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n.º

Junho’ 18 l Dezembro’18 - semestral Associação Renovar a Mouraria www.renovaramouraria.pt directora l Inês Andrade distribuição gratuita

Família

e r i m i h G

os m a m a , “Brasildeixamos” e não ba as opiniões Sai

ior) r e t n i o (n


editorial

Iliustraçao: Laura Penez (França)

O mundo é a minha pátria

Participantes de diferentes nacionalidades nesta edição do

No ano em que a Associação Renovar a Mouraria celebra o seu 10º aniversário, o Rosa Maria n.º 10 sai à rua vestido com as cores das bandeiras de 15 países e com a participação de mais de 70 aventureiros. Pessoas comuns, a expressarem-se sobre e como gostam, imprimindo um traço tão múltiplo quanto os idiomas que falam. Nesta edição, a maioria das mãos não são portuguesas. Uma construção coletiva, num constante processo de fazer melhor, com colaboradores que trouxeram consigo a riqueza da diversidade e um traço comum a todas e a todos: uma ligação à Mouraria. Gente que aqui trabalha, que atravessa o seu quotidiano, gente que ainda vive e muita gente que já não vive, obrigada a sair pelos preços proibitivos. Em 10 anos vimos o bairro mudar, gente a resistir, adaptar-se, desconstruindo-se para reconstruir-se. Uma grande comunidade em permanente mudança. Hoje, mais do que nunca, é preciso ser um jornal com nome de flor e ter espinhos para poder picar quando é preciso.

ROSA MARIA · Estatuto Editorial O ROSA MARIA é um jornal sobre as pessoas e os acontecimentos da Mouraria, mas também sobre assuntos nacionais e internacionais relacionados com os seus residentes, criado para preservar e divulgar o seu imenso património humano, histórico e cultural. O ROSA MARIA é um jornal comunitário produzido por todos os que queiram participar (jornalistas, fotógrafos, ilustradores, designers gráficos, voluntários e moradores ou trabalhadores do bairro) e que se pautem pelos princípios da solidariedade, do rigor e da qualidade. O ROSA MARIA é parte integrante da comunidade em que se insere, mas totalmente comprometido com o código deontológico que enquadra o exercício da liberdade de imprensa e independente de facções religiosas, políticas e económicas. O ROSA MARIA é editado pela Associação Renovar a Mouraria desde 2010, com periodicidade semestral. O seu nome é inspirado na mítica Rosa Maria imortalizada no fado Há Festa na Mouraria – uma mulher atrevida e virtuosa, como esta publicação. A utilização do Acordo Ortográfico é deixada ao critério de cada redactor. NOTA: Esta presente edição deveria ter saído em Junho de 2015. Sai em Setembro de 2015 devido a dificuldades na angariação de publicidade para pagar a impressão.

Brasil: amamos e não deixamos* “Era bom que em Portugal quem tem poder, político ou outro, e se considera democrata, lesse os acontecimentos no Brasil como parte de um risco muito mais alargado, e em curso. (...) A terminar, dois pontos em relação à comunidade brasileira em Portugal que votou por larga maioria no novo poder. Primeiro, não pode haver qualquer retaliação seja em relação a quem for. Todos as sugestões de deportação, ou de “vai para a tua terra” se transformam em xenofobia, mesmo quando o que as move inicialmente é uma indignação anti-xenófoba. Segundo, pelas mesmas razões, não deve ser tolerada a esta comunidade qualquer manifestação homofóbica, misógina ou discriminatória. Tudo isso é crime, tem de ser

punido, e é bom que os brasileiros residentes em Portugal o saibam, já que muitos parecem detestar socialistas, comunistas e esse outro papão que é a “ideologia de género”. Na verdade, alguns parecem nem saber que a democracia onde se instalaram tem um governo viabilizado por socialistas e comunistas, e legalizou o casamento gay há anos.” Alexandra Lucas Coelho é jornalista e escritora premiada. Como repórter, cobriu várias zonas de conflito, da ex-URSS à América Latina e ao Médio Oriente. Foi correspondente em Jerusalém e no Rio de Janeiro. *Texto original publicado a 16 de novembro de 2018 no sapo.pt

Direcção: Inês Andrade Direcção Gráfica: Hugo Henriques Edição editorial: Taiane Barroso Revisão: João Berhan, João Correia, Carolina Ribeiro Tradução para Chinês: Xie Qian, Quan Qi Tradução para Nepalês: Bikram Thapa Tradução para Inglês: Carol Metzker Ilustração: Chira, Laura Penez, Luciana Gâmbaro, Nuno Saraiva, Simanca, Tânia Ralston Passatempos: João Madeira Fotografia: André Vieira, Augusto Fernandes, Camila Othon, Carla Rosado, Hermes de Paula, João de Albuquerque Textos: Ana Luísa Rodrigues, Ana Salcedo, Ana Varela, Aurelie Rosado, Carolina Ribeiro, Cristina Sousa, Débora Miranda, Fabrício Reis, Francisco Melo, Flávia Pereira, Gabriel Araújo, Greg Heid, Inês Andrade, Joana Deus, João de Albuquerque, Jorge Barata, Kate Heid, Luca Onesti, Maria Caetano, Marília Gonçalves, Milena Ribeiro, Marisa Moura, Nuno Franco, Pina Neto, Quan Qi, Sara Pinto, Simone Tulumello, Taiane Barroso, Tânia Ralston, Xie Qian Capa: Augusto Fernandes Agradecimentos: Alexandra Lucas Coelho, André Vieira, Cristina Sampaio, João Correia, Simanca Propriedade: Associação Renovar a Mouraria Redacção e administração: Beco do Rosendo, n° 8, 1100-460 Lisboa, Tel.: +351218885203, Tlm.: +351922191892, rosamaria@renovaramouraria.pt Impressão: Funchalense - Empresa Gráfica S.A. Distribuição: Associação Renovar a Mouraria Versão digital: www.renovaramouraria.pt Tipos de letra: Atlantica, Lisboa e Tramuntana>Ricardo Santos Depósito legal: 310085/10 Periodicidade: Semestral Tiragem: 10.000 exemplares Número: dez, dezembro 2018 N° Registro ERC (Entidade Reguladora para a Comunicação Social): 127232 O conteúdo desta publicação é da exclusiva responsabilidade da Associação Renovar a Mouraria e não pode, em caso algum, ser considerado como expressão das posições da União Europeia.

co-financiado por:


retrato de família

Rosa Maria n.º 10 dezembro ’18

Texto: Taiane Barroso (Brasil) Fotografia: Augusto Fernandes (Brasil), Dhurba Ghimire (Nepal) Tradução: Bikram Tapha (Nepal)

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“O de sempre, se faz favor” Já quase em frente às (novas) escadinhas rolantes da Saúde, na Rua Marquês de Ponte de Lima, encontramos um café com os dizeres à porta: “Kebabs” justo ao lado de “Bifanas”.

fessor de artes e é um exímio pintor. O café é decorado com obras autorais (e que estão à venda). Sangita divide as tarefas na loja com seu marido, já Bijaya é jornalista. Bikram é recém-graduado em Administração de Empresas.“A barreira do idioma é a nossa maior dificuldade, torna difícil conseguir trabalho ou mesmo estudar”, ele diz-nos enquanto todos balançam a cabeça a confirmar.

Somos recebidos por um jovem dedicado a acolher com atenção os pedidos dos idosos que chegam ao café quase em sincronia. Pedem: vinho, kebabs, bifanas e obviamente, cafés. Tudo ao mesmo tempo.

Embora a distância da família e as dificuldades com o idioma, todos adoram viver em Portugal. “Gosto do clima agradável, a educação das pessoas que estão sempre a dizer ‘se faz favor’, ‘peço desculpa’ e ‘obrigado’, os portugueses são muito amigáveis”’, afirma Dhurba, que garante ter amigos portugueses e muitos nepaleses. Alegra-se ao contar sobre as tradições e celebrações nepalesas realizadas justo a poucos metros dali, no Martim Moniz, enquanto pega o telemóvel para nos mostrar fotos de sua esposa e irmã a posarem em trajes típicos e coloridos para a câmera.

“O de sempre, se faz favor” diz Dona Esmeralda, 82 anos de Mouraria. “Nasci no Benformoso e faz pouco menos de um mês que me mudei aqui para a frente então às vezes venho aqui almoçar”. Enquanto folheia um Rosa Maria antigo alegra-se ao saber que justamente o jovem por trás do balcão estará na próxima edição. Ao receber seu prato diz: “Ele é mesmo muito bonzinho”. Dhurba Ghimire chegou a Portugal há 4 anos, sem conhecimento algum do idioma ou mesmo sobre a cultura local. Encontrou acolhimento graças a grande comunidade nepalesa - uma das comunidades estrangeiras mais expressivas em Lisboa. E se hoje já há quem peça “O de sempre”, ele diz-nos que no começo não era assim “Demorou um pouco para os moradores do bairro entrarem no café... primeiro eram mais turistas. Então, aos poucos, foram chegando e alguns vêm todos os dias”

Casado há 12 anos com Sangita Ghimire, passou dois anos separado até que ela se pudesse mudar para junto dele. O motivo é inesperado: Sangita e Dhurba têm dois filhos, uma menina de 12 anos e um menino de 8 - que ainda não receberam autorização para vir para Portugal. Sangita emociona-se ao falar sobre sua família. “Gostamos muito daqui, mas sentimos muita falta dos nossos filhos. Não vejo a hora de ter a minha família reunida novamente”. Enquanto aguardam o demorado processo de reagrupamento familiar no Nepal, os miúdos vivem com os avós maternos. Sua cunhada juntou-se aos expatriados e vive com o casal, que ocupa um apartamento no mesmo edifício do café. Bijaya Ghimire trocou a Alemanha por Portugal após terminar os estudos a um ano atrás. “Preferi poder estar próxima a minha família”. Bikram Thapa, quem nos acompanha nessa conversa multilingue (em inglês, português e nepalês) está em Portugal há somente 6 meses. Foi acolhido na casa dos Ghimire durante o primeiro, e conta-nos o quanto foi difícil encontrar um lugar para viver aqui. Eram vizinhos em seu país de origem. “Ele é como um irmão pra mim”. Mas Bikram só conseguiu um lar em Benfica. Dhurba, além de proprietário e atendente em seu café, é Historiador e Sociólogo, também já foi pro-

“Planejei passar o total de 8 anos em Portugal”, diz. Quando perguntada a opinião, Sangita confia no marido “Ele sempre fez boas escolhas pelo bem da nossa família”. Bijaya aspira trabalhar na sua área e Bikram, cheio de energia, quer aprender coisas novas.

Há tanto a se falar sobre esta família que deixamos aqui o convite para visita-los no número 21 da Rua Marquês de Ponte de Lima.

“एसोसिएशन रेनिभार मोरेरियाले “विभिन्न समुदायहरूको सामाजिक समावेशलाई बलियो बनाउने लक्षय ् को साथ एक विस्तत ृ सरणी गतिविधिलाई बढावा दिन्छ। हामीसँग आप्रवासीहरूको लागि पोर्चग ु ललाई विदेशी भाषाको रूपमा शिक्षण कार्यक्रमहरू, बच्चाहरू र युवाहरूका लागि सहयोग अध्ययन र साथसाथै धेरै भिन्न खुला खुला गतिविधिहरूको कार्यक्रममा कार्यक्रमहरू छन्। हामी अंगर् ज े ी, पोर्तग ु लली र फ्रन े च ् मा नि: शुलक ् कानूनी आव्रजन समर्थन पनि प्रस्ताव गर्दछौं। +351 218 885 203 / +351 922 191 892 मा थप जानकारी। ई-मेल: geral@renovaramouraria.pt


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Rosa Maria n.º 10 dezembro ‘18

Texto: Ana Varela (Portugal) Ilustração: Hugo Henriques (Portugal)

31 ,3%

Imigrante › É uma pessoa estrangeira que entra num país para ali se esta-

3,1 %

3,6 %

3,6 %

4%

5,3 %

5,5

%

7,3 %

7,7 %

noutro país. As normas internacionais sobre direitos humanos prevêem que toda a pessoa pode abandonar livremente qualquer país, nomeadamente o seu próprio, e que apenas em circunstâncias limitadas podem os Estados impor restrições ao direito de um indivíduo deixar o seu território.

8, 3%

Emigrante › É a pessoa que deixa o país da sua nacionalidade para ir viver

Nacionalidades mais representadas em Portugal 20 ,3%

Dicionário da migração

Migrante › É toda e qualquer pessoa que muda de país ou região durante um determinado período de tempo. Esta expressão é muito abrangente e engloba os migrantes nacionais (deslocados internos) e migrantes internacionais (emigrantes, imigrantes e refugiados). No entanto, a mudança de país ou região pode acontecer por diferentes motivos: por iniciativa própria ou por razões de força maior.

Existem mais de 2 milhões de emigrantes portugueses, dispersos por vários países do mundo.

B Ca ras il bo Ve rd e U cr ân Ro ia m én ia Ch Re in in a o U ni do An go la Fr Gu an in ça éBi ss au It ál ia O ut ro s

belecer.

1 em cada 2 refugiados

é uma criança

Nacional de país terceiro (NPT) – É a pessoa nacional de um país

que não pertence à União Europeia.

Racismo › É uma construção ideológica que atribui a uma determinada raça ou grupo étnico uma posição de domínio sobre outros com fundamento em atributos físicos e culturais. O racismo pode ser definido como doutrina ou crença na superioridade racial. Esta definição inclui a crença de que a raça é fator determinante da inteligência, das características culturais e dos comportamento morais. O racismo compreende o preconceito e a discriminação raciais. Refugiado › É a pessoa que muda de país por motivo de guerras, catástro-

fes naturais ou perseguição individual (raça, religião, nacionalidade, opinião política) e que não pode obter protecção no seu próprio país. Procura assim refugiar-se noutros territórios, buscando essencialmente paz e segurança. Para estas pessoas, a recusa de asilo ou protecção internacional pode colocar a vida em perigo.

Refugiados em Portugal por país de origem

Schengen › É o nome de uma cidade do Luxemburgo, onde foi assinado,

Venezuela Afeganistão Guiné 3% 2% 3% Congo 4 Eritreia 5%

em 1985, um acordo entre cinco países da União Europeia (França, Alemanha, Bélgica, Luxemburgo e Países Baixos). Estes países acordaram suprimir os controlos de identidade nas suas fronteiras comuns, criando um território sem fronteiras internas. Pouco a pouco, o espaço Schengen alargou-se. Passou a incluir, em princípio, todos os países da UE, mais a Islândia e a Noruega. Os nacionais de países terceiros (NPTs) que disponham de um visto para entrar num dos países do espaço Schengen (Visto Schengen) podem circular livremente no interior desse espaço à exceção da Irlanda e do Reino Unido.

Xenofobia › Pode ser descrita como atitude, preconceito ou comporta-

Síria 32

Angola

9

mento que rejeita, exclui e diminui pessoas com base na percepção de que são estranhas ou estrangeiras relativamente à comunidade, à sociedade ou à identidade nacional. Existe uma relação estreita entre racismo e xenofobia.

Ucrânia

9

Para mais informações:

• Alto Comissariado para as Migrações (ACM) • Organização Internacional para as Migrações (OIM) • Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (UNHCR) • Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) • Sefstat - Portal de Estatística do SEF • Comissão Europeia (CE)

12% República Democrática do Congo

21 Iraque


a

Texto: Francisco Melo (Portugal) Fotografia: Augusto Fernandes (Brasil)

Rosa Maria n.º 10 dezembro ’18

05

Rua a Rua

57%

de refugiados no mundo são originários de 3 países

Síria (6.3 M), Afeganistão (2.6 M) e Sudão do Sul (2.4 M)

Países de Acolhimento de Refugiados. Nenhum deles é europeu.

1. Turquia (3.5 M) 2. Uganda (3.5 M) 3. Paquistão (3 .5 M) 4. Líbano (1 M) 5. Irão (979 mil) Em 2017, Portugal totalizou o número de 421.711 nacionais de países terceiros residentes legais, ou 4% da população.

Há cerca de 22 milhões de cidadãos de países terceiros a viver na Europa. Aproximadamente 0,4% da população deste continente.

Existem 258 milhões de migrantes internacionais no mundo. Constituem 3,4% da população mundial!

A

panificação é-nos constantemente lembrada nos arruamentos citadinos. Na Mouraria como noutros bairros da cidade, encontramos placas com nomes associados à farinha e ao pão: o Largo da Eira, o Beco do Forno do Castelo, a Travessa do Forno do Torel, a Rua dos Padeiros, das Padeiras e da Padaria, um Largo e um Pátio do Peneireiro, um Beco da Mó, o Beco e a Rua das Farinhas (com direito às suas Escadinhas), calçadas, travessas e altos de moinhos, sete moinhos, moinhos velhos, moinhos de vento... A moagem que deixou memória na toponímia era a que se fazia em moinhos de vento e em atafonas (palavra de origem árabe que significa moinho que mói sem vento nem água, movido por homens ou animais). Os primeiros situavam-se em zonas periféricas, engolidas depois pelo avanço urbano; já as segundas, podiam instalar-se por toda a cidade – como testemunha João Brandão, em 1552, no Tratado da Majestade, Grandeza e Abastança da Cidade de Lisboa, quando conta 800 atafonas distribuídas por 400 casas (nessa altura, até a câmara municipal tinha um pelouro do trigo, das atafonas e das moendas). Duzentos anos depois, Cristóvão Rodrigues de Oliveira, no Sumário... de Algumas Coisas... que Há na Cidade de Lisboa, fala já só de 216 atafoneiros. As artérias que guardaram este nome devem ter tido um destes engenhos, ou então algum morador que fosse atafoneiro. Muitas não resistiram ao Terramoto, mas outras deixaram lembranças por toda a cidade: um largo e um beco na Mouraria (antiga freguesia de São Cristóvão e São Lourenço), um beco em Alfama (junto a Santa Apolónia), uma travessa em Santos (a dar às Janelas Verdes), um pátio sem placa oficial nos Olivais e uma rua que só não resistiu às demolições que abriram o Martim Moniz. Hoje, em Lisboa, as atafonas estão extintas. Resta o testemunho na toponímia da cidade, que perpetua a memória dos engenhos por estas paragens. Seriam três atafonas, o que existia no Beco dos Três Engenhos?


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Rosa Maria n.º 10 dezembro ‘18

reportagem

Texto e Fotografia: João de Albuquerque (Brasil)

Retratos da Mouraria

Esmeralda Hipólito

Gurdirsingu

Há uma força em torno da ideia de um retrato. É algo que define, legitima, afirma. Está em nosso passaporte, documenta a identidade, marca quem somos no respirar da vida.

Aicha Bari

Carrega imenso valor simbólico por situar a imagem de nossa persona no tempo e no espaço.

Idália Maria

O conjunto de Retratos da Mouraria mira ser um pequeno recorte visual da enorme diversidade étnico-cultural que aqui existe. Todos os retratos são de moradores ou trabalhadores do bairro. Cada retrato é parte e também todo. O universo de individualidades cria o retrato maior, aqui tratado enquanto Retratos, plural. Ana Tavares

Augusto Fernandes

Ismail Ibrahim

Dayane Silveira

Joaquim Manuel


Rosa Maria n.º 10 dezembro ’18

João Augusto Duarte

Main Uddin

Maria Luiza Costa

João Paulo Santos

Manuel Alentejano

Maria do Livramento

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Afinal, espaços são significados por pessoas, da mesma maneira que pessoas são atravessadas por espaços e tempos. E a Mouraria é tão espaço quanto tempo. Abarca de onde viemos, onde habitamos, o tempo que seremos, que fomos e o tempo que somos.

Karla Vito

Kiram Regmi

Raj Kumar

Maria Caetano

Samuel Brito

Hoje, somos registro de nós. MN Ashraf

Maria Irene Vieira


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Rosa Maria n.º 10 dezembro ‘18

Texto: Nuno Franco (Portugal) e Jorge Barata (Portugal) Fotografia: Arquivo Municipal de Lisboa

No século passado, a Rua do Benformoso era um verdadeiro centro comercial a céu aberto. Quem o diz é Jorge Barata, oito décadas de vida na Mouraria. A rua era um ponto de passagem obrigatória para quem ia para norte, ainda antes de se rasgar a Rua da Palma. Junto ao chafariz, as varinas vindas da Ribeira vendiam peixe; outros vendiam fruta e hortaliças. O Tio João também ali marcava presença vendendo mexilhões, apregoando a plenos pulmões: “Érre, érre, mexilhão cá estou, ou, ou!” Havia casas de pasto (do latim pastus, qualquer tipo de alimento), como se chamavam as tabernas lisboetas que serviam almoços e jantares. Hoje estas casas desapareceram, substituídas pelas cores dos restaurantes do Bangladesh, do Paquistão ou da China, onde se servem pratos desses países, mas também da Índia ou até do Vietname. Chegou a existir uma farmácia, um alfaiate, sapatarias, lugares de fruta, hoje mercearias asiáticas, com legumes exóticos ainda desconhecidos dos portugueses, espécies de peixes nunca pronunciadas e carne halal (autorizada pela lei islâmica). Vendiam-se velas de sebo ou de cera, petróleo e azeite usado para alumiar. Também se viam carvoarias (que

Sabia que...

forneciam o carvão para cozinhar ou para aquecimento), frequentemente a funcionar a meias com as tabernas. Enfim, de tudo um pouco: uma ourivesaria, capelistas (ainda sobrevive uma loja deste tipo), uma torrefação de café (comércio que desapareceu com o fecho da Café Saúde, na Rua Marquês Ponte de Lima, para dar lugar, pasme-se, a um alojamento local), um torneiro metálico, uma oficina de cromagem e uma loja de fazendas. Existia também uma loja de salsicharia e miudezas e uma leitaria. Nesta leitaria, conta-se, existiu em tempos uma vacaria, que fornecia leite para a população. Era precisamente aí que estava o “Boi Formoso”, boi cobridor de grande porte, que deu o nome a esta artéria – que começou por ser conhecida por Benfica, segundo se julga, por nos tempos dos mouros possuir boas hortas e estar bem situada. Por corruptela, a expressão “Boi Formoso” deu origem a Benformoso. Mais comércios do Benformoso: um ferrador (profissão com muita procura há 80 anos), um funileiro (além de funis, fabricava diversos utensílios em metal), uma fábrica de caixões para funerais, uma ervanária, uma tinturaria (para limpeza de fatos a seco), uma fábrica de

Arquivo Municipal de Lisboa, PT/AMLSB/CMLSBAH/PCSP/004/EDP/001049

A rua onde cabem - e se escondem - todos os ofícios

Quem hoje o vê talvez não imagine que no Benformoso nasceram e cresceram profissões agora extintas, que ajudam a contar parte da história do bairro e até do país. Uma viagem a um passado não tão longínquo, mas cada vez mais distante.

mármores, uma livraria, uma fábrica de cestos de verga, uma fábrica de gelados, um arameiro (fabricava e vendia arame), uma loja de máquinas de costura (hoje só há uma na Rua dos Cavaleiros) e um armazém de bananas. Mas o rol não fica por aqui: era na Rua do Benformoso que ficava o armazém dos cenários do desaparecido Teatro Apolo – cenários esses destruídos por um violento incêndio. Lembro-me ainda da padaria e fábrica de bolos, onde vinha várias vezes dar vazão à minha gulodice, quando para a Mouraria vim viver.

E a Escola Primária n.º 26, segundo testemunho de alguns moradores mais velhos. Hoje ainda existe o Centro Escolar Republicano Almirante Reis, onde se ensinavam aos mais desfavorecidos as primeiras letras. E a colectividade da Casa da Covilhã, que ainda lá está, sem a companhia dos Amigos do Minho, que desapareceu há pouco tempo. E, por fim, os famosos bares que a mal-afamaram, e onde a prostituição imperava. E os tuk-tuks, os automóveis, o movimento incessante de pessoas oriundas das mais de 52 etnias que vivem na Mouraria, e que atravessam esta artéria pejada de histórias para contar.

Texto: Francisco Melo (Portugal) Ilustração: Nuno Saraiva (Portugal)

A Mouraria já teve um Elevador da Graça? O ascensor inaugurado em 1893 partia de cá de baixo, da extinta Rua Nova da Palma, seguia pela Carreirinha do Socorro (hoje Rua Fernandes da Fonseca), fazia a Rua dos Cavaleiros e a Calçada de Santo André e terminava no Largo da Graça. Foi projetado por Raoul Mesnier de Ponsard, o engenheiro português de origem francesa responsável pelos elevadores de Santa Justa, do Lavra, da Glória ou da Bica. Tal como estes, foi construído e explorado pela Nova Companhia dos Ascensores Mecânicos de Lisboa (antecessora da Carris), concebido para vencer um desnível de 75 metros, ao longo de um trajeto de 730 metros. Funcionava por um sistema de cabo sem fim, debaixo da estrada, ligado por uma ranhura às carruagens. A certo ponto do trajecto, os carris para subir e descer corriam entrelaçados, como ainda acontece com alguns ascensores e eléctricos. As carruagens eram quatro, com cabine para guarda-freios à frente e atrás, para inverter o sentido da marcha quando chegassem ao destino. Preço da viagem? 60 réis a subida, 40 a descida, que os santos já então ajudavam. Deixou de funcionar por volta de 1904, como outros elevadores da cidade, quando a Carris começou a montar uma linha de eléctricos de bitola idêntica (900 mm) e o integrou no percurso das carreiras 10, 11 (já desaparecidas) e 12 (que ainda hoje se mantém).


Rosa Maria n.º 10 dezembro ’18

notícias da Mouraria

Texto: Marisa Moura (Portugal)

As Escadinhas rolantes da Saúde

A nova vida do Centro Republicano Os centros escolares republicanos vão fechando pelo país, mas este reinventa-se. Tem uma nova direção e será um polo de dinamização social e cultural na Mouraria.

Foram inauguradas a 13 de Outubro as novas escadas rolantes das Escadinhas da Saúde, entre a Praça do Martim Moniz e a Rua Marquês de Ponte de Lima. É uma subida de 32 metros, uma das maiores e mais íngremes de Lisboa, que ficou mais fácil para turistas e moradores, muitos deles idosos. Está previsto que as escadas rolantes cheguem em breve até ao Castelo de São Jorge. Os moradores são unânimes. Carlos Gomes acha que foi um benefício para o bairro, mas principalmente para quem mora na Rua Marquês de Ponte de Lima. Fernando Alves, 63 anos, já não tem de dar a enorme volta pela Rua João do Outeiro, que fazia só para evitar subir dezenas e dezenas de degraus para chegar a casa. Carlos Maurício, 72 anos, é um dos muitos utentes de mais idade que usam as novas escadas rolantes. Muitos turistas que deparam com estas inusitadas escadas no meio da cidade sobem-nas sem perceber bem aonde vão dar. Deve ser uma atração fatal por escadas mecânicas, por motores que os levam para cima, seja para onde for, pois a cidade das sete colinas desafia o fôlego de qualquer um. Lá em cima, partem à descoberta do Castelo porque avistam a Torre de São Lourenço, majestosa e altaneira, ali à mão de semear – mas ainda sem escadas com entrada directa no Castelo. Mas não são só turistas. Os moradores usam as escadas para fazer caminho para São Cristóvão ou para vencer depois as Escadinhas da Marquês de Ponte de Lima, ou mesmo para descer à parte mais alta da Rua João do Outeiro. E muitos perguntam para quando as árvores, aquelas bonitas árvores anunciadas no cartaz afixado no Martim Moniz, junto ao estaleiro. E quão curioso é ver que muitos se recusam a subi-las – uns por medo de cair, outros porque simplesmente não gostam. Este modesto escriba já viu campeonatos de subir as escadas a pé, lado a lado com as escadas rolantes, e mais rápido do que elas, só para envergonhar amigos e familiares cansados depois de um dia de trabalho. Subir as Escadas dá Saúde: queima calorias, faz bem às pernas, ao coração e aos pulmões, e a mente desperta. E o caminho alternativo pela Rua João do Outeiro é sempre uma boa aventura para quem quer começar a descobrir a Mouraria. Mas uma ajuda é sempre bem-vinda. Estas escadas fizeram-se a par de outras obras projectadas (como o funicular na Rua dos Lagares, que ligará a parte alta da Mouraria à Graça) ou em construção (como o elevador no Campo das Cebolas, a ligar à Sé).

Na Rua do Benformoso há 107 anos, e após certa estagnação, o Centro Escolar Republicano Almirantes Reis (CERAR) começa a ser palco de conferências, ações de formação, exposições e concertos. E com uma ativa exploração do bar, que já foi renovado. O plano é “criar um espaço de excelência para debater o estado do país ou da cidade, e outros assuntos, aberto a todos e a todas”, explica Ricardo Barbosa, 29 anos, presidente da direção do CERAR desde Julho e por quatro anos. O testemunho foi-lhe entregue por Maria Helena Corrêa, 86 anos, co-fundadora da Associação de Mulheres Socialistas, que esteve longos anos na presidência da direção do CERAR, e que agora continua nos órgãos sociais como presidente da Mesa da Assembleia. Quem ali fechou um ciclo definitivo foi o casal Ramos, que durante trinta anos zelou pelo espaço. O café abrirá em breve, por enquanto Ricardo dedica-se a organizar o espólio histórico e a dinamização de um projeto maior, “a união dos restantes centros escolares republicanos e a criação de um núcleo museológico” destes centros que têm como objetivo principal reafirmar os valores republicanos da liberdade, igualdade e fraternidade. Formado em Economia, é na área social que se revê,

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tendo participado ativamente “na política da cidade e em projectos de voluntariado”, como a Boa Vizinhança e a sua loja social Dona Ajuda, no Rato. O grande desafio do CERAR é precisamente económico. Com despesas mensais de 600 euros, é urgente criar um modelo que garanta a sua sustentabilidade. A renda tem sido paga com o apoio dos sócios e da Junta de Freguesia de Santa Maria Maior, que usa o espaço para eventos pontuais e algumas aulas da universidade sénior.

O novo presidente junto a uma antiga urna de votação no núcleo museológico do CERAR

Dados sobre a Praça do Martim Moniz

Para dados anteriores ver o artigo “A Praça da (Con)fusão”, no Rosa Maria nº 9 2012 - Inauguração do Mercado de Fusão, concessionado à NCS-Produção, Som e Vídeo Lda. 2017 - Transferência de concessão à empresa Moonbrigade Lda. por dívidas da antiga concessionária à Autarquia 2018 - Adenda ao contrato de concessão e alargamento do prazo por mais 14 anos.

Posicionamento da Associação Renovar a Mouraria (ARM) perante a nova concessão da Praça do Martim Moniz Os corpos sociais da ARM juntaram-se em reunião extraordinária para tomarem uma posição sobre o projecto de nova concessão da Praça do Martim Moniz. Dessa reunião, resultaram as seguintes conclusões: > A ARM quer que a Praça do Martim Moniz seja um espaço de uso livre, que promova o lazer e o convívio entre as comunidades, garantindo os seguintes aspectos: sombras e espaços verdes, bancos confortáveis, bebedouros de água, casas de banho públicas, parque infantil e sénior (juntos) e segurança. Isto, idealmente num con-

texto promotor das melhores práticas de sustentabilidade social e ambiental. > A ARM não se identifica com um projecto de índole essencialmente comercial. > A ARM não tomará diligências em parceria com promotores de projectos com predominância comercial. > A ARM vai realizar acções conjuntas com a comunidade no sentido de pressionar a Câmara Municipal de Lisboa (CML) para a revisão do projecto.

> A ARM apela ao executivo da CML para que cumpra o seu papel de representação e defesa dos interesses dos munícipes, reforçando que o desenho de arquitectura da Praça tenha por linhas mestras os desejos da população e não as orientações comerciais do promotor. > A posição da ARM está alinhada com a vontade da comunidade expressa na apresentação pública do projecto, organizada pela junta de freguesia de Santa Maria Maior, no dia 20 de Novembro de 2018, no Hotel Mundial.


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Rosa Maria n.º 10 dezembro ‘18

reportagem

Texto: Simone Tulumello (Itália) Fotografia: Associação Habita

Da crise às lutas da habitação

Um mercado imobiliário quase adormecido transforma-se de repente numa panela de pressão, sempre à beira do estrondo final. Como evitá-lo? Este é um retrato de dezenas de famílias, que são na verdade um espelho do bairro, da cidade e do país. Quando, no início do verão de 2017, dezasseis famílias residentes na Rua dos Lagares receberam a notícia de que o prédio onde viviam tinha sido vendido e que, daí a poucos meses, os novos proprietários não iriam renovar os contratos de arrendamento, talvez não tenham imediatamente reparado que o caso era paradigmático das transformações recentes da Mouraria e dos outros bairros históricos de Lisboa. A cidade está na moda: atrai turistas, startuppers, estudantes estrangeiros, reformados de classe média… e também especuladores imobiliários, todos aliciados pelas condições fiscais favoráveis introduzidas durante os anos da austeridade - Vistos Gold, estatuto de Residente Não Habitual, isenções para fundos imobiliários, entre outras. Se antes o problema do centro histórico de Lisboa era a péssima qualidade do parque habitacional e poucos lá queriam viver, hoje existe uma enorme pressão imobiliária, multiplicada pela reforma de 2012 dos contratos de arrendamento e pelo Novo Regime de Arrendamento Urbano (que muitos conhecem como Lei das Rendas ou Lei Cristas, o nome da deputada e líder do CDS-PP). O resultado é que os antigos residentes estão a ser expulsos de bairros como a Mouraria, e as famílias, sobretudo jovens, que aspirariam lá viver encontram poucas e caras oportunidades, pois os senhorios preferem arrendar por períodos curtos ou transformar apartamentos em alojamentos locais. Um número ajuda a compreender a escala do fenómeno especulativo: de acordo com dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), nos primeiros seis meses de 2018 mais de 230 unidades imobiliárias foram transacionadas na Mouraria. Mais de um décimo do parque habitacional do bairro foi vendido e comprado em poucos meses, com valores médios acima dos 3.500 euros por metro quadrado, claramente incompatíveis com as capacidades financeiras de quem ganha o pão em Lisboa e quer comprar para ali viver.

As dezasseis famílias da Rua dos Lagares são a perfeita representação da Mouraria: famílias portuguesas que nasceram, cresceram e envelheceram no bairro, lado a lado com imigrantes nepaleses chegados nos últimos dez,vinte anos. As famílias da Rua dos Lagares representam também as peculiaridades do tecido social da Mouraria, a sua capacidade de organização; capacidade, esta, que teve um papel central nos anos em que a regeneração urbana foi benéfica para os residentes – e que o Rosa Maria acompanhou até 2015. As famílias da Rua dos Lagares então decidiram não estar à espera do despejo: perceberam que o direito à habitação é uma construção coletiva e não individual; e foram à procura de apoio. Nasceu assim a mobilização da Rua dos Lagares, liderada pelas mulheres do prédio, lançada publicamente com uma sardinhada solidária na noite de Santo António e apoiada por associações como a Habita e outras pessoas, sobretudo jovens, muitos deles estrangeiros. A mobilização tinha como objetivo principal a Câmara Municipal. Por um lado, reivindicava-se o dever de a Câmara intervir para proteger as populações residentes nos bairros históricos – por exemplo mobilizando o amplo património municipal existente. Pelo outro, sendo 2017 ano de eleições autárquicas, a mobilização da Rua dos Lagares foi uma das peças que fizeram do tema da habitação o mais quente da campanha eleitoral. Afinal, a autarquia negociou com a empresa proprietária do prédio uma renovação dos contratos por cinco anos, a troco de simplificações para outras operações imobiliárias. As famílias da Rua dos Lagares vão ficar na Mouraria, pelo menos durante mais alguns anos. Não sabemos exatamente quantas famílias não tiveram a força de se organizar e acabaram expulsas: a crise imobiliária aprofunda-se nos bairros históricos e alastra-se fora do centro – em 2017, os aumentos mais significativos dos preços da habitação verificaram-se na Amadora, por exemplo. Se até ao final de 2014 o tecido social da Mouraria foi capaz de tirar proveito das transformações induzidas pelas políticas de regeneração urbana, as coisas mudaram radicalmente nos últimos anos, e o turbilhão económico e social da nova centralidade global de Lisboa não parece estar a beneficiar os residentes. O caso da Rua dos Lagares demonstra que parar despejos é pontualmente possível, mas também que é preciso organizar-se além da escala de bairro para contrariar tendências que vêm de longe – e que sem um papel significativo da Câmara Municipal na proteção do direito à habitação, os bairros como a Mouraria tornar-se-ão rapidamente parques temáticos para quem lá não vive e não trabalha.


Rosa Maria n.º 10 dezembro ’18

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Declaração de entrada: 4 dicas para os estrangeiros 1. Quais as condições para entrar no país? Para entrar ou sair do território português, os cidadãos nacionais de estados terceiros devem: 1) Ter um documento de viagem reconhecido como válido, como por exemplo o passaporte; 2) Ter um visto válido e adequado ao objetivo da viagem, a não ser que esteja dispensado. 2. Entrei em Portugal, vindo de outro Estado-membro da União Europeia, por uma fronteira não sujeita a controlo. Devo declarar a minha entrada? Sim, deve declarar a entrada em Portu-

gal junto do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF). Tem três dias úteis a contar da data de entrada para o fazer. Para o efeito, pode contactar o SEF: Rede fixa: (+351) 808 202 653 ou rede móvel: (+351) 808 962 690 - para agendar a marcação. A marcação será sempre agendada para depois do prazo dos três dias, mas neste caso não há qualquer consequência. Atenção, tal obrigação não se aplica: => aos cidadãos nacionais de estados terceiros que entrem em Portugal por fronteira sujeita a controlo; => aos cidadãos nacionais de estados terceiros residentes ou autorizados a permanecer no território nacional por

período superior a seis meses, por a sua situação já se encontrar documentalmente registada no SEF; => aos cidadãos nacionais de estados terceiros que, logo após a entrada em Portugal, se instalem em estabelecimentos hoteleiros ou similares, já que, nestes casos, a declaração é feita por estes mesmos estabelecimentos; => aos cidadãos nacionais de países da União Europeia ou equiparados, por beneficiarem de um regime especial. 3. E se eu não declarar a minha entrada em Portugal? Caso não faça a declaração até ao terceiro dia útil após a sua entrada em Portugal, estará sujeito a uma contra-

-ordenação punível com uma coima (multa) de €60 a €160. 4. Declarar a minha entrada em Portugal pode depois facilitar a minha regularização? Sim. A entrada legal constitui, por regra, uma das condições para que lhe seja dada autorização de residência para fins de trabalho, estudo, reagrupamento familiar, entre outros. A sua prova pode não ser tão simples quando a entrada no país foi feita por via terrestre, num posto de fronteira não sujeito a controlo. Declarar a entrada ao SEF facilitará a prova desta condição e, assim, a sua regularização em Portugal. Fonte: Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF)

co-financiado por:

Texto: Pina Neto (São Tomé e Príncipe) Ilustração: Tânia Ralston (Brasil)

Crónica

Autora: Tânia Ralston

A Embaixada de Lisboa Sê fêmea tu também Ontem me chamaram de fêmea Quem me chamou era um ninguém Um tal que provavelmente não sabia D. Afonso Henriques foi o último a (re)conquistar a Mouraria. Depois dele, mais ninguém o fez - e ainda bem, sinal de que a sua tolerância soube deixar uma herança a que todos têm que honrar. Parece-me até que os vencidos mouros foram homenageados: deixaram-lhes o nome no sítio como se lhes reconhecessem o direito de solo A sigla moura já não existe no chão; também já não existem outras siglas, de outros credos. A história já se encarregou de as escrever em arquivos próprios, como só ela sabe se encarregar. O tempo, este também soube enriquecer o espaço; romanticamente foi moldando cada pedra do sítio à medida que cada evento trazia gentes para o bairro. A história seguiu o seu curso, dando à população uma vida rotineira de labor em torno da Lisboa intemporal, ao mesmo tempo que lhe conferia uma identidade de orgulho bairrista. O mar e outros caminhos continuaram a trazer aventureiros para a Mouraria. Aventureiros de almas e esperanças diversas que, mesmo sem se aperceberem do peso histórico do bairro, se acomodam na

sua natural proteção. Aqui parece consensual que os homens cooperem, negociem, seja em que língua for, até a exaustão dos anos. Homens trazendo cores, credos, tezes, músicas, hábitos... São, como sempre foram (pese embora todas as resistências), adoptados pelas calçadas de escadinhas e becos. A resistência dos natos nem sempre é de má-fé. Por vezes são gritos para que se respeitem as calçadas do tempo. O solo tem destas coisas. Há quem tenha medo que ele se lhe fuja, e com ele o ser que está em cada um. Talvez por isso, muito mais do que mero solo, calçadas ou becos, nessa enorme embaixada que é a Mouraria, de tempos a tempos, todos reclamem da vida que a humanidade lhes propõe. O largo que serve de porta de entrada para o bairro é testemunha de todos estes pedidos – desde fados tristes dos injustiçados até pedidos de casamentos multilíngues. Eu cá creio, mesmo, que é a primeira sala de troca de credenciais da cidade, onde o mundo se encontra para conspirar todas as esperanças do homem. É a embaixada de Lisboa até novas ordens.

O limite e a beleza de ser bicho e de ser mulher O fêmea foi para me agredir Não percebo exatamente onde Mas sei que foi agressivo Falei que eu era mulher ou senão um ser humano do sexo feminino Pedi para que escolhesse o termo correto Mas não lhe disse que ser fêmea talvez fosse um elogio Um ato que mostrasse a pureza das minhas ações Do meu sexo da minha maternidade e do meu cio.


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Rosa Maria n.º 10 dezembro ‘18

reportagem

Texto: Flávia Pereira (Portugal) e Milena Ribeiro (Brasil) Fotografia: Camila Othon (Brasil)

“Quem não aparece, esquece” A Mouraria açambarca cerca de 400 idosos. Número mutável, tendo em conta os despejos, a mudança para instituições ou para casa dos filhos, e a inevitável morte. Conhecemos alguns idosos que fazem parte deste rol; todos eles com histórias de vida singulares. No bairro, persiste um outro tecido que, não habitando, faz vida aqui.

Assim chegamos a uma descontraída conversa com António Maio, de 84 anos, proprietário da Julmar, uma tímida ourivesaria na Rua dos Cavaleiros. António veio recém-nascido para Lisboa e, enquanto criança, aos 13 anos, começou a trabalhar na ourivesaria. Numa metamorfose habitual nos casos que aqui conhecemos, passou de trabalhador a proprietário – num período transitório de setenta anos. Durante este período, relatou-nos, foram sucessivas mudanças de clientes: do “tempo das vacas gordas” ao turista pontual que lhe bate à porta.

Com grande agrado nos cruzamos com o casal Fátima e José Aguiar. Fátima recebeu-nos calorosamente de braços abertos; José explicou-nos do que se trata o Hospital das Camisas.

José cedo se entregou ao negócio têxtil, começou como comercial no espaço que agora é seu. Os antigos patrões, “uns santos”, passaram-lhe o negócio por quinze mil contos. Quantia que José rapidamente conseguiu liquidar. Um evento levou o camiseiro a meter mãos à obra. O declínio da saúde mental de Fátima, prezada camiseira, obrigou-o a educar-se Um assalto, há cerca de oito anos, com arrombo de cinco mil euros, podia na área. Desde então, José dedica-se não só à reabilitação dos colarinhos ter demovido António, mas não foi o caso. Aliás, ainda que reformado, – que prontamente nos informou ser a parte da peça que mais se deterioequaciona manter a loja até a deslocação Loures-Lisboa o encontrar sau- ra –, mas também à confeção de raiz de camisas por medida. dável. Da sua saúde depende a manutenção do negócio, visto que este não é desejado pelos filhos – com ocupações mais promissoras, segundo Com 80 anos, reformado, ambiciona legar o negócio à filha, que também é entendedora da área. A expectativa vai-se desmoronando à medida António. que Ana se interessa mais pelo ramo imobiliário, no qual tem experiência. Assim se humedecem os olhos de José, enquanto nos diz: “Os meus Podem e devem encontrar o joalheiro no número 78 da Rua dos clientes dizem que isto não pode fechar, isto é uma instituição de utilidaCavaleiros. Concordarão que o seu ar de menino, a pele curtida e de pública.” as mãos atrás das costas nos confiam uma tranquilidade imperturbável – como António se mantém. Podem encontrar o carinhoso casal no número 25 do Poço do Borratém.

Os testemunhos de António, Fátima e José encerram o que iniciei: muitas vezes, habitar um bairro ultrapassa a elementaridade de viver nele. Todos confessam ser mais (re)conhecidos no bairro da Mouraria do que a morada em que residem, onde apenas pernoitam. São incansáveis no seu ofício artesanal, a que dedicam a vida, num bairro que lhes está no coração.


Rosa Maria n.º 10 dezembro ’18

Texto: Flávia Pereira (Portugal) e Milena Ribeiro (Brasil) Fotografia: Camila Othon (Brasil)

Chamava-se

Mimi

Galgamos a calçada com um nome na cabeça, numa aventura para conhecê-la: Mimi. Da janela surgiu-nos José Eduardo (o filho), que educadamente nos informou da possibilidade de uma entrevista por marcação. Assim foi.

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sódio-piloto da autoria da apresentadora – com quem ainda mantém relação próxima. Mimi e José Eduardo viajam com frequência: Madeira, Paris, Riviera Italiana, Saint Moritz, Canárias ou Nova Iorque (que lhe roubou o coração). Regra geral abordam-na, pedindo autógrafos e fotos. Uma verdadeira vedeta com amigos pelo mundo inteiro, com quem mantém relação pelo Facebook. Por volta dos 75 anos, teve um AVC que quase lhe tirou a vida; renasceu. Mudaram-se para a Mouraria por essa altura. Aclamam a opção tomada; um bairro que lhes responde às necessidades pela janela. Mimi continua a arranjar-se, com ajuda, mantendo o ritual. Criou uma imagem para deleite dos outros, porque aprecia ser anfitriã, estatuto inalterável, apesar da idade. A sua agenda pouco sinaliza a idade. Fará parte, pelo seu 88º aniversário, de um desfile na Semana da Moda de Milão do próximo ano. Da agenda fazem parte: entrega de prémio na área da moda, festas pontuais, uma ida à Ópera…

Mimi dizia, em adolescente, ser como a Lua: todos Podíamos facilmente trocar a Nini, do Paulo de dos do filho, sem cooperação do marido, de quem a queriam mas ninguém a conseguia ter. EquipaCarvalho, por Mimi. Recebeu-nos de tiara púrpu- se divorciou no pós-25 de Abril. Curiosamente, ro-a a uma bailarina numa caixa de música, de ra na cabeça e sabrinas a condizer. A intriga visual mantiveram uma amigável relação até à morte simpatia solene, nobre e encantadora nas voltas que a vida a fez dar. Assim continuará, espero. do espaço e das personagens calou-nos, de tal for- do antigo par. ma que Mimi se lançou à conversa mesmo antes Sua abismal perda em Goa e Luanda fê-la apertar de nós. Começou por concluir que os seus (quase) os olhos e a memória, libertando a amargura atra88 anos, apesar de longos, foram bem vividos, so- vés do esquecimento. Em Portugal, cedo se reforbretudo graças ao seu “boneco”, como carinhosa- mou, continuando activa no legado deixado pela mente tratou o filho. irmã: a costura. O próprio Augustus invejava-lhe José Eduardo serve-nos de bengala da fala, testemunhando pela mãe. Apesar de a história da família Costa Campos estar em três manuais da Fundação Oriente, José Eduardo arrepiou-nos caminho. O seu avô era engenheiro e geógrafo do governo português em Goa. Numa das muitas viagens até lá, terá parado em Angola e conhecido uma bela africana por quem se perdeu de amores. Amor tão fértil gerou dez filhos. Mimi, uma das filhas, viveu em Goa até aos 16 anos, data em que o pai morre. Voltando para Luanda, recolhe-se na família, o seu apoio de sempre. A morte do engenheiro marca uma mudança de paradigma: a conservação dos pergaminhos de família. Algo que atribulou o percurso de Mimi, dado que, à altura, ambicionava estudar Economia em Portugal. Para a família, na época, não seria de bom tom uma menina viver sozinha noutro país. No seu trajecto singular destacou-se como cantora no Orfeão em Luanda, apesar de nunca ter pisado um palco. Casou-se à rebelia, mas tão rebelde se separou. O homem português da época – Don Juan boémio – não ia ao encontro das suas expectativas. “O senhor tem de arrumar suas coisas, não faz nada aqui em casa!”. José Eduardo tinha apenas cinco meses aquando da separação. A maternidade foi o seu acto de fé, tornou-se uma mãe dedicadíssima – além do valorizado trabalho para o governo português. Em 1977, assentaram em Portugal. Pagou os estu-

as criações. Mário Viegas tentou encená-la nos seus 60 anos; não cedeu: manteve-se fiel ao seu rebelde conservadorismo, à instituição familiar. Cristina Caras Lindas entrevistou-a, o programa teve um boom de audiências. De tão acarinhada que foi, representou duas irmãs gémeas num epi-


Rosa Maria nº 10 dezembro ’18

Texto: Marília Gonçalves (Brasil) Fotografia: João Albuquerque (Brasil) Ilustração Laura Penez (França)

Dali seguimos para o Martim Moniz, onde Augusto mostrou-me "a Babilônia". Sobretudos, vestidos de festa e roupas de bebê misturam-se a lojas de incenso, velas, verduras e refeições. Os corredores ficam estreitos, tamanha a quantidade de produtos expostos, e alguns comerciantes improvisam a mesa do almoço ali pelo meio do caminho. Chineses, brasileiros, portugueses, são várias as nacionalidades dos lojistas. “Está sentindo o cheiro?” De fato, o odor das especiarias toma os caminhos. É nesse prédio que ele encontra o que precisa para fazer moqueca de peixe, me conta. O Centro Comercial Mouraria está, de acordo com alguns lojistas, desde sempre sob risco de ser fechado, mas afirmam também que não existe esse perigo. Com grande circulação de clientes, o centro movimenta milhares de euros diariamente.

Seguimos para o último ponto do nosso percurso e, na verdade, onde começa grande parte da história de Augusto deste lado do Atlântico. Quando cá chegou, em 2004, casado com uma portuguesa, foi viver no Poço dos Negros. “Simbólico, não é?" Dois anos depois, mudou-se para o Intendente. Chamava-o de “seringuete” pela concentração de usuários de drogas no local. “Eu dizia aos meus amigos que vivia no lugar mais bem guardado do mundo, porque a 30 metros da minha casa havia sempre policiais.” Este foi também o bairro que o abraçou e onde constituiu a grande família “Gente Linda do Intendente”, tema e título de uma exposição fotográfica realizada em 2015 no Largo Café Estúdio. A restauração do Largo se deu quando, em 2011, o então presidente da Câmara, António Costa, estabeleceu ali seu gabinete. A partir de então, o local ganhou novos ares, tornou-se um dos espaços mais cool da cidade, embora o consumo de drogas ainda se observe nas ruas que cercam o local.

passeando com Augusto Fernandes

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Ao número 21 do Largo, até um ano atrás, ficava o Bar Anos 60, que Augusto costumava frequentar de três a quatro vezes por semana. O prédio foi vendido e está em reforma para se tornar um hostel. "Essa gentrificação me incomoda muito. Eu não tenho nada contra o turismo, mas a cidade está perdendo suas características. As pessoas que vivem nesse bairro estão deixando de viver aqui, porque já não têm condições de pagar os aluguéis", lamenta o fotógrafo. Foi no espaço do bar que Augusto fez uma exposição de seu trabalho chamada "A Desconstrução do Caos." Segundo ele, havia ali sempre música ao vivo e eventos culturais com uma postura humanitária.

Ao sair do Martim Moniz, subimos a Rua dos Cavaleiros até ao Largo do Terreirinho. Nesta rua, conta-me Augusto, ele encontra tudo o que precisa de material de estética, cosmética e para a casa. Especialmente, fala de uma mercearia, ao fim da rua, que pertence a uma família indiana que tem muita “leveza e boa energia.”

14 Rosa Maria nº 10 dezembro‘18


Dicas para um Natal com menos lixo

01

Decoração Não compre nada novo. Recicle, crie enfeites com o que tem ou procure materiais naturais à sua volta. Galhos secos, pinhas, cascas de nozes, etc.

Suplemento ambiental do jornal Rosa Maria

Lembre-se que a decoração fica guardada durante praticamente 11 meses no ano. Seja criativo, junte a família e os amigos, faça um Natal especial. Poupe dinheiro e a natureza também!

Presentes Faça você mesmo os presentes, personalize e reutilize.

Embrulhos e embalagens Não utilize papel de embrulho, prefira um tecido que tenha em casa, uma revista antiga ou algo personalizado. Escolha prendas sem excesso de embalagens, o que interessa é o conteúdo.

Estás farto de viver com lixo até ao tecto? Colecciona o JornalEco

Não basta não fazer lixo dentro de casa, não o ofereça também no Natal. E todo o lixo que não conseguir evitar, coloque no ecoponto respectivo.

Dicas, notícias e muitas ideias para irmos ficando cada vez mais amigos do ambiente.

aos convidados para cada um trazer o seu copo, faça um jogo temático disso para ser divertido.

Peça

oferecer experiências e tempo dedicado às crianças, atenção é o que elas mais precisam.

Prefira

Envolva

os miúdos na criação das decorações com os materiais que tiver à mão, evite comprar enfeites de plástico, e procure não oferecer brindes embalados ou de plástico.

em comidinhas que possam ser comidas à mão. Organize-se para preparar você mesmo sumos e lanches bons e saudáveis; assim evita tantas embalagens e oferece saúde, há receitas deliciosas e divertidas.

Pense

copos, pratos, talheres e palhinhas descartáveis. Se não tiver outra opção, use materiais biodegradáveis.

Evite

Dicas

Para festas e piqueniques

Recorta pela linha assinalada > coloca as dicas na porta do frigorífico ou noutro local onde possas recorrer constantemente > Lê, guarda e consulta o JornalEco > Colecciona os próximos números.


TIPS FOR A CHRISTMAS WITH LESS WASTE Decoration Do not buy anything new. Recycle, create decor objects with what you have or look for natural materials around you. Dry twigs, pine cones, walnut shells, etc.

Projecto

Lixo Zero Mouraria Consegue viver sem produzir lixo?

sarjetas, terminando quase sempre no mar ou a contaminar solos. Ganhar consciência sobre o lixo é também cuidarmos melhor de nós próprios, dos nossos filhos, da nossa rua, do nosso bairro e viver com menos tralha, mais qualidade e mais saúde.

Remember that this decoration is stored for almost 11 months a year.

Consumo consciente é uma escolha por todos nós !

Get together with family and friends, make a special Christmas.

O objectivo é mobilizar a comunidade e criar um Manifesto Lixo Zero para o Bairro, Ouvir as preocupações, a visão das pessoas da Mouraria e como podemos repensar o Bairro com menos Lixo e melhor qualidade de vida.

Save money and nature too!

Ao longo de 2019 vão ser dinamizadas muitas acções e vamos mesmo pôr as mãos na massa, experienciar e aprender em conjunto.

Gifts Make gifts hand made, customize and reuse.

Este projeto é promovido pela Zero Waste Lab e apoiado pelo Programa BIPZIP da Câmara Municipal de Lisboa.

Wrapping Caso não lhe faça qualquer sentido e pense: “ lá vêm outra vez os ambientalistas!!!” Engane-se! Este é um desafio difícil de atingir a 100 % mas qualquer mudança que adote é uma vitória para todos nós! Atreva-se a pensar duas vezes na quantidade de lixo que acumula no seu caixote, ou até a perguntar-se: para onde vai esse lixo? E de que forma se vê realmente livre dele? Ou melhor, como pode prevenir produzir tanto lixo, e assim colaborar para um futuro mais são, onde todos contribuímos? Convidamos todos a repensar a forma como nos relacionamos com os recursos, os naturais em particular, mas também como se gasta tanto dinheiro em objetos descartáveis e que só nos são úteis por 2 ou 3 minutos, e duram para sempre.

ZERO WASTE LAB - Associação Lixo Zero Associação que procura soluções colaborativas rumo ao Lixo zero. Acreditamos que desafios que nos tocam a todos precisam de ser resolvidos em conjunto. Trabalhamos em conjunto com escolas, empresas, juntas de freguesia, com todos…Estamos disponíveis para repensar, experimentar, sensibilizar e em conjunto encontrar as soluções mais eficazes, sustentáveis e confortáveis para um quotidiano mais simples e sem Lixo.

their own cups or glasses, make it like a themed game to add more fun.

Ask the guests to bring

experiences and time dedicated to children. Attention is what they need most.

Prefer to offer

Entertain the kids

in creating decorations with the reusable sources, avoid buying plastic ornaments, and try not to offer packaged or plastic gifts.

Grande parte do nosso lixo em casa, no trabalho, na escola ou no bairro, quando não é encaminha- Saiba mais em www.zerowastelab.pt do para um destino próprio, acaba ao vento e nas

finger food. Manage to make juices and snacks yourself; in that way you will be avoiding packaging and offering healthy options. There are many delicious and creative recipes.

plates, cutlery and straws. If you have no other choice, use biodegradable materials.

Avoid disposable cups,

TIPS FOR PARTIES AND PICNICS

Avoiding to make more trash at home is not enough, it is also important to care about what you are giving to other people. All the trash you can’t avoid, place in the respective recycling bin.

Este é o desafio que o projeto Lixo Zero Mouraria propõe aos moradores e trabalhadores da Mouraria.

Consider having only

Do not use wrapping paper, prefer packaging made out of fabric that you might already have at home, or an old magazine or something personalized. Try and avoid products with excessive packaging, remember: what matters is the content.


Dicas para a cozinha

A compostagem é uma das formas de reaproveitamento de resíduos mais antiga. Quem nunca viu um monte de palha numa horta ou num jardim? Não, não é acumulação de lixo, são técnicas ancestrais que tornam a terra mais fértil. Sabemos que os problemas ambientais estão ao nível mundial, mas é ao nível local que podemos fazer a diferença. Foi por isso que a Renovar a Mouraria decidiu abraçar as causas ambientais, começamos em pequena escala, unidos, mas podemos fazer a diferença e mostrar que a mudança é possível.

O projecto pretende ainda envolver os restaurantes e os alojamentos temporários, para que todos, residentes, turistas, trabalhadores, possam sentir-se mais responsabilizados pelo bairro e pelo bem-estar das pessoas.

> a escova de dentes tradicional pela de bambu

> os cotonetes com hastes de plástico por cotonetes com haste de papel ou bambu

> os tampões e pensos descartáveis por copo menstrual ou pensos reutilizáveis

> o algodão por discos de maquilhagem em tecido, reutilizáveis

> os cremes e óleos hidratantes de embalagens plásticas por frascos de vidro

> o desodorizante líquido por desodorizante sólido

> o shampoo líquido por shampoo sólido

> o gel de banho por sabonete

Aqui, a palavra de ordem é TROCAR:

Dicas para a casa de banho

Para quem quiser começar a participar, pode levar os seus resíduos para o compostor piloto do Beco do Rosendo. A nossa cidade precisa de mais verde, mais passarinhos a cantar, mais flores à janela. Em breve, o “Ó vizinha, arranja-me um raminho de salsa?” há-de vir a ter uma nova variante “Ó vizinha, O Mouraria Composta tem como finalidade promo- quer um raminho de salsa? Desde que uso composver um ecossistema urbano mais sustentável e com to, a minha tem crescido que é uma beleza!” isso fazer da Mouraria um bairro ainda mais bonito e com maior qualidade de vida. A Mouraria terá uma rede de compostores comunitários, dinamizada por uma brigada de guardiões locais, a brigada dos baldinhos, que irá entregar e recolher baldes de resíduos para colocar no compostor. Nos próximos meses serão dinamizadas várias oficinas práticas para mostrar que nada disto é difícil e pode até ser muito divertido: “Ó vizinha, tem um baldinho a mais, que o meu já está cheio?”. O composto produzido será distribuído pelos aderentes da rede e pode ser para uso próprio – sim, também vamos mostrar que é muito fácil ter uma horta em casa, mesmo com pouco espaço – ou para vender na loja Mouraria Composta, com retorno para quem contribuir. Esta loja fica no Beco do Rosendo, sede da Associação, e lá pode encontrar tudo o que precisa para fazer agricultura urbana, em casa ou no quintal. Tem ainda uma série de produtos que fomentam a redução de lixo e o uso de materiais amigos do ambiente, tudo está centrado numa base de sustentabilidade ambiental e social, pois muitos dos produtos são feitos por pessoas em situação de vulnerabilidade social. A loja conta ainda com um RR-Residente Ro- Para saber mais sobre o Mouraria Composta pode tativo, que mensalmente irá ter um espaço de ex- fazer-nos uma visita no Beco do Rosendo, ou atraposição e venda. A primeira RR é a designer Mada- vés do www.mourariacomposta.pt ou lena Martins, que trabalha com reclusos a partir de www.facebook.com/mourariacomposta/ reutilização de telas, restos de papel, etc. É um bom exemplo de como se podem fazer coisas bonitas a Projecto apoiado pelo programa BipZip, partir do lixo. da Câmara Municipal de Lisboa

> comprar alimentos a granel - leve sacos próprios, e prefira produtos frescos e sazonais, não embalados, de produtores biológicos ou locais. > produtos de limpeza compre a granel ou faça os seus > use guardanapos de tecido às refeições > troque cafeteira de cápsulas por cafeteira italiana > não usar rolo de cozinha de papel, reutilize panos, ou transforme t-shirts velhas > não usar papel celofane e alumínio > coloque os resíduos orgânicos no compostor, procure o mais perto de si ou tenha em casa > não coloque óleos usados no lava-louça. Os óleos de fritura e das conservas acabam nos oceanos. Coloque-os no Oleão. Importante: Recicle sempre o que não conseguir evitar! Mas antes de colocar no lixo, pense numa outra utilidade para o objecto!

Importante mesmo é não deitar na sanita lentes de contacto, cotonetes, pensos higiénicos, ou toalhitas. Na sanita, coloque somente papel higiênico, que se decompõe. O restante, vai parar ao mar.

A Mouraria vai ficar mais Composta

O local da casa onde produzimos mais lixo é na cozinha. Veja como podemos evitar:


The place where we produce the most waste is in the kitchen. Here’s how we can avoid it: > Buy food in bulk - take your own bags, and prefer fresh and seasonal products, unpacked, organic or local producers / choose to receive weekly bundles at home. > Cleaning products - buy in bulk or make your own > Use cloth napkins at meals

Relato da

Kate

Kate and Greg Heid’s family, including their baby Wyatt (just 7 months old) are going through a sabbatical period traveling around the world to share and learn about more sustainable practices. Connected with Renovar a Mouraria through Venture with Impact, they volunteered for a month in different actions and in the construction of our new store. Here are some words of Kate about this experience: “I have had the joy to live with my family in the beautiful city of Lisbon for one month. When I walk around Mouraria, I notice potted plants next to doorways, on balconies below drying laundry, and in window boxes. In one square I saw several orange trees. Plants are nice to look at and provide physical and mental health benefits. They provide shelter and food for birds and other animals. Plants reduce carbon dioxide in the air and also run-off and water flow. Some plants, trees and bushes provide healthy food for humans. To help reduce waste, I plant my herbs in an old jug, coffee pot and liquid measuring cup on our kitchen. Outside our small house in our little garden we have rosemary and lavender (they survive even snowy weather and grow again each year). When we make homemade pizza, we’re thrilled to use the herbs right from our home. I can’t wait to see what you start growing and cooking here in Mouraria!”

> Choose a Moka over coffee machines that use capsules > Do not use paper towels roll, reuse cloths, or transform old t-shirts

> Put the organic waste in the composter, look for the nearest one or have one at your home

Quando andei pela Mouraria, notei vasos de plantas ao lado de portas, em varandas abaixo das roupas a secar, e pendurados em janelas. Em uma praça vi várias laranjeiras. As plantas são boas de se ver e fornecem benefícios para a saúde física e mental. Eles fornecem abrigo e comida para pássaros e outros animais. As plantas reduzem o dióxido de carbono no ar e também o escoamento e o fluxo de água. Algumas plantas, árvores e arbustos fornecem alimentos saudáveis para os seres humanos.

Kate Held (EUA)

O que podemos compostar

• Folhas verdes • Restos de vegetais crus e frutas • Restos de relva cortada • Borras de café e sacos de chá • Restos de plantas (sem doenças nem pesticidas) • Hortaliças • Cascas de ovos esmagadas • Pão • Flores

• Folhas secas e serradura • Palha e erva seca • Pequenos ramos • Restos de frutos secos • Cascas de batata • Agulhas de pinheiro • Guardanapos e outros papéis não plastificados

• Restos de comida cozinhada (carne, ossos ou peixe) • Plantas doentes ou com sementes • Cortiça • Carvão, cinzas e pontas de cigarro • Produtos lácteos • Produtos gordos (restos de queijo, manteiga ou molhos) • Restos de plantas tratados com produtos químicos • Excrementos de animais domésticos

> Use a bamboo toothbrush instead of the one made of plastic

Geralmente secos e ricos em Carbono

> Buy cotton swabs with paper or bamboo rod instead of the ones with plastic

Geralmente húmidos e ricos em Azoto

> Get yourself a menstrual cup or reusable pads instead of tampons

NÃO PODEM SER COMPOSTADOS

> Make fabric make-up remover disks instead of the cotton ones

CASTANHOS

> Prefer moisturizing creams and oils that come in glass jars instead of plastic containers

VERDES

> Use solid soap, shampoo and deodorant instead of the liquid version ones

The word of order is here is CHANGE:

TIPS FOR THE BATHROOM

Important: The trash you can’t avoid must be recycled but before throwing something away think of another use for that object!

“Tive a alegria de morar com a minha família na linda cidade de Lisboa por um mês.

Para ajudar a reduzir o desperdício, planto minhas ervas em um jarro antigo, cafeteira e copos em nossa cozinha. Ao lado de fora da nossa casa, em nosso pequeno jardim, temos alecrim e lavanda (eles sobrevivem até mesmo ao tempo nevado e crescem novamente a cada ano). Quando fazemos pizza caseira, ficamos felizes em usar as ervas diretamente de nossa casa. Eu mal posso esperar para ver o que vocês começarão a cultivar e cozinhar aqui na Mouraria! ”

> Do not use cellophane and aluminum foil

> Do not put used oils in the dishwasher. Canned and frying oils end up in the oceans. Dispose it at the specific container. Each neighborhood has it’s own.

A família de Kate e Greg Heid, e seu bebé Wyatt (de apenas 7 meses) estão a passar por um período sabático viajando por diversos locais do mundo a compartilhar e aprender sobre práticas mais sustentáveis. Conectados com a Renovar a Mouraria através do Venture with Impact, voluntariaram-se durante um mês em diferentes ações e na construção da nossa nova loja. Aqui está um relato da Kate sobre a sua experiência:

Dispose only paper in the toilet, because it decomposes. All the other trash materials like contact lenses, cotton swabs, sanitary towels, or wipes will end up at the sea.

TIPS FOR THE KITCHEN


Rosa Maria n.º 10 dezembro ’18

muitos cliques, Augusto disse-me que aquele lugar é mágico para ele. Acredita que foi ali, na altura das "descobertas" – palavra que faz questão de marcar com aspas –, que os portugueses desembarcavam escravos vindos do Congo. As colunas mesmo do cais foram construídas ao final do século XVIII, após o terramoto de 1755. O cais das colunas lembra-o a liberdade. “Esse lugar me dá uma energia, é onde eu venho recarregar minhas baterias. É onde eu venho sentir. Quando estou triste, é onde eu venho recomeçar." Conta-me também uma coisa curiosa: que, ainda com todo o burburinho de turistas a visitar o local, consegue ali ouvir o silêncio – sensação que dividi com ele por alguns minutos.

Cruzamos o Arco do Triunfo português e subimos a turística Rua Augusta, não sem parar para algumas fotos. Ao chegar no Largo de São Domingos, Augusto convidou-me para sentar ao seu lado em um dos bancos da pequena praça. Atrás de nós, um painel com o escrito “Lisboa, cidade da tolerância" em várias línguas. “Porra nenhuma.” A passar ou a ficar, ocupam o largo pessoas negras “vindas de vários lugares da África”, ele comenta. E acrescenta: "Os turistas que passam as observam como se estivessem num zoológico." O espaço significa, para o soteropolitano (pessoa que nasce na cidade de Salvador), pertença e energia. "Foi a minha primeira relação com África.” No meio do largo, uma placa traz os dizeres bíblicos do livro de Jó: "Ó Terra, não ocultes o meu sangue e não sufoques o meu clamor."

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Há 14 anos, Augusto Fernandes é um precioso pedaço da Mouraria que damos a conhecer nesta matéria.

Mesmo antes de viver na Mouraria, já era apaixonado pelo lugar. Viu ali um pedaço da sua cidade, Salvador (na Bahia): o Pelourinho. O que mais o encanta no bairro é o sentimento de pertença, de comunidade. "Mesmo vivendo fora, ali no Intendente, passava muito tempo na Mouraria e conheci muita gente, e o lugar passou a fazer parte de mim. Sinto aqui como o meu bairro. O multiculturalismo que há neste espaço, o bairrismo. Esse bairro é nosso! Vivemos aqui e fazemos o melhor pelo lugar, partilhamos as nossas diferenças. O que me contagiou foi justamente a partilha das diferenças", explica. "Eu conheço as pessoas, as pessoas me conhecem. E trocamos simpatia."

Augusto chegou em Lisboa em 2004, trabalhou com serviço de mesa e como educador de infância até que começou a atuar profissionalmente com a fotografia, em 2011. Criou o projeto Retina Esquerda, em referência ao olho com que enquadra o mundo em seus registros. Aos 20 anos, sofreu um acidente e um corte na tal retina, perdendo mais de 50% da visão. "Eu vejo mal. Mas é com ela que eu vejo o mundo." Sua câmera nos acompanha durante todo o percurso e divide o protagonismo com esse personagem que passa boa parte do tempo a olhar através dela. Augusto diz que vê beleza em todas as coisas e, para nossa sorte, decidiu nos presentear com um pouco.

"Você vai logo me reconhecer, estou todo de branco”. Era uma sexta-feira de sol quando Augusto Fernandes levou-me por algumas ruas de Lisboa a conhecer seus pontos preferidos na cidade que o acolheu há 14 anos. O branco, cor de Oxalá, o grande orixá da criação, é comumente usado nas sextas a fim de abrir os caminhos da nova semana. Por acaso combinam, o branco e a criatividade, com o fotógrafo baiano.

Bem em frente ao restaurante, está o Beco Imaginário. Augusto conta-me uma história sobre a importância daquela pequena rua, não sem antes me alertar sobre sua confidencialidade. "Eu parei muito tempo para reconstruir a minha vida, para recomeçar. E cada vez que vejo esse beco é uma forma de dizer tudo pode ser novo, diferente. Mas diferente com um alicerce, uma raiz."

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Na Calçada de Santo André, um pouco mais acima, encontramos – infelizmente fechado – o restaurante africano Shilabo’s. Augusto vai algumas vezes jantar ali e garante que a comida é fabulosa. O proprietário, Santiago, do Senegal, é uma pessoa peculiar. "Um prato que pode ser feito em dez minutos ele leva 45 minutos pra preparar. Ele não faz isso de uma forma proposital, pra você perder seu tempo, é o jeito dele. E é sensacional."

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Mouraria nas Artes

Texto: Maria Caetano (Portugal) Ilustração: Luciana Gâmbaro (Brasil)

“O que seria da vida se não tivéssemos o valor de tentar algo de novo?”* Nos baixios do Castelo de São Jorge e com os limites na Graça, Alfama e Baixa Pombalina, a Mouraria tem um encanto multicultural e pluriartístico. Aqui nasceram e viveram artistas e artesãos que alimentaram o espírito e as necessidades dos seus habitantes.

das cores no papel, a Ó Galeria. A produção cresce todos os dias, e aqui se mostram as mais recentes criações. Menos representados, mas não menos importantes, os vidraceiros com certeza já emolduraram alguma gravura ou ilustração adquirida por perto. Com eles, a escolha do estilo, da cor, a qualidade da madeira e do vidro ou o enquadramento, simplificam as nossas indecisões. O fado, expoente máximo de uma arte só nossa, não terá os dias contados. No entanto, o carpinteiro, o alfaiate, o estofador, o ferreiro e o latoeiro pertencem ao passado, nalguns casos ainda visto - com saudosismo - num letreiro pintado ou no número de uma porta. Em muitos ofícios do passado, pessoas simples laboravam com esmero e paciência preciosidades acabadinhas de fazer. Hoje restam poucos, mas também outros se lhes juntaram para dar uma nova frescura ao antigo.

Quando, no outono, as sandálias deixam de ser confortáveis, as botas e os sapatos têm de ser revistos: chamem-se os sapateiros, que ainda que não produzam calçado, fazem tanto quanto isso. De um dia para o outro, ou perto disso, o frenesim de colas e graxas estonteia, mas o sapatinho arranjado é tão ou mais agradecido que um par novo. O agradecimento será seguramente eterDas indecisões nascem criações únicas a partir no também às nossas modistas, que fazem vesde mobiliário deposto. Sem saber o que fa- tidos de noiva, novinhos e prontos a estrear. O zer aos móveis antigos, há quem abandone o Santo António já casou muitas destas obras das fadas do detalhe. Por encomenda ou proposta, as criadoras de esmeros, pontinhos, plissados e padrões, dobram, pregam, alinham e dão vida e corpo aos mais variados tecidos, linhas e lãs. Se na Mouraria de outrora a vida se fazia de cantares, dizeres e fazeres, hoje faz-se o mesmo, mais a frescura dos artistas que partilham os seus saberes com a história secular de um bairro a caminho da modernidade. E isso enriquece-nos.

As olarias, que deixaram nome em escadinhas e largo na Mouraria, têm um único oleiro, Tiago Praça, que ainda produz diariamente loiça com maestria e precisão. Da sua oficina saem todos os dias potes, taças, canecas e pratos, que vários ceramistas locais se dedicam a decorar.

que num atelier é convertido em peça única por Thomas Kahrel, que também é luthier (artesão de instrumentos musicais). Cortes, acrescentos, colagens e montagens de pedaços de madeira convertem-se em utilidades diversas. A transforA cerâmica, nas suas diferentes verten- mação em estado puro. tes, tem diversos ateliers/oficinas aqui sediados, com ceramistas jovens e menos jovens. Desde a loiça utilitária pintada à mão, de motivos tradicionais, passando pela escultura até à azulejaria para os mais diversos fins, as criações são tantas e tão variadas que se pode falar em riqueza artística. Tal como no campo da azulejaria, onde as oficinas se dedicam à execução de painéis de grandes dimensões, fachadas, avulsos ou restauros, numa arte com séculos de história no país.

“Todas as artes contribuem para a maior de todas as artes, a arte de viver” ***

“Arte não é pureza: é purificação. Arte não é liberdade: é libertação.” **

Outras se somaram, como a pintura, a ilustração e a escultura, de tal forma que se instalou no bairro uma galeria destinada a expor a arte

*Vincent Van Gogh ** Clarice Lispector *** Bertolt Brecht


Queer

Texto: Fabricio Reis (Brasil), Gabriel Araujo (Brasil) Ilustração: Tânia Ralston (Brasil)

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Há 8 anos o governo português dava um importante passo na consolidação dos direitos da comunidade LGBTQi: o casamento entre pessoas do mesmo sexo foi aprovado. De lá para cá, uma vida fora do armário pôde ser enfim construída, simbolizada pela resistência constante de um leque de cores. Para andar junto à diversidade existente na Mouraria, esse bairro tão rico, criamos a Secção Queer: um espaço de textos e histórias que colaboram na luta por uma existência plena da diversidade de orientação sexual, gênero e corpo em Lisboa.

Estranha forma de vida Era costume dormir um pouco mais nas manhãs. Não naquele dia. Acordara, subitamente, como se tivesse apenas um único dia de vida. Quando os olhos se abriram, todo o corpo já estava há muito desperto. Levantou-se e se pôs em direção à penteadeira. Observou os seus cabelos e gostou do que viu. Acariciou-os ternamente. Como não os percebi tão bonitos! Como não? Como não? Suspirou e sentiu amor por aqueles cabelos que eram… dela. Não quis tomar café passado em coador de pano como se faz em Minas. Desarranjou as memórias; tinha interesse em desatar a rotina. Na penteadeira, uma garrafa de vinho tinto e uma taça já estavam colocadas desde a noite passada. Sorriu, pois teve a impressão de que já sabia de tudo, desde o ínicio. Não tocou o velho samba naquela manhã. Pela primeira vez, quis escutar fado. Já vivia na Mouraria há cinco anos. Sempre achou o fado muito tristonho. Mas, uma semana antes, conhecera o Fado Bicha. Sentiu interesse em conhecer de forma mais profunda o estilo. O que escutar? Escolheu Amália. Estranha Forma de Vida congelou sua atenção por alguns instantes. Que oráculo maravilhoso, Amália! O que me diz? O que preciso saber? E Amália: coração independente, coração que não comando, vives perdido entre a gente. Ai que gentil convite! É isso, a Mouraria me pertence, respondeu aliviada. Que vestido pôr neste dia tão auspicioso? Aquele de bolinhas que ganhei de Lucinda, minha amiga angolana? Vestiu-o. Era tão perfeito. E Lucinda, que angolana sabida! Saiu pelas ruas da Mouraria. Não de óculos escuros como de costume. Queria olhar para toda a gen-

lidades de bárbaras que talvez ali se amaram. Mulheres que arderam em desejo, paixão. Imaginou o silêncio e a cumplicidade daquelas paredes. Nada estampado naquelas paredes. Nenhum registro. Imaginou o silêncio doloroso das mulheres da Mouraria, daquelas que a história não ousou narrar e que se perderam nos soluços da noite escura ou da riNo Beco das Gralhas, um grupo de gidez das mesas das salas de jantar. miúdos. Meninos a jogar futebol. A Quem ousa dizer que nada acontebola veio em sua direção. Chuta- ceu? Se em cada azulejo tivéssemos ria? Pegaria na mão? Desdenharia? um pedacinho de cada história... Ai, Tinha pavor de futebol, desde o ai se tivéssemos! tempo da escola. Suava frio quando escutava a expressão esporte de me- Ah, Marquês Ponte de Lima! Já tinino. Chuta, disse um dos miúdos. nha passado por ali, sentindo prazer Chutou, chutou porque hoje tudo ali. A Marquês, sua passarela. Gajos podia, qualquer coisa podia, mes- olham para ela. Alguns não supormo uma bola no pé. Tu és gajo ou tam sua beleza. Rendem-se porque gaja? Nem um, nem outro, ela res- veem nela mistérios. Tocam-na com pondeu. Silêncio. O miúdo franziu os olhos. Outros desaprovam com a testa como se fosse um problema falsos sorrisos. Não é homem, não de matemática, daqueles de difícil é mulher. Quem tu és? Sou a estrasolução. De repente, um sorriso de nha, sou aquela que teu linguajar quem tem uma descoberta incrível. não alcança. Não caibo na letra de Sim, disse ele. Uma epifania acon- teus discos. teceu. Ninguém gravou, não houve registro algum e, no entanto, acon- Amendoeira, leu na placa. Lembrou que ali vivia uma rapariga conheteceu. cida. Era próxima de Gisberta¹, Desceu pela rua das Farinhas. Obser- covardemente assassinada. Relemvou os becos e imaginou as possibi- brou as afrontas quero ver se és hote e para as habitações. Não teve tempo de fazer isso antes. A correria dos dias, que devoradora de almas! Hoje não. Hoje, a devoradora irá passar fome. Sou eu quem tem fome! Eu tenho fome! E pressa. Era ela o próprio tempo. O dia, ensolarado. Quente, muito quente. Fez lembrar o calor do Brasil.

mem ou mulher. Sentiu um frio na espinha. Poderia ter sido ela. E não era novo tal sentimento. Também era ela um corpo que incomodava. Atônita com o fato recordado, disse a si mesma, firme e pausadamente: Re-sis-tên-cia!. Assim subiu em direção à Calçada de Santo André. Sentiu a boca seca. Avistou um aglomerado de pessoas, passou pela porta que estava em frente. Era a IN-Mouraria². Assim que entrou, foi vista. Não era invisível. Um pouco d’água, disse ela. Tenho sede, muita sede.

1. Crónica inspirada em passeios pelo bairro da Mouraria. Trata-se de uma obra fictícia. Citamos o nome de Gisberta para lembrarmos a violência sentida todos os dias por milhares de pessoas trans e não-binárias. 2. Para além da estrutura proibicionista, o IN-Mouraria atua na redução de danos com pessoas que usam drogas na capital portuguesa. Também presta apoio social e de saúde àquelas que estejam em situação de risco. O projeto faz parte do GAT, Grupo de Ativistas em Tratamento, uma Organização não-governamental que reúne pessoas afetadas pelo VIH e SIDA. Já que a proibição às drogas não trouxe resultados, segundo os membros do projeto, o melhor a se fazer é proporcionar um uso seguro delas. Logo, no espaço localizado numa morada grafitada no trajeto do 28E, há material disponível para uso fumado e injetado; há testes rápidos de VIH, Hepatite B, Hepatite C e sífilis; há preservativos e lubrificantes. Tudo à distância de uma visita. Morada: Calçada de Santo André, 79, 1100-496, Lisboa Horário de funcionamento: dias úteis das 14:00 às 16:00 e das 17:00 às 20:00


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Texto: Marília Gonçalves (Brasil) Ilustração: Simanca (Cuba)

O Brasil elegeu um fascista Mas nem todos os brasileiros que votaram em Bolsonaro compactuam com suas ideias.

No dia 28 de outubro de 2018, o Brasil elegeu, na segunda volta, Jair Bolsonaro para a Presidência da República. O candidato do Partido Social Liberal (PSL) recebeu 55,13% dos votos, totalizando quase 58 milhões de eleitores - mais de cinco vezes o total da população portuguesa. Espera-se que, entre janeiro de 2019 e dezembro de 2022, Bolsonaro esteja no comando do mais alto cargo do Poder Executivo no país. Há quem acredite, no entanto, que seu governo não vai completar, democraticamente, o mandato, uma vez que o candidato à vice-presidência pela sua chapa, general Hamilton Mourão, disse, ainda em campanha, acreditar na possibilidade de um autogolpe. A mídia internacional, inclusive a portuguesa, muito falou sobre Bolsonaro e suas declarações e propostas que extrapolam a categoria “polêmica”. O elogio à ditadura militar e à tortura, a apologia à violação, o racismo, a promessa de perseguição aos militantes de esquerda, entre outras coisas. O fenômeno que elegeu um fascista no Brasil, no entanto, é complexo. Uma campanha baseada na disseminação de notícias falsas em grupos de WhatsApp, somada à deslegitimação da mídia comercial, convenceu muitas das vítimas diretas de seu discurso. Em outras palavras, também mu-

lheres, negros, LGBTIs e pessoas pobres votaram em Bolsonaro. E nem todos compactuam com suas ideias. Em Lisboa, 64,4% dos brasileiros elegeram o candidato do PSL. Conversamos com duas jovens brasileiras que escolheram Portugal como lar e Bolsonaro como presidente. Aline, 31 anos, e Carolina, 29, são colegas no mestrado em Finanças da Universidade Católica Portuguesa, ambas chegaram cá há menos de dez meses e escolheram o país, entre outros motivos, pelo baixo custo de vida. As duas discordam das declarações do candidato que escolheram, mas acham que a políti-

Texto: Marília Gonçalves (Brasil)

António Costa, 61 anos, dos quais passou 30 a trabalhar na Mouraria. Hoje, é proprietário do restaurante O Almeida, na Rua das Farinhas. “Pelas notícias que eu tenho ouvido na televisão, especialmente, isto vai ser muito grave para o Brasil. Isto é a minha opinião, pois de política não percebo nada. Mas mediante os anos que ando cá, acompanhando aqui as vossas eleições, entre outras, penso que para o Brasil vai ser muito complicado. Isto é, se o Bolsonaro cumprir com tudo aquilo que promete, com relação à liberação de armas, contra os negros e contra os gays. Penso que por aí vai ser muito complicado, porque o Brasil está dividido.” Jorge Fernandes, 61 anos, vive na Mouraria e conhece toda a gente do Rosa Maria. “Essa parte aí é muito difícil, a gente só sabe o que eles querem que a gente saiba, não é? Evidente que, pelo que dizem, aquilo não é nada bom. Ainda mais quando é um indivíduo - que eu não sabia, soube outro dia - ligado a uma igreja. Eu não percebo, nem quero. Disseram que ele é ligado ao Reino de Deus [referência à Igreja Universal do Reino de Deus], isso nunca pode ser bom. Vê se eu tenho um apartamento em Miami como tem o presidente da igreja! Pelo que estou a ver, isso não vai dar certo. Está lá nos Estados Unidos um indivíduo que é praticamente a mesma coisa que ele. Eu acredito em tudo, né? Depois que vimos o porco andar de bicicleta já não se duvida de nada.” Miguel Loureiro, 42 anos, vive na Rua da Madalena. É músico e proprietário do Tasco da Turra, na Rua de São Cristóvão. “Acho que os pobres vão ficar mais pobres e os ricos, mais ricos. Tenho amigos músicos brasileiros que vivem cá. Uns apoiam o Bolsonaro, outros apoiam o Haddad. Um dia percebi que os que apoiam Bolsonaro estavam a fazer uma festa cá em cima, com os mais ricos, e os outros estavam na rua, lá embaixo, com seu violão. Queira Deus que melhore.”

O que achas que vai acontecer ao Brasil nos meses que seguem a estas eleições presidenciais?

vox mourisco

ca econômica proposta por ele é a melhor opção para o Brasil. “Eu tenho muitos amigos gays. Quando eles denunciam a homofobia do Bolsonaro, eu nem defendo. Acho um absurdo mesmo”, afirma Carolina. Ela veio viver em Portugal com recursos próprios, economias que fez nos últimos anos trabalhando no Brasil. Apesar disso, não credita o sucesso profissional à boa fase econômica do país sob os governos do PT. “Se eu não tivesse meu pai investindo na minha formação, não teria chegado aqui”. A jovem lembra que é de classe média e que outras pessoas não tiveram a oportunidade que ela teve. Por outro lado, reconhece que o PT foi responsável pela possibilidade de formação de muitas pessoas que não puderam, como ela, pagar pelos estudos, através de programas sociais levados a cabo pelo candidato opositor de Bolsonaro nessas eleições, Fernando Haddad, que fora ministro da Educação. Surpreendentemente, Aline também reconhece grandes avanços do governo de Lula e diminui a importância das declarações de Bolsonaro. “É da personalidade dele”, afirma. Muitas contradições marcam o discurso dos eleitores de um candidato declaradamente violento e explicitamente despreparado. Se nos cabe de consolo, podemos contar que não há 58 milhões de brasileiros fascistas, nem para lá nem para cá do Atlântico.

MN Ashraf, 21 anos, vive no Intendente e trabalha no Union, casa de lanches na Rua de São Cristóvão. “Legalizing gun is a very bad move. We can see America: the crime rates are not decreasing, it’s increasing, homicides victims are increasing. As far as I know, in Brazil, you have a different structure: the lower structure and the high structure. And the crime is in the lower, and if everybody is allowed to buy a gun, you’ll escalate to a worse situation. You can always call the police if there’s something happening. A responsible person, like a policeman, with a gun can do good things, a bad person with a gun will do bad things.” “Legalizar as armas é uma jogada muito ruim. Podemos ver a América: as taxas de criminalidade não estão diminuindo e as vítimas de homicídios estão aumentando. Até onde sei, no Brasil, você tem uma estrutura diferente: inferior e superior. E o crime está na parte inferior, e se todos puderem comprar uma arma, esta situação ficará ainda pior. Você sempre pode chamar a polícia se algo acontecer. Uma pessoa responsável, como um policial, com uma arma pode fazer coisas boas, uma pessoa má com uma arma fará coisas ruins.” Raquel Tavares, 52 anos, vive na Rua das Farinhas. “Se ele foi eleito, é porque há pessoas que acreditam nele. Eu não percebo como é que, tendo as ideias que ele tem e como as expressa publicamente, as pessoas ainda votam nele! Eu sinceramente baseio-me nas opiniões que ele foi dando antes de ser eleito. Eu nunca vi um debate entre ele e o outro candidato, para dizer quais são as ideias que ele tem para o Brasil, o que ele quer fazer para que o Brasil vá para a frente. Eu não vi nada nesse sentido. Ok, eu vou ficar à espera do que realmente virá de uma pessoa como ele. Eu comparo o Bolsonaro ao Trump na América.” Roger, 31 anos, é brasileiro e trabalha no restaurante Cantinho do Aziz, na Rua de São Lourenço. “Eu não acho que vai ser essa tragédia toda, não. Acho que ele vai ficar pianinho até a próxima eleição, para se candidatar novamente. Não acho que vai cumprir tudo que disse. Eu sou brasileiro e não votaria nele, votaria no Haddad. Mas não acho que vai ser a tragédia que estão esperando.”


Outras Mourarias

Texto: Luca Onesti (Itália) Fotografia: Disponibilizadas por Hüseyin Irmak (Turquia)

Quem disse Kurtuluş? Um nome antigo e um novo carnaval. Uma pequena história sobre um bairro em Istambul, Turquia. Isto é Tatavla! Ao chegar a este bairro, traseiras anónimas de uma encruzilhada e de uma paragem de metro, nada parece mudar numa cidade que tem demasiado cimento, trânsito e barulho. É o engano do primeiro olhar, porque Kurtuluş, em Istambul, esconde atrás desta aparência uma vitalidade feita de mil cafés, confeitarias, restaurantes, lojas e vendedores ambulantes, que percorrem as ruas desde manhã até à noite. É só depois de alguns dias a viver neste bairro, ao fazer compras e ao percorrer as passagens que ligam uma rua à outra, cheias de joalheiros, sapateiros, alfaiates, que se entende o carácter deste sítio, que não está longe da confusão do centro mas que guarda uma atmosfera mais caseira e aconchegante. Kurtuluş tem muita história. Surgido no século XVI para acolher os marinheiros gregos que trabalhavam nos estaleiros e nas docas otomanas de Kasimpaşa, o bairro tomou o nome de Tatavla, que em grego significa “estábulo dos cavalos”. Habitado principalmente pelos rum, como são chamados os gregos da Turquia, o bairro veio a popular-se de igrejas ortodoxas e de locandas, assim como de escolas, vinhais e jardins. A vida que nele se levava distinguia-se de tal forma da vida dos outros bairros da cidade, que chamavam ao bairro “pequena Atenas”. Ao lado dos rum, também outras minorias começaram a viver em Tatavla: arménios ou judeus, por exemplo, mas também os comerciantes europeus e católicos, chamados “levantins”. O bairro muda de nome em 1929, depois de um incêndio que destruiu muitos dos seus edifícios.

O novo nome, Kurtuluş, “salvação” em turco, foi introduzido sobretudo para homenagear a recente instauração da República, em 1923. Mudou também a toponomástica das ruas: algumas delas foram dedicadas a militares, outras a animais da mitologia turca – como aconteceu com a rua Bozkurt, que faz pensar nos Lobos Cinzentos, a organização de direita ultranacionalista que tomou como símbolo o mesmo animal. Apesar disto, e depois de 90 anos, há ainda quem chame ao bairro Tatavla, e isto acontece, surpreendentemente, entre os muitos jovens que ali moram. É o jornalista Hüseyin Irmak, que mora em Kurtuluş desde a infância e que escreveu o livro Tatavla’dan Kurtuluş’a (“Desde Tatavla até Kurtuluş”), a explicar-nos como nos últimos anos os habitantes começaram a querer conhecer a história do seu bairro: “Hoje, este é um bairro que tem um alto nível cultural, e para aqui vêm morar pessoas que procuram laços de vizinhança, mas que querem sobretudo liberdade nas próprias vidas.” Esta nova vaga de pessoas dinamizadoras é algo dos últimos anos. Em 2009, manifestantes atacados pela polícia encontraram abrigo em Kurtuluş, e desde então o bairro ficou conhecido pela sua veia resistente e solidária. Mas se agora continuam a encontrar espaço em Kurtuluş as minorias da migração interna (os

curdos, por exemplo) e aquelas que vêm da migração internacional (sírios, etc.), o que foi da presença grega? Contra os rum, que conheceram a migração forçada após a troca de populações entre Grécia e Turquia no fim da guerra entre os dois países, em 1923, houve episódios de violência como o “Pogrom de Istambul”, nos dias 6 e 7 de Setembro de 1955, quando lhes foram destruídas igrejas e escolas, ardidos carros e lojas e dezenas foram mortos. Desde então, os rum continuam a voltar para a Grécia. Em Kurtuluş, agora contam-se 500. Foi graças ao livro que Huseyin conseguiu reencontrar, em Atenas, dois dos seus amigos de infância que há 42 anos tinham deixado a Turquia. Conta ainda o jornalista: “De 2009 a 2014, reorganizámos em Kurtuluş o Carnaval, que tem aqui uma tradição de 500 anos e tinha sido proibido depois dos anos 40. Foi um sucesso, os jovens gregos vieram à rua enquanto os mais velhos aplaudiam, chorando, das janelas. Nos últimos anos, parámos porque temos medo que a polícia possa intervir e criar problemas à comunidade grega.” Mas nada foi em vão: com a festa, aumentou a vontade de redescobrir as origens de um bairro que tem sido alvo de uma grande operação de cancelamento da memória. Agora, sim, há muitas pessoas a chamar com mais orgulho o próprio bairro de Tatavla.


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Texto: Nuno Franco (Portugal) Ilustração: Chira (Itália)

Escavações arqueológicas no Poço do Borratém No Poço do Borratém, o que começou por ser uma mera escavação para instalar ecopontos subterrâneos tornou-se uma verdadeira descoberta arqueológica.

As escavações começaram no final de Junho deste ano, e um mês depois já onde estaria localizado o poço do borratém (ou ber haten), que já no tempo se tinham levantado mais de meia dúzia de esqueletos. dos mouros abastecia de água aquela zona da cidade. A outra ermida não é possível de identificar claramente, mas estaria localizada mais para a enA equipa de arqueólogos da empresa Cota 80.86 mal sabia a empreitada costa, a nascente. Ambas terão desabado ao tempo do Terramoto de 1755. que os esperava. Revelar-se-iam 44 enterramentos e 11 ossários (conjunto de esqueletos confinados a um espaço mínimo). Cada desenterramento de Durante os próximos três anos, os esqueletos ficam no depósito na Rua da um esqueleto pode demorar mais de um dia. É um processo moroso e can- Boavista, nos antigos escritórios dos serviços camarários da Higiene Urbasativo – que o digam as costas da antropóloga Sónia Ferro, que levantava na; depois passarão para o Centro de Arqueologia de Lisboa (CAL), para um esqueleto por dia. Ficaram ainda no local, protegidos com areia, cerca uma análise profunda e relatórios de arqueologia e antropologia. Só depois de 22 enterramentos, porque não houve possibilidade de os desenterrar. serão conhecidos a idade, o sexo ou as patologias das pessoas enterradas, Além dos esqueletos, encontrou-se uma roca islâmica, que pode ter sido procurando-se marcas da peste ou infecções, para se conhecerem, por arrastada numa queda de lamas, e fragmentos de louça da Flandres ou de exemplo, os hábitos alimentares e as causas da morte. Estes dados serão Inglaterra. muito relevantes para o estudo da população mais pobre de Lisboa, já que é mais frequente conseguir analisar-se esqueletos de populações mais abasA necrópole encontrada deve ter surgido entre finais do século XIV e tadas. Para mais tarde, o CAL tentará fazer uma exposição destes achados, início do século XV. Segundo Vasco Vieira, o arqueólogo responsável, as na freguesia ou noutro local da cidade, bem como uma publicação, se se pessoas enterradas eram gente humilde (enterradas sem os seus pertences, considerarem descobertas relevantes. envoltas numa mortalha ou directamente na terra) e cristãos (porque os pés estavam virados para nascente, à espera do Juízo Final). Homens e mu- A empresa Cota 80.86 iniciou entretanto escavações no Campo das Cebolheres, jovens e crianças. las, tendo já encontrado depósitos do século XVII, criados na altura com o intuito de subir a cota de referência em relação ao Tejo. E começaram Experiências anteriores levavam a crer que naquele local, dentro das mu- as escavações no Largo do Chafariz de Dentro, junto ao Museu do Fado, ralhas da Cerca Fernandina, construída entre 1373 e 1375, existiam duas para também aí se instalarem ecopontos subterrâneos iguais aos do Poço ermidas. Uma era a de São Martim, na esquina com a Rua João das Regras, do Borratém. Não se encontraram esqueletos… ainda.


Texto: Carolina Ribeiro (Brasil) Ilustração: Chira (Itália)

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A vida como ela é: A bordo do 28 Espécie de ponto turístico ambulante lisboeta, o eléctrico desfila pelas ruas da cidade há mais de cem anos e transporta, em média, 10 mil passageiros por dia tabilizadas uma média de dez mil validações no total das 122 viagens realizadas. Aos sábados são 102 viagens; aos domingos e feriados, 95. No intervalo do caos, o condutor arrisca dizer que 70% dos tripulantes são turistas. Os outros 30% são moradores. “É bom para Portugal, mas às vezes é exagerado. Eles fazem muitas perguntas repetidas”, reclama. De facto, às 10h28, vinte e oito pessoas formam uma fila na paragem inicial do 28 – uma coincidência cabalística. No veículo, há espaço para vinte pessoas sentadas e trinta e oito de pé (ou seja, já são oito de pé). De salto alto agulha, óculos com armação de tartaruga e farda azul-marinho, Sandra Vaz é quem conduz a lotação. Com sorriso no rosto, pergunta à repórter em inglês se já tem o bilhete. Com o casal que está em Há onze anos que o guarda-freio repete quatro seguida fala francês. “Gosto imenso do que eu viagens completas de uma zona à outra, todos os faço”, diz ela, que há três anos conduz eléctricos. dias. A condução, o motorista avisa, é um bocado complexa. Para dirigir o icónico bondinho de cor O caso de amor entre Rafael Santos e o 28 coamarela e formato arredondado, ele passou por meçou quando miúdo. Na altura morador de um curso de formação de um mês e meio, no qual Alfama, usava-o para ir à escola. Mais tarde tratambém aprendeu a dirigir autocarros. Na sua balhou como cinegrafista e, por falta de oporfrente há um painel com botões e uma manivela, tunidade na área, em 2007, candidatou-se para que controla com as mãos. Com os pés, apenas uma vaga na Carris. Aprovado, no ano seguinte aciona a campainha, para avisar aos desavisados criou o blogue “Diário do tripulante”, onde esque estão a obstruir a passagem – o que acontece creve sobre a vida nos trilhos. “A carreira 28 é a à beça. Durante o meu trajeto, saiu do eléctrico nossa montanha-russa, porque está em um sobe duas vezes com um gancho nas mãos para, expli- e desce constante, e em todas as viagens há algo diferente”, diz Rafael. Ele tem razão. As viagens cava, “mudar o sentido da linha no trilho”. são como onda no mar de pedras portuguesas. A tranquilidade matutina é inversamente proporcional ao frenesi das 9h30 às 15h – segundo a Tem a coreana Lina Yanghmi, com camisola de Carris, o “horário de pico”. Num dia útil, são con- paetês, que tira demasiadas selfies (“É muito comO sol levanta-se às 7h09 entre a Basílica e o Jardim da Estrela. Lampeja os primeiros raios que apertam os olhos do condutor e dos três passageiros a bordo da segunda viagem do dia do eléctrico 28. O termómetro de uma farmácia fechada aponta treze graus, em uma manhã de outono. Há uma hora, com o céu ainda escuro, o motorista arrancou com o bondinho da Praça Martim Moniz, onde começa o trajeto de quinze quilómetros e trinta e oito paragens rumo aos Prazeres, em Campo de Ourique. Pelo caminho, deixou à porta o vigilante da escola d’A Voz do Operário, na Graça, e outro senhor que agarrou um saco de pão pendurado à entrada de uma padaria, no Chiado, antes de sacar as chaves para abrir o estabelecimento.

plicado andar por essas colinas”, diz ao equilibrar-se para capturar mais uma). Tem a senhora portuguesa Margarida dos Santos, que arranja confusão com a turista americana que pisou no seu pé (“Volta para o seu país”, grita).Tem o casal da escocesa Beth e do grego Loukas Sabat, que seguram um papelzinho com apontamentos de sítios para visitar em Lisboa (“Onde posso ver um show de fado?”). Tem a cabo-verdiana Vicencia Andrade, que vive há 48 anos em Portugal e exibe a carteira com fotos das netas (“Minhas filhas e netas nasceram cá”). Tem a brasileira Julia Santana, que avisa ao condutor em que paragem deseja ficar (“Para o Zé da Mouraria, por favor”). Facto é que o eléctrico 28 desfila pelas ruas de Lisboa há 104 anos, e o seu percurso foi alterado cinco vezes ao longo do século. Do Martim Moniz a Campo de Ourique, por menos de um euro e meio, passa-se por dez igrejas, oito conventos, seis jardins, quinze estátuas e dez cinemas e teatros, segundo conta o livro 28 – Crónica de um percurso, escrito por José-Augusto França em 1998. Ainda os números: a carruagem pesa quase onze toneladas e mede oito metros de comprimento, dois de largura e três de altura. Ao todo, há trinta e oito eléctricos históricos (nas carreiras 12E, 15E, 18E, 24E e 28E) a circular pela cidade, conduzidos por uma equipa de 142 guarda-freios. À volta da meia-noite, todas as carreiras são parqueadas na estação de Santo Amaro, em Alcântara, onde tudo recomeça todos os dias.


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Texto: Xie Qian (China) , Quan Qi (China) Fotografia: Carla Rosado (Portugal)

China Com um crescimento acentuado nos últimos anos, em 2017 os 23 mil chineses constituíam a maior comunidade asiática em Portugal*. As repórteres do Rosa Maria foram conhecer dois exemplos de como se vive entre cá e lá. Zheng não fala português. Aos 35 anos, 19 deles em Lisboa, a chinesa estudou a língua durante dois meses com uma professora da mesma nacionalidade, mas mantém-se fiel ao idioma de origem. Nascida em Zhe Jiang, província do sul da China, Zheng veio para Portugal ainda muito jovem, aos 16 anos, e quase por acidente. Para aqui chegar, não precisou de um motivo, só das recomendações de outros chineses da mesma região, que hoje ocupam parte das lojas por onde circula a comunidade. Zheng começou por ter uma barraca de rua até se tornar proprietária de uma loja no Centro Comercial Mouraria, onde vende sobretudo produtos chineses. Mas sem esquecer os clientes locais. “Basta conseguir vender os produtos aos portugueses ”, atira Zheng, explicando por que motivo a língua não precisa de ser uma barreira para que consiga vender a roupa e os muitos acessórios que se veem na loja que gere. “A cultura (portuguesa) é muito respeitosa e inclusiva”, diz Liu, que trabalhou noutros países europeus antes da mudança para Portugal. A companheira já se mudou para Lisboa com os cinco filhos, que estudam em escolas portuguesas e dominam a língua. Liu quer fazer o mesmo. Apesar de ainda não conseguir, tem muitos amigos portugueses, entre advogados e professores, e é também por eles que quer aprender o idioma. Os costumes de vida não mudaram embora Liu aqui viva há cinco anos. Volta todos os anos ao país que o viu nascer, principalmente nos aniversários dos pais ou no Ano Novo chinês. Quando está em Portugal, celebra as festas tradicionais do seu país com a família. Tal como na China. *Fonte: Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF)

Ano Novo Chinês, 2016, Praça do Martim Moniz

Tal como na

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Texto: Carolina Ribeiro (Brasil) Fotografia: Hermes de Paula (Brasil)

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Balança

mas não cai

Espaço onde funcionou um híbrido de loja e oficina com mais de quatrocentos aparelhos para se pesar tem os dias contados

sa, dois recortes de jornais com reportagens sobre o armazém, um diploma da Associação dos Industriais Metalúrgicos e Metalomecânicos, um certificado de presença no colóquio “Medir com rigor” promovido pelo Serviço de Metrologia da Câmara Municipal de Lisboa, realizado em 2005, e um painel ilustrado com instruções de segurança no trabalho. Escondida atrás de uma portinha de madeira, está uma mina de água salobra e um azulejo azul e branco com as imagens de Pai Nosso e Avé Maria. “Dizem que essa água vem do Castelo de São Jorge. Hoje pingam gotas. Mas noutros tempos enchíamos garrafas para beber.” Também entre “as coisas do passado e as coisas de criançolas”, como diz, Fernando lembra-se de brincar à laranjinha (jogo parecido com o bowling, em que eram usadas garrafas e laranjas), jogar à bola na rua e correr da polícia, ver os trabalhadores entregarem pinho para cozinhar pão no forno de padarias e pegar boleia para ir até o Areeiro, na altura em que o eléctrico não chegava até lá. “Era um bairro muito bom. Havia talhos, mercearias, drogarias, padarias. Agora é tudo estrangeirada. Daqui a dez anos não se vai mais falar português.” A rotina de Fernando, que já geriu uma equipa de doze funcionários, é hoje sinónimo de tranquilidade. Sem hora marcada, vai ao armazém quase todos os dias para admirar o legado, sai para almoçar no Aviz e volta para ver mais algumas horas a passar. Segue em frente com uma dose de superstição diária. Enquanto assiste ao fotógrafo Hermes de Paula pesar-se na icónica balança que esteve na estação do Rossio, avisa: “Tem de fazer três pedidos: saúde, paz e amor. O dinheiro vem depois.”

A porta do número 13 da Calçada Agostinho de Carvalho está entreaberta. Há uma ripa de madeira cruzada na diagonal de uma ponta até à outra e uma cadeira a obstruir a entrada. À espreita, Fernando Santos, de 88 anos, abre um sorriso e desmancha a gambiarra, orquestrada para impedir que algum desconhecido apareça ali. Enquanto a equipa de reportagem se acomoda, Fernando aponta para um aparelho embrulhado num saco plástico: “Olhem! Ainda ontem deixaram cá. É uma balança eletrónica sem conserto e certificado. E não vão voltar para buscar.” A engenhoca avariada é uma entre as mais de quatrocentas balanças (muitas ainda a funcionar) que ocupam o armazém com jeito de museu, onde operou uma loja e oficina comandada por sua família nos últimos cem anos, a Santinho & Costa Lda. São peças de diferentes modelos, cores, materiais, marcas, tecnologias e origens, embriagadas de história. E cujo destino é um ponto de interrogação. O depósito e tudo o que está dentro foi vendido a um empresário moçambicano, que pode pedir para Fernando sair a qualquer momento. “Morreu, acabou. Não tenho mais cabeça para isto”, diz, conformado, porém apegado. Há uma série de balanças manuais, com uma barra de ferro ao centro e dois pratos pendurados nas beiradas. Há balanças analógicas típicas de consultório médico, que pesam e medem a altura. Há balanças específicas, como uma que foi da Casa da Moeda e era usada para pesar ouro, e a que servia para pesar malas na estação de comboios do Rossio – talvez a preferida de Fernando; vermelha, de pé, da marca holandesa Berkel. Há balanças de fabrico português: Leuman, Tissot, António Pessoa, Medines, Ruby, Averi. Há balanças suspensas, que não ocupavam espaço em balcões de mercearias. Há balanças de pregar na parede. Há balanças automáticas, semi-automáticas e eletrónicas. Há balanças, a sério, para medir músculos. “Quando era miúdo, fazíamos competição para medir quem tinha mais músculos”, diz Fernando. “Tem que apertar as alças laterais com as duas mãos ao mesmo tempo que a balança marca a força.” Um punhado de ferramentas, correntes, engrenagens, cortadores de frios, medidores de petróleo e azeite e pesos de ferro e de bronze estão sob o mesmo teto. “Este aqui é maciço, tem um quilo. Mas havia muitos pesos falsos, de oitocentos gramas, usados para enganar os clientes.” Por trás das balanças, está a história de uma família. Fernando e o falecido irmão, Manuel, representam a terceira geração do negócio que pertenceu ao pai, ao avô e a um sócio – estampados em fotografias nas paredes do estabelecimento. Dona Cacilda, uma vizinha que morreu aos 103 anos, também foi emoldurada. Ainda preenchem o espaço uma placa redonda com a marca da empre-

Ao despedir-se, Fernando procura dois escudos, com datas de 1975 e 1979, e oferece de recordação à repórter e ao fotógrafo. “Guardem na carteira. E sempre que quiserem muito alguma coisa, dêem um beijinho na moeda e façam um pedido. Isto é um amuleto.”


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notícias ARM

WEMIM Há Manhãs para Lisboa

New Roots

De outubro a dezembro, a Renovar a Mouraria realizou uma formação para novos acompanhantes interculturais, no âmbito do projecto europeu Migrantour - New Roots, com o objectivo de promover a integração e o empoderamento de imigrantes e refugiados através de percursos urbanos interculturais únicos no bairro da Mouraria e em Lisboa. Foram capacitados 21 formandos, provenientes da Argentina, Brasil, Guiné-Bissau, Japão, Polónia, Rússia, Síria e Ucrânia. Estes vão, a partir de janeiro de 2019, mostrar o bairro e a cidade a partir do seu olhar, numa experiência rica que vai unir histórias pessoais e culturais do país de origem com alguns dos factos mais representativos do bairro e da cidade.

“Para uma imigrante, o Migrantour é uma experiência única e enriquecedora que permite conhecer pessoas de tantas nacionalidades e culturas diversas. É impressionante perceber que em pouco tempo num pequeno espaço, parece que nos tornamos uma família intercultural constituída por aqueles que representam os povos dos quatro(!) continentes que escolheram Portugal para estudar ou mesmo para viver. Todos, com maior ou menor facilidade, refizeram as suas vidas e têm, através do seu trabalho, contribuído para a economia deste país. Como presidente de uma associação de imigrantes do Leste Europeu que está a desenvolver a sua actividade na área de apoio a crianças mais necessitadas, filhos de imigrantes, posso dizer que é um projeto extraordinário que cria um verdadeiro espírito de multiculturalismo, ajudando na integração e na educação para a tolerância o que é tão necessário num mundo globalizado em que hoje vivemos. Assuntos que interferem diretamente em nossas vidas, mesmo que não se perceba.”

“Há Manhãs” é o nome dado ao pequeno-almoço internacional para mulheres, criado com o objectivo de construir uma comunidade de mulheres locais. Os pequenos almoços realizam-se uma vez por mês, sempre ao domingo, reunindo mulheres portuguesas, migrantes e refugiadas, para celebrar, aprender e partilhar culturas, ideias e gastronomia do mundo. Estes encontros promovem a interação entre mulheres através de um ambiente informal que visa combater os estereótipos de ambos os lados, desafiando as narrativas de migração existentes e promovendo a troca de experiências. O “Há Manhãs” vai percorrer os vários bairros de Lisboa, mas a primeira edição foi realizada na Casa Comunitária da Mouraria, no dia 18 de novembro, e contou com a participação de mais de 20 mulheres das mais variadas nacionalidades, desde o Bangladesh, Brasil, Espanha, França, India, Itália, Nepal, Paquistão, Portugal, Suíça, Turquia e Ucrânia. Foram partilhados sabores, receitas e histórias dos vários cantos do Mundo e deixadas sugestões para temas e atividades a desenvolver nos eventos futuros! O próximo é já no dia 20 de Janeiro!

Aprender português deixa as pessoas mais felizes “Não importa de onde vens, o importante é sentires que o teu lar é onde estás.” É assim que Sabina, vinda do Nepal e aluna do curso de português para mulheres migrantes e refugiadas, mostra o seu sorriso de contentamento. É uma mulher forte, determinada, mas os olhos deixam escorregar uma lágrima em simultâneo com o seu sorriso. “As mulheres têm mais dificuldades quando vão para outro país”, diz Sabina. “Devíamos ser mais abertos, todos temos diferentes culturas, cores, religiões, mas, acima de tudo, todos somos cidadãos.”

Krystyna Dmytriyeva

O curso* começou há poucas semanas, mas este grupo de mulheres já dá um ar da sua graça na língua de Camões. Ivanilda veio da Guiné e está em Portugal há 2 meses. Não falava nada de português “estou tão feliz”, diz também emocionada. “Somos todas muito amigas, sinto-me em casa, é como uma família, e a professora Bárbara é muito boa, tem muita paciência, dá-nos muito apoio, é mesmo da nossa família.” Há muita emoção na sala. Normalmente, as histórias que estas mulheres têm para contar não são muito felizes.

Esta é uma história feliz, uma história de oportunidade de aprender, de partilha de saberes e de amizade. Uma história de mulheres que não têm vergonha de contar as suas vidas, porque estão em um espaço seguro entre outras mulheres: da Turquia, da Ucrânia, do Paquistão, Bangladesh, da Guiné-Bissau e da Guiné Conacri, Argentina, Nigéria, Síria, Índia… Tal como nos diz a Sabina: “Aqui sinto que estou no mundo”. *Este curso e o “Há Manhãs” fazem parte do projecto WEMIN, para a integração de mulheres migrantes e refugiadas, com uma vasta rede de países parceiros, e é co-financiado pelo AMIF-Asylum, Migration and Integration Fund. O “Há manhãs” também é co-financiado pelo Programa BipZip, da CML.

Mouraria a Girar

A Mouraria vestiu-se de azul e branco para assinalar o arranque do projecto mais verde da sua história. O Mouraria Composta, promovido pela Associação Renovar a Mouraria, e o Mouraria Lixo Zero, promovido pela Zero Waste Lab, deram juntos o pontapé de saída no Giro 2018, iniciativa do GRACE (Grupo de Reflexão e Apoio à Cidadania Empresarial). Os mais de 50 voluntários que chegaram de várias empresas não tiveram mãos a medir para fazer da Mouraria um bairro mais amigo do ambiente. Os voluntários dividiram-se em 3 grupos de acção: a transformação do bar/restaurante da Associação numa loja de produtos Eco, a construção de compostores que irão integrar a rede local de compostagem comunitária, e a recolha de beatas de cigarro, que levou duas super brigadas a percorrer o bairro e a construir e colocar beatões em locais estratégicos, de modo a sensibilizar a comunidade para esta problemática. Acreditamos que este dia foi marcante para todos os que nele participaram pois reforçou em nós o efectivo sentido de comunidade, aprofundado pela participação das organizações locais implicadas na área ambiental, acrescida da Cozinha Popular da Mouraria, também parceira dos projectos, onde se serviu o almoço e se construíram os Beatões. 22.500 beatas recolhidas, 15 beatões construídos e posicionados pelo bairro, 1 sala reabilitada e 2 compostores comunitários construídos. Os resultados tangíveis são inquestionáveis, mas aquilo que ficará para sempre na nossa memória é a partilha do grupo, a interacção com a comunidade, e o sentimento de que o nosso lugar no planeta nunca mais será o mesmo.

André Vieira

Migrantour


Obrigadíssimo!

O Rosa Maria é um jornal feito por muitas mãos, cabeças e corações. Estes são somente alguns dos rostos presentes diretamente na construção desta edição. Damos cara a todas estas letrinhas, fotografias e ilustrações. Esta é a nossa maneira de vos agradecer.

A todos os envolvidos, o nosso muito obrigada e um até breve. Esperamos vocês para a construção da próxima edição em 2019!

“Mas então um Jornal não deveria ser feito por jornalistas?”

“Shouldn´t a newspaper only be made by journalists?”

O Rosa Maria é mais do que um jornal. É fruto de trabalho colectivo e, principalmente, comunidade. É uma ferramenta para dar voz a pessoas locais e migrantes. Uma construção realizada entre artistas, jornalistas, escritores, desenhadores, lideranças comunitárias, moradores, voluntários, trabalhadores do bairro e todos os desejos de comunidade e integração. Gente normal, como tu e eu.

Rosa Maria is more than a newspaper. It is the result of collective work and, above all, community. It is a tool to give voice to local people and migrants. A construction made among artists, journalists, writers, designers, community leaders, residents, volunteers, neighborhood workers and all who desire community and integration. Normal people, like you and me.

Vem colaborar também com esta grande família! Envia um email para rosamaria@renovaramouraria.pt Participa nas reuniões mensais de comunidade, dos encontros e visitas ao bairro - fica atento às redes sociais da Renovar a Mouraria e vem contar tuas histórias.

Come and collaborate with this big family too! Send an email to rosamaria@renovaramouraria.pt Participate in monthly community meetings, meetings and visits to the neighborhood - stay tuned to the social networks of Renovar a Mouraria and come tell your stories.


Texto: S A Lipon (Bangladesh), S M Kutub Uddin (Bangladesh), Taiane Barroso (Brasil) Fotografia: Camila Othon (Brasil)

Samosa ou Singara? O cheirinho a caril que entra pela Rua do Benformoso já é característico, uma vez que o local se tornou um paraíso para os amantes de comida asiática, em especial a de origem Indiana e Bengali - a comunidade de estrangeiros mais expressiva no bairro. Visitámos o Food Garden, que há três anos ocupa o número 155 desta rua, oferecendo pratos de ambas as origens. Alguns exóticos (e picantes) e outros já mais apreciados e conhecidos por gente de toda a parte do mundo. O local, além de restaurante, é também ponto de encontro da comunidade do Bangladesh, que usa a cave para reuniões e celebrações. A esbanjar simpatia à porta, Lipon, um dos gerentes do espaço há pouco menos de um ano, explica-nos detalhadamente as diferentes opções do menu. “Estamos sempre preocupados em oferecer alimentos frescos e um ambiente que crie paz de espírito”, diz, enquanto, além de servir às mesas, recebe os turistas curiosos e famintos, atraídos pelo cheiro. “Estamos a viver em Portugal há quase três anos e o país surpreendeu-nos”, diz Kutub, também gerente. “O que mais gostamos em Lisboa é a qualidade de vida que temos aqui. A disponibilidade de alimentos frescos a preços razoáveis; as condições do tempo; o custo e o alto padrão de transporte público - tudo é muito melhor!” Ao pedir a tão popular samosa recebemos uma correção: “No Bangladesh, chama-se singara!’. É sempre tempo para aprender e experimentar algo novo.

Samosa or Singara? The smell of curry entering Benformoso Street is already a characteristic of the place. The place is a haven for asian food lovers, especially Indian and Bengali - the most expressive foreign community in the neighborhood. We visited Food Garden, which for 3 years occupies the number 155 of this street offering dishes of both origins. Some exotic (and spicy) and others already more appreciated and known by people from all over the world. The place besides a restaurant is also a meeting place of the Bangladeshi community, which uses the basement for meetings and celebrations. Very friendly, at the door Lipon, one of the managers of the space for a little less than a year, explains in detail the different options in the menu. “We are always worried about offering fresh food and an environment that generates peace of mind,” says while serving the tables and welcoming curious and hungry tourists attracted by the smell. “We have been living in Portugal for almost three years and the country surprised us,” says Kutub - also a manager. “What we like most in Lisbon is the quality of life we have here. The availability of fresh food at reasonable prices; the weather conditions; the cost and the high standard of public transport - everything is so much better! “ When we asked for the so popular samosa we received a correction:“In Bangladesh, it is called singara!”. It is always time to learn and try something new.

Para a massa: Para a massa: 2 copos de farinha de trigo, ½ colher de chá de ajwain, 4 colheres de sopa de ghee, 1 colher de chá de sal Misture o ghee, ajwain e sal na farinha até que esta se torne quebradiça. Adicione lentamente água enquanto amassa. A massa ficará um pouco dura, não tão macia como massa de pão. Uma vez misturada, cubra e deixe descansar por 10 a 15 minutos. Divida a massa em 8 bolas, abra a massa até ficar um círculo bem fino e divida em semi círculos. Reserve. Para o recheio: 4 batatas cozidas cortadas em cubos, 1 copo de cenouras picadas, 1 copo de ervilhas verdes, ½ copo de cebola picada, 4 colheres de sopa de coentro picado, ½ colher de chá de cominhos, ½ colher de chá de pasta de gengibre, ½ colher de chá de pasta de alho, ½ colher de chá de pimenta vermelha em pó, 4 pimentões verdes picados, ½ colher de chá de açafrão em pó, 1 colher de chá de masala garam, sal a gosto, óleo para fritura. Aqueça duas colheres de sopa de óleo numa panela, adicione os cominhos e, em seguida, a cebola e frite por alguns minutos. Adicione a pasta de alho e gengibre, pimenta e açafrão em pó, masala garam, sal e um pouco de água para evitar queimaduras. Agora adicione as cenouras picadas e frite até que fiquem bem macias. Misture com as batatas, as ervilhas e a pimenta vermelha em pó. Por fim, adicione o coentro picado e os pimentões verdes. Ajuste o sal e a pimenta, retire do fogo e deixe arrefecer. Preparar as singaras Pegue cada metade da massa em formato de semicírculo e forme um cone, selando as pontas com água e pressionando com os dedos. Adicione o recheio e, usando um pouco de água, pressione e sele a abertura superior. Prossiga com todo o resto. Esta receita rende 16 singaras. Quando estiver com tudo pronto, frite em fogo baixo até ficarem douradas e crocantes. Sirva com chutneys e molhos.

For the dough 2 cups wheat flour, ½ teaspoon ajwain, 4 tablespoons ghee, 1 teaspoon salt Mix the ghee, ajwain and salt in the flour until it becomes brittle. Slowly add water while kneading. The dough will be a bit hard, not as soft as bread dough. Once mixed, cover and let stand for 10 to 15 minutes. Divide the dough into 8 balls, open the dough until it is a very thin circle and divide into semi circles. Reserve. For the filling: 4 boiled potatoes cut into cubes, 1 cup chopped carrots, 1 cup green peas, ½ cup chopped onion, 4 tablespoons chopped coriander, ½ teaspoon cumin, ½ teaspoon ginger paste, ½ teaspoon garlic paste, ½ teaspoon red pepper powder, 4 chopped green peppers, ½ teaspoon turmeric powder, 1 teaspoon masala garam, salt to taste, oil for frying. Heat two tablespoons of oil in a pan, add the cumin and then the onion and fry for a few minutes. Add the paste of garlic and ginger, pepper and turmeric powder, masala garam, salt and a little water to prevent burns. Now add the chopped carrots and fry until they are very tender. Mix with the potatoes, peas and red pepper powder. Finally, add chopped coriander and green peppers. Adjust salt and pepper, remove from heat and let it cool. Wraping the singaras Take each half of the dough in semicircle shape and form a cone, sealing the ends with water and pressing with your fingers. Add the filling and, using a little water, press and seal the top opening. Proceed with all the rest. You will make 16 singaras with this recipe. When all is done, fry over low heat until golden and crispy. Serve with chutneys and sauces.


Passatempo

Rosa Maria n.º 10 dezembro ’18

Por: João Madeira

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Descubra 10 ervas aromáticas

Ilustração: Chira (Itália)

Alecrim · Cebolinho · Coentros · Funcho · Hortelã · Manjericão Oregãos · Salsa · Segurelha · Tomilho

está bem · está mal

Inaugurada há pouco mais de 2 anos, a Unidade de Saúde Familiar da Baixa (USF) é um exemplo de cuidado e atenção humana no tratamento médico. Doutores jovens, sem batas e maior proximidade com a população. Está muito bem mesmo!

Loja-oficina centrada nos 5 R’s: Recusar, Repensar, Reduzir, Reaproveitar e Reciclar. Nesta loja de proximidade, todos se poderão aventurar a criar as suas próprias hortas domésticas ou jardins de varanda. A Mouraria Composta disponibiliza ainda um programa de oficinas práticas para quem quiser aprender mais sobre agricultura urbana, compostagem, controlo de pragas, construção de casas ninho para pássaros e hotéis para insectos, fabricação de detergentes orgânicos, produção de materiais decorativos e muito, muito mais! A loja Mouraria Composta visa também incentivar a redução do lixo comunitário e disponibilizar um conjunto de produtos que pensam no conceito de Sustentabilidade a 100%, actuando numa vertente ecológica, económica e social. O projecto Mouraria Composta é apoiado pelo programa BipZip, da Câmara Municipal de Lisboa. Associação Renovar a Mouraria Beco do Rosendo, nº8, 1100-460 Lisboa www.mourariacomposta.pt facebook.com/mourariacomposta/

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As pessoas ainda não perceberam que para o novo Ecoponto do Poço do Borratém funcionar é preciso deitar o lixo dentro dos contentores. Não fora. Será que andam com medo de serem surpreendidas pelos tais “achados arqueológicos” que habitavam ali antes?


Rosa Maria n.Âş 10 dezembro ‘18

Banda Desenhada

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Profile for renovar a mouraria

Rosa Maria nº10  

Jornal Rosa Maria nº10, o jornal da Mouraria. Publicação comunitária!

Rosa Maria nº10  

Jornal Rosa Maria nº10, o jornal da Mouraria. Publicação comunitária!

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