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junho l dezembro Associação Renovar a Mouraria www.renovaramouraria.pt distribuição gratuita

a mo j or n a l d

o t s u g u A , o s n o Af o r i e t n carpi nos a 0 3 á h a i r a r u na Mo

u ra r i a


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Rosa Maria nº 5 junho · dezembro

reportagem

Texto Susana Simplício Fotografia Carla Rosado

Esta Mouraria contrastes dos

Caracterizar um bairro é sempre um exercício sujeito à contradição. No fundo, reflecte as visões de cada um. No caso da Mouraria, área em mudança acelerada, isso ainda se sente mais. Entre a preservação da tradição e dos mitos do “bairro típico”, por um lado, e a criação de uma vibrante nova comunidade multicultural, por outro, joga-se muito do que será esta área do coração de Lisboa.

H

á muitas narrativas inventadas acerca do que é a Mouraria”.

O Padre Edgar Clara, pároco de São Cristóvão e do Socorro, é um dos que desmitifica o que se tem vindo a dizer sobre a Mouraria. Mas não o único a ser controverso. Também a antropóloga Marluci Menezes, que estuda o bairro desde 1991, considera que se fazem intervenções para criar imagens que, por vezes, camuflam alguns problemas. “A Mouraria é multicultural porque foi a imagem que se criou”, diz. Não existe, de resto, uma visão consensual e homogénea sobre o que a Mouraria é. Apesar dos discursos recorrentes anexados a ela, e que estamos habituados a ouvir e ler, como sendo multicultural e berço do fado, existem também visões contraditórias em relação aos mesmos. A Mouraria é um bairro inserido em Lisboa, em que, constantemente, se tenta criar um discurso identitário de forma a destacar-se dos restantes, seja por necessidade ou por realidade. Contudo, existem tensões que a desmitificam. “A Mouraria começou a mudar muito rapidamente em 2012”. Maria Manuela Mendes, socióloga, viu, logo após a realização de um estudo sobre o bairro, a Mouraria ser alvo de mutações e transformações. Dois anos depois da instalação do gabinete do Presidente da Câmara Municipal de Lisboa na zona do Intendente, e da conclusão prevista para 2013 das obras do Programa de Acção, de intervenção urbana, e do Programa de Desenvolvimento Comunitário da Mouraria, de intervenção social, não se encontra um consenso sobre a Mouraria, sobretudo naquilo que é a promoção e valorização da sua identidade, interna e externa. Estas intervenções influem na visão que as pessoas têm deste local. Ou seja, na sua percepção e avaliação, através de locais, olhares, modos de vida ou palavras e conceitos, que a distinguem e identificam. Mas questiona-se até que ponto a identidade que lhe é dada é suficiente, representando a Mouraria no seu todo. Aloizio Costa, agente imobiliário que está na zona há um ano, vê no seu trabalho

de mediação entre proprietários e investidores, estes últimos sobretudo estrangeiros, que “a renovação urbanística ajuda ao investimento”. Mas salienta que os moradores se sentem preocupados e que, apesar de menor, ainda existe alguma resistência. No inquérito realizado pelo Rosa Maria, fora os resultados apresentados nestas páginas, a falta de percepção do que é a Mouraria revela-se um denominador comum - seja ao nível do seu território, dúvida dos seus limites ou a falta de identificação com as imagens construídas. “Nem todas as pessoas daqui aceitam que são da Mouraria”, diz Ermelinda Brito, presidente da Junta de Freguesia de São Cristóvão e São Lourenço, que sempre se considerou do bairro. Maioritariamente, a visão da Mouraria é bastante difusa e pouco esclarecida, com excepção das pessoas que têm uma ligação efectiva e afectiva com o local. Entre as palavras identificativas mais proferidas no estudo encontram-se “Fado”, “Multicultural” e “Bairro”, indo ao encontro dos discursos habitualmente feitos. Os Censos 2011 demonstram que 28% dos residentes, nas juntas de freguesia do Socorro e de São Cristóvão, são de nacionalidade estrangeira. Apesar de não representarem a maioria, este dado é significativo. A antítese de visões permite olhar a Mouraria de outras maneiras, descobrir opiniões e pensamentos sobre o bairro. É uma forma de ver as coisas sob perspectivas diferentes e confrontando-as, sendo que cada visão é um contributo, acrescentando e alterando algo na nossa própria visão, numa tentativa de compreender toda a diversidade e dinâmica da Mouraria através de outros discursos, tornando-a mais complexa e intrincada. A divergência ou convergência de visões da Mouraria, por dentro e por fora, de quem visita e de quem a retrata, não deixa de ser um retrato real e imaginado de um bairro. Existe a Mouraria de quem aqui vive e trabalha e de quem a visita, uma Mouraria real, de degradação e de reabilitação, de mudanças e tradições e a Mouraria romantizada, idealizada, turística, passageira, inventada e imaginária – e coexistem, num mesmo local. São discursos diferentes que devem ser esclarecidos e todos eles considerados enquanto construção do que a Mouraria é.


Rosa Marija

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descrição da amostra

Multicultural 92% Tradicional 78% Reabilitada 52% Segura 58% Dinâmica 80% Limpa 51% Melhor 82%

Acessível 89% Multiplicidade 85% Presente 59% Convívio 81% Histórica 88% Pobre 82% Habitacional 53%

Bairro

Maria Manuela Mendes socióloga “Há várias Mourarias, ou seja uma diversidade de visões e formas de conceber a Mouraria”, onde existem várias vozes e diversidade não só étnica, mas também religiosa, cultural, em tudo, que a caracteriza mas também cria tensões e conflitos, pelo que a socióloga tenta não mitificar. Sublinha a importância de projectos comunitários, que promovem a convivência, a partilha e a integração social, trazendo novas pessoas e dando novos inputs. “A degradação do edificado e as condições de habitabilidade sempre foram um dos problemas”, frisa, sendo, na sua opinião, essencial assegurar o direito à cidade e à habitação mantendo os que lá vivem, para além de atrair novos visitantes e moradores. “É um bairro em transição e transformação”, afirma, antevendo um futuro de mudança através da especulação imobiliária, que o torna mais atractivo, o que gera procura e mais mudanças. Para Maria Manuela Mendes, o que o distingue é a sua tipicidade, seus traços tradicionais, ser um bairro fechado, multicultural, com diversidade e fluidez de fronteiras.

Marluci Menezes antropóloga “A Mouraria hoje está na moda. Fazem-se intervenções para criar e trabalhar a imagem, sobretudo a cultural e tradicional. Essas imagens todas são e não são a Mouraria”, refere a antropóloga, sublinhando que existe uma dimensão popular, metropolitana, bairrista, patrimonial e marginal e também a negação disto tudo. A Mouraria tem múltiplas imagens que vêm do passado e a elas vão-se indexando outras e isso compõe uma complexidade, prossegue. Na sua opinião, multiculturalidade é a principal imagem de quem não é da Mouraria, tendo-se tornado moda, como imagem para se sobrepor e limpar as outras, num discurso de integração. Torná-lo interessante é que traz especulação imobiliária – a imagem está à venda, para vender uma imagem de cidade contemporânea, moderna e europeia.

“É um espaço/lugar singular mas que é plural”, explica Marluci Menezes, não existindo uma identidade, mas sim imagens identitárias que se constroem através de imagens internas e externas, e das suas relações. “As imagens são muitas e interessam todas”. Específica é a forma como essas coisas se combinam, tendo de ser compreendidas nos vários contextos e na sua época. “A dimensão histórica é o que define o que se é hoje e é a passagem para o que virá”, afirma, considerando que se passou muita coisa entre o séc. XII e 2010 de que já não se fala. “Quer-se recuperar o passado, mas que passado é esse?”, questiona-se.

Aloizio Costa agente mediador imobiliário “Se a Mouraria não fosse alvo de alguma especulação, iria implodir”, considera este agente imobiliário, que crê que a forma de renovar o espaço é atraindo investidores, sendo os estrangeiros os mais interessados tal como pessoas solteiras que privilegiam espaços pequenos, centrais e cosmopolitas, perto da agitação sem o estarem, pois o que se pretende é “preservar o carisma sem a promoção da boémia”. “A Mouraria tem de melhorar e é através do parque habitacional” pois desta forma “ganha-se qualidade de vida”, existindo imensos prédios devolutos mas em que há dificuldade em contactar os proprietários. “Os moradores sentem-se preocupados” devido ao perfil, ao desconhecido, às culturas e línguas diferentes e uma das suas preocupações é que “têm direitos que têm de ser salvaguardados”, explica . “O que os investidores procuram saber é como é que vão ‘limpar’ a zona”, tanto na conservação e higiene, como no ambiente que afasta as pessoas e cria problemas aos moradores actuais. “Há mais procura do que oferta”, a relação preço/localização, o facto de o investimento ser menor, e de se tratar de uma zona típica, residencial e tranquila, com elevada oferta de cultura e espectáculos são as principais linhas usadas na promoção.

Padre Edgar Clara pároco de São Cristóvão e do Socorro “Há um desajustamento entre o discurso e a realidade do que é a Mouraria” cujas narrativas são feitas por quem desconhece e está de fora. “Até que ponto a Mouraria é multicultural? Até que ponto estamos a dar a parte pelo todo?”, questiona o pároco, que considera ser importante haver clareza na análise da caracterização sociológica daqueles que aqui vivem, que não se revêm nesse discurso. Diz que a maior parte são portugueses, católicos, que nasceram na Mouraria ou em meios rurais. “O fado é outra tradição inventada. A história é a história, não há casas de fado na Mouraria. Não digam que é aqui o sítio dos fados, porque não é.” Considera que tanto se mentiu que a mentira se tornou verdade: “perdeu-se o sentido crítico”. “É praticamente uma aldeia, onde as pessoas conhecem-se umas às outras”, o que a distingue é ser “um bairro, numa grande cidade, onde se encontra um sentido de comunidade” onde as pessoas têm uma vida de entreajuda, se respeitam, onde há integração. Desmitifica também os estigmas não considerando a Mouraria um bairro problemático “É problemático porque existem pessoas e onde há pessoas há problemas.”

Ermelinda Brito presidente da Junta de Freguesia de São Cristóvão e São Lourenço Reconhece que nem toda a gente das diferentes freguesias se consideram da Mouraria, mas esclarece que “Bairro é uma coisa, freguesia é outra” e a mudança de freguesias não vai alterar isso. Caracteriza a Mouraria como “um espaço heterogéneo” e que “é quase uma aldeia no centro da cidade”, onde existe sentido de comunidade e as pessoas são solidárias. “Isto transformou-se”, diz, salientando que antes era muito fechado e não havia muita noção do que era a Mouraria, mas que houve um reconhecimento da área e das suas necessidades. “A Mouraria esteve um bocadinho esquecida” mas agora houve um impulso muito grande com as intervenções que

trouxeram “vitalidade e força nova”, dando visibilidade ao bairro. Os estrangeiros são outro contributo: “Abriram alguns horizontes” trazendo alguma dinâmica. “Fundamental agora era recuperar a habitação”, refere a presidente da junta, pois, na sua opinião, a insegurança e assaltos ainda existentes devem-se a casas degradadas e onde vive menos gente.

dados

CENSOS

Freguesia de S. Cristóvão e S. Lourenço e Freguesia do Socorro

2001 2011

População Residente

4287

4406

Famílias Clássicas Residentes

2142

2146

Alojamentos Familiares

3361

3187

Edifícios

797

690

0-14

422

449

15-24

512

402

25-64

2214

2538

65 ou mais

1139

1017

Solteiro

1912

2153

Casado

1975

1537

Divorciado

177

288

Viúvo

519

428

1º ciclo do Ensino Básico Completo

1130

1200

2º ciclo do Ensino Básico Completo

255

458

3º ciclo do Ensino Básico Completo

250

655

Ensino Secundário

339

598

Ensino PósSecundário

26

70

Ensino Superior

231

568


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Rosa Maria nº 5 junho · dezembro

notícias Uma associação plural para um bairro singular Parque infantil no Capelão O novo espaço intergerações da freguesia do Socorro começou a ser construído, em meados de Maio, na rua do Capelão. Espaço há muito ambicionado por toda a população, e uma das muitas preocupações mencionadas na petição que, já em 2008, a Associação Renovar a Mouraria lançou no bairro, está finalmentverprint longo de décadas houve apenas um pequeno espaço com dois brinquedos e duas mesas com cadeiras na zona das Olarias. Nuno Franco Carla Rosado

Para construir algo, todos são bem-vindos. Conduzida por esse espírito, e concentrando a sua atenção na Mouraria, surge agora a associação Bairros. Formada por uma dúzia de associados, em Dezembro passado, é mais uma entidade a colaborar no vasto e ambicioso processo de reabilitação e revitalização desta área histórica da cidade. A sua acção incide sobretudo no continuar do processo de criação de uma rede local, ajudando e coordenando as muitas associações, colectividades e pessoas a trabalhar para o bem da comunidade. O elemento agregador é o Programa de Desenvolvimento Comunitário da Mouraria, mas a vida da Bairros dependerá essencialmente da intervenção dos seus associados. “Actua como catalisador e agregador de novos processos sociais e da experiência dos seus sócios, por meio da partilha e dinamização de recursos do território e da facilitação de novas sinergias”, anunciam os seus responsáveis. Ou seja, o que eles querem é ajudar e fazer as coisas andar para a frente, tentando dar a mão a quem dela precise. Mas, da mesma forma, estão também abertos a beneficiar da colaboração de todos, para atingir esses objectivos. A associação tem como área de intervenção o bairro da Mouraria, mas o seu “horizonte” aponta a “outras experiências locais, nacionais e internacionais”, às quais procura ligar-se através da constituição de novas parcerias. RM

> Associação Bairros > Tel: 931908228 www.facebook.com/pages/Bairros > dla.mouraria@gmail.com

Cinema ao ar livre na Mouraria O Fitas na Rua, um projecto que leva o cinema a vários locais da cidade nas noites quentes de Verão, e este ano na sua 5ª edição, visitará a Mouraria a 24 de Agosto. Promovido pela Câmara Muncipal de Lisboa, acontece de 17 de Agosto a 14 de Setembro, sempre aos sábados e aos domingos, em diversos locais da capital. Através dele, é prestada homenagem às antigas salas de cinema da cidade. A 24 de Agosto, sábado, pelas 22h, ao lado do edifício do antigo cinema Salão Lisboa, será exibida uma obra-prima do cinema italiano e um grande clássico da cinematografia mundial: “Belíssima”, de Luchino Visconti (1951). Um retrato autêntico de um bairro na cidade de Roma, em 1951. O realizador transporta-nos para o quotidiano de uma mulher, Madalena, que sonha em transformar a sua filha numa estrela de cinema, “a menina mais bonita de Roma”. Uma história que prende desde o primeiro minuto, sendo impossível deixar de acompanhar o empenho desta mãe na sua aventura. Uma longa-metragem que mistura drama com comédia, documentário com ficção e que resulta num filme que ninguém esquecerá. Uma obra singular, para todas as idades e com entrada livre. “Marque o dia 24 de agosto na agenda e venha mais cedo que as 22h porque há ainda surpresas previstas”, prometem os organizadores do ciclo.

Dar resposta ao desemprego

Ilustração Filipe Gonçalves

Entre o nº4 do Largo das Olarias e o nº 4 da Rua do Terreirinho, existe uma comunicação interior entre os prédios que, até há bem pouco tempo, era usada por espertalhões que não queriam pagar o táxi, deixando os enganados à espera...

Fundado pelo GAT - Grupo Português de Activistas sobre Tratamentos de VIH Sida, em Outubro de 2012, o projecto In Mouraria é já um sucesso. Tem por objectivo melhorar a prevenção e tratamento do VIH, da hepatite C e de outras infeções sexualmente transmissíveis. Tal missão é conseguida pelo contacto das pessoas que usam drogas, trabalhadores do sexo, migrantes em situação de vulnerabilidade e pessoas sem-abrigo com os serviços de saúde e sociais. Isto é feito através da disponibilização de um serviço anónimo, confidencial e gratuito de rastreio das infeções pelo VIH, hepatite B e C, acompanhado de aconselhamento pós-teste e referenciação hospitalar direta. O projecto garante também a oferta de cuidados básicos de saúde, a entrega de material de consumo mais seguro, literacia sobre comportamentos e práticas de consumo tóxico e a promoção de relações sexuais mais seguras. Alvo da curiosidade da população, depressa o In Mouraria granjeou o seu apoio. Já é um dos espaços apontados como símbolo da mudança sentida no território, considera Ricardo Fuertes, o seu coordenador. O GAT é o primeiro e único colectivo de ativistas em tratamentos VIH em Portugal. É um dos parceiros do PDCM (Programa de Desenvolvimento Comunitário da Mouraria), a par com diversas outras organizações. Nuno Franco

> 2ª a 6ª das 14h às 16h Calçada de Santo André, 79, Mouraria 1100-496 Lisboa > in.mouraria@gatportugal.org

O nome não poderia ser mais bem escolhido. Dos 335 inscritos no “Mouraria + Emprego”, cerca de 94 já estão a trabalhar. Não só na Mouraria, mas por toda a cidade de Lisboa. O programa é uma resposta integrada e qualificada Carla Rosado

perdidos & achados

In Mouraria é ponto de apoio à vida no bairro.

de capacitação para o mercado de trabalho. Ele aumenta o potencial de empregabilidade de pessoas desempregadas e assenta numa abordagem individualizada e adaptada à experiência e competências específicas de cada pessoa. O “Mouraria + Emprego” funciona através de um acompanhamento individualizado e da promoção de estratégias que facilitem a “reinserção profissional de jovens e pessoas adultas em situação de desemprego, subemprego, emprego precário ou informal”, residentes na Mouraria ou que pretendem trabalhar neste território. Isto acontece em articulação entre instituições e em estreita colaboração e articulação com o tecido empresarial local. Nuno Franco

> Mais informações: Ricardo Tomaz > Rua Arco Marquês do Alegrete, 6 – 2º D Mouraria (Martim Moniz) 1100-034 Lisboa > Tel./fax. (+351) 218 170 202 > sea@aimouraria-empreende.pt

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AI crónica

REFOOD também chegou aqui

Rosa Maria nº 5 junho · dezembro

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MOURARIA! Cristina Sampaio ilustradora

> geral@jfsocorro.pt /218824680 REFOOD

O movimento Refood, surgido em Março de 2011 por iniciativa do consultor norte-americano Hunter Halder, chegou de bicicleta à Mouraria, durante o mês de Maio. E foi já constituído um grupo de voluntários para o pôr em marcha na zona do centro histórico da cidade, após uma reunião inicial na Casa da Covilhã, na Rua do Benformoso. O seu lema, “Aproveitar para Alimentar”, é um esforço eco-humanitário e voluntário de cidadãos, funcionando a nível micro local. Pretende acabar com o desperdício de alimentos preparados, aumentando a solidariedade comunitária em todos os bairros. Equipas de voluntários fazem rondas diárias pelos restaurantes, recolhendo as sobras de comida. Outros preparam as embalagens de comida no centro de operações e outros ainda distribuem-nas às famílias carenciadas. Ao ajudar, cada voluntário é diretamente responsável pelo alimentar de dez pessoas, com

um serviço de apenas duas horas quantidade de tempo que lhe é pedido para despender semanalmente. Na Freguesia de Nossa Senhora de Fátima (zona das Avenidas Novas), o núcleo piloto de 237 voluntários recebe comida de 77 parceiros locais (restaurantes, pastelarias, padarias, entre outras) e serve refeições a 314 beneficiários. A primeira reunião do núcleo fundador do centro histórico ocorreu a 24 de Maio. Outras se seguirão, em espaços cedidos quer pela Junta de Freguesia do Socorro, quer pelas associações e coletividades da sociedade civil existentes no terreno. A Mouraria será o território inicial, já que existe aqui uma população muito carenciada e cerca de 40 restaurantes e tasquinhas que poderão ser parceiros locais. Os interessados em participar em acções de voluntariado da Refood devem dirigir-se à Junta de Freguesia do Socorro. Nuno Franco

Rosa Marija

Mouraria tem nova associação cultural Dinamizar culturalmente a Mouraria, com os recursos já existentes no próprio bairro, é o objetivo da DMAC - Dinamiza Mouraria Associação Cultural, a mais recente associação do bairro. A inauguração da sua sede aconteceu em março passado, no Largo do Terreirinho, onde todos puderam usufruir de uma tarde de festa e cultura, com desfile de gaiteiros, exposição de fotografia de Camilla Watson, flamenco e fado, entre outros. Xúlio Villaverde, galego residente na Mouraria, responsável pelo Bar Anos 60 e membro da direção da DMAC, conta que a associação vive de, e para, os moradores do bairro. A associação conta também com a colaboração de outras instituições presentes na Mouraria. Os sócios não pagam quotas, mas contribuem com trabalho, ideias ou géneros. As atividades desenvolvidas são gratuitas para todos os moradores do bairro, e os próprios formadores, artistas e organizadores das atividades são, na sua maioria, residentes na Mouraria e voluntários.

Desde maio, estão a decorrer, no espaço da DMAC, aulas de música (guitarra, pandeireta galega, gaita-de-foles, percussão, etc.), costura e fotografia pinhole, assim como cursos de Português para estrangeiros, de iniciação à informática e explicações de Matemática e Português. A DMAC disponibiliza ainda apoio jurídico e psicológico aos moradores. No mesmo espaço, está a ser criada uma biblioteca, bem como um coro e um grupo de tambores e bombos, que prometem animar a Mouraria. Sessões de cinema Português ao ar livre, uma festa do idoso da Mouraria, o festival “Romaria de Culturas - Música, Gastronomia e Arte”, que juntará a população e as várias associações do bairro, e uma exposição sobre fado, composta por objetos pessoais de moradores, são algumas das atividades previstas para breve. A Dinamiza Mouraria Associação Cultural pretende ainda promover visitas culturais para crianças a locais fora do bairro. Em setembro, conta dar início às oficinas de cultivo e à realização de vindimas na Mouraria. Rita Pascácio

A minha amiga entra e pergunta-me “Já viste o que escreveram lá em baixo, à tua porta?” Já tinha visto, sim. Via sempre que chegava a casa. E cada vez que subia os 70 degraus pensava descê-los de novo, armada de um spray, para desfazer o feito, mas depois, esbaforida, atirava os sacos da mercearia para um canto e deixava-me cair no sofá, ocupada com outros pensamentos. “Estou a ficar velha, estes 4 andares estão cada vez mais altos…” Ai Mouraria! “Se não fosse o jardim, já não morava aqui, não…” Já lá vão 26 anos (credo!!) que me mudei, por causa de uma árvore num quarto andar. “Pois… o jardim… os melros… Os melros e os pardais! E os mochos! E os papagaios!! Onde é que eu ia encontrar outro paraíso assim?” Ai Mouraria! Dos rouxinóis nos beirais… “Rouxinóis? Então não é melros? Eu é mais melros…” A semana passada até fui dar com dois ovos num ninho no limoeiro! “Pois, passarada! Passarada… passarada rima com cansada! Olha que engraçado…” Cansada-do-lixo, da merda-de-cão, buraco-no-passeio-tropeção-entorse, rrrrrrrr-puh-escarreta-no-chão. “Mas será que as pessoas gostam de viver no meio da porcaria? Estou cansada…” Levanto-me do sofá, vou à janela, espreito a rua. “Cá de cima não se vêm as escarretas… só os sacos do lixo. E o lixo. Rais parta a câmara e mais quem a inventou!” Ergo a cabeça. O castelo, em frente, limpa-me o humor. A vista, para ser perfeita, só lhe falta o rio. “Enfim… não se pode ter tudo.” Ai Mouraria! “Podia construir uma torre… uma torre no quintal só para ver o Tejo!” Mas para ver o Tejo basta-me subir a calçada, espreitá-lo da vizinha Alfama. Ou descer a rua, passar pela Baixa, abeirar-me dele no cais das colunas. Ou caracolear as escadas até à Graça e avistá-lo do miradouro. “Um pulinho, dois pulinhos, três pulinhos. Viver aqui não é assim tão bera… estou pertinho de tudo.” Estou no coração da cidade. “Coração rima com canção… Para o que me havia de dar hoje…” Ai Mouraria! Da Severa em voz saudosa. “Pois é. E dos pregões tradicionais. Hum… às vezes ainda ouço a gaita do afia-facas, o homem dos guarda-chuva. Mas mais nada. Aliás… mais tudo, tudo o resto.” Outros pregões, outras tradições. Volto-me para a minha amiga e digo-lhe “Vamos lá?”. Agarro no spray e descemos as escadas. A custo conseguimos apagar a letras bem vincadas: PRETOS FORA! Arrasto-me de regresso ao quarto andar. Ai Mouraria! Da próxima vez não apago PRETOS FORA! Acrescento BRANCOS FORA! AMARELOS FORA! CASTANHOS FORA! AZUIS FORA! COR-DE-ROSA FORA! “Cor-de-rosa?” Ai Mouraria! Dos vestidos cor-de-rosa, da guitarra a soluçar. “Qualquer dia mudo-me, esta escada dá cabo de mim.” Abro a porta, deixo cair o spray e atiro-me para cima do sofá, a folhear o Rosa Maria.

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Rosa Maria nº 5 junho · dezembro

reportagem

Texto e Fotografia Ernesto Possolo

Do sonho à realidade, a Escola de Fado da Mouraria A tradição fadista tem agora uma academia no bairro que a reclama como sua. As aulas de canto, guitarra portuguesa e viola de fado são dadas por cinco monitores, que garantem juntar trabalho e dedicação aos necessários “jeito e alma” dos alunos. Ansiada há décadas e por gerações que constituíram as várias direcções, sócios, moradores e amigos do Grupo Desportivo da Mouraria (GDM), nasceu finalmente a Escola de Fado da Mouraria. A festa de inauguração foi a 11 de Novembro de 2012, no salão Fernando Maurício, na sede do GDM, na Travessa da Nazaré em Lisboa, considerada a “catedral do fado”. Após uma breve apresentação feita pelo presidente da colectividade, Pedro Santos, a uma plateia composta por representantes autárquicos, sócios e amigos do GDM, foram conhecidos os padrinhos da escola, a fadista Ana Mauricio e o Tony Loretti, um dos mentores deste projecto. Seguiu-se uma sessão de fados com um diversificado elenco, constituído por fadistas profissionais, amadores e encerrada por Esmeralda Amoedo, fadista nascida na Mouraria. Esmeralda proferiu umas breves palavras, salientando que é importante ter-se “jeito e alma” para cantar fado, mas também é importante “trabalhar muito, estar disponível para aprender com quem sabe”. Por isso, a Escola de Fado “faz todo o

Sabia que...

sentido”. O actual presidente da direcção do GDM disse ao Rosa Maria que a escola de fado do Mouraria é um grande êxito. Não só por ser um sonho tornado realidade, ansiado há décadas, mas também pela “forma como as pessoas aderiram” e pelo prestígio que a colectividade tem na divulgação da canção popular e que faz parte da identidade do bairro da Mouraria, considerado o

Texto Diogo Paeta Ilustração Miguel Santa Rita

“berço do fado”. As aulas realizam-se todas as segundas e terças-feiras, às 20h30 e têm uma duração de três horas. As mensalidades custam 30 euros. Caso os alunos não tenham os cordofones de fado, a escola disponibiliza-os para as aulas. Actualmente têm 30 alunos: metade estudam canto, dez guitarra portuguesa e cinco aprendem viola de fado. A escola tem cinco colaboradores que monitorizam as aulas. A escola nasceu com o apoio financeiro e técnico da Câmara

Municipal de Lisboa, através do Plano de Desenvolvimento Comunitário da Mouraria (PDCM), com a parceria da Junta de Freguesia do Socorro e o empenho da Direcção do Grupo Desportivo da Mouraria. Fadista Esmeralda Amoedo

Bruno Costa foi convidado pelo GDM para coordenar as aulas da escola de fado. Os principais motivos porque aceitou este desafio são “os laços afectivos” que tem com a colectividade, o ser do bairro da Mouraria e poder “partilhar com outros o fado”. Aprendeu a tocar viola e a acompanhar outros músicos e fadistas, há cerca de 10 anos. Participou em espetáculos em Portugal e no estrangeiro. Referiu que o mais importante, para além de se gostar e ter habilidade, é trabalhar bastante. Bruno salienta que, sem se criar ilusões e falsas expectativas, a escola é uma grande oportunidade para as pessoas aprenderem a descobrir aptidões que desconhecem. Principalmente para os que querem aprender e que gostam de fado e que, futuramente, queiram participar em eventos e em iniciativas ligadas ao fado - dentro e fora do bairro. A 2 de Abril, o presidente da Câmara Municipal de Lisboa, António Costa, visitou o GDM e assistiu a uma aula da escola de fado, na qual os alunos fizeram uma pequena demonstração da aprendizagem. Foi descerrada uma placa comemorativa. Esteve também presente a artista Alexandra, que cantou um fado. Este ano, é ela a madrinha da Marcha da Mouraria.

...as “Mãos de Fátima”, os tradicionais batentes que são mais visíveis em algumas portas antigas nas cidades e vilas do Sul do país, são o reflexo de uma tradição mística com raízes nas civilizações muçulmanas e judaicas? Entre nós, estes batentes são entendidos como herança cultural árabe, que invoca Fátima, filha de Maomé, originando a designação “Mãos de Fátima”. É um talismã de características maternais e femininas, resultando até como simbologia protectora do espaço sagrado do lar. Sozinhos ou aos pares, são idênticos aos que se vêem um pouco por todo o Magreb. B B B B B B B B B B B


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Rosa Marija Texto Maja Spanjevic Fotografia Sandra Bernardo

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A diferença que nos lembra da semelhança Na Escola Básica 2+3 Gil Vicente, alunos de várias culturas e etnias aprendem sobre a diferença e a semelhança. E ensinam quem com eles convive. Divididos entre a cultura dos países de onde os seus pais são oriundos e a realidade lisboeta, falam de sonhos e esperanças. “Anda...passar o cartão e entra!”, manda o professor, na porta do pátio da escola básica e secundária Gil Vicente. A tarde já avançou, e algumas turmas acabaram as aulas. Um rapaz de 15 ou 16 anos está no que parece uma discussão amigável com a funcionária da portaria. Com tom familiar, pede ao rapaz que passe o cartão na máquina. “Passa-o, pelo menos uma vez por dia, quando entras... sei que não passas sempre, não.” O adolescente elabora excusas e argumentos, dizendo que não via “este cartão ganhar pernas para fugir” e continua a falar alto, a contar piadas, aproveitando a atenção dos amigos e, sobretudo, amigas, à sua volta. Embora cansada, a funcionária tem muita paciência. Comenta para si: “Ele é uma boa pessoa”. E repete para ele - que entretanto virou a cabeça, para ver se as palavras se lhe dirigiam: “Digo que és uma boa pessoa. Vocês são o meu quotidiano, passo todo o dia com vocês...”. “Sim. Como uma família ..”, responde ele, num tom que é difícil de decifrar. Como se os dois assumissem que a família não é uma questão de escolha. Entro na escola. Os grupos de crianças de diferentes idades estão espalhados pelos corredores. Duas meninas, de não mais de 13 anos, estão sentadas no chão. Um funcionário pede-lhes que se levantem. Elas sorriem e continuam sentadas. O funcionário repete, ainda com um tom familiar, mas elas respondem que preferem estar sentadas, e continuam a falar, sem dar muito pelo pedido que lhes foi dirigido. Entretanto, ao meu encontro vêm dois alunos acompanhados pelo director da turma. Jahidul, do Bangladesh, e Gurpreet, da Índia, são amigos da turma 6º terceira e vizinhos na Mouraria. Estão dispostos a mostrar-me a escola. Demos uma volta pelo pátio e sentámos no auditório de polidesportivo, um dos seus lugares preferidos. No princípio, estão um bocado envergonhados, mas depois de comentarmos a partida entre Benfica e Sporting, continuaram mais descontraidamente. Conhecem muitos jogadores portugueses e gostam de jogar à bola na rua, mas Gurpreet reconhece que gosta mais do criquete, o desporto que aprendeu na Índia e que costuma praticar na praça do Martim Moniz. Na saída da escola, passamos pelo busto do Gil Vicente.“Sabem quem era?” “Sim, sabemos. Ele era... uma pessoa... uma pessoa importante.” Os dois passam os cartões na máquina, saúdam a funcionária e saem da escola.

Se calhar, não sabem muito mais sobre o Gil Vicente, mas sentem o respeito que se deve aos mais velhos, aos professores e a todas as pessoas “importantes”. Quando lhes disse que me podiam tratar de “tu” e não de “você”, explicaram-me que isso era impossível, nos países deles: ali os maiores são sempre tratados com muito respeito. “Aqui, não... aqui, os mais novos dão chapadas aos mais velhos”, diz-me Gurpreet. Se bem que é assim aos olhos duma criança da Índia, as situações que, por acaso, testemunhei na entrada e no corredor da escola servem de prova. No dia seguinte, conheci a Naira, do Paquistão, e a Lisha, da Índia, amigas da turma 5º terceira. A Lisha percebe português, mas custa-lhe falar, há menos de um ano que vive em Portugal. A Naira habilmente assumiu o papel da tradutora consecutiva, e prosseguiu a ajudar-me. Soube que a Lisha quer ser hospedeira. Ou, nas suas palavras: “A família toda quer que eu seja hospedeira. Elas são bonitas, viajam e falam muitas línguas... e eu gostava de aprender muitas línguas.” Pela forma como me respondem à pergunta, tanto a Naira como a Lisha revelam essa relação familiar típica das suas culturas. A Naira quer ser médica; melhor dito, é o que

a sua família aspira para ela. Diz que gostava de ajudar as pessoas, mas assume, com ar um bocado preocupado, que vai ser preciso estudar muito. À mesa da cantina onde estávamos sentadas, juntaram-se outros alunos, curiosos para ouvir sobre o que falávamos. Eram das outras turmas, alguns maiores, outros mais novos. Contaram-me que todos fazem parte de um grupo auto-organizado de alunos bangladeshis, indianos e paquistaneses que queriam fazer teatro. “Gostávamos de fazer uma peça de teatro e representar as tradições dos nossos países, porque os portugueses não sabem muito; mostrar, por exemplo, um casamento na Índia, maneiras de celebrar ou formas de vestir”, conta a Naira - e mostra-me as mãos pintadas com hena, ornamento típico das mulheres dessa região. “E que vos dizem os professores?” “Ah, mas nós não falámos com eles!” Assim soube que, embora haja muito tempo que a ideia do teatro surgiu no grupo, ninguém ousava partilhá-la com os professores. E não é porque estejam a ser perfeccionistas. Dizem que gostam muito dos seus directores de turma, mas têm vergonha de perguntar, de propor, de expressar a sua opinião. São educa-

dos para mostrar respeito, mas parecem sentir que não podem falar se não lhes dirigirmos a palavra. Quando pensamos na cultura Indiana, Paquistani ou Bangladesh em geral, pensamos nas diferenças em língua, comida ou maneiras de vestir. Mas um outro aspecto importante é essa atitude com os mais velhos e as relações hierárquicas, tanto dentro como fora da família. Lembrei-me das histórias dos avós que tratavam os próprios pais por “Você” e que sempre diziam que as gerações mais velhas eram melhor educadas. Não obstante, a conversa com as meninas levou-me a pensar sobre as liberdades que estas crianças sentem que têm. Será que para eles mais respeito significa menos direitos? Será que por falta de liberdade para com os mais velhos e com as “pessoas importantes”, ideias criativas, como a do teatro, podiam passar despercebidas? Fiquei com impressão que os imigrantes, vindo de fora e trazendo línguas, tradições e culturas estrangeiras, incompreensíveis para a maioria, também trazem à memória os hábitos que aqui existiam, mas que se vão esquecendo. Relembram a necessidade de reparar não tanto na diferença, senão na semelhança.

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editorial

E, quase sem darmos por isso, passaram cinco anos. A Associação Renovar a Mouraria nasceu do desejo de trabalhar em conjunto com a população de um bairro histórico da cidade, localizado junto ao seu coração geográfico, mas durante demasiado tempo na periferia das condições de vida, da agenda mediática-cultural e da atenção dos decisores urbanos. Um enorme projecto de reabilitação e revitalização do bairro e das suas imediações foi, entretanto, posto em marcha, pela Câmara Municipal de Lisboa, através do QREN, do Programa de Desenvolvimento Comunitário da Mouraria (PCDM) e do programa BIP/ZIP (Bairros e Zonas de Intervenção Prioritária). A Mouraria e toda a sua zona de influência (sobretudo o Martim Moniz e o Intendente) é um território bem diferente do que era em 2008. Tanto que se pode dizer que, de certa forma, o mesmo se reiventou. E continua em mutação. Para isso tem contribuido, não apenas o investimento em dinheiro, tempo e pensamento estratégico dos técnicos da autarquia e das diversas instituições que decidem e agem sobre esta área da capital, mas, mais que tudo - factor imprescindível -, o diálogo entre estes agentes e os moradores e trabalhadores do bairro. No fundo, aqueles a quem vulgarmente se chama de “a comunidade” – uma palavra com fronteiras bem mais fluídas que a sua definição semântica poderia deixar adivinhar. Afinal, é para eles, e por eles, que se justifica tal investimento. Este projecto comunitário tem feito progressos notáveis, mas, arriscamos, será necessário afirmar o seu aprofundamento. Só assim se conseguirá solidificar o já construído. Para e com as pessoas do bairro. Tal como sucedeu com esta edição do Rosa Maria, agora no número 5 – uma feliz coincidência sob o signo do cinco -, feita quase na sua totalidade por membros desta comunidade. Adultos e crianças. É nossa vontade explorar mais esta vertente. Porque isso é que vincula as pessoas, isso é que as faz sentir participantes. E não espectadores. E talvez aqui possamos encontrar a metáfora para o que poderia mudar. Sentimos a necessidade de ver os moradores da Mouraria ainda mais presentes, mais participativos, dando sugestões, trocando ideias e sugestões com a Associação Renovar a Mouraria e com outros interlocutores do bairro, mas também entre eles. No fundo, tê-los mais envolvidos nos projectos do bairro, sejam eles associativos ou não. Isso é que faz sentido. E, no final, define uma comunidade.

MARISA MOURA

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A limpeza das ruas do bairro depende do civismo dos moradores, mas também da acção da Câmara, que distribui sacos para a separação do lixo. RITA PASCÁCIO

Mouraria em marcha.

está bem · está mal

A falta de colaboração e de espírito comunitário dos moradores é o reverso da medalha. Por isso, há ainda muitas situações como esta. Infelizmente.

Texto Mourad Ghanem Desenho Gonçalo Possolo

FICHA TÉCNICA Direcção: Associação Renovar a Mouraria Direcção gráfica: Hugo Henriques Edição: Ana Luísa Rodrigues, Myriam Zaluar e Samuel Alemão Formadores das oficinas comunitárias: Ana Luísa Rodrigues, Myriam Zaluar, Nuno Saraiva, Samuel Alemão, Sandra Bernardo e Susana Moreira Marques Redacção: Ana Luísa Rodrigues, Diogo Paeta, Ernesto Possolo, Marisa Moura, Maja Spanjevic, Mourad Ghanem, Nuno Franco, Paula Lino, Pedro Santa Rita, Rita Pascácio, Sandra Bernardo e Susana Simplício Colaboraram neste número: César Faustino, Cristina Sampaio Fotografia: Carla Rosado, Ernesto Possolo, Marisa Moura, Rita Pascácio e Sandra Bernardo Ilustração: Bruna Graça, Ernesto Possolo, Filipe Gonçalves, Gonçalo Possolo, Hugo Henriques, Miguel Santa Rita e Vasco Olino Agradecimentos: a todas as pessoas que colaboraram neste número, Arquivo Municipal de Lisboa, Centros de dia do Socorro e de São Cristóvão e São Lourenço, IELT - Instituto dos Estudos de Literatura Tradicional, família Karki Carvalhais, Filipa Bolotinha Propriedade: Associação Renovar a Mouraria Redacção, Administração e Publicidade: Beco do Rosendo, nº 8, 1100460 Lisboa, Telf: 218 885 203, Telm: 922 191 892, rosamaria@renovaramouraria.pt Impressão: Funchalense – Empresa Gráfica S.A. Distribuição: Associação Renovar a Mouraria Versão digital: www.renovaramouraria.pt Direcção comercial: Associação Renovar a Mouraria Tipos de Letra: Atlantica, Lisboa e Tramuntana > Ricardo Santos Depósito legal: 310085/10 Periodicidade: Bianual Tiragem: 10000 exemplares Número cinco, junho 2013 CAPA: Sandra Bernardo Nesta edição a utilização do ACORDO ORTOGRÁFICO foi deixada ao critério de cada redactor.


reportagem

Rosa Marija

Texto Nuno Franco Fotografia Carla Rosado / Ernesto Possolo

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Câmara quer uma nova praça no bairro Três milhões de euros é o orçamento da praça da Mouraria. O projecto da autarquia deverá abrir uma passagem entre a Rua da Palma e a Rua do Benformoso e implica a demolição de vários edifícios. No entanto, ainda nenhum proprietário ou inquilino foi contactado. Há quem critique e também quem não acredite que a ideia vai sair do papel. Depois de ter sido discutido em 25 de Janeiro de 2013, na reunião pública da Câmara Municipal de Lisboa, o projeto da “Praça da Mouraria” caiu no esquecimento e ninguém na zona abrangida sabia do projecto. No preâmbulo do projecto diz-se: “Para uma mais eficaz intervenção no território (…) foi identificada a necessidade de criação de mais acessibilidade à Rua do Benformoso”. Com vista à concretização desta iniciativa, foi elaborado um Estudo Prévio para a requalificação do espaço situado entre a Rua da Palma, 248 – 264 e a Rua do Benformoso, 137 – 151. Ou seja, 795 metros quadrados de terreno para reconstruir. A ideia é rasgar a Rua do Benformoso, para a tornar mais acessível, física e visualmente, através do seu atravessamento a pé, por baixo do edifício paralelo ao eixo viário, desembocando numa praça, que inclusive tem um lago rectangular e árvores. Segundo o Igespar (Instituto de Gestão do Património Arquitectónico e Arqueológico), “os edifícios existentes no local da intervenção não apresentam especial interesse arquitectónico”. Do projecto, consta a criação de dois blocos perpendiculares aos eixos viários e um outro, paralelo ao eixo da Rua da Palma, com cerca de 300 metros quadrados. Os dois edifícios perpendiculares abrigariam, de um dos lados, uma mesquita com um andar consignado às mulheres - coisa que não acontece nos espaços de culto islâmico actualmente existentes - , e, do lado oposto, um centro social islâmico, que seria utilizado para diversas actividades. A mesquita vai dispor de um minarete, que terá uma volumetria semelhante à das chaminés industriais que existem na zona ao seu redor, segundo informa o Rosa Maria a arquitecta Inês Lobo, responsável pelo projecto. O edifício paralelo à Rua da Palma, em open space (espaço aberto), seria utilizado tanto para eventos do Arquivo Fotográfico de Lisboa, como para outros de diversa natureza, já que poderá albergar muita gente no seu interior. Até à data, nenhum dos inquilinos do prédio municipal que a câmara vai demolir na Rua da Palma (na foto), para aí desenvolver o projecto da chamada “Praça da Mouraria”, foi contactado pela autarquia quanto à necessidade de terem de abandonar o imóvel. Mas têm conhecimento desta situação. Armando Carvalho, de 82 anos, 53 deles passados no Brasil, para onde emigrou ainda jovem, e dono da actual garagem existente na Rua da Palma, afirma: “no

tempo do Abecassis [presidente de câmara, na década de 1980], isto era para ser tudo vendido”. Conta ainda que esteve para comprar o edifício no tempo de João Soares [presidente da câmara entre 1995 e 2001], para fazer lá um projecto misto de hotel e quartos para estudantes. Agora, alberga no seio da sua garagem as carrinhas dos chineses que, devido à altura, não conseguem entrar no parque do Martim Moniz e que “até do norte do país vêm”. Armando mostra-se preocupado com o problema de estacionamento que se criará, se a sua garagem tiver de acabar. Nem a Confederação das Colectividades de Cultura e Recreio e Desporto, sediada há décadas neste local, na Rua da Palma 250, nem nenhum dos comerciantes envolvidos quis tomar uma posição oficial. Embora toda a gente com quem o Rosa Maria falou se mostre bastante preocupada com a situação que se avizinha. Não só porque está em causa a continuidade de algumas empresas e seus postos de trabalho, como também é grande a incerteza quanto ao futuro. Os três milhões de euros necessários à prossecução da obra, pelo seu montante, dão a alguns comerciantes uma certa tranquilidade, por acharem que “dificilmente, este projeto irá para a frente”. Ou, pelo menos, “se for, não será nos anos mais próximos”, como afirma o “Sr. Barroso”, proprietário de um dos edifícios a demolir na Rua do Benformoso - por sinal, todo ele recuperado a expensas suas e em perfeito estado de conservação. O edifício é possuidor de um painel de azulejos do séc XVIII e nele funciona um dos restaurantes da Rota das Tasquinhas e dos Restaurantes da Mouraria, o Bangla Restaurante, de raízes culinárias do Bangladesh e que serve não só a população imigrante, como o público português que o frequenta. Todos reconhecem que será uma mudança enorme nesta zona da cidade. E muitos reclamam contra a pertinência da construção de mais uma praça, sabendo que a poucos metros do local deste projeto existem duas praças: Martim Moniz e Largo do Intendente. Além de que muitos já se mostraram preocupados com o facto de ser uma zona de profundas e enraizadas tradições católicas, por onde passa, há centenas de anos, uma das procissões mais tradicionais de Lisboa. O facto de passar a existir uma mesquita poderá vir a causar algum tipo de conflitualidade, temem. O presidente da Junta de Freguesia de Santa Justa desconhece o projecto a desenvolver no território que administra.

O socialista Manuel Luis Medeiros, por estranho que pareça, não sabia de nada, até ser contactado pelo Rosa Maria e outros órgãos de comunicação, como é o caso do blog O CORVO, onde esta notícia

surge em primeira mão. No gabinete da Arquitecta Inês Lobo, acredita-se que o projeto vai para a frente, mas ainda não há sequer datas previstas.


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reportagem

Texto Ana Luísa Rodrigues Fotografia Camilla Watson

Aqui, as paredes cantam As paredes e os edifícios da Mouraria ganharam uma nova vida. São 28 imagens em grande formato a homenagear o fado e os fadistas que aqui nasceram, por aqui passaram ou cantaram o bairro. A ideia foi de Camilla Watson, fotógrafa inglesa que adoptou a Mouraria como sua. “A ideia surgiu há três ou quatro anos. Apresentei a proposta, mas não foi logo aceite. Mas depois do reconhecimento do fado como património imaterial pela UNESCO, o projecto começou a tomar forma”, explica Camilla ao Rosa Maria. A 25 de Maio, ruas e largos da Mouraria encheram-se de público que quis ver pela primeira vez o “Tributo a Lisboa”. A exposição foi inaugurada por António Costa, presidente da Câmara, entidade que financiou o projecto. A tão cantada rua do Capelão recorda agora Fernando Maurício, o mítico fadista da Mouraria no século XX, Argentina Santos, Esmeralda Amoedo, Amália Rodrigues, Fernanda Maria e Francisco Martinho. As imagens levam depois

os visitantes por um percurso que segue pelo Largo da Severa, a travessa João do Outeiro, o beco do Jasmim, a rua da Guia, a Marquês de

Ponte de Lima, o Largo do Terreirinho e o das Olarias e a calçada do Monte, terminando na Travessa da Nazaré, junto ao Grupo Desportivo

da Mouraria e a sua Escola do Fado. A maioria das fotografias são impressas em suportes de madeira e gesso – técnica que Camilla Watson utiliza com frequência – e depois aplicados sobre os edifícios. Mas há duas fotos impressas directamente na parede, recorrendo a uma câmara escura gigante. Estas são as fotos de maiores dimensões, que retratam Fernando Maurício e a sua sobrinha Ana Maurício. Cada fotografia é acompanhada por uma inscrição com notas biográficas de cada retratado. Há fadistas de várias gerações, como os contemporâneos Mariza, que viveu na Mouraria, ou Ricardo Ribeiro, “mauriciano” confesso. Não é a primeira vez que Camilla Watson dá vida aos edifícios da Mouraria. Aliás, a fotógrafa faz das ruas e becos do bairro um território privilegiado de intervenção artística, aproveitando para homenagear os habitantes da Mouraria. Que o digam a D. Violeta, o sr. Carlos, o Zé António ou as dezenas de moradores já retratados e que resistem nas paredes desde 2009.

memórias

Mouraria da minha infância César Faustino Orgulhosamente oriundo da Mouraria, tenho constatado, com natural satisfação, que o prédio onde nasci, há quase 82 anos, na Rua Fernandes da Fonseca, 32, 2º andar, face ao Martim Moniz, continua, estoicamente, a resistir à fúria dos tempos – ao contrário, por exemplo, da demolida Igreja do Socorro, onde fui baptizado. Lembro-me de minha mãe contar que tinha confeccionado o meu primeiro enxoval à luz dos lampiões do popular, e também desaparecido, teatro Apolo, que ficava do outro lado da rua e a cujos bastidores amigos da família, que nele trabalhavam, me conduziam de vez em quando para observar partes de várias revistas, recebendo generosos carinhos e docinhos de artistas famosos, como Beatriz Costa, Vasco Santana, Mirita Casimiro, Estêvão Amarante, Irene Isidro, Teresa Gomes, Costinha ou os bailarinos Francis e Ruth, entre outros protagonistas daquele reino de fantasia que tanto me deslumbrava. Tinha eu uns 3 ou 4 anos… Outra inesquecível atracção, desfrutada da nossa varanda, eram os pregões dos vendedores e vendedeiras ambulantes, com os seus cestos e canastras de peixe fresco e bela fruta, que ecoavam na curta artéria, competindo com os cânticos dos afiadores de facas e navalhas e o ruído metálico dos “eléctricos” que, vindos da Rua da Palma, subiam a dos Cavaleiros. A minha primeira escola situava-se num primeiro andar da Rua do Benformoso e, graças aos cinquenta centavos que o meu pai me dava, embevecia-me, aos domingos, no excitante Salão Lisboa com os primeiros filmes a que assisti, os de Fred Astaire e Ginger Rogers, do Tyrone Power, do Errol Flyn e outras “estrelas” da época. Mudámos mais tarde para um apartamento maior, na Rua da Prata, quase à esquina da Praça da Figueira, cujo popularíssimo mercado, obra carismática do período do ferro, era uma espécie de lugar de convívio dos habitantes da zona. Em seu redor, vendiam gravatas os primeiros chineses que conheci, com os quais criei uma empatia pessoal ao ponto de, com o consentimento dos meus pais, eles me ensinarem a jogar majongue nos seus exíguos quartos alugados atrás do nosso prédio, na Rua dos Douradores, onde passei a frequentar a Escola de São Nicolau, tendo então por colegas alguns rapazes que viviam no Beco do Rosendo.

Tão perto da minha casa, tornaram-se obviamente assíduos os encontros naquele beco com os companheiros escolares, aos quais se juntava cada vez maior número de miúdos, entre os ali também residentes e outros das redondezas. E, claro, tinha que haver sempre futebol com bolas de trapos… Calorosas disputas num pavimento empedrado, duro e irregular, frequentemente interrompidas pela aproximação da polícia, da qual por vezes não lográvamos escapar – sendo levados à esquadra da Mouraria, onde permanecíamos retidos até os nossos irritados pais nos resgatarem… Alguns dos improvisados futebolistas tinham, de facto, grande jeito e um deles, o Inácio, até chegou a jogar na equipa principal do Belenenses.

A vida efémera do Rosendo Atlético Clube Estávamos nos primeiros anos da década de 40. Do espírito de união, solidariedade e idealismo cimentado entre amigos brotou a decisão de se fundar uma colectividade desportiva, a que, por minha proposta, foi atribuída a designação de Rosendo Atlético Clube, e da qual – contaminado pelo entusiasmo da rapaziada – foi generoso patrono o pai do nosso colega Manuel, o senhor Romão, que morava em frente do beco, no último prédio da Rua da Madalena, de esquina para o Poço do Borratém, e em cujo vão de escada possuía uma pequena retrosaria. O emblema tinha a forma de um escudeto triangular e o equipamento era composto por camisola branca com gola azul e calções também azuis, em grande parte costurado graciosamente por familiares dos sócios. Com as receitas provenientes de quotizações, sorteios e, sobretudo, de festas e arraiais – geralmente muito concorridos – conseguíamos alugar diferentes campos de terra batida para os jogos com outras agremiações bairristas. Mas, o Rosendo não se dedicava apenas ao pontapé na bola. Organizava também competições internas de saltos em comprimento e triplo salto, no próprio beco; jogos de damas ou xadrez, em casas de alguns sócios; bilhar ou pingue-pongue, em diversos locais da zona; e corridas pedestres, abertas a membros e populares, nas quais algumas vezes participei, com partida do Largo do Caldas, seguindo pelas ruas da Madalena, da Betesga, dos Fanqueiros e Conceição, voltando à

Madalena para subir até à meta, no ponto inicial. Infelizmente, o Rosendo Atlético Clube teve uma existência demasiado efémera – sem deixar história – previsivelmente encurtada pela natural evolução da maturidade e a inevitável dispersão dos seus associados por outras paragens, rumo à esperançada realização académica ou profissional – que para mim começou com uma breve experiência de praticante num pequeno escritório instalado na única divisão do terceiro andar de um encolhido prédio da Rua da Mouraria, mesmo em frente da Capela da Senhora da Saúde e, ironicamente, quase ao lado da esquadra policial de má recordação... Conservo absolutamente intacta, no entanto, a memória gratificante desses irrepetíveis tempos impregnados de ingenuidade e romantismo, que contribuíram para a modelação da nossa personalidade. Lá bem longe de Portugal – onde vivi e trabalhei durante três décadas e meia – escutar “Ai, Mouraria” ou “Há Festa na Mouraria” fazia sentir-me intensamente mais próxima essa lembrança inspiradora e tão profundamente sentimental… Quando, decorridos anos sem conta, retornei ao velho e hoje desconsoladamente degradado Beco do Rosendo – a fim de contactar pessoalmente a Associação Renovar a Mouraria, obra de raro amor, digna de todo o apoio – tornou-se-me impossível deter a emoção instantaneamente provocada pelo perpassar vertiginoso do filme mental das recordações da minha infância neste venerando bairro, tão humanamente rico e historicamente característico da minha querida Lisboa – no qual nasci, cresci, brinquei, estudei e desfrutei de tantas genuínas e estimulantes amizades. César Ferreira Faustino nasceu em Lisboa, na freguesia do Socorro, em 26 de Dezembro de 1930. Viveu 35 anos na Suécia, onde fundou e dirigiu o Centro de Turismo de Portugal para a Escandinávia e a primeira delegação comercial portuguesa nos países nórdicos – tendo sido, ainda, conselheiro de imprensa, adido comercial e de turismo das embaixadas de Portugal em Estocolmo e Helsínquia. Redactor do “Diário de Lisboa” e de “O Comércio do Porto” (Delegação de Lisboa), entre 1952 e 1961. Redactor e produtor da Rádio Nacional da Suécia (Secção Portuguesa), entre 1961 e 1972. É presidente da Assembleia Geral da Associação dos Jornalistas Portugueses de Turismo.


Rosa Maridja

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notícias ARM

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Visitas guiadas revelam o bairro

Carla Rosado

Quem não conhece, não pode gostar. Este foi o mote que levou a Associação Renovar a Mouraria a desenvolver, desde 2008, o projecto das visitas guiadas. Os ingredientes estavam lá: a riqueza histórica e sócio cultural de um bairro antigo, que tem a capacidade de nos encantar, pela sua diversidade e vida dinâmica. Como somos da Mouraria, inovámos, enriquecendo a tradicional e clássica visita pelo bairro, com os testemunhos e estórias de vida daqueles que vivem e trabalham na Mouraria. As visitas destinam-se a todo o tipo de públicos: particulares e institucionais, portugueses e estrangeiros, com visitas em diversas línguas estrangeiras. Temos um especial carinho no trabalho com grupos, escolas, associações e centros de dias da comunidade, com quem trabalhamos através um programa inclusivo. Em breve, teremos cinco novos percursos, associados a cinco temáticas. Para a concretização deste projecto, a associação tem vindo a formar guias locais, contribuindo para a criação de emprego e valorização profissional e pessoal dos residentes da Mouraria. É possível marcar passeios para grupos (incluindo escolas), com preços especiais. A programação mensal actualizada está sempre disponível no site renovaramouraria.pt ou no facebook da ARM. Se precisar de mais informações, pode também dirigir-se à Mouradia, no Beco do Rosendo, nºs 8 e 10, através dos telefones 218 885 203, 927 522 883, ou pelo endereço visitasguiadas@renovaramouraria.pt. RM

Já inaugurou a Mouradia, a Casa Comunitária da Mouraria Depois de dois longos anos de angariação de fundos, candidaturas a apoios e obras, a Mouradia – Casa Comunitária da Mouraria, abriu as suas portas no dia 8 de Dezembro de 2012. A Mouradia é um espaço gerido pela Associação Renovar a Mouraria e que resultou da reabilitação total de um edifício camarário, com um projecto de arquitectura do Atelier Artéria. Casa de todos e para todos, alberga inúmeras actividades sociais e culturais, para pessoas de todas as origens e idades. Ponto de encontro entre a cultura bairrista e as inúmeras expressões culturais do bairro, a casa assume-se como um local de convívio, cultura, formação e festa. A Mouradia é constituída por dois pisos. No piso térreo funciona uma cafetaria, onde são servidas refeições de gastronomia do mundo, onde se podem ver e ouvir concertos, cantar num karaoke ao vivo, onde qualquer um pode organizar um jantar para um grupo de amigos ou propôr-se a cozinhar. Aqui também se realizam festas de aniversário para os mais pequenos, abrindo-se as portas às crianças do bairro e da vizinhança. No piso 1, fica o espaço multifunções, onde decorre o projecto Saúde para Todos, centrado na prestação de cuidados de saúde na área das medicinas alternativas, bem como as actividades permanentes de apoio à comunidade: apoio ao cidadão, apoio ao estudo, português para imigrantes, alfabetização, aulas de ballet para crianças e aulas de guitarra. Para além da programação permanente, desenvolvem-se diversas actividades temporárias, abertas ao público em geral e com diferentes escalões de preços para residentes e trabalhadores no bairro, tais como: oficina de ilustração para crianças, pais e avós; curso de Chinês; Aulas de Yoga, entre outras. A Casa Comunitária da Mouraria teve o apoio do programa BIP ZIP, da Câmara Municipal de Lisboa, em 2011 e 2012, e anseia por uma vida longa com todos os que fazem deste bairro um lugar tão especial e rico. MOURADIA junta as palavras Mouraria e moradia, um lugar para morar. MOURADIA rima com ALEGRIA. RM

Há Fado na Mouraria, o lançamento do audio e do livro Foi um parto difícil, mas nasceram enfim o áudio e o livro resultantes do que teve início em 2010. Das tertúlias às eliminatórias, do troféu à gala final, todos os momentos do Concurso Há Fado na Mouraria estão agora eternizados na edição conjunta em CD e em livro com o mesmo nome, lançada no dia 30 de Maio, no Cinema São Jorge. Aqui foi possível ouvir os finalistas do concurso, acompanhados pelos músicos que gravaram o CD: Guilherme Banza, na guitarra portuguesa, André Ramos, na viola de fado, e João Penedo, no contrabaixo. Com o objectivo de trazer de novo o fado à Mouraria e de incentivar o aparecimento de novos poetas e intérpretes, o concurso teve várias eliminatórias, dezenas de letras inéditas, inúmeros intérpretes amadores e uma fantástica gala, no Teatro da Trindade, na qual participaram 15 finalistas e os convidados Diamantina Rodrigues, Artur Batalha e Ruca Fernandes. A edição em CD apresenta a gravação em estúdio e com acompanhamento de excelência dos 15 finalistas, fadistas amadores de várias partes do país, cantando os poemas inéditos levados a concurso sobre músicas de fados tradicionais. O livro traz-nos as partituras, tablaturas e cifras dos fados gravados,

na transcrição do mestre António Parreira, um texto sobre a relação da canção com o bairro, de Sara Pereira, directora do Museu do Fado, e uma antologia de fados que cantam a Mouraria, organizada por Oriana Alves, investigadora da poesia de Fado. Para memória futura registam-se ainda as várias etapas do concurso, das eliminatórias à construção do Troféu Maria Severa, sem esquecer a figura tutelar de José Manuel Osório, consultor do evento e presidente do júri, aqui evocado por José Jorge Letria. O CD+Livro Há Fado na Mouraria encontra-se à venda na Mouradia – Casa Comunitária da Mouraria, na Editora BOCA, parceira do projecto, e nas lojas FNAC. RM

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Rosa Maria nº 5 junho · dezembro

Fotografia Carla Rosado /Ernesto Possolo Depoimento recolhido por Ernesto Possolo Ilustração Bruna Graça

O Grupo Excursionista e Recreativo

Grupo Excursionista e Recreativo do Intendente

Para além dos restaurantes chineses da Rua do Benformoso, um dos estabelecimentos que a Marta mais frequenta é o Restaurante Cova Funda do Intendente, no n.º 20-A da Rua Cidadão João Gonçalves. É uma antiga e tradicional “casa de pasto”, agora restaurante, completamente remodelado, onde se come uma boa refeição caseira da tradicional culinária portuguesa e se ensaiam e ouvem afinadas concertinas.

Cova Funda

A Largo Residências é uma resposta de âmbito artístico, sociocultural e de alojamento local e turístico, “onde se dorme, pensa e produz”. As duas instituições complementam-se, tendo diferentes âmbitos e abordagens. No caso da SOU, “são as pessoas que a procuram, no caso da Largo, são as pessoas que são procuradas”. Na SOU, paga-se uma mensalidade, na Largo é gratuito, sendo sustentado pelas candidaturas aos projectos financiados e pelo alojamento local e turismo. Apesar de estar pensado um estúdio dentro do edifício da Largo, os palcos principais da Largo são o próprio Largo do Intendente, as ruas, as casas, os bares e as outras entidades que fazem parte do bairro. “No fundo, é um trabalho de mediação local, onde são vividas as noites e os dias, onde se privilegiam as relações humanas, os momentos de verdade e é dignificada a condição humana.”

Largo Residências

passeando com Marta Silva

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lavandaria da Rosa

O Sport Clube do Intendente comemora 80 anos. Fundado em 1933, é um espaço que Marta Silva visita habitualmente, um clube de bairro com um espaço multifuncional, divertido e de convívio, onde se pode beber, ouvir música, ver espetáculos, jogar ténis de mesa e bilhar, entre outras actividades.

Outro sítio de referência para a Marta é a lavandaria da amiga Rosa Riveiro, na Rua do Benformoso, 270. Além de oferecer serviços de lavandaria e de costura, é um sítio especial, de convívio e de solidariedade bairrista, onde as vizinhas falam, desabafam e partilham as alegrias e tristezas da vida.

Sport Club do Intendente

Marta foi a madrinha-mor dos nove bares do Dia (I), realizado a 11 de Maio. A iniciativa envolveu cinco bares da Rua dos Anjos (New Times, Trinitá, Securas, Ferro Velho e Anjos Bar) e quatro da Rua do Benformoso (Palma, Sarriá, Cantinho do Benformoso e Tominho). O Dia (I) pretendeu tornar visíveis os momentos de criatividade, arte, cor, convívio, música, vida e alegria vividos no Intendente. Entre as três da tarde de sábado e as duas horas da madrugada de domingo, houve ruas enfeitadas, muita animação e música, DJ’s, bandas, fanfarra, jazz, blues, funk, concertinas, exposições, oficinas de pintura, sessão de desenho erótico, workshops de Bollywood e Sabar, dança e batucadas africanas, torneios de setas e de matraquilhos, futebol na TV, cocktails criativos e culinária.

Dia (I)

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Rosa Marija

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Quando é possível, a Marta termina as suas noites nos Anos 60, Largo do Terreirinho, 21, na Mouraria, um bar inaugurado nos anos 90 e que fecha mais tarde, onde pode conviver num ambiente intercultural, beber, dançar e ouvir ao vivo músicas do mundo.

“O Intendente é um território fantástico e um grande desafio! Como enfrentar e desmontar o bicho? Como entrar num local conotado com a marginalidade, os vícios e combater o preconceito?”, questiona Marta Silva, a criadora da Largo Residências, no Intendente. Marta nasceu no Porto, em 1978. Formada em Dança pela Escola de Dança Ginasiano e licenciada em Ciências da Educação pela Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto, desde meados dos anos noventa, trabalha com vários coreógrafos em projectos de dança independentes. Fundou três associações culturais no Porto, vocacionadas para a formação, criação, organização, produções artísticas e coreográficas. A partir deste período, ensina dança criativa para crianças e dança contemporânea para adultos, em bairros sociais e em contextos sócio-educativos carenciados. A partir de 2001, e durante oito anos, entra em digressão como intérprete na Companhia Paulo Ribeiro. Desde 2007, tem trabalhado regularmente em projectos da coreógrafa Madalena Victorino e é mãe do Gabriel. Dois anos depois, torna-se directora artística e coordenadora pedagógica do SOU Associação Cultural, com sede nos Anjos. Como consequência deste projecto, surge, em 2011, no Intendente, a LARGO Residências artísticas e turísticas, da qual é directora artística e executiva.

Anos 60

A Marta visita frequentemente as suas vizinhas do lado, o Café O das Joanas. As duas Joanas são a Vaz da Silva e a Synek, que também são madrinhas de outros Bares do Dia I. Neste espaço, para além da simpatia, pode disfrutar dos petiscos, animação e de uma magnífica esplanada.

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O das Joanas

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“Os Amigos do Minho”, fundado em 1950 e instalado num edifício de meados do século XIX, no N.º 244, 1º, da Rua do Benformoso, também se revela um lugar muito querido pela Marta. É um acolhedor espaço cultural e recreativo, com ambiente familiar e de vizinhança, onde se pode conviver, realizar festas e reuniões, dançar, ouvir música, beber, petiscar e comer uma boa refeição. No quintal, pode ver-se a única e magnífica vinha da cidade de Lisboa.

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reportagem

Fexto Paula Lino Fotografia Sandra Bernardo

O teatro vive no Centro de Dia do Socorro Maria Dalila, Carlos Silva e Jorge Bastos são três testemunhos vivos da história do teatro nacional, no século XX. Atualmente, passam os seus dias no Centro de Dia de Nossa Senhora do Socorro.

Maria Dalila Sousa Branco Magalhães nasceu a 29 de Maio de 1936. Na juventude, trabalhou no restaurante do seu tio, o “Sobe e Desce”, onde trouxe ao de cima a veia artística, a cantar fados. Encontrava lá muitos artistas do meio teatral: Maria Valente, Henriqueta Maya, João Perry, Irene Cruz e Ivone Silva. Pouco tempo depois, foi trabalhar nas limpezas do Teatro Villaret, mas acabou a fazer muito mais. Ajudou a vestir muitos artistas e penteou alguns. E, o mais importante, chegou mesmo a entrar em cena. Num dia de espetáculo, cujo nome da peça Dalila já não se lembra, faltou uma das figurantes e ela teve a sua primeira experiência em palco. Fazia de namorada de um dos atores. Mas não acabou aqui essa experiência. A mesma figurante voltaria a faltar e, desta vez, Dalila era a mulher de um casal em discussão. Dalila recorda a beleza e a magia que todo aquele mundo artístico vivia - “Metia-se cá na pele”, “ Mas não havia ninguém que me puxasse”, “ Ficou o bichinho, a vontade de ser artista! Gostava de ter feito comédia, no tempo dos atores Laura Alves, Beatriz Costa e Henrique Santana”.“Sentia-me outra, uma mulher cheia de vida”. Hoje, para a Dalila, o teatro morreu. Falta público e não se compara aos tempos antigos. Trabalhou no Teatro Villaret, durante cinco anos e saiu apenas porque estavam a dispensar trabalhadores.

Carlos Barros Martins da Silva, ou Carlos Silva, nome de artista, nasceu a 26 de Outubro de 1930. Com apenas 4 anos, atuou no cinema Royal Cine, a convite do seu irmão Mário Silva, cantador de fados. Estreou-se a cantar “A minha mãe coitadinha” - “Foi um sucesso! Atiraram-me com dinheiro e a Berta Cardoso, cantadeira de fados, pegou-me ao colo”, recorda. A partir daqui, começou a trabalhar no teatro. Passou pelo Teatro Apólo, onde ganhou dinheiro pela primeira vez (20 escudos por cada noite de espetáculo e 10 escudos por cada ensaio). Trabalhou neste teatro com Maria das Neves, Alberto Reis, Hermínia Silva e Sara Rafael. Participou numa opereta com o nome “Flor de Santa”, no Teatro Maria Vitória - tinha apenas 8 anos. Entrou ainda para a revista “Retalhos do Grandela”, no Odeon (frente ao Olímpia). Foram muitas as peças a contar com a sua participação. Carlos Silva esteve até próximo de entrar no filme Aniki Bóbó (1942), de Manoel de Oliveira. O convite surgiu do amigo da família, ator e realizador, Nascimento Fernandes, que integrou o elenco como lojista. Mas não chegou a concretizar-se - “ O meu pai não queria que eu seguisse teatro e não me deixou participar. Dizia que era uma profissão ingrata”, lembra. Depois disto, foi distribuidor de “boas alfaiatarias” e assim esteve durante 10 anos.

Jorge Vasco da Costa Holbeche Bastos, ou Jorge Bastos, como é conhecido, mostrou cedo os seus dotes de bailarino. Estreou-se com sete anos numa opereta intitulada “O fado”, por influência da família. Aos 16 anos, participou na opereta “Os liberais”, no Teatro Variedades e, depois, entrou para a escola Ciclo de Iniciação Coreográfica. Participou em diversos espetáculos nacionais, um dos quais teve a presença da Rainha Isabel II de Inglaterra e o filho do presidente do Paquistão, Iskaner Nizza. Foi dançarino no Verde Gaio, o ballet do Estado. Sucederam-se muitos espetáculos, neles tendo trabalhado com inúmeros artistas nacionais e até internacionais. Foi o caso de Maria Callas, considerada a maior celebridade da ópera no séc. XX. De todos os espetáculos que fez, a revista “Zero Zero Zé, Ordem Para Pagar” e “O Diálogo das Carmelitas”, ópera exibida no São Carlos, foram os que mais significado tiveram para Jorge. Na revista “Zero Zero Zé, Ordem Para Pagar”, teve a oportunidade de trabalhar com nomes como Florbela, Maria Dulce, Leónia Mendes, Zé Viana, Carlos Coelho, António Calvário, Ligia Teles, Maria Ema, Salvador, Luís Horta, Vera Sander e Toni de Matos. Recorda com especial carinho Aida Batista, Ivone Silva, Maria Domingos e as fadistas Anita Guerreiro e Cidália Moreira. Aos 76 anos, Jorge Bastos teve de enfrentar de deixar o teatro, devido a um derrame numa perna. Ainda assim, foi ensaiador das marchas da Mouraria, São Vicente, Penha de França e Bairro Alto.

Mas o teatro voltaria a fazer parte da sua vida. Com 30 anos, assinou contrato com o Teatro da Trindade sem nunca deixar de exercer a profissão de distribuidor de fatos. Dez anos mais tarde, foi chamado para o Teatro Nacional e assinou contrato por seis meses. Mas sempre com o trabalho nas alfaiatarias, que, este sim, era um trabalho seguro. Hoje, Carlos continua a dar música aos companheiros do Centro de Dia e ainda recebe convites para participar em vários teatros. Resta-lhe uma enorme saudade dos tempos que já lá vão, dos quais guarda as mais profundas emoções - “Noutros tempos, o teatro era uma coisa com mais valor”.


Rosa Marija Texto e Fotografia Rita Pascácio

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Clube JovemTaborda

Teatro de porta aberta Costa do Castelo, 3 horas da tarde de um sábado soalheiro, uma rua calma, uma porta aberta no nº 75. Vários jovens surgem... Está na hora do clube de teatro jovem do Teatro Taborda. dancei várias vezes para o público”. Mas admite que o nervosismo acaba por estar sempre presente e é normal que assim seja. Margarida e Ítalo estudam teatro e querem ser atores. Estão no clube porque consideram que é uma atividade extra-curricular importante para quem quer seguir teatro e adquirir experiência. É também um complemento à formação, pois proporciona coisas diferentes. “Na escola, o teatro é mais convencional, aqui é mais experimental”, diz Margarida, que gosta da liberdade que o encenador lhes dá para propor, experimentar, improvisar, permitindo que cada um se expresse e seja criativo. “Nos clubes, a participação de todos é valorizada”, conta.

os clubes é suscitar o gosto pelo teatro e criar novos públicos, missão que, segundo João Belo, “tem vindo a ser alcançada, pois verifica-se que os participantes dos clubes assistem regularmente aos espetáculos do Taborda, trazendo também familiares e amigos.” Para a composição do clube de teatro sénior, o Teatro da Garagem conta com a colaboração de centros de dia da zona, nomeadamente o do Socorro e o de São Cristóvão. Alguns participantes estão no clube há já vários anos e chegam a ser convidados a participar em espetáculos da companhia e ir em digressões.

Apresentação dos Clubes de Teatro 2013

O Teatro da Garagem, companhia residente no Taborda desde 2005, desenvolve desde então um trabalho com a comunidade local, procurando a aproximação desta ao Teatro. O Serviço Educativo do Taborda dinamiza os clubes de teatro júnior, jovem e sénior, que são normalmente orientados por atores da companhia. Este ano, o clube de teatro júnior é orientado por um mestrando em Teatro e Comunidade que opta por fazer algumas sessões fora do espaço do Taborda. “Esta semana a sessão foi na praia”, conta João Belo, da produção do Tea-

No clube jovem, os participantes têm entre 14 e 18 anos. Pedro e Marta, irmãos, participam juntos nos clubes de teatro do Taborda há 4 anos e são os mais velhos do grupo. “Participamos todos os anos porque gostamos e aprendemos sempre algo novo”, contam. Para outros participantes este é o primeiro ano. “Quando o meu pai trabalhou numa obra aqui no Teatro, viu um anúncio sobre estes clubes, disse-me e eu fiquei logo interessada”, conta Bárbara, de Odivelas. Igor, o primo, também participa porque gosta de experimentar coisas novas e conta que para ele “as sessões são um espaço onde se pode expressar, relaxar e divertir”. Quanto à apresentação pública do espetáculo, Bárbara confessa: “já estou habituada, porque já

DESIGN: CML | DEPARTAMENTO DE MARCA E COMUNICAÇÃO | maio 2013

“Romeu e Julieta”, de William Shakespeare, foi a escolha de Nuno Nolasco, ator e orientador do clube de teatro jovem, para este ano, pois considera que os jovens com que trabalha desde janeiro “estão à altura do desafio”. A partir do texto, os participantes fazem vários exercícios de improvisação, que poderão dar origem a cenas do espetáculo a ser apresentado ao público no fim das sessões. Desta forma, os jovens participam ativamente no processo criativo de um espetáculo de teatro experimental.

Júnior - 15 de Junho | 21h30 Jovem - 21 e 22 de Junho | 21h30 Sénior - 29 de Junho | 16h

tro da Garagem, que também explica que estes clubes estão abertos a todas as crianças, adolescentes e idosos que queiram experimentar e conhecer o fantástico mundo do teatro – desde o trabalho de ator ao texto, passando pelo cenário, pelos figurinos, pela luz e pela música. Os clubes decorrem semanalmente, de janeiro a junho, e a inscrição tem um custo simbólico de €25, valor que pode ser revisto caso a caso. O principal objetivo do Teatro da Garagem com


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reportagem

Texto Pedro Santa Rita Grafismo In “Os mais antigos cinemas de Lisboa”, de Félix Ribeiro Fotografia Arquivo Municipal de Lisboa

Quando a Mouraria viu nascer o cinema em Portugal Hoje é preciso sair do bairro para ver um espectáculo de cinema ou teatro. Antigas salas estão transformadas em sapatarias ou armazéns de roupa. Por isso, para muitos será provavelmente surpresa a descrição que agora segue. De um tempo em que o cinema dava os primeiros passos em Portugal... e na Mouraria. Mr. Rousby. Em cartaz três fantásticos quadros: ‘Dança Guerreira’, ‘Bailes parisienses’ e a ‘Ponte nova em Paris’, repete-se a opereta em 3 actos, de costumes populares ‘O Comendador Ventoinha’”. O Cinematógrafo dos irmãos Lumière era uma câmara escura, que emitia um feixe de luz. As fotografias (clichés), dispostas sucessivamente numa película enrolada numa bobine, passavam ao ritmo de uma manivela, sobre aquele foco. A substituição rápida dos clichés através da luz produzia a ilusão do movimento. A estreia do Animatógrafo foi um estrondoso sucesso. Durante meses o público não arredou pé do Colyseu. As enchentes junto à bilheteira congestionavam a rua, atravessada pelas carretas dos hortelões, lavadeiras e leiteiros. O ecrã projectava realidades e paisagens tão distantes como: um cabeleireiro em Washington, a chegada do comboio à estação de Calais, ou a “A dança Serpentina”, que celebrizou a dançarina Loi Fuller no Cabaré Folies Bergères de Paris. A partir de Setembro, o projeccionista Mr. Rouby inicia uma nova temporada no Real Colyseu, com uma série de quadros fotografados em Portugal. Estes terão sido os primeiros registos cinematográficos do país, entre os quais podemos encontrar a “Boca do Inferno em Cascais”, a “Praia de Algés na ocasião do banho” e o “Fado Batido”, que é o primeiro registo cinematográfico do fado de finais de oitocentos. O Real Colyseu transforma-se na Garagem Lys em 1933.

Cinema sonoro no ringue do “Paraíso” Corria o ano de 1912 quando, ao lado do Real Colyseu de Lisboa, é construído o Paraíso de Lisboa. O novo recinto de diversões oferecia esplanadas, stands de tiro ao alvo, salões de cinema e um grande ringue de patinagem. Até à abertura do Parque Mayer, em 1922, o Paraíso de Lisboa foi um dos mais procurados locais de diversão lisboeta. Foi aliás no ringue do Paraíso, que se fizeram as primeiras experiências do cinema sonoro em Portugal. Técnicos franceses da empresa Gaumont filmaram a canção Nos tempos que correm, encontrar uma sala de espectáculos, entre a praça Martim Moniz e os Anjos, através da rua da Palma e da avenida Almirante Reis é uma impossibilidade. Mas nem sempre foi assim. Desde a segunda metade do século XIX, esta zona foi recebendo teatros, cinemas e o primeiro Coliseu, numa das maiores concentrações das artes do espectáculo na cidade de Lisboa. Com excepção do teatro Apolo, ainda podemos encontrar alguns dos edifícios das animadas salas de espectáculos de outrora, com outros usos e com as fachadas modificadas ao sabor das modas do comércio local.

O Animatógrafo estreou na Mouraria Foi na movimentada Rua da Palma que se inaugurou o Real Colyseu de Lisboa. No seu cartaz de espectáculos predominava o circo, sem esquecer as comédias musicais, as operetas e o teatro de revista. A 18 de Junho de 1896, o Real Colyseu entra nos anais do espectáculo em Portugal, ao exibir pela primeira vez o invento do Animatógrafo - dois meses depois da Paul’s Animatograph Works, Lda o ter estreado no Olímpia de Londres. À data, a imprensa lisboeta, anunciou a novidade em grandes parangonas: “Real Colyseu – às 8 ¾ - Estreia do Animatógrafo ou a photographia viva, prodigiosa novidade apresentada por

“Grisette”, interpretada pela fadista Júlia Mendes. Em 1936, a Federação Espírita Portuguesa constrói nos terrenos do Paraíso um prédio. Adaptado a sala de espectáculos abriu as suas portas ao público como cinema Rex. Nos anos 80, esse cinema é transformado em teatro, com o nome da célebre actriz Laura Alves. Teatro de revista por excelência, foi aqui que a actriz Ivone Silva fez a sua última actuação antes de falecer, em 1987, com a peça “Cá estão eles”. Encerrado o teatro, o edifício foi explorado como armazém de vendas, e recentemente pensão.

Entre o Apolo e o Piolho Inaugurado em 1916, o Salão Lisboa estava para a Mouraria popular como o cinema Lys, edificado em 1930, estava para a Av. Almirante Reis dos bairros pequeno-burgueses, como o bairro Andrade. O Salão Lisboa ou cinema Piolho, como era conhecido, exibia séries contínuas de cóbóiadas numa sala de 500 lugares. O Cinema Lys, situado no gaveto da Almirante Reis com a rua dos Anjos, especializara-se em repor os êxitos que os cinemas elegantes de Lisboa estreavam. Em 1972 o Lys passa a chamar-se Roxy. Encerra as portas como cinema em 1988 e transforma-se na “Sapatolândia”. O cinema Piolho é desde 1972 uma loja/armazém de roupa. Sinais dos tempos? Terminamos o nosso roteiro, com a primeira e a última sala de espectáculos construída na Mouraria. O teatro do Príncipe Real, inaugurado em 1865 que depois mudou o nome para Apolo, foi demolido em 1957, abrindo mais um vazio no bairro. Das comédias aos grandes dramalhões, passando pela revista, foram muitos os actores e actrizes que pisaram este palco: de Chaby Pinheiro e Palmira Torres a Beatriz Costa e Vasco Santana. Das suas inúmeras peças contam-se o “José do Telhado”, a “Severa” ou a Opereta “Colete encarnado”. Nos seus terrenos, foi construído nos anos 80 o Centro Comercial da Mouraria. O teatro AdHoc chega à Mouraria depois do 25 de Abril. Veio com a liberdade de expressão, para apresentar revistas de renovada piada política, em tempos de brasa.


Rosa Marija Texto Marisa Moura Fotografia Sandra Bernardo

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Vencer a vergonha do analfabetismo Oito adultos estão a aprender a ler e escrever na Mouradia. Todos homens. Também havia mulheres na lista, mas ainda não ultrapassaram os preconceitos. Preferiram não arriscar. Aqui fica o testemunho de quem já desafiou o medo e descobriu uma vida melhor. a outra metade, compro o passe e, depois, só sobra um bocadinho para comer”. Ainda tentou ser segurança, “mas tinha de saber ler e escrever; em qualquer trabalho fora das obras tem de se saber ler e escrever”.

Portas fechadas à alfabetização

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professor avisa: “Hoje não é cópia. Ninguém escreve a palavra sem primeiro ter lido”. Alguém está a fazer batota, o professor insiste no aviso. Fala para crianças traquinas? Não. Fala para os adultos do curso de alfabetização da Mouradia, a casa da Associação Renovar a Mouraria. Ali aprendem a ler e escrever oito alunos, desde Janeiro, num curso de seis meses. Para começar, aprendem palavras sobre futebol e identidade. Já sabem escrever o nome e muito mais. O professor chama-se Manuel Oliveira, tem 43 anos e há mais de uma década que ajuda no combate a uma das estatísticas mais tristes da humanidade: 20% da população mundial é analfabeta, em pleno século XXI. E Portugal continua a ser o país com mais analfabetos na Europa. Meio milhão de residentes não sabe ler nem escrever. É 5,2% da nossa população. Melhor do que há dez anos, quando era 9%, mas ainda é um grupo enorme. Os alunos da Mouradia faziam parte desse grupo, até ao ano passado. Agora, estão entre os quatro milhões de adultos que estudam ao longo da vida, segundo o Instituto Nacional de Estatística, que con-

tabilizou todos os residentes em Portugal com idades dos 18 aos 69 anos que estiveram a estudar em 2011.

Sem ler nem escrever, só nas obras “Cada dia sinto que estou a virar outra pessoa”, testemunha António Carlos Macedo, 52 anos, mais conhecido por Káká. “Só sabia escrever o meu nome, e não muito bem. Agora, basta ter calma, e consigo ler muita coisa”, conta entusiasmado. Nos últimos anos, pouco mais fez na vida além de procurar um sítio para estudar, fazer fisioterapia e conviver com amigos. A mulher e os quatro filhos estão em Cabo Verde, donde veio há doze anos, seduzido pelo patrão português. Trocou o emprego de porteiro num cinema da cidade da Praia pelos cinemas do Colombo. Mas, afinal, o salário ainda era mais baixo, e, por isso, foi para as obras. Aí esteve até que um acidente de trabalho lhe tirou a força do braço direito, em 2005. Reformou-se. “Recebo, todos os meses, 237 euros e a Santa Casa ajuda a pagar metade da renda. Pago

É difícil encontrar projectos de alfabetização, quer para quem quer aprender, quer para quem quer ensinar. A Associação Renovar a Mouraria existe há cinco anos, mas só este ano conseguiu iniciar o curso. A presidente da associação, Inês Andrade, explica porquê. “Não tínhamos um espaço e é difícil encontrar espaços para aulas. A Mouradia só abriu em Dezembro”. Inaugurada a casa, a alfabetização começou logo no mês seguinte. Quem ficou radiante foi, claro, o Káká. “Procurei muito por alfabetização, mas diziam ‘a gente já não tem financiamento’. Até que uma doutora da Santa Casa me deu uma carta para eu vir aqui”. Já tinha tido algumas aulas na AMI, nas Olaias, mas o curso foi interrompido quando a professora perdeu a mãe e só agora o Káká encontrou nova oportunidade. Esta turma junta-se três vezes por semana. Cada um aprende ao seu ritmo. Há o Káká, que veio de família cabo-verdiana onde tinha dezasseis irmãos e nunca tinha estudado, além do curto período na AMI. Há o Carlos Fernandes, de 47 anos, que é o rosto do cartaz que publicita este curso. Frequentou a escola primária em criança. Conhecia as letras, mas não sabia ler. “Nunca me esforcei e também não tinha quem me ensinasse”, recorda Carlos, cidadão natural de Santa Clara, Coimbra, que nunca conheceu o pai e que veio para Lisboa, aos onze anos, trazido pelo padrinho de um dos dois irmãos, e vive na Mouraria há mais de duas décadas. Até ao ano passado, trabalhava num armazém, mas a crise roubou-lhe o emprego e agora recebe um subsídio inferior aos 400 euros líquidos que dantes trazia para casa, onde vive

com um dos três filhos. Como veio parar à alfabetização? “Já ajudava a Inês na associação, nas festas, a montar e desmontar, e a tirar cafés. Ela deu-me o conselho de estudar e eu achei bem, para aprender e distrair-me mais um bocado”. Nestas aulas está também Mamadou Balde, homem de 47 anos, nascido na Guiné-Conacri. Estudou cinco anos, mas em árabe. Motorista de profissão, chegou a Portugal em 2001, aterrando na Mouraria sem conhecer qualquer pessoa ou palavra portuguesa. Escrevia o nome e pouco mais, e só em letras árabes, desenhadas da direita para a esquerda. Tornou-se armador de ferro na construção civil, onde ainda está. “Você tem de decidir mesmo aprender qualquer coisa, senão está mal. Chegava ao metro e nem conseguia tirar um bilhete sozinho”, conta. A turma tem ainda o Suleimane Baldé, da Guiné-Bissau, mais o Abdulai Djaló e o Mamadu Keita, da Guiné-Conacri, e ainda o Bakari Keita e o Iancuba Koné, do Mali. Não foi possível conhecer todos, mas não faltarão outras oportunidades.

“Devagar se vai longe” Podia haver mais alunos se não fosse o medo. “Há a vergonha de assumir que não se sabe ler e escrever, sobretudo nos portugueses. Houve pessoas que acabaram por não vir, por causa disso. E as mulheres mais velhas não querem sair de casa à noite e vir para grupos onde estão homens”, lamenta Inês Andrade. Mas estes medos perdem-se num instante. “Quando cheguei à AMI, se a professora perguntava alguma coisa, eu ficava com vergonha. Mas isso vai desaparecendo. E aprender como separar as letras e os sons, nem é uma coisa do outro mundo. “Devagar se vai longe”, diz o Káká. Desperdiçou tempo na juventude. Agora, aos 52 anos, tenta recuperar e o seu próximo objectivo é tirar a carta de condução. “Eu podia ter estudado na tropa, mas estava mais preocupado em beber grogue e namorar. Agora, estou arrependido. Mas enquanto há vida, há lida”.


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4/5 7 Quinta/Sexta 21h30 Domingo 10h–20h30

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Largo do Intendente

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Quinta/Sexta 21h30 Teatro Largo da Achada Romancero Gitano

Sábado 21h30 Música Largo do Intendente Diabo na Cruz

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Sábado 22h–02h Música Bares do Intendente Noites (i)

Domingo 10–20h30 Largo do Intendente Dinamiza Mouraria Associação Cultural Sexta 21h30 Música Largo da Severa Júlio Resende e Gisela João Sábado 21h30 Música Largo do Intendente Aline Frazão e Rui Cruz Domingo 10h–20h30 Largo do Intendente O das Joanas Quinta 21h30 Música Largo do Intendente Orquestra Todos Sexta 21h30 Cinema Largo da Achada Ai Mouraria – Curtas do Bairro Sábado 21h30 Música Largo do Intendente Real Combo Lisbonense Domingo 10h–21h Largo do Intendente Casa Independente Sexta 21h30 Jantar/Concerto/Baile Largo da Rosa A Comida ConVida Sábado 21h30 Música Largo do Intendente Doismileoito e Manuel Fúria Domingo 10h–22h Largo da Achada Largo Residências/Carlos Barreto

Teatro Largo da Achada

Romancero Gitano

A partir da obra de Federico Garcia Lorca, um espetáculo com encenação de António Pires.

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Sábado 21h30 Música Largo do Intendente

Diabo na Cruz

Os Diabo na Cruz confirmam-se como um dos mais criativos, inovadores e estimulantes projectos da música que se faz actualmente em Portugal.

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Largo do Intendente

Dinamiza Mouraria Associação Cultural

Gaiteiros pelas ruas da Mouraria; Inauguração da exposição Mouraria; Almoço “musicado”; c.e.m. – centro em movimento; Roundabout LX; Tocadores da Escola de S. Brás; Fado; Cabace; Aldo Milá & Cia; Vasco Hernandez & Cia; Queimada com espectáculo de fogo.

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Sexta 21h30 Fado Largo da Severa

Júlio Resende e Gisela João Júlio Resende é um dos mais jovens e promissores pianistas da actualidade. Apesenta-se em Lisboa no Largo da Severa. Gisela João é uma jovem fadista que se vem afirmando como um dos nomes mais sólidos da nova geração de cantores do Fado de Lisboa.

Bares do Intendente

Noites (i)

“As Noites (i) já andam aí ... após um dia (i) em cheio – jornada de programação sociocultural nos Bares do Intendente (Rua dos Anjos e do Benformoso), organizada por um coletivo informal de habitantes que se uniu aos proprietários. Cá encontrarão um grupo variado de DJ’s, um concerto de música ao vivo, um set musical – com uma performer e um músico bem conhecido dos palcos nacionais –, um workshop de desenho erótico e de actividade pin up – com modelo em carne e osso. A cada fim-de-semana, torneios de tiro ao alvo, com setas, bem como exposições, intervenções artísticas e a exibição retrospetiva de fotografias do também vosso dia (i). Elas andam por ali... Noites (i)” Eles são: Cantinho do Benformoso, Tominho, Sarriá, Palma, Anjos, New Times, Ferro Velho, Trinitá e Securas! Quem vem? Djs: Martinez, Paolo, Lucky, IZem, João Rosa, Mae Dela, Assírio, Full Moon, GMS, El Azul, Kilu, Bopa Go Go, Lucky Lu, Carlos Deluxe, David Varela, Single Again, Félix Lozano, El Gris, Monsier Papion, Calypso, entre outros… Ao Vivo: John Luz; Jorge Oliveira, Nataniel Melo, Presidente Drogrado; “7s”musicais: Crista Alfaiate, Carla Galvão, Rui Rebeto Friends Mais informações dia.intendente@gmail.com http://diaintendente.wordpress.com www.facebook.com/pages/Diai/500322180033560

13 Sábado 21h30 Música Largo do Intendente

Aline Frazão e Rui Cruz

Aline Frazão, a nova e aclamada sensação da música angolana acaba de lançar o seu mais recente CD Movimento. Aline é de Angola, mas a sua música facilmente viaja até ao Brasil e Cabo Verde com “ritmos quentes africanos e influências do jazz”. Voz carregada de alma, música de sonho, entre tradições e o que resulta de um espírito que viaja e que se revela inquietamente criativo: Movimento! Rui Cruz, Compositor, cantor cabo-verdiano e músico, não pode mais passar despercebido no mundo da arte. Um ritmo contagiante que segue suas origens africanas, através de uma voz única que pode fazer a diferença no campo da música.


O das Joanas Mercado de artes e ofícios populares e urbanos; Espectáculo de rua – O Meu Filho Manuel; Melech Mechaya

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Quinta 21h30 Música Largo do Intendente

Orquestra Todos

Criada em Lisboa, na multiculturalidade da Mouraria no Sport Clube do Intendente, a Orquestra Todos reúne músicos portugueses e imigrantes num projeto de aproximação de culturas através da música. São o som de uma Lisboa que é portuguesa, mas também africana, indiana ou sul-americana, formada por músicos dos quatro cantos do mundo, sob a batuta de Mario Tronco e Pino Pecorelli. A Orquestra Todos é um projecto do Festival Todos - Caminhada de Culturas, Academia de Produtores Culturais com o apoio da Câmara Municipal de Lisboa (GLEM-Gabinete Lisboa Encruzilhada de Mundos) e a Fundação Calouste Gulbenkian.

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Sexta 21h30 Cinema Largo da Achada

Ai Mouraria – Curtas do Bairro

Um dia de vida na Mouraria. Em aproximadamente 48 planos, de um minuto cada, mostra-se como se vive o dia-a-dia deste bairro. O desafio foi colocado a 24 habitantes: escolher um lugar para colocar a câmara e filmar 1 minuto dessa Mouraria de cada um. O protagonista aqui é o próprio bairro, do amanhecer até ao dia seguinte. Coordenação de projeto Maria Joana Figueiredo

Música Largo do Intendente

Real Combo Lisbonense

Com um repertório essencialmente construído por clássicos de sempre e pérolas perdidas da música portuguesa, o Real Combo Lisbonense é uma formação que recupera, sob uma perspectiva actual, o espírito e a vocação das orquestras e conjuntos de baile dos anos 50 e 60. Novos e menos novos, ricos, pobres e remediados – a todos, com um piscar de olho, o Real Combo Lisbonense convida para a dança!

21 Domingo 10h–21h

Largo do Intendente

Casa Independente

Ateliers de Culinária para Crianças; Massa Com Coisas; Ateliers de Jardinagem Urbana; Construção de Bombas de Sementes; Construção de Hortas Verticais; Intervenção Artística; Colectivo de Dj’s e Churrasco; Concerto no Largo

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Sexta 10h–22h Jantar/Concerto/ Baile Largo da Rosa

A Comida ConVida

Um jantar-concerto-baile que cruza os ingredientes, passos de dança e sons das culturas Indiana, Africana, Romena, Chinesa e Portuguesa. Um elenco composto por Cozinheiros amantes da música e dança, com Bailarinos e Músicos apreciadores da Gastronomia. Criamos, provamos e ensinamos uma Sopa única que mistura ingredientes, passos e sons, mas propomos também um arroz de cada canto do mundo – o ingrediente que cruza culturas, mas que num determinado momento divide o jantar em bailes diferentes.

30/05/13 18:14

Música Largo do Intendente

Doismileoito e Manuel Fúria e Os Náufragos Os doismileoito têm um dom natural para fazer boa música ao bom estilo indie-rock para dançar. Cantam em Português com uma forte pronúncia do Norte e são uma das mais interessantes bandas da nova fornada de Talento nacional. Manuel Fúria e Os Náufragos Manuel Fúria não é um cantor, tanto quanto o Padre António Vieira não é um escritor. Fúria é um compositor profundamente comprometido com as suas raízes: o Portugal rural feito de árvores, campanários, rixas e desamores, a Lisboa multicolor capital do seu coração, a transgressão do roque que vem do estrangeiro, as batidas de anca do Bairro das Murtas.

28 Domingo 10h–20h

Largo do Intendente

Largo Residências On the air

Partilh(ar): A partir do ar... – Processo participativo da montagem de uma instalação de arte pública – Susana Anágua; Picnic; Estamos no ar – acontecimentos performativos

28 Domingo 20h Música Largo do Intendente

Carlos Barreto e In Loko Band Encerramento do Festival

LARGOS_PROGRAMA_297x410.indd 2

Largo do Intendente

27 Sábado 21h30

Silvadesigners

14 20 Domingo 10h–20h30 Sábado 21h30


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Rosa Maria nº 5 junho · dezembro

reportagem

Texto e fotografia Marisa Moura

Lei das Rendas na Mouraria

Pacífica... até quando? Aumentos brutais de rendas, despejos desumanos

e falências no comércio tradicional. São medos que assolam os inquilinos desde que surgiu a nova Lei das Rendas. Os proprietários, esses temem a obrigação de obras sem dinheiro para as pagar. A Mouraria tem sido dos bairros menos atormentados. O que está a acontecer? O pânico instalou-se entre quem vive numa casa arrendada com renda antiga. Filas de espera inundaram as associações de inquilinos e cerca de 130 mil pessoas (incluindo senhorios) procuraram informações nos serviços do Instituto de Habitação e Reabilitação Urbana (IHRU) e, via internet, no Portal da Habitação, numa média de trezentas por dia, desde que foi publicada a nova lei do arrendamento, em agosto do ano passado. Trinta senhorios por dia continuam a solicitar informações à Associação Lisbonense de Proprietários. Já na Mouraria a situação é diferente. “Os senhorios aqui são pessoas conscienciosas”, dizem vários inquilinos da Mouraria, tanto em habitações particulares, como estabelecimentos comerciais. Poucos receberam cartas com propostas de aumento de renda, e os que as receberam acabaram por não sofrer subidas gritantes. Esta é a conclusão que se retira, após indagar a situação entre ruas e vielas do bairro. “Nos locais com populações mais tradicionais, como na Mouraria, as coisas tornam-se mais fáceis porque existe alguma proximidade entre senhorios e inquilinos”, justifica Luís Menezes Leitão, presidente da Associação Lisbonense de Proprietários. A bondade dos senhorios está por detrás desta tranquilidade, mas a principal explicação está nas idiossincrasias demográficas do bairro. Bairro mais jovem, menos rendas antigas A nível nacional há, no mínimo, 512 mil pessoas à beira de um ataque de nervos, pois são cerca de 256 mil os contratos que ficaram sujeitos a revisões por cada um deles há duas partes: inquilino e senhorio. Todos andam ansiosos em consequência da célebre Lei n.º 31/2012, também conhecida por “lei dos despejos”. Foi criada para dinamizar o mercado de arrendamento urbano e autoriza a liberalização das negociações das rendas nos con-

tratos anteriores ao ano de 1990, que estavam congeladas, bem como facilita os processos de despejo. As situações mais problemáticas de Lisboa estão em zonas como Alcântara, Anjos, Arroios, Avenidas Novas, Benfica e Campo de Ourique. “A Mouraria estava desertificada, mas na última década teve uma grande renovação de carácter social com os imigrantes que lá se instalaram”, explica António Machado, da direcção Associação dos Inquilinos Lisbonenses. As freguesias que compõem este bairro destacam-se, aliás, entre as catorze freguesias do país que registaram um fenómeno histórico nos últimos censos em 2011: a população, não só não está a envelhecer drasticamente, em linha com a tendência nacional, como, pelo contrário, rejuvenesceu. Resumindo: A maioria dos contratos de arrendamento na Mouraria é posterior a 1990, com rendas já em linha com os valores de mercado. Logo, não há tantos casos a serem revistos em alta.

Alguns nervos na Mouraria Todavia, também a Mouraria tem a sua dose de nervos por causa da nova lei. Tanto entre inquilinos como entre senhorios. “Ele queria aumentar umas quatro vezes, mas eu contestei por ser uma microempresa. Por isso o total anual da renda não pode ultrapassar 1/15 do valor patrimonial do imóvel, e a renda acabou por apenas duplicar, sensivelmente. A carta veio em Janeiro. Eu devia pagar a nova renda só em Maio, mas até comecei logo a pagar em Fevereiro, para ver se ele acalmava”, conta Eliseu Assunção Santos, 66 anos. É inquilino no Largo das Olarias, onde estabeleceu a sua drogaria há quatro décadas, após ter sido funcionário em supermercados. “Esta Casa Tem Tudo. Venha Ver. Bons Preços”, lê-se no anúncio improvisado numa placa amarela sobre a porta 46. A crise nacional está ao rubro e até as botijas de gás saem menos. Todos os esforços são poucos para tentar

manter as vendas, sobretudo agora que a renda subiu de 38 euros para 55 euros por mês. Reformado há três anos, após “48 anos de caixa”, é a pensão que sustenta Eliseu Santos, e da qual retira capital para os avios na drogaria. A última revisão desta renda tinha sido nos anos 80, “quando pediram uma avaliação extraordinária, ainda no tempo dos anteriores senhorios”, recorda este inquilino. Na altura subiu, se a memória não falha, dos 400 escudos (cerca de dois euros) para mil escudos (cinco euros). Agora, após décadas de ligeiras actualizações anuais em regime protegido, teve novo pico. E haverá outro já daqui a cinco anos, quando terminar o período de transição fixado nesta lei. O senhorio deste comerciante é Alberto Santos, um revendedor de bijuteria que já teve casa aberta na Rua do Benformoso, mas que dali saiu há uns sete anos, quando a clientela se transferiu para áreas concorrentes como o Porto Alto, na zona de Alcochete, e outras a norte do país. Arrendou a loja a uma família chinesa e hoje dedica-se exclusivamente às representações através da centenária empresa António Paiva de Almeida, Lda.. Tem vários imóveis arrendados. Teve problemas em descongelar rendas?

“Só tenho uma renda das antigas. Pedi cem euros, mas o senhor indignou-se e acabou por ficar em 55-56 euros”, responde este proprietário. Em que se baseou para fixar os cem euros? “Baseei-me num valor justo de mercado. Só pintar uma parede é logo a renda de um ano”. As suas demais rendas estão no regime já liberalizado. E essas têm caído, seguindo a tendência na Mouraria e em todo o país. “Já as baixei praticamente todas”, diz Alberto Santos. Antes da crise, a loja do Benformoso valia uma renda de 1.200 euros, agora metade.

Direitos fundamentais em conflito Os casos “mais escandalosos” estão nos contratos comerciais, segundo o representante dos senhorios lisbonenses, e jurista, Menezes Leitão. “Não é aceitável que, na mesma rua, uma casa pague uma renda de mercado e a outra ao lado uma renda simbólica, fazendo concorrência à custa do proprietário do imóvel. Tornam o proprietário num sócio à força, sem que receba rendimentos”, argumenta. E nos casos de habitação particular? Pergunta: Até que ponto aceita que um vizinho que tenha maiores rendimentos pague mais renda que o da porta em frente? A Constitui-


Rosa Marija

reduziria a factura fiscal dos senhorios. Mas para isso já teriam de ter pedido esses cálculos ao passado dia 31 de Outubro de 2012, e a informação foi insuficiente”. Do lado dos inquilinos, agonizam neste momento, no mínimo, umas 13 mil pessoas. Aguardam que as Finanças lhes passem certidões de carência económica para que os senhorios não possam subir-lhes as rendas acima das suas possibilidades. Os aumentos, nos agregados familiares com rendimentos até 500 euros, não podem ultrapassar 10% da sua capacidade de esforço, durante os próximos cinco anos. E em rendimentos entre os 2.000 e os 2.500 euros o limite é 25%. A lei proíbe ainda o despejo de inquilinos com mais de 65 anos, tal como pessoas com incapacidade física a partir de 60%. Mas para se usufruir destas salvaguardas é preciso tratar de muita papelada, e sem êxito garantido.

“A missa ainda não saiu do adro”

ção garante o direito à habitação... Responde Menezes Leitão: “Não é o rendimento de cada um que dá valor a um produto, mas, de facto, esta lei obriga a fixar a renda com base no rendimento dos inquilinos. No fundo, o que a lei diz é: como o Estado não sabe que impacte isto terá nas suas contas, os proprietários ficam a fazer de Segurança Social durante mais cinco anos. É perverso. Não deve ser um grupo de pessoas a fazer funções que cabem ao Estado. É uma questão de direitos fundamentais, como aliás o Tribunal Europeu dos Direitos do Homem já declarou. A pessoa tem direito à proprie qualdade, mas durante décadas os políticos fecharam os olhos a isto, enquanto os prédios caíam, e continuam a cair”. No que toca a obras, afinal, o que manda a nova lei? “A última lei, de 2006, não permitia actualizar as rendas, porque quem quisesse actualizar era obrigado a fazer obras. Para começar, tinha de abrir um processo que implicava pagar 406 euros logo à cabeça, depois fazer as obras e só daí a dez anos podia ver a renda actualizada. Ninguém se mete nisso. Os proprietários estão descapitalizados com décadas de congelamento de rendas. A lei antiga obriga a obras de oito em oito anos em cada imóvel, mas para isso é preciso ter

rendimento, e com as rendas congeladas é insustentável. Agora muitos senhorios estão convencidos que têm de fazer obras ou pagar indemnizações, se quiserem aumentar as rendas, mas não têm. Não estão bem informados”, avisa Menezes Leitão. Esse equívoco também explica que vários proprietários da Mouraria se tenham abstido de aumentos. IMI pressiona até os mais conscienciosos “Muitos senhorios até nem queriam actualizar as rendas”, garante Menezes Leitão. O problema são os impostos. Com a política de austeridade, subiram astronomicamente e o IMI (Imposto Municipal Sobre Imóveis) chegou a disparar aos 2.000% e aos 8.000%. “Os senhorios vêm-nos perguntar na associação quais são os valores do IMI e do imposto de selo e, quando descobrem, decidem mesmo fazer aumentos. Há até quem nos pergunte se pode processar o Estado, porque agora ficou a pagar mais IMI do que aquilo que recebe das rendas”, denuncia o jurista. Processar o Estado com que argumento? “No caso das rendas congeladas, a lei prevê a possibilidade de se calcular o IMI com base nos rendimentos do inquilino em vez do valor patrimonial do imóvel, o que

Apenas 20% dos casos estão resolvidos, passado meio ano sobre a entrada em vigor da lei. “Cerca de 80% das negociações estão paradas devido à falta de emissão das certidões de carência pelas Finanças. Quando se desbloquear a situação, fixaremos as rendas com base nos rendimentos dos inquilinos e estará o assunto arrumado”, sintetiza Menezes Leitão. Por enquanto, entre os contra-

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tos já revistos, cerca de 25% resultaram de acordo entre as partes, segundo a estimativa da associação lisbonense de senhorios. E os restantes 75% foram fixados pelo senhorio com base nos rendimentos do inquilino, em casos em que a carência económica não foi requerida. “Ainda a missa não saiu no adro”, constatou o presidente da câmara de Lisboa, António Costa, socialista, no final do passado mês de Março, numa das reuniões municipais abertas ao público, nas últimas quartas-feiras de cada mês, segundo notícias de “O Corvo – Blog de Lisboa”. O Partido Socialista viu chumbadas as propostas que defendiam alargamentos de prazos para que os inquilinos tivessem 90 dias para contestar propostas de aumento, em vez dos actuais 30, e para que a transição da liberalização subisse para 15 anos, contra os cinco fixados por esta lei da coligação governamental PSD-CDS. Uma lei que o autarca da capital classificou como “absolutamente desastrosa”. Há mais de dois anos que as rendas dão que falar, desde os primeiros esboços legislativos, em 2011, até à aprovação final do governo, em Dezembro desse ano. Depois, até a lei ser publicada em Diário da República, em Agosto de 2012, passaram oito meses. Seguiram-se três meses de espera até entrar em vigor, para todos se puderem informar devidamente. Vigora há seis meses, desde Novembro de 2012. Continua a polémica.


reportagem

Rosa Marija

Rosa Maria nº 5 junho · dezembro

Texto e Fotografia Ernesto Possolo

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Dois Becos do Jasmim na Mouraria, o do Socorro e o de São Cristóvão

Símbolo de beleza, de amor e de sensualidade, o jasmim surge do persa e do árabe Yasamin. Introduzido na Península Ibérica pelos árabes, muito utilizado na perfumaria e na medicina tradicional chinesa, é uma planta trepadora originária do oriente. Existem mais de 500 variedades, com flores muito perfumadas e as pétalas a serem brancas, amarelas ou rosadas. Coincidência ou engano toponímico, na Mouraria pitoresca existem dois becos com o seu nome, em freguesias distintas e com códigos postais diferentes. O do Socorro é 1100-289 e o de São Cristóvão 1100-290, felizmente para os carteiros e moradores. O Itinerário Lisbonense de 1804, bem como o olisipógrafo Norberto de Araújo nas Peregrinações em Lisboa descrevem ambos os becos.

As mourarias dentro da Mouraria

O olisipógrafo Ferreira de Andrade, na sua descrição da Freguesia de São Cristóvão, menciona a existência do Beco do Jasmim de São Cristóvão, mas refere que o Beco do Jasmim, segundo o edital do Governo Civil de Lisboa de 1 de Setembro de 1856, começaria a ser designado por Beco das Gralhas, designação que o povo nunca adoptou. Segundo a informação prestada pela olisipógrafa Ana Homem de Melo, da origem do nome nada se sabe, mas através da consulta do Ficheiro Toponímico de Pastor de Macedo, confirma que ambos são já muito antigos. O beco do Jasmim, da freguesia do Socorro, aparece pela primeira vez nos livros paroquiais em 1688 e o Beco do Jasmim de São Cristóvão e São Lourenço surge em meados do século XVIII, com a designação de Beco dos Jasmins, passando depois ao singular.

Outra curiosidade é que, actualmente, os dois não são verdadeiros becos, mas sim travessas, porque têm entradas e saídas distintas. O do Socorro é mais luminoso, o de São Cristóvão é mais sombrio, estreito, tem escadinhas e um andaime com um telheiro de zinco que tarda em sair. O primeiro fica numa reentrância entre a Rua da Guia e o Largo da Severa e o Largo da Rua João do Outeiro, o segundo situa-se entre os n.ºs 30 e 32 da Rua das Farinhas e o Beco das Gralhas. As placas toponímicas também são diferentes. A do Beco do Jasmim do Socorro é pintada a preto, com letras brancas na fachada de um prédio, modelo usado em arruamentos dos bairros típicos de Lisboa, estando em risco de desaparecer, devido ao mau estado de conservação do reboco do prédio. As do Beco do Jasmim de São Cristóvão são em pedra, com as letras a preto fixada nas fachadas dos prédios.

Texto Nuno Franco Fotografia Ernesto Possolo

Ruas e becos foram esquecidos no plano QREN Um ano depois do início da intervenção do QREN (Quadro de Referência Estratégica Nacional), muita coisa mudou na Mouraria. Mas o lema do programa, “as cidades dentro da cidade”, nunca foi tão actual e apropriado. Muitos no bairro sentem que existem duas mourarias, dentro da Mouraria. A reabilitada e recheada de árvores, bancos de jardim e boa iluminação em cada esquina; e a outra, que coexiste mal iluminada, esventrada, esquecida. Caso paradigmático é o que se sente, quando se percorre a Rua da Amendoeira. Ela está metade requalificada, metade esburacada, perigosamente torta, pondo em risco os idosos ou os incautos passeantes. Esta parte esburacada da rua acompanha um conjunto de prédios velhos e a cair aos bocados, que precisam também de uma requalificação urgente.

Mas essa não é a única rua esquecida na freguesia do Socorro. Pode-se usar também como exemplo a Rua das Olarias, a Rua dos Lagares, o Largo das Olarias, a Calçada Agostinho de Carvalho, a Travessa dos Lagares, a Travessa do Coleginho e algumas outras. A Rua dos Lagares tem a promessa do presidente da Câmara Municipal de Lisboa, António Costa - que por ali passou no início de Abril - , de que será realizada a merecida requalificação do piso, após terminada a obra do Centro de Inovação da Mouraria. Os moradores da zona esperam que a Calçada Agostinho de Carvalho não seja esquecida e se corrija o desnível do chão, que constitui uma armadilha para os carros. Do lado da Freguesia de São Cristóvão e São Lourenço, se se decidir tomar caminho

por algumas ruas do bairro, com facilidade se encontram mais problemas, sobretudo nas ruas de São Pedro Mártir e das Fontainhas a São Lourenço. Um muro ameaça cair, um portal a descair para cima dos transeuntes, perigos que têm sido devidamente assinalados por alguns munícipes.


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Rosa Maria nº 5 junho · dezembro

agenda cultural

NO BAIRRO

Associação Renovar a Mouraria Mouradia

Casa Comunitária da Mouraria

Beco do Rosendo, 8 e 10 218 885 203/ 922 191 892/ > geral@renovaramouraria.pt > renovaramouraria.pt

1 KARAOKE AO VIVO Com as letras escritas em folhas de papel, o músico João Madeira e a sua guitarra acompanham todos aqueles que se queiram aventurar na cantoria > quinzenalmente, às sextas-feiras, a partir das 22h

1 TERTÚLIAS Vem falar das coisas sem partir a loiça > 1ªs e 3ªs quartas-feiras de cada mês, 19h30 a partir de Setembro

1 NOITES DE CINEMA VHS Para rebobinar e rever filmes esquecidos, com ruído e interferências > todas as terças -feiras, às 21h30 a partir de Setembro

1 FADO Entre Severas e Maurícios, a Mouraria recebe as vozes da canção que este bairro viu nascer > todos os domingos, a partir das 17h. Início em Setembro

1 AULAS DE GUITARRA > sábado, das 10h30 às 11h30

1 BALLET PARA CRIANÇA > recomeça em Setembro com novos horários

1 DANÇAS LATINAS E SALSA > recomeça em Setembro com novos horários

1 AULAS DE PORTUGUÊS PARA ESTRANGEIROS

Nivel A1 e A2, encaminhamento para exame de certificação

> segundas e quartas, das 20h30 às 22h30

1 AULAS DE CHINÊS INICIADOS > terças-feiras, das 20h30 às 22h30

Arquivo Municipal de Lisboa

Núcleo Fotográfico

Rua da Palma, 246 > arquivomunicipal.cm-lisboa.pt

1 Exposição “Eduardo Portugal” Reposição da exposição exibida na Lisboa Photo de 2003

Piso 0 > 2ª a sábado - 10 h às 19 h Entrada Gratuita Público em geral

1 Jornadas Ibéricas de Arquivos Municipais Políticas, Sistemas e Instrumentos 4 e 5 de junho às 9h30 Entrada Gratuita Marcação prévia Público em geral Local: Universidade Lusófona de Lisboa

1SERVIÇO

EDUCATIVO

> marcação de actividades: Alexandra Nunes Tel:21 8844060 Rua da Palma, 246, 1100-349 Lisboa 1

Álbum animado Pedaços de Lisboa

Destinatários: Pré-escolar 1

115 de Julho

1

No interior da Casa da Achada: visita guiada por Raquel Henriques da Silva à exposição «José Júlio – pintura e gravura» (11h), «As várias facetas de Mário Dionísio» com a participação de Rui Canário, Cristina Almeida Ribeiro, Regina Guimarães, Eduarda Dionísio (15h). No exterior: comes e bebes a partir das 12h, jogos para todas as idades, Coro da Achada (18h).

1Ciclo

a Paleta e o Mundo III > segundas-feiras às 18h30.

1 A Propósito da Exposição de José Júlio As Sociedades de Artistas – a SNBA, as EGAPs, a Cooperativa Gravura > sábado, 6 de Julho às 16h

1

Livros das Nossas Vidas João Rodrigues fala da obra de Maiakovsky > quinta 19 de Julho às 18h

Largo da Achada, nº11, r/c Tel:21 887 70 90 > centromariodionisio.org >Segunda-feira, quinta e sexta > das 15h às 20h > Sábado e Domingo > das 11h às 18h Entrada gratuita no espaço e em todas as sessões

Exposições 1 José Júlio Pintura e gravura > de 25 de Abril a 19 de Agosto 2013

1 5 de Agosto

Agosto de Jorge Silva Melo O Pecado mora ao lado de Billy Wilder

V Feira da Achada Largo da Achada - Rua da Achada > sábado 13 de Julho > 10h às 20h

1

Casa da Achada

Ultrapassagem de Dino Risi

1 12 de Agosto

1

Destinatários: 1º Ciclo

1 29 de Julho

1

Destinatários: 1º, 2º e 3º Ciclo

Retrato químico da cidade Imagem secreta Jogo da memória de Lisboa

Bom Dia, Tristeza de Otto Preminger

ANNA STANKIEWICZ-ODOJ Pintura > de 24 de Agosto a 23 de Setembro 2013

Quotidiano da cidade de Lisboa em determinados períodos da história Kivo Conta...

Actividades temáticas sobre a Fotografia:

1 22 de Julho

1

Mário Dionísio: Escritor e outras coisas mais pequenas intervenções, seguidas de perguntas e respostas > sábado, 13 de Julho às 15h

Efemérides da História de Portugal, localizadas na cidade de Lisboa

Mónica e o Desejo de Ingmar Bergman

IMIGRANTES DE MONTREUIL Fotografia, de Giuseppe Morandi e Francesca Grillo > de 24 de Agosto a 23 de Setembro 2013

1 5º e 6º Encontro de Leitores Gente de todas as idades, principalmente quem não tem o hábito de ler, encontra-se com um escritor. Nuno Milagre > 31 de Julho às 14h30 Miguel Cardoso > 30 de Agosto às 14h30

1Ciclo “Férias na Achada” > De Julho a Setembro

Às segundas-feiras às 21h30 Os filmes são legendados em português, apresentados e debatidos. 1 1 de Julho

As Férias do Sr. Hulot de Jacques Tati 1 8 de Julho

Férias em Roma de William Wyler

1 19 de Agosto

Verão de 42 de Robert Mulligan 1 26 de Agosto

Conto de Verão de Eric Rohmer

1Oficina

VOZES QUE O VENTO NÃO LEVARÁ, com Margarida Guia > domingos 7, 14, 21 e 28 de Julho e 4, 11, 18, 25 de Agosto, das 15h30 às 17h30 Máximo 10 participantes

1 Os Índios da Meia Praia INTERVENÇÕES E PROJECÇÃO DE FILME > abertura: sábado 6 de Julho às 18h30 e 21h30.

1 EM JULHO FOICE NA MÃO Apresentação dos últimos livros e filmes de Regina Guimarães e Saguenail produzidos pela Hélastre. > domingo, 14 de Julho a partir das 18h

1 LANÇAMENTO DO LIVRO SAAL E AUTO CONSTRUÇÃO EM COIMBRA - Memórias dos moradores do Bairro da Relvinha - 1954-1976 de João Baía > sábado, 20 de Julho às 18h

Galeria Colorida

Rua Costa do Castelo, 63 Escadinhas Marquês Ponte Lima, 1 – A Tel: 351 21 885 33 47 > colorida.pt > 3ª a sábado das 14:30 às 18:00h

1 Exposição de Juho Nikkila Até 21 Junho

1 Café da Garagem, no espaço da cafetaria do Teatro Taborda. > Aberto de 3ª feira a domingo das 15h às 24h 2ª feira abre das 18 às 24h 6ª feira e sábado encerra às 02h

1 Apresentação Pública do Espectáculo final 1 Clube de Teatro Júnior > 15 Junho > 21h30 1 Clube de Teatro Jovem > 21 e 22 Junho > 21h30 1 Clube de Teatro Sénior > 29 Junho > 16h

Fundação INATEL Espaço Mouraria

Rua da Mouraria 64, Edifício Amparo, Lisboa > inatel.pt Mais Informações ou inscrições: > 210 027 154 > cultura@inatel.pt Workshop Banda Desenhada Por Bruno Borges Um excelente estímulo para a capacidade de improviso e de espontaneidade. > Sábado, 20 Julho, das 15h às 18h Workshop Dança Criativa Por Rafaela Salvador Uma aventura à descoberta do corpo pela dança! > sábado, 27 de Julho, das 10h às 13h e das 14h às 16h Dos 6 aos 12

POR PERTO

Lisboa em si

> 21 de Junho, às 22h Concerto de sete minutos, recorrendo a sirenes, apitos e sinos, audível em sete pontos (entre eles Miradouro da Graça e Castelo de São Jorge).

Cicloficina dos Anjos

Regueirão dos Anjos, nº 69 Lisboa > sempre às quartas feiras, das 19h às 23h

Grátis

Feira das Almas Teatro Taborda Regueirão Dos Anjos 68, Rua Costa do Castelo,75 Tel:21 885 41 90 / 96 801 52 51 > teatrodagaragem.com Reservas:jbelo@ teatrodagaragem.com

1150-028 Lisboa > feiradasalmas.org > hello@feiradasalmas.org > 5 e 6 de Julho


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Rosa Maria nº 5 junho · dezembro Texto e Fotografia Rita Pascácio

Cantinho do Custódio

Arroz de Pato

·· pato · toucinho azeite · cebola ·· louro · salsa arroz vaporizado

·· chouriço alho sal ·· laranja

Coza o pato com o toucinho, o chouriço, azeite, cebola, alho picado, louro e salsa. Retire o pato, o toucinho e o chouriço. Reserve o caldo. Desfie o pato. No caldo coza o arroz, adicionando sal, durante cerca de 15 minutos. Num tabuleiro, coloque camadas alternadas de arroz e de pato. Por cima coloque o chouriço e o toucinho. Leve ao forno a alourar. Sirva com uma rodela de laranja.

Farófias

·· ovos açúcar

Bata as claras dos ovos em castelo com açúcar. À parte, bata bem as gemas com açúcar, até ficar um creme. Num recipiente coloque o creme das gemas e por cima as claras batidas em castelo, leve ao frio. Sirva colocando o creme por cima das claras.

Há 33 anos que o Sr. Custódio tem o seu cantinho no nº 9 da Calçada do Monte. O Senhor Custódio e a Dona Laurinda, naturais de Vila Verde (Braga), casados e moradores nesta calçada há 49 anos, compraram a então taberna e transformaram-na num restaurante de cozinha típica portuguesa, aberto todos os dias ao almoço e jantar. A Dona Laurinda recorda quando, há cerca de 10 anos, não tinha mãos a medir na cozinha, com o restaurante sempre cheio e com fila durante todo o dia. Já não é assim, apesar dos preços muito convidativos (doses para duas pessoas a partir de €7), pois esta zona está hoje muito isolada. Os clientes agora são poucos, mas alguns mantêm-se há 15 anos. Vizinhos e trabalhadores dos armazéns da Rua de São Lázaro vêm almoçar diariamente. E alguns, embora já reformados, continuam a ser clientes assíduos. “Já somos uma família”, diz Dona Laurinda. A filha do casal, com formação em comércio, ajuda os pais sempre que necessário. “Está bom, não está? É caseirinho!”, diz o Senhor Custódio com um genuíno sorriso. De facto, a comida é caseira, muito saborosa e a simpatia deste casal faz-nos sentir em casa. A especialidade da casa é o Cozido à Portuguesa (à quinta-feira e ao domingo, todo o ano), mas também se aconselham outros pratos, tais como Iscas, Bacalhau à Narcisa, Arroz de Pato, Leitão ou Caldeirada. O vinho da casa vem diretamente da pipa e as sobremesas Cantinho do Custódio são todas caseiras (arroz doce, pudim, mousse de chocolate, farófias). Também se servem petiscos - filetes, pataniscas, pastéis de Calçada do Monte, 9, Lisboa bacalhau, caracóis, febras, pregos e chicharro. 218860826

obituário

Texto e Ilustração Ernesto Possolo

Lucien Donnat (1920-2013), o mestre dos detalhes

Nascido em Paris, a 14 de Junho de 1920, veio para Lisboa com a família em 1927. Desde muito cedo, descobre uma grande aptidão para as artes musicais e plásticas. Em 1936, voltou para a capital francesa, onde realizou e concluiu os estudos de Pintura Decorativa, na Escola do Louvre. Entre 1937 e 1940, ao mesmo tempo que estudava, decidiu ir trabalhar e, durante esse período, tocava piano e cantava num cabaret. Regressa a Lisboa, deixando para trás uma Paris entretanto invadida pelos nazis. Em 1941, torna-se o director artístico do Teatro Nacional de Dona Maria II, onde começou a trabalhar principalmente como cenógrafo e figurinista, mas também escreveu e compôs músicas, lugar que ocupa até 1974 - quando foi extinta a Companhia Rey Colaço Robles Monteiro. Durante este período, realizou vários trabalhos no Teatro Nacional de São Carlos, Teatro Trindade, Teatro Avenida, Teatro Capitólio e no Parque Mayer, todos em Lisboa, e ainda no Teatro Rivoli, no Porto, e no Theâtre Hébertot, em Paris, num total de 133 peças teatrais. Em 1946, foi o director artístico do filme do realizador Jorge Brum do Canto, “Ladrão Precisa-se!” No início dos anos 50, Lucien Donnat veio viver para a Mouraria, para a Rua dos Lagares n.º 14, na Freguesia da Graça, num andar no palacete mandado construir pela família Jonet. Estabeleceu-se e abriu o seu atelier de decoração no Largo

Trindade Coelho, no Bairro Alto. Decorou vários hotéis, destacando-se o Hotel Palácio do Estoril e o Hotel Avenida Palace, em Lisboa, também algumas lojas da Baixa, das quais se destaca a Pelaria Pampas, na esquina setentrional da Rua da Prata e da Rua da Conceição. Em 1956, colaborou com a Fábrica de Porcelana da Vista Alegre, nos desenhos dos serviços de almoço e de chá oferecidos pelo estado português à rainha Isabel II. Dois anos depois, em colaboração com Amaral e a Fabrica de Azulejos Sant’Ana em Lisboa, pinta painéis publicitários em azulejo da estação ferroviária do Rossio alusivos aos produtos portugueses, oferecidos pelo Fundo de Fomento de Exportação. Em 1978, partiu para o Brasil, para trabalhar, onde se dedicou à decoração de interiores, alcançando novamente muito sucesso, estabelecendo e alargando contactos profissionais com Buenos Aires e Nova Iorque. Em 1990, regressa definitivamente a Lisboa, ao seu atelier no Bairro Alto e à sua residência na Mouraria. Num sábado, a 26 de Janeiro de 2013, em Lisboa, perdemos um grande artista e mestre, que considerava que o bom gosto e o mau gosto dependiam dos detalhes e são esses detalhes que fazem os homens ser eternos.


Rosa Maria nº 5 junho · dezembro

Texto e Fotografia Sandra Bernardo

Ela é toda riso. Ele é todo encantamento pelo riso dela. Ela é nepalesa. Ele é português. Juntos, recebem com sorrisos quem entra na sua pequena loja de produtos artesanais nepaleses, situada na Rua do Benformoso, no colorido e multicultural Martim Moniz, do bairro da Mouraria. Dil Karki, de 30 anos, e Francisco Carvalhais, de 40, conheceram-se em 2007, quando o empresário português, proprietário de um armazém de importação, foi ao Nepal, um país asiático dos Himalaias, localizado entre o Tibete e a Índia, abastecer-se de novos produtos. Foi amor à primeira vista e casaram-se pouco depois. O sarilho foi trazer a jovem noiva para Portugal. Francisco conta que só após três viagens e sete meses de separação o casal se juntou, finalmente, em Lisboa. Tudo por causa de documentação e burocracias, lembra o armazenista, que durante aquele período quase desesperou. Dil, que adora Lisboa, recorda-se de chegar à cidade no dia 27 de Junho de 2008, e de, no dia seguinte, acompanhar o marido à FIL, já pronta a ajudá-lo no negócio. Não é mulher de ficar de braços cruzados, garante, num português já mui-

vox mourisco

O MUNDO TODO AQUI DENTRO

Para mim não vai ser muito mau, porque a sede situa-se aqui próximo. Já me disseram que os serviços ficam todos como estavam, excepto a presidência. > Domingos Branco / 64 anos Gerente Comercial na Gonzalez & Anton, Rua de São Pedro Mártir

Acho que há vantagens e desvantagens. A vantagem que há é de haver uma remodelação na junta. A desvantagem, pessoalmente, é ter que mudar tudo ao nível dos documentos. > Vanda Moura / 36 anos Desempregada moradora na Rua das Farinhas

No fundo, até estou, porque há muitas juntas de freguesia que recebem subsídios para evoluir o local e muitos deles não são aplicados a favor dos utentes. Numa fusão passa a ser igual para todas. > Rute Lopes / 35 anos Geriatra moradora no Beco de São Francisco

Acho que vai dar mais trabalho às pessoas da junta. A mim não me afecta nada porque não preciso da junta, mas outras pessoas vai afectar e devemos pôr-nos no lugar de quem precisa. > Jorge Carvalho / 32 anos Desempregado morador no Beco das Farinhas

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to compreensível. Uma das primeiras coisas que fez, aliás, foi frequentar aulas para aprender a língua portuguesa, que diz entender perfeitamente. Quando a família se junta, com pais, sogros, irmãs, cunhado(a)s e sobrinho(a)s de ambas as partes à mistura, é que tudo se complica um pouco. “Em casa, nessas alturas, fala-se português, inglês, nepalês e ‘bué gestual’”, conta Dil, gracejando. Da mescla entre os dois países resultou, também, uma culinária intercultural. É Francisco quem cozinha. E tanto faz pratos portugueses, que Dil adora – “menos sardinha assada” –, como faz pratos nepaleses. “Mas não carrego tanto nos temperos, o caril, por exemplo, é menos picante”, explica. No Martim Moniz, Dil e Francisco, nepalesa ela, português ele, cidadãos do mundo ambos, sentem-se em casa. Entre as línguas e as culturas de dois continentes – misturados nesta zona de Lisboa que cheira a pimenta, açafrão, gengibre e canela, e onde os olhos, se abertos ao mundo, são brindados pelo colorido das sedas e pelo brilho dos objectos de decoração e das bijutarias –, vivem todos os dias o cosmopolitismo que nos oferece este mundo todo dentro da Mouraria.

Entrevistas e Fotografia Susana Simplício

Está de acordo com a fusão das 12 freguesias numa só (SANTA MARIA MAIOR)?

retrato de família

Rosa Marija

Sim e não. Sim, porque irá facilitar em relação a certos serviços, obtenção de informação e para os idosos. Não, porque as freguesias que existem já fazem parte da história, e isso vai alterar a parte histórica. > João Santos / 20 anos Estudante morador no Beco dos Cavaleiros

Não, porque, se eu precisar de tratar de alguma coisa, vai ser mais difícil e porque as juntas conhecem as dificuldades de cada pessoa. > Tiago Parreira / 25 anos Técnico Manutenção morador nas Escadinhas Marquês de Ponte Lima

Eu não voto em ninguém e não percebo nada de política. O meu voto é sempre em branco. Nunca precisei de nada das juntas de freguesia, pelo que esta mudança para mim não vai mudar nada. > Isabel Braz / 47 anos Doméstica moradora na Rua dos Cavaleiros

Não é linear pensar que fundir 12 freguesias numa só que não vá afectar o tecido cultural dos vários bairros que existem por aqui. Acho que afecta a vida das pessoas e muda hábitos. Não é necessariamente mau, mas são assuntos que têm de ser vistos com atenção, pois afectam as pessoas. > João Santos / 37 anos Programador morador na Graça


Rosa Maria nº 5 junho · dezembro

banda desenhada

pppp

Texto Nuno Saraiva Ilustração Vasco Olino

da capa à contracapa

Texto Rita Pascácio Fotografia Sandra Bernardo

Metalúrgica da Baixa

Uma herança de madeira e ferro Percorrendo a calma e estreita Rua de São Pedro Mártir, sobressai a placa anunciando a Metalúrgica da Baixa, em letras coloridas. Encostadas ao prédio vizinho desocupado estão várias placas de madeira. Cães e gatos passeiam-se pela rua, entram e saem do nº 37. Entramos e logo damos de caras com o Sr. Augusto, que ali está a cortar placas de madeira, para depois as colocar lá fora, ao pé das outras. Todas juntas serão uma porta, réplica perfeita de modelos de outros tempos. Há 30 anos, o Sr. Augusto Afonso, carpinteiro, abriu aqui a sua oficina, onde trabalha desde então. A ele se juntou, anos depois, o filho António Afonso, serralheiro. Neste espaço, onde existia a antiga Casa das Chaves, pai e filho trabalham diariamente acompanhados pelos animais, que passeiam sem restrições pela oficina, por entre as faíscas e as lâminas das máquinas. Uma caixa de ferramentas aberta torna-se uma confortável cama para um gato dormir a sua sesta. “São animais da rua, dou-lhes comida e bebida e eles andam por aí, entram e saem livremente. E vão fazendo alguma companhia”, conta o Sr. Augusto.

Na oficina, “em tempos, trabalhavam vários homens ao mesmo tempo, quando havia mais trabalho”, conta o Sr. Augusto. Hoje, como mão-de-obra, basta a sua e a do filho. E algumas máquinas estão agora paradas. Pontualmente, e só quando um determinado trabalho o justifica, recorre a um ou outro funcionário. Nesta oficina fazem-se trabalhos muito diversificados, entre eles tripés para câmaras de filmar. Repara-se portas e móveis antigos e produz-se portas como as de antigamente. Um exemplo deste trabalho do Sr. Augusto são as portas de madeira da Mouradia – Casa Comunitária da Mouraria, sede da Associação Renovar a Mouraria. Edifício que não lhe era estranho. Depois de, no início da sua actividade, ter trabalhado na Baixa, foi neste mesmo prédio que desempenhou o ofício, numa carpintaria outrora aqui existente.

J. Silva & Vieira, Lda. Serralharia Civil Carpintaria Mecânica Rua São Pedro Mártir, 37-A, Lisboa 218861949

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Rosa Maria nº5  

Rosa Maria nº5  

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