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“Nós, criadores da nova geração negra, queremos exprimir nossa personalidade sem vergonha nem medo. Se isso agrada aos brancos, ficamos felizes. Se não, pouco importa. Sabemos que somos bonitos. E feios também. O tantã chora, o tantã ri. Se isso agrada à gente de cor, ficamos muito felizes. Se não, tanto faz. É para o amanhã que construímos nossos sólidos templos, pois sabemos edificá-los, e estamos erguidos no topo da montanha, livres dentro de nós”. W.E.B Du Bois, em declaração a revista The Nation, em 23 de junho de 1926.

William Edward Burghardt Du Bois (1868-1963), sociólogo, escritor, poeta e pan-africanista norteamericano, foi um dos fundadores da NAACP (National Association for the Advancement of Colored People, ou Associação Nacional para o Avanço das Pessoas de Cor). 2 | omenelick 2º ATO | afrobrasilidades & afins

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QUILOMBO

música

06

CANTO DOS ESCRAVOS

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NEM TODO OURO É DOURADO

artes-plásticas

valéria alves

Renata Felinto

poesia

sidney santiago

eugênio lima

Nabor Jr.

18

POETIZAR A EXISTÊNCIA

cultura e politica

27

AIMÉ CESAIRE

Alexandre Bispo

marcio macedo (kibe)

memória

A revista O MENELICK 2o ATO é uma publicação trimestral da MANDELACREW COMUNICAÇÃO E FOTOGRAFIA Rua Roma, 80 – Sala 144. São Caetano do Sul/ SP CEP: 09571-220 • Tel. (11) 9651 8199 DIRETOR Nabor Jr. l MTB 41.678 nabor@omenelick2ato.com COMERCIAL Maria Cecília Braga comercial@omenelick2ato.com

tom dias

gilberto junior

duran MACHFEE

cassimano

CAPA Ditinha, 27/NOV/1954, Mogi Mirim/SP Álbum da família Braga dos Santos Tratamento de imagem STUDIO 8 (Tiago Morya)

OPERÁRIO DAS ARTES

teatro

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O DONO DA CENA

arte em movimento

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UM OLHAR PESSOAL

graffiti

DIAGRAMAÇÃO Gil Fuser • gilfuser.com.br

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CONSELHO EDITORIAL Nabor Jr. I Christiane Gomes I Alexandre Bispo I Renata Felinto

fotografia

DISTRIBUIÇÃO GRATUITA em centros culturais, galerias de arte, shows, feiras, festivais, casas noturnas, lojas, becos, vielas, favelas e zonas de conflito.

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ilustração renata felinto • renatafelinto-coisasdaarte.blogspot.com

ARTISTAS CONVIDADOS

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TRANSGRESSÃO E ARTE

HUDSON RODRIGUES EM P&B

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O CANTO

tom dias • tomdias.com

DOS ESCRAVOS

Por Nabor Jr. ilustrações Tom Dias

Preciosidade da história fonográfica tupiniquim e um dos mais reveladores discos produzidos no Brasil no século 20, o álbum O Canto dos Escravos, lançado em 1982 dentro da série Memória Eldorado, da Gravadora Eldorado, chega aos 30 anos em 2012 ainda ocupando o privilegiado posto de mais importante documentação sonora a cerca da cultura oral africana praticada pelos negros escravos em terras brasileiras. Impossível escutá-lo e permanecer imune a sua rica ancestralidade sonora e rítmica, bem como as inevitáveis lembranças do terrível período da escravidão. O registro documental da existência – e resistência - cultural da tradição bantófone no Brasil ao que o trabalho se propõe, por si só já seria suficiente para torná-lo singular (o álbum foi o primeiro registro sonoro da “música” do tempo da escravidão no país), contudo, sabedores do arqueológico material que tinham em mãos, o pernambucano Aluísio Falcão, coordenador artístico do projeto, e Marcus Vinícius de Andrade, produtor e diretor musical do disco, transformaram o que seria apenas mais uma documentação histórica em um dos mais belos trabalhos artísticos dedicados a preservação das tradições culturais do negro escravizado no Brasil.

geraldo filme 6 | omenelick 2º ATO | afrobrasilidades & afins

Dividido em 14 cantos ancestrais dos negros benguelas de São João da Chapada e Quartel do Indaiá, povoados de Diamantina, município de Minas Gerais, e interpretados por três dos mais importantes defensores da preservação das tradições ancestrais afrobrasileiras na música nacional: Geraldo Filme (1928 – 1995), Clementina de Jesus (1901 – 1987) e Tia Doca da Portela (1932 – 2009), o projeto reúne as qualidades técnicas essenciais para um trabalho afrobrasilidades & afins | omenelick 2º ATO | 7


musical que se propõe a transpor com eficiência a barreira da superficialidade e do “mero” entretenimento: originalidade, sensibilidade, intensidade e, obviamente, boa música, bons músicos e simplicidade nos arranjos.

SONS DE TRABALHO. MÚSICA DE LIBERDADE

PARA ASSISTIR

Clementina de Jesus: Rainha Quelé Werinton Kermes e Heron Coelho 2011

O primeiro grande diferencial do trabalho está no ineditismo do repertório. As 14 faixas que compõe o álbum foram selecionadas entre os 65 cantos colhidos pelo filólogo, professor e linguista mineiro Aires da Mata Machado Filho (1909 – 1985) que, entre o final dos anos 20 e durante a década de 30 do século passado, dedicou-se a pesquisa de “cantigas em língua africana ouvidas outrora nos serviços de mineração” no interior de Minas Gerais, conforme o próprio descreve no livro O Negro e o Garimpo em Minas Gerais (1943). Denominados de vissungos, esses cantos rituais afrobrasileiros recolhidos e partiturados por Mata Machado, foram herdados dos escravos africanos de origem banto trazidos para o Brasil para trabalhar na mineração de ouro e diamante nos séculos 17 e 18, e identificados pelo filólogo junto a alguns poucos negros que ainda preservavam a tradição nas beiradas do seu estado natal. Os vissungos misturam dialetos africanos como o umbundo e o quimbundo ao português arcaico. Além das minas de ouro, esses cantos podiam ser observados em diversas situações da vida cotidiana do negro escravizado, como no trabalho dos terreiros, nas brincadeiras e no cortejo dos enterros. À revelia dos senhores, os vissungos mineiros eram, como podemos observar, uma forma dos negros africanos preservarem suas tradições a milhares de quilômetros da sua terra e, também, como bem observou a etnolinguísta e Doutora em Línguas Africanas pela Universidade Nacional do Zaire, Yeda Pessoa de Castro, uma forma de ‘work song’ parecida com o ‘spirituals’ e o blues negro americano. Em O Negro e o Garimpo em Minas Gerais, no capítulo dedicado ao estudo das cantigas, Mata Machado ressalta “a necessidade universal de trabalhar cantando”, e associa à prática dos negros de São João da Chapada e Quartel do Indaiá os cantos das colheitas de uvas em Portugal, das fiandeiras, dos capinadores de roça e dos mutirões. “Muito interessante era a multa. Quando alguma pessoa chegava à lavra, era logo multada pelos mineradores, com uma 8 | omenelick 2º ATO | afrobrasilidades & afins

Banto/ Bantófone

A expressão Bantófone aqui é utilizada para definir a tradição linguística oriunda da cultura banto (do termo multilinguístico ban-tu). Banto é um tronco linguístico africano, ou seja, uma língua que deu origem a diversas outras línguas africanas. Estudiosos da linguagem acreditam que a língua banta se originou na região onde hoje ficam a República de Camarões e a Nigéria.

clementina de jesus afrobrasilidades & afins | omenelick 2º ATO | 9


cantiga apropriada”, diz o autor, referindo-se aos momentos em que os negros pediam alguma coisa ao elemento recém-chegado. “Uma vez satisfeito o pedido, seguia-se à multa o agradecimento com danças, ritmo de carumbés e enxadas”, completa. Conforme rege a ancestral cultura africana, fortemente ligada a exaltação de santos e ritos ecumênicos, a religiosidade também está presente nos versos dos vissungos. “Há cantigas especiais para conduzir defuntos a cemitérios distantes”, explica o historiador em seu livro. O pioneiro registro de Mata Machado, além de ser a alma do disco, indiretamente incentivou a ainda tímida, mas essencial, continuidade dos estudos e pesquisas a cerca dos vissungos, como a tese de mestrado A África no Serro-Frio – Vissungos: uma prática social em extinção, de Lúcia Valéria do Nascimento (2003), o suplemento editorial Vissungos: Cantos afro-descendentes em Minas Gerais (2009), organizado por Neide Freitas Sampaio, entre outros.

Testemunha ocular das animadas, e reprimidas, manifestações culturais da população negra em São Paulo, Filme frequentava as rodas de samba e tiririca (capoeira) que os carregadores e engraxates improvisavam no Largo da Banana, na Barra Funda. Também foi protagonista do carnaval paulistano, ferrenho defensor do samba rural paulista e íntimo de elementos como o jongo, vissungo e batuque manifestados em Pirapora do Bom Jesus. Sua participação no Canto III, do disco, é emocionante.

PARA VER E OUVIR

dona duda ribeiro canta o canto dos escravos dia 29 de abril. a partir das 16h praça do samba rua belmiro braga, s/n - vila madalena. entrada gratuita apoio: grêmio recreativo de resistência cultural kolombolo diá piratininga

TRIO TERNURA: QUELÉ, GERALDÃO E DOCA

tia doca

PARA LER

Negro e o Garimpo em Minas Gerais Aires da Mata Machado Filho Editora José Olympio 1943 Novo Dicionário Banto no Brasil Nei Lopes Editora Pallas 2003

Nascida Jilçária Cruz Costa, Tia Doca da Portela completa a estrelada trinca de intérpretes do disco. Filha da primeira porta-bandeira da Escola de Samba Prazer da Serrinha, embrião da Escola de Samba Império Serrano, foi tecelã, empregada doméstica e chegou a vender sopa para se sustentar. Doca foi responsável por uma das principais rodas de samba da cidade, o Terreirão da Tia Doca, em Madureira, no subúrbio do Rio e que durante anos ajudou a manter vivo o samba de raiz carioca, também foi personagem do documentário “O mistério do samba”, de 2008, produzido pela cantora Marisa Monte Ao dispensar instrumentos harmoniosos e apostar na percussão para compor o acompanhamentos das músicas, Marcus Vinícius agregou ritmo e força ao trabalho. A introdução de ritmos binários generalizados de umbanda, tais como o barravento, que ouvimos em casas de umbanda, macumba e jurema por todo o país materializados na percussão de troncos, xequerês, enxadas, cabaças, atabaques, agogôs, caxixis e afoxés tocados por Djalma Corrêa, Papete e Don Bira dão fôlego e corpo ao álbum.

Sim, ouvir o disco é uma oportunidade e tanto para conhecer e valorizar as “raízes sonoras do Brasil”, mas convenhamos, a simples presença do trio de intérpretes do álbum já é um prêmio para os nossos ouvidos, como foi para o sucesso artístico do trabalho também. As escolhas não poderiam ser mais adequadas. A fluminense Clementina de Jesus, que recentemente ganhou o documentário Clementina de Jesus: Rainha Quelé (2011), de Werintos Kermes e Heron Coelho, deu ao disco o peso do seu canto quase falado, da sua voz rouca e anasalada, sua entonação firme e as lembranças das cantigas que aprendera com sua mãe - uma lavadeira que gostava de cantar corimas, jongos, lundus, incelenças e modas, enquanto trabalhava. Clementina, também conhecida como Tina ou  Quelé, era a personificação da cultura afro-brasileira e talvez a mais importante voz negra da música brasileira. O Canto dos Escravos foi a última gravação da qual participou.

O que poderia ser uma extravagância técnica, uma vez que a base rítmica adotada foge do padrão original da manifestação – sustentada apenas pela oralidade, casa perfeitamente com a letra e intensidade das interpretações, transformando a audição do disco em uma experiência sonora transcendental. O Canto dos Escravos rompe a linha do tempo. Dribla as barreiras do simples entretenimento e, bebericando da rica fonte primária das manifestações orais africanas em solos brasileiros, aponta, como outrora fizeram - e ainda fazem – diversas manifestações artísticas espalhadas pelo país, para a fundamental influência não apenas do ritmo, mas da poesia e da palavra negra, em especial da cultura bantófone (matriz de manifestações como o samba e capoeira) na constituição da identidade cultural brasileira.

Geraldo Filme, compositor de mão cheia e “a cabeça pensante do samba paulista”, segundo palavras de Oswaldinho da Cuíca, emprestou seu vozeirão ao álbum. NABOR JR. Jornalista, fotógrafo e editor da revista O Menelick 2o Ato

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NEM ToDO Ouro é dourado

mas nutre real interesse pelo realismo no desenho, pintura ou escultura. Em nossa segunda conversa ele respondeu:

Sidney Amaral, desenhos, pinturas e bronzes

“Olá Alê, desculpe de novo a demora... tirei uma semana de folga de emails. Vamos lá!”

Por Alexandre Araujo Bispo • Fotos Central Galeria de Arte Contemporânea

Começa assim a resposta ao e-mail que lhe mandei dias antes do ano novo. Sidney participou em 2011 das exposições coletivas Nova Escultura Brasileira: Heranças e Diversidade, na Caixa Cultural Rio de Janeiro; Parahaus: Mostra de Arte Contemporânea, no Studio Maurizio Mancioli, em São Paulo; SP-ARTE - Galeria Mezanino, em São Paulo e do 17º Salão UNAMA de Pequenos Formatos, na Universidade da Amazônia, em Belém (PA). Isso mostra que seu trabalho tem ganhado visibilidade.

Fazer um texto, apesar de alguns acharem que é uma tarefa puramente mental, depende, ao contrário, de esforços bem manuais. É um exercício artesanal, mais transpiração que inspiração, como alguém já disse. A coisa intelectual que resulta do trabalho manual do texto depende da matéria com que se trabalha: barro, pedra, madeira, água, fogo. Cada um desses elementos resulta de uma ação que amassa, corta, umidifica, seca e transforma. A matéria deste texto é a produção do artista plástico Sidney Amaral, que em 10 anos de pesquisas vem descortinando um mundo de formas e conceitos que o interessam e que ganham por meio de sua expressão visibilidade plástica. Reproduzo partes dos diálogos que tive com o artista por e-mail, para que você leitor possa entender como um texto surge, como é construído e o quanto são desafiadores. Ao final espero cumprir a tarefa que me impus: apresentar o artista unindo a sua biografia à suas obras. Sidney Amaral nasceu na cidade de São Paulo, em 1973, e licenciou-se em Artes Plásticas pela Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP), em 1998. A FAAP, aliás, gerou uma grande quantidade de artistas presentes no atual cenário da arte contemporânea nacional. Seu quadro de docentes também sempre contou com reconhecidos e premiados artistas, entre eles Nelson Leiner e Dora Longo Bahia, com os quais Amaral teve aulas. O fato de formar-se nesta instituição não lhe franqueou o pleno acesso ao sistema de arte contemporânea estabelecido. Esse sistema envolve o circuito de galerias de arte, feiras e instituições culturais, publicação de catálogos, comercialização de obras e rede de amizades. Neste são poucos os que conseguem manter-se apenas como artistas. Não raro, o trabalho com arte educação é uma fonte estruturadora de renda. Há artistas como Rosana Paulino, Renata Felinto, Janaína Barros, Mônica Nador, Beto Guilger, Osvaldo Piva, Danilo Pêra entre muitos outros que dão aulas e desenvolvem paralelamente seu trabalho plástico.

Descansar dos e-mails, mas também descansar do ano letivo, como professor de educação artística em duas escolas públicas do estado. O fim do ano, assim como o começo, nos faz repensar, rever e planejar novas estratégias para realizar projetos. No caso de um artista como Sidney que tem enfrentado suas dificuldades em difundir e viver do seu trabalho essa tarefa não é nada fácil. Ele tem conseguido, no entanto, produzir e mostrar parte de sua visão de mundo em salões, museus e galerias. Eu o questiono sobre a diversidade de sua produção assentada em um gosto pela pintura acadêmica, cuja característica principal é o realismo das formas por meio de estratégias cromáticas, linhas, volumes e iluminação. EXPO METAMORFOSE CENTRAL GALERIA DE ARTE DE 1o A 24 DE MARÇO AV. REBOUÇAS, 1545 - SÃO PAULO centralgaleriadearte.com

“Bom essa diversidade de linguagens vem de não querer me enquadrar em um único estilo ou tendência, mas de querer mostrar a metamorfose que podemos ser, gosto de pensar toda minha produção de modo híbrido, de vasos comunicantes, onde um parece outro, onde tudo se mistura com tudo, a proposta é criar um conflito onde as linguagens se bifurcam e se entrelaçam...” O artista nos dá uma indicação sobre como vem trabalhando duro para ser um artista reconhecido pela qualidade estética e conceitual de suas obras. Ele nos diz que não quer prender-se a um estilo, isto é, não quer fazer apenas um tipo de obra, como, por exemplo, fragmentos de corpos

Amaral foi também aluno de Ana Maria Tavares, no Museu Brasileiro da Escultura (MUBE), estudou pintura acadêmica e fotografia, indícios importantes para entender sua obra que não se restringe a uma única técnica, afrobrasilidades & afins | omenelick 2º ATO | 13


humanos como é o caso da obra Desprezo. Trata-se de um dedo solitário que evoca tanto a relação e a interação amorosa, quanto à separação, o rompimento, à distância e, no limite, a falência dos contatos humanos. Esse dedo é, entre os outros quatro o indicador e, na medida em que não se prolonga em um corpo ele aponta para lugar nenhum e surge de lugar nenhum. Quanto a seguir tendências, Sidney está interessado menos nos modismos do que na investigação sobre as tensões experimentadas nas relações interpessoais. A impossibilidade do diálogo, fenômeno paradoxal em uma época de avanço da democracia e da expansão dos meios de comunicação. “Somos algo em constante transformação, entre partes que se comunicam como o dedo cortado que se mantém preso a aliança, mas fragilizado, incapaz de agir, de indicar seu lugar na relação”. Em termos matéricos Sidney combina o mármore e o ouro, materiais com que o rococó, estilo ligado ao excesso de ornamentação decorativa, sobretudo na primeira metade do século 18, deixou sua marca na arquitetura ocidental acima de tudo como indício da opulência, da frivolidade da vida cortesã européia. Será que Amaral consegue seu intento de criar um conflito pelo entrelaçamento de linguagens, isto é, o mármore e o ouro, o objeto cotidiano e sua contrapartida à sacralidade? Podemos entender um pouco mais de seu trabalho destacando alguns dados biográficos ligados a exposições coletivas e individuais que ele participou. Como o espaço físico da revista nos impede de mostrar o currículo do artista na íntegra, chamo atenção para os anos de 2010, 2005 e 2001.

MULHER EM BRONZE SEM TÍTULO ESCULTURA EM BRONZE PÓLIDO 50X10X7 cm 2002

Em 2010, Sidney faz duas individuais: Sidney Amaral, na Pinacoteca de São Bernardo do Campo; e Work in Progress, Instalação no prédio Odete dos Santos, na cidade de São Carlos, interior de São Paulo. Em 2008 esteve na Casa do Olhar Luís Sacilotto, em Santo André; e em 2001 foi contemplado na III Mostra do Programa de Exposições do Centro Cultural São Paulo. No decorrer de 2005 participa de várias exposições entre as quais a mostra sob curadoria de Emanoel Araújo: Para Nunca Esquecer, Negras Memórias, Memórias de Negros, no Museu Oscar Niemayer, em Curitiba. A partir de 2004 algumas de suas obras passam a compor o acervo do Museu Afro Brasil, em São Paulo, como é o caso da figura 2 (sem título).

“O grupo de esculturas que estão no afro (o artista se refere ao Museu Afro Brasil) faz parte de um período em que buscava uma obra mais limpa e sintética. Quanto ao uso do dourado, foi o modo que achei para falar de um espelhamento do sujeito e do sagrado que nunca soube bem se era espiritual, sensual ou sexual, e que de certa forma sempre me remetia a uma falta (a boneca com o ventre vazio, os chinelos sem a pessoa, os objetos da montagem sem os montadores, os balões com suas correntes de motosserra que impedem o toque). Havia e há nesses trabalhos uma frustração e uma impossibilidade que me remete a história do rei Midas em que tudo o que ele tocava transformava-se em ouro, mas contraditoriamente também em tormento...” Vale a pena destacar o sentido destas palavras usadas pelo artista para falar de sua obra, o que revela ser a arte contemporânea num território onde uma diversidade de assuntos podem ser abordados. Durante longo tempo, basta tomarmos o caso do Brasil colonial entre os séculos 16 e 18 como exemplo, a arte esteve obrigada a expressar o sagrado, sob o rígido domínio da Igreja Católica. Com a criação da Academia Imperial de Belas Artes, em 1816, e o consequente processo de distinção entre Estado e Igreja, o primeiro passou a ser cada vez mais representado com o intuito de contar episódios marcantes da história nacional. A Academia ainda liberou os pintores para outros temas até então improváveis, no contexto português e brasileiro, como naturezas mortas, paisagens e a representação do nu feminino. Os temas religiosos deram lugar a outros temas que com o tempo, e segundo o modelo da academia, foram verdadeiramente sacralizados. Sidney assume não saber onde exatamente o sagrado se manifesta e decorre dessa confusão a sensação de desapontamento, pois ouro, brilho, polidez foram no ocidente cristão um símbolo de fé, espiritualidade e opressão. O artista não trabalha o ouro, mas com bronze - material que faz passar-se por tal - e nessa operação ele extrai todo o conteúdo coletivo do sagrado e diz que cabe ao sujeito individual tomar a decisão sobre o que para ele é o sagrado. A arte parece lhe devolver esse sentido e só por ela é possível encontrar um meio de diálogo ainda que frustrante, justamente porque mediado por novos objetos. “Essa frustação aparece também em meus autorretratos como na tela Bem me quer, que chamo de relações delicadas no qual me represento na maioria das vezes em cinza (como disse Klimt “não sou particularmente interessante”) onde procuro mostrar através da relação do meu personagem com os objetos apresentados, como a


DESPREZO MARMORE CARRARA, PRATA E BANHO DE OURO 11X2,3X3,2CM 2011

comunicação entre as pessoas é difícil mesmo entre aqueles que se amam (o vestido de noiva e as luvas de boxe), a condição de ser pai hoje (eu e a criança em uma cadeira-abismo), enfim são questões que estão mais ligadas ao espaço íntimo do lar. Me pergunto, como o lar pode também ser o espaço da não comunicação entre os que ali habitam?”. Mas Sidney Amaral também questiona-se sobre o lugar social dos negros e afro-descendentes na sociedade brasileira, sem ser, porém, alguém que reclame de sua condição: artista, homem, negro, pai, marido e professor de duas escolas públicas. “A Calunga Grande faz referência tanto a um passado que foi atravessado pelo oceano quanto à nossa condição social, a vassoura como símbolo de um emprego menos qualificado os tênis afundados na água, enfim, se referem a estes desdobramentos da minha pessoa em outra e às vezes em mim mesmo”. No fim do e-mail que me enviou, Sidney disse: “Bom Ale, não sei se era isso que você queria saber. Vejo minha obra sempre como um espelho que ao ser olhado por muito tempo nos lembra dessas metamorfoses do mundo, do meu querer estar no mudo e encontrar este meu lugar... Sou um ser que estou deslocado todo o tempo!

BEM ME QUER AQUARELA, LÁPIS E NANQUIM SOBRE PAPEL 2010

Alexandre Bispo Graduado em ciências sociais e mestrando em antropologia social, ambos pela USP, atua como educador em museus e em curadoria de exposições. Também pesquisa e escreve sobre artes visuais buscando entender as relações entre gênero, sexualidade e raça.

Abs S. Seguem as fotos das obras que gosto mais entre 2000 e 2011”


POETIZAR A EXISTÊNCIA E O SER FEMININO Por Renata Felinto • Fotos Cassimano (cassimano.com)

QUATRO POETISAS DA POESIA PRETA PAULISTANA As obras fundamentais de Carolina Maria de Jesus (1914 – 1977) e de Conceição Evaristo e, sem dúvida, de outras escritoras que estão criando Brasil afora como Dinha, Miriam Alves, Cristiane Sobral, Alzira Rufino, Elisa Lucinda, Geni Guimarães, Cidinha da Silva, entre outras, semearam frutos em terras paulistanas. A literatura pensada, imaginada e idealizada por mulheres afrodescendentes não é nascente: é viva, pulsante e crescente. Basta dar uma passada em qualquer dia da semana pelos vários saraus que vêm brotando cidade af(l)ora. Neles, temas como amor, relacionamento, sociedade, política, ancestralidade, memórias, existência, entre outros, demarcam as produções de mulheres pretas dos vários cantos de São Paulo. Mulheres que frutificam a criação, representam as personas de mães, companheiras, amantes profissionais, cidadãs e “escrevevivem”. Apresentamos aqui quatro delas: Elizandra Souza, Priscila Preta, Raquel Almeida e Tula Pilar. Três paulistanas de nascimento e uma de coração que em suas produções têm como bases comuns a oralidade na qual avós, pais e outros parentes (re) contam e (re) criam suas próprias trajetórias, suas referências; a tradição dos cordéis que se relacionam com as questões de oralidade e identidade; a cultura hip hop e de periferia, juntamente com as trocas e descobertas feitas nos saraus que frequentam: e, o ser feminino, que dia a dia se aprende a ser, mulher negra, preta. Elizandra Souza ou Mjiba, tem 28 anos é jornalista formada pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, desde 2010 e redatora da Agenda Cultural da Periferia (Ação Educativa). Ah, e retomando as leis que durante séculos tentaram restringir o acesso de negros e mestiços aos meios de ensino formais, Elizandra foi aluna cotista (PROUNI). Agora, só no século 21, é que as leis estão mudando e tentando minimizar o grande prejuízo sofrido pela população afrodescendente.

Sua família mudou-se de São Paulo para Nova Sorue (BA), quando Elizandra tinha dois anos. Cidade de origem de seus familiares, Nova Sorue exerceu grande influência estética na moça. Deste período, carrega belas memórias, e como a poesia do cotidiano corre pelo seu sangue, ela as intitulou de ”Sorriso amargo e lágrima doce”, sintetizando os momentos de visita à casa dos avôs que moravam numa fazenda, e a vontade de se deliciar saboreando castanha de caju, maça e bolacha recheada, pequenos prazeres de criança. A literatura estava presente em sua família via os livretos de cordéis da coleção de sua Tia Zefinha que, vez ou outra, contava uma história para os sobrinhos. O seu interesse pela literatura surgiu quando, ainda menina, se juntava à sua irmã para ler pequenos livros e histórias em quadrinhos, tentando, deste modo, se esquivar do trabalho doméstico. Foi na escola que tomou contato com a poesia de Castro Alves (1847 - 1871) e de outros poetas do período romântico. De volta a São Paulo, em 1996, conheceu a cultura hip hop e, pouco tempo depois, passou a produzir o fanzine. Sua relação com a oralidade, com os cordéis, com a cultura hip hop e o fanzine, tudo isso junto e misturado, despertou em Elizandra o desejo de escrever poesias. Nesta época passou a adotar o codinome Mjiba, que significa “jovem mulher revolucionária”nomeando as mulheres que participaram da luta armada pela independência de Zimbábue. Conheceu, e se apaixonou pelo termo, após ler o livro “Zenzele – Uma carta para a minha filha” (1996) da escritora de Zimbabue, J. Nozipo Mairare. As suas poesias versam sobre muitas temáticas como negritude, identidade, racismo, pois como disse Elizandra: “utilizo a minha escrita como luta política, como forma de conscientização”. Mas, considera que uma das “maiores lutas do século é o amor”. Tem pensando sobre as dificuldades para a concretização das relações de amor e de respeito mútuo entre homens e mulheres negras, mais que isso, na solidão que vive a mulher negra numa sociedade na qual homens brancos e negros desejam o amor advindo do padrão de beleza feminino cristalizado. Sobre as dores e prazeres de ser mulher, Elizandra se posiciona: afrobrasilidades & afins | omenelick 2º ATO | 19


FOTO mandelacrew

Elizandra Souza

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Priscila Preta

Tula Pilar

Raquel Almeida


Sangre mais uma vez! / Expila do seu corpo / O embrião não fecundado Junte todo o amargor / E sangre outra vez! / É dolorido, Mas sinta com intensidade essa cólica / Esse mal estar Mas sangre mais uma vez! / Sangre nessa hipócrita sociedade Junte todas as dores expelidas / Retire da calcinha Esse absorvente enxarquecido / E jogue fora todos esses sangrados Mas Menstrue e Ação!

Preto que boca é essa? / Vem falar aqui nas minhas ruas / Nuas escuras Deixa eu provar dessa boca berinjela / Crua / Carnuda Deixa eu me achar nesse céu molhado / Deitar nesse travesseiro algodão doce Preto que boca é essa? / Seca minha língua / Ostra minha pérola Espera na esquina / Corre pro ponto / Chega / A.C.O.N.C.H.E.GAAAA...

Enú Yanjú

MenstruAção

Priscila acredita que a poesia hoje é uma nova forma de (re) ver a vida, “Criar outros desenhos”. Ainda no início de sua carreira como poeta, ela acredita que a poesia possa se apresentar como uma forma de minimizar a depreciação histórica do corpo, psique e coração da mulher negra, tornando-a protagonista, ao menos de suas criações. “A mulher preta durante muito tempo foi privada de muitas coisas. A liberdade é vigiada por alisantes, posturas e estigmas. Somos consideradas fogosas e muitas vezes não temos a oportunidade de fazer amor, apenas se dar pro encontro, pra troca... A poesia é minha bomba, uma forma de explodir os grandes prédios culturais do racismo, do machismo, das relações de poder e construir ocas não ocas... Casas que tem tenham pessoas, trocas e principalmente circularidade”. Com seus poemas publicados em antologias como a III Antologia do Sarau na Brasa (2011), que frequenta há algum tempo, também pode vista declamando nos saraus da Cooperifa, do Binho e Elo da Corrente. Prefere ser chamada de poeta, afinal, como disse: “A palavra já é feminina”.

Elizandra já teve seus poemas publicados em várias coletâneas e antologias, como dos Cadernos Negros e possui um livro escrito em parceria com o poeta Akins Kintê e editado pela Edições Toró, chamado Punga (2007), para quem se interessar por conhecer seu trabalho. Quem desejar conhecê-la ao vivo e a versos pode tentar encontrá-la no Sarau da Cooperifa, que ocorre todas as quartas no Bar do Zé Batidão, no Jardim Guarujá, zona sul de São Paulo. A preocupação com a saúde emocional e amorosa da mulher negra em nossa sociedade machista, sexista e racista, também é uma das preocupações e temas da poeta Priscila Santos Martins, ou Priscila Preta. Com 27 anos de idade, a poeta, formada no curso de Comunicação das Artes do Corpo da PUC (SP) também é atriz e fundadora da Companhia de Arte Negra As Capulanas. O nome Priscila Preta apareceu nas escolas privadas nas quais estudou como forma de distinguila da maioria de “Priscilas” brancas, uma vez que era, geralmente a única negra. Conheceu a literatura escrita ainda criança, pois por obter boas notas era presenteada com livros. Entretanto, foi ao ter aulas com um professor de literatura que também era músico que despertou para a cena artística multimídia (artes cênicas, música e literatura), já que além da criação de textos, o professor promovia a encenação das histórias cunhadas por seus alunos. O que não faz um bom professor na vida das pessoas... As impressões e vivências cotidianas são referenciais para a sua produção artística, como a prática de sua avó Maria que era benzedeira: “... tudo que ela fazia pra mim era muito mágico, eu observava a dança de suas mãos com a arruda molhada na água com sal, ela falava palavras que nunca consegui entender e depois batia a arruda nas mãos da pessoa... Eu via isso muitas vezes no mesmo dia, mas não me cansava de ver e de ser benzida também... E eu ficava ali me apaixonando cada minuto por ela”. A poeta de aparência forte e corpulenta, que por vezes parece até estar pronta para a guerra, em verdade é puro coração. Apesar de em sua poesia trazer a tona vários temas, são as paixões do corpo que dominam a sua escrita atualmente: homem e mulher, sensualidade e erotismo. 22 | omenelick 2º ATO | afrobrasilidades & afins

CADERNOS NEGROS quilombhoje.com.br

E por falar no sarau Elo da Corrente, foi Raquel Almeida da Silva, de 24 anos, que o organizou, em 2007, juntamente com outros escritores. Formada, como ela mesma explica, pelas histórias de sua família, pelas músicas e leituras que faz, pelas relações de amizade e afeto que construiu, pelas pesquisas que realiza, Raquel Almeida, como é conhecida, assim como Elizandra, também teve na literatura de cordel uma de suas primeiras referências. O Almeida de seu sobrenome e que adotou como nome artístico é uma homenagem à sua avó após ter percebido o quanto ela valorizava o sobrenome que carregava. No caso de Raquel, também aparece um tio conhecedor de literatura de cordel que juntava os sobrinhos para recitar e realizar performances e cantorias. Alias, a música também está muito presente em sua vida familiar. Ela se recorda também de que havia muita musicalidade em seu cotidiano: “... me lembro que em todas as atividades feitas em casa, comida, limpeza, construção da casa, meu pai em especifico, cantava musicas conhecidas e no meio disso inventava canções, minha família tem uma coisa curiosa em tudo que faz, faz cantando, é engraçado (risos)” Quando pequena observava sua mãe escrevendo poesias de forma tímida e passou a escrever também, em um caderninho, porém, ainda como um exercício, sem se preocupar com o ato da criação, da temática. afrobrasilidades & afins | omenelick 2º ATO | 23


A avó, o tio, o avô, a mãe. É evidente que a questão familiar é muito

Para conhecer Raquel basta ir ao sarau Elo da Corrente, em Pirituba, e

importante tanto na vida quanto no processo criativo de Raquel. Muitos

no Poesia na Brasa, na Brasilândia. Ainda é possível tomar contato com

familiares são citados e são referenciais quando ela fala tanto de suas

seu trabalho por meio do livro Duas Gerações - Sobrevivendo no Gueto

influências quanto de suas memórias. A sensibilidade em adotar o sobre-

(2008), feito em parceria com a poeta Soninha M.A.Z.O, pelo selo Ela da

nome que sua avó tanto se orgulhava demonstra este vínculo ancestral,

Corrente Edições. A poeta, ou melhor, poetisa, prefere ser chamada desta

que tem também a função de localizar os indivíduos nesta contempora-

forma porque, segundo ela, esta palavra “afirma uma escrita feminina”.

neidade que tem privilegiado valores individualistas. As bases de Raquel são os que estão antes dela, os que lhes dão chão, seus antepassados.

Dentro deste grupo de quatro poetas, ou poetisas, Tula Pilar Ferreira,

nascida em Leopoldina (MG), é a mais experiente, portanto, com

Veja no youtube o vídeo do programa Entrelinhas, da TV Cultura, no qual o poeta e educador Allan da Rosa apresenta a obra da escritora Conceição Evaristo

Preciso beber da fonte ancestral / Comer feijão com farinha

uma potência feminina muito latente. A sua maneira de se mover no

Amassado entre os dedos / Peixe com coco e dendê

mundo é lascivamente feminina. A primeira vez que a vi, em 2010, no

Preciso beber dessa fonte / Tomar banho de manjericão

Sarau do Binho, ela apresentava uma coreografia a partir da dança do

Me encolher no seu colo / Pedindo proteção

ventre, inclusive, trajada a caráter. Foi impressionante observar como

Preciso me alimentar dessa fonte / Ouvir suas historias

os sorrisos nervosos e as brincadeiras de alguns frequentadores eram

Transmiti-las em sonho e orgulho / Me embalar nas tuas lembranças

mais um mecanismo para mascarar a libido despertada pela apresen-

Colher frutos futuros / Preciso beber dessa fonte

tação sensual. Sim, temos problema em falar sobre sexo e desejo de

Fonte materna de inspiração / Prudência / Fazer reverencia

uma maneira natural. Mas, a mulher é poderosa!

És a ave que escuta os ancestrais e a descendência Preciso beber da tua fonte...

Preciso beber da fonte ancestral Dentre as leituras de sua formação estão livros de suspense, infantis, filosóficos, e, mais uma vez, a música em forma de poesia, nas letras de rap dos Racionais MCs, que os vizinhos ouviam em alto e bom som e que sei pai achava que era música de marginal, de bandido. Proibindo seus filhos de ouvirem. Depois leu o livro do Preto Ghóez

PARA ASSISTIR

Formada pela vida e participante de várias oficinas e cursos livres é conhecida em São Paulo por “Pilar”, nome pelo qual lhe tratava um ex-patrão de origem espanhola. Na infância, criada em casa de pessoas com alto poder aquisitivo, teve acesso a várias leituras próprias do universo da criança das fábulas e contos de fadas europeus às aventuras dos personagens infantis de Monteiro Lobato (1882 - 1948), com os quais ficava fascinada. Se lembra até de ter estudado um pouquinho de inglês nesta época: “Tinha uma moça americana que me ensinava tudo o que perguntava, guardo na memória até hoje”. Criação de moça grã-fina.

“Sociedade do Código de Barras” (2006), outro mundo que se abriu: “...li e fiquei inquieta demais, inconformada, sei lá, acho que foi um

Começou a escrever, tanto influenciada pela miríade de livros aos

estalo que me despertou pra varias coisas”.

quais tinha acesso quanto por seu próprio desejo pessoal. Entretanto, tem consciência de que as histórias que leu a inspiraram

PARA LER

MULHERES PINTORAS: A CASA E O MUNDO Editora Pinacoteca do Estado de São Paulo 2004

Pensa na poesia como um instrumento de transformação com maior

profundamente, apesar de muitas vezes não permitirem que ela

poder de abrangência do que as manifestações violentas, especial-

mergulhasse nas águas da leitura: “... rasgavam tudo e me man-

mente quando o assunto é a questão racial: “... vejo que muitos con-

davam trabalhar, fazer algum serviço... Eu era a menina pobre que

flitos e preconceitos que eu passava na infância e na adolescência

lia todos os dias enquanto limpava”. Foi a leitura do livro Negras

sobre a identidade racial, ainda são tão presentes e agressivos nos

Raízes (1976), de Alex Haley, que a direcionou para as temáticas

dias de hoje, mas falar em forma de gritos, esbravejando militância

relacionadas à sua origem afrodescendente e lhe trouxe sabor ama-

nem sempre atinge quem realmente queremos, a poesia tem sido um

rgo para a vida, descobrir a maneira como os escravizados norte-

dos meios de transmitir isso, gritando ou não”.

americanos foram tratados foi um choque. Também se identificou com o livro A Cor Púrpura (1982), de Alice Walker: “... a história dela

Para Raquel apesar do potencial transformador da poesia, é muito im-

é parecida com a minha e de minhas irmãs”.

portante que as pessoas passem a se informar, a ler mais e a conhecer a história do país, pois sem o autoconhecimento não haverá transforma-

Pilar poderia ser uma pessoa amargurada pelos percalços da vida,

ção, mudança. E essa ação deve começar com o espaço no qual vivemos.

entretanto, é das pessoas mais positivas que conheço. Suas poe-

ESCREVEVIVEM Conjugação do termo escrevivência, cunhado pela escritora Conceição Evaristo para sintetizar e amalgamar os sentidos sobre as noções de vivência, ancestralidade, negritude e feminilidade.


“CULTURA É TUDO O QUE O HOMEM INVENTOU PARA TORNAR O MUNDO VIVÍVEL E A MORTE AFRONTÁVEL”

sias refletem esta maneira não vitimizada de ver o mundo e falam sobre o erotismo e sensualidade e também sobre família. Acredita que a poesia está aí para quem quiser, porém que poucos conseguem compreende-la e que, por vezes, apreciar poesia ou ser poeta, pode se tornar um motivo de chacotas tanto por parte de “ricos e pobres, negros e brancos, acadêmicos ou não”. Pilar é mãe, amante, mulher. Isso é o mais fascinante em Pilar, como poucas mulheres, pretas ou não, ela consegue ser tudo isso: a “Oxum-Vênus-Negra” nessa preta é forte! Mas, ela aconselha, ele educa e prepara para vida, como as coisas deveriam ser:

Por Maryse Condé e Patrice Louis

SÍNTESE Poeta, dramaturgo, ensaísta e um dos mais importantes intelectuais

Ai moleque / Ouça o que sua mãe diz / Tome banho / Limpe o ouvido e o nariz / Agora / não é hora de jogar essa bola / Não enrola, vai pra escola. Seja inteligente / Não faça prova copiando cola Caminhando ou de lotação Vá pedindo informação / Pra chegar ao curso (grátis) / Lá no Capão À tarde tem obrigação / Cuidar do irmão...

negros do século 20, o martiniquenense Aimé Fernand David Césaire (1913 – 2008) foi um dos impulsores da corrente conhecida como “negritude”. Definia-se fundamentalmente como poeta, mas um “poeta comprometido” e “negro, negro, desde o fundo do céu imemorial”. Em 2004, quatro anos antes de falecer, concedeu a entrevista, aqui reproduzida, a romancista, amiga e compatriota Maryse Condé (1937).

Trecho da poesia Se Liga Moleque

Faz Muito tempo As mulheres As meninas As moças As mães e as tias da periferia Querem homens profundamente Mais educados educadores Mais pensantes pensadores Mais elegantes não só reprodutores Mais generosos e não geniosos Mais humanos cidadãos Renata Felinto é mestre em artes visuais pela UNESP, pesquisadora, artista plástica e educadora.

Porque a história tem seu ciclos sim E tudo se renova de olhos atentos E principalmente as avós Querem homens que enterrem seus mortos. Faz Muito Tempo, poema presente no livro Negrices em Flor (Edições Toró, 2007), de autoria da poetisa Maria Tereza, paulistana da Nova Cachoeirinha falecida em janeiro de 2012 de uma doença pouco conhecida e, no mínimo, com nome curioso: Síndrome Poems.

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Quando um martiniquenense, pai dos intelectuais antilhanos, recebe uma guadalupeana, rainha das letras, o encontro não pode decepcionar. Os 90 anos de Aimé Césaire foram celebrados no ano passado. Entre as manifestações de homenagens, um colóquio organizado por Maryse Condé se realizou na Universidade de New York e contava entre os convidados com Breyten Breytenbach ou Edouard Glissant. Nele foi apresentado o filme de entrevistas que Aimé Césaire concedeu a Patrice Louis, jornalista parisiense instalado na Martinica e autor de A, B, C…ésaire: Aimé Césaire de A à Z (Ed. Ibis Rouge, 2003), considerado o principal retrato crítico da obra e do pensamento do poeta Aimé Césaire. No fim dos trabalhos, Maryse Condé, que divide sua vida entre os Estados Unidos e sua ilha natal, emitiu o desejo de rever o irmão mais velho em escritura que ela não revia há vinte anos. Embora próximas, as duas ilhas francesas do Caribe podem parecer separadas pela imensidão de um oceano… O “Métro(politain)” foi encarregado da missão. No dia marcado, a escritora aterrissou no aeroporto, que deveria levar desde que possível o nome de Aimé Césaire, onde a esperava o mensageiro. Direção: a antiga sede da prefeitura de Fort-de-France, onde o poeta - há muito tempo

eleito, conservou um escritório. Durante uma hora, os dois antilhanos nutridos de África trocaram de posição, a autora de Ségou se transmutando em entrevistadora do cantor da negritude - o jornalista tendo o papel do escriba. Começarei por uma questão de atualidade. O Haiti ocupou um lugar considerável em sua obra. O que você pensa dos acontecimentos que se passam nele? AC - É patético! A história do Haiti é gloriosa. Jamais esqueci que essa ilha conquistou a liberdade há duzentos anos: a liberdade não lhe foi dada. Os haitianos combateram para tê-la. Mas é preciso insistir no fato de que eles a conquistaram não somente para si mesmos, mas para todos nós. Nós devemos lhes ser gratos por isso. No entanto, devo dizer que, esse episódio à parte, houve realmente momentos extremamente penosos, ao ponto que, apesar dessa liberdade conquistada, a desgraça quer que jamais os haitianos tenham podido achar uma organização razoável capaz de assegurar uma espécie de equilíbrio. Eles criaram uma péssima herança. É claro, eles conquistaram a liberdade, mas a sociedade não mudou de maneira tão profunda quanto se teria desejado. Primeiro, houve os brancos, os mestres escravagistas, e depois o povo… nós. Encontra-se agora a situação em


que a classe intermediária que substituiu os brancos conservou muitos hábitos, e péssimos hábitos. Eles pegaram um pouco seu lugar e não desempenharam o papel que aguardávamos e esperávamos. O Haiti procura seu equilíbrio e nem sempre o achou. O escritor haitiano Jean Métellus fala muito da maldição do Haiti. Você acredita nessa maldição? AC - Não, mas há o peso da História. No fundo, o Haiti – como as outras Antilhas, aliás, lá é muito mais trágico – não está inteiramente curado dos males herdados da época colonial, que era infelizmente uma época colonialista. O povo haitiano é inteligente, as elites são numerosas, mas o que há de notável, é que os espíritos mais brilhantes dessa elite emigraram. Eles estão no exterior e jamais encontraram seu lugar no Haiti. Lembrome de ter conhecido vários deles quando eu estava no Liceu Louis-le-Grand, em Paris, os nomes me escapam às vezes e às vezes não tenho tanta vontade de pronunciá-los, e quando os revi no Haiti, eles tinham o ar infeliz e davam a impressão de estar um pouco marginalizados. Ao olhar o estado do mundo, você pensa sempre que a poesia é “arma miraculosa” que pulveriza as barreiras que entravam as liberdades? AC - Não sei se ela é miraculosa… Foi você quem disse. AC - Para mim, a poesia é muito importante, ela é até mesmo fundamental. Com ou sem razão, sempre pensei que a arma para nós - não acreditávamos nisso suficientemente - é a cultura. Não digo a civilização, que é uma palavra muito do século 19. Opunha-se então a civilização e a selvageria. Mas os etnólogos e a experiência nos ensinaram que há a cultura. Defino a cultura assim: é tudo o que os homens imaginaram para moldar o mundo, para se acomodar no mundo e para torná-lo digno do homem. E isso, a cultura: é tudo o que o homem inventou para tornar a vida vivível e a morte afrontável. Enquanto martiniquense, sempre pensei que havia alguma coisa que não era apreciada em sua justa medida na Martinica e nas Antilhas. Oh, isso não é uma crítica! Há a História, há os Estados. Fomos dominados pela idéia do escravagismo e era preciso lutar contra. Pertencemos à nossa época e 28 | omenelick 2º ATO | afrobrasilidades & afins

é preciso admitir que a terceira República inventou uma doutrina que tínhamos adotado totalmente. Era a doutrina dita da assimilação, que consistia, para ser civilizado e não ser mais um selvagem, em renunciar a um certo número de coisas e em adotar um outro modo de vida. Tudo isso é completamente respeitável mas é muito século 19 e muito rápido, já no liceu - com teu irmão Auguste - eu sabia então que isso era respeitável mas insuficiente. Essa doutrina não respondia mais às necessidades do século 20! Era o século 19, era o romantismo, eram as ilusões do passado. Não é preciso ser ingrato: é evidente que isso rendeu enormes serviços, mas no mundo moderno, era necessária uma outra coisa. Eis porque fui muito rapidamente conquistado por uma idéia que não tinha então ainda todo seu lugar - mesmo se ela não era desconhecida – em nossos comportamentos e em nossas filosofias: a identidade. Quando os martiniquenses diziam “assimilação”, quando fui eleito deputado, eles me pediam para voltar da França com a Martinica departamento francês. Confesso que fiquei perturbado. Hesitei. E estou convencido, cara Maryse Condé, que aquela que está diante de mim, que revejo ainda sentada, refletindo, em seu escritório da Rua des Ecoles, com Alioune e Christiane Diop, me compreenderá. Hesitei. Finalmente - e isso foi um drama para mim - compreendi. A assimilação, isso significa a alienação, a recusa de si mesmo. E terrível… Mas você pensa então que as pessoas de Fort-de-France e dos subúrbios não entendiam isso totalmente: eles pronunciavam a palavra “assimilação” e lhe davam um sentido bem particular. Aceitei defender essa tese porque compreendi - e é evidente – que há as palavras mas também o que há por trás das palavras. Na realidade, o pobre coitado que vinha se pendurar em mim para me pedir a assimilação, para que a Martinica se tornasse um departamento francês, não é a assimilação que ele queria. Ele queria a igualdade com os franceses. Eis porque nós nos debatemos sobre a idéia de departamentalização, que não supõe forçosamente a assimilação: um departamento é uma medida de ordem administrativa. Mas, para mim, o equilíbrio essencial devia se fazer a propósito da identidade. Daí a importância da cultura. Retorno a tua pergunta: por que as palavras da poesia são “armas miraculosas”? Porque pensei que é de lá que, miraculosamente, devia vir a salvação. Isso era, para mim, o milagre.

Você também disse que, enquanto houver negros sobre a terra, a negritude viverá. Isto é sempre verdadeiro? AC - Sim, é perfeitamente verdadeiro. E eu o mantenho. O que isso significa? Tem-se falado muito nesse assunto. Para mim, a negritude é a cultura, a poesia. Por que? Amo muito tudo o que aprendi no liceu, na Sorbonne. Acredito muito nisso. Sou um grande admirador dos latinos e mais ainda dos gregos, mas sei também que há os egípcios e que os gregos e os romanos devem muito ao Egito, à Etiópia, a tudo esse mundo. Portanto, à África. Tomei consciência disso muito rapidamente. Atenho-me à cultura, e não a uma cultura tacanha, clássica, sancionada pelos exames e pelos diplomas europeus. É para mim uma coisa bem diferente. O que é a poesia? Porque me liguei a ela? Porque tenho sido poeta e surrealizante? Foi sem querer, eu não fiz de propósito; não foi para ser de uma escola que me aliei. E, quando André Breton me conheceu, dei-me conta de que, na realidade, eu praticava surrealismo sem saber… Mas por que? O me que me arrebatava na sociedade antilhana, era a aparência, a adaptação mais ou menos destra, todo um lado que eu não suportava, mas eu sabia que, no homem antilhano, havia outra coisa além dessa aparência. Há algo mais profundo que isso. E a poesia é a realidade profunda que aparece. Você sabe que no momento atual procura-se muito por tudo aquilo que está por debaixo da crosta terrestre. Ah então, o que eu queria fazer, era buscar o que há por debaixo da crosta mundana, acadêmica. O que o revela? Quando bruscamente você se depara com a imagem poética que brilha, preste atenção! Diria agora, não conheço muito bem a geografia - que é um geyser… Atenção para a imagem poética: ela é reveladora do mundo mais profundo. Eis porque ela é miraculosa. Olhe a África de hoje: guerras civis, lutas, doenças, destruições de povos inteiros. O que você poderia dizer a um jovem antilhano para que ele mantenha a fé na África? AC - Penso, bem simplesmente, que é a juventude que deve dizer o que ela vai fazer. Fizemos uma experiência, mas tenho bastante consciência de que um ciclo terminou, e há um outro mundo a inventar. Para inventá-lo, é preciso fazer o balanço do que foi feito e do que existe. O

tempo das ideologias sumárias está esgotado. Precisa-se de outra coisa. Precisa-se de uma outra África. Mas tenha certeza: precisa-se também de um outro mundo. Quem fará nascer essa outra África? AC - É essa juventude. É a nova juventude. Lutamos pela descolonização e encontramos uma África dividida, um novo tribalismo. Veja o estado do Congo, da Libéria, da Costa do Marfim. Isso não é doloroso? Lembro-me de quando eu estava na Assembléia nacional com Houphouët-Boigny: nós o criticávamos com freqüência muito amistosamente. Houphouët, na realidade, tinha empreendido alguma coisa e acreditava ter obtido êxito nela. Talvez porque ele tivesse meios totalmente insuficientes não era forçosamente a boa direção, mas havia uma experiência. Houphouët-Boigny queria a marfinidade. Ele devia empregar meios diplomáticos que tiveram êxito enquanto permaneceu vivo, mas depois o problema, no entanto, não ficou resolvido. E o Senegal: sei de todas as dificuldades que Léopold Sédar Senghor encontrou… Você não respondeu à pergunta: como se pode manter a fé? AC - Não conheço o método. Temos a fé ou não a temos, mas eu me recuso a perder as esperanças na África. Isso seria recusar ter esperança, tão simplesmente. É enraizado, fundamental. Conheço todas as desgraças que aconteceram. Não as nego, sou extremamente lúcido, mas recuso perder as esperanças porque perder as esperanças é recusar a vida. É preciso manter a fé. Na ocasião do colóquio Césaire de dezembro último, em Nova Iorque, tratei do tema “Aimé Césaire e a América”. Confesso que tive muito trabalho. Você pode clarificar suas relações com os Estados Unidos, onde, contrariamente ao que se acredita, você passou várias temporadas. Em 1945, você encontrou lá André Breton. E descobri no livro de Patrice Louis que você foi à Flórida em 1946. Você voltou lá em 1987 por convite de Carlos Moore. A América é o quê para você? AC - Não tenho resposta… Como não pensar na América? É assim mesmo um mundo sagrado, uma força, uma afrobrasilidades & afins | omenelick 2º ATO | 29


Em sua obra, há uma influência americana? AC - Sim: a atitude diante da vida, diante da civilização. Senti que havia lá uma verdade, uma profundidade. Sair do academicismo francês. Liberdade, Igualdade, Fraternidade: muito bem. Mas por que jamais veio para nós a fraternidade? Jamais a tivemos. Temos a liberdade, como se pode tê-la no mundo. Houve um esforço para a igualdade. Mas a fraternidade, onde ela está? Acredito que não poderemos jamais tê-la, a fraternidade. Se você não me reconhece, porque quer que sejamos irmãos? Eu te respeito, reconheço-te, mas é preciso que você me respeite e me reconheça. E aí a gente se abraça. Para nós, a fraternidade é isto. Aimé Césaire teria um herdeiro? AC - Jamais me coloquei esta questão. Não tenho nenhuma pretensão particular. Disse o que pensava, disse o que eu acreditava. Não sei se tenho ou não razão, mas permaneço fiel a isso e à África fundamental. Já me deformaram, transformaram, caricaturaram muito. Acredito simplesmente no homem. Não sou de maneira alguma racista. Respeito o homem europeu. Conheço sua história. Respeito o povo francês. Respeito todos os homens quaisquer que eles sejam, mas penso também que é preciso lhes fazer a lição e lhes dizer que o homem negro, isso existe, e que a ele também é preciso respeitar. Por que eu disse “negritude”? Não é de maneira alguma porque acredito na cor. Não é de maneira alguma isso. É preciso sempre ressituar as coisas no tempo, na História, nas circunstâncias. Não se esqueça de que, quando a negritude nasceu, na véspera da Segunda Guerra mundial, a crença geral, no liceu, na rua, era uma espécie de racismo subjacente. Há a selvageria e a civili30 | omenelick 2º ATO | afrobrasilidades & afins

zação. De boa fé, todo o mundo estava convencido de só havia uma civilização, a dos europeus - todos os outros eram selvagens. É claro, há pessoas mais ou menos brutais ou mais ou menos inteligentes. Lisez Gobineau. Até mesmo em Renan, fiquei perturbado, encontrei páginas absolutamente extraordinárias. Bem entendido, a opinião pública deforma, vulgariza. Até mesmo os negros… Lembro-me ainda que, um dia em que eu estava perto da biblioteca Sainte-Geneviève, um grande tipo vem em direção a mim, um homem de cor. Ele me diz: “Césaire, gosto muito de você, mas há uma coisa que reprovo em você. Por que você fala assim da África? É um bando de selvagens. Não temos mais nada a ver com eles.” Eis o que ele me disse. É terrível! Até mesmo os negros estavam convencidos disso. Eles estavam penetrados de valores falsos. É contra isso que se tratava, e que se trata, ainda, de reagir. E depois, um belo dia, Léopold Sédar Senghor disse: “Estamos pouco nos lixando! Negro? Mas sim, sou um negro! E daí?!” E eis aqui como nasceu a negritude: de um movimento de humor. Dito de outra maneira, o que era proferido e lançado na cara como um insulto trazia a resposta: “Mas sim, sou negro, e daí?!”

SAIBA MAIS

Entrevista publicada originalmente na revista Lire (Paris, junho de 2004). A nota de apresentação é assinada pelo jornalista francês Patrice Louis. A tradução esteve a cargo de Éclair Antonio Almeida Filho. Leia a entrevista na íntegra em omenelick2ato.com

Maryse Condé (Guadalupe, 1937) é romancista, autora de livros como Heremakhonon (1976), Ségou (2 volumes, 1984-85), Desirada (1997) e Célanire cou-coupé (2000).

OPERÁRIO DAS ARTES O ativismo de Manuel Querino Por Valéria Alves • Ilustração Gilberto Junior

Durante o século 19 e começo do século 20, o Brasil passou por grandes transições. Mudanças sociais e culturais caracterizaram o período marcado por revoltas populares, pela Guerra do Paraguai (1870), a Abolição da Escravatura (1888), o incentivo a imigração da força de trabalho européia e a opressão aos negros. Era a passagem do Império para a República. Neste cenário, um ilustre afrodescendente, intelectual, artista, operário e líder abolicionista ocupou um lugar central em meio a sociedade baiana. Manuel Raimundo Querino nasceu em Santo Amaro da Purificação, no Estado da Bahia, em 28 de julho de 1851. Órfão aos 4 anos, o menino preto e pobre foi apadrinhado por Manuel Garcia, professor da Escola Normal de Salvador. Criado e educado por uma família de classe média branca desenvolveu aptidões para as artes, desenho, pintura e ofícios manuais. Durante sua vida desafiou as estruturas sociais alicerçadas no preconceito racial e de classe, suas crenças estavam fincadas na liberdade, educação, igualdade e justiça, sempre lutando pela valorização da identidade e cultura negra. Duas das maiores marcas do ativismo de Manuel Querino foram, sem dúvida, sua busca pela ancestralidade de matriz africana e sua inclinação em resgatar essas origens, seus valores e traços culturais. Ainda jovem, Querino fez uma incursão pelos sertões de Piauí e Pernambuco e sem nenhum tipo de apoio, vivencia as experiências de um jovem negro num país escravocrata. Após servir a Guerra do Paraguai como escriba em um quartel no Rio de Janeiro, volta à Bahia e se dedica ao estudo do Francês e às atividades de pintor e decorador. Forma-se em arquitetura e em desenho Geométrico, escreve dois livros didáticos e passa a se dedicar ao desenho e à pintura. Entretanto, seus ideais abolicionistas e a luta por uma sociedade justa e igualitária continuavam presentes marcando fortemente suas ações.

Gilberto Júnior (flickr.com/photos/juniorart)

potência, uma experiência. Mas, não escondo de você, o que sempre me interessou na América - não sei se está ultrapassado -, são os negros americanos, o movimento negro. Isto era essencial para mim. Toda a nossa geração foi profundamente marcada por essa experiência. Quando eu era estudante de filosofia, era para nós um caminho diferente daquele que conhecíamos na França. A América era o negro moderno, mas que permaneceu negro. Era Langston Hughes, Countee Cullen, a Black Renaissance. Isso me parecia uma enorme experiência. Havia lá um movimento em profundidade.


A ARTE Manuel Querino estudou no Liceu de Artes e Ofício, tendo completado sua formação na Academia de Belas Artes da Bahia ganhando prêmios em exposições e concursos. Querino é tido como co-fundador da História da Arte baiana, juntamente com outros artistas como Marieta Alves, Carlos Otte e Germain Bazin. Na época, a pintura no Brasil ainda tinha forte influência do Neoclassicismo, gênero que se apresentava em oposição ao Rococó e ao Barroco e que retoma os padrões de estética, regidos pela ordem e clareza, que observamos no período clássico, ou seja, a Grécia Clássica, por isso o nome. Esta escola anunciava a modernidade e o fim do encantamento do mundo, a questão preeminente era a construção e valorização do Estado e de uma nação fortificada contra a exaltação da temática religiosa da estética Barroca. Querino foi o responsável pela preservação e propagação das artes e artistas baianos. Ciente da necessidade de preservar e valorizar a história, em 1906, publicou um artigo sob o título Artistas Bahianos, onde faz a seguinte observação Criado para empregos manuais, Querino se considerava de fato um operário e entendia a importância de várias profissões, quando em 1913, lança o livro As Artes na Bahia apontando a presença dos negros nos ofícios artísticos. Maquinistas, fundidores, caldeeiros de ferro, marceneiros, construtores de máquina, serralheiros, escultores, pintores, arquitetos são algumas das profissões consideradas por Querino como relevantemente artísticas.

ONDA NEGRA Na época que Manuel Querino viveu, a elite intelectual e econômica brasileira atuava ativamente nas instituições culturais, na política e no universo das artes. A população era dominada pelas ideias racialistas do médico Raimundo Nina Rodrigues (1862 -1906). Este intelectual apresenta a problemática racial brasileira polarizada em duas vertentes; a primeira é a vertente civilizada representada pelos brancos, a segunda é a primitiva, o crime, representado pelos negros. Nina Rodrigues, embora mestiço, via os negros como uma raça inferior e, por serem numerosos, pregava a crença de que o Brasil não iria se desenvolver. Acreditava que a nação acabaria sendo governada por negros e mestiços, e que a solução seria um controle social por meio da higienização, era necessário para frear a mestiçagem. Na cabeça deste pensador, não era possível desenvolver no Brasil uma fusão da cultura, os mestiços eram tidos como uma raça degenerada.

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LICEU DE ARTES E OFÍCIOS DA BAHIA

Instituição criada em 20 de outubro de 1872, em Salvador, com o objetivo de qualificar operários e artífices para o mercado de trabalho.

Apesar disso, a população negra continuava lutando. As revoltas urbanas de escravos, homens negros livres e mulatos se multiplicavam. Os escravos fugitivos se organizavam em mucambos e quilombos nas matas dos próprios engenhos, o grande ano de fuga de escravos foi 1867. Ficaram célebres alguns fatos como o enforcamento dos escravos Crispim e Malaquias acusados de assassinarem seus senhores, a fuga do escravo João Mulungo do Engenho Flor da Rosa em 1868, tempos depois sendo capturado e enforcado. As ações cruéis dos senhores contra os escravos provocaram protestos da população negra até a chegada da abolição.

ATIVISMO Abolicionista e Republicano, Manuel Querino ingressa na política. Sua militância é em favor das causas sociais, operárias e artísticas. Valorizava o povo baiano e circulava em diversos espaços de sociabilidade negra, nas festas, botequins, terreiros, igrejas, nas associações artísticas e, no meio intelectual travou grandes debates em oposição às ideias racistas de Nina Rodrigues.

...resolvi traçar o ligeiro esboço que se segue, no intuito de tornar conhecido, si bem que resumidamente, o merecimento incontestável de alguns artistas que floresceram nos séculos XVIII e XIX, a par de poetas, escritores e jornalistas que enaltecem as glórias desta terra, pois a Bahia possui muita preciosidade na poeira do esquecimento. (QUERINO, 1911 p.17).

Foi nos periódicos A Província e O Trabalho, fundados pelo próprio Querino, que suas ideias abolicionistas ganham força e adeptos. O ativista retratava e denunciava as situações de humilhação e violência contra os negros e pobres e mesmo sofrendo pressões, ocupa um lugar central na luta pelo fim da escravidão e por melhores condições de trabalho. Com o intuito de organizar a classe operária no Império, cria a Liga Operária Baiana e mais tarde, na República, ajuda e fundar o Partido Operário, do qual foi eleito vereador. Foi por meio da política que adentra a elite da época gerando desconforto e polêmicas, pois, seus ideais, sua arte, seu corpo negro, estavam fora de lugar. Contudo, Querino decepciona-se com a República por não valorizar os trabalhadores e desrespeitar a autonomia popular. Ingressa no funcionalismo público no cargo de 3º oficial da Secretaria da Agricultura. Contam seus biógrafos que Manuel Querino foi um funcionário médio e passou por diversas dificuldades e vexames, justamente pelo seu engajamento em prol da liberdade e das causas sociais. Querino testemunhou as transformações que culminaram na República. Sobre elas registrou em seus escritos inquietações próprias de quem experimentou dificuldades para movimentar-se nos diversos espaços e desafiou as estruturas sociais baseadas no preconceito de classe e raça. O negro órfão e pobre moveuse na sociedade escravista buscando cominhos que garantissem a realização se suas crenças baseadas na justiça, na liberdade e igualdade para todos. O ativista desliga-se da política partidária e passa a dedicar-se ao magistério e à produção de conhecimento. afrobrasilidades & afins | omenelick 2º ATO | 33


O Dono da cena

O COLONO PRETO Querino aprofunda-se intensamente nos estudos históricos, preocupa-se em registrar e enunciar as contribuições dos africanos e dos afrodescendentes para a formação do Brasil. Foi o primeiro a marcar na historiografia brasileira a contribuição dos africanos para o crescimento social e econômico do país. Em toda sua produção Querino mostra às influências culturais, a comida, a dança, a arte, a religião afro-brasileira para a formação da identidade nacional. O abolicionista observa que a presença do negro na história brasileira estava sendo desprezada pelas autoridades. Passa a percorrer os arredores de Salvador, terreiros de candomblé, festas, bares, oficinas, casas e em todos os lugares onde pudesse encontrar negras e negros para que em conversas pudesse resgatar a memória, a sabedoria, preciosas informações sobre as qualidades, lutas, habilidades, valores, crenças e conhecimento da tradição africana no Brasil. Considerado o primeiro etnólogo negro a registrar a cultura afro , em 1918, lança o ensaio O Colono Preto como Fator da Civilização Brasileira.

Por Sidney Santiago

“O Teatro brasileiro que é tão pobre, tão vazio, e que vive ainda na sua pré historia, bem que precisava descobrir o negro, seus temas, seus dramas...”

Este ensaio dividido em cinco capítulos trata o africano como colonizador e como elemento atuante na criação da civilização, para ele a sociedade brasileira foi construída pelo trabalho dos negros. Querino aponta que os portugueses, de fato, não tinham capacidade para exercer nenhum tipo de controle ou poder, que estes eram incompetentes no que se refere às artes, à economia, às ciências, e que a maior habilidade era a de escravizar.

Nelson Rodrigues (1948)

Nos capítulos que se seguem, Manuel Querino apresenta as habilidades do “colono preto” como bom trabalhador,caçador, marinheiro pastor, minerador, mercador e agricultor, a virtude e coragem como parte do ethos africano. Por fim, Manuel Querino aponta a resistência coletiva via Quilombos e a formação da família e seus descendentes, a formação do afrobrasileiro: Tratando-se da riqueza econômica, fonte da organização nacional, ainda é o colono preto a principal figura, o fator máximo. São esses os florões que cingem a fonte da raça perseguida e sofredora que, a extinguir-se, deixará imorredouras provas do seu valor incontestável que a justiça da história há de respeitar e bendizer, pelos inestimáveis serviços que nos prestou, no período de mais três séculos (QUERINO 1955, p.38). Manuel Querino faleceu em 14 de fevereiro de 1923, na cidade de Salvador, numa quarta feira de cinzas. Este grande artista e militante deve ser lembrado e homenageado por seu ativismo político e, principalmente, por ter sido o primeiro historiador da arte baiana afrobrasileira.

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Valéria Alves é mestranda em Antropologia das Populações Afro- brasileiras e Africanas pela USP, pesquisa temas referentes às relações raciais, sexualidade, gênero e políticas culturais.

“Não podemos mais ficar na dependência dos brancos”, afirma Eduardo Silva, baluarte dos palcos da terra da garoa. Nascido na cidade de São Paulo e no hospital de mesmo nome no ano de 1964, Edú (como é conhecido), filho de uma jovem empregada doméstica, passou sua infância entre a Praça da República e o Largo do Arouche. Seus estudos foram iniciados no antigo colégio Caetano de Campos, onde hoje fica a Secretaria de Educação do Estado de São Paulo.

foto duran machfee (machfee@hotmail.com)

Pouco mais de seis décadas após a afirmação de Nelson Rodrigues (1912 - 1980) para o jornal Quilombo (periódico mensal fundado por Abdias Nascimento e que circulou na cidade do Rio de Janeiro entre os anos de 1948 e 1950), não tivemos mudanças significativas em nossos palcos. Os intérpretes negros ainda têm sua capacidade emocional, seu ímpeto dramático e sua formação lírica subestimadas.

Na ditadura militar, a invisibilidade, o sexismo, a pobreza extrema e a discriminação racial sob a mulher negra fizeram com que Eduardo, já em sua primeira infância, fosse adotado pela patroa a quem sua mãe biológica sempre afrobrasilidades & afins | omenelick 2º ATO | 35


Um olhar pessoal sobre uma trajetória coletiva

nutriu muita gratidão. Foi ducado com rédeas curtas por uma Nonna italiana, malufista e com ideais separatistas. Desde criança por onde passava chamava a atenção e encantava a todos. Era um menino gorducho e carismático. Até os seis anos só vestia branco da cabeça aos pés. Sua maior lembrança dos tempos da meninice eram os passeios com a cachorrinha e a ausência do futebol por ser um legítimo “perna de pau”.

Por Eugênio Lima

A vida artística começou em 1970. Visto na rua acompanhado de sua madrinha veio o convite para participar dos programas de Moacir Franco e Roquete Pinto, onde interpretou Pelé. De lá pra cá são 33 anos de carreira, algumas dezenas de peças, mais de 30 novelas e filmes e aproximadamente 25 prêmios, entre eles o Shell, APCA e Moliére.

No dia 3 de fevereiro de 2004, o jovem dentista negro Flávio Ferreira Sant’Ana, então com 28 anos de idade, foi morto por seis policiais militares na zona norte da cidade de São Paulo. Confundido com ladrão, Flávio foi assassinado com dois tiros. Os policiais forjaram a cena do crime tentando encobrir o erro.

Formado em Biologia pela Universidade de São Paulo (USP), pianista e cantor, Eduardo Silva é a própria história contemporânea do nosso palco. Desde os anos 70 enfrenta os mesmos dogmas relacionados ao artista negro. Porém, negocia sua imagem, deixando explícito suas escolhas políticas e trava uma luta diária para subverter estereótipos em cena. ”Me interessa fazer um motorista que apareça bem mais, do que um médico ausente na trama”.

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acerca do racismo na sociedade brasileira. Sua abordagem cria novas leituras e coloca em contexto dados que chegam à população de maneira fragmentada por intermédio dos

A partir deste fato, que dá nome ao grupo, a Frente 3 de Fevereiro iniciou seu trabalho acerca do racismo policial na cidade de São Paulo. Desse ponto inicial até hoje são oito anos de existência. Oito anos de profunda imersão na dialética realidade das relações raciais da sociedade brasileira e suas interações com as diversas abordagens da diáspora negra ao redor do mundo.

Seus personagens, sejam em novelas como A História de Ana Raio e Zé Trovão, Éramos Seis e Meu Pé de Laranja Lima, ou no cinema, em filmes lendários como Quilombo, de Cacá Diegues e Garrincha - Estrela Solitária sempre tiveram algo a dizer e a problematizar. Mas é na arena do teatro que ele aposta suas fichas e acredita que, diante do projeto da barbárie da invisibilidade a qual o povo negro ainda está inserido, o caminho é criar possibilidades de novos espaços e parcerias para a construção de outras imagens e só assim nessa guerra das paisagens um imaginário de liberdade nascerá. Mas para Eduardo, tudo isso só será possível com estudo, conhecimento tecnológico e científico. Eduardo é um esperançoso na vida e no Brasil. Atualmente direciona suas forças para a direção teatral de projetos de cunho social, voltados para uma dramaturgia nacional e na preparação e formação de artistas negros. “Cansei de fazer peça que só faz rir”.

SÍNTESE A Frente 3 de Fevereiro é um grupo de pesquisa e intervenção artística direta

Sidney Santiago é formado em Arte Dramática na ECA/USP, ator e membro fundador da Companhia de Teatro e Intervenção Urbana Os Crespos. Estudante de Sociologia e Política da FESPSP e articulador do Coletivo Homens de Cor.

meios de comunicação. Por sua vez, as intervenções artísticas encabeçadas pelo coletivo criam novas formas de manifestação sobre as questões raciais.

Durante esse período, a Frente 3 de Fevereiro foi para mim, sem sombra de dúvida, o mais radical mergulho nas questões raciais, sociais e artísticas da nossa sociedade, que eu tive o prazer de participar. Foi uma trajetória de experienciação, debates, teorias, descobertas, rompimentos, música, intervenções urbanas, desdobramentos filosóficos, medo e euforia. Tudo isso dentro de um fazer radicalmente coletivo. Costumo dizer que o fazer coletivo da Frente tem a sua raiz num radicalismo democrático, em que qualquer ideia, por mais simples que pareça, tem que ser exaustivamente debatida. Um método de dissenso como forma de garantir maior pluralidade e, ao mesmo tempo, preservar a força das proposições coletivas (uma espécie de pêndulo, que oscila do micro para o macro e viceversa). Nós assumimos a proposta do fazer coletivo como eixo central da nossa ação, e a ideia das intervenções urbanas como uma espécie de agente catalisador transdiciplinar, sempre extrapolando as fronteiras dos suportes artísticos (artes plásticas, vídeo, música, teatro), bem como a suposta divisão entre arte e política. Deixamos de lado desde muito cedo a proposição de que precisaríamos de uma grande quantidade de pessoas para que as ações da frafrobrasilidades & afins | omenelick 2º ATO | 37


ente tivessem visibilidade e relevância. Criávamos as intervenções pensando nos diversos impactos que poderiam ter e quais seriam suas possibilidades de difusão. O registro em áudio e vídeo era uma peça fundamental em nossa estratégia. Optamos pelas ações em conjunto com uma série de parcerias, que foram amplas, indo desde torcidas organizadas, coletivos artísticos, intelectuais, militantes, atores, atrizes, estudantes, sacerdotes de diferentes linhas espirituais, ONGs, movimentos sociais, institutos culturais nacionais e internacionais, editais públicos, artistas plásticos, músicos, Mc’s e poetas. A partir daí elaboramos nossa produção artística: debates, shows, workshops, exposições, vídeos, bandeiras em estádios de futebol e no alto do Edifício Prestes Maia (maior ocupação vertical de toda America Latina), criamos os espetáculos áudiovisuais Zona de Ação, Futebol, Esquinas de Mundo e Zumbi Somos Nós, além da elaboração da nossa primeira trilogia: O livro Cartografia para o Jovem Urbano, o filme Zumbi Somos Nós e o CD Diáspora Afronética. Como assinatura, optamos pela coletiva, em que a criação e execução tinham para nós o mesmo valor, pois formamos diversos grupos dentro da Frente, que desdobravam as nossas pesquisas, sempre em conjunção com a nossa produção artística.

Transgressão e arte O Brasil e o seu lugar na Street Art Global Por Márcio Macedo (Kibe) • Fotos MANDELACREW

SAIBA MAIS

frente3defevereiro.com.br

Os temas, ao longo do tempo, se interpenetraram: o racismo policial, a tipologia do suspeito, o racismo no futebol como metáfora da suposta democracia racial no Brasil, o racismo como aparato da sociedade de controle, o quarto de empregada (tradição escravocrata), a cartografia como forma de ação, arte e ativismo, a música como elo entre o passado e o presente (afro-samples), as esquinas de mundo, a arquitetura da exclusão. E no meio do processo, afirmamos: Zumbi Somos Nós! Nos apresentamos em festivais e mostras de vídeo, teatro, artes plásticas e música. Fomos à África, à Europa, à América Latina e aos Estados Unidos. Debatemos a nossa produção e o nosso pensamento com diversos coletivos artísticos e grupos de ação política de várias partes do mundo. Propusemos parcerias e construímos alianças. Criamos nesses oito anos um sólido material, cuja maior parte está disponível no nosso site. Enfim, esses foram para mim anos de intenso aprendizado e de profunda admiração pela trajetória deste coletivo. Desejo que os próximos anos sejam tão intensos quanto estes. Brasil negro salve!

*Dedicado à Frente 3 de Fevereiro. 38 | omenelick 2º ATO | afrobrasilidades & afins

Eugênio Lima é DJ, diretor, ator e membro fundador da Frente 3 de Fevereiro e do Núcleo Bartolomeu de Depoimentos.

Imagine uma exposição de graffiti que ninguém poderá ver instalada numa estação de metrô abandonada em algum lugar de New York City... Pois é, pode parecer viagem, mas esse é o conceito do The Underbelly Project, uma exposição montada por dois grafiteiros novaiorquinos entre 2009 e 2010. PAC, um dos artistas, descobriu a estação abandonada em suas explorações pelo subterrâneo da Big Apple. Após se reunir com seu amigo, o também grafiteiro Workhorse, ambos tiveram a idéia do projeto. Ao longo de um ano, num esquema sigiloso e cuidadoso, mais de 100 artistas norte-americanos e europeus foram convidados para, ilegalmente, grafitar o interior da estação com seus trabalhos enfrentando perigos dos mais diversos: desde serem confundidos com terroristas e, portanto, presos, até se machucarem em acidentes na escuridão do sistema metroviário. PAC, numa entrevista ao jornal The New York Times em outubro de 2010, resumiu a intenção da exposição e o motivo de não ser revelada a localização da estação abandonada.“Nós não queremos preservar o tipo de qualidade sagrada do lugar, mas nós também queremos que as pessoas saibam que ele existe. E nós queremos que ele se torne parte do folclore da cena de arte urbana.” afrobrasilidades & afins | omenelick 2º ATO | 39


O The Underbelly Project expõe de formal magistral o estado da arte do graffiti nas grandes metrópoles mundiais. A repressão às formas de manifestações artísticas urbanas, cuja mais conhecida é o graffiti, começou nos anos 1980 com a limpeza dos vagões de trem novaiorquinos graffitados que circulavam pela cidade e atingiu o ápice recentemente com as novas tecnologias de vigilância via câmeras espalhadas por ruas e parques de New York City e outras metrópoles globais. Ser pego graffitando, na realidade pós-atentados 11 de setembro, é motivo para prisão. A atual faceta da repressão forçou o graffiti a atingir novas formas de transgressão como a vista no Underbelly, ou seja, a intervenção artística ilegal de lugares não públicos e nem vistos pelas pessoas comuns na vida cotidiana. Essa guinada também responde ao recente processo de comercialização de manifestações artísticas urbanas via mercado de arte que, de acordo com alguns críticos, retiram o poder de contestação do graffiti. Para alguns, seu lugar é nas ruas e não no ambiente asséptico e higienizado dos museus. Todas essas questões são muito bem retratadas no documentário Bomb It, do diretor John Reids. Lançado em 2007, o filme apresenta não só a história do nascimento do graffiti em NYC, mas também sua estética, lendas e a exportação dessa manifestação para várias capitais mundiais, inclusive São Paulo.

STREET ART Para a socióloga húngara Virág Molnár, street art pode ser considerado um grupo eclético de práticas que tem o espaço público urbano como área de intervenção. Nesse sentido, técnicas como o graffiti, a fotografia, stencil, tagging e flash mobs (reunião performática de pessoas em espaços 40 | omenelick 2º ATO | afrobrasilidades & afins

públicos através de mídias sociais) são a nova face da cultura artística urbana. Parte dessas formas de expressão nasceu dentro de subculturas juvenis, como os movimentos hip-hop e punk, e seu potencial de contestação do espaço público tem sido visto através dos trabalhos de artistas como o do fotógrafo francês JR e do grafiteiro britânico Bansky. Tomando o trabalho desses artistas como exemplo, arte urbana/de rua contemporânea é uma resposta criativa e crítica as formas de controle do espaço público e questões político-sociais. Por outro lado, o formato estético da street art e as formas de repressão que sobre ela infringem, variam. Isso ocorre porque intervenções urbanas como o graffiti dialogam com fatores locais de ordem política, econômica e cultural. Exemplo disso pode ser visto na cidade de São Paulo.

BEM-VINDO A SP! A cidade de São Paulo é conhecida internacionalmente como um centro produtor de uma forma bastante singular de graffiti. O trabalho da dupla de artistas paulistanos Os Gêmeos que incorpora temas regionalistas é, sem dúvida, o principal representante da street art e graffiti brasileiros. Seus trabalhos já foram exibidos em museus de Nova Iorque, Los Angeles e Londres. Entretanto, há muitos outros artistas brasileiros detentores de uma produção artística de alta qualidade que ainda não obtiveram tanto reconhecimento internacional como Zezão e Alexandre Orion. De certa forma, há uma percepção geral no exterior e que pode ser vista no documentário Bomb It de que as autoridades em São Paulo seriam mais tolerantes à prática do graffiti do que nos Estados Unidos e Europa, por exemplo. Esse fato explicaria então o grande desenvolvimento estético e singuafrobrasilidades & afins | omenelick 2º ATO | 41


laridade do graffiti tupiniquim. Essa é uma meia verdade e veremos o porquê. Na sua dissertação de mestrado o urbanista Sérgio Franco, pesquisador de graffiti e pixação, estabeleceu uma periodização para as escolas de graffiti na capital paulista. A primeira delas se formou em fins dos anos 1970 e início dos 1980 e é conhecida como Os Pioneiros, tendo sido composta por artistas plásticos e universitários que protestavam contra a ditadura. O segundo grupo se formou na segunda metade dos anos 1980 sobre a influência do hip hop, ganhando o nome de Old School. Faziam parte dele jovens de classe popular, sendo que muitos eram ligados ao hip hop. Por fim, nos anos 1990, surge a Nova Escola, formada por jovens de classes sociais diversas que tinham como influência os trabalhos de grafiteiros da Old School e também da pixação, que toma força e se dissemina justamente nessa época apesar de ter surgido e tomado a forma que conhecemos hoje na metade dos anos 1980 através de graffiteiros/pixadores como Juneca e outros que, à época, foram perseguidos pelo então prefeito Jânio Quadros. O graffiti em São Paulo foi incorporado de tal maneira à paisagem urbana da cidade que alguns se referem a ela como capital mundial do graffiti. Desde 1988, a cidade comemora em 27 de março de cada ano o Dia do Graffiti, em honra ao artista/grafiteiro Alex Vallauri (1949-1987), considerado o pioneiro da manifestação no Brasil. A popularização desta manifestação se deu em grande parte devido à ação dos artistas da Old School. Essa escola sofreu grande influência dos graffitis da cultura hip hop norte-americana veiculados no documentário Style Wars, lançado por Tony Silver, em 1983; nas imagens exibidas em livros como Spraycan Art (1987) e Subway Art (1988); além da incorporação e uso de novas 42 | omenelick 2º ATO | afrobrasilidades & afins

técnicas e materiais (como as latas de spray) na produção de seus desenhos. Entretanto, devido ao isolamento dos artistas brasileiros em relação à produção norte-americana, com o tempo, a exploração de conteúdos nacionais como temas regionalistas ficou mais forte nos graffitis. Esta característica pode ser percebida nos trabalhos da dupla Os Gêmeos e do casal Vitché e Jana Joana. Em seus primeiros anos nas ruas da capital paulista, o graffiti feito pela “Old School” foi objeto de preconceito, sofreu repressão policial e era freqüentemente associado a sujeira e/ou gosto estético duvidoso. Por outro lado, nos anos 1990, a disseminação da pixação e a crescente mercantilização do graffiti através de seu uso para cobrir fachadas e portas de lojas e estabelecimentos comerciais (algo que ficou conhecido como “graffiti comercial”) foram fatores que trouxeram mais aceitabilidade a esta arte perante a população, transferindo o estigma de sujeira e vandalismo anteriormente associados a ele, para a pixação. O documentário Pixo, dirigido por João Wainer e Roberto Oliveira e lançado em 2009, explora a temática da pixação acompanhando a trajetória do grafiteiro Rafael “Pixobomb”. Ele foi responsável por realizar um “bombardeio” (ataque de uma crew de pixadores) à Universidade Belas Artes, como trabalho de conclusão do seu curso em Artes Plásticas, e de também pixar uma área da 28a Bienal de Artes, em 2008 (naquela ocasião, a pixadora Carolina Piveta foi detida e passou 15 dias na prisão). O filme também contém cenas da ação de pixadores escalando prédios e explicam como o formato das letras utilizadas por eles teve como inspiração as grafias usadas em capas de discos dos grupos de rock heavy metal dos anos 1980. afrobrasilidades & afins | omenelick 2º ATO | 43


Mesmo que possam parecer manifestações distintas, graffiti e pixação fazem parte do mesmo universo. Exemplo disso é fornecido pelo antropólogo Alexandre Pereira em seu estudo sobre os pixadores em São Paulo. Ele mostra como figuras como o “graffiteiro” e o “pixador” podem, muitas vezes, estar incorporados na mesma pessoa. O exemplo dado pelo antropólogo é o de uma oficina oferecida por um órgão público que visava “converter” pixadores em graffiteiros, uma vez que o graffiti, por ser desenhado, seria mais inteligível e possuiria contornos artísticos, enquanto a pixação, por ser escrita em formas não tão legíveis, é entendida com sujeira. A oficina não deu certo, já que os jovens alunos que não haviam ainda travado contato com a pixação e, ao fazê-la, ficaram fascinados com o grau de transgressão da mesma passando a pixar. Já os pixadores não se renderam ao discurso “salvacionista” do curso e não se tornaram graffiteiros. De acordo com Pereira, tanto graffiti como pixação são elementos pertencentes à uma cultura de rua, ou seja, à uma série de práticas associadas à população moradora da periferia da cidade de São Paulo e produzidas dentro de manifestações como o hip hop, as torcidas organizadas de futebol, motoboys, baloeiros, dentre outros. As relações entre pixadores e grafiteiros algumas vezes podem ser tornar conflituosas por conta dos famosos “atropelos”, ou seja, quando um grafite ou pixo é propositalmente coberto com outro desenho/pixo. Isso ocorre, frequentemente, como forma de retaliação, ou por conta de desavenças ou disputas. O fato do graffiti ter recentemente ganhado mais reconhecimento por parte da população, do poder público e do mundo da arte, dentro e fora do Brasil, tem insuflado a aversão de alguns pixadores. Um dos motivos é que muitos graffiteiros legitimam a 44 | omenelick 2º ATO | afrobrasilidades & afins

ideia defendida pelo senso comum e setores governamentais de que a pixação nada mais é do que sujeira e vandalismo. Por outro lado, a Prefeitura de São Paulo, no decorrer dos anos, tem tido uma posição ambígua em relação à street art. Há uma orientação pública de combate à pixação e incentivo ao graffiti. Esta política está embasada numa distinção, que já dissemos ser equivocada, entre graffiti (arte) e pixação (sujeira/ vandalismo). Contudo, mesmo seguindo essa lógica, é possível ver as contradições no discurso da prefeitura. Um bom exemplo é o caso de uma obra da dupla Os Gêmeos que, mesmo tendo sido financiada com recursos do município, foi coberta com tinta branca em 2008 numa ação da própria prefeitura, seguindo a orientação da lei Cidade Limpa. Ironicamente, enquanto sua obra em São Paulo era apagada pelo poder público, Os Gêmeos grafitavam as paredes do Tate Museum na Inglaterra.

GRAPIXO SP Alguns artistas vinculados à Nova Escola têm produzido trabalhos em que ocorre a junção entre graffiti e pixação. Essa técnica é conhecida como grapixo. A proposta pode justamente trazer novas possibilidades e ganhos para ambas manifestações. No caso do graffiti, incorporar a pixação significa recuperar o elemento transgressor que alguns afirmam ter se perdido devido à sua crescente mercantilização por meio do “graffiti comercial” (exibidos em fachadas de lojas e decoração de interiores) e da crescente circulação de obras no mercado de arte. Para a pixação, tal incorporação implica em uma diminuição do estigma que a vincula à sujeira e ao vandalismo bem como o reconhecimento de que as suas letras (indecifráveis para não iniciados) são detentoras de um trabalho estético que vai além da afrobrasilidades & afins | omenelick 2º ATO | 45


transgressão pura e simples do vandalismo. Um exemplo fornecido por Sérgio Franco exemplifica como o grapixo pode incorporar em sua estética aspectos críticos e criatividade sem abrir mão da transgressão. Um grupo de graffiteiros/pixadores foi contratado para cobrir a agência de um banco famoso localizada numa região nobre de São Paulo. A ação seria capitaneada como um exemplo de inclusão, tolerância e contemporaneidade por parte do banco. No decorrer dos trabalhos, um artista colocou frases totalmente legíveis aos não iniciados no universo da pixação que remetiam à idéias como povo e pobreza. Funcionários do banco advertiram o artista e solicitaram que ele continuasse a fazer desenhos ou se utilizar de uma linguagem mais abstrata. O artista, contrariado, seguiu a orientação e escreveu em letras no estilo codificado da pixação, o que passou despercebido para os funcionários do banco: “Pilantropia do caralho desse banco de bosta”. A história acima contada aponta para a criatividade e poder de transgressão visto nas várias formas de street art. Por fim, podemos nos perguntar: o que o The Underbelly Project de New York City, os graffitis divertidos do britânico Bansky, as fotografias de pessoas fazendo caretas e ampliadas de forma espetacular pelo francês JR e o grapixo de artistas brasileiros tem em comum? A resposta é a capacidade de todas essas formas de street art em se renovar como uma reação criativa, irônica e popular à sistemas de controle social, poluição visual, desigualdades e conflitos.

PARA ASSISTIR

Bomb It. John Reids. 2007.

Hudson Rodrigues em p&b Por Nabor Jr. No final dos anos 90, quando a Fotografia dava os seus primeiros passos rumo à popularização da manipulação digital, o ainda adolescente Hudson Rodrigues, hoje com 30 anos, influenciado pelo fotojornalismo e pelo contato que travou com a obra do fotógrafo húngaro Robert Capa (1913-1954), decidiu comprar sua primeira máquina fotográfica. “Quando fui ver, percebi que era muito caro. Não tinha grana! Ainda era época do filme”, recorda-se. Os anos se passaram, mas o interesse pela fotografia não, e a primeira câmera veio, enfim, em 2007. “Quando eu a comprei já estava muito certo do que queria fotografar. Havia passado anos treinando meu olhar”, revela. Natural do Jabaquara, zona sul de São Paulo, onde

PARA LER

Iconografias da metrópole: grafiteiros e pixadores representando o contemporâneo. Sérgio Franco. Dissertação (mestrado em urbanismo e arquitetura). USP. 2009.

cresceu rodeado por influências, e referências, tipicamente urbanas, como o skate, o rap, o metrô e a atmosfera cinza que por vezes ronda as tardes da capital, Hudson, designer gráfico por formação, é hoje, quase 15 anos após as primeiras recordações fotográficas de que tem lembrança, um sagaz cronista visual do cotidiano paulistano.

De rolê pela cidade: os pixadores em São Paulo. Alexandre Pereira. Dissertação (mestrado em antropologia social). USP. 2005.

O período “forçado” em que se dedicou a observação da fotografia aliado a curta, mas intensa rotina

dos últimos cinco anos como fotógrafo, renderam-lhe maturidade no olhar e uma próspera evolução técnica desde os seus primeiros disparos. O que salta aos olhos nos seus registros é a sensibilidade que possui para materializar um dos mais cultuados gêneros da fotografia, o retrato (conforme comprova o pequeno ensaio a seguir). A harmonia dos contrastes, luzes e composições, o jogo de sombras e tons, especialmente realçadas nas fotos preto e branco que faz, revelam através das lentes do fotógrafo, e da intensidade das imagens que produz, uma síntese quase sempre poética das belezas e tristezas “escondidas” na urbe paulistana e da pluralidade das pessoas que a compõe. Ainda a procura de uma intimidade maior com a luz e por enquadramentos que dialoguem em consonância com seus personagens, Hudson está longe de ser um vanguardista. Mas em meio a avalanche de parafernálias digitais que multiplicaram o número de fotógrafos e de

Márcio Macedo, Kibe é estudante de Ph.D. em sociologia na The New School for Social Research (NYC), bolsista CAPES e mantém o blog newyorkibe.blogspot.com 46 | omenelick 2º ATO | afrobrasilidades & afins

PARA VER E ASSISTIR

Vídeo da entrevista com o artista e mais fotografias de Hudson Rodrigues omenelick2ato.com

imagens em circulação, ele, que há tempos deixou o rótulo de amador, desponta como um fotógrafo que, tal qual o fotojornalismo que lhe despertou, merece ter a trajetória acompanhada, como notícia. afrobrasilidades & afins | omenelick 2º ATO | 47


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HUDSON RODRIGUES flickr.com/photos/hudsonr 50 | omenelick 2ยบ ATO | afrobrasilidades & afins

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O MENELICK 2º ATO  

REVISTA O MENELICK 2º ATO. ANO II. ED. 08

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