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agosto de 2013  www.revistapesquisa.fapesp.br

asma

Inflamação persistente altera a estrutura dos pulmões árvores petrificadas

Fósseis revelam florestas de quase 300 milhões de anos código voynich

Físicos identificam palavras-chave de manuscrito em linguagem secreta

COMPETITIViDADE

São Paulo atrai pós-doutorandos do exterior campana florestal

Câmeras na mata auxiliam estudo da relação entre plantas e clima

A era dos extremos Primeiro relatório brasileiro sobre mudanças climáticas prevê um país mais quente, mais chuvoso ao sul e árido ao norte


fotolab

Flor em desenvolvimento A reprodução sexual de uma planta depende do desenvolvimento apropriado de seus órgãos florais. Em 2011, a equipe da professora Maria Helena Goldman, da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FFCLRP/USP), identificou o gene SCI1, que controla a proliferação celular nos tecidos especializados da parte superior do pistilo, o órgão reprodutor feminino das flores, e influencia seu tamanho final. A imagem mostra o pistilo da planta de tabaco, a Nicotiana tabacum, no início do desenvolvimento da flor ao lado de três anteras, sacos onde são produzidos os grãos de pólen. A imagem foi feita com um microscópio eletrônico de varredura na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP.

Foto enviada por Maria Helena Goldman, professora da FFCLRP/USP Se você tiver uma imagem relacionada à sua pesquisa, envie para imagempesquisa@fapesp.br, com resolução de 300 dpi (15 cm de largura) ou com no mínimo 5 MB. Seu trabalho poderá ser selecionado pela revista.

PESQUISA FAPESP 210 | 3


AGOSTO 2013 n. 210

16 CAPA Relatório indica que todo o Brasil deverá ficar ao menos 3ºC mais quente até o fim do século; chuvas podem aumentar 30% no Sul-Sudeste e diminuir até 40% no Norte-Nordeste

POLÍTICA CIENTÍFICA E TECNOLÓGICA

22 Mudanças climáticas deverão acentuar perdas na produção agrícola, aumentar o desafio de gerar energia hidrelétrica e afetar a gestão urbana

38 Avaliação

foto  Dennis Stock / Magnum Photos

ENTREVISTA 26 William Saad Hossne O médico e pesquisador, ex-diretor científico da FAPESP, fala dos primeiros anos da Fundação e sobre bioética, sua especialidade

seçÕes 3 Fotolab 5 Carta da Editora 6 On-line 8 Dados e projetos 9 Boas práticas 10 Estratégias 12 Tecnociência 88 Memória 90 Arte 92 Conto 94 Resenhas 96 Carreiras 4 | AGOSTO DE 2013

32 Mobilidade

Internacionalização da pesquisa paulista é estimulada pela vinda de pós-docs do exterior com bolsa da FAPESP Grupo avalia programas da FAPESP e mostra de onde vieram e para onde foram ex-bolsistas apoiados pela Fundação

43 Ecologia

Desafio do relatório sobre biodiversidade é integrar dados regionais aos globais e o conhecimento tradicional ao científico

57 Astronomia

Brasileiros participam de avaliação de risco para sonda espacial

60 Criptografia

Físicos brasileiros propõem significado para termos do manuscrito Voynich, produzido em linguagem desconhecida

TECNOLOGIA 64 Aeronáutica

Dois novos fabricantes de aviões se instalam em Santa Catarina

68 Monitoramento ambiental

CIÊNCIA

Trabalho artesanal de pesquisa em campo ganha reforço com câmeras e programas de computador

44 Medicina

72 Engenharia

Alterações nas vias aéreas impedem melhora nos casos graves de asma

Estudo gera conhecimento para pneu que compacta menos o solo agrícola

48 Zoologia

Parentesco entre aves revela conexão entre floresta amazônica e mata atlântica em dois momentos do passado

52 Paleontologia

Plantas petrificadas revelam como era há quase 300 milhões de anos a paisagem onde agora ficam Tocantins e São Paulo

56 Obituário

Bertha Becker lançou conceitos inovadores e construiu uma visão ampla sobre a região Norte

HUMANIDADES 76 Relações exteriores

Cresce o interesse de brasileiros pelos rumos da política externa

82 História

Historiadores advertem que a FEB deixou legado de cidadania


carta da editora fundação de amparo à pesquisa do estado de são Paulo Celso Lafer Presidente Eduardo Moacyr Krieger vice-Presidente Conselho Superior alejandro szanto de toledo, Celso Lafer, Eduardo Moacyr Krieger, fernando ferreira costa, Horácio Lafer Piva, Herman Jacobus Cornelis Voorwald, joão grandino rodas, Maria José Soares Mendes Giannini, José de Souza Martins, Luiz Gonzaga Belluzzo, Suely Vilela Sampaio, Yoshiaki Nakano

Revelações sobre o futuro do clima no Brasil

Conselho Técnico-Administrativo José Arana Varela Diretor presidente Carlos Henrique de Brito Cruz Diretor Científico

Mariluce Moura |

Diretora de Redação

Joaquim J. de Camargo Engler Diretor Administrativo

issn 1519-8774

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F

ez muito frio no centro-sul do Brasil na penúltima semana de julho, para os padrões do país, a ponto de nevar em quase duas centenas de cidades em vez de em uma dúzia delas, como de hábito. No começo da tarde da terça, 23, no percurso entre o campus da USP, no Butantã, e a redação de Pesquisa FAPESP, em Pinheiros, embora neve não houvesse, registrei mentalmente o encanto da atmosfera friorenta, as figuras de um verde intenso, quase líquido eu diria, pintadas sobre a vasta serenidade do fundo cinza suave – multidão de árvores contra o céu invernal nesse pedaço da zona Oeste, a megalópole me obrigando a reconhecê-la bela. Ao telefone, contavam-me nesse mesmo instante que Recife se preparava para a 65ª reunião anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência sob chuvas intermináveis. E poucos dias depois, enquanto o Rio de Janeiro remanejava do campo de Guaratiba para a praia de Copacabana, também por culpa das chuvas, a missa de encerramento da Jornada Mundial da Juventude, com inquestionável ganho estético para o enorme evento religioso comandado pelo papa Francisco, uma Salvador igualmente chuvosa exibia praias vazias, ainda que oferecendo ao olhar um mar em incrível azul-escuro sob a luz um tanto fria da manhã. Lembrei-me que há coisa de um mês, pouco mais, era da seca terrível que assolava vasto território do interior da Bahia que se comentava na capital. Essas considerações sobre o tempo e suas variações vêm a propósito, claro, da bela reportagem de capa desta edição (a partir da página 16), composta por um primeiro texto elaborado por Marcos Pivetta e um segundo preparado por Carlos Fioravanti, ambos editores especiais

da revista. O material traz em primeira mão os principais resultados científicos do mais completo diagnóstico já produzido a respeito das tendências dominantes do clima futuro no país. Em outras palavras, a reportagem aborda o primeiro relatório de avaliação nacional (RAN1) do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas (o PBMC, criado em 2009 pelos ministérios do Meio Ambiente e da Ciência, Tecnologia e Inovação), que será divulgado neste mês de setembro durante a 1ª Conferência Nacional de Mudanças Climáticas Globais, organizada pela FAPESP. Sai-se da leitura do texto de Pivetta com a percepção nítida de que no Brasil as estações estão mesmo meio “loucas” e assim seguirão. Ou seja, o frio e a neve nacionais da penúltima semana de julho não desmentem nem mitigam em nada as evidências das mudanças climáticas em curso em decorrência do aquecimento global também nesse pedaço do planeta chamado Brasil – já que são exatamente os extremos do clima uma das marcas mais fortes desse processo. O Brasil em 2100, segundo as projeções do PBMC, será de 3ºC a 6ºC mais quente em todas as regiões em relação às médias registradas no final do século XX. A quantidade de chuvas poderá ser 40% maior em biomas como a Amazônia e a caatinga e um terço menor nos pampas. Secas prolongadas devem se seguir a períodos de chuvas intensas e fenômenos raros como os furacões podem se tornar mais frequentes. O desafio que se apresenta ao país para mitigar os efeitos sociais danosos das alterações do clima inclui, conforme detalha o texto de Fioravanti, mudanças profundas nas políticas agrícola, industrial e urbana. Vale a pena pensar a respeito. PESQUISA FAPESP 210 | 5


on-line

Nas redes

w w w . r e v i s ta p e s q u i s a . f a p e s p. b r

cresce o número de acessos por celulares e tablets

Marina Maciel_ Mesmo sendo

Mais de 13% das visitas ao site de Pesquisa FAPESP se deram a partir de dispositivos móveis

assinante, escolhi as redes sociais como meu principal canal de

% 16

2012

2013

comunicação com a revista. (As lições dos leitores)

14 12

15,11%

do total de visitas

10 8

Tulio Cesar Domingos Corrêa_ Não me entra na cabeça é ela (água) voltar à forma líquida quando a -100ºC. (O lado esquisito da água)

6

Consuelo Ivo_ Show de informação

4

científica. (Um peixe modelo)

2 0

Flavio Ortigao_ Olha aí meu povo, jan fev mar abr mai jun jul ago set out nov dez jan fev mar abr mai jun jul fonte google analytics

Exclusivo no site

vamos proteger a caatinga! (As muitas faces do sertão) Lúcia Cruz_ Meu pai, com quase 92 anos, confirma a hipótese.

x Uma das principais pragas de grãos armazenados, o gorgulho-do-milho pode ter desenvolvido resistência fisiológica e também comportamental ao seu principal inseticida, a deltametrina. Em estudo publicado na revista PLoS One, um grupo de pesquisadores da Universidade Federal de Viçosa verificou que alguns insetos, mais resistentes, andaram ou voaram longas distâncias e em maior velocidade. Isso os ajudou a sobreviver ao veneno, já que, quando expostos a grãos de milho tratados com o inseticida, fugiam para uma superfície não tratada.

x Áreas isoladas do planeta também estariam expostas aos efeitos da poluição produzida a quilômetros. Em um estudo publicado na revista Marine Pollution Bulletin, pesquisadores do Instituto Oceanográfico da USP e do Littoral Environnement et Sociétés da Université de La Rochelle, na França, notaram a presença de resíduos tóxicos em crustáceos, peixes e aves do arquipélago de São Pedro e São Paulo.

(Ler preserva a memória) ENgelke Doug_ Eis uma mulher que admiro! Professora Helena Nader me representa! (Helena Bonciani Nader: Ela briga pela ciência) Ana Paula Barreto_ Meus parabéns a todos os envolvidos. (Um maracujá mais nutritivo) M Carmo Bittencourt Oliveira_

x RÁDIO  No programa Pesquisa Brasil, a presidente da SBPC, Helena Bonciani Nader, aponta os gargalos que limitam o desenvolvimento científico do país.

Microalgas: ajudando a achar dinossauros, através das pegadas. (Registros do Cretáceo)

Vídeo do mês Pesquisadores tentam descobrir quais são as razões para a terra tremer no Brasil youtube.com/user/PesquisaFAPESP

6 | agosto DE 2013

Assista ao vídeo:


Dados e projetos Temáticos e Jovem Pesquisador recentes Projetos contratados em junho e julho de 2013

temáticos  Bases moleculares da qualidade da carne em bovinos da raça nelore Pesquisadora responsável: Luciana Correia de Almeida Regitano Instituição: Embrapa Pecuária Sudeste Processo: 2012/23638-8 Vigência: 01/06/2013 a 31/05/2017

 Suporte circulatório em pacientes pediátricos; dispositivo de assistência ventricular e oxigenação extracorpórea Pesquisadora responsável: Idagene Aparecida Cestari Instituição: Instituto do Coração do Hospital das Clínicas/SSSP

Processo: 2012/50283-6 Vigência: 01/05/2013 a 30/04/2017

 Fresamento de matrizes e moldes: a vibração no processo e o fresamento de perfis complexos Pesquisador responsável: Anselmo Eduardo Diniz Instituição: Faculdade de Engenharia Mecânica/Unicamp Processo: 2013/00551-7 Vigência: 01/07/2013 a 30/06/2017 Jovem pesquisador  A evolução da migração das aves: a teoria atual se aplica na América do Sul? Pesquisador responsável: Alejandro Edward Jahn

Instituição: Instituto de Biociências de Rio Claro/Unesp Processo: 2012/17225-2 Vigência: 01/07/2013 a 30/06/2016

 Regulação do crescimento pela via “target of rapamycin” (TOR) em plantas Pesquisadora responsável: Camila Caldana Instituição: Centro Nacional de Pesquisa em Energia de Materiais/MCTI Processo: 2012/19561-0 Vigência: 01/06/2013 a 31/05/2017  Alteração no balanço de carbono em gramíneas visando incremento na produção de açúcares

Pesquisador responsável: Danilo da Cruz Centeno Instituição: Centro de Ciências Naturais e Humanas/UFABC Processo: 2012/23838-7 Vigência: 01/08/2013 a 31/07/2017

 Desenvolvimento de sistemas integrados para a análise de compostos bioativos em produtos naturais utilizando tecnologia supercrítica Pesquisador responsável: Mauricio Ariel Rostagno Instituição: Faculdade de Engenharia de Alimentos/Unicamp Processo: 2013/04304-4 Vigência: 01/07/2013 a 30/06/2017

Produção científica brasileira 10 anos de ciência indexada feita no país: resultados e impacto* Impacto relativo no mundo

Artigos

trabalhos na área

Área do conhecimento

1992

2012

1992

2012

1992

2012

Ciências da Agricultura

276

3.393

0,48

0,54

1,83%

9,68%

Biologia e Bioquímica

316

1.561

0,43

0,56

0,75%

2,60%

Química

313

2.678

0,71

0,48

0,50%

1,90%

Medicina Clínica

710

7.228

0,54

0,69

0,66%

2,88%

Ciência da Computação

68

447

1,42

0,91

0,64%

1,50%

Economia e Administração

13

230

0,58

0,67

0,16%

1,01%

Engenharia

168

1.611

0,80

0,82

0,47%

1,62%

Ambiente e Ecologia

99

1.096

0,55

0,82

0,92%

3,01%

Geociências

107

588

0,96

0,74

0,75%

1,67%

Imunologia

63

626

0,79

0,73

0,54%

3,13%

Ciência dos Materiais

79

979

0,71

0,51

0,46%

1,56%

Matemática

121

700

0,96

0,80

0,87%

2,02%

Microbiologia

76

692

0,69

0,59

0,86%

3,93%

Biologia Molecular e Genética

77

790

0,37

0,59

0,51%

2,23%

Pesquisa Multidisciplinar

26

281

0,73

0,39

0,26%

2,59%

Neurociências e Ciência Comportamental

100

1.002

0,75

0,70

0,48%

2,34%

Farmacologia e Toxicologia

115

1.074

0,94

0,56

0,70%

3,08%

Física

759

2.458

0,66

2,14

1,33%

2,32%

Ciência das Plantas e Animais

269

3.981

0,67

0,53

0,77%

6,54%

Psiquiatria e Psicologia

18

471

1,22

0,70

0,12%

1,44%

Ciências Sociais

247

1.993

0,51

0,50

0,95%

2,74%

Ciência Espacial

121

301

0,46

0,58

1,96%

2,21%

Todas

4.580

34.393

0,60

0,74

0,73%

2,70%

(*) Número de citações por trabalho no Brasil dividido por número de citações por trabalho na mesma área no mundo.

8 | agosto DE 2013

Fonte: InCites TM, Thomson Reuters (2012)


Boas práticas Cancelamentos de artigos científicos maculados por erros, fraudes ou plágio nunca foram tão frequentes como nos últimos 10 anos. Da mesma forma, o processo de identificação e retratação desses artigos nunca antes ocorreu de forma tão veloz. A conclusão é de um estudo publicado no mês passado na revista PLoS One, assinado por três pesquisadores norte-americanos. O grupo examinou 2.047 artigos retratados que haviam sido indexados no PubMed, banco de dados com a literatura da área biomédica publicada a partir de 1966. De 2003 a 2012, 1.333 artigos foram retratados, diante de 714 artigos de 2002 para trás. Este aumento, dizem os autores, é maior do que o esperado quando se leva em conta o crescimento da produção científica mundial. O que chamou a atenção foi o tempo gasto para o reconhecimento da falha e a consequente remoção do artigo. Na média geral, os artigos demoraram 32,9 meses para serem retirados. Entre os 714 artigos publicados antes de 2002, as retratações demoraram 49,82 meses. Já entre os de 2003 a 2012, o processo durou apenas 23,82 meses. Segundo Grant Steen, pesquisador de uma empresa de consultoria em comunicação médica e autor principal do estudo, não foi possível delimitar se a tendência reflete um aumento na publicação de artigos defeituosos ou o crescimento no rigor para identificar problemas nos manuscritos. Mas é possível inferir, de acordo com o estudo, que diminuíram as barreiras que dificultavam a identificação de problemas. Entre 1972 e 1992, 46% dos artigos cancelados foram escritos por autores que tinham apenas uma retratação no

currículo, ou seja, que não cometeram erros ou fraudes em série. Já entre 1993 e 2012, esse tipo de autor foi responsável por 63,1% dos artigos removidos, um sinal de que o esquema para detectar casos de má conduta está funcionando bem. O estudo observa que as razões para cancelar um artigo vêm se sofisticando. Embora a base PubMed reúna a literatura biomédica desde os anos 1960, o primeiro artigo retratado saiu publicado em 1973 e foi cancelado em 1977. Os primeiros casos de fraude e plágio remontam a 1979 e o primeiro manuscrito suspenso porque se tratava de informação duplicada foi divulgado em 1990. Atualmente, observa o estudo, a descoberta de um caso de má conduta cometida por um autor leva à reavaliação de toda a sua produção científica. Steen prevê

daniel bueno

A velocidade das retratações

uma redução no número de retratações nos próximos anos. Para que isso aconteça, diz, os periódicos científicos devem seguir identificando com rigor erros, fraudes e plágio em artigos científicos, e punindo seus autores.

Punição atenuada O bioquímico norte-americano Phillippe Bois, que foi considerado culpado por má conduta científica em 2011 e perdeu o direito de pedir verbas federais para pesquisa por três anos, recorreu à Justiça e conseguiu reduzir o rigor da punição que recebeu do Escritório de Integridade Científica dos Estados Unidos (ORI, na sigla em inglês). Segundo investigação do órgão, Bois publicou uma imagem falsificada num artigo no Journal of Cell Biology e divulgou informações adulteradas num paper no Molecular and Cell Biology. Ele argumentou que foram erros involuntários, não fraude. Depois de ser punido, pediu uma audiência no Departamento de Saúde. Mas, como não apresentou fatos novos,

a audiência foi negada. Recorreu à Justiça e obteve uma decisão que lhe garantia uma nova chance de se defender. As duas partes conversaram e chegaram a um acordo. Bois comprometeu-se a não recorrer contra o resultado da investigação do ORI. E a punição foi amenizada. Ele pode voltar a pedir recursos federais para projetos, mas, se o fizer, sua instituição terá de certificar que os dados são legítimos. Seu trabalho será supervisionado pelos próximos três anos. “Estou feliz por poder levar minha carreira adiante”, afirmou Bois, num comunicado. Segundo ele, o acordo sinaliza que a punição era severa demais e poderia não se sustentar na Justiça. PESQUISA FAPESP 210 | 9


Estratégias

100 obras relevantes

Um documento

proporcionalmente,

divulgado pela Fundação

a DFG tem aprovado

Alemã de Pesquisa

menos propostas do que

(DFG), a mais importante

no passado. O caso

agência de fomento

mais evidente são os

germânica, questiona

auxílios individuais,

o futuro do sistema de

responsáveis por um

ciência e tecnologia do

terço dos recursos da

país com a progressiva

fundação. O número

redução do

absoluto de projetos

financiamento a

aprovados cresceu de

pesquisadores das

10 mil em 2009 para

universidades. “Os

mais de 12 mil em 2012.

orçamentos básicos das

Mas a relação entre

universidades, que são

projetos apresentados

garantidos pelos estados

e aprovados piorou.

da federação, estão

Apenas 32%

estagnados ou em

das solicitações

Entre os dias 9 de agosto

– de clássicos como

declínio. Já a pesquisa

apresentadas em 2012

e 4 de outubro será

Literatura e sociedade,

feita em instituições

foram atendidas, diante

realizado o Ciclo de

de Antonio Candido,

não vinculadas a

de 47% em 2009.

Conferências 50 anos

a obras recentes, como

universidades segue

“Não estamos mais

das Ciências da

A imprensa e o dever da

recebendo recursos

sendo capazes de

Comunicação no Brasil –

liberdade, do jornalista e

de forma regular e

financiar todos os

A contribuição de São

professor Eugênio Bucci.

suficiente”, disse

projetos importantes”,

Paulo, uma parceria entre

“Com este evento

Peter Strohschneider,

disse Strohschneider.

a FAPESP e a Sociedade

queremos difundir

presidente da DFG.

Em 2012, a DFG

Brasileira de Estudos

entre os cursos de

Segundo ele, a erosão

financiou 30.900

Interdisciplinares em

comunicação a

do financiamento às

projetos em diversos

Comunicação (Intercom).

bibliografia brasileira

universidades começa a

programas e executou

No total, serão

específica para torná-la

comprometer a atuação

um orçamento de € 2,52

oito encontros às

mais próxima do aluno”,

da agência, exigindo

bilhões. As ciências da

sextas-feiras, na sede da

diz Sandra Lúcia Amaral

que ela invista cada vez

vida receberam quase

Fundação e na Escola

de Assis Reimão,

mais em ciência básica.

39% do total, seguidas

de Comunicações e Artes

professora da USP e

Mesmo aumentando

pelas ciências naturais

da Universidade de

uma das organizadoras

o seu orçamento, o

(24%), as engenharias

São Paulo (ECA-USP).

do evento. A inscrição

número de solicitações

(22%) e as humanidades

A programação completa

para participar das

cresceu tanto que,

e ciências sociais (16%).

pode ser acessada

conferências é gratuita.

pelo site da FAPESP

“A ideia é que ao ter

(www.fapesp.br/eventos).

contato com as obras

O objetivo é refletir sobre

e pesquisas nacionais

os 50 anos de estudos

o graduando possa

na área de comunicação,

despertar o interesse

analisando a influência

pela pesquisa em

de 100 obras de

comunicação”, diz

pesquisadores com

Sandra. Para reforçar

atuação em São Paulo

a divulgação, os resumos

consideradas relevantes

das 100 obras serão

para o estudo da

reunidas em livro

comunicação brasileira

ainda este ano.

10 | agosto DE 2013

Strohschneider, da DFG: sem fôlego para financiar todos os bons projetos

1

fotos 1 dfg  2 léo ramos  3 nasa  ilustraçãO daniel bueno

A erosão do financiamento


A ciência em debate em Recife

Lafer é reconduzido à presidência da FAPESP

A Universidade Federal de Pernambuco, em

Celso Lafer, professor emérito do Insti-

Recife, sediou, entre

tuto de Relações Internacionais da Uni-

22 e 26 de julho, a

versidade de São Paulo (USP), foi recon-

65ª Reunião Anual da

duzido à presidência da FAPESP pelo

Sociedade Brasileira

governador de São Paulo, Geraldo Alck-

para o Progresso

min. A nomeação foi publicada no Diário

da Ciência (SBPC), cujo

Oficial do Estado de São Paulo de 30 de julho de 2013. Lafer ocupa a presidência da Fundação desde 2007. “Agradeço a

tema foi Ciência para

2

o Novo Brasil. Mais

O embaixador Celso Lafer: à frente da FAPESP desde 2007

de 23 mil estudantes,

confiança do governador Alckmin e o

pesquisadores e gestores

apoio do Conselho Superior, dos inte-

(1997). Até a sua aposentadoria em 2011

participaram de

grantes do Conselho Técnico-Adminis-

Lafer foi professor titular do Departa-

266 atividades,

trativo e da equipe da FAPESP como um

mento de Filosofia e Teoria Geral do Di-

entre conferências,

todo pela oportunidade de continuar

reito da Faculdade de Direito da USP, na

mesas-redondas, cursos

servindo a uma instituição tão relevante

qual estudou (1960-1964) e na qual

e sessões especiais. Uma

para a pesquisa do estado de São Paulo

começou a lecionar, em 1971, direito in-

das conferências mais

e do Brasil”, disse Lafer. Ele foi ministro

ternacional e filosofia do direito. Obteve

disputadas foi a do

das Relações Exteriores e do Desenvol-

o seu mestrado (1967) e o seu Ph.D. (1970)

pesquisador alemão

vimento, Indústria e Comércio. De 1995

em ciência política na Cornell University

Ulrich Glasmacher,

a 1998 foi embaixador, chefe da Missão

(EUA); a livre-docência em direito inter-

da Universidade de

Permanente do Brasil junto às Nações

nacional público na Faculdade de Direito

Heidelberg, sobre

Unidas e à Organização Mundial do Co-

da USP em 1977; e a titularidade em filo-

mudanças climáticas,

mércio em Genebra. Na OMC, foi presi-

sofia do direito em 1988. É membro da

no dia 23. Uma grande

dente do Órgão de Solução de Contro-

Academia Brasileira de Ciências e da

variedade de temas

vérsias (1996) e do Conselho Geral

Academia Brasileira de Letras.

foi debatida, da inovação em fármacos à aplicação de terapias de células-tronco, dos desafios da pesquisa

A complexa caça ao asteroide

oceanográfica à busca de mais impacto para a

O projeto da Nasa,

trajetória favorável à

que um dos objetivos

pesquisa do Brasil.

a agência espacial

aproximação da sonda.

do projeto é preparar

“O Brasil é responsável

norte-americana, de

O problema é que, dos

astronautas para

capturar um asteroide

mais de 10 mil asteroides

missões no espaço

por meio de uma sonda

conhecidos que estão

profundo, num

não tripulada e rebocá-lo

próximos à Terra, apenas

treinamento para

a uma órbita próxima

370 são pequenos o

uma viagem a Marte.

da Lua está sendo visto

suficiente para ser

com ceticismo por

pegos. Entre eles, só

SBPC, a bioquímica

cientistas. A missão, que

14 estão em uma órbita

Helena Nader. “O novo

pode custar até US$ 2,6

adequada e apenas

Brasil, que já é a sétima

bilhões, busca conduzir

4 foram bem estudados

economia do mundo,

um asteroide de cerca

pelos cientistas. Para

tem que vencer grandes

de 10 metros de

esse número aumentar,

desafios para estar

diâmetro para uma

são necessários

realmente inserido na

órbita estável, na qual

investimentos em

economia do

astronautas poderiam

novos telescópios.

conhecimento.” Em

visitá-lo e estudá-lo.

William Gerstenmaier,

2014, Rio Branco, capital

Para ser capturado, ele

pesquisador da Nasa,

precisa estar em uma

disse à revista Nature

por 2,7% da produção Concepção artística de uma sonda capaz de capturar asteroide

científica mundial, mas ocupa a 58ª colocação entre os países mais inovadores do mundo”, destacou a presidente da

do Acre, receberá a 3

66ª Reunião da SBPC. PESQUISA FAPESP 210 | 11


Tecnociência Van Gogh em cópias 3D

1

Pimenta, especiaria da América

Colombo e seus navegadores foram os primeiros europeus a conhecer as pimentas das Américas

Réplicas tridimensionais

15 de julho em Hong

de ótima qualidade e

Kong. Além de servirem

em tamanho real

para fins educacionais,

de cinco quadros do

evitando o constante

mais famoso pintor

transporte de quadros

holandês do século XIX

originais para fora do

foram geradas por

museu holandês,

uma nova técnica

as reproduções podem

desenvolvida pela filial

se tornar uma fonte

belga da empresa

de renda extra para

japonesa Fujitsu e o

a instituição cultural.

Museu Van Gogh, de

Turistas adoram

Amsterdã. Combinando

réplicas de pinturas

os processos de

conhecidas. “Com

escaneamento em 3D,

a técnica Relievo,

imageamento digital

melhoramos a

e impressão em alta

disponibilidade e o

resolução, o método é

acesso do público às

capaz de reproduzir

obras de arte, o que nos

a textura, as cores

dá a chance de cumprir

e o brilho original das

a nossa missão de

No século XVI os navios

Paraense Emílio Goeldi,

europeus vinham às

Ciências Humanas,

Américas não só para

janeiro-abril de 2013).

buscar pau-brasil e

Segundo os pesquisadores,

telas, segundo a

atingir a maior audiência

algodão, macacos e

Cristóvão Colombo e seus

companhia nipônica.

possível”, diz Axel Rüger,

papagaios, mas também

navegadores, no século

Denominada Relievo,

diretor do museu.

um produto a que os

XV, foram os primeiros

a técnica permite copiar

historiadores não davam

europeus a conhecer

até a parte de trás das

muita atenção: as

as pimentas americanas,

pinturas e replicar os

pimentas conhecidas

que eram plantadas no

selos e estampas que

como ardidas –

México havia 9 mil anos

dedo-de-moça, piripiri,

e nos Andes peruanos

tabasco, jalapeño,

desde 2.500 anos antes

pimentão e pimenta-

de Cristo. Depois de

doce. Originárias das

Colombo, a disseminação

Américas do Sul e

foi rápida, e as pimentas

Central, eram diferentes

começaram a ser

da pimenta-negra (Piper

plantadas em hortas e

nigrum) trazida da Ásia

quintais, inicialmente da

com o cravo, a canela e

península Ibérica. Um dos

outras especiarias,

relatos indicou que as

argumentam Christian

variedades americanas

Fausto dos Santos,

eram mais aromáticas

Fabiano Bracht e Gisele

e de gosto melhor do que

Cristina da Conceição,

as das Índias, então

pesquisadores do

a principal especiaria

Laboratório de História,

buscada no Oriente.

Ciências e Ambiente da

Em outro estudo, o grupo

Universidade Estadual de

de Maringá relatou que

Maringá, com base em

as pimentas eram usadas

relatos de cronistas,

no preparo das comidas

médicos e viajantes da

a bordo dos navios, para

época (Boletim do Museu

evitar o escorbuto.

12 | agosto DE 2013

foram adicionados Os girassóis: técnica desenvolvida por empresa japonesa reproduz a frente e o verso de obras e replica selos e estampas

ao verso dos quadros. Cópias das cinco telas, entre as quais a famosa pintura Os girassóis, foram lançadas em

2


Conecte o celular à tomada e ajude a ciência Cada portador de celular com sistema

Network Computing (Boinc). Mais de 1

elétrica para recarga, o que não gasta

Android poderá contribuir para o desen-

bilhão de celulares usam o sistema An-

bateria, e só transfere dados por meio do

volvimento de projetos de pesquisa, aju-

droid no mundo e a capacidade total de

sistema wi-fi, sem usar o plano de telefo-

dando a prospectar novos medicamentos

processamento dos telefones supera a

nia celular. O aplicativo foi financiado

ou identificando novas estrelas. O apli-

dos supercomputadores convencionais.

pelo Instituto Max Planck, da Alemanha,

cativo que permite entrar nesse tipo de

O usuário que quiser participar pode bai-

pelo Google e pela Fundação Nacional

voluntariado digital, por meio do proces-

xar o programa com o nome de Boinc na

de Ciência (NSF, na sigla em inglês), dos

samento de dados das pesquisas no tem-

Google Play Store do próprio aparelho.

Estados Unidos.

po ocioso do aparelho, foi criado pela

Depois pode escolher o projeto de pes-

Universidade da Califórnia, em Berkeley,

quisa científica com o qual quer colabo-

nos Estados Unidos, como parte do pro-

rar. O Boinc processa informações apenas

jeto Berkeley Open Infrastructure for

quando o aparelho está conectado à rede

fotos 1 eduardo cesar 2 Fujitsu  ilustraçãO daniel bueno

Superenzimas para o etanol de segunda geração Desconstruir a biomassa

Norte e candidata a

de caules e outras

produzir etanol (PLoS

partes de plantas

One, 19 de julho de 2013).

para extrair açúcares

Os pesquisadores

fermentáveis e produzir

chegaram a essa

biocombustíveis. Essa é

conclusão depois de

a busca incessante em

analisar genes e proteínas

todo o mundo para se

de comunidades

atingir a chamada

compostas por diferentes

segunda geração de

espécies de bactérias.

etanol. Um estudo

Uma das vantagens das

O número de pessoas

Clínica Evandro Chagas,

realizado nos Estados

proteínas naturalmente

com 50 anos ou mais

da Fiocruz (Brazilian

Unidos indica que

sintetizadas por bactérias

vivendo com HIV,

Journal of Infectious

enzimas de algumas

termófilas é que elas, em

o vírus da Aids, está

Diseases, julho). No

bactérias termófilas,

princípio, poderiam

aumentando no Brasil,

estudo, o número de

que vivem em ambientes

trabalhar a temperaturas

em consequência da

comorbidades – doenças

com temperatura

de até 80°C, como as

eficácia do tratamento

como diabetes,

elevada, poderiam

encontradas nas

antirretroviral. Esses

hipertensão e câncer não

digerir a biomassa das

condições de produção

medicamentos passaram

relacionado com Aids –

plantas. Liderado por

de biorrefinarias. No

a ser distribuídos

aumentou à medida que

pesquisadores do

consórcio de bactérias

gratuitamente pela rede

crescia a idade dos

Instituto de Bioenergia

estudado por eles,

pública de saúde nos

grupos. “Com o aumento

do Departamento

que reuniu também

anos 1990 e reduziram

da sobrevida da

de Energia e do

linhagens dos gêneros

as taxas de mortalidade,

população com HIV e o

Laboratório Nacional

Thermus e Rhodothermus,

transformando a

crescente número de

Lawrence Berkeley,

entre outros, foram

infecção em doença

novas infecções em

o estudo mostrou que

encontrados mais

crônica. Pessoas mais

pessoas com 50 anos

bactérias do gênero

de 3 mil fragmentos

velhas (40 anos ou mais)

ou mais, o impacto nos

Paenibacillus e do filo

de proteínas. Muitas

apresentaram maior

diagnósticos e no

Gemmatimonadetes

podem desempenhar

taxa de controle do vírus

tratamento de doenças

produzem enzimas

um papel importante na

quando comparadas às

não relacionadas à Aids

importantes para

quebra da lignocelulose

mais jovens (18 a 39

crescerá”, concluem

a desconstrução do

encontrada na biomassa

anos), segundo estudo

os autores do trabalho,

switchgrass, uma

das plantas candidatas

com 2.307 participantes

coordenado por Thiago

gramínea de porte alto

à produção de

acompanhados no

Torres e Beatriz

comum na América do

biocombustíveis.

Instituto de Pesquisa

Grinsztejn, da Fiocruz.

Vida mais longa com HIV

PESQUISA FAPESP 210 | 13


1

Marcas de um meteorito

Núcleo central da cratera de serra da Cangalha, no Tocantins

Quando os membros de

ao cantarolar em um

um coral entoam juntos

único tom e respirar

uma melodia, seus

quando necessário; ao

corações também se

executar um hino que

encontram sincronizados:

permitia respirar

aceleram e desaceleram

livremente, de forma não

simultaneamente, de

guiada; e ao entoar um

acordo com a estrutura

lento mantra e respirar

e o padrão da música.

apenas entre as frases

Afinal, cantar em grupo,

musicais. “Músicas com

uma atividade que

frases longas atingem

costuma causar uma

o mesmo efeito que

sensação de bem-estar,

exercícios respiratórios

pode reduzir o ritmo

como a ioga”, diz

normal da respiração

Vickhoff, que estuda

e assim alterar os

possíveis propriedades

batimentos cardíacos.

terapêuticas do ato de

Em meio à paisagem

geólogo Alvaro Crósta,

Essas ideias são

cantar. “Em outras

plana e às plantações

da Universidade Estadual

defendidas em estudo

palavras, por meio da

de soja do município de

de Campinas, as obteve.

coordenado por Björn

música podemos

Campos Lindos, no

Em expedições à região,

Vickhoff, da Academia

exercitar certo controle

Tocantins, próximo à

o geofísico Marcos

Sahlgrenska da

sobre estados mentais.

divisa com o Maranhão,

Alberto Vasconcelos

Universidade de

Já sabíamos que o canto

erguem-se três cadeias

coletou amostras de

Gotemburgo (Suécia),

em coral sincronizava os

de serras concêntricas,

rochas que preservam

que registrou os

movimentos musculares

com formato quase

tanto registros

batimentos cardíacos,

e as atividades neurais

circular. Conhecido como

macroscópicos quanto

a respiração, a

dos cantores. Agora

serra da Cangalha, esse

microscópicos do

condutividade elétrica da

também sabemos que

conjunto de montanhas

impacto de um corpo

pele e a temperatura dos

isso se aplica ao

que alcançam cerca de

celeste por ali (Journal

dedos de 11 alunos do

coração.” Apesar do

400 metros de altura foi

of South American Earth

ensino médio com

entusiasmo dos autores,

criado há cerca de 250

Sciences, agosto 2013).

18 anos de idade que

o pequeno número de

milhões de anos pelo

Segundo Crósta, algumas

participam de um coral

alunos que participaram

impacto de um meteorito.

das amostras indicam

(Frontiers in Psychology,

do experimento

As serras formam o que

que essas rochas, hoje

julho de 2013). Os jovens

recomenda cautela na

os geólogos chamam de

expostas nas regiões

foram monitorados

interpretação dos efeitos

cratera de impacto. Elas

mais superficiais da

enquanto executavam

benéficos do ato de

estão, na realidade, no

Terra, se formaram

três músicas distintas:

cantar em grupo.

interior de uma cratera

a pressões altíssimas

com 13,7 quilômetros

de até 10 gigapascais.

de diâmetro, que só pode

Pressões tão elevadas

ser observada em um

só ocorrem nesses

sobrevoo na região

choques ou em regiões

ou a partir do espaço.

profundas do planeta,

Há quase 40 anos se

a centenas de

suspeitava que essas

quilômetros abaixo da

estruturas, observadas

superfície. Segundo

pela primeira vez nos

o pesquisador, as rochas

anos 1960 por uma

que hoje estão à flor

equipe que fazia

da terra já estiveram

explorações geológicas

embaixo de uma camada

para a Petrobras,

de quase 500 metros

integrassem uma cratera

de sedimentos, que

de impacto. Mas faltavam

nesses 250 milhões

mais evidências. Agora a

de anos foram varridos

equipe coordenada pelo

pela erosão.

14 | agosto DE 2013

fotos 1 Andréa Bartorelli 2 fabio colombini  3 UFMG  ilustraçãO daniel bueno

Corações a um só ritmo


Testes com nanobastões

Trigo transgênico resiste à seca

Estruturas cilíndricas com Um gene de girassol inserido no genoma

espessura milhões de

do trigo tornou essa planta mais resis-

vezes menor que a de um

tente à escassez de água e aos solos

fio de cabelo poderão se

salinos. O trigo geneticamente modifica-

tornar um material

do foi desenvolvido no Instituto de Agro-

importante em vários

biotecnologia da Universidade Nacional

procedimentos

do Litoral (UNL), em Santa Fé, na Argen-

farmacológicos e médicos

tina. Sob a coordenação de Raquel Chan,

dentro de alguns anos.

os pesquisadores começaram a estudar o girassol há 20 anos e identificaram o gene HAHB4 como responsável pela ca-

3

Chamados de nanobastões, eles são

Gene de girassol permite a geração de uma nova variedade de trigo na Argentina

objeto de pesquisa de um

pacidade dessa oleaginosa de tolerar a

grupo coordenado pelo

seca, a salinidade e resistir a insetos her-

em algumas regiões. Os pesquisadores

professor Luiz Orlando

bívoros. Ensaios em campo mostraram

obtiveram na Argentina a patente do

Ladeira, do Instituto de

resultados positivos quando esse gene

trigo geneticamente modificado e a li-

Física da Universidade

foi inserido na soja e no milho. Além de

cenciaram para a empresa de agrobio-

Federal de Minas Gerais

consumir menos água nos períodos de

tecnologia argentina Bioceres. Os estudos

(UFMG). A equipe

estiagem, os cultivos resistentes à seca

foram financiados pelo Conselho Nacio-

conseguiu desenvolver

podem tolerar melhor as mudanças cli-

nal de Pesquisa Científica e Tecnológica

uma nova forma de

máticas, que podem reduzir as chuvas

(Conicet) argentino.

sintetizar essas nanoestruturas e caracterizar o uso em biossensores para o

Medicina antecipativa

diagnóstico da dengue e da leishmaniose.

As equipes do

o infarto, e reduzir

alterações – foram

Os nanobastões têm

Laboratório de Genética

os gastos do sistema

encontradas 76 novas

10 nanômetros (nm) de

e Cardiologia Molecular

público de saúde.

mutações – em um dos

diâmetro e de 30 a 100

e da Unidade Clínica de

“Quanto antes essas

três genes sabidamente

nm de comprimento.

Lípides do Instituto

pessoas tiverem acesso

ligados ao aumento

“Eles podem, por exemplo,

do Coração (InCor) da

ao sistema de saúde,

do colesterol. Quando

carregar em sua superfície

Universidade de

melhor”, diz José

identificavam um caso

anticorpos contra cada

São Paulo iniciaram

Eduardo Krieger,

de hipercolesterolemia

um dos quatro vírus da

o mapeamento na

coordenador do estudo.

familiar, os

população brasileira de

“Assim, esperamos

pesquisadores se

alterações genéticas que

evitar que cheguem ao

ofereciam para examinar

contribuem para manter

sistema só depois do

os parentes de primeiro

elevados os níveis

primeiro infarto.” Desde

grau. Dos 808 parentes

sanguíneos do colesterol

o início do projeto há

testados, metade

LDL. O objetivo do grupo

quatro anos, realizado

apresentava mutações

é identificar os casos

em parceria com o

que elevam o nível de

em que essas alterações

Hospital Samaritano de

colesterol. A pesquisa

são transmitidas

São Paulo por meio

começou com pacientes

hereditariamente

de um programa

do InCor e agora foi

e iniciar o quanto

do Ministério da Saúde,

aberta para toda a

antes o tratamento com

os pesquisadores já

população. “Queremos

medicamentos que

identificaram 489

ver se é possível tratar

reduzem o colesterol.

pessoas com colesterol

essas pessoas mais

Assim, os pesquisadores

LDL elevado de origem

cedo e mudar a história

esperam prevenir

genética, a chamada

natural da doença”,

o desenvolvimento

hipercolesterolemia

diz Krieger. “É um

de problemas

familiar. Desse total, 172

exemplo do que será a

cardiovasculares, como

pessoas apresentavam

medicina antecipativa.”

dengue”, diz Anderson Conjunto de nanobastões em microscopia eletrônica: uso em biomedicina

Caires, do grupo da UFMG, que ganhou um prêmio de melhor trabalho da revista Materials Today, em julho.

4

PESQUISA FAPESP 210 | 15


capa

Extremos do clima Relatório indica que todo o Brasil deverá ficar ao menos 3ºC mais quente até o fim do século; chuvas podem aumentar 30% no Sul-Sudeste e diminuir até 40% no Norte-Nordeste Marcos Pivetta

16 | agosto DE 2013

FRANS LANTING, MINT IMAGES / SCIENCE PHOTO LIBRARY

O

s cientistas familiarizados com a obra do historiador inglês marxista Eric Hobsbawm, falecido no ano passado, bem que poderiam tomar emprestado o título de seu livro dedicado às transformações político-econômicas do século XX e empregá-lo para descrever o cenário climático previsto para o Brasil das próximas décadas. Se o assunto são as mudanças climáticas, a era dos extremos (nome do livro de Hobsbawm) apenas se iniciou e, segundo os pesquisadores, veio para ficar por um bom tempo. Em razão do aumento progressivo da concentração de gases de efeito estufa – em maio passado, os níveis de dióxido de carbono (C02) atingiram pela primeira vez na história recente da humanidade as 400 partes por milhão (ppm) – e de alterações na ocupação do uso do solo, o clima no Brasil do final do século XXI será provavelmente bem diferente do atual, a exemplo do que deverá ocorrer em outras partes do planeta. As projeções indicam que a temperatura média em todas as grandes regiões do país, sem exceção, será de 3º a 6ºC mais elevada em 2100 do que no final do século XX, a depender do padrão futuro de emissões de gases de efeito estufa. As chuvas devem apresentar um quadro mais complexo. Em biomas como a Amazônia e a caatinga, a quantidade estimada de chuvas poderá ser 40% menor. Nos pampas, há uma tendência de que ocorra o inverso, com um aumento de cerca de um terço nos índices gerais de pluviosidade ao longo deste século. Nas demais áreas do Brasil, os modelos climáticos também indicam cenários com modificações preocupantes, mas o grau de


confiabilidade dessas projeções é menor. Ainda assim, há indícios de que poderá chover significativamente mais nas porções de mata atlântica do Sul e do Sudeste e menos na do Nordeste, no cerrado, na caatinga e no pantanal. “Com exceção da costa central e sul do Chile, onde há um esfriamento observado nas últimas décadas, estamos medindo e também projetamos para o futuro um aumento de temperatura em todas as demais áreas da América do Sul”, diz José Marengo, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), que trabalha com projeções futuras a partir de modelos regionais do clima. “A sensação é de que as estações estão meio ‘loucas’, com manifestações mais frequentes de extremos climáticos.” A expressão significa que os brasileiros vão conviver tanto com mais períodos de seca prolongada como de chuva forte, às vezes um após o outro. Isso sem falar na possibilidade de aparecimento de fenômenos com grande potencial de destruição que antes eram muito raros no país, como o furacão Catarina, que atingiu a costa de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul em março de 2004. Nas grandes áreas metropolitanas, e mesmo em cidades de médio porte, o avanço do concreto e do asfalto intensifica o efeito ilha urbana de calor, tornando-as mais quentes e alterando seu regime de chuvas. Esse quadro faz parte do mais completo diagnóstico já produzido sobre as principais tendências do clima futuro no país: o primeiro relatório de avaliação nacional (RAN1) do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas (PBMC), criado em 2009 pelos ministérios do Meio Ambiente (MMA) e da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI). Entre 9 e 13 de setembro, o relatório será divulgado durante a 1ª Conferência Nacional de Mudanças Climáticas PESQUISA FAPESP 210 | 17


Um modelo climático brasileiro

Imagem de satélite do furacão Catarina perto da costa da região Sul: fenômeno bem raro no país

18 | agosto DE 2013

Globais, organizada pela FAPESP. Concebido nos moldes do Painel Intergovernamental das Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês) das Nações Unidas, que, aliás, vai divulgar a primeira parte de seu quinto relatório no final de setembro, o PBMC reuniu 345 pesquisadores de diversas áreas para formular uma síntese inédita do estado da arte da produção científica nacional sobre o tema. O RAN1 é dividido em três partes, cada uma elaborada por um grupo de trabalho distinto. A primeira traz as principais conclusões de estudos feitos entre 2007 e o início deste ano que mostram a ocorrência das mudanças climáticas no Brasil. A segunda detalha os impactos das alterações climáticas no país, realçando vulnerabilidades e medidas de adaptação à nova realidade. A terceira indica formas de reduzir as emissões de gases de efeito estufa no território nacional (ver repor-

A divulgação do relatório do PBMC marca a incorporação de uma sofisticada ferramenta para melhorar o entendimento do clima e fazer projeções no país. O Modelo Brasileiro do Sistema Terrestre (Besm, na sigla em inglês) é um conjunto de programas computacionais que permite simular a evolução dos principais parâmetros do clima em escala global. “O Brasil é hoje o único país do hemisfério Sul a contar com um modelo próprio”, diz Paulo Nobre, do Inpe, um dos coordenadores do Besm. “Isso nos dará uma grande autonomia para realizar as simulações que sejam de nosso maior interesse.” Com o Besm podem ser feitas, por exemplo, projeções sobre prováveis efeitos no clima no Brasil ocasionados por alterações na circulação oceânica do Atlântico Tropical e nos biomas do país. A Austrália também estava criando um modelo climático próprio, mas preferiu juntar seus esforços aos do Centro Hadley, do Reino Unido. O modelo brasileiro está sendo desenvolvido desde 2008 por pesquisadores de diversas instituições que integram o Programa FAPESP de Pesquisa em Mudanças Climáticas Globais (PFPMCG), a Rede Brasileira de Pesquisa em Mudanças Climáticas Globais (Rede Clima) e o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Mudanças Climáticas (INCT-MC). Como qualquer programa de computador, o Besm é uma obra aberta, a ser aprimorada continuamente. Sua construção visa não somente a dotar o país de um modelo que seja o estado da arte para representar o sistema terrestre, mas também contribuir para a formação de uma nova geração de cientistas capazes de manejar um poderoso instrumento dedicado à previsão climática. A versão atual do Besm – que roda no supercomputador Tupã da Rede Clima/PFPMCG, instalado na unidade

foto  Jeff Schmaltz, MODIS Rapid Response Team, NASA / GSFC  infográfico fabio otubo

tagem na página 22 sobre a segunda e a terceira partes do documento). “Fizemos uma compilação crítica dos dados produzidos pelos estudos mais recentes”, explica o meteorologista Tércio Ambrizzi, da Universidade de São Paulo (USP), um dos coordenadores do primeiro grupo de trabalho do PBMC sobre a produção científica nacional. “Há regiões do país, como o Centro-Oeste, sobre as quais quase não há estudos. Também temos pouca pesquisa sobre o paleoclima no Brasil.” A maioria dos trabalhos sobre esse tema analisa o pólen fossilizado de plantas do território nacional e apresenta datação de qualidade irregular, segundo os especialistas. “Pesquisas sobre como era o clima do passado na costa do Atlântico em torno do Brasil são ainda mais raras”, afirma o paleoceanógrafo Cristiano Chiessi, da USP Leste, um dos autores do relatório. “Precisamos investir nesse tipo de estudo para sabermos o que é variação natural do clima e o que é decorrente da ação humana.”


As projeções até o fim do século Em relação aos níveis atuais, a temperatura poderá subir em todos os biomas; mais chuva é prevista nos pampas e menos na Amazônia T = Temperatura (em ºC) C = Chuva (em %) Verão = dezembro, janeiro e fevereiro Inverno = junho, julho e agosto

AMAZÔNIA

1 -10

CAATINGA

inverno

Verão 3

-25

5

T 1,5 C

3,5

T

-30

inverno

Verão

C

-10

-40

2011/40 2041/70 2071/100

6

1,5

0,5 -10

-45

3,5

T 1

-25

2011/40 2041/70 2071/100

C

inverno

1 -10

-20

5

T 1,5 C

-35

2011/40 2041/70 2071/100

-20

3,5

Verão

5,5 T

0,5

C -35

1 -5

3

inverno

T

1

3

C -25

-30

T

3

1

4,5

C

0,5

C -15

-20

-25

inverno

10

1,5 20

2,5

30

T

C

1

2

5

15

2011/40 2041/70 2071/100

2011/40 2041/70 2071/100

para os atuais 400 ppm

1

2,5 40

2011/40 2041/70 2071/100

fonte inpe ccst

C

1

1,5

3

5

15

35

2011/40 2041/70 2071/100

T

Maio de 2012 Recorde de emissão (400 ppm)

C

400

Concentração de CO2 (ppm)

T

25

2011/40 2041/70 2071/100

Em 250 anos, o nivel do gás subiu de 270 inverno

Verão

3

-35

O salto do co2 nas últimas décadas

20

-35

2011/40 2041/70 2071/100

Verão

T

PAMPAS

10

T

MATA ATLÂNTICA (S/SE)

2011/40 2041/70 2071/100

0,5

4

-10

2011/40 2041/70 2071/100

inverno

-10

2

-20

-45

2011/40 2041/70 2071/100

Verão 3,5

-50

2011/40 2041/70 2071/100

C

-10

PANTANAL

2,5

C -35

-40

MATA ATLÂNTICA (NE)

Verão 3

4,5 T

-20

2011/40 2041/70 2071/100

CERRADO

2,5

1958 Começam medições sistemáticas de C02 no Havaí

350

1760 Início da Revolução Industrial 300

250 1700

1750

1800

1850

1900

1950

2000

T

C


20 | agosto DE 2013

peratura apresenta tendência a se manter estável ou até diminuir ligeiramente. “Esse resultado inicial leva em conta as contribuições das tendências de ajuste de longo tempo da circulação oceânica global e do aquecimento atmosférico decorrente do aumento moderado de CO2 em escala planetária”, explica Paulo Nobre. “São resultados preliminares. Precisamos rodar o modelo mais vezes para ter um grau maior de confiabilidade dos resultados e, assim, podermos falar mais especificamente de tendências climáticas para um estado ou uma área menor.” As previsões do Besm para a parte Projetar as mais meridional do país são as únivariações de cas que não concordam totalmente com as feitas pelo modelo regional temperatura do Inpe, que projeta uma discreta elevação de temperatura na região é uma tarefa Sul até 2040. Até o final do século, no entanto, a maioria das projeções menos sinaliza que o Rio Grande do Sul vai complexa do seguir a mesma tendência das demais partes do país e se tornar mais que simular as quente. Com o aumento contínuo do CO2, a passagem do tempo faz alterações nos os modelos registrarem uma elevação progressiva das temperaturas e níveis de chuva exacerba a possibilidade de ocorrer mais ou menos chuva numa região. O tamanho da gota de chuva

A versão mais recente do Besm conseguiu contornar, em parte, uma grande limitação da modelagem climática: prever com razoável nível de exatidão a pluviosidade na Amazônia, um traço determinante da região Norte sem o qual uma floresta tropical tão densa e exuberante não se sustenta a longo prazo. Na região Norte chove anualmente entre 2.500 e 3.400 milímetros, mais ou menos o dobro do que no Centro-Oeste, onde a vegetação típica é o cerrado, com predomínio de gramíneas e presença esparsa de pequenas árvores. “Todos os modelos climáticos globais subestimam a chuva que cai na região amazônica”, diz Paulo Nobre. A melhoria na previsão de pluviosidade sobre a floresta amazônica foi obtida pela introdução de aprimoramentos sucessivos no componente atmosférico do Besm, com destaque para a revisão de um parâmetro: o tamanho médio do raio das gotas de chuva representadas nas nuvens geradas pelo modelo. Antes as gotas de chuva simuladas pelo Besm tinham raio médio de 1 milímetro. Agora adotam o valor de 1,4 milímetro. “O modelo climático norte-americano CAM5, do NCAR (Centro Nacional para Pesquisa Atmosférica) já usava esse valor médio de raio, mas os resultados de suas projeções não corrigiram os totais pluviométricos sobre a Amazônia de forma tão

léo ramos

do Inpe de Cachoeira Paulista – já permite reproduzir vários fenômenos do clima global e regional e prever cenários futuros. O modelo consegue, por exemplo, reconstituir a ocorrência dos últimos El Niños e estimar o retorno desse fenômeno climático. O El Niño é o aquecimento anormal das águas superficiais do Pacífico Equatorial, uma alteração oceânica e atmosférica que afeta o regime de chuvas em boa parte do planeta. No Brasil tende a provocar secas na Amazônia e no Nordeste e intensificar a pluviosidade no Sul. Simulações feitas com o Besm mostraram que o hipotético desmatamento total da Amazônia aumentaria a intensidade dos El Niños e reduziria a precipitação anual sobre a região Norte em até 40%. Os cenários climáticos gerados pelo Besm foram aceitos neste ano pela iniciativa internacional que reúne os dados produzidos pelos 20 modelos globais até agora desenvolvidos, a fase 5 do Projeto de Intercomparação de Modelos Acoplados (CMIP5, na sigla em inglês). Eles inauguram a participação do Brasil no IPCC como nação fornecedora de projeções em escala planetária das mudanças climáticas. As projeções geradas pelo modelo nacional serão utilizadas para a elaboração do quinto relatório sobre mudanças climáticas do IPCC. O Besm ainda não fornece cenários tão detalhados como os gerados por outros modelos globais e mesmo pelo modelo regional do Inpe, que enfoca o clima na América do Sul e serviu de base para boa parte das projeções do primeiro relatório do PBMC. Sua resolução espacial é de 200 por 200 quilômetros, enquanto a do modelo regional do Inpe, que por ora roda “dentro” do modelo global do Centro Hadley, é usualmente de 40 por 40 quilômetros e pode chegar a 5 por 5 quilômetros. Apesar de estar em seus primórdios, o Besm já produz simulações que traçam um panorama das variações climáticas previstas para ocorrer no Brasil nos próximos 30 anos. Pesquisa FAPESP publica em primeira mão os resultados de uma simulação inédita que mostra como a temperatura média anual da atmosfera pode variar em todos os estados do país até 2035, com base nos primeiros resultados da versão mais recente do modelo Besm. Os dados indicam um Brasil mais quente em quase todas as latitudes. “Esse é o primeiro resultado de cenário de aquecimento global futuro realizado integralmente no país, sem depender das simulações obtidas por modelos de outros países”, comenta Paulo Nobre, também um dos autores do RAN1. Se a taxa de CO2, principal gás responsável por intensificar o efeito estufa, mantiver a tendência atual e atingir os 450 ppm daqui a três décadas, a temperatura média anual na maior parte do território nacional, em especial nas áreas mais distantes da costa, deverá se elevar até 1ºC. Apenas no Sul do país e em áreas setentrionais da região Norte a tem-


Chuva na Amazônia: leste da região Norte pode ser a mais atingida por uma possível redução nos níveis de pluviosidade

satisfatória como ocorreu com nosso modelo”, afirma Paulo Nobre. “Ainda não simulamos com perfeição as chuvas. No entanto, isso nenhum modelo climático faz por enquanto.” Com as modificações introduzidas, o Besm deu um salto de qualidade. Passou a simular melhor a formação dos ventos alísios que levam umidade à Amazônia. Começou a registrar de forma mais adequada a variação de temperatura do mar entre o Brasil e a África. Conseguiu ainda reproduzir um importante mecanismo climático conhecido como Zona de Convergência do Atlântico Sul, que regula a formação de chuvas no Sudeste e sul do Nordeste. Formado por um conjunto de nuvens que pode se estender por até 5 mil quilômetros de extensão, orientado no sentido noroeste-sudeste, a zona de convergência cruza o litoral brasileiro entre 18 e 25 graus de latitude sul. A diferença de desempenho tem uma explicação razoavelmente simples. Cada modelo é composto por partes menores que tentam reproduzir o funcionamento dos grandes componentes do clima, como a atmosfera, os oceanos, a ocupação do solo e sua vegetação, o gelo do globo. Uma série de dados e equações particulares faz cada componente funcionar de uma maneira única e interagir com as demais partes do modelo. Por isso, ao mexer num parâmetro como o raio médio das gotas de água na cobertura de nuvens, um modelo pode melhorar seu desempenho enquanto outro pode piorar ou não apresentar mudança

significativa. “Os modelos têm mais dificuldade de fazer projeções de chuvas do que temperatura”, comenta o físico Alexandre Costa, da Universidade Estadual do Ceará (Uece), um dos autores do capítulo sobre nuvens e aerossóis (conjunto de diminutas partículas sólidas ou líquidas em suspensão num gás) do primeiro relatório do PBMC. “De acordo com o tamanho da gota de uma nuvem, pode ocorrer mais ou menos chuva.” A favor de uma rede de dados ambientais

Para o físico Paulo Artaxo, da USP, um dos maiores especialistas no processo de formação de aerossóis, o primeiro relatório do PBMC servirá para o Brasil identificar áreas ainda carentes em termos de pesquisa, além de fornecer um panorama sobre os estudos a respeito das mudanças climáticas. “Temos um longo caminho a percorrer”, afirma Artaxo, membro do conselho diretor do PBMC. “O IPCC tem 20 anos e está indo para seu quinto relatório. Ainda não temos massa crítica de cientistas e falta gente para tocar algumas áreas importantes.” O físico alerta que o Brasil ainda não conta com uma rede nacional para coleta sistemática de dados ambientais mais sofisticados do que somente medidas de temperatura e pluviosidade. Na Amazônia há 12 torres que registram as trocas de carbono e energia entre a floresta e a atmosfera e medem propriedades de outros ciclos biogeoquímicos, uma iniciativa mantida pelo Programa de Grande Escala da Biosfera-Atmosfera da Amazônia (LBA), uma bem-sucedida parceria que há mais de duas décadas une pesquisadores do país e do exterior. Fora da região Norte existem poucas torres no território brasileiro, entre as quais uma no pantanal, outra no cerrado, uma terceira nos pampas e uma no interior paulista. “Essa estrutura de pequena escala não permite fazer uma radiografia nacional, por exemplo, das emissões e da captura de C02 atmosférico”, diz Artaxo. “Na Europa e Estados Unidos há centenas de torres que fornecem uma radiografia do que está acontecendo com o funcionamento dos ecossistemas em decorrência das mudanças climáticas.” Para o climatologista Carlos Nobre, secretário de Políticas e Programas de Pesquisa e Desenvolvimento do MCTI e presidente do PBMC, os dados disponibilizados pelo Painel Brasileiro servem para guiar as políticas públicas de adaptação e mitigação das mudanças climáticas. “O trabalho do painel não se encerrará com esse primeiro relatório de avaliação, mas continuará e se tornará cada vez mais relevante”, afirma Carlos Nobre. n

Projeto

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Brazilian model of the Global Climate System (nº 2009/50528-6); Modalidade Projeto Temático PFPMCG/Pronex FAPESP; Coord. Carlos Nobre/Inpe; Investimento R$ 571.200,00.

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capa

Desafios no campo e nas cidades

Mudanças climáticas deverão acentuar perdas na produção agrícola, aumentar o desafio de gerar energia hidrelétrica e afetar a gestão urbana

Carlos Fioravanti

Moradores do bairro de Campo Grande, em Teresópolis, região serrana do Rio, veem o que sobrou depois das chuvas devastadoras de fevereiro de 2011 22 | agosto DE 2013


Wilton Jr. / AE

‘T

emos de agir para evitar o pior”, comentou o agrônomo Eduardo Assad, pesquisador da Embrapa em abril em uma conferência em São Paulo ao apresentar as conclusões de um dos capítulos do primeiro relatório do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas (PBMC). Os pesquisadores esperam que as informações do relatório sirvam para nortear a elaboração e a implantação de políticas públicas e o planejamento das empresas. “Tendo nosso relatório”, diz Tércio Ambrizzi, do IAG-USP, um dos coordenadores do PBMC. “temos mais chance de ver as áreas em que estamos bem e as que precisamos dar mais atenção.” Os desafios apontados no relatório brasileiro são muitos. “Temos de mudar a política agrícola, industrial

e urbana, incluir preocupação com sustentabilidade e eventos climáticos extremos como as chuvas e as secas”, comenta Antonio Magalhães, assessor do Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE), ligado ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI). “Precisamos ampliar os debates e superar a rigidez institucional, as resistências e os interesses de curto prazo.” O relatório indica que as consequências da elevação da temperatura média global serão dramáticas no Brasil. De acordo com os modelos computacionais de simulação do clima, a agricultura será o setor mais afetado, por causa das alterações nos regimes de chuva. “Mesmo que a quantidade de chuva fique inalterada, a disponibilidade de umidade no solo deve diminuir, em consequência

da elevação da temperatura média anual, que intensifica a evapotranspiração”, diz Magalhães. Segundo ele, esse fenômeno deve prejudicar os cultivos agrícolas em regiões onde a escassez de água é constante, como o semiárido nordestino. “No Nordeste brasileiro”, prevê o relatório, “as culturas do milho, arroz, feijão, algodão e mandioca sofrerão perda significativa de produtividade devido à forte redução de área de baixo risco”. Uma provável consequência da redução da produção agrícola e da área de terras aptas à agricultura é a queda na renda das populações, intensificando a pobreza e a migração da área rural para as cidades, que por sua vez deve agravar os problemas de infraestrutura (habitação, escola, saúde, transporte e saneamento). PESQUISA FAPESP 210 | 23


Os efeitos na agricultura já podem ser dimensionados. “Desde 2000 observamos uma queda na produção em algumas regiões, principalmente de café, soja e milho”, diz Assad. Segundo ele, com a elevação da temperatura, as perdas de produtividade agrícola causadas pelas variações do clima já chegam a R$ 5 bilhões por ano – e devem crescer. A previsão de um estudo da Embrapa de 2008, confirmada no relatório do PBMC, é que as mudanças do clima devem prejudicar a produção de alimentos e causar perdas estimadas em R$ 7,4 bilhões em 2020 e R$ 14 bilhões em 2070, comprometendo o agronegócio, responsável por 24% do PIB nacional. A soja deve ser a cultura mais afetada, com perdas de até 40% da área de plantio. A produção de café arábica deve cair 33% em São Paulo e Minas Gerais, embora possa aumentar no Sul do país. As previsões indicam que, em 2020 e 2030, deve haver uma redução na produção de algodão, arroz, feijão, soja, milho e trigo – como efeito da provável elevação da temperatura. da temperatura e da radiação ultravioleta B, como previsto “De 1990 a 2010, a innos cenários de mudanças do tensidade da precipitaclima, acenando com a possição dobrou na região do “Temos de bilidade de aumento de precerrado”, diz Assad, “e o aumentar a ços e de redução de variedade padrão tecnológico atual de cereais, hortaliças e frutas. da agricultura ainda não produtividade Outra possibilidade é a migrase adaptou a esses novos ção de doenças como a sigatopadrões”. Agora, segundo agrícola. ka negra, a mais preocupante ele, torna-se imperioso inpraga da bananeira, causada vestir intensivamente em A reorganização por um fungo, que deve persistemas agrícolas condo espaço rural der intensidade em algumas resorciados, e não somente giões produtoras, mas emergir na produção agrícola solbrasileiro onde ainda não se manifestou teira, de modo a aumen(ver Pesquisa FAPESP nº 198). tar a fixação biológica de agora é urgente”, nitrogênio, reduzir o uso Cheias e secas mais intensas de fertilizantes e aumene frequentes, de acordo com alerta Assad tar a rotação de culturas. o relatório do PBMC, devem “O conhecimento já existambém alterar a vazão dos te, mas precisamos de um rios e prejudicar o abastecinível de governança mais mento dos reservatórios das forte”, ele afirma. “Temos hidrelétricas, acelerar a acidide aumentar a produtividade agrícola no Centro- ficação da água do mar e reduzir a biodiversidade -Oeste, Sudeste e Sul, para evitar a destruição dos ambientes aquáticos brasileiros. A perda de da Amazônia. A reorganização do espaço rural biodiversidade dos ambientes naturais brasibrasileiro agora é urgente.” leiros deve se agravar; alguns já perderam uma área expressiva – o cerrado, 47%, e a caatinga, 44% – a ponto de os especialistas questionarem Mais pestes e pragas Cheias e secas mais frequentes e intensas devem se a recuperação do equilíbrio ecológico caraccausar uma redução na produção agrícola também terístico desses ambientes seria mesmo possível. Quem mora nas cidades, principalmente nas por outra razão. Pesquisadores da Embrapa Meio Ambiente, de Jaguariúna, concluíram que algumas regiões costeiras, terá de se preocupar com o risco doenças – principalmente as causadas por fun- ampliado de deslizamento de encostas, enxurragos – e pragas podem se agravar em muitas das das ainda mais fortes e com os possíveis efeitos 19 culturas analisadas – entre as quais soja, mi- da elevação do nível do mar, da intensificação lho, café, arroz, feijão, banana, manga e uva – em das ondas de calor, que pode agravar a mortalidecorrência da elevação dos níveis de CO2 do ar, dade principalmente de portadores de doenças 24 | agosto DE 2013

Prevenindo desastres naturais: parques lineares como este de Manaus podem ajudar a reduzir os efeitos das inundações nas cidades


eduardo cesar

cardíacas e respiratórias, e com a proliferação de insetos transmissores de dengue e malária, beneficiados pela temperatura mais alta. “Se não nos prevenirmos diante da possibilidade de intensificação do calor e da umidade nas cidades”, alerta Assad, “a tendência é de termos mais problemas de saúde pública”. O que fazer?

O grupo de trabalho coordenado por Assad e Magalhães sugeriu medidas de adaptação à inclemência do clima nas cidades, como a implantação de parques lineares na margem de córregos, o controle da erosão nas cidades costeiras, onde vivem 85% da população do país, e o remanejamento dos moradores das áreas de risco, para reduzir o impacto de cheias e evitar inundações dantescas como a da cidade de Petrópolis há dois anos. “Frequento a cidade do Rio há 50 anos, mas só depois de mil pessoas morrerem em Petrópolis é que vi garis limpando as bocas de lobo em Copacabana”, diz Assad. “Um prefeito de Minas Gerais adotou medidas contra inundações, recolhendo lixo e limpando as bocas de lobo, não houve inundações na cidade dele nos dois anos seguintes, mas no terceiro as medidas de prevenção não foram mais adotadas.” “As incertezas não justificam adiamento das decisões sobre mitigação de emissão de gases do efeito estufa”, comenta Mercedes Bustamante, professora da Universidade de Brasília e coordenadora da equipe que examinou as perspectivas de redução dos impactos (mitigação) e de adaptação às mudanças climáticas. Emilio Rovere, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro que também esteve à frente da equipe que elaborou essa parte do relatório, reconheceu “a quase impossibilidade de estabilização da temperatura em apenas 2 graus acima do nível pré-Revolução Industrial”, “a viabilidade de se alcançar os objetivos voluntários de limitação de emissões já aprovados pelo governo brasileiro” – a redução de 36 a 38% na emissão de gases do efeito estufa até 2020, anunciada em dezembro de 2010, por meio da redução do desmatamento, recuperação de pastagens degradadas e da implantação de políticas agrícolas, ambientais e energéticas ambientalmente sustentáveis – e “a tendência de retomada do crescimento das emissões brasileiras após 2020, caso não sejam aprovadas medidas adicionais de mitigação”. Os especialistas desse grupo concluíram que aparentemente é possível, sim, conciliar a redução da emissão de gases do efeito estufa com desenvolvimento econômico. “O governo não está parado, mas as ações ainda são tímidas”, afirma Assad. O governo federal promoveu os primeiros leilões de energia eólica e solar, mas o etanol, que representa uma alternativa menos

poluente que os combustíveis fósseis, ainda é pouco prestigiado, segundo ele. Uma iniciativa relevante é o programa Agricultura de Baixa Emis“O futuro tem são de Carbono (ABC), que de ser diferente, destinou R$ 3,5 bilhões em financiamentos para a safra porque o 2011/2012 com o propósito de motivar os produtores rurais a governo acaba reduzirem a emissão de gases do efeito estufa, por meio do refletindo plantio direto sobre a palha o que a sociedade do cultivo recém-colhido, da recuperação de pastagens dequer”, diz gradadas para a produção de alimentos e do incentivo à inMagalhães tegração de florestas, pecuária e lavoura. Como resultado do Plano de Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia, o desmatamento caiu de 27 mil km2 para 4 mil km2 em menos de 10 anos, mas os ajustes nas áreas de transportes ainda são lentos. “Precisamos de mais trens, metrôs e ciclovias, não podemos nos basear mais nos meios de transporte individual, principalmente nas cidades”, diz Assad. Os autores do relatório reconhecem que o diálogo está crescendo. Antigos oponentes, como os produtores agrícolas, agora são aliados. O Plano Nacional sobre Mudança do Clima e o reconhecimento pelo governo dos Estados Unidos de que as mudanças climáticas são um problema devem acelerar a implantação de políticas efetivas nessa área. “Todas as esferas de governo, indústria, comércio e sociedade precisam estar envolvidas no desenvolvimento de uma resposta nacional adequada”, afirma Assad. Magalhães, do CGEE, reconhece que essa articulação ainda está no começo, embora a preocupação com as mudanças do clima seja crescente. “Quando começou internacionalmente a discussão sobre mudanças climáticas, sobretudo a partir da criação do IPCC em 1989, o assunto não chegou a sensibilizar os tomadores de decisão no Brasil. Levou mais de uma década para que o país reagisse”, diz Magalhães. “Hoje já existe uma Comissão Nacional sobre Mudanças Climáticas, um Fórum Nacional e Fóruns Estaduais, que incluem a sociedade civil, um Plano Nacional, e agora estão sendo elaborados planos setoriais de adaptação àquelas mudanças que já são inevitáveis. Vários ministérios e instituições já planejaram suas ações, mas ainda falta esforço e maior consistência nas respostas. Esse movimento de articulação tende a crescer. O futuro tem de ser diferente, porque o governo acaba refletindo o que a sociedade quer.” n PESQUISA FAPESP 210 | 25


eduardo cesar

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entrevista William Saad Hossne

O guardião da bioética Fabrício Marques

W

idade 86 anos especialidade Bioética; cirurgia do aparelho digestivo formação Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) instituição Faculdade de Medicina de Botucatu (Unesp) produção científica Mais de 150 artigos científicos e 6 livros

illiam Saad Hossne, 86 anos, é conhecido por seu trabalho e militância na bioética, campo transdisciplinar que reúne a biologia, as ciências da saúde, a filosofia e o direito, e estuda a dimensão ética dos modos de tratar a vida humana e animal no contexto da pesquisa científica e suas aplicações. Autor de uma obra de referência sobre o assunto, Experimentação em seres humanos, Saad Hossne fundou a Sociedade Brasileira de Bioética e ajudou a criar a Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep), coordenada por ele entre 1996 e 2007. A Conep organizou um sistema de monitoramento da ética na pesquisa a que estão ligados mais de 600 comitês de hospitais e universidades em todo o país. Atualmente ele coordena o curso de pós-graduação em b¡ioética no Centro Universitário São Camilo, em São Paulo. Antes de se dedicar à bioética, o professor, que nasceu em São Paulo em 1927, seguiu uma extensa carreira de médico, pesquisador e gestor em ciência e tecnologia. Cirurgião gastroenterologista formado pela Faculdade de Medicina da USP, foi um dos fundadores, em 1962, da Faculdade de Ciências Médicas e Biológicas de Botucatu, da qual é professor emérito. A instituição, criada como instituto isolado, incorporou-se à Universidade Estadual Paulista (Unesp), nos anos 1970. Também foi reitor da Universidade Federal de São Carlos, de 1979 a 1983. Participou da criação da FAPESP, tornando-se o segundo diretor científico da Fundação, entre 1964 e 1967, e voltou a desempenhar a função entre 1975 e 1979. Na entrevista a seguir, ele relembra alguns dos principais momentos de sua trajetória e os primeiros anos da FAPESP. O senhor se formou em 1951 na Faculdade de Medicina da USP. Como foi sua formação e o primeiro contato com a pesquisa? Vim de uma família de classe média. Em 1926, meus pais se casaram, ele com 30, ela com 20 e poucos. Minha mãe engravidou e meu pai morreu no mesmo ano, em setembro. Não coPESQUISA FAPESP 210 | 27


nheci meu pai. É um baque para a criança quando fica sabendo desses fatos. Fui criado pelos meus tios e avós, com quem eu morava. Um dos meus tios era como se fosse meu pai. Ele, com 40 e poucos anos, teve um câncer. Acabou morrendo um ano depois, quando prestei vestibular para medicina. Acompanhei a doença, fazendo leituras, e nessa época observei que os médicos deveriam fazer mais pesquisa. Em 1946, entrei na Faculdade de Medicina com aquela ideia romântica que os jovens têm, mas infelizmente vêm perdendo, de juntar a prática médica com a pesquisa. Não só tratar a doença, mas gerar avanço de conhecimento. Trabalhei no laboratório desde o primeiro ano de faculdade. Quando me formei, em 1951, o mundo vivia um momento importante. Era o pós-guerra, quando se criou no Brasil, por exemplo, o Conselho Nacional de Pesquisa. Tinha um clima interessante para quem gostava de pesquisa e isso me entusiasmou. Fiz concurso para residente em cirurgia e fui fazer especialização na Santa Casa.

Nessa época o senhor foi trabalhar em Sorocaba. O que o levou para lá? O professor com quem eu trabalhava no HC, Eugênio Mauro, me convidou para ser assistente na Faculdade de Medicina de Sorocaba. Ele era livre-docente, um homem de uma cultura fantástica. Com sete anos de formado, eu já era docente e me senti na obrigação de fazer os concursos. Fiz uma tese em cirurgia experimental para livre-docência em Sorocaba. No mesmo ano fiz livre-docência na USP, mas em clínica cirúrgica. Estávamos num tempo em que a cirurgia experimental era baseada no treinamento técnico em animais. Eu já observava em centros mais avançados que a cirurgia experimental começava a trazer problemas da clínica para o laboratório, usando modelos ex-

Entrei na Faculdade de Medicina com a ideia romântica de juntar prática médica e pesquisa

Quem foi importante para a sua formação? Na Santa Casa teve um médico que me ajudou, o doutor Oscar Bueno Nestarez. Aprendi muito sobre cirurgia com ele. Não era do mundo acadêmico, mas tinha uma formação muito boa. Fui trabalhar como estagiário no Hospital das Clínicas (HC). Queria ser cirurgião, mas fui procurar estágio em clínica médica. Eu achava importante, antes de ir para cirurgia, saber bem clínica médica, principalmente para fazer os exames adequados. Trabalhei com o professor Munhoz Cintra, que depois virou professor e pró-reitor da USP. Quando me formei, abriu-se concurso para médico do pronto-socorro do Hospital das Clínicas e eu ganhei a vaga. No início da década de 1950, era o único pronto-socorro da cidade de São Paulo e uma grande escola. Éramos nós, cirurgiões, junto com os ortopedistas, que orientávamos o pronto-socorro. Tive a felicidade de acompanhar a formação das especialidades. E me encaminhei para a cirurgia do aparelho digestivo. 28 | agosto DE 2013

perimentais. Mais tarde, quando fui para Botucatu, criei o primeiro curso de cirurgia experimental do país com esse conceito de formar aquele pesquisador que leva seus problemas para o laboratório. É o conceito da medicina translacional de que se fala muito agora... Exatamente. Eu ficava chocado com o costume de alguns cirurgiões de imaginarem uma nova técnica e levarem-na direto para o paciente. Não achava adequado. Nessa época, a pesquisa científica na medicina ganhava outros contornos, com a introdução da metodologia científica. Não servia mais apenas fazer a comunicação de casuística. Foi nesse momento que eu conheci o Paulo Van-

zolini, porque ele frequentava o pronto-socorro onde eu dava plantão. Ficamos muito amigos, uma amizade que durou até ele ir embora. Tenho muita saudade dele. Ele foi contratado, na disciplina do professor Munhoz Cintra, para fazer trabalhos de estatística para os médicos, o que chocou o mundo médico. Dizia-se que não dava para medir a medicina por quantidade, mas por qualidade. E Vanzolini ajudava na disciplina? Ele cuidava da disciplina. Eu estava preparando minha livre-docência, em 1958, e levei os dados para ele me ajudar a fazer a análise estatística. Hoje isso é considerado um erro, porque primeiro é preciso delinear a pesquisa para depois analisar os dados, mas naquela época era uma novidade. Contei a Vanzolini o que já tinha feito e ele me respondeu que os dados não serviam para nada, porque eu devia ter planejado antes. Eu disse ‘está bem’ e joguei no lixo. “Vamos começar do zero, então”, respondi. Ele sorriu, disse que tinha gostado de mim, apanhou o material no lixo e começamos a trabalhar. Passei a ajudar o Paulo Vanzolini, porque ele dava esse tipo de assessoria a qualquer médico que precisasse. Depois de dois ou três anos, ele me convidou para dar aulas da disciplina. Mais tarde acabei assumindo a disciplina. O senhor acompanhou o nascimento da FAPESP, em 1962. Como era o ambiente na comunidade acadêmica nessa época? Acompanhei de perto o processo de criação. O Vanzolini estava preparando a lei e me mostrava. Nessa época tinha tido sucesso o primeiro plano de ação do governador Carvalho Pinto, que preparava o segundo plano. Dessa vez, o governo queria incluir a universidade. O reitor da USP era o Ulhoa Cintra, que nomeou uma comissão multidisciplinar de áreas como física, química, biologia, medicina, veterinária para levantar o que a universidade precisava. Convivi com Crodowaldo Pavan, com Marcelo Moura Campos, Oscar Sala, Ruy Leme, que foi presidente do Banco Central. Fizemos um levantamento, cada um na sua área, e


apresentamos. O governador e o reitor se entusiasmaram com o resultado. Nessa época também era notável o que estava sendo feito no panorama da chamada revolução molecular. Compreendi como isso poderia modificar toda a biologia básica e aplicada e achei que influenciaria os cursos de aplicação. Estou juntando esse estudo da USP, a ideia da FAPESP e a criação da FAPESP – toda essa experiência me permitiu fazer uma proposta para a área biomédica, a criação, na USP, de um centro de pesquisa biológica básica e aplicada. A ideia era reunir os pesquisadores da área biomédica e fazê-los conviver com o pessoal que estava dominando a nova biologia. Por razões administrativas, o centro não foi criado. Nessa época, Botucatu, como toda cidade do interior dos anos 1960, brigava para ter sua faculdade de filosofia, ciências e letras. A construção de um hospital para tuberculose na cidade havia demorado tanto que, quando ficou pronto, já não havia necessidade de um hospital naqueles moldes. O prefeito de Botucatu era amigo do governador e pressionou para criar uma faculdade de medicina naquelas instalações. O reitor da USP, o Ulhoa Cintra, nos chamou e perguntou por que não usávamos a minha ideia, que era seguir o exemplo de centros universitários norte-americanos criados em pequenas cidades, nos quais todo mundo faz pesquisa. Em vez de criar uma faculdade de medicina, decidiu-se criar em Botucatu uma faculdade de ciências médicas e biológicas, com quatro faculdades conjugadas. Naquele momento era uma ideia pioneira. Quando a experiência chegou ao segundo ano, fui chamado a ajudar. Estava na diretoria científica da FAPESP, mas me senti na obrigação de ir para Botucatu.

Havia a preocupação de que a FAPESP desse certo. O Kerr foi afastado – ou melhor, se afastou. Já havia sido preso antes e decidiu ir para Ribeirão Preto. Quando assumi, encontrei o início planejado pelo Kerr e procurei ampliar, com algumas preocupações básicas. A gente fez questão de aprender com a experiência dos outros. E a trajetória do CNPq [Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico], que já tinha uma década de existência, foi importante. Procuramos ver o que estava dando certo e o que não estava no CNPq, para não errar. Por exemplo... Foi percepção nossa, minha, do Paulo Vanzolini, do Aziz Ab’Saber, que se devia evitar que a FAPESP tivesse compromissos

de pesquisa. Não é fórum para política, ou lugar para dizer “gosto de você” ou “não gosto de você”. Havia o cuidado de escolher os assessores. Tínhamos informação sobre orientador que chantageava o orientando. Ou ele fazia o que o orientador queria, ou não podia pedir a bolsa. Tínhamos um cuidado grande com isso, particularmente com as bolsas de iniciação científica. A ordem era a seguinte: o aluno de iniciação científica merece um excelente orientador, porque esse é o momento da formação do pesquisador. Houve exemplos de rejeitar o projeto do catedrático, que tinha o nível do professor titular de hoje, mas dar para seu assistente? Se o projeto do assistente era bom, ele recebia. Se o do catedrático era ruim, não recebia. O cuidado maior era dar o motivo da resposta negativa. A gente recebia o pesquisador, explicava. Teve algumas situações hilariantes. Me lembro de um pesquisador A que enviou projeto e eu encaminhei para o assessor B. Por coincidência, B também tinha enviado projeto e encaminhei para A dar o parecer. A identidade dos pareceristas, claro, era sigilosa. Então A recebeu de B e B recebeu de A. Um deles foi à FAPESP reclamar que o parecerista não entendia nada da área. E que a gente deveria ter mais cuidado e enviar para beltrano, que era justamente o pesquisador que havia feito o parecer.

Tínhamos um grande cuidado com as bolsas de iniciação científica. O aluno merece um excelente orientador

Queria que o senhor falasse sobre os resultados de sua primeira gestão como diretor científico e sobre seu reencontro com a FAPESP 10 anos mais tarde. A FAPESP foi criada em 1962 e teve como primeiro diretor científico o Warwick Kerr, uma pessoa extraordinária que procurou dar um rumo sério à FAPESP.

administrativos e encargos permanentes. O CNPq tinha institutos para administrar e isso virou um saco sem fundo. A FAPESP pode dar apoio para a instituição e para o pesquisador, mas a administração cabe à instituição. Outro ponto importante foi limitar gastos com administração. Foi aí que surgiu o teto de 5% ao orçamento. Havia grande preocupação de dar seriedade científica a tudo que era feito. Os projetos tinham que ter qualidade e ser analisados com transparência e seriedade. Outro desafio era que estávamos em 1964, uma fase de turbulência política no país. Tínhamos de evitar que houvesse interferência política na concessão de bolsas e auxílios. Criamos um slogan: a FAPESP é a casa do pesquisador. Aqui a gente fala

A FAPESP recebeu uma visita de militares em 1964. Como foi o episódio? Queriam saber como funcionava a FAPESP, se sabíamos quem era comunista. Disse que isso não entrava em cogitação. Pediram os nomes dos assessores. Eu respondi que eram mantidos em sigilo. Um general insistiu e eu disse para ele pedir ao governador, porque meu pedido de demissão iria naquele dia mesmo. No final, me deu um cartão e sugeriu que o procurasse se tivesse algum problema. Tinha o sobrenome Bethlem. Era parente do general Bethlem, que seria ministro do Exército. PESQUISA FAPESP 210 | 29


Como encontrou a FAPESP na segunda gestão, em 1975? Eu não sabia que meu nome havia sido incluído na lista tríplice. Eu não conhecia o doutor José Mindlin [secretário de Estado do governador Paulo Egydio Martins]. Ele me chamou e avisou que eu seria escolhido diretor científico. Fiquei lisonjeado. Quando acabou minha primeira gestão, fui reconduzido à lista dos candidatos, mas declinei, porque tinha o compromisso em Botucatu. Mas 10 anos depois foi irrecusável nos termos em que Mindlin me apresentou. Ele era um homem fantástico, nos deu mão forte em tempos difíceis. Pude avaliar erros e acertos da primeira gestão. Algumas coisas ficaram claras. Primeiro, a importância da bolsa de iniciação científica. Os que fizeram iniciação haviam feito mestrado e doutorado mais rapidamente. Também surgiu uma crítica de que o número de bolsas havia crescido em relação ao de auxílios à pesquisa. Cresceu mesmo, porque não havia demanda para grandes projetos.

A pressão política ainda era forte? O governo federal baixou um decreto dizendo que os nomes dos bolsistas no exterior deveriam passar pelo Serviço Nacional de Informações, o SNI. Isso criava um obstáculo. A resposta podia demorar e abria-se o flanco para a interferência política. Eu disse ao Mindlin que era preciso achar um jeito. Ele afirmou que o jeito era não mandar os nomes e que a gente logo saberia se isso era possível ou não: “Ou ficamos os dois, ou caímos os dois”. Entrei em contato com o Itamaraty, fui atendido por um embaixador e disse que não ia mandar. Ele disse que sabia com quem estava falando e que podíamos não mandar os nomes. Assim, todo bolsista passava pelo SNI, menos quem era da FAPESP.

sobre universidade. Aceitaram a sugestão e me convidaram para fazer a palestra inicial. Eu fui. Quando foi realizada aquela votação que não valia, a da comunidade, eu tive 70% dos votos. Mas achei que não seria escolhido, porque na época me envolvi em Botucatu em um episódio com a tropa de choque. O reitor queria desalojar os estudantes da sala no centro acadêmico e fomos protegê-los. Mas fui nomeado. Foi uma experiência rica em que foi possível fazer uma grande transformação, mas isso não é mérito meu, é da comunidade na qual me apoiei. Levamos a sério o planejamento. Conseguimos fazer com que a universidade, que estava em 32º lugar entre as 34 federais daquele tempo quanto aos indicadores de qualidade, passasse para o 4º lugar. Seu envolvimento com a bioética começa em que momento? Em 1985, eu e a Sonia Vieira, professora de estatística, publicamos um livrinho chamado Experimentação em seres humanos, em que fizemos a análise de abusos. Propúnhamos que era hora de ter diretrizes éticas da pesquisa com seres humanos. Depois que o livro saiu, criei a Sociedade Brasileira de Bioética. Ela cresceu e logo surgiu o primeiro curso de bioética do país. Depois fui indicado para o Conselho Nacional de Saúde para discutir ética e saúde, em 1992, 1993. E lá eu propus a criação de normas sobre ética em pesquisa com ser humano e que a diretriz não fosse de ética profissional, mas de bioética no sentido amplo. Foi nomeado um grupo interdisciplinar, que tive a honra de presidir, com 13 pessoas, sendo apenas 5 médicos. Pegamos os dados de três ministérios: Saúde, Ciência e Tecnologia e Educação. Mapeamos 30 mil pessoas ou entidades que podiam contribuir. Mandamos o esboço do que a gente pensava. Pedimos sugestões. Queríamos que nosso sistema tivesse força de lei. E conseguimos. Esse sistema está sob a égide do Conselho Nacional de Saúde. Criamos um sistema de controle social na boa acepção da palavra. É independente, gerido pelos comitês de Ética de Pesquisa das instituições, que são multidisciplinares. Qualquer instituição que faz pesquisa precisa ter o seu. Há mais de 600 comitês. Eles não podem ter mais da

Os nomes de todos os bolsistas no exterior do país passavam pelo SNI, menos os da FAPESP

O que foi feito? Fomos procurar lacunas e estimulamos a apresentação de projetos para suprir essas lacunas. A exposição permanente da Amazônia, por exemplo, quintuplicou o acervo dos peixes lá do Museu Goeldi. Foi iniciativa da FAPESP. O Ab’Saber observou que na pesquisa em geo­grafia estava faltando um acervo de fotografias aéreas. Criamos o acervo. As disciplinas de química estavam se reunindo na Cidade Universitária. Perguntei ao Paschoal Senise que iniciativas devíamos tomar. Ele lembrou que havia uma lacuna na química dos produtos naturais. E quem é a pessoa indicada? Ele disse que só tinha o Otto Gottlieb, em Belo Horizonte. Liguei para o Otto e propus que ele criasse a área na USP. Ele fez o elo com toda essa química de produtos naturais que o país tem hoje. Houve um momento em que a Fundação Ford reduziu o apoio ao Cebrap [Centro Brasileiro de Análise e Planejamento]. Chamamos os pesquisadores, avaliamos os projetos e alguns foram assumidos pela FAPESP. 30 | agosto DE 2013

O que aconteceu? Mandavam para nós os bolsistas do CNPq que precisavam viajar e não podiam esperar o aval do SNI. Depois ressarciam o recurso. O senhor tem uma passagem pela reitoria da Universidade Federal de São Carlos. Como foi para lá? Eu estava na FAPESP no final da segunda gestão como diretor científico e pesquisadores da Federal de São Carlos foram conversar comigo. Haveria mudança de reitor e eles queriam alguém alinhado com o que São Carlos queria ser, uma universidade parecida com a Faculdade de Medicina de Botucatu. Sugeri que fizessem uma lista de pessoas que achassem respeitáveis e os convidassem para fazer uma palestra


metade dos membros de uma mesma área. Imagine o que foi chegar para um médico e dizer que o projeto dele ia ser analisado por 10 ou 12 pessoas e que só metade seria de médicos. Agora tenho mais um sonho que eu vou realizar. Qual? Criar um sistema de bioética na atenção à saúde, nos moldes da Conep [Comissão Nacional de Ética em Pesquisa], com comitês no SUS e em hospitais privados. Não me conformo quando vejo na TV um hospital caótico. Toda instituição com mais de 20 médicos tem um comitê de ética profissional. Me pergunto: onde está o comitê do hospital caindo aos pedaços? Quando você se interna num hospital privado, é obrigado a assinar um papel em que se submete às normas do hospital. Só que esse regulamento não passou por ninguém. Essas comissões vão ter esse papel de criar regras e monitorá-las. Como avalia as críticas à Conep? A questão é complexa e mereceria uma matéria à parte. Qualquer crítica deve ser recebida com isenção e merece ser avaliada, principalmente quando se trata de uma questão da área ética. Por outro lado, a crítica deve ser procedente, fundamentada e dirigida a quem de direito. Especificamente durante o período de 1996 a 2007, toda crítica foi devidamente avaliada. Ao lado de críticas “não caracterizadas”, visivelmente apresentadas sob pressão de conflitos de interesses, surgiram reclamações quanto à demora na tramitação de processos. Não me lembro de nenhuma crítica atingindo o corpo conceitual ou doutrinário, comprometendo alguma ou o conjunto das resoluções 196/96 e suas complementares. É preciso separar o aspecto do conteúdo bioético do aspecto operacional. As críticas, em geral genéricas, são focalizadas em aspectos operacionais, especificamente na “demora” ou na burocratização das respostas, imputadas equivocadamente à Conep, muitas vezes visando desqualificá-la. É bom lembrar o disposto no capítulo VIII da 196/96, que estipula que “o Ministério

da Saúde adotará as medidas necessárias para o funcionamento pleno da comissão e de sua secretaria executiva”. Por que a bioética ganha espaço? Vou fazer um recorte sobre a evolução da ciência. Um ponto importante é o século XVI, com Galileu Galilei. Ele disse que a verdade dos fenômenos naturais tinha de ser descoberta pela observação e deu início às ciências experimentais. Isso permitiu um desenvolvimento tão extraordinário que, quando chega o final do século XVIII e o início do XIX, houve uma gigantesca soma de conhecimento em relação aos séculos anteriores, a que se deu o nome de revolução científica. No século XX tivemos a revolução atômica, que nos deu eticamente a responsabilidade da bomba

Problemas éticos não podem ser resolvidos por cientistas de uma área só atômica. Em 1953, Watson e Crick descobriram a dupla hélice do DNA. Começa a revolução molecular. Nos últimos 50 anos aconteceram duas revoluções simultâneas: a das comunicações e a revolução espacial. No final do século XX, início do XXI, houve a revolução da nanotecnologia. Quando todas se acoplarem, juntando a informática, teremos uma sexta revolução. Cada salto cria problemas éticos, que não podem ser resolvidos só por cientistas de uma área. É necessário chamar as outras disciplinas, sobretudo as humanas – sociologia, filosofia – para criar um balizamento ético. Se não tomarmos cuidado, a sociedade pode se autodestruir. Surgiu uma palavra, a bioética, que tem um significado profundo. Era natural eu me associar a isso.

Por que a ética médica é insuficiente para lidar com a pesquisa? Nós médicos sempre fizemos pesquisa em seres humanos. Qual era a ética? A de Hipócrates. Não era suficiente. Em 1932, os Estados Unidos resolveram pesquisar se a sífilis não tratada da maneira tradicional tinha diferença em menino de cor negra e de cor branca. O governo abriu um ambulatório numa cidade do Arizona, que tinha uma população negra de plantadores de algodão e alta incidência de sífilis. Foram lá para serem tratados, mas ficaram sem tratamento, porque a pesquisa queria ver como eles morriam. Em 1952, médicos apresentaram esse trabalho num congresso e foram aplaudidos de pé. O projeto só foi interrompido em 1972 porque a imprensa denunciou. Quando acabou a 2ª Guerra, os abusos dos campos de concentração nazistas foram divulgados no tribunal de Nuremberg. Os juízes quiseram criar um documento para dizer que aquilo não podia mais acontecer. Surgiu o Código de Nuremberg, primeiro documento internacional falando de ética em pesquisa em ser humano. Isso em 1947. A Associação Médica Americana resolveu fazer outro documento, em 1964, que é a Declaração de Helsinque. No Brasil ficamos até 1988 só com esses documentos. Hoje nenhuma pesquisa pode ser iniciada sem passar por um comitê de ética. Tudo deve ter consentimento do paciente. Há casos de violações? Estou preso a sigilos, mas detectamos abusos. A Conep não tem poder de punição, mas avisa o Ministério Público e a instituição. Tem uma certa doença que é aflitiva, que dá episódios agudos em adultos e crianças. Um médico queria pegar as crianças com a doença, desencadear o acesso para gerar a situação aflitiva e, depois, dividir as crianças em dois grupos: com um recebendo o remédio novo e o outro, placebo. É justo deixar uma criança nessa situação? É um abuso. Negamos e ele insistiu em fazer. Acabamos cassando. Realmente existe isso, mas é embargado. Mas é preciso explicar a razão ao pesquisador, para ele poder reformular. O comitê de ética, quando aprova o projeto, passa a ser corresponsável. Não é um trabalho burocrático. n PESQUISA FAPESP 210 | 31


2012

2011

2010

2009

2008

2007

2012

2011

2010

2009

2008

2007

2012

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2010

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2008

2007

2012

2011

2010

2009

2008

2007

política c&T  mobilidade y

34

26

28

Porcentagem de

21

bolsas de pós-doc da fapesp concedidas a pesquisadores com graduação no

18

17

16 13

13

12

17

Exterior, por ano

6

5

Ciências exatas registram maior crescimento entre as grandes áreas Ciências exatas e da Terra

Engenharias

15

14

14

Interdisciplinar

6

8

15 9

Ciências humanas

Internacionalização da pesquisa paulista é estimulada pela vinda de pós-docs do exterior com bolsa da FAPESP Bruno de Pierro

32  z  agosto DE 2013

vinda de pesquisadores de pós-doutorado do exterior para instituições do estado de São Paulo passa por transformações, mostram dados recentes da FAPESP. O exemplo mais expressivo é o das ciências exatas e da Terra: em 2007, 16% das bolsas de pós-doutorado da Fundação foram concedidas a pesquisadores que se graduaram em outros países; já entre as novas bolsas do ano de 2012, esse índice havia saltado para 34%. O movimento também é observado em outras áreas, como a de ciências biológicas, cujo aumento foi de 6% para 11%, e a de ciências sociais aplicadas, que saiu do zero para 6% também entre 2007 e 2012. A única área que sofreu redução na proporção de bolsas concedidas anualmente a pós-doutorandos com graduação no exterior foi a de ciências agrárias, de 2% em 2007 para 1% em 2012 (ver gráfico). A maior atração de cérebros para São Paulo é decorrência de vários fatores. Destacam-se, por

ilustraçãO fabio otubo  infográficos ana paula campos

Ciência competitiva A


Linguística, letras e artes

6

6

7

exemplo, o crescimento dos incentivos à internacionalização da pesquisa nacional, com forte participação da FAPESP neste processo, por meio da oferta de bolsas para pesquisadores vindos do exterior, e o reconhecimento internacional de um número crescente de grupos de pesquisa brasileiros que fazem ciência competitiva. A crise econômica que atinge a Europa e os Estados Unidos, e que provocou cortes no orçamento para a ciência, também é um fator de estímulo. Em certas áreas, somados a esses fatores identifica-se também o esforço dos supervisores para estabelecerem parcerias duradouras com grupos de pesquisa de outros países, que favoreceu a inserção internacional de laboratórios na última década. “O mecanismo de atração está bastante concentrado na figura do supervisor. Ele é escolhido pelo bolsista porque participa frequentemente de congressos internacionais ou se torna conhecido pela qualidade dos artigos que publica”, comenta

Ciências biológicas

3

2

2012

2009

2008

2007

2012

2011

2010

3

7

5 2

Ciências sociais aplicadas

3

10

9

7

2011

5

7

2009

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2007

2012

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2009

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2007

11

2010

3

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2010 12

8

6 3

2009

2008

2007

2012

2011

2010

2009

2007

2008

12

11

1

Ciências agrárias

3

1

5

Ciências da saúde

de onde vêm os pós-docs Número de bolsas de pós-doutorado da FAPESP concedidas a pesquisadores com graduação no exterior, segundo a origem (2007-2012) Peru Argentina Colômbia França Índia Estados Unidos Itália Espanha Alemanha Inglaterra Cuba Portugal Chile Rússia China Uruguai Irã México Paquistão Venezuela

16 15 15 13 13 12

21

29 25

37 36 35

46

66

9 8 7 6 6 6 pESQUISA FAPESP 210  z  33


Estágios no exterior Quantidade de bolsas do programa Bepe da FAPESP por país de destino e por grande área (abaixo) entre outubro de 2011 e maio de 2013

76 Canadá

3 Rússia 420 Estados Unidos

10 Japão 1 Tailândia

10 México

3 Cingapura

1 Bolívia

23 Austrália

2 2 Chile Uruguai 9 Argentina

Edgar Dutra Zanotto, pesquisador do Centro de Ciências Exatas e de Tecnologia da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Zanotto, que recebeu o Prêmio Almirante Álvaro Alberto para Ciência e Tecnologia neste ano, é uma referência internacional no estudo sobre processos cinéticos em vidros e vitrocerâmicas e já recebeu em seu laboratório dezenas de bolsistas de diversos países. No entanto, a trajetória científica não é o único fator decisivo para chamar a atenção de bons pesquisadores vindos do exterior. A estrutura de trabalho para recebê-los também deve estar de acordo com as expectativas desses pesquisadores, geralmente formados por universidades e instituições de pesquisa consagradas. “Em exatas, a estrutura dos laboratórios é fundamental para receber pesquisadores de fora”, concorda Vanderlei Bagnato, professor do Instituto de Física de São Carlos (IFSC) da Universidade de São Paulo (USP). “Aliado a isso, vemos que o valor de nossas bolsas também é alto e competitivo”, diz ele, que recentemente participou da organização de um evento que reuniu cinco ganhadores do Prêmio Nobel no IFSC (ver edição 205). No âmbito da internacionalização, a FAPESP criou em 2009 o Programa Escola São Paulo de Ciência Avançada (ESPCA), modalidade de apoio que busca aumentar a exposição internacional de áreas de pesquisa de São Paulo que já são com34  z  agosto DE 2013

Biológicas Exatas e da Terra Agrárias Humanas Saúde Engenharias Linguística, letras e artes Sociais aplicadas Interdisciplinar

296 232 130 127 124 104 90 25 7

petitivas mundialmente. O programa oferece oportunidades para que pesquisadores paulistas organizem cursos de curta duração, para os quais devem convidar pesquisadores de vários lugares do mundo e de São Paulo. O público dos cursos deve ser formado por estudantes de graduação e pós-graduação, além de jovens doutores, dos quais pelo menos a metade deve ser recrutada fora do Brasil. Um dos objetivos é mostrar a alunos e pesquisadores do exterior as oportunidades de pesquisa em São Paulo e atrair os melhores. O destaque das ciências exatas pode ser explicado pelo pioneirismo da pesquisa de alguns grupos, como o de Bagnato, que estuda a turbulência quântica em condensado de Bose-Einstein


4 Noruega 11 Escócia

3 Finlândia

12 Suécia

10 97 Dinamarca Inglaterra 25 3 Holanda 3 País de 11 73 Polônia Gales Bélgica Alemanha

3 Irlanda

108 França 68 Portugal

84 Espanha

12 Suíça

1 República 2 Tcheca Áustria

“O valor de nossas bolsas é alto e competitivo”, diz Vanderlei Bagnato

43 Itália 2 Grécia

– nome dado a um agrupamento de átomos ou moléculas que, quando resfriados a temperaturas próximas do zero absoluto, passam a se comportar como uma entidade única. Foi por esta razão que o norte-americano Kyle Joseph Thompson decidiu procurar Bagnato para que ele o supervisionasse em seu pós-doutorado no Brasil, após concluir o doutorado na Universidade da Flórida, em Gainesville, Estados Unidos. “Decidi estudar turbulência em fluidos quânticos, e depois de uma exaustiva pesquisa descobri que o grupo do professor Bagnato na USP era o mais indicado no assunto”, diz Thompson. “Aqui no Brasil pesquiso ao lado de pessoas de várias partes do mundo, utilizando as técnicas e tecnologias mais modernas que existem”, acrescenta ele. Em outras áreas, como a de ciências da saúde, embora a vinda de pesquisadores de outros países esteja crescendo, o percentual dos bolsistas que fizeram graduação no exterior ainda é baixo. Das 61 bolsas de pós-doc concedidas em 2007 pela FAPESP na área, 2 foram concedidas para pesquisadores do exterior. Já em 2012, o número de bolsas concedidas havia subido para 111, sendo 6 delas para pós-doutorandos do exterior. “Na verdade existe uma demanda reprimida. Há muito mais jovens doutores no exterior que poderiam se beneficiar da experiência de trabalhar no Brasil”, argumenta Carlos Augusto Monteiro, profes-

sor e pesquisador da área de nutrição da Faculdade de Saúde Pública da USP e um dos responsáveis pela atração de pesquisadores de outros países na área da saúde em São Paulo. Atualmente ele supervisiona o pós-doutorado de um jovem antropólogo canadense, formado na Universidade de Montreal, e espera a resposta da FAPESP para a solicitação de bolsa de uma colombiana que concluiu seu doutorado na Universidade de Washington, Estados Unidos. Segundo ele, as ciências da saúde estão recebendo poucos pesquisadores do exterior porque talvez falte uma postura mais ativa dos brasileiros para divulgar a disponibilidade de vagas e bolsas em eventos e programas de doutorado em outros países. DIVULGAÇÃO AGRESSIVA

Entre as medidas adotadas por Monteiro para conseguir atrair bons candidatos do exterior está uma divulgação mais agressiva, expondo claramente sua disposição para receber bolsistas. Seu grupo desenvolveu uma linha singular de pesquisa que explora relações entre mudanças no sistema alimentar global, qualidade das dietas e a atual pandemia de obesidade. Doutor em saúde pública, o canadense Jean-Claude Moubarac só teve certeza do tema de sua pesquisa de pós-doutorado, e onde ela seria realizada, depois de ler um artigo de Monteiro em uma revista científica pESQUISA FAPESP 210  z  35


Redes de pesquisa

Tradicionalmente, as ciências humanas são marcadas mais pela ida de brasileiros ao exterior do que pela vinda ao país de pesquisadores de fora, observa Paula Montero, presidente do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap) e coordenadora adjunta da FAPESP. Ela explica que, na antropologia, por exemplo, a internacionalização foi fundamental para garantir avanços por meio da formação de redes de pesquisa comparada. Isso permitiu que, nos últimos 10 anos, o Brasil avançasse na pesquisa colaborativa, aumentando sua participação em debates globais sobre antropologia. “A parte mais difícil, porém, é fazer com que as reflexões típicas de países periféricos tenham impacto nos países centrais”, afirma Paula Montero. Segundo Zingano, a vinda de pesquisadores do exterior precisa continuar como um objetivo, porque causa impactos positivos nos grupos de pesquisa que os recebem. “Os estudantes e pesquisadores brasileiros em formação que convivem com os pós-docs aprendem novos procedimentos de trabalho e percebem que precisam ser mais profissionais”, diz. A crise nos Estados Unidos e na Europa tem favorecido a vinda de pesquisadores de humanidades, que em condições mais 36  z  agosto DE 2013

favoráveis no exterior talvez não desembarcassem no Brasil. Este é o caso do norte-americano Evan Keeling, do estado de West Virginia, nos Estados Unidos, que veio para pesquisar ao lado de Zingano em 2011. Fugindo da crise em seu país, encontrou inesperadamente boas condições para pesquisar e participar de debates sobre filosofia antiga na USP. “São Paulo está se tornando mais atrativo para acadêmicos do exterior. Em relação à filosofia antiga, os trabalhos do professor Zingano são respeitados nos Estados Unidos e na Europa, e isso também ajudou na minha escolha”, diz Keeling, para quem o país poderia atrair mais pesquisadores se investisse em divulgação das bolsas e também em medidas para diminuir a burocracia. Outro pesquisador supervisionado por Zingano, o venezuelano Simon Noriega Olmos, relata que o processo para retirar documentos na Polícia Federal foi desestimulante. O canadense Jean-Claude Moubarac, quando precisou alugar um apartamento assim que chegou em São Paulo, deparou com barreiras que dificultavam a liberação do imóvel. A ajuda veio de seu supervisor, o pesquisador Carlos Augusto Monteiro. “Tive que alugar o apartamento em meu nome”, afirma Monteiro. Em relação às ciências agrárias, José Roberto Postali Parra, professor da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da USP e coordenador adjunto da FAPESP em ciências da vida, afirma que, embora o país seja considerado líder em agricultura tropical e tenha desenvolvido tecnologias próprias, há hoje forte tendência de avanços em biotecnologia e bioquímica no mundo, forçando o Brasil a buscar pesquisadores e conhecimento no exterior. Contudo, a área de ciências agrárias é uma das que menos receberam pós-doutorandos do exterior com bolsa da FAPESP: apenas 22 bolsas foram concedidas

Os pós-doutorandos Evan Keeling, norte-americano, e Jean-Claude Moubarac, canadense: atraídos pela qualidade da pesquisa em nutrição e filosofia antiga da Universidade de São Paulo

fotos  léo ramos

internacional. “A partir daquele momento, percebi que compartilhávamos interesses e visões de mundo comuns sobre saúde e nutrição”, diz ele. Em São Paulo desde 2011, Moubarac hoje reconhece que escolheu o lugar certo para desenvolver seu trabalho. “Pesquisadores em saúde pública de outros países se beneficiam quando aprendem mais sobre a experiência brasileira”, afirma. Em outros casos, o segredo para se conseguir atrair cérebros é manter um ritmo intenso de comunicação com instituições e grupos de pesquisa do exterior, mesmo que os frutos dessa relação demorem um pouco para chegar. “Há dois anos fiz uma chamada para três bolsas de pós-doutorado. Recebi 16 projetos de pessoas interessadas. Incrivelmente, todas eram de fora do Brasil”, conta Marco Antonio de Avila Zingano, professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. Atualmente, Zingano supervisiona 4 pós-doutorandos vindos do exterior. O grupo de Zingano, voltado para a filosofia antiga, hoje está inserido no eixo acadêmico internacional que estuda o assunto e participa de redes de difusão e divulgação na internet, que conectam América Latina, Europa e Estados Unidos. “Essa inserção internacional foi crucial no momento de divulgar os editais para as bolsas, anos atrás”, diz Zingano. Em 2007, a FAPESP concedeu 50 bolsas de pós-doutorado em ciências humanas, sendo 3 para pesquisadores vindos do exterior. Já em 2012, foram concedidas 69 bolsas, dos quais 6 para pós-doutorandos oriundos de outros países.


Omar Mertins, que aprendeu novos procedimentos no exterior para aplicar em laboratórios brasileiros

que o estágio seja um complemento ao trabalho já realizado no Brasil”, explica. Em relação às engenharias, José Roberto Arruda, professor da Faculdade de Engenharia Mecânica da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e coordenador adjunto da FAPESP em ciências exatas e engenharias, diz que o Bepe permite ao pesquisador enriquecer sua formação, particularmente ao ter contato com práticas científicas frequentemente mais objetivas e consolidadas. “O programa também cumpre o papel de atrair bons estudantes, ao dar a eles a oportunidade de crescer como pesquisadores e como pessoas através da experiência do estágio no exterior”, diz Arruda. Quando decidiu embarcar para Estrasburgo, no leste da França, em junho de 2012, o pesquisador de pós-doutorado do Instituto de Física da USP Omar Mertins tinha o objetivo de aprender novos procedimentos, sem os quais não poderia avançar com sua pesquisa sobre sistemas que simulam membranas biológicas. Durante os sete meses em que estagiou no Instituto Charles Sadron, Mertins teve contato com a pesquisadores que vieram a técnica da micromanipulação de outros países entre 2005 e por pipeta, indispensável para 2012. O número fica abaixo de avaliar aspectos físicos da memáreas, como humanas, que rebrana lipídica estudada sob irgistrou 41, e engenharias, com “São Paulo radiação luminosa. “Trouxemos 77 bolsas de pós-doc concediestá se essa tecnologia para o Brasil, das a pesquisadores do exterior trata-se de algo inédito aqui”, entre 2005 e 2012. tornando mais diz o pesquisador, que também acumulou experiências no exCaminho inverso atrativo para terior quando fez um estágio na A vinda de pesquisadores do França durante o doutorado e exterior é acompanhada por pesquisadores outro na Alemanha, já no pósum movimento de ida de esdo exterior”, -doutorado. tudantes e pesquisadores braA aluna de doutorado Aline sileiros para fazer estágios em diz Evan Silva Mello Cesar, da Escola Suoutros países. Entre outubro de perior de Agricultura Luiz de 2011 e maio de 2013, a FAPESP Keeling Queiroz da USP, por exemplo, concedeu 1.135 bolsas por meio beneficiou-se de uma parceria da Bolsa Estágio de Pesquisa que havia sido estabelecida anno Exterior (Bepe), programa teriormente entre seu orientadestinado a alunos de iniciação científica, mestrado e doutorado e pesquisadores dor no Brasil e o laboratório nos Estados Unidos, de pós-doutorado de São Paulo para impulsionar no qual estagiou durante um ano. Aline retornou a internacionalização da pesquisa. O principal em junho de sua experiência na Iowa State Unidestino dos estágios, que têm duração de um mês versity, onde teve contato com uma nova tecnoloa seis anos, são os Estados Unidos. Nesse período, gia para o sequenciamento de RNA e associação o país recebeu 420 bolsistas oriundos de São Paulo genômica. “No Brasil temos equipamentos para apoiados pela FAPESP, dos quais 136 das ciências realizar esse procedimento, mas não organizar os biológicas e 80 das exatas. A França recebeu 108 resultados”, explica a estudante, que pesquisa a bolsistas, na maioria (27) provenientes da área de identificação e caracterização de genes associados à deposição e composição da gordura intramuscuhumanas (ver gráfico). De acordo com Walter Colli, professor titular da lar em bovinos da raça nelore. Graças ao estágio, Universidade de São Paulo (USP) e coordenador Aline pôde apresentar resultados preliminares de adjunto da FAPESP em ciências da vida, o maior seu projeto em conferências internacionais. “Todos êxito do Bepe é exigir que o bolsista desenvolva os pesquisadores deveriam ter a oportunidade de seu trabalho no exterior de acordo com a linha ir ao exterior e trazer novos conhecimentos para de pesquisa que executa aqui. “A FAPESP exige a ciência brasileira”, afirma. n pESQUISA FAPESP 210  z  37


Avaliação y

Trajetórias reconstruídas Grupo avalia programas da FAPESP e mostra de onde vieram e para onde foram ex-bolsistas apoiados pela Fundação Fabrício Marques

U

ma pesquisa inédita, que analisou o perfil e a trajetória de ex-bolsistas de iniciação científica, mestrado e doutorado de universidades e instituições paulistas, financiados pela FAPESP e por outras agências de fomento entre 1995 e 2009, identificou quatro grupos distintos de estudantes, de acordo com renda, família e formação. O primeiro deles é composto predominantemente por pessoas das classes D e E, oriundas de escolas públicas e famílias de tamanho médio, e que fizeram iniciação científica. Já o segundo reúne pessoas das classes A e B, que frequentaram escolas privadas no estado de São Paulo e também fizeram iniciação científica. O terceiro é composto por alunos da classe A, oriundos do Norte e do Nordeste e com início acadêmico no mestrado. E o quarto, de indivíduos das classes C e D, com início acadêmico também no mestrado e pais com baixa escolaridade. O achado é um dos resultados de um projeto de pesquisa, financiado pela FAPESP e concluído recentemente, que avaliou em profundidade três programas da Fundação: o de bolsas de iniciação científica, mestrado e doutorado; o programa Biota-FAPESP, de caracterização da biodiver-

38  z  agosto DE 2013

sidade paulista; e o Equipamentos Multiusuários (EMU), que propicia a compra de equipamentos de custo elevado que possam ser utilizados por pesquisadores de várias instituições. Os ex-bolsistas da FAPESP provêm predominantemente dos grupos 1, 2 e 3, explica Sergio Salles-Filho, responsável pela avaliação e coordenador do Grupo de Estudos sobre Organização da Pesquisa e da Inovação (Geopi), vinculado ao Departamento de Política Científica e Tecnológica (DPCT) do Instituto de Geociências da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). A avaliação do programa de bolsas baseou-se na comparação entre um grupo que recebeu bolsas da FAPESP entre 1995 e 2009 e um grupo de controle composto por indivíduos que receberam o benefício de outras agências. Utilizando as bases de informação da FAPESP e da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), os pesquisadores da Unicamp enviaram e-mails a 39.765 ex-bolsistas de iniciação científica, mestrado e doutorado. Eles foram convidados a responder um questionário que, para facilitar, já estava parcialmente preenchido com informações colhidas na plataforma Lattes e também nas bases utilizadas. O número de respostas chegou

a 12.343. “É certo que a amostra tem um viés, que é a dificuldade de ter acesso a bolsistas que encerraram sua trajetória acadêmica na iniciação científica e não têm cadastro atualizado nas bases de dados consultadas”, afirma Salles-Filho, que também é coordenador adjunto de programas especiais da Diretoria Científica da FAPESP. A avaliação traçou um panorama sobre a origem e o destino de ex-bolsistas, mostrando, por exemplo, que eles provêm de estratos diversos – houve quantidades expressivas de estudantes de todas as classes sociais – e, embora a maioria deles se concentre no estado de São Paulo, depois de formada ou titulada no mestrado e doutorado, há um contingente razoável que vai trabalhar em outros estados. Em 2011, 32% dos recursos desembolsados pela FAPESP financiaram bolsas – as de iniciação científica, mestrado e doutorado foram responsáveis por 87% do número de bolsas contratadas no país. Os perfis característicos dos bolsistas emergiram de questionários como o respondido por Carlos Alberto Moreno Chaves, 30 anos, doutorando em Geofísica pelo Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG) da Universidade de São Paulo (USP). Filho


Perfis característicos Foram identificados quatro grupos de ex-bolsistas da FAPESP e de outras agências, com perfis socioeconômicos peculiares Grupo 1 Início acadêmico:

Grupo 3

iniciação científica (IC)

Início acadêmico:

Trabalhou na graduação: sim

mestrado (MS)

Escola: pública | regular

Trabalhou na graduação:

Tamanho da família: médio

resposta omitida

Casa: tamanho médio | alugada ou cedida Auxílios na graduação:

Escola: privada | regular

Grupo 2

sim

Tamanho da família: grande Casa: tamanho grande

Início acadêmico:

Escolaridade dos pais: máximo ensino médio Classes D e E

iniciação científica (IC)

Origem:

Trabalhou na graduação: não

regiões Norte e Nordeste

Escola: privada | regular

Classe A

Tamanho da família: médio Casa: tamanho grande | própria Origem: São Paulo Auxílios na graduação: sim Escolaridade dos pais:

Grupo 4

superior e pós-graduação

Início acadêmico:

Classes A e B

mestrado (MS) Trabalhou na graduação: sim Escola: pública | técnico e magistério Tamanho da família: grande Casa: tamanho médio Origem: São Paulo Auxílios na graduação: sim Escolaridade dos pais: máximo ensino fundamental Classes C e D

Distribuição dos grupos segundo a primeira bolsa recebida

n  Grupo 1 n  Grupo 2 n  Grupo 3 n  Grupo 4

% 40 35 30 25

infográficos  ana paula campos

20 15 10 5 0

Receberam bolsas de outras agências, mas nunca da FAPESP

Receberam pelo menos uma bolsa da FAPESP

TOTAL

de um jornaleiro, sempre estudou em escolas públicas. Desde 2006, quando fazia graduação no IAG, é bolsista da FAPESP, primeiro de iniciação científica, depois de mestrado e agora de doutorado, sob a orientação da professora Naomi Ussami. “Como sempre estudei em tempo integral, me mantive graças às bolsas da FAPESP. Recentemente até me casei”, afirma ele, que chegou a trabalhar como montador de móveis quando se preparava para o vestibular – entrou na USP na segunda tentativa. Já a capixaba Bárbara Medeiros Fonseca, de 36 anos, veio a fazer o doutorado direto em ecologia de ecossistemas terrestres e aquáticos na USP, também com bolsa da FAPESP. Natural de Conceição da Barra, no Espírito Santo, estudou num colégio numa cidade vizinha no estado da Bahia. “Tinha de percorrer 80 quilômetros todos os dias”, afirma. Mudou-se para a capital federal para fazer graduação em biologia na Universidade de Brasília, quando recebeu uma bolsa de iniciação científica do CNPq. Entre 2001 e 2006 doutorou-se na USP com orientação de Carlos Eduardo de Mattos Bicudo. Hoje é professora da Universidade Católica de Brasília. A grande maioria dos ex-bolsistas da FAPESP graduou-se no estado de São pESQUISA FAPESP 210  z  39


Os ex-bolsistas no mercado de trabalho A atividade econômica da ocupação ou do vínculo de trabalho atual dos ex-bolsistas da FAPESP Educação

53,5%

Atividades profissionais, científicas e técnicas

12,3% 9,2%

Saúde humana e serviços sociais 3,5%

Agricultura, pecuária, produção florestal, pesca e aquicultura Administração pública, defesa e seguridade social

2,8%

Indústrias de transformação

2,6%

Outras atividades de serviços

2,1%

Artes, cultura, esporte e recreação

1,9%

Informação e comunicação

1,6%

Construção

0,9%

Atividades financeiras, de seguros e serviços relacionados

0,8%

Indústrias extrativas

0,8%

Atividades administrativas e serviços complementares

0,4%

Eletricidade e gás

0,4%

Alojamento e alimentação

0,4%

Transporte, armazenagem e correio

0,3%

Organismos internacionais e outras instituições extraterritoriais

0,3%

Atividades imobiliárias

0,2%

Água, esgoto, atividades de gestão de resíduos e descontaminação

0,2%

Comércio, reparação de veículos automotores e motocicletas

0,1%

Outra

Percentual de ex-bolsistas que se tornaram empresários ou autônomos, por tipo de bolsa em cada etapa de formação

16% 14% 12% 10% 8% 6% 4% 2%

n Outras agências n FAPESP

0

IC

MS

IC = Iniciação científica MS = Mestrado DR = Doutorado

Evolução de salário e renda de ex-bolsistas de doutorado 4,7%

20

Paulo, mas quando se avalia a origem a partir do ensino médio a região Nordeste ganha importância, num sinal do afluxo de estudantes nordestinos para universidades paulistas. A maioria dos ex-bolsistas da FAPESP continuou trabalhando no estado de São Paulo após terminar a bolsa. “Mas o percentual de fixação no estado caiu à medida que a titulação aumentava, havendo aumento na fixação, principalmente de doutores, em outros estados do Sudeste e também no Nordeste e Norte do país”, diz Adriana Bin, docente da Faculdade de Ciências Aplicadas (FCA) da Unicamp, membro da equipe e responsável pela avaliação do programa de bolsas da FAPESP. Enquanto o emprego atual de 89% dos ex-bolsistas de iniciação científica tem São Paulo como endereço, entre os doutores essa fração cai para 69%. “Uma hipótese é que isso reflete o crescimento da demanda por docentes em outras unidades da federação. A FAPESP pode estar exercendo um papel de formadora de quadros também para outros estados.” Mais da metade dos ex-bolsistas de doutorado trabalha como docente em universidades públicas, enquanto os graduados e mestres estão empregados em outros setores do mercado. Nas três 40  z  agosto DE 2013

Salários mínimos

15 10 5 0 Não FAPESP

FAPESP

n Renda inicial  n Renda atual

categorias de ex-bolsistas foi observado um percentual homogêneo, ao redor de 8% do total, de pessoas que se dedicam à pesquisa desassociada do ensino, tanto em empresas quanto em institutos de pesquisa ou como autônomas. Segundo os resultados da avaliação, o número de pesquisadores que fazem pós-doutorado é 60% maior entre ex-bolsistas da FAPESP do que nos de outras agências. Os estudantes apoiados pela Fundação também estabeleceram mais colaborações internacionais com compartilhamento de dados (38,9% no caso dos doutores) do que no grupo de controle (28%). Outro dado expressivo é o dos trabalhos publicados em coautoria com pesquisadores estrangeiros: 43,3% dos ex-bolsistas de doutorado da FAPESP publicaram com coautores de outros países, em comparação aos 31,1% dos de outras agências. Os estudantes financiados pela FAPESP publicaram

O número de pesquisadores que fazem pós-doutorado é 60% maior entre ex-bolsistas da FAPESP

DR


mais em revistas de maior impacto, solicitaram mais registros de propriedade intelectual e geraram mais inovações por meio de suas pesquisas do que os demais bolsistas, muito embora se devam considerar diferenças marcantes entre as várias áreas do conhecimento.

Origem e destino De onde vieram e onde trabalham atualmente os ex-bolsistas da FAPESP ORIGEM (Primeira bolsa da FAPESP) 91,38%

92,52%

81,77%

IC = Iniciação científica MS = Mestrado DR = Doutorado

empreendedorismo

Os bolsistas da FAPESP se distinguem em relação à atividade empreendedora. Aqueles que interromperam a carreira acadêmica logo após a iniciação científica atuam mais como empresários e autônomos do que os ex-bolsistas de outras agências. Mas após o doutorado, quando a maioria dos pesquisadores vai atuar como docente de universidades públicas, a tendência se inverte, com mais empreendedores no grupo de controle. A renda inicial dos ex-bolsistas da agência paulista superou a dos demais ex-bolsistas no mestrado. Já a evolução da renda na carreira favoreceu os da FAPESP, tanto no mestrado quanto no doutorado (ver quadro). Os ex-bolsistas da Fundação seguiram uma trajetória acadêmica regular, da iniciação científica ao doutorado, passando pelo mestrado, com uma frequência quase 50% maior do que os demais. Pode parecer paradoxal, mas também a proporção de bolsistas da FAPESP que parou na iniciação científica, não seguindo carreira acadêmica, foi quase três vezes maior do que a dos outros. “Como já se viu, boa parte dos que fazem iniciação vai direto para o mercado de trabalho, inclusive como empreendedores”, diz Adriana Bin. “Já quem faz mestrado com bolsa da Fundação geralmente segue para o doutorado.” O relatório de avaliação faz uma série de recomendações para ampliar a eficiência do programa de bolsas, como criar mecanismos para atrair mais bolsistas de outros estados e aumentar a inserção de doutores em atividades de pesquisa e desenvolvimento nas empresas, além de reforçar as colaborações internacionais, que já distinguem os bolsistas da FAPESP. O objetivo do projeto do Geopi foi desenvolver e aplicar metodologias de avaliação de resultados e impactos de programas científicos, tecnológicos e de inovação. Além de se debruçar sobre os programas de bolsas, Biota e EMU, também buscou criar normas e critérios para avaliar continuamente outros quatro programas da FAPESP avaliados anterior-

Fora do estado de São Paulo

18,23%

8,62% SP

IC

MS

7,48%

DR

Onde trabalham atualmente (Máxima etapa de formação)

Norte Nordeste

89,08% 76,46%

Centro-Oeste Outros estados do Sudeste

69,46%

SP Sul

7,11% 2,78%

1,93%

0,64%

SP

SE

S

3,85%

N

SP

SE

S

IC

mente: Pipe, Pite, Jovem Pesquisador e Políticas Públicas (ver Pesquisa FAPESP nº 147). Esta frente, sob responsabilidade de Ana Maria Carneiro, pesquisadora do Núcleo de Estudos de Políticas Públicas (NEPP), também da Unicamp, complementa o trabalho de avaliação feito, uma vez que permite o monitoramento contínuo dos programas. A perspectiva é que o mesmo ocorra com os programas de bolsas, Biota e EMU no futuro. A metodologia desenvolvida pelo grupo tem um conteúdo inovador e resultou em um artigo submetido a uma revista do campo da cienciometria, a disciplina que busca gerar informações para estimular a superação dos desafios da ciência. Outros artigos estão em elaboração. Um dos desafios dos pesquisadores da Unicamp foi desenhar grupos de controle para servir de comparação com os dados dos programas da FAPESP. No caso do programa de bolsas, a comparação

7,29%

4,27%

CO NE MS

4,26%

3,18%

6,48%

1,11%

1,71%

CO NE

4,58%

N

SP

SE

S

7,58%

8,23%

CO NE

N

DR

foi feita com um grupo de estudantes de iniciação científica, mestrado e doutorado que haviam pedido bolsas à FAPESP, tiveram seu pedido denegado, mas conseguiram o auxílio de outras agências de fomento. “A premissa é que, se chegaram a ter o pedido avaliado pela FAPESP e receberam a bolsa, são comparáveis com os ex-bolsistas da FAPESP”, explica Fernando Colugnati, pesquisador do Geopi e responsável pelo desenho amostral da pesquisa e pelas análises estatísticas. Da mesma forma, os projetos do Programa Biota-FAPESP foram comparados com um grupo de projetos sobre biodiversidade apoiados pela Fundação que, por diversas razões, não haviam feito parte do programa. Foi preciso calibrar os dados desse grupo de controle para driblar um viés importante: enquanto o Biota agrega uma quantidade expressiva de projetos temáticos, que reúnem mais recursos humanos e financeiros, os projetos do grupo pESQUISA FAPESP 210  z  41


de controle eram, na maioria, auxílios à pesquisa, de fôlego mais curto. Buscou-se utilizar, então, uma metodologia capaz de dissociar estatisticamente os efeitos dos projetos temáticos do Biota. Biota-FAPESP

Em relação ao Programa Biota-FAPESP, um esforço para identificar a biodiversidade paulista iniciado em 1999, o saldo da avaliação foi bastante positivo, tanto em produtividade científica quanto em sua capacidade de fornecer base para novas políticas públicas, ainda que tenha obtido resultados tímidos na prospecção de compostos químicos com potencial de desenvolvimento de produtos em segmentos como o farmacêutico e o de cosméticos. Entre as contribuições, constatou-se que o Biota teve bons resultados na área de taxonomia: seus projetos identificaram 524 táxons por projeto, três vezes mais do que no grupo de controle. O programa também teve o condão de fixar mais profissionais na área de biodiversidade. “Observou-se também que os pesquisadores do programa publicam quase duas vezes mais artigos, mesmo já descontando o viés dos temáticos”, disse Paula Drummond de Castro, também pesquisado-

ra do grupo e responsável pela avaliação do Biota e do EMU. Outro destaque foi o desempenho relacionado à publicação de artigos científicos, que exibe um salto aproximadamente um ano após o início dos projetos. Os artigos gerados pelo Biota envolvem duas vezes mais coautores internacionais que os projetos do grupo de controle. Foi expressiva a divulgação dos resultados do programa fora do ambiente acadêmico: 66% dos projetos do programa declararam ações de divulgação diante de 44% do grupo de controle. O Biota-FAPESP, segundo a avaliação, teve desempenho aquém do esperado na ambição de desenvolver novas substâncias derivadas da biodiversidade com potencial de mercado. Muitos projetos encontraram substâncias potencialmente ativas, mas a inserção do programa em etapas mais avançadas do desenvolvimento tecnológico, como pesquisas pré-clínicas, clínicas e comercialização, mostrou-se praticamente inexistente. “A crítica procede e se aplica a toda área de bioprospecção no país”, afirma Carlos Joly, coordenador do Biota-FAPESP. “Em parte isso decorre do engessamento da área pela famigerada Medida Provisória 2.186-16, que regula o acesso aos recursos genéticos e/ou aos

Inserção internacional Estágios e intercâmbios no exterior, compartilhamentos de dados e coautoria com parceiros internacionais entre os ex-bolsistas (em %) 37,7

38,9

29,1 28

1,6

1,2

3,9

IC

4,4

MS

4,6

3,1

DR

Estágio

IC

10,3

9

MS

DR

Compartilhamento de dados 43,3

31

31,4

9 2,8

10,4

6,5

4,9

IC

24,1

1,9

MS

DR

Coautoria IC = Iniciação científica MS = Mestrado DR = Doutorado 42  z  agosto DE 2013

8,4

2,5

IC

MS

DR

Intercâmbio n Outras agências  n FAPESP

conhecimentos tradicionais associados.” Segundo Joly, poucos grupos de pesquisa conseguiram regularizar suas coleções de substâncias bioativas identificadas a partir da biota nativa. “Consequentemente o setor produtivo não tinha segurança jurídica para utilizar estas moléculas.” Equipamentos multiusuários

A modalidade de financiamento Equipamentos Multisuários faz parte, desde 1996, do Programa de Apoio à Infraestrutura de Pesquisa e tem como objetivo comprar equipamentos de custo elevado que possam ser utilizados por pesquisadores de várias instituições. A princípio, os projetos eram avaliados à medida que eram apresentados, num sistema de fluxo contínuo. Isso mudou em 2004, quando houve o lançamento do primeiro edital do EMU. A avaliação feita pelo Geopi não chegou a contemplar os projetos aprovados no segundo edital, de 2009, que incorporou várias alterações para garantir o envolvimento das instituições nos propósitos do programa. Foram comparados pesquisadores responsáveis e associados contemplados com projetos pelo EMU com outros que tiveram seu pedido denegado pela FAPESP mas acabaram adquirindo equipamento similar por outras fontes. Os projetos do programa EMU geraram mais artigos, teses e dissertações em números absolutos do que os do grupo de controle. Em ambos os grupos houve crescimento na média de artigos publicados por volta de quatro anos após a instalação do equipamento, seguido de um declínio acentuado após seis anos. “Há indícios que levam a crer que o programa EMU fortalece os grupos cuja utilização é mais próxima ao equipamento, pois as parcerias que ocorreram foram com parceiros do próprio projeto”, disse Salles-Filho. O uso do equipamento no prazo de cinco anos teve o próprio grupo/ laboratório do pesquisador responsável como principal usuário. “Esta constatação levanta uma discussão acerca do caráter multiusuário dos equipamentos”, afirma o professor. “Este talvez seja o aspecto mais desafiador, e possivelmente o mais relevante e controverso. Relevante, pois remonta aos objetivos que justificam a existência do programa. Controverso, porque os equipamentos concedidos pela FAPESP são extremamente heterogêneos, dificultando uma avaliação mais precisa de seu impacto diferencial.” n


Ecologia y

Visões múltiplas Desafio do relatório sobre biodiversidade é integrar dados regionais aos globais e o conhecimento tradicional ao científico

léo ramos

A

recém-criada Plataforma In­ter­ governamental de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (Ipbes, na sigla em inglês) está procurando formas de envolver pesquisadores e instituições científicas de todos os países, incluindo-se aí os das nações pobres, na produção de diagnósticos regionais que comporão seu primeiro relatório global sobre a biodiversidade. Lançada oficialmente em 2012, depois de quase 10 anos de negociações, a plataforma tem a função de organizar o conhecimento científico sobre biodiversidade para auxiliar na tomada de decisões políticas – em molde semelhante ao executado pelo Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas, o IPCC, em relação às mudanças globais. “A América Latina e o Caribe, como regiões ricas em biodiversidade e diversidade cultural, podem desempenhar um papel importante na definição do caminho a ser seguido pelo Ipbes”, afirmou o cientista malaio Zakri Abdul Hamid, primeiro presidente da plataforma, durante uma reunião regional do Ipbes, realizada na FAPESP no dia 11 de julho. Dados da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura, a FAO, dão a dimensão dos desafios que a plataforma deverá enfrentar. Cerca de 75% da diversidade genética de culturas agrícolas foi perdida no último século. “Uma das razões que levaram a isso foi o cultivo, por agricultores de todo o mundo, de variedades geneticamente uniformes e de alto rendimento, e o abandono de variedades locais”, explicou Hamid. “Existem 30 mil espécies de plantas, mas apenas 30 culturas são responsáveis por 95% da energia fornecida pelos alimen-

Detalhe de fragmento de floresta ao norte de Manaus

tos consumidos pelos seres humanos; a maior parte delas (60%) se resume a arroz, trigo, milho, milheto e sorgo”, afirmou. Aproximadamente 22% das raças bovinas correm risco de extinção, principalmente por não atenderem às expectativas econômicas dos pecuaristas. Muitas dessas raças contêm material genético importante para programas de cria e ajudam na subsistência em regiões muito pobres, porque são mais fáceis de manter do que raças exóticas. O aproveitamento dos chamados conhecimentos tradicionais também é uma preocupação do Ipbes. A antropóloga Manuela Carneiro da Cunha, professora da Universidade de Chicago, Estados Unidos, e uma das participantes do evento na FAPESP, disse que essa abordagem é inovadora. “Um modelo científi-

co pode conviver com um modelo tradicional. É possível estabelecer um diálogo com povos que têm uma visão de mundo completamente diferente da nossa”. Outro objetivo inovador, de acordo com Carlos Joly, coordenador do Programa Biota-FAPESP, é o investimento em treinamento. Segundo ele, que é também um dos diretores do Painel Multidisciplinar de Especialistas do Ipbes, é fundamental, além de produzir diagnósticos, treinar pessoas e instituições para gerar informação confiável sobre biodiversidade, identificar as lacunas de conhecimento que existem e de que forma os problemas podem ser equacionados. “É esse conjunto de funções que diferencia o Ipbes do IPCC”, explicou. No início do ano, o Ipbes publicou em seu site (www.ipbes.net/) um conjunto de documentos expondo suas metas e uma proposta de programa de trabalho. Entre os objetivos traçados pela plataforma destaca-se o investimento no treinamento de recursos humanos para lidar com assuntos ligados à biodiversidade em todos os países, especialmente na interface entre a ciência e os tomadores de decisão, para apoiar a implementação efetiva de políticas. Uma nova rodada de discussões está programada para dezembro, na Turquia. n Bruno de Pierro pESQUISA FAPESP 210  z  43


ciência  medicina y

Falta de ar sem fim Alterações nas vias aéreas impedem melhora nos casos graves de asma Ricardo Zorzetto

C

omeça a se compreender agora por que a maior parte das pessoas com as formas mais graves de asma, com crises quase diárias de falta de ar intensas a ponto de impedirem uma caminhada rápida pela sala ou de apanhar um objeto caído no chão, não melhora nem com o tratamento mais potente disponível hoje em dia. Estudos recentes conduzidos por duas equipes da Universidade de São Paulo (USP) indicam que, nesses casos, a estrutura de todo o sistema respiratório – tanto das vias aéreas, os dutos pelos quais passa o ar, quanto dos alvéolos, as bolsas microscópicas que formam os pulmões – se encontra alterada. Nessas situações graves, que representam cerca de 5% dos casos de asma, tanto as vias aéreas como os alvéolos se apresentam mais enrijecidos e espessos do que o normal. Essas alterações, acreditam os pesquisadores, são consequência de inflamações persistentes no sistema respiratório ocorridas muito cedo na vida, provavelmente na infância. Os grupos do pneumologista Rafael Stelmach e da patologista Thais Mauad, ambos da Faculdade de Medicina da USP, estão chegando a essa conclusão depois de analisar em detalhe o sistema respiratório de dois grupos de pessoas. O primeiro era formado por aquelas com asma grave para as quais a medicação não surtia o efeito desejado de manter a doença sob controle. E o segundo, por pessoas que haviam morrido 44  z  agosto DE 2013


asfixiadas em consequência da asma. Raras no mundo, essas mortes ainda são frequentes no Brasil, onde três pessoas em cada grupo de 200 mil morrem por sufocamento decorrente de crises de asma. Essa taxa de mortalidade só começou a diminuir no país na última década, depois que se tornou obrigatória a distribuição gratuita de medicamentos anti-inflamatórios contra asma pelo sistema público de saúde. Mesmo assim, entre 1998 e 2009 os índices de mortalidade caíram apenas nas regiões mais ricas. Levantamento recente feito pela equipe do pneumologista Álvaro Cruz, da Universidade Federal da Bahia, indica que as mortes por asma nesse período aumentaram nas regiões Norte e Nordeste do Brasil.

fotos  Léo ramos

Dose máxima

Banco de tecidos de asma fatal da USP: tecido pulmonar em cortes finos para análise histológica

Em São Paulo, Stelmach iniciou há sete anos uma investigação minuciosa das características do sistema respiratório das pessoas com asma grave quando notou que uma parte considerável dos 2.500 pacientes atendidos no serviço de pneumologia do Instituto do Coração (InCor) da USP não melhorava nem com as doses máximas de medicação mais usada contra a asma. Esse tratamento em geral consiste de uma associação de potentes anti-inflamatórios hormonais, os corticoides, e broncodilatadores de ação prolongada, que aliviam a asfixia ao relaxar a musculatura ao redor dos canais das vias respiratórias. Considerada de alto custo, essa combinação de medicamento custa cerca de R$ 100 por mês, um valor proibitivo para uma população como a brasileira, em que metade dos trabalhadores tem renda mensal de até R$ 650. “Queríamos descobrir por que a asma dessas pessoas não ficava sob controle mesmo quando elas eram tratadas com o que há de mais eficiente”, conta Stelmach. Ele e sua equipe decidiram, então, selecionar um grupo de 74 pessoas com asma grave e oferecer-lhes o melhor tratamento possível por 12 semanas, antes de repetir uma extensa bateria de exames para verificar se algo havia mudado com a terapia. Além de fornecer a medicação, os médicos acompanhavam de perto os participantes. Quem estava sob tratamento passava por consultas quinzenais em que era submetido a testes para avaliar não apenas se estava consumindo os medicamentos do modo pESQUISA FAPESP 210  z  45


correto, mas também se os havia tomado na dose Segundo Stelmach, alguns marcadores funindicada. Ao final da terapia, a pneumologista Re- cionais sugerem que a alteração estrutural que gina de Carvalho-Pinto constatou que, mesmo com viram nos brônquios chega até as partes mais o tratamento em dose máxima, dois em cada três periféricas do sistema respiratório, próximo aos participantes não haviam melhorado e continua- alvéolos pulmonares. “Somados, esses resultados vam a apresentar sintomas quase diários de asma. indicam que as pessoas que não melhoram com Ao comparar algumas características – como o o tratamento ou têm a doença desde criança, ou tempo de doença, o grau de alergia, a capacidade apresentam uma forma de asma muito mais grave respiratória e o nível de inflamação no sistema do que os demais asmáticos”, diz. respiratório – de cada grupo, os pesquisadores A inflamação e as alterações estruturais obserencontraram apenas uma diferença significativa. vadas agora nos casos de asma grave refratária ao Quem não havia melhorado continuava a apresen- tratamento haviam sido identificadas anteriortar uma capacidade respiratória muito inferior à mente pelos patologistas Thais Mauad, Marisa de quem havia reagido à terapia como o esperado. Dolhnikoff e Paulo Saldiva também no sistema Segundo Stelmach, 30% dessas pessoas tinham ca- respiratório de pessoas mortas por asfixia dupacidade respiratória semelhante à de quem fumou rante uma crise de asma, a chamada asma fatal. um maço de cigarros por 20 anos e desenvolveu Embora a gravidade dessas duas situações possa alterações irreversíveis nas vias ser distinta, as informações reveaéreas. Os estudos indicam que, ladas por uma complementam a aos 45 anos de idade, quem tem da outra. A morte por asma é o asma grave apresenta apenas desfecho mais extremo do prometade da capacidade respirablema, mas não é possível saber tória de uma pessoa saudável. se a doença dessas pessoas era Musculatura Isso é o equivalente a dispor de mais grave do que a daquelas remais espessa apenas um dos pulmões para fratárias ao tratamento. respirar. “Essa alteração funcioDesde 1998, Thais, Marisa e dos brônquios nal pode acometer todo o sisteSaldiva estudam o que há de erma respiratório, o que inclui os rado no sistema respiratório de favorece brônquios e os alvéolos”, conta cerca de 130 pessoas que morreStelmach. ram com asma na cidade de São contração Paulo e passaram por autópsia no mais intensa Serviço de Verificação de Óbitos brônquios enrijecidos da Capital, para onde são encaBiópsias feitas em uma região durante crise minhados os casos de morte naespecífica dos brônquios dos tural sem causa determinada. Em participantes do estudo mosde asma cada autópsia, os pesquisadores traram que, nos casos mais recoletaram pequenas amostras sistentes à ação dos medicamende 30 a 40 áreas diferentes do tos, a musculatura que forma sistema respiratório. Analisana parede dos brônquios é mais espessa que o normal, o que pode favorecer a con- do esse material, eles constataram que o sistetração mais intensa durante as crises de asma, em ma respiratório das pessoas que morreram com geral disparadas por agentes alérgicos ou infeccio- asma apresentava uma inflamação importante sos. Além de mais espessa, a parede dos brônquios disseminada, que atingia da mucosa nasal até as parecem estar mais enrijecidas. O imunologista regiões mais profundas e distantes dos pulmões, Diogenes Seraphim Ferreira, integrante da equi- passando pelos canais (brônquios e bronquíolos) pe de Thais Mauad, que colabora com o grupo de de diferentes calibres. Nas camadas mais internas das paredes dos Stelmach, identificou nos brônquios das pessoas que não apresentaram melhora níveis mais eleva- brônquios e bronquíolos, as fibras elásticas se dos de um dos vários tipos de colágeno. Essa pro- encontravam rompidas. Além disso, a musculateína se organiza em longas cadeias que conferem tura era cerca de 50% mais espessa que o normal resistência e rigidez aos tecidos. “O aumento da (ver Pesquisa FAPESP nº 165). Mais recentemente musculatura dos brônquios e dos níveis de colágeno Thais colaborou com Alan James, da Universisão sinal de alteração da estrutura, provavelmen- dade da Austrália Ocidental, em um estudo que te em consequência de uma inflamação de longo revelou diferenças na musculatura das vias aéreas prazo”, conta Ferreira. “Os brônquios se tornam de pessoas com asma fatal e asma não fatal. Publimais rígidos”, diz o imunologista, que apresentou cado em 2012 no American Journal of Respiratory esses dados em maio deste ano na conferência in- and Critical Care Medicine, o trabalho mostrou ternacional da Sociedade Torácica Americana, em que em ambos os casos o volume de cada célula muscular era maior – elas sofreram hipertrofia. Filadélfia, Estados Unidos. 46  z  agosto DE 2013


não pode ser compreendida por quem nunca sofreu o problema”, conta. Nos brônquios das pesNa asma, inflamação dispara modificações duradouras nas vias aéreas soas com asma também há mais vasos sanguíneos. Thais e seus colaboradoalvéolos com asma saudável res encontraram ao redor Inflamação ao redor dos vasos desses vasos mais células pode dificultar a nutrição dos do sistema imune associaalvéolos e facilitar a passagem das à inflamação. De acorde células inflamatórias do com a patologista, esVasos sanguíneos sas cé­­­lulas liberam comBronquíolo postos que podem alterar a capacidade de contração Ar inspirado, rico em oxigênio da musculatura dos brônAr expirado, rico em gás carbônico quios e contribuir para a falta de ar na asma grave. À medida que se somam os indícios de que podem começar muito Camada muscular cedo na vida essas alteraespessada ções no sistema respiratóCamada Fibras elásticas muscular rio – é o chamado remodanificadas normal delamento, no jargão méProdução de dico –, o foco de atenção Epitélio mais muco recoberto deixa de ser apenas o trapor muco Em maior número, tamento e passa a abranvasos sanguíneos Glândula ger também a prevenção. liberam mais células produtora Passagem de inflamatórias “Cada vez mais se torna de muco ar reduzida evidente que o importanVasos Passagem de te é descobrir a janela de sanguíneos ar liberada tempo em que é possível paredes mais rígidas e espessas agir para tentar evitar as Processo inflamatório crônico aumenta a alterações que levam ao paredes mais flexíveis camada muscular e a vascularização das remodelamento”, afirma Em uma pessoa saudável, a camada de paredes dos brônquios, além de danificar Thais. Caso se determine musculatura lisa e as fibras elásticas da as fibras elásticas, que ajudam os pulmões em qual fase da infância parede dos brônquios permitem ao pulmão a expulsar o ar na expiração as alterações começam, expandir e contrair durante a respiração fonte  thais mauad e diogenes ferreira / usp os pediatras poderiam iniciar o rastreamento de Além de maiores, as células musculares de quem crianças com carga genética que favorece o demorreu com asma também existem em número senvolvimento da asma e os pais a tentar reduzir bem maior (hiperplasia). “Como essas alterações a exposição dos filhos a fatores ambientais que ocorreram independentemente do tempo de du- aumentam o risco de asma, como infecções resração da asma, acredita-se que elas comecem piratórias por vírus. Thais lembra, porém, que “evitar completamente a exposição a esses fatores muito cedo na vida”, diz Thais. Essas mudanças, porém, não são as únicas. Thais ambientais é muito difícil”. n e colegas canadenses e australianos constataram que na parede dos brônquios, uma rede de canais cada vez mais estreitos que conduzem o ar da traArtigos científicos queia aos pulmões, há mais glândulas produtoras CARVALHO-PINTO, R.M. et al. Clinical characteristics and possible phenotypes of an adult severe asthma population. Respiratory Mede muco e que essas glândulas apresentam maior dicine. v. 106, p. 47-56. 2012. capacidade de contração, segundo artigo publiJAMES, A. L. et al. Airway Smooth Muscle Hypertrophy and Hypercado na revista Thorax. “Nas vias mais estreitas, plasia in Asthma. American Journal of Respiratory and Critical Care Medicine. v. 185 (10), p. 1058-64. 15 mai. 2012. o muco pode se acumular e formar um tampão GREEN, F.H.Y. et al. Increased myoepithelial cells of bronchial submuque impede completamente a passagem de ar”, cosal glands in fatal asthma. Thorax. v. 65, p 32-3. 2010. explica Ferreira. “A falta de ar que essas pessoas SHIANG, C. et al. Pulmonary periarterial inflammation in fatal asthma. Clinical and Experimental Allergy. v. 39, p. 1.499-1507. 2009. sentem causa uma sensação de quase morte, que

ilustraçãO pedro hamdan infográfico ana paula campos

Pulmão remodelado

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zoologia y

Voo direto Parentesco entre aves revela conexão entre floresta amazônica e mata atlântica em dois momentos do passado Francisco Bicudo e Maria Guimarães

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tas, como o tapaculo-pintado (Psilorhamphus guttatus), que vive na floresta amazônica, o corneteiro-da-mata (Liosceles thoracicus), da mata atlântica, e o cricrió (Lipaugus vociferans), encontrado nas duas. De acordo com os resultados de Batalha, publicados em janeiro deste ano na edição impressa do Journal of Ornithology, os tataravós dos tataravós dos tataravós dos pássaros que hoje assobiam lá e cá se conheceram e deixaram descendentes graças a acontecimentos geológicos e ecológicos em dois momentos muito distintos. Rota sul

O mais antigo desses momentos, o pesquisador estima, aconteceu no Mioceno, entre 23 milhões e 5 milhões de anos atrás, quando a placa tectônica do Pacífico chocou-se com a Sul-americana e fez surgir a cordilheira dos Andes, a cadeia de montanhas com mais de 7 mil quilômetros de extensão e altitude média de 3.500 metros que corta sete países (Chile, Bolívia, Peru, Equador, Colômbia, Argentina e Venezuela). As montanhas que se ergueram e formaram um paredão isolando a Amazônia do oceano Pacífico também originaram canais elevados onde

Nos dois biomas: machos de cabeça-encarnada atraem fêmeas com danças coordenadas

tomaz melo/Universidade federal do acre

A

análise do parentesco entre dezenas de espécies de aves da mata atlântica e da floresta amazônica levou o biólogo Henrique Batalha-Filho a identificar dois períodos do passado distante em que esses dois ecossistemas, hoje separados por distâncias de até 1.500 quilômetros, estiveram conectados. As duas florestas brasileiras abrigam pequenas aves – pretas com cabeça escarlate, castanhas pintalgadas de branco e cinzentas, entre outras – com graus de parentesco variados, indicando que houve algum tipo de ligação física entre esses dois ambientes em períodos distintos. O encontro remoto já tinha sido revelado por estudos anteriores com plantas e com mamíferos. Mas, até agora, não se sabia quando nem em quais trechos as florestas estiveram em contato. Essas informações começaram a se tornar mais claras a partir de estudos que o biólogo desenvolveu com pássaros do grupo dos suboscíneos do Novo Mundo, cujos representantes mais ilustres nas cidades brasileiras são o bem-te-vi e o joão-de-barro. Batalha não trabalhou com essas duas espécies, mas com aves do mesmo grupo especialistas em flores-


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dario sanches

cresciam savanas inundadas, que podem borralhara-ondulada, do gênero Frede- anos 1970 pelo zoólogo brasileiro Paulo ter atuado como pontes entre a porção rickena, por sua vez, são típicas da Ama- Vanzolini (ver Pesquisa FAPESP nº 208). sudoeste da Amazônia, onde agora é o zônia. A existência de gêneros exclusivos De acordo com esse modelo, nos peestado de Rondônia, e a mata atlântica de cada uma das florestas supostamen- ríodos de clima mais frio e seco em boa no que hoje são as regiões Sul e Sudeste te indica que, quando a rota sul se des- parte do continente americano, sobrevido país. Essa ponte temporária, que deve fez, aves com um ancestral em comum veram fragmentos de florestas, onde aves ter sido semelhante ao chaco típico do permaneceram isoladas a leste e oeste buscaram abrigo e se encontraram. “Nas Paraguai e da Bolívia, permitiu a circula- e ao longo do tempo seus descendentes glaciações, as regiões áridas tendem a se ção das aves a despeito do ambiente mais acumularam diferenças o bastante para expandir e as matas encolhem”, explica árido que hoje isola as duas florestas. merecerem essa distinção taxonômica. Batalha. “Mas a precipitação aumentou durante o Pleistoceno em alguns trechos As testemunhas dessa conexão mais da caatinga, segundo indica a maior deantiga são o tapaculo-pintado, comum Rota norte nos bambuzais da mata atlântica, com A segunda ligação deu-se mais recente- posição de cálcio em estalactites e esta13 centímetros de comprimento e pintas mente, no Plioceno e no Pleistoceno, en- lagmites de cavernas.” O resultado desse espalhadas pelo corpo, e o corneteiro-da- tre 5,5 milhões e 11.500 anos atrás, unindo aumento nas chuvas foi o surgimento -mata, conhecido pelos sons estridentes a mata atlântica do litoral do Nordeste de uma área onde as aves conseguiam que emite e encontrado nas matas de com a vegetação amazônica das Guia- sobreviver – uma floresta intermediária várzea da Amazônia. Batalha explica nas e do estado do Pará, perto da ilha de entre as matas úmidas e a caatinga que que a existência de espécies muito apa- Marajó, além das regiões dos rios Xingu hoje ocupa o sertão nordestino. Um indício forte dessa ligação mais rentadas – espécies irmãs, no jargão dos e Tocantins-Araguaia. De acordo com biólogos – exclusivas de cada um dos Batalha, nessa região o principal fator recente é a existência de espécies que biomas é evidência de uma conexão mais que influenciou a diferenciação das espé- vivem tanto na Amazônia como na maantiga, depois da qual houve tempo su- cies foram as glaciações. Para justificar a ta atlântica, mas não na faixa árida que ficiente para que as aves se diferencias- análise, ele recorre à Teoria dos Refúgios, separa as duas florestas. É o caso do parsem. Um exemplo ainda mais eloquente formulada nos anos 1960 pelo biogeó- do ou cizento cricrió, que tem 25 cendessa divergência, ressalta o pesquisa- grafo alemão Jurgen Haffer e aplicada tímetros e funciona como um sentinela dor, são os gêneros irmãos Mackenziae- à evolução da Amazônia no início dos da mata, e do cabeça-encarnada (Pipra rubrocapilla), cujos na e Frederickena. O machos se exibem gênero Mackenziaeem danças coordena é representado nadas para atrair as pelas borralharas e “Elaboramos um modelo com tempo fêmeas no período de as borralharas-assoe espaço para mostrar que os biomas acasalamento. biadoras, pássaros “Tanto no Miocede 22 centímetros estiveram conectados”, diz Batalha no quanto no Pleisde comprimento e toceno sabemos que íris vermelhas. A boresses contatos aconralhara-do-norte e a teceram mais de uma vez, embora não seja possível estimar por quanto tempo as aves estiveram próximas”, reconhece Batalha. Ele agora se dedica a entender o sentido em que ocorreram essas migrações. Os dados, ainda preliminares, apontam que, na rota sul, o movimento parece ter sido bidirecional, pois são encontradas espécies mais antigas tanto na Amazônia quanto na mata atlântica. Na trajetória norte, as aves provavelmente voaram mais intensamente do oeste para o leste, já que as populações mais antigas estão majoritariamente na Amazônia. “O importante é que conseguimos elaborar um primeiro modelo que considera tempo Borralhara: e espaço para mostrar, macho a partir das espécies fotografado avaliadas, que os dois em Piraju, no biomas estiveram cointerior paulista


Junções passadas

fotos 1 Philip C Stouffer / LSU  2 paulo B. chaves/NyU  3 marcelo barreiros  infográfico ana paula campos

Parentesco entre espécies de aves denuncia encontros entre florestas

Amazônia

Caatinga

Cerrado Pantanal

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Encontro recente: o cricrió Chaco

Mata atlântica

(Lipaugus vociferans) grita nas duas florestas, com ritmo mais rápido na mata atlântica fonte  Henrique Batalha-filho

1

2

Fêmeas da amazônica Frederickena viridis, no alto, e de Mackenziaena severa, da mata atlântica. Gêneros irmãos em biomas distantes indicam ligação mais remota

nectados no passado, sugerindo ainda os impulsos que receberam para se separar.” Batalha explica que os suboscíneos do Novo Mundo são preciosos para esse tipo de estudo porque acompanharam toda a história geológica da América do Sul. Antepassados desse grupo já existiam quando o continente se separou da África, há cerca de 100 milhões de anos, e aqui eles se diversificaram e se diferenciaram dos parentes do Velho Mundo. “Além de representativo dos dois biomas, esse grupo de aves é também bastante estudado, facilitando o aprofundamento das análises”, completa o pesquisador, que recorreu a informações genéticas armazenadas num banco de dados público, o GenBank. Para desenvolver o estudo do Journal of Ornithology, parte de seu doutorado, ele passou três meses no Museu de História Natural da Dinamarca, em Copenhague.

Lá trabalhou com Jon Fjeldså, curador da coleção de aves e especialista em espécies dos Andes. “Foi ele quem concebeu a ideia de relacionar dados filogenéticos com geográficos, o que foi determinante para que pudéssemos observar as rotas de conexão entre a mata atlântica e a floresta amazônica”, reconhece o brasileiro. Ao comparar determinados trechos do DNA das espécies estudadas, ele avaliou a semelhança genética entre elas e as relações de hierarquia (quais eram mais antigas e quais eram mais recentes). “Partindo das semelhanças atuais e conhecendo o percentual de mutações que acontecem a cada período determinado de tempo para cada família, conseguimos, retrospectivamente, alcançar o ancestral comum”, explica. “Foi assim que confirmamos que esses pássaros estiveram juntos no passado”, completa. Evidenciadas as conexões, era preciso compreender ainda quando essas aves se encontraram – e por que acabaram se separando. As respostas vieram da literatura disponível sobre outras transformações vividas pelo continente. “São bem conhecidos, por exemplo, artigos que resgatam as relações geológicas entre a mata atlântica e a Amazônia a partir da análise do pólen antigo e de estalactites de cavernas”, lembra Cristina Miyaki, orientadora do estudo. “O principal avanço oferecido pelo trabalho foi desenvolver uma meta-análise em ampla escala em que olhamos vários fatores. Conseguimos associar dados filogenéticos, geológicos, climáticos e de distribuição geográfica, permitindo narrar com mais detalhes o que aconteceu ao longo do tempo”, completa Cristina. Essas contribuições se somam ao cenário traçado por estudos anteriores. Ba-

talha se inspirou em parte no trabalho da bióloga Leonora Costa, da Universidade Federal do Espírito Santo, publicado em 2003 no Journal of Biogeography. Durante o doutorado na Universidade da Califórnia em Berkeley, ela traçou ambiciosos transectos que atravessavam o Brasil da mata atlântica à Amazônia. Ao longo de centenas de quilômetros ela capturou pequenos mamíferos, principalmente roedores e marsupiais, e analisou o DNA deles para investigar as relações evolutivas entre as espécies. Surpresa por encontrar muitos casos em que espécies da mata atlântica tinham parentes mais próximos na Amazônia do que na própria mata atlântica, ela imaginou ligações entre as duas florestas, hoje representadas por matas de galeria ao longo dos rios no cerrado e enclaves úmidos, os chamados “brejos”, na caatinga. “Interpretei os bichos que ‘sobraram’ nesses locais como pistas de ligações passadas que hoje não existem mais”, explica Leonora. O quadro mais elaborado esboçado por Batalha pode ajudar a impulsionar novos estudos que desvendem cada vez mais a dinâmica da formação da fauna e da flora das florestas brasileiras ao longo dos tempos. n

Projeto Reconstrução da história evolutiva e estudos filogeográficos da avifauna neotropical utilizando marcadores moleculares II (nº 2009/12989-1); Modalidade Linha Regular de Auxílio a Projeto de Pesquisa; Coord. Cristina Yumi Miyaki /IB-USP; Investimento R$ 230.021,25 (FAPESP).

Artigo científico BATALHA-FILHO, H. et al. Connections between the Atlantic and the Amazonian forest avifaunas represent distinct historical events. Journal of Ornithology. v. 154, n. 1, p. 41-50. jan. 2013.

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Paleontologia y

É pau, é pedra

1

Plantas petrificadas revelam como era há quase 300 milhões de anos a paisagem onde agora ficam Tocantins e São Paulo 3

S

amambaiaçus de 15 metros de altura ao longo dos rios e coníferas nas áreas mais secas. Em menor quantidade, plantas aparentadas às atuais cavalinhas (que se parecem com canudos verticais não mais longos do que 1,5 metro) nos dois ambientes. Era essa a vegetação de uma área próxima ao município de Filadélfia, no Tocantins, no início do Permiano, há quase 300 milhões de anos. Nesse período, os blocos que formam a América do Sul eram agrupados de modo bem diferente e estavam mais ao sul no planeta – a região onde está São Paulo, por exemplo, era coberta por geleiras. À medida que esses blocos migraram para regiões mais quentes da Terra, a flora pôde migrar. Mais próximo ao fim do Permiano, cerca de 270 milhões de anos atrás, já havia vegetação onde agora é o interior paulista. “Eu apostava que encontraria mais semelhanças entre os fósseis desse período encontrados na bacia do Parnaíba, no Nordeste, e os achados na bacia do Paraná, no Sudeste”, diz a paleobotânica Rosemarie Rohn Davies, da Universidade

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Estadual Paulista (Unesp) de Rio Claro. “Mas só as samambaias são parecidas.” Esse retrato de um passado distante é resultado do testemunho de troncos e folhas petrificadas, estudados pela equipe de Rosemarie e por pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), com financiamento da FAPESP, e da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). A análise dos caules dessas samambaias gigantes, que ainda jazem quase inteiros no Monumento Natural das Árvores Petrificadas do Tocantins, e também de folhas que parecem rendas de pedra, foi tema do doutorado concluído em 2011 pela bióloga Tatiane Marinho Vieira Tavares, agora professora temporária na Universidade Federal do Tocantins, em Araguaína. Ela descreveu a anatomia e a morfologia desse material, que pertencia aos gêneros Psaronius e Tietea – este último também encontrado na bacia do Paraná, tema do mestrado da pesquisadora. Aparentemente, as samambaias conseguiram avançar do norte para o sul ao longo dos milhões de anos, à medida que o Gondwana, o supercontinente que

abrigava boa parte dos continentes hoje no hemisfério Sul, se deslocava para o norte e se tornava mais quente. As folhas foram descritas como pertencentes a uma nova espécie por serem diferentes do que já se tinha visto, mas é impossível determinar com qual dos caules elas formavam uma planta viva. É que o conceito paleontológico de espécie é bem distinto daquele empregado na biologia, um foco de discussões infinitas entre especialistas. Como os paleontólogos em geral não têm como reunir as diferentes partes dos fósseis vegetais – raiz, caule, folhas etc. – no quebra-cabeça de uma mesma planta, é aceito que cada parte seja descrita como uma espécie diferente. No caso das samambaias fósseis do Tocantins, as folhas eram muito mais espessas do que as das atuais, conforme mostra artigo em fase de publicação na Review of Palaeobotany and Palynology. “Essa característica tem tudo a ver com as condições ambientais”, explica a bióloga, que foi orientada por Rosemarie. “A lâmina foliar espessa protege as estruturas reprodutivas e evita a perda excessiva de água num ambiente

fotos 1-3 e 5-8 Francine kurzawe / Universidade de londres  4 ronny  rößler / museu de chemnitz

Maria Guimarães


Bacia do Parnaíba Filadélfia TO

SP

Bacia do Paraná n  Áreas de estudo 2

4

5

árido ou semiárido.” É surpreendente porque samambaias dependem de água pelo menos em algumas fases reprodutivas, e por isso são normalmente associadas a ambientes úmidos, mas o que permitia a subsistência dessas grandes árvores eram os cursos de água à margem dos quais elas cresciam. Em meio às samambaias, mas não só, cresciam esfenófitas, hoje representadas apenas pelas cavalinhas e estudadas pelo ecólogo Rodrigo Neregato, que recentemente concluiu o doutorado com Rosemarie. Ele descreveu cinco espécies novas de Arthropitys e encontrou dois tipos distintos: um com uma medula bem grande, que sugere um hábitat próximo à água, e outro com um caule mais suculento, que devia conferir às plantas uma estrutura mecânica adequada para a vida em solo firme, um pouco mais afastado dos rios. Novidade antiga

7 8

6

Os cortes para anatomia de fósseis de madeira são os mesmos usados no estudo de plantas atuais: um transversal (2, 6, 7, 8) e dois longitudinais, radial em direção à medula (4, 5) e paralelo à casca (1,3)

As análises revelaram plantas bastante diferentes do que dizem os livros, a começar pela capacidade inesperada de viver em solo seco. Elas também parecem maiores do que se acredita. “Temos exemplares de 3 metros que não compreendem a planta completa”, explica Neregato. Mas o que ele antecipa causar mais surpresa são as raízes verticais, em vez do rizoma horizontal postulado para esse grupo de plantas. “Temos um exemplar com raiz conectada ao tronco, o único até agora conhecido”, comemora. Ele acredita que o padrão vale para as outras esfenófitas da época, melhorando a absorção de água e a fixação no solo instável. “Era um peso bastante grande, uma estrutura em T invertido não seria capaz de sustentá-lo.” Longe dos rios a paisagem era dominada por gimnospermas, semelhantes aos pESQUISA FAPESP 210  z  53


pinheiros atuais. Por causa dessa especialização ecológica, os fósseis petrificados dessas plantas são bem menos abundantes do que os de samambaias. A sílica dissolvida na água é a responsável por preservar as estruturas anatômicas em três dimensões. Quando a planta caída começa a se decompor, seus tecidos liberam gás carbônico que acidifica a água alcalina, precipitando a sílica que penetrou nas células vegetais. Mais longe dos rios, as coníferas tendiam a se decompor mais rapidamente e os fósseis são mais raros. Era por isso um grupo menos estudado, até que Rosemarie sugeriu à bióloga Francine Kurzawe, à época doutoranda no grupo de Roberto Iannuzzi na UFRGS, investigá-lo. “Na maior parte das vezes temos acesso apenas a fragmentos pequenos já muito rolados, com as camadas mais externas desgastadas”, conta Francine, atualmente pós-doutoranda na Universidade de Londres. Em dois artigos publicados este mês na Review of Palaeobotany and Palynology, ela descreve uma série de novas espécies de coníferas, além de estruturas inusitadas. “A medula das gimnospermas fossilizadas tem canais que representam adaptação a um clima seco”, conta, corroborando as condições climáticas denunciadas pelas folhas das samambaias. Segundo ela, hoje esses canais só existem

Caules petrificados de conífera (esq.) e de samambaia: estrutura tridimensional é preciosa para paleobotânicos

A disposição dos fósseis vegetais permite reconstruir as características dos rios no Permiano

nas plantas jovens, que perdem a medula à medida que crescem. Os pinheiros adultos, com o tronco oco onde já houve medula, não têm esses canais especializados no armazenamento de água. A flora estudada por Francine indica semelhanças entre a de Gondwana e a da Euramérica, atualmente a parte norte do planeta. “A região onde hoje fica o Tocantins estava no limite entre as duas regiões”, explica a bióloga. As gimnospermas dali parecem ter permanecido em latitudes caracterizadas por temperaturas mais amenas, sem migrarem ao sul. É o que indicam os fósseis, todos diferentes daqueles do Tocantins, encontrados em sete municípios no interior paulista

4 cm 1

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e estudados pelo paleobotânico Rafael Faria durante o doutorado na Unicamp, orientado por Fresia Ricardi-Branco. Faria, agora professor na Pontifícia Universidade Católica de Campinas, estudou madeira petrificada – ou permineralizada, como preferem os especialistas – de plantas que viveram há cerca de 270 milhões de anos tanto ao microscópio tradicional como ao microscópio eletrônico de varredura, que lhe permitiu enxergar melhor as estruturas celulares. Ele defendeu o doutorado em abril, e a parte que descreve os fósseis mais bem preservados está em processo de publicação na Review of Palaeobotany and Palynology. Uma surpresa foi identificar hifas de fungos em amostras que à primeira vista pareciam sujas. “É o primeiro registro de fungo fossilizado em madeira dessa época no Gondwana”, conta o pesquisador, que interpreta o achado como um indício de colapso do ecossistema. “É como se houvesse muita matéria orgânica para ser degradada, propiciando a proliferação dos fungos.” ecologia fóssil

O pesquisador de Campinas também descreveu um pouco da ecologia dessas plantas, a partir do estudo dos anéis de crescimento. Nas regiões temperadas as coníferas em geral produzem madeira com propriedades distintas conforme a estação: na primavera e no verão propicia o transporte de água para a copa (e portanto o crescimento), e no outono é mais centrada em sustentação. Ao comparar os anéis de crescimento dos fósseis aos das


fotos 1 rafael faria / puc-unicamp  2 francine kurzawe / universidade de londres  2 Rosemarie Rohn / unesp

Fileiras paralelas de fragmentos de caules fossilizados, no Tocantins, indicam o traçado dos rios do Permiano

espécies atuais, é possível inferir se as coníferas do Permiano perdiam ou não as folhas no inverno. As análises indicaram uma comunidade com predomínio de árvores perenes, que não se desfolhavam, sobretudo na Formação Teresina, cujos fósseis afloram em Angatuba, Conchas e Laras. A outra formação estudada por ele, Irati (em Piracicaba, Saltinho, Rio Claro e Santa Rosa de Viterbo), está em camadas um pouco mais profundas – mais antigas – e abrigava uma proporção maior de árvores decíduas, que perdiam as folhas no inverno. Para ele, essas observações corroboram dados anteriores indicando que, no Permiano, essa região do Brasil estava mais ao sul do que hoje. A ecologia permiana no atual Tocantins foi o tema de doutorado de Robson Capretz sob orientação de Rosemarie em Rio Claro. Ecólogo, ele estudou os fósseis e sua disposição em uma área da bacia do Parnaíba e buscou reconstituir como seria a floresta por ali. “Me concentrei na ecologia dos fósseis, e não na anatomia”, especificou, distinguindo sua pesquisa daquela conduzida por seus colegas. As principais conclusões, segundo ele, indicam que a região era muito plana e tinha um regime de chuvas semelhante ao das monções da Índia, com temporais muito fortes que periodicamente interrompiam períodos de seca e cobriam a região com uma lâmina de água razoavelmente espessa. A enxurrada derrubava os caules, que eram transportados por curtas distâncias e terminavam alinhados na mesma direção e soterrados na areia, como mostram resultados publicados este mês na revista Journal of South American Earth Sciences. “Não sabemos qual era a frequência dessas chuvas”, conta Capretz, “no resto do tempo era quase desértico”. A disposição dos fósseis vegetais permite reconstruir as características dos rios – se eram caudalosos ou lentos, estreitos ou largos, retos ou sinuosos. A descrição resultante contraria um quadro traçado por estudos geológicos, de que a região seria caracterizada por dunas semelhantes às que hoje se espraiam nos Lençóis Maranhenses. “Mas não há

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samambaias nos Lençóis Maranhenses”, lembra Capretz, que adota a máxima de que o presente é a chave do passado. Assim, seus resultados ajudaram Tatiane a interpretar o que viu em suas folhas fossilizadas. Essa dinâmica das águas também é responsável pela deposição de sílica nos troncos, petrificando as samambaias. “Se não fossem submersas e soterradas rapidamente por areia, elas se decomporiam”, explica o ecólogo. Essas condições especiais tornam Tocantins muito importante para estudos paleontológicos. “Não existem muitas áreas com vegetais petrificados no país, por isso há poucos estudos desse tipo”, conta Capretz. passado no presente

Rosemarie confirma que o clima é essencial para a boa preservação dos fósseis: quando a alternância de estações é muito marcada, aumenta a chance de ocorrer o tipo de fossilização encontrado no Tocantins, onde os troncos e folhas foram preservados em suas três dimensões. “Na bacia do Paraná os fósseis são bidimensionais”, lamenta, e isso dificulta a comparação entre as duas regiões. Mas quem caminha com frequência e atenção pela terra seca do Monumento Natural das Árvores Petrificadas tem grandes chances de encontrar fósseis. Essa riqueza muitas vezes faz a alegria de quem vende fósseis, atividade proibida no Brasil. Por esse motivo, muito do trabalho sobre a flora fóssil brasileira foi feito na Alemanha, onde pesquisadores adquiriram material petrificado sem saber que a coleta havia sido irregular. Ao menos esse

material hoje está disponível aos brasileiros por meio da colaboração de Francine e do grupo de Rosemarie com Robert Noll e Ronny Rößler, este último diretor do Museu de Chemnitz, onde estão fósseis que evidenciam a semelhança da flora permiana do Tocantins e da Alemanha. Os pesquisadores envolvidos no estudo das florestas petrificadas alertam que não só os comerciantes de fósseis são uma ameaça à preservação dessa história. A proteção excessiva, que impede acesso até mesmo aos especialistas, é sentida por eles como um entrave ao avanço do conhecimento. “Para estudar as gimnospermas é preciso coletar material e preparar lâminas para exame ao microscópio”, exemplifica Rosemarie, “é impossível identificar qualquer coisa a olho nu”. Rafael Faria, cuja área de estudo está fora de áreas de preservação, aposta na divulgação de seu trabalho para obter mais material. Já lhe aconteceu de receber ligações de fazendeiros do interior paulista oferecendo fragmentos de “pau-pedra” encontrados no chão. n

Artigos científicos CAPRETZ, R. L. & ROHN, R. Lower Permian stems as fluvial paleocurrent indicators of the Parnaíba Basin, northern Brazil. Journal of South American Earth Sciences. v. 45, p. 69-82. ago. 2013. KURZAWE, F. et al. New gymnospermous woods from the Permian of the Parnaíba Basin, Northeastern Brazil, Part I: Ductoabietoxylon, Scleroabietoxylon and Parnaiboxylon. Review of Palaeobotany and Palynology. v. 195, n. 1, p. 37-49. 16 ago. 2013. KURZAWE, F. et al. New gymnospermous woods from the Permian of the Parnaíba Basin, Northeastern Brazil, Part II: Damudoxylon, Kaokoxylon and Taeniopitys. Review of Palaeobotany and Palynology. v. 195, n. 1, p. 50-64. 16 ago. 2013.

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OBITUÁRIO y

A geógrafa das cidades da Amazônia Bertha Becker lançou conceitos inovadores e

E

m 1985, depois de examinar com atenção a intensa urbanização da Amazônia, que nas últimas décadas do século XX acusou as maiores taxas no Brasil, a geógrafa política Bertha Koiffmann Becker lançou a expressão “floresta urbanizada” para definir a região, valorizada até então apenas pelas matas. Bertha Becker, que morreu em 13 de julho, aos 83 anos, preferia usar a expressão Arco do Povoamento Consolidado em vez da mais comum, Arco do Desmatamento, para designar as áreas de ocupação humana nas bordas da floresta, pela simples razão de que essa área está ocupada por muitas cidades grandes, estradas e vastas plantações de soja, além de pecuária e mineração. “Eu trabalho na Amazônia há 30 anos, não posso deixar de ir a campo para ver o que se passa”, ela comentou em 2004 em entrevista para Pesquisa FAPESP no seu espaçoso apartamento no 13º andar de um edifício na avenida Atlântica, Rio de Janeiro, enquanto planejava uma viagem para conhecer pessoalmente as transformações causadas pelo início do cultivo de soja em algumas regiões de Mato Grosso, Pará e Amazonas. Ela viajou para a Amazônia pela primeira vez em 1970, quando era professora no Instituto Rio Branco, do Ministério das Relações Exteriores, à frente de um grupo de 60 futuros diplomatas – todos se admiraram ao conhecer as fronteiras do país, onde os moradores escutavam a rádio de Cuba com mais frequência do que a Rádio Nacional. Depois dessa via56  z  agosto DE 2013

gem, ela nunca mais parou de visitar – e pensar – a Amazônia, conciliando sua visão de campo com a prática acadêmica. Pequenos e grandes juntos

Bertha Becker argumentava que era preciso pensar o desenvolvimento da floresta, não apenas sua preservação. “Bertha acreditava na colaboração entre os conhecimentos tradicionais e a ciência, a tecnologia e a inovação avançadas”, comentou Cláudio Egler, professor do Departamento de Geografia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), ao jornal O Globo. Ela dizia que grandes empreendimentos empresariais, a des-

peito da aversão gerada pelas experiências malsucedidas nos anos 1970, deveriam coexistir com pequenos projetos de produção familiar, porque somente os grandes ou os pequenos, por si sós, não resolveriam os desafios da região. Filha de imigrantes europeus, Bertha Becker terminou em 1952 o curso de geografia e história na Universidade do Brasil, atual UFRJ, onde ela foi professora durante 40 anos – em paralelo, ela lecionou por 18 anos no Instituto Rio Branco. Suas conferências, os debates com colegas acadêmicos e com homens do governo e os 19 livros que publicou ajudaram a enriquecer a visão sobre a Amazônia, hoje vista como um espaço complexo, resultante da interação de forças políticas e econômicas. Seu trabalho influenciou a elaboração de novas estratégias para a organização do território na Amazônia, expressas no Zoneamento Ecológico-econômico para os estados da Amazônia Legal e o Macrozoneamento da Amazônia Legal, recentemente transformados em política territorial para a região pelo Congresso Nacional. n

Bertha Becker: 30 anos de reflexões casadas com trabalho de campo

Carlos Fioravanti

berthabecker.blogspot.com

construiu uma visão ampla sobre a região Norte


astronomia y

Perigo em Plutão Brasileiros participam de avaliação de risco para sonda espacial

O

ilustraçãO nasa

Representação artística da sonda New Horizons, que deve chegar a Plutão em 2015

grupo liderado pela pesquisadora Silvia Giuliatti Winter na Universidade Estadual Paulista (Unesp) em Guaratinguetá vem explorando em simulações computacionais cada vez mais detalhadas a possibilidade de detritos – de grãos de poeira a pedregulhos – se acumularem em certas regiões do espaço nas vizinhanças de Plutão e de suas luas por onde deve passar a sonda espacial New Horizons, projetada para estudar os confins do Sistema Solar. O trabalho dos físicos brasileiros foi o primeiro a chamar a atenção para o risco que a New Horizons, lançada em 2006 pela agência espacial norte-americana (Nasa), pode correr ao atravessar uma dessas regiões em 2015. É que a sonda viaja a 14 quilômetros por segundo e seus instrumentos podem ser danificados ou destruídos até mesmo pela colisão com um grão de areia. “O trabalho dos brasileiros tem sido extremamente relevante”, afirma o astrônomo Harold Weaver, do Laboratório de Física Aplicada da Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos, um dos líderes do projeto da New Horizons. “Temos seguido de perto as publicações deles.” Desde 2010, o grupo da Unesp vem publicando suas conclusões em uma série de artigos na revista Monthly Notices of the Royal Astronomical Society (MNRAS). Os resultados mais recentes, também submetidos à MNRAS, foram apresentados em julho na Conferência Plutão, nos Estados Unidos, organizada pela equipe da New Horizons. Tudo parecia sob controle em janeiro de 2006, quando a Nasa lançou ao espaço essa sonda rumo a sua jornada de nove anos com destino a pESQUISA FAPESP 210  z  57


Órbitas estáveis

As coisas começaram a se complicar quando a vice-chefe científica da missão New Horizons, a astrônoma Lesley Young, do Instituto de Pesquisa Southwest, no Colorado, soube do trabalho da equipe da Unesp, apresentado em 2009 na reunião anual da União Astronômica Internacional, realizada no Rio de Janeiro. O estudo mostrava pela primeira vez que, entre

Plutão e Caronte, existe o que os especialistas em dinâmica planetária chamam de regiões com órbitas estáveis. Essas são regiões do espaço onde corpos celestes menores podem permanecer orbitando corpos maiores indefinidamente. Regiões estáveis tendem a acumular material, chegando às vezes a abrigar luas e anéis.

Grupo da Unesp mostrou em 2009 que entre Plutão e Caronte poderia haver corpos celestes

Explorando novos horizontes Primeira sonda enviada a Plutão chega ao planeta-anão em 2015

Antena de rádio para a comunicação com a Terra serve também de sensor e escudo contra impactos

Sensor

Câmera telescópica

construído por

obterá imagens das luas e

estudantes

mapeará a superfície de

universitários

Plutão em alta resolução

conta poeira que atinge sonda

2006

2007

2014

Lançamento

Passagem por

Teste dos

da sonda, em

Júpiter em 28

equipamentos

19 de janeiro

de fevereiro

fonte Nasa/JHU/APL

58  z  agosto DE 2013

2015

Chegada a Plutão em 14 de julho

E material interplanetário não falta no cinturão de Kuiper, a região do Sistema Solar onde se encontram Plutão e possivelmente milhares de outros planetas-anões, além de outros corpos menores. O cinturão de Kuiper abriga o que sobrou dos primeiros blocos de rocha e gelo formados em torno do Sol bilhões de anos atrás. Silvia e seus colaboradores na Unesp são especialistas em determinar o movimento de corpos celestes interagindo simultaneamente pela força da gravidade. Eles conseguem prever as trajetórias desses corpos por meio de simulações computacionais que levam semanas para ficar prontas. O par Plutão-Caronte representou um desafio único. A diferença de tamanho entre o planeta-anão e sua maior lua é pequena: o diâmetro de Plutão é de 2.300 quilômetros, e o de Caronte, 1.200 quilômetros. Por terem dimensões próximas, eles se comportam diferentemente de outros pares do Sistema Solar, como a Terra e a Lua. A busca por regiões estáveis é feita determinando a trajetória de partículas hipotéticas de massa pequena comparada à de Caronte e à de Plutão colocadas em variadas condições iniciais de posição e velocidade. “Ganhamos uma noção de onde estão as regiões estáveis e do volume que ocupam ao observar a órbita dessas partículas”, explica Silvia. Em novembro de 2011, ela e o pesquisador Othon Winter, seu marido, foram convidados para participar de um evento especial da equipe da New Horizons, em Boulder, no Colorado. Era um workshop dedicado a discutir o risco de a sonda colidir com objetos nas proximidades de Plutão. O cientista-chefe da missão, Alan Stern, pediu então que eles estudassem melhor as regiões estáveis. No primeiro artigo, de 2010, os brasileiros haviam buscado regiões com órbitas estáveis no plano formado pelas órbitas de Plutão e Caronte. No trabalho seguinte, que saiu neste ano, eles analisaram também as órbitas fora desse plano e obtiveram uma ideia melhor de sua forma e localização. As órbitas estáveis se concentram em algumas faixas próximas de Plutão e outras de Caronte e em uma região entre os dois astros batizada de região veleiro, por ter o formato de um barco à vela, por onde a New Horizons pode passar. Estimativas iniciais sugerem que o risco de colisão não é desprezível, mas falta quantificá-lo.

ilustraçãO nasa infográfico ana paula campos

Plutão, reclassificado naquele ano como planeta-anão. Em janeiro de 2015, a sonda deve acionar seus oito instrumentos científicos, entre eles um detector de poeira interplanetária e um telescópio ultrassensível, próprio para a escuridão que reina nessa região do espaço, 40 vezes mais distante do Sol do que aquela em que se encontra a Terra. Em 14 de julho de 2015, a New Horizons fará sua aproximação máxima de Plutão. Passará entre o planeta-anão e a sua maior lua, Caronte, registrando imagens com resolução de até 100 metros das superfícies desconhecidas de ambos os corpos celestes. Ao menos, esse era o plano original.


Luas novas

Além dos estudos teóricos de dinâmica Sistema inexplorado orbital, a preocupação com o que a New Horizons pode encontrar em seu caminho New Horizons atravessará intensificou as observações de Plutão, de o plano orbital formado Caronte e de suas luas mais afastadas, as por Plutão e suas cinco pequenas Nix e Hidra, cada uma com 150 luas conhecidas quilômetros de diâmetro, descobertas em 2005 com o telescópio espacial Hubble. O astrônomo Mark Showalter, do Instituto Seti, nos Estados Unidos, especialista em trabalhar no limite da resolução de Hidra imagens obtidas por sondas espaciais e Estige telescópios, liderou em 2011 uma campanha de observações com o Hubble em busca de anéis em Plutão. As análises das imagens não mostraram sinais de anéis, mas levaram à descoberta de mais duas luas, batizadas este ano: Cérbero e Estige. A ausência de anéis corrobora o resultado de um estudo publicado pelo grupo de Silvia neste ano na MNRAS. Sua aluna de doutorado Pryscilla dos Santos fonte Nasa/JHU/APL simulou a formação de anéis em torno de Plutão, que seriam feitos de grãos de rocontra ali. Ela está em cha e gelo ejetados de uma órbita mais interNix e Hidra durante na, próxima a Caroncolisões com meteoriCérberos, uma te. A órbita da pequena tos. Elas descobriram das menores Estige, que tem de 4 a que apesar de Plutão e 12 quilômetros de diâsuas luas se encontraluas do metro, ainda é um misrem tão longe do Sol, tério. Segundo Silvia, a pressão de radiação planeta-anão, há muita incerteza sosolar seria suficiente bre a massa da lua para para espalhar os grãos, foi descoberta se calcular seu movipraticamente impedinem órbita mento. Em todo caso, do a formação de anéis a descoberta de Esti– se existirem, são tão prevista pelos ge sinaliza problemas pouco densos que não para a New Horizons. podem ser vistos. Silvia brasileiros Colisões de objetos ressalta, porém, que interplanetários com outros mecanismos Estige e luas menores não estudados, como a existência de outros satélites naturais ao ainda não descobertas poderiam espalhar redor de Plutão, poderiam formar anéis detritos entre Plutão e Caronte. tênues demais para serem vistos com o É possível que nos próximos meses Hubble, mas não pela New Horizons. seja preciso rever o plano de mitigação A descoberta de Cérbero foi uma sur- de danos para a New Horizons aprovado presa mais agradável ainda. Essa lua, com em junho. Weaver explica que, após avadiâmetro estimado entre 5 e 15 quilôme- liarem toda a informação relevante, ele e tros, orbita Plutão em uma das regiões de seus colegas concluíram que a probabiestabilidade que a equipe da Unesp pre- lidade de um impacto capaz de terminar viu existir para corpos desse tamanho, a missão em sua trajetória original é meentre as órbitas de Nix e Hidra. Apre- nor que 0,3%. Isso porque a sonda deve sentado em 2011, esse resultado sugeria passar por uma região instável próxima que mais luas poderiam ser descobertas a Caronte. Se não surgirem novas evientre Nix e Hidra. Mas a lua descoberta dências de perigo, a sonda deverá seguir mais recentemente, a quinta, não se en- o caminho estabelecido antes de o risco

Cérbero Nix

Rota da New Horizons

Plutão

Caronte

de colisões ter sido levantado pelo grupo da Unesp. De qualquer forma, a equipe da Nasa tem dois planos de emergência. Um é reorientar a sonda para usar sua antena de comunicação como um escudo contra os detritos. O outro é aproximar a sonda ainda mais de Plutão, fazendo-a passar a 2.200 quilômetros de sua superfície, de modo a usar a atmosfera do planeta-anão como proteção contra as partículas. “A trajetória original foi planejada para otimizar os ganhos científicos e qualquer mudança vai resultar em perdas”, explica Weaver. “Mesmo que haja perdas, a missão revolucionará nosso entendimento de Plutão e do cinturão de Kuiper.” n Igor Zolnerkevic

Projetos 1. Dinâmica de pequenos corpos (nº 2011/08171-3); Modalidade Projeto Temático; Coord. Othon Cabo Winter/ Unesp; Investimento R$ 560.886,80 (FAPESP). 2. Dinâmica do sistema binário Plutão-Caronte (nº 2009/18262-6); Modalidade Bolsa de doutorado; Benefic. Pryscilla Pires dos Santos/Unesp; Investimento R$ 121.831,32 (FAPESP).

Artigos científicos PIRES DOS SANTOS, P.M. et al. Small particles in Pluto’s environment: effects of the solar radiation pressure. Monthly Notices of the Royal Astronomical Society. v. 430. abr. 2013. GIULIATTI WINTER, S. M. et al. Stable regions around Pluto. Monthly Notices of the Royal Astronomical Society. v. 430. abr. 2013.

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Criptografia y

O código Voynich Físicos brasileiros propõem significado para termos de manuscrito produzido em linguagem desconhecida

Igor Zolnerkevic

O

mais enigmático dos livros que se conhece – o manuscrito Voynich, um texto supostamente do início do século XV composto em um alfabeto desconhecido – parece não ser um amontoado aleatório de símbolos sem sentido, como afirmam alguns estudiosos. Ao menos, essa é a conclusão a que chegou um grupo de físicos brasileiros depois de usar técnicas estatísticas avançadas para analisar esse documento que há tempos frustra os maiores especialistas em decifrar códigos criptografados. Pouco se sabe sobre o manuscrito e sua história. Apenas que está escrito em um alfabeto inventado, jamais visto em outro documento, e que foi adquirido em 1912, perto de Roma, na Itália, por um livreiro polonês chamado Wilfrid Voynich, que se casou com a filha de George Boole, famoso matemático britânico. O manuscrito é ricamente ilustrado com

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imagens de plantas e corpos celestes, o que sugere que se trate de um texto sobre ervas e astrologia. Mas seu conteúdo continua um enigma. Os físicos também não o decifraram, mas, em sua análise, publicada em julho na revista PLoS One, acreditam ter identificado suas palavras-chave, isto é, o conjunto das palavras que mais se aproximam dos nomes dos tópicos abordados no texto. Uma futura tradução dessas palavras poderia finalmente revelar algo sobre a mensagem do livro, se é que de fato existe uma mensagem. A equipe brasileira, formada por pesquisadores que atuam na Alemanha e em São Carlos, interior de São Paulo, também concluiu que o texto do manuscrito apresenta todas as propriedades estatísticas que se espera de um texto com significado. Se eles estiverem certos, o manuscrito não seria uma sequência de símbolos sem sentido.

De qualquer forma, o método desenvolvido pelos pesquisadores para estudar o Voynich tem outras aplicações. “Ele nos permite identificar as palavras-chave de um texto longo sem que seja necessário conhecer sua organização ou compará-lo com outros textos, tal como fazem mecanismos de busca como o do Google”, explica um dos autores do estudo, o físico Eduardo Altmann, do Instituto Max Planck para Física de Sistemas Complexos, em Dresden, Alemanha. Altmann vem discutindo com funcionários da biblioteca de Dresden o uso de um sistema de classificação automática de documentos que encontraria palavras potencialmente importantes, que tenham passado despercebidas durante a classificação dos livros pelos bibliotecários. “Esse sistema poderia ajudar a encontrar conexões entre disciplinas científicas diferentes”, diz.


reprodução  Biblioteca beinecke de livros e manuscritos raros / universidade yale

Ainda enigmático: manuscrito Voynich, com 240 páginas e impresso em papel velino, foi composto provavelmente no século XV, em um alfabeto inventado

Altmann vem se especializando desde 2009 em usar técnicas da física estatística para analisar a frequência com que as palavras aparecem ao longo de um texto (ver Pesquisa FAPESP nº 185). Durante uma conferência tempos atrás, conheceu outro brasileiro radicado na Alemanha, o físico Diego Rybski, do Instituto para Pesquisa de Impacto no Clima, em Potsdam, que conhecia a história do manuscrito Voynich. Fraude ou não?

Atualmente guardado na Biblioteca Beinecke da Universidade Yale, Estados Unidos, o manuscrito se encontrava

perdido no meio de uma coleção mantida por padres jesuítas italianos, quando foi adquirido por Voynich. Especulou-se muito se o manuscrito não seria uma fraude criada pelo próprio Voynich, que lucrou com sua venda, mas historiadores e biógrafos já descartaram essa hipótese. Junto ao manuscrito, uma carta datada de 1666, assinada por um acadêmico da cidade de Praga, na atual República Tcheca, pedia a um jesuíta em Roma que tentasse decifrá-lo. A correspondência sugere que o manuscrito pertenceu a Rodolfo II (1552-1612), imperador do Sacro Império Romano-Germânico, conhecido por seu fascínio pelo ocultismo, e que o

autor do livro talvez fosse o filósofo e frade franciscano inglês Roger Bacon, que viveu de 1214 a 1294. Uma análise físico-química dos papéis e das tintas feita em 2010, contudo, concluiu que o manuscrito deve ter sido produzido entre 1404 e 1438. Com dimensões de um livro de bolso e encadernadas em papel velino, as 240 páginas do manuscrito são ricamente ilustradas, sendo que algumas folhas têm várias vezes o tamanho do livro quando desdobradas. A temática dos desenhos é a única pista sobre o que tratam as suas seções. Metade do volume retrata plantas inteiras, a maioria não pESQUISA FAPESP 210  z  61


O

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Os quase 40 símbolos usados na escrita do Voynich lembram números arábicos, letras do alfabeto latino e sinais usados por alquimistas

Johannes Kepler, na Áustria, sugeriu em análise publicada na revista Cryptologia que o texto do Voynich teria sido criado por um processo aleatório. Esses resultados, porém, não desanimaram a maioria dos estudiosos do Voynich, nem abalaram a fé de místicos que acreditam que o manuscrito contenha alguma profecia divina ou alienígena. “O tamanho da literatura sobre o Voynich é assustadora e me fez perguntar até que ponto seu objetivo é científico”, conta Altmann. “É por isso que em nosso trabalho tentamos formular as questões de maneira geral, esperando que o estudo tenha outras aplicações.” Aglomeração e dispersão

Altmann e Rybski colaboraram com os físicos Osvaldo Oliveira Jr. e Luciano da Fontoura Costa, do Instituto de Física de São Carlos, da Universidade de São Paulo, que tratam os textos como se fossem redes complexas de palavras (ver figura na página ao lado). “Duas palavras são conectadas na rede se elas aparecem vizinhas no texto”, explica Diego Raphael Amâncio, aluno de doutorado de Costa e primeiro autor do artigo da PLoS One. Antes de atacarem o Voynich, os pesquisadores avaliaram 29 tipos de medidas estatísticas que podem ser obtidas a partir da análise de um texto qualquer. Elas são quantidades que medem como as palavras se aglomeram ou se dispersam ao longo do texto ou que medem a distribuição dos vários arranjos possíveis das conexões entre as palavras, quando o texto é representado como uma rede complexa. “Fazendo um experimento imaginário, se pudéssemos analisar todos os textos já escritos em todas as línguas existentes teríamos todos os valores possíveis para essas medidas estatísticas”, explica Altmann. Nessa situação ideal, os pesquisadores teriam então uma espécie de assinatura estatística para cada texto possível. Altmann procurou textos longos, traduzidos em mais de 10 línguas, que estivessem digitalizados e sem restrições de direitos autorais, para análise. Um dos que encontrou foi o Novo Testamento. A equipe analisou o texto bíblico em 15 línguas, do árabe ao xhosa, falada por um pequeno grupo da África do Sul, e comparou com versões do texto com as palavras embaralhadas. Os físicos con-

imagem  diego r. amancio / ifsc / Usp

identificada (três delas foram, mas as espécies ocorrem em várias partes do mundo, não ajudando a localizar sua origem). Segue uma seção astrológica, com desenhos do Sol, da Lua, de estrelas, o zodíaco, círculos no céu e muitas mulheres nuas. A seção seguinte contém estranhos desenhos de tubos, que se conjectura serem vasos sanguíneos, microscópios ou telescópios, e mais mulheres nuas em piscinas. Em seguida vem a seção chamada de farmacêutica, que parece uma lista aparentemente sobre folhas e raízes. O livro termina com páginas repletas de um texto formado por uma série de parágrafos curtos, ilustrado apenas por estrelas nas margens. Os cerca de 40 símbolos do texto lembram vagamente números arábicos e letras do alfabeto latino, bem como alguns sinais usados por alquimistas medievais. Eles estão organizados como em qualquer texto ocidental, agrupados em palavras separadas por espaços. Ao mesmo tempo familiar e única, a linguagem do manuscrito ludibriou todos os especialistas que a examinaram. Foi uma obsessão para o criptoanalista norte-americano William Friedman, famoso por decifrar códigos secretos dos alemães e dos japoneses durante a Segunda Guerra Mundial. Após 20 anos de tentativa, Friedman chegou apenas ao palpite de que sua mensagem estava escrita em uma língua inventada. A partir dos anos 1990, uma comunidade formada por uma centena de pesquisadores de várias disciplinas interessados no Voynich começou a se comunicar pela internet. Para facilitar a discussão de partes do texto via e-mail, associaram cada letra da escrita voynichesa a um caractere latino. Essa transcrição facilitou a análise estatística do texto por computador e a sua comparação com outros textos. Uma dessas análises ganhou repercussão em 2004, sugerindo que o Voynich seria uma fraude. O psicólogo e matemático Gordon Rugg, da Universidade Keele, na Inglaterra, descobriu como criar uma sequência de símbolos semelhante à escrita voynichesa por meio de técnicas criptográficas disponíveis no período renascentista. Rugg acredita que o livro seja obra de um charlatão do século XVI, de olho no ouro que Rodolfo II oferecia por relíquias místicas. Em 2007, o físico Andreas Schinner, da Universidade


Rede de palavras No gráfico acima, cada ponto representa uma palavra do manuscrito Voynich. As linhas conectando dois pontos indicam que as palavras estão vizinhas no texto. As palavras mais usadas aparecem em amarelo e vermelho. As mais conectadas ocupam uma localização mais central. As medidas extraídas dessa rede mostram padrão similar ao de uma língua natural

seguiram assim ter uma ideia de quais medidas estatísticas são mais sensíveis a variações na língua e quais delas podem distinguir um texto com significado de uma série aleatória de palavras. cthy, qokeedy e shedy

Os pesquisadores compararam também vários textos escritos em uma mesma língua, analisando 15 romances clássicos da literatura portuguesa e 15 da inglesa, assim como suas versões embaralhadas, determinando quais das medidas dependem mais da mensagem particular do texto do que da língua em que está escrito. Ao contrário da análise de Schinner, as medidas avaliadas pelos brasileiros indicam que o texto do Voynich tem

estrutura sintática e transmite alguma mensagem. “Na minha experiência, os resultados do Schinner não são necessariamente uma indicação de que o texto não esteja escrito em uma língua natural”, diz Altmann. Ele explica ainda que, se tivessem comparado com mais livros, seria possível dizer até qual língua é a mais próxima da usada no manuscrito. Foi combinando algumas dessas medidas que os pesquisadores desenvolveram um método para distinguir palavras do manuscrito cujo significado remete aos tópicos abordados no texto em geral das palavras que cumprem papel meramente sintático, como artigos e preposições. Aplicado ao Novo Testamento em português, por exemplo, o método resulta em uma lista de palavras incluindo “Ma-

ria”, “nasceu”, “menino”, “sepulcro” e “bem-aventurados”. A lista do Voynich inclui cthy, qokeedy e shedy. Um estudo publicado uma semana antes também na PLoS One chegou a conclusões parecidas. Os físicos argentinos Marcelo Montemurro, da Universidade de Manchester, na Inglaterra, e Damián Zanette, do Instituto Balseiro, na Argentina, usaram técnicas estatísticas diferentes e chegaram a uma lista muito similar de palavras importantes. “Cada novo estudo sobre o manuscrito aponta detalhes que são característicos de línguas naturais e improváveis em textos aleatórios”, observa Jorge Stolfi, do Instituto de Computação da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), que analisou o manuscrito entre 1997 e 2004. “Arrisco dizer que é uma transcrição fonética de alguma língua do leste asiático, feita por um europeu, provavelmente ditado por um nativo, usando um alfabeto inventado pelo autor para esse fim.” “Infelizmente, não sei como progredir nessa direção”, diz Stolfi, cuja teoria causou certo frisson ao ser apresentada no ano passado em uma conferência comemorando o centenário da descoberta do manuscrito. “Mesmo que minha hipótese esteja correta, não me arrisco a prever quando será decifrado.” n

Projetos 1. Uso de redes complexas no processamento de línguas naturais (nº 2010/00927-9); Modalidade doutorado Direto; Beneficiário Diego Raphael Amancio; Investimento R$ 109.708,56 (FAPESP). 2. Modelos e métodos de eScience para ciências da vida e agrárias (nº 2011/50761-2); Modalidade Projeto Temático; Coord. Roberto Marcondes Cesar Junior / IME-USP; Investimento R$ 1.033.785,69 (FAPESP/CNPq.)

Artigos científicos AMANCIO, D. R. et al. Probing the statistical properties of unknown texts: Application to the voynich manuscript. PLoS One. v 8(7). jul. 2013. MONTEMURRO, M. A. e ZANETTE, D. H. Keywords and Co-Occurrence Patterns in the Voynich Manuscript: An Information-Theoretic Analysis. Plos One. 21 jun. 2013.

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tecnologia  aeronáutica y

Asas do Sul Dois novos fabricantes de aviões se instalam em Santa Catarina Yuri Vasconcelos

C

om capacidade para duas pessoas, o monomotor Wega 180, construído em carbono, vidro e resina de alta qualidade, foi destaque na segunda mais importante feira mundial de aviação, a Sun’n Fun, realizada em abril deste ano em Lakeland, na Flórida, Estados Unidos. A pequena aeronave, de apenas 6,5 metros de comprimento, atraiu a atenção dos visitantes pelo design e desempenho e foi tema de reportagens em jornais e revistas especializados. A potência do motor é de 180 HP, o equivalente à de três automóveis Gol 1.0. Nos dias do evento, o empresário Jocelito Wildner recebeu dois pedidos de compra e respondeu em torno de 300 e-mails com solicitações de informações. A Wega, com sede em Palhoça, na Região Metropolitana de Florianópolis, é a primeira fábrica de aviões instalada em Santa Catarina e o embrião de um polo aeronáutico que tem o apoio da Federação das Indústrias do Estado de Santa Catarina (Fiesc) e do governo estadual. Um segundo fabricante, a Novaer, com sede em São José dos Campos, no interior paulista, já assinou um protocolo com o governo catarinense para se instalar no estado. A empresa planeja iniciar a construção de uma fábrica em Lages, na serra catarinense, no ano que vem e começar a produzir no final de 2015 as primeiras unidades de seus aviões de dois e quatro lugares, que ainda estão em processo de desenvolvimento.

64  z  agosto DE 2013

“Santa Catarina é um estado com forte vocação industrial e, por isso, é atraente para esse tipo de investimento”, diz Glauco José Côrte, presidente da Fiesc. Além de incentivos e investimentos, o estado tem um conjunto de instituições de ensino, pesquisa e desenvolvimento de tecnologia e inovação. “Os aviões da Wega comprovam nossa capacidade de fabricar bens de alta tecnologia e que melhoram a competitividade da indústria catarinense”, diz Côrte. “Santa Catarina será o berço do segundo polo aeronáutico da América Latina”, diz. Os desafios para concretizar esse objetivo não são poucos. Segundo especialistas, um pilar fundamental para a formação de um polo aeronáutico, como o existente em São José dos Campos, que nasceu com o Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), é a capacitação profissional e a existência de mão de obra especializada. Pensando nisso, o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) de Santa Catarina criou em 2009 uma escola de mecânica de aviação em São José, município próximo a Florianópolis. A proposta é formar profissionais que dominem os conceitos básicos da atividade. Como resultado de negociações feitas durante a feira na Flórida, alunos e professores de aviação do Senai também poderão realizar intercâmbio com a Central Florida Aerospace Academy (CFAA), escola especializada no setor aeronáutico nos Estados Unidos. Conta


fotos  Novaer

também o curso de engenharia aeroespacial da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Empresa pioneira do polo catarinense, a Wega é a realização de um sonho de seu empreendedor, o mecânico de aeronaves Jocelito Wildner, formado pela escola da Varig, que já foi a maior companhia aérea brasileira. Apaixonado por aviação, aos 12 anos ele construiu com um irmão uma asa-delta e se lançou com ela da varanda de sua casa, em Ijuí, no Rio Grande do Sul. Em 2006 criou a Wega com o objetivo de fabricar kits de aeronaves leves em compósito (material formado de dois elementos que adquire novas propriedades) usando técnicas e componentes de última geração. “São aeronaves pequenas, experimentais e usadas para lazer. É como se fosse um jet ski, mas que voa”, brinca Wildner. A comparação pode levar a ideia de que os aviões da Wega são de “brinquedo”, mas eles estão longe disso. O monomotor é capaz de voar por até seis horas e meia e cobrir grandes distâncias. Na viagem entre o Aeroclube de Santa Catarina e Lakeland, na Flórida, o avião percorreu quase 8 mil quilômetros, com nove escalas. Além do Wega 180, Wildner também produz uma versão com motor mais potente, de 210 HP. Os dois modelos seguem normas e legislações internacionais de segurança, mas não são de uso comercial, servem como avião particular. O trem de pouso deles é retrátil e ambos têm asa baixa, o que garante uma velocidade de cruzeiro de 350 quilômetros por hora (km/h) com bom desempenho. A empresa catarinense tem acordo com parceiros no exterior para o fornecimento de algumas partes, como a hélice, que é fabricada pela alemã MT Propeller, e os instrumentos de bordo e a motorização, fornecidos pelas norte-americanas Dynon e Superior Air Parts, respec-

tivamente. Os aviões da Wega são vendidos em kits e cabe a quem adquiri-los fazer a montagem final da aeronave. O preço estimado do kit é de cerca de US$ 83 mil. Para ter o avião montado, o dono precisará desembolsar por volta de US$ 200 mil no total. O empresário investiu mais de R$ 1,5 milhão no desenvolvimento dos aviões e na montagem da fábrica em Palhoça. Já entregou três unidades e tem encomenda para outras quatro. Hoje a capacidade de produção é de apenas duas aeronaves por ano e Wildner quer ampliá-la. “Temos planos para elevar nossa produção anual para até 12 unidades.”

Modelagem eletrônica do avião U-Xc, da Novaer, que será montado a partir de 2015 na fábrica de Lages (SC)

Trajetória própria

Segunda fabricante de aviões a ser instalada em Santa Catarina, a Novaer foi fundada em 1998 e já tem história para contar. Ela é fornecedora do trem de pouso do avião T-27 Tucano, produzido pela Embraer e usado pela Força Aérea Brasileira e governos de vários outros países. A empresa também participou do desenvolvimento de uma aeronave militar leve de ataque para a US Aircraft Corporation, com sede em Ohio, nos Estados Unidos, e projetou as asas e o trem de pouso da aeronave EV-20, da norte-americana Eviation Jets. Em fevereiro de 2010, a Novaer começou a desenvolver o protótipo de uma aeronave própria, voltada aos mercados civil e militar e batizada provisoriamente de T-Xc. Em seguida, iniciou negociações com o governo catarinense para se estabelecer no estado. “A Novaer é pioneira no programa do governo de Santa Catarina que tem como objetivo criar um polo tecnológico de aeronáutica e defesa, o que certamente é um forte atrativo para empresas da área se instalarem no estado”, diz GracipESQUISA FAPESP 210  z  65


Fabricante Novaer Modelo U-Xc Uso Utilitário ou comercial civil

ega Fabricante W

Lugares 4

Modelo 180

Dimensões 8 metros de comprimento

Uso Lazer

Potência 315 HP

Lugares 2

5 metros de

Dimensões 6,

comprimento

Preço US$ 800 mil

HP Potência 180 $ 200 mil $ 83 mil a US Preço De US

O Brasil tem a segunda maior frota do mercado de aviação geral do mundo, atrás dos Estados Unidos liano Campos, presidente da Novaer. A fábrica será construída em Lages, a 220 quilômetros da capital, e deverá ficar pronta no final de 2015. A linha de montagem está sendo dimensionada para produzir até 10 aviões por mês e será dedicada exclusivamente à fabricação do T-Xc, que terá duas versões: treinador e utilitário. Eles terão 8 metros de comprimento e 9 de envergadura, que é a medida de uma ponta de uma asa à ponta da outra. Vão atingir a velocidade máxima de 370 km/h com um motor de 315 HP fornecido pela Lycoming, dos Estados Unidos, e terão os instrumentos de bordo da também norte-americana Garmin. Toda a fuselagem e partes aerodinâmicas como flaps e lemes são desenvolvidas e deverão ser produzidas pela Novaer. O primeiro modelo, de dois lugares, será voltado ao treinamento de pilotos civis e militares e custará US$ 800 mil; o segundo, de quatro lugares, batizado com o nome provisório de U-Xc, fará o transporte de passageiros e cargas. Ao custo 66  z  agosto DE 2013

também de aproximadamente US$ 800 mil, ele será vendido para pessoas físicas, aeroclubes, empresas de táxi aéreo e de transporte de pequenas cargas. O T-Xc será um avião enquadrado na categoria de aviação geral, que inclui desde monomotores de propriedade particular a jatos executivos modernos. O mercado para esse tipo de aeronave é imenso e o Brasil é atualmente dono da segunda maior frota do gênero, com 13 mil aeronaves, atrás apenas dos Estados Unidos. A frota norte-americana de aviação geral, onde se enquadram as aeronaves produzidas pela Novaer, é de 220 mil aeronaves. Segundo o relatório anual da Associação dos Fabricantes de Aviação Geral (Gama, na sigla em inglês), esse setor da aviação gerou em 2012 um montante de US$ 18,8 bilhões em vendas. “O T-Xc é um avião inteiramente fabricado em fibra de carbono curada em autoclave e, por conta disso, pode ser considerado um avião inovador”, diz Campos. “A fibra de carbono é um material já conhecido e cada vez mais usado na aviação em razão de sua leveza e resistência. No entanto, na maioria dos casos, esse material é empregado na estrutura das aeronaves em conjunto com a fibra de vidro ou compostos metálicos.” Segundo o executivo da Novaer, o país possui apenas fábricas que atendem o mercado de aviação geral com as chamadas aeronaves experimentais, mas nenhuma delas produz um avião certificado pelo Regulamento Brasileiro de Aviação Civil 23 (RBAC 23) da Agência Na-


fotos 1 Wega  2 e 3 novaer

Fabricante No Modelo T-Xc

vaer

treinador

Uso Comerci al Lugares 2 Dimensões 8 Potência 315

civil ou milita

r

metros de co HP

mprimento

Preço US$ 80

0 mil

cional de Aviação Civil (Anac). “Sem a certificação, os aviões experimentais não podem ser usados comercialmente nem para treinamento de pilotos. Nossos maiores concorrentes serão os fabricantes internacionais, como as norte-americanas Cessna, Piper e Cirrus.” O primeiro protótipo de T-Xc deverá levantar voo no último trimestre deste ano. Em seguida,

outros dois serão construídos para a campanha de testes de certificação, prevista para ser encerrada no final de 2015. Segundo Graciliano Campos, grande parte das peças primárias de carbono já está pronta e o protótipo encontra-se em processo de montagem dos conjuntos. “Estamos fazendo a colagem das partes das asas e a integração dela com as peças metálicas de articulação das superfícies de comando, como flaps e ailerons”, diz. “O T-Xc é baseado em um projeto de concepção aerodinâmica do projetista Joseph Kovács [húngaro naturalizado brasileiro com passagens pelo Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), Centro Técnico Aeroespacial (CTA) e Embraer] e, devido a sua qualidade de voo, é capaz de fazer manobras acrobáticas arrojadas.” O desenvolvimento do avião da Novaer foi feito pelos projetistas da própria empresa com parceria de pesquisadores do Centro de Estudos Aeronáuticos (CEA) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), responsáveis pela realização de testes, cálculos e análises aerodinâmicas. O projeto também foi apoiado pela Finep (Financiadora de Estudos e Projetos), por meio de sua linha de Subvenção Econômica e Inovação Tecnológica. A empresa recebeu cerca de R$ 10 milhões para o financiamento das fases de projeto e prototipagem da aeronave. Esse valor foi complementado com recursos da Novaer para financiar o desenvolvimento do avião e, mais recentemente, com investimentos do estado de Santa Catarina para o avanço do programa nas fases de certificação e industrialização. n

UFMG vence concurso de aerodesign O projeto de um avião para quatro

do Departamento de Engenharia

tripulantes, criado por professores e

Mecânica da UFMG, a premiação é

estudantes do Centro de Estudos

resultado das pesquisas tecnológicas

Aeronáuticos (CEA) da Universidade

no campo da aviação geral realizadas

Federal de Minas Gerais (UFMG), foi o

pela universidade nos últimos 50 anos.

vencedor de um concurso internacional

“Poucas instituições no mundo têm

promovido pela fabricante de motores

capacidade de trabalhar na fabricação

aeronáuticos Price-Induction, da

de um avião”, diz. “Agora é o momento

França. O projeto, que tinha como

de buscar parceiros em tecnologia e

exigência o uso de duas turbinas

investidores para que, num futuro

da empresa francesa, foi escolhido

próximo, possamos produzir esse avião

entre 11 finalistas de diferentes países

na UFMG.” A equipe de graduandos

por um corpo de jurados composto

que participou do projeto foi composta

por especialistas internacionais

pelos alunos Julliardy Matoso e Letícia

em inovação aeroespacial.

Soares, do curso de engenharia

Para Paulo Henriques Iscold, coordenador do CEA e professor

aeroespacial, e Matheus Vinti e Sérgio Lopes, de engenharia mecânica.

pESQUISA FAPESP 210  z  67


Monitoramento ambiental y

Observação remota Trabalho artesanal de pesquisa em campo ganha reforço com câmeras e programas de computador Dinorah Ereno

fotos  Laboratório de fenologia / Unesp e recod / unicamp

U

Imagem de uma das câmeras instaladas no cerrado com identificação de seis espécies vegetais, em branco. As duas primeiras acima, por exemplo, mostram, à esquerda, a peroba-do-cerrado (Aspidosperma tomentosum) e, ao lado, o pequi (Caryocar brasiliensis)

m dos ramos mais antigos das ciências naturais, a fenologia consiste no estudo dos eventos cíclicos de plantas e animais e sua relação com o clima. “É um trabalho artesanal que começa com a marcação de árvores no campo e depois todos os meses a observação do aparecimento de folhas, botões, flores e frutos”, diz a professora Patrícia Morellato, coordenadora do Laboratório de Fenologia do Instituto de Biociências da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Rio Claro. Na fenologia tradicional, os dados coletados são relacionados com a dispersão de sementes por animais frugívoros ou insetos polinizadores que usam recursos florais. Para ir mais além e analisar a influência do clima nas plantas, é preciso um estudo sistemático de campo que leva, em média, de três a cinco anos. “É um trabalho cansativo, que envolve várias pessoas durante um bom período de tempo”, diz Patrícia, que desde 2010 coordena um projeto inovador de fenologia remota em áreas tropicais, chamado de e-fenologia, financiado pela FAPESP e Microsoft Research Institute. Além de uma câmera digital instalada no topo de uma torre a 18 metros do solo em área de cerrado em Itirapina, no interior de São Paulo, softwares e outras ferramentas foram desenvolvidos para a observação remota e a análise das informações coletadas. São parceiros no projeto o laboratório de Fenologia da Unesp de Rio Claro e o laboratório Reasoning for Complex Data (Recod) do Instituto de Computação da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), onde atua o professor Ricardo Torres, que também participa da pesquisa. A partir de agosto cinco câmeras serão instaladas em diferentes vegetações, como campo, cerrado, caatinga, floresta semidecidual e mata atlântica. “Vamos fazer um estudo para pESQUISA FAPESP 210  z  69


O uso de tecnologia remota vai permitir observar a mudança foliar ao longo do tempo

rede publicaram um estudo com a afirmação de que a primavera de 2012 começou quase um mês antes do que a média histórica desde 1900. O fenômeno, batizado de falsa primavera, já que uma boa parcela da vegetação não conseguiu se desenvolver como o esperado para a estação, foi resultado do clima mais quente que chegou prematuramente. Segundo o estudo, as florações aconteceram muito cedo, o que deixou diversas espécies vulneráveis para as ondas de frio que ainda estavam ocorrendo. Entre as regiões mais afetadas estavam o chamado cinturão do milho – que abrange estados como Iowa, Illinois, Indiana e Michigan. Os pesquisadores concluíram que, diante do aquecimento global, a ocorrência de primaveras precoces deve se transformar na nova realidade do país. Diversos grupos de pesquisa de fenologia remota estão espalhados por países como Japão, Holanda, Austrália, Canadá e Reino Unido. No Japão, por exemplo, webcams – câmeras de vídeo ligadas a computadores – espalhadas pelo país para

Torre com 18 metros de altura e câmera digital são instaladas em Itirapina, no cerrado paulista 70  z  agosto DE 2013

monitoramento em geral são utilizadas também para observar o ciclo das plantas. A fenologia moderna deve muito ao botânico sueco Carl Linnaeus, que durante o século XVIII registrou sistematicamente épocas de floração e as condições climáticas exatas de quando isso ocorreu em 18 locais na Suécia ao longo de muitos anos. Checagem de dados

O ponto de partida do projeto e-fenologia são os dados de mais de 2 mil plantas obtidos em observações mensais realizadas em uma área de cerrado de 260 hectares em Itirapina desde o final de 2004. A amostragem da vegetação é feita em 36 transectos – faixa de terra previamente demarcada pelos pesquisadores com 25 por 2,5 metros –, distribuídos em quatro ambientes diferentes, dois na borda e dois no interior do cerrado. Mensalmente quatro pesquisadores vão a campo para amostrar individualmente cada uma das mais de 2 mil plantas. “Avaliamos brotamento, queda foliar, flor e fruto”, explica Bruna Alberton, que participou das pesquisas de campo durante o seu mestrado em fenologia remota e agora no doutorado. Os dados anotados em papel são passados para uma planilha e só então são transferidos para o computador na forma de uma tabela. “O uso de tecnologia remota permitirá obter uma estimativa da variação do padrão fenológico de mudança foliar ao longo do tempo sem a necessidade de ir a campo”, diz Torres, que coordena a pesquisa no Recod. E o banco de dados que está sendo criado vai permitir que a checagem de dados seja feita de forma bem rápida. Na torre, além da câmera digital que tira cinco fotografias por hora no período que vai das 6 às 18 horas, também foi instalada uma estação de monitoramento climático. A análise foliar foi uma das fases de mudança da planta escolhidas para validação do uso da tecnologia de monitoramento remoto. “Conseguimos demonstrar que nos trópicos, assim como em climas temperados, o monitoramento remoto de plantas apresenta resultados compatíveis com as observações de campo”, relata. Como o número de espécies em regiões tropicais é muito maior, tanto o reconhecimento de padrões como o entendimento do processo de influência do clima na mudança de fases são mais complexos. “Nós trabalhamos na validação dos dados

fotos  Laboratório de fenologia / Unesp e recod / unicamp

avaliar quanto fica o valor do monitoramento remoto de fenologia em diferentes tipos de vegetação em comparação com a observação tradicional”, diz Torres. A proposta dos pesquisadores para uma nova fase do projeto, uma extensão do atual, é usar imagens obtidas a partir de aviões não tripulados, os Vants, para cobrir uma área bem maior de vegetação. “Queremos levantar novas questões para analisar o impacto de mudanças climáticas nas florestas de regiões tropicais”, diz Torres. O projeto abriu o campo de pesquisas em fenologia remota de áreas tropicais na América do Sul. “Não há muitas câmeras nos trópicos e nenhuma publicação sobre o assunto até o momento”, diz Patrícia. Um dos principais grupos de pesquisa que utilizam câmeras digitais e outras tecnologias para monitoramento remoto em áreas temperadas é o do professor Andrew Richardson, da Universidade Harvard, nos Estados Unidos. A Rede Nacional de Fenologia dos Estados Unidos, financiada pela Fundação Nacional de Ciências (NSF), começou a monitorar a influência do clima na fenologia de plantas, animais e paisagens em 2007. Recentemente, os pesquisadores da


Monitoramento de plantas com câmeras e programas E-fenologia identifica e quantifica espécies, facilitando o trabalho dos pesquisadores

1

Marcação dos pesquisadores

2

Espécies de interesse

3

MUITAS espécies de interesse POUCAS espécies de interesse

Diariamente são feitas cinco fotos por hora,

Depois é feito o aprendizado do modelo com

No mapa gerado, áreas verdes indicam alta

das 6h às 18h. Os pesquisadores identificam

a espécie de interesse (verde) e de outras

probabilidade de se encontrar a espécie

manualmente as espécies de plantas

espécies (vermelho) como amostras negativas.

de interesse e áreas em vermelho indicam

na imagem capturada pela câmera,

Para validar o modelo, espécies desconhecidas

o contrário. Assim, é possível reduzir a área

marcando-as com uma mancha branca

(amarelo) são submetidas ao software

analisada para encontrar novos indivíduos

identificação automática de indivíduos na imagem. “A partir de uma determinada espécie de interesse, os nossos programas são capazes de determinar quais outras regiões da imagem contêm indivíduos da mesma espécie, considerando padrões fenológicos e técnicas de aprendizado de máquina”, diz Torres. “A fenologia remota tem várias aplicações, porque é possível monitorar espécies como modelo em uma área com diferentes graus de fragmentação em escala muito maior do que a feita hoje”, diz Patrícia. Como os dados meteorológicos também são diários, é possível fazer análises coordenadas, o que não ocorria antes. “Estamos trabalhando agora para mostrar a relação das mudanças foliares com as do clima.”

putação foi desenvolvido um aplicativo para smartphone que vai permitir aos biólogos anotar suas observações em campo diretamente no celular, no lugar do papel. “Os dados vão nascer de maneira digital, o que vai facilitar o processo de inserção no nosso banco de dados”, diz Torres. São diferentes estratégias para o aplicativo que serão testadas em campo neste semestre, para avaliar qual é mais efetiva. Outra vertente do trabalho, chamada de prospecção de séries temporais, identifica, por exemplo, o ponto de corte de uma mudança. “Procuramos saber se a variação do verde de uma espécie está relacionada, por exemplo, a aspectos climatológicos como a ocorrência de chuvas”, diz. Também são parceiros no projeto a Universidade Federal do Rio Grande do Sul, a Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais e a Universidade de Lorraine, na França. n

fonte  Jurandy almeida/unicamp

das câmeras com os dados de observações fenológicas no solo”, diz Patrícia. Além disso, como nos trópicos não há estações bem definidas, as mudanças de fase se dão de maneira suave. Já nos climas temperados é mais fácil perceber as mudanças, a exemplo da coloração das folhas de árvores ou da queda de folhas. “Nas regiões temperadas, estudos já demonstraram que os ciclos fenológicos de plantas são afetados pelas mudanças climáticas, mas até o início do projeto e-fenologia não havia iniciativas voltadas para o entendimento desses ciclos nas regiões tropicais”, diz Torres. A informação da cor das plantas é extraída a partir dos canais de cor RGB (vermelho, verde e azul) da imagem coletada pela câmera digital. “A análise e o processamento de imagens para a extração da porcentagem das cores são feitos na Unicamp, com apoio dos pesquisadores da Unesp”, diz Torres. Como no cerrado existem duas estações bem marcantes, a seca e a úmida, ao longo de um determinado período de tempo é possível ver a variação de cor desses canais. Na estação seca, por exemplo, como as folhas adquirem uma tonalidade que vai do marrom ao avermelhado, há um aumento no canal do vermelho. O grupo de pesquisa da Unicamp desenvolveu algoritmos e novas técnicas baseadas em processamento de imagens e visão computacional que permitem a

Aplicativo no campo

Uma nova representação dos aspectos fenológicos de plantas em imagens foi mostrada em artigos científicos que serão apresentados em conferências internacionais. “Decodificamos as informações de várias imagens feitas por um longo período de tempo em uma única imagem, chamada de ritmo visual fenológico”, diz Torres. “A ideia é que, em vez de processar toda a coleção de imagens para extrairmos padrões cíclicos, com uma representação mais simples e compacta conseguimos oferecer informação equivalente.” Em colaboração com pesquisadores da área de interface do Instituto de Com-

Projeto E-fenologia: aplicação de novas tecnologias para monitorar a fenologia e mudanças climáticas nos trópicos (nº 2010/52113-5); Modalidade Auxílio Regular a Projeto de Pesquisa – Programa de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas Globais – Convênio FAPESP/Microsoft; Coord. Leonor Patrícia Cerdeira Morellato/Unesp; Investimento R$ 331.023,44 (FAPESP).

Artigo científico ALMEIDA, J. et al. Applying machine learning based on multiscale classifiers to detect remote phenology patterns in cerrado savanna trees. Ecological Informatics. versão on-line, 4 jul. 2013.

pESQUISA FAPESP 210  z  71


Engenharia y

Leveza na trilha Estudo gera conhecimento para pneu que compacta menos o solo agrícola Marcos de Oliveira

É

inevitável, máquinas agrícolas deixam trilhas com os pneus quando estão em atividade nas áreas de cultivo. Além das marcas no chão, o peso de tratores e colhedoras, entre outros veículos, provoca a compactação do solo. Um problema antigo que no mundo atual da agricultura de precisão e da alta produtividade precisa ser minimizado em benefício do melhor aproveitamento da terra. A partir da demanda de produtores e fábricas de máquinas agrícolas, a Pirelli decidiu enfrentar o problema e chegou a formular uma nova linha de pneus agrícolas, que garante uma melhor distribuição de tensões no solo e redução na compactação, depois de ter realizado estudos em parceria com a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). O desafio começou no Centro de Pesquisa e Desenvolvimento, em Santo André, na Região Metropolitana de São Paulo, onde, sob a coordenação do engenheiro Argemiro Costa, gerente de Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) para a América Latina, verificou-se a necessidade de conhecer melhor o solo para que a empresa pudesse desenvolver novos pneus agrícolas. “Modelagem de solo não é competência da Pirelli. Aproveitamos um convênio 72  z  agosto DE 2013

O pneu agrícola é produzido com compostos de borracha mais resistentes a laceração e corte porque trabalham em ambiente com pedras e caules cortados

que temos com a Unicamp há 15 anos e buscamos contato com a Feagri [Faculda­ de de Engenharia Agrícola] e a Facul­dade de Engenharia Mecânica [FEM] para obtermos mais conhecimento sobre o tema”, diz Costa. Os estudos começaram em 2008 e foram escolhidos dois alunos do quarto ano, Luís Alfredo Barbosa, da Feagri, e Thiago Henrique Rodrigues, da FEM, que receberam bolsa de estudo da empresa até o mestrado, no período de um ano e meio. “A empresa nos procurou com dúvidas de como acontecia a interação do pneu na compactação do solo. E aí propusemos ensaios na caixa de solo do nosso laboratório”, diz o professor Paulo Graziano, da Feagri. “A compactação do solo é um problema sério devido ao alto índice de mecanização. Atualmente, ela é mais grave nas plantações de cana-de-açúcar, onde as máquinas são muito pesadas, com 20 toneladas ou mais”, diz Graziano. “Por necessitar passar por todas as entrelinhas com aproximadamente 0,8 metro [m] de largura, espaçadas por 1,5 m, cerca de 60% da área é atingida pelos pneus ou esteiras dos equipamentos de colheita ou transporte. Nessa configuração de plantio trafegam 32 pneus durante o ciclo de produção da cana.” Um dos veículos

Diâmetro 1,172 m


Pneu desenvolvido já com o conhecimento do solo. Ele tem desenho da banda de rodagem, curvatura e barras diferentes dos anteriores (ver desenho na próxima página)

Um dos itens modificados dos novos pneus é o número maior de barras e o espaçamento entre elas

Pneu agrícola precisa ter boa tração e não acumular terra e pedras entre as barras

eduardo cesar

5,58 cm

pESQUISA FAPESP 210  z  73


usados nessa cultura e que prejudica bem o solo é o transbordo, uma espécie de vagão aberto puxado por tratores. Eles trabalham ao lado das colhedoras na remoção e transporte do material colhido até o pátio de transbordo onde a cana cortada é transportada para as usinas em caminhões. “Cada transbordo carregado pode pesar mais de 15 toneladas, sendo geralmente utilizados dois desses veículos puxados por um trator”, diz Graziano. Ele explica que a compactação do solo reduz os espaços vazios e dificulta o movimento de ar e1 água no solo, necessários para o melhor desenvolvimento das plantas. Sem essas boas condições, a produtividade diminui. “Fizemos experimentos com alguns pneus que mostraram a deformação e o nível de compactação do solo e até em qual profundidade ocorrem alterações. Também foi verificado em qual região do pneu o efeito é mais evidente”, diz Graziano. Os experimentos foram realizados em uma caixa de solo do Laboratório de Máquinas Agrícolas e Agricultura de Precisão da Unicamp. Ela é construída em alvenaria com 12 m de comprimento, 2 m de largura e 1,5 m de profundidade. Sobre ela corre uma estrutura de aço com uma série de equipamentos tanto para preparar o solo

1

dentro da caixa como para movimentar o pneu e exercer a pressão necessária para os ensaios. A caixa foi preparada com solo de textura média, segundo o Sistema Brasileiro de Classificação de Solos, seguindo uma metodologia desenvolvida no próprio laboratório. O pneu foi montado sobre a estrutura de aço e foram aplicados dois níveis de carga, correspondentes a 55% e 100% da capacidade do modelo de pneu agrícola da Pirelli utilizado no experimento. Recursos digitais

Nos testes foram realizados ensaios tanto com o pneu parado como em movimento e observadas as deformações vertical e lateral do pneumático e do solo com a ajuda de instrumentos e sensores instalados na caixa usada para os experimentos. Também foi feita uma análise laboratorial para a obtenção dos parâmetros do solo empregado, realizada no Laboratório de

2

Solos da Feagri. Toda a área de contato foi mensurada por meio de recursos gráficos digitais. Depois de analisados, os dados obtidos foram repassados para a equipe da Faculdade de Engenharia Mecânica, sob a coordenação do professor Euclides Mesquita Neto, e serviram de parâmetros iniciais para caracterização do modelo numérico. Eles mostraram por meio de modelagem matemática a interação entre o pneu e o solo, indicando a região de compactação e a extensão da profundidade. Foram feitas duas associações, de compactação e da movimentação do solo. “Quando o pneu inicia o contato com o solo, as barras [grandes saliências no pneu] ou gomos movimentam a terra, mas não compactam, somente depois dessa movimentação é que ocorre a compactação”, diz o engenheiro Igor Zucato, chefe de desenvolvimento de produto agrícola da Pirelli. Ele explica que a produção de um novo pneu exige uma série de parâmetros. 3

Acima, modelo computacional mostra o resultado captado por instrumentos e sensores da interação entre pneu e solo. Ao lado, em vermelho, as partes mais profundas no solo. Na outra página, trator puxa transbordos em plantação de cana 74  z  agosto DE 2013


Imagens  1 e 2 Feagri-FEM / Unicamp 3 Pirelli 4 Eduardo cesar

“São curvaturas muito complexas, ângulos de posicionamento das barras, se maiores ou menores, no sentido longitudinal ou transversal. Junto a tudo isso existe a característica dos pneus agrícolas que não podem patinar em demasia, precisam de uma excelente tração, além de serem produzidos com compostos de borracha muito resistentes a laceração e corte por trabalhar em A parceria ambientes com muiresultou na tas pedras e caules cortados que podem geração de perfurar o pneu”, diz Zucato. conhecimento “A n t e s d o t e s t e ima­g inávamos que que foi aplicado aumentando a área em nova de contato do pneu com o solo diminuilinha de pneus ria a compactação, o que não é verdade coagrícolas mo foi demonstrado.” O que interessa para o pneu é a distribuição 4 de peso e qual ângulo, profundidade, espaçamento e número de barras, e se serão e características. Agora o conhecimento melhores de acordo com o modelo e má- do solo foi incorporado. “O trabalho com quina que ele vai servir. “Esses dados vão a Unicamp resultou na geração de codeterminar a interação com o solo”, diz nhecimento que já é aplicado em vários Zucato. Para chegar aos novos pneus, a produtos. Não somente em um pneu”, empresa utiliza a simulação em siste- diz Zucato. Contribuiu para isso a conmas computacionais, muitas vezes em tratação pela Pirelli dos dois alunos da supercomputadores, antes de fazer o Unicamp participantes do estudo. “O Luís primeiro protótipo. “Nós utilizamos há Alfredo, que trabalhou diretamente na 25 anos modelos matemáticos com o uso caixa de solo trouxe bastante informade softwares de mercado e desenvolvidos ção, principalmente na interação e no por nós aqui no Brasil ou na matriz da comportamento do solo”, diz. Alfredo empresa em Milão, na Itália”, diz Costa. ficou dois anos na Pirelli e depois preferiu O centro de P&D brasileiro da Pirelli fazer o doutorado e trabalhar no Laboraé o segundo maior entre oito existentes tório Nacional de Ciência e Tecnologia do no mundo, só perdendo para o italiano. Bioetanol (CTBE), também em Campinas. “A área de pesquisa em pneus agrícolas só existe no Brasil onde desenvolvemos desempenho em tração produtos para todo o mundo”, explica Com os novos dados, a Pirelli desenvolZucato. Com forte apelo agrícola, o Bra- veu uma linha de pneus que já possui sil produziu, em 2012, 807 mil pneus para o conhecimento de solo agregado. Um esse tipo de uso, número que representa deles, o primeiro a ser lançado, já está um pouco mais de 1% de todos os pneus sendo usado em transbordos de cana-defabricados no país segundo a Associação -açúcar. “Ele apresenta um desenho da Nacional da Indústria de Pneumáticos banda de rodagem, um tipo de curvatu(Anip). O aumento em relação a 2011 foi ra e quantidade de barras diferentes da de 1,6% em relação ao ano anterior. Nos configuração utilizada antes do estudo. O experimentos computacionais, a Pirelli novo pneu possui mais desempenho em faz os pneus receberem todo tipo de car- tração em relação aos anteriores, além ga em diferentes simulações de desenho de apresentar alta taxa de limpeza”, diz

Zucato. A limpeza é o não acúmulo de terra e pedras entre as barras do pneu. “Chamamos a linha desses pneus que possuem baixa compactação de high flotation porque distribuem melhor o peso. Estamos preparando para lançamento em breve uma linha de pneus agrícolas que já terá também o conhecimento agregado em relação à compactação do solo.” A parceria da Pirelli com a Unicamp mostrou assim vários benefícios. “Nesse tipo de estudo todos ganham, nós porque obtivemos um conhecimento que não tínhamos e acreditamos que a universidade obteve maior aprofundamento na área conhecida como terramechanics, ou terramecânica, que estuda a relação entre solo e veículos. Também dispusemos, porque a interação aconteceu dentro do princípio da inovação aberta, todos os dados para outros estudos ou empresas. A Petrobras, por exemplo, pode vir a ser uma beneficiária em relação ao contato entre cabos submarinos e o fundo do mar porque a interação com o solo é similar”, diz Costa. Um artigo científico está sendo preparado pelo professor Paulo Graziano para ser publicado em uma revista especializada. n pESQUISA FAPESP 210  z  75


humanidades   relações exteriores y

Gosto pela diplomacia Cresce o interesse de brasileiros pelos rumos da política externa Carlos Haag

M

esmo com um papa argentino, os brasileiros acreditam que o país está muito bem colocado no plano internacional e nem precisa do trono de São Pedro para se projetar: 85% afirmam que o Brasil conseguiu firmar uma imagem de independência perante o mundo. Aliás, o fato de o pontífice vir de uma nação vizinha impressiona pouco, pois menos de 20% dos brasileiros se consideram latino-americanos ou sul-americanos. Além disso, pode-se admirar o lado espiritual, mas cerca de 85% dos brasileiros se animam mesmo é com os resultados econômicos da globalização e com os efeitos da abertura comercial. Esses são resultados da pesquisa Brasil, as Américas e o mundo, coordenada pela professora Maria Hermínia Tavares de Almeida, com uma equipe do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo (IR-USP) composta também pelos professores Janina Onuki e Leandro Piquet Carneiro, e que contou com apoio da FAPESP. Segundo o estudo, cada vez mais cresce o interesse nacional pela política externa, na contramão de consensos passados. “Não se pode mais falar de uma suposta indiferença das lideranças e da população e, apesar do Ministério das Relações Exteriores continuar ocupando uma posição central no comando da política externa do Brasil, é um engano continuar a pensar que o Itamaraty seja um caso 76  z  agosto DE 2013


Projeção internacional dos países no futuro Porcentagem dos que acham que os países terão um papel mais importante nos próximos 10 anos 96% 97% 96%

China Índia

73%

Brasil África do Sul

39%

ilustrações catarina bessell

49% 33% 28%

Alemanha Japão

15%

Estados Unidos

15% 15%

92% 92% 88%

50% 57%

30%

Rússia

88% 94%

62%

64%

26% 29%

n  Elites 2010

49%

n  Elites 2008 n  Elites 2001

bem-sucedido de insulamento burocrático”, explica a pesquisadora. O estudo é parte do projeto colaborativo Las Américas y el mundo, capitaneado por pesquisadores do Centro de Investigación y Docencia Económicos (Cide – México) e reúne vários países latino-americanos para analisar a ligação entre a opinião pública e temas centrais de política externa e relações internacionais. “Esse estudo é uma resposta às necessidades crescentes de informação numa área estratégica para o desenvolvimento e estabilidade dos países da região que em geral acabam dependendo de dados pouco confiáveis e dispersos. Num contexto democrático, os tomadores de decisões precisam contar com as informações sobre o que pensam os cidadãos para desenhar suas políticas externas”, afirma Guadalupe González González, diretora-geral do projeto do Cide. “O Brasil, no novo cenário mundial, aumentou seu peso dentro e fora da região, se posicionando como o agente de ligação latino-americano com o grupo dos Brics de economias emergentes (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), e o principal propESQUISA FAPESP 210  z  77


motor da cooperação Sul-Sul e da integração sul-americana”, analisa a pesquisadora, para quem Brasil e México se configuram como os líderes potenciais da região latino-americana.

Comunidade de Política Externa: possibilidades de inserção internacional do Brasil Integrar um bloco transatlântico 7,5% (Acordo Mercosul-União Europeia)

N

esse novo quadro, para Maria Hermínia, a política estatal para pensar o país e o mundo não pode mais depender apenas da capacidade e disciplina duma elite burocrática como a do Itamaraty, mas também do consenso sobre o mundo e do lugar do país nele por parte de uma comunidade mais envolvida na discussão política. Apesar do crescimento do número de interessados em discussões de questões internacionais, que os pesquisadores denominam de público interessado e informado (PII), o papel ativo na contribuição de ideias cabe à chamada comunidade de política externa (CPE): há um grande diferencial entre o interesse dos seus membros (91%) mesmo se comparado com o PII (22%). No público “comum”, os quesitos “pouco” e “nenhum” interesse chegam a, respectivamente, 25% e 20%. Em boa parte isso decorre do pouco contato do público comum com o exterior: 88% nunca saíram do país. No caso da amostra brasileira, foram entrevistados 200 líderes políticos e sociais e uma amostra aleatória de 2.400 pessoas representativa da população urbana brasileira entre o final de 2010 e 2011. A equipe pretende repetir a pesquisa em 2014 para comparar os resultados. “Ninguém havia feito uma pesquisa com o público até então. A novidade é revelar que não se pode mais falar numa política externa insulada no MRE ou na Presidência. Embora não tenham impacto eleitoral, não significa que as relações internacionais não sejam importantes para as pessoas e tema de discussões”, diz Maria Hermínia. Mas a pesquisadora avisa que os resultados mostram percepções e não necessariamente verdades. “Basta ver o entusiasmo exagerado com o papel do Brasil no mundo ou a visão de que países desenvolvidos não vão ter importância no futuro, uma aposta algo exagerada nos emergentes”, fala. Prova disso é a comparação entre os dados obtidos nessa pesquisa recente com os conseguidos pelo cientista político Amaury de Souza (falecido em 2012), nas duas versões da pesquisa O Brasil na região e no mundo: percepções da comunidade brasileira de política externa que fez para o Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri) nos anos de 2001 e 2008. Para se ter ideia de como a percepção da CPE cresceu, em 2001, 74% acreditavam no crescimento do papel internacional do Brasil em 10 anos; em 2008, o percentual passou para 85%; e, agora, em 2010, chegou aos 97% de visões otimistas. Esse otimismo se estende também ao cenário internacional como um todo. “O otimismo cresce com a informação e o interesse pelas 78  z  agosto DE 2013

Integrar um bloco 9% sub-regional (Mercosul) Integrar um bloco regional 10,6% (América do Sul) Privilegiar a negociação de acordos 28,6% bilaterais de livre-comércio Priorizar negociações 36,2% multilaterais na OMC Outras 15,6%

Quanto você acredita que a atração de investimentos beneficia o Brasil? PDD PII CPE

35,4%

39,7% 64,5% 71%

8,5% 3,6% 29,9%

4,1% 2%

20,5% 5,5%

PDD - Público desinformado e desinteressado PII - Público informado e interessado CPE - Comunidade de política externa

questões mundiais. Por isso a CPE mostra altas porcentagens, 85%, de satisfação com a capacidade do Brasil de se afirmar autonomamente na cena internacional”, nota a autora. Já entre o público dos desinteressados e desinformados, essa satisfação cai para 37%.

O

utro dado que chamou a atenção da pesquisadora: menos de 15% dos entrevistados da comunidade e do público informado acreditam que os Estados Unidos serão mais importantes no futuro, enquanto a esmagadora maioria afirma que o futuro pertenceria à China, ao Brasil e à Índia. “Claro que já se pressentia um mundo onde o poder estivesse mais descentralizado, mas eu esperava ao menos da CPE uma visão mais matizada”, analisa Maria Hermínia. Outro fato notável para a pesquisadora é a existência de um consenso entre a comunidade de política externa e o público interessado e informado. Na pesquisa de Amaury de Souza, nos anos de 2001 e 2008, os Estados Unidos ainda eram vistos por 49% dos entrevistados da comunidade de política externa como um ator global respeitável na década seguinte, percentual que caiu para 15% em 2008

n Muito n  Mais ou menos n  Pouco n  Nada


e permanece o mesmo em 2010. Outros países de peso como Alemanha, Rússia e Japão também perderam força como nações importantes para o Brasil, segundo a percepção da comunidade. A queda de 30% no caso americano, a despeito das crises financeiras recentes, observa Maria Hermínia, revela uma percepção pouco realista das relações internacionais e do papel que os EUA e seus aliados ocidentais ainda manterão por muito tempo. Além disso, os EUA despertam atitudes e sentimentos complexos de admiração e desconfiança entre todos os grupos de entrevistados e, ainda que a admiração pelos americanos seja mais elevada entre a CPE do que entre os setores do público, existe uma parcela importante de membros da comunidade de política externa que não gosta deles. “Parece existir um antiamericanismo entranhado nos brasileiros e os dados mostram que ele é inversamente proporcional ao interesse, conhecimento e envolvimento em questões internacionais”, nota Maria Hermínia. Enquanto o país se esforça em se aproximar dos EUA, a comunidade de política externa, na contramão do esperado, ainda mantém ressalvas. Efetivamente o insulamento da política externa vem caindo.“Desde a década de 1990 há indícios im-

portantes na alteração desse padrão tradicional e pressões crescentes para que o processo se torne mais permeável às articulações, interesses e demandas de uma diversidade de outros atores”, observa o cientista político Carlos Aurélio Pimenta de Faria, da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-Minas) e autor do artigo “Opinião pública e política externa: insulamento, politização e reforma na produção da política exterior do Brasil” (2008).

P

ara o pesquisador, a falta persistente de preocupação do Itamaraty com a opinião pública não se liga apenas ao caráter público da diplomacia nacional, mas a uma demanda, até há pouco, muito baixa da sociedade brasileira por maior prestação de contas dos agentes estatais. “Era quase uma delegação da produção da política externa ao Itamaraty que, com a globalização, que fazia as relações internacionais impactarem diretamente na sociedade, estaria se convertendo em abdicação”, nota. Mas, passados os primeiros impactos, o Brasil agora é amplamente favorável à globalização, com a CPE (84%) e o PII (82,1%) muito mais otimistas do que a parcela do público pouco interessada e informada sobre política externa (60%). O mesmo vale para a atração de investimentos como sendo um benefício para o país. A única ressalva é sobre a questão do meio ambiente: 42,2% da CPE considera o livre-comércio bom para o meio ambiente, algo superior aos 58,9% do PII e os 50,3% do público desinformado. “Em função das políticas protecionistas, o país viveu fechado durante muito tempo. Nos anos 1990 isso mudou, abrimos para o mundo e não há volta”, analisa Maria Hermínia. Segundo ela, o ideal que o Brasil está se integrando ao mundo tem apoio quase integral dos brasileiros pesquisados, para além dos discursos que são contrários à globalização. “Essa atitude afirmativa diante do mundo vem do governo Fernando Henrique e foi reafirmada no governo Lula, que deu corda ao otimismo”, observa a pesquisadora. A visão para fora parece não incluir a vizinhança latino-americana e a identidade regional é ambivalente. “A autoidentificação dos brasileiros como latino-americanos sempre foi tênue. A percepção de pertencer a uma nação diferente da dos seus vizinhos, por causa da experiência colonial distinta, língua e trajetória particular como país independente, sempre caracterizou o pensamento das elites e do público de massas”, fala Maria Hermína. Recentemente, a política externa, lembra a professora, definiu a América do Sul, e não a América Latina, como espaço para o exercício da liderança política brasileira. Segundo a pesquisa, apenas um quarto da comunidade de política externa se reconhece como latino-americana, apenas 18,5% pESQUISA FAPESP 210  z  79


como sul-americana e é irrisória a porcentagem daqueles para os quais serem do Mercosul é uma identidade importante (1,5%). A grande maioria (90%) se vê como brasileiros. Isso se reflete, no caso do comércio, diante de várias estratégias de inserção na economia mundial, a CPE privilegia a atuação multilateral na Organização Mundial do Comércio (OMC) e, secundariamente, a realização de acordos comerciais bilaterais, em detrimento de estratégias envolvendo coordenação regional, no âmbito do Mercosul ou da vizinhança sul-americana. Quando questionados em que região o Brasil deve prestar mais atenção no mundo, pouco menos da metade da CPE (48%) e uma parcela ainda mais reduzida do PPI (32,4%) respondem América Latina.

S

obre o papel do Brasil na América do Sul há uma divisão precisa na CPE: metade afirma que o país deveria liderar sozinho e outra metade que deveria compartilhar a responsabilidade com os vizinhos. A maioria (55,1%) do PII pensa que o Brasil deveria liderar. Embora não vejam problemas futuros com os vizinhos, os brasileiros da PII apontam Venezuela (21%) e Colômbia (24,6%) como países como fonte potencial de conflitos. A integração regional, tema importante da agenda internacional, é apoiada por 71,5% da CPE, que quer que ela seja feita de forma aprofundada. Mas quando se vai a fundo nisso os pesquisadores verificaram que o comércio, investimentos e infraestrutura são as dimensões que têm apoio expressivo. Seria até esse ponto que deveriam ir os esforços para aprofundar a integração. “O discurso era de que, justamente por causa dessa distância, o Mercosul era importante para construir uma plataforma de cooperação. Mas os resultados mostram que a região, para o Brasil, é mais uma plataforma para falar para o mundo do que um espaço para manter diálogos ou exercer protagonismo. Essa visão é muito diferente da que se encontrou nas pesquisas feitas em outros países.” Efetivamente, nota Guadalupe González, para a Colômbia, Equador e México o mundo se limitaria quase exclusivamente ao continente onde concentram suas aspirações internacionais e a sua participação internacional. Apenas Brasil e Peru têm uma visão mais global de seus interesses que abarcam outras regiões do mundo, em especial a Ásia, vista como novo motor da economia mundial. Por fim, a surpresa maior da pesquisa feita pelo IR-USP é que o novo interesse vem na forma de um consenso entre especialistas e o público informado. “Assim, apesar de os analistas terem chamado a atenção para uma real ou suposta ‘partidarização’ recente da política externa e, em consequência, para o surgimento de diver80  z  agosto DE 2013

Você acredita que

Em geral, você

o mundo estará

acredita que o mundo melhorou

melhor nos

nos últimos 10 anos?

próximos 10 anos? PDD

44,5%

61,9%

PII

61,1%

69%

CRI

60,5%

44,3%

PDD (Público desinformado e desinteressado) PII (Público informado e interessado) CRI (Comunidade de relações internacionais)

Nos próximos 10 anos os seguintes países irão desempenhar um papel internacional mais importante Estados Unidos Japão Rússia Alemanha África do Sul Índia Brasil China

14,5% 26,1% 30,5% 33% 50% 88% 92% 95,5%


Que palavras descrevem melhor seus sentimentos em relação aos estados unidos Admiração PDD

37,2%

PII

51,4%

CRI

64,1%

gências que indicariam a perda de seu caráter de política de Estado, a verdade é que o consenso no interior da CPE e do PII é muito extenso, como é extensa e significativa a convergência entre os dois grupos”, fala a professora. Naturalmente, observa Maria Hermínia, existem temas mais controversos que afastam os dois, mas, no geral, apesar das críticas abertas às políticas governamentais, a discussão não dividiu os segmentos. “Será necessário verificar isso numa Uma das grandes segunda amostra em 2014 revelações da para confirmar se essa observação procede”, avisa. pesquisa é que Essa proximidade entre as visões das elites e existe um da população informada e interessada vai na conconsenso entre tramão do observado nas as percepções de pesquisas americanas. “Isso indica uma maior poespecialistas e litização do público, ao do público comum contrário do que diz a literatura tradicional, ainda que essa nova posição seja informado e resultado do enraizameninteressado to das percepções geradas dentro da comunidade de política externa, uma opinião formada, de certa forma, de maneira exógena”, analisa a cientista política Janina Onuki, também do IRI-USP e da equipe do projeto. “Mas estudar essa opinião permite entender o grau de consenso social sobre a política externa e perceber que há uma demanda por uma maior abertura do Ministério das Relações Exteriores”, analisa a pesquisadora. No geral, seja por visão própria, seja pelo consenso com a CPE, há uma visão de que o Brasil tem condições de ser um ator global, consequência natural da sua inserção no mundo globalizado. “A parcela mais informada da população apresenta um otimismo que não é muito visto no público que possui meios menos reduzidos de acompanhar os noticiários”, diz Maria Hermínia. “Isso revela um desafio para a diplomacia brasileira: fazer com que o sentimento otimista sobre as ações internacionais passe para uma população que as vê como intangíveis, diante de uma situação econômica mais próxima que desnorteia os cidadãos”, avisa a professora. n

Confiança PDD

32,8%

PII

47,1%

CRI

44%

Projeto Brasil, as Américas e o Mundo – política externa e opinião pública 2010 (2010/06356-3); Modalidade Linha Regular de Auxílio a Projeto de Pesquisa; Coord. Maria Hermínia Tavares de Almeida/USP; Investimento R$ 242.291,24 (FAPESP).

pESQUISA FAPESP 210  z  81


história y

Em busca da “guerra boa” dos pracinhas Historiadores advertem que a FEB deixou legado de cidadania

H

á exatos 70 anos, no dia 13 de agosto de 1943, foi criada a Força Expedicionária Brasileira (FEB). As tropas saíram para o combate no dia 2 de julho de 1944. Pouco antes de o navio-transporte General Mann partir, com 5.075 soldados a bordo, Getúlio Vargas despediu-se dos “pracinhas”: “Soldados da Força Expedicionária. O chefe do governo veio trazer-vos uma palavra de despedida, em nome de toda a nação. O destino vos escolheu para essa missão histórica de fazer tremular nos campos de luta o pavilhão auriverde. É com emoção que aqui vos deixo os meus votos de pleno êxito. Não é um adeus, mas um ‘até breve’, quando ouvireis a palavra da pátria agradecida”. No retorno, em 1945, a promessa não foi cumprida. “A gestão da desmobilização dos pracinhas foi politicamente conservadora a fim de evitar a participação dos expedicionários nos conflitos de poder do Estado Novo com um progressivo esquecimento social dos expedicionários. Os veteranos foram abandonados pelas autoridades civis e militares e a legislação de benefícios foi apenas praticamente ignorada e houve uma apropriação crescente dos benefícios destinados apenas aos combatentes por não expedicionários”, explica o historiador Francisco César Alves Ferraz, da Universidade Estadual de Londrina e pesquisador visitante da University of Tennessee. Ferraz trabalhou a reintegração social dos pra82  z  agosto DE 2013

cinhas em A guerra que não acabou (Editora da Universidade Estadual de Londrina, 2012) e, mais recentemente, nas pesquisas A preparação da reintegração social dos combatentes estadunidenses da Segunda Guerra Mundial (1942-1946) e A reintegração social dos veteranos da Segunda Guerra Mundial: estudo comparativo dos ex-combatentes do Brasil e dos Estados Unidos (1945-1965). Segundo o pesquisador, diferentemente dos ex-combatentes da Europa e da América do Norte, que fizeram de suas expressões públicas movimentos sociais organizados (o que tornou possível a conquista de benefícios e de reconhecimento social), os veteranos, também pelo seu pequeno número, tiveram pouco sucesso em chamar a atenção da sociedade e do aparelho estatal para seus problemas. Ferraz, que analisou a diferença da reintegração dos ex-combatentes americanos e brasileiros, lembra que, já em 1942, foram encomendados estudos, realizados por diversos órgãos do governo dos EUA, Forças Armadas, comissões do Congresso e iniciativa privada. “Um dos resultados mais expressivos foi o conjunto de leis chamado de G.I. Bill of Rights, que concedia estudo técnico e superior gratuito aos veteranos, transformava o governo federal em fiador de empréstimos bancários e concedia auxílio-desemprego e assistência médica gratuita para os que estiveram em serviço ativo em guerra por pelo menos 90 dias.


Acervo Iconographia

A FEB parte para a Itália e soldados se despedem de suas famílias, em foto de abril de 1944

Por isso o Departamento de Guerra americano enviou, em 6 de abril de 1945, correspondência ao general comandante das forças do Exército dos EUA no Atlântico Sul, sob as quais os brasileiros estavam subordinados, alertando para a inconveniência da desmobilização imediata da FEB quando do seu retorno ao Brasil. “Uma vez que é a única unidade do Exército brasileiro, inteiramente treinada pelos EUA, considera-se que tem grande valor como um núcleo para o treinamento de outros elementos do Exército brasileiro e como uma contribuição potencialmente valiosa do Brasil à defesa hemisférica”, observa o documento. O aviso já refletia os rumores, iniciados a partir de março de 1945, de que as autoridades militares brasileiras pretendiam desmobilizar sumariamente a FEB, o que aconteceu efetivamente. “O Exército fez o possível para marginalizar e desconsiderar quem esteve na linha de frente. Havia enorme preconceito e inveja daqueles que estiveram com a FEB. Toda a experiência adquirida foi desprezada, contrariando o conselho dos EUA para que se vissem os expedicionários como

núcleo de um esforço de modernização e renovação do nosso Exército”, analisa o historiador Dennison de Oliveira, da Universidade Federal do Paraná (UFPR), que trabalha o tema, entre outros, na pesquisa atual Reintegração social do ex-combatente no Brasil: o caso da Legião Paranaense do Expedicionário (1945-1980). “Na ânsia de se livrarem da FEB, tida como politicamente não confiável pelo Estado e pelos militares, os pracinhas foram rapidamente desmobilizados sem que tivessem se submetido a exames médicos, que mais tarde seriam fundamentais para que obtivessem pensões e auxílios no caso de doenças ou ferimentos adquiridos no front, lembra o professor. Havia temores políticos: a ameaça que representava para o Exército de Caxias esse novo tipo de força militar, mais profissional, liberal e democrático; o medo de que os oficiais febianos pudessem se tornar o fiel da balança político-eleitoral e fossem cooptados pelos comunistas; acima de tudo, temia-se que os expedicionários, entre os quais Vargas tinha grande popularidade, pudessem apoiá-lo e empolgar a população para soluções diferentes daquelas do pacto conservapESQUISA FAPESP 210  z  83


fotos  Acervo Iconographia

Tomada de Monte Castelo pelo Regimento Sampaio, em imagem de fevereiro de 1945; ao lado, a luta que levou à vitória de Monte Castelo

84  z  agosto DE 2013

dor das elites políticas para a sucessão do antigo líder do Estado Novo. O Comando Brasileiro, no Aviso Reservado de 11 de junho, emitido pelo Ministério da Guerra e assinado pelo ministro Dutra, observava que: “Não obstante reconhecer o interesse do público, fica proibido, por motivo de interesse militar, aos oficiais e praças da FEB fazer declarações ou conceder entrevistas sem autorização do Ministério da Guerra”. Para Ferraz, a proibição de falar sobre o histórico das ações é um ato de censura, não de segurança. O objetivo parece ter sido “quebrar o impacto” da chegada da FEB, evitar as declarações que pudessem embaraçar a instituição militar ou envolvê-la nas questões políticas que fermentavam naquele momento. Isso, segundo ele, fica mais evidente quando se compara com as instruções emitidas ao Grupo de Caça da FAB, enviadas pelo Comando Americano: “Quando você chegar à sua cidade natal, provavelmente a imprensa local desejará entrevistá-lo. Você terá liberdade de falar de suas atividades aos jornalistas, mas não deve especular sobre o futuro de nossas unidades. A guerra continua no Oriente Próximo. Estamos interessados, porém, que a sua história seja contada várias vezes, nos

EUA e no Brasil. Boa sorte no futuro”, assinado Charles Myers, brigadeiro do ar. A FEB não era bem-vinda também por boa parte dos membros do Exército, os militares de carreira que conseguiram, de alguma forma, escapar da ida à guerra. “O envio de expedicionários, os cidadãos-soldados, era motivo de piada nos quartéis. Quando eles voltaram com prestígio popular, muitos sentiram que poderiam ‘ficar para trás’ em suas carreiras e se iniciou uma conspiração surda da maioria que temia ser ultrapassada em suas promoções e cargos”, observa Dennison Oliveira.

F

erraz, na comparação entre americanos e brasileiros, mostra como um dos pontos importantes na reintegração de veteranos dos dois países foi como lidar com o passado, que trazia justamente essas questões políticas associadas aos ex-combatentes. No caso nacional, a última guerra externa em que houve mobilização de jovens que não eram militares regulares foi a Guerra da Tríplice Aliança (1856-1870), cujo retorno à sociedade foi longe do satisfatório, com a maioria dos veteranos indo parar no Asilo de Inválidos da Pátria. “Uma consequência não planejada pelo Império


foi o crescimento da participação ativa de oficiais, inclusive de baixa patente, na política do país. O legado disso foi mais o receio das autoridades pelo protagonismo político dos combatentes do que o reconhecimento dos deveres da sociedade e do Estado com os veteranos de guerra, nota Ferraz. Nos EUA, as mobilizações da Guerra Civil e, em especial, na Primeira Guerra Mundial”, quando os veteranos tiveram suas questões potencializadas com a Depressão e explodiram distúrbios nas ruas americanas, ensinaram as autoridades como fazer a reintegração de seus jovens. “Eles viram que o perfil dos combatentes recrutados influi diretamente na reintegração social: as chances de sucesso na reentrada da vida profissional e da cidadania aumentam com o maior grau de formação escolar e qualificações profissionais. E também quanto mais igualitário e socialmente distribuído for o recrutamento, melhores as condições de uma recepção positiva da sociedade”, explica Ferraz. No caso da FEB, lembra o pesquisador, todo um arsenal de “jeitinhos” foi utilizado para tirar da unidade filhos de classes mais abastadas. Mesmo assim, apesar da maioria pobre e de baixa escolaridade, a força brasileira exibiu uma amostragem melhor que a média do país. “Sargentos, cabos e soldados eram majoritariamente de origem urbana, alfabetizados, e apresentavam robustez e resistência física, a ponto de a FEB precisar confeccionar uniformes maiores que os do fardamento normal do Exército”, observa o historiador Cesar Campiani Maximiano, pesquisador do Núcleo de Estudos de Política, História e Cultura da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), autor, entre outros, de Barbudos, sujos e fatigados: soldados brasileiros na Segunda Guerra (Grua, 2010). “Do total de praças, 80,7% eram originários das regiões Sul e Sudeste do país. Os convocados oriundos do Nordeste, escolhidos por suas ótimas condições de saúde e grau de instrução, eram, na maioria, estudantes que serviram como cabos e sargentos, incorporados para suprir a deficiência de graduados experientes”, nota o autor. Nos EUA, dos primeiros 3 milhões convocados, 47% estavam abaixo dos padrões; entre 1942 e 1943, dos 15 milhões de examinados, 32,4% foram rejeitados por causas físicas ou psiquiátricas e um terço considerado “inaptos para aproveitamento em qualquer grau”. Os americanos queriam apenas o melhor e adotaram critérios rigorosos para isso. A diferença mais gritante, porém, é que não houve distinção de classe no recrutamento para a guerra e um rigoroso controle no sistema de insenções, ao lado de campanha de mobilização da opinião pública, fez com que se recrutassem até o final da guerra mais de 16 milhões de soldados. “Praticamente cada ramo familiar ameri-

cano tinha um combatente entre os seus, o que ajudou na compreensão dos deveres da sociedade para com aqueles que lutaram”, avalia Ferraz.

N

o Brasil, apesar das festas, os A pressa de expedicionários foram rapidesmobilizar damente desmobilizados. “A razão foi política: tanto as autoridaos pracinhas foi des do Estado Novo em decadência quanto as forças políticas de opositão grande que ção temiam o pronunciamento político dos expedicionários, no que eles saíram da poderia ser a repetição do envolviItália com mento político dos militares no século anterior após a Guerra da Tríplice certificados de Aliança”, fala Ferraz. A pressa foi tão grande em acabar com a FEB que os baixa nas mãos pracinhas já saíram da Itália com seus certificados de baixa e quando chegaram ao Brasil já não estavam mais sob a autoridade do comandante da FEB, mas do comandante militar do então Distrito Federal, não exatamente simpatizante dos febianos. “A partir de então estavam à própria sorte. Traumas psicológicos de todo o tipo e rotina da luta de sobrevivência no mercado de trabalho dificultaram o retorno dos milhares de brasileiros que estiveram nos campos de batalha. As primeiras leis de amparo só foram aprovadas em 1947”, afirma Dennison de Oliveira. A maioria

pESQUISA FAPESP 210  z  85


fotos 1 acervo iconographia  2 reprodução / história do brasil nação:1808-2010

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delas não foi sequer cumprida. Algumas, por sua vez, caíram mal entre os ex-combatentes, como o decreto-lei assinado por Vargas em julho de 1945 Se nos EUA que concedia anistia aos militares da houve um FEB, cujo efeito prático foi anistiar aqueles que desertaram no Brasil ao esforço período anterior à campanha militar. Para Oliveira, o ápice foi a chamada de receber os Lei da Praia, assinada em 1949 por Dutra. “De acordo com ela, qualquer retornados como pessoa enviada à ‘zona de guerra’ tia boa geração, nha direito aos auxílios e pensões. A lei incluía vias navegáveis e cidades no no Brasil isso litoral brasileiro que se encontravam nessa ‘zona de guerra’. Assim, seja não aconteceu o soldado que corria perigo e lutava no frio dos Apeninos, seja o bancário que fora transferido para uma cidade litorânea, todos recebiam o mesmo”, diz o historiador. “Claro que nos EUA também houve dificuldades de reintegração, mas houve um esforço da sociedade em receber os milhões de retornados da guerra. Os seus combatentes seriam conhecidos como a ‘boa geração’, aquela que garantiu a vitória contra a barbárie. Para os veteranos brasileiros, esse reconhecimento não aconteceu”, observa Ferraz. Segundo o historiador, a busca por apoio institucional às necessidades dos veteranos levou-os à aproximação 86  z  agosto DE 2013

com as Forças Armadas e, logo, com suas práticas políticas, inclusive o golpe de 1964. Transformados em símbolos e apoiadores do regime militar, viraram alvo dos críticos da ditadura do pós-64. “Ao invés de colocar em questão essa identidade entre Exército, governo militar e FEB, esses críticos preferiram investir contra a memória expedicionária, o que só reforçou os laços entre o Exército e os veteranos”, observa Ferraz.

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ão se pode negar, é claro, que muitos pracinhas apoiaram o regime militar, até porque na primeira geração dos golpistas tinha alguns febianos, como o primeiro presidente do regime militar, Castello Branco, cuja ascensão ao poder deu a esperança aos veteranos de que seriam “vingados”. Mas as memórias desses combatentes revela outras histórias, como verificou o historiador e brasilianista israelense radicado nos EUA Uri Rosenheck, da Emory University, que pesquisou a FEB em Fighting for home abroad: remembrance and oblivion of World War II in Brazil. Entre os seus objetos de estudo estão as memórias dos ex-combatentes e os monumentos que celebram os expedicionários em “espaços cívicos” das cidades. “No caso dos pracinhas, as memórias são apenas lembranças do passado, mas, por meio de um olhar analítico, elas se revelam como instrumentos de crítica política contemporânea. No caso brasileiro, ler as memórias de guerra é ver


foram roubados por seus superiores e que decisões eram arbitrárias e baseadas em que tipo de presente poderiam dar para seus oficiais.

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Ao lado, à esq., desfile de pracinhas na Itália, em 1945; acima, as tropas da FEB são recebidas na avenida São João em 1945

como esses homens desafiavam a ditadura militar e condenavam a política armada”, explica Rosenheck, que passou em revista as 150 memórias escritas sobre a FEB. Segundo ele, apesar de publicamente defenderem as suas lideranças, os cidadãos-soldados criticam os militares. “A maioria das observações tem a ver com a ineficiência do Exército brasileiro, comparado com o similar americano, e o contraste entre os oficiais regulares e reservistas. Critica-se a falta de logística, como eles sofriam no frio por falta de uniformes apropriados, como tiveram que pagar por suas passagens de trem enquanto esperavam para embarcar para o Rio e mesmo a carência de identificações, as dog-tags, que não eram dadas a eles”, conta o brasilianista. As críticas mais ácidas vão para os oficiais do Exército regular, ou seja, o Exército de Caxias em oposição aos voluntários combatentes da FEB. “Eles lembram como esses primeiros tinham percepções antiquadas sobre as relações entre pracinhas e oficiais, sobre a ética e a moral do corpo de oficiais e sobre o profissionalismo em combate real.” Alguns recordam que

mesmo acontecia quando o assunto era racismo. “Em muitas memórias, os soldados se dizem horrorizados com o racismo dos militares americanos, mas em muitos casos nessas memórias se pegam ‘lapsos’ em que se percebe o racismo dos próprios pracinhas. Mas o importante é se perceber que eles preferem atribuir casos de preconceito a ‘ordens de superiores’. Assim, tudo fica como sendo ‘coisa de americano’ ou ‘dos superiores’, separando ‘os soldados’, ‘a FEB’ e por extensão ‘os brasileiros’ dos outros responsáveis por tais atos horríveis, seja pessoas domésticas ou estrangeiras.” Para Rosenheck, as acusações contra comandantes como racistas e incompetentes podem ser entendidas como um ataque implícito sobre as Forças Armadas e seu papel na sociedade. “A crítica não precisa ser explícita para ser efetiva. O fato de que veteranos da maior força de combate militar desde a Guerra do Paraguai critiquem o Exército dá a suas observações credibilidade e força. Tudo está centrado nos militares, não no governo político, na sociedade civil, o que só reforça essa leitura.” Rosenheck também estudou os monumentos dedicados à FEB, com conclusões semelhantes. “Apesar de dizerem que os pracinhas foram esquecidos, há 192 monumentos dedicados à FEB, com 451 mortos, ou seja, quase três monumentos para cada sete mortos”, conta. São construções que não celebram mortos, mas celebram os vivos, os que voltaram, uma visão pouco militarista. As Forças Armadas estão quase ausentes nos textos que acompanham esses monumentos, com escritos que destacam a democracia, a liberdade, o civismo. Dos 192, 120 foram construídos entre 1945 e 1946, e 32 antes da instalação da ditadura militar. São poucos os que mostram soldados (a maioria é de obeliscos) e a representação visual deles não é de combate. “A narrativa não comunica a importância do Exército ou seu papel na construção da nação, mas os valores de uma sociedade civil”, diz o historiador. “Temos que reconhecer que as ligações da FEB com a história militar são importantes, mas há outras narrativas. É preciso criar ligações entre a história da FEB e outros aspectos da história e sociedade brasileira como um todo”, avisa. n Carlos Haag pESQUISA FAPESP 210  z  87


memória

A glória do botânico Há 110 anos João Barbosa Rodrigues publicava livro clássico sobre palmeiras Neldson Marcolin

Barbosa Rodrigues em seu gabinete no Jardim Botânico (s/d): reconhecimento ainda em vida

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oão Barbosa Rodrigues publicou em 1903 Sertum palmarum brasiliensium, um clássico da botânica nacional, sob as melhores condições possíveis. A obra foi impressa em dois volumes em Bruxelas, na Bélgica, com as mais modernas técnicas gráficas. Bancada pelo governo brasileiro, o livro reúne 174 aquarelas e textos do autor em latim e francês com a descrição de 389 espécies de palmeiras (de 42 gêneros) – 166 delas desconhecidas da ciência. Rodrigues tinha 61 anos, era diretor do Jardim Botânico do Rio de Janeiro e acompanhou pessoalmente a impressão. A publicação do livro foi a coroação de uma carreira marcada por polêmicas e pela falta de reconhecimento de outros botânicos. Barbosa Rodrigues (1842-1909) nasceu no Rio de Janeiro e passou a infância no interior de Minas Gerais. Voltou à capital para continuar os estudos e conheceu Guilherme Schüch, o barão de Capanema, também botânico amador, que viria a se tornar mentor, admirador e mecenas de Rodrigues. Em 1870, Barbosa Rodrigues surpreendeu a pequena comunidade científica do Rio ao pleitear verba do governo imperial para publicar um livro com desenhos e descrições de orquídeas. O espanto se deu porque até aquele ano ele era professor de desenho do Colégio Pedro II, sem nunca ter participado do pequeno círculo de pesquisadores da cidade. O pedido desencadeou uma discussão por meio da imprensa sobre sua real competência na área. Ladislau Netto, botânico do Museu Nacional, foi um dos que criticaram abertamente Rodrigues. O livro das orquídeas acabou por não ser publicado naquele ano. Mas o botânico conseguiu ser nomeado para explorar o vale do rio Amazonas em 1872, graças ao patrocínio de Capanema. O objetivo era descrever espécies do gênero Palmarum e corrigir alguns trabalhos de Carl Friedrich von Martius 88 | agosto DE 2013


fotos 1 Acervo do Museu de Meio Ambiente / JBRJ 2 e 3 Sertum Palmarum BRasiliensium / Biblioteca do Senado

feitos sobre a planta no início do século XIX. “Pela primeira vez, o governo brasileiro financiou a viagem de um naturalista brasileiro com o único compromisso de fazer levantamento taxonômico de determinado grupo botânico”, diz Magali Romero Sá, historiadora da ciência da Casa de Oswaldo Cruz da Fundação Oswaldo Cruz, autora de estudos sobre o pesquisador. Rodrigues passou três anos e meio na região. Desenhou e descreveu orquídeas e palmeiras, fez anotações etnográficas sobre a população e escreveu sobre a utilização da flora local na medicina, na culinária e na habitação. Também coletou material arqueológico e geológico e estudou a preparação do curare, um veneno usado por indígenas. Na volta ao Rio, sem emprego, foi admitido como administrador da fábrica de formicida de Capanema, em Rodeio, interior do Rio. Ainda assim continuou sua pesquisa sobre orquídeas. Parte de suas ilustrações

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Dois exemplos de palmeiras desenhadas por Barbosa Rodrigues, em 1873, na Amazônia. Ao lado, a Oenocarpus distichus Mart. O botânico contextualizava a imagem, sempre com algum nativo como referência. Abaixo, detalhes da Oenocarpus bataua, que dá fruto comestível e óleo de qualidade

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foi copiada e incluída na monografia sobre Orquidáceas da monumental flora brasiliensis, de Martius, com autorização de Rodrigues. Apenas em 1996 sua Iconograhie des orchidées du Brésil foi publicada na Suíça em português, inglês, francês e alemão. Em 1882 houve a criação do Museu Botânico do Amazonas e ele foi nomeado seu diretor, sempre por indicação de Capanema. Quando o museu fechou, em 1890, ele se tornou diretor do Jardim Botânico do Rio, onde ficou até morrer. Rodrigues reestruturou totalmente a instituição: impulsionou a pesquisa científica, construiu herbário, biblioteca e reorganizou estufas e viveiros. Também criou o cargo de naturalista viajante e

aumentou o intercâmbio com outras instituições científicas. “Apesar de todo o talento, algumas das críticas feitas a ele por outros cientistas tinham razão de ser”, conta Magali. Antes de anunciar o descobrimento de determinada espécie era preciso compará-la com as coleções disponíveis – ocorre que no Brasil não havia coleções para comparações na época e muitas das espécies descritas por Barbosa Rodrigues já haviam sido identificadas anteriormente. Para Magali, essa falha não desmerece seu trabalho científico como botânico, ilustrador e gestor. “Sagaz, ele soube copiar para o Jardim Botânico o que havia de melhor nas instituições do exterior”, conclui a pesquisadora. n PESQUISA FAPESP 210 | 89


Arte

A novíssima geração de dramaturgos Cursos criados por quatro instituições brasileiras estimulam a revalorização do texto teatral no país Gustavo Fiorati 1

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elson Rodrigues (1912-1980), Plínio Marcos (1935-1999) e Augusto Boal (1931-2009), pasmem, não foram os últimos autores brasileiros a escrever para teatro. Mas quais escritores do gênero se equiparam hoje, em importância, a seus pares fundamentais? Gerald Thomas, Antunes Filho e José Celso Martinez Corrêa? Estes são diretores e não criaram textos senão para suas próprias encenações. Quem se dispuser a procurar com afinco não vai encontrar peças assinadas por eles numa estante de livraria. Eis, portanto, uma questão que ronda a geração de criadores cênicos hoje em atividade: o dramaturgo independente perdeu seu trono? A resposta é: no Brasil perdeu, temporariamente ao menos, e esse fenômeno aconteceu no mesmo período em que companhias e diretores ganharam importância, além de verbas de leis de fomento e de editais públicos. Apostou-se, na última década, e em grande medida, nos textos criados em processos coletivos.    Essa mesma figura, a do autor de carreira-solo, no entanto, busca hoje retomar seu lugar, com 90 | agosto DE 2013

aliados fortes e até então inexistentes: quatro instituições brasileiras criaram, nos últimos seis anos, escolas abarcando quem pretende se dedicar também à escrita solitária, atividade apelidada entre colegas como “dramaturgia de gabinete”. Em 2007 uma parceria entre o Sesi e o British Council tampou um buraco de longa data: simplesmente não havia bons cursos de dramaturgia em São Paulo, nem mesmo nas principais faculdades de artes cênicas do estado, USP incluída. O cenário era similar no Rio de Janeiro. Os poucos autores teatrais que surgiram neste palco árido (Plínio Marcos, por exemplo) foram autodidatas. Pingavam aqui e ali nos workshops ministrados por veteranos. Sérgio Roveri, que ganhou Shell por sua peça A cólera de Boris, por exemplo, fez um curso de poucos dias com Samir Yazbek, autor de O fingidor. Mário Bortolotto aprendeu sozinho e sobreviveu como dramaturgo em boa parte graças ao suporte de sua própria companhia teatral, a Cemitério de Automóveis.   Em 2009, a SP Escola de Teatro, fundada pelo estado de São Paulo, passou a fazer coro com a

Thiago Amaral em O silêncio depois da chuva, do festejado e novíssimo Gustavo Colombini, 22 anos


parceria Sesi-British Council: criou-se também ali, na instituição administrada e dirigida por artistas do grupo Os Satyros, um curso de dramaturgia, com 20 horas semanais ao longo de dois anos. As duas iniciativas tiveram um antecessor: o curso do Centro de Pesquisa Teatral, criado pelo diretor Antunes Filho, no Sesc Consolação, que teve início em 1999, durou pouco mais de cinco anos e não prosseguiu. Cursos menores acompanharam esse renascimento da dramaturgia, em São Paulo, depois de 2010. O Club Noir, pequena companhia com sede na rua Augusta, passou a oferecer aulas em grades de dois a três meses, ministradas pelo dramaturgo e diretor Roberto Alvim. As peças escritas pelos alunos eram, em boa parte, encenadas pelo próprio grupo ali sediado.  

fotos 1 divulgação 2 léo ramos

Pérolas escondidas

O resultado não foi tímido: Zen Salles, 38, Gustavo Colombini, 22, Michelle Ferreira, 31, Lucas Arantes, 27, Ricardo Inhan, 27, e Murilo de Paula, 29, são alguns jovens que saíram desses núcleos. Eles produziram textos, foram encenados e ganharam, em alguns casos, emprego na televisão. Parte da retomada, diz Colombini, que estudou no Sesi-British Council, “tem a ver com o boom das escolas de dramaturgia”. Por outro lado, este ofício, o de escrever peças, espelha-se tradicionalmente no lema “faça você mesmo”, considera ele. “De qualquer forma, acho que a gente está mesmo num momento de revalorização do texto teatral”, conclui. Ele se dedica a um texto para estreá-lo em breve. Em 2011, sua peça O silêncio depois da chuva foi escolhida entre os de colegas de curso para ser produzida com direção de Leonardo Moreira (de Ficção e Ensaio). Revelou-se uma surpreendente pérola, escondida entre centenas de peças de toda a sorte de qualidade em cartaz na cidade de São Paulo – são quase 400 estreias por ano, hoje. A descoberta de talentos, assim, passou a independer da boa vontade ou do espírito de aventura de alguns diretores. “Tenho consciência da importância da instituição, do lugar que estimula a cada ano o compromisso de formação, e não o ato de valorizar dramaturgos por tempo limitado”, diz Marici Salomão, que dirige o núcleo de dramaturgia do Sesi-British Council e ocupa a cadeira de coordenadora do curso de dramaturgia da SP Escola de Teatro. Ela cita o exemplo de Zen Salles, que escreveu a peça Pororoca em 2010, ano em que cursou dramaturgia no Sesi – a extensão é de um ano. A peça foi encenada por um veterano, Sérgio Ferrara. Em 2012, Salles deu um salto e passou a fazer parte da equipe de roteiristas da série televisiva Sessão de terapia (GNT). Em breve, nova produção teatral com texto seu vai estrear em São Paulo, mais uma vez com direção de Ferrara.

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Ana Paula Grande e Bruna Anauate em Existe alguém que nos odeia, de Michelle Ferreira: proximidade com autores ingleses marginais

Prova de que companhias e diretores estão de olho na nova safra de autores é a jovem Michelle Ferreira, ex-aluna do CPT. Ela tem dois textos em cartaz hoje: Existe alguém que nos odeia no Teatro Augusta, com direção de José Roberto Jardim, e Os adultos estão na sala, no Tusp até o fim de setembro, com a Má Companhia Provoca. Os textos de Michelle têm aspectos formais que os aproximam da produção dos autores ingleses marginais. Há traços de teor psicológico nos diálogos, mas a passagem do tempo não obedece ao realismo da turma de brasileiros dos anos 1960 ou da geração anos 1980 de Plínio Marcos. Realismo, aliás, é visto pela nova geração, muitas vezes, quase como traição. Autores ingleses, como Sarah Kane e Harold Pinter, parecem agir como influências diretas sobre essa nova geração, principalmente por causa da fragmentação do conteúdo, também pelos frequentes jogos de elipses temporais, pela economia das rubricas. Muitos fundamentos tratados pelos novos autores desdobram-se a partir de pontos de vista filosóficos. Gilles Deleuze (1925-1995), por exemplo, é bastante citado pela nova geração. Um norte que não pode ser ignorado, diz Salomão, é o das interfaces, “a intersecção entre a dramaturgia e outras áreas de conhecimento, como as artes visuais, a música, a filosofia e o cinema”. Frases ou palavras tentam abarcar não somente o contorno das situações, mas também a dimensão expansiva dos poemas. Vai-se longe. Em alguns casos, especialmente entre alunos de Roberto Alvim, fala-se em “subjetivação do sujeito”. Resumidamente: produz-se peças não com personagens, mas com vozes que transpassam a condição do sujeito. A escuridão, nas encenações propostas para as obras destes jovens autores, deflagra novos caminhos, e a economia de luz tornou-se comum. Chegou enfim, em São Paulo, o dia em que a dramaturgia prescindiu (ou busca prescindir) de um pilar: o próprio sujeito em cena. n PESQUISA FAPESP 210 | 91


conto

Bancarrota mnemônica Evandro Affonso Ferreira

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enho a opinião subjetiva de que perdi a memória. Sou vítima por assim dizer da decrepitude mnemônica in totum. Dois três minutos atrás, ou mês passado, não sei direito, tentei inútil trazer à memória quantos filhos deixei de ter. Digo-repito: esforço infrutífero. Sei que falência mnemônica às vezes é bom, às vezes, ruim – situação dicotômica que só vendo. Gosto de literatura, acho, não me lembro bem. Tenho quase certeza de que gostava de colecionar começos de livros. Por exemplo: Nonada. Sim: Camus. Outro? Hoje mamãe morreu. Ou foi ontem? A-hã: Guimarães Rosa. Acho que cataloguei 200 ou 3.000 primeiros parágrafos de livros famosos, não me lembro direito. Tenho também vaga lembrança de escritor tcheco, parece, morto, Nobel de Literatura, ah: Lobo Antunes, cujo primeiro livro começa mais ou menos assim: Todas as famílias felizes se parecem, cada família infeliz é infeliz à sua maneira. Acho que estava agorinha ouvindo canção de Caetano Veloso, carioca cujo pai foi historiador ilustre, Antonio Candido, autor de Raízes do Brasil, não me lembro direito, sei que a letra dessa música, a que estava ouvindo agorinha, ou foi três meses atrás, não sei, fala de pobre-diabo qualquer que morreu na contramão atrapalhando o tráfego, ou tráfico, apre, deixei escapar da memória. Sei que é triste perder a lembrança das coisas. Semana passada, ou duas décadas atrás, difícil precisar, tentei recordar-me dele meu primeiro beijo. Não consegui visualizar a fisionomia dela garota de onze anos, ou dele, ixe, em certas ocasiões acho que a mnemonização pode comprome-

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ter, ou enriquecer, dependendo do ponto de vista, o próprio currículo – com perdão do trocadilho. Outro dia achei agenda de telefone na gaveta dele meu criado-mudo. Abri página qualquer assim como quem escolhe ao acaso versículo bíblico: Bovary. Liguei. Atendeu um tal de Doutor Charles dizendo que se eu quisesse mesmo saber sobre o paradeiro dela sua ex-mulher (?) que perguntasse para Flouber Espanca, parece, consigo me lembrar de jeito nenhum o nome que ele havia indicado antes de desligar bruscamente – mostrando indisfarçável rancor cornífero, se assim posso dizer. Depois escolhi outro nome também ao acaso, na tentativa de achar parente próximo: Diadorim. Liguei. Atendeu pessoa de voz nitidamente bissexuada, sotaque britânico, acho, repetindo ad nauseam o refrão to be, or not to be, that is the question, parece, não me lembro bem. Sei que achei tudo muito estranho, batendo dessa vez eu mesmo o telefone na cara dessa figura ambígua de indisfarçável androginia. Digo-repito: às vezes chega a ser melancólico perder a memória. Sim: melancolia – estado de viva satisfação, de vivo contentamento, regozijo, júbilo, prazer. Coisa estranha acontecendo agora comigo: estou me lembrando muito vagamente que noutra vida, na Rússia, acho, matei velhota a machadada, cruz-credo, era minha senhoria, parece, não é por obra do acaso que vez em quando tenho pesadelos nos quais aparece sujeito barbudo gritando nele meu ouvido duas palavras que não consigo me lembrar, mas sei direitinho o significado de ambas: delito e punição.


Marcelo Hardt

Acho que sou viúvo: tenho duas alianças no dedo da mão esquerda. Sei que não mora ninguém aqui neste lugar, se é que esta é minha casa: estou vendo ali no armário dezenas de troféus referindo-se a basquetebol, estranho, não consigo me lembrar que eu hoje com um metro e meio já fui muito alto um dia. Não sei, mas acho que seria esquisito perguntar agora para o morador do apartamento vizinho se eu moro no apartamento ao lado. Situação constrangedoramente mnêmica. Outro detalhe: não vejo estante de livros na sala. Será que eu nunca gostei de ler? Não acredito que o motivo pelo qual tenho a vista cansada seja só porque talvez tenha gostado vida quase toda de olhar para trás pra ver regiões glúteas femininas, ou masculinas, não consigo me lembrar agora dela minha preferência sexual. Sei que tenho duas alianças no dedo da mão esquerda. Às vezes sinto vontade de sair pelas ruas desta cidade perguntando para todo mundo: “Você por acaso saberia me dizer quem sou eu ou quem eu sou?” Mas, digo-repito: a bancarrota mnemônica tem vantagens de desvantagens. Só consigo me lembrar de uma vantagem: não sentir saudade. Desvantagem? Idem, idem: não sentir saudade. Consigo me lembrar sob hipótese alguma que idade tinha quando fiz sexo pela primeira vez – tampouco quando fiz pela última vez. Sim: sexo – dormir, conservar-se entregue ao sono, estar adormecido. Acho que estou tendo agora neste exato momento ideia que poderá possivelmente resolver de vez meu problema de identidade: criar uma

autobiografia, inventar para mim mesmo história de vida que nunca aconteceu com ninguém, mas que será minha. Vou anotar aqui neste caderno para nunca mais esquecer. Digamos que foi assim: nasci em 1892, nos confins orientais da Europa, mais exatamente em Drohobycz, que antes da Primeira Guerra Mundial pertenceu ao império austro-húngaro, mas que desde a minha infância é uma cidade da Polônia. Pronto: sou polonês. Este detalhe que vem a seguir não é preciso inventar: sou baixo, tímido, cerimoniosamente irônico. Ah vou dizer que fui escritor, que transformei a banalidade de cada dia num outro universo – onírico, lírico, profético; teatral e barroco, sufocante e delicioso. Numa República dos sonhos. Poderei dar a mim mesmo o nome de Bruno. Poderei ter escrito apenas dois livros... Vou chamá-los de Sanatório e As lojas de canela. Serei por assim dizer o escritor dos escritores. Vou criar para mim mesmo um adorador brasileiro incondicional, também escritor, que escreverá livros esquisitos de nomes ainda mais esquisitos ainda... Digamos: Erefuê, Zaratempô, Grogotó. Sei não, sei não, tenho medo desta história inventada para eu mesmo terminar dolorosamente num campo de concentração... Melhor riscar tudo isso. Outro dia invento outra possível biografia própria.

Evandro Affonso Ferreira nasceu em Araxá-MG, em 1945, e mora em São Paulo há mais de 40 anos. É autor de diversos romances, entre eles Araã!, Erefuê!, Zaratempô, Minha mãe se matou sem dizer adeus e O mendigo que sabia de cor os adágios de Erasmo de Rotterdam.

PESQUISA FAPESP 210 | 93


resenhas

Jogo de espelhos Mariluce Moura

H Por que gostamos de história Jaime Pinsky Editora Contexto 224 páginas, R$ 29,00

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á algo surpreendente de cara, para não dizer mesmo desconcertante, no livro mais recente de Jaime Pinsky. Porque ante o título e as qualificações do autor é fácil ao leitor desavisado se inclinar a crer que tem em mãos um ensaio erudito sobre os fundamentos culturais e psicológicos da atração que exercem sobre tantos as múltiplas narrativas da história – ou sobre as razões históricas do prazer que a maioria experimenta ao acompanhar bem construídas narrativas reais ou ficcionais, recheadas de peripécias e de personagens intrigantes. Mas, longe disso, Por que gostamos de história é uma coletânea de 60 textos curtos organizados sob oito rubricas, escritos com leveza, fluidez e linguagem clara e concisa que é recomendável observar quando se apresentam ideias e se organizam argumentos em sua defesa para leitores de jornal. O historiador experimentado que é Pinsky, autor de mais de duas dezenas de livros, professor titular de história da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), com passagens também pelas universidades de São Paulo e Estadual Paulista (respectivamente USP e Unesp), aqui assume a face do comunicador, do comentarista que se dirige a um público de contornos imprecisos, no qual pode se ocultar tanto um de seus pares quanto um hipotético trabalhador dono de escassa educação formal e ávido por pistas seguras para desvendar o mundo. Daí, talvez, uma certa hesitação ou experimentação do autor a respeito do tom em que é melhor falar a esse público. Essa fala pode ser modulada como conselho de professor: “Se não der para ver mais nada no Louvre, se não der para ver mais nada em Paris, namore a Vitória [de Samotrácia] por meia hora. Depois disso, você nunca mais será o mesmo, pois terá visto uma das maiores obras do gênio humano”, ele diz em “Vale a pena ver museus?” (p. 68). Mas o tom pode também revestir-se de um à vontade próprio de uma conversa entre iguais, papo de intelectuais marcado por referências tranquilas a autores, sem necessidade de explicar quem são a cada passo. A certa altura, por exemplo, em “Como furtar a história dos outros” (p. 40-42), Pinsky observa que Jack Goody, “um dos maiores antropólogos da civilização vivos, reconhecido no mundo inteiro”, mas

ainda “pouco conhecido no Brasil, embora seja tido como uma espécie de Hobsbawm da antropologia”, percebe “certo desprezo pelo Oriente, que já custou e pode ainda custar mais caro ao mundo ocidental”. E completa: “Assim, ele acusa teóricos fundamentais, como Marx, Weber, Norbert Elias, Braudel, Finley e Perry Anderson por esconderem conquistas do Oriente e mesmo de se apropriarem delas em seus escritos”. Em ambos os artigos, ele se dirige originalmente a leitores do Correio Braziliense, no primeiro caso, em setembro de 2005 e, no segundo, em julho de 2008. Aliás, o jornal mais importante de Brasília foi o destino original da maior parte dos textos do novo livro de Pinsky (p. 219-220), que nele estão agrupados pelos subtítulos História, Cultura, Mundo, Povos e Nações, Cotidiano, Educação, Brasil e Família. Uns poucos textos foram veiculados pela Folha de S. Paulo, Jornal da Unesp, História Viva e Revista Um. Todos eles foram publicados entre 2004 e 2013. A notar, nessa espécie de exercício do jornalismo pelo historiador, que Pinsky se mostra, em contrapartida, bem receptivo ao trabalho de historiadores amadores, ainda que declare ser favorável à regulamentação da sua profissão. “Nada tenho contra amadores que ousam adentrar no reino de Clio”, informa. Em seu olhar, “bons livros de divulgação histórica têm sido produzidos por leigos. (...) Cabe ao público e à crítica (ela existe?) avaliar a qualidade do que está sendo escrito” (p. 53). E para isso ele recomenda que alguns acadêmicos saiam mais “de sua confortável torre de marfim” e venham a público comentar as obras lançadas em vez de “ficar resmungando pelos corredores contra este ou aquele jornalista que produziu um livro de sucesso. Seria um diálogo rico e honesto” (p. 53-54). Em tempo: “Por que gostamos de história?” (p .19), com interrogação, é o título do primeiro artigo do livro jornalístico do respeitado historiador Jaime Pinsky, em que se propõe , sem dúvida, um certo jogo de espelhos. E nele o autor nos diz que um dos motivos da popularidade dos livros de história foi explicado por Sófocles há 25 séculos. “Ele dizia que, de todas as maravilhas do mundo, o homem é a mais interessante para os próprios seres humanos” (p. 20).


Números para as artes Joselia Aguiar

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fotos eduardo cesar

Política cultural e economia da cultura José Carlos Durand Ateliê Editorial/ Edições Sesc-SP 184 páginas / R$ 39

statísticas lembram economia, que, por sua vez, se vincula a lucro – visto como ameaça à autonomia da criação. Estatísticas também lembram burocracia e controle estatal – noções que costumam despertar apreensão, dado o histórico de totalitarismo e censura em regimes do século XX. Resumidamente, é como José Carlos Durand explica a grande resistência que os números encontram no campo das artes, em trecho do capítulo “Indicadores culturais: para usar sem medo”, de seu recente Política cultural e economia da cultura. Sociólogo com extensa trajetória de estudos sobre o tema, ele tem defendido a importância de pensar economicamente as artes e a cultura a fim de que sejam adotadas políticas públicas mais justas e eficientes. Em última instância, quem mais se beneficiará dos números são o artista e seu público. Só que antes há de se dirimir um tanto de preconceitos. O livro soma-se a uma ainda esparsa bibliografia sobre esse campo no país, que no entanto tem crescido nos últimos cinco anos. Foi Durand quem incentivou a tradução e prefaciou, em 2007, um dos clássicos da área, A economia da cultura, de Françoise Benhamou, economista francesa que trata da experiência europeia. O que o título de Durand traz de contribuição são dados, análises e propostas para o caso brasileiro. Como nota, só agora a gestão pública de cultura começa a ter atenção, em decorrência da década e meia de estabilidade do país. Além das novas publicações, movimenta cada vez mais encontros, seminários e redes virtuais. Para que servem os indicadores culturais? Ora, como argumenta Durand, para quantificar o setor, sua participação na economia, a contribuição estadual e municipal e o quanto indivíduos gastam com cultura. Esses dados passaram a ser levantados de modo mais sistemático na última década numa iniciativa do Ministério da Cultura (MinC) em conjunto com Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Levantar estatísticas é apenas a ponta de uma nova lógica que inclui também a formação do profissional que vai trabalhar com gestão cultural – para acabar com um quadro de amadorismo que parece romântico mas tem efeito pernicioso – e o estabelecimento de formas inteligentes de financiamento e patro-

cínio, por meio de bancos públicos e agências de fomento e envolvendo tanto agentes do mercado quanto da academia. Os 11 artigos do livro vão então perfazer um percurso que é ao mesmo tempo conceitual, histórico e comparativo. Com abordagem didática e caráter introdutório, atendem sobretudo a quem deseja se iniciar no assunto. A ideia de economia da cultura, como adverte, não deve ser confundida com a de marketing cultural, e hoje, ao incorporar novas tecnologias, abre-se para uma noção que é ainda mais ampla, a de economia criativa. Durand mostra como se transformou o setor no país de 1995 a 2010, analisando ações governamentais e privadas no âmbito da Lei Sarney e, depois, Lei Rouanet. Primeiro, o MinC se restabelece após o que considera como a devastação promovida pelo governo Collor. Será sob orientação liberal que funcionará nos dois mandatos de Fernando Henrique Cardoso, quando o autor identifica certo exagero na concessão de incentivos fiscais para viabilizar parcerias com a iniciativa privada. No governo Lula, o orçamento é maior, assim como o quadro de funcionários, e se configura um modelo notadamente mais inclusivo e voltado às culturas populares. Entre as tendências internacionais, os casos dos Estados Unidos e da França são particularmente abordados, resultado de intensa pesquisa de pós-doutorado de Durand naqueles países. No conjunto de temas tratados, em que se entrelaçam economia e política, há até oportuna incursão ao território da crítica da arte. Num dos capítulos, “Premiações como instrumento de política cultural: uma proposta para a América Latina”, o autor discute o enfraquecimento das instâncias de consagração erudita. Numa região que vive, como define, “tempos de descentramento e multipolaridade”, lembra que a autoridade pública deve fazer valer seu poder de chancelar antes que o mercado multiplique e banalize prêmios e competições. Como ressalta, é preciso olhar atentamente para os artistas que não são vistos por editoras ou gravadoras mas têm talentos que merecem ser reconhecidos. Os números devem, afinal, estar a serviço das artes. Joselia Aguiar é jornalista, mestre e doutoranda em história (USP), concentrando-se em reportagens e estudos no campo da cultura.

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Gestão | Oportunidade

Sempre em movimento

Em 2008, aos 41 anos, Eduardo do Couto e Silva era vice-coordenador de uma equipe de 38 pessoas no Laboratório Nacional do Departamento de Energia (Slac), administrado pela Universidade de Stanford, e tinha sido um dos líderes da construção do telescópio espacial Fermi, que mobilizara centros de pesquisa de cinco países (Estados Unidos, Japão, Suécia, Itália e França). “Aprendi que, para trabalhar em projetos visionários, é preciso não ter medo de arriscar e acreditar que alguma coisa boa sempre vai aparecer”, disse ele. Quando o telescópio se aquietou no espaço, Couto e Silva procurou a diretora do laboratório e disse que precisava de um desafio maior. “Ela e outros diretores acreditaram no meu potencial e me apoiaram. Mais uma vez escolhi o caminho 96 | agosto DE 2013

mais difícil, a construção de um instrumento sofisticado para operar em um laboratório subterrâneo visando à detecção de matéria escura, para o qual ainda não tínhamos financiamento.” Couto e Silva já tinha escolhido o caminho mais difícil ao chegar aos Estados Unidos em 1989 para fazer pós-graduação, depois de ter cursado física na Universidade de Brasília (UnB). Seu plano era seguir na área de matéria condensada na Universidade de Indiana, Estados Unidos, mas uma palestra sobre física de partículas, um campo que lhe era inteiramente novo, o atraiu a ponto de fazê-lo se inscrever em um programa de doutorado no acelerador de partículas da Organização Europeia para a Pesquisa Nuclear (Cern), na Suíça.

“No Cern, além de pesquisador, eu trabalhava como voluntário no museu, principalmente com crianças, e era convidado a participar de reuniões com autoridades dos Estados Unidos para atestar que aquele trabalho de pesquisa no Cern estava dando certo.”

1

Couto e Silva em um laboratório subterrâneo em 2009

fotos 1 acervo pessoal  2 léo ramos  ilustraçãO  daniel bueno

Físico volta ao Brasil depois de 22 anos para trabalhar com políticas públicas


Ele ficou lá até 1999 e depois retornou para os Estados Unidos para trabalhar em astrofísica de altas energias. Em 2012, para espanto dos colegas de Stanford, Couto e Silva resolveu voltar ao Brasil. “Eu via uma institucionalidade emergente no Brasil na área de ciência e tecnologia e achei que poderia colaborar muito com a experiência adquirida no exterior”, disse. Ele pediu demissão ainda sem emprego, mas logo começou a trabalhar como pesquisador visitante no Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE), em Brasília, e se vinculou à UnB como professor colaborador. Refletindo sobre a situação dos cientistas brasileiros no exterior, ele e a socióloga Elizabeth Balbachevsky, da Universidade de São Paulo (USP), escreveram o artigo “A diáspora científica brasileira: perspectivas para sua articulação em favor da ciência brasileira”, publicado em 2011 na Parcerias Estratégicas. “Precisamos trazer mais brasileiros que trabalham em outros países e, ao mesmo tempo, auxiliar os que estão lá fora a ver como podem colaborar com o país.” Depois de trabalhar em um projeto encomendado pela Sociedade Brasileira de Física (SBF) para promover o diálogo entre empresários e físicos, favorecendo o desenvolvimento de projetos conjuntos e a oferta de empregos para físicos (ver Pesquisa Fapesp nº 193, março de 2012), ele agora integra o grupo que apoia a expansão estratégica do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA). A perspectiva de um acordo com o Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) e o ITA o tem feito voltar com frequência aos Estados Unidos. Agora, diz ele, “sabendo como eles pensam, mas me posicionando como brasileiro, para mim é muito gratificante”.

oportunidade

Novas raízes no Brasil Professor iraquiano descobre vocação para a ciência

Não é tarefa fácil localizar em São Paulo um pesquisador iraquiano radicado no Brasil. Mais difícil ainda é encontrar um que tenha descoberto sua aptidão para a atividade científica durante uma passagem por terras brasileiras. “Para falar a verdade, não conheço outro iraquiano que tenha esse perfil além de mim”, reconhece Khalid Basher Mikha Tailche, no momento fazendo um pós-doc pelo Departamento de Línguas Orientais da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (USP). Há 15 anos ele deixou Mosul, onde nasceu, depois de ser convencido por uma prima brasileira a vir para o Brasil dar aulas de inglês, atividade que já exercia no Iraque. Em São Paulo conseguiu emprego no Instituto Roosevelt de Línguas e a visita prevista para não durar muito tempo tomou contornos mais sérios. “Em 2000, um professor da escola de inglês, que fazia mestrado em história na USP, me levou para conhecer a universidade. No ano seguinte decidi me matricular num curso de extensão em tradução

de línguas modernas, como aluno especial”, diz. Novamente, uma escolha sem grandes pretensões levava Taliche para trilhas pelas quais nunca se imaginou caminhando. Entre 2005 e 2007, lançou-se a uma pesquisa de mestrado, sobre uma peça teatral do iraquiano Yousif El-Saigh, motivada por Otelo, de William Shakespeare. Na sequência, em 2008, começou o doutorado, um estudo sobre o pensamento fundamentalista. No ano passado ele concluiu o doutorado, mas não se deu por satisfeito. A ânsia em buscar novos conhecimentos que o conectem às suas raízes árabes o levou ao pós-doutorado, iniciado em maio deste ano. Sua proposta é analisar dois movimentos de sociedades literárias originadas durante a diáspora árabe, por meio da produção de dois escritores: Chafiq Al Maluf (1905-1977), que imigrou para São Paulo, e Mikhail Naimy (1889-1988), que viveu em Nova York. Quando concluir seu pós-doc em 2015, Taliche deseja lançar um livro, para contar sua experiência a jovens universitários. “A qualidade do ensino e da pesquisa caiu muito depois que o Iraque passou por guerras e pela destruição da cidadania. Quero mostrar que é possível alcançar um futuro bem-sucedido ao se optar pela pesquisa científica”, diz Taliche. “Tive que vir para o Brasil para descobrir meu gosto pela pesquisa, por meio da qual posso manter viva a minha relação com o mundo árabe”, afirma. PESQUISA FAPESP 210 | 97


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Ciência em tempo real O conteúdo de Pesquisa FAPESP não termina aqui. Na edição on-line você encontrará vídeos, podcasts e mais notícias. Afinal, o conhecimento não espera o começo do mês para avançar.

RESULTADO DO PROCESSO SELETIVO PARA CONTRATAÇÃO DE DOCENTE – 2013 A ESPM torna público o resultado do processo seletivo para contratação de docente para o Programa de Pós-Graduação – Mestrado em Administração com Concentração em Gestão Internacional.

Acompanhe também: @ PesquisaFapesp no twitter e a nossa página no facebook. Visite www.revistapesquisa.fapesp.br e se cadastre para receber o boletim.

A banca de avaliação dos candidatos do processo seletivo para professor doutor do Programa de Mestrado em Gestão Internacional (PMGI) da ESPM - composta pelos professores doutores: Marcos Amatucci, Thelma Valéria Rocha, Frederico Turolla, Roberto Bernardes, e convidado externo, o também professor doutor Tales Andreassi da EAESP/FGV - decidiu por unanimidade a escolha do professor doutor Mário Ogasavara para preencher a vaga. A Escola agradece a todos os que participaram do processo abrilhantando-o, e, parabeniza o professor Ogasavara, desejando-lhe felicidades em seu novo empreendimento.

www.espm.br/pmgi


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