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Sensor e poltrona anticansaço procuram evitar acidentes de trânsito

fevereiro de 2017 | Ano 18, n. 252

remédios na justiça

Tocas gigantes em MG podem ter sido escavadas por preguiças e tatus primitivos Estudo mostra como a presença feminina diminui ao longo da carreira em filosofia Ancestrais dos índios Jê praticavam agricultura há mil anos Entrevista

Epidemiologista Eduardo Franco concilia ativismo e pesquisa

Como gestores públicos, magistrados e pesquisadores enfrentam o desafio do crescente número de ações para obtenção de medicamentos não oferecidos pela rede pública de saúde

exemplar de assinante venda proibida

n.252

> Memória  Médicos italianos contribuíram para pesquisa em São Paulo


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R E V I S TA C U LT. C O M . B R 11 3 3 8 5 3 3 8 5 • 11 9 5 3 9 4 5 0 4 9

W H AT S A P P

A S S I N E C U LT @ E D I T O R A B R E G A N T I N I . C O M . B R

PERIDIOCIDADE MENSAL

A MAIS LONGE VA RE VISTA DE CULTUR A DO BR A SIL SÓ TOMA UM PARTIDO: O DA INTELIGÊNCIA


fotolab

A beleza do conhecimento em imagens

Sua pesquisa rende fotos bonitas? Mande para imagempesquisa@fapesp.br Seu trabalho poderá ser publicado na revista.

Morte subaquática Caveiras costumam ser uma imagem lúgubre, e este caso não é exceção. Esta denuncia uma batalha letal microscópica em amostras da água de açudes no interior do Piauí. São rotíferos Lecane parasitados por Myzocytiopsis zoophthora, uma espécie de fungo zoospórico – organismos cujos esporos flagelados se parecem com animais na forma como se movimentam. Os círculos nos corpos degradados dos rotíferos são oósporos, estruturas sexuais dos fungos. A presença dos parasitas influencia a dinâmica de populações, visto que os rotíferos são alimento para diversos invertebrados aquáticos.

Imagem enviada pelo biólogo Ribamar Rocha, professor do Centro de Ciências da Natureza da Universidade Federal do Piauí

PESQUISA FAPESP 252 | 3


fevereiro  252

POLÍTICA C&T 32 Gênero Presença de mulheres na filosofia diminui no decorrer da carreira acadêmica 36 Universidade Sistema de avaliação da USP integra projetos de docentes aos de departamentos e unidades 40 Ambiente Longe das metas propostas, movimento pela recuperação da Mata Atlântica se reorganiza 43 Cosmologia Novo radiotelescópio vai estudar fenômenos ocorridos logo depois do Big Bang CIÊNCIA 50 Virologia Zika gera instabilidade gênica nas células neurais CAPA Pesquisadores e gestores propõem estratégias para lidar com a judicialização da saúde p. 18

Ilustração da capa Augusto Zambonato

52 Neurociência Região da amígdala controla o comportamento agressivo do predador

54 Zoologia Análise genética revela parentescos inusitados entre os ratos-de-espinho 58 Paleontologia Extintos há 10 mil anos, preguiças-terrícolas e tatus gigantes podem ter construído as maiores paleotocas do mundo

HUMANIDADES 84 História Setor elétrico paulista surgiu da união de pequenas companhias criadas no século XIX

62 Física Laser aleatório abre caminho para microchips de baixo custo para exames médicos TECNOLOGIA 66 Realidade virtual Lasers e imagens 3D ajudam a reconstruir digitalmente o patrimônio histórico 70 Bioengenharia Para tentar evitar acidentes, poltrona alerta motorista contra o sono 74 Pesquisa empresarial Rhodia investe em  química sustentável

ENTREVISTA Eduardo Franco Epidemiologista concilia atuação em campanhas contra o HPV e pesquisa sobre câncer de colo de útero p. 26


www.revistapesquisa.fapesp.br No site de Pesquisa Fapesp estão disponíveis gratuitamente todos os textos da revista em português, inglês e espanhol, além de conteúdo exclusivo

SEÇÕES 3 Fotolab

vídeos do mês youtube.com/user/pesquisafapesp

6 Cartas 7 Carta da editora

Fisiologia Entre ratos, tendência a ganho de peso pode ser transmitida para filhos e netos p. 46

Arqueologia Há mil anos, ancestrais dos índios Jê eram agricultores e sedentários p. 78

8 Boas práticas Instituições se unem em projeto de inovação responsável na Europa 11 Notas 88 Memória Médicos italianos tiveram impacto no ensino e na pesquisa da medicina em São Paulo

Antropólogo Emilio Moran fala sobre desmatamento na Amazônia bit.ly/vPerfilMoran

92 Resenhas As edições do cânone – Da fase buarqueana na coleção História Geral da Civilização Brasileira (1960-1972), de André Carlos Furtado. Por Thiago Lima Nicodemo Novos poemas, de Carlos Vogt. Por José de Souza Martins

94 Carreiras Universidades investem na promoção de uma cultura de propriedade intelectual entre pesquisadores 98 Perfil  Estudos feitos no Brasil levaram o químico Gustavo Costa a se estabelecer como cientista da Nasa

Improvisação livre valoriza a criatividade dos intérpretes bit.ly/vImprMusic

rádio  bit.ly/PesquisaBr Psicólogo André Constantino Miguel explica ensaio clínico que avaliou o desempenho de técnica motivacional para reduzir o consumo de crack entre dependentes bit.ly/PBrCrack


Conteúdo a que a mensagem se refere:

comentários

cartas@fapesp.br

Revista impressa

Ciência da cerveja

pesquisa_fapesp

Ver uma revista do porte da Pesquisa FAPESP colocar na capa uma ode à cerveja (“Inovações cervejeiras”, edição 251) mostra que a ciência brasileira está totalmente des­ norteada. Justamente por ser a bebida alcoó­ lica mais popular do Brasil, é a que mais des­ trói lares pelo vício do alcoolismo, mais mata nas estradas e mais causa inúmeras interna­ ções no Sistema Único de Saúde (SUS) por cirrose hepática e suas complicações. A pu­ blicidade ao redor de cerveja e outras bebidas alcoólicas é inaceitável e mais ainda o é haver dinheiro público envolvido em projetos de “melhoramento” da bebida!

Pesquisa Fapesp

Dario Palhares

Pesquisa Fapesp

Galeria de imagens Vídeo Rádio

contatos revistapesquisa.fapesp.br redacao@fapesp.br PesquisaFapesp PesquisaFapesp

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6 | fevereiro DE 2017

Brasília, DF

Foram bastante abrangentes na reporta­ gem e ficou ótima! Um mergulho profun­ do no mundo cervejeiro. Rodolfo Mazarin

Quando ciência e cerveja estão na mesma revista temos de adquirir. Deivid Souza

Mutum-de-alagoas

O mutum-de-alagoas é a ave-símbolo do estado em que eu moro, mas infelizmen­ te é pouco conhecida pela maioria do povo alagoano (“A gaiola que salva”, edição 251). Espero que um dia essa ave volte a povoar as florestas do Nordeste e que seja devidamen­ te protegida.

Erivelto Souza

Megajournals

Excelente a reportagem “O duelo dos me­ gajournals” (edição 250). Esse modelo de megaperiódicos tende a colapsar pela ganância do lucro excessivo. À medida que aceitam mais artigos, aumentam o lucro e pioram a qualida­ de. E bons cientistas não querem publicar em um periódico que não tem atrelado a ele um fator de qualidade... Ainda mais quando se tem de pagar US$ 1.500 de taxa de publicação. O que está acontecendo com a PLOS One deve acontecer em breve com a Scientific Reports. Dario Zamboni

É só o começo. Espero pelo momento em que os lucros serão menos importantes do que os achados, e mesmo blogs, contendo ma­ terial de qualidade com revisão por pares, te­ nham igual valor aos hoje onerosos open access. Rubens do Monte

Correções

Na reportagem “Inovações cervejeiras” (edição 251), o nome completo e correto do Ministério da Agricultura é Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. O mapa das páginas 77 e 78 da reportagem “Nas ondas da globalização” (edição 226) foi produzido originalmente por Mateus Sampaio, do Departamento de Geografia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. Sua opinião é bem-vinda. As mensagens poderão ser resumidas por motivo de espaço e clareza.

A mais vista em janeiro no Facebook política

O duelo dos megajournals

26.263 pessoas alcançadas 184 curtidas 74 compartilhamentos

ilustração  luana Geiger

Reportagem on-line


fundação de amparo à pesquisa do estado de são Paulo

carta da editora

José Goldemberg Presidente Eduardo Moacyr Krieger vice-Presidente

Processos e patentes

Conselho Superior Carmino Antonio de Souza, Eduardo Moacyr Krieger, fernando ferreira costa, João Fernando Gomes de Oliveira, joão grandino rodas, José Goldemberg, Marilza Vieira Cunha Rudge, José de Souza Martins, julio cezar durigan, Pedro Luiz Barreiros Passos, Pedro Wongtschowski, Suely Vilela Sampaio

Alexandra Ozorio de Almeida |

diretora de redação

Conselho Técnico-Administrativo Carlos américo pacheco Diretor-presidente Carlos Henrique de Brito Cruz Diretor Científico Joaquim J. de Camargo Engler Diretor Administrativo

issn 1519-8774

Conselho editorial Carlos Henrique de Brito Cruz (Presidente), Caio Túlio Costa, Eugênio Bucci, Fernando Reinach, José Eduardo Krieger, Luiz Davidovich, Marcelo Knobel, Maria Hermínia Tavares de Almeida, Marisa Lajolo, Maurício Tuffani, Mônica Teixeira comitê científico Luiz Henrique Lopes dos Santos (Presidente), Anamaria Aranha Camargo, Ana Maria Fonseca Almeida, Carlos Américo Pacheco, Carlos Eduardo Negrão, Fabio Kon, Francisco Antônio Bezerra Coutinho, Francisco Rafael Martins Laurindo, Joaquim J. de Camargo Engler, José Goldemberg, José Roberto de França Arruda, José Roberto Postali Parra, Lucio Angnes, Marie-Anne Van Sluys, Maria Julia Manso Alves, Paula Montero, Roberto Marcondes Cesar Júnior, Sérgio Robles Reis Queiroz, Wagner Caradori do Amaral, Walter Colli Coordenador científico Luiz Henrique Lopes dos Santos diretora de redação Alexandra Ozorio de Almeida editor-chefe Neldson Marcolin Editores Fabrício Marques (Política), Marcos de Oliveira (Tecnologia), Ricardo Zorzetto (Ciência), Carlos Fioravanti e Marcos Pivetta (Editores espe­ciais), Bruno de Pierro (Editor-assistente) revisão Alexandre Oliveira e Margô Negro arte Mayumi Okuyama (Editora), Ana Paula Campos (Editora de infografia), Júlia Cherem Rodrigues e Maria Cecilia Felli (Assistentes) fotógrafos Eduardo Cesar e Léo Ramos Chaves Mídias eletrônicas Fabrício Marques (Coordenador) Internet Pesquisa FAPESP online Maria Guimarães (Editora) Rodrigo de Oliveira Andrade (Repórter) Jayne Oliveira (Redatora) Renata Oliveira do Prado (Mídias sociais) Colaboradores Alexandre Affonso, Augusto Zambonato, Daniel Almeida, Domingos Zaparolli, Evanildo da Silveira, Everton Lopes Batista, Fabio Otubo, Igor Zolnerkevic, José de Souza Martins, Maurício Puls, Negreiros, Pedro Hamdan, Raul Aguiar, Reinaldo José Lopes, Sandra Jávera, Thiago Lima Nicodemo, Valter Rodrigues, Yuri Vasconcelos É proibida a reprodução total ou parcial de textos e fotos sem prévia autorização Para falar com a redação (11) 3087-4210 cartas@fapesp.br Para anunciar Paula Iliadis (11) 3087-4212 publicidade@fapesp.br Para assinar (11) 3087-4237 assinaturaspesquisa@fapesp.br Tiragem 28.000 exemplares IMPRESSão Plural Indústria Gráfica distribuição Dinap GESTÃO ADMINISTRATIVA INSTITUTO UNIEMP PESQUISA FAPESP Rua Joaquim Antunes, no 727, 10o andar, CEP 05415-012, Pinheiros, São Paulo-SP FAPESP Rua Pio XI, no 1.500, CEP 05468-901, Alto da Lapa, São Paulo-SP Secretaria de Desenvolvimento Econômico, Ciência e Tecnologia Governo do Estado de São Paulo

A

Constituição de 1988 estabelece que a saúde é um direito do cidadão e um dever do Estado. Até onde vão os direitos e deveres tem sido cada vez mais objeto de disputa, inclusive judicial. O número de cidadãos e grupos que processaram as diferentes esferas de governo pleiteando acesso a medicamentos e tratamentos aumentou de forma significativa nos últimos anos. Em 2010, o governo federal gastou R$ 122 milhões com a compra de remédios por determinação da Justiça; valor que alcançou R$ 1,6 bilhão em 2016. O processo de judicialização da saúde permitiu que milhares de pessoas recebessem os medicamentos de que precisavam, mas colocou um desafio complexo para as gestões municipais, estaduais e federal. A magnitude e o impacto desse fenômeno atraíram a atenção de pesquisadores e de integrantes das diferentes esferas de governo envolvidas. Uma série de pesquisas tem ajudado, em primeiro lugar, na sua compreensão, para que o poder público possa enfrentar essas demandas não apenas de forma reativa. Na reportagem de capa desta edição (página 18), o editor-assistente Bruno de Pierro mostra que há ações demandando medicamentos que não estão disponíveis no Sistema Único de Saúde (SUS), e ao mesmo tempo há um número não desprezível de processos que pedem remédios já oferecidos na rede pública, ou equivalentes a medi­ camentos disponíveis. Há também demandas complementares de produtos como água de coco, filtro solar e fraldas – todos objeto de receita médica, a maioria emitida por profissionais atuantes na esfera privada. No estado de São Paulo, cerca de 30% dos remédios adquiridos com recursos públicos em resposta a ações judiciais em 2016 não foram retirados pelos pleiteantes. O artigo 196 da Carta Constitucional diz: “A saúde é direito de todos e dever do Es-

tado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação”. Essa definição justifica o gasto de R$ 654,9 milhões, apenas em 2016, na compra de 10 tipos de medicamento para 1.213 pacientes? Doenças raras e seus tratamentos caros podem demandar uma ampliação da lista de remédios disponíveis na rede pública, mas existem demandas que dificilmente podem ser justificadas por critérios sociais. Por outro lado, deve o serviço público de saúde ser pautado de maneira indiscriminada por avaliações de custo-benefício? A questão é multifacetada, e ampliar o conhecimento sobre ela certamente ajuda a pensar em respostas. * Pesquisadores de áreas como as ciências da vida ou as engenharias leem – e escrevem – regularmente artigos científicos. No entanto, no Brasil, é muito menos frequente que tenham contato com patentes. Esses documentos podem ser uma importante forma de difusão de conhecimento e uma valiosa fonte de aprendizado sobre o estado das técnicas em diferentes campos. A familiaridade com as patentes também pode ajudar a preparar o terreno para que pesquisadores pensem, ainda nos estágios iniciais de suas pesquisas, sobre como assegurar a originalidade e a proteção dos seus resultados – sempre que essa possibilidade existir. Na seção Carreiras desta edição (página 94), discute-se que a cultura e as práticas da propriedade intelectual vêm mudando nas instituições de ensino superior e de pesquisa brasileiras, mas que os pesquisadores ainda não possuem, em geral, o hábito de pesquisar em bancos de patentes, nem de recorrer a esse instrumento para divulgar e proteger os seus resultados. PESQUISA FAPESP 252 | 7


Boas práticas

Integrantes do Heirri em reunião na Universidade de Bergen, na Noruega, em junho de 2016

Inovação responsável na UE Universidades europeias se unem para ampliar a interação com suas comunidades Pesquisadores de universidades da Espanha, Dinamarca, Noruega, Áustria, Croácia e Bélgica uniram-se no projeto Instituições de Ensino Superior e Inovação e Pesquisa Responsável (Heirri, em inglês) para integrar a chamada Inovação e Pesquisa Responsável (RRI, em inglês) ao ensino universitário e à formação de cientistas. O que se quer, por meio de atividades de campo e em sala de aula, é fazer os futuros cientistas e engenheiros pensar com mais atenção nos usuários, nas aplicações e nas implicações sociais de seus trabalhos, com base nos seis princípios da RRI: engajamento público, ética, governança (métodos de produção, interpretação, uso e comunicação do trabalho científico), educação científica, igualdade de gênero e acesso aberto aos resultados do trabalho científico. A falta de familiaridade com esses princípios, a indisposição dos pesquisadores para o diálogo e a resistência institucional são as principais barreiras para a implantação da RRI, reconhece Gema Revuelta, coordenadora do Heirri e diretora do Centro de Estudos em Ciência, Comunicação e Sociedade da Universidade Pompeu Fabra 8 | fevereiro DE 2017

(SCS-UPF), da Espanha. “O Heirri quer começar uma mudança sistêmica de modo a integrar efetivamente a RRI no currículo acadêmico”, disse ela a Pesquisa FAPESP. “A RRI traz benefícios sociais e econômicos e pode aumentar a eficiência dos inventimentos em pesquisa e inovação, além de responder a demandas sociais com transparência, inclusão social, participação dos cidadãos, sustentabilidade e igualdade de gênero.” Formado em 2015 a partir de um financiamento de € 1,5 milhão (cerca de R$ 5 milhões) do programa Horizon 2020 da União Europeia (UE) e com uma duração prevista de três anos, o Heirri divulgou em setembro um levantamento (issuu.com/heirriproject/docs/heirri_wp2_d2.2) com 23 experiências europeias nessa área. Cinco projetos contam com financiamento da UE e incentivam estudantes, pesquisadores e professores a adotar o acesso aberto aos resultados de seu trabalho científico e a interagir com escolas, museus e centros de ciência. Um dos projetos em andamento promove uma visão crítica e responsável da ciência entre estudantes e professores dos ensinos básico e


fotos  HEIRRI project

secundário de escolas europeias e a troca de materiais e experiências entre eles. O programa Treinamento em Engajamento Público, da University College London, estimula a comunicação entre especialistas acadêmicos e outros grupos, por meio, por exemplo, do Bright Club, com 8 a 10 apresentações de cientistas que se transformam em comediantes para explicar o que fazem para o público geral e têm de seguir os mandamentos da noite, entre eles o de que todos têm de se divertir. O próximo evento ocorrerá em 16 de março em um auditório da UCL, o Bloomsbury Studio, aberto para qualquer interessado. Além das experiências europeias, o levantamento do Heirri inclui um programa da University of Western Australia, que incentiva estudantes e pesquisadores da área de engenharia a compartilhar conhecimento e experiências profissionais com escolas técnicas e outras organizações de comunidades próximas; um curso de pós-graduação das universidades de Osaka e de Kioto, no Japão, sobre aspectos éticos, legais e sociais do trabalho científico; e um curso de verão da Universidade de Berkeley, Estados Unidos, que reúne estudantes de engenharia, filosofia e ciências sociais que, entre outras tarefas, escrevem em conjunto artigos sobre responsabilidade social na pequisa científica. As equipes do Heirri têm divulgado as propostas da RRI em reuniões internacionais, como as realizadas em 2016 na África do Sul e na Tailândia, além de encontros em países europeus, e pretendem elaborar materiais didáticos de cursos de graduação, pós-graduação, a distância ou intensivos sobre as possibilidades de interação entre cientistas e outros grupos sociais. “Com os materiais prontos, começaremos um programa-piloto em 10 instituições de ensino superior da Europa e duas fora do nosso continente”, diz Núria Saladié Elías, gerente do projeto e pesquisadora do SCS-UPF, a Pesquisa FAPESP. “Os resultados ajudarão a aprimorar os programas e os materiais, que depois estarão disponíveis por acesso aberto a todos os interessados.”

A primeira conferência do Heirri reuniu 150 participantes de 20 países no Museu de Ciência de Barcelona, em março de 2016

Na primeira conferência do Heirri, que reuniu 150 pesquisadores de 20 países em março de 2016 no Museu de Ciência de Barcelona, John Goddard, professor emérito de estudos regionais da Universidade de Newcastle, Inglaterra, comentou que as ações que expressem a RRI podem ser bastante oportunas. “Na Europa, o financimento público para o ensino superior está sendo questionado e as universidades precisam demonstrar seu valor para a sociedade local e nacional. Os políticos estão perguntando: ‘Temos uma universidade em nossa comunidade, mas o que ela está fazendo por nós?’”, disse ele no congresso. “As universidades estão repensando suas responsabilidades e ampliando a oferta de cursos e de serviços que possam beneficiar diretamente o público.” Goddard propõe o conceito de universidades como instituições-âncoras, capazes de integrar e promover outras outras instituições de suas comunidades: “As universidades devem ser de uma cidade, e não apenas estar em uma cidade”.

O Brasil não está alheio às questões debatidas na EU. “O conceito de inovação responsável aqui é diferente do europeu”, diz o antropólogo Marko Monteiro, professor de política científica e tecnológica da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) que coordena a equipe brasileira de outro projeto nessa área financiado pela UE. “Pensamos a responsabilidade na ciência e na inovação por meio de uma visão antiga, que pensa a ética, por exemplo, como se fosse apenas coibir o plágio, quando ela pode ser muito mais do que isso”, diz. “A ciência brasileira ainda é vista por muita gente como separada da sociedade, enquanto na Europa há uma discussão muito mais ampla e institucionalizada sobre como integrar ciência e sociedade e como aumentar o impacto social e econômico do trabalho científico.” No dia 16 de fevereiro na Unicamp, sob a coordenação de Monteiro, representantes de instituições de pesquisa de vários estados do país devem expor as medidas implantadas ou planejadas para ampliar a responsabilidade na ciência. PESQUISA FAPESP 252 | 9


Reprodutibilidade questionada

10 | fevereiro DE 2017

Tim Errington, gerente da Iniciativa de Reprodutibilidade e pesquisador do Center for Open Science da Universidade de Virgínia, Estados Unidos. Segundo ele, os pesquisadores deveriam tomar os resultados negativos como informação, não como condenação, a não ser que outros também não cheguem aos resultados esperados. À Nature, Errington comentou que talvez a conclusão mais clara desse projeto seja que muitos artigos incluem poucos detalhes sobre os métodos usados nos experimentos. No editorial, a Nature lembrou que a reprodutibilidade é um dos pressupostos do trabalho científico e ressaltou, sem justificar, a diferença entre os resultados dos experimentos originais e as replicações. Em um dos casos, os camundongos com câncer induzido tratados com um antitumoral sobreviveram nove semanas no estudo original e apenas uma nos experimentos que tentaram reproduzir o trabalho inicial.

Células tumorais: alvo de drogas como as avaliadas na Iniciativa de Reprodutibilidade

Má conduta e demissão na Escócia Robert Ryan, um microbiologista escocês reconhecido por seu trabalho em bacteriologia molecular, pediu demissão da Universidade de Dundee, no Reino Unido, após uma série de acusações sobre má conduta científica, de acordo com o jornal The Scotsman. Em um inquérito da universidade, ele foi acusado de ter falsificado e duplicado dados de pesquisa usando imagens idênticas em 12 artigos científicos. O comitê que avaliou a alegação concluiu que o pesquisador violou as boas práticas de pesquisa científica antes e depois de começar a

trabalhar na universidade, em 2013. Em seguida, Ryan pediu demissão. O comunicado da universidade afirmou que nenhum outro pesquisador da instituição estava envolvido nessa situação. Autor ou coautor de cerca de 100 artigos científicos, Ryan ganhou vários prêmios internacionais em reconhecimento à sua busca de tratamentos de infecções associadas à fibrose cística e recebeu cerca de £ 1,1 milhão (em torno de R$ 4,4 milhões) em financiamentos a suas pesquisas ao longo de sua carreira.

Léo Ramos Chaves

Começaram a sair os resultados da Iniciativa de Reprodutibilidade, um projeto norte-americano lançado em 2013 para avaliar a reprodutibilidade de 50 candidatos a medicamentos contra câncer, depois de a empresa de biotecnologia Amgen ter comunicado que não havia conseguido refazer, com os mesmos resultados, 47 de 53 experimentos descritos em revistas como Nature, Science e Cell. Cinco estudos foram apresentados em janeiro na Nature e eLife: o teste dos efeitos de um peptídeo antitumoral falhou, os de dois compostos anticâncer apresentaram dados praticamente iguais aos do estudo original e outros dois não tiveram resultados claros, impossibilitando comparações. Erkki Ruoslahtia, pesquisador do Instituto de Pesquisa Médica Sanford Burnham Prebys, da Califórnia, responsável por um peptídeo antitumoral que não passou nos testes, disse à Nature que pelo menos 10 laboratórios nos Estados Unidos, Europa, China e Japão tinham chegado aos mesmos resultados que os seus. Segundo ele, o fato de um experimento não ter sido reproduzido de modo fiel ao estudo inicial não significa que não possa levar aos mesmos resultados. Ruoslahtia disse temer que a irreprodutibilidade dos resultados prejudicasse a aprovação dos pedidos para financiamentos das próximas pesquisas. A falha em reproduzir os resultados não implica necessariamente que as conclusões apresentadas estejam erradas, alertou


Notas

léo ramos chaves / foto feita no Aquário de São Paulo

Peixe-boi-da-amazônia “sabe” a hora certa de migrar Entre outubro e dezembro ocorre a época de seca na região do

to do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), autor do

médio rio Solimões, cerca de 600 quilômetros a oeste de Manaus,

trabalho. Segundo Arraut, o peixe-boi adia ao máximo sua partida

e as águas do vizinho lago Mamirauá baixam tanto que um de seus

de Mamirauá, quando as águas do lago começam a baixar, a fim de

habitantes mais famosos, o peixe-boi-da-amazônia (Trichechus

se alimentar por mais tempo das plantas aquáticas locais, que não

inunguis), migra para outro lago, o Amanã, para garantir sua sobre-

são encontradas em Amanã. Ainda assim, o animal normalmente

vivência. Embora exista mais alimento disponível para esse mamí-

consegue fazer a viagem sem ficar preso nos trechos mais rasos de

fero aquático no primeiro do que no segundo lago, a arriscada viagem,

seu percurso, os chamados gargalos migratórios. “Talvez ele tenha

que pode durar três dias e envolver uma travessia de até 115 quilô-

algum sensor para acompanhar as mudanças químicas que ocorrem

metros, é plenamente justificada. Mamirauá está em uma área de

na água na época da seca”, aventa a oceanógrafa Miriam Marmon-

várzea, sujeita a cheias e vazantes. Amanã se situa em uma região

tel, do Instituto Mamirauá. O estudo rastreou por até quatro anos os

perenemente alagada. Um estudo recente sugere que o peixe-boi

movimentos de 10 peixes-boi, compilou 30 anos de imagens de

tem mecanismos biológicos de localização espacial que o fazem

satélite da região e 14 anos de informações sobre a vazão dos rios

iniciar no momento ideal a migração forçada (Acta Amazonica, ja-

e lagoas locais. Um dado preocupante foi a localização de um novo

neiro-março de 2017). “Ele parece ter um mapa cognitivo da região

gargalo migratório, formado nos últimos 15 anos, em um trecho do

que é atualizado conforme o nível da água baixa”, comenta o ecó-

percurso entre Mamirauá e Amanã. Na estiagem, o trecho quase

logo Eduardo Moraes Arraut, especialista em sensoriamento remo-

seca por completo e dificulta a passagem dos animais.

Na época de seca, o mamífero deixa o lago Mamirauá e vai para o Amanã PESQUISA FAPESP 252 | 11


Robôs feitos de hidrogel

amigáveis com os órgãos”, comenta Xuanhe Zhao, professor

Uma equipe de

do MIT e coordenador da

engenheiros do

equipe, em material

laboratório de materiais

de divulgação do estudo.

flexíveis e ativos do

“Colaboramos com

Instituto de Tecnologia

grupos médicos para

de Massachusetts (MIT)

desenvolver ‘mãos’ de

desenvolveu robôs feitos

hidrogel que poderiam

totalmente de hidrogel

ser usadas para

que se movem dentro

manipular tecidos em

da água e podem

cirurgias.”

desempenhar tarefas quando um líquido é bombeado em seu Pesquisa averigua se proximidade com humanos diminui estresse em cachorros

interior (Nature Communications, 1º de

Nature lança cinco revistas

fevereiro). Ao receber

O grupo editorial

uma injeção de água,

Springer Nature lançou

os robôs, que são ocos,

em janeiro cinco novas

inflam e realizam o

revistas científicas

movimento para o qual

totalmente eletrônicas,

foram desenhados. Eles

sem edição impressa. Os

esticam ou se enrolam e,

journals são de acesso

assim, podem, por

pago, fechado, mas os

exemplo, pegar e largar

primeiros números estão

Dias de tempestades são um transtorno para os cães.

um peixe vivo dentro de

abertos à consulta de

Com audição muito sensível, eles ficam estressados com

um aquário ou “chutar”

qualquer internauta.

os trovões e buscam esconderijo. Os que têm medo

uma bola. Formado

Quatro revistas são

exagerado (fobia) de ruídos podem até danificar a casa ou

majoritariamente por

dedicadas à publicação

morder quem está por perto. Interessada em investigar

água misturada a

de novos trabalhos em

como atenuar o estresse e o medo em cães, a médica

polímeros, o hidrogel é

áreas específicas de

veterinária Magda Medeiros, da Universidade Federal

um material resistente,

pesquisa ou em

Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), decidiu verificar se havia

elástico e quase

campos de estudos

diferença na reação a trovões em dois grupos de cães sem

transparente, embora

multidisciplinares:

fobia de ruído: animais usados em pesquisas e habituados

também possa

Nature Astronomy,

ao laboratório e cachorros de estimação, criados em casa.

receber corantes. “É

Nature Ecology &

Segundo Magda, há uma percepção disseminada de que os

biocompatível e pode

Evolution, Nature

cães de laboratório são mais estressados e medrosos. Sob

formar interfaces mais

Biomedical Engineering e

1

A convivência com o homem e o medo de trovão em cães

sua orientação, as veterinárias Carla Franzini de Souza e

Nature Human Behaviour.

Carolina Maccariello submeteram oito beagles do canil da

O quinto título, Nature

universidade e seis cães de estimação de outras raças ao

Reviews Chemistry, é

seguinte experimento: um por vez, os cachorros foram

focado em artigos de

expostos ao som de trovões por 2,5 minutos, enquanto os

revisão da área química.

pesquisadores monitoravam as reações fisiológicas (ritmo

Somando os títulos

cardíaco e nível de cortisol, hormônio ligado ao estresse) e

próprios e os publicados

o comportamento dos animais. O resultado não foi muito

com parceiros,

diferente. O coração dos cães de ambos os grupos

o grupo edita mais de

disparou, embora o nível de cortisol dos animais de

130 journals.

estimação, que já era mais elevado, tenha aumentado proporcionalmente mais. Já os comportamentos que indicam estresse (tremores, salivação, busca de esconderijo, entre outros) foram mais intensos nos beagles (Physiology and Behavior, 1º de fevereiro). “É possível que os animais de estimação, apesar de terem respostas fisiológicas significativas, aprendam a amenizar seus comportamentos de medo”, diz Magda. 12 | fevereiro DE 2017

2

Robô faz movimentos por meio da injeção de água em seu interior


A peculiar visão de Trump sobre ciência

Exageros na cobertura de ciência A principal fonte dos

O novo presidente dos Estados Unidos,

3

exageros e das

Donald Trump, anunciou medidas que

advertências ou

atingem diretamente temas de pesqui-

ponderações que

sa, como mudanças climáticas e energia.

aparecem na cobertura

Uma das primeiras ações foi a publicação

jornalística da área de

no site da Casa Branca do chamado “pri-

ciência e saúde é o

meiro plano energético da América”, que

próprio material de

propõe a eliminação de “políticas nocivas e desnecessárias”. Segundo o documen-

fotos 1 wikimedia commons 2 Reprodução de vídeo de Melanie Gonick / MIT 3 the white house  4 fiocruz paraná  ilustraçãO pedro hamdan

divulgação para a imprensa preparado pelas

(tocam um instrumento e

to, o Plano de Ação Climática lançado

revistas científicas a

leem notação musical)

por Barack Obama em 2013 será reava-

respeito dos papers que

tendem a se sair melhor

liado pela nova gestão. Embora afirme

publicam. A conclusão é

nessa tarefa. A conclusão

que a administração está comprometida

de um levantamento feito

é de um estudo feito por

por uma equipe das

uma equipe do Instituto

escolas de psicologia e

do Cérebro (ICe) da

jornalismo da

Universidade Federal do

Universidade de Cardiff,

Rio Grande do Norte

no Reino Unido, que

(UFRN), que aplicou um

analisou o conteúdo de

teste prático de

534 press releases

reconhecimento de

Administração e Orçamento da Casa Branca, sobre as mu-

produzidos em 2011 por

36 notas tocadas

danças climáticas, pode influenciar os investimentos do

periódicos, como Science,

aleatoriamente no piano

governo em pesquisas sobre o tema. “Não estou conven-

Nature e Lancet, e de 582

e um questionário sobre

cido de que haja correlação direta entre a atividade huma-

reportagens publicadas

educação musical em

na e as mudanças do clima”, disse em audiência no Senado.

pela imprensa britânica

200 alunos da Escola de

Também causou preocupação a indicação de alguns nomes

de alcance nacional

Música da UFRN e em

do primeiro escalão. Um deles é o médico Tom Price, indi-

(PLOS ONE, 15 de

30 músicos da orquestra

cado para o Departamento de Saúde e Serviços Humanos

dezembro). No entanto,

da universidade (Frontiers

(HHS), ao qual estão vinculados os Institutos Nacionais de

segundo os autores da

in Neuroscience, outubro

Saúde (NIH). Price é conhecido por fazer oposição no Con-

análise, os exageros no

de 2016). Entre os alunos,

gresso à ampliação de recursos para a pesquisa científica.

material de divulgação

18% tinham ouvido

Por ora, Trump manteve o geneticista Francis Collins na

não aumentaram a

absoluto, índice elevado

direção dos NIH, nomeado para o posto em 2009.

cobertura da imprensa,

em relação à população

assim como a inclusão de

como um todo, mas

ponderações não

bastante inferior ao

diminuiu o interesse

apresentado pelos

jornalístico pelos estudos.

membros da orquestra (44%). Os participantes

A prevalência do ouvido absoluto

com tecnologias limpas para a produção Os primeiros planos do governo Trump não mencionam as energias renováveis

de carvão, o plano de Trump não menciona o papel das energias renováveis. “A omissão das energias renováveis é mesquinha, parece um acerto de contas”, disse à revista Nature Robert Socolow, especialista em clima da Universidade Princeton. A opinião de Mick Mulvaney, escolhido por Trump para dirigir o Escritório de

Vencedor do Prêmio Álvaro Alberto 2017

do trabalho que obtiveram melhores

O biólogo Samuel Goldenberg foi o ganhador

resultados nos testes

do Prêmio Almirante Álvaro Alberto 2017, con-

geralmente começaram

cedido para a categoria Ciências da Vida. A

Não é preciso ser

o aprendizado musical

honraria é conferida pelo Conselho Nacional

superdotado para ter

mais cedo do que seus

de Desenvolvimento Científico e Tecnológico

ouvido absoluto, a

colegas. No entanto, os

(CNPq) em parceria com a Fundação Conrado

capacidade de identificar

pesquisadores refutam a

Wessel e a Marinha do Brasil. Goldenberg é diretor do Instituto Carlos

apenas por meio da

ideia de que haveria uma

Chagas da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) do Paraná e membro da

audição o tom em que se

idade ideal para iniciar o

Academia Brasileira de Ciências (ABC). Sua área de atuação é a parasi-

encontra um som. Essa

treinamento musical,

tologia, com ênfase em estudos de diferenciação do protozoário Trypa-

faculdade pode ser

uma espécie de janela de

nosoma cruzi, causador da doença de Chagas. O pesquisador graduou-se

desenvolvida e pessoas

sensibilidade para

e fez mestrado na Universidade de Brasília (UnB) e doutorado na Univer-

que apresentam maior

desenvolver o ouvido

sidade de Paris VII. Está na Fiocruz desde 1982 e coordenou a implan-

proficiência musical

absoluto.

tação da unidade do Paraná.

4

PESQUISA FAPESP 252 | 13


Engarrafador de aromas

Câncer mata menos nos EUA

Pesquisadores da Embrapa Agroindústria Tropical, de Fortaleza, desenvolveram um

Na maioria dos mais de 3.100 condados do país, a taxa de óbitos por câncer caiu (tons em verde e azul). Em 160 condados, o índice aumentou (em rosa)

equipamento portátil e de uso fácil para coletar moléculas voláteis liberadas pelas plantas. Criado pelo químico Guilherme Zocolo, o aparelho é uma bomba de vácuo acoplada a uma câmara contendo um material em cuja

1

superfície as moléculas

Variação do índice de mortalidade entre 1980 e 2014 (% ) -58 a -36

-25

-14

-2 0

9

20 a 46

ficam aderidas. Segundo os pesquisadores, o coletor de aromas permite

A taxa de mortalidade por câncer

Taxa de mortes cai 20% em 35 anos

diminuiu 20,1% ao longo de 35 anos

compostos químicos

nos Estados Unidos, de acordo com sadores da Universidade de Washington em Seattle (Jama, 24 de janeiro). Os óbitos por 100 mil habitantes caíram de 240 em 1980 para 192 em 2014. Década após década, o índice geral de mortes por neoplasias tem diminuído quando se leva em conta o país como um todo. Foram

sem que seja necessário

300 Mortes por 100.000 habitantes

um estudo coordenado por pesqui-

obter amostras dos

apanhar as flores e preservá-las a baixas

250

temperaturas. Com o 200

novo equipamento é possível preservar as

150

amostras por até uma semana. Outros

100

equipamentos permitem 50

analisados os registros das vítimas

1980

1990

2000

a coleta de compostos

2014

voláteis, mas são caros e

Ano

fatais – cerca de 19,5 milhões de

sofisticados, o que torna

pessoas durante o período do estu-

extremos, o aumento chegou a qua-

inviável o seu uso em

do – de 29 tipos de câncer. Os tu-

se 50%, como em partes do sul do

campo. Em um teste,

mores mais letais foram os de tra-

país. “Essas disparidades entre os

os pesquisadores usaram

queia, brônquio e pulmão (5,7

condados é inaceitável”, comenta o

o novo aparelho para

milhões de óbitos), colo e reto (2,5

epidemiologista Ali Mokdad, da Uni-

coletar compostos

milhões), mama (1,6 milhão), pân-

versidade de Washington, coorde-

liberados pelas flores de

creas (1,2 milhão) e próstata (1,1

nador do trabalho. “As pessoas de-

dendezeiros em Rio Preto

milhão). Diagnóstico precoce, trata-

veriam ter acesso a um diagnóstico

mentos mais eficientes e redução do

precoce e também ao tratamento

tabagismo são alguns dos fatores

adequado.” Para muitos tipos de

apontados como relacionados à re-

tumor, há grupos de condados que

dução na taxa de mortalidade na-

apresentam um índice elevado de

cional por câncer. O trabalho tam-

mortalidade. Os tumores de mama

bém calculou a evolução do índice

são mais letais no sul e ao longo do

de óbitos em cada um dos 3.100

rio Mississippi; os de fígado fazem

condados (unidades político-admi-

muitas vítimas na fronteira entre o

nistrativas regionais) presentes nos

Texas e o México; e os renais em

50 estados do território norte-ame-

Dakota do Norte e do Sul e em re-

ricano. Sob esse ângulo, a situação

giões da Virgínia Ocidental, Ohio,

é mais nuançada e desigualdades

Indiana, Louisiana, Oklahoma, Texas,

localizadas se destacam. Em 160

Alaska e Illinois. O câncer é a segun-

condados, cerca de 5% do total, a

da causa de mortes nos Estados

taxa de mortalidade por câncer subiu

Unidos, pouco atrás dos problemas

de 1980 a 2014. Em alguns casos

cardíacos.

14 | fevereiro DE 2017

da Eva, no Amazonas, Equipamento portátil da Embrapa captura moléculas voláteis de plantas

e os levaram para um laboratório em Fortaleza, a 2,4 mil quilômetros de distância.

2


Sono reforça sistema imunológico

Nanotecnologia a serviço do restauro

Estudo norte-americano feito com amostras de

Materiais nanoestruturados à base de cálcio e

sangue de 11 pares de

bário obtiveram bons resultados na restauração

gêmeos idênticos que

de detalhes feitos em pedra da fachada principal

tinham padrões distintos

da Igreja Nossa Senhora da Assunção na cidade

de sono sugere que

de Corral de Almaguer, província de Toledo, Espa-

dormir mais pode ser

nha. Características como cor e textura no nível

bom para as defesas do

macroscópico da fachada foram mantidas de acor-

organismo (Sleep, 25 de

do com os aspectos originais do prédio, construído

janeiro). O sistema

no final do século XV. O novo material para restau-

imunológico do irmão

ração foi elaborado por meio de um projeto de

que permanecia mais

colaboração internacional entre pesquisadores

tempo em vigília

brasileiros da Universidade Federal de São Carlos

encontrava-se deprimido

(UFSCar), que fazem parte do Centro de Desenvol-

quando comparado com

vimento de Materiais Funcionais (CDMF), e espanhóis da Universidade Jaime I e da CulturArts Ge-

o que dormia mais horas. “Os resultados de

3

fotos 1 universidade de washington 2 veronica freire  3 ESA / Hubble / NASA / Suyu et al  4 cdmf

nosso trabalho são

Variação da distância entre quasares ao longo do tempo foi usada para obter novo resultado

neralitat, órgão governamental de conservação e preservação de Valência. Segundo o químico Thales Rafael Machado, que participou do projeto como

consistentes com outros

para a Astrofísica, na

estudos mostrando que

Alemanha, usou dois

pessoas privadas de

telescópios no espaço e

sono produzem menos

sete em terra para medir

anticorpos quando

como variou no tempo a

recebem uma vacina”,

distância entre quasares

comenta o médico

(núcleos de galáxias

Nathaniel Watson,

muito brilhantes) e o

ternativa aos produtos comerciais hoje disponíveis,

codiretor do Centro de

Sistema Solar. Com base

em geral não desenvolvidos especificamente para

Medicina do Sono

nesses dados, que

fins de restauração. O CDMF usou sua experiência

da Universidade de

devem ser publicados

na área cerâmica, cujos materiais demandam alto

Washington,

em breve na revista

controle, precisão e durabilidade em sua produção,

coordenador da

Monthly Notices of the

para criar o composto testado na igreja.

pesquisa. Dados dos

Royal Astronomical

Centros de Controle de

Society, os pesquisadores

Doenças (CDC) dos

estimam que o valor da

Estados Unidos apontam

constante de Hubble é

que, ao longo do século

71,9 quilômetros por

passado, os norte-

segundo a cada milhão

americanos passaram a

de parsec (km/s/

dormir entre 1,5 e 2

megaparsec) – 1 parsec

horas a menos por noite.

corresponde a 3,26

doutorando, o material nanoestruturado tem potencial para ser usado em larga escala em futuras intervenções para conservação do patrimônio cultural e histórico porque é produzido de forma barata e composto de elementos não prejudiciais à saúde e ao meio ambiente. Poderia ser uma al-

anos-luz. Em 2016, o

Constante de Hubble recalculada

valor da constante havia sido estabelecido, com base em variação da distância de estrelas, em 73,2 km/s/megaparsec.

A constante de Hubble,

Esses valores são

um número que estima

bastante semelhantes

a velocidade de

entre si (o atual é 1,8%

expansão do Universo,

menor do que o anterior)

ganhou um novo valor.

e indicam que nos

Um grupo internacional

últimos tempos o Cosmo

coordenado por Sherry

se expande mais

Suyu, astrônoma do

rapidamente do que no

Instituto Max Planck

passado distante.

4

Material criado em São Carlos é testado em fachada de igreja espanhola PESQUISA FAPESP 252 | 15


A sombra da eugenia na Alemanha nazista A Sociedade Max Planck para o Progresso da Ciência (MPG) designou um comitê de quatro pesquisadores independentes para investigar, ao longo dos próximos três anos, crimes praticados por seus cientistas nos tempos do nazismo. Durante e após o Terceiro Reich, membros da instituição que antecedeu o MPG, a Sociedade Kaiser Wilhelm, realizaram pesquisas com amostras de cérebros de pessoas com deficiência mental assassinadas pelo programa eugenista de Hitler. Mais de 200 mil pessoas foram mortas no programa de “eutanásia” nazista. Em 1980, descobriu-se que uma enorme quantidade de material biológico retirado dessas vítimas estava armazenada nas coleções do MPG. A maior parte do material foi, então, incinerada. A missão do comitê criado em janeiro é, por meio da análise de documentos e do estudo de amostras remanescentes, resgatar a história das vítimas. “Queremos saber quem eles foram e devolver parte de sua dignidade humana”, disse à revista Science Heinz Wässle, diretor emérito do Departamento de Neuroanatomia do Instituto Max Planck para Pesquisa do Cérebro. A investigação também busca compreender como essas pesquisas floresceram e a extensão do envolvimento de cientistas com elas. Segundo o historiador britânico Paul Weindling, membro do comitê, o programa de eutanásia nazista foi bem estudado. “O que não se conhece até hoje é a proporção de vítimas, que imaginamos chegar 1

a 5% do total, que tiveram seus cérebros removidos para pesquisa.”

Cartaz que ilustra a suposta superioridade da raça ariana

Fundação de Bill Gates apoia acesso irrestrito a papers

Resultados de projetos financiados pela entidade, como o desenvolvimento de novas tecnologias sanitárias (foto), devem ser publicados em revistas de conteúdo aberto

de disseminar resultados científicos de forma pública e gratuita, ganhou um apoio importante. A Fundação Bill e Melinda Gates, que investe US$ 900 milhões por ano em pesquisas nas áreas da saúde pública e combate à pobreza, adotou uma nova política para a divulgação de artigos financiados por ela: os papers só podem ser publicados em periódicos aos quais qualquer pessoa possa ter acesso sem pagar por seu conteúdo. A iniciativa impede a publicação de artigos em periódicos comerciais, inclusive os de alto impacto e prestígio, como Nature, Science e The New England Journal of Medicine. “A intenção é acelerar o desenvolvimento de soluções para combater doenças infecciosas, diminuir a mortalidade materna e infantil e reduzir a desnutrição nas regiões mais pobres do mundo”, declarou Trevor Mundel, chefe da divisão de saúde global da fundação, segundo a revista Science. A decisão estava tomada desde 2014, mas entrou em vigor oficialmente em 2017. A partir de agora, artigos científicos e dados de pesquisa vinculados a eles devem ser franqueados imediatamente após a publicação, que será regulada por uma licença que permite reutilização irrestrita. 16 | fevereiro DE 2017

2

fotos 1 The National WWII Museum 2 SuSanA Secretariat  3 James Gathany / cdc

O Acesso Aberto, movimento lançado nos anos 2000 com o objetivo


Vírus que causa febre amarela em São Paulo veio provavelmente da Amazônia A Amazônia é a provável região de origem do vírus da

onde o vírus circula nas áreas de floresta entre seres

febre amarela silvestre que circula hoje no norte do

humanos e macacos, transmitido por mosquitos dos

estado de São Paulo. O virologista Renato Pereira de

gêneros Haemagogus e Sabethes. De tempos em

Souza e sua equipe no Instituto Adolfo Lutz (IAL),

tempos, o vírus é exportado, provavelmente de carona

na capital paulista, chegaram a essa conclusão depois

no sangue de pessoas assintomáticas, para outras

de fazer o sequenciamento parcial do vírus extraído

regiões, onde subsiste por períodos curtos. “Acredito

de macacos encontrados mortos no último semestre

que esse quadro esteja se repetindo”, afirma Souza.

nas regiões de São José do Rio Preto e Ribeirão Preto.

O surto de 2017 já é considerado o maior em

“Os vírus que infectavam esses animais são

14 anos. Em janeiro, foram confirmados

geneticamente mais próximos daqueles em circulação

127 casos de infecção em quatro estados e 47 mortes

na Amazônia do que dos vírus de surtos anteriores

(42 em Minas Gerais, três em São Paulo e dois no

ocorridos em São Paulo”, conta Souza, diretor do

Espírito Santo). Nos últimos meses, o grupo do IAL

Núcleo de Doenças de Transmissão Vetorial do IAL.

notou que o vírus vem atingindo mais espécies de

“A Amazônia é possivelmente a fonte dos vírus

macacos em São Paulo. Era encontrado em bugios e

que estão causando o surto atual em São Paulo e

agora foi detectado em macacos-prego e saguis.

outros estados”, conta. No doutorado, concluído

Os pesquisadores temem que o vírus se espalhe por

em 2013, Souza analisou como variaram as

regiões onde há grandes populações do mosquito

características genéticas do vírus da febre amarela

Aedes aegypti, que também transmite dengue,

de 1930 a 2008 na América do Sul. Ao reconstruir a

zika e chikungunya. Se chegar ao Aedes, a febre

evolução genética do vírus no tempo e no espaço,

amarela pode se tornar uma doença urbana.

ele observou que a origem era sempre a Amazônia,

“Não estamos preparados para isso”, diz Souza.

Mosquitos dos gêneros Haemagogus e Sabethes (foto) transmitem o vírus da doença para macacos e humanos nas áreas de floresta

3

PESQUISA FAPESP 252 | 17


capa

Demandas crescentes Parcerias entre instituições de pesquisa e a esfera pública procuram entender a judicialização da saúde e propor estratégias para lidar com o fenômeno

N

o quinto andar do prédio da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo, na capital paulista, a advogada Renata Santos e uma equipe de 35 pessoas lidam diariamente com os benefícios e os percalços decorrentes de um dos grandes desafios da gestão pública atual: o fornecimento de medicamentos imposto por decisões judiciais. Nos últimos cinco anos, a quantidade de processos movidos por pacientes para obrigar o Estado a fornecer fármacos e tratamentos que ainda não são oferecidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS) ou ainda não foram registrados no país aumentou 92%. Apenas em 2015, o governo paulista gastou R$ 1,2 bilhão em remédios e insumos para 57 mil pacientes que recorreram aos tribunais. “Esse valor é quase o necessário para sustentar por um ano o Hospital das Clínicas [da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HC-FM-USP)], onde são atendidos 35 mil pacientes por dia”, compara Renata. O fenômeno conhecido como judicialização da saúde é multifacetado. Por um lado, as ações judiciais comprometem uma parcela significativa

18 | fevereiro DE 2017

do orçamento para atender demandas específicas de alguns pacientes; por outro, podem significar o único caminho para salvar ou prolongar a vida de pacientes, especialmente de pessoas com doenças raras ou crônicas, como diabetes e câncer, que dependem de medicamentos de alto custo. Há também o uso desse recurso extremo para medicamentos equivalentes aos disponíveis no sistema público de saúde, e até mesmo para compra de produtos como fraldas ou água de coco – sempre com receita médica. Nos últimos anos, a equipe da secretaria estadual da saúde tem trabalhado com pesquisadores de universidades paulistas para criar sistemas de informação que possam subsidiar as decisões de gestores do setor e juízes de modo a favorecer a incorporação de medicamentos mais solicitados ao sistema público. As parcerias entre as equipes da secretaria e das instituições de pesquisa se apoiam em um programa de computador chamado S-Codes, criado em 2010 pela Coordenação das Demandas Estratégicas do SUS (Codes), pertencente à secretaria paulista e que gerencia os processos judiciais movidos contra o estado de São Paulo.

ilustrações  augusto zambonato

Bruno de Pierro


Custo para a União Gastos do governo federal com a compra de medicamentos por determinação da Justiça

R$

1,6 bilhão

R$

1,1 bilhão R$

839,7 milhões R$

549,1 milhões R$

367,8 R$

milhões

230,5 milhões R$

122,6 milhões

Fonte Ministério da Saúde

O S-Codes mostrou que 60% das decisões judiciais resultam de prescrições de médicos do sistema privado de saúde, isto é, de consultórios, clínicas e hospitais particulares. Uma hipótese defendida por Renata para explicar esse dado é a de que, em geral, os médicos da rede privada desconhecem a legislação de saúde e a lista de fármacos incorporados pela rede pública, a Relação Nacional de Medicamentos (Rename) do Ministério da Saúde (MS). “Por essa razão”, diz ela, “alternativas terapêuticas já disponíveis no SUS e similares às solicitadas acabam sendo desconsideradas pelos médicos”. O S-Codes tornou-se uma peça-chave em estudos realizados no âmbito do Programa de Pesquisa para o SUS (PPSUS), financiado pelo MS em parceria com o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e conduzido, em São Paulo, pela FAPESP e pela Secretaria de Estado da Saúde. O programa apoia pesquisas voltadas para problemas prioritários da saúde e para o fortalecimento da gestão do SUS em São Paulo. Nos últimos anos, o tema da judicialização da saúde ganhou destaque entre os projetos de pesquisa apresentados ao programa. Em um deles, o contabilista Carlos Alberto Grespan Bonacim, professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP em Ribeirão Preto, examinou o perfil socioeconômico de pacientes com base em uma amostra de aproximadamente 900 ações judiciais registradas de 2013 a junho de 2015, inferindo sobre a liberação de cerca de 8 mil medicamentos em 27 municípios da região de Ribeirão Preto. A cidade é uma das três com maior índice de ações judiciais em saúde no estado – as outras são Barretos e São José do Rio Preto. Com base no S-Codes, Bonacim verificou que 66% dos medicamentos obtidos por via judicial não constavam na lista do SUS. Os 34% restantes já eram fornecidos pela rede pública, mas os pacientes solicitaram versões produzidas por outras empresas ou que continham algum incremento tecnológico. Também o antropólogo brasileiro João Biehl, da Universidade Princeton, nos Estados Unidos, em um estudo publicado no ano passado no Health and Human Rights Journal, constatou que, de um total de 3.468 medicamentos solicitados por ações judiciais contra o estado do Rio Grande do Sul em 2008, mais da metade (56%) era fornecida pelo SUS. Médicos e pesquisadores afirmam que nem sempre o medicamento de última geração será mais efetivo do que os já adotados pelo SUS. Um exemplo está no A.C.Camargo Cancer Center, em São Paulo, no qual são realizados atendimentos pelo SUS e por consultas particulares. As pacientes atendidas pela via privada podem ter acesso a dois novos remédios utilizados para tratar PESQUISA FAPESP 252 | 19


o câncer de mama, o trastuzumabe entansina e o dicial tenha chegado a R$ 7 bilhões no ano paspertuzumabe. Quando associados à quimiotera- sado. Parte significativa desse valor foi utilizada pia, podem prolongar a sobrevida das mulheres para bancar medicamentos de alto custo. Em de três para cinco anos. Embora tenham sido 2016, o MS gastou R$ 654,9 milhões na compra aprovados em 2014 pela Agência Nacional de de apenas 10 medicamentos para atender 1.213 Vigilância Sanitária (Anvisa), órgão federal que pessoas (ver lista). Em São Paulo, 4% dos fárregula o registro de medicamentos e alimentos, e macos consomem mais de 90% dos gastos com estejam liberados para comercialização no país, ações judiciais no estado. os dois fármacos não foram aprovados pela Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias Registros na Anvisa no SUS (Conitec), órgão criado em 2011 ligado Da lista dos medicamentos mais caros comprados ao MS, portanto, ainda não estão disponíveis na pelo governo federal, seis não estão registrados rede pública. “O tratamento com esses medica- na Anvisa. Um deles é a lomitapida, aprovado mentos custa cerca de R$ 30 mil ao mês por pa- nos Estados Unidos para uso por portadores de ciente. O custo total de sua incorporação no SUS uma doença genética rara, a hipercolesteroleseria inviável para o governo, já mia familiar homozigótica. O que a cada ano surgem 50 mil tratamento com esse medicanovos casos de câncer de mamento custa cerca de US$ 1 mil ma no país”, diz Helano Freitas, por dia. O fato de um medicacoordenador de pesquisa clínimento não estar registrado na Em 2015, ca do A.C.Camargo Cancer CenAnvisa significa que não tem o governo ter, em São Paulo. Mesmo sem autorização oficial para ser coacesso a essas drogas de última mercializado em ampla escala paulista gastou geração, as usuárias do SUS trano Brasil porque, mesmo em tadas no hospital não são preseus países de origem, ainda R$ 1,2 bilhão judicadas. “Outros medicamennão passou por todos os testos fornecidos pelo sistema de tes pré-clínicos (em modelos em remédios saúde são igualmente eficientes animais) e clínicos (em seres para atender e podem aumentar a sobrevihumanos) necessários para da das pacientes”, afirma. De evidenciar sua segurança de 57 mil acordo com Freitas, a maioria uso e eficácia. dos pacientes do A.C.Camargo “Em geral os juízes não têm pacientes que recorrem a ações judiciais embasamento tecnocientífico para receber medicamentos gesobre todos os aspectos que são que acionaram ralmente tem mais acesso à ininerentes a um medicamento, a Justiça formação e gozam de melhores como sua regulamentação, e condições socioeconômicas. também a estrutura do SUS, que disponibiliza os fármacos Nem sempre essa é a regra. A dentro de critérios estabelecirenda média dos pacientes que dos com base científica”, diz entraram na Justiça na região de Ribeirão Preto é de pouco mais de R$ 1 mil, de Maria Aparecida Nicoletti, pesquisadora da Faculacordo com o estudo de Bonacim, da USP. Segundo dade de Ciências Farmacêuticas da USP. A farmaele, esse dado ajuda a mostrar que a judicialização cêutica integra um projeto do PPSUS para adaptar não é um fenômeno relativo a pessoas de maior o método espanhol Dáder, de acompanhamento renda. “Os pacientes com menos recursos recorrem farmacoterapêutico de pacientes, na Farmácia à Defensoria Pública do Estado, que presta assis- Universitária da USP (Farmusp), com vistas a ser tência jurídica gratuita.” Mesmo assim, 60% dos aplicado em Unidades Básicas de Saúde paulistas pacientes analisados da região de Ribeirão Preto e gerar informações para subsidiar as decisões judiciais. Nesse estudo, um grupo de pacientes com contrataram um advogado particular. Nos últimos sete anos, o MS desembolsou R$ câncer de próstata, tratados no Hospital Universi4,5 bilhões na compra de medicamentos, equipa- tário da USP inicialmente com medicamentos já mentos, suplementos alimentares e na cobertura disponíveis no SUS, passa por consultas farmacêude cirurgias e internações a partir de determi- ticas, nas quais se avalia a efetividade dos fármanações judiciais (ver gráfico). A maior parte das cos e as possíveis interações entre eles. “Estamos ações federais é oriunda de Minas Gerais, Santa lidando com pacientes que não apenas sofrem de Catarina, São Paulo, Rio de Janeiro e Rio Gran- câncer, mas podem também ter depressão, hiperde do Sul. Incluindo os gastos municipais e es- colesterolemia, hipertensão e problemas cardiotaduais, o governo federal calcula que a despesa vasculares, tomando medicamentos para essas com a compra de medicamentos por decisão ju- doenças”, explica Maria Aparecida. 20 | fevereiro DE 2017


Os 10 mais caros Em 2016, o Ministério da Saúde gastou R$ 654,9 milhões na compra de uma dezena de remédios para atender demandas judiciais de 1.213 pacientes

Eculizumab

Idursulfase

Nome comercial

Nome comercial Elaprase

Soliris

Doença mucopolissacaridose

Doença síndrome

tipo 2 (síndrome de Hunter)

hemolítico - urêmica (SHU) ou

Custo estimado

hemoglobinúria paroxística

R$ 1,18 milhão a/p

noturna (HPN)

De acordo com a pesquisadora, esse método vem sendo aplicado em outras partes do Brasil, mas de maneira ainda insuficiente. “É necessário intensificar a prática do acompanhamento farmacoterapêutico, especialmente de medicamentos de custo elevado, compilar e divulgar os resultados”, diz Maria Aparecida. Segundo ela, o método também pode ajudar no acompanhamento de medicamentos utilizados off-label, algo comum entre as ações judiciais. A expressão é usada em situações em que o médico prescreve um remédio para tratar uma condição para a qual o produto não foi originalmente desenvolvido. Há casos em que o uso off-label acaba caracterizando erro médico. Em outros, pode funcionar.   

Custo estimado R$ 1,16 milhão a/p*

Inibidor de C1 esterase

Em municípios

Nome comercial Cinryze

Na Universidade de Sorocaba (Uniso), um grupo de pesquisa trabalha dentro do PPSUS com o acompanhamento farmacoterapêutico de pacientes e no desenvolvimento de um sistema informatizado semelhante ao da secretaria estadual. A diferença é que o JudSys, como foi batizado o programa, volta-se a demandas dos municípios e conta com um módulo clínico que permite organizar dados técnicos sobre o uso de medicamentos levantados em consultas farmacêuticas. “Fizemos testes-piloto em municípios da região de Sorocaba, como Votorantim e São Roque, para avaliar a viabilidade e funcionalidade do JudSys e agora estamos fazendo ajustes para oferecer a outros municípios interessados”, explica o farmacêutico Silvio Barberato Filho, professor da Uniso e coordenador do projeto. No ano passado, o grupo de Barberato iniciou uma parceria com a Farmácia Escola da Universidade de Brasília (UnB), no Distrito Federal, para testar o módulo clínico do JudSys. Lá, é feito o acompanhamento de 15 pacientes portadores de diabetes que utilizam insulinas análogas, um dos medicamentos mais solicitados por via judicial. Assim como na USP, os pacientes na UnB são atendidos por farmacêuticos, que registram dados sobre a utilização do fármaco e dão orientações aos pacientes. Os resultados do acompanhamento devem ser organizados nos próximos meses, e novos dados sobre o uso da insulina análoga serão divulgados. “A insulina análoga não foi incorporada pelo SUS, mas alguns estados e municípios definiram protocolos clínicos e incluíram o medicamento em suas listas locais”, informa Barberato. A preocupação com o impacto da judicialização nos municípios é justificável. Há casos em que uma única ação pode comprometer todo o orçamento da saúde de uma cidade de pequeno porte. Algumas iniciativas buscam contornar esse obstáculo por meio de arranjos institucionais. Um dos exemplos mais lembrados é o de Santa

Doença angioedema Elosulfase

hereditário (AEH)

Nome comercial

Custo estimado

Vimizim

R$ 1,1 milhão a/p

Doença mucopolissacaridose tipo 4 (Síndrome de Morquio A)

Alfaglicosidase

Custo estimado

Nome comercial Myozyme

R$ 1 milhão a/p

Doença doença de Pompe Custo estimado R$ 940 mil a/p

Galsulfase Nome comercial Naglazyme

Alfagalsidase

Doença mucopolissacaridose

Nome comercial Replagal

tipo 6 (Síndrome de

Doença doença de Fabry

Maroteaux-Lamy)

Custo R$ 240 mil a/p

Custo estimado R$ 1,15 milhão a/p Metreleptina Nome comercial Myalept Atalureno

Doença diabetes e vários

Nome comercial

tipos de dislipidemias

Translarna

Custo R$ 560 mil a/p

Doença distrofia muscular de Duchenne Custo estimado R$ 1,3 milhão a/p

Lomitapida Nome comercial Juxtapid Doença hipercolesterolemia familiar homozigótica (HoFH) Custo estimado R$ 1,4 milhão a/p

Fonte Ministério da Saúde

* A/P: custo anual por paciente

PESQUISA FAPESP 252 | 21


Processos pelo mundo Particularidades da judicialização da saúde em países que também enfrentam o problema

Costa Rica

70% das ações Índia

movidas em 2008 garantiram acesso a

70% das ações

medicamentos

são coletivas,

experimentais ou

movidas por grupos

de baixa prioridade

ou associações de

no tratamento

pacientes África do Sul

Colômbia

Argentina

80% das solicitações judiciais

640 mil ações foram movidas

72% das ações são

por pacientes entre 1999 e

demandas individuais

contrate mais médicos

2008, um dos mais altos índices

por acesso a

ou construa novos postos de

de judicialização da saúde

medicamentos

atendimento a pacientes

determinam que o Estado

Fontes  Litigating health rights: can courts bring more justice to health?, 2011, Harvard University Press; The International Right to Health: What Does It Mean in Legal Practice and How Can It Affect Priority Setting for Universal Health Coverage? (2016), Health Systems & Reform, 2:1, 23-31

Catarina. Em 1997, 25 municípios do entorno da cidade de Lages, a 200 quilômetros de Florianópolis, uniram-se para encontrar melhores formas de administrar os recursos para a saúde, frequentemente afetados pela judicialização. Os prefeitos e gestores dos municípios perceberam que, isoladamente, era mais complicado enfrentar as decisões judiciais. Por meio do consórcio intermunicipal, criou-se um padrão comum de atuação, que evitou sobreposições de pedidos e racionalizou gastos e investimentos, segundo relatam Roseni Pinheiro e Felipe Asensi, professores da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), em artigo publicado em julho de 2016 na Revista de Direito Sanitário. O trabalho é oriundo de uma pesquisa coordenada por ambos em parceria com o Conselho Nacional de Justiça (CNJ). Em 2012, o consórcio lançou o Núcleo de Conciliação de Medicamentos para atender solicitações de fármacos que ainda não foram pedidos por via judicial. Em um espaço cedido pela prefeitura de Lages, uma equipe multidisciplinar conversa com pacientes interessados em mover ações judiciais, sugere o uso da versão genérica dos medicamentos que solicitaram e propõe a substituição ao médico que fez a prescrição, antes do pedido seguir pelos caminhos judiciais. Segundo os pesquisadores, “a integração entre os órgãos da saúde (municipal e estadual), pacientes, Defensoria Pública, advocacia pública 22 | fevereiro DE 2017

e Ministério Público levou a uma redução dos conflitos judiciais”. Em São Paulo, uma iniciativa anunciada em dezembro de 2016 também procura promover a interação entre os atores envolvidos nas solicitações judiciais de medicamentos. A Secretaria da Saúde, o Tribunal de Justiça, o Ministério Público e a Defensoria Pública estaduais celebraram um termo de cooperação que estabelece um protocolo de fluxos de serviços de triagem e orientação farmacêutica a usuários do SUS. “A ideia é que profissionais capacitados avaliem as prescrições médicas antes que os pacientes tomem a decisão de acionar a Justiça. Trata-se de uma forma de verificar a possibilidade de apresentar ao médico e ao paciente alternativas terapêuticas fornecidas pelo SUS, quando houver essa possibilidade”, explica Sylvio Ribeiro de Souza Neto, juiz assessor do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo (TJSP). Para Renata Santos, da secretaria, a iniciativa é uma oportunidade de diálogo entre o poder judiciário e os gestores. “Queremos que os magistrados entendam que a secretaria quer atender os pacientes, dentro das melhores técnicas da medicina, sem se basear numa restrição econômica. Temos uma verba que deve ser aplicada em saúde. O que buscamos são as melhores formas de usar os recursos públicos e atender ao maior número possível de pessoas”, diz ela.


Também no final do ano passado, o CNJ e o estadual de saúde do CNJ, enfatiza que os juízes Ministério da Saúde, em parceria com o Hospital valorizem mais as orientações técnicas. “A difiSírio-Libanês, anunciaram um projeto para am- culdade é que ninguém quer correr o risco de ser pliar o uso de informações baseadas em evidên- cúmplice da morte de uma pessoa”, ressalva. No cias científicas pelos magistrados e aperfeiçoar site do comitê (www.comitesaudemg.com.br) há o julgamento das demandas judiciais. O acordo um conjunto de recomendações para os magisprevê a expansão dos Núcleos de Avaliação de trados, além de notas técnicas e links para livros Tecnologia em Saúde (Nats), cuja tarefa é auxiliar e artigos que abordam a judicialização. Sylvio Ribeiro, do TJSP, se recorda do tempo tribunais de todo o país por meio de pareceres e notas técnicas sobre medicamentos. Em novem- em que atuava na linha de frente, julgando cabro, a primeira oficina de capacitação e treinamen- sos de saúde. “Por mais que tivéssemos em mãos to dos Nats reuniu representantes de tribunais de informações científicas, é angustiante saber que 10 estados brasileiros. “Tratamos de temas como uma negativa nossa pode acarretar a perda de saúa elaboração e a padronização de notas técnicas”, de ou até mesmo a morte de alguém”, diz. Renata conta Luiz Reis, do Hospital Sírio-Libanês, onde Santos, da secretaria estadual, afirma que quase sempre a defesa do paciente ocorreu a reunião. baseia-se no risco de morte De acordo com Arnaldo Hoscaso o medicamento não sesepian Salles Lima Junior, conja fornecido. Contudo, o Sselheiro do CNJ e supervisor -Codes indicou que em pardo Fórum Nacional de Saúde, a Para quem te considerável das decisões parceria com o hospital inclui a tem doença judiciais não há risco de dano criação de um banco de dados irreparável ao paciente. com informações técnicas, com rara, a via base em evidências científicas, Muitas vezes, além dos meque poderá ser acessado por dicamentos, os pedidos judijudicial pode magistrados de todo o país. “A ciais incluem itens já forneideia é que, antes de tomar uma cidos pelo SUS, como fraldas ser a única decisão, o juiz consulte o banco, descartáveis, ou que extraforma de obter que estará disponível no site do polam o tratamento médico, CNJ, e acesse informações sobre como lenços umedecidos, acesso a medicamentos, procedimentos e filtro solar e água de coco, afins que constem na solicitação que os médicos consideram medicamentos do paciente. Com essas inforrelevantes para seus pacientes. mações, ele poderá saber se há, Por essa razão, a secretaria de alto custo por exemplo, um fármaco similar tem de fornecer 69 tipos disno SUS e se a droga solicitada é tintos de fraldas a 4 mil pesrealmente efetiva”, explica Hossoas, ao custo anual de R$ 12,6 sepian. O Sírio deverá investir milhões. “É cada vez maior o cerca de R$ 15 milhões, ao longo de três anos, para número de pacientes que solicitam a compra de criar a estrutura da plataforma. As informações medicamentos e insumos já disponíveis no sistecientíficas que a alimentarão serão fornecidas ma público. O SUS fornece ácido acetilsalicílico, por pareceres emitidos pelos Nats, pela Conitec mas ainda assim há pacientes que entram na Juse pelo Centro Cochrane, organização internacio- tiça para solicitar um analgésico de outra marca”, nal com sede em Copenhague, na Dinamarca, que conta Renata. analisa conjuntos de estudos clínicos em busca Ela não descarta a influência da indústria de evidências da eficácia de tratamentos. farmacêutica como um dos pressupostos da Em setembro de 2016, o CNJ aprovou uma re- judicialização. Estudos divulgados recentemente solução que dispõe sobre a criação e manutenção mostram que a influência de empresas do setor dos Comitês Estaduais de Saúde, já estabeleci- se estende a grupos e associações de pacientes. dos em alguns estados, com a função de discutir Uma pesquisa publicada em janeiro deste ano questões de saúde e auxiliar o trabalho de ma- no Jama Internal Medicine por Susannah Rose, gistrados. Um dos comitês mais atuantes é o de da Universidade Case Western Reserve, dos EsMinas Gerais, formado por membros do poder tados Unidos, investigou cerca de 300 grupos judiciário estadual e federal e representantes de defesa de pacientes no país e descobriu que de planos de saúde, do Ministério Público, das 67% receberam dinheiro de empresas farmacêuSantas Casas e de universidades, entre elas a Fe- ticas no ano passado. Segundo gestores públideral de Minas Gerais (UFMG). Osvaldo Firmo, cos, há indícios de que a pressão da indústria é desembargador do Tribunal de Justiça do Estado semelhante no Brasil e acaba contribuindo para de Minas Gerais (TJMG) e membro do comitê o aumento da judicialização ao criar novas dePESQUISA FAPESP 252 | 23


“É angustiante saber que uma negativa pode ocasionar a morte de alguém”, diz o juiz Sylvio Ribeiro

mandas por medicamentos. As decisões judiciais também têm outros efeitos. “Há casos em que as determinações da Justiça impulsionaram o SUS, na medida em que as sentenças repetidas sobre um mesmo fármaco ou procedimento alertaram sobre a necessidade de incorporação tecnológica e de medicamentos”, pondera Renata. Doenças raras

Para quem tem alguma doença rara, a via judicial pode ser a única forma de obter medicamentos extremamente caros. Um exemplo são os pacientes que sofrem de hemoglobinúria paroxística noturna, tipo raro de anemia de origem genética que pode causar doença renal crônica, hipertensão pulmonar, entre outros sintomas. O medicamento indicado para esse caso é o eculizumabe, cujo nome comercial é Soliris, ainda sem registro na Anvisa. Em 2016, o Soliris representou o maior gasto do Ministério da Saúde em ações judiciais: R$ 391,8 milhões para atender 336 pacientes. Um argumento muito utilizado por pacientes que recorrem à Justiça para obter os chamados medicamento excepcionais, de custos muito altos, tem origem na Constituição Federal, segundo a qual a saúde é um direito de todos e dever do Es24 | fevereiro DE 2017

tado. “O problema é que o direito individual está prevalecendo sobre o coletivo”, avalia Luiza Heimann, diretora do Instituto de Saúde do Estado de São Paulo, instituição vinculada à secretaria estadual da saúde, que desenvolve estudos de avaliação de tecnologias em saúde. “Cuidar da saúde dos cidadãos não significa cuidar da somatória de indivíduos doentes. Trata-se de estipular um planejamento a partir do perfil epidemiológico da população”, explica Luiza. A cada quatro anos, diz ela, é realizada a Conferência Nacional de Saúde, na qual gestores do SUS, trabalhadores e representantes da sociedade civil organizada definem, com base em estudos epidemiológicos, quais serão as prioridades no SUS nos próximos anos. Para o juiz Osvaldo Firmo, do TJMG, isso significa que as políticas em saúde devem garantir a toda a população um tratamento de igual acesso para todos, sem privilégios. “Os procedimentos para incorporação de medicamentos no Brasil obedecem a critérios que privilegiam a compra de grandes volumes de medicamentos para o maior número possível de pessoas”, diz Firmo. Em países desenvolvidos, especialmente na Europa, o problema da judicialização é praticamente inexistente. “Países como Itália, França e Reino Unido têm sistemas de saúde universalizados que amadureceram ao longo de décadas”, explica José Gomes Temporão, ministro da Saúde entre 2007 e 2011. “A população desses países tem consciência de que o fornecimento de medicamentos pelo Estado tem limitações. Os pacientes aceitam o tratamento disponível pelo sistema e sequer cogitam entrar na Justiça, salvo os casos extremos, como o das doenças raras”, diz Temporão. Na avaliação de Denizar Vianna Araújo, pesquisador da Uerj, a judicialização da saúde

eduardo cesar

Paciente com câncer de próstata passa por acompanhamento farmacoterapêutico na Farmácia Universitária da USP, na capital paulista


tornou-se um fenômeno essencialmente latino-americano. “Diante de uma negativa do Estado, o cidadão é incentivado a procurar salvação no judiciário. Trata-se de um traço cultural forte em países da América Latina”, diz. Cláudio Cordovil, pesquisador da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), no Rio de Janeiro, defende a necessidade de mudanças no sistema de incorporação de medicamentos para doenças raras no Brasil. Segundo ele, as avaliações de tecnologias em saúde (ATS), feitas pela Conitec para decidir a incorporação de medicamentos no SUS, foram originalmente criadas para deliberar sobre fármacos voltados a atender um grande número de pessoas. Para Cordovil, o emprego de metodologias convencionais de ATS no contexto das doenças raras, que atingem grupos específicos de pacientes, é um dos fatores que estimulam a judicialização no país. “Se aplicamos metodologias convencionais para decidir sobre medicamentos para doenças raras, na prática não incorporaremos nenhum desses fármacos ao SUS. A literatura internacional tem comprovado isso de forma inequívoca”, diz o pesquisador. Renata Santos levanta no S-Codes outros dados pouco conhecidos sobre as consequências da compra de medicamentos por via judicial. “De 20% a 30% dos pacientes que entram com ação em São Paulo não aparecem para retirar o medicamento liberado pela Justiça”, afirma. “Tirando casos de pacientes que falecem, os principais motivos de não buscarem o medicamento é que a pessoa muda de ideia, desiste do tratamento e opta por outro.” Quando possível, a secretaria direciona o fármaco para outro paciente, embora mais da metade dos pedidos sejam de uso exclusivo, isto é, cada fármaco é consumido apenas por uma pessoa. “Quando o paciente não vem buscar”, ela conta, “estocamos o medicamento e, quando passa da validade, temos de incinerar”. n

Medidas recomendadas Algumas atitudes podem ajudar a enfrentar o avanço da judicialização da saúde

Juízes ✚ Incentivar os tribunais a promover convênios com instituições médicas e científicas que disponibilizem apoio técnico para auxiliar na apreciação de questões clínicas ✚ Exigir que a defesa do paciente inclua no processo relatórios médicos com a descrição da doença, inclusive o Código Internacional de Doenças, contendo também a prescrição do

Médicos

medicamento, com denominação genérica ou princípio ativo e

✚ Verificar se o tratamento

posologia

não pode ser feito com algum fármaco similar já disponível no

✚ Evitar autorizar o fornecimento

sistema público, antes de

de medicamentos ainda não

prescrever um medicamento não

registrados pela Anvisa ou em fase

incorporado pelo SUS

experimental ✚ Saber quais medicamentos ✚ Ouvir os gestores (secretarias

fazem parte da Relação Nacional

municipais, estaduais ou Ministério

de Medicamentos (Rename),

da Saúde) antes da apreciação de

disponível no site do Ministério

medidas de urgência

da Saúde, e, quando possível, procurar prescrever fármacos

✚ Procurar incorporar o direito

já disponíveis na lista

sanitário em programas de formação ou aperfeiçoamento de

✚ Visitar o site da Conitec

magistrados

(www.conitec.gov.br)

✚ Promover visitas aos

acompanhar o processo de

periodicamente. Nele é possível conselhos municipais e estaduais

avaliação de medicamentos e

Projetos

de saúde, assim como a

procedimentos médicos e se

1. Gestão municipal de demandas judiciais na saúde: modelo de acompanhamento farmacoterapêutico de pacientes (nº 2014/06038-2); Modalidade Auxílio à Pesquisa – Regular; Pesquisador responsável Silvio Barberato Filho (Uniso); Investimento R$ 103.297,39. 2. Fatores condicionantes dos processos de judicialização na divisão regional de saúde – DRS XII (nº 2014/50040-1); Modalidade Auxílio à Pesquisa – PPSUS; Pesquisador responsável Carlos Alberto Grespan Bonacim (Fearp-USP); Investimento R$ 7.325,37. 3. Seguimento farmacoterapêutico de pacientes na farmácia universitária da USP (nº 2012/51707-4); Modalidade Auxílio à Pesquisa – PPSUS; Pesquisador responsável Silvia Storpirtis (FCF-USP); Investimento R$ 253.692,76.

unidades básicas de saúde e

manter atualizado em relação às

centros de assistência, como forma

últimas decisões da comissão

de conhecer a realidade do SUS Fonte Conselho Nacional de Justiça

✚ Evitar incluir nas prescrições itens cujo fornecimento não compete à rede pública de saúde. Muitas ações judiciais determinam que os gestores forneçam não apenas o medicamento, mas também produtos como água de

Artigos científicos biehl, J. et al. The judicialization of health and the quest for accountability: Evidence from 1.262 lawsuits for access to medicines in Southern Brazil. Health and Human Rights Journal. jun. 2016. asensi, f.; pinheiro, r. Judicialização da saúde e diálogo institucional: A experiência de Lages (SC). Revista do Direito Sanitário. v. 17, n. 2, 2016.

coco e pilhas, por exemplo Fontes Especialistas da área de saúde ouvidos pela reportagem

PESQUISA FAPESP 252 | 25


entrevista Eduardo Franco

Um pé na ciência, outro no ativismo Epidemiologista concilia atuação em campanhas de vacinação contra o HPV e uma intensa atividade científica sobre câncer de colo de útero Carlos Fioravanti  | 

retrato 

Léo Ramos Chaves

idade 63 anos

E

m 2009, o epidemiologista brasileiro Eduardo Franco entrou em um debate público sobre a necessidade de vacinar meninas contra o vírus do papiloma humano (HPV), causador do câncer de colo de útero, também em escolas católicas da cidade de Calgary, na província de Alberta, no Canadá – nas protestantes não houve problemas. Um ano antes o bispo local havia baixado um decreto eclesiástico proibindo a vacinação, alegando que essa medida incentivaria a promiscuidade sexual. Franco decidiu entrar na briga depois de uma colega insistir para ele defender publicamente seus argumentos em vez de apenas apresentar suas ideias e estudos em artigos científicos. Por fim, a pressão de pesquisadores, funcionários de órgãos de saúde e dos pais das estudantes levou o bispo a retirar a proibição. Dois anos depois, Franco criticou as estratégias brasileiras de prevenção. Desde o mês passado, a vacinação contra HPV faz parte do calendário nacional e inclui inicialmente meninos de 12 e 13 anos. Franco e Luisa Villa – então no Instituto Ludwig de Pesquisas sobre o Câncer, atualmente no Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (Icesp) – fizeram um estudo pioneiro em São Paulo com 2.528 mulheres, acompanhadas durante 10 anos, que mostrou uma associação clara entre a infecção persistente por HPV e o câncer de colo de útero. Realizado nos anos 1980 e 1990, o trabalho resultou em 46 artigos publicados desde 1999; um dos mais recentes, de março de 2016 na BMC Infectious Diseases, mostra como a inflamação do útero poderia aumentar o risco de infecção por HPV.

26 | fevereiro DE 2017

especialidade Epidemiologia e prevenção do câncer formação Graduação em biologia na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) em 1975; mestrado e doutorado na Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill, Estados Unidos (1981-1984) instituição Universidade McGill, em Montreal, Canadá produção científica 441 artigos (índice h, 71), 2 livros sobre epidemiologia do câncer, 59 capítulos de livros, 73 orientações de estudantes de pós-graduação e 28 supervisões de pós-doutorado


PESQUISA FAPESP 252 | 27


Franco é chefe do Departamento de Oncologia e diretor da Divisão de Epidemiologia do Câncer da Universidade McGill, em Montreal, no Canadá, onde vive desde 1989. Ele veio a São Paulo em novembro de 2016 para uma reunião do conselho consultivo científico do A.C.Camargo Cancer Center e concedeu a primeira parte desta entrevista, que continuou depois via skype. Casado três vezes, com quatro filhos e três netos, Franco se lembrou de pessoas que considera como exemplos de engajamento, liderança e generosidade e foram importantes em sua formação, como os médicos Ricardo Brentani (1937-2011; ver Pesquisa FAPESP nº 190), Sidney Arcifa (1938-2015), Antonio Carlos Corsini (19461984) e Humberto Torloni (1924-; ver Pesquisa FAPESP nº 216). Ele contou também sobre suas pesquisas em andamento, como a avaliação de um gel produzido a partir de carragena, um polissacarídeo extraído de algas. Se funcionar como esperado, poderia se tornar uma estratégia de baixo custo e amplo alcance contra as infecções causadas pelo HPV que podem levar ao câncer de colo de útero. Como você passou de um cientista fechado no mundo da ciência a um militante pela prevenção do câncer de colo de útero? Sempre digo para os alunos que a ciência sozinha não é suficiente para mudar nada. Temos de fazer advocacy e defender nosso trabalho diante dos gestores de saúde se de fato quisermos mudar alguma coisa. Mas durante muitos anos acreditei que o trabalho de cientista deveria estar dissociado do papel de advogado dos resultados, que caberia a outras pessoas. Eu achava que perderia a idoneidade científica se fosse o defensor de meu próprio trabalho. Quem mudou minha visão sobre o papel do cientista foi uma colega bioeticista da Universidade de Calgary, Juliet Guichon, em 2009. Ela pediu ajuda porque o bispo da província de Alberta, Frederick Henry, que liderava o Comitê Distrital das Escolas Católicas de Calgary, tinha feito um decreto proibindo as enfermeiras do sistema público de saúde de vacinar as meninas das escolas católicas contra o vírus HPV. Por quê? Henry, como bispo com autoridade sobre as escolas públicas católicas, alegou que a vacina contra o HPV iria causar promis28 | fevereiro DE 2017

O bispo, com essa pressão, cancelou a proibição e a vacinação nas escolas protestantes e católicas teve uma distribuição equilibrada

cuidade e que a melhor maneira de não causar a infecção pelo HPV seria simplesmente não ter relações sexuais antes do casamento. Dei alguns conselhos para Juliet, mas sem trabalhar com ela. Um dia, ao telefone, ela me deu uma bronca: “Pare de me dar conhecimento e aja um pouco! Você tem de enfrentar as feras comigo!”. O que você fez? Escrevi um artigo com ela e com Ian Mitchell, também da Universidade de Calgary, que saiu no jornal Calgary Herald, e participei de um programa de rádio com o bispo. Ele estava no estúdio e eu, por causa de outros compromissos, falei por telefone de um hotel em Banff, a uns 100 quilômetros de Calgary. Argumentei que, se o bispo proibisse as meninas de ser vacinadas, algumas poderiam desenvolver câncer de colo de útero 20 anos depois. Se soubessem que a proibição contra a vacinação tinha sido a causa da doença delas, poderiam processar judicialmente os sucessores do bispo. Ele ficou muito irritado e disse que a província de Quebec, onde eu moro, não deveria se intrometer nos assuntos de Calgary. Depois

pedi para Juliet escrever um artigo para a revista Preventive Medicine, da qual sou editor. Ela também foi às escolas e conversou com os pais, que se convenceram de que o bispo era apenas uma autoridade eclesiástica e não tinha nada a ver com saúde pública. Juliet e outros pesquisadores da Universidade de Calgary também promoveram debates públicos, fizeram uma carta com a assinatura de mais de 50 médicos enviada ao comitê liderado pelo bispo e publicaram artigos em jornais, que por fim também estavam defendendo a retirada da proibição à vacinação. O bispo, com toda essa pressão, cancelou a proibição e a vacinação nas escolas protestantes e católicas teve uma distribuição equilibrada. Como foram suas críticas dirigidas ao Brasil? Durante um congresso no Rio de Janeiro, em 2011, argumentei que a política de combate ao câncer de colo de útero adotada pelo Ministério da Saúde estava completamente errada. O ministério alegou que não adotaria a vacinação contra HPV por ser muito cara. A premissa era falsa porque, por meio de uma compra centralizada, o governo não iria pagar o custo privado da vacina. O ministério também dizia que não havia provas de que essa estratégia de prevenção poderia ser eficiente. De fato, nenhum ensaio clínico realizado em vários países tinha sido longo o suficiente para demonstrar essa redução, porque o câncer de útero demora 20 anos até começar a aparecer, mas demonstravam que a vacina previne a infecção e a lesão precursora do câncer. Depois o governo mudou a estratégia e adotou a vacinação contra HPV. Começou bem, atingindo mais de 90% das meninas na primeira campanha com a primeira dose, porque a vacinação foi feita nas escolas. Depois resolveram dar a segunda dose nos postos de saúde, imagino que para reduzir os custos, e a cobertura caiu muito. Como é a prevenção no Canadá? A vacinação começou em 2007, logo após a vacina ser aprovada. A equipe de saúde da província de Quebec adotou a estratégia de vacinar as meninas mais jovens, com 9 a 10 anos, na pré-adolêscencia e não na adolescência, acreditando que conseguiria dar a mesma proteção com duas doses em vez de três, e deu certo.


arquivo Pessoal

antígenos ou anticorpos], e nos outros dias aplicava o que aprendia no laboratório do Centro Médico. O Toxoplasma foi importante em minha vida.

Franco no laboratório dos CDC, em Atlanta, Estados Unidos, em 1983

A maior parte das províncias adotou a vacinação também para meninos usando a mesma política de vacinação escolar, o que garante uma alta cobertura, de 80% ou mais, com duas doses. Em 2011, você também criticou o sistema público de saúde no Brasil por manter o método citológico, o Papanicolau, para detectar casos novos de câncer de colo de útero. Por quê? O Papanicolau, apesar de ter feito um inegável bem para a humanidade, é hoje obsoleto e pouco preciso, em comparação com os métodos moleculares, por meio de PCR [reação em cadeia de polimerase], que identifica o DNA do vírus. O Papanicolau apresenta um número alto de resultados falsos negativos. As mulheres têm de fazer o teste todos os anos exatamente porque há muito falso negativo, para aumentar as chances de encontrar alguma lesão indicativa de câncer de colo de útero. Pelo PCR não é necessário fazer os testes todos os anos. Por que você fez a graduação em biologia? Eu queria ser cientista e achava que fazer biologia seria a melhor maneira. Para satisfazer meus pais, fiz vestibular para medicina, passei em Santos, mas bati o pé e entrei em biologia na Unicamp em 1972. Meus pais queriam que eu entrasse na Unicamp para facilitar a vida deles, porque me manter fora de Campinas, onde nasci e morávamos, seria bem difícil. Em 1973 o médico hematologista Sidney Arcifa me ofereceu um estágio

no laboratório clínico PrevLab, que tinha concessão para fazer os exames laboratoriais de um hospital de crianças, o Álvaro Ribeiro, e do Centro Médico de Campinas. Um ano depois eu estava empregado como plantonista noturno e estudava de dia. Havia uma epidemia de meningite e eu corria de um hospital para outro com a kombi da PrevLab. Mal chegava e olhava a amostra de líquor para examinar e já sabia que a situação da criança internada era grave. O líquor normal é transparente como água, e o que via era leitoso e purulento. Eu fazia os testes, corria para o hospital com o laudo para o médico e quando chegava a criança já tinha morrido. Foi um período muito triste, morreram muitas crianças. E depois? Terminei a graduação em 1975 e comecei o mestrado em ecologia, mas tinha de trabalhar à noite como plantonista. Já era casado e minha mulher me fez escolher: ou estuda ou trabalha. Abandonei o mestrado, continuei o plantão e comecei a trabalhar durante o dia. A concessão do laboratório do Centro Médico passou para o médico Vitor Ramos de Souza e fui promovido para diretor-assistente. Vitor me permitiu voltar a estudar na Unicamp e comecei um estágio com o imunologista Antonio Carlos Corsini. Com ele, durante três dias da semana, eu fazia experimentos para estudar a evolução da infecção pelo Toxoplasma gondii em camundongos e desenvolver imunoensaios [técnica para detecção de

Por quê? No microscópio eu via uma fluorescência polar, porque o Toxoplasma tem uma morfologia de meia lua. Comecei a ler sobre fluorescência polar e encontrei os trabalhos de Alexander Sulzer, pesquisador dos CDC [Centros de Controle e Prevenção de Doenças] em Atlanta, nos Estados Unidos. Com a ajuda de Vitor, já que eu não escrevia bem em inglês, escrevi para Sulzer, que respondeu, muito simpático, fez sugestões de experimentos e deu conselhos para minha carreira. Trocamos cartas por vários anos, até 1979. Um dia perguntei sobre um possível estágio e ele me convidou para ser pesquisador nos CDC. Já tinha casado de novo, minha esposa era médica e também queria passar um tempo no exterior. Começamos então a economizar dinheiro para vivermos nos Estados Unidos. Para não pagar aluguel, aceitei o convite de meu pai para morar em cima da loja dele, de acessórios para automóveis, num bairro industrial de Campinas. Depois de quase três anos, economizamos US$ 14 mil, uma fortuna, o que nos permitiria sobreviver por pelo menos um ano nos Estados Unidos. E no dia 3 de março de 1980 fomos para Atlanta. Como foi a vida lá? Fiquei imerso nos CDC e minha mulher no hospital da Universidade de Emory. Nessa época os CDC tinha acabado de fazer estudos importantes, entre eles a identificação da bactéria responsável pela doença dos legionários. Começamos a fazer muitos testes sorológicos para Toxoplasma em amostras de sangue de homens homossexuais de São Francisco. Era o início da Aids, que ninguém sabia o que poderia causar. Aprendi muito sobre doenças infecciosas e surgiu a oportunidade de fazer mestrado na Universidade da Carolina do Norte. O problema é que o dinheiro estava acabando. Não tinha bolsa? Não tinha conseguido nenhuma bolsa no Brasil porque eu era um pesquisador independente em um laboratório clínico particular, sem vínculo com universidade. Mas tive sorte. Fui ao congresso PESQUISA FAPESP 252 | 29


Ricardo Brentani, Lourdes Marques e Franco no Instituto Ludwig de São Paulo em 1990

de medicina tropical de 1980 lá mesmo em Atlanta com meu colega José Mauro Peralta, que na época era estagiário dos CDC, como eu, e hoje é professor na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Lá no congresso ele encontrou Renato Gusmão, um médico goiano que ele conhecia e me ajudou muito. Esse médico teve compaixão de minha situação, terminando o estágio, sem ter como fazer mestrado. Ele disse que eu precisava de uma bolsa para me manter e propôs: “Vou te apresentar ao dr. Paulo Machado”. Era Paulo de Almeida Machado, que trabalhava com medicina tropical e parasitologia, tinha sido ministro da Saúde [de 1974 a 1979] e estava lá. Ele foi muito simpático, me ouviu e orientou: “Escreva seu plano de trabalho, mande para mim e faça sua inscrição normal no CNPq [Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico]”. Sulzer me ajudou a preparar o dossiê e consegui uma bolsa do CNPq para o mestrado na Universidade da Carolina do Norte. Ainda me lembro do dia em que coloquei a mudança em um trailer atrás do carro e fui muito contente com minha mulher para Chapel Hill, a 500 quilômetros de Atlanta, sabendo que estava começando uma nova etapa de minha vida. De maio a setembro eu voltava aos CDC para fazer os experimentos. Logo depois fiz o doutorado sobre malária, que terminei em julho de 1984. Já era hora de voltar ao Brasil? Eu tinha recebido uma proposta para trabalhar no Instituto de Medicina Tropical 30 | fevereiro DE 2017

de São Paulo e outra para um pós-doutorado no Walter Reed, um instituto de pesquisa do Exército dos Estados Unidos, mas não fiz nada disso. Eu estava em um congresso no Texas, em dezembro de 1983, quando recebi um telefonema de Sulzer dizendo que um funcionário do Ministério da Saúde havia ligado querendo saber sobre um Eduardo Franco que fazia pesquisa com câncer. Como eu não entendia nada sobre câncer, achei que devia ter sido um engano. Mas depois fui atrás e houve de fato um telefonema, que veio de uma solicitação de Ricardo Brentani. Ele procurava um epidemiologista para trabalhar na unidade do Instituto Ludwig de Pesquisa sobre o Câncer, recém-inaugurada em São Paulo, da qual ele era o primeiro diretor. Humberto Torloni, que havia contratado Brentani, tinha pedido ao ministério indicações de pesquisadores com treinamento em epidemiologia. Deram meu nome por causa da bolsa do CNPq. Conversei de Atlanta com Torloni e contei que não entendia nada de câncer. Ele disse: “Não tem problema. Você trabalha com doenças infecciosas. Sabia que um tipo de câncer, o de colo de útero, pode ser causado por um vírus?”. Respondi: “Não faço a menor ideia”. Mas queriam me entrevistar, pagaram a passagem e fui, no começo de 1984, pensando que aí veriam que eu não era a pessoa que procuravam. Dei um seminário sobre doenças infecciosas para os chefes das unidades e notei que alguns cochilavam enquanto falava, aquilo devia estar muito chato para eles. Voltei para Atlanta achando que não ia

Como se tornou especialista em HPV? Trabalhei em câncer de cabeça e pescoço e o infantil, mas o de colo de útero era um problema especialmente sério. Trabalhei com Manuel Carvalho, chefe do registro de câncer de Recife, e fiquei assombrado com a incidência no Nordeste, mais de 100 casos novos para cada 100 mil mulheres por ano. O risco acumulado durante a vida era de 10% de qualquer mulher nascida em Recife desenvolver câncer de colo de útero. Luisa Villa, que já trabalhava com vírus no Luwig, e eu fizemos uma série de estudos para ver a prevalência de mulheres com HPV em João Pessoa, Goiânia e Recife. Não havia ainda nenhuma certeza de que esse vírus causasse o câncer, apenas suspeita. Ainda se pensava que o vírus do herpes é que poderia causar esse tipo de câncer. O estudo em várias capitais do Brasil só foi possível porque Torloni nos apresentava aos diretores de hospitas das cidades que visitávamos. Em 1988, depois de mostrar os resultados preliminares em Montreal, me contaram de uma vaga na Universidade de Quebec, minha mulher gostou dessa possibilidade porque não gostava de viver em São Paulo, me inscrevi, fui aceito e nos mudamos, mas continuei a colaboração com Luisa Villa, que tem sido uma colega espetacular até hoje. Planejamos um estudo para ver a persistência da infecção por HPV ao longo dos anos, inicialmente com recursos apenas do Ludwig e depois dos NIH [Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos]. O estudo Ludwig-McGill, que ainda não

arquivo Pessoal

dar em nada, mas Brentani me ligou para fazer uma oferta de emprego. “Gostei de sua seriedade, experiência e ambição. Tenho um bom olfato para escolher gente e é você quem eu quero”, ele disse. O salário era muito bom e o contrato incluía uma cláusula, também difícil de ser recusada, de que eu teria de me submeter a um pós-doutorado fora do Brasil, pago por eles, para aprender sobre câncer. Terminei o doutorado e comecei os estágios, o primeiro na Universidade do Estado da Lousiana, em Nova Orleans, o segundo no Instituto Nacional do Câncer, em Bethesda, também nos Estados Unidos, e o terceiro na Agência Internacional de Pesquisa em Câncer em Lion, na França. Voltei para São Paulo com minha mulher em novembro de 1984 e comecei a planejar o que fazer.


tinha esse nome, começou em novembro de 1993, quando recrutamos a primeira mulher, no Hospital Vila Nova Cachoeirinha, em São Paulo, e a última entrou em 1997. O trabalho terminou em 2004, com 2.528 pacientes de 18 a 60 anos, que seguimos por quase 10 anos. Foi um dos primeiros estudos de longa duração no mundo que mostrou a infecção persistente do HPV como razão primária do câncer de colo de útero. Até hoje tiramos proveito desse estudo, já que guardamos as amostras de células e vírus coletadas. O que tem feito no Canadá atualmente? Participo das campanhas para convencer as diferentes províncias a adotar o método molecular de rastreamento do câncer de colo de útero. Também estou escrevendo para o grande público. Um exemplo: depois de muitas horas para acertar um texto sobre prevenção com a editora do blog Health Debate, o resultado foi maravilhoso. Depois fui chamado, reuni outros 14 líderes canadenses nessa área e fizemos um documento de quase 30 mil palavras com argumentos para mudar os métodos de rastreamento, que enviamos para os departamentos de saúde de cada província. Já me reuni com as equipes de saúde da província de Ontário e de Quebec. Estou em uma fase de pragmatismo, de priorizar as pesquisas aplicadas sobre novos métodos de controle de câncer para a maior parte da população. Uma delas é a autocoleta: as próprias mulheres recolhem amostras de células do colo de útero para exames, em vez de terem de ir ao centro de saúde. Isso já é possível? Um de nossos estudos, o CASSIS, que quer dizer Cervical and Self-Sample In Screening, veio de uma proposta de uma engenheira talentosa de Toronto, Jessica Ching, que desenhou um dispositivo, o HerSwab, para coletar amostras de células do colo de útero para exames. É um envelope com um dispositivo anatomicamente adequado que a mulher leva para casa, insere na vagina, gira a ponta para coletar as células, coloca de novo no envelope, põe no correio e manda para exame. Avaliamos em mais de mil mulheres e vimos que a autocoleta funciona muito melhor que o Papanicolau. Outro exemplo de pesquisa aplicada é o gel, porque a vacina, apesar de boa, ainda é cara e só previne contra alguns tipos de HPV.

Temos de defender nosso trabalho diante dos gestores de saúde se de fato quisermos mudar alguma coisa

De que é feito o gel? É feito com carragena, um polissacarídeo extraído de algas vermelhas. Esse trabalho veio de uma apresentação a que assisti em 2006 de John Schiller, um cientista dos NIH que tinha visto que a carragena, in vitro, se ligava ao receptor da superfície do HPV, que, por sua vez, se liga à célula hospedeira, mesmo em baixas concentrações. Veio daí a pergunta: será que poderia inibir a ligação do vírus com as células epiteliais? Desenhamos o estudo CATCH, sigla de Carrageenan-gel against Transmission of Cervical HPV, mas demoramos dois anos para começar porque tivemos de provar que o uso era seguro. O CATCH é um estudo clínico randomizado, com 500 mulheres. Metade vai usar um gel com carragena e outra metade outro gel, como placebo. Os dois grupos usam antes de ter relação sexual e voltam periodicamente para vermos se adquirem menos HPV. Devemos apresentar os resultados em um congresso sobre HPV na África do Sul no final de fevereiro. Se houver um impacto, será ótimo, porque a carragena é uma matéria-prima abundante, o método de produção não está mais sob

a proteção de patentes e o custo final deve ser muito baixo. Também estamos avaliando a eficácia do gel em homossexuais com e sem HPV, em vários centros de pesquisa. O impacto pode ser muito relevante, imagine: um gel simples, que previne contra todos os tipos de HPV, embora não tenha ação contra o HIV. E as suas batalhas contra as revistas predatórias? Nos últimos anos dei vários cursos, inclusive no Brasil, sobre boas práticas de publicação em revistas científicas. A partir de 2000 o acesso aberto ampliou o acesso às publicações científicas, mas criou um monstro, as revistas predatórias, sem nenhuma ética profissional, com nomes atraentes e endereços falsos nos Estados Unidos ou na Inglaterra. Elas convidam os autores incautos para publicar e, evidentemente, cobram por isso. Não há nenhum controle de qualidade. O sucesso das revistas predatórias se estendeu às pseudoconferências científicas, que atraem pesquisadores ávidos por mostrar o trabalho, mas depois, quando aceitam os convites adulatórios, veem que têm de pagar para ir. A decepção maior vem depois, quando chegam na conferência e encontram dois ou três gatos pingados que também caíram na armadilha. Temos de fazer um boicote às publicações desonestas para evitar que uma informação inconsistente passe por fato científico. No início de janeiro, distribuí um e-mail para a equipe do meu departamento alertando contra as revistas predatórias e recomendando: “Protejam seu nome e sua reputação”. Outra cruzada é o combate a armas de fogo. Organizei uma edição especial da revista Preventive Medicine, dedicada a meu pai, que levou dois tiros em um assalto à loja dele e morreu em 1998. Essa edição saiu em setembro de 2015, com artigos ótimos sobre o alcance da violência causada por armas de fogo, que ninguém conhecia direito. Um dos artigos indica que haveria um redução de 15% no suicídio causado por armas de fogo se o controle sobre as armas fosse maior nos Estados Unidos, onde se estima que cerca de 10 milhões de pessoas tenham armas de fogo em casa. Ainda não conseguimos nos organizar para ajudar a resolver o problema das armas de fogo. A criminalidade é também um problema de saúde pública. n PESQUISA FAPESP 252 | 31


política c&T  Gênero y

Corredor estreito Estudo mostra como a participação feminina na filosofia no país diminui no decorrer da carreira acadêmica Fabrício Marques

U

m estudo pioneiro no país feito por Carolina Araújo, professora do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), obteve dados quantitativos acerca de um fenômeno que pesquisadores do campo da filosofia vivenciam no Brasil e em vários lugares do mundo: mulheres são minoria entre estudantes e docentes dessa área do conhecimento e a predominância masculina se intensifica no decorrer da vida acadêmica. O trabalho comparou a proporção de homens e mulheres em três momentos distintos da carreira. O ponto de partida foram os dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), segundo os quais, entre os graduados em filosofia no Brasil em 2014, 38,4% eram do sexo feminino. Em seguida, Carolina compilou os nomes de 4.437 alunos e docentes dos 44 programas de pós-graduação em filosofia do país registrados na Plataforma Sucupira, banco de dados mantido pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) que fornece dados sobre a comunidade acadêmica brasileira. Ela constatou que a proporção de mulheres cai

32  z  fevereiro DE 2017

durante a pós-graduação e ao longo da carreira docente. Entre os 3.652 estudantes de mestrado e doutorado, as matrículas de alunas respondiam por 28,45% do total em 2015. Já quando se analisam os docentes permanentes desses programas, há 20,94% de mulheres. “Mulheres têm 2,5 menos chances do que os homens de chegar ao topo da carreira acadêmica em filosofia no Brasil”, resume Carolina, que divulgou seu estudo em 8 de março do ano passado, no site da Associação Nacional de Pós-graduação em Filosofia (Anpof ). A situação dos programas de pós-graduação, conforme mostra o estudo, não é homogênea. Em dois casos extremos, não havia nem uma mulher sequer no corpo docente em 2015: os programas da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR). Segundo o professor de filosofia Érico Andrade Marques de Oliveira, um dos coordenadores do programa da UFPE, as mulheres sempre foram minoria entre os docentes da instituição, mas o quadro se tornou mais grave nos últimos anos com a aposentadoria de várias professoras, substituídas por homens. “Esse padrão no perfil do professor de filosofia é desconfortável e não colabora com os esforços


Mulheres na pós em filosofia Proporção de alunas e professoras em programas de mestrado e doutorado de universidades selecionadas Sexo feminino

Sexo masculino Discentes matriculados e docentes permanentes

Discentes matriculadas Docentes permanentes

0%

50%

17,65%

ufabc

54,55% 29,58%

ufscar

53,85% 32,03%

uerj

40,91% 40,48%

puc-rio

37,5% 33,61%

ufba

35% 25%

ufrgs

31,58% 29,7%

ufmg

29,03% 23,62%

puc-sp

27,27% 26,32%

unifesp

25,93% 25%

ufpa

25% 36,84%

unesp/ marília

20% 25,47%

usp

unicamp

15% 20,28% 12,5% 18,33%

ilustrações  sandra jávera

unb

ufpe

total brasil

100%

5,88% 26,67% 0 28,45% 20,94% Fonte  mulheres na pós-graduação em filosofia no brasil – 2015, de Carolina Araújo

pESQUISA FAPESP 252  z  33


para atrair docentes do sexo feminino. Isso é prejudicial, pois as reflexões das mulheres filósofas não necessariamente coincidem com as questões trazidas pelos professores. Além disso, muitas vezes as reflexões filosóficas seguem certos padrões masculinos”, afirma. O pesquisador diz que se esforça pessoalmente para quebrar a excessiva presença masculina na universidade. “Sempre faço questão de manter pelo menos uma aluna entre meus orientandos de iniciação científica porque esse programa é decisivo para aprovações nos programas de pós-graduação. A falta de mulheres na pós se reflete nas candidaturas para concurso em que a presença das mulheres é rara. Em alguns concursos, não há sequer candidatas mulheres”, conta. Uma exceção aconteceu em maio de 2016, quando Loraine de Fátima Oliveira, então professora de filosofia da Universidade de Brasília, foi aprovada num concurso da UFPE. “Havia três homens disputando com ela”, diz Érico. Loraine ainda não está credenciada no programa de pós-graduação, atualmente com 14 professores permanentes.

N

o programa de pós-graduação em filosofia da Universidade Federal do ABC (UFABC), não há escassez de vozes femininas. Em 2015, de acordo com o estudo, metade dos docentes do programa era mulher. Hoje a situação mudou um pouco: docentes do sexo feminino respondem por seis das 19 funções docentes na pós-graduação, um patamar ainda assim acima da média nacional. Ocorre que, quando a coleta de dados foi feita, o programa acabara de ser lançado e, num primeiro momento, poucos homens se credenciaram. Luciana Zaterka, coordenadora do programa, levanta uma hipótese para explicar o caso da UFABC. “A universidade só tem 10 anos e trabalha com um projeto que está em construção. Não há departamentos. Os docentes lecionam para alunos de graduação de diversos cursos e é frequente que tenham também formação em ou-

34  z  fevereiro DE 2017

tras áreas – eu também sou graduada em química”, conta. “É possível que o viés interdisciplinar, diferente da estrutura compartimentada das universidades, tenha ajudado a atrair mais mulheres.” As universidades de São Paulo (USP), com 15% de docentes permanentes do sexo feminino, e a Estadual de Campinas (Unicamp), com 12,5%, estão abaixo da média nacional dos programas de pós-graduação em filosofia. “Na graduação, temos apenas duas jovens professoras trabalhando ativamente no Departamento de Filosofia. Na pós-graduação, estamos em número um pouco maior”, diz Maria das Graças de Souza, professora titular da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. “Reverter a situação depende do empenho particular de professores em orientar mais mulheres, mas é preciso ter mais candidatas. Eu tenho mais meninos que meninas no meu grupo de orientação”, afirma. A forte presença de estudantes e pesquisadores do sexo masculino faz da filosofia uma exceção entre as artes e humanidades, cujas áreas do conhecimento se abriram bastante às mulheres nas últimas décadas. Um estudo do Departamento de Filosofia da Universidade Princeton, publicado em 2015, mostrou que, nos Estados Unidos, há mais doutoras atuando em história da arte e psicologia (cerca de 70%) do que em filosofia (menos de 35%). “A filosofia está vinculada a um ambiente acadêmico masculino, assim como acontece com a física, a matemática e as engenharias”, diz Monique Hulshof, professora do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp. A situação se reproduz em vários países. De acordo com um estudo publicado em julho de 2016 por Eric Schwitzgebel, do Departamento de Filosofia da Universidade da Califórnia em Riverside, em países anglófonos como Estados Unidos, Reino Unido, Canadá e Austrália a disparidade de gênero na filosofia ainda é grande e, embora o envolvimento das mulheres com esse campo do conhecimento tenha crescido nas últimas décadas, parece não ter havido ganhos significativos desde a década de 1990. O trabalho reuniu dados de fontes variadas, como a lista de autores de periódicos de prestígio de filosofia, uma pesquisa sobre doutores feita pela National Science Foundation, listas de


palestrantes em conferências da American Philosophical Association, entre outros. Os achados do estudo sugerem que áreas como a filosofia moral, social e política estão mais próximas da paridade de gênero que as demais áreas da filosofia. “Muitas das mais proeminentes mulheres filósofas dos últimos 100 anos são conhecidas primariamente por seu trabalho nessas áreas”, escreveu o pesquisador, referindo-se a nomes como Simone de Beauvoir, Hannah Arendt. Philippa Foot, Martha Nusbaum e Christine Korsgaard. Não há uma explicação simples para a baixa participação das mulheres na filosofia. Um relatório divulgado em 2011 pela British Philosophical Association (BPA) atribui as barreiras a fenômenos culturais, como a crença de que as mulheres não têm afinidade com certas disciplinas e a consolidação de estereótipos que estigmatizam as pesquisadoras. Há quem aponte causas históricas. “Há poucas referências femininas na filosofia. Assim como aconteceu com as ciências, desde a antiguidade e até o século XIX, as mulheres tiveram acesso vedado à escrita e isso teve impacto na filosofia e na literatura”, diz Maria das Graças de Souza. “Há causas gerais e causas particulares. Existem instituições que conseguem atrair mais alunas e professoras para cursos de filosofia do que outras, assim como há cargos docentes de filosofia ligados a licenciaturas em que há mais mulheres.” Existem, é certo, hipóteses para explicar o fenômeno e a principal delas está ligada à ideia de que o ambiente acadêmico seria pouco amigável para as mulheres. Monique Hulshof, da Unicamp, lembra que a filosofia tem a especificidade de lidar com discurso e argumentação. “Essa função argumentativa envolve retórica e segurança da fala e isso costuma ser mais difícil para as mulheres. Vejo bem isso nas alunas na graduação. Muitas têm dificuldade de se posicionar com segurança, de desenvolver argumentos mais incisivos, de produzir uma retórica mais elaborada. Evidentemente, não é que não tenham capacidade de fazer isso, mas elas se formaram num ambiente cultural em que receberam estímulos mais para compreender do que para impor argumentos”, afirma. O problema é agravado, segundo ela, por um discurso masculinizado e masculinizante que as instituições acadêmicas de

filosofia adotam. “O problema não está apenas no lado das mulheres que têm um discurso inseguro, mas no comportamento de muitos homens que cortam suas falas, desconsideram seus argumentos, desqualificam sistematicamente seus trabalhos”, afirma. “Há também outros motivos para o abandono no percurso acadêmico, tais como a tarefa da maternidade que recai em geral sobre a mulher, assédios morais e sexuais, entre outros.” Em artigo publicado no site da Anpof em outubro, Maria Isabel Limongi, professora de filosofia da Universidade Federal do Paraná, reforça essa hipótese. “O que é filosofia senão uma arena de disputa entre diversas perspectivas discursivas? Mas é aqui, me parece, que as mulheres se encontram em desvantagem, já que, ao contrário dos homens, nunca foram encorajadas a autorizar seus próprios discursos”, escreveu. “Nesse jogo, elas costumam se intimidar e, quando não, o fazem a duras penas. Não fui muito além de declarar as razões que me teriam feito desistir da filosofia, nas tantas vezes em que pensei nisso, e de relatar o que observo aqui e ali, nas minhas orientandas de pós-graduação, por exemplo, muitas das quais têm um medo danado de falar besteira.”

O

interesse de Carolina Araújo pelo tema foi inspirado também em sua experiência pessoal: ela foi mãe enquanto fazia o doutorado, em 2002, numa época em que bolsistas não tinham direito a licença-maternidade. Sua intenção é despertar a atenção de forma permanente para a disparidade de gênero na filosofia. “Queremos que a Capes monitore a divisão de gênero em programas de pós-graduação e forneça dados atualizados”, diz Carolina. Isso ajudaria a identificar grupos de pesquisa e programas de pós-graduação pouco permeáveis à participação feminina. “Uma ação de impacto seria distribuir bolsas de iniciação científica seguindo a proporção de homens e mulheres ingressantes na graduação, de 60% e 40% atualmente. Assim teríamos mais chance de que o ingresso na pós mantivesse esse padrão e a médio/longo prazo poderia haver uma mudança de cenário”, diz. Em outros países, o diagnóstico do problema deu origem a estratégias para combatê-lo. A British Philosophical Association produziu documentos sobre boas práticas para reduzir a disparidade de gênero na carreira da filosofia, com recomendações sobre a relação entre professores e estudantes e a distribuição de cargos acadêmicos. O exemplo mais forte de mobilização é o da American Philosophical Association, que mantém um Comitê sobre o Status das Mulheres. A instância monitora a participação de mulheres na carreira nos Estados Unidos e divulga trabalhos de filósofos e filósofas considerados sub-representados no currículo das universidades. n pESQUISA FAPESP 252  z  35


Universidade y


Engrenagem em movimento Novo sistema de avaliação da USP cobra desempenho de docentes e articula metas individuais com as de departamentos e unidades

ilustraçãO Imagezoo / GettyImages

A

Universidade de São Paulo (USP), a maior instituição pública de ensino superior brasileira e a mais destacada do país em rankings internacionais, inicia o ano de 2017 com um novo modelo para medir o desempenho e a qualidade do trabalho de seus cerca de 6 mil docentes. Uma reforma do sistema de avaliação foi aprovada pelo Conselho Universitário no dia 8 de novembro de 2016 com a ambição de coordenar os mecanismos de avaliação existentes e, principalmente, de estabelecer objetivos a serem alcançados de forma integrada por docentes, departamentos e unidades. A mudança foi implementada por meio de uma reforma da Comissão Permanente de Avaliação (CPA) e do Estatuto do Docente. As avaliações serão feitas a cada cinco anos, tendo como fio condutor os projetos acadêmicos estabelecidos para cada professor. Tais projetos vão definir o desempenho esperado nas atividades de ensino em graduação e pós-graduação, orientação de alunos, pesquisa, extensão e gestão adminis-

trativa, e terão de ser aprovados pelo departamento ao qual o docente está vinculado. Cada departamento, por sua vez, terá um projeto acadêmico coletivo, com as metas para o conjunto de docentes. E os projetos de departamentos vão se articular com projetos maiores, de cada faculdade ou instituto. Ao construir seu projeto acadêmico, o docente poderá, em negociação com o departamento, definir vocações específicas, como um interesse maior em fazer pesquisa ou então em se dedicar a atividades de ensino. “Essa mudança é fundamental, porque contempla a diversidade de perfis de docentes que uma universidade como a USP precisa ter”, diz o reitor Marco Antonio Zago. “Ela corrige distorções, como exigir que um docente com perfil de pesquisador se envolva em demasia com atividades administrativas ou de ensino, ou fazer com que um docente reconhecido pela excelência em atividades de ensino tenha uma produção científica extensa.” Se o docente deixar de cumprir o previsto em seu projeto individual, poderá

firmar um termo de compromisso para reorientar o trabalho num prazo de três anos e restabelecer o nível acadêmico esperado. Se falhar novamente, ficará sujeito a processo administrativo, que pode resultar em advertência, repreensão e demissão. O docente que firmar um termo de compromisso uma vez não terá direito a usar esse recurso nos dois ciclos de avaliação seguintes. “Consequências para os casos em que os projetos acadêmicos não forem cumpridos precisam existir, mas o foco do novo sistema não é punir”, diz Alexandre Nolasco de Carvalho, professor do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC), em São Carlos, presidente da comissão incumbida de propor o modelo. “A ideia é ter metas que induzam uma evolução da qualidade acadêmica dos professores, dos departamentos, das faculdades e da universidade como um todo.” Uma inspiração do modelo da USP é o processo de avaliação trienal de programas de pós-graduação, como vem sendo realizado há mais de 20 anos pela Coordenação de Aperfeiçoamento de pESQUISA FAPESP 252  z  37


Pessoal de Nível Superior (Capes), agência do Ministério da Educação (MEC). “O modelo da Capes é reconhecido por sua capacidade de induzir a melhoria contínua de qualidade dos programas de pós-graduação. Ele é feito por pares e aumenta as exigências a cada ciclo”, diz Maria Paula Dallari Bucci, professora da Faculdade de Direito da USP, membro da comissão encarregada de propor o sistema e ex-secretária de Educação Superior do MEC entre 2008 e 2010. O modelo visa aperfeiçoar o sistema anterior, que era composto por três instâncias distintas de avaliação. Uma delas é a avaliação institucional da universidade, promovida a cada cinco anos pela CPA e encaminhada à Secretaria Estadual de Educação. Essa avaliação é feita por meio de pareceres de assessores, que avaliam indicadores quantitativos, formulários de autoavaliação e entrevistas com docentes, alunos e funcionários. “Trata-se de uma obrigação da universidade como órgão público”, diz Nolasco. “Mas, isoladamente, essa avaliação nunca teve força para orientar o desenvolvimento institucional da USP.” Agora, a CPA teve suas finalidades ampliadas. Passou a ser composta por uma plenária e duas câmaras específicas – uma voltada a atividades docentes e outra de avaliação institucional (departamentos e unidades) – e tem como missão articular os processos de avaliação dos órgãos da USP e estabelecer as diretrizes e o calendário de avaliação.

E

xistiam, ainda, uma comissão de avaliação voltada para a progressão na carreira docente e outra para acompanhar o estágio experimental dos servidores e docentes concursados admitidos na universidade. O estágio durava seis anos – durante esse período, o docente era avaliado para ser confirmado no cargo e ganhar estabilidade. Na nova configuração, o estágio passou a ter apenas três anos. De acordo com Alexandre Nolasco, as três instâncias tinham o defeito de não atuarem de maneira interligada. “Não havia uma associação entre as avaliações e a evolução institucional da universidade”, diz. “A avaliação não pode ser um fim em si mesma. Ela deve fazer parte de um processo de melhoria de qualidade, em que objetivos são planejados e, periodicamente, se mede o que foi alcançado e o que não foi, promovendo em seguida correções de percurso.” 38  z  fevereiro DE 2017

A mudança contempla a diversidade de perfis de docentes que uma universidade como a USP precisa ter, diz o reitor Zago

Os debates sobre o modelo suscitaram diversas críticas da comunidade acadêmica. Algumas delas produziram modificações na proposta original, mas outras ainda persistem. Para a diretora da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), Maria Arminda do Nascimento Arruda, é preocupante a centralização do processo de avaliação de toda a universidade numa instância, a CPA. “A avaliação tem o mérito de sincronizar o projeto departamental à atividade prioritária do docente: ensino, pesquisa e extensão, que serão parâmetros da sua avaliação. Mas o modelo de universidade com o qual estamos acostumados confere ampla autonomia às diferentes faculdades e cada uma delas tem critérios próprios de julgamento e de avaliação. A centralização envolve o risco de ampliar a normatização e a burocratização na universidade e de enrijecer um sistema que já é enrijecido”, afirma. Segundo a professora, embora o projeto preveja a existência de representantes das ciências sociais e das humanidades na comissão de avaliação, há o temor de que critérios estranhos à tradição nessas áreas sejam utilizados para mensurar a qualidade e o desempenho dos docentes. “Sou totalmente favorável à avaliação, porque a USP é uma universidade pública e tem a obrigação de prestar contas. Mas a pergunta que precisa ser feita é: a normatização em excesso pode comprometer as atividades cultural, científica e acadêmica na universidade?” A discussão sobre as mudanças na avaliação começou em 2014, quando o reitor Marco Antonio Zago criou uma comissão incumbida de modernizar o sistema. No ano passado, pelo menos três versões das normas foram produzidas num processo de consulta pública, incorporando contribuições feitas em reuniões nas unidades e nos campi de Ribeirão Preto, São Carlos e São Paulo. “Recebemos mais de 800 páginas de sugestões, que foram em grande parte incorporadas ao texto aprovado pelo Conselho Universitário”, conta Maria Paula. A princípio, cogitou-se vincular a avaliação à atribuição de regimes de trabalho – 86% dos docentes da USP se enquadram no regime de dedicação integral à docência e à pesquisa (RDIDP). Mas a ideia foi abandonada. “Houve uma interpretação totalmente equivocada de setores da universidade, que atribuía à


reitoria o interesse em reduzir o número de professores em RDIDP para economizar dinheiro”, diz o reitor Marco Antonio Zago. “Como isso não era verdade e o RDIDP tem uma importância fundamental na universidade, decidimos retirar o regime de trabalho da discussão, ainda que seja evidente que o sistema precisa ser atualizado.” Se a ideia de atrelar avaliação e regime de trabalho tivesse vingado, não seria algo inédito. A Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), por exemplo, instituiu na década de 1990 um formato de avaliação de desempenho dos docentes que pode resultar na perda do RDIDP, com a consequente redução de salário, para professores cuja avaliação indique que seu desempenho não alcançou o nível determinado pelos critérios estabelecidos. As vagas de docentes da Unicamp são sempre abertas em regime de tempo parcial. Os aprovados nos concursos, depois de apresentarem um plano de atividades, podem ser autorizados a ingressar no regime de tempo integral, o que não garante o direito de permanecer definitivamente nessa categoria. Outro tema sensível foi a composição da CPA, que a princípio teria todos os nomes indicados diretamente pela reitoria. O texto aprovado prevê que apenas três dos nove membros serão apontados pelo reitor. Os demais serão designados por unidades e congregações.

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a avaliação de Elizabeth Balbachevsky, professora do Departamento de Ciência Política da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, o novo sistema avança em pontos importantes. “Ele incorpora, pela primeira vez, algo que sempre foi um tabu na USP, que é a cobrança por desempenho do docente”, diz a professora, recordando que, em 1988, o vazamento de uma lista de professores da USP que não haviam tido nenhuma produção científica em anos anteriores deixou traumas duradouros. “Essa cobrança aparece de forma forte e estabelece que o docente será avaliado segundo parâmetros concretos e predefinidos”, afirma Balbachevsky, que participa de projetos de pesquisa sobre a profissão acadêmica no Brasil e em outros países. Renato Pedrosa, professor do Departamento de Política Científica e Tecnológica do Instituto de Geociências da

Para Maria Arminda, a centralização do processo de avaliação traz o risco de ampliar a burocratização

Unicamp, critica um tópico do novo estatuto da USP, segundo o qual, ao final do estágio de três anos, o docente recém-admitido será avaliado por uma comissão de três membros, sendo pelo menos um deles vinculado ao departamento em que o docente está lotado. “Se a comissão tem pelo menos um membro que é colega do professor avaliado, existe a possibilidade de se formar uma comissão com dois ou três membros do mesmo departamento. Isso me parece limitado para evitar a endogenia que é característica de muitas universidades do Brasil e a formação de grupos de interesse do status quo dos departamentos”, afirma. Pedrosa também considera que faltam critérios sobre o que seria um desempenho aceitável na avaliação de docentes e departamentos. Elizabeth Balbachevsky concorda que o novo sistema é vago acerca desses critérios, mas diz que isso é proposital. “Claramente, é uma solução que contempla a diversidade dos perfis acadêmicos das unidades da USP, que reúne desde escolas profissionais até enclaves de pesquisa de nível internacional”, afirma a professora. O reitor Marco Antonio Zago afirma que o objetivo da reforma foi criar as linhas gerais do

sistema, que agora serão discutidas e aperfeiçoadas pelas novas instâncias de avaliação. “Não faria sentido estabelecer todos os detalhes, pois isso tornaria mais complicado corrigir o que não funciona e aperfeiçoar o modelo ao longo do tempo”, afirma. A presença de representantes de áreas diversas do conhecimento na Comissão Permanente de Avaliação, diz Zago, é importante para gerar consensos e validar o processo. “Há uma tendência de que pesquisadores de algumas áreas não reconheçam os critérios de avaliação utilizados por outras e até os desqualifiquem. É preciso superar isso.” Elizabeth Balbachevsky ressalta que a solução adotada pela USP segue modelos de governança universitária usados em outros países, baseados em mecanismos de valorização e de monitoramento do desempenho dos docentes. “A diferença é que, em universidades britânicas, norte-americanas e australianas, os processos de avaliação são referendados por especialistas de fora das instituições, muitos deles de outros países. Isso faz falta no modelo da USP e poderia servir de contrapeso a eventuais dinâmicas corporativas que o novo tipo de avaliação possa ensejar.” n Fabrício Marques pESQUISA FAPESP 252  z  39


ambiente y

Pacto em transformação Movimento pela recuperação da Mata Atlântica se reorganiza para atingir metas propostas Everton Lopes Batista e Carlos Fioravanti

O

Pacto pela Restauração da Mata Atlântica (Pacto), movimento que integra os setores ligados à pesquisa e preservação ambiental para unificar ações de recuperação das áreas de floresta atlântica em todo o país, está se reestruturando para ganhar autonomia e atingir as metas propostas ao ser lançado, em 2009 (ver Pesquisa FAPESP no 159). Oito anos depois, os projetos em andamento acompanhados pelo Pacto representam quase 100 mil hectares de vegetação nativa (1 hectare equivale a 10 mil metros quadrados) em processo de recuperação, que corresponde a menos de 1% da meta inicial de recuperação de 15 milhões de hectares (150 mil quilômetros quadrados) de florestas até 2050. “Hoje os números não são animadores, mas refletem a dificuldade de fazer um monitoramento abrangente das áreas em

​Área de 26 hectares às margens do rio Jaguari, em Cosmópolis, São Paulo,​ que começou a ser reflorestada há 60 anos: exemplo de restauração da Mata Atlântica

40  z  fevereiro DE 2017


Terreno ocupado com vegetação rasteira para pecuária extensiva (ao lado) em Teresópolis (RJ), em 2014, e plantio de espécies nativas dois anos depois (abaixo)

os biólogos Renato Crouzeilles e Rafael Feltran Barbieri, pesquisadores do Instituto Internacional para Sustentabilidade (IIS), do Rio de Janeiro, concluíram que o total de áreas de regeneração natural e de plantios de 2000 a 2014 na Mata Atlântica é de 489.816 hectares. A equipe do Pacto espera reunir mais informações e ter uma visão mais apurada das áreas em restauração com o banco de dados que deve entrar em operação neste ano. “Com o banco de dados, poderemos cruzar dados estaduais, federais e de outras instituições para o registro tanto de projetos como de regeneração natural”, diz a bióloga Ludmila Pugliese de Siqueira, secretária-executiva do Pacto. Os resultados dos projetos de restauração são avaliados por metodologias comuns. “Ao uniformizar os métodos de monitoramento e avaliação dos resultados, o Pacto pode otimizar a captação e o uso dos recursos e o aprimoramento das técnicas de restauração florestal”, afirma o biólogo Sergius Gandolfi, professor de restauração florestal da Esalq-USP.

fotos  pedro brancalion

Outras dificuldades

restauração florestal no Brasil. Milhares de hectares em regeneração ainda estão fora do nosso radar”, diz o engenheiro-agrônomo Pedro Brancalion, professor da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (Esalq-USP), membro do grupo de trabalho tecnocientífico do Pacto e um dos autores do guia metodológico Pacto pela restauração da Mata Atlântica: Referencial dos conceitos e ações de restauração florestal (goo.gl/op95sB). Um levantamento da SOS Mata Atlântica e do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) divulgado em janeiro re-

gistrou uma área de 219 mil hectares de Mata Atlântica em recuperação, principalmente em estágio inicial ou em áreas antes ocupadas por pastagens, em nove dos 17 estados ocupados por esse tipo de vegetação, de 1985 a 2015. As conclusões resultam da análise de imagens do satélite Landsat 8 de remanescentes florestais com pelo menos 3 hectares. Se considerar também áreas menores, o total é maior. Com base nas imagens do Global Forest Watch (www.globalforestwatch. org), que acompanha a expansão ou retração das florestas no mundo com uma resolução espacial de 30 por 30 metros,

“Um dos maiores problemas é que o Pacto ainda não conseguiu sustentabilidade financeira para apoiar as ações de seus membros”, afirma o engenheiro-agrônomo Miguel Calmon, gerente de restauração da paisagem florestal do Programa Global de Florestas e Clima da União Internacional para Conservação da Natureza (IUCN) e ex-coordenador geral do movimento. O Pacto reúne 270 integrantes ligados a universidades, institutos de pesquisa, organizações não governamentais (ONGs), órgãos de governo e empresas, incluindo proprietários rurais. O movimento não tem sede própria e funciona dentro das instituições que o constituem. Como seus integrantes se valem da infraestrutura das universidades, ONGs e empresas, não há custos administrativos para o Pacto, que não tem um orçamento próprio, um de seus pESQUISA FAPESP 252  z  41


maiores problemas. Calmon quer ajudar a mudar isso. Diante dos limites da informalidade, já que o trabalho não avançou no ritmo desejado, ele considera a autonomia financeira essencial para manter uma estrutura mínima, com espaço e equipe fixa próprios que mobilize outros integrantes e capte recursos públicos e privados para implementar as ações de restauração da Mata Atlântica em larga escala, como previsto no documento fundador do grupo. Um dos caminhos cogitados para superar essas dificuldades é transformar o movimento em uma ONG neste ano. “Assim será possível trabalhar de maneira mais independente, em tempo integral, para alcançar os objetivos do movimento”, diz Ludmila, única integrante do Pacto com dedicação exclusiva, cuja remuneração é paga por ONGs. Segundo ela, essa mudança deveria preservar o propósito do Pacto de ser um agente de mobilização de outras instituições e uma plataforma de colaboração entre interessados na preservação ambiental, 42  z  fevereiro DE 2017

ao divulgar metodologias (ver Pesquisa Fapesp no 238), projetos de restauração e as áreas com potencial de restauração em todo o país. Opções de restauração

Em um artigo publicado em novembro de 2016 na revista científica World Development Perspectives, Brancalion e outros pesquisadores apresentam quatro peculiaridades do Pacto: a mobilização e o engajamento de um grupo variado de participantes; o desenvolvimento de metodologias comuns de trabalho; a harmonização de diferenças regionais em uma visão nacional de larga escala; e a inovação constante, como a incorporação de metododologias avaliadas cientificamente para restauração florestal em áreas de mineração ou, com aproveitamento econômico, com o plantio de eucalipto, de espécies nativas madeireiras ou de palmito-juçara. “Queremos oferecer opções de restauração para grandes e pequenos agricultores, de modo que a rentabilidade das áreas recuperadas seja

maior que a da pecuária extensiva”, diz Brancalion. Segundo ele, o modelo de governança do Pacto permitiu a proprietários rurais e empresas que hoje o integram deixar de agir apenas em resposta à obrigatoriedade legal de recuperação florestal, a chamada compensação ambiental a projetos de infraestrutura como hidrelétricas ou estradas, para propor e implantar projetos próprios que tragam benefícios econômicos, como a diversificação da produção agrícola. “O Pacto propõe uma agenda única e em grande escala, que enxerga a restauração não apenas como ampliação da cobertura vegetal, mas também como um meio de promover a economia de base local e a cadeia produtiva, com geração de emprego e renda”, diz o biólogo Severino Rodrigo Ribeiro Pinto, diretor-presidente do Centro de Pesquisas Ambientais do Nordeste (Cepan) e atual coordenador nacional do movimento. A transformação de pastagens e outras áreas abandonadas implica o recrutamento de mão de obra e a formação de viveiros de mudas das espécies nativas regionais. O Pacto não é a única organização do tipo no Brasil. Apresentada publicamente em Belém no dia 30 de janeiro, a Aliança pela Restauração na Amazônia reúne ONGs, centros de pesquisa e empresas para promover ações integradas de recuperação das áreas desmatadas da Floresta Amazônica. “O compromisso assumido pelo Brasil no Acordo de Paris, de restaurar e reflorestar 12 milhões de hectares em todo o país, ilustra o tamanho do desafio que teremos pela frente”, comentou o biólogo Rodrigo Medeiros, vice-presidente da Conservação Internacional (CI-Brasil), no comunicado de lançamento da nova organização. “Nessa escala, somente uma articulação ampla de vários setores da sociedade brasileira, incluindo o setor privado, é capaz de criar um ambiente concretamente capaz de promover essa transformação.” n

Livro Rodrigues, R. R. et al. Pacto pela restauração da Mata Atlântica: Referencial dos conceitos e ações de restauração florestal. São Paulo: Esalq-USP/ Instituto BioAtlântica, 2009, 260 p.

Artigo científico BRANCALION, P. H. S. et al. Governance innovations from a multi-stakeholder coalition to implement largescale Forest Restoration in Brazil. World Development Perspectives. v. 3, p. 15-17. 2016.

fotos  pedro brancalion

Área usada para mineração em Poços de Caldas, Minas Gerais: preparo do solo para a restauração em 2014 (ao lado) e mata formada três anos depois (abaixo)


COSMOLOGIA y

Ondas de matéria do

Universo jovem

Radiotelescópio a ser construído no Uruguai deve examinar os efeitos da interação entre o hidrogênio

Benjamin Winkel / HI4PI Collaboration

e a radiação eletromagnética

A

pós três anos de planejamento e a liberação de financiamento de agências do Reino Unido e do Brasil, deve começar neste ano, no norte do Uruguai, a construção de um radiotelescópio com o qual se planeja identificar uma frequência específica da radiação eletromagnética emitida pelo hidrogênio há bilhões de anos. Com esse novo equipamento, físicos brasileiros, ingleses, suíços, uruguaios e chineses pretendem obter mais informações sobre a distribuição das galáxias e fenômenos ocorridos quando a matéria se separou da radiação eletromagnética, 370 mil anos depois da explosão que teria originado o Universo, o Big Bang, ocorrida cerca de 13,7 bilhões de anos atrás. As partículas atômicas formavam um plasma, com uma temperatura de cerca de 3 mil graus Celsius na época da separação entre matéria e radiação, segundo os especialistas. “No plasma primordial havia ondas de matéria formadas pela interação entre matéria e radiação eletromagnética. Após a separação de matéria e radiação, as ondas que se propagavam no espaço congelaram, gerando correlações na distribuição de matéria”, explica o físico Élcio Abdalla, professor do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (IF-USP) e

Mapa do céu, produzido por radiotelescópios reflete a radiação do hidrogênio na frequência de 1 gigahertz. A faixa horizontal ao centro representa a Via Láctea. A mancha embaixo, à direita, são duas galáxias próximas, as Nuvens de Magalhães

pESQUISA FAPESP 252  z  43


O Bingo captará radiação do hidrogênio que deve indicar a distribuição das galáxias logo após a criação do Universo

A radiação eletromagnética que chega do céu

As cornetas ​filtram

incide sobre o

apenas a radiação

primeiro espelho e

de 1 GHz do​

em seguida sobre

hidrogênio e a envia

o segundo espelho

para análise

40 m

48,5 m

Fonte Bingo

50 m

coordenador do projeto, ao lado do físico Carlos Alexandre Wuensche, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). O radiotelescópio ganhou o nome de Bingo, sigla de Baryon Acoustic Oscillations in Neutral Gas Observations ou observações de gás neutro (neste caso, o hidrogênio) das oscilações acústicas bariônicas, que são as ondas geradas pela interação dos átomos (ou matéria bariônica) com a radiação. O objetivo é medir uma radiação típica do hidrogênio, elemento mais comum do Universo, em uma linha de emissão eletromagnética com um comprimento de onda de 21 centímetros, o equivalente, em frequência, a 1,421 gigahertz (GHz), que chega à Terra com frequências entre 0,9 e 1,2 GHz, por causa da distância em que essa radiação foi emitida. colaboração

Na construção dos equipamentos e montagem do telescópio, os brasileiros, por meio da FAPESP, participam com R$ 12 milhões e os ingleses com cerca de US$ 850 mil, enquanto os suíços se comprometeram a produzir e enviar equipamentos orçados em US$ 800 mil e os 44  z  fevereiro DE 2017

Esta é a primeira grande colaboração internacional liderada pela equipe de São Paulo, diz Abdalla chineses asseguraram um financiamento mínimo de US$ 300 mil, segundo Abdalla. “Há várias razões para o Brasil participar e liderar um projeto como o Bingo”, ele afirma. Segundo o físico, a construção do radiotelescópio proporcionará “uma transferência maciça de conhecimento técnico para o Brasil”, por meio da interação com equipes de outros países, para a construção de novos tipos de equipamentos. Como exemplo,

ele citou o grupo da Universidade de Manchester, na Inglaterra, que lidera a construção de radares desde a Segunda Guerra Mundial. Por sua vez, a colaboração com os suíços pode resultar no aprimoramento das equipes brasileiras em instrumentação e observações de micro-ondas. “Esta é a primeira grande colaboração internacional liderada pela equipe de São Paulo e certamente terá consequências muito positivas para nossa área no Brasil, principalmente também por testar teorias que foram formuladas no país", enfatiza Abdalla. “Do ponto de vista científico, esse é um projeto de primeira linha, que investigará um dos mais profundos mistérios da natureza: o fato de que uma parte escura e desconhecida do Universo é responsável por 95% de sua constituição”, afirma Abdalla. Um dos membros do comitê supervisor do projeto do radiotelescópio no Uruguai, Steve Torchinsky, físico do Observatório de Paris, disse a Pesquisa FAPESP: “Dizemos que o Universo está em expansão acelerada, mas não sabemos por quê. Chamamos esse mistério de energia escura, mas não conhecemos sua natureza nem como funciona. É possível que o Bingo ajude a desvendar o mistério da energia escura, fazendo uma imensa contribuição para nossa compreensão do Universo, a um custo bastante acessível”. As informações obtidas com o radiotelescópio devem também servir para testar a hipótese do grupo da USP de que a energia escura – uma forma hipotética de energia que responde atualmente por cerca de 68% da energia do Universo e seria responsável por sua contínua expansão – poderia interagir com a matéria escura – supostamente responsável por cerca de 27% da massa do Universo, mas ainda não observada diretamente –, explicando a formação e distribuição de massa no universo. Por meio do novo radiotelescópio, se funcionar como esperado, “poderemos conhecer a história da expansão do Universo com bastante precisão”, disse a Pesquisa FAPESP Mark Birkinshaw, físico da Universidade Bristol, do Reino Unido, que participa do projeto. Ele ressaltou uma das dificuldades a serem enfrentadas: o sinal de rádio do Bingo é bastante fraco e, por isso, “uma grande quantidade de dados precisa ser tomada”. Segundo Birkinshaw, outro desafio será remover

foto inpe infográfico ana paula campos ilustração  fabio otubo

Depois do Big Bang


ou evitar interferências externas, já que a faixa de frequência em que o radiotelescópio vai operar é próxima à de aparelhos como celulares, televisões, aviões e satélites – exatamente para reduzir os ruídos é que o radiotelescópio deverá ser construído em um lugar pouco povoado do norte do Uruguai. “A construção do Bingo será de grande relevância para a comunidade científica do Uruguai”, comenta o físico Gonzalo Tancredi, da Universidade da República, em Montevidéu. “Temos um grupo forte de astronomia em ciências planetárias e outro de física teórica em gravitação quântica, mas não há pesquisa em cosmologia observacional”, conta. “O Bingo nos permitirá entrar em contato com os líderes internacionais nessa área. Será também uma oportunidade para aprender sobre o estado da arte nas técnicas de detecção e análise de ondas de rádio.” Segundo ele, o Departamento de Telecomunicações do Ministério da Indústria está muito interessado no projeto. De acordo com o projeto, o Bingo terá dois espelhos, um de 48 metros (m) de diâmetro com uma inclinação de 45º e outro vertical de 40 m, o equivalente a um prédio de 16 e outro de 13 andares. Os espelhos serão sustentados por uma estrutura de metal com uma massa que Clive Dickinson, físico da Universidade de Manchester, estimou em 80 toneladas e um custo próximo a US$ 1 milhão. Sustentadas por uma estrutura semelhante, a cerca de 10 m da base, estarão 50 caixas com as chamadas cornetas, cones com 4,7 m de altura por 1,7 m de diâmetro. Formadas por sucessivos anéis de alumínio com diâmetros diferentes e com um peso estimado em 380 quilogramas cada uma, as cornetas deverão captar os sinais no segundo espelho. corrida mundial

Diferentemente de outros radiotelescópios, cuja antena se move para varrer o céu, o Bingo será fixo e observará uma área de 15° em busca da radiação de 1 GHz das nuvens de hidrogênio neutro de aglomerados de galáxias. “A equipe do Bingo está tentando, ao mesmo tempo que outros grupos, fazer algo difícil e com outros equipamentos”, observou Birkinshaw. “Há uma corrida interessante acontecendo.” O Bingo será menor que os similares em construção em outros países para

Visões distintas Cada telescópio detecta diferentes aspectos de um mesmo objeto, com informações específicas

1

2

Telescópios ópticos

Radiotelescópios

captam a luz visível

captam ondas

e frequências próximas

de rádio emitidas por

como o infravermelho

3

e o ultravioleta,

O Brasil tem sete

emitidas por estrelas e

radiotelescópios.

outros corpos celestes

Um dos mais usados,

corpos celestes

o de Itapetinga (SP),

4

abaixo, opera em duas faixas de

5

O Bingo vai operar na

frequência, de 18 a

Outros radiotelescópios

frequência de 1 GHz.

26 gigahertz (GHz)

que vão operar na

Ainda não existem

e de 40 a 50 GHz

mesma frequência

radiotelescópios

estão em construção no

dedicados a esse tipo

Canadá, na Austrália, na

de pesquisa

África do Sul e na China

analisar as oscilações bariônicas e estudar a energia escura, mas terá um custo menor. Segundo Abdalla, o Bingo será menos eficiente que o Square Kilometer Array (SKA), cujos espelhos devem ser construídos na África do Sul e as antenas na Austrália, e o tamanho do radiotelescópio do Uruguai será próximo ao do Canadian Hydrogen Intensity Mapping Experiment (Chime), em construção no Canadá, e ao Tianlai, da China. Em Cachoeira Paulista, um radiotelescópio do Inpe chamado Mapeamento da Emissão Galáctica (GEM, em inglês), em operação desde o início dos anos 2000, com uma antena de 5,5 m, cobre 47% do céu e registra a radiação da Via Láctea

em frequências de 0,4 GHz a 5 GHz. Segundo Thyrso Villela, físico do Inpe que integra a equipe brasileira, um dos mapas celestes mais recentes gerados por esse radiotelescópio, definindo a variação da intensidade da radiação de 1,465 GHz de nossa galáxia, deve ajudar a equipe do Bingo a entender melhor as informações vindas, ao mesmo tempo, de milhões de galáxias. n Carlos Fioravanti

Projeto O ​ Telescópio BINGO: A nova janela de 21 cm para exploração do Universo Escuro e outras questões astrofísicas (nº 14/07885-0); Modalidade Projeto Temático; Pesquisador responsável Elcio Abdalla (USP); Investimento R$ 12.232.307,59.​​

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ciência  FISIOLOGIA y

O peso através das gerações Entre ratos, efeitos do consumo excessivo ou da falta de comida podem ser transmitidos para filhos e netos Reinaldo José Lopes

E

xperimentos com ratos feitos por pesquisadores de universidades de São Paulo reforçam a ideia de que o excesso de peso pode ser um fenômeno que transcende gerações – e não apenas porque os filhos tendem a herdar dos pais genes que favorecem o acúmulo de energia e os tornam predispostos à obesidade ou porque vivem em um ambiente com disponibilidade excessiva de comida. Alterações na oferta de alimento para as fêmeas um pouco antes ou durante a gravidez parecem aumentar, por mecanismos ainda pouco compreendidos, a probabilidade de que tenham filhos e até netos com sobrepeso. Em uma série de testes, a bióloga Maria Martha Bernardi e sua equipe na Universidade Paulista (Unip) alimentaram algumas ratas no início da vida reprodutiva e outras já grávidas com uma dieta bastante calórica e aguardaram para ver o que acontecia com a primeira geração de filhotes e também com os filhos desses filhotes. Tanto os roedores que nasceram de mães superalimentadas quanto os da geração seguinte apresentaram mais 46  z  fevereiro DE 2017

predisposição a desenvolver sobrepeso. A tendência de ganho excessivo de peso ocorreu mesmo quando os filhos e os netos dessas ratas foram alimentados apenas com a dieta padrão de laboratório. Segundo Martha, esses resultados indicam que o período em que o feto está se desenvolvendo no útero é crucial para definir a regulação do metabolismo do animal e, ao menos, o da geração seguinte. Se essas mudanças aparecessem apenas na primeira geração, o mais natural seria imaginar que alterações hormonais provocadas pela dieta materna teriam afetado os filhotes. Como o efeito avança até a segunda geração, os pesquisadores suspeitam que a propensão a ganhar peso seja mantida por mecanismos epigenéticos: alterações no padrão de ativação e desligamento dos genes provocadas por fatores ambientais, como a dieta, e transmitidas às gerações seguintes. Essas mudanças no perfil de acionamento dos genes não alteram diretamente a sequência de “letras químicas” do DNA, apesar de serem herdadas através das gerações. Embora o grupo de Martha não tenha

analisado o padrão de atividade dos genes, dados obtidos por cientistas mundo afora indicam que mudanças no perfil de ativação gênica sem alteração na sequência de DNA podem acontecer tanto em animais quanto em seres humanos. Dieta que engorda

Curiosamente, não foi só a superalimentação materna durante a gestação que parece ter mexido com o perfil de ativação de seus genes e deixado filhos e netos com tendência a engordar. Em um dos experimentos, realizado em parceria com pesquisadores das universidades de São Paulo (USP), Federal do ABC (UFABC) e Santo Amaro (Unisa), 12 fêmeas de ratos receberam 40% menos comida do que o considerado normal para as roedoras prenhes, enquanto oito ratas do grupo de controle foram alimentadas com a dieta habitual de laboratório. As fêmeas que passaram fome durante a gestação ganharam menos da metade do peso das ratas que puderam comer à vontade. Os filhotes das mães submetidas à restrição alimentar nasceram menores


ilustrações negreiros

pESQUISA FAPESP 252  z  47


e continuaram mais magros durante algum tempo, ainda que recebessem a mesma quantidade de comida que os filhos das ratas que não passaram fome. Só na idade adulta a diferença desapareceu e os dois grupos de roedores alcançaram peso semelhante, embora os filhos das ratas famintas apresentassem uma proporção maior de gordura corporal – em especial, de uma forma de gordura que se acumula entre os órgãos (gordura visceral), associada a maior risco de problemas cardiovasculares. A diferença mais importante surgiu na segunda geração. Os netos de ratas que haviam comido pouco enquanto estavam prenhes nasceram menores, mas, depois de adultos, eram um pouco (de 10% a 15%) mais pesados que os netos das ratas alimentadas normalmente. Eles tinham mais gordura visceral e também sinais de inflamação no cérebro. Esse ganho extra de peso ocorreu mesmo com as fêmeas da primeira geração, portanto, mães desses animais, tendo sido alimentadas normalmente. É como se a privação de alimento experimentada pelas ratas da geração inicial provocasse uma reprogramação metabólica duradoura em seus descendentes, afirmam os pesquisadores em artigo publicado em maio de 2016 na revista Reproduction, Fertility and Development. O trabalho da equipe paulista, nesse ponto, confirma pesquisas anteriores que já haviam encontrado uma associação entre episódios de fome na gravidez e o nascimento de filhos com propensão ao aumento de peso e aos problemas de saúde a ele associados. Embora não tenham identificado o mecanismo específico por trás desse efeito, Martha Bernardi e sua equipe suspeitam que compostos produzidos pelo organismo das mães da geração inicial, parcialmente privadas de comida na gestação, ativem genes que favorecem o rápido ganho de peso no filhote. Assim, os sinais químicos emitidos pelo corpo materno funcionariam como um alerta de que o ambiente é de escassez e que é preciso usar com máxima eficiência os recursos alimentares disponíveis. Essa sinalização recebida pelo organismo do filhote poderia fazer toda a diferença, representando a chance de crescer e sobreviver em um ambiente com privação de alimento. “Mas também pode levar à obesidade, caso a oferta de alimentos volte a se normalizar depois que ele nasce”, explica Martha. 48  z  fevereiro DE 2017

Estudos realizados nas décadas anteriores mostraram uma situação muito parecida com a descrita acima entre os descendentes das mulheres que ficaram grávidas durante o chamado Hongerwinter (inverno da fome, em holandês), quando os exércitos nazistas que recuavam na Holanda diante do avanço dos Aliados cortaram boa parte do transporte de suprimentos para o país entre o fim de 1944 e o começo de 1945, no final da Segunda Grande Guerra. Tanto os filhos quanto os netos das sobreviventes do Hongerwinter apresentavam taxas de obesidade e problemas metabólicos acima do esperado para a população geral. inflamação no cérebro

Em outro estudo, Martha e seus colegas forneceram alimentação hipercalórica – uma mistura de ração padrão mais um suplemento líquido rico em diferentes tipos de gordura – para 10 ratas logo após o desmame, enquanto outro grupo de fêmeas recebeu a alimentação normal e serviu de controle. Conforme o esperado, as ratas submetidas à dieta hipercalórica quando bebês ficaram acima do peso, ainda que não obesas, ao chegar à puberdade. Efeitos semelhantes foram observados em suas filhas: eram ratas que, quando adultas, apresentaram sobrepeso e alterações metabólicas, como o acúmulo de gordura visceral, embora tenham sido tratadas apenas com uma dieta balanceada durante toda a vida. Também publicado na Reproduction, Fertility and Development, esse trabalho e outros estudos do grupo

indicam que o sobrepeso foi o desencadeador de processos inflamatórios que afetaram o cérebro da mãe e da prole, de forma aparentemente duradoura. Se parece estranho imaginar que o excesso de peso pode levar a uma inflamação cerebral, é preciso lembrar que as células de gordura não são meros depósitos de calorias. Os adipócitos, como são chamados, produzem uma grande variedade de substâncias, entre as quais moléculas desencadeadoras de inflamações, que chegam à corrente sanguínea e, a partir dela, ao hipotálamo, região do cérebro associada, entre outras funções, ao controle da fome. Trabalhos do grupo da Unip ainda não publicados indicam ainda que essa inflamação pode atingir outras áreas cerebrais dos roedores. A hipótese dos pesquisadores é de que o processo inflamatório no órgão esteja ligado à reprogramação do organismo transmitida da mãe para os filhotes, incluindo aí alterações no controle do apetite que podem se manter durante a vida adulta. Para Alicia Kowaltowski, pesquisadora do Instituto de Química da USP que estuda a relação entre a dieta e os mecanismos de produção de energia das células, é bastante forte a possibilidade de que a tendência ao sobrepeso e à obesidade seja passada de uma geração para outra por meios que não envolvem a herança de genes favorecedores do ganho de peso. “A questão é saber quais são os mecanismos que estão por trás desses fenômenos”, conta a pesquisadora.


Entre tais mecanismos, um candidato que tem ganhado força são as transformações epigenéticas. O prefixo grego epi significa superior, e na palavra epigenética, cunhada nos anos 1940 pelo embriologista inglês Conrad Waddington, designa a área da biologia que estuda as modificações químicas motivadas pelo ambiente que levam à ativação ou inativação dos genes e alteram o funcionamento do organismo. Uma das modificações químicas mais comuns e simples sofrida pelos genes é a chamada metilação. Nela, um grupo metila, formado por um átomo de carbono e três de hidrogênio (CH3), acopla-se a um trecho de DNA, impedindo que ele seja lido pelo maquinário da célula. O resultado é o silenciamento daquela região. Estudos com dezenas de espécies de animais, plantas e fungos já mostraram que o perfil de metilação pode ser transmitido de uma geração para outra e afetar as características da prole. Influência paterna

O papel das mães no sobrepeso dos filhos parece cada vez mais sólido. E quanto ao papel do pai? “Há alguns indícios de que a influência paterna também pode ocorrer, mas eles são menos claros”, diz Martha Bernardi. Por um lado, faz sentido que influências epigenéticas possam ser transmitidas pelo lado paterno – assim como outras células do organismo, os espermatozoides podem ser afetados por alterações no padrão de ativação dos genes produzidas por influência do ambiente. Se tais mudanças não forem

totalmente eliminadas após o encontro entre as células sexuais masculinas e os óvulos, o novo indivíduo gerado pela fecundação poderia carregar parte da memória epigenética de seu pai. Um estudo de 2015, feito por uma equipe da Universidade de Copenhague, na Dinamarca, e liderado por Romain Barrès, mostrou que esse cenário é plausível ao estudar os espermatozoides de 16 homens obesos e outros 10 com peso normal. No caso dos voluntários obesos, os padrões epigenéticos, como os de metilação, concentravam-se em genes ligados ao desenvolvimento do

Enxergar o excesso de peso pelo prisma epigenético pode trazer mais uma peça relevante para o quebra-cabeça da epidemia global de obesidade

sistema nervoso, em especial os que são importantes para o controle do apetite (e, portanto, do peso), o que não ocorria com os homens magros. Barrès e seus colegas fizeram outra comparação sugestiva entre as marcações epigenéticas dos espermatozoides dos obesos antes da cirurgia de redução de estômago e as desses mesmos participantes após a operação. Resultado: depois da cirurgia, o padrão epigenético das células lembrava o de homens com peso normal. “O mais importante a respeito dessas descobertas é sugerir que tais modificações podem ocorrer em células germinativas, ou seja, os óvulos e espermatozoides, e ser transmitidas para gerações seguintes”, diz o médico Licio Augusto Velloso, professor da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (FCM-Unicamp), que estuda os mecanismos celulares e moleculares ligados à origem da obesidade e do diabetes. “Os estudos epigenéticos avançaram muito na última década e se espera que, num futuro não muito distante, o mapeamento de fatores ambientais e de seu impacto em diferentes aspectos da epigenética nos ajude a prevenir doenças importantes”, afirma Velloso. Enxergar o excesso de peso pelo prisma epigenético pode trazer mais uma peça relevante para o quebra-cabeça da epidemia global de obesidade e de doenças metabólicas ligadas a ela. Historicamente associado à saúde e à fartura, o excesso de peso se tornou um problema de grandes proporções primeiro nos países ricos, mas hoje é cada vez mais comum em países mais pobres – a começar pelo Brasil, onde quase 60% da população adulta está acima do peso considerado saudável, conforme dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Muitos países em desenvolvimento passaram rapidamente de um contexto em que a desnutrição era um problema grave para outro em que a obesidade é muito mais preocupante. n

Artigos científicos JOAQUIM, A. O. et al. Maternal food restriction in rats of the F0 generation increases retroperitoneal fat, the number and size of adipocytes and induces periventricular astrogliosis in female F1 and male F2 generations. Reproduction, Fertility and Development. 31 mai. 2016. JOAQUIM, A. O. et al. Transgenerational effects of a hypercaloric diet. Reproduction, Fertility and Development. 25 ago. 2015.

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virologia y

Microcefalia in vitro Vírus zika se replica em células neurais devido a manipulações genéticas que interrompem o desenvolvimento do cérebro Maria Guimarães

Q

uando invade o cérebro, o vírus zika ocasiona alterações no funcionamento da maquinaria genética de maneira que as células nervosas deixam de se dividir e se diferenciar nos vários tipos que compõem o órgão responsável por comandar o funcionamento do corpo. Além disso, também ativa genes que ajudam o próprio vírus a se replicar. Dito assim pode parecer quase óbvio, mas chegar a essas conclusões envolveu uma conjunção de especialistas de diversas instituições brasileiras trabalhando com os mais atuais modelos e técnicas, como mostra artigo publicado em 23 de janeiro na revista Scientific Reports. “Podemos investigar a ação do vírus em modelos com complexidade celular crescente”, conta o neurocientista Erick Loiola, pesquisador em pós-doutorado no Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (Idor), no Rio de Janeiro, e um dos autores do trabalho. Ele se refere ao cultivo bidimensional de células nervosas em placas, aos aglomerados de células conhecidos como neuroesferas e aos minicérebros, ou organoides cerebrais. Estes últimos são estruturas mais complexas que reproduzem características de um cérebro um pouco mais desenvolvido, como o de um feto aos 3 meses de gestação. Loiola faz parte do grupo liderado pelo neurocientista Stevens Rehen, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e diretor de pesquisa do Idor.

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Desde 2009, pesquisadores liderados por Stevens Rehen cultivam linhagens de células-tronco de pluripotência induzida (iPS), que podem gerar uma série de tecidos a partir de células adultas, na maior parte das vezes da pele (ver Pesquisa FAPESP nº 156). A partir daí, logo adquiriram a técnica para produzir as versões tridimensionais que servem de modelo para o estudo de vários aspectos do funcionamento e do desenvolvimento do cérebro, como no caso dos distúrbios psiquiátricos há anos estudados por Rehen. Os minicérebros eram considerados modelos para estudo de microcefalia desde 2013, dois anos antes de o zika ganhar fama mundial pelo nascimento de bebês com o cérebro menor do que o esperado para a idade gestacional e outros danos neurológicos. E já eram produzidos no Idor, assim como as neuroesferas. Isso pôs o laboratório em posição privilegiada para fazer frente à epidemia e testar os efeitos do vírus (ver Pesquisa FAPESP nº 242). No ano passado, o grupo indicou que as neuroesferas infectadas pela linhagem africana do vírus zika se degradam e que células infectadas têm dificuldade em formar os aglomerados. DNA manipulado

Agora foi a vez de examinar com maior precisão o que acontece no desenvolvimento das células infectadas pela linhagem viral em circulação no Brasil, isolada de um paciente do Espírito Santo,


foto  idor  ilustraçãO  wikimedia commons

e do ponto de vista da sala de comando – os genes. Isso foi possível analisando o RNA e seus produtos – as proteínas – encontrados nas células, como indicação da atividade genética. “Analisamos as neuroesferas logo no início de seu desenvolvimento, antes que as células começassem a morrer”, explica a bióloga Juliana Minardi, que faz estágio de pós-doutorado no Laboratório de Neuroproteômica da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), coordenado pelo biólogo Daniel Martins-de-Souza. Eles já trabalhavam em parceria com o Idor em um projeto sobre esquizofrenia, então foi simples aplicar o mesmo modelo à infecção por zika. A ideia era justamente investigar o que causava a deficiência já observada no desenvolvimento das neuroesferas, quando as células progenitoras se dife-

Núcleos das células cerebrais (azul), axônios em formação (verde) e o vírus zika (laranja) destacados em cultura bidimensional

renciam em neurônios e células da glia (que formam a estrutura do cérebro). Ao analisar a diferença entre células infectadas e sadias logo nos primeiros dias, eles detectaram alterações na produção de cerca de 500 proteínas – um amplo repertório para causar alterações em uma gama de funções celulares. Depois de identificá-las com base em estudos anteriores, ficou claro que o zika cria um ambiente de instabilidade que turbina a produção de proteínas ligadas ao reparo de DNA. Na prática, porém, essas proteínas acabam inibindo a produção de moléculas associadas à proliferação

e à diferenciação das células neurais e replicando o material genético do vírus. O resultado são neuroesferas mais escassas, mirradas e malformadas. “O ambiente promovido pelo vírus nas neuroesferas leva suas células a interromper seu ciclo normal de vida, incluindo a diferenciação em neurônios”, conclui Martins-de-Souza. Para os pesquisadores da Unicamp, esse tipo de olhar detalhado pode ajudar a identificar alvos interessantes de medicamentos que já estão em teste para outras doenças, além de outros ainda não descobertos. Um exemplo de drogas já conhecidas é a cloroquina, usada há décadas contra malária, que em testes com células neurais humanas e neuroesferas de camundongo se mostrou capaz de inibir a proliferação do vírus e a morte de células, de acordo com estudo coordenado pelo virologista Amilcar Tanuri, da UFRJ, em parceria com o grupo de Rehen e publicado em dezembro na revista Viruses (ver Pesquisa FAPESP nº 245). Outra parceria avaliou o antiviral sofosbuvir, normalmente usado contra hepatite C, que revelou efeito protetor em minicérebros em estudo liderado pelo biólogo Thiago Moreno Souza, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) do Rio de Janeiro, publicado em 18 de janeiro na Scientific Reports. Loiola, também coautor desse artigo, considera os resultados altamente promissores, embora nem todos os países tenham aprovado o sofosbuvir para uso em grávidas, cujos fetos são as maiores vítimas do risco de microcefalia. “O laboratório está pronto para oferecer os três modelos neurais, que variam em complexidade e velocidade de resposta, para uso como plataforma de teste de drogas”, afirma. n

Projeto Desenvolvimento de um teste preditivo para medicação bem-sucedida e compreensão das bases moleculares da esquizofrenia através da proteômica (nº 2013/08711-3); Modalidade Jovem Pesquisador; Pesquisador responsável Daniel Martins-de-Souza (Unicamp); Investimento R$ 4.774.285,05.

Artigos científicos GARCEZ, P. P. et al. Zika virus disrupts molecular fingerprinting of human neurospheres. Scientific Reports. v. 7, n. 40780. 23 jan. 2017. SACRAMENTO, C. Q. et al. The clinically approved antiviral drug sofosbuvir inhibits Zika virus replication. Scientific Reports. v. 7, n. 40920. 18 jan. 2017. DELVECCHIO, R. et al. Chloroquine, an endocytosis blocking agent, inhibits Zika virus infection in different cell models. Viruses. v. 8, n. 12, p. 322. dez. 2016.

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Fibras ópticas levam feixes de laser para o cérebro de camundongos. Quando a luz acende, o camundongo é estimulado a caçar (imagens 1, 2 e 3). Quando apaga, ele para

neurociência y

Circuitos da caça Duas vias neuronais que partem da amígdala cerebral controlam o comportamento agressivo do predador Marcos Pivetta

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equena estrutura cerebral em forma de amêndoa situada no interior do lóbulo temporal, a amígdala é comumente descrita como um grupo de neurônios associado ao processamento de emoções, em especial à sensação de medo. A cena clássica de um rato paralisado de pavor diante do iminente ataque de um gato, seu predador natural, costuma ser evocada como exemplo de uma reação decorrente da ativação desse centro nervoso. Mas um estudo publicado na revista Cell em 12 de janeiro indica que a estimulação de uma sub-região dessa estrutura desencadeia o comportamento predatório do felino, em vez da resposta defensiva do roedor. Com o emprego de uma técnica denominada optogenética, que usa a luz do laser para ligar e desligar circuitos cerebrais específicos, neurocientistas da Universidade Yale (Estados Unidos) e do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP) indicam que o núcleo central da amígdala controla, no predador, o ato de partir em busca da presa, capturá-la e atacá-la com mordidas. No trabalho, os pesquisadores mostram que a ativação de duas vias neuronais independentes que saem da amígdala é essencial para desencadear a caça predatória, em busca de alimento (ver quadro). Quando isso ocorre, os roedores perseguem e atacam quase tudo que cruza seu caminho, desde insetos verdadeiros, passando por presas artificiais, até tampas de garrafa. “Vimos que acionar essas duas populações de neurônios é, ao mesmo tempo, uma condição necessária e suficiente para fazer os camundongos adotarem o comportamento típico de caçador”, comenta o neurocientista brasileiro Ivan de Araújo, da Universidade Yale, em cujo laboratório foram feitos os experimentos com os animais. Embora os neurocientistas não descartem que outras estruturas cerebrais também possam modular atitudes predatórias, o desenho do estudo sinaliza que basta estimular esses dois circuitos para os roedores adotarem a postura de caçadores (ver vídeo do Núcleo de Divulgação Científica da USP em bit.ly/CamundongoCaça). A primeira via estimulada é a da perseguição. Na natureza, essa situação ocorre quando o predador identifica a presa com o auxílio de ao menos um dos seus sentidos (olfato, visão ou audição) e passa a se movimentar com o objetivo de se aproximar dela. Nos testes com os roedores, os neurocientistas viram que esse comportamento é mediado por uma projeção de neurônios presentes no núcleo central da amígdala. Tal circuito leva impulsos para uma estrutura denominada substância cinzenta periaquedutal, que transmite informação para a região locomotora mesencefálica. Essa, por fim, aciona a medula espinhal, que permite a locomoção do animal em direção à caça. O segundo circuito neuronal controla a captura propriamente dita da presa e sua aniquilação. É o


Estímulos para a predação A ativação de duas vias neurais independentes que saem de uma região do cérebro chamada núcleo central da amígdala, associada às emoções, leva os camundongos a perseguir uma presa, capturá-la e mordê-la

Medula espinhal

via da perseguição

A ativação de uma estrutura denominada substância cinzenta periaquedutal

Região locomotora mesencefálica Substância cinzenta periaquedutal

transmite impulsos para a região Núcleo central da amígdala

Núcleo central da amígdala

locomotora mesencefálica, que aciona a medula espinhal. Ao ver e sentir o cheiro da presa, o caçador inicia a perseguição

via da captura

A excitação de um conjunto difuso de neurônios, chamado formação reticular, leva estímulos elétricos ao núcleo acessório motor,

Núcleo motor do trigêmeo

que controla o movimento do pescoço, e ao núcleo motor do trigêmeo, responsável por

Formação reticular

abrir e fechar a mandíbula. O caçador agarra a presa e a abocanha com força

fotos  reprodução vídeo da universidade yale  ilustraçãO Pedro Hamdan

Núcleo acessório motor

momento da consumação da caça, quando o predador ataca a presa. A via que modula esse ato também se origina no núcleo central da amígdala, mas percorre um caminho distinto. A ativação de um conjunto difuso de neurônios, chamado formação reticular, leva estímulos elétricos ao núcleo acessório motor, que controla o movimento do pescoço, e ao núcleo motor do trigêmeo, responsável por abrir e fechar a mandíbula. “Quando estimulamos apenas a primeira via, mas não a segunda, os roedores perseguem a presa, mas não dão o bote”, explica outro autor do trabalho, o neuroanatomista Newton Canteras, do ICB-USP, especialista no estudo das bases neurais do medo e da agressão. Se, ao contrário, o circuito ativado é somente o segundo, e não o primeiro, os camundongos param o que estão fazendo e simplesmente agarram o vazio e mordem o nada, como se houvesse uma presa imaginária a ser destroçada. Segundo os neurocientistas, a optogenética é uma técnica que permite testar a função de circuitos do cérebro de forma mais refinada do que outras abordagens, como promover lesões mecânicas ou quí-

fonte Ivan de Araújo e Newton Canteras

micas em determinadas áreas do encéfalo para observar suas repercussões comportamentais ou clínicas. Por meio da injeção de uma população de vírus modificada geneticamente, os pesquisadores aumentam a sensibilidade à luz da via neuronal a ser estudada. Dessa forma, uma chave óptica que “liga” e “desliga” o circuito é criada e fica sob controle dos pesquisadores. No caso dos camundongos do experimento sobre caça, pequenas fibras ópticas conectadas ao cérebro dos animais transmitem feixes de laser azul para a amígdala e possibilitam a modulação dos dois circuitos. “Além da cor, podemos controlar a intensidade e a frequência do pulso de laser”, detalha a morfologista Simone Motta, também professora do ICB-USP, que participou do estudo e passou um período no laboratório de Araújo, em Yale, aprendendo a técnica. amígdala em mamíferos

A inspiração para averiguar o possível papel dos circuitos testados no experimento sobre o comportamento de caça predatória veio de trabalhos feitos por Canteras há mais de 10 anos. Esses estudos já sugeriam que certas vias neu-

ronais que partiam do núcleo central da amígdala estavam mais associadas a estímulos predatórios do que à expressão do medo. Como a amígdala é uma estrutura cerebral bem preservada entre os mamíferos, é possível que também esteja envolvida na regulação da caça em outros vertebrados. O novo trabalho coloca novamente em xeque a ideia de que o núcleo central da amígdala tem um papel essencial na organização das respostas desencadeadas pelo medo. n

Projetos 1. Análise de respostas neuroendócrinas e autonômicas de ratos com lesão neurotóxica do núcleo pré-mamilar dorsal do hipotálamo durante a derrota social (nº 2010/05905-3); Modalidade Bolsa de Pós-doutorado; Pesquisador responsável Newton Canteras (USP); Bolsista Simone Motta; Investimento R$ 197.050,51 e R$ 176.479,88 (Bolsa Estágio de Pesquisa no Exterior, nº 2012/24679-0). 2. Papel do tálamo anterior e de seus alvos corticais nas respostas de defesa condicionada ao contexto de uma derrota social (nº 2012/13804-8); Modalidade Bolsa de Doutorado; Pesquisador responsável Newton Canteras (USP); Bolsista Miguel José Rangel Junior; Investimento R$ 188.066,58 e R$ 96.354,03 (Bolsa Estágio de Pesquisa no Exterior, nº 2014/26742-6).

Artigo científico HAN, WENFEI et al. Integrated control of predatory hunting by the central nucleus of the amygdala. Cell. 12 jan. 2017.

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zoologia y

Uma árvore de ramos inusitados Ampla amostragem genética revela parentescos e eventos evolutivos na diversificação de família de roedores

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uem pensa que ratos não passam de bichos asquerosos de cauda pelada que rondam os esgotos nunca viu um rato-do-cacau, da espécie Callistomys pictus. Com seu nome que significa, em latim, “rato mais bonito”, o roedor que pesa por volta de meio quilograma (kg) tem pelagem longa e macia entre o branco e o prateado com uma mancha preta que percorre as costas. Apenas um grupo muito seleto de pessoas já viu esse animal que vive no alto das árvores na região cacaueira de Ilhéus no sul da Bahia, uma distribuição restrita que garante à espécie o status de ameaçada de extinção na lista vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN, em inglês): apenas 13 indivíduos já foram registrados por zoólogos. A versão mais recente da árvore


eduardo cesar

genealógica (filogenia) dessa família de roedores indicou que seus parentes mais próximos são os ratões-do-banhado (Myocastor coypus), uma revelação curiosa que ressalta ainda mais o desconhecimento sobre esses animais. “As duas espécies são completamente diferentes em aparência, hábito e distribuição geográfica”, afirma o zoólogo Yuri Leite, professor na Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) e um dos autores do artigo publicado no final de dezembro no site da revista Molecular Biology and Evolution. Leite, que há mais de 20 anos persiste em um trabalho de detetive para capturar ratos da família Echimyidae, ou equimídeos, e entender as relações entre as espécies, considera surpreendente o parentesco entre animais tão diferentes quanto o rato-do-cacau e o ratão-do-banhado. Mesmo assim, não foi uma novidade para ele, que já publicara a mesma conclusão em 2014 na revista Natureza on line, como parte do trabalho de doutorado de sua aluna Ana Carolina Loss. Naquele momento, o próprio título do artigo denotava uma certa incredulidade (“Relações filogenéticas inesperadas do rato-do-cacau Callistomys pictus”). “Poderia ser um viés de amostragem, porque tínhamos uma quantidade limitada de dados”, reconhece, “mas agora não”. Apesar de já ter feito muito trabalho de campo em busca de roedores praticamente pelo Brasil inteiro, ele mesmo nunca viu um rato-do-cacau. O trabalho de 2014 contava com 14 gêneros de equimídeos, dos quais foram analisados quatro trechos do genoma. O estudo mais recente, liderado pelo evolucionista francês Pierre-Henri Fabre, professor na Universidade de Montpellier, abrange todos os 26 gêneros da família por meio de material genético extraído de espécimes depositados em nove museus zoológicos de vários países (entre eles, uma amostra de tecido de rato-do-cacau da coleção da Ufes). A partir desse material, técnicas mais recentes de sequenciamento agora permitiram construir árvores filogenéticas levando em conta 18 genes diferentes, a amostragem mais completa já realizada para esses animais.

Um dos problemas das árvores anteriores é incluir características ósseas, que aparentemente não revelam com precisão a trajetória evolutiva. A ideia sempre foi que semelhanças são consequência de parentesco, mas o princípio não vale para toda a anatomia. Leite conta que os dentes, por exemplo, são muito variáveis (talvez como adaptação à alimentação) e semelhantes entre animais que agora aparecem muito distantes na filogenia. O resultado mostrou que os equimídeos arborícolas são em grande parte parentes entre si e formam um ramo na árvore filogenética (ver página seguinte). O mesmo vale para os terrestres, agrupados em três conjuntos. Em um deles surgiram, entre 6 milhões e 12 milhões de anos atrás, dois gêneros semifossoriais (Clyomys e Euryzygomatomys), que passam boa parte de seu tempo debaixo da terra. Outro roedor com esse modo de vida é o rato-de-espinho Carterodon sulcidens, um animal raro que vive em galerias subterrâneas em áreas de Cerrado, no Brasil Central. Apesar dos avanços obtidos pelo estudo, sua identidade continua incerta e ele não parece ser aparentado com equimídeos semifossoriais, com quem é muito parecido. “Há algo de estranho na evolução molecular desse animal, não podemos nem dizer com certeza que seja um equimídeo”, avalia Leite. “Algumas análises o colocam como mais próximo das hutias, integrantes de outra família de roedores endêmica do Caribe, algo realmente inesperado em termos morfológicos e biogeográficos”, conta. Fabre também ressalta a velocidade com que o material genético sofre mutações, a taxa de evolução molecular, que considera excepcional a ponto de driblar os métodos de análise utilizados. “Vamos tentar com mais genes e dados genômicos no futuro”, planeja.

Com um modo de vida semiaquático, o ratão-do-banhado existe desde o estado de São Paulo até o sul

Máquina do tempo

Uma contribuição da análise feita agora, além de apontar os parentescos de uma maneira mais precisa do que já tinha sido possível, foi testar hipóteses sobre quais fatores levaram à diversificação dessa família de roedores. O mecanismo mais pESQUISA FAPESP 252 z  55


Acontecimentos de uma genealogia Análises procuram distinguir de que maneira eventos geológicos e climáticos provocaram diversificação dos ratos equimídeos

Eventos geológicos e climáticos Ampliação das florestas permitiu conexões entre a Amazônia e a Mata Atlântica, e bacia do rio Paraná dividiu regiões

15

Soerguimento da cordilheira dos Andes formou a bacia do rio Amazonas e surgiram áreas alagadas, como o mar do Paraná

12

Andes, conexão entre florestas e formação do istmo do Panamá

7 Mioceno

Localização

5

2,6 milhões de anos Plioceno

Pleistoceno

As cores do mapa (acima) indicam a distribuição dos gêneros representados na árvore filogenética (abaixo)

Gêneros atuais Callistomys Myocastor Hoplomys Proechimys Thrichomys Dactylomys Olallamys Kannabateomys Diplomys Santamartamys Echimys

Phyllomys

Makalata Pattonomys Toromys Isothrix Lonchothrix Mesomys Clyomys Euryzygomatomys

Trinomys

Capromys Mesocapromys Mysateles Geocapromys Plagiodontia Carterodon

Terrestre      Semifossorial      Arbóreo      Semiaquático

Fonte  FABRE, P.-H. et al. / Molecular Biology and Evolution


1

Subir nas árvores ou nadar são duas saídas possíveis para sobreviver nas mesmas condições

fotos 1 raquel Moura 2 alexandra bezerra / Mpeg  infográficO ana paula campos  ilustraçãO  daniel almeida

2

invocado para explicar efeitos geográficos na evolução costuma ser a vicariância, em que barreiras como montanhas ou oceanos surgem impedindo o trânsito de organismos e isolando espécies em subconjuntos que passam a evoluir separadamente. Mas o estudo recém-publicado aponta para a dispersão como evento mais comum, situações nas quais o trânsito de animais passa a ser possível. Não é possível voltar ao passado para ter certeza de como aconteceu, mas modelos estatísticos permitem combinar o parentesco entre as espécies, sua localização e a idade das linhagens e sugerir o cenário mais provável. “Se em um grupo todas as espécies aparecem na Mata Atlântica, o ancestral deve ter vivido nessa floresta”, exemplifica Fabre. “Mas se o grupo mais próximo dessas espécies atlânticas é amazônico, pode ter havido um exemplo de separação entre a Mata Atlântica e a Amazônia.” É uma simplificação. A partir daí, outros fatores são levados em conta para tentar diferenciar entre separações e junções em tempos distantes. “Graças a modelos geológicos e de dispersão, testamos as hipóteses de vicariância e dispersão”, explica o francês. Um caso marcante é justamente o pa­reamento improvável entre o rato-do-cacau e o ratão-do-banhado. Fabre confessa que, apesar de sugestões no passado de que havia semelhanças entre os dentes e o número de cromossomos das duas espécies, foi uma surpresa encontrá-los juntos na árvore, com um apoio estatístico convincente. A linhagem que deu origem aos dois gêneros é antiga e teria se bifurcado, de acordo com as

Rato-do-cacau (acima) é o parente mais próximo do ratão-do-banhado. O rato-de-espinho (à dir.) tem posição incerta na genealogia

análises, por volta de 10 milhões de anos atrás, enquanto a cordilheira dos Andes se soerguia e quando surgiram grandes zonas alagadas em florestas, como o mar do Paraná. “Essas incursões aquáticas podem ter estimulado adaptações que levaram tanto ao hábito arborícola como ao semiaquático”, propõe Leite. Subir nas árvores ou nadar são duas saídas possíveis para sobreviver nas mesmas condições. As análises biogeográficas também corroboram resultados anteriores que indicavam um papel importante da elevação da cordilheira dos Andes e de conexões entre a Amazônia e a Mata Atlântica na diversificação desses animais, em diferentes momentos do passado. Para Leite, a nova árvore filogenética pode servir para gerar outras perguntas ecológicas ou evolutivas. Por que um determinado grupo evoluiu da maneira que se observa? O que torna o rato-do-cacau raro? A região onde eles vivem, no sul da Bahia, tem um alto grau de endemismo, com espécies que existem apenas lá. “Queremos investigar o que aconteceu

com alterações no nível do mar e expansão da floresta para possibilitar a diversificação de roedores”, sugere Leite, um especialista em encontrar e capturar até mesmo ratos praticamente inacessíveis, que nunca descem do alto de árvores nas quais circulam apenas à noite. Ele já descreveu diversas espécies da família. Fabre, que há anos se dedica a esses animais rodeados de mistério, ressalta seus encantos. “Temos poucos dados e é um dos grupos mais interessantes da América do Sul, visto que são diversificados do ponto de vista ecológico, morfológico e taxonômico”, afirma, destacando que restam muitas espécies a descrever e que se sabe pouco sobre as já registradas pela ciência. n Maria Guimarães

Artigos científicos FABRE, P.-H. et al. Mitogenomic phylogeny, diversification, and biogeography of South American spiny rats. Molecular Biology and Evolution. On-line. 25 dez. 2016. LOSS, A. C. et al. Unexpected phylogenetic relationships of the painted tree rat Callistomys pictus (Rodentia: Echimyidae). Natureza on line. v. 12, n. 3, p. 132-6. jul-set. 2014.

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PALEONTOLOGIA y

Abrigo de gigantes Extintos há 10 mil anos, preguiças-terrícolas e tatus gigantes podem ser os construtores das maiores paleotocas já descobertas no planeta

Igor Zolnerkevic 58  z  fevereiro DE 2017

Câmara de Minas Gerais, com marcas semelhantes a arranhões na parede e concavidade que pode ter servido para o descanso de preguiças-terrícolas


V

ale dos Gigantes é como o paleontólogo e oceanógrafo Francisco Buchmann chama um trecho de 250 metros (m) de extensão do rio Esmeril, na zona rural de Rio Pardo de Minas, município com 30 mil moradores no norte de Minas Gerais. Ali, as encostas íngremes do rio estão cobertas por um mato alto e cerrado, infestado de carrapatos e abelhas, que esconde a entrada de seis grutas de porte admirável: elas têm até 40 m de extensão e quase sempre terminam em uma câmara ampla, com 5 a 10 m de largura e até 4 m ºde altura. O mais impressionante é que possivelmente foram escavadas por mamíferos de grande porte, como os tatus gigantes e as preguiças-terrícolas, que viveram até cerca de 10 mil anos atrás onde hoje é o Brasil e compunham a chamada megafauna sul-americana. Professor na Universidade Estadual Paulista (Unesp) em São Vicente, Buchmann conheceu essas grutas em 2012, quando o geólogo Vitor Ferreira, da mineradora Sul Americana de Metais, descobriu-as por acaso durante a prospecção para instalar uma unidade de mineração de ferro na região. No ano seguinte, Bu-

Terra de paleotocas

francisco buchmann / unesp

Túneis supostamente escavados por mamíferos primitivos se concentram no Sul e no Sudeste

O tamanho dos círculos é proporcional à concentração de tocas

chmann retornou com sua equipe para mapear as grutas e investigar a origem de curiosas marcas gravadas em suas paredes. Os túneis com paredes e teto em forma de arco e os sulcos nas rochas, compatíveis com arranhões feitos por garras fortes, levaram os pesquisadores a concluir que as grutas do Vale dos Gigantes devem ter sido escavadas por animais de grande porte, como os que integraram a megafauna da América do Sul. Em artigo publicado em maio de 2016 na Revista Brasileira de Paleontologia, o grupo afirma que essas grutas não teriam sido abertas pela erosão das águas nem por outro processo geológico. Elas seriam enormes paleotocas, câmaras escavadas por animais na rocha, talvez as maiores que já foram descobertas no mundo. Em parceria com o geólogo Heinrich Frank, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), e outros colaboradores, Buchmann já descobriu mais de 1,5 mil paleotocas nas regiões Sul e Sudeste do Brasil nos últimos 15 anos. Eles, no entanto, consideram as do Vale do Gigantes especiais, assim como outras nove encontradas nos vales de três rios vizinhos, a menos de 8 quilômetros de distância. Para os pesquisadores, essas paleotocas são diferentes porque guardam as evidências mais fortes de que os animais que as escavaram viviam em bandos: as tocas ficam próximas umas das outras e, na câmara mais interna de cada uma delas, há mais de um espaço que os pesquisadores imaginam ter servido de local de descanso para os animais. “Uma comunidade de preguiças-terrícolas teria escavado esses túneis”, supõe Buchmann. “Provavelmente uma família vivia ali.” Extintas há pelo menos 10 mil anos, as preguiças-terrícolas ou terrestres são aparentadas das preguiças atuais. Mas tinham hábitos muito distintos. As seis espécies de preguiça existentes hoje passam a vida agarradas a galhos e troncos de árvores, onde se alimentam de folhas e frutos. Seus braços e suas patas não estão adaptados para caminhar no chão, o que fazem raramente e com grande dificuldade, apoiadas nos cotovelos. Já as quase 100 espécies de preguiças-terrícolas que existiram nas Américas entre 15 milhões

Fonte  lopes, r. p. et al. ichnos. 2016.

pESQUISA FAPESP 252  z  59


e 10 mil anos atrás andavam com as quatro patas no chão – eventualmente, ficavam em pé, apoiadas nas patas traseiras, com as dianteiras livres para agarrarem frutos ou escavar. Seu tamanho variava bastante, embora sejam conhecidas como preguiças-gigantes. As maiores pertenciam à família dos megaterídeos, que, em pé, podiam alcançar 6 m de altura. Estudos dos ossos fossilizados sugerem, porém, que a articulação dos braços dos megaterídeos não lhes permitia escavar com facilidade, apesar das enormes garras curvas. Esse fato e a comparação com as marcas encontradas nas paleotocas de Minas levaram a equipe de Buchmann a suspeitar que essas grutas tenham sido esculpidas na rocha por espécies da família dos milodontídeos, de até 2 m de altura. Os paleontólogos da Unesp e da UFRGS interpretam as centenas de sulcos gravados nas paredes das paleotocas como marcas deixadas pela garra dos animais que abriram os túneis. Por ora, essas marcas são o principal indício da identidade dos escavadores, uma vez que nunca se encontrou um fóssil de preguiça primitiva em paleotocas no Brasil. Buchmann comparou moldes de silicone dessas marcas com exemplares de patas fossilizadas de preguiças-terrícolas encontradas em Minas Gerais – todos preservados no Museu de Ciências Naturais da Pontifícia Universidade Católica (PUC), em Belo Horizonte. As marcas nas paredes das paleotocas combinavam melhor com as garras de milodontídeos do gênero Valgipes do que com as garras de outros candidatos a escavadores das tocas, como os extintos tatus gigantes do gênero Pampatherium, que habitaram o que hoje são os pampas argentinos, o Sul e o Sudeste brasileiro na mesma época.

O geólogo Vitor Sandin observa concavidade em paleotoca no Vale dos Gigantes (acima), em Minas, e a geóloga Milene Fornari inspeciona paleotoca em Doutor Pedrinho, Santa Catarina (ao lado)

Os pesquisadores notaram outra característica comum às 15 paleotocas do norte de Minas. Na câmara final, além das marcas de garras, havia sempre de uma a três concavidades na parede bem próxima ao chão, cada uma tendo de 1 a 3 metros de comprimento (ver foto na página 52). “A superfície delas é lisa, parece que foi muito polida”, conta Buchmann. Para ele, essas superfícies marcariam as camas, o local favorito de descanso dos milodontes.

Paleontólogos já levantaram a possibilidade de que ao menos algumas espécies de preguiças-terrícolas pudessem viver em bandos. Buchmann aposta nessa hipótese para explicar como as preguiças teriam sido capazes de abrir túneis tão grandes no Vale dos Gigantes. “Quando penso no volume de sedimento escavado, não consigo imaginar como um único indivíduo teria feito isso”, conta. “Acho mais provável que tenha existido uma colônia de animais vivendo e cavando juntos.”

Tamanhos das tocas e seus possíveis escavadores Preguiças-terrícolas dos gêneros Lestodon e Glossotherium teriam capacidade de abrir as tocas maiores (Megaichnus major), já os tatus dos gêneros Pampatherium e Propraopus criariam as menores (M. minor)

Diâmetro médio da toca Megaichnus major

M eg

Me

aichnus minor

gaichnus minor

Lestodon Glossotherium Pampatherium Propraopus

1m


fotos  francisco buchmann / unesp  ilustraçãO  renato lopes - in lopes, r. p. et al. ichnos. 2016

Garra fossilizada de preguiça-gigante do gênero Valgipes, compatível com as marcas (à esq.) feitas nas paredes das paleotocas de Minas

“Essas descobertas representam um marco”, comenta Cástor Cartelle, paleontólogo especialista em mamíferos pré-históricos e curador do museu da PUC-Minas. “O trabalho da equipe de Buchmann traz evidências numerosas e interessantes de que os bichos ocupavam essas tocas ao menos por algum tempo e deixavam marcas em suas paredes.” Cartelle só não está convencido de que as tocas tenham sido ocupadas por preguiças. Ele afirma que há muita variação no tamanho e no formato das garras das preguiças, mesmo entre indivíduos de uma mesma espécie, e questiona a identificação das marcas. “Por que uma preguiça escavaria uma toca?”, pergunta. “Uma toca desse tamanho não serviria de proteção contra predadores como o tigre-dentes-de-sabre.” Para ele, é mais provável que as tocas tenham sido feitas por tatus gigantes, como o Pampatherium. Buchmann suspeita que as tocas não devem mesmo ter sido escavadas em busca de segurança, porque havia poucos predadores de preguiças. Para ele e seus colegas, a hipótese mais provável é de que as preguiças escavavam à procura de abrigo contra o clima, então mais frio e seco. A anatomia das preguiças-terrícolas sugere que, como as preguiças atuais, elas não conseguiam manter um bom controle sobre a temperatura do corpo.

Cartelle levanta outras possibilidades para explicar a dimensão das tocas e os sinais de ocupação por vários animais. Uma é que talvez já houvessem grandes fendas na rocha dessas montanhas. Assim, os animais não teriam aberto as tocas, mas dado um acabamento a elas. Outra é que um animal tivesse ocupado a toca, deixado suas marcas, e, tempos depois, outro membro da espécie tivesse feito o mesmo. “Concordo que a ocupação em períodos distintos por animais de tamanhos parecidos é uma explicação mais plausível para a existência de mais de uma área de repouso nessas tocas”, pondera Renato Lopes, paleontólogo da Universidade Federal do Pampa (Unipampa), no Rio Grande do Sul, e colaborador de Buchmann e Frank. “Não se conhece xenartro [ordem dos mamíferos que engloba os tatus e as preguiças] que forme grupos familiares, salvo a mãe com os filhotes.” Tamanhos P e G

As paleotocas brasileiras são consideradas os maiores icnofósseis do mundo. Icnofósseis são as marcas feitas por animais que permanecem preservadas nas rochas, como pegadas e tocas. Assim como as espécies atuais e os fósseis, os icnofósseis são classificados em gênero e espécie. Lopes, Buchmann, Frank e Felipe Caron, da Unipampa, publicaram em setembro

de 2016 na Ichnos a primeira designação oficial das paleotocas do Brasil, do Uruguai, do Paraguai e da Argentina – há paleotocas em outras regiões, mas não tão grandes. Os túneis atribuídos à escavação por tatus gigantes ou preguiças-terrícolas são icnofósseis do gênero Megaichnus. Esse novo gênero foi dividido em duas espécies. As paleotocas maiores e mais largas, atribuídas às preguiças, pertencem à espécie Megaichnus major (ver esquema na pág. ao lado). A maioria foi encontrada no Sul do Brasil e algumas em Minas e São Paulo. Em 2015, uma foi descoberta no Acre e outra em Rondônia. Situada nos arredores de Porto Velho, a última é a mais extensa das paleotocas, com 600 m. Mais abundantes, as paleotocas mais estreitas receberam a classificação de Megaichnus minor. A maioria é encontrada preenchida por sedimentos carregados por enchentes. Os poucos túneis abertos se estendem por mais de 30 metros, podendo se bifurcar e formar galerias. Os pesquisadores já identificaram em suas paredes marcas de garras, pelos e placas de carapaça de tatus gigantes dos gêneros Pampatherium e Propaopus. Buchmann coordena o projeto Paleotocas, desenvolvido por pesquisadores de seis instituições brasileiras, e nos últimos 10 anos fez o reconhecimento de milhares desses túneis. O grupo trabalha para identificar e mapear as paleotocas e divulgar o conhecimento sobre elas no Sul do país, onde muitas eram conhecidas da população local, mas confundidas com grutas ou atribuídas a escavações feitas por índios. n

Artigos científicos LOPES, R. P. et al. Megaichnus igen. nov.: Giant paleoburrows attributed to extinct Cenozoic mammals from South America. Ichnos. 15 set. 2016. BUCHMANN, F. S. et al. Evidência de vida gregária em paleotocas atribuídas a mylodontidae (preguiças-gigantes). Revista Brasileira de Paleontologia. v. 19 (2). p. 259-70 mai.-ago. 2016.

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FÍSICA y

Laboratório de bolso

Aumento da eficiência de laser aleatório abre caminho para a fabricação de microchips de baixo custo para exames médicos

62  z  fevereiro DE 2017


Microcanais esculpidos a laser no Ipen: rede desenhada para permitir a combinação de fluidos e reagentes

léo ramos chaves

Q

uebrar recordes de eficiência energética na geração de feixes de laser está se tornando uma rotina para Niklaus Wetter, físico suíço que trabalha no Brasil desde 1988 e há três anos dirige o Centro de Lasers e Aplicações, do Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen), em São Paulo. Em 2015, Wetter e o físico Alessandro Melo de Ana, da Universidade Nove de Julho, apresentaram na revista Optics Express uma nova configuração de lentes e espelhos para geradores de laser que usam cristais contendo o elemento químico neodímio. Com o novo arranjo, o dispositivo, um dos mais utilizados no mundo para fins industriais, médicos e de pesquisa, conseguiu aproveitar 60% da energia depositada em seu cristal para gerar luz laser, superando o recorde anterior de 50% para esse tipo de equipamento. Agora, com a física brasileira Julia Giehl e o físico alemão Felix Butzbach, ambos ex-alunos do Ipen, e o físico espanhol Ernesto Jimenez-Villar, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Wetter conseguiu um avanço ainda maior na eficiência energética de um tipo diferente de laser: o laser randômico ou aleatório, que ganhou a atenção de físicos e engenheiros nos últimos anos por ser de baixo custo e usar dispositivos muito pequenos (ver Pesquisa FAPESP nº 247). No lugar de um cristal, os equipamentos de laser aleatório produzem uma luz com características do laser convencional a partir de um líquido contendo partículas micro ou nanométricas em suspensão ou de uma mistura de partículas no estado sólido (na forma de um pó). O problema é que a eficiência desse tipo de laser costuma ser baixa. As soluções e misturas de partículas microscópicas convertem em laser no máximo 2% da energia que recebem na forma de luz. Calculando detalhes de como o laser é gerado e amplificado à medida que a luz é refletida várias vezes pelas partículas, a equipe de Wetter

descobriu como elevar a eficiência dessa conversão, que agora chegou a 60%. “Esse resultado é comparável ao dos melhores lasers de estado sólido [convencionais] disponíveis no mercado”, afirma Wetter. O segredo, descobriram os pesquisadores, é misturar partículas de diferentes tamanhos. Nos experimentos, eles usaram grãos de um cristal com 54 micrômetros de diâmetro e grãos quase 10 vezes menores, de apenas 6 micrômetros. Na mistura, as partículas menores preencheram o espaço entre as maiores criando bolsões que aumentaram localmente em 30% o espalhamento da luz – a cada espalhamento mais energia é incorporada ao laser. O resultado final é um aumento de 160% na potência do feixe de laser emitido. Esses resultados foram apresentados dia 31 de janeiro na Photonics West 2017, em São Francisco, Estados Unidos, a principal conferência de tecnologia laser no mundo. “Temos o recorde atual”, comemora Wetter. No Ipen, o físico suíço sempre trabalhou na melhoria de fontes de laser de grande potência e precisão, produzidas em equipamentos que usam cristais de alta pureza e lentes e espelhos com polimento especial. São aparelhos de dezenas de milhares de dólares. Desde 2008, porém, seu laboratório persegue em paralelo outra linha de pesquisa: desenvolver melhorias em lasers aleatórios, cujo custo de produção, Wetter avalia, pode um dia chegar à casa dos centavos. Sua motivação é o impacto tecnológico que os lasers aleatórios prometem produzir no desenvolvimento de laboratórios biomédicos compactos, portáteis e descartáveis, conhecidos pela expressão em inglês lab on a chip. São cartões feitos de vidro ou plástico que contêm uma espécie de encanamento microscópico: canais e reservatórios com milímetros a micrômetros de espessura que permitem o armazenamento, a passagem e a mistura de volumes ínfimos de líquidos. Os pesquisadores projetam essas redes de canais e reservatórios de forma a ser pESQUISA FAPESP 252  z  63


possível combinar amostras de sangue, saliva ou outros fluidos corporais com os reagentes químicos necessários para realizar exames laboratoriais. laboratórios de mão

A meta é um dia usar essa tecnologia para oferecer alguns exames a pessoas sem acesso fácil a ambulatórios e laboratórios, como idosos enfermos que não podem sair de casa ou populações carentes que vivem longe dos centros urbanos. Já existem no mundo alguns modelos de lab on a chip prontos para uso. No Brasil, uma equipe multidisciplinar coordenada pelo biomédico Marco Aurélio Krieger, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), no Paraná, está desenvolvendo um chip plástico em forma de disco, com 3 centímetros de diâmetro, capaz de detectar até 20 doenças infecciosas por meio da análise de uma gota de sangue (ver Pesquisa FAPESP nº 192). Os dispositivos que já existem, porém, só realizam diagnósticos mais simples. Identificam, por exemplo, a presença de um patógeno numa gota de sangue, mas não permitem quantificar compostos em amostras biológicas. Alguns obstáculos ainda dificultam a criação de versões mais sofisticadas e baratas dos labs on a chip. Físicos e engenheiros já dominam as técnicas de fabricação dos microcanais nos quais ocorrem as reações químicas necessárias para os exames médicos mais comuns,

Criar um lab on a chip que dispense outros equipamentos exigirá a incorporação ao cartão de uma estrutura capaz de gerar laser como o de glicemia, de colesterol ou o de detecção de infecções. Mas o controle dessas reações e a análise dos resultados ainda exigem que o chip seja acoplado a um equipamento externo. Esse equipamento pode ser algo simples, como a lâmpada de luz ultravioleta usada para avaliar os exames feitos no chip da equipe de Krieger, ou uma fonte de laser de alta precisão, necessária para testes mais sofisticados como os que fazem a leitura precisa de níveis de colesterol, insulina e outras moléculas no sangue. Para que os labs on a chip se tornem independentes dos equipamentos ex-

ternos, é preciso incorporar ao cartão de plástico ou vidro uma estrutura capaz de produzir um feixe de laser com direção e comprimento de onda (cor) muito bem definidos, além de potência suficiente para atravessar um microcanal contendo sangue, saliva ou outro fluido biológico. Depois de passar pela amostra, a luz ainda deve chegar a um sensor que analisa as mudanças na intensidade e na cor do laser – alterações nessas propriedades podem indicar a presença das moléculas e a quantidade em que se encontram no material biológico. Nos Estados Unidos e na Europa, algumas universidades e startups de tecnologia já fabricam chips de diagnóstico capazes de fazer esse tipo de análise em material biológico. Mas esses dispositivos ainda usam lasers produzidos por diodos semicondutores ou cristais geradores de laser convencional que, apesar de relativamente pequenos, custam centenas de dólares. Os aparelhos que geram laser convencional de alta qualidade custam caro porque exigem o uso de espelhos e cristais feitos de material muito puro e com um polimento especial – quanto mais puro o cristal e mais polidos os espelhos, mais eficiente é a produção do laser e mais bem definidas são as suas propriedades necessárias para as análises bioquímicas. Os físicos esperam resolver esse problema de custo substituindo o laser con-

Pesquisadores iluminaram com laser verde solução de micropartículas e geraram um laser aleatório vemelho 64  z  fevereiro DE 2017


laser na palma da mão Chip idealizado por grupo do Ipen deve usar flash do celular para gerar o laser que analisará amostra biológica

2A luz é

3

O laser atravessa a amostra e perde intensidade

amplificada e gera um feixe de laser

1

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Material refletor dirige a luz para a câmera do celular

Flash ilumina mistura de partículas

4 1

2 3

Mistura de rodamina e dióxido de titânio

foto  niklaus wetter e Kelly jorge / ipen  infográfico ana paula campos ilustraçãO fabio otubo

Material biológico

vencional por laser aleatório. “Vislumbro os lasers randômicos como a maneira mais barata de inserir uma fonte de laser em um lab on a chip”, diz Wetter. Em um artigo publicado em julho de 2016 na revista Applied Optics, a equipe de Wetter, em parceria com os grupos dos engenheiros Marco Alayo e Marcelo Carreño, da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli-USP), descreve a fabricação e o funcionamento de uma fonte de laser aleatório que poderia facilmente ser integrada a um lab on a chip. No experimento, uma fonte externa de luz estimulou as moléculas de uma solução contendo rodamina, corante orgânico que emite luz ao ser iluminado. No lugar dos espelhos, o que amplifica a luz produzida pela rodamina são partículas microscópicas de dióxido de titânio (TiO2), também conhecido como rutila, o principal componente das tintas brancas e dos protetores solares, com grande capacidade de refletir e espalhar a luz. Quando ajustam corretamente a concentração de partículas de rutila ao tamanho e ao formato do microcanal

Fonte jorge, k.c. et al. applied optics. 2016

com rodamina, os pesquisadores conseguem gerar um feixe de laser aleatório com direção e cor bem definidos. obstáculos tecnológicos

Wetter e seus colaboradores trabalham com diferentes materiais para produzir lasers aleatórios e tentar guiar o percurso dessa luz no interior dos microcanais. O objetivo é superar os obstáculos tecnológicos que impedem a fabricação de um lab on a chip barato e descartável que funcione com o auxílio de um telefone celular. “Queremos usar o flash da câmera do celular como fonte de luz para gerar o laser aleatório no chip”, explica o físico. A câmera do aparelho serviria para analisar alterações de propriedades do laser que atravessou as amostras. “Se for bem-feito, esse dispositivo talvez possa ser usado em comunidades distantes dos centros urbanos para realizar diagnósticos hoje disponíveis apenas em laboratórios especializados”, conta Wetter. Ainda há muito a fazer. Os lasers aleatórios e o meio ativo desenvolvidos no Ipen, por ora, demonstram que é possível

criar o dispositivo. Mas restam barreiras importantes a serem vencidas para se chegar a um dispositivo que possa ser usado por profissionais da saúde. Uma delas é diminuir a energia necessária para ativar a emissão de luz pela rodamina, hoje milhares de vezes mais alta que a fornecida pelo flash de um celular. Um fenômeno óptico observado recentemente por Wetter e Jimenez-Villar pode ajudar a reduzir a energia necessária para produzir o laser aleatório. Ao re­vestir as partículas de rutila com uma fina camada de sílica (SiO2), os pesquisadores produziram, pela primeira vez nesse tipo de laser, um efeito chamado de localização Anderson e aumentaram mais a interação da luz com a matéria, o que reduziu em mais de 10 vezes a energia necessária para gerar o laser. Ainda assim, o flash de um celular não permitiria gerar um laser com potência suficiente para analisar uma amostra biológica. “Temos de melhorar a eficiência de todo o dispositivo para que possa funcionar com um feixe de luz mais fraco”, diz Wetter. “A tecnologia dos lasers randômicos está evoluindo rapidamente”, afirma o físico Vanderlei Bagnato, da USP em São Carlos. Ele nota, porém, que outros tipos de laser estão sendo desenvolvidos para integrar labs on a chip, como os lasers de cavidade vertical. “Nenhuma está completa ainda.” n Igor Zolnerkevic

Projetos 1. Microusinagem com laser de pulsos ultracurtos aplicada na produção e controle de circuitos optofluídicos (n. 2013/26113-6); Modalidade Projeto Temático; Pesquisador responsável Wagner de Rossi (Ipen); Investimento R$ 3.614.777,92. 2. Desenvolvimento de lasers em meios altamente difusos para análise estrutural de tecidos (n. 2012/18162-4); Modalidade Auxílio à Pesquisa – Regular; Pesquisador responsável Niklaus Ursus Wetter (Ipen); Investimento R$ 279.768,38.

Artigos científicos JORGE, K. C. et al. Directional random laser source consis­ ting of a HC-ARROW reservoir connected to channels for spectroscopic analysis in microfluidic devices. Applied Optics. v. 55 (20). p. 5393-98. 2016. WETTER, N. U. e DEANA, A. M. Influence of pump bandwidth on the efficiency of side-pumped, double-beam mode-controlled lasers: Establishing a new record for Nd:YLiF 4 lasers using VBG. Optic Express. v. 23. p. 9379-87. 2015. REIJN, S-M. et al. Enabling focusing around the corner in multiple scattering media. Applied Optics. v. 54. p. 7740-46. 2015. JIMENEZ-VILLAR, E. et al. Anderson localization of light in a colloidal suspension (TiO2@Silica). Nanoscale. v. 8. p. 10938-46. 2016.

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tecnologia  Realidade virtual y

O passado revelado pela

ciberarqueologia Ferramentas digitais são utilizadas no estudo de localidades antigas e na reconstituição do patrimônio histórico Domingos Zaparolli 1

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fotos 1 universidade de ferrara 2 eduardo cesar

O

uso intensivo de tecnologias digitais está proporcionando novas perspectivas para a investigação científica em arqueologia. Em novembro de 2016, o uso da técnica de escaneamento a laser permitiu a obtenção de um modelo tridimensional em alta resolução de um dos altos-fornos da Real Fábrica de Ferro São João de Ipanema, erguida em Iperó, interior paulista, a partir de 1810. A tecnologia também tem sido empregada como apoio à pesquisa sobre as atividades de povos primitivos em três sítios arqueológicos paulistas. Um polo de ciberarqueologia no Brasil, como é chamada a interação entre a computação e a arqueologia, é o Centro Interdisciplinar em Tecnologias Interativas (Citi), núcleo de apoio à pesquisa da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli-USP), coordenado pelo engenheiro Marcelo Zuffo. “A ciberarqueologia tem sido utilizada no mundo de forma crescente desde o começo deste século para reconstituir monumentos com o intuito de divulgação científica. Mas ainda são raras as aplicações da tecnologia digital de forma analítica, como apoio à investigação arqueológica”, explica o professor Astolfo Araújo, do Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE) da USP. O projeto é uma parceria entre o Citi e o MAE com o objetivo de estabelecer o uso de tecnologias digitais como ferramentas de apoio à investigação arqueológica em que também foi incorporado um terceiro parceiro, a Duke Immersive Virtual Environment (DiVE), na Universidade Duke, dos Estados Unidos, um dos principais centros tecnológicos de realidade virtual do mundo. Segundo Zuffo, a parceria permitiu à sua equipe entender as demandas dos arqueólogos e direcionar o uso das ferramentas de computação para esse fim. A Fábrica de Ferro de Ipanema foi um dos primeiros locais onde foram utilizadas as técnicas de escaneamento digital. O antigo parque industrial já conta com um rico acervo iconográfico sobre a evolução de sua estrutura e dos processos produtivos em suas duas fases de operação. A primeira até 1895 e a segunda quando foi reativada durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1919). Esse material é estudado desde 2009 pelos pesqui-

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Fábrica de Ferro de Ipanema (acima) e o resultado do modelo de escaneamento a laser feito por pesquisadores da Universidade de Ferrara que mostra a estrutura interna do alto-forno (esq.)

sadores de arqueometalurgia do Departamento de Engenharia Metalúrgica e de Materiais da Poli-USP, sob a liderança do engenheiro Fernando Landgraf, que é também diretor-presidente do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT). Landgraf conta que o escaneamento a laser trouxe informações inéditas sobre a estrutura interna do alto-forno e seu princípio de funcionamento. O forno é o reator no qual o minério de ferro é transformado em ferro metálico. A configuração da estrutura interna, denominada vazio interior, é um dos principais parâmetros da qualidade de operação do forno. Ipanema conta com três altos-fornos, cada um com mais de 8 metros de altura (ver Pesquisa FAPESP nºs 173 e 202). pESQUISA FAPESP 252  z  67


Reconstrução digital em 3D de parte do Abrigo Itapeva feita com imagens coletadas por drones

Dois, o Norte e o Sul, fazem parte do projeto original da fábrica e foram escaneados em 2015 por pesquisadores da Universidade de Ferrara, da Itália. No ano passado, a equipe do Citi utilizou drones para escanear toda a área externa dos fornos e o interior do terceiro alto-forno, construído posteriormente e conhecido como forno de Mursa. “O escaneamento mostrou que o perfil do vazio interior dos altos-fornos Norte e Sul era alterado com frequência, sempre para aumentar a produtividade. O forno de Mursa, construído entre 1878 e 1885, nunca chegou a operar e praticamente não mudou”, diz Landgraf. Para o engenheiro, a análise do material coletado demonstrou que os perfis dos altos-fornos da fábrica de Ipanema eram compatíveis com as melhores técnicas siderúrgicas utilizadas no mundo e que, no aspecto geral, o perfil do vazio interior dos altos-fornos continua a ser projetado da mesma forma até hoje. A pesquisa constatou que o conhecimento técnico dos engenheiros alemães e brasileiros que construíram e operaram a fábrica era muito maior que o imaginado inicialmente pelos pesquisadores. “A qualidade da produção era igual ou superior à europeia na mesma época”, diz Landgraf, embora a produção nunca tenha alcançado a meta inicial prevista de 600 toneladas por ano. O Laboratório de Topografia e Geodésia, da Poli-USP, em conjunto com a equipe do Citi também escaneou outra 68  z  fevereiro DE 2017

A análise prévia do local a partir de imagens digitais torna a exploração menos agressiva ao sítio arqueológico

construção histórica em 2016 com o apoio de drones, o Monumento Nacional Ruínas Engenho São Jorge dos Erasmos, construído em 1534 na divisa entre Santos e São Vicente, litoral de São Paulo. Nesse caso, a reconstituição em 3D da estrutura teve objetivo educativo: proporcionar aos interessados uma visita virtual ao engenho. Lasers e alta definição

Os trabalhos na fábrica de Ipanema e no engenho dos Erasmos são desdobramentos de um projeto inscrito em 2014 no Programa FAPESP de Pesquisa em eScience, que busca integrar modelagem computacional, infraestrutura de dados e pesquisas em outras áreas do conhecimento. Para a pesquisa de campo em sítios arqueológicos, a equipe do Citi optou pelo uso combinado de três técnicas de escaneamento 3D de alta definição. A primeira é por meio do scanner Light Detection And Ranging (Lidar, em inglês), uma tecnologia óptica que usa varredura por laser para medir propriedades da luz refletida e obter informações a respeito de objetos distantes. A segunda são fo-

tografias e vídeos de alta definição em 360°, e a última é a estereofotogrametria, um processo de reconstrução tridimensional por meio de imagens capturadas por uma câmera fotográfica ou filmagem. Na sequência, o computador realiza um processamento visual de diversas imagens e pontos de vista de um objeto de interesse. Por meio da localização de pontos em comum entre duas ou mais imagens, é possível estabelecer a posição espacial de cada ponto detectado pela triangulação. “A combinação dessas técnicas permite a reconstituição digital em resolução submilimétrica do objeto estudado”, explica Marcelo Zuffo. Um importante resultado obtido é a possibilidade de detectar elementos imperceptíveis a olho nu. Outra vantagem é a redução do impacto da investigação. As metodologias convencionais de arqueologia, principalmente quando envolvem escavações, comprometem o ambiente estudado, por mais cuidadosos que sejam os pesquisadores. Uma análise prévia do local a partir da coleta de informações com os


laboratórios de realidade virtual da USP e Duke foi estabelecida em dezembro de 2016 para dar suporte à ferramenta, que poderá ser acessada remotamente de forma interativa e colaborativa. “É um instrumento colaborativo inédito que permitirá a especialistas e arqueólogos do mundo todo contribuir para a análise do sítio e descobertas arqueológicas”, afirma o cientista da computação Regis Kopper, brasileiro e diretor do DiVE na Universidade Duke. Araújo lembra também que a ferramenta poderá ser útil na sala de aula, permitindo aos alunos uma maior interação com o material estudado. Preservação do tempo

recursos digitais pode tornar o processo exploratório mais objetivo e consequentemente menos agressivo. A tecnologia também pode ser uma ferramenta útil para a reconstituição espacial dos objetos retirados do sítio para a análise em laboratório. “É praticamente impossível estabelecer com base na memória e anotações a exata disposição original de inúmeros artefatos. O processamento computacional tem a capacidade de montar o quebra-cabeça e permitir novas interpretações do material coletado”, diz Araújo.

fotos  poli / usp

espiral inédita

As pesquisas conjuntas do MAE e do Citi ocorrem, até aqui, em três sítios arqueológicos. No Abrigo de Itapeva e no Abrigo da Santa, ambos no município de Itapeva (SP), e no sítio Bastos, em Dourado (SP), onde foram localizados os vestígios da presença humana mais antiga de São Paulo, datada em 12.600 anos, em um trabalho científico recém-publicado (ver reportagem na página 78). O Abrigo de Itapeva é um sítio descoberto em 1887 e escavado desde os anos 1970. Nele já foram identificadas pinturas rupestres com idade estimada em 4 mil anos, além de gravuras e artefatos com idade aproximada de 800 anos. Os arqueólogos estimam que as gravuras e os artefatos estejam relacionados com indígenas do grupo linguístico Jê e as pinturas a grupos anteriores de caçadores-coletores. Em 2016, o processamento de dados capturados com os sensores digitais per-

Gravuras feitas por povos antigos são realçadas por meio de tecnologia digital

mitiu detectar uma inscrição na forma de espiral não perceptível a olho nu e até então não identificada no sítio de Itapeva. Em outubro, os pesquisadores foram a campo e confirmaram a descoberta. A pesquisa no Abrigo de Itapeva se dá em um ambiente inóspito e de difícil acesso. Muitas das evidências de artes rupestres estão em um paredão com altura estimada entre 20 e 30 metros, em pontos, às vezes, inacessíveis. A equipe do Citi utilizou drones para capturar imagens de alta definição em 423 megapixels e vídeos em 4K (quatro vezes a definição atual de transmissão de TV digital). O sítio também foi escaneado com o sensor Lidar e estereofotogrametria em alta resolução. Nos últimos dois anos, a equipe do Citi dedicou-se a desenvolver uma ferramenta virtual com aplicação de visualização imersiva e interativa, que permite ao usuário navegar e explorar as bases de dados digitais do Abrigo de Itapeva com o auxílio de óculos de realidade virtual, dando a sensação ao usuário de estar no local de exploração. A ferramenta foi denominada de Archeo VR e já se encontra em sua terceira versão, que inclui recursos de anotação e processamento local de imagens em 2D e 3D. Uma conexão de internet de 10 Gigabits (Gbps) entre os

O Abrigo de Itapeva encontra-se em uma escarpa, denominada de Cânion de Itanguá, onde se supõe existir outros sítios ainda não identificados. Em novembro, a equipe do Citi rastreou uma área aproximada de 4 km2 com o auxílio de um drone, utilizando a técnica de estereovideogrametria. Os dados coletados ainda estão sendo analisados. A ciberarqueologia também pode ser utilizada na preservação, para gerações futuras, de informações sobre sítios arqueológicos que sofrem ameaças provenientes da exposição a intempéries climáticas ou da ação humana. Nas imediações do Abrigo de Itapeva está localizado o Abrigo da Santa, onde também foram detectadas gravuras rupestres. Porém, o local encontra-se degradado. Ainda em novembro de 2016, as equipes do Citi e MAE foram a campo para a aquisição de dados por meio de sensores de altíssima resolução e sensibilidade, no caso uma câmera de 43,4 megapixels com o objetivo de reconstituir digitalmente o ambiente e também preservá-lo. “Existe a hipótese arqueológica de que a população ocupante do Abrigo da Santa tinha o mesmo componente cultural dos habitantes do Abrigo de Itapeva. Entre as possíveis respostas estão a proximidade geográfica e a similaridade das inscrições rupestres. Tentaremos comprovar essa hipótese a partir do processamento 3D dos dados adquiridos”, diz Marcelo Zuffo. n

Projeto Ciberarqueologia – Realidade virtual e eScience ao encontro da arqueologia (nº 14/08418-7); Modalidade Auxílio à Pesquisa – Regular; Programa eScience; Pesquisador responsável Marcelo Zuffo (USP); Investimento R$ 93.920,12.

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Bioengenharia y

Você já está trabalhando ou acordado há algum tempo, em sua próxima parada fique próximo a uma luz forte

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Alertas

contra o sono Para evitar acidentes, poltrona vibra, ventila e avisa o motorista quando ele está cansado Evanildo da Silveira

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S

ono, cansaço e distração ao volante – além de embriaguez e excesso de velocidade – estão entre as principais causas de acidentes de trânsito, que todos os anos levam à morte cerca de 42 mil pessoas no Brasil, de acordo com o Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM) coordenado pelo Ministério da Saúde. É um fenômeno global, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), que contabilizou 1,2 milhão de pessoas mortas a cada ano em acidentes de trânsito. No Relatório de Situação Global sobre a Segurança Rodoviária de 2015, a OMS, citando dados do SIM para o Brasil, indica que do total de mortes em acidentes automobilísticos 5% eram de motoristas de carros, 18% de passageiros desses veículos, 1% de passageiros e motoristas de ônibus, 2% de passageiros e motoristas de caminhões, 28% de motociclistas, 20% de pedestres e 23% outros, sem especificação. Com tamanho problema, são sempre bem-vindas tecnologias que possam de


fotos 1 miguel boyayan 2 eduardo cesar  ilustraçãO alexandre affonso

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alguma forma reduzir esses números. No Brasil, duas delas estão em desenvolvimento para tentar diminuir pelo menos os acidentes entre motoristas de caminhões e ônibus, causados por sono, cansaço ou distração. A primeira é uma poltrona antissono, criada pelas empresas Marcopolo, TWE e Centro Multidisciplinar de Sonolência e Acidentes (Cemsa) que tenciona diminuir a fadiga do profissional e evitar que ele durma enquanto dirige. A outra, da Vale, é um dispositivo, chamado Brain Computer Interface (BCI), capaz de captar ondas elétricas do cérebro e, com isso, prever ações que um motorista de caminhão nas minas da empresa e, no futuro, em veículos pesados que trafegam em estradas, ou ainda maquinista de um trem irá tomar – como frear, por exemplo – e realizá-las antes que o condutor tome a iniciativa. A cadeira de motorista da Marcopolo, fabricante de carrocerias de ônibus, chamada Antisleep Seat, foi criada pela empresa em seu Innovation Center (MIC), localizado em Caxias do Sul (RS),

em parceria com o Cemsa, de Belo Horizonte, e a companhia TWE, pertencente ao grupo canadense Woodbridge, fabricante da espuma moldada da poltrona. O Cemsa foi criado pelo especialista em distúrbios do sono e responsável pelo projeto da cadeira, Marco Tulio de Mello. “É uma empresa de pesquisa e o nosso objetivo é oferecer suporte a empresas no gerenciamento do risco de fadiga dos seus funcionários.” A poltrona é equipada com quatro dispositivos – assento vibratório, manta térmica de aquecimento, ventiladores e alto-falantes para mensagens –, que atuam nos momentos de fadiga e sonolência do motorista com o objetivo de mantê-lo alerta. Os comandos da cadeira são acionados por um aplicativo de celular, desenvolvido pelo Cemsa, que se comunica com a poltrona por bluetooth.

O aplicativo tem três versões, que não são etapas complementares, cada uma com especificações diferentes, todas para determinar o nível de fadiga do motorista antes do início de sua jornada de trabalho. Na primeira, o próprio trabalhador alimenta o programa com dados pessoais, como idade, peso, estado civil, número de filhos, rotina diária de transporte e como dorme. Também informa sobre o início e o término do trabalho e quantas horas dormiu nas últimas 48 horas (h). “A segunda versão realiza um teste de atenção e concentração, por meio de algo semelhante a um jogo no celular”, explica Mello. A terceira versão usa um equipamento chamado plataforma de força, parecida com uma balança, na qual o motorista deve subir. “Ela detecta o equilíbrio e, por meio disso, sabemos qual o nível de cansaço da pessoa”, diz Mello. Essas avaliações e testes fornecem as informações que servem de parâmetro para comparações com o estado do motorista ao longo da jornada de trabalho, devendo, portanto, serem feitos logo depois que o motorista acorda de uma boa noite de sono e um pouco antes de iniciar uma viagem. “Comparando os resultados, um algoritmo [conjunto de instruções matemáticas], também desenvolvido no Cemsa, calcula o estado de fadiga do profissional quando inicia a viagem e antecipa qual será o momento em que ele começará a ficar cansado, acionando os dispositivos de alerta, em diferentes níveis e períodos, dependendo do grau de fadiga”, explica Eduardo Kakuichi, analista de inovação do Setor de Inovação e Inteligência Competitiva da Marcopolo. “A poltrona foi concebida inicialmente para atender a motoristas de ônibus, porém no futuro poderemos disponibilizar para uso em caminhões, máquinas agrícolas, trens e aviões. Para fazer esses cálculos e determinar o nível de fadiga, o aplicativo considera também o ciclo circadiano, período de cerca de 24 h em que se baseia o ritmo biológico de quase todos os seres vivos. “A temperatura interna do corpo humano varia em um crescente que vai das 6 h às 21 h, com uma pequena queda após o meio-dia”, diz Kakuichi. “Depois disso, pESQUISA FAPESP 252  z  71


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Simulador utilizado pela Vale, em Vitória (ES), para captação de ondas elétricas cerebrais durante testes de condução de trens

a temperatura cai até atingir o mínimo, por volta das 4 h e 5 h da manhã.” O aplicativo determina em que momento a poltrona deve vibrar ou aquecer o encosto por meio da manta térmica. “As ações da cadeira alteram a temperatura da superfície do corpo e, dessa maneira, a interna, retardando o início da fase de fadiga”, explica Kakuichi. “Em outro momento os ventiladores instalados na poltrona insuflam ar nas regiões do pescoço e panturrilhas, diminuem a temperatura periférica local, causando um pequeno choque térmico, deixando o motorista mais alerta. Além disso, ele recebe mensagens sonoras por meio de alto-falantes embutidos que provocam a quebra da monotonia e o restabelecimento da atenção.” Entre as mensagens, por exemplo, estão avisos nos primeiros níveis de fadiga: “Você já está trabalhando ou acordado há algum tempo, em sua próxima parada fique próximo a uma luz forte”. Em condições mais críticas a mensagem é a seguinte: “Atenção, atenção, atenção! Seu nível de fadiga chegou em situação extrema. Você precisa finalizar sua jornada de trabalho ou efetuar uma parada para descanso com urgência. Por favor, não corra riscos, seja prudente e cauteloso”. Antes do condutor

O aparelho BCI, do Instituto Tecnológico Vale (ITV), de Belém (PA), trabalha com a interação entre cérebro e computador. Por meio de eletrodos acoplados à cabeça, o dispositivo capta sinais eletroencefalográficos – as ondas elétricas cerebrais – durante a realização de uma tarefa. Para testar o BCI, essas 72  z  fevereiro DE 2017

Lâmpadas de LED no painel do carro emitem luz infravermelha e invisível no rosto do motorista. Sensores captam a luz refletida e indicam sinais de sonolência e fadiga

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ondas foram capturadas do cérebro de um maquinista enquanto ele “conduzia” um trem em um simulador localizado no Centro de Engenharia Logística da Vale, em Vitória. Para o desenvolvimento do aparelho, o que interessava eram os sinais eletroencefalográficos registrados imediatamente antes, durante e após a realização de ações pelo condutor, como frenagem, aceleração e desaceleração do veículo, por exemplo. O coordenador do projeto, Shubert Carvalho, cientista da computação e pesquisador do ITV, explica que isso foi feito várias vezes com diversos maquinistas no simulador, para criar um banco de dados dos sinais captados dos seus cérebros durante a ação realizada. Carvalho explicou que esses sinais são contínuos e, para serem usados pelo BCI, precisam ser divididos em partes. “Tecnicamente, esses pedaços são chamados de épocas”, explica. “Cada uma tem um tamanho fixo, uma banda de frequência e uma relação temporal com a ação. O ponto zero é onde aconteceu a ação, como, por exemplo, a frenagem. O tempo negativo antecede sua execução e o positivo é posterior.” O BCI é programado para reconhecer esses padrões de sinais elétricos e de fre-

quência e associá-los a uma ação que o condutor do veículo executará. Nos testes realizados nos simuladores do centro de logística, a antecipação do BCI foi de até 1 segundo, com precisão de 90%. Em uma situação real significaria que o veículo seria freado vários metros antes que um condutor humano o fizesse, evitando o acidente ou reduzindo seus danos. Das duas tecnologias, a que é mais próxima de entrar em uso é a poltrona antissono da Marcopolo. “A Antisleep Seat está em fase de testes de campo, instalada em ônibus de empresas parceiras e monitorada para avaliar possíveis melhorias”, conta Kakuichi. “Estamos trabalhando na viabilização da produção em escala industrial, definindo parceiros para o fornecimento dos componentes. A expectativa é de que esteja disponível para comercialização ao longo deste ano.” O BCI, da Vale, ainda está em fase de testes de laboratório e produção de protótipo, sem previsão de chegar ao mercado. “É uma tecnologia nova, que ainda não é comercializada no mundo”, afirma Carvalho. O hardware será produzido por outra empresa a ser definida. Ele terá a forma de uma tiara, pesando entre 50 a 60 gramas. “Será confortável e não deverá


atrapalhar quem usa óculos, por exemplo”, diz Carvalho. “Por isso e por pesar pouco, o condutor poderá utilizá-lo por várias horas durante o dia ou à noite.”

fotos  1 vale 2 volvo  infográfico ana paula campos  ilustraçãO alexandre affonso  poltrona marcopolo

Sensores espertos e testes

No mercado mundial, existem outras tecnologias para evitar que os motoristas, de todos os tipos de veículos, durmam no volante e, consequentemente, possam reduzir o número de acidentes. Uma delas, chamada Driver State Estimation, está sendo desenvolvida pela Volvo. Ela funciona com pequenas lâmpadas de LED que emitem luz infravermelha (invisível ao ser humano) no rosto do motorista. Sensores instalados no painel do carro captam a luz refletida e, de acordo com alguns dados – como grau de abertura dos olhos ou posição e inclinação da cabeça –, “percebem” se o motorista está sonolento ou dormiu e emitem sinais sonoros para alertá-lo. Há ainda outros sistemas norte-americanos que, em vez de atuar sobre o motorista, o fazem no carro. É o caso do chamado Safety Pilot, que está sendo desenvolvido na Universidade de Michigan. Por meio de uma rede sem fio, o sistema torna possível veículos automotivos se comunicarem entre si em tempo real, evitando colisões e melhorando o tráfego. Em Detroit, a General Motors

testa um protótipo de para-brisa que dá ao motorista uma visão aumentada de alguns pontos de referência da estrada. Batizado de Advanced Vision System, o sistema usa câmeras infravermelhas para monitorar a posição da cabeça do motorista e a direção de seu olhar na estrada. O sistema pode também, por exemplo, realçar as margens das estradas quando se está dirigindo sob neblina. Além de novas tecnologias, uma outra maneira de tentar reduzir o número de acidentes e mortes no trânsito é examinar o motorista para saber se ele está usando drogas. Em março de 2016 entrou em vigor a Lei nº 13.103, de 2015, que obriga condutores profissionais de vans, caminhões e ônibus a fazer teste toxicológico sempre que vão renovar a carteira de habilitação, mudam de categoria, são admitidos ou são desligados de uma empresa. Feito a partir de uma amostra de cabelo ou unha, o exame é capaz de detectar o uso de drogas como, por exemplo, cocaína, crack, heroína, maconha e anfetaminas, nos 90 dias anteriores ao teste. A lei é aplicada e fiscalizada pelos departamentos de trânsito de cada estado, no momento em que os motoristas atualizam seus documentos. “O consumo de álcool e outras substâncias psicoativas é cada vez mais comum entre esses profissionais”, diz o

psicólogo Lúcio Garcia de Oliveira, do Departamento de Medicina Legal, Ética Médica e Medicina Social e do Trabalho da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FM-USP). Em fevereiro deste ano ele concluiu um estudo sobre os efeitos do uso múltiplo de drogas sobre o sono de motoristas de caminhão no estado de São Paulo. Na pesquisa, que começou em 2012, Oliveira ouviu 684 motoristas. “Constatamos que, nos 30 dias anteriores à entrevista, 67,3% dos participantes haviam usado álcool, 34,6% de forma pesada, 26% como binge drinking [consumo episódico, excessivo, de uma grande quantidade de bebidas alcoólicas em um curto período de tempo] e 9,2% estavam sob o risco de desenvolver dependência”, conta Oliveira. “Além disso, 54,6% deles relataram o uso múltiplo de álcool e outras drogas. Nessa população, o consumo foi mais pesado, caracterizado pela adição de cinco doses, em relação àqueles que ingeriram apenas uma dose.” n

Projeto Estudo sobre o uso múltiplo de drogas, funcionamento cognitivo, psíquico, emocional e transtornos do sono entre motoristas de caminhão no estado de São Paulo (nº 11/11682-0); Modalidade Jovem Pesquisador; Pesquisador responsável Lúcio Garcia de Oliveira (USP); Investimento R$ 414.498,01.

Saída de ar frio

Como funciona a poltrona

Alto-falantes para mensagens

Criada para diminuir a fadiga do motorista, ela procura evitar que o condutor durma enquanto dirige

Encosto que aquece

Assento vibratório

Saídas de ar

Central eletrônica de comandos

1 Inserção de dados no aplicativo

2 Cálculo do ritmo biológico

com dados pessoais: rotina diária,

de fadiga, determinando em

cadeira são acionados,

início e término do trabalho, como e

que momento as ações da

o início da fase de fadiga

quanto dormiu nas últimas 48 horas

cadeira devem começar

é retardado

O trabalhador alimenta o programa

O aplicativo calcula o nível

3 Poltrona acionada

Quando os comandos da

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pesquisa empresarial

Química em evolução Presente no país há quase um século, a Rhodia investe em produtos sustentáveis Yuri Vasconcelos

U

ma família de solventes feitos a partir de fonte renovável – glicerina residual da fabricação do biodiesel –, batizada de Augeo, e uma linha de fibras têxteis chamada de Emana, utilizada em roupas, capaz de melhorar a microcirculação sanguínea e retardar a fadiga muscular, são duas das principais inovações nascidas nos laboratórios brasileiros da Rhodia. A companhia de origem francesa, adquirida em 2011 pelo grupo químico belga Solvay, está no país há quase um século. Em Paulínia, município paulista a 120 quilômetros da capital, a Rhodia mantém um complexo de pesquisa formado por 13 laboratórios, onde trabalham 93 profissionais dedicados diretamente à pesquisa e desenvolvimento. O Centro de Pesquisa e Inovação de Paulínia integra a rede de 21 unidades do Grupo Solvay no mundo dedicadas à pesquisa e ao desenvolvimento (P&D) de novos produtos e processos químicos. “Somos pioneiros no uso de matérias-primas de fontes renováveis para fabricar produtos químicos. Ainda na década de 1940, introduzimos o etanol de cana-de-açúcar em nossa cadeia produtiva”, destaca o engenheiro químico Gabriel Gorescu, diretor de P&D da Rhodia para a América Latina. Mais recentemente, em 2015, a empresa inaugurou em Paulínia o Laboratório de Biotecnologia Industrial (IBL, na sigla em inglês), para ampliar o desenvolvimento de inovações ligadas à química sustentável e apoiar planos de negócio também em outras filiais da empresa no mundo. “O foco do IBL é a pes-

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empresa Rhodia

Centro de P&I Paulínia (SP)

Nº de pesquisadores 93

Principais produtos Fios e fibras têxteis, solventes, insumos para as indústrias de plásticos, alimentos, tintas e pneus


quisa de novos processos e moléculas derivadas de biomassa e a sua transformação em soluções inovadoras para os mercados nos quais atuamos”, explica o engenheiro de alimentos Daniel Dias, gerente do IBL.

ELIANA RODRIGUES / rhodia

VANGUARDA TÊXTIL

Um dos destaques do portfólio da multinacional são os fios e as fibras têxteis inteligentes como o fio Emana criado em 2009, que absorve o calor do corpo humano e o devolve sob a forma de radiação infravermelha (IV). “No interior das moléculas do fio de polímero foram introduzidos cristais minerais bioativos que têm a propriedade de absorver e redirecionar o calor do corpo. Normalmente nosso corpo funciona em temperaturas entre 35 e 36 graus Celsius. Ele emite radiação em determinado comprimento

de onda eletromagnética na forma de calor”, explica o químico Alessandro Rizzato, gerente de relações externas e captação de recursos da empresa. “O Emana absorve parte dessas ondas e devolve para o corpo uma porção da radiação em ondas do espectro infravermelho, que penetra, de forma mais profunda no corpo, e estimula a microcirculação local, reduzindo a fadiga e a dor muscular.” O estudo que caracterizou as propriedades do Emana foi realizado pela Rhodia em conjunto com a empresa KosmoScience, com sede em Valinhos (SP), uma spin-off criada 2003 no Laboratório Interdisciplinar de Eletroquímica e Cerâmica (Liec) da Universidade Estadual Paulista (Unesp), campus de Araraquara (SP), especializada em pesquisas clínicas nas áreas farmacêutica e cosmética. Eles mostraram que roupas feitas dessa fibra

Linha de produção de fios sintéticos Emana, que podem estimular a microcirculação quando utilizados em roupas

aumentam a elasticidade da pele e diminuem os sinais de celulite, após o uso contínuo por 30 dias. No segmento de roupas esportivas, o Emana ajuda atletas a reduzir a fadiga muscular e a obter uma recuperação mais rápida. “Trata-se, sem dúvida, de uma tecnologia inovadora”, afirma Antonio Carlos Moraes, professor da Faculdade de Educação Física da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), que também coordenou um estudo de avaliação do Emana por solicitação da Rhodia. pESQUISA FAPESP 252  z  75


Parte da equipe de P&D da Rhodia, liderada pelo engenheiro químico Gabriel Gorescu (primeiro à dir.)

“O uso de fontes de infravermelho para aplicações terapêuticas, cosméticas e como recurso ergogênico [para melhorar o desempenho de atletas] cresce a cada ano”, explica Moraes. “As fontes de infravermelho normalmente dependem de eletricidade, o que reduz a mobilidade e a portabilidade desse recurso, além de trazer outros complicadores, como a necessidade de um profissional que faça a aplicação e o custo dos equipamentos.” O desenvolvimento de solventes oxigenados Augeo é outra linha de produtos

sustentáveis da empresa. Resultado de um processo de pesquisas que durou três anos, o produto foi lançado em 2009 para competir com os tradicionais solventes oriundos de fontes petroquímicas, como os éteres de glicol. A matéria-prima básica do Augeo é a glicerina, um subproduto da fabricação do biodiesel feito a partir de óleos vegetais. “O Augeo é utilizado nas formulações de limpadores utilizados em cozinhas e banheiros. Além da baixa pegada de carbono [emissões de CO2 no processo produtivo], o solvente

Instituições que formaram os pesquisadores da empresa Gabriel Gorescu, engenheiro químico, diretor de Pesquisa e Desenvolvimento para América Latina

Universidade de São Paulo (USP): graduação

Cristina Schuch, química, gerente de P&D

Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS): graduação e mestrado Universidade Estadual de Campinas (Unicamp): doutorado

Léo Santos, químico, coordenador do Laboratório Piloto

Universidade Estadual Paulista (Unesp): graduação, mestrado e doutorado Universidade de Montpellier (França): doutorado e pós-doutorado

Lidiane de Oliveira, química, gerente sênior da área de Novecare

Universidade Estadual de Campinas (Unicamp): graduação, mestrado e doutorado

Daniel Dias, engenheiro de alimentos, gerente do Laboratório de Biotecnologia Industrial

Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC): graduação

Hidejal Santos, biólogo e engenheiro sanitarista, consultor de Tecnologia em Saúde, Segurança e Meio Ambiente

Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC Campinas): graduação (biologia) Unicamp: gradução (engenharia sanitária)

Sérgio Martins, engenheiro químico e gerente da área de solventes

Universidade Federal de São Carlos (UFSCar): graduação

Alessandro Rizzato, químico, gerente de relações externas e captura de recursos

Unesp: graduação, mestrado, doutorado e pós-doutorado Universidade de Dijon: doutorado

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tem pouquíssimo odor comparado com outros produtos. Normalmente os solventes têm cheiro forte e as empresas que fabricam os limpadores precisam usar mais fragrâncias para encobrir o odor ruim. Com o Augeo, a quantidade de fragrâncias pode ser diminuída na fórmula do produto final”, explica Sergio Martins, gerente de desenvolvimento e aplicação da área de solventes. O produto apresenta bom desempenho na remoção de sujeiras, zero toxicidade inalatória e oral e é biodegradável. Por atender a legislação de vários países e com a grande oferta de glicerina no Brasil, um subproduto do biodiesel, a Rhodia exporta o novo solvente para os Estados Unidos, América Latina, Europa e Ásia. “Do ponto de vista industrial e de aplicação, o Augeo é um sucesso. Foi uma importante inovação tecnológica da companhia”, conta o químico Ronaldo Pilli, professor do Instituto de Química da Unicamp. No início dos anos 2000, Pilli foi convidado a integrar o comitê científico da Rhodia, encarregado, entre outros pontos, de discutir processos de inovação. “A empresa foi ousada ao criar um pós-doutorado interno na área de química para elevar a massa crítica de seus colaboradores.” MULTIESPECIALIDADES QUÍMICAS

Além das linhas de fibras têxteis e solventes, a Rhodia produz no Brasil grande quantidade de insumos químicos, entre eles plásticos de engenharia usados na fabricação de peças de carros; especia-


Experimento com cultivo de microrganismos para produção de solventes

fotos  léo ramos chaves

Teste de tração da borracha com sílica de alto desempenho

lidades químicas (surfactantes, aditivos) para formulação de xampus, condicionadores de cabelo, sabonetes líquidos e cremes para o corpo; acetato de celulose para filtros de cigarro; produtos para formulação de agroquímicos, tintas, emulsões e revestimentos; aditivos para a indústria de alimentação; e sílica de alto desempenho para a produção de pneus considerados verdes, que ajudam na economia de combustível e na redução de emissões de dióxido de carbono (CO2). A empresa chegou ao Brasil logo após o final da Primeira Guerra Mundial, em 1919, com a finalidade de produzir para o mercado local lança-perfume, um produto à base de cloreto de etila em forma de spray que causa euforia e excitação no usuário. Lançado no final do século XIX, o lança-perfume chegava ao Brasil por intermédio de importadores e fazia grande sucesso no carnaval. A construção da fábrica começou no ano seguinte e em 1922 os foliões brasileiros passaram

a usar o lança-perfume nacional nos bailes carnavalescos. O produto viria a ser proibido no país na década de 1960. No final dos anos 1920, a companhia iniciou a fabricação de seus primeiros produtos farmacêuticos em solo brasileiro e implantou a primeira unidade no setor têxtil, a Companhia Brasileira de Sedas Rhodiaseta, para produzir fio de acetato de celulose. A Rhodia passou a fabricar fibras artificiais em uma época que o mercado era dominado por fios naturais, principalmente os de algodão. Marcas e fusões

Nas décadas seguintes, a empresa diversificou seu portfólio e passou a atuar em outros segmentos de mercado, tornando-se uma das mais importantes na área química do país. Curiosamente, a empresa só era conhecida como Rhodia no Brasil e na Alemanha – no resto do mundo, era chamada Rhône-Poulenc, o nome do grupo na França. Em 1998, a matriz de-

cidiu separar suas atividades químicas das áreas das chamadas ciências da vida (farmacêutica, agroquímica, veterinária e nutrição animal). Com isso, a parte química ficou com o nome Rhodia em todo mundo e a área de ciências da vida deu origem à farmacêutica Aventis. Com essa configuração internacional, a empresa atuou até 2011, quando se fundiu ao Grupo Solvay, que já atuava no Brasil com a produção de cloro e PVC. A Solvay iniciou sua operação no país em 1941 por meio das Indústrias Químicas Eletro Cloro, com sede em Santo André (SP). “Mesmo após a aquisição, a Solvay decidiu manter a marca Rhodia no Brasil em um reconhecimento de sua força no país. Foi um caso único no mundo”, conta Gorescu. O Grupo Solvay conta com 145 fábricas em atividade em 53 países e emprega 30.900 pessoas. O faturamento global em 2015 atingiu € 12,4 bilhões, sendo que € 900 milhões (7,3% do total) foram obtidos a partir da operação no Brasil, onde a companhia tem nove fábricas – sete delas no estado de São Paulo (Santo André, São Bernardo do Campo, Paulínia, Brotas, Itatiba, Taboão da Serra e Osasco), uma em Curitiba (PR) e outra em Simões Filho (BA). O investimento mundial em 2015 em P&D foi de € 277 milhões, o equivalente a 2,2% do faturamento – a empresa não divulga os valores investidos em P&D por país. A cada ano, são registradas globalmente cerca de 250 patentes relativas a novos produtos e processos criados nos centros de pesquisa e inovação da multinacional. n pESQUISA FAPESP 252  z  77


humanidades   Arqueologia y

Agricultores e sedentários Ancestrais do grupo Jê viviam em habitações subterrâneas e cultivavam mandioca e feijão no planalto catarinense há mil anos Marcos Pivetta

N

ovos estudos arqueológicos têm colocado à prova a visão tradicional sobre os povos indígenas do tronco linguístico Jê que habitaram entre o sul de São Paulo e o norte do Rio Grande do Sul na primeira metade do milênio passado. Escavações recentes feitas em sítios do planalto de Santa Catarina indicam que esses grupos, dos quais descendem os índios das atuais etnias Kaingang e Laklãnõ/Xokleng, eram mais do que caçadores-coletores que levavam uma vida nômade, sem local de moradia fixa e hierarquia social definida. Eles também praticavam a agricultura e podiam viver por longos períodos em casas subterrâneas, provavelmente para se proteger do frio da região. Uma linha de estudos sugere ainda que os proto-Jê, como os estudiosos denominam hoje esses povos pré-colombianos, tinham grande conhecimento do meio natural, sabiam manejar, em alguma medida, a floresta de araucária e eram capazes de moldar a paisagem local. As árvores de araucária lhes forneciam, por exemplo, uma parte importante de seu cardápio, os pinhões.

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Ab ipit latibus nihicil inim reperum in evellabore venis ut atur sitas minullese nimagniet et ab inci officit inctemquam enissimaxima voluptate


A cultura proto-Jê em Santa catarina Projeto internacional escava sítios em quatro municípios

Altitude 1.800 m 1.200 m 1.600 m

Florianópolis Campo Belo do Sul

Urubici Rio Facão

800 m 400 m

Laguna

0m

foto Rafael Corteletti mapa ibge

Círculos no chão, como o presente em sítio arqueológico de Campo Belo do Sul, demarcam áreas de celebração funerária chamadas danceiros

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1

2

Vestígios das plantas que existiam na serra catarinense na época dos proto-Jê, como o polén da araucária (ao lado), são estudados para entender a expansão da mata

A grande interação com as paisagens das terras altas do Sul é um indício importante do antigo modo de vida dos proto-Jê, que habitavam em geral áreas do interior do país e eram adversários dos povos da família linguística tupi-guarani, mais numerosos e comumente associados às zonas litorâneas e às terras baixas das grandes planícies fluviais. Um trabalho publicado em julho de 2016 na revista científica PLOS One sobre uma grande casa subterrânea feita pelos proto-Jê ilustra algumas das hipóteses da nova abordagem. No artigo, pesquisadores do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo (MAE-USP) e de duas universidades inglesas, de Exeter e de Reading, descrevem uma habitação com 12 camadas arqueológicas de ocupação no sítio Baggio I, em Campo Belo do Sul, no planalto catarinense. Segundo suas análises, a moradia foi ocupada ininterruptamente por cerca de 250 anos, entre 1395 e 1650 d.C. Os vestígios da habitação ocupam uma área circular de 16 metros (m) de diâmetro e chegam até 1,6 m de profundidade. “Não encontramos evidências de ter ocorrido algum período longo de abandono dessa casa”, comenta o arqueólogo Paulo DeBlasis, do MAE, coordenador de um projeto internacional que estuda os proto-Jê do Sul em colaboração com o grupo de José Iriarte, da Universidade de Exeter. “Esse dado contradiz a visão de que esses povos não tinham local de mo80  z  fevereiro DE 2016

radia fixa.” Antigas casas subterrâneas desse tipo, também encontradas em sítios arqueológicos de outras regiões frias do globo, eram construídas a partir da abertura de um grande buraco arredondado no chão rochoso. Grandes troncos de árvores eram fincados em diferentes pontos do piso escavado da habitação e funcionavam como pilastras. Com a ajuda dessas escoras e de uma armação de madeirame, os índios construíam um teto coberto por palha que se projetava para fora da fenda. Uma abertura funcionava como porta de entrada.

A

equipe internacional datou, pelo método do carbono 14, amostras de carvão encontradas em cada uma das 12 camadas da casa. Entre a camada mais profunda e antiga e a mais rasa e recente presente no local em que a habitação foi construída, a cronologia obtida é praticamente contínua. “A casa apresenta evidências de renovações periódicas, incluindo rituais de queima do telhado”, diz o arqueólogo brasileiro Jonas Gregório de Souza, que faz doutorado na Universidade de Exeter. A camada mais profunda indica uma ocupação que se inicia no fim do século XIV e a 12ª testemunha o término do uso da casa em meados do século XVII, quando o colonizador europeu já tinha se estabelecido ali. Resquícios de cinco diferentes tetos, feitos de fibras vegetais, foram encontrados, colapsados e queimados, nas camadas arqueológicas de sedimentos que abrigam os vestígios da habitação subterrânea. “Não faz sentido construir uma casa com essas características para moradia provisória”, diz o arqueólogo Rafael Corteletti, da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), participante do projeto. “Além disso, uma intervenção desse porte na paisagem deno-


esse tipo de habitação”, diz a arqueóloga Silvia Copé, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), colaboradora do projeto, que já escavou cerca de 60 sítios proto-Jê nas localidades gaúchas de Bom Jesus e Pinhal da Serra. “As casas subterrâneas também podem ter sido utilizadas como silo.”

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fotos 1 Rafael Corteletti 2 Macarena Cárdenas  3 Gregorio de Souza et al / Plos One

Fragmentos enegrecidos de peças cerâmicas indicam uso dos vasilhames para cozinhar alimentos

ta que os proto-Jê tinham, depois do ano 1000 d.C., uma organização social bem estruturada.” Ao redor da casa-grande do sítio Baggio I, situada no ponto mais alto do lugar, a 1.000 m de altitude, há sete habitações subterrâneas menores, com diâmetro entre 2 e 5 m. Nos arredores dessa aldeia, aparecem sítios fúnebres, chamados popularmente de danceiros, compostos por taipas circulares construídas em terra e montículos funerários. Os danceiros podem apresentar mais de 150 m de diâmetro. Em setores mais baixos do sítio, existe um conjunto de oito habitações, com diâmetro entre 2,5 e 7 m. Em termos de artefatos, as escavações no sítio revelaram uma grande presença nos primeiros tempos de ocupação da casa de um tipo de cerâmica um pouco diferente da rústica tradição Itararé-Taquara, caracterizada por peças pequenas, com espessura fina e de cor escura, normalmente associada aos grupos proto-Jê. A cerâmica encontrada com mais abundância nas primeiras décadas de uso da moradia tem espessura mais grossa e é bem avermelhada. A parte interna de muitas peças é enegrecida e contém resíduos de queima, indício de que eram utilizadas para processar alimentos. “A maioria das casas subterrâneas deve ter sido usada como moradia, mas não necessariamente por agricultores. Sociedades de caçadores-coletores também podiam ocupar

utro sítio das terras altas catarinenses que reforça a hipótese de que os proto-Jê não eram nômades e não viviam apenas da caça e da pesca é Bonin, no município de Urubici, perto de Lages, hoje um dos lugares mais frios do Brasil. Nessa localidade, foi encontrada uma aldeia com 23 casas semissubterrâneas espalhadas por uma área de 3 hectares, na parte superior da planície da várzea do rio Canoas. Em um estudo publicado em junho de 2015 no periódico Journal of Archaeological Science, Corteletti, DeBlasis e seus colaboradores relatam, pela primeira vez, a identificação de vestígios do consumo de mandioca, feijão e talvez inhame em um sítio proto-Jê, além dos tradicionais milho e abóbora. Eles descobriram resíduos de amido e fitólitos (partículas microscópicas de sílica, formadas nas plantas) associados a esses vegetais em 14 fragmentos de cerâmica encontrados em duas estruturas subterrâneas que parecem ter sido usadas como “cozinhas” no sítio Bonin. Segundo as datações realizadas pelos pesquisadores, o sítio foi ocupado entre 1300 e 1440 d.C. “Essas descobertas indicam que os proto-Jê do Sul tinham uma economia de subsistência diversificada e, além de caçar, pescar e coletar, produziam sua própria comida mais de um século antes da chegada dos europeus”, comenta Corteletti. Se eles se dedicavam a alguma forma de agricultura, dizem os pesquisadores, provavelmente tinham se estabelecido na região. Somadas à evidência de uma longa e contínua ocupação de algumas moradias na serra catarinense, como aparenta ser o caso da grande habitação do sítio Baggio I, as pistas de que os ancestrais dos atuais Kaingang e dos Laklãnõ/Xokleng cultivavam a terra se chocam com a ideia mais tradicional de que esses povos nativos permaneceram nômades até entrarem em decadência. Essa visão mais difundida defende que os proto-Jê tinham uma economia sazonal, que os obrigava a se alternar entre as terras altas e o litoral para sobreviver. Em linhas gerais, segundo esse modelo, as antigas populações de índios se deslocavam para as regiões de escarpas e da costa no verão e na primavera, devido à escassez de recursos naturais nas terras altas nas estações mais quentes, e retornavam para as áreas serranas no outono, quando ocorre a colheita do pinhão, sua principal fonte de alimento. “Mas nossas pesquisas sinalizam que os proto-Jê eram também agricultores e podiam pESQUISA FAPESP 252  z  81


Descoberto o sítio arqueológico mais velho de São Paulo Peças da indústria lítica do sítio Bastos, em Dourado, agora o mais antigo do estado

Lascas indicam que paleoíndios habitaram o centro do estado, perto de São Carlos, há 12.600 anos

Identificado há dois anos em terras do

depois de datarem o material encontrado,

município de Dourado, distante cerca de

tomaram um susto com sua antiguidade.

50 quilômetros de São Carlos, o sítio

De acordo com os dados, Bastos foi alvo de

arqueológico Bastos guarda vestígios da

duas ocupações distintas na pré-história:

presença do homem no estado de São

uma mais antiga, por volta de 12,5 mil anos

Paulo que remontam a 12.600 anos,

atrás, outra mais recente, a no máximo 9

segundo estudo publicado em dezembro na

mil anos atrás. Na década de 1980, uma

revista Palaeoindian Archaeology. Foram

datação feita a partir de amostras de

encontradas 449 peças forjadas por mãos

carvão do sítio Alice Boer, em Rio Claro,

humanas, a maioria lascas feitas de arenito

atribui-lhe uma idade de 14 mil anos, mas

silicificado. Seis amostras de carvão e uma

esse dado é contestado por boa parte dos

de matéria orgânica, retiradas de diferentes

arqueólogos. Além de Bastos, em Dourado,

camadas geológicas associadas às peças

Araujo descobriu outro sítio antigo: o

líticas, foram datadas pelo método do

Lagoa do Camargo 1, também em Rio Claro,

carbono 14. “Esses dados tornam Bastos o

cuja ocupação, segundo datações,

sítio mais antigo do estado, com idade

ocorreu há 10.500 anos.

equivalente aos de Lagoa Santa, em Minas

Na mesma edição da revista

Gerais”, explica o coordenador da equipe

Palaeoindian Archaeology, uma equipe da

que fez a descoberta, o pesquisador Astolfo

empresa Zanettini Arqueologia reporta a

Araujo, do Museu de Arqueologia e

descoberta de outro lugar com artefatos

Etnologia da Universidade de São Paulo

paleoíndios bem antigos no interior

flecha feitas de silexito, além de raspadores

(MAE-USP). “Aos poucos, vamos mostrando

paulista. O sítio Caetetuba, no município

do tipo plano-convexos em arenito

que o interior paulista tem sítios

de São Manuel, distante 25 quilômetros de

silicificado, assemelhados a lesmas.

arqueológicos importantes.” Algumas

Botucatu, forneceu cerca de 3.500

peças também estão sendo datadas por

fragmentos e artefatos provenientes de

o interior de São Paulo exibe inúmeros

outro método, a luminescência, mas esses

uma indústria lítica de origem humana que

vazios que, às vezes, têm sido preenchidos

resultados ainda não ficaram prontos (ver

se estabeleceu ali há quase 11 mil anos, de

pela arqueologia preventiva”, opina Paulo

reportagem na página 66). Esqueletos

acordo com datações feitas em amostras

Zanettini, cuja empresa é especializada em

humanos não foram achados em Bastos.

de carvão retiradas do local. Entre o

desenvolver programas voltados à análise

Ainda não se sabe que povo paleoíndio

material resgatado, destacam-se pontas de

e mitigação de impactos ao patrimônio

“Apesar de toda a pesquisa já realizada,

pode ter se estabelecido em Dourado há

arqueológico como parte do processo

mais de 10 mil anos.

de licenciamento ambiental de empreendimentos. O sítio Caetetuba,

Desde 2009, Araujo e seus alunos do MAE, como a mestranda Letícia Correa,

por exemplo, foi localizado durante

que participou das escavações em Bastos,

as escavações para prever os efeitos da

promovem sistemáticas viagens de campo

expansão de um canavial na região.

em busca de novas evidências das primeiras ocupações humanas no estado de São Paulo. A descoberta do sítio em

Projeto

Dourado, que fica a céu aberto (fora, portanto, de caverna ou abrigo), foi quase por acaso. Há quatro anos, o dono de uma fazenda de café no município procurou o pesquisador e ofereceu sua propriedade para a realização de escavações. “Ele já tinha encontrado algum material arqueológico lá, mas não tinha ideia do que se tratava”, conta Araujo. Os pesquisadores realizaram três viagens ao local, identificaram o sítio e, 82  z  fevereiro DE 2016

Pontas de flecha encontradas no sítio de Caetetuba, em São Manuel, que foram datadas em quase 11 mil anos

A ocupação paleoíndia no estado de São Paulo: Uma abordagem geoarqueológica II (nº 2013/13794-5); Modalidade Auxílio à Pesquisa – Regular; Pesquisador responsável Astolfo Araujo (USP); Investimento R$ 247.647,91.

Artigos científicos ARAUJO, A. G. M. e CORREA, L. First notice of a Paleoindian site in central São Paulo State, Brazil: Bastos site, Dourado County. Palaeoindian Archaeology. v. 1, n. 1, 2016. TRONCOSO, L. P. S., CORRÊA, A. A. e ZANETTINI, P. E. Paleoíndios em São Paulo: Nota a respeito do sítio Caetetuba, município de São Manuel, SP. Palaeoindian Archaeology. v. 1, n. 1, 2016.


Esperando foto maior?? Ilustração artística de como seriam as casas subterrâneas construídas pelos proto-Jê

As atuais etnias dos Kaingang e dos Laklãnõ/Xokleng descendem dos antigos povos Jê do Sul

fotos  léo ramos chaves  ilustração  Ana Luiza Koehler

estabelecer moradia em certos lugares”, sugere DeBlasis. Dependendo da época em que forem semeados, a mandioca e o feijão, dois cultivos presentes no sítio de Bonin, podem ser colhidos na primavera e no verão, o que, em tese, se choca com a ideia de que havia escassez de recursos na estação quente na zona de planalto. Para estudar como esses antigos povos ocuparam trechos da costa e das escarpas da serra catarinense, o projeto internacional também realiza escavações em sítios arqueológicos em duas áreas mais baixas, em Laguna, no litoral, e em Rio Facão, na encosta.

A

relação dos proto-Jê com a floresta de araucária e os pinhões é uma questão que intriga os arqueólogos. As primeiras casas subterrâneas associadas a esses povos datam de 300 a.C. Mas o desenvolvimento desse tipo de construção, presente em uma centena de sítios arqueológicos do Rio Grande do Sul, de Santa Catarina e do Paraná, se dá por volta do ano 1000 d.C – justamente quando a mata de araucária se encontra em um momento de grande expansão, de acordo com dados paleobotânicos. Uma interpretação possível para a coincidência é que o crescimento da floresta de pinheiros, fonte de alimento para os indígenas e atrativo para os

animais por eles caçados, possibilitou a disseminação dos proto-Jê. Alguns pesquisadores aventam a possibilidade de que o aumento da área de araucárias poderia ter sido estimulado, ao menos em parte, pelos antigos habitantes da região. Os índios teriam empregado um corte seletivo de árvores e favorecido a difusão das araucárias. A paleoecóloga chilena Macarena Cárdenas, que faz estágio de pós-doutorado na Universidade de Reading, investiga essa hipótese. Ela tem coletado amostras de sedimentos em profundidades de até 2 m em sítios das quatro áreas em que o projeto faz escavações. Com esse material, que pode abrigar vestígios preservados (pólen, sementes, carvão) de como era a vegetação ao longo dos últimos 8 mil anos, ela está construindo modelos de como se deu o aumento da região ocupada pelas araucárias em Santa Catarina. “Vamos comparar a vegetação em diferentes áreas ao longo do tempo e confrontar com a distribuição dos povos proto-Jê”, explica a pesquisadora. “Na Amazônia, há indícios de que o manejo de palmeiras favoreceu a expansão da ocupação humana no passado. Talvez a araucária possa ter tido um papel semelhante no Sul.” n Projeto Jê landscapes of Southern Brazil (nº2012/51328-3); Modalidade Projeto Temático; Acordo AHRC, RCUK; Pesquisador responsável Paulo DeBlasis (USP); Investimento R$ 897.654,12 (FAPESP).

Artigos científicos SOUZA, J. G. et al. Understanding the chronology and occupation dynamics of oversized pit houses in the southern Brazilian highlands. Plos One. 6 jul. 2016. CORTELETTI, R. et al. Revisiting the economy and mobility of southern proto-Jê (Taquara-Itararé) groups in the southern Brazilian highlands: Starch grain and phytoliths analyses from the Bonin site, Urubici, Brazil. Journal of Archaeological Science. v. 58, p. 46-61. jun. 2015.

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história y

Força e luz Pequenas companhias criadas no século XIX, em grande parte por empresários ligados ao café, formaram posteriormente o setor elétrico paulista

Maurício Puls

84  z  fevereiro DE 2017

H

oje controlado por grandes empresas, o setor elétrico de São Paulo surgiu no século XIX graças a dezenas de pequenas companhias fundadas, em boa parte das vezes, por empresários ligados ao cultivo do café. Segundo Gildo Magalhães dos Santos Filho, do Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP), o mesmo processo ocorreu nos Estados Unidos. “Lá existiam centenas de pequenas companhias locais, que depois se uniam em grupos que atendiam mais cidades. As pequenas empresas otimizavam a geração para mais clientes e as duas, três cidades viravam cinco, depois 10, e as associações se transformavam em companhias regionais. Foi exatamente o que aconteceu aqui”, diz o pesquisador, que coordena o projeto temático “Eletromemória II”. “Essa semelhança foi um resultado muito significativo do trabalho, agora em uma segunda


1

2

Prédio da Companhia Água e Luz, em 1901. A empresa concessionária estava instalada no centro da capital paulista

fotos 1 livro História da Light - Primeiros 50 anos, de Edgard de Souza, 1989 2 Renato Oliveira Diniz

Reportagem de A Gazeta (20/7/1965) mostra a construção da Cherp: o governo de São Paulo começou a aumentar a geração de energia nos anos 1950

fase.” Desde 2007 o grupo de Magalhães mapeia os acervos de documentos sobre a história da energia elétrica no estado. O projeto terá, ainda, um banco de dados sobre o tema, que ficará disponível para consulta pública. A arquiteta Débora de Almeida Nogueira, pesquisadora-colaboradora do Laboratório de Empreendimentos da Universidade Estadual de Campinas (LaborE-Unicamp) e do Eletromemória II, conta que a primeira cidade a inaugurar um sistema de iluminação pública alimentado por uma termelétrica foi Rio Claro, em 1885. Três anos depois, no dia 5 de dezembro de 1888, os paulistanos acompanharam o acendimento das lâmpadas na rua Boa Vista, no centro da capital, graças a uma termelétrica a carvão instalada na rua Araújo pela empresa concessionária Água e Luz, que cobria o

triângulo formado pelas ruas São Bento, Direita e Quinze de Novembro, a principal região comercial da cidade. Como explica Débora, as térmicas tinham um custo inicial inferior ao das hidrelétricas, pois estas demandavam a construção de barragens. Mas, a longo prazo, sua operação se tornava menos vantajosa devido ao preço do carvão importado. A primeira hidrelétrica a entrar em operação no estado foi a usina de Monjolinho, em São Carlos, em 1893, seguida nesse mesmo ano pela Luiz de Queiroz, em Piracicaba. Até 1900, mais nove hidrelétricas foram construídas – todas na região entre Piracicaba e Ribeirão Preto. Para a pesquisadora, essa concentração indica que os lucros do café financiaram os investimentos em energia. “Das famílias dos cafeicultores provinham os empresários das novas indústrias, os acionistas das ferrovias e os concessionários na exploração dos serviços públicos”, diz. Isso explicaria por que a luz elétrica apareceu inicialmente nas cidades do Oeste Paulista, onde estavam as fazendas de café mais rentáveis. Foi só a partir de 1900 que a eletricidade começou a chegar às zonas cafeeiras mais antigas, no Vale do Paraíba, disseminando-se pelas demais regiões do estado após 1910 (168 dos 204 municípios paulistas contavam com o serviço em 1920). A primeira hi-

drelétrica para atender a capital paulista surgiu em 1903, em Santana do Paranaíba, e era de grande porte, comparada com as centrais do interior do estado. Ainda que os produtores de café estivessem à frente de muitos desses empreendimentos, empresários de outros segmentos também se interessavam pelo setor energético. “No estudo de caso que fizemos em São José do Rio Pardo vimos que, dos 13 subscritores originais, havia desde imigrantes italianos de baixo estrato, como um sapateiro bem-sucedido, até um fazendeiro de café que depois comprou as participações dos outros. O início da empresa foi até bem democrático”, avalia Magalhães. “Verificamos também que, para além do conhecido uso da eletricidade para iluminação e tração elétrica (bondes e trens), houve desde o início da eletrificação uma associação direta com a industrialização no interior do estado de São Paulo, notadamente nos setores de tecidos, papel e alimentos.” Embora atraíssem muitos investidores, havia limites à expansão dessas empresas. Segundo Débora, os empresários advindos do café tinham capital para bancar a eletrificação, mas não para todo o potencial de aproveitamento, pois só destinavam à energia uma parcela de seu capital excedente, já que o grosso do lucro era reinvestido nos cafezais. Além pESQUISA FAPESP 252  z  85


1

Trabalhadores na construção de barragem na margem esquerda do rio Paranapanema, em 1926

disso, como os fazendeiros não tinham experiência nem conhecimento tecnológico do setor, eles tiveram de recorrer às empresas estrangeiras, que acabaram se instalando na região e dominando o mercado. Internacionalização

O historiador Alexandre Ricardi, orientando de doutorado de Magalhães na FFLCH e integrante do Eletromemória, estudou durante seu mestrado o principal exemplo da internacionalização do capital no setor e detalhou o processo de organização da Companhia Água e Luz, a partir de 1886. Ele explica que, apesar de contar com grandes empresários e políticos em sua diretoria, a Água e Luz não conseguiu o capital necessário para erguer uma hidrelétrica, o que barrou a expansão da empresa. “Eles já tinham a posse da cachoeira do Rasgão e a escritura de compromisso de compra da cachoeira de Pau d’Alho, no rio Tietê. Eram necessários 13 mil contos de réis para as obras, mas a diretoria só conseguiu 2 mil contos”, afirma. Diante disso, em 1909 os ativos e passivos da Água e Luz foram definitivamente incorporados à contabilidade da Light and Power, empresa de capital canadense, que já detinha desde 1900 o controle acionário da companhia paulista. 86  z  fevereiro DE 2017

A Light possuía mais recursos e logo atraiu o apoio da elite paulista. “A Light chegou ao Brasil com a proposta de usar a matriz hidrelétrica. Como dispunha de dinheiro para investir, ganhou apoio de políticos e outros homens públicos para seus projetos considerados modernizadores pela elite”, conta Ricardi. De acordo com Alexandre Macchione Saes, professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA) da USP, sua ascensão não se processou sem resistência, como mostrou em sua tese de doutorado “Conflitos do capital: Light versus CBEE [Companhia Brasileira de Energia Elétrica] na formação do capitalismo brasileiro (1898-1927)”, defendida no Instituto de Economia da Unicamp, em 2008. A multinacional, no entanto, soube firmar “um amplo sistema de alianças e relações com grupos políticos locais”, em um momento de baixa presença do governo federal no qual as concessões de energia estavam nas mãos das Câmaras Municipais. Em 1927, quando a Light já tinha consolidado seu domínio na capital e no Vale do Paraíba, a norte-americana American & Foreign Power (Amforp, do grupo General Electric) desembarcou no Brasil e, em três anos, comprou 22 concessionárias no Oeste Paulista e em outros estados. Naquela época, as perspectivas das duas empresas estrangeiras eram bastante promissoras: as concessões de energia valiam por até 90 anos e as tarifas podiam ser reajustadas quando a taxa de câmbio se desvalorizava.

A Revolução de 1930 promoveu mudanças no setor. Em 1934 Getúlio Vargas instituiu o Código de Águas, que limitou as concessões a 30 anos e mudou o cálculo das tarifas, restringindo a remuneração do capital das empresas a 10% ao ano. Nesse cenário, tanto a Light como a Amforp reduziram drasticamente seus investimentos, e os blecautes foram se tornando cada vez mais frequentes. Como ressalta Marcelo Squinca da Silva no livro Energia elétrica – Estatização e desenvolvimento, 1956-1967 (Alameda, 2011), o estado então assumiu o ônus de ampliar a geração de energia, mas deixou a distribuição – o setor mais lucrativo – com o setor privado. Em 1951, o governo paulista começou a construir hidrelétricas no rio Paranapanema; em 1955 criou a Companhia Hidrelétrica do Rio Pardo (Cherp) e, em 1961, as Centrais Elétricas do Urubupungá. Essa mudança foi analisada pelo historiador Renato de Oliveira Diniz em tese defendida na FFLCH em 2011. “O que justifica uma mudança de rumo, de estatal para privado ou de privado para estatal, é a questão do financiamento”, diz Diniz, que dirigiu a Fundação Energia e Saneamento e trabalhou na diretoria de Comunicação e Relações Institucionais da CPFL Energia (sucessora da Amforp), com sede em Campinas. “No momento da estatização havia uma demanda crescente por energia, mas não havia investimentos, por falta de interesse do setor privado estrangeiro e de recursos do setor privado nacional. Então o estado entrou para construir esse parque


fotos  1 e 3 Gildo Magalhães dos Santos Filho/ FFLCH-USP 2 Débora Nogueira Mortati

energético.” Os pesados investimentos estatais criaram as condições para que São Paulo ampliasse seu parque industrial. “Depois que a Cesp [Companhia Energética de São Paulo] construiu as usinas de Jupiá e Ilha Solteira, São Paulo chegou a gerar 50% da energia elétrica do Brasil. O reflexo disso foi a industrialização”, complementa Magalhães. As encomendas do seO investimento tor público possibilitaram estatal em a consolidação das grandes empreiteiras de capital naenergia criou cional. Como esclarece Diniz, até a República Velha as condições (1889-1930) a construção civil era dominada por empara que São presas estrangeiras: “Os proPaulo ampliasse jetos de engenharia em geral eram feitos no exterior. Os seu parque escritórios nacionais intermediavam a contratação e industrial depois supervisionavam a execução. A partir dos anos 1950 as empresas nacionais passaram a projetar e execu2 tar as obras. Deixaram então de ser empresas regionais e ganharam nel todo em mármore de Carrara, e o dimensão nacional”. relógio original, da Siemens, continua As informações do projeto Eletrome- funcionando.” Esse patrimônio tem granmória não se limitam à parte econômica. de potencial de aproveitamento turístiTambém são analisados os aspectos cul- co e museológico. “O problema é que turais da eletrificação. “A usina Santa poucos dão valor para o patrimônio inAlice, em São José do Rio Pardo, de 1907, dustrial”, queixa-se. Segundo ele, o próé um museu vivo”, ressalta Magalhães. prio Conselho de Defesa do Patrimônio “Ela opera com os equipamentos daque- Histórico, Arqueológico, Artístico e Tula época, não foi repotenciada, tem o pai- rístico (Condephaat) reluta em considerar usinas como patrimônio histórico. “A usina de Corumbataí, em Rio Claro, 3 é a única tombada pelo estado. As secretarias municipais de Cultura em geral não se movimentam para isso.” Magalhães igualmente chama a atenção para a questão ambiental. “Em grande parte das localidades onde ficam essas usinas o entorno foi devastado, substituído por plantações e pastagens, mas a área da hidrelétrica está preservada, inclusive a mata natural”, diz. “As pequenas centrais são muito bonitas. A usina Esmeril, em Patrocínio Paulista, tem uma cachoeira de 90 metros. Dá para andar Painel de controle em mármore de por cinco minutos a partir da casa de Carrara, de 1912, da força e chegar a um lago formado pela usina Santa Alice, cachoeira e só se vê natureza em volta”, em São José do Rio conta. A linda paisagem, segundo ele, Pardo: ainda em funcionamento hoje não é vista por quase ninguém. n

As primeiras hidrelétricas paulistas a entrar em operação foram a de Monjolinho (acima), em São Carlos, e a de Luiz de Queiroz, em Piracicaba, ambas em 1893

Projeto História da energia elétrica no estado de São Paulo (1890-1960): Patrimônio industrial, paisagem e meio ambiente (nº 12/51424-2); Modalidade Projeto Temático; Pesquisador responsável Gildo Magalhães dos Santos Filho (USP); Investimento R$ 682,670.72.

Artigos científicos MAGALHÃES, G. Is small really beautiful? Operating early Brazilian power plants. History of Energy (Electric Worlds). v. 8, p. 559-74, 2016. MAGALHÃES, G. Electricity in Brazil - Part 1. IEEE Industry Applications Magazine (Print). v. 17/2, p. 8-12, 2011; Part 2, v. 17/3, p. 8-11/69, 2011. NOGUEIRA, Débora Marques de Almeida e ARGOLLO FERRAO, André Munhoz de. Hidrelétricas no desenvolvimento urbano e territorial de São Paulo. Labor & Engenho. v. 9, p. 19-36, 2015.

Livros Magalhães, G. Força e luz: Eletricidade e modernização na República Velha. São Paulo, Unesp/FAPESP, 2000, 129 p. Magalhães, G. História e energia – Memória, informação e sociedade. São Paulo: Alameda/FAPESP, 2012, 375 p. Diniz, R. 100 anos de história e energia. São Paulo: Via das Artes, 2012, 142 p.

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memória

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Vista aérea do conjunto de prédios da Faculdade de Medicina e Cirurgia de São Paulo, criada em 1912, na Av. Dr. Arnaldo

Benvenuti, doutores Vinda de médicos italianos na virada do século XX para São Paulo teve impacto no ensino e na pesquisa médica Rodrigo de Oliveira Andrade

88 | fevereiro DE 2017

A

expansão da cultura cafeeira pelo interior de São Paulo no final do século XIX desencadeou um intenso fluxo migratório de trabalhadores europeus, sobretudo italianos, em busca de melhores condições de vida. A vinda desses imigrantes para trabalhar na agricultura e nas fábricas que começavam a se multiplicar nas cidades contribuiu para o desenvolvimento econômico e para a expansão demográfica do estado. Pouco conhecida, no entanto, é a trajetória dos médicos italianos que também chegaram a São Paulo motivados pela ampliação do seu campo de atuação, em decorrência da criação de instituições de saúde pública. Estima-se que cerca de 250 médicos formados na Itália se estabeleceram em terras paulistas entre 1880 e 1930. Pode parecer pouco, mas vários deles tiveram participação de destaque na formação e no desenvolvimento da pesquisa científica paulista, deixando sua marca na história da saúde do estado. Em fins do século XIX, São Paulo passou a enfrentar as mesmas moléstias que castigavam a cidade do Rio de Janeiro. A eclosão de epidemias de febre amarela, peste bubônica, varíola, entre outras, desencadeadas por péssimas condições


fotos 1 caph-usp 2 e 3 acervo do museu histórico da fmusp

sanitárias e disseminadas pela intensa movimentação de pessoas entre as cidades e o campo, alterou as condições sanitárias do estado. Diante da degradação das condições de vida da crescente população, o governo italiano, baseado em relatórios de agentes enviados para inspecionar a situação de vida e trabalho dos imigrantes, passou a desaconselhar a ida para o Brasil. Pressionado pelo surgimento de surtos e epidemias, que afetavam não só a população, mas também o desenvolvimento econômico, o governo de São Paulo elaborou uma série de medidas de reforma da saúde pública. As ações culminaram na criação de instituições como o Instituto Bacteriológico, em 1893, e o Instituto Vacinogênico, em 1894. Essas instituições mais tarde se fundiram sob o nome de Instituto Butantan. Em 1940, no entanto, ao se desligar do Butantan, o Instituto Bacteriológico passou a se chamar Instituto Adolfo Lutz. “São Paulo foi o estado que mais investiu em saúde pública e no combate a doenças epidêmicas na virada do século passado”, afirma o historiador Claudio Bertolli Filho, professor do Programa de Pós-graduação em Educação para a Ciência da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Bauru, interior paulista. Segundo ele, a gravidade das epidemias acelerou o ritmo dos avanços institucionais nessa área e ampliou a demanda por profissionais de saúde. Atraídos pelas novas condições, médicos italianos já estabelecidos no país se mudavam de outros estados para São Paulo ou vinham diretamente do exterior.

Gravura do prédio do Instituto Vacinogênico produzida pelo artista paulista Wasth Rodrigues

A presença dos italianos de diversas especialidades foi importante para a formação da comunidade científica paulista

3

conhecimento em microbiologia e doenças tropicais”, diz Bertolli. “Outros vieram acreditando que sua clientela cativa seria 2 formada pelos imigrantes italianos, mas logo passaram a atender toda a população.” A situação da ciência e da clínica médica italiana se distinguia da do resto da Europa em fins do século XIX, conforme verificou a A participação de socióloga Maria do empresários de origem Rosário Rolfsen Salles, italiana na indústria paulista, da Universidade Anhembi como Francesco Matarazzo Morumbi, no livro Médicos (1854-1937), estimulou a italianos em São Paulo criação de hospitais, casas (1890-1930): Um projeto de beneficência e sociedades de ascensão social (Sumaré, de socorro mútuo, como a 1997). Segundo a Sociedade Italiana de pesquisadora, a laicização do Beneficência em São Paulo atendimento médico que se — mantenedora do Hospital seguiu à reforma protestante Umberto I, que funcionou na Europa não se aplicou à no bairro da Bela Vista entre Itália. “O controle exercido 1904 e 1993 —, atraindo pela Igreja nos hospitais e ainda mais os profissionais sobre as práticas médicas estrangeiros. “Os médicos dificultava a ascensão italianos já tinham algum profissional dos médicos no país e a aplicação do conhecimento adquirido”, diz. A opção pela emigração, desse modo, encontrou sua razão também nas condições de desenvolvimento da ciência e da prática médica italianas. À época, os médicos paulistas cursavam escolas de medicina no Rio ou na Bahia. Em raros casos, iam estudar no exterior. “Ao trazer e disseminar novos conhecimentos e práticas da Europa, os Alfonso Bovero criou e organizou o médicos italianos tiveram Departamento de um papel importante no Anatomia da ensino e na pesquisa médica Faculdade Medicina desenvolvida em São Paulo”, da USP PESQUISA FAPESP 252 | 89


No bairro da Bela Vista, em São Paulo, Hospital Umberto I atraiu médicos italianos espalhados pelo Brasil

Fachada do Instituto Pasteur de São Paulo, inaugurado em agosto de 1903, na capital

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2

conta o sociólogo Luiz Antonio de Castro Santos, professor do Instituto de Humanidades, Artes e Ciências da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB). Castro Santos estudou a trajetória dos médicos italianos em São Paulo na Primeira República ao lado de Salles, entre elas a de Giovanni Sanarelli, conhecido por ter isolado o bacilo icteroide, considerado o causador da febre amarela — hoje se sabe que a doença é causada por um arbovírus do gênero Flavivírus. Sanarelli desembarcou em São Paulo em 1898 e participou intensamente da campanha de erradicação da febre amarela em São Carlos do Pinhal, no interior do estado. A partir de 1900 começaram a chegar outros 90 | fevereiro DE 2017

Estima-se que cerca de 250 médicos formados na Itália se estabeleceram em terras paulistas entre 1880 e 1930

médicos da Itália, como Alfonso Splendore. Aos 22 anos de idade, Splendore se envolveu nas atividades do Instituto Bacteriológico, então chefiado pelo médico Adolfo Lutz (1855-1940), pesquisando e escrevendo sobre toxoplasmose, leishmaniose, blastomicose sul-americana — um tipo de infecção causada por fungo — e sífilis, uma das doenças consideradas vilãs da saúde pública no Brasil nas primeiras duas décadas do século XX. O peso das doenças dos olhos entre os imigrantes italianos foi responsável pela vinda de oftalmologistas como Giuseppe Zaccaro, que participou da erradicação da epidemia de conjuntivite granulosa, também conhecida como tracoma, em Taquaritinga. O tracoma atingiu um número considerável de pessoas no interior de São Paulo naquele período. A intensa propagação da doença fez com que, em 1906, as autoridades estaduais criassem comissões de tratamento e profilaxia do tracoma, um serviço custoso que exigia a instalação de postos de tratamento espalhados por municípios que, em alguns casos,

chegavam a mais de 400 quilômetros da capital. Três anos antes, em novembro de 1903, o oftalmologista italiano Francisco Pignatari já havia se antecipado às ações do Serviço Sanitário de São Paulo na assistência às pessoas com tracoma ao fundar o Hospital Ophtálmico do Morro Vermelho, o primeiro de São Paulo, segundo a pesquisadora Soraya Lodola, do Instituto de Geociências da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). O hospital dispunha de capacidade para atender 314 pacientes, amplos salões e quartos apropriados a diversos tipos de enfermidades oftálmicas. “Em poucos meses o hospital se tornou um importante centro de assistência às pessoas com tracoma”, diz Soraya. Em 1906, segundo ela, foram atendidos 2.934 pacientes, dos quais 2.390 tinham tracoma e 544 outras doenças oftalmológicas. “As contribuições de Pignatari foram de grande valia para a história do combate à epidemia de tracoma”, afirma. O movimento de interesse científico ligado à medicina e à saúde pública em São


Médico italiano Alfonso Splendore trabalhou ao lado de Adolfo Lutz no antigo Instituto Bacteriológico

3

fotos  1, 4 e 5 acervo do museu histórico da fmusp   2 biblioteca do instituto pasteur  3 reprodução do livro médicos italianos em São Paulo (1890-1930)

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Paulo culminou na criação do Instituto Pasteur, em agosto de 1903, na capital. Voltado ao desenvolvimento da medicina laboratorial por meio da pesquisa bacteriológica, do ensino da microbiologia e da produção de imunizantes, o instituto criou um espaço de discussão, ensino e investigação científica, preenchendo, em certa medida, a falta de uma faculdade de medicina em São Paulo, que só viria a ser criada em 1912. O instituto foi dirigido inicialmente pelo médico italiano Ivo Bandi, que deixou o cargo por divergências com o médico infectologista Emílio Ribas (1862-1925), então diretor do Serviço Sanitário paulista. Em 1906, Antônio Carini, bacteriologista italiano e diretor do Instituto de Bacteriologia, Soroterapia e Moléstias Infecciosas de Berna, na Suíça, aceitou o cargo de diretor do Pasteur, ampliando os trabalhos do instituto no tratamento antirrábico. “Os médicos brasileiros esperavam dos italianos um conhecimento médico mais aperfeiçoado do que aquele ensinado nas escolas médicas nacionais”, diz Bertolli. “Por isso os

Em 1912, o bacteriologista Antônio Carini (acima) deixou a direção do Pasteur para lecionar na Faculdade de Medicina de São Paulo ao lado do patologista Alessandro Donati (à esq.)

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São Paulo foi o estado que mais investiu no combate a doenças epidêmicas na virada do século XX

convidavam para vir para São Paulo.” Segundo Castro Santos, também se esperava desses profissionais uma formação clínica baseada em pesquisas em saúde pública, o que mais tarde contribuiu para a formação de médicos no Instituto de Higiene – atual Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP) –, criado em 1918. Em 1912 muitos dos profissionais italianos

deixaram os institutos onde trabalhavam para lecionar na recém-criada Faculdade de Medicina e Cirurgia de São Paulo, que começou a funcionar no ano seguinte. As disciplinas clínicas, em geral, eram ministradas por professores da elite médica paulista, enquanto as disciplinas básicas, como parasitologia, microbiologia, fisiologia, patologia e anatomia patológica, eram deixadas aos professores estrangeiros. Alessandro Donati se tornou professor de patologia geral e experimental e Carini deixou o Instituto Pasteur para ensinar microbiologia e imunologia na nova faculdade. Outro nome importante para a consolidação do ensino médico paulista é o do anatomista italiano Alfonso Bovero, que se

juntou ao corpo docente da nova faculdade a convite do médico Arnaldo Vieira de Carvalho (1867-1920), um dos idealizadores da Faculdade de Medicina e Cirurgia, uma das unidades que em 1934 formaram a USP. Bovero chegou a São Paulo como uma “estrela acadêmica” devido ao prestígio que obtivera na Europa. “O anatomista italiano criou e organizou o Departamento de Anatomia da faculdade, sendo um dos primeiros no Brasil a ensinar que a anatomia, enquanto disciplina, deveria ser entendida como um saber próprio e que ganhava importância quando associado a disciplinas como fisiologia e patologia”, escreveu Bertolli em um artigo publicado na revista História, Ciência, Saúde — Manguinhos com a psicóloga Ana Carolina Talamoni, tratando do ensino da anatomia no Brasil à luz das ideias de Bovero. Bovero teve também campo fértil de pesquisa no Hospital Umberto I, e ao lado de outros médicos e pesquisadores ajudou a fundar a Revista ARS Médica. A publicação foi um importante veículo de discussão dos resultados de estudos desenvolvidos na Faculdade de Medicina e, ao mesmo tempo, aproximou as áreas de ensino e pesquisa, uma vez que grande parte dos trabalhos publicados era de professores da nova escola médica de São Paulo, segundo Salles. “A participação dos médicos italianos foi determinante para a formação da comunidade científica paulista, para o desenvolvimento da pesquisa científica e para a difusão da ciência microbiológica”, conclui. n PESQUISA FAPESP 252 | 91


resenhas

A universidade e a interpretação do Brasil

P

As edições do cânone – Da fase buarqueana na coleção História Geral da Civilização Brasileira (1960-1972) André Carlos Furtado Eduff 262 páginas | R$ 52

92 | fevereiro DE 2017

oucos autores brasileiros receberam tanta atenção nos últimos anos como Sérgio Buarque de Holanda, considerando não apenas a quantidade de livros publicados, de reedições, de homenagens, mas sobretudo de trabalhos acadêmicos dedicados a esmiuçar aspectos da sua obra. Assim como ocorreu com Machado de Assis ou Guimarães Rosa, o acúmulo de fortuna crítica permitiu um investimento para além da exegese textual, direcionando investigações às reverberações e reapropriações das suas obras ao longo do tempo, assumindo o desafio de avaliar o peso desses autores na cultura brasileira. As edições do cânone: Da fase buarqueana na coleção História Geral da Civilização Brasileira (1960-1972), de André Carlos Furtado, contribui para sedimentar esta fase na interpretação de Buarque de Holanda e pode ser equiparado a outras iniciativas recentes, tais como os livros Signo e desterro, de Pedro M. Monteiro (2014), A morte do homem cordial, de Rafael P. da Silva (2015), a até então inédita edição crítica de Raízes do Brasil (2016), ou o recente dossiê sobre os 80 anos de Raízes do Brasil da Revista Brasileira de História (2016). O ímpeto em comum é o de escovar a memória disciplinar a contrapelo, retrospectivamente, mostrando como e por que algumas interpretações atribuídas a Buarque de Holanda tornaram-se predominantes em detrimento de outras, ajudando a condicionar nosso olhar sobre o Brasil. O livro se lança ao desafio de integrar dois movimentos. O primeiro é o papel de Buarque de Holanda no processo de disciplinarização da história na universidade brasileira; o segundo, o legado do autor na constituição de uma cultura de resistência à ditadura militar e, posteriormente, no imaginário do período da abertura política. De modo retrospectivo, a obra começa a partir do segundo movimento com uma análise instigante sobre a ressignificação do pensamento de Buarque de Holanda na década de 1970, em compasso com o debate público em torno da democracia e da garantia de direitos sociais. Sérgio Buarque de Holanda conjugava ação política, por meio do Centro Brasil Democrático, com a escrita de textos como Da Monarquia à República (1972); enquanto, quase simultaneamente, o filho Chico

Buarque fazia sucesso com canções de protesto e a peça Calabar (1973). O livro de Furtado mostra as nuances e contradições do campo de forças que converge para essas construções sociais. O papel da coleção História Geral da Civilização Brasileira (HGCB) como um vetor da disciplinarização da história na universidade, que corresponde ao outro eixo, é tratado em dois capítulos. Amparado solidamente por estudos em história cultural e editorial, Furtado avança muito na compreensão das circunstâncias de edição e circulação da obra. A Difel, editora da obra, entendeu a universidade enquanto um mercado a ser explorado e assim a coleção segue linhas semelhantes a manuais, como o História Geral das Civilizações, traduzido e publicado pouco antes. A pesquisa avança menos do que poderia na compreensão da restruturação do campo dos estudos históricos diante do advento da universidade. Já se sabia que a HGCB, enquanto obra coletiva, ocupou posição estratégica, pois se aproveitou das primeiras levas de estudos monográficos produzidos no contexto universitário, majoritariamente na Universidade de São Paulo (USP). Também era conhecida a prevalência do século XIX na fase buarqueana, já que cinco tomos tratam do período (apenas dois tratam da fase colonial). A pergunta essencial é como a história do Brasil deveria ser escrita a partir desse novo lugar de social que é a universidade, especialmente a USP. Para respondê-la, conviria uma leitura mais atenta da tradição de escrita da história do Brasil, não só a que vem desde Francisco A. de Varnhagen, mas a que se colocava naquele momento com outras sínteses, representadas por obras tão díspares quanto as de Pedro Calmon ou de Nelson Werneck Sodré. A resposta de Furtado é simplista ao apontar um “desejo de ver superada a tradição histórica precedente” por parte de um certo “paradigma uspiano”, encarado com homogeneidade excessiva. Isso não compromete um valioso esforço de pesquisa exaustiva e original que foi muito além das exigências do mestrado e sobre o qual se espera que rendam bons frutos. Thiago Lima Nicodemo é pesquisador do Instituto de Estudos Brasileiros da USP e professor adjunto do Departamento de História da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).

eduardo cesar

Thiago Lima Nicodemo


Ciência e poesia

Novos poemas Carlos Vogt Ateliê Editorial 136 páginas | R$ 60,00

José de Souza Martins

O

belo livro de poesias que Carlos Vogt acaba de lançar (Novos poemas, Ateliê Editorial, Cotia, 2016) nos põe em face do lugar da arte na vida do cientista. Criou-se entre nós a impressão de que ciência e arte não se combinam e que a verdadeira mente científica é a mente desprovida de sensibilidade artística. Leonardo Da Vinci era cientista e artista. Carlos Vogt é um reputado linguista, que já foi reitor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e presidente do Conselho Superior da FAPESP. Um homem profissionalmente formado nos marcos do rigor científico e das formalidades da administração da ciência. Nas próprias universidades brasileiras há vários e expressivos casos de profissionais da ciência e da filosofia que também se dedicaram à arte. O nome mais emblemático é, muito provavelmente, o de Paulo Vanzolini, diretor do Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo (USP), formado em medicina por essa mesma instituição, doutorado em zoologia pela Universidade Harvard. Era também poeta e compositor, autor de Ronda e de Volta por cima. A antiga Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP tem tido um significativo elenco de poetas e literatos. Fui aluno de João Cunha Andrade, professor de história da filosofia, autor de um livro de poemas, A árvore da montanha. O Departamento de Filosofia teve outro poeta de fina sensibilidade, Bento Prado Jr., que deixou sonetos nas páginas do Suplemento Literário do Estadão. Ou José Jeremias de Oliveira Filho, professor de sociologia, que reuniu suas poesias no livro Incompetência do só. Ou, ainda, Duglas Teixeira Monteiro, já falecido, também professor de sociologia. Numa pesquisa sobre pequenos agricultores do norte do Paraná, registrou situações dramáticas que lhe permitiram escrever a peça de teatro Água da memória, ganhadora de prêmio do Serviço Nacional de Teatro. E, claro, publicou também um artigo científico em revista especializada. A antropóloga Margarida Maria Moura, alterna antropologia e poesia com competência científica e sensibilidade poética. O livro de suas poesias, Ser tão sertão, é prefaciado por Antonio Candido. Nela, há poesia também no texto científico. É o que se vê na obra do antropólogo Carlos Rodrigues Brandão, doutorado na USP, professor na Unicamp, autor de vários belíssimos livros de poesia. Num deles, Diário de campo – A antropologia como alegoria, inclui 10 poemas que resgatou do interior do capítulo I, de O capital, de Karl Marx. Marx pretendia ser poeta antes de ser filósofo. Por considerá-lo mau poeta, seu pai o convenceu a desistir. Dedicou-se à filosofia e à ciência. No entanto, a poesia está presente em toda sua obra sociológica. O sociólogo venezuelano Ludovico Silva, em O estilo literário de Marx, descobriu que várias formulações supostamente conceituais desse autor, como a de superestru-

tura, são formulações literárias e não conceituais. Os cientificistas não viram a poesia de sua ciência. Brandão esclarece que os poemas sobre a coisificação da pessoa já estavam lá, no texto de Marx, bastou-lhe apenas reordená-los pela estrutura poética que já continham. É fellow de meu College, na Universidade de Cambridge, e meu amigo, Sir Roy Calne, pioneiro nos transplantes de fígado na Europa. Ele é, também, um reconhecido artista plástico, autor de belas e sensíveis pinturas, algumas das quais retratam seus pacientes. Ciência e arte não se separam. Nestas poesias de Carlos Vogt, a dialética do linguista e pesquisador está inteiramente presente na construção dos poemas. Ele viu em situações do cotidiano práticas que pediam mais do que ciência, pediam o lirismo do poeta para revelar a ternura do poema, como em “Vinheta”: Mães batiam no futuro para corrigir o desconhecido.

Vasculhou provérbios populares, como “Água mole em pedra dura tanto bate até que fura”, para ali decifrar o poema que contém: Ponha uma pedra no coração e ele será um coração de pedra cheio do vício de amolecer sozinho na água dura da constância de ser pedra que a água fura pedra amolecida que a onda-gota bate e vaza e traspassa no orifício que escorre a pedra em água pura.

“Vazio” é o poema do relativo, que expõe a concepção vivencial da métrica: Tudo é tão grande Que nada pequeno Cabe nessa imensidão.

E em “Novo mandamento”, o cientista decifra a contradição do ser humano: O amor é pecado se não for cometido. José de Souza Martins é membro da Academia Paulista de Letras e do Conselho Superior da FAPESP. Entre outros livros, é autor de Desavessos – Crônicas de poucas palavras (Com Arte, 2015).

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carreiras

Patentes

Caminhos para promover a inovação

A preocupação em proteger os resultados de pesquisas científicas para finalidades econômicas, algo bastante comum em empresas, aos poucos também começa a se tornar mais presente entre os pesquisadores brasileiros na academia. Em parte, isso se deve a iniciativas de algumas universidades, que nos últimos anos passaram a investir em estratégias voltadas à promoção de uma cultura de propriedade intelectual e de gestão da inovação entre seus alunos, professores e pesquisadores. A ideia é orientá-los sobre os requisitos necessários para que um produto ou processo possa ser patenteado, permitindo sua exploração econômica. A patente é um título de propriedade temporária sobre uma invenção. É concedida aos detentores dos direitos sobre uma criação que possa ser fabricada ou que represente uma solução inovadora para um problema técnico de um determinado campo. Na patente também se especificam aspectos técnicos relacionados à obtenção da inovação que foi 94 | fevereiro DE 2017

objeto do pedido. Trata-se de um documento científico e tecnológico que pode ser muito bem aproveitado pelos pesquisadores durante o desenvolvimento de suas pesquisas. Os detentores dos direitos sobre a criação podem ser os autores do invento, mas frequentemente são seus empregadores ou financiadores. No Brasil, a análise e eventual concessão da patente fica a cargo do Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI). Caso seja concedida, ela pode ser explorada comercialmente por no máximo 20 anos, a partir da data de depósito do pedido. Depois disso, a invenção cai em domínio público, podendo ser explorada economicamente sem a necessidade de pagamento de royalties aos seus proprietários. Especialistas recomendam que ainda no planejamento de um projeto, e ao longo de seu desenvolvimento, os pesquisadores verifiquem se os seus possíveis resultados atendem a três exigências básicas de um pedido de patente: se podem ser considerados uma novidade

ilustrações  raul aguiar

Universidades brasileiras investem em estratégias de promoção de uma cultura de propriedade intelectual entre seus pesquisadores


(se não estão compreendidos no chamado estado da técnica, que consiste em tudo o que é acessível ao público antes da data de depósito), se se enquadram como uma atividade inventiva (não se pode patentear o óbvio, a patente deve ser resultado de um esforço de pesquisa) e se podem de alguma forma ser reproduzidos industrialmente (ver Pesquisa FAPESP nº 217). Com 56 pedidos depositados, a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) foi a instituição de ensino superior brasileira mais bem colocada no ranking do INPI de depósitos de pedidos de patente em 2015. De acordo com o físico Ado Jório de Vasconcelos, pró-reitor de Pesquisa da universidade, o marco é fruto do trabalho realizado pelo Núcleo de Inovação Tecnológica da UFMG, que, desde 2006, conta com um setor de análise e redação de patentes. “Também a partir de 2010 passamos a fazer um trabalho de educação da comunidade científica, alertando para a importância da proteção intelectual”, explica. Até 2005 a UFMG somava 160 patentes. Em 2015 esse número subiu para 747. “A UFMG depositou nos últimos 10 anos cinco vezes mais patentes do que em toda a sua história pregressa”, informa Ado Jório. Segundo o físico, é importante que os pesquisadores façam buscas periódicas em

bases de patentes para verificar se sua pesquisa realmente apresenta alguma novidade passível de ser patenteada. “Se a busca ficar restrita a bancos de artigos acadêmicos, o pesquisador estará alguns meses defasado, uma vez que há um longo intervalo entre a submissão de um artigo e sua publicação”, explica Vera Crósta, consultora na área de inovação e transferência de tecnologia na VC Consultoria e da Associação Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento das Empresas Inovadoras (Anpei). Além de se preocupar com a originalidade da pesquisa, ao pensar na possibilidade de proteger seus resultados, é importante que o pesquisador saiba que a patente não tem finalidade em si mesma. O objetivo final da patente é o seu licenciamento, que permite sua exploração econômica por uma ou mais empresas. A licença é uma autorização concedida pelo titular do registro intelectual a quem deseja fabricar ou comercializar o produto patenteado. O contrato entre as partes interessadas estipula, por exemplo, prazos de fabricação, royalties a serem pagos e multas. Existem vários repositórios para consulta de patentes no Brasil e no exterior. Alguns são gratuitos, como a base de dados do escritório de patentes dos Estados Unidos, o USPTO, com cerca de 7 milhões de documentos de patente de várias áreas do conhecimento, e a Espacenet, mantida pelo Escritório Europeu de Patentes (EPO), com mais de 60 milhões de patentes de vários países. Outros são pagos, como a Derwent Innovations Index, da Thomson Reuters, que reúne resumos de mais de 11 milhões de patentes. Os repositórios pagos podem ser acessados gratuitamente por pesquisadores de universidades públicas do Brasil por meio do Portal de Periódicos da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). A busca em repositórios nacionais e internacionais permite ao pesquisador ter um melhor conhecimento sobre o estado da arte de suas áreas de interesse, independentemente de ter a obtenção de patentes como um objetivo de sua própria pesquisa. A revisão da literatura pertinente, seja em revistas científicas ou em bancos de patentes, é essencial para um esforço de pesquisa que busque resultados inéditos que possam promover o avanço do conhecimento. “Antes de redigir o pedido, é recomendável que o pesquisador faça uma busca prévia nos arquivos do INPI para analisar documentos de patente que tratem de assuntos semelhantes PESQUISA FAPESP 252 | 95


ao seu”, sugere Ana Maria Nunes Gimenez, pesquisadora do Departamento de Política Científica e Tecnológica da Universidade Estadual de Campinas (DPCT-Unicamp). Segundo ela, é importante evitar a divulgação de informações inéditas em eventos ou publicações científicas antes de fazer o depósito do pedido. Isso mais tarde pode comprometer a obtenção da patente. Após o depósito, contudo, o pesquisador pode divulgar os resultados de seu trabalho normalmente, ela explica. A consulta em bancos de patente é uma estratégia usada há algum tempo pelos pesquisadores da Clorovale Diamantes, empresa produtora de diamantes sintéticos criada em 1997 e financiada pelo Programa Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (Pipe), da FAPESP. “Essa é uma etapa fundamental do processo de elaboração de nossos projetos científicos”, explica o físico Vladimir Airoldi, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), em São José dos Campos, interior paulista, e sócio-fundador da Clorovale. “Isso nos ajuda a planejar a pesquisa de modo a dar um foco mais direcionado ao ineditismo e às possíveis aplicações dos nossos resultados.” Airoldi tem atualmente cinco pedidos de patente depositados no INPI e uma patente concedida sobre o uso do diamante sintético aplicado a brocas odontológicas, no mercado há mais de 10 anos. A patente foi concedida no Brasil, Estados Unidos, Europa, Austrália, China e Japão. Outra empresa a se valer dessa estratégia é a Apis Flora. “A pesquisa de anterioridade nos ajuda a não reinventar a roda. Evitamos perder tempo e focamos no que realmente não existe”, diz Andresa Berretta, gerente de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação da empresa. Com sede em Ribeirão Preto (SP), a Apis Flora foi uma das pioneiras no país na fabricação de produtos à 96 | fevereiro DE 2017

Planejar para proteger Algumas estratégias para se obter um registro de propriedade intelectual Verifique ao longo de toda a pesquisa se seus possíveis resultados podem ser considerados novos, se se enquadram em uma atividade inventiva e se podem ser aplicados com resultados econômicos

Evite a divulgação de informações inéditas referentes aos resultados de sua pesquisa antes de fazer o depósito do pedido de patente

Faça buscas periódicas em bancos de patentes para ter um melhor conhecimento sobre o estado da arte de sua área, independentemente de ter a obtenção de patentes como um objetivo de sua própria pesquisa

base de mel e própolis. A empresa, criada em 1982, tem quatro patentes abrangendo a própolis: um extrato padronizado, um gel termorreversível, uma biomembrana e micropartículas à base do produto (ver Pesquisa FAPESP nº 241). Segundo Andresa, os primeiros quatro pedidos de patente da Apis Flora foram redigidos por sua equipe interna. “Contamos com orientações de técnicos de um escritório de patente que contratamos”, conta. Mais recentemente, por conta do número de projetos em andamento, a empresa passou a enviar os relatórios técnicos para escritórios externos, que cuidam da redação do pedido de patente com a equipe da Apis Flora.

O depósito de uma patente envolve custos com taxas e empresas especializadas na redação do pedido de propriedade intelectual. No Brasil, fazer o depósito custa entre R$ 70 e R$ 260, dependendo da natureza do depositante e se é eletrônico ou em papel. Nos Estados Unidos, varia de US$ 70 a US$ 280. Somado a isso, há também os honorários dos agentes de propriedade intelectual que auxiliam no processo de redação e depósito, além dos custos futuros com a manutenção dos pedidos, anuidades, taxas de concessão etc. Segundo Patrícia Leal Gestic, diretora de Propriedade Intelectual da Agência de Inovação da Unicamp (Inova Unicamp), a Universidade de Campinas assume a gestão da maior


Antes de redigir o pedido de patente, faça uma busca prévia nos arquivos do Inpi para analisar registros que tratem de assuntos semelhantes ao seu Procure as agências de inovação de sua universidade ou escritórios especializados na prestação de serviços de consultoria em propriedade intelectual se achar que seus resultados possam ser patenteados

Analise com cuidado o potencial de mercado de seu produto antes de entrar com um pedido de patente em algum escritório fora do Brasil

parte dos ativos e despesas de todo o processo de proteção, das etapas de análise e redação às taxas oficiais. “Em julho de 2016 a Unicamp atingiu a marca de mil patentes ativas, no Brasil e no exterior. Desse total, 130 estão licenciadas para o mercado”, relata. Patrícia Villar Martins, coordenadora de Propriedade Intelectual da Agência de Inovação da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), enfatiza a importância de os pesquisadores procurarem as agências de inovação ou núcleo de inovação tecnológica (NIT) de suas instituições. “Esses órgãos orientam os pesquisadores durante todo o processo de proteção, gestão e manutenção das

patentes, desde o depósito até a concessão da patente”, explica. Segundo ela, a comunidade científica ainda desconhece quais modalidades de proteção existem, quais são seus requisitos, a importância da patente para o cientista e a universidade e quais são as melhores estratégias para se colocar o produto no mercado via transferência de tecnologia. Para as universidades que não têm agências de inovação e para as empresas, o caminho é procurar escritórios especializados na prestação de serviços de consultoria em propriedade intelectual. Segundo a agente de propriedade intelectual Leonor Magalhães Galvão, sócia responsável pelo departamento de patentes da Magellan IP, no Rio de

Janeiro, “muitos pesquisadores não sabem o que é ou como elaborar um pedido de patente”. Para Vera Crósta, é importante que o pedido seja escrito por um profissional especializado em propriedade intelectual. Isso porque a redação da solicitação de patente é muito diferente de um artigo científico. “É preciso ter um olhar de mercado para saber as possíveis aplicações do produto ou processo desenvolvido. Se as reivindicações forem feitas baseadas apenas em um olhar acadêmico, o escopo de abrangência do pedido poderá ser restrito, dificultando seu licenciamento e exploração comercial por alguma empresa interessada”, diz. Após o depósito, o pedido fica até 18 meses em sigilo antes de ser publicado na Revista Eletrônica da Propriedade Industrial (RPI) do INPI. Caso a patente seja concedida, ela começará a valer a partir da data de depósito do pedido. Desse modo, qualquer um que acesse as informações do pedido e tente copiar o produto, mesmo antes de a patente ser concedida, pode ser acionado para pagar pelos direitos de propriedade intelectual. A falta de orientação, não raro, leva os pesquisadores a cometerem equívocos, como o de entrar com um pedido nos Estados Unidos apenas porque o tempo de análise é menor. Em média, o USPTO demora quatro anos para conceder, ou não, uma patente, enquanto no Brasil o tempo de espera pode chegar a 14 anos. “A questão é que a obtenção de uma patente nos Estados Unidos não garante ao pesquisador direito de exclusividade sobre a mesma invenção no Brasil”, explica Leonor. “A patente é um direito territorial”, esclarece Patrícia Tedeschi, do Núcleo de Patenteamento e Licenciamento de Tecnologias (Nuplitec), responsável pela gestão da propriedade intelectual de projetos financiados pela FAPESP. “As vantagens de se patentear aqui ou lá dependerão da estratégia PESQUISA FAPESP 252 | 97


Rodrigo de Oliveira Andrade 98 | fevereiro DE 2017

perfil

Trajetória para Vênus Estudos desenvolvidos desde a graduação no Brasil permitiram ao químico Gustavo Costa se estabelecer como pesquisador da Nasa

arquivo pessoal

definida pelo interessado no registro”, completa. Segundo relatório da Organização Mundial de Propriedade Intelectual (Wipo, em inglês), os Estados Unidos são o país com mais patentes válidas, com 2,2 milhões delas registradas. Em seguida vem o Japão, com 1,6 milhão. Esses números traduzem mais do que os resultados de ambos os esforços inventivos nacionais: países possuem culturas de propriedade intelectual muito diversas, com apreciações diferentes sobre o que pode ser considerado merecedor de patente. O Brasil está na 19ª posição, com 41.453 patentes válidas. A colocação brasileira também tem relação com a demora na análise dos pedidos submetidos ao INPI. O processo entre o depósito e a concessão da patente demora entre oito e 14 anos. Em 2016 o órgão fechou o ano com uma fila de 243.820 pedidos pendentes. Apenas 25.481 foram concluídos. Ao todo, 31.020 novas solicitações entraram na fila do instituto em 2016. “Nossa capacidade de avaliar os pedidos tem sido menor do que o fluxo de entrada dessas solicitações”, reconhece Luiz Pimentel, presidente do INPI. O órgão conta hoje com 292 especialistas para analisar todas os pedidos de patente – nos Estados Unidos são cerca de 6 mil examinadores. Para acelerar as análises, o INPI contratou 95 novos examinadores em 2017. Esses profissionais estão atualmente em treinamento e devem começar a trabalhar em até 18 meses. Existem casos em que o órgão oferece exame prioritário, como no caso de tecnologias voltadas à conservação do meio ambiente, patentes consideradas estratégicas, especialmente para o Sistema Único de Saúde, entre outras. n

O químico Gustavo Costa fez sua iniciação científica em 1999 no Instituto de Química da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Araraquara, interior de São Paulo. Em 2013 foi contratado como pesquisador pela Nasa, a agência especial norte-americana. Nesses 14 anos, tornou-se um especialista em materiais para conversão e armazenamento de energia. Durante a iniciação científica nos primeiros anos da graduação em química, Costa foi orientado por José Arana Varela (1944-2016), professor titular do Instituto de Química da Unesp de Araraquara e diretor-presidente da FAPESP entre 2012 e 2016. No mestrado, concluído em 2004, e no doutorado, em 2008, ambos no Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen), em São Paulo, estudou a síntese e a caracterização estrutural de eletrocerâmicas. Em 2007, sob orientação do físico Reginaldo Muccillo, do Ipen, e da química Alexandra Navrotsky, da Universidade da Califórnia (UC), no campus de Davis, Estados Unidos, adaptou seu projeto de pesquisa do doutorado para estudar a estabilidade química de nanopartículas de materiais usados na conversão e no armazenamento de energia no Departamento de Química da UC Davis. A proposta foi aceita e,

em 2007, Costa foi para os Estados Unidos, onde ficou por um ano. De volta ao Brasil, foi convidado a retornar à UC Davis como pesquisador. “Aceitei e trabalhei nos Estados Unidos por quatro anos”, conta. “Durante esse período aprofundei meus estudos sobre estabilidade química de nanopartículas de diferentes materiais para armazenamento e conversão de energia.” Uma de suas pesquisas resultou em um material capaz de neutralizar rejeitos radioativos de modo a se tornarem inócuos ao ambiente. A descoberta lhe rendeu, em 2012, um posto de cientista no Laboratório Nacional de Los Alamos, no estado norte-americano do Novo México. Em 2013 o químico submeteu outro projeto de pesquisa para concorrer a um cargo no Centro de Pesquisa Glenn, da Nasa. “Quis pesquisar a estabilidade química de atmosferas de planetas em estágio inicial de formação”, diz. Aos 37 anos, Costa foi contratado e hoje é responsável pela Câmara de Vênus no Glenn. “Estudo os efeitos corrosivos da atmosfera de Vênus em todo tipo de material”, explica. “A ideia é desenvolver novos materiais para construir uma sonda capaz de permanecer na superfície do planeta por meses ou anos.” Costa também trabalha na concepção de materiais cerâmicos para recobrir a superfície do interior das turbinas de aviões, de modo a torná-las resistentes aos efeitos corrosivos causados por partículas de areia, comuns durante a decolagem. Em outra frente, integra um grupo que desenvolve materiais para propulsores iônicos, um tipo de motor que usa eletricidade para criar partículas atômicas carregadas de energia, comumente usados para direcionar satélites na órbita terrestre. R.O.A.


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