, convocado para o serviço militar, meu pai reagiu à ideia, comum entre as elites, de procurar uma dispensa. Exigiu que eu o fizesse, justificando com uma frase:” Se o Brasil precisar de um soldado para defender a pátria, você irá, em meu nome”, deterSOCIEDADE BRASILEIRA DE DERMATOLOGIA - 33
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minou, como agradecimento a essa terra que o acolheu e permitiu construir com dignidade sua família. Ao fim e ao cabo, a orientação foi acertada, pois a experiência no Exército foi valiosíssima para que eu viesse a sedimentar valores importantes, como a solidariedade, o senso de disciplina, de união e de responsabilidade e, sobretudo, a convivência com pessoas simples, com o povo pobre que se igualava na tropa pelo valor pessoal. Aprendi a reconhecer o valor das pessoas pelo que elas são e não pelo que elas têm. Aproveitei o tempo para aprofundar os estudos e capacitar-me para o concorrido vestibular da Faculdade Nacional de Medicina da Universidade do Brasil, na Praia Vermelha do Rio de Janeiro. Cobiçada por jovens de todo o país que queriam ser médicos, formar-se naquela universidade, no Rio, era emblemático e uma oportunidade para, eventualmente, ingressar na galeria de nomes ilustres que por lá passaram. Era motivo de justo orgulho e de grandes comemorações pois ela trazia ainda as tradições da, antes, capital da República. A profissão médica era, segundo a visão de meus pais, a que mais aproximava o homem de Deus por ter o dom da cura. Além de mim, também meu irmão mais velho, o Dr. Pedro Antonio Minaes, (único registrado com o nome original da família) formou-se na mesma Faculdade Nacional de Medicina do Rio de Janeiro, tendo especializado-se em reumatologia.
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A formação como acadêmico de medicina e o conjunto musical
Fui para o Rio com uma pequena ajuda financeira paterna. A vida de um estudante universitário, à época, era agradável e exigia pouco dinheiro na capital federal. A faculdade tinha uma excelente biblioteca, com muitos livros em francês, espanhol, inglês e alemão, onde estudávamos. Fazíamos as refeições no restaurante central dos estudantes, o famoso “calabouço”, que servia um bandejão de baixo custo. O lazer era a praia. O transporte, nos bondes abertos, muitas vezes sem pagar. Uma vida tranquila e livre, ainda sem violência, no Rio de Janeiro. Vivíamos em uma época romântica da cidade maravilhosa Nos dois primeiros anos, o curso de medicina era dado em sala de aula para as disciplinas teóricas, em período integral. Depois do almoço, os estudantes iam para o diretório acadêmico onde havia um piano de meia calda. Aprendi a tocar piano em Rio Preto e este talento acabou por propiciar-me algumas inserções no sofisticado ambiente do Rio de Janeiro da década de 60. Após o almoço, comecei a tocar, informalmente, durante o descanso dos acadêmicos no diretório. Logo tornou-se um hábito entre os estudantes esperar-me para ouvir algumas melodias. O momento evoluiu quando outros colegas que tocavam instrumentos musicais começaram a agrupar-se em torno do piano. Espontaneamente, formou-se um grupo musical e passamos a ensaiar aos sábados, a partir das 14 horas, horário livre que tínhamos, estimulados pelas comissões de formaturas que nos incentivavam para tocar nos bailes de arrecadação de fundos para as festas de entrega de diplomas, em dois sábados por mês, sem custos de contratação de um conjunto musical.
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Desse modo criamos o nosso conjunto, formado somente por alunos da faculdade de medicina, cujo nome foi “Doutores em Música”. Tínhamos a mim como pianista e, na direção,o colega Darci Barbosa como arranjador, por ter formação musical pois tocara saxofone em um conjunto profissional, antes de entrar na faculdade. Outros colegas dermatologistas, como Délio Delmaestro e Aloysio Argolo, fizeram parte do conjunto. Os demais foram para outras especialidades, como Nemem Jorge, Heládio A. Miziara, Glaciomar Machado, Jader B. Cruz, Mário Machado, Gerson F. Pinto, Lycurgo Querido Filho e Miguel R. de Oliveira.
A repercussão proporcionada pelos bailes que tocávamos no diretório acadêmico da faculdade, em sábados alternados, lançou-nos subitamente no mundo do showbiz. Passamos a ser convidados para apresentações em várias cidades turísticas próximas do Rio de Janeiro, inclusive num cruzeiro marítimo. A atividade musical rendeu-nos algum dinheiro e conhecemos o mundo musical da época, sem atrapalhar os estudos. Fomos convidados para gravar um disco cujo nome foi “Doutores em Música” com seis faixas musicais com o apoio do Centro Acadêmico Carlos Chagas da FNM.O lançamento do disco obrigou-nos a registro na recém criada Ordem Nacional dos Músicos. No sexto ano, as exigências profissionais começaram a assumir contornos mais sólidos e o grupo musical foi desfeito. Desse modo, finalizamos, em 1964, o único conjunto musical de acadêmicos de medicina, profissionalizado, o que não mais se repetiu na linha do tempo.
Capa do primeiro LP do conjunto musical
Tocar piano: um hobby mantido nos momentos de lazer SOCIEDADE BRASILEIRA DE DERMATOLOGIA - 35
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Experiências nos Estados Unidos Outra das experiências notáveis e inesquecíveis dessa época foi a oportunidade oferecida pelo Programa Aliança para o Progresso, instituída pelo governo do presidente John Kennedy, para passar um período nos Estados Unidos, quando estava no quarto ano de medicina. Fui um dos cinco candidatos da medicina escolhidos pelo programa que incluía, durante quase dois meses, estágios nas universidades de Columbia, em Nova York e Harvard, em Boston. Em Washington estivemos no National Institute of Health. Também visitamos o FBI onde fomos recebidos por Ted Kennedy, irmão do presidente e ministro do governo. Em Washington, após um tour na Casa Branca e uma visita ao famoso salão oval, o gabinete do presidente, veio a grande surpresa. Fomos conduzidos para os jardins da Casa Branca e nosso grupo foi recepcionado pelo próprio presidente John Kennedy, em uma conversa de meia hora. Foi um inesquecível show de diplomacia e relações públicas que impressionou os visitantes e mostrou o empenho com que os americanos se engajam nesse processo de aproximação o que estimulou também, a parceria com os visitantes. Um ensinamento que me marcou para o resto da vida sobre a importância de ouvir e valorizar o próximo. Em resumo, agradeço as três oportunidades que tive e que marcaram os rumos de minha vida: ter feito o Exército, ter conhecido os Estados Unidos precocemente e ter vivido oito anos no Rio de Janeiro, longe de minha família, aprendendo a solucionar meus deveres sozinho, com os sacrifícios próprios para cada respectiva circunstância.
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Os longos plantões em hospitais e a importância na formação médica
Ainda como estudante, nos últimos dois anos da faculdade, iniciei minhas atividades médicas com plantões gerais em prontos-socorros por ter sido aprovado como plantonista no Souza Aguiar, o maior hospital público do Rio de Janeiro, onde passei a trabalhar arduamente três dias por semana. À mesma época, prestei novo concurso e fui admitido no Hospital São Vicente de Paula onde dava três plantões. Trabalhava muito e, desde então, acostumei-me a dormir pouco e bem. No Souza Aguiar passei a fazer parte de equipes de cirurgia geral conduzidas por cirurgiões muito competentes e treinados para emergências de alta complexidade. Esmerava-me nesse trabalho e colocava-me à disposição dos cirurgiões mais experientes, principalmente nas madrugadas, para aproveitar essas oportunidades para aprender. O passo seguinte foi a abertura de uma vaga em outro hospital de ponta, o Gaffrée-Guinle, onde passei na cirurgia geral, que veio a complementar minha formação nessa área. Convivi com o Professor Sylvio Fraga durante minha formação na Faculdade de Medicina, no serviço chefiado, à época, pelo Professor Eduardo Rabello Filho. O Professor Armínio Fraga, pai de Sylvio, era o responsável pela enfermaria 23, de mulheres, na Santa Casa do Rio, onde estudavam os alunos da Faculdade Nacional de Medicina. A enfermaria 11, de homens, era de responsabilidade do Professor Eduardo Rabello Filho. O Professor Sylvio, que havia retornado dos Estados Unidos, dedicava-se à reestruturação do serviço de Dermatologia na Santa Casa e buscava residentes para
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ajudá-lo. Conseguiu convencer seis médicos de minha turma, que se juntaram a ele na empreitada: além de mim, os doutores Divino Rassi, Délio Delmaestro, Roberto Azambuja, Rodolfo Cognac e Jorge Cury. Minha experiência em cirurgia geral mostrou-se valiosíssima para a proposta do Professor Sylvio. Foram dois anos muito produtivos na Santa Casa, com um grupo muito unido. A equipe destacou-se e, sob o comando estimulante e criativo do Professor Sylvio e seus assistentes, passamos a ser conhecidos como os “meninos do Sylvio”. Participávamos das reuniões científicas das quartas-feiras no Pavilhão São Miguel e apresentávamos com frequência trabalhos nos congressos.
O primeiro exame para o título de
dermatologista realizado no Brasil
Em 1967, durante o Congresso Brasileiro de Dermatologia em Juiz de Fora, o Professor Sampaio anunciou que havia sido aprovada a criação do TED - Título de Especialista em Dermatologia e que o primeiro exame seria realizado durante o congresso. Imediatamente inscrevi-me, com um total de onze profissionais. Fui aprovado. O destino e o trabalho haviam colocado-me, mais uma vez, num momento decisivo para minha vida. Junto com outros oito colegas, passamos a formar a turma dos nove primeiros especialistas em Dermatologia titulados no Brasil. Nossa banca examinadora foi composta pelos professores Sebastião Sampaio (SP) Tancredo Furtado (MG), Rubem David Azulay(RJ), Clóvis Bopp (RS) e Ruy Miranda (PR). Casei-me em Rio Preto com a Professora Cidinha Cury Antonio e instalamo-nos no Rio. Minha atividade era intensa. Havia sido aprovado em concurso para o Serviço Nacional da Lepra e trabalhava, também, no movimentado consultório do Professor Sylvio Fraga, além de meu próprio consultório privado.
Dr. Joao Roberto e sua esposa, Dona Cidinha Cury Antonio SOCIEDADE BRASILEIRA DE DERMATOLOGIA - 37
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Enquanto isso, em São Jose do Rio Preto, lideranças locais pleiteavam a instalação de uma faculdade de medicina na cidade. Interessado na carreira universitária e no retorno à minha cidade, enviei currículo para o Ministério da Educação. Algum tempo depois recebi a notificação de que havia sido aprovado como professor regente da disciplina de Dermatologia da Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto. Quando mostrei a meu professor esse documento perguntei-lhe se ficava no Rio ou retornava para minha cidade. A resposta foi imediata: vai para a sua cidade onde você já é um professor e não fique aqui lutando por uma carreira universitária enfrentando muitos candidatos. ”É preferível, na sua idade, ser cabeça de mosquito do que rabo de leão. Transforme, com o tempo, sua faculdade em um leão e, também, será cabeça de leão” foi o sábio conselho que recebi e, também, o sinal que me mobilizou para vir, definitivamente, para São José do Rio Preto. O retorno, depois de formado e com um acervo de realizações na Dermatologia, ao lado de professores renomados, marcou um momento muito importante para mim e minha família. Lancei-me ao novo projeto com grande empenho e entusiasmo. Desembarquei em Rio Preto a tempo de ajudar a fazer o primeiro vestibular da faculdade de medicina, em 1968. Assim, desde a instalação da faculdade até a presente data, todos os médicos que por ela se formaram foram meus alunos. Isso proporcionou-me inúmeras homenagens como paraninfo, patrono e nome de turmas de formandos, além de minhas titulações, até ser um dos primeiros Professor Emérito e ter, atualmente, um dos mais completos ambulatório de Dermatologia, inaugurado com o meu nome. O início foi desafiador, pois estávamos diante da tarefa hercúlea de construir uma nova faculdade de medici38 - SOCIEDADE BRASILEIRA DE DERMATOLOGIA
na. Procurei, mais uma vez, compartilhar o desafio com o Professor Sylvio Fraga. Foi ele quem propiciou o meu primeiro contato com o Professor Sebastião Sampaio, por meio de uma carta de apresentação que me encaminhava a seu serviço no Hospital das Clínicas da USP, em 1967. Tenho por ambos professores uma profunda gratidão. Com sua grandeza e descortino,o Professor Sampaio não só me recebeu em seu serviço como abriu-me a oportunidade de frequentar o seu consultório, para onde eu ia às tardes, após as manhãs de atividades no serviço dermatológico da USP. Vivenciei com ele e toda a sua equipe um período inesquecível e decisivo para minha formação. Muitos residentes da época são hoje meus colegas e professores de faculdades. Sampaio apreciava o talento das pessoas, mas exigia empenho e esforço. Obrigava seus assistentes e residentes a participarem da reunião dos sábados de manhã. Para não perder nenhum desses encontros valiosos para minha formação, embarcava num trem da Estrada de Ferro Fepasa, às sextas-feiras, às 9 horas da noite e chegava antes das 7 horas da manhã do sábado na Estação da Luz, em São Paulo. As reuniões do Professor Sampaio começavam às 8 horas e, por força do horário do trem, eu costumava ser o primeiro a chegar. Creio que o Professor Sampaio impressionava-se com isso. As reuniões terminavam ao meio dia. Embarcava em um ônibus da Viação Cometa, às 14 horas, e à noite estava em Rio Preto, à tempo de sair com minha esposa. Por dois anos eu frequentei com assiduidade essas reuniões. O Professor Sampaio dizia-me que eu já era um especialista em Dermatologia titulado. Aconselhou-me e contribuiu para minha qualificação como um professor pleno. Ele foi um dos que participaram da banca da minha defesa de tese de doutorado.
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A fundação da SBD-RESP Como o destino tem me iluminado e permite-me estar presente em momentos históricos, fui um dos participantes da célebre reunião dos sábados, no Hospital das Clínicas, quando foi fundada a Regional São Paulo da Sociedade Brasileira de Dermatologia, imortalizada numa foto de toda a equipe da USP, em dezembro de 1970. Essa foto abre o livro SBD-RESP,40 anos,1970-2010, do qual fui o coordenador e editor, tendo como apoio editorial o jornalista Antonio Alberto Prado. O livro foi lançado na presidência do colega Joel Carlos Lastória, em 2010, e conta detalhadamente a história da Dermatologia paulista na nossa linha do tempo.
Nela, estou sentado na primeira fila, ao lado do Professor Sampaio. Esta deferência foi-me concedida por ser professor da Faculdade de Medicina de Rio Preto. Encerrado esse estágio no HC retornei ao interior, com régua e compasso, para desenvolver o que poderia haver de melhor no ensino da Dermatologia. A força do interior seria sentida. O Professor Sampaio, mais uma vez, apoiou-me, como sempre fazia, aparentemente sensibilizado por meu entusiasmo por novos e significativos projetos. Ofereceu-se para acompanhar e orientar nosso projeto em Rio Preto e para avaliar relatórios sobre pacientes e ajudar em casos difíceis. Dispôs-se, inclusive, a receber nossos pacientes em seu próprio consultório. E, por outro
A fundação da RESP, no HC da USP. Eu estou à esquerda, do Professor Sampaio, no centro da foto. SOCIEDADE BRASILEIRA DE DERMATOLOGIA - 39
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lado, passou a encaminhar pacientes de nossa região que o procuravam para prosseguir tratamento em nosso serviço em Rio Preto. Dizia que não precisavam mais vir para São Paulo. Quando o Professor Sampaio decidiu criar a primeira regional da SBD do país, em 1970, junto com um grupo de pioneiros, convocou-me para ser seu vice-presidente nessa primeira diretoria e determinou que a segunda jornada da nova entidade, depois de São Paulo, seria em Rio Preto. Queria um professor do interior para que o sentido da Regional fosse realmente inclusivo. Seguindo essa estratégia, organizou a primeira jornada da nova entidade em São Paulo e a segunda, no interior, em Rio Preto.
Professor Sampaio e Dr. João Roberto Antonio na Radesp, em Rio Preto 40 - SOCIEDADE BRASILEIRA DE DERMATOLOGIA
A primeira jornada dermatológica da RESP no interior paulista
Com sua forma decidida de fazer as coisas, o Professor Sampaio encarregou-me de organizar a jornada interiorana. Tudo estava em processo de construção na nova faculdade. Para oferecer condições adequadas para estudo de casos durante a jornada, tive que criar um ambiente para alojamentos dos pacientes e procedimentos no Hospital de Base. Para dispor de casos interessantes para apresentação e debates, preparei por vários meses aqueles que seriam apresentados. Duas semanas antes da jornada comecei a buscar os doentes. Em meu próprio carro fazia o translado das pessoas de várias cidades vizinhas, com seus familiares, que eram abrigados em acomodações improvisadas do Hospital de Base. Após o término da jornada, por mais duas semanas tive que levá-los pessoalmente de volta a seus lares. O Professor Sampaio trouxe toda a sua equipe da Faculdade de Medicina da USP, no mesmo trem no qual eu viajava para São Paulo. O jantar de gala que oferecemos para os professores e palestrantes foi realizado em minha casa e preparado por minha esposa, um suculento estrogonofe, que foi muito apreciado. Essa primeira Jornada Dermatológica do interior paulista, em São José do Rio Preto, em 5 e 6 de novembro de 1971, a segunda da SBD-RESP, foi um marco importante na linha do tempo da especialidade na região, com repercussão em outros estados. Entre os marcos desta linha do tempo destaca-se, ainda, a realização, em 1975, do primeiro curso de hansenologia, patrocinado pela Divisão Nacional de Dermatologia Sanitária e o curso de atualização e treinamento em hansenologia para médicos, enfermeiros e atendentes.
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Tudo isso contribuiu para que São José do Rio Preto ingressasse no mapa da Dermatologia brasileira abrindo uma série de encontros científicos da especialidade e transformando a cidade em referência. Outro evento memorável foi o 18º Congresso Brasileiro de Cirurgia Dermatológica, por mim presidido, como presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Dermatologica, realizado em junho de 2006, também em minha cidade. Foi um dos maiores jamais promovidos e reuniu mais de três mil participantes, entre dermatologistas, acompanhantes e pessoal de apoio, com a presença de consagrados palestrantes brasileiros e estrangeiros. Tivemos quase dois mil dermatologistas inscritos. Também foi um marco importante na linha do tempo da especialidade na região, por ter sido o maior realizado na América Latina, até então. Como presidente da Sociedade Brasileira de Dermatologia-Regional do Estado de São Paulo, Rio Preto viria ainda a sediar, em 2009, a 14ª RADESP, por mim presidida, também primorosa na organização e destacada pela qualidade científica e em número de profissionais envolvidos, tendo sido a maior em número de inscritos, dentro da nossa linha do tempo. Em janeiro de 2016, tivemos a honra de realizar a 150ª Jornada Paulista Dermatológica, que abriu o calendário cientifico da SBD-RESP, em homenagem, também, aos 45 anos do Serviço de Dermatologia do Hospital de Base nas modernas instalações dos nossos ambulatórios, onde afixamos as placas perpetuando os nomes de todo nosso corpo docente e outra com os nomes de todos dermatologistas por nos formados.
A FAMERP e a Dermatologia. Pesquisa, ensino e assistência
Olhando pelo retrovisor desta história percebemos que avançamos numa vereda que teve início em 1967 com a criação da Faculdade de Medicina e a minha nomeação como professor da disciplina de Dermatologia. A implantação da especialização em Dermatologia na FAMERP merece uma reflexão à parte pela intensidade do esforço exigido. São José do Rio Preto já era uma cidade de referência, procurada por pacientes dos estados vizinhos. Éramos, no entanto, uma cidade do então chamado “sertão paulista”, daí advindo toda sorte de obstáculos a serem vencidos. Realizados os preparativos para a formação da disciplina de Dermatologia, ministramos o primeiro curso, em 1971, para o 4º ano médico. Nessa época, as aulas
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Esses professores e um total de 18 residentes nos três anos de especialização, mais a opção de R4 em cirurgia dermatológica, promoveram o crescimento de nossos setores de Dermatologia com atendimentos nos ambulatórios, tornando-nos centro de referência em várias doenças dermatológicas Nossa equipe tem publicado numerosos artigos científicos em revistas médicas nacionais e internacionais, conquistado prêmios por trabalhos apresentados em congressos, organizado cursos, jornadas e congressos que se repetem anualmente e provido conteúdo de valor para capítulos de livros de Dermatologia.
práticas eram nos ambulatórios da Santa Casa, para onde levávamos os alunos. Esse padrão de ensino estendeu-se até 1978, pois a partir daí , as aulas práticas passaram a ser no Hospital de Base, em fase de montagem final para a escola médica. Com o passar dos anos, vários alunos da própria instituição especializaram-se em Dermatologia e, desta forma, iniciou-se a formação do corpo docente que, gradativamente, chegou ao que se constitui na atualidade. Tenho a honra e a gratidão de estar à frente de um corpo docente de excepcional qualidade que hoje tem como titulares a Dra. Eurídes Maria de Oliveira Pozetti, Dra. Vânia Salles de Morais Rodrigues, Dra. Ana Maria Rosa Nogueira, Dra. Tânia Regina Andrade Barbon, Dra. Rosa Maria Cordeiro Soubhia, Dr. Carlos Roberto Antonio e os professores colaboradores que completam nosso corpo docente: Adriana Cristina Caldas, Doramárcia de Oliveira Cury, Fernanda Amaro F. Pizzarro, Fernanda Rodrigues de O. Mattar, Guilherme Bueno de Oliveira, Larissa Cannizza P. de Lucca, Rita C. S. Simões Sessa e Vera Lucia Antunes Nasser.
A construção da Dermatologia em nossa FAMERP, em toda a sua complexidade, demandou a compreensão de nosso trabalho pelas demais especialidades.
Equipe da Dermatologia do Hospital de Base, 2015. Professores e residentes
Imagem aérea e fachada do Hospital de Base de Rio Preto
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As subespecialidades e os obstáculos
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Baseado em minha formação cirúrgica, iniciamos a realização de procedimentos e a coleta de material para biópsias no ambulatório da disciplina. Os centros cirúrgicos da faculdade deveriam submeter-se às prioridades estabelecidas por outras disciplinas. Fomos, aos poucos, conquistando nosso espaço na subespecialidade cirúrgica, sob o argumento da qualidade do serviço prestado ao paciente, muitos dos quais provenientes de regiões distantes que necessitavam de uma biópsia, ou da remoção de um tumor e que retornavam às suas cidades sem o tratamento. A possibilidade de realizarmos a cirurgia cutânea com rapidez e pronta liberação do paciente foi um trunfo importante para sermos aceitos. Montamos um centro de procedimentos básico que permitia a solução de necessidades cirúrgicas no mesmo dia, repetindo situação semelhante que ocorreu, também, em outros serviços dermatológicos em todo o país.
A nova Faculdade de Medicina no “sertão paulista”. SOCIEDADE BRASILEIRA DE DERMATOLOGIA - 43
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Com o passar dos anos, essa subespecialidade cresceu sob a responsabilidade do Dr. Carlos Roberto Antonio e, com a introdução da cosmiatria e dos lasers, alavancou mais nossa Dermatologia no cenário nacional e internacional nessa área. A iniciativa foi aceita, por vezes a contragosto por alguns médicos não dermatologistas, mas justificada diante da missão principal da medicina que é o atendimento das necessidades dos pacientes e a melhoria no aprendizado dos residentes. Ultrapassado o período de cristalização da especialidade entre as diversas disciplinas da faculdade, os ventos começaram a soprar a nosso favor. O prestígio da Dermatologia cresceu e uma geração de novos dermatologistas passou a ser por nós formada, muitos dos quais acabaram por ocupar posições de titulares em faculdades de medicina em todo o país. Um de nossos compromissos tem sido realizar jornadas e cursos de educação médica continuada em Dermatologia com professores convidados de competência reconhecida em suas áreas de atuação. Muitos especialistas da região e de outros estados têm participado de nossos eventos científicos, que são realizados todos os anos.
O futuro. A tecnologia e a velha e boa Dermatologia
Penso que o futuro, em nossa linha do tempo, resgatará definitivamente o seu ponto de origem: o foco no estudo das doenças e na formação completa do dermatologista, como mostra a experiência centenária da SBD. A cosmiatria, cobiçada pelos jovens, deverá fortalecer-se no tocante aos procedimentos mais complexos e so44 - SOCIEDADE BRASILEIRA DE DERMATOLOGIA
fisticados. Mas, o atendimento geral inespecífico mostra sinais de arrefecimento, comparando-se com o ímpeto inicial. Lasers e outros aparelhos, bem como produtos cosméticos, têm sido oferecidos pelas indústrias a quem deseja adquiri-los. A lógica de mercado não individualiza e nem privilegia os dermatologistas como seu público alvo preferencial, mas amplia o foco de vendas para outras profissões das áreas da saúde e, até mesmo, para não médicos, vulgarizando os tratamentos cosméticos. Por outro lado, fortalece-se a cirurgia dermatológica, que requer do especialista uma excelente formação médica, residência de qualidade, além de qualificações específicas, como formação em cirurgia, destreza manual, criatividade e conhecimento da medicina geral. Percebemos nestes cenários do futuro a curto prazo a valorização do dermatologista capaz de diagnosticar doenças, com segurança. Vemos em nossas clínicas o crescimento preocupante de pacientes que nos procuram, após terem sido atendidos por não especialistas aos quais haviam recorrido para o tratamento de doenças cutâneas. Trazem em mãos um pacote de exames e receitas para testemunhar a via-crúcis de tratamentos sem resultados e apelam aos serviços credenciados como última instância para a solução de seus problemas. Em muitos desses casos, o especialista, conhecedor das doenças e treinado no dia a dia das clínicas e ambulatórios, é capaz de diagnosticar já à entrada do paciente no consultório. O atendimento correto, pelo profissional treinado e titulado, evita custos desnecessários, bem como a frustração do paciente, além de minorar a pressão sobre nosso combalido sistema de saúde. Uma revisita às nossas raízes é atitude necessária e importante para fortalecer o núcleo duro da formação do dermatologista e valorizá-lo diante das outras especialistas e perante o público.
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Não precisamos de mais médicos, mas de bons médicos, devidamente qualificados e certificados. O dermatologista bem preparado tem domínio sobre o conhecimento da especialidade e está capacitado a fazer diagnósticos seguros, sendo competente para desenvolver, entender e valorizar uma anamnese que privilegie a história do paciente. Tão importante quanto conhecer a doença que a pessoa tem, é conhecer a pessoa que tem a doença. Esta parte do conhecimento médico pode ser mais importante do que o domínio de novidades tecnológicas. Ultimamente, temos sido intensamente procurados pela indústria que nos apresenta seus últimos lançamentos de medicamentos e equipamentos. Muitas vezes nem temos tempo de debruçarmo-nos sobre a qualidade real dessas ofertas que, por vezes, apresentam-se quase que como miraculosas. A bússola aponta para o norte sólido das evidências e merece a atenção da classe médica. Penso que, antes de adotarmos novidades, devemos lançar nosso olhar atento e cuidadoso para as medicações e tratamentos que ultrapassaram a barreira do tempo e cujos resultados são descritos e atestados por pesquisa científica e clínica, bem como por referência abundante na literatura médica. As novidades que rapidamente viram sucata são vistas com frequência no segmento de equipamentos. A pressão por vendas, por parte dos fabricantes, num mercado muito competitivo, faz com que os médicos sejam pressionados à compra, até mesmo por parte de seus pacientes que, também, são induzidos pelo marketing nos meios de comunicação de massa e, agora, pelas redes sociais. As clínicas de muitas colegas que investiram na compra de lasers e outros equipamentos, por vezes têm um quarto de despejo para depositar máquinas caras que foram superadas por lançamentos mais recentes, não necessariamente melhores. Muitas vezes essas compras não resistem à simples pergunta: “Realmente preciso disso?...”
Após mais de meio século de diplomado como médico, vejo que muitas coisas voltam às suas origens. Reforço minha crença de que a arte de ser médico não consiste, obrigatoriamente, em usar o que há de mais novo, mas de saber qual a real necessidade do paciente. Volto aos conselhos de meu pai, nas escadarias do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, em 1964, após a cerimônia de entrega de diplomas, realizada com pompa e circunstância. Com o simbolismo que a ocasião requeria, entreguei o diploma a meu pai, que o devolveu com uma recomendação singela, mas plena de significado para o jovem médico: “Faça a medicina bem feita. Quando atender um paciente imagine que está examinando seu pai, ou sua mãe. Dessa forma você sempre atenderá bem. O resto virá naturalmente”.
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Os frutos, realmente, vieram, naturalmente. Um dos mais recentes, emblemático da carreira, foi-me concedido em 2014: Maestro de la Dermatologia Latino Americana, pelo CILAD-Colégio Ibero Latino Americano de Dermatologia, tradicional instituição que congrega dermatologistas da América Latina, Europa e África. A concessão do título ocorreu após análise de comissão internacional que avaliou atividades acadêmicas, publicações, participação como conferencista em países ibero-latino-americanos e atividades como médico e cidadão. Neste segundo século da SBD, encontra-se em meu horizonte próximo a construção de um novo consultório para ampliar o atendimento, com meu filho Carlos, após quase meio século de atuação em minhas antigas instalações.
Dr. Carlos Roberto e Dr. João Roberto Antonio 46 - SOCIEDADE BRASILEIRA DE DERMATOLOGIA
Lições do dia a dia ao longo de meio século na medicina
Acordar cedo. Das 7 horas ao meio dia, trabalhar para a comunidade no serviço dermatológico da Faculdade de Medicina de Rio Preto, orientar residentes e atender a todos que nos procuram. À tarde, dedicar-me à clínica privada em meu consultório. Esta rotina é completada com aulas, cursos, participação em seminários, jornadas e congressos no país e no exterior. Nunca parar. “Se pudéssemos prever o futuro, perderíamos o direito ao sonho e ao medo”. Assim devemos sonhar e realizar, sem medo. Estes são lemas importantes para a vida. E continuar o que tenho feito desde os primeiros tempos, seguindo os conselhos dos grandes mestres Sylvio Fraga e Sebastião Sampaio. Caminhamos, realmente, um longo e proveitoso caminho. Fecha-se, portanto, com uma imensa alegria e um forte sentimento de gratidão, que estendo à minha esposa, Aparecida Cury Antonio (Cidinha), a meus filhos, João Roberto Antonio Filho, Carlos Roberto Antonio e Luiz Roberto Antonio, que sempre compreenderam-me e incentivaram-me na profissão, em um círculo virtuoso que pavimenta o caminho para este segundo século da SBD e oferece um paradigma para a ciência dermatológica e para o ensino no Brasil.
Gerações que se sucedem. A trajetória do pioneiro e a continuidade da Dermatologia na família
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SERVIÇO DO HOSPITAL DE BASE. A BUSCA PERMANENTE DA EXCELÊNCIA
O
serviço de Dermatologia do Hospital de Base e a disciplina de Dermatologia da FAMERP iniciaram os cursos de residência e estágios para formação de especialistas em Dermatologia em 1974, ano de formatura da primeira turma de médicos. A duração inicial era de dois anos, com pré-requisito de dois anos de clínica médica. A exigência passou a ser de um ano de pré-requisito em clinica medica e dois anos na Dermatologia, com opção para mais um ano em cirurgia dermatológica. O serviço é credenciado pela SBD, reconhecido oficialmente pela COREME - Comissão Nacional de Residência Médica e remunerado pela FUNDAP, da Secretaria da Saúde do Estado de São Paulo para suas seis vagas anuais de R1,R2 e R3, mais duas para R4.
A especialização envolve informações e treinamento teórico-prático em ambulatórios gerais, enfermaria, cirurgia dermatológica, histopatologia, micologia e atendimentos em ambulatórios programados de hanseníase, genodermatoses, doenças sexualmente transmissíveis, dermatologia infantil e cosmiátrica e laser. Destas conquistas que a Dermatologia realizou em São José do Rio Preto, vale destacar o novo ambulatório da especialidade, entre os mais modernos do país. São oito salas de ambulatórios, com funcionamento pela manhã e à tarde, o que permite o atendimento de cerca de cem consultas diárias. Há, ainda, três salas de cirurgia, com média de 25 procedimentos diários, sala de exames complementares, histopatologia, micologia, dermatoscopia,auditório para aulas e reuniões e uma enfermaria com média de internação de seis a oito pacientes por dia, o que permite cumprir as funções sociais de atendimento público gratuito. Docência, aprimoramento cientifico e formação de especialistas credenciados pela SBD são, também, prioridades do serviço. As reuniões de casos clínicos e cirúrgicos ocorrem às sextas-feiras e são abertas a todos os dermatologistas da região. Em nosso serviço desenvolvemos programas para cada subespecialidade, incluindo cabelos e unhas, dermatoscopia, dermatologia infantil, dermatologia do idoso, câncer de pele, hanseníase, psoríase, vitiligo, doenças genéticas, entre outras. SOCIEDADE BRASILEIRA DE DERMATOLOGIA - 47
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Somos referência em várias doenças e fazemos pesquisas nacionais e internacionais por intermédio do CIP - Centro Integrado de Pesquisa do Hospital de Base, em concordância com o CEP da FAMERP. O serviço é centro de referência em hanseníase e outras doenças para uma centena de municípios da região. A disciplina de Dermatologia participa, também, do CEPAN - Centro de Ensino, Pesquisa e Atendimento em Neurofibromatose, no ambulatório de genodermatoses, envolvendo equipe multidisciplinar que se dedica ao atendimento, pesquisas e dissertações de mestrados e teses de doutorados. É um dos serviços que mais faz publicações científicas elaboradas em conjunto com nossos residentes e orientadas pelos nossos docentes. Tem acumulado premiações em congressos de Dermatologia e de cirurgia dermatológica.
Temos sido inspecionados periodicamente pela comissão de ensino da SBD e órgãos federais que, invariavelmente, classificam nosso serviço em patamares elevados, o que se reflete na intensa procura pelas vagas para residentes que oferecemos anualmente. Com uma equipe de atendimento e ensino totalizando mais de 30 profissionais, o serviço de Rio Preto é um dos poucos que dispõe de todos os tipos de equipamentos, incluindo lasers, para ensino e, também, para atendimento ao público, tendo como foco principal nossos pacientes, razão maior da profissão medica. Acrescente-se à tecnologia, nosso foco na formação dos residentes com forte ênfase no conhecimento das doenças da pele como manifestações cutâneas das doenças sistêmicas. Este esforço tem, entre seus resultados, elevado nível de aprovação nos exames para o TED. i
Professor Dr. João Roberto Antonio. Professor Emérito de Dermatologia da Faculdade Estadual de Medicina de São José do Rio Preto. Presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Dermatológica 2005/06. Presidente do Congresso Brasileiro de Cirurgia Dermatológica 2006. Presidente da Sociedade Brasileira de Dermatologia, 2009. Presidente da RADESP - Reunião dos Dermatologistas do Estado de São Paulo, 2009. “Maestro de la Dermatologia” - CILAD, 2015
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Capítulo
3
A LUTA INFINDÁVEL CONTRA A DOENÇA SOCIEDADE BRASILEIRA DE DERMATOLOGIA - 49
O SEGUNDO SÉCULO - AS GRANDES VEREDAS DE UMA SOCIEDADE CENTENÁRIA
S
éculo das Guerras, Século da Conquista Espacial, Século da Ciência. O Século 20 pode ser qualificado por uma série de epítetos monumentais que exaltam grandezas e misérias da atividade humana no planeta. O século 21 em suas primeiras décadas deu uma volta completa na roda do tempo e trouxe à tona um dos cavaleiros do Apocalipse na forma de um mosquito- o Aedes aegypti, o “desagradável do Egito”, na tradução do grego e latim. A linha do tempo da medicina registra no limiar do século 20, no ano de 1900, trabalho desenvolvido pelo médico americano Walter Reed que demonstrou que a febre
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amarela é causada por um vírus transmitido por mosquito, agente similar ao que havia sido reportado em 1898 pelos virologistas alemães Friedrich Loeffler e Paulo Frosch, do Instituto de Doenças Infecciosas Robert Koch, de Berlim. Quase duas décadas antes, em 1881, o médico cubano Carlos Finlay havia sugerido que mosquitos poderiam ser os vetores da febre amarela. No começo do século 20, campanhas mata-mosquitos arrasaram criadouros em Cuba, o que permitiu, paralelamente, interromper a manifestação da doença. O mesmo trabalho repetiu-se no Panamá para que pudesse ser construído o canal ligando os oceanos Pacífico e Atlântico.
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criação do Instituto Soroterápico Federal, em 25 de maio de 1900, na fazenda Manguinhos, zona norte do Rio de Janeiro que, em 1908, tornou-se Instituto de Medicina Experimental e recebeu a denominação atual. Por Manguinhos passaram as primeiras gerações de dermatologistas brasileiros, entre os quais Adolpho Lutz, Adolpho Lindenberg, Parreiras Horta, Gaspar Vianna, Rocha Lima, Henrique de Beaursepaire, Arêa Leão, Armínio Fraga, Eduardo Rabello, Fernando Terra, Olympio da Fonseca Filho e muitos outros.
Adolpho Lutz, a pesquisa e a ação sanitária: transformação das cidades
Adolpho Lutz que, de 1893 a 1908, esteve à frente do Instituto Bacteriológico de São Paulo, transferindo-se deÀ mesma época, no Brasil, a estrada de ferro Madeira-Mamoré só pode ser construída após a contratação do sanitarista Oswaldo Cruz para inspecionar o canteiro de obras e sanear a região infestada de mosquitos. Foi, também, o famoso cientista que, como diretor-geral de Saúde Pública, no começo do século 20, coordenou as campanhas de erradicação da febre amarela e da varíola no Rio de Janeiro e em outras cidades brasileiras. O “desagradável mosquito”, inimigo ardiloso e insistente, ao ter seu habitat na floresta destruído, domesticou-se e associou-se ao homem, tendo como alimento de preferência o sangue humano oferecido através da pele da espécie realmente invasora. O transição dos séculos inclui nesta linha do tempo um marco cuja importância perdura ao longo dos anos: a
Adolpho Lutz
Em 1908, Adolpho Lutz, em São Paulo, registrava a ocorrência de paracoccidioidomicose 51
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pois para o Instituto Oswaldo Cruz, exibe em seu currículo uma intensa atividade de pesquisa em laboratórios, bem como ações eficazes no campo da saúde pública em campanhas sanitárias e estudos epidemiológicos. O Professor Rubem David Azulay, em apresentação de obra sobre o pesquisador editada pela Fiocruz, destaca as contribuições do cientista para a Dermatologia, entre as quais a descrição da Micose de Lutz, ou paracoccidioidomicose. “Lutz foi, fundamentalmente, um dermatologista”, resumiu o Professor Azulay. Sanitaristas, dermatologistas, sifilografistas e infectologistas alinham-se na frente de combate aos vetores de doenças tropicais que tornavam insalubres as principais cidades brasileiras e que angariou ao Rio de Janeiro fama inglória, no início do século 20. Este grupo de pioneiros, em sua maioria, trabalhava na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro e, a partir de
1925, também na Faculdade de Medicina Fluminense, atualmente no âmbito da Universidade Federal Fluminense. Fernando Terra e Eduardo Rabello foram as molas propulsoras de um movimento que levou a Clínica de Dermatologia e Sifilografia dessas faculdades a transformar-se em centros de investigação científica da Dermatologia que congregaram expoentes da parasitologia e da patologia que atuavam no Instituto Oswaldo Cruz e outras instituições da então capital federal. Notícias de pesquisas importantes para uma especialidade ainda em sua alvorada começaram a surgir. Em 1908, Adolpho Lutz, em São Paulo, registrava a ocorrência de paracoccidioidomicose enquanto, no Rio, em 1910, Eduardo Rabello publicava monografia sobre dermatomicoses. Um ano depois, Paulo Parreiras Horta publicou seu estudo sobre a piedra preta que, mais tarde, originou o nome de Piedraia hortai ao agente estudado por outros pesquisadores.
Em apresentação de obra sobre o pesquisador editada pela Fiocruz, destaca as contribuições do cientista para a Dermatologia, entre as quais a descrição da Micose de Lutz, ou paracoccidioidomicose
Professor Rubem David Azulay
Fernando Terra e Eduardo Rabello foram as molas propulsoras de um movimento que levou a Clínica de Dermatologia e Sifilografia dessas faculdades a transformar-se em centros de investigação científica da Dermatologia
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Professor Fernando Terra
Professor Eduardo Rabello
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É neste ambiente de pesquisa e estudo que desponta o trabalho hercúleo do sanitarista brasileiro Oswaldo Cruz que, a partir de 1903, à frente da Diretoria de Saúde Pública, que equivale hoje ao Ministério da Saúde, deflagrou campanhas de saneamento contra a febre amarela e seu vetor e velho conhecido dos brasileiros, o desagradável Aedes Aegypti. A questão sanitária era de tal gravidade nas principais capitais brasileiras que, no Rio de Janeiro, o trabalho médico incorporou estratégias de cunho militar.
A então capital brasileira foi dividida em distritos, chefiados por delegados. Uma polícia sanitária foi organizada com poderes de multar, intimar proprietários de imóveis e, até mesmo, demolir prédios, enquanto os mata-mosquitos percorriam febrilmente a cidade limpando calhas, mandando fechar caixas d’água, desinfetando bueiros para acabar com os criadouros de larvas. Um século mais tarde, a roda girou e retornou a seu ponto de partida. Uma sensação de déjà vu, com relação aos movimentos nesta segunda década do século 21.
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Os mosquitos e suas doenças causavam aflição à nível mundial, principalmente nos países tropicais e subtropicais. A busca de uma vacina eficaz contra a febre amarela durou décadas. Só em 1937 o virologista sul-africano Max Theiler, radicado nos Estados Unidos, obteve êxito com um vírus atenuado e chegou à uma vacina. Os estudos prosseguiram e resultados seguros permitiram que, de 1940 a 1947, a Fundação Rockefeller financiasse a produção de mais de 28 milhões de doses que, finalmente, interromperam o curso da evolução da doença e permitiram a sua prevenção. Pelo seu trabalho, Theiler recebeu, em 1951, o Prêmio Nobel em Fisiologia e Medicina. Mas o relógio do tempo corre rápido e o Aedes aegypti voltou à carga para fechar nossa linha do tempo neste século 21, em 2016 e, desta vez, com pretensões ambiciosas de impactar a realização de um dos maiores espetáculos da Terra, as Olimpíadas do Rio de Janeiro.
A disciplina de moléstias cutâneas e sifilíticas. Abre-se uma nova era
A vigorosa e legendária Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio de Janeiro tem uma longa e edificante história como uma das células-máter da era que começa no limiar do século 19, mais precisamente em 1808, com a criação por D. João VI, no Hospital Real Militar e Ultramar, no Morro do Castelo, coração da cidade, da Escola Anatômica, Cirúrgica e Médica do Rio de Janeiro. Sucederam-se vários nomes, à medida que as instituições se transformavam e refletiam a evolução política: em 1813, Academia Médico-Cirúrgica do Rio de Janeiro; 54 - SOCIEDADE BRASILEIRA DE DERMATOLOGIA
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em 1832, Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro; em 1891, Faculdade de Medicina e Farmácia do Rio de Janeiro; em 1901, Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro; em 1920, Faculdade de Medicina da Universidade do Rio de Janeiro; em 1937, Faculdade Nacional de Medicina da Universidade do Brasil e, desde 1965, Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Ao final do século 19, o limiar da transição dos séculos foi marcado pela implantação, em 1883, de disciplinas de moléstias cutâneas e sifilíticas nas faculdades de medicina do Rio de Janeiro, com os pioneiros Dr. João Pizarro Gabizo e, de Salvador, com o Dr. Alexandre de Castro Cerqueira. No Rio, o Professor Gabizo foi sucedido, em 1904, pelo Professor Luiz da Costa Chaves Faria. Autor consagrado, o Professor Faria produziu duas obras seminais da especialidade no Brasil: o Compêndio de Moléstias Cutâneas, de 1887, e Moléstias Venéreas, de 1904. Em 1910, o Professor Fernando Terra assume a cátedra, na qual permaneceu até 1925, substituído pelo Professor Eduardo Rabello, a quem se deve o Pavilhão São Miguel, da Santa Casa do Rio de Janeiro, construído pelo engenheiro Guilherme Guinle, personalidade da sociedade do Rio de Janeiro, dedicado à atividades filantrópicas e que fundou, em 1923, a Fundação Gaffrée-Guinle. A primeira clínica de doenças da pele no país, segundo os registros históricos, começou a funcionar na Policlínica Geral do Rio de Janeiro, em 1882, tendo à frente o Dr. Antonio José Pereira da Silva Araújo, formado na Faculdade de Medicina da Bahia, especialista em sifilografia reconhecido mundialmente. Este núcleo da nascente Dermatologia brasileira produziu os primeiros grandes mestres que se multiplicaram na tarefa de ensinar e formar outros especialistas que, pouco a pouco, foram abrindo novas frentes para a especialidade em todo o Brasil.
Um dos mestres deste primeiro século foi o Dr. Fernando Terra, aprovado em 1906 para professor de Dermatologia da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, e estagiário do serviço do Professor João Pizarro Gabizo, na Santa Casa do Rio de Janeiro. O Professor Fernando Terra marcou sua longa e profícua carreira por numerosos estudos de doenças, entre as quais a lepra, tendo publicado um Manual de Dermato-Sifilografia muito utilizado para o ensino. Entre os discípulos por ele formados incluem-se, entre outros, os doutores Arêa Leão, João Paulo Vieira, Hildebrando Portugal, João de Aguiar Pupo, Amilcar Ferreira da Rosa, Oscar da Silva Araújo, Victor Teive, Barros Barreto, que se tornaram professores e disseminaram o saber dermatológico por outros tantos alunos, formando o círculo virtuoso da especialidade, neste primeiro século da SBD. Outro expoente da especialidade, o Dr. Eduardo Rabello, destaca-se neste início com pesquisas que vieram a revelar o agente da donovanose, ou granuloma inguinal, doença sexualmente transmissível, endêmica em regiões tropicais e subtropicais, cuja incidência declinou a partir da introdução dos antibióticos. O Professor Carlos da Silva Lacaz, um dos patronos da medicina brasileira, fundador do Instituto de Medicina Tropical da Universidade de São Paulo, destacou as contribuições cientificas de Eduardo Rabello ao mencionar que foi o professor carioca que permitiu a transferência do laboratório para a clínica ao desenvolver pesquisas nos domínios da leishmaniose tegumentar, câncer, doenças venéreas, tuberculose cutânea e lepra, entre outras doenças. Rabello e Carlos Chagas ofereceram à medicina brasileira, em 1920, outra contribuição decisiva: a primeira legislação brasileira de profilaxia da lepra e doenças venéreas. Com fundamento em dados epidemiológicos, a profilaxia dessas doenças teve novos enfoques na prevenção, SOCIEDADE BRASILEIRA DE DERMATOLOGIA - 55
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um avanço para a legislação da época ao destacar o papel do médico como educador. Os pioneiros deste começo do século 20, o primeiro século da SBD, foram seguidos por uma segunda geração de lideranças da especialidade que teve entre suas expressões os professores João Ramos-e-Silva, Arêa Leão, Barros Barreto, Costa Júnior, Ceci Medeiros, Joaquim Mota, Armínio Fraga, Arthur Moses, Antar Padilha-Gonçalves, Hildebrando Portugal, Sebastião de Almeida Prado Sampaio, Rubem David Azulay, Jarbas Porto, Abraão Rotberg, Renê Garrido Neves, Carlos da Silva Lacaz, Nelson Proença, Nicolau Rossetti, João Batista Gontijo Assunção, Demétrio Peryassú, Floriano Silva, Sylvio Fraga, Clóvis Bopp, Domingos Barbosa da Silva, Newton Alves Guimarães, Tancredo Furtado, João de Aguiar Pupo, que compõem a ampla galeria de mestres, líderes da especialidade, que se destacaram na pesquisa, na clínica e, em seguida, na cirurgia dermatológica e nas novas áreas de atuação do especialista conquistadas ao longo do tempo.
Na prestigiosa lista dos dermatologistas do primeiro século, desponta o Professor Eduardo Rabelo, fluminense de Barra Mansa, formado pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Sua aliança acadêmica e científica com o Professor Fernando Terra foi extremamente frutífera e, entre os resultados, destaca-se a criação do Instituto de Eletrorradiologia, em 1919, marco tecnológico pioneiro da medicina brasileira ao agregar à clínica dermatológica um serviço voltado para o tratamento do câncer. Esta inclinação dos dois mestres pela tecnologia médica que despontava no mundo manifestou-se novamente, em 1931, com a criação, no pavilhão São Miguel, de uma seção de roentgenterapia para dermatoses. Outro pesquisador de renome internacional, ilustre discípulo de Oswaldo Cruz e um dos fundadores da SBD, o Professor Paulo de Figueiredo Parreiras Horta, além de
Um século bastante ativo em contribuições científicas
A Dermatologia brasileira, nestes primeiros 100 anos de sua entidade máter, tem demonstrado uma atividade científica intensa em universidades e serviços. O Professor Carlos da Silva Lacaz, conforme relatado em História da Dermatologia no Brasil, de Glauco Carneiro, destaca marcos importantes na metade do século 20, entre os quais trabalhos dos professores Oswaldo Costa, em Belo Horizonte; João Ramos-e-Silva, Rubem David Azulay, Antar Padilha-Gonçalves e outros, com contribuições transformadoras. 56 - SOCIEDADE BRASILEIRA DE DERMATOLOGIA
Professor Carlos da Silva Lacaz
Um dos patronos da medicina brasileira, fundador do Instituto de Medicina Tropical da Universidade de São Paulo
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extensa atuação no Brasil, foi um dos médicos brasileiros que construiu o prestígio da medicina brasileira no exterior ao integrar, em 1918, a Missão Médica Militar enviada à França. Parreiras Horta foi fundador da Academia Brasileira de Ciências, catedrático de Dermatologia e Sifilografia da Faculdade Fluminense de Medicina e um dos patronos da Dermatologia. Sua longa folha de serviços prestados à ciência inclui atividade pioneira nas disciplinas de Microbiologia e de Dermatologia e Sifilografia da Faculdade de Medicina Hahnemaniana, fundada em 1912, no Rio de Janeiro. Em 1957, essa instituição de ensino foi incorporada pelo governo federal, adquiriu o seu hospital universitário Gaffrée-Guinle e, posteriormente, passou a integrar a Unirio. O Professor Hildebrando Portugal, outro precursor da moderna Dermatologia do século 20, registra seu nome
Pavilhão São Miguel - Santa Casa de Misericórdia Rio de janeiro - Primeira sede da Sociedade Brasileira de Dermatologia
em nossa linha do tempo com magnífica produção, na clinica da Santa Casa do Rio de Janeiro, entre 1926 e 1952, de uma histoteca de blocos parafinados, uma das mais importantes do continente. Ao longo da carreira, foi assistente da clínica e chefe de serviço da Fundação Gaffrée-Guinle, professor de microbiologia na Faculdade Fluminense de Farmácia, mestre de higiene dos estabelecimentos de ensino profissional da prefeitura do Rio de Janeiro e assistente da clínica dermato-sifilográfica da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Publicou trabalhos sobre lepra e foi um dos organizadores das Reuniões Anuais dos Dermato-Sifilógrafos Brasileiros. O Hospital Gaffrée-Guinle escreveu um interessante capítulo na linha do tempo da Dermatologia no Rio de Janeiro. Situado no bairro da Tijuca, inaugurado em 1929, era o maior e mais moderno da capital federal.
Professor Paulo de Figueiredo Parreiras Horta
Fundador da Academia Brasileira de Ciências, catedrático de Dermatologia e Sifilografia da Faculdade Fluminense de Medicina e um dos patronos da Dermatologia
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O SEGUNDO SÉCULO - AS GRANDES VEREDAS DE UMA SOCIEDADE CENTENÁRIA
Professor João Ramos-e-Silva
1º Reunião dos Dérmato - Sifilógrafos, promovida em 1944, no Rio de Janeiro (origem dos Congressos Brasileiros de Dermatologia), ideia de Mário Artom implementada por Ramos-e-Silva.
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Sua origem remonta à fundação da Sociedade de Profilaxia e Moral, por iniciativa dos Professores Werneck Machado e Pizarro Gabizo, entre outros, que se dedicaram-se à instalação de um hospital para tratar de doenças venéreas. Sob a orientação dos Professores Carlos Chagas e Eduardo Rabello, Guilherme Guinle fundou o hospital que, décadas mais tarde, transformou-se no Hospital Universitário Gaffrée-Guinle da Escola de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro. O serviço de Dermatologia da nova instituição teve o Professor João Ramos-e-Silva como primeiro titular e como assistentes os doutores Demétrio Periassú e Antar Padilha-Gonçalves. Logo outros mestres importantes da capital federal e do país agregaram-se à equipe científica. Mestre pioneiro a atravessar fronteiras neste primeiro século, o Professor João Ramos-e-Silva destacou-se como pesquisador e tornou-se reconhecido internacionalmente como membro do International Comittee of Dermatology, entre outras instituições médicas. Foi o Professor João Ramos-e-Silva que promoveu a 1ª Reunião dos Dermato-Sifilógrafos Brasileiros, em 1944, a semente dos congressos brasileiros de Dermatologia. Formado em 1918 e doutor pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro marcou seu nome na historia da Dermatologia por pesquisas em doenças venéreas, hanseníase e outras enfermidades. Foi professor catedrático de Dermatologia e Sifilografia da Escola de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro e teve papel decisivo na construção da Policlínica Geral do Rio de Janeiro tornando-a um dos mais importantes centros da especialidade no país, onde foram formados discípulos que adquiriram grande prestígio e que ajudaram a escrever a história da Dermatologia brasileira, marcando de forma indelével sua linha do tempo. i
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Capítulo
4
A SOCIEDADE DE CARÁTER MULTIDISCIPLINAR E DE VISÃO AMPLA 59
A
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Sociedade Brasileira de Dermatologia passou, em 1925, na gestão do Professor Eduardo Rabello, a chamar-se Sociedade Brasileira de Dermatologia e Sifilografia, denominação que refletia o peso equivalente das duas áreas básicas onde atuavam os associados. Este nome manteve-se até 1965, quando sifilografia foi retirado. O caráter multidisciplinar, amplo e holístico de seus objetivos abre-se com descortino sobre o amplo campo da medicina e acentua-se no segundo século quando novas áreas somam-se ao âmbito de atuação do dermatologista, além da introdução de tecnologias avançadas que passam a influenciar a formação do especialista. Como enunciado nos documentos de formação da entidade, seus fundadores vislumbravam abarcar a clínica e
“todas as correntes que lhe são tributárias, incluindo-se os laboratórios da parasitologia, histopatologia, bacteriologia”. Este caráter multidisciplinar compreende a pele como um órgão que, muitas vezes, sinaliza a existência de doenças internas em situações que devem ser compreendidas e dominadas pelo especialista. O panorama vislumbra-se no ato de constituição da Sociedade, numa época em que o quadro de médicos especializados estava em formação e muitos dos que se dedicavam à doenças da pele inseriam-se na medicina geral. O interesse abrangente na plataforma mais ampla do conhecimento científico caracteriza a Sociedade, desde os seus primórdios, como uma instituição cujo escopo de ação deve ser amplo e diversificado.
Santa Casa de Misecórdia do Rio de Janeiro, fundação da Sociedade Brasileira de Dermatologia
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A fundação deu-se em 4 de fevereiro de 1912, na Santa Casa do Rio de Janeiro, com a presença de 18 médicos envolvidos com doenças de pele mas, não necessariamente, especialistas. Eram eles os doutores Fernando Terra, Eduardo Rabello, Werneck Machado, Moncorvo Filho, Alfredo Porto, Eduardo Magalhães, Adolpho Lutz, Victor de Teive, Caetano de Menezes, Gaspar Vianna, Leal Júnior, Oscar da Silva Araújo, Juliano Moreira, Paulo Parreiras Horta, Zopyro Goulart, Miguel Salles, Eduardo Jorge e Franco de Carvalho. Os Anais Brasileiros de Dermatologia registram, ao longo dos anos, as atividades da nascente instituição médica, relatadas, também, no livro História da Dermatologia no Brasil, de Glauco Carneiro, publicado pela SBD.
No começo, gestões de longa duração O primeiro presidente, Professor Fernando Terra, teve uma gestão que durou quase 13 anos. Foi sucedido pelo Professor Eduardo Rabello, em mandato também duradouro, de quase 15 anos. É possível que a extensão das administrações decorresse do pequeno número de dermatologistas no Rio de Janeiro e à mobilização ainda difusa em torno de temas que transcendessem o âmbito do debate científico. A inserção da nova Sociedade em questões políticas e de interesse associativo veio a ocorrer bem mais tarde, com a mudança dos estatutos e o crescimento das áreas de atuação dos especialistas e o consequente fortalecimento de seu perfil. Um dos pontos altos do primeiro século foi a realização, no Rio de Janeiro, em 1922, do 1º Congresso Americano Sobre Lepra sob a presidência de Carlos Chagas com a presença de especialistas de 13 países Entre as conclu-
sões do conclave destacaram-se o apelo ao estímulo para pesquisas sobre a doença e a criação de cátedras especiais nas faculdades de medicina. O modelo adotado para a estrutura original da SBD foi o da Société Française de Dermatologie, fundada em 1889. As reuniões científicas eram realizadas no famoso Hospital Saint Louis com a apresentação de doenças pelos serviços dermatológicos. Nossa Sociedade replicou a experiência francesa com a qual os mestres brasileiros estavam familiarizados, pois Paris era a Meca da Medicina, até meados do século 20 e centro de aperfeiçoamento que atraiu muitos de nossos pioneiros. A II Guerra Mundial mudou o cenário econômico mundial e promoveu uma reorganização das nações sob a influência de uma nova potência, tendência que logo refletiu-se na Dermatologia.
Professor Fernando Terra
Primeiro presidente da SBD, mandato de 1912 a 1924
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Uma primeira geração de especialistas talentosos e promissores, entre os quais os doutores Sebastião Sampaio, Rubem David Azulay, Jarbas Porto, Glyne Rocha, Tancredo Furtado, Padilha-Gonçalves, entre outros, formou um time aguerrido que absorveu e começou a disseminar no país o conhecimento gerado nos Estados Unidos. A excelência do material científico da nova Sociedade teve como uma de suas consequências a criação, em 1925, dos Anais Brasileiros de Dermatologia e Sifilografia onde eram publicados resumos das sessões realizadas pela entidade. Ao longo de nossa linha do tempo, em seu primeiro século, a publicação foi evoluindo e modernizando-se segundo padrões internacionais.
No campo da divulgação institucional, o primeiro boletim da SBD, publicado pela entidade logo após a fundação, teve sua circulação interrompida em 1920 para retornar somente em 1989, consolidando-se em 1995 como Dermatologia Atual e Jornal da SBD. O avanço da publicação ao longo dos anos e o lançamento de outros títulos mostram a abertura crescente da entidade para formadores de opinião e, também, o interesse da população em torno de questões relacionadas com a pele, com reflexos na grande mídia nacional. O projeto da biblioteca, uma das sementes e componente fundamental do Núcleo da Memória da Dermatologia Brasileira, é fruto do descortino dos professores Fernando Ter-
Ilustração da Sociedade Francesa de Dermatologia, modelo adotado para a estrutura original da SBD 62 - SOCIEDADE BRASILEIRA DE DERMATOLOGIA
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ra e Eduardo Rabello que zelaram pela organização do acervo da clínica de Dermatologia da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro que, no final dos anos 70, foi transferida para a SBD, formando a principal biblioteca de Dermatologia do país.. Em 1942, a Sociedade, predominantemente carioca, procedeu à uma reforma de seus estatutos e abriu-se para todo o país ao incentivar a criação de representações regionais. Um dos primeiros movimentos nesse sentido ocorreu em 1943 quando a Sociedade Mineira de Dermatologia filiou-se à SBD como Sociedade Brasileira de Dermatologia e Sifiligrafia, seção de Minas Gerais.
Outro passo no rumo da ampliação da presença nacional da SBD deu-se em 1962 por iniciativa do Professor Rubem David Azulay, presidente da Sociedade, ao promover reestruturação estatutária que abria a sociedade para dermatologistas de todo o país ao criar as regionais estaduais. A SBD passava, finalmente, a ser uma sociedade de dimensões realmente nacionais. Ao longo dos anos, outra vertente do crescimento da entidade deu-se no campo da ação institucional visando ao fortalecimento do perfil do dermatologista e sua identificação qualificada perante outros especialistas e a cidadania.
A evolução dos ABD desde a sua primeira edição em 1912
Acervo Biblioteca da SBD SOCIEDADE BRASILEIRA DE DERMATOLOGIA - 63
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Outros títulos de publicações oficiais da SBD
Nesse contexto, em 1967, em convênio com a AMB - Associação Médica Brasileira, foi criado o TED - Título de Especialista em Dermatologia. Outro avanço na direção da consolidação do prestígio do especialista numa dimensão mais ampla e complexa foi a criação, a partir do final da década de 90, de grupos de trabalho e departamentos para subespecialidades, num movimento que seguia as tendências internacionais de ampliação das áreas de atuação e que teve forte impacto junto à comunidade dermatológica.
Estratégias para os novos tempos. A consolidação do perfil
A transição dos séculos realçou as novas vocações da SBD e fortaleceu suas responsabilidades de fiscalizar e zelar pela ética da profissão, bem como ampliou o seu papel de prestadora de serviços aos associados, tanto no campo da educação médica continuada, quanto legal e ins64 - SOCIEDADE BRASILEIRA DE DERMATOLOGIA
titucional, bem como expôs-se como instituição de referência da Dermatologia junto à população, fortalecendo o espírito associativo. Um papel de destaque nessas estratégicas foi reservado aos grupos de trabalho, departamentos e comissões com foco nas subespecialidades e áreas de interesse da Dermatologia. O estimulo à crescente integração e sinergia entre as regionais e a sede por meio de diálogo permanente, alinhamento na tomada de decisões de interesse coletivo e ações conjuntas tem sido um dos pilares que sustentam a construção nesses novos tempos. Os serviços credenciados, vasos periféricos por onde circula o saber científico e a formação dos especialistas, têm recebido atenção permanente e apoio para a identificação de oportunidades de crescimento e aprimoramento dos conteúdos oferecidos a residentes e estagiários. Essa atenção aos serviços traduz-se, entre outras ações, em acesso a equipamentos avançados, oferta de conteúdo de qualidade e participação nos eventos da Dermatologia, com estímulo à apresentação de casos gerados nos centros universitários e a consequente possibilidade de engajamento em debates com os mestres. A especialização e o aperfeiçoamento profissional têm merecido ações eficazes por meio do Programa de Educação Médica Continuada, reconhecido e apreciado pelos associados que participam assiduamente de suas atividades em todo o país. Em 1962, a SBD comemorou seus 50 anos de fundação. Nesta época começaram a florescer novas seções regionais, entre as quais a carioca e a fluminense. O movimento para a inserção cada vez maior da Sociedade no palco das grandes entidades médicas internacionais aprofundou-se, retomando à tradição desenhada pelos pioneiros.
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Um dos pontos altos, em meados deste primeiro século foi a ação de aproximação com o CID - Comitê Internacional de Dermatologia do ILDS - International League of Dermatological Societies. O Professor João Ramos-e-Silva tornou-se membro do CID por cinco anos, sendo sucedido pelo Professor Antar Padilha-Gonçalves e, depois, pelo Professor Sebastião Sampaio. As comemorações do cinquentenário foram marcadas pela expansão da SBD por todo o país e o estímulo aos especialistas de outros estados para que ocupassem, com maior frequência, cargos diretivos na entidade. Na presidência do Professor Rubem David Azulay foi promovida a reestruturação da entidade, apresentada durante a 19ª Reunião dos Dermatologistas Brasileiros. Outro marco na linha do tempo ocorreu no final de 1962, implementada na gestão do Professor João Ramos-e-Silva: a mudança do nome oficial da entidade para Sociedade Brasileira de Dermatologia, um retorno à razão original, após décadas com o nome que resumia as grandes áreas das doenças da pele do começo do primeiro século - Dermatologia e Sifilografia. Com a descoberta de novos medicamentos e declínio da incidência de sífilis, a Dermatologia passava a reinar, soberana. Em 1965, sob a liderança do Professor João Ramos-e-Silva, foram realizadas conjuntamente a 22ª Reunião Anual dos Dermatologistas Brasileiros e o 1º Congresso dos Dermatologistas de Língua Portuguesa, sob a responsabilidade da SBD e da Sociedade Portuguesa de Dermatologia e Venereologia e a presença de cerca de 400 especialistas. Entre os trabalhos apresentados durante os eventos incluiu-se uma proposta de reformulação da nomenclatura dermatológica, que seria encaminhada à Liga Internacional das Sociedades de Dermatologia.
Além dos grandes eventos anuais, uma nova tendência observava-se: a programação de eventos regionais que permitiam a redução de custos da programação e facilitavam o deslocamento dos participantes. Nesse contexto, foi organizada, em 1965, a 1ª Reunião Café com Leite, que congregava especialistas de São Paulo e de Minas Gerais, por iniciativa dos professores Sebastião Sampaio e Tancredo Furtado. Com a adesão do Professor Antar Padilha-Gonçalves e dos dermatologistas do Rio, esses encontros tornaram-se triangulares e,
Publicação da 19ª Reunião Anual dos Dermatologistas Brasileiros
Publicação da 22ª Reunião Anual dos Dermatologistas Brasileiros e o 1º Congresso dos Dermatologistas de Língua Portuguesa
Acervo Biblioteca da SBD SOCIEDADE BRASILEIRA DE DERMATOLOGIA - 65
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em seguida, quadrangulares, quando incorporaram-se ao grupo os associados da Regional Fluminense. Em resumo, havia um grande interesse dos especialistas em manterem-se alinhados com a vanguarda do conhecimento dermatológico por meio de educação continuada e de compartilhamento de saber para o crescimento comum, uma característica da comunidade dermatológica que deverá aprofundar-se neste segundo século diante da expansão das áreas de interesse dos especialistas. Um dos pontos de destaque nesta linha do tempo da Dermatologia brasileira foi a realização do primeiro exame para a concessão do TED - título de Especialista em Dermatologia, realizado em 1967 no serviço do Professor Antônio Carlos Pereira Filho, em Juiz de Fora, junto com o 24º Congresso Brasileiro de Dermatologia.
A banca examinadora, constituída por expoentes da Dermatologia, era composta pelos professores Tancredo Alves Furtado, Clóvis Bopp, Rubem David Azulay, Rui Noronha de Miranda e Sebastião Sampaio. A história registra para sempre a nobre lista dos primeiros aprovados no exame de título e detentores dos primeiros TED outorgados pela SBD/AMB: doutores Amado Baptista Barcui, Antônio Carlos Viegas, Danilo Vicente Filgueiras, Délio Delmaestro, Diane Machado, Ignácio Obadia, João Roberto Antônio, José Lopes Mesquita, Maria Aparecida Constantino, Roberto Dóglia Azambuja e Wanda Constantino. Este grupo marca a história brasileira como os primeiros titulados pela SBD, o início de um movimento de valorização do dermatologista que iria crescer a partir deste ponto crucial.
A banca examinadora do primeiro exame de suficiência para a concessão do TED, realizado a 28 de outubro de 1967, em Juiz de Fora, MG. Da esquerda para a direita, os Profs. Rubem David Azulay, Ruy Miranda, Sebastião Sampaio, Tancredo Furtado (presidente) e Clóvis Bopp. 66 - SOCIEDADE BRASILEIRA DE DERMATOLOGIA
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A segunda prova nacional do TED foi realizada em Curitiba, no ano seguinte, durante o 25º Congresso Brasileiro de Dermatologia, na clínica dermatológica do Hospital das Clínicas, no serviço do Professor Rui Miranda, A roda do conhecimento prosseguiu seu movimento contínuo com a introdução no palco dos congressos, a partir da década de 70, de residentes dos serviços dermatológicos como palestrantes ou participantes de discussões científicas. Esses jovens talentos debutaram no palco principal dos debates durante o 26º Congresso, em Goiânia, sob a presidência do Professor Anuar Auad. Este núcleo pioneiro era composto por residentes da Faculdade Fluminense de Medicina, orientandos do Professor Rubem David Azulay. Em 1971, sob a presidência do Professor Clóvis Bopp, foi introduzido um avanço estratégico na missão da
Professor Clóvis Bopp
Presidente da Sociedade Brasileira de Dermatologia em 1971 e um dos fundadores da Regional Rio Grande do Sul
SBD que iria mudar definitivamente o escopo de atuação da entidade. Além do desenvolvimento e disseminação de conhecimento científico e da formação dos dermatologistas brasileiros, a SBD passava a debruçar-se sobre questões éticas, sociais e econômicas que afetavam a atividade profissional dos associados. Glauco Carneiro, em sua obra, destaca que o Professor Clóvis Bopp foi um presidente com descortino, sensível ao entorno social das doenças, além de sua investigação e terapia. Em 1965, o Professor Bopp, em reunião da SBD, lembrou o ambiente de euforia que marcava o fim da 2º Guerra Mundial e a esperança de que, com o final do conflito, “as bombas mágicas da quimioterapia e dos antibióticos pudessem fulminar os bacilos de Hansen e de Koch, o vírus do tracoma, o gonococo e os treponemas da sífilis venérea”. Lamentou, contudo, o avanço das doenças infecciosas para as quais, por serem doenças sociais, “não basta ter uma droga miraculosa contra seu agente, da mesma forma que a sulfona não fez banir a lepra”. Assim, em meados do primeiro século da SBD, o Professor Bopp alertava para questões sociais como causas raiz de uma série de doenças que poderiam constar de nossa linha do tempo também neste início do segundo século da Sociedade. Mencionava, entre outras, a maior resistência do treponema à penicilina, cujo tratamento exigia doses maiores do que no tempo do Dr. John Friend Mahoney, médico americano pioneiro nesta terapia e presidente, em 1948, do comitê de especialistas em doenças venéreas da Organização Mundial da Saúde. O mestre alinhava entre as mazelas que penalizavam a gestão da saúde pública brasileira, o desinteresse das autoridades pelo controle das doenças venéreas, o declínio do estudo por novas gerações de médicos das chamadas doenças sociais, o pouco empenho dos governos em educação sanitária e o desconhecimento do público 67
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quanto aos perigos da sífilis, “que hoje cedeu lugar à cancerofobia”, como mencionou. Este chamamento à realidade feito pelo Professor Bopp em meados do século passado poderia, lamentavelmente, ser repetido neste segundo século da SBD. Outra importante contribuição do Professor Bopp foram as reuniões regionais da chamada Linha Sul da Dermatologia Brasileira que congregava especialistas dos três estados sulinos. Os professores Clóvis Bopp, Jorge José de Souza Filho e Rui Miranda promoveram a primeira reunião das Linha Sul em Florianópolis, em 1971. Na abertura do século 21, na gestão do Professor Fernando de Almeida, 2001/02, foram comemorados os 90 anos de fundação da SBD. Entre os atos realizados destacou-se o lançamento do Projeto Pró-Memória, proposto pelo Professor Paulo Cunha, que incluiu a edição da obra História da Dermatologia no Brasil, de Glauco Carneiro. i
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Projeto Pró-Memória, proposto pelo Professor Paulo Cunha, que incluiu a edição da obra História da Dermatologia no Brasil
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Capítulo
5
A SANTA CASA E A MODERNA MEDICINA BRASILEIRA SOCIEDADE BRASILEIRA DE DERMATOLOGIA - 69
A
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Irmandade da Misericórdia, organização de leigos católicos cuja missão é a assistência social, além da devoção religiosa, tem sua origem em Florença, em meados do século 13. Pouco antes do descobrimento do Brasil, a instituição instalou-se em Portugal, em 1498, de onde irradiou-se para as colônias. No Brasil, as irmandades multiplicaram-se rapidamente desde o início da colonização e constituíram-se em instrumento de gestão estratégica em saúde pública para atender às necessidades das populações nas principais cidades brasileiras.
Santa Casa de São Paulo 70 - SOCIEDADE BRASILEIRA DE DERMATOLOGIA
As Santa Casa de Misericórdia, a obra mais vistosa da irmandade no Brasil, ofereceram as primeiras instituições hospitalares do país, inicialmente destinadas a atender os enfermos dos navios que chegavam a nossos portos e os moradores das cidades. Aos poucos esta missão evoluiu e os hospitais das Santa Casa foram, também, o embrião das primeiras escolas de medicina do país, nas capitais e em muitas cidades do interior. Assim aconteceu no Rio de Janeiro, onde a Santa Casa foi instalada pelo Padre José de Anchieta, em 1582. Seus salões generosos abrigaram o início da Academia Nacional de Medicina, em 1829, e a Sociedade Brasileira de Dermatologia, em 1912.
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A Santa Casa do Rio ofereceu os palcos qualificados para os grandes eventos científicos, como a 1ª Reunião dos Dermato-Sifilógrafos Brasileiros. A instituição despontava e escrevia a sua história na Dermatologia brasileira por meio de pesquisas e formação de quadros de excelência que, além dos pioneiros, incluiu os professores Armínio Fraga, João Ramos-e-Silva, Antar Padilha-Gonçalves, Demétrius Peryassú, Sylvio Fraga, Paulo de Castro Barbosa, Gracho Leite Gomes, Everardo Marques dos Santos, Aloysio Argollo Nobre, entre tantos outros que replicaram os conhecimentos adquiridos em serviços e faculdades de todo o país.
Passaram pelo serviço de Dermatologia da Santa Casa alunos das escolas médicas da cidade, como a UFRJ, escola de medicina da Fundação Souza Marques, Universidade Gama Filho e PUC cujas aulas eram ministradas no histórico Pavilhão São Miguel em cursos de graduação e pós-graduação. Carreiras de mestres famosos foram construídas nesse serviço e suas contribuições marcaram a linha do tempo da Dermatologia brasileira. O currículo do Professor Rubem David Azulay, entre outras realizações, inclui o fortalecimento do Pavilhão São Miguel como referência no ensino da especialidade.
Santa Casa do Rio de Janeiro SOCIEDADE BRASILEIRA DE DERMATOLOGIA - 71
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Em 1978, a disciplina e o serviço de Dermatologia da UFRJ foram transferidos para o Hospital Universitário, na Ilha do Fundão, e o Professor Azulay continuou à frente do serviço no Pavilhão São Miguel atendendo a Dermatologia e ministrando cursos da especialidade. O Pavilhão São Miguel tinha níveis de excelência diferenciados, com laboratórios, biblioteca, salas de procedimento e terapias de ponta que perduram até os dias atuais. O Instituto de Dermatologia, agora chamado de Instituto de Dermatologia Professor Rubem David Azulay, em homenagem a um de seus patronos mais ilustres, tem à frente o Professor David Azulay, filho do antigo mestre, que dá sequência à tradição do clã iniciado por seu pai. O Dr. David lembra, com emoção, a visão social de seu pai, a origem em família de recursos escassos, em Belém do Pará, e o desejo manifestado precocemente de ser médico.
A atuação política do Professor Rubem Azulay manifestou-se muito cedo, ainda nas disputas paraenses do começo do século 20. Sua pertinácia na busca dos objetivos e visão estratégica levaram-no, aos 15 anos de idade, a aproximar-se de lideranças políticas locais que lhe proporcionaram a concessão de uma bolsa de estudos para o curso de medicina. Mudanças no cenário político e o fim da bolsa, conduziram-no a decidir-se pela mudança para o Rio de Janeiro. A história, como diz o ditado, escreve-se, por vezes, por linhas tortas. A saga do Professor Rubem Azulay foi marcada ao contrair tuberculose, doença que, à época, era tratada com mudança de ares. Solidário com o seu jovem estudante de medicina, o Professor Paulo Parreiras Horta, convidou-o a repousar em sua casa de campo nas montanhas, o que, de fato, acelerou o seu processo de cura.
O currículo do Professor Rubem David Azulay, entre outras realizações, inclui o fortalecimento do Pavilhão São Miguel como referência no ensino da especialidade
Dr. David lembra, com emoção, a visão social de seu pai, a origem em família de recursos escassos, em Belém do Pará, e o desejo manifestado precocemente de ser médico
Professor Rubem David Azulay
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Professor David Azulay
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A influência do Professor Rubem Azulay perpassou todas as escolas de medicina do Rio de Janeiro nas quais atuou e chegou, invariavelmente, ao topo da carreira universitária. Sua ampla vocação para a atividade científica aproximou-o, também, do sanitarismo, levado pelo entusiasmo que cercava o trabalho de Oswaldo Cruz no Instituto de Manguinhos, como lembra o Professor David Azulay. É dessa época um episódio que ilustra a coesão familiar e o espírito de luta do jovem estudante. Aprovado em primeiro lugar no curso para ser pesquisador em Manguinhos, lembra o Professor David que seu pai deveria ser agraciado, como mandava a tradição, com uma medalha de ouro que, contudo, não foi confeccionada por, alegadamente, falta de recursos da instituição. O impasse foi superado por uma atitude de sua mãe que, ao ver o filho frustrado, juntou joias de ouro e mandou cunhar a medalha, completando-se, desta forma, o reconhecimento devido. No ano 2000, em reconhecimento à importância e ao crescimento da Dermatologia brasileira, o Professor Rubem David Azulay recebeu certificado da International Society of Dermatology, que engloba as associações da especialidade em todo o mundo, sendo a primeira vez que a distinção foi conferida à uma entidade de país sul-americano. A Sociedade Brasileira de Dermatologia tem cinco representantes permanentes na Academia Internacional e é a segunda maior entidade em número de sócios, depois da americana. Em 13 de dezembro de 2002, o Instituto de Dermatologia da Santa Casa do Rio de Janeiro passou a ser denominado de Instituto de Dermatologia Professor Rubem David Azulay, em reconhecimento aos longos anos de dedicação do mestre à construção desta obra. Alguns dos principais espaços do Instituto foram planejados pessoalmente pelo Professor Rubem Azulay, como a expansão do setor de cirurgia, a micologia, a fotobiologia, a alergia, a cosmiatria, a dermatopatologia e a
dermatologia sanitária, bem como a biblioteca, que se beneficiaram de sua visão cuidadosa. Em 15 de fevereiro de 2005, o Professor Rubem Azulay tornou-se chefe emérito do Instituto e a gestão executiva do serviço passou a ser exercida pelo Professor David Azulay. Uma das joias da instituição é o complexo da enfermaria 29, o CEU - Centro de Estudos da Unha, entre outros núcleos científicos dedicados ao estudo e ao tratamento de afecções cutâneas. O Professor Rubem David Azulay foi homenageado como patrono do Congresso Brasileiro de Cirurgia Dermatológica de 2016, no Rio de Janeiro, pelo presidente do evento, o Dr. Alexandre Filippo. A cosmiatria era vista como “perfumaria” por alguns médicos, como lembrou o Dr. Filippo, e o Professor Azulay, com sua visão de futuro, foi um dos primeiros patronos da especialidade a abrir espaços para esta nova área da Dermatologia na pós-graduação da Santa Casa do Rio de Janeiro, o que reforça o alinhamento do mestre com os novos tempos de transformação.
Em 13 de dezembro de 2002, o Instituto de Dermatologia da Santa Casa do Rio de Janeiro passou a ser denominado de Instituto de Dermatologia Professor Rubem David Azulay
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Universidade Estadual do Rio de Janeiro. Uma história de sucesso A Faculdade de Ciências Médicas da UERJ - Universidade Estadual do Rio de Janeiro foi fundada em 1935 e, em 1940, reconhecida pelo governo federal. Em 1953 passou a integrar a Universidade do Distrito Federal, até adotar a atual situação institucional. O primeiro titular de Dermatologia da instituição foi o Professor Francisco Eduardo Rabello, mestre com longa tradição no ensino médico em instituições de renome do estado.
O Professor Hildebrando Portugal, um dos iniciadores da dermatopatologia no Brasil, foi, entre outros, um dos mestres de destaque da instituição. Os professores Glyne Rocha Leite e Rubem David Azulay enriqueceram o panteão dos grandes nomes da instituição, além dos Professores Jarbas Porto e Leninha Valério do Nascimento, da geração mais recente de professores destacados por sua carreiras. Em 1980, o Professor Azulay transfere-se para a UFRJ - Universidade Federal do Rio de Janeiro para exercer o cargo de professor titular.
A Policlínica e as bases de
sustentação da Dermatologia Outra história edificante da medicina construída no Rio de Janeiro é o relato de grandezas da obra da Policlínica Geral do Rio de Janeiro, que entrou em serviço em junho de 1882. O momento foi tão emblemático que contou com a presença do imperador Pedro II no corte da fita inaugural. 74 - SOCIEDADE BRASILEIRA DE DERMATOLOGIA
Sede construída pela Policlínica Geral do Rio de Janeiro, onde funcionou de 1909 à 1938.
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Com a chefia do serviço de “moléstias syphiliticas e da pele” confiado ao Professor Antonio Pereira da Silva Junior, este foi o segundo serviço de Dermatologia registrado na linha do tempo da especialidade no país. Os professores Aureliano Vieira, Werneck Machado, Silva Araújo e Paulo Parreiras Horta são alguns dos nomes que ilustram o primeiro século da SBD. Neste segundo século, outra geração de dermatologistas ilustres tem marcado a história da instituição de forma a manter ativa a construção permanente. A figura ilustre do Professor João Ramos-e-Silva desponta na história da construção da Policlínica, no primeiro século da SBD, ao assumir, em 1948, a chefia da Dermatologia. Outro marco foi a incorporação
ao serviço de dois jovens expoentes da especialidade, os professores Demétrio Peryassú e Antar PadilhaGonçalves. O Professor Ramos-e-Silva, de família ilustre do Rio de Janeiro, nasceu em fins do século 19, filho de um juiz de direito do Império, o Dr. João Joaquim Ramos-e-Silva e formou-se em medicina em 1918. Aprovado em concurso para médico sanitarista do Departamento Nacional de Saúde, inclinou-se para a Dermatologia tropical, destacando-se, ao lado do Professor Werneck Machado, na Policlínica Geral do Rio de Janeiro. Com a geração dos grandes médicos do primeiro século, o Professor Ramos-e-Silva deixou sua chancela de qualidade científica também na Santa Casa do Rio onde, por
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anos, foi chefe de clínica, com o Professor Armínio Fraga. Outro centro de excelência que recebeu suas relevantes contribuições foi a Escola de Medicina e Cirurgia, que veio a tornar-se a Unirio. Uma de suas grandes obras, segundo os estudiosos da Dermatologia neste primeiro século da SBD, foi a transformação do serviço dermatológico da Policlínica num dos mais avançados do país, em fins da década de 40 do século passado. Avanços importantes verificaram-se no período, entre os quais o setor de alergia, fundada pelo Professor Brum Negreiros como o primeiro serviço universitário especializado em alergia no país. Outra contribuição relevante foi o desenvolvimento da área de cirurgia dermatológica, a cargo do Professor Virmar Soares que especializou-se em cirurgia plástica na Policlínica.
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Como presidente da SBD, em 1944, o Professor Ramos-e-Silva instituiu as reuniões anuais dos dermato-sifilógrafos brasileiros, embrião dos congressos brasileiros atuais. Em 1965, liderou o Congresso dos Dermatologistas de Língua Portuguesa, realizado no Rio de Janeiro e, em 1972 o Simpósio sobre Dermatose Endêmica no Brasil, entre outros eventos científicos de grande repercussão na comunidade médica internacional. Sua importante e extensa contribuição científica inclui textos e apresentações em congressos no país e em prestigiosas revistas internacionais e o estudo de doenças dermatológicas, entre as quais a ceratodermia marginal das palmas de Ramos-e-Silva, entre muitas outras. Entre seus numerosos discípulos e assistentes incluem-se os professores Gabriela Lowy, René Garrido Neves, Arthur Porto Marques, Álvaro Magalhães Pereira, Nei Romiti, Hildebrando Portugal, entre outros.
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VALOR E APARÊNCIA. DILEMAS E CONFLITOS EM TEMPOS DE TRANSIÇÃO
A
Professora Dra. Luna Azulay graduou-se em medicina pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro - UERJ, onde é professora. Exerce o magistério, também, da Universidade Estácio de Sá e, na pós-graduação, do Instituto de Dermatologia Professor Rubem David Azulay. Fez mestrado e doutorado na UFRJ e entre outras atividades acadêmicas, cursou psicologia no Uruguai. Sua carreira inclui uma ampla vivência médica que se consolidou na academia, na atividade privada e no convívio familiar. Como participante ativa, acompanhou o avanço da Dermatologia ao longo de boa parte do primeiro século da SBD e neste início do segundo centenário. Entre as impressões que colheu ao longo da atividade médica, registra o exemplo de correção e seriedade de um de seus mestres e uma das fontes de inspiração profissional, o Professor Jarbas Porto. Recorda que seu pai, o Professor Rubem Azulay, era chefe da Dermatologia quando ela ingressou na faculdade, na graduação, época em que havia um serviço excelente, como registra. Além do Professor Jarbas Porto, os professores Gabriela Lowy, Antar Padilha-Gonçalces, René Garrido Neves, Neide Kalil, entre outros, formam o grupo de excelência que a marcou, bem como à uma geração de especialis-
Dra. Luna Azulay
tas de expressão na cena dermatológica brasileira. Destaque para o Professor Absalom Filgueira, pioneiro e responsável pela pós-graduação, mestrado e doutorado na UJRF. Em Niterói, na UFF, sob a orientação do Professor Rubem Azulay, o primeiro mestre ali formado, o Professor Sinésio Talhari, que se radicou em Manaus, é outra expressão da Dermatologia neste segundo século da SBD. Outros nomes a serem reverenciados são os professores José Serruya e Antonio Carlos Pereira Júnior, entre muitos outros. SOCIEDADE BRASILEIRA DE DERMATOLOGIA - 77
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Da geração mais recente, destaca o Dr. Guilherme Quintaes, profissional de múltiplos talentos e que se destacou tanto na Dermatologia quanto na música. Formou-se em medicina, especializou-se em Dermatologia e cirurgia plástica, foi professor da UFRJ, bacharelou-se em piano pela UFRJ e foi premiado no concorrido concurso Internacional Piano Competition for Outstanding Amateurs, nos Estados Unidos. Destacou-se, também, por inovações que introduziu na SBD. Dentre os mestres de São Paulo, menciona o Professor Nelson Proença por sua dimensão científica, política e social, qualidades que se manifestam em opiniões cultas, sensatas e equilibradas. Outro, entre os patronos da Dermatologia, o Professor Sebastião Sampaio, contemporâneo e companheiro da atividade científica e associativa do Professor Rubem Azulay que, juntos, criaram instituições, como Cilad e Radla. Neste século 21, num mundo onde as inter-relações são influenciadas pela comunicação, a Dra. Luna identifica cenários preocupantes para a especialidade. No passado recente, como destaca, não havia o primado da assessoria de imprensa e do marketing, que passaram nos tempos modernos a serem utilizados como instrumentos para engrossar cabedais próprios. Prejudicou-se, nesse processo, o sucesso como resultado do esforço pessoal e da entrega de valor real e de qualidade.
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Entre outras perdas mais preocupantes, destaca o declínio da pesquisa científica, que andou para trás, no compasso do empobrecimento geral do país. Ressalta, entre as exceções importantes, o grupo de pesquisa da FMUSP, que conta com cooperação internacional e menciona, como exemplos, os professores Valéria Aoki e Evandro Rivitti, entre outros, que permaneceram dedicados a trabalhos de pesquisa dermatológica. Entre outros grupos nacionais de mérito inclui os de pesquisa da leishmaniose, na Bahia, além da Fiocruz, no Rio de Janeiro. Na Bahia, a professora Achilea Lisboa Bittencourt graduou-se pela UFBA- Universidade Federal da Bahia, com doutorado em anatomia patológica. É professora aposentada da UFBA e pesquisadora do CNPq e atua, entre outras áreas, em dermatopatologia, com pesquisa nos linfomas primários da pele e doenças causadas pelo HTLV-1. No Amazonas, o grupo do Professor Sinésio Talhari, que se debruça sobre moléstias tropicais, é outro valor que se destaca neste segundo século da SBD, como pessoas abnegadas, com o desejo de cumprir missões, mesmo em situações de carência de recursos e de jornadas de trabalho que, muitas vezes, envolvem a entrega pessoal e uso de recursos próprios para a dedicação à produção acadêmica. A Santa Casa é destacada pela Dra. Luna como nicho de excelência em produção científica, reconhecido tanto pela qualidade quanto pela quantidade de conhecimento gerado e divulgado em publicações nacionais e internacionais, bem como pelas edições do Instituto de Dermatologia.
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A SAGA DOS FRAGA NA MEDICINA E NA HISTÓRIA DO BRASIL
V
árias gerações da família Fraga têm dado contribuições inestimáveis à sociedade brasileira em áreas diversas de atuação, da medicina, à economia, com impactos em momentos decisivos na construção de nossa história. Um de seus personagens mais ilustres, o Professor Sylvio Fraga, que participou da elaboração do grande projeto da Dermatologia brasileira ao longo do primeiro século da SBD, deixou marcas indeléveis em nossa linha do tempo. Em artigo publicado nos Anais da Dermatologia Brasileira, um dos seus discípulos, o Professor Aloysio Argolo Nobre, da UFRJ, traça um perfil do Professor Sylvio em sua dimensão humana, científica e profissional, a partir de sua vivência com o mestre no histórico Pavilhão São Miguel, da Santa Casa do Rio de Janeiro e em atividades profissionais. O Professor Argolo resgata os primórdios do Professor Sylvio como chefe do serviço e a irresistível atração que exercia sobre os recém-formados. Filho de outro mestre renomado, o Professor Armínio Fraga, que também trabalhou na Santa Casa do Rio, aperfeiçoou-se em Dermatologia nos Estados Unidos e foi professor da Faculdade de Medicina da Universidade do Brasil, atual UFRJ, onde ministrava um concorrido curso de Dermatologia. Como destaca o Professor Argolo, passaram pela Enfermaria 26 da Santa Casa do Rio, sob a orientação do chefe da clínica, o Professor João Ramos-e- Silva, os futuros professores Antar Padilha
Gonçalves, Demétrio Peryassú, Everardo Marques dos Santos, Osmar Matos, Paulo Castro Barbosa, Sylvio Fraga, Carlos Alonso, entre outros que estimularam novos discípulos por todo o país. O Professor Sylvio Fraga formou-se, em 1953, na Faculdade de Medicina da antiga Universidade do Brasil e fez residência em Filadélfia, Professor Sylvio Fraga nos Estados Unidos, onde casou-se e retornou em seguida para especialização em dermatopatologia no Armed Forces Institute of Pathology, em Washington. No começo da década de 60 do século passado, o Professor Sylvio recebeu do Professor Armínio a responsabilidade da chefia da Enfermaria 26, tendo criado o seu próprio serviço com os doutores Gabriela Lowy, José Lisboa Miranda, Danilo Filgueiras, Marcus Schor (alergista) e Antônio de Souza Marques. Em 1964, ingressaram os jovens dermatologistas Aloysio Argolo Nobre, João Roberto Antônio, que foi presidente da SBCD; Divino Rassi, ex-presidente da SBD; Délio Delmaestro, Roberto Doglia Azambuja, Jorge Cury e Rodolfo Cognac. O Professor Argolo, após seu internato em Clínica Médica, ingressou, em 1965, na Enfermaria 26, convencido por seu colega de turma, Dr. Divino Rassi, com um grupo de residentes formado por
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Guilherme Quintaes, Amado Barcaui, José Lopes de Mesquita, Ignácio Obadia, Wanda Costa Pinto, Francisco Tardin, Jacqueline Meneses e Sérgio Carneiro. Em 1967, o Professor Sylvio, docente livre da UFRJ, foi convidado pelo Professor Francisco Eduardo Rabello para trabalhar no Pavilhão São Miguel, no Instituto de Dermatologia da Santa Casa. O Professor Argolo registra que, no Pavilhão, atuavam os doutores Edgar Drolhe da Costa, Cássio Nogueira, Oswaldo Portella, Cecy Mascarenhas, Osvaldo Serra, Almir Damaso, José Serruya, José Rodrigues Loivos, Absalom Filgueiras e Antônio Carlos Pereira Júnior, que, também, foi presidente da SBD. No início dos anos 70, o Professor Sylvio foi encarregado pela direção da Faculdade de Medicina a criar a pós-graduação, com mestrado e doutorado. Outro movimento relevante para a formação do especialista foi o convite que fez ao cirurgião plástico Henrique Bulcão para criar o Serviço de Cirurgia Dermatológica. O Professor Argolo lembra que o Professor Sylvio era um excelente cirurgião dermatológico e executava com maestria procedimentos como enxertos e retalhos, entre outros. Em 1978, houve a mudança do Serviço de Dermatologia para o Hospital Universitário, na Ilha do Fundão e o Professor Sylvio passou a chefia da pós-graduação a outro mestre que veio a enriquecer a linha do tempo da Dermatologia brasileira, o Professor Absalom Filgueiras. No Pavilhão São Miguel, o Professor Sylvio permaneceu como chefe do Serviço, dando sequência à residência em Dermatologia que passou a não ter relação com a UFRJ, mas com a PUC, da qual ele se tornou professor titular. Seus discípulos multiplicaram-se e permeiam todo o tecido que formou quadros de exce80 - SOCIEDADE BRASILEIRA DE DERMATOLOGIA
lência da Dermatologia, no primeiro século da SBD e irradia-se para o segundo. Entre eles, por exemplo, o Professor Délio Delmaestro, foi um dos promotores da especialidade no Espírito Santo, como professor titular e chefe do serviço na Universidade Federal do Espírito Santo. O Professor João Roberto Antonio, outro de seus discípulos, ajudou a construir uma nova faculdade no interior de São Paulo, em São José do Rio Preto, com disciplina e serviço de Dermatologia exemplares. A longa lista enriquece-se com personalidades entre as quais os professores Antonio Carlos Pereira Júnior; Marcius Periassú e Aloysio Argolo Nobre, no Rio de Janeiro; Divino Miguel Rassi, em Goiás; Iphis Campbell, no Distrito Federal, que também ocupou a presidência da SBD; Ênio Mainard, na Bahia e Alcidarta Gadelha, no Amazonas, que foi presidente da SBCD. O Professor Sylvio foi um dos mais jovens membros eleitos da Academia Nacional de Medicina, na qual já se alinhavam os mestres João Ramos-e-Silva, Francisco Eduardo Rabello, Antar Padilha Gonçalves, Rubem David Azulay e Sebastião de Almeida Prado Sampaio. Depois dele, dois outros foram eleitos, Jarbas Anacleto Porto e Antônio Carlos Pereira Júnior, como informa o Professor Argolo, nos Anais. Durante o Congresso Brasileiro de Dermatologia de 1991, no Rio de Janeiro, foi criada a Associação dos Ex-Alunos do Professor Sylvio Fraga, tendo o Professor João Roberto Antonio como seu primeiro presidente. O Professor Sylvio Fraga crava, portanto, seu nome na linha do tempo da Dermatologia e ingressa no panteão dos patronos da especialidade. i
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Capítulo
6
OS 110 ANOS DA DERMATOLOGIA DE SÃO PAULO. OLHAR PARA O FUTURO
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C
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omo no Rio de Janeiro, Belo Horizonte e em muitas outras capitais, também em São Paulo a primeira marca na linha do tempo da Dermatologia está no capítulo da Santa Casa. A Ordem das Santas Casas de Misericórdia nasceu quase ao mesmo tempo em que o Brasil era descoberto. Instituída em Portugal dois anos antes da descoberta do Brasil, a primeira Santa Casa era uma instituição relativa-
mente nova quando a primeira delas foi criada nas novas terras, em 1543, na Província de São Vicente, onde hoje é a cidade de Santos. Seu criador foi Braz Cubas, que veio na expedição de Martim Afonso de Souza, em 1531 A Santa Casa de São Paulo de Piratininga, no planalto, foi fundada 20 anos depois. A Dermatologia de São Paulo, como especialidade, estabeleceu-se quatro séculos mais tarde, em 1907, na
Santa Casa de São Paulo. No edifício Conde de Lara nasceu a Dermatologia 82 - SOCIEDADE BRASILEIRA DE DERMATOLOGIA
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Santa Casa, com a criação do ambulatório de doenças da pele e sífilis pelo Professor Adolpho Carlos Lindenberg. O Professor Nelson Proença, que trabalhou na Santa Casa desde 1971 e foi chefe da clínica de Dermatologia é um dos grandes cronistas desta história. O pioneiro, Professor Lindenberg, voltara da Europa em 1905, após completar sua formação científica, uma situação incomum para a época quando poucos afortunados poderiam deixar o país para longas e caríssimas viagens internacionais. Seu retorno foi o ponto de partida para a construção de uma iniciativa considerada notável para a época. A Santa Casa já tinha serviços de cirurgia, clínica médica, pediatria e obstetrícia. A primeira faculdade de medicina de São Paulo, a Faculdade de Medicina e Cirurgia, nasceu nos ambulatórios da Santa Casa, em 1912, ano de fundação da SBD, no
Rio de Janeiro. Foi, posteriormente, incorporada pela Universidade de São Paulo, quando a instituição foi criada, no começo da década de 30. A atual Faculdade de Medicina da Santa Casa de São Paulo foi fundada em 1963 e sua aula inaugural foi proferida pelo Professor Pedro Calmon, reitor da Universidade do Brasil, do Rio de Janeiro. O serviço do Professor Lindenberg expandiu-se rapidamente, com uma enfermaria dedicada à especialidade. A pesquisa também teve forte incremento com a instalação de um laboratório moderno para a época, com biotério e outras áreas, onde foram realizadas experiências inovadoras, tornando-se referência em pesquisa de doenças tropicais, como a leishmaniose, a blastomicose sul-americana, hoje conhecida como paracoccidioidomicose; pênfigo e micoses profundas.
A presença do Professor Nelson Proença, que veio a substituir o Professor Humberto Cerruti, marcou uma fase áurea de fortalecimento da disciplina dermatológica no quadro das especialidades estabelecidas na Santa Casa
Pesquisador no Instituto Bacteriológico do Estado de São Paulo com contribuições importantes no estudo das micoses, no tratamento da lepra e nas pesquisas sobre a leishmaniose Professor Adolpho Carlos Lindenberg SOCIEDADE BRASILEIRA DE DERMATOLOGIA - 83
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Lindenberg destacou-se como pesquisador no Instituto Bacteriológico do Estado de São Paulo com contribuições importantes no estudo das micoses, no tratamento da lepra e nas pesquisas sobre a leishmaniose. Ao aposentar-se da Faculdade de Medicina e Cirurgia, foi substituído pelo Professor João de Aguiar Pupo, mas continuou à frente da 4ª enfermaria. Embrião das primeiras faculdades de Medicina de São Paulo, à exemplo da Santa Casa do Rio de Janeiro, com a criação da Universidade de São Paulo as disciplinas ministradas na Santa Casa foram transferidas para o Hospital das Clínicas. Com a instalação do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, a Dermatologia mudou-se para suas instalações definitivas. Também a Escola Paulista de Medicina, atual EPM/Unifesp teve como um de seus berços o generoso hospital da Santa Casa. Foram discípulos de Lindenberg, entre outros, os professores Abílio Martins Castro, pai de outro renomado especialista, o Professor Raymundo Martins Castro; Domingos de Oliveira Ribeiro, José Moacyr de Alcântara Ribeiro e o jovem Sebastião de Almeida Prado Sampaio, que começou a frequentar o serviço, “para aprender a dar injeções”, como dizia, ainda como estudante. Trabalhou durante os seus primeiros anos de formado, em 1943 e 1944, no ambulatório de Dermatologia. O sucessor de Lindenberg, o Professor João de Aguiar Pupo, formou-se em 1912 na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Um marco importante neste linha do tempo foi a criação, nos anos 20 do século passado, do Departamento de Profilaxia da Lepra, pelo Professor Aguiar Pupo, onde foram formados muitos leprologistas brasileiros . Na Faculdade de Medicina da USP, em 1957, o Professor Sebastião Sampaio assumiu a chefia do serviço, após a aposentadoria do Professor Aguiar Pupo e abriu um ciclo virtuoso na construção da especialidade moderna. 84 - SOCIEDADE BRASILEIRA DE DERMATOLOGIA
Um ícone da Dermatologia brasileira, costuma ser lembrado ao avaliar-se os momentos de inflexão da Dermatologia brasileira, com a expressão “antes e depois de Sampaio”, a indicar a entrada da especialidade no século 20. Entre as numerosas reflexões a respeito da missão reservada à Dermatologia, costumava dizer que seu foco era “curar as doenças, não apenas descrevê-las”. Nascido no interior de São Paulo, inclinou-se, inicialmente, para a engenharia mas, por influência da mãe, como contou em diversos depoimentos, decidiu optar pela medicina e ingressou na Faculdade de Medicina da USP, onde formou-se em 1943. Como estudante trabalhou na Liga de Combate à Sífilis e, posteriormente, foi contratado como auxiliar no Departamento de Profilaxia da Lepra. Ao terminar o curso, foi orientado pelo Professor João de Aguiar Pupo a frequentar o ambulatório de Dermatologia, onde começou a aprofundar-se na especialidade.
Professor João de Aguiar Pupo
Presidente da Sociedade Brasileira de Dermatologia gestão 1963/64
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Uma das experiências marcantes na densa carreira do Professor Sampaio foi seu bem aproveitado período como bolsista na conceituada Clínica Mayo, nos Estados Unidos. Outras experiências internacionais marcantes, incluem um período na Europa. Os conhecimentos que adquiriu foram aplicados de forma frutífera no serviço dermatológico do Hospital das Clínicas da FMUSP e multiplicados por seus numerosos discípulos. Tornou-se professor titular em 1960. Sua atividade de pesquisa inclui tese de livre docência sobre o lúpus eritematoso disseminado, doença que, à época, não era conhecida no meio médico brasileiro. Completada em 1950, descreveu, pela primeira vez na Dermatologia, casos desta doença atendidos pelo Dr. Sampaio na Clínica Dermatológica da Santa Casa de São Paulo.
O Serviço do Professor Sampaio, como passou a ser conhecido, ampliou as fronteiras da pesquisa cientifica em Dermatologia e estimulou um ambiente favorável à formação de uma geração de especialistas. Seu envolvimento crescente com atividades de gestão e espírito de liderança, ao lado de uma equipe que se formava, fizeram com que a Dermatologia ganhasse status de departamento na Faculdade de Medicina da USP. Sampaio e seus companheiros entendiam que a especialidade deveria ter perfil diferenciado da clínica médica por ser clínico-cirúrgica. Em sua estratégia para construir a imagem ampla e sólida da Dermatologia, defendia que o dermatologista deveria ser mais atuante na profissão médica. “A Dermatologia mudou muito e evoluiu, assim como toda a Medici-
Professor Sebastião Sampaio e sua esposa, no centenário da Santa Casa SP
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na”, costumava dizer Sampaio. Exemplificava com novas técnicas como o transplante de cabelo e peelings, além de métodos inovadores de lipoaspiração, entre outros procedimentos criados por renomados dermatologistas. A intensa vida associativa do Professor Sampaio inclui participação na criação do Conselho Regional de Medicina de São Paulo - Cremesp, que presidiu. Foi presidente da AMB - Associação Médica Brasileira e da Sociedade Brasileira de Dermatologia. Fundou, a Regional São Paulo da SBD e criou a Sociedade Brasileira de Cirurgia Dermatológica. O primeiro evento da SBCD foi promovido no dia 7 de setembro de 1989, às vésperas da primeira eleição presidencial no Brasil pelo voto direto. Reuniram-se no antigo hotel Crowne Plaza, na região da avenida Paulista, em São Paulo, cerca de 200 dermatologistas no 1º Congresso de Cirurgia Dermatológica.
Os professores João Roberto Antonio e Jayme de Oliveira Filho abriram o primeiro seminário do congresso com um simpósio sobre transplante de cabelos. “A Cirurgia Dermatológica coloca a Especialidade em sua real dimensão e define seu campo de atuação mais amplo no âmbito da medicina e estabelece um novo marco na Dermatologia brasileira”, registrou o Professor Sampaio. Referiu-se aos primórdios da especialidade, na Santa Casa de São Paulo, no início do século 20, lembrando que a “Dermatologia era uma especialidade de ‘porão”, aludindo à localização da enfermaria de Dermatologia nos baixos das antigas instalações da Santa Casa de São Paulo. “Os cirurgiões passavam por cima”, ironizou Sampaio. Eram tempos heroicos para os dermatologistas para os quais “as doenças da pele seguiam por dois caminhos: as que eram curadas com óxido de zinco e as que não curavam. Os pacientes não morriam, mas também não curavam”.
À frente do grupo fundador, o Professor Sebastião Sampaio, acompanhado do Professor Luiz Henrique Paschoal e ladeado por uma plêiade de professores, entre os quais João Roberto Antonio, Gabriel Gontijo, Ival Peres Rosa, Cleide Ishida, Reinaldo Tovo, Izelda Maria Carvalho Costa, Sérgio Serpa, Cássio Villaça, Rogério Ranulfo, Eugênio Pimentel, Alcidarta Gadelha, Hamilton Ometto Stolf. Além dos pioneiros da foto histórica, incluem-se entre os fundadores da SBCD, a Dra. Bogdana Victória Kadunc, os doutores Carlos Machado Filho, Jayme de Oliveira Filho, entre outros. 86 - SOCIEDADE BRASILEIRA DE DERMATOLOGIA
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Tratava-se, certamente, de uma mudança de tempos impulsionada pelas soluções terapêuticas postas à disposição pela pesquisa tecnológica que vieram a transformar definitivamente o arsenal dos dermatologistas. Entre os dermatologistas que o influenciaram, o Professor Sampaio mencionou, em depoimento para a História da Dermatologia no Brasil, de Glauco Carneiro, os doutores João de Aguiar Pupo, João Ramos-e-Silva, Raul David do Valle e Nelson de Souza Campos, entre outros. E, entre os especialistas da geração posterior, que foram seus discípulos, nominou os doutores Evandro Rivitti, Neusa Dillon, Luiz Henrique Camargo Paschoal e Maurício de Avelar Alchorne, entre outros. Outros nomes de destaque na Dermatologia de São Paulo foram os professores Humberto Cerruti, em Sorocaba; Luiz Mário Bechelli e Walter Pimenta, em Ribeirão Preto; Ney Romiti, em Santos e Raymundo Martins Castro, em Campinas. Diplomado pela Faculdade de Medicina da USP, o Dr. Raymundo Martins Castro doutorou-se em 1960. Fez especialização na Alemanha de onde trouxe, como registrou à época o Professor Carlos da Silva Lacaz, os fundamentos para a organização do curso de especialização no Instituto de Medicina Tropical de São Paulo. O Professor Raymundo Martins Castro trabalhou com o Professor Sebastião Sampaio e, a partir de 1974, passou a atuar na Escola Paulista de Medicina/Unifesp onde deixou marcas indeléveis na pós-graduação e na orientação de teses, tendo conquistado o status de departamento para a disciplina de Dermatologia naquela instituição. Em seu legado destaca-se a ampliação da atividade do serviço, com atendimento diário e demonstração prática para os alunos; a oficialização da residência e estágios por onde passaram gerações de dermatologistas que vieram ocupar posições de destaque nas universidades e clínicas. Outro movimento importante foi o convite ao Professor Maurício de Avelar Alchorne para planejar a instalação
do curso de pós-graduação na disciplina, o que foi feito com competência e resultados importantes para a formação dos especialistas. Em 1986, o Professor Raymundo Martins de Castrou fundou o Cenir - Centro de Estudos Dermatológicos Nicolau Rossetti, com objetivos educacionais, científicos, culturais e assistenciais. Entre seus vários atributos, destacou-se a paixão por trabalhos de campo, tendo com os professores Sinésio Talhari e René Garrido Mendes, organizado expedição científica ao vale do rio Juruá, na Amazônia, para estudar foco endêmico de pinta entre os indígenas canamarus. O Professor Carlos da Silva Lacaz foi outra personalidade que marcou a história da Dermatologia brasileira. Em seu amplo leque de competências e de contribuições destacam-se as de historiador da Dermatologia e da Medicina brasileiras, fundador da Liga de Combate ao Câncer e do Instituto de Medicina Tropical.
Professor Raymundo Martins Castro
Presidente da Sociedade Brasileira de Dermatologia gestão 1981/82
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Em 1977, criou o Museu Histórico da Faculdade de Medicina que, em 1993, passou a ser Museu Histórico Professor Carlos da Silva Lacaz. Entre os livros que escreveu estão obras históricas, como Vultos da Medicina Brasileira, Médicos Italianos em São Paulo, Médicos Sírios e Libaneses do Passado, História da Faculdade de Medicina da USP: Reminiscências, Tradição, Memória de Minha Escola e A Faculdade de Medicina e a USP, em colaboração com Berta Ricardo de Mazzieri. São Paulo é um centro cosmopolita que tem atraído pessoas de todo o mundo que vieram alinhar-se aos dermatologistas brasileiros e compor um núcleo criativo que agregou mais valor à especialidade. Um desses personagens de nossa linha do tempo é o Dr. Norberto Belliboni que deixou um legado marcante. Nascido na Itália, formou-se na USP, onde fez carreira como docente e, em 1978, obteve o título de professor adjunto, tendo sido coordenador da disciplina de Dermatologia. Outro dermatologista que cravou seu nome na linha do tempo da Dermatologia teve papel destacado também na Escola Paulista de Medicina/Unifesp, o Professor Abrahão Rotberg, reconhecido mundialmente pela doutrina da margem Hansen-anérgica e do Fator N na hanseníase, entre outros estudos. O professor Rotberg foi diretor-geral do Departamento de Profilaxia da Lepra e médico do Sanatório Padre Bento, entre 1934 e 1940. Um de seus méritos foi observar que as noções correntes sobre a hanseníase conflitavam com a realidade dos sanatórios. Suas conclusões, baseadas no estudo de milhares de pacientes, levaram-no à concepção da existência do fator genético que oferece imunidade à maioria da população. Foi um dos fundadores da Sociedade Paulista de Leprologia, da Revista de Leprologia de São Paulo e do Colégio de Hansenologia dos Países Endêmicos. Propôs a adoção oficial do termo hanseníase, ao invés de lepra, com o objetivo de superar a estigmatização dos doentes e de suas famílias. 88 - SOCIEDADE BRASILEIRA DE DERMATOLOGIA
Sua longa a frutífera carreira levou-o a relacionar-se com grandes mestres da Dermatologia do país e do exterior. Foi professor titular de Dermatologia da Escola Paulista de Medicina e da Faculdade de Medicina de Taubaté. Além da hansenologia, dedicou-se a muitas outras áreas, entre as quais às alergias ocupacionais, micoses profundas e leishmaniose, entre outras.
Professor Nelson Proença.
Educador, Dermatologista, Político Em 1981, a Dermatologia da Santa Casa, sob a chefia do Professor Nelson Proença, transferiu o ambulatório da especialidade para um novo edifício, o Conde de Lara, onde desenvolveu-se e onde foram escritas belas páginas
Professor Nelson Proença
Um dos construtores e patrono da moderna Dermatologia brasileira, com atuação na academia, nas entidades e na política
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desta história. Lá foram formadas equipes de excelência que se multiplicaram em várias instituições médicas do país. O crescimento sólido e permanente do serviço transformou-o num centro de pesquisa e atendimento de referência em DST, fototerapia, alopecias, urticária, vitiligo, dermatites, oncologia, cirurgia dermatológica, cosmiatria, acne, colagenoses e outras áreas. O laboratório de transplantados é um ponto de destaque, em apoio à atividade da Santa Casa em transplantes renais e de medula óssea, com a participação de dermatologistas em ações multidisciplinares. São desenvolvidos trabalhos em parceria com o departamento de oncologia da Faculdade de Medicina para pesquisas com novos medicamentos e quimioterapia, o que abre um leque promissor para as duas especialidades em linhas de pesquisa.
Formação de lideranças A Santa Casa tem sido um centro de formação de lideranças da especialidade por onde passaram professores que têm feito carreiras brilhantes e ajudado a construir outras instituições de vanguarda. O Professor Rossetti foi, em 1933, um dos fundadores da Escola Paulista de Medicina e primeiro catedrático de Dermatologia, tendo sido sucedido pelo Professor Abrahão Rotberg, seguido pelo Professor Raymundo Martins Castro. A presença do Professor Nelson Proença, que veio a substituir o Professor Humberto Cerruti, marcou uma fase áurea de fortalecimento da disciplina dermatológica no quadro das especialidades estabelecidas na Santa Casa.
Humberto Cerruti, nascido em Buenos Aires, formou-se na Faculdade de Medicina e Cirurgia de São Paulo e, a partir de 1923, trabalhou no laboratório central da Santa Casa de São Paulo. Com extensa folha de serviços prestados à medicina nas grandes escolas médicas de São Paulo, Cerruti foi um pesquisador que produziu literatura médica de qualidade, tendo sido redator dos Anais Brasileiros de Dermatologia e Sifilografia. Foi um dos pioneiros da especialidade na Faculdade de Ciências Médicas de Sorocaba da PUC - Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. O Professor Luiz Marino Bechelli, formou-se em medicina em 1933, na USP e, em 1957, organizou a especialidade na recém fundada Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto/USP. Em 1960 escreveu com o Professor Guilherme Curban o Compêndio de Dermatologia referência para estudantes de medicina e especialistas. As contribuições do Professor Proença foram amplas e variadas, tanto nas questões científicas, na pesquisa e na clínica, quanto na atividade associativa e política. Entre seus trabalhos de registro documental da especialidade, inclui-se o Anuário Dermatológico Brasileiro com contribuições originais, no âmbito dos Anais Brasileiros de Dermatologia, cujo editor era o Professor Rubem David Azulay, com o Professor Proença como coeditor. A primeira edição foi publicada em 1974 e o projeto durou uma década, até o lançamento do Índice Médico Latino-Americano, da OPAS - Organização Panamericana da Saúde. Em sua longa e profícua carreira no cenário da Dermatologia, nas associações médicas e na política, o Professor Proença trouxe contribuições essenciais para a medicina brasileira. Foi presidente da Associação Paulista de Medicina e da Associação Médica Brasileira por vários mandatos. À SOCIEDADE BRASILEIRA DE DERMATOLOGIA - 89
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frente da AMB marcou sua gestão com a criação de uma Tabela de Honorários Médicos que consolidava várias tabelas que eram usadas no país. Suas contribuições para a clínica de Dermatologia da Santa Casa de São Paulo foram fundamentais para a solidez de um serviço especializado, segundo as melhores tradições da Dermatologia brasileira. Outros expoentes da Dermatologia formados na casa ajudaram a consolidar esta construção permanente, entre os quais os professores Clarisse Zaitz, que veio a ocupar a presidente da SBD; Fausto Forin Alonso, Thaís Proença de Freitas, Ida Duarte, Marcus Maia, entre outros que formaram o núcleo dos discípulos do Professor Proença. Entre as instituições que nasceram a partir das sementes plantadas no solo fértil da Santa Casa de São Paulo estão, entre outras, a Escola Paulista de Medicina criada por professores formados na célula-máter da medicina de São Paulo.
Dr. Marcus Maia
Prevenção do Câncer de Pele e outras campanhas mobilizam a cidadania
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Outro marco importante cravado na Santa Casa de São Paulo foi a fundação da Liga de Combate à Sífilis por alunos da Faculdade de Medicina e Cirurgia. A sífilis, como lembra o Professor Proença, era doença de grande frequência que acometia a população, cujo tratamento era feito com arsenicais. Quando era estudante de medicina, o Professor Proença estagiou na Liga, que funcionava na zona de prostituição, na rua Aymorés, centro de São Paulo, nas proximidades da estação Júlio Prestes. Recorda que, no andar térreo, funcionava um prostíbulo e, no segundo andar, o atendimento da Liga. As filas para atendimento estendiam-se por vários quarteirões, com centenas de pessoas que procuravam o posto para tomar sua injeção semanal, cenário que se transformou radicalmente após a consagração da penicilina como tratamento de referência para a doença. No cenário mais amplo da medicina brasileira, o Professor Proença cita, entre outros, o papel de Gaspar de Oliveira Vianna, patologista e pesquisador de renome mundial que se debruçou sobre o vasto campo das doenças tropicais e desenvolveu tratamentos avançados para a época para a leishmaniose e outras enfermidades. Natural de Belém do Pará, ombreia-se com outros nomes importantes do primeiro século da SBD, entre os quais Carlos Chagas, Oswaldo Cruz e Vital Brazil. O Professor Nelson Proença brindará a comunidade dermatológica com outra obra, muito esperada: sua biografia que, como explica, será produzida no formato de crônicas que descreverão fatos e eventos que foram ocorrendo ao longo de sua atividade nos vários campos onde atuou. O registro, como adiantou, começa por memórias da primeira parte da infância, nos anos 30 do século passado; passa pela adolescência, nos anos 40; pela faculdade, nos anos 50 e, depois, a militância política e universitária. O primeiro volume da biografia intitula-se Eu vi o
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Zepelin e narra a memória mais antiga que registrou, de 1936, quando tinha menos de cinco anos de idade e, em novembro daquele ano, viu o imenso dirigível alemão, em forma de charuto, batizado de Hindenburg, sobrevoar São Paulo. O segundo volume de sua biografia tem como tema Medicina ou Política e descreve o início da prática médica como clínico geral. A política enfoca experiências da época, na era Jânio Quadros, em episódios que tiveram juntos e narrativas dos bastidores. Na parte final, é mostrado seu trabalho como vereador em São Paulo, nos anos 60 do século passado. Os próximos volumes serão sobre sua intensa e produtiva atividade na Dermatologia, a começar pelo período que inicia sua atividade no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, Santa Casa, até a época do Hospital do Pênfigo Foliáceo e inclui o relato de sua atividade no Sanatório Padre Bento com crônicas relativas ao período de cinco anos naquela instituição. Outra seção será dedicada à carreira universitária. A obra biográfica sintetizará sua vasta produção científica e trabalhos que produziu com personalidades da Dermatologia, entre os quais o Professor Evandro Rivitti. O Professor Proença tem sido um dedicado construtor do prestígio da especialidade. Na década de 50, como recorda, a Dermatologia, como especialidade, estava pouco valorizada no meio médico brasileiro. Graduado em 1956 pela Faculdade de Medicina da USP, manifestou intenção de ir para a área de Dermatologia no Hospital das Clínicas. À época não havia residência médica da especialidade. O jovem médico procurou o titular da cadeira, o Professor João de Aguiar Pupo, a quem expôs seu desejo de estagiar na clinica de Dermatologia. Seu objetivo era, entre outros pontos, acrescentar mais conteúdo científico a seu
conhecimento para atuar na clínica geral. O Professor Pupo mostrou-se interessado e, também, surpreso pela intenção do recém-formado e comentou que o último pedido que recebera, antes de Proença, fora no ano de 1949, há quase uma década, quando o Dr. Norberto Belliboni manifestara a mesma intenção. Esta situação repetia-se por todo o país, lembra o Professor Proença. O pouco interesse refletia-se nos poucos participantes em congressos, bem como na dificuldade em promover esses eventos. A especialidade era, em geral, pouco procurada por estudantes de medicina e vista como de menor importância. O Professor Proença lembra uma visão distorcida deste passado, segundo a qual os dermatologistas tratavam seus doentes com pomadas de enxofre, ou não tinham outra forma de curar, caso aqueles medicamentos não dessem certo. A Dermatologia era, à época, essencialmente clínica, com utilização eventual de biópsia e tratamentos por meio de um formulário de produtos de uso externo. Os medicamentos de uso interno eram pouco confiáveis e, frequentemente, não eram usados. Só havia uma maneira de mudar este cenário, lembra o Professor Proença: a modernização da prática dermatológica por meio da ampliação do conjunto de recursos clínicos, laboratoriais e terapêuticos à disposição do especialista e, também, integrar a Dermatologia com as demais especialidades médicas aprofundando o conceito das doenças cutâneas sistêmicas, isto é, das manifestações cutâneas das doenças sistêmicas, o que aproximaria a Dermatologia das demais especialidades. A vereda a ser trilhada a partir da década de 50 tinha como norte trazer os novos avanços que se observam no exterior para o Brasil. À época, a vanguarda da pesquisa científica estava nos Estados Unidos. O salto de modernidade viria graças ao surgimento de uma nova geração de líderes da especiaSOCIEDADE BRASILEIRA DE DERMATOLOGIA - 91
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lidade a quem muito devemos, como reconhece o Professor Proença. Entre esses patronos da moderna Dermatologia brasileira elenca os professores Sebastião Sampaio, Raymundo Martins Castro, de São Paulo; Rubem David Azulay, Antar Padilha-Gonçalves, Sylvio Fraga, Glyne Rocha, do Rio de Janeiro; Tancredo Furtado, de Minas Gerais; Clóvis Bopp, do Rio Grande do Sul, entre outros que receberam formação no exterior. Antes do Professor Sampaio, menciona Proença, a Dermatologia de São Paulo tinha seus expoentes na clínica de Dermatologia do Professor João de Aguiar Pupo e Domingos Ribeiro, que era seu primeiro assistente, além de José Moacir de Alcântara Madeira, Luís Batista, José Augusto Soares, Guilherme Villela Curban. Mas, ressalta, poucos deles tinham sido formados no exterior. Do período anterior, pontificaram, em Pernambuco, o Professor Jorge Lobo e, no Rio, os professores Eduardo Rabello e João Ramos-e-Silva, duas sumidades, como reconhece o Professor Proença. O salto de modernidade foi marcado pela entrada no arsenal do dermatologista da cirurgia dermatológica, da dermatopatologia, dos exames laboratoriais cada vez mais complexos, das clínicas de micologia e bacteriologia, aler-
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gia dermatológica, imunologia, oncologia, áreas que haviam sido criadas e estavam desenvolvidas principalmente nos Estados Unidos. Alguns de nossos mais destacados mestres buscaram ampliar sua formação naquele país, o que permitiu o grande salto qualitativo da década de 60. A partir desta marco histórico na linha do tempo da Dermatologia brasileira, passamos a ser respeitados pelas outras especialidades pois a comunidade médica e, também, o público em geral, perceberam que éramos especialistas em medicina cutânea, isto é, as condições médicas como se apresentavam na pele e suas relações com o aspecto sistêmico. Este foi o marco da nossa inserção nos departamentos de medicina pois tornou-se cristalino que os dermatologistas deveriam ser sempre consultados em questões cutâneo sistêmicas, resume o Professor Proença. A década de 70 marcou um sólido despertar nos estudantes de medicina e jovens médicos pela Dermatologia. A residência em Dermatologia no Hospital das Clínicas da USP, criada em 1958 com apenas duas vagas, floresceu vigorosamente desde então. Na Santa Casa de São Paulo, a residência foi criada pelo Professor Proença, a partir de 1978.
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O SÉCULO 21 E OS PRÓXIMOS 100 ANOS DA SBD: RISCOS E OPORTUNIDADES
O
segundo século trouxe cenários novos e surpreendentes com o crescimento progressivo do interesse dos novos dermatologistas pela área de cosmiatria, fato que, como avalia o Professor Proença, não seria negativo, desde que não ocorresse em detrimento da atenção com as doenças dermatológicas. Teme que a prática rotineira de procedimentos cosmiátricos possa ter afastado muitos bons dermatologistas do interesse pela patologia da pele. Neste cenário, a excessiva valorização dos procedimentos com foco estético estariam produzindo um viés indesejável, com riscos de impactar negativamente o prestígio conquistado pela especialidade. É importante, conclama o Professor Proença, alertar os colegas mais jovens sobre os riscos de entrarem excessivamente nesta área de cosmiatria, colocando em segundo plano a Dermatologia propriamente dita. Há o risco de que, no futuro, a área de cosmiatria possa saturar-se e viabilizar-se para aqueles que tenham potencial econômico para disputar clientes pelo uso da mídia. Não apostem todas as suas fichas em aplicações de preenchedores, ou no manejo de laser. Continuem praticando a boa Dermatologia, voltada para os processos patológicos, dos mais simples aos mais graves, ensina o Professor Proença, do alto de sua sabedoria e experiência.
“A PELE NÃO É UM VESTIDO, MAS UM ÓRGÃO FANTÁSTICO”
O
Professor Elemir Macedo de Souza, professor da Unicamp e professor convidado da Hautklinik - Universität Würzburg, da Alemanha, referência em áreas como dermatopatologia, fotoenvelhecimento, manifestações cutâneas de doenças, prevenção do câncer cutâneo, entre outras, preocupa-se com a fuga dos dermatologistas dos hospitais, “pois nestes locais há doenças”, como ironiza, diante do avanço da estética. Avalia ser impossível fazer “cosmética decente” sem conhecer a Dermatologia, pois a pele “não é um terno, ou vestido, mas um órgão fantástico que não pode ser manipulado de maneira tão superficial, como vem sendo apresentado na mídia, suscitando uma oferta enganosa”. Destaca que, no Brasil, não precisamos de mais médicos,”mas de médicos” com ótima formação na graduação. Sugere que a medicina seja “passada à limpo” e, para isso, deve-se ter a coragem de fechar escolas médicas, pois “não podemos brincar de formar técnicos”. A residência ideal, como propõe, deveria durar 5 anos, como nos Estados Unidos, com formação clínica, cirúrgica, laboratorial e gerencial.
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DR. JOSÉ ANTONIO SANCHES
A VOLTA AO PALCO NO ANO DO CENTENÁRIO DA ESPECIALIDADE
O
Departamento de Dermatologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo comemorou, em fevereiro de 2016, 100 anos de sua aula inaugural ministrada pelo Professor Adolpho Carlos Lindenberg para os alunos da Faculdade de Medicina e Cirurgia de São Paulo, um marco na linha do tempo da Dermatologia. Este primeiro século é marcado, também, pela eleição do Professor Dr. José Antonio Sanches para a presidência da SBD na gestão 2017/19, professor titular do Departamento de Dermatologia da FMUSP, desde 2011. Em 2010, o Professor Dr. Cyro Festa Neto tornou-se, também, professor titular, culminando uma longa e produtiva carreira na FMUSP e formando a dupla que conduz a Divisão de Dermatologia da FMUSP. O Professor Sanches resume este ano do centenário como um momento de retorno da Dermatologia da USP, após um período de transformações e avanços, ao palco maior da Dermatologia, à serviço da especialidade. Neste início de segundo século da Sociedade, a missão é empenhar-se no processo de crescimento e defesa dos interesse da comunidade dermatológica, com uma atuação proativa.
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UM SÉCULO DE CONTRIBUIÇÕES Os primeiros 100 anos da Dermatologia da FMUSP fazem parte das conquistas registradas no primeiro centenário da SBD. Estas realizações incluem o plano científico, com pesquisas importantes desenvolvidas nas diversas áreas da Dermatologia, uma forte atuação na formação de especialistas que se destacam em todos os estados brasileiros e em outros países e a assistência a milhares de pacientes que têm passado por seus ambulatórios e clínicas. A extensão desses serviços por meio da moderna teledermatologia é outra fronteira que está sendo rompida neste segundo século.
História da FMUSP: Professor Cyro Festa Neto, Professor José Eduardo Costa Martins, presidente da SBD, 1993/94; Professor José Antonio Sanches, presidente da SBD, 2017/19; Professor Evandro Rivitti e Professor Luiz Carlos Cucé, presidente da SBD, 1985/86
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No âmbito da missão que assume a partir de 1º de janeiro de 2017, o Professor Sanches dará ênfase à promoção de uma sinergia estimulante com as regionais da SBD em todo o país. O objetivo é conhecer de perto esta rede que congrega os especialistas e dissemina conhecimento visando a tomar pulso da situação da especialidade e das demandas dos associados por meio de uma ativa interlocução. Esta estratégia agregadora parte da plataforma oferecida por uma Sociedade bem estabelecida e madura que desenvolve ações e campanhas que têm permitido, ao longo dos anos, o fortalecimento do perfil do dermatologista tanto junto às demais especialidades, como ao público. Nesse trabalho de fortalecimento dos avanços conquistados, cristalizados por eventuais ajustes de rota, a visão do Professor Sanches é pluralista e estará atenta para evitar personalismos que possam tirar o foco do interesse real do conjunto da comunidade dermatológica. Nesse sentido, a gestão, a partir do grupo eleito, buscará agregar o talento e o entusiasmo dos associados numa “diretoria estendida” que ampliará as ações da Sociedade com o envolvimento de todos em torno de interesses comuns. Um dos pontos focais desta estratégia será a ampliação e o fortalecimento dos contatos com as demais especialidades e com as organizações médicas, envolvendo conselhos e associações, bem como áreas de governo cujas políticas possam afetar os interesses dos dermatologistas. O Professor Sanches destaca a importância da presença do dermatologista na linha de frente dos grandes centros de atendimento médico-hospitalar diante da prevalência de doenças cutâneas na
população. As dermatopatias estão entre as três doenças que mais levam pacientes para atendimentos em ambulatórios do Hospital das Clínicas da USP, uma situação que, provavelmente, reproduz-se na maioria dos centros hospitalares do país. Esta constatação reforça, como avalia o Professor Sanches, a necessidade de um forte relacionamento entre as especialidades, com ênfase no papel do dermatologista que, como médico da pele, deve estar preparado para identificar doenças sistêmicas e interagir com outros médicos, privilegiando a visão do todo na condução do atendimento. Com descortino e formação completa, deverão estar preparados para gerenciar condutas em tratamentos multidisciplinares. Esta postura poderá ter-se esmaecido ao longo dos últimos anos com o crescimento das superespecialidades no âmbito da Dermatologia. Por outro lado, a maior longevidade da população, uma conquista apoiada nos recursos da medicina moderna, põe em relevo a importância do dermatologista no diagnóstico e tratamento de doenças de pele e, também, na cosmiatria, subespecialidade que tem papel cada vez mais importante no quadro do envelhecimento das pessoas e suas demandas por melhor aparência e qualidade de vida. Embora os avanços científicos e tecnológicos tenham sido expressivos, a bíblica hanseníase ainda continua a manifestar-se com casos novos no país, reservando-nos um desonroso lugar de destaque no cenário mundial, lamenta o Professor Sanches. Esta questão destaca a saúde pública no rol das preocupações da SBD e levará o Professor Sanches, à frente da Sociedade, a debruçar-se sobre o ensino da Dermatologia básica para médicos de família e generalistas, um papel que também tem sido SOCIEDADE BRASILEIRA DE DERMATOLOGIA - 95
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esquecido em nossas políticas públicas, na contramão dos modelos adotados por vários países. Esta rede de médicos instalados na ponta do sistema deverá estar habilitada a proceder à triagem e encaminhamento de casos que, eventualmente, não possam ser solucionados no local, para centros preparados para o atendimento à distância. Trata-se, como resume o Professor Sanches, de praticar uma medicina eficaz, com recursos escassos, iniciativa que deve ser debatida pela SBD no âmbito da teledermatologia. É evidente que um sistema assim desenhado deve estar adequadamente preparado nos serviços, hospitais universitários e centros médicos para responder à tempo às necessidades da população. A SBD tem desempenhado papeis importantes no apoio à capacitação dos serviços por meio de várias ações, entre as quais a doação de equipamentos de fototerapia, dermatoscópios e outros que são úteis para o ensino e para o atendimento. Essas iniciativas resultam tanto de recursos próprios da
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Sociedade, quanto de negociações junto à indústria farmacêutica. São ações de mérito que, como avalia o Professor Sanches, deverão ser mantidas e, se possível, aprofundadas por meio de um leque maior de apoiadores institucionais. Educação médica continuada, congressos, cursos e jornadas, conquistas importantes ao longo do primeiro século da SBD, merecerão o olhar atento e contínuo da gestão 2017/19, com modelos e propostas alinhados às novas tecnologias de comunicação. Em suma, as grandes linhas, como propõe, serão amplamente debatidas em encontros para definir planos de ação pelas diversas comissões e departamentos da Sociedade, conforme a proposta inclusiva da gestão. Trata-se, certamente, de compromissos desafiadores, mas decisivos, para a consolidação do que foi construído e deverá ser fortalecido, numa cadeia de conquistas capaz de manter a Dermatologia brasileira no estado da arte da especialidade, neste segundo século da SBD. i
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Capítulo
7
DO OUTRO LADO DA BAÍA DE GUANABARA, UM NOVO POLO
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F
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undada em 1926, em Niterói, pelo Professor Antonio Pedro Pimentel, oficializada em 1959 pelo governo do estado do Rio de Janeiro e, em 1960, incorporada pela UFF - Universidade Federal Fluminense, a Faculdade de Medicina abriu uma nova janela de oportunidades para o acesso a conhecimento científico de qualidade, do outro lado da baía da Guanabara. Antonio Pedro, patrono do hospital universitário da FM/UFF, foi médico do Serviço Nacional de Saúde Pública e, em 1932, entre outros trabalhos, descreveu as características clínicas da dengue que acometia um grande número de pessoas na região. O mosquito impertinente ocupava o tempo e as mentes de nossos melhores cientistas já no começo do primeiro século da SBD. Junto com o cientista Vital Brazil, que havia fundado, em Niterói, o instituto que leva o seu nome, e outros médicos locais, o Dr. Antonio Pedro planejou a Faculdade de Medicina de Niterói como instituto privado.
O serviço dermatológico da nova faculdade foi instalado alguns anos após a fundação e por ele passaram nomes estrelados da especialidade, entre os quais os professores Paulo Parreiras Horta, Werneck Machado e Rubem David Azulay, entre outros. O serviço funcionou, inicialmente, no Hospital São João Baptista, tendo sido transferido para o Hospital Antonio Pedro em 1953 por iniciativa do Professor Azulay. O Professor Azulay é reconhecido como um grande construtor da Dermatologia da UFF, onde estudou, chefiou o serviço e chegou a diretor da Faculdade de Medicina. Entre seus feitos destaca-se a criação do primeiro curso de mestrado do país cujo primeiro mestre foi o Dr. Sinésio Talhari, um dos patronos da Dermatologia do Amazonas onde foi titular de Dermatologia da UFAM. Em sua gestão outra medida de impacto para o ensino foi o estímulo para que os residentes apresentassem trabalhos no Congresso Brasileiro de Dermatologia, o que ocorreu, com êxito.
Universidade Federal Fluminense (UFF)
Hospital Universitário Antônio Pedro (UFF)
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Da geração seguinte de mestres com marcos na linha do tempo da instituição figuram os professores René Garrido Neves, Neide Kalil Gaspar, professora emérita da UFF; Luís Augusto Teixeira Nunes, José Serruya, Laerte Rodrigues Goulart, André Petrarca de Mesquita, entre outros. Entre as contribuições oferecidas por mestres da instituição registra-se o trabalho dos professores Neide Kalil Gaspar e Antonio Pedro Gaspar que publicaram a Nomina Dermatológica - Sinonímia e Adequação da Nomenclatura Dermatológica à Classificação Internacional de Doenças. (CID-OMS) bem como as edições da Terapêutica Dermatológica - Atualidades e Perspectivas. A pesquisa tem sido foco de atenção com a produção de conteúdos de qualidade por meio de projetos de iniciação científica coordenados pelas professoras Neide Kalil Gaspar e Jane Marcy Neffá Pinto, entre outros.
Uma das importantes contribuições da equipe da Dermatologia do Hospital Antônio Pedro, a proposta de unificação da nomenclatura dermatológica com fundamento no trabalho do Professor Francisco Eduardo Rabello, permitiu reunir e identificar de acordo com o significado de cada termo, os sinônimos que dificultam a compreensão dos termos da Dermatologia. Dos cerca de dez mil termos, sete mil foram incluídos na Nomina Dermatológica, com chamada para a nomenclatura proposta pelo Professor Rabello. Outro fruto do trabalho dos associados locais foi a criação da Regional Fluminense, em 1968, pelos professores René Garrido Neves, Rubem David Azulay, Augusto Mesquita, José Trindade Filho, Luiz Peres Quevedo, Rogério Ribeiro Estrela, Everardo Marques dos Santos, Neide Kalil Gaspar e Antônio Pedro Gaspar, que mobilizaram a comunidade dermatológica do estado. A
Pesquisa e produção de obras científicas que agregaram valor ao conhecimento dermatológico
Professor René Garrido Neves
Pesquisa e produção de obras científicas que agregaram valor ao conhecimento dermatológico.
Professora Neide Kalil Gaspar
Professor Antônio Pedro Gaspar
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Regional organizou eventos nacionais e internacionais como o 29º Congresso Brasileiro de Dermatologia, o 2º Congresso de Dermatologistas de Língua Portuguesa e a Jornada Brasileira de Leprologia em Niterói e Nova Friburgo. As atividades científicas dos dermatologistas fluminenses e cariocas eram realizadas em conjunto em reuniões promovidas no Pavilhão São Miguel da Santa Casa do Rio de Janeiro e, também, nas reuniões triangulares das quais participavam especialistas cariocas, paulistas mineiros e fluminenses.
Anais do 2º Congresso de Dermatologistas de Língua Portuguesa e a Jornada Brasileira de Leprologia em Niterói e Nova Friburgo. No detalhe, página do discurso do Professor Rubem David Azulay, nas comemorações dos 50 anos de fundação
Acervo Biblioteca da SBD 100 - SOCIEDADE BRASILEIRA DE DERMATOLOGIA
A multiplicação das instituições de vanguarda no Rio de Janeiro
Na margem oposta da baía, na cidade do Rio de Janeiro, a década de 40 marcou o surgimento de outra importante instituição para a atividade médica do estado: a criação do Hospital dos Servidores do Estado do Rio de Janeiro. A residência em Dermatologia foi criada por outro mestre da especialidade, o Professor Mário Rutowitsch, sucedido anos depois pelo Professor Isaac Gabbay. Entre as famílias de dermatologistas ilustres, com serviços prestados à comunidade, os Rutowitsch desempenharam papeis de relevo. O Dr. Mário Rutowitsch foi presidente da SBD no biênio 1959/60, a última gestão ao tempo em que a capital federal ainda era no Rio de Janeiro. Seu filho, Márcio Rutowitsch, presidiu a SBD em 2003/04.
Dr. Mário Rutowitsch
Presidente da Sociedade Brasileira de Dermatologia gestão de 1959/60
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Esta virtuosa sinergia familiar ocorreu, também, no Hospital dos Servidores do Estado quando o Dr. Márcio Rutowitsch, ao assumir a vice-diretoria do hospital, tornou-se chefe de seu pai, Dr. Mário Rutowitsch. O prestígio da SBD ao longo dos anos, fruto do trabalho de lideranças importantes que se sucederam, refletiu-se na representatividade dos dermatologistas nas entidades médicas. Em 1997, o Professor Rubem David Azulay, que havia sido presidente da SBD em 1961 e em 1972, assumiu a presidência da ANM - Academia Nacional de Medicina. Passou o cargo para outro dermatologista ilustre, o Dr. Jarbas Porto, que cumpriu o mandato na gestão 1997/99. O Professor Jarbas Porto tem uma rica história de serviços prestados à Dermatologia ao longo de sua carrei-
Dr. Márcio Rutowitsch
Presidente da Sociedade Brasileira de Dermatologia gestão de 2003/04
ra. Além de ter sido um dos fundadores do Hospital dos Servidores do Estado do Rio de Janeiro, livre-docente da UFRJ e titular de Dermatologia da UERJ, foi fundador e professor da Faculdade de Medicina Souza Marques e presidente da SBD em 1975. Na SBD estimulou a criação de comissões e a oferta de cursos de educação médica continuada, entre os quais o primeiro curso de cirurgia dermatológica promovido no país. Na ANM, iniciou o projeto do Centro da Memória Médica Brasileira e contribuiu para a introdução da informática visando à indexação da produção científica do país. Seu pioneirismo registrou-se, também, ao criar a primeira campanha de prevenção do câncer da pele, em 1987, quando presidia a Regional do Rio de Janeiro fundada por ele, Dr. Glynne Rocha e outros especialistas.
Professor Jarbas Porto
Idealizador da primeira campanha do Câncer da Pele em 1987
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Internacionalização. O resgate de uma vocação histórica da SBD
O Professor Omar Lupi presidiu a SBD e deixou marcas importantes que abrem veredas históricas para a internacionalização. Conhecido por seu dinamismo, descortino e foco em ação, o Professor Lupi, em depoimento a O Segundo Século, destaca que o crescimento do quadro de associados, o aumento da influência política e a robustez financeira da Sociedade marcaram o início dos anos 90 e permitiram a decolagem da especialidade e, consequentemente, da SBD. Outro fato marcante, como registra, foi a manutenção no país da unidade da comunidade dermatológica em uma única sociedade representativa desses especialistas.
Professor Omar Lupi
Entre as áreas onde deveremos observar avanços estimulantes neste segundo século, vê a telemedicina como campo talhado para a Dermatologia.
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Esta situação contrasta com a realidade de muitos países onde a representação dos dermatologistas distribui-se por outras associações. Os dermatologistas mexicanos, por exemplo, como cita, são representados por três sociedades diferentes, com perfis parecidos e disputando associados, bem como recursos da indústria para apoio a eventos e atividades de interesse científico da especialidade. A multiplicidade de representações não raramente pode gerar conflitos de interesses, tanto políticos como financeiros. O Brasil é um exemplo de uma grande sociedade, consolidada, que representa toda a comunidade. Na década de 70, quando o Professor Sebastião Sampaio e colegas criaram a SBCD - Sociedade Brasileira de Cirurgia Dermatológica, com visão de futuro, sua proposta não fragmentou a Sociedade mãe mas, a fortaleceu por tratar-se de associações cujas forças convergem para um mesmo norte. O Professor Lupi crê que, com seu perfil de associados mais jovens, a SBCD veio a estimular um grupo politicamente mais ativo, com reflexos positivos sobre a SBD. A SBD tem permitido às novas gerações de dermatologistas brasileiros uma possibilidade real de participação e de crescimento institucional ao estimular a proposição de novos pontos de vista. Novas ideias acolhidas e implementadas têm permitido a abertura de diálogos propositivos e ousados em novas áreas, como cirurgia dermatológica e cosmiatria. Os interesses em torno de novas áreas de atuação estimularam a criação de departamentos com foco em campos campos exclusivos, o que veio a fortalecer a representatividade de uma geração de especialistas que se sentiu estimulada à ação política para implementar ideias, sem riscos de fragmentação da SBD.
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O Professor Lupi registra os embates dos quais participou em torno de áreas de atuação e da cobiça de profissionais não médicos quanto a procedimentos estéticos que permitem margens financeiras atraentes. Lembra que, como presidente da SBD e da Regional do Rio de Janeiro, viveu momentos críticos para a Sociedade que motivaram ações, tanto no campo do judiciário quanto no da comunicação, no sentido de fortalecer este perfil amplo do dermatologista por meio de campanhas regionais e nacional. As ameaças recrudesceram à medida que profissionais não médicos enveredaram na oferta de procedimentos que constituem atos médicos. Trata-se, segundo o Professor Lupi, de uma questão política grave que se radicalizou a partir da hostilidade de setores do governo que entendem que os médicos não devem ter uma situação diferenciada de outros profissionais em questões referentes à saúde. Esta visão, como entende, levou à medidas desastrosas para o exercício da medicina e, particularmente, da Dermatologia. Este é o foco deste início de segundo século da SBD, do ponto de vista da ação política de defesa profissional, na visão do ex-presidente da SBD. O embate transcende a chamada “medicina estética” e expande-se para milhares de outros profissionais que se aventuram em procedimentos cutâneos. A correção destas distorções exigirá a mobilização permanente, agora e no futuro, pois trata-se de questão fundamental e permanente para a defesa profissional que exige ação institucional ampla e em vários fronts. No horizonte da ciência dermatológica, vê um futuro cada vez mais expressivo e desafiador para a cirurgia dermatológica. Lembra que testemunhou os momentos iniciais quando foram feitos os primeiros congressos. A cirurgia impulsionou fortemente a especialidade, que se tornou mais atuante ao abrir espaços importantes na oncologia cutânea e outras por envolver tecnologias SOCIEDADE BRASILEIRA DE DERMATOLOGIA - 103
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cada vez mais sofisticadas. A introdução da toxina botulínica e preenchedores cada vez mais avançados foi outro ponto de inflexão. No começo do século 21, tecnologias de luzes intensa pulsada, lasers e novos processos passaram a ser incorporados muito rapidamente. A Dermatologia, na avaliação do Professor Lupi, abriu-se no momento certo para essas tecnologias, sem perder a sua essência. A especialidade fortaleceu-se e impôs novos desafios quanto à formação dos especialistas. Trata-se de uma tarefa permanente e urgente orientar os novos dermatologistas quanto aos procedimentos estéticos, que são importantes e podem permitir retornos financeiros atraentes, se bem executados. A força da especialidade reside, contudo, na clínica, que pode ser mais desafiadora e é, por vezes, menos rentável. Mas nela estão os fundamentos da formação do verdadeiro dermatologista e, também, sua força. Este segundo século apresenta no horizonte da atividade do dermatologista algumas questões a serem avaliadas. O canto de sereia da cosmiatria pode estar atraindo dermatologistas para uma cilada, que é o distanciamento da doença dermatológica, por parte de alguns. Este cenário pode levar à doenças de pele não resolvidas, numa situação que frustra os pacientes e afeta a imagem da especialidade. É desalentador, como lamenta o Professor Lupi, observar que alguns dermatologistas com excelente formação e muito bem preparados nos serviços, treinados durante anos em procedimentos durante a formação como especialista, em algum momento possam não estar mais aptos a realizar estes atos médicos com a mesma eficiência. A educação médica continuada, como conclui, é fundamental para acompanhar a especialidade, que avança rapidamente, com novos protolocos, novos medicamentos e novas tecnologias que impõem novas abordagens. 104 - SOCIEDADE BRASILEIRA DE DERMATOLOGIA
Menciona, especificamente, a chegada dos biológicos, que têm transformado condutas e terapias em, praticamente, todas as doenças de fundo imunológico. Refere-se à terapia celular, área na qual sua gestão pôs bastante foco ao realizar o 1º Simpósio Nacional de Terapia Celular e Engenharia Tecidual, em 2009. Se fosse realizado um novo simpósio sobre esta temática, em 2016, teríamos visto ainda mais avanços, embora ainda não tenhamos nada a oferecer de forma concreta para o paciente, avalia. O evento lançou um importante olhar no futuro do estudo das bases celulares e moleculares das células-tronco, terapia celular e engenharia tecidual, com especialistas brasileiros e de outros países. Os participantes debruçaram-se sobre questões que desafiam a imaginação, como células-tronco, o tratamento de doenças e a possível influência no rejuvenescimento da pele e tratamento de doenças e lesões. Este primeiro evento teve a participação de especialistas pioneiros neste campo da ciência, entre os quais os professores Radovan Borojevic, Neide Kalil, Ithamar
Sob o comando do professor Omar Lupi, a SBD realizou o simpósio em 2009
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Stochero, Adriana Invitti, Lydia Masako Ferreira, Janaína Machado, Alex Balduíno e Nelson Hossne, entre outros pesquisadores que começam a desvendar para o dermatologista deste século as potencialidades de novas áreas de pesquisa a respeito da qual apenas arranhamos as bordas. O Professor Lupi alerta que, no contexto das disciplinas do futuro, temos de atentar para as delicadas questões éticas envolvidas, lembrando que o estudo das células é um dos pontos de maior debate na medicina, considerando-se que ainda temos uma legislação do século 19 para tratar de questões tecnológicas do século 21 e do futuro. Entre as áreas onde deveremos observar avanços estimulantes neste segundo século, vê a telemedicina como campo talhado para a Dermatologia. Destaca a existência de algumas redes, embora incipientes, que envolvem secretarias de saúde municipais em locais remotos e universidades federais. Os procedimentos que podem beneficiar-se da teledermatologia, como prevê devem superar algumas questões legais entre as quais as restrições quanto à diagnósticos e acompanhamento de pacientes à distância. Menciona que a Unirio está envolvida num projeto de telemedicina com a Universidade de Angola, um país que tem apenas 25 dermatologistas para uma população de cerca de 40 milhões de habitantes. O objetivo é ajudá-los a superar o déficit de formação num projeto que envolve trabalho de campo, em parceria com o Colégio Angolano de Dermatologia e Venereologia. Especialistas angolanos, no escopo desta parceria, como informa o Professor Lupi, estiveram no Congresso Brasileiro de Dermatologia, em São Paulo. Os treinamentos e avaliação à distância de alunos angolanos teve início, bem como o treinamento em Dermatologia básica.
Saltar as fronteiras nacionais, um movimento estratégico importante
Está em marcha um projeto estratégico ambicioso para a inserção da Dermatologia brasileira no palco dos debates mundiais de interesse da especialidade. Até a década de 70 do primeiro século da SBD, como avalia o Professor Lupi, a participação de brasileiros em cargos importantes na Dermatologia mundial era mais frequente. Na década seguinte este quadro começou a mudar sob a influência de questões econômicas que levaram o país a isolar-se em muitas áreas promissoras do desenvolvimento, entre as quais a informática e seus corolários ligados à tecnologia de ponta. As olimpíadas de 2016, bem como outros eventos internacionais no Brasil, começaram a resgatar a vocação cosmopolita do país, realinhando-nos com a agenda mundial. Exemplos importantes foram a realização no Brasil de congressos internacionais do Cilad e Radla, entre outros. O Professor Lupi menciona que, em 2015, em Vancouver, o Brasil começou a recuperar posições nos grupos decisórios internacionais com seu ingresso na Liga Mundial de Dermatologia como vice-presidente íbero-latino-americano. Destaca que este é um projeto que visa trazer o Brasil de volta para centro do palco dos grandes eventos mundiais da Dermatologia, o que considera uma missão para este segundo século da Sociedade. Outro movimento estratégico que antecipa é a especialização dos serviços dermatológicos credenciados pela SBD no sentido do fortalecimento de expertises. O ideal, segundo ele, seria fazer com que os cerca de 80 serviços credenciados da SBD concentrassem-se em áreas nas quais detêm mais conhecimentos para focar a formação. SOCIEDADE BRASILEIRA DE DERMATOLOGIA - 105
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A comunhão entre os serviços promoveria o devido compartilhamento de saber entre todos e estimularia sinergia de pesquisas e resultados mais rápidos. Vê, como exemplo de vocação definida, a Dermatologia tropical realizada tradicionalmente nos serviços da região amazônica. A atividade ali desenvolvida deveria ter maior apoio econômico da SBD no sentido de que, neste segundo século, o desenvolvimento desses pendores viesse a consolidar referências para atrair estudiosos de todo o mundo para o Brasil.
A formação de residentes A formação de residentes poderia ser contemplada com credenciamento de novos serviços por regional, considerando-se a carência em algumas regiões. A escassez de serviços faz com que a procura aumente para serviços de regionais como São Paulo e Rio de Janeiro, que ficam saturados com a intensa busca por parte de médicos de outros estados, o que, por si só, estimula uma estrutura injusta e antidemocrática ao penalizar os mais pobres. Outra agenda para o segundo século, como propõe, é a realização de um estudo global dos investimentos em infraestrutura, como sedes próprias das regionais em vários estados, com os consequentes custos. A vereda a ser explorada seria o compartilhamento de instalações de regionais nos estados com maior número de associados e a abertura de escritórios de representação em Brasília, para ações governamentais, e em São Paulo para captação de recursos financeiros para o financiamento de projetos científicos e institucionais. A participação no congresso mundial de Dermatologia em 2019, em Milão, está na mira dos que pensam nesta 106 - SOCIEDADE BRASILEIRA DE DERMATOLOGIA
abertura de novas fronteiras. A ação preliminar está voltada para a indicação de palestrantes e coordenadores para o evento mundial, entre os quais os rising stars, os novos talentos da especialidade, profissionais entre 30 e 40 anos de idade capazes de agregar valor aos conteúdos e fazer a Dermatologia avançar. Essas indicações passam por um processo de ouvidoria capitaneado pela SBD, no Brasil, no sentido de identificar e selecionar aqueles graduados capazes de coordenar atividades e lançar na ribalta do conhecimento novos expoentes.
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Anais Brasileiros de Dermatologia, um projeto permanente e desafiador
O projeto de disseminação de conhecimento e valorização da Dermatologia brasileira tem como ponto fulcral os Anais Brasileiros de Dermatologia, que deverá aprofundar-se ao longo deste segundo século. A reindexação da publicação no PubMed agregou nova musculatura ao principal difusor do saber dermatológico brasileiro e abre perspectiva real de maior projeção científica no exterior. Inserida no contexto mundial e aberta, via Internet, a qualquer médico do mundo, o projeto é crítico para este segundo século. O objetivo imediato é aumentar o impacto dos Anais por meio do aprofundamento da excelência científica dos conteúdos e o estabelecimento de normas que permitam avaliar o índice de impacto da revista. Quanto mais elevado este índice, mais e melhores artigos serão publicados e a revista, num moto perpétuo de qualidade, terá autores de mais expressão no mundo científico, melhor qualidade e, consequentemente, será mais procurada, o que estimulará o interesse de autores e pesquisadores científicos, num movimento contínuo que se renova. O PubMed compreende mais de 25 milhões de citações para literatura biomédica do Medlined, o sistema online de busca e análise de literatura médica que forma a base de dados bibliográficos da Biblioteca Nacional de Medicina dos Estados Unidos. O PubMed é um recurso gratuito desenvolvido e mantido pelo NCBI - National Center for Biotechnology Information. As publicações selecionadas para o Medline são decididas a partir de recomendações do LSTRC, sigla em inglês do comitê de seleção literária e revisão técnica, composto por experts que assessoram o NIH, sigla dos
Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos. Ser parte deste formidável sistema é um must para revistas científicas que queiram ter impacto na formação do saber e uma inigualável chancela de qualidade. Outra revista da SBD, a Surgical and Cosmetic Dermatology, publicação fundamental para que a cirurgia dermatológica e a cosmiatria sejam feitas com alto rendimentos no meio dermatológico deve, também, ser indexada. Resgatar o tempo perdido nesta inserção internacional é, em resumo, uma das metas estratégicas a serem perseguidas, como avalia o Professor Lupi. Isto significa buscar espaços que já foram ocupados, no passado, pelos professores Azulay, Sampaio, Padilha-Gonçalves e outros que marcaram presença na cena mundial.
Ranking dos fatores de impactos dos ABD nos últimos cinco anos SOCIEDADE BRASILEIRA DE DERMATOLOGIA - 107
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A geração de especialistas que seguiu-se à dos grandes mestres, em sua avaliação, perdeu parte desses espaços, que agora ressurgem como desafio a capturar e imaginação e o esforço dos especialistas da vanguarda da Dermatologia brasileira. Um dos sonhos é ver, num futuro não tão remoto, um caminhão com placa brasileira em tour dermatológico que percorra o continente, de Ushuaia ao México, sob a liderança do Cilad, com tecnologia e apoio da SBD. Experiências bem sucedidas e sólidas consagradas pela SBD no Brasil poderão inspirar colegas dermatologistas no continente a replicarem localmente modelos como o Grape e as grandes campanhas já estabelecidas no Brasil. Esta seria uma liderança talhada para o Brasil, na tendência de uma “medicina translacional”, que começa na bancada do pesquisador e vai até o leito do paciente, disponibilizando pesquisa aplicada para benefício direto do doente.
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POR UMA FUTURA ACADEMIA LATINO-AMERICANA DE DERMATOLOGIA
U
m dos sonhos acalentados por especialistas de descortino e visão é a fundação de uma Academia Latino-Americana de Dermatologia que reúna os especialistas do continente, nos moldes das academias europeia e americana. O cenário mundial da especialidade apresenta-se com dois grandes blocos mundiais - a AAD e a Academia Europeia, que promovem grandes congressos. Um terceiro bloco nesta constelação poderá vir a ser a futura Academia Latino-Americana de Dermatologia, que envolveria, além do continente, organizações da Espanha, Portugal e países africanos de língua portuguesa. Trata-se de um projeto para o segundo século que se ajusta à expressão da SBD no cenário mundial. O Cilad - Colégio Ibero-Latino-Americano de Dermatologia ofereceria a base de lançamento adequada que, aliada ao vigor científico da SBD, apontaria a vereda para chegar-se ao projeto mais ambicioso. Como vice-presidente do Cilad e membro da Liga Mundial de Dermatologia, o Professor Lupi crê que se encontra em posição estratégica para acionar as alavancas necessárias para acelerar o processo. i
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Capítulo
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DR. JOÃO AMILCAR SALGADO
MINAS GERAIS NASCEU DERMATOLÓGICA
SOCIEDADE BRASILEIRA DE DERMATOLOGIA - 109
A
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lista de competências do Dr. João Amilcar Salgado é extensa. Médico, filósofo, historiador, professor, genealogista. Somadas e elaboradas por uma inteligência notável, essas qualidades estimulam reflexões e resultam em histórias surpreendentes. Professor titular de clínica médica da Universidade Federal de Minas Gerais, debruçou-se sobre o resgate e a preservação da história da Medicina, criou o Cememor - Centro de Memória da Medicina da UFMG, cujo amplo acervo abarca todas as áreas médicas e continua produzindo conhecimento. Instalado na Faculdade de Medicina da UFMG ocupa uma ampla área, composta por várias salas de exposições.
Dr. João Amilcar e Dr. Gabriel Gontijo 110 - SOCIEDADE BRASILEIRA DE DERMATOLOGIA
O museu apresenta um robusto acervo da história da medicina do qual constam milhares de instrumentos cirúrgicos, antigos medicamentos, reprodução de salas cirúrgicas utilizadas no passado em centros hospitalares importantes de Minas Gerais, além de livros e outras preciosidades que tornam aqueles espaços uma estimulante viagem no tempo. O centro foi inaugurado por outro literato médico, o Dr. Pedro Nava, que descerrou placa em homenagem ao cinquentenário da turma de 1927 da UFMG. O Dr. Pedro Nava formou-se na mesma turma de outro médico famoso - o Dr. Juscelino Kubitschek, especializado em urologia - que se tornou presidente da República e fundador de Brasília, a nova capital federal. O Professor João Amilcar é autor de vários livros e artigos muito procurados por leitores interessados em História do Brasil, com ênfase no campo da medicina. A Dermatologia tem merecido registros especiais nesta linha do tempo traçada em Minas Gerais na qual o Professor João Amilcar liga a história mineira à especialidade ao sugerir que “Minas nasceu dermatológica”. Sua afirmação remete à época da ocupação do território, quando a Lagoa Santa, origem da cidade fundada em 1733, tornou-se conhecia pelo alegado poder curativo de suas águas. Registra a história que o tropeiro Felipe Rodrigues, fundador da cidade, teria curado-se de eczemas após banhar-se na lagoa. Essa cura das feridas é atribuída, segundo o Dr. João Amilcar, mais à higiene proporcionada pelo banho do que, propriamente, à virtudes medicinais da água. Ele explica que sua aproximação com a história da medicina deu-se a partir do aprofundamento de seus estudos e pesquisas sobre a Doença de Chagas. Foi ele quem localizou, em 1961, recém formado em medicina, a menina Berenice que, aos dois anos de idade,
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havia sido estudada por Carlos Chagas para a descoberta da doença que leva o nome deste grande cientista brasileiro. Estudiosos da Doença de Chagas achavam que a jovem paciente havia falecido e não mais se debruçavam sobre o assunto. Foi o Dr. João Amilcar que a reencontrou em Pirapora, MG, fato que o transformou em celebridade na mídia da época. Retomou as pesquisas de Carlos Chagas com esta paciente, até 1981, quando Berenice faleceu. Um de seus feitos científicos foi isolar o micróbio original identificado por Carlos Chagas cujos estudos vieram a embasar a tese de doutorado do Professor João Amilcar.
Lagoa Santa, na região metropolitana de Belo Horizonte
A pesquisa e acompanhamento da Doença de Chagas trouxe ao professor um inesperado dividendo pois, ao desenvolver a pesquisa para assegurar que aquela jovem havia sido, realmente, a primeira paciente de Carlos Chagas, transformou-se em historiador renomado e passou a dedicar-se ao estudo tanto da medicina praticada em Minas Gerais, quando da medicina brasileira. Ao documentar a Doença de Chagas tornou-se, também, uma das autoridades mundialmente reconhecidas na referida doença. Os amplos conhecimentos e perspicácia para compreender os vastos meandros da medicina fez com que fosse convidado para orientar teses de mestrado e doutorado e viesse a participar do debate de temas variados sobre medicina e questões de política de saúde no Brasil. O Dr. João Amilcar foi, entre outros, membro da banca que aprovou a tese de mestrado do Dr. Gabriel Gontijo, orientada pelo Professor Tancredo Furtado, sobre A Dermatologia no Ensino Ambulatorial da Cirurgia, em 1990.
As virtuosas sinergias científicas
entre polos científicos de excelência No primeiro século da SBD destacou-se o crescimento da Dermatologia em Minas Gerais, com ênfase na criação, em 1911, da Faculdade de Medicina de Belo Horizonte. Entre seus fundadores, o Dr. Antonio Aleixo, que respondia pela disciplina de clínica dermatológica e sifilográfica, é autor de estudos de grande importância nas áreas da venereologia e da hansenologia. Membro de ilustre família mineira que deixou legados em vários campos de atividades, entre os quais a poSOCIEDADE BRASILEIRA DE DERMATOLOGIA - 111
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lítica, por meio da atuação de seu irmão Pedro Aleixo, advogado, jornalista, deputado constituinte em 1934, ministro da Educação, presidente da comissão de juristas que preparou a reforma constitucional de 1969 e vice-presidente da República. Um dos primeiros professores e fundadores da UFMG e seu primeiro titular de Dermatologia, o Professor Antonio Aleixo foi um dos pioneiros do ensino da disciplina na universidade. A faculdade de medicina utilizava, como a maioria das primeiras escolas médicas do país, as instalações da Santa Casa de Belo Horizonte. O ensino destacava-se pela organização em pavilhões por doenças. Da enfermaria do pênfigo, por exemplo, saiu um dos primeiros estudos sobre esta doença. O professor Antonio Aleixo faleceu, em 1943, durante a II Guerra Mundial, por uma fatalidade, vitimado por um abscesso na pele que evoluiu para uma septicemia, por falta de penicilina. O medicamento que poderia tê-lo salvo era destinado, em grande parte, para o conflito bélico e, por vezes, faltavam estoques que pudessem ser disponibilizados para atender a situações no meio civil. O Professor Antonio Aleixo foi sucedido pelo Professo Olinto Orsini, um dos pioneiros das pesquisas e tratamento do pênfigo. Foi ele quem, em uma de suas teses, pela primeira vez, chamou a atenção para formas de pênfigo foliáceo que não apresentam lesões extensas, confirmadas posteriormente por pesquisadores americanos. Em 1944, o ambulatório mudou-se para seu próprio edifício, com a clínica dermatológica sob o comando do Professor Josefino Aleixo. Outro mestre que deixou sua marca em nossa linha do tempo foi o Professor Oswaldo Costa, titular da Faculdade de Ciências Médicas que, em seu início, chamava-se Faculdade Católica por pertencer à arquidiocese de Belo Horizonte.
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O Professor Oswaldo Costa, de personalidade extrovertida e atraente, foi um dos mais citados autores brasileiros sobre pesquisas médicas na literatura mundial, tendo descrito doenças e realizado pesquisas em áreas importantes da especialidade. Sua tese sobre ceratodermias palmo-plantares incluiu a descrição de uma nova doença, a acroceratoelastoidose de Costa, em 1952. O Professor Bernardo Gontijo lembra que o Professor Costa, que foi paraninfo de sua turma de medicina, era um pesquisador perseverante e dedicado à compreensão de doenças ainda não diagnosticadas, às quais lançava-se de forma infatigável em busca de solução. Para maximizar seu tempo de estudo e dar plena assistência aos doentes, tinha acomodações em sua própria casa, onde hospedava pacientes que vinham do interior, os quais acompanhava até chegar a um diagnóstico. O Professor Oswaldo Costa desenvolveu sua carreira em Minas Gerais e construiu uma rede de relacionamentos baseada em suas qualidades profissionais e no imenso senso de solidariedade. Seus conhecimentos, bem como seu humor, faziam de suas aulas momentos imperdíveis e atraía a atenção de seus alunos. Tinha paixão pelo futebol, tendo sido goleiro do Atlético Mineiro. Um de seus feitos mais emblemáticos no esporte foi defender o gol de seu time na inauguração do estádio, em partida contra o Corinthians, vencida pelos mineiros. A revanche, em São Paulo, foi desastrosa para os atleticanos, que levaram uma goleada, com Costa no gol. O episódio teria provocado o encerramento prematuro de sua carreira futebolística e acelerado o desenvolvimento de um craque na pesquisa dermatológica e um dos responsáveis por colocar a especialidade em Minas Gerais num patamar internacional, quando o centro da medicina brasileira ainda era o Rio de Janeiro. O Professor Oswaldo Costa aposentou-se em 1975, ano em que se formou o Professor Bernardo Gontijo. O
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Professor Costa foi sucedido pelo Professor Tancredo Furtado, que passou a ser titular das duas faculdades de medicina de Belo Horizonte e veio a cravar o seu nome como um dos grandes dermatologistas brasileiros no primeiro século da história da SBD. O Professor Tancredo Furtado, um inovador da Dermatologia, trouxe para o país conhecimentos que adquiriu em pós-graduações nos Estados Unidos. Quando voltou imprimiu vitalidade ao ensino da especialidade que, até então, era exclusivamente clínica. O Professor Furtado ampliou as áreas de interesse do ensino para campos como a micologia, cirurgia dermatológica e histopatologia, entre outras. Foi sucedido pelo Professor João Gontijo, pai do Professor Bernardo Gontijo e, depois, pelos professores Orcanda Patrús, Antonio Carlos Martins Guedes e Bernardo Gontijo.
No interior do estado, a Dermatologia também deixou marcos importantes na história entre os quais um centro pioneiro em Juiz de Fora onde destacaram-se os professores Antonio Carlos Pereira e Carlos Adolfo Pereira, entre outros. Em Juiz de Fora, durante congresso da SBD, foi realizado o primeiro exame para o TED - Título de Especialista em Dermatologia. Dermatologistas formados em Minas Gerais destacam-se por intenso intercâmbio com outros centros universitários no país e no exterior. Especialistas de visão, como os doutores Bernardo Gontijo e Antonio Carlos Martins Guedes, por exemplo, antes da criação da residência em Dermatologia na Universidade Federal de Minas Gerais, especializaram-se em centros de excelência como o serviço de Dermatologia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, entre outros.
Desenvolveu sua carreira em Minas Gerais e construiu uma rede de relacionamentos baseada em suas qualidades profissionais e no imenso senso de solidariedade
Um inovador da Dermatologia, trouxe para o país conhecimentos que adquiriu em pós-graduações nos Estados Unidos.
Professor Oswaldo Costa
Professor Tancredo Furtado
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O SEGUNDO SÉCULO - AS GRANDES VEREDAS DE UMA SOCIEDADE CENTENÁRIA
O serviço do Professor Sebastião Sampaio estimulava um ambiente de pesquisas e de prática dermatológica. Lá despontaram muitos dermatologistas que ajudaram a escrever a história da especialidade, entre os quais os doutores Guilherme Curban, Vinícius de Arruda Zamith, Raymundo Martins Castro e a geração mais nova de assistentes, entre os quais os doutores Fernando de Almeida, José Eduardo Costa Martins, Norberto Belliboni, Estevam de Almeida Neto, Luís Carlos Cucé, Elemir Macedo de Souza, Maria Aparecida Vilela, Helena Muraco, Denise Takahashi, Waltênio Vasconcelos a maioria dos quais veio a destacar-se em carreiras acadêmicas, como os professores Cyro Festa Neto, Jayme de Oliveira Filho e Clarisse Zaitz.
Professor João Gontijo
Presidente da Sociedade Brasileira de Dermatologia gestão 1978/79
114 - SOCIEDADE BRASILEIRA DE DERMATOLOGIA
Entre seus contemporâneos no serviço do Professor Sampaio, o Dr. Bernardo Gontijo destaca o Professor Evandro Rivitti, que substituiu o Professor Sampaio no comando do serviço da USP, a quem qualifica como seu “guru dermatológico”.
Resistência à banalização da
Dermatologia: Um novo perfil O Professor Bernardo Gontijo, que sucedeu ao Professor Maurício Mota de Avelar Alchorne na presidência da SBD para a gestão da virada do século, 2000/01, teve como um dos pilares de sua liderança o envolvimento dos asso-
Professor Antonio Carlos M. Guedes
A ascensão da Dermatologia em Minas Gerais à ribalta da especialidade estimulou a formação de uma geração de mestres
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ciados com as atividades mais amplas da especialidade e a resistência à banalização. Criou o cargo de ombudsman e nomeou o Dr.Everton Carlos Siviero do Vale como seu primeiro responsável com o objetivo de encaminhar demandas dos associados e avaliar o trabalho da Sociedade em prol de seus membros. Contratou uma equipe da Fiocruz para elaborar um perfil do dermatologista do Brasil visando a mapear a situação social, científica e profissional desses médicos. Empenhou-se para obter autorização do Ministério da Saúde para o uso da talidomida em centros universitários para tratamento de doenças dermatológicas. Buscou sinergias com a AMB - Associação Médica Brasileira e o CFM - Conselho Federal de Medicina para ações cooperadas como o acompanhamento da lista de procedimentos
Professor Bernardo Gontijo
Preocupa-se com a qualidade da formação dos médicos brasileiros e com a oferta de vagas nas residências médicas, bastante inferior à demanda
médicos. O envolvimento do INCA - Instituto Nacional do Câncer no Programa Nacional de Controle do Câncer de Pele foi outra ação que trouxe resultados. O Dr. Bernardo preocupa-se com a qualidade da formação dos médicos brasileiros e com a oferta de vagas nas residências médicas, bastante inferior à demanda. Avalia que aqueles que se candidatam à residência e não obtêm vagas, podem vir a ingressar no mercado de trabalho com deficiências na qualificação. O problema agrava-se com o aumento do número de faculdades de medicina. O desequilíbrio na formação de pós-graduação pode ser minorado com a oferta de cursos de especialização com grades semelhantes às das residência em termos de conteúdo e de número de horas. O regime de residência médica tem, contudo, algumas questões importantes a serem superadas.Uma delas é o processo de aferição do conhecimento adquirido durante os cursos pois, como menciona, exige-se provas apenas para entrar na residência, sem um exame de avaliação final do aproveitamento. Concorda, entretanto, que o TED é um bom instrumento de avaliação de competências e que sua função não é apenas titular a pessoa capacitada mas, também, vedar o ingresso dos não preparados. Desta forma, o sócio titular da SBD tem uma chancela de qualidade que o credencia perante as demais especialidades e o público. O crescimento da medicina em todas as suas especialidades tem tido como uma de suas consequências um movimento de criação de novas subespecializações. Este cenário pode ocasionar, para os dermatologistas, a invasão de áreas que seriam do âmbito de atuação deste profissional. O Professor Bernardo avalia que as áreas mais cobiçadas costumam ser aquelas que se caracterizam por baixa dificuldade científica e alto retorno financeiro. LemSOCIEDADE BRASILEIRA DE DERMATOLOGIA - 115
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bra que, por exemplo, não há normas no Brasil para uso de lasers e não é ilegal a compra de aparelhos para remoção de pelos por quaisquer interessados. Este cenário, sugere o professor, indica que o dermatologista deve qualificar-se para ser um profissional de alto desempenho, capaz de elaborar diagnósticos de doenças complexas, certificado e treinado para a especialidade em sua dimensão clínica e cirúrgica. O dermatologista, resume, deve um clínico por excelência e cuidar para que não haja a banalização do ato médico. Atentar, ainda, para o fato de que equipamentos correm o risco de rápida obsolescência, num ambiente de grandes investimentos em pesquisa, o que implica em custos elevados de reposição e rotatividade na oferta de aparelhos. Avalia que o futuro da Dermatologia inclui, necessariamente, a possibilidade de grandes avanços na parte diagnóstica, inclusive com a possibilidade de avaliações à distância graças ao uso de equipamentos propiciados pela moderna tecnologia de informação e velocidade na transmissão de dados. Cita o best-seller The Pacient Will See You, que lança um olhar crítico sobre o processo tradicional de contato médico-paciente e prevê o paciente, cada vez mais, como protagonista do ato médico que poderá tomar a iniciativa do processo diagnóstico ao, por exemplo, utilizar aplicativos no celular para avaliações de suas condições de saúde. Trata-se de uma visão de futuro que não pode ser desprezada. Mas, na “hora h”, nada substituirá a relação médico-paciente, entendem os analistas. De qualquer forma, a tecnologia deverá influenciar as formas de fazer diagnósticos. O autor do livro, Dr. Eric Topol, cardiologista e estudioso da tecnologia de informação e sua aplicação na medicina, é pesquisador do Scripps Instituto de Ciência Translacional, que se debruça sobre formas de transfor116 - SOCIEDADE BRASILEIRA DE DERMATOLOGIA
mar métodos tradicionais de cuidados médicos padronizados para a atenção individualizada com fundamento em fatores genéticos e uso de tecnologias digitais. A “medicina translacional” procura desenvolver formas de transferir resultados de pesquisa básica para a clinica visando a benefícios diretos para as pessoas. O Dr. Topol crê que, em suas consequências mais avançadas, o paciente poderá valer-se de seu smartphone para realizar testes rápidos com uma gota de sangue, monitorar sinais vitais e receber diagnósticos sem ter de consultar um médico, de forma mais rápida e mais barata do que os serviços proporcionados pelos atuais sistemas de saúde. Estas mudanças são designadas como o “momento Gutenberg na Medicina”, em alusão ao inventor alemão que transformou a imprensa. Novas tecnologias poderão transformar a medicina por meio da Internet, computadores e aparelhos portáteis de comunicação. A medicina digitalizada e democratizada com a ajuda dos computadores poderá permitir ações diagnósticas facilitadas pela gigantesca quantidade de informação disponível para ser acessada, o que oferecerá meios para a abordagens de condições consideradas incuráveis até agora. Assim, no futuro, a “medicina online”, por meio de aplicativos, poderá permitir a comparação de milhares de perfis de doenças em tempo real, não só por médicos. O autor lembra que, da mesma forma que a popularização de testes de gravidez, no final da década de 70, abriram uma nova era para os pacientes, novos produtos de TI também ampliarão as dimensões do universo dos diagnósticos. Quem viver, verá.
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Uma médica mineira e a nova liderança feminina na SBD
A Professora Orcanda Patrús, de Minas Gerais, foi a primeira de uma ilustre linhagem de mulheres a exercer papeis de liderança na presidência da SBD. Além da Dra. Orcanda, as professora Sarita Martins, de Pernambuco; Clarisse Zaitz, Bogdana Victória Kadunc e Denise Steiner, de São Paulo, ajudaram a marcar a linha do tempo do primeiro século da SBD, como presidentes e, certamente, irão influenciar a caminhada neste segundo século. Na Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais, em Belo Horizonte, a Dra. Orcanda inclinou-se pela Dermatologia motivada pelos professores Oswaldo Costa, Cid Ferreira Lopes, Francisco Neves, João Gontijo, pai de Bernardo Gontijo; Josefino Aleixo, irmão de Antonio Aleixo, e Tancredo Furtado, entre outros.
Completado o curso de medicina, com o apoio do Professor Sebastião Sampaio, em 1967, concorreu para estágio e residência no Hospital das Clínicas da USP. Obteve o título de especialista e foi aprovada em mestrado em doenças infecciosas e parasitárias na Faculdade de Medicina da UFMG. Foi aprovada, ainda, em outros desafiadores concursos, como doutora em Medicina Tropical, professora assistente e professora titular de Dermatologia da FM/UFMG, sendo a primeira mulher a atingir essa posição nesta instituição. Na SBD, além de ocupar a presidência, integrou o conselho editorial dos Anais Brasileiros de Dermatologia e foi membro da comissão do TED -Título de Especialista em Dermatologia. Em sua intensa atividade acadêmica e associativa, construiu uma imagem densa de conteúdo e granjeou a admiração da classe médica.
Dermatologistas de todo o país agregam valor à especialidade
Professora Orcanda Patrús
Presidente da Sociedade Brasileira de Dermatologia gestão 1990/91
Na ribalta das mulheres que têm enriquecido de conteúdo e de ação a Sociedade, destaca-se, também, a Professora Sarita Martins. Formada pela Faculdade de Ciências Médicas de Pernambuco, estagiou em Dermatologia, em 1976, no Hospital Santo Amaro, da UFPE tendo, mais tarde, passado em concurso para professora assistente da Clínica Dermatológica da UFPE onde fez mestrado em Medicina Tropical. A Professora Sarita Martins, presidente da SBD na gestão 1995/96, professora da disciplina de Dermatologia da Universidade Federal de Pernambuco, destaca que a Dermatologia, como especialidade médica no estado, teve SOCIEDADE BRASILEIRA DE DERMATOLOGIA - 117
O SEGUNDO SÉCULO - AS GRANDES VEREDAS DE UMA SOCIEDADE CENTENÁRIA
o seu inicio na década de 30 com o Professor Jorge Lobo. A Professora Clarisse Zaitz, outra especialista que enobrece a lista de mulheres de competência e valor que ilustram a linha do tempo da SBD, presidente na gestão 1997/98, entre suas ações preocupou-se em implementar reforma administrativa que havia sido aprovada pelo Conselho Deliberativo da SBD. Como especialista com trabalhos de destaque, desenvolveu carreira meritória na Santa Casa de São Paulo. É mestre e doutora em Dermatologia pela Unifesp, foi chefe da disciplina de Dermatologia da Santa Casa de São Paulo e autora de livros e trabalhos científicos publicados no país e no exterior. Com mais de quatro décadas dedicadas à medicina, tem acompanhado o desenvolvimento da especialidade, no início focada em clínica, diagnóstico de doenças, biópsias e exames histopatológicos, quando o acesso a aparelhos e exames era ainda limitado. A diferenciação entre os especialistas dar-se-ia pela dedicação à pesquisa e casos acom-
Professora Sarita Martins
Presidente da Sociedade Brasileira de Dermatologia gestão 1995/96
118 - SOCIEDADE BRASILEIRA DE DERMATOLOGIA
panhados durante a formação e no dia a dia na carreira. Lasers e equipamentos que entraram nas duas últimas décadas vieram a transformar o exercício da especialidade e têm influenciado as novas gerações de dermatologistas. Novos aparelhos no cotidiano das clínicas incluem a dermatoscopia, o mapeamento por ultrassonografia de pele, além do laser, radiofrequência, luz intensa pulsada e preenchedores de última geração, entre outros equipamentos e materiais do arsenal do dermatologista do segundo século da SBD. Os medicamentos, como destaca a Dra. Clarisse, mudaram ao longo do primeiro século da SBD o panorama dos tratamentos, a começar pela introdução das sulfas, da penicilina, dos corticoides e, mais recentemente, dos biológicos e da isotretinoina, entre outros que têm surgido na bancada de pesquisa dos laboratórios. Esta tendência aprofundar-se-á no segundo século.
Professora Clarisse Zaitz
Presidente da Sociedade Brasileira de Dermatologia gestão 1997/98
GABRIEL GONTIJO | JOÃO ROBERTO ANTÔNIO
Outras influências importantes na atuação dos especialistas têm sido provocadas por pesquisas relacionadas com o HIV, envolvendo, entre outras, questões relevantes como o aumento dos transplantes de órgãos e a consequente introdução de retrovirais e antirretrovirais, situações que têm levado a comunidade dermatológica a ampliar seus conhecimentos no tratamento de pacientes imunodeprimidos com manifestações cutâneas. A Dra. Clarisse destaca que há um grupo dedicado de especialistas que se debruça sobre doenças infecciosas. Cita, entre outros exemplos, a Dra. Luiza Keiko Oyafuso, dermatologista e sanitarista do Instituto de Infectologia Emílio Ribas, de São Paulo e professora da Faculdade de Medicina do ABC que tem como áreas de interesse manifestações dermatológicas infectocontagiosas e psoríase, entre outras, além de projetos de testes rápidos para diagnósticos e o desenvolvimento de vacinas. O cenário da Dermatologia tem mudado rapidamente, resume a Dra. Clarisse. E, consequentemente, a demanda por pesquisas em laboratório que possam resultar em medicamentos na vanguarda do conhecimento científico, onde destacam-se os biológicos e novos produtos contra o câncer. Trata-se de um panorama neste segundo século da SBD que influenciará o aprofundamento da educação médica continuada e formas de acesso ao conhecimento que podem envolver iniciativas como o trabalho voluntário em universidades para beneficiar-se do conhecimento ali gerado para manter-se atualizado. Nesse quadro complexo e desafiador da Dermatologia insere-se fortemente a cosmiatria. O Brasil, informam as estatísticas, é um dos países mais rentáveis para o setor de produtos de beleza, com níveis elevados de consumo de preenchedores, atrás apenas dos Estados Unidos. É compreensível, portanto, que este horizonte de promessas venha a atrair uma profusão de profissionais da área da saúde e não médicos, encantados pelo canto de
sereia das altas rendas oferecidas pelas tendências atuais quanto a padrões estéticos, situação que deverá continuar a absorver a atenção da SBD neste segundo século.
Os primeiros interesses A endocronologia foi a primeira especialidade que chamou a atenção da estudante Clarisse, ao final do curso de medicina. Recorda que seus primeiros contatos com Dermatologia ocorreram no terceiro ano de faculdade, quando o chefe da Clínica era o Professor Humberto Cerruti. Ainda eram tempos em que o doente era olhado “de longe”. Tudo mudou quando o novo chefe do departamento, o Professor Nelson Proença, passou a imprimir uma dinâmica mais estimulante à disciplina, o que atraia os estudantes e fazia aumentar a procura por vagas na residência. O valor do exemplo acabou prevalecendo no momento da escolha da Dermatologia em função da admiração despertada pelo Professor Nelson Proença, de quem tornou-se residente e com quem prosseguiu na carreira completa de mestre e doutora. A presença do Professor Proença na Dermatologia da Santa Casa de São Paulo mudou a feição do ensino da especialidade na instituição. A Dra. Clarisse lembra que o mestre estimulava a participação em jornadas e atribuía responsabilidades aos residentes para que atuassem em setores específicos do serviço, tendo ela sido designada para coordenar o setor de doenças infecciosas e tropicais da clinica de Dermatologia. A Santa Casa de São Paulo proporcionou-lhe momentos importantes em sua atividade profissional. Graduou-se na oitava turma da Faculdade de Ciências Médicas, em 1975; fez mestrado em Dermatologia pela EPM/Unifesp, em 1988, doutorou-se pela mesma instituição, em 1992 e manteve-se sempre ligada à Santa Casa de São Paulo, como professora. SOCIEDADE BRASILEIRA DE DERMATOLOGIA - 119
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Sua tese de doutorado foi desenvolvida no Instituto de Medicina Tropical da USP, o que permitiu que viesse a ampliar seus relacionamentos profissionais junto às principais escolas de medicina de São Paulo. Outra personalidade marcante neste primeiro século, na percepção da Dra. Clarisse, foi o Professor Carlos Lacaz, micologista de renome internacional, com quem desenvolveu teses nesta disciplina. Com o Professor Sampaio, compartilhou conhecimento e a ampla visão do mestre sobre a especialidade, além da abertura para a política ao ser incentivada para participar da atividade associativa, que teve início quando o Dr. Fernando de Almeida a convidou para o cargo de secretária, na gestão 1984/85 da RESP. Em 1992/93, foi vice-presidente da SBD na gestão do Dr. Jesus Santamaria, do Paraná, quando foi adquirida a sede da Sociedade e iniciada a reorganização dos Anais Brasileiros de Dermatologia. Ao assumir a presidência da SBD, em 1997/98, empenhou-se em aprimorar os Anais Brasileiros de Dermatologia, com ganhos na qualidade do conteúdo e na captação de publicidade.
outro mestre e pioneiro, o Professor Luiz Marino Bechelli, o Compêndio de Dermatologia, fonte para uma geração de estudantes e dermatologistas. Os professores Vinicius de Arruda Zamith, Evandro Rivitti, Norberto Beliboni, Luiz Carlos Cucé, Estevam de Almeida, Eduardo Costa Martins, somam-se a outros com os quais compartilhou conhecimento. . A Dra. Denise foi uma das testemunhas do florescimento da cosmiatria como subespecialidade dermatológica na Faculdade de Medicina da USP. A formação cosmiátrica havia começado na Argentina, para onde costumavam ir os primeiros especialistas brasileiros interessados na área. Ela lembra que, no HC, o Professor Sampaio, que estava empenhado no projeto de construção da cirurgia dermatológica, com sua marca de visionário mostrava sensibilidade pelo tema cosmiátrico e teve uma assistente esteticista no serviço. Vencidos os desafios iniciais, a Dra. Helena Muraco
O florescimento da cosmiatria e o papel do especialista bem formado
A Professora Denise Steineir deixou marcas indeléveis nesta linha do tempo do primeiro século da SBD. Formou-se na Universidade de São Paulo, onde fez residência em Dermatologia, no serviço do Professor Sebastião Sampaio, tendo beneficiado-se de um estimulante ambiente de saber, treinamento e sinergias com grandes mestres. Entre os expoentes com os quais conviveu, lembra o Professor Guilherme Curban que escreveu, em 1960, com 120 - SOCIEDADE BRASILEIRA DE DERMATOLOGIA
Professora Denise Steiner
Presidente da Sociedade Brasileira de Dermatologia gestão 2013/14
GABRIEL GONTIJO | JOÃO ROBERTO ANTÔNIO
foi uma das primeiras a destacar-se por seu pioneirismo à frente de um ambulatório inicialmente chamado de “estética”, denominação posteriormente mudada para “doenças inestéticas”. O rol de procedimentos realizados era, contudo, restrito, num árduo início de caminhada. A cirurgia dermatológica, outra área pioneira patrocinada pelo Professor Sampaio, incorporava-se como uma importante conquista para a especialidade graças a seu empenho pela causa, influenciado pela escola americana que conheceu à época em que estagiou na Clínica Mayo. No HC da FMUSP, nos primórdios, foi decisiva a participação do cirurgião plástico Benjamin Golcman que, a convite do Professor Sampaio, ensinava técnicas cirúrgicas aos residentes. Superadas as resistências iniciais, a cosmiatria encontrou o seu espaço no universo de atuação do dermatologista e passou a fazer parte do currículo da formação do especialista, cristalizando-se como subespecialidade. Médicos e o público têm entendido que cosmiatria insere-se no conceito mais amplo de saúde da pele, sendo parte integrante de comportamentos e hábitos que incluem a utilização de hidratantes e de filtros solares no receituário do dermatologista, posturas muito mais avançadas que algumas percepções distorcidas que vigoravam no começo. A Dra. Denise lembra que outras tecnologias importantes têm sido incorporadas nas rotinas de tratamentos dermatológicos, entre as quais as toxinas botulínicas, preenchedores e lasers que, além do uso em estética, agregam valor ao tratamento de doenças cutâneas entre as quais a parte vascular, além do foto-envelhecimento e manchas, com formas de tratamento por vezes mais eficazes e menos agressivas do que algumas praticadas no passado. A cosmiatria estabeleceu-se, portanto, como parte importante das ferramentas dominadas pelo dermatologista completo, adicionando-se à clínica, que é exclusiva deste especialista, e à cirurgia dermatológica.
Estas questões parecem estar bem estruturadas nos serviços credenciados supervisionados pela SBD. A Professora Denise lembra pesquisa, realizada durante sua gestão, a respeito das necessidades dos serviços que mostrou o interesse por todas as áreas de atuação, bem como a percepção da importância de uma formação sólida e ampla em todos os campos de interesse. Um dos focos foi o aprofundamento do domínio da clínica, bem como a vivência ambulatorial e a experiência em enfermarias. O verdadeiro tesouro da Dermatologia, como enfatiza, a Dra. Denise, é o conhecimento da doença, a solidez do diagnóstico e a competência do tratamento, atributos que devem ser protegidos pelos especialistas com descortino. O domínio das áreas centrais da especialidade não implica em afastar-se das fronteiras avançadas da tecnologia, que envolvem lasers, novos medicamentos, entre os quais os biológicos, além da tendência de desenvolvimento de drogas cada vez mais específicas e que demandam do especialista voltar-se para a educação continuada que lhe permita a compreensão desses novos fenômenos. Os dermatologistas devem estar familiarizados com as pesquisas científicas em suas áreas de atuação, alerta a Professora Denise. . A tendência à superespecialização parece ser um movimento que seguirá seu curso neste segundo século. Trata-se de um movimento da medicina, mesmo diante do debate atual sobre o papel do médico generalista no Brasil. A Professora Denise crê que, dificilmente, retornaremos ao médico que fazia tudo. O desenvolvimento da tecnologia e dos medicamentos fará com o que próprio paciente opte, por exemplo, por um dermatologista especializado em câncer de pele, se este for o problema que quer tratar. O dermatologista titulado pela SBD deverá estar capacitado para a prática de todos os atos médicos inerentes à sua especialidade. Porém, à medida que a tecnologia avança, irá SOCIEDADE BRASILEIRA DE DERMATOLOGIA - 121
O SEGUNDO SÉCULO - AS GRANDES VEREDAS DE UMA SOCIEDADE CENTENÁRIA
direcionar seu foco para acompanhar as veredas que o atraem nos campos com os quais possa ter mais afinidade, como oncologia cutânea, cirurgia dermatológica, cosmiatria, dermatopediatria e outros que poderão vir a ser desenvolvidos. A Dra Denise admite que a formação do especialista por três, ou quatro anos, possa ser insuficiente diante da vastidão dos campos abertos pela superespecialização. Observa que muitos especialistas tendem a ampliar seu tempo de formação por meio de aperfeiçoamentos e cursos de educação médica continuada. O cenário do atendimento tem mudado diante das novas realidades dos custos de tratamentos e da vasta extensão territorial do país. Esta situação põe em relevo a telemedicina como forma eficaz de levar o atendimento de qualidade a pacientes fora dos grandes centros. A Dra. Denise registra que este foi um dos pontos focais de sua gestão como presidente da SBD. Uma de suas iniciativas foi capacitar serviços credenciados com plataformas que permitissem a interação entre interlocutores à distância. Menciona avanços pontuais, como convênios firmados em Santa Catarina para uso de telemedicina para triagem de casos em áreas remotas. Desta forma, por exemplo, uma suspeita de melanoma detectada por um médico na ponta do sistema, pode ser dirigida a um hospital universitário de referência onde o dermatologista avaliará e encaminhará para as providências necessárias. Embora esta tecnologia de comunicação mostre-se eficaz, lembra que há questões a serem superadas entre as quais a regulamentação pelo CFM - Conselho Federal de Medicina de consultas via Internet. O ponto central é, como avalia a Dra. Denise, a expansão do alcance dos serviços e a consagração do papel do dermatologista como agente importante de políticas de saúde pública, o que não vem ocorrendo no âmbito do governo. Ela lembra que sua geração de dermatologistas 122 - SOCIEDADE BRASILEIRA DE DERMATOLOGIA
atuou em hanseníase, leishmaniose, DST e doenças endêmicas com manifestações cutâneas, tendo conquistado conhecimentos e experiências valiosas que podem não estar sendo mantidas com a mesma consistência na formação do especialista atual. As variadas competências do dermatologista devem ser incorporadas e reforçadas na saúde pública via, por exemplo, instrumentos da telemedicina. Não será possível, provavelmente, a existência de dermatologistas em todos os rincões do país, mas os serviços credenciados da SBD poderão adequar-se para dar apoio aos médicos em postos distantes, de forma econômica e eficaz. Para que isto ocorra a Dermatologia deve ser incorporada como parte indispensável do sistema de saúde pública. Em sua gestão a Dra. Denise procurou envolver a SBD no apoio a campanhas públicas relacionados com doenças da pele, em conjunto com ações governamentais, em escolas e outros locais para estimular retornos significativos. Entretanto, lamenta que a Sociedade não tenha sido acionada na dimensão que poderia.
Uma longa tradição de trabalho e resultados para a especialidade
A Dra. Alice de Oliveira de Avelar Alchorne é reconhecida como uma das dermatologistas brasileiras com atuação mais eficaz e duradoura nos primeiros cem anos da SBD e muito atuante neste início de segundo século. Um dos expoentes da escola do Professor Sampaio, a Dra. Alice tem forte presença no magistério, na atividade profissional e, também, na vida associativa, desde os primeiros anos de residência e, depois, na fundação da Regional São Paulo e na presidência da SBD. Sua atuação, desde o início da carreira na Dermato-
GABRIEL GONTIJO | JOÃO ROBERTO ANTÔNIO
logia, fez com que fosse presença importante na fundação da Regional São Paulo da SBD, em 1970, tendo participado das primeiras diretorias da nova regional. Como presidente da SBD teve papel de destaque na implantação da telemedicina, com vários eventos realizados, entre outras ações nas quais teve papel importante. Um dos marcos foi a compra de mais um andar no prédio da sede, no Rio, e a reforma dos dois pavimentos, o que permitiu espaço funcional e confortável para a gestão da entidade e a realização de cursos. Sua atividade no magistério teve início logo após a residência e prossegue até os dias de hoje, com passagens marcantes por várias instituições, como a Escola Paulista de Medicina EPM /Unifesp, onde criou e coordenou o Grupo de Alergia Dermatológica e Dermatoses Ocupacionais por quase 10 anos, entre outras atividades. Seu trabalho acadêmico no magistério prossegue em outras instituições, como professora de Dermatolo-
Professora Alice Alchorne
Presidente da Sociedade Brasileira de Dermatologia gestão 2007/08
gia, em níveis de graduação e pós-graduação (mestrado e doutorado), no curso de medicina da Universidade Nove de Julho - Uninove, em São Paulo, entre outras atividades. Neste segundo século, entre os desafios à frente menciona a permanente atenção a ser dada para evitar que pessoas despreparadas e mesmo não médicos exerçam atos que pertencem ao domínio da especialidade. Paralelamente, devem ser feitos esforços para difundir para a população e para as demais especialidades médicas a abrangência da Dermatologia e a qualidade da formação dos especialistas. Seu papel de construtora da especialidade foi exercido tanto no campo dos recursos materiais, quanto na função administrativa. Na RESP teve, também, papel decisivo na compra da sede, em São Paulo. A ação como líder de projetos manifestou-se no campo administrativo, com atuações importantes para o aprimoramento das estruturas de gestão da SBD nacional e da RESP. No campo da formação educacional, suas contribuições deixaram marcas na Educação Médica Continuada em Dermatologia, na SBD, e na ampliação do exame do TED para alcançar maior número de médicos. Deixou a sua marca de eficiência em organização e gestão no Hospital Heliópolis, onde atuou por 22 anos e organizou a residência médica em Dermatologia, reconhecida pelo MEC e pela SBD. Sobre as controvérsias que agitam a comunidade dermatológica em torno das questões relacionadas com cosmiatria, lembra que as residências já oferecem boa formação neste campo. Para ela, todas as áreas têm de ser exercidas com conhecimento e talento, com amplo domínio dos vários campos da Dermatologia.
O fechamento do século, em trajes de gala e em ampla dimensão
SOCIEDADE BRASILEIRA DE DERMATOLOGIA - 123
O SEGUNDO SÉCULO - AS GRANDES VEREDAS DE UMA SOCIEDADE CENTENÁRIA
A Dra. Bogdana Victória Kadunc, como presidente da SBD, na gestão 2010/12, fechou o primeiro ciclo de 100 anos e marcou a trajetória da Sociedade pelo empenho na construção de uma imagem densa de conteúdo para o dermatologista, em toda a sua dimensão, como especialista credenciado nos domínios clínico, cirúrgico e cosmiátrico e interfaces com várias áreas da medicina. Formada na FMUSP, em 1972, fez residência em Dermatologia no serviço do Professor Sebastião Sampaio, tendo se doutorado pela mesma instituição. Entre suas atividades profissionais destaca-se, entre outras, mais de três décadas de trabalho no Serviço de Dermatologia do Hospital do Servidor Público Municipal de São Paulo, onde desenvolveu trabalhos que contribuíram para alçar aquela instituição a níveis de referência em várias áreas da especialidade. Sua gestão no período histórico que marcou a comemoração dos 100 anos de fundação da SBD foi caracterizado
Dra. Bogdana Victória Kadunc
Presidente da Sociedade Brasileira de Dermatologia gestão 2011/12
124 - SOCIEDADE BRASILEIRA DE DERMATOLOGIA
por expressivo acervo de realizações, entre as quais destacam-se iniciativas no âmbito da defesa profissional. Um dos pontos basilares de sua atuação foi a criação da Câmara Técnica exclusiva de Dermatologia no CFM - Conselho Federal de Medicina através da qual a SBD presta assistência ao CFM em problemas éticos ligados à Dermatologia e estimula a discussão e a busca de soluções para questões e problemas éticos e institucionais que envolvem a Especialidade. Outra contribuição foi a participação no 1º Encontro dos Conselhos Regionais de Medicina, em 2012, em Brasília, para discussão de procedimentos estéticos. Desse encontro resultou o consenso de que medicina estética não se configura como especialidade médica. A EMC - Educação Médica Continuada, um das principais atividades da SBD, passou a ser oferecida, também, através do site, com aulas de atualização sobre temas de interesse na Especialidade, conferidas e gravadas pelos coordenadores dos departamentos científicos da SBD. Acordos estabelecidos pela SBD com entidades internacionais para estágios no exterior constituíram outras ações importantes para a formação dos associados. A especialidade foi valorizada, ainda, com o lançamento da nova revista Sensatez. As publicações científicas produzidas pela SBD receberam especial atenção, com ênfase na edição contínua e bem cuidada dos indexados Anais Brasileiros de Dermatologia e da Surgical & Cosmetic Dermatology. Foram realizados os lançamentos da segunda edição de Rotinas de Diagnóstico e Tratamento da SBD, da segunda edição de Consenso Brasileiro de Psoríase 2012 e do Tratado de Cirurgia Dermatológica, Cosmiatria e Laser da SBD, implementado o portal Rima e mantida a disponibilização de numerosas revistas da base de dados Ebsco para os associados. A gestão presidida pela Dra. Bogdana debruçou-se sobre questões estratégicas visando a dinamizar a atuação da Sociedade, tendo promovido a revisão do estatuto e regimento da entidade. Os principais artigos revistos tiveram como foco os objetivos principais da SBD, a categorização dos associados, a defesa profissional, a composição do conselho deliberativo e a organização do Congresso da SBD. i
SEDES REGIONAIS DA SBD
ALAGOAS • Universidade Estadual de Ciências da Saúde de Alagoas, Hospital Escola Hélvio Auto • Universidade Federal de Alagoas, Hospital Universitário Alberto Antunes AMAZONAS • Fundação de Medicina Tropical do Amazonas • Fundação Alfredo da Mata • Faculdade de Ciência da Saúde, Universidade do Amazonas, Hospital Universitário Getúlio Vargas
PARÁ MARANHÃO
BAHIA • Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública, Hospital Santa Izabel • Universidade Federal da Bahia, Hospital Universitário Professor Edgard Santos
PIAUÍ CEARÁ
AMAZONAS
RIO GRANDE DO NORTE PARAÍBA PERNAMBUCO ALAGOAS SERGIPE
MATO GROSSO
BAHIA
TOCANTINS
DISTRITO FEDERAL GOIÁS MINAS GERAIS MATO GROSSO DO SUL
ESPÍRITO SANTO RIO DE JANEIRO
PARANÁ
SÃO PAULO SANTA CATARINA
RIO GRANDE DO SUL
CEARÁ • Centro de Dermatologia Dona Libânia, Hospital Geral Cezar Cals, Secretaria de Saúde do Ceará • Universidade Federal do Ceará, Hospital Universitário Walter Cantídio DISTRITO FEDERAL • Hospital Universitário de Brasília • Hospital Regional da Asa Norte ESPÍRITO SANTO • Santa Casa de Vitória • Universidade Federal do Espírito Santo, Hospital Universitário Cassiano Antonio Moraes GOIÁS • Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Goiás • Hospital de Doenças Tropicais de Goiás MINAS GERAIS • Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais, Hospital das Clínicas de Minas Gerais • Santa Casa de Misericórdia de Belo Horizonte • Hospital da Polícia Militar de Minas Gerais • Faculdade de Medicina Suprema de • Juiz de Fora, Hospital Universitário e • Maternidade Terezinha de Jesus • Universidade Federal de Juiz de Fora, • Hospital Universitário • Universidade Federal de Uberlândia MATO GROSSO DO SUL • Hospital Universitário Maria Aparecida Pedrossian
GabaritoMontagemLinhaTempo.indd 1
PRESIDENTES DA SBD
SERVIÇOS CREDENCIADOS MATO GROSSO • Universidade Federal de Mato Grosso, Hospital Universitário Júlio Müller
RIO GRANDE DO NORTE • Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Hospital Universitário Onofre Lopes
PARÁ • Universidade Federal do Pará • Universidade do Estado do Pará
RIO GRANDE DO SUL • Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre • Hospital das Clínicas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul • Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre • Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Hospital São Lucas • Ambulatório de Dermatologia Sanitária • Universidade Federal de Santa Maria, Hospital Universitário
PARAÍBA • Universidade Federal da Paraíba, Hospital Universitário Lauro Wanderley PERNAMBUCO • Santa Casa de Misericórdia, Centro de Estudos Dermatológicos do Recife – CEDER • Faculdade de Ciências Médicas de Pernambuco, Hospital Universitário Oswaldo Cruz • Universidade Federal de Pernambuco • Escola Pernambucana de Saúde, Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Figueira • Hospital Geral Otávio de Freitas PARANÁ • Universidade Federal do Paraná, Hospital das Clínicas do Paraná • Faculdade Evangélica de Medicina do Paraná, Hospital Universitário Evangélico • Santa Casa de Misericórdia de Curitiba • Universidade Estadual de Londrina, Hospital Universitário Regional Norte do Paraná PIAUÍ • Universidade Federal do Piauí, Hospital Universitário RIO DE JANEIRO • Hospital Central Aristarcho Pessoa • Instituto de Dermatologia Professor Azulay • Hospital Federal dos Servidores do Estado • Hospital Universitário Clementino Fraga Filho – UFRJ • Hospital Universitário Gaffrée-Guintle – Unirio • Hospital Universitário Pedro Ernesto – UERJ • Hospital Federal da Lagoa • Hospital Central do Exército • Hospital Naval Marcílio Dias • Policlínica Geral do Rio de Janeiro • Hospital Federal de Bonsucesso FLUMINENSE • Universidade Federal Fluminense, Hospital Universitário Antonio Pedro
SANTA CATARINA • Universidade Federal de Santa Catarina, Hospital Universitário SERGIPE • Universidade Federal de Sergipe, Hospital Universitário SÃO PAULO • Instituto Lauro de Souza Lima (Bauru) • Universidade Estadual Paulista – UNESP (Botucatu) • PUC Campinas, Hospital e Maternidade Celso Pierro • Unicamp (Campinas) • Complexo Hospitalar Padre Bento (Guarulhos) • Faculdade de Medicina de Jundiaí • Faculdade de Medicina de Marília – FAMEMA • Universidade de Mogi das Cruzes, Hospital Luzia de Pinho Melo • Universidade do Oeste Paulista – Unoeste, Hospital Regional de Presidente Prudente • Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto - USP, Hospital das Clínicas • Faculdade de Medicina do ABC • Fundação Lusíada, Hospital Guilherme Álvaro • Faculdade Estadual de Medicina de São José do Rio Preto - FAMERP, Hospital Base • Santa Casa de Misericórdia de São Paulo • Complexo Hospitalar de Heliópolis, Inamps/SUS • Escola Paulista de Medicina/Unifesp • Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, Hospital das Clínicas • Hospital do Servidor Público Estadual de São Paulo • Hospital do Servidor Público Municipal de São Paulo • Universidade de Santo Amaro, Hospital Universitário Wladimir Arruda • Hospital Ipiranga • Hospital Universitário de Taubaté
VEREDAS DA PERPETUIDADE
Fernando Terra
João de Aguiar Pupo
[RJ]
1912-1925
Eduardo Rabello
[RJ]
1941
[RJ]
João Ramos-e-Silva A.F. da Costa Jr
[RJ]
1946-1947
Hildebrando Portugal
[RJ]
1948-1949
Francisco Eduardo Rabello
[RJ]
[GO]
Clóvis Bopp
[RS]
Sebastião Sampaio
Mário Rutowitsch
João B. Gontijo Assunção
Glyne Leite Rocha 1963
Jesus R. Santamaria
[SP]
[CE]
1977
[RJ]
[RJ]
Newton Guimarães
[MG]
Sinésio Talhari
[SP]
Alice Avelar Alchorne Omar Lupi
[RJ]
2009-2010
Bogdana Victória Kadunc Denise Steiner
[SP]
José Eduardo C. Martins [SP]
Gabriel Gontijo
[MG]
Arival Cardoso Brito
[SP]
2011-2012
2013-2014
[PR]
[SP]
2007-2008
1992-1993
Sarita Martins
[BA]
Raymundo Martins Castro
[AM]
2015-2016
[PA]
1994-1995
1980-1981
1981-1982
[RJ]
1993-1994
1978-1979
[RJ]
2005-2006
1991-1992
Walter Moura Cantídio
1961-1962 e 1972
[RS]
Antonio C. Pereira Jr.
[RJ]
1975
Antar Padilha-Gonçalves
Rubem David Azulay
César D. V. Bernardi
Márcio Santos Rutowitsch
2003-2004
1990-1991
1976
[RJ]
[RJ]
Orcanda Andrade Patrus [MG]
[SP]
João Pessoa Mendes
1959-1960
René Garrido Neves
Fernando A. de Almeida [SP] 2001-2002
1989-1990
Luís Campos Mello
1957-1958
[GO]
Luiz Henrique Camargo Paschoal
[MG]
1973
Jarbas Porto
[RJ]
Divino Miguel Rassi
1988-1989
Tancredo Furtado
[MG]
2000-2001
1987-1988
Edgard Drolhe da Costa [RJ]
1955-1956
PANTONE 7473 C 80 + M 25 + Y 65 + K 5
Anuar Auad
1974
1953-1954
SDB
[RJ]
Bernardo Gontijo
[SP]
1986-1987
1971
1951-1952
DERMATOLOGIA
[PE]
[SP]
1999-2000
1985-1986
1970
Demétrio Peryassú
MEDICINA
Luis Carlos Cucé
1969
1950
MUNDO
Ruy Noronha Miranda
Maurício de Avelar Alchorne
[SC]
1984-1985
[PR]
[AL]
1998-1999
Jorge José de Souza Filho
Jorge Lobo
[RJ]
1944-1945 e 1965
Alberto E. Cox Cardoso
[RJ]
Antonio Carlos Pereira [MG]
1968
[SP]
1997-1998
1983-1984
1967
1942-1943
Na segunda década do século 20 a Sociedade Brasileira de Dermatologia inicia a sua jornada permanente e começa a cravar seus marcos de excelência na movimentada linha do tempo da História. Completado o primeiro centário, abre-se o segundo século. A SBD ingressa na constelação das maiores e mais importantes instituições mundiais da especialidade com um acervo extraordinário de realizações.
José Serruya
[PA]
1966
Oscar Silva Araújo
Clarisse Zaitz
[PE]
1982-1983
Domingos B. da Silva
[RJ]
1925-1940
Joaquim Mota
Márcio Lobo Jardim
[SP]
1964
[PE]
1995-1996 [SP]
Iphis Campbell
[DF]
1996-1997
17/08/16 5:14 PM
I Reunião Anual dos Dermato‑Sifilógrafos Brasileiros.
1959
1962
Sampaio e Lacaz prescrevem Anfotericida B para blastomicose sul‑americana.
Oswaldo Costa descreve a acroceratoelastoidose.
Rubem David Azulay demostra que BCG protege ratos contra lepra murina.
Cinquentenário da SBD. Criadas as sociedades regionais.
Fundado o Grupo Cooperativo para Estudo do Fogo Selvagem pela USP e Universidade da Carolina do Norte, EUA.
1a Campanha de Prevenção do Câncer da Pele.
1988
Adquirida a primeira sede própria da SBD.
1988
Sampaio e outros fundam a Sociedade Brasileira de Cirurgia Dermatológica.
2010
2000 Brad Amos e John White: 1o microscópio confocal com tecnologias de laser, informática e microeletrônica.
A Organização Mundial da Saúde anuncia surto do vírus Zika na América do Sul.
2010
FDA aprova a primeira vacina para quatro tipos de HPV .
FDA flexibiliza publicidade de medicamentos.
2014
Eric Betzig, Stefan Hell e William Moerner: Nobel de Química pela microscopia fluorescente de super resolução e nanotecnologia.
1987
Alastair e Jean Carruthers iniciam o uso de toxina botulínica em cosmiatria.
1987
Cucé e colegas introduzem o Cetoconazol para tratamento da paracoccidioidomicose.
2000
1990
1981
SBD cria o Certificado de Especialista em Dermatologia. Primeira prova em Juiz de Fora.
1963
Opromolla publica os primeiros resultados com Rifampicina no tratamento da lepra.
1990
1980
1967
1954
Carlos Lacaz cria curso de especialização em Medicina Tropical na USP.
1987
1985
Na Califórnia, Jeffrey Klein: lipoaspiração por técnica tumescente.
2016
2006
1997
Lançados na Itália os primeiros equipamentos avançados de micro‑dermabrasão.
1984
Cientistas japoneses criam fígado humano a partir de células tronco derivadas da pele e sangue.
2002
1993
Bakos descreve a associação de tumores grânulo‑celulares múltiplos cutâneos com alterações em outros órgãos – a Síndrome de Bakos.
Lançado História da Dermatologia no Brasil em comemoração aos 90 anos da SBD.
2003
Lançado Além das Aparências. Memória da Dermatologia do ES.
2010
1a Radla – Reunião Anual dos Dermatologistas Latino‑Americanos, em Buenos Aires.
FDA aprova a Isotretinoína para o tratamento de acne severa.
2013
Projeto Genoma Humano identifica a sequência dos pares que formam o DNA e mapeia os genes segundo características normais e patológicas.
O sildenafil, sob o nome comercial Viagra, é aprovado pelo FDA para tratamento da disfunção erétil.
1985
Rox Anderson e John Parish publicam Fototermólise Seletiva: Microcirurgia Precisa por Meio da Absorção Seletiva de Radiação Pulsada.
1982
1973
Stephen Rothman lança Physiology and Biochemestry of the Skin.
1953
1980
1960
Norman Orentreich realiza o primeiro transplante de cabelo.
1954
1940
1930
1920
Lançado o Journal of the American Academy of Dermatology.
1954
1934
Abrãao Roterg apresenta estudo sobre o fator N na hanseníase.
1983
1979
2003
1998
HIV. Center for Disease Control, dos EUA, organiza grupo sobre Sarcoma de Kaposi e Infecções Oportunísticas.
Dezembro, terremotos e tsunami no Oceano Índico provocam mais de 230 mil mortes em vários países.
2008
Inaugurada a nova sede da SBD.
2008
Tour de Combate ao Câncer de Pele, do Programa Nacional de Prevenção ao Câncer de Pele.
2012
2009
Centenário da SBD. Livro e exposição sobre etnias percorre o País.
Instituído o Dia Nacional de Combate e Prevenção da Hanseníase.
2010
Lançado o livro SBD‑Resp, 40 anos.
2013
Lançado o Grape – Grupo de Apoio Permanente de Coordenação de Ações Institucionais da SBD.
2015
2016
Prova Oral do TED. Ações sociais: Xeroderma Pigmentoso; Albinismo (2016).
1o Fórum CFM Dermatologia
Campanha Declaração dos Direitos da Pele e Dezembro Laranja.
2010
1952
1981
EUA e Cuba restabelecem relações diplomáticas, depois de meio século de rompimento.
Barack Obama eleito presidente dos EUA. Primeiro americano de origem africana a presidir o país.
2000
Frederic Edwards Mohs desenvolve, na Universidade de Wisconsin‑Madison, a cirurgia micrográfica.
1982
2015
2008
2004
2000
1938
11/9, atentado terrorista contra o World Trade Center, em Nova York; Pentágono e a Casa Branca, em Washington.
Nasce a ovelha Dolly, na Escócia, primeiro mamífero clonado a partir de uma célula adulta.
Primeiro implante de coração artifical.
2010
2001
1996
1968
Talidomida, sintetizada em 1954, na Alemanha, é proibida nos Estados Unidos..
2000
26/12, União Soviética reconhece a independência de suas repúblicas. Gorbachev é o último líder da URSS.
1990
Marion Sulzberg, da Universidade de Nova York, publica estudos sobre corticóides em Dermatologia.
9/11. Queda do Muro de Berlim. A Alemanha é reunificada em 1990.
1999
Euro é oficialmente introduzido nos mercados financeiros mundiais.
1991
1978
Nasce, no Oldham General Hospital, Reino Unido, o primeiro “bebê de proveta”.
1962
Gordon Gould adota o acrônimo LASER – Light Amplification by Stimulated Emission of Radiation.
1990
1989
1980
1950 1951
IBM lança o computador pessoal IBM 5150. Novos conceitos de tecnologia de informação.
Bill Gates e Paul Allen fundam a Microsoft, no Novo México, EUA.
O médico sul-africano Christian Barnard realiza o primeiro transplante cardíaco, na Cidade do Cabo.
O médico brasileiro Euryclides de Jesus Zerbini realiza o quinto transplante cardíaco do mundo, no HC da FMUSP.
Abril. Desastre nuclear de Chernobil, na União Soviética, primeiro da história desta indústria.
1980
1975
1967
1986
1990
Criada a revista Annaes Brasileiros de Dermatologia e Syphilografia.
Aprovada vacina oral contra poliomelite com vírus atenuado, desenvolvida por Albert Sabin.
1960
Theodore Maiman descreve o primeiro laser operacional do Hughes Research Lab.
Lançado nos EUA laser para cirurgia oftálmica.
1970
Irène-Curie, filha de Marie e Pierre Curie: Nobel por descoberta da radioatividade artifical.
1961
1959
Começa estudo de sífilis não tratada nos EUA.
Jorge Lobo publica Um caso de blastomicose produzido por uma espécie nova encontrada em Recife. Doença de Jorge Lobo.
1925
1912
Fundação da Sociedade Brasileira de Dermatologia. Fernando Terra, primeiro presidente.
1954
Primeira vacina contra a pólio, desenvolvida por Jonas Salk, nos EUA.
1935
1931
Gaspar Vianna lança quimioterapia anti‑infecciosa para leishmaniose.
1910
1900
SBD GabaritoMontagemLinhaTempo.indd 2
Eduardo Rabello: 1 legislação brasileira sobre hanseníase e doenças venéreas.
Max Theiler desenvolve vacina contra o vírus da febre amarela e ganha Prêmio Nobel de Medicina.
1944
1o Congresso Latino ‑Americano de Dermatologia e Sifilografia, no Rio.
1912
a
1937
1918
Adolpho Lutz descreve a paracoccidioidomicose.
1909
Os brasileiros Maurício Rocha e Silva, Wilson Teixeira Beraldo e Gastão Rosenfeld, da FMUSP/Ribeirão Preto, descobrem a bradicinina.
20 de julho: Neil Armstrong é a primeira pessoa a pisar na Lua.
Motorola lança o primeiro celular, que revolucionou a comunicação interpessoal.
1980
1908
Paul Unna descreve a Doença de Unna e cria a Bota de Unna.
FDA aprova a venda nos EUA da primeira pílula anticoncepcional
1948
1932
1927
1920
Josef Jadassohn introduz o teste de contato para dermatite e descreve doenças dermatológicas identificadas com seu nome.
1910
1900
1901
1935
Criada a ILDS – Liga Internacional de Sociedades de Dermatologia.
William Bovie em Harvard: propriedades da corrente elétrica em eletrocirurgia.
1905
Erich Hoffmann e Fritz Schaudinn, em Berlim, identificam a bactéria responsável pela sífilis.
1940
1930 1926
George Miller McKee utiliza o fenol para tratamento de cicatrizes de acne.
1930
Campbell White emprega gases em forma líquida refrigerados para criocirurgia.
Primeira circulação extracorpórea com máquina coração‑pulmão.
1960
1950
1920
1935
1903
Era do Rock. Apresentada em Liverpool, Reino Unido, a banda Beatles.
1965
Gerhard Domagk e Josef Klarer descobrem as sulfas, primeiros antibióticos sistêmicos.
1969
1980
1973
1960
Corrida espacial. URSS lança o Sputnik 1, o 1 satélite artificial do mundo.
1950
Pandemia de gripe espanhola.
Madame Curie no Brasil. Visita o Instituto de Radium, em Belo Horizonte, atual Hospital Borges da Costa da FM/UFMG.
Yuri Gagarin, na cápsula Vostok I, é a primeira pessoa a entrar em órbita da Terra.
1932
1926
1918
1910
Karl Landsteiner descreve o sistema de compatibilidade e rejeição do sangue e o padrão ABO.
1928
Alexander Fleming descobre em Londres a penicilina, em cultura que iria descartar.
1940
Carlos Chagas descreve o Trypanosoma cruzi e o ciclo da Doença de Chagas.
1901
1900
DERMATOLOGIA
1909
Wilhelm Conrad Roentgen, descobridor do Raio X, ganha o I Prêmio Nobel de Física.
1900
MEDICINA
1901
Frederick Banting e Charles Best realizam os primeiros testes bem sucedidos com a insulina.
1940
1922
Oswaldo Cruz funda no Rio de Janeiro o Instituto Soroterápico, Fiocruz.
1930
1900
1920
1915
Graham Bell faz primeira chamada telefônica transcontinental Nova York – São Francisco.
1910
Santos Dumont levanta voo no Campo de Bagatelle, em Paris, com o 14-Bis.
1900
MUNDO
1906
1957
1970
1961
A capital brasileira muda-se para Brasília, no governo do presidente e médico mineiro Juscelino Kubitscheck.
Agosto, EUA lançam bombas atômicas sobre Hiroshima e Nagazaki.
1914
Começa a I Guerra Mundial.
1960
1945
A Alemanha invade a Polônia. Começa a II Guerra Mundial.
1960
1970
1939
12/10, dia de Nossa Senhora Aparecida, inaugurada estátua do Cristo Redentor.
1960
1970
1931
1950
1945
Maio, Alemanha rende-se aos Aliados.
1970
1940
1960
1930
1960
1927
TV apresentada em São Francisco, EUA. TV a cores entra em 1960.
1960
O Titanic, obra prima da engenharia naval, naufraga em sua viagem inaugural.
1960
1920
1912
1960
1910
1960
Einstein publica A inércia de um corpo depende de seu conteúdo de energia.
1960
1905
1950
1900
Gabriel Gontijo Presidente da SBD
FUNADERM Fundo de apoio à Dermatologia
Manual de Valorização Dermatologia.
17/08/16 5:14 PM
GABRIEL GONTIJO | JOÃO ROBERTO ANTÔNIO
Capítulo
9
A LONGEVIDADE E AS NOVAS VEREDAS DOS CUIDADOS COM A PELE 125
O
O SEGUNDO SÉCULO - AS GRANDES VEREDAS DE UMA SOCIEDADE CENTENÁRIA
Professor Marcius Achiamé Peryassú é de uma linhagem de médicos ilustres que inclui seu pai, o Professor Demétrio Peryassú e, também, o avô, o Dr. Antonio Gonçalves Peryassú, sanitarista que participou do saneamento do Rio de Janeiro e dedicou-se à medicina preventiva, tendo descrito várias formas do mosquito transmissor da dengue e da malária. O pai, Professor Demétrio, consagrou-se no magistério e no estudo de várias doenças cutâneas, com citação em publicações internacionais. Mestre e doutor em Dermatologia pela UFRJ, livre docente da Unirio e professor do Instituto de Pós Graduação Médica Carlos Chagas e da Policlínica do Rio de Janeiro, o Dr. Marcius atua, entre outras áreas, em envelhe-
Professor Marcius Achiamé Peryassú
Ocupou, entre outras posições, o cargo de diretor do serviço dermatológico da Policlínica do Rio de Janeiro.
126 - SOCIEDADE BRASILEIRA DE DERMATOLOGIA
cimento cutâneo, câncer cutâneo e em psicodermatologia, um segmento da Dermatologia de interesse crescente entre os especialistas. Ocupou, entre outras posições, o cargo de diretor do serviço dermatológico da Policlínica do Rio de Janeiro. Ele destaca que a Dermatologia é uma especialidade do presente e, principalmente, do futuro ao debruçar-se sobre questões do envelhecimento cutâneo, do câncer da pele e, por todas essas razões, da prevenção. Como uma especialidade que nasceu no âmbito da clínica médica, a Dermatologia ampliou seu campo de atuação e continua a crescer nesta linha do tempo do segundo século da SBD. O falecimento do pai, quando o Dr. Marcius tinha 26 anos de idade, fez com que ele declinasse de uma vaga que conquistara na tradicional Mayo Clinic, nos Estados Unidos. O episódio, como lembra, fez com que se abrisse uma janela em sua alma que o conduziu à uma viagem a seu interior ao longo de 13 anos de análises diárias. A experiência levou-o a aplicar-se no conhecimento da psicodermatologia e à autoria de capítulos sobre o tema em vários livros. Trata-se de uma área de interesse da Dermatologia que tem chamado a atenção de especialistas e, também, do público numa época em que as inter-relações do psiquismo e das doenças cutâneas têm sido mais compreendidas. A pele, como resume o Professor Marcius, é um órgão de expressão emocional e costuma falar por si só ao termos em conta que muitas doenças representam manifestações da angústia e da ansiedade. O tema tem merecido atenção crescente por parte da mídia e, nos Estados Unidos, especialistas propuseram tabelas que ajudam a aferir o impacto das emoções sobre os sintomas manifestados pelos pacientes.
GABRIEL GONTIJO | JOÃO ROBERTO ANTÔNIO
Neste contexto, o Dr. Marcius avalia que o dermatologista deste segundo século deve ter algumas qualidades que incluem uma visão global do ser humano cuja profundidade deve ir muito além da biópsia. Menciona que, à época em que foi professor da Faculdade de Medicina de Vassouras, incluiu um psicólogo para mostrar aos estudantes a importância do conhecimento do psiquismo do paciente para que possam compreendê-lo e tratá-lo melhor. “Deixe o doente falar, pois ele dará o diagnóstico”, registra o Dr. Marcius em referência ao livro de William Osler, médico canadense e um dos fundadores do famoso Johns Hopkins Hospital. Osler criou o primeiro programa de residência para treinamento de especialistas e foi pioneiro em trazer os estudantes para fora das salas de aula e colocá-los à cabeceira do paciente para treinamento clínico. Por esta e outras razões, Oslen é considerado um dos “pais da medicina moderna”. Um grande vilão, no entender do Dr. Marcius, atrapalha a relação médico-paciente ao impor demasiada rapidez às consultas: o plano de saúde. Por suas visões, ensinamentos, atitudes e dedicação ao ensino da Dermatologia, foi homenageado pela Radla Reunião Anual dos Dermatologistas Latino-americanos.
A adoção da experiência europeia de encontros científicos e intercâmbio
O movimento em torno de reuniões científicas para compartilhar e aprofundar conhecimentos, bem como para promover relacionamentos entre os membros da Sociedade ocorreu desde o início da fundação da SBD. SOCIEDADE BRASILEIRA DE DERMATOLOGIA - 127
O SEGUNDO SÉCULO - AS GRANDES VEREDAS DE UMA SOCIEDADE CENTENÁRIA
Um desses modelos, adotado a partir da experiência europeia em congressos e proposto pelo Professor João de Aguiar Pupo ao Professor João Ramos-e-Silva, foi implementada com o apoio do Professor Hildebrando Portugal. E assim nasceu a 1ª Reunião dos Dermato-Sifilógrafos brasileiros, promovida em 1943 no Pavilhão São Miguel da Santa Casa do Rio de Janeiro. De acordo com publicações da época, o tema central do encontro girava em torno da leishmaniose e uma das apresentações mais concorridas foi oferecida pelo dermatologista baiano Flaviano Silva, graduado em medicina, em 1900, na Faculdade de Medicina da Bahia e, em 1947, nomeado professor catedrático da cadeira de clínica dermatológica e sifilográfica. O professor Flaviano foi sucedido pelo Professor Newton Guimarães. Segundo o Professor Guimarães, seu antecessor era um pesquisador que trouxe contribuições
importantes para a disciplina, entre as quais a primeira descrição da leishmaniose hansenoide, apresentada na 1ª Reunião dos Dermato-Sifilógrafos Brasileiros. Era mais um resultado extraordinário da pesquisa científica que se realiza na Bahia, desde o primeiro século da SBD, e cuja qualidade confirma-se no segundo. Esta história remete-nos à origem de tudo, quando o ensino médico foi criado por carta régia do príncipe regente D. João VI, em 1808, gerando a Escola de Cirurgia da Bahia instalada no colégio dos jesuítas, no terreiro do Paço. A cadeira de doenças cutâneas e sifilíticas foi criada em 1884 pelo Professor Alexandre Evangelista de Castro Cerqueira, que se notabilizou pela identificação da tinha negra, em trabalho publicado posteriormente por seu filho Antonio Gil de Castro Cerqueira Pinto. Em 1915, a cadeira, denominada de Clínica Dermatográfica, foi ocupada por Arthur da Silva Leitão, médico pernambucano formado na Bahia e, depois, pelo Professor Flaviano Imbassahy da Silva, sucedido pelo professor Otávio Garcez de Aguiar e, de 1952 a 1990, pelo Professor Newton Alves Guimarães. O Professor Newton Guimarães, dermatologista atuante e influente foi, também, professor titular de Dermatologia da Escola Baiana de Medicina e Saúde Pública.
Professor Newton Guimarães, uma vida a serviço da Dermatologia
Professor Hildebrando Portugal
Presidente da Sociedade Brasileira de Dermatologia gestão de 1948/49
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O professor Newton Guimarães, formou-se em 1943 pela Faculdade de Medicina da Bahia. Em 1951, tornou-se docente na Cadeira de Microbiologia e, em 1952, catedrático de Dermatologia. Foi titular de Dermatologia da Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública, entre 1952 e 1995.
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A nova faculdade, foi criada pela FBDC - Fundação Bahiana para Desenvolvimento das Ciências, em 1952, e passou a utilizar o Hospital Santa Izabel, disponibilizado após a criação da Universidade Federal da Bahia e a construção de um novo hospital universitário. O Professor Guimarães transferiu-se para São Paulo em 1957, contratado para a disciplina de Dermatologia da EPM/Unifesp- Escola Paulista de Medicina. Entre outras atividades, foi presidente da Associação Baiana de Medicina, da Federação Brasileira de Academias de Medicina e diretor da Faculdade de Medicina da Bahia, de 1980 a 1984. Foi, ainda, presidente da Sociedade Brasileira de Dermatologia no biênio 1980/81. Na primeira escola do Brasil, agora UFBA, a disciplina de clínica das doenças cutâneas e syphilíticas foi implantada em 1884 tendo como regente Alexandre Evangelista de Castro Cerqueira. Ocuparam a chefia deste serviço, desde 1915, os professores Artur da Silva Leitão, Flaviano da Silva, Otávio Garcez de Aguiar, Newton Alves Guimarães, Neide Ferraz e Ênio Ribeiro Maynard Barreto. Em depoimento prestado ao pesquisador de O Segundo Século, em novembro de 2015, o Professor Newton Alves Guimarães, no exercício da Dermatologia em seu consultório e ativo palestrante em congressos e jornadas científicas, rememorou seu ingresso na medicina e a vida universitária. O início foi como assistente de microbiologia na Bahia, seguido de convite para ser assistente da cadeira cujo catedrático era o Professor Eduardo Ferreira de Araújo que, entre as diversas posições de relevo que ocupou, foi médico e diretor do Instituto Oswaldo Cruz, tendo cursado pós-graduação nos Estados Unidos. Foi diretor da Faculdade de Medicina da Bahia e publicou livros textos sobre bacteriologia adotado em várias faculdades do país. O programa de microbiologia, como mencionou o Professor Guimarães, oferecia capacitação em alergia e imuno-
logia, o que o atraiu e o fez mudar-se para o Rio de Janeiro para participar de curso com o Professor Antonio de Oliveira Lima, chefe do serviço de alergia e imunologia da cadeira de clínica médica da Faculdade Nacional de Medicina da Universidade do Brasil, ministrado na Santa Casa do Rio de Janeiro. Os professores Newton Guimarães e Antonio de OIiveira Lima foram sócios fundadores da Sociedade Brasileira de Alergia, em 1946 que, em 1970, ao fundir-se com entidade similar de São Paulo, deu origem à Sociedade Brasileira de Alergia e Imunopatologia. De volta à Bahia, abriu consultório para tratar alergia, numa época em que, diante de diagnósticos incertos, os médicos eventualmente suspeitavam de alergia e encaminhavam os pacientes para o Professor Guimarães, como ele recorda. Por vezes, o Professor Guimarães também não chegava a um diagnóstico conclusivo. Com o passar do tempo,
Professor Newton Guimarães
Presença marcante na linha do tempo da Dermatologia brasileira desde 1943
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O SEGUNDO SÉCULO - AS GRANDES VEREDAS DE UMA SOCIEDADE CENTENÁRIA
como disse, passou a constatar que muitos dos casos que via referiam-se a quadros dermatológicos, entre os quais dermatite atópica, eczema, entre outros. Este cenário fez com que começasse a aprofundar-se no vasto campo das doenças da pele. Nessa época, como descreve o Professor Guimarães, ia vagar a cadeira de Dermatologia na Faculdade de Medicina e, aparentemente, só havia um candidato à posição: o filho do professor que respondia pela cadeira. Por orientação de seu pai, decidiu candidatar-se à vaga e começou a estudar com afinco matérias de Dermatologia para preparar-se para o concurso. Licenciou-se da disciplina de microbilogia e foi para o Rio de Janeiro onde conseguiu estágio na clínica do Professor Francisco Eduardo Rabello, época em que se aproximou, também, do Professor Rubem David Azulay que o estimulou a prestar o concurso para professor de Dermatologia na Bahia. À época o Professor Azulay preparava-se para prestar concurso para professor titular na Faculdade de Medicina do Pará. O apoio do Professor Azulay, como registra o Professor Guimarães, foi decisivo para a sua decisão. Para organizar seus estudos, o Professor Azulay encaminhou ao Dr. Guimarães casos de micose de Jorge Lobo para que preparasse sua tese sobre esse tema. A temporada de preparação no Rio de Janeiro implicou em trabalho duro que envolvia passar as manhãs em Manguinhos para estudar e, as tardes, na clínica do professor Francisco Eduardo Rabello e no consultório do Professor Antonio de Oliveira Lima para aprofundar-se em alergia. A jornada terminava às seis horas da tarde, quando seguia para um posto de saúde para acompanhar pacientes de doenças venéreas. O Dr. Guimarães diz que nunca estudou tanto. O período que passou no Rio ajudou-o a preparar-se adequadamente para o concurso. O Rio foi, também, a cidade 130 - SOCIEDADE BRASILEIRA DE DERMATOLOGIA
onde casou-se. Voltou para a Bahia com sua tese de docência e iniciou a preparação para a tese que apresentaria para o concurso de professor catedrático. Sua linha de pesquisa seguia a proposta do endocrinologista e pesquisador austro-húngaro Hans Selye, radicado no Canadá. que se notabilizara por ter desenvolvido, em 1936, um modelo para aferir graus de estresse, que chamou de Síndrome de Adaptação Geral. Em síntese, esta síndrome é uma reação de alarme a partir de manifestações sistêmicas decorrentes da exposição do organismo a estímulos para os quais não está adaptado. A instigante tese do Professor Guimarães seguiu esta linha, com foco em testes para casos de hanseníase. Seu concurso para catedrático foi conduzido por banca formada pelos professores Francisco Eduardo Rabello e João de Aguiar Pupo. Aprovado, assumiu a cadeira em 1952 e ensinou por mais de quatro décadas, até aposentar-se aos 70 anos de idade. A competência e amplitude do conhecimento do Professor Guimarães, fruto de seu domínio de várias áreas da especialidade, tornou-o uma personalidade bastante requisitada para pareceres e assessoria a várias instituições médicas do país. À São Paulo, como contou foi, pela primeira vez, à convite de um professor de histologia daquele estado para participar de uma banca examinadora. Na Escola Paulista de Medicina, da Unifesp - Universidade Federal de São Paulo, aproximou-se do Professor Bechelli e do diretor da faculdade, Professor Otto Bier, tendo sido convidado para assumir uma cadeira de professor no Departamento de Dermatologia. Depois da experiência paulista, conquistou uma bolsa de estudos para o Instituto de Cultura Hispânica para uma temporada em Barcelona, num centro de dermatoses profissionais avançado.
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À época, a Bahia recebia os investimentos do polo industrial de Camaçari e começavam a ser observadas muitas dermatoses profissionais. Desta forma, após oito meses em Barcelona e já com domínio da área, retornou a seu estado. Voltou, posteriormente, à Europa, desta vez para Portugal, para estagiar no prestigiado serviço do professor Juvenal Esteves, um dos fundadores da Sociedade Portuguesa de Dermatologia e Venereologia, no Hospital Santa Maria, da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa. De Lisboa seguiu para Munique, na Alemanha, para prosseguir seus estudos. Na década de 50, como explica o Professor Guimarães, a Dermatologia era basicamente clínica e a cirurgia resumia-se a pequenos procedimentos.
Dr. Paulo Barbosa
Detentor de mais de meio século de experiência e com domínio de ampla gama de conhecimento científico, aos mais de 90 anos de idade, continuava praticando no dia a dia de sua clínica. Diz que continua estudando, pois todo dia vê alguma coisa diferente no consultório. Com a dúvida na cabeça, chega em casa e pega um livro, revela. O regime de trabalho do Dr. Newton Guimarães consiste em atendimento em sua clinica, o Indab - Instituto de Dermatologia e Alergia da Bahia, além da Clínica Professor Newton Guimarães. Acrescente-se à essa jornada palestras e aulas para as quais é convidado com frequência. Trata-se, em suma, de um exemplo marcante do dermatologista da SBD que atravessou a metade do primeiro século e adentra, com competência e resolução, o futuro neste segundo século.
Pioneirismo dos mestres estimulou uma nova geração de especialistas que agregaram valor ao universo dermatológico, entre os quais o Dr. Paulo Barbosa, presidente do 27º Congresso da SBCD, na Bahia SOCIEDADE BRASILEIRA DE DERMATOLOGIA - 131
O SEGUNDO SÉCULO - AS GRANDES VEREDAS DE UMA SOCIEDADE CENTENÁRIA
TERTÚLIAS PARA INCREMENTAR O DIÁLOGO
O
intercâmbio de conhecimentos e de ideias entre os membros da comunidade dermatológica tem sido privilegiado, além dos congressos e jornadas cientificas programadas pela SBD e suas regionais. Entre esses encontros promovidos com mestres e detentores de conhecimento dermatológico, tornaram-se muito concorridas as tertúlias dermatológicas propostas pela primeira vez durante o 41º Congresso Brasileiro de Dermatologia em recepção aos palestrantes oferecida na residência do Professor Luiz Carlos Cucé.
Professor Luiz Carlos Cucé
Entre os encontros promovidos com mestres e detentores de conhecimento dermatológico, tornaram-se muito concorridas as tertúlias dermatológicas
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Neste encontro informal surgiu a ideia de reunirem-se professores de Dermatologia para o debate de temas, fora dos congressos, em encontros com dois dias de duração. A proposta avançou e o Professor Sebastião Sampaio, com sua habitual presteza e rapidez para implementar novos projetos, imediatamente convocou uma comissão de coordenação tendo como membros os professores Antar Padilha-Gonçalves, Rubem David Azulay e Tancredo Furtado. As tertúlias começaram em 1983 e a primeira delas realizou-se em Maceió. i
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Capítulo
10
NORDESTE. A LIDERANÇA DE JORGE LOBO E AS GRANDES DESCOBERTAS
SOCIEDADE BRASILEIRA DE DERMATOLOGIA - 133
O
O SEGUNDO SÉCULO - AS GRANDES VEREDAS DE UMA SOCIEDADE CENTENÁRIA
Professor Jorge Lobo é um dos pesquisadores brasileiros mais citados em publicações internacionais, reconhecido, entre outros méritos, pela identificação de uma doença ocasionada por fungo que foi denominado Paracoccidioides loboi. Individualizada por ele em 1931, no Recife, origina uma micose que passou a ser denominada Doença de Jorge Lobo. Nascido em Recife, em 1889, ano da proclamação da república, cursou o primeiro ano do curso médico em Salvador e formou-se, em 1923, pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Teve como uma de suas áreas de interesse a micologia. Trabalhou com expoentes da medicina, entre os quais Miguel Couto, Antônio Austregésilo, Fernando Terra, Arêa Leão, Eduardo Rabello e Olympio da Fonseca Filho. Foi assistente do Professor Eduardo Rabelo, catedrático de
Professor Jorge Lobo
Teve como uma de suas áreas de interesse a micologia
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Dermatologia da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro e, em Manguinhos, aprimorou seus conhecimentos de micologia médica. Em Recife, tornou-se professor catedrático de Clínica Dermatológica e Sifilográfica da Faculdade de Medicina, tendo sido seu diretor. Em 1940, fundou a seção pernambucana da SBD, a segunda regional mais antiga do país. A Professora Sarita Martins, presidente da SBD na gestão 1995/96, professora da disciplina de Dermatologia da Universidade Federal de Pernambuco, destaca que a Dermatologia, como especialidade médica no estado, teve o seu inicio na década de 30 com o Professor Jorge Lobo. Depois de seu estágio no Rio, o Dr. Jorge Lobo retornou a Recife à convite do Professor Francisco Clementino Carneiro da Cunha, primeiro professor da clínica dermatológica e sifilográfica da Faculdade de Medicina do Recife, fundada em 1920. Seu local de trabalho nesta volta à terra natal foi a clínica dermatológica do então asilo de mendicância, posteriormente hospital de Santo Amaro. A Professora Sarita Martins registra que foi lá, na enfermaria São Joaquim, na época com 20 leitos e um laboratório de anatomia patológica, que surgiu a Dermatologia pernambucana e a do Nordeste. Lembra que as doenças dermatológicas que predominavam neste período eram a lepra, a sífilis e a bouba, responsáveis pela grande maioria das doenças cutâneas da região. Em 1931, o Professor Jorge Lobo foi convidado para reger a disciplina de Dermatologia da Faculdade de Medicina do Recife, em 1933 defendeu tese para docência livre e, em 1935, para a cátedra. Dentre suas contribuições cientificas, que foram numerosas, resume a Professora Sarita, avulta a descoberta da doença que traz seu nome. Trata-se de uma mico-
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se profunda do grupo das blastomicoses e que apresenta um aspecto que lembra um quelóide, dai a sua denominação de blastomicose queloidiana. A Doença de Jorge Lobo é reconhecida mundialmente. O primeiro caso desta entidade foi descrito na cidade de Recife em um seringueiro proveniente do Amazonas, região onde situa-se a maioria dos casos e onde esta é, ainda, micose profunda das mais frequentes. O Professor Jorge Lobo presidiu três congressos brasileiros na cidade de Recife . O primeiro em 1949, o segundo em 1956 e o último em 1969. Com sua aposentadoria, em 1968, o cargo de professor titular da disciplina de Dermatologia da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Pernambuco foi ocupado, por concurso, pelo Professor Márcio Lobo Jardim, sobrinho do Professor Jorge Lobo.
Professor Glynne Leite Rocha
Um serviço de referência no Hospital dos Servidores do Estado do Rio de Janeiro
Com a criação do Hospital das Clinicas da UFPE o serviço de Dermatologia passou a funcionar nas novas instalações, integrado às instituições de pesquisa e às varias especialidades médicas. Em 1988, foi criada, pelo Professor Márcio Lobo Jardim, a primeira residência médica em Dermatologia do estado e o primeiro curso de especialização. Com o crescimento da cirurgia dermatológica, a especialidade, também em Pernambuco, adquiriu uma nova dinâmica e expandiu-se, cenário que se abre de forma promissora para este segundo século. Muitos discípulos do Professor Jorge Lobo multiplicaram seus conhecimentos em importantes centros médicos do país. Entre eles, destaca-se, entre outros, o Professor Glynne Leite Rocha, que foi presidente da SBD, em 1963. Formado pela Faculdade de Medicina de Pernambuco, transferiu-se para o Rio de Janeiro, em 1941, para trabalhar no Serviço de Dermatologia da Santa Casa, no histórico Pavilhão São Miguel, com o Professor Francisco Eduardo Rabello. O Professor Glynne tornou-se um dos expoentes da especialidade e, entre outros cursos, fez pós-graduação em Dermatologia no Skin and Cancer Unit da New York Post Graduate Medical School e no United States Marine Hospital. Em 1950 tornou-se livre docente da Faculdade de Medicina da Universidade do Brasil e da Faculdade de Ciências Médicas da UERJ. Trabalhou no hospital do Iaserj - Instituto de Assistência aos Servidores do Estado do Rio de Janeiro, onde chefiou o Serviço de Dermatologia e montou um serviço de residência médica e pós-graduação de qualidade, fazendo jus e honrando, portanto, suas raízes pernambucanas. As sementes lançadas pelos pioneiros têm frutificado generosamente com a entrada em cena de uma SOCIEDADE BRASILEIRA DE DERMATOLOGIA - 135
O SEGUNDO SÉCULO - AS GRANDES VEREDAS DE UMA SOCIEDADE CENTENÁRIA
nova geração de especialistas que dominam as técnicas mais modernas na prática clínica, cirúrgica e cosmiátrica. Neste grupo destacam-se, entre outros, o Dr. Emerson de Andrade Lima, formado pela Universidade Federal de Pernambuco, doutor em Dermatologia pela FMUSP, com pós-doutorado pela FMPE e preceptor da especialização em Dermatologia da Santa Casa de Recife e a Dra. Mariana de Andrade Lima, presidente da Regional de Pernambuco, 2015/16, que se projetam-se no cenário da especialidade nacional neste segundo século da SBD.
Dr. Emerson de Andrade Lima Presidente do 69o Congresso da Sociedade Brasileira de Dermatologia, Recife 2014 e a Dra. Mariana de Andrade Lima, presidente da Regional de Pernambuco, 2015/16 136 - SOCIEDADE BRASILEIRA DE DERMATOLOGIA
A expansão regional da especialidade clínica, cirúrgica e cosmiátrica
No vizinho estado de Alagoas, a disciplina de Dermatologia alçou-se a patamares diferenciados, beneficiada pelo desenvolvimento regional e por expoentes que buscavam especialização em outros estados e fora do país. Um deles, o Professor Alberto Cox Cardoso, presidente da SBD na gestão 1998/99, estagiou no Hospital das Clínicas da FMUSP e participou, com o Professor Raymundo Martins Castro, de cursos na Unicamp - Universidade Estadual de Campinas. Colaborou com a Professora Neuza Lima Dillon no começo da Faculdade de Medicina da Unesp, em Botucatu. No exterior, o Professor Cardoso estagiou no Hospital de Santa Maria da Faculdade de Medicina de Lisboa. Ao retornar a Alagoas, iniciou sua carreira no magistério.
Professor Alberto Cox Cardoso
Presidente da Sociedade Brasileira de Dermatologia gestão de 1998/99
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Em sua atuação associativa, entre outras ações de destaque, com os professores Márcio Lobo Jardim e João de Brito, promoveu a 1ª Reunião de Dermatologia dos Estados da Paraíba, Pernambuco e Alagoas, que evoluiu para a Reunião Nordeste/Norte de Dermatologia. O Professor Cardoso lembra que, em São Paulo, no serviço do Professor Sampaio, além do conhecimento científico, criou e cristalizou relacionamentos com colegas e mestres que foram importantes para a sua formação. Além da amizade que se solidificou com o mestre Sampaio, outros, como os doutores Norberto Beliboni, Ival Peres Rosa e o Professor Benjamin Golcman foram importantes para ampliação do saber em áreas mais amplas da especialidade. Ele menciona que, no início, as instituições médicas da região mantinham assíduo contato com as universidades do Rio de Janeiro, São Paulo e Belo Horizonte. Com o fortalecimento regional da especialidade, começaram a ser promovidos eventos científicos em cooperação com outros centros, com o apoio de personalidades da Dermatologia,
entre as quais o Professor Márcio Lobo, da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Pernambuco. O resultado desta integração permitiu o início das jornadas triangulares Pernambuco, Alagoas e Paraíba, com a primeira reunião realizada em Recife e a segunda em Maceió, com as presenças dos professores Sampaio, Raymundo Martins Castro e Luiz Henrique Paschoal. Mais tarde, como menciona o Professor Cardoso, também a Bahia aderiu ao projeto graças ao interesse do Professor Newton Guimarães, ampliando-se a iniciativa para a Jornada Nordestina de Dermatologia. Outra adesão, desta fez do Professor Sinésio Talhari, da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Amazonas, originou as jornadas Norte-Nordeste, com eventos anuais. O avanço da Dermatologia na região é avaliado como notável, pelo Professor Cardoso, com o domínio de tecnologias e realização de procedimentos em todas as áreas da especialidade.
Professores Alberto Cardoso, Professora Márcia Ramos-e-Silva e Professor Evandro Rivitti
Hospital Universitário Alberto Antunes, da Universidade Federal de Alagoas SOCIEDADE BRASILEIRA DE DERMATOLOGIA - 137
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A estrutura hospitalar e dos serviços é reputada como de qualidade, entre os quais o hospital escola Dr. Hélvio Auto, da Universidade Estadual de Ciências da Saúde de Alagoas - Uncisal, referência em doenças infectocontagiosas. A origem desta instituição remonta ao final do século 19 quando, com outro nome, era uma unidade destinada a isolar pacientes com hanseníase, peste, cólera, malária, entre outras. O hospital universitário Alberto Antunes, da Universidade Federal de Alagoas, tem sua origem em 1950 quando foi criada a faculdade de medicina que, durante anos, contou com o apoio da Santa Casa de Maceió, na tradicional parceria educacional que se repetia por todo o país. A semente, contudo, remonta aos pioneiros, entre os quais um discípulo do Professor Jorge Lobo, o Dr. Aldo de Sá Cardoso, professor da disciplina de Dermatologia e Sifilografia da faculdade de medicina instalada em 1951 e o Dr. Aderbal Loureiro Jatobá. Posteriormente, a galeria enriqueceu-se com nomes como o Dr. Jorge Duarte Quintela Cavalcanti e, entre os mais jovens, os doutores Nehemias de Alencar e Zirelli Valença, que descreveu o Sinal de Zirelli, sinal clínico em região sugestiva de pitiríase.
As grandes campanhas e o envolvimento com a cidadania
Outro marco importante da linha do tempo em seu primeiro século é a Campanha de Prevenção do Câncer de Pele, de âmbito nacional, para conscientizar a população sobre o problema. O programa, desenvolvido pelo Departamento de Oncologia e pela Comissão de Educação da SBD, no mandato do Dr. Alberto Cox Cardoso, em 1998/99, no encerra138 - SOCIEDADE BRASILEIRA DE DERMATOLOGIA
mento do século 20, foi organizado por grupo de trabalho coordenado pelo Dr. Marcus Maia. Como mostra a história, o movimento cresceu e tornou-se uma das maiores iniciativas no campo médico, voltada para a população brasileira e consagrou-se como um movimento de mobilização da opinião pública sob a égide da Sociedade Brasileira de Dermatologia, em parceria com o INCA, veículos de comunicação de massa, entidades sociais e o apoio da indústria farmacêutica. Outra ação social importante para a população é a divulgação dos índices de radiação ultravioleta que indica a incidência na superfície terrestre durante a hora de máxima iluminação solar. A SBD tem liderado estas campanhas há mais de uma década e, em 2016, firmou parceria com o poder público do Rio de Janeiro para expor nos relógios da cidade, além da hora e da temperatura, os índices de radiação ultravioleta (UV) visando a alertar a população sobre a importância da proteção, no âmbito da Campanha de Prevenção do Câncer da Pele. Como registra a história, esses movimentos que envolvem a cidadania fortaleceram-se e têm trilhado um longo e produtivo caminho, entrando no segundo século da SBD como uma de suas principais iniciativas comunitárias.
A expansão e o surgimento de centros de referência em todo o país
O avanço observado em todas as regiões do país mostra que a Dermatologia tem sido uma das especialidades que ostenta um dos maiores crescimentos no âmbito da medicina, tanto pela amplitude das áreas onde atua, quanto pelo número de médicos que optam pela especialidade.
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Em seu livro História da Dermatologia no Ceará, lançado em 2005, o Professor José Wilson Accioly, ex-reitor da Universidade Federal do Ceará, lembra a fundação da Sociedade Cearense de Dermatologia, em 1956. Um dos marcos iniciais da linha do tempo da Dermatologia no Ceará foi, segundo o Professor Accioly, a chegada do Dr. Walter Moura Cantídio a Fortaleza, no final da década de 30. Formado na Faculdade de Medicina de Recife e discípulo do Professor Jorge Lobo, ocupou a cátedra de Dermatologia da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará. Em 1977, foi presidente da SBD e secretário da educação e saúde do Ceará, entre outros posições de relevo. A Faculdade de Medicina foi instalada, em Fortaleza, em 1948 e a clínica dermatológica e sifilográfica iniciou suas atividades com aulas ministradas no prédio da facul-
dade e, também, na Santa Casa de Fortaleza. O Dr. José Gerardo Pontes de Vasconcelos, cirurgião formado pela Faculdade de Medicina do Ceará liderou o setor de cirurgia dermatológica a partir de 1961, tendo estagiado com os professores Sampaio e Lacaz no HC da USP. Ele implantou um laboratório de micologia na clínica dermatológica em seu retorno a Fortaleza. A antiga Policlínica Dona Libânia, que pertencia ao Centro Médico Cearense, tornou--se centro de saúde e, após ampla reforma, em 1996, passou a ser um centro de Dermatologia com foco em hanseníase, dermatoses tropicais e doenças de pele em geral, dirigido pelo Dr. Heitor de Sá Gonçalves. Em 1999, passou a oferecer programa de residência em Dermatologia, reconhecida pela SBD. O Centro de Dermatologia Dona Libânia, do Hospital Geral Cezar Cals, tradicional instituição fundada em 1975 é subordinado à Secretaria de Saúde do Estado e desenvolve
Centro Dermato Dona Libânia Instituição que é um marco histórico da especialidade
Dr. Walter Moura Cantídio
Marco na Dermatologia brasileira e presidente da SBD em 1977 SOCIEDADE BRASILEIRA DE DERMATOLOGIA - 139
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atividades de assistência, pesquisa e ensino em hansenologia, leishmaniose, câncer de pele, DST, dermatoses, cirurgia dermatológica, entre outras áreas de interesse. O Dr. Heitor de Sá Gonçalves, diretor geral do Centro, concorda que a Dermatologia tem crescido muito em número de especialistas, no estado. Menciona que, quando assumiu a presidência da regional, há cerca de 15 anos, eram apenas 50 sócios, número que vem aumentando exponencialmente. Muitos foram fazer residência fora e, posteriormente, no estado, a partir da criação da residência médica no serviço do Centro e no hospital universitário da Universidade Federal do Ceará. Esses serviços, como explica o Dr. Heitor, abrangem todas as áreas da Dermatologia, com ênfase em doenças de interesse sanitário, doenças tro-
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picais, hanseníase, leishmaniose, DST e o acometimento dermatológico dos portadores de HIV, além de câncer de pele, entre outras. Destaca que é preciso entender que o país apresenta um quadro nosológico com destacada presença de doenças infectocontagiosas que acometem a pele, às quais os serviços devem dar atenção. Esta abordagem, como ressalva, não significa desprezar as demais áreas, no sentido do ensino e da pesquisa. Menciona que os serviços do estado têm publicado em revistas de impacto mundial, entre as quais a Leper Review, estudos sobre hanseníase, casos clínicos e projetos de pesquisa que refletem este interesse sanitário, uma das primeiras veredas traçadas e trilhadas pela Dermatologia brasileira.
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Outra vertente, que não se pode perder de vista, como alerta, é o caráter social da especialidade, bem como a responsabilidade da SBD. Isto significa desenvolver estratégias para chegar à população, não apenas sob a forma assistencial mas, também, educativa e pública. Uma das formas de cooperação seria com parcerias da Sociedade com entidades governamentais, inicialmente por meio de acordos para participar de campanhas, tanto as específicas da Dermatologia, como outras abordagens como, por exemplo, a infecção pelo zika vírus cujo diagnóstico muitas vezes é dado pelo dermatologista, da mesma forma que a dengue, pois o paciente, por vezes, procura os serviço por um quadro de exantema. Outro aspecto importante da atuação da SBD deve ser, como sugere o Dr. Heitor, seu papel com relação ao médico não dermatologista, considerando-se que não podemos excluir a participação de serviços públicos de Der-
matologia e serviços credenciados em programas de saúde da família, por exemplo. São esses médicos da família que, muitas vezes, terão o primeiro contato com as doenças da pele que acometem a grande maioria da população. Dá como exemplo os mais de 20 anos de experiência em treinamento de profissionais do programa de saúde da família, no estado. Explica que o programa é oferecido em módulos que reúnem as doenças de interesse sanitário, com treinamento presencial. O passo seguinte será o uso da teledermatologia. Esse treinamento básico na identificação e tratamento de doenças para médicos da família é parte da responsabilidade social da Dermatologia pois, da mesma forma que um médico da família deve poder fazer um pré-natal, ou atender uma criança com infecção respiratória, também deve atender às pessoas com doenças de pele, sugere o Professor Heitor. Sua visão de futuro para o segundo século inclui a importância da integração com a população e com os demais profissionais de saúde, papel que a SBD deverá preencher. Isto inclui a presença da Sociedade na formulação de projetos nacionais de capacitação em programas de saúde da família em Dermatologia.
Um hospital com vista panorâmica para o mar e serviço de excelência
Dr. Heitor de Sá Gonçalves
Pesquisas com foco sanitário, uma das veredas prioritárias da Dermatologia brasileira
No Rio Grande do Norte, o serviço credenciado do Hospital Universitário Onofre Lopes, da Universidade Federal, iniciou suas atividades em 1959. Entre seus projetos destacam-se iniciativas nas áreas de genodermatoses, bolhosas, epidemiologia do melanoma e citologia aplicada ao diagnóstico de doenças cutâneas, entre outros campos de interesse. SOCIEDADE BRASILEIRA DE DERMATOLOGIA - 141
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Uma ação criativa que despertou interesse tanto dos especialistas quanto do público geral, segundo o Professor Arnóbio da Penha Pacheco, durante o 59º Congresso Brasileiro de Dermatologia, realizado em Natal, em 2004, foi o conteúdo sob o tema A Dermatologia na Cidade do Sol, em torno do fato de que a capital potiguar é considerada a de maior índice de radiação ultra violeta do país. O Dr. Arnóbio formou-se em medicina na UFRN Universidade Federal do Rio Grande do Norte, em 1977, e fez residência médica do hospital do Iaserj - Instituto dos Servidores do Estado do Rio de Janeiro no serviço do professor Glynne Rocha. Prestou exame para o TED em 1980, tendo sido o primeiro dermatologista do estado a obter o título. Ingressou na UFMG, que cursou de 1980 1983, para
mestrado em Dermatologia no serviço do professor Tancredo Furtado onde teve oportunidade de compartilhar saber com mestres como os professores João Gontijo, Orcanda Patrús e Antonio Carlos Guedes, entre outros. Seu doutorado foi feito na UFRN, com tese sobre psoríase, que é uma de suas áreas de concentração na especialidade. O Dr. Arnóbio lembra que, entre as qualidades do hospital universitário, que incluem todas as áreas da Dermatologia, com ensino e prestação de serviços à comunidade, o edifício oferece a melhor vista panorâmica para o mar entre todos os hospitais que conhece. Trata-se, certamente, de uma vantagem insuperável, numa cidade situada na curva norte do Brasil - Natal.
O Dr. Arnóbio Pacheco, de terno claro, e participantes do Congresso, ladeados pelos professores Sebastião Sampaio e Maurício Alchorne
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Em 2000, organizou uma grande jornada Norte-Nordeste com a presença do Professor Sampaio e mais de 400 participantes. Outro feito foi a realização de uma grande campanha de prevenção do câncer de pele, em 2002, em parceria com a Dra Cleire Paniago, de Brasilia, que trouxe dermatologistas especializados em cirurgia dermatológica que atenderam quase três mil pacientes. Em 2002, foi inaugurada a sede própria da regional, com a presença do Professor Fausto Forin Alonso. O congresso de 2004, realizado em Natal, permitiu a obtenção de recursos que foram aplicados no serviço de Dermatologia em salas para pequenas cirurgias, patologia, micologia, biblioteca e ambulatórios de cirurgia dermatológica, cirurgia micrográfica e lasers.
A especialidade multiplica-se com qualidade por todos os estados
Em Sergipe, a regional da SBD foi fundada, em 1985 por um grupo de especialistas mobilizados pela Dra. Graziela Marcolino, que foi a primeira presidente da nova entidade, com o apoio dos doutores Pedro Portugal, Gildo Simões, Rinaldo Prado e Delso Calheiros, entre outros. Na Paraíba, a iniciativa de criação de uma regional foi do Dr. João de Brito de Athayde Moura que, desde os tempos de faculdade, fora estimulado para a Dermatologia pelo Professor Alberto Fernandes Cartaxo e pelo estágio que vivenciou junto ao Professor Jorge Lobo, no Hospital Santo Amaro, em Recife.
O avanço da especialidade no Nordeste inclui a realização de jornadas para intercâmbio de conhecimentos com mestres de todo o país. No ano 2000, com a presença do Professor Sampaio. SOCIEDADE BRASILEIRA DE DERMATOLOGIA - 143
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Outra exposição virtuosa ao universo dermatológico ocorreu ao estagiar no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP com o Professor Sebastião Sampaio. Em 1967 foi dado início ao desafiador projeto da Regional da Paraíba no Hospital Santa Isabel da Santa Casa de João Pessoa e empossada a primeira diretoria que teve como presidente o Professor Alberto Fernandes Cartaxo. Por iniciativa do Dr. João de Brito foi promovida uma reunião triangular mobilizando lideranças da especialidade em Pernambuco e Alagoas. A primeira dessas reuniões ocorreu em 1975 tendo como palestrantes convidados os doutores Glynne Rocha, Márcio Lobo, Ruy Noronha, Antônio de Souza Marques, Waldemir Miranda e Jorge Abuláfia, da Argentina. Outro evento científico expressivo, promovido pela Regional, foi a Jornada Norte-Nordeste de Dermatologia,
Dr. Lauro Lourival Lopes Filho
Residência criada em 1988 na UFPI. A Dermatologia amplia-se por todas as suas áreas de atuação
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com a presença dos professores Tancredo Furtado, Walter Belda e Evandro Rivitti, entre outros. A Regional do Maranhão foi fundada em 1985, tendo como presidente de honra o Professor Clóvis Eugênio Vasconcelos Chaves e como homenageado o Professor Salomão Figuene, pioneiros da Dermatologia no estado. O estudo e o tratamento da hanseníase é um marco, também, na Dermatologia do Piauí, com a criação da Colônia do Carpina, em Parnaíba, em 1931, inicialmente chamada de Hospital São Lázaro para isolamento de doentes. Em Teresina, um dos primeiros dermatologistas foi o Dr. Otto Soares, formado pela Faculdade Fluminense de Medicina, em 1939. No início da década de 70, o Dr. Hugo Prado, formado pela Faculdade de Medicina da Universidade do Brasil, atual UFRJ, ingressou como professor de Dermatologia da Faculdade de Medicina da Universidade do Piauí e assumiu a chefia da clínica dermatológica do Hospital Getúlio Vargas, inaugurado em 1941. Em 1988 foi criada a residência médica em Dermatologia na Universidade Federal do Piauí, com os professores Hugo Prado, Antonio de Pádua Marques da Fonseca, Dagoberto Barros da Silveira, Francisco Soares Campelo, Vanda Silveira Marques da Fonseca, Sebastião Honório Bona e Lauro Lourival Lopes Filho, um dos expoentes da cirurgia dermatológica no estado. i
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Capítulo
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UM DERMATOLOGISTA E SUAS PAIXÕES DR. REINALDO TOVO FILHO
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N
Dr. Reinaldo Tovo Filho
Tupã, na Alta Paulista, Noroeste do estado.
este rito de passagem de nossa Sociedade Brasileira de Dermatologia para seu segundo século identificamos o dermatologista brasileiro no centro de um movimento virtuoso de transformação do especialista clínico para um profissional com múltiplas formações que envolvem desde habilidades cirúrgicas e cosmiátricas até o domínio de competências no âmbito mais amplo da Medicina geral que o capacitam a diagnosticar doenças internas que se manifestam na pele. O fascínio da Medicina acompanha a formação deste profissional desde os primeiros tempos escolares, cristaliza-se na faculdade, consolida-se nas residências e espe-
cializações e perpetua-se na educação continuada, num movimento permanente de apuração do saber. Olhando pelo retrovisor de minha própria experiência, percebo que meu curso de Medicina começou bem lá atrás, em Tupã, interior de São Paulo onde, ainda no primário, ia ao hospital chamar meu pai, o clínico geral e cirurgião, Dr. Reinaldo Tovo, para avisar que o almoço estava na mesa. Morávamos na frente do hospital. Muitas vezes observava meu pai em cirurgia e encantava-me vê-lo de máscara e luvas, rodeado de instrumentos, sob a luz do refletor, debruçado sobre o paciente cujo olhar traduzia
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confiança e esperança no médico, naquele momento o guardião de sua saúde. Este era “o cara” que eu, também, queria ser. Outras vezes, furtivamente, ia com meus colegas de escola visitar o mundo misterioso e intrigante do necrotério da cidade, no fundo do hospital, para saber quem havia morrido e do que. Atraía-me esta linha tênue e santa que separa a vida da morte por onde transita o médico. Meus brinquedos preferidos na infância eram brindes de laboratórios, frascos de produtos médicos e modelos de peças anatômicas. Cresci nesse meio. Esse era o meu mundo, sem ainda suspeitar que se estabeleciam ali os contornos de um universo do qual nunca me afastaria. Meu pai formou-se nos idos de 1950 do século passado, época em que antibióticos e antifúngicos começavam a entrar de forma decisiva no arsenal do médico. Lembro-me do impacto que esses medicamentos tiveram,
por exemplo, no tratamento da blastomicose, uma doença que ocorria com frequência no interior, trazida no bojo da expansão da fronteira agrícola em áreas de mata. Na lista dos possíveis antifúngicos - a velha sulfa, que sobrevive até hoje, foi um dos primeiros a revolucionar os tratamentos. Acompanhei na história a transformação da lepra que transitou de doença maldita à mais civilizada hanseníase, num movimento genial do Professor Abrahão Rotberg. Vi, também, o milagre que parecia impossível: o fim dos famigerados leprosários, que veio a desmistificar esse tenebroso cavaleiro do apocalipse. Os médicos que combatiam neste front eram, para mim, líderes de uma guerra contra a miséria e o sofrimento e eventuais libertadores dos filhos dos doentes que seriam doados, ou perversamente escarificados pelos próprios pais no afã de, ao contaminá-los, poderem embolsar um tipo de “bolsa doença” dada pelo governo.
A placa singela na porteira a indicar a presença dos médicos
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Acompanhei a história do asilo-colônia Aymorés, em Bauru, próximo a Tupã, onde eram internados portadores de hanseníase da região e a sua evolução para Instituto Lauro de Souza Lima, reconhecido mundialmente como instituição de pesquisa de referência. No final da década de 60 meu pai veio para São Paulo para retornar à Faculdade de Medicina da USP, atraído pelo movimento de estruturação das especialidades. Dedicou-se à cirurgia vascular que se beneficiava dos grandes avanços científicos impulsionados pelas novas técnicas introduzidas nos atendimentos a feridos na guerra do Vietnã, como relatavam as publicações especializadas da época.
Estátua do Índio Aimorés de 1942 símbolo da história do antigo AsiloColônia Aimorés
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A guerra, como mostra a história, é uma mola propulsora da Medicina ao demandar o progresso rápido de técnicas de procedimentos, como suturas, e de tratamento de ferimentos graves provocadas por explosivos e armas perfurocortantes. Os temas mais interessantes e de vanguarda eram identificados nas publicações científicas e traduzidos por minha mãe, que era professora de inglês. Este conjunto instigante de informações e de experiências próximas a mim conduziu-me, naturalmente, á área de atuação que me interessou inicialmente, a cirurgia vascular. Durante o curso na Faculdade de Medicina de Botucatu/Unesp participei de numerosos procedimentos no laboratório de cirurgia experimental, guiado pelos ensina-
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mentos primorosos do Professor Francisco de Abreu Maffei, da disciplina de Cirurgia Vascular, contemporâneo de meu pai na USP. É interessante observar que, naturalmente, este caminho aproximava-me da Dermatologia, numa demonstração eloquente das sinergias entre as especialidades e uma reconfirmação do amplo campo para onde as diversas especialidades podem confluir na manifestação cutânea das doenças. Embora amante da cirurgia vascular, confesso que flertava com a cirurgia dermatológica, uma área muito avançada em Botucatu. Pouco a pouco fui envolvendo-me com a atraente Dermatologia, sem abandonar, contudo, minha velha e fiel cirurgia vascular. À época de minha residência, essa dupla dedicação era facilitada pois, Dermatologia e Cirurgia Vascular, ficavam no mesmo andar, vizinhas de porta. Nos procedimentos de cateterismos invasivos, nos quais observava meu pai, sem as modernas bombas injetoras e, na época, com enormes seringas nas mãos, era sair da casa de uma e entrar na casa da outra. Um episódio inesperado levou-me à opção definitiva pela Dermatologia. Meu pai queixava-se de uma ferida que surgira em seu pescoço. Fomos procurar o Professor Sebastião Sampaio no serviço do HC. Foi diagnosticado um carcinoma basocelular. “Vamos tirar isso já” sentenciou Sampaio, com seu estilo característico voltado para a tomada de decisões imediatas. Chamou o Dr. Benjamin Golcman, cirurgião plástico que iniciou o ensino da cirurgia dermatológica na Dermatologia na USP. Meu pai foi operado em uma hora, sob o meu olhar curioso e encantado com a precisão e rapidez do procedimento. Era isso que eu queria ser: cirurgião dermatológico. As cirurgias vasculares costumavam ser demoradas, ao SOCIEDADE BRASILEIRA DE DERMATOLOGIA - 149
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contrário dos procedimentos na pele que, por vezes, podíamos identificar e resolver na hora. Minha entrada efetiva na cirurgia dermatológica deu-se pela generosa porta que me foi aberta pelo Dr. Ival Peres Rosa no Hospital do Servidor Público Municipal de São Paulo. O Dr. Ival foi um dos precursores da cirurgia dermatológica em São Paulo e no Brasil. Seu serviço despontava como referência nessa área. Como minha formação inicial tinha sido construída sobre as bases da cirurgia, seguindo as veredas abertas por meu pai, inclinei-me, naturalmente, por lesões vasculares na pele, um vasto campo que envolve os hemangiomas, as microvarizes, as telangiectasias, entre outras condições.
Como costumava fazer, busquei orientação junto a meu pai, ponto de referência e fonte de inspiração permanentes. Ele me encaminhou ao colega e, também, cirurgião vascular, Dr. Baptista Muraco Netto, cuja esposa, a Dra. Helena Muraco, era dermatologista conceituada. Seu aconselhamento foi inestimável. Em meu processo de construção permanente da carreira, procurei manter meus laços com a cirurgia vascular. Eis que entra em cena, mais uma vez, o Professor Sampaio. Com seu olhar atento e sensibilidade para a identificação de talentos e, sobretudo, de pessoas com norte e vontade de fazer, sentenciou: “Você vai fazer um procedimento que se chama flebologia. Vai estudar as lesões vasculares em Dermatologia”. De volta a meu pai e ao Dr. Muraco, busquei o apoio inicial para a organização de aulas e programas de con-
Professores Sebastião Sampaio e Reinaldo Tovo Filho No serviço do HC da USP a oportunidade para a cirurgia dermatológica
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gressos de Dermatologia. Contribui, inclusive, nesses primórdios, com capítulos de livros de cirurgia dermatológica, entre os quais um da Dra. Izelda Carvalho Costa, de Brasília e Dr. Alcidarta dos Reis Gadelha, de Manaus, onde publicamos um capítulo assinada por mim, meu pai e o Dr. Muraco. A partir destes desafios iniciais e com o apoio de uma rede de contatos constituída por pessoas generosas e competentes, tanto no Brasil, quanto no exterior, desenhei meu caminho no campo da cirurgia dermatológica e debrucei-me de forma incansável e permanente na ampliação de meu conhecimento científico e tecnológico. Neste caminho de múltiplas vertentes, quero destacar a importância da identificação das oportunidades reais de crescimento, no contexto do projeto desenhado. No mosaico das oportunidades a serem aproveitadas, optei por Mestrado sobre o vírus HPV graças à porta aberta pela renomada virologista Luísa Lina Villa, coordenadora do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia das Doenças do Papilomavírus Humano - Instituto do HPV, sob a orientação do Professor Luís Carlos Cucé. A Dra. Lina Villa foi, também, pesquisadora do Instituto Ludwig de Pesquisa sobre o Câncer, professora da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo e é livre docente do Departamento de Radiologia e Oncologia da Faculdade de Medicina da USP, entre outros marcos de seu amplo currículo. Meu doutorado teve como foco melanoma e linfonodo sentinela, também com a participação da Dra Luisa Lina Villa, Dr. Renato Santos e, mais uma vez, sob a orientação do Professor Luíz Carlos Cucé. Aliás, o primeiro trabalho de linfonodo sentinela publicado no Brasil foi em conjunto com o Dr Renato Santos nos Anais Brasileiros de Dermatologia: Intra-operative lymphatic mapping for melanomas stage I: a promising technique. An Bras Dermatol. 69(6): 1994. Atento aos cenários da especialidade e sempre aberto aos desafios, construí, definitivamente, meu cami-
nho em cirurgia dermatológica, sempre buscando aproximar-me e contribuir com as referências profissionais que eu tinha como faróis a iluminar o caminho. Assim, aceitei o honroso convite dos professores Luiz Carlos Cucé e Jayme de Oliveira Filho para dar aulas na Unisa - Universidade de Santo Amaro, com ênfase em cirurgia dermatológica. Esta foi uma fascinante, construtiva e inesquecível experiência que se prolongou por quase duas décadas. Uma época de grande produção e de intensa atividade. Além do solidário e sempre disponível Professor Sampaio, eu costumava frequentar, também, a clínica do Professor Luiz Henrique Paschoal e, por suas mãos, cheguei à SBCD - Sociedade Brasileira de Cirurgia Dermatológica, que presidi em 2008. Os professores Cyro Festa Neto, professor titular do Departamento de Dermatologia da FMUSP e responsável pela Divisão de Dermatologia do Hospital das Clínicas da
Dr. Cyro Festa Neto
Departamento de Dermatologia da FMUSP e HC: centros disseminadores de conhecimento de excelência
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FMUSP, bem como seu antecessor, Professor Evandro Rivitti, além do Professor Gabriel Gontijo, presidente da SBD, Jayme de Oliveira Filho e outras figuras de destaque da comunidade dermatológica ofereceram-me seus ombros amigos para que eu pudesse avançar, para resgatar uma expressão bastante cara ao Professor Sampaio ao destacar a importância da solidariedade e do esforço conjunto para a consecução de objetivos de interesse comum. Certamente esta convicção terá sido uma das razões de seu sucesso.
Os avanços e os desafios da atualização médica
Ao observarmos, especificamente, a cirurgia dermatológica, percebemos que esta área da especialidade avançou muito não só no procedimento como, também, na tecnologia, laser e produtos para preenchimentos. A excelência técnica de nossos especialistas tem sido permanentemente aprimorada em serviços credenciados pela SBD de elevada qualidade, em cursos de educação médica continuada de alto nível oferecidos pela Sociedade e suas regionais. No cenário mais amplo da especialidade nota-se avanços significativos na vertente da imunologia que vieram influenciar positivamente o tratamento de doenças autoimunes por meio de novos medicamentos biológicos. Trata-se de uma área de estudos importante principalmente diante de um cenário de envelhecimento da população, com um número decrescente de mortes por conta de problemas cardíacos e doenças infecciosas, enquanto cresce a curva das doenças tumorais. Outra área instigante para o dermatologista deste 152 - SOCIEDADE BRASILEIRA DE DERMATOLOGIA
segundo século é o estudo das manifestações cutâneas das doenças sistêmicas. Este é um caminho que abre amplos horizontes para os dermatologistas. O campo das doenças de pele cujas origens remetem a causas internas oferece estimulante campo de estudos para o especialista. Tem sido cada vez mais frequente, por exemplo, o contingente de doentes transplantados cujas perspectivas de sobrevida têm se ampliado consideravelmente graças aos últimos avanços da Medicina. Os medicamentos imunossupressores, como sabemos, abrem flancos nas defesas imunológicas e induzem, em muitos casos, ao desenvolvimento de doenças como o câncer de pele em pacientes transplantados, situações nas quais o dermatologista entra em cena. Outro movimento estratégico para os dermatologistas é a volta aos hospitais. Acostumados a frequentar os centros universitários e as clínicas dos serviços credenciados, nossos contingentes de especialistas precisam ocupar posições avançadas nas trincheiras do atendimento dos grandes hospitais. Têm sido cada mais frequentes as queixas de pacientes internados com problemas de pele. Estas ocorrências registram-se, também, de maneira crescente nos postos de pronto atendimento com pessoas que buscam auxílio com queixas dermatológicas que podem variar num amplo arco que vai desde um quadro herpético à pruridos causados por linfoma e manifestações cutâneas de doente imunossuprimidos com HIV positivo, num elenco de doenças trazidas pelos pacientes aos hospitais que, muitas vezes, são tratados por plantonistas de outras especialidades. Neste complexo cenário, registro que temos sido cada vez mais acionados pelos hospitais, tanto em emergências quanto em situações de pacientes já internados e em tratamento por doenças não cutâneas. Neste aspecto, a formação de uma equipe de Dermatologia no Hospital Sírio Libanês de São Paulo merece o
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olhar atento dos especialistas pois muito passamos a contribuir em uma nova vertente da Dermatologia no Brasil. O ambiente dos hospitais oferece oportunidades valiosas para a interação multidisciplinar entre várias especialidades, constituindo-se numa rede estimulante para o aprendizado e para a eficácia do atendimento ao paciente. Cito como exemplo o caso de um paciente hospitalar que foi diagnosticado com Síndrome de Stevens-Johnson, reação cutânea que pode manifestar-se de várias formas na pele e no trato gastrointestinal, entre outras doenças que, por vezes, requer o envolvimento de especialidades diferentes. As sinergias entre elas são, certamente, fundamentais nestas interfaces multidisciplinares. As fronteiras superpõem-se num amplo rol de especialidades, entre as quais inclui-se, também, a psiquiatria, pois não é incomum ouvirmos em nossa prática rela-
tos de pacientes que se incomodam diante de sua imagem no espelho - o chamado transtorno dismórfico corporal que, muitas vezes, pode levá-los a recorrer às nossas competências em busca de procedimentos dermatológicos, o que demanda a atenção do dermatologista e um apurado senso ético neste processo de decisão. Amplia-se, enfim, os espaços para cooperação entre os diversos especialistas, que resulta em acréscimo de conhecimento de outras áreas para todos. Menciono, ainda, a anestesia em cirurgia dermatológica que tem agregado tecnologias como, por exemplo, a monitorização do Índice Bi-Espectral (BIS) que consiste no acompanhamento contínuo por eletroencefalogramas do nível de consciência de pacientes com o objetivo de avaliar-se a profundidade anestésica, com benefícios consideráveis principalmente para pacientes idosos, com Alzheimer, ou doenças psiquiátricas.
Departamento de Dermatologia FMUSP: Uma longa história centenária de mestres que se dedicaram à formação de gerações de especialistas que atuam em todo o país e no exterior
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Esta é uma das múltiplas áreas do conhecimento médico a serem dominadas por cirurgiões dermatológicos, o que realça a importância do aprendizado contínuo e amplo. Em resumo, nossa especialidade ultrapassou em muito o escopo clássico do domínio do diagnóstico das doenças tradicionais, como fogo selvagem, hanseníase, sífilis,pênfigo, entre outras que estão nos fundamentos históricos do conhecimento dermatológico. Este segundo século de nossa SBD abre uma janela de oportunidade que permite um vasto horizonte à frente, cujos limites mal começamos a perceber. Felizmente, podemos constatar a qualidade crescente de nossos centros de excelência em serviços que já dispõem de departamentos de laser, cosmiatria, cirurgia dermatológica entre outras áreas do amplo espectro da moderna Dermatologia. Destacamos, entre outros, o Departamento de Dermatologia do HC da FMUSP com suas instalações exemplares e áreas de concentração em cirurgia, laser, psoríase, hanseníase, numa ampla oferta de formação para os dermatologistas. A ampliação das áreas de atuação do dermatologista reflete-se nas exigências da formação e impõe um processo de aprendizado consistente para aqueles que querem ingressar na especialidade. Os exames para a obtenção do título de especialista da SBD - TED têm sido cada vez mais completos, abarcando a especialidade em sua ampla dimensão e, consequentemente, mais desafiadores para os candidatos ao incorporarem questões que cobrem todas as áreas. A qualidade do exame para o TED tem influenciado a formação dos residentes nos serviços que, em geral, têm sido mais eficientes na qualificação dos discípulos, fato que se observa-se nas provas para o título.
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Um arsenal de última geração à disposição do dermatologista
No campo dos equipamentos disponíveis no arsenal do dermatologista, destacam-se várias armas modernas. As fronteiras mais avançadas da ultrassonografia cutânea, por exemplo, que nos permite visões cada vez mais excepcionais em exames de doenças da pele. As imagens em alta resolução oferecidas pelo ultrassom de última geração têm sido utilizadas com maior frequência para a avaliação de várias doenças cutâneas, desempenhando um importante papel complementar ao exame clínico do paciente. Esses exames são particularmente eficazes na avaliação de lesões superficiais muito pequenas para serem avaliadas por outros métodos e trazem o benefício adicional de reduzirem a necessidade de procedimentos invasivos, como biópsias, por exemplo. Em cirurgias do couro cabeludo, por exemplo, o ultrassom ajuda a conhecer a vascularização dos tumores e permite a adoção prévia dos cuidados necessários. O reconhecimento da capacidade do cirurgião dermatológico tem se refletido no crescimento do número de cirurgias realizadas por este especialista, em consequência dos resultados marcantes e dos níveis de sofisticação crescentes. Em síntese, nossa velha e boa Dermatologia tem passado por um processo de transformação que caminha em ritmo acelerado e tem a dimensão do sonho, num processo crescente de transformação. A tecnologia de laser, para mencionar um campo onde os avanços são notáveis, tem apresentado produtos surpreendentes. No quesito dos medicamentos, novos produtos têm sido postos à disposição dos especialistas a um ritmo que
impõe um desafio permanente ao aprendizado e acompanhamento das inovações, como os imunobiológicos, a terapia tópica de algumas neoplasias cutâneas e os novos medicamentos no tratamento multidisciplinar do melanoma e outros tumores agressivos da pele. O dermatologista deve cultivar, portanto, uma cultura geral ampla, tanto no campo da Medicina como no âmbito de sua inserção na sociedade, que lhe permita acompanhar e entender os anseios das pessoas. O acesso às informações é muito mais aberto, neste segundo século. A consulta às bibliotecas tornou-se mais amigável com as possibilidades oferecidas pela internet. A oferta de cursos e congressos cresceu tanto que exige debruçar-se sobre a análise cuidadosa do que oferecem. Neste particular, os eventos científicos da especialidade promovidos no Brasil rivalizam-se, ou são superiores, aos melhores oferecidos em outros países.
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Destacamos, particularmente, a introdução crescente, em nossos eventos, de tecnologia de vanguarda em comunicação que permite o acompanhamento de tratamentos em tempo real, com procedimentos descritos pelos médicos e debatidos com a plateia de especialistas. Experts estrangeiros que participam dos congressos brasileiros surpreendem-se com a excelência das apresentações e nosso domínio do conteúdo. Esses movimentos influenciam positivamente a formação sólida do dermatologista. Os avanços estão aí, expostos na mídia e martelados por intenso marketing de novidades. É preciso, nesse ambiente de euforia, estarmos alertas às armadilhas embutidas em falsas tecnologias, sem embasamento científico, sem fundamentos em publicações reconhecidas. E, particularmente, à influência da propaganda e dos meios de comunicação que, por vezes, induzem o paciente a fazer seu próprio diagnóstico, expondo-se a riscos.
Pesquisa, um campo ainda a ser
mais desenvolvido pela Dermatologia Neste segundo século da caminhada de nossa SBD impõe-se um olhar mais cuidadoso sobre a sempre presente questão da pesquisa, ainda incipiente e com verbas inadequadas para estimular e reter pesquisadores e cientistas. Temos registros históricos importantes na área de pesquisa de doenças tropicais e endêmicas, com marcos extraordinários em nossa linha do tempo. Pontualmente, graças aos esforços de alguns expoentes que atuam em nossas universidades, temos, também, registros importantes nas áreas de imunologia, patologia, cirurgia, doen156 - SOCIEDADE BRASILEIRA DE DERMATOLOGIA
ças autoimunes, entre outras, Mas é preciso muito mais. É preciso agilizar o lento processo que se observa nos comitês de ética para a aprovação de pesquisas. É imperioso, também, melhorar a remuneração dos pesquisadores, bem como aumentar a velocidade da liberação de medicamentos importantes. O pesquisador brasileiro é incapaz de viver apenas de seus vencimentos de pesquisa, numa dura contraposição à situação dos institutos de países mais avançados. Contam-se nos dedos de uma mão os centros brasileiros que oferecem estruturas de ponta que permitem carreiras dedicadas exclusivamente à atividade científica, como é o caso da Unesp, em Botucatu, para citar um exemplo. A SBD e a Regional São Paulo desenvolvem programas de incentivo à pesquisa, no âmbito de suas competências e segundo suas disponibilidades financeiras. Esses apoios tem sido importantes para projetos pontuais. A RESP, por meio do Funadersp – Fundo de Apoio à Dermatologia de São Paulo - Sebastião Sampaio tem atendido serviços credenciados, departamentos de Dermatologia de faculdades de Medicina e associados com apoios a projetos científicos, reciclagem profissional e fundos para a melhoria da estrutura de ensino. Mas o papel firme do estado e das indústrias é indispensável para que a pesquisa entre num curso firme, duradouro para que possa oferecer resultados significativos para a comunidade. A SBD e as regionais têm liderado, também, ações sociais de grande impacto. Destaco um dos mais recentes promovido junto à comunidade de Araras, no interior de Goiás envolvendo a assistência a doentes portadores de xeroderma pigmentoso, com resultados que refletem-se, também, na pesquisa. A tradicional Campanha de Prevenção do Câncer de Pele já ocupa espaço importante no calendário médico social e consagra-se como o mais importante movimento público nesta área. A questão da captação de recursos é problema per-
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manente que tem sido equacionado, na medida do possível, com o apoio da indústria. Essa presença institucional dá-se na forma de incentivos a congressos, a eventos de ensino e a ações sociais que beneficiam a comunidade. A Sociedade tem empreendido esforços visando a sensibilizar empresas de outros setores, além do farmacêutico, para causas que envolvem o campo da saúde, como ocorre em outros países. Temos dirigido nossos olhares para setores como o mercado financeiro, a indústria automobilística, grandes empresas estatais que têm tradição de patrocínios a outras áreas de interesse do grande público que envolvem, por exemplo shows musicais e atividades esportivas. O objetivo é despertá-los para o mérito das atividades de apoio à Medicina social e sanitária e ao ensino, entre outras áreas. Na Regional São Paulo registramos um primeiro movimento virtuoso nesta direção no apoio à SBD e à SBD/ RESP na Campanha do Xeroderma Pigmentoso.
Um dos programas sociais à espera de uma liderança eficaz é o acompanhamento sanitário de imigrantes e refugiados que, em números crescentes, têm chegado ao Brasil. São grupos provenientes de regiões onde registram-se doenças endêmicas importantes, muitas das quais com manifestações cutâneas que não recebem a devida atenção nos pontos de entrada e no acompanhamento pós fixação das pessoas no país. Trata-se de um espaço onde a expertise da SBD/ RESP poderá exercer um papel decisivo por meio de seus serviços credenciados e hospitais universitários. O problema da entrada de grupos com doenças especificas de suas regiões de origem e que se encontram controladas nos países receptores tem sido observado com apreensão pelas autoridades sanitárias. Leishmaniose, tuberculose cutânea, sífilis, têm sido detectadas, em países onde raramente eram registrados esses casos antes do êxodo dessas populações.
Uma das ações mais emblemáticas da SBD, em 2015, ocorreu no estado de Goiás, no povoado de Araras, município de Faina, a 280 quilômetros de Goiânia
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Outra bandeira à espera de líderes capazes de empunhá-la é a internacionalização da Dermatologia brasileira. A presença brasileira poderia crescer, inicialmente, junto a nossos vizinhos latino-americanos por meio do aumento do intercâmbio de residentes e especialistas de centros de referência dos países da região. Essa influência poderia irradiar-se para outros centros internacionais. A SBD é a segunda maior instituição associativa do setor no mundo. Nosso prestígio e influência poderiam avançar a partir de nossos institutos de excelência, a começar pelo fortalecimento do intercâmbio de conhecimentos em doenças tropicais, resgatando o papel histórico que temos construído a partir do legado de grandes mestres da Dermatologia brasileira.
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Temos nichos de ponta, também, em cirurgia dermatológica, cosmiatria e no domínio de modernas técnicas de comunicação científica em aulas com procedimentos realizados em tempo real. Dermatologistas de renome mundial que visitam o Brasil impressionam-se com nossos avanços. Esse estreitamento de laços com a comunidade dermatológica mundial valorizará a Dermatologia brasileira em nosso próprio país e a fará mais conhecida em centros importantes de todo o mundo com resultados que poderão ser fruídos por nossos especialistas tanto em termos de oportunidades para acesso a conhecimento, como para a divulgação da competência de nossos profissionais na comunidade mundial que, cada vez, mais dirige-se a outros países para a realização de procedimentos. O Brasil é um polo de atração que poderá beneficiar-se desse incremento da exposição de suas competências médicas no exterior.
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CURSO AVANÇADO DE ANATOMIA CAPACITA ESPECIALISTAS BRASILEIROS
U
ma fórmula bem sucedida e avançada de educação médica continuada, acoplada ao meeting da Academia Americana de Dermatologia, tem atraído dermatologistas brasileiros, titulados pela SBD, para aprendizado em universidades da chamada Ivy League. Trata-se de um substancioso curso de anatomia em cadáveres frescos com foco em aprimoramento de técnicas cosmiátricas e de cirurgia dermatológica. A iniciativa liderada pelo Dr. Rainaldo Tovo e Dr. Gabriel Gontijo, maximiza a presença de dermatologistas brasileiros nos congressos da AAD. A chegada dos congressistas é antecipada em um dia para que
possam participar dessa oportunidade ímpar, com custos que se tornam mais acessíveis diante da presença dos interessados nos Estados Unidos. Os cursos de anatomia em cadáver fresco realizados na Universidade de Denver, no Colorado; Universidade de Stanford, na Califórnia, e no Instituto de Engenharia Anatômica de Washington, nos Estados Unidos, foram uma inovação que, com muito trabalho, tempo dispendido e afinco, com o apoio da Regional São Paulo, que presidi entre 2015 e 2016, bem como da SBD, conseguimos realizar. A anatomia visando à cirurgia e procedimentos cosmiátricos, dissecando peças anatômicas como a face e as mãos foram, pela primeira vez, oferecidas pela SBD e SBD/RESP a seus associados. O estudo da anatomia em cadáveres considerados frescos, congelados e descongelados sob técnicas especificas, fazem este estudo único e primordial no aprendizado do cirurgião dermatológico. Os cursos são conduzidos por experts americanos e professores brasileiros com competência reconhecida na área cirúrgica. A programação utiliza tecnologias e material de ponta e certificados de participação, chancelados pelos promotores, são conferidos ao final do curso. O curso internacional é parte da estratégia da SBD e SBD/RESP de investir na formação do dermatologista brasileiro, com tecnologia atualizada e visão de futuro. Anatomia é uma disciplina normalmente oferecida no primeiro ano da faculdade. Só muito mais tarde, em situações excepcionais e em cursos de especialização, esses conteúdos serão, eventualmente, revisitados. Esta é uma disciplina fundamental para a realização de procedimentos cirúrgicos cutâneos e cosmiátricos. SOCIEDADE BRASILEIRA DE DERMATOLOGIA - 159
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A SBD e a SBD/RESP assumiram a liderança de promover cursos avançados de anatomia em cadáveres frescos diante das extraordinárias possibilidades de pesquisa e ensino que se abrem ao possibilitarem a visualização de áreas importantes para procedimentos, como as gorduras, enervação e fáscias musculares. O acesso a estas estruturas permite um diferencial precioso, comparando-se à tradicional dissecação em cadáveres conservados em formol nos quais as cores esmaecem e há substancial perda de fluídos, o que dificulta o avanço da pesquisa em situações próximas das reais. Os participantes têm acesso a segmentos cefálicos - cabeça e pescoço - com instrução simultânea em grupos de apenas dois, cada um com oportunidade para dissecar uma hemiface. Além da parte teórica, são desenvolvidos exercícios práticos focados na visualização da enervação e vascularização e na acurada identificação dos pontos de bloqueios anestésicos, regiões que demandam conhecimento e atenção do cirurgião dermatológico, entre outros aspectos dos procedimentos. Um dos pontos altos dos exercícios consiste na recapitulação de conceitos básicos anatômicos da cirurgia dermatológica e procedimentos cosmiátricos, entre os quais os preenchimentos, a aplicação e avaliação da ação da toxina botulínica, entre outros.
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O curso oferece, ainda, conhecimentos de ponta a respeito de procedimentos que estão no futuro próximo da especialidade, como o uso de ultrassom em procedimentos dermatológicos que, embora signifiquem um grande avanço, embutem riscos de danos à enervação mais superficial, se não conduzidos por profissionais treinados. O rejuvenescimento de mãos, um dos pontos de interesse crescente das clínicas dermatológicas, é outro segmento atendido pelo curso. As aulas permitem que os dermatologistas vejam com precisão os locais onde devem ser aplicados preenchimentos e onde são feitos os bloqueios ao utilizar-se a toxina botulínica, por exemplo, na hiperidrose, entre outros procedimentos. O curso internacional de anatomia é aberto, exclusivamente, a associados da SBD, isto é, a médicos com titulo de especialista em Dermatologia, além de residentes de serviços credenciados da SBD. Esta iniciativa veio marcar um avanço importante para o estudo de técnicas cirúrgicas e cosmiátricas, diante da impossibilidade de realizar-se estas atividades no Brasil. i Dr. Reinaldo Tovo Filho, presidente da SBD-RESP 2015/16
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Capítulo
12
NO CERRADO BRASILEIRO, PESQUISA E CLÍNICA NO ESTADO DA ARTE SOCIEDADE BRASILEIRA DE DERMATOLOGIA - 161
D
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istâncias não serão, certamente, obstáculos para o avanço da Dermatologia brasileira. Num mundo de comunicação em alta velocidade, a pesquisa científica e a última palavra em clínica, cirurgia e cosmiatria têm chegado, com rapidez e qualidade, ao centro-oeste brasileiro, com exemplos notáveis. A disciplina de Dermatologia foi instalada na Universidade Federal de Goiás pelos professores Anuar Auad, Rodovalho Mendes Domenici e Vanderli Dutra, seguidos pelos professores Divino Miguel Rassi e Paulo Cezar Borges. Os doutores Anuar Auad, em 1970, e Divino Miguel Rassi, em 1987 foram presidentes da SBD. O Professor Auad formou-se, em 1951, na Faculdade de Ciências Médicas do Rio de Janeiro, atual UERJ, tendo sido estagiário no serviço do Professor Francisco Eduardo Rabello.
Professor Anuar Auad
Professor Divino Miguel Rassi
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O serviço credenciado de referência que leva o seu nome, o Hospital de Doenças Tropicais Dr. Anuar Auad, fundado em 1977, é uma unidade da secretaria da saúde de Goiás voltada para doenças infecciosas e dermatológicas, entre outras, e presta atendimento, também, em infectologia e Dermatologia sanitária. O Professor Sebastião Sampaio, referência em pênfigo foliáceo, lembra que a doença tinha aspectos endêmicos em Goiás. O Dr. Auad debruçou-se sobre esta questão e assumiu, em 1954, a direção do Hospital do Pênfigo de Goiânia. As pesquisas que realizou fazem parte de tese que defendeu e entraram na literatura científica como marco do conhecimento sobre a doença. O Professor Auad destacou-se no tratamento do vitiligo notabilizando-se mundialmente com pesquisas que permitiram desenvolver medicamento com base no extrato da
Planta nativa do cerrado brasileiro, conhecida como mamica-de-cadela (Brosimum Gaudi Trécul)
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Brosimum Gaudi Trécul, substância extraída da planta nativa do cerrado brasileiro, conhecida como mamica-de-cadela. Sua carreira universitária, que inclui vários prêmios científicos, desenvolveu-se na Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Goiás, onde chegou a chefe da clínica dermatológica e do departamento de medicina tropical e diretor do Instituto de Patologia Tropical. Outro presidente da SBD com raízes em Goiás, o Professor Divino Miguel Rassi, marcou sua gestão 1986/87 pelo aperfeiçoamento da qualidade da educação continuada em Dermatologia. Entre outras ações, estimulou os Anais Brasileiros de Dermatologia para o resgate e publicação de teses da especialidade produzidas no meio acadêmico cujo mérito deveria ser compartilhado com a comunidade científica. O Professor Rassi produziu o Cadastramento Científico para trabalhos de qualquer natureza, através da indexação bibliográfica de autores e temas de interesse por entender que a SBD precisava de um eficiente banco de dados para preencher o seu papel de irradiadora do conhecimento especializado. Uma das ações mais emblemáticas da SBD, em 2015, ocorreu no estado de Goiás, no povoado de Araras, município de Faina, a 280 quilômetros de Goiânia. Nunca visto antes na cidade, um mutirão de atendimento médico que beneficiou centenas de pessoas trouxe cuidados e esperança para portadores de xeroderma pigmentoso. Um dos resultados desta ação foi a criação de um grupo médico de apoio permanente aos pacientes no âmbito do Grape, sob a supervisão do departamento de oncologia cutânea da SBD. A ação local incluiu a coleta de saliva na população para a realização de pesquisas genéticas no laboratório de DNA do departamento de microbiologia da Universidade de São Paulo. Foram atendidas mais de 500 pessoas, com a participação das regionais de Goiás, presidida pelo Dr. Adriano Loyola, e de São Paulo, pelo Dr. Reinaldo Tovo, com apoio SOCIEDADE BRASILEIRA DE DERMATOLOGIA - 163
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do laboratório La Roche Posay. A ação foi coordenada pelo presidente da SBD, Dr. Gabriel Gontijo e Dr. Oswaldo Delfini, com a participação de dermatologistas, geneticistas e oftalmologistas. O projeto Grape - Grupo de Apoio Permanente insere-se no âmbito de atividades da Coordenação de Ações Institucionais da SBD para apoio, orientação e educação em saúde para portadores de doenças da pele que possam comprometer a qualidade de vida e serem excludentes e discriminatórias. A ação em Araras consolidou a criação do Grape-SBD Xeroderma Pigmentoso Araras, GO sob a supervisão da Dra. Sulamita Costa Wirth Chaibub, coordenadora da Dermatologia do Hospital Geral de Goiânia Alberto Rassi, um centro de referência no tratamento da doença com equipe multidisciplinar. O hospital iniciou suas atividades em 1959 como hospital do Inamps e foi transferido para o estado em 1990. Em 2001, passou a atuar como apoio a instituições de en-
Projeto Grape - Grupo de Apoio Permanente Orientação e educação para portadores de doenças cutâneas. Em Goiás, um marco neste segundo século da SBD 164 - SOCIEDADE BRASILEIRA DE DERMATOLOGIA
sino médico e criou suas residências médicas. Desde 2012 tem sido gerenciado pela organização social Idetech - Instituto de Desenvolvimento Tecnológico e Humano. Goiás tem sido um celeiro de especialistas que irradiam conhecimento e técnicas atualizadas por toda a região e participam de congressos e atividades em centros de todo o país. A Dra. Lia Cândida Miranda de Castro, entre outros, graduada pela Universidade Federal de Goiás, com especialização, mestrado e doutorado na FMUSP, é autora de trabalhos inéditos e que tiveram repercussão no país e no exterior sobre as consequências do acidente radiativo com o césio 137 no estado. Em livro da Professora Márcia Ramos-e-Silva publicou capítulo sobre radiodermites e radiação cutânea. Produziu, também, estudos sobre imunidade celular no pênfigo foliáceo e relacionadas à foto-proteção, acne, envelhecimento cutâneo, peelings, preenchimentos entre outros.
Dra. Lia Cândida Miranda de Castro
Mestrado e doutorado na FMUSP, é autora de trabalhos inéditos e que tiveram repercussão no país e no exterior sobre as consequências do acidente radiativo com o césio 137 no estado
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O Dr. Rogério Ranulfo, também formado pela Universidade Federal de Goiás, com especialização no Hospital do Servidor Público de São Paulo e mestrado pela FMUSP é outro atuante dermatologista da geração do secundo século da SBD no estado, autor de vários trabalhos sobre técnicas da especialidade. A SBD-Goiás foi fundada em 1966 pelo Dr. Anuar Auad e colegas, durante Congresso da SBD realizado em Belém do Pará.
Na capital federal, o serviço de Dermatologia do Hospital Universitário de Brasília resultou da fusão do serviço de
Dermatologia do Hospital dos Servidores da União e do Serviço de Dermatologia do Hospital Escola da Unidade Integrada de Saúde de Sobradinho, da Universidade de Brasília. Os expoentes da especialidade à época nesses serviços, os doutores Iphis Campbell, Gladys Campbell, Roberto Doglia Azambuja, Rosicler Álvares, Carmélia Matos Reis, Raimunda Nonata Ribeiro Sampaio, Antônio de Pádua, Ana Maria Costa Pinheiro e Carmen Ribeiro de Paula, entre outros foram, também, os pioneiros na nova capital. A disciplina de Dermatologia foi criada pela UnB em 1971 e a residência médica em 1974 tendo como referência o Hospital do Servidor Público do Estado do Rio de Janeiro. Sua primeira residente foi a Dra. Izelda Carvalho Costa, que veio a ocupar a chefia do serviço dermatológico do Hospital Universitário. Um dos pontos de destaque do processo de consolidação da Dermatologia no planalto central foi o ambulatório de pesquisa em leishmaniose tegumentar americana
Criado pela Professora Raimunda Nonata o ambulatório de pesquisa em leishmaniose tegumentar americana no Hospital Escola de Sobradinho, um destaque dermatológico consolidado no planalto central
A primeira residente de Dermatologia na UnB e que veio a ocupar a chefia do serviço do Hospital Universitário.
Em Brasília, a especialidade com padrão de capital mundial
Dra. Raimunda Nonata Ribeiro Sampaio
Dra. Izelda Carvalho Costa
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criado pela Professora Raimunda Nonata no Hospital Escola de Sobradinho, por estímulo do Professor Philip Davis Marsden, médico britânico especializado em medicina tropical que trabalhava na Universidade de Brasília. Os doutores Rosicler Álvares e Iphis Campbell criaram o ambulatório de pênfigo. Os laboratórios de hanseníase, criocirurgia e micoses, psoríase e envelhecimento cutâneo, dermatologia pediátrica e tumores cutâneos foram estabelecidos pelas doutoras Rosicler Álvares, Carmélia Matos Reis, Raimunda Nonata, Gladys Campbell, Izelda Carvalho Costa e Ana Maria Costa Pinheiro. Em 1999, por iniciativa da Professora Raimunda Nonata, foi criada a unidade de doenças sexualmente transmissíveis. Um dos construtores das bases da moderna Dermatologia na capital, o Professor Roberto Azambuja, chegou em Brasília em 1967, vindo do Rio de Janeiro. À época, havia três dermatologistas na cidades, os doutores Jorge Gouveia do Nascimento, Juracy Cota e Celso Fernandes do
Dr. Iphis Campbell
Pesquisador de doenças bolhosas, como o pênfigo
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Prado. Em 1970, com um grupo maior de especialistas no Distrito Federal, foi criada a regional da SBD cujo primeiro presidente foi o Dr. Jorge Gouveia. Em 1972 foi realizado concurso para o hospital universitário, tendo sido aprovados os doutores Iphis Campell e Gladys Martins, fundadores do serviço de Dermatologia na instituição. Em 1974, criaram a residência médica. Na mesma época foi instalado o Hospital das Forças Armadas. Em 1975, a SBD-DF associou-se à SBD Goiás para promover uma reunião conjunta, duas vezes por ano, que veio a transformar-se na Radeco - Reunião Anual dos Dermatologistas do CentroOeste. Pouco a pouco, como recorda o Professor Roberto Azambuja, novos dermatologistas foram chegando por meio dos diversos órgãos governamentais do Distrito Federal. No começo da década de 70, havia necessidade de professor de
Dr. Roberto Doglia Azambuja
Dedicação sobre o estudo do vitiligo e a psicodermatologia
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Dermatologia na faculdade de medicina e o diretor buscou apoio com o secretário da saúde. O Dr. Roberto Azambuja, diretor do hospital do Gama, convidado pelo secretário, iniciou o curso no hospital de Sobradinho para alunos de graduação. Em 1974, o professor Roberto Azambuja foi estudar em Viena, Áustria. Após o seu retorno, entrou em funcionamento o Hospital dos Servidores da União. Um casal de renomados especialistas de Brasília, os professores Iphis e Gladys Campbell, criou a residência em Dermatologia, credenciada pela SBD, tendo iniciado com uma única residente, a Professora Izelda Carvalho. Em 1976, o Professor Azambuja prestou concurso e ingressou no hospital, onde foi constituído um produtivo grupo de dermatologistas. Em seguida, o Hospital das Forças Armadas formou seu grupo de especialistas e instalou a residência. Expoente da especialidade, a Professora Raimunda Nonata Ribeiro Sampaio, graduada em medicina pela Uni-
versidade Federal do Maranhão, com residência no Hospital dos Servidores do Estado do Rio de Janeiro, mestrado pela Universidade Federal de Minas Gerais e doutorado pela EPM/Unifesp, é reconhecida como pesquisadora com foco em leishmaniose. A pesquisa científica marcou a linha do tempo, em Brasília, também com o Professor Iphis Campbell, pesquisador de doenças bolhosas, como o pênfigo, enquanto o Professor Roberto Azambuja debruçava-se sobre o estudo do vitiligo e a psicodermatologia. Posteriormente, foi criada a faculdade de medicina do governo do Distrito Federal com curso voltado para a formação comunitária. Novas gerações destacam-se, também, na construção da moderna especialidade no planalto central. O Dr. Gilvan Ferreira Alves, presidente do 68º Congresso da SBD, realizado em Brasília, em 2013, formado na UFMG, fez sua residência em clínica médica no Hospital Regional da Asa
Livro registra a história centenária da Dermatologia em Mato Grosso, a partir de 1816
Presidente do 68o Congresso Brasileiro de Dermatologia
Dr. Edson Virgílio Martins
Dr. Gilvan Ferreira Alves
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Norte, em Brasília e, em seguida, decolou para o exterior, na tradição dos mestres brasileiros que buscaram especializar nos centros dermatológicos de ponta. O Dr. Gilvan optou por Londres, onde cumpriu residência em Dermatologia no St. John’s Institute of Dermatology e mestrado no St. Thomas Hospital, na Universidade de Londres, revalidado na UFMG. De volta ao Brasil, abriu espaços em áreas clínicas e de alta tecnologia que marcam este segundo século da SBD.
Livro registra evolução da
especialidade em Mato Grosso Em Mato Grosso, a partir de 1990, o Dr. Edson Virgílio Martins desempenhou papel fundamental no desenvolvimento da Especialidade. Foi ele quem reuniu os dermatologistas do estado na Policlínica da Polícia Militar do Estado para estabelecer um calendário de reuniões mensais, movimento que se fortaleceu com a criação, em 1993, da Regional de Mato Grosso. O Dr. Virgilio deixou uma obra inédita sobre essa saga - Dermatologia em Mato Grosso, 1816 a 2012. História, Memória, Fatos. O livro comemorou os 20 anos da SBD-MT O autor recorda os primórdios da lepra no estado, o internamento compulsório dos doentes e a atividade do Hospital São João dos Lázaros, de Cuiabá, que existiu até a década de 1960, quando foi desativado e demolido. Um marco importante da linha do tempo foi a criação do ambulatório de Dermatologia do Hospital Universitário Júlio Muller da Universidade Federal de Mato Grosso, inaugurado em 2008, com o apoio da regional, o primeiro centro de referência da especialidade no estado. 168 - SOCIEDADE BRASILEIRA DE DERMATOLOGIA
Um alemão no Brasil e a
especialidade no Centro-Oeste Günter Hans nasceu na Alemanha, em 1924. Aos 12 anos de idade, em 1936, desembarcou com a família no Rio de Janeiro, quando a Europa sentia os primeiros movimentos que antecederam a II Guerra Mundial. A família seguiu para o interior do Paraná e, ao completar 17 anos de idade, o jovem Günter vem para São Paulo para estudar, como bolsista, no Colégio Adventista Brasileiro. Em 1952, formou-se em história natural na Universidade Federal do Paraná e iniciou a Faculdade de Medicina, graduando-se em 1957, vindo, em seguida para São Paulo onde especializou-se em cirurgia geral pela Faculdade de Medicina da Santa Casa.
Dr. Günter Hans médico-missionário no Hospital Mato-Grossense do Pênfigo
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Atendendo a pedido de sua mãe, ofereceu-se como médico-missionário para trabalhar no Hospital Mato-Grossense do Pênfigo, atualmente Hospital Adventista do Pênfigo, onde exerceu as funções de diretor clínico e administrativo. A dedicação pessoal e a competência administrativa possibilitaram que o Dr. Günter fosse bem sucedido em seus esforços de ampliação e modernização do hospital e executasse um novo projeto cujas instalações foram inauguradas em 1966 com infraestrutura básica para atendimento de doentes de fogo selvagem. Este projeto contou com o apoio do Ministério da Saúde, governos estadual e municipal, da organização adventista e da Agência de Recursos do Governo da Alemanha para Ajuda a Países em Desenvolvimento, intermediada pelos padres franciscanos.
Dr. Günter Hans Filho
Uma geração de dermatologistas com visão social e uma folha de serviços dedicados à comunidade
Em 1974, o Dr. Günter desligou-se do Hospital do Pênfigo e ingressou no Hospital São Julião, instituição de referência em hanseníase, onde foi médico e diretor-clínico. Em 1969 ingressou no quadro docente pioneiro da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, responsável pelas cadeiras de Dermatologia e moléstias infectocontagiosas onde destacou-se com trabalhos científicos. O Professor Sebastião Sampaio, em artigo publicado em 1994 nos Anais Brasileiros de Dermatologia, lembra um episódio notável da atividade profissional do Dr. Günter. “Nada o impedia de cumprir o que julgava sua obrigação”, disse o Professor Sampaio a respeito do Professor Günter. “Assim foi seu título de especialista na Sociedade Brasileira de Dermatologia. Com a saúde precária, julgou do seu dever, porque não solicitara o título na época, fazer o exame de especialista” Aos 49 anos de idade e 16 anos de exercício da especialidade, decidiu submeter-se ao exame, tendo sido aprovado, em 1973, ao lado de dezenas de jovens residentes recém-formados. O exame prestado pelo Dr.Günter, registrou o Professor Sampaio, foi “um marco dignificante, perene e admirável de coragem, honestidade, esforço e capacidade, na história da obtenção do título da Sociedade Brasileira de Dermatologia. Quero registrar a admiração e reconhecimento dos dermatologistas brasileiros pelo que idealizou e realizou Günter Hans”. O Dr. Günter Hans Filho, seguidor e continuador da carreira do pai, nascido em Curitiba, em 1954, mudou-se com a família para Campo Grande, MS, em 1960. Formou-se em Medicina na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul e, desde os tempos de estudante, colaborava com o Asilo dos Velhos de Campo Grande. Cursou a residência médica em medicina interna no Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Paraná, SOCIEDADE BRASILEIRA DE DERMATOLOGIA - 169
O SEGUNDO SÉCULO - AS GRANDES VEREDAS DE UMA SOCIEDADE CENTENÁRIA
em Curitiba, e Dermatologia no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, sob a liderança do Professor Sampaio. A partir de 1984, inicia sua atividade como docente em Dermatologia no curso de medicina da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul. Trabalhou no Hospital São Julião, referência em hanseníase, entre 1984 e 1991, e ofereceu consultoria técnica à Secretaria de Estado de Saúde ministrando cursos de capacitação em hanseníase para profissionais de saúde em Mato Grosso do Sul, Mato Grosso e Santa Catarina. Fez mestrado no serviço de Dermatologia da Escola Paulista de Medicina/Unifesp, em 1990/92, sob a orientação do Professor Raymundo Martins Castro. Doutorou-se em Dermatologia no HC-FMUSP, sob orientação do Professor Evandro Rivitti, tendo desenvolvido pesquisas de fogo selvagem entre indígenas terena da Aldeia Limão Verde, considerada a mais importante área de estudo desta doença no mundo. Desde 1994, estão concentradas nesta aldeia pesquisas sob coordenação do Professor Luís A. Diaz, em parceria com UFMS, USP, UNC (University of North Carolina) e o Grupo Cooperativo para Pesquisa da Etiologia do Fogo Selvagem, que tem produzido numerosas publicações científicas. O ambulatório de Dermatologia era compartilhado em duas salas no ambulatório de clínica médica do Hospital Universitário Maria Aparecida Pedrossian, da Universidade Federal de Mato Grosso. O serviço foi progressivamente sendo ampliado e tornou-se referência em Dermatologia. Em 2006, foi implantado o programa de residência médica em Dermatologia. Em 2002, na gestão do Dr. Pedro Lúcio na SBD-MS, sendo o Dr. Alfredo Marquart Filho coordenador regional do Programa de Câncer de Pele da SBD-MS, foi sancionada lei estadual que institui o programa de tratamento do câncer da pele em Mato Grosso do Sul, que marca o estado 170 - SOCIEDADE BRASILEIRA DE DERMATOLOGIA
como pioneiro no Brasil neste tipo de legislação. Em 2005, o Professor Günter identificou o primeiro caso de fogo selvagem neonatal em recém-nato filho de mãe com importante atividade clínico-laboratorial. Em 2007, detectou uma família numerosa com quatro gerações apresentando amiloidose cutânea, familiar na região sul do estado, contribuindo com pesquisa do Professor John McGrath, da University of London, no esclarecimento da alteração genética.
Mato Grosso do Sul e o crescimento do
fogo selvagem. Os tratamentos
Uma das dermatoses mais prevalentes em Mato Grosso do Sul é o fogo selvagem, ou pênfigo foliáceo endêmico. Em 1937, o Exército Brasileiro, graças aos esforços do primeiro-tenente médico Castro, em Ponta Porã, impressionado pelo número de doentes na região, sugeriu a implantação de um hospital para fogo selvagem na cidade. Assim, em 1942, dois hospitais para tratamento da doença existiam no Brasil - o Hospital Adhemar de Barros, em São Paulo e o de Ponta Porã. Em 1949, é inaugurado, em Campo Grande, o Hospital Mato-Grossense do Pênfigo, depois denominado Hospital Adventista do Pênfigo. Registra a história que a esposa do pastor adventista Alfredo Barbosa havia contraído fogo selvagem e se curado após utilizar um produto à base de piche. A experiência repetiu-se com outros doentes. O produto - Jamarsan - foi desenvolvido por Isidoro Jamar, um alemão que tinha noções de química e que havia morado na Argentina e no Paraguai. O tratamento para a doença atraiu mais pacientes,
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tendo sido construído um hospital para atender a demanda. Em 1955, um dermatologista americano acompanhou neste hospital a evolução dos pacientes tratados com o produto e mencionou em seu trabalho que a terapia controlava, ou curava, ao redor de 65% dos doentes. Quando o Professor Günter Hans assumiu o Hospital do Pênfigo, encaminhou o produto para análise na USP, tendo sido constatado ser cancerígeno em experimentos animais. A partir de então não foi mais usado o derivado de coaltar na fórmula. Com o advento da corticoterapia, esta passou ser a opção principal de tratamento. De qualquer forma, a fama deste hospital com a proposta tópica para o tratamento da dermatose bolhosa potencialmente fatal, extrapolou fronteiras nacionais e internacionais, como diz o Professor Günter Hans Filho. Em 1969, foi realizado o I Encontro Nacional de Pênfigo no Hospital Adventista do Pênfigo, sob a coordenação do Professor Günter Hans e as presenças, entre outros, dos professores Raymundo Martins Castro, Sebastião Sampaio,
Valter Vasconcelos, Maria Aparecida e Anuar Auad. Em 1993, o enfermeiro Vandir dos Santos realizou pesquisa para detectar hanseníase entre indígenas terena em aldeias próximas de Aquidauana, MS. Sob a orientação do Professor Günter Hans Filho, Vandir avaliou o perfil clínico e as dermatoses dos terenas, sob supervisão de médico clínico geral, ou dermatologista. Entre nove aldeias, a Limão Verde apresentou onze pacientes com FS que foram acompanhados no Hospital Adventista do Pênfigo, mediante convênio com a Funai. Em 1994, sob a coordenação do Professor Luiz A. Diaz, eminente pesquisador de dermatoses imuno-bolhosas, radicado nos Estados Unidos, iniciou-se uma parceria envolvendo as universidades Federal de Mato Grosso do Sul, de São Paulo e de Wisconsin, depois transferida para a Universidade da Carolina do Norte; além do Grupo Cooperativo para Pesquisa da Etiologia do Fogo Selvagem.
SOCIEDADE BRASILEIRA DE DERMATOLOGIA - 171
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A aldeia Limão Verde constitui-se num verdadeiro laboratório de pesquisas e um local ideal para estudo investigativo do fogo selvagem. Como informa o Professor Günter Filho, a prevalência de FS é extraordinariamente alta - ao redor de 3,6% - e a população é geneticamente homogênea, com índice mínimo de migração. A reserva, geograficamente delimitada, localiza-se próxima de infraestrutura logística para pesquisa e fácil acesso rodoviário. Passo a passo a pesquisa avança, com grande expectativa para, brevemente, detectar os agentes causais do fogo selvagem, resume o Professor Günter. i
Indígenas terena da Aldeia Limão Verde Centro de interesse internacional para a pesquisa e tratamento do fogo selvagem, no centro-oeste brasileiro 172 - SOCIEDADE BRASILEIRA DE DERMATOLOGIA
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Capítulo
13
A DESCENTRALIZAÇÃO E OS NOVOS CENTROS DE EXCELÊNCIA SOCIEDADE BRASILEIRA DE DERMATOLOGIA - 173
B
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otucatu, na região central do estado de São Paulo, completou 140 anos de fundação em 2016. A cidade surgiu a partir de uma nova fronteira agrícola para abrir espaços para a cultura do café que se instalava com o trabalho de imigrantes italianos. Ao longo deste primeiro século da SBD, o perfil da cidade foi redesenhado para incorporar atividades industriais, prestação de serviços e, sobretudo, vastos contingentes de estudantes em suas novas faculdades. Nichos de excelência acadêmica, que seguiram a esteira do desenvolvimento econômico, têm florescido no Sul-Sudeste e ampliam-se para outros estados brasileiros, elaborando, desta forma, um sistema nacional de distribuição do saber. A FCMBB - Faculdade de Ciências Médicas e Biológicas de Botucatu foi criada, em 1963, como instituto isolado do estado de São Paulo. Com a fundação da Unesp - Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, em 1976, a instituição adquiriu a sua denominação atual FMB - Faculdade de Medicina de Botucatu. O primeiro curso de Dermatologia foi ministrado em 1966 com a participação de um grupo de professores do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo liderado pelo Professor Raymundo Martins Castro e com o apoio dos doutores Neuza Lima Dillon, Luiz Henrique Camargo Paschoal, Ceci Barros e do estagiário Jorge José de Souza Filho. No ano seguinte, em 1967, a Professora Neuza Lima Dillon foi convidada a montar o serviço de Dermatologia, em Botucatu. O primeiro curso ocorreu em agosto de 1967 com a colaboração do Professor Norberto Belliboni, dos residentes Evandro Rivitti e José Eduardo Costa Martins e dos estagiários Alberto Eduardo Cox Cardoso e Antonio Gorgo174 - SOCIEDADE BRASILEIRA DE DERMATOLOGIA
sinho, do HC/FMUSP e do Dr. Diltor Wladimir Araújo Opromolla, do Hospital Aymorés, de Bauru. A Professora Neusa lançou-se à tarefa de construir um serviço à semelhança da Dermatologia da FMUSP e o primeiro programa residência médica do interior de São Paulo, o que ocorreu em 1970. Uma participação importante na construção deste projeto tem sido desempenhado pelo Instituto Lauro de Souza Lima de Bauru, antigo Hospital Colônia Aymorés, através do apoio de seus médicos e pesquisadores, simbolizados pela figura de uma de suas mais ilustres personalidades, o Professor Diltor Opromolla.
Professor Diltor Opromolla
No Instituto Lauro de Souza Lima, em Bauru, um acervo de conhecimento dermatológico reconhecido mundialmente
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A FMB tem crescido e se projetado desde então, com linhas de pesquisa importantes que incluem oncologia, dermatologia infecciosa, micologia, hansenologia, animais peçonhentos, acidentes com animais aquáticos, imunologia, terapia fotodinâmica, úlceras e curativos, cosmiatria, dermatoses bolhosas e psoríase, entre outros campos de interesse. Neste cenário destaca-se, entre outros mestres, o Professor Vidal Haddad Júnior, por seu trabalho científico e apoio à comunidade no campo da Dermatologia e Zoologia Aplicada em áreas como animais marinhos e fluviais peçonhentos, venenosos e traumatizantes, composição e fracionamento de venenos e aspectos clínicos e terapêuticos de acidentes com esses animais. Sua atividade inclui apoio à saúde coletiva de comunidade de pescadores.
Professor Vidal Haddad Júnior
Pesquisadas inovadoras e trabalho comunitário, marcos na linha do tempo da SBD construídos no interior do país SOCIEDADE BRASILEIRA DE DERMATOLOGIA - 175
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O Professor Haddad graduou-se em medicina pela UFRJ, com mestrado e doutorado pela EPM/Unifesp. As atividades de cirurgia dermatológica e cosmiatria constituem outros pontos de referência do serviço dermatológico da FMB. A partir da década de 50, novas faculdades de medicina começaram a ser criadas fora das grandes metrópoles. A democratização das oportunidades de acesso à formação médica foram bem-vindas, mas trouxeram, também, o desafio de oferecer qualidade de ensino por meio de um corpo docente qualificado.
Pesquisa básica em Dermatologia, uma exigência para destacar-se
O Professor Sílvio de Alencar Marques, ao lançar o olhar para os mestres da especialidade no primeiro século da SBD menciona, com especial reconhecimento, personalidades que se destacaram na pesquisa. Neste cenário, Adolpho Lutz tem papel de relevo, como sanitarista que atuava em Dermatologia. Outro símbolo deste início foi o Professor Jorge Lobo. Na década de 30, o Professor João de Aguiar Pupo, foi um dos precursores da moderna Dermatologia no Brasil, como avalia o Professor Sílvio. Estes patronos da especialidade foram seguidos pelo Professor Sebastião Sampaio, que transformou, de forma definitiva, a Dermatologia brasileira, a partir da década de 50. Juntam-se ao Professor Sampaio outros nomes de vanguarda que marcaram essa linha do tempo, entre os quais os professores João Ramos-e-Silva e, posteriormente, Raymundo Martins Castro. No Rio, destaca-se a grande liderança exercida pelo Professor Rubem David Azulay que, com o Professor Sam176 - SOCIEDADE BRASILEIRA DE DERMATOLOGIA
paio, em São Paulo, foram os dínamos que impulsionaram a especialidade a partir de meados do primeiro século da SBD. O Professor Carlos Lacaz, registra o Professor Sílvio, foi uma das principais referências mundiais em micologia, entre outras áreas da medicina, e alinha-se entre os expoentes que se debruçaram sobre doenças da pele. Entre as personalidades mais recentes, elenca os professores Evandro Rivitti, João Gontijo, Tancredo Furtado, Neusa Dillon e Ditor Opromolla, um dos mais importantes hansenologistas das últimas décadas. A pesquisa, como avalia o Professor Sílvio, tem registros históricos importantes, grande parte deles em pesquisa descritiva e epidemiológica. Há espaços importante para evolução em pesquisas de laboratório, que distinguem esta atividade na Europa, Estados Unidos e Japão, entre outros países.
Professor Sílvio de Alencar Marques
Pesquisa de laboratório, um campo a ser explorado. Biologia molecular e outras tecnologias abrem vastos espaços
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Na raiz das dificuldades do sistema de ensino brasileiro, identifica a pouca valorização das carreiras voltadas para pesquisa. Há campos importantes a serem explorados como, por exemplo, o domínio da tecnologia da biologia molecular para que possamos ingressar decisivamente na produção de medicamentos biológicos que abrem um vasto espaço para aplicação em Dermatologia Entre os centros de pesquisa brasileiros, o Professor Sílvio destaca o trabalho da USP de Ribeirão Preto, que tem construído uma tradição, bem como a centenária Fiocruz, outra referência mundial, no Rio de Janeiro. Com a pesquisa como plataforma, a Dermatologia brasileira poderia dar o grande salto e alçar voos desafiadores neste segundo século da SBD, qualificando-se para desenvolver trabalhos de ponta em pesquisa, bem como cooperar em investigações feitas no exterior.
Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto SOCIEDADE BRASILEIRA DE DERMATOLOGIA - 177
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O Professor Sílvio destaca nossa vocação em Dermatologia Tropical, um dos pilares da especialidade no Brasil. Esta área reúne as credenciais necessárias para a transição definitiva do descritivo e epidemiológico para a investigação molecular atualizada em tecnologia, o que demanda, necessariamente, recursos financeiros e humanos. A Dermatologia Sanitária é outra questão a preocupar. Na estrutura dos grandes centros de saúde, o papel do dermatologista sanitário tem importância fundamental e, para muitos residentes, no passado, o primeiro emprego, por vezes, era nessas funções.
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Os dermatologistas sanitários, destaca o Professor Sílvio, são importantes para identificar e encaminhar casos de interesse para os serviços universitários. Como estão próximos da população, são os primeiros a diagnosticar leishmaniose e outras enfermidades. A hanseníase é outro campo tradicional do dermatologista, que permanece na formação de residentes e na graduação. Entretanto, do ponto de vista prático, os dermatologistas estão se afastando da pesquisa e tratamento desta doença. No Instituto Lauro de Souza Lima, em Bauru, centro de referência mundial em hanseníase, eram
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muitos os dermatologistas, há algumas décadas, número que tem se reduzido. A formação do dermatologista tem preocupado o Professor Sílvio. Ele lamenta que, em geral, apenas as grandes escolas públicas mais antigas oferecem uma carga horária de ensino minimamente adequada para a graduação, em Dermatologia. Algumas novas escolas de medicina não estariam oferecendo a especialidade na graduação, pois não há exigência de um currículo mínimo, mas diretrizes gerais para as grandes áreas da medicina. Esta situação leva estudantes interessados na especialidade a buscarem estágio em escolas que a oferecem. O ensino da Dermatologia para o médico geral parece, portanto, estar perdendo espaço. A consequência alarmante é que novos médicos podem estar completando seu período de graduação menos preparados para questões relacionadas com doenças de pele.
Na residência, são cumpridos, em geral, dois anos de capacitação em Dermatologia. Trata-se de carga horária inferior à adotada nos Estados Unidos e países europeus nos quais os períodos de residência para Dermatologia são de quatro a cinco anos. Jovens médicos interessados em Dermatologia, ao terminarem seus períodos de residência, têm procurado períodos adicionais de estágio, com foco em doenças da pele. O Professor Sílvio Alencar Marques tem se empenhado na construção de um sólido programa de Educação Médica Continuada em Dermatologia. Este empenho teve ênfase na gestão do Professor Iphis Campbell na presidência da SBD e permanece como um ponto importante das estratégias da Sociedade. O Professor Sílvio coordenou uma comissão que contou com a participação dos professores Jarbas Porto, Osmar Rotta, Fausto Forin Alonso e Humberto Ponzio que produziu trabalho considerado um marco na história da SBD, em seu primeiro século de existência.
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O
Dr. Hamilton Ometto Stolf, professor do Departamento de Dermatologia da FMB/Unesp e dedicado à formação de residentes, especializou-se na Espanha com o Professor Miguel Armijo Moreno, professor de Dermatologia da Faculdade de Medicina e chefe do departamento de Dermatologia do Hospital Clínico de Salamanca. Ao longo de sua carreira, tem testemunhado o avanço da tecnologia que tem permitido a entrada na rotina dermatológica de equipamentos, entre os quais dermatoscópios avançados e lasers, além de medicamentos biológicos. No futuro, antevê investigações que poderão trazer avanços importantes principalmente no estudo das vias moleculares das doenças, o que permitirá, entre outras, mudanças na fronteira das terapias alvo.
Dr. Hamilton Ometto Stolf
O avanço da tecnologia e investigações que impactarão o diagnóstico e os tratamentos de doenças da pele
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No campo da pesquisa, menciona que a Faculdade de Medicina de Botucatu tem se destacado por realizações transformadoras. Cita o desenvolvimento de importante medicamento, um adesivo cirúrgico produzido no Centro de Estudos de Veneno de Animais Peçonhentos da FMB, a partir de veneno de serpentes do gênero Bothrops, como a jararaca e a cascavel. O projeto envolve, além da Unesp, a Faculdade de Ciências Farmacêuticas e de Medicina da USP/Ribeirão Preto e o Instituto de Genética e Bioquímica da Universidade Federal de Uberlândia. O produto foi testado com sucesso em colagem de pele, nervos, gengivas e cicatrização de úlceras venosas, entre outras aplicações. Estudo realizado pelo Professor Hamilton Stolf no Departamento de Dermatologia da FMB para sua tese de doutorado demonstrou a eficácia do procedimento em retirada de tumores de pele localizados no nariz e posterior enxerto de pele, com utilização do adesivo cirúrgico.
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A DERMATOLOGIA SANITÁRIA E SEU CENTRO DE REFERÊNCIA O centenário Centro de Saúde Escola Geraldo Horácio de Paula Souza, em São Paulo, primeira instituição do gênero criada no Brasil, no começo do século passado, como um centro de saúde modelo, embrião da Faculdade de Saúde Pública da USP, é um marco na linha do tempo da Dermatologia brasileira. A vocação do centro, inicialmente voltado para o acolhimento e terapia de doentes de hanseníase, logo expandiu-se para a prestação de serviços à comunidade. No plano acadêmico, passou a oferecer um modelo de ensino e treinamento de profissionais de saúde pública de referência. Esses méritos e relevantes serviços prestados à comunidade não garantem, contudo, a existência do centro pois, como alerta o Professor Luiz Jorge Fagundes, responsável pelo ambulatório de DST do Centro de Saúde Escola Geraldo de Paula Souza, de acordo com a Constituição de 1988, saúde pública é responsabilidade das prefeituras municipais. As implicações desta cláusula podem levar o centro a transformar-se em instituição de caráter assistencial e, consequentemente, reduzir, ou eliminar, seu trabalho de pesquisa e abrangência das doenças cutâneas atendidas, quase que exclusivamente na instituição. “É preciso manter o Centro como Departamento da Faculdade de Saúde Pública da USP”, defende o Professor Fagundes. O Centro de Saúde, instalado na antiga casa da fazenda do escritor Oswald de Andrade e de sua esposa, a artista plástica Tarsila do Amaral, situa-
-se no complexo onde concentram-se a Faculdade de Medicina da USP, o Hospital das Clínicas e a Faculdade de Saúde Pública, na avenida Dr. Arnaldo, no bairro de Pinheiros, na capital paulista. A sede da fazenda foi doada ao estado por Oswald para prestar serviços sociais. Restaurada, abriga atividades com foco em saúde pública que incluem estágios e treinamentos para residentes, médicos e profissionais de saúde, bem como atendimento da população em várias especialidades. A Dermatologia Sanitária ocupa prédio próprio, adjacente à antiga casa. Em ambiente ambulatorial adequado e equipado para realização de intervenções cirúrgicas em lesões de HPV, molusco contagioso e outras doenças, oferece atendimento a pessoas encaminhadas pelos postos de saúde e serviços dermatológicos credenciados.
Professor Luiz Jorge Fagundes
Dermatologia Sanitária em risco. Treinamento e serviços à comunidade reduzidos
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Atende, também, casos suspeitos de hanseníase, câncer de pele, dermatites ocupacionais e realiza biópsias, numa vasta gama da áreas da especialidade. “Só há este ponto de atendimento, em São Paulo, para serviços médicos específicos e especializados para a população que depende de instituições públicas para estas doenças”, resume o Dr. Fagundes.
O ALCANCE DO ATENDIMENTO MULTIDISCIPLINAR Entre as várias especialidades contempladas, além da Dermatologia, incluem-se a ginecologia, infectologia e saúde da família, entre outras, para as quais é oferecido atendimento multidisciplinar. O laboratório de DST, modernizado graças ao apoio do médico sanitarista Dr. João Yunes, ex-diretor da Faculdade de Saúde Pública e ex-secretário da Saúde do Estado de São Paulo, é um dos instrumentos importantes para atendimento, principalmente da população carente. Parte dos equipamentos foi adquirida graças a esforço pessoal, apoio da iniciativa privada e o trabalho do Ceads - Centro de Estudos e de Apoio à Dermatologia Sanitária, constituído por médicos que atuam nesta área e outros que se solidarizam com esta iniciativa de amplitude social. Criado em 2007 no Centro de Saúde Escola Geraldo de Paula Souza, a instituição tem por mis-
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são colaborar nos processos de conscientização, prevenção, diagnóstico, tratamento e acompanhamento de doenças como a hanseníase, câncer de pele, dermatoses ocupacionais e DST entre outras de interesse em saúde pública. Sua atividade envolve ações com foco no esclarecimento sobre as doenças e a busca ativa em empresas interessadas em ampliar o escopo do trabalho preventivo dentro das organizações. Os resultados obtidos nessas investigações constituem um instrumento de ajuda às autoridades de saúde pública para a execução de políticas preventivas. Como apoio à atividades pedagógicas, o Ceads produz documentos de divulgação com foco em diversos públicos e conteúdo relacionado com Dermatologia Sanitária. Incentiva, ainda, a pesquisa científica e produz trabalhos para divulgação em publicações e apresentação em congressos. Os recursos captados em parcerias, serviços prestados e doações destinam-se ao financiamento de projetos na área da Dermatologia Sanitária, entre os quais fóruns de debates, desenvolvimento de guias e cartilhas de orientação e prevenção de doenças da pele. O apoio a estudos de mestrado e doutorado em áreas de Dermatologia é contemplado com bolsas concedidas pelo centro. As cartilhas, idealizadas e produzidas no formato de histórias em quadrinhos pelo Professor Fagundes, coordenador científico do Ceads, são procuradas por organizações e pessoas que se dedicam à atividade educativa com foco em doenças dermatológicas.
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PROFESSOR MAURÍCIO ALCHORNE E A DEDICAÇÃO AO ENSINO
O
Professor Maurício Mota de Avelar Alchorne, presidente da SBD na gestão 1999/2000, introduziu modernos meios de comunicação nas atividades de ensino e promoveu simpósios transmitidos por satélite para vários pontos do país, ampliando a participação dos sócios e reduzindo custos. Dedicou-se ao fortalecimento dos departamentos e da biblioteca da SBD, além de formalizar a vinculação da Sociedade à ABEM - Associação Brasileira das Escolas Médicas. Iniciou o recadastramento dos serviços credenciados e promoveu uma maior aproximação com entidades como a AMB e o CFM.
Professor Maurício M. de Avelar Alchorne e Dra. Alice Alchorne
Presenças marcantes na linha do tempo da SBD, com longa folha de serviços prestados ao ensino e à assistência
Em sua gestão, a SBD engajou-se numa campanha da classe médica que expôs à opinião pública, pela primeira vez, a questão dos abusos dos planos de saúde. O Dr. Mauricio Alchorne trabalhou com o Professor Jorge Lobo, como acadêmico, em seu serviço, em Recife. Na fase final do curso de medicina, o Dr. Jorge Lobo apoiou o jovem estudante em sua determinação de vir para São Paulo em busca de estágio no Hospital das Clínicas da FMUSP. O plano, como recorda o Professor Maurício, era ficar cerca de dois anos em São Paulo e retornar ao serviço do Professor Jorge Lobo, mas o ritmo da vida fez com que se “paulistanizasse”. A especialização no HC teve início no começo de 1960, quando o Professor João de Aguiar Pupo era o catedrático da disciplina. O Professor Maurício lembra que seus contemporâneos no serviço, entre outros, eram os doutores Luiz Carlos Cucé e Neusa Dillon, que havia terminado sua residência e fora contratada como auxiliar de ensino. Entre os colegas mais novos no serviço destaca, entre outros, o Dr. Nelson Proença, que havia se formado na USP e fora contratado como auxiliar de ensino. Recorda-se do trabalho árduo, mas apaixonante e produtivo, quando, em seu primeiro ano, morou num quarto da enfermaria do Hospital das Clínicas e, apenas no segundo ano, conseguiu mudar-se para uma casa, na rua Oscar Freire, próxima ao HC. O Professor Maurício concluiu seu período de estagiário bolsista e foi contratado como auxiliar de ensino, com o compromisso de cumprir mais um ano em período integral. Com a aposentadoria do Professor Aguiar Pupo, a partir de 1960 teve início, em sua plenitude, a era Sampaio na FMUSP. SOCIEDADE BRASILEIRA DE DERMATOLOGIA - 183
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A atividade no serviço era intensa, com atendimento a pacientes e realização de procedimentos, como biópsias, eletrocoagulação, infiltrações, curetagens, aplicação de neve carbônica, entre outros da rotina dermatológica. Menciona que, à época, eram muito frequentes os casos de pênfigo foliáceo e paracoccidioidomicose, chamada de blastomicose sul-americana, tema de tese do Professor Sampaio para concorrer a professor catedrático e que veio a constituir-se num marco na linha do tempo da Dermatologia graças à padronização do tratamento com anfotericina B. O HC recebia, à época, muitos doentes de paracoccidioidomicose por ser um centro com condições de tratamento de pacientes que necessitavam de internação. O Professor Maurício lembra que acompanhou de perto esse trabalho e recebeu um agradecimento na tese, por parte do Professor Sampaio. A introdução dos derivados da cortisona modificou esse cenário, a partir de fins da década de 50 do século passado.
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O Professor Maurício permaneceu no HC da FMUSP até 1964, quando foi para a Escola Paulista de Medicina/Unifesp, na época do Professor Abrahão Rotberg, um dos expoentes reconhecidos mundialmente no tratamento da hanseníase. Em mais de quatro décadas na EPM, galgou todos os degraus de uma brilhante carreira que o levou a ser professor titular, chefe da disciplina e do serviço onde, além de ministrar aulas, trabalhava no ambulatório de Dermatologia da faculdade e em hospitais com os estudantes. A atividade associativa iniciou-se no departamento de Dermatologia da APM - Associação Paulista de Medicina e envolvia apresentação de trabalhos e discussão de casos entre os especialistas. Além desse núcleo de debates, eram muito concorridas as reuniões no serviço do Professor Sampaio e na Santa Casa de São Paulo, com discussões científicas e jornadas. Após dedicar-se à Regional São Paulo, que ajudou a fundar, junto com o Professor Sampaio e outros pioneiros, foi presidente da SBD onde, entre outras ações, procedeu à revisão da estrutura organizacional da Sociedade. i
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Capítulo
14
O AVANÇO DA ESPECIALIDADE E O ÚLTIMO DOS RADICAIS
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E
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m nossa linha do tempo, o caminhar das décadas oferece sentidos diversos para a palavra “radical”. Na Dermatologia, o Professor Fernando de Almeida, professor da EPM/Unifesp, um dos fundadores do Grupo Brasileiro de Melanoma e ex-presidente da SBD na virada do novo século, 2001/02, lembra que a mais recente inovação a agregar-se ao arsenal dermatológico foi o radical do ácido retinóico, na década de 80. Os primeiros estudos da nova substância começaram na década de 60 nos laboratórios da Hoffman-Laroche, na Suíça, sob a liderança do médico Werner Bollag, diretor científico da empresa e, posteriormente, presidente da Molecular Engines Laboratories, companhia de biotecnologia avançada, com sede em Paris.
Bollag e seu grupo de pesquisadores debruçaram-se sobre o estudo de drogas derivadas da vitamina A, os retinóides. Os primeiros estudos foram dirigidos para o tratamento de câncer da pele. Experiências finalizadas no começo da década de 70 mostraram que o medicamento poderia ser eficaz no tratamento da acne. Desta forma foi desenvolvida a isotretinoína, que entra na linha do tempo da Dermatologia, como um marco importante, a partir de 1982. Este terá sido o último avanço registrado em termos de novos medicamentos nas últimas décadas, avalia o Dr. Fernando. Ele antevê espaços importantes a serem ocupados em áreas de pesquisas que devem avançar como, por exemplo, os biológicos, com possibilidades promissoras na pesquisa genética e de terapias alvo, que podem abrir ja-
Professor Fernando de Almeida 186 - SOCIEDADE BRASILEIRA DE DERMATOLOGIA
Professor da EPM/Unifesp, um dos fundadores do Grupo Brasileiro de Melanoma e ex-presidente da SBD na virada do novo século, 2001/02
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nelas de oportunidades insuperáveis para a especialidade. Embora os custos das pesquisas sejam dimensionados na casa de bilhões de dólares e seus prazos de evolução em décadas, lembra que as inovações têm sido notáveis ao termos em conta que, no começo do primeiro século da SBD, as grandes novidades não iam muito além do “ultravioleta”... Há, portanto, expectativas de grandes avanços no campo das conquistas da medicina molecular, da genética e dos lasers, para citar alguns exemplos. O Professor Fernando de Almeida, ao optar por Dermatologia, em fins da década de 60, lembra que familiares surpreenderam-se com a opção, após formar-se no desafiador curso de Medicina da Universidade Federal do Paraná, em Curitiba.
Neste segundo século da SBD, esta percepção seria, certamente, diferente diante dos avanços da especialidades, tanto no conhecimento das doenças quanto nas tecnologias desenvolvidas e medicamentos. Em São Paulo, o jovem médico prestou concurso para o Hospital das Clínicas da USP e ingressou no serviço do Professor Sampaio. Era uma época de transformações na especialidade. Sampaio retornara de seu estágio nos Estados Unidos, de onde trouxe alguns punchs para fazer biópsias. Logo o serviço passou a realizar histopatologia, dermatopatologia e cirurgias. Natural de Marília, SP, o Dr. Fernando passou parte de sua infância numa fazenda onde desfrutou da vida rural, o que incluía ir à cavalo para a escola, numa prazenteira jornada diária.
Refências em cirurgias dermatológicas
O intercâmbio internacional
Dr. Eugênio Pimentel e discípulo em ação. Pioneirismo em cirúrgia dermatológica na FMUSP. Divisão de Dermatologia do HC e o serviço de cirurgia dermatológica cresceram sob a liderança do Professor Sampaio
Homenagem ao Professor Dr. Leonard Goldberg (1º à esquerda), reconhecido mundialmente em cirurgia dermatológica e micrográfica de Mohs e ex-discípulos, Dr.Gabriel Gontijo, Dra. Selma Cernéa e Dr. Hamilton Stolf durante o 14º Congresso Mundial de Câncer de Pele da Skin Foundation, em São Paulo, presidido pelo Dr. Marcus Maia, com apoio da SBD SOCIEDADE BRASILEIRA DE DERMATOLOGIA - 187
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Aos onze anos de idade, transferiu-se para São Paulo para estudar nos colégios Arquidiocesano e Rio Branco. Seu interesse pela medicina foi despertado pelo exemplo de um antigo médico da sua cidade, com extensa folha de serviços prestados à comunidade, o Dr. Gabriel Seixas. O Dr. Fernando ingressou na Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Paraná, em Curitiba, onde, além dos estudos, atuava em órgãos acadêmicos tendo criado um jornal com o sugestivo nome de “O Esqueleto”. No Hospital das Clínicas da FMUSP conviveu e compartilhou conhecimentos com dermatologistas que alcançaram prestígio na especialidade, entre os quais os doutores Alberto Cox Cardoso, Evandro Rivitti, Waltênio de Vasconcelos, Maria Aparecida Constantino, além dos mestres Sebastião Sampaio, Raymundo Martins Castro, Guilherme Curban, Argemiro Rodrigues de Souza e Vinicius Arruda Zamith, entre outros.
Na USP, foi aprovado em concurso para médico assistente do Hospital das Clínicas, tendo conquistado, também, o título de doutor em medicina. Entre suas áreas de concentração estão o estudo de aspectos imunológicos das doenças cutâneas e suas relações com a medicina interna. É autor de numerosos artigos publicados em revistas científicas brasileiras e internacionais, capítulos de livros e trabalhos divulgados em anais de congressos científicos. Sua carreira acadêmica inclui a Escola Paulista de Medicina/Unifesp como chefe da disciplina de Dermatologia Infecciosa e Parasitária e membro do conselho de pós-graduação do departamento de Dermatologia. Entre suas bandeiras à frente da SBD destacaram-se a integração social com a comunidade com o projeto Dermatologia Comunitária, em parcerias com o INCA e Abrinq; a ampliação nacional do Dermacamp, o Projeto Pró-Memória e o Projeto Dermatologista Jovem.
Professor Abdiel, ombudsman da SBD na abertura do novo século. Voz e vez para os associados
Professor Paulo Cunha, foco no registro histórico do primeiro século e o projeto Pró-Memória
Professor Abdiel Filgueira Lima
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Professor Paulo Cunha
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Um de seus primeiros movimentos foi nomear o Professor Abdiel Filgueira Lima como ombudsman da Sociedade no papel de ouvidor dos associados e da comunidade. À frente do Projeto Pró-Memória assumiu o Professor Paulo Cunha, com o objetivo de resgatar a trajetória da Dermatologia e da história da Medicina brasileira, bem como organizar arquivos e colher subsídios históricos para o acervo. O avanço da especialidade, em seu primeiro século, foi observado pelo Dr. Fernando como um período de registros extraordinários em áreas como a oncologia cutânea, cirurgia e cosmiatria, faltando, ainda, a seu ver, elaborar mais o aspecto interdisciplinar da especialidade, privilegiando, entre outras ações, a presença em hospitais e o trabalho com diferentes especialistas considerando-se que a doença de pele pode, por vezes, ser a ponta de um iceberg a indicar doenças internas. Sobre os cenários para o futuro observa, entre outros aspectos, a possibilidade de aumentar-se a atenção quanto à geriatria dermatológica diante do envelhecimento da população brasileira e doenças que prevalecem com a idade, como tumores, entre outras associadas à pele. .
Formada, em 1975, pela Faculdade de Medicina de Valença, fez pós-doutorado em Paris no L’hôpital Saint-Louis, um dos templos mundiais da Dermatologia, por onde passaram mestre famosos de todo o mundo. Fundado pelo rei Henrique IV, em 1607, fortaleceu-se como um centro de especialidades, tendo a Dermatologia como um de seus focos históricos. A ida para pós-doutorado em Paris culminou uma carreira acadêmica bem sucedida. O orientador de sua tese de mestrado, o Professor Francisco Eduardo Rabello, chefe da Policlínica Geral do Rio de Janeiro e um dos mais renomados dermatologistas brasileiros, recomendou-a para o chefe do serviço de Dermatologia do L’hôpital Saint-Louis, Professor Jean Civatte. O Professor Francisco Eduardo Rabello sucedeu ao pai, Eduardo Rabello, na cátedra de Dermatologia e Sifilografia da Faculdade Nacional de Medicina e manteve suas
Da universidade ao meio militar para um projeto de vanguarda
A história profissional da Professora Leninha Valéria do Nascimento é um testemunho de seu apreço à Dermatologia ampla e suas interfaces com outras especialidades, além de revelar a sua firme convicção no papel de uma formação de qualidade. Professora Leninha Valéria do Nascimento
No Rio. ao lado de outras instituições de renome, o Hospital Central do Exército, participa da história da especialidade.
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atividades no Serviço de Dermatologia da Santa Casa, no Pavilhão São Miguel, e no serviço de Dermatologia da Policlínica Geral do Rio de Janeiro. Trabalhou no Serviço de Doenças Venéreas da Fundação Gaffrée-Guinle e foi consultor do Centro Internacional de Lepra. O Professor Absalom Lima Filgueira, professor titular da UFRJ e o primeiro chefe do serviço, após a inauguração do hospital universitário no Fundão, destaca que o Professor Francisco Eduardo Rabello prestou contribuição relevante ao estudo de muitas doenças e, também, na sistematização dos termos usados pela especialidade tendo produzido publicações revisadas e ampliadas da Nomenclatura Dermatológica consideradas preciosas na concisão, metodologia e abrangência.
A recomendação para Paris não
ticipação marcante em importantes instituições de formação médica, tendo sido catedrático de Dermatologia da Universidade Federal de Juiz de Fora, professor da UFRJ, titular das faculdades de medicina de Vassouras e de Valença, diretor do Hospital Estadual Eduardo Rabello, assessor do ministro da Saúde e diretor da Divisão Nacional de Lepra. Na UFRJ, coordenou o Departamento de Clínica Médica e foi chefe de clínica do serviço de Dermatologia do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho. Sua vasta contribuição científica inclui artigos publicados em revistas especializadas brasileiras e internacionais, além de livros consagrados na especialidade, entre os quais sobre herpes, em coautoria com o Professor Omar Lupi. Com o Professor José Serruya desenvolveu uma classificação das doenças sexualmente transmissíveis, adotada no país e no exterior.
poderia ter vindo de melhor fonte. Ao interessar-se pela Dermatologia, a Dra. Leninha observou o caráter amplo da especialidade ao englobar doenças comuns a várias especialidades, da clínica médica, à pediatria e muitas outras. Seu professor na graduação, o Dr. Antonio Carlos Pereira Júnior, que também estagiou no Saint-Louis, expresidente da SBD e da Academia Nacional de Medicina, professor da UFRJ, mestre renomado na especialidade e conhecido pelo conteúdo de suas aulas, ministradas com um vozeirão que impressionava os estudantes, como recorda a Professora Leninha. Foi o Professor Antonio Carlos um dos grandes motivadores do interesse pela Dermatologia para muitos de seus discípulos. Ilustre dermatologista mineiro, formou-se em 1963 pela Faculdade Nacional de Medicina, teve par190 - SOCIEDADE BRASILEIRA DE DERMATOLOGIA
Professor Francisco Eduardo Rabello
Mestres renomados do Rio de Janeiro cravaram marcos na Dermatologia brasileira
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A participação em eventos científicos Residente da UFRJ, que funcionava no Pavilhão São Miguel, onde fez seu mestrado e doutorado, a Professora Leninha teve oportunidade de compartilhar conhecimento com outros mestres, entre os quais o Professor Rubem David Azulay, titular da disciplina de Dermatologia, que a convidou para participar da organização de eventos científicos nas jornadas triangulares Rio, São Paulo, Minas Gerais. O mestrado e o doutorado em Dermatologia da UFRJ estão entre os mais antigos do país, tendo sido organizados, em 1970, pelo Professor Sylvio Fraga, constituem um marco na história da Dermatologia.
O ingresso da jovem professora na carreira acadêmica ocorreu após seu primeiro ano de doutorado ao receber convite do professor titular da UERJ, Dr. Jarbas Porto, que retornara de Michigan, EUA, onde fizera pós-graduação e idealizava a Campanha de Prevenção do Câncer da Pele, em cujo projeto a Professora Leninha envolveu-se. Formado, em 1946, pela Faculdade Nacional de Medicina, o Professor Jarbas Porto optou pela Dermatologia sob a inspiração de alguns de seus mestres da época, entre os quais os professores Edgard Drolhe da Costa e Francisco Eduardo Rabello. À frente do Centro de Estudos do Hospital dos Servidores Públicos do Estado do Rio de Janeiro, dinamizou a residência médica e a programação de concursos. Estimulou, ainda, a pesquisa na UERJ.
O movimento que projetou e consolidou a Campanha de Prevenção Contra o Câncer de Pele, recorde mundial no Guiness SOCIEDADE BRASILEIRA DE DERMATOLOGIA - 191
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Em 1995, aprovada em concurso, a Dra. Leninha chegou ao topo da carreira acadêmica ao tornar-se professora titular de Dermatologia da UERJ. Na atividade associativa, vem atuando na SBD desde a década de 80, tendo participado da comissão do TED e nos Anais Brasileiros de Dermatologia, como editora chefe, e, entre outras atividades, como tesoureira, secretária geral e vice-presidente. Após longa carreira na UERJ, foi convidada para iniciar um projeto desafiador e meritório: organizar o serviço dermatológico, criar e coordenar a pós-graduação do Serviço de Dermatologia Tropical do Hospital Central do Exército, que veio a tornar-se referência, reconhecido pelo SBD, com concorridos cursos latu sensu. Com capacidade para oferecer uma Dermatologia de qualidade, seus assistentes são, em sua maioria, ex-alunos da UERJ, com mestrado e doutorado. Este serviço crava uma marca relevante na linha do tempo deste primeiro século da SBD e projeta-se para o futuro com possibilidades para o desenvolvimento de pesquisas relevantes para a Dermatologia.
O Espírito Santo e a formação do primeiro mestre da UFRJ
No Espírito Santo, a gênese da regional capixaba ocorreu em 1982, em reunião no Hospital Universitário Cassiano Antonio de Moraes, quando um grupo de dermatologistas do estado aprovou estatutos e elegeu a primeira diretoria presidida pelo Dr. Carlos Cley Coelho. O Dr. Cley foi o primeiro especialista brasileiro a obter o título pela UFRJ, em 1974, um fato emblemático das sinergias existentes entre as instituições médicas do Espí192 - SOCIEDADE BRASILEIRA DE DERMATOLOGIA
rito Santo e do Rio de Janeiro, pela excelência científica e pela proximidade geográfica. No Espírito Santo, dois serviços, o Hospital Universitário Cassiano Antonio de Moraes, da Universidade Federal do Espírito Santo e a Santa Casa de Vitória promovem a formação e qualificação dos dermatologistas da SBD, no estado. Também no Espírito Santo, a Santa Casa teve um papel primordial no desenvolvimento do ensino médico. A Emescam - Escola Superior de Ciências da Santa Casa de Misericórdia de Vitória iniciou suas atividades em 1968 e logo despontou como uma instituição de vanguarda. O hospital da Santa Casa de Vitória, considerado o segundo mais antigo do Brasil, foi fundado em meados de 1500, segundo os registros históricos. A saga da Dermatologia capixaba é descrita pela Dra. Maria Clara Medeiros Santos Neves em seu livro Além das Aparências. Memória da Dermatologia no Espírito Santo, editado pela Regional da SBD. A autora registra que a especialidade, com foco na venerologia e hansenologia, desenhou sua marca na linha do tempo a partir da década de 20 do século passado. O hospital de isolamento, construído em 1925, na Ilha da Pólvora, também esteve vinculado à Santa Casa de Vitória. Os dermatologistas da época, como era a tradição e a prática médicas, dedicavam-se, basicamente, ao tratamento de casos de hanseníase e doenças venéreas. Neste cenário, o Dr. Pedro Fontes chefiou a Inspetoria de Lepra e o Dispensário de Doenças Venéreas do Estado e o Dr. Demócrito Rodrigues de Freitas foi o primeiro responsável pelo Serviço de Doenças Venéreas do Centro de Saúde de Vitória, como informa a Dra. Maria Clara em seu livro. Na década seguinte, o Dr. José Augusto Soares. assumiu a direção do Hospital Pedro Fontes. Entre os especialistas pioneiros, a historiadora inclui os doutores Honório Esteves Ottoni, Otávio Manhães
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de Andrade, Pedro Luiz da Silva Neto e o Dr. Luiz Buaiz, um dos primeiros especialistas do estado, atuante até os seus mais de 90 anos de idade. O Dr. Buaiz foi homenageado pela jornalista Sandra Medeiros, com o livro Luiz Buaiz - biografia de um homem incomum. A obra descreve a vida profissional do Dr. Buaiz, desde a sua família de origem libanesa , até sua obra na Santa Casa de Vitória, a fundação da Emescam, a atividade associativa e a atuação política. Foi um dos primeiros professores de Dermatologia na UFES. O Dr. Buaiz formou-se, em 1946, pela Faculdade de Ciências Médicas, hoje UERJ, trabalhou no Hospital Gaffrée-Guinle e na Santa Casa do Rio de Janeiro onde conviveu com os grandes mestres da época, como os professores Joaquim Mota, Francisco Eduardo Rabello, Luiz Campos Melo, Jarbas Porto, Rubem David Azulay, Glyne Rocha entre outros. Em 1960, montou a Clínica Dermatológica de Vitória, que se tornou referência e por onde passou uma geração de especialistas que se destacaram, entre os quais os doutores Douglas Puppin, Délio Delmaestro, Francisco Tardin, Denis Ottoni, Carlos Cley Coelho, Júlia Vervloet do Amaral, entre outros. O Dr. Douglas Puppin, professor de Dermatologia na UFES, formou-se na Faculdade Nacional de Medicina, em 1962 e trabalhou na Policlínica Geral do Rio de Janeiro. Aprimorou-se na cirurgia dermatológica e aprofundou-se em estudos sobre a blastomicose utilizando a anfotericina B, dominando técnicas que, posteriormente, veio a aplicar no Sanatório Getúlio Vargas, em Vitória. Foi secretário de Saúde do Espírito Santo, em 1983/87. O Dr. Délio Delmaestro, também formado pela Faculdade Nacional de Medicina, em 1964, fez residência com o Professor Sylvio Fraga, na Santa Casa do Rio. Ele foi um dos médicos do grupo musical de estudantes de me-
dicina do qual fez parte o Professor João Roberto Antonio, com quem o Dr. Delmaestro teve longa convivência na academia e no grupo do Professor Sylvio Fraga e com quem compartilhou a honra de pertencer ao grupo dos primeiros dermatologistas a conquistar o TED. Na UFES, onde foi professor de Dermatologia, Dr. Delmaestro organizou um projeto para estudantes no âmbito da Operação Rondon para atuar na cidade de Parnaíba, Piauí e outros, no interior do Espírito Santo, que reuniam várias especialidades. Como professor de Dermatologia, atuou no serviço do Hospital Universitário Cassiano Antonio de Moraes, credenciado pela SBD. Em 1973, presidiu o 30º Congresso Brasileiro de Dermatologia, em Guarapari.
Dr.Luís Fernando Tovo
Novas obras acadêmicas abrem perspectivas promissoras para publicações científicas neste segundo século
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Anais Brasileiros de Dermatologia adquire musculatura e prestígio
A Sociedade tem avançado no campo das publicações científicas, com contribuições relevantes para a educação continuada. Entre as obras deste primeiro século, Diretrizes sobre Melanoma Cutâneo, do Dr. Luís Fernando Tovo; documento sobre Diretrizes no Carcinoma Basocelular, dos professores Sebastião Sampaio, Luís Fernando Tovo, Cyro Festa Neto e Cláudia Braz de Castro, são algumas das contribuições, entre outras, que destacam a SBD como importante provedora de conhecimento. Em 1998, a Professora Márcia Ramos-e-Silva solicitou à Biblioteca Nacional de Medicina, dos Estados Unidos, responsável pelo Index Medicus e Medline a indexação dos
Professora Márcia Ramos-e-Silva
Ao final do primeiro século, movimentos decisivos para o avanço do processo de indexação dos Anais
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Anais Brasileiros de Dermatologia. Nos anos seguintes, a editora-chefe dos Anais, Professora Leninha Valério do Nascimento e o editor-associado, Professor Elemir Macedo de Souza, anunciaram novas estratégias para a publicação. Entre os objetivos permanentes estão a ampliação da lista de pareceristas, a criação de novas seções, a divulgação de notícias, a manutenção de uma agenda de eventos científicos de interesse e o alinhamento a padrões técnicos de excelência das melhores publicações científicas mundiais. A Sociedade destaca-se com contribuições científicas para a tomada de decisões no âmbito de políticas públicas de saúde. Pareces, como o do Dr. Marcus Maia Ferreira, por exemplo, sobre câmaras de bronzeamento artificial, para a Anvisa, entre outras manifestações que subsidiam ações na área da saúde, têm tido impactos importantes em consolidação de legislação e ampliado a cooperação da SBD com a comunidade, papel que deverá aprofundar-se neste segundo século. Têm sido frequentes as manifestações por intermédio da mídia nos debates sobre temas de interesse público, entre os quais a eficácia de tratamentos alternativos, equipamentos e procedimento estéticos, entre uma variedade de temas que estimula a imaginação das pessoas e o interesse midiático. A voz da SBD em matérias que envolvem esclarecimento quanto a questões relacionadas com o câncer de pele, exposição solar, prevenção, epidemias e, mais recentemente, sobre manifestações cutâneas pelo vírus zika, chikungunya e dengue, entre outras doenças. Esta temática deverá evoluir, com ampla participação dos dermatologistas, em todas as regionais e influenciará a construção da imagem do especialista perante a comunidade em geral. i
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Capítulo
15
LIDERANÇAS INSPIRADORAS E A CONSTRUÇÃO DE SÓLIDAS CARREIRAS
SOCIEDADE BRASILEIRA DE DERMATOLOGIA - 195
L
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ideranças que se sucedem ao longo da linha do tempo da SBD estimulam a constituição de núcleos de disseminação do saber que resultam em novas gerações de dermatologistas, com forte sinergia no âmbito da Dermatologia brasileira. Como uma constelação que se amplia à medida que novas estrelas nascem e se incorporam ao sistema, as “escolas dermatológicas” florescem no país sob a influência dos centros de excelência tradicionais, que se expandem para novos polos que se formam na fronteira do desenvolvimento econômico. Mestres formados nas escolas dos grandes professores, lançam as sementes de centros dermatológicos e serviços de qualidade. Estimuladores do saber dermatológico, formam discípulos que, por sua vez, levam o conhe-
cimento para outros seguidores e assim, sucessivamente, num movimento virtuoso de formação de quadros. O Dr. Demétrio Peryassú, por exemplo, de ilustre família paraense, presidente da SBD na gestão 1951/52, formou-se, em 1937, pela tradicional Faculdade Nacional de Medicina, atual UFRJ, trabalhou como interno na histórica 26ª Enfermaria da Santa Casa, foi adjunto do hospital geral e professor da disciplina de Clínica Dermatológica e Sifilográfica da Escola de Medicina e Cirurgia, atual Unirio. O Professor Antar Padilha-Gonçalves, referência no estudo da micologia, trabalhou no serviço de Dermatologia do Hospital Gaffrée-Guinle, no Rio de Janeiro, onde compartilhou conhecimentos com o Professor Armínio Fraga, com quem estagiou na 26º Enfermaria da Santa Casa. Os professores Ramos-e-Silva e Annes Dias, foram outras referências fundamentais.
Gerações de médicos de todo o país marcam a linha do tempo da especialidade em seus dois séculos
Mestres formaram discípulos que participaram da construção de instituições em todo o país
Dr. Demétrio Peryassú
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Professor Antar Padilha-Gonçalves
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O Professor Antonio de Souza Marques, formado na Faculdade Nacional de Medicina, discípulo de um dos líderes da Dermatologia brasileira, o Professor Sylvio Fraga, seguiu para Filadélfia, Estados Unidos, onde pós-graduou-se no Hospital de Câncer. Ao regressar, tornou-se professor titular da UFRJ em 1978, participou da transferência da clínica de Dermatologia da UFRJ para o Hospital Universitário, na Ilha do Fundão. E, assim, a grande roda da Dermatologia brasileira tem se mantido em movimento, num virtuoso compartilhar de conhecimento e de agregação de talentos em torno de lideranças que se sucedem. Em São Paulo, na raiz da formação de mestres da Dermatologia encontra-se, invariavelmente, o Professor Sampaio, estimulador e multiplicador de talentos e médico de visão de longo alcance.
Dr. Francisco Paschoal, ex-presidente da SBCD e seu pai, Dr. Luiz Henrique Paschoal, fundador e ex-presidente da SBD e da SBCD
Neste legião de discípulos, encontra-se o Professor Luiz Henrique de Camargo Paschoal, uma das molas propulsoras da cirurgia dermatológica, da cosmiatria e de outras áreas de atuação inovadora da especialidade. Formado pela FMUSP, em 1960, o Dr. Luiz Henrique optou pela Dermatologia estimulado pelo Professor Ernesto Mendes, especialista em alergia, a quem havia sido recomendado pelo Professor Sebastião Sampaio. O Professor Luiz Henrique destacava para seus alunos a importância da formação sólida para o dermatologista, pois as doenças da pele podem ser, muitas vezes, adquiridas por predisposição hereditária, ou imunológica, sendo fundamental o domínio global da medicina para compreender estes fenômenos. Além da Faculdade de Medicina da USP, o Professor Luiz Henrique trabalhou na Unicamp e criou, com um grupo de pioneiros, a Dermatologia da Faculdade de Medicina do ABC, nova instituição na região metropolitana de São Paulo que se constituiu em celeiro de novos especialistas para todo o país.
Universidade de Campinas - Unicamp SOCIEDADE BRASILEIRA DE DERMATOLOGIA - 197
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A Faculdade de Medicina do ABC começou a funcionar em 1969. A partir de 1972, a disciplina de Dermatologia e o Instituto da Pele despontaram como destaques deste importante centro universitário sob a liderança do Professor Luiz Henrique, que assumira a especialidade e iniciara a formação de uma equipe de alto desempenho composta pelos professores Simão Cohen, Ferrúcio Fernando Dall’Aglio, Kenji Toyoda, entre outros, e talentos das novas gerações incorporados ao longo dos anos, como o Professor Dr. Carlos D’Apparecida Santos Machado Filho. Formado em Medicina na FMABC o Dr. Machado foi aluno do Professor Paschoal e, posteriormente, do Professor Sampaio, na FMUSP. Presidente da SBD em 1989, o Professor Luiz Henrique foi, com o Professor Sampaio e outros, fundador da SBCD - Sociedade Brasileira de Cirurgia Dermatológica, campo ao qual dedicou-se intensamente durante sua vida na universidade.
Dr. Carlos D’Apparecida Santos Machado Filho
Dr. Carlos D’Apparecida Santos Machado Filho, longa e frutífera carreira na FMABC
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Compartilhar para multiplicar o conhecimento conquistado
Mestre reconhecido por seus pares por compartilhar conhecimento e irmanar-se com seus colegas em busca de um objetivo comum, o Dr. Ival Peres Rosa é outro pioneiro da cirurgia dermatológica no Brasil. O empenho em ensinar, de forma didática e organizada, foi influenciado pelo avô, diretor da centenária Escola Normal de Pirassununga, e pela mãe, professora primária dedicada e com extensa folha de serviços prestados à uma gerações de estudantes. O Dr. Ival diz que eles o ensinaram a compartilhar o saber e a desfrutar do prazer de transmiti-lo e, assim, ser útil para a sociedade. Seu livro Posso falar? O caso é o seguinte... A Dermatologia como ela é descreve cente-
Dr. Ival Peres Rosa
Dr. Ival Peres Rosa, pioneiro na introdução da cirurgia no domínio da Dermatologia.
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nas de casos, em pormenores, e oferece uma portentosa coleção de fotos a respeito da execução de procedimentos que aprimorou com técnicas muitas vezes desenvolvidas por ele. Aprendeu, na família, a determinação com o cumprimento de horários, rigor bastante conhecido nos lugares onde trabalhou. Aos 18 anos, convocado a alistar-se no Exército, ingressou no tradicional CPOR - Centro de Formação de Oficiais da Reserva, em São Paulo que, nos idos da década de 60, atraia os jovens mais preparados. “Fazer o CPOR” era um privilégio para poucos e agregava certo brilho social. Ao final do período militar, diante das opções acadêmicas, oscilou entre engenharia e medicina, optando pela última sob a influência de um tio, médico urologista, que clinicava em Guararema, SP.
O vestibular o encaminhou para a recém criada Faculdade de Medicina de Botucatu, que unia a qualidade do ensino à proximidade da capital e de Pirassununga. O Dr. Ival foi da terceira turma da FMB. O interesse pela Dermatologia surgiu durante a graduação sob a influência carismática da Dra. Neusa de Lima Dillon que motivou uma geração de estudantes de Medicina em Botucatu. Lembra que a faculdade estava em processo de formação e a Dermatologia despontava como a disciplina mais organizada. Outro aspecto que o motivou foi o forte espírito de grupo que unia alunos e professores que residiam em Botucatu e trabalhavam em regime de dedicação integral, com disponibilidade para os estudantes, mesmo fora da sala de aula.
Homenagem aos 90 anos do Dr. Aurélio Ancona Lopes
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A aproximação com a cirurgia começou a esboçar-se quando, na graduação, aproveitou oportunidade de estágio no HSPM - Hospital do Servidor Público Municipal, em São Paulo. O destino aproximou-o de um urologista experiente, o Dr. Rômulo Rabello, a quem auxiliava no PS do HSPM e que o convidou para ajudá-lo em cirurgias. Foram os primeiros passos da grande caminhada que iria avançar nos anos a seguir. As veredas dos novos rumos começaram a ser traçadas quando o Dr. Alexandre de Mello Filho consultou-o sobre seu interesse em dedicar-se à Dermatologia, cujos especialistas eram escassos, no começo da década de 70. Em consequência da experiência desenvolvida, passou a realizar biópsias no serviço, procedimento que, à época, era feito por cirurgiões, num processo demorado. NO HSPM, compartilhou conhecimento e amizades com especialistas de prestígio, entre os quais o Professor Dr. Aurélio Ancona Lopes, referência em Dermatologia
Dª Maria Antonietta de Castro
Dª Pérola Byington
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infantil, que trabalhava como voluntário na EPM - Escola Paulista de Medicina e na Cruzada Pró-Infância, organização social fundada em 1930 a partir de uma campanha de combate à mortalidade infantil liderada por paulistas ilustres, entre as quais a professora e educadora sanitária Maria Antonieta de Castro e Pérola Byington, filha de imigrantes americanos que vieram para o interior de São Paulo depois da guerra de secessão nos Estados Unidos. Pelas mãos do Professor Ancona Lopes, o Dr. Ival foi para a Cruzada onde dedicou-se à organização do serviço de cirurgia. A atividade em vários locais de trabalho significava o envolvimento, de forma cada vez mais intensa, em cirurgia dermatológica e seus diversos procedimentos. Em 1974, o Dr. Ival tornou-se Especialista da SBD, tendo passado em concurso em banca presidida pelo Professor Dr. Ruy Noronha Miranda, renomado dermatologista, idealizador da Fundação Pró-Hansen, em Curitiba.
Dr. Mauro Enokihara
Presidente da SBCD, gestão 2017/18, um dos fundadores do GBM - Grupo Brasileiro de Melanoma
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Em 1976, o Professor Ancona Lopes convidou-o para participar de uma clínica que tinha, entre outros avanços, um centro cirúrgico em Dermatologia, experiência gratificante e duradoura que contava com a presença, entre outros, do Professor Sebastião Sampaio, da Dra. Bogdana Victória Kadunc, Dr. Luiz Henrique Paschoal e Dr. Cássio Villaça. A consolidação da cirurgia no rol das habilidades do dermatologista avançou com mais rapidez a partir de 1983 quando o Dr. Ival assumiu a chefia do Serviço de Dermatologia do HSPM. Um dos movimentos mais relevantes que promoveu foi um encontro sobre cirurgia dermatológica, com a presença de chefes de serviços de São Paulo e com a participação do professores Sebastião Sampaio, Nelson Proença e outros, para debater a importância da introdução de técnicas cirúrgicas na atividade do Especialista, na esteira do que ocorria, depois da II Guerra Mundial, nos Estados Unidos. A primeira reunião do grupo foi realizada no Centro Cultural São Paulo e, entre suas consequências, marcou o início do processo que culminaria com a criação da SBCD - Sociedade Brasileira de Cirurgia Dermatológica, formalizada durante uma reunião da Radla, em São Paulo, em 1988. Outro marco foi a realização da primeira reunião sobre câncer de pele, em 10 de abril de 1992, data que o Dr. Ival não esquece por marcar, também, o aniversário de sua mãe. Encerrada a etapa do HSPM, o Dr. Ival incrementou a sua atividade de cirurgião dermatológico na EPM/ Unifesp, ao lado de outros professores renomados, como o Professor Dr. Benjamin Golcman, sob a coordenação do Dr. Mauro Enokihara, responsável pelo setor de cirurgia do serviço da EPM/Unifesp, um dos fundadores do GBM - Grupo Brasileiro de Melanoma e presidente da SBCD, gestão 2017/18.
Todo o seu acervo de realizações na Dermatologia e milhares de procedimentos estão meticulosamente organizados em arquivos e registros eletrônicos com a utilização de computadores e softwares avançados. “O médico precisa documentar tudo, pois até o paciente esquece”, justifica
Como
fazer amigos e influenciar
pessoas. Esse é Dermais!...
Na reta final de seu curso de graduação na Unisa Universidade de Santo Amaro, em São Paulo, o jovem acadêmico de medicina Jayme de Oliveira Filho logo percebeu as especialidades que poderiam ser adequadas para o seu perfil. Entre as várias opções inclinou-se por aquelas que
Dr. Jayme de Oliveira Filho
Determinado e aplicado, foi o segundo colocado na residência para a clínica médica da Faculdade de Medicina da USP de Ribeirão Preto. Uma semana depois recebeu a notícia de que havia passado pelo crivo final do Professor Sampaio e sido aceito, também, no HC da FMUSP.
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continham o componente cirúrgico, mas declinou os procedimentos muito longos. A Dermatologia ainda não havia adquirido o charme e a projeção que mostraria alguns anos depois, mas o estudante foi atraído pela variedade de patologias, o que significava uma atividade dinâmica para o jovem inquieto. A especialidade da pele não era repetitiva, envolvia tumores, micoses e outras condições que somavam mais de duas mil doenças, além de procedimentos cirúrgicos. Tratava-se de uma especialidade diferente das demais. Outro aspecto que observou é que o conhecimento das doenças da pele apontava o caminho para diagnósticos sistêmicos, o que tornava o dermatologista um clínico. Em resumo, a pele era o espelho da saúde. Como tem sido recorrente na formação dos especialistas, a influência dos mestres foi determinante para a inclinação do Dr. Jayme na direção da Dermatologia. Entre os inspiradores, os professores Jamil Auada e Luiz Carlos Cucé, de quem recebeu convite para ser monitor de Der-
matologia, no quinto ano da graduação. Em sua turma de 60 formandos, em 1974, o Dr. Jayme foi o único a optar pela especialidade, o que, como se verá, mostrou seu descortino e acerto. O obstáculo a vencer, logo após a formatura, foi o difícil processo de seleção para ingressar num serviço dermatológico. A Unisa estava em seu segundo ano e era preciso buscar oportunidades em outras instituições e disputar vagas com candidatos formados por universidades estreladas de todo o país. Determinado e aplicado, o Dr. Jayme foi o segundo colocado na residência para a clínica médica da Faculdade de Medicina da USP de Ribeirão Preto. Uma semana depois recebeu a notícia de que havia passado pelo crivo final do Professor Sampaio e sido aceito, também, no HC da FMUSP. Foi uma conquista e tanto, num grupo de mais de 40 candidatos muito bem formados que disputavam três vagas. Entraram os doutores Jayme, Eugênio Pimentel, formado na Santa Casa de São Paulo e Marisa Vivacqua, da Unicamp. Um momento emblemático neste começo de carreira foi a primeira reunião clínica dos sábados no HC, comandada pelo Professor Sampaio, com a presença dos docentes e residentes para discussão de casos. Ele não se esquece de sua primeira vez nesse grande momento. Lembra-se, vivamente, da primeira reunião quando sentou-se ao lado dos professores Raymundo Martins Castro, Guilherme Curban, Sebastião Sampaio, Golcman e outros que conhecia pelos textos dos livros nos quais estudava.
Professores Jayme de Oliveira Filho e Luiz Carlos Cucé à frente da equipe de professores e residentes da Unisa 202 - SOCIEDADE BRASILEIRA DE DERMATOLOGIA
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O Dr. Jayme passara a ser um
deles. A construção da carreira. Nesses primeiros tempos, a estética estava em seus primórdios, a Dra. Helena Muraco despontava como uma das primeiras dermatologistas a realizar procedimentos e o Professor Cucé debruçava-se sobre novas técnicas que introduzia no treinamento dos residentes, para as quais buscava sensibilizar o Professor Sampaio. Aos poucos, a metamorfose da Dermatologia foi ocorrendo. Novas técnicas e produtos, preenchedores, toxinas, lasers passavam a ingressar na prateleira da especialidade. O Dr. Jayme lembra-se que, em meados da década de 80, os dermatologistas brasileiros interessados nas novas áreas frequentavam os meetings da AAD para conhecer e adquirir produtos e aparelhos, que traziam em suas malas. O avanço da cosmiatria atraiu novos pacientes para os consultórios, em busca de tratamentos para condições que antes não eram contempladas como foto-envelhecimento, hidratação, proteção solar, uso de retinóides e outros que revelavam a transformação da especialidade e faziam aumentar a procura pelo médico da pele. O aumento exponencial da quantidade de informação tem levado o dermatologista a ter que, muitas vezes, optar por caminhos científicos específicos nesse cenário amplo que conduz a superespecialidades, num movimento que, como lembra o Professor Jayme, ocorreu também com outras especialidades. Ele avalia que estamos vivendo um momento mágico da Dermatologia, com avanços que deverão incorporar processos menos invasivos e medicamentos mais eficazes que poderão evitar, ou adiar, algumas intervenções cirúrgicas.
Diagnósticos mais rápidos poderão ser facilitados com novas tecnologias, entre os quais dermatoscópios de última geração. Lasers e outras tecnologias também têm avançado e oferecem um futuro promissor para a Dermatologia. O Dr. Jayme está entre os pioneiros da especialidade a perceber a importância da informática na atividade do dermatologista, tendo notabilizado-se pela introdução de softers para consultórios, que foi tema de uma das primeiras teses sobre informática médica no país. O dermatologista do século 21, em sua dimensão clínica, cirúrgica e cosmiátrica, tem diante de si escolhas inovadoras que envolvem tecnologias, aparelhos no estado da arte e técnicas avançadas que demandam um processo de educação continuada de alta qualidade. O objetivo que se pretende atingir é oferecer benefícios reais aos pacientes. Neste cenário em transformação da tecnologia é fundamental evitar escolhas frustrantes. Muitos, adverte o Dr. Jayme, sofreram, literalmente, na pele, as consequências de opções equivocadas. Entre os temas de interesse permanente, que deverão ser aprofundados neste segundo século da SBD, destaca aparelhos, procedimentos e produtos , bem como a relação custo-benefício diante das possibilidades disponíveis. A Dermatologia é a especialidade que, possivelmente, terá passado pela mais completa metamorfose dentre as especialidades médicas, estima o Dr. Jayme. Ele resume que, ao formar-se, um microscópio, um bisturi eletrônico e a maca eram suficientes para começar. Hoje, o especialista tem diante de si uma parafernália de aparelhos, lasers, luz intensa pulsada, dermatoscópios digitais, microscopia confocal e mais modernidades que atordoam e demandam recursos financeiros. Esta metamorfose transformou o consultório num local de trabalho muito mais complexo, conclui. SOCIEDADE BRASILEIRA DE DERMATOLOGIA - 203
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O papel do dermatologista nas urgências e nos hospitais
Outros destaques no interior incluem, a Faculdade de Medicina e o Hospital Universitário de Taubaté, cujo serviço de Dermatologia está sob a responsabilidade do Professor Samuel Henrique Mandelbaum. Como muitos jovens médicos que optaram pela especialidade, o Professor Samuel lembra-se que foi atraído, inicialmente, pela objetividade da conduta dermatológica . A conduta clara, o diagnóstico feito por meio do exame acurado e minucioso do paciente são algumas das características da especialidade da pele. A Dermatologia, superficial para os menos informados, é uma especialidade que se aprofunda, pois a pele pode refletir condições sistêmicas.
Professor Samuel Henrique Mandelbaum
Sob sua responsabilidade está o Serviço de Dermatologia da Faculdade de Medicina e o Hospital Universitário de Taubaté
204 - SOCIEDADE BRASILEIRA DE DERMATOLOGIA
O Professor Evando Rivitti foi um dos expoentes da especialidade que impressionaram o Dr. Samuel, desde os tempos da FMUSP, na residência e ao longo da carreira, por sua capacidade e pensamento coordenado, que lhe permitem o dom de encontrar soluções adequadas para situações difíceis. O Professor Sampaio, um dos patronos da especialidade, com sua capacidade de antecipar o futuro e planejar para que as coisas acontecessem, proporcionou a construção de um dos maiores serviços de Dermatologia do mundo. O avanço da estética chama a atenção do Professor Samuel, que alerta para o canto de sereia dos ganhos financeiros, em detrimento da Dermatologia médica. Chama a atenção para a, ainda, pouca presença de dermatologistas em hospitais e em serviços públicos. Esta situação faz com que tradicionais doenças dermatológicas, como a hanseníase, por exemplo, sejam atendidas por não dermatologistas, ou mesmo não médicos. Na raiz desta distorção está o crescente desinteresse pelo serviço público pela baixa remuneração. Muitos dermatologistas bem preparados optam pela estética que remunera mais. Neste contexto, a parte eminentemente médica da Dermatologia pode ser relegada a segundo plano, o que inclui o desinteresse em atender pacientes internados. O Professor Samuel destaca experiência que desenvolve, com outros colegas, em São José dos Campos, de um pronto atendimento dermatológico no Hospital viValle. A experiência bem sucedida teve como consequência o aumento substancial dos atendimentos hospitalares pela frequência de condições dermatológicas, entre as quais casos de urticária, síndromes bolhosas e até mesmo situações potencialmente graves como o de paciente com queixas de dor e manchas no corpo, diagnosticado com Síndrome de Steven Johnson. Trata-se de uma situação típica do campo de ação do dermatologista, resume o Professor Samuel, revertida graças à ação eficaz do especialista.
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A revolução tecnológica na Dermatologia, um marco da linha do tempo deste segundo século da especialidade, tem mostrado resultados eficazes e menos agressivos mas, por outro lado, que impactam no encarecimento dos atendimentos. O Professor Samuel concorda que novas tecnologias oferecem opções vantajosas, mas os especialistas devem atentar para os riscos da excessiva dependência a aparelhos, o que poderá implicar em negligenciar soluções mais simples e de baixo custo. O conteúdo tecnológico em excesso pode trazer riscos de dependência e dermatologistas menos atentos poderão temer que não há solução sem aparelhos. Na Faculdade de Medicina de Taubaté, o Professor Samuel tem levantado essas questões e, eventualmente, procura demonstrar, de forma prática que, por exemplo, bisturis elétricos, utilizados há décadas, podem resolver problemas de forma tão eficaz quanto lasers de milhares de dólares, em situações específicas.
Dermacamp: uma destacada obra criada em 2001
A presença do dermatologista em ações sociais de impacto junto à cidadania abrem um espaço de grande mérito a ser preenchido pela SBD neste segundo século. Entre as obras já instaladas e produzindo resultados destaca-se o Dermacamp, que começou em 2001. O projeto tem como foco a integração e melhoria da qualidade de vida de crianças com problemas de pele, sendo reconhecido internacionalmente como iniciativa de referência para responsabilidade social em Dermatologia. Coordenado pelo Professor Samuel Mandelbaum e pela enfermeira especialista em Dermatologia, Maria Helena Sant’Ana Mandelbaum, apoiado pela SBD e outras entidades, promove, entre outras atividades, um acampamento anual voltado para crianças e adolescentes que atende pessoas de todas as partes do Brasil e, também, do exterior. Além da assistência, o projeto promove a conscientização e o empoderamento visando a fortalecer as pessoas quanto à reivindicação por seus direitos e a ocupação de espaços como cidadãos.
O Professor Samuel Mandelbaum com professores e residentes da Faculdade de Medicina de Taubaté SOCIEDADE BRASILEIRA DE DERMATOLOGIA - 205
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O CALEIDOSCÓPIO DERMATOLÓGICO
O
Professor Mário Cezar Pires, professor de Dermatologia no serviço credenciado do histórico e produtivo Hospital Padre Bento de Guarulhos, instituição que completou 85 anos em 2016, lembra que a relação com a hanseníase está na gênese da SBD. O Complexo Hospitalar Padre Bento, criado em 1931, está na vanguarda dos avanços da especialidade. A instituição foi concebida para atender pacientes de hanseníase e uma de suas missões iniciais foi implantar a política de saúde da época que determinava a internação compulsória dos doentes.
O Padre Bento ostenta na constelação de especialistas que atuaram em seus ambulatórios personalidades como os professores João de Aguiar Pupo, Lauro de Souza Lima, Nelson Proença, Abílio Martins Castro, Raymundo Martins Castro, Mário Luís Macca, Vitor Manoel Silva dos Reis, atual professor da FMUSP e presidente do Congresso Brasileiro de Dermatologia realizado em São Paulo, em 2015. Com o fim da internação compulsória, o instituto passou a chamar-se Hospital Padre Bento. Em 1972, o Hospital Adhemar de Barros (hospital do pênfigo) foi transferido para a mesma área e,
Professor de Dermatologia no serviço credenciado do histórico e produtivo Hospital Padre Bento de Guarulhos
Professor da FMUSP e presidente do Congresso Brasileiro de Dermatologia realizado em São Paulo, em 2015
Professor Mário Cezar Pires
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Professor Vitor Manoel Silva dos Reis
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uma década depois, a instituição passou a receber pacientes de tuberculose provenientes do Hospital Mandaqui, tendo adquirido seu nome atual - Complexo Hospitalar Padre Bento de Guarulhos. Ao longo do tempo a especialidade tem se ampliado e o dermatologista tem buscado superespecializações em áreas como cirurgia, dermatoscopia, cosmiatria, laser. O Professor Mário Cézar resume que, após quase três décadas de formado, a Dermatologia do século 21 apresenta-se profundamente diferente da que era praticada em sua época de residência. O arsenal terapêutico, que inclui recursos diagnósticos, ultrassom, ressonância, dermatoscopia, entre outros equipamentos e processos, além das novas medicações que incluem tanto os biológico como os mais avançados hidratantes e protetores, tem transformado as feições da especialidade. Por outro lado, como ressalta, drogas antigas continuam importantes e passam a ser indicadas para novos usos. Nos últimos anos os cuidados com a pele e os cosmecêuticos avançaram muito, bem como o interesse das pessoas por orientações de seus dermatologistas sobre temas mais amplos, além das doenças. O Professor Mário Cézar reconhece que há um número expressivo de pesquisa clínica em Dermatologia no Brasil, com pesquisadores que têm adquirido renome internacional, entre os quais cita o Dr. Adilson Costa, coordenador dos ambulatórios de acne e Dermatologia estética e do núcleo de pesquisa clínica em Dermatologia da PUC/Campinas. Em virtude de suas atividades, o Dr. Adilson foi convidado para trabalhar nos Estados Unidos. No HC da FMUSP, os professores Vítor Manoel Silva dos Reis, Roberto Takaoka, Valéria Aoki, Paulo Criado, entre outros, são reconhecidos pela longa dedicação à pesquisa.
A Dra. Valéria Aoki, pós-doutorada em imunodermatologia no Medical College de Wisconsin, EUA, é professora visitante da Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill, vice-chefe do Departamento de Dermatologia da FMUSP, com linhas de pesquisa em autoimunidade, dermatoses bolhosas auto-imunes e dermatite atópica, entre outras. É, também, coinvestigadora do Grupo Cooperativo em Pesquisa sobre Fogo Selvagem, com a Universidade da Carolina do Norte, USP e Universidade Federal de Mato Grosso do Sul. A pesquisa do fogo selvagem iniciou-se com o Professor Luiz Dias, em 1985, quando era chefe do laboratório de imunodermatolologia da Johns Hopkins Medical School, em Baltimore, EUA e com o Professor Sampaio. Outros pesquisadores brasileiros, entre os quais os professores Raymundo Martins Castro, Paulo Borges, Paulo Cunha, Fernando Almeida, Ciro Roberto Martins, Rosicler Rocha-Alvarez, Iphis
Formação do grupo de Cooperativo Brasil - EUA para estudos do Fogo selvagem - 1983, com o Professor Sampaio SOCIEDADE BRASILEIRA DE DERMATOLOGIA - 207
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Campbell, Horácio Friedman, José Roberto Marques e Maria Elisa Moraes, participaram das pesquisas e publicaram artigos em revistas de alto impacto. O Dr. Mário Cézar destaca que em vários centros em universidades brasileiras há pesquisas em hidratantes, biológicos, oncologia cutânea, infectologia, pênfigo, leishmaniose, entre muitas outras. Menciona, na Bahia, o Professor Paulo Roberto Lima Machado, pós-graduado em imunodermatologia em Lyon, França; mestre pela Universidade de Cornell, nos Estados Unidos, coordenador e pesquisador do serviço de imunologia do Hospital Universitário Professor Edgar Santos da UFBA. Atua, entre outras áreas, em leishmaniose tegumentar americana, hanseníase e manifestações cutâneas da infecção pelo HTLV-1.
Professor Paulo Roberto Lima Machado
Coordenador e pesquisador do serviço de imunologia do Hospital Universitário Professor Edgar Santos da UFBA
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DOENÇAS ANTIGAS E NOVAS TECNOLOGIAS À DISPOSIÇÃO Olhando-se pelo retrovisor da história da cirurgia dermatológica no Brasil, no primeiro século, vemos um caminho que foi desenhado de forma rápida e competente e que aponta para veredas instigantes nestes cem anos à frente. O Dr. Carlos Roberto Antonio, professor responsável por cirurgia dermatológica e laser da FAMERP - Faculdade Estadual de Medicina de São José do Rio Preto, familiarizado com as modernas tecnologias, destaca que muitas doenças dermatológicas, com tratamentos eventualmente menos eficazes por métodos tradicionais, respondem de forma animadora à terapias com lasers e outros equipamentos modernos que têm sido introduzidos nas clínicas Centros de pesquisa e desenvolvimento em vários países do mundo e, também, no Brasil, têm posto à disposição dos especialistas equipamentos na vanguarda da tecnologia, mas, ainda, a preços relativamente elevados. i
Professor Carlos Roberto Antonio
Familiarizado com as modernas tecnologias, destaca que muitas doenças dermatológicas, com tratamentos eventualmente menos eficazes por métodos tradicionais, respondem de forma animadora à terapias com lasers e outros equipamentos
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Capítulo
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O ENCANTAMENTO AMAZÔNICO SOCIEDADE BRASILEIRA DE DERMATOLOGIA - 209
A
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Amazônia é uma das regiões do mundo que captura o imaginário de pesquisadores e viajantes que veem na floresta um repositório da vida em toda a sua plenitude. O Brasil tem se destacado em produção de pesquisa de doenças tropicais, com ênfase em Dermatologia, ao longo do primeiro século da SBD e, neste segundo século, tem diante de si o desafio de firmar-se como referência mundial nesse campo. Eis aqui um bandeira a ser empunhada pelas lideranças da comunidade dermatológica brasileira neste século. Em Manaus, a Fundação de Dermatologia Tropical e Venereologia Alfredo da Matta completou 61 anos de fundação, em 2016, com papel de destaque no atendimento a pacientes de hanseníase, doenças sexualmente transmissíveis e doenças dermatológicas, além da coordenação do Programa de Dermatologia Sanitária do Amazonas. A Fundação de Medicina Tropical Doutor Heitor Vieira Dourado, que completou 42 anos de fundação, em 2016, é um centro de referência em assistência, ensino e pesquisa em doenças infectoparasitárias e tropicais, reconhecida in-
ternacionalmente, com laboratórios especializados em diversas áreas. É credenciada pela OMS - Organização Mundial de saúde como centro colaborador nas áreas de ensino, pesquisa e controle de hanseníase para as Américas e centro de referência nacional em Dermatologia Sanitária. No Amazonas, o Professor Alcidarta dos Reis Gadelha, um dos patronos da Dermatologia amazônica, fundou, em 1985, a Regional da SBD e ocupou a presidência da primeira diretoria. Pioneiro na introdução de uma Dermatologia de vanguarda na região, o Professor Alcidarta graduou-se pela Universidade Federal do Amazonas, fez mestrado em Dermatologia na UFRJ, nos serviços dos professores Francisco Eduardo Rabello e Sylvio Fraga e doutorado na Escola Paulista de Medicina, no serviço do Professor Raymundo Martins de Castro.
Em Manaus, a Fundação de Dermatologia Tropical e Venereologia Alfredo da Matta completou 61 anos de fundação, em 2016
Dr. Alcidarta Gadelha, fundou, em 1985, a Regional da SBD e ocupou a presidência da primeira diretoria
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Sua experiência internacional inclui pós-doutorado no Hospital Saint Louis, em Paris, no serviço do Professor Civatte e no Instituto Pasteur. Entre outras obras, é autor do livro Cirurgia Dermatológica em Consultório, com a Dra. Izelda Costa. Sua longa folha de serviços registra posições de destaque na academia, como pró-reitor de pesquisa e pós-graduação da Universidade do Amazonas, professor titular de Dermatologia da Faculdade de Ciências da Saúde do Amazonas e responsável pela disciplina de Dermatologia da Escola Superior de Ciências da Saúde da Universidade do Estado do Amazonas, entre outras atividades. Foi diretor da Fundação Alfredo da Matta e presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Dermatológica. No Pará, a Regional foi constituída um ano depois, em 1986, sob a liderança dos professores Domingos Barbosa da Silva e Ubirajara Imbiriba Salgado.
Professor Arival Cardoso Brito
Ex-presidente da SBD, com ampla folha de serviços prestados à especialidade, chefiou o departamento de patologia tropical do serviço de Dermatologia da UFPA - Universidade Federal do Pará
O Professor Arival Cardoso de Brito, ex-presidente da SBD, com ampla folha de serviços prestados à especialidade, chefiou o departamento de patologia tropical do serviço de Dermatologia da UFPA - Universidade Federal do Pará. A tradição dermatológica paraense tem raízes profundas e mestres importantes têm marcado a linha do tempo da especialidade. Em 1922, foi implantada a cadeira de Clínica Dermatológica e Sifilográfica da Faculdade de Medicina e Cirurgia do Pará, sob a liderança do Professor Manuel Ferreira dos Santos Bastos e, em 1951 o Professor Domingos Barbosa da Silva assumiu a disciplina e a chefia do Departamento de Dermatologia. A mística amazônica encanta as pessoas e atraí cientistas de todo o mundo. Entre os mais destacados dermatologistas brasileiros, o Professor Paulo Cunha, chefe do serviço de Dermatologia e ex-diretor da Faculdade de Medicina de Jundiaí, tem se debruçado sobre doenças tropicais endêmicas.
Professor Professor Domingos Barbosa da Silva
Em 1951 assumiu a disciplina e a chefia do Departamento de Dermatologia
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Doutorou-se pela FMUSP, pós-doutorado pela New York University, seu interesse pela pesquisa levou-o a percorrer o Brasil e a atravessar o Atlântico para conhecer a realidade da Dermatologia de países africanos. Participou de um grupo que desenvolveu ampla pesquisa com populações ribeirinhas no Alto Solimões, em expedição científica que teve o apoio da SBD e da Fundação de Medicina Tropical do Amazonas. O presidente dessas duas instituições, à época, era o Professor Sinésio Talhari. O Professor Talhari é uma das lideranças mais expressivas da pesquisa científica na região. Graduado pela UFF - Universidade Federal Fluminense, onde completou toda a carreira, da residência ao mestrado, tendo o doutorado sido feito na EPM/Unifesp. Na UFAM- Universidade Federal do Amazonas ingressou como professor, em 1974, e seguiu uma longa e produtiva carreira. Suas áreas de pesquisa incluem Dermatologia tropical e HIV, entre outras.
Professor Paulo Cunha, chefe do serviço de Dermatologia e ex-diretor da Faculdade de Medicina de Jundiaí, dedicação às doenças tropicais endêmicas 212 - SOCIEDADE BRASILEIRA DE DERMATOLOGIA
Foi consultor da Organização Pan-Americana de Saúde e colaborou com a Organização Mundial da Saúde em trabalhos sobre controle da hanseníase e tuberculose em Angola. Nesta entrevista, concedida em novembro de 2015 ao jornalista Antonio Alberto Prado, ele resume o exuberante - e preocupante - cenário regional e as perspectivas para a especialidade. QUAIS AS AÇÕES RELEVANTES NA ÁREA DA DERMATOLOGIA DESENVOLVIDAS NA REGIÃO? Fiz residência e mestrado na UFF - Universidade Federal Fluminense. Os professores Rubem David Azulay, René Garrido Neves, Neide Kalil Gaspar, Antonio Pedro Gaspar, Luiz Peres Quevedo estão entre meus principais professores. Iniciei minhas atividades em Dermatologia clínica em Manaus e no ensino da especialidade pela UFAM - Universidade Federal do Amazonas e, na Secretaria Es-
Professor Sinésio Talhari
Foi consultor da Organização Pan-Americana de Saúde e colaborou com a Organização Mundial da Saúde em trabalhos sobre controle da hanseníase e tuberculose em Angola
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tadual de Saúde, no Instituto de Medicina Tropical. Atendia pacientes nas duas instituições. Nos fins de semana, fazia atendimento no Hospital Colônia Antonio Aleixo, leprosário com mais de 1400 doentes internados. Em 1975, fui indicado diretor clínico dessa instituição. As irmãs religiosas Fernanda, Ruth, Martina, Guilhermina, franciscanas Missionárias de Maria e o Dr. Getúlio Mattos eram os responsáveis por quase todas as atividades. Nessa época, o irmão Pedro, fotógrafo e grande amigo, revelou várias das fotos em preto e branco, que guardo até hoje. QUAIS AS DOENÇAS DE ENTÃO? Até o final dos anos 70 éramos cerca de dez dermatologistas em Manaus, com demanda muito grande. Do ponto de vista de saúde pública, chamava a atenção a enorme quantidade de casos novos de hanseníase e de leishmaniose cutânea. Com as irmãs Franciscanas Missionárias de Maria, auxiliares de enfermagem e médicos generalistas da antiga Fundação SESP - Serviço Federal de Saúde Pública, iniciamos a revisão de pacientes de hanseníase, na capital e no interior, e treinamos profissionais em Dermatologia geral com ênfase nas micoses, leishmaniose, doenças dermatológicas bacterianas, alergias mais comuns e outras. Em todo o interior também impressionava a quantidade de casos de hanseníase. Nessa fase, foi essencial a atuação da irmã Maria Ângela Alcalde, enfermeira da congregação Franciscanas de Maria. Competente e organizada, possibilitou a reorganização do programa de Dermatologia Sanitária do estado do Amazonas. Os treinamentos, revisões de pacientes, exames de comunicantes, populações ribeirinhas, escolares, bem como a divulgação dos principais aspectos da hanseníase junto aos profissionais de saúde e população e melhor qualidade dos registros dos pacientes possibilitaram aumento expressivo do total de pacientes atendidos.
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HAVIA RECURSOS? O apoio da Secretaria de Saúde, por meio dos doutores Carlos Borborema, Tancredo Castro, Francisco de Paula e outros, foi essencial para a reorganização do programa de Dermatologia Sanitária e controle da hanseníase. O apoio financeiro da American Leprosy Mission, por meio do Dr. Felton Ross e da German Leprosy Relief (DAW-Würzburg, Alemanha) foram fundamentais para o trabalho. A Alemanha continua apoiando financeiramente o controle da hanseníase no estado. Em 1984, com Professor René Garrido Neves, publicamos a primeira edição do livro Hanseníase. A quinta edição foi publicada em 2014. Posteriormente, publicamos outros dois livros: Dermatologia Tropical e DST/Aids. É importante ressaltar o estímulo constante dos professores e amigos René Garrido, Rubem David Azulay, Raymundo Martins de Castro e Antonio Carlos Pereira Jr. O estado do Amazonas, junto com o Acre estavam, e ainda estão, entre as áreas mais endêmicas do país. As aulas de Dermatologia, com muitos pacientes da área de dermatologia infecciosa, estimularam alunos da medicina a trabalharem comigo, nos fins de semana, no leprosário. Hoje, muitos são dermatologistas, entre os quais os doutores Lúcio Ihara, Rubens Abjedid, Francisco Helder Cavalcante, Ana Orsi, minha esposa Anette Chrusciak Talhari e outros. O TRABALHO ERA INTERDISCIPLINAR? Conseguimos que professores de otorrino, como Renato Telles; epidemiologistas, entre os quais Mena Barreto, Dagmar Kiesserlich e clínicos, como Marcus Barros se envolvessem no trabalho do leprosário. Demos altas a muitos pacientes e começamos a internar doentes de hanseníase no Hospital Getúlio Vargas, hospital-escola da Faculdade de Medicina, em Manaus. Criamos a enfermaria de Dermatologia e internamos pacientes de hanseníase, pênfigo e outras doenças cutâneas na mesma área do hospital. Também eram internados pacientes dermatológicos no Hospital 214 - SOCIEDADE BRASILEIRA DE DERMATOLOGIA
Tropical, com apoio dos doutores Heitor Dourado e Carlos Borborema. Sempre que possível, evitava-se internar no leprosário. Essa política de altas e internações em outros locais possibilitou reduzir o total de pacientes. Em 1979, após preparo adequado dos pacientes e conviventes, o leprosário foi fechado e a maioria das atividades clinicas/fisioterapia, confecção de palmilhas, calçados, passou a ser realizada no antigo Dispensário Alfredo da Matta, em Manaus. Com o tempo, deixei de atender no ambulatório da Faculdade de Medicina e passei a dar aulas no Alfredo da Matta. Nessa época, juntamente com o Dr. Alcidarta dos Reis Gadelha, montamos o primeiro laboratório de dermatopatologia de Manaus. Todas as biópsias passaram a ser realizadas neste local pelo Dr. Alcidarta. Também foi criado laboratório de micologia e, aos poucos, com o apoio da Secretaria de Saúde, este dispensário contratou mais dermatologistas, ampliou o quadro de enfermagem e a infraestrutura. Além da Dermatologia, implementou-se o atendimento na área de doenças sexualmente transmissíveis, particularmente com a Dra. Adele Benzaquen e Dr. José Carlos Sardinha. AS INSTITUIÇÕES SÃO ADEQUADAS PARA AS TAREFAS? O Alfredo da Matta é um dos principais centros brasileiros de referência em DST/Aids. Nos anos 80 passou a ser centro de referência em Dermatologia sanitária denominado Centro de Dermatologia Tropical e Venereologia Alfredo da Matta, atualmente, Fundação de Dermatologia Tropical e Venereologia Alfredo da Matta. Na Faculdade de Medicina, trabalhei com os dermatologistas Gilberto Fernandes, Simão Pecher, Alcidarta Gadelha e Lúcio Ihara. O Dr. Alcidarta, juntamente com Dr. Luiz Ferreira, professor de patologia, foram essenciais para a qualidade dos exames dermatopatológicos, possibilitando publicações em revistas da especialidade. No final dos anos 80, criamos a primeira residência médica de Dermatologia, no Alfredo da Matta.
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NUM AMBIENTE EM TRANSFORMAÇÃO, QUAIS DOENÇAS MERECEM ATENÇÃO? Malária, tuberculose, micoses, hanseníase, doenças sexualmente transmissíveis/Aids, hepatites virais, viroses, diversas enfermidades associadas ao saneamento básico, leishmaniose estão entre as muitas doenças associadas a esse processo. Há uma explosão dos casos de leishmaniose cutânea nas áreas de invasões, na periferia de Manaus, novas estradas, desmatamentos para agricultura/pastagens e garimpos. Em praticamente toda a Amazônia, o cenário é similar. Isso possibilitou a realização de vários trabalhos, com teses de mestrado e doutorado; algumas orientadas por mim, ou minha esposa, Anette Talhari. Vários desses trabalhos foram publicados, muitos voltados para o tratamento dessas enfermidades. Fomos pioneiros na introdução da pentamidina, miltefosina e estudo comparativo de drogas importantes como primeira linha, ou alternativas, para o tratamento da leishmaniose. A AIDS É UMA AMEAÇA? Outra consequência dessa ocupação é a interiorização da Aids, até poucos anos limitada às capitais dos estados da Amazônia. Além da Aids é importante ressaltar a “invasão da civilização branca”. Populações indígenas têm sido acometidas por diversas doenças infecciosas, tais como as DST/Aids, tuberculose, malária, hepatites virais e outras. Na maioria das vezes, os serviços de saúde são extremamente precários, piores do que o que se oferece à população, em geral. Outro aspecto recente, associado ao desmatamento é o aumento expressivo de casos de paracoccidioidomicose no estado de Rondônia. Essa micose sempre foi relativamente rara nas áreas de floresta amazônica. A HANSENÍASE AINDA É MOTIVO DE PREOCUPAÇÃO? Sim. Apesar da eficácia do tratamento, a hanseníase ainda é endêmica no estado do Amazonas, mesmo com os exSOCIEDADE BRASILEIRA DE DERMATOLOGIA - 215
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celentes índices de cura com o tratamento poliquimioterápico, superiores a 95%. O Brasil permanece com níveis endêmicos, ou seja, mais de um doente por 10.000 habitantes. Os estudos de tendência mostram que a hanseníase permanecerá endêmica no país, no mínimo, até 2020. É importante ressaltar que o estado do Amazonas está entre os pioneiros na implementação do tratamento poliquimioterápico, recomendado pela OMS em 1981. As políticas atuais, voltadas para a eliminação dessa enfermidade, tiveram consequências desastrosas para o seu controle. Há poucas atividades de treinamento e supervisão. Isto leva a diagnósticos tardios, com possibilidades de deformidades e maior transmissão, voltando ao ciclo anterior de aumento do número de casos. Há dados que evidenciam isso. A ideia da eliminação foi lançada pela OMS em 1991 com a meta de reduzir o total de casos, em todo o mundo, para menos de um paciente por 1000 habitantes. HÁ PERSPECTIVAS DA HANSENÍASE SER ERRADICADA? Com o tratamento, iniciado em 1981, denominado tratamento poliquimioterápico, ou multidroga e a eficácia mencionada, acreditava-se que a transmissão seria muito reduzida e a doença desapareceria ao longo do tempo. A eliminação, em todo o globo, foi atingida nos anos 2000/2005. Porém, a transmissão continua e não parece ter havido redução importante do número de casos novos nas áreas endêmicas. Os programas de controle não estão bem. Será necessário reorganizá-los. O Brasil e mais dois países não atingiram a meta da eliminação. A maioria dos governos dos países endêmicos que eliminou a hanseníase entendeu que não havia mais problemas e os programas, na prática, foram desativados com a integração do controle na rede de serviços de saúde. Sem supervisão e treinamento, verificou-se aumento do número de diagnósticos tardios, com numerosos pacientes novos apresentando deformidades. Os países que não eliminaram a hanseníase, por sorte, mantiverem parte dos seus programas de controle. 216 - SOCIEDADE BRASILEIRA DE DERMATOLOGIA
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QUAL O PAPEL DO DERMATOLOGISTA QUANTO À AIDS? A Aids avança para o interior da Amazônia e áreas rurais do país. Deixou de ser doença urbana, acometendo populações bem definidas em sua fase inicial, principalmente homens. Como sabemos, é doença basicamente de transmissão sexual, com todas as dificuldades de controle inerentes a essas enfermidades. Progressivamente, atingiu todas as camadas sociais, sem diferenças estatísticas relevantes quanto a gêneros. Atualmente, a Aids é considerada doença negligenciada. O dermatologista tem papel relevante, desde o momento em que diagnostica qualquer DST. No atendimento é obrigatório pedir o teste de HiV e durante a evolução do paciente. São inúmeras as doenças cutâneas nos pacientes com Aids – micoses superficiais, micoses sistêmicas, sarcoma de Kaposi, entre outras. É comum o dermatologista fazer o diagnóstico de Aids ao examinar pacientes que o procuram por apresentar dermatoses aparentemente banais. Outro cenário importante, são as doenças associadas a restauração da imunidade. 20%, ou mais, dos pacientes, com boa resposta ao tratamento desenvolvem doenças dermatológicas, muitas vezes graves. Problemas endocrinológicos, hematológicos, doenças autoimunes e vários outros quadros também ocorrem com frequência.
nais. Bons clínicos, boa enfermagem, bons laboratórios viabilizam bons projetos e recursos que levam ao ciclo virtuoso de melhor atendimento ao paciente, com diagnósticos precisos, mais reconhecimento do trabalho desenvolvido e apoio institucional para melhorar a qualidade do serviço.
COMO ESTÃO OS INSTITUTOS DE PESQUISAS NO AMAZONAS? Nas duas instituições em que mais trabalhei – Alfredo da Matta e Hospital de Medicina Tropical - sempre esteve presente a preocupação com a análise de dados, documentação cientifica, apresentação de casos clínicos em congressos e, principalmente, criação de infraestrutura que pudesse melhorar o padrão de diagnóstico. Melhores laboratórios possibilitam melhor qualidade de trabalhos científicos para publicá-los em boas revistas brasileiras, como os Anais Brasileiros de Dermatologia, Revista de Medicina Tropical, Cadernos de Saúde Pública e revistas internacio-
QUAL O FUTURO DA DERMATOLOGIA? A Dermatologia brasileira sempre ocupou papel de destaque no cenário internacional. Professores de renome, catedráticos, chefes de departamentos, tais como Rabelo, Ramos-e-Silva, Rubem Azulay, Glyne Rocha, Rutowitch, Demétrio Peryassú, Raymundo Martins Castro, Sebastião Sampaio, Evandro Rivitti, Neusa Dillon, Clóvis Bopp, Lúcio Bakos, César Bernardi, René Garrido, Jarbas Porto, Jorge Lobo, Márcio Lobo, Alberto Cardoso e tantos outros, criaram serviços, publicaram trabalhos relevantes em diversas áreas da Dermatologia, formaram numerosos dermatologistas clínicos, professores e pesquisadores. Antes deles, éramos
A DOENÇA DE LYME, EM PESQUISA DE SUA AUTORIA, É UMA REFERÊNCIA? Essa enfermidade é conhecida há muito tempo na Europa e Estados Unidos. Acreditava-se que não existisse abaixo da linha do equador. Na década de 80 diagnosticamos os primeiros casos da Doença de Lyme no Alfredo da Matta. Posteriormente, vários outros casos foram documentados, possibilitando dissertação de mestrado e tese de doutorado. A comprovação do agente etiológico, um espiroqueta, denominado Borrelia burgdorferi, foi possível através da colaboração com pesquisadores austríacos. Trabalhos sobre esse tema também foram publicados. Um desses trabalhos foi considerado uma das 100 pesquisas mais importantes publicadas nos Anais Brasileiros de Dermatologia. Todos foram desenvolvidos com recursos de projetos aprovados pela Fapeam - Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas.
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poucos. Hoje, somos mais de sete mil profissionais. A SBD está entre as maiores e mais respeitadas sociedades do mundo. Infelizmente, as cátedras e catedráticos acabaram na época dos militares. Há críticas às cátedras. Poderiam não ser o melhor modelo. Porém, ao longo das últimas décadas, não criamos modelos que estimulem a produção cientifica, similar ao que ocorre na Europa e Estados Unidos. Não há estimulo à carreira, ao mérito. As promoções, na maioria das universidades públicas e, também, privadas, não significam muito para o professor. Não há estimulo para dedicação integral ao ensino e pesquisa. No cômputo geral, atualmente, a nossa contribuição em revistas com fator de alto impacto é muito baixa. Os grandes nomes brasileiros de destaque na Dermatologia internacional, como tivemos no passado, a meu ver, são poucos, se levamos em consideração, o aumento expressivo de serviços de Dermatologia e ótimos dermatologistas que temos. Falta estimulo, inclusive financeiro. Precisamos repensar as universidades e instituições de pesquisa. E, é claro, precisamos ver tudo isso no contexto de um país com administradores públicos que perdem credibilidade, com discursos vazios e ausência de políticas públicas voltadas para a construção de um grande país.
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QUAIS AS CARÊNCIAS PRINCIPAIS? Creio que tudo que se relaciona à saúde pública não está bem. O país, como um todo, vai mal. A saúde está neste contexto, lamentavelmente. Um país que tem três doenças transmitidas pelo mesmo vetor, o Aedes aegypti – dengue, chinkungunya e zika, está muito aquém de qualquer coisa que possa ser considerada razoável. O QUE O ATRAIU E AINDA O ATRAI NA AMAZÔNIA? O que me atraiu: durante a residência em Dermatologia obtive bolsa para o Hospital de Santa Maria, em Lisboa. Desenvolvi trabalho em micologia. Depois de Lisboa fui para a Inglaterra. Nesse período sempre me perguntavam sobre a Amazônia, matança de índios... Eu não tinha ideia do que acontecia. As informações eram controladas pelos militares. Quando voltei para o Brasil, visitei Manaus. A possibilidade de trabalho, ensino, pesquisa ... e boas pescarias, foram decisivas para a minha vinda. O que me atrai: a possibilidade de continuar trabalhando em novos projetos. Tenho bom consultório, bons amigos, estou junto da família ... e perspectivas de pescarias cada vez melhores. Recebi os títulos de cidadão manauara e amazonense. i
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Capítulo
17
SOB OS VENTOS DO MINUANO. A ESPECIALIDADE AVANÇA NO SUL SOCIEDADE BRASILEIRA DE DERMATOLOGIA - 219
E
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m setembro de 2016, crava-se um derradeiro marco nesta segunda década do segundo século da SBD, com o lançamento deste livro, O Segundo Século, e sua linha do tempo, que começa em 1900 e encerra-se com a realização do 71º Congresso da Sociedade Brasileira de Dermatologia, sob a presidência da Professora Tânia Ferreira Cestari, em Porto Alegre. A Dra. Tânia formou-se pela UFRGS, onde é professora de Dermatologia. Fez mestrado e doutorado em Dermatologia na UFRJ, atua numa ampla gama de associações científicas internacionais e participa do corpo editorial de publicações médicas brasileiras e de outros países. É membro da comissão de ética e pesquisa do Hospital de Clínicas de Porto Alegre e pesquisadora responsável pelo Laboratório de Fotomedicina e Teledermatologia do Centro de Pesquisas da instituição.
Professora Tânia Ferreira Cestari
Membro da comissão de ética e pesquisa do Hospital de Clínicas de Porto Alegre e pesquisadora responsável pelo Laboratório de Fotomedicina e Teledermatologia do Centro de Pesquisas da instituição
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O presidente de honra do 71º Congresso é, in memoriam, o Professor César Bernardi, que também formou-se na UFRGS, onde foi professor. Foi chefe do serviço de Dermatologia da Santa Casa de Porto Alegre e, na atividade associativa, presidente da SBD, gestão 1987/88 e Radla, 1993/94. Homenageados pelo Congresso de 2016 os doutores Gisela Del Pino, Lúcio Bakos, Luiz Fernando Bopp Muller e Roberto Lopes Gervini (in memoriam). No Rio Grande do Sul, a regional fundada em 1971 pelos doutores Roberto Lopes Gervini, Luiz Fernando Bopp Muller, Clóvis Bopp, Humberto Ponzio, Lúcio Bakos, Miriam Peres, Antônio Carlos Gerbase, Maria Elizabete Carvalho, Luiz Carlos de Campos, Célia Kalil, Ana Maria Pires, Aída Libis, Marlene Hinnah, Olga Barrios, Sérgio Ivan Dornelles, constituiu o núcleo em torno do qual congregaram-se os dermatologistas do estado. As atividades científicas começaram com a Jornada Gaúcha de Dermatologia. Nas gestões das doutoras Dóris Hexsel e Célia Kalil foram adquiridas as instalações da regional no prédio das especialidades da AMRIGS - Associação Médica do Rio Grande do Sul. Ação de impacto nacional registrou-se durante as gestões de 1999 a 2002 quando a regional solicitou ao Ministério Público Federal a regulamentação das camas de bronzeamento artificial, que resultaram em normas regulamentadoras. O Dr. Antonio Carlos Bastos Gomes, dermatologista e pesquisador da história médica do Rio Grande do Sul, autor de livros entre os quais A Dermatologia no Rio Grande do Sul - Os Primeiros 100 Anos, de 1997, destaca que o médico alemão Ernst von Bassewitz foi o primeiro dermatologista do estado, tendo chegado ao Brasil em 1894 e transferindo-se para o interior gaúcho.
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A primeira escola médica, a Faculdade de Medicina de Porto Alegre, foi criada em 1898 e seu primeiro professor de Dermatologia e Sifilografia foi o Dr. Modesto José de Souza. Outros dermatologistas que marcaram está história, desde a sua gênese, foram os doutores Rodolpho Machado Masson, Ulisses de Nonohay e Carlos Pereira da Silva. O Dr. Nonohay, inspetor federal de lepra e doenças venéreas, juntou-se ao serviço médico da coluna revolucionária gaúcha, na revolução de 1930 e seguiu até o Rio de Janeiro. Em 1938, o sanitarista Dr. Bonifácio da Costa foi convidado para reorganizar os serviços de saúde do estado e atraiu talentos de outros centros, entre os quais os doutores José Gerbase,formado no Rio de Janeiro e discípulo do Professor João Ramos-e-Silva e José Pessoa Mendes, que lecionou na Faculdade de Medicina de Porto Alegre e transferiu-se depois
para São Paulo onde assumiu a chefia do serviço de Dermatologia do Hospital dos Servidores do Estado. Em 1946, o Dr. Clóvis Bopp. uma das legendas da especialidade, com longa e virtuosa carreira acadêmica e clínica, ex-presidente da SBD, passou a integrar a disciplina de Dermatologia e Sifilografia. A geração seguinte trouxe mais personalidades de prestígio internacional, entre os quais o Professor Lúcio Bakos que, em 1992, tornou-se professor titular de Dermatologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. É, também, um dos fundadores do GBM – Grupo Brasileiro de Melanoma. Entre as contribuições do Professor Bakos à especialidade destaca-se, entre outras, seu pioneirismo no estudo e desenvolvimento da terapia fotodinâmica (PDT/ TFD), junto com o Dr Luiz Torezan, em São Paulo, na introdução da técnica no Brasil.
Em sua gestão e na gestão da Dra. Célia Kalil, foram adquiridas as instalações da regional no prédio das especialidades da AMRIGS - Associação Médica do Rio Grande do Sul.
Entre as contribuições do Professor Bakos à especialidade destaca-se, entre outras, seu pioneirismo do estudo e desenvolvimento da terapia fotodinâmica (PDT/TFD)
Dra. Dóris Hexsel
Professor Lúcio Bakos
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O marco histórico desta iniciativa foi cravado em setembro de 1995 quando o Dr. Bakos participou de uma reunião da Academia Europeia de Foto-Biologia e tomou contato com os primeiros trabalhos do dermatologista britânico, Dr. Colin Morton com a, até então pouco conhecida, “photodynamic therapy” - PDT. No Brasil, à época, a maioria dos dermatologistas achava que “PDT” era só um partido político, brinca o Dr. Bakos. Com recursos para pesquisa da Fapergs - Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio Grande do Sul, ele importou o ácido delta-amino-levulínico, da Sigma, EUA e obteve um protótipo pioneiro de aparelho iluminador construído pelo Serviço de Engenharia Biomédica do Hospital de Clínicas de Porto Alegre, sob a liderança do engenheiro Elton Ferlin. A iniciativa permitiu o início do tratamento de ceratoses actínicas e carcinomas basocelulares. Os resultados desta pesquisa foram publicados em 2003 nos Anais Brasileiros de Dermatologia. O Dr. Bakos lembra que, após a Galderma lançar seu produto Metvix e o iluminador Aktilite, a experiência pode ser expandida para outras patologias, pesquisas e teses também em outros estados brasileiros. Como membro do board de pesquisadores da Galderma, por alguns anos, como “speaker”, divulgando sua técnica, o Professor Bakos conseguiu a padronização para tratamento oncológico em pacientes do SUS, no Hospital de Clínicas de Porto Alegre. O serviço foi pioneiro no uso da terapêutica fotodinâmica para tratamento de carcinomas superficiais da pele, empregando equipamentos desenvolvidos pelo próprio Hospital de Clínicas. Outros avanços incluem novos enfoques para o tratamento da alopecia areata, introdução da crioterapia com nitrogênio líquido e da dermatoscopia na rotina do atendimento. 222 - SOCIEDADE BRASILEIRA DE DERMATOLOGIA
O Dr. Humberto Ponzio formou-se pela FM/UFRGS e fez residência no serviço do Professor Clóvis Bopp. Em 1977 iniciou atividades docentes na Faculdade de Medicina da PUCRS e, dois anos depois, ingressou na UFRGS como professor na disciplina de Dermatologia, à época desenvolvida na Santa Casa de Porto Alegre. Obteve o título de mestre em Medicina na UFRGS, em 1995, e o de doutor, na Universidade de São Paulo, com a tese Proposta de Método Quantitativo para a Distribuição dos Melasmas em Mulheres. Coordenou, até1999, o programa de residência médica e o programa de educação médica continuada da Faculdade de Medicina da UFRGS. Assumiu, de 1999 a 2005, a disciplina de Dermatologia da ULBRA - Universidade Luterana do Brasil. Palestrante frequente em congressos da especialidade, foi presidente da SBCD e, em 2005 presidiu a reunião do Grupo Internacional de Terapêutica Dermatológica que originou o Teraderm, da SBD.
Prof. Humberto Ponzio, Bernardo Gontijo e João Roberto Antonio
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Com ampla atuação na Dermatologia, demonstrou, pela primeira vez, em 1993, a aplicação de um peeling médio-profundo ao vivo, durante o 5º Congresso Brasileiro de Cirurgia Dermatológica, em São Paulo. Outra instituição de prestígio no Rio Grande do Sul, a tradicional Faculdade de Ciências da Saúde de Porto Alegre, ostenta uma história instigante e abre uma viagem pela linha do tempo. Tudo começou em dezembro de 1953 quando D. Vicente Scherer, arcebispo metropolitano de Porto Alegre decidiu abrir a Faculdade Católica de Medicina. A nova instituição foi autorizada a funcionar em janeiro de 1961 e federalizada em 1980 como Fundação Faculdade Federal de Ciências Médicas de Porto Alegre. Em 2008, adquiriu sua personalidade atual como Fundação Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre - UFCSPA. É neste cenário que outra legenda da Dermatologia gaúcha entra em cena, o Dr. Ênio Campos que, em 1960, assumiu a chefia da disciplina de Dermatologia na nova escola e, mais tarde, também, nas faculdades de Medicina das cidades de Rio Grande e Caxias do Sul. O serviço de Dermatologia da Faculdade de Ciências Médicas está integrado com o complexo hospitalar da Santa Casa de Porto Alegre. Incluem-se na brilhante constelação da Dermatologia do Rio Grande do Sul, os serviços da Santa Casa de Porto Alegre, o Hospital São Lucas, da PUC de Porto Alegre, o programa de residência médica em Dermatologia do Ambulatório de Dermatologia Sanitária do Rio Grande do Sul e, no interior, a Universidade Federal de Santa Maria, entre outros. A Dra. Célia Kalil, formada pela PUC/RS, pós-graduada pelo ambulatório de Dermatologia Sanitária de Porto Alegre, autora do livro Laser e Outras Fontes de Luz, coordenadora e preceptora do ambulatório de cosmiatria
do serviço de Dermatologia do complexo hospitalar Santa Casa de Porto Alegre, tem observado, ao longo de sua experiência, um processo de evolução importante na especialidade, tanto no domínio científico, quando na produção de conteúdo em livros e revistas. Ela destaca a divulgação em publicações especializadas tanto de descrição de doenças e de tratamentos, quanto de novas tecnologias em laser e outras, bem como estudos sobre materiais de preenchimento e aprimoramento de tecnologias já conhecidas, além da pesquisa. Este cenário de progresso abre perspectivas, como avalia a Dra. Célia, para melhores opções terapêuticas e para diagnósticos mais precisos. Observa, também que, ao longo das últimas décadas, a Dermatologia tem evoluído sensivelmente com relação a outras especialidades. Outro aspecto importante destas fronteiras que avançam é o desenvolvimento de superespecialidades na Der-
Dra. Célia Kalil
O avanço da tecnologia abre capítulos estimulantes nesta linha do tempo da especialidade. Em aulas e artigos, ela destaca o avanço da utilização de tecnologias de laser, entre outras, para tratamento de doenças com o aumento das possibilidades de terapias eficazes
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matologia, condição que, como alerta, deve ter como fundamento o domínio das áreas fundamentais da especialidade. Desta forma, aqueles que se concentram em procedimentos com a utilização de lasers, entre outras tecnologias, devem conhecer profundamente a Dermatologia. O domínio dos fundamentos da especialidade evita, entre outros riscos, a utilização de tecnologias em situações inadequadas o que, eventualmente, poderá criar problemas para o paciente. Da mesma forma, a aplicação de preenchimentos, sejam estéticos, ou corretivos, devem ser precedidos de um amplo e minucioso conhecimento da Dermatologia, bem como da anatomia do local do procedimento, o que envolve sólidos conhecimentos da medicina geral. Essas questões têm sido discutidas no âmbito da SBD e devem ser aprofundados ao longo deste segundo século diante dos esperados novos avanços da tecnologia e da terapêutica dermatológicas. A Dra. Célia ressalta a importância das superespecialidade cujo néctar do conhecimento diferencia os dermatologistas dos demais profissionais. Ela destaca que a Dermatologia que, há poucas décadas, ainda era uma especialidade menos procurada pelos jovens médicos, passou a ser altamente demandada no momento da opção pela residência. O avanço da tecnologia abre capítulos estimulantes nesta linha do tempo da especialidade. Em aulas e artigos, a Dra. Célia tem destacado o avanço da utilização de tecnologias de laser, entre outras, para tratamento de doenças com o aumento das possibilidades de terapias eficazes. Ela antecipa, também, um interessante avanço dos lasers em tratamentos de acne, entre outras doenças. Esta possibilidade, se confirmada, permitirá o uso de um aparelho com ação local como opção a remédios sistêmicos, o que será uma evolução no tratamento. As possibilidades de melhorias multiplicam-se por várias áreas. Dermatoscópios, por exemplo, revelam-se 224 - SOCIEDADE BRASILEIRA DE DERMATOLOGIA
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cada vez mais precisos e oferecem mais segurança em diagnósticos. Técnicas de drug delivery associadas a laser, microagulhamento e outras formas de tratamento deverão permitir a entrega da medicação na área de tratamento, oferecendo opções às terapias internas. Essas e outras possibilidades podem abrir um leque interessante para terapêuticas relacionadas a fotoenvelhecimento, lesões pré-cancerosas da pele, não melanoma, alopécia, entre outros campos de interesse dermatológico. No promissor cenário dos biológicos, a Dra. Célia vê perspectivas de avanços contínuos a partir de pesquisas que poderão permitir resultados cada vez mais satisfatórios para o tratamento de uma variedade de patologias. O ensino da especialidade, por sua vez, tem sido pressionado no sentido da ampliação do tempo de formação diante das exigências impostas pelos avanços tecnológicos e tratamentos. A Dra. Célia registra que os serviços credenciados da SBD são sensíveis à esta situação e, em geral, têm respondido aos novos tempos com a oferta em seus currículos dos conhecimentos necessárias para a formação de um especialista completo, o que reduz a necessidade de procura de cursos paralelos. Os atendimentos poderão, também, serem cada vez mais facilitados pelas possibilidades oferecidas pela teledermatologia. A qualidade das imagens e rapidez nas conexões facilitam o uso desta possibilidade. A Dra. Célia destaca que, na universidade, já há residentes que se debruçam sobre as possibilidades abertas pelas tecnologias de informação, o que abre um mundo novo e pleno de oportunidades e, também, de responsabilidades.
À sombra dos pinheirais, um novo
polo científico no estado do Paraná O Professor Luiz Carlos Pereira, formado em 1958 pela Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Paraná e especialista com longa folha de serviços prestados ao ensino e à clínica, registra como marco da especialidade no estado a criação da regional da SBD, em 1952, por um grupo pioneiro de dermatologistas renomados. Em 1958, foi fundado o Celsa - Centro de Estudos Leprológicos Souza Araújo, ligado à Universidade Federal do Paraná, com foco em pesquisa científica, sob a chefia do Professor Ruy Noronha de Miranda. O serviço de Dermatologia do hospital da Santa Casa de Curitiba iniciou suas atividades em 1959 sob a chefia do Professor Ruy Miranda, sucedido, em 1964, pelo Professor
Professor Luiz Carlos Pereira
Marco da especialidade no estado a criação da regional da SBD, em 1952, por um grupo pioneiro de dermatologistas renomados
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Luiz Carlos Pereira que esteve à frente do serviço até 2012, quando assumiu o Professor Sérgio Fonseca Tarlé. Na Dermatologia da UFPR, os professores Fernando Laynes de Andrade e, em 1986, o Professor Luiz Carlos Pereira que serviu a instituição até 2002, foram sucedidos pelos professores Fabiana Andrade Molinari Brener e Jesus Rodriguez Santamaria, presidente da SBD na gestão 1992/93. No rol das instituições de vanguarda desponta, ainda, a Universidade Católica do Paraná cujo serviço de Dermatologia foi organizado em 1959 pelos professores Ruy N. de Miranda e Luiz Carlos Pereira. A chefia da disciplina foi assumida, em 1974, pelo Professor Luiz Carlos Pereira e colaboradores. Seus ambulatórios contemplam toda a ampla gama de áreas de interesse da Dermatologia. Possuiu equipamentos no estado da arte da tecnologia para fototerapia e mapeamento das lesões de pele, além de um
Sérgio Fonseca Tarlé coordena a primeira campanha de prevenção do câncer da pele no Paraná 226 - SOCIEDADE BRASILEIRA DE DERMATOLOGIA
serviço de oncologia reconhecido como de referência a cargo dos especialistas Roberto Gomes Tarlé, José Roberto Toshio Shibue e Luciano José Biazi. Em 1988, foi realizada a primeira campanha de prevenção do câncer da pele no Paraná, coordenada pelo dermatologista Sérgio Fonseca Tarlé. O Dr. Roberto Gomes Tarlé, da nova geração de ilustre linhagem de dermatologistas, é chefe do ambulatório de câncer de pele da Santa Casa de Curitiba, onde gera e dissemina conhecimento especializado em cursos muito procurados por especialistas de todo o país, com ênfase em câncer de pele, cirurgia dermatológica e micrográfica de Mohs, entre outras áreas. Atua, também, no Hospital Universitário Cajuru e no Instituto de Neurologia de Curitiba. O Professor Luiz Carlos Pereira encerrou suas atividades na disciplina de Dermatologia em junho de 2015, assumindo a coordenação do curso o Professor Sérgio Fonseca Tarlé.
Professor Jesus Rodriguez Santamaria
Presidente da Sociedade Brasileira de Dermatologia na gestão 1992/93
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A Fepar - Faculdade Evangélica do Paraná iniciou suas atividades dermatológicas em 1972, com a formação do serviço, sob a coordenação do professor Fernando Laynes de Andrade. A UP - Universidade Positivo, em Curitiba, oferece curso de graduação em medicina e mantém um bem avaliado ambulatório dermatológico pela qualidade do ensino acadêmico, do corpo docente e infraestrutura, como avalia o Professor Luiz Carlos Pereira. Outra tradicional atividade, desenvolvida há quase três décadas, em Curitiba, é o Ciplast/PUC - curso interuniversitário anual de cirurgia plástica sob a coordenação dos Professores Luiz Carlos Pereira e Júlio Wilson, com conteúdo interdisciplar que envolve procedimentos, treinamento em técnica cirúrgica básica em pata de porco, entre outros conhecimentos. O serviço de dermatologia pediátrica do Hospital Pequeno Príncipe, da FPP - Faculdades Pequeno Príncipe, de Curitiba, criado em 1970, sob a coordenação do pro-
fessor Luiz Carlos Pereira, oferece estágio para residentes do hospital da Santa Casa de Curitiba em ambulatórios do curso de residência médica pediátrica. As FPP têm uma história que remonta a 1935 quando as escolas médicas de Curitiba, à época, fizeram uma parceria com o então Hospital de Crianças visando a formar e aperfeiçoar estudantes e profissionais da área da saúde. Em 1956, foi criada a Associação Hospitalar de Proteção à Infância Dr. Raul Carneiro, mantenedora do Complexo Pequeno Príncipe. E, em 1970, foi criado o Hospital Pequeno Príncipe, que firmou parcerias com escolas médicas de Curitiba para preparar acadêmicos e profissionais de saúde. Em 2007 a unidade educacional do complexo passou a chamar-se Faculdades Pequeno Príncipe.
O crescimento no interior abre novas para a boa formação médica
A Faculdade de Medicina do Norte do Paraná, fundada em 1967, em 1970 instalou a disciplina de Dermatologia sob a responsabilidade dos professores José Schweinden e Lorivaldo Minelli, seguidos pelos professores Roberto Piraino e Roberto Schnitzler. Em 1979, a Faculdade de Medicina
Ao centro, Professor Lorivaldo Minelli
Construiu sólida carreira, tendo defendido tese de doutorado, em 1975, sobre Geografia Médica do Pênfigo Foliáceo no Estado do Paraná SOCIEDADE BRASILEIRA DE DERMATOLOGIA - 227
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e outras formaram a Universidade Estadual de Londrina. O Professor Minelli lembra seu interesse pela especialidade ao iniciar a residência médica, inclinado, inicialmente, pela especialização em cardiologia, que se transferiu para a Dermatologia por seu potencial futuro e amplitude de possibilidades de atuação. Foi contratado, no início da década de 70, a convite do Professor José Schweidson, professor da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Paraná, como professor assistente da então Faculdade de Medicina do Norte do Paraná, em Londrina, posteriormente parte da FUEL Fundação Universidade de Londrina e, em seguida, UEL - Universidade Estadual de Londrina. O Professor Schweidson, registra o Professor Minelli, foi Professor Titular em Londrina e retornou a Curitiba onde, aos 95 anos, continuava em atividade em sua clínica particular como um dos dermatologistas mais antigos em exercício no país. Como responsável pela disciplina de Dermatologia, sucedendo ao Professor Schweidson, o Dr. Minelli construiu sólida carreira, tendo defendido tese de doutorado, em 1975, sobre Geografia Médica do Pênfigo Foliáceo no Estado do Paraná, onde descreveu a doença nos vários locais do estado, bem como a influência geográfico-climática associada ao desbravamento e colonização no desencadeamento deste tipo de pênfigo. A tese, citada em trabalhos e teses posteriores, foi destacada numa das RADLA como um dos cinco trabalhos clássicos do pênfigo foliáceo no Brasil. Foi, também, apresentada, como referência, em congressos pelo Dr. Luiz Dias, estudioso da doença e professor nos Estados Unidos. O Professor Minelli, visando a um melhor entrosamento dos dermatologistas de Londrina e região, promoveu, com outros colegas, em 1990, a fundação do Cedros - Centro de Estudos Dr. Roberto Schinitzler, em homenagem ao primeiro dermatologista de Londrina. 228 - SOCIEDADE BRASILEIRA DE DERMATOLOGIA
Outra instituição criada mais recentemente, a Escola de Medicina da PUC-Paraná- Campus de Londrina, promete consolidar a profissão médica no estado em alto padrão de qualidade. O interior paranaense ostenta, também, a UEM Universidade Estadual de Maringá, inaugurada em 1969, que mantém em seu curso de graduação em medicina, um serviço de Dermatologia bastante ativo, com atuação destacada na área sanitária de ordem endêmica, entre outras. Em Cascavel, a Unioeste - Universidade Estadual do Oeste do Paraná implantou seu curso de medicina em 1997 e, a partir do ano 2000, a disciplina de Dermatologia, sob a chefia do Professor Júlio Cesar Empinotti. Em 2008, foi fundado o núcleo de telemedicina, coordenado pelo professor Júlio Cesar Empinotti, que realiza mensalmente a Teledermato Paraná, por vídeo conferência, com os serviços de Dermatologia da UFPR, PUC-Santa Casa, UEL, UEM e Unioeste, sob a responsabilidade do Professor Hirofumi Uyeda.
Reflexão sobre a hanseníase no
Paraná. Instituições de referência A hanseníase no Paraná, como informa o Professor Luiz Carlos Pereira, encontra-se em fase de controle pelo centro de referência da especialidade, sob a coordenação da Dra. Ewalda Von Stalk. No interior do estado, em São Jerônimo da Serra, cidade que foi um dos principais focos da hanseníase no Paraná, destaca-se a Associação Filantrópica Humanitas. Fundada em 1977 pelo Padre Haruo Sasaki para dar assistência aos hansenianos que se concentravam na região, os organizadores mobilizaram doadores no país e no exterior. Com a ajuda de uma família de Tóquio, foram comprados
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cinco alqueires para as instalações. Um ambulatório foi doado por uma paróquia dos Estados Unidos. Atualmente, além dos hansenianos, a instituição ampliou seus serviços para Dermatologia em geral em sua área de atuação que abrange mais de 60 municípios do estado. Em Curitiba, a Fundação Pró-Hansen, criada pelo professor Ruy Miranda e colaboradores, com foco em Dermatologia sanitária e hanseníase, tem, também, papel importante no ensino, na pesquisa e no tratamento dos doentes. Bem instalada e equipada, atua em parceria com a PUC-Curitiba no ensino da graduação em Dermatologia. O Professor Ruy Miranda, uma das legendas da Dermatologia brasileira, foi diretor do Hospital Colônia São Roque, onde residiu, com sua família, de 1940 a 1946.
Professor Ruy Noronha de Miranda
Na década de 60, fundou o serviço de Dermatologia do Hospital de Clínicas da UFPR - Universidade Federal do Paraná e, em 1968, foi presidente da SBD
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Na década de 60, fundou o serviço de Dermatologia do Hospital de Clínicas da UFPR - Universidade Federal do Paraná e, em 1968, foi presidente da SBD. A galeria de patronos da Dermatologia no Paraná, certamente, honra e estimula os especialistas de todo o país. Em Santa Catarina, o Professor Jorge José de Souza Filho, um dos patronos da especialidade, nascido em Florianópolis, em 1937, formou-se na Universidade Federal do Paraná, em 1964 e, no ano seguinte, ingressou como estagiário no serviço do Professor Sebastião Sampaio na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Ao regressar a Florianópolis iniciou longa e virtuosa carreira na UFSC - Universidade Federal de Santa Catarina, tendo sido professor assistente, professor adjunto e
Professor Jorge Jose de Souza Filho
Presidente da Sociedade Brasileira de Dermatologia, 1984/85
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professor titular, em 1990. Sua tese forneceu o conteúdo científico para o lançamento do livro Drogas e Doenças em Dermatologia, de sua autoria. Em 1972, realizou-se em Florianópolis a 1ª Reunião Sul-Brasileira de Dermatologia. Dois anos depois foi fundada a Regional. A especialidade cresceu, também, além da capital do estado. Em Blumenau, por exemplo, em 1995, foi realizada a 1ª Jornada Brasileira do Câncer de Pele. No ano 2000, na gestão do Dr. Nílton Nasser, a regional adquiriu sua sede própria e, em consonância com os novos tempos, promoveu dois eventos emblemáticos Dermatologia do Terceiro Milênio e Jornada Internacional de Terapêutica Dermatológica. Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná, as terras onde sopra o forte minuano, escreveram páginas memoráveis ao longo da linha do tempo da SBD no primeiro século e sinalizam boas novas nos cem anos seguintes. i
Dr. Nílton Nasser
No ano 2000, na gestão do Dr. Nílton Nasser, a regional adquiriu sua sede própria
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
PERIÓDICOS
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A pele do Rio, 40 anos da Sociedade Brasileira de Dermatologia, RJ.
Anais Brasileiros de Dermatologia, SBD
CARNEIRO, Glauco. História da Dermatologia no Brasil. Rio de Janeiro, SBD, 2002
JSBD - Jornal da SBD
Jornal Dermatológico - SBD-RESP
Revista da SBCD
ROSSINI, Carlos; FORGERINI, Elisângela. Mestres da Dermatologia Paulista. São Paulo, SBD-RESP, JSN, 2002 AZULAY, Rubem David.Traços de Minha Vida. Razão Cultural, Rio de Janeiro, 1999 SANTOS NEVES, Maria Clara Medeiros. Além das aparências, memória da dermatologia no Espírito Santo. SDB-ES, 2003 ACCIOLY, José Wilson, História da Dermatologia no Ceará. Imprensa Universitária, Fortaleza, 2005 MARTINS, Edson Virgílio. Dermatologia em Mato Grosso, 1816-2012, história, memória, fatos. SBD-MS, 2012 ANTONIO, João Roberto. Os 40 Anos da SBD-RESP, 1970-2010. SBD-RESP, 2010
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