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aécio amaral III andré tartarini III atlas moniz clark mangabeira III daniel osiecki danielle schlossarek III danilo augustus III delfin felipe valério III letícia ucha III mahana cassiavillani marcelo duprat de almeida camargo III mateus senna pedro lacerda III rodrigo forte III thais lancman thayana martins III thiago lia fook III thiago mourão

ANO II

# 12 REVISTA DE CONTOS


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REVISTA DE CONTOS


© 2015 PUBLICADO ORIGINALMENTE EM 2015 COM O TÍTULO FLAUBERT REVISTA DE CONTOS Nº 12 /// COPYRIGHT DA SELEÇÃO © 2015 FLAUBERT REVISTA DE CONTOS /// todos os textos desta edição são copyright de seus respectivos autores /// © aécio amaral // andré tartarini // atlas moniz // clark mangabeira // daniel osiecki // danielle schlossarek // danilo augustus // delfin // felipe valério // letícia ucha // mahana cassiavillani // marcelo duprat de almeida camargo // mateus senna // pedro lacerda // rodrigo forte // thais lancman // thayana martins // thiago lia fook // thiago mourão ///


NESTA EDIÇÃO DE

10 19 26 32 34 37 40 43 44 46 48 50 56 59 64

flaubert

aécio amaral o menino azul

andré tartarini bode cego

atlas moniz no aguardo

clark mangabeira rimbaud

daniel osiecki

eu a saúdo nesta aurora

danielle schlossarek mais tarde

danilo augustus

o dia em que nasci de novo e matei

delfin o fim

felipe valério

isso é bicho de matar com pedra

letícia ucha você!

mahana cassiavillani lado b

marcelo duprat o primeiro sinal

mateus senna a casa do pintor

pedro lacerda douglas

rodrigo forte

restauração da ordem

REVISTA DE CONTOS


NESTA EDIÇÃO DE

69 75 78 83

flaubert

thais lancman patú

thayana martins a heroína latifa

thiago lia fook triunfo

thiago mourão carne com batata

REVISTA DE CONTOS


FLAUBERT

REVISTA DE CONTOS

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EXPEDIENTE III EDITOR MARIEL REIS [MARIELREIS@IG.COM.BR] III CONSELHO EDITORIAL ANDRÉ TARTARINI [A.TARTARINI@GMAIL.COM] JD LUCAS [JDLUCAS.CONTATO@GMAIL.COM] III EDITORES REGIONAIS RIO GRANDE DO SUL ALESSANDRO GARCIA [severogarcia@gmail.com] CEARÁ ANDERSON FONSECA [afconsultoriaeditorial@outlook.Com] RIO DE JANEIRO ANDRÉ TARTARINI III JD LUCAS PARANÁ DANIEL OSIECKI [trooper _osiecki@yahoo.com.br] BRASÍLIA MAURÍCIO DE ALMEIDA [mauriciodealmeida@gmail.com] SÃO PAULO DELFIN [delfin.k@gmail.com] III PROJETO GRÁFICO STUDIO DELREY + ALESSANDRO GARCIA III DIAGRAMAÇÃO STUDIO DELREY

Os personagens e as situações dos contos aqui publicados são reais apenas no universo da ficção; não se referem a pessoas e fatos concretos, e sobre eles não emitem opiniões.

ano 2 III # 12 III BRASIL 2015


prezados leitores, A revista flaubert, em sua décima segunda aparição, se esforça para manter um padrão qualitativo. Em um projeto colaborativo, mesmo com demandas pessoais intensas, cada editor tem procurado, desde o princípio, doar-se ao máximo, conciliando seus afazeres de naturezas diversas com a finalidade da confecção da revista e da seleção das narrativas. Todo o esforço conjugado resultou em edições memoráveis, mas, em uma agenda imperativa de sobrevivência tanto a revista quanto os editores optaram, para não interromper um projeto vitorioso, por alterar a periodicidade da publicação, tornando-a bimestral. A última edição mensal se dará em breve. flaubert, que por não caber em si, foi, ao mesmo tempo, outras duas: sainte-beuve e nerval. A grande trindade francesa. Alerto que não se trata de uma despedida, mas uma advertência sobre a mais nova metamorfose. Portanto, nada de pranto. A tônica que nos reuniu é a alegria e a celebração da diversidade narrativa. Coroamos, com os inúmeros colaboradores, uma relação que se estendeu além da burocracia chinfrim das agências literárias; e se não nos tornamos amigos íntimos, a geografia é a única responsável. Preparem-se para a leitura dos contos. Se estamos juntos, continuaremos assim, é a regra. Caminhemos, a eternidade sempre me pareceu próxima. MARIEL REIS III EDITOR


Você pode calcular o valor de um homem pela sua quantidade de inimigos, e da importância de uma obra de arte pelo mal que se fala dela.

Gustave Flaubert, 1853


o menino azul aécio amaral

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João está trancado no quarto dos pais. Embora esteja ali há alguns minutos, pelos seus cálculos trata-se de uma tarde inteira. O castigo imposto pela mãe é de uma hora sem sair do recinto, de duas às três da tarde, mas ele sabe que arrisca permanecer recluso por horas. É que a mãe, ao sair para trabalhar, deixou o pai incumbido de abrir a porta do quarto ao final do tempo do castigo, e ele pressente é sempre assim, quando meu pai se enfia na oficina, não sai de lá para nada neste mundo, capaz de esquecer até de jogo do Sport. Resta‑lhe revolver na cabeça a circunstância do confinamento. Enquanto a mãe preparava o almoço, após chegar do trabalho, João escutou ruídos de discussão entre ela e o seu pai. Ele se aproxima da cozinha sem ser notado a fim de escutar melhor o teor da discussão. – Você sabe o que eu vi agora, quando cheguei em casa: João dando água de novo pro seu irmão lá no terraço... –  E o que é que tem isso, mulher — responde o pai, esquivo, distante. — Deixa os dois. Você sabe que João adora o tio, e o meu irmão agora pode fazer o que quiser, ele não tem mais muito tempo. Enquanto fala, o pai de João, em uniforme de mecânico, lava as mãos sujas de graxa de oficina na pia da cozinha, no mesmo momento em que a sua esposa lava e trata as verduras para a salada, o que a deixa fulminante.


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– É sempre assim: você não dá a mínima para o que ocorre nesta casa, só enfurnado na danada daquela oficina. Não se preocupa nem com a saúde do irmão. Se você, que é irmão, não se preocupa, quanto mais eu. E ele resolveu morar aqui, não sai mais daquele terraço...? O pai de João não diz palavra. O menino assiste à cena, escondido. Agora escuta apenas um silêncio pesado. Sua mãe segue na pia, o seu pai dirige-se até a geladeira, abre a porta, serve-se de água. Pouco depois, os três estão sentados à mesa para o almoço. Atento à mãe, João percebe que ela está inquieta enquanto mastiga a comida; olha para o marido, que está de cabeça baixa, concentrado no seu prato ou ausente da situação. – João, eu posso saber porque você estava dando água ao seu tio quando eu cheguei em casa? — Enquanto interpela o filho, olha novamente para o marido, como esperasse a intervenção dele na conversa. – Ora, mãe, porque ele pediu. – Você sabe que não pode dar água a ele, mesmo que peça. – Que mal tem em trazer água pro meu tio? Assim ajudo a combater aquele hálito de cachaça... – Eu já lhe disse que você não pode dar água ao seu tio na hora que ele quiser. – Como assim “você sabe”? Vocês nunca me disseram por que o meu tio não pode tomar água quando bem entender. Não é melhor do que estar na venda enchendo a cara? – Olhe lá como fala! E se quiser saber qualquer coisa sobre o seu tio, pergunte ao seu pai, que é irmão dele — responde olhando mais uma vez para o marido à espera de uma reação. Este continua concentrado em seu prato. – Eu já tenho muito com que me ocupar — continua a mãe. Agora chega, não se fala mais nesse assunto. E você não ouse dar água novamente ao seu tio sem a minha permissão. Por causa disso, vai ficar de castigo hoje à tarde. – Mas, mamãe... – Não tem “mas, mamãe”... Vou-me embora pra escola daqui a pouco, dar aula. Antes de sair lhe tranco no meu quarto. Vai ficar lá, sem brinquedo nem nada, até às três horas da tarde. A chave do quarto fica com o seu pai. — Dirige-se pela última vez ao marido, pergunta:


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– Será que ao menos tirar o seu filho do castigo você pode? — O pai de João permanece absorto com a comida. Já no quarto dos pais, ao ver que a mãe estava decidida a fechar a porta, indignou-se isto é muito injusto, que mal tem em ajudar a matar a sede de alguém?; sem falar que estou pagando por algo que não sei o que é, se ao menos vocês me dissessem por que é proibido dar água a ele...; e ainda vêm com essa punição tão pesada, uma tarde inteira trancado neste quarto, longe dos meus brinquedos, dos meus amigos... Enquanto protestava, a mãe trancou a porta à chave, indiferente aos apelos do filho. Turrão, demora a aceitar o castigo. Não consegue aceitar que o simples fato de servir água ao tio seja causa de punição. O tio quase não se move da cadeira de balanço no terraço, não faz mal a ninguém, só pede água vez ou outra a ele, única pessoa em quem parece confiar na casa. A relação entre tio e sobrinho é fraterna, apesar da ausência do primeiro na vida familiar. Agora, depois de passar quase uma semana adoentado, de cama em casa dos avós de João, o tio sempre está em casa do irmão, embora não converse, limite-se a ficar horas sentado na cadeira de balanço, ocasiões em que, em intervalos sem regularidade, costuma pedir água ao sobrinho, só dois dedos, não precisa encher o copo. Depois sai, dirige-se ao bar. Antes do adoecimento do tio, os encontros entre eles não se davam durante eventos da família, mas sempre por coincidência, quando acontecia de João ir à venda ou passar em frente ao bar que o tio gosta de frequentar. Nesses momentos o tio sempre o chama para conversar amenidades, fazer perguntas sobre conhecimentos gerais, testar a inteligência do sobrinho. Não raro usa o sobrinho como troféu diante dos amigos: – Qual é a capital do Turquemenistão? – Asgabate. – E do Butão? – Oficialmente, o país se chama Reino do Butão. A capital é Thimbu, com th. – E quantos países tinha a União Soviética...? – Quinze. Os países eram considerados repúblicas socialistas soviéticas.


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– Quantos quilômetros separam a Terra do sol? – Cento e cinquenta milhões de quilômetros. Mas, isso é uma média, tem ano que é um pouquinho menos, tem ano que é um pouquinho mais. Sorridente, o tio indaga dos amigos de bebedeira estão vendo só, já viram criança mais inteligente, esse aí vai ser cientista, embaixador...! Diante do regozijo do tio e dos comentários elogiosos dos fanfarrões, o menino é tomado por um misto de timidez e orgulho pessoal. Não sabe o motivo de o tio estar sempre bêbado, não suporta o seu hálito constante de cachaça. Porém, seja pelos elogios e afagos, seja pelo inusitado de ter um tio ausente, que não orbita o círculo familiar, que vive na boemia, o fato é que nutre afeto pelo irmão do pai. A escolha pela errância, a vida desregrada, a presença incômoda de sua ausência nos encontros familiares, tudo isso provoca certo fascínio respeitoso no sobrinho. Aos poucos, João cansa de resmungar contra a mãe e a própria sorte. Deita-se no chão do quarto, entre a cama dos pais e a parede, as mãos cruzadas por trás da cabeça servem de travesseiro. A opção pelo chão - de cimento queimado - é para aliviar o mormaço e o calor, que no verão beira os quarenta graus à sombra no sertão. Começa então a exercitar uma carícia que gosta de fazer em si mesmo nos momentos de calor mais intenso. A carícia consiste em percorrer levemente o torso com as pontas dos dedos das mãos, e daí surge uma sensação de alívio, frescor, arrepio na pele. Com o arrepio e o frescor, o calor é debelado. Entretém-se com o exercício por algum tempo, até fixar atenção no ventilador de teto. Se as carícias no próprio corpo provocam torpor, as hélices do ventilador fazem-no esquecer de sua condição reclusa ao liberarem ventos de resignação. Sente-se sonolento, embora não cultive o hábito de dormir à tarde. Dormir durante o dia é perda de tempo, sempre disse a si próprio, melhor é brincar na rua, ir nadar no açude, jogar futebol de botão, trepar no pé de seriguela do quintal de casa, espiar os banhos de mangueira da vizinha do quintal ao lado. Talvez por isso relutasse em agarrar no sono mesmo nos momentos em que, como agora, cada pálpebra dos olhos pesasse mais que uma arroba.


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Em meio ao esforço para não ceder ao sono, os olhos semicerrados, o som hipnotizador das hélices do ventilador, as mãos cansadas de percorrer o torso, vê-se no Recife. Agora ele era um jogador de futebol profissional em pleno estádio lotado, posicionado para bater um pênalti. Pelo alvoroço da torcida do Náutico nas arquibancadas, que gritava Joãozinhôôô com fervor, esta devia ser uma cobrança importante, do tipo final do campeonato pernambucano - a camisa rubro-negra do goleiro não deixava dúvidas quanto à importância do então atacante Joãozinho marcar aquele tento. João, ora mirava o gol, ora desafiava o arqueiro com o olhar, ignorava o suor escorrendo pelo rosto, esboçava um ar triunfante, intimidador. Ao ouvir o silvo do apito do árbitro ordenando a cobrança do pênalti, o menino coça os olhos irritado e zomba do próprio sonho quem já viu, eu centroavante do Náutico; meu pai nunca ia me deixar sair do sertão e ir pro Recife ser jogador, sequer me levou para um campo de futebol alguma vez na vida...; sem falar que não suportaria ver o próprio filho marcar um gol, decisivo, contra a Coisa. Fez menção de se virar no chão, e então percebeu que o sono estava mesmo decidido a também fazê-lo de refém. Permaneceu imóvel, em estado letárgico. Agora estava em uma cama de hospital, sentado e vestido de interno. Conversava com outro menino deitado na cama à sua direita, também vestido de interno. Apesar de não conhecer o menino, havia cumplicidade entre os dois. Tratavam de assuntos que ocupam a cabeça de meninos entre oito, nove anos de idade. A luz no ambiente era farta, embora as crianças (umas dez) que ocupavam as outras camas na enfermaria já estivessem deitadas e cobertas, prontas para dormir. João e seu amigo falavam baixo para não violar o silêncio da sua ala no hospital. A comunicação em quase silêncio, por cochichos e gestos, plantava cumplicidade entre os dois. João gostava da conversa, embora a presença do menino fosse para ele inibidora. O menino tinha pele alva, lisa, cabelos pretos também lisos, olhos azulados, ar de gente bem nascida. Era bastante educado e atencioso, o que aumentava o seu ar de superioridade. Conversavam e conversavam. À


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certa altura, já sonolentos e as luzes da enfermaria apagadas, o menino pergunta, soprando baixinho as palavras: – O que você mais queria agora? – Estar na minha casa, tomar um copo de leite quente com chocolate, dormir na minha cama. E você? —devolve João. – Eu queria que você fosse à copa pegar um copo d’água pra mim... —A resposta veio em tom triste, de súplica. – Ah, assim não vale, isso é fácil, porque você mesmo não vai? – Tem que ser você... As enfermeiras nunca me deixam tomar água. – Por quê? – Não sei. Enquanto sussurrava as últimas palavras, o menino olhou à direita do corredor, certificando-se de que não seria ouvido por mais ninguém. Sem entender a brincadeira nem o tom de súplica do menino, João decreta: – É hora de dormir, até apagaram a luz. – Mas, e a minha água? – Esta brincadeira já deu, se quiser água é só chamar a enfermeira. Vira-se de costas para o amigo, deita-se. Após um curto espaço de tempo, o menino chama-o pelo nome. Surpreso com a pronúncia do seu nome, João se volta em direção ao menino e escuta ele chorar enquanto insiste no pedido de água. A insistência e o choro são convincentes, e João deduz que não se trata de brincadeira ou farsa. Percebe que a barriga do menino, exposta enquanto ele levava a camisa aos olhos para enxugar as lágrimas, é azul. Da cor de uma baleia azul. Assustado, não ousa fazer perguntas. Apenas assente tá bom, eu vou à copa pegar. Levanta-se, sai em direção à copa. O ambiente está escuro, iluminado apenas por uma luz mortiça ao final do corredor do lado esquerdo da enfermaria, onde fica a copa, e outra luz mortiça ao final do corredor do lado direito, onde dormitava a enfermeira de plantão. João é guiado pelo fiapo de luz que vem da copa. Anda devagar, temeroso do escuro e de que seus passos possam acordar os outros meninos na enfermaria. Ao chegar à copa, começa a encher um copo com água.


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Escuta passos no corredor, amedontra-se. Será que esta copa é mal-assombrada, pergunta-se, a insistência do menino para que eu viesse pegar água era uma emboscada; e aquela barriga azul, será que eu tava conversando com um fantasma? Na dúvida, continua a encher o copo. Tão depressa termina de enchê-lo, volta-se na direção do corredor; a enfermeira de plantão se aproxima. – Pra quem é esta água, João? – É pra mim mesmo... — responde surpreso por a enfermeira também saber o seu nome. – Se é pra você, beba aqui mesmo, eu espero. Bebe a água em dois goles, esforçando-se para disfarçar o susto causado pela abordagem da enfermeira. Porém, a enfermeira não se dá por satisfeita, quer acompanhá-lo de volta à cama. Ele pretexta: – Eu preciso levar outro copo d’água pra cama, posso voltar a ter sede durante o sono, toda noite é assim na minha casa. – Será que esta água não é para o seu vizinho da cama ao lado? Ele sempre me pede água à noite... —inquiriu a enfermeira, agora em tom amigável, de cumplicidade. – É sim, ele também me pediu um copo d’água... – Nunca dê água a ele, mesmo que insista, é pro bem dele. Agora jogue o copo na lixeira e volte já para a sua cama. Vamos, eu lhe faço companhia, está escuro. — A enfermeira é taxativa, embora sutil no tom de fala. João volta escoltado para a cama, a enfermeira segura a sua mão direita com carinho. Durante o trajeto, sente‑se ao mesmo tempo culpado por ter delatado o amigo e confortado pela companhia afável da enfermeira. Um misto de senso de traição e de responsabilidade. Já que é pro bem dele, foi melhor mesmo eu não ter trazido a água, segreda baixinho mais para si que para a enfermeira, que passa a mão na sua cabeça. Ao chegar à cama e se despedir da enfermeira, olha para a cama ao lado e constata que o amigo está dormindo, de costas, a cabeça coberta. Apenas os dedos dos pés, tão azuis quanto sua barriga, estão fora do lençol. Antes de deitar, João elocubra se isso tudo não passa de uma armação, se o amigo não estaria blefando, se não teria combinado tudo com a enfermeira só para tirar o seu sono e assustá-lo.


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– Seja como for — tenta justificar-se para o amigo, sussurando em sua direção —, eu tentei trazer a água, mas a enfermeira me proibiu; ela disse que é pro seu bem.Silêncio do outro lado. O menino não se mexe. João não saberia dizer se ele dormia ou fingia, em retaliação. Após alguns minutos, pensa ouvir um choro contido vindo da cama do amigo, mas está prestes a cair no sono. Caiu. Com os olhos embaçados, João supõe estar amanhecendo, pois a luz ambiente é natural e pálida. Aliado à luz, o sussurro de pessoas conversando na cama ao lado perturba o seu sono. Ao abrir finalmente os olhos, vê duas enfermeiras conversando em voz baixa, na altura dos pés da cama do seu amigo. Nenhuma das duas é a enfermeira do plantão da noite anterior. Ao percorrer a vista sobre a cama, vê uma poça de sangue bem no meio, lençóis e colchão encharcados de vermelho encarnado. Ao atinar que João acordara, uma das enfermeiras vem em sua direção, pergunta, sem se sequer dizer bom dia, você não quer ir ao banheiro, não quer tomar água, um banho de sol? A enfermeira quase não contém a pressa em tirá-lo dali. João ainda tem tempo de ver a outra enfermeira retirar com rapidez os lençóis encharcados enquanto um enfermeiro recém-chegado retira o colchão da cama. Atônito, quer peguntar o que está acontecendo, onde está o meu amigo, mas ouve batidas insistentes, alguém grita o seu nome. Os gritos são acompanhados por batidas na porta. Esfrega os olhos, tenta compreender o que está acontecendo. A penumbra no quarto não deixa claro se é fim de tarde ou madrugada. Ele está deitado no chão, ensopado de suor; os olhos enxergam apenas a morosidade das hélices do ventilador. Então identifica a voz e de onde ela vem: é seu pai quem o chama enquanto abre a porta. – Meu filho, acorda, já são cinco e meia da tarde, é hora de sair do castigo; daqui a pouco sua mãe chega do trabalho e vê você aí...; vai sobrar pra mim; é sempre assim, você apronta e eu é que tenho que inspecionar os seus castigos! João sai do quarto. Ainda confuso, dirige-se à cozinha, abre a geladeira, serve-se de água gelada, apanha umas seriguelas. Cruza as salas de jantar e de estar, vai até o terraço, que está vazio, a não ser pela cadeira de balanço em que o tio


costuma sentar, que está desocupada. Espia a rua. Nem sinal dos amigos. A luz da tarde escasseia de vez, adultos com aparência de cansaço voltam do trabalho. Senta-se na cadeira de balanço. Enquanto se balança, percorre com a ponta dos dedos o torso nu. O calor e o suor começam a sucumbir à fresca que acompanha o anoitecer no sertão.

aécio amaral é natural de Tabira, sertão de Pernambuco. Reside em João Pessoa, onde leciona sociologia na Universidade Federal da Paraíba. Tem contos publicados nas revistas Continente e Nada.


bode cego andré tartarini

O bode se deixa arrastar pela cordinha improvisada e vai confiante, mesmo sem enxergar, imaginando (ou não imaginando nada) que não lhe oferecerão riscos. Parece saber que o caminho é desprovido de perigo. João o puxa com pouca convicção a caminho de casa mas cogita levar o bicho a outro lugar. Para e amarrar os sapatos, lembrando de Marta e da conversa que tiveram ontem. O bode continua andando até que a cordinha o enforque e faça-o ver que deve parar. Ele espera apático, olhando para frente sem ver nada. Vendo o bode assim, tem-se a impressão de que ele nasceu para esperar. ***

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É preciso marcar o adversário sem afobação. Cercá-lo quando possível, aguardar um movimento para agir em resposta, e não aplicar um bote afoito. Não é que não se possa fazer isso, mas é arriscado. Se o dono da bola tiver perícia, avançar sobre ele sem medir as consequências pode significar ser driblado. “Você está que nem um bode cego. Calma. Cerca. Espera. Pensa primeiro e age depois.” O treinador repetia tanto que essa frase ficaria na lembrança para sempre, mas quando João dava por si já tinha avançado nas pernas do cara.


O pensamento mais nítido que ficou dessa época foi a dúvida sobre o quão diferente seria um bode cego de um bode normal; bodes raramente pareciam baratinados a ponto de sair por aí correndo sem olhar em volta. Só quando a cerca se abria e alguém se colocava à sua frente. Bode só avança agressivo se sua liberdade é ameaçada. Quando criança, João imaginava que a angústia por não enxergar causasse uma loucura desmedida, e os bodes cegos talvez julgassem estar constantemente presos devido ao breu total. Por isso, talvez saíam por aí, sem rumo, tentando escapar da prisão da cegueira, como se o mundo bloqueasse a abertura da cerca. O barbeiro abriu a porta de ferro do quartinho atrás do quintal, sorridente. O filhote de bode estava deitado. Seus olhos, de um cinza leitoso, deixavam ainda mais difícil interpretar seus sentimentos. Parecia não sentir nada, nem para o bem nem para o mal, como um ser inanimado. Não era o bicho ideal para dar de presente a Maurinho, e o barbeiro talvez soubesse disso. João poderia dizer que não aceitava o presente porque geraria muitos transtornos, não se pode deixar um bicho cego aos cuidados de uma pessoa com problemas mentais. Maurinho insistia por anos que queria um bicho do qual pudesse se dizer dono, mas este exigiria cuidados demais. Seria fácil enganar o irmão, dizendo que não tinha bode nenhum, que esquecesse aquilo, mas João não gostava de se valer disso, e também havia o constrangimento em recusar a suposta gentileza do barbeiro, além do fato de que Maurinho perguntava várias vezes ao dia quanto tempo faltava para o bode chegar. A manobra do barbeiro ficou clara no momento em que o animal apareceu deitado no chão do quartinho dos fundos do quintal. O presente, a princípio dado de boa-fé, mostrouse outra coisa. Pelo tamanho do bicho, foi possível concluir que aquele era o único que o barbeiro não conseguira vender da ninhada de meses atrás. O bode era um cavalo de Troia. ***

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O mais novo, de pé, observa o mais velho sentado, sorrindo para o nada, olhar perdido, língua grande demais para ficar


na boca. Uma espuma de saliva no canto dos lábios. O mais velho não fala nada. Aguarda sentado. O mais novo orienta o barbeiro sobre como deve ser o corte, o que é desnecessário, a cena se repete há anos de três em três meses, mas o barbeiro ouve com paciência, sorrindo simpático enquanto corta o ar com a tesoura. A ocasião é especial, de certa maneira: é o aniversário de vinte e cinco anos de Maurinho – o mais velho –, e este foi o limite até que ele conquistasse o direito de ter um bicho. Podia ser um gato, um cachorro. Só não podia ser muito grande, porque ele queria pegar o animal no colo. Era essa a conversa enquanto o cabelo era cortado. Maurinho só abriu a boca para dizer que sim, depois que o barbeiro perguntou o que ele achava de ganhar um filhote de bode. Até então, não tinha dito nada. O sorriso se ampliou no rosto e ele olhou – aparentemente pedindo permissão para sorrir – para o irmão, que observava o corte ser feito e concordou com a ideia. Melhor que gato e cachorro, porque bode não é o tipo de animal que se cria dentro de casa. Seria mais fácil convencer o mais velho a mantê-lo lá fora. Maurinho se levanta da cadeira com a cabeça novamente raspada e abraça o barbeiro tão intensamente que deixa uma mancha de saliva no ombro de sua camisa como marca de gratidão. ***

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Maurinho não sabia quando o presente chegaria, contar os dias sempre foi confuso, manhãs e noites se amontoam em uma sequência sem explicação e já é difícil demais manter-se consciente durante a avalanche de claro-escuro que o tempo derrama sobre ele. Seria fácil para João dizer “semana que vem”, “mês que vem”, restaria ao irmão acreditar. Maurinho imaginava que o mais novo tinha algum mecanismo secreto de administrar o tempo, porque lhe parecia impossível saber que estava chegando seu aniversário novamente, ou que os dias de frio terminariam em breve, ou que em algumas horas começaria a escurecer. Foi surpreendido ao ver o irmão entrar decepcionado com o presente cego preso à corda.


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– O que você quer que eu faça? Quer que eu mate o bicho só porque ele é cego? – Mas o olho dele é cinza. – Ele não vai fugir nunca e só vai para longe quando você levar. Melhor que aqueles bodes que saem fugindo. Esse é mansinho. – Mas o olho dele é cinza. Eu queria um bode manso com o olho preto. O bicho, fio de baba pendurado na boca, aguardava por um veredito impossível. – Olha, o barbeiro te deu esse bode porque gosta de você. Às vezes todo mundo precisa de alguém para tomar conta. Não é por isso que a gente vai se livrar dele, não é? Ele é bonzinho. Põe a mão aqui, faz carinho nele. A mão pesada alisava como se as costas do animal fossem um corrimão. O bode não estava mais totalmente apático, parecia pensar em algo distante, algo de que o carinho insensível do dono o fazia se lembrar. Ver isso fez João pensar de novo na ideia completamente distinta que fazia do que seria um bode cego. O bicho que o irmão acariciava burocrático não se jogava em direção a nada, apesar de, mesmo parado, parecer confiante no caminho à frente. Nunca vira precipícios, facas, cercas, armas de fogo ou predadores. Enxergar, afinal, dá medo. Desconhecer a existência do perigo talvez fizesse com que o bode fosse tão desprovido de receios, como Maurinho, que, ainda que não se atirasse em precipícios ou facas, parecia capaz disso a qualquer momento. O próprio João, aparentemente sensato, sabia que muitas vezes agia sem olhar para os lados, seguindo rumo à neblina total, sem pensar, desembestado. Com Marta por perto, quando a afobação dava lugar à atitude oposta, prudente, o receio de avançar algumas casas e quebrar a cara fazia com que ele também se sentisse cego, não afobado, mas tateando no escuro, sem saber se o melhor a fazer é seguir ou recuar, ciente apenas de não poder parar. O bode, acariciado com má vontade, aos poucos foi fechando os olhos. Apesar de muito jovem, a cegueira lhe deixava mais respeitável, dava-lhe uma espécie de austeridade. Não era um filhote de bode. Era um bode cego.


***

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Maurinho era solidário com a cegueira do bode, apesar de decepcionado, como uma criança que ganhou um brinquedo quebrado. Quis levá-lo para passear no lago, e o irmão achou melhor ir junto. O lago estava calmo como sempre e João sonhou com Marta deitada de costas, falando do céu, da água, do vento e das coisas vagas de que ela costumava falar; ele tentava adivinhar se aquela conversa deixava portas abertas para o movimento de beijá-la. O sentimento que o impedia de seguir em frente era indefinível. Reverência, baixa autoestima, medo? Não, não. Medo, não. Só tinha medo de freira e montanha russa, mas conseguia conviver tranquilamente com isso. Jogar-se sempre foi a tônica, não fazia sentido uma situação simples como essa tirar-lhe a capacidade de exercer sua coragem normalmente. Mas com ela, João estava longe de ser um bode cego. Olhava em volta, cercando, procurando sinais menos vagos para avançar. E as palavras suaves de Marta aos poucos se transformaram em berros que o trouxeram do lago do sonho ao lago real. Não se pode descansar com Maurinho; você olha para o lado, ele faz das dele. O irmão sabia dos riscos e cochilava sempre com um olho aberto. Deu tempo de correr e salvar o bode. João pensou em chegar atrasado acidentalmente de propósito, seria mais simples conviver com os poucos dias de tristeza pela morte do bicho recém-integrado à família do que com o fardo de cuidar dele por anos. A culpa não o deixava mentir para o irmão, a culpa não o permitiu deixar o bode morrer, a culpa o impedia de fazer muitas coisas. Culpa, devia ser culpa o impedindo de tentar algo a mais com Marta. Alguém na infância deve tê-lo alertado de que certas atitudes com uma moça são desrespeitosas e é importante tratá-la com a devida reverência. A culpa, e não outra coisa, foi o que o fez salvar o bode. – Vamos levar ele pra casa. Você ia matar o coitado. – O olho dele é cinza... – Maurinho cabisbaixo, entre arrependido e frustrado. – O olho é cinza, mas ele entendeu o que você fez. Se eu te enforcar só porque você não consegue pensar direito,


você ia gostar? Você tem culpa de não pensar direito? O coitado também não tem culpa de ter o olho cinza. O argumento era furado, e João sabia disso, porque a força do mais velho era incomparavelmente maior que a dele. Jamais conseguiria enforcá-lo. A menos que o outro estivesse amarrado. Era preciso manter Maurinho calmo o tempo inteiro, para que não fosse necessário apagar incêndios maiores. Evitar a raiva é muito mais fácil que conter seus efeitos. E a atitude de um sobre o outro era simples técnica de dominação. Nessas horas, quando precisava se mostrar mais forte, João evitava pensar nas consequências de seus atos. De outra maneira, não agiria. Os prós e os contras que a consciência oferece para avaliar as implicações de uma ação podem te imobilizar. Ele crescia instintivamente para cima do irmão. Seu controle sobre o outro era simples sugestão. Sentiu uma irritação subconsciente, uma queixa muda contra o mais velho, por tê-lo acordado justo no momento em que se sentia seguro a ponto de pegar Marta pela cintura, como ela já dissera que gostava, e deixar que a natureza se encarregasse do resto. Nem em sonho, tinha direito a isso. Essa irritação era uma base bastante conveniente onde sustentar sua atitude de domínio. Naquele terreno, ele sabia pisar. ***

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Na volta, os irmãos veem Marta na porta de casa. Ela acena. João, com o bode no colo, sorri sem jeito e sente uma súbita corrente fria na coluna. Marta não faz ideia exata do que quer com aquele aceno insistente direcionado a ele. Maurinho acaricia o pelo do bode, repetindo em voz baixa que foi sem querer, que vai ficar tudo bem e que não tinha a intenção de machucá-lo. João manda o irmão para casa e lhe entrega o animal. Maurinho está feliz por poder carregá-lo no colo. Não tem mais vontade de matar. Quer protegê-lo e seria capaz de qualquer coisa para garantir que nada lhe aconteça. Qualquer coisa. João se aproxima de Marta sem saber o que o sorriso dela significa. Nesse momento, já esqueceu que largou o irmão com o bode, aconteça o que acontecer, o foco está nela,


somente nela. A dúvida não o impede de pegá-la pela cintura. Não está pensando em consequências, nem nos desdobramentos de seus atos. O olhar sem mantém fixo à frente. Ela não parece muito confortável, mas ele nem chega a pensar sobre isso. Apenas avança.

andré tartarini escreveu Mormaço também queima (2008), livro de contos. Apetites carnais desordenados, seu primeiro romance, será publicado ainda este ano. É editor regional da flaubert. Idealizou e organiza a coleção SE7E.


no aguardo atlas moniz

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Eu achei que a vida tinha me ensinado a ter pele e carne de pedra e que nada mais, nunca mais pudesse me atingir. Acreditava que nós éramos invencíveis, você me entende? Eu e meu irmãozinho querido devíamos ter sido invencíveis, porque se nada nos tinha nos pegado até então, nada nunca mais pegaria. Como se a vida fosse uma conta de adicionar e subtrair: tragédia atrás de tragédia seriam convertidas em números e esses números seriam somados; alegria atrás de alegria seriam convertidas em números e somadas; e no final da subtração desses dois valores me diria se eu devia algum drama aqui ou ali ou se teria folga nas felicidades por um tempo. Para mim, eu tinha passado por tanta merda que, chegando aos meus vinte e dois anos, seria impossível que algo desse errado a partir daquele aniversário. Não poderia dar errado porque a vida não poderia ser tão cruel assim, o universo não poderia estar conspirando, as estrelas não poderiam estar alinhadas para que algo viesse me ferrar mais uma vez. Mas não é assim que a vida funciona. Queria ter percebido isso antes. Talvez se eu fosse mais cuidadoso, isso não teria acontecido. Se eu não confiasse tanto assim na minha sorte, na minha invencibilidade; se eu tivesse parado para pensar um pouco, “nossa, isso parece mesmo perigoso, melhor não tentar!”, era capaz que eu ainda estivesse feliz. Mas pensando bem, não foi minha culpa. Não foi culpa de ninguém. Era impossível prever o que aconteceria.


Meu irmão e eu saímos de casa e ele foi executado. Tentaram: meu irmão é policial militar. Não é grande coisa, é só um soldado raso, daqueles que sobem o morro onde nasceram para atirar em gente que podem ou não conhecer e podem ou não morrer nas mãos dessas mesmas pessoas. A vida é uma merda. Meu irmão não era um cara importante, e noto que já penso nele como “era” e não “é”. Ele não é um cara importante: não era comandante, não era sargento, não era oficial, não era nada. Era só um rapaz ainda mais novo que eu. Saímos de casa e tentaram o executar. Foi uma ação muito rápida: uma moto passou, meu irmão levantou os olhos, seu cabelo loiro ficou vermelho e ele caiu no chão, imóvel, como se fosse um boneco de pano largado por uma criança que acabou de se distrair com outra coisa, como se sua alma tivesse simplesmente cansado daquele corpo e tivesse decidido ir embora sem avisar para ninguém. Meu irmão não me deixou últimas palavras importantes. Na verdade, suas últimas palavras para mim foram “você fechou o gás?” ou algo assim. Queria que tivesse sido algo magnífico e dramático, como “te amo muito, irmão” ou “você sempre foi meu ídolo”, ou “muito obrigado”. O problema é que nada disso se parece com algo que ele diria. Ele provavelmente me diria algo como “você precisa tomar cuidado agora, precisa ver sempre se o gás está acabando, precisa se dedicar à faculdade. Se você arranjar uma namorada melhor que aquela cafetina tudo será lucro e eu poderei ter morrido em paz. Lembre-se de deixar a mamãe orgulhosa. Quem sabe com a minha morte você não corta o cabelo e arranja um emprego? O quê? Não, um emprego mais digno que um estágio não-remunerado. Você está prestando atenção em mim? Eu vou morrer e você está aí fingindo que não me escuta. Palhaço!”. Tenho a impressão que nunca mais vou ouvir nada dele. Então aquelas palavras tão simples, idiotas e costumeiras – “você fechou o gás?” – ecoam nos meus ouvidos há três meses e não sairão nunca.

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Quando meu irmão caiu, fiquei sem reação por uns bons momentos. Ele é policial, não eu. Eu estudo artes. Sou a


vergonha da família. Por uns segundos fiquei com medo de ser o próximo a morrer, mas então os motoqueiros foram embora e ficou só um corpo estirado no chão, a cabeça sangrando fazendo um halo em torno do cabelo loiro, olhos castanhos semiabertos e uma camisa barata manchada. Eu peguei o celular e disquei pela polícia, ambulância e o caralho a quatro. De lá até o hospital foi só um borrão, e quando a mídia começou a aparecer – porque todo mundo a-do-ra uma boa história de policial militar baleado – eu descobri que a vida não tinha me dado porra nenhuma de casca de pedra, metal ou diamante para me proteger. Mas eu não sou um homem de chorar diante das câmeras. Não seria isso que meu irmão iria querer, então me escondi atrás do cabelo e não quis gravar nenhuma entrevista. Meu irmão, nós sobrevivemos a uma infância fodida e aprendemos a desconfiar até mesmo das nossas próprias sombras. Apesar de não parecer, não somos sem pecado. Ninguém imagina que um estudante de artes de cabelo longo e que um policial militar loirinho e bonitinho sejam pessoas ruins, que tenham feito e acontecido no passado. Mas você sabe que temos sangue nas nossas mãos. E por isso mesmo achei que nunca mais passaríamos por um perrengue como esse. Mas naquele dia não desconfiamos das nossas sombras e deu no que deu. Agora você está dormindo. Não acorda há três meses. Eu não sei nada de medicina, mas me falaram que, se você voltar a acordar, é capaz que não seja mais o mesmo. Há uma chance de você morrer, de você milagrosamente acordar e voltar ao normal e de você acordar e não ser mais quem eu conheci. Será que é muito egoísmo meu pensar nesse tipo de coisa? Será que eu deveria ficar feliz pelas chances de você acordar serem maiores que de você morrer? Eu quero você de volta. Não quero outro irmão.

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Pensei que talvez você começasse a despertar para o mundo caso percebesse que a vida passa e que eu não vou ficar preso a você como um fantasma impossibilitado de seguir adiante.


Voltei para a faculdade, voltei a produzir arte, voltei a fazer minhas coisas. Tentei. Na faculdade o que o professor fala o meu cérebro não registra. Eu quero ser feliz, mas tudo agora passa como um filme antigo e queimado, desinteressante e impossível de ser assistido corretamente. As pessoas falam e eu não ouço. Me sinto tentado a voltar ao hospital a cada dia para ver como você está, mas sempre – quase sempre – resisto e lembro que há uma vida fora daquele lugar estéril. Nossa mãe está se recuperando lentamente e ela está velha; tenho que cuidar dela e não deixar sua saúde mental despencar penhasco abaixo. Aconteceu uma coisa muito engraçada um dia desses. Me perguntaram quem eu era e não acreditaram que eu sou seu irmão. Você é loiro e eu sou moreno, obviamente não poderíamos ser relacionados por sangue. Não somos. E quando eu disse que não somos mesmo, falaram que não devia estar doendo tanto porque você é só como um grande amigo de infância. Não é meu irmão de verdade, assim como nossa mãe não é nossa mãe de verdade. Eu me sinto feito de vidro. Qualquer palavra mais forte vai me quebrar. Eu quase quebrei e quase levei todo mundo junto. Tentei produzir arte. Ficou um lixo e joguei tudo fora. Sei que preciso viver para mostrar que estou bem, mas isso é tão difícil. Minhas recaídas me levarão de volta ao hospital. Eu vou apodrecer junto de você.

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Tentei voltar a fazer as minhas coisas. Não consigo nem me concentrar. Não consigo mais estudar. Você sabia que eu tenho um namorado? Melhor: você sabia que o nosso colega de quarto é o meu namorado? Agora sabe. Ontem, pela primeira vez em três meses, ele sugeriu que tentássemos mudar um pouco a rotina para que eu volte a viver. Porque eu não posso apodrecer junto de você, preciso de uma pulsão de vida para me libertar dessa coisa que a você não atinge, só a mim. Você está preso aí porque destruíram seu cérebro, eu estou preso por ter uma esperança pegajosa que me gruda a você, meu irmão. Você não pode fazer nada


contra um lobo frontal ou lateral ou um cerebelo afetado. Eu posso me livrar dessa esperança cruel. Por alguns momentos foi bom, foi a melhor coisa que eu tinha feito na vida. Foi como viver de novo, respirar de novo, sentir de novo, ver as cores de novo. E quando a euforia passou, quando as coisas voltaram ao normal, quando meu coração voltou a bater no ritmo normal e a minha pele esfriou, o suor secou e eu deitei a cabeça no travesseiro, comecei a chorar. Talvez eu já estivesse chorando muito antes daquele momento, talvez eu só tivesse percebido muito depois. Talvez tenha sido por isso que nosso colega de quarto hesitou tanto. Eu devo ter chorado o tempo todo. Ele sabe que eu estou doente. Ninguém nega mais isso. Meu irmão, eu não consigo passar pelo meu luto assim. Não vou superar meu luto nunca e vou apodrecer de verdade. O desespero gruda em mim como muco e nem com mil banhos vou conseguir tirar isso da minha pele. Eu quero voltar para o hospital e ver como você está, ficar sentado ao seu lado aguardando, aguardando, aguardando, aguardando, criando raízes, apodrecendo, me confundindo com o ambiente até que nem mais percebam que estou aqui. Até que você acorde, aí eu serei o primeiro a o ver despertar. E terá valido a pena.

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Pronto. Tive a recaída. Estou te olhando há cinco horas. Sinto que minha recaída deve ter algo a ver com sua consciência voltando, que você vai levantar os olhos para mim nem que seja para me dar uma lista de coisas pra fazer, para comprar, para lembrar e aí suspirar uma última vez e morrer, nem que seja para rir de mim uma última vez e ir embora para sempre. Por isso vou manter a minha lealdade e esperar, esperar horas, dias, semanas, meses; vou me confundir com o papel de parede e minha respiração chegará ao ponto de imitar perfeitamente os sons das máquinas. Minha boca só vai conseguir produzir os bipes do seu coração que ainda bate. Muita coisa mudou desde que você dormiu. Eu cortei o cabelo, como você mandou eu fazer. Minhas notas não deram para passar de semestre, mas consegui um estágio


remunerado. Minha namorada decidiu ir embora enquanto você estava fora e você pode ou não ser tio a essa altura do campeonato. Agora só tenho meu namorado e o som das máquinas para me acompanhar. A eleição foi um desastre, ah, tem tantas coisas que quero te contar quando você abrir os olhos! O trânsito está um caos, obras públicas estão sendo feitas. Mais uma guerra muito longe de nós explodiu, eu vi uma estrela cadente e desejei que você saísse dessa prisão. Sei que você ouve tudo que eu digo e por isso continuo dizendo, mas repetirei mais uma vez quando você recobrar a consciência e falar meu nome. Nossa mãe está bem melhor, meu namoro com nosso colega de quarto está indo maravilhosamente bem. Seu chefe, aquele comandante com cara de ranzinza, todo mês nos manda condolências. As condolências podem ficar para ele, mas o soldo não; te manter assim não é barato. As flores estão desabrochando e adotei um gato ontem. Decidi pintar a casa, mas não mexi no seu quarto: ele continua do mesmo jeito que deixou quando saímos. Eu quero que você acorde logo para me dizer que jeito vou dar naquele quarto empoeirado, como vou limpar aquilo tudo? Como vou fazer com o gato? Em quem você queria ter votado? Você tem que acordar para falar tudo que precisa e ouvir tudo que eu tenho a dizer. Mas você não acorda. E eu continuo sentado, esperando, esperando, quem sabe para sempre?

atlas moniz nasceu em 1993, na zona norte do Rio de Janeiro, onde mora até hoje. É formado em História e estuda a identidade cultural na ficção científica.


rimbaud clark mangabeira

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Nunca entendi Rimbaud. Mantínhamo-lo em cima do sofá e toda vez que, nas horas dos almoços durante a semana de trabalho, eu passava por perto, olhava-o de relance, prometendo-me dar-lhe um pouco de tempo, à tardinha, quando voltasse, embora me sentisse envergonhado por não poder apreciá-lo por inteiro ali mesmo. Sei que, de certo modo, ele também me olhava. Eu admirava-o e pegava-o, curioso, quando as tardinhas chegavam. Buscava conhecê-lo como bom aluno, no começo da noite, nunca com sucesso: uma inaptidão para compreender o que ele imaginava. Minha esposa, mais capaz e inteligente do que eu, perguntava-me o porquê de eu insistir tanto, já que parecia que não nos dávamos bem, ao contrário dela e dele. Mas eu sabia que conseguiria cedo ou tarde captá-lo por inteiro, bons amigos que se enxergariam. Afinal, quando me permitia achar que o sentia, ele me completava com pensamentos que jamais pensei que poderia ter. Mostravame coisas mais etéreas do que qualquer outro. Ele me enchia de experiências. Era nos fins de semana, quando a vida parece esticar-se, que eu tinha, enfim, mais tempo e menos embaraço para sentar-me no sofá e pegá-lo nas mãos. E como valia a pena! Nesses mesmos fins de semana, aos domingos, tínhamos nosso acordo vespertino. Passeava na orla de Copacabana para pensar um pouco mais sobre ele, levando-o comigo.


Em minhas mãos, ele chamava a atenção dos mais atentos, que o olhavam colado ao meu peito direito e davam-me sorrisos confidentes de bons entendedores: afinal, meias palavras bastam. Sentava no banco de um quiosque, ele aberto sobre minhas coxas, e, outra vez, obrigava-me a entendê-lo. Às vezes, os mais ousados vinham até nós e puxavam conversa, sempre sobre Rimbaud, nunca sobre mim. Eu, claro, com certa inveja, vestia meu ar de professor emérito e minha pose de doutor, e explicava até o que não conhecia dos seus mistérios. De novo, valia a pena. Quando a noite chegava e batia a hora de voltarmos para nosso sofá, minha esposa esperando-o com a autoridade do verdadeiro bom conhecedor, eu despia a aura fraudulenta e me resignava a perceber o quanto estava distante do “captá-lo por inteiro”. Mas Rimbaud tinha cumprido sua parte do trato semanal e era de bom tom que eu também o honrasse: afinal, ele me deixava mais bacana, mais misterioso, mais interessante diante dos outros, graças a sua maestria. Levantava-me, saciado, sabendo que era minha vez de cumprir o acordo, e servia-lhe. Era então que eu o permitia encostar o chão. Ele abanava o rabo, roçava-se na minha perna, levantava a pata traseira e mijava no mesmo poste onde todos os meninos mijam, balançando-se para tirar o excesso, satisfeito. Babando sem parar, língua de fora, voltávamos, bons companheiros de domingo. Mais seis dias sem entendê-lo.

clark mangabeira é doutor em Antropologia pelo Museu Nacional. Publicou o conto “Freud Explica” (2013) na Revista Anthesis, artigos acadêmicos e o livro Bem‑aventurados os que viram (2011).


eu a saúdo nesta aurora daniel osiecki

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Já revirei o lixo da casa dela mais de uma vez. Não sei qual seria sua reação se eu fosse pego no ato. O que eu diria se ela me perguntasse o que estou fazendo? – Eu perdi uma coisa. Mas o quê? Realmente, não faria sentido. Já tive a oportunidade de mexer nas suas gavetas, mas confesso que isso nunca me passou pela cabeça. Porém, o lixo sim. Certa vez encontrei um exame de gravidez no lixo do banheiro. Peguei aquele objeto cilíndrico estranho e guardei no bolso. Eu ainda ia demorar pra ir pra casa e a prova do crime estava no meu bolso. Ela bem em minha frente, não parava de falar. Era uma de nossas reuniões semanais. Nós dois e mais alguns colegas do jornal. As conversas sempre giravam em torno dos meus livros resenhados e de qual seria a pauta de sábado, mas a única coisa que eu pensava era na prova do crime escondida no bolso da jaqueta. Na semana seguinte voltamos todos ao seu apartamento. Muito vinho, muita conversa, muita maconha. O que seria de nós, jornalistas brasileiros, sem maconha? Trabalhávamos todos no jornaleco da província. Bando de pseudo intelectuais inebriando-se com haxixe e despejando o mesmo palavrório repleto de chavões jornalísticos e lugares comuns num apartamento kitch no centro de Curitiba. Quando bebemos todo o vinho e o pessoal terminou todo o haxixe, resolvemos sair e continuar bebendo em


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algum bar. O prédio antigo, na esquina da Matheus Leme com a Carlos Cavalcanti, serve de abrigo para prostitutas decadentes e viciados em craque. Em cinco vamos subindo a Matheus Leme em direção ao Largo da Ordem. Logo nos acomodamos no mesmo bar de sempre e continuamos a beber. Nossa mesa está repleta de garrafas de cerveja e maços de cigarro. Eu procuro manter certa sobriedade, mas é difícil controlar. Eu ainda tinha planos de voltar ao seu apartamento e tentar, de uma vez por todas, uma aproximação maior. Eu apenas ouço, não sinto vontade alguma de falar. Quero apenas vê-la, observá-la. Não tiro os olhos de sua boca. Seus lábios delineados por um batom vermelho me enfeitiçam e por algum motivo penso em sangue. Curiosamente estava lendo Bodas de Sangue e começamos a falar sobre a adaptação que estava escrevendo. Nada daquilo me interessava, apenas ela em minha frente. Não era a noiva de Lorca, mas uma obsessão para mim. Perto das cinco da manhã ela levanta e vai ao banheiro. Como eu ainda não tinha ido, levanto logo em seguida e fico na fila. A porta tem uma janela de vidro pela qual dá para identificar os movimentos das pessoas lá dentro. Fico observando seus movimentos. Ela senta-se no vaso sanitário e logo em seguida se levanta, joga o papel na cesta de lixo e sai. Nos encontramos, trocamos um sorriso e entro no banheiro. Logo que levanto o assento vejo na água alguns pontos vermelhos. Era o seu sangue, era o que eu buscava. Sempre. Atirei-me à cesta do lixo e freneticamente comecei a procurar sua essência. O sangue é visceral. Estava ali, enrolado em papel higiênico, o que eu tanto procurava. O sangue estava fresco, pingava como em uma cascata. Com meus lábios senti sua textura, sua essência, o que foi indescritível. Esfreguei meu tesouro por todo meu rosto e era como uma alucinação. Era como se eu me apropriasse de algo que pertencia a ela, que era só dela. Agora, sem ela saber, eu a conhecia melhor que qualquer um. Apenas eu sabia de verdade seu segredo mais íntimo. Levantei-me, puxei a descarga e me olhei no espelho. Meu rosto estava todo vermelho com seu sangue, com sua marca.


Ela agora me pertencia. Eu não queria me lavar. Queria deixar esse elixir ancestral e metafísico secar em meu corpo e fazer parte de mim. Mas não podia sair daquela maneira. Lavei meu rosto e dobrei cuidadosamente meu troféu. Guardei no mesmo bolso da prova do crime da semana passada. Quando saí do banheiro todos já se aprontavam para sair. Pagamos a conta e cada um foi seguindo seu caminho. Ela me convidou para voltar ao seu apartamento com mais dois amigos, mas eu disse que tinha que acordar logo. Nos despedimos e segui meu rumo. Fui caminhando pra casa, são só algumas quadras. Senti a brisa suave da aurora curitibana e não pude deixar de sorrir vendo o primeiro raio de sol.

daniel osiecki nasceu em Curitiba, em 1983. É professor de literatura, crítico literário e editor regional da Flaubert. É colunista do Jornal Relevo, de Curitiba. Publicou o livro de contos Abismo (2009) e mantém o blog Távola Redonda. novatavolaredonda.blogspot.com


mais tarde Danielle Schlossarek

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Amanda dormia no sofá desenhado com retalhos vermelhos, suas mãos agarravam uma pequena almofada com um enorme gato branco bordado, e eu tocava uma música inacabada ao piano. Enquanto Amanda, ainda adormecida no sofá vermelho que foi de sua avó, descansava suas tristezas em algum lugar inalcançável, eu tentava encontrar em seu rosto os traços que ela poderia ter herdado de mim. Seus pés escorregavam sobre o encosto, milimetricamente, à medida que seus músculos relaxavam. Os olhos caídos, tristonhos, eram os olhos de Érica. Assim como a boca fina, desconfiada e a forma como mordiscava os lábios enquanto pensava, comprimindo a testa. Eu via, em Amanda, a Érica de 17 anos atrás, quando a deixei junto com todas as nossas inocências juvenis. O nariz de Amanda. Sim, o nariz, talvez, ela tivesse herdado de mim. Sobressaía de seu pequeno rosto oval. Estragava alguma tranquilidade ali existente. Parecia errado, mal colocado, irregular, talvez como eu, seu próprio pai, chegando só agora em sua vida. Enquanto Amanda dormia, eu me lembrava das coisas daquela pequena cidade que abandonei, quando minha filha adormecida ainda sonhava com o desconhecido, quando ela ainda nem tinha nome, e era gerada lentamente na barriga de Érica. Seu José ainda tem uma banca de jornal na mesma esquina erma, mas hoje, tem também uma


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geladeira para vender H2O e Gatorate. Dona Carla ainda tem um carrinho de cachorro-quente e de pipoca na porta da escola. A vizinha ainda varre o quintal três vezes por dia, todos os dias, inclusive sábados, domingos e feriados. Mas agora há também mais bares na cidade e os bares estão mais cheios, com jukeboxes reproduzindo músicas e televisões ligadas todo o tempo. Enquanto Amanda dormia, sonhando com algum instante imaturo, eu refazia mentalmente a vida de sua mãe, desde o dia em que a deixei, quando tínhamos apenas 18 anos, e fui embora dessa pequena cidade provinciana e careta, meio anos 80, meio comédia adolescente, meio filme B americano, prometendo que voltaria e a levaria para o Rio de Janeiro comigo. Tentei refazer sua vida, olhando para Amanda adormecida, até o dia em que Érica se matou, me trazendo irremediavelmente de volta para casa. Para sua casa. Para a casa de Amanda. Era como se todos os caminhos que percorri me levassem para aquele instante, em que Amanda dormia no sofá de retalhos cor de sangue, e enquanto eu criava uma melodia imaginária para uma filha real e abandonada. Enquanto Amanda dormia, achei que havia visto uma lágrima caindo de seus olhos no sofá carmim. Mas era eu que secava meu rosto e pegava um copo de conhaque. Nesse momento quase pude ver Érica na minha frente. Quase pude ver Érica e nosso primeiro porre de vodca e tequila. Quase pude ver Érica e nosso primeiro sonho. Quase vi Érica e nosso primeiro beijo. Mas tudo o que eu via era nossa filha adormecida. Enquanto Amanda dormia no sofá, eu tive medo. Tive medo do que Érica teria me dito antes de se matar. Tive medo do que Amanda me dirá daqui a alguns anos, quando for adulta, por causa da raiva. Tive medo das coisas que ela nunca me dirá, por causa da decepção. Tive medo daquele ser adormecido num sofá velho, as mãos agarradas a uma almofada azul com um enorme gato branco bordado nela. Esperei Amanda acordar, enquanto digeria meus temores com doses de conhaque. De repente, seus olhos se abriram, tristes e sonolentos.


Como se ela percebesse uma coragem repentina em mim, abriu um sorriso e balbuciou, simples e resoluta: Oi, pai.

Danielle Schlossarek é carioca e escritora. Participou das coletâneas Clube da Leitura, volumes 1 e 2 (2009 e 2012), Caneta, Lente e Pincel (Flâneur, 2011), Para Copacabana com amor (Oito e Meio, 2013) e Vou te contar – 20 histórias ao som de Tom Jobim (Org. Celina Portocarrero, Rocco, 2014). Publicou seu primeiro livro Irene na multidão, pela Oito e Meio em 2013.


o dia em que nasci de novo e matei danilo augustus

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Quando vemos algumas reportagens na televisão, nunca imaginamos que um dia podemos passar por aquela situação. O momento crucial que nos toma poucos segundos para uma reação e no qual mesmo assim, não sabemos como, o fazemos instintivamente, pode mudar tudo. Lembro-me como se fosse hoje o que me aconteceu. Estava voltando da faculdade, como tantos outros dias que assim o fizera, no entanto, tive que ficar até um pouco mais tarde, coisa de uns vinte minutos além do meu horário habitual. Estava em uma discussão feroz sobre as novas regras do basquete americano com um colega de classe, que defendia ardilosamente o uso de joelheiras para todos os jogadores, não sendo, portanto, um item opcional para a prática desse esporte. Sua defesa era de que os jogadores teriam mais estabilidade no momento do arremesso e que evitariam muitas lesões. Eu era contra, por imaginar que as pessoas se tornariam robôs, diminuindo os riscos de perder um lance livre no final do jogo e deixando as partidas menos acirradas. Conversa vai, conversa vem, fomos embora, sendo dois dos poucos alunos que ainda estavam na faculdade. Passei pelas mesmas ruas escuras como sempre, me deixando muitas vezes com receio e querendo fazer outro caminho; mas, se o fizesse, certamente chegaria em casa muito mais tarde, o que atrapalharia meu sono e todo o meu dia seguinte no trabalho e faculdade.


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Entrei em uma das ruas que menos me dava tremor, por ser bastante iluminada até, com algum movimento e comércio ainda aberto, quando, de repente, ouço o barulho de um tiro. Vozes gritando. Consegui ver pessoas correndo para tudo quanto era lado e eu não conseguia me mexer. Impotência era o nome do que eu estava sentindo. Não conseguia fazer mais nada a não ser me ajoelhar. O sangue escorria pelo meu peito que já estava com a camiseta do ac/dc encharcada. Bang! Mais um tiro. Depois outro e um quarto tiro. Todos me acertaram. Estava com plena consciência do que estava acontecendo, mesmo sem saber o motivo pelo qual acontecia. Ouvi passos correndo na minha direção. Sem fazer movimento nenhum, consegui ver uma arma sendo apontada para mim. Naquele momento, não só eu, como tudo, parou. Só conseguia pensar em uma coisa: quero viver. O sentimento de perda, perda da minha voz que certamente não tinha mais, do ar nos pulmões que eu tentava não demonstrar que eu ainda tinha e principalmente a perda dos sentidos que por sorte ainda tivesse. Não queria demonstrar nada disso. Queria ficar ali parado, olhando para meu assassino e esperar pelo tiro fatal. Aquele que acabaria de vez com a minha vida. Tudo parecia muito confuso e não consigo imaginar hoje como tudo aconteceu tão rápido e pensei em tanta coisa ao mesmo tempo. Muita gente falava que quando estávamos perto da morte, nossa vida passava na frente dos nossos olhos. Não falarei aqui que todos os momentos passaram, mas tenho a certeza de que eu rememorei muitos. Foram dois segundos até meu assassino disparar o último tiro e chegar perto de mim, para verificar se eu estava realmente morto. Deitado no chão, com os olhos estatelados e sem nenhum movimento, ele confirmou que eu estava, realmente, morto. Chegou mais perto de mim e notou que não era quem ele queria matar. Eu não era a sua desavença (nunca tinha sido de ninguém, na verdade). O olhar perdido já não era mais meu e, sim, dele. Confusão e querendo entender a situação já fazia parte da sua realidade.


Sem saber direito o que fazer, resolveu tirar sua própria vida antes que eu pudesse impedi-lo. Antes que eu pudesse piscar, para ele perceber que eu estava vivo. Antes que eu pudesse respirar um pouco mais forte para ele notar que meu peito ainda se enchia de ar. Antes que eu pudesse mover um músculo. Ele foi mais rápido. Não pensou duas vezes. Pegou a arma e estourou seus miolos. Nunca esqueci o barulho do trinta e oito. Nem mesmo nos sonhos (que eram pesadelos, se eu pensar bem) esse tumulto de sentimentos me afastava e eu acordava transpirando, suando frio em meu colchão, na casa dos meus pais e só conseguia pensar em uma coisa: sou o assassino do meu próprio assassino.

Danilo augustus é um jornalista formado, com pretensão de virar um escritor conhecido, onde preenche as páginas em branco de sua vida. Tem um humor que nem sempre é compreendido.


o fim delfin

5 No último momento, apesar da confusão e do caos, cada um queria crer que um milagre chegaria. Cada coração torcia por redenção. 4 Pais e filhos se reconciliaram. Terroristas buscaram seu atalho para o paraíso. E os solitários miraram firmes as suas janelas. 3 Restava pouco tempo e havia muito a ser feito. Cada um reagiu como pôde. Mas todos fizeram algo. E foi a última atitude deles. 2 Em minutos, as tevês do mundo transmitiram a notícia. Era o fim de tudo. Em minutos, não existiria mais humanidade ou a Terra.

delfin é editor paulista da Flaubert não quer nem imaginar o que aconteceria se um strangelet aparecesse na sua frente.

1 Os cientistas acreditavam que Deus estava numa partícula. Construíram então a máquina. Quando falhou, era Deus o que restava.


isso é bicho de matar com pedra felipe valério

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dizia a mãe da menina de barriga, ele molhado feito cacho, fazendo beiçinho, assunto de capa virada, se repetindo a mãe, a menina de barriga correndo atrás de mariposa, pensando em nome não tão comprido, esse aí não arranha nem mosca, provocava a mãe, ele se fazendo de cagado de arara, na mesa um cento de brigadeiro pretinho, ajeitado torto na forminha, o bolo se desmontando no derretido das quinze-pra-sete, se eu fosse deus-misericordioso dava um nó nas tripas dessa menina, tremia o beiço a mãe, gente nenhuma no mundo merece homem assim, se chegando em outro homem, com esse jeitinho de pão bolorento, só deitando malícia, a menina de barriga nem ouvindo um terço de palavra da mãe, dó do marido, coitado, mancando a esquerdinha depois de um acidente cheio de falta de explicação, dizem que foi coisa de caminhão errando o asfalto, coitado, homem-bom esse, homem honrado no compromisso do leite e do pão, a senhora tá caçando pulga em juba de leão, sussurrava o quase-pai num meio ovo virado, querendo tá cavando um buraco sempre fundo e de nunca-fácil encontramento, onde já se viu azedar casal tão lindo-e-bonito? primeiro beijo no mangue, cupido cheio de mira, a barriga inchando sem concorrência, já-já pula com tudo, e a mãe da menina de barriga se mordendo, decorando o bigodinho grosso do moreno chegando no quase-pai, riscando o ouvido baixinho, e a filha contando


nuvem, passando em julgado, o primeiro pedaço do bolo com destino certo, pro quase-pai que enterrou a semente no miolo adubado da menina de barriga, enquanto o moreno lá, escurecendo teimosia, insistindo com jeito de quem não perdoa falta de coragem, a mãe da menina de barriga procurando coçeira, provocada no mais tomara, um miúdo de gente tirando foto sem perceber coisa, a menina de barriga se lixando bem-nada pra mãe, o monte de convidado insistindo no mesmo coro, com quem será-será, o moreno parado como um totem, fincado no chão, o quase-pai abrindo a boca num sem som, mostrando a língua soltinha, a mãe da menina de barriga carregando o sobreolho, apontando o sóflagrante, os convidados engolindo um elefante que não voa, fazendo cara de desvio, dando um gole comprido na fanta, o moreno roçando a mão perto do zíper, a primeira fatia do bolo parada ali, querendo se comer na cara do quase-pai, a mãe da menina de barriga perdendo o juízo, enxergando dobrado, a menina de barriga entre o cão e o lobo, o quasepai rebolando na muretinha, lambendo beiço, a rua com meia sombra de luz, levantada no pó da terra, o quase-pai com o olho estralado na hipnose, moreno agarrando pela cintura, menina de barriga escrevendo na argila com um canudinho, mãe da moça de barriga bicando caixa de som, a cortina branca arrastando pelas costas do moreno, os braços bem embraçados no quasepai, um suor se derretendo pra longe do lado de cá da rua, na estradinha granulada pela luz de mariposa, no caminho que faz daquele chão todo batido, meio pedaço de altar.

felipe valério é cria do coletivo Edith. Publicou os projetos Sem Casca, Filé em Tiras, Fórceps, Engula e Encosto Não Se Discute, além da novela Hotel Trombose. Manifesta-se em www.felipevalerio.com.br


você! letícia ucha

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Diariamente, o relógio tocava para despertar às seis horas. Os pais e seus dois filhos seguiam sempre a mesma rotina. O silêncio na casa de Lucas era dominante. A mãe Célia, comerciária chegava à casa mais cedo para fazer o jantar. O pai José, fisioterapeuta seguidamente retornava à casa bem tarde. Mariah, a irmã preocupava-se em passar no vestibular e vivia estudando. Um dia o silêncio foi quebrado durante o café da manhã. – Olhem só, que absurdo, gangues de pichadores competindo para ver quem consegue alcançar o local mais alto do prédio. Riscaram tudo. A prefeitura havia gasto milhões na pintura — disse José balançando a cabeça. – Para mim, é bem feito para esses políticos, que ao invés de construírem hospitais públicos ficam se preocupando com aparência de edifícios. E as pessoas morrendo nas filas do SUS — falou Célia veementemente. –  Gente, tanto faz, o prédio não é meu mesmo. O importante para mim é ver meu nome no listão do vestibular — disse Mariah dando de ombros . –  E fala aí, se conseguiram identificar algum dos pichadores? – questionou Lucas mordendo um pedaço de pão. – Não diz nada sobre isso — respondeu o pai. – O que é isso, meu vestido! Está todo manchado! – Mariah, quantas vezes eu disse para você cuidar para não misturas cores na lavadora.


Lucas engasga-se. Levanta-se e sai para o estágio. Toca o celular. Não atende. Depois lê o torpedo. – Vou chegar mais tarde hoje — falou José. Já de noite, mãe e filha assistem à novela. Do outro lado da cidade, Lucas encontra seu grupo para mais uma disputa. – Aquele prédio velho e alto é perfeito. Imagina, deve morar um monte de velharia, pensa a reação deles amanhã. — disse Pietro às gargalhadas. Começaram a escalada, munidos de tinta. Dentro de um dos apartamentos do 26° andar, o clima é de romance. Luz de velas, aroma de ylang-ylang. De repente, da janela do quarto vê-se um vulto, escuta-se um barulho. Seria assalto? O homem dirige-se apressadamente à janela com uma raquete na mão. Enquanto isso a mulher sem saber, o chama. O vento mexe a cortina.Vê algo – Você!? — grita o jovem que perde o equilíbrio e cai sem gritar. O homem chocado, assiste imóvel à queda de seu filho.

letícia ucha é gaúcha, advogada e jornalista. Participou de diversas Antologias publicadas na Feira do Livro de POA, Bienal MG 2012 e Bienal SP 2012. Possui três contos que foram incluídos no Panorama Literário Brasileiro – Melhores Contos (edições 2012,2013 e 2014), pela Câmara Brasileira de Jovens Escritores.


lado b Mahana Cassiavillani

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Passava pelo corredor escuro a caminho da sala 128. O calor não combina com as nuvens lá fora. A minha frente, encostados às paredes, alguns PMs e oito crianças algemadas. Os infratores estão virados para o concreto cinza, mas sinto os olhos dos policiais com suas armas em mim. Odeio passar aqui nessa hora. Na sala de testemunhas, mães e namoradas choram ou conversam distraidamente. Alguns passos e algo forte carrega o ar. Aquele cheiro de sabonete, o cheiro dele. Será que ele passou por aqui? Claro que não, olho em volta mesmo assim. As lembranças são as mesmas de todos. Ele não está mais aqui. Acho que nunca esteve. Quando o conheci, nada soube. Começamos a conversar. Muito. Todos os dias. Sobre tudo. As paixões são sempre iguais. Ele tão sem jeito. Eu, quase normal. Eu o consolei. Disse que não choraria, tudo estava bem. Todos os dias, ele. Notava suas ausências. Era o cheiro. Aquele cheiro de sabonete tão comum, mas só dele. E meu. Era meu também. O que você queria? O que eu queria que você quisesse? Nunca soube. Tantas coisas, tantas histórias, tantos nadas. Nada acontecia. Comecei a fingir a verdade. Fingia bem, você acreditou. Eu quase acreditei. Meses esvaziados em pensamentos e medos. Não pude evitar. Não quis evitar. Briguei, chorei, fiz tudo o que não devia.


Beijos, filmes, abraços, livros, sorrisos, aquele nó. Estava feliz, alimentando meus demônios muito mais delicadamente que de costume. Em uma conversa de silêncios, você me perguntou como rejeitar alguém. Eu achei que falava de mim. Você disse que talvez gostasse de alguém. Eu achei que falava de mim. Vi seus suspiros, ouvi suas mãos tremendo. Senti apenas aquilo que era meu. Seu não foi tão reticente, tão cheio de culpa, de dor. Quem é? Tinha que saber. Você é tão crescidinha, ele disse, tem talento. Devia gostar de você, te devo tanto. Ele não quis dizer. Eu insisti. Adivinhei. É claro, ela. Minha vida, uma piada. Eu chorei. Quando ele não me quis, eu o consolei. Quando ela não o quis, eu o consolei. Quando ele fez poemas de amor, eu os li, os aplaudi. Perdi longos segundos, breves oportunidades. Sempre te olhando. Assim que vi o remetente daquela mensagem, não tive escolha. Aquele nome. Depois de tudo, de todos os nãos, quando eu achei que tinha apenas sua verdade e estava satisfeita, aquilo. Tudo o que quis, tudo o que não tive. Eu estava ali. Suspensa. Perdi tanto. Nunca saberei. Era preciso. As palavras daquela mensagem me fizeram. Naquele dia, na hora do café, sentindo o vento ralo que entrava pela janela, eu o empurrei. Na manhã seguinte, a notícia no jornal: “Jovem suicida. Pais devastados.” Não. Ele não se matou, não se matou. Ele morreu. Morrer foi o que ele fez. Morreu de amor. Ele morreu de amor.

Mahana Cassiavillani graduou-se em Letras (2006), pela Universidade de São Paulo. Em junho de 2014 teve seu primeiro trabalho publicado, da Revista Ponto, da Editora SESI. Divulga seus trabalhos no blog umtetosomeu.blogspot.com.br


o primeiro sinal Marcelo Duprat de Almeida Camargo

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O bando se movimentava pela região fazia tempo. Tinham vagado sem rumo pelas planícies do cerrado praticamente toda a primavera. Não falavam quase nada entre si e ainda não tinham o total domínio da palavra, embora alguns sons fossem plenamente articulados e compreendidos. Aqueles homens também não praticavam a escrita e por isso se entendiam apenas pelos gestos, pelos grunhidos e pelas intenções uns dos outros. Raramente desenhavam nas pedras. Como andavam em bando, sempre agrupados para fugirem dos animais perigosos, não sentiam a menor falta de se comunicarem por outros meios. O principal, assim, se tornava a comida e a sobrevivência de todos, era com isso que se bastavam. O grupo era liderado por Jor e seu amigo Irri. Havia meses que eles procuravam um lugar seguro para se abrigarem e se verem livres daquelas onças que agora os perseguiam sem descanso pelas colinas da serra. Jor obtivera a liderança do agrupamento com a morte do velho Dae, numa caçada mal sucedida a um mamute gigante mais ao norte do continente. Eles cercaram o animal, e como haviam aprendido com os seus ancestrais, acuaramno contra um paredão de pedra e ali Dae se intimidou com o ódio da fera e acabou perdendo a própria vida. Esqueceuse da regra básica da sua progenitura que dizia que para a total segurança própria não era permitido que ninguém


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se aproximasse mais das suas presas que as suas próprias medidas e mais alguns corpos. Fossem esses bichos ágeis, grandes ou simplesmente perigosos. Não, aquela distância já conhecida por todos era o mínimo que se exigia de um líder para escapar de um ataque mortal. Era jogar a lança, com toda a força que se dispunha, e torcer para que aquele pedaço de galho afiado penetrasse bem no lugar onde julgavam que a vida se escondia. Naquele dia Dae estava com muita fome, já fazia semanas que não conseguiam comida suficiente para o bando, apesar de todos os esforços que empreendiam. Foi assim que ele acabou contrariando as normas mínimas de seus antepassados. O animal estava emparedado, eles o haviam cercado com astúcia e entusiasmo e agora só precisavam de um líder destemido e forte para jogar a primeira lança certeira que finalmente seria cravada no peito da fera. Logo em seguida ela seria precedida por uma enxurrada de muitas outras, algumas tão certeiras como a primeira. Os homens uivavam em volta, aos gritos e berros, num misto de raiva, fome e medo. Muitos nessas mesmas circunstâncias já tinham perdido a vida por igual descuido, às vezes sem saberem prever o momento e a distância exata de uma patada inesperada ou uma fuga descontrolada do animal na direção errada. Àquela altura um golpe abrupto de alguém do próprio grupo também era uma circunstância perfeitamente normal, afinal quem matasse o outro, fosse pela rivalidade que fosse, podia muito bem ficar com a parte da carne correspondente. Dae avançou contra o mamute gigante mais do que devia e ainda assim errou o alvo. Então Jor e Irri se adiantaram. Jor gritou com raiva para o líder deles e lançou na mesma hora a sua lança contra o animal. O grande mamute se curvou sobre as patas, deu um uivo lancinante de dor e imediatamente, quando todos avançavam sobre a presa, ele desviou-se da besta e se lançou com fúria sobre o outro. Jor era mais jovem, mais destemido e mais esperto do que Dae, e com golpes sucessivos de pedra abriu completamente o seu crânio. Agora eles vagavam em busca de um novo lugar para se estabelecerem, desde é claro que a região fosse pródiga em animais, em frutos e em raízes comestíveis. E ali, naquele


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platô e naquele cerrado, que milhares de anos depois passaria a ser chamado de Serra da Capivara, aquele agrupamento descobriu que havia animais para todo o bando. Pelo menos até que chegasse a época do frio e eles tivessem que se aquecer com as peles dos bichos num lugar onde pudessem ficar ao abrigo da água, que caía de dia ou de noite, ou do movimento nervoso das árvores que balançavam ferozmente de um lado para o outro lhes trazendo repentino incômodo ao corpo. Certo dia, sozinho, Jor caminhou uma manhã inteira pela serra e achou uma fenda rasgada no alto de um promontório basáltico. Então ele imediatamente se alegrou com a descoberta, deu um grito de raiva para ver se existiam outros animais escondidos por ali e quando viu que estava plenamente desabitada, correu morro abaixo. Acabou arranhando-se na volta com os galhos de alguns muricis, nas touceiras de alguns bambus, no emaranhado de algumas silvas. Correu tanto que caiu no chão durante o percurso e ficou ainda mais perplexo para chegar logo aonde queria chegar. Assim que anteviu o grupo ao largo, distante das onças, diminuiu o passo com determinação. Quando se aproximou para toca-los, lançou sobre eles um olhar de cólera. O olhar do respeito que todos lhe deviam, fossem homens, fossem mulheres, fossem jovens ou crianças. Chegou perto de cada um, empurrou alguns no chão, aqueles que não lhe deviam a obediência necessária, bafejou a respiração em cima de outros, encolerizou-se com as mulheres, com as crianças, e gesticulou para que todos o seguissem sem parar. Ele tinha achado o lugar ideal por que sonhara tanto tempo, mal podendo acreditar no que tinha encontrado e no que todos por certo ansiavam em seus silêncios contidos ou tristes. Ele certamente sabia que a lapa os alegraria, que traria conforto aos seus corpos, abrigo aos ajuntamentos pequenos, nascedouro tranquilo para as crianças. Jor só não anteviu que aquilo também seria desejado por outros. Afinal ele ainda não sabia ao certo o que tinha à sua frente, se mais um passo seguro para a evolução da espécie ou um desastre incontornável na sua breve trajetória sobre a Terra. Jor levou os seus seguidores até a caverna e eles entraram no novo abrigo no final de uma tarde de outono. Finalmente eles teriam um lugar apropriado para passar o inverno, e


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era com isso que ele mais se preocupara: com o abrigo e a segurança do bando. Ali eles teriam como se abrigar das onças e como fazê-las fugir para que não os incomodassem mais, ou ainda, quem sabe, poderiam de fato mata-las conforme a conveniência de todos. Com o tempo e o problema das feras resolvido, eles foram pouco a pouco encontrando momentos de livre convivência para se dedicarem a outras coisas. O grupo aprimorou o método de caça, soube se aquecer com a fogueira na entrada da caverna, soube também emprenhar as fêmeas e soube esconder sob a terra aqueles que não conseguiam mais viver para dar comida a sua prole. Assim, acabaram descobrindo um passatempo mágico nas paredes da gruta e fizeram os primeiros rabiscos que o homem conheceu. O que eles queriam, na verdade, era celebrar a vida daqueles que morriam e mostrar a todos o que eles tinham feito. Queriam mostrar aos que nasciam como os seus antepassados caçavam e como sabiam se utilizar bem das tinturas mágicas que por vezes também manchavam suas peles. Aquilo os aproximou ainda mais, inegavelmente. Muito capazes e habilidosos, fizeram daquelas primeiras figuras pintadas quase um ritual sagrado de iniciação à vida que os cercava, desenhando pelas paredes tudo o que lhes ocorria no dia-a-dia do bando. Há quem diga que foi a partir desse momento que o homem nasceu. Nessas ocasiões, eles então se reuniam em torno de alguém, as fêmeas acariciando seus filhotes, e os homens, alguns nem mais tão jovens assim, escolhidos com aceitação entre os membros mais audaciosos do ajuntamento, passaram a ser recrutados para participar das pinturas e fazerem as cores das tintas que expressariam o que fizeram aqueles que se foram. Jor, então, se tornou invejado por todos, e o bando passou a ver nele mais do que um líder, mais do que um único e verdadeiro líder, um verdadeiro predestinado. Um escolhido entre os mortos para guiar o caminho e o destino daqueles indivíduos. Jor tornou-se um chefe absoluto e temido, um líder sem igual entre todos os demais que lideraram aqueles homens. E com o tempo tornou-se tão invejado que alguns mais agressivos ou incomodados passaram a ver nele não somente um chefe, mas a própria sombra dos seus desconfortos. Todo o poder


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que acumulara começou a incomodar sobremaneira diversos deles que habitavam por ali, e de alguma forma, aceita ou não, as fêmeas também começaram a procura-lo e muitas delas passaram a procriar dele. Por esse tempo alguns mais imprudentes foram mortos ou expulsos do agrupamento. Mas só acontecia de alguém deixar com vida a caverna quando os familiares intercediam por eles nos momentos de exaltação. Os gritos então cessavam no alto da muralha, e um ou outro começava a atirar gravetos incandescentes na direção dos indesejáveis. Logo todos os demais os seguiam entre as pedras, fosse para expulsa-los dali, fosse para preservar-lhes de morrer de fome entre os parentes mais próximos. Tanto a liderança como a vida de Jor durou quase todo o tempo das pinturas no penedo. Algumas foram feitas somente depois que ele morreu, outras foram feitas em diversas etapas do desenvolvimento do bando. De alguma forma não só os espelhava como também fortalecia o poder de Jor através dos tempos, garantindo que seus descendentes soubessem plenamente da sua existência entre eles. À medida que seu legado se perpetuava, aqueles homens obedeciam à sua sombra quase às cegas e a sua lembrança sobrevivia aos anos difíceis do porvir. Seu poder cresceu e sua prole lhe jurou, com um arremedo de dor, fidelidade promissora e eterna. Até que certo dia eles encontraram nas terras do altiplano um outro grupo de hominídeos, uns primatas muito diferentes deles e muito mais ferozes. Eles dominavam outras ferramentas de guerra, pareciam mais fortes e os encurralaram no alto do promontório, contra a falha profunda no meio do rochedo. Gritaram com mais força do que eles, querendo extermina-los com os caninos a mostra, ameaçaram-nos com a raiva de que eram capazes e com a força dos seus braços foram entrando e subjugandoos aos poucos. Cada dia mais eles entravam e cada dia menos os homens de Jor se interessavam em oferecer resistência. Alguns a bem da verdade pouco se importaram; outros queriam mesmo ver o poder oculto de Jor diminuído. Os intrusos, no entanto, pegaram algumas fêmeas para si, mataram algumas crianças e se bastaram com elas - era carne fresca e era disso


Marcelo Duprat de Almeida Camargo é formado pela Escola Superior de Propaganda e Marketing, de São Paulo. Foi redator em grandes e médias agências da capital paulista e de Florianópolis, Santa Catarina. Atualmente dedica-se a literatura.

o que eles precisavam para saciar a fome que tinham. Por fim expulsaram os mais agressivos do convívio comum e terminaram de dominar por completo o bando de Jor. Porém, alguns se revoltaram com os novos hábitos praticados pelos intrusos. Coisas que eles absolutamente não concordavam, que não fazia mais parte dos seus rituais sagrados. Com aquilo que os seus antepassados diziam que não era bom, que não era certo, que não atraía boa sorte, boa comida ou bons presságios. Por isso, pela primeira vez em muitos anos alguns se propuseram a fugir, a voltar ao que sempre foram antes de Jor, andarilhos incansáveis. Mas os seus hábitos ali já estavam nas paredes da caverna, os seus mortos já eram celebrados pelos vivos, tudo parecia tão certo antes da chegada dos desconhecidos que fugir era o único modo de fazê-los rejeitar o que os novos líderes faziam. Aquilo era a sobrevivência do bando de Jor, dos seus amigos mais leais e de toda a sua progenitura. Portanto, que eles deixassem a caverna para os novos habitantes. E foi daí que eles perceberam que tinham deixado alguma coisa a mais para trás. Então eles concluíram que um dia, com outros líderes, além de Jor e Irri que já haviam morrido, talvez até com um bando mais forte, mais numeroso, eles não tomassem outra vez o lugar que desde sempre lhes pertencera. O lugar onde todos eles se reconheciam nas pinturas da caverna, onde os vivos celebravam seus costumes e os mortos eram exaltados em rituais mágicos de iniciação à vida que os rodeava. Foi a primeira vez que eles descobriram que não era somente a comida aquilo que mais os motivava, mas alguma coisa muito além disso: era aquela arte mágica que os fazia ser eles mesmos, que os dava uma identificação e um lugar próprio na existência de todos, só deles. Eles tinham, portanto, que voltar um dia e retomar a caverna, retomar tudo o que lhes pertencia, senão por eles mesmos, mas pelos seus ancestrais e descendentes. A vida, então, estava apenas começando, com os primeiros sinais que o homem era capaz de desenvolver para a sua própria identidade.


a casa do pintor mateus senna

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Alex Rúbeo Santiago. Os meses fora deixaram a fachada da casa irreconhecível: plantas que outrora cobriam de graça os entornos das janelas do primeiro andar agora eram dentes-de-leão e mato seco. Na porta, um rombo enorme na metade de cima, como se um ogro a houvesse socado. Respirou longo, em dois passos estava dentro da propriedade. A pequena trilha até a varanda dera lugar a musgos e indeterminados tipos de flores, algumas pretas, outras simplesmente transparentes. Com os olhos fechados, Alex percorreu o curto caminho.Pelo buraco do ogro, tentou escutar ruídos, ou qualquer som que indicasse possível vida ali dentro. Nada.Girou a maçaneta trancada e apertou a campainha. Sem que se passasse segundo, o velho mordomo mostrou o rosto enrugado através da fenda. Ao reconhecer Alex, destravou as quatro chaves.   –  Está esperando por você no mesmo lugar. Me acompanhe. Passando a sala de estar, adentraram ao corredor; no fim, uma porta dupla de mogno lustrado, resquício único de tempos gloriosos. Alex andou rente às costas do mordomo, desviando a atenção das passadas apenas quando cruzava com um ou outro quadro pregado à parede: um peixe-espada, uma mulher, alguns rabiscos. Conhecia todos, afinal, sua assinatura mantinha-se. O criado abriu o portal como se num ritual, forçando os movimentos.


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 –Boa sorte. Alex, com a mão esquerda, pegou o castiçal oferecido pelo velho, segurou firme na ponta adornada do corrimão. Deslizava por cem degraus. Pisando lento, na escuridão tamanha as velas iluminavam apenas o próximo passo. Conforme os pés tocavam a madeira Alex se desconcertava, a mão trêmula recebia gotas de cera. O porão parecia guardar os móveis e utensílios já usados pelas várias gerações ali viventes. Sofás, armários, camas, mesas, estantes, pratos, copos, talheres, telas em branco, molduras soltas – todos cobertos por grossa camada de poeira. O cheiro aumentava o mal-estar do ambiente, algo como carcaça ou comida estragada. Depositou o castiçal em um canto, iluminando o cômodo por inteiro. Dava a impressão de estar inabitado, mas o mordomo avisara da espera – se escondia. Alex tirou do bolso da camisa um pedaço de queijo, colocando-o no chão, à frente de si. Não tardou. Queijo e podridão, irmãos, se uniram logo, e o que exalaram agiu. De trás dos armários um barulho fino e seqüencial surgia e desaparecia. Respiração. Alex fechou o punho no cetro de uma velha vassoura recostada na parede. O som aumentava, caminhando por entre a mobília abandonada, até chegar ao pátio livre, onde jazia, suculenta, a isca. A ratazana gigante, do tamanho de um gato, era larga como as sombras produzidas pela luz da vela; engoliu o queijo em duas mordiscadas. Aproximou-se dos pés de Alex e subiu o olhar, encarando-o. Tinha os olhos azuis, inteiros azuis. Por um instante, o homem não conseguiu se mover; todo o percurso, desde a cidade na qual estava isolado até a descida ao porão parecia não ter valido de nada, deparar-se com aquele ser o fizera querer voltar, se possível ao tempo em que começou a alimentá-lo. Correu para cima de uma das camas, ao subir afundou-se no colchão carcomido de ácaros. O bicho continuou no mesmo lugar, olhando os movimentos do antigo criador. Não expressava nada: medo, receio ou nojo, mas mostrava entender que provocava tudo isso. Alex afundou a cabeça na cama. Das outras vezes, os bichos eram mais ferozes. Aquela ratazana, quieta e segura, era muito pior, polida e discreta como não deveria. Sabia


que se quisesse poderia subir as escadas, devolver o castiçal e, outra vez, ir embora. Mas era convicto de que, se assim o fosse, aquela coisa continuaria ali, entre os móveis e restos de sua família, devorando passado e futuro. Ergueu a vassoura acima da cabeça e desferiu o primeiro golpe. A camisa branca recebeu um primeiro jato de cinza. A ratazana, despelada, continuava imóvel, os olhos ainda fixos em Alex. Outro golpe. Um rosado de pele branca uniuse ao cinzento. Arfando, Alex continha o pânico a cada risco no ar. De textura à perspectiva. Os ombros do homem já começavam a travar quando o último órgão do rato foi estraçalhado e, perante todas as cores, o azul sobressaiu. Alex encostou a vassoura no mesmo lugar de onde a tinha tirado. O mordomo esperava-lhe na porta, com o roupão escarlate dobrado no antebraço.  –Bom tê-lo de volta, senhor. Vestiu o roupão, amarrou-o firme à cintura, devolveu ao criado o castiçal com as velas ainda acesas. Do bolso, pegou um cachimbo. Tragou fundo enquanto admirava o mais novo quadro, preso ao lado da pintura do ogro. “Caprichei na pelagem e nos olhos, ficaram muito fieis.” Virou-se para o mordomo, analisando-o de cima abaixo com seus altivos olhos azuis. “Ligue para a galeria do Rosário, pergunte se podem mandar um consultor de arte o quanto antes, quero vender todas essas obras. Avise que se demorarem faço fogueira com elas. Também trate de contratar um carpinteiro para me fazer uma porta de entrada nova. E um jardineiro. Pensando bem, deixa a porta como está.” O empregado acenou com a cabeça e seguiu pelo corredor. Sereno, Alex olhou pela última vez os quadros. Um breve sorriso perpassou-lhe o semblante. Deu as costas às obras e foi sentar na varanda, onde, desde então, costuma ver o pôrdo-sol aos fins de tarde, sem pintá-lo.

mateus senna, 22, nascido em Curitiba. É professor.


douglas pedro lacerda

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Os arranhões nas costas foram mais profundos do que ele imaginava. Era a terceira puta gostosa que comia em duas semanas. Seu gosto refinara-se. A essa altura seu lençol era uma mistura de suor, sêmen e perfume barato. Havia duas semanas que começara no novo emprego, recebeu o salário parcial e pusera-se a gastar como convinha, era também a terceira garrafa de Jack Daniel’s que comprara em duas semanas. Novamente, seu gosto refinara-se. Após fechar a porta e antes que pudesse colocar as calças de volta, o telefone tocou. Quando viu que era sua mãe atendeu num gesto preguiçoso. Oi meu filho, tudo bem? Sim mãe, e você? Vou bem, tentei te ligar ontem mas você não atendeu. Estava com uns amigos aqui em casa e eu não vi o celular tocar. Bebendo, né? Por que vocês bebem tanto? Ah mãe, não sei, é que chorar não é tão divertido... Não sozinho, pelo menos. Meu filho, escuta, lembra da Ana? Ana...? Ana, que cuidou de você quando você era pequeno, lá no interior. Ah, sei, claro que eu me lembro, o que que aconteceu, ela morreu? É, foi isso mesmo, você já sabia? Ela morreu? Como assim ela morreu, mãe? Onde? Quando? Foi ontem, ataque do coração, acho, ela já estava bem velinha, acho que tinha uns setenta anos. Caramba, mãe... Você vai no velório, posso ir? É amanhã, não da tempo, só se a gente fosse de avião. Eu olho a milhagem, talvez dê pra gente ir. Não meu filho, não dá, e eu morro de medo de avião, eu só liguei pra avisar, achei que você devia saber. Tá bom mãe, obrigado, tchau.


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Era sábado. Foi a primeira vez que ele ouviu aquilo. Abriu uma Stella, cerveja de merda que estava em sua geladeira graças ao sucesso com o público feminino. Sentou no sofá e sem sentir nada ligou a televisão, se lembrou que não gostava de televisão. Ligou o som, fez uma seleção de algumas músicas, ouviu apenas duas. Enquanto dava goladas na cerveja ruim mas extremamente gelada olhava para a única parede azul da sala. Sentiu que precisava sair e calçou o chinelo. Procurou pela carteira, celular, óculos, tirou o chinelo e calçou o tênis. Ao sair de casa, ainda com um resto de cerveja na garrafa, foi em direção à praia, era o destino que sempre tomava quando não sabia para onde ir. Uma vez, muito tempo atrás, tentou ir no sentido contrário, encontrou uma praça, umas lojas e um lago, nunca mais foi naquela direção. Ao continuar andando sacou o celular pela terceira vez em um minuto, apertou quantas teclas fossem necessárias para o satisfazer e o guardou de novo. Sempre que se sentia sozinho, e isso ocorria com certa frequência, optava entre ouvir musica ou caminhar, algumas vezes ambos. Dessa vez andava e bebia, quando acabou a garrafa parou no posto e comprou uma Heineken por dois reais e oitenta centavos. A caminhada até a praia durava por volta de quarenta e cinco minutos, o mesmo tempo que uma partida de futebol demorava para chegar ao intervalo se o juiz não acrescesse nenhum tempo extra. Uma garrafa de long neck de Heineken demora mais ou menos uns vinte e dois minutos para acabar. No caminho de sua casa até a praia ele cruzava dois postos de gasolina que vendiam Heineken, um logo que saia de sua casa e um exatamente na metade do caminho. Essa seria uma prova de que o universo, de alguma forma, conspira para que as pessoas acabem por se instalar em certos lugares, mas o fato é que as boas coincidências não param por aí, caso fosse um dia de calor excessivo a Heineken duraria por volta de quinze minutos. Há quinze minutos da praia havia um Pão de Açúcar, último refúgio alcoólico antes dos preços abusivos praticados pelas barracas de praia e lojas de conveniência à beira mar. Nesse dia ele bebeu seis Heinekens no caminho até a praia e percebeu como a trivialidade da morte se assemelhava à trivialidade da vida.


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Ele sempre buscava explorar o lado prático do que quer que fosse, caso contrário não passaria de uma trivialidade. Todo o pensamento e pesquisa em torno das viagens espaciais, por exemplo, eram meras trivialidades sem sentido, mais ainda quando descambava para o tópico viagem no tempo. Ele se sentia particularmente aborrecido ao ser sugado pra dentro desse assunto em uma conversa de bar por exemplo, até que alegasse que acreditava que o único beneficio de viajar no tempo é conhecer as garotas de dezoito anos das gerações seguintes sem que ele envelheça, e transformar toda a interação que se supunha séria em mera bobagem. A trivialidade do absurdo era o que o divertia e em certo ponto o incomodava, por isso ele a praticava. Era absurdo, por exemplo, mansões na beira da praia que passavam nove meses por ano a espera de um locatário, trancafiando a água fresca da piscina e a mobília praticamente nova que aguardavam serem desbravadas por meninos rosados lambuzados em filtro solar no auge do verão e da puberdade. Chegando à beira da praia virou a direita e seguiu andando pela calçada. Parou de frente à uma mansão branca com portão de madeira. O muro era relativamente baixo, havia uma cerca viva que se exibia por trás dele. Observou a placa de aluga-se já carcomida pelo sal do mar e tocou a campainha, ela sequer soou, ou se havia soado a casa era tão grande que ele não ouvira. Forçou um pouco o portão, olhou em volta, observou a passagem dos transeuntes, quantos vinham, quantos iam, quantos pedalavam, quantos usavam boné, fone de ouvido e roupas apertadas, o fato é que ninguém sequer notava sua presença ali, podia estar nu, sangrando, morto, o sol mantinha os olhares direcionados pra baixo. Forçou novamente a porta para ter certeza, bateu as mãos nos bolsos, garantiu que nada fosse cair e trepou no muro branco, sentou em cima dele e observou por entre a cerca viva a entrada da casa, ali havia uma piscina rasa, uma varanda coberta onde tinham uma mesa pequena de centro e algumas espreguiçadeiras, uma churrasqueira a direita e uma grama verde e um pouco alta. Analisou como desceria do muro e percebeu que a sua esquerda havia um buraco na cerca viva, arrastou-se até ficar de frente para o buraco e se projetou pra frente ganhando o jardim da casa, agora ele


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via um pequeno pé de rosas vermelhas a esquerda, algumas estavam abertas, ostentando seus espinhos pontiagudos, o caule verde segurava a flor vermelho sangue que de acordo com a incidência da luz perdia ou ganhava intensidade. Foi até a piscina, havia algumas folhas na água, alguns insetos e na beira da churrasqueira tinha um saco de carvão, só precisaria das bebidas e da carne, pensou por reflexo. Rodeou as cadeiras, a mesa. Talvez nada daquilo existisse, ou melhor, só existiam no verão, findado o verão tudo virava uma ilusão coletiva, as cadeiras e as mesas depois de certo tempo sentiam a angustia de não saber se tinham valor de uso ou de troca, ou ambos, não se pretendiam cadeiras pois ninguém lhes apoiavam as nádegas, não se pretendiam mercadoria, pois fora do verão perdiam o valor atrativo aos olhos dos possíveis viajantes que ali espreguiçariam seus corpos. Se as cadeiras tivessem olhos eles brilhariam assim que ele se sentou nelas, e ainda a mesa pode se alegrar pois depois de longos meses sentia que era útil para apoiar os pés cansados do sujeito que se refestelava. Sentiu um pingo de ironia por saber que só pode se sentir relaxado exatamente por estar longe da casa que finalmente era toda sua, sem ninguém pra dividir seus domínios, e talvez fosse exatamente por exercê-lo que seria lá o berço do que quer que fosse, sua criação mais profunda ou sua notícia mais trágica. Dormiu e acordou com o canto noturno dos pássaros. Enquanto deitava a cabeça para trás, recebia a lufada de ar quente no pescoço, respirava, passava a mão no rosto, nariz, olhos. Olhava em volta e respirava ainda mais. Não era mais possível viver longe dali. O mar que não se cansa, vem, numa troca interminável, buscar e deixar um pouco do que há na praia. Ele balançava como balança o mar, como balança o gole no copo e na garrafa. E é de goles é que são feitas as vidas. Alguém se afogava na praia, alguém era assaltado na praia, alguém pedia ajuda, alguém era alguém que a gente conhecia, conhecia? Não mais. No aperto somos todos Charlie. No aperto que já passou, claro. Imaginemos, assim, sei lá, que Jesus voltasse agora. E aí? Minha mãe nunca me deixou elucubrar em cima de sofismas, deus abençoe Dona Ana. Há alguns dias não pensava em quase nada, apenas ia, deixava-se vencer por qualquer força que fosse maior que


a sua própria. Lacrimejava vez ou outra. Não haviam mais tantas putas, uma ou outra garrafa, alguns maços de cigarro pois cigarro não é assim tão fácil de se desapegar. Pensava ele que sem tantas distrações fosse mais fácil de compreender, pensava que seria mais simples absorver os murmúrios do que há em volta exatamente se ignorasse o que há em volta. Seu pé brincava com a areia branca da praia, de um lado a outro, chutava um punhado, esfregava a sola de um pé no peito do outro, alternava a visão entre o horizonte e o céu aberto, bebericava a cerveja já excessivamente quente. Não mais lhe importavam os luxos, o conforto e àquela altura perguntava-se se algum dia já tinha importado, perguntavase se ele gostava disso, de todo esse sêmen, suor, perfumes baratos, garrafas de Jack Daniel’s, ou quem sabe gostasse da sensação efêmera que essas coisas causavam nele. Não sabia onde se sentia mais aprisionado, se dentro ou fora de seu apartamento. Tampouco tinha permissão para perguntar, a resposta podia ser desagradável de mais pra alguém em seu estado. Brincou mais um pouco com o chinelo que vez ou outra protegia seu pé do calor dos minúsculos grão de areia, calçou-o, pôs-se de pé e foi pagar a conta. O telefone tocou e ele reconheceu o sorriso doce de sua mãe na tela do celular. Oi mãe. Oi meu filho, tá onde? Na praia, mãe. Ah, que bom, andando um pouco? Cuidado! Não vai beber e entrar no mar. Pode deixar mãe, nem trouxe sunga. Tá bom, mas tá dado o aviso. Muito calor aí? Nossa, mãe, você nem imagina, a sorte é que venta bastante e atenua um pouco. Ah que bom. Meu filho, quando você vai tirar férias, já faz mais de um ano que você começou a trabalhar, não é? É verdade, faz sim, mas não sei, ainda não conversei sobre isso. Tenta vir no fim do ano. Não, no fim do ano vocês vem pra cá, faz mais sentido, vou tentar tirar férias no meio do ano que vem. Ah, não sei não... É sim mãe, vai parando, tranquilo e vocês chegam aqui. Tá bom. E tá tudo certo, não tá faltando nada? Não. Tá bom, um beijo. Beijo mãe, dá um beijo na turma aí. Tá tchau.

pedro lacerda, filho de Marivalda e de Robson, do Vale do Jequitinhonha - MG.


restauração da ordem rodrigo forte

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O garoto encarou com tristeza aquela estação de trens. Nunca se sentiu tão sozinho como naquele momento. Teve muitos problemas pra passar pela criaturas, e seus espinhos lhe causaram ferimentos profundos no braço, cujas bandagens já se encontravam ensopadas de sangue. Mas finalmente estava ali. Sua jornada levara mais de 10 dias, e eram incontáveis os quilômetros que tinha percorrido. Quando começou, estava em um grupo de mais de vinte pessoas. Após o último encontro com as criaturas, foi o único que sobrou. Até hoje, ninguém sabe muito bem como elas surgiram. Tudo começou com a deterioração da atmosfera e com a luz do dia aparecendo cada vez menos. A partir disso, elas começaram a atacar. Surgiam somente à noite. Depois da batalha que acontecera naquela estação, no entanto, elas atacavam a qualquer hora. Então, começou-se a falar do artefato. Todas as histórias que o envolviam citavam a batalha que aconteceu naquela estação. Diziam que, de algum modo, as criaturas tomaram conhecimento da existência do objeto, e atacaram antes que ele pudesse ser usado. Por um tempo, se disse que tudo era apenas uma lenda, criada pelos sábios apenas para tentar espalhar um fio de esperança entre os humanos que sobraram. Diziam que o objeto seria capaz de trazer a paz ao planeta.


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O garoto se apegava com todas as forças na esperança de que tudo isso era real e que o artefato realmente estava ali. Ele já nasceu naquele mundo devastado, em que a luz do dia, quando dava o ar da graça, era de um cinza melancólico. A ideia de poder salvar aquele lugar era o que lhe motivava. Talvez fosse até recompensado de modo a poder rever sua irmã, que caiu nas garras das criaturas. Estar com ela novamente seria, para ele, a perfeita definição de paz. E na sua frente estava o cenário da batalha. Tudo o que conseguia ver ali era destruição e morte. Esqueletos estavam espalhados por todos os cantos e conseguiu contar dez vagões. Ele tinha a certeza de que era a primeira pessoa a pisar ali em muitos e muitos anos. Quando começou a procurar, encontrou também algumas partes mecânicas, que certamente pertenciam aos robôs que ajudaram os humanos na defesa do local. Sentia seu braço latejar e a bandagem que envolvia o ferimento estava ficando cada vez mais vermelha. Tirou um pouco de água do cantil e jogou nele, tentando aliviar um pouco a dor e bebendo o restante. Sabia que não teria o suficiente para retornar. Agachou-se um pouco para descansar as pernas. Naquele silêncio, em que o próprio som do vento causaria um escândalo, começou a ouvir um som indistinguível vindo de algum dos vagões. Pegou um pedaço de madeira e foi passando pelo meio daquela confusão, cutucando e afastando tudo o que conseguia. Naquele momento, passou pela cabeça dele a ideia de que já poderia ter passado pelo artefato sem saber. Os que falavam nele nunca descreviam a sua forma. “Vocês saberão o que é quando o encontrarem,” diziam os sábios. O som estava ficando cada vez mais próximo, e não parecia em nada aquele grito agudo emitido pelas criaturas. Continuou avançando entre os vagões e, quando espiou dentro de um deles, conseguiu perceber que o que a voz dizia era uma série de números . Iluminou o local com sua lanterna e viu que lá estava uma cabeça falante. Nunca tinha visto um robô na sua vida, mas um dos sábios contou histórias sobre eles. Dizia que tinham a forma corporal parecida com a dos humanos, exceto pelo fato de


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serem feitos de metal. Eles esqueceram de citar — ou não sabiam – que esses seres continuavam vivos independente de terem um corpo. A cabeça robótica continuava repetindo números, quando o garoto a pegou. – Oito. Um. Seis. Seis. Zero. Oito. Um — continuou até que o menino a iluminou com a lanterna. — Diretiva cinco dois restabelecida — a voz emitida pela cabeça, apesar de ser diferente de qualquer outra que já ouvira, parecia amigável. — Reiniciar programação. – Você pode me ouvir? – o garoto disse, sem muitas esperanças. – Sim – disse a cabeça. – As diretrizes foram reiniciadas. Estamos prontos para começar a busca. – Busca? – Devemos encontrar o artefato. Estamos próximos. – Como você sabe? – disse o garoto, arregalando os olhos. – Meu objetivo na batalha era servir como guia na busca pelo artefato. Infelizmente, não houve êxito na missão. – Você é um robô, certo? Tem outros como você aqui? Digo, vivos. – Negativo. Sou da linha XLK67, e os outros 199 desta linha que vieram para cá foram destruídos. Mantivemos contato através da conexão wi-fi gerada através de um roteador instalado em nossa placa-mãe. No entanto, perdi o contato com o último modelo da linha há trezentos e vinte e dois anos. Minha bateria ainda tem um tempo de vida de — parou por alguns instantes — Tempo. De. Vida. Cinquenta. E. Oito. Anos — disse uma outra voz, bem mais grossa que a anterior. Tudo aquilo era novo pra ele, que sentiu-se aliviado por saber que sua busca não tinha sido em vão. – Você consegue me indicar onde está o artefato? – Sim – outra pausa. — Distância. Ao. Artefato. Vinte. E. Cinco. Metros — disse a voz grossa. O robô começou a guiá-lo pelos destroços, e a excitação e ansiedade que sentia naquele momento fizeram com que aqueles vinte cinco metros parecessem muito mais. – Distância. Ao. Artefato. Dois. Metros — a outra voz parecia ter assumido totalmente o controle.


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O garoto deu alguns passos mas não viu nada. – Distância. Ao. Artefato. Quatro. Metros – Não pode ser. Estava entre dois vagões e procurou dentro e em cima deles. Nada ali estava fora do normal. O artefato não poderia estar ali. – Não, não, isso tá errado. Olha — girou a cabeça do robô, mostrando o local -, aqui não tem nada. – Distância. Ao. Artefato. Dois. Metros. Imaginou que talvez o robô fosse defeituoso. Vasculhou mais uma vez o local, sem sucesso. – Não tem nada aqui — o garoto já gritava. – Cadê o artefato? A cabeça do robô continuava a repetir a mesma frase. Irritado, jogou-a no chão e viu que o sangue escorria pelo seu braço. Toda a sua busca havia sido sem sentido. – Distância. Ao. Artefato. Trinta. Centímetros — disse o robô. Aquelas palavras fizeram com que a esperança retornasse. Mas é claro, tá enterrado, pensou. A chuva começou a cair no momento em que ele começou a cavar naquela mistura de grama, terra e sangue, enquanto o robô continuava indicando a distância. Sentiu algo sólido em suas mãos e cavou um pouco mais até que pudesse sentir o artefato em sua totalidade. Quando o retirou debaixo da terra, ficou impressionado com sua simplicidade. Embora nenhuma das histórias soubesse detalhar a sua forma, todos imaginavam algo bem diferente. Era apenas um cubo retangular, com não mais de dez centímetros de aresta. Todas as suas faces eram lisas, exceto uma que continha um botão vermelho e uma luz verde piscando acima dele. Conseguiu segurar o impulso para apertar o botão naquele momento. – Artefato encontrado — disse a voz amigável. – E o que ele faz? – Objetivo. Do. Artefato. Restauração. Da. Ordem — a outra voz retornou. – Inimigo. Próximo. O garoto não conseguiu saber qual voz tinha falado, pois seu sangue congelou naquele momento. Sentiu algo se


mover à sua volta e quando olhou pra trás, viu duas criaturas se deslocando em sua direção. Não tinham um corpo físico e nem forma definida. Eram compostas apenas por uma sombra negra com olhos vermelhos e brilhantes. Nas suas extremidades, haviam os espinhos que elas lançavam contra os seus inimigos. Quando elas soltaram aquele grito agudo, os olhos dele se encheram de lágrimas, que, misturadas às gotas de chuva, embaçaram sua visão e a deixaram um pouco menos perturbadora. Apertou o botão. Instantaneamente, começaram a surgir clarões ao longe, que, nos segundos seguintes, foram ficando mais próximos. Era possível ouvir o som das explosões que causavam. Em menos de 10 segundos, a visão do garoto ficou totalmente branca e conseguiu ouvir uma explosão a metros de onde estava. A última coisa que conseguiu lembrar foi o rosto de sua irmã, e o sorriso dela lhe confortou naquele momento. Sentiu seu corpo ser arremessado por uma força descomunal e a luz gerada pela explosão, que inicialmente era branca, se converteu em um mar de escuridão. A ordem foi restaurada.

rodrigo forte é Físico, Engenheiro e Cinéfilo. É fascinado por ficção científica e tenta devorar todo material que encontra sobre o assunto. Atualmente trabalha no serviço público federal.


patú thais lancman

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Quando os elefantes acabaram seus quatros dias de festança, tombavam bêbados pela cidade sobre os escombros das próprias casas que tinham destruído. Com as trombas, uns ajudavam os outros a se levantar, o que era mais comum resultar em outras tantas toneladas de massa acinzentada caindo no chão e em um ligeiro tremor na terra batida. Em breve, eles deixariam aqueles restos de urbanização e voltariam para a floresta, os moradores voltariam para reconstruir suas casas. Rupert não voltaria para a Inglaterra. Ao chegar à Índia para estudar a implantação de uma nova linha férrea, Rupert havia sido apresentado a um elefante, seu meio de transporte. Sem entender a maior parte das explicações de seus anfitriões, o rapaz deu ao elefante o nome de Patú, pois soava indiano. Rupert também tinha dois criados à disposição, que ficariam com ele no casebre já conhecido por todos como a hospedagem de algum britânico de passagem. No primeiro encontro com Patú, Rupert manifestou seu desejo em aprender a conduzi-lo sem ajuda de nativos. Perguntou, rindo, se poderia contar nos pubs londrinos que dirigia elefante e os indianos, com medo de contrariar a ilustre visita, disseram que com certeza, que até crianças andavam de paquiderme então, certamente, o inglês teria esse prazer. Patú olhava para o chão. Parecia mais humilde que os humanos, apesar de seu tamanho estrondoso perto das pessoas.


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Rupert tentou se despedir dele quando anunciaram que ele seria levado para onde dormiam todos os animais, porém tanto corpo nem respondeu ao toque mínimo de uma mão na sua lateral. No dia seguinte, porém, o inglês teve certeza que viu um meneio de cabeça ao, de maneira semelhante à vespera, cumprimentar o bicho. Saíram, Rupert e um condutor sobre Patú e uma comitiva de indianos para investigar a região, na verdade ratificar o que engenheiros fiéis à Rainha tinham desenhado sem nunca terem pisado ali. Os indianos pareciam ter comprado a farsa, e tentavam ser didáticos quando apontavam para Rupert determinadas espécies de árvores, ou uma formação rochosa específica do local. O britânico, por sua vez, fingia prestar atenção, quando na verdade mais se interessava em ver como seu chauffeur fazia para ter o elefante sob controle. Notou que pressionava os joelhos para que ele parasse, puxava sua orelha quando queria que ele começasse a andar. Procurou ver o ponto exato em que o puxão era dado, e tudo o mais que pudesse ser relevante. À sua frente, via a tromba do elefante, para cima e para baixo, se retorcendo, como se quisesse aspirar o seu mestre naquele momento. Ele desviava, quando sentia que era necessário, mas no geral sentia-se confiável e capaz de dominar o bicho com as pernas apertadas contra o corpo do bicho. Na volta para a cidade, Rupert parou de acompanhar os movimentos do condutor e se fixou na tromba. Talvez não fosse resposta ao contato físico, não parecia ser. O inglês agora cogitava se aqueles movimentos não eram a própria resposta do elefante ao que ouvia, sua tentativa de entrar na conversa. De alguma forma, ele poderia captar a entonação, fazer uma leitura própria do universo daqueles homens e o que eles inseriam no seu cotidiano de animal domesticado, e respondia, queria participar. De tanto andar com eles, ainda que carregando alguns, sentia-se parte. Rupert então ficou alegre de estar em um local em que um animal era, a seu ver, um pouco gente, mas logo voltou-se para os joelhos do indiano à sua frente, que pressionavam a pele grossa do elefante, e aos pés que lhe davam chutes curtos com o calcanhar, e sentiu pena, pois o bicho era enganado enquanto era útil, historicamente explorado.


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Ao fim do dia, ele queria testar sua teoria. Pediu aos criados que recolhessem Patú mais tarde, deixando o animal na frente do seu casebre até que escurecesse. Ninguém se opôs, e ali ficaram o elefante e Rupert, com uma garrafa de gim. Como se estivesse se aproximando de uma mulher que lhe despertara interesse, Rupert teve dificuldade em iniciar uma conversa. Patú não colaborava, insistindo em ficar de costas. Rupert dava voltas, sentia-se patético. Precisava também enfrentar a vergonha em realizar no meio da rua teste tão constrangedor, e nisso o gim ajudou muito. Logo, ele contava da mulher e do filho, o pequeno Thomas, criança adorável, menino curioso e esperto como ele nunca tinha visto. Rupert havia desistido e sentado no chão, vertendo o gim em um copo alto e virando em goles que iam direto para o fundo da garganta. Limpava a boca na manga da camisa, esfregava o pé sobre o gim que caía no solo, e continuava. Thomas, o cientista mirim, tinha um gato. E como gostava daquele gato! Chorava para dormir com o bichano, depois ficava com medo da correria que ele aprontava no escuro. A mãe recolhia o animal ao ouvir o berreiro assustado do filho, e então vinha mais choradeira, para que eles continuassem juntos. Thomas era um menino de fato muito bonito -- era sabido que a beleza se perderia com a idade, vendo seus pais, o próprio Rupert falava isso e dava muita risada --, o que estragava era que vivia arranhado, até no rosto tinha marcas. Não fosse o temperamento do gato e o amor que Thomas tinha por ele, pensariam que se tratava de um menino-diabo. Patú parecia interessado na história e desde que o gato entrara no enredo, tinha ficado inteiramente de frente para Rupert. Conquistei-o, pensou o inglês, jorrando gim no copo, nas mãos e na terra batida. A garrafa vazia foi largada em um canto. Continuou contando do filho e de seu gato. De como jogava ele para cima para ver se caía em pé. Deu certo, atirava-o da janela. O filho queria ser como o gato e tentou pular, sorte que a mãe viu na hora e puxou-o pela camisa. Depois, vieram os testes. Jogou água quente e fria para ver como ele reagia, café, chá e espirrou nele perfume. O gato foi ficando mais arredio. Fugia de Thomas, ele pedia desculpa e o segurava com mais força para que não fugisse.


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E toma unhas na cara, patas deslizando até o meio da barriga e arrastando junto a lã do pulôver. Rupert contava aquilo descontraído e procurando manter um ritmo constante da fala, sem perder excitação embora a língua parecesse sempre estar atrasada, se esforçando para não perder o bonde. Isso porque Patú estava próximo como se pedisse mais, abaixando a cabeça, a tromba descendo como um chicote vagaroso e preciso, encostando a ponta ao lado dos pés de Rupert, bem onde estava o gim derramado. Foi como encontrar a chave certa depois de testar todo o molho. Escavando os bolsos atrás de rúpias, Rupert correu até um pequeno armazém em que indianos conversavam alto, e pediu a um senhor se poderia lhe vender uma garrafa de gim. O homem agitou as duas mãos no ar, fez cara de desgosto e Rupert não entendeu. Depois, o indiano apontou para um rapaz jovem, sentado ao lado de um rádio, ele sim trabalhava ali. E parecia tão concentrado que se assustou com Rupert, tropeçando até chegar a ele, repetindo gim, gim, gim. Foi também aos tropeços que ele voltou a Patú, que permanecera com a tromba fuçando a terra embriagada. O inglês molhou mais a terra e um pouco do elefante sem querer, e foi bebendo da garrafa até que pegou no sono. Os criados, à espreita, aguardavam aquele momento para levar o animal embora. Tratariam de por o bêbado na cama depois, conheciam o ritual de dormir daqueles britânicos que visitavam a cidade, e sabiam da necessidade de carregá-los, de deixar uma bacia para que vomitassem durante a noite. Tal sequência de acontecimentos -- as conversas de Rupert com Patú, a compra de mais gim no armazém, a ação dos criados no final -- se repetiu diariamente com exceção da última noite do inglês na Índia, quando um jantar na casa do administrador da cidade seria oferecido em sua homenagem. Lá, Rupert comeu o que parecia ser uma mistura de tudo o que tinha lhe alimentado a semana toda, os mesmos temperos fortes e irreconhecíveis. Pedia gim aos criados, que mantiveram seu copo cheio a noite toda, mesmo soluçando e transpirando álcool. Depois de todo o vai e vem de bandejas, os homens seguiram para a saleta de fumo, ópio para os iniciados e charuto para os mais comportados, com alternâncias entre


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os dois grupos. Rupert foi rodeado pelos outros fumadores de ópio, que logo lhe ofereceram o longo cachimbo de madeira, apontando para o bocal. Rupert esticou a mão de maneira quase infantil, tragou o quanto conseguiu e instantaneamente teve vontade de deitar. Impedido pela posição que ocupava no grupo, conseguiu apenas sentar em uma poltrona, chamando ainda mais atenção para si. Os outros homens, incluindo o administrador da cidade, conversavam com ele e sobre ele, rindo da sua reação rápida à droga. Rupert murmurava com um sorriso de lado no rosto, e seus companheiros foram se aproximando na tentativa de compreender o que ele dizia. Chamava por Patú. Sem saber do que se tratava, pensaram que podia ser uma amante que conhecera aqueles dias, Rupert contou dos encontros diários com Patú. A risadaria se espalhou entre fumadores de ópio e de charuto quando disse que conversava com o elefante, que eram como companheiros de bar entre o diálogo e a bebida. Sempre tem um que fala mais que o outro, concluiu. E, por isso, naquele momento, não queria ficar entre homens e sim com seu amigo de proporções monumentais. O criado deveria buscá-lo para que, como despedida, Rupert o conduzisse sozinho e, como já estava acostumado, encerrassem a noite bebendo. Naquela noite, disseram os criados, os elefantes estavam agitados e foi impossível tirar Patú do estábulo. Ele estava cercado por outros animais, igualmente nervosos, com seus bramidos sendo ouvidos de longe. Acabaram desistindo, o que nunca tinha acontecido. Ao ouvir isso, Rupert levantou a voz e mandou que um dos criados ficasse lá esperando pois, no instante em que a situação parecesse mais calma, ele queria que Patú fosse levado até o casebre em que estava instalado. O administrador da cidade e os outros que estavam ali cochicharam um comentário ou outro, porém ficaram em silêncio, deixando os serviçais se organizarem. Começaram outra rodada de ópio, pedindo que Rupert contasse sobre sua vida na Grã-Bretanha. Logo veio em mente o gato de Thomas, arranhando o rosto do filho e a criança que chorava de dor mas também do amor rejeitado. Foi quando imitava o rosto do filho que os criados entraram na sala, em pânico. O cachimbo de ópio escapou das mãos


de Rupert de susto da fala exaltada em uma língua que não entendia. Alguém precisou explicar em inglês que os elefantes corriam em direção à cidade, violentos. As portas foram trancadas e jovens indianos foram colocados como guardas na entrada. Todos permaneciam no mesmo cômodo de antes, agora as mulheres tinham se juntado aos maridos, sem que ninguém fumasse ou bebesse. Ninguém sabia o que esperar, embora já tivessem ouvido de eventos semelhantes na região, lá era a primeira vez que presenciavam a fúria dos paquidermes. Alguns homens insistiam que era melhor tentar fugir, e reuniam um grupo quando um grande estrondo foi ouvido. Eles correram para a rua, três moradores da cidade e Rupert, e viram, de longe, que o armazém tinha sido destruído. Os elefantes quebravam as paredes com a tromba, limpando as estantes e derrubando paredes. Rupert se perguntava se o jovem atendente estava lá, se ouvia rádio quando a manada se aproximou. Porém alguém alertava sobre o risco de os elefantes correrem na direção dos homens e os eles começaram a correr. Apesar da gritaria, o inglês estava imóvel. Quis ficar de guarda como os indianos, por eles foi empurrado, na esperança de assim ele corresse para se salvar. Ele permaneceu ali, vendo os elefantes cada vez mais de perto, maiores. Patú era facilmente reconhecível, ele pensou, vou dominá-lo e acabar com isso. Os animais chegavam com rapidez e, da mesma forma que agiram no armazém, fizeram no casarão. Rompendo o telhado, paredes, qualquer estrutura. Eram muitos sons de destruição, porém todos secos, sem ecoar. Iam direto às garrafas, ao pontos em que o olfato acusasse ácool. Rupert teve esse estalo, chegou a se lembrar de Patú calmo, com a tromba sobre a terra, quando foi arrastado por uma força imensa. Sentiu as costelas quebrando antes de cair ao chão, desacordado. Antes de morrer, teve a certeza que tinha sido Patú seu algoz. E que isso era um sinal da amizade que travara com ele.

thais lancman é paulistana e tem 27 anos. Em 2014, publicou Palito de Fosfeno. Atualmente, faz mestrado em Letras estudando Saul Bellow.


a heroína latifa thayara martins

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Eu me chamo Latifa, mamãe escolheu esse nome por causa de uma novela em que a heroína se chamava Latifa Saher. Como mamãe adorava essa personagem! Mamãe estava grávida quando Latifa quase perdeu o marido para uma segunda esposa, quando a bela mulher de cabelos negros conseguiu dominar os impulsos do marido e reconquistá-lo, mamãe decidiu que eu seria a heroína Latifa da nossa miserável cidadezinha. O mundo de mamãe era assim, bem simples – conquistar um bom homem para proteger e sustentar a família. Afinal o que uma mulher analfabeta, nascida no campo, acostumada a fome deseja além de filhos gordinhos e sorridentes¿ Na beira do fogo, ela me colocava no colo, acariciava meus cabelos sujos e cantava provocando o ciúme dos meus outros quatro irmãos mais velhos. Um dia papai foi para longe, um corte de madeira surgiu em outra região, os gêmeos tinham nascido, éramos 7 agora, muitas brigas, choros, caxumbas, cataporas e pratos... Papai partiu. Cinco anos depois, mamãe nunca sorria, cabelos quase sempre bagunçados, 12 quilos mais magra, gêmeos doentes, e nós, mais velhos, trabalhávamos com ela na lavoura. Apesar do trabalho, adorava o campo, o cheiro das flores ao amanhecer, as pessoas ao redor, tudo ali era agradável, tinha um sabor de manga docinha, era quieto e aconchegante, a minha própria toca do tatu.


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Que saudade... Naquela tarde tia Izabel chegou com a cara de abacate estragado de sempre, mamãe chorava de cócoras.. Corri até ela que me apertou e desabou no chão me abraçando forte. Não sei por que, tinha que ir com a tia. Pra quê¿ Por quê¿ Na cidade tinha uma boa oportunidade para uma mocinha de doze anos como eu, uma velha senhora doente precisava de uma empregada, rápida e calada. “É você!” – disse a abacate azedo... Nunca mais vi mamãe. Um tapa na cara, uma gargantilha bem apertada no meu pescoço com um longo cordão, lápis preto como carvão nos olhos e laque nos cabelos marcaram meu primeiro dia com a senhora Savana, que era velha e gorda mas ainda servia a alguns clientes. A primeira vez que eu sangrei tinha sido uma semana antes. Foi o sinal para senhora Savana, estava na hora do leilão, 500 contos ela conseguiu apurar – a danada. “Imagina, duas semanas atrás a menina de cachos só rendeu 165!” . Senhora Savana falava que eram meus grandes olhos arredondados em uma pele alva, parecia mesmo era a nova Capitu! Que maravilha! Hahaha. Todos riam e festejavam na festa que seguiu o leilão. Não sabia quem era essa tal Capitu, mas devia ser mulher bem bonita. Assim se deu meu rito de passagem, sem conselhos, sem abraços carinhosos, sem mamãe... sem nada, só o medo.. “Vadia!” Sim, um dos meus nomes além de Latifa e Capitu, bem, mas ‘esse’ homem, esse mesmo que acabou de gritar comigo, ‘esse’ não me chama mais assim! Longos 8 anos depois, Sra. Savana não manda mais em mim, sou minha própria empresária, sim senhor! Alugo meu quartinho, recebo até a hora que quero com todo o dinheiro pra mim e vou vivendo, até tenho um namorado! As invejosas, é claro, dizem que ele está comigo por causa do dinheiro que faço, mas não acredito nelas, ele me ama. Assim que aprender a ler e escrever vou poder arrumar um emprego em um escritório, de secretária ou recepcionista, vamos ter nossos filhos, nossa casa, seremos as pessoas mais felizes do mundo, ah seremos.


E sobre ‘esse’ sujeito imundo que acabou de me surrar, jamais, nunca meus filhos ouvirão uma palavra! Nem ele, tampouco, vai pronunciar uma.. Todos os dias, eu saio do quartinho e caminho toda a viela até chegar na rua principal, paro e espero o cavalheiro me tirar para a dança, uns são gentis, por muito pouco não me apaixono, porque mulher é boba, outros são rudes e apressados, mas alguns são estúpidos e nada de bom se pode esperar deles. Às vezes vou até a praça na avenida, mas é muito perigosa, um ponto muito disputado, não me arrisco muito tempo e volto para a minha rua. Depois de apanhar feio na avenida nunca mais fique muito tempo por lá, é a vida. No inverno passado, peguei hepatite, ainda estou fraca então não saio da minha rua por qualquer 50 contos a mais. 8 anos, 8 anos nessa vida e suportei o que hoje não pude mais.. Depois que ‘esse’ verme me xingou, me humilhou, me bateu, ele teve o que mereceu, o que procurou.. Sou mulher, mas não sou mula de carga! Sou analfabeta, mas não sou bicho! A faca enfiada nas suas entranhas vai ensinar isso! Mamãe, perdão...

thayara martins é escritora e jornalista.


triunfo thiago lia fook

Para João Matias

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Pervertido! Era o que ela dizia, no mínimo, contra ele. Umas aplaudiam, uns censuravam, e vice-versa. Na altura do terceiro ano, a orientadora avisou: Tem que ir além do insulto, transformar em Teoria. Ela bateu continência. E tomou algumas decisões: leitura de gênero na monografia, mestrado em psicologia, doutorado em literatura e psicanálise, corpus crescente (uns contos < uns livros < a obra), referências idem. Tudo projetado, era rumar para o sucesso. — E ainda vou lá esfregar nas fuças dele! Eu dava o maior apoio, embora refletisse sobre tudo no coração. Mas ela não retribuía: Que estilística o que, Julião?! Tá ficando reaça é?! Daí em diante, nossos rumos saíram do paralelo. Mas por outros motivos. Ela foi adiante em seu caminho glorioso até à cátedra e eu fui trancando cadeiras, fazendo matrícula em poucas, atrasando o período até que – larguei tudo no quinto ano pra tentar a sorte no comércio. Porque no amor e na academia, o angu já tinha azedado. Ainda trocamos e-mails e confidências até um ano após eu ter abandonado a faculdade. Depois disso, a relação foi raleando em uma curtida no Facebook, mensagens por escrito nas datas festivas, visualizações fortuitas no feed, sumiço. Ela já devia estar mergulhada na tese e eu, como estava!, nos negócios. Ainda não fiz fortuna, mas tenho feito progresso. Já posso até me dar o luxo de gastar tempo


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rabiscando umas coisinhas aqui e acolá que, por enquanto, vou deixando no arquivo. Um dia – quem sabe? Mas o fato é que, mês passado, ela reapareceu no feed. Foto da defesa de tese. Aprovada com distinção. Na USP! Achei por bem cumprimentar. Curti, comentei e mandei mensagem via in box. Ela respondeu quase ao mesmo tempo, como se estivesse aguardando minha reverência. E foi efusiva: narrou maravilhas da vida em São Paulo, do sanduíche em Stanford, dos projetos de pós-doutorado em Berlim. Mas antes vinha a João Pessoa e queria um encontro. Como nos velhos tempos. Não respondi logo. Deixei lá, um dia, dois, e a mensagem de visualização me denunciando o descaso. Bem que podia ser descuido, ou contratempo. Mas era descaso o que ela pensava, ou eu pensava que ela pensasse. O que importava, pronto. No terceiro dia, respondi. Sem festa nem fastio. Que ela viesse, pois, e marcasse o dia, a hora e o local; eu estaria lá, com ou sem falta. Tudo bem, vou só dar um pulo em Curitiba. Coisa rápida, uma semana. Qdo chegar aí, te ligo. Ficamos conversados. Uma semana se passou e nada, nenhuma ligação ou mensagem no Face. Entrar ou não entrar em contato – era essa a questão. Entrei, ei, ei. Por que não? Uma amiga das antigas, que precisava de mim para confirmar que ela havia vencido e eu – também, ora. Outra vez, ela respondeu instantaneamente. Estava em João Pessoa, mas tinha acontecido um imprevisto; não poderia me encontrar. Como não? Insisti na hora. Se não me encontrasse agora, nunca mais. Ela aquiesceu: terça, no Empório, às dezenove. Semaninha pra se arrastar aquela. Arranquei até as folhinhas de plástico do jarro de sala, ante a falta das folhinhas de calendário das paredes de antigamente. Na terça, tirei folga da empresa e passei a manhã no salão; cortei cabelo, fiz a barba e as unhas, pedi massagem nos pés, passei esfoliante e outras pedrinhas mais. Almocei no Famiglia Muccini. Descansei a pele à tarde. Vesti a melhor casual friday às seis e, com a bênção como sempre de nossa senhora, saí pro abraço. Que não atrasou um só minuto. Às sete em ponto, ela despontou na escada, pegou o cartão e acenou. Meio sem


graça, vi logo. Mas não perguntei por quê. E fomos botando o papo em dia, como velhxs amigxs, tim-tim por tim-tim. À medida que falava, ela descontraía e desarmava o ar de seriedade e sorria e se soltava; só faltava beber, mas ela não quis. Nem eu. Então, falamos de mim, voltamos para ela, rebatemos nos meus negócios e finalizamos nela: — E em Curitiba, como foi? – e silêncio feito e sorriso desfeito. As pontas se amarraram, logo vi. O imprevisto, a cara de quem comeu e não gostou, a súbita censura quando demos em Curitiba. Num estalo, lembrei-me de tudo: o pervertido, lógico! Ela quis mudar de assunto, voltar aos planos do pósdoutorado na Europa, mas eu insisti. Não vai me deixar na curiosidade, né? Afinal, encontrou ou não encontrou o dito cujo? Esfregou ou não esfregou a tese nas fuças dele? E ela, só risos acanhados – tergiversando. Bati o pé: me conta, em nome dos velhos tempos. Ela contou.

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Terminei a graduação e entrei direto no mestrado. Aquela loucura. Cê lembra, né? Não tive tempo de pensar nisso. Era projeto, pesquisa, prova, entrevista, até de apartamento mudei. Depois o tempo era curto, dois anos pra fazer tanta coisa, ainda por cima em outra área. Tão pouco, né? Eu tava tão focada, tão mergulhada naquilo que, além disso, a gente muda, vai descobrindo novos horizontes, se desgarrando de velhos pastos. Cê mesmo é uma prova disso, largou tudo, mandou pro beleléu a glória literária e taí hoje, ficou rico e poderoso. Me orgulho de ti, sabia? Aí eu ainda viajei, fiz sanduíche durante o mestrado, tinha congresso, trabalho pra apresentar, estágio docência, aquele monte de salamaleque da universidade, e eu ali, sem perder o foco. Enfim, deixei pra lá aquela história. Tava mais madura também. Mas aí veio o doutorado em Sampa, quatro anos é muito tempo e a gente fica mais relaxada, achando que pode deixar pra amanhã se pra hoje tem coisa mais eletrizante pra fazer. Uma balada aqui, um concerto acolá, peça de teatro, cafezinhos lindos, cinema e show na praça, de graça. Enfim, até em Curitiba eu fui bater. Pro festival de teatro. Aí é que tá. Em estando lá, me lembrei daquela loucura de procurar o cara,


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dizer poucas e boas, romper o coro da unanimidade que o aplaudia, falar que ele prestou foi um desserviço à literatura, às mulheres, à humanidade. Então eu pensei: poxa, já que estou aqui, no território dele, posso pelo menos curiar, é bom, até ajuda a entender a obra. Foi um estalo, sabe? Tão óbvio, mas tão escondido. A essa altura, eu sabia de muita coisa sobre o cara: onde morava, os lugares que freqüentava, a livraria do Chain etc. e tal. Então, andei por lá os quatro dias que fiquei na cidade, espiando, espreitando, esperando, pensando no que ia dizer quando ele surgisse, mas nada, nem sinal do pervertido. (Pervertido! Esse não podia faltar! – pontuei, ela riu.) E assim se passaram os dias e eu voltei pra São Paulo e vi que tava muito dispersa e que mente dispersa é a casa do diabo, ou mais ou menos isso. Voltei a estudar a sério e larguei de novo aquela loucura, até que, veja como são as coisas da vida, quando você menos espera, acha. Eu tava saindo com um carinha da sociologia que também curtia esse papo de literatura. Cara bacana, sabe, pena que a gente se cruzou na hora errada, muito cedo, pô. Mas enfim, eu tava saindo com ele e uma bela noite, falando em Machado de Assis e depois no dito cujo, ele me disse: cê sabe que o cara não admite que ninguém diga que Capitu não traiu Bentinho. Porra, João! Eu falei pra ele. Você é o homem da minha vida! Como eu não sabia daquilo ainda? Era a isca perfeita pra pegar o meu peixe. (Rimos muito os dois, às gargalhadas.). Vê só o que eu fiz. Continuei a pesquisa, foquei naquilo, mas deixei a idéia em stand by, em alguma curva da cabeça. Aí terminei o doutorado, foi aquela festa, eu vi que merecia descansar, cair na gandaia e pensei: por que não? Liguei a ideiazinha lá no stand by e pus o programa pra rodar. O esquema era o seguinte: eu ia a Curitiba pra fazer circular o boato no mercado municipal que Capitu não traiu Bentinho e quem estava garantindo isso era ninguém mais ninguém menos do que quem? Diga lá! (Aí sim foi que rimos à beça, de chorar e doer a barriga.) E fiz. Pra mim, o resultado era claro: ele ia ficar sabendo e viria ele próprio ao meu encontro, cobrando explicação. Aí eu tomaria a palavra primeiro, você sabe que eu tomo mesmo, e esfregaria tudo nas fuças, nas fucinhas dele. Só que, enfim, não deu muito certo. (Ela engoliu o resto da


limonada, quis encerrar o assunto, mas eu disse como assim, não deu certo? por que e como não deu? Ela foi virando à direita e eu puxando a direção pra esquerda até que tá bom.). Foi o seguinte. No terceiro dia depois que implantei o boato, quando cheguei ao mercado, me entregaram um envelope destinado a mim. Dentro, um bilhete: me encontre no Chain, às cinco. Fui. Chegando lá, outro envelope com meu nome e, dentro dele, o segundo bilhete: rua tal, número tal, alto da glória, agora. A casa dele, pensei. E estava tão certa de que ele tinha caído na minha armadilha que não me dei conta, puxa vida! Fui bater lá e chamei no portão, uma casa de muro alto e trepadeiras bloqueando a visão dos curiosos. O portão se abriu sozinho, atravessei o jardim e dei com a porta já aberta. Olá, ô de casa, gritei. Nenhuma resposta. E eu, louca, pus o pé, pus o outro, dei três passos. Que mal pode fazer um vovô? – falei baixinho. De repente, apaguei. Porra! Quando acordei, uma voz por trás de mim disse: Bentinho era corno e eu sou o nono. Ela se interrompeu. Fazia esforço evidente para controlar os olhos e o queixo. Queria chorar, com certeza. Mas queria rir, provavelmente. Eu a conhecia de outros carnavais e sabia que, nela, a indignação era prima do fascínio. Mas então o celular tocou, ela se levantou para atender e já voltou à mesa se despedindo. Tinha que ir, viajaria no dia seguinte, havia sido muito bom me reencontrar. Não vai espalhar por aí o que te contei, hein? Falei na confiança das antigas. E eu, beijinho no ombro: — Claro que não.

thiago lia fook é escritor. Ganha a vida em João Pessoa e se refugia em Campina Grande. Lançou poesia natimorta e versos sobreviventes (Bagagem, 2010) e tem o blog thiagoliafook.blogspot.com.br


carne com batata thiago mourão

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Carne com batatas nunca faltou à minha mesa. Proteína e glicose são as duas únicas macromoléculas que necessito; o resto é conversa para aumentar rendimento de nutricionista. Músculo, energia e nostalgia me definem. Na minha geladeira sempre teve carne de segunda, chupa-molho ou algo que o valha. Também, batata cozida ou frita ou frita e requentada, cozida, no micro-ondas – a modalidade mais comum de homens solteiros. Os prazeres da vida me fizeram. Desde o princípio de mim, quando não era eu, era tesão. Fui tesão de dois jovens que sentiram-no tanto, que materializaram em mim. Meus passos, atos e ações sempre foram norteadas por tesão. Não sei fazer nada que não seja por tesão. E sim, sou tarado por pensamentos nostálgicos. Eles me sustentam como homem. Carne e batatas além de me serem os únicos alimentos essen­ ciais ao meu almoço e jantar, me dão o nostálgico tesão de estar deglutindo à mesa. A carne pode ser de qualquer jeito, uma carne do sol me cai bem por lembrar a infância, ao lado de minha avó, a primeira mulher que admirei através da vida carnívora. Carne assada traz à mesa o gosto de Priscila, quem fazia a alegria de minha adolescência, me ensinou a usar panela de pressão, vinho na comida e a ver os filmes de Hitchcock. A batata molhada no caldinho de tempero verde tem sabor das aventuras e escaladas que fazíamos juntos, até ela despencar e ficar imobilizada num hospital.


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Ela foi se tratar fora país, não quis mais contato e me mandou viver meu destino. Solteiro novamente, tive que ir às hamburguerias. Joana apareceu em meio a hambúrgueres e batatas fritas. Num sorriso brilhante de óleo, me contou sobre a Disney, mostrou-me o lado fútil dos humanos, o novo perfume, a camisa polo e as ideias de direita. Mas Joana perdeu-se em Paris e, dela, ficaram meus pensamentos socialistas, uma paixão insana por vestir camisetas e a raiva por ter sido trocado pela cidade luz. Quando ela se foi, o irônico governo brasileiro baixou o imposto do filé mignon, me permitindo abandonar as hamburguerias e ir ao restaurante de meu amigo rico, onde conheci Laura, a Lôra. Ela degustava um belo medalhão ao molho de cogumelos e purê de Baroa. Aprendi a transar com paciência, beber Moet Chandon e passar minhas camisas polo. Conheci o Jazz, a literatura, o bom samba. Comecei a apostar nos cavalos. Desacreditei na esquerda. Passei muito tempo com Laura, minha Lôra. Mas muito é finito, e, depois de uma bela transa, ao som de Caetano, nos despedimos. Foi duro, pesado, uma dor lancinante, fiquei na fossa. Abdiquei da nostalgia sofisticada. O tesão, outrora, dado pelo filé mignon, paralisava meu corpo. Então, boteco e churrasquinho de gato. Espeto de filé miau. O espeto de filé miau era o point de Maria. Moça magra de batatona que tinha o hábito de, depois da malhação, comer um espetinho e beber uma cerveja. Um exemplo de mulher equilibrada, sabia curtir a vida e ter saúde sem paranoia. O tempo junto durou o junto que o tempo quis. Partimos sem coração partido. Equilibrados como o espetinho de filé miau – nem mal, nem bem passado. Passado. Mesmo quando a vida são flores, o néctar acaba e o espinho torna-se aparente. Aí, me feri. O espetinho se tornou chato e broxante. Maria saiu dos meus pensamentos e trouxe de volta Laura, minha ex Lôra e os cavalos; o cachorro quente do Jockey, a cerveja de garrafa verde, as pessoas elegantes. Senti falta da nostalgia refinada. Os músculos sobressaíam marcando a pele, fazendo o desenho anatômico perfeito do movimento em uma velocidade estonteante, que levantava poeira e, da plateia,


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minha adrenalina. Enquanto meu cavalo brigava pela segunda posição, Márcia encostou-se em mim, gorda, com um prato plástico de salada ceasar e os lábios brancos de molho. Limpou-se com um guardanapo e disse: – O quatro ganha. Ah, filha da puta agourenta! O quatro entrou em disparada e superou todos. Inclusive o meu. Perdi vinte conto. – Pena que acabou,tava ótima a salada. Gostaria de ter te oferecido. Sou Márcia e você? – Não vai buscar seu prêmio? – Trabalho aqui, sou veterinária. Você já sabe meu nome, profissão e local de trabalho. E a única coisa que sei de você é que acabou de perder... nem sei quanto... – Marcos, tenho ocupação. Perdi vinte reais. Você está trabalhando agora? – Saindo. Passei pra ver esta corrida enquanto comia. Apostou na próxima? Ela não bebia, mas tinha todas as cervejas em sua geladeira. Perguntei sobre um carpaccio. Um de carne, com azeite, queijo, talvez algum manjericão por cima. Vegetariana. Ah, então, de peixe. Vegetariana. Ela me ofereceu salada, recusei, aceitei só cerveja e sexo. Saí de lá fraco, com as pernas bambas. Parei no boteco e comi um sanduíche de presunto e mortadela, depois, um caldo de carne, bem forte. Márcia, a vegetariana gorda, arrancara meu couro a noite toda. Não sabia que folha dava tanta energia. Mas comer carne era meu momento preferido de tempero nostálgico. Elas se misturavam no sabor da carne que eu comia, e eu relembrava fatos de minha vida sexo-amorosa e assim podia me sentir um homem completo, experiente, cheio de sensações do mundo. Um dia, veio a intimação: Márcia mandou que eu escolhesse entre ela e meu tempero nostálgico. Sentia-se traída pela minha satisfação e gozo ao comer cada prato de carne e tinha insegurança quando eu ficava mais seguro. Fiquei revoltado, xinguei, bati porta. Falei a ela que não era bem assim, era assada. Muito bem assada. Carne, assada ou não, era o que me fazia dar valor à vida. Era o que me tornava másculo. Fiz uma negociação com


Márcia: topei tirar as batatas da minha dieta. Nostalgia incompleta talvez me deixasse menos seguro e diminuiria a insegurança dela. Com uma imensa dor no coração, faria da imaginação o tempero que faltaria. Mas, é. Mudou. Tudo mudou e percebi que a carne com batata era o único prazer completo da vida, e pela qual esta valia a pena de fato. Além de ser muito bem cuidado por ela, ganho bastante dinheiro ao lado de Márcia. Ela conhece um mecanismo de fazer apostas certeiras no Jockey. Trabalho durante três dias da semana fazendo as apostas e isto me basta. O tesão explosivo em ver o dinheiro entrando ultrapassa as sensações passíveis de descrição num texto literário como este. Descobri que melhor que o prazer nostálgico da carne, é o de muito uísque dezoito anos e salada; em abundância e orgânica, sempre. Preparada por Márcia – enquanto exibe sua farta carne, formando, nas pernas, um batatão delicioso, aonde eu caio de boca, sem nostalgia e com muito tesão.

thiago mourão é especialista em divulgação de ciência pelo Museu da Vida da Fiocruz RJ. Escreve roteiros de institucionais, produz audiovisual e lança em breve o livro Java Jota (Patuá).


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ATSIVER SOTNOC ED

Flaubert #12  

Revista brasileira de contos

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