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janeiro de 2018 | Ano 19, n. 263

​​​​​​​A l​​uta contra a

febre amarela Vírus dizima as populações de macacos, cujas mortes indicam as áreas de risco da doença e disparam campanhas de vacinação

Avanço de ações afirmativas leva universidades a criar novas formas de ingresso

São Paulo se torna o principal centro de distribuição de produtos chineses no país

Dez recomendações para fazer um estágio curto de pesquisa no exterior

Historiador Olival Freire fala da importância da controvérsia para o avanço da ciência

O maior grupo de plantas carnívoras surgiu onde hoje é o Brasil há 39 milhões de anos


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São Paulo 93,7 mHz

às quintas, às 2h

Pesquisa Brasil

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Ribeirão Preto 107,9 mHz

Pesquisa Brasil traz notícias e

A cada programa, três

Você também pode baixar e

entrevistas sobre ciência, tecnologia,

entrevistados falam sobre o

ouvir o programa da semana

meio ambiente e humanidades.

desenvolvimento de pesquisas

e os anteriores na página

Os temas são selecionados

e inovações e escolhem a

de Pesquisa FAPESP:

entre as reportagens da revista

programação musical

revistapesquisa.fapesp.br/podcast

Pesquisa FAPESP


fotolab

A beleza do conhecimento

1 William Lopes e Marilene Henning Vainstein / Centro de Biotecnologia, UFRGS ( imagem maior) 2 Lucianna Gama / Centro de Ciências e Tecnologia, UFCG e Francisco Rangel / Instituto Nacional de Tecnologia

Sua pesquisa rende imagens bonitas? Mande para imagempesquisa@fapesp.br Seu trabalho poderá ser publicado na revista.

Buquês letais As imagens das células do fungo Cryptococcus gattii (acima) e das nanopartículas de óxido de zinco (à esq.) fazem parte da terceira edição da Mostra de Arte Científica Brasileira organizada pela ArtBio, que busca atrair a atenção para a ciência por meio da beleza. O fungo pode infectar o sistema nervoso central e causar determinado tipo de meningite. O óxido de zinco impede, no ambiente aquático, o crescimento de fitoplâncton, um componente crucial da cadeia alimentar.

Imagens enviadas por De Aquino, coordenador da ArtBio (www.artbiobrasil.org)

PESQUISA FAPESP 263 | 3


janeiro  263

CIÊNCIA

Política de C&T 30 Formação Avanço de ações afirmativas cria diversidade de ingresso no ensino superior 38 Gestão de dados Pesquisadores propõem estratégias para melhorar acervos de bases on-line sobre biodiversidade

CAPA Controlada nas cidades pela vacinação, a febre amarela está dizimando populações de primatas silvestres p. 18

Foto da capa eduardo cesar Bugio no CeMaCAS, no Parque Anhanguera, São Paulo

42 Cientometria São Paulo está entre as 20 cidades com maior produção de papers no mundo, indica estudo

50 Saúde Inflamação diminui conexões de neurônios de crianças com autismo 55 Genética Hormônio masculino contra doença que reduz a produção de células sanguíneas é testado   58 Botânica Um dos maiores grupos de plantas carnívoras surgiu há 39 milhões de anos onde hoje é o Brasil   62 Entomologia Micromariposas passam a maior parte da vida como larva no interior de caules e folhas  

65 Física Perturbação em nuvem de átomos frios produz fenômeno ondulatório similar ao da luz 66 Dois fótons podem se ligar e se comportar como pares de elétrons em supercondutores TECNOLOGIA 68 Indústria papeleira Empresas usam resíduos de cana-de-açúcar para produzir folhas de sulfite e embalagens

46 Periódicos Para obter mais citações, revistas brasileiras aumentam rigor ENTREVISTA Olival Freire Jr. Historiador da ciência fala da importância das disputas para o progresso do conhecimento científico p. 24

72 Farmácia Jambu, além da culinária, poderá ter uso na odontologia e como acaricida


www.revistapesquisa.fapesp.br Leia no site todos os textos da revista em português, inglês e espanhol, além de conteúdo exclusivo

74 Hidrologia Sistema ajudaria a restringir transtornos criados pelo transbordamento de rios urbanos 76 Pesquisa empresarial Neger investe em inteligência espectral HUMANIDADES 80 Ciências sociais São Paulo se torna o principal centro de distribuição de produtos populares chineses pelo país

SEÇÕES 3 Fotolab

youtube.com/user/pesquisafapesp

6 Comentários 7 Carta da editora 8 Boas práticas Software verifica se sequências de nucleotídeos descritas em artigos são autênticas 11 Dados Matrículas e títulos de doutorado concedidos no país 12 Notas 90 Memória Primeiros asilos para doentes mentais foram construídos em meados do século XIX 94 Resenha Empresários, trabalhadores e grupos de interesse. A política econômica nos governos Jânio Quadros e João Goulart, 1961-1964, de Felipe Pereira Loureiro. Por Pedro Paulo Zahluth Bastos

86 Gênero Processo de emancipação das mulheres no núcleo familiar ocorreu a partir da década de 1970

vídeo

95 Carreiras Confira as dicas de como aproveitar os estágios de pesquisa no exterior

Pesquisadores narram a experiência de promover campanhas de financiamento coletivo para viabilizar projetos bit.ly/vCrowdfunding

podcasts  bit.ly/PesquisaBr Tânia Salgado Pimenta ​Historiadora fala sobre a atuação de escravos negros e libertos como sangradores e parteiras no século XIX bit.ly/PodTaniaSP

Kelly Kotlinski Verdade Coordenadora do Fundo ELAS comenta a importância de programas que incentivem a participação de mulheres em carreiras científicas bit.ly/PodKKVdd


Conteúdo a que a mensagem se refere:

comentários

cartas@fapesp.br

Revista impressa

Galeria de imagens Vídeo Rádio

Cidades doentes

Ótima a reportagem de capa “Para tirar as cidades do pronto-socorro” (edição 262). É preciso pensar mais seriamente na integração das políticas urbanas, principalmente as de mobilidade e saúde. Eduardo Nilsson

contatos revistapesquisa.fapesp.br redacao@fapesp.br PesquisaFapesp PesquisaFapesp pesquisa_fapesp

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6 | janeiro DE 2018

Ondas de calor

Quase sempre aprendemos mais com os resultados negativos... Tomaz Puga Leivas

Editoras científicas

A reportagem “Barulho na biblioteca” (edição 261) indica um passo na direção correta contra a mercantilização da ciência.

Eduardo Barreto Aguiar

Muito boa a reportagem analisando ondas de calor em São Paulo, Rio, Manaus e em outras cidades (“Ondas de calor: mais intensas, longas e frequentes”, edição 262). Em um estudo comparativo entre seis capitais brasileiras, entre 1961 e 2014, Brasília foi a cidade que apresentou ondas de calor mais longas, com 20,5 dias de duração a cada ano, quase o triplo da cidade do Rio de Janeiro. Manaus lidera em número de dias com ondas de calor, 39 por ano. Regiões do Oriente Médio estão tendo ondas de calor de 54 a 57 graus Celsius. Preparem-se...

Paulo Artaxo

Razão

Se a pesquisa teve fomento governamental, nada mais justo que seus resultados sejam partilhados e se tornem públicos, com acesso irrestrito. Priscilla Caroliny de Oliveira

Emissão na Amazônia

Que incrível, chaminés de metano na floresta (“Amazônia é uma das principais fontes emissoras de metano do mundo”, edição on-line). Pensava que era o metabolismo delas, mas isso não fazia sentido. São bactérias metanogênicas nos pantanais. Que pesquisa maravilhosa!

Luiz Eduardo Anelli

Michael Shermer sempre direto ao ponto, e sempre brilhante (“A favor da razão”, edição 261). Natalia Pasternak Taschner

Resultados negativos

Interessante a nota “Um prêmio para estudos que deram errado” (edição 261). É preciso entender que um negativo da hipótese também é um resultado. Isso é ciência.

Eros Frederico

Vídeo

Excelente o vídeo “Uma nova era para a astrofísica”. E as explicações dos acadêmicos também, muito didáticas, compreensíveis a leigos como nós.

Lola Vita

Sua opinião é bem-vinda. As mensagens poderão ser resumidas por motivo de espaço e clareza.

A mais lida de dezembro no Facebook PERIÓDICOS

Barulho na biblioteca

bit.ly/2CFlWta

38.280 pessoas alcançadas 633 reações 12 comentários 223 compartilhamentos

TOBIAS MÖLLER-WALSDORF

Reportagem on-line


Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo

carta da editora

José Goldemberg Presidente Eduardo Moacyr Krieger vice-Presidente Conselho Superior Carmino Antonio de Souza, Eduardo Moacyr Krieger, fernando ferreira costa, João Fernando Gomes de Oliveira, joão grandino rodas, José Goldemberg, Marilza Vieira Cunha Rudge, José de Souza Martins, Pedro Luiz Barreiros Passos, Pedro Wongtschowski, Suely Vilela Sampaio

Macacos e modelos

Conselho Técnico-Administrativo Carlos américo pacheco Diretor-presidente

Alexandra Ozorio de Almeida |

diretora de redação

Carlos Henrique de Brito Cruz Diretor Científico fernando menezes de almeida Diretor administrativo

issn 1519-8774

Conselho editorial Carlos Henrique de Brito Cruz (Presidente), Caio Túlio Costa, Eugênio Bucci, Fernando Reinach, José Eduardo Krieger, Luiz Davidovich, Marcelo Knobel, Maria Hermínia Tavares de Almeida, Marisa Lajolo, Maurício Tuffani, Mônica Teixeira comitê científico Luiz Henrique Lopes dos Santos (Presidente), Anamaria Aranha Camargo, Ana Maria Fonseca Almeida, Carlos Américo Pacheco, Carlos Eduardo Negrão, Fabio Kon, Francisco Antônio Bezerra Coutinho, Francisco Rafael Martins Laurindo, José Goldemberg, José Roberto de França Arruda, José Roberto Postali Parra, Lucio Angnes, Luiz Nunes de Oliveira, Marie-Anne Van Sluys, Maria Julia Manso Alves, Paula Montero, Roberto Marcondes Cesar Júnior, Sérgio Robles Reis Queiroz, Wagner Caradori do Amaral, Walter Colli Coordenador científico Luiz Henrique Lopes dos Santos diretora de redação Alexandra Ozorio de Almeida editor-chefe Neldson Marcolin Editores Fabrício Marques (Política de C&T), Marcos de Oliveira (Tecnologia), Ricardo Zorzetto (Ciência), Carlos Fioravanti e Marcos Pivetta (Editores espe­ciais), Maria Guimarães (Site), Bruno de Pierro (Editor-assistente) repórteres Yuri Vasconcelos e Rodrigo de Oliveira Andrade redatores Jayne Oliveira (Site) e Renata Oliveira do Prado (Mídias Sociais) arte Mayumi Okuyama (Editora), Ana Paula Campos (Editora de infografia), Júlia Cherem Rodrigues e Maria Cecilia Felli (Assistentes) fotógrafos Eduardo Cesar e Léo Ramos Chaves banco de imagens Valter Rodrigues Rádio Sarah Caravieri (Produção do programa Pesquisa Brasil) revisão Alexandre Oliveira e Margô Negro Colaboradores Alexandre Affonso, Anna Cunha, Augusto Zambonatto, Christina Queiroz, Diego Freire, Domingos Zaparolli, Estúdio Rebimboca, Evanildo da Silveira, Fabio Otubo, Moura Leite Netto, Pedro Paulo Zahluth Bastos, Renato Pedrosa, Sandro Castelli, Suzel Tunes e Victória Flório

É proibida a reprodução total ou parcial de textos, fotos, ilustrações e infográficos sem prévia autorização

Tiragem 26.450 exemplares IMPRESSão Plural Indústria Gráfica distribuição Dinap GESTÃO ADMINISTRATIVA FUSP – FUNDAÇÃO DE APOIO À UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO PESQUISA FAPESP Rua Joaquim Antunes, no 727, 10o andar, CEP 05415-012, Pinheiros, São Paulo-SP FAPESP Rua Pio XI, no 1.500, CEP 05468-901, Alto da Lapa, São Paulo-SP

Secretaria de Desenvolvimento Econômico, Ciência e Tecnologia Governo do Estado de São Paulo

A

s quatro mortes por febre amarela na Região Metropolitana de São Paulo desde dezembro mostram que o atual surto ainda não arrefeceu. Dados divulgados pela Organização Mundial da Saúde indicam que 779 pessoas foram diagnosticadas com a doença e 262 morreram no Brasil de dezembro de 2016 a agosto de 2017. A vacinação preventiva, que tem sido intensificada, evita um maior número de mortes, mas para isso depende em parte de informações transmitidas pelas mortes de outra população: os primatas silvestres, também suscetíveis à doença, que indicam a chegada do vírus. Há quase 20 anos, foi proposta pelo Ministério da Saúde a estratégia de acompanhamento das mortes de primatas para identificação das novas áreas de transmissão. Com isso, é possível adotar medidas de prevenção como a vacinação da população humana – não existe versão para os animais – ou o fechamento de parques com matas. Organismos internacionais recomendam vacinar todos os moradores em um raio de 30 quilômetros do ponto em que são identificados animais mortos. A reportagem de capa desta edição (página 18) faz um estudo de caso da estratégia adotada em São Paulo, integrando serviços públicos, como a Superintendência de Controle de Endemias, o Instituto Adolfo Lutz, órgãos estaduais, e o Centro de Manejo e Controle de Animais Silvestres, da prefeitura da capital paulista. Um modelo epidemiológico desenvolvido pela Sucen descreve a velocidade de deslocamento e os prováveis caminhos do vírus pelo país. Esses mapas permitiram a adoção de uma estratégia preventiva de vacinação, concentrada apenas nos moradores das áreas de risco, antes mesmo da identificação de macacos mortos. **

Ampliar o acesso de parte da população ao ensino superior público é o objetivo de uma série de ações, chamadas afirmativas, tomadas por instituições estaduais e federais desde os anos 2000. Reportagem à página 30 aborda, a partir de estudos feitos sobre seus resultados, algumas dessas iniciativas, mostrando a complexidade do desafio de promover a inclusão de uma parcela mais diversificada dos estudantes egressos do ensino médio sem perder de vista a qualidade. O que fica claro é que o vestibular igual para todos não é mais a porta exclusiva de entrada das universidades. Sistemas de bonificação de notas, de reserva de vagas, uso de avaliações governamentais como o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) compõem agora um cardápio de alternativas para o ingresso nessas instituições. A edição deste mês traz plantas carnívoras originárias do que hoje é o Brasil (página 58), micromariposas que passam a maior parte de sua vida como larvas ou pupas no interior das folhas que são sua fonte de alimento (página 62), o uso de resíduos de cana-de-açúcar, como bagaço e palha, para a produção de papel (página 68), entre outros temas. Reportagem à página 80 mostra que São Paulo se tornou a nova Ciudad del Este, meca dos sacoleiros até o início dos anos 2000. A capital paulista tomou do Paraguai o papel de principal distribuidor no Brasil de produtos populares importados da China. Uma parte, no valor de US$ 30 bilhões por ano, entra legalmente; outra, não. Esse fluxo econômico é também migratório: em 2012, já eram 250 mil chineses vivendo no Brasil, dos quais 180 mil em São Paulo. Na fronteira paraguaia viviam 20 mil chineses no começo dos anos 2000, número esse que caiu para 4 mil. De São Paulo, essas mercadorias abastecem mercados populares por todo o país. PESQUISA FAPESP 263 | 7


Boas práticas

Software detecta erros em artigos sobre genética do câncer Ferramenta está disponível para testes e verifica se sequências de nucleotídeos descritas em papers são autênticas Está disponível para teste na internet a versão preliminar de um software que se propõe a detectar erros ou fraudes em sequências de DNA descritas em artigos científicos. Desenvolvido pela oncologista australiana Jennifer Byrne e pelo cientista da computação francês Cyril Labbé, o programa foi batizado de Seek & Blastn e compara sequências de nucleotídeos de genes humanos publicadas em papers com as armazenadas no banco de dados público Blastn (Nucleotide Basic Local Alignment Search Tool), dos Estados Unidos. “O software busca incompatibilidades entre a descrição de uma sequência no artigo e o que ela é de verdade”, explicou Jennifer Byrne à revista Nature. De acordo com Cyril Labbé, a versão on-line ainda precisa ser aperfeiçoada – há dificuldades, por exemplo, para reconhecer sequências de nucleotídeos descritas em arquivos PDF. 8 | janeiro DE 2018

“Mas o software já consegue dar um apoio significativo e reduzir as análises manuais feitas por especialistas”, disse Labbé em um congresso internacional sobre revisão por pares realizado em Chicago, Estados Unidos, em setembro. O Seek & Blastn pode ser consultado no endereço scigendetection.imag.fr/TPD52/. A dupla de pesquisadores já encontrou erros em mais de 60 trabalhos sobre genética do câncer. Alguns deles são pequenos e acidentais, mas, segundo Byrne, em muitos casos as incongruências são suficientes para invalidar resultados e conclusões. “O mais grave é que o uso de dados defeituosos pode ter implicações na pesquisa clínica e na busca de tratamentos contra o câncer”, afirmou. “Os cientistas precisam compreender melhor a natureza desses erros para evitar gastar tempo e dinheiro na tentativa de reproduzir resultados incorretos.”


ilustração sandro castelli  foto universidade de sydney

A oncologista australiana Jennifer Byrne criou um programa que acha falhas de forma automática

O interesse da pesquisadora pelo assunto surgiu em 2015, quando encontrou o problema em cinco artigos sobre genética do câncer. Os papers descreviam um mesmo tipo de experiência, na qual se inativava um gene, o TPD52L2, usando como alvo uma sequência curta de nucleotídeos, e relatavam os efeitos da manobra no desenvolvimento de células tumorais. Byrne, que é chefe da unidade de câncer pediátrico do Kids Research Institute e professora de oncologia molecular da Universidade de Sydney, conhecia muito bem esse gene, identificado em 1998 por um grupo de pesquisadores chefiado por ela. O gene está relacionado ao surgimento de certos tipos de câncer de mama e de leucemia, mas sua atividade ainda é pouco conhecida. A oncologista logo constatou que a sequência de nucleotídeos descrita nos cinco papers não correspondia à real. “Era altamente improvável, para não dizer impossível, que eles tivessem chegado aos resultados obtidos”, disse a pesquisadora ao jornal Sydney Morning Herald. Ela relatou seu achado e sua desconfiança aos editores dos periódicos que haviam publicado os artigos, e quatro dos cinco papers acabaram retratados. Os autores admitiram que não haviam feito o experimento, mas adquirido os dados de uma empresa de biotecnologia, embora a parceria não tivesse sido declarada. Byrne suspeitou que o episódio não fosse um caso isolado e iniciou uma busca por outros papers na base de dados PubMed. Encontrou problemas semelhantes em 48 artigos. Todos eles descreviam o silenciamento de genes, mas havia tantas coincidências em títulos, dados e imagens que ela desconfiou que os autores também haviam obtido os dados de segunda mão. Fez então uma parceria com Cyril Labbé, da Universidade de Grenoble, na França, que havia criado um software para identificar papers fraudulentos, sem nenhum

sentido, gerados por computador e publicados em anais de conferências, normalmente pouco lidos. Juntos encontraram erros nas sequências de nucleotídeos de 30 artigos, todos eles escritos por chineses. Sem identificar os autores, a dupla descreveu o problema em um artigo publicado em 2016 na revista Scientometrics. Por enquanto, o software Seek & Blastn só compara nucleotídeos de genes humanos, mas os dois pesquisadores pretendem ampliar a análise para sequências de animais de laboratório. Eles ofereceram a versão preliminar na internet para que outros cientistas testem o programa e ajudem a aperfeiçoá-lo. A intenção é, mais tarde, oferecer o software a editores de periódicos, para que possam utilizá-lo na análise de manuscritos submetidos para publicação. Já estão disponíveis diversas ferramentas capazes de checar de forma automática a robustez e a veracidade de grandes volumes de dados de pesquisa. As mais conhecidas e disseminadas são as que rastreiam textos em busca de evidências de plágio. Mas há outros exemplos. Pesquisadores da Universidade de Tilburg, na Holanda, criaram um software capaz de detectar erros estatísticos e causaram polêmica ao analisar 50 mil artigos do campo da psicologia e divulgar publicamente os resultados (ver Pesquisa FAPESP nº 253). O Escritório de Integridade Científica (ORI), que monitora as pesquisas no âmbito do Departamento de Saúde dos Estados Unidos, recomenda um conjunto de softwares que detectam manipulação ou duplicação de imagens. Para David Allison, estatístico da Universidade de Indiana em Bloomington, tais ferramentas são valiosas quando usadas para promover boas práticas ou encorajar os pesquisadores a prevenir erros. “Elas também podem ajudar a medir taxas de erros em periódicos ou em campos do conhecimento”, disse Allison à Nature. n PESQUISA FAPESP 263 | 9


ilustração  sandro castelli

A marca do escândalo na carreira Um grupo de pesquisadores do Massachusetts Institute of Technology (MIT) e da Universidade Harvard, nos Estados Unidos, mensurou o prejuízo que a retratação de um artigo científico causa à reputação de seus autores. De acordo com um trabalho publicado na revista Research Policy, um ano depois da retratação há um decréscimo médio de 10% na taxa esperada de citações dos outros papers publicados pelos mesmos autores. Se for evidente que o artigo foi cancelado não por erro, mas por má conduta, a queda na taxa de citações pode chegar a 20%, especialmente na produção científica de pesquisadores de renome e alta produtividade. “A pergunta que fizemos foi: será que as retratações desencadeiam no âmbito individual algum tipo de mecanismo de infecção por meio do qual o autor é punido ou desacreditado por ter sido desonesto ou incompetente?”, disse ao site do MIT o economista Alessandro Bonatti, professor da MIT Sloan School of Management, que escreveu o trabalho juntamente com Pierre Azoulay, também do MIT, e Joshua Krieger, da Harvard Business School. “Constatamos que esse mecanismo de fato existe e se manifesta por meio das citações”, conclui Bonatti. Segundo ele, a comunidade científica aparentemente reavalia o conceito dos pesquisadores após um episódio de retratação, fazendo menos menções a seus trabalhos em novos artigos. Para chegar a essa conclusão, a equipe do MIT e de Harvard analisou a produção científica de 376 pesquisadores norte-americanos do campo das ciências da vida que publicaram trabalhos, mais tarde retratados, entre os anos de 1977 e 2007. O desempenho deles, em termos de citações, foi comparado com o de um grupo de controle formado por 759 pesquisadores que não 10 | janeiro DE 2018

sofreram retratação e haviam publicado trabalhos nas mesmas edições dos periódicos em que ocorreram as retratações do primeiro grupo. É certo que artigos científicos têm um declínio natural no número de citações à medida que o tempo passa. O estudo mostrou, contudo, que os artigos ainda válidos dos pesquisadores tiveram um decréscimo adicional de 10% nas citações após o episódio da retratação, que não se relaciona com o processo de obsolescência dos artigos. O trabalho publicado na Research Policy utilizou a mesma base de dados de uma pesquisa de 2014 do mesmo grupo, segundo o qual escândalos causados por retratações têm impacto negativo em artigos sobre temas correlatos, ainda que assinados por outros autores (ver Pesquisa FAPESP nº 202).

Artigo científico AZOULAY, P. et al The career effects of scandal: Evidence from scientific retractions. Research Policy. v. 46, n. 9, p. 1552-69. nov. 2017.

Renúncia no conselho editorial Dezenove pesquisadores, na maioria ligados à Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos, abandonaram em novembro o conselho editorial da revista Scientific Reports, publicada pelo grupo Springer Nature. A renúncia foi um protesto contra a decisão da revista de não retratar um artigo que descreve um método de identificação de sequências reguladoras de DNA sobre o qual pesa uma acusação de plágio. Segundo o biomédico Michael Beer, da Johns Hopkins, o trabalho reproduz de forma disfarçada trechos de um artigo de sua autoria publicado em 2014 na PLOS Computational Biology e apresenta equações idênticas às que ele desenvolveu para o algoritmo de um software. Em vez de retratar o artigo, a revista optou por

republicá-lo, dando mais crédito ao trabalho de Beer. Um dos autores do paper acusado é Liu Bin, do Instituto de Tecnologia Harbin, em Shenzhen, China, que também faz parte do conselho editorial da Scientific Reports. De acordo com Richard White, editor da publicação, “as imprecisões e ambiguidades do artigo não justificam sua retratação”. Steven Salzberg, pesquisador da Universidade Johns Hopkins que conclamou seus colegas a renunciar, diz que ficou muito desapontado com a postura do periódico. “Quando um estudante comete plágio, não lhe damos a chance de revisar e republicar seu trabalho. Ele é alvo de sanções disciplinares fortes, que podem chegar à expulsão. A Scientific Reports está dando um exemplo muito ruim.”


Dados

Matrículas e títulos de doutorado concedidos no país Categoria administrativa

O número de títulos de doutorado concedidos no país passou de 18.996 para 20.603, crescimento de 8,5%,

2015 Matrículas

Pública

2016 Títulos

Matrículas

Variação 2016-2015 Títulos

Matrículas

Títulos

90.334

16.899

95.155

18.080

5,3%

7%

Federal

59.734

10.577

63.924

11.353

7%

7,3%

menos, 5,3%, passando de 102,2 mil para 107,6 mil.

Estadual

30.472

6.303

31.102

6.703

2,1%

6,3%

O setor público respondeu por 88% de matrículas e

Municipal

128

19

129

24

0,8%

26,3%

11.873

2.097

12.485

2.523

5,2%

20,3%

102.207

18.996

107.640 20.603

5,3%

8,5%

de 2015 para 2016. O número de matrículas cresceu

de títulos concedidos, em 2016, mas o setor particular

Particular

apresentou crescimento maior no número de títulos

Total

concedidos, de 20%.

Instituições sediadas em São Paulo concederam 7.252 títulos de doutorado (35% do total), em 2016. Os cinco estados líderes, São Paulo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Minas Gerais e Paraná, responderam por 15.175 dos títulos de doutorado concedidos no país, quase 3/4, no ano.

Títulos de doutorado, por unidade da federação 2016

7.252

2.594 2.137

1.940 1.252 759 739

ilustração freepik.com

SP

Títulos de doutorado 20 instituições líderes 2016

rj

rs

mg

pr

sc

pe

586 570 557

df

ba

ce

428 395 311 294 pb

rn

go

pa

136 131 131 102 64

57

56

52

32

10

8

6

4

ms

ma

al

pi

to

ro

ac

ap

rr

am

es

se

mt

3.043

1.211

uSP

1.003

988

973

835

uneSP ufrj unicamp ufrgs ufmg

621

ufsc

558

unb

529

472

451

411

383

354

352

ufpe

ufpr puc/sp ufc

uerj

ufba

ufrn

uff unifesp ufscar ufsm

470

335

328

301

296

uem

Fonte  Geocapes/Capes, dados discentes, 2015/2016, acesso em 17/12/2017. Elaboração: Indicadores CT&I/Fapesp.

PESQUISA FAPESP 263 | 11


Notas cabeça-de-prata

dançador-de-cabeça-dourada

Espécie híbrida derivada das outras duas

1

uirapuru-de-chapéu-branco

Ave da Amazônia se originou de processo de hibridização Descoberto em 1957 nas cabeceiras do rio Cururu, afluente

dezembro). Segundo o trabalho, exemplares do uirapuru

do Tapajós, no oeste do Pará, o dançador-de-coroa-dourada

e do cabeça-de-prata cruzaram e geraram um híbrido há

(Lepidothrix vilasboasi) é uma ave misteriosa. Logo após

cerca de 180 mil anos. Por algum motivo, possivelmente o

ter sido descrita pelo ornitólogo Helmut Sick, alemão na-

isolamento geográfico, as aves híbridas passaram a preferir

turalizado brasileiro, a espécie, que mede pouco menos de

outros exemplares mestiços para acasalar em vez de se

10 centímetros, passou mais de 40 anos sem ser avistada

reproduzir com uma das duas espécies parentais. “Ao longo

novamente. Só voltou a ser observada na natureza em 2002.

desse processo, a cor amarela da cabeça apareceu e se fixou

De coloração verde e amarela, o dançador é parecido com

como o caráter que define a espécie”, comenta o ornitólogo

outras duas espécies que habitam áreas vizinhas, o uirapuru-

Alexandre Aleixo, do Museu Paraense Emílio Goeldi, um dos

-de-chapéu-branco (Lepidothrix nattereri) e o cabeça-de-prata

autores do estudo. “Normalmente, um animal híbrido não

(Lepidothrix iris). Um estudo feito por pesquisadores do Ca-

prospera – a mula, por exemplo, é estéril – e, com o tempo,

nadá, Brasil e Bélgica a partir de material genético das três

o sinal genômico da hibridização desaparece. Mas com o

aves confirmou a suspeita de que o dançador é uma espécie

L. vilasboasi ocorreu exatamente o contrário.” O dançador é

que se originou de um híbrido natural: 20% de seu genoma

a primeira espécie de ave da Amazônia comprovadamente

vem do uirapuru e 80% do cabeça-de-prata (PNAS, 26 de

originária de um híbrido e a quarta do mundo.

12 | janeiro DE 2018


Menos alunos estrangeiros nos Estados Unidos

Municípios com mais morte neonatal do que fetal

n Municípios com mais morte fetal do que neonatal

Um ano após o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, estabelecer regras para reduzir o contingente de imigrantes no país,

3

dirigentes de faculdades e universidades norte-americanas reclamam que as medidas, entre

fotos 1 Pablo Cerqueira 2 ucMO 3 andrews, k. et al. plos one. 2017

elas a de aumentar as exigências para a

US$ 6,5 bilhões da Índia.

concessão de vistos,

Países como Canadá e

estão prejudicando o

Austrália passaram a

fluxo de estudantes

ofertar, nos últimos anos,

estrangeiros nas

cursos para estrangeiros

instituições. Um estudo

a custos menores

divulgado em novembro

do que os Estados Unidos.

pelo Instituto de

Além disso, a política

Educação Internacional

anti-imigração de Trump

(IEE) revela uma

acelerou a perda de

queda de 7% no número

estudantes. “À medida

de novos alunos

que se perdem esses

estrangeiros nas

alunos, a receita

faculdades norte-

de matrícula também

-americanas para o

é impactada

período letivo 2016-

negativamente”, disse ao

2017. Das 522

jornal The New York Times

instituições de ensino

Michael Godard, reitor

Um estudo que integra o doutorado em saúde pública

consultadas, 45%

interino da Universidade

da norte-americana Kathryn Andrews na Universidade

reportaram queda nas

do Missouri Central,

Harvard, dos Estados Unidos, analisou as taxas de

matrículas de

que registrou um declínio

mortalidade fetal (a partir de 22 semanas de gestação

estrangeiros. A maior

de mais de 1.500 alunos

ou com mais de 500 gramas) e neonatal no estado

parcela provém da China,

em relação a 2016.

de São Paulo entre 2010 e 2014. Calculados a partir de

da Índia e do Brasil.

Como os estudantes

dados do Ministério da Saúde, os resultados indicam

No ano letivo 2016-2017,

de fora pagam o dobro da

que 42% dos 645 municípios paulistas têm mortali-

estudantes estrangeiros

taxa de matrícula

dade fetal mais alta do que a neonatal (Plos One, 22

aportaram ao país US$

cobrada dos americanos,

de dezembro). Para o estado como um todo, o índice

39,4 bilhões, dos quais

a instituição deixou de

de mortalidade fetal foi de 7,9 a cada mil gestações.

US$ 12,5 bilhões vieram

arrecadar US$ 14 milhões

Mas esse número variou muito entre os municípios,

de alunos da China e

no último ano.

indo de 0 a 28 mortes por mil gestações. A taxa de

2

Mortalidade fetal é maior do que neonatal em 42% dos municípios paulistas

mortalidade neonatal (ocorrida até 28 dias após o parto) para o estado também foi de 7,9 por mil nascidos vivos. Segundo os autores do artigo, esses números reforçam a ideia de que a taxa de mortalidade fetal pode ultrapassar a neonatal nas próximas décadas no Brasil. Essa tendência é esperada, dizem os pesquisadores, visto que hoje as políticas públicas focam mais em medidas contra mortalidade infantil e nem tanto na

2

Alunos estrangeiros em evento na Universidade do Missouri Central

promoção de melhorias no atendimento pré-natal e na redução de comportamentos de risco pelas gestantes. O trabalho foi feito em colaboração com o grupo liderado por Alexandra Brentani, da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FM-USP). PESQUISA FAPESP 263 | 13


Enzima transforma planta em abajur Um maço de agrião que emite luz por até quatro horas, de forma fraca, mas capaz de iluminar as páginas de um livro, foi concebido nos laboratórios do Departamento de Engenharia Química do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), nos Estados Unidos. Usando clones das enzimas luciferase e luciferina de vagalume, os pesquisadores do MIT e da Universidade da Califórnia conseguiram 1

A menina que veio da antiga Beríngia

Representação artística de população que viveu no Alasca cerca de 15 mil anos atrás

fazer pés de agrião, rúcula, couve e espinafre emitirem luz. Para transportar a luciferase ao interior das folhas, eles utilizaram nanopartículas de sílica. A luciferina foi

O sequenciamento do DNA extraído de ossos fossili-

envolta em um polímero

zados de uma recém-nascida de 6 semanas que viveu

biodegradável de

11.500 anos atrás em um assentamento na bacia do rio

dimensões nanométricas.

Tanama, no centro do Alasca, forneceu novas informa-

A incorporação das

ções sobre como pode ter sido o povoamento inicial das

enzimas nas folhas

Américas (Nature, 3 de janeiro). Segundo análises feitas

ocorreu em duas etapas.

por arqueólogos e geneticistas das universidades de

Na primeira, as plantas

Copenhague, na Dinamarca, e de Cambridge, no Reino

foram mergulhadas em

Unido, a bebê fez parte de uma população que deve

uma solução com as

ter compreendido alguns milhares de indivíduos e viveu estacionada por uns poucos milhares de anos na Beríngia. Esse é o nome dado à vasta porção de terra firme (hoje em grande parte submersa) que ligava a Sibéria, no leste da Ásia, ao Alasca, no norte das Américas, entre

nanopartículas em Luz emitida por mudas de agrião que incorporaram as enzimas luciferase e luciferina

suspensão. Depois, solução e plantas foram submetidas a alta pressão para as nanopartículas

aproximadamente 30 mil e 15 mil anos atrás, durante a última glaciação, quando o nível do mar estava mais baixo do que hoje. Os pesquisadores denominaram o povo da menina, cujos vestígios foram encontrados em 2013 ao lado de outro fóssil de bebê, de antigos beríngios. Eles e os ancestrais de todos os ameríndios atuais descenderiam de uma única população do leste da Sibéria que teria se separado geneticamente dos demais asiáticos há cerca de 36 mil anos. Os antigos beríngios divergiram geneticamente dessa população por volta de 20 mil anos atrás, mas não foi possível descobrir se a divisão ocorreu ainda na Ásia ou já nas Américas. Os ancestrais dos ameríndios atuais teriam se separado dessa mesma população um pouco mais tarde, aproximadamente 16 mil anos atrás. 14 | janeiro DE 2018

2


penetrarem nos poros

Atividade de buraco negro determina formação de estrelas em galáxias

(estômatos) das folhas. A luciferase se instala nas camadas mais superficiais das folhas e a luciferina é liberada gradualmente pelo polímero. A reação química entre elas gera

Dois estudos recentes indicam que o formato e a quantidade de

luz. O grupo, liderado por

estrelas das galáxias dependem das características do buraco negro

Michael Strano, do MIT,

supermassivo que existe em seu centro. Uma equipe de astrofísicos

pretende usar as plantas

dos Estados Unidos e do Canadá mostrou que os jatos de vento,

para iluminação.

produzidos pelo buraco negro associado a um quasar abrigado na galáxia 3C 298, distante 9,3 bilhões de anos-luz da Terra, diminuíram a formação de estrelas (The Astrophysical Journal, 20 de dezembro).

Pesquisa genômica aplicada ao clima

De acordo com cálculos dos pesquisadores, a galáxia tem 100 vezes menos estrelas do que os modelos preveem em razão do tamanho de seu buraco negro, cuja atividade leva ao aquecimento e à redução da densidade do gás em sua vizinhança, matéria-prima que, quando resfriada, entraria na formação de estrelas. Outro trabalho, coordenado

Em 13 de dezembro, o

por uma equipe da Universidade da Califórnia em Santa Cruz (UCSC),

Centro de Pesquisa em

dos Estados Unidos, analisou a correlação entre o tamanho do buraco

Genômica Aplicada às

negro e o número de estrelas de 74 galáxias com núcleo ativo e os

Mudanças Climáticas,

resultados foram semelhantes (Nature, 1º de janeiro). “Entre galáxias

sediado na Universidade

com a mesma massa de estrelas, aquelas com buracos negros maiores

Estadual de Campinas

pararam de produzir estrelas antes e mais rapidamente do que as que têm buracos negros menores”, comentou, em material de divulgação,

(Unicamp), foi fotos 1 Eric S. Carlson / Ben A. Potter 2 mit  3 ESO/WFI (Optical); MPIfR/ESO/APEX/A.Weiss et al. (Submillimetre); NASA/CXC/CfA/R.Kraft et al. (X-ray)

formalmente constituído.

Jatos emitidos nas proximidades do buraco negro central da galáxia Centaurus A

Ele é fruto da parceria entre a FAPESP, a Embrapa e a universidade.

o astrofísico Ignacio Martín-Navarro, principal autor do estudo, que faz estágio de pós-doutorado na UCSC. A massa dos buracos negros dessas galáxias é milhões de vezes maior do que a do Sol.

Sua missão é gerar ativos biotecnológicos que aumentem a resistência de plantas à seca e ao calor, além de transferir tecnologias ao setor produtivo. “O valor total do contrato do centro é de R$ 102,8 milhões, sendo R$ 25,2 milhões da FAPESP; R$ 32,9 milhões da Embrapa; e R$ 44,7 milhões da Unicamp, correspondentes a salários, infraestrutura de pesquisa etc.”, disse Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor científico da Fundação, à Agência FAPESP. A nova instituição é o sexto Centro de Pesquisa em Engenharia/ Centro de Pesquisa Aplicada apoiado pela FAPESP em parceria com empresas no âmbito do Programa Pesquisa em Parceria para Inovação Tecnológica (Pite).

3

PESQUISA FAPESP 263 | 15


1

Técnica reverte surdez genética em camundongos Camundongos “Beethoven”, portadores

A partir da esquerda, imagens de microscopia das células do ouvido de roedor com mutação causadora de surdez, de animal tratado e de camundongo saudável

Nobel sairá do Salk em meio a polêmica

o Instituto Salk tem sido uma honra em minha vida e essa decisão foi tomada depois de uma grande reflexão. Nesse

Dois anos depois de ter

estágio da minha carreira

assumido a presidência do

e vida, concluí que

sivamente leva à surdez, mantiveram

Instituto Salk de Estudos

minhas energias serão

a audição graças a um experimento de

Biológicos em San Diego,

mais bem empregadas

edição do DNA (Nature, 20 de dezembro).

na Califórnia, a bióloga

em temas mais amplos

O grupo liderado pelo químico David Liu,

molecular australiana

da política científica

da Universidade Harvard, nos Estados

Elizabeth Blackburn

e da ética”, disse

Unidos, injetou diretamente no ouvido

anunciou que planeja se

a pesquisadora, de

interno dos camundongos partículas de

aposentar e deixar seu

69 anos, em comunicado

gordura, ou lipídios, contendo a ferra-

cargo em meados de 2018.

divulgado pela instituição.

menta CRISPR-Cas9. Com um trecho de

Inesperado, o movimento

RNA servindo como guia para encontrar

da Prêmio Nobel de

a mutação causadora do defeito (uma

Medicina de 2009 ocorre

única letra do DNA), a enzima Cas9 de-

após o Salk ter sido alvo

sativou apenas a cópia defeituosa do

de três ações legais de

gene envolvido. Em quatro semanas, os

pesquisadoras veteranas

animais que tiveram os ouvidos tratados

do instituto. Elas

já se mostravam mais sensíveis ao som

reclamam da dificuldade

Uma nova versão da

do que os não submetidos à intervenção.

de ascensão na carreira

Tabela Brasileira de

Transpondo para o contexto humano,

científica na instituição,

Composição de

essa melhora equivale à diferença entre

que seria uma espécie de

Alimentos (TBCA) foi

ser ou não capaz de ouvir uma conversa

“clube do Bolinha”, e de

lançada pelo Centro de

em voz baixa. Passadas oito semanas do

que a gestão de Blackburn

Pesquisa em Alimentos

tratamento, os camundongos de material

pouco tem feito para

(FoRC), um dos Centros

genético editado se assustavam com um

combater essa situação.

de Pesquisa, Inovação

barulho súbito de 120 decibéis – corres-

“Ser nomeada para liderar

e Difusão (Cepid)

de uma alteração genética que progres-

Nova tabela brasileira de alimentos

pondente ao de uma serra elétrica ou de

apoiados pela FAPESP.

um show de rock. Enquanto isso, seus

A ferramenta on-line

companheiros não tratados permaneciam

disponibiliza dados da

impassíveis. O sucesso da terapia não se

composição química

deveu apenas ao desligamento do gene

e o valor energético

defeituoso. É importante o fato de os lipí-

de 1,9 mil alimentos

dios serem absorvidos apenas localmente

consumidos pela

pelas células que captam o som e não

população brasileira,

se deslocarem muito pelo organismo. O

incluindo os crus e os

preparado tem pouca durabilidade, o que

cozidos, adicionados

diminui o risco de a enzima Cas9 cortar as versões normais do gene. Os resultados foram promissores para a busca por tratamentos semelhantes para seres humanos. Liu é um dos fundadores de uma empresa que tenta desenvolver tratamentos com base em edição gênica. 16 | janeiro DE 2018

de sal, de óleo ou de Elizabeth Blackburn, atual presidente do Instituto Salk: planos de se dedicar à política científica em 2018

tempero, além de produtos manufaturados e pratos compostos. “A tabela fornece informações sobre 34 2

componentes, incluindo


3

vitaminas e minerais, de alimentos que são os mais importantes para a população brasileira”, fotos 1 gao, x. et al. nature. 2017 2 instituto salk  3 Carol M. Highsmith / wikimedia commons e flaticon

disse Elizabete Wenzel

Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos revê política de arquivamento de informação digital

A maior biblioteca do mundo começará a selecionar tuítes

de Menezes, professora da Faculdade de Ciências

A Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos, sediada na

Farmacêuticas da

capital, Washington, divulgou que, a partir de janeiro de

Universidade de São

2018, deixará de arquivar todas as mensagens publicadas na

Paulo e pesquisadora do

rede social Twitter, criada em 2006, e passará a fazer uma

FoRC, à Agência FAPESP.

seleção do conteúdo que será armazenado. Ela vai guardar

A ferramenta também

apenas uma fração dos tuítes, geralmente aqueles ligados a

apresenta a composição

temas nacionais ou a eventos, como eleições. O Twitter havia

nutricional de pratos

doado em 2010 todo o seu acervo digital para a biblioteca,

típicos do país de acordo

que, desde então, o mantinha atualizado. Recentemente,

com as diferentes formas

a rede social, que recebe cada vez mais imagens e vídeos,

de preparo regionais.

aumentou o tamanho máximo de suas mensagens de 140

Um dos exemplos é o

para 280 caracteres. A quantidade de dados a ser arqui-

cuscuz, que pode ser

vada cresceu tanto nos últimos anos – hoje são publicados

só de milho em algumas

cerca de meio bilhão de tuítes por dia – que se torna cada

regiões ou ter vários

vez mais difícil arrumar espaço e gerenciar os acervos. “A

outros ingredientes,

medida é um alerta para quem lida com big data”, disse, ao

como na versão paulista.

site da revista The Atlantic, Michael Zimmer, diretor do Cen-

Ainda é possível fazer

tro de Pesquisa em Política de Informação da Universidade

buscas por nutrientes

de Wisconsin-Milwaukee. O anúncio também preocupa os

específicos ou avaliar

historiadores do cotidiano, que devem perder parte de uma

a ingestão energética

fonte de informação importante sobre a vida e o pensamento

de uma refeição.

das pessoas comuns no início do século XXI. PESQUISA FAPESP 263 | 17


capa

O vírus da febre amarela causou uma mortalidade elevada de bugios como estes, do Horto Florestal, zona norte de São Paulo 18  |  janeiro DE 2018


eduardo cesar

Controlada nas cidades pela vacinação, doença está dizimando populações de primatas silvestres, cujas mortes indicam as áreas de transmissão do vírus   | 

N

as três últimas semanas de dezembro de 2017, o ecólogo Márcio Port Carvalho, pesquisador do Instituto Florestal de São Paulo, recolheu 65 bugios-ruivos (Alouatta guariba clamitans) mortos pelo vírus da febre amarela no Horto Florestal, parque estadual na zona norte da capital paulista, com outros biólogos e equipes da Guarda Civil Metropolitana e da Polícia Ambiental. “Praticamente todos os bugios do Horto morreram. Conhecíamos todos os 17 grupos”, conta ele. Para os seres humanos, o vírus da febre amarela pode ser fatal, mas pode ser detido pela vacinação. Para os macacos, para os quais não há vacinas, está sendo catastrófico. Os órgãos públicos de saúde registraram a morte de mais de 2 mil animais – principalmente bugios – durante o surto de 2008 e 2009 no Rio Grande do Sul, mas o efeito do vírus deve ter sido mais amplo. Biólogos e epidemiologistas estimam que o número de primatas silvestres mortos por causa da febre amarela registrados em áreas urbanas corresponda a apenas 10% do total exterminado pela doença. Os outros 90% morrem

Carlos Fioravanti

no interior das matas, deterioram-se e não são encontrados. Calcula-se que cerca de 1,3 mil macacos devam ter morrido no Espírito Santo e 5 mil no estado de São Paulo em 2017. As mortes dos macacos indicam as áreas de maior risco de transmissão do vírus da febre amarela e orientam as campanhas de vacinação (ver quadro na página 22). “Sem os macacos, estamos desprotegidos para perceber a chegada e os deslocamentos do vírus”, alerta o biólogo Júlio César Bicca Marques, professor da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS). “Antes de começar o monitoramento das mortes de macacos, o mapeamento da febre amarela dependia somente das pessoas que adoeciam e morriam”, diz o biólogo Renato Pereira de Souza, diretor técnico do núcleo de doenças de transmissão viral do Instituto Adolfo Lutz, de São Paulo. “Só apareciam os casos graves, porque as pessoas com os sintomas mais leves não iam até os hospitais para se tratar.” O Ministério da Saúde propôs em 1999 aos órgãos de saúde o acompanhamento das mortes de macacos como estratégia para identificar as novas áreas de transmissão do vírus e planejar as pESQUISA FAPESP 263  |  19


medidas de proteção dos moradores das cidades, principalmente das áreas próximas a matas. A febre amarela silvestre é causada por um vírus transmitido a macacos pelos mosquitos dos gêneros Haemagogus e Sabethes, após se alimentarem do sangue de macacos infectados. Os insetos repassam o vírus para novos macacos e eventualmente para seres humanos que entram na floresta. Os macacos não transmitem o vírus diretamente às pessoas. “Doenças como a febre amarela podem causar a extinção local de espécies de primatas e devem chamar nossa atenção porque esse tipo de ameaça se adiciona a outras, como a perda de hábitat e a caça”, diz a bióloga Laurence Culot, professora da Universidade Estadual Paulista (Unesp) em Rio Claro. “Os primatas são vítimas duas vezes: da doença, à qual algumas espécies são muito sensíveis, e da perseguição das pessoas, que acham erradamente que são os primatas que causam a doença e os matam, pensando que assim iriam resolver o problema.” Os primatas do gênero Alouatta (bugios e guaribas) são mais sensíveis ao vírus e morrem mais facilmente que os do gênero Sapajus (macacos-prego) – os dois grupos vivem na Amazônia e na Mata Atlântica. Os Callithrix (saguis e micos), exclusivos da Mata Atlântica, também se mostraram resistentes. Como o vírus circula em áreas de floresta, os animais continuam a morrer por causa da doença, embora uma parte próxima a 20% do total da população sobreviva por criar anticorpos contra o vírus. A área de recomendação permanente de vacinação para moradores e viajantes, antes limitada à Amazônia, cresceu e hoje abrange quase todo o país (ver Pesquisa FAPESP no 253). O surto anterior de febre amarela, iniciado em dezembro de 2007, terminou em abril de 2008 com 40 casos humanos confirmados e 21 mortes. Em São Paulo, 28 pessoas foram diagnosticadas, das quais 11 morreram por causa da doença. No atual, considerado o maior dos últimos 14 anos, 779 pessoas foram diagnosticadas e 262 morreram com febre amarela em todo o país de dezembro de 2016 a agosto de 2017, de acordo com um boletim de dezembro de 2017 da Organização Mundial da Saúde. O boletim de 26 de dezembro de 2017 da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo (SES-SP) relatava 53 pessoas infectadas pelo vírus no estado, das quais 16 tinham morrido, desde o início do ano passado. Houve mais quatro mortes na Grande Paulo até 9 de janeiro de 2018. À ESPERA DO VÍRUS

O vírus que causou o surto atual deve ter partido em 2014 da Amazônia e, por meio de corredores de florestas, atravessado a região Centro-Oeste, entrado em Minas Gerais e São Paulo e seguido em direção ao Espírito Santo, de acordo com um estudo recente da Superintendência de Controle 20  |  janeiro DE 2018

Veterinárias da prefeitura de São Paulo iniciam necropsia de um bugio para retirada de amostras de órgãos e identificação da causa da morte

de Endemias (Sucen) e do Instituto Adolfo Lutz. Em São Paulo o atual surto emergiu em abril de 2016 na região de São José do Rio Preto e avançou para a de Campinas, criando a expectativa de que logo chegaria à capital (ver mapa na página 22). A bióloga Juliana Summa, diretora da Divisão de Fauna Silvestre da prefeitura de São Paulo, observou que começaram a chegar de cinco a seis macacos mortos por dia, o triplo do habitual, ao Centro de Manejo e Conservação de Animais Silvestres (CeMaCAS), instalado no Parque Anhanguera, na zona norte da cidade, desde o primeiro domingo de dezembro, coincidindo com a intensificação das chuvas de verão e a consequente proliferação de mosquitos. “Agora a febre amarela está entrando com força na zona norte da cidade. Antes estava apenas avisando que ia chegar”, ela comentou no início da tarde de 11 de dezembro. Naquele dia já tinham chegado cinco bugios e um sagui mortos; no final de semana seguinte, mais 12. “Sabíamos que o vírus ia chegar à capital, mas não conseguimos prever tudo”, diz Juliana. “No início não sabíamos o que fazer com os filhotes que chegavam vivos, com as mães mortas, desenvolviam a doença em poucos dias e morriam.” Os raros animais que chegam vivos permanecem em quarentena e, se não morrerem em uma semana, são transferidos para os abrigos do CeMaCAS. Pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), da prefeitura e da Sucen tinham encontrado em 2015 os mosquitos Haemagogus leucocelaenus e Sabethes melanonymphe, as principais espécies transmissoras do vírus da febre amarela, no Parque Anhanguera e na Cantareira. “Os mosquitos se alimentam do sangue de macacos que vivem na copa das árvores, descendo à superfície


Pesquisadora do Adolfo Lutz prepara amostra de fígado de animal necropsiado para detecção do vírus da febre amarela; abaixo, amostras armazenadas a -70 ºC

apenas quando falta alimento ou o vento os empurra, picando ao acaso outros animais, incluindo as pessoas”, explica o biólogo Mauro Marrelli, professor da Faculdade de Saúde Pública da USP. A morte de saguis e macacos-prego no interior do estado e de bugios nos municípios próximos à capital intensificou o trabalho conjunto de especialistas de instituições de pesquisa e equipes das secretarias estaduais e municipais de saúde e do meio ambiente, a Polícia Florestal e a Guarda Civil Metropolitana. Em junho de 2017, a Coordenadoria de Vigilância Sanitária, por meio de um comunicado, definiu as atribuições e os procedimentos das equipes da Secretaria de Saúde do município. No final de julho, a médica Helena Keiko Sato, diretora de imunização da SES-SP, fez uma palestra para funcionários de órgãos públicos e de empresas que trabalham no Horto, contíguo a outra área de mata, a Cantareira, a maior floresta urbana do país, com 80 quilômetros (km) quadrados, que abarca os municípios de São Paulo, Mairiporã, Caieiras e Guarulhos (ver Pesquisa FAPESP nº 207). Ela falou do surto em São Paulo e da campanha de vacinação, realizada no final de agosto. Em seguida, Carvalho, do Instituto Florestal, informou sobre os procedimentos a serem tomados quando achassem macacos mortos no interior ou na vizinhança dos parques.

fotos  eduardo cesar

RESPOSTA RÁPIDA

Por ter participado da palestra, um funcionário responsável pela limpeza das matas, Manoel Ferreira Costa, soube o que fazer na manhã do dia 9 de outubro, ao encontrar um bugio morto em meio a uma plantação de eucalipto, a meia hora de caminhada da entrada do arboreto Vila Amália, uma mata do Horto anexa a um bairro com cerca de 3 mil moradores – em muitos trechos

Os 22 bugios mantidos no Parque Anhanguera podem ser estratégicos para repovoar as matas

não há muros e os quintais das casas se fundem com a mata. Avisados, Carvalho e um dos biólogos do parque, Paulo Roberto dos Santos, foram buscar o animal. Costa os acompanhou e viram que era um macho de menos de 1 ano de idade, sem sinais de que tivesse sido agredido por cães ou por outros macacos, eletrocutado nos fios dos postes ou atropelado, e que devia ter morrido pelo menos dois dias antes. Carvalho avisou Juliana, do CeMaCAS, que logo depois recebeu o animal e retirou amostras do fígado, enviadas no mesmo dia para análise no Instituto Adolfo Lutz. Souza, do Adolfo Lutz, recebe órgãos de bugios mortos no estado de São Paulo desde 2016, mas deu atenção especial àquele pedido de exame por ser o primeiro de uma cidade ainda sem sinais do vírus da febre amarela. Sua equipe extraiu o DNA, fez os exames e depois os refez para confirmar o resultado positivo para o vírus. Na manhã do dia 19 ele comunicou o resultado à biomédica Regiane Cardoso de Paula, diretora do Centro de Vigilância Epidemiológica da SES-SP. De imediato ela levou o resultado para o infectologista Marcos Boulos, coordenador da Coordenadoria de Controle de Doenças da SES-SP e professor da Faculdade de Medicina da USP. pESQUISA FAPESP 263  |  21


Rotas da febre amarela em São Paulo Vírus deve chegar neste ano à região de Sorocaba, ao litoral e ao Vale do Paraíba Vindo do Triângulo Mineiro, o vírus deslocou-se em média 0,9 quilômetro (km) por dia principalmente por meio de mosquitos, saguis e macacos-prego por matas próximas a rios

Vindo de Poços de Caldas, o vírus entrou na região de Campinas e começou a se deslocar até 2,7 km/dia, por meio principalmente de mosquitos e bugios, entre fragmentos de matas

Fonte Sucen /IAL /CVE-SES-SP

Rota efetiva até dezembro de 2017 Rota prevista em 2018 Área provável de expansão do vírus em 2018

começamos a vacinação em dezembro”, diz a biomédica Regiane Cardoso

Municípios com registros de morte de macacos

de Paula, diretora do Centro de Vigilância Epidemiológica da SES-SP. “Podemos agir por antecipação, sabendo onde e quando o vírus vai chegar.” O modelo epidemiológico previa a

Chegando antes do vírus Estratégia antecipa vacinação de moradores de áreas de risco

chegada do vírus à capital em outubro ou novembro. “Tivemos sorte de encontrar um bugio morto no meio de uma mata na cidade de São Paulo”, comentou Pinter. Segundo ele, os primeiros animais infectados pelo vírus morrem no interior das

Com base nas datas e localização das mortes

corredores ecológicos, vacinamos apenas

matas e passam despercebidos. O vírus só

dos macacos, o veterinário e epidemiologista

1,4 milhão, nas áreas de risco de Campinas e

é notado cerca de dois meses após sua

Adriano Pinter, pesquisador da Sucen,

dos municípios vizinhos.” Além de permitir

chegada, quando muitos animais começam

construiu um modelo epidemiológico que

a otimização do uso dos estoques de

a morrer nas bordas das matas e são vistos

descreve o sentido, a velocidade de

vacinas, esse método poderia reduzir as

pelos moradores dos bairros periféricos.

deslocamento e os prováveis caminhos – os

potenciais reações adversas severas à vacina

O fato de um animal ter sido encontrado em

corredores ecológicos funcionais – do vírus

em pessoas com doenças autoimunes ou

outubro no Horto Florestal antecipou as

causador da febre amarela. Seus mapas

alérgicas a ovo; o risco de reações adversas

medidas preventivas contra o vírus.

embasaram a decisão da Secretaria de

severas é de uma pessoa para cada grupo

Saúde de deixar de lado a estratégia

de 400 mil vacinadas, quatro vezes menor

esperam evitar outras mortes de pessoas

recomendada por organismos internacionais

que o índice aceitável para as vacinas.

com as campanhas de vacinação nas

Até janeiro de 2018, o vírus moveu-se no

prováveis áreas de expansão do vírus em

de 30 quilômetros (km) do ponto em que o

sentido norte-sul a velocidade de 2,7 km por

animal morto foi encontrado – e vacinar

dia nos meses mais quentes e de 0,5 km

estiverem corretas, o vírus deve chegar

somente os moradores das áreas de risco,

por dia nos mais frios. Com base nessas

em fevereiro à zona sul da capital, à

até mesmo antes de aparecerem os macacos

informações, os especialistas da Secretaria

região de Sorocaba e ao Vale do Paraíba.

mortos que indicam a chegada do vírus.

de Saúde definem as áreas de maior risco

A SES-SP comunicou em janeiro que deverá

e iniciam a vacinação, em colaboração com

fracionar a vacina, sem prejudicar seu

bastante adequada”, diz a médica Helena

os órgãos municipais de saúde, antes de

efeito protetor, para atingir o maior número

Keiko Sato, diretora técnica da divisão de

aparecerem os macacos mortos. “Em

possível de pessoas, como foi feito na

imunização da SES-SP. “Em abril de 2017,

Jundiaí, a vacinação começou no início

África. Quem mora ou circula em regiões

não tínhamos como vacinar 3,5 milhões de

de maio e o primeiro macaco morto foi

com matas deve tomar a vacina, que ativa

pessoas na região de Campinas, a maioria

encontrado em 30 de julho. Em Mogi das

a produção de anticorpos contra o vírus

delas fora das áreas de risco. Com base nos

Cruzes, ainda não temos sinal do vírus, mas

somente sete a 10 dias depois de aplicada.

“Essa estratégia tem se mostrado

22  |  janeiro DE 2018

2018 (ver mapa acima). Se as previsões

infográfico  ana paula campos  ilustraçãO  fabio otubo

– vacinar todos os moradores em um raio

As equipes dos órgãos de saúde


Mortes Notificadas de macacos Em São Paulo

Prioridades de Vacinação EM GUARULHOS As trajetórias efetivas e previstas do vírus definem as áreas prioritárias de vacinação

533 animais morreram no estado de julho de 2016 a dezembro de 2017

106 104

Trajetórias previstas do vírus Área prioritária de vacinação

80 63 54

Trajetórias efetivas

27 15 4

0

14 15 14

11 4 3

10

jul /2 ag 016 o/ 2 se 016 t/2 ou 016 t/2 no 016 v/2 de 016 z/2 jan 016 /2 fev 017 /2 ma 017 r/2 ab 017 r/2 ma 017 i/2 jun 017 /2 jul 017 /2 ag 017 o/ 2 se 017 t/2 ou 017 t/2 no 017 v/2 de 017 z/2 01 7

1

8

O dia de reuniões com as equipes de saúde e do meio ambiente terminou com duas decisões: começar imediatamente a vacinação dos moradores das áreas próximas à mata onde o bugio tinha sido encontrado e fechar o Horto e a Cantareira para evitar o contato das pessoas com os mosquitos transmissores do vírus. No dia 20 de outubro, logo após o fechamento dos parques, as equipes do Instituto Florestal, da SES-SP e da Polícia Ambiental voltaram ao arboreto e encontraram mais três carcaças de bugios; dois dias depois, mais duas, indicando que todo o bando tinha sido eliminado. Na última semana de dezembro, depois de 10 macacos terem sido encontrados mortos no município de Itapecerica da Serra, ao sul da Grande São Paulo, outros 10 parques foram fechados, totalizando 26. REPOVOAMENTO

As mortes de macacos devem continuar até maio, quando as chuvas acalmarem, dificultando a proliferação dos mosquitos transmissores do vírus. “A próxima batalha será o repovoamento das áreas antes ocupadas pelos bugios”, diz Juliana. Os 22 animais mantidos em compartimentos de 18 metros quadrados do CeMaCAS possivelmente serão estratégicos para repovoar as matas. Bácaro é o mais velho e o mais antigo da turma. Chegou adulto, em 2009, e formou uma família, composta por uma fêmea, um macho jovem e um filhote, que poderia ser solta nas áreas despovoadas. Os outros, como Abrolhos, de 6 anos, e Benjamin, de 5, chegaram filhotes e teriam de ser treinados para sobreviver na mata. O surto de febre amarela em 2008 e 2009 causou uma perda de 80% dos grupos de bugios-pretos e ruivos no Rio Grande do Sul, de acordo com um levantamento da PUC-RS e da Universi-

dade Federal de Santa Maria em 82 fragmentos florestais dos municípios de Bossoroca e Santa Maria. “Não encontramos indivíduos solitários, indicando que todo o grupo tinha morrido”, relatou Marques. Em 2009, para evitar a agressão das pessoas que pensavam que os macacos transmitiam a doença, Marques lançou uma campanha de proteção dos bugios, descrita em 2010 na Tropical Conservation Science. Se não houver outra epidemia como essa, a população de bugios do Rio Grande do Sul talvez chegue em 100 anos à metade do que era antes de 2008, estimou a equipe de Santa Maria. Trata-se de um problema mundial. De acordo com um estudo de 2017 na Science Advances, das 504 espécies de primatas do mundo – concentradas no Brasil, Congo, Madagascar e Indonésia –, 75% apresentam declínio populacional e 60% estão em risco de extinção, em consequência de desmatamento, caça e doenças. n

Projeto Biodiversidade de mosquitos (Diptera: Culicidae) no Parque Estadual da Cantareira e na área de proteção ambiental Capivari – Monos, estado de São Paulo (no 14/50444-5); Modalidade Auxílio à Pesquisa – Regular; Pesquisador responsável ​Mauro Toledo Marrelli (USP); Investimento R$ 272.905,54.

Artigos científicos BICCA-MARQUES, J. C.; FREITAS, D. S. The role of monkeys, mosquitoes, and humans in the occurrence of a yellow fever outbreak in a fragmented landscape in south Brazil: Protecting howler monkeys is a matter of public health. Tropical Conservation Science. v. 3 (1), p. 78-89. 2010. ESTRADA, A. et al. Impending extinction crisis of the world’s primates: Why primates matter Alejandro Estrada. Science Advances. v. 3 (1), e1600946. 2017. MUCCI, L. F. et al. Haemagogus leucocelaenus and other mosquitoes potentially associated with sylvatic yellow fever in Cantareira State Park in the São Paulo Metropolitan Area, Brazil. Journal of the American Mosquito Control Association. v. 32 (4), p. 329-32. 2016.

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24 | janeiro DE 2017


entrevista Olival Freire Junior

Contador de

histórias controversas Historiador que retratou a evolução da mecânica quântica dos anos 1950 aos 1990 fala da importância das disputas para o avanço do conhecimento científico

idade 63 anos

Ricardo Zorzetto  | 

retrato 

Léo Ramos Chaves

especialidade História da física formação Graduação em física em 1978 na Universidade Federal da Bahia (UFBA), mestrado em ensino de física (1991) e doutorado em história social (1995), ambos pela Universidade de São Paulo (USP) instituição Universidade Federal da Bahia (UFBA) produção científica Cerca de 70 artigos científicos, três livros, entre os quais The quantum dissidents. Orientou dissertações e teses

O

interesse de Olival Freire Junior pela ciência aflo­rou cedo. Durante o ensino médio cursado em Salvador, fascinou-se por matemática, física e química, a ponto de fazer experimentos fora da sala de aula. Com alguns colegas, iniciou a construção de um pequeno foguete, jamais concluída. “Levou tanto tempo para obter o combustível, o tal do algodão pólvora, que, quando ficou pronto, nos contentamos com o que conseguimos e fomos fazer outras coisas”, lembra o pesquisador, hoje um respeitado historiador da ciência do país. O gosto pelas ciências exatas levou Freire a iniciar a graduação em engenharia elétrica, a que tinha maior carga de matemática e física entre as engenharias, na Universidade Federal da Bahia (UFBA) em 1972. Dois anos mais tarde, trocou o curso de engenharia pelo de física, encantado pelas palestras do físico Benedito Pepe. A inquietação cultural que cultivava desde garoto em Jequié, sua cidade natal, e o cenário político carregado dos anos 1970 conduziram Freire ao movimento estudantil e à militância clandestina no Partido Comunista do Brasil (PCdoB), ao qual permanece filiado, embora sem desempenhar muita atividade partidária. PESQUISA FAPESP 263 | 25


Em 1984 foi preso por participar de uma manifestação contra a derrota da emenda constitucional que propunha a volta das eleições diretas para presidente no país. Ao dar-se conta da falta de entusiasmo pela política partidária e pela ocupação de cargos, começou uma lenta guinada em sua vida. Candidatou-se ao mestrado no Instituto de Física da Universidade de São Paulo (USP) e, sob orientação de Amélia Hamburger, dedicou-se a investigar um tema que o inquietava desde a graduação: a existência de interpretações controversas sobre a mecânica quântica, a teoria que descreve o comportamento das partículas atômicas. No doutorado, sob a orientação do físico e historiador da ciência brasileiro Shozo Motoyama e do físico e filósofo francês Michel Paty, Freire aprofundou-se na análise do tema ao esmiuçar as contribuições do físico norte-americano David Bohm, que viveu por um curto período no Brasil, para as interpretações da mecânica quântica. As disputas e controvérsias que alimentaram a área entre 1950 e 1990 estão detalhadas na sua mais importante obra, o livro The quantum dissidents (Os dissidentes quânticos), publicado em 2015 pela editora Springer. Hoje, Freire novamente se vê às voltas com as controvérsias sobre os fundamentos da mecânica quântica: ele prepara uma biografia de David Bohm. No final de dezembro, antes de ir para os Estados Unidos para assumir por três anos um dos cargos de conselheiro – o primeiro sul-americano – da mais antiga sociedade de história da ciência, a History of Science Society (HSS), Freire recebeu a reportagem de Pesquisa FAPESP em seu gabinete na Pró-reitoria de Pesquisa, Criação e Inovação da UFBA. Falou sobre Bohm, os dissidentes quânticos e a importância das divergências para o avanço do conhecimento científico e a compreensão de como funciona a ciência. A seguir, leia os principais trechos. Como está o ensino de história da ciência na graduação no Brasil? Diria que é muito menor do que deveria ser. Enfrentamos certa dificuldade com os cientistas sobre a necessidade de ensinar história da ciência, mas não se pode pensar em alguém que tenha uma boa formação cultural se não conhece um pouco da literatura, música e ciência. O 26 | janeiro DE 2018

O papel da história da ciência é mostrar que a ciência é construída com avanços, recuos e conflitos

ças climáticas. É a melhor conclusão a que chegou a melhor ciência que esta civilização produziu. Ela nos diz, com toda margem de incerteza que existe ao lidar com sistemas complexos, que o fator antropogênico é o que mais afeta as alterações no clima em escala global. Outro exemplo de descrédito é a difusão de um movimento de resistência às vacinas, que levou ao ressurgimento em algumas áreas de doenças que haviam sido erradicadas.

papel da história da ciência é mostrar que a ciência é produto da sociedade, que é construída com avanços e recuos, sujeita a controvérsias e conflitos, apesar de, em algum momento, os produtos da ciência se tornarem cristalizados. A história da ciência pode ajudar a humanizar a ciência, algo importante diante de tendências atuais de desacreditar o papel da ciência.

Onde a história da ciência é mais forte? No início do século XX, foi forte na Europa. A partir da Segunda Guerra Mundial, do mesmo modo que ocorreu com outras disciplinas, os Estados Unidos passaram a exercer uma hegemonia em história da ciência. Um ex-reitor da Universidade Harvard, o químico James Conant [1893-1978], exerceu um papel importante no desenvolvimento da história da ciência nos Estados Unidos. Ele trabalhou no projeto Manhattan [que desenvolveu a bomba atômica] e foi o primeiro embaixador norte-americano na Alemanha Ocidental após a Segunda Guerra. Foi um dos reitores mais inovadores de Harvard. Atraiu o físico Thomas Kuhn [1922-1996] para ministrar disciplinas para um público mais generalista. Foi a partir dos cursos que Kuhn começou a refletir sobre a natureza da ciência e escreveu A revolução copernicana e A estrutura das revoluções científicas. Conant via a história da ciência como uma componente da educação geral de todo estudante universitário norte-americano.

Poderia explicar melhor? Veja o que ocorreu com os Estados Unidos recentemente. O governo de Donald Trump considerou que não passava de mero debate aquilo que, para os cientistas, eram as evidências mais sólidas de que a ação humana é a principal causa das mudanças climáticas globais recentes. Essa postura levou o país a abandonar os acordos internacionais na área de clima. Isso expressa ignorância de como a ciência funciona. Se Trump adoecer, o médico não lhe dará um diagnóstico como alguém que demonstra um teorema matemático. Há elementos de incerteza no diagnóstico, mas ninguém pensaria em dispensar os médicos para cuidar da própria saúde. O mesmo ocorre com o conhecimento sobre as mudan-

São poucos os grupos de história da ciência no Brasil. Exato. Quando a USP foi fundada, em 1934, seus criadores viam um papel importante para a história da ciência. Estava prevista uma disciplina de história e evolução da física no curso de física, de acordo com o modelo europeu, no qual era importante conhecer a história da disciplina e ter uma formação em filosofia da ciência. Na década de 1950, o sociólogo e educador Fernando de Azevedo [1894-1974] organizou os dois volumes de As ciências no Brasil, publicados em 1956, que chamaram a atenção para a história da ciência. Outro movimento importante ocorreu na USP mais adiante com o advogado e historiador Eurípedes Simões de Paula [1910-1977]. Na reforma


arquivo Pessoal

Com o físico e filósofo francês Michel Paty, em Salvador, 2005

universitária, no fim dos anos 1960, ele bancou a decisão de que a USP deveria ter uma cadeira em história da ciência, ocupada por Shozo Motoyama e depois por Maria Amelia Mascarenhas Dantes. Eles haviam sido alunos do físico e crítico de arte Mario Schenberg [1914-1990] no Instituto de Física da USP. Em 1983, foi criada a Sociedade Brasileira de História da Ciência. Ainda nos anos 1980, outros grupos se formaram no Rio de Janeiro e em São Paulo. O químico Simão Mathias [1908-1991] apoiou a criação de um grupo, hoje localizado na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo [PUC-SP] e coordenado pela física e historiadora Ana Maria Goldfarb. No Rio, o personagem-chave foi Carlos Chagas Filho. Não por acaso, na redemocratização do Brasil, em 1985, um documento assinado por Chagas, Simão Mathias e Schenberg serviu de apoio para o então recém-criado Ministério da Ciência e Tecnologia [atual Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, MCTIC] fundar uma instituição dedicada à história da ciência, o Museu de Astronomia e Ciências Afins, o Mast. Como essa área evoluiu? Andamos rapidamente. Nos últimos 10 anos, entramos em uma fase de maturidade. Conseguimos trazer para o Rio, em julho de 2017, o Congresso Internacional de História da Ciência, o maior evento da área, realizado pela primeira vez abaixo do Equador. O futuro presidente da União Internacional de História e Filosofia da Ciência e da Técnica será um pesquisador do Rio, Marcos Cueto, da Casa de Oswaldo Cruz, da Fundação Oswaldo

Cruz [COC-Fiocruz]. Temos cursos de pós-graduação em história da ciência na USP, na PUC e na Unicamp, em São Paulo, e na COC-Fiocruz, no Mast e na Universidade Federal do Rio de Janeiro, no Rio. Há um curso na Universidade Federal de Minas Gerais, o nosso na UFBA e outro na Universidade Federal de Santa Catarina. A história em geral parece criar personagens sobre-humanos. Com a ciência também é assim? Isso é mais difundido do que se imagina. Um exemplo: a física tem em Galileu [1564-1642] um mito. Todo jovem físico pensa que Galileu estava certo em tudo e que Aristóteles, seu antípoda, estava sempre errado. Me divirto ao desafiar as preconcepções dos alunos porque acho que aprendem com isso. No curso de introdução à revolução copernicana, uma parte essencial é mostrar que a física e a cosmologia aristotélicas faziam sentido naquele período, tinham coerência interna. Galileu teve um papel crucial no desenvolvimento da ciência, mas também apresentou argumentos que não resistiram ao crivo do tempo. Newton é um exemplo de um personagem complexo. Gênio na física e na matemática, mas com traços de personalidade e de caráter que não seriam os mais elogiáveis. Ao conhecer isso, aprendemos que a melhor ciência, feita pelas melhores mentes, carrega traços comuns à humanidade. Quais outros preconceitos a ciência reforça? Os meios científicos reforçam a ideia de que a ciência é feita por pessoas ge-

niais, brancas e do sexo masculino. A ciência reflete a carga de preconceitos da sociedade. No caso das mulheres, há um esforço para aumentar a presença delas na atividade científica. Mas elas só virão caso se considerem acolhidas. O acolhimento vai desde valorizar os casos mais notáveis, como o de Marie Curie [1867-1934], até os que precisam ganhar visibilidade, como o das mulheres negras que faziam cálculos na Nasa e foram objeto de um filme recente, Estrelas além do tempo. Há um certo apagamento das contribuições vindas de descendentes de africanos, seja por descendentes que estão nos Estados Unidos ou no Brasil. Poucos brasileiros sabem que um de nossos maiores psiquiatras, Juliano Moreira [1873-1932], que introduziu o pensamento de Freud no país, era negro, descendente de escravos [ver texto na página 90]. Quando criamos o Programa de Pós-graduação de Ensino, Filosofia e História da Ciência na UFBA, o matemático Ubiratan D’Ambrósio disse que a iniciativa era importante para ajudar a mostrar a São Paulo que a avenida Rebouças e a rua Teodoro Sampaio levam o nome de dois engenheiros baianos e negros. Quando ele falou isso, eu devia estar com uns 45 anos e nunca havia me dado conta do fato. Há um processo de tornar invisível a contribuição africana. Que temas de estudo o fascinam hoje? Tenho uma paixão longa pela história da mecânica quântica e dos debates sobre seus fundamentos. Desde a graduação, me inquietava perceber que existiam controvérsias sobre a interpretação da mecânica quântica, que Einstein [18791955] não havia gostado dessa teoria e que alguns cientistas soviéticos a criticavam. Eu compreendia que houvesse controvérsias entre o pensamento de Aristóteles [384 a.C.-322 a.C.] e Galileu, mas era coisa do passado. O fato de algo atual como a mecânica quântica conviver com controvérsias me incomodava, mas não fascinava a ponto de eu querer estudá-las. Após minha graduação, Cesar Lattes [1924-2005] fez uma palestra em 1981 na Bahia na qual dizia ter resultados mostrando a violação da relatividade especial, de Einstein. Lattes era um personagem mítico para os estudantes de física no Brasil e logo depois, outro grande físico brasileiro, Jayme Tiomno PESQUISA FAPESP 263 | 27


Em uma assembleia no início dos anos 1980, Freire era o representante dos professores universitários da Bahia

[1920-2011], mostrou que Lattes havia errado nos cálculos. Quando decidi fazer mestrado, quis estudar as controvérsias da ciência, em especial as que assolavam os fundamentos da mecânica quântica. Comecei o mestrado em 1988 na USP com Amélia Hamburger [19322011]. No doutorado, estudei as ideias de David Bohm [1917-1992], físico norte-americano que trabalhou no Brasil. Ao terminar, achei que não mexeria mais com o assunto. Bohm chegou a ser convidado por Robert Oppenheimer [1904-1967] para participar do projeto Manhattan, não? David Bohm era considerado um dos jovens físicos mais promissores dos Estados Unidos. Comunista, saiu de lá perseguido pela histeria macarthista. Não foi chamado para o projeto Manhattan por causa das restrições políticas, mas seu trabalho foi usado na produção da bomba. Quando, durante uma das minhas primeiras viagens aos Estados Unidos, o historiador norte-americano Paul Forman me perguntou se Bohm havia sido trotskista, dei um pulo e disse que não. Ele era um comunista ortodoxo. O que levou Forman a suspeitar de um possível trotskismo foi o fato de que, na física, Bohm desafiou a ortodoxia. Para mim estava claro que Bohm era um heterodoxo na teoria quântica e um ortodoxo na política. Saí da conversa com a convicção de que tinha de escrever essas coisas em inglês e, por volta de 2002, co­ mecei a publicar uma série de artigos a respeito da controvérsia sobre os fundamentos da teoria quântica. Eles foram reunidos e mais bem trabalhados no li28 | janeiro DE 2018

vro The quantum dissidents, publicado só em inglês [ver Pesquisa FAPESP nº 233]. Bohm teve uma passagem pela USP durante a qual, já se disse, ele não teria produzido muito, não? Ele ficou no Brasil de 1951 a 1955. Amélia e o marido, Ernst Hamburger, tinham muitas conexões nos Estados Unidos e, a certa altura, ela recebeu uma monografia de mestrado feita por um jovem historiador chamado Shawn Mullet. O que Mullet escreveu deixou Amélia furiosa. Dizia que Bohm não tinha desenvolvido muita atividade científica em sua passagem pelo Brasil “porque não se podia fazer ciência no vácuo”. Era preconceituoso a não poder mais. Respondemos a essa provocação em um artigo publicado em 2005 na revista Historical Studies in the Physical Sciences. Mostramos que uma parte importante da controvérsia sobre os fundamentos se desenvolveu enquanto ele estava no Brasil. As controvérsias existiam desde a origem da mecânica quântica? Entre 1925 e 1927 havia pessoas que tendiam a apresentar uma interpretação causal, como o físico francês Louis De Broglie [1892-1987] e o próprio Einstein. Em 1927, esse pessoal jogou a toalha. De Broglie voltou para a França e se converteu mais ou menos à chamada interpretação da complementaridade, proposta por Niels Bohr [1885-1962]. Einstein ainda resistiu, mas boa parte dos cientistas achava que ele havia assumido essa posição por estar velho. David Bohm, sem conhecer o trabalho de De Broglie, pegou as mesmas pistas do físico fran-

O que aconteceu em seguida? O Brasil não era o melhor lugar para essa batalha, mas não tem fundamento dizer que era um lugar adverso ao desenvolvimento de ideias. Aqui, Bohm pôde debater com vários físicos. Em São Paulo, vieram trabalhar com ele o físico argentino Mario Bunge e o francês Jean-Pierre Vigier [1920-2004]. O físico belga Léon Rosenfeld [1904-1974], que havia sido braço direito de Bohr e na época estava na Inglaterra, passou por São Paulo para debater com Bohm, que havia trazido como seu assistente o físico norte-americano Ralph Schiller [1926-2016]. Boa parte desse pessoal foi paga pela USP ou pelo CNPq. Bohm escreveu artigos com Tiomno no qual desenvolveu mais a interpretação causal. Aqui, ele enfrentou também Mario Schenberg, que não gostava da interpretação causal. A ideia de que o país era um vácuo não fazia sentido. Depois de meus trabalhos e da crítica da Amélia, Mullet mudou de opinião. Como se resolvem as controvérsias? O assunto era considerado um problema mais da filosofia do que da física. Depois de Bohm, uma nova geração de físicos se interessa pelo assunto e passa a questio-

arquivo Pessoal

cês, resolveu o que De Broglie não havia conseguido solucionar e apresentou o resultado em um par de artigos publicados na Physical Review em 1952 [Bohm recupera a ideia de que a teoria quântica seria estritamente causal, ou seja, que uma causa determina um efeito, como na mecânica clássica, diferentemente de Bohr, que via a mecânica quântica como um teoria probabilística, em que uma ação tem determinada probabilidade de gerar certo efeito]. Foi uma bomba. À época, havia uma prova matemática, a prova de Von Neumann, de que esse tipo de interpretação alternativa não era possível. Bohm apresentou uma interpretação alternativa que desafiava uma prova matemática e era consistente. O físico Wolfgang Pauli [1900-1958], um dos grandes críticos dessa interpretação, em determinado ponto reconheceu: “Ela é consistente, mas é um cheque que ainda precisa ser descontado”. Podia-se especular sobre o futuro dessa interpretação, mas não se podia dizer que estava errada. Quando Bohm chegou ao Brasil em 1951, ele havia acabado de escrever os artigos, que foram publicados no ano seguinte.


nar as ideias dos fundadores da mecânica quântica. Nos anos 1980, houve uma melhoria das técnicas experimentais que permitiram a realização de testes mais sofisticados para avaliar essas ideias. O que os experimentos mostram? Toda a estranheza prevista pela teoria quântica vem sendo confirmada. O físico irlandês John Bell [1928-1990] dizia que havia algo de podre na mecânica quântica. É um sutil jogo de palavras, que faz referência à interpretação de Bohr, dinamarquês, e ao que dizia Shakespeare em Hamlet. As expectativas de Bell ainda não se confirmaram e a mecânica quântica tem atravessado esses experimentos mais saudável do que nunca. Recebi uma proposta da editora Springer e estou escrevendo uma biografia sobre Bohm. O que pretende contar? Logo que ele morreu, em 1992, saiu a biografia Potencial infinito, escrita por um físico e jornalista amigo dele, F. David Peat, que causou certo desconforto entre os físicos, porque é superficial nas questões científicas. Em 1998, em um simpósio na USP, Basil Hiley, ex-assistente de Bohm, sugeriu que eu escrevesse uma biografia sobre ele, mas na época eu estava interessado nas ideias que geraram The quantum dissidents. Bohm, um desses dissidentes, se tornou conhecido pela interpretação alternativa à de Bohr e ganhou notoriedade ao estabelecer diálogo com pensadores orientais, em especial Jiddu Krishnamurti [18951986], mas foi muito maior do que isso. Produziu um núcleo de contribuições que o tornam um dos grandes físicos do século XX. Parte dessa contribuição é o que se chama de sistema de coordenadas coletivas, que tem origem em seu trabalho na Segunda Guerra. Depois, ele e dois alunos, Eugene Gross [1926-1991] e David Pines, publicaram três artigos no final dos anos 1940 que são altamente citados por outros trabalhos. Eles desenvolveram um modelo que foi incorporado nos trabalhos de física nuclear que deram o prêmio Nobel de Física de 1975 a Aage Bohr, filho de Niels Bohr, Ben Mottelson e Leo Rainwater. Tem ainda o trabalho de Bohm com Yakir Aharonov, em que descrevem o efeito Aharonov-Bohm. Quero trazer outro tema que foi apenas arranhado na biografia de Peat: Bohm

Os meios científicos reforçam a ideia de que a ciência é feita por homens geniais e brancos

viveu quase 30 anos com cidadania e passaporte brasileiros. Quando ele chegou ao Brasil, o consulado norte-americano confiscou o passaporte e disse que só seria devolvido para ele retornar aos Estados Unidos. Bohm tinha medo de voltar e ser preso. Era o ápice da Guerra Fria. Se havia um lugar para o qual Bohm não queria ir eram os Estados Unidos, mas ele desejava viajar pelo mundo e debater sua interpretação da mecânica quântica.

Como foi resolvida a questão? Com o jeitinho brasileiro. Bohm tinha amigos brasileiros articulados com o mundo político. José Leite Lopes [19182006], Schenberg, João Alberto Lins de Barros [1897-1955], braço direito de Getúlio Vargas, e o almirante Álvaro Alberto [1889-1976]. Eles conseguiram a cidadania brasileira para Bohm em tempo recorde, em dois ou três meses. O que não é explorado no livro de Peat é que o consulado norte-americano tentou o tempo todo obter da polícia de São Paulo informações sobre a cidadania de Bohm e a polícia não respondia. Até que chegou um momento em que a polícia teve de confirmar a informação. Os Estados

Unidos, então, cassaram a sua cidadania norte-americana e Bohm passou a viver como brasileiro. Ele rompeu com o partido comunista diante da invasão da Hungria em 1956 e das denúncias dos crimes de Stálin [1878-1956]. Na Inglaterra, começou a fazer planos de voltar aos Estados Unidos, diante do recuo do macarthismo. Para obter o visto, o consulado norte-americano entregou uma declaração afirmando que não era mais comunista e ele assinou. Em seguida, disseram que era necessária uma declaração pública e Bohm se recusou a fazê-la por não considerar ético. Ele só conseguiu vistos de curta duração para visitar os Estados Unidos, recuperou a cidadania norte-americana, mas tomou a decisão de que não retornaria mais para lá. Durante 30 anos, nos formulários para pedido de bolsas, ele riscava a cidadania norte-americana e escrevia Brazilian. O senhor tem uma passagem pela política. O que o encantou primeiro, a ciência ou a política? A ciência veio antes. Já era encantado pela matemática, física e química e isso motivou minha escolha por engenharia elétrica. Só me envolvi com política depois de entrar na universidade, em 1972, por inquietação cultural e por causa das lutas estudantis. Entrei para o PCdoB em 1973 e durante a universidade mantive uma militância ativa. O auge do meu envolvimento político foi uma participação na prefeitura de Camaçari, cidade operária onde havia penetração do PCdoB. Com o fim da ditadura e eleições diretas, Luiz Caetano foi eleito prefeito e me tornei chefe de gabinete, mas saí antes do fim do mandato. Por volta de 1986, me dei conta de que não tinha entusiasmo para a política partidária e resolvi fazer mestrado. No início, dividia meu tempo entre atividade acadêmica e política. Fui presidente do PCdoB em São Paulo e participei de campanhas políticas. Lentamente fui percebendo que meu interesse pela ciência era maior. Em 2004, fui convidado para trabalhar no então Ministério da Ciência e Tecnologia, mas estava para receber uma bolsa de estudos nos Estados Unidos e recusei. Em 2010, fui para a secretaria do Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia, o Conselhão. Passei dois anos lá e decidi sair. Desde então meu interesse é basicamente pela história da ciência. n PESQUISA FAPESP 263 | 29


política c&T  Formação y

portas de entrada para a universidade Fabrício Marques e Christina Queiroz

30  z  janeiro DE 2018


Avanço de ações afirmativas cria diversidade nas formas de ingressar no ensino superior

ilustraçãO estúdio rebimboca

A

difusão de ações afirmativas na seleção dos estudantes das universidades brasileiras começa a produzir efeitos que não se limitam à meta de ampliar o acesso de alunos vindos de escolas públicas ou à garantia de representatividade de negros, pardos e indígenas nos cursos de graduação. No caso das universidades estaduais paulistas, o ingresso no ensino superior, que antigamente dependia só do vestibular, passou a ser mediado por um cardápio de alternativas que procuram garantir a qualidade dos candidatos e incluem a aplicação de bônus em resultados do vestibular, a utilização das notas do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e eventualmente até atalhos em que a entrada não depende de uma prova. O novo modelo de ingresso anunciado em novembro pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) é o exemplo mais radical dessa tendência. A partir de 2019, passa a vigorar um sistema de cotas étnico-raciais que irá reservar 25% das vagas disponíveis na instituição para candidatos que se autodeclararem pretos ou pardos. Seu mecanismo é bem mais complexo do que o sistema de cotas que vigora nas 63 universidades federais, criado por uma lei de 2012. As vagas da Unicamp serão oferecidas em dois sistemas paralelos, sendo 80% pelo vestibular (com um quarto delas reservado

para autodeclarados pretos e pardos) e as demais pelas notas de candidatos no Enem (15% do total de vagas para egressos de escolas públicas e 5% para pretos e pardos). Além disso, manteve-se uma outra política afirmativa criada há mais de uma década que concede bônus na pontuação nas duas fases do vestibular para candidatos oriundos de escolas públicas. “Com essas medidas, busca-se garantir que ao menos a metade dos calouros venha do sistema público e a parcela de pretos e pardos entre os alunos suba dos atuais 20% para 37%, que é a proporção desses grupos na população paulista”, diz José Alves de Freitas Neto, coordenador do vestibular da Unicamp. Outras inovações foram aprovadas pelo Conselho Universitário e serão implementadas em 2019, como a criação de um exame específico para o ingresso de indígenas e a possibilidade, inédita no país, de acesso sem vestibular para medalhistas de olimpíadas científicas – em ambos os casos, o número de vagas abertas será definido por cada unidade da universidade. “Criamos possibilidades que ampliam as chances de acesso e mostram a força da universidade pública em propor ideias novas para a entrada dos estudantes”, diz o físico Marcelo Knobel, reitor da Unicamp. “Não estamos lidando só com políticas de inclusão, mas com aperfeiçoamento do ingresso, buscando os melhores alunos”, diz.

pESQUISA FAPESP 263  z  31


E

m julho, a USP decidiu mudar novamente as regras e instituir um sistema que vai destinar a metade das vagas oferecidas para alunos de escolas públicas, com uma sub-reserva para autodeclarados negros, pardos e indígenas. A iniciativa será implantada de forma escalonada: no ingresso de 2018, 37% das vagas de cada curso e turno caberão a alunos de escolas públicas. Em 2019, a proporção será de 40% e em 2025 de 45%, chegando a 50% em 2021. “É a primeira vez que a USP adota uma política institucional de cotas sociais e raciais”, afirma o pró-reitor de Graduação Antônio Carlos Hernandes. Isso não é novidade para a Unesp. Em 2013, a universidade criou de forma pioneira entre as estaduais paulistas um sistema de cotas semelhante 32  z  janeiro DE 2018

ao das federais. Progressivamente, aumentou a reserva de vagas até chegar, no vestibular de 2018, a 50% para alunos de escolas públicas, sendo parte delas destinada a pretos e pardos, de modo que esse grupo atingisse 35% dos aprovados. “A Unesp sempre conseguiu atrair um contingente robusto de alunos de escolas públicas, mas para cumprir a meta de 50% foi necessário recorrer às cotas”, diz Gladis Massini-Cagliari, pró-reitora de Graduação da universidade. A meta a que Gladis se refere, de reservar 50% para alunos de escolas públicas e 35% para pretos, pardos e indígenas, foi definida pelo Programa de Inclusão por Mérito no Ensino Superior Público de São Paulo (Pimesp), lançado no final de 2012 pelo governo paulista, e adotada, com formatos específicos, pelas três universidades estaduais. “O Pimesp incorporou uma demanda da sociedade por ampliar a presença de alunos de escolas públicas que representem a diversidade da população. Com isso, as universidades estaduais tiveram de mudar seus sistemas de ingresso”, explica Fernanda Estevan, professora da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA), da USP, uma estudiosa das ações afirmativas. Em sua tese de livre-docência, defendida em 2017, Fernanda analisou os efeitos do sistema de bônus no vestibular criado pela Unicamp em

Estudantes da Universidade Federal do ABC (acima) e turma de calouros de medicina da Unicamp em 2016 (ao lado), que, graças a bônus na pontuação do vestibular, teve quase 70% de alunos vindos da rede pública

fotos  léo ramos chaves

A Unicamp também avalia a possibilidade de expandir um programa de ação afirmativa criado na universidade em 2012, o ProFIS (sigla para Programa de Formação Interdisciplinar Superior). A iniciativa seleciona os melhores alunos do 3º ano de ensino médio público de Campinas, com base nas notas do Enem, e lhes oferece um curso de dois anos com conteúdo multidisciplinar. Ao final do curso, os alunos com boas notas têm a chance de ingressar na graduação da Unicamp sem vestibular. Há estudos para ampliar o número de cidades beneficiadas pelo programa e atingir um público maior do que o atual. As universidades de São Paulo (USP) e Estadual Paulista (Unesp) também modificaram a sua forma de ingresso em anos recentes. A USP, que há mais de uma década concedia bônus na pontuação do vestibular para alunos de escolas públicas e pretos, pardos e indígenas, passou a oferecer em 2015 parte de suas vagas pelo Sistema de Seleção Unificada (Sisu), que seleciona os calouros de universidades federais a partir de suas notas no Enem. Das 11.147 vagas oferecidas pela USP em 2018, 2.745 serão disputadas via Sisu, mas em três listas separadas, sendo 423 por ampla concorrência, 1.312 para estudantes que fizeram o ensino médio em escolas públicas e 1.010 para alunos de escolas públicas autodeclarados pretos, pardos e indígenas. Com o esquema, a USP aumentou a proporção de egressos do ensino público de 32,3% em 2014 para 36,9% em 2017. Um estudo feito pela Pró-Reitoria de Graduação da USP em 2016 comparou o desempenho dos alunos que ingressaram pelo vestibular e pelo Sisu em 22 cursos. Ao final do segundo semestre letivo, os estudantes que entraram por meio do vestibular tiveram médias maiores que as do Sisu em cursos como medicina, direito e ciências sociais; os do Sisu levaram vantagem em carreiras como engenharia de materiais, economia, física, química, entre outros. De todo modo, a diferença entre as médias dos dois grupos foi pequena.


Meta de 50% para alunos oriundos de escolas públicas levou as estaduais paulistas a mudar regras de entrada

2005, um esforço à época inovador para ampliar a inclusão social e racial na universidade sem recorrer a cotas. “O programa era interessante e teve resultados positivos”, concluiu. O sistema partia de um pressuposto, segundo Fernanda, pouco explorado no debate público. “Ele foi construído a partir de evidências estatísticas segundo as quais candidatos de escolas públicas cujas notas no vestibular não tinham diferença muito grande em relação às dos candidatos de escola privada podiam ter um desempenho muito satisfatório na universidade, às vezes até superior ao dos que vieram de colégios particulares. Conceder um bônus de 40 pontos ajudaria a trazer talentos da escola pública para a universidade.”

A

pesquisadora constatou que o sistema ampliou em 30% a probabilidade de um aluno de escola pública entrar na Unicamp, além de aumentar a proporção de estudantes de baixa renda. Não foram observados nas políticas de bônus efeitos colaterais, como um eventual desestímulo a que os beneficiados se esforçassem para passar no vestibular. Segundo ela, há indícios de que o bônus teve influência positiva na escolha de carreiras, estimulando egressos de escolas públicas a se aventurarem nos cursos mais concorridos.

Para Fernanda, o programa teve efeitos limitados – o número de candidatos ao vestibular que vinham de escolas públicas atingiu um teto em torno de 35% do total – por razões estranhas à sua concepção. “No vestibular de 2005, quando foi implantado, houve aumento do número de candidatos de escolas públicas, mas isso estancou no ano seguinte. Alguns fatores podem ajudar a entender o fenômeno, como a ampliação das vagas nas universidades federais e a oferta de bolsas no sistema privado do programa Universidade Para Todos, o Prouni, mas seria preciso estudar essas hipóteses com mais profundidade”, explica. Renato Pedrosa, professor do Instituto de Geociências da Unicamp que coordenou o vestibular da universidade de 2003 a 2011, aponta que há uma década a porcentagem de pessoas que se formam no ensino médio estancou na casa dos 66% em São Paulo – no Brasil, a média é de 55%. “Contávamos que o contingente fosse aumentar, elevando o número de candidatos de escolas públicas nos vestibulares e o de aprovados. Mas isso não aconteceu.” Há dois anos, a Unicamp fez um primeiro movimento para aumentar a inclusão, sem ainda, contudo, recorrer à reserva de vagas. O bônus na nota do vestibular subiu para até 120 pontos e, com isso, a proporção de calouros vindos de escolas públicas bateu em média 50% do total da universidade, tanto em 2016 quanto em 2017, conforme previsto no Pimesp. Mas a estratégia teve efeitos inesperados: em cursos muito concorridos, como medicina e arquitetura, em que a diferença entre as notas de muitos candidatos é pequena, o bônus tornou-se uma vantagem muito forte para os alunos de escolas públicas, muito superior àquela que se espera que um programa de ação afirmativa lhes proporcione. Já em cursos de pouca demanda, o sistema colocou pESQUISA FAPESP 263  z  33


na universidade alunos com desempenho muito baixo no vestibular, que tiveram dificuldades em permanecer na instituição. “O bônus exagerado distorceu os resultados do vestibular”, avalia Knobel. Segundo o reitor, o novo sistema híbrido de bônus, cotas e vestibular busca ser eficiente na inclusão social e racial, ao mesmo tempo atraindo graduandos com potencial elevado. A experiência acumulada com cotas e outras ações afirmativas no país dissipou os temores de que haveria uma queda drástica no nível dos estudantes e na qualidade do ensino. “Quando a concorrência em um curso é grande no vestibular, acima de 50 candidatos por vaga, praticamente não há o perigo de os alunos cotistas serem despreparados. Como a quantidade de candidatos de alto desempenho sempre é muito elevada, também há nesse grupo muitos beneficiários de ações afirmativas que conseguem se manter no curso e se tornam bons profissionais”, afirma Renato Pedrosa. O risco das cotas, segundo ele, concentra-se nos cursos de baixa demanda, que podem receber alunos sem condição de permanecer neles. Para Pedrosa, a ideia de que o vestibular é a única forma adequada de seleção é incorreta. “O aluno com a maior nota no vestibular raramente tem o melhor desempenho ao longo do curso. É possível pensar em formas de seleção que tragam para a universidade estudantes com potencial, mesmo que tenham alguma deficiência ou não tenham se preparado bem para o vestibular.” A socióloga Rosana Heringer acompanha os efeitos da adoção de cotas na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), onde é docente da Faculdade de Educação, e refuta a ideia de que o sistema teve impacto negativo na qualidade do ensino. “Dificuldades de acompanhar o curso e

reprovações em disciplinas de ciências exatas podem ser um pouco mais expressivas entre os cotistas, mas são frequentes entre todos os estudantes”, afirma. “Os problemas sempre existiram em cursos com pouca concorrência no vestibular. No de pedagogia, muitos alunos têm dificuldade de acompanhar o ritmo de leituras e não desenvolveram adequadamente habilidades de escrita. Na licenciatura em física, são comuns problemas com as disciplinas de cálculo. Isso também aparece agora pontualmente em outros cursos, mas conhecemos as ferramentas para enfrentá-los.”

T

ais ferramentas seguem duas vertentes: as que buscam dar condições econômicas para que os estudantes permaneçam, principalmente por meio de bolsas, e as que têm como foco as dificuldades acadêmicas, na forma de apoio pedagógico e psicológico. No Brasil, a preocupação tem se concentrado na primeira vertente. Rosana Heringer coordena um projeto para comparar a situação do Brasil e dos Estados Unidos em relação ao ingresso e à permanência de estudantes pretos e pardos no ensino superior. “Em relação ao acesso ao ensino superior, os sistemas dos dois países são muito distintos. A proporção de jovens de 18 a 24 anos nas universidades norte-americanas é três vezes maior do que a daqui. Lá o ensino é maciçamente pago, embora existam esquemas de escalonamento de pagamento de acordo com o rendimento da família, financiamento estudantil e bolsas oferecidas por entidades filantrópicas. Entretanto, o endividamento dos estudantes com o financiamento estudantil tornou-se um problema crônico e gravíssimo naquele país”, observa.

Os limites da autodeclaração Definir quem é negro ou pardo e pode

política de cotas raciais, em 2002.

racial tem dois problemas principais

se beneficiar de ações afirmativas

O pesquisador, que coordena o Grupo

decorrentes do critério subjetivo

raciais ainda envolve controvérsias.

de Estudos Multidisciplinares da Ação

da aplicação. “Caso o critério seja

Recentemente, o caso de um estudante

Afirmativa da Uerj, defende medidas

autodeclaração, abre-se a porta

branco e loiro que conseguiu uma vaga

como a exigência da presença

para a entrada de um contingente alto

no curso de medicina da Universidade

do aluno no ato da matrícula ou a

de pessoas brancas. Caso o critério

Federal de Minas Gerais (UFMG)

criação de comissões de avaliação

seja de avaliação por um comitê,

autodeclarando-se negro reacendeu

para evitar fraudes no processo

entramos em um terreno perigoso

esse debate. Denunciado, o rapaz

de autodeclaração. Professor da

onde pessoas serão encarregadas

renunciou à vaga. “Casos isolados de

Universidade Cândido Mendes, o

de julgar a cor da pele do indivíduo.

fraude não podem servir para cancelar

economista Álvaro Alberto Ferreira

E isso não garante uma classificação

uma política”, destaca João Feres

Mendes Junior estuda o assunto

justa, pois, dependendo do avaliador,

Júnior, professor de ciência política da

em seu doutorado em economia pela

o entrevistado pode ser classificado

Uerj, a primeira do país a instituir uma

UFMG e avalia que o sistema de cotas

como branco ou negro”, analisa.

34  z  janeiro DE 2018


Eduardo Anizelli / Folhapress

Prova da Fuvest em 2016: parte das vagas da USP foi disputada no vestibular e outra parte pelo sistema do Sisu

Em relação a políticas de permanência, as diferenças também são grandes. “Nos Estados Unidos, as universidades são muito preocupadas em promover o sucesso acadêmico dos estudantes e se responsabilizam por oferecer vários tipos de apoio. Nisso, nós ainda estamos engatinhando”, afirma. Entre os mecanismos disponíveis nas universidades norte-americanas, há monitorias, a presença de tutores, plantões de atendimento aos estudantes, entre outros exemplos.

U

ma crítica comum às políticas afirmativas é a de não terem impacto nas causas do acesso restrito de pobres e negros à universidade pública, que são a má qualidade da educação básica e a desigualdade social do país. “Sou a favor de políticas inclusivas, mas não considero cota uma solução adequada”, afirmou a antropóloga Eunice Ribeiro Durhan, professora emérita da USP, em um debate promovido sobre cotas pela Rádio USP em julho. “É tentar resolver o problema da enorme desigualdade social no Brasil através de uma medida paliativa. Os negros não entram nas universidades não por que há preconceito contra eles, mas porque são pobres. Renda é o fator mais importante na caracterização do desempenho educacional das pessoas. Quando se criam as cotas, no fundo evita-se enfrentar esse problema.” Eunice foi uma das responsáveis por um documento sobre ações afirmativas lançado em 2013 pela Academia de Ciências do Estado de São Paulo (Aciesp) e coordenado pelo físico José Goldemberg, atual presidente da FAPESP. O documento sustenta que é necessária uma reestruturação do ensino básico e fundamental, para garantir

a preparação adequada dos estudantes, e propõe medidas de curto prazo, como a criação de cursos preparatórios para o ingresso nas universidades voltados para alunos carentes, acompanhados por um sistema de concessão de bolsas de estudo. José Eduardo Krieger, professor da Faculdade de Medicina da USP que presidia a Aciesp quando o estudo foi publicado, afirma que há incompatibilidade entre o conceito das cotas e a natureza das universidades que atuam na fronteira do conhecimento. “Em vários países, discute-se a sustentabilidade das universidades de pesquisa. Elas têm um papel vital na formação de líderes e na geração do conhecimento, mas custam muito caro. Especialmente na Europa, há um debate sobre a necessidade de concentrar recursos em um número restrito de instituições para que elas consigam cumprir seu papel”, diz Krieger. Uma universidade de excelência, ele pontua, depende de sua capacidade de atrair os melhores alunos independentemente da cor da pele. “As cotas, além de não resolverem o problema dramático da qualidade do ensino fundamental e médio, podem enfraquecer as universidades de pesquisa. Temos poucas delas no Brasil, como as três universidades estaduais paulistas e cerca de uma dezena de federais. É necessário atacar a desigualdade sem desarticular o esforço de décadas para garantir a qualidade dessas instituições”, diz Krieger, que também crítica o escasso engajamento das universidades em buscar os melhores alunos. “Não dá para depender apenas do vestibular. Defendo há muito tempo que a USP atraia medalhistas de olimpíadas científicas sem vestibular, como fazem universidades norte-americanas e europeias.” pESQUISA FAPESP 263  z  35


Alguns marcos das políticas afirmativas nas universidades do país 2005

2003

2004

2006

A Universidade do

A Universidade

Uma lei federal cria o

A Universidade de

O Supremo Tribunal

Estado do Rio de

Estadual de

programa de bolsas em

São Paulo (USP)

Federal considera

2012

Janeiro (Uerj) institui

Campinas (Unicamp)

instituições privadas

decide conferir um

válidas as políticas

reserva de vagas em

lança um sistema

Universidade para todos

bônus de 3% nas

de reserva de vagas

seu vestibular: 20%

de bonificação de

(Prouni). Para concorrer,

notas das duas

para pretos, pardos

para candidatos da

pontos no vestibular

o candidato deve ter sido

fases do vestibular

e indígenas em

rede pública; 20% para

para alunos de

aprovado no Enem e

para candidatos

universidades

negros ou indígenas;

escolas públicas

comprovar renda familiar

que fizeram todo

públicas ao analisar

e 5% para candidatos

e também os

mensal per capita de até

o ensino médio em

a constitucionalidade

com deficiência. Já na

autodeclarados

1 e 1/2 salário mínimo para

escolas públicas

do sistema de cotas

Estadual de Mato

negros, pardos

receber bolsa integral.

adotado pela

Grosso do Sul (UEMS),

e indígenas

Há reserva de bolsas para

Universidade Federal

é criada uma reserva

deficientes e para

do Rio Grande do Sul

de 10% para indígenas

autodeclarados indígenas,

e 20% para negros

pardos ou pretos

Para o sociólogo José de Souza Martins, os sistemas adotados pela USP e Unicamp distanciam-se dos critérios reguladores das escolas superiores de alto nível. “Universidades verdadeiras devem se empenhar em recrutar as melhores vocações, os melhores cérebros, não importa raça, cor, origem, gênero, convicção religiosa. Essas universidades não existem para fazer caridade, para fazer justiça aos supostamente injustiçados. Elas existem para recrutar e formar os melhores profissionais”, afirma Martins, que é professor emérito da USP. “Se a sociedade no seu conjunto fosse séria, teria políticas educacionais para bem preparar as novas gerações para as novas funções profissionais da sociedade moderna antes que chegassem à universidade. O Brasil não está fazendo isso. Empurra seus débitos sociais para as universidades de excelência. Elas não estão preparadas para resolver esse problema.” Um levantamento feito pelo jornal Folha de S.Paulo com base no desempenho de 252 mil estudantes brasileiros de graduação no Exame Nacional de Desempenho de Estudantes (Enade) entre 2014 e 2016, mostrou que em 33 dos 64 cursos de graduação a performance dos cotistas foi equivalente ou superior à dos não cotistas. Já em outros 31 cursos, a média foi pelo menos 5% inferior. Nesse grupo, há uma concentração de cursos de ciências exatas. Esse ponto vulnerável das ações afirmativas, que é a formação precária em matemática entre egressos de escolas públicas, inspirou a pesquisa de doutorado em educação matemática de Guilherme Henrique Gomes da

Silva concluída em 2016 na Unesp em Rio Claro. Atualmente professor da Universidade Federal de Alfenas (Unifal), em Minas Gerais, Guilherme resolveu estudar o papel da educação matemática nas políticas de ações afirmativas ao notar que havia uma carência na literatura sobre o tema. “Quando ingressei na Unifal em 2012, observei que havia um discurso na comunidade universitária, muitas vezes preconceituoso, de que a reprovação, que já era muito alta nas disciplinas de matemática dos cursos de exatas, aumentaria com a entrada de cotistas na rede federal.”

36  z  janeiro DE 2018

G

uilherme entrevistou docentes e estudantes cotistas das federais de São Carlos (UFSCar) e do ABC (UFABC) e identificou estratégias no campo da educação matemática que mais ajudavam os alunos a permanecer. “Vários alunos relataram que a criação de vínculo com um professor foi fundamental para que conseguissem superar as dificuldades do primeiro ano e prosseguissem no curso”, diz Guilherme. Um dos entrevistados relatou seu desconforto ao perguntar a um professor de cálculo o significado de um gráfico – ouviu em resposta que aquele conteúdo se aprendia no ensino fundamental. “Esse aluno nunca mais fez nenhuma pergunta na sala de aula”, diz. “Cotistas são alvos frequentes de microagressões, que desdenham de sua capacidade de permanecer na universidade.” Não por acaso, diz Guilherme, a existência de algum esquema de apoio psicológico foi apontada como importante pelos alunos. Também tiveram efei-


“Estamos ampliando o acesso de alunos de escolas públicas, mas não temos recursos suficientes para financiar os novos custos”, explica Mário Sérgio Vasconcelos, coordenador de permanência estudantil da Unesp.

2013 Começa a ser aplicada a Lei de Cotas, que reserva 50% das vagas em universidades federais a egressos do ensino público. Metade das vagas reservadas destina-se a alunos com renda familiar per capita de até 1 e 1/2 salário mínimo. Prevê cotas para pretos, pardos e indígenas equivalentes ao percentual desses grupos na população de cada estado

2014

2017

A

s ações afirmativas foram implantadas em um momento de expansão das vagas nas USP e Unicamp Entram em vigor as universidades no país. O relatório “Faces decidem incorporar metas do Programa de da desigualdade no Brasil”, da Faculdade Latinomecanismos de Inclusão com Mérito no -Americana de Ciências Sociais (Flacso), identireserva de vagas Ensino Superior Público ficou que o acesso ao ensino superior (incluindo a alunos de escolas Paulista (Pimesp), que graduação, mestrado e doutorado) aumentou em públicas e a determinam, de forma toda sociedade brasileira. Feito com base em dapretos, pardos e progressiva até 2018, dos da Pesquisa Nacional por Amostra de Domiindígenas entre que 50% das vagas cílios (Pnad) de 2002 a 2015, o estudo mostrou as formas de que o contingente de jovens negros nas universidas universidades ingresso de novos dades públicas ou particulares subiu de 400 mil estaduais sejam estudantes em 2002 para 1,6 milhão em 2015. ocupadas por alunos Uma crítica recorrente às políticas afirmativas de escolas públicas e é que, embora sejam propostas como soluções um mínimo de 35% temporárias, acabam se tornando perenes porque por pretos, pardos subsiste a desigualdade que as torna necessárias. e indígenas. A Unesp Renato Pedrosa, da Unicamp, lembra a proibição cria reserva de vagas de cotas raciais nos Estaem seu vestibular dos Unidos por decisão da Suprema Corte em 1978: “Universidades que utilizavam esse tipo de política Um dos principais desafios é garantir retornaram a uma situação que os alunos possam se manter de exclusão parecida com a que viviam antes da exfinanceiramente durante a graduação periência”. As instituições norte-americanas, contudo, têm liberdade para selecionar estudantes setos positivos a concessão de bolsas de iniciação guindo diferentes critérios, como o da diversidade científica, que ajudam o aluno economicamente do corpo discente ou uma certa participação de e dão um sentido mais prático ao aprendizado, e alunos de escolas públicas de seu entorno, princia formação de grupos de estudo de alunos cotis- palmente quando a universidade é pública. A socióloga Arabela Campos Oliven, professora tas, que se apoiam mutuamente. Um dos principais desafios das políticas de da Universidade Federal do Rio Grande do Sul ação afirmativa é garantir que os alunos possam (UFRGS), está desenvolvendo uma pesquisa que se manter financeiramente durante a graduação. compara políticas de inclusão de afrodescendenNa UFABC, que adota um sistema de cotas desde tes implantadas na UFRGS e na Universidade de 2006, metade dos calouros vem de escolas públi- Illinois Urbana-Champaign. Em 1968, no auge da cas e um terço é composto por autodeclarados luta pelos direitos civis nos Estados Unidos, essa pretos, pardos ou indígenas. Entre o contingen- instituição norte-americana lançou um projeto te dos egressos do ensino público, há uma sub- para atrair 500 estudantes negros, o equivalen-reserva de 50% de vagas para candidatos com te a cerca de 5% do total dos alunos, e na época renda per capita familiar de até 1,5 salário mínimo. obteve êxito. A iniciativa existe até hoje, mas já “Temos um universo de cerca de 2,5 mil alunos de não consegue recrutar tantos alunos. “Passado baixa renda e apenas 500 bolsas para atendê-los”, meio século, existe atualmente uma presença diz Fernando Mattos, pró-reitor de Extensão e qualificada de lideranças negras na administração Ações Afirmativas da UFABC. A Unesp pleiteia da universidade, inclusive o reitor, e houve um ao governo paulista o ressarcimento de R$ 16,6 aumento no número de professores negros, mas milhões que gastou nesse ano com programas de o total de estudantes afro-americanos diminuiu. permanência estudantil com mais de mil bolsas Enquanto em 1968 ingressaram 565, em 2014 fode auxílio aluguel e 2.791 de auxílio econômico. ram apenas 356”, diz Arabela. n pESQUISA FAPESP 263  z  37


Gestão de dados y

Escorpião-amarelo (Tityus serrulatus), das regiões Sudeste, Centro-Oeste e Nordeste

Informação

com qualidade Carlos Fioravanti

Borboletas de uma coleção da Universidade Estadual de Campinas

Manaosella cordifolia, árvore da região Norte


Flor-de-são-joão (Pyrostegia venusta), trepadeira encontrada em quase todo o país

Pesquisadores propõem estratégias para tornar mais confiáveis acervos de bases on-line

fotos  eduardo cesar e léo ramos chaves ilustração freepik e florabrasiliensis

sobre biodiversidade

Q

uem entra em bases de dados on-line sobre biodiversidade encontra milhões de registros sobre espécies de plantas e animais e as áreas que ocupam ou ocuparam no Brasil e em outros países. Depois da satisfação de encontrar matéria-prima abundante para fundamentar os trabalhos científicos, começam as inquietações: como extrair e filtrar os dados e, principalmente, como saber se são realmente confiáveis? Eventuais erros de nomes de espécies e de localização serão automaticamente indicados e eliminados? Essas questões são importantes porque dados incorretos ou incompletos frequentemente levam a análises inconsistentes. Pesquisadores da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli-USP) ingressaram no debate sobre o controle de qualidade das informações dos bancos de dados on-line, propondo novas estratégias para resolver problemas observados há uma década. Em 2006, ao ingressar em uma rede de pesquisa em biodiversidade formada por biólogos de 11 países das Américas, o engenheiro elétrico Antônio Mauro Saraiva, professor

da Poli-USP, encontrou nomes científicos diferentes para as mesmas espécies, coordenadas geográficas erradas e escas­sez de detalhes sobre os organismos coletados. Essas informações abastecem bases de dados on-line, a partir das quais se produzem trabalhos científicos sobre distribuição ou abundância de espécies de animais e plantas. “Cinco ou 10 anos de­pois, os pesquisadores não compre­ endiam mais os códigos e abreviações que tinham usado nas coletas”, observou. Em 2008, Saraiva começou a discutir com o cientista da computação Allan Koch Veiga como os critérios de organização e qualidade dos bancos de dados poderiam ser aprimorados e padronizados para resultar em informações corretas e completas. Veiga concluiu o doutorado em 2016, sob orientação de Saraiva. Atualmente fazendo um estágio de pós-doutorado na Poli, ele apresentou uma proposta conceitual elaborada pelo grupo coordenado por Saraiva no dia 3 de outubro em Ottawa, no Canadá, para unificar a terminologia e os critérios de avaliação da qualidade das informações dos acervos on-line de animais, microrganismos, plantas e fungos. pESQUISA FAPESP 263  z  39


O besouro Cyrtomon luridus, parasita de plantas

A mais abrangente entre as cerca de 25 bases mundiais é a Plataforma Global de Informações sobre Biodiversidade (GBIF, www.gbif.org). Criada em 2001, reúne quase 850 milhões de registros de espécies, dos quais 6 milhões provêm do Brasil, um dos cerca de 60 países dessa rede. “Como não existe uma base conceitual consensual, cada grupo de trabalho nessa área define a qualidade e a avalia de modo diferente, impossibilitando a comparação entre os resultados”, comenta Saraiva, que é coordenador do Núcleo de Apoio à Pesquisa em Biodiversidade e Computação da USP (BioComp). O que o grupo da Poli está propondo, em conjunto com especialistas do Canadá, Estados Unidos, Austrália e Dinamarca, é uma linguagem comum que facilite a gestão da qualidade de dados. Segundo Saraiva, um levantamento feito com base na proposta da Poli – realizado por pesquisadores de diversos países de um grupo de trabalho do Biodiversity Information Standards, uma associação científica internacional que desenvolve padrões de qualidade de dados – identificou 100 tipos de testes de verificação de qualidade nas bases de dados. Os testes consistem em programas ou subprogramas e indicam, por exemplo, se as coordenadas geográficas de uma coleta estão corretas. “Mesmo que os programas tenham o mesmo objetivo, não podemos comparar os resultados entre eles porque os critérios que adotam são diferentes”, diz ele. “Pretendemos enquadrar todos em um mesmo pano de fundo conceitual, deixando claro os modos de funcionamento de cada um.” Esses conceitos nortearão a plataforma de qualidade de dados que o grupo da Poli deve desenvolver, a partir de 2018, 40  z  janeiro DE 2018

para o Sistema de Informação sobre a Biodiversidade Brasileira (SiBBr, www. sibbr.gov.br). Lançada em 2014, essa base reúne cerca de 10 milhões de registros da ocorrência de 155 mil espécies de animais e plantas do país. “Apesar dos avanços, como a crescente oferta de softwares abertos que permitem a publicação de informações científicas, ainda falta uma política nacional de gerenciamento de dados que estabeleça as ações e os critérios de qualidade”, ressalta a bióloga Andrea Nunes, coordenadora-geral de biomas do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC) e diretora nacional do SiBBr. À medida que avançar, a plataforma de qualidade de dados deverá interagir com as bases que alimentam o SiBBr e estabelecer padrões comuns de funcionamento. “Um critério nem sempre adotado pelas bases de dados é que o ponto de partida da definição de qualidade é o uso que o pesquisador pretende dar à informação”, comenta Saraiva, que usa uma analogia para explicar melhor. “Tomates para molho ou para salada podem ter qualidade diferente; para molho os tomates podem ser bem maduros e um pouco amassados, enquanto para saladas precisam ser bem firmes, não muito maduros”, compara.

Paratudo-do-cerrado ou perpétua (Gomphrena macrocephala), do Cerrado

A meta do grupo da Poli é ajudar o pesquisador a definir os critérios de seleção de dados antes de começar uma busca, para não ter de filtrar depois o que interessa em meio a milhares de registros sobre uma espécie ou grupo de espécies, e, além disso, deixar esses critérios expostos, como um guia, para outros usuários. “Se um pesquisador quiser apenas uma lista de espécies de um país, não precisará da coordenada geográfica exata de cada localidade, mas essa informação será indispensável se quiser fazer um estudo sobre a distribuição geográfica de animais ou plantas em uma região”, diz Veiga. VERIFICAÇÃO DE ERROS

A rede speciesLink (www.splink.cria.org. br), uma das bases nacionais de biodiversidade, permite a seleção de informações sobre a ocorrência e a distribuição de espécies de microrganismos, algas, fungos, plantas e animais. Desenvolvida a partir de 2001 com apoio da FAPESP, integrando 12 coleções biológicas do estado de São Paulo, a base se expandiu, principalmente com o Herbário Virtual da Flora e dos Fungos, um dos Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia (CNPq), e hoje reúne registros de 470 coleções do Brasil e de outros países.


Como não existe uma base conceitual consensual, cada grupo define qualidade de modo diferente, diz Saraiva

cia em Informação Ambiental (Cria), de Campinas, instituição responsável pelo desenvolvimento e manutenção da rede speciesLink. “Todo erro precisa ser corrigido na origem. Nenhum registro é alterado pelo Cria.” Uma vez incorporada à rede, a informação é compartilhada de forma livre e aberta a qualquer interessado.

fotos  eduardo cesar e léo ramos chaves ilustração freepik e florabrasiliensis

Milhões de estrelas

Essas coleções compartilham cerca de 9 milhões de registros de 125 mil espécies, das quais 2.756 ameaçadas de extinção. Do total de registros, 68% possuem coordenadas geográficas exatas, no município indicado na coleta, 23% não têm informação sobre a localização da coleta e 8% apresentam dados imprecisos. As coordenadas de 1% do total de registros estão bloqueadas para verificação pelos curadores, os especialistas responsáveis pelos dados de cada coleção. “Se um dado for considerado sensível, como a coordenada geográfica de uma espécie ameaçada de alto valor comercial, a localização ou até o registro completo pode ser bloqueado. Cabe ao curador decidir o que deve ser compartilhado na rede”, diz a engenheira de alimentos Dora Canhos, diretora do Centro de Referên-

“As equipes que trabalham com os dados dos herbários são insuficientes para limpar os dados, verificar a qualidade e atualizar os nomes científicos”, observa o tecnologista Luís Alexandre Estevão da Silva, coordenador do núcleo de computação científica e geoprocessamento do Instituto de Pesquisas Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Por essa razão, a instituição criou e implantou programas de detecção automática com 81 filtros de verificação de qualidade capazes de relatar, por exemplo, que “a coordenada não coincide com o município informado”. “Temos muito a avançar, porque ainda há numerosas duplicatas e diferenças de classificação de plantas nos herbários”, diz Silva. Sua equipe desenvolveu e em 2005 implantou o Jabot, um sistema de gerenciamento de coleções científicas de herbários, liberado para outras institui-

ções em 2016 e atualmente adotado por 28 herbários de universidades e centros de pesquisa brasileiros. “Temos de adotar métodos para analisar a qualidade de dados enquanto são produzidos”, afirma a engenheira eletricista Cláudia Bauzer Medeiros, professora do Instituto de Computação da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e coordenadora do programa eScience da FAPESP. “Ao utilizar dados produzidos por outros, é comum que os pesquisadores não verifiquem a confiabilidade da informação, mesmo sabendo que a validação dos resultados de uma pesquisa depende da qualidade dos dados.” Muitas vezes, ela acrescenta, “essa verificação é inviável, por falta de informação sobre a qualidade dos dados”. Ainda que as estratégias de controle de qualidade de dados não estejam integradas e padronizadas, a preocupação com a consistência da matéria-prima da ciência – a informação – é crescente. E não apenas na biologia. O físico colombiano Alberto Molino Benito trabalha há dois anos com sua equipe no Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG) da USP no desenvolvimento de programas para extrair informação numérica – de modo automático e com grande precisão – das imagens que começaram a ser captadas pelo telescópio Southern Photometric Local Universe Survey (S-Plus, ou levantamento por fotometria do universo local do hemisfério Sul), construído em Cerro Tololo, no Chile, sob a coordenação do próprio IAG. “As informações servirão para gerar catálogos de estrelas, galáxias, quasares e asteroides, com suas posições, tamanho, luminosidade, distância da Terra e massa”, conta Benito. “Estamos terminando a calibração e validação dos programas para que os pesquisadores não tenham de se preocupar com a qualidade dos dados, quando começar a coleta automática de imagens, no início de 2018.” Com um espelho de 80 centímetros de diâmetro, o S-Plus deve concluir a observação do céu do hemisfério Sul em dois anos, reunindo informações sobre a distribuição espacial de milhões de estrelas e galáxias. n Artigo científico VEIGA, A. K et al. A conceptual framework for quality assessment and management of biodiversity data. PLoS ONE. v. 12 (6), p. e0178731. 2017.

pESQUISA FAPESP 263  z  41


Beijing, na China, ocupa a primeira posição em ranking de produção científica

Cientometria y

Estudo analisa papers de autores de 2 mil cidades do mundo e coloca São Paulo entre as 20 com maior produção Bruno de Pierro

42  z  janeiro DE 2018

U

m estudo publicado em agosto no Journal of Informetrics identificou um deslocamento do volume da produção científica de países desenvolvidos para nações emergentes, ao analisar artigos produzidos em 2.194 cidades do mundo nas últimas três décadas. De acordo com o trabalho, a mudança mostra que países como China, Índia, Irã e Brasil passaram a ocupar posições de destaque na ciência global em termos quantitativos. No período de 1986 a 1995 predominavam municípios dos Estados Unidos e da Europa entre as 15 metrópoles cujos pesquisadores mais publicaram papers no mundo. Já entre 2006 e 2015, o grupo das cidades com maior produção científica ficou mais diversificado: Beijing, Seul, Teerã e São Paulo também passaram a figurar no topo desse ranking. “Tudo leva a crer que não é um fenômeno temporário, mas uma tendência consistente”, afirma o autor da pesquisa, György Csomós, professor do Departamento de Engenharia da Universidade de Debrecen, na Hungria. “O impacto da pesquisa nesses novos centros ainda é inferior ao de cidades nos Estados Unidos e na Europa, mas o nosso estudo não avaliou citações”, pondera. O estudo selecionou localidades onde foram produzidos pelo menos mil arti-

gos indexados na base de dados Scopus, da Elsevier, entre 1986 e 2015. György Csomós observou que Tóquio, no Japão, foi a cidade mais produtiva de 1986 a 2005, com 366.405 artigos publicados. A partir de 2006, a capital chinesa assumiu a liderança – em quase uma década, pesquisadores de Beijing publicaram 664.414 artigos (ver quadro na página 43). “A crescente importância de Beijing tem sido objeto de estudos nos últimos anos. O caso chinês é acompanhado por outras metrópoles emergentes”, explica o pesquisador húngaro. Para ele, isso é um sinal de que a produção de ciência está se espalhando para novos polos. Um outro estudo, esse publicado em julho por pesquisadores da França e da Alemanha na revista Scientometrics, analisou a partir de publicações indexadas na base Web of Science o número absoluto de citações recebidas segundo as cidades onde os autores de papers trabalhavam. Dos 30 municípios com maior número de citações em 2007, apenas Beijing, Xangai e Seul são de países emergentes. Os demais estão nos Estados Unidos, Japão, Austrália, Canadá e em países da Europa. Não há nenhuma cidade latino-americana entre as 30 maiores. Entre os 60 municípios brasileiros que foram avaliados por Csomós, São Paulo é o único que aparece entre os 100 com

pixabay.com

A metrópole metrópole e a ciência


Ranking de produtividade

O deslocamento da produção

As 35 cidades que publicaram a maior quantidade de artigos em revistas indexadas na base de dados Scopus entre 1986 e 2015

Cidades que mais produziram artigos na base Scopus em dois momentos: de 1986 a 1995 e de 2006 a 2015

Número de artigos 859.616

1  beijing China 561.242

3  Londres Reino Unido 4  Nova York  Estados Unidos 5  Paris França

2  Londres Reino Unido  124.099

447.577

3  Nova York  Estados Unidos  95.011

7  Xangai China

340.746

8  Seul  Coreia do Sul

326.055

9  Boston  Estados Unidos

320.946 240.822 239.861

1  Tóquio Japão  139.268

450.863 382.627

6  Moscou Rússia

11  Roma Itália

1986 – 1995

642.608

2  Tóquio Japão

10  Washington  Estados Unidos

Número de artigos

4  Paris França  90.075 5  Moscou Rússia  64.584 6  Boston  Estados Unidos  60.513 7  Los Angeles  Estados Unidos  51.373 8  Washington  Estados Unidos  49.433 9  Bethesda  Estados Unidos  47.155

224.641

10  Filadélfia  Estados Unidos  46.167

13  Nanquim China

215.829

11  Chicago  Estados Unidos  45.028

14  Madri Espanha

213.385

12  Roma Itália  40.968

15  Filadélfia  Estados Unidos

206.482

16  Chicago  Estados Unidos

200.583

12  Los Angeles  Estados Unidos

17  Toronto Canadá 18  Cambridge  Estados Unidos 19  São Paulo Brasil 20  Baltimore  Estados Unidos

199.941

14  Toronto Canadá  36.730 15  Baltimore  Estados Unidos  35.708

191.446 190.171 187.939

21  Bethesda  Estados Unidos

180.897

22  Berlim Alemanha

180.103

23  San Diego  Estados Unidos

13  Cambridge  Estados Unidos  37.068

176.475

24  Montreal Canadá

171.847

25  Wuhan China

170.159

26  Sydney Austrália

169.334

27  Munique Alemanha

168.183

28  Houston  Estados Unidos

167.057

2006 – 2015 1  beijing China  664.414 2  Tóquio Japão  276.203 3  Londres Reino Unido  267.395 4  Xangai China  262.635 5  Seul  Coreia do Sul  239.438 6  Paris França  219.989 7  Nova York  Estados Unidos  215.935 8  Nanquim China  176.284

29  Xi’an China

163.594

30  Barcelona Espanha

163.297

10 Boston  Estados Unidos  168.000

9  Moscou Rússia  172.771

31  Kyoto Japão

162.520

11  Teerã Irã  142.180

32  Hong Kong China

160.863

12  São Paulo Brasil  135.257

33  Seattle  Estados Unidos

159.926

13  Wuhan China  134.840

34  Teerã Irã

156.096

14  Xi’an China  131.360

155.417

15  Roma Itália  126.454

35  Estocolmo Suécia

pESQUISA FAPESP 263  z  43


Entre 1996 e 2005, Tóquio, no Japão, foi a cidade que mais produziu papers no mundo

44  z  janeiro DE 2018

O destaque de São Paulo pode ser explicado por concentrar boa parte da ciência feita no Brasil, diz Renato Garcia

duas das melhores faculdades de medicina do país, USP e Unifesp, em que há um ambiente favorável à pesquisa”, diz Renato Garcia. Csomós também avaliou colaborações internacionais. Dos 60 municípios brasileiros, 57 têm como parceiros mais frequentes pesquisadores dos Estados Unidos – as exceções são Ouro Preto, onde predominam colaborações com a Austrália; Feira de Santana, com o Reino Unido; e Itajaí, com Itália. Na primeira década analisada no estudo, de 1986 a 1995, cerca de 28% da produção científica brasileira vinha de São

Paulo. Esse índice subiu para 35% entre 2006 e 2015. Em 2011, o relatório “Conhecimento, redes e nações: A colaboração científica no século XXI”, da Royal Society, em Londres, já citava a capital paulista como uma das cidades promissoras na ciência e alertava que China, Brasil e Índia emergiam entre as potências científicas. “Um fator que pode explicar o crescimento da produção científica paulistana é que os pesquisadores estão publicando mais artigos em revistas de língua inglesa, fazendo com que a cidade apareça mais na base Scopus”, sugere Csomós. periódicos indexados

O avanço da capital paulista e de cidades de países em desenvolvimento coincide com a inclusão de um grande número de periódicos de países emergentes em bases de dados internacionais, como a Scopus e a Web of Science, observa Jacqueline Leta, professora do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Essas revistas, na maioria de acesso aberto, canalizaram a divulgação de uma parcela expressiva da produção científica dessas nações. “Pesquisadores em início de carreira pressionados a publicar artigos recorreram a esses periódicos e ajudaram a impulsionar o desempenho de países como Brasil e China”, salienta. Jacqueline chama a atenção para a originalidade do trabalho de Csomós. “O olhar para as cidades, e não para o país

foto  pixabay.com  MAPA  György Csomós

maior produção científica no mundo. A capital paulista ocupa a 19ª posição nesse ranking, com 190.171 artigos publicados entre 1986 e 2015, ficando à frente, por exemplo, de Berlim, na Alemanha; Montreal, no Canadá; e Kyoto, no Japão. “O destaque de São Paulo no estudo pode ser explicado por concentrar boa parte da ciência feita no Brasil”, opina Renato Garcia, professor do Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Ele lembra que a cidade abriga dois campi da Universidade de São Paulo (USP), um da Estadual Paulista (Unesp) e um da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), além de instituições privadas que desenvolvem pesquisas como a Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e a Fundação Getulio Vargas (FGV). Apenas a USP, que tem seu principal campus na capital paulista, é responsável por 22% da produção científica brasileira, de acordo com dados da Web of Science. Em um levantamento apresentado em 2015 por Méric Gertler, atual reitor da Universidade de Toronto, no Canadá, a Região Metropolitana de São Paulo aparecia em 4º lugar em uma lista de aglomerados urbanos com maior produção científica (ver Pesquisa FAPESP nº 237). O estudo de Csomós também faz um recorte das disciplinas mais produtivas. No caso de São Paulo, o campo em que há o maior número de artigos publicados é a medicina. “A capital paulista conta com


As vocações das cidades Disciplinas com maior número de artigos publicados na Scopus em cada município estudado entre 1986 e 2015 Groenlândia

Finlândia Islândia

Suécia Rússia

Noruega Reino Unido

Canadá

Ucrânia

Oceano Pacífico

Estados Unidos

Oceano Atlântico

Cazaquistão

Mongólia Japão

China Iraque Argélia

Afeganistão Paquistão

Egito

Líbia

México

Arábia Saudita Mali

Níger Chade Nigéria

Venezuela

Tailândia

Sudão Etiópia

Colômbia Rep. Dem. Quênia Congo Tanzânia

Brasil

Peru

Indonésia

Papua Nova Guiné

Angola Bolívia

Chile

Oceano Atlântico

Namíbia Botsuana

Madagascar

Oceano Índico

Austrália

África do Sul Nova Zelândia

Argentina

campos do conhecimento

Fonte A spatial scientometric analysis of the publication output of cities worldwide

Ciências agrícolas e biológicas Bioquímica genética e biologia molecular Química Ciências da Terra e planetárias Engenharias Meio ambiente Ciências dos materiais Medicina Outras áreas de pesquisa Física e astronomia Ciências sociais

como um todo, oferece uma nova perspectiva aos estudos que analisam aspectos quantitativos da produção do conhecimento”, comenta. O pesquisador húngaro explica que, ao examinar a produção total de um país ou de um continente, perde-se a dimensão da diversidade acadêmica no âmbito regional. “As cidades diferem umas das outras, ainda que estejam no mesmo país. E graças à sua natureza variada, a produção científica também é peculiar em cada cidade”, acrescenta. Essa diversidade aparece de maneira clara nos dados sobre colaborações. O

principal parceiro das cidades que ficam na parte ocidental da Suíça, como Genebra, Lausanne e Neuchâtel, é a França. Já as cidades que estão mais ao norte do país, como Zurique, Basileia e Berna, colaboram mais com a Alemanha. Nas localizadas perto da fronteira italiana, como Bellinzona e Lugano, a colaboração mais intensa é com a Itália. “Isso não aparece quando se avalia a colaboração internacional da Suíça como um todo”, diz Csomós. O gigantismo das metrópoles de países emergentes é um dos fatores que ajudam a explicar a sua ascensão na produção científica global. Essas cidades, observa o pesquisador, geralmente têm tamanhos e populações muito maiores do que as encontradas em países desenvolvidos. Boston, nos Estados Unidos, é um dos principais polos de ciência e tecnologia do mundo, mas tem 673 mil habitantes e uma área de 232 quilômetros quadrados (km²). É uma escala incomparável com a de Beijing, com 21,7 milhões de habitantes e área de 16 mil km². “Nesse caso, deveríamos comparar Beijing com a Grande Boston”, sugere Csomós, referindo-se à área metropolitana com 8,2 milhões de pessoas e 25 mil km² de território.

Para Renato Garcia, o trabalho do pesquisador da Hungria ajuda a identificar as localidades que têm mais aptidão para o que se convencionou chamar de efeito de transbordamento de conhe­ cimento, quando empresas e outros setores da sociedade têm acesso ao conhecimento científico e tecnológico produzido em instituições de pesquisa e universidades. “Cidades com alta produção científica provavelmente conseguem transferir mais conhecimento para a sociedade”, observa Garcia. No entanto, ele ressalva que saber apenas o número de artigos publicados em cada local não é suficiente para medir o potencial de transbordamento: “Estudos sobre o impacto da pesquisa no setor privado e a colaboração entre universidades e empresas nas metrópoles também são necessários”. n

Artigos científicos CSOMÓS, G. A spatial scientometric analysis of the publication output of cities worldwide. Journal of Informetrics. On-line. ago. 2017 MAISONOBE, M. et al. The global geography of scientific visibility: A deconcentration process (1999-2011). Scientometrics. On-line. jun. 2017.

pESQUISA FAPESP 263  z  45


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A evolução do fator de impacto das cinco revistas científicas do país que mais se destacaram no ano passado no Journal Citation Reports

Memórias do Instituto Oswaldo Cruz

2,605

Journal of Materials Research and Technology 2,359

1,789 1,566 1,592 1,363

Fonte JCR

2012

2013

2014

2015

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foto  léo ramos chaves

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m conjunto de revistas científicas publicadas por instituições brasileiras conseguiu elevar seu impacto a um patamar que, embora modesto para os padrões internacionais, é inédito para o ambiente nacional. Segundo o relatório de 2017 do Journal Citation Reports (JCR), base de dados da Clarivate Analytics, cinco periódicos de acesso aberto entre os mais de 130 do país indexados na base Web of Science tiveram em 2016 um fator de impacto (FI) superior a 2. Significa que, em média, os artigos dessas revistas publicados no biênio anterior foram citados em outros periódicos pouco mais de duas vezes em 2016. No relatório de 2015, apenas três títulos do Brasil haviam obtido esse desempenho. Uma novidade foi a ascensão do Journal of Materials Research and Technology, cujo desempenho foi medido pelo JCR pela primeira vez em 2017 e já despontou em segundo lugar entre os periódicos do país, com FI de 2,359. A publicação foi criada em 2011 pela Associação Brasileira de Metalurgia, Materiais e Mineração (ABM) e há cinco anos adotou uma estratégia agressiva para ganhar visibilidade. Primeiro, associou-se à Elsevier, a maior editora científica do mundo, passando a ser publicada na plataforma da empresa.

Diabetology & Metabolic Syndrome

Depois, buscou de forma ativa artigos de pesquisadores do exterior. “Quando a revista foi lançada, teve classificação desfavorável no sistema Qualis, da Capes, que apoia a avaliação da pós-graduação brasileira, e encontrou dificuldade em atrair bons autores nacionais. Decidimos ir atrás de estrangeiros”, diz o editor-chefe, Marc André Meyers. Dos 203 autores que assinaram artigos da revista em 2015, 50 eram brasileiros e 153 estrangeiros de 20 países. Brasileiro radicado nos Estados Unidos, professor da Universidade da Califórnia, San Diego, Meyers assumiu o comando da revista em 2013 e ajudou a posicioná-la. O corpo editorial foi refor-

Jornal de Pediatria

mulado. “Atraímos pesquisadores com produção reconhecida de países como Reino Unido, Alemanha e Rússia. O apoio da ABM e do editor-associado Sergio Neves Monteiro tem sido essencial”, diz. O desempenho no JCR aumentou o número de papers submetidos. Este ano, o periódico deve publicar 120 artigos, selecionados entre mais de mil submissões. O periódico com FI mais elevado entre os brasileiros já aparecia em primeiro lugar em levantamentos anteriores do z. Criado há 108 anos e referência em doenças tropicais, o Memórias do Instituto Oswaldo Cruz ampliou seu FI de 1,789 citação por artigo em 2015 para

Revista Brasileira de Psiquiatria

2,500 2,347 2,173 2,119

2,181

2,062 2,081

1,924

1,856 1,638

2,049 1,765

1,194

1,154 0.935

2012

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pESQUISA FAPESP 263  z  47


O perfil das 10 revistas do Brasil de maior impacto Periódico

Fator de Acesso Coleção impacto aberto SciELO

Memórias do Instituto Oswaldo Cruz

2,605

Journal of Materials Research and Technology

2,359

Diabetology & Metabolic Syndrome

2,347

Jornal de Pediatria

2,081

Revista Brasileira de Psiquiatria

2,049

Jornal Brasileiro de Pneumologia

1,496

Brazilian Journal of Infectious Diseases

1,468

Journal of Venomous Animals and Toxins

1,447

4 4 4 4 4 4 4 4 4

1,353

4

Brazilian Journal of Medical and Biological Research 1,578

4 8 8 4 4 4 4 4 4 4

Editora internacional

– Elsevier BioMed Central/Springer Elsevier – – – Elsevier BioMed Central/Springer

Including Tropical Diseases Revista de Saúde Pública

2,605 em 2016 e espera crescer ainda mais nos próximos levantamentos. Ocorre que, em 2016, a Organização Mundial da Saúde declarou emergência em relação aos casos de microcefalia causados pela epidemia de zika e recomendou que os resultados de pesquisa sobre a doença fossem divulgados antes de submetidos a uma avaliação por pares rigorosa. O objetivo era acelerar a circulação da informação sobre uma doença pouco conhecida. O Memórias criou um sistema de fast track, via rápida em inglês, para receber artigos sobre zika. “Dois artigos que publicamos, um que descrevia a primeira identificação do vírus no Brasil e outro sobre a detecção do zika na placenta, foram bastante citados”, conta a editora-chefe, Claude Pirmez, pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz. A revista resolveu ampliar o fast track para artigos sobre outras doenças epidêmicas, como dengue e febre amarela. “Avaliamos que o futuro da divulgação científica esteja em publicar preprints”, diz a editora, referindo-se ao modelo em que os resultados de pesquisa são disponibilizados na web antes da avaliação de revisores (ver Pesquisa FAPESP nº 254). Ao mesmo tempo, a revista se tornou mais rigorosa: o número de papers rejeitados representa hoje mais de 60% do total e o número de artigos publicados por ano caiu de 180 em 2015 para 120 hoje. “Consideramos que é importante ser mais seletivo para conseguir evidenciar a boa ciência que é feita no país.” Um denominador comum na estratégia das revistas é o esforço para tornar a seleção de artigos mais rigorosa. A Revista Brasileira de Psiquiatria é outro exem48  z  janeiro DE 2018

plo. Como a quantidade de manuscritos submetidos vem crescendo, a proporção de artigos rejeitados chegou a 70% do total em 2017, ante 50% em 2016. “Nossa meta é chegar em 2018 a 85%”, diz o editor-chefe, Antonio Egidio Nardi, do Instituto de Psiquiatria da Universidade Federal do Rio de Janeiro. O periódico teve FI de 2,049 em 2016, ante 1,391 em 2009, quando entrou na lista do JCR pela primeira vez. A boa evolução, diz Nardi, teve início nos anos 1990, quando a revista passou a publicar só artigos em inglês. apoio editorial

Algumas revistas buscaram apoio editorial especializado para melhorar seu desempenho. Há alguns anos, a Elsevier ofereceu a periódicos do Brasil, que em geral pertencem a sociedades científicas e universidades, a oportunidade de terceirizarem seu processo de organização e publicação de artigos. Pouco mais de uma dezena de revistas contratou esses serviços, que, no entanto, não está mais disponível. “Houve uma confusão em setores da comunidade científica e surgiram críticas de que estávamos encampando as revistas, o que não era verdade”, diz Dante Cid, vice-presidente de relações acadêmicas da Elsevier na América Latina. Mas há outras opções de apoio. Terceira publicação do país no ranking do JCR, com FI de 2,347 citações por artigo, a Diabetology & Metabolic Syndrome associou-se à BioMed Central (BMC), plataforma de revistas on-line e de acesso aberto vinculada ao grupo Springer Nature. A BMC adota em suas publicações estratégias para ampliar o FI, como a designação de um corpo editorial de alto nível e capaz de prospectar

bons artigos, e a alta seletividade no processo de revisão, mesmo que isso implique na publicação de um número pequeno de papers. Uma estratégia recente para atrair bons artigos foi a redução no prazo de avaliação – o periódico demorava 100 dias para dar a primeira resposta a autores e hoje toma essa decisão em 45 dias. Segundo Sergio Vencio, editor da revista, a rapidez não levou a um afrouxamento dos critérios de seleção. “Recentemente, eu não conseguia revisores para um artigo e sugeri à BMC dar uma resposta positiva com base em apenas um parecer. Eles não permitiram.” A revista se dedica a temas de pesquisa transversais, que interessam a endocrinologistas, cardiologistas, geriatras e educadores físicos. “O Brasil tem uma comunidade de pesquisa em diabetes forte, mas seus membros publicavam no exterior. Identificamos um nicho”, diz Vencio. Em comum, as revistas com maior FI investiram em um processo de internacionalização e dispõem de editores ativos, observa Abel Packer, coordenador da biblioteca SciELO (sigla de Scientific Electronic Library Online). “São periódicos que se aperfeiçoaram seguidamente. Os primeiros da lista só publicam artigos em inglês já há bastante tempo, o que amplia o universo de citantes”, diz. Muitas dessas revistas são das áreas de saúde e de biologia. Segundo Packer, o maior FI se explica, além da qualidade dos periódicos, pelo fato de que essas áreas têm um padrão de citações maior do que outras disciplinas. “Entretanto, ao relativizar por área temática, outros periódicos se destacam, como os de ciências agrárias. Scientia Agricola é o melhor exemplo: foi o periódico de maior impacto relativo em 2015 e é o terceiro em 2016.” A SciELO é um programa criado pela FAPESP em 1997, com apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológi-

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7

léo ramos chaves

co (CNPq), para melhorar a qualidade de periódicos brasileiros. A biblioteca oferece hoje 283 revistas em acesso aberto na web. Dos cinco periódicos do país com FI superior a 2, três deles estão na SciELO. “O Brasil, com apoio da SciELO, vem desenvolvendo capacidade nacional de produzir periódicos de qualidade editorial similar à de publishers comerciais, o que enriqueceu o mercado nacional de editoração científica com soluções eficientes e mais baratas”, diz Packer. “Algumas empresas brasileiras prestam serviços de editoração a periódicos de outros países. Periódicos do Brasil editorados pelos publishers internacionais não apresentam vantagem competitiva em termos de desempenho por citações.” A elevação do FI em geral leva tempo. Para o editor do Jornal de Pediatria, Renato Procianoy, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, o crescimento do FI da publicação – na casa de 2 em 2015 e 2016, ante 1,194 em 2014 – é resultado de uma estratégia iniciada nos anos 2000, quando a revista foi incorporada à coleção SciELO e passou a seguir padrões internacionais de editoração. Mais tarde, ingressou na base Web of Science. Em 2005, passou a receber artigos só em inglês. “Em 2009 o FI foi medido pela primeira vez e esteve na casa de 1,13. Mantivemos esse nível, até que nos últimos dois anos ele chegou a 2, em função da busca ativa por artigos de qualidade.”

Ser seletivo ajuda a mostrar a boa ciência feita no país, diz Claude Pirmez, editora do Memórias do Instituto Oswaldo Cruz

mudanças

A trajetória do Journal of Venomous Animals and Toxins including Tropical Diseases (JVATiTD) é pontuada por estratégias para ampliar sua visibilidade. Entre 2007 e 2014, o seu FI variou entre 0,35 e 0,5. Triplicou sua influência e atingiu 1,447 em 2017. “Estávamos em um ponto em que perguntávamos qual era o sentido de continuar gastando dinheiro público com uma revista que tinha pouca repercussão mundial. Resolvemos procurar um parceiro para nos ajudar”, informa o editor-chefe, Benedito Barraviera, da Faculdade de Medicina de Botucatu da Universidade Estadual Paulista (Unesp). A revista, publicada pelo Centro de Estudos de Venenos e Animais Peçonhentos da Unesp, associou-se à BMC, que recomendou mudanças. Ela reduziu o número de artigos publicados por ano de 70 para 40, foi indexada à base de dados PubMed Central, a mais importante da

área da saúde, e reforçou o corpo editorial. “A BMC sugeriu que escolhêssemos pesquisadores de alto nível do Brasil e do exterior comprometidos em colaborar e prospectar bons artigos”, diz Barraviera. Algumas estratégias envolvem controvérsias. Os membros do corpo editorial são estimulados a submeter seus melhores artigos à própria revista. “Há quem veja nisso conflitos de interesse, embora o manuscrito passe pelos peer reviews como os demais e possa ser rejeitado”, afirma. Barraviera também defende que os membros do corpo editorial citem bons papers do JVATiTD quando publicam seus artigos em periódicos internacionais de alto impacto e até sugiram a inclusão de referências a artigos da revista quando são convidados a dar pareceres sobre manuscritos de outros periódicos. “Toda revista deve ter um robusto banco de dados com todos os papers publicados para

dar apoio aos peer reviews. O revisor pode encontrar papers interessantes ali e indicá-los para leitura, se forem pertinentes”, diz. “O bom revisor sugere modificações do paper, na forma de novas leituras ou inclusão e supressão de textos e de referências, sempre com foco na melhoria do artigo. Essas condutas não modificam o FI do periódico, mas apenas aumentam o prestígio e a visibilidade. A palavra final é sempre do autor, que aceitará ou não as sugestões dos peer reviews.” A prática de sugerir citações não é recomendada pelas Diretrizes éticas para revisores, lançadas em 2013 pelo Committee on Publication Ethics, fórum de editores de revistas científicas, entre as quais 69 do Brasil, que é referência em temas ligados à integridade científica. O documento diz que os revisores devem “abster-se de sugerir que os autores incluam citações de seus trabalhos ou de associados apenas para aumentar a contagem de citações ou a visibilidade desses trabalhos”. Segundo Sonia Vasconcelos, professora da UFRJ e especialista em integridade científica, tais práticas “estão distantes daquelas recomendadas para o referenciamento responsável da literatura. Além de eticamente questionáveis, fragilizam a confiabilidade dos artigos”. Nessa mesma linha, editores de algumas revistas do país, embora vejam o FI como indicador de qualidade, consideram que ampliá-lo a qualquer preço pode desvirtuar o papel dos periódicos. “Nosso objetivo é fazer uma revista de qualidade. O fator de impacto é uma consequência”, diz o sociólogo Leopoldo Antunes, da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP) e editor da Revista de Saúde Pública, cujo FI cresceu de 0,862 em 2010 para 1,353 em 2017. Os artigos são publicados em inglês e em português, pois seus editores consideram que o periódico deve conciliar internacionalização com a missão de divulgar a pesquisa em saúde no país. “A revista é referência para pesquisadores e também para um público formado por profissionais de saúde e formuladores de políticas públicas”, afirma Antunes. n Fabrício Marques

Projeto Desenvolvimento e operação da coleção SciELO Brasil para o período de 1º de novembro de 2016 a 31 de outubro de 2019 (nº 15/26964-1); Modalidade Auxílio à Pesquisa – Regular; Pesquisador responsável Abel Laerte Packer (Fundação de Apoio à Unifesp); Investimento R$ 21.756.884,07 (para todo o projeto).

pESQUISA FAPESP 263  z  49


ciência  SAÚDE y

Mais uma possível causa do

Inflamação reduz conexões de neurônios obtidos em laboratório a partir de células do dente de crianças com o transtorno neurológico Diego Freire

D

entes de leite que chegam ao laboratório dos pesquisadores do projeto “A fada do dente”, na Universidade de São Paulo (USP), estão ajudando a conhecer melhor as alterações que podem ocorrer no cérebro em algumas formas de autismo, um conjunto de distúrbios de origem neurológica que se manifestam na infância e podem prejudicar, em maior ou menor grau, as capacidades cognitiva, de comunicação e de interação social, além da habilidade motora. De causas ainda pouco conhecidas, o autismo – ou os transtornos do espectro do autismo, como preferem os especialistas – inclui quadros tão variados quanto o autismo clássico, marcado por dificuldades severas de linguagem e de interação social, ou a síndrome de Asperger, na qual a inteli-

50  z  janeiro DE 2018

gência é normal ou superior à média e a aquisição da linguagem se dá sem problemas, mas são comuns os gestos repetitivos e a falta de controle em movimentos delicados. Esses transtornos atingem cerca de 1% das crianças na Inglaterra e nos Estados Unidos – não há estudos detalhados sobre sua frequência no Brasil – e são quatro vezes mais comuns entre meninos do que entre meninas. A partir de dentes de leite doados por crianças com e sem autismo, os grupos liderados pelos neurocientistas brasileiros Patricia Beltrão Braga, da USP, e Alysson R. Muotri, da Universidade da Califórnia em San Diego, nos Estados Unidos, confirmaram que uma inflamação em células cerebrais chamadas astrócitos pode estar associada ao desenvolvimento de uma forma grave desse transtorno. Mais importante: ao menos em laboratório, o controle da inflamação nos astrócitos reverteu alterações que ela provoca nos neurônios, as células responsáveis por transmitir e armazenar informações no cérebro e que se encontram mais imaturas nessa forma de autismo. Como seria arriscado e antiético extrair as células do cérebro das crianças, os pesquisadores se valeram de uma alternativa engenhosa para recriá-las em laboratório. Eles recuperaram algumas células do interior de dentes que caem naturalmente na infância e usaram compostos químicos para fazê-las regressar a um estado mais versátil, a partir do

ilustraçãO  anna cunha

autismo


pESQUISA FAPESP 263  z  51


qual poderiam gerar outros tipos celulares. Em seguida, adicionaram compostos que as estimularam a se transformar em células cerebrais. Durante o doutorado, orientado por Patricia e Muotri, a bióloga Fabiele Russo obteve neurônios e astrócitos a partir dos dentes de leite de três garotos brasileiros. Eles haviam sido atendidos por um dos principais especialistas do país em autismo – o psiquiatra infantil Marcos Mercadante, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), morto em 2011 – e apresentavam uma forma grave do problema. Tinham dificuldade de aprender tarefas e informações e de se relacionar. Também falavam poucas palavras e executavam movimentos repetitivos. Neurônios gerados a partir de células do dente desses meninos eram mais imaturos e menos complexos. Tinham menos ramificações e faziam menos conexões com outros neurônios do que os obtidos do dente de crianças sem autismo. Eles também eram menos ativos (emitiam menos impulsos elétricos) do que os dos garotos do grupo de controle. “Alterações na forma e no funcionamento dos neurônios podem prejudicar o desenvolvimento e a atividade dos circuitos cerebrais”, lembra Fabiele. a influência dos Astrócitos

Uma inflamação parece estar por trás da alteração na forma e no funcionamento dos neurônios, indicam os resultados dos experimentos, publicados em outubro de 2017 na revista Biological Psychiatry. As evidências da inflamação vêm da análise dos astrócitos. Com forma de estrela, essas células fazem bem mais do que preencher o espaço entre os neurônios. Hoje se sabe que os astrócitos controlam a formação de ramificações dos neurônios e regulam a concentração de compostos, como os neurotransmissores, responsáveis pela comunicação química entre as células cerebrais. Fabiele observou que os astrócitos gerados a partir de células de crianças com autismo produziam uma quantidade maior de uma molécula inflamatória: a interleucina 6 (IL-6). Análises anteriores, feitas em tecido cerebral post mortem, já haviam associado níveis elevados de IL-6 ao autismo, mas não permitiam saber se as altas concentrações dessa molécula eram causa ou consequência do problema. Os pesquisadores da USP e 52  z  janeiro DE 2018

Em forma de estrela, o astrócito controla o desenvolvimento de neurônios e regula a concentração de neurotransmissores

da Califórnia obtiveram indícios de que a inflamação antecede o autismo em uma sequência de experimentos em que neurônios foram cultivados com astrócitos com e sem sinais de inflamação. Neurônios sadios que se desenvolveram no mesmo recipiente que astrócitos inflamados apresentaram menos ramificações e conexões e se tornaram menos ativos. O oposto ocorreu quando neurônios obtidos do dente de crianças com autismo eram colocados durante alguns dias com astrócitos dos garotos sem o problema: na companhia de astrócitos saudáveis, os neurônios produziram mais ramificações e conexões com outras células (ver página ao lado). O mesmo se observou ao acrescentar à cultura de neurônios de pessoas com autismo um anticorpo que bloqueia a ação da IL-6. “Essas alterações nos fazem pensar que algumas formas de autismo sejam

causadas por um problema nos astrócitos, e não nos neurônios”, conta Patricia, coordenadora do braço brasileiro do projeto internacional “A fada do dente”, assim chamado em referência à figura do imaginário popular de alguns países que recompensa as crianças pelo dente de leite recém-caído deixado sob o travesseiro. Caso outros estudos confirmem a influência dessa neuroinflamação sobre certas formas de autismo, talvez, no futuro, torne-se possível desenvolver um tratamento farmacológico para o problema. As terapias atuais se baseiam em acom­­ panhamento psicoterápico para estimular a interação com outras pessoas e permitir uma vida mais independente, além do uso de medicação para combater problemas secundários, como a dificuldade de dormir ou de se concentrar. “Se um dia for possível reverter essas alterações celulares no cérebro de uma criança em desenvolvimento, talvez se torne viável amenizar as manifestações do autismo”, diz a neurocientista. O caminho deve ser longo. “Apesar de funcionar bem in vitro, o tratamento que inibe a IL-6 em seres humanos deve ser investigado cuidadosamente, já que há relatos de que possa agravar a inflamação dos neurônios”, adverte Muotri,


imagens  fabiele russo / laboratório de células-tronco e modelagem de doenças / usp

pai de um garoto com autismo e, com Patricia e colaboradores, cofundador da Tismoo, empresa brasileira de biotecnologia, com filial nos Estados Unidos, que realiza análises genômicas em busca de causas e possíveis terapias para autismo e outros transtornos neurológicos de origem genética. Em um ensaio clínico recente que testou um composto para bloquear a ação da IL-6 em pessoas com uma forma de degeneração que atinge o nervo óptico e a medula espinhal, uma participante desenvolveu um quadro mais grave, relataram os pesquisadores em 2016 na revista Multiple Sclerosis. Anos atrás, Muotri já havia verificado que neurônios gerados a partir da reprogramação de células da pele de crianças com síndrome de Rett – um transtorno semelhante ao autismo, mas que só afeta meninas – também eram imaturos e apresentavam menos conexões. Em laboratório, esse efeito foi revertido ao aplicar sobre as células o antibiótico gentamicina ou o fator de crescimento semelhante à insulina 1 (IGF-1). O problema, verificou-se depois, é que o primeiro é relativamente tóxico e o segundo não chega ao cérebro em níveis adequados (ver Pesquisa FAPESP nº 184). O desafio do diagnóstico

Ainda que se esteja distante de compreender as causas do autismo (alterações em 800 genes já foram associadas ao transtorno), a reprogramação celular e as análises genéticas talvez ajudem no diagnóstico, que nem sempre é fácil e pode demorar. A identificação do autismo é feita por um psiquiatra ou um neurolo-

O efeito da inflamação Astrócitos inflamados, obtidos a partir de células do dente de crianças com autismo, prejudicaram o desenvolvimento dos neurônios, que apresentaram menos ramificações e eram menos ativos

Neurônio normal cultivado com astrócito normal

Neurônio normal cultivado com astrócito de autista

Neurônio de autista cultivado com astrócito normal (no alto, à esq.)

Neurônio de autista cultivado com astrócito de autista (no alto, à dir.)

gista bem treinado, que examina a criança e avalia sua história de vida em busca de sinais de atraso no desenvolvimento e na capacidade de interagir socialmente. Os sintomas podem surgir cedo, nos primeiros meses de vida, e é importante que o diagnóstico seja precoce. É que o cérebro se desenvolve mais rapidamente nos primeiros anos após o nascimento, fase em que a criança começa a adquirir a linguagem e a interagir com adultos e outras crianças. De modo geral, porém, o diagnóstico costuma tardar. Alguns especialistas estimam que, normalmente, a confirmação do autismo se dê por volta dos 3 anos de idade. No Brasil, essa identificação possivelmente demora ainda mais. Em uma entrevista à Pesquisa FAPESP em 2011, Mercadante, da Unifesp, calculava que ela só ocorresse por volta dos 5 ou 6 anos, quando os prejuízos na sociabilidade são mais difíceis de mitigar.

A fim de identificar as razões dessa demora, pesquisadores do Ambulatório de Cognição Social da Unifesp e da Universidade Presbiteriana Mackenzie realizaram entrevistas minuciosas com 19 mães de filhos diagnosticados com autismo na cidade de São Paulo. A maioria delas (68%) notou que havia algo anormal no desenvolvimento do filho antes de a criança completar 2 anos de vida – não respondia quando chamada pelo nome, não fazia contato visual ou não falava. Ao perceber o problema, quase todas as mulheres (79%) procuraram ajuda médica nos três meses seguintes. O diagnóstico, entretanto, só foi confirmado, em média, três anos após a suspeita inicial (em alguns casos levou oito anos). Apresentados em um artigo publicado em outubro de 2017 na Revista Brasileira de Psiquiatria, esses são os resultados parciais de um estudo maior, feito com 250 famílias de pessoas com autismo. pESQUISA FAPESP 263  z  53


Análise de imagens indica haver uma alteração no padrão de ativação de áreas anteriores e posteriores do cérebro

Sincronia perdida

Sincronia reforçada

O giro paracingulado (

), na

Aumenta a sincronia com que

• • •

porção anterior do cérebro, deixa

são ativados o polo occipital (

de ser ativado simultaneamente

o córtex intracalcarino (

• •

ao giro temporal-medial ( e ao córtex pré-cúneo (

)

), na

),

)

e o córtex occipital-lateral (

),

indicando existir um aumento na

posterior, sugerindo uma redução

conectividade entre essas áreas

na conectividade entre essas áreas

da região posterior do cérebro

Uma das razões do atraso no diagnóstico seria, portanto, o despreparo ou a desinformação do médico. “A maioria dessas mães, 84%, mencionou suas preocupações a respeito do comportamento atípico do filho primeiro ao pediatra, mas ouviu coisas como ‘crianças não têm que ser comparadas entre si’, ‘meninos se desenvolvem mais lentamente do que meninas’, ‘meninos são mais agitados’”, conta Sabrina Ribeiro, psicóloga do Ambulatório de Cognição Social da Unifesp e primeira autora do estudo. “Mais da metade delas, no entanto, se sentiu desencorajada a manifestar suas preocupações novamente”, relata a pesquisadora, que anos atrás, sob a orientação de Mercadante, realizou em Atibaia, interior de São Paulo, o maior levantamento da frequência de autismo entre crianças brasileiras – naquele estudo, 4 das 1.470 crianças (0,3% do total) tinham autismo. “Identificar o mais cedo possível é essencial para a intervenção precoce.” aprendizagem de máquina

Em Porto Alegre, uma equipe da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS), liderada pe54  z  janeiro DE 2018

lo neurocientista Augusto Buchweitz e pelo cientista da computação Felipe Meneguzzi, vem usando uma ferramenta computacional chamada aprendizagem de máquina para criar uma sequência de procedimentos autônomos (algoritmo) que tenta distinguir uma pessoa com autismo de outra sem o problema, a partir da análise de imagens do cérebro em funcionamento. O grupo desenvolveu um algoritmo classificado como deep learning, que aprende a fazer essa diferenciação de modo autônomo, sem a necessidade de dicas dos pesquisadores. A estratégia alcança um nível elevado de acerto em condições específicas e não tem o objetivo de substituir o diagnóstico clínico. A equipe da PUC usou o algoritmo para avaliar cerca de 3.500 imagens do cérebro de 1.035 indivíduos (aproximadamente metade com e metade sem autismo) de diferentes regiões dos Estados Unidos, armazenadas no banco de dados do projeto Autism Imaging Data Exchange. Conforme já havia sido observado em análises anteriores, feitas com um número menor de participantes, há uma dessincronia entre o funcionamento de áreas da porção anterior e o de áreas da

região posterior do cérebro no autismo – nos indivíduos sem autismo, essas áreas estão mais sincronizadas. Segundo os resultados do estudo, publicado on-line em agosto na revista NeuroImage: Clinical, o algoritmo do grupo da PUC identificou corretamente 70% dos casos de autismo. “Esse é o índice de acerto mais alto já obtido na análise de uma amostra grande e heterogênea”, conta Buchweitz, coordenador de pesquisa em ressonância magnética funcional no Instituto do Cérebro da PUC-RS. Estudos anteriores já alcançaram taxas mais elevadas, próximo a 100%, mas haviam sido feitos com algumas dezenas de participantes e usavam algoritmos que necessitam da supervisão dos autores para aprender a classificar as imagens. “A acurácia diminui significativamente em grupos maiores e com imagens obtidas em diferentes centros”, escreveram os pesquisadores no artigo. O resultado animador, no entanto, não significa que as análises computacionais devam se tornar disponíveis tão cedo para diagnósticos na vida real. “Nosso objetivo não é substituir o diagnóstico clínico, que funciona”, conta Buchweitz. Uma das razões é que o poder de predição do algoritmo só é alto nos casos em que metade dos participantes tem autismo e metade não, como no banco de dados usado na avaliação inicial. É algo distante do que ocorre na população, na qual a frequência do problema gira em torno de 1%. “Nessas condições, a taxa de acerto real do algoritmo cairia para cerca de 4%”, afirma o neurocientista. “Nosso algoritmo talvez auxilie na identificação dos casos mais difíceis, em que o exame clínico não é conclusivo, pois ele poderia indicar quanto o funcionamento do cérebro do indivíduo se aproxima do de uma pessoa com autismo.” n

Projeto Geração de células pluripotentes induzidas de pacientes com transtorno autista (nº 11/20683-0); Modalidade Bolsa de Doutorado; Pesquisadora responsável Patricia Cristina Baleeiro Beltrão Braga (USP); Bolsista Fabiele Baldino Russo; Investimento R$ 73.006,05.

Artigos científicos HEINSFELD, A. et al. Identification of autism spectrum disorder using deep learning and the ABIDE dataset. NeuroImage: Clinical. On-line. 30 ago. 2017. RUSSO, F. et al. Modeling the interplay between neurons and astrocytes in autism using human induced pluripotent stem cells. Biological Psychiatry. out. 2017. RIBEIRO, S. et al. Barriers to early identification of autism in Brazil. Revista Brasileira de Psiquiatria. out. 2017.

imagens  HEINSFELD, A. et al. neuroimage:clinical. 2017

Diferenças no autismo


GENÉTICA y

Desgaste em alta velocidade Pesquisadores brasileiros testam hormônio masculino para amenizar sintomas de doença rara que afeta a produção de células sanguíneas Moura Leite Netto

SCIENCE PHOTO LIBRARY

H

á pouco mais de três anos 18 pessoas comparecem uma vez a cada duas semanas ao Centro de Terapia Celular da Universidade de São Paulo (USP) em Ribeirão Preto para tomar uma injeção de nandrolona, uma versão sintética do hormônio sexual masculino testosterona. Com idade variando entre 4 e 55 anos, elas apresentam um grupo de doenças genéticas raras que atinge, em média, uma pessoa em cada grupo de 1 milhão e provoca o encurtamento acelerado dos telômeros – as extremidades dos cromossomos, estruturas formadas por DNA e que abrigam os genes no interior das células. A redução acentuada dos telômeros leva algumas células, como as do sangue, a envelhecerem rapidamente e morrer mais cedo, na maioria dos casos, antes de serem repostas. Uma das consequências mais graves dessas enfermidades é a redução na capacidade da medula óssea (compartimento no interior dos ossos) de produzir os diferentes tipos de células sanguíneas. Por essa razão, quem sofre com algumas dessas doenças – em especial, a disqueratose congênita, a mais grave delas – tem de se submeter a transfusões de sangue frequentes ou ao transplante de medula óssea, que nem sempre funciona.

Imagem de microscopia eletrônica de um cromossomo humano ampliado 19,5 mil vezes. Os telômeros são suas extremidades, coloridos artificialmente de verde pESQUISA FAPESP 2XX  z  55


O

s testes com a nandrolona ainda não terminaram e devem incluir ao menos dois outros participantes. Os resultados preliminares, no entanto, sugerem que, assim como outro hormônio sintético masculino testado previamente pelo grupo, a nandrolona promove a produção de telomerase, enzima que restaura os telômeros, reduzindo o ritmo de encurtamento dessas estruturas. De fato, pessoas com disqueratose e outras doenças que causam desgaste acentuado dos telômeros produzem uma versão falha dessa enzima. Os dados, que ainda não foram publicados, também indicam que essa versão do hormônio produziu poucos efeitos indesejados. Apenas duas pessoas tiveram de interromper o uso da medicação: uma que foi diagnosticada com depressão e outra que desenvolveu um quadro grave de acne. “São eventos que não comprometem a

Em testes in vitro, hormônio masculino alongou os telômeros e aumentou a produção de células sanguíneas

segurança e não interferem na continuidade do estudo”, diz Calado, coordenador do trabalho, financiado pela FAPESP, pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e pelo Ministério da Saúde. Calado decidiu testar a nandrolona como alternativa a outro composto avaliado alguns anos antes. Em um estágio de pós-doutorado no laboratório do hematologista Neal Young, nos Institutos Nacionais de Saúde (NIH) dos Estados Unidos, ele havia participado de um ensaio clínico no qual 27 pessoas com disqueratose congênita foram tratadas por dois anos com uma dose diária de danazol, composto sintético com ação semelhante à dos hormônios sexuais masculinos. Segundo os resultados, publicados em maio de 2016

1

56  z  janeiro DE 2018

no New England Journal of Medicine, 19 (79%) dos 24 participantes avaliados no terceiro mês de tratamento passaram a produzir mais células sanguíneas, efeito que se mostrou duradouro. Das 12 pessoas que completaram os dois anos de terapia, 10 continuavam com a medula óssea funcionando melhor e produzindo mais células e apresentaram uma redução de 20% no ritmo de encurtamento dos telômeros. Apesar dos resultados promissores, o composto era mais tóxico: 41% dos participantes passaram a apresentar níveis elevados de enzimas no fígado, um sinal de possíveis danos hepáticos, e seis pessoas desenvolveram cirrose. “Até o momento, a nandrolona parece apresentar níveis menores de toxidade, embora também seja metabolizada no fígado”, conta o hematologista da USP. “Esses resultados servem de estímulo para a busca de compostos ainda menos tóxicos que estimulem a produção da telomerase.” Em paralelo à avaliação da nandrolona, Calado e a bioquímica Raquel Paiva trabalham para compreender por que pessoas com disqueratose e doenças semelhantes apresentam problemas de fígado em diferentes níveis de gravidade. Com a equipe de Young e a do hepatologista Bin Gao, também dos NIH, Raquel, Calado e a bióloga molecular Sachiko Kajigaya trabalharam com camundongos geneticamente alterados para não produzir dois componentes da telomerase. Além de reparar os telômeros, essa enzima também influencia a produção de energia nas células. Nos experimentos, os pesquisadores alimentaram os animais por duas semanas com uma dieta hiperlipídica e observaram que aqueles que quase não produziam telomerase acumulavam mais gordura nas células do fígado (hepatócitos), causando uma inflamação no órgão, segundo artigo publicado em janeiro de 2018 na revista Liver International. “Já se sabia que telômeros curtos demais reduziam a produção de energia nas células do fígado por afetar outras vias bioquímicas”, conta Calado. “Agora, identifi-

Cromossomos de células com mutações típicas da disqueratose congênita. Seus telômeros (pontos verdes) são mais curtos que os de células sadias

foto Batista Lab / Universidade de Washington em Saint Louis  infográfico ana paula campos

No ensaio clínico que vem desenvolvendo em Ribeirão Preto desde 2014, o hematologista Rodrigo Tocantins Calado testa a segurança e a eficiência do uso da nandrolona para promover o aumento da extensão dos telômeros e estimular a medula óssea a produzir células sanguíneas. Há algum tempo se sabe que os hormônios sexuais masculinos são fundamentais para o bom funcionamento da medula óssea. Além dessa evidência, resultado de observações clínicas, o próprio Calado havia verificado em 2009, em testes in vitro com células-tronco da medula óssea, que o aumento da produção de células sanguíneas é decorrente do alongamento dos telômeros, por sua vez induzido pelo hormônio masculino.


Célula

Reparo em ação Em células saudáveis, a enzima telomerase restaura a extremidade dos cromossomos

Núcleo Cromossomos Estruturas formadas por uma longa molécula de DNA que abrigam os genes no núcleo das células

Telômeros Extremidades dos cromossomos, mais sujeitas a danos genéticos e à perda de pequenos pedaços

ia nc uê ses q Se e ba d

Telomerase Enzima produzida pelas células-tronco que restaura o comprimento dos telômeros ao acrescentar cópias da sequência de bases nitrogenadas TTAGGG

envelhecimento celular natural Toda vez que uma célula se divide, os telômeros encurtam, apesar da ação da telomerase. Após muitas divisões, com os telômeros curtos demais, a célula morre

Célula em divisão

Células em fase terminal

U

sando a técnica de edição de genes CRISPR-Cas9, eles inseriram as mutações genéticas mais frequentes na disqueratose em células-tronco derivadas de embriões humanos. Apresentado em agosto na Stem Cells Report, o resultado revelou que a suspeita era parcialmente correta. O encurtamento acelerado dos telômeros, decorrente da baixa atividade da telomerase ou de sua produção insuficiente, prejudica essencialmente uma fase da produção das células sanguíneas chamada hematopoiese definitiva, que se inicia no final do desenvolvimento embrionário, quando são originadas as células das três linhagens sanguíneas. Mas parece favorecer a hematopoiese primitiva, que ocorre antes, quando o embrião começa a se formar, e é responsável pela produção das populações transitórias de células do sangue características do início da vida. “Esses resultados coincidem com o que se vê na prática clínica”, afirma Batista. n

Projetos

Fonte  Rodrigo Tocantins Calado / USP-RP

camos um mecanismo adicional.” Como os danos hepáticos são mais frequentes em pessoas com disqueratose congênita e enfermidades similares, Calado considera “fundamental que esses pacientes evitem uma dieta gordurosa”. Outro achado recente que contou com a participação de brasileiros ajuda a entender por que as pessoas com disqueratose congênita perdem progressivamente a capacidade de produzir células sanguíneas. Algumas estimativas indicam que,

das células-tronco hematopoiéticas, as células imaturas que originam os diferentes tipos de células sanguíneas. Como é difícil fazer biopsias para averiguar a influência do encurtamento dos telômeros sobre a evolução da produção de células sanguíneas, o biólogo brasileiro Luis Francisco Zirnberger Batista e seu colega canadense Christopher Surgeon, ambos professores na Universidade de Washington em Saint Louis, Estados Unidos, desenvolveram um modelo in vitro para simular o amadurecimento do sistema hematopoiético em condições semelhantes à da disqueratose.

a partir do final da infância, 85% delas apresentam uma diminuição importante na capacidade de gerar uma das três linhagens de células do sangue (hemácias, leucócitos e plaquetas) e que, na idade adulta, 95% têm problemas para produzir as três. Nos casos extremos, a medula óssea para de funcionar e leva à morte. Imaginava-se que, na disqueratose, a renovação do sangue deixasse de ocorrer porque o encurtamento excessivo dos telômeros afetasse o funcionamento

1. Correlação entre genótipo, comprimento telomérico e fenótipo nas telomeropatias (nº 16/12799-1); Modalidade Auxílio à Pesquisa – Regular; Pesquisador responsável Rodrigo do Tocantins Calado de Saloma Rodrigues (USP); Investimento R$ 142.917,48. 2. Centro de Terapia Celular (CTC) (nº 13/08135-2); Modalidade Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepid); Pesquisador responsável Dimas Tadeu Covas (USP); Investimento R$ 31.294.138,11 (para todo o projeto).

Artigos científicos ALVES-PAIVA, R. M. et al. Telomerase enzyme deficiency promotes metabolic dysfunction in murine hepatocytes upon dietary stress. Liver International. v. 38, p. 14454. jan. 2018. TOWNSLEY, D. M. et al. Danazol treatment for telomere diseases. New England Journal of Medicine. v. 374, p. 1922-31. 19 mai. 2016. FOC, W. C. et al. p53 mediates failure of human definitive hematopoiesis in dyskeratosis congenita. Stem Cell Reports. v.9 (2), p. 409-18. 8 ago. 2017.

pESQUISA FAPESP 263  z  57


botânica y

pela água

Grupo de plantas carnívoras reconhecido por espécies aquáticas teve origem no Brasil, indica estudo filogenético Suzel Tunes

Conectadas a filamentos, as armadilhas de Utricularia foliosa são vesículas que sugam as presas subaquáticas

58  z  janeiro DE 2018

C

fotos  Equipe do Laboratório de Sistemática Vegetal / Unesp

Colonização

om sua beleza delicada, as plan­ tas carnívoras do gênero Utricularia surpreendem pela diversi­ dade de cores, formas, tamanhos (de centímetros a metros) e hábitats. Enquanto algumas vivem no solo úmi­ do de áreas ensolaradas, outras crescem em rios e lagos. Podem fixar-se em pe­ dras às margens de cachoeiras ou viver dentro de bromélias. Em comum, as 240 espécies desse gênero, hoje espalhadas pelo mundo, têm o local de origem. Um estudo de pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp), publicado na edição deste mês da revista Molecular Phylogenetics and Evolution, indica que o berço ancestral dessas plantas é o Brasil. O artigo é parte do mestrado da biólo­ ga Saura Rodrigues da Silva, feito sob a orientação do biólogo Vitor Miranda, da Unesp de Jaboticabal. O trabalho contou com a colaboração de especialistas de outros países e é o maior estudo filoge­ nético sobre as utriculárias. “A partir da análise de sequências de DNA pudemos identificar marcadores específicos pelos quais determinamos as linhagens ances­ trais e inferimos a história evolutiva do gênero”, detalha a bióloga. Uma regra geral da evolução é que as espécies mais aparentadas apresentam menos diferenças genéticas entre si. Com base nessa premissa, foi possível estimar o tempo de divergência entre as espécies atuais e seus ancestrais com a ajuda de dois pontos de referência. “Partimos de um grão de pólen identificado no hemis­ fério Norte, já registrado na literatura e datado de 11 milhões de anos. Outro cali­ brador da árvore filogenética foi a Ilha da Juventude, pertencente a Cuba. Estudos geológicos indicam que essa ilha sur­ giu entre 5 milhões e 2 milhões de anos atrás e que esse evento estaria associado ao aparecimento de uma subespécie de carnívora do gênero Pinguicula”, expli­ ca Miranda, que usou essas informações para montar o quebra-cabeça de como as utriculárias colonizaram o mundo.


U. foliosa tem flores que atraem polinizadores, mas não os capturam

De carona com vento e aves migratórias As rotas prováveis de dispersão das plantas carnívoras do gênero Utricularia Essas plantas teriam se originado há 39 milhões de anos onde hoje é Brasil. Há 17 milhões de anos, teriam chegado à Austrália e 1 milhão de anos depois, à África. Alcançaram a América do Norte há 12 milhões de anos e, dali, dispersaram-se pela Ásia

4,7 milhões de anos atrás

12 milhões de anos atrás

5 4 6 3

2 17 milhões de anos atrás

1 39 milhões de anos atrás

3

milhões de anos atrás

16 milhões de anos atrás Fonte  SILVA, S.R. et al. Molecular phylogenetics and evolution, 2018 pESQUISA FAPESP 263  z  59


Descoberta no Facebook Os especialistas em plantas carnívoras já descobriram muitas maneiras pelas quais essas espécies atraem suas presas: umas pela cor das flores, outras pelo odor, forma, ou mesmo pela luz refletida em gotículas viscosas secretadas pelas folhas. Falta descobrir como elas atraem os próprios pesquisadores, um grupo apaixonado e fiel ao objeto de seus estudos. Já no século XIX, o naturalista inglês Charles Darwin (1809-1882) encantou-se por essas plantas, sobretudo pelas do gênero Dionaea (papa-moscas-de-vênus), que considerava uma das “mais maravilhosas do mundo”. Ela foi destaque de seu livro Insectivorous plants, publicado em 1875. Até hoje a imagem das folhas se fechando sobre

1

As gotículas pegajosas de Drosera magnifica aprisionam insetos que serão digeridos

o inseto, numa armadilha rápida e mortal, é a imagem que predomina

periódico especializado Phytotaxa.

quando se fala em planta carnívora.

A nova espécie foi batizada como

Miranda é um dos herdeiros desse

Drosera magnifica pelos biólogos por

encantamento. Tinha 14 anos quando

causa de sua “magnitude”.

começou a colecionar plantas

Alcançando mais de 1,5 metro de

carnívoras e a se corresponder (ainda

comprimento, é a maior de seu

por carta, em tempos pré-internet)

gênero nas Américas. “Além disso,

com o ecólogo vegetal Lubomír

chamativa e bonita, é realmente

Adamec, do Instituto de Botânica da

magnífica”, afirma Gonella.

Academia de Ciências da República

Na região é conhecida como

Tcheca, uma das referências mundiais

orvalhinha, por causa das gotículas

em plantas carnívoras. Adamec

reluzentes e pegajosas que cobrem

acabou se tornando colega do

as folhas longas e finas, de um

brasileiro e um dos coautores do

vermelho vivo. O visual atrai as

artigo publicado na Molecular

presas, pequenos insetos voadores,

Phylogenetics and Evolution.

que ficam presos na substância

Na internet, vários grupos de admiradores dessas plantas publicam fotos de seus achados nas redes

Drosera magnifica figura com

biólogos Paulo Gonella e Fernando

tese de doutorado de Gonella, mas

Rivadavia identificaram uma nova

corre o risco de desaparecer das

espécie de carnívora: vendo fotos

montanhas de Minas Gerais. O único

publicadas no Facebook de um amigo

local onde foi encontrada – a serra

orquidófilo que fazia caminhadas por

do Padre Ângelo – é uma montanha

montanhas de Governador Valadares,

cercada de fazendas e já bastante

em Minas Gerais. Na ocasião, Gonella

desmatada. Segundo o pesquisador,

fazia doutorado no Instituto de

a planta está na lista das espécies

Biociências da Universidade de São

criticamente ameaçadas, mas

Paulo, pesquisando o gênero Drosera.

existem iniciativas no sentido de

60  z  janeiro DE 2018

Os resultados sugerem, ainda, que a for­ ma de vida ancestral das utriculárias se­ ria terrestre. “De acordo com nossas hi­ póteses filogenéticas, as mudanças evo­ lutivas podem ter ocorrido mais de uma vez dentro do gênero”, afirma Miranda. A colonização aquática seria uma adap­ tação a locais mais pobres em nutrientes.

secretadas pela planta. destaque no primeiro capítulo da

a descoberta, descrita em 2015 no

Especialistas em adaptação

viscosa e são digeridos por enzimas

sociais. Foi assim que, em 2012, os

Uma expedição ao local confirmou

O estudo transformou uma antiga hi­ pótese em um cenário amplamente acei­ to a respeito da evolução das utriculárias: o gênero teria surgido na América do Sul por volta de 39 milhões de anos atrás. No continente, o local de origem mais provável seria o Brasil, país que detém o maior número de espécies: cerca de 70 das 95 encontradas na América do Sul, sendo 20 endêmicas. “As pesquisas em biogeografia apontam que o local de origem pode coincidir com aquele que tem maior diversidade”, destaca Saura. A partir dali, teria se espalhado para todo o mundo (ver mapa na página 59). Hoje, esse gênero é um dos mais amplamente distribuídos e representa cerca de 35% de todas as plantas carnívoras existentes. Para Miranda, a dispersão por longas distâncias teria sido feita por aves migrató­ rias que chapinhavam nas lagoas habitadas pelas plantas carnívoras. “Em distâncias mais curtas, a dispersão por vento e por água da chuva é facilitada pela morfolo­ gia das sementes, pequenas como grãos de poeira, algumas das quais medindo 2 décimos de milímetro”, diz o pesquisador.

transformar o lugar em uma unidade de conservação ambiental.

2

U. simulans é comum em campos com solos arenosos


Em situações de escassez, a capacidade de capturar presas na água pode ser um grande diferencial para a subsistência. O biólogo explica que as carnívoras realizam fotossíntese pelas folhas, co­ mo a maior parte das plantas, mas com­ plementam a nutrição com nitrogênio e fósforo que obtêm de suas presas – ge­ ralmente pequenos insetos, larvas, pro­ tozoários e microcrustáceos, no caso das utriculárias, enquanto carnívoras maiores podem incluir artrópodes e até mesmo pequenos vertebrados. A adaptação a ambientes desfavorá­ veis deu origem a um arsenal variado de armadilhas ao longo da evolução dessas plantas. Enquanto as utriculárias têm pe­ quenas bolsas (os utrículos) por meio das quais sugam as presas, outros gêneros da mesma família – a das Lentibulariaceae – desenvolveram folhas com glândulas que secretam uma solução viscosa, na qual as presas ficam coladas, ou ainda folhas espiraladas que formam um tu­ bo que conduz a presa até o local onde é feita a digestão.

fotos 1 Paulo Gonella 2 e 3 Equipe do Laboratório de Sistemática Vegetal / Unesp

“Drosófila dos botânicos”

O estudo filogenético do gênero Utricularia teve como ponto de partida os avanços feitos pelos pesquisadores da Unesp de Jaboticabal no campo da genômica. Vitor Miranda desenvolveu uma colaboração extensa com o bioinformata Alessandro de Mello Varani,da mesma instituição. Em julho de 2017 eles publicaram na revista PLOS ONE o primeiro genoma mitocon­ drial de uma planta brasileira, justamen­ te uma carnívora, de hábitat terrestre, nativa e endêmica do país: Utricularia reniformis. “Resolvemos começar pelas etapas menores; o núcleo é maior e tem mais DNA”, explica Varani. Antes da mitocôn­ dria eles já tinham sequenciado e publi­ cado na PLOS ONE, em 2016, o genoma do cloroplasto, a organela responsável pela fotossíntese. O genoma completo da planta engloba esses dois compartimen­ tos e mais o núcleo, cujo sequenciamento já foi feito e está em fase de finalização. Os pesquisadores defendem que o se­ quenciamento completo da brasileira Utricularia reniformis pode transformá-la em mais uma opção para estudos de genética, somando-se à Arabidopsis thaliana, plan­ ta herbácea da família Brassicaceae (que inclui a mostarda e a couve). Com geno­ ma pequeno, a Arabidopsis foi a primeira

U. reniformis vive em áreas abertas e encostas com musgos

3

planta a ter o DNA mapeado, tornando-se um modelo na botânica, a exemplo do que ocorre com a mosca-das-frutas (Drosophila melanogaster) na zoologia. “O genoma das Utricularias varia muito de tamanho e pode ser quatro vezes menor ou maior do que o da Arabidopsis”, destaca Miranda. “Agora estamos investigando as causas dessa contração e expansão genô­ mica.” Uma possibilidade para a contração é a alta produção de espécies reativas de oxigênio, ou radicais livres, derivadas do metabolismo mitocondrial nas carnívoras desse gênero. “As espécies reativas podem causar quebras de DNA, o que talvez ex­ plique as altas taxas de mutação – e, con­ sequentemente, a grande diversidade de formas – encontradas nas utriculárias”, explica Saura. Já uma das hipóteses para a expanção pode estar relacionada com a duplicação de pedaços de DNA. O sequenciamento do cloroplasto e da mitocôndria também trouxe surpresas. Em U. reniformis vários genes relaciona­ dos à fotossíntese não foram encontrados nos cloroplastos, a organela responsável por fabricar açúcares a partir da luz solar e do gás carbônico presente no ar. Ina­ tivados, esses genes haviam sido trans­ feridos para as mitocôndrias da planta.

“O motivo, ainda a ser elucidado, pode ter relação com a adaptação da planta à carnivoria”, supõe Varani. “Estamos ainda no campo da ciência básica, buscando entender a evolução dessa espécie”, destaca o bioinformata. “Queremos saber o que determinou tal versatilidade, permitindo que espécies do mesmo gênero tenham hábitos ter­ restres ou aquáticos.” No futuro, imagina o pesquisador, o mapeamento genético dessas plantas, além do já reconhecido interesse científico, pode ter, também, aplicação biotecnológica para outros ti­ pos de plantas. “Talvez seja possível, por exemplo, conferir maior resistência à água a espécies com valor comercial.” n

Projetos 1. Genômica e transcriptoma de Utricularia reniformis (Lentibulariaceae): Uma abordagem funcional e evolutiva (nº 13/25164-6); Modalidade Auxílio à Pesquisa – Regular; Pesquisador responsável Alessandro de Mello Varani (Unesp); Investimento R$ 172.933,90. 2. Identificação e expressão de genes relacionados à pigmentação floral em Utricularia (Lentibulariaceae) com abordagem evolutiva (nº 13/05144-0); Modalidade Auxílio à Pesquisa – Regular; Pesquisador responsável Vitor Fernandes Oliveira de Miranda (Unesp); Investimento R$ 163.054,45. Os artigos citados nesta reportagem estão listados no site.

pESQUISA FAPESP 263  z  61


ENTOMOLOGIA y

Mariposas invisíveis Insetos com poucos milímetros de envergadura passam a maior parte da vida como larva no interior de caules e folhas

Ricardo Zorzetto

N

o início de dezembro, o entomologista Gilson Moreira retornou de uma expedição a uma área de Mata Atlântica no norte do Rio Grande do Sul com a bagagem repleta de folhas e caules de árvores e arbustos para analisar em seu laboratório. Especialista em taxonomia na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), dedica-se atualmente, com sua equipe, a identificar o maior número possível de espécies de um grupo quase desconhecido de insetos: mariposas que alcançam milímetros (mm) de envergadura com as asas abertas e passam a maior parte da vida como larva ou pupa (transição para o adulto) no interior de folhas das plantas que lhes servem de alimento. Cada espécie dessas micromariposas adaptou-se ao longo da evolução a nutrir-se e a se desenvolver quase sempre em uma única espécie de planta. Por essa razão, as folhas e os caules são úteis para conhecer o inseto em seus diferentes estágios de vida – os indivíduos adultos são difíceis de encontrar e de capturar porque, além de 62  z  janeiro DE 2018

diminutos, vivem apenas horas ou dias e são pouco atraídos pela luz, diferentemente das ma­riposas maiores. “Há alguns anos notei que a mor­fologia dos indivíduos imaturos é extremamente adaptada ao ambiente em que crescem e se desenvolvem e passei a coletar algumas estruturas das plantas em que vivem para estudar as larvas e as pupas”, conta Moreira. O pesquisador gaúcho e seus colaboradores estão no momento interessados em um grupo especial de micromariposas: a família Gracillariidae. Com quase 1,9 mil espécies já identificadas no mundo e apenas 185 nas Américas, esses insetos têm um hábito bastante peculiar. Suas larvas são hábeis cavadoras de túneis, razão por que essas mariposas são chamadas de minadoras. Enquanto as larvas (lagartas) das mariposas grandes consomem as folhas inteiras de suas plantas prediletas, as das minadoras deixam marcas mais sutis. Tão logo eclode o ovo, ela penetra na folha e, com afiadas mandíbulas microscópicas, rompe a parede das células e con-

Exemplar adulto da micromariposa Phyllocnistis hemera, que alcança 6 mm de envergadura com as asas abertas, pousado sobre uma folha de embira-branca


some seu conteúdo rico em clorofila, pigmento que a deixa esverdeada. A olho nu, vê-se apenas o rastro intumescido e ziguezagueante do túnel aberto pela larva ao devorar o interior da folha. Olhos experientes conseguem localizar o ponto em que a larva estaciona, tece um casulo de seda e entra em um estágio de pupa antes de rasgar a folha e emergir como adulto.

fotos  Gilson Moreira / ufrgs

relação íntima

Os pesquisadores estão interessados em conhecer melhor as mariposas dessa família para compreender como surgiu uma conexão tão íntima entre algumas espécies e as plantas que as hospedam. Também há uma razão comercial, já que algumas micromariposas da família Gracillariidae são consideradas pragas agrícolas. Uma delas, a Phyllocnistis citrella, originária da Ásia, espalhou-se pelo mundo nas últimas décadas e ataca as folhas jovens dos pés de limão, laranja e pomelo (grapefruit). Anos atrás, pesquisadores da Universidade Politécnica de Valência, na Espanha, avaliaram 10 pomares atacados por Phyllocnistis citrella e verificaram danos em 52% das novas folhas das árvores não pulverizadas com inseticidas, diante de 8% das tratadas, embora, segundo estudo publicado em 2002 no Journal of Economic Entomolgy, não tenha havido prejuízo à floração e aos frutos no período analisado. Em meados de novembro, Moreira e seus colaboradores descreveram uma nova espécie de uma

minadora da família Gracillariidae. É a Phyllocnistis hemera, que, adulta, mede 6 mm da ponta de uma asa à extremidade da outra. Moreira, Júlia Fochezato e Rosângela Brito, respectivamente suas orientandas de mestrado e doutorado, encontraram as micromariposas em maio de 2016 em uma reserva florestal em São Francisco de Paula, nordeste do Rio Grande do Sul, nas folhas de uma embira-branca (Daphnopsis fasciculata), árvore típica da Mata Atlântica. Eles coletaram algumas larvas e folhas, marcaram a localização da planta com GPS e retornaram em janeiro, junho e julho do ano seguinte à procura de exemplares em outros estágios de desenvolvimento, como relatam em artigo publicado na Revista Brasileira de Entomologia. A botânica Rosy Mary Isaias, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), tipificou os danos nas folhas da embira-branca, enquanto a geneticista Gislene Lopes Gonçalves, da UFRGS,

Com 1 mm, a larva da Phyllocnistis hemera (à esq.) penetra na folha da embira-branca e se alimenta de suas células, criando um extenso túnel (abaixo à esq.), até atingir o estágio de pupa (abaixo)

pESQUISA FAPESP 263  z  63


fotos  Gilson Moreira / ufrgs

caracterizou a espécie da micromariposa a partir do material genético extraído de mitocôndrias das larvas. “Cada espécie nova tem uma identificação genética que funciona como um código de barras e permite comparar com as depositadas nos bancos de dados genômicos”, conta Moreira. Até 15 anos atrás, a descrição de uma nova espécie se baseava principalmente na padronagem das asas e nas características da genitália. interações complexas

A Phyllocnistis hemera é a quinta espécie desse gênero – são conhecidas 28 nas Américas – identificada pelo grupo. A primeira, encontrada em uma região muito úmida da reserva de São Francisco de Paula, é a Phyllocnistis tethys, que vive nas folhas da trepadeira Passiflora organensis, da família do maracujá. Com a região central das asas azul cintilante e as extremidades ornadas com faixas brancas e marrom e um círculo laranja, o adulto é, nas palavras do entomologista, “um bicho lindo”. Moreira começou a estudar as microEstima-se que existam 40 mil mariposas há seis anos por influência de espécies de micromariposas e 108 mil Héctor Vargas, um colega chileno com quem colabora. Além de minadoras, de mariposas maiores e borboletas eles já descreveram espécies que depositam seus ovos no interior de folhas ou do caule e induzem a planta a produzir um tecido que envolve as larvas. Esse tecido novo geralmente assume a forma de cromariposas que se supõe existir no mundo. No pequenas esferas conhecidas como galhas, que artigo publicado em 2016 na Revista Brasileira servem de abrigo para as larvas. Recentemente de Entomologia, Rosângela e seus colaboradores o grupo da UFRGS identificou a existência de afirmam que, do ponto de vista evolutivo, não uma interação ecológica complexa nas galhas da haveria razão para o número de micromaripoaroeirinha, um arbusto comum no Pampa. Qua- sas corresponder a apenas um terço do total de se um século atrás, o jesuíta português Joaquim mariposas maiores e borboletas (lepidópteros), da Silva Tavares havia proposto que as galhas que somam quase 108 mil espécies. O motivo da disparidade? Faltam pessoas treina aroeirinha se formavam em torno de ovos e larvas de microvespas. Moreira e sua equipe nadas e interessadas em identificá-las, segunconstataram agora que não são as vespas que in- do os pesquisadores. Em janeiro deste ano, um duzem a formação das galhas. Na aroeirinha, as simpósio internacional organizado por Moreira galhas surgem em reação aos ovos depositados e pelo entomólogo Vitor Becker, pesquisador pela micromariposa Cecidonius pampeanus. As aposentado da Embrapa e dono de uma coleção microvespas depositam seus ovos nas galhas já com 350 mil exemplares de mariposas e borboleexistentes e suas larvas se alimentam das larvas tas, reúne na Bahia os principais especialistas do das mariposas e de tecidos da planta (ver a re- mundo em Gracillariidae – pouco mais de uma portagem Descobertas depois de um século no dúzia de pessoas. O objetivo é aumentar a cooperação entre os grupos e despertar o interesse site de Pesquisa FAPESP). Em parceria com o casal de entomologistas de jovens pesquisadores pela área. n Jurate e Willy De Prins, da Bélgica, Rosângela Brito se baseia nas informações disponíveis sobre a família Gracillariidae para avaliar o tamanho Artigos científicos do desconhecimento sobre a diversidade desses FOCHEZATO, J. et al. Phyllocnistis hemera sp. nov. (Lepidoptera: Grainsetos. Estima-se que existam nas Américas cillariidae): A new species of leaf-miner associated with Daphnopsis cerca de 4 mil espécies de micromariposas desfasciculata (Thymelaeaceae) in the Atlantic Forest. Revista Brasileira de Entomologia. 15 nov. 2017. sa família, das quais apenas 185 são conhecidas. BRITO, R. et al. Extant diversity and estimated number of Gracillariidae Mesmo assim, o número calculado para a região (Lepidoptera) species yet to be discovered in the Neotropical region. é muito baixo perto das 40 mil espécies de miRevista Brasileira de Entomologia. v. 60, p. 275-83. 2016. 64  z  janeiro DE 2018

A micromariposa Phyllocnistis tethys, encontrada em uma reserva de Mata Atlântica no norte do Rio Grande do Sul


física y

Efeitos da turbulência quântica Perturbação introduzida em nuvem de átomos frios de rubídio produz fenômeno ondulatório similar ao da luz

1 2

Victória Flório

fotos 1 Pedro Ernesto Tavares  2 Wikimedia Commons

Q

uando submetidos a condições específicas que caracterizam os sistemas quânticos, os mesmos átomos que formam uma folha de papel, os seres vivos e as estrelas deixam de se comportar como partí­culas e passam a manifestar seu caráter de onda. Nesse estado, a matéria apresenta efeitos que violam a intuição clássica e os átomos podem atravessar barreiras antes intransponíveis. Em experimentos recentes, uma equipe coordenada por pesquisadores do Instituto de Física de São Carlos da Universidade de São Paulo (IFSC-USP) constatou que uma nuvem de átomos do elemento químico rubídio, mantida super-resfriada e confinada, preserva aspectos de seu comportamento ondulatório mesmo depois de ter sido perturbada pela geração de vórtices e evoluir para uma condição de turbulência quântica. Amostras de átomos nessas condições são bem conhecidas e estudadas, mas não se sabia qual seria o resultado da introdução de uma grande desordem nesse tipo de sistema. Os pesquisadores descrevem, em artigo publicado em outubro na revista PNAS, que, à medida que a nuvem se expande, surge um padrão granular, o speckle, característico da interferência de ondas, como a que ocorre quando a luz laser é projetada em um anteparo. Na amostra de átomos resfriados de rubídio, o speckle apresenta a forma de manchas em três dimensões. No caso do laser projetado no anteparo, ele é bidimensional. “Essa foi a primeira vez que se obser-

Sequência de manchas tridimensionais gerada por turbulência quântica em condensado de Bose-Einstein (alto) se assemelha a efeito do laser sobre um anteparo

vou speckles tridimensionais”, explica o físico Vanderlei Bagnato, do IFSC, um dos autores do artigo e coordenador do Centro de Pesquisa em Óptica e Fotônica (CePOF), um dos Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepid) da FAPESP. O grupo da USP estuda um superfluido aprisionado, o condensado de Bose-Einstein, formado por uma nuvem de centenas de milhares de átomos de rubídio presa em uma armadilha magnética. Nesse sistema, os efeitos quânticos começam a aparecer quando ele é resfriado a temperaturas da ordem de 1 milionésimo de grau acima do chamado zero absoluto, zero Kelvin, ou 273,15 graus Celsius negativos. Nessa condição, o conjunto de átomos perde toda a viscosidade e se torna superfluido, um dos estados da matéria. Para introduzir a turbulência quântica na nuvem, os físicos aplicam um campo magnético para induzir a formação de vórtices. Em seguida, desligam a armadilha e registram a expansão do condensado. É nesse momento de instabilidade que surge o speckle. A equipe de São Carlos foi uma das pioneiras em introduzir turbulência no con-

densado de Bose-Einstein. Em parceria com colegas da Universidade de Florença, na Itália, os pesquisadores paulistas mostraram em 2009 que o condensado é um meio mais simples para estudar turbulência em superfluidos do que o hélio líquido, usado normalmente. O novo trabalho amplia as possibilidades de estudo do comportamento dos speckles tridimensionais e da turbulência quântica. “Essa é uma situação nova em física, que poderá revelar efeitos ainda não investigados”, conta Pedro Ernesto Tavares, primeiro autor do artigo da PNAS. O padrão granular de manchas bidimensionais gerado por laser hoje é amplamente empregado para caracterizar superfícies de materiais. n

Projeto CePOF-Centro de Pesquisa em Óptica e Fotônica (nº 13/07276-1); Modalidade Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepid); Pesquisador responsável Vanderlei Salvador Bagnato (USP); Investimento R$ 28.014.802,21 (para todo o projeto).

Artigo científico TAVARES, P. E. S. et al. Matter wave speckle observed in an out-of-equilibrium quantum fluid. Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS). v. 114 (8), p. 12691-95. 2017.

pESQUISA FAPESP 263  z  65


Quando a luz atrai a luz Brasileiros mostram que dois fótons podem se ligar e apresentar comportamento semelhante ao de pares de elétrons em supercondutores

Marcos Pivetta

66  z  janeiro DE 2018

U

m grupo de físicos brasileiros descobriu que alguns fótons, partículas de luz, podem apresentar à temperatura ambiente uma propriedade típica dos elétrons em materiais supercondutores. Ao atravessar líquidos transparentes, um pequeno número de fótons troca vibrações com as moléculas do meio e se junta em duplas. Nesse processo há troca de energia entre os fótons. A energia perdida por uma das partículas de luz passa para o meio, que imediatamente a repassa para a outra partícula. Assim, a energia liberada por um fóton é exatamente igual à recebida pelo outro, criando uma ligação entre as duas partículas. Nos supercondutores, quando dois elétrons interagem dessa maneira e se unem em um duo, forma-se um par de Cooper, efeito quântico conhecido desde o final da década de 1950. Em partículas de luz, um fenômeno análogo nunca havia sido descrito até a publicação do estudo de pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) em 9 de novembro no periódico científico Physical Review Letters. A presença de pares de Cooper, duplas de elétrons ligados, anula a resistência à passagem de corrente elétrica em materiais que, quando resfriados a temperaturas próximas do zero absoluto (-273 °C), se tornam supercondutores. “Mas, no caso do nosso experimento, não podemos falar em supercondutividade da luz”, pondera o físico Ado Jorio, da UFMG, coordenador dos experimentos que registraram a ocorrência de pares de fótons em oito líquidos transparentes distintos, inclusive a água. “Podemos dizer que partículas da luz podem apresentar o mesmo fenômeno desses pares de elétrons.” Nos experimentos, Jorio e seus colegas emitiram um feixe de laser vermelho, composto por pulsos ultrarrápidos e intensos, na direção de um recipiente transparente contendo um líquido incolor. Dois detectores mediram o tempo de

saída e a energia de cada fóton que atravessou o sistema. Se duas partículas de luz são registradas exatamente ao mesmo tempo, tendo uma ganhado energia e outra perdido, como de fato ocorreu, essa medição indica que os dois fótons estão emparelhados. O experimento também foi repetido com sucesso utilizando materiais sólidos transparentes, que não absorvem a luz, como o diamante e o quartzo, no lugar do meio líquido. Apesar de análogo à formação dos pares de Cooper em supercondutores, o fenômeno observado em partículas de luz foi muito menos intenso. A cada segundo, cerca de 10 quatrilhões de fótons eram emitidos pela fonte de laser e atingiam o meio líquido transparente. Desse total, apenas 10 duplas de partículas de luz se mostraram emparelhadas. “A formação dos pares de fótons obtida até o momento constitui fenômeno muito raro”, comenta a física Belita Koiller, da UFRJ, coautora do estudo que coordenou a parte teórica usada para orientar os trabalhos com laser em meio líquido transparente. Vibrações que atraem

Cerca de um ano antes do início dos experimentos, o grupo de Belita tinha indícios, por meio de modelagem matemática, de que as partículas de luz poderiam apresentar, em determinadas condições, um comportamento similar ao dos elétrons pareados. “Mas preferimos obter também evidências experimentais do fenômeno antes de publicarmos qualquer coisa”, explica a física. O mecanismo que leva as partículas de luz a interagir e se juntar em duplas ao atravessar um meio transparente é análogo ao processo de formação dos pares de Cooper nos supercondutores. Soltos no espaço, dois elétrons, que têm carga negativa, não se atraem. Afinal, duas partículas com cargas iguais se repelem. Mas, se dois elétrons estiverem dentro de um supercondutor, eles podem se atrair. Esse fenômeno quântico pode ser explicado de forma simplificada. Ao se deslocar pelo material, um elétron


Cassiano Rabelo

Laser vermelho atravessa recipiente com água e produz pares de fótons ligados

passa perto dos núcleos dos átomos que constituem esse meio e os faz vibrar e se aproximar. Se outro elétron cruzar a região onde os núcleos atômicos estão oscilando, ele tende a se avizinhar da vibração e ser atraído em direção ao primeiro elétron. Assim, essa atração faz com que os elétrons fiquem ligados, formando pares de Cooper. Como a luz não é supercondutora, não era esperado que, ao passar pela água, um feixe de laser levasse à formação de pares de fótons, ainda que com uma intensidade muito menor do que no caso dos elétrons nos supercondutores. Mas, segundo o artigo de Jorio, Belita e seus colegas, a interação de dois fótons com as vibrações das moléculas de H20 também pode gerar pares de partículas de luz emparelhadas. Nos supercondutores, a ausência de resistência ao transporte de corrente elétrica tem sido explorada no desenvolvimento de várias tecnologias, como os ímãs de espectrômetros de massa e de aparelhos de ressonância magnética. Ainda é cedo para saber se a existência de pares de fótons em meios transparentes pode gerar alguma aplicação. “Essa é uma descoberta surpreendente. As consequências dessa atração entre fótons não são nada evidentes. Os autores mencionam que os pares de fótons vão ficar emaranhados. Isso significa que as propriedades de um passarão a depender do outro”, comenta o físico Luiz Nunes de Oliveira, do Instituto de Física de São Carlos da Universidade de São Paulo (IFSC-USP), que não participou do estudo. “Isso é interessante e dará origem a muitos estudos. Por ora, parece improvável que haja alguma consequência prática dessa descoberta. Mas o trabalho cumpre o objetivo maior da ciência, que é nos ajudar a entender melhor a natureza.” n

Artigo científico SILVEIRA, A. et al. Photonic counterparts of cooper pairs. Physical Review Letters. 9 nov. 2017.

pESQUISA FAPESP 263  z  67


tecnologia  Indústria papeleira y

PAPEL

de bagaço e palha Empresas usam resíduos de cana-de-açúcar para produzir folhas de sulfite e embalagens Domingos Zaparolli

léo ramos chaves

Papel sulfite produzido na Colômbia com celulose do bagaço de cana


D

uas empresas estão transforman­do resíduos da cana-de-açúcar em celulose e papel. A FibraResist inaugurou em fevereiro de 2017 uma fábrica para produzir celulose a partir da palha da cana em Lençóis Paulista, região canavieira no interior de São Paulo. A prioridade é atender a indústria de papel para embalagens, embora a tecnologia também permita a produção de tissue, o material empregado em guardanapo, papel higiênico e papel toalha. Mais antiga, a GCE, com sede na capital paulista, produz desde 2009 em parceria com a colombiana Propal a folha de sulfite EcoQuality, utilizando como insumo o bagaço da cana. A FibraResist é resultado do desenvolvimento de um processo produtivo inovador. Em 2009, o químico industrial José Sivaldo de Souza levou à direção do grupo Cem, que tem negócios nos segmentos de construção, borracha e agropecuária, uma proposta de produzir celulose com resíduos de cana. Ele

sabia que o Cem, onde trabalha, buscava diversificar suas atividades. O grupo resolveu investir R$ 6 milhões no desenvolvimento do projeto. Os estudos tiveram o apoio de pesquisadores da Universidade Federal de Viçosa (UFV), que escolheram a palha como matéria-prima, fizeram a análise da pasta celulósica produzida e da rota de produção de celulose a frio, que dispensa o uso de caldeiras para o cozimento da fibra. A empresa depositou patente no Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI) visando resguardar todo o processo produtivo. Entre os produtos desenvolvidos pela empresa está um biodispersante que faz a separação da celulose da palha e da lignina, uma molécula que age como cola natural e dá rigidez às células das plantas. No sistema de produção tradicional, essa separação é feita durante o cozimento. A produção a frio não demanda energia para alimentar as caldeiras e elimina a emissão de gases industriais. pESQUISA FAPESP 263  z  69


O bom uso de um resíduo agrícola FibraResist desenvolveu um sistema de produção que utiliza a palha para fazer pasta celulósica

O processo produtivo elaborado pela companhia ainda envolve um circuito fechado de água, que é tratada e reutilizada, e o aproveitamento dos resíduos finais como adubo. “É um processo desenvolvido para ser ambientalmente sustentável”, diz Mário Welber, diretor de relações institucionais da FibraResist. A fábrica demandou investimentos de R$ 25 milhões, sendo R$ 10,5 milhões financiados pela agência de fomento paulista Desenvolve SP. Sua capacidade de produção é de 70 mil toneladas (t) ao ano. No momento está em fase de comissionamento, na qual são testados os equipamentos e o processo industrial de ponta a ponta com uma produção em pequena escala. A produção atual é de 6 t diárias de pasta celulósica, fornecida para o primeiro cliente, a Sanovo Greenpack Embalagens, que fabrica estojos para ovos e bandejas para frutas. “O papel também está sendo testado por dois outros potenciais clientes”, conta Welber. O insumo da FibraResist, a palha, é recolhido em um raio de 100 quilômetros de Lençóis Paulista por uma empresa terceirizada que a entrega em fardos de 450 quilos. Segundo Welber, o limite de retirada de palha da lavoura é de 80%, os demais 20% ficam no campo para nutrir a área de plantio, manter a umidade do solo, controlar ervas daninhas e evitar a erosão da terra. “A palha é necessária ao canavial, mas em excesso facilita a propagação de pragas e alimenta incêndios espontâneos”, afirma. A palha de cana é um resíduo abundante no Brasil. A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) estima 70  z  janeiro DE 2018

As fibras da biomassa de cana se assemelham muito às do eucalipto, a principal fonte de produção de papel

que foram colhidos 657,18 milhões de t de cana-de-açúcar na safra 2016/2017, ocupando uma área de 9,05 milhões de hectares. Segundo Henrique Coutinho Junqueira Franco, coordenador do programa Sugarcane Renewable Electricity (Sucre), do Laboratório Nacional de Ciência e Tecnologia do Bioetanol (CTBE), cada tonelada de cana gera cerca de 120 quilos de massa seca de palha e 125 quilos de massa seca de bagaço. Para Franco, existe a necessidade da elaboração de políticas regulatórias que

estimulem o melhor aproveitamento dos resíduos do setor. “A maioria do bagaço já é utilizada na cogeração de eletricidade e produção de etanol de segunda geração. Mas a palha ainda é pouco usada”, afirma. A produção de celulose é uma alternativa para utilizar a palha excedente. Segundo Fernando José Borges Gomes, professor do Departamento de Produtos Florestais da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), as fibras da palha e do bagaço se assemelham muito à do eucalipto. “É possível a obtenção de polpas celulósicas de alta qualidade, similares em propriedades físico-mecânicas às obtidas a partir do eucalipto”, explica. O uso de fibras alternativas, não provenientes de madeira, para a produção de celulose não é novidade. Bambu, babaçu, sisal e resíduos agrícolas já são utilizados há décadas, principalmente em países onde a disponibilidade de terras para o cultivo de árvores é baixa. Parceria tecnológica

O bagaço de cana é uma fonte utilizada para produzir papel há mais de 60 anos. Empresas chinesas, indianas, argentinas e colombianas usam o insumo. Os empresários paulistas Luiz Machado e Guilherme de Prá, dois executivos oriundos do setor papeleiro que fundaram a GCE, viram no bagaço uma oportunidade de


1 A FibraResist compra de uma empresa a palha recolhida de culturas de cana

2 Em forma de fardos, o resíduo é estocado ao lado da fábrica em Lençóis Paulista

3 Por meio de um processo a frio, a celulose é separada da palha por um biodispersante

4 A pasta celulósica é produzida e vendida

fotos  fibraresist

aos produtores de papel

se distinguir no mercado brasileiro de papel sulfite, um negócio de 600 mil t por ano em que predominam duas empresas, a Suzano e a International Paper (IP). “Oferecemos um produto que não ocupa áreas de plantio e aproveita os excedentes da indústria sucroalcooleira. Os resíduos são transformados em material nobre”, informa Machado. A estratégia da GCE para entrar no mercado de papel foi realizar uma parceria com a colombiana Propal, do grupo Carvajal, que já utilizava bagaço de cana no seu processo produtivo, mas sem a qualidade desejada pelos brasileiros. Machado e Prá entraram com experiência adquirida em 40 anos de vivência no mercado de papéis e aprimoraram o produto. Conseguiram chegar ao padrão de lisura, espessura, opacidade e teor de umidade desejado, o que resultou nas linhas Reprograf, comercializado pela Propal, e EcoQuality, da GCE. Pelo acordo, os brasileiros ficam com 30% da produção anual de 180 mil t fabricadas na Colômbia pela Propal, nas cidades de Yumbo e Caloto. A GCE comercializa o EcoQuality no Brasil, Estados Unidos e México. A decisão de manter a produção no país vizinho está relacionada a dois fatores. O primeiro é a disponibilidade do insumo, uma vez que a Colômbia também planta cana-de-açúcar. O segundo é o custo da energia. As caldeiras na

A transformação da matéria orgânica em celulose se insere dentro de modelos de produção sustentáveis

fábrica colombiana são alimentadas a gás e apresentam um custo 35% menor que no Brasil. A energia representa 20% dos custos de produção do papel. Segundo Machado, o papel EcoQuality é vendido no mercado brasileiro por um preço equivalente ao dos maiores concorrentes. Empresas que associam suas marcas às campanhas de sustentabilidade são, por ora, o principal nicho de clientes do sulfite de bagaço de cana. A GCE tem a maioria de sua receita proveniente de contratos de fornecimento para empresas que associam suas marcas a campanhas de sustentabilidade, como Pfizer, Vale, Abril e Basf. No Brasil, mais de 90% das fibras de celulose utilizadas para a produção de papel são provenientes de florestas plantadas de eucaliptos e pinus. Em 2016, o país produziu 18,7 milhões de t de celulose, a quarta maior produção do mundo, e 5,4 milhões de t de papel, conforme dados da Indústria Brasileira de Árvores (Ibá).

O engenheiro químico Alfredo Mokfienski, consultor da Associação Brasileira Técnica de Celulose e Papel (ABTCP), diz que a indústria brasileira de celulose de eucalipto e pinus são muito competitivas. Possuem uma escala produtiva grande, porque as fábricas são projetadas para uma produção superior a 1 milhão de t/ano. “Com essa escala, dificilmente empresas que usam insumos alternativos, com produção de 70 mil t ou mesmo 180 mil t por ano, conseguem competir”, explica Mokfienski. Fernando Gomes, da UFRRJ, diz que do ponto de vista econômico a produção de celulose a partir do eucalipto e do pinus é mais vantajosa. Mas a transformação dos resíduos da cana em celulose não é desprezível, porque é um material de pouco ou sem valor, no caso da palha, e se insere dentro de modelos de produção sustentáveis. “É uma destinação nobre e colabora para uma maior sustentabilidade ao setor sucroenergético”, comenta Gomes. n pESQUISA FAPESP 263  z  71


farmácia y

Planta eclética O jambu, além da culinária, é utilizado em cosméticos e poderá ter uso na odontologia e como carrapaticida

O

riginário da região amazônica, o jambu (Acmella oleracea) é uma hortaliça muito utilizada na culinária do norte do Brasil, principalmente no Pará, em pratos famosos como o tacacá e o pato no tucupi. Além da alimentação, a planta é usada pelos povos indígenas e ribeirinhos como analgésico e anestésico para tratar aftas, herpes, dores de dente e garganta. Duas outras propriedades conhecidas dessa planta, a de fungicida e de combate a carrapatos, despertaram o interesse de alguns pesquisadores com o objetivo de desenvolver medicamentos. A analgesia é a característica do jambu que atrai maior atenção, tanto nos apreciadores das iguarias, que sentem a dormência na boca durante a refeição, como nos pesquisadores. Já se sabe, desde os anos 1950, que os efeitos anestésicos e analgésicos são provocados pela substância espilantol, embora não existam medicamentos comerciais com essa base. São informações que fizeram o farmacêutico industrial Rodney Alexandre Ferreira Rodrigues, professor do Centro Pluridisciplinar de Pesquisas Químicas, Biológicas e Agrícolas (CPQBA) e da Fa-

72  z  janeiro DE 2018

culdade de Odontologia de Piracicaba (FOP), ambos da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), desenvolver um filme (película fina) odontológico em colaboração com a mestranda Verônica Santana de Freitas-Blanco. “Nosso objetivo foi produzir um pré-anestésico de uso oral para o paciente suportar a dor da agulha na anestesia”, explica Rodrigues. “Purificamos o extrato da planta e produzimos um filme para incorporar o produto. Hoje, o extrato também está em testes em nosso laboratório para o uso no combate à mucosite – inflamação nas partes internas da boca e da garganta, que é um efeito colateral em pacientes de quimioterapia.”  Rodrigues conta que seu grupo desenvolveu um processo para a obtenção do extrato de jambu com melhor aproveitamento do espilantol. De acordo com ele, o método, já com pedido de patente depositado no Instituto Nacional de Propriedade Industrial (Inpi), é mais simples e rápido do que os tradicionais, porque possui poucas etapas e utiliza reagentes atóxicos e mais baratos. “Outra vantagem é que nosso processo de purificação elimina pigmentos verdes da

clorofila, que dão uma cor indesejada ao extrato, principalmente para uso cosmético”, explica Rodrigues. “Essa coloração não é bem-aceita pelo mercado.” A Unicamp licenciou a patente do processo de extração do extrato de jambu para a empresa Brasil Aromáticos, de São Paulo, que pretende usá-lo em um futuro próximo. Hoje, a empresa compra no mercado, para uso em cosméticos, o quilo do extrato comum, sem purificação, por R$ 10 mil. “Licenciamos a patente e agora estamos verificando a possibilidade de fazer uma fábrica de extratos e incentivar a plantação de jambu aqui na região Sudeste”, conta Raquel da Cruz, sócia-fundadora da Brasil Aromáticos. “Nossa estimativa é de que o preço do quilo fique em torno de R$ 3 mil.” A empresa, que fatura R$ 2,5 milhões por ano e exporta seus produtos para vários países, utiliza o extrato de jambu em um lubrificante sexual. contra carrapatos

O processo de produção do extrato de jambu desenvolvido na Unicamp também está sendo usado para a elaboração de produtos acaricidas, capazes de con-


A substância espilantol, presente na planta do jambu, tem efeitos anestésicos e analgésicos

1

Imagens de microscopia mostram células germinativas (oócitos) em dois momentos: íntegras (à esq.) e irregulares depois de expostas ao extrato de jambu (à dir.)

fotos 1 wikimedia commons 2 Luís Adriano Anholeto / unesp

2

trolar os carrapatos do boi, o Rhipicephalus microplus, e do cavalo, o Amblyomma cajennense, conhecido como carrapato-estrela. O estudo, iniciado em 2015, é do doutorando em ciências biológicas Luís Adriano Anholeto, da Universidade Estadual Paulista (Unesp) em Rio Claro, sob a orientação das professoras Maria Izabel Camargo-Matias e Patrícia Rosa de Oliveira. Os resultados até agora obtidos por Anholeto demonstram que o extrato do jambu afeta as células germinativas dos carrapatos (tanto dos machos como das fêmeas), comprometendo a sua reprodução. Segundo ele, a partir da obtenção desse novo conhecimento, abre-se a

possibilidade de futuramente ser criado um acaricida de origem vegetal. “A ideia é desenvolver um produto que cause menos danos aos animais e ao ambiente do que os disponíveis no mercado”, explica Anholeto. A pesquisadora da área de sanidade animal Karina Neoob de Carvalho Castro, da Embrapa Meio-Norte, uma unidade da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), localizada em Parnaíba (PI), também trabalha em conjunto com o grupo da Unesp e pretende desenvolver um repelente natural com jambu. Os estudos começaram em 2012 e são realizados em parceria com outras unidades da Embrapa e uni-

versidades. “Foi produzido um extrato com ação acaricida sobre fêmeas e larvas de carrapato em testes em laboratório”, conta Karina. “Em 2014, mostramos que o extrato prejudica a reprodução de fêmeas de carrapato ingurgitadas – que estão prontas para fazer a postura de 3 mil ovos, em média – com uma eficácia de até 98,2%.” Com isso, a Embrapa pretende desenvolver um repelente com jambu que possa ser utilizado em animais jovens, que são aqueles mais sensíveis aos produtos convencionais. Sob a liderança da bióloga Ana Carolina Chagas, os pesquisadores vão avaliar a estabilidade de uma formulação nos animais, em análises toxicológicas e testes pré-clínicos. Karina ressalta que muitos produtos vindos da natureza, não sintéticos, necessitam de desenvolvimento de formulações que possam manter a vida útil do repelente em atividade nos animais. A parceria entre a Embrapa e universidades poderá render um repelente inédito produzido com recursos da biodiversidade da Amazônia. n

Projetos 1. Desenvolvimento e avaliação de formulações tópicas contendo espilantol para uso no tratamento da mucosite oral (nº 14/16186-9); Modalidade Auxílio à pesquisa – Regular; Pesquisador Responsável Rodney Alexandre Ferreira Rodrigues (Unicamp); Investimento R$ 89.983,26. 2. O jambu (Acmella oleracea) e sua ação acaricida: I. Estudo dos efeitos sobre a morfofisiologia dos sistemas reprodutores masculino e feminino de Amblyomma cajennense (Fabricius, 1787) (Acari: Ixodidae) (nº 01496-5); Modalidade Bolsa de Doutorado; Pesquisadora Responsável Maria Izabel Souza Camargo (Unesp); Bolsista Luís Adriano Anholeto; Investimento R$ 125.702,46. 

Artigos científicos FREITAS BLANCO, V. S., FRANZ-MONTAN, M. et al. Development and evaluation of a novel mucoadhesive film containing acmella oleracea extract for oral mucosa topical anesthesia. PLOS ONE. On-line. set. 2016. CASTRO, K. N. C.; ANHOLETO, L. A. et al. Cytotoxic effects of extract of acmella oleraceae (Jambu) in rhipicephalus microplus females ticks. Microscopy research and technique. On-line. ago. 2016.

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HIDROLOGIA y

Alerta contra inundações Sistema desenvolvido na USP pode ajudar a reduzir transtornos gerados pelo transbordamento de rios urbanos Yuri Vasconcelos

A

cena se repete a cada verão. As chuvas que caem durante essa época do ano elevam o nível dos rios e causam enchentes, colocando em risco vidas humanas e gerando prejuízo para quem vive às margens dos cursos d’água. No último período chuvoso, entre novembro de 2016 e abril de 2017, ocorreram 55 inundações em São Paulo, média de uma a cada três dias, segundo o Centro de Gerenciamento de Emergências (CGE) da prefeitura. Os alagamentos não afetam apenas os moradores da capital paulista. Belo Horizonte, Recife, Campinas e muitas outras cidades brasileiras sofrem com os transbordamentos. Para lidar com o problema, órgãos de defesa civil e gestão de recursos hídricos, como a Agência Nacional de Águas (ANA), empregam um conjunto de ferramentas

Alagamento na marginal Tietê leva o caos ao trânsito 74  z  janeiro DE 2018

para monitorar o nível e a vazão dos rios e alertar a população para o risco de alagamentos. Esse aparato é composto por radares meteorológicos, imagens de satélite, pluviômetros, modelos numéricos de previsão de chuvas e plataformas de coleta de dados para medição do nível de cursos d’água. A fim de contribuir para esse sistema de prevenção e alerta, pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) criaram o e-Noé, uma rede de sensores sem fio para monitorar rios e córregos urbanos. O dispositivo, já operacional, é formado por um conjunto de sensores submersos instalados em vários pontos do rio sujeitos a alagamentos. Conectados entre si por uma rede sem fio, esses sensores detectam alterações na altura da coluna d’água. Paralelamente, câmeras fotografam o leito do rio, registrando o nível das águas. As imagens e as informa-

ções dos sensores são enviadas por sinal de celular para uma infraestrutura de nuvem, onde são acessadas pela Defesa Civil da cidade (ver infográfico ao lado). “Diferentemente da hidrometria convencional, em que os dados só são coletados quando o usuário vai até a estação para extraí-los, numa rede de sensores sem fio, como a nossa, as informações são transmitidas em tempo real para os interessados. O próprio sistema pode emitir automaticamente alertas de enchentes”, afirma o cientista da computação Jó Ueyama, do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação da USP de São Carlos e coordenador do projeto. “O nosso modelo, diferentemente de alguns similares importados, também faz previsão de enchentes usando mecanismos de inteligência artificial, como as redes neurais, e permite incorporar sensores de poluição, o que pode ser de grande valia para monitorar a qualidade da água.” Segundo Ueyama, o e-Noé já foi testado com bons resultados nos córregos Monjolinho e Tijuco Preto, de São Carlos, que costumam transbordar, e continua sendo aprimorado. “Vamos investir em energia solar e em baterias de alta capacidade para garantir o fornecimento de energia ao sistema. Estamos em contato com o Instituto Eldorado, de Campinas, que demonstrou interesse em fazer essas adaptações e comercializar o equipamento”, conta. O sistema completo, com sensor de pressão, câmera, software para processamento das informações, rede sem fio e modem de telefonia 4G, deverá custar R$ 15 mil, segundo estima Ueyama. “Para cada ponto com risco de alagamento, é preciso instalar um sensor”, diz o pesquisador, acrescentando que administrações municipais ou estaduais, responsáveis pelo monitoramento de rios urbanos, e a ANA, encarregada da gestão dos recursos hídricos, são os potenciais clientes da tecnologia.


População e Defesa Cilvil

De olho nas enchentes Entenda como o e-Noé monitora o nível de rios e córregos Sinal de celular

Nuvem de dados

1 Sensores instalados

4 Paralelamente,

no leito do rio medem

câmeras fotografam o

continuamente a pressão da coluna d’água e

Câmera

identificam quando o nível sofre alterações R ed e

2 Cada sensor é

conectado a uma placa embarcada, colocada na

sem

leito do rio a cada cinco Estação-base

fio

o nível das águas

5 Uma estação-base

coleta as imagens e

Placa embarcada

recebe as informações

margem do rio, dotada de

dos sensores sobre o

memória e processador

nível da água

3 As placas se

6 Os dados são

comunicam entre si por

enviados por celular

meio de uma tecnologia de

para uma nuvem de

Sensor de pressão

rede sem fio, como LoRa,

dados, onde são feitas

Bluetooth ou Zigbee. A

as previsões e gerados os alertas para a Defesa

distância entre elas varia de 50 m a 3 km

foto Newton Menezes / Futura Press / Folhapress infográfico ana paula campos  ilustraçãO alexandre affonso

minutos, registrando

Não há dispositivos comerciais semelhantes fabricados no país, somente modelos feitos no exterior. “Os importados são produtos de prateleira, prontos para uso. Não é fácil alterar a programação de seus sensores. Já o e-Noé pode sofrer ajustes facilmente”, diz Ueyama. Ele explica que as ribanceiras onde os sensores são instalados têm características específicas, e essas informações devem ser inseridas na programação para melhorar a previsão e a detecção. “O e-Noé permite integrar o monitoramento com a modelagem e a tomada de decisão”, salienta Ueyama. O Sistema de Alerta a Inundações de São Paulo (Saisp), que faz o monitoramento de chuvas e rios que cruzam a Região Metropolitana de São Paulo, também tem um sistema análogo ao e-Noé, projetado pelo próprio órgão. “É um hardware para uso próprio. Não está à venda, mas comercializamos os serviços de monitoramento, alertas e previsões de inundações”, esclarece o engenheiro eletricista Flavio Conde, coordenador do Saisp. “Assim como a nossa tecnologia, o sistema da USP pode ser interessante para a detecção de inundações por ser de fácil implantação.” Para o engenheiro Eurides de Oliveira, superintendente adjunto de Gestão da

Civil e a população

Fonte jó ueyama/usp

Rede Hidrometeorológica da ANA, tecnologias como o e-Noé e a do Saisp têm bom potencial de uso no Brasil. “Modelos de baixo custo e difusão simples são ideais para atender regiões urbanas que precisam de rápida resposta a eventos como inundações”, observa. As estações fluviométricas usadas pela ANA para medir nível e vazão de cursos d’água, esclarece Oliveira, são dedicadas ao monitoramento de rios em bacias hidrográficas normalmente fora de áreas urbanas. “São plataformas de coleta de dados importadas e que usam principalmente sinais de satélite para o envio das informações aos centros de controle.” Esses aparelhos custam cerca de R$ 50 mil. detecção por imagem

Uma novidade do e-Noé em relação aos dispositivos em operação no país é o uso de imagens para detectar e prever enchentes automaticamente, sem intervenção humana – o software faz isso comparando as fotos tiradas pela câmera com imagens do rio em seu nível normal armazenadas na memória do sistema. Outra inovação do protótipo é que ele segue o modelo da Internet das Coisas (IoT). “Além de estarem à disposição das au-

toridades, os dados sensoriais poderão ser acessados por qualquer usuário conectado à internet. A população poderá receber alertas sobre inundações diretamente no celular”, esclarece Ueyama. O emprego intensivo de sistemas de monitoramento de rios, aliado a outras tecnologias atualmente em uso, como rede de pluviômetros, estações meteorológicas, radares e satélites, segundo o engenheiro de recursos hídricos Eduardo Mario Mendiondo, ex-coordenador de pesquisa do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), fortaleceria os serviços de alerta a inundações no país. “Existem no Brasil quase 40 mil áreas sujeitas a enchentes, alagamentos, enxurradas e deslizamentos que apresentam riscos à população. Menos de 3% delas contam com monitoramento tradicional”, ressalta o pesquisador, professor da Escola de Engenharia de São Carlos (EESC) da USP e parceiro de Ueyama no desenvolvimento do e-Noé. n

Projeto Explorando a abordagem sensor web e o sensoriamento participatório no monitoramento de rios urbanos (nº 12/225500); Modalidade Auxílio à Pesquisa – Regular; Pesquisador responsável Jó Ueyama (USP); Investimento R$ 60.529,48.

pESQUISA FAPESP 263  z  75


pesquisa empresarial

A Inovação permanente Neger, que se tornou referência em telecomunicação rural, agora investe em inteligência espectral

Domingos Zaparolli

busca por novas oportunidades de negócios levou a Neger Telecom a uma trajetória de constantes inovações. Criada em 1987, em Campinas, como uma fabricante de chocadeiras para avicultura, a empresa se tornou referência na telecomunicação rural ao longo dos anos 1990. Nos anos 2000 desenvolveu soluções de acesso à internet em regiões remotas. Nesta década criou uma tecnologia para o bloqueio de telefones celulares e drones em presídios, que não interfere no sinal dos aparelhos dos vizinhos, e um sistema de rastreamento via satélite de máquinas e equipamentos agrícolas. Agora a Neger prepara um novo salto tecnológico. Para o final de fevereiro está programada a inauguração do Laboratório de Inteligência Espectral na Faculdade de Engenharia Elétrica e de Computação (Feec) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). O laboratório faz parte de um convênio firmado em 2015 entre a empresa e a universidade. A Neger está fazendo a reforma das instalações e vai financiar bolsas de pesquisa. Eduardo Neger, engenheiro eletricista e sócio da empresa, planeja investir R$ 1 milhão nos próximos cinco anos no laboratório. No convênio está previsto que a propriedade intelectual, que surgir como resultado das pesquisas, será dividida meio a meio entre a empresa e a universidade. Para a Neger, o laboratório será destinado a tecnologias que possam resultar em produtos inovadores,

Sistema para bloqueio de comunicações (à esq.) na Penitenciária Estadual de Parnamirim, no Rio Grande do Norte, e a instalação de uma das torres e equipamentos no mesmo presídio (à dir.) 76  z  janeiro DE 2018


fotos  neger

enquanto na empresa a pesquisa é incremental relacionada aos produtos já existentes. Inteligência espectral é o uso e a análise do espectro de radiofrequência em sistemas de comunicação sem fio. O laboratório será dedicado ao desenvolvimento de soluções de segurança para esses sistemas. O objetivo é detectar potenciais fraudes praticadas por meio de interferências nos sinais de telecomunicação e na utilização imprópria de celulares, drones, pontos eletrônicos e internet. “A inteligência espectral é um ramo novo de pesquisa, com muito futuro”, diz o engenheiro eletricista Leandro Manera, professor da Feec e coordenador do novo laboratório. Segundo Manera, softwares de segurança como os antivírus são dedicados à proteção de equipamentos e aplicativos, mas a segurança das conexões sem fio dos dispositivos que é realizada por radiofrequência, como o wi-fi, não é alvo de atenção. “Há uma grande vulnerabilidade na conexão e uma interferência proposital – ou não – de um equipamento em comprometer a operação de aparelhos e sistemas conectados à Internet das Coisas ou a qualquer sistema de comunicação móvel”, explica. A ideia do laboratório surgiu após o engenheiro eletricista Maurício Donatti, pesquisador na Neger, dentro do Programa de Formação de Recursos Humanos em Áreas Estratégicas (Rhae) do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), aluno de mestrado na Feec e orientado por Manera, propor uma tecnologia inédita de captura de drones civis por meio da análise do espectro de radiofrequência. O sistema usa o spoofing, uma técnica para mascarar o remetente dos sinais de comando para obter o controle do drone à revelia de quem o colocou para voar. Os mecanismos atuais de defesa apenas interferem no comando dos voos, bloqueando acesso a áreas restritas, mas os controladores originais facilmente retomam o comando do drone. A tecnologia idealizada por Donatti permite não apenas assumir o controle do aparelho como também sequestrar o equipamento, abrindo a possibilidade de investigar sua origem e o objetivo com o qual foi posto no ar. “Será um produto destinado a aplicações de segurança pública e precisará de certificação da Anatel, que deverá determinar quem poderá comprar o equipamento”, explica. O novo sistema foi batizado de Drone Control. Um pedido de patente nacional foi depositado no Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI) pela Neger e a Unicamp, em conjunto,

empresa neger

Centros de P&D Campinas (SP)

Nº de pesquisadores 8

Principal produto Sistemas de telecomunicação

pESQUISA FAPESP 263  z  77


e o método foi tema de dissertação de mestrado de Donatti, apresentado em outubro sob acordo de confidencialidade por parte dos integrantes da banca acadêmica. A tecnologia, segundo Eduardo, tem potencial para ser empregada na captura de drones civis que sobrevoem um espaço aéreo não liberado, como presídios e aeroportos. Também pode ser utilizada para vigiar eventos que reúnam grandes multidões e na segurança corporativa, evitando ataques em instalações industriais que trabalham com produtos inflamáveis, como refinarias e petroquímicas. A primeira tarefa do novo laboratório será a adequação da tecnologia de captura para que ela seja efetiva nos mais de 40 modelos de drones homologados na Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel). “Em um ano e meio, o Drone Control poderá ser um produto comercial”, prevê o empresário. Antes mesmo de o laboratório entrar em operação, a inteligência espectral já resultou em uma nova oportunidade de negócios para a Neger. No final de 2017, a empresa lançou o serviço Expectra para identificar o uso indevido de telefones móveis em áreas preestabelecidas. Uma operação piloto foi realizada durante o vestibular da Unicamp. O monitoramento da radiofrequência foi utilizado para detectar possíveis irregularidades no uso de celular entre vestibulandos na hora da prova. Os resultados do teste são tratados como sigilosos pela universidade. Eduardo Neger esclarece que o serviço não interfere no sinal e não viola a privacidade da comunicação. “Apenas iden-

1

Barco usado como ambulância no porto da cidade de Carauari, na Amazônia, é rastreado por satélites

Porta da esperança

tificamos se existem celulares ligados e se estão em uso”, diz. A Neger Telecom tem uma equipe de 40 funcionários distribuídos em duas unidades em Campinas e técnicos remotos em outras 10 cidades do país. Na área de pesquisa e desenvolvimento (P&D) trabalham oito profissionais, todos com formação em cursos técnicos e graduação universitária, sendo que dois possuem também pós-graduação. Em 2016 obteve um faturamento de R$ 15 milhões

equipe de Pesquisadores Confira alguns dos profissionais que fazem P&D na Neger e conheça as instituições responsáveis pela formação acadêmica Eduardo Neger – engenheiro eletricista e advogado, sócio e diretor de engenharia

Universidade Estadual de Campinas (Unicamp): graduação Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas): graduação

Marco Maraccini – tecnólogo da informação, administrador, gerente da divisão de defesa e segurança

Universidade do Sul de Santa Catarina (Unisul): graduação

Elder Oliveira – engenheiro de telecomunicações, coordenador de sistemas de radiofrequência

Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN): graduação Instituto Nacional de Telecomunicações (Inatel): mestrado

Caique Calegari – engenheiro eletricista, pesquisador

Centro Universitário Salesiano de São Paulo (Unisal): graduação Unicamp: mestrando

78  z  janeiro DE 2018

e em 2017 alcançou aproximadamente R$ 16 milhões. Oitenta por cento da receita é proveniente de produtos e serviços desenvolvidos nos últimos cinco anos. Os investimentos em P&D em 2017 totalizaram R$ 800 mil. A origem da empresa é uma pequena marcenaria, criada pelo avô de Eduardo, Oswaldo Neger, que fabricava artesanalmente equipamentos como incubadoras e criadouros para as granjas da região. Coube ao filho, Antonio Neger, formalizar o negócio em 1987 e implementar sistemas eletrônicos de controle de temperatura e umidade nas incubadoras, instrumentos, até então, oferecidos apenas em equipamentos de grande porte. Os Neger foram pioneiros no país em instalar sistemas eletrônicos destinados à avicultura de pequeno e médio porte. Em 1991, a participação de Antonio em um programa de auditório de grande audiência na TV na época, o Porta da Esperança, quando doou um equipamento a um criador de aves, fez a empresa ser conhecida nacionalmente.“O telefone não parava de tocar, tripli­camos as vendas”, lembra Eduardo. “Como nosso nome e telefone não mudaram, até hoje ainda atendemos ligações para compra de chocadeiras e criadeiras, apesar de não trabalharmos com elas há mais de 20 anos.” Os clientes rurais mostraram à Neger um novo e promissor negócio, o de telecomunicação. Em 1993, a antiga opera-


Sensor (ao lado) para troca de informações por satélite pode ser instalado em veículos terrestres e aquáticos. Teste de verificação do Expectra (à dir.), que identifica o uso indevido de celulares em áreas predeterminadas, como prédios de universidades em dias de vestibular

fotos 1 neger  2 e 3 eduardo cesar

2

dora de telefonia de São Paulo, a Telesp, implementou o programa Ruralcel para instalar estações fixas de telefonia celular rural no interior paulista. Eduardo, que havia se formado em eletroeletrônica no Colégio Técnico de Campinas, ligado à Unicamp, viu no Ruralcel uma oportunidade. “Conhecíamos as demandas em telecomunicações dos nossos clientes”, conta. Eduardo passou a desenvolver projetos de estações fixas rurais para celulares, seguindo as diretrizes do programa, e credenciou a empresa como fornecedora da Telesp. Mais de 2 mil estações foram instaladas pela empresa no Brasil. Os anos seguintes foram de desenvolvimento de tecnologias para a digitalização da telefonia rural. Um dos projetos foi o desenvolvimento de soluções para bloqueio de celulares em áreas de segurança, como presídios. A tecnologia desenvolvida pela Neger não interfere no sinal de telecomunicação dos vizinhos e venceu concorrências abertas para a instalação em 23 penitenciárias paulistas e em outros 12 presídios em vários estados do país. Os governos não precisam comprar os equipamentos. A Neger presta serviços contínuos de bloqueio de celular e drones. Hoje, 60% do faturamento da companhia vem da área de telecomunicação e os demais 40% da área de segurança. A percepção de uma lacuna de mercado levou a Neger a investir no desenvolvimento de uma nova tecnologia de rastreamento de máquinas e equipamen-

O sistema de bloqueio de celulares é oferecido na forma de serviço aos governos que administram presídios

tos em áreas que estão fora de cobertura das redes celulares, ou mesmo de veículos que trafegam por áreas remotas, como embarcações que navegam pelos rios amazônicos. “O rastreamento em lugares isolados é uma grande necessidade, principalmente por parte dos produtores rurais, que normalmente é ignorada pelo mercado”, afirma Eduardo. No estado de São Paulo, mais de 4.500 veículos agrícolas (tratores, reboques e outros equipamentos) foram roubados entre agosto de 2016 e agosto de 2017. O levantamento foi feito pela Tracker, empresa de rastreamento de veículos, em parceria com a Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (Fecap), com dados da Secretaria de Segurança Pública, e publicado na revista Globo Rural.

3

A proposta da Neger chegou ao mercado em maio de 2017 sob o nome de Metrosat. É uma tecnologia que usa um sistema de comunicação por satélite. Os rastreadores convencionais recebem o sinal por meio do Sistema de Posicionamento Global (GPS) e o retransmitem por meio das redes de celular. Onde não há sinal de uma operadora de telefonia celular, não funcionam. O Metrosat recebe o sinal GPS, mas a transmissão é feita por satélite. Esse tipo de comunicação, porém, apresenta um custo elevado, definido pela quantidade de informação transmitida. Elder Oliveira, coordenador de sistemas de radiofrequência da Neger, diz que a solução encontrada para baratear o serviço foi comunicar-se com o satélite apenas quando o veículo se movimenta. Outra preocupação foi miniaturizar o equipamento, que cabe na palma da mão e usa quatro baterias de lítio com autonomia de dois meses. O Metrosat já marcou positivamente a trajetória da Neger Telecom. Em 2017, a empresa foi escolhida pela Unicamp como a empresa-filha (participantes da incubadora ou que tenham entre os sócios ex-alunos da universidade) mais inovadora do ano por conta do novo sistema, e Eduardo Neger, que é graduado pela universidade, foi eleito empreendedor do ano no Encontro Unicamp Ventures 2017. n pESQUISA FAPESP 263  z  79


humanidades   Ciências sociaisy

Produtos populares na Feira da Madrugada, em São Paulo: a China criou um mercado transnacional que abastece cidades do Brasil, Oriente Médio, da África e Índia 80  z  janeiro DE 2018


Rotas em

transformação São Paulo se torna o principal centro de distribuição de produtos populares chineses pelo Brasil, ocupando o lugar de Ciudad del Este, no Paraguai Christina Queiroz

léo ramos chaves

A

s mercadorias populares chinesas que circulavam no Brasil vindas de Ciudad del Este, no Paraguai, agora são distribuídas pelo país a partir de São Paulo, principalmente por meio das atividades comerciais das galerias no centro. Grande parte dos produtos é proveniente das cidades de Guangzhou e Yiwu, no sul da China. Envolvendo também uma constante circulação de pessoas, essas mercadorias costumam chegar pelo porto de Santos e parte delas entra no país legalmente, enquanto outras escapam do sistema de controle da Receita Federal. Essa foi uma das conclusões do projeto temático “A gestão do conflito na produção da cidade contemporânea”, coordenado pela socióloga Vera Silva Telles, professora da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP), que em uma de suas frentes de trabalho procura estudar as reconfigurações recentes dos mercados informais em

São Paulo e no Rio de Janeiro. “A China criou um mercado transnacional de produtos populares, abastecendo não apenas cidades do Brasil como também da África, Índia e do Oriente Médio”, lembra a pesquisadora. Ainda são realizadas excursões para Ciudad del Este, principalmente para aquisição de cigarros e artigos eletrônicos, segundo o pesquisador Carlos Freire, que integra a equipe do projeto e estudou essa dinâmica socioeconômica que conecta centros atacadistas. No entanto, o fluxo de ônibus que parte em direção ao Paraguai é muito menor se comparado ao começo dos anos 2000, diz Freire, que faz estágio de pós-doutorado no Departamento de Sociologia da FFLCH. Segundo Rosana Pinheiro-Machado, professora no Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), no Rio Grande do Sul, que também desenvolveu trabalhos relacionados ao projeto temático, um dos motivos que explicam essa mudança de rota pESQUISA FAPESP 263  z  81


“O modelo de comércio em galerias se multiplicou entre 2000 e 2014, transformando espaços tradicionais de comércio do centro da cidade”, observa Freire. Segundo ele, o metro quadrado na Galeria Pajé, uma das mais tradicionais, chega a ser mais caro do que em alguns shopping centers. Reportagem do jornal O Estado de S. Paulo publicada em 2013 mostra que, na revisão da Planta Genérica de Valores da cidade, o metro quadrado para compra na rua 25 de Março – região em que está a galeria – passou de R$ 5,2 mil, em 2009, para R$ 12 mil em 2013. Outra reportagem de 2010 do mesmo jornal indica que o metro quadrado do aluguel na 25 de Março era de R$ 1 mil e no Brás R$ 800, comparados aos cerca de R$ 744 cobrados pelo Shopping Iguatemi. Além das galerias, outro espaço que impulsionou a circulação de mercadorias chinesas foi a Feira da Madrugada, no Brás, na região central de São Paulo. Criada em 2004 em uma antiga 2 área de manutenção de trens, a feira desenvolve um comércio atacadista para atender sacoleiros que chegam à capital paulista de diversas regiões do Brasil. Freire explica que, nos primeiros anos, vendedores ambulantes e pequenos produtores de roupas brasileiros, paraguaios e bolivianos ocupavam o espaço. Conforme a feira foi se tornando valorizada, comerciantes chineses passaram a comprar pontos de venda, que se transformaram em uma extensão das atividades nas galerias. Hoje, embora muito presentes, a maioria dos produtos da Feira da Madrugada não é chinesa, mas da própria indústria têxtil local e das oficinas de costura que se espalham pela periferia da cidade. “O custo do ponto no local já chegou a R$ 400 mil, o que reflete o valor Produtos populares são trazidos a São da riqueza circulante, mesmo quando Paulo desde cidades se trata de produtos de baixo custo”, do sul da China, enfatiza Freire. Segundo o pesquiestá ligado à atenção máxima que como Guangzhou sador, a Feira da Madrugada motios Estados Unidos estabeleceram vou o desenvolvimento de uma nova contra a pirataria. Com isso, o país dinâmica comercial na região, com investiu para reforçar o controle na a criação de galerias voltadas para os safronteira com o Paraguai. O Brasil também criou uma nova aduana na região em coleiros que frequentam o Brás na madrugada. 2006, com a finalidade de dificultar a passagem “Nesses novos empreendimentos, os chineses dos produtos. “No começo dos anos 2000, havia predominam”, detalha. Peças de vestuário, bi20 mil chineses na fronteira de Ciudad del Este. juterias, bolsas, malas, acessórios para celulares, Hoje, esse número é de apenas 4 mil. Eles se dis- equipamentos e componentes eletrônicos, raquepersaram pela América do Sul e muitos se mu- tes de matar mosquito, lanternas e brinquedos daram para São Paulo”, compara a pesquisadora. são alguns produtos chineses que circulam no Freire, da USP, relata que em 2012 a Associação comércio popular. As atividades laborais dos migrantes chineses dos Chineses do Brasil contabilizou 250 mil chineses e descendentes vivendo em todo o país, sen- em São Paulo gravitam em torno do comércio, do que 180 mil residiam no estado de São Paulo. mas há também empresários que atuam no merEm São Paulo, as atividades comerciais das ga- cado imobiliário, comprando espaços em galelerias do centro, a partir da expansão do comér- rias para depois alugar, informa Freire. Alguns cio de produtos chineses, abastecem mercados são empregados desses empresários, enquanto populares de todo o país, por meio dos sacoleiros. outros se reúnem para criar cooperativas de cré1

Guangzhou

São paulo

82  z  janeiro DE 2018


dito e fazer importações em grande escala. “Há uma ampla diversidade entre os chineses de São Paulo, não apenas nas atividades profissionais que desempenham como também em relação às origens. Em algumas galerias, pode-se escutar quatro dialetos chineses diferentes”, relata. A presença chinesa no centro da cidade se estende também a outros espaços: hoje, os filhos de chineses representam mais da metade dos alunos do Colégio São Bento, uma das instituições particulares mais tradicionais da cidade, ligada ao Mosteiro São Bento.

fotos 1 carlos freire 2 e 3 léo ramos chaves

Economia informal

A economia informal deve movimentar R$ 1 trilhão no Brasil em 2017, número que inclui mercadorias provenientes de diferentes países, e não apenas da China. O cálculo é de um estudo desenvolvido pelo Instituto Brasileiro de Ética Concorrencial e o Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas, divulgado em reportagem publicada no jornal Valor Econômico em 6 de dezembro. O jornal também publicou dados do Fórum Nacional Contra a Pirataria e a Ilegalidades estimando que a cidade de São Paulo perdeu R$ 4,5 bilhões em evasão fiscal por causa do comércio de produtos ilegais, em 2016. De acordo com Rosana, grande parte dos produtos chega pelo porto de Santos, mas apenas uma parcela deles é declarada. “A Receita Federal trabalha por amostragem. Com isso, é possível burlar o sistema de controle. No entanto, não é possível mensurar com precisão a quantidade de mercadorias que entra no país ilegalmente”, explica. Freire destaca que o comércio popular nem sempre tem uma distinção bem definida entre formal e informal, legal e ilegal. No Brasil, na medida em que esse comércio se desenvolveu e houve uma mudança de escala, foram constituídas empresas de importação e exportação no centro de São Paulo para realizar compras diretamente da China. “A passagem das margens estreitas da Ponte da Amizade, no Paraguai, para os contêineres do porto de Santos envolve mudanças nas mediações da circulação das mercadorias e isso passa por uma maior dimensão formal das relações”, conta o sociólogo. Apesar da dificuldade em mensurar a quantidade de artigos chineses que entram ilegalmente no Brasil, estima-se que de 15% a 20% dos produtos eletrônicos e de informática vendidos no Brasil são contrabandeados, afirma Paulo Roberto Feldmann, professor na Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA) da USP. “Como boa parte dos produtos que vêm da China são dessa modalidade, eu usaria a mesma proporção de base para estimar o percentual de itens ilegais em outros tipos de mercadorias”, analisa Feldman.

Rosana defende, no entanto, que é preciso evitar a imagem do importador chinês como uma figura mafiosa. “Muitos migrantes que vendem mercadorias ilegais são pessoas que o mercado laboral brasileiro não conseguiu absorver e precisam atuar com a atividade por uma questão de sobrevivência”, sustenta. Além dos chineses, a atividade comercial das galerias no centro de São Paulo e os camelódromos brasileiros em geral garantem o sustento de pessoas de diversas nacionalidades. Daniel Veloso Hirata, professor do Departamento de Sociologia e Metodologia em Ciências Sociais da Universidade Federal Fluminense (UFF) que integra a equipe do temático, destaca que a venda de mercadorias populares está associada ao trabalho ambulante. Ele conta que, nos anos 1990, a prefeitura de São Paulo começou a fornecer licenças para determinadas pessoas trabalharem com essa atividade, entre elas ex-presidiários e deficientes físicos, que poderiam ter mais dificuldades para ingressar no mercado formal de trabalho.

O metro quadrado para compra na região da rua 25 de Março, onde fica a Galeria Pagé (abaixo), está entre os mais caros de São Paulo

3

pESQUISA FAPESP 263  z  83


Box de galeria na esquina da av. Paulista com rua Pamplona: artigos populares importados estão por toda a cidade

em 2016 entraram legalmente no brasil US$ 30 bilhões em produtos chineses No mesmo período, formaram-se associações de ambulantes reunindo pessoas que buscavam ampliar o direito ao trabalho na rua. Hirata considera que um ponto de inflexão nesse panorama foi a criação da figura jurídica do Microempreendedor Individual (MEI) nos anos 2000, permitindo a formalização de diferentes atividades. “No caso dos vendedores ambulantes, eles ainda precisam obter uma licença da prefeitura, porém, com a formalização passam a ter alguns direitos previdenciários e sociais”, esclarece Hirata. Já a situação no Recife é diferente, segundo o antropólogo Marcos de Araújo Silva, pesquisador colaborador no Centro em Rede de Investigação em Antropologia, localizado em Portugal, e no Instituto de Estudos da América Latina da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Na cidade, ele avalia que cerca de 30% dos produtos chineses chegam a partir de São Paulo e o restante sai da província chinesa de Guangdong diretamente para o porto de Suape, na Região Metropolitana do Recife. Na capital pernambucana, o comércio popular ocorre com mais intensidade no bairro de São José. “Entre 2001 e 2010, os chineses eram 84  z  janeiro DE 2018

atendentes em grande parte das lojas. Hoje, atuam como gerentes em cerca de 40% desses estabelecimentos, controlando a circulação do capital”, detalha. Os números resultam de pesquisas que o antropólogo realiza há aproximadamente 10 anos sobre os chineses em Pernambuco. Apesar da predominância atual dos produtos populares chineses na região central de São Paulo, Douglas de Toledo Piza, doutorando em sociologia na New School for Social Research, em Nova York, Estados Unidos, lembra que o centro da cidade é um polo importante de distribuição de mercadorias desde o começo do século XX, quando imigrantes de diferentes etnias montaram lojas e atuavam com comércio ambulante. “A figura do mascate é uma modalidade de vendedor ambulante que utilizava as linhas ferroviárias do centro para distribuir produtos pelo país”, diz. Carlos Freire, da USP, enfatiza que o circuito de mercadorias chinesas distribuídas no comércio popular funciona paralelamente ao das grandes empresas que também procuram, na China, menores custos de produção. “A disseminação de cópias a partir da China se associa ao trabalho das empresas estrangeiras que terceirizam sua produção com fábricas chinesas. Estas, por vezes, acabam reproduzindo e comercializando produtos sem autorização das detentoras das marcas”, explica. Em relação à mão de obra, o pesquisador relata que, na China, os direitos trabalhistas e sociais dos chineses estão ligados a um registro de nascimento, que precisa ser transferido quando a pessoa muda de cidade. Caso isso não seja fei-

fotos 1 léo ramos chaves 2 Ricardo Nogueira /Folhapress

1


2

to, o cidadão pode estar sujeito a um regime de exploração por parte das empresas, além de não ter acesso a outros direitos. Potência comercial

O primeiro fluxo migratório chinês para o Brasil data de 1812, cujo propósito era investir no cultivo de chás, no Rio de Janeiro. Esse fluxo passou por uma ascensão significativa a partir da segunda metade do século XX, quando chineses e taiwaneses imigravam ao Brasil para fugir dos conflitos políticos na Ásia. Após a morte do líder comunista Mao Tsé-Tung em 1976, a nação vivenciou um processo de mudanças, passando a permitir que os chineses circulassem entre as províncias internas e também viajassem para o exterior. Com isso, muitos cidadãos se dirigiram às províncias do Sul, onde se concentra grande parte das fábricas de bens supérfluos. Além disso, o país começou a oferecer incentivos à exportação, passando a autorizar o envio de contêineres com distintos tipos de mercadorias a qualquer parte do mundo. “A China era um país fechado até o final dos anos 1970. Preocupados com o colapso financeiro da União Soviética, os governantes resolveram introduzir o capitalismo de forma gradativa em seu território no final da década de 1990, criando um modelo comercial exitoso”, conta Feldmann, professor na FEA-USP. Ele explica que, do lado do Brasil, a abertura comercial da década de 1990 propiciou a ampliação do comércio com o país asiático. Porém, após a chegada de produtos

chineses, muitas empresas brasileiras faliram. Ele conta que o fluxo comercial entre o Brasil e a China ganhou impulso no governo Lula (20032011), quando o então presidente assinou um acordo comercial com o país. Feldmann estima que em 2016 entraram legalmente no Brasil cerca de US$ 30 bilhões de produtos chineses, dos quais 90% eram industriais, sendo que São Paulo recebeu aproximadamente de US$ 9 bilhões do total, incluindo principalmente eletrônicos, computadores, celulares e impressoras. O professor da FEA também explica parte da pujança comercial da China com a desvalorização proposital que o país faz de sua moeda para fomentar as exportações. “Entre 2011 e 2012, a aquisição de produtos chineses pelos brasileiros foi tão intensa que se refletiu na criação de 1 milhão de empregos industriais no país asiático. É um número alto, se consideramos que atualmente a indústria brasileira emprega cerca de 8 milhões de pessoas”, conclui Feldmann. n

Projetos 1. A gestão do conflito na produção da cidade contemporânea: A experiência paulista (nº 13/26116-5); Modalidade Projeto Temático; Pesquisadora responsável Vera da Silva Telles (USP); Investimento R$ 2.298.704,81. 2. Cidades e mercados: Migrações e rotas comerciais de São Paulo à Guangzhou e Yiwu (nº 15/15056-7); Modalidade Bolsa de Pós-doutorado; Pesquisador responsável Alvaro Augusto Comin (USP); Bolsista Carlos Freire da Silva; Investimento R$ 181.185,72.

Livro PERALVA, A.; Telles, V. (orgs.) Ilegalismos na globalização: Trabalho, migrações, mercados. Rio de Janeiro: Editora da UFRJ, 2015, 572 p.

pESQUISA FAPESP 263  z  85

Versão atualizada em 17/08/2017

Contêineres no porto de Santos: parte do que entra no país não é declarada


Gênero y

Novos arranjos nos lares brasileiros Pesquisa identifica processo de emancipação das mulheres no núcleo familiar a partir da década de 1970 no Brasil Rodrigo de Oliveira Andrade

A

s transformações do papel da mulher na sociedade brasileira durante o século XX, com conquistas importantes envolvendo o direito ao voto, divórcio, trabalho e à educação, são bastante conhecidas. O que agora começa a ficar evidente é que essas mudanças teriam estimulado um processo de emancipação feminina também na esfera familiar, com destaque para a conquista de autonomia financeira e a redução das taxas de fecundidade, que vêm caindo progressivamente desde os anos 1960. Nos últimos anos, vários pesquisadores se propuseram a analisar esse fenômeno. Um dos trabalhos mais recentes é o da socióloga Nathalie Reis Itaboraí, pesquisadora em estágio de pós-doutorado no Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Iesp-Uerj). Com base em dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (Pnad-IBGE), ela analisou o processo de emancipação das mulheres nas famílias brasileiras entre 1976 e 2012 à luz de uma perspectiva

86  z  janeiro DE 2018

de classe e gênero. O período é marcado por transformações na condição feminina, favorecidas por mudanças na estrutura produtiva, mais oportunidades de educação e trabalho e difusão de novos valores pelos meios de comunicação e pela segunda onda do feminismo, iniciada nos anos 1960 – a primeira se deu na segunda metade do século XIX. “Foi também nessa época que a desigualdade de gênero começou a ser mais debatida no Brasil, sobretudo após a declaração, pelas Nações Unidas, de 1975 como o Ano Internacional das Mulheres e o período de 1976-1985 como a Década da Mulher”, explica a pesquisadora. Nathalie é autora do livro Mudanças nas famílias brasileiras (1976-2012): Uma perspectiva de classe e gênero (Garamond), publicado a partir de sua tese de doutorado, vencedora do prêmio de melhor tese de 2016 no concurso da Associação Nacional de Pós-graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (Anpocs) de obras científicas e teses universitárias em ciências sociais. No estudo, ela procura ir além dos indicadores de gênero que medem as mudanças na condição fe-


Transformações femininas Evolução nas famílias brasileiras nos últimos 40 anos

1976 trabalhadores rurais

profissionais com nível superior*

Taxa de fecundidade

Mulheres entre 15 e 54 anos casadas com renda própria

6,6

12,6%

2,5

37,6%

46,4%

2,8

74%

75,5%

1,2

76,3%

Homem como único provedor da família

Mulheres entre 15 e 54 anos casadas que trabalhavam

77

25,4%

63%

34,5%

50,5% 24,1%

% dos casais com mulheres entre 15 e 54 anos

dos casais com mulheres entre 15 e 54 anos

filhos por mulher

filhos por mulher

2012 trabalhadores rurais

profissionais com nível superior*

léo ramos chaves

* Categoria em que ao menos um dos cônjuges tem nível superior

dos casais com mulheres entre 15 e 54 anos

dos casais com mulheres entre 15 e 54 anos

filhos por mulher

filho por mulher

Fonte  ITABORAÍ, N. R.


Meninas entre

5 14 40% e

anos

despendem

mais tempo

por dia em tarefas domésticas não remuneradas que os meninos

minina na esfera pública (participação no mercado de trabalho, representação política etc.), frequentemente usados para comparar os avanços no Brasil com outros países. Esses indicadores, segundo ela, não contemplam as diferenças entre grupos sociais na sociedade brasileira e o impacto da desigualdade de gênero na família e no trabalho doméstico (o cuidado da casa, dos filhos ou de familiares idosos, por exemplo). Para analisar como se deram as transformações na experiência familiar das mulheres em diferentes classes sociais, Nathalie adotou oito tipos de estratos ocupacionais. Eles abarcaram desde trabalhadores rurais (classe 1), mais pobres, a profissionais com nível superior (classe 8), mais abastados. Ainda que as desigualdades entre mulheres de diferentes classes continuem grandes, as análises indicam que o comportamento familiar feminino, independentemente da classe social, mudou na mesma direção nos últimos 40 anos, com avanços significativos quanto à sua autonomia, o que envolve maior controle sobre o próprio corpo, capacidade de gerar renda própria e de controlar esses recursos.

A

té o final da década de 1960, no Brasil, o modelo tradicional de família era marcado por enormes assimetrias entre homens e mulheres. Nos casais, o homem, em geral, era mais velho, mais escolarizado e tinha mais renda. As mulheres trabalhavam apenas enquanto solteiras, abandonando suas atividades após o casamento para se dedicar aos serviços domésticos e cui-

88  z  janeiro DE 2018

dar dos filhos. Isso começou a mudar a partir dos anos 1970 (ver entrevista com a demógrafa Elza Berquó na edição 262). Nathalie verificou que a condição das mulheres melhorou em relação a seus cônjuges nesse período. As diferenças de renda diminuíram nos casais, assim como as de idade e de escolaridade. Também o arranjo tradicional de família, com o homem como único provedor e a mulher como dona de casa, deixou de ser predominante. Em 1976, o percentual de mulheres casadas de 15 a 54 anos que trabalhavam era de 25,4% na classe dos trabalhadores rurais (classe 1) e de 34,5% entre os profissionais com nível superior (classe 8). Em 2012, esse número subiu para 46,4% e 75,5%, respectivamente. “Ter renda própria ajudou a ampliar a autonomia econômica das mulheres, ainda que para as mais pobres isso signifique apenas reduzir certas privações”, explica a socióloga. Em 1976, o homem era o único provedor em 77% dos casais de trabalhadores rurais e em 63% dos casais de profissionais com nível superior. Em 2012, esse percentual caiu para 50,5% na classe 1 e para 24,1% na classe 8. “Homens e mulheres se tornaram mais parecidos quanto ao engajamento profissional, ainda que as

2010 12,5% das mulheres com 25 anos ou mais completaram o ensino superior. A participação masculina foi de 9,9%

mulheres enfrentem mais obstáculos no mercado de trabalho”, ela destaca. Essas conclusões reforçam um fenômeno que há algum tempo vem sendo observado no Brasil. A quantidade de lares chefiados por mulheres aumentou 67% entre 2004 e 2014 no país, segundo dados do IBGE. A concentração de mulheres chefes de família tende a ser mais acentuada nas camadas mais pobres, já que a própria pobreza as conduz ao mercado de trabalho, verificou a socióloga Mary Alves Mendes, do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal do Piauí (UFPI), em estudo apresentado em 2002 no XIII Encontro da Associação Brasileira de Estudos Populacionais, em Ouro Preto, Minas Gerais.

T

endência semelhante foi identificada em 2006 pelo demógrafo Mario Marcos Sampaio, do Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Ele é um dos coordenadores de uma pesquisa publicada na revista Bahia Análise & Dados que analisou o processo de emancipação feminina nas regiões metropolitanas brasileiras entre 1990 e 2000. No estudo, eles verificaram que a participação das mulheres na composição da renda familiar brasileira é crescente, no papel de cônjuge ou no de filha. Essas mudanças estão relacionadas a um processo lento, mas contínuo, de ampliação das oportunidades de acesso à educação às mulheres, iniciada em 1879, com a promulgação da Reforma Leôncio de Carvalho, que permitiu às mulheres cursar o ensino superior. A partir dos anos 1970 essa ampliação passou a ser acompanhada de uma tendência de melhor desempenho escolar das mulheres em relação aos homens, sobretudo nas famílias mais pobres. Hoje, segundo dados publicados em 2014 pelo IBGE, 12,5% das mulheres com 25 anos ou mais completaram o ensino superior em 2010. A participação masculina no período foi de 9,9%. “Se existe uma estratégia nas classes baixas de escolher um ou mais filhos para seguir estudando, é provável que sejam as meninas, por terem, em média, um melhor desempenho escolar”, afirma Nathalie. Os métodos de contracepção também tiveram um papel central no processo de emancipação feminina, à medida que as mudanças desencadeadas pela liberação sexual e o surgimento da pílula


2010 a taxa de fecundidade no estado de são paulo passou a ser de 1,7 filho.

fotos  léo ramos chaves

em 1960, era de 4,7

anticoncepcional, nos anos 1960, deram mais segurança às mulheres para que pudessem organizar a maternidade em função de suas ambições profissionais e outras prioridades. Como resultado, ao longo dos anos houve uma diminuição das taxas de fecundidade (estimativa do número médio de filhos que uma mulher teria até o fim de seu período reprodutivo) em mulheres de todas as classes sociais e de maneira ainda mais acentuada nas classes baixas. Em 1976, a taxa de fecundidade dos trabalhadores rurais (classe 1) era de 6,6 filhos por mulher. Em 2012, esse número caiu para 2,8. No mesmo período, a taxa de fecundidade entre profissionais com nível superior (classe 8) diminuiu de 2,5 para 1,2. Segundo dados do IBGE de 2015, a taxa de fecundidade no Brasil é de 1,72, abaixo do nível de reposição da população. De acordo com a antropóloga Andrea Moraes Alves, da Escola de Serviço Social da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), essa tendência se consolidou nos anos 1990. A visão da contracepção como um direito da mulher e como parte da atenção à sua saúde foi fortalecida durante a Conferência Internacional de População e Desenvolvimento, promovida em 1994, no Cairo, Egito, e pela IV Conferência Mundial sobre a Mulher, em Beijing, China, em 1995. “Os movimentos feministas tiveram um papel central para o estabelecimento desse conceito”, destaca a pesquisadora, que recentemente analisou a trajetória do Centro de Pesquisas e Atenção Integrada à Mulher e à Criança (CPAIMC),

instituição privada que funcionou no Rio de Janeiro entre 1975 e 1992 oferecendo acesso à contracepção e à cirurgia de esterilização para mulheres.

A

s conclusões de Nathalie e Andrea são condizentes com outros estudos, coordenados pelas demógrafas Elza Berquó e Sandra Garcia, do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap). Elas são responsáveis pela pesquisa “Reprodução após os 30 anos no estado de São Paulo”, publicada em 2014 na revista Novos Estudos, do Cebrap. As pesquisadoras identificaram uma tendência entre as mulheres de adiamento da maternidade para depois dos 30 anos. Em São Paulo, a taxa de fecundidade passou de 4,7 filhos por mulher, em 1960, para 1,7, em 2010, sugerindo a existência de uma tendência de adiamento, temporário ou até mesmo definitivo, da maternidade. Já na pesquisa “Reprodução assistida no Brasil: Aspectos sociodemográficos e desafios para as políticas públicas”, coordenada por Sandra Garcia, verificou-se um aumento do uso de tecnologias de reprodução assistida no Brasil. “O adiamento da maternidade se dá de modo mais significativo entre mulheres de nível socioeconômico mais elevado, mas também é observado entre mulheres de classes menos favorecidas”, ela explica. Segundo Sandra, a procura por técnicas de reprodução assistida aumentou em função do adiamento da reprodução para após os 30 anos e também por causa dos novos arranjos familiares.

Apesar dos avanços da condição da mulher, muitos obstáculos ainda precisam ser superados. As que trabalham fora de casa ainda recebem 30% menos para ocupações similares exercidas pelos homens, são minoria nos cargos de chefia e direção e assumem as atividades do mercado de trabalho sem renunciar aos afazeres domésticos. Também as mulheres com filhos enfrentam dificuldades para voltar ao mercado de trabalho. Outro problema: o tempo gasto pelas mulheres com serviços domésticos em todas as classes sociais tende a ser maior do que o gasto pelos homens. “Meninas de 10 a 14 anos gastam mais tempo com serviço doméstico do que meninos da mesma idade”, diz Nathalie. Esses dados estão alinhados com os divulgados em 2016 no relatório “Harnessing the power of data for girls”, do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef ), que indica que garotas entre 5 e 14 anos despendem 40% mais tempo por dia em tarefas domésticas não-remuneradas que os garotos. Em geral, o trabalho das meninas é menos visível e subvalorizado. n

Artigos científicos GARCIA, S. & BELLAMY, M. Assisted Conception Services and Regulation within the brazilian context. JBRA Assisted Reproduction. v. 19, n. 4, p. 198-203. nov. 2015. BERQUÓ, E. S. et al. Reprodução após os 30 anos no estado de São Paulo. Novos Estudos Cebrap. n. 100, p. 9-25. nov. 2014.

Livro ITABORAÍ, N. R. Mudanças nas famílias brasileiras (1976-2012): Uma perspectiva de classe e gênero. Rio de Janeiro: Garamond, 2016, 480 p.

pESQUISA FAPESP 263  z  89


memória Gravura do prédio do Hospício Pedro II produzida pelo artista Eduardo Rensburg em 1856

1

Aos loucos, o hospício Primeiros asilos para alienados do Brasil foram construídos em meados do século XIX no Rio de Janeiro e em São Paulo

Rodrigo de Oliveira Andrade

90 | janeiro DE 2018

E

ra quase impossível andar pelas ruas do Rio de Janeiro no início da década de 1830 sem se deparar com alienados vagando por becos e vielas. Em geral, eram recolhidos às enfermarias da Santa Casa de Misericórdia ou à cadeia pública, de onde não saíam senão mortos. Encarcerados em cubículos fétidos e estreitos, muitos passavam os dias acorrentados. Já os submetidos à tutela de instituições religiosas, não raro, sofriam sanções físicas punitivas. O estado de abandono em que se encontravam os doentes mentais chamou a atenção de alguns membros da Academia Imperial de Medicina e da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, que se engajaram em campanhas pela criação de um estabelecimento para o tratamento dos alienados. O argumento era de que a Santa Casa não estava organizada para promover a cura desses indivíduos. O apelo foi atendido pelo Império com a construção do Hospício de Alienados Pedro II, primeiro asilo brasileiro para essa categoria de doentes. O tratamento de pacientes com problemas mentais por médicos especializados, no entanto, só começaria nos primeiros anos do século XX. O decreto autorizando a construção do hospício foi aprovado pelo imperador Pedro II (1825-1891) em julho de 1841, com base no projeto do político José Clemente Pereira (1787-1854), administrador da Santa Casa do Rio de Janeiro.


fotos 1 wikimedia commons 2 arquivo de fátima de vasconcellos

O imperador contribuiu com boa parte da verba para a construção do edifício – o restante veio da Irmandade da Misericórdia e de abastadas famílias cariocas. O Hospício Pedro II, também chamado de “Palácio dos Loucos”, abriu suas portas em dezembro de 1852. Funcionava em um terreno próximo à baía de Botafogo, “em um bairro salubre, amplamente aberto para o mar e dominado por montanhas arborizadas, localizado em uma distância conveniente do rico subúrbio de Botafogo e do terminal das linhas de bondes que atendem essa área”, descreveu o médico Philippe-Marius Rey, do Asilo de Alienados de Saint-Anne, em Paris, França, em L’hospice Pedro II et les aliénés au Brésil. O hospital funcionava com base nas ideias dos alienistas franceses Philippe Pinel (1745-1826) e Jean-Étienne Esquirol (1772-1840), que recomendavam o isolamento, o controle e a vigilância para afastar o indivíduo das causas de sua loucura. “A alienação era para os psiquiatras da época a manifestação das afeições morais, sendo as paixões da alma consideradas a causa da loucura. Desse modo, os excessos relativos ao amor e à ordem social deveriam ser regulados pela razão”, explica o historiador Ewerton Moura da Silva, da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FM-USP). “Diante desses excessos, buscava-se restaurar o domínio racional dos indivíduos por meios morais e físicos, que variavam desde métodos persuasivos às tradicionais camisas de força e duchas de água fria.”

O Pedro II foi projetado para comportar até 140 pacientes, segundo levantamento feito no Arquivo Nacional pelos historiadores Monique de Siqueira Gonçalves, do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e Flávio Coelho Edler, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Ao analisar relatórios produzidos pela Santa Casa do Rio, constataram que a fama do hospital se espalhou rapidamente pelo país. Era frequente o envio de alienados em paquetes rumo ao Rio. “Chegando à Corte, eram deixados perambulando pela cidade na esperança de que fossem recolhidos pela polícia e levados ao hospício, onde eram recebidos como indigentes”, escreveram Monique e Edler em artigo publicado na Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental. Outro problema é que no início os policiais desconheciam o papel que o hospício cumpria e o tipo de população que deveria ser enviado para lá. Assim, eram

Doentes mentais de todo o país eram enviados para o Rio na esperança de que fossem recolhidos

Corpo clínico do Hospital Nacional de Alienados, no Rio de Janeiro, em 1904

recolhidos todos aqueles que, na visão das autoridades da época, perturbassem a ordem da cidade, o que incluía epiléticos e bêbados. Com a conclusão das obras, em 1854, a capacidade do hospício subiu para 300. A crescente demanda por vagas foi um problema para a administração do hospital durante os seus anos de existência. A situação alcançou o ápice em 1862. Em carta enviada ao provedor do hospício, o médico Manoel José Barbosa se queixava que o estabelecimento já abrigava 400 pacientes e as remessas de alienados eram abusivas. Diante disso, pedia que a administração fechasse o hospício para novos pacientes, reiterando a necessidade de se criar um asilo exclusivo para inválidos, que ocupavam boa parte das instalações. O Pedro II manteve-se vinculado à Santa Casa até 1890, quando passou à administração federal, sob a jurisdição do Ministério da Justiça e Negócios Interiores. A partir de então, teve o nome mudado para Hospital Nacional dos Alienados e

2

PESQUISA FAPESP 263 | 91


1

Médico baiano Juliano Moreira, um dos primeiros a divulgar as ideias de Sigmund Freud no Brasil

o trabalho das irmãs de caridade nas enfermarias foi suspenso. Em 1903, a instituição começou a ser dirigida pelo médico baiano Juliano Moreira (1873-1933), um dos primeiros a divulgar, no Brasil, as ideias de Sigmund Freud (1856-1939), médico austríaco criador da psicanálise. Durante os 27 anos em que esteve à frente da instituição, Moreira construiu a psiquiatria como especialidade médica no país, com ideias e práticas novas. Inspirado na Clínica de Munique, Alemanha, dirigida por Emil Kraepelin (1856-1926), aboliu as camisas de força e retirou as grades de ferro das janelas (ver Pesquisa FAPESP nº 124). O antigo Pedro II encontrava-se em ruínas em 1944, sem condições de oferecer tratamento adequado aos alienados, que foram transferidos, entre março e setembro daquele ano, para a colônia de Jacarepaguá. As instalações do antigo hospício foram doadas à Universidade do Brasil (atual UFRJ), que restaurou o conjunto arquitetônico. Suas instalações atualmente abrigam o Instituto de Psiquiatria da universidade. 92 | janeiro DE 2018

Médico psiquiatra durante aplicação de raios infra-vermelho em pacientes do Hospital do Juquery

O Hospício Pedro II abriu caminho para a criação de espaços semelhantes para o tratamento de doentes mentais pelas províncias do país, segundo a psiquiatra e historiadora da medicina Ana Maria Galdini Raimundo Oda, da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (FCM-Unicamp). Ao lado do psiquiatra Paulo Dalgalarrondo, também da FCM-Unicamp, ela estudou a história dos primeiros hospícios do Brasil. Verificaram que a institucionalização dos alienados durante o Segundo Reinado, entre 1840 e 1889, foi marcada pela atuação de políticos, intelectuais e filantropos, além da consolidação de uma opinião pública consensual quanto à necessidade da reclusão, mesmo que compulsória, dos doentes mentais. É o caso do Hospício de Alienados de Olinda, em Pernambuco, em 1864, o Hospício Provisório de Alienados de Belém, no

2

Pará, em 1873, o Asilo de Alienados São João de Deus, em Salvador, na Bahia, em 1874, e o Hospício de Alienados São Pedro, em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. Em São Paulo, o Hospício Provisório de Alienados foi fundado em 1852, no mesmo ano de inauguração do Pedro II. “Diferentemente dos outros hospícios do país, o de São Paulo não era administrado pela Santa Casa, que se recusava a receber os loucos”, explica Ana Oda. Segundo ela, coube ao presidente da província José Tomás Nabuco de Araújo (1813-1878) arcar com os custos da assistência aos alienados e nomear uma administração a cargo do alferes Tomé de Alvarenga. O asilo funcionava em um prédio alugado na rua São João, na região central da cidade. Como na maioria dos hospícios, contava com um ou dois médicos. “A psiquiatria ainda estava se consolidando como especialidade médica àquela época no Brasil, e a formação de especialistas só se tornou mais frequente na virada do século XX”, esclarece a psiquiatra. No início, o hospício paulista tinha nove internos. Depois de alguns anos, diante das críticas em relação às condições precárias do prédio, determinou-se a compra de uma nova edificação em uma chácara na ladeira da Tabatinguera, na Várzea do Carmo, e a transferência dos alienados para o novo local. A administração do hospício continuou a cargo de Tomé de Alvarenga, substituído somente após sua morte, em 1868, por seu filho Frederico Antônio de Alvarenga. Com a morte deste, em 1896, a direção do


fotos 1 arquivo de fátima vasconcellos 2 folhapress  3 eduardo cesar

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asilo passou para as mãos de Francisco Franco da Rocha. Formado pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, Franco da Rocha (1864-1933) foi um dos primeiros a se especializar em psiquiatria no Brasil, ao lado de Juliano Moreira. Foi nomeado para o hospício paulista em 1891 e protagonizou uma campanha para a construção de um moderno asilo de alienados na cidade. A empreitada vinha na esteira de recomendações apresentadas e discutidas durante o Congresso Internacional de Alienistas de 1889 em Paris, França, acerca da criação de colônias agrícolas anexas aos manicômios. A ideia, segundo o historiador Ewerton Moura da Silva, era que o trabalho agrícola fosse aplicado como ação terapêutica, distraindo os pacientes e melhorando seu comportamento.

A Colônia Agrícola de Alienados do Juquery foi inaugurada em maio de 1898. Foi erguida em um terreno de 170 hectares localizado a menos de 50 quilômetros da cidade, com edificações projetadas pelo arquiteto Francisco Ramos de Azevedo (1851-1928). O asilo cresceu em ritmo acelerado. Construído para abrigar 300 pacientes, passou por sucessivas ampliações para atender à demanda. Em 1901, o Juquery abrigava 590 pacientes. Em 1912, eram 1.250 internados. Em 1928, eram pouco mais de 2 mil distribuídos em cinco pavilhões femininos, quatro masculinos e um para crianças. Havia ainda uma lista de espera de milhares de pessoas do estado aguardando uma vaga. Muitos internos eram imigrantes portugueses, segundo Silva. Autor do

Vista da fachada de um dos pavilhões ainda ativos do Juquery, em Franco da Rocha

O diagnóstico mais comum era esquizofrenia, mas havia também indivíduos internados por melancolia

livro Do sonho à loucura: Hospitais psiquiátricos e imigração portuguesa em São Paulo (1929-1939), ele encontrou 483 registros de portugueses internados no Juquery. O diagnóstico mais comum era esquizofrenia. Havia também indivíduos internados por melancolia, provavelmente associada à saudade do país de origem, segundo ele. “Era comum os imigrantes serem internados por querer voltar para Portugal”, conta. A situação começou a mudar nos anos 1980, com a redefinição das normas de tratamento psiquiátrico. Hoje, parte do terreno do hospital colônia é ocupada pelo Parque Estadual do Juquery, na cidade que ganhou o nome de Franco da Rocha. Em seis pavilhões moram 123 pacientes. A maioria dos 60 prédios está fechada e desocupada, com destino ainda incerto. n PESQUISA FAPESP 263 | 93


resenha

Política e economia entre 1961 e 1964 Pedro Paulo Zahluth Bastos

Empresários, trabalhadores e grupos de interesse. A política econômica nos governos Jânio Quadros e João Goulart, 1961-1964 Felipe Pereira Loureiro Editora Unesp 597 páginas | R$ 98

94 | janeiro DE 2018

do alongamento do prazo dos passivos externos e da mudança da pauta exportadora. Loureiro demonstra como o governo dos Estados Unidos operou em conjunto com a comunidade financeira de Wall Street para aproveitar a dependência financeira brasileira de modo a realizar seus objetivos estratégicos no país. Durante o governo Goulart, tratava-se nada menos do que boicotar um governo considerado fraco demais para conter a ameaça comunista e a agitação operária. Antes do apoio ao golpe de 1964, uma arma para desestabilizar o governo era manter o balanço de pagamentos em crise. Em uma economia com ampla capacidade ociosa na indústria e cuja demanda desacelerava depois do Plano de Metas, a desvalorização cambial e os problemas do balanço de pagamentos impulsionavam a inflação pelo canal dos custos. Assim, contribuíram para a explosão das greves, à medida que os trabalhadores se organizavam para repor perdas salariais contra a inflação crescente. Loureiro também documenta a eclosão de greves “políticas”, como na campanha em 1962 para antecipar o plebiscito sobre o sistema de governo. Tais greves alimentaram o discurso contra a ameaça de uma “república sindicalista” que justificaria o golpe de 1964. O aguçamento do conflito distributivo e político, com boicote financeiro externo, tornava a gestão econômica muito mais difícil. A vitória do presidencialismo no plebiscito de janeiro de 1963 não resolveu a crise política. Um ponto forte do livro é a discussão do Plano Trienal, conduzido por Celso Furtado e Santiago Dantas na retomada do presidencialismo. Enquanto os Estados Unidos vetavam o alongamento da dívida externa, a oposição no Congresso Nacional rejeitou toda proposta de Goulart para o reequilíbrio orçamentário, já flertando com nova ruptura institucional. O livro é bem-vindo não apenas por causa de sua contribuição aos debates acadêmicos. Tratando de um período de grande instabilidade, o próprio autor frisa no prefácio que a revisita aos acontecimentos que levaram ao golpe de 1964 assume hoje um interesse que vai além da academia. Pedro Paulo Zahluth Bastos é professor visitante na UC Berkeley, professor livre-docente (licenciado) do Instituto de Economia da Unicamp, autor de A era Vargas: Desenvolvimentismo, economia e sociedade.

eduardo cesar

O

livro do professor Felipe Pereira Loureiro, do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo, é uma contribuição importante sobre um período crucial da história brasileira contemporânea: os governos Jânio Quadros e João Goulart, entre 1961 e 1964. Como o tema já foi objeto de inúmeros trabalhos, é difícil ser inovador ao enfocá-lo. Loureiro, contudo, apresenta um trabalho que deve ser uma referência na abordagem da época. O aporte de Empresários, trabalhadores e grupos de interesse está em mostrar o impacto das lutas sociais e políticas na gestão da política econômica. Loureiro articula os dois planos e expõe sua interação com domínio amplo da bibliografia e o uso de um corpo original de documentos históricos. Tais documentos revelam o posicionamento e as práticas de associações de empresários, de sindicatos trabalhistas e do governo dos Estados Unidos. Embora as associações empresariais investigadas se concentrem no eixo Rio-São Paulo, a pesquisa envolveu um conjunto amplo e representativo que revela a oposição empresarial a iniciativas de contenção monetária e fiscal e a propostas de reforma tributária do governo Goulart. Os arquivos norte-americanos, por sua vez, deixam transparecer o boicote dos governos John F. Kennedy e Lyndon B. Johnson às tratativas brasileiras de renegociar o pagamento de débitos externos herdados do Plano de Metas no governo de Juscelino Kubitschek. Apesar da industrialização pesada que ocorrera, o Brasil ainda era dependente da exportação de conjunto limitado de produtos primários, principalmente o café, cujas quedas de preço inviabilizavam importações de produtos industriais essenciais e o pagamento de passivos externos. Para tentar resolver o problema, o governo Jânio Quadros executou em 1961 a proposta ortodoxa do Fundo Monetário Internacional (FMI): uma desvalorização cambial de 100% acompanhada de um movimento em direção à unificação do mercado de câmbio. A política fracassou porque desconsiderava que as exportações de commodities eram inelásticas à taxa de câmbio, ou seja, não reagiam aos preços e sim ao nível de atividade dos países consumidores. Com isso, o pagamento de importações essenciais dependia


carreiras

formação

Como aproveitar estágios no exterior

ilustrações  augusto zambonato

Preparar um cronograma das atividades de pesquisa e criar uma relação produtiva com os anfitriões ajudam a enriquecer a experiência Estágios de pesquisa de curta duração no exterior podem ajudar alunos de pós-graduação e jovens pesquisadores a enriquecer sua formação por meio da vivência com grupos internacionais de alto nível. Em dezembro, pesquisadores dos Estados Unidos, dos Emirados Árabes Unidos e da Colômbia publicaram na revista PLOS Computational Biology um artigo com 10 orientações para quem deseja tirar o melhor proveito dessa experiência (ver quadro na página 97). O passo mais decisivo é a escolha adequada da universidade e do orientador ou supervisor e, de acordo com o paper, há várias estratégias para verificar a excelência da instituição, a qualificação de seu corpo técnico e a infraestrutura disponível nos laboratórios. “Pode-se, por exemplo, enviar e-mails para colegas que atuam na mesma

área do conhecimento; entrar em contato com supervisores de estágios; ou, meses antes, participar de cursos de curta duração ou conferências realizadas em locais de interesse”, recomenda o artigo. O biólogo Raul Costa Pereira, doutorando no Instituto de Biociências da Universidade Estadual Paulista (Unesp), campus de Rio Claro, fez uma lista com cerca de 10 nomes de pesquisadores com o intuito de encontrar quem o supervisionasse no período sanduíche no exterior. “Entrei em contato com dezenas de ex-alunos que foram orientados por aqueles pesquisadores para me informar mais sobre eles e fazer uma triagem”, relata Pereira. Ao final, Pereira conseguiu uma vaga no laboratório do biólogo Volker Rudolf, na Universidade Rice, nos Estados Unidos, onde estagiou por 10 meses em 2016. Lá, adquiriu habilidades em PESQUISA FAPESP 263 | 95


modelagem estatística e ecologia teórica necessárias para seu doutorado. “Era uma competência científica que eu precisava para conduzir minha pesquisa, que busca quantificar diferenças nos hábitos alimentares e tamanho corpóreo em rãs no Pantanal”, explica. Entre outubro e novembro de 2017, ele fez outro estágio, dessa vez na Universidade de Otago, na Nova Zelândia, onde trabalhou com análises estatísticas. Pereira conta que, em ambas as oportunidades, começou a planejar a viagem com bastante antecedência. “É importante pesquisar sobre a cidade onde se pretende ficar e obter informações sobre moradia, transporte e documentação. Um conselho útil é entrar em contato meses antes com a universidade anfitriã, que geralmente tem um pessoal preparado para auxiliar alunos estrangeiros”, diz Pereira. “Também recorri a grupos de estudantes de redes sociais, o que me ajudou a conseguir dicas de moradia.” planejamento

Outra orientação do artigo da PLOS é fazer um cronograma detalhado das atividades que se pretende realizar. “A falta de planejamento prévio, tanto do aluno quanto de seu orientador, pode fazer com que a experiência do estágio não seja proveitosa”, observa o físico Paulo Artaxo, professor do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (USP). Com estágios de pós-doutorado em países como Estados Unidos, Bélgica e Suécia e extensa experiência em enviar alunos para o exterior, Artaxo enfatiza que nenhum estudante orientado por ele defende o doutorado sem antes ter alguma experiência fora do país. Em geral ele envia alunos a instituições com as quais colabora há décadas, entre elas o Instituto Max Planck, na Alemanha, a agência espacial norteamericana (Nasa) e a Universidade Harvard, nos Estados Unidos. “Nesse caso, meus alunos vão para laboratórios estrangeiros analisar 96 | janeiro DE 2018

disponíveis em instituições brasileiras”, explica Paula. Em sua pesquisa, ela realiza a modificação do meio filtrante que tem potencial aplicação em condicionadores de ar. O objetivo é criar um filtro capaz de diminuir ou eliminar microrganismos em ambientes fechados. Paula conta que planejou a viagem sozinha e teve a ajuda de amigos com experiência no exterior para lidar com situações burocráticas, como o envio de documentos para a instituição alemã. idiomas

dados coletados no âmbito de cooperações internacionais já consolidadas. Com isso, as chances de concluir o estágio com sucesso são altas”, avalia Artaxo. O físico lembra que o objetivo do estágio de curto prazo é fazer com que o aluno absorva conhecimento novo ou aprimore alguma competência ainda incipiente no Brasil. “Não vejo sentido em ir para fora aprender algo que pode ser encontrado com excelência em alguma universidade ou instituição de pesquisa do país”, opina. O papel do orientador ou supervisor no Brasil é sempre importante. Raul Pereira diz que a ajuda que recebeu de Márcio Silva Araújo, seu orientador no Departamento de Ecologia da Unesp, foi crucial. “Por ter sido bolsista no exterior no doutorado e no pós-doutorado, ele me deu suporte no planejamento da viagem e orientações sobre como organizar minhas atividades de pesquisa”, conta Pereira. No caso da química Paula de Freitas Rosa Remiro, doutoranda na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), o estágio de quatro meses cumprido em 2017 na Universidade de Bremen, na Alemanha, foi decisivo para viabilizar sua pesquisa na área de controle ambiental. “Havia a necessidade de realizar medidas de força de adesão entre filtros e partículas que não estavam

O estagiário também precisa estar preparado para integrar-se ao laboratório estrangeiro. Dominar completamente a língua inglesa é um requisito básico para produzir relatórios, fazer apresentações, participar de reuniões, preparar manuscritos e conversar com colegas. “Muitos brasileiros ainda subestimam a importância de compreender muito bem a língua inglesa. A falta de fluência pode comprometer o estágio”, salienta Paulo Artaxo. Em instituições de outros países, como França e Alemanha, pode ser útil para o estagiário conhecer razoavelmente o idioma local. “Faço inglês desde criança, então consegui me virar bem durante o estágio. Com isso, pude me aproximar de colegas de laboratório e participar de conversas informais fora do expediente”, observa o biólogo Fábio Machado, que fez estágio de um ano entre 2004 e 2005 na Universidade de Massachusetts, nos Estados Unidos, quando era aluno de doutorado no Instituto de Biociências da USP. Segundo ele, é importante que o aluno aproveite o tempo livre do estágio para trocar ideias com outros pesquisadores. “Cientistas gostam de falar de trabalho a qualquer hora. Por isso, eu ia a cafés e bares com meus colegas e isso contribuiu para criar vínculos duradouros. Algumas dessas conversas despretensiosas evoluíram para parcerias científicas tempos depois”, conta Machado,


que atualmente é pesquisador do Museu Argentino de Ciências Naturais, em Buenos Aires. O estagiário deve estar preparado para lidar com diferenças culturais e legais. Para os pesquisadores que escreveram o artigo da PLOS, é importante, por exemplo, que o aluno esteja inteirado das diretrizes éticas e dos processos regulatórios vigentes na instituição anfitriã. Segundo eles, uma das experiências mais valiosas da mobilidade internacional é conhecer outros estilos de fazer ciência e imergir em uma nova cultura. “Vá com a ideia de que você é o único que deve se adaptar à cultura e modo de trabalho locais. Não espere que as pessoas se adaptem a você”, recomenda o paper. Paula de Freitas, da UFSCar, percebeu diferenças entre o sistema de pesquisa brasileiro e o alemão assim que chegou a Bremen. “A oportunidade do estágio me ensinou que a cultura de pesquisa alemã é muito motivada pelos problemas trazidos de empresas que ficam nas imediações da universidade, algo que não é muito comum no Brasil”, afirma. n Bruno de Pierro

Manual de viagem Artigo publicado na PLOS Computational Biology reuniu orientações para auxiliar estudantes de pós-graduação a planejar estágios de curta duração no exterior. Abaixo, uma síntese das recomendações:

escolha da instituição 1 AÉ importante verificar a afinidade de interesses de pesquisa entre o estudante e a universidade, assim como informar-se sobre a infraestrutura disponível e as qualificações científicas da instituição

3

2 A documentação necessária inclui Planejamento cuidadoso

Fontes de financiamento No Brasil, agências de apoio à pesquisa concedem bolsas para

contrato assinado pela

estágios no exterior. Se não houver

universidade de origem e a anfitriã,

disponibilidade, vale verificar se a

obtenção de visto e aquisição de

instituição do país ou a estrangeira

seguro saúde. É essencial

oferece esse tipo de apoio

providenciá-la com antecedência

4 Lição de casa Conhecer o funcionamento

5

da universidade anfitriã,

Para se comunicar

como suas diretrizes éticas e sua forma de

Dominar a língua inglesa é

6

organização, pode auxiliar

requisito essencial para produzir

na adaptação. Pessoas que

relatórios, fazer apresentações,

Colaboração combinada

trabalham ou estudam

participar de reuniões e conversar

Se o estágio render a publicação

na instituição podem ter

com colegas. Em estágios na

de artigos, é prudente discutir

informações úteis

França ou Alemanha, pode

antes o papel de cada autor. Além

ser útil conhecer o idioma local

de evitar situações desagradáveis, isso ajuda a pavimentar

ilustrações  augusto zambonato

colaborações no futuro

Diálogo transparente 8 Conflitos e divergências

na vida acadêmica 7 Imersão Frequentar palestras e reuniões de laboratório ou participar

causados por diferenças

de clubes estudantis também cria

culturais são comuns em um

oportunidades de colaboração

estágio. Lidar com eles de

com colegas de estágio e outros

forma transparente e cordial

pesquisadores

ajuda a prevenir desgastes

tipos de parceria 9 Outros O tempo livre pode ser

0 Laços estreitados Antes de regressar, o

aproveitado para conhecer

estagiário pode convidar

empresas, agências e

colegas para conhecer

outras universidades.

sua universidade. É uma

Essa estratégia enriquece

forma de manter vínculos

a experiência do estágio

com os interlocutores e

e pode resultar em outros

trazer novas ideias para

tipos de cooperação

sua instituição PESQUISA FAPESP 263 | 97


perfil

Nova geração de placas de Petri Bioquímica desenvolveu dispositivo alternativo para cultivar células e criou empresa no Canadá para fabricá-lo

98 | janeiro DE 2018

“Ao retirar os neurônios do corpo para cultivá-los em uma dessas placas, eles perdem a forma, dando origem a um circuito diferente cada vez que são cultivados em uma placa diferente”, explica. Ela então criou um dispositivo à base de silicone biocompatível com estruturas 3D que permitem organizar e padronizar as culturas celulares. Assim, pôde estudar os neurônios de forma isolada, com resultados mais confiáveis e reproduzíveis. Aos poucos, outros colegas começaram a se interessar pelo molde. Com a demanda, foi contratada para dirigir um laboratório para desenvolver e produzir dispositivos para cultura celular. “Um dia, uma empresa entrou em contato pedindo 10 mil unidades”, conta. Margaret decidiu pedir demissão da universidade e criar a Ananda Devices, startup voltada à produção de dispositivos para acelerar pesquisas com células em laboratório. A inovação recebeu vários prêmios, como o oferecido pela competição mundial de startups Hello Tomorrow, na França. Seu plano de negócio também foi premiado no Dobson Cup Innovation Competition, no Canadá. A empresa hoje fornece dispositivos para cientistas dos Estados Unidos, do Canadá, da Europa e do Brasil. n Rodrigo de Oliveira Andrade

Dispositivo desenvolvido pela bioquímica permite organizar e padronizar as culturas celulares em um ambiente semelhante ao do corpo humano

fotos  acervo pessoal

Em 2008, durante suas pesquisas sobre como os neurônios reagiam a lesões e como eles poderiam ser reconectados, a bioquímica paulistana Margaret Magdesian percebeu que era quase impossível estudá-los na placa de Petri, usada há mais de um século em pesquisas com microrganismos e culturas celulares. “Os neurônios não se organizavam como no cérebro”, diz a pesquisadora, que à época trabalhava no Instituto Neurológico de Montreal, na Universidade McGill, no Canadá. Ela decidiu criar um molde para o crescimento organizado das células em um ambiente semelhante ao do corpo humano. O dispositivo logo se mostrou inovador, fazendo com que a bioquímica deixasse a universidade para criar a própria empresa. Margaret formou-se em farmácia e bioquímica na Universidade de São Paulo (USP). No mestrado, iniciado em 1996 no Instituto de Química (IQ), pesquisou receptores na célula de mamíferos que facilitassem a infecção pelo Trypanosoma cruzi, causador da doença de Chagas. O trabalho apresentou bons resultados,

o que lhe permitiu converter o mestrado em um doutorado direto na mesma instituição. Prestes a concluí-lo, Margaret foi para Boston, nos Estados Unidos, participar da Gordon Research Conference. O evento apresenta pesquisas na fronteira do conhecimento nas ciências biológicas, químicas e físicas. “Lá conheci David Colman, então diretor do Mount Sinai School of Medicine, em Nova York”, conta. “Ele se interessou pela minha pesquisa e me convidou para trabalhar com ele, mas recusei a oferta.” Margaret ainda fez um estágio de pós-doutorado no IQ-USP antes de se mudar para o Rio de Janeiro, em 2002, onde foi professora no Departamento de Bioquímica Médica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Em fins de 2007, seu marido recebeu uma proposta de trabalho no Canadá. “Pesquisei alguns laboratórios e descobri que Colman tinha se tornado diretor do Instituto Neurológico de Montreal.” Ela escreveu para ele, que a convidou para se juntar ao seu laboratório. Margaret se mudou para Montreal em fevereiro de 2008. Foi quando começou a perceber as desvantagens das placas de Petri.


20 18

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