Page 1

Filósofo dos

novos tempos A philosopher of the future

Mario Sergio Cortella, um dos pensadores mais respeitados da atualidade, chama seus inúmeros seguidores de ‘partilhantes de ideias’ Mario Sergio Cortella, one of the most important thinkers of our time, calls his followers ‘idea sharers’

Fotos: Elaine Higa/Divulgação

Sou otimista, e sempre o fui, por recusar a omissão ou a complacência, procurando não ser ingênuo e nem autoiludido

“I am optimistic, and always have been one, for refusing omission or complacency, trying not to be naive or self-deceived”

10 | VCP News

VCP_Cortella.indd 10

05/05/2017 17:59:13


ENTREVISTA | INTERVIEW

O

Por Kátia Camargo

filósofo e escritor Mario Sergio Cortella nasceu em Londrina, no Paraná, em 1954. É autor de livros nas áreas de educação, filosofia, teologia, motivação e carreira. Considerado um dos intelectuais mais influentes da atualidade, conquista públicos de faixas etárias variadas. Ele acaba de lançar, junto com o comunicador Marcelo Tas, o livro Basta de Cidadania Obscena, pela editora Papirus 7 Mares. Na juventude, ele experimentou a vida monástica em um convento da Ordem Carmelita. Hoje é professor universitário de educação, conferencista e escritor, mas prefere chamar suas obras de “provocações filosóficas”. Em entrevista à VCP News ele dá sua opinião sobre felicidade, tecnologia, jovens no mercado de trabalho e conta um pouco de sua experiência como monge. Revista VCP News - De que trata o livro Basta de Cidadania Obscena? Mario Sergio Cortella - Trata-se de um diálogo profundo e alegre com Marcelo Tas sobre cidadania e a contribuição, positiva e negativa, das tecnologias. É um livro que traz uma reflexão sobre a urgência de dar um basta na cidadania obscena. Em seu outro livro, Verdades e Mentiras: Ética e Democracia no Brasil, o senhor diz que mesmo em meio à crise ética, política e econômica que estamos vivendo devemos ser otimistas. O senhor sempre foi otimista? O otimista tem de fazer muito mais esforço, pois a melhor maneira de não precisar fazer nada é acreditar que de nada adianta tentar fazer alguma coisa. Por isso, o pessimista se acovarda e se protege pela descrença que gera a inação, enquanto o otimista, sendo crítico e ativo, honra o dever de não se omitir. Sou otimista, e sempre o fui, por recusar a omissão ou a complacência, procurando não ser ingênuo e nem autoiludido. O que ser monge trouxe de experiência para a sua vida? Por que desistiu? Fui monge por três anos, na Ordem Carmelitana Descalça. Embora não tenha chegado a ser sacerdote, aprendi imensamente na vida conventual, especialmente o valor da meditação e da partilha. Estava no primeiro ano de filosofia na universidade e quis entrar

T

he philosopher and writer, Mario Sergio Cortella, was born in Londrina, Paraná, in 1954. He is a published author in the fields of education, philosophy, theology, motivation and career books. Considered as one of the most influential thinkers of our time, he is praised by people of all ages. Co-written with the TV host/writer/journalist Marcelo Tas, he just released the book Basta de Cidadania Obscena, published by Papirus 7 Mares. As a young man, he experienced the monastic life in a Carmelite Order convent. Today, he is a college professor of education, lecturer, and writer, but he prefers to call his work “philosophical provocations”. During his interview to VCP News, he voices his opinions about happiness, technology, youth in the workforce, and tells a little bit about his experience as a monk. VCP News – What is Basta de Cidadania Obscena about? Mario Sergio Cortella - It is a deep and joyful dialogue with Marcelo Tas about citizenship and the positive and negative contribution of technology. It’s a book that promotes thinking on the urgency of stopping this obscene citizenship. On your other book Verdades e Mentiras: Ética e Democracia no Brasil, you say that even among ethical, political and economic crisis we are living in we should remain optimistic. Were you always optimist? The optimist has to make a lot more effort, because the best way to not have to do anything is to believe that there is no point in trying to do something. Therefore, the pessimist recoils and protects himself by the disbelief that generates inaction, while the optimist, being critical and active, honors the duty not to be omitted. I am optimistic, and always have been one, for refusing omission or complacency,

VCP News | 11

VCP_Cortella.indd 11

05/05/2017 17:59:19


no convento para vivenciar uma experiência na religiosidade que fosse menos superficial. Quando pude perceber que essa experiência já houvera cumprido seu papel e que seguir no clero não era meu interesse mais enraizado, sai da Ordem e segui para a docência, na qual estou faz mais de quatro décadas. O senhor disse em uma entrevista que os jovens estão chegando ao mercado de trabalho altamente competentes, porém mal educados. Isso seria culpa da educação dos pais? A nova geração é para nós um grande patrimônio, e

Precisamos afastar dos nossos horizontes tanto a informatofobia quanto a informatolatria

“We need to move away technophobia and technolatry from our horizons”

trying not to be naive or self-deceived. How was your experience in being a monk? Why did you give up? I was a monk for three years in the Barefoot Carmelite Order. Although I did not become a priest, I learned a lot from the convent life, especially the value of meditation and sharing. I wanted to enter the convent. I was in my first year of philosophy at the university and wanted to enter the convent to have a less superficial religious experience. When I realized that this experience had already run its course and that to follow in the clergy was not my most deep interest, I left the Order and started teaching, which I’ve been doing for more than four decades. You said in an interview that young people are coming into the job market highly competent but with bad manners. Is that the fault of parenting? The new generation is a great asset for us, not a burden, if we know how to use what they come to add and we will be able to reinvent some of the behaviors that are fractures of a healthy coexistence and collective success. There is, therefore, a great parental responsibility, people who turn into a source of disaggregation when absent from the duties of raising someone, but who are a vigorous part in correcting negative paths. After all, going into labor is not just for the hospital. In your opinion, is technology helpful? How to take advantage without becoming alienated? We need to move away technophobia and technolatry from our horizons. It’s not just damaging and not just messianic. Quoting Millôr, ‘the important thing is to own, without it owning you’. Recently, you said that a happy home is a messy home. Do you think that today, people live for appearances forgetting the real life? A messy house for some time, not all

12 | VCP News

VCP_Cortella.indd 12

05/05/2017 17:59:38


ENTREVISTA | INTERVIEW

Em sua opinião a tecnologia ajuda ou atrapalha? Como tirar proveito da tecnologia sem nos tornarmos alienados? Precisamos afastar dos nossos horizontes tanto a informatofobia quanto a informatolatria; ela não é apenas danação e nem messiânica. Lembrando Millôr, ‘o importante é ter, sem que o ter te tenha’. Recentemente o senhor falou que uma casa feliz é uma casa bagunçada. Acha que hoje as pessoas vivem mais de aparência e esquecem da vida real? Uma casa bagunçada por algum tempo, e não o tempo todo, é sinal de vida que nela pulsa; tudo muito arrumado por todo o tempo indica ausência de uso partilhado e pode sugerir que, naquela casa, a transformação de átomos em bits desincorporou as pessoas concretas e deixou somente ectoplasmas errantes. O senhor acredita perdemos a noção da simplicidade? Em grande medida perdemos a noção de que simplicidade não é sinônimo de carência e sim de suficiência. Ser simples não é ser desprovido de meios para sustentar uma vida na qual haja abundância, mas ter o que for suficiente para essa abundância; como abundância não é nem desperdício e nem excesso inútil, a simplicidade é o que basta para nós sem nos aprisionarmos. Como lida com milhares de seguidores nas redes sociais? É uma prazerosa e estupenda multiplicação de salas de aula. Costumo inclusive escrever em algumas delas que não aprecio tanto a palavra seguidor, por dar um ar de profetismo à convivência; prefiro chamar de partilhantes de ideias, afetos, desafetos, agonias e alegrias.

SER SIMPLES NÃO É SER DESPROVIDO DE MEIOS PARA SUSTENTAR UMA VIDA NA QUAL HAJA ABUNDÂNCIA, MAS TER O QUE FOR SUFICIENTE PARA ESSA ABUNDÂNCIA

não um encargo, desde que saibamos fruir aquilo que trazem de valoroso e consigamos com ela reinventar algumas condutas que são fraturantes da convivência sadia e do êxito coletivo. Há, para tanto, uma responsabilidade grande dos pais, que também são fonte de desagregação quando se ausentam dos deveres de quem precisa educar, mas que fazem parte vigorosa da correção das rotas negativas. Afinal, trabalho de parto não é só na maternidade.

“BEING SIMPLE IS NOT TO BE DEPRIVED OF THE MEANS TO SUPPORT A LIFE IN WHICH THERE IS ABUNDANCE, BUT TO HAVE ENOUGH TO MAINTAIN SUCH ABUNDANCE”

the time, is a sign of life pulsating in it. It everything is neat all the time, it shows a lack of shared use and may suggest that in that house, the transformation of atoms into bits disembodied the real people and left only errant ectoplasms. Do you believe we lost our sense of simplicity? To a great extent, we lose forget that simplicity is not a synonym of need, but rather of sufficiency. Being simple is not to be deprived of the means to support a life in which there is abundance, but to have enough to maintain such abundance; as abundance is neither waste nor useless excess, simplicity is enough for us without us being trapped. How do you deal with thousands of followers on social media? It is a delightful and stupendous multiplication of classrooms. I even write in some of them that I don’t really like the word follower, due to giving an air of prophetism to the coexistence; I’d rather call them sharers of idea, affections, challenges, agonies and joys.

VCP News | 13

VCP_Cortella.indd 13

05/05/2017 17:59:43

Entrevista - VCPNews  

Entrevista do autor Mario Sergio Cortella para a Revista VCPNews

Read more
Read more
Similar to
Popular now
Just for you