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ADELICE SOUZA ALEX ANGELINO ANA BEATRIZ CASILO ANDRÉ TIMM ANDREI RIBAS âNGELA CALOU BENITO BARRETO BRONTOPS BARUQ CARLOS ORSI CHICO LOPES CLáUDIA MARCZAK CLAUDINEI VIEIRA DAVID DINAMARCO DELFIN FLÁVIA PAZ FURIO LONZA JULIANA FRANK KLEBER LIMA LARA AMARAL LEANDRO JARDIM LIELSON ZENI LIMA TRINDADE LISA ALVEs LÍVIA MILANEZ LU THOMÉ LUíSA BORGES PONTES MAíRA MATTHES MARCOS TORRES MIGUEL SANCHEZ NETO NATHALIA RECH NATHALIE LOURENÇO REINALDO RAMOS RENATA MIZRAHI RENATA SCHETTINO SéRGIO LEO SéRGIO TAVARES SEVERO BRUDZINSKI TOM CORREIA VICTOR PAES VILTO REIS WILSON NOGUEIRA

ANO 01 / # 06

REVISTA DE CONTOS


REVISTA DE CONTOS


© 2014 PUBLICADO ORIGINALMENTE EM 2014 COM O TÍTULO FLAUBERT REVISTA DE CONTOS Nº 6 /// COPYRIGHT DA SELEÇÃO © 2014 FLAUBERT REVISTA DE CONTOS /// todos os textos desta edição são copyright de seus respectivos autores /// © ADELICE SOUZA // ALEX ANGELINO // ANA BEATRIZ CASILO // ANDRÉ TIMM // ANDREI RIBAS // âNGELA CALOU // BENITO BARRETO // BRONTOPS BARUQ // CARLOS ORSI // CHICO LOPES // CLáUDIA MARCZAK // CLAUDINEI VIEIRA // DAVID DINAMARCO // DELFIN // FLÁVIA PAZ // FURIO LONZA // JULIANA FRANK // KLEBER LIMA // LARA AMARAL // LEANDRO JARDIM // LIELSON ZENI // LIMA TRINDADE // LISA ALVEs // LÍVIA MILANEZ // LU THOMÉ // LUíSA BORGES PONTES // MAíRA MATTHES // MARCOS TORRES // MIGUEL SANCHEZ NETO // NATHALIA RECH // NATHALIE LOURENÇO // REINALDO RAMOS // RENATA MIZRAHI // RENATA SCHETTINO // SéRGIO LEO // SéRGIO TAVARES // SEVERO BRUDZINSKI // TOM CORREIA // VICTOR PAES // VILTO REIS // WILSON NOGUEIRA ///

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Todos os direitos desta edição reservados a


NESTA EDIÇÃO:

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ADELICE SOUZA

ALEX ANGELINO

Era uma personagem que precisava morrer e não sabia como.

Havia aqueles que viviam a cantar, enquanto uns desconheciam sua força.

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ANDRÉ TIMM

ANDREI RIBAS

Era um dia comum, desses que nem notamos passar, pela certeza de que haverá outros iguais.

Conforme avança pelos amplos corredores brancos e minimalistas, Sung-ho destoa do ambiente.

As palavras tiveram aspecto de martelada, martelada no meu crânio, esfacelando os miolos.

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BENITO BARRETO

Joana quis reclamar, falando alto, de propósito, pra ver se eu arredava como cheguei: sem nada.

Endiabrada e tentadora, sim, nunca a esquecera.

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CARLOS ORSI

CHICO LOPES

Assim que Galo ultrapassou a porta da sala, o Coordenador pediu-lhe que a fechasse.

Levaram-no! Posso escutá-los, a festejar nos porões!

Cachorro louco, só matando, e precisa ser homem para fazer isso, compreendem?

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CLáUDIA MARCZAK

CLAUDINEI VIEIRA

Entre frascos âmbares de remédios, injeções curativas e internações necessárias, Dolores fez-se adulta.

Barulho, sujeira e fumaça. Isto é, tudo dentro da mais absoluta normalidade.

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DAVID DINAMARCO

DELFIN

FLÁVIA PAZ

A professora não tolerava respostas que fugiam ao repertório de seu gabarito.

Eu tenho certeza do que digo. Você deveria ter a rédea de sua vida, mas não tem.

Sempre respeitei a privacidade da Bia, juro, nunca fiz isso antes.

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âNGELA CALOU

BRONTOPS BARUQ

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ANA BEATRIZ CASILO

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FURIO LONZA

JULIANA FRANK

Elas têm que continuar o que lhes foi estabelecido pelo script.

O jogo nem começou e, para mim, os porteños já ganharam. No quesito coxas são os reis da bateria.

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KLEBER LIMA

LARA AMARAL

LEANDRO JARDIM

A única maneira de não sucumbir é manobrar por essa maldita cisão.

Alguns o compram por tempo determinado. Mas há esse do tempo infinito?

Trabalho com três hipóteses: o café, os olhos da mulher, ou a combinação dos dois.


NESTA

EDIÇÃO: 63

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LIMA TRINDADE

LISA ALVEs

Obrigado. N., o primeiro slide, por favor.

Tânia gostava de rock, andava de skate, lecionava italiano.

Nos anos setenta muitas crianças nasceram com problemas físicos e eu não fugi da regra.

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LÍVIA MILANEZ

LU THOMÉ

Aos 20, em 1977, já tinha matado seis.

Os jornais estão dobrados na cadeira da cozinha e a louça segue suja na pia.

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LUíSA BORGES PONTES Bela, loura, famosa: o estereótipo temido por qualquer mulher que ama um homem desejado.

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MARCOS TORRES

Na terceira parte o título será justificado.

Fico apavorado com demasiada rotina e excesso de repetições.

NATHALIA RECH

Dizem que homem ama, mas é só da boca pra fora.

Se você continuar a espremê-los assim eles vão é parar de funcionar.

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REINALDO RAMOS

RENATA MIZRAHI

O vento entrando como gilete por cada ranhura, teimoso, molhado. É o lobo querendo entrar.

Se o outro lhe falta, também lhe faltam os espelhos e por exclusão lhe resta o abismo.

A vida rege cada ser humano entre curvas misteriosas que nem todos são capazes de decifrar.

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RENATA SCHETTINO

SéRGIO LEO

Disse-me o nome, não era Teresa, e que nem me lembro, pois não me importava.

Pelo menos ainda se lê nas livrarias dentro dos shoppings.

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MIGUEL SANCHEZ NETO

NATHALIE LOURENÇO

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MAíRA MATTHES

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LIELSON ZENI

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SéRGIO TAVARES

SEVERO BRUDZINSKI

TOM CORREIA

Caso sobreviva, ela agora está numa espécie de limbo até a fase adulta.

A dama sofria. Sofria e era infeliz. Mas não fora sempre assim.

Não há elevadores entre os três pisos. Apenas rampas e escadas. Nenhuma delas é rolante.

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VICTOR PAES

VILTO REIS

WILSON NOGUEIRA

Não se lembrava da primeira vez em que o havia pensado.

O Alfa com vinte anos se sente inseguro, ainda na faculdade. Será mesmo? Fará isso?

Famintas essas leitoras de Flaubert, às vezes flertando com Dostoievsky.


CONTATO REVISTAFLAUBERT@GMAIL.COM /// ISSUU.COM/REVISTAFLAUBERT /// FACEBOOK.COM/REVISTAFLAUBERT

EXPEDIENTE EDITOR MARIEL REIS [MARIELREIS@IG.COM.BR] /// CONSELHO EDITORIAL ANDRÉ TARTARINI [A.TARTARINI@GMAIL.COM] // JD LUCAS [JDLUCAS.CONTATO@GMAIL.COM] /// EDITORES REGIONAIS RIO GRANDE DO SUL ALESSANDRO GARCIA [SEVEROGARCIA@GMAIL.COM] // CEARÁ ANDERSON FONSECA [AFCONSULTORIAEDITORIAL@OUTLOOK.COM] // RIO DE JANEIRO ANDRÉ TARTARINI, JD LUCAS // PARANÁ DANIEL OSIECKI [TROOPER_OSIECKI@YAHOO.COM.BR] // BRASÍLIA MAURÍCIO DE ALMEIDA [MAURICIODEALMEIDA@GMAIL.COM] // SÃO PAULO DELFIN [DELFIN.K@GMAIL.COM] /// PROJETO GRÁFICO ALESSANDRO GARCIA DIAGRAMAÇÃO STUDIO DELREY

os personagens e as situações dos contos aqui publicados são reais apenas no universo da ficção; não se referem a pessoas e fatos concretos, e sobre eles não emitem opiniões.

ANO 01 / # 06 BRASIL 2014


EDITORIAL A

revista flaubert retoma suas atividades após agradáveis pausas. Diga-se de passagem: não tiramos férias. Fizemos outras duas revistas: nerval e sainte-beuve. Ambas atingiram relativo sucesso junto ao público. Agora, resta-nos voltar à antiga estrada de tijolos amarelos para conhecermos o mágico de Oz. E, em nosso passeio, recolhemos muita gente para a caminhada até o castelo. Sem sacanagem, gente, a revista voltou com força total. Novos nomes, contos surpreendentes. E a clássica diagramação, que a embeleza. Os fatos recentes da política entristecem a flaubert porque diminuem o espaço de discussão democrática. Lamentamos a morte de Eduardo Campos no acidente que o vitimou e emprestamos solidariedade à família. Lamentamos a guerra entre Israel e Palestina, porque lamentamos todas as guerras em que homens, mulheres e crianças são vitimados. Lamentamos a situação política do Rio de Janeiro e a violência dentro das comunidades, seja a violência estatal ou de grupos paramilitares. Interromperei a minha jeremiada por temê-la infinita. A revista flaubert se opõe à violência, tenha ela a natureza que for. Muitos irão discordar do tom aparentemente político do editorial, mas não poderia passar ao largo de tantas notícias desalentadoras. A nossa sorte é a ficção. Nela resistimos. E conosco, os escritores. As narrativas são a nossa barricada contra a enxurrada do real. Um real que não é convidativo. Portanto, leitor, aqui estão as nossas melhores notícias sobre o mundo. Não as subestimem. Em sua maioria são mais alegres, porque não trazem em si a nota maléfica do real, mas a de um sonho mais promissor. Obrigado a todos. Fiquem à vontade. MARIEL REIS // EDITOR


a atriz que não sabia morrer adelice souza

E

ra uma jovem atriz solitária que não sabia morrer. Ou melhor, era uma personagem que precisava morrer e não sabia como. Ou ainda, era uma jovem atriz que morria a cada dia, mas que no palco, não sabia como se morria. Esta estória me foi contada por uma jovem senhora muito bonita, cujo rosto parecia o de uma dançarina de cabaré francês do início do século passado, numa madrugada de outono à beira de águas no hotel de uma cidade do interior. Contou-me, na ocasião, que nunca se esquecera de uma determinada peça de teatro queera representadapor duas mulheres. Uma delas interpretava o papel de um cão, a outra, o de uma mulher solitária que vivia com o seu cão. As duas atrizes perambulavam cidades contando a estória daquelas duas mulheres. Ao acordarem pela manhã, cada uma em um quarto do hotel – as mulheres e não as atrizes, se é que podemos dissociá-las – sempre repousavam os seus olhares numa parede branca, sem passado impresso. Como um texto de teatro visto pela primeira vez numa leitura dramática, ainda sem esboços de cores, de pensamentos e medos das personagens. A parede branca só instaurava uma aceitação do nada. E acordar num quarto de hotel era sempre uma surpresa, mesmo que as paredes sempre fossem brancas. Nas noites intranqüilas, àquelas que fazem as paredes brancas virarem dragões apenas com uma chama de vela, as atrizes levantavam desesperadas em busca do interruptor de luz. E neste levantar, sempre uma nova aventura: não sabiam onde se dispunham os móveis e, obviamente, acidentes aconteciam. Mas nada de tamanha gravidade. A gravidade da busca pelo que não se conhece. E tudo era um cansaço: as longas estradas onde os olhos só identificavam o verde, um cansaço de verde; as longas conversas com as pessoas da cidade responsáveis pela divulgação da peça, um cansaço do óbvio; um cansaço para fazer a memória reter cada espaço e cada imagem do novo lugar, o número do quarto, em que área do hotel ficava o lugar onde fariam as refeições matutinas, um cansaço de precisar aprender e apreender coisas que não serviriam para nada quando saíssem dali e fossem para outro canto; um cansaço de comer até, de precisar se alimentar na presença de pessoas que não conheciam; um cansaço de dar bom-dia aos desconhecidos; um cansaço de apresentar a peça para desconhecidos; um cansaço de só se deparar com desconhecidos e um cansaço de também serem elas

desconhecidas. O cansaço, que estava em toda parte, já tinha alcançado também a idade das duas. A idade que já faltava, cansou das duas. O amor também já faltava, cansou-se de esperar acontecer em vão. E elas pressentiam que, para as mulheres solteiras, o amor se cansava e também ia faltando com a idade. A que interpretava o cão era mais bonita, e também precisava que fosse assim: o seu papel lhe exigia nudez e a vaidade ainda não havia se cansado dela. E das duas, por causa disso, a que interpretava o cão, era a que não dormia sempre só. Aqueles pobres homens do interior, não sabiam que poderiam ter culpa. O que sempre sonharam foi um dia dormir com uma atriz. Seja esta atriz qual fosse. Mas a atriz que interpretava o cão tinha caprichos: era preciso mais do que flores murchas. Era preciso, mesmo que isso não fosse levado à risca, a promessa de que um dia iria vê-la na capital. Vê-la interpretar outros papéis, onde seria mais do que um simples cão. Não que não gostasse de interpretar o cão. Adorava. Mas as pessoas daqueles lugares não entenderiam isso. Não sabiam qualificar uma peça teatral e aquela era quase inclassificável até para quem soubesse de classificações. A peça não era uma comédia. Não era uma tragédia também. Era quase um drama, era quase nada. Quase nada porque as pessoas nem riam nem sofriam. Nem se espelhavam. A peça nem servia como espelho para aquelas pobres pessoas que nunca se olhavam verdadeiramente no espelho. Era um drama muito específico o daquelas duas mulheres. Não merecia risos. E o sofrimento que a peça continha era inócuo, por que as pessoas que a assistiam já tinham feito um pacto inconsciente consigo mesmas que não sofreriam jamais com uma peça de teatro. No cinema até que podia ser. Mas no teatro, não. No teatro, jamais. O público conversava na parte mais triste da peça.Todos queriam fugir do que viam e ouviam. Queriam fugir daquela fatalidade. Queriam deixar que a desgraça fosse somente algo pertencente às duas mulheres. E era mais ou menos isso que sempre acontecia. E elas faziam a peça para elas mesmas. Porém espectadores nunca faltaram: naquelas cidades do interior não havia nada de mais interessante para fazer o tempo passar. Assistir a uma peça de teatro ainda era, pelo menos, uma coisa incomum. Todos os dias, no quarto de hotel, no final do espetáculo, as duas atrizes, separadamente, lembravam que faziam a peça para si mesmas. E mesmo sabendo disso, não se importavam. 10


E num destes dias que a vontade se confunde com a necessidade, a atriz que interpretava a mulher solitária acordou não querendo mais interpretar a mulher solitária que na verdade era: enfiou-lhe na cabeça que agora interpretaria o cão. Não sei se por inveja da nudez da outra quando fazia o cão; não sei se por não querer interpretar mais o papel da mulher solitária, que era o papel de si mesma; não sei se por querer também poder dormir acompanhada uma noite ou outra; ou se porque não queria mais morrer em cena todo dia no ato final. A verdade é que isso se deu. A moça que interpretava o cão resumiu a questão dizendo: não podemos. Instalou-se o caos: havia uma temporada de algumas cidades ainda a ser cumprida. As duas já quase não se falavam. Todos estes anos viajando com a peça – oito ao todo – já tinhamdespertado nas duas toda espécie de relacionamento possível: já foram a melhor amiga uma da outra; já discutiram detalhadamente cada frase do texto que interpretavam; já haviam demitido, contrassensualmente, o diretor da peça, porque achavam que a peça não era mais dele – e também, isso digo eu, não dizem elas, porque as duas tinham tido um romance tórrido com ele, que era um homem de estado civil questionável; já tinham optado por dormirem em quartos separados por perceberem que assim as coisas andariam melhor, enfim... Várias outras coisas já tinham acontecido no decorrer destes oito anos, mas nada sequer parecido com a atônita idéia da atriz que interpretava a mulher solitária querer interpretar o cão. Ela nem sabia se interpretaria bem o papel do cão, mas queria colocar a outra à prova. Será que a outra interpretaria bem o papel que até então fora feito por ela? A atriz que iria interpretar o papel da mulher solitária inicialmente pensou que pudesse ser simples. Ela já contracenava – enquanto cão – há tanto tempo com esta mulher solitária, que já sabia todas as falas decoradas, a marcação de cena, as intenções. Mas aquele cão já era ela própria e estar no papel da mulher solitária que olha para si e se vê um cão era algo que ela realmente não estava preparada. Entretanto, isso não era o pior: o mais trágico, e isso era trágico em todos os sentidos, era morrer. Nunca morrera em cena. E sempre soubera, na sua condição de cão, que a atriz que fazia a mulher solitária, nestes oito anos que a peça já se fora, nunca morrera verdadeiramente como se deve morrer. E como é que se deve morrer? Isso ela também não sabia, mas agora precisava descobrir e era isso o que a atormentava. Ela deveria ter treinado para morrer e, no entanto, se esqueceu. Viveu apenas aprendendo a viver, sem perceber que a morte, um dia, iria ser uma ocupação, ou antes, uma preocupação da sua vida. Começaram os ensaios. A atriz que agora iria fazer o cão estava numa animação só. Chegou para o ensaio pontualmente com uma daquelas roupas que se usam nestas ocasiões e até havia telefonado ao diretor que logo comparecera para orientar as duas fornecendo novas indicações de cena. Quando a outra chegou, todos os possíveis e inimagináveis exercícios vocais e corporais para a adaptação de uma personagem canina já haviam sido feitos, e ela aguardava ansiosamente pela outra para que se desse início aos ensaios. Era uma nova perspectiva que se abria diante dela. De quatro, ela fazia caras e bocas

que mais pareciam simulações de aventuras sexuais do que a performance de um cão débil. Para as duas, o texto era o que menos importava. A que iria interpretar o cão a partir de agora não tinha nenhum texto porque cães não falam. E a outra, sempre tivera facilidades com textos, possuía boa memória. O difícil seria morrer. Tudo – absolutamente tudo – pode ser feito como exercício para poder se interpretar um papel. Mas não se pode morrer para saber como se morre num teatro. Não sabia morrer, eis que surge a constatação. Não sabia morrer, não queria morrer. E mesmo que quisesse morrer, não saberia. Suas porções de morte já haviam sido utilizadas nestes oito anos que interpretava o cão. Não porque interpretasse o cão, mas pela árdua experiência destas viagens, por esse árduo trabalho de fazer com que as pessoas acreditassem que ela era o que não era, pela tristeza das personagens perdidas de serem mostradas porque sua ocupação estava voltada para o cão. Desistira, desta forma, de ser uma estudante de medicina que se suicidava numa piscina num curta-metragem de um novo diretor paulista que fazia sucesso vindo da publicidade. O jovem a havia chamado para interpretar o papel desta estudante exatamente durante o período de uma de suas temporadas com a peça do cão. Desistira da personagem antes mesmo de interpretála. Assim também aconteceu com outras personagens: uma mãe de gêmeos univitelinos e uma prostituta cubana num filme de um venezuelano. Preferira o cão à puta e à mãe. Vai ver já não mais sabia até onde era uma mulher ou um cão. Quando ladrava, os uivos eram de quem? Quando mexia o quadril, qual parte do cérebro acionava? Ou nenhuma delas era acionada, por que o trabalho desta interpretação já era tão mecânico que já dispensava um cérebro? O venezuelano, que era um excelente documentarista social retratando em película os excluídosnaAméricaCentral,ficoutão indignado com a recusa do convite e o cancelamento do contrato para interpretar a tal prostituta cubana, que a difamou publicamente num festival de cinema. Ela acabou sabendo do acontecido e sem hesitar, assim que o encontrou, disse que ele era um filho da puta. E o venezuelano, profundo conhecedor de putas, indignou-se com o insulto tão usual da nossa cultura, que respondia descontrolado e aos berros “Mi madre no es una puta, mi madre no es una puta”. E por muitas outras situações diversas elajá havia passado nestes anos de profissão: já dormira na rua para interpretar uma mendiga; seduzira seu irmão para uma cena incestuosa; e até cortou – embora levemente – os próprios pulsos para interpretar uma cena suicida num vídeo amador. Mas morrer... Morrer, não. Morrer era o limite. Olhou sua companheira de palco de tantos anos naquela atitude fútil e não conseguia se convencer. Não era justo o que a colega fizera. E ela não devia ter aceitado esta situação imposta pela vaidade da outra. O cão era dela, sempre fora. Agora não seria diferente. Nunca se importara de o papel do cão ser um papel sem texto. Buscava sentido nos silêncios. Sabia da importância do cão para a mulher solitária. Sabia que sem o cão, a mulher solitária definharia. Ela construiu a fidelidade de um cão ao seu dono nestes oito anos. O cão fiel, mesmo sem nenhum orgulho de sê-lo, já era humanizado em suas entranhas, em sua memória. Não existiu um único dia em cena, que o cão não sofresse pela 11


morte da mulher solitária, mesmo a colega interpretando sem a dignidade que a personagem necessitava. Sabia disto tudo, mas não sabia morrer. Não poderia morrer e deixar o cão vivo. O cão já era ela própria. E já que ela própria era o cão, não ira morrer enquanto personagem de mulher solitária e fazer o cão sofrer. Sabia disso, era uma certeza. E sabendo disso, se retirou do local do ensaio. Encontraram-na, mais tarde, morta, rodeada de velhas fotografias de antigas personagens e outras tantas do cão. Naquele dia, a atriz que sobrevivera subiu no auditório de uma pequena cidade com lágrimas verdadeiras enquanto as pessoas entravam no teatro e viam uma mulher nua, de quatro, tentando reproduzir um som que parecia ser o triste lamento de um cão. E os singelos espectadores sentaram e ficaram mudos durante cinqüenta e nove minutos olhando aquela mulher. Nada entenderam. Nada disseram. E foram dormir tristes. Era aquilo que era o teatro? Eles se perguntaram. Nenhum deles conseguiu dormir. Estavam muito tristes, muito tristes. Queriam até morrer.

ADELICE SOUZA nasceu em Castro Alves (BA) em 1973. É escritora, dramaturga, diretora teatral e yoguini. Publicou os livros As Camas e os Cães (contos, 2001), Caramujos Zumbis (contos, 2003), Fogo Possesso (teatro, 2005), Para uma certa Nina (contos, 2009), O homem que sabia a hora de morrer (romance finalista do Prêmio Jabuti, 2012) e Kali, senhora da dança (teatro, 2013), além de participar de várias antologias nacionais e internacionais.

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zoo

Alex angelino

P

ermaneci entocado ao observar o movimento matutino, em vida, meus pais faziam o mesmo, quando tínhamos visitantes. O ato pacífico foi aderido por todos os animais, tendo como propósito difundir a causa da liberdade. Meus pais foram trazidos sem o consentimento de meus avós, como os demais, é dilacerante a dor provocada pelo distanciamento. Tínhamos que nos sujeitar, nos exibir, independente de nossa vontade para satisfazer as necessidades humanas, do contrário, sofreríamos represarias. Perdi o juízo com o tratador, agredia-me com chicote, contive-me até atacá-lo e comê-lo, era o mesmo que condicionava os elefantes no circo numa chapa aquecida. Se, estávamos a sós, deprimidos, fora do habitar natural, trazia-nos um exemplar da mesma espécie com o propósito de procriarmos. Houve casos alarmantes de intoxicação por conta de medicamentos vencidos, o que elevou o quadro de óbitos. A desnutrição era um fator preocupante que vinha crescendo, a leoa Zéfa, definhou diante de meus olhos. Os papagaios sofriam com as baixas temperaturas e muitos contraíram pneumonia, alguns não resistiram ao inverno rigoroso vindo a fazer parte das estatísticas. Falta de espaço e estrutura tornou-se um agravante ignorado pela administração gerando superlotação. Macacos-prego morreram de depressão devido ao estresse provocado pela poluição sonora. Reivindicamos nossa transferência para um santuário ecológico no qual poderíamos viver em liberdade, sobrevivemos naquele campo de concentração mantido por visitantes entretidos conosco, jogando sobras de alimentos e cigarros nos recintos. A natureza nos projetou para sermos livres, sou dotado com instinto de caça, dominante e carnívoro, me impediam de caçar. Os administradores com sua ganância, nos comercializou, fez dos animais selvagens, bichos sedentários. As aves foram projetadas com asas, embora sejam dotadas com habilidades de voo permaneceram confinadas. A administração minou as habilidades de caça dos ursos e lhes deu distrações, isolou os jacarés e as tartarugas num lago verde artificial, interrompendo o ciclo natural de desovas. Aprisionou as cobras, aranhas e lagartos em cativeiros de vidro, pôs os elefantes e as girafas a viver em cercados. Enjaulado na carroceria de um caminhão vi a cidade, os homens. As jaulas postas uma ao lado das outras, os humanos se entretendo com objetos decorativos a sombra de jardins floridos. Observávamos o espetáculo produzido pelos

frequentadores; uns viviam se rastejando, outros preparados para o bote. Um casal acima dos demais observava o movimento do alto, fêmeas competiam entre si, o reconhecimento como a mais exuberante. Machos se proclamavam reis, animais adultos comportavam-se como filhotes, outros não tinham pressa pra nada. Havia aqueles que viviam a cantar, enquanto uns desconheciam sua força. Nasci confinado naquele cativeiro testemunha da cena que se repetia; dia ensolarado, leve brisa e o vento, agitando as folhas. Murmúrios vindos das filas que se estendiam nos guichês, crianças eufóricas contagiavam seus acompanhantes. Vendedores de picolé anunciavam o sabor do verão, um aglomerado em torno da jaula disparava flashs insistentes. Pais reproduziam rugidos, assobios, ao equilibrarem crianças acomodadas em seus ombros, chacoalhando-as, como se fossem de minha espécie. Completamente escravo da administração; movimentava-me a contra gosto, com o intuito de facilitar o registro de imagens, do contrário, amargaria a redução alimentar e na pior das hipóteses uma desnutrição imposta, de fato, ocorrido com a leoa. Foi num desses dias festivos que a sueca vidente de animais Nancy, de vestido leve e pele macia fizera seu primeiro contato. Disse que o campo de concentração onde vive é amplo e semelhante ao zoo, que lá os moradores vivem confinados entre grades e por trás das paredes, muitos utilizam suas imagens como instrumento de trabalho. A vidente transmitiu as outras espécies ás instruções para o boicote; cada animal deveria dirigir-se as suas tocas ao constatar a aproximação humana e lá permanecerem até a segunda ordem. Entre as frestas observávamos as expressões desanimadas dos visitantes, devido aos demasiados esforços, em vão, foram aos poucos se retirando. Ciente da problemática, a administração mobilizou uma equipe de veterinários para averiguar o caso relativamente brando e diagnosticaram normal o quadro de saúde dos moradores. A assessora - vidente agendou uma audiência com os administradores para expor seu Dom de conversar com os animais e, além disso, levar á público nossa reivindicação, mas nem sequer foi ouvida. Nancy dirigiu-se a cada recinto transmitindo a nova ordem radical; greve de fome. A princípio houve descontentamento por parte de algumas aves, mas logo, foram convencidas pela maioria, sob o argumento de que seria por uma causa nobre. Os alimentos permaneceram intocados em seus recipientes para o espanto 13


dos nutricionistas e da cúpula administrativa. Nancy imediatamente foi convocada a reunir-se com os membros da diretoria, explicou em detalhes sua percepção extra sensorial para um grupo até então cético, intrigados com os recentes fatos, repercutindo mundo a fora. Expôs claramente nossa reivindicação, e se caso fosse aceita nós encerraríamos a greve, do contrário, levaríamos até as últimas consequências. Os dias foram transcorrendo sem indícios do cumprimento proposto, a alimentação era servida como de costume e nós nos mantemos firmes no propósito. Murmúrios outrora, vindo das filas nos guichês, tornaram-se escassos, o silêncio tomara conta do zoo. A fiscalização se fez presente e constatou irregularidades além de maus tratos -desnutrição generalizadaocasionando multa e o fechamento definitivo do zoológico. Eufóricos, os macacos foram os primeiros a se despedirem, acenavam e abraçavam-se enquanto conduzidos ao meio de transporte. As aves regozijavam produzindo cânticos que exaltava a liberdade, unidas reverenciaram-me como o rei da selva. Todos sem exceção expressaram sua gratidão naquele verão tão especial. A equipe de veterinários instalaram seus instrumentos ocupando o corredor, serviram-me carne vermelha ao invés do frango intragável, incluso no cardápio do zoo. Uns dos veterinários enroscou a agulha na seringa e a introduziu no frasco de medicamento, seu polegar recuava o êmbolo enquanto o indicador e o médio mantinha o equipamento firme. A seringa foi introduzida na zarabatana e levada á boca do veterinário que agachado apoiava o tubo de ferro com suas mãos. Senti o espetar e adormeci lentamente, tocaram-me como precaução antes de adentrar no precário recinto. Recobrei os sentidos, enjaulado na carroceria de um dos caminhões, os quais transportavam a onça-pintada, tigre, leopardo e os demais animais. A girafa e o elefante observaram a paisagem de um ângulo privilegiado, embora a maioria demonstrasse descontentamento pela inquestionável vantagem, se contentaram em se comunicar de acordo com suas respectivas linguagens. A viagem durou três dias e três noites e durante o percurso cantávamos ode á liberdade numa linguagem única. Cantávamos em tom reduzido para não acordar quem estava dormindo tendo a lua e milhões de estrelas como plateia. Transmiti a ordem através de gestos que foram retransmitidas aos outros animais pela girafa, como medida de preservar a saúde deveríamos nos manter em repouso. Uma estrada de terra seca denunciou que estávamos adentrando numa propriedade particular, a faixa desmatada dividia uma densa área florestal. O comboio seguia lentamente porteira á dentro, a placa de madeira talhada informava dizeres numa linguagem incompreensível, mais tarde soubemos que se tratava do Santuário Ecológico Rancho dos Animais renomeado Santuário Ecológico Rancho Zéfa em homenagem a leoa. A jaguatirica manteve seu olhar curioso sobre nós, aos poucos o coala, o gato do deserto e o urso panda foram se juntando a jaguatirica, seguidos de outros animais do santuário, nos dando boas vindas. As aves tingiram de cores vivas o céu límpido ensolarado, pós-instantes abrirem á gaiola. As grades foram abertas e nós sentimos o calor do solo da liberdade sob as patas, brotaram lágrimas e mais lágrimas. O vento vergou as palmeiras e o extenso canavial, as araras venceram a passagem

do vento dando um colorido ás copas das árvores verdes. Pequenas ondas brotaram nos lagos alterando a rota dos cardumes exóticos, que dão vida as nascentes nos pés dos morros. O silêncio permitia ouvirmos o mastigar das capivaras e o gotejar das nascentes, o gramado cobria ampla área desprovida de cercas e grades. Ali, reuniam-se todos os animais dos extintos zoológicos, os de mesma espécie não tardaram em interagir com os novos moradores, os laços de amizade, foram consolidados, de acordo com suas respectivas linguagens. Reunidos em circulo cada membro convocado pelo líder se apresentava aos demais, por conta da timidez os novatos se expressaram cabisbaixos. Por toda extensão via-se animais discutindo assuntos de seus interesses, banho de sol e contar histórias eram os temas prediletos. Segui rumo á expedição tendo como propósito explorar a floresta, contei com o apoio do tigre, da onça pintada e do leopardo. Adentramos a mata densa, temerosos e desacostumados por conta do confinamento. O Silêncio absoluto, vez ou outra, era quebrado ao pisarmos em folhas secas. Seguimos trilha á dentro de terra molhada, de cheiro molhado, de clima úmido, o canto dos pássaros e o ruído do choque d’água contra as pedras se misturavam, fizera-se presente durante toda a caminhada. Atravessamos bosques escuros e rios serenos, subimos morros íngremes repletos de formigueiros. Veteranos da mesma espécie veio nos fazer companhia, a presença dos insetos denunciou a despedida do dia, de fato, a vista, seria privilegiada mesmo á noite. A chegada da noite aguçava ainda mais os sentidos, podíamos ouvir os animais a uma distância considerável. Troncos de árvores e plantas decompostas impediam a passagem, contornamos sem maiores dificuldades, éramos sete felinos com um único propósito. Mais á frente, notamos á luz do luar passar por uma fenda entre as árvores e iluminar a trilha como dia ensolarado, o céu límpido estrelado prometia uma experiência fabulosa. A cada passo o brilho das estrelas além do luar se tornara, cada vez mais intensos, conforme íamos se aproximando sentíamos a adrenalina nos entorpecendo. As pupilas se contraíram diante do clarão no momento em que atingimos o cume, a visão privilegiada nos permitiu mapear toda área e ali, no mais absoluto silêncio, ficamos a contemplar a infinita imensidão.

ALEX ANGELINO

atua como membro do departamento de comunicação da BSGI (DecomRio) e colaborador do jornal Brasil Seikyo.

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finados

ana beatriz casilo

O

dia amanheceu cinza, silencioso e destemperado quando Carlos abriu os olhos e decidiu levantarse da cama. Olhou para o relógio que palpitava inexorável em cima do criado-mudo: 08:06. Respirou fundo e fez um grande esforço para que seu pé esquerdo fosse ao chão à procura das pantufas. Pela primeira vez na vida, o forte aroma de café vindo da cozinha o deixou enjoado. As cortinas cor de pele dançavam no vento morno e úmido do final da primavera. Era um dia comum, desses que nem notamos passar, pela certeza de que haverá outros iguais. Não seria assim para Carlos. Do lado de fora, o ar vibrava enérgico e mais agradável e sua respiração assentava-se num ritmo estável e regular. Nesses momentos dava-se ao luxo de fumar um cigarro sem se importar com a catarreira que seus pulmões cansados insistiam em excretar. Mas era bom sair de casa. Ver pessoas andando pelas ruas e a vida acontecendo naturalmente diminuía a importância de sua condição e o transportava a uma realidade mais funcional e menos emotiva. Caminhou um quilômetro e meio quando suas pernas começaram a falhar e ele pensou que fosse cair. Segurouse nas grades de um edifício e notou que já tinha chegado. Ainda precisava subir três lances de escada e imaginou que se morresse ali, tudo que havia planejado estaria perdido. Lembrou-se do Cortázar: os primeiros degraus são sempre os mais difíceis, até se adquirir a coordenação necessária. Degrau por degrau, foi subindo, não sem suar, tossir e resmungar. Chegando ao último lance, avistou Cristina encostada no vão de entrada do apartamento, como se o estivesse esperando, e nesse vislumbre, todo o mal estar se dissipou. Aproximou-se. Ela estava maravilhosa, numa camisola de seda branca que desenhava suave a forma de seu corpo longilíneo, os cabelos presos num coque delicado, e o frescor de sua colônia de rosas espalhou-se imediatamente pelo corredor, impregnando o ar de nostalgia e boas recordações. Cristina era filha única de Carlos e era puta. Ele deixara de olhar por ela quando descobriu o verdadeiro motivo que a fez sair de casa. Desde a notícia de morte iminente, pensava em ter com ela uma última conversa, e, quem sabe, um abraço afetuoso de despedida. A morte tem dessas coisas. Tudo que antes era inaceitável agora clama por uma urgente reavaliação menos sistemática.

Lembrou-se então de quando Cristina ainda era uma menina; andavam de mãos dadas tomando sorvete de tapioca, quando passaram por uma viela pouco movimentada. A menina apontou para uma espécie de vitrine onde duas mulheres seminuas exibiam-se sensualmente aos transeuntes que davam uma espiadela, intencionalmente ou não. “Olha papai!” Cristina postou-se na frente da vitrine e começou a reproduzir, com trejeitos infantis, os movimentos das meretrizes, que davam risadinhas do outro lado do vidro. Carlos pasmou. Pegou a menina pelo braço e voltaram para casa em silêncio. Tratou de esquecer aquilo. Era mais fácil do que lidar com o constrangimento. Doze anos mais tarde, Cristina tornou-se uma mulher sem pai, nem família – assim o velho pensava – porque se tivesse, não estaria naquela situação. “Será que foi esse o momento de falha?” Cristina nunca tivera uma única oportunidade de explicar o porquê de suas escolhas, incompreensíveis na cabeça do pai. Nunca mais se falaram. Nem quando ela mais precisou. Nem quando ele mais precisou. Agora, o velho estava ali, naquela escada do edifício onde sua filha morava e se vendia, e ela, a quem ele renegou, o fitava com uma expressão de desdém e insignificância. “Preciso falar com você.” A voz trêmula quase não se ouvia. Cristina deu um passo para trás e com um gesto de cabeça convidou-o a entrar. Muito agoniado e exausto, ele entrou apressado, sem cerimônia, deixando o corpo esparramar-se numa cadeira solitária que se encontrava bem no meio do aposento minúsculo. Cristina bateu a porta, acendeu um cigarro e esperou. Os dois se olharam sem nada dizer. Assistindo passo a passo às muitas mudanças nas expressões de seu pai, enxergou ali puro sofrimento, quase tangível. Uma lágrima indiscreta teimou em brotar no canto do olho, mas ela virouse de lado, fingindo ajeitar os cabelos e disfarçar o que agora não tinha disfarce. Os próximos quarenta e cinco minutos transcorreramse dessa forma. A conexão foi estabelecida e as palavras tornaram-se desnecessárias. Carlos havia esperado por aquele momento como o pescador apartado espera o alvorecer para lançar-se ao mar. E 15


agora ele estava ali, com o mar aberto à frente convidando-o a entrar. Havia agora nesse mar uma centelha de vida, alegria; mais azul que o céu azul, o mar naquele instante era todo júbilo. Nos anos anteriores, suas águas estiveram violentas e ameaçadoras, com fortes correntes que podiam arrastar uma pessoa para longe; agora, porém, estavam quase quietas, mal se notava um movimento... Lógico, era sua filha, carne da sua carne e provavelmente ela também não sentia essa vã necessidade de tentar explicar coisa alguma. Não tinha explicação, só sentimentos a deixar fluir em águas calmas. O encanto foi desperto por uma leve batida na porta. Carlos compreendeu que era hora de partir e assim o fez. Olhou para ela com ternura pela última vez e lançou-se escada abaixo sem dirigir atenção ao homem sujo e mal encarado que ali cruzara seu caminho. Quando colocou os pés na calçada sua cabeça rodava, mas sentiu que o peso de todos aqueles anos havia lhe dado uma trégua. Olhou para o céu e contemplou o sol se pondo atrás de densas nuvens escuras. Céu incolor, mas os aromas da terra ensopada pela chuva que havia caído invadiam o ar. Caminhou até uma praça, sentou-se num banquinho e ali permaneceu o resto do dia que ainda lhe restava. Sereno. Observou um menino que tocava flauta; era um objeto barato e feito de pau. Ele executava uma melodia popular de filme, mas a pureza das notas enterneceu o coração de Carlos. Debaixo das árvores, mulheres de vestidos coloridos e esvoaçantes vendiam peixe, verduras e coisas fritas. Crianças pequenas brincavam alegres sob os olhares cuidadosos das mães que conversavam animadas e trocavam experiências. Observou as centenas de pessoas que retornavam aos lares depois de um longo dia de escritório. Um pássaro grande e avermelhado descrevia grandes círculos no horizonte, flutuando na brisa, sem um bater de asas. Carlos contemplava a vida, plena e em seu estado mais puro. Entrou em casa já com noite bem escura. Banhou-se, vestiu seu pijama de cetim e, com uma caneca de chá quente, deitou-se na cama em posição de leitura. Faltava pouco, mas agora tudo estava em seu lugar. Adormeceu. Na manhã seguinte, Carlos não abriu os olhos. Alguém entra no quarto com movimentos singelos e acomoda-se ao lado da cama. Cristina sorri emocionada e diz num sussurro: “Sexta-feira, 2 de novembro. Hoje é dia de Carlos”.

ana beatriz casilo

é carioca, tem 32 anos e está no terceiro ano do curso de Letras – Língua Portuguesa e Literatura Brasileira. Referências Literárias: Marques Rebelo, Luis Fernando Veríssimo e o escritor espanhol Carlos Ruiz Safón. Esta é sua primeira publicação.

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sung-ho

andré timm

S

ung-ho está sentado em frente a sua loja. Acompanha placidamente o movimento das pessoas com olhar pedinte e toda vez que estabelece contato visual abre um sorriso escancarado e sacode a cabeça avidamente em sinais de aprovação e convite. Proprietário de um lojinha de bugigangas, apinhada em meio a muitas outras em uma galeria comercial do centro da cidade, Sung-ho tem um bigode ralo, fala um português sofrível e cultiva uma paixão secreta por filmes de ação. Chegou mesmo a inventar para a família um vício que nunca teve, dizendo frequentar reuniões dos alcoólicos anônimos enquanto, na verdade, gasta o pouco que sobra da renda da loja indo ao cinema toda semana. Mas hoje, Sung-ho está prestes a levar essa experiência a outro patamar. Irá, pela primeira vez, a um cinema VIP que custa cinco vezes mais do que as salas populares onde costuma ir. Ar-condicionado na máxima potência, enormes poltronas de couro para casais, sistema de som e qualidade de imagem excepcionais e serviço com garçom. Sung-ho retira de um frigobar barulhento uma embalagem que enrola em uma sacola plástica transparente. Desliga o ventilador de teto, as luzes, fecha a loja e despede-se dos vizinhos de galeria, que respondem de forma sarcástica. O cinema fica em um shopping classe alta do outro lado da cidade. Por isso, Sungho espera três trens até conseguir entrar, faz uma baldeação e caminha por mais vinte minutos até chegar ao seu destino. As imensas portas se abrem para Sung-ho, que sente o baque da diferença de temperatura e entra rápido, sem estabelecer contato visual com o segurança. Conforme avança pelos amplos corredores brancos e minimalistas, Sung-ho destoa do ambiente. Ao chegar à bilheteria, o atendente o olha de cima abaixo e pergunta, com má vontade “Qual o filme, senhor?”. Sung-ho aponta para o cartaz. “Próxima sessão, senhor?”. Sung-ho sacode a cabeça afirmativamente. “Assento, senhor?” diz virando a tela para Sung-ho, que escolhe um lugar na última fileira pois assim tem a sensação de que vai aproveitar melhor a sala. “São sessenta e cinco reais, senhor”. Sung-ho tira da carteira a soma exata, um pequeno maço de notas de um e cinco reais. O atendente pega o dinheiro sem tirar os olhos do monitor. “Obrigado. Tenha um bom filme, senhor”, repete mecanicamente com um sorriso falso, olhando para o colega ao lado e revirando os olhos assim que Sung-ho sai. Ansioso, ele olha para o bilhete e procura pela sala correta. Ao se dirigir à entrada, o bilheteiro,

olhando para a sacola plástica diz: “Senhor, infelizmente é proibido entrar no cinema com qualquer tipo de alimento que não tenha sido comprado em nossa bomboniere ou através de nossos serviços durante a sessão”. Sung-ho olha confuso para a sacola e para o bilheteiro, que percebendo a situação, aponta para uma lata de lixo próxima deles. Lamenta ter que jogar fora a comida, mas como o ingresso já está comprado, não vê outra alternativa. Finalmente entra. É o primeiro a chegar. Como as luzes ainda estão acesas, pode ver todos os detalhes da sala. Por isso, caminha lentamente, prestando atenção a cada pormenor. Aninha-se vagarosamente numa enorme poltrona de couro posicionada bem no centro da fileira. Percebe que a música que vem das caixas de som é cristalina. A temperatura é perfeita, chega a sentir até mesmo um pouco de frio. Em cada uma das laterais da poltrona há uma luminária acesa e um menu. Sung-ho descalça os sapatos para sentir melhor o veludo no chão. As pessoas começam a chegar. Alguns sentam-se mais próximos da fileira em que ele está, outros mais distantes, mas todos em casal. Sung-ho consegue sentir o perfume de uma mulher que senta duas fileiras a sua frente. A fragrância é um pouco parecida com uma que vende em sua loja. Um pouco. Rapidamente metade da sala está ocupada. As luzes diminuem e os trailers começam. Sung-ho relaxa e o filme inicia. Porém, não demora muito até que o garçom entre trazendo taças e uma garrafa de champanhe. Ele se dirige até o casal mais próximo de Sung-ho, que perde a atenção no filme por um momento. Mais à frente, uma mulher atende o telefone. Fala baixo, mas ainda assim a tela acesa do celular é chamativa demais. Sung-ho tenta se concentrar no filme, mas minutos depois, o garçom entra para atender outro casal. Na terceira vez em que o garçom entra, Sung-ho começa a pigarrear. O garçom informa o valor, passa o cartão na máquina que também tem um visor luminoso. Sung-ho pigarreia outra vez e algumas pessoas olham para trás. Ele volta a prestar atenção ao filme, mas percebe que agora uma das mulheres se vira constantemente, olha-o e cochicha no ouvido do homem que está com ela. Aproveita os momentos do filme onde a luz ilumina a sala de forma mais intensa para encará-lo. Sung-ho se sente desconfortável. A mulher sai da sala e retorna acompanhada do bilheteiro, que aponta uma lanterna na direção de Sung-ho, o que o leva a colocar a mão espalmada em frente ao rosto para bloquear a luz em 17


seus olhos. Ela diz algo, mas o bilheteiro sacode a cabeça em negação e sai. Agora, mais pessoas viram-se para trás, encarando Sung-ho. A mulher, já de volta ao seu lugar, fala novamente no ouvido do homem, que por sua vez, se aproxima do casal nas poltronas ao lado, sussurrando e olhando para trás de tanto em tanto. Mais pessoas começam a se virar com uma insistência irritante. Os dois homens lavantam-se e caminham em direção à última fileira, cada um por um dos corredores. O primeiro senta-se ao lado de Sung-ho, que tenta levantar-se para mudar de lugar mas é impedido pelo outro homem, que vem pelo lado oposto, o empurrando e o obrigando a sentar novamente. Sung-ho começa a gritar algo em coreano, mas imediatamente leva uma cotovelada no rosto. O outro homem agarra sua cabeça e a bate com violência contra a cadeira da frente. Sung-ho fica tonto, sem condições de reagir. Os dois homens o arrastam para o corredor. Rapidamente, mais gente junta-se a eles. Sungho leva um chute nas costelas, no estômago e um terceiro no rosto. Alguns apenas olham de perto, sem nenhuma intenção de interceder. Outros, mais ousados, se aproximam sacudindo Sung-ho com a ponta dos pés. A mulher cospe no rosto de Sung-ho, que agora finge-se inconsciente para não apanhar mais. Calmamente, as pessoas começam a retornar para seus assentos. Sung-ho permanece deitado por um tempo. O filme agora está próximo do final. Os créditos sobem, as luzem acendem e todos saem. Quando Sung-ho percebe que está sozinho, levanta-se com dificuldade, se agarrando nas guardas das cadeiras e limpando o sangue do rosto. Desce devagar, apoiando-se nas poltronas, quando cruza com a faxineira que vem chegando para limpar a sala. Ele a olha com olhar pedinte, mas ela desvia os olhos. Sungho prossegue, dirigindo-se à saída e sentindo-se um pouco culpado. Enquanto avança pelo shopping em direção à saída, vai abrindo caminho por entre pessoas que se afastam indignadas. O segurança fala algo no rádio. Na sala, o gerente do cinema esbraveja furioso aos ver as manchas de sangue que a faxineira mostra no carpete e nas cadeiras. Vai ter que cancelar a próxima sessão.

ANDRÉ TIMM nasceu em Porto Alegre, 1976. É autor de Insônia, que foi menção honrosa no Prêmio Sesc de Literatura e criador do projeto literário 2 Mil Toques. www.andretimm.com

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casal (?) andrei ribas

I

em tal situação. E Amanda soluçava, soluçava. Sou só tua, só tua – novamente jurava – me agarra, me vaza, me atravessa, me transpassa... Gostava do jeito que ela usava além da pouca cultura linguística em, acreditava, consideração só a mim, sabendo que aquelas palavras não tão comuns me davam um tesão tremendo. Ainda eu quis indagar quem te deu o vestido, porém, aquecendo-me sem raciocinar diante da fêmea em ansiedade, não consegui. Aí, aí, meu macho, fucinha aí, vai, me fornica, me péla todinha, vai! Então joguei o boi com as cordas, exposto o torpedo, focinho em trópicos ardentes. Amanda, ela, aquele suorzinho que precede os segredo gozosos amanhecendo nas coxas. E, no meio dos gritinhos suspensos em arrepios eu ouvi, sem influências da conversa anterior, sem dúvidas a esclarecer, ouvi muito bem: vai... vai Pedro dos infernos... As palavras tiveram aspecto de martelada, martelada no meu crânio, esfacelando os miolos. Se cai longe ou fui lançado não sei, sei que não sentia meus ossos, a única ação que pude cometer foi sussurrar, não pra Amanda, acho que pra mim mesmo, como se me resgatasse: Rômulo... meu nome é Rômulo...

Eu havia contado os dias, foram quinze, um por um, com o coração na mão. Quando ela voltou ingenuamente disse estou aqui, sou toda sua!, olhei-a de forma irada e quase bradei quinze dias, Amanda? Sou desregulada respondeu no mesmo minuto que compunha beicinho de ironia. Menstruação dura quatro ou cinco dias. Pensa que eu sou burro? Amanda: Sou desregulada, já falei. Eu: Uma mentirosa, é isso que você é. Onde é que você andou? Amanda: Em casa, você quer ver os modes? Agora predominava os berros em sua fala. Os dois berrávamos agora. Foi e se apoiou à janela olhando não-sei-bem-o-quê, a janela não dava pra nada, sacudindo uma perna como mostra de impaciência ou orgulho ferido, uma coisa destas. Não convencido, resolvi endurecer. Afinal Amanda passara dos limites. Nunca, nunca disse que me amava, contudo jurava de pés juntos que era só e só minha – aquela forma aloirada estendida no piso, no sofá, andando pela casa, ronronando nas madrugadas de cópula, mais que um corpo nu, tornava-se um pedaço do Éden, Adão e Eva reinventados pós-descoberta do bem e do mal longe dos olhos de um deus sem piedade. Amanda vai me explicando direitinho, esse vestido aí não fui eu que te dei. Quem foi? Ela virou a face, desfazendo o olhar perdido nas contemplações além da janela, mirando talvez o céu num azul cinzento. Ah, é isso? O vestido novo? E você pensa que meu pai não pode me dar um vestido? Acha que nós somos tão pobretões, é? Retruquei que o pai dela não tinha nem pra comer, muito menos pra comprar um vestido como aquele pra filhinha, e continuei: Vâmo, quem te deu essa porra? Permanecendo na janela um instante fixando a parede, pareceu-me ter ouvido dela um resmungo de raiva. Mas, logo, veio em minha direção, de visão clara, perfazendo com os músculos faciais um cê deitado com as pontas pra cima, as mãos de veludo, a voz de fantasia. Rômulo, então tu tem ciúmes, Nossa Mãe! Quando eu poderia sonhar com isso? Me abraça, Rô, me abraça! Sou tua sempre, eu te quero, eu te quero... E aqueles lábios, aquela língua invadindo a boca, orelhas, globos oculares, reavivavam o sarcófago que eu deveria ser

II

Acabou! Por quê? Acabou! Não dá mais. Simplesmente acabou. Ao ouvir aquelas palavras, ditas assim tão peremptoriamente, ela sentiu-se atordoada. Momentaneamente uma dose elevada de perplexidade confundiu-lhe o raciocínio. Não sabia o que pensar, como reagir àquela resposta tão veemente. Olhou-o demoradamente, procurando se convencer de que aquele não era o homem com quem convivera tantos anos. Não podia ser. Mas ele ali estava diante dela, tão psicologicamente seguro de si que por alguns segundos julgou não reconhecêlo. Mudara. Como mudara?, estranhava. Como pudera não ter percebido! – surpreendia-se. No olhar dele já não havia o calor com que se aquecera em outras épocas. Em sua boca desvanecera a sensualidade que a fascinava: um esgar, que até então lhe era desconhecido, retorcia-a levemente. Como não percebera tais mudanças? Ainda murmurou com uma esperançazinha que insistia tenuamente dentro dela: E nossa filhinha? 19


Com o tempo tudo se ajeita. Não se preocupe. Mas ela é tão pequena! Não há nada que o ser humano não supere – sentenciou num tom gélido. Ela fitou-o, estupefata. Como pudera amar tal pessoa tão cegamente? Ele, por sua vez, permanecia ali na sala, sentado no sofá, dando baforadas ao ar, com uma desprezível indiferença estampada no rosto. Como poderia estar assim tão emocionalmente controlado se já não tivesse outra? É isso! bateu-lhe de repente dentro da cabeça. Você tem outra! Você tem outra! Não. Não tenho ninguém. Mentira! Ela ameaçou chorar, mas num ímpeto se conteve. Não lhe daria tal gosto. Não se fragilizaria diante dele como uma mulher histérica e infeliz. Isso nunca! tornou a pensar. Buscou em si toda a força que precisava para enfrentar aquela situação, sem escândalo, sem descontrole. Darlhe-ia o mesmo tratamento – repetia para si, num esforço descomunal. Descontrolar-se significaria dar-lhe mais valor do que merecia. Virou-se, então, dizendo-lhe firmemente, sem nenhuma emoção: Se você assim deseja, assim seja. Pode ir, não quero te ver mais aqui! Ele, desta vez, estremeceu, surpreso. Não esperava jamais que ela reagisse daquele modo. Em sua fisionomia brotou uma inexplicável decepção. Era como se, no íntimo, desprevenido, se sentira traído. Não era aquela atitude que havia imaginado. Esperava que ela gritasse, desesperasse-se, enchendo-lhe o ego de coisas que o tornassem irresistível. Jamais lhe passou pela cabeça que ela tivesse uma reação tão inesperadamente resoluta. Perscrutou-lhe no rosto algum indício de que ela estivesse jogando com as palavras. Mas ela se manteve imperturbável, friamente impassível diante dele. E ele sentiu um amargo na garganta, uma incômoda sensação de que era um ser tão facilmente dispensável. Toda a sua empáfia baqueou, colocando-o à mercê de um egoísmo que não conseguia suportar a insignificância que sentiu nas palavras com que ela se descartou dele. Nenhuma súplica lhe ouviu dos lábios, simplesmente encerrava toda aquela conversa com uma repentina resignação que ele agora estranhamente não aceitava. E sem perceber a própria idiotice, levado por ira que a custo continha, acusou-a: Você, sim, é que tem outro! Ela, porém, nada devolveu. Ele, então, levantou-se, pegou a mala que já havia aprontado e saiu, remoendo-se, imaginando-se mais ludibriado do que ela.

parquê, tirando o pó de cada rodapé. Guardei os cigarros na mochila, e também o tarô, mas deixei o isqueiro que falhava nas horas mais impróprias. Fui até a cozinha e peguei uma caixa de fósforos. Deixei Enya cantando no quarto e tranquei a porta do apartamento. Apertei repetidamente o botão do elevador como se isso o fizesse vir mais rápido, mas ele demorou como sempre. Deu bom-dia o velhinho do andar de cima que fez um comentário sobre o tempo, e esse calor?, é mesmo, pois é. A gorda, mulher do velhinho, achava que talvez estivesse mais de quarenta graus. Na caixa de correspondência, que abri lentamente, apenas uma propaganda de representação comercial. O porteiro tomava chimarrão, indiferente ao calor. Dentro do trem comprei um pacote de incenso do budista amável que entrara sem pagar e que também quis me vender um livro, mas não havia espaço na mochila. Acendi uma vareta ali mesmo, a mulher que sentava do meu lado suspirou e retorceu os lábios finos, fazendo as rugas aparecerem ainda mais. O homem de paletó disse que era proibido fumar dentro do trem, não me importei, não estava fumando nada. Fiquei segurando o incenso entre o polegar e o indicador, o cheiro doce e forte se misturando com o azedo do suor da lataria do trem, a fumaça subindo lentamente e fugindo débil pelas janelas. Desci na rodoviária, mas não entrei. Caminhei direto para o início da estrada, os coturnos fazendo barulho na calçada, talvez tivesse sido melhor colocar um tênis, mas não tinha nenhum. Parei no acostamento, uma das mãos segurando a alça da mochila, a outra empunhando um cigarro. Primeiro um caminhoneiro que babava na barba quando falava, depois um garoto de olhos vermelhos que não devia ter carteira, então uma mulher com uma garotinha, logo atrás um velho que odiava o odor de cigarros. Nenhum ia para o lugar que eu desejava. Sentei. Um carro antigo e barulhento abriu a porta, uma mulher bem morena, talvez árabe, da mesma idade que eu. Para onde você está indo, quis saber. A mulher do carro olhou para o teto encardido, ah, qualquer lugar, você se importa? Meneei a cabeça dizendo que não, e entrei no carro. Coloquei a mochila no colo e achei a motorista ainda mais bonita de perto. Cítaras saíam dos alto-falantes, talvez ela fosse indiana. Perguntei posso acender um incenso?, claro, ela disse, e sorriu.

IV

Amargurado(a), observou-o(a) procurar os cigarros. Perturbam-no(a) emoções contraditórias. Neste preciso momento, esforça-se por esconder o ressentimento com que tantas vezes argumentara contra ele(a), com ou sem razão. Com piedosa ternura risca um fósforo e acende-lhe o cigarro, sem o(a) olhar nos olhos. O fósforo aquece-lhe as pontas dos dedos e ele(a) se irrita, mas esquiva-se de praguejar. Tinham decidido pelo rompimento, ele(a) tinha decidido, e isso era tudo. Que ele(a) propusesse uma reconciliação, agora, não seria apenas uma coisa imbecil de sua parte, seria, sim, motivo de riso. Por certo ele(a) não perderia a oportunidade. Não, ainda que ele(a) se reconhecesse, em

III

Saí do banheiro sorrindo. Abri as janelas do quarto pela primeira vez em muito tempo, e meus olhos desacostumados com o sol da manhã se contraíram, como se se descosturassem, mas não me importei. Comecei a vestir as roupas que deixara separadas sobre a cama, pensei em comer uma massa folhada, mas desisti. Não queria sujar o chão com as migalhas, a casa estava limpa e arrumada, passara o dia anterior limpando tudo, esfregando cada 20


parte, culpado; não se exporia dessa forma. Se está feito, está feito. Assim é que, sem saber exatamente o que fazer ou dizer, ele(a) o(a) observa, calado(a) e taciturno(a), a pegar coisas e arrumar coisas, fazer uma mala e pentear os cabelos; como se sair dali o mais rápido possível tivesse para ele(a) o significado de uma benção. Tirasse um peso – grande e invisível – das costas. Portanto, é com uma voz distante e vaga que ele(a) pergunta, como que a maldizer toda a estúpida fragilidade humana em momentos de crises – sobretudo as conjugais –, quando nos toca tomar decisões irremediáveis: Sem rancores...? Vai começar?, quem faz assume... – pensou ele(a) ter ouvido em resposta. E as crianças? O que tem as crianças? Mais uma vez engoliu a saliva. Tantos impropérios ditos antes, que nenhum, agora, faria sentido. Na verdade, nada mais havia para ser dito, tinham esgotado o vocabulário de acusações mútuas. O que mudara então? O mise-en‑scène. Encaravam a realidade. Meramente a constatação do insu­ perável. Do que até então se escondia no faz-de-conta‑que-somos-felizes. Reconheciam a impossibilidade de se conduzir algo extremamente frágil e delicado por um tempo mais que razoável, além do que é humanamente sensato suportar. Não, nada mais os separa tanto quanto suas próprias presenças. Como poderiam ter, ainda, um significado um ao outro? Um breve trecho de poema, lido na toalha de mesa de um bar, aflora em suas lembranças:

Ele(a) propõe um acordo, ignorando o insulto e tentando aparentar despreocupação: Podemos vender o carro e... Ele(a) o(a) interrompe. Já discutimos isso. O carro é seu, esse maldito carro é seu! Tomou seu calmante hoje? Pro inferno o calmante, e você também. Não vê que estou farto(a)? Farto(a)! Entendeu? Sim, acho que sim, é o que ele(a) atina. As mãos dele(a), trêmulas e hesitantes, procuram outro cigarro, depois um fósforo. Uma eternidade para um ato tão simples. Ele(a) o(a) contempla com um misto de pesar e reprovação. Poderia ter remorsos? A qual dos dois caberia maior parcela de culpa? Seria justo se digladiarem por erros cometidos, que iam além da recíproca compreensão? Ele(a) não sabe as respostas, mas o(a) reprime. É seu segundo cigarro em cinco minutos. Não me faça rir... Inútil tentar entender o que ele(a) pretendia fazer consigo mesmo(a). Bebidas e cigarros. Trinta e quatro anos, irritabilidade incontida e rugas precoces. Por que se fazer tanto mal? O apartamento não era lá grandes coisas, é verdade, mas discreto e confortável. O carro, apesar da idade, servia e muito bem para as necessidades domésticas. Carinho, não faltou. No início apenas algumas rusgas, que eram logo esquecidas no calor dos lençóis. Agora... A voz dele(a), áspera e impertinente, cortou-lhe o devaneio: Estou pronto(a). Sim... querido(a)... E é como dois estranhos que se encaminham para a porta. Mudos e constrangidos.

Com que alívio não nos vemos por entre o tédio da manhã, Que gentilmente nos acoberta mudos e constrangidos. É isto. Faria um esforço, se portaria como um(a) perfeito(a) cavalheiro(dama), e não retrucaria com aspereza. Não queria aborrecê-lo(a) ainda mais, muito menos entrar numa discussão desgastante e, naquele momento, absolutamente inútil. Mentalmente contou até dez, depois disse, pausadamente: As crianças, querido(a), terão de ficar com alguém. É o que faz a justiça nesses casos. Elas poderão ficar com você, ou comigo... Você se esquece que eu sou o(a) pai (mãe)? É óbvio que é comigo, não é? Mas, se o juiz fizer alguma objeção... Se você está insinuando que eu... Ele(a) cortou-lhe a frase, com prudência: Esqueça o que eu disse, não vem ao caso discutirmos. Acho bom. Sua constante ironia e mau humor desenharam um sorriso contrafeito e disfarçado nos lábios. No intuito de manter a promessa feita a si mesmo(a), pergunta em tom monótono e conciliador: Que pensa fazer? As crianças estão na casa dos tios. Fico lá. Você me leva e depois volta com o carro – responde ele(a) com sarcasmo, alinhando a silhueta no espelho do corredor, complementando: Afinal, o carro é seu, né?

V

A mulher perguntou se ele sabia o horário de início do baile. Nove e meia, disse num tom arrastado. Ela já devia tê-lo conhecido bem em quatro anos de casamento, fora os dez de namoro. Ela já devia ter entendido que ele odiava carnavais. Ainda mais agora: com fantasia. Não suportava a idéia de se vestir dessa maneira. Quando a mulher apareceu naquele meio-dia em casa trazendo nas sacolas as roupas de mágico e princesa, seu senso por pouco não se perdeu, teve que disfarçar dizendo vai ser bom, vai ser bom. A esposa sorria então, pensando ter agradado. Ridículo, a palavra surgiu ao ver aquele amontoado de gente fantasiada cantando você aí, me dá um dinheiro aí, ridículo. Ela nem esperou um convite, atirou-se na multidão composta de palhaços, vampiros, bichos, heróis e heroínas totalmente livre, e isso o assustava. Queria poder gritar um basta, gritar pedindo socorro, mas não conseguia, estancara feito poste. Contudo, algo ele compreendia na história toda. Compreendia por baixo de sua cartola estilo Mandrake que a culpa pertencia a uma só pessoa: a mulher, a fêmea, a esposa. Ela já devia ter entendido não ser ele o mesmo nessa data do ano. Ela já devia ter adivinhado, obviamente, suas preferências. 21


Cruzando pelas pessoas, chegou no canto onde a esposa estava. Antes de a música terminar, antes dela pronunciar onde tu tava?, antes de o homem recuperar uma razão outrora presente, os dedos se juntaram na garganta da companheira, apertando no ritmo da euforia.

ANDREI RIBAS é ex-advogado e escrivão de polícia desde 2008. Entre uma investigação criminal e outra procura manter a escrita perene. Lançou O monstro (novela, 2007) e Animais loucos, suspeitos ou lascivos (contos, 2013). Enquanto espera avaliações de um novo romance e de um livro de poemas, redige contos.

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rua da conceição Ângela Calou

C

onceição era, entre as rameiras, a mais conhecida daqui. O nome da rua vem disso, não da santa, milagre do corpo rende na boca miúda muito mais que refino espiritual. Era a “Rua da Conceição”, aprende a origem, Jolí. Os homens a procuravam e logo recebiam a indicação, seguiam até o Colégio Paraíso, dobravam na São Benedito e por fim: Conceição de almas abertas e sonhos pedrados – culpa das duas amêndoas essa sua fama. As meninas dos Salesianos todas de nariz torcido, desejando “àquela fulaninha que até nome de rua parece” coisas tristes como uma gonorreia fulminante, uma sífilis deformadora. Mas naquele tempo, quem se importava se fosse o caso, Jolí? Pois ainda haveria ali, quietinhas, mas despertas como a manhã ensolarada do baixio, as duas amêndoas, e que eu pagava, claro que pagava pra ver! Repare: nem vinte anos tinha, beleza também não sobrava, mas a vontade de comer começa quando a gente sente da sala o cheiro do cozido no fogo, ou quando imagina, ainda fora de casa, a surpresa pousada no prato. Comigo era assim: me aprontava de frente pro espelho, recortava uma semana antes a cabeleira, comprava água de lavanda no armazém da tia Nô. Cheguei ao cúmulo de pedir uma vez, por extrema precisão, os sapatos de couro marrom de Luciano, o mudo. Joana quis reclamar, falando alto, de propósito, pra ver se eu arredava como cheguei: sem nada. Saio uma ova! Fiquei lá, até ele voltar. Fingi que não ouvia a mequetrefe dizer: “Vai emprestar sapato pra Assis encontrar rapariga?” E precisava falar? Bastava mexer um pouco as mãos que era o modo de Luciano entender, não carecia, quis mesmo que eu ouvisse, mas sem novidade, de Joana eu tinha medo e esperava tudo. Todos no Amaro Coelho sabiam do dia em que Hugo, dormindo, foi coberto de flores pela mulher. Imagine só o tamanho do susto, Jolí. Você já pensou? Pegar no sono e acordar feito morto de caixão? Foi assim, tanto que ele nunca voltou a casa depois da morte da mãe. Eu temia, mas do outro lado havia as amêndoas, as duas. Saí de lá com os sapatos de meu irmão. O preparo não acabava, pelo contrário, crescia dos pés à cabeça, tanto que na quarta de cinzas, ouvi da doida Amaral: “E consegue voltar pra casa quando sai arrumado assim?”. O pior é que conseguia, por mais quisesse ficar e dengar, pela madrugada, Conceição em seu meretrício. Quem bate ponto, não pode ficar fazendo menino depois

que amanhece. Antes das seis, quando cantava no rádio O Boiadeiro de Gonzagão, cuidava de pegar o chapéu e tirar da carteira a paga de minha delícia. Não sendo difícil que a danada já tivesse levado sua parte e mais outra metade na hora do tempo em que eu, homem cansado em meus vinte e seis, dormia meus pesadelos. Pensava em arengar, mas Ceiça franzia a testa e suspirava profundo, quem visse achava que se aprontava para chorar – oh danada pra me pegar pela expressão! Abraçava a cintura e lambia os beiços da cavala, dava era mais dinheiro no fim. Seguia na maior má vontade para a bodega, rogava praga a torto e direito, e se era Cristina quem vinha comprar, eu dizia pra tudo: Não tem! Mesmo se a peste se resolvesse a levantar o arroz, o açúcar, o feijão na minha cara: “E o que é isso?”. Fervilhava nos dedos a vontade de jogar a sacola cheia nos peitos da velha, desgraça de bisatia que dava em minha mão com palmatória no ensinamento da cartilha. Quem soprava a mão inchada era Ana Santa, punha meu prato o primeiro de todos: “Netinho, venha comer!”. Eu ia, mas se a mãe soubesse estalava no couro o rosnado da pisa! Comia e se ninguém contava ao orgulho ferido da filha mais velha de Benjamim, saía livre da palmada e de um doído “Engula o choro!”. Na bodega, ficava até cinco e meia. Na hora em que passava o ônibus de Seu Né, me mandava levando o bolinho frito e a banana-prata. Então era voltar à casa de vô Nilo, desde os 12 anos com ele, acender a luz do santo e ir para o quarto grande, descer as dobras da calça no macio do pensamento nas horas boas da madrugada. Levantava para garantir os dois ferrolhos postos na trinca. Vô Nilo voltava da cachaça direto pra sua rede, nem perguntava por mim. Na hora do pão de milho vinha me dizer: “Como é que tá lá em Ciço Leite?”. O careca sovina até água, mas dá pra ficar. Que ficava, não houvesse outro jeito, a eternidade de Deus para sustentar Conceição sobre a crina de minha vontade – mas isso só eu sabia, Jolí. Pai, de pedreiro, trocando as ripas do alpendre, trazia capão e ovo capoeira no domingo. Sabendo de meu emprego não disfarçava a alegria, podia ser que eu ajudasse a comprar outra máquina de costura para sua esposa Donana. “Visite sua mãe, rapaz”. Vou não, pai. Mãe xingou Dôra, se ela quiser que venha aqui e peça desculpa a minha mulher. Quem já viu, dizer que ela não sabe criar Camila só porque a menina 23


fez um olho e uma boca na tapioca? De brincadeira, pai. É sapeca, a grudentinha. Tome, essa alpercata eu peguei da bodega para o senhor. Encerrava o assunto e deixava o pai e o pai conversarem do jeito que gostavam: do fumo feito de folha do mato, sem uma gota de voz, ao café forte, moído na cozinha em peso pra o mês. Boa coisa foi Dôra ter viajado a passar o resguardo com Dona Fernanda, livre da fita enganchada: “Essa sua mãe tem uma língua!”. Sem obrigação durante a noite, entrava na oficina, cheio de invenção, não bastava pagar, era preciso lhe dar um agradinho, pois só assim Conceição apertava as amêndoas e as mergulhava na calda de gordas lágrimas de bem-querer. No dia em que lhe dei um cavalinho de madeira com um laço rosa feito com uma fitinha de pulso comprada no Horto, fez massagem em meus pés, chegando a perguntar se eu queria água quente pra ser maior o alívio do dia. Precisa não, meu denguinho, chegue, suba aqui, suba, brinque com esse outro cavalinho! Não dando em nada os quarenta minutos perdidos na oficina, fui até o roupeiro e vasculhei debaixo dos panos do casamento. Nunca usei a caixinha de sabonete Febo, o pente azul e o frasco de perfume Blue Lotus – o que salvava no meio do resto. Juntei as coisas com o vestidinho amarelo, muito simples, comprado fiado com paga na conta de um mês. Olhe, Conceição, eu trouxe uma coisa para você, uma não, quatro. Para que vá à missa das cinco quando quiser, e não se importe com cara feia, faça careta também, bata o cabelo de rabissaca. Garanto que no céu vão fazer é festa de sua presença, Maria Madalena morta de orgulho de sua aparição! Ah Jolí, como ficava alegre, ia logo dizendo se eu demorava a voltar. Demoro não, minha flor, e será que vivo sem sua graúna? Pegue uma coisinha de café pra nós, pegue. Saía com a promessa de voltar e de trazer babosa para o fim de desmamar o afilhado de Conceição, o menino já com dois anos ainda exigia o peitinho de Dadá, que nunca foi afamada, mas era capaz de fazer gente voltar à casa de Dona Rita. Com o menino pendurado nas peras, sobrou o serviço de casa pra ela, deixava tudo limpo depois de cada ocorrido. Na soleira, gritei Eu trago, viu Dadá? E fui para o caldo de peixe em Raimundo Marco. Eita como cresceram esses teus meninos! Naquele tempo ninguém falava em jogo de bola, o assunto era a casa de Dona Rita. Rafael e Mirialdo, a mando de Raimundo, fizeram farra com as meninas, e como qualquer que somasse dois e dois sabia que dava quatro, eu soube quais eram as prediletas dos garnisés. Mirialdo falou de Ledinha: “Essa faz qualquer coisa, capaz de subir no pé de cajá e caí só porque você mandou!”. Disse que Délia era mulher pra três cabras de uma só vez, e que ele mesmo era esses três num só. Disse ainda, que até Dona Rita contando anedota era apetitosa, e que quando com ela esteve quis brincar de filhinho e mãezinha. Luzinete era quem não colaborava, queria sempre-sempre a luz apagada: “Quantos anos na vida precisa pra saber que homem gosta é de olhar?”. “Conceição vocês já sabem...”. Raimundo balançou a cabeça concordando com seu mais velho, chegando a vez do moço Rafael. Mais reservado, olhava o chão, todo encabulado, e quando precisava falar, botava na boca o copo, que era pra se safar. “Deixe disso, fale

pro seu pai se gostou, Rafael!”. “Gostei, pai. Mas também não gostei não. Porque Dadá agora ganha quase nada e Dona Rita já disse ao mano que a queria expulsar! E tudo por conta desse aí! Que faz filho em outra e corre com medo da mulher saber!”. Todos levantamos da mesa como se tivessem anunciado um tiroteio. Peguei o frango pela gola, pense numa raiva, Jolí! Mirialdo segurou Raimundo Marco: “Você deixe pai, que é Assis!” Durou nem um minuto, mas o menino ficou tão apavorado, também muito orgulhoso de se ter batido comigo, que eu fiz foi dar uma risada alta e até Reginaldo deixou a cozinha pra vir perguntar de que se tratava. Esse frango aí, só porque virou macho deu pra querer ser de meu tamanho! Me conte logo de onde tirou essa história. “Tirei de canto nenhum, ou se o senhor quiser, tirei de todo canto, porque todo mundo já sabe de seu segredo...”. Nunca tinha ido de tarde à Casa das Primas, como se escrevia no letreiro pintado à mão. Não é que dou de cara com o menino de Dadá solto na soleira da sala? Ainda mama, é seu safado? Pois não é meu, que não mamei nem três meses, não dei prejuízo a minha mãe! O menino de chupeta, uma frauda maior que ele agarrada a ela. Uma alpercata escura e a cueca com tinta largada de tanta lavagem. Vá chamar sua mãe, vá! Coçou o bracinho e foi andando para trás. Pela sobrancelha fininha podia bem ser de Marciano. Agora, se vejo o narizinho de cebola, lembro logo de Ciço Bode, que foi também muito feliz se aproveitando de sua mãe! Cruzei o corredor e fui direto à lavanderia. Nem sei o que pensava na hora, Jolí. Conte, mulher. Conte, tudo. Desatou num choro tão desgostoso, as coisas prontas pra ir embora. “Pode não acreditar, mas Macarrão é seu.” Com dois anos e já tem apelido? Oh bicho safado é homem! Tem que tirar o menino desse lugar, Dadá! Oh azar dessa mulher, meu Deus, pegar bucho no primeiro mês de trabalho! Não me olhe assim, Jolí. Que você sabe que guardo por tudo que é meu. Se ela dizia que o menino era meu filho, e mais que isso, se as amêndoas de Conceição, tristes como nunca havia visto, deixavam escapar o mesmo, nunca eu poderia duvidar. Saí pra resolver as coisas, pôr Daiana num quarto, prover do possível, nem que assaltasse, à surdina, a bodega num primeiro enquanto, ou vendesse um gado, aradasse um terreno. Proibir Macarrão de ser chamado de Macarrão, num batizou de Juliano? Pois chame de Juliano! Amenizar a intriga pelo lado de cá... Descer a escada que subia com tanto gosto foi o mais difícil. As amêndoas em calda eram descerteza perdida enroscada em um novelo de linha podre! Por que Dadá no lugar de Conceição? Agora em vez de um inferno, eu teria que manter dois! E mantive, não foi, meu amigo? Tanto que tenho você, pra agradar os cabrinhas. Me dou o regalo de morar nessa rua chamada Conceição, que muito vizinho nem desconfia por quê. Posso pensar assim e ser mais feliz: mudei para Conceição, moro nela. Não sei se existem ainda as amêndoas, aguadores desse sertão cuja flor é sempre de pedra. A bem dizer, nem sei de onde tirei essa palavra “amêndoas”, coisa que nunca vi, mas se existem devem ser iguaizinhas as dela. Naquele dia, quando voltei pra buscar a criança enrolada num cueiro e a mulher com o pano de prato feito toca na cabeça, soube da 24


razão de descer aquele primeiro batente da Casa das Primas ter sido de todos o mundo pior. Conceição, num vestido simples e amarelo, de cabelo partido de lado, cheirando a Febo misturado a Blue Lotus, some no Crato pegando carro de linha para sei lá onde. Sei lá onde é tão longe, Jolí, fica há quarenta anos de Juazeiro. Mas chega de conversa furada, coma a ração, coma. Tanto cachorro passando fome e você aí botando boneco!

ÂNGELA CALOU nasceu em Juazeiro do Norte-CE, em 1988. Possui graduação em Filosofia pela Universidade Federal do Cariri e mestrado em Filosofia pela Universidade Federal da Paraíba. Com o livro Eu tenho medo de Górki & outros contos (2011) foi vencedora, em 2010, do Prêmio Moreira Campos de Contos da Secretaria de Cultura do Estado do Ceará.

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... de poesia e prosa benito barreto

E

E, à causa disso, ia acabar por dividir-se o povoado em dois partidos: de um lado, os homens bons com os seus, a sociedade, e, do outro, o povo, as ruas, como o dizia em trova um trovador local, inda se lembra Tiradentes:

ndiabrada e tentadora, sim, nunca a esquecera. ...mas o não sei quê, que ela viu e amou em mim, não bateu nunca o outro, o pai, ou seja, a primazia do amor com segurança e até, mesmo e só, da segurança só, sem o amor, mesmo que e quando amor e sentimentos não houvesse... Voltara lá mais vezes, àquele arraial das Minas do Mato Dentro: tocando tropas, arranchado por uns dias; de mascate, vez ou outra, ou, itinerante, já tirando e pondo dentes às pessoas, consertando bocas, tentando catas. Porém, muito principalmente, para vê-la. Mas, aos olhos da família, nada disso o fazia digno de atenção. Ou, pelo menos, tolerável... Muito pelo contrario, só somava ponto contra mim, só me fazia menos digno da filha e mais merecedor do desprezo e indignação da senhorial família. Nádia namorava com o outro, como se noiva já fosse, sempre na sala, à luz dos lampiões da casa, e, comigo, à luz das estrelas, em tais ocasiões, pelos cantos e os fundos, sob os beirais, beirando os muros, nalgum cômodo, às escondidas, pelos desvãos e os quintais, nas vizinhanças. Saía, às vezes, do sofá, cheirando ao outro, dos braços do noivo fidalgo, que acompanhava até a carruagem, que era luxo só, e, mal ele dobrava a esquina, corria a me encontrar e me abraçava, parecendo ter prazer em misturar, ou em afogar no meu suor, cheirando a chão de rancho e povo, gentinha, os extratos e as loções do pretendente, vindos de Paris. Arrebatada, falava em fugir com o seu tropeiro, um dia... Viveriam de amor numa choupana, que ela chegara a desenhar, lindeza de risco, um poema que a quatro mãos os dois fariam, de taquara e barro, uma cobertura de sapé, e assim era como a gente namorava, apaixonados, dizendo juras, fiando, fazendo planos... Bonito, era bonito. Com o tempo, o Arraial ia ficar sabendo que a Nadinha de seu Batalha balançava entre a fidalguia e a segurança do noivo, montado na prata e ungido pelos pais, e um pé-rapado que, de seu, nem montaria tinha, certo ninguém, chamado Joaquim José, barranqueiro de outras plagas, um forasteiro, que de próprio o que só tinha era topete, o atrevimento de olhar pra moça de família e de salão, fedendo a pó de estrada e bodum de rancho.

Tem dois partidos esta terra, E as posições nela são duas: A prosa de salão em guerra Com a poesia das ruas...

Torcendo, uns, pelo tropeiro, e, pelo fidalgo, os outros; aqueles, atentos ao moço, com sua tropa, quando assomava na crista da serra, descendo para a rua e o rancho com seus guizos; estes, ao fidalgo e à sua carruagem, quando buzinava à entrada do Arraial, rilhando ferros, cintilando em brilhos. Um dia, os do fidalgo mandaram aviso ao moço: lhe tiravam as calças e o chibatavam em público, se insistisse em vê-la; em resposta, os de Joaquim José fizeram frente e reagiram, pondo na cintura do tropeiro uma garrucha, por garantia dos seus beijos! E assim a vida indo, seguindo o seu curso, o caso... eu indo e vindo e tendo que ser homem inda menino, com a Nadinha em casa recebendo ensino, completando estudos, e assistida, deixando ela, também, de ser menina. ...arranjou grosso caderno, em que me escrevia e eu escrevia para ela, os dois, nós dois tecendo, fiando sonhos, com os dourados fios da esperança e do desejo, os nossos planos... Mas, naquele sobrado, a casa dela, os bilros dos teares não cessavam de, também, fiar: tecelãs e fiandeiras trabalhavam, bordadeiras mestras e artesãs das mais finas, vindas do Tejuco e Vila Rica, e até do Rio de Janeiro e do estrangeiro vindas, costuravam e teciam, a todo pano, seu enxoval, pra se casar, enquanto cá, comigo, ela fiava sonhos... Sonhos que um dia, os desnudando de sua roupagem e fantasia, os dois, juntos, rasgamos, e eu saí na estrada, pra não mais voltar: porque não tinham, não tiveram nunca a força das coisas que vão ser, virar verdade, uma farsa que ela, todavia, praticava e não sabia, Nádia, a Nadinha, essa menina linda, que fizera dele apenas o outro lado de sua vida, uma mentira idílica, ou romanesca fantasia, com que enfeitava sua verdade – o outro, a realidade sua e das conveniências de família... 26


Tiradentes levanta-se e vai, pesadamente, a arrastarse com os seus grilhões para debaixo da escotilha inaccessível, beirando o teto da masmorra, de onde fica, então, perdidamente, a olhar com os olhos da imaginação os céus e o tempo, seu chão distante e o mar: enganosos sonhos, toca a repetir consigo, compreensivo e generoso, porém, ferido ainda, porque essas tinham sido as suas ilusões primeiras que, agora, já maduro e acordado, as traduzindo, conclui que a menina, em verdade, usara dele e delas como animação, somente, ou encenação, talvez, melhor dizendo, isso a seus olhos explicando certo trato ou tratamento de teatro e desempenho, que ela punha em tudo, sempre mais isso, infelizmente, do que vida e verdade, propriamente. O que, à vista disso, só lhe pode creditar, à guisa de perdão, é que, talvez, por muito nova, o não soubesse, não tivesse uma consciência plena e clara do jogo, que sem o saber nem querer, ela fazia ou a que se prestava, o que, porém, se a ela lhe diminui a culpa, a ele o não ressarce dos prejuízos, nem abranda as mágoas, com as quais, de resto, ou por causa delas fora que saíra ao mundo em busca de caminho, as amargando sempre que olhou pra trás... Não mais a viu, lá não voltara, ao arraial distante, contudo, agora em sua cova, essas coisas recordando, e sabendo que, da parte dela, fora tudo aquilo, certamente, mais encenação e fantasia, que amor e sentimento, ainda assim se pergunta se teria sido nela, a paixão, quando real e verdadeira, mais verdadeira e real do que o fora a enganação...?! Com a pergunta, essa dúvida, e um sorriso triste, deixa-se a olhar, fixamente, sem nada ver, o negro paredão de pedra, que o confina e enterra. Estranhamente, então, a paz e certo alivio se apossam do seu corpo, e ele experimenta, na boca e na alma, qualquer coisa como a sensação e o paladar do Nada.

Este conto é parte do mais recente romance histórico do autor, Despojos: a festa da morte na Corte (2012). BENITO BARRETO é um escritor mineiro. Vive e trabalha em Belo Horizonte e, recentemente, foi eleito para a Academia Mineira de Letras. Em sua obra, destacam-se as tetralogias Os Guaianãs, que narra uma guerrilha nos sertões de Minas e Bahia, em paralelo à realidade vivida pelo Brasil durante a ditadura militar, e Saga do Caminho Novo, que recria ficcionalmente a Inconfidência Mineira. www.benitobarreto.com.br

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mango & espora brontops baruq

Mango

se expressar com um gentil Boa Noite, mas logo os demais primatas se arremessam contra ele e o massacram como se o pobre Mango houvesse roubado um cavalo. Na manhã seguinte, encontram-se restos e um passaporte britânico sobre a lama da floresta.”

Se isto tudo acontecesse hoje, haveria registros mais precisos; porém estes estariam perdidos na rede em links suspeitos para sites carregados de vírus e cavalos de troia. Como não acontece mais e sempre foi raro, há poucas informações sólidas. Um caderno dentro de um baú em uma casa prestes a ser demolida para dar lugar às obras das olimpíadas. Uma fotografia cor de barro de um soldado colonial do Império Britânico. No sonho lisérgico de uma jovem primatologista. Um pedinte cego contador de histórias nas ruas de Zanzibar. Esta versão, sem dúvida a mais tosca, é a de um húngaro, artista circense, que antes de enlouquecer e degolar sua esposa e filhos no Mato Grosso viveu oito anos na África Central acompanhando o pai, na ocasião correspondente de guerra e espião soviético. O homem, que já tivera um bigode diariamente aparado, contou a seus companheiros de cela, mais ou menos, nos seguintes termos: “Naquelas montanhas vive uma espécie de gorila arredia ao homem. São essencialmente vegetarianos mas conseguem fazer de osso graveto e são evitados pelos negros. Os caçadores ilegais perseguem-nos com alguns objetivos: venda a zoológicos, venda a colecionadores, venda a circos, venda de suas partes a feiticeiros, venda de suas partes a indústria medicinal chinesa, ou por qualquer outro motivo que lhes der na telha. Quando as conjunturas permitem um dos gorilas do bando cai vítima de febre forte. Os demais membros urram e batem no peito, enquanto as fêmeas se afastam com os filhotes e esperam tudo se acalmar à distância segura. Nenhum dos machos, nem o alfa, nem os próximos na cadeia sucessória do grupo se aproxima muito do febril. Gritam e vociferam expondo seus dentes, mas ninguém ousa perturbar o feio adormecido. É mais fácil imaginar um crescimento repentino do que um esvaziamento. Mas é isto que lhe ocorre durante aquele dia: como um bulímico, a criatura vomita e evacua seu conteúdo interno sobre o mato e a pele sobra sobre os ossos. Em pouco tempo, este emagrece e quando desperta e abre o couro para revelar dentro dele um homem branco de aspecto semicivilizado. Os cabelos lisos e castanhos e a barba rala sugerem uma rebeldia cristã ou hippie. Ele tenta

Espora

Assim que Galo ultrapassou a porta da sala, o Coordenador pediu-lhe que a fechasse. O empregado obedeceu e notou as persianas fechadas. Ninguém poderia vê-lo do lado de fora; se pudessem, veriam apenas as costas, a nuca com o cabelo desalinhado, a gola, as marcas de suor sobre as axilas. Em contrapartida, veriam as expressões do Coordenador, geralmente aplicadas para más-notícias. Se fosse possível escutar, ouviriam justificativas relacionadas às condições econômicas deste e de outros países, como se o mundo conspirasse para aquele contratempo, elefantes dedicados a espremer carrapatos. Portanto, nada haveria de pessoal naquela decisão, que se fosse por ele, aquilo não estaria sendo feito. Enquanto Galo escutava as palavras, mais elas se perdiam em meio a outras, que emergiam em sua cabeça feito bolhas de ar sopradas por um canudo no fundo de um suco denso: um gesto feito quando criança, repreendido pelos adultos e repetido de forma misteriosa em seu filho: um menino nascido prematuro, a dilatação da esposa era muito maior do normal para o sexto mês: Entretanto, para quase todos os efeitos, era sadio, exceto pelo pulmão, atrofiado e vulnerável: o garoto ficou na incubadora durante semanas-meses até o processo de desenvolvimento se completar, todavia sabe o que dizem dos prematuros: adoecem mais, emburrecem mais, maior propensão à dislexia, engordam, sofrem de calvície precoce e diabetes, unha encravada e escolhem errado as mulheres, a profissão, o time. Indiferente às digressões de Galo, o Coordenador prosseguia em seu discurso seguro e mentiroso, pois era claro a todos do escritório que Galo não regulava bem, se enrolava e se atrasava nos prazos. O RH também tende a escolher errado os funcionários, empregado hoje em dia é difícil, empregado é inimigo pago. Depois da Copa e da eleição, nuvens negras, o mundo vai acabar, serão tempos 28


maus, portanto, empresa não deve ser boazinha, precisa de lucratividade, eficiência, fluxo de caixa, horizontes de longo prazo e portos seguros, não um navio cheio de âncoras. Mas o superior hierárquico não disse nada disso: encerrou com a parábola provavelmente incorreta do idioma chinês que usa a mesma palavra para desgraça e oportunidade. Galo agradeceu e cumprimentou o homem que anunciava a dispensa de seus serviços. Voltou para a mesa, a maioria dos colegas almoçava: os computadores dormiam, sonhavam paisagens bonitas e famílias felizes em suas telas de proteção. Sentou-se e escreveu um longo email de despedida, muito bonito, cheio de mensagens inspiradoras, cópia e cola de um modelo encontrado no Google com ligeiras adaptações de conteúdo, adaptações jamais concedidas quando o assunto era referente a si mesmo. Recolheu suas coisas, seu portaretratos, apagou arquivos pessoais ou os transferiu para seu pendrive. Escutou risos, vinham da sala do Coordenador, desta vez com a porta aberta. Sua expressão agora era mais relaxada, quase estúpida, ria de algo no monitor, alguma piada fácil postada em rede social. Galo suspirou fundo e afrouxou a gravata; evitara pensar na própria família, porém era o momento de falar com a esposa. Ensaiou algumas palavras e quase as pronunciou, mas nada saiu de sua garganta. Sentiu algo errado e massageou o próprio pescoço como se fosse espremer as palavras, mas elas continuaram se recusando. Pressentiu que o incômodo em sua garganta precisava ser eliminado. Foi para o banheiro, abriu bem a boca e notou uma superfície branca e seca atrás da língua, poderia ser catarro, pus de alguma infecção não detectada, mas ao invés disso ocorreu-lhe uma história antiga de Sinbad. Com esforço, deglutiu um ovo inteiriço, branco. A este seguiram-se onze, até formar uma dúzia, depositada sobre a pia, ovos frescos recebidos em um ninho de louça. Os colegas chegaram do almoço e começaram a bater na porta, intrigados com estranhos sons de esforço, tanto poderiam ser de defecção quanto sexo: mas havia outros temores subentendidos, como o de um mal-estar súbito ou uma tentativa de suicídio. Galo finalmente abriu a porta, ovos retidos no braço como o seu filho fizera na escolinha quando o fizeram procurar ovos de páscoa. Então, o demitido separou um ovo na testa para cada um de seus colegas, ovos que se espatifaram deixando uma gosma sobre a pele que ressecaria e ficaria como fica a porra desperdiçada na pele. O Coordenador melecado e ultrajado chamou a segurança, mas Galo já gargalhava e cacarejava descendo a escadaria de incêndio deixando o escritório mais sujo que o próprio pau, senhor de sua própria crista e espora.

BRONTOPS BARUQ nasceu em 1973 na cidade de São Paulo. Seus contos estão reunidos em O grito do Sol sobre a cabeça (Terracota). Outros estão no blog Toca do Brontops: brontops.blogspot.com.br

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cartas de um traficante de escravos carlos orsi

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Acordei com o som de gritos, que vinha dos porões. Tratei de segui-los, pois pareceu-me estranho que alguma rês da carga tivesse sido deixada para trás pelos gananciosos ingleses. Mas, assim que cheguei às galés, vi o motivo. Dos trezentos homens fortes que compráramos em África, restavam ali apenas cinquenta. E em que pobre estado! Aleijados, esquálidos, vítimas de escorbuto ou alguma outra moléstia dos mares, não valeriam, todos juntos, mais que meio dobrão num leilão honesto. Logo notei que um deles, o mais alto, tinha os grilhões manchados de sangue. Aproximei-me e, para minha surpresa, vi que os demais se afastavam, temerosos, a darme passagem. Então, percebi: carregava o braço esquerdo comigo, a empunhá-lo como se um porrete fosse! Que impressão não devo ter causado naquelas almas pagãs! Mas, sobre o negro alto: tinha as algemas ensanguentadas. A seus pés, vi outro negro, morto — esse parecia de raça diferente, pois sua tez era mais clara que a dos demais — com a cabeça esmagada. Mas não havia miolos pelo chão. Alguns outros negros, escondidos nos recessos mais escuros, emitiam um ruído baixo, úmido, ritmado. Uma mastigação. Nauseado, dei as costas aos pagãos e voltei à coberta. Eles que se devorassem uns aos outros! Eu, como cristão lusitano, encontraria uma forma digna de me salvar, mesmo sem comida ou água potável. Agora, no entanto, sei que roubaram meu braço. Não sei como conseguiram se libertar das correntes, amada Marília; mas sei que eles, todos ou alguns, caminham livremente pela coberta enquanto durmo. Eu deveria passar as noites trancado numa cabina, mas o ar, filtrado pela madeira úmida, faz a ferida em meu ombro cheirar mal, portanto evito cercar-me de anteparas. Além disso, às vezes, temo, deliro, e perco os sentidos alhures.

Levaram meu braço esquerdo! Mesmo depois dele ter sido decepado pela descarga do mosquete do pirata lazarento, eu o mantinha junto a mim. Mesmo enquanto delirava, febril sob o sol desta latitude perdida, agarrava-me a ele; era meu último companheiro, pedaço de mim, derradeiro consolo. Levaram-no! Posso escutá-los, a festejar nos porões! Cometeram tamanha vilania enquanto eu dormia, querida Marília, dormia e sonhava contigo. Sonho que seria verdadeiro bálsamo, Marília de minh’alma, não fosse a luz fria de teus lindos olhos verdes, que logo se transformou no brilho do mar, silencioso e sedento de sangue; não fosse teu semblante, que logo trazia à lembrança teu pai, a mostrar-me a carta patente com o selo de el-rei, a autorização da Coroa para transportar negros ao Brasil. “Preciso de homem de confiança, homem de tino e que saiba ficar de olho, pois as tripulações dos negreiros são da pior corja dos mares”, disse-me dom Afonso, teu severo pai. E eu, doce Marília, na esperança de ter-te como esposa, ofereci-me. Mas disso tudo, já sabes. Só não sabes (e é provável que jamais venhas a saber) que, assim que a costa d’África desapareceu no horizonte, e o Santa Tareja rumava para as Américas, com trezentos negros robustos, presos a ferros, nos porões, fomos abordados pela pior canalha dos mares, piratas ingleses; e que, em vez de lutar, a tripulação contratada por teu pai concordou em unir-se à escória. Ante tamanha infâmia, insurgi-me; exigi, gritei, implorei. Como resposta, recebi uma carga de chumbo de mosquete no ombro esquerdo. Vi, num jorro de sangue, meu braço cair no convés, a contorcer-se em espasmos. E depois nada mais vi, pois a treva fechou-se sobre mim. Não sei quanto tempo permaneci desacordado, caído sobre a coberta, o sangue a vazar pela ferida no ombro. Se não morri, foi por intervenção de Nosso Senhor, abençoado seja. Se estivéssemos perto d’alguma terra, aves marítimas ter-se-iam aproveitado para arrancar-me cabelos, ou mesmo vazar-me os olhos. Mas estávamos longe das costas e, ao que posso imaginar, presos em mortal calmaria. Pouco sei das artes da navegação. A linguagem do mar, com seus traquetes e bujarronas, é-me infinitamente misteriosa. E, por isso, permanecemos à mercê dos ventos e do Bom Jesus.

Outro dia, 1685 Eu os vi! Ah, Marília, eu os vi! Noite passada. A caminhar pelo convés, três, não, seis, talvez sete homens negros, com o cheiro de peixe e água estagnada. Um deles, posso jurar, Marília minha, carregava algo que se parecia muito com meu braço... Mas, eles não o haviam comido? 30


Desci, a correr, até o porão. A choldraboldra acreditava poder enganar-me, pois fingiam dormir! Com a chibata, fiz acordar o negro alto, aquele que matara o escravo pardo. Ele parecia ser o líder. Interroguei-o. Como são teimosos e estúpidos esses negros! Precisei fazer o látego trabalhar até deixá-lo com as costelas à mostra para que o pagão admitisse saber falar português. Mas, imaginas tu o que me disse o tolo? Jactou-se de ser um “poderoso feiticeiro”, e que clamara pela ajuda de outros de sua tribo. “E onde estão esses ‘outros’, se encontramo-nos longe da savana, em alto mar?”, inquiri. “À volta, acima e abaixo deste barco”, respondeu o negro, e o fez com tanta soberba no olhar e insolência na voz que senti o sangue a ferver. Quando dei por mim, o infeliz bruxo jazia morto a meus pés, massacrado pelo chicote. Meu braço direito tremia, a arder em cãibras tremendas. Escarrei-lhe entre os olhos. Os outros, ao menos, teriam de que comer.

Sem data Morrerei esta noite. Marília minha, só espero que jamais leias estas linhas. Que jamais europeu algum venha a conhecer a maldição que pesa sobre nossa raça funesta. Mas, se leres, pergunta a teu pai quantos navios negreiros já cortaram este belo Atlântico. Vai além; pergunta-lhe quantos negros, doentes ou feridos, são jogados ao mar durante a travessia. Vai, mulher, pergunta-lhe! O normal, preciosa Marília, o aceitável, senhora de mio coração, assim estabelecido por nós, que nos dizemos cristãos, é que uma quinta parte dos escravos transportados pereça no caminho. E onde ficam eles? No mar, Marília minha, no mar que tem a cor de teus olhos.

E o que fazem, depois de devorados pelos tubarões, depois de despedaçados pelas correntes? Eles esperam, Marília. Esperam pelo Dia do Juízo de cada um de nós. Foram eles que vi a andar pelo convés. Foram eles que tomaram meu braço amputado. E sei que, esta noite, virão me buscar. Porque ontem o feiticeiro morto veio até mim, com algas e água salgada a pingar de suas costelas nuas, e disse-me isto. Mas, a despeito de tudo, sinto-me feliz. Porque… Devolver-me-ão, amada Marília, devolver-me-ão o braço esquerdo.

CARLOS ORSI, jornalista e escritor, é autor do romance Guerra Justa (Draco, 2010) e do volume de contos Campo Total (Draco, 2013).

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parque dos cães chico lopes

E

le explicava que, com uma vara de guatambu (guatam-bu, gaguejava, excitado, limpando um pouco a baba nos lábios), era uma pancada só na cabeça do bicho, se estivesse com raiva, e que já fizera isso duas, três vezes, de favor, para algumas senhoras. Olhava ao redor, procurando sentir o efeito da proeza narrada, mas ninguém o suportava, ninguém queria ouvi-lo: esperavam o ônibus. Vara de gua-tam-bu, repetia; talvez não tivessem entendido bem. Cachorro louco, só matando, e precisa ser homem para fazer isso, compreendem? Depois, penteava o cabelo, se aprumando no uniforme alaranjado de gari, porque chegava uma mulher. Para não ser abordado por ele, o magro escolhia assento lá no fundo do ônibus, e, tirando os óculos para esfregar os olhos avermelhados, mergulhava na leitura de um livrinho de capa violeta. A mulher que chegara por último mudara-se para o bairro recentemente e não cumprimentava ninguém, segurando sua sacola de feira como se aquilo fosse uma espécie de âncora, como se seu espírito precisasse ser atado a alguma coisa sólida e inequívoca para não lhe fugir. O velho das roupas azuis estava a postos, afável; ia para a cidade fazer nada, afundar passos nas alamedas da praça. O herói da vara de guatambu não parava de falar, nunca, ainda que ninguém se interessasse. No trajeto, ao passar pelo guincho, olhos que se voltavam para o carro destruído, falava-se então de outro dos acidentes fatais do fim de semana, alguém sabia quem eram as vítimas, lamentavam, devoravam minúcias, o herói garantia que com ele não teria acontecido, perito ao volante quando fora motorista de um doutor, os olhos brilhantes não desgrudando da carcaça para a qual todos os outros, exceto os da mulher com a sacola, estavam voltados. Uma lástima, uma maravilha. Quase não restara nada do Gol. Alguém apontava manchas de sangue num ponto da lataria. Ela olhava para as serras, exasperava-se com a lentidão do ônibus, porque o motorista já se habituara ao espetáculo do guincho e agia como se os acidentes constantes já fossem atrações previstas no preço da passagem. Um bêbado subiu, cambaleou um pouco, olhou para alguém ou algo que não estava ali, tirou o chapéu e desabou de viés, errático, num assento.

O pouco tempo de bairro já a fizera temer os cães. Era descer do ônibus, de volta das compras, e começar a correr, porque na esquina onde morava um homem solitário, a varanda cheia de pássaros e no quintal engradados de coelhos, os dois cachorros – um pequeno e preto, outro maior e meio pastor alemão – latiam para ela e, se estivessem soltos, iriam em seus calcanhares até que atingisse, esbaforida, o portão de casa. Odiava que os vizinhos mal olhassem para a sua aflição e se divertissem, alguns, às janelas e muros, com a fuga. Uma mulher que fazia pães tinha uma cadelinha que desenvolvera uma aversão empenhada por ela, um branquinho, outro amarelo, comprido e sujo, outro e outro, infindáveis, todos sem raça, hostis, repugnantes, ruidosos demais à noite, nenhuma providência da Prefeitura para recolhê-los, só de vez em quando algum morto por bolinha de carne envenenada. Merecido. Mas, para quê pensar nisso? Ao chegar em casa, Sissi a olhava fundo, de uma mirada cinza reluzente, erguia-se devagar do carpete cor de ferrugem e encostava-se à sacola, farejando presentinho. O único gato do quarteirão. Ela punha então o disco que trazia Andy Williams cantando “Moon river” e Doris Day “Secret love”, saía cantarolando junto, abria a gaveta do guardaroupa, retirava as fotografias, os postais, as cartas de uma caixa de camisa. Sissi subia na cama. * Parava no barbeiro, sempre, antes de embrenhar-se nas alamedas, e cansava-o ter que discutir com o velho do albergue espírita diferenças de religião; defendia um ponto de vista que o outro chamava de católico, talvez fosse, ele não queria isso, não entendia por que se metia a descrer com tanto ardor em obsessores, reencarnação e o mais se nem mesmo ia à igreja, há quantos anos não ouvia missa? O outro ficava muito vermelho, batia a bengala repetidamente no chão, e o barbeiro e seu freguês olhavam-no, alarmados, temendo que ele tivesse uma síncope ou que ambos se atracassem. Esperavam uma cena, na verdade, e das mais excitantes, mas, qual, dois velhos caducos! Ele se despedia com hostilidade. Dali, ia para o ponto da Neusa engolir café, e olhava para a amplidão da praça a esperá-lo. Dezenas de outros em seus bancos, tagarelas ou muito taciturnos, enfiados em jornais, esperando a definição do movimento das ruas, a abertura de algumas portas de comércio. Na praça, depois, podia conversar

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um pouco com o guarda do mictório, verificar a limpeza de folhas e restos de turistas que os garis iam executando, como se a vigilância fosse um seu dever de cidadão, irritando a todos com sua prestatividade, seus conselhos – “Se julga dono da cidade, esse bobo? Quer é ver a gente se ferrar; fica esperando uma cagada pra ir contar pro fiscal.” O chafariz de águas completamente sujas, aquelas caras, os pombos, o cansaço que lhe dava esperar pela hora do almoço, depois pela hora do café, depois pela hora do jantar. Tinha no bolso mais um daqueles artigos que levava, de vez em quando, para o diário, nos quais se queixava do descaso com as praças, os monumentos, a beleza da cidade. Assinava apenas Florivaldo, em homenagem a um dos muitos amigos já mortos, que às vezes também lembrava num artigo ou noutro. Alguém lia aquilo? Não. Mas ele os recortava com cuidado e os colocava numa pasta. Dona Assunta, da casa em frente, uma vez quisera vê-los, como se não acreditasse que pudesse ter morando em seus fundos esse prodígio: alguém que escrevia em jornais. Ele não gostava de pensar na casa dos fundos, no bairro, e por isso perdia os dias no centro da cidade, a quase dez quilômetros dele; morar lá era como confessar uma fraqueza, passar um atestado de insignificância, e quem quer que lhe falasse disso parecia fazê-lo com um desprezo todo justificado, que o invalidava até a ponta dos pés. Como não gostava tampouco que o julgassem inativo, que o confundissem com os demais, à espera da morte sob um sol maravilhoso, numa cidade a mais salutar possível, andava muito, procurava ajudar uma ou outra pessoa perdida com informações nem sempre precisas (como? então a cidade tinha bairros com aqueles nomes, havia ruas que desconhecia em absoluto?), tentava a regeneração dos adolescentes de brinquinho que se desgostavam por, depois de ouvirem a pregação, não receberem um troco para os games, o cigarro, a bebida. - Fora, velho cretino! Ora, nada de esmorecer. Dentro em pouco, de novo o barbeiro. Depois, o ponto da Neusa. Os pombos. Os olhos no Omega tirado do bolso. Para onde ir?

Sair para o almoço no restaurante vegetariano era outro suplício; estavam à solta os pecadores sem conta, como não notar que se empenhavam em copiar as grandes putas das revistas, como não notar os rapazes de camisa entreaberta, oferecendo pelos, e com aqueles volumes impenitentes arrebentando braguilhas? afora senhoras e senhores, criaturas que deveriam dar exemplo, praticando caminhadas e acreditando terem o dever de manter a forma, todos escravos de um imundo ideal de carne enxuta, sedutora, a ser oferecida à obra envenenadora da Besta. Mesmo no restaurante, onde ao menos encontrava um que outro membro da seita, tinha de esquivar-se ao olhar equívoco, ao suspiro ansioso de algum tipo que vinha urinar ao seu lado, muito perto, cada vez mais perto, conferindo e exibindo. Se tinha alguma paz, era na reunião, entre quatro e cinco da tarde, no pequeno salão aos fundos de uma farmácia homeopática, lá o orador, em bata violeta, lembrando a dura missão confiada aos escolhidos, consolando-os com a promessa de uma glória ímpar, de que os mundanos não tinham a possibilidade do menor vislumbre. Ajoelhavam-se, então, e confessavam todos os pensamentos ou atos impuros do dia, eram devidamente benzidos, e estavam livres para voltarem ao trabalho ou irem para casa. A leitura do livrinho violeta tinha de ser constante, quanto mais vezes melhor, porque nenhuma daquelas verdades devia sair-lhes da mente um instante sequer – do contrário, como defenderse? Ele mesmo, apavorado com a ereção que Nancy acabava de lhe provocar, não podia, às vezes, levantar-se para atender ao balcão, e ela, a hedionda, parecia saber de seu estado, com um sorrisinho triunfante, olhando no espelho da bolsa. Passos em direção a casa e, em sentido oposto, vinha o velho de roupas azuis que, no ônibus ou nas ruas do bairro, já tentara conversar com ele, fora rechaçado, mas nunca desistia; por isso, ou voltava a enfiar os olhos no livro ou virava a cabeça para cumprimentar alguém que não estava ali ou, se estivesse, não seria mais que um vago conhecido. Detestava também que o olhassem os bêbados, desocupados e apostadores do bicho da padaria, com uma curiosidade entre penalizada e divertida – como ousavam rir? Não sabiam a quê estavam condenados? Uma ou outra mulher grávida inspirava-lhe uma repugnância completa: aquilo era uma bexiga obscena que ele poderia estourar muito bem com um alfinete; vazada, dela sairia uma coisa indefinível, mole, sangrenta, a própria face do Nojo. Tinha também de chutar os cães, que o perseguiam com um vigor particular, e se apressava. Ao chegar em casa, evitar olhar a varanda do vizinho, onde era comum o rapazinho da casa estar com a namorada – como se beijavam aqueles dois, que esganação! Fechar todas as portas e janelas, mergulhar na leitura protetora, tomar banho sem olhar para baixo, não, para lá, nunca. Risos e sons parecidos a chupações lá fora. Ainda estaria ali, grudado ao ralo, um resto de secreção que lhe saíra, involuntária, tamanha a excitação provocada pelo arrulho da Besta? Soltar, então, mais água, toda a água que o chuveiro pudesse dar, e, depois, muitas vezes, esfregar detergente, desinfetante, fazer com o que ralo brilhasse, nenhuma partícula de Culpa. Dormiria mal, como sempre, com todas aquelas formas que o apalpavam na escuridão, com o tipo do banheiro do restaurante aproximando-se ofegante e abaixando-se, com

* Com a Besta dando as cartas em toda parte, em cada minúcia do mundo, todo cuidado era pouco. O pior estava ali, no escritório mesmo, e, por mais que se esforçasse, seu olhar acabava resvalando nas pernas oferecidas da Nancy, que se sentava a uma mesinha próxima e ia atender aos fregueses do xérox no balcão com um rebolado demoníaco, consciente de que aquilo o exasperava. Num de seus muitos devaneios de limpar o mundo dos excrementos da Besta, a funcionária nova ocupava papel determinante: começaria por ela a obra de higienização, obrigá-la a vestir-se até os calcanhares, a não usar pintura alguma, não olhar para homem que fosse, não mais cortar o cabelo ou tingi-lo, não mais se oferecer daquele jeito; se ela recusasse, não haveria outro remédio que não retalhá-la, e começaria pelas pernas, com o facão que afiava diariamente em casa, a princípio comprado para ter com que defender-se de algum possível ladrão (andavam pela vizinhança, depenando varais e levando botijões de gás). Na verdade, tudo indicava que teria que usar o facão, a figurinha não tinha escrúpulos. 33


Nancy oferecendo-lhe um ninho de pus, com alguém que o forçava a comer de garfo e faca pedaços de um feto, que era também um sapo, e lentamente. Então, acordar. E preparar para os miseráveis que não cessavam de latir, as bolinhas de carne, irresistíveis, que atirava à rua, com uma satisfação abafada, no escuro.

não poder viver sem ela), deixado a mulher e os filhos e a localizara; estava nesse exato momento chegando no último ônibus, já madrugada, e subindo a rua à procura da casa. Havia cães ao seu redor, como não haveria? – mas ele era forte, decidido, mal se importava, chutava-os, displicente, acendia um cigarro e calmamente subia a rua em sua direção. Continuava tão belo como o eleito que a abraçava no escuro do Havana, o bigode restituído, não mudara, não engordara nada. A questão seria agora abrir-lhe a porta. Tateando, tropeçando em Sissi, dirigiu-se para lá, não cuidando que a aparência devia estar péssima, não pensando em nada, e foi nítido o ranger do portão, a descida lenta dos degraus ela ouviu inteira, densa, vindo a seguir umas batidas fortes na porta – batidas de homem, sem dúvida. Abriu. No escuro, no incerto, o uniforme alaranjado brilhou. Demorou a entender que o abraço de reconciliação era um pouco apertado demais, que sua camisola começava a ser rasgada. Quando quis afastar o rosto que pesava contra a sua garganta, teve a mão torcida, ouviu um palavrão e reconheceu a voz. Depois de atirada no chão, viu-o abaixar as calças, e não se moveu mais. Era isso ou a vara de guatambu.

* “Wherever you´re going, I´m going your way”, cantava Andy Williams, e ela lembrava de Audrey Hepburn entrando na Tiffany´s com George Peppard enquanto lia a última carta dele, precisamente aquela em que dizia que estava para casarse e pedia, por favor, que não lhe escrevesse mais, pois Anete era ciumenta. Covarde. Por que nunca conseguira esquecêlo? Volta e meia, ia para M. apenas para andar pela praça onde namoravam, retornar às duas cadeiras infalíveis que ocupavam no cine Havana, entrar num bar onde tomavam sorvete, e achava-se estúpida, mas planejava novos retornos, resignada. Óculos escuros, tinha ido várias vezes ao bairro onde ele comprara uma casa de indefectíveis tijolinhos à mostra, a Brasília de segunda mão na garagem, só para vê-lo de longe, brincando com os filhos ou fazendo churrasco, de short, infelizmente muito gordo, e sem o bigode extasiante. Além de gorda, a outra era sardenta e tinha um jeito pouco feminino, ralhava com os dois meninos com uma voz desagradável; pior: uma vez fora vista e a mulher correra a trancar o portão, desconfiada, enquanto ela tentava parecer distraída, só de passagem. Melhor do que essas viagens era ficar em casa, recordar, ouvir os discos, rever as fotografias. Enquanto isso, esquecer que fizera uma escolha errada ao mudar-se para essa cidade, esse bairro. Não iria rebaixar-se, relacionar-se com ninguém. Não sabia o que era o pior, os cães ou aqueles olhares obtusos, que a julgavam suspeita ou desprezível só pelo fato de morar ali, os tipos da padaria, as comadres e as conversas no ponto do circular. No entanto, a paisagem era bela, e à tarde ela costumava ir até o extenso bosque de eucaliptos atrás do qual havia uma pequena represa, com um banquinho tosco, onde se sentava para ler. Frequentemente estava sob efeito de calmantes. E pensava como seria bom afogar-se naquele lugar tão imune aos olhares estúpidos, lentamente, não resistir, voltar a M., a ele, aos dias perfeitos. Desligava o toca-discos. Cães tinham entrado no quintal, ouvia com nitidez as patas, daí a pouco uns ganidos e algum vizinho gritava, chamando um Duque de volta. Era preciso conferir novamente portas e janelas: estavam muito bem fechadas. De novo no quarto, seguida por Sissi, e de novo o toca-discos – agora Cole cantava “once on a high and windy hill/ in the morning mist/ two lovers kissed/ and the world seemed still...” Sono confuso, não comera demais? Na cama, virava-se, e, lá do fundo, de um bairro que mais parecia uma aldeia suja de algum país oriental, vinha uma matilha veloz, a maior, a mais ruidosa e ameaçadora que já vira. Vinha em sua direção e só havia um lugar para onde ela poderia fugir: a represa. A escolha estava feita. Não, era melhor, era outra coisa: Jorge tinha, por um motivo bem preciso (o fato de simplesmente

CHICO LOPES (ou Francisco Carlos Lopes) é poeta, escritor e tradutor. Publicou o romance O Estranho no Corredor (Editora 34) entre outros livros. O romance recebeu o Prêmio Jabuti.

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dolores

cláudia marczak

N

asceu praticamente morta. Um parto difícil, a irmã gêmea, mais forte acabou morrendo logo após o nascimento. Ela não. Baixo peso, respirava com dificuldade, mas sobreviveu. Ficou relegada a um canto até a recuperação da mãe, sendo cuidada por algumas almas boas que tinham piedade de um ser tão frágil. Dias depois, quando viram que não iria morrer, resolveram levá-la à mãe que a aceitou de bom grado, afinal era o que restava. Recebeu o nome de Dolores. A infância foi difícil. Fraquinha demais, magrinha demais. Todas as doenças a procuravam. Conseguiu ter todos os ites que constavam na literatura médica. Sarampo, catapora, rubéola, roséola, coqueluche, tifo, difteria. As doenças infantis, sem exceção de nenhuma, habitaram seu corpo que resistia bravamente. Olheiras profundas eram a única lamentável cor de destaque na pele pálida e sem viço. Vitaminas, farinhas enriquecidas, orações, consultas a todos os especialistas tudo era usado para fazê-la vencer a morte. E Dolores vencia, rastejando entre os anos de meninice. Ela é muito forte pra aguentar tanta doença, brincava o pai. Entre frascos âmbares de remédios, injeções curativas e internações necessárias, Dolores fez-se adulta. Uma adulta de aparência tão frágil quanto a criança que fora, encantou os olhos de um rapaz que desejava livrá-la de tantos males. Casaram-se, como era o costume, tiveram filhos, como era de hábito. Gestações complicadas, partos dificílimos, pariu cinco filhos. Os filhos, três rapazes e duas meninas, diferentemente da mãe eram fortes, sadios. Cresceram ajudando o pai a cuidar das doenças da mãe, que não desistiam de atacá-la. Tudo o que Dolores pedia em suas orações era só mais um dia. Falava para os filhos que não era ambiciosa para pedir muita coisa, muitos anos, a saúde que nunca a pertencera. Pedia apenas mais um dia para conseguir vencer sua luta contra a morte, sua prenda do dia natal. Todos os dias, durante milhares deles o pedido era o mesmo, chegar até a próxima manhã. Assim, de pouco em pouco, Dolores foi caminhando pelos anos. Muitos deles. Dezenas deles. Enterrou o marido, pobre coitado, de uma doença quase que pior que as dela. Enterrou os pais, irmãos, irmãs. Enterrou três filhos, restando apenas um casal para ampará-la na velhice, que agora a arrastava. Amigos, médicos, enfermeiros, cuidadores, um por um, como o seu pedido por dias, Dolores ia enterrando. Sofria a cada morte. Não sofria

tanto o quanto julgava necessário, pois se sentia vitoriosa. Ela permanecia lá, com todos os seus males, sobrevivendo, como no primeiro dia, enquanto os fortes caíam aos pés da morte. Algumas vezes pensava ser eterna e que todas as outras pessoas iriam e a deixariam ali na eternidade de sua existência frágil, dia após dia. Sabia que não. Que um dia a morte chegaria, entraria pela porta e a tomaria em seus braços com carinho. Dolores era um desejo antigo dela. Havia um dia seguinte que era mais especial que qualquer outro dos seus dias vencidos. Era o dia do seu centenário. Tão poucos conseguem vencer um século inteiro e, justo ela, de corpo tão debilitado pelas inúmeras doenças, estava prestes a comemorar cem anos. Ansiou por essa data. Seria a vitória final. Depois disso poderia morrer, partiria sem pedidos para encontrar os seus do lado de lá. Acreditava que haveria sim um lado de lá muito especial, principalmente para pessoas raras como ela. Cumpriria assim seu centenário com uma celebração simples, mas simbólica. Pedira um bolo colorido, como os do tempo de criança, com glacê de claras e bolinhas cinzas, daquelas duras de morder. Na mesa deveria ter as fotos do marido e dos filhos. Balas de coco, ponche, guaraná eram imprescindíveis. Depois desse aniversário poderia ir embora tranquila. Qualquer outro dia, qualquer outro ano. Venceria um século. Venceria a morte, sua perseguidora implacável. A noite da véspera foi insone. Não conseguia pregar os olhos, aguardando o momento de apagar as cem velinhas, outro pedido imperioso. Levantou-se no meio da madrugada para certificar-se de que tudo estava nos conformes. Não acordou a cuidadora, nem o filho que dormia no quarto ao lado. Queria mesmo ir só, verificar cada detalhe da festa. Arrastando os chinelos chegou à cozinha escura. Ela estava lá. Certamente era ela. Capuz escuro, rosto baixo. É certo que a achou meio franzina, mas isso não tinha a menor importância naquele momento. Ela viera para a batalha final. Na penumbra da cozinha ela a olhou. Assustaram-se. O tão temido encontro finalmente estava ocorrendo. Dolores a olhou com firmeza. Não, definitivamente ela não a levaria agora, na véspera de seu centenário. Maldita! Sempre a perseguindo, como uma sombra, achincalhando seu corpo com tantas enfermidades, as quais resistira bravamente por quase cem anos. Era uma velha conhecida de batalhas, por isso se permitia a olhá-la assim de frente. Hoje não. Ia dizer agora o que estava guardado em sua garganta há tempos. A 35


figura horrenda levantou-se. Realmente era franzina. Levou o dedo indicador à boca, ordenando silêncio. Tinha o olhar grave. Embora as sombras a cobrissem, não a achou tão feia. Na mão direita empunhava uma grande faca gasta e pontuda. A faca que cortaria o fio da vida. Tinha ouvido uma história assim quando criança. Ou seria uma foice? A idade levava as lembranças embora. — Eu sei o que você veio buscar. Dolores falou sussurrando para não despertar os outros. O que diriam se a pegassem conversando com a morte? Ela sim, ali, materializada na sua frente, capuz no rosto, faca na mão e lhe dando ordens. — Sabe? Incrédula, a morte falava também de modo quase inaudível. — E digo mais, maldita. Hoje não! Procurou controlar sua voz para não gritar e expulsá-la dali como quem espanta as moscas do prato. Viu um sorriso sarcástico brotar nas feições dela. — Ah, dona, não me diga o que fazer! Hoje quem manda aqui sou eu! Dolores sentiu um frio percorrer sua espinha. Não é que a danada vinha realmente lhe buscar? Poderia ter morrido em qualquer dia, em qualquer ano. Ao nascer, com os ites de criança, com o tifo os sete anos, com as doenças da infância e adolescência, com os partos (e seria até como uma mártir dando a vida por seus filhos), mas ali, agora, na véspera dos seus cem anos, não. No entanto a morte ditava os comandos. Negociaria com ela. — Volte amanhã. Amanhã à noite e aí você pode pegar o que veio buscar. Achou chato usar para a própria morte a palavra matar. — Nem amanhã, nem depois, dona. Eu quero agora. As negociações não estavam dando certo. A morte permanecia irredutível, queria levá-la. Que tivesse dó dela, ora bolas! Um século lutando contra ela. Em outras ocasiões não acharia ruim. E em meio a tantos pensamentos sentiu a morte atrás de si. Em um pulo rápido a danada posicionarase junto a ela, com a faca apontada para seu pescoço e a outra mão impedindo seus movimentos. Estava acuada. — Agora, dona! Dolores tentou com todas as suas forças desvencilhar-se da armadilha na qual caíra. Em vão. Sentiu os braços da morte a apertarem num abraço mais forte. Tentou gritar. Sentiu a lâmina fria e enferrujada da faca pontuda penetrar-lhe o pescoço num golpe certeiro. O sangue quente, em jorros, correu pelo seu corpo a levando sem vida para o chão frio da cozinha. Ela vencera. Dolores ainda olhou-a durante a queda. A maldita a olhava impassível. O baque seco do corpo de Dolores no chão acordou a casa. As luzes se acenderam. Uma voz surgiu da janela. — O que você fez, maluco??? O moleque de capuz e a faca, agora ensanguentada, nas mãos permaneciam imóveis olhando o corpo no chão. — Cê é burro mesmo, cara! Matou a velha! Era só pegar a grana! Vaza daí! O moleque partiu assustado pela janela estreita, levando a faca, o sangue e a morte de Dolores nas mãos.

CLÁUDIA MARCZAK é escritora, psicóloga e professora. Em setembro lançará pela Editora Penalux seu primeiro romance, A flor da pele.

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PARQUE TRIANON CLAUDINEI VIEIRA

T

 arde ensolarada em São Paulo, Avenida Paulista. Isto é, quente, abafada e poluída. Barulho, sujeira e fumaça. Isto é, tudo dentro da mais absoluta normalidade. Pedro soube, portanto, que havia feito besteira de comer feijoada no almoço. Barriga pesada, ainda tinha alguns minutos antes de voltar, enxergou um banco amplo em frente ao Parque Trianon, um oásis inesperado, estava vazio, debaixo de algumas árvores que sobravam por cima do parque, não se ligou na absurda impossibilidade daquele banco. Porque, além, tudo correto, a feirinha hippie, os camelôs, os passantes, o chinês do yakissoba aproveitando a ausência do rapa. Sentou, respirou aliviado, a sombra era mais fresca do que imaginara, tirou a garrafinha de água já não mais gelada, pensou no serviço a ser completado, pensou em sua namorada que trabalhava no mesmo ramo mas em outra empresa no lado oposto da cidade, pensou que teriam que desmarcar o encontro do final-de-semana, ambos trabalhavam, pensou no serviço farto a sua espera, pensou em sua mãe (...), e um tanto de preocupação para que terminasse logo aquela marcha-dos-estudantes-contra-o-aumento-da-passagem-doônibus pois ainda teria que visitar um cliente no final da tarde. Dispôs-se, afinal, a levantar e encarar o escritório quando percebeu que não estava sozinho. Um senhor careca, mirrado, terno, calça, gravata, impecáveis, limpérrimas e até pareciam... lisas demais, muito retas (Pedro estava querendo dizer para si mesmo que as roupas do seu agora-companheiro-de-banco estavam Engomadas. Mas como nem conhecia esta palavra, então não se disse nada). Aquele senhor lia um jornal, e era bem empertigado, coluna ereta, cabeça levantada, os sapatos (estava esquecendo dos sapatos) brilhavam de graxa, e era muito ... careca, quer dizer, sobressaía, nem era uma questão de idade, pois não tão velho assim, um crânio moreno bem chamativo. Havia até mesmo uma certa aura de ridículo a sua volta, embora se identificasse também uma certa dignidade. Terminou uma linha do texto, e enquanto virava a página do jornal, voltou-se para ele e disse: - Como vai, Pedro? Ótimo! Além de ter sido pego no embaraço flagrante de olhar direto na cabeça do outro, Pedro ainda se viu mais uma vez naquela maldita situação de ser cumprimentado por alguém que não tinha menor idéia quem fosse. E, apesar

de se orgulhar de uma perfeita memória visual (‘fotográfica. nunca esqueço um rosto, mesmo que não lembre do nome’), neste caso não houve nenhum tipo de lembrança. Ficou sem saber o que responder, e deve ter transparecido, pois o senhor disse, agora com um sorrisinho simpático: - Não se preocupe. Certo. Não se preocuparia, então, Pedro. Estava tudo bem. Definitivamente, um ‘não se preocupe’ era a última coisa que esperava ouvir. Olhou para um lado para o outro, olhou para o senhor, que voltara a ler o jornal, sem parecer que estivesse perturbado. Por que estaria? - Desculpe, com licença - os olhos daquele cara eram de uma impressionante fixidez - Eu ... não lembro de onde nos conhecemos. Foi daqui da cidade mesmo? O velho (afinal de contas, tinha muito mais idade do que parecera a princípio) pausou um instante, abaixou o jornal e disse: - Você trabalha naquela agência de publicidade com um nome italiano. Mazzuchero, Mazzuchiro... - não foi uma pergunta. - mazzucharo. Sim, é isso mesmo. - Então. Foi um ‘então’ explicativo, que se pretendia definitivo. Continuou mantendo o olhar fixo até Pedro murmurar um baixinho “ah, sim” e retomou ao jornal. Pedro começou a se sentir meio incomodado. Algo não estava certo, não senhor, não estava. Quem sabe, um início de azia. Ele preparou uma palavra de despedida, mas antes que se levantasse, o velho falou olhando para o outro lado da rua: - Que garoto besta! Pedro olhou também, mas não enxergou nada. Isto é, viu muita gente, muita coisa, nada chamou sua atenção. Levantou-se sem dizer nada, um tanto embaraçado, tentou falar sua famosa palavra de adeus, de repente na outra calçada um tumulto. Pelo que pôde perceber, um trombadinha agarrara a bolsa de uma mulher e saiu correndo. E entendeu o comentário: logo na esquina, três passos de distãncia, um par de pms, puro azar, desleixo, falta de atenção do pivete. - O pior é que não tinha nada de valor naquela bolsa. Nisso, Pedro teve que sorrir. O velhinho tava zoando da cara dele, queria convencê-lo de que adivinhou as coisas. Era algum truque. Pegadinha. Tinha que ir embora. 37


- Tenho que ir embora. Voltar para o serviço. Prazer... ver o senhor, hein. Cuide-se, hein. - Cuidado pra atravessar a rua. Pedro escancarou o sorriso, agora. - Sem dúvida. Tomarei cuidado, sim. A gente se vê. O velho não respondeu, entretido. Pedro parou no semáforo, olhou para trás, o olhar fixo de novo, fez um gesto com a mão, um tipo de aceno, sem resposta. Aí, a questão pegou Pedro de vez. Há muitos anos não havia bancos de sentar em frente ao Trianon!, nem ao longo da Avenida Paulista, pois os mendigos acabavam usando-os como cama ou mini-casa. Apertou os olhos: até onde viu, dos dois lados, continuava não tendo mais nenhum. Somente aquele único. O sol a pino, a feijoada pesava, o trabalho acumulava e o esperava, nunca atravessou a rua com tamanha atenção em toda a sua vida, voltou-se na calçada, o velho empertigadodemais ainda o olhava, sentado em um banco que não poderia existir.

CLAUDINEI VIEIRA

é poeta avulso, resenhista e cronista literário (e de cinema e cultura pop, em geral) de vários sites literários e de cultura, autor de Desconcerto (contos, ed. Demônio Negro).

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bom de briga david dinamarco

A

blindagem do fraco é prostrar-se na inferioridade. É fazer de sua fraqueza um passe-livre para transitar no território fortificado. É cômodo ser o fraco, o vitimado, o bullyinado. Ingressar nas brincadeiras para ser o “bobinho”, a “cabra-cega” só para ter a vaga garantida. Difícil é invadir um espaço alheio protegido e interditado. Mas, quando o fazemos, ganhamos, no mínimo, respeito. Naquela escolinha rural, o forte era Dilsinho. Viu em mim o recém-chegado que teria de pagar o preço por ser forasteiro, por chiar na pronúncia dos ss finais. No caminho para a sala, gritou: “carioca da bunda choca!” Revidei: “Choca é a galinha da tua mãe!” Dilsinho partiu em minha direção muito disposto. Com a musculatura trabalhada pela lavoura, acertou-me muitos cachaços que eu revidei com menor eficiência. Em meu primeiro dia de aula, adentrei a sala com a cara vermelha e beiço rachado. A professora, a quem chamávamos de Dona Santa, era uma senhora obesa e gritona. Usava de três métodos para punir os alunos bagunceiros e com dificuldades de aprendizado: cadernadas, beliscões e saraivadas com uma peça de metal que usava para apontar no quadro. Meu bom aproveitamento e discrição retardaram as primeiras agressões de Dona Santa. Até que um dia ela me perguntou: “O que comeu no café?” “Pão e café-com-leite.”, respondi. Ela gritou: “Se diz leite com café!” “Qual a diferença?” A professora não tolerava respostas que fugiam ao repertório de seu gabarito. Para deleite da garotada, minha pergunta foi motivo suficiente para duas cadernadas no coco. Minha inteligência de menino alfabetizado pela vó irritava Dona Santa e causava inveja nos colegas. Dilsinho e sua patota se aprumaram na hora da merenda. Furaram fila e vieram para perto na intenção de me sacanear. Eu tinha uma caneca de mingau quente à mão. Antes que me aplicassem a camade-gato, tratei de atirar o conteúdo nas fuças de meu inimigo. O comparsa, que agachado aguardava o empurrão, ganhou de mim um tiro de meta na barriga. Os alunos estancaram surpresos. Aproveitei a paralisia geral e cobri Dilsinho de chutes e socos. Formou-se plateia. Dona Santa fez questão de me guinchar pela orelha até a sala da diretora. “Menino ordinário, sô! Onde já se viu queimar o coleguinha com mingau!? Capeta! Tá suspenso!”. A partir de então ganhei seguidores e tomei conhecimento de meu poder. Minha agressão nada mais foi do que a consumação da vontade de muitos.

Minha força não era física obviamente. Meus pais tinham uma condição financeira superior se comparada a dos habitantes da região. Luz elétrica, rádio e televisão em cores. Convidava os colegas para irem à minha casa brincar. No final da tarde, minha mãe servia guloseimas que as crianças devoravam sem cerimônia. A farta hospitalidade ajudou a formar meu grupo de amigos: Os irmãos Angeli e Erli, André Boi e Fimose. Este último era assim chamado porque sua cabeça era colada entre os ombros. Pescoço ali parecia não existir. Apesar do apelido, Fimose não era por nós achincalhado; era digno de uma nesga de consideração. Em nossa companhia, Fimose deixava de sofrer as humilhações de sempre. Fazia também minha política dentro da escola. Botei pra jogo uma bola de couro costurada a mão. A molecada alucinou. A pelada da hora do recreio ganhou adeptos empolgados e eu me tornei o “cara”. Os adversários tinham um bom motivo para me querer por perto. Caso contrário, teriam de jogar com a surrada bola de borracha cheia de remendos. O futebol do recreio se dividiu em dois tempos: o antes e o depois da minha chegada. Aproveitei a condição de dono da bola e passei a organizar o futebol dos caipiras. Formamos cinco times e montamos um campeonato. Dilsinho e seu bando passaram a me respeitar e aquela rixa foi sublimada. Medíamos força nas partidas de futebol, no bafo, na disputa de gudes. Volta e meia, a gente se topava de atiradeira na mão à caça de passarinho. Mal nos falávamos. Apenas trocávamos olhares desafiadores e cusparadas ao chão. Brotou uma parreira de respeito entre nós. Quando iniciei o terceiro ano ginasial, tinha minha popularidade elevada às alturas. Bom de bola, inteligente, boa praça e cheio de marra A combinação me rendeu o apelido óbvio: carioca. Com minha identidade formada, espaço conquistado e amigos, ir para escola se tornou um prazer. Meus contendores foram ofuscados. Restava a Dilsinho praticar suas vilanias com os meninos do primário. Passei a reparar nos sorrisos que fã clube feminino espalhava sobre mim. Eu acolhia todos os olhares e retribuía de forma comedida. Nunca respondi a nenhuma cartinha apaixonada. Limitava-me a chupar faminto as bocas das meninas no terreno baldio atrás da escola. Quando tentava lhes levantar a saia, era repreendido. Fingia sossegar as mãos para começar de novo aquela lida. 39


Satisfação maior ainda encontraria fora do colégio. Marciana, aluna repetente, com considerável defasagem idade/série, trabalhava feito homem na propriedade de sua família. O Pai, Seu Inácio, era um inútil pra lavoura. Só bebia e reclamava da doença que lhe comera a perna. A mãe cuidava do caçula e fazia doces para pôr à venda. Marciana tinha de fazer um trabalho alienígena para as mulheres locais. O pasto por onde tocava cinco cabeças de gado era próximo à minha casa. Com pena, minha mãe mandou que eu levasse um pedaço de bolo para ela. Quando ao curral cheguei, pude bem ver suas costas sardentas enquanto ela separava o bezerro da vaca. A cabeleira desgrenhada, o rosto todo marcado por sardas, o corpo coberto por um vestido surrado exerceram sobre mim um fascínio. “A mãe mandou pra tu.” “Ocê subiu até aqui só pra trazê esse bolo pra eu?” “É”. Desde então, nossos encontros pelo campo se tornaram regulares. Na escola, o contato se restringia aos olhares prolongados. Não demorou mês, Marciana rolou comigo pelas moitas de capim braquiária. Tirava a roupa de baixo e levantava a saia. Exibia o sexo coberto pela relva castanha. Nossas tardes de inverno se acabavam naquele primitivo folguedo. Nosso encontro secreto só tinha fim quando o sol sumia. A mãe, já atinada, deixou de enviar os quitutes. Reclamou dos assaltos que eu promovia na despensa. E constatando que eu regressava com a roupa pejada de carrapicho e o corpo castigado pelos carrapatos, tratou de reclamar com meu pai. O pai se riu: “Êta ferro! Deixa o menino, sô! Isso é sanha de garrote atrás de vaca amojando!” Estava mesmo encegueirado. Neguei até convite de férias no Rio. Não queria ficar um dia sem ter Marciana. Os domingos sem minha pastora se arrastavam até a hora da missa quando finalmente eu pousava meus olhos sobre ela que, muito sem-graça, ajudava o pai a se locomover. Percebendo minha inquietude, mamãe ralhava: “Sossega, menino! Mas que sanha! Respeite a casa de Deus!” Deus bem sabia por onde andavam meus pensamentos. Na escola, minha postura mudou. Menos piadista, mais sisudo. Agarrei no pescoço de André Boi que tentou levantar a saia de Marciana na fila da merenda. Assustado, Boi se desculpou. Nunca mais o convidei para minha casa. Na hora do futebol, aproveitava as bolas fora do campo para procurar Marciana. Sorria por dentro quando a encontrava corando no sol, apertando os olhinhos pra mim. Dedicava todos os meus gols a ela. Corria para o lar pensando naquele corpo pintado e castigado de carrapato. Dilsinho nada tinha de bobo. Assim que terminou nosso confronto do qual saíra vitorioso, Dilsinho não “lerou”, não mencionou minha derrota. Observou que eu estava vulnerável. Descobriu minha Kriptonita. “Ocê tá de namoro com a vaca malhada, heim?” Nem respondi. Saímos no braço. Minha ira era tanta que compensou minha falta de robustez. Com os uniformes lavados de poeira, fomos para sala da direção. Nova suspensão, dessa vez, para ambos. Depois do incidente, o boato se derramou de maneira contínua como o sangue que minava de meu nariz e se espalhava lentamente pelo branco da camisa. Marciana passou a se esquivar. Negou meus convites, meus agrados,

desviava o olhar. Passou a subir para o curral acompanhada do irmão menor. Recusou a broa de fubá que roubei da despensa. Senti a dor da perda. O sofrimento maior me abateu quando flagrei Marciana subir na garupa da bicicleta de Dilsinho na hora da saída. Caí em tristeza profunda. Fiquei uma semana sem ir à escola, vagando pelas trilhas e pastagens incertas. Rejeitei a companhia dos amigos, os convites para pescar no ribeirão. Queria mesmo é ficar a sós com minhas lembranças, remoendo a dor do golpe que eu sofrera e que não poderia revidar. A mãe percebeu minha depressão. Fazia perguntas disfarçadas de desinteresse. Era toda atenção para comigo... Tinha a desfaçatez das mães ao me perguntar se eu não iria passear pelo pasto feito um garrote vadio. Feliz, contou para meu pai que meu corpo estava livre dos parasitas.

DAVID DINAMARCO

é contista, vive no Rio de Janeiro. Publicou o volume de contos Desenrolo (Oito e Meio).

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medusa

delfin

I: Vigiando o dono do universo

acima do mundo e finalmente chamar tudo aquilo de seu, nem que seja por um tempo limitado. O assistente trabalha com uma marreta e com chaves. Está claro que não compartilha daquele momento mágico com o seu superior. De algum modo, percebo que ele não deseja nada daquilo. Não tem inveja alguma de seu patrão. Não quer nada demais, não precisa de nada além do que possui. É um homem conformado. A chuva agora aperta e o pedreiro é tirado de seu reinado pelo assistente, que apenas olha para todas as antenas muito próximas, num movimento de zelo por sua saúde, pensando que prefere não cair nas mãos de um médico qualquer do plantão de um hospital municipal, se algum acidente acontecer. Nenhum dos dois segue qualquer norma de segurança vigente nos últimos setenta anos. A não ser que calça, camiseta e chinelos agora sejam a norma. Acabo tendo que me voltar para o universo incauto que me cerca. Ele é regido por livros, tem muita sujeira pelo chão e pelas paredes, um aspirador de pó quebrado, garrafas de bebida vazias espalhadas pela casa e um computador precisando de mais espaço em disco para conteúdos ilegais. De muitos modos, eu me identifico com este pedaço do mundo que faço questão de dedicar a mim, a mim apenas e a mais ninguém. Nem sempre foi assim. Foi necessário que algumas mudanças acontecessem para que novas experiências fossem acrescidas à memória das paredes. Desse jeito, elas puderam assimilar em si, de modo decisivo, a própria percepção da verdade, à qual sou subjugado e, enfim, na qual acabo acreditando, com doses de convicção e realidade. Eu estava convicto de que paredes amarelas ativariam meu lado mais criativo e, então, qualquer tristeza passada seria compensada pelo meu intelecto autossuficiente. Eu não contava que a chuva desses dias fosse também um inimigo. Dias chuvosos, em que não há torrentes tão forte scomo num temporal, mas que sejam bem mais fortes do que dias de chuviscos, são convidativos para que eu saia pelas ruas e faça bobagens como andar sem guarda-chuva, sem documentos e cantando músicas em minha cabeça, como fazia lá pelos meus dez anos de idade. Era assim que acontecia quando eu era criança: quando estava a fim de me pôr à parte de tudo, pensava numa canção e, em minha cabeça, começava a cantarolar. Na minha mente, soava como conjuntos sonoros de hmms e ohmms.

Há um pedreiro no prédio vizinho. Está no topo da cobertura. Sei que ele pode me ver. Prefere não ligar para o fato de que também posso vê-lo. Há um assistente junto dele. Ou será o contrário? O que eu chamo de pedreiro veste verde e parece ter mais iniciativa. O outro veste amarelo e tem uma postura servil. É sempre curioso notar a hierarquia entre aqueles que estão muito abaixo de qualquer grau de poder econômico ou social. Sempre tem quem mande e sempre tem quem obedeça. O de verde parece dar ordens o tempo todo, pelo jeito que ele parece gritar e o modo quase militar como balança o dedo na cara do outro. O pedreiro está acima de tudo no prédio mais alto da região, que fica, coincidentemente, defronte ao meu. Ele aponta para o céu e para frente, depois tenho certeza de que olha para mim. Quase gargalha enquanto o seu ajudante também olha em minha direção, decerto triste. Estão tomando chuva e trabalhando, enquanto eu posso trabalhar do mesmo modo, mas num ambiente seco e bebendo um gole de bebida quente. Então o pedreiro chamou a atenção do outro. Deve ser necessário trabalhar. E trabalhar muito. E bem rápido. Afinal, é véspera de feriado. Estão na cobertura, sempre muito movimentada. Percebo daqui as grandes festas que sempre acontecem naquele prédio, as pessoas que aproveitam essas reuniões até altas horas para se libertarem de qualquer amarra social. Do alto do arranha-céu, agem como deuses, como se pudessem tudo, ao menos naquelas noites. O pedreiro sabe que está acima disso, está no telhado da cobertura, está molhado, está feliz e molhado, está apontando para o céu e abre os braços sem dizer palavra. Está de cabeça erguida em direção às nuvens, e é provável que pense em como aquele momento é abençoado para ele; em como finalmente está acima das pessoas que estão acima dele; em como Deus, em sua divina grandeza, lhe permitiu viver até aquele momento, em que um simples pedreiro pode estar 41


Eu só queria me isolar quando estava em algum ambiente que não me agradasse. Ou seja, em todo lugar que não fosse nem em frente à televisão, nem na biblioteca da escola. Estudei em um colégio de freiras, de ensino tão bom quanto terrível. A maioria dos professores era limitada pelo currículo imposto por carmelitas, que tomavam conta do lugar. O grande erro dos pais é acreditar que um lugar assim, necessariamente, irá tornar os filhos pessoas muito boas, cultas, santas e amorosas. A não ser que um filho seja inocente a ponto de acreditar em tais benefícios, isso certamente não acontecerá. Seria preciso que os pais não tivessem um pingo de senso crítico e fossem por demais crédulos, também. Para meu infortúnio, pude ter tais pais e ser tal criança. Uma situação como essa podia ser agravada. Fui, durante todo o meu convívio com aquelas pessoas, o caçula de todas as classes. Por isso mesmo, mais imaturo do que os demais alunos de qualquer série. Ainda que o meu intelecto, em boa parte das vezes, fosse superior ao daquelas pessoas. Então, eu era crédulo, inocente, inteligente e sujeito, portanto, a todo tipo de chacota que uma criança pudesse aturar quieta. Era necessário que eu ficasse quieto. Minha casa nunca foi um ambiente onde eu pudesse dialogar abertamente. Principalmente com meu pai, um trabalhador que aprendeu, na infância, que pais deveriam ser durões e indiferentes com seus filhos. Não era raro, portanto, que eu entrasse naquele mundo musical que era só meu quando ele começava a fazer o que hoje é muito bem denominado cagação de regras. Quando cursava a sexta série, em uma aula de matemática bem chata, comecei a cantarolar para mim. A professora, uma gorda prolixa de vestidos floridos e óculos de aros acrílicos vermelhos, interrompeu a aula e esperou até que eu a olhasse nos olhos. Então, ela perguntou se eu não gostaria de compartilhar aquela música com a classe. Que caiu numa gargalhada maldosa. Foi duro descobrir que todo mundo tinha acesso àquelas músicas que julguei serem só minhas. Desde então, apenas a chuva sabe das canções. Por isso, saí. Cantar na chuva me faz um bem enorme. Mas também, como eu disse, é um tremendo algoz, atraindo todo tipo de situação. Pois, como é de meu hábito, prefiro não mais ligar para o que dizem sobre mim. Assim posso ser como acho mais certo que eu seja. Se as situações acontecem, é melhor encará-las do que me calar, como fiz quando aquela mulher me enquadrou no meio de uma aula de geometria. Então, quando a velha senhora aparece na minha frente, vinda de lugar nenhum, já sei que não devo estranhar. Ela se veste bem. Já o rosto tem um aspecto pouco amigável. Usa uma saia longa, joias e não preciso ser muito esperto pra saber que se trata de uma cigana. Os ciganos não gostam de ser tratados assim. É como chamar um negro de tiziu. Não tem nada a ver com ser ou não politicamente correto. Tem mais a ver com o fato de que os roma, ou romani, foram muito mais perseguidos e injustiçados durante a história recente do que os judeus. Então, sua sociedade fechada, cheia de códigos e simbolismos, se justifica. Aprendi com um tio que todas as casas de um bairro rico da cidade, próximo de onde morei a maior parte da minha

vida, tinham sido compradas pela tal ciganada. Palavras dele, como me foram ditas. Apesar de hoje saber de toda a história que envolve o povo roma, prefiro chamá-los de ciganos, apenas para maior compreensão. De outro modo, parece sempre que falo de italianos. A cigana nem precisa me perguntar nada. Eu estou, como gosto de estar, sem dinheiro e sem documentos. Como nunca ando com relógios e meus sapatos geralmente são comprados em saldos de balanço, não via muito motivo para ser interpelado. Ainda assim, ela decide falar comigo. – Você canta bem. – Valeu. – Deve ser bom só cantar na chuva. – Olha, eu tô sem nenhum dinheiro aqui. – E nem todo mundo que eu conheço ainda sabe as músicas da Gigliola Cinquetti. – Na verdade, a música é do Domenico Modugno. – Menos gente ainda sabe disso. – Olha, eu preciso ir. – Se eu souber algo que você não saiba sobre a música, posso ler a sua mão? – Não sei muita coisa sobre a música. Não seria justo. – Então deixe que eu diga algo que você saiba. Assim pode ser? Eu só sei mais algumas coisas sobre a canção, e a maioria delas não era mesmo nada que alguém normalmente soubesse. – Domenico escreveu para mim. Porque eu pedi. E ele comentou isso com os juízes do Eurovision. Por isso ele levou o primeiro zero que alguém já levou no concurso. Fico meio perplexo. Sei que a canção tinha sido um fracasso no Eurovision, o concurso que mais enterra talentos musicais promissores na Europa. Sempre achei que essa decisão tinha sido uma espécie de benção para o Modugno, pois ele já era famoso quando isso aconteceu. Se tivesse vencido o festival, vai saber que tipo de revés maligno e sobrenatural poderia ter se abatido sobre sua carreira. – A senhora sabe sobre o zero. Mas como eu vou saber se o resto é verdade? – Não pode. Dome morreu já faz quinze anos. Chorei muito. – Não vou dizer que isso foi um truque, porque algo em mim faz com que eu queira dar uma chance pra senhora. – Eu me sinto honrada. – Aprendi algumas coisas sobre os roma recentemente. Espero ser tratado também de modo honrado. Ela me olha como se eu tivesse descoberto um segredo. Falo bem sério, também. Faz questão de arrumar o seu cabelo frágil e perguntar se podemos sentar no banco da praça em frente. Concordo. Uma das coisas interessantes nesses momentos de surpresa, em que palavras inesperadas saem das bocas sem consequência, é que tudo soa sincero e passa a existir um momento de cumplicidade, que é o que está acontecendo. – O que você espera? – Desculpe, mas eu não espero nada. Mas gostaria muito de saber o que a senhora poderia me dizer. – A sua linha da vida está sumindo. 42


Não é algo que gosto de ouvir. Ela continua. – Eu quis dizer que seu potencial de vida está diferente do que pode ser. Vê a diferença? E ela mostra como as linhas são diferentes entre uma mão e outra. Tanto a minha linha da cabeça como a do coração seguem o mesmo rumo. – Você não é feliz. Tenta ser, mas não é. Sigo quieto. – Alguma coisa em você não está direita. Tudo o que eu vejo mostra que as chances foram sendo tiradas de seu alcance sempre que eram passíveis de acontecer. – Por que a senhora diz isso? – Eu tenho certeza do que digo. Você deveria ter a rédea de sua vida, mas não tem. – Algum jeito de melhorar isso? Procuro dizer como quem duvida. Sei que ela tem toda a razão. – Eu poderia lhe dizer para seguir os seus instintos. Para confiar mais em si mesmo. Não estaria mentindo. Mas você me tratou bem. Então, vou lhe dizer uma verdade mais palpável, para que acredite em mim. Você precisa ver através do espelho. O quanto antes. – Que espelho? – Você vai saber quando chegar a hora. O espelho esteve diante de você algumas vezes e foi ignorado. Quando o vir de novo, pode ser a última oportunidade. Por favor, não a desperdice. Ela solta a minha mão. Não sei o que fazer. – A senhora sabe que estou sem dinheiro, não sabe? – Sei. – Por que me parou, então? – Tenho mesmo saudade dele. E sai cantarolando Dio, come ti amo, mesmo eu sabendo não ser possível ela acreditar no mesmo Deus que a música exclamava. Ela atravessa a rua e três ciganas mais jovens começaram a gritar comigo. A chuva enfraquecia, mas tenho certeza que a velha chorava. Tinha uma cara muito triste. Viro as costas e tomo o caminho de volta para casa. Quando chego perto, olho novamente para o alto do prédio em frente. O pedreiro ainda está lá. Agora posso ouvi-lo gritando. Agita ainda as mãos. Ele tem a rédea do seu mundo. E nem se dá conta.

– Fica pronto! Desligo o telefone e vou me vestir. Ficar pronto é fácil, em cinco minutos eu estou vestido. Daí é ficar mais dez em frente ao ventilador, porque em dias de calor, como hoje, não dá pra ser de outro jeito. Continuo a mexer no computador nesse meio-tempo. Vendo e-mails de listas intermináveis, quase nunca oportunos, e também lendo mensagens no twitter, em redes sociais, em messengers. Enfim, perco todo o tempo produtivo que eu poderia ter me dispersando em diversos pedaços tecnológicos que apenas serviam para manter um certo status de pessoa bioeletronicamente viva. Não gosto muito de perder meu tempo. Mas não tenho conseguido me concentrar em muitas coisas. Eu fico vendo tevê, ou lendo, ou olhando links e mensagens que acrescentarão muito conhecimento, nem sempre necessário, ao meu cabedal. Mas trabalhar, que é bom, está um pouco fora do foco. Talvez sair seja, mesmo, um modo de me animar. Pego um caderninho, pois sempre acho que alguma boa ideia pode aparecer no meio do caminho. Sempre acho pior escolher a caneta certa do que o caderno, no entanto. Gosto muito das canetas de ponta fina de tinta preta da pilot. Mas são cada vez mais difíceis de achar. Principalmente as de ponta ultrafina, as melhores e mais caras de todas. Acabo, no fim, pegando uma esferográfica de tinha azul mundana. Meu amigo espera em frente ao portão quando desço. Geralmente atraso, mas hoje não. Ainda estou com o conselho da cigana na cabeça, me atormentando. Resolvo contar a história para ele, que quase bate o carro de raiva. Ele é muito nervoso com esses assuntos de cigano, de sorte, de feitiçaria e coisas afins. Pergunta se eu não senti falta de nada, explico que saí para andar na chuva e que aconteceu, só isso. Pergunta então se eu não fui seguido, se isso, se aquilo. Eu entendo meu amigo. A paranoia da cidade afeta muitas pessoas. Ele, definitivamente, está entre elas. Mas acabamos mudando o assunto para outras coisas mais agradáveis, como comida, quadrinhos, seriados e cervejas. Evitávamos falar de mulheres porque sabíamos estar solteiros e que este assunto não iria mudar conosco, por um bom tempo. Hoje, porém, ele vem com essa: – Conheci uma mina no shopping. – Por isso a gente tá indo lá? – É, quero que você veja ela. – Faz tempo? – Uns dez dias. – Tão saindo? – Saímos duas vezes. – Ela sabe que você vai lá? – Não. – Você sabe que a chance disso dar merda é enorme, não sabe? – Saber eu sei. Mas se der merda é bom, porque daí eu já parto pra outra rapidinho. – É que sempre dá merda contigo. – E se não der? – Ah, vai ser divertido. Faz tempo que eu não te vejo de namorada.

II: O lado de lá do espelho – Vamos lá? – Não sei, cara, tô meio sem grana, não sei se é legal sair sabendo que não vai dar pra fazer nada. – O que é melhor? Ficar aí sem fazer nada ou sair e arriscar alguma coisa? Ele tinha razão. A melhor coisa era sair. – Então tô passando aí em quinze. – Tá, tudo bem, em quinze. 43


– E você? – Relaxa, eu tô na minha. – Mas vê se não fica a fim da minha mina, hein? – Relaxa, eu não sou o Peixe. O Peixe era um amigo galinha que nós dois tivemos algum tempo atrás. Amigo era apenas uma força de expressão. Ele adorava sair com a gente e os outros camaradas só para ficar de olho nas mulheres de que cada um era a fim. Daí, ficava de conversa mole com elas. Todo mundo, hoje, sabe como ele era bom de conversa mole. Um a um, os caras foram largando mão do Peixe. Eu acreditei até o fim. Já disse, sou crédulo desde criança. Não é o tipo de coisa que se mude. Uma vez meti um murro da boca do Peixe. Quebrei no meio o dente da frente dele. Poucas vezes na minha vida eu me senti tão bem. Ele estava beijando uma das garotas que fui a fim naquela época. Mas dessa eu estava mesmo a fim. Ele mereceu o murro. Lembro de seu pai ligando na minha casa e no meu trabalho, ameaçando me processar. Falei pra ele agradecer que foi um soco na cara e não um bico no saco. Nunca mais nos falamos. E nunca me importei com isso. Por via das dúvidas, entre os amigos da roda que continuam se vendo, é normal que a gente dê claramente o aviso pra que ninguém se meta na vida amorosa do outro. Nem pra dar palpite. A gente ficou meio macaco velho no assunto, do pior jeito possível. Assim, os solteiros e os descasados sempre ficam na deles, os casados também, e todos se sentem bastante seguros em reuniões do pessoal que fazemos todos os anos. Chegamos ao shopping. Eu não gosto muito do lugar. É até agradável, mas isso de ter que pagar para estacionar sempre me incomoda, do pior jeito possível. Acho um disparate ir até um local em que certamente você vai consumir alguma coisa e ainda por cima ter que pagar por isso. Chego a achar pior do que os flanelinhas que preciso encarar quando vou em algum botequinho da moda. Ficam bravos quando os lembro que a rua é pública. Nunca riscaram o meu carro. Sempre tiro foto da cara deles. Uma coexistência pacífica. – Como que ela se chama? – Catarina. Mas chama ela de Kathy, ela prefere. – Kathy, assim, com sotaque inglês e tudo? – Cara, é mulher. Já devia tá acostumado com esse tipo de frescura. – Ok, ok, so is Kathy, my friend. Digo isso com o sotaque mais empertigado que posso. Gosto de fazer essas coisas de vez em quando. Uma vez, saí com outro amigo para uma pizzaria. Não sei o que deu na cabeça dele, mas começou a fazer um sotaque escocês quase perfeito de tão fajuto. E eu entrei na dança. Acabou que me fiz de intérprete dele. Era um escritor em visita ao Brasil e eu estava apresentando o que achava que a cidade tinha de melhor. Foi nesse dia que conheci o dono do estabelecimento. Eu juro, tudo que consumimos foi por conta da casa. É claro que não ia fazer essa com o meu camarada, apesar de dar vontade. A tal Kathy trabalha numa joalheria que nunca está vazia. A lógica do meu amigo, cujo nome prefiro resguardar, era de que, se algum imprevisto rolar, ele poderia virar as costas e se afastar rápido, sem maiores traumas e sem atrapalhar o ritmo de trabalho dela.

A gente nunca sabe muito bem o que uma mulher está esperando quando encontra com você. Tenho algumas amigas que insistem comigo que toda mulher procura uma pessoa com personalidade, inteligência, um papo admirável e encantador. Até me encaixo nesse perfil, que elimina qualquer atributo físico da parada. Afinal, segundo elas, é o homem que quer uma mulher gostosa. Nenhuma delas conseguiu explicar, no entanto, por que toda garota com quem me envolvi só queria saber de fazer sexo e estava pouco ou nada ligando para grandes conversas intelectuais ou para a minha presença de espírito em situações inequívocas. Chegamos até a joalheria, de esquina, toda brilhante em tons de preto e prata, com grandes vitrines e absolutamente vazia. Eu não quis dizer nada a ele antes, mas era mesmo muito difícil uma joalheria estar lotada no meio da tarde de uma terça. Aprendi cedo a não mexer com as ilusões das pessoas, com os sonhos de cada um. Às vezes, é tudo que uma pessoa pode ter. Ao menos desta vez, para felicidade de meu amigo, as coisas parecem caminhar realmente bem. Kathy pede licença à gerente e vem falar conosco. A primeira coisa que faz, discretamente, é dar um selinho na boca do parceiro. Ele quer mais, mas tenho que intervir. – É o trabalho dela, cara. Ela tem que ficar bonita. Kathy é mesmo um exemplo de beleza ocidental. Alta, de cabelos pretos compridos, pele muito branca e um rosto muito limpo, sem nenhuma pinta que eu possa ver. Podia ser a maquiagem me enganando, é claro, mas presto bastante atenção a essas coisas hoje em dia. – E você deve ser o Delfin. – Ah, ele andou fazendo a minha fama? – Disse que tinha um amigo que parecia com o Gerard Depardieu. – Ainda bem que ele não disse Obelix. – Na verdade, cara, foi exatamente o que eu disse. A fala do meu amigo, previsível, quebra de vez o gelo. Ainda ficamos os três conversando mais um pouco. Mas resolvo deixar os dois a sós e vou dar uma volta. Digo que volto em uns dez minutos. Odeio passear em shoppings porque as pessoas têm sempre um ar muito arrogante, como se tivessem mais direito de estar ali do que outras pessoas. Como eu, por exemplo. O seu jeito quase grita que lugar de pobre é nos camelôs do centro da cidade, não ali. Só que adoro incomodar e, quando estou em um shopping, faço questão de olhar bem no olho de cada pessoa que posso. Quase como um maníaco. Às vezes escolho um alvo, miro e atiro um olhar fulminante, que fica até que a pessoa desvie. Muitas vezes chamam os seguranças. No começo, vinham me abordar. Hoje, só se é um novato, porque eu sempre conto a mesma balela. Que sou um escritor e que isso é apenas um exercício de observação das reações humanas. Sério, até já fiquei com uma garota por conta disso. O lugar de que mais gosto, no entanto, é o elevador panorâmico. São só três andares, mas a vista é até bonita. Mesmo em dias assim, nublados, em que a chuva vem e vai muitas vezes. Faço sempre uma cerimônia ao entrar. Apesar 44


do lugar ter quase vinte anos, o elevador parece estar lá há apenas um dia. Por dentro, tem todo um tratamento em cristal e mármore, sempre muito brilhante. Dá pra ver o reflexo da gente, pra qualquer lado que se veja, à noite e em dias como hoje. Pois é aqui que penso de novo no que a cigana disse. Algo estranho passa pela minha cabeça, pois, ao me ver espelhado no vidro do elevador, acredito que deva mesmo me jogar para o outro lado. Literalmente. Empurro com as mãos o vidro com toda a força que tenho. Mas preciso dar um bom soco para que o vidro arrebente e eu atravesse.

asfalto fui eu. Arrebentei e me afundei por dentro da terra. Ia perfurando como se fosse uma broca de desenhos animados, sem qualquer resistência. – Acorda, cara. É meu amigo, dando um tapa na minha cara. Há algumas pessoas à minha volta. – Você desmaiou no elevador. O guarda do estacionamento que te viu caído. Eu ainda estou meio zonzo. – Faz tempo? – Acho que foi agorinha. Tá tudo bem? – Tá. – Consegue levantar? – Acho que sim. – Vem, te dou uma força. Eu me apoio nos ombros dele. Kathy também está lá, com um copo de suco. – Bebe, vai fazer bem. Eu bebo. Cai um pouco pesado, mas nada como açúcar. Vamos até um canto e nos sentamos em um banco. – Que foi que aconteceu? – Eu tava no elevador e daí me deu um treco. – Os seguranças viram tudo pela câmera de vigilância. Disseram que você tentou arrebentar o vidro do elevador com um murro. – Ideia estúpida. – Isso por acaso tem a ver com aquela besteira que você me contou da cigana? – Cigana?, quis saber Kathy, curiosa. Eu disse que sim, resumindo a história para ela. – Essa gente não diz nunca nada que preste. – Mas essa foi diferente, Kathy. Sei lá. Algo me diz. – Muitas coisas te dizem sempre alguma coisa, Delfin. E quase sempre te dizem a coisa errada. Lembra do dia em que você resolveu que podia patinar no gelo? Fazia tempo que isso tinha acontecido. Eu tinha uns dezesseis e fui até um rinque onde todo mundo que tinha a minha idade ia patinar. Nunca tinha andado nem com patins de rodinha, quanto mais deslizar no gelo. Indo pra lá, vi duas pessoas no ponto de ônibus conversando sobre uma tal Emília. Depois, dentro do ônibus, o homem que estava sentado ao meu lado abriu uma revista que tinha a propaganda de uma impressora chamada Emília. Quando estava pensando se arriscava ir ou não patinar, acabei conhecendo, logo na minha frente na fila, uma menina linda. Adivinhe o nome dela. Emília disse que adorava patinar no gelo. Perguntou se eu sabia. Não pensei pra responder. Achei que fosse um sinal. Um minuto depois de entrar na pista, tinha quase quebrado a minha perna esquerda e todo mundo estava rindo do tombo espetacular que tomei. – É, cê tá certo. – Tá se sentindo bem? – Tô me sentindo um idiota, isso sim. – Da próxima vez que uma cigana te mandar atravessar um espelho, atravessa ela pelo espelho, ok? – Tá bom, já entendi. Mas que coisa! – É que você é um estúpido!

III: Se você não acredita na realidade O shopping parou para ver o que tinha acontecido. O elevador estava passando pelo piso inferior na hora em que o vidro arrebentou, então não me machuquei muito. Mas a grande verdade é que o aparelho ficou completamente avariado. Eu tinha um corte pequeno na mão e outro nas costas, mas os dois de raspão. Tinha mesmo dado muita sorte. Fiquei meio aflito e também um pouco afoito com o que aconteceu. Estava mais dolorido com a queda, em cima do meu próprio braço, sobre o granito do que por qualquer outro motivo. Meu amigo e Kathy conseguiram passar pela multidão e chamar a ambulância. O shopping tem também uma equipe preparada para os primeiros socorros e fui prontamente atendido. Em dez minutos os paramédicos chegaram. Eu já tinha sido imobilizado. Parecia estar tudo bem, mas não custava nada conferir com umas radiografias. Fui consciente por todo o caminho. De repente, me dei conta do que tinha feito e fiquei muito, muito nervoso. E irrequieto. – Eu preciso sair daqui. – Calma, fique tranquilo. Já estamos levando o senhor ao hospital. – Isto aqui não é uma ambulância de verdade. – O senhor está em choque, caiu de uma grande altura. Por favor, se acalme. – Dá um tempo. Estamos andando faz mais de dez minutos numa ambulância que saiu de um shopping que fica no cu do judas e a gente ainda não fez nenhuma curva! Consegui me sentar. Os paramédicos quiseram me segurar. Não conseguiram e os empurrei. Mesmo com dores, podia mexer meus braços e meu corpo muito bem. Abri a porta da ambulância e vi a estrada, numa perfeita linha reta. Estava claro que a velocidade era alta. Ou assim parecia. Não dei tempo para que ninguém conseguisse me deter e também pulei. Nada muito difícil pra quem tinha acabado de se arrebentar de um elevador em movimento. Quando meus pés se afundaram no asfalto, eu cheguei a pensar que tinha me fodido completamente. Senti uma dor enorme atravessando o meu corpo. Mas quem arrebentou o 45


Ele falava isso rindo, não tive como não rir. Fomos comer um sanduíche e, depois, deixamos Kathy trabalhar. Não antes de combinarmos sair ainda naquela noite. Ela prometeu levar uma amiga que, garantiu, gostava muito de quadrinhos. Sempre duvido desses encontros às escuras. Quase nunca prestam. São apenas maneiras de seus amigos que estão com um par poderem apreciar a sua companhia sem estragar a própria onda. Ao deixarem você ocupado, se eximem de deixá-lo segurando uma vela. O problema é que a vela acaba se tornando dinamite, sempre prestes a explodir em sua mão. Sei que não é bonito pensar assim, mas não é um julgamento apressado. Sei que algumas vezes as garotas são até legais, até bonitas e até mesmo interessantes. Mas, num contexto tão forçado, não tem como ninguém deixar de ficar constrangido. Acaba que o papo começa do pior jeito possível, quase nunca rola um clima e, quando rola, é tão artificial que não dura muito tempo. Depois de tomar mais um sermão do meu amigo mais moralista, ele me deixa em casa e diz que volta às dez e meia. Isso é daqui a cinco horas. É chegar, tomar um banho, ligar a tevê e o ventilador e pegar um livro qualquer para folhear. O tempo demora muito a passar em tais ocasiões. A não ser quando ocorre o que aconteceu nessas poucas horas: dormi e tive microssonhos. No primeiro deles eu estava num precipício com uma garrafa de tequila na mão e tinha que ultrapassar uma ponte feita com um fio de fibra ótica. Ao meu lado havia um anão que me dizia que era fácil passar. E provou isso, andando tenazmente até a outra ponta e depois voltando. Fiquei confiante e fiz a mesma coisa. Não me desequilibrei em nenhum momento, mesmo com a garrafa na mão. Na volta, perguntei para o anão por que tínhamos que fazer isso. Ele me disse que, quando eu atravessasse, a porta se abriria e eu encontaria a felicidade. Então falei que já havia atravessado e não havia porta nenhuma do outro lado. O anão, paciente, me explicou que a porta estava lá, mas minha mente não conseguia ver. Perguntei o que precisava fazer, então. E ele me apontou a garrafa cheia de tequila. No segundo, estava tocando numa festa. Todos estavam pelados, inclusive eu. Era uma boa festa, lembro que eu tocava sons bastante divertidos e que todos estavam gostando. Uma ruiva começou a me dar mole. A festa foi esquentando e, então, uma voz lá no fundo gritou: “Todo mundo tirando a roupa agora!” e então todos foram arrancando a pele e a ruiva, eu vi, tinha uma omoplata muito sexy. No terceiro eu era um pino de boliche que nunca foi derrubado por uma bola. Era uma lenda entre os pinos de boliche. Contavam histórias sobre mim, sobre como eu deixava as bolas apavoradas e como conseguia me manter em pé mesmo quando era atingido de raspão, ou mesmo daquela vez em que a bola me acertou em cheio, mas rebati no fundo e voltei, completamente fora da minha posição original, mas ainda em pé. Os velhos pinos me admiravam, os da minha geração me achavam o máximo, os pinos recém-chegados me tratavam como a um deus. No quarto, eu tinha uma mão só e era justamente aquela com a qual não sabia escrever. Tentava pegar a caneta a todo

custo e não conseguia firmeza na mão. Nunca conseguia concatenar mais do que alguns rabiscos ininteligíveis. Então apareceu uma senhora muito gentil que se ofereceu para me ajudar. Ela foi me ensinando todos os movimentos caligráficos para que eu pudesse ter coordenação motora com aquela mão. Quando finalmente me senti seguro, ela me deixou tentar escrever sozinho. E descobri que era analfabeto. No quinto, olhava para uma foto que tinha meu irmão lendo uma revista que falava sobre uma grande descoberta científica, feita por mim, e a capa me mostrava olhando para uma foto que tinha meu irmão lendo uma revista que falava sobre uma grande descoberta científica, feita por mim, e a capa me mostrava morto. O último sonho foi com a cigana. Ela estava no centro de um salão cheio de espelhos. – Você não entendeu, não é? – Não entendi mesmo. – O espelho é como uma oportunidade. – E eu devo ver através dela? – Não se observa uma oportunidade, agarra-se a ela. – Então, o que eu devo mesmo fazer? Agarrar o espelho? – Se você agarrá-lo, vai se machucar todo. – Eu continuo sem entender. – Tente. Não posso ser direta. – Tudo bem. O problema é o espelho. – O problema é o reflexo. – Por quê? – Porque é o espelho que contém você. – E tudo mais que existe. – Não. Você é o mais importante dessa imagem. – Por quê? Por causa do ego? – Muito mais simples do que isso. Todo reflexo engana. Mostra o que não é. É mais fácil encará-lo. Mas apenas sua imagem no espelho pode ver como realmente você é. – Mas posso ver minha imagem no espelho também. – É como as suas mãos. A direita mostra quem você é. A esquerda mostra quem você poderia ser. – E o espelho mostra quem eu poderia ser? – Mostra quem você poderia ser vendo quem você é. Acordo meio mal. Já são dez da noite. Completamente grogue, entro no banho. Está bem frio agora. O banho tem que ser rápido. O telefone toca e tenho certeza que meu amigo quer saber se vou mesmo ou se vou furar. Resolvo não atender. Eu me enxugo o mais depressa que posso, ligo para ele de volta, me visto, passo um perfume que acabei de ganhar e até penteio o cabelo. Quando desço para a portaria, ele já me espera. Kathy está no banco da frente, como se poderia esperar e, no banco de trás, uma garota esquisita. Acho que se chama Natássia. Deve fazer ciências sociais. É o que entendo. Ela tem a língua um pouco presa. Pouco promissor. Quando a gente chega ao bar, penso que vai ser um desastre. A garota é a maior boca de litro. Kathy se diverte, acha que a gente foi feito um pro outro. Nada mais equivocado. Natássia sabe, sim, alguma coisa sobre quadrinhos. Sobre Tio Patinhas e a turma da Mônica, mais precisamente. Nem sabe quem é o Obelix, mas sabe bem quem é Depardieu. Então começa a falar de filmes franceses, porque o Truffaut 46


isso, porque o Godard aquilo, porque Resnais aquilo outro, Jeunet dali, Besson de cá e eu ficando sufocado com aquilo, mas fazendo absolutamente de tudo para não constranger nem o meu amigo nem a garota dele, que, afinal, parece muito mais o meu tipo do que aquela mulher bizarra ao meu lado, cheirando a alambique de Paraty. Saímos do bar mais ou menos à uma da manhã. Peço pra me deixarem em casa. Eles querem esticar, mas explico que tenho muito trabalho. Meu amigo sabe bem o que eu quero dizer. Nas despedidas, ela quer me beijar na boca e viro o rosto de lado. Ela me olha com um ódio enorme, de um jeito que só uma mulher que se sente rejeitada sabe fazer. Kathy se despediu meio fria comigo e meu amigo, com um aceno habitual. Sei que isso implicaria na noite dele também ficar no zero a zero, mas acho que deu a conta de ficar fazendo favores e se prejudicar pra que apenas os amigos tenham uma boa foda. Já fiz isso antes e sei que só dá encrenca. E só pra mim. Em casa, ligo o computador. Espero os quinze minutos de sempre para que o equipalento fique pronto pra eu navegar pela internet. De novo a mesma lenga-lenga. Tumblr. Twitter. Stumble. Stumble. Stumble. Nenhum saco para ver e-mails ou para bater papo. Ligo também a televisão para ver se algo interessante está passando. E até estava, mas eu já tinha visto aquele episódio do seriado. Então tenho a estranha ideia de checar aquele novo site de música.

São semanas de contato virtual intenso, geralmente pelas madrugadas. Conversamos muito pouco sobre música. Falamos, sim, sobre livros, sobre cultura, sobre bobagens em geral. Mas gastamos a maioria do tempo sem falar tanto, mais preocupados com jogos de sedução do que com racionalidade. Tenho o lado racional muito forte em mim. Quando estou num emprego, por exemplo, me obrigo a não me envolver emocionalmente com as pessoas dali, principalmente com as mulheres. Se estou numa loja, por mais que algum objeto do desejo me atraia, não gasto o meu dinheiro se não existir algum argumento sólido que me convença a adquiri-lo. Ao notar que alguém vai fazer alguma coisa que não me faça nenhum sentido, mesmo que não tenha a ver comigo, não consigo ficar calado e ajo como se fosse a voz da consciência. Ser racional com os outros, até hoje, só me trouxe aborrecimentos. Mas meu racionalismo já me livrou de diversas saias justas. Então, confio nele. Além de racional, também procuro ser muito honesto. Mentir hoje em dia é quase inevitável. Às vezes minto, mas prefiro escapar de elogiar facilmente livros ruins, pessoas sofríveis, ambientes desfavoráveis e situações desagradáveis. Creio ser muito melhor dizer o que se pensa, mesmo que as outras pessoas não sejam recíprocas e atuem em sua vida com representações canastronas e falsas da realidade. Assim fujo da bajulação. Bem como muito gente foge do meu criticismo e de meu certo descaso pelo que é muito comum. Talvez seja isso que me atraia a essa pessoa virtual. Não há muito de comum nela. Apenas seu emprego, um contrasenso para a mulher que mostra ser. Ela também não se deixa atingir facilmente pela candura estudada das pessoas. Ao contrário, desconfia de tudo e de todos. O fato dela ter decidido se aproximar de mim denota que sou digno de uma oportunidade. Mas meu lado racional continua batendo fundo na minha cabeça. Querendo me alertar de algo. Achando estranho. Querendo desvendar um plano. Decidimos nos conhecer no carnaval. Fui obrigado a cancelar uma viagem, por completa falta de fundos. Ela, portanto, viria até a minha casa no feriado. Não moramos na mesma cidade, o que é um complicador. Pois pode acontecer simplesmente de não haver química nenhuma entre nós. O dia chega mais rápido do que eu esperava. Os outros amigos estranham que eu estou saindo menos, mandando menos e-mails, entrando menos nos chats. A verdade é que posso atribuir isso à falta de dinheiro e à correria para conseguir um novo e melhor posto de trabalho. Mas a verdade é que estou ansioso. Arrumo a casa como não é do meu feitio. Tenho vontade de impressionar, mesmo sabendo que aquele não é o meu normal. Também não é uma mentira. Sexta-feira de carnaval. No começo da tarde, está tudo pronto. Passei a madrugada tirando pó das coisas, limpando estantes, reorganizando papéis, deixando a sala com o mínimo de objetos possível. Eu me sinto no direito de tirar um cochilo. Deito no meu quarto e olho para o teto. A luz que passa pelas esquadrias durante o início da tarde forma padrões móveis a cada carro que passa. Fico observando essas luzes

IV: A égide É um nick de garota. Ela procura uma música do Fagner. Eu sei muito bem onde encontrar o arquivo e indico o caminho. Já tinha visto o nick uns dias antes. Mas agora ela me dá trela. Resolvo corresponder. Digito muitas mensagens, falo demais. Ela fala de menos. Como se esperasse, ou para me estudar melhor, ou para me dar um bote. Sei que ficamos toda a madrugada nisso. Depois de dedicarmos boas músicas um para o outro, porque é um pouco esse o sentido do site, parto para o cancioneiro brega e ruim, no que sou acompanhado. Então é a hora das músicas românticas, ótimas, adequadas e cada vez mais melosas. Decidimos conversar, via voz, depois de uma do Scorpions, talvez. Falamos até o amanhecer. O sol raia rapidamente, mas é o suficiente para que eu, já atraído por ela e pelas canções que me são disparadas em sequência, também fosse atingido pela voz. E pelos gemidos. E pela atitude ainda defensiva. Que culmina, no fim das contas, em sexo pelo skype. Ao desligarmos, o cansaço é tanto que não consigo ir até o quarto. Deito no sofá-cama da sala e fico por lá, pensando que fui fisgado. Ao menos nenhuma Natássia irá me atropelar em pensamentos. Logo antes de pegar no sono, tenho um vislumbre, quase um susto, de que talvez precisasse me proteger. Ao dormir, não sonho. 47


até ficar cansado e conseguir dormir. Ninguém percebe quando dorme. Percebo que dormi ao acordar. Eu me pego olhando para o teto, mas já é noite. Não sinto o meu corpo, mas me levanto assim mesmo. As luzes do quarto não acendem, nem nenhuma outra luz da casa. Vou até a sala e sento no sofá, olhando para a televisão desligada. Duas mãos repousam suaves em meus ombros. E então ouço sua voz. – Você está pronto? – Eu não vou estar pronto nunca. – Quer me ver? – Quero. – Então por que não olha pra mim? Ela diz isso baixinho no meu ouvido. Eu sorrio por dentro. Na hora em que eu vou me virar, porém, posso perceber seu reflexo na tela apagada da tevê, pela penumbra. Tento me levantar. Mas aquelas mãos suaves estão firmes, impedindo meus movimentos. – Que foi? Desistiu de mim? A voz se torna cada vez mais sibilar. O reflexo não deixa qualquer dúvida sobre o que estou vendo. Uma das mãos solta meu ombro, a outra fica ainda mais firme. Ela está dando a volta pelo sofá. – Não quer mais me conhecer? Fecho os olhos por impulso. Com força. Posso sentila sentando no meu colo. Ela aproxima seu rosto do meu. O cabelo roçando minha pele, como se tivesse vida. Sinto pontadas na face. Como picadas de pequenas cobras. Consigo me levantar com um grito seco. Estou na cama. Olho no relógio. É quase hora. Ela não quis que eu fosse buscá-la na rodoviária. Visto a roupa que separei. Acendo todas as luzes. Fito por muitos minutos o televisor desligado. Demora muito. Mas, enfim, a campainha toca. Ao mirar pelo olho mágico, fico petrificado.

DELFIN prefere ser personagem de suas próprias histórias a deixar que os outros inventem histórias sobre ele. Acredita que há concursos que são como junkies no auge do fervor. Ainda assim, tem uma fé inabalável na justiça. Aprendeu isso com Nicholas Marshall, talvez. Medusa, planejado para iniciar uma coleção literária em 2009, permaneceu inédito até este momento. Foi o texto que escolheu para ser lido por jurados da Granta há alguns anos. Agora ele será lido.

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antes que seja tarde flávia paz

C

reio que nenhum pai está preparado para falar sobre um assunto tão delicado com uma filha adolescente. Adiei o máximo que pude e meu temor agora é que seja tarde demais. Como pude ser descuidado, ingênuo até? Uma menina que até pouco tempo brincava com boneca. Tudo bem, não é “até pouco tempo”. Ela já não brinca com boneca desde que tinha, sei lá, uns sete ou oito anos. Ela está com quinze agora só que, para mim, o tempo parece ter passado rápido demais. Um dia, o assunto teria que vir à tona, eu deveria estar preparado mas não estava. Toda a aura angelical que rodeava minha mente sobre a Bianca evaporou-se quando, por uma maldita curiosidade mais forte do que os meus princípios, abri a mochila dela e encontrei um preservativo. Sempre respeitei a privacidade da Bia, juro, nunca fiz isso antes. A cena foi a seguinte: ela chegou tarde pois estava estudando na casa de uma amiga, fato que ela me comunicou com antecedência, avisou que jantou por lá mesmo, tomou banho, vestiu a camisola e foi se deitar. Minha filha chegou tão cansada que deixou a mochila na sala e foi aí que o capeta me atentou até que eu a abrisse. Nunca ousei abrir uma gaveta ou mexer em qualquer coisa dela. Minha estratégia sempre foi dosar liberdade com responsabilidade. Acredito que a confiança e o respeito são a base de qualquer bom relacionamento: familiar, afetivo, profissional... enfim, todos mesmo. Ela até poderia chegar tarde em casa desde que me deixasse ciente de onde estava e com quem, que só voltasse de carro e com alguém que eu conheça ou então me ligasse para busca-la e mantivesse o celular sempre ligado. Eu não ligava com frequência mas, quando o fazia, raramente estava desligado ou ela deixava de atender. Para todo adolescente, o pai é sempre chato, mas eu procurava ser “o menos chato possível”. Essa é a minha meta. De algumas coisas, no entanto, eu não abro mão. Tudo bem se a Bia chegasse do colégio e preferisse ficar no quarto ouvindo música, usando o computador ou falando ao telefone contanto que, ao menos na hora do jantar, mantivéssemos algum diálogo. Nesse momento, eu sempre pedia para que ela me contasse um pouco sobre o seu dia. Achava graça das gírias e a repreendia sobre alguns palavrões, o que, às vezes, a deixava emburrada. Fora isso, até que nos entendíamos bem.

Criar sozinho uma filha não é fácil. Desde que me divorciei há três anos e a mãe dela foi morar com outro cara, em outra cidade, fiquei com essa responsabilidade. Sou proprietário de uma lanchonete e achava complicado administrar um negócio próprio até me ver “administrando” conflitos adolescentes. Minha filha completou 15 anos a uns dois meses sem o glamour que eu sonhava, de damas e cavalheiros, baile, valsa... nada disso. Os tempos são outros e ela preferiu comemorar em um restaurante com pista de dança. Bom, ela estava tão feliz nesse dia e isso é, para mim, o mais importante. Eu já não sei mais o que eu faço, como falar com a Bianca sobre o assunto? Ela não me perdoaria se soubesse que abri sua mochila e vi o preservativo. Sempre respeitei seu espaço e revelar a minha atitude seria o fim da confiança. Ela me odiaria assim como eu ficaria irritado se soubesse que ela revirou alguma coisa minha. Por outro lado, não posso me manter omisso diante do fato. Só preciso saber como iniciar a conversa. Estou adiando há dias e me sinto sufocado. Mas justo hoje que tomei coragem, ela decidiu passar na casa da amiga antes de vir, prolongando ainda mais a minha angústia. E se não fosse uma amiga? E se fosse o... namorado? Ou um “ficante”? Não, tirar conclusões precipitadas só iria aumentar a minha tortura. No entanto, agora é inevitável que a desconfiança, fatalmente, começaria a imperar. Meu telefone toca e eu corro ansioso para atender. Não era a Bianca, e sim a Tereza. Ah, a Tereza... uma morena de parar o transito, a nova moradora do condomínio e minha vizinha. Quando nossos olhares se cruzaram no elevador fiquei hipnotizado. Ela se fez de difícil no início mas, depois de alguns encontros pelo corredor, trocamos telefone. Ela me perguntou como eu estava e sugeriu, sutilmente, um encontro para hoje. Logo hoje? – pensei. Bom, a conversa com a minha filha pode esperar mais um dia. Talvez a Tereza até possa me orientar nessa questão. Combinamos um jantar e, em seguida, fui tomar banho. Estava acabando de me vestir quando ouvi a porta de casa se abrindo, era a minha filha, com o ar mais despreocupado do mundo, afinal, ela ainda não sabia o que eu sabia. – Oi pai, beleza? – ela disse, indo para o quarto. – Beleza! – respondi do banheiro, enquanto acabava de me pentear. Ri para mim mesmo ao me imaginar falando a mesma coisa com o meu pai. Ele, com certeza, me 49


censuraria. Para sua mente antiquada, um filho se dirigindo ao pai usando gíria soaria como uma ofensa. Notei, em seguida, passos apressados se aproximando. – Vai sair, pai? – Vou filha. – Tá elegante! É um encontro? – É sim, bom, vou sair para jantar – comentei, sem desviar os olhos do espelho. – Hummm, jantar – ela enfatizou, com certo tom de malícia – sei. Aposto que é com a Tereza. Me virei para encará-la surpreso, minha filha também havia notado meu interesse pela vizinha. E eu acreditando que estava sendo discreto. – Sim, é ela mesma – respondi, um pouco encabulado. Minha filha saiu apressada em direção ao sofá, onde havia deixado a mochila, procurou alguma coisa e voltou com uma das mãos fechada. – Sabe pai... – disse ela um pouco receosa. Meu coração palpitou ansioso. Pela expressão da Bianca, o assunto parecia sério. Ela voltou a olhar para a mão fechada e continuou. – Semana passada, lá no colégio, rolou um evento pra comemorar a Semana da Saúde. Aí teve um estande sobre as DSTs... você sabe, né... – Doenças Sexualmente Transmissíveis – respondi, diante da hesitação dela. –Eu não vim de outro planeta, filha, pelo amor de Deus!!! – pensei seriamente em lhe dizer, mas me contive. – Isso mesmo e, tipo assim, tinha isso aqui pra quem quisesse pegar. Ela abriu a mão e lá estava o preservativo. Atônito, respirei fundo e ela continuou. – Mas, tipo assim, eu peguei só de onda. Você quer? acho que vai precisar. – Ela disse com um sorriso malicioso. Peguei o preservativo e fitei minha filha por alguns segundos. Era o mesmo, à princípio. Embora bastante tentado a tomar outra atitude no momento em que o achei, a joga-lo fora ou então guarda-lo como prova, acabei preferindo deixa-lo na mochila dela para não levantar suspeita até tomar coragem de falar sobre o assunto. – Você pegou mesmo “só de onda”? tem certeza? Não tinha intenção de... – e ela não me deixou completar a frase: – Ih pai, fala sério. É que geral tava pegando mas eu não uso essa parada aí não. Agora vai logo senão você vai se atrasar – e ela saiu correndo de perto de mim, de cabeça baixa. Acho que estava um tanto encabulada por falar no assunto. Sorri, satisfeito e aliviado. Se ela não está interessada em preservativos é sinal de que não precisa porque ainda é virgem. Ela até comentou sobre o evento da Semana da Saúde no colégio mas nada disse em relação a esse estande. Bom, mas a história é pertinente. A camisinha é uma daquelas distribuídas pelos postos de saúde. E se “geral tava pegando” ela, como uma adolescente socializada, provavelmente se viu induzida a pegar também, apenas para não agir diferente dos amigos. Diante dos fatos, agora estou convencido de que ela está sendo realmente sincera. Esse evento é um bom motivo para iniciar com a Bianca uma conversa franca sobre sexualidade. Preciso saber se ela está bem orientada sobre o assunto. Tive muito receito de ser tarde demais para isso.

Antes de sair, fui até o quarto dela. A porta estava trancada, creio que ela ficou realmente sem graça. – Você vai ficar em casa, filha? – Vou pai, não se preocupe. – Estão já estou indo, filha. – Tá bom, pai. Boa noite... e boa sorte. – Ok, obrigado! Tchau! Agora, mais aliviado, vou me encontrar com uma mulher maravilhosa: inteligente, bonita, simpática, independente. Sim, ela também tem um negócio próprio, é dona de uma Pet Shop. Se tudo der certo, a noite promete. Obviamente passarei na farmácia para comprar mais camisinhas, espero que a minha filha não acredite fielmente na idéia de que UMA só já resolve se pintar a oportunidade. Seria muita descrença no potencial do próprio pai. Assim que viu pela janela o pai saindo com o carro, Bianca pegou o telefone e começou a discar. Uma voz masculina atendeu. – Alô! – Alô, Beto? – Bia? Oi, minha gata. – Oi gato, vem correndo, tô sozinha em casa. – Sozinha? – É, meu pai saiu pra jantar com a minha vizinha, deve demorar. – Se ele for jantar a vizinha, vai demorar mesmo. – Poisé! – Legal gata, e aí, hoje rola? – Claro, gato! Mas não demora. – Já tô indo, vou só passar na farmácia antes... você sabe. – Tá, mas compra umas camisinhas diferentes dessa vez. Aquelas texturizadas ou que produz sensações, de calor ou frio... sei lá, só não compra da comum. Até dei pro meu velho uma daquelas que deram no colégio, sabe? Cansei dessas.

FLÁVIA PAZ é contista. Vive no Rio de Janeiro. Participou da antologia de narradores Flupp Pensa 2013.

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variações sobre um tema de jacques roubaud furio lonza

H

á uma telenovela que passa de segunda a sábado, no mesmo horário, no mesmo canal; cada segmento tem a mesma metragem; cada segmento é interrompido pelos mesmos anúncios a cada intervalo pré-determinado; tudo é exato, não existe acaso, a trama não pressupõe o menor deslize. O enredo é simples e gira em torno de uma mulher extremamente apaixonada pelo marido. Existem outros núcleos de apoio. Algumas intrigas paralelas dão sustentação à narrativa. Cada personagem possui sua personalidade e sua própria sina; a direção se encarrega de que nada saia dos eixos: enlaces e desenlaces já estão previstos desde o começo. No entanto, quando a mulher morre no meio da história, surgem boatos e fofocas nos bastidores. E o receio de que novas concepções existenciais possam confundir o telespectador. Na verdade, há uma dúvida crucial: quem morreu foi a atriz ou a personagem? Como nada pode alterar o desenvolvimento de uma história que vai ao ar todo dia, na mesma hora, no mesmo canal, e que acontece no mesmo tempo em que o tempo acontece, a produção dá seguimento normal à novela e os capítulos se sucedem à revelia deste pequeno contratempo. No set de gravação, há um espelho, comprado pelo cenógrafo nesses brechós de móveis antigos. Quando a atriz aproxima-se para escovar os cabelos e verificar se o vestido estaria de acordo com a festa que sua família daria à noite no amplo jardim da mansão, aparece o reflexo da mulher morta. Ela está igualzinha (os mesmos cabelos escovados, o mesmo vestido que usaria para ir à festa no jardim da mansão). A atriz se assusta, mas disfarça e a cena continua sendo filmada. A atriz não é nova, não foi colocada ali para substituir a anterior, é a mesma. E o espelho reflete sua imagem real, no tempo de hoje. A mulher morta resigna-se, continua com sua mesma personalidade e não tenta modificar seu destino pré-programado. Pelo contrário: imita o melhor que pode os cacoetes e as características da outra, para que a figura em carne e osso se encaixe perfeitamente no reflexo. Ambas (atriz e personagem) intuem que uma das duas morreu, mas nada podem fazer. Elas têm que continuar o que lhes foi estabelecido pelo script. Só uma pessoa tem certeza absoluta que a mulher está morta: o marido. No meio da festa na mansão do jardim, aparece o personagem do marido, que diz suas falas como se

nada tivesse acontecido, mas percebe-se que ele está muito triste. Houve uma perda e ela é irreparável. Olha para sua esposa com uma ternura protocolar e a abraça, inconsolável, fazendo seu papel. Mesmo sem sentir nada pelo personagem, a atriz retribui. Providencialmente, a telenovela corta para outra cena do outro lado do jardim da mansão, onde garotões e garotinhas se escondem atrás de árvores, chapinhando os pés nus em poças de água. A música sobe. Entra o intervalo. Depois de cinco minutos, a vinheta explode no ar. Ouvese um trinado em OFF/corta para o interior da mansão. O personagem do marido atende: é a mulher morta que quer falar com seu marido. Ele fica sem saber o que fazer. A imagem titubeia e treme um pouco. A câmara se afasta, abre a angular, mas sempre com foco nos dois, que agora são vistos conversando ao longe, através da vidraça. A música encobre as falas. Ficamos sem saber o que ocorre na realidade do tempo presente, mas é sempre possível supor alguma coisa, pois outro corte nos remete novamente ao jardim: a atriz olha para a cena do personagem do marido falando ao telefone sem rancor, mas está um pouco apreensiva. Que tipo de consciência de si próprios pode haver entre atores e personagens a partir do momento que ambos vivem em mundos diferentes? Ficarão aprisionados para sempre no interior de uma trama oclusa que não admite uma simbiose real? Seus sentimentos não têm a menor liberdade de aflorar, afetos serão dissimulados, pois atores e personagens estão em patamares diferentes: nunca irão se encontrar. Na verdade, o exílio engloba um paradoxo: há segurança, mas não existem referências. A mulher morta insiste ao telefone: quer falar com seu marido, que, pressupõe-se, esteja vivo, ali no jardim, atuando, contracenando (e, naquela cena pungente, como vimos, tinha abraçado a mulher). O personagem do marido não reconhece a voz da própria esposa. A voz em off da atriz ao telefone (que faz a mulher morta) provavelmente também está confusa, não entende a trama em tempo real. A câmara fecha no pingente de um lustre da sala. Entra o segundo intervalo: os anúncios se repetem. Depois de mais cinco minutos, a vinheta entra no ar. A câmara dá um close estupendo no personagem do marido que (aparentemente) tenta convencer a mulher morta da impossibilidade de atender seu pedido. A música sobe. Corta para um velório. Todos os atores e atrizes estão de 51


óculos escuros. Não há ninguém no caixão. São servidos salgadinhos. Executivos de terno tilintam copos de uísque, mulheres de longo negro comparam seus vestidos, crianças correm, se escondem debaixo das mesas e são recriminadas pelos pais. Há conversas desconexas sobre a morte de alguém. O relógio marca a meia-noite. O tempo entra em flagrante descompasso e o pacto é quebrado, pois (após dois segmentos e dois intervalos para anúncios) são apenas nove e meia, no máximo, nove e quarenta, e toda telenovela é sempre apresentada no mesmo tempo em que o tempo acontece. Isso é um dogma, uma prerrogativa clássica, como nos postulados científicos. O choque traz uma opção dramatúrgica que não estava no cardápio. Depois do último intervalo e seus respectivos anúncios, a vinheta entra no ar. Ouve-se outro trinado em OFF/ corta para o interior da mansão. O personagem do marido atende: é a mulher morta que quer falar com seu marido. Desta vez, porém, ele reconhece a sua voz imediatamente, fala com ternura, o afeto é flagrante; de sua boca, brotam palavras dóceis, meigas, lembram de fatos e episódios, trocam intimidades. Sua mulher morta está viva em outro tempo e em outro lugar e isso o deixa momentaneamente feliz. Daquele dia em diante, haverá sempre a possibilidade de esperar um novo telefonema. A música vai baixando pouco a pouco, até sumir por completo. Enquanto descem os créditos, poderá haver um estupendo close numa enorme lua cheia que tangencia o mar no horizonte. Ela é lambida quase amorosamente pelas ondas. Desta forma, reciclada pela assimetria, a telenovela acaba.

FURIO LONZA é escritor, dramaturgo e jornalista. É autor de 17 títulos, entre romances, contos, livros infanto-juvenis e ensaios.

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13 de julho juliana frank

F

inal da copa do mundo no Brasil e eu, bêbada e tropeçante em Buenos Aires. Muitas pessoas me perguntam: por quê? Por que você, uma literobucetista e filosoquenga brasileira está aqui e não lá? Tenho vontade de responder a verdade. Mas como sou falsa e antipática digo apenas: “não tenho dinheiro para morar no Brasil”. Viro o rosto, dou uma baforada de cigarro e três suspiros que duram quatro desconfortáveis segundos. Mas não é lá uma mentira das mais puras também. No Rio, eu teria que pagar um imóvel e ficar imóvel porque caminhar, viver e respirar o ar disputado da cidade é privilégio para os ricos. Rodar novas bancas. Criar nova fama. Observar novos paus em cenários distintos. E claro, estou aqui porque o Brasil já deu e lá eu já dei pra todo mundo. O jogo nem começou e, para mim, os porteños já ganharam. No quesito coxas são os reis da bateria. Ainda têm as bolas, isso é, o saco escrotal, que pelas minhas observações constato que são espantosamente grandes. Os braços e barbas perigosamente masculinos. O azul celeste é a roupa que uniformiza os grandes e deliciosos melhores fodedores homens do mundo. “É azul, a terra é azul.” Não me importa, por hora, outros biomas e habitats. Eu tomaria o suor dos jogadores. Eu trocaria todos os meus pesos por gotas de suor argentino. Estou sequiosa. Colecionaria o líquido sudorento em potes, os potes na janela, ao lado de uma flor amarela iluminariam todas as manhãs. E minha castexana sorriria feliz. Fui com Scott até a praça San Martín mirar a partida num telão de cinema. Chegamos, nos sentamos no matinho em meio à população desesperada e engasgada com um choro contido. As crianças comiam remelas, de nervoso. Os respectivos pais e mães roíam unhas, cascas de pés e arrastavam a língua impaciente pelas peles grossas das palmas de mãos. O silêncio era tão grande que dava para ouvir os dentes da torcida rangerem. Scott não se anima com futebol, comoções sociais em geral e me convidou para jogar xadrez. - não quero jogar uma coisa que perco sempre. aniquila para minha autoestima. - perde muito porque avança rápido, precisa ser estratégica, olhar para todos os lados. esperar, recuar e só atacar quando tiver três ou quatro peças rendidas. - o cavalo faz um L, eu sempre começo com ele. - sim. mas os seus peões seguem muito à frente. precisa treinar. vai fazer bem para o cérebro. futebol empobrece,

dissolve a inteligência. pensa comigo: um movimento gera múltiplas possibilidades e se você estiver atenta a todas pode arquitetar, confabular a jogada geral. você precisa mover a musculatura neural. - Se é assim prefiro ler a Odisseia. Scott sabe quando quero cojer, é um tarado em português, diz que eu exalo um olor de femina quando estou molhada e, por mais que eu ajeite discretamente os óculos e dê um sorriso apático e falsificado, ele sabe mesmo que o que quero é pau, boceta, boceta, punheta. “Dora, vois queres hacer sexo selvagem, a merda la odiséia.” E fui assim parar atrás de um arbusto. Aproveitei que todos estavam pensando no Deus do futebol, orando para este Deus que concede as nações a catarse futebolística, o Deus de chuteiras Nike que não aceita infiéis ou ateus e, empezei a me atracar com ele que mora dois palmos abaixo do meu coração, o Deus da minha xana, Scott. “Por Dios, Senhor, por Dios! Por Pluton ou por Netuno, si es que los dioses paganos por ser tal son más humanos...” - Seja livre e sente na minha pica! O pau a pica é. Não importa o idioma. Deixei meu cuculo ver a luz do sol. Scott chupou meu peito no meio do mato, me esfregou la concha, a bombaixa ensopada, a blusa meio erguida, eu nem piscava meu olho marrom arregalado. Olha pra ela, coitadinha, gozando na boca de um Escocês em praça pública. Depois o moço é casado com uma fastasma aí. Mulher igual a qualquer outra, duas pernas, dois braços e... Mas tem mais, minha boceta exala brasilidade. Rebolei como a branquela mais negrinha que ele já conheceu. Se eu não chupo também, ele me mata. Fidelidade inglesa. Atrás de nós, o telão mostra crianças correndo pelo Maracanã, festejando com pulinhos e gritinhos infernais. Foi daí que veio meu orgasmo estrondoso. Eu por cima dele, encaixada no seu pau mais duro que o escrúpulo dos jogadores alemães que já cantavam o hino em coro contido com as mãos nos peitorais pós-nazi. E assim eu gozo gritando baixo com a boca enfiada numa planta que, pelo gosto, me lembrava veneno egípcio. Caminhamos entre a multidão argentina, 53


eu escorrendo até os joelhos a porra recém fabricada e ele, com um sorriso flutuante, me devolveu a calcinha rosa com nuvens verdes que eu tinha largado no meio do mato como um flagrante da minha pureza. Scott me emociona. (Não sei se é porque estou escrevendo um diário, uma mnemotada, esse recordatório da minha atual vida, mas só pensava no meu estado fragmentado amoroso, ao contrário do viadinho Werther, não me recordava de Miguelangel, mesmo sendo abandonada em pleno altar do motel por este porteño sem córi. Com quem, santos demônios, este homem se diverte, em que pernas se enrola, enfia seu olho em que vaginas? Foda-se. Também não me lembro de nenhum outro homem do Brasil. Já me dei por esquecida. Estou mais livre que um alfajor lançado de um décimo primeiro andar. Não sei o quanto devo parecer leviana. Se sou essa mulher séculovinteuníssima que cortaria os pulsos apenas por motivo de dinheiro, cadeia, falta de bebida, cigarro e carência de sexo com desconhecidos. Não me importo. Não vou conjecturar mais meu percalços internos; o motivo da minha fluidez; da minha melancolia;da minha falta de contorno; força, de paciência, da minha selvageria, das minhas mentiras inovadas, fantasias, alucinações e intranquilidades. Não quero mais terapia paralisante. Estou farta de tentar acreditar nas minhas convicções. Pienso ergo no soy. No soy. Se cogito no pienso. Escrever asnices, trepar com mendigos, bailar hasta el final de las convicciones. Esquecer. Criar novas mentiras, uma nova mirada, a raiz na qual poderíamos tecer uma nova língua. Novas enfermidades mentais, roubar novas jóias, novas garrafas, quebrar outros vidros. Uma nova moeda de troca, um modo de produção baseado no sono das crianças. A paz dos assassinos.) Dei uma olhada geral na praça e puxei para dentro dos meus pulmões o ar pesado que antecede um fracasso ou uma desgraça. Saquei meu caderninho de dentro da minha mochila que continha: uma laranja, um canetão azul, spray de bolso, gitanes, garrafinha de uísque com uísque falsificado, canetas gorduchas e pretíssimas. Mas meu olhar estava pouco proustiano novamente. Não consegui reter os acontecimentos tampouco descrever em minúcias a aflição de espírito que me rondava. Pessoas lotavam o gramado verdejante, se importando com futebol de uma maneira argentina. Isso é, gravíssima. “O grave do homem grave é que ele não está mentido, ele é grave mesmo”. Começou o jogo. Isso é, o tango. Liberta o DJ, apita o Juiz, rola a bola ou segue la pelota. Eles vão perder para a Alemanha, eu sei que vão. E os homens que sofrem de má formação de ego argentino vão quebrar a cidade, botar fogo na basura, saquear lojas de guarda-chuvas e estampar nos jornais de amanhã as minúcias do despeito. Outros vão comer suas respectivas mulheres, aburridos e entediados. Muitos vão culpar os brasileiros e nossas macumbas. Iemanjá, Pomba Gira Sete Saias e TrancaRua irão para o banco dos réus. E eu...bem, vou me preparar para consolar os jogadores. Assim que pisarem nessas terras, quero pular embaixo daquele avião, respirar cada pau para dentro de mim. Sou brasileira. Tenho síndrome de vira-lata e meu coração late por eles. Empeza el partido.

JULIANA FRANK vive atualmente em Buenos Aires. Escreveu os livros Quenga de plástico (2011), Cabeça de Pimpinela (2013), ambos pela editora 7Letras, e Meu Coração de Pedra Pomes, pela Companhia das Letras. Participou da coletânea 50 Versões de Amor e Prazer — 50 contos eróticos por 13 autoras brasileiras, da Geração Editorial. Seus textos também foram publicados no caderno Ilustríssima, da Folha de S.Paulo, e nas revistas Cult e Lado 7.

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o grande objeto exterior A José Neto

kleber lima

I.

a resolução da inimizade fosse justamente me eliminar. Chegam a salivar os lábios me fitando. “Que comece!”, peço intimamente, não me sendo possível maior felicidade, senão, quando findado. Para onde estou indo? Sou indiferente. Apenas dobro os braços sobre a mesa e pouso a cabeça sobre as palmas das mãos e nada acontece, nem aqui, nem lá, nem onde estive ou, talvez, estarei. Súbito. A vida desemboca em minhas pupilas desorientadas - imagens sobressaem frêmitas. Os demônios vasculham-me – se minha alma vacila aplicamme dentadas profundas em busca do meu osso branco. É necessário me compreender; se é verdade que ainda podem apertar minha mão e sentir quaisquer indícios de que pareço familiar, é ainda mais verdade que me sinto um ponto convergente por onde passam as variedades do mundo; quando se assentam por um instante fitam qualquer escuridão cativante se lançando com teatralidade para significados já mortos. Na cama, em posição fetal, ensaio um grandioso gesto extático: A recusa é uma flor apontada para o sol. Meu corpo é isto entre batalha e véspera armisticiosa.

Devo contar da minha cisão. De certo houve uma cisão. A única maneira de não sucumbir é manobrar por essa maldita cisão. A distância insuperável depositada no meu olhar me pesa e me faz ver melhor. Não fico e minha sombra vagueia imiscuída a meu corpo, permitindo ainda me achar feio nos espelhos e em olhos alheios. Rio: uma coceira praguejante como esta, só é possível se livrar esfolando-se toda a pele. Alguns passos surdos - me afasto. Minha boca semicerrase. Recolho-me não me cabendo. Atravesso fino. Onde estou é volátil. Atiro os filetes de pele pelo chão, tenho o cuidado de que não forme trilhas, antes os amontoo esperando que algum carniceiro dê justo fim. E continuo. Mais distante. Força! Eu digo. E me arranco mais e mais. E fica valendo esse momento, como iniciasse prometida minha vida. Estou paralelo. Caminho meus pés, beijo meus lábios, solto minhas mãos. Não se trata de um caso comum, creio eu. Sinto minha alma resvalar pelo conjunto ordinário e prático do mundo. Vivo sobressaltado - um educado bom dia pode guardar, no instante seguinte, a desmesurada violência de uma facada prazerosa, ou mesmo, no meio da rotina do trabalho, com objetivos rigorosamente definidos a atingir, fico a pensar em me virar e sair sem justificativa e para sempre. Coisas como estas vão de juntando, num ritmo incessante. Fica-me o espanto: Eu lá fora? Eu cá dentro? (Lá se vai!...Lá se vai!...) Vou-me por dentro deste sonho a mim? Vejo dois, três ou muitos; quem sabe quantos ainda podem vir? A fonte é imperecível. Percorrem os atalhos que levam até mim a galope e gritam com força desmedida pelos meus arredores. Mantenho-me atenciosamente para com pelo menos dois. Entram em desacordo com terrível facilidade e se demoram em picuinhas insolúveis. No entanto, até as bestas mais desvairadas cessam, e os dois me espreitando quase anulam o litígio entre si, como se

II.

Vamos ao meu cotidiano. Observo-o. De lá, para cá. Extraordinário. Produzindose. Maior. Sempre Maior. Um quadro exposto na parede de minhas pupilas, ofuscante. Abobalhado - eu o observo. Meu desejo é retê-lo de uma única vez e por todos os lados. Escapa-me sempre. Resvala para buracos cuja fresta não me cabe as mãos. Fica lá. Zomba-me, creio. Desgraçado! Um único soco e você cairia desacordado. Depois eu observaria sua inação que também me agrediria bastante. Então, uma vez mais, o declararia invencível. No intervalo das refeições, o seguinte arranjo me vem como canção: Deixei meu lugar ao sol vazio ocupo-me das queixas dos pássaros, uns brancos outros azuis, diurnos aqui, noturnos ali, revoando-me. Donde saíram tantos pássaros doidos assim? 55


Contagem: um, dois, três...o sinal abre. O motorista arranca. Meu corpo responde lançando-se para adiante, interdito pelo sinuoso corpo de uma moça, de olhos estranhamente estáticos, boca comprimida, e uma franja vermelha destacada do restante escuro do cabelo. Debato-me contra seu corpo, ora indicando um descontrole total de minha firmeza, ora sofrendo um repuxo que se acentua incontrolavelmente na região genital. Logo a moça pede parada e cabisbaixa vai descendo do ônibus. À distância ela me olha e discretamente ri, ri e se distancia; ri e se escurece; a distância impele um impulso, um lançar-se, um gesto desesperado de mergulho ou um escorregão indolente motivado pelas vertigens do imenso abismo que se forma; ela se lança e eu a recolho, nubente, para dentro de minha escuridão. Estou indo ao trabalho. Na verdade, pode-se facilmente dizer: ele tem um bom trabalho e é impossível que se desfaça dele, já não pode fracassar, superou seu pai e sua mãe, que pouco instruídos, mas esforçados, só o fizeram estudar. E ainda dizem: ele deu certo, está bem de vida; é, sobretudo, bem sucedido. Não podem fazer má ideia alguma de mim. Ele se veste bem, fala bem, é educado ao escutar; presta serviços com qualidade, demonstra interesse e cuidado com tudo o que faz. Enfim, chego ao meu destino e logo percebo alvoroço. A sala aonde trabalho está lotada. Os estudantes aglomeram-se. Estalo a língua. Os punhos se fecham. Sem fixar atenção em nada, recolho um livro em cima da mesa. Saio. Acendo um cigarro, fico fumando, mesmo que não aprecie fumar durante o dia. Está quente. Reparo meu rosto na vidraça da porta e percebo o quão facilmente oleoso ele fica em dias assim. Incomoda-me. O fel aumenta. Na verdade, acumula-se. (Quando explodirá?). Retorno à sala. Posso, enfim, me sentar na escrivaninha e colocar o trabalho em dia. Tudo o que preciso, afinal, é me concentrar. As horas passam rápidas, assim. Entretido e anestesiado, o trabalho discorre melhor. Estou tão surdo - minha companheira de trabalho tem que me cutucar com uma caneta nas costas para que eu possa dá alguma atenção a ela - entro em transe novamente e isso parece obedecer a necessidades internas e, sobretudo, imperiosas. São muitas as pessoas pedindo informação. Olho-os com náuseas. Há dias horrivelmente inteiros assim. Náuseas, náuseas, náuseas. Ah, esses desgraçados!!!. Estou aqui parado ao lado deles e mal sabem que eu estou no décimo andar de um prédio, olhando detidamente para baixo, com um soluço retesado e com uma mancha escura no peito. Deixo-me lá, por horas. Quando me dou conta, já estou almoçando. Lá estou eu. Estou sentado, horário de almoço. Almoço com os demais. A mastigação quase inexiste. O gosto fugaz dos alimentos não assenta sobre a língua. Meus olhos passeiam pelo restaurante, mais precisamente me concentro nos rostos que se amontoam sobre meus olhos. Sempre há a conversa, o ritmo tosco das conversas, as intermitentes gargalhadas, os modos no comer. Estou sentado em uma mesa que pode apenas me caber. Os que me acompanham, não na mesma mesa, mas nas do entorno, se dispersam a me perguntar coisas do dia a dia, coisas que certamente já

sabem melhor do que eu, mas que me falando fingem não saber, impulsionados pela inquietude da minha mudez. Quando, enfim, lhes presto a atenção, falo baixo, o que faz, repetidamente, meu interlocutor solicitar que fale mais alto e audível. Poderia alertá-lo, com minha voz de ventríloquo, que o que há para ser escutado não possui ‘altura’ e nem chega a ser fala, mas prefiro impor um pouco mais de força à voz e deixar que me ouçam com mais clareza que o necessário. - Cumpro coreograficamente todas as minhas exigências exteriores – Minha sombra acompanha rigorosamente os movimentos do meu corpo, de tal forma, que não havendo dissidência entre ambos, passo despercebido ante qualquer um. De resto, nenhuma comida salta de minha boca, não passo as mãos gordurosas sobre a camisa, nem aceito cabelos atravessando meu prato. Ergo-me sem alarde, pausadamente, querendo apenas ir, porque, enfim, vim, comi, e já posso ir. Cumprimento a todos com um rosto amarelo e umas poderosas marcas de expressão atravessando a testa. Quando notam, surpreendentemente, minha face triste e me questionam de forma humana o motivo, apenas lhes ratifico que minha expressão habitual é essa, adicionando também uma noite mal dormida, não havendo muito com o que se preocupar. Na rua, enfim – é uma saída que busco? Geralmente, o som singular dos meus passos, quando do atrito do sapato com a calçada, me desperta uma atenção prazerosa, num crescendo cinematográfico, onde se pode presumir que a intensidade mais alta também coincide com um acontecimento absoluto que não se pode exigir mudança, só uma percepção tardia de que era isso mesmo e não poderia ser outra coisa. Também há uma atração feminina nisso: várias mulheres estalando seus pés calçados num ritmo inexato que de forma alguma se traduz em inarmonia. Também é dessa forma que imagino que uma mulher se aproximará de mim, e em vez de beijar-me, pisará meu pé com a sola do tamanco de salto invejavelmente alto; depois, num gesto inenarrável de labilidade, manterá seus lábios perto dos meus, sem, no entanto, mesmo com minha insistência, ser possível beijá-la. A certeza de que sou inábil implode em mim. Há uma sensação ruim, uma ansiedade mórbida concentrada no meu estômago: “foi aquela maldita comida”, eu penso. Meu cotidiano. A vontade de evasão. As imagens. Tenho tido terremotos mentais. Tenho caído em esgotos e por lá permanecido. Tenho espasmos, febre, dor nas juntas, na cabeça, vermelhidões na testa. Fecho os olhos e cortamme à cabeça de hora em hora, chicoteiam-me em praça pública, meus ossos são torcidos e golpeados até quebrarem, e isso se repete, até o momento em que é possível inalar os meus ossos misturados tão perfeitamente ao ar. Súbito, sou lançado para adiante, como um cuspe, negro e catarrento. Depois me debato violentamente contra o nada; rasgo minha camisa porque não suporto seu peso de veste; de minha boca escorre incontidamente saliva; a cabeça flutua a 200 ou 300 pés, as nuvens a trespassam e meus longos cabelos debatem-se contra o azul do céu; a pupila 56


gira pelo buraco do olho como um parafuso de hélice prestes a saltar e apreende tudo que me passa; às vezes, em plena rua, sem maiores impedimentos que transeuntes apressados e ensimesmados, um longo e estreito corredor, de azulejos vertiginosamente quadriculados, ergue-se a partir dos meus pés, chegando a me cobrir o corpo, encurralando meu olhar. Desta vez sinto o peito expandir; os pulmões salientamse; são instáveis, sobretudo, quando mais necessito. Deito ao meu lado; observo a fixidez terna do meu olhar; estou sempre descalço, os pés possuem marcas profundas, no entanto, não há nada que indique desconforto nos passos. Estou quieto, como sempre estive; incomunicavelmente sem armistícios. Mas, enfim, quieto. Som surdo de janela se abrindo; vento virulento resfolegando nos meus olhos; hesito, observo. Há, sobretudo, miríades de tentáculos lançados para adiante, ora colhendo e trazendo, ora arrancando e despedaçando, e assim me vêm: no meu colo se amontoam objetos tingidos de Deus. As imagens despencam da boca como um excesso de bílis impossível de conter. Há um cheiro pestilento de nu. Meu corpo contraído como um só músculo enrijecido. Algo precisa me chacoalhar. Preciso de um sim febril. Um sim todo de luz. Um sim que vá se tornando mundo. Um sim que se torne único, um sim translúcido de infinito. Um sim que me seja um fio por onde eu possa vir para fora mim, um sim que se derrame nos meus lábios e nunca me deixe sentir sede. Desculpem-me. Padeço de fatos. Só possuo intromissões fictícias no cotidiano.

Posso notá-lo como se fosse uma agitação; de início, um incômodo quase imperceptível, mas como se crescesse e pondo-se de pé, logo se percebe quão difícil é acomodálo sem forçar demais os limites, sem apontar por fora uma ameaçadora elevação na derme do corpo; de repente, ele começa a me chutar, e como se não bastasse, os chutes são acompanhados de gritos infindáveis. Ataca-me com socos, rasga minha carne com as unhas, lança cotovelo e joelho de forma a derrubar qualquer defesa que eu possa sustentar; às vezes estica-se até meu ouvido, zomba como se fosse um imundo, do qual nenhum respeito fosse concebível, e me diz: “eu saio, e esta demora, nada me fará de mal, a não ser me transformar num monstro muito mais hostil, de violências insaciáveis; qual uma semente, que já a muito se esconde debaixo do chão e cujas raízes se multiplicam para todos os lados da terra, eu cresço por todos os lados em você”. Durante a noite não me deixa dormir; não sei como consegue me alarmar com um assovio tão alto que todos os meus nervos tremem ao eco; já deve está velho, o infeliz, pois quando se cansa ouço seu desagradável roncar; ronca como um velho sozinho a quem deixaram por ser muito egoísta e mesquinho; no entanto, exige atenção como uma criança irremediavelmente ciumenta que não suporta um plano secundário; não sei por que ultimamente tem estado quieto como se estivesse a meditar sobre algo; receio que esteja arrumando um estratagema definitivo que me despedace de vez; no entanto, fico em dúvida se já não morreu ou mesmo se desinteressou por completo de mim. Sua ausência agora é mais impertinente que sua presença; será esse seu estratagema final? Será esse o golpe que imediatamente antecede sua aparição? Essa dúvida me corrói como se se inscrevesse a faca em cada pensamento que tenho durante o dia, misturada às entranhas de qualquer consciência que eu venha a construir sobre mim; creio impossível a paz. Posso dizer que em certos momentos estou suspenso sobre minhas impressões; tudo o que obtive de meios e instrumentos para viver minha vida parecem destituídos de realidade. Nem a dor chega a me atingir como dor, nem o sofrimento chega a me atingir como sofrimento, nem a alegria é uma alegria, nem o prazer é um prazer: são sombras que se agitam surdamente dentro de mim. Estou suspenso como um balão no ar e minha leveza parece sustentada por uma vacuidade soprada insistentemente pela boca da descrença; nada a sério, nada! Paradoxalmente, saio à rua; o sol bate resplandecente em meu rosto; deixo a vida vir a mim por todos os canais de sentidos; mas há uma distância. O que quero dizer com isso? Que dentro de mim há um espaço que cresce vertiginosamente, que se construiu alheio a diâmetro e comprimento, que me permite acomodar o mundo e leválo para casa, para algum fim doméstico qualquer, ou atirálo, por meio de improvisadas alças, como um monturo num lixão universal. E então, olho e há silêncio. Um silêncio contíguo à porta da minha imaginação que por lá deve dá por uma enigmática arquitetura. Nada lá se abre facilmente. As frestas, quando existem, são atravessadas arqueando todos os ossos do corpo; às vezes, os quebro, tal é a necessidade de trespassar para

III.

não termino o dia sem: Findar o dia. atiro meu corpo para longe casca de banana sem mais uso - bocejos ancoram em minha boca, abortam o efeito-cupim customizado pelo dia; caio desse corpo mais e mais; fico vago passeio por esse buraco elástico de onde me vêm o mundo até desavir de tudo sorvendo os frutos desesperações da impossível espera que dura na exata medida em que espremendo minhas tripas soam as cordas duma cítara;

“Ele?” “Ele quem?” Essa pergunta é feita em meio a muitos risos. 57


V.

outro lado, respirar um pouco. Fico escoriado e com alguma costela fora do lugar; adiante, exangue e beribéri, nascemme incríveis olhos azuis que mais se desbotam quanto mais minha íris lateja de visões mundanas e abundantemente o mundo se torna existível; é como um relâmpago despachado ao contrário, da terra para o céu: só se torna possível na impossibilidade de o ser. Mas lá está ele. Diante de nós. E nossa próxima refeição já está pronta, e sempre estamos famintos, de uma fome que administra outras fomes.

Minha posição é esta: - Não estou escrevendo. Estou erguendo um corpo imenso, coberto por chamas; estou friccionando frestas vermelhas nas testas das pessoas; estou deslocando o vento por trás da pupila; estou coligindo monstros em berçários cotidianos; estou escorregando a língua por entre gotas azedas de orvalho; estou aliciando um púbis celúreo; estou anotando num caderno velho a lábil trajetória das janelas que se abrem durante as noites insones; estou marcando objetos com pedaços de pele contingente da multidão; estou desembaraçando silêncios enovelados em plena boca de cães; estou apedrejando vidraças embaçadas atreladas ao olhar; estou rente aos lapsos irrefreáveis desembocados do desconforto e da inaptidão; estou costurando uma mão à outra, uma cabeça à outra, uma cor à outra – retalho ambulante, assente o mundo. De fora, quem me vê, pode pobremente me considerar tendencioso - apontar um lugar e me instalar. Não há. Nunca estive realmente em algum lugar, interesse não há. Sempre sobra um membro ou um tronco a mais nas roupas que visto; há olhos demais espalhados pelo meu corpo, e mãos com setenta braços em cada dedo, bocas emudecidas por pedras, suspiros insistentes, febres frias, passos que sobressaem para todos os lados. Situação insustentável. Não. Estou dentro e digo: Dentro é como o balouçar desfraldado de vazios. Há a necessidade de se dar pontos exatos, atados, irremovíveis. Chega-se com isso a uma costura. Depois, e de volta, certo de que não há como desfazer mais tal costura, repetese o mesmo processo, partindo do último ponto findado, dessa vez, com a mesma exatidão vai-se contrariamente ao início da costura anterior. Estão diametralmente opostas, inconciliáveis, porém, coexistem. Em muita confusão atam os terríveis vazios da alma humana – bruxuleiam essa colcha oca de vida! Agora está claro. Um lance sumário. Inexorável. Desenhei o vago dentro de mim. Tracei as inconsistentes linhas do escuro. Descrevi o silêncio como quem mede sua própria envergadura. Os instantes são esses corridos e cavalgados, o tempo regressivo sem fim necessitando ponteiros inúteis para dizer - não diz. Por enquanto, me contento com esses gestos não notados.

IV.

Esse algo separado que se desloca se interpõe ante mim. Esses gestos atravessados que atropelam os meus; esses olhares desviados, distantes que nada veem; essas falas incontínuas e incoerentes que se debatem pela minha boca; essas corridas que acontecem quando eu estou simplesmente parado; essa falta de ar ao acordar; essa sede segundos depois de beber, essa vontade de esticar mais o braço quando a caneta, depois de caída, já está recolhida entre os dedos; essa voz que não destroça vidraças ao lançar um grito injustificado; essa reação que nunca está a altura da ação que a causou; esse imenso desconforto mesmo quando verificada que toda a agenda de compromissos já fora atendida, esse gozo profundo que não dissolve minha carne atestando a impossível união com o outro; essa sensação de alguém batendo fortemente à porta, altas horas da noite, quando o que predomina é um simples silêncio de todos estarem a dormir. Esses pequenos sobressaltos durante a noite intumescem a insônia. Vejo-me crescer bastante nesses momentos insones. São centímetros tortos e inacomodáveis, de tal modo, que durante o dia mal posso me mexer, sem, no entanto, derrubar um ou outro móvel. Só posso concluir que aqui é pequeno demais, e é preciso andar despedaçado por aí para se caber nas coisas, ou apertar demais a gola, ou apertar demais o saco, ou calçar sapatos apertados demais, encravando as unhas, só para sentir aquela dorzinha fraternal de se reconhecer “humano”. Com a cabeça pendida, recolho no ar os pedaços rotos d’alguma saída. Um silêncio aracnídeo tece vagarosamente uma espiral, donde soa uma vitrola arquetípica deslizando sua agulha por sonoridades aleatórias. Estupefato, meu corpo estala por conta dessa sonoridade estranha. Admiro as sacudidelas do meu corpo, desobrigado da música, do ritmo e dos pés. Aproveito toda a liberdade dos meus movimentos, harmonizo gestos descompassados, cadências imprevisíveis; joelhos e cotovelos se chocam; arrasto-me pelo chão, à suavidade das pernas eu mexo epileticamente os braços, e consigo um movimento singular para cada membro do corpo, a boca....os olhos...os ouvidos....os cabelos....a genitália...o estômago...eu me dançava. A imensidão do pátio, enfim, conciliada com minha imobilidade. Eis o sonho. Só a cabeça vagueia nesse espaço rarefeito. O corpo ficou imóvel no térreo, solicitando um elevador quebrado. Sem nada mais a me chamar a atenção, aquieto. Subitamente o espaço se alastra a cavalgadas rápidas. Em todas as direções é possível se atirar. Há um pouco de ar, mesmo que intermitente, e as pupilas tremulam cativadas por brilhos transitórios.

VI.

Agora só me toco com bisturi e não coagulo. Um olho no bilhar e outro n’algum buraco iminente na têmpora da página.

KLEBER LIMA, contista, tem 29 anos. Reside em Salvador, Bahia.

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para não dizer que não falei de amor lara amaral

C

om a andorinha morta em suas mãos, bico mais que calado, experimentou pela primeira vez esse sentimento que faz perder-se sem se dar conta. Ele ouviu algumas vezes: “amar é fácil”. Também já escutou o contrário. Queria era que fosse prático. Mas o que mais via era gente caindo de amor ao primeiro olhar, ao primeiro toque, ao primeiro medo do abandono. Alguns o compram por tempo determinado. Mas há esse do tempo infinito? Já a tinha avistado em um bando de aves que toda tarde forma geometrias no céu. Ele, que nunca amara nada, nem tentara comprar, à vista ou à prestação, qualquer forma de sentimento, viu nascer ali, inerte em seus dedos, o amor que já vem embalado para o túmulo. Onde seria o cemitério de aves? Ele a levaria flores, ou sementes de girassol para atrair os convidados respeitáveis, talvez eles lhe consolassem um pouco. Mas o olhar do pássaro é inquieto, e o bicho quica enquanto anda; coisa mais engraçada é o ser, que é feito para voar, quando tenta se adaptar à terra. Cavou cova rasa, seriam sete polegadas? Talvez a empalhasse. Melhor não. Mórbida seria essa lembrança num corpo vívido. Pensara em como gostaria de ter levado aquele tiro de chumbinho. O que para a ave fora o fim, para ele deixaria só uma marca, de renascença, se tivesse pulado na frente do moleque infame que atirou. E se morresse na tentativa? Mas não se morre por amor? Não pelo próprio... Juntou o monte de terra para tapar o pequeno túmulo. Por costume, pensou em fincar uma cruz. Mas para um ser alado, único conhecedor da liberdade, que nunca temera a morte, o que significa uma marca, aprisionando? No epitáfio: “Aqui jaz o amor eterno”. Seria o sentimento eterno só quando o seu receptor morre antes do fim? Não sabia nada sobre relacionamentos, mas sentia naquela hora que, o que já começa com a morte, não há como matar mais por dentro. Perto de uma árvore de raízes grossas jazia o único ser que lhe despertara algo em toda a vida. Uma vez escutou que nunca é tarde para o amor, e também que uma andorinha só não faz verão. Não mais aquela. Mas além dele – que a ofereceu tudo o que tinha – nada mais saberiam dizer sobre ela.

LARA AMARAL. Brasília, 1986. Mantém o blog Teatro da Vida: laramaral-teatrodavida.blogspot.com

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o dia da hipersensualidade leandro jardim

S

aber eu não sei, mas sentir eu o sinto. Haverá algo de diferente do mais corriqueiro nisso? O problema é interromper o sentimento pra pensar, ou pensálo. Pois tantas vezes erramos na mão, carregamos na tinta, vulgarizamos na fala o que nos cala por dentro. Enfim, o que interessa – em meio a mais uma tarde solitária como a de hoje – é que aquele foi um dia atípico, e até agora tento compreender o que se passou. Não que eu esteja reclamando, incomodado, afinal, onde estaria a beleza da vida se não nos momentos mais inusitados? Pelo contrário, o faço porque, em quem pesa um compromisso estético, seja ele qual for, a busca por significação é, mais do que um vício, uma missão. Ou talvez apenas uma técnica, sendo imprescindível mesmo assim. No meu caso, são as artes gráficas o ofício, embora eu já prefira chamá-las de visuais, artes visuais, com todo o humanismo que a presença de um olhar implica. É porque desde que a minha percepção foi alterada pela duração de um único dia, eu nunca mais vi o trabalho, o mundo talvez, da mesma forma. Por isso, também, é que insisto em recordar, como uma prática, de quem espera nunca esquecer. Quando tento entender como foi que a dança do mundo à minha volta começou, sei que o faço também por um outro motivo, o desejo de capturar a relação de causa e efeito. No intuito – baixo mesmo, eu admito – de reproduzir a sensação, as sensações, que o fatídico dia me ofereceu. Como se isso fosse possível. De qualquer modo, a verdade é que eu não sei como tudo começou. Trabalho com três hipóteses: o café, os olhos da mulher, ou a combinação dos dois. Me explico, vamos aos fatos. Naquela manhã, eu ainda era conduzido mais pela rotina do que por minhas pernas quando cheguei à cafeteria completamente tomado pelo sono. Ao invés do usual cappuccino, pedi um espresso duplo, sabia que a cafeína teria que trabalhar por dois. Não sei se já é uma espécie de fantasia, mas minha memória insiste que a cor do líquido que chegou à mesa era um tanto diferente do padrão, a espuma possuía um alaranjado que eu ousaria classificar como luminoso, quase fluorescente. Foi então que o ponto da virada se deu, creio. Ao mesmo tempo em que tomava o primeiro gole do café, percebi ao fundo, a algumas mesas de distância, os olhos da tal mulher entrando em contato com os meus. Um flash piscou. A noção de tempo se perdeu instantaneamente e a minha razão ainda conseguiu, numa

última tentativa desesperada da lucidez, pensar na palavra hipnose para justificar o estado em que eu recém entrara. O café fervia, mas eu não conseguia parar de tomá-lo, como se a xícara tivesse aderido aos meus lábios. Aquele calor beirando o insuportável pareceu chegar rápido ao sangue, espalhando-se por todo o meu corpo, antebraço, joelho, mamilos, pau. Dizem que o arrepio é causado pela variação térmica, já naquele instante descobri – como uma verdade que se estabelece prescindindo o pensamento – que pode resultar também das oscilações entre dor e prazer. Ou seja, enquanto tudo queimava em mim, me anestesiava uma fixação recíproca nos olhos da mulher mais bonita que já vi. E que não descreverei, porque é propriedade dos ápices de beleza suprema a indescritibilidade. Ela nos tira a fala, explicações jamais a alcançarão. Até a filosofia desiste – ou se perde – diante do absurdo que é o belo em sua essência crua. Retomando, finda a xícara, desviei a atenção, constrangido. Quando olhei novamente para ela, notei que seguia com aquele sorriso monalísico para mim enquanto pagava a conta. A mulher, então, levantou-se e caminhou até a porta, continuando com os olhares intermitentes na minha direção. Antes que saísse, eu fiz menção de levantar para abordá-la. Mas, sem perder as feições alegres, ela ergueu rapidamente a palma da mão, apontando-a rósea pra mim. Obedeci, continuei sentado, também porque isso era praticamente involuntário. Embora eu já estivesse bem acordado, as pernas ainda pareciam não conseguir se mover. Logo em seguida, ela desapareceu pela porta. Mas sem deixar que o mundo retomasse seu rumo. Ou eu o meu. Poucos segundos depois, talvez no mesmo instante, não lembro bem, uma brisa me abraçou o corpo levantando todos os meus pêlos. Era fria e prazerosa. Esfreguei os braços com as mãos, que pareciam em chamas, e deixei escapar um gemido. A excitação não me abandonara. Procurei a garçonete e me deparei com sua nuca. É ridículo, eu sei, mas poderia jurar que ela se virou em câmera lenta, e fui conhecendo então o ponto em que seu pescoço esbarra no pé da orelha, de onde partem pra cima os fios de cabelo que formam o coque, e por onde meus dedos deslizariam com força. Não entendi que ela se aproximava, e quando tocou no meu ombro quase ejaculei. Consegui frear o vexame com um salto brusco e acabei dando uma joelhada na mesa, que por pouco não virou pra cima da moça, assustada. Paguei 60


a conta e corri para casa. Mas não sem antes observar seus dedos esguios, que – tive certeza – saberiam exatamente onde, e como, me tocar. Ainda atordoado ao entrar no meu apartamento, só comecei a formular a teoria de que havia sido tomado por uma hipersensibilidade quando me flagrei ajustando a pegada da mão na maçaneta, de modo a massageá-la. E era muito bom, acredite, embora eu nunca mais tenha conseguido repetir o efeito. Na hora, porém, fiquei um tanto embaraçado com aquilo, mesmo sabendo que estava sozinho. Achei que era hora de trabalhar, de pôr em prática a boa e velha estratégia de espairecer a partir do labor. Nem tão boa assim, verdade seja dita, comigo isso nunca funcionou. Mas, dada a nobreza da prática, sempre julgo apropriado tentar. Assim, sentei na escrivaninha para verificar os e-mails. O primeiro era da minha cliente mais simpática, atraente também, para quem eu estava criando o desenho de uma marca. Dizia que tinha gostado das minhas sugestões iniciais, embora lhe parecessem demasiado simétricas e quadradas. Pediu-me algo mais curvilíneo – talvez por ter mais a ver com ela própria, pensei – e se despediu mandando beijos. Ao ler essa última palavra na tela, me pareceu que tremia, depois começou a piscar, cresceu e saltou para minha boca. Já montada em meu colo, minha cliente agora levantava a blusa, esfregando sua fartura no meu rosto. Ainda guardo vívidos outros detalhes dessa transa. Ou terão sido da seguinte? Difícil precisar. De qualquer maneira, dessa vez eu não me obriguei a conter a ejaculação. Ao final, porém, me irritei com a dificuldade de me concentrar para o trabalho, mesmo tendo sempre a desejado de forma velada. Me parece que as emoções gostam de surpreender as experiências das quais decorrem. Se minha questão era, portanto, um excesso de sensibilidade e um desejo incontrolável, o melhor a fazer – ao invés de lutar contra o meu estado – era aproveitar toda essa intensidade na arte, pensei. Criar. Há certa vantagem em ser artista e ter lido Fernando Pessoa, passamos a crer que não temos a alma pequena e, portanto, tudo vale a pena. Ali mesmo, senti-me capaz de transformar aquela agrura numa obra artística de grande gozo estético. Decidi começar do zero. Ao pegar uma tela em branco, pensei numa cama, um edredom, e pressenti que havia alguém por baixo, um corpo nu e aquecido. Reuni minhas tintas e comecei a imaginar o tipo de pincelada que usaria. Gargalhei diante dos trocadilhos infames que acometiam minha cabeça. Óbvio, deixei a brocha de lado. Lembrei, então, do acaso, o imponderável, sua importância para a arte, e a centralidade que ocupa na vida. E o desejei na carne. Inflou-me uma grande expectativa a respeito da nova idéia que aos poucos me surgia, e que eu já julgava genial. Fechei os olhos, ia escolher aleatoriamente a tinta. Talvez uma vinheta apoteótica tenha ressoado no ambiente, tamanho era o meu ar solene. Às vezes os artistas precisam mesmo supervalorizar suas idéias no instante da criação, é uma forma de manter a motivação e não ceder à preguiça. Ato contínuo, joguei sobre a tela um roxo tal que um gosto de vinho se espalhou rapidamente por minhas papilas gustativas. Uma leve embriaguez também me percorreu. E de repente aquela taça era tomada da minha mão por uma mulher que chegou

pelas minhas costas. Até hoje não esqueço o cheiro sedutor que exalava. Gritei em voz baixa – já sei, é você! – quis crer que era a misteriosa da cafeteria, embora tivesse certeza de que não. Acreditar em mentiras é muitas vezes um recurso. E como meu talento é extremamente limitado, não abro mão de nenhum. Pedi, então, que ela cobrisse meu rosto com as mãos de maneira que não me deixasse enxergar. Completei dizendo que, ainda assim, vendado, pintaria os olhos dela, mais que isso, seu olhar. E com a mesma perfeição com a qual estavam vívidos em minha memória. Talvez seja desnecessário dizer, mas ela topou com uma voz soprada e morna na minha orelha. Gostei de pensar nos ouvidos como órgãos associados não apenas ao sentido da audição, mas como instrumentos tácteis, ou mais, termômetros da sensibilidade humana, ou ainda, antenas captoras de sinais e outros tipo de onda, que não apenas a meramente sonora. Resultado, nunca na vida pintei uma tela tão abstrata, coisa que não é do meu feitio. Mas isso, claro, só pude reconhecer no dia seguinte, chocado com a diferença entre o que eu lembrava da tela e o que via no cavalete. Talvez por efeito daquele vinho, pensei. Mas na hora em que o quadro era finalizado, também o mais rápido que já fiz, não tive dúvida. Eu havia fundido os olhos da bela da cafeteria com o pescoço e a orelha da garçonete, completando o busto com uma mulher volumosa, que certamente era a minha cliente. Era também ela quem estava atrás de mim a me vendar. Se viu no quadro, e o amou. E me amou. E nos amamos por algumas boas horas. Após uma manhã tão intensa, só me restava tomar um banho. Ao sentir as primeiras gotas de água quente deslizando pelas minhas costas, pude imaginar o que se seguiria. A água me envolvendo como um corpo feminino, ou apenas uma boceta que me engoliria inteiro, ou talvez o escorrer de seus jorros orgásticos. E parei por aí, porque acho a urina escatológica demais para as fantasias do sexo. Mas me enganei. Dessa vez eu era um mergulhador no mar morno do caribe. Como eu não havia pensando nisso? Sabonetes viraram conchas; vidros de xampu e condicionador, os peixes; e a esponja, uma esponja mesmo, marinha. E todos os seres subaquáticos pareciam se acasalar à minha volta, convidando-me a acompanhá-los. O sol ainda era suave, mas já esquentava. Precisei de mais ar. Ao emergir, ofegante, uma melancolia se anunciou à direita do horizonte, em formato de nuvem fálica e chuvosa que encontra a montanha de curvas femininas. Entendi um quadro novo. Em que a beleza fosse tamanha, de intensidade tão avassaladora, que tornaria inevitável algum sofrimento. E lágrimas, que não seriam de tristeza ou alegria. Lágrimas que surgiriam apenas do reconhecimento bruto de que a beleza e o prazer são possíveis e compatíveis com a dor. Sequei-as junto com a água do banho. Nesse momento, surpreendi-me com a textura da toalha, diminuí o ritmo. Optei por continuar a massagem na cama e logo cochilei. Acordei cerca de meia-hora depois, devorado por uma fome descomunal. Acariciei a barriga com as mãos e relaxei um pouco. Eram incrivelmente macias, inclusive os calos, que contribuíam pra dar uma coçadinha gostosa. Nesse mesmo instante, lembrei-me de que havia marcado uma reunião 61


com a minha cliente dentro de alguns minutos, isso também estava no e-mail, ela queria me orientar pessoalmente sobre as mudanças na marca. Não haveria tempo para almoçar antes que chegasse. Assim, convidei-a por telefone a me encontrar no restaurante, resistindo bravamente às pulsações que sua voz me provocava. Quando ela chegou, percebi que trazia numa sacola as lembranças de tudo que havíamos vivido juntos durante a manhã. Tentei limpar a cabeça evitando a gentileza de auxiliá-la com a bolsa. Ela riu compreensiva. Conforme o almoço seguiu, a cada olhar que me dirigia, ou toques – sim, ela enfatizava sua retórica me tocando com uma naturalidade inédita – no braço, ela parecia pedir mais. Quando nossas pernas se esbarraram por debaixo da mesa, como num máximo clichê de comédias, fui novamente tomado pela evidência de que ela comunicava uma satisfeita cumplicidade velada. Eu não estava só. E era irresistível corresponder.

LEANDRO JARDIM

é contista, vive no Rio de Janeiro. É autor do livro Rubores (Oito e Meio). Têm inúmeras participaçoes em antologias do conto nacional.

62


BRAINSTORM

LIELSON ZENI

S

enhoras e Senhores, por favor, sua atenção. Vou apresentar agora o briefing da história toda e em seguida o diretor de mídia vai comentar sobre o schedule de veiculação, ok? Pois não, S.?

Z.... Ah, sim: Manual! Isso, inclua no manual, por favor, L. a alternância entre a ordem de plano de mídia e proposta de criação? Cada vez, vai um antes, depois o outro, ó-cá? [...] ahn... daí... é...

É que você pediu pra ser avisado sempre que usasse palavras em inglês porque desde as novas leis orgânicas não pode e tal...

Você ia passar o briefing...

Muito obrigado, S., você tem razão. Podemos seguir daqui? Pois não, N.?

as instruções do cliente! Ah, isso! Obrigado, N.! I., pode apagar a luz, por gentileza? Obrigado. N., o primeiro slide, por favor.

Não seria melhor conhecer as mídias antes, pra já ajustar as ideias ao formato?

Péra, só um pouco... Z., eu concordo com N. também. Essa primeira tela que veremos em breve traz a percepção inicial que desencadeou todo o processo criativo dessa demanda. N., é o arquivo chamado briefing_meeting... Ah, isso!

N., E., eu sei que essa discussão criativa é a base do nosso negócio e de nosso trabalho há anos, a questão forma versus conteúdo e tal, mas vejam: L. e eu achamos melhor que fosse desse modo: eu passo o bri... o pedido inicial do cliente, já ajustado para a nossa realidade produtiva e posteriormente L. apresenta o plano de mídia. Neste caso, faremos assim, ok?

Secretaria de Planejamento e Procrastinação departamento de desenvolvimento

Podemos fazer ao contrário da próxima vez, Z.? Plano de mídia antes do brie... da proposta criativa?

Setor de Criação

Sim, I., fica combinado que na próxima vez a gente faz ao contrário e

“eu estava indo pegar o metrô que fica do lado de uma terminal de ônibus. Tirei a mochila das costas, pra pegar uma

Não sei, se todo mundo concorda, mas podíamos incluir como procedimento-padrão essa alternância, Z. Vez um, vez outro.

garrafa de água e beber e nisso olhei pro asfalto do terminal e ele tinha manchas vermelhas já secas. Daí pensei que era sangue seco. Imediatamente me

É, me parece uma boa.

perguntei se não seria catchup.”

Também gostei... Não vai dar confusão isso, será? De achar que é a vez de um e ser a vez do outro, essas coisas? Galera, galera! Calma lá. L., acho sua ideia ótima. Você pode, por favor, incluir isso no nosso handbook?

[Transcrição de texto do cliente]

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Eis o speech do cliente, que é o input do processo.

1. Em nome da clareza, informe-se que há dois L. na sala. Esse a quem Z.(único) responde não é o mesmo que apresentará o plano de mídia na sequência (nota do autor).

Z., você tá fazendo de novo. Sorry! Onde eu estava? Ah, sim! Essa é a entrada de informação, essa é a percepção, o momento em que os primeiros documentos são digitados e autorizados, e é com isso devemos trabalhar primordialmente. Em caso de dúvida e de dificuldades, voltem pra cá. É daqui que tudo partiu, ok? Próximo, por favor.

Secretaria de Planejamento e Procrastinação departamento de desenvolvimento

Setor de Criação

????

Secretaria de Planejamento e Procrastinação departamento de desenvolvimento

Setor de Criação

- ENCERRAMENTO COM REVERSÃO DE EXPECTATIVA

- ALGO DA VIDA REAL

- SURPRESA

SANGUE

???? Alguém tem alguma sugestão de como surpreender no final, partindo da ideia das manchas observadas no chão? N.?

CATCHUP

Hmmm... o protagonista é atropelado por um ônibus e suas manchas se juntam àquelas do chão e não dá pra saber quem é de quem.

[Gráfico meramente ilustrativo]

Cara, adoro diagramas de Venn. Então, o que vocês acham que esse desenho sugere? I.?

Certo. Outras ideias?

Assim... me parece que a sugestão é que, por mais que sejam substâncias completamente diferentes, há uma certa confusão, há um ponto em que elas se tornam indissociáveis.

Depois de algum tempo, se descobre que as manchas não eram de sangue, porque fica com uma cor diferente daquelas respingadas do personagem! Podemos tanto especular alguma explicação ou deixar em aberto mesmo!

Boa! Esse é o ponto sugerido pelo secretário: a confusão sobre a identidade das manchas. E quem confunde as manchas?

Boa, mas quero ideias diferentes. E se o observador não for atropelado? O.?

O hospedeiro, claro!

Bem, aí... pode ser que todo o chão ao redor dele fique com a mesma cor das manchas, fazendo com que elas sumam... se tudo é uma cor só, não há manchas e aí o cara pega o ônibus tranks.

Transformaremos em personagem. Já temos o protagonista! Z., a gente podia fazer uma coisa meio noir, de investigação...

Ou ainda poderiam sobrar só uns respingos de asfalto! Ou ainda uma HQ, bem focada na arte, usando aquela coisa da cor e tal...

Amigos, podemos trabalhar com opções mais realistas? Descartemos as ideias de realismo mágico ou de acontecimentos estrambóticos. Ou estão se esquecendo de um item importante do slide. Vejam aqui... me empresta aquela caneta laser? algo da vida real.

L. e S., as ideias são boas, mas não condizem com nosso plano de mídia. Quando L.1 explicar o plano de mídia, vocês vão entender melhor. Mas anotem suas ideias e segurem um pouco a ansiedade e se concentrem no protagonista, o tal que não diferencia as manchas do chão. Já chegaremos lá. Só que antes, deixa eu passar para o próximo...

Mas o realismo mágico trata do real de um modo metafórico, Z.! 64


E., é mesmo? Jura que trata? Acho que ninguém aqui sabia!

Eis nossa ligação com a realidade do hospedeiro. Foi? E., pode explicar pra gente qual é a reviravolta inesperada?

E., N., calma, por favor. Eu me explicarei melhor: essa demanda é pra ser conduzida de modo realista. Esse é o sentido do real ali. Vamos lá, ideias. Qual elemento do real podemos usar aqui?

Acho que sim. O observador é incapaz de decifrar se aquelas manchas no chão são de sangue ou catchup (e aqui entra a reviravolta contesca) não porque ele não conhece sangue, mas porque ele não conhece catchup. É isso mesmo?

Z., porque tenho a impressão que você já sabe o que quer e tá enrolando a gente, tentando nos conduzir à aspas resposta correta?

Exatamente, galera. L., plano de mídia, por favor. Ah, por favor, a última tela.

É, se já sabe, compartilha aí. Secretaria de Planejamento e Procrastinação

Isso não é aula socrática. Desembucha, Z.!

departamento de desenvolvimento

Setor de Criação

Não é bem que eu já sei, é que nos foi aconselhado a seguir um modelo. E esse conselho é de quem? Do gerente departamental? I., quase isso... Do secretário? Bingo! Mas isso não é uma simples imposição verticalizada do nosso chefe, é algo que ele apreendeu a partir da leitura do relatório do Escritório de Fiscalização de Entradas de Estímulos. Ali ele percebeu que esse elemento real vinha, cito “recoberto de desejo genuíno do hospedeiro”. Serião, Z.? BOM TRABALHO A TODOS!!!!!!

O., não vamos discutir isso, por favor. Já está autenticado. N., próxima tela, por favor! Z., valeu. Podem acender a luz? Não vou usar o computador e serei breve. O plano de mídia é simples: é isso tudo que foi passado pra vocês em um miniconto. O menor e mais econômico possível, sem usar imagens, sem variar pontuação ou tipografia e sem usar o recurso do telegrafismo. Usem os coesivos do português, por favor. Dúvidas?

Secretaria de Planejamento e Procrastinação departamento de desenvolvimento

Setor de Criação

É pra quando?

????

Imediatamente, N. Façam agora. Acredito que entre vocês nove aqui, conseguiremos uma versão usável. Boa sorte! q

- ENCERRAMENTO COM REVERSÃO

Sangue? Catchup? É nisso que ele pensa ao ver marcas vermelhas respingadinhas no terminal de ônibus. Segue para seu ponto e pensa do que seriam aqueles pingos, se de alguém ferido, se de um faminto atrapalhado. Ele nunca vai saber, porque não come catchup.

DE EXPECTATIVA

- ALGO DA VIDA REAL

- SURPRESA

O hospedeiro não suporta vinagre e, por isso, não come nenhum tipo de condimento.

...

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Ele vê respingos vermelhos no chão e fica na dúvida se são manchas de sangue ou de catchup. Nunca saberá, porque seu sanduíche não tem condimentos.

Uma meeeerda, não, né, O.? Mas não são muito bons mesmo. Eu não consegui desenvolver o tema... Pra mim faltou tempo pra testar modelos que

... Sem mimimi! Bem, o que sugerem? Temos opção além de apresentar algum desses mnicontos que vocês fizeram?

Olha para o chão e vê pequenas manchas vermelhas no chão. Pensa em sangue, mas fica em dúvida se não seria molho apimentado. Deu azia só de pensar.

Não quero correr com nada, mas em 20 microsegundos temos de dar uma reposta...

... Puta merda! Entre trens e ônibus, passageiros e motoristas, pressas e atrasos, não soube se as manchas do chão eram de sangue ou de catchup. A dúvida ficou entre seu coração e sua barriga.

Eu tenho uma ideia, L. Vai dar tempo. Fala, I.

... Vamos pedir pro Departamento de Desculpas arranjar uma licença procrastinante, daí podermos dizer que foi falta de tempo. Acho melhor do que assumir que a ideia inicial era uma merda. Ia ficar mal pro hospedeiro, pro secretário, pro gerente departamental, pro encarregado do setor e, obviamente, pra nós.

No chão, umas manchas rubras. Passa por elas, mas seu pensamento segue respingado: sangue? Catchup? Nunca comeu nenhum dos dois pra saber. ... Investigaria com lupa, se não estivesse correndo pro trabalho. Aquelas manchas vermelhas deitadas no piso do terminal são sangue ou catchup? Se for sangue melhor, não federiam a vinagre.

Gosto da ideia da I. Mas precisamos justificar esse pedido. Já sei como. Me tragam um papel timbrado!

... Lá atrás tem umas manchas avermelhadas, que podem ser de sangue, que podem ser de catchup, não sabe definir muito bem, porque não está acostumado a molhos.

Ao Departamento de Desculpas Viemos por meio desta pedir um efeito procras­ tinante nos padrões mentais do hospedeiro nas próximas 24 horas (recomenda-se jogos de puzzle no celular). Objetiva-se, assim, livrar o supracitado hos­ pedeiro de ter que rememorar a desprazeirosa expe­ riência olfativa de vinagre, que seria reativada pela Secretaria da Memória, de acordo com a expedição 3 de 19 de julho de 1987. Recomenda-se, outrossim, o envio da frustração advinda da não-factura ficcional para o Depósito de Ressentimentos número 34.

... Não suporta vinagre e nunca comeu catchup e, por isso, a dúvida: aqueles respingos no chão do terminal de ônibus são do molho ou de sangue? ... Enfim, as manchas no chão eram vermelhas do catchup que odeia ou do sangue daqueles que esperam no Terminal?

Anexos, seguem os laudos sinápticos que com­ provam o dito acima.

q ATT. Bem... então, é isso que temos! Obrigado, pelo trabalho pessoal. Vamos levar pra aprovação a menos que algum de vocês tenha outro miniconto aí e não nos mostrou. Não?

Z., Setor de Criação.

q Z., com licença, desculpa falar aí, galera, mas na minha MODESTA OPINIÃO estão todos uma merda.

LIELSON ZENI, 34 anos, é natural de Francisco Beltrão, morou em Curitiba e hoje vive em São Paulo. É pesquisador, editor e roteirista de quadrinhos, além de escritor de ficção.

[...] 66


3 movimentos para um selvagem desamor lima trindade

Allegro con grazia

páginas não lidas diante dos olhos. E o impulso, o impulso, o impulso contraiu-lhes o ventre até que se desfolhassem bocas em bocetas. E gozaram.

A mão. O toque. Vai, corre livre, sem medo da morte. A mão. O toque. Estanca a ânsia num belisco. A perna. Sóis dourados. Esplende inteira e vara a madrugada. Os olhos. Pintados. As bocas. Pintadas. As unhas. Pintadas. Cores enevoadas numa margem de luz. A cama. Os travesseiros. Os lençóis. Calor. A espádua, nua; os corpos, nus; começar e terminar somente para o prazer de um novo início. O beijo. Eduarda, Duda, ou Duzinha, como a chamava Tânia, uma mulher, uma menina, vinte dois anos, nunca vinteEdois, rapidinho e musical feito sua fala, feito seu corpo esguio, lindo, lindo. Os ombros graciosos e quase-frágeis amparando o pescoço-de-pássaro, a plumagem no cabelo curto e recortado, os olhos-grandes-de-coruja, pairando doces no rosto, emoldurando quase, e a boca, uma boquinha redonda entre a linha do nariz e o queixo curto e suave, Duzinha, a Duda, sempre desejara Tânia. Tânia gostava de rock, andava de skate, lecionava italiano. Sou uma mulher-revólver, dizia, aludindo aos trinta e oito anos de idade e ao gosto pelos Beatles. Revolver, saca? E os olhos apertavam (se apertavam?), reluzindo cílios gigantes. Não fosse pela camisa do Portishead, aquela com a capa do Dummy, Duzinha não teria tomado coragem pra chegar e conversar papo mole e chamar a professora pra beber e esticar e deitar e rolar e beijar e beijar e beijar e beijar e beijar sem cansar. A respiração era funda, no encalço do mistério. Tânia, o semblante oriental, estátua mística, olhos vazados e sinuosos. A carne generosa, o desenho da linha da barriga, o piercing de bolinha no umbigo. Ambas iguais. Semi. Ambigüidades. Incerteza. Ilusão. Era e não era, jovem e anciã. O prazer de tocar a água fria, conforto e surpresa. Ajoelharam-se ao mesmo tempo, uma de frente para a outra, e quando o fizeram os joelhos afundaram no macio do colchão, envergando seus troncos para a frente e fazendo com que os rosados dos seios roçassem. Retraíram-se, mãos encobrindo pêras, gerando reflexos numa vidraça turva. Meninas e noite misturadas. Havia sabor secando a língua. Quando a pele enfim grudou na epiderme estrangeira, aceitaram-se. O jogo de fugir acabara. Deitaram-se como imagens iguais e contrárias, lados trocados, imperfeitos,

Andante Atrasada. O almoço de Eduarda. Quinze minutos, uma besteira, culpa do aluno que não entendeu como conjugar o verbo amare. Tânia estacionou o carro e imaginou se a dúvida do garoto seria real ou artifício. Adolescentes & professores. Vez ou outra flagrava uma ereção sob a carteira. Disfarçava. Uma única vez. Bastou. Envolveu-se com um aluno. Perigo. A cara madura a enganou. E, o gosto, diferente mas parecido. Curtiam cinema e música e bebida e moda. Uma farsa. Pegavam uma sessão noturna e o pau comia. O pior eram as brochadas depois das bebedeiras. Um garoto seria menos complicado. Não encheria o saco, não pegaria no pé. Mas, o cara, esse não. Insistiu até ela dizer que o reprovaria. O resultado foi um bico na perna como se o idiota gostasse de futebol e possuísse força bastante para se sustentar em pé depois. Humilhação. E o fela-da-puta ainda avançou, se Tânia não fosse mais rápida e arrancasse da bolsa a maquininha de dar choque em tarados. Toma! Nada menos que um machistazinho de merda. Pois o safado recebeu a descarga elétrica no saco. E veio aula, olhos-nosolhos-quero-ver-o-que-você-faz sem acontecer nada. Não se tocou mais no assunto. Os outros que namorou gostavam realmente de mulheres. A questão, para ela, era gramatical. Necas de concordância. Os caras gostavam de usar o plural e nunca o singular. E Tânia não admitia infidelidade. Pareceulhe que Duzinha também não. E viviam felizes. Tanto que era a primeira vez que adotava namorada e família juntas. Pensava até que seu amor se confundia com esse bemestar de se sentir parte de alguma coisa maior que o sexo ou a paixão. Eduarda vivia com a mãe e mais dois irmãos menores, todos sem trabalho fixo. A mãe se chamava Cecília e tinha sido abandonada pelo marido quando este se formou e ganhou uma promoção na firma. Hoje ela vivia da pensão e complementava a renda preparando salgados e doces para festas. As crianças estudavam em colégios particulares. Eduarda estava na faculdade. Sobrar dinheiro era raro. Contudo, Tânia achava aquele lar alegre... Ao menos quando 67


não estavam numa espécie de discussão particular de quempegou-minhas-coisas ou onde-foi-parar-o-maldito-celular. Ouvia-se rádio o dia inteiro. As estações mesclando músicas com informações gerais e de vago interesse. O silêncio só recaía sobre as paredes no horário da Ave-Maria, às seis da tarde, e quando enfim todos se deitavam para dormir, sendo Cecília a última a se recolher. As portas da casa estavam sempre abertas. Tânia entrou. Um menino de cabelo castanho claro correu e a abraçou; aparentava uns doze anos. Da sala de estar, mãe e filha lhe sorriram. Na mesa, o macarrão, o frango e o feijão fumegavam. Ela se desvencilhou do garoto e caminhou em direção às mulheres. − Já era hora, Eduarda estava para ter um troço – ralhou Cecília, enquanto beijava Tânia na testa.

Desencontraram-se. − Meu amor, tenho de lhe dizer uma coisa. − Não, Tânia. Não antes de mim. − Nossa, você está com uma aparência péssima. − Eu falei para a minha mãe a respeito de nós. − O quê? − Isso. Disse a ela que somos amantes. − Porra, Duda! E você nem me consultou, nem me prepa­ rou para nada. − O problema era meu. − O problema é nosso. − Agora, não importa. − Como assim, não importa? Não importa para você. Para mim, importa muito. Ou você pensa que eu entro e saio da casa dos pais da minha namorada como quem vai ao banheiro? − Do que você está falando? Pirou? − Quem pirou foi você. − Não sei do que você tem medo. − Não? Pois deveria. É papel seu saber quando sentirei medo. E o momento é justamente este. Eu não namoro só você, Duda. Eu namoro a família inteira. − Rá! Por acaso tenho uma lâmpada piscando na testa e avisando tãnia tem medo! tânia tá se cagando... − Não seja irônica. − Não imaginava esta reação sua. Ainda mais que eu nem falei o que aconteceu... − ... − Isto é, se importa. −Bem, o que aconteceu, afinal? − Minha mãe disse que já sabia. − Jura? − Juro. − Ela disse ainda que o que importava, para ela, era o fato de eu me envolver com alguém independente. −? − Falou que tava cansada de se responsabilizar por tudo. − Porra... − Também fiquei puta. Tanto que saí de casa. − !!!!

Finale. Adagio lamentoso Fiiiuuuuuuuuuu. O assovio se estendeu solto pela avenida inteiramente larga naquela tarde pura em que o carro não tinha pressa em passar ao lado da menina boa e do menino descarado assoviando da janela do edifício nos Jardins. Pára. Tanta idéia na cabeça e Duda. Pára. Que raios de cantada mais covarde esta, típica de quem se esconde atrás da cortina e a mãe ou a cozinheira-não-importa-quem sem nem desconfiar da estrepolia, apenas cozinhando-lavandoenxugando. Mostrar o dedo adianta? Claro que não. Uma vontade louca de sentar ali na calçada e fingir que o sol não existe e que não tem de pensar, já que custa tanto e o pensamento por si soa tão pesado e a esta hora já começa a fugir pelos poros, crescendo como mato e morrendo e a matando de um cansaço secular. Dúvida. Enzo é tão bonito e ela não deveria ter aceito a carona para os Jardins se, afinal, mora em Pinheiros e não havia almoçado – estava morta de fome, sim, é verdade –, mas Enzo era tão bonito com aquele cabelo negro e caído na testa, uma espécie de homem antigo, Jean Paul Belmondo, Alain Delon, Marcelo Mastroianni, James Dean – não, óbvio que Brando não entra nesse time, Brando não tem carne nem osso, Brando simplesmente não existe, minha gente, é pirotecnia, invenção de computador ou maluquice qualquer – Plínio Marcos no tempo da Tupi e também aquele ator de Bonequinha de luxo, meu Deus, gente assim não se esquece, ah é o George Peppard! e – antes que você se canse – William Holden. E não adianta insistir que Tarcísio Meira não entra. No máximo, concessão das concessões, Tom Jobim. O fato é que aceitou a carona de Enzo, o convite para entrar e de quebra beberam as cervejas todas da geladeira, fumando e bebendo e admirando a beleza antiga de Enzo, sem frescuras, beleza bruta de macho com olhos negros e queixo partido. Homem assim não precisava de inteligência. Era só fumar e beber que a trilha já tocava na cabeça. Um jazz ou um rock triste. E Enzo e o pau de Enzo e o peito e a cor morena e encaracolada das axilas e curvas e Enzo e culpa e culpa e culpa. Duda.

As duas se abraçam. Choram juntas. Acariciam-se. Voltam a se olhar mais distanciadamente. − Você disse que também tinha algo para me falar. −Era uma bobagem. Nem sei como dizer. − Então por que não esquece? − Eu tentaria. Se fosse capaz. − Tânia, minha querida. Não leve tudo a ferro e fogo. − Eu traí você, Duda. Traí você com um homem. Duda respira fundo. Pára. Pensa. Responde. − E daí? − Não queria magoar você. − Pretendia magoar a si mesma. − Eu não o amo, entende? Foi simplesmente algo que aconteceu e pronto.

Encontraram-se. 68


− Talvez você devesse olhar sob outra perspectiva. E quanto a mim? Você acredita me amar? − Duda, eu sempre quis ter uma família... − Nós podemos ser esta família; basta... − Desculpe, meu bem... − Desculpar não é problema. O que desejo descobrir é se estou fazendo a coisa certa. Se o que sinto é correspondido. − Eu gosto de você. − É suficiente? − Olha, não sei o que você está pensando, onde planeja ficar, mas... Acho que não estou preparada. − Tudo bem, meu amor. − Não me olhe assim... Não chore. − Tânia, eu saí de casa, lembra? − ... − Não me importo com sua traição. O que me dói é descobrir que nem o meu perdão fará alguma diferença. − Fica. Passe uns dias aqui em casa até arrumar um lugar para você. − Não. − Por favor, Duda. − Deixe-me em paz. − Fecha a porta, vá, não há necessidade... − Cala boca, Tânia! Não queira de volta o que eu ofereci e você recusou. Tânia agarrou o braço da amiga e a puxou novamente para dentro. − Duda, querida, eu te amo. A porta se fechou. − Mentira. − Eu juro! Amo como nunca amei ninguém na vida. Duda abaixou a cabeça e se manteve em silêncio. − Eu só estava confusa. Juntou tudo na minha cabeça, entende? A história do Enzo... − Enzo? − Sim. É o nome dele. − Tânia... Duda sorriu. − Diga. − Que nome feio, hem! Ambas se olharam com força, quase fúria, parando de respirar e concentrando todas as energias nos olhos uma da outra. LIMA TRINDADE

nasceu em Brasília e vive em Salvador. É autor da novela Supermercado da Solidão (2005) e dos livros de contos Todo sol mais o Espírito Santo (2005), Corações Blues e Serpentinas (2007) e O retrato ou um pouco de Henry James não faz mal a ninguém (2014). Participou de diversas antologias, entre elas Tempo bom (2010), org. por Christiano de Aguiar e Sidney Rocha, e Geração Zero Zero (2011), org. por Nelson de Oliveira.

− É mais bonito do que Eduarda. − É verdade. E riram e se abraçaram. O toque. Mãos unidas. Sem medo da morte. 69


comercial ((a inevitável multiplicação do universo)) “E se um dia ou uma noite um demônio se esgueirasse em tua mais solitária solidão e te dissesse: “Esta vida, assim como tu vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes: e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indivisivelmente pequeno e de grande em tua vida há de te retornar...” A Gaia Ciência - Friedrich Nietzsche

lisa alves

P

rimeiro vou falar dos pés: o direito contém cinco dedos como deve ser e o esquerdo possui seis por causa de uma malformação congênita – nos anos setenta muitas crianças nasceram com problemas físicos e eu não fugi da regra. Decorrente de causas diversas, a malformação congênita pode comprometer músculos, esqueleto, órgãos sensoriais, sistema nervoso e no meu caso esse mal só me ofereceu um dedo a mais. Acreditem um dedo a mais significou um empecilho enorme, um dedo a mais, por muitas vezes, foi um detalhe imperdoável – tão irredimível quanto às milionésimas vidas dizimadas pelo nazismo ou mesmo quanto à engenharia socialkiller do Khmer Vermelho. Em contrapartida fui considerada boa parte da vida uma mulher muito formosa e esse detalhe propiciava minha mãe me arrastar ao longo dos anos para diversas agências de modelos. Sempre éramos muito bem recepcionadas – no primeiro minuto os profissionais da área ficavam estupefatos com a minha beleza “Nossa, uma turca à brasileira!”, entretanto depois de verem meus pés improvisavam pretextos sobre as exigências dos clientes, sobre a imagem da agência e repetidas vezes voltávamos para o lar envergonhadas e minha mãe murmurava uma historíola sobre Deus e o Castigo transmitido geneticamente pela nossa família desde o dia em que o meu bisavô saiu da Turquia e deu de cara no Brasil com a Bisa (uma índia da tribo dos Macuxis) e a capturou no laço. Contavam que nesse dia o pai da Bisa (meu tataravô), o cacique Upiara, amaldiçoou até a sétima geração do meu bisavô e minha mãe passou a vida inteira relacionando os meus seis dedos do pé esquerdo com a maldição. A carreira de modelo não me interessava, mas era uma das poucas promessas de vida que minha mãe aspirava cumprir. Assim você apanha menos desse mundo! – justificava enquanto eu fingia interesse e só me sobrava fingir. Fazíamos poucas coisas juntas, na verdade quase não compartilhávamos alguma missão. Logo, caçar uma agência de modelos para a filha era uma maneira de reparar um antigo sonho pessoal dela – um sonho dilapidado no aterrorizante dia em que os militares despejaram ácido em sua face e a prenderam por meia década. Meu pai às vezes transmitia as verdadeiras intenções maternas, falava sobre me desviar da política, das ideologias perigosas e evitar a força fatal da natureza presente na união dos Hikmets com os Macuxis. Diziam na vizinhança que minha mãe era apática, doente, fraca do coração, “anêmica” da cabeça e de certa forma eu reconhecia nesses comentários vestígios

de verdade, embora soubesse a razão de sua convalescência. Recordo uma cena sucedida aos cinco anos de idade, eu era uma versão feminina de Enzo Staiola em Ladrões de Bicicleta ou uma versão feminina de Josué gritando por sua Dora em Central do Brasil. Eu gritava na rua pela minha mãe e dezenas de mães surgiam para confirmarem se era uma de suas crias aos clamores. Inacreditavelmente minha mãe era a única que não dava as caras, permanecia na cama choramingando ou entupida de remédios e com o tempo eu parei de clamar por ela, mas não interrompi o meu grito e toda vez que repetia o ato me iludia com a figura mental de todas aquelas mães prontas para me acolherem em seus colos perfumados e me livrarem do mortífero medo da existência. E foi assim, no inicio de minhas eras, que notei pela primeira vez a inevitável multiplicação do universo.

Mãe!

Mãe! “Mãe! Mãe! Mãe! Mãe! MãeeãM! MÃE! Mããee! ...” Mãe! Mãe! Mãe! Mãeee!

Mãe!

Diante de um universo impreciso no qual nada era tão óbvio ou simples ao ponto de classificar minha vida em algo avaliado como normal, minha mãe se tornara apenas uma representação de qualquer mulher com avental sujo e uma filosofia coletiva do “eu entrego minha vida pela vida dos meus filhos” e eu passei a acreditar na existência de papeis sociais vitalícios enraizados em uma idéia romântica (para não dizer uma idéia desgraçadamente limitadora). Naquele dia que gritei por minha genitora e fui recepcionada por outras comecei a idealizar esse papel na figura de todas que não fossem ela e adotei o papel da filha que comprou gato por lebre e dali por diante passei a ser a coitadinha-filha-da-mãelouca e mais tarde a louca-filha-da-coitadinha-louca o que resultou em uma pessoa decidida a não ser mãe para evitar passar para frente o gene da loucura carimbada. Naquela mesma época que nomeio de “Idade do Grito” eu vivia mais nas ruas do que em casa – gostava de peregrinar, contemplar as casas do bairro, os jardins, os becos e as pequenas florestas que coexistiam com a cidade. Quando descobria um lugar do meu agrado passava horas olhando e concebendo alguma biografia não autorizada – imaginava a vida transitando do interior de tudo que abrigasse a própria vida. Nem sempre o que planeava era bom, às vezes um impulso muito forte 70


me fazia parar em frente a uma casa e do lado de fora eu conseguia observar o que se transcorria lá dentro. Cenas que o imaginário coletivo não experimenta criar, já que o mesmo cogita que todas as famílias são homeomorfas: estão todas ao redor de suas mesas como em um comercial patético de uma manhã bem-aventurada. Na maioria das ocasiões eu via alguém em prantos, alguém que era capaz de representar uma tristeza tão profunda que passei a intuir, desde cedo, a infelicidade anônima do universo. Em minha casa as paredes eram preenchidas de solidão – minha mãe sempre permanecia nos mesmos lugares de sempre, meu pai adorava a TV e meu avô permanecia na oficina, nos fundos da casa, criando pequenos robôs de madeira e que mais tarde (bem depois de sua morte) tornaram-se símbolo da escola artesanal da cidade.

E disfarça a chaga e silencia a alma e se faz outra da face indesejada... Infelizmente meu pai sofria de transtorno dissociativo de identidade e quando preparava a próxima aula em referência a poesia japonesa do século oito regressou sem nenhuma explicação para frente da TV e esqueceu completamente de nossas aulas, inclusive já não sabia o que era a tal da poesia. Porém, a tal da poesia permaneceu comigo até hoje – assim como permaneceu uma desconfiança secreta da falta de originalidade dos acontecimentos que sucediam nos meus dias até chegar ao ponto que batizo de “Idade da Interferência”. Esse ponto da minha biografia estragou definitivamente minha vida social, pois qualquer ato ou ação de alguém próximo se tornava um filme repetido e muitas vezes eu não conseguia controlar meu impulso de interferência e isso me causou um aborrecimento quilométrico através de filas de pessoas pedindo orientações pérfidas sobre suas vidas intimas, sobre apostas, sobre quem iria morrer e eu educadamente me trancava em casa e fingia a “não existência” assim como fingi todas as outras vezes, em todos aqueles universos, em todas aquelas lembranças. Mais tarde comecei a escrever sobre aquelas experiências e codificá-las por julgar a matéria grave e assaz complicada. Se caíssem em mãos desonestas poderiam se volver em uma película publicitária de agências de turismo “Mude seu Destino!” ou pior virar um conto de um escritor fracassado (pois escritora fracassada é redundância). Considerei o assunto mais importante do que o mundo, pois minhas experiências se aceitas poderiam mudar a forma de se ver o mundo e mudar a visão de um universo é algo mais danoso do que mudar a forma do mundo – minhas experiências indicavam que o mundo considerado presente não passava de um holograma, uma gravação, um arquivo de imagens de tempo e matéria soltos em um estado de reverberação infinita e mudar sua forma não teria lá grandes alterações o desafio maior era modificar a visão da humanidade sobre si mesma, pois como haveria de ser o após do ser humano depois de se perceber como uma “reexistência”? Ou seja:

Escola de Artes Ï robotic A vida foi passando (mil vezes mais lenta do que aqui narrado) e eu cresci interessada em assuntos da cosmologia, em matérias da física “invisível” e mal pisquei da adolescência à fase adulta e já estava em um país distante na tentativa de provar que somos apenas um universo passado, um eco de outro universo autêntico. Como bem devem suspeitar minha teoria não foi afetuosa e tão pouco desventurosamente aceita, ela foi simplesmente ignorada. O meu país nunca foi bem visto no quesito cientifico, éramos a mão de obra barata do mundo (o povo injetado pela incapacidade de pensar) e quando um dos nossos decidia fazer algo sério o mundo simplesmente ou ignorava ou meramente interrogava: “E futebol você joga bem?”. Eu já tinha uma resposta na ponta da língua: “Não, mas também componho poemas, escrevo ficção e nas horas vagas visito a oficina do meu finado avô para terminar o seu legado de robôs de madeira! E acreditem: eu odeio futebol com toda a força da existência e sou hábil a explodir uma bola só com a energia do pensamento.” A poesia apareceu na minha vida como a própria vida surgiu – sem uma razão preparada. Rememoro a manhã de novembro a qual testemunhei o triste ato de minha mãe encobrir sua face com uma máscara enquanto repetia a palavra “mascus” (cujo sentido fui só conhecer após quinze anos ao ser apresentada em Recife para o Coletivo Mascus ou os Fantasmas da Resistência). Naquele dia escrevi sobre sobreposições de vida e meu pai se atreveu a dar o primeiro laudo: “O nome disso é poesia!”, “Como assim?”, “É poesia, menina!” E me apresentou uma aula que perdurou mais do que eu poderia imaginar e menos do que ele havia planejado. Meu pai me apresentou as místicas obras dos vedas indianos, os Gathas de Zoroastro, a Ilíada, a Odisséia, a Epopéia de Gilgamesh, a Eneida de Virgílio e sempre afirmava sobre a poesia ser a arte suprema da narrativa humana e sobre o seu auxilio na memorização da história de um povo e, além disso, recomendava caso eu atrevesse a voltar a compor um poema que pelo menos não o tornasse tão particular como fiz naquele lamentável novembro ao ver minha mãe evocar a Mascus:

um eco, do eco, do eco, do eco, do eco, do eco, do eco, do eco, do eco... Primeiro vou falar dos pés: o direito contém cinco dedos como deve ser e o esquerdo possui seis por causa de uma malformação congênita – nos anos setenta muitas crianças nasceram com problemas físicos e eu não fugi da regra. Decorrente de causas diversas, a malformação congênita pode comprometer... LISA ALVES nasceu em Araxá, Minas Gerais. Reside em Brasília desde 2003. É colunista da revista Ellenismos e responsável pela coluna Videoteca da revista Mallarmargens. Possuí textos nas revistas Diversos Afins, Abismo Humano (Portugal), Sociedade dos Poetas Vivos e o jornal literário Equador da Coisas. Têm poemas publicados em quatro coletâneas de poesia: Trilhas (CBJE, 2007), Poema Capital (Eloisa Cartonera, Buenos Aires, 2011), Cumplicidade das Letras (Perse, 2012) e Vinagre - uma antologia de poetas neobarrocos (organizada pelo poeta Fabiano Calixto, 2013). Seu blog: lisaallves.blogspot.com.br

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obituário

lívia milanez

M

atei o primeiro homem aos 12 anos. Não foi caso pensado. Aconteceu que me desacataram em um boteco daqui do Caetano Filho e eu varei uma peixeira na barriga de um bêbado. Por conta disso, peguei logo fama de matador e não demorou pra me passarem mortes por encomenda. Aos 20, em 1977, já tinha matado seis. Menos de um por ano, mas eu ainda contava a vida toda pela frente. O que eu sentia quando matava? Nada. Quando me passavam o trabalho, eu só estudava o tipo de morte mais conveniente pro sujeito encomendado: se devia matar a tiro ou a faca, se afogado dentro de um saco de estopa amarrado e jogado no rio... Mas nem sempre era eu que decidia. Às vezes tinha que seguir o gosto do cliente, se ele fizesse alguma exigência. Cornos. Cornos sempre faziam exigências, queriam mortes sujas e doloridas. Confesso que não gostava de trabalhar pra eles, não porque me incomodasse em cortar ovos fora e depois empalar o sujeito, mas porque cornos tinham problemas, eram clientes difíceis, quase sempre voltavam pensando em matar também a mulher, ou se arrependiam de terem mandado matar e não queriam pagar. Isso quando não descobriam que tinham mandado matar o homem errado. Clientes problemáticos, sem resolução. Não gosto de gente assim. Tu vê, eu sou um homem simples, gosto das coisas definidas. Era só me passar a encomenda que eu entregava, era só isso, não sou nem nunca fui de muita conversa – hoje é que estou dando palavra demais. Dezoito. E eu sei o nome de cada um. Entreguei exatinho esse número e de todo jeito possível. Morte com fogo, com água, com óleo, com choque. Não, não tenho remorso. Era meu trabalho, mas depois eu tentei me emendar pra ter uma vida mais calma. Aqui perto, ali, olha!, no cruzamento da Inácio Magalhães com a Bento Brasil. Ali era o hospital Nossa Senhora de Fátima. Estou com 50 anos e hoje ele é uma casinha pichada e de vidros quebrados. Não reformaram, abandonaram mesmo. Em 1983, quando estava perto de fechar, não internava mais. Era só ambulatório. Trabalhei ali como vigia noturno. Ninguém ficava muito tempo na função. Por quê?

Contavam histórias, mas eu não dava confiança. Eu era o único vigia da noite naquele hospital abandonado e foi aí que começou. Ah, começou uma coisa esquisita, eu nem queria comentar. Eu não sabia se era sono, porque ser vigia às vezes dá sono, mas acontecia de eu tirar um cochilo e acordar com um grito. Abria o olho assustado, com o coração acelerado, mas me aquietava logo. Já tinha mais de dez nas costas e não ia ser justo quando eu tava me ajeitando na vida, em um emprego novo, que um deles ia me empatar... E olha que eu nunca fui de acreditar nessas coisas, por isso era tão bom no meu ramo. Sim, sim, eu ainda peguei uns trabalhinhos, até completar minha conta, mas, no geral, eu tava tentando me ajeitar com o emprego de vigia. Tinha noite que meu posto era na Casa João xxiii, outro prédio por ali, aos pedaços. Lá funcionou escritório da igreja, hospital também... No corredor do primeiro andar, eu ouvia gemido de doente e barulho de maca empurrada. E não tinha mais nada funcionando ali. Eu tô dizendo! Se eu vi alguma coisa? Ver, eu nunca vi, mas eu ouvia. Aliás, eu vi, sim, só não queria contar. Uma vez, acordei com uma freira com a mão bem no meu ombro. Foi nessa noite que eu achei o livro, ali, na João xxiii. Achei o livro e uma estola de padre roxa, que eu levei pra casa porque, sei lá, tive o impulso. Foi a última noite que eu botei o pé naquele lugar. No livro, que era a bem dizer um caderno, tinha várias anotações de nomes e datas do lado: José Menezes Mota – 14/03/1922; Antônio de Paiva Ferreira – 22/03/1930; Ermenegildo de Sousa Brasil – 18/10/1941; Felisberto Bezerra Carvalho – 26/11/1944; Ildefonso Oliveira Diniz – 02/05/1952... nomes e datas, virava a folha, nomes e datas, nomes e datas, até acabarem as páginas... Eu li todos os nomes, todas as datas. Lia todos os dias, cheguei até a decorar e posso recitar cada um, cada nome, cada data. Minha vida ficou maldita por causa daquele livro e daquela estola roxa, mas eu demorei a atinar com isso. Assim que larguei o emprego de vigia, comecei a beber muito, justamente no bar onde despachei o primeiro infeliz, 72


aqui perto. Brigava, jogava, apostava, gastava com as cunhãs. Eu tinha deixado de ser um sujeito razoável por aqueles tempos. Ainda tinha o garimpo. O povo vinha do Tepequém. De uma certa feita, um caboco embriagado levantou da cadeira com um diamante, que, eu lhe juro, maninho, tinha uns três centímetros, assim, ó, e disse: “Leva este” – o diamante – “quem acertar o que é este” – e era, na outra mão, um topaziozinho bem ordinário do tamanho de uma unha. Era um jogo de adivinha. Um indivíduo gritou “Topázio” e levou o diamante. Bem podia ser combinação dos dois, coisa armada pra enganar os trouxas, mas eu não quis saber. Embosquei o sujeito na saída – faca no bucho – e me saí com os dois vidrilhos, o laranja e o diamante. Por essa ocasião, tomei minha primeira cana, justo no bar onde comecei minha carreira. Isso, fui preso porque me pegaram em flagrante. No tempo que fiquei na cela acordava à noite com suadeira de malária. Gritava. Tá doido, diziam. Não era malária nem nada. Era uma agitação enquanto eu dormia. Eu não lembro o que eu sonhava, só que me agitava muito, me batia todo, e acordava afogado, sem ar. Os outros me olhando. Depois de um tempo, isso no ano que criaram o Estado, me mandaram pro Coronel Mota, o hospital novo, porque lá tinha psiquiatria. Lá eles me davam tanta coisa que nem sei. Aquilo que eles dão é que destrói a cabeça. Eu vivia grogue. Fiquei no Coronel mais um bom pedaço até que me deram alta. A polícia esqueceu o caso do topázio no Beiral. Das outras mortes ninguém tinha como me acusar. Nomes e datas perdidos nas fichas da polícia. Voltei pra casa. Depois da cadeia e do hospital, não matava mais. Me empreguei na fábrica de iogurte, me juntei com uma caboca. Só que o livro, o livro e a estola, eles continuavam comigo, lá na minha casa, em um quartinho. Passado um tempo, eu ia caminhando pela rua e me chamaram. Me virei e não tinha ninguém. Isso aconteceu outras vezes. Alguém me chamava na rua. Não era ninguém. Também me chamavam de manhãzinha, quando eu estava pra acordar. Eu olhava pro lado, pra minha mulher, e não era ela, não era ninguém me chamando. Eu nem sei dizer como era a voz, ou as vozes, que me chamavam, só sei que, de primeiro, elas diziam meu nome. Depois passaram a dizer os nomes do livro – e olhe que eu não mexia nele desde que tinha sido preso, quer dizer, uns cinco anos preso, mais uns quatro no Coronel, nove, fazia tempo que eu nem dava notícia daquelas folhas. Cada dia diziam um nome, e eu lembrava que aquele nome estava anotado. Ficou muito tempo assim: a voz dizendo os nomes anotados. Depois que todos os nomes escritos já tinham sido ditos, a voz começou a declamar as datas, e eu sabia que eram as datas anotadas do lado daqueles nomes. Se datas de nascimento ou de morte, não faço ideia.

Era do nada. Eu na fábrica, anotando o número de um lote de Yodam, um número comprido, e vinha, por cima da minha voz anotando o lote, vinha essa outra voz, como se fosse eu e outra pessoa conversando ao mesmo tempo. Essa outra voz ditava uma data que eu não queria saber, que eu não queria anotar, mas anotava, e aquilo começou a me afetar no serviço. O supervisor chamou várias vezes minha atenção por causa dos lotes anotados errado até que fui demitido porque discuti com ele. Eu sei que a culpa é daquele livro, daquela estola roxa. Fico pensando em um jeito de dar um fim bem dado neles, pra nunca mais me perturbarem, malditos que destruíram minha vida. E os nomes e datas todo dia na minha cabeça. Me azucrinando. Pensei em cortar a estola, mas é difícil achar faca e até tesoura lá em casa. A caboca esconde tudo. Uma vez tentei rasgar o livro, mas ele é muito grande e eu me cansei de rasgar quando tava na metade das folhas. Quis queimar os dois, estola e livro, mas me atrapalhei com os fósforos e fiz foi queimar o quartinho. Um vizinho veio e me tirou de lá, eu estava estirado no chão, desmaiado, e o fogo ardendo ao redor, queimando tudo, menos os danados do livro e da estola roxa. São anos ouvindo aqueles nomes, aquelas datas, essas vozes que chamam meu nome. Eu não aguento mais. Hoje, quando eu chegar em casa, vou de novo tentar dar um jeito. Talvez jogar aqueles breguessos no rio. Talvez me jogar. Eu não sei. Eu não sei. Só sei que preciso fazer alguma coisa. O que foi? Por que tu falou meu nome?

LÍVIA MILANEZ participou de festivais de contos no Estado de Roraima até o começo da adolescência. Aos 14 anos, recebeu prêmio nacional do Jornal do Commercio (Pernambuco) por ensaio sobre os 500 anos do Brasil. Mora em Brasília desde 2001.

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caminho de volta lu thomé

A

s janelas estão lacradas. O cheiro sufoca. Por todo o apartamento, muitas flores, plantas, arranjos e o resultado do trabalho constante da natureza: concentração de gás carbônico. Falta oxigênio ao lugar, falta luz. A escuridão e a sujeira tornam este um cenário subterrâneo. Quase funesto. O apartamento mostra sinais de que alguém o visita regularmente. Mas sem a preocupação usual de um morador. Os jornais estão dobrados na cadeira da cozinha e a louça segue suja na pia. Os pratos recebem, a cada segundo, uma gota de água que cai da torneira. Roupas estão jogadas no chão, próximas à máquina de lavar. E o gotejar dita um ritmo que determina que, algum dia, será hora de arrumar esta bagunça. A torneira pinga, pinga, pinga. Uma casa que respira tristeza. Nas paredes, fotografias alegres. Pessoas sorridentes com o fundo do olho luminoso e as mãos apertadas. Parecem torcer pelo alívio de um futuro incerto. Da cozinha, dois passos levam até a sala. As cores das paredes amenizam a seriedade da mobília. Tons de amarelo abrigando móveis de mogno escuro e um conjunto de sofá e cadeira. Sobre a mesa, os buquês e vasos. Margaridas, crisântemos, rosas e flores do campo, enfeitadas com fitas e resguardadas por pequenas flores. Em cada ramalhete, um cartão branco. No total, são quatorze. Todos endereçados a Isa. “Estou torcendo por você”. “Fique boa logo”. “Você vai sair dessa”. “Seja forte”. Perto do telefone, um bloco com anotações e alguns tíquetes amassados. Compra de leite e pão no supermercado, pagamento de três cartelas de aspirina na farmácia e recibos do estacionamento do shopping. À direita da sala, está a porta do quarto. Uma leve luminosidade escapa das persianas e toca a cama. Algumas portas e gavetas do armário estão abertas. No interior, a bagunça parece gerada pela passagem de um furacão. Outros porta-retratos apontam os donos da casa. Pelo chão, muitas fotografias espalhadas, como um jardim de lembranças: casamento, viagens, festas, família, olhos, mãos, beijos. Metade da cama encontra-se desarrumada. O lençol e a fronha amassados e revirados. O outro lado permanece intacto. Aparenta estar sob permanentes cuidados e carinhos. Nesta parte da cama estão os equipamentos: uma máquina fotográfica, algumas lentes, rolos de filmes, uma bolsa e

uma agenda. Objetos separados e organizados para algum trabalho ou saída. A casa está parada no tempo, habitada pelas fotografias que não sabem interromper os sorrisos. Falta uma engrenagem. Faltam suas vozes. Os livros e discos estão guardados na estante. Faltam os olhos e os ouvidos. A casa é um mundo aberto. Faltam as pessoas. Na cabeceira, os números do relógio piscam. Corte momentâneo de energia elétrica. Na sala, o telefone não toca. Na porta, a campainha é silêncio. A vida não está mais aqui. Deixou seus rastros. E, talvez, esteja procurando o caminho de volta para casa.

LU THOMÉ

é jornalista, escritora e sócia da Não Editora. Atua como assessora de imprensa em sua empresa, o Estúdio de Conteúdo.

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A FOTO

luísa borges pontes

A

imagem não negava: explícita, negligente, emoldurava o fatídico beijo entre o casal caído de amores. Seria a última lembrança que guardaria dele, homem dos sonhos, os dela. O clique banal de algum provável amigo íntimo era simbólico: para a outra era guardado o afeto que tanto a fez invejá-la outrora. Foi um choque. De todas as suas acompanhantes, a que representava tudo o que a moça não foi era quem provocava o olhar lânguido dele na fotografia. Bela, loura, famosa: o estereótipo temido por qualquer mulher que ama um homem desejado. O primeiro pensamento veio após uma pausa de ideias, embotadas por emoções envelhecidas. “Não éramos nós, meu querido, não éramos”, divagou. O que seria dela veio logo em seguida, em forma de raiva engasgada por ausências, as dele, e superego, o dela. Havia se entregado por inteiro à memória afetiva que nunca cicatrizava: ainda memória, nada de afetiva. Cerrou os olhos como se toda a realidade fosse desaparecer no escuro das pálpebras, mas nos instante em que os reabriu, tudo permanecia intacto. O brilho, o tato, a respiração, tudo estava lá, ou ali, ou em lugar algum. Ela o amava, e como amava, e doía não ser a pessoa que fazia tremeluzir os brios de macho do outro, no calor bom de seu abraço. Sempre foi estranho esse amor que lhe dispensava, tão incondicional por natureza. Por vezes se indagou se era legítimo, antes de se acusar de masoquista ou coisa que o valha. Mas não, era bonito, como o verde dos olhos da donzela de beiços rosados da foto. Hum, a foto: havia até se esquecido do frame que jamais olvidaria no porvir. Como um singelo registro poderia desencadear esse filme inteiro na cabeça, tal qual o que assistia agora? Lembranças dela, deles. De repente, a interrupção: uma ira vinda sei lá de onde encharcou as artérias e enrubesceu os vasos que irrigavam a mente. Que fúria tinha dele, esse ser distante! Que lástima sentia por si, tão presente! Bateu o punho fechado na mesa; o barulho talvez tenha chegado ao parapeito da janela vizinha à frente. Tomada por um rubor descomunal, fechou num estalo a tela do computador, luminosa, enquanto tons escuros manchavam a vista. Levantou da cadeira, se enfiou na roupa de ginástica, e saiu desarvorada pela portaria, com a adrenalina entupindo o sangue da cara. Nem boa noite dispensou ao porteiro, deseducadamente. Correu para o calçadão de Copacabana, os pés ainda tortos, cambaleantes. Enquanto tentava acertar o passo, as lágrimas capotavam no rosto, como um veículo desgovernado a duzentos e tantos

quilômetros por hora, dando ritmo ao coração, alvoroçado. Cavalgava na noite quase densa, acompanhada apenas pelo luar daquele verão sem fim, tão gelado quanto improvável. Tropeçou umas tantas vezes, mas quando parava para retomar o fôlego, era a figura do outro que lhe aparecia: um fantasma a vagar pelas frestas do pensamento. Ela, claro, vinha a tiracolo, rindo da cara de quem havia (se) perdido: tomara o lugar da moça, afinal. Linda, loura e famosa, era o que trazia escrito na testa, chacoteando a insignificância de quem amava sem holofotes, na surdina. Linda, loura e famosa: tudo o que a moça não era. Nem se ousasse pintar as madeixas far-se-ia reluzir para o homem que preferiu aquela qualquer, um troféu emoldurado no álbum da internet. “Cretino”, conseguiu adjetivá-lo, quando já eram escassas as forças nas pernas. Acelerou o passo, e queria gritar a quem ouvisse o quanto havia querido bem a um ser deveras desprezível. Risos, beijos, e juras de amor eterno surgiam à sua frente, em descompasso, não respeitando uma ordem. Teria que ir embora daquele lugar que ele ocupava, ainda, mas para isso teria que arrancar o coração, despedaçado, ora pois. Nem toda a moral do mundo fora capaz de meterlhe juízo, e não sabia mais o que fazer com tal ingratidão. Parou num quiosque, perto do Posto 12. Ofegante, percebeu-se sozinha no breu noturno, nenhum transeunte, nenhuma alma penada. Só, como vinha se sentindo desde que o conhecera, anos antes. Só, com a lua cheia acima e o mar sonoro ao fundo – eis os espectadores da dor de amor que judiava dela. Botou as mãos sobre os joelhos, o vendedor de coco veio perguntar se passava bem. Assustouse com a intromissão e, com ar sisudo, desconversou e saiu desembestada pelo sentido inverso da orla. Alternava uma marcha desajeitada com breves sprints improvisados, na ânsia de não sentir mais pés nem peito. Mas tudo isso estava lá, vivo, assim como o cérebro, flamejante. Queria ir embora de tudo, e desprender-se da matéria que fazia dela um ser real e factível. Queria não mais querê-lo, impossível que era. E corria, tentando acompanhar a velocidade da luz. Dispersavam de si fragmentos do que não se cumpriu no passado, como downloads interrompidos, que deixam como rastros arquivos temporários na memória em cache. “O que fazer com os sonhos não realizados, projetos da alma que somos obrigados a largar pelo caminho?”, conjecturou. “O que há de ser de nós quando a vida, abruptamente, surrupia a 75


doce utopia que nos guia e alimenta a cada aurora?”, indagouse. Eram muitas as interrogações, raras eram as certezas. Alcançou o Arpoador, apenas alguns postes iluminavam as ondas serenas lá embaixo, já madrugada. Espiou uns casais e outros sujeitos guiando-se, anônimos, pelo breve trecho da Francisco Otaviano, que dava na escada de madeira para o oceano. Dando de ombros ao movimento alheio, freou como pôde a cadência imprudente dos batimentos. Em seguida, jogou o par de tênis de lado, e arremessou longe a roupa suada colada ao corpo que, sanguessuga, chupava-lhe o escarlate da pele. Nua, desvairada, atirou-se em direção ao mar, imenso, na esperança de a água, sal da vida, lavar no peito o que não cabia mais em si.

LUÍSA BORGES PONTES é jornalista, pós-graduada em Sociologia e estudante de Direito. Escreveu na coletânea Para Copacabana com amor, da editora Oito e Meio. Louca? Só se for aqui: www.agiripocavaipiar.blogspot.com

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variações sobre a solidão, parte i Palavras-chave: Professores – Deficientes de audição – Quadro – Official video ft. Nataly Portman – Ensino – Vestido preto – A espera – A espera – Acessórios – Sign language – Messianismo – Tradução – A linguagem insignificante

Maíra matthes

E

sse texto descreverá uma aula de filosofia na Língua dos Sinais para surdos. Os únicos personagens humanos serão a professora e os alunos. Eles estarão todo o tempo na sala de aula onde a professora ensina uma vez por semana a história da filosofia na linguagem dos sinais (vulgo libras). O conto visa explorar não apenas os diálogos de sinais entre os personagens, mas principalmente os monólogos mentais que podem ser adivinhados seguindo o burburinho incansável de gestos que correm como faísca por toda sala. Ainda não se pode dizer as características exaustivas do caráter das personagens, mas algumas informações centrais já estão disponíveis. Ver abaixo.

É bastante provável que a professora goste de se sentir como um enviado-de-alguma-instancia-espiritual-X disper­ sando os signos da verdade pelo mundo. Ela gosta muito de dar pausas entre um gesto e outro (como quem pode suspender o fluxo natural da passagem das coisas para ouvir uma música que apenas ela parece ouvir).i Ela parece se sentir importante nesses momentos e quase mesmo uma enviada de uma instância X com voz que só ela entendia. E os dias eram como traduzir a voz dessa instancia X para aqueles Y. E também era uma espera constante por um sinal que a faria parar a “tradução”.ii Esse sinal que ela esperava supostamente teria o poder de a fazer parar os movimentos de sua mão vagarosamente, olhar durante alguns segundos para a parede oposta da salaiii e sair. Mas sair no sentido intransitivo. Porque esse “sair” significaria nesse caso apenas sair: não sair de lugar nenhum para lugar nenhum. Alguns leitores perceberão que isso seria intransitivo como “morrer” ou como “viver.” Ela ainda está esperando esse sinal, ela (lá no fundinho) acredita que em algum momento ele virá nas mãos rápidas de seus alunos ou na luz cortante que às vezes se jogava suicida janela adentro. E isso (a espera) lhe causava bastante desgaste. Era uma atenção redobrada a cada gesto, a cada tom de branco

diferente das paredes desbotadas da sala de aula. E era algo para carregar durante o dia, para trazer e levar, para tentar exercer controle, para arrastar consigo embaixo das cobertas à noite. E isso não era bem o que ela entendia como felicidade (o autor talvez opte pela expressão “satisfação pessoal” no lugar de “felicidade” para evitar alguma leitura precipitada entre a falta de felicidade e ‘a impossibilidade da eudaimonia no mundo niilista contemporaneo.’ O autor se esforçará nesse momento para não tornar sua personagem uma representação da impossibilidade do sentido, da felicidade, da unidade, todas essas coisas que as personagens do sec. XX costumam representar). O parágrafo termina com a seguinte frase: Não se pode viver a espera de um sinal para se viver ou morrer. O que acontece então (o conto deixará esse momento bem claro) é que ela desiste. Desiste de procurar coisas entre dedos e unhas barulhentos (o leitor perceberá o trocadilho e talvez com razão o achará um pouco sem graça); desiste mesmo de buscar aquele som pulsado atrás de si quando costumava parar imóvel pronta para sistematizar o mundo com seus dedos. Não paravam de chegar até ela, no entanto, informações a serem assimilidades, demandas a serem atendidas, sinais a serem interpretados. Mas tudo que chegava (C.f. input) curiosamente passou a parecer ter mais de uma intenção ao mesmo tempo. Era como se todos estivessem dizendo uma coisa com as mãos e outra com os lábios. E assim em todos os lugares. (A ideia é que a sala de aula nesse momento se transforme numa metáfora para o universo da professora. O leitor conseguirá imaginá-la em lugares cotidianos, como uma farmácia p.ex,. sofrendo de uma terrível dificuldade para entender as verdadeiras intenções dos atendentes. É possível que ela compre coisas erradas por achar que o anuncio de um remédio era uma mensagem subliminar para um shampoo especial para seus cabelos − normal com tendência a oleoso.) Aquilo era tão insuportável que lhe dava vontade de perder a capacidade de ver mais de uma coisa ao mesmo tempo – que o mundo fosse um só, que essas valinhas se secassem.iv

i. Em momentos como esse ela se sentiria um pouco como a Natalie

iii. o “olhar por alguns segundos” será substituído por “olhar por um tempo

Portman interpretantdo ‘My Valentine’ de Paul Mccartey e abaixa a cabeça

infinito” visando maior efeito poético. C.f. infinito = tempo não quantitativo.

para esperar a parte instrumental da música. Ver: https://www.youtube.com/

O tempo que ela olha apesar de ser medido em segundos não pode ser

watch?v=FAApccf11hs

medido do ponto de vista daquele que experimenta a ação, daí “infinito.”

ii. Para se referir a sua vida, a personagem usava tal termo. – “Minha vida, essa

C.f. tb: “abissal,” “incomensurável” “sem jaulas de ferro”

tradução” – frase dita pela personagem no primeiro monólogo mental do conto.

iv. (Parmênides, Poema).

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Haverá um momento que a professora explicará uma coisa muito difícil, muito difícil mesmo e também muito técnico e também muito chato. Então ela não consegue achar um signo com as suas mãos que pudessem explicar o que ela queria. Ela se sente muito mal “que péssima professora sou eu que não consigo encontrar os signos certos a mão certa na hora certa para explicar a diferença entre realidade formal e realidade objetiva de uma ideia.” Então ela percebe que há absurdos limites nas capacidades de seu corpo expressar o movimento galopante da sua mente (na verdade não se sabe ainda se “galopante” será o adjetivo empregado nesse momento) . Então ela se sente sozinha e resolve parar a aula, resolve acabar com aquilo de uma vez por todas. Nesse momento, no entanto, ela olha para uma aluna sentada logo do lado da janela (uma que sempre recebe os raios suicidas pela manhã) e ela parece estar lhe dizendo algo. A menina toda baixinha (isso se percebia mesmo com ela sentada) parecia dizer algo alto e em bom tom usando perfeitamente sua voz! Ninguém a ouvia, mas mesmo assim ela parecia falar tranquilamente com sua amiga do lado que tentava ler seus lábios. A professora não consegue acreditar que aquela menina o tempo todo ali capaz de falar com voz e não falar com dedos tão miúdos os dedos da garota. A professora se aproxima, a menina fala de novo para sua amiga lhe ler os lábios, mas agora o som parece tão baixo, tão baixo que é provavel que o narrador diga nesse momento que a garota sussura e que “esse sussurro sussuro existe em uma língua que certamente escorre entre tapetes e atrás de quadros e mesmo pronunciada alta e em bom tom guarda aquele ranço de corredores escuros e saias resfolhando em paredes.” A menina ri, ela parece achar engraçado aquilo, ela parece falar rindo mais de uma coisa ao mesmo tempo, ela parece falar, a professora acha que ela falou “Ela acha que conhece a solidão” e continua rindo depois com uns olhinhos tão pequenos que parecem dedos, dedos tão miúdos os da garota.

MAÍRA MATTHES é mineira, ex-bailarina da Cia. de Dança Paula Nestorov e mestre em Filosofia pela PUC-RJ. Premiada no 6º Concurso Literário de Suzano com o conto Bárbaras Nuvens e no Prêmio off flip com o conto A Solidariedade dos Abalados. Professora de Filosofia na UERJ e no CAp UFRJ. Escreve no blog: opesodasbolhas.blogspot.com.br/

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doce amargo marcos torres

O

corpo estava ereto. A única coisa que eu via mover durante aqueles minutos eram os músculos do rosto e às vezes ele falava em monossílabos. Usava uns óculos fundo de garrafa que denunciava sua alta miopia, uma bermuda listrada e uma camisa amassada, nos pés uma sandália com tiras de borracha, dessas que vendem nas portas das lojas por um preço barato. Uma banca de madeira e uma cadeira de vime. Quando olhei para aquele tabuleiro de um colorido familiar, me fez lembrar o tempo de menino que saía correndo pelas ruas quando via aqueles bombons coloridos sendo lançados para o céu, e depois ficavam esparramados pelas ruas e calçadas daquele vilarejo, a felicidade era geral entre a criançada e os adultos. Ele tinha algo quase particular a seu serviço e pago pelo governo. Não batia ponto, talvez nem mesmo tivesse horário para começar sua jornada de trabalho e nem horário fixo para as refeições ou mesmo para ir embora ao final do expediente. Fui visitado pela memória, que me transportou para um tempo de criança, enquanto isso ele continuava ereto como um sentinela num quartel, com os mesmos movimentos de cabeça e igualmente falando em monossílabos. Não queria que ele percebesse minha demasiada curiosidade sobre sua vida e principalmente sobre sua conversa ao telefone. Via algo familiar naquela ligação, é verdade, as pessoas hoje em dia nunca têm um tempo para ouvir o outro, tudo parece um grande monólogo. Na rua os transeuntes passavam com passos apressados, ora olhavam para os ponteiros inquietos dos relógios ou os marcadores dos celulares, ora desviavam das poças d’água deixadas por gotas intermitentes que caíram ao longo de toda manhã. O céu estava rosado e as nuvens de algodão tingidas de um preto desbotado. Volta e meia eu desviava os olhos para que ele não percebesse minha curiosidade. Às vezes ele me olhava de soslaio. Todo mundo parece querer saber da vida dos outros - ele parecia estar pensando -, embora continuasse com a mesma postura desde o começo. Um transeunte parou em frente ao seu tabuleiro. Havia guloseimas doces e amargas para todos os gostos e desejos, até para o bolso ou o porta moedas. O homem abriu a carteira e lançou uma nota em frente ao seu rosto como quem dissesse com ar de desdém: se vira meu chapa, só tenho

esse. Em poucos segundos seu rosto parecia possesso, havia uma cólera em seu olhar, mas nada poderia fazer diante de tal infortúnio, era o que a vida lhe reservava sob este céu de pesadelos, pelo menos naquela situação. Eu ficava cá conversando com meus botões, perguntando quanto tempo eu aguentaria naquela situação antes de cometer provável suicídio. Fico apavorado com demasiada rotina e excesso de repetições. Havia uma diferença considerável entre o homem de meia idade – isso era denunciado pelos pequenos fios de cabelos brancos que estavam a mostra na lateral da cabeça coberta por um boné de um azul desbotado – e o menino de outrora. O primeiro trabalhava vendo todos os dias a mesma paisagem e com os mesmos movimentos repetitivos e enfadonhos, enquanto o segundo mudava de direção conforme a força do vento quando a clientela o solicitava. Para o primeiro era preciso ficar sentado numa cadeira de vime em frente a um tabuleiro recheado de balas doces e amargas, a espera dos clientes que passavam pelas ruas com passos apressados; as moedas nasciam como plantas numa terra seca. Já para o segundo tudo era dinâmico e surpreendente e nada de monotonia, andava quilômetros em meio àquela gente com barracas de verduras e hortaliças, era algo curioso, pois no meio de todo aquele frenesi com feirantes gritando a todo instante e clientes sempre buscando o melhor preço e as melhores verduras e hortaliças para a hora do almoço, havia um garoto vendendo balas doces e amargas; as moedas nasciam como aquelas verduras numa terra fértil. No fundo ele também me observava e perguntava a si mesmo: o que aquele sujeito estava fazendo ali encostado naquele poste tão inerte quanto uma múmia; parece até um daqueles parasitas das repartições públicas, que ficam apenas esperando a hora de ir para casa, vendo insistentemente o tictac dos relógios. Olhei para o relógio e já passavam das dezoito horas. Comecei a andar lentamente pelo calçadão e vi do outro lado da rua um bar abarrotado de gente com bocas sedentas e vorazes, ora um gole de cerveja, ora uma abocanhada no espetinho de carne com cebola e tomate. Num movimento rápido olhei para trás por cima dos ombros e lá estava ele, o homem que trabalha, ao longo de muitos anos naquele mesmo local, neste mesmo horário, com o suor correndo no 79


rosto. Agora estava sentado no banco de vime com o ombro ereto, havia um silêncio em seu rosto, parecia não mover um único músculo, estava tão paralisado quanto uma múmia num sarcófago, talvez estivesse num longo flashback. A rua começava a ficar deserta como as ruas sul-africanas no tempo do Apartheid. Fui embora igualmente paralisado e cheio de indagações. A hora avança e as ruas estão cada vez mais desertas. Será um sonho ou algo factível? A verdade é que nem mesmo sei ao certo o que de fato esteja acontecendo. O sonho e a morte estão sempre muito próximos. Bem que eu gostaria de estar sonhando, pois a morte tem um preço mais barato. Os passos naquela estrada me deixavam fora da terra, quase flutuando além dos prédios e montanhas nos arredores de praças e marquises de prédios esfacelados pelo tempo, habitados por mendigos e maltrapilhos, cujas calçadas havia lençóis de papelão e um chão sem travesseiros. As paredes estão molhadas pela água da chuva e há detritos espalhados por todo o lado. Pelo binóculo da memória vejo rostos petrificados, com lágrimas escassas caindo nas valas ao longo das calçadas. Pedras incontáveis machucam artérias partidas pela maciez dos dias mostrados como um cão raivoso na face de um relógio na praça. Os laços afetivos e familiares desdenhavam aquele chão ardente e trêmulo, misturado a memórias indigentes e deitado por um deus molambo, paralisado como uma pedra bruta encravada nos subterrâneos dos arranhacéus da cidade. Há uma igreja a dez metros de distância, um crucifixo na porta e um padre sentado numa cadeira de jacarandá enquanto o sino ainda não tocava para a hora da missa. Minutos depois a igreja é aberta, o sino toca e os fiéis começam a chegar; a maioria carrega em uma das mãos uma pequena cruz com o “Jesus Crucificado” e um terço de ouro, prata, couro ou metal, são tantos que não se sabe ao certo. Uma mulher veste um vestido de tecido de seda fina azulturquesa e um relógio Cartier no braço esquerdo; não sei se estou certo, mas tenho a impressão de sofrer de estigmatismo ou outra doença dos olhos. Não estou tão seguro. O rosto da mulher está muito bem maquiado e os cabelos cortados em mechas e delicadamente alisados. A igreja finamente ornamentada com altares de mármore distribuídos por toda lateral ao longo das cadeiras enfileiradas. Santos esculpidos em madeira de lei ou jacarandá e pintados e bordados com fios de ouro e prata. Na rua buzinas enfurecidas e semáforos apressados. O sol foi descansar do outro lado do mapa. Apenas vejo luzes sob nossas cabeças nos tirando de uma escuridão temporária. A cruz em frente à igreja sequer olha para os moribundos do outro lado da rua. Havia algo de religioso naquele ambiente: de um lado os pães eram divididos em iguais pedaços, os peixes multiplicados em poções quase invisíveis; e do outro lado da rua o que podia ser visto era pura ostentação. Tudo parecia girar no exato oposto. Garçom, passa a conta, por favor. Recebi as moedas e as deixei num chão batido e abatido, e em poucos segundos

atravessei a rua com o sinal fechado. Ainda por alguns metros continuei olhando aquela cena com o corpo quase tão petrificado como aquela cruz decorando a frente da igreja e embutida na parede; ao mesmo tempo era possível ouvir os fiéis rezarem o terço e os maltrapilhos silenciarem a orquestra com pão e peixe. Não me pergunte se estou sonhando. Pois eu não saberia dizer nem responder daqui há dez mil anos. A realidade eu nunca vejo, ela sempre foge pela porta dos fundos. Agora, estou no início de uma longa avenida. Nos bares, bêbados caindo pelas tabelas ou dormindo em cadeiras de plástico, com o pescoço quebrado num ângulo indecifrável em meio a uma paisagem mórbida. A rua é fria. O dia é frio. A hora é fria. A vida é fria. O silêncio é frio, mas este eu não sei ao certo. No avançar das horas, loucos varridos sendo levados pela infâmia dos dias e das horas; alucinados, comem detritos tirados dos vasos de lixo para alimentar sua esqualidez agonizante. A imagem denuncia o tempo da carne sendo corroída pela perversa maciez dos dias, deixando aquele deus molambo com seus ossos no espetáculo das ruas. O homem, o vazo, o lixo, os detritos, a cena. As vozes escassas são procuradas pelo movimento febril da madrugada; os sussurros vindos das ruas escuras ecoam nas galerias. O gato preto e cinzento corre no telhado das casas, enquanto o bêbado derrama saliva no canto da boca, sentado numa cadeira de plástico com os braços apoiados na mesa, em frente a uma garrafa a meia altura e um copo com dois dedos de cerveja. A rua está coberta por um colchão negro enfeitado com listras brancas e amarelas. O céu virou betume, tudo parece ao avesso; o sol foi passear do outro lado do mapa. O louco toma seu remédio tirado da boca do lixo e bebe a água das folhas caída lentamente da copa das árvores. Há um cheiro de enxofre e um azedo indecifrável. Na praça não passam transeuntes nem tem as crianças brincando no parque. A noite é um eco. A rua está vazia. As lojas estão cerradas. Não vejo as estradas, as estrelas estão escondidas detrás das nuvens. Vejo tudo e na verdade não vejo nada. Tudo parece um filme. Nem sei quando fui ao cinema pela última vez, vi as fotos nos jornais vendidos nas bancas de revista ou quando assisti ao último noticiário pela TV. Não me pergunte mais uma vez. Eu não saberia responder nem daqui há dez mil anos. Eu não sei de nada. Eu não sei nem o que é nada. Eu não sei. Nem bebi tanto. Estas ruas me assombram. O centro das cidades parece todos iguais: sombrio e deteriorado. Há um silêncio mortal e talvez eu esteja morto, não há como ter certeza, não há ninguém nas ruas que possa ouvir o meu grito, vejo somente as avenidas e as vagas evacuadas pelos carros escondidos nos subterrâneos dos edifícios. Na porta dos prédios homens solitários trancafiados em guaritas sombrias e vencidos pelo cansaço e o sono esculpido no rosto. Nem mesmo sei se este é o edifício onde moro. Eu saí de casa ontem às cinco da manhã e já passam das duas da madrugada. Ainda estou sóbrio. Será que este homem vai me deixar entrar? Não estou certo. Acho que fui afetado por alguma loucura. 80


No caminho tudo parecia insano, então talvez esteja mesmo sonhando ou tenha sido afetado por algumas doses de conhaque ou cerveja ou mesmo de loucura, tomadas ao longo dessa travessia. A verdade é que não me lembro.

MARCOS TORRES

é escritor, poeta, pesquisador, mestrando em Literatura e Cultura e integrante do grupo de pesquisa Leituras Contemporâneas. Investiga sobre trajetória de consolidação de autores e a formação de uma carreira autoral no campo literário brasileiro contemporâneo. É autor do livro Poesia Metafísica (2012) e do romance O andarilho (2013) e também participa de algumas zntologias no Brasil e na Europa. O autor alimenta a página Impressões Temporárias com suas incursões ficcionais e vida acadêmica entre outros devaneios.

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o negócio miguel sanchez neto

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ma mulher não pode ganhar a vida nesta cidade. Em cada sótão um tarado, um louco feroz querendo empalar a gente. Homem de meu jamais quis. Sempre independente e tudo, sabe como é, órfã de pai, filha única da eterna viúva que jurou nunquinha ser de novo judiada por ninguém. O pai batia nela quando queria fazer as suas safadezas. Dizem que homem ama, mas é só da boca pra fora. Lá dentro, naquele ninho de ratos que é o coração deles, só quer é safadeza. Emporcalhar a gente, se virar e roncar. Mulher sofre demais nesta vida sem graça, por isso não casei. Eu, hein? Tive sim uns namorados. Já nos primeiros encontros, a mão apertando meus peitos. Não senti nada além de dor. Se namorar assim já doía, casamento ia ser um sofrimento só. A mãe me lembrando de tudo. O pai chegava de noite, trançando as pernas, ela cansada de trabalhar na quitanda, o dia inteiro na lida. Enrolava rapidamente as bananas no jornal e já estava pesando meio quilo de batata miúda para outra freguesa. E ainda limpava os tomates, um por um, com pano úmido. Fazia isso com as laranjas, com as maçãs. Dava gosto de ver a quitanda quando a mãe tinha saúde e ainda enxergava. Era um asseio só. Depois, de noite, o pai com cheiro de cachaça e de suor das polacas dele, querendo a mãe. Ela dizia que não, cansada demais hoje. Ele insistia, segurava o braço dela, cheio de roxos, e forçava. Quando mataram o pai lá no Nick’s Bar, a mãe não achou motivo pra chorar. Enfim livre do grande sacana, podia cuidar das frutas, verduras e legumes. E de noite assistir novela em paz. Desde pequena eu enjeitava homem, um nojo que a mãe passou pra mim. Ela também passou a quitanda quando ficou cega por causa da diabete. Faz mais de cinco anos que me viro na quitanda, não dá tempo de limpar as frutas, como a mãe fazia, sabe como é, freguês o dia todo, repor mercadoria, fazer troco, depositar dinheiro no banco, apenas uma menina de ajudante. Homem quase não entra na quitanda, a maioria é mulher, o que é um alívio. Garrei raiva de homem. Não sinto falta, não. Você me pergunta se sou virgem. Virgem, sim, graças a Deus. Dessa vontade não morro. Não, este nojo não é trauma de namorado. Como já disse, herdei da mãe. O pai nunca buliu em mim não, a mãe não deixava o tarado sozinho comigo, pois ele era sem-vergonha o bastante para avançar na própria filha, ainda menina sem nenhum atrativo.

– Teu pai não presta – dizia a mãe. – Fuja dele. Até hoje eu estou fugindo. Homem é tudo igual. Em cada homem vejo sempre o pai, bigodão mal-cuidado, cheiro de cigarro, o pigarro constante, sabe como é, suor enjoativo. Quando o japonês parou de entregar as mercadorias do Ceasa, fiquei sem fornecedor. Ele sempre tinha feito as entregas. Desde o tempo da mãe. Agora, aposentado. Ele aparecia cedinho, a mulher ajudava a descarregar as caixas da camioneta, eu conversava com ela. Não sei, mas no japa pequenininho eu não via um homem. Minha perdição foi comprar a Kombi. Para eu mesmo buscar as mercadorias. Com grande economia. Ia vender mais barato e ganhar mais dinheiro. A mulher do japonês me apresentaria os fornecedores. Mas cadê alguém para dirigir a Kombi? Comprei achando que aprendia logo, fiz umas aulas na auto-escola. Mas aprender mesmo não aprendi, só esfolei a Kombi no portão umas duas vezes. Ela ficou estacionada nos fundos da quitanda, debaixo de um puxadinho coberto de eternit. A quitanda já meio fechada por falta de produto e eu sem ter ninguém pra me socorrer. Liguei pro japonês, ele disse que mandaria um conhecido para servir de motorista. De tão aflita, aceitei na horinha. De tarde, apareceu um rapaz, de nome Antônio. Tímido, cara cheia de espinhas, olhava de lado, como cachorro enjeitado. Uns dez anos mais novo do que eu. Mesmo que irmão, senti na hora. O irmão que nunca tive. Ele vinha só duas vezes por semana. Terça e sexta. Como morava do outro lado da cidade, chegava de tardinha, me ajudava a arrumar a quitanda, daí dava pra lustrar as maçãs argentinas, como no tempo da mãe. Depois ia para a Kombi – ele dormia lá, num colchonete, para no outro dia sair bem cedinho. Antes das sete da manhã, a gente já de volta, ele descarregava e ajeitava tudo. Com o dinheirinho na mão, as três notas, saía assobiando. À noite, eu levava o prato caprichado de comida pra ele. Duas coxas imensas de frango ou pedaços gordos de carne de boi. Ele não falava nada, com os olhos no prato mordia com força a carne, rasgando tudo com seus dentes cariados. Depois de um mês, a gente era que nem família. A mãe cega em volta da tevê. Agora ouvia os programas, quieta no sofá. As noites em que Antônio passava na Kombi 82


eram esperadas por mim, mas a mãe, coração duro por causa do marido, fingia não saber do rapaz. Eu, boboca que sou, deixei ele ficar assistindo tevê em casa. Acompanhava novela e não ligava pro jornal, mais um motivo pra gostar dele. No final da novela dos oito, ele seguia pra Kombi, resmungando um boa-noite. Eu já pensava em contratar. Carteira assinada e tudo. Ele podia dormir no quintal, construiria mais um puxado nos fundos. Mulher é bicho besta mesmo. Sempre querendo ajudar. Era um irmão, eu pensava. O irmão que o pai não me deu. No meio da novela, uma noite, uma vizinha me liga, o filho passando mal do estômago, pediu umas folhas de boldo do pé do nosso quintal. Fui levar o boldo na Soraia, deixei o Antônio cuidando da mãe, e a conversa se alongou. Deu até para tomar uma xícara de café. Não mais do que meia hora. De volta, a mãe caída no chão, cheia de sangue entre as pernas, a saia levantada. Chamei os bombeiros, que graças a Deus vieram rápido, levaram a mãe pro hospital. A polícia pegou o criminoso no barraco da Vila Pinto, como se não tivesse feito nada. Nem tentou fugir. Dizem que é meio fraco das ideias. O delegado perguntou: por que fez aquela barbaridade? – Não sei – ele respondeu. – O que sentiu na hora? – Um formigamento aqui – ele respondeu, pondo a mão nas partes. Depois contou os detalhes. Não queria fazer nada, até gostava do tempero da nossa comida, tinha engordado três quilos. Estava vendo novela, a velha no sofá do lado. Ela uma hora se levantou. Foi pro banheiro. A porta do banheiro dá direto na sala. Casinha pequena a nossa, mas tudo muito arrumado e asseado, graças a Deus. A mãe tão desacostumada de gente, e o Antônio era o mesmo que ninguém, nem falava nem bulia nas coisas. Ela ficou de porta aberta, abaixou a calça, ergueu a saia e mijou. Depois se levantou um pouco e se enxugou. Tudo na frente do rapaz. Que correu até ela, ainda saindo do banheiro, tapou a boca com uma mão, empurrou a coitada no tapete e, com a mão livre, ergueu a saia, tirou a calcinha, depois soltou o negócio dele e feriu fundo a mãe, que desmaiou. Diz que fez duas vezes, na segunda ela já desacordada. O delegado perguntou se não tinha vergonha. E ele que não. Velha, mas bem apertadinha. Melhor do que essas meninas de hoje. A mãe está bem, logo com alta no hospital. Não quero sair de perto dela nunca mais. Por isso estou vendendo a quitanda. Mas junto, a senhora diga pro seu marido, ele tem que comprar a Kombi.

MIGUEL SANCHEZ NETO nasceu em 1965 em

Bela Vista do Paraíso, norte do Paraná. Doutor em letras pela Unicamp, é autor de livros como Chove sobre minha infância, Um amor anarquista, A primeira mulher, Hóspede secreto e Chá das cinco com o vampiro. Recebeu o Prêmio Cruz e Souza (2002) e o Binacional das Artes e da Cultura Brasil-Argentina (2005). Vive em Ponta Grossa (PR).

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primeiro é preciso chegar nathalia rech que era batata-frita porque estava chovendo e nós dois estávamos com preguiça de ficarmos molhados em pró da fritura, sair e ir comprar um saco que sempre promete um número absurdamente menor de batatas. Ou talvez porque era só traindo as batatas que conseguíamos comer legumes, vai saber. Eu lembro que jogávamos videogame e você perdeu, mas você nunca perdia a não ser que quisesse levantar minha autoestima (principalmente em relação ao meu pouco desenvolvimento em educação física). Seus olhos tinham saído da televisão e levitado até um porta-retratos onde uma mulher sorria por ter a estranha característica de deixar invisíveis as câmeras fotográficas em seu entorno. Ela era aparentemente alguém que você amou muito porque lembro de ouvir algo confuso do tipo Um dia talvez você saberá o que é gostar tanto de alguém a ponto de colocá-la numa moldura de um porta-retratos mas você precisará de outro dia para descobrir o que é realmente gostar tanto de alguém a ponto de nunca conseguir livrá-la de uma moldura num porta-retratos. E quando você fica confuso está falando de amor (ou tentando lembrar de como realmente funciona o horário de verão – mas isso é claro, não conta). Nesse momento eu senti uma afinidade muito grande entre nós dois como se você tivesse em entregado uma intimidade enorme do tipo: um saco cheio de coisas que você guarda durante o dia mas abre só a noite para tentar dormir. Pensei que você estava me dando uma maçaneta para qualquer lugar seu e que eu poderia entrar quando quisesse, senti que se colocasse meu olho no seu ouvido eu iria enxergar todas aquelas coisas que você fez quando era mais jovem mas esqueceu aonde guardou. Que se eu colocasse essa maçaneta no seu peito no na coxa direita eles abririam facilmente. Eu corri para o seu colo e deixei minha cabeça virar o topo de sua barriga eu estava tão próxima de você naquele momento que quase te confundi com um eu no futuro e te falei tudo. Mas infelizmente eu tinha oito anos, usava pijamas com pequenos dragões e acreditava sinceramente que os dragões estavam extintos. E não na condição de nunca existidos. A grande verdade é que sempre que faltava luz, ou quando íamos acampar no interior de Westphalen, eu sempre achava que ia finalmente te dizer. Mas nunca estava escuro suficientemente.

E

ssa é uma das coisas que eu gostaria de te dizer mas o tempo sempre decide que um dos dois precisa sair para comprar coisas. Sapatos. Lençóis novos. Cordas de violão. Munhequeiras de tênis (esse último inventei porque sempre quis que você jogasse tênis que eu considero uma elegância exagerada se esquecermos a parte da combinação usual saia e meias). Na penúltima vez que nos vimos quase que contei toda história. Mas então tive que sair para comprar comida para o gato, um gato que tive só pelo momento que contei isso. A última vez que nos encontramos quase que escapou tudo. Mas quando fui abrir a boca, quando eu finalmente ia deixar desfilar tudo aquilo, estender a roupa molhada de sal da máquina, sem querer pensei “cachoeiras” e me veio uma terrível vontade de ir ao banheiro. Foi assim: Você está espremendo os olhos. É para eles funcionarem mais. Se você continuar a espremê-los assim eles vão é parar de funcionar. Quando você faz isso normalmente está querendo me dizer alguma coisa. Isso não é verdade. A maioria das vezes que precisei te dizer algo muito importante estávamos no escuro. Eu só consigo ser importante no escuro. Quando me mudei para Porto Alegre você lembra? Aquela hora em que fomos escolher uma mala que fosse vermelha para que eu não a perdesse de vista na esteira do aeroporto. Da rodoviária. Aquela hora em que você disse para a vendedora Eu não entendo porque vocês não tem nenhuma mala colorida, não faz sentido uma mala querer ser discreta, uma mala nunca é discreta. Aquele momento que você me ensinou que o dia em que inventaram a loja de departamentos foi também o mesmo que as pupilas das pessoas começaram a diminuir. Você me puxou para o lado e depois você deu uma risada tão longa que dava para servir uma toalha de mesa e chamar toda uma família para sentar. Ali você me abraçou. E quando seus braços deram a volta no meu pescoço de uma forma tão natural me deu vontade de tirar tudo que tava ali pertinho, ali do lado, na garganta. Na mesma hora. Ali eu quase te disse. Mas então fomos assistir o jogo do Botafogo que era um time para o qual acabei descobrindo que não torcíamos mas alguém que você achava interessante sim. Teve outra vez também. Comíamos cenoura fingindo 84


o trabalho pesado, levar as carnes pro freezer, cortar em pedaços, moer. Eu ficava no caixa, tentando afastar as moscas e não errar o troco dos poucos clientes. O dia inteiro era aquilo. Olhando para as bistecas de um falecido porco, a paleta de um bode, o peito de um gado. Foi então que um dia, olhando para aqueles conjuntos de órgãos juntos porém despedaçados, o fígado de um, o intestino de outro em lembrei. Talvez pela frieza do ar-condicionado, a memória do sangue ou a proximidade eminente da morte no reflexo de uma vitrine que te por único objetivo proteger um salsichão. Não sei. O fato foi que lembrei que eu tinha essa história e que eu precisa te contar o mais rápido possível porque no fundo não tê-la te contado antes pode ter me trazido exatamente para esta situação de ir para casa fedendo a desodorante de sangue de bicho. É claro que eu fiquei com medo. Eu tinha 21 anos e a minha relação mais próxima era com meu pai, só que eu descobri que ele não sabia absurdamente nada sobre mim. E isso me deixou muito triste. Muito confusa. Tão confusa que no mesmo dia aquela pessoa que tinha elogiado meus braços passou e elogiou minhas pernas. Então lembrei que ele já tinha elogiado meus olhos, meus cabelos e até mesmo minhas costas que é um lugar que todo mundo vê bastante mas ninguém nunca elogia. Então depois disso a gente transou. Foi dentro de um gelador. O que é estranho porque estava bem quente eu estava quente. Ele veio atrás de mim e em finalmente entendi aquele elogio das costas. Foi um relâmpago e eu só queria que tudo fosse assim, rápido e fácil. Eu queria que falar com você assim só que com menos lambança. Quando saímos de lá o homem poderia ter dito Foi ótimo. Te ligo mais tarde. Quer jantar comigo e ouvir como meu ex-namorado é um maluco e só me atraio por pessoas parecidas com ele? Você tem uma bunda muito gostosa. Mas não disse. Ele provavelmente deveria ter dito alguma coisa porque as pessoas sempre falam ou uma mentira ou uma besteira que transcende uma mentira depois de um sexo casual, ainda mais quando realizado no horário de trabalho de um açougue. Eu não lembro o que ele falou. Porque aquele era o momento que eu estava começando a ser determinada. Nesses momentos eu fico surda um pouco mas depois volta. Por isso não tenho carro. Seria uma péssima ideia resolver ser determinada na autoestrada. Eu tinha que te encontrar. Na manhã seguinte conversei com o gerente e convenci ele a não pagar metade do meu salário em carne. Depois disso peguei o dinheiro e me demiti. Eu tinha dinheiro suficiente para convencer um ônibus a me deixar perto da sua casa. Para comprar receitas médicas se necessário.

Achava que se viesse de alguém sem rosto seria mais tranquilo para você. Mas então eu esqueci tudo isso. Eu esqueci tudo isso até o dia que fiquei sem grana e tive que trabalhar num açougue. Tudo que eu tinha era um diploma de filosofia e uma conta de aluguel para pagar e meu site que vendia amuletos de desconhecidos para outras pessoas não estava dando dinheiro como era de se imaginar. Toda semana eu te ligava e inventava nomes de pessoas que seriam meus colegas de apartamento, de festa, meus colegas de trabalho para você achar que eu estava bem. Que eu estava muito ocupada. Mas na verdade eu tinha todo o tempo do mundo. Eu inventava os nomes deles, as vidas deles das quais eu contava até altas horas da madrugada para soar fiel, e depois esquecia, de tal forma que quando você me ligou porque estava com dor nas costas e perguntou qual era o nome de Juan Luca o massoterapeuta, eu tive que o matar ali mesmo e nós choramos a noite toda não porque meu amigo imaginário tinha falecido mas sim porque a vida era frágil (principalmente para os usuários de rollers nas grandes avenidas). Eu morava tão longe do centro que todos meus amigos eram meus vizinhos porque era muito caro pegar quatro ônibus para manter um relacionamento com alguém da minha idade ou faixa de interesse. Era como viver no interior, só que com o lado ruim de morar na cidade. A maioria dos meus vizinhos tinham animais, mas não eram dos tipos normais. Os deles também serviam de despertador porque eles tinham galos e galinhas e isso me perturbava porque eu acabava levantando cedo demais. Um dia dona Gena apareceu na minha janela porque uma galinha dela tinha fugido e estava no meu quintal (na verdade ele não fugiu porque eles nunca estavam presos e eu até achava interessante eles ali na rua, no meu pátio de um lado para o outro, quando não tinha o que fazer os dava nomes e inventava vidas maravilhosas para nós só que quando eles morriam, mesmo que para alimentar uma família de oito pessoas, eu me sentia muito triste). Ela falou que iam abrir um açougue ali por perto e me deu um chá de uma erva estranha com um nome proparoxítona que agora esqueci. Como o único trabalho no qual eu poderia chegar a pé era esse foi ali mesmo onde fui parar. Na entrevista de emprego eu acho que fui bem porque não contei que era vegetariana até dois meses atrás quando vi Jaime Oliver cozinhar uma costela no sol na TV à cabo. Ele, o homem que me entrevistava, elogiou meus braços e eu pensei que o trabalho deveria envolver fazer força então comecei a malhar. Todo dia eu acordava cedo junto com o galo (que atendia só pelo nome de galo porque assim ele era imortal). Tomava o chá proparoxítona da dona Gena e lia sobre fenomenologia para dizer a mim mesmo que alguma parte do meu dia estava seguindo meus planos do passado. Depois eu malhava. Comecei com barras, uma em cada mão, 2 kg cada, ao mesmo tempo. Meu objetivo era tentar levantar pelo menos por cinco segundos qualquer objeto da casa (incluindo a porta da garagem emperrada há anos por falta de uso). Um dia eu consegui levantar a geladeira e fiquei muito feliz. Mas não o suficiente. Acontece que o meu trabalho era incrivelmente entediante. Era os homens que faziam

Na viagem eu olhava as montanhas passando rápido enquanto pensava o quanto estranho era sentir tesão com as formas de uma paisagem montanhosa. Eu pensava nisso e em outra coisa. Como seria te encontrar. O que eu diria. Então que me veio. A ideia. Escrevi absolutamente tudo em um caderno que encontrei perdido dentro daquele mesmo ônibus. Em alguns momentos eu colocava parênteses no 85


meio das frases e fazia sinalizações do tipo “levantar as sobrancelhas no final dessa pontuação” ou “fale isso devagar porque você tem aquele problema de chiado” ou “não coloque a mão no cabelo para não soar desesperado embora seja isso mesmo”. Tentei treinar respostas para várias de suas réplicas como: Preferia que você recebesse dinheiro por sexo. Eu nunca tive aquela bolsa de estudos. Foi por isso que você nunca me apresentou alguém? Talvez. Ou talvez porque não tivesse ninguém mesmo. Então aquela vez que você faltou no colégio uma semana... Sim nunca existiu um surto de uma gripe da Malásia. Aqueles absorventes íntimos no seu quarto... Não existiu uma namorada. Seria assim: eu entraria. Você ficaria surpreso. Sentaríamos no sofá, aquele com muitas almofadas para caso você não segurasse o equilíbrio. Depois você que quase não me reconheceu porque eu estava tão diferente e responderia falando que era culpa da malhação mesmo que no mais nada de diferente. Então você suspiraria ao mesmo tempo que ergueria o começo de um sorriso: e nesse momento que aconteceria. Ficou evidente para mim que eu não conseguiria lembrar tudo na hora. Eram muitas as coisas e muito também o pó acumulado. É por isso que quando cheguei na sua casa hoje, peguei a chave embaixo da fonte e entrei, a primeira coisa que vi foi sua lixeira nova. Coloquei fora tudo que escrevi. Acho que é melhor assim. Lembro do teu sotaque, de como confunde a letra P com a B sempre que está apressado. Rio. Te espero passando um lábio em cima do outro, como quem beija cada segundo que vai embora, como quem beija a vontade de não voltar. Rio de novo. Agora estou no sofá, o grande aquele, catando o maior número de almofadas possíveis espalhadas pelos cômodos. E pensando. Pensando como é estranho pegar um ônibus só para informar para alguém quem se é realmente. Como quem entrega um relatório ou doa uma enciclopédia íntima do que existe por trás dos olhos. Em breve você vai chegar do trabalho, talvez cansado, talvez com energia, me encontrará aqui sentada. Você poderia sentar ao meu lado e juntos soletrar substantivos no alemão, rir e tomarmos um exótico chá sem nome que eu trouxe de uma curandeira do meu bairro. Ou talvez ficar perto da porta. Perto da fuga. Você poderia fazer uma de suas inúteis constatações tal como Você é jovem demais para ficar tanto tempo em uma almofada. E eu demonstraria que a conversa não é brincadeira de bambolê ao falar: tem um motivo especial para eu estar sentada há tanto tempo. O dia está laranja e em dias com cor de fruta sempre me julgo com sorte. Quando estou com sorte minhas olheiras desaparecem. Me sentindo um pouco menos feia, porém ainda não exatamente bonita, ignoro tudo que não está aqui. Bonita pai. Sim, estou dentro de um vestido. Sim minhas unhas estão pintadas. Os cabelos, longos. Quanto tempo demorará para entender que aquela mulher não arrombou a porta de sua casa, mas sim entrou,

e que na verdade, sim a conhece, parece com você. Parece com seu filho. Em algum lugar entre as orelhas, os primeiros centímetros da cabeça até o chão está seu filho. Arrisco o tempo de cinco minutos para o entendimento completo, seguido de ventos pulmonares, silêncios e minha cara de geladeira devidamente maquiada. Não sei. O fato é que você chegará. O fato é que as coisas chegam. O fato é que não posso mais esperar uma queda de luz para te falar a verdade. O fato é que você tem razão pai: malas nunca são discretas. De qualquer forma eu precisava vir aqui e te dizer exatamente isso.

NATHALIA RECH nasceu em Porto Alegre em 1991.

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O LOBO NATHALIE LOURENÇO

E

É engraçado agora, Emília? Essa perna que já não servia pra muita coisa e que agora nem mexe, tem graça? O robe gelado e as telhas quebradas, têm graça? Mas ir pra onde, diz, Emília? Pra casa de quem? Eu nem sei se minha irmã é viva. A última coisa que eu falei pra ela foi Boa Noite, Amélia, pra não dar pinta. Minha malinha estava pronta, debaixo da cama. O papai ouvia rádio no escritório. Meu coração batia tão forte que eu tinha medo que o pai ouvisse. E se ele me pegasse ia curtir meu couro, me trancar no quarto e pior, berrar até dar pra ver o vermelho da garganta. Mas o rádio afogou minha agitação e eu tranquei o ferrolho e tirei a camisola que escondia minhas roupas, e você me esperava debaixo da janela, Álvaro, tirou o peso da mala da minha mão e me levou para a casa da sua tia em São Paulo. A chuva parou, mas as tábuas e telhas ainda filtram as últimas gotas. Queria saber se a Edna está bem. Talvez a casa dela esteja de pé, e o Lélio e o Lúcio venham para levantar essa viga. Eu bem queria tomar uma xícara de chá. Dessa vez eu consigo gritar mas ninguém responde. Talvez a casa dela esteja como a minha, um jogo de pega-vareta no escuro. Grito de novo. Silêncio.Talvez eles durmam com o rádio ligado. Me sinto abraçada pela madeira. Esse batente que você se encostava pra fumar o seu cigarro de lei, me vendo cozinhar, e eu bem de olho pra te dar uma com a colher de pau, na hora que você viesse roubar das panelas - toda vez, sem falta. Era na cozinha que a gente sempre começava, você tirando a colher da minha mão e me rendendo com beijos, me empurrando pé-com-pé até o batente, você, a madeira e eu. A filha do tenente que fugiu pra casar com o pedreiro. Por muitos anos eu fiquei imaginando o dia seguinte, quanto demoraram pra dar pela minha falta, se arrombaram a porta trancada com a chave dentro. Se o pai chorou ou gritou. Se deu desgosto pra mãe, se a vizinhança me chamava de Perdida. Uns vinte anos depois encontrei uma vizinha . Ela jurou que o pai pôs prêmio na tua cabeça, teve cartaz e tudo. O pai queria te matar. Mas a gente viveu. Os pássaros começaram a chiar. Deve faltar só uma hora para amanhecer, Álvaro. O carteiro vai ver que onde tinha casa aqui, não tem mais. Alguém vai vir me procurar. Não é culpa da casa. Eu tenho certeza que ela se mantinha de pé por vontade própria há anos. Só de memória empilhada uma

u sonhei que o mundo acabava e eu corria pelas ruas procurando você. A neblina ia comendo o bairro, corroendo tudo e pessoas sem rosto me davam pacotes amarrados com barbante para te entregar mas não sabiam nada de você. Eu corria como se minhas pernas fossem de lata e estivessem prestes a desparafusar, e a calçada debaixo de mim sumia e eu acordei quase sem respirar. Levanto devagarinho e calço os chinelos apesar do verão. Aos 76 anos, o chão é sempre frio. Fecho o robe por cima da camisola. São 3 da manhã, e meu corpo me acorda pontualmente para o xixi da madrugada, a vontade aumentando com o barulho da chuva. A mesma rotina de sempre: o xixi no escuro, sem acender as luzes, para não espantar o sono. Para não ver o meu rosto no espelho, só olhos e rugas, um enxame branco circulando a cabeça e nada mais. Os olhos são a única parte que não envelhece. Arrasto os pés até a cozinha, para encher um copo d’água na torneira. A chuva lá fora se bate contra a minha casa. O vento entrando como gilete por cada ranhura, teimoso, molhado. É o lobo querendo entrar. A goteira aumentou e a água traz lama por debaixo da porta. O lobo. Amanhã vou pedir para o filho da Edna tapar. Já estou a meio caminho da cama quando o barulho vem chegando, e os ângulos da casa mudam por um segundo. Antes de se desfazer. Água e lama e pedaços, a madeira, os tijolos, os canos, os ossos antigos da casa que você construiu pra mim. O cheiro de barro e mato se enfia por algum buraco.Tento me mexer mas dói. Uma viga me descadeirou. E eu que achei que ia morrer de escorregão no chuveiro. E eu que achei que ia morrer dormindo, quando a neblina finalmente passasse por mim. Não. Vou morrer de burra. Quero gritar: - Você é burra, Emília! Você é burra demais! Mas tenho medo de sair agudo como a voz de quem chora, por isso falo baixinho pra mim da minha grande burreza. O homem da prancheta veio avisar, Bom Dia, Defesa Civil. Você Tem Onde Ir Minha Senhora? Essa Área É Sujeita a Deslizamentos. Eu achei engraçado até. Cinquenta anos morando no mesmo lugar, com chuva ou sem. E agora o homem vem avisar, mandar eu sair, como se a casa que você construiu com tijolo e as mãos fosse coisa que água pudesse derrubar. 87


na outra. Já já vai amanhecer, e o doutor vai dizer que esse latejar no pé não é nada, e os filhos da Edna vão me ajudar a levantar as vigas e achar o álbum de fotos e as coisas do Nelson bebê. Eu tenho tudo em um armário, as suas roupas, suas revistas amareladas, os brinquedos do Nelson, os sapatos que ele usava no dia em que morreu. Teu envelope de exames médicos com o buraco negro no pulmão. A bolinha de barulho agudo da cachorra Ditinha. Fuim! fuim! Fuim! Era uma cachorra boa. É um armário, mas podia ser um cemitério. A noite acinzentou, e a cidade começa a fazer barulho. Eu vou sair daqui, levar suas coisas pra outro armário. Não vai ser a casa, Álvaro. Eu grito. Eu grito mais. Ouço uma voz de menino Tem Alguém Aí? Ouço a sirene dos bombeiros, e as tábuas vão saindo, os tijolos, os canos, os fios, nada na ordem que você montou. Uma vida que a lama levou. Eu sinto o sangue voltar para a perna como se fosse lava, grosso, quente, como se ela fosse se acender de vermelho. O homem me levanta, e eu sinto que perdi meu chinelo. Ele pergunta A senhora Está Me Ouvindo? e eu respondo Não Foi a Casa, e ele me deita numa lona e me põe num carro branco que apita, e o carro apita e corre, e corre, mas eu deixo a neblina me alcançar.

NATHALIE LOURENÇO é paulista e paulistana desde 1984. Trabalha como redatora publicitária e já teve textos publicados nas revistas Parênteses e Vacatussa e na coletânea Edifício Marquês de Sade. Atualiza, ainda que raramente o blog sabedoriadeimproviso. wordpress.com

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homem-hímem

reinaldo ramos

É

o fetiche, seja o carro japonês, seja o filme iraniano, seja filósofo búlgaro - ruminava ele antes do vendedor de flanelas, cadeirante, lhe dispersar a atenção oferecendo seu produto no sinal fechado. O homem-hímen ia pensando sobre as versões atuais das cortes, encarnadas nos meios intelectuais do mundo acadêmico, sintomatizadas nos delírios de consumo e pertencimento da nova e da velha classe média e predominante entre os círculos herméticos legitimadores da alta cultura. Estamos na era do capitalfetiche, seja econômico, seja cultural, seja o próprio corpo. Não interessa a ordem, ele descobriu a quintessência da vida contemporânea no abrir-fechar de um sinal de trânsito: o fetiche. O cadeirante tinha sido atropelado instantes antes perto dali por uma motorista imprudente. A senhora, segundo relato da vítima, desceu para ajudá-lo a se erguer ao mesmo tempo que lhe sequenciava insultos, transferindo a culpa sem cerimônia alguma. Depois da catarse, ofereceu moedas. Não quis comprar seus paninhos, apenas queria desculpar a própria consciência pelo arroubo de fúria. O homem-hímen ouviu em silêncio o relato do senhor sentado em sua cadeira. Olhou o homem reivindicando dignidade por também ser gente. Não olhou o simulacro do desvalido, a máscara social óbvia – o oposto do que fez sua algoz, que xingou sua própria culpa e quis pagar pelo perdão. Aleijado, distraído, malcriado e ingrato. O cadeirante a disse que fosse tomar no cu, com sua culpa, invectivas e moedas. Parelhos ao carro, policiais fitaram o fluxo interrompido, fitaram o ruído, fitaram o paralítico, fitaram mais transeuntes e engataram a primeira marcha, calçados com a desídia para poder continuar sendo só o outro do mundo.

perder de modo momentâneo ou definitivo a capacidade de coabitar com o vazio. “Se a incompreensão é meu destino inexorável, eu prefiro ser não entendido com poesia... eu tento dirigir devagar. Eu tento olhar menos as meninas nas ruas... mas o monstro anímico que me move o corpo em contraforça ao meu desejo de redenção também é feito de imortalidade, na medida igual da parte primeira” (rabiscou a anotação no molesquine guardado no bolso da jaqueta). Naquela tarde sua noiva não o encontrou sob a soleira como era o costume. Saíra pela manhã para tatuar um índio no ombro esquerdo, um Sepé-Tiarajú (não queria um Apache ou um Cherokee com penachos incompatíveis com nossos silvícolas originários). Eis que aí, no vazio do caminho e na introspecção dos sinais fechados, encontrou seu castigo: no proscênio do exuberante espetáculo do mundo novo, ele sangrava sua “luta entre o ser uno e o ser total”. Quis envidar todos os esforços para viver mais como os outros, cuidar do núcleo estável de uma família, com filhos, filhas, reuniões sociais, encontros de casais com cristo, aniversários tediosos de crianças e compras de mês, mas o céu sobrante da cidade lhe revelava astros remotos que pareciam prometer uma vida sem remédios para os males do enfado e todo a pesada moratória da liberdade. A individualidade é fundamental para manter uma relação saudável (“unidade não é totalidade. A totalidade contém contradições. Uma unidade é uma não contradição. A unidade se define pelo que ela não é. Ela não pode conter seu contrário. A unidade é atômica”). Um casal é um todo de duas partes, e sua totalidade é composta pelas contradições do encontro dessas individualidades. Jamais poderia ser uma unidade. O mito da unidade de dois é a miséria do amor. Ele sabia que cada um de seus sentimentos possuía casas. Seu desejo poliglota interditava a língua morta de seu músculo cardíaco. Soube-se, constrangido, um colonizador de mulheres. O trânsito voltou a fluir. Distraído, subiu os tachões divisores da faixa seletiva, e guinou o volante bruscamente para retornar ao percurso, por pouco não perdendo o controle da direção e ocasionando um acidente grave. Um salmo havia germinado alienígena no instante da distração, feito uma rosa mística no lodaçal do remorso. Dez mil cairão à tua direita. Sentiu uma culpa religiosa, um fatalismo. Mas não poderia viver se lhe quisessem colonizar o desejo. O trânsito voltou a fluir.

*** O homem não se vê se é a sós com ele mesmo. Se o outro lhe falta, também lhe faltam os espelhos e por exclusão lhe resta o abismo. O trânsito obstrui o caminho. Seu carro não vai a nenhum lugar, carro entre carros tingindo as veias da cidade com tonalidades predominantemente plúmbeas e o vermelho vivo das luzes de freio. Olhava pelo retrovisor a moça bonita que movia os lábios distraidamente ao que tamborilava o volante tentando imaginar qual seria a música que lhe animava a espera. Sentia muito medo de 89


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com a realidade do risco das trincas, dos lanhos, das quedas. A tatuagem puxou a ponta da película que envolvia um certo sono de divindade, desvirginou o ecrã epidérmico para dar luz à vida única - essa que se passa no tempo, por dentro das veias. Foi aí que pôde desistir de ser deus. E ver-se homem o deixou mais digno, a empurrar com a identidade rasgada na carne o peso das calhas de roda a girar com os mesmos músculos que movem a cadeira do rapaz das flanelas.

Sua mãe fora parteira, como Fenarete. E tivera um filho como o dela, interessado sobretudo em corromper os jovens. Imaginava que todos os que entraram no mundo das palavras pelas mãos de sua mãe também seriam seus irmãos. Ele desejava entrar em cada uma das pessoas e nas casas que transitavam nas calçadas de sua história, como se cada jovem senhor ou senhora que tivessem sido letrados pela mesma que lhe deu à luz e às letras pudessem proporcionarlhe um reencontro com sua ancestralidade: “esse passado que só existe e resiste em minha memória não tem resíduo em nenhum pedaço de chão nem parede que remanesça no hoje que habito... esse passado que é somente obra da minha vontade, da minha negação, da minha fantasia... é precisamente apenas esse passado a única coisa que justifica plenamente a minha vontade de existência no mundo”novamente rabiscou. E pelo caminho já não obstruído rasgou o asfalto, fazendo da morte um fetiche mais heroico que os filmes polacos, o pós-punk inglês, a poesia de Mário Sá Carneiro (que amava não entender), os filósofos de Viena e os automóveis da concessionária alemã, por sua amizade tão cara ao esquecimento, seu apanágio. (Seguiu absorto o Jaguar pela savana urbana, vidrado no lume hipnótico de suas lanternas e sensorializando no campo de testes do imaginário a experiência táctil de seus encostos de couro).

*** Quando chegou em casa, deteve-se no portão externo e olhou de longe a soleira. Viu a si mesmo à distância, deitado ao lado da noiva com um corpo livre de signos. E pôde percebê-la a fazer mira recíproca, em choque, a ver a realidade fendida com a imagem contígua de ambos, projetada em algum entrelugar suspenso no tempo. A mulher-hímen lhe disse: o desejo exclusivo é manifestação extensiva ao amor também exclusivo (a confirmação do seu desejo valida a mitologia da pureza e que demarca a distinção entre a imperfeição mundana e minha excelência moral, pela qual forjei minhas fabulações sobre a condição feminina. O seu desejo me faz mulher. A negação dele invalida minha autobiografia e as crenças fundantes mais arcanas da minha sexualidade, indissociavelmente agregadas ao meu afeto). Caminhou suavemente por trás dele, o abraçou e percorreu com a ponta dos dedos as linhas sinuosas de todos desenhos de sua pele, em esforço de decifração. Nessa suspensão temporal, sentiu contrair o útero. E na estereotipia de seu olhar, não lhe notou as linhas do corpo nem os sulcos de seu projeto quiromântico. Via meramente em seu rosto a ternura do príncipe, a aura do mito, e não a conflagração que lhe devastava os subterrâneos. Ao que entrelaçaram dedos e caminharam para dentro de casa, ele disse apenas “o amor só é bonito se for humano. Se tiver fim. Se não tiver sentido. Se o sofrimento que lhe for inerente puder produzir beleza. E meu dia eterno, contigo, será dos erros que eu puder perdoar de mim, sem que tu saibas deles a verdade” (se não me roubas o ser, o mistério, a inteireza alquebrada, o amor ao erro, o direito à dúvida, e, sobretudo, a liberdade do meu desejo, seguimos o caminho, totalidade de dois, feita de fissuras e pontes. E que fiques comigo ou que apenas fique em mim, passagem ou permanência, para que eu possa sempre me colocar de joelhos diante de seu amor incompreensível, venerável e perfeito demais para alguém que instituiu no amor mais outra instância do erro ao qual supõe ser o abrigo mais recôndito e fiel da santidade humana. O amor é impossível e necessário, e nele viverei tudo o que houver em sua consequência, seja a salvação ou o degredo).

*** Seguia sua vontade e seu automóvel deu-se com o mar. A vontade anda antes das pernas. “A engorda é feliz, assim nos ensinam os relacionamentos estáveis. Só os apaixonados emagrecem. Não há ataraxia possível no amor. A cabeça é o campo de batalha”. Quando se tatuou, esqueceu-se da eternidade. “Eu sou meu livro”, pensou. O entendimento é um polo de acesso raro que se situa em perfeita equidistância a dois extremos: a reprodução mecânica e a tergiversação. E não entender era tão libertador quanto não ser entendido. Por isso o apreço às tatuagens que nada significam, para fazer do mistério o fetiche do significado para culto do corpoesfinge. Quando sentou-se à mesa do tatuador, fez-lhe um relato confidencial sobre os códigos que mandara inscrever em seu corpo: “minha primeira tatuagem teve um efeito de “desanestesiamento”. Foi como retirar aquela película que serve apenas para preservar provisoriamente a integridade da superfície dos visores dos eletrônicos que conservamos até o limite do descolamento de suas bordas” (o olhar do profissional foi de indiferença involuntária, como a de alguém que não entende a mensagem e não tem a presença de espírito essencial à diplomacia mínima - o que resulta em um sorriso tíbio, na melhor das hipóteses). O homem-hímem percebeu, sob efeito do transe ocasionado pela dor e pelo ruído do motorzinho da máquina de rasgar pele, que é patético resistir à necessidade de retirá-la já ressequida, sem aderência, volteada em si mesma, na fantasia de lhe conservar uma existência perene ou de ao menos lhe prolongar a durabilidade. A película é a reencenação tardia de um ritual ingênuo de conservação metafísica da novidade eterna. A tatuagem lhe fez conviver

*** Ela preparou o café e o serviu com ternura. Sentaram-se juntos ao sofá, assistindo a novela. Falaram sobre as finanças, os sonhos de prosperidade e o projeto da casa futura. Ele contou do episódio do vendedor de paninhos e a agressão que ele sofrera. Contou dos insights sobre o fetichismo na sociedade de consumo. A mocinha dos folhetins atuais não 90


sofre tanto quanto antigamente, concordaram. Ela pediu licença para dormir após o fim do capítulo, se despediu com um beijinho selado. Ele aproveitou para transcrever os excertos de pensamento para um arquivo que preparava para um livro. Enxugou o círculo de café que remanesceu da base da xícara na mesa, com o paninho do cadeirante. Desejou seus oitenta anos. Percebeu a velhice como uma volta para casa. Desejou a sabedoria inútil da decrepitude física em troca da experimentação vertiginosa do tempo da pulsão vital à pique. Foi um átimo. Fora então renascer-se, tentar viver com a totalidade dos impossíveis na realidade múltipla que nesse instante agora se instaura – por ser somente o que lhe era possível. Admirou no espelho a tatuagem nova, pouco antes de também se retirar de cena. Para nascer o todo, matou-se o uno e o amor fetiche. A contradição deu luz. O amor, vencido e devorado haverá de nascer, novo e melhor. Mas só amanhã. Até lá, ignorará os tantos fetiches que lhe atocaiam a moral, tal qual agora ignora o mal do mundo a criança que ainda dorme, rodeada por anjos. E então foi exilar-se na parte da cama que lhe cabia para poder sonhar com os filhos que ainda não tem.

REINALDO RAMOS é poeta e contista. Vive no Rio de Janeiro.

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o homem morto e a violoncelista renata mizrahi

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vida para ele era uma verdadeira queda para a escuridão. Era assim que ele se sentia: numa queda para escuridão. De repente, nada mais fazia sentido. Como se as ondas que guiavam seu caminho congelassem no tempo, e para descongelá-las era preciso olhar profundamente para dentro, o que ele não conseguia fazer. Então parou. Estagnou todas as suas expectativas em relação ao futuro. Ficou paralisado no presente, sentindo cada segundo escorrer de suas mãos, sem nada fazer, sem nada querer. Simplesmente não sentia vontade nem de lutar, porque se o fizesse, entraria em contato com sua dor mais obscura, teria que ter a coragem mais brava dos homens para encarar suas escórias mais ocultas e vencê-las. Para quê? Se ele não sabia, não valeria a pena. Não que estivesse feliz. Isso ele não estava. Mas também não estava triste. Apenas estava, sem adjetivos. Não vale a pena dizer o que o fez ficar assim. A vida rege cada ser humano entre curvas misteriosas que nem todos são capazes de decifrar. Não importava. O que o deixou assim não foi algo específico. Talvez uma conjuntura de acontecimentos, todos bem pequenos e cheio de detalhes, que, unidos, viraram um universo no vazio. Ele assim foi ficando, sem questionar e sem impedir, se afastando de sua luz, sem saber que se afastava. E, um dia, ele já não. Conseguia entender tudo. Isso ele nunca deixou de ter: a consciência sobre todas as coisas. O bem e o mal humano: a consciência. Resolveu acatar o que lhe sucedia, sem nunca deixar de entender. Se assim sua vida quis, assim tinha de ser. Morreu em vida e não permitiu enterro nem dor. Uma noite, sem planejar, porque sua morte em vida não permitia o controle do tempo, andava desinteressado pela Cinelândia. Apesar de morto, não pôde deixar de perceber o forte movimento de pessoas na porta do Theatro Municipal. Quando ainda era vivo, uma de suas maiores alegrias era ver os concertos que o teatro oferecia. Era a sua melhor época. Procurava entrar em qualquer concerto que fosse. O poder inebriante da música o deixava verdadeiramente feliz, uma felicidade sem condições impostas, a felicidade plena. Um micromovimento corporal fez vibrarem suas veias e, como se tivesse recebido uma pequena descarga elétrica, sentiu suas células mortas mexerem. O que podia ser? A lembrança dessa época sem cobranças, ou a ideia de ouvir um concerto novamente, coisa que não fazia desde que morrera em vida?

Pela primeira vez sentiu como se lhe passassem a perna. Pela primeira vez não conseguiu entender o que estava acontecendo. Para onde foi a consciência de todas as coisas? De onde vinha aquela sensação e por que vinha com tanta intensidade? Não queria nada. Não esperava nada. Apenas sentia, e sentir, em sua atual condição, era algo mais que forte e algo mais que forte o assustava, não queria lidar com isso, não podia. Virou as costas para o Municipal e entrou no buraco do metrô, na caverna acolhedora da solidão, na sua gruta interna, assim era mais fácil e assim ele queria. Partiu dali, com medo de reviver qualquer coisa. Nunca havia chorado. Nem quando perdeu seu maior amor, por puro descuido, ou imaturidade. Não chorou nem quando percebeu que foi por isso que perdeu seu amor. Não chorou. Talvez sua morte em vida fosse um castigo por não ter chorado. Não que fosse insensível. Ao contrário. Gostava das coisas mais peculiares da vida e dava valor a elas. O olhar de um vira-lata, um bebê sorrindo, a pipa no alto fazendo piruetas, o barquinho ao longe parecendo um quadro. Contemplava cada pequeno detalhe como se! Mas não chorou nem por um segundo. Um dia tentou chorar. Lembrou de seu falecido pai, quando criança e o quanto o amava. Em vão. Falhou. E nunca mais tentou. Nem tentou tentar. Agora descia as escadas do metrô, fugindo, mais uma vez, de qualquer coisa que... Até que pudesse acontecer algo que... Até que... Aconteceu! Ele a viu. Uma mulher. Uma mulher correndo. Uma mulher correndo de vestido. Uma mulher correndo, de vestido, com cabelos avelã. Uma mulher, correndo, de vestido, com cabelos avelã e olhos castanhos. Uma mulher, correndo, de vestido, com cabelos avelã, olhos castanhos e segurando algo. O quê? Sim! Uma mulher, correndo, de vestido, com cabelos avelã, olhos castanhos e segurando um violoncelo? Era isso? Uma mulher, correndo, de vestido, com cabelos avelã, olhos castanhos e segurando um violoncelo! Um violoncelo! “Ah, dor, por que chegas com tanta intensidade no meu peito frágil e me empurras de volta às rodas de som da vida?” Uma mulher, correndo, de vestido, com cabelos avelã, olhos castanhos e segurando um violoncelo, no metrô! Uma facada na alma. Haveria de pensar: entrar ou não no trem? Porque entrar no trem seria dizer não à mulher, correndo, de vestido, com cabelos avelã, olhos castanhos e segurando um 92


violoncelo. Certamente ela iria tocar. Precisava pensar e... Cadê? Aonde foi? Cadê a mulher, correndo, de vestido, com cabelos avelã, olhos castanhos e segurando um violoncelo? Aonde foi? Será que o pensamento demanda tanto tempo a ponto de perder de vista uma mulher, correndo... Não! Teria ter que tomar uma atitude! Mas estava tão neutro, e assim era tão bom... Não! Tentou lembrar o que o fizera andar sem rumo na Cinelândia. Não teve resposta. Andava sem rumo em todos os cantos sem motivo. O trem chegou. Entrar ou não? Que saco! Há tanto tempo não sentia isso que se chama escolha. Olhou para trás novamente. Até que a viu no meio de um grupo de pessoas, com pressa, segurando o violoncelo e os cabelos... ah! Escolha? Não teve escolha. Foi. Subiu novamente as escadas do metrô de volta ao mundo, quem sabe de volta à luz. A mulher se dirigia aos fundos do teatro. Mais uma vez sentiu espasmos de vida e se assustou. Seu corpo tremeu. A mulher entrou no teatro e ele sabia que não o deixariam entrar pelos fundos sem se apresentar: “Boa noite, eu sou um homem morto e só estou atrás daquela mulher, correndo, de vestido, com cabelos avelã, olhos castanhos e segurando um violoncelo”. Não iriam deixar. Teve que entrar pela frente e, para isso, foi preciso comprar o ingresso. Comprar o ingresso: ato social de quem vive em comunidade e se adequa a ela. Há quanto tempo não fazia isso? Comprar um ingresso de um concerto, ou de qualquer outra coisa. Sem motivação, a única coisa que se pode fazer é economizar. Pagou. Entrou. Quanto medo. Quanta angústia. Era preciso desistir. Que loucura. Sou um homem morto. Aliás, não sou homem. Sou um morto. Aliás, não sou. Aliás, não. Desistiu. Nem ia pedir o dinheiro de volta. Para que passar por isso? Mais contato humano desnecessário. Virouse. Esqueceu a mulher com aquela coisa toda. Ainda bem! Ainda bem! Não quero, não posso, não deixo. Não! Ia sair quando tocou o terceiro sinal e ouviu uma curta nota que vinha de um violoncelo afinando. Lembrou-se da mulher, correndo, de vestido, com cabelos avelã, olhos castanhos e segurando um violoncelo. Era por isso que estava ali, sem compreender, pela primeira vez, o que lhe acontecia. Era por causa dela que correra, que comprara o ingresso, que entrara naquele teatro, palco de suas maiores aventuras emocionais e que ele mesmo deixou o tempo imperfeito ofuscar. Era só por isso e isso não era só. Respirou fundo. Respirou fundo. Respirou fundo. Fundo. Fun-do. Uma sensação estranha. Seu corpo já estava tão acostumado à inércia que respirar fundo era o mesmo que correr uma maratona sem nunca ter feito exercício. Quase se sufocou ao sentir o ar do teatro entrando por seus tímidos pulmões sedentários. Respirou fundo e entrou de uma vez. Apesar de ter entrado num concerto de música clássica, era como se estivesse num musical do Cole Porter. O mundo entrou em suspensão e, pela primeira vez, depois de muito e muito tempo, sentiu o coração bater de verdade, sentiu cada pontada da batida como um chamado da alma para algum lugar, quem sabe, algum lugar além do… Sentou em uma cadeira qualquer e foi além. A solidão, que até então não se fazia presente, o golpeou de tal jeito que ele não conseguia se manter parado na cadeira. Sentiu ela penetrar tão intensamente que por algum segundo percebeu

sua morte de outro ponto de vista e quase gritou no meio do teatro. Um grito de socorro, de ajuda. Se ali parecia um sonho, na verdade, era nada mais que um acordar para… Então ela começou. A violoncelista que todo mundo já conhece, de vestido e etc. Ao vê-la, quase urrou. Não de entusiasmo, mas de dor. Uma dor que ele nunca pensou que sentiria. A dor que a sala da emergência do hospital mais equipado da cidade é incapaz de identificar, a dor mais interna, adormecida, que um dia acorda e não deixa ninguém ileso. Por que, então, não fugir dali imediatamente e retornar à escuridão confortável da inércia? Mas agora? Seria isso possível? Fechou os olhos e se imaginou dançando uma música lenta com uma menina da adolescência por quem era apaixonado, a sensação de desespero que era dançar colado com alguém, calculando a melhor hora de agir, sem saber o que fazer. Imaginou-se pisando, autista, na grama do jardim de seus avós e observando o dia dar lugar à noite naquele mesmo jardim cheio de segredos seus. Imaginou um filme do Jerry Lewis, o quanto amava e quanto gargalhava com ele na infância, e até mesmo há algum tempo atrás antes de morrer. Ousou sentir saudades. Ousou sentir. A violoncelista começou a tocar o Prelude de Bach. Agora seu coração palpitava, espasmos acelerados, a sensação forte de vida o fazia acreditar que ia morrer de verdade. Uma ataque fulminante do coração, não ia aguentar. O homem morto ia deixar o corpo. Viu o teatro de cabeça para baixo, viu sua vida indo embora, o coração acelerado não dava tréguas. Um golpe certeiro, agora tinha certeza, passaram-lhe a perna, planejaram contra ele, quiseram que ele chegasse àquele momento, sentisse a dor de viver e morresse de vez, sem ladainhas. E assim ele estava, morrendo em morte, na frente da violoncelista que o hipnotizara até ali. Amaldiçoou-a por dentro. Em seu delírio de morte, o Prelude de Bach se transformou em Night and Day do Cole Porter cantado por Ella Fitzgerald e ele estava sapateando com a violoncelista nas nuvens alaranjadas do cenário de Hollywood. Abriu os olhos e ela estava olhando para ele, ou parecia que estava olhando para ele, como se adivinhasse a sua dor, como quem quer dizer: “Eu sei tudo o que está acontecendo com você e não vou aliviar nada”. Por que ela o olhava e… Sorria? Ela sorria. Sim, ela sorria para ele. Que egocêntrico dizer que era para ele. Ela simplesmente sorria. Mas para ele, ela sorria para ele e, dane-se o egocentrismo. Era sim para ele. Já não bastava apenas tocar os acordes que acordam sua alma e ainda tinha que sorrir? Se ainda não tinha morrido do coração, agora era questão de segundos. O sorriso dela o fez sentir tristeza, tanta tristeza, tanta, tanta, tanta. Obrigou-o a ser triste porque não podia ser feliz. Mas o que é a felicidade senão uma grande tristeza disfarçada de alegria? A voz de Ella ainda se fazia presente em sua mente. Era Ella cantando Porter e a violoncelista tocando Bach num quarteto inesquecível. Ela olhava para ele. Ela o sentia. Ela o percebia e talvez por isso sorria. De repente, o homem morto era o único vivo naquele teatro. Ele tremia com a música, ele respirava alto, ele sentia espasmos, ele... Ele... Ele chorava! O homem morto chorou 93


pela primeira vez. Um homem morto chorou. Lágrimas caíam em enxurradas mais fortes que uma tromba d’água no fim do verão. As pedras do seu rio eram levadas pela água e nada, nada, nada o faria parar naquele momento. As pedras que o travaram agora eram obrigadas a rolar. O poder do choro vai muito mais além. Chorava com a violoncelista linda e maldita que o fez chorar pela primeira vez. Chorava de pêsames pela sua morte em vida e chorava porque o choro ainda não significava que voltaria a viver, apenas chorava. Chorava de dor pela sua solidão há tanto ignorada e que agora era maior que qualquer coisa que pudesse imaginar. Chorava pela sua existência, pela existência alheia e chorava também de felicidade por sentir seu choro pela primeira vez. Chorava e chorava porque estava ali chorando. Agora já não tinha mais a consciência de nada. Agora ele era um ser perdido em seu choro e talvez fosse apenas por isso que era capaz de ser. Talvez soubesse no íntimo que a morte o mudara a partir daquele momento e conviver consigo mesmo seria um futuro em transtorno. Sabia que não poderia voltar a morrer, mas também não sabia se voltaria a viver. Chorava. E rezava para não parar de chorar. Algumas pessoas do teatro, talvez as mais sensíveis, o perceberam chorando e até compartilharam um pouco desse choro por causa do efeito da música, mas jamais saberiam o que de verdade o fazia chorar. A violoncelista não parava de sorrir, como se tivesse cumprido a sua missão. Não a de tocar lindamente como sempre fazia, mas de fazer um homem morto chorar. Então agora ele já não ouvia Bach, nem Cole Porter, agora ele ouvia, e até poderia cantar uma música gospel de redenção. Levantaria daquela cadeira e soltaria um agudo vibrante como Stevie Wonder faria tão bem. Oh Lord! E o choro não parava por nada e não pararia. O homem morto tem água por dentro! Agora ele era o melhor como um dançarino. Vivo em cada movimento, gesto, respiração, olhar. Era como o melhor dançarino da melhor companhia de dança. Agora ele era. A violoncelista fazia sua melhor performance. Estava genialmente virtuosa. Então ele, como nunca fizera antes, resolveu olhar para fora, com o canto dos olhos e se perguntou. Por quê? Por quê, por quê, por quê?

RENATA MIZRAHI é roteirista da Rede Globo. É fundadora da Companhia Teatro de Nós. Foi vencedora do Prêmio Zilka Salaberry 2010 e 2012, na categoria Melhor Texto, pelas peças Joaquim e as Estrelas e Coisas que a gente não vê. Já a peça Os sapos foi indicada a melhor texto do Prêmio Cesgranrio 2014 e do FITA 2013. Foi inidcada ao prêmio Zilka Salaberry 2013 pelo texto Nadistas e Tudistas. Foi finalista do concurso nacional de dramaturgia infantil Ana Maria Machado 2009 com Joaquim e as Estrelas, contemplado com patrocínio da Oi Futuro 2010. aotempopalavras.blogspot.com

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teresa

renata schettino

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porta, estava Teresa, bonita, queimada de sol, os olhos eram faíscas, de uma cor que eu, sinceramente, antes não conhecia. Uma cor de mundo, uma cor de nada, eu via os olhos de Teresa e me afogava sem dó, tinha a impressão de que nascera deles, e para eles voltaria, inevitavelmente. Teresa à porta, parada, dizendo muito pouco do que não importava, perguntava se eu ia bem, se tudo ia bem, e não importava a ela saber como eu estava, como tudo estava, porque nada estava. Nunca soube de onde veio tamanha adoração por um ser, gosto de racionalizar as coisas, pô-las em seus devidos lugares, mas ao me deparar com a figura daquela mulher andando pela rua, meu caminho inteiro se fez daquele rosto, e eu não haveria de olhar mais nenhum rosto dali por diante. Teresa sem nome, Teresa sem pressa, Teresa sem mim. Por um novo encontro prometi não descansar, andar por todas as ruas, certa hora deveria encontrá-la, por coincidência, e perguntaria seu nome, endereço, número de documento. Era Teresa e não era, não disse o nome,mas eu adivinhara, sei que era assim que se chamava. Teresa sem graça, na esquina do bar. Disse-me o nome, não era Teresa, e que nem me lembro, pois não me importava. Teresa sem copo, na mesa do bar. Ofereci o chope gelado, quis uma dose, mais forte. E me olhava fixo nos olhos, aqueles olhos de céu. Toquei seu braço, sem respeito, toquei a mão, e me deixava ferver por dentro. Cada pedaço daquela pele deixava em mim queimadura permanente, tocava o rosto, e ela calada, deixava que tocasse cada parte, o bar vazio, os copos vazios. Peguei seu braço e fomos caminhando, calados, até o carro. Seguimos calados, e calados chegamos à sua casa, não sabia endereço, não via mais nada, tudo em mim fervia e queimava, não conhecia tempo, minhas retinas embaralhadas. A sós, talvez fosse a prova, eu chamava Teresa, e ela não negava, era Teresa que eu queria e ela estava ali, guardada em mim. Toquei o seio esquerdo, entorpecido, e Teresa contorcia o rosto, em retribuição. Tomei-a nos braços querendo invadila alma adentro. Beijei seus lábios cor de carrne fresca, e naquele momento, tudo nela me pertencia. Pedi que não fosse embora, mas a casa era dela, o corpo era dela, o corpo que era meu. Seu nome de não ser Teresa me fez depressa ir embora, levar somente a lembrança, seu

nome não era mais, tudo estava perdido, não me lembrava muito bem dos pormenores, não sabia voltar. Sozinho na rua de Teresa que, bela, me olhava da janela, rindo daquele homem que a tomou com tamanha vontade e nem sabia porquê. Gritei seu nome de outra , pedi ajuda, e veio aquele sorriso de anjo socorrer o pobre maluco pelas ruas desconhecidas. Perguntou onde eu morava, disse endereço completo, bairro, número, andar. Disse que chamaria um táxi, o táxi veio e ela cantou o destino, me levou embora e nunca mais a vi. Devia desfilar seus olhos de fogueira imensa pelas mesmas ruas, mas eu não queria mais encontrá-la, tê-la não me bastaria, e perdê-la me apavorava. Imaginava diaa-dia todos os homens que passavam por aquela cama, os homens que passavam por aquele corpo febril, aquele que me pertenceu, sem carecer de palavra, sem nome, sem um único nome. Pela vida, por fim, me esqueci de Teresa, pelos meses que se passaram, pelas horas que se puseram a não lembrá-la. E me apareceu, os cabelos soltos, de repente, a pele queimada, e de repente, era Teresa mais que nunca, era Teresa pela porta, pela porta da minha casa, e perguntava como tudo ia, ela nem sabia o que tudo era, não sabia quem eu era, queria saber como eu ia, não podia deixar que perguntasse, entrou, sentou-se e me disse: “Quem é Teresa?”, respondi com o rosto, contraindo as sobrancelhas, não sabia quem era, e não era ela, estava ali, os mesmos olhos, mas não era, e não sabia, não sabia de nada. Deitei a mulher no sofá, com o rosto vermelho, e peito pulsando, meu toque fazia todo o seu corpo deixar a boa conduta de mulher direita, sua boca buscava a minha e o quadril ia contra o meu em silêncio. Eu beijava, sedento, os lábios daquela incógnita, e sentia todos os pelos arrepiados, sentia que meu corpo era dela, para sempre dela, e nunca mais. Farta de mim, levantou-se. Calou por mais alguns segundos sua presença. Vestiu-se, e me veio dizendo que a partir de hoje, seria Teresa, seria Joana, seria Marisa. Seria a mulher que vestiria meus delírios e disse isso me olhando nos olhos, disse isso ainda tremendo, do gozo, da prosa, do verso. E eu não podia me mexer, era ela, e toda ela, toda em mim. Teresa das ruas, para onde voltou, Teresa sem casa, sem nome, sem mãe. Teresa em mim. 95


Todos os dias, depois de seus dias, Teresa voltava e levava seu nome, gravado nos olhos. Teresa na porta, bonita, me esperando. Não nos falávamos, e éramos nós estranhos íntimos, pelo passar do tempo. Quando finalmente nunca mais a vi, depois de esperar por tantas vezes seu toque à porta, já não me lembrava da casa onde morava, mas o bar continuava naquela esquina, daquela rua, daquele mundo que criei ao conhecer a mulher. No bar estavam algumas mesas vazias, exatamente como deixamos. Persegui aquele olhar por todos os cantos, pelas frestas, pelas calçadas, nada vi, para desencanto, não havia rastro, não havia nome. E eu não sabia como descrevêla, sabia da beleza, não sabia dos detalhes. Sabia do enredo, do passado, do inteiro. Sabia como ninguém de sua nudez, mas me esqueci de sua voz. Teresa sem voz, por aí. Tenho a boca, o gosto, o cheiro, o olho, o corpo impregnados em mim como nunca antes, mas não sei onde deixei aquele primeiro encontro. De tanta beleza, foi-se pelo ar. Teresa sem pistas, Teresa das noites, Teresa da cama. Teresa nua, sob meus olhos.

RENATA SCHETTINO

tem a poesia como base, do amor visceral de Vinicius de Moraes às coisas miúdas de Manoel de Barros, passando pela terapia cinematográfica de Woody Allen. Não acredita no clichê como algo ruim.

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pelo menos se lê, ainda sérgio leo

A

s dobradiças, alavancas e roldanas não funcionam como antes, mas sigo pensando. E sei do meu sério problema mental, esse de chegar lúcido ao dia de hoje. À idade que tenho. Nesta manhã, o idiota me apareceu novamente, regular como uma volta de ponteiros no meu relógio de estimação, que, uma vez, sugeriu trocar por uma geringonça digital. Ele costuma, aos domingos, me levar ao café, na grande livraria, dentro de um shopping. Aparentemente não há mais livrarias nas ruas, possivelmente pela violência, de que ele reclama tanto. Ou, talvez, não haja mais leitores pelas ruas. Ele me leva pelo braço, ao sairmos do carro, e me guia. Não reclamei da primeira vez em que fez isso, e ainda perco, sempre, as chances de deixar claro o quanto é desagradável essa mão suarenta a apertar suavemente minha pele, enquanto me controla, meu cotovelo a servir de leme, pelos corredores, até as mesas do café. Há muita gente, no caminho, entre as estantes. Pelo menos ainda se lê nas livrarias dentro dos shoppings. Evito falar, não tenho o que falar a ele, e ele segue, enquanto contorna mesas, pede licença e atravessa o espaço, falando sempre, sem parecer que espera resposta. Ao se dirigir a mim, o tom é tatibitate, uma linguagem imbecil que parece considerar apropriada para me sintonizar com sua idiotice. Eu não falava assim, quando ele era criança, nem a mãe era dada a essa regressão mental tão comum em quem fala com bebês. Aprendeu fora de casa esse comportamento. Sempre desperdiçou as lições da família. Pensei em meus planos para hoje, mas me distraí olhando a saia de uma moça na livraria, no café entre os livros. Ele verifica se estou confortável. Pergunta, num tom infantilizado, sem esperar resposta, se estou bem. Vejo pelo canto do olho que um casal interrompeu a conversa para assistir a cena; ele nada percebe, e vai ao balcão, onde pega um cardápio. Volta, exibe o fólio de cartão enorme e me sugere o que comer e beber, em voz de imbecil. Sorri. Poderia ser adorável o sorriso, se eu tivesse algum contato emocional com um tagarela que não cessa de ler e me oferecer opções ininteligíveis. Em algum momento na História os bares trocaram os nomes das comidas e bebidas usuais por títulos de humor duvidoso, referências obscuras em línguas estrangeiras e charadas caprichosas. Não sei o que comer; ele vai interpretar meu silêncio à maneira dele,

e me trará um chocolate, que detesto, e um pão de queijo. O pateta agora vai de queixo erguido ao balcão, levando o menu como uma lança em riste, e volta de lá após alguns minutos. Mas, nesse tempo curto, o casal que antes nos observava voltou a conversar, e o homem estende as mãos até tocar os pulsos da moça. Ele e ela têm tatuagens nos braços. Se eu tivesse com quem conversar — e tenho dificuldade, o derrame que me pesa a língua e me trai os gestos — gostaria de comentar essa proliferação de tatuagens nas peles dos meus contemporâneos. Não falar o óbvio: que quando eu tinha a idade deles só marinheiros, bandidos e prostitutas usavam tatuagem. No meu tempo de jovem, nem bandidos fariam refeições sem camisa, e nem mesmo prostitutas se exibiriam em igrejas com umbigo de fora. A cada tempo, seus costumes. Seria falta de espírito reclamar quando os hábitos mudam com o tempo; até os meus transmutaram-se radicalmente. Também fiquei mais paciente. Com resignação, vejo voltar o palerma à minha mesa, com uma bandeja, um pão de queijo e, para minha surpresa e agrado, um suco de laranja. Sorrio. E me arrependo da reação previsível, a logorreia tatibitate de quem fala com uma criança de fraldas aos onze anos. Das fraldas, o tempo me poupou, mas não da vontade de mandar à merda esse sujeito vinte e cinco anos mais novo que eu, com quem troquei de papeis na velhice. Por muito tempo cuidei dele melhor do que sou mal cuidado há tempo demais. Olho por cima dos ombros dele, o rapaz com tatuagem passa os dedos sobre a nuca da moça e sobre a tatuagem dela. No passado, os dedos desenhavam livremente carícias sobre as peles; hoje seu carinho é seguir marcas já gravadas na epiderme. O garoto brinca com os cabelos da menina, toca o pescoço, desliza sobre o ombro direito e arranha, com a ponta dos dedos, a tatuagem incompreensível para mim. Os desenhos, as cores e o tamanho da superfície coberta de cicatrizes pintadas são um modo excessivo de as pessoas falarem de seus gostos e das modas, mesmo ao tirar a roupa. As tatuagens são cicatrizes coloridas e pretensiosas, do passado e dos sonhos dessa gente pintada. E o moço acaricia a tatuagem da namorada distraído ou consciente do desenho que cobre — em parte — com os dedos? As mãos dela, que não vejo, também traçam desenhos fugidios sobre os traços permanentemente marcados sobre 97


os ombros e as costas dele? Daqui a alguns anos, as marcas que essas crianças fizeram nos corpos ainda serão delas, elas ainda lembrarão o que queriam dizer? Eu não teria prestado tanta atenção nos gestos dos dois, se não fosse pelo contraste com os desenhos. As tatuagens os tornam interessantes; percebo que nem tinha reparado em outro casal, ao lado, em muito parecido com eles, mas com roupas que ocultam as tatuagens, se existirem. Não é a vida desses jovens que me atrai a atenção. Todos são iguais, e já fui um. Interessei-me pelas tatuagens e pelo balé dos dedos. As pessoas merecem tanta atenção quanto um ator de vida medíocre interpretando um personagem magnífico de Nélson Rodrigues. As peles são melhores que seus conteúdos. O panaca me toca no braço, e pergunta se quero mais pão de queijo, mas não consegue falar decentemente. “Qué mais pãozinhu?” ele diz, esticando o “u” no fim da palavra, numa voz pretensamente doce que me dá uma amargura no peito. Não lembro se eu tinha projetos para esse cara, quando era menino e eu, supostamente, seu modelo de homem. Puxou a mãe: onde meu queixo, hoje duplo, é arredondado, o dele se projeta, anguloso, arrogante; os olhos são doces como a da mulher que perdi, as sobrancelhas finas, o cabelo cacheado, curto como ela não usava. O corpo é o meu, de quando eu era musculoso, ombros largos que os meus eu curvei. Distraído com as comparações, esbarro no porta-guardanapos, e o derrubo no chão. Ele se curva imediatamente para buscálo, e, por cima do cabelo bem penteado, percebo uma movimentação diferente no café. Mesmo abaixado, ele também notou, e, quando me dou conta, ele já pegou meu braço com força, mas sem brutalidade, e me puxou para trás do balcão, por um caminho que mal percebi. Fala comigo como homem, com uma voz firme que eu já havia esquecido; pede cuidado; orienta meus passos. Para trás de nós, fica o burburinho de vozes e arrastar de cadeiras; vejo pelo canto dos olhos que há vários homens em lugares diversos, alguns com panos sobre o rosto, e armas. Mas não há câmeras no shopping? Não é um lugar público demais, cheio demais, grande demais para um assalto? Olho com esforço sobre meus ombros e vejo que os homens andam rapidamente, ameaçam as pessoas, recolhem bolsas, carteiras e celulares (não vejo mais os casais que estavam perto de nós, já estamos longe; meu filho, com uma agilidade que eu não suspeitava, nos tirou da linha de ação dos bandidos). Há uma porta, que dá para a cozinha, e ele a atravessa, sempre me chamando, indicando os caminhos, e o sigo, com facilidade, como se seu braço já não me conduzisse, e minhas pernas não costumassem me sabotar. Entramos, na verdade, em uma sala fechada, e ele apaga a luz ao chegarmos. Outros (Funcionários? Clientes?) entram conosco e ele fecha a porta. Ouvimos passos correndo, os assaltantes passaram pelo corredor a caminho não sei de onde. Após algum tempo e silêncio, ele me chama atenção com um tapinha suave no ombro, e me leva para a saída. Lá fora, as pessoas falam, nervosas, recontam o que acabou de acontecer, alguém diz que já chamaram a polícia. Meu filho deixa o número do telefone com um vigilante e me chama para o estacionamento, onde vejo o casal. Parecem

ter chorado. A palidez dos dois chama atenção, e ressalta escandalosamente as tatuagens.

SÉRGIO LEO é escritor, jornalista e artista plástico. Seu livro

de contos Mentiras do Rio recebeu o Prêmio Sesc de Literatura em 2008 e foi editado pela Record. Em 2014, lançou o livroreportagem Ascensão e Queda do Império X. Em 2014, seu conto Segundas Pessoas foi editado na coleção Formas Breves da editora e-galaxia e foi um dos autores da coletânea de contos Desassossego, coordenada por Luiz Ruffatto para a revista luso-brasileira Pessoa.

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CâNCER

SÉRGIO TAVARES

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menina dorme e o pai imagina se a doença dorme em comum. Uma trégua de algumas horas na batalha implacável entre o imaturo organismo inundado pelas drogas quimioterápicas e os linfoblastros. Sentado na poltrona ortogonal ao leito, uma posição inflexível e sem conforto, ele conjectura a possibilidade de pausa da produção dos glóbulos brancos anômalos, malignos, uma remissão que, embora incoerente, seria acolhedora. Não há indício aparente, contudo. Nenhum avanço verificado na contagem dos elementos sanguíneos que apoie a intervenção terapêutica. Um mês e duas semanas de internação hospitalar e a menina, a pele mosqueada por agulhas de transfusões, lhe parece incorrigivelmente anêmica, uma palidez mortiça que se acumula nas covas do rosto perdendo o feitio infantil, rivalizada unicamente pelo lenço de seda vermelho que envolve a cabeça despelada pela radiação. Uma espécie de tubérculo amarelo enraizado naquele colchão sem espessura, ele compara. Algo que lhe dá vontade de afundar a mão feito terra úmida e extirpar o viço químico, arrancá-la de vez daquele estado inatural, mas lhe falta força. Está cansado demais, um esgotamento cujo nível só pode ser equiparado ao da esposa que, depois de assistir a menina durante todo o dia, todo o tempo em que ele lida com os afazeres intransferíveis da agência de comunicação e marketing, enrosca-se na malha felpuda da coberta a fim de repousar num quarto que não cheire a iodo e assepsia. A ele, o que incomoda de fato é o zumbido das máquinas de salvamento que, por ser regulado para soar inexistente, troa por todos os corredores, todos os andares. Na maioria das noites, não consegue dormir, sequer tirar um cochilo. É claro que não lhe faz bem a privação, mas o tipo de pai que decidiu ser tem de parecer sempre disposto para a filha, entusiasmado com uma das poucas vontades que seguem resistentes, a de contar com a sua companhia na tênue distração fornecida pelos almanaques e pela programação da tevê. Com exceção de hoje. Hoje a menina passou alarmantemente exausta, imersa num estado de desaparição que lhe conferia o mesmo tom destinto da veste hospitalar e conectada a balões de soro de onde extraia força para breves instantes de lucidez. A equipe médica a visitou por duas vezes, chegou a demonstrar inclinação real para o transplante. A mãe chorou ao telefone com o pai, que estava mais uma vez ausente. Chegou atrasado, e a filha permanecia dormindo.

De qualquer forma deixe a tevê ligada, a esposa sugeriu, sem áudio, caso a menina acorde e queira assistir ao show de calouros que antecede os documentários sobre o reino animal que tanto gosta. Em vigília, a luz artificial que escapa do tubo lhe acerta em cheio, enfeixando-se num disparo contínuo de matizes frias reunidas naquele quarto estreito, naquela cápsula que parece gravitar única numa vastidão de completa desclaridade, exceto quando avançam os faróis dos veículos pela entrada do hospital alguns andares abaixo, emprestando ao teto um brilho clandestino que se desloca imperceptivelmente criando ângulos onde antes não existia, desenhos sumários de sombra que são absorvidos pelo concreto. O câncer lhe devorou a infância, ele conclui encarando a compleição frágil da menina sob os lençóis. Não há qualquer nesga de pureza nela, concessões para atitudes tirânicas, dengos ou pirraças. A doença transformou massa de modelar em cimento, extraiu-lhe os dentes de leite. Caso sobreviva, ela agora está numa espécie de limbo até a fase adulta. Não consegue ser mais imaginação, a menininha de rabo-decavalo e jardineira que corria naquele dia ensolarado em movimentos flutuantes no rastro de outras crianças, e de repente caiu e ainda não se reergueu. O pai não estava em casa, como de costume. E ao disparar hall do hospital adentro, o diagnóstico já estava definido, a filha precisava ser transferida e submetida à internação com urgência. Ele se recorda bem da feição levantina do médico, dos mocassins marrons regiamente engraxados do médico que se dirigiu a ele e a esposa, agarrados numa tensão rampante no banco frio da sala de espera. Os leucócitos saudáveis dela estavam morrendo, o extermínio dos glóbulos brancos causados por uma legião de linfoblastros, um exército do mal que comandava a infestação, agora tão espessos e intratáveis que ele os vê escaparem pelos orifícios do rosto da menina, ganhando terreno até as paredes onde arrastam seus corpos cilíndricos e filamentosos sobre o revestimento livoroso e os adesivos infantis, acumulando-se em torno da marca silhuetada do corpo de um pai que permanece fixada às suas costas, mesmo quando este se levanta. Vai ao banheiro. Debruça-se sobre a placa de granito que conforma o lavatório, abre a torneira e ataca a rigidez do rosto com as palmas juntas d’água fria. Observa o ralo escuro sorver remansosamente os mililitros que escorrem de 99


si. Ato contínuo usa a ponta do indicador e a do polegar, em movimentos circulares, para alinhar o bigode úmido. Aplica o mesmo gesto, com mais intensidade, no centro da testa, para fins analgésicos. Não se olha no espelho, está muito cansado, prefere olhar para trás. O antes do corredor clareado por gaiolas de lâmpadas gasosas, de adentrar o quarto da filha suspensa num sono químico, de render a esposa com os olhos afogueados pela impotência materna. Lembra-se que ainda não se limpou devidamente. Descerra o zíper da calça e saca o pau flácido por entre a abertura, não usa cueca. Umedece um maço de papel higiênico e hidrata a glande, não lhe incomoda que pingue sobre o tecido, não irá a outro lugar durante a madrugada. Apaga os vestígios da sessão de cinema, a saliva seca do cara que engolia seu cacete sem tomar fôlego, famelicamente como se quisesse, ou pudesse, extrair um tipo de aditivo nutricional. Desta vez não ejaculou. O cara, essa filiação de seres constituídos de massa escura, sem rostos próprios senão aquele que sempre imagina, interrompeu o ato e se levantou, desaparecendo contra a claridade que se derramava sobre as primeiras fileiras. Então ficou paralisado com o pau intumescido ao léu, encarando detidamente a tela, como se importasse com o filme que sempre é o mesmo, caso se importasse, como se importasse com qualquer outra coisa. O que lhe dá acesso irrestrito ao cinema é a escuridão, ou, ao menos, o claro-escuro. Convence-se de que, em qualquer outro nível de irradiação, não se acomodaria sem reservas num daqueles assentos onde o chão se agarra às solas dos sapatos. O procedimento também é dos mais ordinários. Basta avançar pelo corredor acarpetado e escolher uma dupla de cadeiras inteiras. Não demora e uma presença imprecisa ocupa o lugar ao seu lado. Por um tempo, serão apenas dois espectadores olhando com determinação para frente, ombro a ombro intercalando o ruído da respiração numa escala ofegante capaz de se superpor aos atritos e aos gemidos exagerados que explodem contra as cortinas ao fundo. Até que ocorre o primeiro contato. Um toque abrasivo que se espalha timidamente sobre o tecido da calça até angariar permissão para escapulir para a parte interna e subir pela costura central massageando a braguilha. Ali, o movimento repetitivo provoca a hirteza do que está dentro e do que está fora, uma pulsão atroz para se encontrarem na condição de um volume que não cessa até a fricção superar os dentes de ferro do zíper e ser imediatamente abarcado pela cova úmida onde serpenteia a carne mole e áspera responsável pela salivação. O volume é sugado até a base, lubrificado em todo o seu comprimento, a pele fina, as veias e o bulbo, todos amortecidos pela sensação gostosa que faz cravar os incisivos nos próprios lábios e virar pelo avesso os olhos, encontrando uma escuridão viva dentro da escuridão artificial, um desmaio dentro de si. Tudo acontece ali, numa sessão vulgar de cinema, ao preço vulgar de um bilhete de papel frágil. Por isso ele vai, porque é vulgar. Sem confiança, ergue o rosto e a figura que o encara friamente no espelho lhe desnuda a mentira. Ele sabe que é mentira a cada saída daquele teatro em ruína, espremido entre uma bodega e um prédio de apartamentos.

Ele também tem um câncer, um tipo de câncer selvagem que não está inclinado à remissão, uma legião de linfoblastros que se alimenta de legiões de linfoblastros envenenando o sangue, uma perturbação que não pode ser tratada com quimioterápicos ou radiação. A mentira é um tipo de falência inconveniente e ao mesmo tempo lenitiva, uma condição que o divorcia daquele tempo encarcerado cuja pena cabe a ele e a esposa, mas que transgride quando está fora do pálido quarto de tratamento intensivo em nome da pressão do desejo, de voltar ao cinema e àquilo que seus frequentadores fazem lá dentro, por conta de um tipo elevado de masturbação que não lhe parece em nada desleal. Não se arrepender disso, ainda que a sensação de culpa sirva unicamente para acalmar o seu espírito, é tão insensato, para não dizer covarde, quanto enxergar resiliência naquele espetáculo que apresenta todos os dias para si mesmo, correndo esbaforido contra o tempo, demonstrando garra para estar presente ao cair da noite, infatigavelmente junto as duas, mentindo para as duas, enquanto suas pernas ainda tremem em função da dormência do orgasmo recente. A filha e a esposa, ambas vítimas de agressões, ambas reféns de torturas severas, são, sim, resilientes; ele, não. Ele é um fraco, um títere, um ator de segunda categoria, um mentiroso que tenta encobertar seu comportamento devasso com algumas horas de doação, pois rivalizar a vigília com esgotamento físico lhe preenche com uma ilusão reconfortante de cumprir o papel de pai cioso ao lado da filha doente. Pois não é. A vida é real demais para se imaginar que há algo de mágico nela. Reencontrar, quase quinze anos depois, aquela mulher que seria a sua esposa, exilada em Paris, não passou de uma casualidade, uma coincidência que abraçada com tamanha paixão ganha uma moldura edulcorada, uma trégua para ações levianas que culminaram na inesperada gravidez da menina. Eles eram amantes regressos que queriam provar que poderiam reatar um amor que ficava menor enquanto a incumplicidade maior, no tempo transcorrido desde então, e não para materializá-lo fortuitamente. Não que isso fosse mau, não havia nada de mau em terem se tornado pai e mãe às custas de um sentimento em reconstrução. O destino não pode ser inventado, ele apenas segue o curso devido. Você pode dizer para um filho que ele não é amado, mas nunca que foi um acidente. (Confronta a figura no espelho). Enganar a si mesmo nunca é tão fácil quanto enganar a todos ao redor. O pai fecha o zíper e, no momento em que supera a soleira do banheiro, distingue a caixa de luz fria se encher de uma emoção de cores. Entra em cena, num corte suave de programação de tevê, a abertura do documentário sobre o reino animal que a filha tanto gosta. Ele pensa em acordála, passar a face interna dos dedos com ternura sobre as bochechas pantanosas dela, mas presume que não; no estado das coisas, não seria salutarmente aconselhável. Retorna à posição inflexível da cadeira, sem conforto, e encara solitário o monitor. Um coelhinho pardo sai da toca, a câmera registra o movimento em close. As orelhas erguidas, o focinho inquieto captando a velocidade do ar e a composição de odores num raio de alguns metros. Parece temeroso, saltita 100


sem motivação sobre ramos secos e cascalhos, aparentando ser essa sua primeira incursão fora do ambiente familiar. O plano vai abrindo devagar e, numa escala gradual, é possível verificar que se trata de uma pradaria, loteada por tufos medianos de uma espécie selvagem de planta crespa com cristas violáceas. O coelhinho segue sem fibra, reprisando gestos característicos, quando inesperadamente se depara com uma raposa-vermelha. A câmera focaliza o encontro casual, os animais congelados por alguns segundos como se tivesse acionado o pause. Uma tensão que se inclina sobre o que virá em seguida. Da mesma maneira paralisado, o pai torce para que termine bem. Para que algo, de alguma forma, termine bem, no fim das contas.

(Esse conto foi construído a partir de um capítulo do SÉRGIO TAVARES é jornalista e escritor, autor de Queda romance todos nósdoestaremos bem,finalista aindadoinédito) da PrópriaOntem Altura (Confraria Vento, 2012), 2º Prêmio Brasília de Literatura, e Cavala (Record, 2010), vencedor do Prêmio Sesc de Literatura, categoria Contos. Tem textos publicados em antologias, jornais, revistas e sites literários nacionais e internacionais. Vive atualmente em Niterói, Rio de Janeiro.

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a rainha infeliz severo brudzinski

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Deu-se a audiência. Quanto esta fez menção de apresentarlhe as chagas, o outro interrompeu-a e, de forma direta, narrou as agruras da soberana como se fossem seus os olhos dos quadros do castelo. A rainha empalideceu e o visitante continuou, dizendo que poderia realizar-lhe o desejo de perfeição, mas que o preço seria alto. Brotaram ouro e jóias em sacos e baús. O mago explicou que sua paga seria servir a nobre dama, mas que o preço seria cobrado pelo meio que operaria a transformação. Quanto? Perguntou a rainha. Uma vida, respondeu o outro. Que seja a minha, aceito, disse a mulher sem pestanejar. O homem apresentou um pequeno cristal amarelo. Retirando um longo cachimbo debaixo da capa, fixou a pedra no fornilho e cedeu a rainha o meio para as formas tão sonhadas, explicando-lhe o uso. Ela retirou uma brasa da lareira e carbonizou o cristal. Duas tragadas e seus olhos reviraram em êxtase. Logo, quando os espasmos findaram e ela pode controlarse, caminhou até o espelho e admirou a perfeição refletida. O encanto durará enquanto durarem as pedras, esclareceu o homem, colocando sobre a mesa uma enorme quantidade sobressalente. Dias depois, com um sorriso pleno rasgandolhe na face, a rainha foi encontrada inerte no chão do quarto de vestir. Do mago nada mais se soube. Fim da história.

eche os olhos que conto uma história pra afastar a mão do fantasma. Isso... Calma...

Era uma vez uma rainha. Uma rainha infeliz. Infeliz porque bonita, não perfeita. Nos olhos grandes e expressivos nenhum traço do esplendor ogival das bonecas chinesas. Onde o ar esnobe das senhoras da corte no nariz pequeno e gracioso? A boca, carnuda e sensual, não transmitia a soberba e a intriga das comensais do papa. Cabelos lisos ao invés de ondulados. Ombros delicados. Melhor seriam ombros imponentes. Os seios não eram diáfanos, mas volumosos. Cintura natural, não estreita. As pernas grossas, o quadril proporcional e a pele sadia contrastavam com a imagem desejada de musa ascética e vaporosa. A dama sofria. Sofria e era infeliz. Mas não fora sempre assim. Desde que um seu amante a abandonara sem desculpas nem adeus, fora tomada por uma aversão assombrosa da própria imagem. Foram enfeitiçados, pensava ela dos espelhos, pois a contemplação pura e simples de suas formas que antes lhe consumiam horas de absoluto prazer, agora lhe causava vertiginoso asco. Distorcida e maltratada, julgava ao observar-se. Loucura e maldição, o estado das coisas. Certa noite, durante terrível tempestade que assolava o reino, na estalagem do Perdido, pela porta rompeu um estranho viajante. O homem vinha sem bagagem, animais ou serviçal. Trajava longa capa negra que, com todo o temporal e estradas lamacentas, não guardava a menor gota d’água ou respingo de barro. O chegado pediu um quarto somente para ele, o que era dispendioso. Perguntado sobre como pretendia pagar pelas diárias e refeições, lançou sete moedas de ouro sobre o balcão. Na mesma noite seis homens e uma menina desapareceram ao tentar roubar-lhe a bolsa. Sozinho? Parecia guardado por uma legião. Em poucas horas os espias já haviam informado aos monarcas da presença de um mago em seus domínios. O rei, indiferente, levantou as sobrancelhas e tornou aos afazeres íntimos com a criadagem. Já a esposa, mandou um cupê buscar o estrangeiro sob pena de desagravo. O homem chegou ao castelo e logo foi posto na presença da rainha.

Ah, criança... Gostava tanto de ter-lhe trazido algo divertido, sem medo ou desespero. Me perdoa, sim? Eu me esforço, mas é sempre isto que me sai. Que um anjo traga um bom sonho depois dessa tragédia ridícula de gente ensimesmada.

SEVERO BRUDZINSKI (Curitiba, 1973) é escritor, diretor teatral e administrador público de cultura. É autor dos livros Os amores e mortes de Gustavo Carbel (2005) e Líricas (2008) pelo selo independente Stultifera Navis e Passagem do Aqueronte (2012) pela Kafka Edições.

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HOLERITE

TOM CORREIA

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linha de frente possui trezentos funcionários. Na retaguarda existem outros duzentos e vinte. Em regime de escala, plantões ininterruptos são cobertos todos os dias do ano, vinte e quatro horas. O processo de seleção e recrutamento está sempre aberto. A cada semana, para repor as baixas, novos lotes despejam pelo menos trinta novatos sem treinamento nas estações de trabalho. O nível dos testes é baixo. Qualquer um pode ser aprovado, exceto aqueles que apresentam algum tipo de disfunção. Uma junta decide a abrangência, significado e, principalmente, a aparência da “disfunção” que pretende fazer parte do quadro. Alguns candidatos, antevendo problemas, cometem erros primários nos exames. Mesmo assim são contratados. A companhia fica na região metropolitana para desestimular o acesso de clientes sem veículo próprio. Os funcionários são recolhidos em pontos estratégicos da cidade por ônibus providenciados pela corporação. Quem se atrasa precisa pegar duas conduções e caminhar seis quilômetros. O último atraso relatado foi há cinco anos. Vista de cima, a construção tem a forma de espiral, dando a impressão de se tratar de uma passagem para outra esfera. Não há elevadores entre os três pisos. Apenas rampas e escadas. Nenhuma delas é rolante. Os uniformes mantêm os funcionários afastados uns dos outros. Apenas breves apertos de mãos são permitidos. Conversas paralelas são punidas com suspensões, descontos em folha, demissão e negativação do nome numa lista negra de empregadores. Por serem considerados um prêmio, os pedidos de exoneração são indeferidos. Os que conseguem dar baixa na carteira penam durante anos pelos corredores dos tribunais. A maioria se arrepende. O processo é longo e, a pressão, constante. Alguns, mais radicais, simplesmente desaparecem. Os afastamentos temporários só ocorrem em casos de doenças infectocontagiosas. Eventuais falecimentos não são vistos com bons olhos pela diretoria. Enterros de parentes são considerados injustificáveis para ausência. Em poucos casos, mães e pais mortos são levados em conta, mas ainda assim, uma comissão é destacada para investigar o velório. Idas à cantina e pausas para água são cronometradas de modo cumulativo. Não podem ultrapassar quinze minutos, nem exceder três vezes seguida. Ligações telefônicas são proibidas. Parte dos recados é repassada no final do expediente. Celulares são entregues à segurança, que monta revistas eletrônicas na entrada e

na saída de cada turma. Comentários são monitorados por microfones ultrassensíveis ligados a uma central que emite relatórios diários sobre performances individuais. Nos finais de semana e feriados prolongados a produção tem que atender à forte demanda. O trabalho exige a identificação do cliente, emissão de cartão e despacho. Tudo deve ser feito com precisão e rapidez. Aos domingos a movimentação triplica. O ritmo é intenso. Durante horas seguidas atendem-se clientes apressados, com tendência ao nervosismo. Em cada estação existe um roteiro com minuciosas instruções que orientam como tratar os casos mais comuns. Nas ocorrências atípicas, não se deve optar pelo improviso ou originalidade. Deve-se solicitar intervenção imediata de um Super. Alguns clientes não compreendem a política de relacionamento da companhia e reagem de forma agressiva. Há registros de ameaças à integridade física de funcionários que apenas cumprem as regras. Quando isso acontece, os Super movimentam-se como marimbondos no meio da fumaça. Os S-1 são baixos e brancos. Os S-2 são altos e atléticos. As S-3 possuem traços orientais. As S-4 têm olhos verdes. Qualquer revide aos clientes é punido com sanções que variam da simples advertência ao banimento. O treinamento de três semanas nos ensina a baixar a cabeça a cada passagem de um Super. Caso um G passe por nós, devemos nos virar de encontro à parede. Não há indicações sobre o comportamento adequado diante da visita de W. Ele pode estar agora mesmo, sentado ao lado, como um funcionário comum. Os Supervisores-Mestre, os SM, vigiam os Super. Acima deles estão os G-1, os Gerentes-Ídolo, todos trazidos de fora. A cada dia nossos números de identificação são modificados. Não sabemos os nomes uns dos outros. As saídas não podem ser em conjunto. No espaço dedicado ao funcionário mais antigo, há uma indicação apontando sete meses. Existe também a galeria onde são afixados os retratos dos colaboradores do mês, escolhidos por voto direto. Suspeitase de manipulação de resultados. Trabalhadores que votam em si mesmos não costumam ver suas cédulas computadas. O salário é pago, de forma escalonada, na presença de todos os gerentes e supervisores. A chamada é feita pela ordem de nascimento. Por uma questão logística, os mais novos recebem antes. Com frequência, deixam passar subtrações indevidas. Só percebem depois que saem e, por isso, perdem o direito de reclamar. 103


de um S-2. No momento em que terminava este texto num laptop surrado, fui flagrado numa espécie de depósito de equipamentos defeituosos. A porta abriu-se num estrondo. Fiquei paralisado.

Durante o período de férias, os poucos que conseguem o benefício devem apresentar projetos que apontem soluções ergonômicas. Os autores das melhores propostas ganham um dia a mais de descanso, a ser escolhido de acordo com a disponibilidade do empregador. Cursos de reciclagem profissional acontecem a cada doze anos. Aos que desejam especialização é cobrada uma taxa extra para cobrir o investimento. Um marcador no setor pessoal atualiza informações sobre a participação dos lucros. Um sorteio dirigido decide quem serão os contemplados. As festas de aniversário do alto escalão são feitas no salão de eventos reservado aos clientes vips. Voluntários são obrigatoriamente escalados para viabilizar as comemorações: arrumação do palco, disposição das cadeiras, montagem de som e buffet não podem prejudicar o orçamento. Como prova de socialização da empresa, os funcionários que trabalham na produção podem participar dos festejos, sob a condição de cumprir os horários na manhã seguinte. Para as confraternizações de finais de ano a companhia aluga um galpão e promove encontros que separam os mais antigos dos mais novos. Promoções são anunciadas. Os Super se transformam em SM que, por sua vez, são enviados à Grande Matriz. Resultados apresentados mostram o crescimento da companhia. A água racionada contribui para o balanço patrimonial. O recolhimento para o Fundo Assistencial é celebrado como símbolo do espírito coletivo. Os funcionários aguardam num lugar reservado à distribuição de brindes: caixas de chocolate arremessadas em várias direções. Todos devem se abaixar e conseguir ao menos um dos bombons, como prova de integração e reconhecimento pelo esforço feito por W. Quem não comparece preenche formulários; quem recolhe mais do que cinco bombons devolve o excedente. Há uma semana enfrentei uma situação crítica. Na tentativa de aplacar minha abstinência, fingi que precisava utilizar o sanitário. A doença havia retornado, mas os sintomas ainda não haviam sido identificados pelos Super. Eles não perdoariam. Minhas mãos voltaram a tremer e só conseguia disfarçar graças a uma série de estratagemas, como me abanar com placas sinalizadoras esquecidas debaixo da bancada. Eu acreditava estar curado depois de me submeter ao Processo de Extração Hipnótica, uma técnica inovadora aplicada em cobaias necessitadas de cura. Durante um ano frequentei as sessões assistidas por uma junta designada pela coordenação do ambulatório. Estava me sentindo bem melhor, livre das divagações e reminiscências que fatalmente me levavam a rabiscar, de modo compulsivo, palavras, frases e parágrafos inteiros que construíam capítulos. Tive alguma sorte por não ter sido afastado em definitivo e já não sentia mais o peito pular ao ver a tela em branco de um computador. Estava disposto a me curar, afinal eu precisava de um salário. Apesar de tanto esforço, não adiantou muito eu seguir a recomendação médica de jogar fora todo tipo de papel, agendas, cadernos, cartões de natal, contas telefônicas e extratos bancários que tivesse em casa. Os especialistas acreditavam que, eliminando essas fontes memoriais, minha imaginação se mantivesse sob controle. Mesmo sentindo que fraquejava, não busquei ajuda. Não posso culpar ninguém. Foi a recidiva violenta que me levou a enfrentar o semblante

“O que você está fazendo?”, ele perguntou. “Escrevendo” “Nossos computadores não foram feitos para isso” No mesmo instante, um alarme estridente soou em todos os espaços, em todos os andares. Só tive temp

TOM CORREIA é jornalista e nasceu em Salvador. Ganhou o Prêmio Braskem com o livro Memorial dos medíocres (2002) e publicou Sob um céu de gris profundo (2011). Participou de diversas coletâneas, dentre elas, a que foi lançada pela editora alemã Lettrétage durante a Feira de Frankfurt em 2013, reunindo jovens autores brasileiros. Ainda inédito, seu terceiro volume de contos foi contemplado pelo Edital de Coedição de Livros de Autores Negros da Fundação Biblioteca Nacional.

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a lembrança mais nítida VICTOR PAES

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urante toda a vida de Luís não lhe saíam do pensamento aquelas palavras, aquele nome que sabia sujo, termo sem cerimônia que o fazia imaginar ser sua cabeça o espaço físico onde ele havia mais se manifestado na história das palavras – nenhum compêndio o conteria em mais quantidade. Nos momentos mais improváveis, nas horas em que a mais solene das frases feitas, ou em que o mais ousado e desconcertante improviso o fariam herói dos faladores rápidos e conquistadores de drinques, o nome lhe vinha à tona: lung cancer. Desde a infância, a obra árdua de tirar dele um sentido que tivesse. Não se lembrava da primeira vez em que o havia pensado. Vinha provavelmente daquele Luís da sua infância mais bem guardada, o menor de todos, aquele que nem ele mais tinha evidências de ter existido. Quando se deu conta de que o termo o perseguia, aos oito anos, havia-o pronunciado no meio de um pai-nosso, entre o “seja feita” e o “vossa vontade”. Os colegas, ajoelhados ao lado, o olharam já rindo do que parecia um palavrão, e jurou nunca mais o pronunciar. E aí queria ter um dicionário de inglês em casa – imaginava que era inglês, mesmo não visualizando como se escrevia. Não teria coragem de perguntar à professora, nem a ninguém, pelo risco de saberem sobre aquele cacoete, que só podia ser coisa de gente dada a vícios, ao fracasso. Imaginava, sim, o que seria “cancer”, mas não “lung”. E assim, pela metade, foi fazendo a manutenção dessa dúvida. Aos dez anos, de repente, a ideia não lhe apareceu mais. Ele às vezes se lembrava dela, mas aí não era ela, era ele. Chegou a pensar que, por falta de algo, quem sabe humildade, talvez tivesse perdido uma possível “missão”... assumir-se doente, investigar aquilo. Mas concluir que era novo demais para calcular fracassos, humildades. Um cacoete realmente físico, não de pensamento, coisa de criança. E pronto, aquilo tudo ficava ali. Já na adolescência, porém, retornou – no momento em que pela primeira vez pensou no fato de que algum dia seria obrigado a morrer. Em meio às mais enfumaçadas festas, nas horas das piores provas, no momento em que colocou a mão na coxa esquerda da Silvia: lung cancer. Decidiu de uma vez saber onde seria aquele câncer. Pois, claro, poderia estar projetado para ele e, por um atalho qualquer, tivesse a informação vazado em sua cabeça.

Também poderia ser uma coincidência, algo que ouviu no rádio ou na tevê quando criança. E quando soubesse o significado tudo se dissipasse. Não teria mais vergonha, perguntaria a um professor, dizendo que era apenas uma curiosidade. Ou entraria em uma livraria atrás de um dicionário. Havia ouvido falar da tal internet e de um jeito de se fazer pesquisas pelo computador que se tivesse na própria casa, mas ninguém que conhecia tinha um e nem teria tão cedo. Perguntaria a qualquer um na escola. Ou no meio da rua! Ele devia ser o único no mundo que não sabia aquilo! Começou perguntando à mãe, mais uma vez, do que havia morrido o pai. Ela chorou, pois sempre desconversava. Contou que quando ele tinha um ano, o coração do pai havia lhe dado o soco mortal. Luís perguntou se essa revolta do coração tinha a ver com algo que ia mal em alguma parte do corpo dele, com “um sentimento que esse coração alimentava por causa disso”. A mãe o sacudiu: – Moleque, coração é um objeto que se mexe dentro do corpo, não alimenta nem guarda sentimento... um dia para, e pronto. – Mas parou assim, do nada? – Porra, moleque! O que importa é só uma coisa: o sentimento do seu pai, que tava na cabeça, não no coração, era seu, pra você, nem pra mim. Tá bom? Ele poucas vezes depois falou no pai. No mesmo dia, conversando com um amigo, descobriu que fazia curso de inglês. Ele lhe disse, com absoluta certeza, que “lung” era fígado. Enfim, um belo de um câncer de fígado. E o que quer que isso pudesse dizer. Pois agora estava ainda mais envolvido com aquilo. Parecia agora visualmente compatível com seu corpo. Então não ignoraria mais quando viesse à cabeça. A cada vez, visualizaria o órgão machucado. Até secar essa imagem, até tornar aquele nome vazio, que se aplicasse a qualquer corpo – nada mais do que já era, o nome vigoroso de uma doença genérica. Talvez, em inglês, só pudesse ter efeito em quem soubesse o mínimo de inglês. Não o atingiria, apesar de saber pelo menos e justamente aquilo, pois era quase nada. Ou nunca faria mesmo nenhum tipo de efeito. Ou de sentido. Procuraria saber, uma das primeiras incógnitas, por que esse inglês. Mas para essa incógnita não havia dicionário. 105


Por isso foi se encontrar com uma prima que jogava cartas. Ou búzios, não sabia. Ela lhe disse que alguém, algum antepassado, da Inglaterra, ou Canadá, o acompanhava, sugerindo coisas. Mas que tipo de sugestão, que sedução poderia ser o nome de uma doença? Ela explicou sobre enviesadas seduções, sobre o mal transformado em palavras... que toda palavra tem um terço de mal, mesmo as mais gentis. Mas ele se lembrou de que não era uma voz de fora que repetia aquilo e sim a própria voz dele. Ia perguntar sobre isso, mas achou que ela mesma deveria ter mencionado. Observou os gestos nas mãos dela, e os achou mais patéticos hoje, adultos, do que quando eram crianças e brincavam juntos de adultos. Não podia confiar naqueles gestos. Antes que ela começasse a lhe gesticular como ele poderia se livrar daquele problema, foi embora. Nunca havia gostado direito daquela prima, daquela parte despojada da família. Voltou, então, sem mais saber o que procurar, ao hábito de ignorar as palavras. Ia deixá-las como uma marca de pele, uma falta de unha, falha de cabelo... Nada mais do que toda falta, uma parte. Ele cresceria, arrumaria amigos, uma namorada. Teve três delas. Logo à primeira, claro, contou sobre seu problema. Ela estudava psiquiatria e o achou tão interessante que projetou escrever um livro sobre aquilo, ideia que até pareceu a ele de algum modo recompensadora. Mas ela lhe explicou que “lung” não era “fígado” e sim “pulmão”. Ele mentiu, trêmulo, que já desconfiava. Naquela noite, durante o sexo, ela lhe pediu que sussurrasse aquilo em seu ouvido. Ele pensou em tentar dizer, mas teve medo, por ela saber inglês. Além disso, não conseguia deixar de pensar no transtorno que seria agora abrir mão do “fígado”... e que isso só podia acontecer mesmo com alguém sucumbindo sob o peso da própria ignorância. Não disse isso a ela, mas não sussurrou o nome. Eles brigaram pela primeira e última vez. À segunda namorada nunca contou nada. E ela era uma grande amiga. Mas ele não suportou não lhe contar seu “segredo de abismo”, segundo ela, e terminou o namoro, com a desculpa de serem grandes amigos demais. Ela lhe deu um soco nas costas tão forte, e por tantos dias dolorido, que ele imaginou que ali estava o sentido e o início de tudo. Chegou a fazer exames, mas como não acusavam nada, lembrouse do fígado. Decidiu atacá-lo: passou a beber, de tudo. Mas não tinha forças. Quando ficava de ressaca, acordava com uma textura insuportável de incontáveis lung cancers sucessivos, sobrepostos, acelerados, invertidos... Cogitando de novo o pulmão, pensou em fumar, mas não podia aceitar o cigarro com sinceridade... Brincava com os amigos que era impossível para ele “aceitar o cigarro de peito aberto”. Eles nunca acharam graça. Até que conheceu Lúcia, que tinha computador e internet em casa. Viram juntos a imagem móvel de um profundo e palpável lung cancer. Foi um dos momentos de maior encanto de sua vida. Um mês depois eles se casaram. Assim, os anos o empurraram a adulto, embora displicente no que fazer deles e dos próximos. Chegou a estudar medicina – imaginou que pudesse descobrir uma cura para

o tal câncer. Mas nem um tipo de missão como aquela ainda era suficiente para fazê-lo enfrentar sangue, agulhas. Além da cor branca do uniforme dos médicos e enfermeiros. Para ele, o branco era pura angústia, um tipo de ranço leitoso e paternal de desprezo sarcástico com o que seja doente e o que seja cor. Só algo colorido podia salvar alguém que tem éter ligando olfato e olhar. Para quem perguntava, só dizia, claro, do sangue e das agulhas. Acabou fazendo paisagismo. Se não na cura, pelo menos cores no ar para os pulmões, que não chegassem a precisar esperar por curas. Foi um grande paisagista, pelo mundo inclusive – acompanhado pelas ruas, de Nova Iorque a Amsterdã, por seu lung cancer e por Lúcia. Pararam apenas um pouco em casa para ter um filho, que veio fácil, apesar dos quase quarenta anos dos dois. Ao completar quarenta, Luís sofreu um acidente de carro. Alguns ossos quebrados, nenhum órgão ferido além do cérebro: algumas semanas em coma. Os lugares por onde perambulava durante esses dias de coma iam de alguns quarteirões de sua infância até uma montanha de grama avermelhada que ele havia inventado e onde às vezes dormia. Em todos os lugares havia sempre sol, mesmo quando sabia ser de madrugada – um sol pálido, acinzentado. Todas as vezes em que passava pelo céu um casal de capitães-do-mato, dependendo se para o sul ou para o norte, seu corpo mudava de idade e ele tinha que se acostumar também com a idade com que ficavam seus pensamentos, embora estivesse todo o tempo ali presente por trás de si mesmo. Um dia, quando estava apertado em um ano de idade, as pernas retorcidas de nem engatinhar ainda, teve a lembrança mais nítida entre todas as que teve ali: sua primeira casa, a mãe na cozinha, ele no colo do pai... que o beijou, cheirou, jogou para o alto. A mãe veio de dentro com uma mamadeira, beijou a testa do marido e voltou para a cozinha. O pai, enquanto a criança mamava, disse-lhe versos no ouvido: – She wanted to be a singer But she had in throat a finger... She wanted to be a dancer but she had a lung cancer... E Luís, por fim, lembrava-se de onde vinha aquela ponta solta de sua memória. Ainda em seu colo, tentou imaginar de que lugar o pai poderia ter trazido aqueles versos e por quê. Mas lembrou que tinha apenas um ano. Então fechou os olhos e saiu do coma. Uma semana depois, rezavam em volta dele a mãe, algumas amigas dela e a esposa, com seu filho no colo. Não havia solução, Luís ia morrer. Nos últimos dias, tentou algumas palavras, mas, desconexas, pouco dizia. Nos últimos minutos, conseguiu esticar a mão e apontar para o filho, que colocaram em seu colo, ainda que começasse a chorar. E ele sussurrou em seu ouvido, sem que ninguém percebesse, fonema por fonema, a história triste em versos que seu pai havia lhe contado. O filho parou de chorar. Logo em seguida, Luís morria. 106


No meio do pranto das mulheres, a mãe abraçou a nora: – Minha filha, olha aí... Tenha certeza da sina. Dois pais que não puderam criar seus filhos. Sina, minha filha! – Como a gente vai criar essa criança sem ele? Me diz. – Ah, não. Aí não! Do mesmo jeito que eu criei! Eu tô aqui pra te ajudar. Pelo menos você não vai precisar mentir pra ele. – Mentir o quê? E, puxando-a para um canto: – Vou te contar. Vou te contar bem aqui. O que uma mãe, meu Deus, precisa fazer... Pelo menos o filho de vocês viveu um pouco com o pai. Como eu podia deixar meu menino sofrendo que o pai morreu antes dele nascer, antes de pegar ele no colo? Não! Tive que dizer! Inventei mesmo! E ele acreditou, graças a Deus, pois nunca mais perguntou nada. Olha, minha filha, escuta o que eu te digo... O que a gente faz na cabeça de um filho não tem preço... Se for para o bem, não tem preço. Lúcia concordou com ela, apesar de um pouco mais assombrada agora. Voltou a chorar, deixou o filho com a avó, a criança serena em seu colo, e saiu da sala para tentar respirar. E a avó, embalando-o: – Olha só essa carinha de um neto inocente... cheio de tanto futuro... que judiação...

VICTOR PAES é poeta, escritor e editor. Publicou o livro de contos Deus Ex Machina (Confraria do Vento).

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amores invernais do sul vilto reis

F

ranz Alfa se escora na porta do pub, bar, boate (o que é o Babel mesmo?) e assiste à imobilidade da noite, aguardando desesperadamente por Beta Schnitzler. Terá ela ainda os mesmos olhos de lâminas vítreas? Aquelas esferas azuis que parecem partir ao meio todas as esperanças? Ele tira as mãos de debaixo dos sovacos, porém logo as guarda de volta, se abraçando à jaqueta de couro. Repara nas pessoas desconhecidas que passam por ele, insignificantes para o seu enredo pessoal. Bafeja vapor contra o frio, pensando em sua vida até ali. O tempo parece ter vazado de um furo no frasco das expectativas. De chofre, como se conjurada de sua memória para caminhar sob a noite gélida, ele a vê surgindo na rua Antônio da Veiga. Vem por esta rua da universidade, defronte ao Babel. Aos poucos, ela se torna cada vez mais real. Não exatamente como estava em sua lembrança. Um pouco mais velha? É o que tenta perscrutar entre a touca e o cachecol que mal deixam os olhos à vista. Lhe ocorre que estão no sul, onde o inverno abarca as existências. Quando chega perto dele, Beta tira os fones de ouvido e sorri, mostrando apenas os pés dos dentes. Veio ouvindo o quê?, Alfa pergunta. Sonata Arctica. Rock finlandês, ela responde. Você não mudou nada. É geada ou seu cabelo tá mesmo branco? É assim que responde ao meu elogio? Mudei. Mudei sim. Ou não teria vindo. Tem razão. Entramos? Entramos. Alfa a segue túnel adentro, tomando cuidado para não tocar na frieza de Beta, com medo que se derreta, que o momento sonhado se derreta. Ele percebe que o Babel não tem seguranças na entrada, como se ninguém tivesse o poder de perturbar este labirinto. A cada passo, ouve ressoar pelas paredes de pedra o som das botas dela. Deseja que a música que vem do interior cresça em direção deles, preenchendo este silêncio dos anos passados, do tempo em que ficaram sem se ver. Então as paredes que eram de pedra se mostram cobertas por couros de animais, grafadas por símbolos estranhos. Quando finalmente chegam ao coração do Babel, Alfa se sente satisfeito, sempre amou o lugar, embora Beta não gostasse tanto. Fica à vontade no espaço escuro, envolto pelas paredes neutras, riscadas por linhas azuis. Também lhe agrada o som ambiente, alguma banda indie que não consegue identificar.

Sentamos ali?, Beta pergunta, apontando. Pode ser. Distante da pista de danças, a mesa os acomoda. Logo Alfa se vê cercado por um funcionário do Babel. Vão tomar alguma coisa? Uísque, Alfa responde. Água sem gás, por favor, Beta acrescenta. O homem se afasta, e Alfa sustenta o olhar dela, ao que Beta pergunta, O que tem feito, Franz? Dez anos. Pois é. E então? Um divórcio, enterro dos pais, uma empresa falida, e agora uma vida de freelancer. Podemos voltar no tempo? Isso é uma indireta? Com você ainda de casaco? O Alfa com vinte anos se sente inseguro, ainda na faculdade. Será mesmo? Fará isso? Mas ela não lhe deu nenhum sinal. Ou as conversas, trocas de músicas, comentários sobre livros, significam alguma coisa? Precisa pensar rápido, é uma ação ardilosa. Antes que Beta volte do banheiro. Sim, decide que sim. Toma a jaqueta dela de sobre a mesa e enfia em sua mochila. Pouco depois, Beta retorna à sala. Vamos?, pergunta. Sim, sim, ele responde. Ela se vira com uma revoada de cabelos loiros, e ele sente que suas mãos começam a suar. Tão linda, Beta. Podia jurar que vim com meu casaco azul hoje, ela diz. Tem certeza?, Alfa pergunta. Tenho sim, responde. Ele faz de conta que a ajuda a procurar. Porém logo toca o braço dela e pede que deixem a sala de aula, ou perderão o ônibus. Beta se rende e diz que tudo bem. Ao lado de sua colega de faculdade, Alfa desce o morro que os leva até a rua. Depois seguem pela rua São Paulo, sem entrar na Antônio da Veiga, onde a placa do Babel está apagada. A seguir, tomam a Martin Luther, chegando ao ponto de ônibus, em que Beta espera pelo Troncal 15, e ele pelo 10. To batendo queixo, ela diz quando param sob a cobertura do ponto. Alfa tem certeza que esta é a deixa aguardada, para abraçá-la e dizer tudo, abusar das palavras para convencê-la de que a ama. Ele toma a atitude. Usa de toda a sua sinceridade, argumentando, explicando, falando de sentimentos, de convicções que ele acredita ambos terem semelhantes. Quando termina, pairam no ar alguns segundos de silêncio, frios. Não posso, ela diz. Só isso, não pode?, ele pergunta, desesperado. Beta afirma 108


que gosta muito dele, mas não da mesma forma como Alfa gosta dela. Além do mais, complementa, Você me conhece, não vou conseguir me dedicar totalmente; no último ano de faculdade, esse namoro não tem como dar certo. Logo depois, distante, do meio da escuridão, ele vê o Troncal 15 vir crescendo e, depois, levar Beta embora, para longe dele. De volta ao Babel, não mais com vinte anos, ouve a confirmação desta outra Beta, a de hoje, Eu sabia do casaco, ok? Imaginava que sim. As pessoas mudam. Eu era – Sim. As pessoas mudam, sem dúvidas. O homem que anotou o pedido se aproxima, entregando a Beta a garrafa de água e a Alfa um copo de uísque com uma pedra de gelo. Sabe o que não muda?, Alfa pergunta. Uhm? O atendimento aqui na cidade. Frio. Impessoal. Como todo mundo. Aos poucos, Alfa sente que seu conflito é o centro do universo. E cada ação sua é o que se espera de um protagonista. Não sabe se terá uma segunda oportunidade, ou uma terceira, pensando melhor. Por isso, toma a iniciativa de esclarecer suas intenções. Esta é a hora. Sem as desculpas da juventude. Beta parece menos rígida, talvez quebrada pelo tempo, agora que passou dos trinta. Se lhe falta o frescor (ou frieza?) dos vinte, lhe sobra uma consciência, algo pontilhado em sua beleza crepuscular. Mas..., ela diz e suspira. Mas?, ele pergunta. E meu filho? Como ficará? Não sabia que você tinha um filho. Muda tudo? Não. Tem certeza? Posso te perguntar uma coisa? Mesmo, que não muda nada? No inverno, bem cedinho, você deixa eu levá-lo pra ver a geada? Beta assente com a cabeça. Alfa segura as mãos dela, Verdade?, pergunta. Claro. Alfa tem seis anos de idade. Os cobertores o fogueiam e, diante do frio da estação, é difícil deixá-los. Tão quentinho ali. Impossível manter os olhos abertos. Mas devagar, como a lesma que ficou olhando no piso ontem, ele vai saindo da cama. Calça os chinelos, tira o pijama e coloca a calça, a blusa, depois outra blusa e por último um casacão. Não, ainda tem as meias, as luvas de meio-dedo, a touca, o cachecol que só a mãe sabe enrolar, porém um dia aprenderá a fazê-lo, promete a si mesmo. A casa ainda meio escura. Ele se senta com a mãe na cozinha. Ela parece preocupada, quieta, toda vestida de azul. E quanto está assim, sem falar, ela nunca fica sem falar, é por que tem problemas. Alfa tem certeza. Ele come um, dois, três biscoitos. Bebe uns golões de café. Limpa a boca com a mão. Pede para a mãe se pode sair da

mesa. Ela demora a responder, mas depois lhe dá um beijo e diz que sim. Tem geada lá fora, a mãe comenta. Não posso sair pra brincar?, Alfa pergunta. Nem pensar, fofinho, ela diz. Por que não?, ele quer saber. E a mãe devolve, Porque não. Mas eu queria ver a geada, tenta choramingar. Ela lhe diz, Na vida, não dá pra conseguir tudo o que se quer. Mas mãe, Alfa ainda arrisca. Sem mas, a mãe encerra a questão. Então quando você se muda pro meu apartamento?, Beta pergunta, dias depois, ao Alfa de trinta anos. Ele sorri.

Alfa se levanta da cadeira e olha para a criança engatinhando no tapete, toda abarrotada de casacos. Se questiona de onde tira essas coisas que estão em sua cabeça. Vai até o pequeno e brinca um pouco com ele. Brinca de ser pai. Depois o toma no colo, dá alguns passos até a janela e,assim que abre a cortina, vê o sorriso no rosto da criança. Tudo branco, tudo branco. A geada cobre muros, calçadas, gramados. Uma camada fininha, cintilante. Logo voltará ao normal, quando o dia se firmar. Esta imagem criada, derreterá. E Alfa precisa retomar o trabalho, voltando à sua escrivaninha. Deixa a criança no tapete e retorna ao que interrompeu, parando apenas para beber, vez ou outra, um gole de café. E se aproximando do final, tem um último pensamento, poderia ser inverno para sempre, pois cristalizar ideias e palavras, em histórias, ganha mais sentido nesta estação.

VILTO REIS é editor e idealizador do site Homo Literatus, além de apresentador do podcast 30:min e da série de vídeos A Arte de Contar Histórias Por Escrito. Atualmente trabalha na escrita de um romance.

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traças e lagartixas wilson nogueira

N

ão encontrei a camiseta listrada, as traças se prenderam nela. Elas se amarram em listras. Vivem à margem e a espreita. São muito cultas e tímidas, não gostam de luzes fugazes. A vida delas é breve, então para que tantas luzes?

a qual não lê mas filosofa num estilo... meio zen... meio existencialista,uma observadora do cotidiano...

Embora elas amem as palavras, as devoram, como umas “alfacinhas”, qual lisboetas da Alfama. As pessoas só se ocupam delas quando encontram caminhos indesejáveis e “buracos negros” naquele livro tão precioso. Viva os e-books e notebooks! ? Existem formigas que apreciam o “tempero” dos conduites e chips. Quanto aos meus bolsos... Há muito tempo que elas comeram o fundo dos meus bolsos. Bom, eu nunca tive fundos para depositar, mesmo no raso dos bolsilhos. Famintas essas leitoras de Flaubert, às vezes flertando com Dostoievsky. Elas não recusam as saborosas letras imortais. Gostavam de nanquim, agora qualquer tinta fast-food made in China está servindo. Naftalina!? Não! Sou contra toda forma de genocídio, não mato uma mosca, quanto mais uma aplicada traça burocrata. Ela só quer um papel, um pano ou uma célula morta. Não é muito. Até a visita da lagartixa. Agora os passos, os traços da traça estão mudos. Nenhum mistério novo na página do romance, nenhum caminho de ausências nos panos e nos papéis. A fome ficou ágrafa. A lagartixa fica ali, com sua presença verde, mas quando precisa e lhe apetece fica da cor da parede, principalmente quando namora, mas na maior parte do tempo fica lá no teto, muda, lagarteando perto da lâmpada dando uma de “João Sem- Braço” para comer uma incauta mariposa. Olha para baixo curiosa com as humanas insanidades do escrevinhador, agora sem suas fiéis leitoras, as traças, assassinadas pela sanha insaciável da nova moradora,

WILSON NOGUEIRA é paranaense de Curitiba (28/06/1969). Formado em Ciências Sociais pela UFPR. Atua como professor de sociologia na rede estadual de ensino. Participa do Grupo Pó&teias e escreveu duas Coletâneas de contos e poesias do Pó&teias. Mantém o blog poeteias.blogspot.com

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apoio


SOTNOC ED ATSIVER

Flaubert #06  

Revista brasileira de contos.

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