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negóciosustentável Entrevista

Fundador do Grupo Eco, Davis de Luna Tenório, mostra o caminho do lucro com consciência Vale ouro

O temido lixo eletrônico passa a fazer parte da mesa de debate das principais empresas brasileiras MARCA REGISTRADA

Certificação ambiental de produtos e serviços ajuda consumidores na hora da compra

Uma questão DE

Saiba como implantar de maneira definitiva os conceitos de sustentabilidade em sua empresa

ra z

Empresa verde 10 dicas para ter um escritório sustentável negóciosustentável | 1


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Entrevista | visão

Oportunidades verdes e ecológicas

“O

s executivos deveriam se preocupar com a compra de brindes sustentáveis, porque o retorno da ação promocional e a lembrança de marca serão bem maiores para suas empresas”. Essa é a opinião do administrador alagoano Davis de Luna Tenório, um dos fundadores do Grupo Eco. Por Marcelo Galli

A empresa, cuja base é São Paulo, oferece serviços e produtos sustentáveis, como brindes corporativos, para clientes do quilate da Vivo, Globo, Pirelli e Itaú, e vende produtos da Amazônia e flores tropicais por meio de uma loja especializada para todo o Brasil e ao exterior. A empresa deve faturar cerca R$ 5 milhões neste ano, o que representa um crescimento de 20% em relação a 2009. O empresário disse nessa conversa que a crise do final de 2008 afetou os negócios da empresa, que teve de adiar investimentos e reduzir custos. Porém, durante o difícil período, a implantação de novas ideias, como o e-commerce, que surgiu como alternativa para viabilizar a venda de produtos sustentáveis, ajudou o grupo a driblar a turbulência financeira e a desaceleração econômica. “Para este ano, estamos otimistas com o aquecimento da economia e a retomada dos negócios, sobretudo com grandes eventos como a Copa do Mundo e Olimpíada”, prevê.

8 | negóciosustentável

Para aproveitar o boom da sustentabilidade, empresas precisam realmente acreditar que é possível realizar negócios com lucro, equidade social e conservação ambiental, afirma Davis de Luna Tenório, fundador do Grupo Eco Negócio Sustentável (NS) – Na sua opinião, quais são as perspectivas e tendências para negócios sustentáveis no Brasil durante os próximos anos? Davis de Luna Tenório (DLT) – É de crescimento contínuo, pois temos notado que o tema da sustentabilidade está sendo definitivamente incorporado nas estratégias dos negócios. Os empresários estão atentos às vantagens de se reduzir custos e aumentar as inovações em produtos e serviços, e, com isso, criar diferenciais e aumentar as vendas. Nós acreditamos que a sustentabilidade é um caminho sem volta e, ao mesmo tempo, um caminho sem fim.

NS – O Brasil está aproveitando inteligentemente o potencial da Amazônia para desenvolver produtos sustentáveis? Se falta alguma coisa, o que seria? DLT – Várias empresas e ONGs atuam de forma séria na Amazônia, que é uma região muito rica em recursos naturais e, ao mesmo tempo, muito pobre socialmente. Encontrar o equilíbrio na geração e duração dos negócios é o grande desafio.

NS – Você acredita que esses negócios com a marca Amazônia têm ajudado às pessoas que moram naquela região ou só favorece mesmo as empresas? DLT – Muitas comunidades e cooperativas têm sido beneficiadas pela geração de negócios em parceria com empresas. Entretanto, o mais importante é garan-


neg贸ciosustent谩vel | 9


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Entrevista | visão

Leis, políticas públicas e parcerias público-privadas precisam entrar na agenda definitivamente, com uma participação maior dos políticos e dos eleitores” tir a continuidade desses projetos, para que tenham viabilidade econômica e se autossustentem financeiramente.

NS – O que uma empresa deve fazer para se certificar de que a compra de brindes sustentáveis seja realmente benéfica para a comunidade que o produz? DLT – Procurar selos verdes, como o do Conselho de Manejo Florestal (FSC), que garante a origem legal da madeira e as condições adequadas para os trabalhadores; procurar saber se a empresa que faz a ponte trabalha com os princípios do comércio justo, pagando preços corretos pelos produtos, por exemplo.

sa para contratar um serviço? Eles estão realmente interessados na “preservação da biodiversidade e o uso racional dos recursos naturais renováveis” ou é só, como diz o senso comum, papo? DLT – As empresas encontram em nossos produtos e serviços várias possibilidades para alinhar os seus projetos, atividades e ações com a prática da sustentabilidade. Temos notado que a maioria das empresas tem realmente buscado isto de uma forma alinhada com suas estratégias de negócios.

de, qual seria a sua dica? Quero dizer, qual seria “o pulo do gato” para pensar os negócios sob o ponto de vista sustentável e de proteção da natureza? DLT – Acredito que não pode existir demagogia. Essa crença tem que fazer parte dos seus valores. Você precisa realmente acreditar que é possível realizar negócios com lucro, equidade social e conservação ambiental.

NS – Quais são suas dicas para ajudar executivos que queiram comprar um brinde ou definir eventos sustentáveis? DLT – A dica é procurar se informar sobre a disponibilidade de materiais, produtos e serviços menos agressivos ao meio ambiente e com maior benefício social. Ter ideia de que é realmente possível criar diferenciais para a marca a partir de critérios sustentáveis e procurar fornecedores sérios e com experiência no assunto.

NS – Na sua opinião, por que um executivo deveria

NS – Em relação a tendências sobre brindes sustentá-

NS – Para quem quer entrar nessa onda de sustentabilida-

se preocupar com a compra de brindes sustentáveis? Quais são os benefícios reais e o reflexo nos negócios da empresa? DLT – Porque o retorno da ação promocional e a lembrança de marca serão bem maiores. O cliente criará um vínculo maior com a empresa, que demonstra, na prática, preocupações e atitudes em prol do bem-estar social e do meio ambiente.

veis, como vem sendo feito isso na Europa ou nos EUA?

DLT – Acredito que na Europa e nos EUA exista um movimento muito forte para a área de varejo, com a venda de produtos sustentáveis. Para a área de brindes, também já existem empresas especializadas, com ótimos produtos. Inclusive, importamos da Alemanha alguns modelos de caneta e lápis elaborados em madeira certificada pelo FSC.

NS – Você poderia citar algumas empresas que tenham

NS – Em relação ao tema, o que você acha que os bra-

desenvolvido brindes interessantes e que geram a autossustentação econômica das comunidades? DLT – Pelo alto volume de produtos comercializados, podemos citar Gafisa, Banco Real Santander, Natura, GRSA, Liberty Seguros, BicBanco, Philips, Roche e HSM, entre outras.

sileiros podem ensinar para os vizinhos do Mercosul e eles para nós? DLT – O Brasil tem se destacado internacionalmente pelo seu pioneirismo em iniciativas e projetos sustentáveis. Ainda temos um longo caminho a percorrer e acredito que a troca de informações entre os países do Mercosul pode contribuir bastante com este aprendizado, pois cada país pode se destacar em temas específicos.

NS – O que mais os clientes do Grupo Eco pedem? Qual é a principal demanda deles quando chegam até a empre-


empresa para este ano? Já tem alguma previsão de faturamento? DLT – Nós planejamos atingir um faturamento próximo de R$ 5 milhões, o que representa um crescimento de 20% em relação ao ano passado.

derando que isso ainda é algo para poucos, nas grandes cidades, etc. DLT – Pesquisas recentes mostram que o consumidor brasileiro é extremamente participativo. Claro que estamos no início desse processo e ainda há um longo caminho a percorrer.

NS – Quais são os planos de expansão do Grupo Eco?

NS – Nas eleições deste ano, a questão do crescimento

NS – Quais são as perspectivas de negócios da sua

Estuda abrir lojas em outros países além dos EUA? DLT – Nós pretendemos incrementar as receitas das vendas dos brindes e presentes corporativos, do nosso e-commerce (www.compresustentavel.com.br), além de ampliar nossa carteira de clientes por meio do nosso Núcleo de Branding Sustentável. Nos Estados Unidos, temos a operação da Sustainable Amazon, nossa empresa que comercializa produtos sustentáveis inspirados na biodiversidade amazônica por intermédio de representantes locais.

NS – Atualmente, quais são os principais mercados da empresa no Brasil? Como se dá essa distribuição por região? DLT – No Brasil, temos uma concentração de mais de 60% dos negócios na região de São Paulo e Rio de Janeiro. Outras regiões que estão crescendo bastante em vendas são Belo Horizonte, Brasília, Porto Alegre e Salvador.

NS – A crise afetou os negócios da sua empresa? Quais foram as saídas encontradas pela Eco para driblar a turbulência financeira e a desaceleração econômica? DLT – Tivemos uma queda significante nos negócios no ano passado, que na verdade se iniciou no final de 2008. O primeiro semestre de 2009 foi muito retraído e no segundo semestre houve uma leve recuperação. Tivemos que reduzir custos e adiar alguns investimentos. Também implementamos novas ideias, como o e-commerce, que surgiu como uma alternativa para viabilizar a venda de produtos sustentáveis e deve crescer bastante em 2010. Para este ano, estamos muito otimistas com o aquecimento da economia e retomada nos negócios, sobretudo com grandes eventos, como Copa do Mundo e Olimpíada.

econômico e proteção do meio ambiente será muito discutida e importante, até porque uma das candidatas defende a causa e é atuante ambientalista (Marina Silva). Você acredita que desta vez o discurso de sustentabilidade entra de vez na agenda dos partidos e políticos, não importando a orientação ideológica? DLT – Sim, o tema da sustentabilidade precisa ser discutido, difundido e ampliado inclusive na política. Leis, políticas públicas e parcerias público-privadas precisam entrar na agenda definitivamente, com uma participação maior dos políticos e dos eleitores.

NS – Você não acha que falta o setor governamental (em todas as esferas) abraçar realmente a causa da sustentabilidade? O que vejo é uma ação aqui e ali... DLT – Seguramente. As eleições estão aí e serão uma ótima oportunidade para isso.

O Brasil tem se destacado internacionalmente pelo seu pioneirismo em iniciativas e projetos sustentáveis”

NS – Você acredita que a moda do consumo verde pegou no Brasil? Ou a realidade e os números ainda estão distantes? Consinegóciosustentável | 11


Aperitivo V i t r i n e S u s t e n táv e l Nova linha de crédito A Agência de Fomento Paulista – Nossa Caixa Desenvolvimento lançou em março a Linha Economia Verde. Com o objetivo de financiar projetos do setor produtivo que proporcionem a redução de emissões de gases de efeito estufa no meio ambiente, a linha é destinada a pequenas e médias empresas,

Da chuva para bolsa

localizadas no Estado de São Paulo, com faturamento anual entre R$ 240 mil e R$ 100

As ecobags do Atelier Gata Canjica

milhões. A taxa de juros é de 6% ao ano, corrigido pelo IPC-FIPE, o prazo é de até 5 anos

(gatacanjica.blogspot.com) são feitas de

para o pagamento, com até 1 ano de carência e financiamento de 100% do projeto.

algodão cru, sem tingimento. O seu diferencial fica por conta das estampas: os clientes escolhem os desenhos, que são feitos com tecidos de guarda-chuvas quebrados doados

Consciência fashion

ao ateliê. As armações são entregues a catadores ambulantes de material reciclado.

As bolsas retornáveis da Bag for Life (www.

Papelão resistente

bagforlife.com.br) são

Os móveis da 100T (www.100t.com.br) são feitos de

confeccionadas com

papelão reciclável, de madeira certificada, sendo 100%

algodão, couro vegetal

de reflorestamento. Fáceis de montar e resistentes (a

(látex natural), fibras de

cadeira para adulto suporta até 120 kg), as peças ainda

bananeira e tecido de fibras

podem ser impressas, pintadas e adesivadas. Também

de garrafas pet recicladas.

possui uma linha infantil.

Parte dos lucros obtidos com a venda das bolsas é utilizado para apoiar projeto

Formação específica

ligado à conservação e à

Com a procura cada vez maior das corporações

educação ambiental.

por profissionais com formação na área de sustentabilidade, o Grupo Ibmec Educacional – formado por Veris Faculdades e Faculdades Ibmec

Bienal 2010

– fechou parceria com a empresa espanhola

No segundo semestre

com pesquisa recente da própria M&E, o Brasil

do ano, Curitiba também

é o país que mais se preocupa com o tema na

será o palco da terceira

América Latina. Segundo o gerente de Soluções

edição da Bienal Brasileira

Corporativas do Ibmec/RJ, Eduardo Pitombo,

de Design, que terá como

os cursos, inicialmente voltados apenas para

temática design, inovação

clientes corporativos, poderão ser customizados

e sustentabilidade. Além

e realizados no método presencial ou à distância,

de mostrar exemplos

em todo o país. Líder em auditoria, pesquisa

de design sustentável, a

e ratings nas áreas de sustentabilidade, ética,

bienal tem como objetivo

transparência e responsabilidade social, a M&E

incentivar reflexões sobre

é especializada no setor financeiro na América

o tema.

Latina.

Management & Excellence (M&E) para oferecer cursos focados nesse segmento. De acordo

fotos divulgação

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Ceamazon Em abril, a Eletrobras e a Universidade Federal do Pará (UFPA) inauguraram o Ceamazon (Centro de Excelência em Eficiência Energética da Amazônia), em Belém. A ação faz parte do Procel Programa Nacional de Conservação

Netbook ecológico

de Energia Elétrica (Procel). O

Está disponível no Brasil o

objetivo do centro, que começou

novo netbook da Sony (www.

a ser construído em 2006, é

sony.com.br/vaioeco), o VAIO W ECO

estimular pesquisas na área de

(VPC-W210AB/WI). Entre algumas de suas

eficiência energética e incentivar

características, 80% das peças plásticas são

a capacitação de profissionais

feitas com material reciclado, a partir de CDs e DVDs

na prática de conservação de

descartados, e seu manual de instruções é eletrônico, o

energia, contribuindo para o

que resulta em uma redução de 70% no uso de papel.

Educação, subprograma do

desenvolvimento tecnológico e econômico da região Norte. Com investimento de R$ 3 milhões, o Ceamazon é o segundo centro nacional de pesquisa em eficiência energética apoiado pela Eletrobras/ Procel. O primeiro a receber estímulo foi o Centro de Excelência em Eficiência Energética (Excen), localizado na Universidade Federal de Itajubá (Unifei), em Minas Gerais.

Acessório sustentável As pets também estão nas almofadas da Pino (www.pinopino.com.br). Elas utilizam tecido feito a partir dessas garrafas, que são lavadas, esterilizadas e transformadas em fios. As suas estampas são impressas em processo digital com tinta à base d’água, não tóxica. Além disso, podem ser lavadas sem desbotar.

Academia mais competitiva A sustentabilidade chegou às academias. A Ecofit, inaugurada em 2005 em São Paulo, obedece a critérios ambientais em sua arquitetura, gestão e funcionamento. Entre outras características, o edifício foi construído com materiais reciclados, as janelas de vidro aproveitam a luz solar e toda a madeira utilizada é certificada ou de demolição. No caso das certificadas, elas possuem origem comprovada em áreas de reflorestamento. Um sistema de tanques faz o aproveitamento da água da chuva para a limpeza dos pisos e a descarga dos banheiros. Com a economia obtida, o custo operacional fixo da Ecofit é 4% menor do que em uma academia convencional. Dessa forma, são cobradas mensalidades até 30% abaixo da média do setor, o que torna a empresa mais competitiva.

negóciosustentável | 13


Brasil | Modelo

Hora do engajamento Ação é considerada estratégica e fundamental para as empresas interessadas em fortalecer suas relações e negócios Por Luciana Kobayashi

A

s corporações que almejam o desenvolvimento contínuo têm conhecimento da importância de estabelecer diálogos permanentes com todos os seus públicos, ou seja, seus stakeholders: cidadãos (como funcionários, comunidade, etc.), empresas (como clientes, fornecedores, etc.) ou organizações (como ONGs ou até o governo) com os quais a companhia se relaciona, tendo poder de impactá-los ou de ser impactada por eles. Nesse contexto, esse engajamento é considerado fundamental para o desenvolvimento e a continuidade de processos e estratégias da companhia, já que o aval e as opiniões dessas pessoas podem impactar enormemente os negócios.

shutterstock

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O engajamento de stakeholders consiste, basicamente, no reconhecimento e na criação de um compromisso com responsabilidade e transparência junto aos públicos de interesse sobre os impactos das políticas, decisões, ações, produtos e desempenho a eles associados, conforme diz a Norma AA1000. Essa estratégia de engajamento surge com o envolvimento das partes interessadas na identificação e compreensão de assuntos e preocupações sobre sustentabilidade. Além de escutar e envolver seus stakeholders, é essencial que a organização relate, explique e


No caminho certo Dois cases de empresas que realizaram ações de engajamento de stakeholders definem muito bem esse trabalho. A Serasa Experian, parte do grupo Experian, é um desses exemplos. Ela detém o mais extenso banco de dados da América Latina sobre consumidores, empresas e grupos econômicos. O engajamento de stakeholders era realizado na empresa há alguns anos, mas começou a ser feito de forma mais estruturada a partir de 2005 em virtude do Relatório de Sustentabilidade.

O que é a Norma AA 1000? A norma AA1000 foi desenvolvida pelo Institute of Social and Ethical AccountAbility (ISEA), organização não governamental com sede em Londres, e tem como pontochave a priorização dos pontos críticos da gestão de uma companhia por meio do engajamento das partes interessadas. O módulo AA1000 SES – Stakeholder Engagement Standard, lançado em 2005 pela AccountAbility, traz uma série de considerações práticas sobre engajamento das partes interessadas e formata um modo de diálogo propriamente dito.

“Um dos nossos objetivos principais com esse projeto foi o de antecipar demandas que os stakeholders têm em relação à nossa empresa” fotos divulgação

coloque-se disponível para responder sobre suas decisões, suas ações e seu desempenho. Para que uma organização afirme o compromisso que possui com seus públicos, é possível apontar três premissas básicas, tendo como base a Norma AA1000, que é uma espécie de guia de engajamento: • Assumir uma estratégia de negócio baseada na compreensão e na resposta abrangente e equilibrada em relação aos assuntos relevantes e às preocupações dos stake­holders; • Estabelecer objetivos e processos para gerir e avaliar a estratégia e o correspondente desempenho; • Divulgar informações críveis em relação a estratégias, objetivos, normas e desempenho àqueles que baseiam suas ações e decisões nessas mesmas informações. Muitas empresas devem se perguntar como podem identificar os seus stakeholders. Esse processo de identificação deve partir do mapeamento dos públicos que mais impactam e são impactados pela empresa, tendo em mente uma visão de longo prazo. É importante que profissionais de diferentes áreas sejam envolvidos nesse mapeamento, pois diversas áreas podem ter diferentes stakeholders.

Fonte: Compêndio para a sustentabilidade, 1ª edição – São Paulo/SP, 2007

Gerente corporativo de sustentabilidade da América Latina da Serasa Experian, Tomás Carmona

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Brasil | Modelo

Benefícios O engajamento é capaz de prover diversos benefícios às corporações. Entre eles: • Identificação das percepções e expectativas reais dos stakeholders; • Compreensão abrangente dos impactos, riscos e oportunidades de melhoria (de processos internos e de tomadas de decisão); • Aproximação junto às partes interessadas, construindo e consolidando uma imagem de confiança e respeito pela empresa; • Mobilização de públicos para o alcance dos objetivos e estratégias da empresa (junto ao desenvolvimento sustentável).

Em março de 2009, a companhia iniciou um novo projeto de engajamento, com o suporte da consultoria Apoena Sustentável, a fim de investir no desenvolvimento de relacionamentos mais profundos com alguns públicos de interesse e fazer um diagnóstico para identificar processos que pudessem ser melhorados, tanto para a empresa como para o público envolvido. “Um dos nossos objetivos principais com esse projeto foi o de antecipar demandas que os stakeholders têm em relação à nossa empresa”, explica o gerente corporativo de sustentabilidade da América Latina da Serasa Experian, Tomás Carmona. Os grupos escolhidos para participar do engajamento foram: público interno, funcionários terceirizados, fornecedores institucionais (companhias que fornecem informações para a base de dados da empresa) e órgão representante dos cidadãos. Para a formulação do projeto, a Apoena utilizou as bases da metodologia AA1000. Algumas das atividades realizadas foram: • Realização de entrevistas com responsáveis por cada público envolvido para definir quais temas deveriam ser discutidos e identificar a melhor forma de engajamento e comunicação com cada público; • Estruturação e aplicação de uma pesquisa com cada um dos públicos envolvidos e com a diretoria, a fim de analisar e comparar suas percepções acerca de assuntos relacionados à sustentabilidade; • Realização de dinâmicas de grupo e pequisa em profundidade; • Análise das informações coletadas e dos resultados de todo o processo e apresentação dos resultados para o comitê de sustentabilidade.

Desafios e ganhos Em relação aos desafios, Carmona aponta: “O maior deles é a disponibilidade de tempo necessária para esse processo, tanto por parte da empresa quanto dos stakeholders, pois é preciso fazer trabalhos presenciais ou virtuais e consultas. Outro aspecto é o tempo de resposta, porque, a partir do momento que temos as informações, precisamos dar um retorno aos nossos públicos”. 16 | negóciosustentável

Se há desafios, existem também muitos ganhos. “Eles são de longo prazo. Há fortalecimento das relações, a empresa coloca-se mais transparente e mais aberta ao diálogo, evita questões ligadas à insatisfação, prepara-se para atuar e sabe os pontos nos quais precisa trabalhar”, destaca o gerente. Mas esse é um processo contínuo. “Entre outros fatores, as demandas e as formas de atuação da empresa mudam e conquistamos novos mercados”, completa Carmona.

Roche A Roche Brasil Divisão Farmacêutica segue no mesmo caminho positivo e adota desde 2008 as diretrizes GRI como metodologia de elaboração do Relatório de Sustentabilidade anual. O processo de engajamento de stakeholders possibilitou uma avaliação mais efetiva do desempenho da companhia diante da sustentabilidade e da elaboração, pela consultoria Apoena Sustentável, de planos de ação para aprimoramento da gestão empresarial. Para iniciar o trabalho, a consultoria estudou todos os materiais de comunicação disponíveis e pesquisou ações desenvolvidas por empresas do mesmo setor. O levantamento de dados teve início com a realização de entrevistas com diretores e especialistas, a fim de identificar os desafios e estratégias da empresa e os programas que já possuía. Em 2008, os stakeholders escolhidos foram três grupos de funcionários – do escritório em SP, das unidades industriais do RJ e GO e da força de vendas – um grupo de fornecedores de insumos produtivos e representantes da comunidade do entorno da unidade de São Paulo. Todos eles foram convidados a participar de uma pesquisa on-line com o objetivo de apontar as percepções que tinham em relação à sustentabilidade na Roche. A partir da pesquisa on-line, foram realizados: • Grupos focais com os fornecedores da fábrica e o público interno, nas unidades do Rio de Janeiro e de São Paulo.


Realize o engajamento em sua empresa Nesses encontros, o principal objetivo era aprofundar o debate dos temas abordados na pesquisa online; • Entrevistas de aprofundamento por telefone, no caso dos colaboradores da Força de Vendas, devido à dificuldade de agendar um encontro de aprofundamento em que todos pudessem opinar presencialmente. O objetivo era o mesmo dos grupos focais. Todas as pesquisas, indicadores e análises de referências de mercado deram origem ao relatório de Planos de Ação de Sustentabilidade. Nesse material, a Apoena fez recomendações à Roche Farmacêutica, com o intuito de alavancar os negócios, reduzir os riscos e/ou aumentar a eficiência operacional da empresa. “Em 2009, outros públicos foram envolvidos: fornecedores de SP, associações de pacientes e três grupos de médicos, segmentados por especialidade. A imprensa foi consultada, mas não mostrou interesse em participar”, afirma a gerente de Responsabilidade Social da Roche, Rosicler Rodriguez.

A Apoena Sustentável é uma consultoria de gestão especializada em projetos que visam tornar produtos e processos mais sustentáveis. Tem como objetivo contribuir para que as empresas mantenham um bom retorno econômico, diminuindo seus impactos ambientais e contribuindo para o desenvolvimento social das comunidades em que atuam. Em relação ao engajamento de stakeholders, o trabalho da Apoena é realizado em alguns estágios, conforme as necessidades de cada empresa. Ele consiste em: Mapeamento de stakeholders: identificação dos públicos de interesse da empresa; análise de benefícios e riscos de cada público em relação à empresa; e priorização dos públicos a serem engajados; Avaliação dos relacionamentos: diagnóstico do que já é feito com cada um dos públicos prioritários; e criação de uma matriz (benefícios e riscos x o que já é feito) para identificação de oportunidades não aproveitadas ou subaproveitadas;

Reação positiva Sobre essas experiências, Rosicler destaca: “Os públicos de maneira geral reagiram de forma positiva, pois ficaram surpreendidos pela Roche discutir esse tipo de assunto”. Desafios também fizeram parte do processo. “O primeiro sempre envolve a escolha dos stakeholders”, aponta a analista de Responsabilidade Social, Tatiane Oyakawa. Entre os outros, “também não nos aproximamos das áreas internas, que têm contato com os públicos. Por conta disso, fizemos um questionário geral. Caberia fazer um estudo, envolver as áreas internas, para entender exatamente quais

Tatiane Oyakawa e Rosicler Rodriguez, da Roche, empresa disposta a encontrar novos processos de engajamento

Criação de um plano de diplomacia empresarial: realização de algumas ações de engajamento, visando realizar diagnósticos iniciais com cada grupo selecionado; e facilitação de grupos multidisciplinares para criação de plano de engajamento a ser conduzido pelas áreas da empresa (metas, formas, custos, responsáveis, etc.). Acesse www.apoenasocial.com.br para infomações adicionais.

são os temas relevantes para cada uma delas”, explica a gerente. Em relação aos ganhos, um deles foi a identificação de que é preciso melhorar a comunicação da empresa em relação às suas ações de sustentabilidade. “Vamos trabalhar essa questão”, conta Rosicler. O engajamento ainda terá continuidade na Roche. “No segundo semestre, ele será realizado com outros stakeholders”, destaca.

Glossário Diretrizes Global Reporting Initiative (GRI) |criada em 1997 pela ONG norte-americana Coalition for Environmentally Responsible Economics e pelo PNUMA, a iniciativa tem como missão o desenvolvimento e a disseminação global das diretrizes mais adequadas para a elaboração de relatórios de sustentabilidade. Atualmente, mais de 550 organizações em 45 países utilizam essas diretrizes. Fonte: Planeta Sustentável

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18 | neg贸ciosustent谩vel


urbano | meio ambiente

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De quem é a culpa? Tragédias decorrentes das chuvas mostram a urgência em encontrar responsáveis e possíveis soluções

N

os últimos meses, diversas tragédias ocorreram por conta das chuvas abundantes. Enchentes e desmoronamentos provocaram a destruição não apenas de casas isoladas, como de comunidades, causaram a morte de muitos cidadãos, às vezes famílias inteiras, e inúmeros transtornos aos moradores e ao funcionamento das cidades. Clima, população, poder público, há um grande culpado por esses acontecimentos? Qual é o caminho possível para reverter essa situação?

Para o ambientalista Fábio Feldman, há uma sinergia de fatores para explicar tudo isso. Entre eles, “época de chuvas abundantes, aquecimento global, áreas impermeabilizadas com pouca vegetação, que provocam ilhas de calor, e a irresponsabilidade na ocupação de áreas de risco, como margens de córregos e rios”. Para entender melhor, muitas pessoas se perguntam qual é o motivo de chuvas tão intensas. Uma das inúmeras consequências do aquecimento global é o aumento das enchentes. A média anual das chuvas cresceu 10% durante o século 20. A impermeabilização excessiva do solo por meio de asfalto e cimento, característica das cidades com elevado grau de urbanização, é outro fator que contribui para as enchentes. Essa impermeabilização provoca diminuição, às vezes por completo, da absorção da água da chuva para o subsolo. A água, então, escoa em grande quantidade para as galerias de esgoto e rios. Outro

fenômeno ainda decorrente da urbanização são as ilhas de calor, que influenciam o regime das chuvas. Como as cidades mais urbanizadas possuem mais asfalto (ruas e avenidas) e concreto (prédios), elas concentram mais calor e ficam com temperaturas mais elevadas em comparação a regiões vizinhas. Pérola Felipette Brocaneli, docente de Desenho Ambiental e Arquitetura da Paisagem do Mackenzie, também cita a grande ocupação de áreas de risco para explicar o tamanho das catástrofes causadas pelas chuvas. “Quando se ocupa uma área frágil, como encostas e mangues, há um solo instável, e isso indica que a urbanização não deve ocorrer e, se vier a ocorrer, deve ser feita de forma muito criteriosa”. A impermeabilização das cidades é outro fator apontado pela professora como agravante para os problemas das enchentes. negóciosustentável | 19


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urbano | meio ambiente

Parques lineares são opção contra enchentes Os parques lineares são considerados uma das frentes de batalha aos problemas das chuvas. Eles melhoram a permeabilidade do solo, reduzindo a formação de ilhas de calor e os estragos causados pelas enchentes. Além disso, eles proporcionam espaço de lazer, aumentam a área verde da cidade e protegem os córregos da poluição. Outra função desses parques é evitar a construção de habitações irregulares nas várzeas dos córregos. A implantação de parques lineares faz parte do programa 100 Parques para São Paulo, lançado em 2008, e concretiza uma das diretrizes do seu Plano Diretor Estratégico. Com essa iniciativa, deve chegar a 100 o número de parques até 2012 na cidade. O Várzeas do Tietê, cujo lançamento ocorreu no

Quanto custa os estragos? Quem não se lembra dos graves estragos que a chuva fez às cidades de São Luiz do Paraitinga, em São Paulo, e Angra dos Reis, no Rio de Janeiro, no começo deste ano? Essas duas cidades, em especial a paulista, ficaram embaixo d’água, foi uma devastação. Quando esses fenômenos acontecem, o governo, seja estadual ou municipal, tem um grande gasto para a reconstrução. Em São Luiz do Paraitinga, por exemplo, a Agência Paulista de Fomento – Nossa Caixa Desenvolvimento liberou R$ 1,4 milhão em financiamentos para as 41 pequenas e médias empresas localizadas na cidade, e ainda estuda disponibilizar R$ 659.980 para mais 11 empresas. Para as obras de recuperação dos acessos à cidade, estabilização de taludes, contenção de encostas, drenagem, recomposição de plataformas e pavimentação, será feito um investimento que chega a mais de R$ 20 milhões. O governo do Estado ainda repassou para a cidade do Vale do Paraíba, em caráter emergencial, R$ 1,5 milhão para a aquisição de máquinas e equipamentos para a prefeitura. Para a recuperação das escolas municipais e compra de material escolar foi investida uma quantia de R$ 1,4 milhão. Já a reconstrução da cidade carioca será feita da seguinte forma: na primeira fase serão gastos R$ 6 milhões dos R$ 80 milhões repassados pelo Ministério

ano passado, será o maior parque linear do mundo, com 75 km de extensão e 33 núcleos de lazer, turismo, cultura e esporte. 20 | negóciosustentável

Fabio Feldman, ambientalista

da Integração Nacional para obras de contenção e construção de habitações para os desabrigados. De acordo com o prefeito da cidade, os R$ 80 milhões serão divididos assim: R$ 30 milhões são destinados aos muros de contenção e R$ 50 milhões aos 800 apartamentos que serão construídos na Japuíba, Frade e Pousada da Glória.

Todos são afetados Diversas empresas, em especial as de transporte, também são grandes vítimas da chuva. Como essas organizações são as responsáveis por manter estoques do comércio e das indústrias abastecidos, precisam ter planos de contingência para evitar surpresas. “Nos períodos de chuva, em situações inesperadas, é preciso avaliar as regiões com maior impacto e muitas vezes


em curto espaço de tempo, tomar decisões sobre a distribuição do volume de coletas e entregas em um maior número de veículos para que possamos cumprir com os prazos”, conta o diretor de operações da UPS Brasil, Luciano Pereira. Segundo o executivo, esses períodos também podem ser responsáveis por perdas no faturamento das empresas. “Se considerarmos todos os impactos causados por enchentes, que se iniciam desde o deslocamento dos funcionários ao local de trabalho, tempo da frota parada nos congestionamentos, clientes inoperantes, custo com combustíveis e disponibilidade de carros extras, os prejuízos podem ser bastante significativos no período de enchentes”, comenta Pereira. Os impactos causados a essas organizações podem ser diversos. A UPS, por exemplo, já teve carros atingidos pelo aumento do nível da água, mas, de acordo com Pereira, esse não é o único prejuízo. “Os principais custos ficam por conta do aumento do consumo de combustível, disponibilização de veículos para atendimentos das rotas com maior impacto e mesmo após o término do período de chuvas, o gasto de manutenção cresce, pois os buracos deixados pelos alagamentos ainda causam problemas para a suspensão e pneus”, finaliza.

lação que dê um prazo para mapear as áreas de riscos, além de definir quais são essas áreas e não permitir novas ocupações. “Está na hora de dar um basta, parar de encarar tudo como uma fatalidade. É preciso criar uma cultura de risco e combater a cultura de roleta russa, quando a população sabe que está ocupando uma área ilegal, mesmo assim permanece à espera de que o governo venha suprir a falta de infraestrutura, acredita que nada vai acontecer”. As cidades brasileiras também terão de ter mais solos permeáveis e telhados verdes nas edificações. A vegetação em prédios absorve água e impede que ela escoe a uma velocidade maior, além de diminuir a temperatura dos edifícios. “Os parques lineares também são fundamentais. Em São Paulo, a prefeitura está fazendo um ótimo trabalho”, completa. Pérola concorda com Feldman sobre os parques lineares e afirma: parques e praças devem estar conectados por corredores ecológicos. A professora defendeu sua tese de doutorado na USP com o seguinte tema O ressurgimento das águas na paisagem paulistana: fator fundamental para a cidade sustentável. Uma das conclusões de seu estudo é que “um espaço de parques e áreas verdes permeáveis equilibraria as taxas de escoamento das águas, permitindo um alagamento normal e controlado das águas”.

Soluções Sobre possíveis soluções, Feldman aponta: é necessário ampliar a infraestrutura de previsão do tempo por meio de radares. Caso isso já ocorresse, seria possível prever o acidente sucedido em Angra dos Reis no início deste ano, por exemplo. “O poder público mostrou uma enorme fragilidade em relação à detecção de desastres. Precisamos também de uma defesa civil que tenha capacidade de atuar eficazmente nessas situações e é fundamental tratar as áreas de risco com mais seriedade, é necessário ter tolerância zero com esse tipo de ocupação e a população também deve ser treinada para agir nesse tipo de evento”, argumenta. Ainda sobre as áreas de risco, Feldman é favorável à criação de um marco regulatório próprio, uma legis-

Glossário Aquecimento global | aumento médio da temperatura ocasionado pelo acúmulo de gases de efeito estufa na atmosfera. Impermeabilização| por meio do excesso de asfalto e cimento, característicos das cidades mais urbanizadas, não há absorção da água da chuva para o subsolo. A água, então, escoa em grande quantidade para as galerias de esgoto e rios. Ilha de calor | fenômeno decorrente da urbanização, que influencia o regime das chuvas. Ocorre em cidades mais urbanizadas por conta do asfalto e concreto; elas concentram mais calor e ficam com temperaturas mais elevadas em comparação a regiões vizinhas.

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Passeios inusitados Tours pouco convencionais mostram interesse do turista em conhecer uma realidade muito diferente da sua Por Luciana Kobayashi

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squeça as lojas chiques, restaurantes requintados e outras tantas descrições dos roteiros turísticos mais comuns. Uma parte de outra vertente do turismo, a social, prega a visita a lugares muito inusitados com o intuito de praticar a inclusão.


Rotas | Turismo social

Segundo o Ministério do Turismo, o “Turismo Social é a forma de conduzir e praticar a atividade turística promovendo a igualdade de oportunidades, a equidade, a solidariedade e o exercício da cidadania na perspectiva da inclusão”. Aqui no Brasil, existem alguns roteiros com essa premissa. O turismo de favela, por exemplo, é um segmento em expansão, no qual são realizadas visitas às favelas do Rio de Janeiro. O tour para a Rocinha é o mais famoso e tradicional desses passeios, divulgado no site da Riotur e, dessa forma, oficializado como atração turística da cidade, consolidado e organizado por diversas agências. Mesmo com toda essa estrutura, muitas pessoas o criticam e costumam chamá-lo de “zoológico ou safári de pobres”. Ainda assim, ele faz sucesso entre os estrangeiros. Mas, afinal de contas, o que atrai os turistas para esse tipo de passeio? Segundo a socióloga, professora e pesquisadora do CPDOC/FGV, Bianca Freire Medeiros, a violência é o que mais “seduz” os estrangeiros. Para ela, o filme Cidade de Deus passa uma imagem da favela como um lugar extremamente violento e isso é motivador. Bianca tem conhecimento para falar sobre o assunto, é autora do livro Gringo na Laje: Produção, circulação e consumo da favela turística (Ed. FGV, 2009), no qual condensa os resultados de sua pesquisa sobre esse tipo de turismo. “Em 2005, ainda como professora visitante na UERJ, eu havia iniciado um projeto de pesquisa sobre o Rio de Janeiro dos relatos de viagem estrangeiros – um prolongamento da minha tese de doutorado, feita nos Estados Unidos, que lida com as representações dos norte-americanos sobre nós. Examinando os relatos de viagem, minha

equipe e eu nos deparamos com vários registros de visitantes que, na primeira metade do século 20, haviam subido diferentes morros da cidade e se diziam fascinados. Fiquei curiosa em saber como essa fascinação se atualizava nos roteiros contemporâneos pelas favelas”, conta Bianca sobre o seu interesse pelo assunto. A porta de entrada para a sua pesquisa foi a favela carioca, mas no processo de investigação, ela descobriu que se tratava de um fenômeno global e que era preciso compreendê-lo como uma manifestação dos dilemas – desigualdade X solidariedade, pobreza X excesso, encenação X autenticidade – que atravessam a sociedade contemporânea.

Roteiro Qual é o roteiro básico de um passeio para a Rocinha? Em geral, os turistas tiram muitas fotos, compram artesanato alusivo à temática da favela, param em uma escola de samba, experimentam bebidas e comidas. Bianca comenta alguns detalhes: “Não pode faltar a foto na laje em contraste com a bela paisagem e o artesanato produzido representa uma favela alegre, sem referência ao tráfico”. Ao participar desse tipo de atividade, no entanto, os moradores não são plenamente beneficiados com os recursos arrecadados. “O turismo na Rocinha beneficia economicamente um segmento muito específico e minoritário, não promove uma distribuição efetiva de lucros e as agências de turismo raramente estabelecem qualquer diálogo com as instituições representativas da localidade”, conta Bianca. Mesmo assim, eles sentem-se beneficiados. “Na minha pesquisa, escutamos 175 moradores da Rocinha. Para

Visão tupiniquim

Maria José Giaretta, professora dos cursos de Turismo da PUC-SP, Universidade São Judas Tadeu e UNIFAI e diretora da Federação de Albergues da Juventude, teve a oportunidade de ir a uma das excursões feitas à Rocinha. “Acompanhei o então presidente da Federação Internacional de Albergues. Em visita ao Brasil, ele ficou muito interessado em realizar esse passeio. Ele tinha um misto de curiosidade e medo em conhecer a favela”, conta. Segundo Maria José, o passeio foi tranquilo. “As pessoas não mostram a questão da violência, elas desviam bastante o foco, falam da comunidade, mostram o artesanato feito por eles”, afirma. “O artesanato vendido é bonito, tem identidade, tem uma bandeira do Brasil. Os desenhos estilizados são das casinhas de favela e também do visual do morro para o mar”, afirma.

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Rotas | Turismo social

a maioria (84%), o turismo é uma atividade que deve ser incentivada porque representa uma chance de se construir uma visibilidade positiva para a favela. Eles apostam que os passeios podem desmistificar a imagem violenta insistentemente reiterada pelas elites e veiculada pelos meios de comunicação”. Na outra ponta, os turistas em geral também apreciam o tour. “Eles terminam o passeio com uma percepção mais complexa da favela e da sociedade brasileira como um todo. À imagem que tinham da favela como lugar exclusivamente violento e precário – a grande maioria assistiu a Cidade de Deus e essa é uma referência fortíssima para eles – somam-se outras. Isso não quer dizer que todos os estereótipos

em Ipanema e Copacabana, acompanhados do empresário e professor da FGV Daniel Plá. Plá realiza uma série de ações nessas comunidades desde 2007. “Somente quem vai à favela consegue entendê-la e desmistificá-la”, afirma. Todos os recursos arrecadados com as atividades são repassados aos seus moradores. Nas incursões às favelas, como o professor prefere chamar essas visitas, os estudantes conversam com os moradores, entram no morro a pé e percebem rapidamente os sacrifícios vividos pelas pessoas que moram ali. “A favela não é fantasiada, nada é preparado com antecedência, cada vez são escolhidas casas diferentes para eles conhecerem. Os grupos são pequenos, acompanhados de moradores que nasceram no local e falam inglês fluentemente”, explica. A oportunidade de passar uma virada de ano em Cantagalo e Pavão-Pavãozinho também levou o professor a organizar um réveillon na laje. De 2009 para 2010, alguns turistas participaram dessa iniciativa, bastante divulgada pela imprensa. Na virada para 2011, ele planeja uma festa ainda maior nas comunidades, com a reunião de cerca de 100 pessoas. Após conhecer a favela, os turistas ficam impressionados. “Em primeiro lugar com a receptividade, em segundo com a criatividade dos moradores e em terceiro com a vista. O que a torna ainda mais fascinante é, por exemplo,

“Eles terminam o passeio com uma percepção mais complexa da favela e da sociedade brasileira como um todo” sejam minados, até porque o discurso das agências colabora muito para a identificação da favela como lugar de gente feliz, que adora samba e carnaval – o que também é, obviamente, uma percepção redutora”, completa a socióloga. A visibilidade da Rocinha vai ganhar ainda maior repercussão internacional: a pesquisa de Bianca será publicada em inglês pela Routledge, uma das editoras de maior prestígio da Europa, sob o título de Touring Poverty.

Suba o morro No Rio, Cantagalo e Pavão-Pavãozinho também recebem visitas turísticas. Estudantes estrangeiros de MBA conhecem o conjunto de favelas, localizadas


lcarodrigues

Antigo quilombo na rota do turismo

o contraste com Ipanema. O fascínio é maior do que sobrevoar o Rio”, afirma. Se os turistas têm uma experiência enriquecedora, para o professor o ganho é ainda maior. “É um aprendizado muito mais intenso do que o proporcionado por uma faculdade”, aponta. Sobre as pessoas que criticam esse tipo de atividade, ele rebate: “É o preconceito de quem não sobe e nem nunca vai subir o morro. E quem tem esse preconceito gigantesco vai continuar tendo”. Mesmo depois de tantas atividades realizadas em Cantagalo e Pavão-Pavãozinho, Plá quer continuar. “Não vou deixar o morro, pretendo dar continuidade ao meu trabalho”, afirma com convicção.

Turismo comunitário Em 2002, surgiu o Projeto Bagagem, que teve sua primeira viagem realizada em julho do mesmo ano para o roteiro Amazônia Ribeirinha, em parceria com o Projeto Saúde e Alegria. “A missão desse projeto é contribuir com o desenvolvimento de comunidades por meio do turismo comunitário, e seu objetivo é tornar o Brasil uma referência nesse tipo de turismo”, conta uma de suas criadoras, Cecília Zanotti. Até o ano passado, 16 comunidades foram diretamente envolvidas em seis diferentes destinos do país. “O Projeto Bagagem está à frente da articulação da Rede Brasileira de Turismo Solidário e Comunitário, a Rede Turisol, que está selecionando destinos para otimizar esforços conjuntos de promoção e comercialização. Ao todo, pretendemos ter 15 destinos no Brasil compondo a rede e apoiar o aumento do fluxo de visitantes nessas localidades”, explica Cecília.

A professora Maria José trabalha em um outro projeto de turismo social: a transformação da fazenda Quilombo Picinguaba em roteiro turístico. Localizada em um trecho de difícil acesso em Ubatuba (SP), onde moram 48 famílias de ex-escravos, o local possui água cristalina e belíssima paisagem. O projeto é realizado pela Universidade São Judas Tadeu, Furnas e Núcleo Picinguaba. “Não há estrutura para receber visitantes. Estou elaborando um plano de desenvolvimento turístico para a fazenda até outubro. Hoje, os moradores vendem alguns produtos, como doces, mas alguns tiveram de sair da comunidade para ganhar dinheiro. Esse projeto é uma alternativa para que eles consigam ter uma renda e possam trabalhar o turismo de forma sustentável”, afirma a professora.

Os roteiros são para visitar comunidades ribeirinhas, quilombolas, rurais e caiçaras no Pará, Rio de Janeiro, Paraná, Maranhão e na Bahia. Para ingressar na rede é necessário possuir alguns pré-requisitos: organização comunitária, projetos ambientais, sociais, culturais, educacionais e de saúde ou outro que esteja dando certo na região, presença de uma ONG local que possa apoiar o processo de desenvolvimento do turismo comunitário e proximidade a uma unidade de conservação. “Além disso, é importante que seja um desejo da própria comunidade trabalhar com turismo comunitário”, enfatiza Cecília. Em alguns roteiros, a hospedagem é realizada nas casas de famílias e, com isso, o turista é recebido como uma visita. “A acolhida é diferente, próxima e mais simples também e tanto visitante como anfitrião aprendem sobre o modo de vida de cada um. Além disso, durante o dia de convivência, os moradores locais compartilham seus saberes com os visitantes, ensinando como fazer artesanatos da região ou mesmo práticas locais como a produção de remédios naturais a partir de folhas, raízes e cascas de árvores, por exemplo,” pontua a organizadora. negóciosustentável | 25


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ntes apenas um ideal teórico e utópico, a sustentabilidade saiu do papel, ganhou muito mais do que prioridade nas agendas dos executivos brasileiros e os chãos das fábricas e foi integrada ao mapa estratégico das companhias. Sob essa nova realidade, foram criados setores específicos para tratar de assuntos a ela relacionados, assim como designados profissionais para a sua inserção de maneira mais eficiente nos negócios.

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DNA sustentável Como inserir de forma concreta a sustentabilidade nas empresas Por Luciana Kobayashi

Por mais que esse modelo ainda esteja em evolução e alguns grupos tenham dificuldade de criar e organizar essa cultura, a proposta trouxe consigo uma arma poderosa: a inovação nesse segmento – capacidade de tentar encontrar soluções criativas no mundo corporativo para diminuir os impactos socioambientais. Quem opta por inserir em sua política de sustentabilidade parte ou todos os seus stakeholders tende a fortalecer a sua imagem, a sua marca, ganha pelo respeito de ter relações mais transparentes, pela ética e pela preocupação socioambiental. Ganha ainda porque atualmente essa postura, além de uma exigência, é premiada pelo mercado, virou ferramenta para alavancar os negócios. Com todos esses aspectos, a sustentabilidade passou a ser perseguida por muitas companhias, pequenas, médias e grandes. Algumas já apresentam resultados concretos relacionados ao tema ou estão no caminho certo (veja os cases ao longo da matéria), outras caminham em seus projetos sustentáveis, e outro grupo, apesar da disposição, ainda não sabe bem como começar. Afinal, como as empresas podem realmente ter a sustentabilidade verdadeira em seu DNA? Para a diretora da consultoria Apoena Sustentável e professora de Marketing da ESPM (Escola Superior de Propaganda e Marketing), Andrea Goldschmidt, não é possível classificar uma empresa como sustentável. “Sua simples existência gera impactos e, portanto, a sustentabilidade é algo a ser perseguido no sentido de ser uma corporação mais sustentável e não de forma absoluta”, explica. Segundo a diretora, quando uma companhia tem a sustentabilidade em seu DNA, como muitas alegam

ou gostariam de ter, todas as decisões tomadas internamente levam em consideração os impactos gerados e buscam minimizar os efeitos negativos. “Em uma situação hipotética como esta, todos os funcionários da empresa e seus parceiros de negócios conhecem o seu papel e contribuem para a redução de impactos negativos sobre o planeta e as pessoas”, destaca. Para Andrea, a busca pela sustentabilidade deve estar ligada a mudanças nos produtos e na forma de gestão da empresa, que elevem seus padrões de exigência em relação a questões sociais e ambientais. O professor de Responsabilidade Social e Ambiental e Planejamento de Marketing da ESPM, Maurício Turra, compartilha da mesma opinião. “A sustentabilidade é algo a ser perseguido, pois é realmente muito difícil uma empresa eliminar todos os impactos que ela gera. Isso é utópico. A discussão é: como a companhia pode impactar menos o meio ambiente”, afirma. Para o professor, “sustentabilidade, além de menor impacto ambiental, significa algo positivo para a empresa e para a sociedade, ou seja, é ser lucrativa, beneficiando as pessoas e preservando o planeta. Por exemplo, não adianta uma companhia realizar uma

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capa | BUSINESS CAPA business

Possíveis ganhos das empresas sustentáveis • Aumenta a sua capacidade de competição ao despertar a preferência de seus atuais e potenciais consumidores e investidores pela percepção de genuína responsabilidade socioambiental; • Passa a ser respeitada pelos governos realmente preocupados com o tema e torna-se referência e exemplo a ser seguido não apenas no seu segmento; • Passa a ser reconhecida como uma marca valiosa para investidores, desejada pelos consumidores e querida pela sociedade. Fonte: Grupo Sustentax

série de mudanças sustentáveis, caso venda produtos que sejam negativos para as pessoas”. Turra ainda destaca: “Para uma empresa sair do discurso, é necessário identificar se está realmente agindo dessa forma. E, ainda, se está adotando essa postura com todos os seus stakeholders, pois não adianta somente uma ponta da cadeia ser sustentável”.

Diagnóstico Disposta a tornar-se sustentável, a empresa precisa iniciar um trabalho para atingir esse objetivo. “O primeiro passo é o controlador estar realmente convencido de que este é o caminho a seguir e cercar-se de pessoas que serão capazes de transformar a cultura empresarial na direção de rentabilidade e perenidade sustentáveis no curto, médio e longo prazos. Sem a consciência, disposição e motivação da diretoria executiva em repensar o negócio e seguir caminhos inovadores, nada acontecerá de forma consistente”, explica o Fundador e Presidente do Grupo SustentaX, Newton Figueiredo, que atua na área de sustentabilidade. “Com a direção da empresa madura para incorporar o tema, passa-se à fase de diagnóstico da situação, abrangendo os públicos de interesse, a própria empresa e o mercado no qual atua”, complementa. Para Andrea, a empresa precisa analisar quais são os seus principais impactos e quais as opções para minimizá-los. Os impactos devem ser analisados não apenas dentro dos muros da companhia, mas

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em toda sua cadeia, desde a extração das matérias-primas até o descarte do produto pós-consumo. Assim como Figueiredo, a consultora cita o diagnóstico, ferramenta importante para iniciar os trabalhos. “Um bom primeiro passo pode ser a realização de um diagnóstico detalhado, que ajude os funcionários a enxergar onde estão os problemas e a discutir de forma estruturada quais são as alternativas de solução. É importante ter em vista que alguns planos geram mudanças de longo prazo e, portanto, é necessário também preparar as pessoas para que sejam persistentes e que valorizem pequenas conquistas”, afirma Andrea. Em continuidade a esse processo, Figueiredo afirma: “O mais importante é não perder o pragmatismo empresarial, isto é, sustentabilidade vem para ser incorporada na gestão estratégica da empresa com o propósito de tornála mais inovadora, rentável, competitiva e desejada por consumidores e investidores. Sustentabilidade deve ser inserida, de forma ética, verdadeira e ge­nuína, para gerar uma marca ainda mais valiosa para os consumidores, para os acionistas e para a sociedade”. Mesmo com a complexidade do tema, é possível verificar que a sustentabilidade não é exclusividade das grandes corporações. “Já está em grande parte das pequenas e médias empresas. Um dos motivos é o fato das maiores cobrarem as menores, é atualmente um pré-requisito para qualificação”, explica Turra. “Já existem muitos casos de pequenas empresas que têm desenvolvido ações importantíssimas nesse sentido. Na realidade, essa é uma mudança que independe do porte da companhia e, em alguns casos, o fato da corporação ser grande pode dificultar o processo, uma vez que tanto


Cases Grupo Camargo Corrêa

Em 2006, acionistas e principais executivos da Camargo Corrêa iniciaram uma reflexão do significado para o Grupo de trilhar um caminho voltado para a sustentabilidade. Essa reflexão resultou na Carta da Sustentabilidade: o Desafio da Inovação. Esse foi o ponto de partida para a sustentabilidade ser integrada ao mapa estratégico da organização, à gestão do negócio e às atividades do dia a dia e tornar-se um objetivo que passou a ser perseguido da mesma forma com que se busca atingir resultados operacionais e financeiros. Na estrutura do Grupo Camargo Corrêa, destacam-se negócios de cimento, construção, concessões de energia e concessões rodoviárias. A essas atividades somam-se também empreendimentos importantes no setor de calçados, concessão ferroviária, engenharia, meio ambiente e siderurgia e, ainda, investimentos e participações substanciais nos segmentos de incorporação, naval, óleo e gás e operações aeroportuárias. Mesmo com tanta diversidade em seus negócios, a sustentabilidade está presente em todo o grupo, e com status prioritário. “Há um diretor guardião em todas as empresas da corporação. De forma prática, ele garante tanto que a sustentabilidade permeie a organização quanto o cumprimento das diretrizes, que são monitoradas trimestralmente”, conta Carla Duprat, diretora de Sustentabilidade, área criada em 2007 e que responde diretamente ao presidente do conselho do grupo. Nessa hierarquia sustentável, o comitê executivo,

que reúne os presidentes das diversas divisões, também é o comitê de sustentabilidade do grupo. Entre as principais iniciativas do segmento foi criado um prêmio de ideias e práticas sustentáveis para a mobilização do público interno sobre o tema. Em 2010, ele terá a sua segunda edição. Desde o ano passado, a sustentabilidade passou a ser um item de remuneração variável no grupo, assim como foi criada uma agenda climática, na qual foi analisada, de forma profunda, como as mudanças climáticas afetam os negócios e como os negócios afetam as mudanças climáticas. Essa iniciativa gerou nove compromissos da corporação, que viraram planos de ação de curto, médio e longo prazo. “Todas essas ações geraram ganhos visíveis. O orgulho dos funcionários em pertencer à Camargo Corrêa aumentou, assim como a sua produtividade. Tivemos também redução de água em algumas operações”, salienta Carla. Mesmo com toda essa estrutura e ganhos contabilizados, ainda existem desafios. “Queremos inserir a sustentabilidade cada vez mais nos planejamentos estratégicos da empresa e estimular uma mudança cultural importante: a inovação dentro do grupo como um todo”, conclui a diretora.

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CAPA | BUSINESS

Natura

“Sustentabilidade para a Natura é gerar valor para todos os nossos públicos e transformar desafios socioambientais em oportunidades de negócio. Acreditamos que o valor e a longevidade da empresa dependem da sua capacidade de contribuir para o desenvolvimento sustentável da sociedade”. Dessa forma, Marcos Vaz, diretor de Sustentabilidade da Natura, explica a prioridade desse tema para a companhia. E essa prioridade não fica, definitivamente, apenas na teoria. Atualmente, o mapa estratégico da Natura contempla metas econômicas, financeiras e socioambientais. No planejamento estratégico, esse modelo se desdobra por toda a corporação e influencia ações das diversas diretorias. Várias iniciativas confirmam o seu comprometimento com o desenvolvimento sustentável. Em reconhecimento a esse compromisso, em 2005 as ações da Natura foram incluídas no Índice de Sustentabilidade

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Empresarial (ISE) da Bovespa. Em 2007, a empresa anunciou o programa Carbono Neutro, criado a partir de um modelo que envolve toda a sua cadeia de negócios, da extração da matéria-prima até o descarte final das embalagens. Com ele, a empresa assumiu o compromisso de oferecer aos seus clientes produtos com suas emissões de GEEs (gases do efeito estufa) totalmente neutralizadas. Para alcançar essa meta, a empresa identificou a possibilidade de reduzir suas emissões em até 33% até 2011, tendo como base o inventário das emissões em 2006. Além disso, tudo o que não for possível reduzir de imediato é compensado por apoio a ações externas. Em relação aos produtos, em 2010, foi inaugurado o maior projeto de sustentabilidade da linha Ekos. Para a fabricação de seus novos sabonetes, a Natura compra sementes e frutos fornecidos por 263 famílias, de oito comunidades, e extrai o óleo ou a manteiga para produzir o noodle

(massa do sabão) na planta de extração de óleos da sua Unidade Industrial em Benevides (PA). Esse projeto ainda conserva 100 km2 de Floresta Amazônica, mantém 3 mil árvores nativas em pé, utiliza resíduos da indústria de suco e prioriza sistemas de manejo agroflorestal e orgânicos. E como sustentabilidade e inovação caminham juntas, a empresa também mantém o foco nessa área. “A inovação tecnológica e o investimento em pesquisa e desenvolvimento são fatores estratégicos para sustentar o crescimento da empresa no Brasil e no exterior. Por isso, destacamo-nos como a companhia latino-americana que mais investe em inovação em nosso setor. Em 2009, investimos 2,6% da receita líquida da empresa em inovação”, destaca Vaz. A Natura está presente, além do Brasil, na Argentina, no Peru, Chile, México, na Colômbia e França – local onde mantém uma loja e um centro satélite de pesquisa e tecnologia. Ainda atua na Bolívia por meio de um distribuidor.


Grupo Santander Brasil

A história de sustentabilidade do grupo teve início em 2001, com uma das suas instituições: o Real, naquela época ainda sem nenhuma relação com o Santander. “Constatamos a necessidade de reinventar nossa maneira de fazer negócios. Crescia a cobrança por uma postura social e ambientalmente responsável das empresas. Então, iniciamos um movimento, liderado pelo presidente do banco (Real), Fabio C. Barbosa. Ele reuniu alguns executivos para refletir sobre o papel da instituição na sociedade”, conta a diretora de Desenvolvimento Sustentável do Grupo Santander Brasil, Maria Luiza Pinto. Incorporar a sustentabilidade ao banco de forma bem-sucedida não aconteceu por acaso. “Definimos que trabalharíamos para mudar o patamar de consciência dos funcionários, para que promovessem mudanças não somente dentro do trabalho, mas em casa, na escola e na comunidade”, afirma a diretora. Outro fator de sucesso apontado por Maria Luiza é o fato do banco ter investido em mudar a essência de seu negócio, buscando transformá-lo à luz da sustentabilidade. “Isso significou a inclusão de critérios socioambientais para a concessão de crédito”. O Real agora compartilha sua política com o Santander. “Desde o início do processo de integração entre os dois bancos, todas as práticas foram estendidas. O investimento em educação para sustentabilidade

foi ampliado para atingir os 50 mil funcionários. Para nós, o fato das culturas serem distintas nunca foi um problema, mas uma oportunidade para a instituição reunir o melhor dos dois bancos”, esclarece Maria Luiza. Por conta dessa postura, a diretora enfatiza: “A transformação do Real e agora do Santander num banco mais sustentável tem acontecido ao longo dos anos por meio do trabalho de funcionários, clientes, parceiros e fornecedores. Eles assumiram uma postura ativa diante desse desafio”, destaca. Para a diretora, o atributo mais valorizado do Santander, inovação, e as principais características do Real, sustentabilidade e relacionamento, são complementares e sinérgicos, não excludentes. Por essa razão, puderam ser mantidos e reforçados. Em relação aos próximos passos, o trabalho continuará para a inserção cada vez maior da sustentabilidade em todo o Grupo Santander Brasil. “Continuaremos a capacitação de nossos funcionários e clientes corporativos, fornecedores e público em geral. Daremos continuidade ainda à integração de produtos, serviços e processos, que já têm resultados práticos. Entre outros, a extensão do Programa Obra Sustentável para clientes Santander, o lançamento do Reforma para Acessibilidade, a implementação do Papa-Pilhas nas agências Santander e o serviço de assessoria, negociação e financiamento de Créditos de Carbono para clientes corporativos”, conclui Maria Luiza.

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CAPA | BUSINESS

Grupo Libra

Holding formada por seis empresas, o Grupo Libra é um dos maiores operadores portuários de contêineres da costa brasileira e pioneiro entre as empresas privadas do segmento. Opera dois terminais portuários, nas cidades de Santos e do Rio de Janeiro, um porto seco em Campinas, terminais de logística em Cubatão e Santos, um projeto de terminal de cargas gerais em Imbituba (SC), uma empresa de apoio portuário com operação nacional e uma empresa de navegação fluvial na Amazônia. Na corporação, a sustentabilidade é tratada de forma muito séria. Para Marcelo Araújo, presidente do grupo, ela representa um valor e os seus principais líderes também a apoiam. “Quando as empresas, até então geridas de forma independente, passaram a ser organizadas sob a gestão de uma holding, houve uma evolução significativa na governança do grupo. Ao criar uma nova organização, a sustentabilidade foi definida como um dos pilares estratégicos para a Libra”, conta a diretora de Recursos Humanos e Sustentabilidade, Cláudia Falcão. Para se ter ideia da importância da sustentabilidade, ainda em processo de estruturação no grupo, foi criada uma área para cuidar especialmente do assunto. “Atualmente, em conjunto com os principais gestores, estamos na fase tanto de organizar as aspirações mais importantes em relação a esse pilar estratégico quanto de definir como elas serão colocadas em prática”, afirma a diretora. Segundo Cláudia, ainda que a sustentabilidade não esteja absolutamente inserida em seu dia a dia, pois o grupo como um todo ainda não participa desse processo, ela já está presente na empresa. Por iniciativa própria, algumas áreas já realizam ações independentes. “Posteriormente, todas elas serão integradas em um movimento maior”, explica. O Grupo Libra é um exemplo a ser seguido por outras corporações. “A inserção da sustentabilidade ocorreu com um movimento de cima para baixo. Dessa forma, ele começa estratégico”, ressalta a gerente de Comunicação e Sustentabilidade, Cristine Naum. Até o final deste ano, o plano de ação em relação à sustentabilidade será integrado ao sistema de planejamento da organização, para que em 2011 seja colocado em prática.

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a comunicação quanto a capacitação das pessoas e as ferramentas de controle são mais complicadas de serem implantadas do que numa empresa pequena”, destaca Andrea. “Mas as grandes estão liderando esse movimento e seu poder de influência sobre as pequenas, especialmente na relação cliente-fornecedor, gerando um impulso significativo para que esse processo seja implantado de forma mais rápida pelo mundo afora”, afirma a diretora.

Dificuldades e ganhos Se, entre outros atributos, é preciso muita persistência para trilhar o cami-


nho da sustentabilidade, ele vale a pena. Mesmo com algumas dificuldades que possam surgir durante o processo. “Empresas são pessoas. Mais do que dificuldades são desafios a serem superados. O entendimento da visão correta de sustentabilidade empresarial, a conscientização e o elevado nível de motivação das pessoas são os maiores desafios. Então, um planejamento de como introduzir o tema na corporação aliada a uma comunicação interna adequada são indispensáveis”, enumera Figueiredo. Quem consegue superar as dificuldades ou desafios ganha. “Em nossa consultoria, dividimos os ganhos potenciais dos nossos clientes em três grupos: eficiência operacional, redução de riscos e alavancagem de negócios”, conta Andrea. Outros especialistas no assunto ainda vão além: “Defender o desenvolvimento sustentável não é defender o proselitismo ambiental, mas mostrar que as chances de futuro dos seres humanos, das sociedades e das organizações dependem de uma mudança na forma como interagimos. O mundo dos negócios deve aprender a produzir e distribuir riquezas a partir dos seus ativos mais estratégicos: a criatividade, a capacidade de gerar conhecimento e o entusiasmo humano”, afirma Rodrigo da Rocha Loures, presidente da Federação das Indústrias do Estado do Paraná (Fiep), coordenador da Mobilização Empresarial pela Inovação (MEI) e secretário-executivo do Movimento Nacional pela Cidadania e Solidariedade. Autor do livro Sustentabilidade XXI – Educar e inovar sob uma nova consciência (Editora Gente), Loures ainda cita a relação educação-sustentabilidade-inovação, extremamente bem-vinda não apenas para o mundo corporativo, mas para a sociedade como um todo. “É uma relação intrínseca. Para se alcançar a sustentabilidade é preciso educar e inovar”, finaliza.

não ficar sem um número: pelo menos dois anos para completar um primeiro ciclo e, pelo menos, mais dois anos para os públicos de interesse estratégicos perceberem a consistência do trabalho e retribuírem com ações positivas em prol da empresa.”

Retorno imediato Se dois a quatros anos parecem muito tempo, Andrea cita um exemplo de “lucro” obtido desde o início do processo. “Conforme o tipo de mudança proposta é possível a empresa ter ‘ganho’ assim que adotar práticas mais sustentáveis. Ao reduzir o desperdício de matérias-primas, ela contribui com o planeta, com a menor extração de insumos, gasta menos com embalagens e transporte de bens, gera menos emissão de CO2, entre outros. Isso demonstra que uma ação simples pode ter um impacto grande se somadas todas as economias que se podem gerar na cadeia produtiva com uma alteração pequena na ponta”, conta a consultora. Ela, no entanto, também adverte sobre outro exemplo: quando haverá um retorno, mas não será financeiro. “Ao substituir mão de obra ilegal por regime CLT, uma pequena confecção aumentará os seus custos e esse gasto extra pode nunca ser compensado. No entanto, ela reduz os seus riscos de atuação e a probabilidade de ter de lidar no futuro com as consequências de problemas sociais que ajudou a causar”.

Quanto tempo? É relativo mensurar exatamente o tempo que as empresas levam para apresentar resultados após iniciar uma política de sustentabilidade. “As empresas que já apresentam resultados são aquelas que desenvolveram essa política há muito tempo, contabiliza Turra. Para Figueiredo, a sustentabilidade empresarial é um desafio permanente. “Em relação ao tempo, depende do estágio atual da cultura da companhia e da determinação e perseverança dos executivos. Para

Glossário Stakeholder | termo que define os diversos públicos que se relacionam com uma organização. Gases do efeito estufa | são gases que potencializam o efeito estufa e cujas emissões devem ser reduzidas, entre eles está o dióxido de carbono (CO2).

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passos para um escritório sustentável É possível diminuir a pegada ecológica no ambiente de trabalho com algumas mudanças e práticas adotadas no dia a dia

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executivo 2.0 | lucro verde

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uando se fala em impactos no meio ambiente, pensamos em indústrias poluindo rios com detritos químicos ou em madeireiras derrubando florestas. Escritórios, no entanto, também contribuem com ações que não ajudam o planeta. Para se ter uma ideia, é só pensar na energia gasta por centros de processamento de dados ou na quantidade de papel usada, e muitas vezes não reciclada, nesses locais.

Atualmente, a preocupação com a sustentabilidade começa ainda na fase do projeto de um edifício, tendo como meta a economia de energia e de água, a redução de emissão de carbono e o uso eficiente de recursos: é o conceito de green building. “Ainda contamos com uma pequena parcela de empreendimentos desse tipo, mas os prédios já construídos podem se tornar mais ‘verdes’ com a mudança de algumas rotinas básicas”, afirma o diretor de Condomínios do Secovi-SP, Sergio Meira de Castro Neto. Na maioria dos empreendimentos, existe uma boa receptividade para melhorar o ambiente de trabalho. A implantação de algumas medidas importantes, no entanto, ainda não ocorre de forma eficaz. “Todo mundo ‘compra’ a ideia, mas, entre comprá-la e tornála efetiva, ainda há um grande espaço”, ressalta. De acordo com o diretor, é necessário criar uma pequena comissão de profissionais responsável por esse trabalho, que deve ter começo, meio e fim. Independentemente do porte da empresa, é sempre possível diminuir sua pegada ecológica. Confira algumas dicas do Secovi para tornar o escritório mais sustentável:

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Usar torneiras e vasos sanitários econômicos

Torneiras com arejadores reduzem de 10% a 35% o consumo de água em relação às torneiras convencionais. As automáticas e com funcionamento por sensores permitem uma economia ainda maior, entre 35% e 70%. Se o vaso sanitário for muito antigo, é indicado trocá-lo por um modelo mais novo, que libera 6 litros de água por ciclo. Uma escolha ainda mais indicada são os que utilizam válvula de acionamento duplo: gastam 6 litros de água para dejetos sólidos e 3 litros para dejetos líquidos; estão disponíveis tanto para descarga por caixa acoplada quanto por parede. Com essa mudança, é possível economizar entre 50% e 75% de água nos vasos sanitários. Outra possibilidade é a instalação do registro regulador

de vazão para controlar o volume de água gasto nos lavatórios dos banheiros, medida responsável por 20% a 50% de redução nas despesas, quando usado em conjunto com o arejador e a torneira automática ou eletrônica (sensor).

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Reciclar lixo

Implantar a coleta seletiva de forma correta, dimensionando o volume de lixo a ser reciclado para que tenha local apropriado para sua guarda temporária. É importante incentivar os profissionais a participarem da iniciativa, mostrando como a reciclagem pode proporcionar tanto benefício ambiental quanto social. Pilhas, baterias e outros lixos eletrônicos devem ser separados para a entrega em locais de coleta específicos.

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Evitar impressões desnecessárias

A palavra de ordem é “digitalizar”, pois grande parte dos documentos pode ser mantida apenas no formato digital. Seguir sempre os 3 Rs: reduzir, reutilizar e reciclar. Se a impressão for realmente imprescindível, deve-se imprimir em frente e verso e em papel reciclado.

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Adotar iluminação eficiente

As lâmpadas fluorescentes são o padrão em eficiência energética, pois são mais econômicas do que as antigas incandescentes. Elas gastam menos energia e duram mais se utilizadas corretamente: devem ficar acesas pelo menos durante 1 hora e nunca ser colocadas em locais com sensor de presença, por exemplo. Os sensores de movimento possibilitam a redução no gasto de energia ao evitar a iluminação desnecessária de espaços vazios. Outro ponto importante é, quando possível, incentivar o uso de iluminação natural. negóciosustentável | 35


executivo 2.0 | lucro verde

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Comprar equipamentos eficientes

Na hora de comprar ou trocar eletrônicos, procure por aparelhos com o selo Energy Star. Criado pela Agência de Proteção Ambiental norte-americana, ele atesta que um computador ou uma multifuncional usa menos energia comparado com outro da mesma categoria.

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Realizar conferências por telefone ou vídeo

Deslocamento até o cliente ou a uma filial significa gasto de energia, mais poluição e perda de dinheiro e tempo. O VoIP, serviço de transmissão de voz por protocolo de internet, permite ligações telefônicas e chamadas de vídeo a longa distância e internacionais pelo custo de uma ligação local. O VoIP permite a transformação de voz e imagens em pacotes de dados. Esses dados viajam pela rede e são, então, transformados novamente em voz ou imagens no destino. Embora equipamentos de videoconferência ainda sejam caros, há soluções baseadas no protocolo VoIP, como o Skype, que permitem videoconferências sem custo adicional. Esses serviços também permitem a empresas reduzir custos com comunicação tanto com clientes como entre funcionários.

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Trabalhar em home office

Trabalhar em casa, opção oferecida por algumas empresas, exige disciplina, documentos e outros materiais necessários à rotina diária em formato digital, banda larga e VoIP. Para os funcionários, significa menos tempo gasto no trânsito e mais horas com a família. Para a empresa, diminuição de gastos com energia e espaço.

Glossário Pegada ecológica | quantidade de recursos necessários para manter as atividades diárias de uma pessoa, organizações, regiões, etc. Green building | termo também conhecido como “construção verde”, é usado para designar edificações e espaços que têm a utilização de conceitos e procedimentos sustentáveis em sua concepção, construção e operação. Energy Star | esse selo atesta que um aparelho utiliza menos energia comparado a outro da mesma categoria.

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Incentivar a carona entre os funcionários

Campanhas de estímulo à carona entre os funcionários são bem-vindas. Com essa ação, há aumento da taxa de ocupação dos veículos e, consequentemente, menor emissão de carbono. O site www.caronabrasil.com.br facilita às pessoas que desejam dar ou receber carona entrar em contato. Após o registro, a pessoa coloca seu ponto de partida e de chegada e, então, indica se procura ou oferece carona. As jornadas encontradas são mostradas no mapa e podem ser filtradas por tipo de carona. Basta clicar no ícone de um usuário para obter mais detalhes ou contatá-lo. Além de oferecer ou procurar carona, é possível dividir um táxi. O portal conta ainda com soluções corporativas, como o Carona Brasil Corporate. Essa seção permite a criação de grupos formados apenas por funcionários de empresas para compartilhamento de veículos.

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Usar o ar-condicionado com eficiência e realizar periodicamente sua manutenção

Uma política para a temperatura no escritório deve ser estabelecida. Lugares nos quais os funcionários não costumam ficar por muito tempo, como corredores, depósitos e copas, assim como espaços vazios, não precisam de refrigeração. Quando possível, usar ventilação natural, com janelas. Realizar também periodicamente a manutenção dos aparelhos, pois um ar-condicionado sem a limpeza adequada gasta mais energia, tem o motor sobrecarregado e representa um perigo potencial para a saúde.

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Trabalhar a conscientização/ engajamento

Conscientizar os funcionários é uma das formas mais eficientes de conseguir resultados efetivos para todas as propostas funcionarem. Assim como incentivar os profissionais a descobrir e compartilhar outras maneiras de fortalecer a sustentabilidade no ambiente de trabalho. Realizar campanhas com o objetivo de mostrar o resultado das mudanças implantadas também é importante, pois serve de estímulo para a continuidade das ações.


A neg贸ciosustent谩vel | 37


Qual eu levo? Com sacolas de vários tipos de materiais, é bom saber quais são suas diferenças

O

alerta sobre o uso de sacolas plásticas suscitou uma discussão sobre as opções para transportar as compras em geral. Hoje, podemos encontrar sacolas de diversos materiais. No entanto, nem sempre fica claro quais são as suas diferenças, como as retornáveis ou biodegradáveis

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use | cotidiano

“Saco é um saco” O Ministério do Meio Ambiente (MMA) lançou, em junho de 2009, a campanha Saco é um Saco, para incentivar a redução do uso das populares sacolas plásticas, alertando sobre o impacto ambiental que elas geram. De acordo com o MMA, sua produção consome dois recursos não renováveis, petróleo ou gás natural, grande parte é descartada de maneira incorreta, pouquíssimas são recicladas. Com o alto consumo não apenas no Brasil (de 1,5 milhão por hora), mas no mundo inteiro (entre 500 bilhões e 1 trilhão de sacolas anualmente), o seu

uso passou a ser discutido em vários países. Medidas foram tomadas. Segundo informa o MMA, na Irlanda, as sacolas plásticas começaram a ser cobradas em 2002, com isso, o seu consumo caiu em 97%. Outros exemplos, em 2008, na China, as sacolas plásticas foram proibidas, pois o seu consumo era de 3 bilhões por dia. Além de incentivar o menor uso das sacolas plásticas e a utilização de sacolas retornáveis, a campanha do MMA prega o consumo consciente, sempre levando em consideração qual é o impacto individual de um produto: o quanto consumiu de matéria-prima e insumos, quanto gerou de poluição a sua produção e se pode ser reciclado.

Extinção Com a campanha, no Brasil, de junho de 2009 a março de 2010, os brasileiros deixaram de utilizar de 600 a 800 milhões de sacolinhas plásticas, segundo o MMA. Mesmo com essa gradual redução, Roost não acredita na sua completa extinção. “Não creio que possamos voltar aos tempos das sacolas retornáveis, de pano, de papel ou de outros materiais. O que precisamos é promover a educação ambiental por meio de campanhas que promovam o consumo consciente”, afirma. “Por outro lado, a ciência e a tecnologia têm as respostas para solucionar os problemas causados pelo descarte inadequado dos plásticos. Acredito que tudo isso em conjunto tem grande potencial para diminuir drasticamente os efeitos nocivos das sacolas no meio ambiente sem prejudicar toda uma atividade econômica e social envolvida na produção das sacolas plásticas”, destaca. Segundo Roost, a melhor opção deve contemplar não somente a característica da biodegradação, o que já seria bastante positivo, mas também deve levar

“(...) biodegradável significa que vai ser biodegradada por microrganismos presentes no meio ambiente em um período de tempo mais curto”

divulgação

Segundo o diretor da Res Brasil, Eduardo Van Roost, as sacolas retornáveis são aquelas fabricadas com características que permitem sua higienização e reutilização por diversas vezes, como as feitas de pano ou lona, e até mesmo as de plástico, são mais duráveis e resistentes. “A sacola plástica biodegradável significa que vai ser biodegradada por microrganismos presentes no meio ambiente em um período de tempo mais curto. São considerados biodegradáveis, entre outros, os plásticos produzidos a partir de vegetais, os híbridos que contêm mistura de poliésteres e amido e os oxibiodegradáveis. A diferença entre eles está na origem, no processo, na forma, no meio e no tempo em que a biodegradação acontece”, explica. “As oxibiodegradáveis são exatamente iguais às sacolas convencionais, com a diferença de que vão levar muito menos tempo para degradar e biodegradar, caso sejam inadequadamente descartadas no meio ambiente sem jamais serem coletadas e recicladas. Esse processo de degradação e posterior biodegradação é iniciado com oxigênio e acelerado na presença de luz e calor”, destaca o diretor.

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USE | COTIDIANO

em conta outros fatores muito importantes: além do consumo consciente, a redução do uso de sacolas, reutilização e reciclagem. Para o MMA, no entanto, os plásticos oxibiodegradáveis não são a solução para os problemas das sacolas no Brasil, pois, além de outros fatores, é importante a mudança de hábito e não apenas da tecnologia com a qual é feito esse produto. Veja a explicação completa no site da campanha Saco é um Saco (www.sacoeumsaco.com.br), no link Saiba Mais.

Carrefour Brasil

Mocinhos x vilões Segundo o professor do núcleo de Embalagem da ESPM, presidente da Associação Brasileira de Embalagem (ABRE) e gerente de sustentabilidade da Dow para América Latina, Bruno Pereira, um plástico pode ser bom ou ruim dependendo de como será usado e como será descartado. Para ele, o plástico oxibiodegradável é um produto controverso. Então, em vez de eleger “mocinhos ou vilões”, ele prefere apenas incentivar o consumo total consciente. Por exemplo, ao comprar a quantidade correta de alimentos a ser consumida, o total de sacolas plásticas usadas diminuirá e, dessa forma, também o lixo orgânico a ser jogado. Para ele, caso tenha de usar sacolas de supermercado, “use-as de forma correta”. Elas têm a sua função e devem ser reutilizadas a maior quantidade de vezes possível e também levadas para reciclagem.

O grupo anunciou em março a eliminação do uso de sacolas plásticas tradicionais em sua unidade de Piracicaba (SP). Gradualmente, nos próximos quatro anos, esse projeto será estendido a todas as suas lojas. A ação é um desdobramento da participação da rede na campanha Saco é um Saco. A iniciativa ainda faz parte de um plano mundial do Carrefour para a eliminação das sacolas plásticas tradicionais nas lojas da rede. França, China e Polônia estão entre os países do grupo que já aboliram o uso do material. A loja de Piracicaba é um marco de diversas ações sustentáveis lançadas pelo Carrefour em março de 2009, com a campanha Carrefour e Você por um Mundo Melhor, cujo objetivo é usar a estrutura de suas lojas para promover maior conscientização sobre a sustentabilidade. A unidade de Piracicaba coletou mais de 40 toneladas de lixo orgânico, que foram processadas em adubo por meio do sistema de compostagem. Além disso, entre outras iniciativas, foi instalado um novo forno na padaria, movido a bagaço de cana, que oferece sabor especial aos produtos, economia de tempo e energia para assar pães e bolos. Em parceria com a USP, a unidade ainda coleta óleo de cozinha

usado dos clientes. Esse produto, juntamente com o usado pela própria loja, é destinado a uma empresa especializada em transformá-lo em biodiesel, que substitui e reduz o consumo de recursos naturais.

Walmart Brasil Em março, o grupo lançou o programa Cliente Consciente Merece Desconto em suas lojas nas regiões Sudeste e Centro-oeste. Por meio dessa iniciativa, implantada como um projeto-piloto nas lojas Walmart Osasco, Tamboré e Morumbi e que deve atingir todas as unidades em 60 dias, o consumidor recebe o valor do custo da sacola plástica não utilizada em sua compra. Esse programa já funciona no Nordeste e Sul do país, nas mais de 300 lojas dessas regiões, com R$ 498.000,00 em descontos para os clientes e 16,6 milhões de sacolas plásticas retiradas do meio ambiente. Outra novidade: em dois meses a partir do lançamento do programa, todas as lojas terão um caixa preferencial para os clientes que não usam os sacos plásticos. Um caixa desse tipo já funciona na loja ecoeficiente do Morumbi, em São Paulo. O apoio à campanha Saco é um Saco e a sacola retornável do grupo trouxeram resultados concretos: o uso de sacolas plásticas foi reduzido em 10% desde 2007, ou seja, deixaram de ser usadas 138,9 milhões de sacolinhas.

Grupo Pão de Açúcar No Grupo Pão de Açúcar há alternativas ao uso das sacolas plásticas em todas as suas lojas, como embalagens retornáveis, pontos de coleta voluntária de materiais recicláveis e também o desenvolvimento, em parceria com a Plastivida, de um projeto de sacolas mais resistentes para diminuir a necessidade de utilizar tantas embalagens plásticas.


Consumidores admiram empresas sustentáveis A jornalista Sílvia Angerami já reduziu o uso de sacolas plásticas quando vai ao supermercado. Além das informações sobre o impacto desse material no meio ambiente, ela adaptou-se muito bem às sacolas retornáveis. “Tenho várias no porta-malas do carro e tento me lembrar de pegá-las antes de entrar no supermercado. Elas também me auxiliam na minha casa, onde há várias escadas e é sempre melhor transportar compras e outros materiais em uma sacola grande do que em várias pequenas”, explica. Para a jornalista, faz toda a diferença o comportamento das empresas em relação à sustentabilidade. “Tenho uma admiração muito grande pelas companhias que desenvolvem ações sustentáveis”, afirma. A bióloga Gisele Martins é outra fã das ecobags. “Uso essas sacolas diariamente, não apenas para fazer compras, pois elas são muito úteis e possuem ótima durabilidade”. E também dá preferência a empresas com atitudes mais sustentáveis. “Faz toda a diferença saber como uma companhia se comporta em relação a questões, como o uso dos sacos plásticos. Se ela não planejar nenhuma ação para envolver o cliente nessa campanha, vou entender que não está interessada no bem coletivo, apenas em seu próprio negócio”, conclui.

Em relação às sacolas retornáveis, são comercializadas em suas redes de super e hipermercados 1.000.000 delas. Lançadas na rede Pão de Açúcar, em 2005, elas estão disponíveis em todas as redes: Extra, CompreBem, Sendas, ABC CompreBem e Assai. No ano passado, as ecobags alcançaram grande sucesso no CompreBem, com a classe C: foram 540 mil unidades vendidas, ultrapassando as vendas no Extra e Pão de Açúcar. Outra ação do grupo são as sacolas plásticas mais resistentes, que suportam até 6 quilos em comparação aos 4,5 quilos da versão anterior. Em uso desde fevereiro de 2009 nas lojas do Pão de Açúcar, os consumidores podem transportar em uma única sacola uma quantidade maior de alimentos. Com o seu programa Uso Consciente de Sacolas Plásticas realizado pela bandeira Pão de Açúcar, somente em 2009, houve 30% de redução no uso de embalagens plásticas pelos clientes, ou seja, o correspondente a 91 milhões em economia de sacolinhas plásticas. Completam a campanha o incentivo ao uso de sacolas retornáveis do programa de relacionamento Mais, da rede Pão de Açúcar, com o qual clientes ganham pontos, trocados por vale-compras, caso usem suas sacolas retornáveis. Ainda existem 197 estações de reciclagem espalhadas pelo Brasil, onde é possível deixar as sacolas plásticas após o seu uso para reciclar.

Glossário biodegradável | material que é decomposto pela ação de agentes biológicos. oxibiodegradável | material biodegradável ao qual é adicionado um aditivo que acelera a sua degradação. compostagem| considerada uma forma de reciclagem do lixo orgânico, consiste em um processo biológico no qual os microrganismos transformam esse tipo de lixo em adubo.

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Marca registrada Específica para o setor da construção, ela auxilia consumidores a realizar compras confiáveis Por Luciana Kobayashi

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ara ajudar na identificação de produtos, materiais, equipamentos e serviços que causem menos impacto ao meio ambiente, a con sultoria SustentaX criou um selo específico voltado para o setor da construção civil. A consultoria é integrante do Grupo SustentaX e atua no segmento de certificação ambiental de edificações.

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Ela foi a responsável pelo projeto de sustentabilidade da primeira certificação LEED (Leadership in Energy and Environmental Design) na América do Sul: a agência do Banco Real da Granja Viana, localizada em Cotia (SP). “Durante esse processo de certificação, foram detectados problemas com produtos ‘ecológicos’, pois eles não apresentavam qualidade comprovada e os materiais tiveram de ser substituídos. Com isso, a SustentaX decidiu desenvolver um selo para identificar e atestar ao mercado consumidor produtos e serviços sustentáveis”, conta a vice-presidente executiva do Grupo SustentaX, Paola Figueiredo. “Da necessidade até a entrega dos primeiros produtos atestados, foram praticamente dois anos de pesquisas e melhorias”, complementa. Atualmente, mais de 40 itens já possuem o selo.


infra | imobiliário

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Critérios para receber o selo SustentaX aConformidade com critérios de salubridade e de proteção à saúde das pessoas;

Para a vice-presidente, no mercado ainda existe muita confusão com os conceitos sustentável e ecológico. “Produtos ecológicos podem estar em perfeita harmonia com o meio ambiente sem ser viáveis economicamente ou sem ter qualidade comprovada. Um produto sustentável tem responsabilidade social e ambiental e tem qualidade comprovada, não gerando retrabalhos e outros custos”, explica. No Brasil, quem deseja conquistar o selo SustentaX precisa passar por um processo rigoroso. Segundo Paola, inicialmente é feito um diagnóstico levandose em consideração fatores como qualidade, responsabilidade socioambiental e relacionamento com o consumidor, entre outros. Em seguida, as empresas realizam adequações para atender às exigências necessárias para ser certificadas. Esse processo pode durar até um ano. Além de produtos, são atestados os serviços de construtoras, incorporadoras, administradoras, prestadores de serviços, operadores de limpeza e paisagismo.

aConformidade com critérios de qualidade específicos; aComprometimento com a responsabilidade social do fabricante e sua cadeia; aComprometimento com a responsabilidade ambiental do produto, do fabricante e de sua cadeia;

aComprometimento com a disseminação de práticas que geram economia, evitam desperdício e aumentam a produtividade; aComprometimento com a comunicação ética com o consumidor.

A busca pela excelência nas construções sustentáveis é uma realidade no país. “Ter um empreendimento certificado significa um compromisso com a sustentabilidade, auditado por terceira parte e reconhecido internacionalmente”, destaca Paola. Por aqui, existem cerca de 14 imóveis com a certificação Leed, critério mais utilizado mundialmente e emitido pelo USGB (United State Green Building Consil). Para conquistá-la, é necessário o cumprimento de oito pré-requisitos obrigatórios e mais cerca de 70 critérios baseados nas vertentes espaço sustentável, eficiência energética, uso racional da água, qualidade ambiental interna e sustentabilidade de materiais. Outros projetos certificados com a consultoria da SustentaX são: Rochavera Corporate Towers, contemplado com o prêmio Gran Prix d’Excellence pela FIABCI International, em maio de 2008, como o projeto comercial mais sustentável do mundo; Centro de Dis-

sofia mattos

Experiência

Vice-presidente executiva do Grupo SustentaX, Paola Figueiredo, aponta as vantagens da certificação

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infra | imobiliário

tribuição Born, em Itapevi (SP); e Pão de Açúcar, em Indaiatuba (SP). A sede da Brasken, em São Paulo, recebeu no início deste ano o selo Leed para interiores comerciais. Além da Leed, a SustentaX atende ainda as certificações Aqua e o Procel Edifica.

Construções verdes Dentro do projeto de sustentabilidade do Grupo Pão de Açúcar, estava o objetivo de conseguir a certificação LEED, que foi alcançada no final do ano passado com a unidade de Indaiatuba, que é a primeira loja da rede a possuir o selo de construção verde. “Essa certificação faz parte do nosso trabalho em relação à sustentabilidade. Um dos propósitos estratégicos da marca Pão de Açúcar é avançar de modo consistente e contínuo em uma série de iniciativas na área”, explica o diretor da rede Pão de Açúcar, João Edson Gravata. Dentro da proposta de defesa de causas sustentáveis do grupo, de acordo com Gravata, a rede projeta que 100% das novas lojas sejam construções verdes, pois não faz sentido ter apenas uma ou duas lojas com o selo, já que essa iniciativa não é apenas uma questão de “pegar onda” na moda sustentável. “O nosso propósito é que todas as lojas sejam certificadas e que tenham um determinado conjunto de iniciativas verdes. Esse conjunto é o que nos fará certificar ou não a loja no futuro”, esclarece o executivo. Gravata explica que, infelizmente, ainda não é identificado no consumidor que o fator decisório de compra é o selo verde. “Para nós, o investimento feito na certificação é muito mais uma coisa que diz respeito a um propósito da empresa em levar isso perto do consumidor e contribuir para que ele tenha cada vez mais essa consciência e, ao mesmo tempo estimular a sua integração, do que sua associação em optar por uma loja por ser sustentável”, comenta. “Infelizmente, esse conceito ainda não é algo que surge como fator que definirá o local da compra. Esperamos que isso seja diferente no futuro, mas hoje ainda não é”, lamenta.

“Ter um empreendimento certificado significa um compromisso com a sustentabilidade”

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Passo a passo de um apartamento verde Para mostrar que sustentabilidade não “cabe” apenas em empreendimentos comerciais e que o Brasil possui produtos e serviços de qualidade, o Grupo SustentaX lançou em março, ao lado de empresas como 3M, Suvinil, Deca e Padoa, a “Residência Sustentável”. “Esse é um trabalho conjunto de todas as empresas integrantes do

projeto, realizado para desmistificar o conceito de sustentabilidade aplicado a moradias, com a demonstração, passo a passo, de como é possível reformar e decorar um apartamento, seguindo critérios de sustentabilidade reconhecidos internacionalmente”, explica Paola. Segundo a vice-presidente, com essa iniciativa inédita, as pessoas poderão

A primeira unidade com certificação LEED, a de Indaiatuba, recebeu um investimento de R$ 7,5 milhões, porém o executivo explica que não é possível mensurar o quanto é investido para a certificação, apenas diz que podemos considerar que “uma obra feita pensando nessa possibilidade tende a ser pelo menos 10% mais cara do que uma construção sem as especificações necessárias para o processo”, acrescenta.

conhecer as ações desenvolvidas, adaptá-las e usá-las no seu dia a dia. A cobertura de 470 m2, localizada em São Paulo (SP), ainda está na fase de desenvolvimento do projeto, e as obras devem ter início em julho, com duração prevista de seis meses. Após o seu término, o apartamento será aberto para visitação por dois meses e, em seguida, ocupado por moradores.

Atualmente, o Grupo Pão de Açúcar está com a unidade localizada na Vila Clementino, que recebeu um investimento de R$ 13 milhões, em processo de auditoria para certificação LEED. A loja foi inaugurada em dezembro do ano passado, exatamente na mesma época em que o grupo estava recebendo a confirmação da obtenção da certificação da loja de Indaiatuba.

Glossário Certificação Leed | avalia se um empreendimento teve a preocupação em minimizar impactos ambientais, desde a fase de projeto e construção até sua operação e manutenção. Certificação Aqua (Alta Qualidade Ambiental) | avalia 14 critérios de desempenho ambiental em edificações. Se autodenomina a primeira certificação nacional, pois foi adaptada da certificação francesa Haute Qualité Environnementale (HQE) para atender as características ambientais do país. http://www.revistasustentabilidade.com. br/noticias/certificacao-aqua-paraempreendimentos-sustentaveis-e-aprimeira-nacional Procel Edifica | desenvolvido pelo Programa Nacional de Conservação de Energia Elétrica (Procel) e Eletrobrás, promove o uso racional de energia elétrica em construções. Fonte: Planeta Sustentável

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seja bem-vindo Viver, trabalhar ou se divertir em locais sustentáveis já é uma realidade

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e em alguns edifícios e condomínios as questões relacionadas à economia de água, à reciclagem de lixo e à eficiência energética ainda são implantadas lentamente ou nem sequer são discutidas, imagine morar, passar uma temporada ou trabalhar em espaços em que tudo foi concebido e funciona de acordo com as práticas mais sustentáveis? Essa realidade, que para muitos ainda é apenas uma visão futurista, já existe. Exemplos são a Riviera de São Lourenço, em Bertioga (SP), e o Espaço Cerâmica, em São Caetano do Sul, região metropolitana de São Paulo, ambos planejados pela Sobloco Empresa de Desenvolvimento Urbano.

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A Riviera de São Lourenço fica em uma área de cerca de 9 milhões de metros quadrados. Desde sua criação, há mais de 30 anos, várias iniciativas foram implementadas para reduzir o impacto da ocupação urbana. Residem no local cerca de 3.000 pessoas. Essa população chega a 10 mil nos finais de semana e em torno de 45 mil em feriados e férias. Os projetos ali desenvolvidos contemplam diversas áreas. Em relação ao saneamento básico, foram implantados dois sistemas: um de captação, tratamento e distribuição de água e outro de captação, recalque e tratamento de esgotos. Para as questões do lixo, foi montado um projeto integrado de gerenciamento de resíduos sólidos, no qual estão inclusos a coleta seletiva e programas de educação ambiental na cidade de Bertioga. Também foi criado um laboratório de Controle Ambiental para verificar a qualidade das águas (mar, água tratada, efluentes de esgoto e canais de drenagem). Foram ainda destinados mais de 2,6 milhões de metros quadrados para áreas verdes e institucionais.


construa | bairros verdes

A preocupação em remanejar espécies da flora e fauna locais para áreas seguras foi outra iniciativa aplicada na Riviera. Em 2005, teve início um programa, no qual uma equipe multidisciplinar com mais de 180 profissionais, envolvendo, entre outras áreas, biologia, engenharia, botânica, veterinária, geologia e agronomia, trabalha em tempo integral no registro e catalogação das espécies vegetais e no trato e soltura dos animais encontrados na região. Toda essa estrutura conferiu à Riviera a certificação ISO 14001. Com essa conquista no ano 2000, ela tornou-se o primeiro projeto de desenvolvimento urbano a receber esse reconhecimento internacional no mundo. “Em 1979, quando iniciamos o projeto da Riviera de São Lourenço, o tema sustentabilidade nem era invocado pela mídia em geral. Mas, naquela época, a Sobloco já tomava todas as precauções para que o empreendimento fosse uma referência nessa área. E, hoje, ele obteve inúmeros reconhecimentos nacionais e internacionais como um exemplo de desenvolvimento sustentável”, conta o diretor da Sobloco, Luiz Augusto Pereira de Almeida.

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canteiro com ervas medicinais e manutenção de hortas, que hoje são responsáveis por parte das refeições das escolas. “Há pessoas que levaram o conceito que aprenderam vida a fora. Educação ambiental é um trabalho de formiguinha, tudo é aos poucos e em conjunto”, explica a coordenadora de marketing da Sobloco, Beatriz Almeida. Proporcionar a melhoria de vida da população carente: essa é a principal função e objetivo da Fundação 10 de Agosto. A entidade sem fins lucrativos mantida pela Sobloco atua em Bertiga e oferece cursos profissionalizantes como jardinagem, manutenção de piscina, eletricista, hidráulica, garçom, camareira, copeira, cozinha, entre outros. As fontes de receitas da Fundação são originadas pela coleta seletiva realizada na Riviera de São Lourenço, que com esses recursos também oferece cursos de escolarização para adultos, informática e oficinas musicais. “Quando uma pessoa separa o lixo na Riviera, está ajudando alguém na Fundação 10 de Agosto”, completa Beatriz.

Projetos sociais

São Caetano mais sustentável

A Sobloco não constrói apenas empreendimentos sustentáveis, ela também constrói integração ambiental e social por meio de programas desenvolvidos na cidade de Bertioga há 17 anos. Em parceria com seis escolas da região, ela mantém o Projeto Clorofila, que visa integrar os alunos com o seu meio de convívio, ou seja, fortalecer neles um laço afetivo com o seu ambiente mais próximo, ensinando a cuidar do seu habitat. Dentro do projeto, são desenvolvidas implantações de melhorias no ambiente das escolas, mostrando a importância do trabalho em conjunto. São ensinadas também noções de plantio de árvores,

O mais novo empreendimento da Sobloco, o Espaço Cerâmica, fica em um terreno de 300 mil metros quadrados, onde funcionava a antiga Cerâmica São Caetano. Ele começou a ser trabalhado há dez anos e abrigará um bairro planejado sustentável, com o conceito work, live and play, ou seja, ocupação urbana de moradia, trabalho e lazer no mesmo lugar. No local, ainda haverá um shopping center e parques públicos. “Em cada projeto, tomamos os cuidados necessários para que ele contenha as iniciativas próprias para a defesa do meio ambiente e a garantia da qualidade de vida daqueles que se beneficiarão com sua execução”, explica Almeida.

“Educação ambiental é um trabalho de formiguinha, tudo é aos poucos e em conjunto” Diretor da Sobloco, Luiz Augusto Pereira, está à frente das estratégias ligadas ao campo da sustentabilidade negóciosustentável | 47


“A sustentabilidade está presente no DNA da Sobloco. É a maneira de ser da empresa. Não há como um projeto ou empreendimento seguir em frente sem que esse assunto seja amplamente debatido e detalhado”

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Expertise Fundada nos anos 1950, a Sobloco trabalhou em diversos segmentos e, no início da década de 1980, redirecionou suas atividades para a área de desenvolvimento urbano. “Com a expertise adquirida em vários outros setores, a empresa passou a aplicá-la em projetos de grande envergadura. Nossa atuação é muito específica e com poucos players no mercado”, afirma Almeida. “Trabalhamos em um mesmo projeto por dezenas de anos. Com isso, conseguimos aprimorar os trabalhos técnicos, sempre atentos às novidades urbanísticas mundiais e os desejos de nossos prospects”, destaca o diretor, que ainda completa: “A sustentabilidade está presente no DNA da Sobloco. É a maneira de ser da empresa. Não há como um projeto ou empreendimento seguir em frente sem que esse assunto seja amplamente debatido e detalhado”. Além da Riviera e do Espaço Cerâmica, outros empreendimentos de destaque da Sobloco nesse segmento são: Plano Urbanístico do Parque Faber-Castell, em São Carlos, interior de São Paulo, com área de 2,1 milhões de metros quadrados; e o Guarujá Central Park, no Guarujá (SP). A empresa não pretende parar por aí. “Está no DNA da Sobloco o desenvolvimento de novos espaços e a criação de áreas para a formação de comunidades”, finaliza Almeida.

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A infraestrutura do novo bairro terá fiação subterrânea de energia e gás, com técnicas arquitetônicas que obedecem às regras internacionais de acessibilidade. Os parques públicos, jardins, canteiros, avenidas e rotatórias contarão com irrigação automatizada, somente com a utilização da quantidade necessária de água. O projeto ainda conta com sistemas inteligentes de segurança. A estrutura viária é outro ponto de destaque no novo bairro: ruas muito largas foram evitadas, assim como longos trechos em tangente para evitar as altas velocidades. Outra inovação: para atravessar a rua, o pedestre permanece no mesmo nível das calçadas e o carro é que tem de priorizar a sua passagem, ou seja, o pedestre sempre terá a prioridade. “É o maior projeto de revitalização urbana do país. Uma área antes 100% industrial, agora já está pronta para receber residências verticais e horizontais, comércio, serviços e um shopping center”, destaca o diretor da Sobloco. “Já investimos mais de R$ 25 milhões no Espaço Cerâmica. A sua ocupação total se dará ao longo de 10 a 15 anos. A nossa previsão é que durante esse período o empreendimento atraia investimentos de terceiros superiores a R$ 1 bilhão.” Com ocupação total e em pleno funcionamento, o Espaço Cerâmica deve ter movimento superior a 30 mil pessoas por dia, desses, 7 mil serão habitantes.


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Um passo de cada vez Sensibilizar os profissionais em relação à sustentabilidade requer atividades específicas

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Por Luciana Kobayashi

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Ânima | RH

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ornar uma instituição mais sustentável evoca diversas ações, como educar, inovar, comunicar, aprender, compartilhar, fortalecer. Mas de que forma elas podem ser trabalhadas com os funcionários para o sucesso na implantação dessa nova política nas empresas? “De forma geral, é preciso que a companhia tenha claro o seu conceito de sustentabilidade e seu objetivo com esse projeto. Dessa postura, vai derivar toda e qualquer atividade executada futuramente”, explica a consultora da DBM, empresa especializada em gestão do capital humano, Melissa Porto Pimentel

em saber mais sobre o assunto, a quem procurar”. Outro ponto importante é o apoio das lideranças. “É fundamental a causa sustentável contar com o apoio dos líderes para os profissionais perceberem que é algo genuíno. As lideranças têm de ter isso como uma bandeira. Nas empresas bem-sucedidas nesse quesito, a sustentabilidade está nas agendas dos presidentes”, destaca. Outra orientação da consultora é aliar a sustentabilidade ao desempenho dos departamentos. “É importante estipular metas, pois o programa precisa estar conectado a reduções e indicadores para funcionar. Dessa maneira, eles começam a perceber que está realmente sendo válido”.

shutterstock

Walmart

Em relação à política para os funcionários, ela pontua: “Deve ser feita uma campanha explicando exatamente o que significa o tema, falar sobre a responsabilidade individual, da corporação e dos negócios, além do impacto em suas vidas e no planeta. Essa atitude é importante para a empresa não ter perigo de cair no greenwashing (maquiagem verde)”. A consultora chama a atenção para que essas tarefas tenham um “dono”, ou seja, uma área responsável pela implantação do programa. “É preciso uma área ou um gestor responder por essas ações, para que fique claro aos colaboradores, com dúvidas ou interessados

No Walmart Brasil, com mais de 80 mil funcionários, existem vários projetos para sensibilizar os profissionais em relação à sustentabilidade. “No nosso grupo, temos uma tarefa desafiadora, pois é imprescindível cada um entender a importância dessa questão”, afirma o gerente de sustentabilidade do Walmart Brasil, Yuri Feres. “Ao ingressar na companhia, há um módulo inteiro no programa de treinamento dedicado a esse tópico. Temos também uma iniciativa chamada Mobiliza Geral. Nesse programa, são explicados os seus conceitos na vida do funcionário. Mostramos que é um valor não apenas na empresa, mas também na sua casa”. O ano de 2005 foi um marco global para o Walmart: a sustentabilidade passou a integrar as macroestratégias da empresa, que definiu os pilares principais em relação aos temas clima

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e energia, resíduos sólidos e produtos mais sustentáveis. Para cada um desses pilares também foram definidas metas. “Naquele ano, realizamos um treinamento presencial com 20 mil empregados. Atualmente, eles participam de videoaulas bem mais abrangentes. Já treinamos mais de 60 mil pessoas e iremos treinar mais 60 mil”, acrescenta. E a resposta a essa política cuidadosa voltada ao funcionário não poderia ser melhor. “A aceitação e a participação nas ações relacionadas ao tema têm sido fantásticas”, destaca Feres. Como exemplo, ele cita outro programa do grupo. “O Walmart desafia o seu profissional a adotar uma causa, pessoal ou profissional. Ele estabelece uma meta, adere ao programa e o acompanhamos ao longo do ano. Os que apresentam os melhores resultados são premiados. A meta não precisa envolver a empresa, pode estar relacionada à sua saúde ou finanças. A participação nessa iniciativa não é obrigatória, mas 80% de nossa equipe se dedica a alguma causa.

“É fundamental a causa sustentável contar com o apoio dos líderes” Esse projeto ficou mais forte nos três últimos anos”, conta Feres. “Investimos no colaborador porque queremos passar valores efetivos sobre a sustentabilidade. Não queremos banalizar o conceito, dar a entender que as ações que estamos fazendo são apenas para diminuir os custos da empresa, e sim mostrar que é um compromisso para nós”, completa. negóciosustentável | 51


52 Mergulhe fundo nessa ideia A Sabesp realizou em 2008 seu primeiro inventário de emissões de gases de efeito estufa (GEE), e as principais realizações no âmbito da Gestão Ambiental foram: Política de Meio Ambiente – que estabelece diretrizes para gestão ambiental da empresa, buscando seu redirecionamento e orientando suas ações no sentido de contribuir para o desenvolvimento sustentável e a excelência ambiental. Rede de Gestão Ambiental – ao longo de 2008 implantou Núcleos de Gestão Ambiental, atendendo a todas as unidades de negócios e algumas superintendências de apoio para estabelecer uma atuação integrada e administrar as demandas ambientais específicas de cada região. Certificação ISO 14001 – esse passo que a empresa deu foi visando melhorar o controle dos impactos ambientais oriundos de suas atividades, produtos e serviços, bem como a oportunidade de redução e controle de custos de riscos ambientais.

Gestão de Conformidade Ambiental a empresa atua de forma pró-ativa e preventiva, estabelecendo compromissos e formalizando Termos de Ajustamento de Conduta com os órgãos fiscalizadores e com o Ministério Público, e contempla em seu planejamento orçamentário os recursos destinados a esse fim. Programa de Educação Ambiental Sabesp (PEA Sabesp) – em 2008, a Sabesp deu continuidade ao processo de estruturação do Programa de Educação Ambiental Instituto Criança Cidadã (ICC) – a Sabesp é comantenedora do ICC, que tem como missão investir na formação de jovens provenientes de famílias em situações de dificuldade econômica e social, promovendo educação, cultura e assistência na Região Metropolitana de São Paulo e Guarulhos.

Relacionamento com a comunidade – a Sabesp atua junto às comunidades em parceria com as prefeituras locais. Os programas destinados para esse público têm como objetivo a sustentabilidade socioeconômico e ambiental. Núcleos de Gestão Ambiental – esses núcleos foram implantados em 2008 em todas as unidades da empresa. Além da gestão ambiental corporativa, deu-se continuidade a várias iniciativas das Unidades de Negócio voltadas para a sustentabilidade ambiental e o fortalecimento do compromisso com o meio ambiente, envolvendo engajamento com a sociedade e parcerias com organizações não governamentais. Entre elas, destacam-se: Programa de Plantio e Viveiro de Mudas; Programa Verde Vida; Projeto Biossólidos; Programa Sabesp 3 Rs – Reduzir, Reutilizar, Reciclar; Abraço Verde e Papel Reciclado; PROL – Programa de Reciclagem de Óleo de Fritura; Planeta Sustentável; Um Milhão de Árvores na Cantareira; De Olho na Mata Atlântica; Audiência de Sustentabilidade; Sabesp na operação defesa das águas. Campanha do agasalho – a empresa participa dessa campanha por meio do engajamento dos empregados voluntários e das parcerias com prefeituras, fundos sociais ou secretarias assistenciais.

Abraço Verde, um dos projetos desenvolvidos pela Sabesp por seus “Núcleos de Gestão Ambiental”


“O Walmart desafia o seu profissional a adotar uma causa, pessoal ou profissional” Sabesp A Sabesp também realiza diversas iniciativas para os seus profissionais. As atividades de educação ambiental e sanitária são desenvolvidas há mais de 20 anos, estão incorporadas nos valores da empresa e são prioridade na comunicação com os seus públicos. “Em setembro de 2009, foi lançado o Programa de Educação Ambiental que estabelece orientações gerais e capacitou 800 funcionários, sendo 100 multiplicadores”, afirma o assessor de Meio Ambiente da presidência da companhia, Marcelo Morgado. Além desse projeto, a empresa promove mensalmente eventos, apresentando temas como esportes e natureza, compras sustentáveis e ecoturismo, entre outros. São ainda organizadas apresentações sobre gestão ambiental.

Também em 2009, a Sabesp implantou o Programa de Voluntariado Empresarial Sabesp, que treinou 800 empregados e 100 facilitadores para construir uma rede cuja missão é divulgar as diretrizes do programa para os colaboradores, terceiros e aposentados interessados em participar. Por meio desse programa, a empresa abraça os 8 Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM), e para 2010 a Sabesp pretende promover intensa mobilização, com campanhas mensais focadas em cada um desses objetivos, sensibilizando todo o público interno para participar do programa. Com isso, ela espera uma grande adesão de toda a companhia, que deverá culminar no Dia do Milênio, programado para 23 de outubro. As responsabilidades pela conscientização e educação ambiental são compartilhadas, e há cooperação de diversas áreas. O setor de Recursos Humanos tem um papel protagonista nesse processo, em conjunto com as áreas de Responsabilidade Ecossocial das Unidades de Negócio e a Superintendência de Gestão Ambiental. A organização dessas atividades traz bons resultados para a companhia. “O nível de adesão de nossos funcionários é muito elevado, pois já faz parte da cultura sabespiana a consciência ecológica e o engajamento em programas ecossociais”, destaca o assessor.

Consultora da DBM, Melissa Porto Pimentel, enaltece a importância das companhias terem claro o seu conceito de sustentabilidade e o objetivo da empresa com cada projeto

Glossário Greenwashing | traduzido como “maquiagem verde”, essa expressão designa qualquer forma de marketing ou relações públicas de corporações que tentam passar uma imagem positiva sobre suas ações/produtos em relação ao meio ambiente, mas que não são verdadeiras.

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eco | tendência

Crescimento bem-vindo Aumenta no Brasil a reciclagem de pneus, que gera materiais para diversos segmentos da economia

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o pensarmos em um pneu velho, dificilmente imaginamos algo diferente de um local perigoso para a proliferação do mosquito da dengue, da febre amarela ou mesmo de ratos e demais pragas. Infelizmente, o que vemos é sempre um descarte incorreto, pois quando não está abandonado em terrenos baldios ou em quintais é descartado incorretamente em lixões, misturando-se com o restante do lixo ou também são queimados.

Esse material quando passa por um processo de queima pode ficar em combustão por mais de um mês e libera mais de 10 litros de óleo no solo causando a contaminação da água e poluição do ar. Além disso, ser proibido pela legislação ambiental é um aspecto extremamente negativo e traz prejuízos para a sociedade e para o meio ambiente. Após a sua vida útil, para não se tornar um problema, eles precisam receber destinação correta. Uma legislação regulamenta a questão da reciclagem de pneus: em linhas gerais, fabricantes e importadores devem coletar e dar destinação final aos pneus inservíveis. Segundo a Associação Brasileira do Segmento de Reformas de Pneus (ABR), a reciclagem repõe no mercado mais de 7,6 milhões/ ano de pneus da linha caminhão/ônibus e 8 milhões/ano da linha automóvel, o que representa uma economia de 57 litros e 17 litros de petróleo por pneu reformado, respectivamente. O setor tem faturamento de R$ 4 bilhões (reforma de pneus, matéria-prima e equipamentos) por ano. Existem 1.578 reformadoras e 18 fornecedores de matéria-prima (15 nacionais e 3 multinacionais).


Medidas importantes

Recicladoras

Por conta da seriedade desse assunto, a Associação Nacional da Indústria de Pneumáticos (ANIP), entidade que representa os fabricantes de pneus novos no Brasil, decidiu criar o Programa Nacional de Coleta e Destinação de Pneus Inservíveis em 1999. São considerados inservíveis aqueles que apresentam danos irreparáveis em sua estrutura e não podem nem ser usados para rodagem ou reformados. Com o passar dos anos, o programa da ANIP teve a sua atuação ampliada em todas as regiões do Brasil e foi criada, então, em 2007, a Reciclanip, voltada exclusivamente para a atividade de coleta e destinação de pneus no país. Desde o início do programa até hoje, foram reciclados mais de 240 milhões de pneus de passeio. Para chegar a esse resultado, foi investida cifra superior a US$ 95 milhões. “Apenas em 2009, destinamos 250 mil toneladas, o equivalente a 50 milhões de pneus de automóveis”, informa o gerente geral da Reciclanip, Cesar Faccio. Os investimentos para este ano serão 20% maiores, com previsão de acréscimo de US$ 25 milhões. Atuando em todo o território nacional, o programa é realizado por meio de parcerias, na maioria dos casos com prefeituras. Elas cedem um local, de acordo com normas específicas, usado para recolher e armazenar pneus entregues por revendedoras, borracharias e consumidores. Quando atinge a quantidade de 2.000 pneus de passeio ou 300 de caminhões, a Reciclanip programa a retirada do material com transportadores conveniados. “Atualmente, temos 441 pontos de coleta homologados, ou seja, com o convênio assinado. Temos também 110 em fase de ajuste: eles operam, mas faltam apenas documentos, e ainda 141 novos pontos para cidades com mais de 100 mil habitantes. Esses têm de começar a funcionar até outubro”, explica Faccio. Graças ao programa de reciclagem e à criação da Reciclanip, foram eliminados depósitos irregulares de pneus existentes em diversas regiões do Brasil. A reciclagem tem evoluído no país, mas, como aponta Faccio, “ainda falta consciência da população. As pessoas têm a impressão de que o pneu tem um valor agregado, preferem deixá-lo na garagem. À medida que ele não tenha serventia, deve ser destinado corretamente. O nosso grande desafio é a conscientização de toda a cadeia que trabalha com esse produto”. Para isso, já existe um programa educativo voltado para essa cadeia.

O aumento da reciclagem de pneus também foi responsável pela criação da Associação Nacional das Empresas de Reciclagem de Pneus e Artefatos de Borrachas (Arebop), constituída em 2006 para organizar, incentivar, viabilizar e autorregulamentar o setor. A associação é formada por 25 associados, com 32 unidades em todo o Brasil, cadastradas dentro do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama) e que funcionam de acordo com as exigências do órgão. “Essa atividade existe há mais de 40 anos no Brasil e era pouco conhecida até o início do ano 2000”, afirma o diretor executivo da associação, José Carlos Arnaldi. Segundo ele, o Brasil gera em torno de 380 mil a 400 mil toneladas de pneus inservíveis por ano, o que representa cerca de 40 milhões de unidades, e a Arebop tem capacidade instalada para reciclar 350 mil toneladas de pneus/ ano. “Ainda temos uma capacidade ociosa de 20%”. Mesmo sem receber incentivo do governo para importação de equipamentos, ele destaca: “São usadas técnicas modernas na reciclagem realizada no país, alinhadas com os modelos internacionais”. Faccio reforça essa informação: “Não estamos atrasados em re-

renato rodrigues

Diretor-executivo da Associação Nacional das Empresas de Reciclagem de Pneus e Artefatos de Borrachas (Arebop), José Carlos Arnaldi, faz diagnóstico sobre o setor

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eco | tendência

lação a outros países. A Reciclanip, por exemplo, é uma referência em reciclagem de pneus e tem o reconhecimento do Ibama”. O trabalho de coleta e destinação de pneus inservíveis realizado pela entidade é comparável a outros grandes programas existentes no Brasil, como o de latas de alumínio, garrafas PET e embalagens de defensivos agrícolas. Esse trabalho segue o modelo de gestão de empresas europeias, como a Aliapur (França), Signus (Espanha) e ValorPneu (Portugal). “Uma diferença em relação ao sistema europeu é que aqui os fabricantes arcam com todos os custos de coleta e destinação dos pneus. Lá, as empresas são remuneradas pelos vários agentes da cadeia produtiva”, informa.

Uso diversificado O pneu inservível pode ser reaproveitado em diversos setores. Segundo a Reciclanip, uma das formas mais comuns, correspondente a 63% desse material, é usá-lo como combustível alternativo para as indústrias de cimento. Os outros 37% servem de matéria-prima para outros produtos, como fabricação de solados de sapatos, borrachas de vedação, dutos pluviais, pisos para quadras poliesportivas, pisos industriais, tapetes para automóveis e ainda como componentes para a fabricação de manta asfáltica e asfalto-borracha. No site da Reciclanip (www.reciclanip.com.br), é

possível encontrar os locais e telefones dos postos de coleta em todo o Brasil. A empresa de transporte expresso TNT, que atende mais de cinco mil cidades, possui 8.500 funcionários e 120 filiais e franquias, é uma grande usuária de pneus. Ela conta com 2.500 veículos próprios e 2.500 terceirizados em sua frota, que por ano roda cerca de 60 milhões de km², fazendo com que ela gere muitos pneus para descarte. Porém, como grande consumidora de um item responsável por muitos problemas ambientais, econômicos e sociais, a empresa se preocupa em fazer a coleta correta. “Descartamos os pneus inservíveis com uma empresa que reutiliza para confecção de tapetes para automóveis e asfalto para rodovias”, conta a diretora de Recursos Humanos da TNT, Pida Lamin. Sendo pneu e combustível os maiores itens consumidos pela TNT, a empresa se preocupa constantemente em manter um compromisso ambiental e procura descartar seus resíduos corretamente. “Somos completamente contra o descarte indiscriminado, principalmente quando se trata dos nossos maiores insumos. Por esse motivo, trabalhamos para diminuir o impacto que eles causam ao meio ambiente, sempre buscando formas que causem o menor problema possível”, explica a diretora. Além da preocupação com o destino dos pneus inservíveis, a transportadora também desenvolve um projeto de gestão de resíduos e mantém internamente um de-

Veja como são reaproveitados os pneus inservíveis Coprocessamento pelo seu alto poder calorífico, os pneus inservíveis são largamente utilizados como combustível alternativo em fornos de cimenteira, em substituição ao coque de petróleo.

Laminação nesse processo, os pneus não radiais são cortados em lâminas que servem para a fabricação de percintas (indústrias moveleiras), solas de calçados, dutos de águas pluviais, etc.

Asfalto-borracha adição à massa asfáltica de pó de borracha oriundo da trituração de pneus inservíveis. O asfaltoborracha tem uma vida útil maior, além de gerar um nível de ruído menor e oferecer mais segurança aos usuários das rodovias.

Artefatos de borracha a borracha retirada dos pneus inservíveis dá origem a diversos artefatos, entre os quais tapetes para automóveis, pisos industriais, pisos para quadras poliesportivas e artigos para jardinagem. Fonte: Reciclanip


“Todos os recursos financeiros para campanhas ambientais vêm da própria gestão de resíduos” partamento chamado de Responsabilidade Corporativa.

Projeto 2014

“Todos os recursos financeiros para campanhas am-

Em 2009, a Goóc lançou o Projeto 2014, com o qual pre-

bientais vêm da própria gestão de resíduos. Em 12 meses,

tende, até o fim deste ano, atingir a marca de 20 milhões de pares vendidos de Eco Sandals (sandálias ecológicas). O nome da iniciativa foi escolhido porque esse será o ano da Copa do Mundo no Brasil e a Goóc também completará 10 anos. A iniciativa tem um padrinho ilustre: Pelé. “Lançamos essa campanha para informar, conscientizar e contribuir para o aumento do consumo consciente de sandálias produzidas a partir do material”, afirma Thái. Além disso, o projeto também visa chamar a atenção para a importância da reciclagem de pneus. A parceria entre Pelé e Goóc também divulgará a Campanha Retornável (Tenha uma Atitude 10!). Os consumidores que levarem a um ponto de venda autorizado um par de sandálias usadas, ganharão uma ecobag na compra de qualquer produto Goóc. Dessa forma, a empresa inova no segmento ao lançar o conceito de “retornável” no setor calçadista. A Goóc não quer que o seu produto vire lixo, mas retorne à cadeia produtiva, uma vez que a borracha pode ser reciclada inúmeras vezes. As sandálias recolhidas serão levadas à sua fábrica na Bahia para reciclagem e transformadas em produtos novos, garantindo uma produção sustentável. “O faturamento da Goóc no ano passado foi de R$ 31 milhões e, em 2010, a empresa pretende atingir R$ 36 milhões”, completa Thái.

arrecadamos cerca de R$20.000,00”, conta Pida. “Um dos diferenciais da TNT é justamente a preocupação ambiental com todos os GEEs (gases efeito estufa). Temos um programa corporativo mundial chamado Planet Me – que trata especificamente sobre esse assunto. Nosso CEO, Peter Bakker, dá muita importância ao tema”, finaliza a diretora.

Pneu em sandália Pioneira na transformação de pneus em sandálias, a Goóc já utilizou 2,5 milhões desse material desde o início de suas atividades, em 2004. A empresa foi fundada e é presidida pelo vietnamita Thái Quang Nghiã, um exemplo de superação e sucesso. Ele chegou ao Brasil em um petroleiro da Petrobras, resgatado pelo navio quando tentava fugir de seu país de origem devido ao regime comunista. Sem falar uma palavra em português, ele conseguiu vencer devido ao seu empreendedorismo. A Goóc é pioneira na fabricação em alta escala de calçados a partir de pneus inservíveis reciclados. Segundo Thái, em outros países são utilizadas técnicas manuais para esse tipo de produção. Os itens da marca, calçados, bolsas e acessórios, são vendidos pelos catálogos da Avon (venda porta a porta), em lojas multimarcas, de departamentos e hipermercados e também são exportados. Outra característica da empresa é

Glossário

incentivar colaboradores e parceiros a contribuir para

Inservível | no caso de pneus, são considerados inservíveis aqueles que apresentam danos irreparáveis em sua estrutura e não podem nem ser usados para rodagem ou ser reformados.

o equilíbrio entre consumo e reciclagem.

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Inovação na medida certa Selos independentes auxiliam consumidor na hora da escolha de produtos e empresas preocupadas com a preservação ambiental Por Luciana Kobayashi

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s consumidores estão cada vez mais exigentes, e essa exigência vai muito além do sabor dos alimentos, beleza dos eletrodomésticos ou preços competitivos. Questões relacionadas à sustentabilidade passaram a ter peso em suas escolhas. Quem compra quer saber em quais condições aquele produto foi produzido, se ele de fato é mais econômico do que outro semelhante, se o fabricante é ético e como conduz seus negócios. Enfim, preocupa-se com o seu bem-estar, mas também com o da sociedade e do planeta.

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O estudo Green Brands Global Survey realizado em 2009 revela que 73% dos brasileiros planejam aumentar seus gastos com produtos e serviços verdes e 28% deles estão dispostos a gastar até 30% a mais em produtos e serviços verdes. “Uma maneira das empresas começarem um processo de inovação via sustentabilidade é por meio da busca pela certificação de seus produtos e serviços. Os chamados selos verdes normalmente estabelecem exigências que promovem a diferenciação e a fácil identificação por parte dos consumidores”, explica o fundador e presidente do Grupo SustentaX, Newton Figueiredo.

“Nem todos os selos são fiscalizados, há uma quantidade muito grande que aparece a todo momento” Por conta disso, os diversos selos e certificações passaram a fazer parte do dia a dia dos consumidores. Estampados nas embalagens dos produtos, eles “atestam” que possuem certas características. Um selo adiciona valor a um produto e aumenta sua atratividade. Selos independentes, criados por ONGs, associações empresariais ou instituições governamentais, envolvem auditorias e fiscalização. Selos autorreguladores, por outro lado, são criados pela própria empresa para se regulamentar, sendo por isso mais polêmicos. “Nem todos os selos são fiscalizados, há uma quantidade muito grande que aparece a todo momento”, afirma a pesquisadora do Idec, Adriana Charoux, responsável pelos testes e pesquisas relacionados a Consumo Sustentável e Responsabilidade Social Empresarial. Para ela, os selos autodeclaratórios conferem alguma qualidade aos produtos, mas não têm critério legal. “Até se valem de legislação vigente, mas não têm nenhuma instância de terceira parte que os regule. O consumidor deve ficar atento”, completa. 60 | negóciosustentável

Com o produto legalizado Fundada em 2001 com o objetivo de manter uma área preservada na floresta na Amazônia, a Ecolog, empresa especializada em extração de madeira nativa, encontrou no manejo sustentável a ferramenta para conservar a mata e ir contra a realidade de devastação que já destruiu 18% da mata nativa da região. Em 2004, a empresa investiu no processo de certificação do selo FSC que proporcionou a Ecolog participar e concorrer a mercados externos como a Holanda. “Até um ano e meio atrás 99% de nossa produção era voltada à exportação”, conta o diretor e fundador da Ecolog, Fábio Albuquerque. Para obter o selo, a Ecolog investiu algo em torno de 300 mil reais, porém, esse gasto foi diluído ao longo do tempo; anualmente, para manter a certificação, ela investe cerca de 40 mil reais. “Infelizmente no Brasil a certificação ainda é algo que não tem muita força nesse ramo em que atuamos. Porém, mantemos nosso selo porque acreditamos que essa é a única forma de ainda termos a Amazônia para o nosso futuro”, explica Albuquerque. Para ele, as coisas mudariam muito a partir do momento em que o consumidor passar a ter uma consciência melhor quanto à sua responsabilidade para a preservação do meio ambiente e exigisse produtos legalizados. “Isso não serve só para a madeira, ele pode exigir que a carne que come tenha sido produzida por uma empresa que não agrediu a mata e que o cosmético que utiliza não tenha sido testado em animais, por exemplo”, acrescenta o executivo, que finaliza: “Precisamos mudar nossos hábitos de consumo e exigir que nossos produtos tenham uma origem idônea”.


Conheça alguns selos independentes: Certificação LEED Avalia se um empreendimento teve a preocupação em minimizar impactos ambientais, desde a fase de projeto e construção até sua operação e manutenção.

Carbono Neutro O ícone permite a identificação de um produto, serviço, instalação ou evento que tenha compensado suas emissões de gases de efeito estufa com projetos ambientais certificados. Esses projetos podem envolver recuperação florestal (plantio de árvores nativas em áreas devastadas), prevenção de desmatamento (manutenção de florestas existentes, como a Mata Atlântica, o Cerrado e a Floresta Amazônica) ou energia limpa (como a eólica, solar, biomassa e fotovoltaica).

carbono

neutro

Procel O selo Procel de economia de energia atesta o nível de eficiência energética de diversos produtos, tais como lâmpadas, refrigeradores, lavadoras, televisores e ventiladores.

Selo Azul de Papel Reciclado Certificação adotada pelo Estado do Paraná foi criada para garantir que ao menos 50% de um papel reciclado tenha sido confeccionado com matéria-prima reaproveitada. E para que uma empresa comercialize seu produto para o governo é necessário conter o selo Azul em seus produtos e estar devidamente credenciada à Secretaria do Meio Ambiente e Recursos Hídricos do Paraná.

Certificação TCO Para produtos de TI, essa certificação combina tanto benefícios para o usuário, CERTIFIED como funcionalidade, facilidade de uso, durabilidade, segurança e baixos níveis de barulho e de campos eletromagnéticos, quanto para a natureza, como economia de energia e eliminação de substâncias tóxicas.

DO ORG

ICO

CERTI

F

Orgânico Um alimento orgânico é um produto sem agrotóxicos, obtido por meio de um equilíbrio entre o solo e os demais recursos naturais, de modo a não exaurir esses recursos. Há diversos selos que garantem ao consumidor a procedência e sistema de produção de um www.ibd.com.br produto como orgânico. O selo da Organização Internacional Agropecuária é fornecido no Brasil pela OIA Brasil, que certifica produtos agropecuários e realiza capacitação técnica. O selo da Associação de Certificação Instituto Biodinâmico (IBD) também é bastante usado no País. Certifica produtos como café, soja, açúcar, carne, frutas tropicais e palmito, entre outros, para serem exportados para Estados Unidos, Japão e países europeus. A IC

ÂN

FSC Esse selo atesta que uma área florestal foi explorada de maneira ecologicamente correta (minimização do impacto causado na floresta, permitindo a continuidade de sua existência), socialmente justa (atividade legalizada, com pagamento de impostos e respeito à segurança do trabalho) e economicamente viável (utilização de técnicas para aumento de produtividade e que agreguem valor ao produto). Essa sigla vem de Forest Stewardship Council, conselho representado no Brasil pela ONG Conselho Brasileiro de Manejo Florestal (FSC Brasil). Entre suas principais atividades, destacam-se o desenvolvimento de padrões de certificação nacional e regionais de manejo florestal e o credenciamento de organizações certificadoras independentes.

IBD

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Lixo é lixo? Empresas reciclam seus resíduos, discutem possibilidades e oferecem alternativas para reverter título de campeões no ranking do lixo eletrônico

Muitos até têm conhecimento, mas não imaginam a dimensão dos estragos causados pelo descarte incorreto do lixo eletrônico. Produtos como celulares, periféricos de computador, pilhas, baterias, monitores, televisão e geladeira, entre tantos outros, quando jogados de forma inadequada, podem causar mais do que sérios problemas ao meio ambiente. “Esses produtos são tóxicos por conterem chumbo, mercúrio, cádmio, arsênico e belírio. Jogados no lixo, vão para aterros sanitários ou lixões, em que podem contaminar o solo, chegar até os lençóis freáticos e atingir a água. Além do impacto ambiental, o descarte indevido do lixo eletrônico pode nos causar diversos problemas: desde doenças de pele até câncer”, afirma a consultora em minimização de resíduos com experiência de 20 anos na área, Patrícia Blauth. “Outra forma de contaminação pode ocorrer por contato direto, quando pessoas manipulam os componentes eletrônicos sem a consciência de que são bastante perigosos para a saúde”, completa.

Por conta da gravidade do assunto, a ONU fez um alerta: em fevereiro, o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) divulgou informações referentes ao lixo eletrônico mundial. Para o Brasil, as notícias não foram boas: entre os emergentes, ele foi considerado o maior produtor per capita, referente a computadores pessoais (0,5kg/cap. ano). México e China foram os segundos colocados da lista (0,4kg/ cap. ano). Além disso, o país foi criticado por não ter estratégia para tratar do assunto. E o “assunto” em questão não é brincadeira: a geração mundial de e-lixo é estimada pela ONU em 40 milhões de toneladas por ano.

Lei à vista Por conta desse cenário, o descarte do lixo eletrônico é cada vez mais discutido. Após 19 anos, a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS) foi finalmente aprovada pela Câmara dos Deputados em março. Ainda será submetida ao Senado e, se for aprovada, será encaminhada à sanção presidennegóciosustentável | 63


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Nos últimos três anos, a empresa (Itautec) já destinou mais de 1400 toneladas de resíduos eletrônicos para reciclagem

cial. Na prática, ela estabelece que as empresas sejam responsáveis por seus produtos: devem recolhê-los e dar destinação correta a eles. Mas, se grande parte da população desconhece o caminho adequado para desfazer de sua televisão de tubo ou do celular que considera antigo, como se comportam as empresas? Como elas destinam o seu próprio lixo eletrônico? Elas estão preparadas para receber dos consumidores e destinar também o lixo gerado pelos produtos que fabricam? Para coletar e destinar corretamente o lixo eletrônico, a Itautec possui hoje um centro de reciclagem instalado na cidade de Jundiaí, onde está sua fábrica. É um projeto bem avançado para a destinação de resíduos eletroeletrônicos em operação no Brasil. Para a construção desse centro, foram investidos R$ 350 mil, e esse local é destinado à reciclagem de equipamentos eletroeletrônicos ao final de sua vida útil. No ano passado, esse programa de reciclagem da Itautec registrou novos

recordes. Foram 527,7 toneladas de resíduos eletrônicos que retornaram ao mercado como matéria-prima para a cadeia produtiva, representando um aumento em relação ao ano anterior de 13% de e-waste (lixo eletrônico) destinado para reciclagem pela companhia. Ao todo, 100% dos materiais recolhidos foram reciclados por empresas brasileiras homologadas à destinadora. O processo de reciclagem de eletroeletrônicos realizado pela Itautec é feito desde 2003, mesmo ano em que o seu Programa de Gestão Ambiental, iniciado em 2001, foi certificado pela NBR ISO 14001. Nos últimos três anos, a empresa já destinou mais de 1400 toneladas de resíduos eletrônicos para reciclagem, e seus parceiros permitem que essas matérias-primas sejam reinseridas na cadeia produtiva, evitando desperdícios, acúmulo de dejetos e contaminação ambiental causada pelo descarte incorreto. A Intel não possui unidade produtiva no Brasil. No escritório da companhia, pouco lixo desse tipo é gerado. “Temos

E-lixo maps indica endereços para descarte de eletrônicos Parceria entre a Secretaria do Meio Ambiente do Estado de São Paulo e o Instituto Sérgio Motta, o site http:// www.e-lixo.com indica endereços para descarte de lixo eletrônico. Por meio do CEP e do tipo de resíduo

a ser descartado, usuários podem encontrar os locais de coleta mais próximos para esse tipo de material. O E-lixo maps funciona com a associação da plataforma do Google Maps com os endereços dos postos.


Guia do Greenpeace fiscaliza empresas Desde agosto de 2006, o Greenpeace publica o seu Guia de Eletrônicos Verdes. Nele, grandes fabricantes de computadores, celulares, TVs e consoles de jogos eletrônicos são avaliados em relação à produção de produtos mais limpos, com maior durabilidade e que possam ser

reciclados e descartados com menor impacto ambiental e riscos à saúde. Na última edição do guia, divulgada em dezembro de 2009, a Nokia permaneceu em primeiro lugar e foi a única empresa a somar mais de 6 pontos. Foi seguida por Sony

um ciclo de renovação de eletrônicos relativamente curto. Os equipamentos trocados são vendidos aos próprios funcionários. Outros tipos de aparelhos são devolvidos aos fornecedores, pois só trabalhamos com aqueles que possuem programas de descarte de seus produtos”, explica o diretor de assuntos corporativos da Intel Brasil, Emílio Loures. De acordo com o diretor, nos países em que há operação produtiva, as preocupações são maiores e as ações, mais específicas. Em 2008, a Intel conseguiu reciclar 88% de todo o resíduo sólido gerado na empresa, número superior à meta estipulada, que era de 80%. Além disso, a companhia também busca ter consciência ambiental e ser responsável no design de seus produtos. Em 2007, lançou a nova tecnologia

Ericsson, Toshiba, Philips e Apple. Esta última teve seus produtos totalmente livres das substâncias tóxicas PVC e BFR. A lista completa pode ser conferida em http://www.greenpeace. org/international/ campaigns/toxics/ electronics/how-thecompanies-line-up/

de processadores Intel 45 nm (nanômetro); a base dos microprocessadores economiza energia e elimina o uso de chumbo e materiais halógenos, o que os tornam produtos menos impactantes ao meio ambiente. Em relação ao descarte de produtos, a Intel filiou-se ao Compromisso Empresarial para Reciclagem (Cempre). A instituição engloba 27 companhias privadas de diversos segmentos, entre elas Dell, HP, Coca-Cola, Walmart, Philips e Nestlé, e tem como objetivo promover a reciclagem de acordo com o conceito de gerenciamento integrado do lixo. “Nos países em desenvolvimento não há uma estrutura montada para a questão do lixo eletrônico. A nossa filiação ocorreu para discutirmos exatamente como as corporações podem criar essa estrutura”, explica Loures.

Glossário Lixo eletrônico ou e-waste | o descarte de celulares, periféricos de computador, pilhas, baterias, monitores, televisão, geladeira, lâmpadas, DVDs, CDs, rádios, entre outros aparelhos, gera o lixo eletrônico. Caso seja descartado de forma inadequada, pode causar sérios problemas ao meio ambiente e à saúde humana.

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Dicionário do meio ambiente Para situar e esclarecer dúvidas dos estudantes sobre temas e termos ligados às áreas de debate sobre o meio ambiente, a editora Barsa Planeta lançou o Dicionário Barsa do Meio Ambiente, fonte para pesquisas também de professores e interessados no assunto. A obra traz definições para expressões relativas às áreas de Biologia, Ecologia, Economia, Geografia, Geologia e Botânica. São 4.219 verbetes e expressões (muitas oriundas da língua inglesa) traduzidas de forma precisa. O dicionário possui 62 textos de caráter enciclopédico que aprofundam temas de debate na atualidade, é composto ainda de 372 expressões atuais das diversas áreas de estudo do meio ambiente e, além disso, é impresso em papel reciclado de alta qualidade. Editora: Barsa Planeta Preço sob consulta pelo telefone (11) 3225-1900

Sustentabilidade – Educar e inovar sob uma nova consciência As transformações socioeconômicas dos últimos 20 anos têm afetado profundamente o comportamento de empresas dos mais diversos segmentos que, até então, eram acostumadas à pura e exclusiva maximização do lucro. A ideia de responsabilidade social incorporada aos negócios é, portanto, relativamente recente. Com o surgimento de novas demandas e maior pressão por transparência nos negócios, as organizações se veem forçadas a adotar uma postura mais responsável nas ações com seus públicos. Para tratar do tema, Sustentabilidade XXI – Educar e inovar sob uma nova consciência mostra como direcionar ciência e tecnologia para fins públicos, evitando danos sociais e ambientais pela falta de compreensão sistêmica sobre os efeitos de longo prazo. O autor traça um panorama entre o presente e o futuro, entre a consciência, a semeadura da sustentabilidade e os caminhos para a inovação e a mudança em prol do mundo sustentável. Autor: Rodrigo Costa da Rocha Loures Editora: Gente Edição: 1ª edição (2009) Valor: R$ 59,90

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