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COMUNICAÇÕES MAIO DE 2014

ESPECIAL

ESPECIAL: VIAGEM À TERRA SANTA

Viagem do Papa Francisco à Terra Santa

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APRESENTAÇÃO

C

om o tema “Que todos sejam um“, a viagem do Papa teve início no dia 24 de maio, um sábado, no reino da Jordânia; passou pela Palestina, no domingo (25); e por Israel, onde o Papa permaneceu durante toda a segunda-feira (26), quando retornou ao Vaticano. A viagem do Santo Padre reuniu muitos gestos simbólicos e abriu novas esperanças para uma região em que as negociações de paz entre palestinos e israelenses estão estancadas há vários anos. No reino da Jordânia, o Santo Padre elogiou o modelo de convivência inter-religiosa existente no país. No Estado da Palestina, afirmou que é hora de dar fim ao conflito, parou diante do muro que separa a Palestina de Israel e rezou pela paz na Síria, além de convidar o presidente palestino e o de Israel a “irem à minha casa em Roma” para rezar pela paz. Em Israel, Francisco encontrou o Patriarca Bartolomeu, visitou a Esplanada das Mesquitas, pedindo que sejam evitadas quaisquer atitudes que comprometam a paz, e foi ao Muro das Lamentações, onde rezou e abraçou o rabino Skorka e o líder muçulmano Abboud, demonstrando que a sincera amizade inter-religiosa é possível. No mesmo dia, o Papa rezou diante do memorial às

vítimas do terrorismo e foi ao Yad Vashem, o Museu do Holocausto, onde declarou um “nunca mais”, referindo-se, inclusive, ao atentado xenófobo e antissemita cometido no sábado, 24, na Bélgica. Francisco também se encontrou com o presidente e com o primeiro-ministro de Israel e plantou com eles uma oliveira, símbolo da paz. A viagem do Papa incluiu encontros com as periferias, com os doentes, com os feridos pela vida e pelas guerras, com os órfãos e com os refugiados, além de uma reunião com religiosas, religiosos, sacerdotes, seminaristas e fiéis que diariamente dão testemunho de Jesus e da sua fé católica. A viagem do Papa marcou o quinquagésimo aniversário da visita do Papa Paulo VI, que em 1964 tornou-se o primeiro Pontífice, depois de Pedro, a pôr os pés na terra de Jesus. O Patriarca de Constantinopla, Bartolomeu, no retorno a Jerusalém, após o encontro com o Papa no Santo Sepulcro, anunciou: “Junto com o Papa Francisco concordamos em deixar como um legado para nós mesmos e para nossos sucessores o reencontro em Niceia, em 2025, para celebrarmos juntos, depois de 17 séculos, o primeiro sínodo verdadeiramente ecumênico, onde foi autenticado o Credo”.

ESPECIAL: VIAGEM À TERRA SANTA

SUMÁRIO

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03 Papa Francisco chega à Jordânia 05 Missa no Estádio Internacional de Amã 09 Papa se encontra com as crianças refugiadas 11 O encontro do Papa com o presidente Mahmoud Abbas 13 Celebração eucarística na Praça da Manjedoura 17 O convite pela paz e o encontro de oração no Vaticano 18 Em Belém, novo encontro com as crianças refugiadas 19 Papa é recebido pelo presidente Simon Peres em Israel 22 O momento histórico da viagem

28 Encontro com os muçulmanos 30 Papa reza no Muro das Lamentações 32 Com o Grande Rabinato de Jerusalém 34 Papa e Peres: uma oliveira pela paz 37 Encontro com os religiosos 39 Celebração eucarística no Cenáculo 41 Entrevista no voo de volta a Roma 47 Entrevista com franciscano da Terra Santa

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SÁBADO – 24 DE MAIO

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Papa Francisco chegou no sábado (24/5) à Jordânia, primeira parada de sua viagem de três dias pelo Oriente Médio. A visita do Pontífice teve como objetivo destacar o diálogo entre as religiões e a necessidade de buscar uma solução pacífica para os conflitos na região, além de levar apoio à decrescente população cristã no local. Essa é a quarta vez que um Papa visita o Oriente Médio. Com a viagem, o Papa comemora o histórico encontro entre o Papa Paulo VI e o Patriarca Ortodoxo Atenágoras I de Constantinopla, em 5 de janeiro de 1964, em Jerusalém, uma reunião que revogou a excomunhão de 1054 e causou a divisão entre as igrejas do Oriente e do Ocidente. O Papa Francisco foi recebido pelo rei da Jordânia, Abdullah II, no Palácio Real em Amã, que manifestou seu apoio às comunidades cristãs da Jordânia, alertando para a sua proteção em todo país num momento em que os cristãos estão sob pressão das autoridades islâmicas. Em seu discurso, Francisco disse que a Jordânia é uma terra de grande significado religioso para o judaísmo, o cristianismo e o islamismo e destacou o acolhimento do país a refugiados palestinos, iraquianos e provenientes

de outras áreas de crise como a Síria. “Tal acolhimento merece a estima e o apoio da comunidade internacional.” O Papa encorajou as autoridades a continuarem o empenho na busca da paz duradoura para toda a região e destacou a necessidade de uma solução pacífica para o conflito na Síria e o conflito entre israelenses e palestinos. Francisco expressou gratidão à Jordânia pelas iniciativas em prol do diálogo inter-religioso. “Aproveito esta oportunidade para renovar o meu profundo respeito e a minha estima à comunidade muçulmana e manifestar o meu apreço pela função de guia desempenhada por Sua Majestade na promoção duma compreensão mais adequada das virtudes proclamadas pelo Islã e da serena convivência entre os fiéis das diferentes religiões.” Ao saudar a minoria cristã que vive na região, Francisco ressaltou a contribuição deles para o bem comum da sociedade e a vivência pacífica da fé. O rabino de Buenos Aires, Abraham Skorka, e o líder muçulmano Omar Abboud, presidente do Instituto do Diálogo Inter-religioso da capital argentina, “dois amigos”, acompanharam Francisco em sua primeira visita à Terra Santa.

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A 4ª VISITA DE UM PAPA AO ORIENTE MÉDIO

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ÍNTEGRA DO DISCURSO

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Majestade, Excelências, Amados Irmãos Bispos, Queridos Amigos! Agradeço a Deus por poder visitar o Reino Hachemita da Jordânia, seguindo os passos dos meus antecessores Paulo VI, João Paulo II e Bento XVI, e agradeço à Sua Majestade o Rei Abdullah II pelas suas cordiais palavras de boas-vindas, com viva recordação do recente encontro no Vaticano. Estendo a minha saudação aos membros da Família Real, ao governo e ao povo da Jordânia, uma terra rica de história e de grande significado religioso para o judaísmo, o cristianismo e o islamismo. Este país oferece generoso acolhimento a um grande número de refugiados palestinos, iraquianos e de outras áreas de crise, nomeadamente da vizinha Síria, abalada por um conflito que já dura há muito tempo. Tal acolhimento merece, Majestade, a estima e o apoio da comunidade internacional. A Igreja Católica quer, na medida das suas possibilidades, empenhar-se na assistência aos refugiados e a quem vive em necessidade, sobretudo através da Cáritas Jordaniana. Ao mesmo tempo que constato, com pena, a persistência de fortes tensões no Oriente Médio, agradeço às autoridades do Reino aquilo que fazem e encorajo a continuarem a empenhar-se na busca da desejada paz duradoura para toda a região; para tal objetivo, torna-se imensamente

necessária e urgente uma solução pacífica para a crise síria, bem como uma solução justa para o conflito israelita-palestino. Aproveito esta oportunidade para renovar o meu profundo respeito e a minha estima à comunidade muçulmana e manifestar o meu apreço pela função de guia desempenhada por Sua Majestade na promoção de uma compreensão mais adequada das virtudes proclamadas pelo Islã e da serena convivência entre os fiéis das diferentes religiões. Sua Majestade é conhecido como um homem de paz e artífice de paz: obrigado! Exprimo a minha gratidão à Jordânia por ter incentivado uma série de importantes iniciativas em prol do diálogo inter-religioso visando promover a compreensão entre judeus, cristãos e muçulmanos, nomeadamente a “Mensagem Inter-religiosa de Amã”, e por ter promovido no âmbito da ONU a celebração anual da “Semana de Harmonia entre as Religiões”. Uma saudação cheia de afeto quero agora dirigir às comunidades cristãs, acolhidas por este Reino, comunidades presentes no país desde a era apostólica, elas oferecem a sua contribuição para o bem comum da sociedade na qual estão plenamente inseridas. Embora hoje sejam numericamente minoritárias, conseguem desempenhar uma qualificada e apreciada ação no campo da educação e da saúde, através de escolas e hospitais, e podem professar com tranquilidade a

sua fé, no respeito da liberdade religiosa, que é um direito humano fundamental, esperando vivamente que o mesmo seja tido em grande consideração em todo o Oriente Médio e no mundo inteiro. Tal direito “implica tanto a liberdade individual e coletiva de seguir a própria consciência, em matéria de religião, como a liberdade de culto (...), a liberdade de escolher a religião que se crê ser verdadeira e de manifestar publicamente a própria crença” (Bento XVI, Exort. ap. Ecclesia in Medio Oriente, 26). Os cristãos sentem-se e são cidadãos de pleno direito e pretendem contribuir para a construção da sociedade, juntamente com os seus compatriotas muçulmanos, oferecendo a sua específica contribuição. Por fim, formulo sentidos votos de paz e prosperidade para o Reino da Jordânia e seu povo, com a esperança de que esta visita contribua para incrementar e promover boas e cordiais relações entre cristãos e muçulmanos. E que o Senhor Deus nos defenda a todos daquele medo da mudança a que aludia Sua Majestade. Agradeço-vos pela vossa calorosa recepção e cortesia. Deus Onipotente e Misericordioso conceda a Suas Majestades felicidade e longa vida e cubra a Jordânia com as suas bênçãos. Salam! Palácio Real em Amã Sábado, 24 de maio de 2014


MISSA NO ESTÁDIO DE AMÃ

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ma grande multidão de fiéis acompanhou o Papa Francisco na celebração litúrgica, no Estádio Internacional de Amã, na Jordânia, animada previamente por alguns cantos em espanhol. A Missa foi celebrada em árabe, embora o Santo Padre tenha pronunciado a homilia em italiano. No trecho do Evangelho, lido na Missa, Jesus promete aos Apóstolos o envio do Espírito Santo. “Eu apelarei ao Pai e Ele vos dará outro Paráclito para que esteja sempre convosco” (Jo 14, 16). Neste contexto, o Santo Padre destacou três ações do Espírito Santo: preparar, ungir e enviar. No momento do batismo, explica o Papa, o “Espírito pousa sobre Jesus a fim de O preparar para a sua missão de salvação; missão caracterizada pelo estilo do Servo humilde e manso, pronto à partilha e ao dom total de Si mesmo”. Francisco explicou que a missão do Espírito Santo é gerar harmonia – “Ele mesmo é harmonia” – e realizar a paz nos vários contextos e entre diferentes sujeitos. “A diferença de pessoas e a divergência de pensamento não devem provocar rejeição nem criar obstáculo, porque a variedade é sempre enriquecedora”, destacou. Depois, disse Francisco, o Espírito Santo unge, como

fez com Jesus e os discípulos para que tivessem os mesmos sentimentos de seu mestre. Esta ação do Espírito Santo torna os cristãos capazes de amar, favorecendo a paz e a comunhão. Por fim, o Papa pontuou a terceira ação do Espírito Santo: o envio. “Jesus é o Enviado, cheio do Espírito do Pai. Ungidos pelo mesmo Espírito, também nós somos enviados como mensageiros e testemunhas de paz”, disse. Neste sentido, o Papa afirmou que a paz não se pode comprar. Ela é um dom que se deve buscar pacientemente e construir “artesanalmente”, através dos pequenos e grandes gestos que formam a vida cotidiana. No fim da homilia, Francisco rezou para que o Espírito Santo prepare os corações para o encontro com os irmãos independentemente das diferenças de ideias, língua, cultura e religião. Desejou ainda que se curem as feridas dos erros, das incompreensões, das controvérsias. “Que nos envie, com humildade e mansidão, pelas sendas desafiadoras mas fecundas da busca da paz”, pediu o Pontífice. Durante a Missa, cerca de 1.400 crianças receberam pela primeira vez a Eucaristia. Mais de 30 mil pessoas participaram da celebração com o Pontífice, num clima de muita emoção.

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PRIMEIRO CONTATO COM A MULTIDÃO

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ÍNTEGRA DA HOMILIA

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Ouvimos, no Evangelho, a promessa de Jesus aos discípulos: “Eu apelarei ao Pai e Ele vos dará outro Paráclito para que esteja sempre convosco” (Jo 14, 16). O primeiro Paráclito é o próprio Jesus; o “outro” é o Espírito Santo. Aqui não estamos muito longe do lugar onde o Espírito Santo desceu poderosamente sobre Jesus de Nazaré, depois de João O ter batizado no rio Jordão (cf. Mt 3, 16). Por isso, o Evangelho deste domingo e também este lugar, onde, graças a Deus, me encontro como peregrino, convidam-nos a meditar sobre o Espírito Santo, sobre aquilo que Ele realiza em Cristo e em nós e que podemos resumir da seguinte maneira: o Espírito realiza três ações, ou seja, prepara, unge e envia. No momento do batismo, o Espírito pousa sobre Jesus a fim de O preparar para a sua missão de salvação; missão caracterizada pelo estilo do Servo humilde e manso, pronto à partilha e ao

dom total de Si mesmo. Mas o Espírito Santo, presente desde o início da história da salvação, já tinha agido em Jesus no momento da sua concepção no ventre virginal de Maria de Nazaré, realizando o evento maravilhoso da encarnação: “O Espírito Santo virá sobre ti – diz o Anjo a Maria – e a força do Altíssimo estenderá sobre ti a sua sombra, e tu darás à luz um filho, ao qual porás o nome de Jesus” (cf. Lc 1, 35.31). Depois, o Espírito Santo tinha atuado sobre Simeão e Ana, no dia da apresentação de Jesus no templo (cf. Lc 2, 22). Ambos à espera do Messias, ambos inspirados pelo Espírito Santo, Simeão e Ana, à vista do Menino, intuem que Ele é mesmo o Esperado por todo o povo. A atitude profética dos dois anciãos exprime-se na alegria do encontro com o Redentor e, de certo modo, atua-se uma preparação do encontro entre o Messias e o povo. As diferentes intervenções do Espírito Santo fazem parte de uma ação harmônica, de um único

projeto divino de amor. Com efeito, a missão do Espírito Santo é gerar harmonia – Ele mesmo é harmonia – e realizar a paz nos vários contextos e entre diferentes sujeitos. A diferença de pessoas e a divergência de pensamento não devem provocar rejeição nem criar obstáculo, porque a variedade é sempre enriquecedora. Por isso hoje, com coração ardente, invoquemos o Espírito Santo, pedindo-Lhe que prepare o caminho da paz e da unidade. Em segundo lugar, o Espírito Santo unge. Ungiu interiormente Jesus, e unge os discípulos para que tenham os mesmos sentimentos de Jesus e possam, assim, assumir na sua vida atitudes que favoreçam a paz e a comunhão. Com a unção do Espírito, a nossa humanidade é marcada pela santidade de Jesus Cristo e tornamo-nos capazes de amar os irmãos com o mesmo amor com que Deus nos ama. Portanto, é necessário praticar gestos de humildade, fraternidade, perdão e reconciliação. Estes ges-


tos são pressuposto e condição para uma paz verdadeira, sólida e duradoura. Peçamos ao Pai que nos unja para nos tornarmos plenamente seus filhos, configurados cada vez mais a Cristo, a fim de nos sentirmos todos irmãos e, assim, afastar de nós rancores e divisões e amar-nos fraternalmente. Isto mesmo nos pediu Jesus no Evangelho: “Se me tendes amor, cumprireis os meus mandamentos, e Eu apelarei ao Pai e Ele vos dará outro Paráclito para que esteja sempre convosco” (Jo 14, 15-16). E, por último, o Espírito Santo envia. Jesus é o Enviado, cheio do Espírito do Pai. Ungidos pelo mesmo Espírito, também nós somos enviados como mensageiros e testemunhas de paz. A paz não se pode comprar: é um dom que

se deve buscar pacientemente e construir “artesanalmente” através dos pequenos e grandes gestos que formam a nossa vida diária. Consolida-se o caminho da paz se reconhecermos que todos temos o mesmo sangue e fazemos parte do gênero humano; se não nos esquecermos que temos um único Pai celeste e que todos nós somos seus filhos, feitos à sua imagem e semelhança. Neste espírito, vos abraço a todos: o Patriarca, os irmãos Bispos, os sacerdotes, as pessoas consagradas, os fiéis leigos, a multidão de crianças que hoje fazem a Primeira Comunhão e os seus familiares. Com todo o meu coração saúdo também os numerosos refugiados cristãos que vieram da Palestina, da Síria e do Iraque: levai às vossas famílias e

comunidades a minha saudação e a minha solidariedade. Queridos amigos! O Espírito Santo desceu sobre Jesus no Jordão e deu início à sua obra de redenção para libertar o mundo do pecado e da morte. A Ele pedimos que prepare os nossos corações para o encontro com os irmãos independentemente das diferenças de ideias, língua, cultura, religião; que unja todo o nosso ser com o óleo da sua misericórdia que cura as feridas dos erros, das incompreensões, das controvérsias; que nos envie, com humildade e mansidão, pelas sendas desafiadoras mas fecundas da busca da paz. Amém! Estádio Internacional de Amã (Jordânia) Sábado, 24 de maio de 2014

Papa reza em silêncio O Papa Francisco visitou ainda no sábado o Rio Jordão, local em que Jesus foi batizado. O Papa não fez nenhum discurso, mas sim uma oração silenciosa. O Rio Jordão, localizado na fronteira entre Israel e Jordânia, palco de conflitos, é citado em vários trechos das Sagradas Escrituras como o local do batismo de Jesus, por seu primo João Batista e da manifestação da Santíssima Trindade. Peregrinos do mundo inteiro renovam as promessas batismais em suas águas. O Rio, hoje, sofre com a poluição. Esse foi o terceiro compromisso de Francisco na Jordânia.

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NO RIO JORDÃO

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O garoto com síndrome de Down abraça o Papa


COM AS VÍTIMAS DA GUERRA E PORTADORES DE DEFICIÊNCIA meio da compaixão por quem sofre e da busca de uma solução política. Aos jovens deficientes, Francisco pediu que se unam a ele em oração pela paz. “Podeis fazê-lo também oferecendo a Deus as vossas fadigas diárias, tornando-se assim particularmente preciosa e eficaz a vossa oração”. Encorajou-os a colaborar na construção de uma sociedade respeitadora dos mais frágeis, dos doentes, das crianças e dos idosos. “Apesar das dificuldades da vida, sede sinal de esperança. Vós estais no coração de Deus e das minhas orações, e agradeço-vos pela vossa presença entusiasta e numerosa”, disse. No final do encontro, o Santo Padre voltou a falar da Síria. Fez votos de que o país reencontre, com a ajuda da comunidade internacional, o caminho da paz. E pediu: “Deus converta os violentos e aqueles que têm projetos de guerra e reforce os corações e as mentes dos operadores de paz e os recompense com todas as bênçãos”. O encontro com os refugiados e os jovens foi o último programa das atividades do Papa na Jordânia.

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um encontro afetuoso, o Papa Francisco dirigiu-se aos refugiados que estão na Jordânia, originários da Síria e Iraque, regiões de constantes conflitos. O encontro aconteceu na tarde do sábado, 24, na Igreja Latina de Betânia. Deste momento, participaram cerca de 600 pessoas, entre elas alguns jovens portadores de deficiência. No discurso, o Papa fez forte apelo à comunidade internacional em favor da Jordânia, pedindo que não a deixe sozinha no enfrentamento da emergência humanitária, provocada pela chegada do alto número de refugiados à região. O Pontífice lembrou com insistência da situação síria e renovou o seu apelo pela paz na região. “Cessem as violências e seja respeitado o direito humanitário, garantindo a necessária assistência à população que sofre! Todos descartem a pretensão de deixar às armas a solução dos problemas e voltem ao caminho das negociações”. Segundo o Papa, tais conflitos só podem ser solucionados pelo diálogo e a moderação, assim como por

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ÍNTEGRA DO DISCURSO

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Estimadas Autoridades, Excelências, Amados irmãos e irmãs!

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Na minha peregrinação, desejei ardentemente encontrar-me convosco que, devido a conflitos sangrentos, tivestes de deixar as vossas casas e a vossa pátria, encontrando refúgio nesta terra hospitaleira da Jordânia e também convosco, queridos jovens, que sentis o peso de alguma limitação física. Este lugar, onde nos encontramos, lembra-nos o batismo de Jesus. Vindo aqui ao Jordão para ser batizado por João, mostra a sua humildade e a partilha da condição humana: abaixa-Se até nós e, com o seu amor, devolve-nos a dignidade e dá-nos a salvação. Não cessa de nos impressionar esta humildade de Jesus, que Se debruça sobre as feridas humanas para curá-las. E, da nossa parte, ficamos profundamente tocados com os dramas e as feridas do nosso tempo, especialmente as feridas provocadas pelos conflitos ainda em curso no Oriente Médio. Penso, em primeiro lugar, na Síria, dilacerada por uma luta fratricida que dura há três anos e já ceifou inúmeras vítimas, obrigando milhões de pessoas a se tornarem refugiados e exilados em outros países. Agradeço às autoridades

e ao povo jordaniano pela generosa hospitalidade dada a um número altíssimo de refugiados provenientes da Síria e do Iraque, e estendo os meus agradecimentos a todos aqueles que lhes prestam ajuda nas várias obras de assistência e solidariedade. Penso também na obra de caridade realizada por instituições da Igreja como a Cáritas Jordaniana e outras que, assistindo aos necessitados sem distinção de crença religiosa, filiação étnica ou ideológica, manifestam o esplendor do rosto caritativo de Jesus misericordioso. Deus todo-poderoso e clemente vos abençoe a todos e a cada um dos vossos esforços por aliviar os sofrimentos causados pela guerra! Faço apelo à comunidade internacional para que não deixe a Jordânia sozinha enfrentando a emergência humanitária provocada pela chegada ao seu território de um número tão alto de refugiados, mas continue e incremente a sua ação de apoio e ajuda. E renovo o meu apelo mais veemente pela paz na Síria. Cessem as violências e seja respeitado o direito humanitário, garantindo a necessária assistência à população que sofre! Todos descartem a pretensão de deixar às armas a solução dos problemas e voltem ao caminho das negociações.

Na realidade, a solução só pode vir do diálogo e da moderação, da compaixão por quem sofre, da busca de uma solução política e do sentido de responsabilidade pelos irmãos. A vós, jovens, peço que vos unais à minha oração pela paz. Podeis fazê-lo também oferecendo a Deus as vossas fadigas diárias, tornando-se assim particularmente preciosa e eficaz a vossa oração. E encorajo-vos a colaborar, com o vosso empenho e a vossa sensibilidade, na construção de uma sociedade respeitadora dos mais frágeis, dos doentes, das crianças, dos idosos. Apesar das dificuldades da vida, sede sinal de esperança. Vós estais no coração de Deus e das minhas orações, e agradeço-vos pela vossa presença entusiasta e numerosa. No final deste encontro, renovo meus votos de que prevaleçam a razão e a moderação e que a Síria reencontre, com a ajuda da comunidade internacional, o caminho da paz. Deus converta os violentos e aqueles que têm projetos de guerra e reforce os corações e as mentes dos operadores de paz e os recompense com todas as bênçãos. Encontro com os refugiados e jovens deficientes, na Jordânia Sábado, 24 de maio de 2014


NA PALESTINA – 25 DE MAIO

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o domingo, o Papa Francisco chegou à Palestina. No encontro com as autoridades palestinas, Francisco recordou a situação de conflitos e incertezas no Oriente Médio, causando “feridas difíceis de curar”. Ele manifestou sua solidariedade aos que sofrem as consequências desses conflitos, disse que é hora de pôr fim a essa situação “inaceitável” e pediu esforços redobrados para criar condições a uma paz estável. “Para todos, chegou o momento de terem a coragem da generosidade e da criatividade ao serviço do bem, a coragem da paz, que se assenta sobre o reconhecimento, por parte de todos, do direito que têm dois Estados de existir e gozar de paz e segurança dentro de fronteiras internacionalmente reconhecidas”. O Santo Padre explicou que a paz levará inúmeros benefícios para o povo daquela região e do mundo todo, portanto é preciso caminhar para a paz, o que requer que cada um renuncie a alguma coisa. Ele expressou seus votos de que palestinos e israelitas, com suas respectivas autoridades, empreendam esforços para a paz com coragem e firmeza.

Não faltou no discurso do Papa uma referência aos cristãos que vivem no Oriente Médio. “Os cristãos querem continuar a desempenhar o seu papel como cidadãos de pleno direito, juntamente com os demais concidadãos considerados como irmãos”. Ele citou sua presença na Palestina e a recente estadia do presidente palestino, Mahmoud Abbas, no Vaticano, como fatores que atestam as boas relações entre a Santa Sé e o Estado da Palestina. Francisco destacou seu apreço pelos esforços para elaborar um acordo entre as partes relativo a aspectos da vida da comunidade católica do país, com especial atenção à liberdade religiosa. “Com efeito, o respeito deste direito humano fundamental é uma das condições irrenunciáveis da paz, da fraternidade e da harmonia; mostra ao mundo que é indispensável e possível encontrar um bom acordo entre culturas e religiões diferentes; testemunha que as coisas que temos em comum são tantas e tão importantes que é possível individuar uma estrada de convivência serena, ordenada e pacífica, na aceitação das diferenças e na alegria de sermos irmãos porque filhos de um único Deus”.

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PEDIDO DE PAZ

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ÍNTEGRA DO DISCURSO

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Senhor Presidente, Queridos amigos!

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Agradeço-lhe, Senhor Presidente Mahmoud Abbas, as palavras de boas-vindas e dirijo a minha cordial saudação aos representantes do governo e a todo o povo palestino. Estou grato ao Senhor por estar hoje convosco neste lugar, onde nasceu Jesus, o Príncipe da Paz, e agradeço-vos pela vossa calorosa recepção. Há decênios que o Oriente Médio vive as consequências dramáticas do prolongamento de um conflito que produziu tantas feridas difíceis de curar e, mesmo quando, felizmente, não se alastra a violência, a incerteza da situação e a falta de entendimento entre as partes produzem insegurança, negação de direitos, isolamento e saída de comunidades inteiras, divisões, carências e sofrimentos de todo o tipo. Ao manifestar a minha solidariedade a quantos sofrem na medida maior as consequências deste conflito, queria do fundo do coração dizer que é hora de pôr fim a esta situação, que se torna sempre mais inaceitável, e isto para bem de todos. Por isso redobrem-se os esforços e as iniciativas destinadas a criar as condições para uma paz estável, baseada na justiça, no reconhecimento dos direitos de cada um e na segurança mútua. Para todos, chegou o momento de terem a coragem da generosidade e da criatividade ao serviço do bem, a coragem da paz, que se assenta

sobre o reconhecimento, por parte de todos, do direito que têm dois Estados de existir e gozar de paz e segurança dentro de fronteiras internacionalmente reconhecidas. Com esta finalidade, espero vivamente que, por parte de todos, se evitem iniciativas e ações que contradizem a declarada vontade de chegar a um verdadeiro acordo e que não nos cansemos de buscar a paz com determinação e coerência. A paz trará consigo inúmeros benefícios para os povos desta região e para o mundo inteiro. É preciso, portanto, encaminhar-se decididamente para ela, inclusive com a renúncia a alguma coisa por parte de cada um. Faço votos de que os povos palestino e israelita e suas respectivas autoridades empreendam essa missão feliz para a paz com aquela coragem e aquela firmeza que são necessárias em qualquer missão. A paz na segurança e a confiança mútua tornar-se-ão o quadro estável de referência para enfrentar e resolver os outros problemas e, assim, proporcionar uma oportunidade de desenvolvimento equilibrado tal que se torne modelo para outras áreas de crise. Apraz-me aqui fazer referência à comunidade cristã que diligentemente presta a sua significativa contribuição para o bem comum da sociedade e que participa das alegrias e penas de todo o povo. Os cristãos querem continuar a desempenhar o seu papel como cidadãos de pleno direito, juntamente com os demais concidadãos considerados como irmãos.

O recente encontro no Vaticano com Vossa Excelência, Senhor Presidente, e a minha presença hoje aqui na Palestina atestam as boas relações existentes entre a Santa Sé e o Estado da Palestina, esperando que possam incrementar-se ainda mais para bem de todos. A este respeito, exprimo o meu apreço pelos esforços feitos para elaborar um acordo entre as partes relativo aos diferentes aspectos da vida da comunidade católica do país, com especial atenção à liberdade religiosa. Com efeito, o respeito deste direito humano fundamental é uma das condições irrenunciáveis da paz, da fraternidade e da harmonia; mostra ao mundo que é indispensável e possível encontrar um bom acordo entre culturas e religiões diferentes; testemunha que as coisas que temos em comum são tantas e tão importantes que é possível visualizar uma estrada de convivência serena, ordenada e pacífica, na aceitação das diferenças e na alegria de sermos irmãos porque filhos de um único Deus. Senhor Presidente, queridos amigos reunidos aqui em Belém, Deus Todo-poderoso vos abençoe, proteja e conceda a sabedoria e a força necessárias para levar adiante o corajoso caminho da paz, de tal modo que as espadas se transformem em arados e esta terra possa voltar a florescer na prosperidade e na concórdia. Salam! Palácio Presidencial de Belém Domingo, 25 de maio


PRAÇA DA MANJEDOURA

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Papa Francisco presidiu a Santa Missa do domingo, 25, na Praça da Manjedoura, em Belém, local onde, segundo a tradição cristã,

Jesus nasceu. Na homilia, o Pontífice refletiu sobre a citação do Evangelho que diz: “Isto vos servirá de sinal: encontrareis um menino envolto em panos e deitado numa manjedoura” (Lc 2, 12). E ressaltou que o menino Jesus, que nasceu em Belém, foi “o sinal dado por Deus” a quem esperava a salvação, mas é um sinal que permanece para sempre, “da ternura de Deus e da sua presença no mundo”. Francisco explicou que também, hoje, as crianças são um sinal de esperança, de vida e também um “diagnóstico” para compreender o estado de saúde de uma família ou sociedade. “Quando as crianças são acolhidas, amadas,

protegidas, tuteladas, a família é sadia, a sociedade melhora, o mundo é mais humano”, disse. O Menino de Belém é frágil, como todos os recém-nascidos, por isso, destacou o Papa, como qualquer criança ele precisa ser ajudado e protegido. “Também hoje as crianças precisam ser acolhidas e defendidas, desde o ventre materno”. O Pontífice chamou a atenção para uma realidade contraditória: neste mundo que desenvolveu as tecnologias mais sofisticadas, ainda há muitas crianças que vivem em condições desumanas à margem da sociedade. Há crianças maltratadas, exploradas, escravizadas, vítimas de violência e de tráficos ilícitos ou ainda, crianças exiladas, refugiadas, que por vezes acabaram vítimas de naufrágios. “De tudo isto nos envergonhamos hoje diante de Deus. Deus que

ESPECIAL: VIAGEM À TERRA SANTA

“Quem somos nós diante de Jesus Menino?”

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ESPECIAL: VIAGEM À TERRA SANTA

Se fez menino”, enfatizou. Francisco questionou os fiéis sobre qual sua atitude diante de Jesus Menino: São como Maria e José que acolhem e cuidam de Jesus ou como Herodes que quer matá-lo? São como os pastores, que se apressam para adorá-lo ou ficam indiferentes? Talvez aquela criança chore, diz o Papa, por fome, frio ou porque quer colo. “Também, hoje, as crianças choram (e choram muito!), e o seu choro interpela-nos. Num mundo que descarta diariamente toneladas de alimentos e remédios, há crianças que choram, sem ser preciso, por fome e doenças facilmente curáveis”, alertou. Cada criança que nasce e cresce, explicou o Pontífice, é sinal de diagnóstico, que permite verificar o estado de saúde de sua família, de sua comunidade e sua nação. “Deste diagnóstico franco e honesto, pode brotar um novo estilo de vida, onde as relações deixem de ser de conflito, de opressão, de consumismo, para serem relações de fraternidade, de perdão e reconciliação, de partilha e de amor”, concluiu. Após a Santa Missa, Francisco almoçou com algumas famílias da Palestina no Convento Franciscano da Casa Nova em Belém.

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ÍNTEGRA DA HOMILIA

“Isto vos servirá de sinal: encontrareis um menino envolto em panos e deitado numa manjedoura” (Lc 2, 12). Que grande graça celebrar a Eucaristia junto do lugar onde nasceu Jesus! Agradeço a Deus e agradeço a vós que me acolhestes nesta minha peregrinação: o Presidente Mahmoud Abbas e demais autoridades; o Patriarca Fouad Twal, os outros Bispos e os Ordinários da Terra Santa, os sacerdotes, as pessoas consagradas e quantos trabalham por manter viva a fé, a esperança e a caridade nestes territórios; as delegações de fiéis vindas de Gaza, da Galileia, os imigrantes da Ásia e da África. Obrigado pela vossa recepção! O Menino Jesus, nascido em Belém, é o sinal dado por Deus a quem esperava


de tráficos ilícitos. Demasiadas são hoje as crianças exiladas, refugiadas, por vezes afundadas nos mares, especialmente nas águas do Mediterrâneo. De tudo isto nos envergonhamos hoje diante de Deus, Deus que Se fez Menino. E interrogamo-nos: Quem somos nós diante de Jesus Menino? Quem somos nós diante das crianças de hoje? Somos como Maria e José que acolhem Jesus e cuidam d’Ele com amor maternal e paternal? Ou somos como Herodes, que quer eliminá-Lo? Somos como os pastores, que se apressam a adorá-Lo prostrando-se diante d’Ele e oferecendo-Lhe os seus presentes humildes? Ou então ficamos indiferentes? Por acaso limitamo-nos à retórica e ao pietismo, sendo pessoas que exploram as imagens das crianças pobres para fins de lucro? Somos capazes de permanecer junto delas, de “perder tempo” com elas? Sabemos ouvi-las, defendê-las, rezar por elas e com elas? Ou negligenciamo-las, preferindo ocupar-nos dos nossos interesses? “Isto vos servirá de sinal: encontrareis um menino…”. Talvez aquela criança chore! Chora porque tem fome, porque tem frio, porque quer colo… Também hoje as crianças choram (e choram muito!), e o seu choro interpela-nos. Num mundo que descarta diariamente toneladas de alimentos e remédios, há crianças que choram, sem ser preciso, por fome e doenças facilmente curáveis. Num tempo que pro-

clama a tutela dos menores, comercializam-se armas que acabam nas mãos de crianças-soldado; comercializam-se produtos confeccionados por pequenos trabalhadores-escravos. O seu choro é sufocado: têm que combater, têm que trabalhar, não podem chorar! Mas choram por elas as mães, as Raquéis de hoje: choram os seus filhos, e não querem ser consoladas (cf. Mt 2, 18). “Isto vos servirá de sinal”. O Menino Jesus nasceu em Belém, cada criança que nasce e cresce em qualquer parte do mundo é sinal de diagnóstico, que nos permite verificar o estado de saúde da nossa família, da nossa comunidade, da nossa nação. Deste diagnóstico franco e honesto, pode brotar um novo estilo de vida, onde as relações deixem de ser de conflito, de opressão, de consumismo, para serem relações de fraternidade, de perdão e reconciliação, de partilha e de amor. Ó Maria, Mãe de Jesus, Vós que acolhestes, ensinai-nos a acolher; Vós que adorastes, ensinai-nos a adorar; Vós que acompanhastes, ensinai-nos a acompa nhar. Amém.

Papa Francisco Santa Missa na Praça da Manjedoura, em Belém Domingo, 25 de maio de 2014

ESPECIAL: VIAGEM À TERRA SANTA

a salvação, e permanece para sempre o sinal da ternura de Deus e da sua presença no mundo. “Isto vos servirá de sinal: encontrareis um menino…”. Também hoje as crianças são um sinal. Sinal de esperança, sinal de vida, mas também sinal de “diagnóstico” para compreender o estado de saúde duma família, duma sociedade, do mundo inteiro. Quando as crianças são acolhidas, amadas, protegidas, tuteladas, a família é sadia, a sociedade melhora, o mundo é mais humano. Pensemos na obra que realiza o Instituto Effathá Paulo VI a favor das crianças surdas-mudas palestinas: é um sinal concreto da bondade de Deus. Deus repete também a nós, homens e mulheres do século XXI: “Isto vos servirá de sinal, procurai o menino…” O Menino de Belém é frágil, como todos os recém-nascidos. Não sabe falar e, no entanto, é a Palavra que Se fez carne e veio para mudar o coração e a vida dos homens. Aquele Menino, como qualquer criança, é frágil e precisa ser ajudado e protegido. Também hoje as crianças precisam ser acolhidas e defendidas, desde o ventre materno. Infelizmente, neste nosso mundo que desenvolveu as tecnologias mais sofisticadas, ainda há tantas crianças em condições desumanas, que vivem à margem da sociedade, nas periferias das grandes cidades ou nas zonas rurais. Ainda hoje há tantas crianças exploradas, maltratadas, escravizadas, vítimas de violência e

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O MURO QUE DIVIDE

CONVITE PELA PAZ O

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papa Francisco fez uma parada surpresa no muro visto pelos palestinos como um símbolo da opressão israelense, no domingo, minutos após pedir a ambos os lados que acabem com o conflito, que disse não ser mais aceitável. Em uma imagem que deve se tornar uma das mais emblemáticas de sua viagem à Terra Santa, um Francisco com olhar sombrio descansa a cabeça contra a estrutura de concreto que separa Belém de Jerusalém, e reza em silêncio enquanto uma criança segurando a bandeira palestina o observa. Ele estava em um local onde alguém havia pichado em tinta vermelha “Palestina Livre”. Acima de sua cabeça, um grafite em um inglês mal escrito: “Belém parece gueto da Varsóvia”, comparando a condição dos palestinos com a dos judeus sob o regime nazista. Israel diz que a barreira, erguida há 10 anos durante uma onda de bombardeios suicidas de palestinos, é necessária para sua segurança. Os palestinos a veem como uma tentativa de Israel dividir o território e conquistar terras que eles querem 16 para seu futuro Estado.

No segundo dia de uma viagem ao Oriente Médio, Francisco encantou seus anfitriões palestinos ao referir-se ao “Estado da Palestina”, dando apoio ao total reconhecimento de sua soberania diante de negociações de paz paralisadas. Porém, falando do local de nascimento de Jesus na cidade de Belém, governada por palestinos em uma Cisjordânia ocupada por israelenses, ele deixou claro que um acordo negociado era necessário, chamando os líderes de ambos os lados para superarem suas inúmeras divergências. Francisco convidou os presidentes israelense e palestino ao Vaticano para rezarem pelo fim do contínuo conflito, um mês depois do fracasso das negociações de paz apoiadas pelos Estados Unidos. “Aqui, no local de nascimento do Príncipe da Paz, eu gostaria de convidá-lo, Presidente Mahmoud Abbas, junto com o Presidente Shimon Peres, a se juntarem a mim em uma sincera oração a Deus pelo dom da paz”, disse o Papa durante o Regina Coeli, logo após a Missa. O Convite foi aceito durante a viagem mesmo e realizado no dia 8 de junho. Veja na página ao lado!


RESPOSTA PELA FÉ mundo é uma herança que recebemos dos nossos antepassados, mas é também um empréstimo dos nossos filhos: filhos que estão cansados e desfalecidos pelos conflitos e desejosos de alcançar a aurora da paz; filhos que nos pedem para derrubar os muros da inimizade e percorrer o caminho do diálogo e da paz a fim de que o amor e a amizade triunfem.” O Papa Francisco sublinhou ainda que para dizer sim ao diálogo e não à violência; sim às negociações e não às hostilidades é preciso coragem: “É preciso coragem para fazer a paz, muito mais do que para fazer a guerra. É preciso coragem para dizer sim ao encontro e não à briga; sim ao diálogo e não à violência; sim às negociações e não às hostilidades; sim ao respeito dos pactos e não às provocações; sim à sinceridade e não à duplicidade. Para tudo isto, é preciso coragem, grande força de ânimo.” Um sentido agradecimento foi dirigido ao Papa Francisco quer pelo presidente Peres quer pelo presidente Abbas por ter

proposto no Vaticano este encontro. Ambos tomaram a palavra. Primeiro Shimon Peres expressou em hebraico e afirmou que se deve pôr fim “à violência” e “ao conflito”: “ Dois povos – israelitas e palestinos – desejam ardentemente a paz. As lágrimas das mães sobre os seus filhos estão ainda marcadas nos nossos corações. Nós devemos pôr um fim aos gritos, à violência, ao conflito. Nós todos temos necessidade de paz. Paz entre iguais.” A realização da verdade, da paz e da justiça foi a prece do presidente Mahmoud Abbas que falou em árabe: “Por isso pedimos-Te, Senhor, a paz na Terra Santa, Palestina e Jerusalém, juntos com o seu povo. Nós pedimos-Te que tornes a Palestina e Jerusalém, em particular, uma terra segura para todos os crentes, e um lugar de oração e de culto para os seguidores das três religiões monoteístas.” O encontro terminou com um cordial abraço e o plantio de uma oliveira pela paz nos jardins do Vaticano. ESPECIAL: VIAGEM À TERRA SANTA

Domingo, 8 de junho de 2014 - um momento histórico, uma imagem indelével: o encontro de oração no Vaticano com o Papa Francisco e os presidentes israelita e palestino, Shimon Peres e Mahmoud Abbas, na presença do Patriarca de Constantinopla Bartolomeu I. As invocações foram proferidas em várias línguas, todas elas dirigidas para uma só prece: a paz na Terra Santa. O local do encontro foi um cantinho relvado nos Jardins Vaticanos. O Papa Francisco, o Patriarca Bartolomeu e os dois Presidentes ficaram no centro enquanto as delegações, os cantores, os músicos e a imprensa ladearam este encontro memorável. Usaram da palavra os três principais protagonistas: o Papa Francisco e os presidentes Peres e Abbas. O Santo Padre afirmou que este é o momento de “derrubar os muros da inimizade e percorrer o caminho do diálogo e da paz” e considerou que este mundo “é uma herança” mas também “um empréstimo” aos nossos filhos: “Senhores Presidentes, o

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CAMPOS DE DHEISHEH, AIDA E BEIT JIBRIN

COM AS CRIANÇAS REFUGIADAS

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A

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pós a visita à Gruta da Natividade, o Papa Francisco se dirigiu ao Phoenix Center para o seu encontro com crianças refugiadas dos campos de Dheisheh, Aida e Beit Jibrin. Ao chegar, no domingo, o Santo Padre foi recebido por duas meninas vestidas com trajes típicos palestinos, que lhe entregaram flores. Já no salão, onde as crianças reunidas seguravam cartazes que pediam liberdade e paz, o Papa lhes desejou, falando em espanhol com tradução simultânea para o árabe, que elas e suas famílias estejam bem de saúde. “Eu estou muito contente por visitar vocês. Vejo que, no seu coração, vocês têm muitas coisas e espero que o Bom Deus lhes conceda tudo o que vocês estão desejando”, disse o Pontífice. Uma das crianças leu palavras em árabe, explicando ao Papa a situação em que estão vivendo, e, ao encerrar, disse em italiano: “Querido Papa Francisco, nós somos os filhos da Palestina. Há 66 anos, os nossos pais so-

frem a ocupação. Nós abrimos os nossos olhos já sob a ocupação”. O texto manifestou ainda “o desejo de dizer ao mundo um basta aos sofrimentos e às humilhações”. Em seguida, as crianças cantaram primeiro em italiano e depois em árabe. Ao terminar o encontro, o Papa agradeceu pelos cantos: “Muito bonito, vocês cantam muito bem”. Francisco também agradeceu pelas palavras do menino porta-voz e declarou que, lendo os cartazes, “compreendo o que vocês estão dizendo, a mensagem que estão me transmitindo. Não deixem nunca que o passado determine a sua vida. Olhem sempre para frente. Trabalhem e lutem para conseguir as coisas que vocês querem. Mas saibam de uma coisa: não se vence a violência com mais violência. Com a paz, com muito trabalho, com a dignidade de levar a pátria adiante. Muito obrigado por terem me recebido. Eu peço a Deus que os abençoe. E, a vocês, eu peço que rezem por mim. Muito obrigado”.


CHEGADA A ISRAEL

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Papa Francisco chegou a Israel por volta das 16h30, no domingo, e no aeroporto internacional de Tel Aviv, foi recebido pelo presidente Shimon Peres e pelo primeiro ministro Benjamin Netanyahu. Em seu discurso de boas-vindas, o Pontífice agradeceu a cordial recepção e expressou sua alegria em visitar Israel. Francisco recordou que as relações entre o Vaticano e o país mudaram muito desde a visita histórica do Papa Paulo VI há 50 anos. “As relações diplomáticas, que existem entre nós já há vinte anos, têm favorecido o incremento de boas e cordiais relações, como testemunham os dois acordos já assinados e ratificados e o que está em fase de aperfeiçoamento”, disse. O Papa afirmou que, como seus antecessores, foi à Terra Santa como peregrino, e destacou a importância do local para

grande parte da humanidade. “[É] onde se desenrolou uma história plurimilenar e tiveram lugar os principais eventos relacionados com o nascimento e o desenvolvimento das três grandes religiões monoteístas: o judaísmo, o cristianismo e o islamismo”. O Santo Padre expressou seu desejo de que “esta Terra bendita seja um lugar onde não haja espaço algum para quem, instrumentalizando e exacerbando o valor da sua filiação religiosa, se torne intolerante e violento para com a religião alheia”. Jerusalém significa “cidade da paz”, lembrou Francisco. “Assim Deus a quer e todos os homens de boa vontade desejam que seja”. Entretanto, o Pontífice recordou que a cidade ainda é atormentada pelas consequências de longos conflitos e, unindo-se ao pedido de todos os “homens de boa von-

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PAPA RECOMENDA O CAMINHO DO DIÁLOGO

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tade”, suplicou aos responsáveis que empenhem-se na busca de soluções para essas complexas dificuldades, de modo que israelitas e palestinos possam viver em paz. “É preciso empreender sempre, com coragem e sem se cansar, o caminho do diálogo, da reconciliação e da paz. Não há outro caminho”, ressaltou. Francisco renovou o apelo dirigido por Bento XVI em sua visita à Terra Santa: “Seja universalmente reconhecido que o Estado de Israel tem o direito de existir e gozar de paz e segurança dentro de fronteiras internacionalmente reconhecidas. Seja igualmente reconhecido que o povo palestino tem o direito a uma pátria soberana, a viver com dignidade e a viajar livremente. Que a ‘solução de dois Estados’ se torne realidade e não permaneça um sonho!”. Por fim, o Santo Padre pediu que, sempre lembrados do passado, seja promovida uma educação onde a exclusão e o conflito cedam lugar à inclusão e ao encontro, e onde não haja lugar para o antissemitismo, nem para qualquer hostilidade, discriminação ou intolerância contra indivíduos e povos. No fim do discurso, o Papa reiterou a Shimon Peres o convite que fez ao presidente da Palestina, para juntos irem ao Vaticano rezar pela paz.

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ÍNTEGRA DO DISCURSO Senhor Presidente, Senhor Primeiro-Ministro, Excelências, Senhoras e Senhores! Agradeço-vos cordialmente pela recepção no Estado de Israel, que tenho a alegria de visitar nesta minha peregrinação. Estou agradecido ao Senhor Presidente Shimon Peres e ao Senhor Primeiro-Ministro Benjamin Netanyahu pelas amáveis palavras que me dirigiram, e lembro com alegria os nossos encontros no Vaticano. Como sabeis, venho peregrino à distância de cinquenta anos da histórica viagem do Papa Paulo VI. Desde então muitas coisas mudaram entre a Santa Sé e o Estado de Israel: as relações diplomáticas, que existem entre nós já há vinte anos, têm favorecido o incremento de boas e cordiais relações, como testemunham os dois acordos já assinados e ratificados e o que está em fase de aperfeiçoamento. Neste espírito, dirijo a minha saudação a todo o povo de Israel, com votos de


caminho. Por isso, renovo o apelo que dirigiu Bento XVI deste lugar: Seja universalmente reconhecido que o Estado de Israel tem o direito de existir e gozar de paz e segurança dentro de fronteiras internacionalmente reconhecidas. Seja igualmente reconhecido que o povo palestino tem o direito a uma pátria soberana, a viver com dignidade e a viajar livremente. Que a “solução de dois Estados” se torne realidade e não permaneça um sonho! “Momento particularmente tocante da minha estada no vosso país será a visita ao Memorial de Yad Vashen, erguido em recordação dos seis milhões de judeus vítimas do Shoah, tragédia que permanece símbolo dos extremos onde pode chegar a maldade do homem, quando, instigado por falsas ideologias, esquece a dignidade fundamental de cada pessoa, a qual merece respeito absoluto seja qual for o povo a que pertença e a religião que professe. Peço a Deus que jamais se repita semelhante crime, de que foram vítimas também muitos cristãos e não só. Sempre lembrados do passado, promovamos uma educação onde a exclusão e o conflito cedam o lugar à inclusão e ao encontro, onde não haja lugar para o antissemitismo, seja qual for a forma em que se manifeste, nem para qualquer expressão de hostilidade, discriminação ou intolerância contra indivíduos e povos. A brevidade da viagem limita, inevitavelmente, as possibilidades de encontro. Queria daqui saudar todos os cidadãos israelitas e exprimir-lhes a minha solidariedade, de modo particular a quantos vivem em Nazaré e na Galileia, onde estão presentes também muitas comunidades cristãs. Aos bispos e aos fiéis cristãos, dirijo a minha saudação fraterna e

cordial. Encorajo-os a continuarem a prestar, com confiada esperança, o seu sereno testemunho a favor da reconciliação e do perdão, seguindo a doutrina e o exemplo do Senhor Jesus, que deu a vida pela paz entre o homem e Deus, entre irmão e irmão. Sede fermento de reconciliação, portadores de esperança, testemunhas de caridade. Sabei que vos tenho sempre presente nas minhas orações. Desejo dirigir um convite ao senhor presidente e ao presidente Mahmoud Abbas, para fazerem comigo uma intensa oração invocando a Deus o dom da paz. Ofereço a minha casa no Vaticano para hospedar este encontro de oração. Todos desejamos a paz; tantas pessoas a constroem a cada dia com pequenos gestos; muitos sofrem e suportam pacientemente o cansaço de tantas tentativas para construí-la. E todos – especialmente aqueles que são colocados a serviço dos próprios povos – temos o dever de nos fazermos instrumentos e construtores de paz, antes de tudo na oração. Construir a paz é difícil, mas viver sem paz é um tormento. Todos os homens e mulheres desta Terra e do mundo inteiro nos pedem para levar diante de Deus a sua ardente aspiração à paz. Senhor Presidente, Senhor Primeiro-Ministro, senhoras e senhores, de novo vos agradeço pela vossa recepção. Que a paz e a prosperidade desçam em abundância sobre Israel. Deus abençoe o seu povo com a paz! Shalom! Papa Francisco Cerimônia de boas vindas no Aeroporto Internacional de Tel Aviv Domingo, 25 de maio de 2014

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que se realizem as suas aspirações de paz e prosperidade. Seguindo os passos dos meus antecessores, vim como peregrino à Terra Santa, onde se desenrolou uma história plurimilenar e tiveram lugar os principais eventos relacionados com o nascimento e o desenvolvimento das três grandes religiões monoteístas: o judaísmo, o cristianismo e o islamismo; por isso, ela é ponto de referência espiritual para grande parte da humanidade. Espero, pois, que esta Terra bendita seja um lugar onde não haja espaço algum para quem, instrumentalizando e exacerbando o valor da sua filiação religiosa, se torne intolerante e violento para com a religião alheia. Durante esta minha peregrinação à Terra Santa, visitarei alguns dos lugares mais significativos de Jerusalém, cidade de valor universal. Jerusalém significa “cidade da paz”. Assim Deus a quer e assim todos os homens de boa vontade desejam que seja. Mas, infelizmente, esta cidade é ainda atormentada pelas consequências de longos conflitos. Todos nós sabemos quão urgente e necessária seja a paz, não só para Israel, mas também para toda a região. Por isso, multipliquem-se esforços e energias com a finalidade de chegar a uma solução justa e duradoura dos conflitos que causaram tantos sofrimentos. Em união com todos os homens de boa vontade, suplico a quantos estão investidos de responsabilidade que não deixem nada de intentado na busca de soluções justas para as complexas dificuldades, de tal modo que israelitas e palestinos possam viver em paz. É preciso empreender sempre, com coragem e sem se cansar o caminho do diálogo, da reconciliação e da paz. Não há outro

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CELEBRAÇÃO ECUMÊNICA

MOMENTO HISTÓRICO

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m dos momentos mais esperados da visita do Papa Francisco à Terra Santa foi o encontro com o Patriarca Ecumênico de Constantinopla, Bartolomeu I, que aconteceu no domingo (25). Francisco participou de uma celebração ecumênica recordando os 50 anos do histórico abraço entre o Papa Paulo VI e o Patriarca Atenágoras. Pouco antes da celebração, os dois líderes religiosos dirigiram-se à Pedra na Unção, lugar no qual o corpo de Jesus foi depositado, após ser retirado da cruz e ungido com óleo. Na Basílica do Santo Sepulcro, Francisco destacou este momento de oração como uma graça extraordinária. “Acolhamos a graça especial deste momento. Detenhamo-nos em devoto recolhimento junto do sepulcro vazio, para redescobrir a grandeza da nossa vocação cristã: somos homens e mulheres de ressurreição, não de morte. Aprendamos, a partir deste lugar, a viver a nossa vida, as angústias das nossas Igrejas e do mundo inteiro, à luz da manhã de Páscoa”. O Santo Padre recordou que Cristo carregou cada so22

frimento e tribulação e com Seu sacrifício abriu passagem para a vida eterna. Assim sendo, Francisco disse que não se deve deixar roubar o fundamento da esperança e que o mundo não pode ser privado do anúncio da ressurreição. Ele pediu que as pessoas não fiquem surdas ao forte apelo da unidade que ressoa em especial nesse lugar sagrado para os cristãos. RUMO À UNIDADE O Pontífice reconheceu que não se podem negar as divisões que ainda existem entre os discípulos de Jesus, mas, olhando com gratidão para o gesto histórico de Paulo VI e Atenágoras, vê-se como foi possível, por impulso do Espírito Santo, dar passos importantes rumo à unidade. “Estamos cientes de que ainda falta percorrer mais estrada para alcançar aquela plenitude da comunhão que se possa exprimir também na partilha da mesma mesa eucarística, que ardentemente desejamos; mas as divergências


ÍNTEGRA DO DISCURSO Nesta Basílica, para a qual todo o cristão olha com profunda veneração, atinge o seu clímax a peregrinação que estou realizando juntamente com o meu amado irmão em Cristo, Sua Santidade Bartolomeu. Realizamo-la seguindo os passos dos nossos venerados antecessores, o Papa Paulo VI e o Patriarca Atenágoras, que, com coragem e docilidade ao Espírito Santo, permitiram há cinquenta anos, na Cidade Santa de Jerusalém, o histórico encontro entre o Bispo de Roma e o Patriarca de Constantinopla. Saúdo cordialmente a todos vós aqui presentes. De modo particular, agradeço vivamente por ter tornado possível este momento a Sua Beatitude Teófilo, que quis dirigir-me amáveis palavras de boas-vindas, bem como a Sua Beatitude Nourhan Manoogian e ao Reverendo Padre Pierbattista Pizzaballa. É uma graça extraordinária estarmos aqui reunidos em oração. O túmulo vazio, aquele sepulcro novo situado num jardim, onde José de Arimateia devotamente depusera o corpo de Jesus, é o lugar onde parte o anúncio da Ressurreição: “Não tenhais medo! Sei que buscais Jesus, o crucificado; não está aqui, pois ressuscitou, como tinha dito. Vinde, vede o lugar onde jazia e ide depressa dizer aos seus discípulos: “Ele ressuscitou dos mortos” (Mt 28, 5-7). Este anúncio, confirmado pelo testemunho daqueles a quem apareceu o Senhor Ressuscitado, é o coração da mensagem cristã,

transmitida fielmente de geração em geração, como desde o início atesta o apóstolo Paulo: “Transmiti-vos, em primeiro lugar, o que eu próprio recebi: Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras; foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras” (1 Cor 15, 3-4). É o fundamento da fé que nos une, graças à qual professamos conjuntamente que Jesus Cristo, o Filho unigénito do Pai e nosso único Senhor, “padeceu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado; desceu à mansão dos mortos; ressuscitou ao terceiro dia” (Símbolo dos Apóstolos). Cada um de nós, cada batizado em Cristo, espiritualmente ressuscitou deste sepulcro, porque, no batismo, todos fomos realmente incorporados no primogênito de toda a criação, sepultados juntamente com Ele, para ressuscitar com Ele e poder caminhar numa vida nova (cf. Rm 6, 4). Acolhamos a graça especial deste momento. Detenhamo-nos em devoto recolhimento junto do sepulcro vazio, para redescobrir a grandeza da nossa vocação cristã: somos homens e mulheres de ressurreição, não de morte. Aprendamos, a partir deste lugar, a viver a nossa vida, as angústias das nossas Igrejas e do mundo inteiro, à luz da manhã de Páscoa. Cada ferida, cada sofrimento, cada tribulação foram carregados sobre os próprios ombros do Bom Pastor, que Se ofereceu a Si mesmo e, com o seu sacrifício, abriu-nos a passagem para a vida eterna. As

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não devem assustar-nos e paralisar o nosso caminho. Devemos acreditar que, assim como foi removida a pedra do sepulcro, assim também poderão ser removidos todos os obstáculos que ainda impedem a plena comunhão entre nós”. Ao falar da unidade, Francisco reiterou seu desejo, a exemplo de seus antecessores, de manter diálogo com todos os irmãos em Cristo. Ele não deixou de mencionar a região do Oriente Médio, tantas vezes marcada por conflitos, e recordou que há inúmeros cristãos perseguidos por causa de sua fé em Cristo Ressuscitado. “Quando cristãos de diferentes confissões se encontram a sofrer juntos, uns ao lado dos outros, e a prestar ajuda uns aos outros com caridade fraterna, realiza-se o ecumenismo do sofrimento, realiza-se o ecumenismo do sangue, que possui uma eficácia particular não só para os contextos onde este tem lugar, mas, em virtude da comunhão dos santos, também para toda a Igreja”. Por fim, ele pediu que as hesitações do passado sejam colocadas de lado e que se possa abrir o coração à ação do Espírito Santo para caminhar rumo ao tão desejado dia da plena comunhão.

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suas chagas abertas são a passagem através da qual se derrama sobre o mundo a torrente da sua misericórdia. Não nos deixemos roubar o fundamento da nossa esperança! Não privemos o mundo do feliz anúncio da Ressurreição! E não sejamos surdos ao forte apelo à unidade que ressoa, precisamente deste lugar, nas palavras d’Aquele que, já Ressuscitado, chama a todos nós “os meus irmãos” (cf. Mt 28, 10; Jo 20, 17). Claro, não podemos negar as divisões que ainda existem entre nós, discípulos de Jesus: este lugar sagrado faz-nos sentir o drama com maior sofrimento. E, no entanto, à distância de cinquenta anos do abraço daqueles dois veneráveis Padres, reconhecemos com gratidão e renovada admiração como foi possível, por impulso do Espírito Santo, realizar passos verdadeiramente importantes rumo à unidade. Estamos cientes de que ainda falta percorrer mais estrada para alcançar aquela plenitude da comunhão que se possa exprimir também na partilha da mesma Mesa eucarística, que ardentemente desejamos; mas as divergências não devem assustar-nos e paralisar o nosso caminho. Devemos acreditar que, assim como foi removida a pedra do sepulcro, assim também poderão ser removidos todos os obstáculos que ainda impedem a plena comunhão entre nós. Será uma graça de ressurreição, que já hoje podemos pregustar. Cada vez que pedimos perdão uns aos outros pelos pecados cometidos contra outros cristãos

e cada vez que temos a coragem de dar e receber este perdão, fazemos experiência da ressurreição! Cada vez que, superados velhos preconceitos, temos a coragem de promover novas relações fraternas, confessamos que Cristo ressuscitou verdadeiramente! Cada vez que pensamos o futuro da Igreja a partir da sua vocação à unidade, brilha a luz da manhã de Páscoa! A este respeito, quero renovar o desejo, já expresso pelos meus antecessores, de manter um diálogo com todos os irmãos em Cristo para se encontrar uma forma de exercício do ministério próprio do Bispo de Roma, que, em conformidade com a sua missão, se abra a uma nova situação e possa ser, no contexto atual, um serviço de amor e de comunhão reconhecido por todos (cf. João Paulo II, Enc. Ut Unum Sint, 95-96). Enquanto como peregrinos fazemos uma pausa nestes lugares santos, a nossa recordação orante vai para a região inteira do Oriente Médio, tantas vezes marcada, infelizmente, por violências e conflitos. E não esquecemos, na nossa oração, muitos outros homens e mulheres que sofrem, em várias partes do mundo, por causa da guerra, da pobreza, da fome; bem como os inúmeros cristãos perseguidos pela sua fé no Senhor Ressuscitado. Quando cristãos de diferentes confissões se encontram sofrendo, uns ao lado dos outros, e a prestar ajuda uns aos outros com caridade fraterna, realiza-se o ecumenismo do sofrimento, realiza-se o ecumenismo do sangue, que possui uma eficácia particular não só para os

contextos onde o mesmo tem lugar, mas, em virtude da comunhão dos santos, também para toda a Igreja. Aqueles que por ódio à fé matam, perseguem os cristãos, não importa se são ortodoxos, católicos, são cristãos. O sangue cristão é o mesmo. Santidade, amado Irmão, e vós todos, queridos irmãos, ponhamos à parte as hesitações que herdamos do passado e abramos o nosso coração à ação do Espírito Santo, o Espírito do Amor (cf. Rm 5, 5) e da Verdade (cf. Jo 16, 13), para caminharmos, juntos e ágeis, rumo ao dia abençoado da nossa reencontrada plena comunhão. Neste caminho, sentimo-nos sustentados pela oração que o próprio Jesus, nesta cidade, na véspera da sua paixão, morte e ressurreição, elevou ao Pai pelos seus discípulos e que humildemente não nos cansamos de fazer nossa: «Que todos sejam um só (…), para que o mundo creia» (Jo 17, 21). E quando a desunião nos faz pessimistas, pouco corajosos, sem confiança, coloquemos todos sob o Manto da Mãe de Deus. Quando na alma cristã existem turbulências cristãs, somente sob o Manto de Nossa Senhora encontraremos paz. Que Ela nos ajude neste caminho!

Papa Francisco CELEBRAÇÃO ECUMÊNICA NO SANTO SEPULCRO Recordação dos 50 anos do abraço entre o Papa Paulo VI e o Patriarca Atenágonas 25 de maio de 2014


DECLARAÇÃO CONJUNTA DO PAPA FRANCISCO E DO PATRIARCA ECUMÊNICO BARTOLOMEU

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Como os nossos venerados predecessores Papa Paulo VI e Patriarca Ecumênico Atenágoras, que se encontraram aqui em Jerusalém há cinquenta anos, também nós – Papa Francisco e Patriarca Ecumênico Bartolomeu – decidimos encontrar-nos na Terra Santa, “onde o nosso Redentor comum, Cristo nosso Senhor,

viveu, ensinou, morreu, ressuscitou e subiu aos céus, donde enviou o Espírito Santo sobre a Igreja nascente” (Comunicado comum de Papa Paulo VI e Patriarca Atenágoras, publicado depois do seu encontro de 6 de janeiro de 1964). O nosso encontro – um novo encontro dos Bispos das Igrejas de Roma e Constantinopla fundadas res-

pectivamente por dois Irmãos, os Apóstolos Pedro e André – é fonte de profunda alegria espiritual para nós. O mesmo proporciona uma ocasião providencial para refletir sobre a profundidade e a autenticidade dos vínculos existentes entre nós, vínculos esses fruto de um caminho cheio de graça pelo qual o Senhor nos guiou desde

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Sede da Delegação Apostólica (Jerusalém)

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aquele abençoado dia de cinquenta anos atrás. O nosso encontro fraterno de hoje é um passo novo e necessário no caminho para a unidade, à qual só o Espírito Santo nos pode levar: a unidade da comunhão na legítima diversidade. Com profunda gratidão, relembramos os passos que o Senhor já nos permitiu realizar. O abraço trocado entre o Papa Paulo VI e o Patriarca Atenágoras aqui em Jerusalém, depois de muitos séculos de silêncio, abriu a estrada para um gesto histórico: a remoção da memória e do meio da Igreja dos atos de recíproca excomunhão de 1054. Isso foi seguido por uma troca de visitas entre as respectivas Sés de Roma e de Constantinopla, por uma correspondência regular e, mais tarde, pela decisão anunciada pelo Papa João Paulo II e o Patriarca Dimitrios, ambos de abençoada memória, de se iniciar um diálogo teológico na verdade entre católicos e ortodoxos. Ao longo destes anos, Deus, fonte de toda a paz e amor, ensinou-nos a olhar uns para os outros como membros da mesma família cristã, sob o mesmo Senhor e Salvador Jesus Cristo, e a amar-nos de tal modo uns aos outros que podemos confessar a nossa fé no mesmo Evangelho de Cristo, tal como foi recebida pelos Apóstolos e nos foi expressa e transmitida a nós pelos Concílios Ecumênicos e pelos Padres da Igreja. Embora plenamente conscientes de ainda não ter

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atingido a meta da plena comunhão, hoje reafirmamos o nosso compromisso de continuar a caminhar juntos rumo à unidade pela qual Cristo nosso Senhor rezou ao Pai pedindo que “todos sejam um só” (Jo 17, 21). Bem cientes de que a unidade se manifesta no amor de Deus e no amor do próximo, olhamos com ansiedade para o dia em que poderemos finalmente participar juntos no banquete eucarístico. Como cristãos, somos chamados a preparar-nos para receber este dom da comunhão eucarística, segundo o ensinamento de Santo Ireneu de Lião (Contra as Heresias, IV, 18, 5: PG 7, 1028), através da confissão de uma só fé, a oração perseverante, a conversão interior, a renovação da vida e o diálogo fraterno. Ao alcançar esta meta esperada, manifestaremos ao mundo o amor de Deus, pelo qual somos reconhecidos como verdadeiros discípulos de Jesus Cristo (cf. Jo 13, 35). Para tal objetivo, o diálogo teológico realizado pela Comissão Mista Internacional oferece uma contribuição fundamental na busca da plena comunhão entre católicos e ortodoxos. Ao longo dos sucessivos tempos vividos sob os Papas João Paulo II e Bento XVI e o Patriarca Dimitrios, foi substancial o progresso dos nossos encontros teológicos. Hoje exprimimos vivo apreço pelos resultados obtidos até agora, bem como

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pelos esforços atuais. Não se trata de mero exercício teórico, mas de uma exercitação na verdade e no amor, que exige um conhecimento ainda mais profundo das tradições de cada um para as compreender e aprender com elas. Assim, afirmamos mais uma vez que o diálogo teológico não procura o mínimo denominador comum teológico sobre o qual se possa chegar a um compromisso, mas busca aprofundar o próprio conhecimento da verdade total que Cristo deu à sua Igreja, uma verdade cuja compreensão nunca cessará de crescer se seguirmos as inspirações do Espírito Santo. Por isso, afirmamos conjuntamente que a nossa fidelidade ao Senhor exige um encontro fraterno e um verdadeiro diálogo. Tal busca comum não nos leva para longe da verdade; antes, através de um intercâmbio de dons e sob a guia do Espírito Santo, levar-nos-á para a verdade total (cf. Jo 16, 13). Todavia, apesar de estarmos ainda a caminho para a plena comunhão, já temos o dever de oferecer um testemunho comum do amor de Deus por todas as pessoas, trabalhando em conjunto ao serviço da humanidade, especialmente na defesa da dignidade da pessoa humana, em todas as fases da vida e da santidade da família, na promoção da paz e do bem comum e dando resposta ao sofrimento que continua a afligir o nosso mundo. Reconhecemos que a

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tados equitativamente quando promovem aquilo que o cristianismo continua a oferecer à sociedade e à cultura contemporânea. A este propósito, convidamos todos os cristãos a promoverem um diálogo autêntico com o judaísmo, o islamismo e outras tradições religiosas. A indiferença e a ignorância mútua só podem levar à desconfiança e mesmo, infelizmente, ao conflito. Desta cidade santa de Jerusalém, exprimimos a nossa comum e profunda preocupação pela situação dos cristãos no Oriente Médio e o seu direito de permanecerem plenamente cidadãos dos seus países de origem. Confiadamente voltamo-nos para Deus onipotente e misericordioso, elevando uma oração pela paz na Terra Santa e no Oriente Médio em geral. Rezamos especialmente pelas Igrejas no Egito, Síria e Iraque, que têm sofrido mais pesadamente por causa dos eventos recentes. Encorajamos todas as partes, independentemente das próprias convicções religiosas, a continuarem trabalhando pela reconciliação e o justo reconhecimento dos direitos dos povos. Estamos convencidos de que não são as armas, mas o diálogo, o perdão e a reconciliação, os únicos meios possíveis para alcançar a paz. Num contexto histórico marcado pela violência, a indiferença e o egoísmo, muitos homens e mulheres de hoje sentem que perderam

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as suas referências. É precisamente através do nosso testemunho comum à boa notícia do Evangelho que seremos capazes de ajudar as pessoas do nosso tempo a redescobrirem o caminho que conduz à verdade, à justiça e à paz. Unidos nos nossos intentos e recordando o exemplo dado há cinquenta anos aqui em Jerusalém pelo Papa Paulo VI e o Patriarca Atenágoras, apelamos a todos os cristãos, juntamente com os crentes das diferentes tradições religiosas e todas as pessoas de boa vontade, que reconheçam a urgência deste tempo que nos obriga a buscar a reconciliação e a unidade da família humana, no pleno respeito das legítimas diferenças, para bem de toda a humanidade atual e das gerações futuras. . Ao empreendermos esta peregrinação comum até ao lugar onde o nosso e único Senhor Jesus Cristo foi crucificado, sepultado e ressuscitou, humildemente confiamos à intercessão da Santíssima e Sempre Virgem Maria os nossos futuros passos no caminho rumo à plenitude da unidade e entregamos ao amor infinito de Deus toda a família humana.

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«O Senhor faça brilhar sobre ti a sua face e te favoreça! O Senhor volte para ti a sua face e te dê a paz!» (Nm 6, 25-26). Jerusalém, 25 de Maio de 2014.

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fome, a pobreza, o analfabetismo, a distribuição desigual de recursos devem ser constantemente enfrentados. É nosso dever procurar construir juntos uma sociedade justa e humana, onde ninguém se sinta excluído ou marginalizado. É nossa profunda convicção que o futuro da família humana depende também do modo como protegermos – de forma simultaneamente prudente e compassiva, com justiça e equidade – o dom da criação que o nosso Criador nos confiou. Por isso, arrependidos, reconhecemos os injustos maus-tratos ao nosso planeta, o que aos olhos de Deus equivale a um pecado. Reafirmamos a nossa responsabilidade e obrigação de fomentar um sentimento de humildade e moderação, para que todos possam sentir a necessidade de respeitar a criação e protegê-la cuidadosamente. Juntos, prometemos empenhar-nos na sensibilização sobre a salvaguarda da criação; apelamos a todas as pessoas de boa vontade para tomarem em consideração formas de viver menos dispendiosas e mais frugais, manifestando menos ganância e mais generosidade na proteção do mundo de Deus e para benefício do seu povo. Há também urgente necessidade de uma cooperação efetiva e empenhada dos cristãos para salvaguardar, de qualquer modo, o direito de exprimir publicamente a própria fé e de ser tra-

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SEGUNDA-FEIRA 26

COM OS MUÇULMANOS

P

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apa Francisco pediu na segunda-feira, 26 de maio, a judeus, cristãos e muçulmanos que abram seus corações e suas mentes para entender o outro, e pediu que ninguém utilize o nome de Deus para justificar a violência. Em discurso na Esplanada das Mesquitas, o Pontífice pediu a paz e a justiça, e reivindicou a figura de Abraão como exemplo, já que as três religiões monoteístas o reconhecem como pai da fé e exemplo a imitar “apesar de maneira diferente”. A visita de Francisco aconteceu em um dia simbólico para os muçulmanos, já que neste dia lembravam a ascen-

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são de Maomé aos céus que, segundo a tradição, aconteceu a partir daquele local. “Minha peregrinação não seria completa se não incluísse também o encontro com as pessoas e comunidades que vivem nesta Terra, e por isso, me alegro de poder estar com vocês, amigos muçulmanos”, disse Francisco perante o Grâ-Mufti de Jerusalém, Mohamad Ahmad Hussein, e outras autoridades islâmicas. O Papa, que concluiu seu discurso com a palavra paz em árabe, assegurou que a peregrinação de Abraão foi também um apelo de Deus à justiça, “uma ligação a sermos agentes de paz e de justiça”.


Excelência, Fiéis muçulmanos Queridos amigos! Sou grato por poder encontrar-vos neste lugar sagrado. De coração vos agradeço pelo amável convite que me quisestes fazer e, de modo particular, agradeço a Vossa Excelência e ao Presidente do Conselho Supremo Muçulmano. Seguindo os passos dos meus antecessores e, em particular, a luminosa esteira da viagem de Paulo VI há cinquenta anos – a primeira viagem de um Papa à Terra Santa –, desejei ardentemente vir como peregrino visitar os lugares que viram a presença terrena de Jesus Cristo. Mas esta minha peregrinação não seria completa, se não contemplasse também o encontro com as pessoas e as comunidades que vivem nesta Terra e, por isso, sinto-me particularmente feliz por me encontrar convosco, fiéis muçulmanos, irmãos amados. Neste momento, o meu pensamento volta-se para a figura de Abraão, que viveu como peregrino nestas terras. Embora cada qual a seu modo, muçulmanos, cristãos e judeus reconhecem em Abraão um pai na fé e um grande exemplo a imitar. Ele fez-se peregrino, deixando o seu povo e a própria casa, para empreender aquela aventura espiritual a que Deus

o chamava. Um peregrino é uma pessoa que se faz pobre, que se põe a caminho, pende-se para uma grande e suspirada meta, vive da esperança duma promessa recebida (cf. Heb 11, 8-19). Esta foi a condição de Abraão, esta deveria ser também a nossa disposição espiritual. Não podemos jamais considerar-nos autossuficientes, senhores da nossa vida; não podemos limitar-nos a ficar fechados, seguros nas nossas convicções. Diante do mistério de Deus, somos todos pobres, sentimos que devemos estar sempre prontos para sair de nós mesmos, dóceis à chamada que Deus nos dirige, abertos ao futuro que Ele quer construir para nós. Nesta nossa peregrinação terrena, não estamos sozinhos: cruzamos o caminho de outros fiéis, às vezes partilhamos com eles um pedaço de estrada, outras vezes vivemos juntos uma pausa que nos revigora. Tal é o encontro de hoje, que vivo com particular gratidão: uma aprazível pausa comum, tornada possível pela vossa hospitalidade, naquela peregrinação que é a vida nossa e das nossas comunidades. Vivemos uma comunicação e um intercâmbio fraternos que podem revigorar-nos e dar-nos novas forças para enfrentar os desafios comuns que se nos

apresentam pela frente. Na realidade, não podemos esquecer que a peregrinação de Abraão foi também uma chamada para a justiça: Deus qui-lo testemunha do seu agir e seu imitador. Também nós queremos ser testemunhas do agir de Deus no mundo e por isso, precisamente neste nosso encontro, sentimos ressoar profundamente a chamada para sermos agentes de paz e de justiça, para implorarmos estes dons na oração e para aprendermos do Alto a misericórdia, a magnanimidade, a compaixão. Amados irmãos, queridos amigos, a partir deste lugar santo, lanço um premente apelo a todas as pessoas e comunidades que se reconhecem em Abraão: Respeitemo-nos e amemo-nos uns aos outros como irmãos e irmãs! Aprendamos a compreender a dor do outro! Ninguém instrumentalize, para a violência, o nome de Deus! Trabalhemos juntos em prol da justiça e da paz! Salam! Visita ao Grã-Mufti de Jerusalém Edifício do Grã-Conselho na Esplanada das Mesquitas (Jerusalém) Segunda-feira, 26 de Maio de 2014

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ÍNTEGRA DO DISCURSO

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ORAÇÃO E EMOÇÃO

NO MURO DAS LAMENTAÇÕES O

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segundo momento das atividades do Papa no dia 26 foi a sua visita ao Muro Ocidental, conhecido como Muro das Lamentações, ruínas do antigo Templo de Jerusalém construído por Salomão e um lugar central de culto do judaísmo. Ali, como fazem todos os fiéis que se aproximam do Muro, o Bispo de Roma também depositou seu bilhete, escrito de próprio punho, com a oração do Pai-Nosso, em espanhol, como lhe foi ensinado por sua mãe. Depois, apoiando a mão direita no Muro das Lamentações, o Papa se deteve em oração. A seguir, assinou o Livro de Honra, deixando a mensagem: “Com sentimentos de alegria, para com meus irmãos mais velhos, vim aqui para pedir ao Senhor o dom da paz”. Depois, o Pontífice visitou o Mausoléu de Theodor Herzl, fundador do Movimento Sionista, em 1897. Ali, no cemitério nacional de Israel, depositou uma coroa de 30 flores, um gesto que, segundo a tradição, é feito durante

as visitas oficiais. A visita do Papa ao Memorial Yad Vashem representou o momento mais evocativo do último dia da viagem, pois aí ele ouviu relatos de vítimas do holocausto e se encontrou com um pequeno grupo de sobreviventes. Beijou as mãos de vários deles, homens e mulheres, e escutou cuidadosamente suas palavras. Joseph Gottdenker, judeu nascido na Polônia em 1942 e criado às escondidas por uma família católica, considerou a experiência “muito comovente”. “Não sabia que isso iria acontecer”, disse ele a respeito de o Papa ter beijado sua mão. “Eu pensei que eu é quem estaria beijando sua mão, e não o contrário”. O Pontífice fez uma reflexão quase poética permeada de citações do Antigo Testamento. Depois da visita ao Memorial do Holocausto, o Papa visitou o “Centro Hechal Shlomo”, sede do Grão-Rabinado de Israel, situado ao lado da Grande Sinagoga de Jerusalém.


ÍNTEGRA DA REFLEXÃO NO MEMORIAL YAD VASHEM Hoje voltamos a ouvir aqui a voz de Deus: “Adão, onde estás?” Da terra, levanta-se um gemido submisso: Tende piedade de nós, Senhor! Para Vós, Senhor nosso Deus, a justiça; para nós, estampada no rosto a desonra, a vergonha (cf. Bar 1, 15). Veio sobre nós um mal como nunca tinha acontecido sob a abóbada do céu (cf. Bar 2, 2). Agora, Senhor, escutai a nossa oração, escutai a nossa súplica, salvai-nos pela vossa misericórdia. Salvai-nos desta monstruosidade. Senhor, todo-poderoso, uma alma, na sua angústia, clama por Vós. Escutai, Senhor, tende piedade! Pecamos contra Vós. Vós reinais para sempre (cf. Bar 3, 1-2). Lembrai-Vos de nós na vossa misericórdia. Dai-nos a graça de nos envergonharmos daquilo que, como homens, fomos capazes de fazer, de nos envergonharmos desta máxima idolatria, de termos desprezado e destruído a nossa carne, aquela que Vós formastes da lama, aquela que vivificastes com o vosso sopro de vida. Nunca mais, Senhor, nunca mais! “Adão, onde estás?” Eis-nos aqui, Senhor, com a vergonha daquilo que o homem, criado à vossa imagem e semelhança, foi capaz de fazer. Lembrai-Vos de nós na vossa misericórdia!

Papa Francisco beija as mãos da sobrevivente do Holocausto Sonia TunikGeron durante cerimônia no memorial dedicado ao massacre de judeus pelo nazismo, em Jerusalém.

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“Adão, onde estás?” (cf. Gen 3, 9). Onde estás, ó homem? Onde foste parar? Neste lugar, Memorial do Shoah, ouvimos ressoar esta pergunta de Deus: “Adão, onde estás?”. Nesta pergunta, há toda a dor do Pai que perdeu o filho. O Pai conhecia o risco da liberdade; sabia que o filho teria podido perder-se... mas talvez nem mesmo o Pai podia imaginar uma tal queda, um tal abismo! Aquele grito “onde estás?” ressoa aqui, perante a tragédia incomensurável do Holocausto, como uma voz que se perde num abismo sem fundo... Homem, quem és? Já não te reconheço. Quem és, ó homem? Quem te tornaste? De que horrores foste capaz? Que foi que te fez cair tão baixo? Não foi o pó da terra, da qual foste tirado. O pó da terra é coisa boa, obra das minhas mãos. Não foi o sopro de vida que insuflei nas tuas narinas. Aquele sopro vem de Mim, é algo muito bom (cf. Gen 2, 7). Não, este abismo não pode ser somente obra tua, das tuas mãos, do teu coração... Quem te corrompeu? Quem te desfigurou? Quem te contagiou a presunção de te apoderares do bem e do mal? Quem te convenceu de que eras deus? Não só torturaste e assassinaste os teus irmãos, mas os ofereceste em sacrifício a ti mesmo, porque te erigiste em Deus.

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GRANDE RABINATO DE JERUSALÉM

E

O CAMINHO DA AMIZADE

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m um discurso feito diante dos dois principais rabinos de Jerusalém, o Grande Rabino Ashkenazi, Yona Metzger, e o Grande Rabino Sefardita, Shlomo Amar, o Papa Francisco defendeu a continuidade e o aprofundamento do caminho de amizade iniciado após o Concílio Vaticano II. Francisco lembrou ainda as excelentes relações que mantinha com líderes judeus quando era bispo de Buenos Aires. “Nos primeiros meses de pontificado tive a ocasião de receber diversas organizações e representantes do ju32 daísmo mundial. Os

pedidos de encontro são vários, como já ocorria com meus antecessores”, afirmou. “Somadas às múltiplas iniciativas que se desenvolvem em escala nacional ou local, manifestam o desejo recíproco de nos conhecermos melhor, de nos escutarmos, de construir laços de autêntica fraternidade.” O Pontífice destacou “a importância do diálogo entre o Grande Rabinato de Israel e a Comissão da Santa Sé”. “Apraz-me pensar, a respeito do Bar Mitzvah da tradição judaica, que o mesmo já esteja próximo da idade adulta: tenho confiança que possa continuar e tenha um futuro brilhante pela frente”, afirmou.


Prezados Grã-Rabinos de Israel! Sinto-me particularmente feliz por poder encontrar-me convosco hoje: estou-vos agradecido pela recepção calorosa e pelas amáveis palavras de boas-vindas que me dirigistes. Como sabeis, desde o tempo em que era Arcebispo de Buenos Aires, pude contar com a amizade de muitos irmãos judeus. Junto com eles, organizámos frutuosas iniciativas de encontro e diálogo e, com eles, vivi também significativos momentos de partilha no plano espiritual. Nos primeiros meses de pontificado, pude receber várias organizações e representantes do judaísmo mundial. Como já sucedia com os meus antecessores, são numerosos estes pedidos de encontro, vindo somar-se às muitas iniciativas que têm lugar em nível nacional ou local. Tudo isso atesta o desejo recíproco de nos conhecermos melhor, de nos ouvirmos, de construirmos vínculos de verdadeira fraternidade. Este caminho de amizade constitui um dos frutos do Concílio Vaticano II, nomeadamente da Declaração Nostra Aetate, que teve tanto peso e cujo cinquentenário recordaremos no próximo ano. Na realidade, estou convencido de que o sucedido durante as últimas décadas nas relações entre judeus e católicos tenha sido um verdadeiro dom de

Deus, uma das maravilhas por Ele realizadas, pela qual somos chamados a bendizer o seu nome: «Louvai o Senhor dos senhores, / porque o seu amor é eterno! / Só Ele faz grandes maravilhas, / porque o seu amor é eterno!» (Sal 136, 3-4). Mas é um dom de Deus que não poderia manifestar-se sem o empenho de muitíssimas pessoas corajosas e generosas, tanto judias como cristãs. Em particular, desejo mencionar aqui a importância assumida pelo diálogo entre o Grã-Rabinato de Israel e a Comissão da Santa Sé para as Relações Religiosas com o Judaísmo. Diálogo este, que, inspirado pela visita do Papa São João Paulo II à Terra Santa, teve início em 2002, encontrando-se já no décimo segundo ano de vida. Apraz-me pensar, a respeito do Bar Mitzvah da tradição judaica, que o mesmo já esteja próximo da idade adulta: tenho confiança que possa continuar e tenha um futuro brilhante pela frente. Não se trata apenas de estabelecer, num plano humano, relações de respeito mútuo: somos chamados, como cristãos e como judeus, a interrogarmo-nos em profundidade sobre o significado espiritual do vínculo que nos une. É um vínculo que vem do Alto, ultrapassa a nossa vontade e permanece íntegro, não obstante todas as dificuldades de relacionamento vividas, in-

felizmente, na história. Do lado católico, há seguramente a intenção de considerar plenamente o sentido das raízes judaicas da própria fé. Estou confiante, com a vossa ajuda, que também do lado judaico se mantenha e, se possível, aumente o interesse pelo conhecimento do cristianismo, mesmo nesta terra bendita onde o cristianismo reconhece as suas origens e, especialmente, entre as jovens gerações. O conhecimento recíproco do nosso patrimônio espiritual, o apreço por aquilo que temos em comum e o respeito no que nos divide poderão servir de guia para o sucessivo desenvolvimento das nossas relações futuras, que entregamos nas mãos de Deus. Juntos, poderemos dar uma grande contribuição para a causa da paz; juntos, poderemos, num mundo em rápida mudança, testemunhar o significado perene do plano divino da criação; juntos, poderemos opor-nos, firmemente, a todas as formas de antissemitismo e restantes formas de discriminação. O Senhor nos ajude a caminhar, com confiança e fortaleza de ânimo, pelas suas vias. Shalom! Papa Francisco Visita aos dois grãos-rabinos de Israel Segunda-feira, 26 de maio de 2014

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COM O PRESIDENTE DE ISRAEL

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UMA OLIVEIRA PELA PAZ

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s últimos compromissos do Papa Francisco em Israel foram de caráter político. O Papa fez uma visita de cortesia ao presidente Shimon Peres e depois teve uma audiência privada com o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu. Francisco foi recebido pelo presidente nos jardins da entrada do Palácio Presidencial em Jerusalém, onde o Papa saudou um grupo de crianças. A seguir, o Santo Padre entrou no edifício, onde outro grupo de crianças, estas doentes, o esperava para receber a sua bênção. Francisco também assinou o livro de visitas. O presente de Peres ao Santo Padre foi um mosaico com pedras da Galileia, feito por crianças com diversos graus de deficiência. A imagem mostra uma 34 oliveira com duas pombas e dois peixes, símbolos da

paz e do cristianismo. Por sua vez, Francisco deu a Peres um medalhão que representa o encontro, realizado 50 anos atrás, entre o papa Paulo VI e o Patriarca Atenágoras. Depois do canto, entoado pelas crianças, o presidente israelense fez o seu discurso afirmando que “temos de renovar o passado e caminhar rumo ao novo. Nosso desejo é o de caminhar pela estrada da paz verdadeira (...) Queremos trabalhar juntos, cristãos, judeus, hebreus e muçulmanos, e construir um mundo onde haja irmandade”. Após um abraço entre ambos, o Santo Padre fez o seu pronunciamento. No final do encontro, os dois líderes se dirigiram ao jardim para plantar uma oliveira, na presença de crianças de diversas condições e religiões.


Senhor Presidente, Excelências, Senhoras e Senhores! Estou-lhe grato, Senhor Presidente, pela recepção que me reservou e pelas suas amáveis expressões de boas-vindas e sinto-me feliz por poder encontrá-lo de novo aqui em Jerusalém, cidade que guarda os lugares santos caros às três grandes religiões que adoram o Deus que chamou Abraão. Os lugares santos não são museus nem monumentos para turistas, mas lugares onde as comunidades dos crentes vivem a sua fé, a sua cultura, as suas iniciativas de caridade. Por isso, devem ser salvaguardados perpetuamente na sua sacralidade, protegendo assim não só o legado do

passado, mas também as pessoas que os frequentam hoje e hão-de frequentá-los no futuro. Que Jerusalém seja verdadeiramente a Cidade da paz! Que resplandeçam plenamente a sua identidade e o seu caráter sagrado, o seu valor religioso e cultural universal, como tesouro para toda a humanidade! Como é belo quando os peregrinos e os residentes podem aceder livremente aos Lugares Santos e participar nas celebrações! O Senhor Presidente é conhecido como homem de paz e artífice de paz. Exprimo-lhe o meu reconhecimento e a minha admiração por esta sua posição. A construção da paz exige, antes de mais nada, o respeito pela liberdade e a dignidade de cada pessoa humana, que judeus, cris-

tãos e muçulmanos acreditam igualmente ser criada por Deus e destinada à vida eterna. A partir deste ponto firme que temos em comum, é possível prosseguir no compromisso por uma solução pacífica das controvérsias e conflitos. A este propósito, renovo os meus votos de que se evitem, por parte de todos, iniciativas e ações que contradizem a declarada vontade de chegar a um verdadeiro acordo e de que não nos cansemos de buscar a paz com determinação e coerência. Há que se rejeitar, firmemente, tudo o que se opõe à prossecução da paz e de uma convivência respeitosa entre judeus, cristãos e muçulmanos: o recurso à violência e ao terrorismo, qualquer gênero de discriminação por motivos ra-

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ciais ou religiosos, a pretensão de impor o próprio ponto de vista em detrimento dos direitos alheios, o antissemitismo em todas as suas formas possíveis, bem como a violência ou as manifestações de intolerância contra pessoas ou lugares de culto judeus, cristãos e muçulmanos. No Estado de Israel, vivem e atuam várias comunidades cristãs. Estas são parte integrante da sociedade e participam, a pleno título, das suas vicissitudes civis, políticas e culturais. Os fiéis cristãos desejam, a partir da própria identidade, prestar a sua contribuição para o bem comum e para a construção da paz, como cidadãos de pleno direito que, rejeitando todas as formas de

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extremismo, se comprometem a serem artífices de reconciliação e concórdia. A sua presença e o respeito dos seus direitos – como, aliás, dos direitos de qualquer outra denominação religiosa e de todas as minorias – são garantia de um são pluralismo e prova da vitalidade dos valores democráticos, do seu real enraizamento na prática e na vida concreta do Estado. Senhor Presidente, asseguro-lhe a minha oração pelas instituições e por todos os cidadãos de Israel. Asseguro de modo particular a minha constante súplica a Deus pela obtenção da paz e, com ela, dos bens inestimáveis que lhe estão intimamente ligados, tais como a segurança, a tranquili-

dade de vida, a prosperidade, a fraternidade. Por fim, dirijo o meu pensamento a todos aqueles que sofrem as consequências das crises ainda abertas na região do Oriente Médio, para que o mais rápido possível sejam aliviadas as suas penas através de uma honrosa composição dos conflitos. Paz sobre Israel e em todo o Oriente Médio Shalom! Papa Francisco Visita de cortesia ao Presidente do Estado de Israel no Palácio Presidencial em Jerusalém Segunda-feira, 26 de maio de 2014


NA IGREJA DO GETSÊMANI

“Imitemos a Virgem Maria e São João, permanecendo junto das muitas cruzes onde Jesus ainda está crucificado”

A

penúltima atividade do Papa Francisco, no dia 26 foi o encontro com os sacerdotes, religiosos, religiosas e seminaristas na igreja do Getsêmani, perto do Jardim das Oliveiras. Ao chegar à igreja, o Santo Padre dirigiu-se ao altar onde está a Pedra Sagrada para rezar. Segundo a tradição, foi nessa pedra que Jesus recolheu-se em oração antes de ser preso.

Em uma breve reflexão, Francisco afirmou que o Jardim das Oliveiras é um lugar santo, santificado pela oração de Jesus, por sua angústia, seu suor de sangue e, sobretudo, pelo seu sim à vontade do Pai. “Quase sentimos temor de abeirar-nos dos sentimentos que Jesus experimentou naquela hora; entramos, em pontas de pés, naquele espaço interior, onde se decidiu o drama do mundo”.

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COM OS RELIGIOSOS

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ÍNTEGRA DA REFLEXÃO

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“[Jesus] saiu então e foi (…) para o Monte das Oliveiras. E os discípulos seguiram também com Ele” (Lc 22, 39). Quando chega a hora marcada por Deus para salvar a humanidade da escravidão do pecado, Jesus retira-Se aqui, no Getsêmani, ao pé do Monte das Oliveiras. Encontramo-nos neste lugar santo, santificado pela oração de Jesus, pela sua angústia, pelo seu suor de sangue; santificado, sobretudo, pelo seu “sim” à vontade amorosa do Pai. Quase sentimos temor de abeirar-nos dos sentimentos que Jesus experimentou naquela hora; entramos, nas pontas dos pés, naquele espaço interior, onde se decidiu o drama do mundo. Naquela hora, Jesus sentiu a necessidade de rezar e ter perto d’Ele os seus discípulos, os seus amigos, que O tinham seguido e partilhado mais de perto a sua missão. Mas o seguimento aqui, no Getsêmani, torna-se difícil e incerto; prevalecem a dúvida, o cansaço e o pavor. Na rápida sucessão dos eventos da paixão de Jesus, os discípulos assumirão diferentes atitudes perante o Mestre: de proximidade, de distanciamento, de incerteza. Será bom para todos nós – bispos, sacerdotes, pessoas consagradas, seminaristas – perguntarmo-nos neste lugar: Quem sou eu perante o meu Senhor que sofre? Sou daqueles que, convidados por Jesus a velar com Ele, adormecem e, em vez de rezar, procuram evadir-se fechando os olhos frente à realidade? Reconheço-me naqueles que fugiram por medo,

abandonando o Mestre na hora mais trágica da sua vida terrena? Porventura há em mim a hipocrisia, a falsidade daquele que O vendeu por trinta moedas, que fora chamado amigo e, no entanto, traiu Jesus? Reconheço-me naqueles que foram fracos e O renegaram, como Pedro? Pouco antes, ele prometera a Jesus segui-Lo até à morte (cf. Lc 22, 33); depois, encurralado e dominado pelo medo, jura que não O conhece. Assemelho-me àqueles que já organizavam a sua vida sem Ele, como os dois discípulos de Emaús, insensatos e de coração lento para acreditar nas palavras dos profetas (cf. Lc 24, 25)? Ou então, graças a Deus, encontro-me entre aqueles que foram fiéis até ao fim, como a Virgem Maria e o apóstolo João? No Gólgota, quando tudo se torna escuro e toda a esperança parece extinta, somente o amor é mais forte que a morte. O amor de Mãe e do discípulo predileto impele-os a permanecerem ao pé da cruz, para compartilhar até ao fundo o sofrimento de Jesus. Reconheço-me naqueles que imitaram o seu Mestre e Senhor até ao martírio, dando testemunho que Ele era tudo para eles, a força incomparável da sua missão e o horizonte último da sua vida? A amizade de Jesus por nós, a sua fidelidade e a sua misericórdia são o dom inestimável que nos encoraja a continuar, com confiança, a segui-Lo, apesar das nossas quedas, erros e traições. Todavia esta bondade do Senhor não nos isenta da vigilância

frente ao tentador, ao pecado, ao mal e à traição que podem atravessar também a vida sacerdotal e religiosa. Sentimos a desproporção entre a grandeza da chamada de Jesus e a nossa pequenez, entre a sublimidade da missão e a nossa fragilidade humana. Mas o Senhor, na sua grande bondade e infinita misericórdia, sempre nos toma pela mão, para não nos afogarmos no mar do acabrunhamento. Ele está sempre ao nosso lado, nunca nos deixa sozinhos. Portanto, não nos deixemos vencer pelo medo e o desalento, mas, com coragem e confiança, sigamos em frente no nosso caminho e na nossa missão. Vós, amados irmãos e irmãs, sois chamados a seguir o Senhor com alegria nesta Terra bendita! É um dom e uma responsabilidade. A vossa presença aqui é muito importante; toda a Igreja vos está agradecida e apoia com a oração. Deste lugar santo quero dirigir uma saudação a todos os cristãos de Jerusalém. Recordo-os com afeto e rezo por eles. Imitemos a Virgem Maria e São João, permanecendo junto das muitas cruzes onde Jesus ainda está crucificado. Esta é a estrada pela qual o nosso Redentor nos chama a segui-Lo. Não há outra, é esta. «Se alguém Me serve, que Me siga, e onde Eu estiver, aí estará também o meu servo» (Jo 12, 26). Papa Francisco Encontro com sacerdotes, religiosos, religiosas e seminaristas na igreja do Getsêmani Segunda-feira, 26 de maio de 2014


DESPEDIDA

A ÚLTIMA CEIA

Francisco explicou que sair não significa esquecer, pois a Igreja em saída guarda a memória do que aconteceu no Cenáculo. “O Espírito Paráclito recorda-lhe cada palavra, cada gesto, e revela o seu significado”. O Santo Padre disse que o Cenáculo recorda muitos aspectos. Lembra o serviço, diante do gesto do lava-pés que Jesus realizou como exemplo para seus discípulos, e, com a Eucaristia, lembra o sacrifício, que se repete em cada Celebração Eucarística. ESPECIAL: VIAGEM À TERRA SANTA

A

visita do Papa Francisco à Terra Santa terminou no dia 26 com a Santa Missa realizada no Cenáculo, local onde Jesus fez a Última Ceia com os discípulos, apareceu a eles após sua ressurreição e onde o Espírito Santo desceu em Pentecostes. “Aqui nasceu a Igreja, e nasceu em saída. Daqui partiu, com o Pão repartido nas mãos, as chagas de Jesus nos olhos e o Espírito de amor no coração”, disse o Pontífice em sua homilia.

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ÍNTEGRA DA HOMILIA

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Amados Irmãos! Um grande dom nos concede o Senhor, ao reunir-nos aqui, no Cenáculo, para celebrar a Eucaristia. Enquanto vos saúdo com fraterna alegria, desejo dirigir um pensamento afetuoso aos patriarcas orientais católicos que participaram desses dias da minha peregrinação. Aqui, onde Jesus comeu a Última Ceia com os Apóstolos; onde, ressuscitado, apareceu no meio deles; onde o Espírito Santo desceu poderosamente sobre Maria e os discípulos. Aqui nasceu a Igreja, e nasceu em saída. Daqui partiu, com o Pão repartido nas mãos, as chagas de Jesus nos olhos e o Espírito de amor no coração. Jesus ressuscitado, enviado pelo Pai, no Cenáculo comunicou aos Apóstolos o seu próprio Espírito e, com esta força, enviou-os a renovar a face da terra (cf. Sal 104, 30). Sair, partir, não quer dizer esquecer. A Igreja em saída guarda a memória daquilo que aconteceu aqui; o Espírito Paráclito recorda-lhe cada palavra, cada gesto, e revela o seu significado. O Cenáculo recorda-nos o serviço, o lava-pés que Jesus realizou, como exemplo para os seus discípulos. Lavar os pés uns aos outros significa acolher-se, aceitar-se, amar-se, servir-se reciprocamente. Quer dizer servir o pobre, o doente, o marginalizado, aquele que me é antipático, aquele que me tira a paciência. O Cenáculo recorda-nos,

com a Eucaristia, o sacrifício. Em cada celebração eucarística, Jesus oferece-Se por nós ao Pai, para que também nós possamos unir-nos a Ele, oferecendo a Deus a nossa vida, o nosso trabalho, as nossas alegrias e as nossas penas…, oferecer tudo em sacrifício espiritual. O Cenáculo recorda-nos a amizade. “Já não vos chamo servos – disse Jesus aos Doze – (…) mas a vós chamei-vos amigos” (Jo 15, 15). O Senhor faz de nós seus amigos, confia-nos a vontade do Pai e se dá a Si mesmo. Esta é a experiência mais bela do cristão e, de modo particular, do sacerdote: tornar-se amigo do Senhor Jesus, descobrir no seu coração que Ele é amigo. O Cenáculo recorda-nos a despedida do Mestre e a promessa de reencontrar-se com os seus amigos: «Quando Eu tiver ido (…), virei novamente e hei de levar-vos para junto de Mim, a fim de que, onde Eu estou, vós estejais também» (Jo 14, 3). Jesus não nos deixa, nunca nos abandona, vai à nossa frente para a casa do Pai; e, para lá, nos quer levar consigo. Mas, o Cenáculo recorda também a mesquinhez, a curiosidade – “Quem é o traidor?” – a traição. E reproduzir na vida estas atitudes não sucede só nem sempre aos outros, mas pode suceder a cada um de nós, quando olhamos com desdém o irmão e o julgamos; quando, com os nossos pecados, atraiçoamos Jesus. O Cenáculo recorda-nos a partilha, a fraternidade, a har-

monia, a paz entre nós. Quanto amor, quanto bem jorrou do Cenáculo! Quanta caridade saiu daqui como um rio da sua fonte, que, ao princípio, é um ribeiro e depois se alarga e torna grande… Todos os santos beberam daqui; o grande rio da santidade da Igreja, sempre sem cessar, tem origem daqui, do Coração de Cristo, da Eucaristia, do seu Santo Espírito. Finalmente, o Cenáculo recorda-nos o nascimento da nova família, a Igreja, constituída por Jesus ressuscitado. Família esta, que tem uma Mãe, a Virgem Maria. As famílias cristãs pertencem a esta grande família e, nela, encontram luz e força para caminhar e se renovar no meio das fadigas e provações da vida. Para esta grande família, estão convidados e chamados todos os filhos de Deus de cada povo e língua, todos irmãos e filhos do único Pai que está nos céus. Este é o horizonte do Cenáculo: o horizonte do Ressuscitado e da Igreja. Daqui parte a Igreja em saída, animada pelo sopro vital do Espírito. Reunida em oração com a Mãe de Jesus, ela sempre revive a espera de uma renovada efusão do Espírito Santo: Desça o vosso Espírito, Senhor, e renove a face da terra (cf. Sal 104, 30)! Papa Francisco Santa Missa com os Ordinários da Terra Santa e com a comitiva papal no Cenáculo Segunda-feira, 26 de maio de 2014


ENTREVISTA

Padre Lombardi - Antes de mais nada, agradecemos infinitamente ao Papa por estar aqui. Depois de uma viagem tão desgastante, está disponível para nos encontrar. Por isso, lhe estamos muito gratos. Organizamo-nos – eles, os agentes da informação, organizaram-se autonomamente – segundo alguns dos principais grupos linguísticos, que propõem algumas pessoas para fazer as perguntas. Eu não pus limites, porque sei que Vossa Santidade gosta de deixar trabalhar a todo campo, a não ser que o Santo Padre queira começar por dizer alguma coisa de introdução. Não! Passemos às perguntas... A primeira pergunta é feita pelo grupo italiano: Nestes dias, Vossa Santidade fez alguns gestos que ressoaram por todo o mundo: a mão no muro de Belém, o sinal da cruz, o beijo aos sobreviventes, hoje em Yad Vashem, mas também o beijo no Santo Sepulcro, ontem, dado conjunta e simultaneamente com Bartolomeu, e muitos outros. Queríamos perguntar-lhe se já tinha pensado e estavam na sua intenção todos estes gestos; se sim, porque é que os pensou e quais serão depois, segundo Vossa Santidade, as consequências destes gestos, para além – naturalmente – daquele grandíssimo gesto de ter

convidado Peres e Abu Mazen para virem ao Vaticano… Santo Padre - Os gestos mais autênticos são aqueles que não se pensam, aqueles que nos surgem espontaneamente, não é? Eu pensei que se poderia fazer alguma coisa, mas o gesto concreto, não; nenhum destes foi pensado. Coisas há, como por exemplo o convite aos dois presidentes para a oração, que se tinha pensado fazê-la lá, mas havia tantos problemas logísticos, tantos, porque eles devem ter em conta também o território onde se faz, e não era fácil. Por isso, andava-se a pensar numa reunião… no fim, surgiu este convite que espero se possa realizar. Enfim, aqueles gestos não estavam pensados... vieram-me espontaneamente. Para dizer a verdade, alguma vez pensei: “Ali poder-se-ia fazer qualquer coisa», mas o que fosse em concreto não me vinha. Assim, por exemplo, no Yad Vashem… nada; e depois veio. Padre Lombardi - Agora a segunda pergunta, da parte do grupo de língua inglesa. Vossa Santidade falou com palavras muito duras contra o abuso sexual dos menores por parte do clero, dos sacerdotes. Criou uma comissão especial para enfrentar

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melhor este problema em nível da Igreja universal. Numa linha prática: sabemos já que, em todas as Igrejas locais, há normas que impõem como forte obrigação moral e, muitas vezes, legal a colaboração com as autoridades civis locais, ora de uma forma ora de outra. Que fará Vossa Santidade se houver um bispo que claramente não tenha honrado, não tenha observado estas obrigações? Santo Padre - Na Argentina, sobre os privilegiados, dizemos: “Este é um filho de papá”. Neste problema, não haverá filhos de papá. Neste momento, temos três bispos sob investigação: sob investigação, três; e um já foi condenado faltando apenas avaliar a pena a aplicar. Não há privilégios. Este abuso dos menores é um crime muito, muito bruto… Sabemos que é um problema grave por todo o lado, mas a mim interessa a Igreja. Um sacerdote que faz isto, trai o Corpo do Senhor, porque este sacerdote deve levar este menino, esta menina, este adolescente, esta adolescente à santidade; e este adolescente, esta menina confia… E ele, em vez de os levar à santidade, abusa deles. Isto é gravíssimo! É precisamente – só para dar uma comparação – como fazer uma Missa negra. Tu deves levá-lo à santidade, e acabas por precipitá-lo num problema que durará a vida inteira... Proximamente, em Santa Marta, haverá uma missa com algumas pessoas que sofreram abusos e, depois, uma reunião com elas: eu e elas, com o Cardeal O’Malley, que é da Comissão. Sobre isto, há que continuar: tolerância zero.

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Padre Lombardi - Muito obrigado, Santidade. E agora o grupo de língua espanhola. Desde o primeiro dia do seu pontificado, Vossa Santidade lançou esta mensagem forte de uma Igreja pobre e para os pobres, pobre em simplicidade, austeridade… Que quer fazer para que não existam contradições com esta mensagem de austeridade? [A pergunta fizera referência a situações de que se falara nos últimos tempos, nomeadamente uma operação no IOR de 15 milhões de euros]. Santo Padre - Uma vez (está no Evangelho!), o Senhor Jesus disse aos seus discípulos: “É inevitável que haja escândalos…”. Somos humanos, pecadores… todos. E haverá, haverá. O problema é evitar a sua proliferação. Na administração econômica, honestidade e transparência. As duas comissões – uma que estudou o IOR e a comissão que estudou todo o Vaticano – redigiram as suas conclusões, apresentaram planos e agora, com o Ministério (por assim dizer!), com a Secretaria da Economia dirigida pelo Cardeal Pell, levar-se-ão adiante as reformas orientadas por estas comissões. Mas haverá incongru-

ências, sempre as haverá, porque somos humanos, e a reforma deve ser contínua. Os Padres da Igreja diziam: Ecclesia semper reformanda. Devemos cuidar de reformar todos os dias a Igreja, porque somos pecadores, somos fracos e haverá problemas. A administração que esta Secretaria da Economia leva por diante ajudará muito a evitar os escândalos, os problemas... Por exemplo, no IOR, creio que foram fechadas até agora mais ou menos 1600 contas de pessoas que não tinham direito a ter uma conta no IOR. O IOR é para o auxílio à Igreja, têm direito os bispos das dioceses, os trabalhadores do Vaticano, as suas viúvas ou viúvos... É para coisas assim. Mas não têm direito outras pessoas privadas... As embaixadas, enquanto dura o serviço na embaixada e nada mais. Não é uma coisa aberta. E isto é um bom serviço: fechar as contas que não têm direito. Eu gostaria de dizer uma coisa: na pergunta que fez, mencionou aquele negócio dos 15 milhões. É uma coisa ainda em estudo, não é clara. Talvez possa ser verdadeira, mas a decisão, neste momento, ainda não é definitiva; para sermos corretos, está em estudo. Obrigado. Padre Lombardi - Agora damos a palavra ao grupo de língua francesa. Santo Padre, depois do Médio Oriente, voltamos agora para a Europa. Vossa Santidade está preocupado com o crescimento do populismo na Europa, que ainda ontem se manifestou nas eleições europeias? Santo Padre – Nestes dias, só tive tempo para rezar o Pai Nosso… Verdadeiramente não segui as notícias das eleições. Não tenho os dados: quem venceu, quem perdeu… Não segui as notícias. Populismo, em que sentido? Pode-me dizer? No sentido que hoje muitos europeus têm medo, pensam que não haja futuro na Europa. Há muito desemprego e o partido anti-europeu registrou um forte crescimento nestas eleições… Santo Padre – Este é um argumento de que ouvi falar: da Europa, da confiança ou desconfiança na Europa. Inclusive a propósito do euro, alguns querem voltar atrás... Destas coisas, não entendo muito. Mas o senhor disse uma palavra-chave: o desemprego. Este é grave. É grave, porque – eu interpreto assim, simplificando – estamos num sistema econômico mundial, em que, no centro, está o dinheiro, não a pessoa humana. Num verdadeiro sistema econômico, no centro devem estar o homem e a mulher, a pessoa humana. E hoje, no centro, está o dinheiro. Para se manter, para se equilibrar, este sistema deve ir em frente com algumas medidas


Padre Lombardi - Agora temos o grupo de língua portuguesa.

Santo Padre - Santidade, gostaria de lhe perguntar como resolver a “questão Jerusalém” para se obter uma paz, como disse, estável e duradoura? Obrigado. Há muitas propostas sobre a questão de Jerusalém. A Igreja Católica – o Vaticano, digamos – tem a sua posição do ponto de vista religioso: será a Cidade da Paz das três religiões. Isto, do ponto de vista religioso. As medidas concretas para a paz devem resultar das negociações. Tem que se tratar. Concordarei que das negociações talvez possa sair este ponto: será capital de um Estado, de outro... Mas não passam de hipóteses. Eu não digo: “Deve ser assim”; são hipóteses que eles devem negociar. Verdadeiramente, não me sinto competente para dizer: “Faça-se isto, aquilo ou aqueloutro”, porque seria uma loucura da minha parte. Mas creio que se deve entrar, com honestidade, fraternidade, confiança mútua, no caminho das negociações. E aí trata-se de tudo: todo o território, incluindo as relações. É preciso coragem para fazer isso, e peço muito ao Senhor que estes dois Líderes, estes dois governos tenham a coragem de seguir em frente. Este é o único caminho para a paz. Digo apenas aquilo que a Igreja deve dizer e que sempre disse: Que Jerusalém seja preservada como capital das três religiões, como referência, como uma cidade de paz – ia dizer a palavra “sagrada”, mas não é correta – cidade de paz e religiosa. Padre Lombardi - Obrigado, Santidade. Agora pedimos que venha o representante de língua alemã. Durante a sua peregrinação falou longamente e

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“de descarte”. E descartam-se as crianças – o nível de natalidade na Europa não é muito elevado! Creio que a Itália tem 1,2 por família; vós, em França, tendes 2… um pouco mais; a Espanha, menos do que a Itália: não sei se chega a 1… Descartam-se as crianças. Descartam-se os idosos: os velhos já não servem; conjunturalmente, neste momento, vão encontrá-los porque são aposentados e precisam da sua aposentadoria, mas é um fato conjuntural. Descartam-se os idosos, mesmo com situações de eutanásia escondida, em muitos países. Ou seja, os remédios são fornecidos até certo ponto, e assim… E, neste momento, descartam-se os jovens… Isto é gravíssimo, é gravíssimo. Na Itália, creio que o desemprego juvenil atinge quase 40%, não tenho a certeza. Na Espanha, tenho a certeza que anda pelos 50%; e na Andaluzia, no sul da Espanha, 60! Isso significa que há toda uma geração de «nem… nem…»: nem estudam, nem trabalham. E isto é gravíssimo! Descarta-se uma geração de jovens. Para mim, esta cultura do descarte é gravíssima. Mas isto não acontece só na Europa, verifica-se um pouco por toda a parte; na Europa, sente-se forte. Faz-se a comparação com a cultura do bem-estar de há 10 anos. E isto é trágico. É um momento difícil. É um sistema econômico desumano. Não tive medo de escrever na Exortação Evangelii Gaudium: este sistema econômico mata. E repito-o. Não sei se fui um pouco ao encontro da sua preocupação... Obrigado.

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encontrou várias vezes o Patriarca Bartolomeu. Perguntávamo-nos se teríeis também falado dos passos concretos de aproximação, e se houve ocasião para falar também dum ponto concreto: refiro-me aos padres casados, uma questão premente para muitos católicos, na Alemanha. Pergunto-me se a Igreja Católica não poderá aprender algo das Igrejas ortodoxas. Obrigado. Santo Padre - A Igreja Católica já tem padres casados, não tem? Os católicos gregos, os católicos coptas... No rito oriental, existem padres casados. Porque o celibato não é um dogma de fé; é uma regra de vida que eu aprecio muito e creio que seja um dom para a Igreja. Não sendo um dogma de fé, sempre temos a porta aberta: neste momento, não temos em programa falar disso, pelo menos para já. Temos coisas mais importantes a abordar. Com Bartolomeu, este tema não foi tocado, porque é deveras secundário nas relações com os ortodoxos. Falamos da unidade: a unidade que se vai fazendo ao longo da estrada, a unidade é um caminho. Não poderemos jamais fazer a unidade num congresso de teologia. E ele disse-me que era verdade aquilo que eu sabia, ou seja, que Atenágoras disse ao Papa Paulo VI: “Nós caminhamos juntos, em paz… e todos os teólogos metemo-los numa ilha para que discutam entre eles, nós caminhamos na vida”. É verdade, eu pensava que sim... Mas seria verdade ou não? É verdade: disse-me nestes dias Bartolomeu. Caminhar juntos, rezar juntos, trabalhar juntos em tantas coisas que podemos fazer juntos, ajudar-nos conjuntamente. Por exemplo, com as igrejas. Em Roma, e em muitas outras cidades, os ortodoxos usam igrejas católicas ora num horário ora noutro; é uma ajuda neste caminhar juntos. Outra coisa de que falamos – e talvez se faça alguma coisa no Conselho Pan-Ortodoxo – foi a data da Páscoa, porque é um pouco ridículo: - Diz-me, o teu Cristo quando ressuscita? - Na próxima semana. – O meu ressuscitou na passada… Sim, a data da Páscoa é um sinal de unidade. E, com Bartolomeu, falamos como irmãos. Queremo-nos bem, falamos das dificuldades do nosso governo. Obrigado. Padre Lombardi - Uma vez que não somos apenas europeus ou americanos e assim por diante, mas também asiáticos, agora será feita uma pergunta pelo representante do grupo asiático, até porque Vossa Santidade se está preparando também para fazer viagens à Ásia. A sua próxima viagem será à Coreia do Sul e por isso a pergunta que gostaria de lhe fazer é a propósito das regiões asiáticas. Em países vizinhos à Coreia do Sul, não há liberdade de religião nem liberdade de expressão.

Que pensa fazer em favor das pessoas que sofrem por causa destas situações? Santo Padre - Relativamente à Ásia, estão programadas duas viagens: esta à Coreia do Sul, para o encontro dos jovens asiáticos, e depois, no próximo mês de Janeiro, uma viagem de dois dias ao Sri Lanka e, em seguida, às Filipinas, na área que sofreu o tufão. O problema da negação da liberdade de praticar a religião não existe apenas em alguns países asiáticos – em alguns, sim! –, mas também noutros países do mundo. A liberdade religiosa é uma realidade que nem todos os países têm. Alguns mantêm um controle mais ou menos ligeiro, tranquilo; outros adotam medidas que acabam numa verdadeira perseguição dos crentes. Há mártires! Há mártires, hoje; mártires cristãos. Católicos e não-católicos, mas mártires. Em alguns lugares não se pode trazer o crucifixo, ou não podes ter uma Bíblia, hoje não podes ensinar o catecismo às crianças! Eu creio – e acho que não me engano – que, neste tempo, há mais mártires do que nos primeiros tempos da Igreja. Devemos aproximar-nos, em alguns lugares com prudência, para ir ajudá-los; devemos rezar muito por estas Igrejas que sofrem: sofrem tanto! E também os bispos, a própria Santa Sé trabalha com discrição para ajudar estes países, os cristãos destes países. Mas não é fácil. Por exemplo, vou dizer-te uma coisa. Num determinado país, é proibido rezar juntos; é proibido! Mas os cristãos que lá se encontram querem celebrar a Eucaristia! E existe um tal, operário de profissão, que é sacerdote. Ele vai lá; põem-se à mesa, fingindo que tomam o chá e celebram a Eucaristia. Não é fácil. Padre Lombardi - Retomamos a série, com o grupo de língua italiana. Santidade, no seu pontificado enfrenta uma grande quantidade de compromissos e fá-lo mesmo de forma muito intensa, como vimos nestes dias. Se amanhã, digamos um amanhã muito distante, sentisse que já não tinha a força para reger o seu ministério, pensa que faria a mesma escolha do seu antecessor, isto é, que deixaria o pontificado? Santo Padre - Eu farei aquilo que o Senhor me disser para fazer. Rezarei, buscarei a vontade de Deus. Mas eu creio que Bento XVI não é um caso único. Deu-se conta de que não tinha as forças necessárias e, honestamente – é um homem de fé, tão humilde –, tomou esta decisão. Eu creio que ele represente uma instituição. Há 70 anos, os bispos eméritos quase não existiam. E agora, há tantos. Que vai suceder com os Papas eméritos? Eu creio que devemos olhar para ele


Padre Lombardi - Agora voltamos ao grupo de língua inglesa. Santo Padre, hoje mesmo encontrou um grupo de sobreviventes do Holocausto. Obviamente, Vossa Santidade sabe bem que uma figura que ainda suscita perplexidades pelo seu papel durante o Holocausto é o seu predecessor Papa Pio XII. Vossa Santidade, antes do seu pontificado, escreveu ou disse que estimava Pio XII, mas, antes de chegar a uma conclusão definitiva, queria verificar também nos arquivos abertos. Por isso, gostaríamos de saber se tem intenção de avançar com a causa de Pio XII ou esperar mais alguma mudança no processo antes de tomar uma decisão? Obrigado. Santo Padre - Obrigado ao senhor. A causa de Pio XII está aberta. Informei-me: ainda não há qualquer milagre e, se não houver milagres, não pode avançar. Está parada naquele ponto. Devemos esperar, ver como evolui a realidade daquela causa e, depois, pensar nas decisões a tomar. Mas a verdade é esta: não há nenhum milagre, e é preciso pelo menos um para a beatificação. Assim está hoje a causa de Pio XII. E eu não posso pensar: “Fá-lo-ei Beato ou não?”, porque o processo é lento. Obrigado.

Padre Lombardi - Agora passamos à Argentina… com outra pergunta do grupo de língua espanhola. Vossa Santidade tornou-se um líder espiritual, mesmo um líder político, e está despertando muitas expectativas tanto dentro da Igreja como na comunidade internacional. Dentro da Igreja, por exemplo, que acontecerá com a comunhão para os divorciados que voltaram a casar; e, na comunidade internacional, esta mediação, com que surpreendeu o mundo, propondo este encontro no Vaticano... A pergunta: Não teme um fracasso, gerando muitas expectativas? Não teme que possa haver algum fracasso? Obrigado. Santo Padre - Primeiro, farei um esclarecimento sobre este encontro no Vaticano: será um encontro de oração, e não para fazer uma mediação ou procurar soluções. Não é para isso. Reunir-nos-emos apenas para rezar; e, depois, cada qual volta para casa. Mas creio que a oração seja importante: rezar juntos, sem fazer discussões de outro gênero, ajuda. Talvez, antes, não me tenha explicado bem como seria. Será um encontro de oração: estará presente um rabino, estará presente um muçulmano e estarei eu. Pedi ao Custódio da Terra Santa para organizar um pouco as coisas práticas. Em segundo lugar, agradeço a pergunta sobre os divorciados. O Sínodo será sobre a família, sobre o problema da família, sobre as riquezas da família, sobre a situação atual da família. A exposição preliminar feita pelo Cardeal Kasper tinha cinco capítulos: quatro sobre a família, as coisas belas da família, o fundamento teológico, algumas problemáticas familiares; e o quinto capítulo, o problema pastoral das

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como para uma instituição. Ele abriu uma porta, a porta dos Papas eméritos. Haverá outros, ou não? Deus o sabe. Mas esta porta está aberta: eu creio que um Bispo de Roma, um Papa que sente que lhe faltam as forças – porque agora se vive muito tempo – deve colocar-se as mesmas perguntas que se pôs o Papa Bento.

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separações, das nulidades matrimoniais, os divorciados... Neste problema, insere-se o da comunhão. E eu não gostei do que tantas pessoas – mesmo de Igreja, padres - disseram: “Ah, o Sínodo para dar a comunhão aos divorciados”, e fixaram-se precisamente ali, naquele ponto. Senti aquilo como se tudo se reduzisse a uma casuística. E não, a realidade é muito mais ampla. Hoje – todos o sabemos – a família está em crise: uma crise mundial. Os jovens não querem casar: ou não casam ou convivem. O matrimônio está em crise e, de igual modo, a família. E eu não queria que caíssemos nesta casuística: poder-se-á ou não? Por isso, muito lhe agradeço esta pergunta, que me dá oportunidade para esclarecer isto. O problema pastoral da família é muito, muito amplo, muito amplo. E há que estudar caso a caso. Há uma coisa que o Papa Bento XVI disse três vezes – uma vez, no Vale d’Aosta, outra em Milão e a terceira no Consistório, o último Consistório público que ele fez para a criação dos Cardeais – sobre os divorciados e que a mim me ajuda muito: estudar os procedimentos de nulidade matrimonial; estudar a fé com que uma pessoa vai para o matrimônio e deixar claro que os divorciados não são excomungados, e muitas vezes são tratados como excomungados. E esta é uma coisa séria. Isto a propósito da casuística deste problema… mas o Sínodo será sobre a família: as riquezas, os problemas da família. Soluções, nulidade, tudo isso. E haverá também este problema, mas no conjunto. Agora eu queria dizer-lhe o porquê de um Sínodo sobre a família: esta foi para mim uma experiência espiritual muito forte. No segundo mês de pontificado, veio ter comigo Mons. Eterovic, então Secretário do Sínodo, com os três temas que o Conselho pós-sinodal propunha para o próximo Sínodo. O primeiro era muito forte, bom: a contribuição de Jesus Cristo para o homem de hoje. Este era o título. Aparecia na continuação do Sínodo da Evangelização. Eu disse que sim, falamos um pouco sobre a reforma da metodologia e, no fim, sugeri: “Coloquemos algo mais: a contribuição de Jesus Cristo para o homem de hoje e para a família”. Assim está bem. Depois, na primeira reunião do Conselho pós-sinodal, fui e vi que se dizia o título inteiro, completo, mas lentamente dizia-se: “Sim, sim, a contribuição para a família”, “que traz Jesus Cristo para a família”… e, sem se dar conta, a comissão pós-sinodal acabou falando da família. Tenho a certeza que foi o Espírito do Senhor que nos guiou até à escolha deste título; tenho a certeza, porque hoje, verdadeiramente, a família tem necessidade de muita ajuda pastoral. Obrigado. Padre Lombardi - Agora temos ainda o grupo

francês. Pode-nos dizer, Santidade, quais são os obstáculos à sua reforma da Cúria Romana e a que ponto estamos hoje? Santo Padre - Mas… o primeiro obstáculo sou eu… Estamos a bom ponto, porque – não me recordo a data – mas creio que três meses ou por aí depois da eleição foi nomeado o Conselho dos oito Cardeais [Pe. Lombardi: “um mês depois da eleição”] …um mês depois da eleição. Ora bem, nos primeiros dias de julho, reunimo-nos pela primeira vez e desde então está se trabalhando. O que faz o Conselho? O Conselho estuda toda a Constituição Pastor Bonus e a Cúria Romana. Fez consultas no mundo inteiro, em toda a Cúria e começa a estudar algumas coisas: “Isto pode-se fazer deste modo, aquilo daquele modo…”. Por exemplo, juntar alguns dicastérios para tornar mais leve um pouco a organização... Um dos pontos-chave foi o econômico, e o dicastério da economia ajudará muito. Deve trabalhar em conjunto com a Secretaria de Estado, porque as coisas estão interligadas, trabalham todos juntos... Agora teremos, em julho, quatro dias de trabalho com esta comissão e depois, em setembro – creio! –, outros quatro. Trabalha-se, trabalha-se bastante. E os resultados não se veem ainda todos; a parte econômica foi aquela que saiu a público primeiro porque havia alguns problemas de que a imprensa falou bastante, e tínhamos de os ver. Quanto aos obstáculos, são os normais de todo o processo. Estudar o caminho... A persuasão é muito importante. Um trabalho de persuasão, de ajuda… Há algumas pessoas que não veem isto claramente, mas toda a reforma comporta estas coisas. Trabalhou-se bastante e esta Comissão ajuda-nos muito. Obrigado. Padre Lombardi - Santidade, obrigado pela sua disponibilidade. Desculpe se interrompo a sua conversa: foi generosíssimo, sobretudo depois de uma viagem extraordinária que nos emocionou a todos… Não digo tanto como a Vossa Santidade, mas quase. Acompanhamos intensamente também os momentos de emoção espiritual que Vossa Santidade viveu nos Lugares Santos: sentimo-la e tocou-nos. Desejamos que continue bem esta viagem e essa infinidade de coisas que põe continuamente em movimento, particularmente este encontro de oração, que é a continuação natural e a coroação desta viagem: que possa dar os frutos que Vossa Santidade deseja e todos – creio! – desejamos para a paz no mundo. De coração obrigado, Santidade. Santo Padre - Agradeço-vos imensamente pela companhia, pela benevolência... e, por favor, peço-vos que rezeis por mim. Preciso bastante! Obrigado.


Entrevista com o Frei Silvio de la Fuente, franciscano da Custódia da Terra Santa

Qual saída da programação do Papa você poderia nos dizer? Frei Silvio: Houve vários sinais pequenos, mas muito bonitos por parte do Santo Padre, como o fato de que tenha vindo almoçar no nosso convento. Foi uma coisa fantástica, especialmente porque veio compartilhar ‘o que acontece em um convento’, não foi um almoço de luxo, ou seja, comeu o que é servido habitualmente. Mas, essa visita não estava programada, não é verdade? Havia um outro almoço oficial? Frei Silvio: Nesse dia tinha que ir ao Notre Dame Center. É um hotel que fica em frente do convento dos freis, um hotel muito bonito que os Legionários de Cristo têm e onde vão muitas personalidades, e, até mesmo com uma cozinha de alto nível. O Santo Padre, falando com o núncio apostólico, que lhe contou tudo o que fazíamos, quis estar conosco e assim tivemos o privilégio de tê-lo aqui. Uma pequena parte da delegação veio ao convento, entre eles estava o patriarca Latino, Fuad Twal, e o secretário de estado, Pietro Parolín. Ou seja, outra parte da comitiva papal almoçou no Notre Dame Center, embora as pessoas e as outras comunidades que o Papa iria encontrar neste hotel, ele recebeu-as de qualquer forma. Não decepcionou ninguém. E qual foi a sua impressão do abraço, em frente ao muro, de Francisco com o rabino Skorka e o xeique Abboud? Frei Silvio: Foi incrível ver os três filhos de Abraão, porque nas três religiões monoteístas reconhecemos nele um pai comum. Foi muito simbólico: nossos irmãos maiores estavam no muro das lamentações, nossos irmãos menores acima na explanada da mesquita, e o Papa Francisco abraçando os dois. Como é que se vive o diálogo inter-religioso em Jerusalém? Frei Silvio: Existem dois níveis de ecumenismo e diálogo inter-religioso, o teológico ou, se queremos,

mais científico, e outro, que é o da convivência diária, que se você precisar, por exemplo, de um pão vai ao padeiro que é muçulmano, ou se você precisa de um azeite vai ao comércio de um judeu. Afinal, esta é também uma convivência inter-religiosa, e ninguém fica discutindo teologia. Esse contato diário abre ao diálogo e esses gestos simples, mas muito significativos, que Francisco realizou, afirmam e reforçam algo que os frades e muitas pessoas na Terra Santa fazem há muito tempo. A impressão que se tem é que existem muitos fundamentalistas, ou esses são minorias? Frei Silvio: Dou-lhe um exemplo: quando estudava hebraico no Ulpan Milah também havia muçulmanos que o faziam lá. Uma das dinâmicas foi levar fotos das nossas famílias para apresentá-las e assim praticar o idioma. E foi bonito ver como cada um apresentava a sua família ou os seus filhos e como um muçulmano com barba, que podia ser mais ortodoxo, mostrava fotos dos seus filhos e outros que eram judeus também ortodoxos compartilhavam as suas fotos, e depois tomavam um café juntos e se perguntavam pelos familiares etc, em um clima de grande serenidade e amizade. Alguma coisa que mais tenha impressionado do Papa? Frei Silvio: A verdade é que me impressionou muito a abertura e gentileza do Santo Padre com todos. Depois de todas as visitas que realizou, subimos ao avião e vieram os que faziam o serviço de bordo. O Papa tirou uma foto com cada um deles, depois começou a rezar. Em seguida foi à coletiva de imprensa, e os do serviço de bordo pediram-lhe um autógrafo e falava com eles... e ele aceitou tranquilamente depois de três dias de uma visita tão cheia. E sempre dando sinais de simpatia com os demais. Ele mesmo disse que às vezes bastam gestos simples, como um sorriso, para que a relação entre duas pessoas surja ou melhore. O Papa encontrava tempo para orar em meio a uma agenda tão apertada? Frei Silvio: Na verdade , quando estávamos no carro ou helicóptero, ou até mesmo no avião, ele ia rezando, ou com o breviário na mão ou com santo terço. Às vezes, me perguntava algo ou eu lhe perguntava ou compartilhava algo com ele. Em outras ocasiões simplesmente rezava.

ESPECIAL: VIAGEM À TERRA SANTA

Durante a visita do Papa Francisco a Jerusalém, foi possível ver que um franciscano era o seu intérprete com o hebraico e o árabe. Trata-se do sacerdote argentino Silvio de la Fuente, nascido em Buenos Aires, frade franciscano da Custódia da Terra Santa. Confira a entrevista que o frade deu para a Agência Zenit.

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A LOGOMARCA DA VIAGEM

O centro da peregrinação do Papa Francisco foi o encontro com o Patriarca Greco-Ortodoxo Bartolomeu de Constantinopla e com os chefes das Igrejas em Jerusalém. O logotipo também manifesta esse desejo de unidade. Ele reproduz o abraço de São Pedro e Santo André, os dois primeiros discípulos chamados por Jesus na Galileia. São Pedro é o padroeiro da Igreja com sede em Roma e Santo André, da Igreja de Constantinopla. Em Jerusalém, na Igreja Matriz, eles se abraçam. Os dois apóstolos se encontram no mesmo navio que representa a Igreja, cujo mastro é a Cruz do Senhor. As velas do barco são sopradas pelo vento, o Espírito Santo, é que conduz o navio pelas águas do mundo.


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