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sociologia Criminalidade Juvenil: um artigo da escritora e pesquisadora Ilana Casoy

Octavio Ianni A trajetória do sociólogo reconhecido por sua ética e o pensamento crítico Sem Fronteiras A atuação da organização Sociólogos Sem Fronteiras no Brasil e no mundo Ação Social A teoria da ação social segundo Max Weber Questão racial Demétrio Magnoli fala em entrevista sobre a história do pensamento 4 | S O C I O L O Gracial IA

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Especialistas refletem sobre o atual panorama da violência no Brasil e analisam as principais políticas públicas de segurança.

DESAFIOS DA

SEGURANÇA

PÚBLICA

Caderno de exercícios: Reflexões sobre o mundo do trabalho

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SUMÁRIO o8

SOCIOLOGIA | EDIÇÃO 31

ENTREVISTA

Raça, racismo e racialismo na visão do sociólogo e geógrafo Demétrio Magnoli

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MAGDALENA GUTIERREZ - ACERVO PR. FHC

QUADRO NEGRO

O associativismo excerce um papel decisivo para uma educação mais justa e qualificada

SOCIEDADE

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BRAVA GENTE

Conheça a história da organização Sociólogos Sem Fronteiras

Ilana Casoy analiza a questão da punição dos jovens infratores

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CAPA

O futuro da Segurança Pública em debate: o que fazer para reverter o quadro de violência e insegurança no Brasil?

SOCIÓLOGOS & SOCIOLOGIA

Alexandre Correia, professor da UFMA, conversa sobre sua carreira e suas pesquisas na área da cultura

Uma perspectiva sociológica sobre o trabalho

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REGISTRO

A eleição de Michael Burawoy para a presidência da International Sociological Association FEZ DIFERENÇA

Um perfil do sociólogo Octavio Ianni, um dos maiores intelectuais da história do Brasil

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TEORIA

Uma explicação sobre a teoria da ação social proposta por Max Weber SANTO PODER

As relações de poder entre as instituições religiosas envolvem a questão da experiência do sagrado

RESENHA

O antropólogo Edgard de Assis Carvalho comenta o livro Patrimônio Bioculturais, de Alexandre Correira

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EuAMO

R vista É bom de

m ver, é bo

de ler.

sociologia Sociologia - Ciência & Vida é uma publicação bimestral da Editora Escala Ltda.

Editorial

ISSN 1980-8747 - sociologia@escala.com.br - portalcienciaevida.com.br

Ano II - Edição 31 - SETEMBRO/2010

SEGURANÇA PÚBLICA EM DEBATE O Poder Público deve exercer um papel fundamental, sobretudo, em três áreas: Educação, Saúde e Segurança Pública. Nesta última, os desafios tem sido enormes no Brasil, como demonstra o medo crescente da população com relação à violência. O pânico coletivo faz encarcerar as pessoas em uma “cidade de muros”, na definição da antropóloga Teresa Caldeira, em sua pesquisa sobre a capital paulista. Para entender a questão da Segurança Pública, sem perder de vista as propostas de melhorias e soluções, o jornalista Danilo Maeda mergulhou fundo no tema, convidando sociólogos e especialistas para debaterem e refletirem sobre esse ponto (ainda) frágil das políticas públicas no País. Por falar nessa questão de crime e castigo, polícia e justiça, esta edição traz um artigo da escritora e pesquisadora Ilana Casoy, que lança, pela editora Larousse, o livro A prova é a testemunha (obra que narra o julgamento do caso Isabella Nardoni). Casoy tece interessantes considerações sobre a criminalidade juvenil. Vale a pena conhecer o pensamento de uma estudiosa que conhece o “lado de fora e de dentro” da justiça brasileira. Outro assunto candente é o da política de cotas e as concepções sobre raça e racismo. O sociólogo e geógrafo Demétrio Magnoli, autor de Uma gota de sangue – História do Pensamento Racial, concedeu uma instigante e polêmica entrevista para a nossa revista, em que expressa sua opinião sobre a questão racial. Leia também o perfil do sociólogo Octavio Ianni, falecido em 2004, que foi (e continua a ser), um exemplo de ética, erudição e critica consistente. Trazemos também a matéria especial sobre a organização “Sociólogos Sem Fronteiras”; e um elucidativo artigo sobre a teoria da ação social em Max Weber. Para professores e alunos, preparamos ainda um Caderno de Exercícios cujo tema é o mundo do trabalho. Boa Leitura! Daniel Rodrigues Aurélio Sociólogo e editor

conselho Editorial Aldo Fornazieri é mestre e doutor em Ciências Políticas pela USP, pós-graduado em Filosofia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, licenciado em Física pela Universidade Federal de Santa Maria, diretor acadêmico e professor da Fundação Escola de Sociologia e Política. Possui artigos publicados no jornal O Estado de São Paulo, jornal O Globo, Jornal da Tarde, na revista Teoria & Política, revista Teoria & Debates e revista Perspectiva da Fundação Seade de São Paulo. Elisabeth da Fonseca Guimarães é bacharel e licenciada em Ciências Sociais e doutora em Educação pela Universidade Estadual de Campinas, professora de Prática de Ensino de Sociologia do curso de Ciências Sociais da Universidade Federal de Uberlândia – Faculdade de Arte, Filosofia e Ciências Sociais, membro do Colegiado do Curso de Ciências Sociais – Universidade Federal de Uberlândia e Membro da Comissão de Ensino de Sociologia – Sociedade Brasileira de Sociologia. Contato: elisabeth@ufu.br. Gisela B. Taschner é bacharel, mestre e doutora em Sociologia pela USP, professora titular da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da FGV, fundadora e coordenadora do Centro de Estudos da Cultura e do Consumo (extinto) e do Centro de Estudos do Lazer e do Turismo da FGV, vice-presidente do Research Committee nº 13, Sociology of Leisure da International Sociological Association, visiting fellow da Universidade de Londres (Goldsmiths) e da Universidade do Texas (Austin). Lorena Holzmann é bacharel em Ciências Sociais e mestre em Sociologia pela

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www.escala.com.br Av. Profª Ida Kolb, 551, Casa Verde, CEP 02518-000, São Paulo (SP), Brasil Tel.: (+55) 11 3855-2100 Fax: (+55) 11 3951-7313 Caixa Postal: 16.381, CEP 02599-970, São Paulo, SP, Brasil

EDITORIAL - Diretor: Sandro Aloísio Pré-impressão: Cíntia Karina dos Reis Produção: Fernanda de Macedo Alves Guedes e Rosana Ascenção Revisão: Bruna Baldini de Miranda

NÚCLEO CIÊNCIA & VIDA - Diretora: Jussara Goyano Atendimento ao leitor: Giovanna Sapienza Tel.: (+55) 11 38551955 - Colaborou nesta edição: Conceição Demetrio (arte)

PUBLICIDADE Diretor: João Queiroz – joaoqueiroz@escala.

com.br AGÊNCIAS Gerente: Fernanda Dias – fernandadias@ escala.com.br Executivos de Negócios: Fernanda Berna, Mariana Galvão, Paulo Sérgio de Moraes, Ricardo Inocêncio Pereira, Rogério Oliveira e Ulisses Martins DIRETOS Gerente: Claudia Arantes – claudiaarantes@escala.com.br Executivos de Negócios: Adriana Mauro, Bruno Guerra, Marcelo Pires, Miriam Campanhã, Yone Catoira e Zélia Oliveira REGIONAIS Gerente: Alessandra Nunes – alenunes@escala.com.br REPRESENTANTES: Brasília e Goiânia: Solução Publicidade - Beth Araújo (61) 3226 2218 / Ceará: Dialogar Comunicação – Izabel Cavalcanti (85)3264 7342 / Interior de São Paulo: L&M Editoração – Luciene Dias (19) 32317887 / Minas Gerais e Espírito Santo: NS&AMG – Newton Santo, Roberto Lúcio e Vera Santo (31) 2535 7333 / Paraná: Starter – Paulo Roberto Cardoso (41) 3332 8955 / Rio de Janeiro: Marca 21 - Marta Pimentel (21) 2224 0095 / Rio Grande do Sul: Starter - Cristina Zimmermann e Marcelo Lima (51) 3327 3700 / Santa Catarina: Starter – Wiviani Wagner (48) 3024 4398. ASSISTENTES COMERCIAIS: Luciane Freitas (11) 3855 2247 - Taciana Oliveira (11) 3855 2244 TRÁFEGO: Carolina Venturini e Joel Brogliato – material. publicidade@escala.com.br

MARKETING E COMUNICAÇÃO Gerente de Marketing: Suelene Veludo Assistente de Marketing: Jackelin Wertheimer Assistente de Marketing Web: Bruna Pelligotti Gerente de Comunicação: Patricia Filgueira Assessora de Imprensa: Júlia Furquim Assistente de Criação: André Martins Assistentes de Arte: Priscila Fosco e Bruno Miramontes Gerente de Projetos Especiais, Eventos e Parcerias: Ritha Corrêa Assistente: Luiz Eduardo Oliveira VENDAS DE REVISTAS E LIVROS

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ATACADO – REVISTAS E LIVROS Universidade Federal do Rio Grande do Sul e doutora em Sociologia pela Universidade de São Paulo. É professora titular do Departamento de Sociologia e do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Integra a atual diretoria da Sociedade Brasileira de Sociologia. Tem livros e artigos publicados na área da Sociologia do Trabalho. Nildo Viana é bacharel em Ciências Sociais (UFG), especialista (UCB) e mestre em Filosofia (UFG), mestre e doutor em Sociologia (UnB), professor da Universidade Federal de Goiás, organizador de coletâneas, autor de diversos artigos em muitas publicações e de livros, entre eles: Introdução à Sociologia (Autêntica), Escritos Metodológicos de Marx (Alternativa), Universo Psíquico e reprodução do capital (São Paulo, Editora Escuta, 2008) e Como assistir um filme? (Rio de Janeiro, Editora Corifeu, 2009) e colaborador em várias revistas eletrônicas e impressas. Paulo Roberto Martins é sociólogo, mestre em Desenvolvimento Agrícola, doutor em Ciências Sociais pela Unicamp, pesquisador do Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo (IPT), coordenador da Rede de Pesquisa em Nanotecnologia, Sociedade e Meio Ambiente (RENANOSOMA), presidente do Sindicato dos Sociólogos do Estado de São Paulo (Sinsesp) e coordenador da Sessão Brasil de Sociólogos Sem Fronteiras. Ronaldo Serôa da Motta é doutor em Economia pela University College London, coordenador de Estudos de Mercado e Regulação do IPEA e professor de Regulação Econômica e Ambiental de diversos MBA

(COPPE/UFRJ, PUC-RJ, FGV-RJ). Possui artigos e livros publicados, entre eles: Analysing the environmental performance of the Brazilian industrial sector, (Ecological Economics) e Os impactos ambientais industriais da ALCA no Brasil, (Economia Aplicada). Samuel Feldberg é bacharel em Ciência Política com extensão em História pela Universidade de Tel Aviv, doutor em Ciência Política pela USP, pesquisador do Núcleo de Pesquisa em Relações Internacionais e membro do Grupo de Análise de Conjuntura Internacional da USP, colaborador do jornal Correio Braziliense, comentarista de política internacional da Rádio Eldorado, Rádio CBN e Rádio Auvi-verde de Bauru, colaborador da Folha Online, site UOL e site Terra. Tatiana Martins Alméri é socióloga pela Federal de Santa Catarina, mestre em Sociologia Política pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, professora da Universidade Paulista, leciona e faz a coordenação do setor de estágios na Faculdade de Tecnologia, é articulista da revista Carreira&Negócios e colaboradora da revista Filosofia. Thaís Brito é bacharel em Ciências Sociais pela UNESP, mestre em Ciências SociaisAntropologia pela PUC-SP, doutoranda em Antropologia Social pela USP, professora de Antropologia, Sociologia Geral, Sociologia das Organizações, Antropologia, Ética e Cidadania na Universidade Presbiteriana Mackenzie, professora dos cursos de pós-graduação, lato sensu, para o Senai/ SP, colaboradora editorial da revista Cadernos de Campo e colunista da revista eletrônica Pronto!

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Tel.: (+55) 11 3855-1000 Fax: (+55) 11 3857-9643 atendimento@escala.com.br Distribuição com exclusividade para todo o BRASIL, Fernando Chinaglia Distribuidora S.A. Rua Teodoro da Silva, 907. Tel.: (+55) 21 3879-7766. Números anteriores podem ser solicitados ao seu jornaleiro ou na central de atendimento ao leitor, ao preço do número anterior, acrescido dos custos de postagem. Disk Banca: Sr. jornaleiro, a Distribuidora Fernando Chinaglia atenderá os pedidos dos anteriores da Editora Escala enquanto houver estoque. Filiada à

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REALIZAÇÃO

www.fullcase.com.br | (11) 5081.6965 Diretor Executivo: Edgar Melo Diretora Editorial: Karina Alméri Diretor de Arte: Angel Fragallo Coord. de Arte: Samuel Moreno Editores: Karina Alméri – MTB 45.403 e Edgar Melo – MTB 47.499 Editor: Daniel Rodrigues Aurélio Revisão de Texto: Pryscila Grosschädl Diagramação: Gisele Rocha, Juliana Signal, Luciana Toledo e Rodrigo Matias Colaboradores desta edição: Danilo Maeda, Edgard de Assis Carvalho, Emerson José Sena da Silveira, Fabio Miranda, Ilana Casoy, Lejeune Mato Grosso de Carvalho, Luiz Eduardo Souza Pinto, Luiz Guilherme Brom, Michele Maria Louzeiro Nazar Safady, Priscila Gorzoni, Sergio Sanandaj Mattos. Ilustração: Leandro Valquer

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Entrevista

A invenção do

mito racial

O sociólogo e geógrafo Demétrio Magnoli fala sobre as articulações entre o pensamento racial, o paradigma multiculturalista e as políticas baseadas nessas premissas por Priscila Gorzoni*

No Brasil, diz-se que racismo é subterrâneo, enquanto nos Estados Unidos ele é escancarado. Na atualidade, a questão toma outras dimensões geradas pelas políticas de cotas raciais e pelo paradigma multiculturalista da raça, aplicado ao ensino. Dessa forma, é preciso ouvir as múltiplas vozes debatedoras de um tema polêmico e complexo por excelência. Multiculturalismo, as origens do racismo e o sistema de cotas no Brasil são alguns dos elementos trazidos pelo sociólogo e geógrafo Demétrio Magnoli, em seu livro “Uma gota

de sangue: história do pensamento racial”, publicado pela editora Contexto. Doutor em Geografia Humana pelo Departamento de Geografia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCHUSP) e integrante do Grupo de Análises de Conjuntura Internacional (Gacint) da USP, Demétrio Magnoli é também articulista de jornais como Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo e O Globo. Segundo ele, a questão racial é a história de um engano de 200 anos: o tempo da inven-

ção, desinvenção e reinvenção do mito da raça. “Raças não existem, mas o mito da raça existe e tem uma influência política muito grande, existe a política da raça”, diz Magnoli. O racismo é a ideia de que há diferença hierárquica nas raças e essa teoria surge na imaginação científica no século 19, junto com a expansão das potências europeias na África e na Ásia. “Logo depois da Segunda Guerra, a humanidade desinventa a raça e desiste de pensar nela, renuncia, abdica a esse mito”, completa. No entanto,

* Priscila Gorzoni é jornalista

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Multiculturalismo, as origens do racismo e o sistema de cotas no Brasil são alguns dos elementos trazidos pelo sociólogo e geógrafo Demétrio Magnoli, em seu livro Uma gota de sangue: história do pensamento racial, publicado pela editora Contexto

marcar o mundo atualmente. Cuidadosamente documentado, o livro trata de diversas manifestações de segregação no planeta, do Ocidente ao Oriente. No Brasil, a República tinha três anos e a abolição, quatro, quando surgiu o jornal O Exemplo, de Porto Alegre, nosso primeiro órgão de “imprensa negra”. Porém, isso não significou e nem significa que o País está fora dos parâmetros racistas do resto do mundo. O autor ressalta que quando se fala em raça não se fala em apenas brancos ou

pretos. Mas também de indígenas bolivianos, de malaios e chineses na Indonésia, de hutus e tutsis em Ruanda, de inúmeros grupos étnicos na Nigéria, de castas na Índia. “Tudo isso tem a ver, ainda, com o conceito de que as pessoas se diferenciam devido a algo como uma gota de sangue. Elas possuem diferenças essenciais e que essas diferenças fragmentam a sociedade em famílias de seres humanos. Essa ideia atormenta a humanidade até hoje”, conclui Magnoli. Confira a entrevista a seguir:

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Acervo IFHC

esse mito não desaparece, ao longo de todo o século 20, ele marca a história dos Estados Unidos, com as leis de segregação racial, marca a história da África do Sul com o Apartheid, e a história de diversos países. “É como se a raça pudesse ser usada para o bem”, afirma. Uma gota de sangue conta a história dos personagens que inventaram a raça e a dos que lutaram contra essa invenção. É a história do encontro do Mito da raça com a Política. Encontro, que produziu tantas tragédias e continua a

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Entrevista Conte um pouco sobre a confecção do seu livro. Por que escolheu esse tema? Como fez a pesquisa?

Eu já seguia o tema com atenção desde que FHC incluiu a proposta de políticas raciais no seu Plano Nacional de Direitos Humanos. No governo Lula, com a Seppir, as políticas de raça se tornaram mais salientes e radicais. Mas a decisão de fazer o li-

“Essencialmente, desenvolvo a tese de que o multiculturalismo contemporâneo recupera as premissas do pensamento racial do século 19, apenas substituindo a noção de diferenças naturais pela de diferenças culturais. Na doutrina multiculturalista, cultura é uma substância imanente aos grupos populacionais. Por essa via, o multiculturalismo enxerga cada nação como uma coleção de raças ou etnias. No lugar do contrato entre cidadãos, a doutrina propõe um contrato entre raças. ”

vro surgiu em 2005, quando o então ministro da Educação, Tarso Genro, implantou uma classificação racial nominal compulsória em todas as escolas do Brasil, por meio das fichas de matrícula. Ficou claro, então, que era preciso discutir o caso das políticas de raça no Brasil sobre o pano de fundo do pensamento racial e de seus desdobramentos em diversas partes do mundo, desde o final do século 19. Essencialmente, desenvolvo a tese de que o multiculturalismo contemporâneo recupera as premissas do pensamento racial do século 19, apenas substituindo a noção de diferenças naturais pela de diferenças culturais. Na doutrina multiculturalista, cultura é uma substância imanente aos grupos populacionais. Por essa via, o multiculturalismo enxerga cada nação como uma coleção de raças ou etnias. No lugar do contrato entre cidadãos, a doutrina propõe um contrato entre raças. É uma política pós-moderna, que se apoia em conceitos pré-modernos hostis ao indivíduo e às liberdades individuais. Trata-se de uma obra de Geografia Política que utiliza arsenais teóricos da História e da Sociologia.

Debate quente A adoção ou não do sistema de cotas tem sido um debate acalorado e interminável no cenário político e intelectual brasileiro. A questão dividiu a academia, a opinião pública e os movimentos sociais em duas facções, os favoráveis e contrários ao expediente. Em linhas gerais, os favoráveis ao dispositivo das cotas alegam ser esta uma medida necessária, reparadora das injustiças sociais, políticas e econômicas cometidas contra os negros desde os tempos da

escravidão. Já seus opositores acreditam que uma lei tal como é formulada vai inevitavelmente criar uma divisão por critério de raça no País. Para demarcarem posição e realizarem pressão sobre os congressistas, ambos os lados promoveram rumorosos abaixoassinados, com signatários de peso no campo da intelectualidade brasileira. Os prós reuniram-se no “Manifesto em favor da Lei de Cotas e do Estatuto da Igualdade Racial”; os contra, no

manifesto “Todos tem direitos iguais na República”. Há ainda um terceiro grupo, que opta pela via alternativa da “cota social”. Devido à relevância e impacto desse tema, a revista Sociologia Ciência & Vida está aberta a opiniões opostas às proferidas pelo sociólogo e geógrafo Demétrio Magnoli, este um dos mais preparados debatedores. Afinal, a riqueza do pensamento está justamente na sua diversidade (Da redação)

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Quando começou a montar o livro, contando desde a apuração? Como foi essa confecção? Quais foram as maiores dificuldades e as maiores surpresas durante esse processo?

Eu já conhecia a bibliografia teórica essencial sobre o tema. Concentrei a pesquisa em bibliografia histórica e no estudo de documentos oficiais de vários países que se engajaram em políticas raciais. Estudei também os textos oriundos dos movimentos e organizações envolvidos na atualização multiculturalista das políticas de raça. Eu não chamaria exatamente de surpresa, mas chamou minha atenção o paralelismo extraordinário entre os discursos do pensamento racial tradicional e os dos arautos contemporâneos do multiculturalismo. Acho que esse paralelismo fica evidenciado no livro. O que de mais interessante e fascinante descobriu em sua pesquisa sobre a questão das origens do racismo aos sistemas de cotas no Brasil? Como suas descobertas podem servir de instrumento para nós entendermos melhor o País e a distribuição da população?

As propostas de políticas raciais não têm nenhuma relação com o racismo. Digo de outro modo, mais preciso: os proponentes de políticas raciais precisam do racismo para legitimar seu discurso. O Brasil é uma nação antiracista. Na hora em que os EUA criavam políticas de segregação racial, entre o final do século 19 e o início do século 20, o Brasil definia uma identidade nacional baseada na ideia de mestiçagem. O racismo, obviamente, existe no Brasil. Mas ele contraria nosso mito identitário e as narrativas históricas que escolhemos como nossas. Algo interessante é saber que os movimentos políticos de orientação racialista no Brasil desenvolveram-se principalmente na classe média paulista, não nas classes populares e também não na Bahia ou em Pernambuco. Da Frente Negra Brasileira dos anos 30, um movimento muito próximo do integralismo, até o Movimento Negro Unificado, de 1978, um movimento de esquerda ligado ao pan-africanismo, a política de raças sempre se manifestou basicamente entre intelectuais e estudantes de São Paulo.

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Entrevista

“Não se trata [sobre a política de cotas] de corrigir desigualdades sociais ou combater a exclusão. Isso são apenas pretextos. O que tais organizações pretendem é modificar o olhar dos brasileiros sobre si mesmos. É produzir, no lugar da imagem da mistura, a imagem da separação polar. No fim das contas, o que pretendem é fazer com que nos vejamos como os norte-americanos se enxergam. ”

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Como os professores de ensino médio podem usar o seu livro para ensinarem aos seus alunos?

Os professores de Geografia, por exemplo, podem comparar os processos distintos de construção da identidade nacional nos EUA, no Brasil e na Bolívia, três casos muito distintos. Também podem desvendar o significado profundo da ideia de unidade da África, que é uma ideia essencialmente racial e surgida fora da África - nos EUA, na Europa e no Caribe. Podem por exemplo examinar a dinâ-

mica política de conflitos étnicos, em Ruanda, na Nigéria, no Quênia. Finalmente, podem examinar a política de castas na Índia e as políticas de preferências raciais na Malásia. Fale um pouco sobre as representações geográficas presentes na questão das cotas e do racismo no Brasil.

O mito geográfico básico presente nas políticas de cotas raciais no Brasil encontra-se na noção de um País polarizado por dois grupos nitidamente separados: brancos e negros. Não é assim que os brasileiros se enxergam, como atestam as respostas oferecidas pelas pessoas nos censos. Mas é assim que as organizações racialistas enxergam o País. Toda a política de cotas tem a meta de converter essa visão em políticas públicas. Não se trata de corrigir desigualdades sociais ou combater a exclusão. Isso são apenas pretextos. O que tais organizações pretendem é modificar o olhar dos brasileiros sobre si mesmos. É produzir, no lugar da imagem da mistura, a imagem da separação polar. No fim das contas, o que pretendem é fazer com que nos vejamos como os norte-americanos se enxergam.

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Como é a divisão estrutural do seu livro?

A Parte I do livro, com quatro capítulos, oferece uma abordagem histórica que começa com o “racismo científico” do século 19 e termina com a emergência do multiculturalismo. No meio do caminho, aborda-se o nazismo e o Apartheid sul-africano. A Parte II, com três capítulos, está consagrada a três casos distintos de construção da identidade nacional: EUA, Brasil e Bolívia. A Parte III, com quatro capítulos, aborda a África. Ela trata do tráfico escravista, do pan-africanismo e das políticas raciais adotadas em países como Ruanda, Nigéria e Quênia. A Parte IV, com dois capítulos, aborda dois casos de políticas raciais na Ásia:

Livros de Demétrio Magnoli • Uma gota de sangue: História do pensamento racial (Contexto, 2009) • História da Paz (Contexto, 2008) - Organizador • História das Guerras (Contexto, 2009) - Organizador • Relações internacionais (Saraiva, 2004) • Globalização: espaço nacional e espaço mundial (Moderna, 2003) • Terror Global (Publifolha, 2008)

Índia e Malásia. A Parte V, com quatro capítulos, disseca as políticas raciais contemporâneas no Brasil. Quais são seus projetos para o futuro?

Estou escrevendo uma obra em dois volumes sobre o século 20. Trata-se da história das ideias políticas que marcaram o século, com foco no conflito entre as noções de liberdade e de igualdade. s o c i o l o g i a | 13

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Quadro Negro

ASSOCIATIVISMO E

EDUCAÇÃO

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o movimento do associativismo é um grande aliado no processo de inclusão social por meio da educação, além de servir como o propulsor de uma desejada revolução na política educacional no País por Michelle Maria Louzeiro nazar safady*

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Embora as associações de caráter profissional ainda sejam um dos maiores pilares do terceiro setor no Brasil, as que são caracterizadas por defenderem os direitos sociais e ambientais têm se mostrado importantes nos anos mais recentes

* Michelle Maria Louzeiro nazar safady é bacharel em ciências sociais pelo instituto de ciências sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro – iFcs/UFRJ (michelle. safady@terra.com.br ou michelle@ifcs.ufrj.br)

O associativismo é o movimento que, de acordo com Lester Salanon, “teve avanço nos anos sessenta e setenta e incorpora três características básicas: agir paralelamente ao Estado; não ter fins lucrativos; e ser internacionalista”. Nos países que apresentaram regimes políticos militares de caráter ditatorial, a abertura política e a conseguinte democratização representaram um meio para o fomento significativo das chamadas “organizações do terceiro setor”. Isto significou uma maior participação da sociedade civil em áreas que antes eram de gestão quase total do Estado. Mas, devemos procurar traçar uma breve evolução histórica desses organismos articulados pela sociedade, para podermos elucidar algumas questões referentes à esfera educacional. Nos anos oitenta, no Brasil, estas instituições eram majoritariamente abarcadas por fatores ligados à sindicalização e aos direitos humanos. Quanto a estes fatores, podemos sublinhar que a força dos sindicatos, como meio de expressão política, econômica e social dos indivíduos, levou a criação do Partido dos Trabalhadores, hoje partido da chamada situação no País. Sobre os direitos humanos, podemos exemplificar a força de suas associações por meio da defesa dos chamados direitos de anistia política. Mas, desde os anos noventa, vemos um enorme crescimento dessas organizações no País, assim como a diversificação de suas atividades. Embora as associações de caráter profissional ainda sejam um dos maiores pilares do terceiro setor no Brasil, as que são caracterizadas por defenderem os direitos sociais e ambientais têm se mostrado importantes nos anos mais recentes. No que concerne aos direitos sociais, a educação seria um item altamente defendido dentro deles, já que é vista como meio de emancipação do indivíduo, e como meio de alavancar seu status na sociedade, por exem-

plo. Como há certa e crescente insatisfação, dentro da sociedade brasileira, com as políticas educacionais atuais, a resposta da sociedade civil vem sendo articulada de várias maneiras. Podemos nos dar conta disso notando a crescente criação de cursos comunitários, sejam pré-vestibulares ou de alfabetização de adultos, ou por meios de programas como o já consagrado “Amigos da escola”. Estas iniciativas partem tanto da iniciativa privada, ressaltada pelos programas de responsabilidade social de muitas empresas, como dos próprios indivíduos, através das associações de bairros, tradicionais no País, passando também por iniciativas vindas de diferentes vertentes religiosas. eDUcaÇÃO e incLUsÃO sOciaL

O termo que se insere nesta interação entre o associativismo e a questão educacional seria a chamada “inclusão social”. Com esta, segundo muitas destas organizações, o indivíduo passa a poder ter as mesmas chances de exercer plenamente a sua cidadania tal quais os segmentos mais favorecidos, financeiramente, da sociedade. Citando John Rawls, em seu livro “O Liberalismo Político”, as desigualdades socioeconômicas devem ser ajustadas com políticas de ação afirmativa assim como iniciativas societárias, para que se possa garantir a igualdade de oportunidades entre os indivíduos pertencentes a uma determinada sociedade. Rawls também menciona que numa verdadeira democracia, sua base seria composta por sujeitos plenamente cooperativos, ou seja, os mesmos devem ser capacitados para trabalhar, já que nos encaixamos em uma sociedade sob o imperativo da produção e sob a égide da especialização de tarefas. Desta forma, podemos perceber claramente a ligação desta perspectiva à educação, e esta como meio do indis o c i o l o g i a | 15

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Referências

ABONG. Pesquisa Perfil das ONGS Associadas, diversos anos.

O termo que se insere nesta interação entre o associativismo e a questão educacional seria a chamada “inclusão social”. Com esta, segundo muitas destas organizações, o indivíduo passa a poder ter as mesmas chances de exercer plenamente a sua cidadania tal quais os segmentos mais favorecidos, financeiramente, da sociedade víduo se inserir no mercado de trabalho, e obter a remuneração necessária para se reproduzir socialmente. Se relacionarmos essa forte tendência do associativismo, no que concerne à educação, com pesquisas de caráter tanto quantitativo como qualitativo, na área educacional, podemos encaixar peças de um quebra-cabeça tão complexo, o qual seria a formação de políticas públicas no presente País. Uma enorme gama de estudantes na faixa etária de acesso à universidade, espera da mesma a capacidade de direcioná-los ao mercado de trabalho, lhes conferindo uma espécie de “selo de garantia” de um profissional capaz, qualificado e diferenciado dos que não possuem o mesmo “selo”. É como se a inserção ao mercado de trabalho fosse sendo galgada de forma mais decisiva por meio da posse de um diploma universitário. Outros tantos estudantes esperam o poder de se enriquecerem culturalmente e outros tantos sonhos, que parecem mais tangíveis devidos ao ingresso num curso universitário. Isso nos mostra o fator decisivo e marcado

que é conferido à educação, e como a mesma é vista como forma de levar o sujeito a se sentir apto para efetivamente participar da realidade social. O conhecimento, desta maneira, seria uma ótima maneira de um indivíduo obter inúmeros fatores, como a cultura, a conscientização sobre a sociedade na qual se insere e a oportunidade de, inclusive, ascender socialmente numa realidade composta pelos imperativos econômicos do neoliberalismo. O que nos motiva a tecer esta rede de fatores os quais permeiam a educação é a certeza de que os jovens precisam ser mais ouvidos por meio de pesquisas de caráter tanto sociológico, quanto pedagógicos e psicológicos já que são esses mesmos jovens que amanhã podem ou não fazer parte de um complexo jogo de oportunidades que já não são formuldos, exclusivamente, pelo governo brasileiro, mas também por associações de sujeitos que anseiam por uma maior aquisição de direitos na sociedade brasileira. Ou seja, o que nos preocupa é a

BAUMAN, Zygmunt. O mal-estar da Pós-Modernidade. Rio de Janeiro. Jorge Zahar Editor, 2002. BOBBIO, Norberto. Direito e Estado no pensamento de Emanuel Kant. Brasília, UNB, 1984. CASTELLS, Manuel. “O poder da identidade”, Vol. II de A Era da informação: Economia, Sociedade e Cultura. São Paulo: Paz e Terra, 1999. COHEN, Jean L. “Sociedade Civil e Globalização: Repensando Categorias”. DADOS – Revista de Ciências Sociais, Rio de Janeiro, Vol. 46, nº 3, 2003, pp. 419 a 459. IBGE. Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios – PNAD, diversos anos. LACLAU, E. “Os novos movimentos sociais e a pluralidade do social”. In: Revista Brasileira de Ciências Sociais, n.2, 1986, páginas 41-47. RAMALHO, Priscila. “O que a escola ganha com as parcerias”. Revista Nova Escola, São Paulo, número 203, junho/julho 2007, PP. 54 a 63, Editora Abril. Rawls, J.O Liberalismo Político. Ática, São Paulo, 2000. TOCQUEVILLE, Alexis. De La democratie em Amérique. Paris, Gallimard, 1961.

existência de uma gama tão infindável de aplicações de questionários preocupados com o que já existe de fato em cada esfera da sociedade. Não que isto não tenha igual importância, mas é preciso garantir o frescor que só advém dos ideais da atual juventude brasileira, inclusive mencionando seus anseios para o futuro, seus medos oriundos do passado, experiências no que tange à educação, e sonhos e projetos que os mesmos conseguem visualizar para a melhoria desta questão educacional, citada no presente artigo.

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A SOCIOLOGIA

UNIFICADA A “Sociólogos Sem Fronteira” busca levar não só os direitos humanos para quem mais precisa; também faz parte da organização acompanhar a formação de novos sociólogos ao redor do mundo

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por Fábio Miranda*

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Fronteira é tudo aquilo que divide um ponto de outro, e que depende de certo tempo e burocracia para que possamos transpô-la, seja ela física ou psicológica. As fronteiras mais conhecidas são aquelas que separam nações vizinhas, no entanto, com um mundo cada vez mais globalizado, essas divisas vão se encurtando cada vez mais entre os povos, e o mesmo acontece com alguns setores, mas de outra forma. Muitos já ouviram falar da entidade internacional Médicos Sem Fronteiras, comprometida em ajudar os mais necessitados, principalmente as vítimas de desastres naturais, conflitos de guerra e pessoas que sofrem com doenças porque o lugar em que vivem não oferece condições de tratamento com eficácia. De acordo com o site da entidade, é função dos Médicos Sem Fronteiras expor as situações enfrentadas pelas populações que vivem em situações parecidas. Essa instituição nasceu em 1971 e fez escola ao redor do mundo. Existem hoje no mundo várias organizações que utilizam o ‘Sem Fronteira’ no nome, e entre elas está a Sociólogos Sem Fronteiras (SSF). “A Sociólogos Sem Fronteiras começou mediante uma iniciativa do Professor Alberto Moncada, professor aposentado

da Universidade Complutense de Madrid, Espanha. No ano de 2001, alguns alunos desta faculdade descobriram que não havia uma entidade dedicada a esta atividade sem fronteira e decidiram organizá-la, indicando Alberto Moncada como seu presidente na Espanha”, explica o presidente do SSF para a América Latina, Paulo Roberto Martins. “Nos da América do Sul, no início de setembro de 2009, durante a reunião da Associação LatinoAmericana de Sociologia (ALAS), constituímos a entidade Sociólogos Sem Fronteira Latino-America, que congrega as entidades e seus associados da Argentina, Brasil e Chile, bem como, sociólogos de outros países da América Latina. Sou presidente de SSF Latino America e Mariana San Martins da Argentina, a secretaria. Na medida em que esta é uma entidade plurinacional, seu processo de formalização/registro é mais lento. No momento, estamos dando curso a este processo de registro na Argentina”. Focada em vários setores da sociedade, a SSF pode ser mais notada por sua preocupação com os Direitos Humanos e a qualidade do ensino dos aspirantes a sociólogos. O lema da entidade ‘Sociólogos Sem Fronteiras’ é ‘o lugar onde a solidariedade e a Sociologia se encontram’, e tem

“A Sociólogos Sem Fronteiras começou mediante uma iniciativa do Professor Alberto Moncada, professor aposentado da Universidade Complutense de Madrid, Espanha. No ano de 2001, alguns alunos desta faculdade descobriram que não havia uma entidade dedicada a esta atividade sem fronteira e decidiram organizá-la”

Paulo Roberto Martins, presidente da SSF para a América Latina S O C I O L O G I A | 19

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Brava Gente Principais trabalhos da SSF • SSF possui um jornal associado, “Societies Without Borders: Human Rights & the Social Sciences” • Sessões próprias no: - Congresso da ASA (American Sociological Association) - Congresso da ISA (International Sociological Association) - Congresso da FES (Federação Espanhola de Sociologia) - Oficinas no Fórum Social Mundial • SSF Latino América terá um Espaço de Coordenação no Congresso da Associação Latino Americana de Sociologia em agosto de 2009. • Iniciativa para ter o status consultivo sobre Direitos Humanos nas Nações Unidas. • Foram realizados encontros com ativistas sobre Direitos Humanos. O primeiro foi em Boston, durante o ultimo congresso de ASA. Os próximos encontros serão em São

Francisco, Valencia e Buenos Aires. • A UNESCO editou o livro “Para entender a globalização” que são usados por muitos professores de língua espanhola. • SSF leva adiante diversos projetos em suas sessões nacionais espalhadas pelo mundo, como “Cidades de Direitos Humanos”, que esta sendo desenvolvida em Chapel Hill-Carboro, Estados Unidos da America do Norte. • Os membros de SSF pesquisam, apoiam e difundem temáticas relacionadas a igualdade, ao aprofundamento dos direitos , justiça social e global. • Judith Blau, presidenta de SSF nos Estados Unidos e Alberto Moncada, presidente de SSF Internacional tem publicado três livros sobre a questão de Direitos Humanos, publicados pela editora Rowman & Litlefield e recentemente um manual: “Human Rights, A Primer” (editora Paradigm) para uso universitário.

até certa semelhança com a Médicos Sem Fronteira “Digamos que temos uma atuFronteira. ação e concepções parecidas e, em nosso caso, o instrumento de nossa ação são nossos conhecimentos oriundos da ciência que praticamos. A Sociologia”, aponta Martins. Para o presidente mundial da entidade, o espanhol Alberto Moncada, os estudantes devem procurar ter a filosofia do SSF ainda na academia. “Conseguir que as novas gerações de sociólogos tenham uma visão que inclua nossa filosofia no contexto da globalização é uma de nossas esperanças”, no entanto, admite que os Direitos Humanos sejam preocupação número um da organização que preside. “O SSF realiza um trabalho de solidariedade e de comunicação em alguns países, por exemplo, no Irã, onde há sociólogos associados. Mas nosso trabalho nestes países enfrenta as mesmas dificuldades que outras ONGs. A análise e defesa dos direitos humanos é a principal preocupação de SSF e temo que por muito tempo. Há três anos o SSF realiza atividades conjuntas com ativistas dos direitos humanos”, confessa Moncada. ATUAÇÃO

Em um mundo onde todos participam de várias decisões, iniciativa privada sugere opiniões para governos e vice-versa, o SSF busca atuar em várias frentes, seja por meio de ONGs ou associações, como explica o presidente para a América do Sul da entidade. “Por meio da política, por exemplo, nossos colegas americanos

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Direitos Humanos Considerando que o reconhecimento da dignidade inerente a todos os membros da família humana e de seus direitos iguais e inalienáveis é o fundamento da liberdade, da justiça e da paz no mundo, Considerando que o desprezo e o desrespeito pelos direitos humanos resultaram em atos bárbaros que ultrajaram a consciência da Humanidade e que o advento de um mundo em que todos gozem de liberdade de palavra, de crença e da liberdade de viverem a salvo do temor e da necessidade foi

proclamado como a mais alta aspiração do ser humano comum, Considerando ser essencial que os direitos humanos sejam protegidos pelo império da lei, para que o ser humano não seja compelido, como último recurso, à rebelião contra a tirania e a opressão, Considerando ser essencial promover o desenvolvimento de relações amistosas entre as nações, Considerando que os povos das Nações Unidas reafirmaram, na Carta da ONU, sua fé nos direitos humanos fundamentais, na dignidade e no valor do ser humano

e na igualdade de direitos entre homens e mulheres, e que decidiram promover o progresso social e melhores condições de vida em uma liberdade mais ampla, Considerando que os Estados-Membros se comprometeram a promover, em cooperação com as Nações Unidas, o respeito universal aos direitos e liberdades humanas fundamentais e a observância desses direitos e liberdades, Considerando que uma compreensão comum desses direitos e liberdades é da mais alta importância para o pleno cumprimento desse compromisso. Fonte: ONU

conseguiram que a American Sociological Association (ASA), seis meses antes da invasão norte-americana do Iraque, emitisse uma moção contra esta invasão. Cabe lembrar que nem mesmo na guerra do Vietnã isto tinha sido conseguido junto a ASA. Sempre estivemos presentes nas diversas realizações do Fórum Social Mundial, desta forma, contribuindo com movimento global de variadas instituições que advogam que um novo mundo é possível. Estes são apenas alguns exemplos de atuação de SSF”. Em dez anos de atuação, de acordo com o professor Moncada, a maior conquista da associação foi expandir-se mundo afora. Atualmente, há membros em dez países. “Temos por volta de 600 associa-

dos e a maioria está nos Estados Unidos” diz Moncada, que atribui boa parte disso a presidente americana do SSF, Judith Blau. “Eu não posso esquecer-me de Judith Blau, presidente da filial americana, e com a qual eu escrevi quatro livros sobre direitos humanos”. SOCIOLOGIA E MEIO AMBIENTE

Estar ‘Sem Fronteiras’ pode significar também se preocupar com tudo, inclusive as condições que o planeta vai ter daqui a alguns anos. Isso não passa em branco pela entidade. “Meio ambiente é um preocupação do SSF. Muitos de seus membros têm como atividade de ensino e pesquisas relativos a este tema, e é uma das

possíveis áreas de atuação dos membros do SSF, inclusive enquanto cidadãos de determinadas comunidades. Ha uma incompatibilidade entre o processo de produção e reprodução do capital e a preservação do meio ambiente. Assim sendo, este é um tema candente de todos os sociólogos que se dedicam a entender as relações entre sociedade e natureza”, conclui o presidente Martins. Para fazer parte do Sociólogos Sem Fronteiras é preciso ser sociólogo, como diz Paulo Roberto Martins, no sentido de estar envolvido formalmente com esta disciplina cientifica em seu trabalho. Na página virtual da entidade, www.sociologossf.iv.fapesp.br, é possível saber o caminhos necessários para a filiação. * Fábio Miranda é jornalista e escreve para esta publicação

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Sobre a Criminalidade Juvenil

Pensar a questão do jovem infrator exige um esforço multidisciplinar e uma reflexão cuidadosa para não cairmos em juízos apressados e falsas soluções por Ilana Casoy*

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No mundo inteiro, as pesquisas sobre menores infratores se multiplicam. Psiquiatras, psicólogos e profissionais da área forense e de saúde mental tentam entender a mente criminosa e os fatores de risco na vida da criança que elevam o desenvolvimento desse tipo de comportamento. Métodos de intervenção precoce a serem aplicados em menores infratores são amplamente estudados, discutidos e experimentados. São levantadas causas biológicas, sociais e psicológicas para a criminalidade, aprimorando a detecção, ainda na infância, de sinais que indiquem “tratamento” daqueles que o apresentam ou que sejam do grupo de risco. Ainda se procura o “defeito no sujeito”, muito mais do que o “defeito no sistema social” ou “defeito no sistema penal”. Numa época em que a violência é discutida dia a dia em todos os meios científicos, sociais e comunicadores, jovens que foram libertados por alcançar a maioridade acabaram retornando à vida criminosa, às vezes de forma mais violenta, passando então a frequentar as celas de nosso sistema prisional adulto. Poderíamos ter visto os “sinais” de sua personalidade que prenunciariam esse futuro terrível, ainda numa idade em que o jovem poderia receber “tratamento”? Ou teríamos que analisar a internação desse jovem em instituições, a título de serem “inseridos nas medidas socioeducativas de privação de liberdade (internação), semiliberdade e meio aberto”, com medidas aplicadas de acordo com o ato infracional e a idade dos adolescentes? Essas instituições definem como seu objetivo principal e ideológico a reeducação e reintegração dos menores infratores na sociedade, mas na realidade garantem a desigualdade social, uma vez que etiqueta esses jovens como criminosos em sua comunidade, fora dela e, principalmente, deixando marcas indeléveis na formação de uma identidade criminosa, muitas vezes positiva dentre seus pares. O jovem estigmatizado institucionalmente como “menor infrator” sofre um processo seletivo que concentra a crimina-

São as leis de efeito midiático de emergência, e de ganho político, que vendem resultados de maior punição, sem de fato construir uma base para a diminuição da criminalidade, trabalhando o direito penal através da perspectiva criminológica. Esse tipo de lei, criada sob os gritos populares, fomentada pela mídia, apenas mitifica ainda mais o Direito Penal como a solução para a criminalidade lização juvenil nas sociedades paralelas decorrentes do estado de anomia que permeia a população da periferia, aquelas nas quais a falta de riqueza e oportunidade é permanente. Ali, formam-se personalidades que são produto dessa construção social, em que os conceitos de crime e criminoso são resultado de um discurso permanente que constrói um inimigo conveniente para a sociedade, que precisa dele para ocultar a realidade do Estado e do Direito, com a função de também ocultar a desigualdade entre as classes envolvidas no processo. Caso Batoré, um exemplo

Podemos utilizar como exemplo o caso do menino Fábio Paulino, apelidado Batoré, nascido em 1983, em bairro da zona leste de São Paulo, acusado de assassinar quinze pessoas e de ter participado de mais de cinquenta sequestros relâmpago ainda quando menor de idade. Ao examinarmos, mesmo que de forma superficial, a infância de Fábio Paulino, logo se perceberá que seus problemas se iniciaram na mais tenra idade, e que seriam prenúncio de “desastre”. Aos dois anos, perdeu o pai, assassinado de forma violenta. Nesse mesmo dia, sua mãe iniciou uma longa dependência pelo álcool. Aos nove, já estava envolvido com os “malandros” da região, sendo iniciado no tráfico de drogas antes de completar dez anos. Nessa época, parou de frequentar a escola. Aos treze, Batoré cometeu seu primeiro homicídio conhecido, assassinando um investigador de polícia.

Aliás, segundo a mídia, exterminar autoridades policiais parecia ser motivo de orgulho para o rapaz. Outras catorze pessoas, entre elas um delegado e um policial militar, morreram nas mãos de Fábio. Ele foi ainda acusado de chefiar outros menores que cumpriam pena na antiga FEBEM, hoje Fundação Casa, de onde fugiu oito vezes. Hoje, já adulto, é acusado e/ou condenado por vários delitos: tráfico de entorpecentes, formação de quadrilha, associação ao tráfico, porte de arma, falsidade ideológica e corrupção de menores. Em janeiro de 2008, Batoré foi preso em São Miguel Paulista, na zona leste da capital, acusado de roubo de carro, e cumpre pena na Penitenciária Adriano Marrey, em Guarulhos, na Grande São Paulo, de onde também já tentou fugir. Ao analisar esse caso real, nossa primeira impressão, criada pela ideia universal e aceita como verdade, é que fatores de personalidade deste rapaz já poderiam predizer uma vida criminosa. À luz da pesquisa do geneticista comportamental Dr. David T. Lykken, teremos como causa da criminalidade a mediocridade da ação dos pais na educação do filho. Segundo ele, a maioria dos casos de crianças com comportamento antissocial tem causa em pais e mães ausentes que não socializaram seus filhos apropriadamente. Essas crianças são chamadas por ele de sociopatas, que acredita também que se possa diminuir esse número com melhoras nas habilidades delas. Ele apresentou estudos com gêmeos, que fundamentam a s o c i o l o g i a | 23

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Sociedade sas, resistentes ou raivosas, se não forem feitas sólidas ligações com ela nos primeiros nove meses de vida. Seus estudos mostram que as crianças conectadas tendem a ser mais competentes e bem ajustadas mais tarde em sua vida. Este pode ser o caso em que a personalidade antissocial infantil se forma neste estágio crucial, em especial se existe uma predisposição neurológica em termos de falta de inibição no comportamento e procura de sensações. Com base nessas pesquisas, pretendia-se estabelecer quais os indicadores de criminalidade estavam presentes na infância do encarcerado, prenunciando uma vida infratora e delinquente. Obviamente seriam muitos. O grave problema dessa análise é que as ideologias têm como traço fundamental, segundo a filósofa Marilena Chauí, “tomar as ideias como independentes da realidade histórica e social, de modo a fazer com que tais ideias expliquem aquela realidade que torna compreensíveis as ideias elaboradas”. Em cada época, o pensamento das classes dominantes sofreu mudanças que nem sempre acompanharam as realidades dos fatos sociais, mas sim os representaram de forma conveniente para legitimar seus interesses. Ao percebermos esta dinâmica desnudamos verdades que ficaram ocultas. Procura-se a causa naquelas que seriam, talvez, as consequências da desigualdade e exclusão que sofreu esse indivíduo, desde seu nascimento até os dias de hoje. Ficam invertidas as relações de causa e efeito, ou seja, pretende-se demonstrar que as características de personalidade do indivíduo são

as causas de sua exclusão da sociedade e carreira criminosa, quando na verdade foi a sua exclusão da sociedade que resultou em uma vida criminosa e na formação de algumas características de personalidade. Fábio Paulino, analisado sob a ótica da nova criminologia clínica, pode ter estruturado seu pensamento dentro da sociedade em que cresceu, um lugar onde o crime é permanente e banalizado, mudando sua própria escala de valores. Ou ainda utilizar o crime como reação às condições adversas que enfrentou, tentando resolver sozinho seu problema, e não politicamente e de forma organizada. Assim como Fábio Paulino, uma enorme quantidade de jovens infratores teve o mesmo destino, sem que soubéssemos quando, onde e de que forma poderíamos intervir nesse processo. Eles se tornaram “inimigos da sociedade e do Estado”, foram ainda mais excluídos do sistema, agora com o apoio da mídia e de sua própria classe de excluídos, que se identifica com a classe dominante por meio do pensamento, num mesmo sentimento de pertença. Excluídos por outra ideologia universal que tem função de ocultamento, aquela em que o Estado é justo, imparcial e protetor de todos os cidadãos de todas as classes, quando na verdade o Estado é protetor unicamente dos interesses da classe dominante, que controla os meios e as condições de trabalho. Mídia e estigmatização

A mídia abastece essa projeção de inimigo, sabendo como enfatizar e realçar os fatos e pessoas ideais para acolher essas

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teoria de que a criminalidade tem um grande fator genético, mas as características como falta de medo, excesso de agressividade, sensação de ser olhado, contribuem para o comportamento antissocial. Resolver isso é responsabilidade dos pais, e quando estes falham a criança com esses traços pode expressá-las através da violência. Pela pesquisa do psicólogo americano Dr. Lonnie H. Athens, concluiríamos que o comportamento antissocial de Fábio Paulino resultaria de uma série de estágios evolutivos pelos quais foi submetido. Segundo ele, em princípio as pessoas nascem benignas e a violência tem prevenção. Numa tentativa de descobrir por que algumas pessoas, num ambiente violento, são vulneráveis e se tornam violentas enquanto outras não, o psicólogo entrevistou criminosos violentos para encontrar o que tinham em comum. Concluiu que a pessoa se torna violenta através de um processo que chamou de “violentalização”, que envolve estágios consecutivos. No primeiro deles, a pessoa é a vítima da violência e se sente impotente para mudar isso. No segundo, é ensinado como e quando ficar violento para lucrar com isso. O terceiro passo é agir. Se uma pessoa que tem um meio ambiente violento não se torna violenta, é porque alguma parte do processo ficou faltando. De acordo com este pesquisador, criminosos violentos sabem o que estão fazendo e agem com violência porque decidiram agir assim. Já nas conclusões do Dr. James Garbarino, especialista americano em desenvolvimento infantil, crianças como Fábio Paulino podem ser desconfiadas, ansiosas, cautelo-

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projeções do homem, criando uma nova criminologia atulhada de leis que aparentemente resolvem o problema de sensação de insegurança, sem de fato se aprofundar no problema em si. São as leis de efeito midiático de emergência, e de ganho político, que vendem resultados de maior punição, sem de fato construir uma base para a diminuição da criminalidade, trabalhando o direito penal pela perspectiva criminológica. Esse tipo de lei, criada sob os gritos populares, fomentada pela mídia, apenas mitifica ainda mais o Direito Penal como a solução para a criminalidade. Como enfatiza Juarez Cirino dos Santos – pioneiro da criminologia crítica no Brasil: “(...) o estudo de percepções e atitudes projetadas na opinião pública permitiu descobrir os efeitos reais de imagem da criminalidade difundidas pelos meios de comunicação de massa, que disseminam representações ideológicas unitárias de luta contra o crime, apresentando na mídia como inimigo comum de todas as classes sociais – e, desse modo, introduzem divisões nas camadas sociais subalternas, infundindo na força de trabalho ativa atitudes de repúdio agressivo contra a população marginalizada do mercado de trabalho, por causa de potencialidades criminosas estruturais interpretadas como expressão de defeitos pessoais”. Dessa forma, como observado pelo sociólogo David Garland, “punições mais duras – e a velha retórica da ‘lei e ordem’ – são ministradas pelo Estado como um gesto soberano de império para reconfortar o público”. E são utilizadas de forma política e populista, “de maneira a privilegiar a opinião pública em detrimento dos especialistas da justiça criminal e das elites profissionais”. Para esse pesquisador, ainda é característica dessa estratégia a “imagem projetada, politizada, da ‘vítima’, e não dos interesses e opiniões das próprias vítimas”. A mídia, hoje, valoriza as organizações não-governamentais batizadas com nomes de vítimas de casos de grande repercussão, ou ainda leis que recebem seus nomes. É um processo de santificação da vítima versus a demonização do criminoso, que leva cada vez a punições mais cruéis, incapa-

citando o infrator de retomar sua vida de forma a ter minimizadas as sequelas graves do processo punitivo. Ele tem altas chances de reincidir. Como disse o sociólogo Luiz Eduardo Soares, “um caso típico de profecia que se autocumpre” O menor infrator fica, primeiramente, estigmatizado como portador de ‘personalidade criminosa’, é transformado em inimigo público execrado pela mídia e sociedade, fica de forma indelével marcado em sua passagem pelo sistema punitivo atual e com menores chances de uma vida fora da criminalidade, reincidindo e reforçando a ilusão ideológica do “pau que nasce torto...”. * Ilana Casoy é escritora e pesquisadora na área de violência e criminalidade. Formada em Administração pela FGV e pósgraduanda em Criminologia pelo Instituto Brasileiro de Ciências Criminais (IBCCRIM). Membro Consultivo da Comissão de Política Criminal e Penitenciária da OAB SP, é autora dos livros Serial Killer – Louco ou Cruel? – Serial Killers – Made in Brasil, O Quinto Mandamento – Caso de Polícia (Ediouro) e A Prova é a Testemunha (Larousse).

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inSEGURANÇA

Pública a sociedade da informação, que poderia facilitar o convívio entre grupos sociais, é também a sociedade do medo e do afastamento. como isso aconteceu? por danilo maeda*

* Danilo Maeda é jornalista e vencedor dos prêmios Expocom, categoria livro-Reportagem (2009) e Talentos Metodista, na categoria Reportagem Especial (2007).

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Após estacionar, Pedro aciona o alarme com travas automáticas de seu carro. Antes de iniciar a caminhada, contudo, checa cuidadosamente se todas as portas realmente estão fechadas. Do outro lado da cidade, sua esposa, Mariana, dirige com os vidros fechados, apesar do calor e do sol forte que elevam a temperatura interna do carro e derrubam sua pressão arterial. No veículo ao lado, também no trânsito, Fernanda pensa em um novo trajeto para retornar do trabalho para

casa, pois não utiliza o mesmo caminho por três dias seguidos. No mesmo horário, durante uma das poucas oportunidades em que decide sair de casa para uma caminhada, seu vizinho Paulo atravessa para o outro lado da rua ao perceber que atrás dele vem um rapaz de mochila e pele morena, em passos apressados. Fábio nota que o morador local mudou de calçada porque percebeu sua aproximação e sente algo como uma mistura de chateação e revolta, mas segue o cami-

nho de cabeça baixa. Apenas até notar a presença de uma viatura na próxima esquina. Apesar de não ter cometido qualquer infração, Fábio sente-se incomodado e acredita que os policiais vigiam todos os seus passos. Na realidade, porém, Adilson e Roberto estão preocupados com suas famílias, pois sentem que deixam esposas e filhos à mercê da sociedade para atender os chamados do trabalho como PM e os bicos como segurança particular.

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As descrições acima podem parecer o roteiro para uma epidemia de Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC) ou de síndrome do pânico, mas são relatos factíveis de cenas cotidianas em grandes cidades brasileiras. Mais do que um tema presente e dominante em palanques e veículos de imprensa, a segurança pública é uma preocupação importante para a sociedade, chegando ao nível de influenciar condutas e costumes sociais, além de gerar implicações em outras áreas e ampliar problemas como a segregação social e o preconceito. Apesar dos discursos políticos e da preocupação (ou paranoia) social relacionada ao assunto, os dados sobre segurança pública mostram que as condições

têm piorado ao longo dos anos. Segundo a pesquisa IDS 2010 (Indicadores de Desenvolvimento Sustentável), divulgada no início de setembro pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), a taxa de homicídios no Brasil cresceu 32%, em 15 anos. Assim, o índice de mortes por 100 mil habitantes subiu de 19,2, em 1992, para 25,4, em 2007. Esse é o tipo de tendência confirmada por números, mas percebida com antecedência no dia a dia pela população em todas as faixas de renda e classes sociais. A percepção coletiva de um sentimento de medo é compartilhada por todos, com mudanças relacionadas ao objeto causador desse sentimento, de acordo com o grupo social em que o indivíduo está

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inserido. Assim, dentro do cenário proposto no início desse texto, enquanto um personagem como Paulo, morador de um bairro de classe média, sente-se acuado pela simples presença de uma pessoa mais pobre, o trabalhador que mora em um bairro de periferia, como Fábio, está socialmente condicionado a manter distância dos policiais, que por sua vez temem pela segurança da família e do emprego. violência: preocupação e problema social

Pesquisadora do Núcleo de Estudos da Violência da USP, a socióloga Cristina Neme apresenta uma avaliação so-

bre a tendência de aumento na “preocupação coletiva” relacionada à segurança. “No Brasil, a criminalidade violenta encontra-se no centro do debate público, dados os patamares elevados atingidos devido a uma tendência de crescimento que atravessou duas décadas. Os crimes contra a pessoa são o grande fator de insegurança da população e representam o ápice das violências que afetam a sociedade em um contexto de grandes desigualdades sociais”, afirma em trabalho sobre o assunto. Dentro dessa concepção, a cientista social Maria Stela Grossi Porto, professora da Universidade de Brasília com pós-doutorado em sociologia, destaca as representações sociais da violência. “A

violência é entendida por meio dos fatos da violência, exemplo, um homicídio, um corpo no chão, o sangue na calçada, mas são também as representações sociais dessa violência. Além disso, representações sociais não são racionais ou irracionais, embora respondam, certamente, por uma lógica e uma racionalidade que as constituem em objeto do conhecimento”. Essas representações também são relevantes, historicamente, para a construção do modelo de combate à violência instalado na sociedade. Segundo o cientista político Álvaro Oxley Rocha, o Brasil sempre foi carente de políticas públicas para segurança. “Nossa formação social se deu pela construção dos interesses das nos-

“No Brasil, a criminalidade violenta encontra-se no centro do debate público, dados os patamares elevados atingidos devido a uma tendência de crescimento que atravessou duas décadas. Os crimes contra a pessoa são o grande fator de insegurança da população e representam o ápice das violências que afetam a sociedade em um contexto de grandes desigualdades sociais”

Cristina Neme, socióloga e pesquisadora do Núcleo de Estudos da Violência da USP

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“A violência é entendida por meio dos fatos da violência: um homicídio, um corpo no chão, o sangue na calçada, mas são também as representações sociais dessa violência. Além disso, representações sociais não são racionais ou irracionais, embora respondam, certamente, por uma lógica e uma racionalidade que as constituem em objeto do conhecimento” Maria Stela Grossi Porto, cientista social e professor da Universidade de Brasília

sas elites sociais, que se preocupavam, no máximo, em proteger seu patrimônio. Segurança coletiva nunca foi uma preocupação, quanto mais uma prioridade”, avalia Rocha, professor da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Na mesma linha, André Gaio, professor da Universidade Federal de Juiz de Fora com mestrado em ciência política e doutorado em História do Brasil critica a falta de fundamentação teórica para o planejamento de ações na área de segurança pública. “Quando as ‘políticas públicas’ procuram se fundamentar em alguma escola criminológica, como no caso de Minas Gerais, escolhem os princípios conservadores da teoria das atividades de rotina, que culpa em grande parte a vítima por ter sido agredida, além de achar uma bobagem procurar as causas da violência”, declara Gaio. repressão ou reinserção?

A partir da compreensão de que as políticas públicas de segurança no Brasil carecem de fundamentação e se voltam principalmente para a proteção do patrimônio, é mais fácil entender também a construção do sistema penal. Segundo Gaio, a estrutura das polícias e dos demais instrumentos de segurança está voltada para a repressão. “A ênfase, de fato, é no trabalho repressivo. Política alguma pode funcionar se, na ponta, onde estão os policiais, não houver uma renovação completa”. Dentro dessa construção, as representações e a origem social das pessoas en-

volvidas em casos de violência são determinantes para seu encaminhamento, como avalia a socióloga e advogada Débora Pastana. “No Brasil, as respostas à criminalidade consistem, em sua grande maioria, em penas severas, traduzidas na ausência do respeito às garantias constitucionais e no recurso amplo ao encarceramento. Nessa linha, nossos governos democráticos contemporâneos frequentemente adotam uma posição punitiva que visa reafirmar a aptidão do Estado em punir e controlar a criminalidade”. A opinião de Oxley Rocha reforça esse entendimento. Segundo ele, a atitude histórica das autoridades estatais não mudou. Por isso, o prognóstico do cientista político é pouco otimista com relação a uma possível mudança na postura de tratar apenas superficialmente a questão da segurança pública. “A tendência é atender cosmeticamente ao problema, especialmente porque soluções reais e duradouras demandam ações coerentes, interdisciplinares, e não apenas ações de guerra, como parecem tão fáceis a alguns. Se a truculência repressora resolvesse, o problema não mais existiria”, resume. sistema CarCerário

No clássico “Vigiar e Punir”, o filósofo Michel Foucault analisa as mudanças no tipo de punição aplicada às pessoas consideradas culpadas, com o progressivo desaparecimento dos suplícios entre o final do século 18 e início do 19. “Nessa transformação, misturaram-se dois processos. Não tiveram nem a mesma cronolo-

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Questão de saúde? Além das questões sociais ligadas a desigualdade, pobreza e exclusão, a problemática da violência passa também por um aspecto normalmente associado apenas às ciências da saúde: o consumo e a dependência de substâncias psicoativas, que podem ser consideradas um fator que, se não é o único responsável, facilita ou desencadeia comportamentos violentos que redundam em crimes como agressões e homicídios, entre outros. Divulgada em agosto de 2010, uma pesquisa coordenada pelo professor de Sociologia da PUC-MG, Luis Flavio Sapori, mostrou que, dez anos após a chegada do crack em Belo Horizonte, a proporção de homicídios motivados

por questões ligadas a drogas ilícitas quadruplicou. Se até 1996, quando a droga era dificilmente encontrada na cidade, as mortes provocadas por conflitos que envolviam drogas representavam 8,3% do total, em 2006 esse número foi para 33,3%. Assim, apesar da redução nos números gerais de homicídios, houve crescimento absoluto do número de mortes motivadas pelo crack. Outra experiência com dados interessantes sobre a relação entre violência e consumo de substâncias que afetam o sistema nervoso central aconteceu na cidade de Diadema, na Grande São Paulo. Conhecido por altos índices de violência e criminalidade,

o município implantou em julho de 2002 uma lei que regulou a abertura de bares entre 23h e 6h. Desde então, foram evitados 11 homicídios por mês, segundo levantamento da Universidade Federal de São Paulo. O caso foi apresentado como exemplo positivo em um congresso da ONU em 2005. Segundo os especialistas da área, todas as drogas podem gerar dependência química, doença que se instala no sistema nervoso central e que precisa de tratamento especializado. Caso contrário, a pessoa que desenvolveu a patologia perde progressivamente a possibilidade de autodeterminação e fica exposta a um comportamento mais agressivo do que o habitualmente apresentado.

“Em um primeiro momento, a aproximação das forças policiais da comunidade, funciona como paliativo, como forma de promover a cidadania, ao integrar comunidades abandonadas, na verdade nunca assumidas, como parte do Estado. É uma iniciativa válida e, começando por ela, pode-se ir muito longe”

Álvaro Oxley Rocha, cientista político e professor da PUCRS

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gia nem as mesmas razões de ser. De um lado, a supressão do espetáculo punitivo. O cerimonial da pena vai sendo obliterado e passa a ser apenas um novo ato de procedimento ou de administração. [...] O desaparecimento dos suplícios é, pois o espetáculo que se elimina; mas é também o domínio sobre o corpo que se extingue”. Dessa forma, o autor chega a uma questão central de sua obra e cita o exemplo da guilhotina como máquina inventada para uniformizar as penas de morte em um procedimento sem dor. “Quase sem tocar o corpo, a guilhotina suprime a vida, tal como a prisão su-

prime a liberdade, ou uma multa tira os bens. Ela aplica a lei não tanto a um corpo real e susceptível de dor quanto a um sujeito jurídico, detentor, entre outros direitos, do de existir. Ela devia ter a abstração da própria lei”. Para ele, a descoberta do corpo como objeto e alvo do poder, no século XVIII, deu início às tentativas de manipulação, treinamento e adequação, que possibilitaram o fortalecimento das instituições disciplinares, chamadas por Erving Goffman de “instituições totais” e definidas como “um local de residência e trabalho onde um grande número de indivíduos com si-

Entrevista exclusiva Berenice Gianella é presidente da Fundação CASA, criada em São Paulo para atendimento dos adolescentes menores de 18 anos em conflito com a lei, no lugar da antiga FEBEM (Fundação para o Bem-Estar do Menor), que estava mais próxima às prisões tradicionais do que a estabelecimentos focados no atendimento qualificado de crianças e adolescentes. Desde 2006, a reestruturação, que se baseou na descentralização, parcerias com sociedade civil e capacitação dos profissionais, apresentou resultados promissores, como a redução na reincidência, que foi de 29% para 12,8%, e a redução do número de rebeliões, saindo das 53 de 2005 para apenas uma em 2009. Leia abaixo entrevista exclusiva concedida por Berenice. Do ponto de vista teórico, como podem ser compreendidas as políticas públicas de segurança no Brasil? Nossa estrutura está organizada de forma repressora ou "educativa"? É um modelo repressor, mas falho. O principal problema das políticas de segurança é que falta uma articulação nacional em torno do tema. Hoje, pelas fronteiras brasileiras, armas e drogas entram com facilidade. Isso é a raiz de alguns problemas que atormentam a sociedade. Um deles é o tráfico de drogas, que cada vez mais tem penetrado em nossa juventude. O outro é a fácil aquisição de armas ilícitas, o que facilita a ação de criminosos. É necessário que o Governo Federal corrija estas distorções, fazendo com que as fronteiras sejam patrulhadas. Do ponto de vista dos Estados, como

São Paulo, hoje o modelo caminha para uma integração maior das políticas com a comunidade e a sociedade civil, como tem acontecido aqui, especificamente na Fundação CASA. É necessária também a criação de políticas e diretrizes nacionais de prevenção, para impedir que as crianças e jovens sejam cooptados pelo crime. Qual sua avaliação sobre as propostas de aproximar as forças policiais do dia a dia da comunidade em que ela está inserida? A aproximação com a comunidade e a sociedade civil é fundamental tanto para a prevenção da violência quanto para o fortalecimento do papel do Estado. No campo sócio-educativo, que trata da reinserção social de adolescentes em conflito com a lei, isso é fundamental para possibilitar que os jovens, ao saírem das

instituições, consigam oportunidade de trabalho e de educação. Atualmente, temos exemplos de vários adolescentes que conseguiram inserção o mercado de trabalho depois de deixarem as unidades da Fundação CASA. E isso graças a um trabalho conjunto da Fundação com parceiros da sociedade civil e empresas. Quais mudanças, promovidas desde o início da Fundação Casa, ocupando o espaço da antiga FEBEM, merecem maior destaque? As principais mudanças podem ser resumidas em três fatores, que são interdependentes: descentralização do atendimento, com a construção de unidades pequenas (com capacidade para 56 adolescentes); atendimento do jovem próximo da família, em sua cidade ou região de origem, o que foi possível graças à descentralização; e capacitação dos funcionários da Fundação CASA para uma nova filosofia de trabalho, que contempla um atendimento individualizado e humanizado. Estes são os conceitos que têm norteado a mudança institucional nestes últimos cinco anos. Além do trinômio, outro fator importante foi a adoção de uma política

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tuação semelhante, separado da sociedade mais ampla por considerável período de tempo, leva uma vida fechada e formalmente administrada”. Segundo Goffman, qualquer grupo de pessoas enclausuradas nesses lugares desenvolve regras próprias que permitem o convívio. “Acreditava, e continuo a acreditar, que qualquer grupo de pessoas – prisioneiros, primitivos, pilotos ou pacientes – desenvolve uma vida própria que se torna significativa, razoável, e normal, desde que você se aproxime dela”. Assim, as prisões são entendidas, ao menos teoricamente, tanto como locais

de parcerias com entidades da sociedade civil, que hoje administram 28 unidades da Fundação CASA e desenvolvem uma série de projetos nas áreas esportivas, culturais e de educação profissional. Foi a soma destes fatores que possibilitou uma redução drástica nas taxas de reincidência, que eram de 29% em 2006 e estão hoje na casa de 12,8%. As rebeliões também caíram significativamente - foram 80 em 2003, na época da antiga FEBEM, contra uma no ano passado. A senhora acredita que a formação e capacitação dos profissionais da Fundação Casa são adequadas às funções desempenhadas no cotidiano de trabalho? Sim, em que pese sempre seja necessário inovar, porque as demandas apresentadas pelos jovens em atendimento têm características culturais que estão sempre em alteração. O mesmo acontece com as polícias no estado de SP? Embora eu não seja da área policial, no que tange às polícias paulistas, é notória a melhoria de qualidade no trabalho nos últimos anos e os investimentos feitos

de punição quanto de adequação e reinserção, de controle do corpo. Contudo, há que se pensar sobre as regras próprias criadas dentro dessas instituições para evidenciar se estão conseguindo o efeito esperado. Um caso dramático

Todos os anos, no Estado de São Paulo, o segundo fim de semana do mês de maio é marcado por movimentação intensa nas ruas. Desde o fim de tarde de sexta-feira até a noite de sábado, os centros comerciais recebem um número de pessoas con-

pelo Governo do Estado em treinamento e capacitação. Em sua avaliação, quais pontos ainda precisam ser melhorados e podem ser considerados como vulnerabilidades na constituição atual da Fundação? As questões estruturais, que estão no trinômio: descentralização, atendimento próximo da família e capacitação dos funcionários estão postas. O que precisamos avançar agora é no enraizamento destas mudanças, aprofundando, sempre, os trabalhos de capacitação dos funcionários. É necessário, também, começar a pensar o problema do adolescente em conflito com a lei na ótica da prevenção. Hoje, no Brasil, investe-se quase nada em programas que impeçam que os jovens entrem para a criminalidade. Seria mais produtivo que o País aplicasse dinheiro público em ações concretas de prevenção do que em unidades de internação de adolescentes. Embora nosso trabalho aqui em São Paulo seja referência nacional hoje no atendimento sócio-educativo, posso dizer que é muito mais difícil trabalhar com um adolescente que já infracionou do que com uma criança que pode ser resgatada antes de entrar para o mundo do crime.

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Homicídios no Brasil Os índices apresentados pela pesquisa sobre Indicadores de Desenvolvimento Sustentável do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) evidenciam as disparidades locais e as diferenças entre as Unidades da Federação. Com esses dados, é mais fácil perceber em quais Estados a segurança pública é uma grande questão a ser resolvida e em quais ela é um problema ainda maior.

As maiores taxas (por cem mil habitantes) Alagoas

Destaque: O Rio de Janeiro ficou em 4º lugar, com o alto índice de 41,5, mas pode comemorar uma redução significativa na mortalidade por homicídios, que esta em 50,8 para cada 100 mil habitantes em 2004. O estado de São Paulo também passou por processo semelhante, reduzindo o índice de 28,5 em 2004 para 15,4 em 2007.

E as menores taxas 59,5

15,4

São Paulo

Espírito Santo

53,3

Piauí

Pernambuco

53,0

Santa Catarina

12,4

10,4

Fonte: IBGE. Os registros primários de homicídios são obtidos através das Secretarias Estaduais de Saúde e processados pelo Ministério da Saúde, estando disponíveis no Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM).

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Os responsáveis pela segurança

FEDERAÇÃO

ESTADOS

MUNICÍPIOS

A Polícia Federal tem porte reduzido - inferior ao de muitas polícias estaduais - e o sistema de justiça criminal federal tem competências limitadas a determinados crimes.

Pela lei brasileira, a área de segurança pública é de responsabilidade concentrada nos estados. Cada um deles tem, por exemplo, suas forças policiais e seu Tribunal de Justiça.

As prefeituras devem atuar, principalmente, na área da prevenção, embora a expansão das guardas municipais inclua também tarefas de repressão.

Fonte: CANO, Ignacio. Políticas de segurança pública no Brasil: tentativas de modernização e democratização versus a guerra contra o crime. Sur, Rev. int. direitos human. [online]. 2006, vol.3, n.5, pp. 136-155

sideravelmente superior à movimentação normal. No domingo, cada família procura seguir uma tradição: almoço preparado pelo homem da casa ou em algum restaurante, como forma de privar as matriarcas de seu trabalho rotineiro na cozinha. O dia das mães costuma representar um momento de tranquilidade e alegria. No ano de 2006, contudo, o que se viu no Estado mais rico do País foi um cenário bastante diferente. Foi no fim de semana do dia das mães que começou a movimentação organizada pelo grupo criminoso conhecido como PCC – Primeiro Comando da Capital. Na tarde da sexta-feira, dia 12 de maio de 2006, detentos das penitenciárias de Avaré e Iaras se rebelaram e deram início a processos semelhantes em outros locais. No domingo, 14 de maio de 2006, durante o dia das mães, 24 presídios estavam sob controle de seus internos e uma série de ataques acontecia fora das cadeias. Se-

gundo balanço divulgado pelo governo de São Paulo, 82 ataques a ônibus, 56 a casas de policiais e 17 a agências bancárias ou caixas eletrônicos foram registrados, totalizando 293 ocorrências. No dia seguinte, alguns boatos sobre atentados contra universidades, escolas e centros de compras desencadearam uma reação coletiva de pânico que paralisou toda a Grande São Paulo. Empresas e repartições públicas dispensaram seus funcionários mais cedo e escolas liberaram alunos. As principais ruas e avenidas da capital, que normalmente têm horário de pico a partir das 17h, já estavam intransitáveis às 16h. A rede de telefones celulares ficou congestionada, o que também gerou boatos sobre uma ação do PCC contra as operadoras de telefonia móvel. Ao escurecer, as ruas de São Paulo, conhecida como a cidade que não para, estavam desertas. No dia 15 de maio de 2006, quem pre-

cisou se deslocar após as 20h na grande São Paulo sentiu-se em um ambiente de guerra. Além das ruas vazias, o contingente policial ostentava, à frente das delegacias e demais unidades da corporação, armas de grosso calibre, usadas para intimidar e “responder” aos ataques contra policiais ocorridos durante o final de semana. Mas o “contra-ataque” foi além da ostentação de armamento. A reação da polícia entre os dias 12 e 21 rendeu um saldo de 493 mortes, na soma de civis e policiais. Segundo um levantamento do jornal Folha de S. Paulo, com base nos documentos da Ouvidoria da Polícia, que fiscaliza as polícias Civil e Militar, aconteceram 102 casos em que policiais foram suspeitos de matar 170 pessoas. Do total, 89 foram vítimas de 54 atentados com "características de execução" (sem chance de defesa para a vítima). Contudo, em 2009, três anos após os ataques e a res o c i o l o g i a | 33

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“No Brasil, as respostas à criminalidade consistem, em sua grande maioria, em penas severas, traduzidas na ausência do respeito às garantias constitucionais e no recurso amplo ao encarceramento. Nessa linha, nossos governos democráticos contemporâneos frequentemente adotam uma posição punitiva que visa reafirmar a aptidão do Estado em punir e controlar a criminalidade” Débora Pastana, socióloga e advogada

ação da polícia, 61% desses casos foram arquivados sem atribuição de autoria. No balanço, a quantidade de casos esclarecidos foi maior quando a vítima era Policial. Das 24 ocorrências, foram apontados autores em 16 e nenhuma foi arquivada. Propostas e mudanças

Como formas de qualificar a gestão e deixar a atuação apenas repressora das polícias, duas propostas são amplamente discutidas pela sociedade, mas talvez sem análises suficientemente aprofundadas sobre suas possibilidades práticas nas diversas realidades do Brasil. Para melhorar a gestão, fala-se em unificação das polícias civil e militar; para sair da postura de repressão e proteção patrimonial, algumas ideias são reunidas sob o conceito genérico de “polícia comunitária”, que inclui estratégias de aproximação entre as forças policiais e as classes sociais tradicionalmente condicionadas a sentir-se ameaçadas por elas. Esse tipo e ação é elogiado pelo professor da PUCRS. “Em um primeiro momento, a aproximação das forças policiais da comunidade, funciona como paliativo para promover a cidadania, ao integrar comunidades abandonadas, na verdade

nunca assumidas, como parte do Estado. É uma iniciativa válida e, começando por ela, pode-se ir muito longe”, analisa Álvaro Oxley Rocha. Por sua vez, o professor André Gaio é cético com relação ao tema. “A polícia comunitária não existe. Dificilmente haverá polícia próxima da comunidade. A lei de responsabilidade fiscal, inclusive, está determinando que as cidades pequenas tenham que arcar com os custos do policiamento. Em futuro próximo apenas haverá efetivo policial (civil e militar) para cidades médias e grandes”. De certa forma, a opinião de Rocha é complementar ao pessimismo do colega. “A população precisa ser educada para conviver com os agentes do Estado, mas os agentes do Estado, no Brasil, também precisam ser educados para a realização do bem comum, a que se destina o dinheiro público. Se for abandonada à própria sorte, como costuma acontecer entre nós, mesmo iniciativas louváveis como essa serão tragadas pela corrupção, que resulta da falta das políticas de educação e de renda”, declara. Sobre a unificação das polícias, os especialistas têm avaliação parecida. Para Oxley Rocha, “a irracionalidade administrativa brasileira se manifesta de muitas

maneiras, uma delas é a sobreposição de funções públicas, como no caso de duas polícias, além das Polícias internas das Forças Armadas, e Polícias Municipais”. Por sua vez, André Gaio acredita que a proposta tem motivações de ordem técnico-administrativa e operacional, “mas dificilmente encontramos lugares em que funcione um trabalho coordenado entre as duas polícias. As rivalidades entre as mesmas ainda são insuperáveis e o trabalho de ambas, com raras exceções, são muito ruins”, comenta.

Referências CALDEIRA, Teresa Pires do Rio. Cidade de muros: crime, segregação e cidadania em São Paulo. São Paulo: Editora 24, 2000. COSTA, Ivone Freire. Polícia e Sociedade – Gestão de Segurança Pública: Violência e Controle Social. Salvador: Edufba, 2007. FAUSTO, Boris. Crime e cotidiano. São Paulo: Edusp, 2001. FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir. Petrópolis: Vozes. 36 ed., 2007. GOFFMAN, Erving. Manicômios, Prisões e Conventos. São Paulo: Perspectiva, 2003.

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Sociólogos & Sociologia

o g o l á Di

L a r u t l Cu por Lejeune Mato

* Grosso de Carvalho

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Defensor da interdisciplinaridade, e da parceria entre Sociologia e Antropologia, Alexandre Fernandes Corrêa fala sobre suas pesquisas na área de cultura

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Como e por que você escolheu fazer o curso de Ciências Sociais?

Primeiramente, quero agradecer o convite da revista, pois é uma grande satisfação participar dessa publicação que tem contribuído muito para a difusão da Sociologia entre o público em geral e especialmente a juventude. No antigo Científico (2º Grau), participei do movimento secundarista e testemunhei a re-fundação da UBES, além de ter sido diretor do Grêmio do Colégio Brasil-América e o primeiro Presidente do Grêmio do Colégio São Fernando, nos anos de 1980, no Rio de Janeiro. Participei também do movimento teatral estudantil, especialmente o Teatro Labirinto, na Casa do Estudante Universitário (CEU). Essas experiências me marcaram profundamente, num contexto de lutas para sepultar a Ditadura Militar. Pensei em seguir Medicina, com o intuito de fazer formação analítica, mas descobri que era possível atingir esse objetivo seguindo caminho menos ortodoxo e organicista. Assim, atraído pela voga estruturalista e pela Semiologia, me inscrevi – para preocupação de toda a família – no

divulgação

C

omo temos feito neste espaço, procuramos identificar o mercado de trabalho dos sociólogos brasileiros. Uma dessas áreas, bastante dinâmica e em desenvolvimento é a chamada “Sociologia da Cultura”. É claro que há uma interseção com profissionais da área de Antropologia. Nesta edição, entrevistamos o professor Dr. Alexandre Fernandes Corrêa, da Universidade Federal do Maranhão. Carioca, casado, dois filhos, formado em Ciências Sociais pela UFRJ (1986), com ênfase em Antropologia, é mestre em Antropologia Cultural pela UFPE (1993) e doutor em Antropologia pela PUC/SP (2001). Fez pós-doutorado na mesma área na UFRJ (2006) e na UERJ (2010). Suas pesquisas envolvem o patrimônio cultural, arte e imaginário, etnologia regional e urbana e memórias sociais. Possui três livros publicados: “Vilas, parques, bairros e terreiros: novos patrimônios na cena das políticas culturais de São Paulo e São Luís” (Edufma, 2003); “ Patrimônios Bioculturais: Ensaios de Antropologia do Patrimônio Cultural e das Memórias Sociais “ (Edufma, 2008 – ver mais na seção Resenha) e o mais recente “ Museu Mefistofélico: análise do tombamento do primeiro patrimônio etnográfico do Brasil.” Professor Associado II da UFMA e diretor do Sindicato dos Sociólogos do Estado do Maranhão. É pesquisador do CRISOL: Grupo de Pesquisas e Estudos Culturais (http://gpeculturais.blogspot.com)

Curso de Ciências Sociais da UFRJ. Naquela época, era um curso de graduação sem prestigio algum, o que causou problemas iniciais em termos de independência profissional.

formação pós-graduada em Antropologia Cultural. Creio que não há ‘sombras’ entre os pesquisadores das duas áreas, para mim, no meu processo, houve complementaridade e dialogia sempre fecunda.

Como você vê o mercado de trabalho do sociólogo na área cultural? Não há áreas de sombra com o trabalho dos antropólogos?

Você tem sido um crítico do “antropologismo” e do “sociologismo”. Explique-nos suas opiniões sobre isso.

Como disse, o começo na carreira de sociólogo foi bem complicado. O mercado de trabalho era muito restrito e limitado. Mesmo numa cidade grande como o Rio de Janeiro, as opções eram pouquíssimas. Entre os colegas, percebia que só conseguiam trabalhar na área aqueles com relações familiares nas Universidades cariocas; nós outros tínhamos que seguir em trabalhos sem qualquer relação com a profissão. Depois de alguns anos, resolvi seguir minha vida profissional em São Luís/MA, no Nordeste. Logo em seguida, tive a notícia da abertura de uma pós-graduação em Antropologia Cultural na UFPE. Começava então meu trabalho na área de Sociologia da Cultura, com

Reducionismos são pouco fecundos. Nesses dois casos citados, sigo o preceito de Marcel Mauss, “é preciso recompor o todo”. Isso não é retórico, um mantra sem consequências práticas e teóricas precisas. Pelo contrário, trata-se de uma perspectiva que reconhece a necessidade de superação da fragmentação do conhecimento: é preciso trabalhar para a unificação do campo epistêmico. Isso não quer dizer absolutismos totalitários, longe disso. Trata-se de uma epistemologia da complexidade que invoca a transdisciplinaridade, evitando a cisão do conhecimento em compartimentos estanques. Nos dois casos referidos, trata-se de evitar, de um lado, o ‘culturalismo’, comum aos antropologistas, que repetem ad infis o c i o l o g i a | 37

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Sociólogos & Sociologia “Reducionismos são pouco fecundos. Nesses dois casos citados, sigo o preceito de Marcel Mauss, “é preciso recompor o todo”. Isso não é retórico, um mantra sem conseqüências práticas e teóricas precisas. Pelo contrário, trata-se de uma perspectiva que reconhece a necessidade de superação da fragmentação do conhecimento: é preciso trabalhar para a unificação do campo epistêmico”

nitum que ‘tudo é cultural’ – ora, se tudo é cultural, nada é cultural; pois não haveria nada de específico nisso; de outro lado, o ‘economicismo’, próprio de sociologistas, que ainda repetem: tudo, em última instância, é determinado pelo econômico. Determinismos são frutos da ‘preguiça’ intelectual... Em seu penúltimo livro, você aborda o conceito de “patrimônios bioculturais”. Explique-nos sobre isso e mencione os autores em que você se baseia para o desenvolvimento de suas ideias.

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Bem, é nesse trajeto da afirmação de uma pesquisa das ‘estruturas das estruturas’ que ao evitar as modas nostálgicas das militâncias pelo ‘patrimônio cultural’ e ‘ecologismo ambientalista’ que desenvolvi o conceito de patrimônios bioculturais, junto com Edgard de Assis Carvalho (PUC/SP), reintegrando uma concepção epistemológica complexa nos estudos sobre ‘ambiente cultural’ no Brasil. Foi no meu doutorado em Ciências Sociais na PUC/SP, que pesquisei sobre políticas do patrimônio no Sudeste (São Paulo) e

no Nordeste (Maranhão e Pernambuco). Nessa pesquisa percebi que reificamos reduções burocráticas, naturalizadas através de práticas tecnocráticas, separações meramente institucionais, isto é, por existir de um lado o Ministério da Cultura (IPHAN) e de outro o Ministério do Meio Ambiente (IBAMA), esquecemos que isso não se dá na realidade concreta. Os processos da natureza e da cultura estão intimamente entrelaçados que, podemos dizer com tranquilidade, só há ‘natureza’ porque há ‘história sociocultural’. Autores como Karl Marx, Marcel Mauss, LéviStrauss, Merleau-Ponty, Edgar Morin, entre tantos outros são invocados na defesa dessa perspectiva. Você é crítico aos chamados “parques turistificados” e “gentrificados”, bem como menciona críticas aos que você denomina de “tecnocratas do patrimônio”. Qual o real significado desses conceitos?

Esse ponto é importante, pois religa dois fios da meada, soltos nessa entrevista. Veja, começávamos falando do mercado de trabalho, historicamente escasso para os sociólogos, devido especialmente a desconfiança que causou e ainda causa; fruto dos tempos obscuros da Ditadura. Nos últimos anos, com a redemocratização da sociedade, a chamada ‘democracia política’, assistimos a abertura do mercado para profissionais formados em Ciências Sociais: sistema penal, licenciaturas, pesquisa sociais e de opinião, etc. Além disso, testemunhamos a abertura de alguns nichos de mercado antes reservados a outros profissionais. É o caso do ‘patrimônio histórico e cultural’. Por mais de setenta anos foi quase exclusividade de arquitetos, com alguns poucos historiadores. Hoje acompanhamos a contratação de sociólogos e antropólogos, com concursos realizados pelo Ministério da Cultura (MinC). Uma nova ideologia acabou sendo semeada, resultando num discurso ‘oportunístico’. A tecnocracia do patrimônio nasceu daí, de uma sociotécnica patri-

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monialista, com ares românticos e nostálgicos. Muitos corações, cheios de boas intenções, se lançam nessa nova aventura, a ponto de promover um tipo de visão, também reducionista, que chega ao cúmulo de defender a preservação de ‘todo passado’. Essa verdadeira obsessão gera um excesso de patrimonialização e de petrificação do passado, que só interessa ao turismo. Patrimonialização e turistificação andam de braços dados com a ‘gentrificação’ – enobrecimento do espaço urbano degradado, para consumo das classes médias. Por isso é que critico esses ‘parques temáticos’ turistificados, pois não há uma vocação cidadã nisso. Trata-se de um empreendimento econômico passageiro, desenraizado, interessando as classes médias momentaneamente, mas logo após a satisfação de seus desejos fetichistas e consumistas, na ‘nova mercadoria’ ‘passado’ (fake), abandonam esses espaços em busca de outros ‘points’. O interessante seria uma política cultural voltada para a promoção das memórias sociais com a participação das comunidades e grupos sociais em ações culturais nas quais fossem elaborados projetos, junto com os moradores, e não com modelos pré-fabricados e dirigidos. Tecnocracia é isso, imposição de modelos forjados, moldados, elaborados por técnicos e agentes formados em ideologias de gabinete. Isso não é direito cultural, nem cidadania cultural, é ideologia sociotécnica na área da cultura. Patrimonialização excessiva tem como consequência a estagnação do imaginário e da criatividade cultural e artística em repetições obsessivas de repertórios do passado, geralmente muito conservadores, que não abrem espaço para novas cenas; o que se liga, e é muito conveniente, às oligarquias tradicionalistas. Esse tipo de reflexão é feita por autores como Nestor Canclini, Jeudy, e muitos outros... Que medidas concretas poderiam ser tomadas para que preservássemos o que você denomina de “patrimônio imaterial” ou mesmo “bioculturais”?

“Patrimonialização excessiva tem como consequência a estagnação do imaginário e da criatividade cultural e artística em repetições obsessivas de repertórios do passado, geralmente muito conservadores, que não abrem espaço para novas cenas; o que se liga, e é muito conveniente, às oligarquias tradicionalistas” Creio que já indiquei uma proposta razoável na resposta anterior. Essa história de ‘patrimônio imaterial’ é algo que também precisa ser desmistificada. Há dez anos assistimos essa retórica de preservação do intangível, com a promessa de que agora vamos superar a fase de preservação do material ‘arquitetônico’; designada de ‘fase da pedra e cal’. Essa fragmentação e separação entre material e imaterial é apenas retórica, pois não há algo que não seja investido de um significado simbólico, imaterial, imaginário, etc. Curiosamente, essa forma de colocar o problema confirma o ‘cartesianismo’ ainda preponderante, expresso na crença equivocada de que existiria ‘patrimônios’ apenas ‘materiais’! E olha, isso é corroborado pela UNESCO, servindo de álibi para os que promovem essa política! Mais uma vez, uma visão tecnocrática de gabinete. Na prática, na vida real, vida vivida social, histórica e culturalmente não há separação alguma, na verdade esses processos são fruto da ‘instituição imaginária da sociedade’; até mesmo essa separação artificial é um produto histórico-cultural. Portanto, lembro de novo de Marcel Mauss: é preciso ‘recompor o todo’! O material e imaterial, o natural e cul-

tural... Como escreveu Lévi-Strauss no livro “Antropologia Estrutural II”, essa história de criar Casas e Centros Culturais, Museus, etc. é um álibi da destruição do meio ambiente! Quando você separa as coisas, perde a visão do todo, que é a vida histórico-cultural; só na cabeça de tecnocratas e especialistas, o mundo está compartimentado, fragmentado e separado – mais uma vez é a preguiça cômoda dos conformistas... Gostaria de agradecer, mais uma vez, aos Editores, essa oportunidade ímpar de expressar os frutos da pesquisa e poder exercer um pouco de heterodoxia, num mundo ortodoxo demais, conformista demais. Como escreveu o poeta carioca Dante Milano, com grande sagacidade, “Pensar abala a estrutura de tudo”.

* Lejeune Mato Grosso de Carvalho é sociólogo, professor, escritor, arabista e presidente do Sindicato de Sociólogos do Estado de São Paulo (Sinsesp). E-mail: lejeunemgxc@uol.com.br

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Hist贸ria e

Protagonismos

No mais recente congresso mundial de Sociologia, Michael Burawoy foi eleito presidente da International Sociological Association por S茅rgio Sanandaj Mattos*

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Há diferentes formas de fazer Sociologia. A história de organizações sociológicas, como campo do conhecimento científico, ainda constitui a atenção de numerosos autores (ver, por exemplo, Platt,1998; Mattos & Carvalho, 2005). A partir do segundo pós-guerra, as ciências sociais experimentaram uma série de mudanças significativas como parte de uma transformação mais ampla. Em 1949, a UNESCO protagonizou um importante marco no contexto da história das ciências sociais ao subsidiar a criação da International Sociological Association (ISA), como parte de um programa para desenvolver a Ciência Social, promover os seus objetivos políticos, de compreensão do mundo e integração mundial. No mais recente congresso mundial de Sociologia, realizado em Gothenburg, Suécia, entre os dias 11 e 17 de julho de 2010, com a presença de 185 sociólogos brasileiros, de uma participação total de 5007 sociólogos de mais de cem países, Michael Burawoy, sociólogo britânico, radicado nos EUA e professor na Universidade da Califórnia em Berkeley, foi eleito presidente da International Sociological Association. Michael Burawoy, reconhecido pela defesa da Sociologia Pública, foi presidente da prestigiosa American Sociological Association. Nos primeiros anos da ISA, quando a entidade era muito pequena, seus ativistas foram refletindo a distribuição mundial dos sociólogos, quase totalmente provenientes da Europa Ocidental e América do Norte. De certo modo, esta presença se reflete ainda, também nas escolhas dos que conduziram esta organização científica internacional com o predomínio de sociólogos norte-americanos e europeus na presidência. De 1949 a 2010, presidiram a International Sociological Association, quatro sociólogos norte-americanos (L. Wirth,19491952, Robert C. Angel,1953-1956, Reuben Hill, 1970-1974, I. Wallerstein,1994-1998), dois franceses (G. Friedmann,1956-1959, M. Wierviorka, 2006-2010), quatro britânicos (T.H.Marshall, 1959-1962, T.B. Bottomore, 1974-1978, Margaret Archer, 19861990, Michael Burawoy, 2010-2014), um

O atual Comitê Executivo, eleito no XVII Congresso Mundial de Sociologia, Gothenburg, Suécia, reflete uma maior aproximação da Sociologia com o Oriente, com as presenças de Dilek Cindoglu (Bilkent University, Turquia); Sari Hanafi (American Unversity de Beirute, Libano); Habibul Khondker (Zayed University, Emirados Arabes Unido)

germânico (Rene Konig, 1962-1966), dois poloneses (Jan Scczepanski, 1966-1970, Piotr Sztompka, 2002-2006), um sueco ( Ulf Himmeslstrand, 1978-1982), um brasileiro (Fernando Henrique Cardoso, 1982-1986), um indiano (T. K. Oommen, 1990-1994), e um italiano (Alberto Martinelli, 1998-2002). Na atualidade, como um dos maiores desafios, visando o desenvolvimento de uma ciência verdadeiramente universal da sociedade em um mundo contemporâneo, de relações globalizadas, a International Sociological Association focaliza suas atenções para o Oriente, onde há uma maior diferença cultural. O atual Comitê Executivo, eleito no XVII Congresso Mundial de Sociologia, Gothenburg, Suécia, reflete uma maior aproximação da Sociologia com o Oriente, com as presenças de Dilek Cindoglu (Bilkent University, Turquia); Sari Hanafi (American Unversity de Beirute, Libano); Habibul Khondker (Zayed University,Emirados Arabes Unido). Influência dos EUA

A International Sociological Association, nos seus primeiros anos, teve certa influência norte-americana, em razão do peso político, apoio de fundações, e de uma maior e ativa participação de sociólogos norte-ame-

ricanos. O primeiro presidente da International Sociological Association foi o sociólogo norte-americano Louis Wirth, que participou das reuniões preliminares de formação da ISA, em 1948, e no congresso constituinte, em 1949, foi designado presidente, tendo sido eleito no primeiro congresso mundial de sociologia, realizado em Zurique,1950, mantendo-se no cargo até 1952, quando veio a falecer. Fernando de Azevedo, um dos vice-presidentes, juntamente com Morris Ginberg e George Davy,assumiu provisoriamente a presidência de 1952 a 1953. Louis Wirth presidiu a American Sociological Association (1947-48) e participou do Instituto Internacional de Sociologia. O segundo presidente da ISA, foi o norte-americano Robert C. Angel, vice-presidente da American Sociological Association (1948) e presidente (1951). Robert C. Angel foi diretor do Departamento de Ciência Social da UNESCO em Paris de 1949 a 1950. Em parte como resultado desse trabalho, Robert Cooley Angell ajudou a fundar a International Sociological Association, e foi seu segundo presidente, de 1953 a 1956. Tanto Louis Wirth quanto Robert Cooley Angel foram especialmente escolhidos por terem sido presidentes da American Sociological Association dois anos antes, e s o c i o l o g i a | 41

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Registro tinham uma perspectiva focada para as tendências internacionais e os problemas do mundo na época. Além disso, Wirth pertencia a duas associações internacionais de sociologia, e havia trabalhado em questões de relações raciais e das minorias, que foram marcantes entre as preocupações iniciais da UNESCO, enquanto Angel tinha dirigido o Departamento de Ciência Social da UNESCO. O terceiro presidente da ISA, eleito no congresso mundial de sociologia em 1956, foi o sociólogo francês Georges Philippe Friedmann, um intelectual marxista, reconhecido pelos seus estudos e contribuições sobre “sociedade industrial”. E o quarto presidente da ISA foi Thomas Humphrey Mashall, historiador e sociólogo britânico. T. Marshall presidiu a British Sociological Association de 1964-69, e foi Diretor do Departamento de Ciência Social da UNESCO de 1956 a 1960. O Congresso de 1962, presidido por Thomas Marshall e realizado em Washington, foi o primeiro realizado fora da Europa. Marshall foi sucedido na presidência da ISA pelo sociólogo alemão Rene König, reconhecidamente figura de grande destaque na criação da ISA. Rene König, quinto presidente da ISA, participou do comitê preparatório de fundação da ISA em 1948, foi vice-presidente de 1959-62 e presidente de 1962-66. Em 1970 acontece em Varna, Polônia, o primeiro congresso em um país do bloco soviético, com Jan Szczepanski presidente da International Sociological Association. O sociólogo Jan Szczepanski, sexto presidente da ISA, foi presidente do Comitê de Pesquisa de Sociologia da Indústria, 1956 -59 e do Comitê de Programa, 1959. Jan Szczepanski foi o primeiro presidente do Comitê de Pesquisa em Sociologia Industrial em 1957, membro e representante polonês no conselho editorial da revista Current Sociology em 1962. O sétimo presidente da ISA foi o sociólogo norte-americano Reuben Hill, um internacionalista extremamente ativo no âmbito do Comitê de Investigação sobre a Família e também na American Sociological Association (ASA). Posterior-

mente, Thomas Bottomore que havia sido Secretario Executivo e Editor de Current Sociology de 1957 a 1962, vice-presidente da Bristh Sociological Association de 1970-74 e presidente de 1969 a 1971, tornou-se o oitavo presidente da International Sociological Association em 1978. Dos presidentes após Angel, tanto Friedmann e König tinham participado dos trabalhos preliminares da formação da International Sociological Association; Friedmann que dirigiu o Centre d’Etudes Sociologiques, liderou o desenvolvimento na França da nova sociologia empírica, tinha sido um membro e presidente do Comitê de Pesquisa, em Sociologia Industrial de 1959-70, enquanto Konig tinha estado presente nas reuniões preliminares de fundação da ISA, organizou o primeiro congresso, e foi vicepresidente para 1959-62, Marshall havia sido menos proeminente nas primeiras reuniões de fundação, mas foi diretor do Departamento de Ciência Social da UNESCO quando se tornou presidente da ISA. O nono sociólogo a presidir a International Sociological Association foi Ulf Himmelstrand, destacado sociólogo sueco com inúmeras participações nos Congressos da ISA. Foi representante sueco no

Conselho da ISA, conselheiro 1972-78 no Comitê de Pesquisa em Transformações Sociais e de Sociologia do Desenvolvimento, vice-presidente 1974-1978 e presidente de 1978-1982. O décimo presidente foi Fernando Henrique Cardoso, um dos mais influentes intelectuais latino-americanos. Na década de 1960, Cardoso integrou a direção do Centro de Sociologia Industrial e do Trabalho (Cesit), fundado na USP por Florestan Fernandes e pelo sociólogo francês Alain Touraine (1962). A criação do Centro de Sociologia Industrial e do Trabalho (Cesit), graças à iniciativa de Alain Touraine, professor convidado da USP em 1961, aproximou Fernando Henrique do sociólogo francês, e espelha os relacionamentos nas ciências sociais na década de 1960. Na trajetória de alguns presidentes da ISA, algumas ligações pessoais conhecidas podem ter desempenhado um relativo papel e despertam a atenção. Alain Touraine (francês) foi aluno de Friedmann. Alain Touraine presidiu a Sociedade Francesa de Sociologia, de 1968 a 1970, e foi vice-presidente da Associação Internacional de Sociologia, de 1974 a 1978. Foi diretor da Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais de Paris, e professor do ex-presidente Fer-

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nando Henrique Cardoso. Tornou-se amigo de Fernando Henrique Cardoso, quando ambos eram professores da Universidade de São Paulo. Alain Touraine, foi professor convidado da USP, em 1961. Em 1986, a socióloga britânica Margaret Archer, tornou-se a primeira mulher eleita presidente da ISA. Margaret Archer foi editora da revista Current Sociology de 1973 – 1982 e presidente do Comitê de Pesquisa de Sociologia da Educação de 1978 a 82. Em 1990, o sociólogo indiano Tharaileth Koshy Oommen, organizador local do Congresso da ISA em Nova Delhi, em 1986, torna-se o décimo primeiro presidente da International Sociological Association. E, em 1994, no Congresso Mundial de Sociologia, em Bielefeld, Alemanha, é eleito o sociólogo norte-americano Immanuel Wallerstein. Já, em 1998, no Congresso Mundial de Sociologia, na cidade de Montreal, Canadá, é eleito presidente o sociólogo italiano Alberto Martinelli, professor de Sociologia Econômica e Ciência Política na Università degli Studi di Milano (Universidade de Milão). Também leciona Sociologia na Università Bocconi e trabalhou em outras universidades, como as de Berkeley, Stanford e New York. Na ISA, atuou com Neil Smelser no Comitê de Pesquisa de Economia e Sociedade, formado, em 1978, no Congresso da ISA, em Uppsala, Suécia, que teve as contribuições de Fernando Henrique Cardoso, Harry Makler e Arnaud Sales. Em 2002, no Congresso Mundial de Sociologia, realizado em Brisbane, Austrália, o sociólogo polonês Piotr Sztompka, é eleito presidente da ISA. E em 2006, no Congresso Mundial de Sociologia realizado em Durban, África do Sul, com a participação aproximada de 4000 sociólogos de diversos países, é eleito presidente da ISA o professor francês Michel Wieviorka. A exemplo de outros presidentes da ISA, Wierviorka também foi aluno de Touraine, posteriormente seu colaborador, sucedendo Alain Touraine em 1993 na direção do Centro para Análise e Intervenção Sociológica (Centre d’Analyse ET d’Intervention Sociologique).E finalmente, no recente XVII Congresso Mundial de Sociologia, realizado em Gothenburg, Suécia, é eleito o sociólogo

britânico, radicado nos Estados Unidos, Michael Buroway(ISA, 2010-2014). E, por fim, vale notar como assinala a obra “History of ISA: 1948-1997” que alguns dos presidentes da International Sociological Association tiveram algum tipo de participação política, ocuparam cargos eletivos na vida pública, antes ou depois de eleitos na ISA. Fernando Henrique Cardoso foi senador e presidente do Brasil, Szczepanski deputado da Sejm (Parlamento polonês), e Martinelli membro do Conselho da cidade de Milan. Wirth, Marshall, Szczepanski, Himmelstrand e Martinelli desempenharam papéis significativos em relação às consultas de governo em seus respectivos países. Angel, Marshall e Szczepanski tiveram funções relacionadas com a UNESCO, internamente ou como representantes nacionais, do mesmo modo que König, um antecessor no organismo (PLATT, 1988). * Sérgio Sanandaj Mattos é sociólogo, professor e ex-diretor da Associação dos Sociólogos do Estado de São Paulo (ASESP). É co-autor do livro Sociólogos & Sociologia – História das suas entidades no Brasil e no mundo. E-mail: ss.mattos@uol.com.br.

Referências

A

CARVALHO, Lejeune Mato Grosso X. & MATTOS, Sergio Sanandaj. Sociólogos & Sociologia. História das suas entidades no Brasil e no mundo. Vol. I. São Paulo: Editora Anita Garibaldi, 2005. CHIBLI, Faoze. Michael BURAWOY- O pensador operário: entrevista com Michael Burawoy. Revista Sociologia Ciência & Vida, nº 11, São Paulo: Editora Escala, 2007, p. 6-13 MATTOS, Sergio Sanandaj. Sociologia em Movimento. In: Revista Sociologia Ciência&Vida, nº 30. São Paulo: Editora Escala, 2010, p. 44-47 ________ Origens da Associação Internacional de Sociologia; Revista Sociologia Ciência & Vida, n.º 19, São Paulo: Editora Escala, 2008, p. 14-15 PLATT, Jennifer. History of ISA: 1948-1997, International Sociological Association, 1998 XVII ISA WORLD CONGRESS OF SOCIOLOGY. Disponível em http://www.isa-sociology.org/ congress2010/ Acesso em 21.jul.2010

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Fez Diferença Octavio Ianni

Octavio

Ianni

sociologia, poesia e engajamento Um dos maiores sociólogos brasileiros, e intelectual sintonizado com seu tempo, Octavio Ianni deixou-nos um legado de ética e pensamento crítico ilustração leandro valquer

por Daniel Rodrigues Aurélio*

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No artigo à guisa de homenagem “Ianni, a poesia na sociologia”, publicado no Jornal da Unicamp em abril de 2004, o sociólogo José de Souza Martins define assim o trabalho de seu professor e colega na Universidade de São Paulo Octavio Ianni, morto no dia 4 daquele mês, vítima de um câncer: “Ianni foi um pensador sereno e sensato. Foi um artesão do pensamento crítico no Brasil”. Professor titular aposentado da FFLCH/USP, Martins fez parte de uma das sucessivas gerações de cientistas sociais formados com a inestimável contribuição do discreto e brilhante mestre nascido em Itu, interior de São Paulo, no dia 13 de outubro de 1926. Serenidade, sensatez, poesia e pensamento crítico. Estes são alguns dos termos-chave para quem deseja conhecer a trajetória de Octavio Ianni desde o seu ingresso, em 1949, no curso de Ciências Sociais da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências da USP até as suas últimas e concorridas conferências, quando, de maneira comovente, não se deixava abater pela saúde debilitada. Como poucos intelectuais de carreira extensa, Ianni soube se reinventar para ficar em sintonia com os fatos e fenômenos sociais de cada época. Apenas uma coisa, felizmente, não mudou – seu texto preciso, sofisticado e saboroso, burilado pelo amor à prosa e à poesia: “a literatura alarga o sentido da cultura e da vida”, disse certa vez em uma entrevista reproduzida no livro Conversas com sociólogos brasileiros (Editora 34, 2006). De 1949 a 1969, ano em que foi aposentado compulsoriamente pelo regime militar, Octavio Ianni edificou sua formação acadêmica na FFCL/USP, sob o comando de Florestan Fernandes (1920-1995), professor-regente da Cadeira de Sociologia I. Foi contemporâneo de Fernando Henrique Cardoso, Marialice Foracchi e Luiz Pereira. Na faculdade, à época localizada na rua Maria Antônia – região central da cidade de São Paulo, Ianni graduou-se, defendeu mestrado, doutorado, livre-docência, atuou como pesquisador e, a partir de 1956, como professor. Esteve envolvido nos estudos em voga naqueles

tempos: mudança e mobilidade social, relações raciais, estratificação social, industrialização, estado e desenvolvimento no Brasil e na América Latina. Sua dissertação de mestrado (Raça e mobilidade social em Florianópolis, 1956) e suas teses de doutorado (O negro na sociedade de castas, 1961) e livre-docência (O Estado e o desenvolvimento econômico no Brasil, 1964) são exemplos desse, em suas palavras, “compromisso com a pesquisa, com a discussão dos problemas sociais e com uma continuação da interpretação da sociedade brasileira”.

Serenidade, sensatez, poesia e pensamento crítico. Estes são alguns dos termos-chave para quem deseja conhecer a trajetória de Octavio Ianni desde o seu ingresso, em 1949, no curso de Ciências Sociais na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências (FFCL/USP) até suas últimas e concorridas conferências, quando, de maneira comovente, não se deixava abater pela saúde debilitada Vigiados pela ditadura, com o auxílio de delatores ao redor e à espreita, os jovens cientistas sociais do grupo de Florestan de fato participavam, em graus variados de comprometimento, da resistência democrática. Alguns até militavam em organizações de tendências marxistas. Por razões óbvias, opunham-se a ordem autoritária e alinhavam-se em correntes progressistas. O próprio Florestan Fernandes, durante o Estado Novo de Getúlio Vargas, engajou-se no clandestino Partido Socialista s o c i o l o g i a | 45

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Fez Diferença Octavio Ianni Revolucionário (PSR). No entanto, dos portões para dentro da FFLCH, professores e assistentes honravam a liturgia de suas posições. Florestan vestia sua respeitável bata branca e investia-se dos modos meio afetados de cientista. A sociologia uspiana tinha a ambição de transformar a sociedade, mas sempre dentro dos parâmetros da ciência e da reflexão crítica. O formalismo, o rigor teórico e metodológico, tão zelados por Florestan, impediam que as pesquisas fossem contaminadas pelo marxismo vulgar ou pela militância pueril. Funcionalismo, Karl Mannheim, Escola de Chicago. O que fosse útil para explicar os fatos sociais investigados era utilizado sem restrições. Vem dessa obsessão científica, aliás, a sistematização das aulas sobre a trinca clássica da sociologia: Durkheim, Weber e Marx. “Cada santo em seu altar”, como bem diria Fernando Henrique Cardoso. Dessa forma, as duas listas de cassados elaboradas pelo governo militar com o amparo do dispositivo autoritário AI-5, datadas de 25 de abril (com o nome de Florestan) e 29 de abril de 1969 (com o acréscimo de FHC e Ianni) não desmantelaram, conforme pretendiam os militares, uma rede de “comunistas subversivos infiltrados” na universidade pública; antes, eles quase colocaram em ruínas as ciências brasileiras – somente na USP fo-

ram proscritos cientistas e acadêmicos do porte de José Leite Lopes, Isaias Raw, Paulo Mendes da Rocha e Paul Singer. Paradoxalmente, essas aposentadorias arbitrárias e em massa serviram para radicalizar o discurso de Florestan, Ianni e outros, seja no exílio, seja em suas novas empreitadas no Brasil. Assim, a sociologia brasileira, e a de Octavio Ianni em especial, ganharam cores fortes de militância. Pensamento crítico em alta voltagem. Ianni, um resistente

“A sociologia é a autoconsciência científica da sociedade”. Esta seria, segundo Souza Martins, a premissa da missão sociológica da chamada “Escola Paulista de Sociologia”. Ela norteava as ações de todos, cassados e não cassados, exilados e não exilados, durante os anos de chumbo da ditadura. Excluir Florestan e Ianni do corpo docente de uma universidade pública era fácil, fácil; bastava uma canetada. Mas eliminar o legado deles e, sobretudo, esvaziar o sentido da condição de sociólogo era uma tarefa inglória para o regime autoritário. Luiz Pereira, José de Souza Martins e Gabriel Cohn continuaram na USP e os cassados logo reestabeleceram vínculos estratégicos com os não cassados. Eles se encontravam em reuniões editoriais (revista Contexto, hoje

Assim, no curso de uma carreira de quase 55 anos, Octavio Ianni colocou sua marca em três das principais instituições universitárias do estado de São Paulo: USP, PUC-SP e Unicamp. Sempre com sua indefectível simplicidade interiorana. “Na obra de Ianni, o homem simples fala de vários modos. Não apenas pela fala simples, mas também pelo refinamento poético de que os simples sabem revestir as suas poucas palavras” 46 | s o c i o l o g i a

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Com o processo de redemocratização no Brasil, a queda física e simbólica do Muro de Berlim e o colapso da União Soviética, o foco de Ianni passou para as questões levantadas pela sociedade global e a era da informação. Escreveu nesse período que vai do final dos anos 1980 ao início do século 21 livros como “ A sociedade global ” e “ Teorias da Globalização” , valiosas contribuições de um sociólogo experiente aos debates sobre o tema uma editora de livros) e no Centro Brasileiro de Análise e Planejamento, (Cebrap) (www.cebrap.org.br). Fundado em 1969, por professores e ex-professores da USP, o Cebrap agrupava a nata das ciências sociais paulista: Paul Singer, Francisco Weffort, FHC, Francisco de Oliveira, Boris Fausto, José Arthur Giannotti, Ruth Cardoso e Octavio Ianni. Esse núcleo realizou pesquisas inovadoras nas áreas de economia, sociologia, antropologia e demografia e lançou a revista Novos Estudos, um dos mais longevos e prestigiados periódicos acadêmicos do País. Ianni não manteve-se produtivo apenas como pesquisador associado do instituto. Ele publicou 16 livros entre sua cassação e a abertura política, em 1985. Livros combativos, com um tom de integração e solidariedade com as demandas populares. Um sociólogo em pleno exercício do seu papel de “autoconsciência científica [e crítica] da sociedade” em um momento de trevas. Além do Cebrap, e de editoras heroicas como a Civilização Brasileira e a Vozes, Octavio Ianni resistiu ao ataque conservador contra o pensamento sociológico em uma terceira frente. Em 1970, o cardeal D. Paulo Evaristo Arns assumiu a Arquidiocese de São Paulo e, por consequência, tornou-se grão-chanceler da Pontifícia Universidade Católica de São

Paulo (PUC-SP). Dom Paulo sabia do poder da Igreja Católica, contra o qual a ditadura hesitava, e enfrentou os orgãos repressões ao abrigar no quadro docente da PUC Paulo Freire, Florestan Fernandes e Octavio Ianni. Da PUC-SP, Ianni saiu para lecionar após a anistia – novamente na universidade pública, dessa vez na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), instituição onde deu aulas e orientou trabalhos acadêmicos até seus últimos dias de vida. Assim, no curso de uma carreira de quase 55 anos, Octavio Ianni colocou sua marca em três das principais instituições universitárias do estado de São Paulo: USP, PUC-SP e Unicamp. Sempre com sua indefectível simplicidade interiorana. “Na obra de Ianni, o homem simples fala de vários modos. Não apenas pela fala simples, mas também pelo refinamento poético de que os simples sabem revestir as suas poucas palavras”, lembra Martins. Ianni e a sociedade global

Com o processo de redemocratização no Brasil, a queda física e simbólica do Muro de Berlim e o colapso da União Soviética, o foco de Ianni passou para as questões levantadas pela sociedade global e a era da informação. Escreveu nesse período que vai do final dos s o c i o l o g i a | 47

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Fez Diferença Octavio Ianni

Principais livros de Octavio Ianni • Cor e mobilidade social e Florianópolis (Companhia Editora Nacional, 1960, com Fernando Henrique Cardoso) •  E  stado e capitalismo (Civilização Brasileira, 1965; 2ª ed., Brasilense, 1989) •  R  aças e classes sociais no Brasil (Civilização Brasileira, 1966; 3ª ed., Brasiliense, 1987) •  O  colapso do populismo no Brasil (Civilização Brasileira, 1968; 5ª ed., 1994) •  I mperialismo e Cultura (Vozes,1976; 3ª ed., 1979) •  D  ialética e capitalismo: ensaio sobre o pensamento de Marx (Vozes, 1982;3ª ed., 1988)

anos 1980 ao início do século 21 livros como “ A sociedade global” e “Teorias da Globalização”, valiosas contribuições de um sociólogo experiente aos debates sobre o tema. Octavio Ianni teve tempo ainda de acompanhar – e refletir sobre – o primeiro grande evento do século 21, o atentado de 11 de setembro de 2001 ao World Trade Center, em Nova York e a sede do Pentágono, em Washington, após o sequestro de quatro aviões comerciais. Na edição do dia 26/11/2001, o programa Roda Viva da TV Cultura entrevistou Ianni. Diante de jornalistas ainda atônitos com os fatos, chocados com o ousado atentado que ceifou tantas vidas inocentes e provocou pânicos generalizados, o sociólogo analisou o episódio com um olhar menos emocional e mais racional, e afirmou ser o 11 de setembro um “ato político excepcional”, prevendo

•  A  sociedade global (Civilização Brasileira, 1992; 11ª ed., 2003) •  A  ideia de Brasil Moderno (Brasiliense, 1994; 3ª ed., 1996) •  T  eorias da globalização (Civilização Brasileira, 1995; 12ª ed., 2004) •  A  era do globalismo (Civilização Brasileira, 1996; 8ª ed., 2004) •  E  nigmas da modernidade-mundo (Civilização Brasileira, 2000; 3ª 2003) •  C  apitalismo, violência e terrorismo (Civilização Brasileira, 2004)

quase todos os desdobramentos da inacabável “guerra ao terror” promovida pelos EUA ao custo de bilhões de dólares e milhares de mortos. Como intelectual público, não angariou somente discípulos e admiradores. Críticos também não faltaram, com os quais debateu com elegância e argumentação. A sua maneira de ser, de fazer sociologia, merece, como fechamento e síntese deste breve perfil, uma declaração como a do sociólogo Marco Aurélio Nogueira: “Ianni não foi apenas um dos nossos mais importantes cientistas sociais. Foi uma referência ética e intelectual”. * Daniel Rodrigues Aurélio é bacharel em Sociologia e Política pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo e pós-graduado em Globalização e Cultura pela Escola PósGraduada de Ciências Sociais. É editor da revista Sociologia Ciência & Vida.

Referências ABRUCIO, Fernando et. al. “Octavio Ianni”. In: Conversa com sociólogos brasileiros. São Paulo: 34, 1ª ed., 2006. p. 49 a 65. CANDIDO, Antonio. “A sociologia no Brasil”. In: Tempo Social, vol. 18, jun. 2006. Publicado originalmente na Enciclopédia Delta-Larrousse, 1959. MARTINS, José de Souza. “Ianni, a poesia na sociologia”. In: Tempo Social, vol. 16, jun.2004. (Disponível em < http://www.scielo.br/pdf/ts/v16n1/v16n1a02.pdf > Acesso em: 01/08/2010. Texto publicado originalmente no Jornal da Unicamp ed. 248, 19 a 25 abr. 2004). NOGUEIRA, Marco Aurélio. “A universidade que não se apaga”. In: Espaço Acadêmico, nº 36, mai. 2004 <http:// www.espacoacademico.com.br/036/36cnogueira.htm > PULICI, Carolina. Entre sociólogos: versões conflitivas da “condição de sociólogo” na USP dos anos 1950-1960. São Paulo: Edusp/ Fapesp, 2008. RODA VIVA/TV CULTURA. Entrevista com Octavio Ianni (26/11/2001). In: Memória Roda Viva. Labjor/Fapesp. Transcrição disponível em <http://www.rodaviva.fapesp.br/materia_busca/45/Ianni/entrevistados/octavio_ianni_2001.htm > Acesso em 01/08/2010.

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Teoria

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Bicicleta

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Embora o título soe estranho, como uma combinação inusitada, essa combinação de imagens remete a dois importantes elementos para se pensar a teoria da ação, da qual Max Weber é importante e original pensador. As bicicletas são usadas para exemplificar a teoria weberiana da ação: basta imaginar dois ciclistas numa rua. Eles pedalam em direção a um mesmo sentido e apesar de ambos procurarem se desviar ocorre o choque frontal. Eis a ideia central da ação social: o processo de acertar a conduta em função do que o outro faz; mais que isso, trata-se do sentido ou significado que um atribui ao outro, como no exemplo das bicicletas: dobrar à direita ou à esquerda, acelerar ou retardar a marcha. Se, por um lado, as bicicletas remetem à teoria da ação social, por outro lado, os Budas suscitam a importância dos valores e ideias religiosos para a investigação sociológica da ação social. No exercício, por vezes árido e exigente, do pensar sociológico ou da análise crítica da sociedade, a imaginação é importante qualidade. Parte de um conjunto conhecido como sociologia compreensiva, as teorias da ação social representam uma mudança do foco sociológico: este se desloca da abordagem sociológica das estruturas sociais para a análise das ações sociais ligadas ao indivíduo. Ou seja, para as teorias da ação, o indivíduo tem importância, não sendo, por isso, determinado mecanicamente por uma estrutura. Influenciado por valores morais, éticos, ou pela tradição, ele pode agir socialmente, sendo suas ações dotadas de sentido próprio. Um dos que contribuíram para desenvolver o poder explicativo de conceitos como o da ação social foi o sociólogo alemão Max Weber. Sua metodologia inspirou o sociólogo Wright Mills, que chamou de “imaginação sociológica” a capacidade de perceber a conexão entre problemas pessoais e estruturas sociais. Algo raro hoje em dia, na medida em que muitos alunos e professores repetem bordões, como “burguesia”, “proletariado”, “neoliberalismo” e “globaliza-

Parte de um conjunto conhecido como sociologia compreensiva, as teorias da ação social representam uma mudança do foco sociológico: este se desloca da abordagem sociológica das estruturas sociais para a análise das ações sociais ligadas ao indivíduo. Ou seja, para as teorias da ação, o indivíduo tem importância, não sendo, por isso, determinado mecanicamente por uma estrutura. Influenciado por valores morais, éticos, ou pela tradição, ele pode agir socialmente, sendo suas ações dotadas de sentido próprio ção”, sem terem a real dimensão do seu verdadeiro significado. Para responder a algumas questões que o atormentavam, Weber parte do tema religioso, dentre vários outros. Comparando as grandes religiões mundiais, ele perscruta por que, somente no Ocidente, surgiu o capitalismo como forma hegemônica altamente racional de organização da sociedade. Ele busca desvendar a combinação de fatores, entre os quais os religiosos, que confere singularidade ao mundo ocidental, com sua sociedade moderna, altamente racionalizada e tecnológica, em oposição ao mundo asiático e oriental, com suas sociedades e culturas peculiares. A clássica obra A ética protestante e o espírito do capitalismo é fruto das inquietações de Weber, quando este observa e analisa sua época, o século 19: um mundo caracterizado por alto grau de burocratização, cuja racionalidade penetra desde os setores da economia, passando por todas as esferas da vida: da arte ao direito, da ciência à política, do sexo à música. Um mundo de administradores, os heróis modernos, os homens da previsão e da provisão. Porém, heróis mancos. Atolados na especialização e distantes da sensibilidade, detêm um saber minucioso sobre um órgão do corpo, mas ignoram sua relação com o todo.

Segundo a tradição budista, Sidartha Gautama, o buda histórico, nasceu no clã Shakya, no início do período Magadha (546-324 Antes de Cristo), nas planícies de Lumbini, sul do Nepal. Acreditando que despertara para uma verdade mais profunda inscrita em sua existência (dhamma), transforma-se por uma “iluminação interior”. Seus ensinamentos deram origem a uma das quatro maiores religiões mundiais, o budismo, com diversas tradições e correntes internas.

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Teoria

Nascido na Turíngia em 1864, Emil Maximilliam Weber, mais conhecido como Max Weber, provém de uma família de industriais e comerciantes de linho. Estudou direito, economia, filosofia e sociologia. Escreveu uma extensa obra, com implicações sobre o pensamento social, exercendo marcante influência sobre muitos pensadores, autores e sociólogos europeus, norte-americanos e brasileiros. Lecionou em diversas universidades alemãs. Em 1989, sofre um colapso nervoso, devido a severas depressões, afastando-se do ensino. Em 1904, viajou aos Estados Unidos, ficando impressionado com a cultura e a sociedade americanas, que lhe causaram entusiasmo. De volta à Alemanha, profere palestras importantes (“A política e a ciência como vocação”). Em 1920 falece. A difusão de sua obra não seguiu um ritmo uniforme, sendo de forma lenta em algumas regiões, além enfrentar problemas de tradução.

O processo histórico é opaco, de forma que ninguém pode prever como será a relação entre a intenção contida em um comportamento e os efeitos do mesmo. As revoluções puritanas culminaram, junto com uma série de mudanças sociais, por exemplo, na afirmação do capitalismo e não no estabelecimento do Reino de Deus, como queria Richard Baxter, famoso líder e pregador puritano na Inglaterra do século 17. A realidade social é complexa, fugindo ao controle totalizador do homem. Por isso, no âmbito da pretensão da ciência sociológica, o sujeito que a investiga é o seu “ordenador”, buscando compreender, explicativamente, os motivos, as formas e a estruturação do comportamento humano, por meio da ação social. Em Economia e Sociedade (volume 1), os básicos conceitos sociológicos sobre ação são perfilados: a ação social seria um comportamento humano em que o agente ou os agentes se relacionam na medida em que atribuem uns aos outros, um sentido subjetivo ao trajeto de suas ações. Significa toda ação que alguém empreende tendo em vista e levando em conta a ação de outrem (indivíduo, grupo, símbolo, entre outros). Que fique claro que o empreende porque atribui um significado às ações desses outrem. Mas, é no confronto entre as esferas de valor, que o sentido é dado e conformado historicamente, sendo, portanto, passível de mudanças. Donde se conclui que a “sociologia é a ciência que pretende compreender interpretativamente a ação social e explicá-la causalmente em seu curso e seus efeitos” (WEBER, 1992, p. 3). Tipos de Ação

As ações sociais podem ser classificadas, de forma ideal-típica (tipo ideal): ação tradicional (tradição e costumes); ação afetiva (afeto e sentimento); ação racional com relação a fins; ação racional com relação a valores. Enquanto a ação tradicional consiste nos comportamentos baseados em repetição cotidiana, ao longo do tempo (pedir a bênção aos padrinhos, entre outros), a ação afetiva

refere-se a todos os estados emocionais, como a ira repentina por uma ofensa. Já a ação racional com relação a valores é mais complexa: embora o comportamento seja racional, estabelecendo ligação entre meios e fins, ele acontece em função de um valor ou ideal, independente de seu sucesso ou fracasso, ou de outros valores e ideais. Em nome de um ideal, pode-se matar, mentir, roubar. A título de exemplificação, um militante do Greenpeace que se joga na frente de um caminhão com lixo tóxico, um homem-bomba muçulmano que acredita na guerra santa, um cristão terrorista que mata médicos praticantes do aborto e assim por diante. Essas atitudes estão justificadas, na medida em que se luta por um ideal acima de tudo. Atente-se para o fato de que os valores mudam com o tempo e variam nas sociedades. Por fim, a ação racional com relação aos fins: o comportamento é racional em relação aos meios, aos fins e ao objetivo a ser alcançado, o qual não depende de um valor ou ideal. A relação entre meios (instrumentos utilizados) e fins (finalidade a ser alcançada) é realizada em função de considerações práticas que envolvem sucesso, fracasso, riscos, probabilidades, responsabilidades, consequências. É a ação do político, do cientista, do industrial. Pergunta-se: por que ideal-típica? Simplesmente porque essa é a metodologia usada por Weber. O tipo ideal, como instrumento para compreender a realidade, significa a acentuação de um ou vários pontos de vista. O encadeamento de fenômenos isoladamente difusos ordena-se segundo os pontos de vista unilateralmente acentuados, a fim de se formar um quadro homogêneo de pensamento, mas que não existe na realidade concreta. Por isso, essas ações abordadas acima não existem em estado puro, mas em diversas combinações. Pode-se tomar como exemplo uma vingança planejada com antecedência: é afetiva ou racional com relação a fins? A ação social dá origem às relações sociais mais duradouras, originando o que será chamado de Igreja, Estado, sociedade, partido, classe. As relações sociais podem

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ser vistas como feixes de ações sociais motivadas por um mesmo conjunto de significados. Podem estruturar comportamentos que se generalizam ou conformar-se numa “estrutura particular de relações sociais”, materializando-se em instituições. Progressivamente, na sociedade ocidental moderno-capitalista, a racionalidade e o cálculo sistemático/metódico entre meios e fins assumirão a preponderância do sentido social. Esse agir, denominado por Habermas como racional-instrumental (a ação racional com relação a fins), vai “contaminar” todas as formas de agir, quer sejam elas baseadas na tradição, nos estados emocionais, ou em “valores últimos” (religiosos ou não). Tal agir acelera o desencantamento do mundo, ou seja, engendra a perda da crença baseada em explicações míticas e sobrenaturais (além ou fora da razão). Eis a ironia da História: um dos impulsos mais poderosos para que esse agir se tornasse hegemônico foi dado exatamente pela religião protestante e puritana. Desde então, iniciou-se uma irresistível marcha de ascensão e espalhou-se para todos os setores da vida e da sociedade. Com pessimismo, Weber chegou a uma constatação: o puritano quis ser vocacionado para uma profissão, mas nós estamos condenados a ser. A imaginação sociológica em Weber é refinada e irônica, encontrando-se expressa pelo uso da poderosa imagem da gaiola de ferro, nas páginas finais de A ética protestante e o espírito do capitalismo. Essa religiosidade rigorista e de cunho individual tem suas raízes no judaísmo profético, oriundo dos profetas hebreus que combatiam com fervor, nos séculos 5 e 2 a.C, a magia, o mundo encantado dos deuses, afirmando, por meio de mandamentos éticos a serem cumpridos, a obediência a um deus soberano e juiz rigoroso. No mundo ocidental, por volta dos séculos 16 e 17 d.C, que se expandiu essa concepção, dando origem a um novo mundo, do qual somos herdeiros. Esse processo se deu por meio do efeito agregado das ações sociais de novos homens religiosos. Em outras palavras, empresários industriais e trabalha-

A ação social dá origem às relações sociais mais duradouras, originando o que será chamado de Igreja, Estado, sociedade, partido, classe. As relações sociais podem ser vistas como feixes de ações sociais motivadas por um mesmo conjunto de significados. Podem estruturar comportamentos que se generalizam ou conformar-se numa “estrutura particular de relações sociais”, materializandose em instituições dores protestantes puritanos produziram a moderna sociedade capitalista baseada no império da ação racional-instrumental. Isso foi possível graças ao efeito acumulado e não intencional de sua ação: orar, poupar para reinvestir no próprio negócio, ser extremamente disciplinado, conter o consumo. Injustamente tachado como anti-Marx, reacionário, idealista de direita que só acredita na força das ideias, Weber nunca afirmou que o mundo é movido pelas ideias. Pelo contrário, ele defendeu a existência de uma afinidade entre interesses materiais e ideias/valores. E os Budas? A resposta é simples: estão passeando de bicicleta. Enquanto isso, nós estamos esperando a irrupção de um carisma que quebre a gaiola de ferro. Resta saber se seremos prisioneiros dessa pesada herança. Apenas uma verdade nos sustenta: nada no futuro, nem toda ciência do homem, poderá dizer que sim ou que não com absoluta certeza. Um fato é certo: se os valores que embasam as ações sociais empreendidas no presente (tais como a complexa questão da sustentabilidade) não forem ressignificados, o futuro deixará de ser o horizonte dos fatos prováveis para ser um espaço-tempo dos acontecimentos impossíveis.

Referências WEBER, Max. Economia e sociedade. Volumes I e II. Brasília: Editora da UnB, 1992. ______. Ensaios de sociologia. Rio de Janeiro: Guanabara, 1985. ______. Ciência e Política: duas vocações. São Paulo: Cultrix, 1989. ______. Sobre a teoria das ciências sociais. São Paulo: Editora Moraes, 1991. ______. A ética protestante e o espírito do capitalismo. São Paulo: Pioneira, 1989. ______. Sociologia das religiões. Lisboa: Relógio D’Água, 2006. MILLS, C. Wright. A Imaginação Sociológica, 6. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1982.

* Emerson José Sena da Silveira é Mestre e Doutor em Ciência da Religião pela UFJF. Realizou estágio pós-doutoral com bolsa do CNPq pelo Programa de Pós-Graduação em Ciência da Religião, área de concentração ‘Ciências Sociais da Religião’. Atualmente é Professor Adjunto I, do Departamento de Ciência da Religião da UFJF. Publicou, entre outros livros, Corpo, emoção e rito: antropologia dos carismáticos católicos, Porto Alegre: Editora Armazém Digital, 2008 e em coautoria com José Maria, Apresentação de trabalhos acadêmicos: normas e técnicas, 5ª ed. Petrópolis: Vozes, 2010. E-mail para contato: emerson. pesquisa@gmail.com

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O DOMÍNIO DO

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SAGRADO a busca pela experiência (e compreensão) do sagrado passa pelo entendimento da dinâmica das relações de poder das instituições religiosas por Luiz Eduardo Souza Pinto*

O ser humano, ao longo dos tempos, sempre buscou compreender o sagrado e a sua dimensão. O mistério em torno dessa questão desperta atenções. O termo sagrado não é absoluto, isto porque a dimensão da sacralidade, seja de uma palavra, um objeto, um lugar ou uma pessoa, não se apresenta na mesma intensidade sob todos os olhares. É uma associação de ideias e percepções abstratas que define o que se torna sagrado. Os seres humanos têm a necessidade profunda de acreditar em algo ou alguma coisa que dê sentido à vida e a experiência com o sagrado envolve uma profusão de sentimentos capazes de gerar uma no-

ção explicativa sobre a origem do universo e da existência, sendo, portanto, a expressão de nossas crenças mais profundas. É para objetivar o que é subjetivo que os humanos deram uma aparência familiar a algo que é inviolável, tamanha sua importância. O que se sacraliza pode ser um templo, um objeto, uma pessoa ou mesmo uma palavra. Isto porque as formas divinas devem ser compreensíveis para a natureza humana. A representação do sagrado tornou mais próximos os laços entre o céu e a terra. Desta maneira, os humanos poderiam entrar em comunhão com o sobrenatural, com as divindades. É neste contexto que

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os mitos ganham importância. Eles criam condições explicativas, que podem ser partilhadas por todos os membros de um mesmo grupo. O conjunto de valores sagrados cria em torno de si uma comunidade que se liga pela crença nestes valores: o sentido compartilhado e mutuamente percebido por uma coletividade fornece uma razão à existência marcada pela perplexidade e incertezas quase infinitas. O sistema de crenças tem por objetivo dar alguma significação. É diante dos fenômenos inexplicáveis que os seres humanos buscam causas identificáveis para dar sentido à sua existência. É neste contexto que as narrativas míticas e os símbolos fornecem uma interpretação para os mistérios. Mas, embora o sagrado possa ser transmitido, direcionado a algo familiar, sua dimensão total está muito além da compreensão, e justamente por isso o sagrado é uma força que só pode ser compreendida a partir de locais específicos, ritos próprios ou personificações exclusivas que criam ou projetam algum sentido. É por dar uma explicação ao caos universal que Mircea Eliade observa que o sagrado contribui para organizar o universo, fornecendo orientações práticas de conduta. Quando os humanos passaram a evocar os deuses, passaram também a contar com eles para a intervenção no mundo incontrolável, e assim os rituais transformam-se em mecanismos capazes de convencer o sobrenatural a conceder favores. As manifestações ritualísticas ganham status de poder capazes de, até mesmo, constranger as divindades. Os ritos e os símbolos se tornam, então, instrumentos que, se bem utilizados, alteram a ordem do universo, e desta maneira evitam o caos. Sem a utilização dos ritos ou da simbologia, as forças extra-humanas não seriam atingidas, pois, é necessário algo para mediar a relação entre os homens e os deuses. É na busca por respostas que os seres humanos fundamentam a necessidade do sagrado. A busca pelo sentido da vida levou os seres humanos a criar em sistemas de re-

ferências imutáveis e atemporais. E na busca pelo sagrado tem-se a necessidade de torná-lo tangível. Por isso, o ser humano sempre delimitou o espaço sagrado com limites bem precisos. Os locais sagrados ficam fora da vida comum, e, como observa Eliade, eles são heterogêneos, pois ocupam um espaço diferenciado da realidade ordinária. É comum que nos locais sagrados sejam erguidas construções nas quais o sagrado é reverenciado, um local distinto da homogeneidade profana. Como sugere Eliade, a entrada em prédio sagrado é um momento de purificação, no qual a percepção se altera, fazendo-se sair da realidade cotidiana. Além de uma linha espacial para a compreensão da concepção do sagrado, os seres humanos precisam criar uma linha temporal, como observa Herveau-Léger. É necessário gerar pontos na linha do tempo para poder entrar em contato com o universo, mas ressalva-se que este tempo é ao mesmo instante atemporal. No rito, que se celebra o tempo sagrado, há uma efusão coletiva capaz de elevar os participantes acima das trivialidades, como considerou Durkheim, e, posteriormente, Marcel Mauss ao descrever sobre a oração como uma ação coletiva. Celebrações e cerimônias marcam momentos importantes da vida da comunidade, o que garante coesão social. Os ritos como os mitos evocam uma noção de tempo bem diferente do tempo linear e cronológico. Na sociedade, a dimensão do sagrado se organizou em torno de instituições religiosas. Regras e dogmas servem para orientar condutas individuais e coletivas, e ao mesmo tempo estruturas religiosas podem se adaptar a qualquer movimento que se fundamenta em valores tomados como sagrados. Por se tornarem sagradas, algumas determinações sequer podem ser questionadas. Isso porque o ser humano tem o desejo de dar ordenamento ao caos universal. É neste contexto que se cria o conceito de hierarquia, que significa ordem sagrada. Assim essa concepção se aplica a um mundo invisível, mas que dá ordem e sentido às coisas.

A representação do sagrado tornou mais próximos os laços entre o céu e a terra. Desta maneira, os humanos poderiam entrar em comunhão com o sobrenatural, com as divindades. É neste contexto que os mitos ganham importância. Eles criam condições explicativas que podem ser partilhadas por todos os membros de um mesmo grupo

* Luiz Eduardo Souza Pinto é bacharel em administração e ciências sociais pela Universidade Estadual de Montes claros (Unimontes), pós-graduado em Pedagogia Empresarial e sociologia Política pela mesma instituição

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santo Poder Na sociedade, a dimensão do sagrado se organizou em torno de instituições religiosas. Regras e dogmas servem para orientar condutas individuais e coletivas, e ao mesmo tempo estruturas religiosas podem se adaptar a qualquer movimento que se fundamenta em valores tomados como sagrados. Por se tornarem sagradas, algumas determinações sequer podem ser questionadas. Isso porque o ser humano tem o desejo de dar ordenamento ao caos universal

É neste contexto que o sociólogo Pierre Bourdieu nos transmite a ideia de que as autoridades religiosas codificam a realidade de modo que ela não fique tão compreensível para os leigos, mas apenas para os iniciados, os manipuladores do sagrado, pois somente os especialistas podem compreender, interpretar e transmitir as revelações sagradas que ao organizar o universo demonstram aos seres humanos como eles devem viver a sua vida. Para Bourdieu, os princípios religiosos nasceram da experiência humana e foram criados para manter a estabilidade social. Uma ordem estabelecida define regras que seus membros devem seguir para obter a coesão social, como concebeu Durkheim. Em uma sociedade com normas e regras, cujo cumprimento das determinações é ato sagrado, a transgressão implica em penalidades e pode significar a exclusão e até mesmo a morte social. O SAGRADO E OS BENS DE SALVAÇÃO

As religiões e o processo de sacralização de espaços, objetos, pessoas, mitos ou heróis sempre foram objetos de estudo dos sociólogos. Desde a formação desta ciência, os fenômenos religiosos despertaram interesse. Max Weber dedicou estudos sobre a religião, incluindo-se neste campo seu livro “A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo”. Pode-se dizer que, no centro do trabalhos de Weber, está a sociedade moderna e seu processo de racionalização, que levou a rejeitar o sagrado religioso, tornando o mundo um lugar desencantado. Em suas análises, Weber considera que a religião desempenhou importante papel social no ocidente. Já Bourdieu trata a religião como um sistema simbólico de comunicação e de pensamento. Vale ressaltar que Durkheim afirma que as religiões são constituídas por um sistema solidário de crenças e de práticas relativas às coisas sagradas. Bourdieu cita que “enquanto sistema de símbolos a religião é estruturada na medida em que seus elementos internos relacionam-se entre si

formando uma totalidade coerente” (Oliveira, 2003, p.179), ou seja, a vida cotidiana e a religião possuem completude e uma lógica coerente. Há uma relação direta entre as análises de Weber sobre as estruturas sociais modernas e as estruturas simbólicas pensadas por Bourdieu. De acordo com Weber, o sistema de crenças e práticas religiosas é a expressão da estratégia de diferentes grupos em competição pela gestão dos bens de salvação e de diferentes classes interessadas por seus serviços. Pode-se, portanto, entender que a definição do que é sagrado ou profano é definido também na disputa pelo domínio religioso. Desta forma, observa-se que o grupo de especialistas capazes de manipular o sagrado contribui para a conservação da ordem social. Para Bourdieu, existe uma correspondência entre as estruturas sociais e as estruturas mentais, correspondência que se estabelece por intermédio das estruturas dos sistemas simbólicos. Nesse contexto, a religião contribui para a imposição dos princípios de estruturação da percepção e do pensamento do mundo. As verdades absolutas e os dogmas apresentados pelas instituições religiosas legitimam a Teologia, e ao mesmo tempo um statos quo. Bourdieu observa que os interesses dos sacerdotes encontraram na organização centralizada e hierarquizada uma solução capaz de preservar seus direitos, bem como seus privilégios. Há então a monopolização da gestão dos bens de salvação por um grupo de especialistas capazes de manipular o sagrado. Ressalta-se que a formação de especialistas é algo típico do processo de racionalização do Ocidente que promove a formação de pessoas. Weber destaca que a perpetuação do capital religioso por uma dada religião só pode ser assegurada por meio de um aparelho burocrático capaz de exercer continuamente a ação necessária para assegurar a própria reprodução dos bens de salvação. No que tange ao monopólio dos bens de salvação, Bourdieu considera que a opo-

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sição entre religião e magia, sagrado e profano, dissimula a oposição entre diferenças de competência religiosa que está ligada à estrutura de distribuição do capital cultural. Assim, toda a prática ou crença dominada está fadada a ser considerada profana na medida em que constitui uma contestação objetiva do monopólio da gestão do sagrado. Weber, assim como Bourdieu, percebe que o conflito pela autoridade no mercado religioso gera uma contestação da hierarquia, que toma a forma de uma heresia. Weber aponta que os sacerdotes são na verdade os especialistas destinados a guardar e manipular as verdades e assim os leigos são expropriados do poder sobre o sagrado. As concepções de Weber e Bourdieu nos levam ao entendimento que a formação de um grupo de especialistas capazes de manipular o sagrado gera um grupo de detentores do poder religioso. Mas, apesar do jogo de poder que insere na relação entre sacerdotes e leigos, há entre estes dois agentes interação e relações recíprocas, como percebe Weber. Estes interesses, que permeiam os jogos no campo religioso, definem as interações simbólicas que se instauram, como concebido por Bourdieu. Esse sociólogo aponta, ainda, que existe no campo religioso uma disputa pelo domínio das forças simbólicas, que tendem a considerar como magia ou seita uma religião com menor aparato burocrático. E, desta forma, o grupo dominado e suas concepções são vistas como profanas. Se a religião visa a manutenção de um corpo social beneficiado pela sua posição econômica, política e social, Bourdieu define como concorrência a busca pelo monopólio da gestão dos bens de salvação. Segundo esse sociólogo, o capital de atividades religiosas depende da força material e simbólica dos grupos ou classes que ela pode mobilizar, oferecendo bens e serviços capazes de satisfazer seus interesses religiosos. Neste sentido, a lógica do funcionamento das religiões parte do pressuposto que elas reivindicam o monopólio do exercício legítimo do poder religioso.

A oposição entre detentores do monopólio do sagrado e os leigos constitui a base do princípio de oposição entre o sagrado e o profano. Assim, a concepção religiosa dominante tem por efeito relegar antigos mitos ao estado de magia e feitiçaria. Weber analisa que a supressão de um culto, sob influência de um poder político ou eclesiástico em prol de uma religião, foi o que deu origem a oposição entre religião e magia. Assim, pode-se deduzir que as observações de Weber e de Bourdieu são semelhantes no tocante à questão da disputa de poder no campo religioso. A religião acaba por reforçar e assegurar a legitimação dos grupos sociais. E o faz através das sanções, ou seja, o grupo que manipula o capital religioso faz por meio do trabalho religioso uma espécie de codificação que este mesmo grupo interpreta como forma de garantir o domínio sobre o sagrado. Tal atitude é bastante

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Santo Poder relevante para a compreensão da proposta de Bourdieu, pois permite a manutenção do status quo das autoridades religiosas e ao mesmo tempo fornece uma justificativa para seu poder e domínio, letigimando suas funções. A ordem social é desta maneira reafirmada e reproduzida, pois as verdades codificadas e o mundo vivido são tidos como o mundo natural. Igreja Católica

Durkheim aponta que um colégio de sacerdotes não é por si só uma igreja. A partir desta análise pode-se inferir que estas instituições não são apenas um grupo que manipula e domina o capital religioso e o sagrado. Para Durkheim, uma igreja é uma comunidade moral formada por todos os crentes de uma fé, tanto fiéis quanto sacerdotes. Faça-se um necessário apontamento: a própria denominação “católica” é uma derivação do grego “Katholikos”, que posteriormente foi latinizada para o termo “Catholicus”, cujo significado é “universal” [universalidade]. O Concílio Vaticano II fez com que a Igreja Católica abrisse sua hierarquia para que se transformasse em uma comunidade que, em sua totalidade, constituía o que foi denominado de “Corpo Místico de Cristo”. Embora, para boa parte dos teólogos, as decisões do Concílio II ainda não esteja plenamente postas em prática, observou-se uma maior participação dos leigos na dinâmica eclesial. Na década seguinte, a Igreja viu florescer a Teologia da Libertação, movimento surgido na América Latina e com forte atuação no Brasil, que apontava para a opção preferencial pelos pobres. A partir da década de 1980, os movimentos sociais, que surgiram, também impulsionados pela redemocratização do país, tiveram forte aparo da Igreja Católica. Alguns, inclusive, foram gestados entre os leigos em suas comunidades. Inspirados por personagens revolucionários, dentre eles Karl Marx e o próprio Jesus Cristo, lideranças de movimentos sociais assim como de pastorais e movimentos católicos comungavam de um ideal comum: a opção pelos excluídos. Nesta perspectiva, esse

A oposição entre detentores do monopólio do sagrado e os leigos constitui a base do princípio de oposição entre o sagrado e o profano. Assim, a concepção religiosa dominante tem por efeito relegar antigos mitos ao estado de magia e feitiçaria. Weber analisa que a supressão de um culto, sob influência de um poder político ou eclesiástico em prol de uma religião, foi que deu origem a oposição entre religião e magia grupo, vinculado à Igreja institucionalizada, adotava um modelo diferente daquele que visa à manutenção da ordem social e econômica vigentes. Tal perspectiva se dá pela proposta contrária ao modelo político e econômico que favorece a concentração de riquezas, propondo alternativas ao modelo capitalista de produção e políticas de inclusão social. O sociólogo Alain Touraine considera que os movimentos sociais são fruto da ação conflitante dos agentes das classes sociais, ou seja, a essência da luta de classe. Marxistas contemporâneos consideram que as igrejas, ao adotarem uma postura crítica em relação ao modelo produtivista/consumista, projetam uma luta em favor dos excluídos e, portanto, não se apresentam como “ópio do povo”, mas como “o suspiro da criatura oprimida”, como também afirmou Marx. Tais ações vão em sentido contrário às análises Bourdieu e Weber quando estes pensadores clássicos tratam as instituições religiosas como um aparato conservador que contribui para a manutenção da ordem social. A realidade, assim como as sociedades, constitui-se a partir de processos dialéticos como nos propôs Hegel e mais tarde Marx. No interior dessa Igreja plural, nasce uma nova forma de expressão de religiosidade: um catolicismo que não se abdica da razão e da luta política e social, mas que também aceita a primazia do Papa, um dos pilares da unidade Católica. É uma via que está se constituindo.

REFERÊNCIAS TOURAINE, Alain. Os movimentos sociais: o conflito central. In: Poderemos viver juntos?: Iguais e diferentes. Tradução de Jaime A. Clasen e Ephraim F. Alves. Petrópolis: Vozes, 1999. BOURDIEU, Pierre. A Economia das Trocas Simbólicas. Gênese e Estrutura do Campo Religioso. São Paulo: Editora Perspectiva, 2007. DURKHEIM, Emile. As Formas Elementares da Vida Religiosa – O sistema totêmico na Austrália. São Paulo: Martins Fontes. 1996. ELIADE, Mircea. O Sagrado e o Profano. Tradução: Rogério Fernandes. São Paulo, SP: Editora Martins Fontes. 1992. HERVIEU-LÉGER, Danièle; WILLAIME, JeanPaul. Sociologia e Religião –Abordagens Clássicas. Tradução: Ivo Storniolo. Idéias Aparecida. SP: Ideias & Letras 2009. MARX, Karl. Crítica da Filosofia do Direito de Hegel: MARX, Karl & ENGELS, Friedrich. In: Sobre a Religião. Lisboa. 1975 MAUSS, Marcel. A Prece. In: Oliveira, Roberto Cardoso de (org). São Paulo. Ática. 1979. RIBEIRO. Pedro de Assis. A Teoria do Trabalho Religioso em Pierre Bourdieu. In: TEIXEIRA, Faustino. Sociologia da Religião. Petrópoles, RJ. Editora Vozes, 2003. TEIXEIRA, Faustino (org.). Sociologia da Religião. Petrópoles, RJ. Editora Vozes. 2003. WEBER, Max. A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo. Livraria Editora Pioneira. 1983.

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Resenha

Patrimônio e

memória em foco

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por Edgard de Assis Carvalho

* Edgard de Assis Carvalho é antropólogo e professor de Antropologia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).

A defesa do patrimônio histórico-cultural brasileiro é cercada por paradoxos e ambiguidades. Exercida por órgãos e conselhos institucionais nos níveis federal, estadual e municipal – nem sempre sintonizados acerca de conceitos, ideias, teorias e paradigmas – a figura do tombamento permanece como o único recurso cívico capaz de conter a voracidade das demolições, os desatinos do progresso, a pulsão de morte que rege a destruição da memória. É preciso, então, analisar com profundidade os instrumentos teóricos e conceituais que temos em mãos para promover a gestão democrática do teatro das memórias sociais e resistir contra a erosão da cultura e da natureza. Não basta a re-

Livro: : Patrimônios Bioculturais: ensaios de antropologia das memórias sociais e dos patrimônios culturais Autor: Alexandre Fernandes Corrêa Editora: UFMA Ano: 2008 PÁGINAS: 220

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produção de consensos da proteção dos patrimônios históricos e culturais, fundados em retóricas ingênuas de cunho nostálgico e romântico. Tornou-se necessário avançar a reflexão e a ação político-culturais para domínios epistemológicos negligenciados e encobertos pelo atual modismo do culto ao passado, tornado mercadoria estetizada e fetichizada. A obra

Tomando como referência as cidades de São Luís, monumento da humanidade desde 1997 (UNESCO), e São Paulo, uma babel auto-organizada, Alexandre Corrêa realiza uma pesquisa transcultural de complexos desdobramentos, demonstrando que esforços da sociedade civil, quando conjugados à ação estatal, costumam produzir resultados irreversíveis para a consolidação da identidade cultural. Os resultados do dispositivo tombatório são ainda tímidos, dado o caráter tardio que cercou a criação dos órgãos preservacionistas no Brasil. É conveniente nunca esquecer que o Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN) nasceu apenas em 1937, durante o Estado Novo. Pode-se constatar, porém, que o conjunto brasileiro de bens tombados já é bastante expressivo. Mesmo que a equivocada distinção entre bens materiais e imateriais (Decreto nº 3.551/2000) – sem dúvida uma sequela da dualidade cartesiana natureza e cultura – seja ainda mantida nos dias correntes, a salvaguarda de terreiros, parques, igrejas, monumentos, florestas, vilas, bairros atestam que o homo sapiens não é apenas fabricador de instrumentos, mas um aliciador de expressões universais que jamais serão apagadas da memória da espécie; apesar da unidimensionalidade do progresso e da técnica, assim como da insensibilidade do poder e da política, quaisquer que sejam eles. Costuma-se a dividir a história da preservação no Brasil em duas fases: a ‘heroica’, capitaneada por Rodrigo Melo Franco de Andrade, na direção do IPHAN e

A defesa do patrimônio histórico-cultural brasileiro é cercada por paradoxos e ambiguidades. Exercida por órgãos e conselhos institucionais nos níveis federal, estadual e municipal – nem sempre sintonizados acerca de conceitos, ideias, teorias e paradigmas – a figura do tombamento permanece como o único recurso cívico capaz de conter a voracidade das demolições, os desatinos do progresso, a pulsão de morte que rege a destruição da memória

Mário de Andrade, no Departamento Municipal de Cultura da cidade de São Paulo, até 1938, ambos responsáveis pelas primeiras formulações conceituais; e, a ‘moderna’, consolidada a partir da aposentadoria de Rodrigo, em 1967, mais uma vez em plena ditadura militar, e pela entrada em cena de Aloísio Magalhães no Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, IPHAN; sigla que permanece até hoje, vinculada ao Ministério da Cultura. A necessidade de se inserir o Brasil numa verdadeira política de civilização faz supor que uma terceira fase, civilizatória, pode ser o horizonte cognitivo e biopolítico a ser ativado pelos guardiões da conservação e da sustentabilidade da cultura. Tal aspecto é analisado no livro quando o autor enfoca o que designou de ‘Complexo de Dédalo’, traço característico da retórica dominante, sustentada por investimentos sem precedentes na sociotécnica e na tecnocracia; uma das consequências hodiernas da ‘virada cultural’ do capitalismo tardio. Em busca de um equilíbrio da atuação preservacionista no espaço social do patrimônio e da memória, Alexandre Corrêa procura, pela da crítica dos excessos da patrimonialização e dos riscos da pe-

trificação da memória, promover o debate em torno das garantias e salvaguardas da criatividade e da arte popular. O diferencial

A antropologia de emergência, proposta pelo autor como uma “operação humanista de recuperação de saberes, fazeres e dizeres” situam-se nesse foco analítico e certamente exigirá uma ecoalfabetização de todos os setores sociais. Caso venha a contaminar os órgãos preservacionistas, estatais ou não, poderia projetar o Brasil como um País preocupado consigo mesmo, consciente de que tem algo a dizer e comunicar para o planeta como um todo. Tenho convicção que qualquer indivíduo que se aventure nos árduos caminhos da preservação dos patrimônios bioculturais deve empenhar-se nessa missão humanista e regeneradora de uma TerraPátria que faz jus a esse nome. Esse é o objetivo maior a que Alexandre Corrêa se propôs em sua tese de doutorado defendida na PUC-SP em 2001, transformada num livro instigante e desafiador. s o c i o l o g i a | 61

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Antenado LIVROS

Um grande encontro Professor de Sociologia na Universidade Berkeley (EUA), Michael Burawoy é um dos principais teóricos marxistas contemporâneos. Organizada e apresentada por Ruy Braga, docente do departamento de Sociologia da USP, esta reunião de seis conferências proferidas por Burawoy, no Havens Center de Wisconsin, versam sobre uma relação instigante para qualquer estudioso do pensamento sociológico: o estudo comparativo entre autores marxistas – entre eles, o próprio Marx e Antonio Gramsci – e o legado teórico do sociólogo francês Pierre Bourdieu (1930-2002). Destaque para o último capítulo: “Os intelectuais e seu público: Bourdieu herda Wright Mills”. Mills não era bem um marxista de carteirinha, mas o texto não parece deslocado do conjunto. Sem perder de vista sua crítica às teorizações e aos métodos de Bourdieu, Burawoy presta um tributo “ao maior sociólogo público” das últimas décadas. Título: O marxismo encontra Bourdieu Autor: Michel Burawoy Tradução: Fernando Rogério Jardim Organizador: Ruy Braga Editora: Unicamp Coleção: Marx 21 Ano: 2010

Autoritarismo e corporativismo

FOTOS DIVULGAÇÃO

Situado dentro da melhor tradição do pensamento social brasileiro, “Autoritarismo e corporativismo no Brasil” chega a sua 3ª edição. Lançado no início da década de 1980, o livro, do cientista social Evaldo Amaro Vieira, continua a ser uma ótima fonte de referência para as reflexões sobre o pensamento nacionalista autoritário, em especial sobre a obra de Francisco José de Oliveira Vianna (1883-1951), autor de Populações meridionais do Brasil. O estudo de Evaldo Vieira realiza um balanço crítico das concepções de “Estado Corporativo” e “revolução conservadora”, relacionadas a Vianna. O texto de apresentação é do sociólogo Maurício Tragtenberg (1929-1998) e o livro é, originalmente, a tese de doutoramento em Ciência Política de Vieira, apresentada na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP em 1975. Título: Autoritarismo e corporativismo no Brasil (Oliveira Vianna & Cia) Autor: Evaldo Vieira Editora: Unesp Ano: 2010

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Sociedade de risco

Neste ensaio, publicado na Alemanha em 1986, em meio à comoção mundial pelo acidente nuclear em Chernobyl, Ulrich Beck, atual professor de Sociologia da Universidade de Munique e da London School of Economics and Polítical Science, coloca-se na categoria dos teóricos sociais de prestígio, ao propor o conceito de “sociedade de risco”, na qual estaríamos vivenciando tempos de rupturas semelhantes àquelas experimentadas durante a transição da sociedade feudal para a industrial. Mais de duas décadas depois de editado, o livro de Beck segue como um diagnóstico interessante sobre a crise da modernidade e da sociedade global.

Título: Sociedade de risco – rumo a uma outra modernidade Autor: Ulrich Beck Tradução: Sebastião Nascimento Editora: 34 Ano: 2010

Movimentos Sociais Como o objetivo de apresentar “um mapeamento das formas de demandas e lutas da sociedade civil brasileira”, o livro da socióloga e educadora Maria da Glória Gohn procura investigar a história e os aspectos centrais dos movimentos sociais e suas respectivas redes de mobilização ao longo das últimas décadas (ou do Brasil Contemporâneo). O foco da pesquisa está na localização das demandas e ações desses movimentos, ora realizados em parcerias com ONGs, ora por outras iniciativas. Esses grupos, segundo a estudiosa, deixaram de concentrar-se em entidades trabalhistas e passaram (também como uma forma de resistência à ditadura militar) a surgir em bairros e entidades culturais e religiosas. Professora titular da Unicamp e da pós-graduação em Educação na Uninove, Gohn é pós-doutora pela New School of University, em Nova York, e autora de “A força da periferia e Mídia, Terceiro Setor e MST”. Título: Movimentos sociais e redes de mobilizações civis no Brasil Contemporâneo Autora: Maria da Glória Gohn Editora: Vozes Ano: 2010

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Bem-estar

sUgEsTÕEs

Dou meus parabéns para a saudável ousadia de uma publicação dedicada à sociologia. gostaria de aproveitar para oferecer algumas sugestões. Na seção Fez Diferença, por exemplo, seria interessante escrever mais perfis de sociólogos, como o grande Florestan Fernandes. Florestan soube, como poucos, ser um pesquisador de alto nível e um militante da justiça social. além do mais, a revista poderia inserir mais artigos de natureza teórica, com explicações sobre conceitos e métodos dos grandes clássicos da sociologia. Everton M. Silva por e-mail

concordo com muitos dos argumentos expressos na matéria de capa sobre a Qualidade de Vida. as opiniões compõem um painel sócio-cultural do fenômeno. No entanto, remédios (quando corretamente prescritos), dietas recomendadas por nutricionistas e técnicas de relaxamento não podem ser desprezadas. Elas agem no corpo e na mente das pessoas de forma benéfica. o que não se deve é transformar o afã pelo bem-estar em um consumo desenfreado e inconsequente, que só alimenta uma indústria da “qualidade de vida”. É preciso ir a fundo e refletir sobre as razões históricas, contextuais, sociais, culturais e econômicas dessa “busca sem fim”. No entanto, sem cometer o erro de ignorar as virtudes de “viver bem”. Augusto B. Ribeiro, São Paulo - SP

FHc sociólogo

Excelente a entrevista do ex-presidente e sociólogo Fernando Henrique cardoso. Depois de tantos anos de disputas políticas, é muito legal conhecer suas reflexões de cientista social, inclusive sobre a política como ela é. acho fundamental que esse lado “analítico” de FHc seja destacado. afinal, podemos até discutir se ele foi ou não um bom presidente, mas como sociólogo ele tem uma produção muito relevante. Silvia C. Siqueira, Campinas - SP

carisma

Na entrevista com FHc discordo da opinião do ex-presidente tucano quanto à ideia de que getúlio Vargas não era “verbalmente atraente”. Talvez lula seja o melhor de todos nesse aspecto, mas getúlio comunicava-se bem e, principalmente, tinha carisma, sabendo construir um mito muito forte. Mas, é claro, os udenistas não concordavam com isso... Marcos Luis A da Silva, Porto Alegre-RS

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Atendimento ao leitor Para informações, sugestões, elogios ou reclamações, o atendimento ao leitor esta disponível de segunda a sexta-feira, das 8h às 19h. Telefone: (11) 3855-1000 E-mail: atendimento@escala.com.br

Dois grandes intelectuais

Um grande entrevistado, um grande entrevistador. Essa é, para mim, a melhor definição para a entrevista de Fernando Henrique Cardoso conduzida pelo filósofo Renato Janine Ribeiro. As perguntas instigantes geraram respostas inteligentes. Espero que a revista continue nesse nível. Ana Luíza B. Oliveira, por e-mail.

Edições Anteriores Adquira as edições anteriores de qualquer revista ou publicação da Escala (sujeito à disponibilidade de estoque).

Telefone: (11) 3855-1000 Site: www.escala.com.br

Assinaturas

Herói Brasileiro

Quando penso em Betinho, me surgem à mente as imagens de suas campanhas de combate a fome e a miséria. Mesmo debilitado, doente, lá estava ele firme e forte. Sem se deixar abater pela fragilidade do corpo, muito menos pela terrível má distribuição de renda. Um autêntico herói brasileiro, comandante de um exército do bem. Que sua trajetória ilumine a todos nós! Geise F. Prado, por e-mail.

Assine as revistas da Editora Escala e receba os exemplares com toda comodidade, em seu endereço. Telefone: (11) 3855-1000 E-mail: assinatura@escala.com.br Site: www.assineescala.com.br (consulte os títulos disponíveis)

Trabalhe na Escala Preencha o formulário no site: www.escala.com.br/cv.asp

Ilustração

Compro sempre a revista Sociologia e chama a minha atenção as ilustrações que compõe a seção Fez Diferença [elaboradas pelo artista e ilustrador Leandro Valquer]. Além de se destacar na capa, os desenhos nos remetem aos melhores momentos desses bravos homens e mulheres. Mas a ilustração de Betinho superou todas as expectativas. A imagem do sociólogo e ativista social, oferecendo um prato de comida com seu olhar sereno, simplesmente resume a sua atuação. Américo Inácio M. Souza, Rio de Janeiro - RJ

Caminhos profissionais

A “Sociólogos & Sociologia” é sempre um dos destaques da revista, por nos mostrar as perspectivas e desafios da carreira de sociólogo. Muitos dos leitores são jovens que gostam das Ciências Sociais desde os tempos do colégio, mas tem lá suas dúvidas e dilemas em relação ao curso e ao mercado de trabalho na área. As entrevistas são bem conduzidas e as dicas de sociólogos experientes são valiosas. Tamires G. Almeira, Campina Grande - PB

Sugestão

Sugiro para a revista Sociologia uma seção que divulgue e publique trabalhos acadêmicos de graduandos na área de Ciências Sociais. Podem ser resumos de monografias, artigos produzidos para seminários etc. Seria um estímulo para quem está iniciando na área.

sociologia Fale com a redação Contato direto com a redação da revista para que você nos envie sugestões e comentários. Telefone: ( 11) 3855-1955 Endereço: A venida Profº Ida Kolb, 551 Casa Verde CEP 02518-000 São Paulo - SP E-mail: sociologia@escala.com.br

Para anunciar Telefone: (11) 3855-2179 ou 3855-2244 E-mail: anunciar@escala.com.br

Marcos A. R. Gonçalves, por e-mail s o c i o l o g i a | 65

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As lições de

um artesão

intelectual

por Daniel Rodrigues Aurélio*

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ascido no Texas, em agosto de 1916, o sociólogo Charles Wright Mills faleceu precocemente no mês de março de 1962, tempo suficiente para escrever seu nome na galeria dos mestres das ciências sociais. Apesar de belos estudos como A Nova Classe Média, Mills não teria realizado, segundo seus críticos, uma produção teórica de magnitude, ainda que cada vez mais sejam apontadas conexões entre sua obra e a de autores festejados como Howard Becker ou Pierre Bourdieu. Sua contribuição, porém, é incontestavelmente decisiva na formação das novas gerações de sociólogos. Suas ideias sobre o “artesanato intelectual” e a “imaginação sociológica” são inspiradoras para o exercício daquilo que se costuma denominar como condição de sociólogo, aliás título de um livro de Florestan Fernandes. A leitura de “The sociological imagination (A imaginação sociológica)”, publicado pela Oxford University Press em 1959, é fundamental para a compreensão dos métodos empregados na pesquisa e no discurso sociológico de primeira linha. Essa “crítica cultural” de Mills transformou-se numa peça em favor da análise clássica da sociologia e ainda uma irônica e devastadora crítica ao próprio fazer sociológico de seus contemporâneos, doutrinados pela “Grande

Teoria” e discípulos de Talcott Parsons e seu The social system. “Poderíamos traduzir as 555 páginas de The social system, fazendo delas umas 150 páginas de linguagem direta”, sugere Mills. Ele alertava para o excesso de metodologias quantitativas e outras artimanhas e “técnicas burocráticas” capazes de engolir a essência do ofício. Na apresentação da coletânea “Sobre o artesanato intelectual e outros ensaios “(Zahar, 2009), o pesquisador e cientista social Celso de Castro, professor do CEPDOC da Fundação Getulio Vargas, descreve o “artesão intelectual” de Wright Mills como “um ‘tipo ideal’ no sentido weberiano do termo”, cujo entendimento

passa pela valorização da “dimensão existencial na formação do pesquisador”. Esse “artesão” é dotado de aguçada imaginação sociológica, aquela que faz o pesquisador, de acordo com Mills, “compreender a história e a biografia, e a relação entre ambas, dentro da sociedade”. A noção de “artesanato”, de “bricoleur”, portanto, tem a ver, sobretudo, com o uso de um método cuidadoso e criativo que não separe a existência do sujeito de seu trabalho, um modo de vida em permanente construção e atento a “combinações não previstas de elementos”, no resumo de Castro. É esse o espírito de quem fez uma escolha de certa forma heroica de vida.

*Daniel Rodrigues Aurélio é bacharel em Sociologia e Política pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo e pós-graduado em Globalização e Cultura pela Escola Pós-graduada de Ciências Sociais. É editor da revista Sociologia Ciência & Vida.

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A Sociologia e o Mundo do Trabalho: O mundo do trabalho está presente de forma protagonista na história e no desenvolvimento do pensamento sociológico

por Daniel Rodrigues Aurélio*

Trabalho e Trabalhador no Brasil: A história do trabalho no Brasil é comumente vista pelo olhar etnocêntrico, baseado em modelos teóricos externos

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por : Luiz Guilherme Brom*

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caderno de exercícios

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Sociologia em sala de aula

Um preâmbulo

à sociologia do trabalho

A questão do trabalho tem um papel central no campo da Sociologia e foi estudada, por diferentes ângulos, por seus autores clássicos por Daniel Rodrigues Aurélio*

Daniel Rodrigues Aurélio • é bacharel em Sociologia e Política pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo e pós-graduado em Globalização e Cultura pela Escola Pós-Graduada de Ciências Sociais. É editor da revista Sociologia Ciência & Vida.

Para provocar uma reflexão imediata nos alunos, os cursos de sociologia do trabalho geralmente iniciam-se com a definição etimológica da palavra “trabalho”. O termo, que designa nosso suor diário, advém do latim tripalium (ou trepalium), nada mais, nada menos que um instrumento de tortura formado por três estacas cravadas no chão (tri + palus, “três paus”), suplício ao qual eram submetidos os escravos. Depois, surgiu o verbo tripaliare (trepaliare), o aplicador da sentença torturante. Desde a sua origem, portanto, a palavra está associada ao sofrimento, à condenação, à dolorosa sina.

E somente na Renascença o “trabalho” passou a ser sinônimo de atividade profissional. A língua italiana, no entanto, prefere falar em lavoro, proveniente de lavor, significado em latim “não-pejorativo” – o nosso labutar. Algumas religiões e os próprios Estados nacionais tentaram reverter essa imagem negativa do trabalho, com a valorização do trabalhador, elevado à virtuoso moral - “o trabalho enobrece o homem”. A tentativa de dissolução dessa visão negativista tem íntima ligação com dois fatos cruciais da história moderna: a ascensão do trabalho do homem livre,

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Sociologia em sala de aula

A questão do trabalho, da divisão do trabalho em toda a sua teia de significados, é uma preocupação central para os cientistas sociais desde sempre. A ordem capitalista moderna, fundada na busca pela acumulação de capital e no uso da força de trabalho assalariado, gera não apenas um modo de produção, como também organiza toda a vida social. Daí porque a sociologia do trabalho não se resume a um campo de especialização; ela é um dos elementos consolidadores do pensamento sociológico

em substituição ao escravo, e a Revolução Industrial na Inglaterra e, em seguida, por toda a Europa. Momento, aliás, em que a sociologia se estabelece como método explicativo da nova ordem social, que surge não sem estranhamentos e conflitos. Dessa forma, a questão do trabalho, da divisão do trabalho em toda a sua teia de significados, é uma preocupação central para os cientistas sociais desde sempre. A ordem capitalista moderna, fundada na busca pela acumulação de capital e no uso da força de trabalho assalariado, gera não apenas um modo de produção, como também organiza toda a vida social. Daí porque a sociologia do trabalho não se resume a um campo de especialização; ela é um dos elementos consolidadores do pensamento sociológico.

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Tema fundamental

Sem pretender entrar em pormenores argumentativos, observamos a centralidade da questão do trabalho – obviamente, o trabalho dentro da lógica capitalista moderna – na obra do trio clássico das

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ciências sociais: Émile Durkheim, Karl Marx e Max Weber. Com suas pretensões sistêmicas, numa época de consolidação institucional da cadeira de Sociologia na França, Durkheim publicou, em 1893, Da divisão do trabalho social, livro no qual demonstra a relevância da divisão do trabalho como elemento de coesão e solidariedade. Já para Karl Marx essa questão ultrapassou a linguagem teórica expressa em obras como “O capital” e ganhou estatuto de luta política, ao constatar-se a tensão entre dominadores e oprimidos, capital versus trabalho, patrões contra operários. Da sofisticação analítica dos processos de acumulação de capital, alienação e mais-valia, Marx conduziu a teoria dialética para um grito-levante pela práxis transformadora e revolucionária anunciada no panfleto

Manifesto do Partido Comunista (1848), escrito em parceria com Friedrich Engels. Por fim, Weber observaria a questão por outro ângulo. Em “ A Ética protestante e o “espírito” do capitalismo” (1904-05), o sociólogo alemão estudou a tese segundo a qual os valores do protestantismo seriam uma espécie de motor moral para o desenvolvimento do capitalismo em determinadas regiões da Europa Ocidental e, principalmente, dos Estados Unidos. A ética ascética propugnada pelos protestantes, voltada para o trabalho abnegado e desprovido do gozo mundano como chave para a purificação do homem, estaria na raiz do processo de acumulação de capital e conduziria, futuramente, a uma visão do trabalho como forma de ascensão social e prosperidade individual e da nação.

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Sociologia em sala de aula

PARA RefleTIR “Antes de tudo: o que é o trabalho? Existem dois tipos de trabalho: primeiro, o que modifica a posição dos corpos na superfície da Terra ou perto dela, relativamente a outros corpos; segundo, o que manda que outras pessoas o façam primeiro. O primeiro tipo é desagradável e mal pago, o segundo é agradável e muito bem pago. O segundo tipo pode ser estendido indefinidamente: além daqueles que dão ordens, há os que dão conselhos a respeito das ordens que devem ser dadas”.

RUSSELL, Bertrand. O elogio ao ócio. Rio de Janeiro: Sextante, 2002. “Desejaria dirigir-me para coisas ligeiramente menos visíveis mostrando como a televisão pode, paradoxalmente, ocultar mostrando, mostrando uma coisa diferente do que seria preciso mostrar caso se fizesse o que supostamente se faz, isto é, mostrar, mas de tal maneira que não é mostrado ou se tornar insignificante, ou construindo-o de tal maneira que adquire um sentido que não corresponde absolutamente à realidade (…). Os jornalistas têm “óculos” especiais a partir dos quais veem de certa maneira as coisas que veem. Eles operam uma seleção e uma construção do que é selecionado. (…) O princípio da seleção é a busca do sensacional, do espetacular. A televisão convida à dramatização”

BRAVERMAN, Harry. “A gerência científica” In: Trabalho e Capital Monopolista: A Degradação do Trabalho no Século 20. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1981 “Anunciado por André Gorz no fim dos anos 1970, e desenvolvida teoricamente por importantes sociólogos e filósofos pós-marxistas como Claus Offe, Jügen Habermas e tantos outros, a tese do fim da centralidade do trabalho advogou que o trabalho vivo em sociedades capitalistas avançadas tornara-se residual como fonte de sociabilidade e criação de valor. Dessa forma, a classe trabalhadora também tenderia a ser superada pelos novos estratos sociais oriundos das atividades comunicativas e pelo avanço tecnocientífico. Se bem é verdade que, atualmente, após a entrada dos gigantescos batalhões de trabalhadores da China e da Índia no jogo do capitalismo globalizado, sem falar na Rússia e na América Latina, ninguém mais se arrisque a prever o declínio estrutural do trabalho vivo como fonte de riqueza material, igualmente é fato que o debate acerca das metamorfoses do trabalho foi sutilmente alterado na direção de outra tese, correlacionada àquela do fim da centralidade, mas não de todo idêntica a ela: a do advento da “sociedade da informação”.

ANTUNES, Ricardo; BRAGA, Ruy. “Apresentação”. In: Infoproletários – degradação real do trabalho virtual. São Paulo: Boitempo, 2009.

Evidentemente, não se pretende aqui dar conta de resumir as concepções durkheimianas, weberianas e marxistas da questão. A ideia é, acima de tudo, mostrar o quanto o trabalho – e o estudo do mundo do trabalho – estão entre as temáticas protagonistas da Sociologia. Em um texto como “A metrópole e a vida mental”, do sociólogo e ensaísta alemão Georg Simmel, o centro da análise é o homem livre, assalariado, com todos os desdobramentos sociológicos e psicossociais em seu cotidiano metropolitano na Berlim do início do século 20. Ou seja, quando os sociólogos passaram a estudar o “fenômeno urbano” eles sabiam que estavam lidando com uma organização social fundada também na divisão do trabalho em sua forma capitalista.

PensAR o TRABAlho hoJe

De tempos em tempos, em função de mudanças geopolíticas, tecnocientíficas e socioculturais no mundo, a Sociologia vê-se no dilema de rever ou reafirmar seus referenciais teóricos e metodológicos; novos objetos de pesquisa se impõem, ao passo que outros parecem ter as estruturas e sentidos modificados. O ponto final da Guerra Fria, a queda do colosso soviético e a iminência de conflitos antes sufocados pela ordem político-econômica bipolar abalaram as certezas. E os sucessivos avanços tecnológicos desde a

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A “sociedade global” e o chamado “trabalho virtual” não tiram do tema “trabalho” a sua relevância para as ciências sociais. Eles simplesmente fazem com que intelectuais e pesquisadores busquem formas de compreender o trabalho no princípio do século 21, seja na releitura dos clássicos, seja com a inserção de novas teorias e termos no vocabulário sociológico

BIBlIoTeCA funDAmenTAl Para melhor conhecer a maneira como a sociologia e as disciplinas correlacionadas lidam com o tema do trabalho, preparamos uma seleção de livros essenciais. Confira: ANTUNES, Ricardo. sentidos do trabalho – ensaios sobre a afirmação e a negação do trabalho. São Paulo: Boitempo, 2000. _________________. Adeus ao trabalho? ensaios sobre a metamorfose e a centralidade do mundo do trabalho. São Paulo: Cortez, 2010. BRAVERMAN, Harry. Trabalho e capital monopolista. Rio de Janeiro: LTC, 1987. DEJOURS, Christophe. A loucura do trabalho – estudo de psicopatologia do trabalho. São Paulo: Cortez, 2003. DURKHEIM, Emile. Da divisão do trabalho social. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2010. GORZ, Andre. metamorfoses do trabalho – Crítica da razão econômica. São Paulo: Annablume, 2003. MARX, Karl. o capital. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008. SANTANA, Marco Aurélio; RAMALHO, José Ricardo. sociologia do Trabalho. Rio de Janeiro, 2004. SENNETT, Richard. A corrosão do caráter – Consequências pessoais do trabalho no novo capitalismo. Rio de Janeiro: Record, 2004 WEBER, Marx. A ética protestante e o “espírito” do capitalismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

TV via satélite até a Internet e a robótica trouxeram em seu bojo uma série de termos-metáforas para dar conta de explicar a “sociedade global” (embora vários historiadores entendam a globalização como um processo iniciado na era das Grandes Navegações): “aldeia global”, “modernidade-mundo”, “modernidade líquida”. O sociólogo brasileiro Octavio Ianni escreveu livros bastante elucidativos sobre a temática, dentre eles Teorias da Globalização (Civilização Brasileira, 2003). Quaisquer transformações na sociedade provocam impactos também na questão do trabalho. Atualmente, a flexibilização das leis trabalhistas, a informatização dos ambientes de produção, a terceirização de serviços, como o home office, por exemplo, produzem efeitos que agem diretamente nas concepções consagradas da sociologia do trabalho. Já no final da década de 1970, as teses sobre o fim da “centralidade do trabalho” nas sociedades capitalistas avançadas obrigavam os cientistas sociais a um exame crítico teórico (veja mais no terceiro fragmento do box “Para refletir”). Os marxistas atualizaram os primados expressos pela sua literatura teórica de maior densidade e uma de suas conclusões mais instigantes pode ser encontrada no livro Infoproletários – a degradação real do trabalho virtual, organizado por dois dos maiores especialistas em trabalho no Brasil, Ruy Braga e Ricardo Antunes. A “sociedade global” e o chamado “trabalho virtual” não tiram do tema “trabalho” a sua relevância para as ciências sociais. Eles simplesmente fazem com que intelectuais e pesquisadores busquem formas de compreender o trabalho no princípio do século 21, seja na releitura dos clássicos, seja com a inserção de novas teorias e termos no vocabulário sociológico.

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Percepções

e juízos

sobre o Trabalho A história do trabalho no Brasil é comumente vista a partir de referenciais teóricos europeus, não raro repletos de estereótipos e juízos incorretos por : Luiz Guilherme Brom*

Luiz Guilherme Brom • é doutor em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo PUC-SP, mestre pela Université de Louvain (Bélgica) e diretor superintendente da Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado – FECAP. É autor do livro A crise da modernidade pela lente do trabalho (Saraiva, 2006).

A história do trabalho no Brasil é também uma história de estereótipos, de julgamentos parciais e de generalizações abusivas. Trabalho e trabalhador – não raramente – são idéias vinculadas a preconceitos e falsas classificações. Dentre as leituras recorrentes do trabalho no Brasil, destaca-se aquela que privilegia a identificação do trabalho e do trabalhador assalariado a partir de referenciais europeus. A representação teórica europeia explica, em larga medida, o quão reconstruída e desajustada é a ideia do trabalho no discurso político e na historiografia nacional. Espraiando-se pelo senso comum, as

concepções importadas sobre o trabalho humano reforçam uma atitude frente ao “outro” que ignora o contexto, as relações e as particularidades. Uma postura que transforma a diferença em hierarquia, o que é de extrema conveniência para o exercício autoritário de poder. Uma postura contrária à ideia antropológica de relativização, imprescindível para se resguardar o conhecimento das armadilhas e ciladas do etnocentrismo, na definição de Roberto DaMatta. A relativização propõe a abertura do campo de conhecimento a outras possibilidades explicativas, não raro opostas e

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Por Luiz Guilherme Brom *

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A história do trabalho no Brasil é também uma história de estereótipos, de julgamentos parciais e de generalizações abusivas. Trabalho e trabalhador – não raramente – são ideias vinculadas a preconceitos e falsas classificações. Dentre as leituras recorrentes do trabalho no Brasil, destaca-se aquela que privilegia a identificação do trabalho e do trabalhador assalariado a partir de referenciais europeus. A representação teórica europeia explica, em larga medida, o quão reconstruída e desajustada é a ideia do trabalho no discurso político e na historiografia nacional

conflitantes, complexificando o debate e, justamente por isso, tornando-o mais fecundo e refinado. Em suma, relativizar é oferecer voz e vez ao outro, é considerar que a verdade do conhecimento está mais no olhar do que propriamente no objeto olhado. De observador para observador, a verdade enxergada também pode variar. Relativizar, todavia, não é tarefa que se executa sem dificuldade: o sistema de idéias culturalmente inscrito em cada ser humano tende a resistir bravamente às teorias hostis ou aos argumentos contrários, como lembra Edgar Morin. Assim foi que, originalmente pela janela teórica da cultura europeia, o mundo do trabalho no Brasil ganhou sua ordem, pelas definições do que é trabalho e do que não é trabalho, de onde se trabalha e de onde não se trabalha, de quem trabalha e de quem não trabalha, de quando se trabalha e de quando não se trabalha. O assalariamento, obviamente, orienta-se e justifica-se pelas mesmas concepções: assim, se o espaço domiciliar não é considerado local de trabalho, logo, nenhuma atividade exercida naquele lugar deve ser remunerada,

mesmo que na realidade ali se trabalhe duramente. Julgando, classificando e segregando, a mentalidade guiada por interesses políticos e econômicos põe então cada qual em seu devido lugar no campo do trabalho ao longo da história. Uma história de mal-entendidos, tão velha quanto o próprio País: já no descobrimento, confrontado com a insólita cultura indígena, o colonizador branco arbitrou a interpretação, respaldado, é claro, em suas próprias convicções morais e culturais. Pois, de tão elevada, a diferença tornava-se inassimilável: como reconhecer a atividade laboral numa sociedade (indígena) que não estabelecia clara divisão entre trabalho e outras atividades, tais como recreação e lazer? Pelo olhar do colonizador europeu, o modus vivendi indígena não deixava dúvidas, como diz Gambini (DIAS; GAMBINI, 1999, p.20): “quando o homem branco chega, ele diz que o índio é preguiçoso”. Do descobrimento até os dias de hoje, os equívocos decorrentes da visão inescrupulosa se fazem notar ao longo de todo o percurso, permeando inclusive a

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historiografia nacional. As noções de trabalho e de trabalhador, de onde e quando se trabalha, foram assim sendo forjadas: originalmente decorrentes de inadequadas concepções estrangeiras, foram ainda mais apuradas pela invencionice da estreiteza mental de uma elite interesseira e preconceituosa. As noções conectadas à ideia do trabalho adquirem então grande função utilitária para as estruturas autoritárias de exercício de poder, permitindo a inclusão e a exclusão de pessoas conforme a lógica do interesse patronal, bem como justificando a exploração generalizada do trabalhador por meio de uma baixa ou às vezes nenhuma remuneração. Na formação das representações mentais do trabalho, o período escravagista foi, sem dúvida, particularmente fértil, determinante mesmo para a cristalização destes conceitos no imaginário social brasileiro. A escravidão consolidou, até o século 19, o que na visão patronal se compreendia e se concebia como trabalho: uma atividade pesada, de rígida disciplina e desacompanhada de direitos

para o trabalhador. O labor escravo é, de fato, o arquétipo do trabalho na sociedade tradicional brasileira, que ainda hoje compartilha o território nacional com bolsões de modernidade precária. Paradigma não só para os cativos, pois a esse modelo devia submeter-se também a minoria de trabalhadores livres e remunerados. Na economia fundada no escravagismo eram apenas dois os atores ligados à produção: o senhor e o escravo. Caio Prado Jr. lembra que quem não era escravo ou senhor era elemento desajustado. Aquele que não se ajustava ao degradante sistema de trabalho proposto era automaticamente classificado como vadio e imprestável. Era a corja de inúteis – essencialmente composta de mestiços, índios e negros livres – que vagava por campos e cidades, vivendo da “mão para a boca” através de biscates, à qual se refere Lúcio Kowarick. A repulsa brasileira ao trabalho, sobretudo àquele que ocupa os braços, tem, portanto, como referência o trabalho aviltante. É curioso lembrar que se tentou impor – sem sucesso – o desuma-

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A Economia Cafeeira no Brasil exigia um grande contingente de mão-de-obra cujo trabalho braçal foi estigmatizado.

no sistema produtivo às primeiras levas de colonos europeus que aqui vieram abastecer de mão de obra a economia do café. A ampla rejeição dos trabalhadores europeus ao sistema degradante não foi, todavia, suficiente para que ganhassem a pecha de vagabundos. Bem ao contrário, no Brasil se imagina serem eles ardorosos e exemplares trabalhadores, em contraponto ao caráter indolente que com frequência se atribui aos humildes equivalentes nacionais (índios, negros e mestiços). Dessa forma, um mesmo fato nas relações de trabalho – a rejeição ao tratamento desumano – tem significados bastante distintos conforme a origem étnica dos envolvidos. A discriminação racial, e suas várias medidas para diferentes pesos, desde sempre se firmou como um critério maior na classificação de pessoas no universo do trabalho. O trabalho braçal, de qualquer modo, ficou profundamente estigmatizado no imaginário social brasileiro como sendo tarefa de gente grosseira, geralmente reservada a negros, mestiços e pobres em geral. Em oposição ao trabalho manual, disciplinado e regular, a elite brasileira reservava para si as nobres tarefas da

inteligência, ainda que neste caso não significasse “amor ao pensamento especulativo... mas amor à frase sonora, ao verbo espontâneo e abundante, à erudição ostentosa”, como diz Holanda (1995, p.83). Ou seja, uma atividade intelectual mais voltada para a aparência do que para o conhecimento. Quem trabalha, onde se trabalha?

A julgar pela grande narrativa, portanto, a população economicamente ativa do período colonial era composta por aqueles diretamente envolvidos na produção dos ciclos econômicos que pontuaram a história do País. Ao contemplar mais de perto o Brasil daqueles tempos, entretanto, no dia a dia de seus habitantes, outro mundo de trabalho se vislumbra, do qual fazem parte homens, mulheres, negros, mestiços, índios e até senhores brancos. Algranti (1997), referindo-se ao Brasil colonial, lembra que a ideia tão difundida de uma vida entregue inteiramente ao ócio era privilégio de ínfima minoria de ricos senhores. O cotidiano da colônia indica que a luta pela sobrevivência em lugar tão

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Do descobrimento até os dias de hoje, os equívocos decorrentes da visão inescrupulosa se fazem notar ao longo de todo o percurso, permeando inclusive a historiografia nacional. As noções de trabalho e de trabalhador, de onde e quando se trabalha, foram assim sendo forjadas: originalmente decorrentes de inadequadas concepções estrangeiras, foram ainda mais apuradas pela invencionice da estreiteza mental de uma elite interesseira e preconceituosa. As noções conectadas à ideia do trabalho adquirem então grande função utilitária para as estruturas autoritárias de exercício de poder, permitindo a inclusão e a exclusão de pessoas conforme a lógica do interesse patronal, bem como justificando a exploração generalizada do trabalhador por meio de uma baixa ou às vezes nenhuma remuneração

precário impunha muito esforço físico, inclusive de muitos brancos proprietários e que a tal corja de inúteis e desocupados poderia não ser tão inútil e nem tão desocupada. A insuficiência do comércio e do abastecimento num País rudimentar como o Brasil colonial exigia de todos uma intensa atividade laboral no âmbito doméstico e privado, fosse no meio rural ou na cidade. O menosprezo pelo trabalho manual, como ressalta a autora, encontra forte ressonância também na historiografia nacional, ao ignorar a árdua labuta presente na vida cotidiana dos brasileiros daqueles tempos. É justamente nessa esfera privada, nesse ambiente caseiro, visto como um mundo de não trabalho pela narrativa histórica, que tudo se fazia: para além dos serviços de limpeza e asseio, todos os itens de alimentação, vestuário, construção, ferramentas, móveis e utensílios. Era nessa verdadeira indústria caseira que se fazia a farinha, os doces, a fiação do algodão, a tecelagem, as esteiras, a cestaria, as redes, o sabão, o curtume, as ferramentas, as cerâmicas e os utensílios mais variados. Não se tratava de opção: ou se atingia a autossuficiência, ou se passava necessidade. O trabalho

doméstico tinha então um significado vital. Desse modo, e desde aqueles tempos, todo um mundo de trabalho e de trabalhadores fica dissimulado, ocultado e desconhecido. Se o regime escravagista acabou, as concepções por ele legadas continuam bem vivas no imaginário nacional. As ideias sobre autoridade do patrão, obediência do trabalhador, local de trabalho, gente vadia e lugar de mulher são bastante presentes. Não raramente afloram, sobretudo, no tratamento dispensado aos trabalhadores braçais – sempre eles – que compõem a grande maioria da população ativa nacional. O trabalho manual ficou definitivamente marcado como indigno e o trabalhador deste tipo como desprezível. Da mesma forma, o trabalho oculto na esfera privada ficou taxado de não trabalho, portanto não merecedor de qualquer consideração. Muitas vezes, nem mesmo de remuneração. Mas, não bastasse a nefasta herança do regime escravagista, o advento da industrialização e da urbanização do País ao longo do século 20 pouco efeito surtiu na alteração deste elenco de percepções. Ao contrário, em muitos casos, até reforçou as generali-

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zações descabidas e as imagens estereotipadas acerca do trabalho. No Brasil dos primórdios do século 21, o ideal de trabalho é ainda representado no discurso oficial, na imprensa e até em larga parcela da academia como do tipo estatutário, exercido por homens, na esfera pública e em segmentos econômicos considerados relevantes, ainda com certo destaque para a indústria (em que pesem todas as evidências de sua decadência como atividade empregadora). Assim como no século 19, quando se associava trabalho e trabalhador ao setor cafeeiro, desprezando-se todo o restante. Por outro lado, se é verdade que o domicílio contemporâneo é bem diferente daquele da colônia, não é menos verdadeiro que continue a ser um local de intenso exercício laboral. Apenas muito recentemente, devido à Constituição de 1988, os trabalhadores domésticos ganharam reconhecimento estatutário e tiveram direitos assegurados. Assim mesmo, um estatuto de segunda linha quando comparado aos direitos adquiridos por todas as outras categorias profissionais. No Brasil de hoje, como no de ontem, os trabalhadores dividem-se entre reconhecidos e não reconhecidos. A geografia do que é reconhecido como mundo do trabalho é composta de centro e periferia, com os trabalhos estatutários e conectados às atividades importantes da economia, no centro; com os trabalhos inferiores, típicos da rua, dos trabalhadores avulsos, dos que atuam por conta própria, dos prestadores ocasionais de serviços, na periferia. Os primeiros encontram-se sob proteção legal, alvo de políticas públicas de incentivos fiscais, aparecem em abundância nas estatísticas e na imprensa. Os demais merecem apenas atenções episódicas e suas relações com o Estado quase que se resumem aos contatos com a polícia. O avesso do mundo do trabalho é o que se pressupõe como mundo do não trabalho. É, portanto, nesse outro universo que se localiza – desde sempre na sociedade brasileira – o trabalho doméstico, em maior número exercido por mulheres, mas também por crianças e idosos. Este outro mundo passa a mesma impressão que o descobridor português experimentou em seu encontro com o índio: não há trabalho nesse mundo, pois nada do que ali se faz parece com trabalho. Em que pese a enorme importância econômica do emprego doméstico no País, as empregadas (maioria de mulheres) deste segmento vivem o paradoxo, conforme lembra DaMatta

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Ontem e hoje a divisão dos trabalhadores é entre reconhecidos e não reconhecidos.

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No Brasil de hoje, como no de ontem, os trabalhadores dividem-se entre reconhecidos e não reconhecidos. A geografia do que é reconhecido como mundo do trabalho é composta de centro e periferia, com os trabalhos estatutários e conectados às atividades importantes da economia, no centro; com os trabalhos inferiores, típicos da rua, dos trabalhadores avulsos, dos que atuam por conta própria, dos prestadores ocasionais de serviços, na periferia. Os primeiros encontram-se sob proteção legal, alvo de políticas públicas de incentivos fiscais, aparecem em abundância nas estatísticas e na imprensa. Os demais merecem apenas atenções episódicas e suas relações com o Estado quase que se resumem aos contatos com a polícia

(1984, p.92), “são pessoas que, vivendo na casa de seus patrões, realizam aquilo que, em casa, está banido por definição, ou seja, o trabalho.” Ultrapassando em muito a fronteira dos serviços meramente ligados a casa (limpeza, asseio, preparo de refeições...), no cotidiano dos domicílios brasileiros percebe-se facilmente toda uma vasta gama de atividades produtivas de natureza mercantil, sobretudo nesses tempos de alto desemprego masculino. Das mulheres, que desde há muito fazem confecções e alimentos destinados à venda (quituteiras, doceiras, costureiras, etc.) aos profissionais liberais, de qualificação superior, que hoje atuam em casa (até se inventou o nome de home office ao local mais sofisticado de trabalho domiciliar, para distingui-lo da pejorativa ideia de ocupação doméstica tradicional). Mas o imaginário continua a negar a residência como espaço

de trabalho, por mais que as evidências do dia a dia apontem no sentido contrário. Deste modo, a existência do trabalho é contestada em todas as circunstâncias em que se distancia do modelo imaginado, seja na esfera privada, seja na esfera pública. E o que é mais constrangedor, até mesmo no meio acadêmico. Hirata (1998), criticando a oposição conceitual no eixo norte-sul, alerta com veemência que trabalho não assalariado, não remunerado e não estatutário tão majoritário nos países subdesenvolvidos, sequer é incluído na categoria trabalho por muitos pesquisadores do primeiro mundo. Mais uma vez, comete-se o pecado etnocêntrico: em países ricos, trabalho ainda é sinônimo de emprego, o que há muito tempo deixou de ser verdade – se é que um dia foi – em países pobres.

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noTA Do AuToR O trabalho manual e o escravagismo são aqui tratados no contexto específico do Brasil, o que não significa serem fenômenos exclusivamente brasileiros. Na antiguidade grega, a instituição da escravidão também era defendida, porém com outro sentido e justificativa, segundo Arendt (1983, p.95) : “Ao contrário do que ocorreu nos tempos modernos, a instituição da escravidão na antiguidade não foi uma forma de obter mão de obra barata nem instrumento de exploração para fins de lucro, mas sim a tentativa de excluir o labor das condições da vida humana”. Ou seja, o trabalho manual era escravizado pelas necessidades da vida, para que outros homens atingissem a liberdade. No sentido do atendimento das necessidades da vida, escravos,

REFERÊNCIAS alGranTi, leila m. “Trabalho e atividades no interior do domicílio”. in: noVais, Fernando; souZa, laura de mello e (org.). história da vida privada no Brasil: cotidiano e vida privada na América Portuguesa. são Paulo: companhia das letras, 1997. v.1, p. 142-154. arendT, Hanna; A condição humana. rio de Janeiro: Forense-universitária, 1983. arisTÓTeles. A Política, 4ª ed. são Paulo: atena, 1955. damaTTa, roberto. o que faz o Brasil, Brasil? rio de Janeiro: rocco, 1984. dias, lucy; GamBini, roberto. outros 500: uma conversa sobre a alma brasileira. são Paulo: editora senac, 1999.

camponeses e animais domésticos cumpriam a mesma função, conforme Aristóteles em “A Política” (1955).

eXeRCÍCIo PRÁTICo Um exercício interessante com os alunos consiste num trabalho de coleta de depoimentos sobre a história de trabalhadores da família, amigos, vizinhos etc. Método típico da história, o relato oral ou por escrito de homens e mulheres de diferentes faixas etárias, pode resultar em comparações instigantes sobre a história do trabalho e dos trabalhadores no Brasil. Os alunos devem ser, portanto, estimulados a relacionarem a literatura sociológica, proposta pelo professor, com os casos concretos levantados nesses depoimentos, que serviriam tanto como trabalho escrito para avaliação como para um debate sobre a realidade do trabalho no Brasil em diferentes épocas.

Outra ideia recorrente nos dias atuais, inclusive através dos grandes veículos de comunicação de massa, é a de que o mercado de trabalho só pode ser assim: um espaço de concorrência entre trabalhadores, que disputam ofertas reduzidas de trabalho, num jogo de regras mutantes e exigências variadas, que naturalmente produz ganhadores e perdedores. Ganhar e perder são decorrências inquestionáveis de uma realidade que não é apresentada como fruto da intervenção humana: as coisas são como são na ordem em que são dadas, o que tornam inócuas as críticas e considerações. Não se estabelece, nesta visão tão difundida, qualquer relação entre o sucesso de uns e o infortúnio de outros; nem atenção ao fato de que exigir competição entre desiguais é ganhar ou perder por antecipação, dependendo das condições de cada um.

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