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JUNHO DE 2015 // ANO 4 // NÚMERO 7 REVISTA-LABORATÓRIO DOS ALUNOS DO CURSO DE JORNALISMO DA ESPM-SP

FÉ E DIVERSIDADE ESPIRITISMO, BUDISMO, JUDAÍSMO, ISLAMISMO, UMBANDA: AS VÁRIAS CRENÇAS DOS BRASILEIROS FÉ E PODER “BANCADAS RELIGIOSAS” E PROJETOS DE LEI POLÊMICOS DESAFIAM NOÇÃO DE ESTADO LAICO FÉ E AMOR O TEÓLOGO LEONARDO BOFF CRITICA RELIGIÕES QUE SE TORNARAM FRIAS E RÍGIDAS E PREGA O AMOR

AS FACES DA FÉ 87% dos brasileiros se declaram católicos ou evangélicos; saiba quem são e no que acreditam os demais 13% da população


e REVISTA-LABORATÓRIO DO CURSO DE JORNALISMO DA ESPM-SP Nº7 - 1º SEMESTRE DE 2015

Presidente J. Roberto Whitaker Penteado Vice-presidente Acadêmico Alexandre Gracioso Vice-presidente AdministrativoFinanceira Elisabeth Dau Corrêa Vice-presidente Corporativo Emmanuel Publio Dias Vice-presidente de Marketing e Comunicação José Francisco Queiroz Diretor de Graduação-SP Luiz Fernando Garcia Diretor Acadêmico-SP Ismael Rocha Júnior Coordenadora do curso de Jornalismo-SP Maria Elisabete Antonioli

EDITORIAL

PROFISSÃO DE FÉ Uma das metáforas mais frequentes usada para descrever a profissão de jornalista é aquela que a compara a um sacerdócio. O jornalista, assim como o sacerdote, deve se dedicar ao seu ofício por paixão e devoção. Jornalismo seria uma espécie de vocação inata, tal como os trabalhos na Igreja. O jornalista deve suportar longas e exaustivas jornadas de trabalho, estar sempre disponível e, acima de tudo, devotar-se à causa jornalística com fervor messiânico. De quebra, faz um voto de pobreza, assim como certos frades, porque jornalista jamais enriquece. Seria, portanto, também uma profissão de fé.

Revista Plural revistaplural-sp@espm.br Editor Prof. Renato Essenfelder Revisão Profa. Maria Elisabete Antonioli

Essa visão pode ter feito sentido algum dia, alinhada a uma certa causa, a um certo contexto. De resto, tornou-se um anacronismo indefensável. O jornalista bem sucedido do século 21 dificilmente pode ser comparado a um monge – está mais para um empreendedor incansável, um curioso incurável, um contador de histórias hábil que trafega de plataforma em plataforma em busca da melhor maneira de contar uma história impactante à sua audiência, seja ela calculada

Reportagem Beatriz Medaglini Bianca Gomes de Carvalho Fernando Turri Juliana Marques Laura Stabile Lucas Negreiros Mariana Cavalcanti Marina Cassiolato Marina Guazzelli Uly Campos

em unidades ou em dezenas de milhões de pessoas. Mantém o foco no interesse público, nos direitos humanos e na defesa das sociedades livres e democráticas. Exerce seu papel de cão de guarda, o papel fiscalizador do chamado “quarto poder”, ao mesmo tempo em que promove o diálogo social colocando constantemente a sociedade em contato consigo própria. Dá escuta às vozes sufocadas. Mas o faz profissionalmente, e não por hobby ou devoção. Estuda. Pesquisa. Aprende. Ensina. É uma carreira ao mesmo tempo apaixonante e árdua, pois lida o tempo todo com a pressão de expectativas e

Fotografia de capa Fernando Turri

interesses variados, mas uma carreira. Paixão e trabalho não se con-

Agência de Jornalismo ESPM-SP agenciadejornalismo-sp@espm.br Rua Dr. Álvaro Alvim, 123, Vila Mariana São Paulo, SP Tel. (11) 5085-6713

ra de envolvimento permanente. Vivemos o jornalismo noite e dia,

fundem com fé nem com sacrifícios redentores. Muito dessa confusão acontece porque o jornalismo é uma carrei-

Projeto gráfico Márcio Freitas A fonte Arauto, utilizada nesta publicação, foi gentilmente cedida pelo tipógrafo Fernando Caro.

atentos. Mas o envolvimento permanente do jornalista, assim como o do médico à disposição do imponderável, não se confunde com fé. Nesta edição da revista Plural, que chega ao seu sétimo número, dez futuros jornalistas exercem um jornalismo de futuro para discutir as múltiplas faces da fé no Brasil. Muito além das crenças mais conhecidas – 87% dos brasileiros se declaram católicos ou evangélicos, segundo o IBGE –, mergulhamos no universo menos propagado, embora crescente, do espiritismo, da umbanda, do budismo, do judaísmo e do islamismo. Entrevistamos também ateus e especialistas que destrincham a noção de Estado laico e como ela se materializa – ou não – no Brasil. O resultado não é um ato de fé, mas sim de jornalismo. Bom jornalismo, que, aliás, transborda da revista para o nosso site: portaldejornalismo-sp.espm.br . Folheie. Clique. Faça boa leitura! RENATO ESSENFELDER, EDITOR DA PLURAL


ÍNDICE

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FOTO BIANCA GOMES DE CARVALHO

página 12

página 12

REPORTAGEM DE CAPA A religiosidade, característica exclusivamente humana, na qual o homem procura explicações no sagrado para compreender a si e a sua existência, manifesta-se de muitas maneiras no Brasil. Aqui, as religiões predominantes – católica e evangélica – coexistem pacificamente com uma grande variedade de credos, cuja presença deixa marcas profundas em nossa cultura.

página 6 FANATISMO O fanático é aquele que age com obsessão a uma causa ou crença, tornando-a o centro de sua vida e perdendo completamente o espírito crítico. Fundamentalistas, por sua vez, são agressivos e não aceitam contestação.

página 32 BUDISMO Quinta religião com maior número de fieis no Brasil, segundo o IBGE, o budismo atrai cada vez mais adeptos, especialmente nas grandes cidades, interessados em práticas de meditação e relaxamento.

página 34 UMBANDA Alvo de forte preconceito por parte da maioria dos brasileiros, a umbanda foi criada no país, em 1908, no Rio de Janeiro, prega o amor e a caridade e representa bem a mestiçagem do povo brasileiro.


FOTO NASA

página 30

FOTO DIVULGAÇÃO

página 42

FOTO FERNANDO TURRI

página 26

página 26

página 30

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MULHERES

ATEÍSMO

ENTREVISTA

Herdeiras de uma tradição patriarcal, a maioria das religiões que conhecemos têm um viés machista, reservando à mulher o papel de mãe e conselheira na sociedade.

Cada vez mais numerosos no país, os ateus se dividem entre aqueles que consideram irrelevante a questão da existência ou não de Deus e aqueles que refutam o sobrenatural.

O teólogo Leonardo Boff fala sobre a importância da fé e afirma que a religião ajuda o homem a perceber que a despeito de todos os problemas a vida vale a pena.

página 36 ESPIRITISMO Religião de maior crescimento nos últimos anos no país, o Espiritismo “pegou” mais no Brasil do que na França e atrai especialmente aqueles em busca de conforto após a perda de entes queridos.

página 38 ISLAMISMO Religião frequentemente associada ao terrorismo praticado por determinadas facções, o islamismo verdadeiro prega o amor, a paz e a caridade e contabiliza mais de 1,6 bilhão de adeptos no mundo inteiro.

página 40 JUDAÍSMO A religião monoteísta mais antiga do mundo chega ao século 21 com a difícil tarefa de conciliar tradição e modernidade e de desmistificar preconceitos arraigados em diversas partes do mundo sobre o povo judeu.

página 48 ESTADO LAICO? A Constituição brasileira afirma que o Estado é laico, mas, na Câmara dos Deputados, parlamentares até celebram cultos. Entenda melhor a nebulosa separação entre Igreja e Estado no país e por que ela existe.


JULIANA MARQUES LUCAS NEGREIROS

»»»Quem é o fanático? Uma pessoa com obsessão irracional por um objeto, pessoa ou tema. E o fanático re

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ligioso? O incondicionalmente devoto à religião e isento de espírito crítico a uma idéia religiosa. Além disso, a religião é uma extensão desse indivíduo, seja no âmbito profissional ou pessoal, em que ele não faz uma distinção entre os espaços em que vive. Diferente de um fanático, o fundamentalista é extremista. Intolerante a outras religiões, ele possui a mesma base religiosa de fanático, porém vai além disso. “O fanático não está preocupado com as outras religiões, simplesmente ignora ou acha que elas não têm a verdade tanto como a dele”, explica o professor de filosofia da ESPM, Andrey Mendonça. Para ele, o fundamentalismo não apenas segue esse estilo de vida, mas obriga outras pessoas a se converterem à sua crença. Possui uma postura de combate e sente a obrigação de levar a verdade para as pessoas que considera estarem nas “trevas”. Um exemplo clássico é o futebol. Enquanto compram roupas, chuteiras, bandeiras e conversam sobre jogos e jogadores são fanáticos. A partir do momento que duas torcidas se encontram para brigar em nome de seus times, a situação muda. Eles passam a ser fundamentalistas, o que prova que o fundamentalismo não existe apenas na religião, mas também no esporte. Mas afinal, o religioso é fanático? Tanto o religioso quanto o fanático tem o objeto de sua admiração como referência e buscam cumprir todas as normas, leis e rituais do espaço religioso ou sagrado. Contudo, o fanático não apenas segue

QUANDO A FÉ VIRA VIOLÊNCIA As religiões possuem muitos adeptos, porém alguns deles se caracterizam por seguir seus dogmas de maneira mais intensa, vivendo em função de suas crenças


O RELIGIOSO SEGUE OS VALORES DE SUA RELIGIÃO, MAS NÃO NECESSARIAMENTE PARTICIPA DAS ATIVIDADES DA IGREJA

os dogmas, mas busca representá-los e ser representado por eles. As roupas não convencionais, por exemplo, o fanático não se importa de usá-las – seja na rua ou shopping. Não diferencia os espaços, pois são uma extensão de sua religiosidade. O religioso possui uma religião, mas não participa ativamente das atividades da Igreja. “Para as pessoas que rezam em direção à Meca, não importa o lugar nem o horário, vão vivenciar sua experiência religiosa onde quer que seja”, diz o filósofo Andrey Mendonça a respeito dos fanáticos. Combater ou não combater? Os fundamentalistas religiosos têm medidas extremas, que muitas vezes são adotadas na política de países onde o estado não é laico. Sendo assim, medidas violentas e exacerbadas, consideradas arcaicas no mundo moderno, se tornam leis associadas a religião. Para o professor de teologia da PUC-SP, Eulalio Figueira, é preciso ter cuidado com o juízo de valores. Desta forma, filtros são necessários para a realidade cultural de cada sociedade. Logo, alguém ser apedrejado por homens fardados no Brasil, na Praça da Sé, não faz sentido na nossa realidade, porém, em outras culturas é parte do cotidiano. Apesar da cultura, o teólogo reforça a necessidade de combater medidas

Fieis durante lavagem da escadaria do Bonfim em Salvador, Bahia | FOTO VALTER PONTES/ AGECOM SALVADOR

religiosas extremas, pois não se deve ser complacente a violência. Para ele existem duas necessidades no combate ao fundamentalista: distinguir o que é político do que é religioso e não legitimar intervenções à força. O professor propõe um acordo diplomático com os líderes religiosos, para assim mudar as práticas, sem alterar os princípios. Andrey Mendonça, por outro lado, acredita que conviver com pessoas fanáticas é uma maneira de encarar o


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EXISTEM DUAS NECESSIDADES NO COMBATE AO FUNDAMENTALISTA: DISTINGUIR O QUE É POLÍTICO DO QUE É RELIGIOSO E NÃO LEGITIMAR INTERVENÇÕES À FORÇA

Torcida do Palmeiras no Allianz Park em São Paulo | FOTO LUCAS NEGREIROS

mundo moderno democraticamente,

coisa quando dizemos que nossa forma

para experimentar o pluralismo. “Em

de vida moderna deve ser imposta em

sociedades nas quais a tradição reli-

sociedades islâmicas, por acharmos que

giosa está presente há muito tempo, é

elas serão melhores se forem assim?”.

complexo perguntar sobre liberdade e democracia. Talvez seja uma ofensa. Para eles, nosso sistema que é podre.”

Brasil. Diversidade religiosa. Alvo para os fundamentalistas? Existem vários grupos religiosos dife-

Além disso, o filósofo contesta a

rentes no Brasil, e apesar da maioria

sociedade ocidental. “Dizer que os

católica e o crescimento constante dos

fundamentalistas devem diminuir sua

evangélicos, todas as religiões convi-

ânsia de conquista, não seria a mesma

vem harmoniosamente sem segregação


“EM SOCIEDADES NAS QUAIS A TRADIÇÃO RELIGIOSA ESTÁ PRESENTE HÁ MUITO TEMPO, É COMPLEXO PERGUNTAR SOBRE LIBERDADE E DEMOCRACIA. TALVEZ SEJA UMA OFENSA”

vivem muito bem. Nesse sentido, é de fato muito pacífico e talvez indique que os alvos de fundamentalistas estão intimamente conectados a uma certa intolerância social, ou um convívio social não muito próximo e até mesmo uma intolerância econômica ligada aos abismos sociais causados por ela. Mendonça acredita que se deve levar em conta as questões éticas, porque as pessoas são recrutadas dentro dos próprios países onde acontecem os atentados. Nasceram em famílias religiosas, se converteram a religiões diferentes e foram incitados ao ódio àqueles países ou grupos. Talvez se espere que, no Brasil, pessoas de baixa renda se reúnam em células terroristas, do que propriamente dita pessoas de religiões diferentes o fizessem. “Me parece que a convivência religiosa é muito melhor do que a convivência social que a gente vive no Brasil”, lamenta o professor. Fanático para quem? “Qual a diferença entre o soldado norte-americano, e o jovem homem bomba em nome de Alá que vão para guerra combater os seus inimigos? Ela é muito grande e simples. Ambos vão para guerra imbuidos de um ideal. Só que o ideal do primeiro é se tornar reconhecido pela sociedade e ganhar uma medalha. Contudo, não vai ganhar essa medalha se for morto, quem vai ganhar é a ou disputas violentas.

familia. Já o jovem que vai cometer um

O Brasil é támbem é um país que aco-

ato suicida, vai ganhar a recompensa

lhe mais o estrangeiro, do que pesso-

e a eternidade”, exemplifica o teólogo

as de outras regiões do país. Talvez a

da PUC-SP.

boa convivência, ou a política de boa

Para Figueira é difícil compreender a

vizinhança econômica sejam motivo

motivação que leva jovens americanos

para que grupos fundamentalistas não

a irem para a guerra, mas seu fundo de

façam algum tipo de atentado.

fé é o mesmo que leva jovens ao suicídio

É pouco provável que aconteça no

como homens-bomba. Para o primeiro,

Brasil, uma vez que, etnicamente, as

batemos palmas. O outro é chamado de

populações que vêm para o Brasil,

terrorista.

Me parece que a convivência religiosa é muito melhor do que a convivência social no Brasil. Andrey Mendonça, professor de filosofia da ESPM-SP


p

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PERFIL: JOSEPH CAMPBELL

O SABER DO MITO Joseph John Campbell dedicou a vida ao estudo do que chamava de mitologia comparada e fundou a teoria do monomito, o mito fundador por trás de todas as religiões do planeta

Com o passar do tempo o menino comeMARINA CASSIOLATO

çou a notar que a mitologia não tinha importância somente para os índios

»»»Aos oito anos, um garoto, ao visi-

locais, mas que existiam semelhanças

tar o Museu de História Natural de

entre os mitos das mais diversas cultu-

Nova York, ficou fascinado por um

ras humanas. Isso levou o garoto Jose-

quadro que continha a ilustração de

ph Campbell a se aprofundar no tema e

produtos manufaturados por amerín-

deu início a uma carreira de sucesso, com

dios americanos. Desde então apaixo-

mais de 20 livros publicados.

nado pelo que tinha visto, começou

“A obra mais importante do mitó-

a ler tudo o que havia de informa-

logo Joseph Campbell, a meu ver, é ‘O

ção sobre os índios, seus mitos e len-

Herói de Mil Faces’, lançada em inglês

das. Percebeu, aos 10 anos de idade,

em 1949, em que ele registra sua ideia

o poder que a mitologia tinha para a

de monomito, isto é, de uma estrutura

formação cultural das tribos.

mítica que permearia toda os mitos da


de estudos na Europa. No continente

antes de a obra ser publicada, Joseph

teve contato com as obras dos escritores

John Campbell faleceu, aos 83 anos, em

James Joyce e Thomas Mann, as artes

sua casa, em Honolulu, Havaí, devido a

modernistas e os conceitos psicanalí-

complicações causadas por um câncer

ticos de Sigmund Freud e Carl Gustav

esofágico.

Jung. Em 1929, voltou aos EUA, fasci-

“A frase de Campbell que mais me

nado com os conhecimentos adquiridos

toca é a ‘Follow your bliss’, encontre sua

na viagem, e começou um longo perío-

felicidade e não hesite em segui-la. Com

do de estudos independentes.

isso você se sentirá pleno e realmente

Campbell tinha o objetivo de compre-

vivificará seu entorno”, diz Martinez.

ender, com seus estudos, o poder das histórias e lendas. O que resultou num aprofundamento das análises sobre a mitologia e a religião das mais diversas culturas humanas. Joseph Campbell explicou que os mitos e as religiões são formatos institucionalizados que permitem ao praticante tentar compreender mistérios profun-

ALGUNS LIVROS PUBLICADOS

dos, como o da existência e experiência humanas. Quem somos, de onde viemos, por que existimos, para onde vamos? Além disso, o estudioso comparou as escrituras sagradas de inúmeras religiões do mundo e nelas encontrou muitas histórias semelhantes sobre a criação do universo. Chegou à tese do monomito, o mito

Joseph Campbell era filho de pais católicos, mas faleceu em 1987 sem professar qualquer religião; ao lado, reprodução da capa de algumas de suas principais obras | FOTO DIVULGAÇÃO

fundador que tem uma essência comum no mundo inteiro, embora se apresente com diferentes nomes e imagens.

» O Herói de Mil Faces

A conclusão foi que Deus possui apenas “máscaras” conforme cada religião, e que “existe uma verdade só, que os sábios chamam por vários nomes”. Modernidade

humanidade”, conta a professora e inte-

No livro mais recente do autor lança-

grante da Joseph Campbell Foundation

do no Brasil, “Máscaras de Deus”, ele

Monica Martinez. Entre os leigos, sua

defende que houve uma alteração no

obra mais conhecida é provavelmente

modo como os mitos surgem em rela-

“O Poder do Mito”.

ção ao passado, uma vez que no mundo

Joseph John Campbell nasceu em 26

moderno cada indivíduo, ao viver ple-

de março de 1904 na cidade de White

namente, torna-se um “myth maker”,

Plains, Nova York. Filho de pais católicos,

uma inspiração para outros. Antes,

encerrou o colegial e foi estudar biologia

Campbell atribuía essa função apenas

e matemática na Faculdade de Dartmou-

às divindades e aos heróis.

th. Em 1925 transferiu-se para a Universi-

Em 1985 e 1986, no seu auge intelec-

dade de Columbia, onde completou gra-

tual, Joseph Campbell se reúne com o

duação em Literatura Inglesa e realizou

jornalista Bill Moyers para uma série

mestrado em Literatura Medieval.

de entrevistas. O resultado é o cultua-

Dois anos depois recebeu uma bolsa

do livro “O Poder do Mito”. No entanto,

» O Poder do Mito

» As Máscaras de Deus


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MISTÉRIOS DAS

FOTO BIANCA GOMES

Tão variados quanto os tipos de fé são os caminhos que conduzem a elas. No Brasil, em especial, as crenças se combinam de modos inusitados: católicos podem frequentar centros espíritas, espíritas podem visitar terreiros , umbandistas seguem tradições católicas e assim por diante. Em comum, têm fé – ainda que, segundo especialistas, suas manifestações tenham mudado atualmente.


14/15 Fiéis católicos comemoram a Páscoa | FOTO BIANCA GOMES “Fui missionário por cinco meses. Eu ia BIANCA GOMES FERNANDO TURRI LAURA STABILE LUCAS NEGREIROS

de casa em casa vendendo livros e falando

»»»“Eu tenho uma tendência muito comum

marido. Eu lhe disse que um dia encontraria o

do século 21, que é a homossexualidade.

marido novamente no céu. Ela chorou e disse

Comecei a perceber isso desde criança.

‘você é um anjo’. Por fim me perguntou se o

Minha mãe caiu nas drogas, se envolveu

céu é real”, narra Lucas Andrei, estudante.

com um rapaz muito perigoso. Entrei na

de Cristo. Em uma casa havia uma senhora com problemas de saúde, que havia perdido o

Os caminhos que levam as pessoas à

Igreja para pedir ajuda por ela, mas na ver-

religião, qualquer religião, são múltiplos.

dade era uma válvula de escape”, conta

Alguns se tornam crentes por herança, pois

Vinícius Dias, autônomo em uma empre-

assim foram ensinados. Outros têm algum

sa de consórcios.

tipo de epifania. Em outros o caminho come-

“Sempre fui religiosa, eu fui educada na

ça com uma inquietação ante a aparente falta

Igreja lá em Portugal. Os meus pais já eram

de sentido da existência. Para muitos, é um

religiosos e tem uma coisa muito legal que eu

meio de superar sofrimentos profundos.

aprendi com o meu pai. Ele ajudava o próxi-

Para outros, uma forma de se ligar a uma

mo e dizia ‘se você tiver apenas um pão e pas-

comunidade. Em comum, têm o sentimen-

sar alguém lhe pedindo alguma coisa, você

to de fé, de que o mundo é mais do que aqui-

divida o seu pão’”, lembra Marília Nogueira

lo que os olhos veem.

Caetano, aposentada.

As pessoas seguem aquilo que lhes confor-


PUC-SP e professor da ESPM-SP, complementa que, para os estudiosos, há duas razões a serem analisadas. A primeira é uma resposta baseada no senso comum: a busca pela religião simboliza o medo da morte e a esperança de que a vida não tem um fim. A segunda é uma análise antropológica. Desde quando o ser humano se organizou como bandos e pequenas comunidades, também começou a formar uma sociedade e, mesmo que de modo primitivo, a religião já estava presente nesse momento. Do ponto de vista do filósofo alemão Immanuel Kant, um dos principais pensadores a criticar a relação entre o homem e a religião, Deus desempenha o papel de “legislador moral”, necessário para alcançar um mundo perfeito. Nos primórdios da religião, não existia o sentido de uma instituição representante, que se desenvolveu séculos depois. As crenças eram vinculadas àquilo que as pessoas não podiam determinar ou explicar. Por exemplo, nas religiões xamânicas, alguém que, de alguma forma, se conectava com a natureza ou com elementos não comta, escolhem aquela crença que lhes faz bem.

preendidos era um indivíduo que falava com

“Faz sentido eu rezar para um Deus que eu

forças para além do que as pessoas conse-

não conheço? Sim, na medida em que imagino

PAINEL

65% dos brasileiros são católicos, segundo Censo do IBGE. Número vem caindo

22%

da população se professa de alguma religião evangélica. Número vem subindo

8%

é o total de ateus no país; percentual era nulo em 1940

0,3% seguem religiões afro-brasileiras

guiam entender.

que exista essa força”, comenta Mário René,

“Aqui nasce o conceito que mais tarde darí-

estudioso de religião e coordenador do curso

amos o nome de ‘transcendência’, ou seja,

de Ciências Sociais e do Consumo da ESPM-SP.

aquilo que transcende pessoas, poderes ou forças que antes eram a natureza, como a

Humanidade

chuva, o sol, o raio e o fogo”, diz Mendonça.

A religiosidade é uma característica exclusivamente humana, na qual o homem procu-

Religioso vs. religião

ra explicações no sagrado para compreender

A fé, ao contrário do que se pensa, é um con-

a si e a sua existência no mundo. Esse atribu-

ceito que vai além da ideia de crença. Acredi-

to humano não está relacionado a nenhuma

tar não é suficiente. Fé é ter confiança e espe-

religião específica.

rança naquilo que não se vê, não se toca e não

“Há na alma humana, no espírito humano,

se encontra no mundo concreto.

a busca por algo que vai além do limite, o que

“Mesmo aqueles que dizem não a Deus ele-

a gente pode chamar de sentido último, aque-

gem outra coisa no lugar dessa divindade”,

le que de fato você precisa ter mesmo quan-

afirma Mendonça. O sentimento místico de

do todos os outros terminam”, afirma Eulá-

religiosidade está presente em crenças que

lio Figueira, professor de teologia da PUC-SP.

parecem não se relacionar com dogmas e fé.

Andrey Mendonça, formado em filosofia na

Os objetos de devoção que podem substituir os tradicionais símbolos religiosos


16/17 Estátuas no templo budista Tzon Kwan na Vila Mariana| FOTO LUCAS NEGREIROS

podem ser a ciência, uma utopia política, um tipo de eugenia étnica, como

altera o objeto de devoção, mas não o senti-

grupos neonazistas. Para muitos estudiosos,

do em si. “Parece que todos esses centros, no

engana-se quem pensa que é possível viver

final das contas, têm características daque-

apático à espiritualidade. “Se você levar a reli-

la divindade antiga que fora perdida. Nisso

gião no sentido lato, você pode dizer que não

entra a ideia de homo religiosus”, completa

existe indivíduo sem religião, porque não é

o filósofo, explicando que, no fundo, todo ser

possível que exista alguém que não tenha uma

humano é um ser religioso.

crença, empírica ou não”, conta Figueira.

“Hoje tem muito mais gente que conside-

Em contrapartida, Eduardo Oyakawa, pro-

ra a religião um conto de fadas. Se for ou não

fessor de filosofia na ESPM-SP, acredita que o

conto de fadas, não tenho como dizer. Mas

ser humano não precisa de crenças e dogmas.

acredito que a fé independe de religião”,

“É possível viver sem acreditar no sobrenatu-

acrescenta Mário René.

ral, basta acreditar que sua razão é de ordem tão poderosa que você tudo sabe e conhece”,

Modernidade

afirma.

“Antigamente era uma anomalia não ter reli-

Mendonça traça um panorama histórico

gião. A modernidade traz a possibilidade de

de como o homem foi transformando o cen-

não precisar ter uma religião. A igreja já foi

tro de seus paradigmas e crenças, do Deus

uma instituição responsável por funções

às ciências. “Quando nós tiramos Deus do

políticas, por exemplo, registro de batismo

centro, e esse movimento começa no início

que era como tornar o sujeito cidadão e hoje

da modernidade, colocamos o ser humano.

isso não existe mais”, afirma Figueira.

Depois tiramos o ser humano e colocamos a

Então, por que hoje ainda existem pes-

razão. Por fim, reformulamos a razão e colo-

soas religiosas? De acordo com o professor

camos a ciência como o centro”, conta.

de teologia da PUC-SP, há duas referências

No entanto, para ele essa substituição só

que confirmam a existência da religião: uma


“O QUE AS PESSOAS FAZEM EM MOMENTO DE DESGRAÇA? ELAS REZAM”

Já Stefano Martelli, autor do livro “A religião na sociedade pós-moderna”, defende que, ao contrário do que se diagnosticava sobre o fim da religião, há um reavivamento do fervor religioso. Fé e ajuda A partir da década de 1960, com o movimento hippie nos EUA, surgem as religiões associadas a nova era. Essas espiritualidades buscam encontrar poderes fora e, ao mesmo tempo, dentro do ser humano, chamadas de teologia da auto ajuda. Já a fé tradicional defende que se deve acre-

Mesmo aqueles que dizem não a Deus elegem outra coisa no lugar dessa divindade Andrey Mendonça, professor da ESPM-SP

ditar em algo exterior a si mesmo e, ao acreditar nisso, o devoto estaria sujeito a uma espécie de lei de retribuição. Por exemplo, nas religiões afro-brasileiras, há a crença nas

Mário René, estudioso de religião e professor da ESPM-SP | FOTO LAURA STABILE

palavras do sacerdote e rituais, como o sacrifício, para ser recompensado pela divindade com a realização de seu desejo. Buscar apoio da religião, muitas vezes, está

antropológica, em que se pode dizer que o que

ligado à dificuldade. “O que as pessoas fazem

define o homem, e o coloca além da sua ani-

em momento de desgraça? Elas rezam. ‘Reze

malidade, é a percepção do religioso. A outra

como se tudo dependesse de Deus, mas aja

é a legitimidade política, na medida em que

como se tudo dependesse de si’, para mim isso

se tem indivíduos que não são religiosos, mas

é a lição número um da vida, junto com essa

que vivem em uma sociedade em que a reli-

outra: ‘Ajuda-te que os céus te ajudarão’”,

gião está presente.

pondera o estudioso Mário René.

Segundo Mário René, esse é o caso dos

“É muito comum hoje no Brasil, clínicas de

jovens, uma vez que existe uma descrença

reabilitação serem baseadas em pressupostos

maior na religião do que havia há 50 anos.

religiosos para curar pessoas que procuram

“Hoje, com o avanço tanto da ciência quan-

sair do alcoolismo ou deixar as drogas, por

to da comunicação rápida, me parece que os

exemplo”, aponta Mendonça. Contudo, mui-

fenômenos religiosos ficaram menos relevan-

tas pessoas com doenças graves, ao invés de

tes.” As datas comemorativas, como o Natal

se aproximarem da religião, podem ter uma

e a Páscoa, já não carregam mais os mesmos

antipatia à ela, como se a doença fosse uma

significados, valores e sentidos religiosos que

prova de que Deus as abandonou.

carregavam para gerações anteriores.

“Antigamente era uma anomalia não ter religião, e hoje isso não existe mais” Eulálio Figueira, professor de teologia da PUC-SP

Além disso nem toda religião, é uma reli-

Para o doutor em sociologia pela Universi-

gião de salvação. No hinduísmo, por exem-

dade de Paris e especialista em antropologia

plo, uma pessoa acometida de certa doença,

da religião, Pierre Sanchis, “o campo religio-

mal familiar ou mesmo um acidente, acredita

so é hoje, cada vez menos, o campo das reli-

que isso faz parte do destino que está deter-

giões”, pois o homem, procurando criar um

minado para ela.

universo particular, extinto de dúvidas e pre-

Assim, a salvação não estaria no livramen-

enchido de sentido, foge de regras definidas

to, ou no consolo e conforto, que é muito asso-

pelas instituições.

ciado ao cristianismo e a certas religiões que no Brasil se acomodaram a uma


atmosfera cristã. Nesse caso a religião tem um papel de determinar que a pessoa não apenas aceite aquela situação, mas a vivencie se desapegando da vida. Hoje, 2500 anos depois, se pesquisa a fé no sentido mais individual, ou seja, a razão pela qual as pessoas creem em alguma coisa que

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vai além delas. Censo: o mapa religioso do Brasil O último censo sobre religião no Brasil foi realizado em 2010. Entre os dados mais relevantes, destaca-se o crescimento das religiões evangélicas, principalmente as neopentecostais. De 2000 a 2010 os evangélicos saltaram de 15,4%, para 22% dos brasileiros. Para o teólogo Rodrigo Franklin de Sousa, a maior adesão dos brasileiros à religião evangélica, em especial as neopentecostais, possui vários motivos. Um deles seria o momento econômico e político em que o Brasil se encontra, nomeado por ele como “surto de conservadorismo”. As linhas mais conservadoras da religião evangélica resgatam ideias coloniais como ordem, bons costumes, moral e tradicionalismo, que levam prosperidade. A prosperidade propõe um discurso diferente do que existia há 30 anos. Antes falava-

“O brasileiro acende, simultaneamente, uma vela para Deus e outra para o Diabo” Léa Freitas Perez, antropóloga e professora da UFMG

-se em pecados, céu e inferno. Hoje, nos cultos

possuem características em comum. “Quan-

das igrejas neopentecostais, é comum pastores

do pessoas da Umbanda se convertem para a

falarem em riqueza e pobreza, como melho-

religião evangélica acontece um fenômeno

rar a vida financeira e ter sucesso. “Tudo o

interessante. Muitas das práticas que eram

que você precisa fazer é ir a igreja, dar sua fé

da Umbanda estão aparecendo no meio da

e permanecer lá. Isso te trará uma casa boa,

evangélica. Então, a igreja tem o discurso de

um emprego bom”, afirma o teólogo.

demonização do culto afro, mas incorpora

O censo de 2010 também apresenta uma

muitas das práticas dele, como a incorpora-

baixa adesão das religiões afro-brasileiras,

ção, os ritos e as passagens”, afirma o teólogo.

0,30%. Rodrigo Franklin acredita que a justi-

Embora exista uma queda na adesão em

ficativa está ligada ao racismo ainda persis-

relação a 2000, esse processo vem diminuin-

te na sociedade brasileira, ao passo que essas

do devido às políticas públicas, como a obri-

religiões são associadas a pessoas negras,

gatoriedade da cultura afro-brasileira nas

resgatando a ideia de barbarismo pregada

escolas e outros incentivos que desmistifi-

no Brasil colônia.

cam o preconceito.

Outra explicação para o declínio de fiéis é a migração deles da Umbanda e do Candom-

diversidade religiosa?

blé para as religiões evangélicas. Apesar do

É impossível estudar Brasil sem citar a reli-

discurso das igrejas neopentecostais demo-

gião. O brasileiro relaciona-se profundamen-

nizar as religiões afro-brasileiras, as duas

te com crenças e ritos em muitos aspectos


de sua vida. “O brasileiro acende, simulta-

como a catequização dos índios pelos jesuí-

neamente, uma vela para Deus e outra para

tas e a difusão dos princípios da Igreja Católi-

o Diabo”, escreve Léa Freitas Perez, antro-

ca para colonos e escravos.

póloga e professora da UFMG, em seu arti-

A convivência entre as diferentes crenças

go chamado “Breves notas e reflexões sobre

ao longo da história do Brasil possibilitou o

a religiosidade brasileira’’, a fim de dizer o

surgimento de novas formas religiosas a par-

quão múltipla e diversa é a religiosidade do

tir da junção de dogmas e ritos. Esse proces-

povo brasileiro.

so é conhecido como sincretismo. “Desde

A religião é um aspecto cotidianamente pre-

a colonização, sempre houve intercâmbio

sente no País, integra a cultura e é instrumen-

entre essa religiões, ainda que da forma

to de estudo para política, economia e socieda-

muito negativa, pela imposição e desvalori-

de. A forma como a religião se configurou no

zação da cultura indígena e demonização da

País, de forma plural, diz muito sobre a rela-

cultura africana”, afirma o teólogo Rodrigo

ção do brasileiro com as crenças e dogmas.

Franklin de Sousa.

Paróquia Espírito Santo reúne católicos em cerimônia | FOTO BIANCA GOMES

O Brasil, desde sua colonização, é predomi-

O filósofo Mendonça explica como é a con-

nantemente cristão. O cristianismo se esta-

vivência entre as diferentes religiões que

beleceu a partir da colonização portuguesa

existem no Brasil. “Ela é razoavelmente pací-

que chegou ao território em 1500. A conquista

fica, o que não significa que não há violên-

lusitana tinha como uma de suas justificativas

cia ou conflito. Contudo, o Brasil tem uma

a expansão da fé cristã, que levou à práticas

tendência de diminuir ou até mesmo mascarar conflitos para se vender como


um País pacífico. Diferentemente de outros lugares, onde os conflitos são mais abertos, aqui o problema é mais crônico e existe desde o começo.” Após a Igreja Católica perder seu monopólio religioso no Brasil, com a Constituição de 1891 defendendo o Estado Laico, a concorrên-

20/21

cia por fiéis se ampliou. Esta situação fez com que instituições religiosas abrissem mãos de parte de suas crenças para atrair uma maior quantidade de fiéis. “No fim, todos tiveram que fazer concessões, e é por isso que a religião no Brasil é uma colcha de retalhos. Mesmo o catolicismo sendo a opção da maioria dos brasileiros, ele também absorve práticas que não são próprias dessa religião. Por isso o sagrado e o profano convivem próximos um do outro”, afirma Mendonça. Essa mistura de religiões se tornou uma característica da religiosidade do brasileiro. Ele não vê problema em combinar diferentes tipos de religião. É comum encontrar pessoas que, por exemplo, se dizem católicas e frequentam o centro espírita. Léa Freitas Perez qualifica outro aspecto da religiosidade do brasileiro, dizendo que “trata-se de uma religiosidade festiva e carnal, vivida mais teatralmente, pública e coletivamente, do que sentida na solidão do foro interior, no fundo de si mesmo”. Exemplo disso é a presença do chamado culto performático em diversas religiões, que diz respeito às práticas de rituais religiosos que incluem características teatrais que valorizam o corpo, a música, a performance. Além das danças praticadas durante os cultos umbandistas e as músicas evangélicas e católicas. Da mesma forma que a performance passou a integrar muitas religiões, outros aspectos foram se inserindo. Vários índios já não creem em pajés, assim como católicos e umbandistas podem duvidar da existência de santos e orixás. Hoje, o novo contexto cultural deu às religiões – ou melhor, aos religiosos – a possibilidade de se redefinirem.

Cerimônia de Umbanda em terreiro na zona sul de São Paulo | FOTO FERNANDO TURRI


A Catedral da Sé, em São Paulo; maioria dos brasileiros se diz católica | FOTO LUCAS NEGREIROS

Especialista critica método do Censo »»»O Censo é um estudo estatístico feito

pertencimento religioso. O censo pergun-

pelo Instituto Brasileiro de Geografia e

ta de qual religião você é, e não qual insti-

Estatística (IBGE), que tem como objetivo

tuição você frequenta. Dessa forma, cria-

recolher informações sobre as caracterís-

-se uma diferença. “Quando ele pergunta

ticas da população brasileira. Um dos pon-

de que religião você é, é claro que vamos

tos pesquisados pelo censo é a religião. Em

ter ainda uma maioria se dizendo católica,

um texto técnico sobre o censo de 2010,

pois essas pessoas se veem como católicas.

a diretoria de pesquisas afirma que “tais

Entretanto, não significa que de fato vão à

informações contribuem para assegurar o

Igreja Católica. Elas podem ir ao terreiro, ao

conhecimento e a preservação da formação

centro espírita, ao culto da Igreja Evangéli-

histórica e cultural da população brasilei-

ca”, explica.

ra e, simultaneamente, para a promoção da

Jacqueline compara a pergunta do censo

diversidade e o combate à discriminação e

sobre religiões com a pergunta feita sobre

intolerância”.

cor e raça. “Ele classifica você numa das

Apesar do Censo ter credibilidade no

raças, amarelo, negro, branco, indígena.

país, há questões discutidas sobre a legiti-

Depois, na cor, as pessoas falam um milhão

midade dos dados. A teóloga e antropóloga

de cores. Dessa forma, não necessariamen-

pela Universidade de São Paulo, Jacqueline

te as pessoas se consideram a partir da clas-

Moraes Teixeira, pontua que o censo deve

sificação do censo. Para a religião, com cer-

ser levado em conta, mas que é preciso ter

teza aconteceria a mesma coisa.”

cautelas para analisá-lo. “E preciso saber

Por ter categorias muito fechadas, o

como as perguntas foram feitas e reconhe-

Censo não deve ser levado “ao pé da letra”,

cer a realidade dos fatos”, afirma.

mas há informações que dizem muito. “Por

Segundo a estudiosa, o Brasil é praticamente o único país que classifica

ser um dado muito grande, já é possível pensar algumas coisas.” (BIANCA GOMES)

“Quando [o Censo] pergunta de que religião você é, é claro que vamos ter ainda uma maioria se dizendo católica, pois essas pessoas se veem como católicas. Entretanto, não significa que de fato vão à Igreja Católica” Jacqueline Moraes Teixeira, teóloga e antropóloga pela USP


UM OLHAR SOBRE O PROCESSO DE REPORTAGEM

22/23

BASTIDORES

APRENDIZADO ECUMÊNICO

Com fé e persistência, um grupo de dez alunos demoliu preconceitos na apuração desta edição da Plural

repórter, com sua matéria, partiu em LAURA STABILE

busca de entrevistas para enriquecerem o conteúdo. Parecia fácil, afinal, quase

»»»Desde a primeira reunião de pauta,

todo mundo tem uma religião, certo?

o tema desta edição da Plural nos pare-

Mais uma vez, apenas parecia.

ceu bem interessante – e complexo. A

Fernando Turri exemplificou a difi-

cada um de nossos encontros às quin-

culdade que tivemos para falar com

tas-feiras, a religiosidade se mostrava

as fontes. “Para o texto sobre o estado

uma questão mais fascinante. Entrar

laico, eu e a Marina Guazzelli precisá-

de cabeça nesse mundo com múltiplas

vamos conversar com o deputado fede-

vertentes que não conhecíamos foi

ral João Campos. Ficamos três semanas

instigante, e fé foi a palavra de ordem

seguidas ligando quase todos os dias

das nossas pautas e de todo o proces-

para o seu assessor, que nos pedia para

so de produção da Plural.

retornar depois. No total, foram mais

Fiquei encarregada de cobrir os basti-

de 20 ligações e muita paciência”, disse.

dores desse processo. Parecia fácil, eu o

Além disso, cada um de nós enfren-

vivi todo de perto. Mas logo me vi com

tou outros obstáculos. Marina Cassio-

um desafio: como passar para o papel

lato contou que escrever o perfil de

esses quatro meses de trabalho?

Joseph Campbell foi seu maior desafio

Pauta definida, hora de começar. Cada

pessoal. “Não tinha conhecimento de


Bastidores da realização da foto que ilustra a matéria sobre mulheres e religiões, em que a aluna Uly Campos posa com adereços de diversas religiões | FOTOS BIANCA GOMES DE CARVALHO

sua história e ideias”, afirma. O texto só

parecer tempo demais, mas falar sobre

saiu depois de muita leitura e pesquisa.

religião com quem realmente entende

Percebemos que religião é um assun-

do assunto é algo cativante.

to delicado. Algo tão pessoal que houve quem não gostasse de responder per-

EXPERIÊNCIAS

guntas profundas. Por outro lado, mui-

“Acho que o que eu mais gostei, em

tos se identificaram com suas respecti-

todos esses meses, foi a visita a um ter-

vas religiões e conversaram com a gente

reiro de Umbanda. Foi interessante per-

por muitas horas sobre esse assunto.

ceber o preconceito que está infiltra-

na, chamado “Entrevista: o diálogo pos-

Os dois acreditavam que iriam para

sível”. Achei o livro fantástico e tentei

um terreno baldio e escuro, mas se

trazê-lo para as minhas entrevistas da

depararam com uma casa iluminada,

Plural. Funcionou. Estabelecer um diá-

com estátuas de santos, enfeites e pes-

logo com os entrevistados deixa tudo

soas vestidas de branco. “Conversar

mais rico”, pondera a aluna.

com o pai de santo foi uma experiên-

Precisávamos conversar com o deputado federal João Campos. Ficamos três semanas seguidas ligando quase todos os dias. No total, foram mais de 20 ligações” Fernando Turri

A aluna Bianca Gomes de Carva-

do em nós”, disse Bianca. “Fomos com

lho contou que uma de suas entrevis-

uma ideia totalmente diferente do que

tas durou duas horas. “No começo do

encontramos”, reforçou Turri, que tam-

semestre li um livro de Cremilda Medi-

bém visitou um terreiro.

Acho que nós todos aprendemos isso

cia diferente para mim. Eu estava acos-

neste semestre. Quando o jornalista

tumado com rituais da Igreja Católica,

realmente se entrega para o momen-

mas ver aquele outro tipo de manifesta-

to da entrevista, suas perguntas aca-

ção me fez repensar muita coisa”, con-

bam surgindo mais naturalmente e a

tou Turri.

construção da matéria fica muito mais

Nossa experiencia foi assim, incerta,

atraente. Quando conversei com Mário

mas ao mesmo tempo fascinante. O que

René, estudioso de religiões e coorde-

ficou para todos nós foi a certeza de que

nador do novo curso de Ciências Sociais

no final tudo dá certo e de que, com fé,

e do Consumo da ESPM-SP, nem perce-

tudo se alcança. Nós tivemos fé nesta

bi os primeiros 30 minutos se torna-

edição da Plural e esperamos que você

rem uma, duas horas. No começo pode

também se sinta atraído por ela.

“O que eu mais gostei, em todos esses meses, foi a visita a um terreiro de Umbanda” Bianca Gomes de Carvalho


GUSTAVO ZOGHBI, 24, ESTUDANTE DE ARQUITETURA

24/25

O QUE É FÉ PRA VOCÊ?

Perguntamos a pessoas nas ruas de São Paulo o significado da palavra “fé”; as respostas, variadas, apontam para sentidos que transcendem a religião TEXTO E FOTOS DA EQUIPE DA PLURAL

ARMANDO GARCIA RAMOS, 53, FISCAL AUTOVAGAS Fé para mim é acreditar em algo”

ANDRÉ TOLEDO, 47, ADVOGADO É algo que conduz sua vida, se você tiver fé”

Fé é acreditar que há algo acima da gente que controla as coisas e o nosso dia a dia. Algo que nos ampara nos momentos difíceis”


MARÍLIA NOGUEIRA CAETANO, 78, APOSENTADA

FELIPE THOMAZ, 27, MÚSICO E PROFESSOR DE INGLÊS

Fé para mim é ser justo com os demais. Não adianta você crer em Deus se você for injusto com os outros. Você tem que amar seus irmãos e ajudar os necessitados, na medida em que puder”

Fé é uma desculpa para explicar coisas que você não entende, coisas sobre as quais você não tem embasamento científico. Uma forma de se contentar com a ignorância e de não correr atrás de uma reposta”

ROBSON JOSÉ MOREIRA FERRAZ, 27 ANOS, MOTORISTA DA COLÔNIA ESPÍRITA FRATERNIDADE Fé para mim não é algo racional, é a expressão maior do sentimento que a gente tem e não consegue explicar. É a presença de uma força maior que sustenta minha existência”

LUIS CARLOS BERTI, 49, PROFESSOR DA ESPM-SP ROBERTO AGUIAR, 18, ESTUDANTE DA ESPM-SP Para mim é uma motivação que a maioria das pessoas vai ter para continuar seguindo em frente”

YARA GARCIA VASCONSCELOS, 54 Fé para mim é tudo. Fé é o que move a minha vida e dá sentido para todas as minhas coisas”

É acreditar em algo que te dê sustentação em momentos difíceis. E, pela situação do país, com todos os nossos problemas sociais, as pessoas perdem a fé de que as coisas vão melhorar”


RITUAIS PATRIARCAIS

FOTO FERNANDO TURRI

26/27

Como em outros segmentos da sociedade, também nas religiões o machismo se revela


Essa é a visão do Islamismo sobre o MARIANA CAVALCANTI BIANCA GOMES ULY CAMPOS

papel da mulher na sociedade, segundo Gamal Oumairi, do Instituto Brasileiro de Estudos Islâmicos no Paraná, para

»»»“A maioria das religiões, especial-

quem a mulher deve ser “uma compa-

mente as monoteístas, trata a mulher

nheira do homem em todos os sentidos

como inferior e submissa ao homem”,

na vida. Portanto, seu papel social é de

afirma a feminista Cynthia Semíra-

uma responsabilidade tremenda duran-

mis, do blog Direitos das Mulheres e

te toda a sua existência”.

Direitos Humanos.

Islamistas procuram afastar a conota-

A feminista e também advogada ainda

ção machista da religião. “O machismo

alega que é difícil pensar em um pro-

não tem nenhuma relação com o Islã.

gresso já que muitas crenças estão foca-

Inclusive, o Islã proíbe tais atitudes,

das em tratar a mulher como inferior.

pois já assegurou os direitos da mulher

“Mas é possível pensar em resistên-

14 séculos antes do que a mulher bra-

cia e ver mudanças a partir do uso das

sileira pensava em tê-los”, completa

próprias regras religiosas para permi-

Oumairi.

tir certas atividades que, a rigor, seriam

A antropóloga Francirosy Ferreira,

proibidas. Pode-se pensar, por exem-

pesquisadora da Universidade de São

plo, que mesmo em religiões que não

Paulo, defende em seus estudos que a

ordenam mulheres como líderes espiri-

submissão da mulher não tem a ver com

tuais, há uma espaço para as mulheres

o Islã. “A violência contra a mulher é

desenvolverem liderança em atividades

histórica, não é questão de uma religião

secundárias envolvendo a comunida-

ou contexto cultural.” Segundo ela, a

de”, completa.

obrigação da mulher no Islã não é rela-

O machismo ainda é uma das maio-

cionada com o homem, e sim com Deus.

res polêmicas que circulam no mundo

Entretanto, em vertentes mais funda-

religioso. Cada religião possui uma cren-

mentalistas, os homens darão suas

ça diferente sobre o papel do homem.

interpretações, colocando o sexo femi-

A catequista Alessandra Rosa Teixeira

nino como inferior e submisso.

critica o machismo em sua religião. “Eu

O Alcorão, ao contrário do que se

diria que considero certas atitudes pre-

pensa, tem trechos que deixam clara

conceituosas, não generalizando. Como

a igualdade entre homens e mulheres

católica não concordo com esse tipo de

Outro ponto que justifica o machis-

coisa. Acredito que como cristãos preci-

mo dos islâmicos foi estudado pela

samos enxergar o próximo como irmãos,

pesquisadora Leila Ahmed. Ela explica

respeitando as diferenças e limites para

que era comum os muçulmanos agre-

o crescimento espiritual.”

garem hábitos dos territórios que ocu-

“A mulher pode fazer toda e qualquer

pavam. Entre ocupações, os islâmicos

ação que lhe dê respeito na sociedade.

adquiriram de outras culturas formas

O papel da mulher é o de ser um vetor

de repressão às mulheres que até hoje

do bem, se desenvolver espiritualmente

perpetuam.

“O papel da mulher é o de ser um vetor do bem, se desenvolver espiritualmente para que possar ser uma boa filha, boa esposa e boa mãe” Gamal Oumairi, do Instituto Brasileiro de Estudos Islâmicos do Paraná

“A mulher mais tradicional tem o papel restrito de cuidar da casa, dos filhos. Agora, na nossa sociedade moderna, Israel teve a primeira ministra mulher do mundo. Em Israel, a mulher tem um papel igual ao homem, ou maior.” Jose Goldfarb,diretor da sinagoga da Hebraica

para que possa ser boa filha, boa esposa

No Judaísmo, quem passa a reli-

e boa mãe e, mais tarde, boa avó. Deve

gião adiante é a mulher. Jose Goldfarb,

auxiliar o homem em seus trabalhos,

diretor da sinagoga da Hebraica, diz

aconselhá-lo e estar disposta a consti-

que “judeu é o filho do ventre judaico”.

tuir uma família.”

Assim, se uma mulher católica se casa com um judeu, na


crença ortodoxa, os filhos do casal não podem ser considerados parte da religião do pai, já que não são frutos de um ventre judaico. Porém, Goldfarb alega que “na nossa sinagoga, que é mais liberal, se um judeu se casar com uma cató-

28/29

lica, e os filhos quiserem ter uma conversão, ter um bar mitzvah, ele pode. A decisão é dele, independente da mãe ser ou não judia”. O diretor ainda diz que a lei deveria ser diferente. “Se o filho quiser ser judeu, mesmo a mãe não sendo, é como se os pais fossem também. Mas, no meu caso por exemplo, se meus filhos não se interessam pelo judaísmo, posso não ser considerado um judeu.” A Umbanda hoje se enxerga como uma religião livre de machismo. Contudo, em sua formação, se configurava de maneira diferente. “Antigamente, no começo da Umbanda, pai de santo era só o homem, mulher não podia. O papel da mulher era cozinhar, cuidar dos filhos,

Mulheres em ritual de Umbanda em São Paulo |

FOTO FERNANDO TURRI

dos convidados, fazer coisas femininas. Hoje não temos mais isso. Temos mais mulheres na religião atuando”, afirmou

papel restrito, como era antes, de cui-

em outros países, se constituiu uma

um frequentador da religião.

dar da casa, dos filhos. Ela também

sociedade patriarcal em que a famí-

Na Umbanda, se antes as mulheres

transmite a tradição na casa. Agora, na

lia, formada essencialmente por um

tinham como função cozinhar e cui-

nossa sociedade moderna, Israel teve a

homem, uma mulher e seus filhos,

dar da casa, hoje têm os mesmos direi-

primeira ministra mulher do mundo,

estava acima de tudo. Nesse contex-

tos dos homens, sendo livres na religião

Golda Meir, antes da Margaret Tatcher

to, foi atribuído ao homem a imagem

para assumir até cargos de liderança,

e da Dilma. Em Israel, a mulher tem um

de maior valor, de força. Às mulheres e

como é o caso das mães de santo.

papel igual ao homem, ou maior.”

seus filhos, cabe um papel secundário.

O mesmo ocorre no Judaísmo. O dire-

Por uma construção histórica, em

Grande parte das religiões acompa-

tor da sinagoga da Hebraica, Jose Gold-

grande parte das sociedades, tanto oci-

nharam esse pensamento patriarcal.

-farb, diz que os papéis das mulheres

dentais quanto orientais, as mulheres e

Entretanto, nos últimos anos, com a

dependem muito do quão devotas elas

os homens exercem papéis sociais dife-

maior repercussão do movimento femi-

são. “A mulher mais tradicional tem o

rentes. Não só no Brasil, mas também

nista, aumentaram as críticas ao modelo tradicional de família e à forma como as mulheres são vistas pela religião.

Os homens imperam ainda no Catolicismo, sublimando o papel da mulher, que tem a função de educar os filhos e honrar o matrimônio Alessandra Rosa Teixeira, professora de catequese

Não apenas no Islamismo, mas também em outras religiões, o machismo ainda é presente. Na percepção da professora de catequese Alessandra Rosa Teixeira, “os homens imperam ainda no Catolicismo, sublimando o papel da mulher, que tem a função de educar os


permitir mulheres na Ordem. Aborto Outro assunto atualmente discutido não só por religiosos, mas também por cientistas e políticos, é o aborto. A interrupção da gravidez é gerador de opiniões diversas. No Brasil, de acordo com o Código Penal Brasileiro, desde 1984, o aborto é considerado um crime contra a vida humana. Atualmente, crenças como o judaísmo, budismo e catolicismo vêem o aborto como algo estritamente proibido. “O catolicismo, desde o século IV, condena o aborto em qualquer estágio e circunstância. O aborto é visto como forma de tirar uma vida humana inocente”, alega Alessandra Teixeira, assim como a monja Mudita, que diz que tudo depende da sua consciência em relação às atitudes que serão tomadas. “Em relação

A monja Mudita | FOTO BEATRIZ MEDAGLINI

ao aborto, trata-se de matar um ser. Se você sabe que uma ação de matar é uma ação não virtuosa, que vai te trazer

filhos e honrar o matrimônio”.

No Budismo as mulheres também

sofrimento no futuro e ainda assim opta

Patrick Snyder, no livro “Le féminis-

têm mais liberdade. A monja Mudi-

por realizá-la, tudo bem, é uma respon-

me selon Jean-Paul II: l’impasse du déter-

ta alega que Buda não proíbe, apenas

sabilidade que você assume”.

minisme”, analisa os discursos do Papa

mostra o melhor caminho a ser segui-

No entanto, o Islamismo crê que a

João Paulo ll direcionados às mulheres,

do. “A minha religião me diz que posso

mulher tem o direito de interromper a

e, a partir deles, constata a visão restrita

fazer o que considero certo, o que acho

gravidez apenas em casos de estupro

que a Igreja Católica tem da mulher. Entre

que preciso fazer. Ela não me proíbe de

e nos casos em que a vida corra risco.

as falas do Papa analisadas por Snyder,

nada, nem meu guia espiritual, nem o

Quanto à autonomia da mulher para

está: “As mulheres encontram sua digni-

Buda. Ele apenas aponta os perigos de

realizar um aborto, o pai de santo Auré-

dade e vocação principalmente por meio

cometer determinadas ações. Se você

lio Almada, apesar de se dizer contra

do casamento e da maternidade”.

comete essa ação ciente de que se trata

o ato pelo fato de ser a morte de uma

de tirar uma vida, terá consequências.”

vida que está apenas no começo, afir-

a função de participar de certa forma da

Inicialmente, o Budismo teve uma

ma que não rejeitaria em sua religião

vida diária. Em geral, ela é uma pessoa

postura parecida com a do catolicismo:

uma mulher que o tivesse realizado.

superinformada e que trabalha. Inclusi-

restringir a mulher ao papel familiar, de

“Eu não impediria uma mulher que

ve, as mulheres que frequentam o cen-

mãe. Segundo os budistas, Buda negou

realizou um aborto de vir ao meu ter-

tro vêm no período da noite, pois todas

diversas vezes cargos para mulhe-

reiro. Deus mesmo falou ‘atire a pri-

trabalham durante o dia. Na realidade,

res. Entretanto, quando interrogado

meira pedra quem não tiver pecados’.

o espiritismo não cobra nada em relação

sobre a proibição da entrada de mulhe-

Quem somos nós para julgar o pecado

a um comportamento pré-estipulado. A

res na ordem religiosa e o discurso de

dos outros? Todos temos pecados, que-

mulher é livre”, explica Rosana Cordon,

que todos seres são iguais, Buda perce-

rendo ou não. Nós, da Umbanda, deixa-

que trabalha em um centro espírita.

beu seus próprios equívocos e passou a

mos para Cristo cobrar.”

“Hoje em dia, a mulher moderna tem


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››› ATEÍSMO

A NEGAÇÃO DO MISTÉRIO DIVINO Em crescimento no Brasil, ateus se dividem entre combater a crença em Deus ou a considerar irrelevante

quem pensa que pessoas como Gabriela BEATRIZ MEDAGLINI

são raras no Brasil. Desde 1960, o número de ateus cresceu de 0,6% para 8% da

»»»Uma jovem nascida em uma famí-

população, segundo o último censo do

lia católica fervorosa. Desde peque-

IBGE, de 2010. O fenômeno não para

na criada sob os preceitos da religião,

por aí: segundo pesquisas do Datafo-

foi obrigada a fazer a primeira comu-

lha, esse número só tende a crescer nos

nhão e o sacramento da crisma. Mas,

próximos anos.

no decorrer dos anos, percebeu que aquele papo de fé, Bíblia e dogmas

Ateísmo e deísmo

cristãos nada lhe dizia, e aos poucos

O ateísmo, em seu amplo sentido, signi-

foi se distanciando da religião, aban-

fica a ausência de crenças na existência

donando uma crença que foi imposta

de divindades. Este termo provém do

desde seu nascimento.

grego clássico, cujo prefixo “a” signifi-

A família não aceitou, e, hoje, conversas sobre religião são banidas em

ca ausência e “teísmo” remete à crença na existência de um Deus.

dades a partir do século 18. Entretanto,

encontros e jantares. A menina acabou

Desde os primórdios, a ausência de

engana-se quem pensa que toda pessoa

se distanciando de sua família, se tor-

religião foi mal vista, muitas vezes cau-

que se define como ateia é igual. Den-

nando assim uma ovelha negra dentro

sada por uma generalização de que pes-

tro dos que se denominam sem religião,

de sua própria casa.

soas sem crença, ou seja, diferentes da

existem muitas ramificações e diferen-

Essa é a história de Gabriela Rocha, 19

maioria, não mereciam confiança. Com

tes formas de pensamento.

anos, moradora da capital paulista e que

a difusão do pensamento científico, o

Os denominados ateus práticos são

se considera sem religião. E se engana

ateísmo ganha mais espaço nas socie-

aqueles que vivem como se a existência

O MUNDO MODERNO TENDE A ACREDITAR QUE OS PROBLEMAS HUMANOS SÃO ESSENCIALMENTE HUMANOS, NEGANDO O MISTÉRIO DIVINO


maior que controla e rege a vida, mas não necessariamente uma divindade. O deísmo também enquadra-se entre aqueles que se dizem sem religião, apesar de ser uma forma oposta ao ateísmo. No Brasil Mesmo com a ausência de dados recentes sobre o número de brasileiros que se consideram sem religião (o ultimo censo do IBGE foi feito em 2010), é visível o crescimento de um descontentamento do povo brasileiro no âmbito religioso. O professor de filosofia Eduardo Oyakawa, da ESPM-SP, explica que essa tendência de abandono de religiões se dá graças à modernização de instituições sociais atualmente, predominantemente laicas. As elites que compõem essas instituições tendem a seguir preceitos racionais e se apoiando em conceitos científicos, o que com o tempo gera um distanciamento das religiões. Para Oyakawa, o mundo moderno tende a acreditar que os problemas humanos são inteira e essencialmente humanos, inutilizando explicações pautadas em fenômenos místicos e de atribuição a intervenções divinas. Essa ten-

de divindades fosse uma crença irrelevante. Chamados também de apateístas,

Imagem feita pelo telescópio Hubble; ateus veem ciência onde crentes veem Deus | FOTO NASA

dência vem ganhando espaço no mundo globalizado, não somente no Brasil. O teólogo Rodrigo Franklin de Souza, professor da Universidade Presbiteriana

eles tentam explicar os diversos fenô-

Mackenzie, também enfatiza que anti-

menos do mundo sem recorrer a fatores

gamente era obrigatório ter uma reli-

divinos. Eles nem creem nem negam a

gião no Brasil. A sociedade brasileira

existência de um deus: consideram essa

vivia em um contexto de que o catoli-

questão desnecessária.

cismo já era pré-estabelecido. Dessa

Já o ateísmo teórico, o mais popular, é aquele que nega a existência de qual-

forma, pessoas nasciam católicas, sem ter contato com outras religiões e com

Existem também os que se denomi-

Antigamente era obrigatório ter uma religião no Brasil, mas isso mudou

nam deístas, aqueles que acreditam

Rodrigo Franklin de Souza

nou-se uma escolha comum, apesar de

na existência de uma força ou energia

professor universitário

eventualmente ser alvo de preconceito.

quer divindade, manifestando-se por meio do pensamento cientifico cético e utilizando-se dele para explicar e contradizer fenômenos tidos por religiosos.

medo de julgamento se seguissem por outro caminho. Já no contexto atual, dizer-se sem religião, com toda a liberdade que temos no seculo 21, não é vergonhoso. Tor-


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››› BUDISMO

BUSCA PELA ILUMINAÇÃO Unindo práticas de meditação e autoconhecimento à doutrina religiosa, Budismo atrai curiosos de todos os tipos, até aqueles que desconhecem sua filosofia

meditação a desenvolvimentos da sabedoria e da introspecção analítica. Cada vez mais o brasileiro tem se interessado por ela, e hoje em dia o Budismo ocupa o quinto lugar entre as reli-giões com mais fieis no Brasil. André Ribeiro, professor de música no templo Tzon Kwan, na Vila Mariana, acredita que o elevado número de fieis por aqui decorre do fato de o Budismo estar ligado a outras práticas além da religião. “As pessoas vão ao templo para praticar a meditação, como uma espécie de amparo psicológico, para sofrer

LAURA STABILE MARINA CASSIOLATO

qualquer estudo aprofundado sobre

menos o estresse da vida diária”, ana-

religião, mas vivia inquieto. Sidarta

lisa. “Nem sempre é pela religião, mas

Gautama, o Buda que marca a era cós-

pela paz. Eu, inclusive, vivia estressa-

mica budista em que estamos, partiu

do e olhava o Budismo como uma coisa

»»»Entre 563 a.C. a 483 a.C., na Índia,

em sua busca religiosa e percorreu

que seria boa para mim”, afirma o pro-

um príncipe de 29 anos abdicou

o território indiano atrás de conhe-

fessor. Ele estava certo.

do luxo de seu palácio em busca de

cimento e práticas de meditação até

O praticante Upasaka Hui Shius con-

uma vida livre de coisas materiais.

chegar à iluminação, um estado de

corda. Os brasileiros costumam bus-

Até essa idade, o príncipe não tinha

despertar espiritual.

car o Budismo para encontrar descan-

consciência plena de como as pessoas

Baseada em seus fundamentos surge

so e uma espécie da paz interior, mas,

viviam fora de seu reino nem possuía

a religião budista, que une as práticas de

segundo ele, esquecem que a religião


PARA MUITOS O BUDISMO SE TORNA DIFÍCIL NO COMEÇO. AS PESSOAS TÊM UM ESTIGMA QUE, PRATICANDO O BUDISMO, SE CHEGA AO NIRVANA EM UMA SEMANA o fim do sofrimento através da meditação, da sabedoria e da conduta que se desenvolve vida após vida até o alcance da iluminação. Mas alcançar esse estágio não é fácil. A meditação é possível a todos, mas a libertação do sofrimento acontece para praticantes muito avançados, que chegam a um estágio anterior ao da meditação final, o da iluminação. Esses são os chamados Bodisatvas, os mais próximos de Buda e da iluminação. O que poucas pessoas sabem é que não existe apenas um Buda e um Bodisatva, existe um Buda para cada era cósmica budista. Sidarta Gautama é o Buda que marca a era em que estamos, a qual também tem dois Bodisatvas.

Ao lado, detalhe de templo budista em São Paulo; acima, o professor de música no templo Tzon Kwan, na Vila Mariana, André Ribeiro | FOTOS LUCAS NEGREIROS

Upasaka Hui Shius conta que segue uma relação cheia de energia com o Budismo em seu dia-a-dia. “Como eu só frequento o templo aos finais de

não é só isso, o Budismo exige muita

A monja do templo lembra que essa

semana, minha semana é assim: reci-

prática e disciplina. “Para muitos o

situação não ocorre apenas no Brasil.

to os sutras pela manhã, leio e estudo

Budismo se torna difícil no começo. As

“Tudo se modifica todo o tempo. O nosso

eles, medito andando e parado e faço

pessoas no Brasil têm um estigma que,

Budismo é moderno, ele é para a cidade,

trabalhos voluntários”, conta. “O Budis-

praticando o Budismo, se chega ao Nir-

e não para ir para a caverna. Cavernas

mo é a união de pensamento, palavras

vana em uma semana e, às vezes, mui-

existiam no Tibete. Hoje temos carros,

e ações”, finaliza o praticante.

tas chegam ao templo com milhares de

celulares e casas, por exemplo, então a

dúvidas em um dia só. Elas são afoitas

gente vai praticar aqui, dentro do nosso

e ansiosas, esperam milagres no Budis-

mundo”, exemplifica. O Budismo veio

mo, e milagre não existe na nossa reli-

para o Ocidente difundido pelo Tibete.

gião”, comenta.

“A nossa tradição tem uma linhagem tibetana, ou seja, nossos mestres são

Abrasileiramento

budistas e tibetanos”, conclui a monja.

O Budismo vem sofrendo uma espécie de abrasileiramento por aqui. De acordo

A prática

com Ribeiro, o que acontece é uma sepa-

O Budismo acredita que o ser humano

ração entre escolas mais e menos tradi-

esteja em um ciclo eterno de morte e

cionais. “Há aquelas que querem difun-

renascimento em diferentes corpos. A

dir o Budismo em larga escala, mas

religião propõe, então, uma busca pela

outras não querem isso. A ideia central

libertação desse curso baseada em qua-

é sempre a mesma, o que muda é a cul-

tro estágios. As Quatro Nobres Verdades

tura que vai receber a religião, os mon-

são: a verdade do sofrimento, da origem

ges e mestres divergem em muitas prá-

do sofrimento, da cessação do sofrimen-

ticas, e as escolas vão surgindo assim,

to e do caminho que leva à cessação do

por divergência e convergência”, conta.

sofrimento. Trata-se do caminho para

“As pessoas vão ao templo para praticar a meditação, como uma espécie de amparo psicológico” André Ribeiro, professor de música no templo Tzon Kwan


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››› UMBANDA

Frequentadores e rituais de Umbanda em terreiro de São Paulo | FOTOS FERNANDO TURRI

BIANCA GOMES DE CARVALHO BEATRIZ MEDAGLINI

»»»Um terreno vazio, onde os rituais são feitos à noite. Uma fogueira no centro, com pessoas em forma de círculo envolta dela. Homens e mulheres com roupas coloridas, em estilo havaiano. Mulheres com saia de palha. Música forte. Assim é um

FÉ MESTIÇA COMO O BRASIL Alvo de discriminação pela maioria das pessoas, a umbanda nasceu no Brasil e retrata nossa mestiçagem

terreiro de Umbanda, segundo a estudante de odontologia Isabela Lopes. Uma sala branca no fundo de uma casa. Imagens de santos, de homens

cenário que compõe uma gira no terrei-

alguns dos estereótipos pensados quan-

negros e de índios. Os que participam

ro de Umbanda do pai de santo Aurélio,

do se fala em Umbanda.

da reunião, efetivamente, estão vesti-

na região sul de São Paulo.

dos de branco. Mulheres de saia de pano

Apesar dos preconceitos, a Umban-

No Brasil, a visão sobre o que é a

da pode ser vista como um dos gran-

e homens de calça. Os que só assistem

Umbanda é distorcida. O preconceito

des símbolos do Brasil. Embora muitos

vestem roupas do dia a dia e permane-

não se limita ao gênero, idade ou classe

acreditem que a religião tenha origens

cem sentados em um banco na mesma

social. Ele se perpetua há anos no terri-

exclusivamente africanas, ela nasceu

sala. Uma música ao fundo é produzi-

tório e não corresponde em nada ao que

em território brasileiro, sendo influen-

da por três jovens que tocam, em ritmo

verdadeiramente é a religião. “macum-

ciada pelas principais religiões trazidas

contagioso, a trilha do culto. Este é o

ba”, “coisa do mal”, “magia negra”, são

pelas matrizes que ocupavam o Brasil


Segundo esse mito, o caboclo teria rei-

espirituais possam aconselhar e curar

vindicado seus direitos de se expressar

os que precisam de ajuda. Por esse moti-

e discursado contra a discriminação de

vo, ser médium não é considerado uma

cor e classe social que as pessoas lá pre-

vergonha, e sim um dom.

sentes sofriam. Logo no dia seguinte,

Apesar de representar bem a mes-

incorporado novamente no jovem Zélio,

tiçagem brasileira, a Umbanda ainda

o caboclo deu inicio à nova religião.

hoje obtém uma baixa adesão no Brasil.

A Umbanda não é uma simplificação

Segundo Prandi, a justificativa é o fato

do Candomblé, apesar de compartilhar

de as religiões afro-brasileiras terem

características em comum. Ela prati-

surgido em um contexto histórico cujo

ca, principalmente, a caridade, motivo

catolicismo era a religião predominan-

pelo qual existem as sessões de culto.

te no país, e até o fim do século XIX a

“A umbanda é a religião dos caboclos,

única permitida.

boiadeiros, pretos velhos, ciganas,

Atualmente, mesmo com a liberda-

exus, pombagiras, marinheiros, crian-

de religiosa, o preconceito às religiões

ças. Perdidos e abandonados na vida,

afro-brasileiras persiste por diversos

marginais no além, mas todos eles com

motivos, sendo um deles os frequen-

uma mesma tarefa religiosa e mágica

tes ataques que as igrejas neopentecos-

que lhes foi dada pela religião de uma

tais fazem, segundo Ricardo Mariano,

sociedade fundada na máxima hetero-

pós-doutor em Sociologia da Religião

geneidade social: trabalhar pela feli-

pela USP. O pai de santo Aurélio afir-

cidade do homem sofredor”, afirma o

ma que esse preconceito surge da “falta

especialista em religiões afro-brasilei-

de entendimento e consciência sobre o

ras Reginaldo Prandi.

que é a religião Umbandista”. “Deus

colonial. Dos índios herdaram o espi-

A Umbanda é uma religião que instiga

não deixou a religião, deixou o amor,

ritismo, dos africanos, o candomblé, e

a mobilidade social de todos os grupos

que é aquilo que nós temos que prati-

dos portugueses, o catolicismo.

do país, independente de status. Para

car. Devemos ensinar o que é o amor.”

Ela nasce no começo do século XX,

ela o homem deve procurar, em vida

como filha do sincretismo religioso do

terrena, a felicidade. Não se comparti-

Brasil. Tem sua “anunciação” no Rio de

lha a ideia de que é preciso sofrer nessa

Janeiro, num contexto de proclamação

vida, mas alterar a ordem e se realizar. O

da República e abolição da escravatu-

candomblé, da mesma forma, apoia essa

ra, quando na teoria surgiu a preocupa-

ideia. Segundo Reginaldo Prandi,“A pre-

ção de inserir, efetivamente, os negros

sença da entidade no transe ritual vol-

na sociedade branca urbana. Logo após

ta-se mais para a cura, limpeza e acon-

seu surgimento, a religião se difunde

selhamento dos fiéis e clientes.”

por todo o território, não mais se limitando ao Rio de Janeiro.

Os rituais não são padronizados,

+ PLURAL NA INTERNET

variam de terreiros para terreiros,

Apesar de possuir raízes muito anti-

mas em geral tem o objetivo de evo-

gas, a primeira tenda umbandista teve

car o orixá ancestral, orixás menores e

seu registro em cartório apenas em

guias (espíritos antepassados) e prote-

1908. O chamado “mito de origem”

tores (espíritos que auxiliam os guias,

conta que a Umbanda surgiu quan-

como é o caso de boiadeiros, marinhei-

do o Caboclo das Setes Encruzilhadas,

ros e baianos).

em uma mesa espírita, baixou em um

Durante o culto, os médiuns fazem o

jovem de 17 anos, Aurélio Fernandino

intermédio entre o físico e o espiritual.

de Moraes.

A mediunidade permite que os mestres

Use um leitor de QR Code e leia mais sobre Umbanda no Portal de Jornalismo da ESPM-SP


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››› ESPIRITISMO

A conexão com as pessoas e com a natureza é uma forma de trazer paz àqueles em dificuldades | FOTOS MARINA GUAZZELLI

PELA DOR OU PELO AMOR Religião que apresentou maior crescimento nos últimos dez anos, Espiritismo atrai pessoas que procuram alívio para sofrimentos e angústias

momento difícil você desaba”, comenta

religião, é outro destaque. Segundo a

MARINA GUAZZELLI

Eduardo, que, depois de alguns meses

Federação Espírita Brasileira (FEB), “os

»»»A dor da perda de um filho é insu-

após o acidente, passou a frequentar

espíritos reencarnam quantas vezes

portável para qualquer pai. Clau-

centros espíritas com sua mulher em

for necessário até alcançar o aprimo-

dia Regina Oliveira, professora de 42

busca de respostas.

ramento”.

anos, e Eduardo Henrique, 43, pas-

Fundamentado em preceitos e valores

Claudia frequentava desde peque-

saram por esse sofrimento. No cen-

cristãos, o Espiritismo surgiu na França

na a Igreja Católica, mas, com a morte

tro de Avaré, cidade onde moram no

em 1857 com “O Livro dos Espíritos” e é

do filho, surgiu a vontade de conhe-

interior de São Paulo, saindo de uma

uma doutrina baseada em cinco obras

cer melhor a doutrina Espirita. “O jeito

loja, seu filho, Eduardo, foi atropela-

de Allan Kardec, seu precursor.

como é tratada a morte é mais abran-

do por um carro ao soltar a mão de sua

Diferentemente da religião Católica,

mãe. Eduardinho, como era conheci-

mais expressiva no Brasil, o Espiritismo

do, tinha menos de 3 anos.

gente e confortante. Consola um pouco mais a gente”, comenta.

não possui nenhuma hierarquia religio-

A esperança de reencontrar entes

Desde 16 de dezembro de 2014 os pais

sa. Os líderes de centros espíritas (onde

queridos e o tratamento diferenciado

lutam para amenizar a tristeza. “Se a

ocorrem as reuniões) são selecionados

sobre a morte são um dos principais

gente não tem fé, a gente não supera.

por seu código moral antes mesmo de

motivos que atraem as pessoas ao Espi-

Se você não tiver fé em algo superior,

seu conhecimento sobre a Doutrina.

ritismo. Para Hilton Lutti, frequentador

você vai ter pensamento errado e num

A reencarnação, tema que marca a

e palestrante de um centro espírita, as


à religião Espírita, a mediunidade está presente em todos os seres humanos, como se fosse um “sexto sentido”. “A questão de ‘se tornar um médium’ passa a ser apenas uma condição de mais ou menos sensibilidade de uma pessoa, visto que todos temos mediunidade”, completa Hilton Lutti. Chico Xavier, provavelmente o médium mais conhecido entre os brasileiros, foi um dos principais responsáveis pela disseminação do espiritismo no Brasil. Junto com Bezerra de Menezes, Chico popularizou a religião que hoje é uma das mais conhecidas no país. Segundo o IBGE, o Espiritismo cresceu 65% de 2000 a 2010 e alcançou 2% da população brasileira. A psicografia, um dos tipos de mediunidade, foi um de seus maiores talentos. Por meio de cartas, Chico Xavier reproduzia as mensagens que recebia dos espíritos. Além dela, há outros tipos, como a vidência (em que o médium vê os espíritos) e a psicopictografia (espírito pinta quadros através dos médiuns). A cura que o espírito faz por meio do médium, como a praticada por João de Deus, um dos mais procurados do país, também é uma das mediunidareligiões tradicionais não cumprem seu

des desenvolvidas. Em todo o Brasil,

papel quando não respondem aos ques-

milhares de pessoas buscam tratamen-

tionamentos daqueles que perderam

tos espirituais para curar doenças que a

entes queridos. “A doutrina Espírita se

medicina tradicional não alcança.

vale da mediunidade como ferramenta

Muitas pessoas do Brasil e de outros

de progresso e trabalho espiritual, tra-

países do mundo procuram João de

zendo os ditos ‘mortos’ ao encontro dos familiares que deixou na Terra. E isso é um diferencial. Esse é um dos motivos, porém não o único”, completa. MEDIUNIDADE Médium, no sentido lato da palavra, é aquele indivíduo que possui uma sensibilidade de tal ordem que com facilidade vê, ouve, conversa ou fala com a espiritualidade. Apesar de ser associada principalmente

O jeito como é tratada a morte [na doutrina] é mais abrangente e confortante. Consola um pouco mais a gente Claudia Regina Oliveira, mãe de Eduardinho, falecido há 5 meses

Deus para realizar tratamentos em Abadiânia (GO), na Casa Dom Inácio de Loyola. “De 100 pessoas, 92 vêm pela dor e 8 pelo amor”, diz Lize Lacaz, Guia Oficial da Casa Dom Inácio desde 2012. O palestrante Hilton Lutti concorda. “Dizemos no meio espírita que as pessoas chegam à doutrina pela dor ou pelo amor. Porém a maioria esmagadora começa sua busca de respostas pela dor”, concorda o palestrante Hilton Lutti.


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››› ISLAMISMO

AMOR CONTRA O TERROR Deturpado e associado ao terrorismo, o verdadeiro Islamismo prega a paz e a caridade do islamismo, que regem os fieis da reli-

entrasse com vestes islâmicas em um

MARINA AYUB

gião monoteísta guiada pelo Alcorão,

tradicional café de Paris não recebe-

“De vós deve surgir uma nação

o livro sagrado. Há, também, os cinco

ria tantos olhares examinadores. Mas

que pregue o bem, e recomende a

pilares fundamentais: a unicidade de

isso foi antes. Antes do islamismo ser

probidade, e proíba o ilícito.

Alá; a justiça de Deus; o profetismo do

tão deturpado. Antes de meninas serem

Esse é o caminho da vitória.”

Islã (levar a mensagem); o imamato (há

repreendidas por usarem roupas lon-

Alcorão, 3:104

12 descendentes de Maomé, os imames,

gas demais.

e acredita-se que o último ainda apare-

Rodrigo Jalloul, de 29 anos, é o pri-

»»»Shahada significa aceitar a profis-

cerá na cidade de Meca); e a espera pelo

meiro Sheik (título de honra para líde-

são da fé; Maomé é o enviado de Deus.

dia do juízo final.

res e clérigos islâmicos) brasileiro. For-

Salat: orar diariamente. Zakat é o ato

Atualmente, no entanto, propaga-

mado no Irã, no seminário teológico de

de fazer caridade e ajudar ao próxi-

-se muito sobre a violência que grupos

Qom – a maior convenção de xiismo no

mo. Sawn: jejuar durante o Ramadã,

como Estado Islâmico, Al Qaeda e Boko

mundo, estudou lá por quase oito anos.

o mês sagrado. Hajj é a perigrinação

Haram praticam. É o que se vê diaria-

Descendente de libaneses sunitas, o

para a cidade de Meca.

mente no noticiário.

Essas são as cinco principais práticas

Uma mulher de meia idade que

Sheik foi batizado na igreja católica e por um período não seguiu religião alguma.


Ao lado, pátio da Mesquita do Sultão Ahmet, conhecida como Mesquita Azul, e acima a Mesquita Yeni, ambas em Istambul | FOTOS DIVULGAÇÃO

bita.” Jalloul explica que grupos como Estado Islâmico surgiram de ramificações do wahhabismo. Rodrigo conta também que em regiões dominadas pelo Daesh (ou Estado Islâmico), os grupos que mais morrem são os próprios combatentes muçulmanos, além da parcela cristã. “Tudo isso faz com que muitos pensem no islamismo como violento, o que é falso. O islamisDepois de pesquisar sobre suas origens

mo prega amor, paz e caridade ao pró-

islâmicas, ele passou a frequentar mes-

ximo”, completa

quitas e decidiu que gostaria de realizar

O Sheik afirma ainda que as religiões

algo inédito no Brasil: falar em nome do

não respondem pelo ato de cada um. Em

xiismo. Hoje, trabalha voluntariamente

todas elas, há pessoas pacíficas e há pes-

ajudando comunidades e dando pales-

soas que cometem crimes.

tras sobre o islamismo.

Em relação ao islamismo no Brasil,

Rodrigo explica alguns preceitos do

Rodrigo Jalloul afirma que ele tem cres-

islamismo e também a incompreen-

cido muito e hoje chega a um número

são que existe no imaginário coletivo

de 2 milhões de pessoas: “É o segundo

atualmente. Apesar de ter 1,6 bilhão de

país no continente americano com mais

fieis no mundo, sendo a segunda maior

muçulmanos, perdendo somente para

religião em quantidade de seguidores,

os EUA. O número de mesquitas não é

Sheik Rodrigo afirma que muito do pre-

tão grande. Mas há centros culturais,

conceito que existe hoje com os muçul-

as chamadas musallas. Nas cidades do

manos vem de seitas específicas, como

interior elas são muito comuns.”

o Wahhabismo.

“No Brasil, há liberdade de expres-

“Há 300 anos, a Inglaterra foi palco

são, e os brasileiros são interessados

de um grande crescimento desse

na cultura árabe, o que influencia no

movi­mento ultraconservador. O atual

crescimento do islamismo. É uma reli-

governo da Árabia Saudita, que priva a

gião muito respeitada aqui”, completa

mulher de estudar e dirigir, é wahha-

o Sheik brasileiro.

ORIGENS » O islamismo surgiu na Árabia, no século VI. Na época, essa região do Oriente Médio era habitada por cerca de 5 milhões de pessoas. O islamismo é a terceira e última das religiões monoteístas, depois do judaísmo, a mais antiga, e do cristianismo.


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››› JUDAÍSMO

Vista de Israel, cuja fundação em 1948 deu origem à chamada Questão Palestina, polêmica até hoje | FOTO ANITA EFRAIM

CRUZADA CONTRA O ANTISSEMITISMO Religião monoteísta mais antiga do mundo assiste ao recrudescimento da intolerância Mas há cisões dentro do judaísmo e

A intenção desse dia é representar o dia

muitos preconceitos entre seguidores

em que D-us ( forma usada na religião

da religião. “Na minha opinião o judaís-

judaica para não usar o nome Dele em

»»»O judaísmo é a religião monoteís-

mo é um combo: povo que vive uma filo-

vão), após toda a criação do mundo, des-

ta mais antiga do mundo. Conhecida

sofia de vida chamada judaísmo e que

cansou.

como Antigo Testamento pela maioria

tem um vinculo quase que intrínseco

das pessoas, a Torah é o livro sagrado

com a terra de Israel”, afirma Lucas Lej-

Religiosos x Ortodoxos

do judaísmo, que conta toda a histó-

derman, 33, que mora em Israel e estu-

É comum confundir os termos “religio-

ria do povo judeu desde a criação do

da para ser rabino.

so” e “ortodoxo”. “Religioso” é quem

ANITA EFRAIM

mundo até a morte do grande profeta judeu, Moshé ou Moisés.

Lenderman afirma que há muitos

tem práticas religiosas, independen-

tipos de crenças judaicas, talvez cente-

temente da linha. A ortodoxia é uma

Judeus rezam em sinagogas e seus

nas. O Shabat, por exemplo, é uma das

delas. O estereótipo de judeu, aquele

líderes religiosos são rabinos. Aque-

práticas mais conhecidas e é seguido de

vestido de preto dos pés à cabeça e que

le “chapeuzinho” usado por pessoas

diferente formas. O que não muda é que

usa chapéu e os “cachinhos”, chama-

rezando chama-se kippá, e a língua ofi-

ele tem início quando surge a primeira

dos peyot, é um judeu ultraortodoxo.

cial de Israel, em que se fazem as ora-

estrela na sexta-feira e dura até a noite

Essa linha é a mais rigorosa em rela-

ções, é o hebraico.

de sábado e é o dia sagrado do judaísmo.

ção ao que manda a Torah. Para eles o


“SEMPRE FUI MUITO ESTIGMATIZADO POR SER JUDEU. MAIS DE UMA VEZ EU ME VI EM SITUAÇÕES DE PESSOAS ME XINGANDO POR SER JUDEU, OU FAZENDO PIADAS” judeus depois que foram libertados da escravidão no Egito. Entretanto, o Estado Judeu só se consolidou para o mundo depois do Holocausto, quando o exército de Hitler exterminou mais de 10 milhões de pessoas, entre eles, 6 milhões de judeus. Em 1948 foi criada oficialmente Israel, dando origem ao conflito que permeia a região até hoje. À parte todas as guerras, o Estado, especialmente Jerusalém, é sagrado para as três grandes religiões monoteístas, por ser onde está o Kotel HaMaravi (Muro das Lamentações), o Santo

Celebração do Iom Ierushalaim, dia da reconquista de Jerusalém | FOTO ANITA EFRAIM

Sepulcro, onde Cristo está enterrado, e o Domo da Rocha, uma das mesquitas mais sagradas para o islã.

Shabat, por exemplo, deve ser seguido

de desafios. O antissemitismo cresce,

exatamente da mesma maneira como

especialmente na Europa. Além disso,

era seguido há 2000 anos, sem usar

os judeus têm de enfrentar as críticas

Mitos e verdade

fogo, energia elétrica, sem carregar

a Israel. “O preconceito causado pela

“Judeus são todos ricos” – esse é o mito

nada (a não ser que se esteja entre qua-

ignorância é um problema”, opina o his-

mais difundido sobre seguidores da

tro paredes), entre outras restrições.

toriador André Wajnberg, formado em

religião judaica.

Mesmo dentro da ortodoxia há níveis.

história e geografia pela Universidade

André Wajnberg, historiador, conta

Muitos ortodoxos encostam em pessoas

Hebraica de Jerusalém. Mas, para ele,

que a lenda começou no período medie-

do sexo oposto e vestem-se comumente.

o grande desafio judaico hoje é outro:

val. “Os judeus estavam proibidos de

Os mais radicais têm casamentos com-

“Como ser judeu, carregando esta cul-

qualquer tarefa – possuir terra, traba-

binados e não encostam nos seus noi-

tura milenar, e, ao mesmo tempo, ser

lhar nela, ser soldado ou artesão. Por

vos até a noite de núpcias.

um homem comprometido com os desa-

isso, os poucos que não eram miserá-

fios do mundo moderno?”, questiona.

veis viraram banqueiros. Eram eles

Apesar de menos populares, existem outros movimentos religiosos, como

A relação entre judeus e Israel come-

que cobravam os juros dos senhores

os conservadores, também conhecidos

ça, teoricamente, antes mesmo de a

feudais”. O historiador conta que esse

como masorti. A intenção dessa linha

Torah ser escrita, há mais de 2000 anos,

estereótipo foi complementado na

é frisar a ideia de que é possível conci-

quando D-us prometeu essa terra aos

modernidade, quando os judeus eram

liar a cultura e as tradições milenares

comerciantes, pelo conhecimento de

dos judaísmo com a civilização atual. O

diversas línguas. “Essa ocupação, até

nome dessa linha vem da ideia de man-

a idade contemporânea, era uma das

ter o judaísmo, mas adaptando-se à atu-

pouquíssimas permitidas aos judeus”,

alidade. Sendo assim, eles não deixam

explica Wajnberg.

de cumprir tradições, mas o fazem de

“Sempre fui muito estigmatizado por

maneira diferente. O outro extremo do judaísmo, ainda mais liberal, é o reformista ou progressista. Os preceitos dessa linha são de que cada um é autônomo o suficiente para decidir como seguir o judaísmo. A religião hoje enfrenta uma série

ser judeu. Mais de uma vez eu me vi em

FUNDAÇÃO

1948

foi o ano da criação do Estado de Israel, após deliberação da ONU.

situações de pessoas me xingando por ser judeu ou fazendo generalizações e piadas de mau gosto”, conta Lejderman. Além disso, ele acredita que um dos motivos para o preconceito sejam os mitos que cercam a religião judaica.


Foto: Divulgação

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p&r

ENTREVISTA: LEONARDO BOFF TEÓLOGO

PIONEIRO DA TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO E UM DOS MAIORES ESTUDIOSOS DE RELIGIÃO NO BRASIL, LEONARDO BOFF PREGA A IMPORTÂNCIA DE AMAR A VIDA E A NATUREZA

AS RELIGIÕES HOJE SE FIZERAM MUITO RÍGIDAS LAURA GARCIA STABILE

»»»O teólogo Leonardo Boff, 77 anos, nasceu na cidade de Concórdia, em Santa Catarina. Graduado pela Faculdade de Teologia dos Franciscanos do Rio de Janeiro, dedica-se há pelo menos 56 anos a estudos religiosos. Doutor em filosofia da religião pelo Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ, Boff é o principal expoente da Teoria da Libertação no Brasil. Professor e professor-visitante de teologia e espiritualidade de diversas universidades do mundo, como Harvard, Heidelberg e Basel, tem mais de 60 obras publicadas, que, unidas à sua luta em favor dos Direitos Humanos, lhe renderam inúmeras premiações Teve uma carreira contudo atribulada. Em 1984, o Vaticano o condenou a um ano de “silêncio obsequioso” por sua defesa da Teologia da Libertação.


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“QUASE TODOS OS CATÓLICOS BRASILEIROS SÃO CATÓLICOS CULTURAIS. NASCERAM DENTRO DE UMA CULTURA CATÓLICA E POR ISSO SE CONFESSAM CATÓLICOS. MAS ISSO NÃO MUDA MUITO EM SUA VIDA E EM SUA ÉTICA” “CATÓLICO É AQUELE QUE TOMA COMO REFERÊNCIA A FIGURA DE JESUS E SUA PRÁTICA E PROCURA VIVER EM COERÊNCIA COM ESTA OPÇÃO DE VIDA. NESSE SENTIDO HÁ POUCOS CATÓLICOS NO BRASIL”

Quase dez anos depois, em 1992, ameaçado de nova pena, optou por deixar suas atvidades de padre e se tornou um teólogo leigo. Hoje, Boff segue disseminando a Teologia da Libertação e é professor, conferencista e escritor. Também é presidente de honra do Centro de Defesa dos Direitos Humanos de Petrópolis, membro do comitê internacional da Carta da Terra e assessor de movimentos sociais. Nesta entrevista, o teólogo compartilha seus pensamentos sobre a fé e critica a rigidez e a frieza de religiões institucionalizadas. “Ter fé em termos religiosos é saber e sentir, a partir do coração, que não estamos abandonados neste mundo”, afirma.

Em entrevista à Folha de S. Paulo, o senhor disse que o novo Papa “deveria ser um homem profundamente espiritual e aberto a todos os caminhos religiosos”. O senhor defende então que o Homem tenha liberdade de escolher seu caminho religioso?

to. Está aberto ao outro, ao mundo e à totalidade, quer dizer, ao Transcendente. Isso constitui uma constante antropológica. Tal afirmação importa reconhecer que todo ser humano realiza, de

Talvez o que me disse Dalai Lama num

um modo ou de outro, essa sua aber-

encontro sobre religião e paz anos atrás

tura ao Transcendente ou Sobrenatu-

responda a isso. Eu lhe perguntei: qual

ral. Pode ser que hoje não o faça mais

é a melhor religião? Ele me respondeu:

nas religiões institucionalizadas, que

é aquela que o faz melhor. Eu novamen-

se fizeram muito rígidas, dogmáticas e

te perguntei: o que me faz melhor? Ele

frias. Mas o faz em outros ambientes e

disse: aquela religião que o faz mais

circunstâncias como na luta pelos direi-

humano, mais sensível, mais compas-

tos humanos a partir dos mais pobres,

sivo e capaz de amor e perdão. Esta é a

no empenho em cuidar da vida, espe-

melhor religião. Creio que aqui está a

cialmente dos mais vulneráveis, na sal-

resposta, cada um deve encontrar aque-

vaguarda da natureza e da mãe Terra.

le caminho que o torne melhor. Cristo

Aí ele pode fazer uma experiência que

não veio fundar uma nova religião, quis

o leve ao transcendente. Mas o lugar

um novo homem e uma nova mulher, na

mais comum e acessível a todos é o amor

medida em que realizassem mais pro-

verdadeiro, a doação desinteressada ao

fundamente a sua humanidade feita de

outro, a capacidade de perdoar a quem

amor, solidariedade e compaixão.

o tem ofendido.

Para o senhor, o homem moderno tem mais ou menos fé no sobrenatural? Todo ser humano é um projeto infini-

O senhor é formado em Teologia pela Universidade de Munique e conheceu seguidores da Igreja Católica por todo


Fotos: divulgação

“TER FÉ É APOSTAR QUE A LUZ TEM MAIS DIREITO QUE AS TREVAS E QUE O ALGOZ NÃO TRIUNFA SOBRE A VÍTIMA” o mundo. O senhor acredita que diferentes culturas manifestem a fé de diferentes modos?

licos. Mas isso não muda muito em sua

A fé consiste na afirmação de que o

toma como referência a figura de Jesus

mundo tem sentido e é portador de um

e sua prática e procura viver em coe-

sentido último que vai para além de

rência com esta opção de vida. Nesse

nosso tempo histórico. Ter fé é apostar

sentido há poucos católicos no Brasil.

que a luz tem mais direito que as tre-

Daí se entende que entre políticos cató-

vas e que o algoz não triunfa sobre a

licos culturais existam tantos corrup-

vítima. A forma como tal experiência

tos, bem como entre empresários que

é expressa varia de cultura para cultu-

se confessam católicos e exploram terri-

ra. Por isso é errôneo afirmar que existe

velmente seus operários. O catolicismo

uma religião revelada. A religião é sem-

como opção de fé que se expressa por

pre uma construção cultural, mas a par-

uma ética consequente mudaria toda a

tir da experiência fontal de fé como sen-

vida e a prática da pessoa.

vida e em sua ética. Católico em seu sentido teológico e profundo é aquele que

tido da vida e do mundo. Essa subjaz a todas as religiões e funda os diferentes caminhos espirituais, as diversas espiritualidades.

Qual foi o legado da teologia da libertação no catolicismo brasileiro e qual a sua importância no Brasil hoje? A teologia da libertação nos fez des-

Como o senhor define o homem católico brasileiro?

pertar para a pobreza e a miséria de milhões de brasileiros. Entendeu essa

Quase todos os católicos brasileiros

realidade não como um simples dado

são católicos culturais. Nasceram den-

sociológico, mas como um desafio ético:

tro de uma cultura predominantemen-

como superar esta realidade humilhan-

te católica e por isso se confessam cató-

te que faz sofrer a tanta gente? Ela tomou aquilo que estava

RAIO-X Nome: Genésio Darci Boff Idade: 77 anos Origem: Concórdia, Santa Catarina Graduação: Teólogo (Faculdade de Teologia dos Franciscanos do Rio de Janeiro) Livros: lançou cerca de 60, entre eles “Igreja: Carisma e Poder”(2005) e “A Águia e a Galinha”(2002) Prêmios: Prêmio Nacional de Diretos Humanos (1992), entre outros


“ O OPOSTO À INJUSTIÇA, À OPRESSÃO, NÃO É A RIQUEZA, MAS A JUSTIÇA SOCIAL”

presente na cultura cristã do povo, mas vivida como resignação e acomodação e fez entender que Deus não quer essa antirrealidade. Ao contrário, ele na Bíblia se mostrou como aquele que escuta o grito do oprimido e desce de sua transcendência para tomar

46/47

partido pelos pobres, pelos escravizados no Egito, e os animou a buscar a libertação. Foi uma pedagogia para a qual Paulo Freire nos ensinou muito. Seu legado? Ela ajudou a que os pobres rejeitassem a pobreza porque ela representa uma opressão e que, juntos, devem buscar a libertação. O oposto à injustiça, à opressão, não é a riqueza, mas a justiça social. Desta reflexão e prática junto com os oprimidos nasceram pessoas e cristãos engajados nas transformações sociais. Foram decisivos na fundação do PT, que procura realizar políticas sociais voltadas aos pobres.

O que é fé? A fé é uma aposta de que o sentido é mais forte que o absurdo e que a vida não termina com a morte, mas que se transforma através da morte. Ter fé em termos religiosos é saber e sentir, a partir do coração, que não estamos abandonados neste mundo, mas somos acompanha-

Por que as pessoas se apegam mais à religião nos momentos delicados e extremos da vida?

dos por uma Energia poderosa e amoro-

Apegam-se à religião porque ela tem

sa, pessoal e superior que chamamos por

o discurso do sentido último das coi-

muitos nomes: Tao, Olorum, Alah, Shiva,

sas, tem palavras que consolam e ilumi-

Javé ou simplesmente Deus. Viver na fé é

nam e podem nos oferecer um sentido

sentir-se na palma da mão de Deus. Tudo

que vai para além desta vida. Nenhu-

o que acontece, mesmo o que nos pare-

ma ciência ou filosofia consegue rea-

ce trágico, não está fora de Seu amor por

lizar esta missão. Por isso as religi-

cada um de nós.

-ões nunca desaparecem. Elas vêm ao encontro de uma demanda fundamental da vida, tomada em sua radicalidade. Quando todos silenciam, ela tem ainda uma palavra a dizer: a vida vale a pena e vale esperar que ela continue para além deste mundo. Os franceses têm uma bela expressão, que diz: a religião é um “supplément d’ame”, é um refor-


W

ço para a vida. Talvez a energia mais

feita de amor, de compaixão e de bonda-

poderosa que existe, pois não é metá-

de que liga e religa todas as coisas, que

fora, mas realidade, que a fé transporta

se esconde atrás das estrelas e coman-

montanhas, faz com que as pessoas se

da o universo inteiro. No fundo, rejei-

superem e façam coisas surpreenden-

tamos que a vida é um absurdo.

tes. Como Madre Teresa de Calcutá, que

A religião alimenta estas convic-

larga tudo só para recolher moribun-

ções, nem sempre formuladas, mas

dos e fazê-los morrer dignamente numa

que se escondem atrás de nossas práti-

casa cercados por pessoas que os amam.

cas cotidianas. Teologicamente falando, temos religião porque intuímos de

Por que as pessoas são religiosas?

forma confusa, mas certa, que perten-

As pessoas são religiosas porque den-

cemos a Alguém Maior, a Deus, e que a

tro delas, dentro de cada um, há uma

morte é a forma pela qual Ele nos chama

chama, um chamado dizendo que a

e nos diz: venha para minha casa, des-

verdade é melhor que a mentira e que

canse deste longo e penoso caminhar

o amor é mais importante que o ódio.

da vida e fique comigo, feliz, por toda a

Todos intuímos, de alguma forma, que

eternidade. O ser humano não quer ape-

as coisas não estão jogadas aí de qual-

nas viver neste mundo, quer viver para

quer maneira, mas que há uma Energia

sempre, por toda a eternidade.

“AS PESSOAS SÃO RELIGIOSAS PORQUE DENTRO DELAS HÁ UM CHAMADO DIZENDO QUE A VERDADE É MELHOR QUE A MENTIRA E QUE O AMOR É MAIS IMPORTANTE QUE O ÓDIO.”


FOTO FELLIPE SAMPAIO/STF

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A UTOPIA DO ESTADO LAICO NO BRASIL Instaurada há 124 anos no Brasil, a laicidade ainda é controversa na política nacional

FERNANDO TURRI MARINA GUAZZELLI

canto, apreciados por algumas deze-

Na época, Lauriete era deputada pelo

nas de pessoas. O culto louva a gran-

PSC do Espírito Santo e regia uma cele-

deza do Senhor.

bração da igreja evangélica no Brasil.

»»»O ano é 2011. A Assembleia de

A cena, absolutamente trivial, pode-

Essa confusa mistura não é nova no

Deus comemora seu centenário. Em

ria ser aceitável, não fosse um detalhe.

país. “Os primeiros 389 anos da histó-

celebração, a cantora gospel Laurie-

A música ecoou diretamente do púlpito

ria do Brasil foram marcados por uma

te Rodrigues entoa cinco minutos de

da Câmara dos Deputados, em Brasília.

constante confusão entre o Estado e a


“AINDA NÃO CONHECEMOS O QUE É SER UM ESTADO LAICO EM SUA PLENITUDE”

religião”, afirma Johnny Bernardo, pes-

Polêmica

quisador do Núcleo Apologético de Pes-

Apesar dos 124 anos de separação entre

quisas e Ensino Cristão (Napec). No pas-

o Estado e a religião, o tema ainda gera

sado, afirma ele, para que uma pessoa

polêmica. Alguns legisladores trazem

fosse aceita socialmente, ela tinha que

propostas à Câmara que buscam unir

pertencer a uma religião – no caso do

aquilo que a Constituição separa.

Brasil, a católica.

Idealizada pelo deputado federal João

Além da questão social, as ferra-

Campos, do PSDB de Goiás, o Projeto de

mentas burocráticas do Estado tam-

Emenda Constitucional (PEC) 99/11 é um

bém estavam vinculadas à Igreja Cató-

exemplo dessa nebulosa separação. A

lica. “Nascia um indivíduo, era preciso

PEC acrescenta ao artigo 103 da Cons-

que fosse batizado na Igreja. As pesso-

tituição de 1988 a capacidade de Asso-

as se casavam, tinha que ser na Igreja.

ciações Religiosas de âmbito nacional

Elas morriam, os registros estavam na

proporem ações de inconstitucionali-

Igreja. Nesse sentido, a religião cobria

dade e constitucionalidade a leis ou atos

toda a vida de uma pessoa”, completa

normativos.

Andrey Mendonça, professor de filosofia da ESPM-SP.

Na prática, grupos como a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil ou a

Somente com a criação de mecanis-

Convenção Geral das Assembleias de

mos civis, como o cartório, que o Esta-

Deus no Brasil poderão se opor a novas

do começou a se tornar independente da

leis, alegando diretamente ao Supremo

Igreja. Foi com a promulgação da Cons-

Tribunal Federal que elas vão contra a

tituição de 1891, a primeira da história

constituição.

da República no País, que o Estado se tornou laico.

Igor Rapp, criador da página no Facebook Vamos acabar com a PEC 99/1, acre-

O Estado Laico é aquele que garan-

dita que a aprovação da PEC é um retro-

te a ausência de envolvimento religioso

cesso. “Um dos passos claros para que

em assuntos governamentais, tratando

um grupo chegue a governar um país é

todos os cidadãos igualmente, indepen-

dar-lhe poder, e a PEC 99/11 é uma clara

dentemente de sua religião. Em contra-

tentativa de empoderar grupos religio-

partida, o Estado Teocrático ou Confes-

sos proeminentes”, diz.

sional adota uma religião oficial e suas

Já para o deputado Campos, Presiden-

crenças e dogmas são aplicados a toda

te da Frente Evangélica Parlamentar no

a população.

Congresso e autor da PEC, o objetivo é

Para Josias Bittencourt, doutor em

criar ferramentas para que as associa-

Direito pela PUC-SP, a completa sepa-

ções religiosas defendam seus interes-

ração entre religião e Estado é impossí-

ses. O parlamentar cita o exemplo do

vel. “Tanto a teoria da união total entre

artigo 5o da Constituição, que estabele-

religião e Estado como a teoria da sepa-

ce, entre outras questões, a inviolabili-

ração absoluta é uma utopia”, argumen-

dade da consciência e da crença, a pro-

ta. Segundo ele, todos, desde o nasci-

teção aos locais de culto e suas liturgias,

mento até a morte, têm crenças, e elas

o ensino religioso facultativo e a imuni-

interferem na maneira como o homem

dade tributária. “Se amanhã nós tiver-

age na política. “O homem é um ser polí-

mos alguma lei que viole algum desses

tico, como escreveu Aristóteles, mas

princípios [do artigo 5o], quem é que vai

também é um ser com crenças natu-

ao Supremo para que ele diga que essa

rais”, diz.

lei é inconstitucional?”, pergunta o deputado federal.

“Os primeiros 389 anos da história do Brasil foram marcados por uma constante confusão entre o Estado e a religião” Johnny Bernardo, pesquisador do Núcleo Apologético de Pesquisas e Ensino Cristão

“Tanto a teoria da união total entre religião e Estado como a teoria da separação absoluta é uma utopia” Josias Bittencourt, doutor em direito pela PUC-SP


também é chamado, todas ações polí-

poderia ser uma prerrogativa para que

ticas, jurídicas e policiais estão subme-

outras leis fossem embargadas. “A natu-

tidas a uma certa religião.

50

No entanto, Rapp analisa essa questão com cautela. De acordo com ele, essa

reza dogmática e não inquisitiva das

“Quando um Estado passa a exigir que

religiões é incompatível com os avan-

seus cidadãos se comportem de acordo

ços científicos, principalmente no âmbi-

com a religião dominante ou estatal, ele

to da terapia com células tronco”, afirma

fere princípios democráticos, de direi-

Rapp, que também é biólogo formado

tos humanos reconhecidos internacio-

pela Unicamp.

nalmente. Direitos como o de ir e vir, de

Outro exemplo, é a lei de autoria de

livre expressão intelectual, cultural e

Jerônimo Alves, vereador de Floria-

religiosa são severamente prejudicados

nópolis pelo PRB. Em vigor desde 11 de

em países de regime teocrático”, afirma

março desse ano, a lei nº 9.734 torna

Johnny Bernardo.

obrigatória a disponibilização de Bíblias

O pesquisador cita a Índia que, segun-

em escolas públicas e privadas da capi-

do ele, é um exemplo claro de país que

tal. O livro deve estar em lugar de des-

sobrepôs a religião sobre os direitos

taque e pode ser distribuído aos estu-

fundamentais do homem. A divisão

dantes eventualmente.

da sociedade em castas, com segrega-

“A Bíblia é um livro histórico, é um

ção social entre diferentes camadas da

livro de consulta teocrata e qualquer

população, mostra para Johnny, como o

pessoa de outra religião pode ter a pos-

país deixou de lado os direitos humanos

sibilidade de conhecê-la. Esse foi o

em função da tradição religiosa.

nosso objetivo”, afirma Alves, que tam-

+ PLURAL NA INTERNET

bém é bispo da Igreja Universal. A lei

Um novo Estado

não define a disponibilização de livros

Utópico ou não, os teóricos entram em

e objetos sagrados de outras religiões.

consenso de que o Estado Laico ainda

A existência de projetos e leis envol-

não foi devidamente instaurado. “Ainda

vendo política e religião pode ser expli-

não conhecemos o que é ser um Estado

cada pela predominância de deputados

laico em sua plenitude”, afirma Johnny.

cristãos na Câmara. “Some a bancada

Autor da tese de doutorado “Separa-

evangélica [75 deputados] aos 300 depu-

ção entre Religião e Estado no Brasil:

tados que se declaram católicos, e tere-

Utopia Constitucional?”, Bittencourt

mos um congresso predominantemente

acredita no Estado Plural. Esse Esta-

cristão, com exceção de 1,9% de espíri-

do representaria a pluralidade religio-

tas”, Johnny argumenta.

sa que existe no País, reconhecendo a

Para o pesquisador do Napec, essa maioria traz uma situação conflituosa de interesses que só tende a fragilizar o Estado laico.

diversidade e os múltiplos costumes, crenças e valores existentes. Para ele, o Estado Religioso e o Estado Laico não conseguem atender às necessidades multiculturais existen-

Use um leitor de QR Code e assista a exdeputada Lauriete Rodrigues cantando na Câmara dos Deputados em 2011.

Religião como lei

tes no Brasil. “São Estados modelado-

Ainda presente em países no mundo

res de ideologias que pretendem cons-

como Arábia Saudita, Afeganistão e

truir extremidades opostas antagônicas

Vaticano, o Estado Religioso é fruto de

à realidade social”, escreve em sua tese.

muito debate sobre a falta de liberda-

Segundo Bittencourt, o Estado Plu-

de que impõe a sua população. No Esta-

ral seria uma via muito mais realista e

do Confessional, ou Teocrático, como

menos ideológica a ser implementada.


FOTO MARINA BIANCHI

JUNHO 2015 // ANO 4 // NÚMERO 7

COLABORADORES DESTA EDIÇÃO

BEATRIZ MEDAGLINI 20, paulistana. Sonha em ser correspondente internacional.

LUCAS NEGREIROS 19, paulistano. Interessado pelo jornalismo esportivo. Ama fotografia e gosta de escrever crônicas.

BIANCA GOMES 19, paulistana. Geminiana. Franco-nordestina. Mutante e militante. Só quer amar e fazer um monte de gente feliz.

MARIANA CAVALCANTI 19, linense. Apaixonada por séries, pretende um dia conciliar o jornalismo com o direito.

FERNANDO TURRI 19, paulistano. Apaixonado por fotografia. Sonha em viajar pelo mundo escrevendo por onde passa.

MARINA CASSIOLATO 19, tambauense. Participa da ESPM Social. Quer fazer faculdade de moda e marketing quando acabar a de jornalismo, para trabalhar com assessoria.

JULIANA MARQUES 19, paulistana. Apaixonada pelo Japão, sonha visitar países asiáticos. Quer trabalhar com jornalismo internacional e cultural.

MARINA GUAZZELLI 19, paulistana. Gosta de cinema e música, mas ainda não sabe que área seguir no jornalismo.

LAURA STABILE 19, ribeirão pretana. Encantada pelo mundo, sonha conhecer cada canto dele.

ULY CAMPOS 19, paulistana. Quer trabalhar com jornalismo cultural. Viciada em viajar e apaixonada por arte.

Plural #7  

Revista-laboratório dos alunos do curso de Jornalismo da ESPM-SP Edição 7, ano 4, junho de 2015.

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