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dezembro ‘13 l junho ‘14 Associação Renovar a Mouraria www.renovaramouraria.pt distribuição gratuita

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Rosa Maria n.º 6 dezembro ‘13 · junho ‘14 Texto Ana Luísa Rodrigues e Nuno Franco Fotografia Helena Colaço Salazar

Doze freguesias, muitos trabalhos

Carla Rosado

Turismo de Lisboa

Turismo de Lisboa

Carla Rosado

Turismo de Lisboa

reportagem

Nasceu, em Setembro, a Junta de Freguesia de Santa Maria Maior. São doze juntas, de cinco bairros, numa só. Fomos ouvir as dúvidas dos moradores e as respostas do presidente da nova junta.

Onde fica a sede da freguesia de Santa Maria Maior? Vão manter-se os postos de atendimento das antigas juntas? Estas são algumas das perguntas que andam na boca de muitos moradores. Têm resposta: a nova sede fica no edifício do elevador do castelo, entre a Rua da Madalena e a Rua dos Fanqueiros, e dos antigos doze postos de atendimento, mantêm-se nove. Entre os moradores da actual freguesia de Santa Maria Maior, a agregação continua longe de ser pacífica. Maria Teresa Costa, de 76 anos, que nasceu e vive no Castelo numa rua frequentada por turistas e «ruidosos» carrinhos tuk tuk, diz que a medida «é do pior que há». Opinião partilhada pelo senhor Daniel, dono da Leitaria São Jorge, no coração do mesmo bairro. «Assim deixa de haver proximidade». Compreende, todavia, que «havia juntas que tinham apenas duzentos eleitores». Desde as últimas eleições autárquicas, em Setembro, que o centro histórico de Lisboa está em arrumações. Das obras na nova sede da junta, às mudanças entre os vários postos de atendimento, passando por processos como a uniformização de preçários (um atestado de residência custava entre cinco a dois euros em algumas juntas e era grátis noutras) e por imponderáveis burocráticos como a necessidade de encerrar dezassete contas bancárias em nome de extintos titulares para abrir novas… é grande a azáfama. Esta foi a maior fusão de freguesias a nível nacional, numa reforma administrativa que extinguiu quase um terço das freguesias, reduzindo-as para um total de pouco

mais de três mil. Santa Maria Maior agregou cinco bairros. Do Chiado a Alfama, passando pela Baixa, Mouraria e Castelo, Santa Maria Maior tem cerca de 13 mil habitantes – soma da população das extintas freguesias do Socorro, São Cristóvão/São Lourenço, Mártires, Sacramento, São Nicolau, Madalena, Santa Justa, Castelo, Santiago, Sé, Santo Estevão e São Miguel. No novo mapa administrativo de Lisboa é difícil encontrar tanta diversidade e contraste numa só unidade. Há bairros como a Mouraria, marcados pela pobreza, a população envelhecida e a imigração. E outros como o cosmopolita Chiado que tem o metro quadrado mais caro do país.

PROXIMIDADE, E MAIS PROXIMIDADE

A perda de proximidade é um dos maiores receios manifestados pela população. «Estes bairros são pequenos espaços comunitários. As pessoas quando tinham algum problema iam falar com a junta. Agora é muito mais difícil», comenta Dina Nunes, 52 anos. Artesã e ceramista com loja na Calçada da Figueira, em Alfama, trabalha há muitos anos nesta zona e é com tristeza que observa como «o bairro está a ser ocupado por pessoas que compram as casas e, em vez de viverem no bairro, a seguir alugam-nas a estrangeiros que aqui estão apenas uns dias de férias». Dona Lucília, de risonhos 80 anos, diz estar habituada à junta de Santo Estevão. «Mas não sei se está aberta. Acho que a junta de São Miguel está fechada… Sabe se está ou não?», perguntou ao repórter do Rosa Maria. Resposta: Santo Estevão e São Miguel são dois dos nove postos de atendimento que continuam a funcionar. «Fechámos,

por exemplo, o posto de Santa Justa porque havia mesmo ao lado a antiga junta do Socorro, que continua, e porque funcionava num edifício muito degradado», explica Miguel Coelho, presidente da Junta de Santa Maria Maior, eleito pelas listas do Partido Socialista, ex-deputado da Assembleia da República.

ESPERAR PARA VER

José Malveiro, barbeiro junto à Rua da Madalena, recorda que «nunca precisou da antiga junta de freguesia» e compreende a junção das doze freguesias, porque «assim há uma melhor racionalização de meios». Outros dão algum benefício da dúvida. O senhor Cunha, proprietário da pastelaria Cunha, em Alfama, é um deles. «Se me pedir informações daqui a mais algum tempo já poderei dizer. Agora não digo nem que sim, nem que não». Margarida Amaral, residente no Castelo, também está «à espera para ver no que dá», mas ressalva: «A nossa freguesia estava bem sozinha». Na Mouraria, dona Rosa, 68 anos, conhecida como Rosinha de Braga, exclama: «O bairro precisa é de paz e sossego!» A sua preocupação é a saúde e a sobrevivência, por isso um dos seus desejos é que «fizessem uma clínica no bairro para ajudar os velhinhos». O senhor Vimal, 54 anos, comerciante na Rua dos Cavaleiros, diz que «no futuro, tudo vai ser pior». Está bastante pessimista. «Não há clientes e não há estacionamento. O parque de estacionamento é muito caro. Os clientes queixam-se. A polícia não deixa fazer cargas e descargas e só cria problemas». Já José Monteiro, 57 anos, também comerciante, espera que, com esta mudança, «eventualmente se consigam melhoramentos, pois há mais possibilidades de se fazerem estratégias de longo prazo».


Entrevista a Miguel Coelho

ગુલાબ મારીયા

Texto Ana Luísa Rodrigues, Marisa Moura e Nuno Franco Fotografia Clara Azevedo

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«Temos que valorizar este território» Do apoio ao estudo à estátua de Fernando Maurício, passando pela construção de sanitários públicos, eis alguns dos principais compromissos de Miguel Coelho, recém-eleito presidente da Junta de Santa Maria Maior.

Que questões lhe têm colocado os fregueses? Houve sempre gente a precisar de ajuda alimentar e medicamentos, mas agora estamos a assistir a um boom. Tornou público o seu telemóvel durante a campanha. Liga-lhe muita gente? Nos postos há sempre bastante gente. Ao telefone não. Talvez as pessoas ainda tenham algum pudor. Mas não é fomentado por mim. Sou o mais acessível e aberto possível. Sobre o lixo, disse em campanha que equacionava aplicar as coimas previstas pela lei. Vamos fazer uma campanha de esclarecimento durante cerca de três meses, na qual vamos envolver muitas entidades e comunidades. A partir daí podemos pôr na rua equipas de fiscalização que poderão passar uma multa ou outra, se tiverem de o fazer. Não é para adquirirmos receitas, mas para as pessoas perceberem que também têm responsabilidades cívicas no espaço que é de todos. Haverá mais ecopontos? Sem isso é difícil. Não sei. O que quero é que haja mais eficiência e menos lixo nas ruas. Quando chove, o tema de conversa no dia seguinte, aqui na Mouraria, é a chuva dentro da casa de cada um. Como pode a junta intervir? Já estamos a intervir em pequenas obras pontuais, através do SOS Lar. A lei permite que a junta faça pequenas intervenções que melhorem as condições de habitabilidade. Vamos estabelecer um valor máximo de intervenção que rondará os 700 euros por cada casa. Na-

Tome nota! A sede da Junta de Freguesia de Santa Maria Maior está no edifício do elevador para o castelo. Além desse espaço mantêm-se nove dos doze postos de atendimento das antigas juntas. O presidente da junta atende nos nove postos, mediante marcação prévia, entre as 17h e as 20h, todos os dias da semana, excepto às terças-feiras, que é dia de Assembleia Municipal.

Postos: 1 2 3 4 5 6 7 8 9

Alfama I – Santo Estevão Alfama II – São Miguel Alfama II – Sé Mouraria I – Socorro Mouraria II – São Cristóvão/São Lourenço Chiado I – Sacramento Chiado II – Mártires Baixa – São Nicolau Castelo – Castelo

Sede: Rua da Madalena, 166, 2.º andar, 1100-324 Lisboa Tel.: + 351 218 867 475

turalmente, faremos uma análise social prévia da família ou pessoa que vai ser objecto deste apoio. Porque a nossa obrigação é ajudar aqueles que efectivamente mais precisam. Em questões de segurança defende o reforço da videovigilância. Mas em que moldes? Deve haver mais policiamento de proximidade e mais patrulhamento, sobretudo a determinadas horas. A videovigilância acarreta problemas que têm que ser bem ponderados. Da informação que tenho, a videovigilância é um bom instrumento dissuasor da criminalidade. Não deve generalizar-se, mas há alguns eixos que podem preocupar mais as pessoas, nomeadamente na Baixa e, aí, já está aprovado um projecto desses. E aqui na zona da Mouraria? Aqui na zona da Mouraria eu não colocaria videovigilância para já em lado nenhum. Sob condição de poder vir a mudar de ideia, naturalmente. Poria talvez num ou noutro equipamento público, que envolva crianças, por exemplo. O que está previsto para apoiar os jovens? A nossa ideia é criar um centro de apoio escolar, para as familias que têm jovens em idade escolar e precisam de acompanhamento em áreas mais complicadas. Senti essa necessidade vinda de pais, de jovens e até do padre. O centro não tem de funcionar só num sítio. Podemos fazer uma rede e parcerias. É uma ideia ainda em fase de definição. Lançar um programa de criação de sanitários públicos é um dos seus compromissos. Concretamente o que será feito? Vamos ver se conseguimos recuperar o balneário da Costa do Castelo e fazer uma rede de casas de banho públicas na Mouraria e em Alfama, que são dois sítios onde se detectam graves insuficiências nessa matéria.

Onde ficará a estátua? No Largo da Severa.

E no estacionamento, o que mudará? Já tive uma conversa com o director da Emel. A câmara de Lisboa terá também uma palavra a dizer. O que posso garantir é que estou a trabalhar por uma solução para termos ruas com menos carros, mas com os residentes a terem sítio para estacionar. Uma hipótese é haver uma zona vermelha em que os residentes não pagam parquímetro, mas que quem estacione o dia inteiro pague caro – uns vinte euros.

Qual o orçamento desta junta, em comparação com a soma das anteriores doze? Mantém-se. As nossas receitas rondarão, em 2014, os cinco milhões de euros. Mais de metade é aplicada em higiene urbana, uma área que passou da competência da câmara para a da junta. Inclui cerca de cinquenta funcionários aos quais pagaremos agora os ordenados. Este orçamento foi calculado com base naquilo que as juntas recebiam e naquilo que a câmara gastava e que agora passa para a competência das juntas. Ganhamos, entretanto, uma capacidade muito maior de gerar receita própria porque também fica do nosso lado o licenciamento do espaço público, e temos a vantagem de estarmos mais perto da realidade e podermos decidir melhor. Podem gerar-se receitas destas, até meio milhão de euros, incluindo grandes eventos habituais no Terreiro do Paço e na Praça da Figueira.

Em relação ao fado, há a célebre promessa de uma estátua a Fernando Maurício. Avança? Sim, vamos fazê-la. Assumi o compromisso que seria em 2014. Vou fazer uma análise daquilo que teremos de investir no campo social para saber se mantenho o compromisso para esse ano ou se tenho que adiar para o ano que vem, ou se fazemos isto por etapas. Podemos lançar um concurso de ideias a estudantes de Belas Artes, por exemplo.

Sendo a população da Mouraria mais desfavorecida do que a média do país, como antevê o seu futuro após esta crise global? Estas pessoas têm uma grande capacidade de sobrevivência e resistência. Portanto temos que potenciar isso. Podemos ter alguma ambição de criar aqui um sistema de economia local, que será sempre limitado e modesto, mas que permita às pessoas viver até um bocadinho melhor do que outras noutros pontos da

Disse que não ia fechar nenhum centro de saúde, mas entretanto também está previsto um novo centro médico na Praça Martim Moniz… Esse não tem que ver connosco. Admito abrir uma clínica nossa, aberta a todos, mas em que quem pertence à freguesia paga menos. Com especialidades de estomatologia, ginecologia e oftalmologia que não há nos postos.

cidade e do país. Há aqui muita matéria-prima. Um património arquitectónico fantástico. E um património cultural muito rico, na gastronomia, religião, música… Temos, antes de mais, que valorizar este território. Os turistas, vejo-os chegar, entrarem no bairro e tirarem umas fotografias, mas não os vejo a gastar aqui o que quer que seja. Depende de nós criar iniciativas que prendam aqui os turistas. Que garantias pode dar aos moradores de que a Mouraria não se transformará num bairro para turista ver, com valores imobiliários proibitivos para os locais como já aconteceu noutros países? Ninguém responsável e com honestidade intelectual pode dar garantias disso. Vivemos numa cidade de livre iniciativa. Mas acho que, se forem os cidadãos dos bairros a fazerem as coisas, serão eles próprios os reguladores dos preços e da actividade. Isso vai depender muito da capacidade de associação e de trabalhar das pessoas. A Lei das Rendas terá um ponto difícil em 2017, no último ano do seu mandato. Expiram os cinco anos de transição, em vigor, e muitos idosos poderão mesmo ser despejados. Que intervenção poderá ter a junta nisto? Estarei completamente do lado das pessoas, a fazer barricadas com elas para impedir que sejam despejadas, se preciso for. Mesmo enquanto deputado sempre me bati contra esta lei das rendas. Esta é uma lei odiosa. Tem de ser revogada.


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notícias Religiões Unidas

Largo Residências, Bike Pop e A Vida Portuguesa. Três espaços estiveram em festa durante três dias, entre 29 de Novembro e 1 de Dezembro, no Largo do Intendente Pina Manique. Foram três inaugurações numa só festa. Dezenas de pessoas, incluindo o presidente da Câmara Municipal de Lisboa, António Costa, e o vice-primeiro-ministro de Portugal, Paulo Portas (irmão da proprietária d’A Vida Portuguesa, Catarina Portas), estiveram no arranque da festa, numa sexta-feira à noite. Sem faltar os típicos vendedores de castanhas e engraxadores de sapatos. O Largo Residências já lá estava, mas inaugurou nesse dia o Largo Café Estúdio e a Loja do Largo. Assim, além da hospitalidade para artistas em trabalho (ou turistas que lá pernoitam, contribuindo para o financiamento deste projecto de arte e inclusão social), há agora um espaço para a venda das obras dos residentes e informação sobre todo o conceito. E há também um café com eventos, refeições leves e iguarias internacionais confeccionadas por um grupo de cozinheiros de várias nacionalidades. Depois do Largo Residências, chegaram a Bike Pop, da Post – Cooperativa de Acção e Intervenção Cultural, e A Vida Portuguesa. A primeira é um ponto obrigatório para todos os que costumam pedalar. Vende bicicletas (incluindo daquelas que se dobram e se transportam facilmente), tem aulas de condução em cidades, oficina e começará, em breve, a instalar postos com ferramentas para reparações em regime self service, em Lisboa, gratuitamente, num projecto financiado pela autarquia. A segunda estreante no Intendente já existe, no Chiado, há seis anos. É a loja dos produtos e marcas tradicionais portugueses. Abriu esta segunda unidade, enorme, no antigo armazém dos azulejos Viúva Lamego, e alargou a oferta às loiças e à decoração. A sua própria decoração vive de mobiliário recuperado de mercearias e fábricas antigas. E assim se recupera o próprio Intendente, esse lugar, por décadas, votado à exclusão. Entretanto, mesmo junto ao largo, e no epicentro do consumo de droga e prostituição, está prestes a abrir o espaço Catch Up. Uma lufada de ar fresco entre os bares mais antigos da Rua do Benformoso, na Mouraria.

Feliz Eid al-Adha!

Um dos principais feriados do calendário islâmico – sistema lunar com uma diferença superior a quinhentos anos face ao solar – foi bem notado por todos os que passaram pela Praça Martim Moniz na manhã de 15 de Outubro. Foi dia 10 do mês Zil-Hijja, o que significa o arranque de quatro dias de festa. É a Festa do Sacrifício (Eid al-Adha). Ali, ao ar livre – aberto a todas as pessoas de todos os sexos, idades e religiões –, realizou-se a oração que abriu as celebrações. O evento atraiu centenas de fiéis e curiosos, e até a imprensa internacional, com o canal turco TRT Haber a cobrir este evento por todo o mundo, e aqui também. Este feriado ocorre setenta dias após o Ramadão e coincide com um outro marco na cultura islâmica que é a peregrinação a Meca (Hajj). Durante quatro dias, convive-se e sacrificam-se animais que são partilhados com os mais pobres. É uma homenagem ao profeta Abraão que, segundo o Corão, sacrificou o seu filho Ismael por vontade de Deus. Na Mouraria, após a oração, pelas ruas, sucederam-se abraços e mais abraços.

Nova investigação sobre palavras portuguesas de origem árabe

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Palavras como Fado, Saudade, Atafona e Borratém, os dias da semana ou provérbios como «As paredes têm ouvidos» são alguns exemplos das mais de dezoito mil entradas e diversos anexos do Dicionário de Arabismos da Língua Portuguesa, lançado em Outubro. É mais uma obra do arabista Adalberto Alves, também poeta e jurista, galardoado pela Unesco, em 2008, com o Prémio Internacional para a Cultura Árabe (Sharjah).

Líderes de várias religiões estiveram reunidos em fraternidade. Foi o “Fórum Diálogo Inter-religioso: Um contributo para a cidadania em tempos de globalização”, organizado pela Câmara Municipal da Amadora e o Alto Comissariado para a Imigração e Diálogo Inter-cultural, na Amadora, a 21 de Novembro. Todos os representantes merecem nomeação, mesmo que numa breve nota como esta. Ei-los: Abdool Vakil (presidente da Comunidade Islâmica de Lisboa), Francisco Sales Diniz (director da Obra Católica Portuguesa de Migrações), José Oulman Carp (presidente da Comunidade Israelita de Lisboa), Jorge Humberto (presidente da Aliança Evangélica Portuguesa), Nitesh Kumar Trivedi (representante da Comunidade Hindu de Portugal) – todos estes estão na foto, também com a tradutora Sarojben Parshotam no extremo direito e o jornalista da TSF, Manuel Vilas-Boas, no terceiro lugar a contar da esquerda. E ainda: Arsénio Sokolov (da Igreja Ortodoxa Russa), Zohora Pirbhai (da Comunidade Muçulmana Ismaili de Portugal), Ana Zorro (secretária nacional da Comunidade Bahá’i de Portugal), Arcipreste Fernando Santos (da Igreja Lusitana-Comunhão Anglicana) e Paulo Borges (presidente da União Budista Portuguesa). CM Amadora

Augusto Fernandes

Intendente: Inauguração 3 em 1

Acesso à saúde e habitação em debate público Até Fevereiro há sessões abertas ao público sobre projectos para a Colina de Santana, organizados pela Assembleia Municipal de Lisboa (AML). A saúde é o tema do próximo debate, dia 14 de Janeiro, sob o título “Impacto das propostas no acesso da população a cuidados de saúde”, com moderação da presidente da AML, Helena Roseta. O primeiro debate já ocorreu em Dezembro, com a apresentação das propostas em discussão para esta zona da cidade. Haverá mais três: Impacto urbanístico, social e habitacional das propostas (dia 21 de Janeiro), Impacto das propostas na memória e identidade histórica da Colina de Santana (dia 4 de Fevereiro) e Apresentação de conclusões e propostas a submeter à Assembleia Municipal. Sempre às 18 horas no Fórum Lisboa, antigo Cinema Roma, na Avenida de Roma.


Poema

más e boas notícias

Dia da beleza

Mouraria à lupa na Gulbenkian Cerca de cem pessoas participaram no colóquio “Mouraria Zoom in, Zoom out”, realizado na Gulbenkian, nos dias 29 e 30 de Outubro. Na recta final da primeira fase da reabilitação do bairro, iniciada em 2010, escutaram-se os testemunhos de quem está no terreno na Mouraria, mas também de quem já enfrentou desafios semelhantes em Guimarães (Alexandra Gesta, na foto à direita) e no Porto (Virgínia de Freitas, à esquerda). Foi tempo, também, de recolher ideias para os próximos anos. «Ninguém sai daqui hoje sem contribuir», avisou, informal, João Meneses (na foto ao centro) – coordenador do Gabip Mouraria, o gabinete que reúne elementos das várias organizações envolvidas, desde a Câmara Municipal de Lisboa às associações locais do bairro. A grande conclusão foi: é preciso inovar. Ou seja: fazer, e bem, tudo aquilo que tiver de ser feito.

s Há esperança na

Mouraria!

Mensagem na Rua das Olarias.

Fernanda Romero, de 46 anos, a filha Ana, de 12 (na foto), e a vizinha Gracinda Varela, de 64, chegaram juntas à Igreja Evangélica da Calçada Agostinho de Carvalho. Nunca ali tinham entrado apesar de passarem à porta há anos. Atreveram-se naquele sábado, dia 19 de Outubro: o Dia da Beleza. Havia cabeleireiro grátis. «Viemos ver». Foram as primeiras “clientes” de Yami Schneider, uma cubana imigrada nos Estados Unidos, aqui em missão pontual, para quem a beleza está sobretudo no coração. «O importante é agirmos sempre da melhor forma que nos seja possível», disse Yami, comentando, em concreto, as mulheres islâmicas cuja cultura limita a vivência plena da feminilidade. O dia passou-se entre penteados, massagens, flores, velinhas, música, lanche e união. No fim, houve ainda uma visita ao domicílio para alindar uma vizinha acamada. Cumpriu-se o objectivo dos pastores Jorge e Orquídea Adrião, que organizaram este evento: «Mostrar que não estamos apenas interessados em religião. Temos as portas abertas e amor para dar».

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Nunca me deixarei apartar do fado Rosa Maria (a fadista)

Rádio Vozes do Intendente:

Primeiro, a má notícia. Desta vez, a zona da Mouraria não ganhou nenhum projecto no Orçamento Participativo (OP) da Câmara Municipal de Lisboa. O projecto Rádio Vozes do Intendente foi a votos na sexta edição do OP, em Novembro de 2013, entre 208 propostas, mas não teve a sorte de candidatos anteriores – o Centro de Inovação da Mouraria e a Casa da Mobilidade da Mouraria, no ano 2012, e o projecto Há Vida na Mouraria!, em 2011, que receberam tantos votos dos cidadãos que puderam nascer financiados pela autarquia. Agora a boa notícia. A ideia não caiu por terra. «Os tempos próximos serão de maturação de ideias e de procura de financiamento», diz a promotora do projecto Cláudia Henriques, 33 anos, da Amadora, licenciada em História, doutoranda em Ciências da Comunicação e investigadora do Centro de Investigação Media e Jornalismo. Com Ricardo J. Rodrigues (jornalista no Diário de Notícias) e Joana Sousa Ribeiro (doutoranda em Sociologia, com enfoque na mobilidade sócio-profissional de imigrantes), forma o núcleo duro que não desistirá de uma rádio comunitária onde todos tenham voz, em todas as línguas.

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Vivo numa canseira louca Pois estou encontrando maneira De me aportar residente Na terra contagiante do fado Sem que o teu ciúme infundado Me procure estrangular o ar. Deixa-me assim tão-somente viver sentida ao teu lado a cantar Os meus fadinhos d’Alcântara Da Mouraria e da nossa Alfama O marujo de boina e madeixa Lisboa com cheirinho a cravo A teima do amor perdido A gaivota do céu encantado. Este texto foi-nos enviado, por e-mail, por Rosa Maria Duarte. «Tenho lido o vosso jornal, que acho muito interessante, pelo carácter informativo e cultural. Claro que o nome me despertou logo a atenção. Curiosamente, o meu nome foi-me dado pelo meu pai, que cantava o fado. Já a minha avó paterna tinha o sobrenome Patrocínio Rosa. Gostava muito que publicassem o poema que dediquei ao fado e que está em anexo. É um poema-pedido de ajuda». Filha de um marinheiro fadista e de uma costureira, Rosa Maria Duarte nasceu em Alcântara há 49 anos. Actualmente é aluna da escola de fado do Grupo Desportivo da Mouraria e reside na Margem Sul onde é professora de português, no ensino secundário. Gravou um CD que sairá em Janeiro intitulado O Fado que Cura. Porquê este título? «Na História, o fado tem tido sempre um papel de catarse – das alegrias, mas sobretudo das preocupações».

Gosto de ti e dos meninos Num amor belo e grandioso De tardia fadista tomada Pela doença fatal dolorida A meio de uma semicheia vida Albergue de letra corrida E verso humano consentido.

Não me toldarás a minha veia Vital e determinada guerreira nem que me faças passar Por mulher vaidosa e convencida Egoísta sórdida malfadada Com história vulgar e conhecida. Cantar onde houver guitarras Não fosse eu mais uma Rosa Maria Marulho poético concha de praia Discreta livre na areia lavrada De amor e som fresco, maresia Tristeza que é som subido Verdadeiro sedutor no fado. Nada nem ninguém de todo nada Me fará por momentos recuar. Inventa aliados, gestos, disfarces E olhares de estudada reprovação. O meu destino está traçado: Cantarei a vida e a morte E o canto do esbelto cisne Amor canção em dor maior Em homenagem ao meu destino Meu eterno e querido pai, o Fado.

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reportagem

Texto e Fotografia Sandra Bernardo

Tensões familiares sob os holofotes do Teatro São Luiz

Confrontar. Desconstruir. Reflectir. Estes são conceitos intrínsecos à peça apresentada no Teatro São Luiz, em Lisboa, no passado mês de Outubro pelos seniores da Mouraria que fazem parte do grupo de teatro Holofote.

Uma mãe que oferece um telemóvel à filha sem lhe perguntar se o aparelho faz parte das suas necessidades prioritárias. Uma filha que decide que o pai, a morar sozinho na aldeia onde sempre viveu, deve mudar-se para a cidade, para junto dela, sem o consultar. Em comum nos dois sketches, mostra-se a desconstrução das relações entre as pessoas, sobretudo quando as ligações são familiares. Desconstruir é, aliás, um dos objectivos deste grupo de teatro de intervenção, a trabalhar com pessoas seniores que, amando o teatro, se têm dedicado de corpo e alma à arte da representação. «O objectivo é colocar o espectador em cena para provocar a reflexão sobre cenas da vida, abordando, assim, temas como a sexualidade, as relações familiares ou as dependências», conta o encenador da peça, Hélder Santos. «Os actores representam uma situação de conflito retirada da realidade. Durante o espectáculo, o público é convidado a entrar em cena e a substituir os actores para experimentar outras atitudes perante as situações apresentadas. A cena final é um debate em que os participantes podem falar da experiência vivida e assim reflectir sobre os temas abordados. É também avaliada a validade das soluções, de maneira a que tudo o que se construiu seja encarado com um olhar crítico». Para levar a cabo este trabalho de prevenção, o Holofote actua com grupos pequenos, explica Hélder Santos. É uma solução que «permite estabelecer uma relação pessoal com o público. As pessoas colocam-se em redor dos actores, numa disposição a que chamamos de arena. Da mesma maneira, o grupo não utiliza adereços nem cenários». Este grupo desenvolve trabalho desde 1998 baseado na filosofia do Teatro do Oprimido, uma metodologia criada na década de 60 pelo brasileiro Augusto Boal e que aposta nesta arte como uma poderosa ferramenta de transformação social. O Teatro do Oprimido tem fortes alicerces no conceito de solidariedade e utiliza técnicas como as do teatro-fórum, que é esta em que o público e a plateia se fundem. Uma nova peça está já a ser preparada.

Sabia que...

Texto e Ilustração Nuno Saraiva

... o pórtico manuelino da Rua da Mouraria tem um erro cómico?  A fachada de uma das mais antigas fundações de caridade  –  o Colégio dos Meninos Órfãos, do século XIII – é uma sobrevivente do terramoto de 1755 e alberga, há cem anos, um posto da Polícia de Segurança Pública (PSP). O pórtico é composto por dois pares de colunas decorados com motivos geométricos e cordas entrelaçadas, sustentando um arco que ostenta aquilo que parece ser uma alcachofra, símbolo da regeneração e da ressurreição. Detalhe: As bases e os capitéis estão invertidos. Na reedificação pós-sismo, os capitéis ficaram na base e as pedras de base no lugar dos capitéis. O “fazer à pressa” não é só apanágio de hoje.


hábitos

ગુલાબ મારીયા

Texto Marisa Moura Fotografia Helena Colaço Salazar

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O mini-turbante Na Mouraria é habitual cruzarmo-nos com jovens que usam uma bolinha de pano sobre a cabeça. Que bolinha é essa? Chama-se patka. Usam-na os sikhs. Nunca cortar qualquer pêlo do corpo é um preceito-chave entre os sikhs, por isso, usam ‘patkas’ enquanto crianças e adolescentes, e depois turbantes – ou lenços, no caso das mulheres. Protegem assim o cabelo que cresce livre como Deus quis. Por usarem barbas longas e turbante, confundem-se amiúde com muçulmanos, mas esses cortam o bigode, por exemplo. O cabelo (kesh) é um dos cinco K’s que pautam esta religião. Os outros são: kara (pulsei-

ra de aço no pulso direito usada por homens e mulheres), kanga (um pente de madeira pequeno), kachhehra (espécie de culotes) e kirpan (espada curva), um elemento com origens na Ordem Khalsa, que lutava contra o Império Mughal, islâmico, nos primórdios do sikhismo. Outra grande marca é o sobrenome comum a todos os homens: Singh. É o nome do último dos dez gurus fundadores. Chamava-se Gobind Singh e faleceu em 1708, sem nomear sucessor, alegando que o poder corrompe os humanos. As mulheres usam o sobrenome Kaur, princesa, num elogio à igualdade de género, contrastante com o islão.

época, relativamente recente e apologista do vegetarianismo). E também contra a então reinante opressão islâmica. Os sikhs falam punjabi, como os demais habitantes do Punjab, independentemente da fé de cada um. Mas também falam gurmukhi, a língua que funde sânscrito e persa unindo as culturas hindu e islâmica, em guerra no século XV. Na mesma época, os portugueses iniciavam as Descobertas promovendo o cristianismo pelo mundo e desenhava-se também a Reforma Protestante na Europa, com o alemão Martinho Lutero a criar, em 1517, uma nova ala dentro do cristianismo, contra os católicos, com motivações semelhantes às do guru Nanak.

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Daljit Singh, 17 anos, residente na Mouraria

A reencarnação, típica do hinduísmo e do budismo, foi desvalorizada pelo fundador do sikhismo, o guru Nanak. É nesta vida que tudo se joga. Por isso, todo o sikh, pelo menos uma vez, vai ao Templo Dourado (Harmandir Sahib), um santuário construído em ouro em Amritsar, no Punjab, região onde nasceu o sikhismo, no noroeste da Índia, na fronteira com o Paquistão. O sikhismo nasceu contra os excessos das religiões dominantes na Índia: o milenar hinduísmo (caracterizado pelo sistema de castas, sem mobilidade social, com os sacerdotes no topo, acima de governantes, guerreiros e trabalhadores, e na base os intocáveis, espécie de sub-humanos) e o budismo (na

com apoio e participação

do  IELT

Instituto de Estudos de Literatura Tradicional 

ielt.org

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Apenas · apenas-livros

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Estes trabalhos foram parcialmente financiados por Fundos Nacionais através da FCT - Fundação para a Ciência e Tecnologia 


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Rosa Maria n.º 6 dezembro ‘13 · junho ‘14

reportagem

Texto Marisa Moura Fotografia Carla Rosado

Feios, porcos e maus? A vizinhança atira-lhes baldes de água, a polícia faz marcação cerrada. Dependem de heroína ou cocaína. A Mouraria é ponto de encontro de mais de duzentos consumidores destas drogas. Viagem ao mundo da droga e do amor. «Eu estou do lado dos feios, dos porcos e dos maus. Essa é a minha gente. E sinto sempre a impressão de que a maioria gostava que eles se fossem embora». Palavras de Luís Mendão no colóquio “Mouraria Zoom in, Zoom out”, na Gulbenkian em Outubro. É o presidente do GAT – Grupo Português de Activistas sobre Tratamentos de HIV/Sida, a associação que coordena o In-Mouraria, um espaço onde se presta assistência social, médica e logística para reduzir danos associados ao uso de drogas. Quem são estas pessoas «feias, porcas e más» (na terminologia da célebre comédia de Ettore Scola)? Como vieram parar à Mouraria? Comecemos pela Sol – chamemos-lhe assim, como pediu. Uma cicatriz traça-lhe a cara de olho a olho, sobre o nariz. Tem 33 anos e 32 pontos à vista de toda a gente. Foi mãe aos 18 anos e prostitui-se desde os 27 para financiar as dezenas de doses de crack (cocaína base) que fuma diariamente, a cinco euros cada, numa média de 250 euros por dia. Aos treze, «buéda precoce», divertia-se noite dentro na discoteca Alcântara-Mar, estreando-se nos «snifs e pastilhas». Hoje pára na Rua do Benformoso, fronteira da Mouraria com o Intendente, ponto de encontro de cerca de duzentos toxicodependentes, entre os mais de 60 mil existentes em Portugal – que alimentam um negócio mundial anual superior a 500 mil milhões de euros (o triplo do Produto Interno Bruto de Portugal), num total de 27 milhões de dependentes de cocaína ou heroína. Nas Escadinhas das Olarias cachimba-se nas barbas dos moradores (discrição apenas quando passam crianças). «Eu ali em baixo deixo de ser esta transparência e passo a ser, digamos, um bocado antipática. Bad girl. Os acontecimentos da minha vida obriga-

ram-me a ganhar uma protecção. E, olhem, é assim: vamos embora porque vamos levar agora, neste momento, com um balde de água nos cornos (desculpem lá a expressão). Aquela mulher!» Sol caminha encurvada, mas o discurso é recto. E correcto. Dificilmente se adivinharia que ficou dois anos aquém do 9.º ano, a escolaridade obrigatória na época em que estudou.

PÍLULA DO AMOR, AFINAL, NÃO EXISTE «Eu não sou assim. Estou a usar bué calão. Estou de directa e com uma granda depressão (fases dos casais… de mim já sou nervosa…). Ontem tomei um drunfo. Sabem o que são drunfos?» Sim, antidepressivos. Os portugueses são os maiores consumidores de drunfos da União Europeia. Sol não está sozinha aí, nem nas estatísticas da escolaridade obrigatória. Portugal só está melhor do que a Turquia e o México no ranking dos países ditos desenvolvidos da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico. Até o signo da Sol é o mesmo de Portugal: caranguejo. «Umas grandas sentimentalistas, umas choronas. Românticas incondicionais. Eternas sofredoras… Às vezes, confundimos bondade com “otarice”». O amor. O amor vem sempre à baila, para o bem e para o mal, quer falemos com a Sol, com o seu namorado Miguel («Graças a esta mulher, deixei de me injectar. Ela tem pavor a isso porque o pai dela, toda a vida, esteve nesses movimentos»), com o António, que esteve limpo nove anos e, numa separação, recaiu… Ou com muitos outros, incluindo o psicólogo Américo Nave, responsável da associação Crescer na Maior que tem equipas de rua

diariamente na Mouraria desde 2003, altura em que paravam por aqui oitocentos toxicodependentes – a maioria entretanto encaminhada para tratamento. «Agarrei-me ao cavalo com o pai do meu filho. A nossa relação estava a descambar e aquilo dava buéda pica para “coiso”. Até que, um dia, não há moca e as coisas não são lindas e maravilhosas. E depois já há ressaca. Prostituir-me estava fora de questão. Ele é que ia roubar, só que, entretanto, vai preso. Comecei por vender tudo o que tinha. Depois tentei vender droga, mas como não quis ir presa, a única maneira… Enfim, estão a ver estas voltas todas?» Tinha na altura um filho de dez anos de idade. A droga também foi usada pelo António para (tentar) substituir o amor. Desportista de 43 anos, há quatro anos era sem-abrigo num grupo de uma dúzia que dormia nas arcadas da Rua Arco Marquês do Alegrete e acordava «com a polícia, a chicote e pontapé». Foi o amor. «Começámos a não nos entender e havia discussões todos os dias. Comecei a beber e, depois, a fumar (tabaco). Ela saiu de casa e daí até eu começar nas drogas foram uns oito meses». António já tinha sido dependente, na juventude, e estava livre há nove anos. «Pensei que já estava tudo resolvido, mas acabou por não estar». Era segurança no aeroporto e tinha a vida estável com a namorada. «Quando perdes tudo isso, nada faz sentido. Tenho uma família grande que sempre me apoiou, mas eu, estupidamente, fui-me afastando, um pouco por vergonha», conta este «mimado», filho de um serralheiro mecânico encarregado de minas.

A MAGIA DA FRONTALIDADE Na recaída, já conhecia os efeitos da heroína e da cocaína, ao contrário da estreia, há vinte anos, quando trabalhava em bares no Algarve e vivia com um grupo de amigos, tendo o 12.º ano, um inglês acima da média e pergaminhos no basquetebol. Porquê repetir o erro? «Tenta-se colmatar o vazio que fica na nossa vida. Mesmo sabendo». Na rua andou mais de meio ano a ouvir «as cantigas» da equipa da Crescer na Maior e lá aceitou entrar em tratamento. Após ano e meio na comunidade Ponte, trabalha há nove meses numa instituição de apoio social e vive em Alfama.

E agora, tens novas ferramentas anti-recaída? «Sim. Ter conversas. Vais arrastando o lixo por não lidares na frontalidade com algumas questões e perceberes o que está a correr mal. Parece que não, mas tudo isso vai acumulando». No primeiro tratamento não tinhas aprendido isso? «Não. Esse foi numa comunidade onde trabalham mais a parte espiritual. Não trabalham o problema no íntimo, aquilo que cá vai dentro e nos faz mal».

REGRAS, PRECISA-SE Amor, amor, amor. «O que falta é amor», diz Américo Nave, da Crescer na Maior. «Mas não se pode confundir amor com permissividade. Tem de haver regras. Isso tem de ser ensinado», sublinha o psicólogo de 42 anos, nestas lides desde os anos 90, quando os então cem mil toxicodependentes do país faziam de Portugal um caso de estudo internacional. «Se calhar, é mais importante ensinar os filhos a perder do que a ganhar», adverte. Ganhar. Curiosamente, há vários ex-desportistas profissionais entre os «feios, porcos e maus» da Mouraria, incluindo os que não aparecem nesta reportagem. Gostam de ganhar. Miguel, o namorado da Sol, é um deles. Tem 35 anos e esteve preso dos 22 aos 29 por tráfico. «Consumo desde os 13 anos. Só não é visível fisicamente porque sempre fui atleta. Fiz luta greco-romana, fiz parte da selecção portuguesa de luta livre… Sempre estive ligado ao desporto. E alimento-me bem e tal». Como chegaram as drogas? «Não posso dar isto como desculpa, mas pela perda do meu pai entrei numa de… foi um bocado revolta. Comecei a chegar tarde a casa. Uma criança com 10 ou 11 anos chegar às quatro da manhã a casa é impensável». As regras. É preciso regras. «A certa altura, a minha mãe, com toda a razão, chateou-se e disse: “Não te admito que entres em casa a estas horas. Se não estiveres aqui às dez da noite, dormes na rua”. Eu paguei para ver. No dia seguinte fui às dez e meia, a testar. Foi a maior estupidez da minha vida!» As regras não funcionaram com o Miguel. «De quatro irmãos, fui o único que foi pelo mau caminho». Conta tudo isto mesmo ao lado dos polícias que chegaram ao Benformoso e se especaram ao nosso lado. Não se intimida. Foi ele, aliás, quem avisou que eles estavam a chegar. Confiante, hoje, mas nem


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sempre foi assim. «Naquela altura, no grupo, quem não consumisse era posto de parte. Não havia a informação que há agora e quem fumasse é que era o bom». O Miguel quis ser bom. «Fui segundo cabo de cavalaria, o desporto… Tive muitas e muitas oportunidades. E, vou-vos dizer: tenho HIV. Soube quando fui preso em 2002».

BERÇOS QUE MARCAM A mãe tentou protegê-lo logo à nascença. «A minha família mora toda na Cova da Moura e no Seis de Maio. A grande maioria trafica. Sempre me disseram: “Nunca toques nisto aqui para teu consumo, que isto é só para fazermos dinheiro”. A minha mãe nunca quis que eu fosse para lá viver para não me meter nesse tipo de situação». Miguel cresceu então em São José, com a mãe. O pai era cozinheiro no Algarve e vinha quando podia. Até que morreu, e este filho, aos nove anos, começou a enveredar pelo tal «tipo de situação». A Sol foi ainda mais precoce. Estrou-se nas «mocas» aos «três ou quatro anos», muito antes das noitadas no Alcântara aos treze. Jogava o Sporting e um grupo de convivas reuniu-se na Musgueira. «O meu pai e os amigos (que por acaso eram todos tóxicos, mas que no momento estavam numa de ganzas) estavam a conviver e eu fui esquecida (entre aspas). Andava lá na minha vidinha, a brincar ou não sei. Conforme eles abrem a porta, desato a correr, mando uma cabeçada num poste e caio para trás. Foi

a moca». E a tua mãe? «É o oposto do meu pai. O meu padrasto é piloto-aviador… Nada a ver. Neste momento, o meu pai está preso, é seropositivo, et cetera. A minha mãe é uma senhora em todos os aspectos». Foram os pais desta senhora que criaram a Sol, no Saldanha. Agora, o filho da Sol é criado pela avó paterna. Aos catorze anos, qual é a relação dele com as drogas? «Tem ideia, no máximo, que isto comigo é cena de ganzas. Tenho muito medo do futuro dele». Já falaram sobre tudo isto? «Hum… Não. Não quero».

Cizenando passa o dia por ali, no Benformoso, por vezes a moldar barro n’Os Amigos do Minho. «Sou minhoto. Nasci em Angola mas o meu pai era de Valença do Minho». Ajudou a subir um forno ao ateliê de cerâmica, e lá continuámos a conversa. «A nossa cabeça está dividida em quantas partes? Três. Neo-córtex, Líbido e Complexo-R. Tenho o 9.º ano. Sou muita curioso. Tenho filhos. Tenho que ensinar». Ensina a Teoria do Cérebro Trino de Paul MacLean, ligeiramente

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adaptada. Perguntamos: Qual dessas partes mais intervém na capacidade de resistir, por exemplo, à heroína? «Eia c’um caneco! Que grande questão você me põe! É assim: normalmente, a líbido é, por exemplo, se um homem tem uma mulher à frente… O neo-córtex é a carola. Inteligência, informação. E depois há a outra... a brutalidade! RRRR. Eu não gosto de ser bruto». E mostra-nos fotografias no telemóvel: o mais novo dos seus cinco filhos e vasos com flores. Coisas mais lindas!

NEUROCIÊNCIA: O PODER DA CAROLA A «carola» parece ser o melhor antídoto contra as tentações. Criado na Rua das Olarias com uma avó, Cizenando Passos, 44 anos, deixou a heroína graças ao «poder da carola». A mãe e o pai foram assassinados em África, era ele adolescente. «Locutores de rádio, os dois. Depois, o Apartheid… Não quero falar sobre isso». Vieram as drogas. «Não culpo ninguém. Nem foi a título de curiosidade. Foi só naquela: deixem-me desbundar. Dei na heroína muitos anos (nunca me injectei). Não dou já vai para quinze anos (dei umas passinhas, mas isso não conta)». Veio a cadeia. «Estive doze anos preso, mas não matei ninguém». Entretanto veio o álcool, essa substância que os especialistas consideram o maior problema europeu, ao nível social – com destaque para a situação em Portugal, onde 500 mil pessoas dependem dela.

Cizenando: «A nossa cabeça está dividida em quantas partes? Três. Neo-córtex, Líbido e Complexo-R»


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editorial

está bem · está mal

Estava aqui eu, Rosa Maria, a ler esta edição do nosso jornal, quando constato: ‘Eles são todos os mesmos, falam todos uns dos outros!’ Há uma pessoa chamada João Meneses, coordenador do Gabip Mouraria, que aparece nuns três artigos. Há o senhor Carlos Capelo sobre o qual se escreve na rubrica Retrato de Família, mas que também é referido no Vox Mourisco por duas das oito pessoas inquiridas sobre compras na Mouraria nesta época natalícia. Depois, surge inúmeras vezes a sigla PDCM relativa ao Programa de Desenvolvimento Comunitário da Mouraria ao abrigo do qual se realizaram grandes obras e projectos. Todas estas ligações trouxeram-me à ideia a célebre Lei dos Seis Graus de Separação. Pense numa pessoa que gostasse de contactar, seja quem for e onde quer que esteja neste planeta com sete mil milhões de habitantes. Segundo esta teoria, para chegar a essa pessoa serão suficientes, no máximo, meia dúzia de intermediários. A ideia foi teorizada, em 1920, pelo húngaro Frigyes Karinthy, no conto Cadeias, e comprovada no terreno, em 1967, numa experiência do psicólogo social Stanley Milgram, em que cerca de duzentos voluntários teriam de fazer chegar uma carta, de mão em mão, a um corretor de Bolsa de Boston. Confirmou-se que, na maioria dos casos, a carta chegou ao destinatário envolvendo um máximo de seis pessoas. Mais recententemente, em 2011, na Universidade de Milão, realizou-se uma nova experiência no âmbito do Facebook, numa altura em que esta rede social tinha perto de 800 milhões de “amigos”. A distância reduz-se para 4,7 pessoas. E diminui se observarmos apenas os aderentes dos Estados Unidos, onde estão registados mais de metade dos cidadãos maiores de 13 anos de idade. Aí, a distância no Facebook é de 4,3 pessoas. Estamos todos ligados. Na Mouraria ainda mais. E não é apenas por ser um bairro e nos bairros as pessoas tenderem a estar próximas. É porque este bairro está, desde 2010, em processo de reabilitação, o que implica muita gente a trabalhar em rede. Cerca de cinquenta entidades cooperam diariamente. Como dizem os africanos: estamos juntos!

Num bairro rico em História como a Mouraria, há totens informativos, em português e inglês, distribuídos em pontos de interesse patrimonial que enriquecem moradores e visitantes. CARLA ROSADO

Todos ligados

RODRIGO BARATA

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O eléctrico 28, do Martim Moniz para os Prazeres, é uma atracção turística, mas a frequência das carreiras não responde a todas as solicitações e as longas filas inviabilizam o uso aos moradores.

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FICHA TÉCNICA · Direcção: Associação Renovar a Mouraria Direcção gráfica: Hugo Henriques Edição: Marisa Moura Redacção (textos, fotografias, infografias e ilustrações): Ana Castro, Ana Luísa Rodrigues, Antònia Tinture, Clara Azevedo, Ernesto Possolo, Hugo Henriques, Joana Rocha, Luísa Rego, Marisa Moura, Nuno Franco, Nuno Saraiva, Paulo Oliveira, Pedro Santa Rita, Rita Pascácio, Rodrigo Barata, Samuel Alemão, Susana Moreira Marques, Susana Simplício, Teresa Teles de Almeida Agradecimento especial a: Ana Filipa Fernandes (agenda cultural), Camilla Watson (fotografia), Dário Branco (fotografia), Inês Andrade (revisão), Joana Chocalhinho (revisão), João Madeira (passatempos), Time Out Lisboa/Joana Freitas (fotografia), Arquivo Municipal de Lisboa – Núcleo Fotográfico, Câmara Municipal da Amadora (fotografia), Turismo de Lisboa (fotografia) Capa: Carla Rosado Propriedade: Associação Renovar a Mouraria Redacção, administração e publicidade: Beco do Rosendo, n.º 8, 1100-460 Lisboa, Tel.: +351 218 885 203, Tm.: +351 922 191 892, rosamaria@renovaramouraria.pt Impressão: Funchalense – Empresa Gráfica S.A. Distribuição: Associação Renovar a Mouraria Versão digital: www.renovaramouraria.pt Tipos de letra: Atlantica, Lisboa e Tramuntana > Ricardo Santos Depósito legal: 310085/10 Periodicidade: Semestral Tiragem: 10 000 exemplares Número seis, Dezembro 2013


reportagem

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Texto Susana Simplício Fotografia Carla Rosado

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O que contam estas

paredes? As obras de arte da estação de metro do Martim Moniz ilustram a História de Portugal e têm as suas próprias estórias.

«O Afonso Henriques, como é rei, tem um olho», diz o escultor José João de Brito

Em terra de cegos, quem tem olho é rei, diz o provérbio. O escultor José João de Brito, autor destas esculturas, concluiu então que «o Afonso Henriques, como é rei, tem um olho». Corriam os anos 90 quando, no âmbito da remodelação da rede do Metropolitano de Lisboa, este artista e a pintora Gracinda Candeias foram desafiados a registar as suas ideias nas paredes desta estação – então denominada Socorro, como a antiga freguesia do bairro da Mouraria. A nova estação foi inaugurada em 1997 e rebaptizada como Martim Moniz em homenagem ao capitão do exército do primeiro

Preparação do mural de azulejos de Gracinda Candeias

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e

deles», recorda Gracinda Candeias. «Tudo isto foi muito prazeroso, tirando os desgostos que tive», recorda esta artista nascida em Angola há 66 anos, referindo-se a peripécias que levaram a cortes e alterações sucessivas da sua obra, entre outras de várias ordens. Ainda assim, em “terra de cegos”, Gracinda Candeias (bem como José João de Brito) teve mais sorte do que Maria Keil, a artista plástica, falecida em 2012, que foi o principal rosto da primeira geração de estações de metro, presente em 21 delas, nesta inclusive. Impedida de criar motivos figurativos por Salazar e pelo conselho de administração do Metro, a sua obra foi adaptada para cumprir os requisitos impostos pela ditadura, transformando as suas figuras iniciais em formas abstractas geométricas em que os círculos representam as rodas e os traços verticais os carris. Hoje as paredes do Metro contam-nos histórias e estórias que, há quatro décadas, seriam proibidas.

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rei de Portugal (Afonso Henriques) e mártir na conquista cristã de Lisboa em 1147, sacrificando a vida entre as portas do castelo dos mouros para que as suas tropas pudessem entrar e vencê-los, segundo reza a lenda. As portas do metro, por vezes, também entalam pessoas e essa foi outra inspiração de José João de Brito, esculpindo um Martim Moniz entalado entre portas. «Quando me falaram em Martim Moniz, eu virei-me para a História de Portugal e para o Norberto de Araújo, cujos livros tenho em casa», explica o artista. «Essas figuras vêm-me de uns desenhos de um livro que me deram para aprender a História de Portugal». Refere-se à História de Portugal para Meninos Preguiçosos de Olavo D’Eça Leal com ilustrações de Manuel Lapa, editado na ditadura salazarista. E os azulejos de Gracinda Candeias, o que nos contam? A artista plástica criou três painéis: o português, o africano e o mourisco. O primeiro é «dedicado, claro, à história da Severa e do conde de Vimioso». Guitarras, notas musicais, touros, toureiros e sol são os elementos-rei neste painel inspirado no célebre romance da prostituta da Mouraria, considerada mãe do fado, e do seu amante marialva. O africano vive de elementos plásticos baseados nos tecidos indígenas do século XVI e na história da Rainha Nzinga, ícone da resistência angolana à ocupação portuguesa no século XVII. E o mourisco… O mourisco era suposto ter apenas leitura, em árabe, das palavras “Portugal”, “Lisboa” e “Marrocos”. E tem. Mas tem também outras palavras como “carta”, “livro” e “Deus” que acabaram por ser pintadas apesar de terem sido desconstruídas, como tantas outras, de forma a não terem leitura. Quem as descobriu foram os operários que trabalhavam na remodelação, muitos deles árabes. «Eles estavam tão entusiasmados porque estavam a ler a língua

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Se é uma das pessoas que utiliza diariamente a estação de metro Martim Moniz, provavelmente já reparou nos símbolos em painéis de azulejos e nas figuras medievais esculpidas em mármore. E alguma vez se questionou sobre as histórias que ali se encontram?

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reportagem

Texto Susana Simplício Fotografia Carla Rosado

Quase tudo é possível Fabricar objectos está ao alcance de qualquer um. Abriu um novo fablab em Portugal. Fica perto da Mouraria e pode usar-se gratuitamente alguns dias por semana. Se é criativo e quer dar largas à imaginação, pode fazê-lo no FabLab Lisboa. É um serviço municipal de prototipagem que nasceu em Julho deste ano no Mercado do Forno do Tijolo, entre a Mouraria e a Penha de França. «Um local onde é possível criar (quase) tudo», é o lema dos fablabs. Como o nome indica, um fablab é um laboratório onde é possível fabricar. Desde uma maquete de arquitectura a objectos decorativos, mobiliário, aplicações em vinil, carimbos, robôs ou vestuário, quase tudo pode nascer ali, seja para fins académicos, profissionais ou pessoais. No FabLab Lisboa, «por agora quem dá mais utilização ao espaço são os estudantes, sobretudo de design e arquitectura», diz o director Bernardo Gaeiras. Contudo, também há procura na área de engenharia, artes, marketing, moda e até na formação em computadores. Qualquer pessoa pode usar um centro destes. Aprende-se fazendo. Neste, conta-se com a ajuda de seis voluntários,

portante a troca de valores do que a troca monetária. Prova disso é não haver custos às terças e quintas-feiras, «dias abertos», para quem levar os seus próprios materiais. Nos restantes dias o preço varia entre os 5 e os 25 euros por hora, consoante o equipamento a usar. Em qualquer caso é necessário fazer-se registo no site fablablisboa.pt e reserva antecipada das máquinas. Se ainda acha que isto é um bicho-de-sete-cabeças, o FabLab Lisboa funciona de segunda a sexta-feira, das dez às dezoito horas. Por que não pegar naquele projecto que tem na gaveta e ir até lá?

O FabLab Lisboa, no Mercado do Forno do Tijolo, integra a rede internacional de 250 fablabs

estudantes que dão apoio especialmente a pessoas como Catarina Oliveira, uma estreante nesta inovação. O Rosa Maria encontrou-a a trabalhar no seu projecto final do mestrado em Arquitectura: um modelo 3D de uma casa. Outra utilizadora é Rita Sá, doutoranda em Médias Digitais e mais experimentada. Ali produziu os módulos para a criação de personagens articuláveis que seriam usados numa animação, baseada nos seus desenhos, a apresentar num workshop do festival Future Places no Porto. «Os fablabs são centros de inovação e de tecnologia onde os utilizadores são a comunidade local»,

Rua a Rua

Todas as ruas têm nomes que vão beber às mais variadas fontes. Mas poucas devem o seu nome a uma fonte verdadeira, que a necessidade dos homens transformou em poço com o nome árabe de Borratém. A palavra “borratém” deriva dos termos árabes ber attem e significa “poço da figueira”, num testemunho da presença árabe e muçulmana em Lisboa. Sobre a figueira, sabemos que terá existido pelo menos uma na zona, ou mesmo junto do poço. Mas se

refere Bernardo Gaeiras, sublinhando a importância do debate de ideias inerente ao conceito. «Cada um tem de adaptar-se ao contexto porque a população e as necessidades são diferentes», diz o director deste espaço que integra uma rede internacional com cerca de 250 outras unidades – incluindo os outros dois já existentes na zona de Lisboa: o Vitruvius, do instituto universitário ISCTE-IUL, e o FabLab EDP, que foi o primeiro a abrir em Portugal, em 2011, na cidade de Sacavém. «Estamos aqui para dar apoio à comunidade e o retorno é qualitativo», afirma Bernardo Gaeiras, considerando mais im-

Texto Pedro Santa Rita Fotografia Carla Rosado

a árvore deixou de existir, a sua memória continua entre nós, através da pombalina Praça da Figueira. A partir do século XVI, as referências ao Poço do Borratém multiplicam-se. No Pranto de Maria Parda, Gil Vicente apresenta-nos uma mulher mulata (parda) a percorrer as tabernas de Lisboa, pranteando por uma taça de vinho, num ano em que este escasseava por toda a cidade – uma metáfora da fome. Após nova tentativa em vão, a taberneira Branca Leda terá respondido desdenhosamente a Maria Parda: «Muita água há no Borratém e no poço do tinhoso». Na rua, que ficava em terras dos condes de Monsanto, o poço vai ganhando fama, sendo recomendado na Polyanthea Medicinal para a cura de comichões, impingens, bostelas e achaques do fígado. Com tanta fama, as disputas pelo controlo económico das águas milagrosas multiplicam-se: entre a administração da Irmandade das Almas, que cobrava 80 reis aos aguadeiros, até 1818, e a exploração do poço pela última companhia de aguadeiros, os preços cobrados pelo recurso natural não paravam de subir. Instala-se a revolta popular obrigando a câmara a intervir através

É sempre necessário registo prévio e reserva no site fablablisboa.pt

Rita Sá, doutoranda em Médias Digitais, a trabalhar nas personagens da sua animação

Poço do Borratém da posse administrativa do poço em 1849. O poço tornou-se público e nunca mais se pagou um vintém pela preciosa água, mesmo quando foi transformado em chafariz, em 1900. Com o liberalismo e a expulsão da ordem religiosa de São Camilo de Lellis, em 1834, a rua começa a perder o seu aspecto medieval. Convento, igreja e casas da ordem são loteados e vendidos, para dar origem aos actuais quarteirões de prédios de rendimento. Em finais do século XIX, o Chafariz do Borratém acaba dentro de um prédio, separado da rua por um gradeamento e uma porta de ferro, que se abre ao público. Continuou a dar de beber aos lisboetas até aos anos 50 do século passado, enquanto fornece de água o Hotel Peninsular, que lhe fica por cima. Encerrado o chafariz, por inquinamento das águas, o velho poço prolonga a sua vida enquanto espaço comercial. Na década de 1980 o seu espaço é transformado nos Armazéns do Alegrete. Entretanto, depois da grande reabilitação de 1986, integra o Hotel Lisboa-Tejo que cuida dele até agora. Está aberto a todos os que o queiram visitar.


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notícias ARM

A casa que cresce

Alfabetização

Jantares vegetarianos e ioga

Mouraria

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Chama-se Mouradia – Casa Comunitária da Mouraria e abriu há um ano, no dia 8 de Dezembro de 2012, no Beco do Rosendo, nas portas 8 e 10, no lugar de um edifício em ruínas. É frequentada por tanta gente que já começou a expandir-se às portas vizinhas. É a sede da Associação Renovar a Mouraria (ARM) que nasceu em 2008, e mesmo sem tecto, já produzia, por exemplo, este jornal. Agora, no primeiro aniversário da Mouradia, houve festa rija, com porco assado no espeto para quem quisesse aparecer, e apareceu uma enchente. Houve ainda muita música e a exibição de um slide show com centenas de fotografias que fizeram a história desta casa em doze inacreditáveis meses. Aqui ficam algumas dessas imagens.

Gabinete da Cidadania

Na Mouradia, vários adultos já venceram a barreira de não saberem ler nem escrever, rumo a uma maior inclusão social.

Português para estrangeiros

Todas as quintas-feiras há jantar vegetariano, com uma qualidade de levar à rendição o mais carnívoro dos carnívoros. E de manhã, de terça a quinta, há aulas de ioga, igualmente com a gourmet Vera Sousa.

Guitarra

Dezenas de estrangeiros aprenderam língua portuguesa ao longo deste ano, em grupos de diferentes níveis, incluindo preparação para a prova obrigatória em processos de aquisição de nacionalidade. Na foto, uma aula com a professora Joana Chocalhinho.

Dário Branco

Saúde para Todos

Todas as quartas-feiras, das 14h às 20h, há apoio gratuito para residentes ou trabalhadores no bairro, em processos de legalização, traduções, preenchimento de IRS, arrendamentos, etc.. Na foto, o jurista Vladimir Vaz presta uma das suas sessões de esclarecimento.

Miúdos e graúdos aprendem a tocar guitarra com o professor Rui Paiva, às quintas-feiras de manhã, a seguir às aulas de ioga da Vera.

Gastronomia internacional

Apoio ao estudo

Explicações gratuitas para alunos do quinto ao 12.º ano, residentes no bairro. Na foto, o voluntário Luís Afonso, estudante de medicina, explica matemática à Catarina Guerrinha.

Consultas de medicina alternativa e psicoterapia a preços acessíveis, ou mediante troca de tempo no caso dos mais desfavorecidos. Na foto, uma consulta com a especialista em medicina tradicional chinesa, Telma Raposo, membro do grupo de terapeutas “Saúde para Todos”, parceiro da ARM.

Qualquer cidadão do bairro pode cozinhar um jantar típico da sua região. Divulga a sua cultura, delicia os convivas e reforça os seus rendimentos. O angolano Aldo Milá, na foto, foi uma das pessoas que já cozinharam na cafetaria – aberta de terça a sábado, para comes e bebes, exibições de filmes, documentários, futebol, festas de aniversário, workshops, exposições e tudo o mais que a imaginação desejar.


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Dança

Visitas guiadas

Mouraria

para Todos Há ballet para crianças, aos sábados de manhã, e danças latinas, às sextas-feiras à noite, com a professora Dayami Demestre.

Tertúlias

Fora da Mouradia também houve inúmeras actividades este ano, desde as Visitas Cantadas (visitas ao bairro acompanhadas por fadistas), passando pelo workshop de ilustração que pôs gente de todas as idades, na rua, a desenhar. E agora há o novo projecto Mouraria para Todos – visitas que não esquecem quem tem necessidades especiais, apoiadas pelo programa EDP Solidária, da Fundação EDP. Instalam-se rampas, para pessoas com mobilidade reduzida. Para invisuais, adaptam-se os percursos privilegiando locais onde os sons, os cheiros e os sabores valorizam a experiência. Para surdos, há intérpretes de língua gestual portuguesa. Os guias receberam formação específica na Mouradia, garantindo-se, assim, a qualidade do serviço prestado aos visitantes e promovendo o emprego local.

Debater o bairro, o país e o mundo entre petiscos e cantorias. Na foto, um encontro sobre bairros históricos, com Gabriela Carvalho, olisipógrafa, e Ermelinda Brito, nascida e criada na Mouraria e ex-presidente de junta, com moderação de Alexandre Ovídio, actor e apresentador. Há ainda a guitarra de Miguel Veras, e agora também um piano. Sim, um piano! A Mouradia fazia um ano e queria um piano. Teve a lata de pedir um, via Facebook, e, qual milagre, num instante ele apareceu. Foi uma oferta de Maria da Luz, que não lhe dava uso. Aqui ele servirá para tertúlias e aulas de piano.

Mercadinho do Beco

Rosendo

No último sábado de cada mês vende-se, compra-se e troca-se no Beco do Rosendo.

Não há becos sem saída. Neste, além da casa, nasceu também o Rosendo: a Mouradia sobre-rodas. É um carismático carrinho que circula pelas ruas, a distribuir material informativo, e que serve de stand da Associação em eventos como o Festival Imigrarte, que foi onde o Rosendo se estreou, no passado mês de Novembro.


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Fotografia Helena Colaço Salazar Depoimento recolhido por Marisa Moura

É presença habitual na Casa da Severa, desde que este espaço inaugurou no Verão passado, reanimando o sítio onde, no século XIX, viveu a mãe do fado, Maria Severa Onofriana. Jaime Dias foi, aliás, uma das estrelas que iluminaram a noite de inauguração a 23 de Julho – tal como Hélder Moutinho, gestor do espaço que também é fadista (e irmão de outros dois fadistas: Camané e Pedro Moutinho). Nessa noite, Jaime Dias viu abrir-se esta porta e não só. «Para o ano, se Deus quiser, estou no Caixa Alfama». Refere-se ao grande festival estreado também em 2013, organizado pela Música no Coração, a produtora que lançou em Portugal a febre dos festivais de Verão.

Casa da Severa

3/

O retrato de Jaime Dias está impresso numa parede deste largo. É uma das dezenas de fotografias que trouxeram nova vida à Mouraria, num projecto da fotógrafa britânica Camilla Watson com fadistas e moradores, há quatro anos. Quando lá passa, faz por não olhar. Diz que não gosta de se ver. E o mais curioso é que também não adora ouvir-se. «Em discos com outros, por exemplo, chega à minha parte e desligo», confessa este fadista de excelência reconhecida.

Largo do Terreirinho

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passeando com Jaime Dias

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Este é um local de frequência regular, nos melhores e piores momentos da vida. Tem grande devoção pela Nossa Senhora da Saúde, a par da Nossa Senhora de Fátima. «Ainda agora um amigo foi operado e fui lá pedir por ele». Fala de Tony Loreti, o fadista que luta contra um cancro e para quem Jaime Dias, com Tony Carolas, organizou um concerto de solidariedade no dia 1 de Dezembro na Voz do Operário.

1/

Igreja da Nossa Senhora da Saúde

Aqui teve convívios sem conta, «na tasca da Cristina, que dantes era do Alfredo, primo do Fernando». Entretanto, sonha com o dia em que o Largo da Guia adopte o nome Fernando Maurício, o “rei do fado”, que nasceu na casa em frente à da Severa e faleceu em 2003. «Os dois lado a lado: largo da Severa e largo Fernando Maurício. Lindíssimo! E, depois, com a estátua dele onde está o chafariz, por exemplo». É o sonho daquele que foi, talvez, o maior fã de Fernando Maurício. «O homem que mais amei na vida, a seguir ao meu pai».

4/ Rua da Guia

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ગુલાબ મારીયા

Jaime Dias começou a cantar fado ao microfone dos autocarros das excursões de adolescência. Trabalhou desde os 11 anos e foi futebolista nos clubes da sua zona, entre o Casal Ventoso e Alcântara, antes de a Mouraria se tornar no seu bairro “adoptivo”. Gravou o primeiro álbum aos 32 anos: Parir é dor, criar é amor. Um disco marcado pelo facto de Jaime ser o único filho de uma mulher que, por questões económicas, fez mais de trinta interrupções de gravidez. Foi aprendiz de ourives, impressor de offset e vendedor de ultra-congelados. Hoje, aos 60 anos, tem sete discos gravados, canta fado, é motorista da Junta

de Freguesia de Santa Maria Maior e pai adoptivo de um sobrinho. Prémios são muitos, desde 1985. Com destaque para a Grande Noite do Fado de 1991, em representação do Grupo Desportivo da Mouraria, apoiado pelo ídolo Fernando Maurício, com quem cantou, durante catorze anos, no restaurante Os Ferreiras. Cantou também com Argentina Santos, na Parreirinha de Alfama, entre outras “mecas” do fado, como agora o restaurante São Miguel D’Alfama ou a Casa da Severa, na Mouraria.

«Nos anos 80, nos meus vintes, trintas, ficávamos por ali. O Fernando… Estava ali o rei do fado. Não havia o mamarracho do centro comercial». Não havia também a escultura da guitarra em homenagem à Mouraria como berço do fado, inaugurada em 2006, quinze anos depois do centro. «Era outra Mouraria. Não havia tanta inveja, nem cinismo, porque éramos todos pobres. Todos precisávamos das juntas de freguesia para vestir, calçar e comer. Depois, alguns foram ganhando, como os galegos que tinham os copos-ladrão, com uns fundos falsos. Metade era líquido, metade era vidro. E assim ganhavam rios de dinheiro. Mas era mais saudável. As crianças respeitavam os mais velhos. Agora, a tecnologia está a matar-nos lentamente. Há muita abundância. Agora, não é a Mouraria. Eu chamo-lhe o bairro das comunidades».

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Rua da Mouraria

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reportagem

Texto Samuel Alemão Infografia Paulo Oliveira

Regeneração da Mouraria é revolução ainda em marcha A instalação do gabinete de António Costa no Largo do Intendente, em Abril de 2011, marcou uma inédita operação de reabilitação urbana. Recorrendo a verbas comunitárias e camarárias, totalizando 13,5 milhões de euros, deu vida nova ao bairro situado no coração da cidade. Mas os trabalhos continuam. Há obras por terminar e novos projectos para iniciar.

BETÃO, E NÃO SÓ A sensação de mudança é subjectiva mas pode, e deve, ser quantificada até porque corresponde, não só a obras feitas, mas também a iniciativas concretas no âmbito de quatro programas a funcionarem em paralelo. Além dos programas QREN e PDCM, a Mouraria reanimou também através do Programa de Investimento Prioritário em Acções de Reabilitação Urbana (PIPARU) e Programa BIP/ZIP (Bairros e Zonas de Intervenção Prioritária), todos convergindo no objectivo de resgatar do esquecimento e da decadência esta área do coração da capital. Foram investidos cerca de 13,5 milhões de euros – 2,5 milhões para revitalização social e 11 milhões para a reabilitação urbana (oito milhões em edifícios e três milhões em espaços públicos). «Fazemos um balanço muito positivo, sobretudo porque se trata de uma intervenção com características pioneiras. Podemos apontar para uma taxa de execução na ordem dos 95%», diz o responsável municipal João Meneses. Como coordenador do Gabinete de Apoio ao Bairro de Intervenção Prioritária (Gabip Mouraria), tem-lhe cabido a liderança do amplo e complexo projecto, iniciado em 2010. As raízes de toda esta dinâmica regeneradora remontam ao ano de 2009, quando foi apresentada uma candidatura a verbas comunitárias – as tais do Programa de Acção do QREN –, para a reabilitação urbana de um eixo compreendido entre o Largo Adelino Amaro da Costa e o Largo do Intendente, acompanhado da realização de um vasto conjunto de projectos. Entre eles estava a criação de dois espaços destinados a actividades com jovens e idosos (no Largo dos Trigueiros e na Rua da Guia), on Wats o nascimento do sítio do fado na Casa da Camilla Severa (no Largo da Severa) e a criação

de um circuito turístico-cultural no bairro. O plano urbano tinha, sobretudo, uma dimensão de obra física, que incluía também os 36 fogos municipais reabilitados, em seis edifícios, através do PIPARU. A empreitada foi complementada com uma intervenção social e cultural para que tudo fizesse sentido, para que não fosse apenas betão. Até porque as feridas da Mouraria eram bem mais profundas (veja caixa “A situação social que importa melhorar”). Em sintonia temporal, houve quem tivesse tido a ideia de apresentar em nome de um consórcio de parceiros uma

Obras realizadas Zona requalificada Obras por fazer

Largo do Intendente Praça da Mouraria, com nova Mesquita

Casa da Severa

Parque infantil Mais Emprego

Escola de Fado

Cozinha Popular

Ass. Renovar a Mouraria

Centro de Inovação da Mouraria

Praça Martim Moniz

Castelo

In Mouraria Reabilitação da Igreja de S. Lourenço Oficina da Guitarra Portuguesa

Helena Colaço Salazar

Largo dos Trigueiros

SEGUNDA FASE: REFORÇO SOCIAL Com o eco desta revitalização na comunicação social nacional e internacional, criou-se um efeito de contágio visível nalguns sinais de ressurgimento comercial e do mercado imobiliário. A zona passou a ser apontada como «o caso de sucesso» da recuperação urbana, modelo a seguir noutras áreas da cidade. Faltam cumprir, todavia, os 5% apontados por João Meneses. Por fazer continua a reabilitação da Igreja de São Lourenço, no Largo da Rosa, ao abrigo do PIPARU. Também o Espaço Intergerações previsto para a Rua da Guia está pendente. «O parceiro EPUL (Empresa Pública de Urbanização de Lisboa) não se portou bem», comenta o coordenador do Gabip Mouraria. Refere-se ao atraso na entrega deste edifício pela empresa municipal que está em processo de extinção após polémicas relacionadas com a transparência das contas e o nível de endividamento junto da banca. Pendente está também o Centro de Inovação da Mouraria, edifício multifuncional que se localizará no Quarteirão dos Lagares. As obras estão paradas devido à falência do empreiteiro, mas deverão ser retomadas em breve, prevendo-se a sua conclusão para Março de 2014 (veja artigo “Uma casa para inovar no bairro... e no mundo”, na página 19). Outras duas peças emblemáticas previstas no plano inicial viram o seu começo empurrado por João Meneses para uma «segunda fase» desta vaga regeneradora: uma é a nova Praça da Mouraria, a nascer da demolição de um edifício situado entre as ruas da Palma e do Benformoso, e a mesquita que nela se instalará; a outra é a Oficina da Guitarra Portuguesa, local de transmissão do saber sobre este instrumento e cuja localização está ainda por definir, após se ter gorado a intenção de a instalar no Beco da Achada. Intervenções que contarão com o financiamento do novo quadro comunitário de apoio, a vigorar até 2020. Para esta nova etapa, a começar já no início do ano de 2014 – e cujas candidaturas apenas serão abertas no final do primeiro semestre –, Meneses define como objectivo principal «privilegiar a parte social, fazendo coisas que não houve oportunidade de fazer na primeira fase». A ideia é aproveitar a dinâmica entretanto gerada para «contagiar positivamente o território, nomeadamente nas ruas adjacentes às que foram alvo de intervenções». Um bom exemplo disso será o alargar da reabilitação do espaço público do Largo do Intendente ao troço final da Rua dos Anjos, ocupada por um conjunto de bares e estabelecimentos associados à prática da prostituição, e ainda à zona das Olarias e dos Lagares. É que se um dos objectivos deste grande projecto é atrair novas pessoas para a Mouraria, outro é «melhorar a qualidade de vida dos que cá vivem». Time Out Lisboa / Joana Freitas

As diferenças são evidentes. Para melhor. Passados cerca de três anos sobre o início da requalificação da Mouraria, é tempo de balanços. Termina a vigência dos dois principais instrumentos de financiamento desta transformação: Programa de Acção do Quadro de Referência Estratégico Nacional (QREN) e Programa de Desenvolvimento Comunitário da Mouraria (PDCM). O contraste com o passado recente evidencia, sobretudo, o estado de degradação a que o bairro havia chegado. Basta sobrepor ao cenário anterior tudo o que foi realizado. Das obras de requalificação dos principais arruamentos à reabilitação e revitalização do Largo do Intendente e à nova vida do Martim Moniz, passando pela casa da Associação Renovar a Mouraria (a Mouradia) e também pelo novo sítio do fado, baptizado de Casa da Severa, sem esquecer as inúmeras actividades sociais e culturais desenvolvidas, a mudança é óbvia.

candidatura ao Orçamento Participativo de Lisboa 2011, sob a designação “Há vida na Mouraria” – no caso, a estudante de antropologia Sónia Barradas. A ideia, apadrinhada por duas dezenas de entidades, acabou por vencer a votação desse ano e, desta forma, viu ser-lhe atribuída uma verba de um milhão de euros. Um envelope financeiro que se materializou no PDCM e se veio juntar à intenção camarária de resgatar da decadência esta área. O objectivo inicial era «contribuir para a melhoria da qualidade de vida e a diminuição dos fenómenos de pobreza e exclusão social», como referia o presidente da Câmara de Lisboa, António Costa, alguns meses após ter mudado o seu gabinete da Praça do Município para o Largo do Intendente, em Abril de 2011. Uma medida de inequívoco simbolismo político, sublinhando a importância da iniciativa em curso.

(centro de redução de danos para pessoas que usam drogas)

Espaço Intergerações II

A situação social que importa melhorar Evolução da população Índice de envelhecimento (1981-2011) (pop >65/pop <15)

Espaço Intergerações I

% da população com o 1.º Ciclo do Básico

% de prestações sociais atribuidas em 2009

-53%

237

25%

17%

-33%

172

19%

10%

Mouraria Fonte: Instituto Nacional de Estatística; Observatório de Luta Contra a Pobreza na Cidade de Lisboa; PDCM

Lisboa


Texto Marisa Moura

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Uma casa para inovar no bairro... e no mundo O que será da Mouraria quando terminar a intervenção municipal que reabilita o bairro desde 2010? Continuará a dinâmica sócio-económica? Sim. Esse é o objectivo da Bairros, a rede de associações locais que se candidata à exploração do CIM – Centro de Inovação da Mouraria. «O futuro da Mouraria é agora! Va«Num bairro histórico, a três minumos construí-los juntos? CIM». Esta tos do metro», será possível trabalhar frase nasceu num encontro onde mais ou participar em eventos, seja o lande sessenta pessoas debateram o plano çamento de um produto, um espectáde acção para o CIM – Centro de Inovaculo, workshops ou qualquer outra acção da Mouraria, em Outubro de 2012. tividade, desde que enriqueça o bairro Desde então várias surpresas acone o mundo. O CIM distingue-se, assim, teceram, boas e más. O projecto CIM de projectos semelhantes que funganhou um cheque de 400 mil euros cionam no âmbito da rede municipal no Orçamento Participativo de Lisboa Incubadoras de Lisboa e de outros im2012, mas a insolvência da construtora plantados em espaços maiores, como encarregue das obras, a Contrope-Conos da promotora imobiliária Mainside: gevia, atrasou a abertura prevista para o LX Factory em Alcântara e o que abriJaneiro de 2014, entretanto adiada em rá brevemente no desactivado hospital cerca de três meses. do Desterro, junto à Mouraria. O que será, afinal, o CIM? Um edifício EMPREGO NO BAIRRO multifuncional que ficará instalado num A recuperação do edifício – que é do edifício pré-pombalino em recuperação século XV e de solo rico em achados no quarteirão dos Lagares, previsto islâmicos – implicou 1,9 milhões de eupela Câmara Municipal de Lisboa desde O projecto foi desenhado pelo atelier DNSJ.arq. Inclui salas de trabalho e um auditório para 50 pessoas ros, financiados em 60% por fundos que começou a reabilitação da Mouraria, em 2010. De início, estava pensado para ser uma incubadora empresarial com europeus. Entretanto, para já, o CIM tem o cheque de quase meio-milhão de euros enfoque na recuperação dos ofícios tradicionais, dotada de um auditório para con- do Orçamento Participativo para começar a funcionar. Adiante será auto-suficiente certos, conferências ou outras actividades até cinquenta pessoas. Isso já era bom. Mas e terá, ainda, a função de recolher fundos para as empresas que ali se instalem, o conceito ficou ainda melhor, enriquecido por moradores e trabalhadores, atra- como cabe às incubadoras empresariais. «Na primeira fase, o CIM será, no mínimo, uma aceleradora», explica o coorvés de iniciativas da própria autarquia e da rede Bairros, consórcio de associações denador da Bairros. Ajudará a fazer crescer as empresas que já tenham obtido locais criado em Dezembro de 2012. A Bairros servirá de plataforma de coordenação, sucedendo à estrutura da au- financiamento. Depois fará a ponte para fundos de capital de risco e business angels, tarquia que tem cumprido tal papel: o Gabinete de Apoio ao Bairro de Intervenção pequenos investidores que apadrinham empreendedores. Contará também com Prioritária da Mouraria (Gabip Mouraria). A novidade será a actividade empresarial linhas de apoios (públicas ou privadas, nacionais ou internacionais), com as rendas e os eventos estarem sempre imbuídos da filosofia de empreendedorismo social e de quem lá se instale e com as receitas dos eventos do auditório. E «novas formas em ligação internacional a semelhantes projectos, como o Waag Society, na Holan- de financiamento participativo e solidário, como a doação e o empréstimo». A concessão, todavia, terá ainda de ir a concurso público. Para já, não se conheda, ou o SIP – Social Innovation Park, em Singapura. cem outros candidatos, mas antes do concurso, segundo o responsável autárquico QUALIDADE, HISTÓRIA E ACESSIBILIDADE do Gabip Mouraria, João Meneses, «não há nenhuma garantia de que seja a Bair«A tendência natural destes espaços é para se fecharem sobre si mesmos. ros». Sendo que falar na Bairros é falar nas entidades que ali se ligam em rede: Após algum tempo atraem públicos homogéneos e trendy», diz o coordenador Associação Renovar a Mouraria (editora deste jornal), Artéria, Cozinha Popular da Bairros, Mourad Ghanem, um francês de 40 anos que trabalhou em seis países da Mouraria, Crescer na Maior, GAT – Grupo Português de Activistas sobre e aterrou em Portugal em 2009 trazendo na bagagem experiência na requalifi- Tratamentos de HIV/Sida, Largo Residências, SEA – Agência de Empreendedores cação de bairros (como os de Nanterre) e na operacionalidade de processos (foi ou SOU – Movimento e Arte, entre outras. Certo é, diz João Meneses, que o CIM será formador nessa área na multinacional de telecomunicações Colt). Para combater um centro de «empreededorismo e inovação com soluções de empregabilidade o fenómeno do fechamento, a Bairros centra-se numa metodologia holística em para pessoas do bairro». que o curto e o longo prazo estão sempre presentes, bem como as esferas individuais e colectivas. E aposta numa arma poderosa: qualidade. «A grande mais-valia do nosso projecto é a programação das actividades no auditório e as infra-estruturas», garante Mourad Ghanem. A sala será equipada com mobiliário sobre-rodas e dobrável que «permite passar-se de uma actividade a outra em cinco minutos», e terá «um especialista que conhece todas as técnicas de animação de grupo». Haverá também uma sala de teleconferência «com um técnico a garantir que tudo funciona, em vez de um Skype falível». Tudo está pensado para funcionar, e bem. Por exemplo, tem-se em conta o facto de «as pessoas aqui, em Portugal, falarem alto». Há atenção especial na concepção dos gabinetes individuais (cerca de dez) e nas áreas comuns. E tudo se rentabiliza, inclusive as paredes. Nelas poderá escrever-se como num quadro.


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reportagem

Texto Marisa Moura Fotografia Helena Colaço Salazar

Casa de São João de Brito: património em risco

O mundo

A casa onde nasceu São João de Brito, na Mouraria, degrada-se a cada dia. Há quinze anos que o seu futuro anda de gaveta em gaveta na câmara municipal.

ideal não teria religiões”

A recuperação do imóvel discute-se desde a presidência autárquica do socialista João Soares. Em causa estão várias portas do Largo Rodrigues de Freitas, na Costa do Castelo. «O presidente chegou a ir pessoalmente ao local e pedir um projecto de arquitectura», recorda o jesuíta João Caniço, porta-voz da associação Amigos de São João de Brito – fundada em 1998, durante esse mandato, e promotora de um projecto de reabilitação aprovado em Assembleia Municipal em 2005. A ideia era recuperar o imóvel transformando-o em casa-museu, bem como a Igreja ao lado, onde João de Brito foi baptizado (ambas na foto abaixo). E também o próprio largo, que ganharia um busto do santo e o seu nome. Nada aconteceu. Em 2009, a casa integrou o controverso pacote de imóveis apalaçados que iriam a hasta pública no projecto “Lisboa, capital do charme”, em parceria com a Associação de Turismo de Lisboa, para serem convertidos em hotéis de charme por privados. Chumbada essa via, em 2010 surgiu na própria câmara um projecto que incluía residências para pessoas sem-abrigo. Nada aconteceu. Questionada sobre as razões do último volte-face, e sobre um ponto de situação, a directora municipal de Habitação e Desenvolvimento Social, Marta Sotto-Mayor, respondeu, por e-mail, que a reabilitação do edifício «constitui uma das prioridades», mas sobre respostas concretas escreveu: «Considerando a extensão da informação solicitada, o facto de as várias questões que refere se encontrarem a ser resolvidas pelos vários serviços com as respectivas competências, bem como a recente tomada de posse do novo executivo da Câmara Municipal de Lisboa, não se afigura neste momento possível prestar os esclarecimentos pretendidos de forma inequívoca, na data indicada». O prazo inicial era de uma semana, até 14 de Novembro, sendo alargado até ao dia 27, e depois até 2 de Dezembro. Nada aconteceu.

O jesuíta indiano Anthony Cyril é reitor do Santuário de São João de Brito em Oriyur, o local onde foi decapitado, aos 46 anos, o santo que nasceu na Mouraria em 1647 e que converteu 30 mil hindus ao cristianismo. Eis a entrevista, em Lisboa, no passado mês de Outubro.

E a recolha de fundos é para quê? Vamos construir uma nova escola em Oriyur. A escola tem de ser transferida para outro sítio porque funciona no mesmo edifício do santuário. Quando há cerimónias no santuário os alunos são incomodados. E as actividades escolares realizadas no exterior também perturbam as cerimónias. As obras custam 800 mil euros. Na minha província já recolhemos 300 mil. Na sua opinião, o que explica que os portugueses não conheçam São João de Brito? Não sei... É um santo muito importante para Portugal, patrono dos jesuítas. Mas os jesuítas não dão importância. Mesmo no colégio não se fala muito dele. E não há, por exemplo, figuras que as pessoas possam levar para casa como há do Santo António. O padre João Caniço está a tratar da produção dessas figuras. E o vídeo também será uma grande ajuda. Virão, sem dúvida, peregrinos da Índia conhecer os sítios relacionados com a vida de São João de Brito.

O que é que São João de Brito representa para si do ponto de vista histórico? Foi um homem pela harmonia, pela paz, pelo diálogo entre religiões. No santuário há mais não-religiosos e não-cristãos. Hindus, muçulmanos, cristãos não-católicos. Todos vão ao santuário de São João de Brito. E na escola há crianças de todas as religiões. Os cristãos são uma minoria, há mais hindus. No festival de São João de Brito, a 4 de Fevereiro, todos vêm celebrar. Consegue imaginar um mundo como o que John Lennon, dos Beatles, cantou na música “Imagine”, sem países, propriedade nem religiões? As religiões têm de manter as suas identidades. Mas, ao mesmo tempo, podemos partilhar coisas boas entre todos. Eu sou um padre católico, mas não devo fechar a porta. Devo estar aberto às outras religiões. Há coisas boas nas outras religiões. Há uma harmonia, uma irmandade. Quando sonha com um mundo ideal, como é que sonha esse mundo? [risos] O mundo ideal não teria religiões. Lá está: John Lennon. É o ideal de Jesus também. Chamamos-lhe reino de Deus. O reino de Deus é isso: todos irmãos e irmãs, juntos sem nenhum tipo de descriminações. Por que razão é que ainda não conseguimos alcançar esse mundo, passados já 2013 anos sobre o nascimento de Cristo? Porque as pessoas são muito fundamentalistas, egoístas, sem o sentimento de transcendência. Quando temos o elemento da trans-

cendência, vemos além de tudo: das culturas, das línguas e da religião. Vemos apenas seres humanos. É por isso que temos de fazer muitos exercícios dentro de nós. Quando nos educamos, a nossa mente cresce. Qual é hoje o valor predominante no mundo? O dinheiro. Se você tem dinheiro, você é respeitado. Mas o dinheiro vem e vai. Há mais de mil anos que, mesmo dentro da Igreja Católica, tenta combater-se o culto do dinheiro, entre os Franciscanos e muitos outros. Como podemos resolver isso? Agora até está pior. As multinacionais estão a destruir a natureza, o mundo. Em nome da Economia criam inúmeras necessidades. Coisas que não precisamos nas nossas vidas. Cada pessoa tem de mudar dentro de si. No ciclo de vida de cada um há um tempo para a consciencialização. Cada um tem de tomar essa consciência. Se crê num mundo sem religiões, por que motivo se tornou padre? Como pessoa religiosa eu tenho de estudar de tudo para compreender o mundo e guiar as pessoas. A consciência de nós, dos outros, da natureza e de Deus faz de nós melhores pessoas. Aprendi isso na minha religião, por isso continuo a ser católico, mas aberto às outras religiões. E porquê católico jesuíta? Fui criado numa família católica e tenho um amor especial por Cristo e pela Igreja. Cristo está para além da religião. Ele ama toda a humanidade, todos e cada um. Escolhi a ordem jesuíta porque eles (nós) estão abertos a novas missões, de acordo com os sinais dos tempos.

Arquivo Municipal de Lisboa

O que o trouxe da Índia à Mouraria? Esta é a minha quarta visita a Portugal. Desde 2009 que tenho vindo para estabelecer uma relação entre Oriyur e Lisboa. Aqui as pessoas não conhecem João de Brito. Nas missas que faço aos domingos (estive na Graça e no Lumiar), falo de como ele é conhecido na Índia. Vim também para recolher fundos. Desta vez vim com um objectivo muito concreto que é fazer um filme sobre João de Brito. Andámos a filmar o sítio onde ele nasceu, onde foi baptizado, onde entrou como noviço. O Colégio de São João de Brito, no Lumiar, a Igreja de São João de Brito em Alvalade...


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Texto Marisa Moura Fotografia José Fernandes

Este é o título de uma das sete faixas trabalhadas por Badandro nos últimos doze meses, para apresentar a editoras.

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«São músicas sentidas que me arrepiam a mim próprio», conta este rapper que vota sempre em branco para não eleger «alguém que seja ladrão». ver, ao ponto de a mãe o defender partindo os óculos à professora. Com as crianças, «a bater, só piora. O melhor é algo do género: “Não te portas bem? Então ficas sem a consola”. Assim a criança fica a pensar». Leu tudo quanto pôde de Fernando Pessoa, e livros «para entender as mulheres», nos meses em que trabalhou numa das livrarias Bertrand – «a mais antiga, no Chiado, 1732». Quer ser como o Sam The Kid que «parece que engoliu um dicionário» e deixar as rimas fáceis como algumas que tem no YouTube e que hoje considera «lixo». Aos 18 anos, com o 6.º ano de escolaridade, foi estudar «para a escrita ser mais sofisticada». Fez um curso de instalador e reparador de computadores que lhe valeu uma equivalência ao 9.º ano. Trabalhava então na Ikea. Depois foi segurança. E adiante esteve desempregado, a viver de biscates desde 2011 até Novembro de 2013, altura em que se tornou comercial na Optimus, a vender internet. Dá alguns concertos e espectáculos de dança, melhorados desde que teve aulas com um elemento da banda Makongo. Canta o drama das falsas amizades, das drogas e das prisões alheias. À conversa, orgulha-se de si próprio. «Eu não sou influenciável. Eu só faço o que eu quero, não o que os outros querem». Um deslize: começou a fumar tabaco há dois anos. «Por causa dos ‘stresses’ caseiros. Ter um objectivo e sentir-me preso por me faltar um trabalho para poder seguir a caminhada. Só quero viver dentro dos possíveis. A única coisa que nunca pode faltar-me, vou ser sincero: eu como muito. Posso não ter roupa para vestir, mas comida não pode faltar».

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história de Badandro tem 22 anos. Passa-se na Mouraria, desde a infância em que sonhava ser mecânico e brincava ao Dragon Ball na Rua do Capelão, até hoje, com uma filha de meses num país «sem igualdade» que «nem no futuro dará frutos». E com o fantasma da prisão a ensombrar a família. «Um fugido, outro preso. E outro que, por pouco, tinha ido». Este é um dos versos de “Histórica Verídica”, uma música sobre os sentimentos da sua mãe – mulher que teve uma filha e três filhos. Um está preso há dois anos, por furtos relativos ao ano 2000, outro anda desaparecido. Badandro é o mais novo. Chama-se Sandro Correia Pessoa. O nome artístico vem do código Badoncali – “badoncali”, segundo o próprio código, significa “calão”. Começou a escrever músicas em 2008 para exorcizar «rancores», próprios e alheios. «Já vi um amigo a tentar atirar-se da Ponte 25 de Abril. Tudo o que vejo, exprimo. A mensagem é: Toda a gente sofre, mas há que saber aprender e crescer». Aprendeu, por exemplo, a viver distante do «mundo cor-de-rosa» da infância, nos tempos em que o pai (encarregado dos cinemas Quarteto, agora reformado) lhe deu «sempre tudo», incluindo «mimos», mesmo após ter saído de casa, tinha este filho seis anos. Gosta de aprender e ensinar – especialmente o sobrinho de sete anos, o «puto Bruno», que tem no YouTube uma música com o tio e que agora está de castigo. «Não podemos mostrar-nos moles a uma criança que está a portar-se mal. Tem de aprender o que é certo e errado. Está com más notas, por isso já não grava o videoclip que íamos gravar», conta este jovem que apanhou reguadas na escola por recusar-se a escre-

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Texto Marisa Moura Fotografia Carla Rosado

Jantarada p pular

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Houve a feijoada do chef Cordeiro e o biryani de frango do chef Shafiul Amin. Houve fados, música pimba e modernices. Comeu-se e dançou-se na Mouraria.


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Foi uma enchente na Rua da Guia. Parecia um arraial dos Santos Populares, no Verão, mas não. Estava frio e tinha chovido a potes. Foi no dia 26 de Outubro. Porquê esta festa? «Sempre quis fazer isto», responde Adriana Freire, a fotógrafa que em Novembro de 2012 inaugurou a Cozinha Popular da Mouraria, realizando um sonho antigo: ter um sítio onde «todos comem, todos cozinham». Agora realizou mais este, que já fazia parte do projecto inicial, integrado no Programa de Desenvolvimento Comunitário da Mouraria, ao abrigo do qual abriu portas na Rua das Olarias. Calhou no dia em que, após as eleições autárquicas, tomaram posse os novos órgãos autárquicos. Foi mera coincidência, segundo Adriana. «Andei semanas a ver a meteorologia. Primeiro, no Verão havia as festas populares. Depois era a campanha eleitoral, e depois a chuva». Calhou neste sábado – por acaso, dia de aniversário da chef residente da Cozinha Popular, Rita Grifo. Eis os retratos da noite em que este “sonho da Adriana” foi vivido por cerca de quatrocentas pessoas da Mouraria.

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Texto Luísa Rego Fotografia Carla Rosado

Regionalismo

O meu mundo no bairro Amigos do Minho e casas de Gouveia, Covilhã, Lafões e Sertã. São estas as associações regionais que habitam na nova freguesia de Santa Maria Maior, todas vizinhas na Mouraria. Oferecem aulas de português, ioga, forró, tai-chi, piano, teatro, ocasionalmente fados e almoços... além de bailes. O convívio é a palavra de ordem e a ‘terrinha’ é agora Lisboa. Em cada uma delas há uma história singular de saudade e amizade. Antes de descermos a Rua do Benformoso, no renovado Largo do Intendente, um prédio de esquina cinzento chama a atenção pela imponência da arquitectura que lhe deu um Prémio Valmor. Três lojas activas no rés-do-chão escondem o vazio. Além desses comerciantes, a única inquilina é a Casa do Concelho de Gouveia, que fez 62 anos no passado dia 1 de Dezembro. Longe está a animação de outros tempos, em que serões, tertúlias e bailes animavam o salão nobre com vista privilegiada para o largo. GOUVEIA: A RENDA QUASE FATAL Entre os grandes beneméritos da casa contam-se António Ferreira de Almeida, o visconde de Rio Torto, António Alçada ou mestre Abel Manta. Os serões literários da marquesa de Valverde, nos anos 60 do século passado, deram que falar. E a associação dinamizou também, durante décadas, várias modalidades desportivas, como o futsal e o atletismo, responsabilizando-se ainda pelas férias de muitas crianças da região na colónia balnear O Século. Joaquim Cabral, 74 anos, natural de Nespereira, e o jovem Pedro Almeida são os timoneiros desta associação. Adivinha-se, porém, que ela «tem os dias contados». «O aumento de renda que o senhorio nos impõe é impossível – quase dez vezes mais do que pagamos. E a Câmara Municipal de Gouveia não tem respondido aos nossos pedidos de ajuda», afirma o presidente Joaquim Cabral. A casa de Gouveia é um exemplo do ‘canto de cisne’ que se vive no associativismo regional. «As casas regionais», explica Joaquim Cabral, «têm hoje pouca força. Vivemos num mundo virtual. Criamos eventos no Facebook e toda a gente adere. Dizem que vêm, mas não vêm». Pedro Almeida, vice-presidente, corrobora: «O problema do associativismo é o mesmo da sociedade: as pessoas são incapazes de sair de sua casa. Antes vinham às casas para saber notícias da família, da terra. Hoje não sentem falta disso». Com centena e meia de sócios, metade dos quais pagantes regulares da

quota anual de 15 euros, esta casa com cinquenta anos de história foi impedida de fechar pelo actual presidente. Segundo Joaquim Cabral, o futuro passará por «um espaço comercial que seja uma montra da Serra da Estrela». VINDIMA MINHOTA NA CIDADE Meia dúzia de metros depois do Intendente, entrando pela Rua do Benformoso, faz-se ouvir a animação de fim-de-semana. O Grupo Excursionista e Recreativo “Os Amigos do Minho” é uma das mais antigas associações criadas por minhotos em Lisboa e tem um carácter diferente das outras casas regionais. Nasceu a 8 de Dezembro de 1950 para levar excursionistas a conhecerem o verde Minho. Hoje, as portas do n.º 244 da Rua do Benformoso abrem-se aos fins-de-semana para receber bailaricos e almoços, sempre muito concorridos. No salão, um conjunto amador toca a tarde inteira de domingo para fazer dançar gente de todas as idades: há viúvas que bailam aos pares, casais de idosos, jovens em princípio de relação. Vizinhos e alguns curiosos são o público domingueiro deste ninho de minhotos, que até tem um quintal coberto com uma frondosa vinha morangueira – a vindima já foi feita e rendeu uns trezentos litros. Como um informal mestre-de-cerimónias, Zé Ramada orienta o bar e o espaço das refeições onde se juntam os convivas, não necessariamente minhotos de gema. Destes restam poucos. Entre eles está Benjamim Esteves, nosso cicerone. Aos domingos, além do baile, há almoço. «Somos como uma família e há sempre comer para mais alguém», conta Benjamim, que ainda se recorda do tempo em que havia ali bailes à sexta-feira à noite, ao sábado à tarde e ao domingo, à tarde e à noite. «Emprestávamos as salas aos grupos para ensaiarem, e eles davam um baile de borla». Benjamim Esteves, 77 anos, natural de São Julião, em Valença do Minho, e ex-comerciante, é o vice-presidente desta associação que tem cerca de meia centena de sócios, com quota anual de 18 euros. Ele acredita que os tempos são de progresso para esta casa. «Isto está a expandir-se, e até a câmara já se comprometeu a pôr uma nova fachada de azulejos». Trata-se do projecto Lugar da Cerâmica dinamizado pela

Matinée de Domingo no Grupo Excursionista e Recreativo “Os Amigos do Minho”

ceramista Maria Caetano com o Largo Residências, ao abrigo do programa municipal BIP/ZIP (Bairros e Zonas de Intervenção Prioritária), com morada precisamente n’Os Amigos do Minho. «Muita gente nova está a fazer-se sócia» e frequenta o espaço que muitas vezes é cedido para reuniões e festas de mais de cem pessoas. FEIRAS DA COVILHÃ EM RÉPLICA No mesmo lado da rua, o primeiro andar do n.º 150 alberga a Casa da Covilhã. Depois de, nas décadas de 50 e 60, ter tido um nível de vida muito superior ao de Lisboa, a cidade serrana já não é a poderosa capital de lanifícios e têxteis. Além disso, com as auto-estradas entretanto criadas, tornou-se menos distante. António Vicente é o mentor do grupo de covilhenses que se reuniam, às terças, à mesa de um restaurante da Baixa. Saben-

do do marasmo a que ficou votada a casa do concelho em 2010 resolveu, com um grupo de conterrâneos, todos antigos alunos de escolas da Covilhã, candidatar-se à direcção para reactivar a herdeira do Grémio Covilhanense. Os almoços mudaram-se para a Rua do Benformoso e começaram a nascer outras iniciativas: noites de fado, exposições, colóquios, lançamentos de livros e tertúlias. «O que podemos dar», diz um dos dirigentes da Casa da Covilhã, José Rainha, «é boa vontade e espaço para actividades nas nossas instalações, em prol da comunidade, e gostávamos que a junta de freguesia fizesse essa interligação». Recorda: «O plano de recuperação da Mouraria foi construído aqui com o presidente da câmara, arquitectos e representantes da freguesia».Em Janeiro de 2014, a Casa da Covilhã faz 90 anos. No edifício onde está,


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desde 1940, nem gentes com outros hábitos e culturas (Índia, China, Bangladesh e Paquistão) ou a prostituição na vizihança, criam distância. Parte dos sócios reside em Lisboa, outra na Covilhã. Uns e outros sabem que podem contar com dois grandes momentos festivos por ano: as réplicas da Feira de São Miguel, no fim de Setembro, e da Feira de São Tiago, no Largo do Intendente, com apresentação de produtos regionais, em Maio. Apesar de António Vicente dizer que «se o associativismo é difícil nos clubes, ao nível do regionalismo é muito mais», o vice-presidente Carlos Fernandes con-

Casa de Gouveia: A subida da renda ameaça a continuação neste edifício de arquitectura premiada onde decorreram os animados serões literários da marquesa de Valverde

trapõe: «Com o grão-a-grão que as pessoas dão nas colectividades conseguem fazer-se coisas muito bonitas», como tertúlias temáticas na última terça-feira de cada mês. A casa conta com mais de centena e meia de sócios, entre os quais o mediático político Marcelo Rebelo de Sousa. IOGA, PIANO, FORRÓ, INTERNET... Do outro lado do Martim Moniz, a Rua da Madalena aloja duas outras casas regionais: a da Sertã e a de Lafões. Ao subir a rua, a primeira destas associações regionais agrega pessoas «pertencentes aos concelhos de Oleiros, Proença-a-Nova, Sertã e Vila de Rei e freguesias de Amêndoa e Cardigos, do concelho de Mação». Na agenda oficial da sua página na internet, durante a semana, as tardes registam actividades de artes performativas (clown) às segundas-feiras, ioga (quatro dias

por semana), piano à quarta-feira, e tango à quinta-feira. Portas acima está a mais antiga e uma das mais dinâmicas casas regionais. São Pedro do Sul, Vouzela e Oliveira de Frades formam os alicerces da Casa de Lafões – instituição de utilidade pública, nascida e criada na Rua da Madalena há mais de cem anos. É a única que abre todos os dias, a partir da tarde, para receber várias actividades: aulas de português para estrangeiros, tai-chi, forró, teatro e os almoços domingueiros, logo no início de cada mês, que juntam dezenas de associados à volta de iguarias feitas com produtos típicos, como a vitela de Lafões. Às sextas-feiras há baile. O salão principal chegou a comportar duzentas pessoas e ainda tem o piano que animava os serões de outros tempos. Recebe concertos únicos – incluindo uma actuação da Orquestra Metropolitana de Lisboa. Serviu já, por exemplo, para uma reunião da Assembleia Municipal e outras iniciativas do poder local – junta e câmara –, permitindo eventos que requerem bastante espaço. O segredo da boa saúde da Casa de Lafões ao longo de tantas décadas, diz Alberto Figueiredo, deve-se «à colónia lafonense ser muito grande». Há dois anos, a casa tinha novecentos sócios e, apesar do interior ir ficando despovoado, e haver menos ligação à “terra”, gentes de outras latitudes, amantes da Mouraria, criaram laços afectivos com este local. Alberto Figueiredo, associado há mais de trinta anos e presidente há quinze, foi praticante e árbitro de basquetebol, o que explica o carinho que tem pelas modalidades que se praticaram na Casa de Lafões – basquete, atletismo e modelismo, entre outras. É ele que nos apresenta os fundadores, com retratos expostos na

sala do mesmo nome, onde se reúnem também os troféus conquistados, uma biblioteca e o posto público de internet. O propósito que esteve na criação da Casa de Lafões, lembra, foi «congregar num espaço os que se queriam reunir para mitigar as saudades da região. Noutros tempos, para lá ir saía-se de Lisboa de comboio à meia-noite, para só chegar a meio do dia seguinte. Hoje, pomo-nos lá em duas horas, sem nunca infringir os limites de velocidade». Além disso, recorda Alberto Figueiredo, a Casa de Lafões também foi «uma escola de adultos». LAFÕES: MAIS E MAIS DINÂMICA Os tempos, agora, são outros. A casa «tem de arranjar fundos». Assim, quatro vezes por semana há aulas de forró com um professor que veio do Festival Andanças, tal como já houve tango argentino e espectáculos de

Sérgio Godinho e de outros artistas. A isso, e aos ganhos com o bar e os almoços mensais, juntam-se as quotas de 85 euros por ano. Todavia, estudam-se novas áreas para dinamizar o espaço, como ténis de mesa, se possível em diálogo com a nova junta de freguesia. Alberto Figueiredo sente-se em forma e é, aos setenta e alguns anos, o motor desta casa. «A vida está muito diferente», diz ele, que chegou menino (com 13 anos) a Lisboa. «Uma pessoa pega no computador e passa horas sem se deslocar. Não há o espírito de sacrifício a que fomos habituados». Sob a imponente foto de Manuel Rodrigues de Abreu, sócio n.º 1, o actual presidente vai esperar que termine a aula de forró que anima uma dúzia de bailarinos, para finalmente fechar as portas, como quase sempre, já depois da meia-noite.

A Casa de Lafões tem os tradicionais almoços de domingo, mas também danças e várias aulas para todas as idades


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agenda cultural

Fado

l Casa da Severa Quintas, sextas e sábados, 19h-02h

l Restaurante O Forno Sábados,

l Jojo Reis, teclista e vocalista, concorrente do concurso Factor X, pelas 22h | Jantar em que cada um traz o seu farnel | Entrada: €7,50/pessoa | 31 Dezembro Grupo Desportivo da Mouraria

13h-15h

TEATRO l Gato das Botas, o Herói

l Bar Anos 60 Primeiras quintas-feiras de cada mês, à noite

Contra-Ataca 21 Dezembro, sábado, 16h | Peça Infantil Teatro Bocage

l Tertúlias Fadistas No segundo sábado de cada mês, a partir de 11 Janeiro de 2014, 21h30 (entrada livre) Grupo Desportivo da Mouraria

l Escola de Fados do Mouraria 2 Fevereiro de 2014, domingo, 15h (5€/pessoa) Grupo Desportivo da Mouraria

l Visitas Cantadas Sábados e domingos, Dezembro, às 16h (marcação prévia) Museu do Fado

Concertos /DJ Mercado de Fusão: Ngoma Mozambik e Dj Dupla Beats e News 21 Dezembro, sábado, 16h-17h e 17h-21h Dj John Player Special 22 Dezembro, domingo, 16h-20h Dj Lucky 27 Dezembro, sexta, 16h-20h Gapura e Dj Fidel Selecta 28 Dezembro, sábado, 16h-17h e 17h-21h Dj Merry X-mas, Mr Antolin 29 Dezembro, domingo, 16h-20h

Karaoke Karaoke com acompanhamento musical ao vivo, pelo guitarrista João Madeira Quinzenalmente, às sextas, 22h30 Ass. Renovar a Mouraria

Reveillon

l DJ Troc’opassos e Trio Latinidade Entrada livre, com oferta de espumante e passas | 31 Dezembro Ass. Renovar a Mouraria

l Performances ao domicílio Projecto de inclusão social com peças criadas especialmente para o espectador, que assiste na sua própria casa | Colectivo de artistas Companhia Limitada, dirigido por Madalena Victorino – Ass. SOU / Largo Residências

CINEMA l Ciclo “Vivendo e Aprendendo” – É possível viver sem aprender? Casa da Achada l “Adeus, Mr. Chips”, de Sam Wood, 1968 | 23 Dezembro, segunda, 21h30 l “Se…”, de Lindsay Anderson, 1968 | 30 Dezembro, segunda, 21h30

l Noites de Cinema VHS Terças, 21h30 Ass. Renovar a Mouraria

LIVROS l Empréstimo de Livros Biblioteca Pública, Segundas, quintas e sextas às 15h-20h e sábados e domingos às 11h-18h Casa da Achada

EXPOSIÇÕES l Mário Dionísio – 50 Anos de tPintura Até 21 Abril de 2014 Casa da Achada

l Álbuns de Família, de Ana Maria Holstein Beck | Até 4 Janeiro de 2014 | De segunda a sábado, 10h-19h Arquivo Municipal de Lisboa – Núcleo Fotográfico l Ordinários, de Nuno Tomás | Até 27 de Dezembro | De segunda a sábado, 9h30-17h Arquivo Municipal de Lisboa – Núcleo Fotográfico l Fotografia: Chiaki Fujihara De 18 a 31 Janeiro de 2014 Galeria Colorida l Pintura: Ulisses Marquez, Natalhie Rocha e Elizabeth Saviano | De 18 a 31 Janeiro de 2014 Galeria Colorida l Há Arte no Socorro Exposição dos trabalhos realizados pelos utentes do Centro de Dia do Socorro, nas actividades de Arteterapia | Até 31 de Dezembro Ass. Renovar a Mouraria WORKSHOPS l Prendas Sou eu Que as Faço 22 Dezembro, 15h30-17h30 | Com Eupremio Scarpa, fazer o que presta a partir do que não presta (a partir dos 6 anos; número máximo de participantes: 10) Casa da Achada

l Feito por Mim | Oficina de

l Direis que não é Poesia Com Pedro & Diana e Catarina Barros (organização Casa da Achada) 19 Dezembro, quinta, 20h | Local: Restaurante Alcaide, Rua de São Cristóvão n.º 32

Azulejaria 1 Janeiro a 27 de Março 2014 | Terças e quintas, 15h-16h; 17h-18h | Valor: 10€. Informações e reservas: Maria Caetano, lugardaceramica@gmail.com; Tel: 911 552 829

l Livros das Nossas Vidas

MERCADOS l Feira da Ladra Terças e

Cristina Almeida Ribeiro fala da poesia de Paul Éluard | 19 Dezembro, quinta, 18h | Sessões mensais sobre livros e autores referidos por Mário Dionísio Casa da Achada

descubra as 7 diferenças

sábados, das 6h-18h | Campo de Santa Clara | Informações: CML: dmau.dmf@cm-lisboa.pt ou 218 170 800

l Feira das Almas Uma vez por mês, com datas anunciadas no site, 11h-19h | Informações: producao@feiradasalmas.org Ass. Taberna das Almas l Mercadinho do Beco No último sábado de cada mês, 11h-19h | Informações: geral@renovaramouraria.pt Ass. Renovar a Mouraria CONTACTOS

Arquivo Municipal de Lisboa – Núcleo Fotográfico R. da Palma, 246, 1100-394 Lisboa Tel.: 218 844 060 arquivomunicipal.cm-lisboa.pt Ass. Recreativa Taberna das Almas Regueirão dos Anjos, 68-70, 1150-028 Lisboa Tel.: 965 293 703 | feiradasalmas.org Ass. Renovar a Mouraria Beco do Rosendo, 8-10, 100-460 Lisboa Tel.: 218 885 203 ou 922 191 892 www.renovaramouraria.pt Casa da Achada/ Centro Mário Dionísio Largo da Achada, 11, r/c, 1100-003 Lisboa Tel.: 218 877 090 www.centromariodionisio.org Galeria Colorida Costa do Castelo, 63/ Escadinhas Marquês Ponte de Lima, 1-A, 1100-335 Lisboa Tel.: 218 853 347 | www.colorida.biz Largo Residências Largo do Intendente, 19, 1100-285 Lisboa Tel.: 218 885 420; 926 235 379 largoresidencias.com Mercado de Fusão Praça Martim Moniz, 1100-341 Lisboa Tel.: 927 943 671 | www.ncs.pt Museu do Fado Largo do Chafariz de Dentro 1, 1100-139 Lisboa Tel: 218 823 470 | www.museudofado.pt

Batom. Um “bastão de cor” originalmente vermelha para colorir os lábios, é usado desde a Antiga Mesopotâmia como artifício de embelezamento, e terá mesmo sido proibido pela Igreja na Europa medieval, apelidado de «encarnação do diabo». Os efeitos «perversos» deste cosmético, de fabrico inicialmente caseiro a partir de pigmentos de algas, iodo, chumbo, sebo e cera de abelhas, ecoam em diferentes épocas: na Inglaterra oitocentista o Parlamento chegou a propor a anulação de casamentos de mulheres que usassem cosméticos antes do casamento. A associação deste tom carmim nos lábios com o das faces, pelo uso do rouge (outra palavra que nos ficou de origem francesa), estava conotada com mulheres pouco respeitáveis e tal estigma só se dissipou com a libertação trazida pelos loucos anos 20. Aí, já o batom era fabricado industrialmente e comercializado por uma conhecida marca francesa ainda hoje no mercado. Atualmente não se dispensa, obrigatório em qualquer toilette (ou toalete) mais ou menos coquet(t)e, ou para simplesmente proteger os lábios das agressões do frio e do calor. Curiosamente, em francês, a denominação do nosso batom é rouge à lèvres (vermelho para lábios).

B.I. Francês Número de falantes no mundo: 68,5 milhões

Os Amigos do Minho R. do Benformoso, 244, 2º, 1100-086 Lisboa Tel.: 218 862 667 Facebook: Grupo Excursionista e Recreativo Os Amigos do Minho

Variedades: Faladas nas diferentes regiões, nos diferentes países e continentes (francês canadiano, belga, parisiense...)

Teatro Bocage R. Manuel Soares Guedes, 13, 1170-206 Tel: 214 788 120 | www.teatrobocage.pt

Românica; Galo-Romance. Primo em terceiro grau do português e do castelhano.

Família: Indo-europeia; Itálica;

Geografia: Língua oficial de mais

Por João Madeira

de 30 países, incluindo República Francesa, Bélgica, Benim, Camarões, Canadá, República Centro-africana, Chade, Comoros, Congos, Djibouti, Guiné Equatorial, Guiné Conacri, Guiana Francesa, Polinésia Francesa, Gabão, Guadalupe, Haiti, Costa do Marfim, Luxemburgo, Madagáscar, Mali, Martinica, Mayotte, Mónaco, Nova Caledónia, Niger, Reunião, Ruanda, Senegal, Seychelles e Suíça

Sistema de escrita: Alfabeto latino Ranking: 16.ª língua mais falada no 1 - Tufo de folhas na copa da árvore do lado direito 2 - Falta um tufo de erva no canto inferior esquerdo 3 - Falta uma onda no rio na parte de baixo 4 - Cor dos sapatos da mulher 5 - Limite do terreno no canto superior esquerdo 6 - Falta uma estaca do lado da tenda 7 - Falta um ramo na árvore de trás do lado esquerdo

MÚSICA

dobra das palavras

Texto Ana Castro Ilustração Antònia Tinture

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mundo

lipstick (inglês) rossetto (italiano) lápiz labial (espanhol) llapis de llavis (catalão)

κραγιόν (grego) 口紅(mandarim) губная помада (russo) લાલી (gujarati) লিপস্টিক (bengali)


Mouraria nas artes

Texto Ana Luísa Rodrigues Fotografia Sandra Bernardo

A fabulosa história

Teatro Taborda

do

Pelo estúdio da Valentim de Carvalho, improvisado na Costa do Castelo nos anos 50, passaram ícones do fado como Alfredo Marceneiro, Lucília do Carmo, Tristão da Silva e Amália. O técnico de som era Hugo Ribeiro. Hoje, aos 88 anos, recorda memoráveis episódios de bastidores. «“Ó Ribeiro, não posso cantar com esta luz! Meu querido filho” – era assim que ele me tratava – “Eu não vou cantar, não pode ser. Só consigo cantar de noite!”» Microfones, guitarristas, técnicos, estava tudo a postos para gravar os temas do álbum O Fabuloso Marceneiro. Mas o fadista não se convencia. O episódio faz parte das histórias da História do fado e passou-se na Mouraria, no Teatro Taborda. É recordado por Hugo Ribeiro, hoje com 88 anos, que o viveu na primeira pessoa. Técnico de som da Valentim de Carvalho, captou as vozes e os sons de grandes nomes da música, do fado à música erudita ou popular. «Nós tínhamos um problema: não tínhamos guitarristas para gravar de noite porque, de noite, eles tocavam nas casas de fado. Por isso, as gravações tinham que ser de dia», explica Hugo Ribeiro. E a luz do dia, típica de Lisboa e da Costa do Castelo, inundava o teatro, cheio de janelas, algumas delas difíceis de tapar. Nessa altura, anos 50 do século XX, era no velhinho Teatro Taborda que funcionava o estúdio de gravação da Valentim de Carvalho. A empresa alugou o espaço do teatro à Rádio Restauração, uma rádio de onda média. Antes, gravavam no Clube Estefânia – interrompidos pelo barulho dos pavões e pelos jogos de bilhar no andar de cima – e na Rua Nova do Almada, por cima da loja da Valentim de Carvalho. «Era impossível, não podíamos continuar», conta Hugo Ribeiro. «Depois, alguém falou no Teatro Taborda, na Costa do Castelo. É capaz de servir para gravar, que tem muito boa acústica. Eu fui lá ver, e o senhor Valentim também».

Entre o palco e um camarote, improvisaram o estúdio de gravação. Mais uma vez, a memória viva do técnico de som: «Vimos que tinha umas frisas de boca, que estão mesmo por cima do palco. Essa frisa, a gente transformou em cabine de som. Fechámos as portas, isolámos tudo e gravava-se no palco». Esse improviso viu nascer vários discos de referência da música portuguesa. Alguns de parto difícil, como O Fabuloso Marceneiro. Porque – e voltamos à história inicial – começaram-se vezes sem conta as gravações dos temas... que não chegavam ao fim. «Ele dizia: “Eu, com esta luz, tenho lapsos de memória”. E eu respondia: “Ó ti’ Alfredo, não diga isso! Então, agora fica a gravação sem efeito?! Temos cá os guitarristas e tudo”». Era o primeiro álbum de estúdio de Alfredo Marceneiro, que se sentia bem nos ambientes obscuros das casas de fado, mas não a cantar para um microfone em pleno dia. Mas os doze temas nasceram após um estratagema inventado pelo técnico de som. Hugo Ribeiro fala depressa e desfia memórias atrás de memórias, nomes atrás de nomes, histórias que se enredam umas nas outras e parecem não ter fim. «Gravei muita coisa e muita gente na Costa do Castelo. Gravei Maria Clara. Lembra-se da Maria Clara? A que cantava A Costureirinha da Sé. E os artistas daquele tempo: Tristão da Silva, Artur Ribeiro, Fernanda Maria, Maria de Lurdes Resende. Gravámos lá também as Melodias de Sempre. E, claro está, a Amália». Um dia, Amália disse que era Hugo Ribeiro quem lhe captava a voz que sentia ser a dela. O técnico de som acompanhou grande parte da carreira da fadista. «A Amália tinha muita confiança em mim, quase não queria gravar com mais ninguém porque ela não gostava de cantar ao microfone», confidencia.

DA AMÁLIA AO TRIO ODEMIRA Foi no palco-estúdio da Costa do Castelo que nasceu um disco de culto da História do fado e da música portuguesa. Nada mais, nada menos, do que aquele que ficou conhecido como “o disco do busto”, por ter um busto de Amália na capa – também conhecido por Asas Fechadas, tema que abre o alinhamento, ou simplesmente Amália, como se lia na capa. Ali foram gravados temas intemporais, como “Estranha Forma de Vida”, “Povo que Lavas no Rio” ou “Maria Lisboa”. Editado em 1962, marcou uma viragem na carreira da fadista, que iniciava a sólida colaboração com o compositor Alain Oulman. Havia alturas em que o Taborda se transformava também num local de convívio, para criar um ambiente mais aconchegante para a gravação. «O Alain levava sempre umas garrafas de vinho do Dão, muito bom», sorri Hugo Ribeiro. Também lá gravou Lucília do Carmo os temas do álbum Naquela Azenha Velhinha, de 1958. Mas nem só os grandes nomes do fado gravaram na Costa do Castelo. Também aqui se estreou aos microfones o Trio Odemira, cantando, entre outros temas, “Rio Mira” e “Cartas de Amor”. Temas em que, muitas vezes, foram interrompidas as gravações, por falta de insonorização. Hugo Ribeiro recorda como «aquilo estava tudo muito velho, tudo partido». E como, às vezes, lá se ia o trabalho... «As varinas

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passavam e estragavam-me a gravação. E se passasse um avião por cima, ali no Castelo, a mesma coisa». Mas Hugo Ribeiro tem boas lembranças da Mouraria: «Quando passava na rua, ouvia as pessoas dentro de casa a cantarem o fado, e com boas vozes. Por isso achei sempre que a Mouraria era a terra do fado. Foi na altura em que havia também o Arco do Marquês do Alegrete. A Hermínia [Silva] teve um desgosto tão grande, quando aquilo foi abaixo!»

IMPROVISOS HISTÓRICOS A Valentim de Carvalho saiu da Costa do Castelo quando a Rádio Restauração, que lhe arrendava o espaço, fechou. Pouco depois, foi inaugurado o estúdio da Valentim de Carvalho em Paço D’Arcos, construído de raiz para acabar com os anos de casa às costas. No Taborda, era o improviso que salvava as hostes. «Eu tinha uma campainha para chamar a atenção quando começávamos a gravar». Os truques do técnico tiveram de ser apurados, perante a determinação de Alfredo Marceneiro. Lembrou-se do lenço que o fadista usava ao pescoço. «“Então, deixe cá ver o seu lenço.” E tirei-lho. Ele perguntou: “Para que é que me estás a tirar o lenço!?” Eu respondi que não era para lho tirar, mas sim para nos salvar. Atei-lho aos olhos. E ele respondeu: “Oh, é ainda melhor do que na casa de fados, não vejo mesmo nada!” Foi assim que O Fabuloso Marceneiro foi gravado. Os doze fados seguidos. Com uma pequena pausa ou outra, mas quase sem tempo para os guitarristas descansarem. No final, ele disse: “Foi como comer doze pratos de sopa”».

Queres ser voluntário no próximo

Procuramos histórias do bairro, contos, textos, fotografias, publicidades, ilustrações e ideias para o próximo número do Rosa Maria, o jornal da Mouraria. Envia um e-mail para rosamaria@renovaramouraria.pt, contacta-nos para o 218 885 203 ou aparece no Beco do Rosendo, n.º 8 e 10, 1100-460 Lisboa.


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e

Ontem HOJE Tempos de saudade, vidas difíceis, grandes esperanças… Poderia ser a letra de um fado, mas são as estórias de vida dos homens da Mouraria que têm em comum os tempos de infância, das brincadeiras, da inocência e do convívio, que revivem as memórias, de alegrias e de tristezas – o Grupo dos Carneiros. Mais de setenta anos passaram, trazem consigo, as recordações da Mouraria, a partir dos anos 30 do século passado. As décadas trágicas, do assassinato do bairro da Mouraria. Um bairro numa Lisboa moderna, desenhado a régua e esquadro, que figuras “iluminadas e futuristas”, dos finais do século XIX, pretendiam ver higiénico, estéril, sem pregões e vendedeiras, sem rufias e prostitutas, sem fado, sem cinema e teatro, sem tascas, sem o cheiro do vinho, do louro, dos orégãos, dos caracóis, da fava-rica e das iscas. A Mouraria de Lisboa que os engenheiros, arquitectos e políticos, queriam ver arrasada visando a limpeza das memórias e das vontades do povo. Ao longo dos tempos, muitos governantes, políticos, escritores e jornalistas, abominavam e amofinavam a Mouraria que, apesar de enxovalhada, teimosamente resistia. Composta pelas camadas e arbítrios, da natureza e dos homens, tinha no seu compósito e colorido mosaico a matriz orgânica do edificado e do povo de Lisboa. O povo lutador, trabalhador, sobrevivente, da sopa dos pobres, reacionário, revolucionário, nascido e criado, migrante, provinciano, analfabeto, letrado, rico, remediado e pobre. A Mouraria das artes e ofícios, do sapateiro, do tipógrafo, do funileiro, do ser-

obituário

Texto e Fotografia Ernesto Possolo

OGrupo

Carneiros

dos

ralheiro, do carpinteiro, do aguadeiro, do carvoeiro, do ardina, do engraxador, da apanhadeira, da costureira, da camareira, da peixeira, do carteirista, do polícia, da beata, do funcionário público, do comerciante, do motorista, do escriturário, do prestamista, da alcoviteira, de muita gente de Lisboa. Justiça

seja feita aos olisipógrafos da época, como Norberto de Araújo, que literariamente registaram, explicaram e defenderam, a memória física e moral de matriz popular e pitoresca do bairro histórico da Mouraria. O Grupo dos Carneiros foi fundado a 5 de Outubro de 1984. A sugestão foi

do Fernando Pereira (nascido e criado na Mouraria, emigrado na Alemanha) para os amigos de infância e vizinhos conviverem, celebrando a amizade e os momentos partilhados. Os fundadores do grupo são sete: António Batista Almeida, José Ferreira, António Valente Pereira, Fernando Pereira, Augusto Santos Duarte, Fernando Costa e Vítor de Sousa. A origem do nome, conta-nos Fernando “Baguinho” Costa: «Naqueles tempos, tinhamos o hábito de imitar o bramir do carneiro – Mééé – espreitando pela porta, dentro da oficina de sapateiro, quando alguém passava, mas sem a intenção de querer faltar ao respeito a quem quer que fosse». E havia também o hábito de cumprimentar os amigos mais chegados assim:

Então ó carneiro!?

Em cima: António Batista Almeida, José Ferreira, António Valente Pereira, Fernando Pereira Em baixo:  Augusto Santos Duarte, Fernando Costa e o Vítor de Sousa

Texto Marisa Moura Ilustração Ernesto Possolo

Artur Arriscado (1944-2013), o cidadão do mundo O Largo da Rosa foi palco de um evento muito especial em Setembro passado. Houve leitura, música e dança, mas não foi uma festa. Ou, pelo menos, uma festa tal como costumamos entender as festas. Foi um “adeus” ao escritor e radialista angolano Artur Arriscado, que viveu na Graça. Falecera seis dias antes no Brasil, aos 69 anos, e nesse dia, 19 de Setembro, foi sepultado em Angola, onde nasceu e viveu até vir para Portugal nos anos 80 por motivos de saúde, e depois para o outro lado do Atlântico. Na Mouraria realizou-se esta “festa” com os amigos e familiares que não puderam viajar. Porquê no Largo da Rosa? Porque por lá passou incontáveis fins-de-tarde a pintar e a conversar com a amiga Manuela dos Santos, organizadora desta despedida. Na “festa”, leram-se, claro, excertos das suas obras, com destaque para Tatchi – Força e Sakalumbu – O Contador de Histórias, um registo de memórias sobre as crianças angolanas, com grande influência do seu pai minhoto e mãe angolana. «A linguagem do Artur era a linguagem do cidadão do mundo. Eu aprendi isso com ele. E se és um cidadão do mundo, tens de entrar na Mouraria, em Alfama, na Graça», conta a amiga-irmã Manuela. «A sua fabulosa capacidade de recuperação e de manter a força anímica desarma qualquer um», escreveu o jornalista Ladislau Silva, no jornal angolano O País, no dia da sua morte. A doença atacou-o antes dos trinta, mas a vitalidade foi a sua imagem de marca até ao fim. Os amigos chamavam-lhe

Coronel Hoffman, como o personagem de um dos seus livros, de carácter forte e respeitável. Sobreviveu a um longo período de coma e, mesmo sobre próteses, manteve-se «galante, espadaúdo e exímio dançarino», nos adjectivos de Ladislau Silva. A «sagacidade profissional sempre em evidência» foi destacada pelo Ministério da Comunicação Social angolano na mensagem de condolências. Artur Arriscado gravou o hino nacional angolano, produziu música infantil, participou na primeira Antologia da Música Urbana de Angola e foi director técnico da Rádio Nacional de Angola. Falava «a linguagem do respeito».

O almoço de convívio realiza-se na primeira semana de Outubro, mês da fundação do grupo. A partir dos anos 90, ficou decidido todos os anos convidarem mais um amigo de infância, tendo o grupo passado de sete para catorze. Em 1994, o saudoso António Batista Almeida, já falecido, juntou as memórias do grupo num documento policopiado, com o título A Saga dos Carneiros. A partir do início de 2000, as esposas começaram a participar nos almoços. Infelizmente, faleceram dois fundadores do grupo e cinco amigos de infância convidados. Entretanto a vida continua, celebram-na e vivem-na como podem, vão recordando saudosamente os amigos que partiram. Para o ano assim continuará caso a vida e a saúde o permitam.


retrato de família

ગુલાબ મારીયા

Texto Teresa Teles de Almeida Fotografia Carla Rosado

Dificilmente a família Capelo passa despercebida na Mouraria. O afável senhor Capelo é dono do supermercado Spar na Rua da Mouraria e de mais três lojas, logo ao lado, na Rua do Benformoso, de pronto-a-vestir e acessórios. Todos ali trabalham. O pai Carlos, a mãe Lurdes e os filhos Paula e João – de 41 e 36 anos, respectivamente. Tudo começou nos anos 60 quando uma fábrica de cintos e braceletes de relógio, transformada depois numa loja de quinquilharias, se instalou na Rua do Capelão. Era o negócio de Manuel Capelo, um homem vindo do Sabugal, zona da Guarda, para fazer a tropa em Lisboa. Aqui casou com uma rapariga da sua terra que, por cá, trabalhava “a servir”: Maria de Lurdes de Jesus. Desse casamento nasceu um rapazinho chamado Carlos Capelo que hoje, aos 63 anos, é dos rostos mais conhecidos da Mouraria, sempre atencioso com toda a gente, dos clientes aos empregados. O empreendedorismo está no sangue deste clã. Carlos estreava-se no trabalho, aos 16 anos, na loja de quinquilharias do pai, antes de terminar o curso geral de comércio. Depois

Sempre juntos

vox mourisco

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trabalhou num escritório que fazia a contabilidade da rede holandesa de supermercados Spar e assim se interessou pelas mercearias. Começou com uma loja da rede Maxigrula, trocou-a pela Ponto Fresco e adiante, há quatro anos, pela Spar. Os seus filhos (netos de Manuel) seguem-lhe as pegadas. Paula frequentou o primeiro ano da licenciatura de Direito, mas também veio parar às lojas. João, rosto habitual no supermercado, estudou contrabaixo durante dois anos no Conservatório. A família trabalha junta e vive junta também. São já quatro gerações sob o mesmo tecto. Paula tem dois filhos, bisnetos de Maria de Lurdes de Jesus e do patriarca Manuel. Este, todavia, aos 87 anos partiu. Faleceu no passado mês de Novembro. A Mouraria, contudo, não é a morada pessoal dos Capelo. O senhor Carlos nasceu aqui e cá esteve até aos três anos. Depois a família mudou-se para o Alto do Pina e, nos anos 70, para a Parede, até hoje. «Mas ainda cá vivemos uns dois anos quando casámos», ressalva Lurdes (Lurdes, como a sogra). Para Carlos não há grandes diferenças. «É como se ainda cá vivesse, passo aqui mais de doze horas, por dia, a trabalhar».

Entrevistas e Fotografia Rodrigo Barata e Joana Rocha

Sim, costumo. Em várias mercearias do bairro e com muito gosto. Tenho orgulho em dizer que temos produtos de qualidade. Em relação à roupa não existe muita oferta, com muita pena minha. > Paula Marques/38 anos Empregada de balcão Trabalha na Rua do Benformo

> Eunice Paula Santos/53 anos Empregada de escritório Trabalha na Rua do Benformoso

> Sandra Sapage/36 anos Comerciante no sector da hotelaria Trabalha na Rua de São Cristóvão

Faço sempre. Sou cliente habitual do Carlos Capelo e só compro produtos nacionais.

Costuma fazer compras na Mouraria?

Sim, mercearias. E costumo ir ao Madeira comprar malas e carteiras, bijuteria e material de escritório. Na minha opinião fazia falta uma loja de roupa.

Sim. Na peixaria da Rua do Capelão, frango assado no Largo do Terreirinho, na Farmácia Ferrão… E tomo o pequeno-almoço na Leitaria Moderna na Rua de São Cristóvão.

Não costumo. A minha vida é trabalho-casa e casa-trabalho. Chego ao trabalho por volta das dez da manhã e vou para casa às dez da noite. Quando vivia aqui na Mouraria costumava frequentar o Centro Comercial Mouraria e fazia compras na mercearia do senhor Domingos na Rua São Pedro Mártir.

> Fernando Bilro/69 anos Electricista Morador na Rua da Guia

Claro que sim. Mercearias no supermercado Spar, na peixaria do Capelão, frutas no ti’ Jaquim (que fechou agora há dias). Na farmácia... E compro roupa no Centro Comercial Mouraria. > Isilda Alcocide/30 anos Copeira Moradora na Travessa do Jordão

> António Mateus/43 anos · Empregado no ramo da hotelaria Trabalha na Esplanada da Mouraria há 28 anos

Sim. Alimentação, roupa de casa e vestuário nos armazéns aqui na rua. > Carlos Encarnação/48 anos Sapateiro Trabalha na Rua Poço do Borratém

Sim. Mas geralmente, para grandes compras, vou aos supermercados porque fica mais em conta. Roupa de casa e pijamas costumo comprar na Rua da Palma, no “pequeno comércio”. > Alice Almeida/51 anos Comerciante no sector da hotelaria Trabalha na Rua do Benformoso


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Rosa Maria n.º 6 dezembro ‘13 · junho ‘14 Texto e Fotografia Rita Pascácio

Raridade São-Tomense Cozido de banana (1 dose) (chicharro) · 13 peixe rodelas de cebola · 1 dente · 1 pitadadedealho · azeite q.b. sal grosso · 2 rodelas de tomate · banana pão · óleo de palma · piripiri ·

1

Arroz da Índia

O peixe:

(12 doses)

Amanha-se o peixe. Corta-se finamente e tritura-se uma rodela de cebola e um dente de alho, com uma pitada de sal grosso. Mistura-se bem até se tornar uma massa, para barrar o peixe por dentro e por fora. Deixar marinar durante trinta minutos. Num tacho, colocar um pouco de água no fundo, colocar o peixe, que não deve ficar submerso, e por cima um fio de azeite, duas rodelas de cebola e outras duas de tomate. Deixar ferver mantendo o lume baixo para a água não evaporar. Cozinhar por uns vinte minutos.

A banana-pão: Descascar a banana-pão, cortar em duas ou três partes e fazer um corte longitudinal em cada uma delas, para cozer mais facilmente. Num tacho, submergi-las em água, deixar ferver e cozer por uns quinze minutos até ficar mais amarela e mole.

Servir colocando primeiro o óleo de palma no fundo do prato com um pouco de piripiri, e depois o peixe com o seu caldo e a banana-pão por cima do óleo. «É o único restaurante são-tomense em Lisboa», diz o senhor Adelino, que há quinze anos abriu o seu espaço na Rua das Farinhas. A esposa é a cozinheira e o filho mais novo ajuda sempre que necessário. Os filhos mais velhos também são requisitados quando há mais movimento. O senhor Adelino fala da sua terra com saudade e orgulho, explicando que a maior parte dos ingredientes para confeccionar os pratos típicos de São Tomé não se encontram em Lisboa, sendo necessário encomendar, ou o próprio trazê-los quando vai a São Tomé. Nada como começar uma refeição n’A Cartuxinha – nome herdado do anterior restaurante alentejano que ali existia – , com uns deliciosos pastéis de peixe. A ementa é longa, com opções que incluem pratos angolanos, cabo-verdianos e até portugueses, para agradar a todos. Das opções são-tomenses destaca-se o tradicional Calulú, os pratos vegetarianos e o cozido de banana (com peixe). Como sobremesa, destaque para o Arroz da Índia que curiosamente não leva arroz. Trata-se de uma iguaria levada para São Tomé por um povo da Índia, servida na casca do coco. Estas especialidades têm fidelizado clientes, «que até do Porto vêm», conta o senhor Adelino, que também reconhece que a recente divulgação do bairro da Mouraria tem trazido ao seu restaurante novas pessoas.

obituário

kg de milho branco · 0,5 embalagem de 200g de · 1leite de coco concentrado q.b. · açúcar 1 pitada de sal grosso · Cozer o milho durante duas horas (na panela de pressão, uma hora). Acrescentar o leite de coco, misturar e acrescentar açúcar a gosto e uma pitada de sal. Deixar cozer cerca de 20 minutos. Colocar em recipientes individuais de imediato e deixar arrefecer. Preferencialmente não levar ao frigorífico e consumir no prazo de dois dias.

A Cartuxinha R. das Farinhas, n.º7, Lisboa 9644 972 956

Texto Nuno Franco Ilustração Hugo Henriques

José Ferreira (1940-2013),

O Zé dos Cornos

José Gonçalves Ferreira nasceu a 12 de Outubro de 1940 na freguesia de Cabração, concelho de Ponte de Lima. Criado em meio rural, por entre montanhas onde deambulava o gado caprino, símbolo da junta de freguesia local, veio para Lisboa com 12 anos. O pai era dono de uma taberna-carvoaria, no Beco dos Surradores, na antiga freguesia de São Cristóvão – a dois passos da Baixa. Viviam nas traseiras desta taberna, num anexo. Mais tarde foi para a Póvoa de Santa Iria. Na carvoaria vendia-se também lenha, serradura, petróleo e greda, uma espécie de barro. O pequeno Zé estudou na Escola n.º 10, que funcionava na Calçada do Marquês de Tancos, perto da Igreja de São Cristóvão. Nesse tempo, o Daniel, responsável pela gestão da casa, coadjuvava o pai do Zé na lida do estabelecimento. Foi com ele que Zé aprendeu os segredos do negócio que, já adulto, viria a ser seu. Casou com Maria Aurora Matos, com quem viveria até à data do seu falecimento. Trabalhavam ambos na casa, ela como cozinheira e ele como gerente. Estava sempre pronto a atender e prestável para com os clientes. De sorriso no rosto.

Começou por ser conhecido como Zé Carvoeiro. Só muitos anos depois, por ter trazido uns cornos que aplicou na casa num lugar de grande visibilidade, os amigos passaram a chamar-lhe Zé dos Cornos. Contam-se dele episódios bem engraçados. Um morador do bairro e amigo chegado, António Brito, 61 anos, oriundo de Arcos de Valdevez, recorda certa madrugada na altura da revolução de Abril de 1974, em que Zé foi dar um passeio no seu Volkswagen, como era costume, e passa pelo Rádio Clube Português, na Rua Sampaio e Pina, ao Marquês de Pombal. O local era vigiado pelo exército. Zé desafia três amigos soldados, que sabia estarem ali de serviço, a tomarem um copo na taberna. A farra foi tal que se esqueceram das suas metralhadoras no banco de trás do carro. Nos dias de revolução, no 25 de Abril e no 1.º de Maio, estava tudo fechado em Lisboa, mas o amigo Zé manteve-se aberto e juntou-se aqui muita gente de Lisboa. Era o tempo em que os presuntos eram muitos e estavam pendurados. Havia vinho verde e morangueiro, e saía todo do barril. O vinho corria e comemorava-se Abril na Mouraria.


pu bl ic id ad e


Rosa Maria n.º 6 dezembro ‘13 · junho ‘14

banda desenhada

pppp

Texto e Ilustração Nuno Saraiva

da capa à contracapa

Texto Susana Moreira Marques Fotografia Carla Rosado

Vanessa Dias

Daqui ninguém a tira Uma vez, num arraial de Santo António, estava a dançar em cima do palco, escorregou, caiu. Para uma criança, ainda mais para uma criança pequenina, era uma distância assustadora do palco ao chão. Vanessa magoou-se mas não deixou de dançar. Chegou a dançar na televisão em programas como o “Somos Portugal” depois de ter feito figuração em programas para miúdos como o “Buéréré”. Acaba de participar numa gravação da novela da SIC, “Sol de Inverno”. SONHA SER CABELEIREIRA Vanessa Dias é anã e toda a gente gosta de ver uma anã dançar mas, ninguém acredita que possa ter uma carreira a sério. Do que ela mais gostava, no entanto, mais do que ser dançarina ou actriz, era de ser cabeleireira, como a sua mãe, que também é anã. Não sabe se algum dia conseguirá. Acha que não será fácil para ela encontrar emprego porque, em qualquer área, é mais difícil uma pessoa anã conseguir trabalho, sobretudo numa altura em que as filas se alongam no centro de emprego.

As ruas da Mouraria, mesmo as que são frias, mesmo as que estão sujas, até aquelas onde há tantos idosos que Vanessa gostaria de poder ajudar e não pode, são confortáveis para ela. Quando anda nas ruas da Mouraria, ela não é anã; é simplesmente pequena e os outros são grandes. O seu namorado, conta, é grande, veio da Nazaré mas a Mouraria já o adoptou. Querem, ambos, fazer a sua vida na Mouraria. «Daqui ninguém me tira», diz, sentada num banco no Largo da Severa, o sol de Outono a reflectir na casa da fadista mítica, pintada de um branco fresco, quase ofuscante. Vanessa está acompanhada de uma menina de três anos, uma de duas crianças de quem toma conta durante o dia. A rotina dela é feita entre poucas ruas. Leva as miúdas muitas vezes ali ao lado, ao novo parque infantil, com o qual Vanessa não cresceu. A Mouraria daquelas crianças será outra, mas Vanessa, aos 26 anos, ainda é nova para sentir saudosismo. Gosta das mudanças. Gosta de ver os turistas a aventurarem-se para dentro da Mouraria. Sente-se orgulhosa quando os

Vanessa Dias integrou a equipa que preparou um jantar popular no passado mês de Outubro, na Rua da Guia

vê a admirarem o bairro. É precisamente para o parque infantil que elas se afastam. A Vanessa é apenas um pouco mais alta do que a

criança loura, mas qualquer coisa no rabo-de-cavalo moreno a abanar denuncia que é mulher e que tem a irreverência que é preciso.


Rosa Maria nº6