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PUBLICAÇÃO BIMESTRAL DA ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DOS CRIADORES DE SUÍNOS • ANO 4 • Nº 14 • FEV/MAR • 2015

Bem-estar diferencia suíno europeu Granjas brasileiras se adiantam a regras ONG visa transição sem impacto econômico Custo ou investimento?

Bem-estar animal a suinocultura atenta ao futuro


O

EDITORIAL

Marcelo Lopes Presidente da Associação Brasileira dos Criadores de Suínos

Sede Brasília / Setor de Indústrias Gráficas Quadra 01 | Lote 495 |Ed. Barão do Rio Branco Sala 118 | CEP: 70610-410 www.abcs.com.br escritoriobrasilia@abcs.com.br

bem-estar animal é, cada vez mais, um tema relevante para consumidores de todo o mundo e países compradores de carne suína. Por isso, a Associação Brasileira dos Criadores de Suínos (ABCS) tomou posição de liderança no diálogo sobre o tema com governo e organizações não-governamentais para representar os interesses dos produtores e conduzi-los a um bom posicionamento também neste quesito. O assunto é complexo, pois envolve custos de produção, resultados zootécnicos, práticas de manejo, exigências de consumidores, manutenção de mercados, financiamento e apoio governamental e, até mesmo, questões morais e filosóficas. Ciente da importância da suinocultura brasileira para o país e o mundo, a ABCS está disposta a encontrar os melhores caminhos para conciliar interesses por vezes divergentes. O primeiro passo foi dado, em novembro do ano passado, com a assinatura de um acordo de cooperação com o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), que garante a participação efetiva da ABCS nas discussões referentes ao bem-estar animal. O segundo é informar o setor e a sociedade sobre as posições da entidade representativa dos suinocultores, bem como a respeito da realidade do bem-estar animal ao redor do planeta e as experiências já existentes neste campo no Brasil e em outros países. Por isso, a ABCS elaborou esta edição especial sobre o tema com objetivo de ampliar a informação para realização de um debate construtivo que, certamente, é o melhor caminho para encontrar soluções a todos os envolvidos. A edição especial “Bem-estar animal na produção de suínos” da Revista da Suinocultura começa com a Carta Aberta da ABCS com a posição da entidade sobre o tema.

DIRETOR EXECUTIVO Nilo Chaves de Sá

Conselheiro Técnico Paulo Lucion/MT

JORNALISTA RESPONSÁVEL Tayara Beraldi

CONSELHEIRO PRESIDENTE Marcelo Lopes/DF

Conselheiro de Relações de Mercado Valdecir Folador/RS

Repórter Daniel Azevedo e Adriana Araújo

Conselheiro Financeiro José Arnaldo Cardoso Penna/MG

Conselheiro Administrativo Paulo Hélder Braga/CE

PROJETO GRÁFICO E DIAGRAMAÇÃO Duo Design

Expediente


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Bem-estar animal diferencia suíno europeu

Mercado fomenta mudança entre produtores estadunidenses

Nível de bem-estar do plantel brasileiro é valorizado no mercado global

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Granjas brasileiras se adiantam a regras e à pressão do mercado

ONG visa transição sem impacto econômico ao produtor

Bem-estar animal Demanda social X Agregação de valor

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Bem-estar favorece produtividade na suinocultura, diz pesquisador GIRO ABCS

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ABCS avança nas negociações do FNDS

Estratégia adequada deve definir investimentos em BEA Entre amigos

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Auster conseguiu patente da monopropionina nos Estados Unidos

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ABCS, ABPA, ABEGS e MAPA debatem plano de controle da PED ABCS apresenta demandas do setor a ministra da Agricultura São Paulo confirma a sua participação no FNDS

Exigência de bem-estar animal está em todas as fases da suinocultura

Melhores da suinocultura Agriness

Topigs Norsvin começa o ano novo com saldo positivo

Nhoque de mandioquinha com ragu suíno

Zoetis fecha 4º trimestre e resultado anual com lucro 5


giro abcs

ABCS avança nas negociações do FNDS ”É uma conquista para a suinocultura brasileira o reconhecimento dos resultados do nosso trabalho pelo CEO Global da BRF“

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O FNDS (Fundo Nacional de Desenvolvimento da Suinocultura) é uma iniciativa da Associação Brasileira dos Criadores de Suínos (ABCS) idealizada com o objetivo de capturar oportunidades e enfrentar desafios para fortalecer a cadeia produtiva. Lançado pela entidade no final de 2014, o FNDS foi desenvolvido para viabilizar as múltiplas ações necessárias a iniciativas de promoção, desenvolvimento e representação da suinocultura brasileira com base nos resultados já entregues pela entidade nacional desde 2010. No início de fevereiro, todo o trabalho da ABCS voltado para o mercado doméstico foi apresentado ao CEO Global da maior produtora de suínos do Brasil e uma das principais do mundo, Pedro Faria, e sua equipe em reunião realizada no escritório da multinacional em São Paulo. A reunião teve participação, por parte da ABCS, do presidente, Marcelo Lopes; do diretor-executivo, Nilo de Sá, e da coordenadora do PNDS, Lívia Machado; e por parte da BRF, do CEO Global, Pedro Faria; do VP de Relações Corporativas, José Roberto Rodrigues; do diretor regional de Marketing, Sidnei Manzaro; e do gerente de Relações Institucionais, Guilherme Portella.

ABCS apresenta projetos da entidade e busca apoio da BRF para o Fundo

Na ocasião, as lideranças da BRF puderam conhecer detalhes das ações de marketing, de capacitação e campanhas de varejo desenvolvidas pela ABCS nos últimos anos. “É uma conquista para a suinocultura brasileira o reconhecimento dos resultados do nosso trabalho pelo CEO Global da BRF, Pedro Faria, que compartilha da visão de valorização do mercado interno. Seguiremos nessa negociação e acreditamos que a BRF pode potencializar de forma significativa os nossos trabalhos com a sua adesão”, destacou o presidente da ABCS, Marcelo Lopes. Ainda segundo ele, “conquistar o apoio do maior produtor de suínos do país para o FNDS significa alcançar o objetivo e iniciar a virada da suinocultura. Estamos muito confiantes que todos os produtores de suínos do país vão aderir a essa causa pelos resultados alcançados pelo PNDS desde 2010 e com as oportunidades do que temos a construir”, ressaltou. A BRF possui cerca de 365 mil matrizes o que representa, aproximadamente, 25% da suinocultura tecnificada no Brasil. A empresa é resultado da união entre Perdigão e Sadia, atua também em dezenas de outros produtos e tem presença global e mais de uma centena de países.


giro abcs

ABCS, ABPA, ABEGS e MAPA debatem plano de controle da PED Grupo de Trabalho composto pela Associação Brasileira dos Criadores de Suínos (ABCS), Associação Brasileira das Empresa de Genética Suína (ABEGS) e a Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) se reuniu, entre os dias 27 e 29 de janeiro, no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) para dar continuidade à elaboração do plano nacional de contingência para doenças exóticas, com foco inicial na PED (do inglês, Porcine Epidemic Diarrhea). Segundo o diretor executivo da ABCS, Nilo de Sá, a expectativa é finalizar o plano nos próximos meses. A doença, ainda não diagnosticada em território nacional, é causada por um vírus de alta capacidade de transmissão indireta e grande resistência que atingiu países como EUA, México, Canadá, Peru, Colômbia, República Dominicana, Equador e Guatemala com grande prejuízo econômico. Apenas nos Estados Unidos estima-se uma perda de mais de 7 milhões de animais em decorrência dos surtos de PED. “Não podemos ser surpreendidos. Esperamos não precisar, mas o setor deve estar pronto para reagir caso seja confirmado algum foco da doença em território nacional”, explicou Nilo de Sá. O Plano de contingência trará uma série de medidas a serem executadas caso a doença seja

identificada em solo brasileiro. “O detalhamento das ações a serem executadas visa agilizar o processo de erradicação do vírus e diminuir impactos financeiros para o produtor, em caso de confirmação da PED em granjas brasileiras”, relatou a coordenadora do Programa Nacional de Sanidade Suídea do Departamento de Saúde Animal do MAPA, Adriana Cavalcanti Souza. Para o diretor executivo da ABCS, a criação de um plano de contingência da PED aumenta a confiança do mundo na qualidade da carne suína brasileira e nas condições sanitárias da produção brasileira. “A iniciativa contribuirá para reforçar o status sanitário brasileiro, que já é um diferencial competitivo”, enfatizou. Além da PED, o Grupo de Trabalho debaterá o contingenciamento de outras doenças exóticas que possam atingir os plantéis brasileiros. “Cada ano que passa a gama de patógenos no mundo aumenta. A formação deste grupo multidisciplinar entre o MAPA e o setor privado demonstra o amadurecimento da suinocultura brasileira, que está cada vez mais organizada para prevenir introdução de patógenos e, na última instância, atender mais prontamente emergências sanitárias”, destacou o representante da ABEGS, Daniel Linhares.

Técnicos dos setores público e privado coordenam criação de plano de emergência

”A iniciativa contribuirá para reforçar o status sanitário brasileiro, que já é um diferencial competitivo.”

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giro abcs

ABCS apresenta demandas do setor a ministra da Agricultura

Presidente da ABCS representou setor no encontro com a ministra

No final de janeiro, o presidente da Associação Brasileira dos Criadores de Suínos (ABCS), Marcelo Lopes, e o diretor executivo da entidade, Nilo de Sá, estiveram presentes, em encontro do setor de aves e suínos no Ministério da Agricultura Pecuária e Abastecimento (MAPA), onde apresentaram as demandas do setor à ministra Kátia Abreu. Lopes destacou pontos estratégicos para o crescimento do setor como incentivo ao pequeno e médio produtor, investimento na área

de defesa animal e apoio para do Projeto de Lei da Integração no Congresso Nacional. A ministra enfatizou que a prioridade máxima da atual gestão é a Secretaria de Defesa Agropecuária (SDA) e adiantou que um novo Regulamento de Inspeção Industrial e Sanitária de Produtos de Origem Animal (Rispoa) – o atual é de 1952 – deve ser assinado nos próximos dias. A ABCS espera marcar ainda em março um encontro específico da suinocultura.

São Paulo confirma a sua participação no FNDS A Fazenda Água Branca, uma das principais referências da suinocultura no Estado de São

Produtor Olinto assina terMo de adesão ao Fundo 8

Paulo, aderiu ao FNDS em reunião realizada ontem entre a diretoria da ABCS e o produtor Olinto Arruda. Depois de conquistar adesão dos maiores produtores de Minas Gerais logo em seu lançamento, o FNDS também encontra apoio em um dos produtores de maior referencia do país. “Sabemos da importância do trabalho da ABCS porque temos evidências de que a carne suína nunca teve este nível de visibilidade e divulgação. Se queremos manter e ampliar isso, somos nós produtores que devemos apoiar porque ninguém mais fará por nós”, resume o proprietário da Fazenda Água Branca, Olinto Arruda.


ARTIGO

O setor deve estar

aberto ao diálogo A Marcelo Lopes Presidente da Associação Brasileira dos Criadores de Suínos

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produção de suínos é uma das atividades agropecuárias brasileiras que mais sofreu transformações nos últimos anos, passando por um período de profunda modernização e evolução tecnológica, aumento expressivo da produtividade e conquistas de novos mercados. Até a década 1990 nossa produção se concentrava nas regiões Sul e Sudeste, com sistemas tradicionais basicamente em pequenas propriedades. Hoje vivemos uma transformação nas regiões tradicionais e grande aumento na região Sudeste, com destaque para Minas Gerais (Triangulo Mineiro) e Centro Oeste, nos estados de Goiás e Mato Grosso. Agora, não diferente, vivemos nesse momento mais uma etapa de transformações: o bem-estar animal. Uma análise do mercado de carne suína comprova que a demanda por estes produtos vem aumentando de forma expressiva no mundo e no Brasil. De forma semelhante, cresce a preocupação com os impactos ambientais, com a segurança alimentar e com as novas exigências de determinados mercados consumidores. Os europeus já têm grande parte de sua produção adequada por uma lei que proíbe a gestação em gaiolas desde 2013. O Canadá aprovou neste ano um novo código para o setor suinícola o qual determina que novas instalações sejam construídas em sistema de

gestação coletiva e que as existentes devem estar adaptadas até 2024. Nos Estados Unidos, apenas nove estados sancionaram leis semelhantes e o país também caminha para discussões mais profundas sobre o assunto. É inevitável que tal movimento também atinja o Brasil, por isso a necessidade de nos anteciparmos e iniciar a discussão antes que outras partes do mundo tentem impor regras que não se adequem à realidade brasileira. É exatamente essa a visão da ABCS e seu objetivo ao aliar seus conhecimentos e visão da atividade com o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Não tocar no assunto ou não querer discutir a mudança não significa que essa transição não chegará a nossa porta. A Secretaria de Desenvolvimento Agropecuário e Cooperativismo do MAPA corrobora com a necessidade da construção conjunta das diretrizes sobre bem-estar animal e junto conosco irá desenvolver um cronograma “confortável” aos suinocultores. O que se quer dizer com isso? Não será, a princípio, definida nenhuma normativa que venha a impor determinado modelo ou regra para a ges-


tação coletiva, que é o primeiro passo na direção do bem-estar animal. Ao invés disso, a ABCS irá buscar modelos que venham a atender suinocultores pequenos, médios e grandes, do Sul ao Nordeste do país. Essa é a nossa proposta. Como os custos elevados são um dos principais entraves à adequação das granjas, a entidade também terá seu foco voltado para negociar condições de financiamento a cada modelo de produção e às condições específicas dos produtores de suínos do país, com estudos de impacto econômico e alternativas de crédito como o Inovagro, por exemplo. Também iremos manter o diálogo com as agroindústrias sobre o formato de investimento e prazo para adoção das medidas de bem-estar junto aos integrados. Por isso, o Projeto de Lei 6459/2013 que aguarda aprovação na Câmara dos Deputados é ponto importante nessa discussão. Ele trata da integração vertical na agropecuária, estabelecendo condições, obrigações e responsabilidades nas relações contratuais entre produtores integrados e agroindústrias integradoras. No que se refere ao bem-estar, a constituição de uma Comissão para Acompanhamento, Desenvolvimento e Conciliação da Integração (Cadec) considerada obrigatória pelo Projeto

de Lei terá que, segundo o Art. 6º Inciso VI, “formular o plano de modernização tecnológica da integração, estabelecer o prazo necessário para sua implantação e definir a participação dos integrados e do integrados no financiamento dos bens e ações previstas”. Dessa forma, o produtor integrado estará amparado no que se refere a adequação das granjas ao bem-estar animal. Por isso, a entidade diariamente se empenha para aprovação de tal projeto. A ABCS também irá investir em outra questão pontual e tão importante para enfrentar essa mudança: a capacitação de colaboradores de granja na área de bem-estar animal. Enquanto não tivermos recursos humanos, será difícil o desenvolvimento pró ativo, autônomo e eficiente das questões de bem-estar animal. O que buscamos agora é um diálogo franco e aberto com toda a suinocultura nacional. A entidade está fazendo sua parte, buscando informações, estudando a viabilidade dos projetos e, principalmente, defendendo o produtor de suínos do Brasil. O que esperamos dos mais de 40 mil suinocultores do país é a mesma postura pró ativa, de discussões, para que juntos possamos definir quais caminhos seguir no que se refere ao bem-estar animal. Esta revista com reportagens especiais reforça as necessidades de alimentarmos nosso setor com informações de qualidade sobre a inclusão das práticas de bem-estar ao redor do mundo, para que cada um possa ter embasamento para formar suas opiniões e decisões que irão refletir diretamente no futuro da atividade.

”Não será, a princípio, definida nenhuma normativa que venha a impor determinado modelo ou regra para a gestação coletiva, que é o primeiro passo na direção do bem-estar animal.”

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Europa

Bem-estar animal diferencia

suíno europeu

Nível mais alto de BEA também pode ser barreira comercial

A

União Europeia tem, atualmente, as regras mais rígidas sobre bem-estar animal do mundo. O tema é debatido desde a década de 1960 e a primeira legislação do bloco sobre direitos dos animais tratou de abatedouros e, adotada em 1974, completou 40 anos em 2014. Desde então, outras normas sobre transporte, maus tratos e proteção a algumas espécies também foram estabelecidas para elevar o nível de bem -estar dos animais, sejam de produção, companhia ou espécies para outras finalidades (testes farmacêuticos e cosméticos, por exemplo). Na suinocultura, as baias coletivas para matrizes são obrigatórias em todos os 28 países membros desde 1º de janeiro de 2013. Ainda assim, apenas 17 países adotaram a legislação em sua totalidade, enquanto os demais 11 preveem a adequação completa nos próximos meses. Segundo o chefe da Comissão Europeia para bem-estar animal, Andrea Gavinelli, o processo de adaptação é acompanhado e fiscalizado pelas autoridades veterinárias dos estados membros e também pelo órgão europeu. “A exigência foi estabelecida em 2001 e houve um longo período de transição. A Comissão discutiu a questão em vários workshops durante estes 12 anos para assegurar o conhecimento de todos e ofereceu dezenas de programas de formação. O produtor também recebeu apoio financeiro de

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alguns estados, bem como co-financiamento da UE”, explica Gavinelli. A opinião pública europeia, essencialmente urbana, foi determinante para tais legislações e, também, para o reconhecimento dos animais como seres “sencientes” (capazes de perceber sentimentos) em tratados como o de Amsterdã, de 1999, ou o de Lisboa, em 2009. Além das razões morais e éticas, outros fatores sociais e econômicos permitem este quadro. A UE tem o maior PIB do mundo enquanto bloco (US$ 18,4 trilhões) e o maior poder de consumo, dada sua renda per capita (acima de US$ 36 mil) e número de habitantes (508 milhões). Além disso, é a segunda força global em produção (22,4 milhões de toneladas) e em exportação de carne suína (2,2 milhões de toneladas). Com consumo per capita acima de 40 kg, o bloco tem um mercado interno de mais de 20 milhões de toneladas por ano apesar de, historicamente, apresentar custos de produção mais altos que outros países exportadores, como Brasil, EUA e Canadá. Deste modo, garantir o consumidor europeu, sensível ao tema do bem-estar, também era estratégico, seja por preferência ou por barreira técnica. Apesar de algumas vozes contrárias, os próprios produtores e suas associações acataram, em sua maioria, as legislações de bem-estar animal sobre baias coletivas. “O sucesso do bem-estar animal da UE é relacionado

com o forte empenho dos agricultores, veterinários, transportadores, agentes de execução públicos, comerciantes, pesquisadores, educadores e cidadãos, porque todos são responsáveis”, cita Gavinelli. Ainda assim, às vésperas da implantação da exigência sobre baias coletivas, produtores expressavam suas preocupações sobre a viabilidade econômica da nova regra, resultados produtivos, perda de competitividade e o dilema entre “investimento” ou “custo”. Ainda em 2012, a BPEX (Associação Britânica de Produtores de Suínos, adaptado do inglês) lançou um estudo em que estimava os impactos da nova norma na União Europeia. O documento previu queda de 5% na produção de suínos no bloco entre 2011 e 2013 mas, apesar de haver


Europa

Chefe da Comissão Europeia para bem-estar animal, Andrea Gavinelli, explica normas no velho continente

ocorrido queda, a variação negativa ficou apenas em 2,2%. Assim, devido ao impacto negativo menor que o esperado, a adesão à regra ganhou força, apesar de estados importantes como Áustria, Espanha, França e Holanda não haverem podido atender totalmente às exigências, especialmente entre os pequenos produtores, com a lei já vigorando em 2013. Com isso, o assunto teve ainda mais destaque e somou-se a outras questões. O presidente da Sociedade Agrícola Alemã (DLG, do alemão), Carl-Albrecht Bartmer, comenta que o bem-estar está ligado às inovações tecnológicas e à sustentabilidade. “As inovações tecnológicas permitirão não apenas melhor adequação a este tipo de exigência, mas também maior sustentabilidade da produção”, comenta.

Estudos realizados em universidade europeias revelaram que a adoção das baias coletivas, e outros padrões de bem-estar mais altos, trazem vantagens aos produtores e interferem pouco ou quase nada nos custos. Entre os benefícios, relata Gavinelli, foi notada uma remuneração de 1,06 centavo a mais por quilo de suíno e melhor desempenho produtivo com as novas baias, ainda que isto dependa das características do mercado e das próprias granjas.   “A Comissão Europeia adotou uma estratégia de Proteção e Bem-Estar dos Animais, que garante que os animais sejam mantidos, transportados e abatidos em condições que não os submetam a maus-tratos, abuso, dor ou sofrimento. Quanto a impactos econômicos, o bem-estar animal deve ser avaliado em médio e longo prazo”, argumenta. Com este princípio, a Comissão Europeia para bem-estar animal trabalha sobre duas novas exigências: a proibição das mutilações de rabo e a presença de materiais manipuláveis para os suínos (como palha ou serradura para os animais mexerem) nas granjas. A primeira visa evitar a

dor e a segunda busca aproximar a vida nas granjas ao comportamento natural dos suínos. As autoridades europeias, enfim, defendem que o bem-estar animal é uma exigência moral dos consumidores que, apesar de cada vez mais preocupados sobre como seus alimentos são produzidos, não estão dispostos a pagar por isso, mas continuam sendo a maioria dos eleitores em sociedades eminentemente urbanas. Nesse sentido, os produtores devem investir em tecnologia para atender seus clientes em padrões melhores que no resto do mundo, o que pode ser uma reserva de mercado, um diferencial de qualidade ou mesmo revelar melhores resultados produtivos. “Bem-estar animal é uma prioridade na UE e um grande progresso está sendo feito para melhorar as condições dos animais em fazendas. Conquistas importantes como o alojamento coletivo de matrizes estão avançando, mas novos desafios precisam ser enfrentados. A Comissão vai trabalhar em conjunto com os EstadosMembros e as partes interessadas para melhorar ainda mais as condições de bem-estar”, finaliza.    13


eua

Mercado fomenta mudança entre

produtores estadunidenses Adesão a padrão mais exigente é voluntária nas principais regiões produtoras

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debate sobre bem-estar para animais de produção nos EUA mobiliza posições conflitantes. O jogo de forças entre diferentes grupos gerou um quadro em que, até agora, a adoção de padrões mais rigorosos na suinocultura é voluntária na maioria dos casos do ponto de vista legal, mas requisito cada vez mais exigido por consumidores e grandes empresas da cadeia. “O bem-estar animal ganhou cada vez mais atenção desde os anos 70 e início dos anos 80. Tudo começou com a publicação de livros sobre os direitos dos animais que motivaram os estadunidenses a ficarem preocupados com a forma como o alimento é produzido”, introduz o pesquisador da USDA (Departamento de Agricultura dos Estados Unidos), Jeremy Marchant-Forde. Nos EUA, o tema é regulamentado nos níveis federal e estadual. A legisla14

ção federal tem três marcos generalistas, o Animal Welfare Act (Decreto do Bem-estar Animal) de 1966, o Humane Methods of Slaughter Act (Decreto de Abate Humanitário) de 1978, e a 28 hours Law (Lei das 28 horas, sobre transporte) de 1994. Tais leis, no entanto, referem-se mais à crueldade contra animais em geral do que, propriamente, a animais de produção. Em esfera estadual, algumas normas são mais específicas e exigentes, por exemplo, quanto ao uso de baias coletivas. Contudo, os nove estados que adotaram este tipo de regra (Florida, Arizona, Oregon, Colorado, Califórnia, Maine, Michigan, Rhode Island e Ohio) representam apenas 6% das matrizes. Entre os 10 principais, apenas Ohio, justamente o 10º, adotou a norma. Na prática, os estados responsáveis por 95% da suinocultura dos

EUA, terceiros maiores produtores e principais exportadores de carne suína do mundo, não têm restrições legais quanto às gaiolas individuais para matrizes. Ainda assim, o impacto para atividade foi grande entre os produtores dos estados que estabeleceram normas mais exigentes. Na Califórnia, que aprovou as leis em 2008, muitos suinocultores com operações de matrizes se viram forçados a mudar para outros estados. Na Flórida, que adotou a proibição em 2003, um produtor chegou a ser indenizado em US$ 500 mil pois foi obrigado a fechar a granja pela nova exigência. Segundo o Conselho Nacional dos Produtores de Suínos (NPPC, do inglês), que equivale a uma associação nacional dos suinocultores nos EUA, as próprias associações estadunidenses


eua

Diretor de comunicação da NPPC, David Warner

de veterinários destacou especializados em suínos sustentam que as baias individuais são “apropriadas” para o bem-estar das matrizes. O diretor de comunicação da NPPC, David Warner, acrescenta que o bem-estar animal é uma das principais prioridades para o setor e, por isso, é mantida uma série de programas para formar os profissionais e estimular os suinocultores a ampliar o manejo humanitário para os suínos. “O programa base é o Pork Quality Assurance Plus que inclui inspeções nas granjas e auditorias de terceiros para garantir o bem-estar. Temos outros módulos, como o Transport Quality Assurance, sobre transpor te e manejo. Proteger o bem-estar dos animais é um dos princípios éticos dos suinocultores nos EUA e a NPPC apoia as iniciativas neste sentido”, detalha Warner.   Porém, os defensores do bem -estar animal mantêm, desde a década de 1980, campanhas para influenciar a opinião pública com mensagens impactantes, enquanto a maioria dos produtores tenta desqualificar tais argumentos, defender suas práticas e ignorar o debate ético e moral sobre o tema.

Pesquisador da USDA (Departamento de Agricultura dos Estados Unidos), Jeremy Marchant-Forde

Como resultado, os próprios ativistas tornaram-se as fontes mais confiáveis sobre o tema para os estadunidenses. Segundo pesquisa da Universidade de Perdue, os consumidores dos EUA confiam na informação dos ativistas (34%), da USDA ou governos estaduais (30%), mas apenas 15 % nas informações de universidades ou associação de produtores. Os produtores têm “liberdade” para escolher seu modelo de produção, mas sofrem com uma imagem ruim entre os consumidores, o que pode gerar prejuízos. Ainda que as leis dos EUA não sejam exigentes sobre o tema como são na União Europeia, a máxima “o cliente tem sempre razão” já se faz valer na prática e como tendência.

A preocupação dos clientes finais motivou grandes redes de restaurantes (Mc Donald´s, Burger King, Jack in the Box, etc), agroindústrias (Smithfield, Maple Leaf Farms, Tyson, etc), distribuidoras (Sodexo, Sysco e Compass, etc) e o varejo a exigir a eliminação das gaiolas individuais de gestação. Assim, dezenas de milhares de produtores tiveram ou terão mais alguns anos para adaptar-se, sob pena de perder seus principais compradores. A adaptação às baias coletivas será realidade em 22,9% das granjas nos EUA até o final de 2014 e crescerá nos próximos anos. O processo é liderado pelos grandes produtores (com 100 mil matrizes ou mais), dos quais 23,8% já tinham unidades adaptadas no final de 2014. No mesmo período, as granjas que possuem entre 10 mil e menos de 100 mil matrizes tinham 21,3% de adesão e as com plantel entre 1 mil e menos de 10 mil, 20,7 %. Apesar disso, ativistas e parcela relevante dos consumidores estão insatisfeitos. No caso da suinocultura, as principais críticas são contra o pouco espaço para os suínos, as mutilações, o uso de animais doentes ou imperfeitos com fins comerciais e uso de determinados medicamentos. Os mais radicais defendem, inclusive, que o ser humano não tem direito a usar os animais para qualquer finalidade, mesmo alimentação. Ainda assim, não existe uma determinação única por parte do governo. “A USDA não tem uma posição oficial sobre bem-estar animal em granjas de suínos. Diferentes agências do USDA são responsáveis por definir partes da legislação, como o Serviço de Inspeção para Saúde Animal e Vegetal (APHIS, do inglês) e do Serviço de Inspeção de Alimentos (FSIS, do inglês). Além disso, temos estudos que indicam alternativas para os produtores”, finaliza Jeremy. 15


importadores

Nível de bem-estar do plantel brasileiro

é valorizado no mercado global Países não diferenciam produto por uso de baias coletivas, com exceção DA UNIÃO EUROPEIA

A

exigência do mercado internacional de carne suína por padrões de bem-estar animal acima dos praticados pela maior parte da produção brasileira está distante de ser regra para os principais mercados importadores. Os estudos sobre os benefícios do uso de baias coletivas ou mutilações de cauda, por exemplo, são incipientes para a realidade de boa parte dos países produtores bem como para os importadores, que não podem exigir mais do que sua própria produção tem como regra. Tais compradores, por exemplo, não diferenciam animais vindos do sistema convencional ou do modelo de baias de gestação coletiva para matrizes. “Até o momento, o tema das baias coletivas não entra como requisito de abertura de mercado para nenhum país”, introduz o vice-presidente de suínos da ABPA (Associação Brasileira de Proteína Animal), Rui Vargas.   Apenas a UE (União Europeia) tem como requisito legal este tipo de prática ainda que, como as compras são realizadas majoritariamente por particulares (como redes de supermercados, processadores ou restaurantes), o tópico possa figurar como uma norma privada em algumas negociações nos mercados de outros países. “O único destino que tem este requisito como regra governamental é a UE pois adotaram o modelo de baias coletivas de gestação para matrizes como

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exigência na produção do continente. No entanto, podem haver normas privadas em outros mercados com algum tipo de exigência neste sentido”, explica. O dirigente da ABPA, que representa a inciativa privada em negociações internacionais, lembra que o Brasil tem padrões exigentes de manejo e abate humanitário que são reconhecidos internacionalmente. “O que vale é a proatividade dos países e dos produtores de cada país. Os produtores brasileiros sairão na frente naquilo que for bom para o animal e para o consumidor. No caso do abate humanitário, por exemplo, temos regras desde 2000”, cita. Por conta disso, os governos dos mais importantes destinos para a carne suína brasileira nunca apresentaram a demanda por baias coletivas aos produtores e exportadores brasileiros. Neste caso estão Rússia, Hong Kong, Cingapura, Angola e Uruguai, que representaram mais 80% das exportações brasileiras em 2014, e mesmo Argentina, Chile, Venezuela, China, Japão e México que são grandes clientes potenciais. “Um país não pode exigir níveis de bem-estar animal ou qualquer


importadores

ABPA propõe a criação de um grupo de estudos sobre o tema baias coletivas

outro tópico acima dos estabelecidos em suas próprias produções locais. Isso está previsto em regras internacionais de comércio e, caso queiram exigir, devem fundamentar o motivo”, detalha. Por esta razão, o dirigente da ABPA avalia que o debate sobre o uso de baias coletivas de gestação para matrizes no comércio internacional ainda é incipiente. “Este diálogo está muito recente e apresenta apenas estudos iniciais na maioria dos países. Deste modo, a regra geral internacional é não diferenciar o produto. Pagase o mesmo e tem-se quase os mesmos mercados”, pontua.

Por outro lado, a lei da oferta e procura pode favorecer o produtor que adote o modelo de baias coletivas, caso encontre compradores interessados e dispostos a pagar mais. “Não existe ainda uma diferenciação e pode não haver nunca. Mas se alguém quiser comprar com esta característica, e pagar por isso, é possível haver os suinocultores interessados em produzir”, acrescenta. O especialista da ABPA relata, ainda, que uma das grandes discussões da OMC (Organização Mundial de Comércio), órgão global que define princípios e regras do comércio internacional, é a oficialização ou não deste tipo de normas privadas. “Cria-se o discurso de eliminar barreiras tarifárias, mas já nota-se o intento de criar outras barreiras. É outro tipo de protecionismo”, argumenta. Apesar disso, ABPA tem a proposta de estabelecer um grupo de estudos sobre o tema das baias coletivas para saber se o modelo, já adotado na Europa e pequena parte dos Estados Unidos, vai trazer benefícios ao animais, produtores e consumidores do Brasil. “Falta ainda informação muito clara em termos de Brasil já que em outros países é diferente. Se for bom, o produtor brasileiro será o primeiro a adotar até porque pode melhorar conversão, qualidade de carcaça e muito mais. Toda empresa que se preza, vai se preocupar com o bem-estar animal”, finaliza.  17


Pioneiros

Granjas brasileiras se adiantam a regras e à pressão do mercado Produtores adotam baias coletivas em diferentes regiões do país

A

suinocultura brasileira, mesmo sem exigências legais e ainda sem grande pressão do mercado, possui bons exemplos de bem-estar animal quanto ao uso de baias de gestação coletiva para matrizes. Pequenos e médios suinocultores, além de grandes integradoras, já utilizam o sistema ou se comprometeram a adotá-lo em prazo determinado. A grande maioria da produção de suínos nacional funciona com as gaiolas de gestação, que são criticadas por organizações de defesa dos direitos dos animais (como a WAP, World Animal Protection) e consumidores mais sensíveis ao tema. Contudo, a tendência do mercado interno e, principalmente, do externo é criar obstáculos às gaiolas de gestação em médio e longo prazo. O bloco europeu, por exemplo, pode va-

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ler-se desta exigência para impor barreiras técnicas à carne suína brasileira em momentos de maior oferta ou maiores custos de produção no continente. Esta situação, possivelmente, pode repetir-se em outros mercados como Japão, China ou Rússia. Já no mercado interno, grandes redes de restaurantes, supermercados e processadores seguem o mesmo caminho. Um exemplo é o McDonald´s que deixará de comprar carne suína de fornecedores na América Latina, inclusive no Brasil e no México, que não estejam adaptados às baias de gestação coletiva até final de 2016. Esta é uma das razões para a BRF haver assumido o compromisso, no final de 2014, de adaptar toda sua produção ao modelo de baias de gestação coletiva em 12 anos. A gigante brasileira seguiu o exemplo de outros

players globais e, com rebanho de mais de 400 mil matrizes (cerca de 25% de todas as matrizes tecnificadas do país), será um importante driver para a produção nacional. Pequenos e médios produtores em diferentes partes do Brasil, também, se adiantaram e já tomaram esta iniciativa. A ABCS identificou bons exemplos de adequação às baias de gestação coletiva em Santa Catarina, Minas Gerais e no Distrito Federal. Em Santa Catarina, a Granja Pevi possui, há cerca de um ano, 750 matrizes com este modelo de produção e já iniciou obras para ampliar a 1,2 mil. Segundo o gestor da unidade, que é integrada à BRF, Sidnei Vilani, já foram observados resultados positivos quanto à tranquilidade dos animais, melhores condições de parto, docilidade e número de nascidos vivos.


Pioneiros

“Temos expectativa de 8 anos para o retorno do investimento, pois já estamos sendo valorizados pelo setor.” “O processo de implantação foi bem tranquilo. Apesar de algumas dificuldades, tivemos um bom suporte. O investimento ainda é muito alto, cerca de R$ 3,1 mil por matriz, para construir uma granja nova adaptada ao modelo. Ainda assim, temos expectativa de 8 anos para o retorno do investimento pois já estamos sento valorizados pelo mercado”, explica. Outro bom exemplo vem de Minas Gerais. As Granjas Santa Cruz e Bom Retiro, que pertencem à DB Agropecuária, possuem um total de 4,1 mil matrizes em sistema de baias de gestação coletiva. A primeira a usar o modelo foi a Granja Santa Cruz, com 2,3 mil matrizes, em 2013, a partir de exemplos adaptados de granjas da Dinamarca, Espanha e Alemanha, que usam também máquinas de alimentação eletrônica. “Em ambos projetos, tivemos um custo adicional de 5% na construção dos barracões de gestação coletiva quando comparados aos de gestação em gaiolas. Apesar disso, não observamos quaisquer alterações nos índices zootécnicos. Nosso modelo não foi pensando pela valorização do animal, mas, sim, pelo aprendizado e conhecimento das novas exigências quanto ao bem estar animal”, argumenta o gerente de produção, Robert Rene Gurnet.

“Nosso modelo não foi pensando pela valorização do animal, mas, sim, pelo aprendizado.” No Distrito Federal, a Granja Miunça também foi a primeira a adotar o sistema no Brasil, em 2010, com cerca de 1250 matrizes. Mais de quatro anos depois, são 2,5 mil matrizes e um projeto em fase de execução para ampliação a 4,5 mil matrizes em baias de gestação coletiva com alimentação por controle eletrônico. “A implantação foi muito tranquila. Primeiro porque eu já pensava em gestação coletiva há anos e só não adotava porque não havia forma eficiente de individualizar a alimentação. Visitei granjas na Europa e encontrei a solução. Adaptei conceitos europeus ao clima do Brasil e o resultado foi muito positivo”, detalha o proprietário da Granja Miunça, Rubens Valentini. Segundo ele, nenhum índice produtivo na gestação coletiva é inferior aos da gestação em gaiolas e alguns são favoráveis como, por exemplo, o número de animais por funcionário, o peso de nascimento e a longevidade das porcas. “Em condições normais, calculase o retorno do investimento em 10 anos. Posso dizer com segurança que o sistema tem vantagens técnicas e econômicas sobre o convencional. Tanto acredito que estou transformando toda a granja para gestação coletiva, hoje temos cerca de um terço, além de ampliá-la um pouco”, cita.

“A implantação foi muito tranquila. Eu já pensava em gestação coletiva há anos”.

Sobre a valorização do mercado, os representantes das granjas Miunça, Santa Cruz e Bom Retiro têm dúvidas se os compradores ou mesmo os consumidores estariam dispostos a pagar mais por uma produção com melhores níveis de bem-estar animal. Ainda assim, defendem o sistema seja por vantagens operacionais e econômicas (redução de outros custos) ou por adequação ao que entendem como exigência do mercado no futuro. “Existem pesquisas que dizem que os consumidores pagariam um “plus” por produto oriundo de granjas com bem estar animal. No entanto, há uma diferença importante entre uma manifestação de disposição e a efetiva valorização do produto no varejo. De minha parte, não acredito e me contento com as vantagens econômicas e operacionais que a gestação coletiva com controle eletrônico oferece”, conclui Rubens. O tema do bem-estar animal, segundo os entrevistados, deve ter mais tópicos nos próximos anos e o próximo deve ser as baias de maternidade coeltiva. “Sem dúvida, o setor da maternidade é a próxima “bola da vez”. Como já observamos em alguns países da Europa, haverá uma exigência quanto ao espaço mínimo para uma fêmea lactante e seus leitões, permitindo uma maior mobilidade do animal durante esse período”, finaliza. 19


Viabilidade

ONG visa transição sem impacto econômico ao produtor World Animal Protection tem parceria com o Mapa, ONU e OIE

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WAP ( World Animal Protection), principal ONG de defesa dos animais no mundo, defende a transição economicamente sustentável da produção de suínos para modelos com maiores níveis de bem-estar animal. A afirmação é da supervisora da organização sobre o tema, Juliana Ribas, para quem o uso de baias de gestação coletiva para matrizes é um “caminho sem volta” no setor. “O uso de baias coletivas para matrizes suínas, quando bem manejadas, gera inúmeros benefícios aos animais e aos produtores. Diversos estudos técnicos demonstraram que há diferentes modelos de gestação coletiva a serem utilizados sem prejuízo produtivo e, ao mesmo tempo, melhoras nas condições de bem-estar”, argumenta. O s p ro d u t o re s, n a v i s ã o d a WAP, necessitam de apoio técnico

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Viabilidade

“O uso de baias de gestão coletiva para matrizes é um caminho sem volta.” Juliana Ribas, supervisora da WAP

e planejamento para evitar futuros prejuízos por conta de instalações deficientes ou manejo inadequado que podem comprometer o bem-estar e a produtividade. Assim, a própria entidade desenvolve materiais informativos e já prestou consultoria a mais de 400 frigoríficos no Brasil sobre o tema. “A educação e a disseminação de informações técnicas acerca do tema, que desmistifiquem problemas e mostrem soluções práticas, são o principal caminho para uma mudança sustentável, duradoura e não traumática dentro da suinocultura brasileira”, expõe. A especialista ressalta que as mudanças voluntárias, como foi o caso da BRF e outras granjas brasileiras, são bem vistas e estimulam uma transição mais rápida do setor para o sistema de baias coletivas. Para ela, a relevância do Brasil no mercado internacional leva os produtores a acompanhar as tendências internacionais para não perderem a competitividade.   A posição da WAP, no entanto, considera que os produtores não podem sofrer impacto econômico para fazer uma transição progressiva e de manei-

ra economicamente sustentável. “Nós trabalhamos junto com o governo brasileiro para estimular o desenvolvimento de linhas de crédito que facilitem a adaptação do sistema. Hoje existe o INOVAGRO que pode ser utilizada para este fim, com juros baixos e carência alta para início de cobrança”, cita. Apesar disso, a WAP não é uma certificadora e, assim, não emite nenhum selo ou certificado que ateste o cumprimento de padrões mais rigorosos de bem-estar animal nas granjas. “Acreditamos que colaborar com empresas, produtores e outras instituições que manejam animais de produção em harmonia com a demanda dos consumidores é uma oportunidade de atingir esse objetivo”, diz.

Debate técnico Os benefícios técnicos das baias coletivas não são unanimidade entre técnicos e médicos veterinários. A American Veterinarian Medical Association (AVMA, do inglês Associação dos Médicos Veterinários dos Estados Unidos), por exemplo, defende que as gaiolas reduzem a competição por 21


Viabilidade

alimentos entre as matrizes e as interações agressivas, além de facilitarem a observação e o cuidado com os animais. No entanto, a WAP considera esta visão como “superficial e imediatista” com base em estudos recentes e na experiência de produtores com o sistema de baias coletivas em diferentes locais. Existem sistemas economicamente viáveis e técnicas de manejo que superam as dificuldades apontadas pela AVMA, possibilitando melhor controle alimentar, cuidado individual dos animais, manejo e reduzindo as agressões”, acrescenta Juliana. De acordo com a representante da ONG, o sistema de baias coletivas melhora a movimentação e a expressão dos comportamentos naturais do 22

animal, o que torna os suínos menos propensos a doenças, mais dóceis e produtivos.   “Sabemos que ainda é recente e que muitos estudos virão para aprimorar o modelo, mas temos a certeza de que este é um caminho sem volta. Não existe mais justificativa para o alojamento contínuo de matrizes em celas de gestação individual”, sentencia. A WAP frisa que as baias coletivas, assim como qualquer sistema de alojamento de suínos, dependem intrinsecamente de uma boa relação homem-animal, e da qualidade do manejo executado. Juliana argumenta que, quando construídas corretamente e bem manejadas, as baias coletivas contribuem positivamente nos resultados zootécnicos da granja.

“O sistema de baias coletivas melhora a movimentação e a expressão dos comportamentos naturais do animal.”


Viabilidade

“Elas reduzem o estresse constante e a frustração psicológica, além de problemas psicológicos, como as estereotipais, aumento de úlceras gástricas, e problemas de fraqueza músculo-esquelética”, enumera. Estudos citados pela ONG mostram resultados zootécnicos semelhantes ou melhores que o sistema confinado em celas, como taxas de parição acima de 90%, nascidos vivos acima de 13 leitões por parto, retorno de cio menor que 4% e aborto abaixo de 1%, além melhoras quanto a maior uniformidade de peso de leitegada ao nascimento e maior longevidade das matrizes.

Outros tópicos Além das baias coletivas, a WAP trabalha por mudanças em todas as fases da vida dos animais, tais como sis-

temas de alojamento de maternidade, canibalismo, mutilações como corte de dente e rabo, castração cirúrgica cruenta, enriquecimento ambiental nas diferentes fases, qualidade do ar e ambiência, transporte, manejo pré-abate e abate de suínos, relação entre o trabalhador e o animal desde o campo até o abate. Com sede em Londres e escritórios em 14 países, a ONG trabalha pela proteção dos animais há 50 anos e é a única organização não governamental com status consultivo pela ONU (Organização das Nações Unidas), parceria com a OIE (Organização Mundial de Saúde Animal) e representação no Parlamento Europeu. No Brasil, onde possui escritório, mantém parceria com o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) e a iniciativa privada.  


Diferencial

Bem-estar animal

Demanda social X Agregação de valor BEA agrega pouco ao preço, mas agrada o consumidor

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“Os produtores que se adiantarem e se adequarem às práticas de bem-estar animal terão ganhos importantes.” Maria Stella Saab, pesquisadora

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iversas pesquisas mostram que os consumidores, cada vez mais, preocupam-se sobre como seus alimentos são produzidos, mas a lógica de que produtos “melhores” custam mais pode não valer quando o assunto é bem-estar animal. O suinocultor interessado em elevar os níveis de bem-estar animal em sua granja deve estar se perguntando: investir neste tipo de produção vai ou não agregar valor ao meu produto? Se agregar valor é receber mais pela carne suína, a resposta, provavelmente, é não. “Infelizmente, ainda que o consumidor mostre-se preocupado com o respeito ao meio ambiente, não existência de trabalho escravo e

bem-estar animal, isso perde a importância para o fator preço na maioria dos casos”, constata a pesquisadora Maria Stella Saab. De três produtores consultados sobre o uso de baias coletivas para a série sobre bem-estar da ABCS, apenas um afirmou ter diferencial de preço. Mas, se o produto estiver certificado, há uma pequena parcela de consumidores brasileiros que paga mais pela carne diferenciado. Uma pesquisa mostrou que, depois de assistir a um vídeo sobre maus tratos a animais de produção, o percentual de pessoas dispostas a pagar 20% mais por carnes certificadas saltou de 53% para 68%.


Diferencial

Varejo será o primeiro a perceber as tendências de bem-estar, aponta pesquisadora

Este público tende a aumentar pela sensibilização promovida pelos meios de comunicação, mas trata-se de um processo longo que, possivelmente, será “deixado para trás” pela competição em busca da diferenciação dentro da própria agroindústria. “É claro que já existe uma parcela dos consumidores que busca isso e aceita pagar mais para obter um produto que cumpra as exigências sobre o assunto, mas é apenas uma parcela dos consumidores. Como um nicho de mercado, algumas empresas rurais ou industriais, que se importam com o tema e acreditam nele, investem no diferencial”, cita. Na UE, por exemplo, segundo o chefe da Comissão Europeia para bem-estar animal, Andrea Gavinelli,

foi observada uma remuneração de 1,06 centavo a mais por quilo de suíno produzido por meio de sistemas com maior nível de bem-estar animal. Tal acréscimo está longe de ser um estímulo mesmo em um mercado onde o tema é bem mais difundido. A questão é que, apesar de muitos declararem estar dispostos a pagar mais, poucos realmente desembolsam mais dinheiro pelos produtos certificados atualmente. Se o preço não é um grande estímulo, a exigência do mercado ou estar em conformidade com o que espera o consumidor são argumentos mais fortes. “O varejo será o primeiro a perceber essa tendência de consumo e criará exigências à indústria, que as repassará ao produtor. Ambos, indústria e varejo, criarão maneiras de certificar-se de que suas exigências estão sendo cumpridas, a fim de divulgar isso como um belo apelo de marketing”, explica a pesquisadora. Por exemplo, nos EUA, grandes redes de supermercados, agroindústrias e restaurantes já adotam ou adotarão em breve o uso de baias coletivas como requisito. No caso brasileiro, o mesmo processo já começou a acontecer. Os exemplos mais emblemáticos são o da BRF e do McDonald´s. Enfim, elevar os níveis de bem-es-

tar agrega valor à carne suína? Enquanto a prática for um diferencial certificado e reconhecido por um nicho de consumidores, é possível. Mas, quando a maioria da produção usar as baias coletivas, por exemplo, o diferencial passará a ser requisito mínimo para se manter no mercado. “Ainda não é uma exigência, mas é algo que já se percebe como altamente importante para o futuro. Certamente os produtores que se adiantarem e se adequarem às práticas de bem-estar animal terão ganhos importantes”, acrescenta Maria Stella. Para ela, inclusive, depois da adoção de mais práticas de bem-estar, o produtor reconhece que o principal benefício não é a remuneração maior pelo quilo da carne suína. “Os animais tornam-se mais dóceis e fáceis de lidar, há menos perdas por estresse, e os funcionários acabam adotando melhores práticas de maneira natural”, diz. De certa maneira, o debate sobre bem-estar animal na produção de suínos pode demonstrar que agregar valor não é, necessariamente, receber mais pelo mesmo produto. A demanda social sugere que valor agregado é, também, ser bem-visto e respeitado pelos consumidores, o que talvez seja até mais valioso. 25


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Bem-estar favorece produtividade na suinocultura, diz pesquisador País carece de pesquisas sobre baias coletivas na realidade brasileira

A suinocultura brasileira opera com princípios de manejo humanitário e dialoga abertamente sobre quais seriam os benefícios de elevar o nível de bem-estar animal em quesitos como as baias de gestação coletiva para matrizes. No entanto, o produtor tem dúvidas quando o assunto é agregação de valor ao produto, acesso a mercados, custos de implantação, linhas de financiamento e, especialmente, sobre a produtividade do sistema de baias coletivas sob as características do país. Por sua vez, a ciência ainda tem poucos estudos adequados à realidade brasileira, apesar de farta demonstração sobre ganhos de produtividade com o modelo em outros países. Algumas das principais pesquisas sobre o tema no Brasil são realizadas pelo Departamento de Medicina Veterinária Preventiva e Saúde Animal da USP. Segundo o professor da unidade, Adroaldo Zanella, o bem-estar animal influencia positivamente a produtividade do rebanho. “Dor, sofrimento e frustração têm custos metabólicos, que comprometem respostas imunológicas e prejudicam o desempenho. Nossas pesquisas indicam que animais felizes respondem de forma muito mais eficiente ao desmame ou doenças”, relata. Sobre isso, produtores consultados pela ABCS (ler texto “Granjas brasileiras se adiantam a regras e pressão do

mercado sobre bem-estar”) relataram ganhos com o uso de baias coletivas em aspectos como número de animais por funcionário, o peso de nascimento dos leitões, número de nascidos vivos, condições de parto, longevidade das matrizes e docilidade. O pesquisador identificou que o cuidado com a fêmea no período de gestação influencia toda a existência do animal, desde feto, leitão, animal terminado, reprodutores até gerações futuras. “A saúde e o bem-estar começam no útero. Uma gestação estressada gera animais medrosos, agressivos e suscetíveis a doenças e problemas comportamentais”, sustenta. O Departamento investiga, atualmente, o ambiente pré-natal e neonatal em suínos quanto a desafios sociais, de doenças, nutricionais e também questões relacionadas com emoções positivas e negativas.

“Uma gestação estressada gera animais medrosos, agressivos, suscetíveis a doenças e problemas comportamentais.” Adroaldo Zanella, professor da USP 27


“O setor produtivo está discutindo o tema de forma singular, positiva e amigável. Os produtores têm a oportunidade de liderar estas discussões, com embasamento científico, para consolidar a suinocultura brasileira no mercado global e com garantias de sustentabilidade”, analisa.

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“O nosso objetivo é buscar soluções práticas para problemas como estresse do desmame, alojamento no período da gestação e enriquecimento ambiental. É de extrema importância que pesquisas sejam realizadas no Brasil”, resume. Autor de tese de doutorado sobre o tema, Zanella defende que a gestação coletiva é vastamente superior às celas individuais no fornecimento de condições básicas de bem-estar para fêmeas suínas. Por outro lado, a American Veterinarian Medical Association (AVMA, do inglês Associação dos Médicos Veterinários dos Estados Unidos) defende que as gaiolas reduzem a competição por alimentos entre as matrizes e as interações agressivas, além de facilitarem o cuidado com os animais. O professor Adroaldo discorda. “Fêmeas mantidas em celas individuais de gestação tem compor-

tamento anormal, redução na massa muscular e na deposição óssea, alteração no sistemas do cérebro responsáveis pela sensação positiva. Ainda assim, baias coletivas mal manejadas também são uma receita para desastre”, alerta. Por isso, especialistas defendem a importância da formação de mãode-obra especializada, definição dos modelos ideais para cada região ou tipo de propriedade e outros tópicos são fundamentais. “O setor produtivo está discutindo o tema de forma singular, positiva e amigável. Os produtores têm a oportunidade de liderar estas discussões, com embasamento científico, para consolidar a suinocultura brasileira no mercado global e com garantias de sustentabilidade”, analisa. O especialista lembra, ainda, que a prática ampla de bem-estar animal na suinocultura, desde o transporte, manejo pré-abate e abate, favorece a qualidade da carne. “O fenômeno da carne PSE (Pálida, Flácida e Exsudativa, do inglês) é desencadeado pelos hormônios de estresse, que reduzem o pH da carne e desnatura as proteínas miofibrilares. Esta carne pode ser reconhecida pela cor, textura e pela água que deposita na embalagem”, detalha.  Por fim, Zanella frisa que as vantagens produtivas do bem-estar animal podem ser contestadas apenas se a avaliação dos dados for feita de maneira muito restrita, sem considerar tópicos extremamente relevantes. “Quando a análise dos dados inclui externalidades como preferência do consumidor, qualidade de vida do tratador, responsabilidade corporativa, ética e principalmente critérios de sustentabilidade, as práticas de bem-estar são sempre melhores e sustentáveis”, finaliza. 


Inteligência de mercado

Estratégia adequada deve definir investimentos em BEA Retorno depende do tipo de mercado

A

demanda por bem-estar animal na produção agropecuária defronta os produtores com um dilema que torna-se cada vez mais comum. Usar recursos financeiros neste tipo de tecnologia é “custo” ou “investimento”? A frase de uma das maiores autoridades do marketing mundial, Philip Kotler, expõe a questão de um ponto de vista original, que pode ajudar os gestores a decidir: “Dá-se muita atenção ao custo de se realizar algo e nenhuma ao custo de não realizá-lo.” No caso do bem-estar na suinocultura, muitos fatores devem ser considerados, como o mercado-alvo, os compradores, as demandas sociais, o tempo de retorno, as tendências do mercado, o suporte técnico, as linhas de crédito, os movimentos dos concorrentes, o diálogo com o governo, entre outros.   O professor titular de planejamento estratégico e cadeias alimentares da Faculdade de Economia e Administração da USP (Universidade de São Paulo), Marcos Fava Neves, sugere os elementos mais importantes para uma análise acertada quando a pergunta se investir em bem-estar animal na suinocultura é “custo” ou “investimento”.

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No Brasil, produtores independentes já utilizam o modelo de baias coletivas e outros parâmetros de bem-estar animal


Inteligência de mercado “Depende do mercado-alvo. Se for para segmentos que não têm alta exigência e não valorizam o bem-estar animal, é uma estratégia que não agrega valor. Mas acredito que este segmento irá diminuir de tamanho no futuro, com uma tendência dos consumidores valorizarem mais estes aspectos”, pontua. Apesar de o consumidor brasileiro ainda ser pouco exigente quanto ao tema, a preocupação sobre como os alimentos são produzidos cresce em importância e encontra ampla repercussão em formadores de opinião, na mídia em geral e, igualmente, em organizações não governamentais. Se o consumidor brasileiro seguir o exemplo de outros mercados mais adiantados a respeito desta temática, como o europeu ou o norte-americano, a exigência por níveis mais altos de bem -estar animal será imposta em um futuro não tão distante. E, em última análise, a produção deve satisfazer os clientes. No caso europeu, a sociedade pressionou até que a Comissão Europeia estabeleceu leis que, por exemplo, proíbem o uso de gaiolas individuais para matrizes suína e exigem o uso de baias coletivas desde 2013. Atualmente, a produção fora destes padrões é considerada irregular e sofre sanções. No exemplo dos Estados Unidos, a sociedade influenciou grandes redes de supermercados e restaurantes até que as baias coletivas passaram a ser requisito cada vez mais comum e já é realidade em mais de 23% das granjas naquele país, ainda que não haja leis federais sobre o tema. A suinocultura brasileira, inserida no mercado mundial ainda que as exportações demandem tão somente 15% da produção, também dá passos neste sentido. Produtores independentes já utilizam o modelo de baias coletivas e outros parâmetros de bem-estar animal, assim como a BRF,

uma gigante do setor que responde por cerca de 25% das matrizes no país, fixou prazo de 12 anos para adaptar sua cadeia produtiva.   Mas porque tais produtores e empresas decidiram elevar o nível de bem-estar animal praticado em suas granjas se a agregação de valor não é garantida no mercado brasileiro? Segundo Fava Neves, a resposta pode ser resumida em três pontos. “Acesso a mercados, produtividade e seu próprio bem estar”, enumera o professor. Quanto ao tópico “acesso a mercados”, um produto com níveis mais elevados de bem-estar animal sempre será melhor aceito seja para compradores do mercado interno, como do mercado externo. Pois, além de evitar eventuais problemas com a opinião pública, abre perspectiva de diferenciação frente ao consumidor final e tende a apresentar melhor qualidade. Segundo o mestrando em zootecnia do Grupo de Estudo Ético da Unesp, Filipe Antonio Dalla Costa, as diferentes técnicas de bem-estar animal nas diferentes fases refletem na qualidade da carne, seja no aproveitamento de carcaça como, eventualmente, na aparência e sabor do produto. “Isso tem efeito na dor e na qualidade de carne”, destaca.  Sobre produtividade, produtores brasileiros que adotaram o sistema de baias coletivas relatam haver ganhos. Segundo o proprietário da Granja Miunça, Rubens Valentini, alguns índices produtivos na gestação coletiva são favoráveis como, por exemplo, o número de animais por funcionário, o peso de nascimento e a longevidade das porcas. “Posso dizer com segurança que o sistema tem vantagens técnicas e econômicas sobre o convencional. Tanto acredito que estou transformando toda a granja para gestação coletiva, hoje temos cerca de um terço, além de ampliá-la um pouco”, cita.

Se o consumidor brasileiro seguir o exemplo de outros mercados mais adiantados a respeito desta temática, como o europeu ou o norte-americano, a exigência por níveis mais altos de bem-estar animal será imposta em um futuro não tão distante. E, em última análise, a produção deve satisfazer os clientes.

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Inteligência de mercado Para o professor da USP, Fava Neves, um produto com níveis mais elevados de bem-estar animal será melhor aceito pelos consumidores

Imagem ilustrativa

Finalmente, o bem-estar dos produtores e dos funcionários das granjas pode ser identificado durante o manejo, seja em melhores condições de ambiente, como, também, em menores níveis de estresse de toda a equipe. Mas, se a principal preocupação é ganhar no preço, também há esta possibilidade.  

“Para isso, é só entender os segmentos existentes no mercado e direcionar as ofertas, posicionando adequadamente. Estratégias de segmentação, seleção de mercados-alvo e posicionamento são fundamentais neste caso”, acrescenta Fava Neves. Ainda assim, o gestor pode entender que empregar recursos financeiros em bem-estar animal é um custo. Neste caso, o cenário mais provável é de um mercado interno e externo em diminuição para um tipo de produto menos aceito já que cada vez mais concorrentes estarão em posição de vantagem. Mas o mercado para o modelo de produção convencional pode acabar? Quando? Enfim, parafraseando o guru do marketing, Philip Kotler, pagar para ver a diminuição desse mercado pode ter um custo ainda mais alto, ainda que não se saiba precisamente quando ou se ele deverá ser pago. 


Tópicos

Suinocultura brasileira experimentou melhora nas condições de criação dos animais

Exigência de bem-estar animal está em todas as fases da suinocultura Boas práticas beneficiam animais, produtores e consumidores

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suinocultura feita com bem-estar animal supõe a adoção de critérios e práticas em todas as suas fases, desde nascimento até o abate, e as exigências tendem a aumentar na medida em que a ciência aponta novos tópicos e a sociedade civil os adota como exigência. A atividade suinícola brasileira experimentou uma melhora expressiva nas condições de criação dos animais nos últimos anos e, ainda mais, se consideradas as últimas duas ou três décadas. “O bem-estar animal melhorou desde as instalações, equipamentos, mão de obra e nutrição até sanidade, transporte e abate. Esta evolução melhora a qualidade de vida dos animais e das

pessoas”, introduz o pesquisador da Embrapa Suínos e Aves, Osmar Dalla Costa. Há 30 anos, entre outros exemplos, as instalações costumavam ter pé direito baixo, que piorava a qualidade do ar e o estresse térmico dos suínos, e os trabalhadores faziam muita força para manejar os animais por utilizar técnicas e equipamentos ineficientes. “A suinocultura vive, há anos, uma realidade cada vez mais tecnificada e temos muitos exemplos de unidades produtivas com pressão negativa, ambiente climatizado, escamoteador, ração automatizada e, muito importante, de conscientização crescente da mão de obra sobre o manejo apropriado”, acrescenta. 33


Tópicos

Além de beneficiar animais e os trabalhadores, a utilização de padrões mais exigentes de bem-estar animal coincide com ganhos de produtividade em boa parte dos casos. “Os produtores brasileiros estão muito à frente da legislação pois, quando percebem maior rentabilidade e melhores condições, adotam novos padrões por si sós antes de qualquer obrigatoriedade”, comenta. A seguir, uma breve introdução sobre alguns dos principais tópicos de bem-estar em diferentes fases da suinocultura a partir da entrevista com o pesquisador da Embrapa e o mestrando em Zootecnica da Unesp, Felipe Antonio Dalla Costa:  

Matrizes Tópico mais debatido atualmente, as baias de gestação coletiva são direcionadas para a fase das matrizes e seguem padrões validados pela comunidade científica internacional. Segundo o pesquisador da Embrapa, as baias coletivas são de dois tipos principais: com alimentação automatizada e sem alimentação automatizada. “Na linha de alojamento de matrizes, o sistema de baias coletivas veio para ficar. Quem não entrar neste sistema de produção vai acabar com dificuldades no mercado interno e mundial. Mas é preciso planejamento e, por isso, recomendo suporte técnico e consultoria”, sugere Osmar.

Creche Os principais cuidados de bem -estar animal na fase de creche estão relacionados ao uso adequado do piso, ambiência térmica e, no futuro próximo, na relação de comedores por animal e densidade por metro quadrado. “Estes tópicos são muito importantes para todo o desenvolvimento do animal pois, se um leitão menor precisar disputar espaço para se alimentar com outros mais pesados, a tendência é que se alimente mal e tenha o desenvolvimento prejudicado”, pondera.

Engorda Na fase de engorda, os diferenciais para preservar o bem-estar dos animais são a quali34

ficação da mão de obra, instalações adequadas como comedouro e espaço por animal, tecnologias de imunocastração, embarcadores apropriados e manejo. “Mostramos para os funcionários que o jeito de tratar o animal pode facilitar o trabalho. Quando passamos este conteúdo, eles entendem que não é força e sim técnica”, relata.

Transporte O transporte também é etapa importante das boas práticas e inclui desde o treinamento dos motoristas (leis de trânsito, direção defensiva, evitar freadas bruscas, velocidade e distância da plataforma) até o tipo e o piso das carrocerias. A Embrapa, inclusive, oferece treinamentos em todo o Brasil e até no exterior sobre o tema. “A carroceria mais recomendada é aquela de plataforma móvel e hidráulica que reduz o ângulo de inclinação e facilita o acesso dos funcionários. Também é preferível o piso antiderrapante, o uso de divisórias e adequações para o inverno e o verão”, lembra.


Tópicos

“A Evolução do bem-estar melhora a qualidade da vida dos animais e das pessoas.” Osmar Dalla Costa, pesquisador da Embrapa Suínos e Aves

Abate humanitário O mestrando em zootecnia do Grupo de Estudo Ético da Unesp, Filipe Antonio Dalla Costa, explica que o abate humanitário envolve todas as fases desde o manejo pré-abate e visa evitar o sofrimento desnecessário. “Um dos pontos críticos é a insensibilização, que tem dois sistemas aceitos: o americano, que usa gás e é pouco comum no Brasil, e insensibilização elétrica. Deste modo, o animal não sente nenhum tipo de dor

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“Os consumidores valorizam o alimento ético.” Filipe Dalla Costa, mestrando em zootecnia

quando vem a sangria. Isso elimina a dor e melhora a qualidade de carne”, destaca. O pesquisador da Unesp ressalta ainda que, além da qualidade da carne, o consumidor dificilmente aceitaria comprar produtos a partir de animais maltratados. “Se trata de uma questão moral. Os consumidores valorizam o alimento ético que adota o bem-estar animal como também o respeito ao meio ambiente e ao aspecto social”, finaliza.  


ENTRE AMIGOS

Auster conseguiu patente da monopropionina nos Estados Unidos

A Auster Nutrição Animal inicia o ano de 2015 com uma grande notícia: Depois de anos de estudos e testes, a empresa conseguiu a patente da monopropionina nos Estados Unidos. A monopropionina é um composto derivado da esterificação entre o ácido propiônico e o glicerol, tem como foco a preservação de grãos, alimentos para animais e outras materiais alimentares ou produtos, tais como silagens, milho, cereais e farinhas. Em particular, ela está relacionada com a utilização das alfa-monopropioninas como agentes conservantes com o objetivo de reduzir as contaminações induzidas por fungos, leveduras ou bactérias. A aplicação deste agente conservante pode, por conseguinte, melhorar a qualidade e segurança das rações para animais ou produtos alimentares conservados. Isso contribuiria ainda mais para aumentar o crescimento de animais e melhorar a sua saúde.

As novidades não param por ai. Neste ano, a Auster também ampliará a sua fábrica, de 4 mil metros quadrados para 6,5 mil metros quadrados. O sistema industrial continuará sendo semelhante ao atual, já usado pela empresa e que conta com o que há de mais moderno no mundo. A ampliação acontece um ano e meio depois da inauguração da sua primeira área fabril e a expectativa é que a fábrica fique pronta ainda no primeiro semestre do ano que vem. Com isso, será possível atingir novos mercados e aumentar a prestação de serviços industriais, personalizados para grandes grupos de produtores de aves e suínos do Brasil. Mas isso não é tudo, serão também contratadas mais cinco pessoas para a equipe técnica de vendas, que estará à disposição de novos clientes e do melhor atendimento dos clientes correntes. Além disso, será possível intensificar o trabalho para o setor de bovinos, que já vem sendo trabalhado com uma equipe específica.

Melhores da Suinocultura Agriness Mudanças na 8ª edição do campeonato trazem novidades para os suinocultores Atendendo a solicitações de produtores e a fim de conciliar o campeonato com o planejamento das granjas, o Melhores da Suinocultura Agriness será agora de janeiro a dezembro de cada ano. A mudança começa já na 8ª edição e traz novidades para os produtores: • Maisíndicesparaconsultaecomparação. • Área de cadastro de usuário e da granja para atualização de dados. • Certificado em formato digital para download do site a qualquer momento. • Acesso à tabela de classificação via tablet e smartphone e opção de impressão pelo site. • Informativos periódicos com parciais do campeonato. • Maior abrangência nas categorias de premiação, com novas faixas de matrizes. 36

Serão premiados o Produtor Evolução DFA (produtor com maior evolução em desmamados/fêmea/ano em três anos de campeonato) e os primeiros colocados nas categorias por faixa de matriz: até 300, 301 a 500, 501 a 1000, 1001 a 3000 e acima de 3000 matrizes. A 8ª edição será reiniciada a partir dos dados de janeiro e encerrada em dezembro de 2015, de acordo com o novo período do campeonato. A cerimônia de encerramento e premiação será realizada em abril de 2016. Para maiores informações, acesse www.melhoresdasuinocultura.com.br. Participe do maior benchmarking da América Latina! Compare-se, inspire-se e melhore todos os dias.


ENTRE AMIGOS

Topigs Norsvin começa o ano novo com saldo positivo Para muitas indústrias e empresas o ano de 2014 não apresentou resultados expressivos quanto ao faturamento, e com a inflação relativamente elevada e a piora nas condições de crédito, a economia do país indicou baixo crescimento. Mas o grande destaque foi para o agronegócio e a suinocultura, que cresceram significativamente, atingindo números muito acima da média dos últimos anos. Aproveitando o bom momento do setor, a Topigs Norsvin investiu em tecnologia e reforçou a comercialização de sua genética na região sul do país, que hoje é responsável por cerca de 70% das exportações brasileiras de carne suína. Para o próximo ano, a empresa prevê um aumento de 15% no número de animais (matrizes e avós) comercializados nesta região, principalmente no estado do Paraná. “Faremos investimentos também em outras regiões, como Mato Grosso, onde teremos uma granja multiplicadora entrando em produção em meados de 2015, e Minas Gerais, que possui um mercado de suíno estrategicamente importante para nós”, declarou André Costa, diretor geral da Topigs Norsvin no Brasil. Após a fusão com a norueguesa Norsvin, além de criar uma líder mundial em genética suína, a empresa apresentou um faturamento 35% maior em relação a 2013, e pretende tor-

nar-se base de disseminação de material genético para toda a América Latina. As negociações, inclusive, já começaram: além de continuar exportando para Argentina e Bolívia, novas negociações estão em andamento e há previsão de exportação para o Paraguai e Uruguai. Pesquisa e Desenvolvimento continuam sendo o principal foco do grupo Topigs Norsvin. Este ano a empresa irá investir mais R$59,5 milhões em melhoramento genético, dos quais 10% serão dedicados ao Brasil. A combinação de fenótipos de alto rendimento, tomografia computadorizada em larga escala, núcleos multiplicadores espalhados pelo mundo, coleta massiva de dados de produção e seleção genômica, irão acelerar o progresso genético e agregar valor a toda a cadeia produtiva. Este ano a empresa também completa 20 anos de atuação no mercado brasileiro e planeja um grande evento para profissionais do setor, com o intuito de abordar os principais assuntos e atualizações deste mercado, e estreitar o relacionamento com clientes. “Em 2015 a Topigs Norsvin vai apresentar várias novidades em produtos e eventos para comemorar o aniversário da marca. Vamos dedicar o nosso trabalho para oferecer qualidade, melhor desempenho dos produtos e novas tecnologias para os clientes”, concluiu André Costa.

Zoetis fecha 4º trimestre e resultado anual com lucro

A Zoetis, líder mundial em saúde animal, obteve 1,3 bilhão de dólares de faturamento global no quarto trimestre de 2014, um aumento de 5% quando comparado ao mesmo período de 2013. Já o lucro líquido da companhia atingiu US$ 126 milhões, 20% acima do registrado no mesmo trimestre do ano anterior. Para o ano completo de 2014, a empresa registrou receita de US$ 4,8 bilhões, alta de 5% na comparação anual.  Os resultados do quarto trimestre no Canadá e América Latina (CLAR) - região de atuação da empresa na qual o Brasil está inserido - representaram um crescimento de 16%

na receita, atingindo 239 milhões de dólares. O impacto positivo dos resultados regionais é diretamente proporcional ao aumento das vendas no Brasil, Venezuela e Canadá. Os produtos voltados para animais de companhia apresentaram um aumento de 18% nas vendas, seguido pelo crescimento de 15% nas vendas de insumos destinados à pecuária. No Brasil, maior mercado internacional da Zoetis, também houve um crescimento significativo nesses setores, com destaque para os produtos para suínos e animais de companhia. 37


Sabor sublime

Nhoque de mandioquinha com ragu suíno Entre as várias opções oferecidas pelo nhoque, esta é sem dúvida uma das mais interessantes. Importante notar que o tradicional ragu italiano, feito com carne picada na ponta da faca e cozida em fogo lento por muito tempo, quase sempre leva a carne suína na receita. Mais uma prova de que a carne suína se presta maravilhosamente para todas as soluções semelhantes, agregando ainda uma boa relação de custo benefício.

Ingredientes: Massa • 500 gramas de mandioquinha • 2 ovos • 250 gramas de farinha de trigo • Sal e pimenta do reino a gosto

Ragu • 750 gramas de alcatra suína em cubos médios • 350 ml de Azeite de Oliva • 1 cebola • 1 tomate • 1 cenoura • 100 gramas de azeitona preta • 100 gramas de manteiga/margarina • ½ litro de vinho branco

Tempero a gosto Alho, alho poró, alecrim, louro, manjericão, pimenta dedo de moça e sal Sal e pimenta do reino a gosto * Rende cinco porções

Modo de preparo: 1. Descascar a mandioquinha, cortar em rodelas e cozinhar até amolecer, passar no espremedor e reservar, 2. Ainda quente, misturar o ovo, a farinha, a pimenta e o sal ao purê de mandioquinha até homogeneizar a massa. 3. Modelar pequenos rolinhos de massa e cortar pedaços de 2x2 cm. 4. Cozinhar em água fervendo até subir para superfície e dar choque térmico, reservar. 5. Para o ragu, aquecer o azeite, selar o filé em cubos, acrescentar cebola, tomate, alho, cenoura, alho poró, alecrim, louro, manjericão, e azeitonas 6. Acrescentar o vinho branco e deixar reduzir. Pingar água para cozinhar os tomates a fim de obter um caldo cremoso e reduzido, 7. Misturar com a manteiga, acertar o sal, a pimenta e servir.

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Revista da suinocultura 14ª edição  
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