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FEVEREIRO/MARÇO 2011

04 DISTRIBUIÇÃO GRATUITA

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quilombo Nabor Jr. | Jornalista e fotógrafo, 28 anos. omenelicksegundoato.blogspot.com Cristiane Gomes Jornalista, 32 anos. decrisumpouco.blogspot.com Renata Felinto Mestre em Artes Visuais, pesquisadora e artista plástica, 32 anos. renatafelinto@gmail.com Emy Sato Designer Têxtil e Fotógrafa, 23 anos. flickr.com/photos/cabecativa Lúcia Udemezue Educadora e Cientista Social, 25 anos. luciademezue@gmail.com Cíntia Augusta Designer Gráfica e Fotógrafa, 20 anos. flickr.com/photos/citcity2 Jéssica Balbino Jornalista e escritora, 25 anos. jessicabalbino.blogspot.com Distribuição GRATUITA em galerias de arte, centros culturais, shows, festas, feiras, festivais, casas noturnas, lojas e zonas de conflito. 4 | omenelick 2º ATO | afrobrasilidades & afins


s i g a > o m e n e l i c k s e gu n d o a t o . b l o g s p o t . c o m

O Menelick 2º Ato é uma publicação bimestral da MANDELACREW COMUNICAÇÃO E FOTOGRAFIA Rua Roma, 80 – Sala 144 - São Caetano do Sul / SP CEP: 09571-220 - Tel.: (11) 9651 8199 DIRETOR Nabor Jr. | MTB 41.678 omenelick2ato@gmail.com Comercial Maria Cecília Braga omenelick2ato@gmail.com CONSELHO EDITORIAL Nabor Jr., Cristiane Gomes, Alexandre Bispo e Renata Felinto. REVISÃO E LEITURA CRÍTICA Alexandre Bispo e Cristiane Gomes Projeto Gráfico e Diagramação Edson Ikê | ensaiografico.com.br CAPA Pato fotolog.com/patologico Tiragem 2 mil exemplares

Afinidade ideológica, liberdade criativa, confiança de sobra e um tema. Assim se dá a relação entre a revista e os artistas convidados para desenvolverem a capa da O M2ºATO. Com o artista plástico André “Pato” não foi diferente. O tema? Carnaval. Quando vocês me sugeriram este tema, logo me veio a idéia do bacanal. É a segunda vez que faço esta alegoria. A primeira foi na Bienal Internacional do Graffiti, no MUBE. Vejo constantemente pessoas se valendo de sua beleza para se impulsionar na vida. Tipo carnaval o ano inteiro na terra da Gozolândia, ou em busca do “cálice” sagrado.

LEIA A ENTREVISTA COM O ARTISTA omenelicksegundoato.blogspot.com

AGRADECIMENTOS Maria Cecília Braga dos Santos, Simone Grazielle, Claudinei Roberto e a todos que direta ou indiretamente contribuíram para que a quarta edição da revista O MENELICK 2º ATO se tornasse realidade.

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ONDE ENCONTRAR A SUA REVISTA LIVRARIA SUBURBANO CONVICTO RUA 13 DE MAIO, 70 2º ANDAR – BIXIGA MUSEU AFRO BRASIL PARQUE DO IBIRAPUERA, PORTÃO 10 – IBIRAPUERA CASA DA PRETA RUA INÁCIO PEREIRA DA ROCHA, 293 – VILA MADALENA LOJA 1 DA SUL RUA 24 DE MAIO, 62 LOJA 40 – CENTRO MATILHA CULTURAL RUA REGO FREITAS, 542 CENTRO NÚCLEO BARTOLOMEU DE DEPOIMENTOS R. DR. AUGUSTO DE MIRANDA, 786 – POMPÉIA. ATELIÊ OÇO PRAÇA CARLOS GOMES, 115 LIBERDADE. CRESPOSIM R. 24 DE MAIO, 116 LOJA 13 – CENTRO

“...lembro-me de quando os negros apenas vagavam por aí, como Ralph costuma dizer, arrumando sarna pra se coçar e motivos para rir à toa. Mas esse dia chegou ao fim. Agora, o negócio é sério, e estamos determinados a conquistar o lugar a que temos direito no mundo de Deus”. Trecho do discurso “Eu estive no topo da montanha”, proferido por Martin Luther King à população de Memphis, nos Estados Unidos, no dia 3 de abril de 1968, um dia antes do líder negro ser assassinado. LEIA O DISCURSO NA ÍNTEGRA EM www.omenelicksegundoato.blogspot.com

Apoio:

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conteúdo 14 18 38 21 26 29 33

FOTOGRAFIA À VELHA GUARDA COM CARINHO Nabor Jr.

MÚSICA Muito Além Dos Rótulos Cristiane Gomes

22 quadrinhos D´SALETE pinta o sete

JAMES e EU Lúcia Udemuzue O NOVO JÁ NASCE VELHO Profeta da Luz

LITERATURA POEMAS, POETAS, LIVROS E SOLDADOS Jéssica Balbino

POESIA O REALISMO ROMÂNTICO DE AKINS KINTÊ Nabor Jr.

ARTES PLÁSTICAS DIÁLOGOS E IDENTIDADES Renata Felinto

filosofia HÁ SEMPRE UM COPO DE MAR PARA O HOMEM NAVEGAR Nabor Jr.

DIVULGAÇÃO

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À Velha Guarda com carinho

Nenê da Vila Matilde

Imersão étnica do fotógrafo Wagner Celestino visita à memória negra paulistana através das imagens dos seus sambistas pioneiros

POR nabor jr.

Já disseram que São Paulo era o túmulo do samba. De certo, esqueceram que o samba agoniza, mas não morre. Essa imortalidade rítmica e sanguínea pulsa não somente nas letras e batuques das rodas de samba espalhadas pela cidade, mas também no miscigenado cotidiano paulistano, se 8 | omenelick 2º ATO | afrobrasilidades & afins

entrelaçando na trajetória biográfica de pessoas que tem o ritmo como religião, doutrina e estilo de vida, quando não, como sentido para a vida. E foi justamente a este último grupo que as lentes do fotógrafo paulistano Wagner Celestino, 59, se


fotografia

Dona Philomena

Silval Rocha voltaram quando, em março de 2003, ele iniciou o audacioso projeto de registrar os remanescentes da Velha Guarda das Escolas de Samba da Cidade de São Paulo. A visita à memória negra paulistana através das imagens dos seus sambistas pioneiros, protagonistas dos primeiros batuques dos cordões carnavalescos da cidade, recoloca esses baluartes como atores principais de um filme por eles criado, produzido e estrelado.

Zelão da Rosa

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O resultado dessa imersão étnica e fotográfica é um ensaio poético, simples e sereno, que faz jus a importância histórica dos 29 personagens retratados. Uma verdadeira homenagem aos olhos e ouvidos dos paulistanos, sejam eles sambistas ou não.

“Registrar os remanescentes da Velha Guarda das Escolas de Samba da Cidade de São Paulo, é resgatar o papel fundamental do negro na criação de um dos maiores patrimônios culturais da cidade, o carnaval”. Xangô da Vila Maria

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Paulo Portela

“Praticamente todas as pessoas retratadas abriram gentilmente as portas de suas casas. Procurei passar essa afetividade através da fotografia. Entre um café e uma fatia de bolo de fubá procurei fazer o melhor possível”. afrobrasilidades & afins | omenelick 2º ATO | 11


“Somos paulistas e sambamos pra cachorro, pra ser sambista não precisa ser do morro”, Geraldo Filme.

Toniquinho Batuqueiro 12 | omenelick 2º ATO | afrobrasilidades & afins


Chiclê

Carlão do Peruche LEIA Os sons negros do Brasil José Ramos Tinhorão Art Editora São Paulo, 1998

Samba de Umbigada Edison Carneiro MEC Rio de Janeiro, 1961

Sambista Imortais J. MUNIZ JR. Ed. Part. Santos, 1977. afrobrasilidades & afins | omenelick 2º ATO | 13


Muito além dos rótulos

POR cris gomes | FOTOS gina dinucci | ilustrações kiko dinucci

Num dia desses, vagando por uma grande loja de cd’s na cidade de São Paulo, o músico Kiko Dinucci encontrou três dos seus trabalhos (o artista tem quatro álbuns gravados) expostos em variados segmentos: pop rock, regional e MPB. “Não me prendo em nada. Tento ampliar o máximo possível minhas possibilidades musicais”, conta o artista, revelando toda a sua versatilidade musical e ironizando os rótulos frequentemente impostos pelo mercado. 14 | omenelick 2º ATO | afrobrasilidades & afins


Porém, para além das suposições sonoras e lugares comuns sobre sua história, Kiko preza, e muito, sua liberdade artística, e esse estado se manifesta justamente na diversidade encontrada em sua música, nas parcerias e em sua incursão por outras linguagens artísticas, como o documentário e as artes plásticas. Kiko começou sua trajetória na música ainda adolescente tocando guitarra na banda de metal Necrophobic. Na seqüência, integrou o grupo punk Personal Choice. A transição para a música brasileira, ligada às tradições africanas, não aconteceu da noite pro dia. Foi sendo gestada, fluindo naturalmente e sendo alimentada pela inquietação e curiosidade que, já desde essa época, marcavam seu trabalho. “Quando tocava com a banda punk, os caras não queriam cantar em português por achar que a língua não encaixava. Então levei para o ensaio uma música em Kimbundo (língua africana muito falada em Angola). Escrevi toscamente, aglomerei o vocabulário e fiz a letra. Cheguei no ensaio, mostrei e todo mundo me olhou com aquela cara de: O Kiko ficou louco!?”. Louco nada. Ali estava o embrião de uma ligação intensa com a cultura africana e afro-brasileira. Quando começou a se interessar pelos compositores de samba, que para Kiko, dialogavam muito com

sua postura punk, veio também a vontade de conhecer a produção negra que antecedeu o surgimento do ritmo, como o jongo, a congada e os batuques. Daí, para chegar ao Candomblé foi “dois palito”, como ele mesmo diz. “Hoje em dia eu não separo muito o que é fé, música, dança. Tá tudo num pacote só chamado Candomblé que, pra mim, é mais que uma expressão cultural. É espiritual”.

música

Aqui está um rótulo que adoram lhe impor: o de compositor de macumba. Mesmo sendo o candomblé tão presente em sua arte, se engana quem pensa que ele pára por aí. “Eu posso fazer qualquer coisa. Posso cantar um bolero romântico, um reggae, uma guarania paraguaia. Tento ampliar o máximo possível as possibilidades”. E isso é fato. Kiko tem quatro CD´s gravados: Padê (com Juçara Marçal); O Retrato do Artista Enquanto Pede (do Duo Moviola, formado por Kiko e Douglas Germano); Pastiche Nagô (com o Bando Afromacarrônico) e Na Boca dos Outros, onde vários intérpretes cantam suas composições. “Cada vez que eu entro no universo daquele artista com quem estou fazendo uma parceria eu aprendo pra caramba”, diz Kiko, que destaca que os músicos com quem trabalha são também criadores e não apenas coadjuvantes. “Ele é aberto a compartilhar sua musiafrobrasilidades & afins | omenelick 2º ATO | 15


A religião de origem africana entrou na vida de Dinucci como parte de sua curiosidade musical, depois, como pesquisa para seu documentário Dança das Cabaças, sobre o orixá Exu, divindade mal compreendida no Brasil. Desde então, o candomblé está na arte e na vida de Kiko

calidade com outros artistas de diferentes estilos e sendo essa mais uma confluência, a parceria nos trabalhos é prazerosa”, conta Iara Rennó, com quem Kiko criou o dançante show Xirê Onin. Cronista da vida urbana, suas composições são verdadeiras crônicas da selva de pedra. Você ouve a música e logo se constrói na cabeça as imagens daquelas histórias, recheadas de inteligência sagaz e de humor sarcástico. “Quando o conheci, achei incrível sua capacidade de rir de si mesmo e tirar poesia daí. Um olhar extremamente arguto, urbano, mas com jeito de caipira, que focaliza a ação, o homem, a luta, a lida”, diz Juçara Marçal, outra parceira musical das mais antigas e constantes no trabalho de Dinucci. Essas características, que se aproximam de outros grandes compositores de São Paulo, como Adoniran Barbosa e Itamar Assumpção, provoca outro rótulo: o de legítimo representante da nova geração da vanguarda paulistana. Mas no frigir dos ovos, Dinucci se diverte com todas essas comparações. “Eu fico feliz porque nunca é o mesmo rótulo que me dão”. Mesmo com tantas transformações ao longo de sua caminhada musical, o Kiko punk dos anos 90 segue vivo. “O jeito de tocar violão do Kiko é muito especial. É um híbrido entre um violão de samba e uma guitarra de hardcore, um resultado que só alguém que experimentou profundamente os dois estilos poderia chegar”, afirma o saxofonista Thiago França, outro parceiro constante em seus trabalhos.

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“É muito legal fazer um CD, mas hoje (nestes tempos cadenciados pela internet) ele é mais um cartão de visita, que serve para apresentar seu trabalho. Pra mim, o mais bacana é a pessoa ir ao seu show”.

“Quero um dia olhar pra trás e ver que fiz como o Frank Zappa, que fez um disco de cada jeito. Quero bater no peito e dizer que sou livre. Eu ainda estou no processo e acho que cada um da minha geração também está, mas não quero me prender a nada, a nenhum rótulo que criaram pra mim. Se eu quiser fazer um CD com orquestra eu posso fazer. Se ninguém me bater ou prender eu faço!”. Que ninguém duvide.

Leia a entrevista na íntegra em www.omenelicksegundoato.blogspot.com ouça www.myspace.com/kikodinucci

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James e eu

POR Lúcia Udemezue | FOTOS Rafael Henri (flickr.com/RafaHenri)

Lembro-me perfeitamente da primeira vez que ouvi o vocal aveludado e grave do cantor norte-americano José James. Foi em de janeiro de 2009, no Clube Berlin, em São Paulo, em uma das deliciosas noites de terça-feira que a casa dedica ao Jazz. Entre uma música e outra, o sempre impecável set list do Dj Waltinho Abud, me surpreendeu com um som ímpar, que me fez levantar da 18 | omenelick 2º ATO | afrobrasilidades & afins

cadeira, ir ao seu encontro com um pedaço de guardanapo e uma caneta nas mãos para anotar o nome do cantor que tanto havia mexido comigo. Desde então não parei de pesquisar e acompanhar, virtualmente, a carreira do talentoso James Quem o ouve pela primeira vez tende a imaginá-lo como os grandes mestres do jazz norte-americano da década de 50: um senhor de estilo clássico, trajando um impecável terno preto e sentado à beira


de um piano. Nada disso. José James é jovem e dono de uma musicalidade fortemente influenciada pela cultura hip hop (assim como seu estilo de se vestir), pelo soul e o acid jazz. Não há como negar que o músico está tendo um papel fundamental na difusão do jazz pelo mundo, desmistificando o caráter “erudito e elitista” que, há décadas rotulam o ritmo. Graças ao seu potencial em mesclar estilos e o constante diálogo que vem travando com a cultura hip hop, José James tem ampliado as possibilidades sonoras de milhares de pessoas até então avessas à cultura jazzística, especialmente fora dos Estados Unidos. Em outubro de 2010, o músico esteve pela segunda vez em São Paulo (a primeira foi em 2008), para participar do Nublu Jazz Festival, onde realizou duas apresentações nas unidades Santo André e Pompéia da rede Sesc. Acompanhado de uma banda de peso, formada por Marc Cary (piano), Christopher Smith (baixo) e Adam Jackson (bateria), James fez dois shows incríveis, enlouquecendo seus fãs e surpreendendo aqueles que ainda não conheciam seu trabalho. Sua vinda ao Brasil foi um grande presente pra mim e para os amantes deste novo jazz, que tem na talentosa cantora norte-americana Esperanza Spalding um de seus principais representantes. A cereja do bolo de toda esta história foi o rápido encontro que tive com James logo após o show

realizado no ABC paulista, onde o músico concedeu uma entrevista exclusiva à revista OM2ºATO. Infelizmente, é verdade, a “cereja” do bolo voou com sua banda de volta para os states, mas o bolo ficou, e agora o dividimos com você! OM2ºATO - Como é estar em São Paulo pela segunda vez, sentiu alguma diferença na recepção do seu trabalho? José James - Na primeira vez que vim a São Paulo o álbum The Dreamer tinha acabado de ser lançado e ainda não havia feito uma grande turnê. A quantidade de pessoas é a mesma com o mesmo amor e carinho. Vi jovens de boné como eu, com estilo claro da cultura hip hop, casais, mulheres, crianças...há uma mistura de gerações na platéia e hoje, dois anos depois da primeira vez que estive aqui, me sinto muito mais confortável e feliz com a recepção do trabalho. OM2ºATO - Como é a aceitação da sua música “mais contemporânea e jovem” dentro da cena musical do jazz? JJ - O jazz permeia a cultura americana. O jazz como um estilo musical tradicional norte americano é a base fundamental e está presente para todas as gerações. OM2ºATO - Como você define seu estilo de música? JJ - Eu e toda banda viemos do jazz, mas talvez o que fazemos não seja um “jazz” propriamente dito. Existem várias contribuições de diferentes estilos neste novo trabalho (Blackmagic), por afrobrasilidades & afins | omenelick 2º ATO | 19


exemplo. O jazz é uma música negra e nós fazemos um trabalho com várias nuances e colaborações e com liberdade de experimentar. OM2ºATO - Em seu primeiro álbum The Dreamer (2008), você compôs uma letra que leva o nome do disco e que é uma homenagem a Martin Luther King. Qual é o seu posicionamento político enquanto músico negro e qual foi a intenção ao escrever a letra desta música? JJ - A letra da música The Dreamer foi escrita para todas as comunidades étnicas. É um posicionamento político sobre relações sociais que para mim devem ser igualitárias. Ter um presidente negro me fez sentir muito feliz. De alguma forma levo e represento direta e indiretamente os Estados Unidos através da música que canto.

Discografia

The Dreamer 2008

“Segurando uma taça de vinho tinto, com todo seu charme e elegância, o cantor, assim como em suas apresentações, tornou o clima bem sensual confesso que não foi fácil entrevistá-lo (sic)”.

OUÇA myspace.com/josejamesquartet facebook.com/josejamesmusic

Blackmagic 2010

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Poemas, poetas, livros e soldados

literatura

por Jéssica Balbino

Bola no chão, pipa no céu e uma cortina de poluição no ar. Carros, pedestres, gravatas, marionetes. O ritmo é frenético. Muitos sem destino, em desalinho, pra lá e pra cá. Definitivamente em São Paulo todos são protagonistas. A cerveja gelada na esquina, as crianças pra baixo e pra cima, à tarde com sabor de infância, a temperança, a sina. Estou de passagem, mera visita. Dispenso a xilocaína, afinal, desde que aqui cheguei, há poucos dias, estou anestesiada, paralisada, estarrecida. O simples vai e vem desse cotidiano já me fascina. Pra mim tudo é novo, até a sinfonia de buzinas. Paro, respiro e interfono. Aviso quem sou. Subo dois lances de escada e entro. Travo diante de tudo que vejo. É muita informação. De onde venho, a mineira Poços de Caldas, não é comum encontrar tudo isso. Tanta coisa disposta num só lugar. Em poucos metros quadrados, pelas estantes, mesas e prateleiras nomes como Canto, Érica Peçanha, Sérgio Vaz, Ademiro Alves (Sacolinha), João Antônio, Preto Ghóez e Ferréz saltam aos olhos. São Paulo é mesmo plural, multicultural, surpreendente por todos os cantos. Não é a toa que na região central da cidade, no segundo andar de um antigo prédio na rua 13 de maio, no tradicional bairro do Bexiga (reduto italiano da capital), a periferia, quem diria, é senhora. Ali, onde desde o carnaval de 2010 está estabelecida a livraria Suburbano Convicto, margem e centro convergem-se em um único elemento: cultura marginal (marginal, por ser uma produção excluída das grandes livrarias e bibliotecas).

A intenção da visita é, ou melhor, era, rever amigos, dar um “oi” rápido e sair rumo a outros compromissos, mas o “tsssss” da lata de cerveja sendo aberta, ali, assim, de repente, no estalo, no calor das emoções, convida para alguns minutos extras. Encostada no balcão ou sentada num sofá, que fica ao lado de um grande acervo de livros e CD´s, dispostos em pastas e arquivos, deixo o tempo passar e as conversas fluírem enquanto a noite vai caindo. Não demora muito e novos amigos chegam, e o que era pressa, se dilui em vontade de ficar. Pioneira no Brasil, a livraria Suburbano Convicto é a única especializada em literatura marginal, com exemplares únicos e até mesmo raros, de autores já falecidos ou de edições já esgotadas. Saraus, encontros, debates e lançamentos. Semanalmente, dezenas de pessoas passam pelo espaço e consomem cultura, ora de forma gratuita, ora em forma de investimento, quando adquirem livros, filmes ou mesmo roupas, produzidas por quem vive na periferia e a representa. Se existissem mais livrarias como estas, com preços acessíveis, assuntos reais e um ambiente ‘real’ talvez tivéssemos nas ruas mais poetas do que soldados.

LIVRARIA SUBURBANO CONVICTO Rua 13 de maio, 70 – 2º andar - Bixiga/ SP www.buzo10.blogspot.com

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quadrinhos

D´Salete pinta o sete

POR profeta da luz | FOTO Hudson Rodrigues

Dono de um traço sombrio e poético apinhado de subjetividades e mistérios, ora flertando com o Expressionismo Alemão, ora com o Realismo Francês, Marcelo D´Salete, literalmente, pinta o sete. Professor, pesquisador, designer gráfico, ilustrador, desenhista e roteirista de HQ´s, já teve suas histórias em quadrinhos publicadas em expressivas revistas do gênero, como a universitária Quadreca, a eslovaca Stripburger, a argentina Suda Mery k! e as brazucas Front, Graffiti, Contos Bizarros e +Soma. Além do cinema, passando por nomes como Shari Springer Berman, Robert Pulcini e Takashi Miike, os desenhistas Miguelanxo Prado, Neil Gaiman, Sam Keith, Katsuhiro Otomo e Lourenço Mutarelli são algumas das referências utilizadas pelo artista para produzir trabalhos como a aclamada publicação Noite Luz. O livro, lançado em 2008, foi indicado como um dos 100 melhores quadrinhos da década pelo site argentino Comiqueando (www.comiqueando.com.ar). A produção multifacetada do artista inclui desde parcerias com o músico e roteirista Kiko Dinucci, até a ilustração de livros infantis do sambista Martinho da Vila. Impossível desvincular a produção de D´Salete a questões relacionadas à discussão étnica contemporânea. “Não toco somente neste assunto, mas pelo meu histórico e realizações, é possível ver que assuntos negros em meus trabalhos são recorrentes”. Em entrevista concedida à revista O Menelick 2º ATO, o artista fala sobre suas inspirações, projetos futuros e o modo como o negro é representado nos quadrinhos tupiniquins. Ilustração do livro Noite Luz

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“Resolver uma página de quadrinhos é resolver um problema de forma, conteúdo, tempo e narrativa”.

cinema

Já há um reconhecimento por parte da sociedade da complexidade e riqueza das narrativas das HQ´s e o impacto delas na cultura popular? Os quadrinhos, como conhecemos hoje (desenho e texto articulado graficamente e impresso em jornais ou revistas), tem pouco mais de 100 anos. Na maior parte de sua história, foram assunto de criança e de um nicho restrito de público. Hoje parte dos autores de quadrinhos quer expandir esse universo. O reconhecimento dos quadrinhos como um veículo rico de narrativa está acontecendo pelas bordas. Existem muitas publicações de quadrinhos inspirados em clássicos da literatura, destinado às escolas. Os pais compram esses trabalhos para os filhos com uma visão mais positiva do que acontecia há décadas. Isso pode contribuir para torná-los mais importantes, para além do simples entretenimento. Em todo caso, fora as adaptações, os quadrinhos adultos ainda precisam afirmar seu espaço.

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Quais HQ´s foram determinantes ou, inspiradores, para sua entrada no universo dos quadrinhos? Comecei a ler quadrinhos cedo. Era uma rotina diária com meu irmão Marcos. Em geral, lia o que há de mais comum nas bancas. Quando adolescente, no curso de design do colégio Carlos de Campos, fui apresentado a outros autores. Histórias curtas do Michelanxo Prado; Sandman de Neil Gaiman e Sam Keith; Akira do Katsuhiro Otomo e os álbuns do Lourenço Mutarelli. A partir daí minha visão sobre os quadrinhos foi outra. Percebi que eles poderiam ter mais complexidade, falar da vida real de forma profunda e instigante. Nessa época já tinha familiaridade com o desenho, praticava desde criança. Comecei então a pensar em roteiros, pois queria desenvolver minhas próprias histórias. Desenhei histórias do Kiko Dinucci, sambista e roteirista dos bons, fissurado em cinema como eu. Depois, aprendi muito sobre como contar histórias vendo filmes e lendo sobre cinema. Quando comecei a publicar na revista Front, já tinha várias histórias que queria contar e uma maneira de realizar isso.

Ilustração do livro Noite Luz 24 | omenelick 2º ATO | afrobrasilidades & afins

Como você avalia o processo migratório das HQ´s para o cinema. Você também tem um trabalho neste sentido, possui o desejo de ver suas histórias no cinema? Hoje existe uma onda de quadrinhos americanos destinados às telas. Em geral, os produtores aproveitam o fato dos personagens já serem conhecidos. É quase garantia de mercado e de público. Confesso que na maioria das vezes considero estranho e fora de contexto os filmes sobre quadrinhos americanos. São divertidos, mas não suprem nenhum objetivo para além do entretenimento. Filmes baseados em quadrinhos que considero bons, que respeitam a linguagem do cinema são: American Splendor, do Shari Springer Berman e Robert Pulcini (baseado nos


quadrinhos do Harvey Pekar) e o perturbador Ichi the Killer, do Takashi Miike (baseado em mangá do Hideo Yamamoto). Além desses, tem várias outras experiências em animação bem sucedidas: Akira, Tekkonkinkreet. Embora aprecie muito o cinema, não tenho intenção de levar meus trabalhos para as telas. Objetivo que eles sejam quadrinhos. O imaginário dos desenhistas brasileiros que se inspiram na cultura negra para criar quadrinhos ainda é “rotulado”? Vivemos num contexto onde poucos quadrinhistas são negros. Além disso, há pouca discussão sobre personagens e temas negros nos quadrinhos. Enfim, o amadurecimento dessa discussão ainda está no início. No cinema, teatro ou na televisão esse conflito é mais visível. As análises do Joel Zito Araujo na televisão e João Carlos Rodrigues no cinema são importantes por aprofundar esse assunto. No teatro, décadas atrás, houve as experiências do TEN (Teatro Experimental do Negro) do Abdias do Nascimento e, mais recentemente, o ótimo grupo de atores negros Os Crespos. No Brasil, hoje tem uma pesquisa em andamento do Nobu Shinen sobre personagens negros nos quadrinhos. A pesquisa promete contribuir muito para o amadurecimento da discussão. Já na produção, fora o número de obras superficiais sobre o tema, tem trabalhos interessantes como A Guerra dos Palmares, do Alvaro de Moya e do Clóvis Moura; o ótimo Viralata, do Paulo Garfunkel e do Líbero Malavoglia; as charges do Maurício Pestana; o recente Jubiabá do Spacca; o Chibata do Olinto Gadelha Neto e Hemeterio e alguns outros trabalhos. Infelizmente

não conseguirei lembrar todos. Os heróis negros dos desenhos ajudam na conscientização e na humanização dos jovens leitores? É importante ter personagens negros em vários gêneros de quadrinhos, desde os infantis até os adultos. Se queremos contribuir para uma maior complexidade dos quadrinhos e amadurecimento dos leitores, isso é urgente. Sobretudo, é preciso superar os velhos estereótipos de negros somente como empregados sem estudo, bandidos, pobres ou mendigos. Ainda trabalhamos com esses modelos. Isso se reforçou porque antigamente quem fazia e consumia quadrinhos não eram negros, ou seja, o público não-negro entendia isso como sendo natural e comum. Hoje, um ato de racismo evidente não passa tão despercebido.

CLICK dsalete.art.br nonaarte.com.br

LEIA A ENTREVISTA NA ÍNTEGRA EM www.omenelicksegundoato.blogspot.com

LEIA Noite Luz Marcelo D´Salete Via Lettera 2008

Casa-Grande & Senzala Gilberto Freyre (texto original), Estevão Pinto (adaptação para as HQs) e Ivan Wasth Rodrigues (desenhos) Ebal 2000

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poesia

Modelo Simone Grazielle

POR NABOR JR. FOTOS Emy Sato (flickr.com/photos/cabecativa)

aKINS kINTÊ

Linda mulher preta Linda mulher sempre juntos Guerreira de axé Cabelos, lábios, seios, são valores Amamentando nossos filhos Futuros sofredores Fruto de amores Pra defender a família Segura firme a metranca Enfrenta como mulher preta A sociedade machista branca Em paz com a família olhar vivo Orgulhosa de si o semblante altivo Se for assim pretinha Quero sempre companheira Nas noites mais felizes Ou nos dias duros nas trincheiras Em pé de guerra com o mundo É nóis guerreira Pantera, única, verdadeira Poder, arma conhecimento proponho Linda mulher preta Deusa dos meus sonhos

Linda mulher preta

ou, Toda Nudez Será Castigada

O realismo romântico, e sem vergonha, de Akins Kintê

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Mesclando o erotismo e a sensualidade que marcaram parte da carreira do jornalista e escritor pernambucano Nelson Rodrigues (realista dos bons!), adicionando ao já apimentado repertório de “sacanagens” do recifense boas doses do carnal realismo suburbano contemporâneo, o poeta paulistano Akins Kintê desnuda, mesmo que metaforicamente, os sentimentos de quem o ouve. Impossível não se imaginar protagonista dos seus relatos ou tão pouco não desejar as mulheres idealizadas em seus versos e prosas. Filho da literatura suburbana, Akins, como poucos, transforma em poesia os amores e dissabores do cotidiano periférico. Seu texto, que por vezes peca pela repetição e ausência de uma gramática mais robusta que realmente surpreenda ouvidos e paladares, é rico em ritmo e cadência, características que sua particular ginga confere aos seus versos. Ao vivo, a performance do poeta/ MC, ora desleixada e desinteressada, ora séria e serena, é de causar inveja a malandragem sadia do mais suburbano dos partideiros cariocas. Se tiver fôlego para dar continuidade e vazão a sua produção, Akins corre o sério risco de ser o que os olhos lacrimejados de emoção de quem o vê já vislumbram, o grande poeta erótico da marginália paulistana. VEJA O ENSAIO FOTOGRÁFICO COMPLETO www.omenelicksegundoato.blogspot.com

“Sou um menino que vê o amor pelo buraco da fechadura. Nunca fui outra coisa. Nasci menino, hei de morrer menino. E o buraco da fechadura é, realmente, a minha ótica de ficcionista. Sou (e sempre fui) um anjo pornográfico”, Nelson Rodrigues.

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CLICK akinskinte.blogspot.com recantodasletras.com.br


artes plásticas

Diálogos e identidades A representação do negro nas artes plásticas brasileiras POR Renata Felinto | Fotos Arquivo

Bananal (1927), Lasar Segall

Para facilitar a análise da representação do negro nas artes plásticas brasileiras ao longo dos últimos cinco séculos, dividiremos cronologicamente este estudo em três momentos distintos: documental (que abrange a produção realizada durante os séculos XVII, XVIII e XIX), social (que abarca a primeira metade do século XX) e pessoal (que inclui a produção do fim do século XX até o momento atual). afrobrasilidades & afins | omenelick 2º ATO | 29


O momento documental abrange mais detidamente peculiaridades nacionais como a geografia, fauna, flora, população, modos e costumes. Parte significativa da produção deste período foi realizada por artistas estrangeiros que chegaram ao Brasil, geralmente como contratados, com o objetivo de realizar trabalhos de caráter documental e que envolviam aspectos específicos da realidade da nova terra. Em 1637, chegam a Pernambuco os artistas holandeses Frans Post (16121680) e Albert Eckhout (1610-1666), contratados do Príncipe Maurício de Nassau. Post documentou os portos, fortificações e a exuberante paisagem brasileira, representando em seus trabalhos o negro como coadjuvante, um elemento da composição de suas pinturas, assim como as árvores ou os animais. Retrato de menino, 1918, óleo sobre madeira, Arthur Timótheo da Costa

Já Eckhout pintou a fauna, a flora e os curiosos tipos humanos produzindo um conjunto de oito pinturas que retratam tipos humanos encontrados no Brasil, sendo duas delas representações de negros: Homem Negro e Mulher Negra (1641), onde os negros aparecem como habitantes da África Central e não como escravizados no Brasil, detalhe que confere às pinturas tom alegórico. No século XVIII, Carlos Julião (1740-1811), oficial militar italiano a serviço da Coroa Portuguesa, registrou em suas aquarelas as regiões da Bahia, Minas Gerais e Rio de Janeiro, antecipando o tipo de representação comum no século XIX que focaria o cotidiano das cidades e vilas. No período barroco, final do século XVIII e parte do século XIX, o filho de portugueses Manoel da Costa Athayde (1762-1830) eternizou a mulher negra, já miscigenada, no teto da Igreja de São Francisco de Assis, em Ouro Preto (MG), na figura de Nossa Senhora da Porciúncula. Em 1816, chegam ao Brasil os artistas da Missão Artística Francesa, que sedimentam por aqui os paradigmas estéticos europeus que se tornariam as bases da produção brasileira daí por diante. Dentre eles, destaque para o aquarelista Jean-Baptiste Debret (1768-1848), que registrou o cotidiano

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da capital do recém Império, a cidade do Rio de Janeiro. Nas suas obras, as situações de trabalho escravo abrangem também as relações cotidianas entre senhores e cativos, e a figura do negro assume importância ímpar. Outro importante artista-viajante deste período foi o alemão Johann Moritz Rugendas (1802-1858), que chegou ao Brasil em 1822, contratado pela Expedição Langsdorff. Em suas aquarelas e litografias o negro também surge em uma espécie de crônica da cidade do Rio de Janeiro, de forma distanciada em situações de trabalho e castigo. Contudo, é no final do século XIX que aparecem os primeiros artistas negros que abrem caminho para outros negros também artistas e que representam a si e à sua cultura. Um deles foi o carioca Artur Timotheo da Costa (1882-1922). Formado pela Academia Imperial de Belas Artes, nas suas pinturas o rosto negro é o belo a ser estudado em suas linhas, formas e cores, transmitindo suavidade e delicadeza por meio de sua pincelada, como por exemplo, no trabalho Retrato de menino. Ainda no final do século XIX, o negro também foi largamente registrado através da linguagem fotográfica, que gozava de grande prestígio na época. Entre estes fotógrafos do período podem ser mencionados o português Christiano Junior (1832-1902), que montou cenas em seu estúdio fotográfico nas quais os negros representavam escravos de ganho; e o carioca Militão Augusto de Azevedo (1840-1905), que realizou fotografias de famílias negras em São Paulo trajadas à moda da época para assistir às missas na Igreja de Nossa Senhora do Rosário, freqüentada por essa população.

Mulher africana, 1641, óleo sobre tela, Albert Eckhout, site do Instituto Itaú Cultural

No final do século XIX e início do XX, as representações de negros nas Artes Plásticas caracterizam o momento classificado como social, pois no período modernista à figura do negro se atribuiu traços de brasilidade. Neste momento, há duas vertentes de representação mais visíveis: o negro atrelado ao passado escravista e / ou como sujeito. afrobrasilidades & afins | omenelick 2º ATO | 31


Zezé Botelho Egas e o carioca Pedro Bruno (1888-1949) constituem o primeiro grupo, com trabalhos que, mesmo em um momento de exaltação a figura do negro, o representam em situações de tortura ou exercendo trabalho escravo. O ítalo-brasileiro Alfredo Volpi (1896-1988), o paulistano Candido Portinari (1903-1962) e o lituânio Lasar Segall (1891-1957), três dos maiores artistas modernistas, pintaram o negro como sujeito, em situações diversas que exaltam sua história, sua cultura, sua beleza, sua situação social e sua individualidade. Frevo, óleo sobre tela, Heitor dos Prazeres

LEITURA COMPLEMENTAR A travessia da kalunga grande: três séculos de imagens sobre o negro no Brasil (1637-1899). Carlos Eugênio Marcondes Moura Edusp São Paulo, 2000. Pintores negros do oitocentos José Teixeira Leite MWM-IFK São Paulo, 1988.

Após a guinada inicial modernista, muitos artistas negros sem formação acadêmica emergem na cena artística nacional e internacional tomando para si a empreitada de representar suas heranças culturais e seu modo de viver, transpondo as barreiras impostas pela academia por meio de sua originalidade, vivacidade e criatividade. Como é o caso das obras dos cariocas Heitor dos Prazeres (1898-1966) e Sérgio Vidal (1945), e do baiano Agnaldo Manuel dos Santos (1926-1962). A partir de 1990 submergem de ateliês periféricos as representações apontadas como de caráter pessoal, que apresenta sensíveis pontos de vista e de percepção sobre a diáspora africana e suas continuações, como é possível observar nos trabalhos do mineiro Eustáquio Neves (1955) e da paulistana Rosana Paulino (1967). Como podemos observar, a representação do negro nas Artes Plásticas do Brasil sofreu importantes transformações ao longo dos séculos. Se nas primeiras imagens o negro era representado alegoricamente visto por olhos estrangeiros, agora são os próprios negros que dão o tom dessa representação, assumindo seus próprios discursos, sendo, simultaneamente, criadores e criação de suas histórias pessoais e de seus antepassados.

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filosofia

parteum POR Nabor Jr. | Fotos mandelacrew e Cíntia Augusta

Há sempre um copo de mar para o homem navegar Foi na chuvosa noite do último dia 26 de novembro, no hypado clube Estúdio Emme, em São Paulo, durante a festa de estréia da Noite Trama Virtual, que o MC e produtor paulistano Fábio “Parteum”, que dias antes havia lançado o EP “A Autoridade da Razão”, disse, ainda em cima do palco, ao lado dos seus parceiros do Mzuri Sana, que a Filosofia (como o estudo de problemas fundamentais relacionados à existência, ao conhecimento, à verdade, aos valores morais e estéticos, à mente e à linguagem) exercia contundente influência nos seus processos de criação.

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Como na obra Interpretação dos Sonhos (1899), onde o filósofo austríaco Sigmund Freud reúne uma série de estudos que tiveram origem em anotações e análises dos seus próprios sonhos, Parteum, ao tecer tal comentário, inconscientemente, traduziu em palavras os “pensamentos” da revista O MENELICK naquele exato momento. E, subjetivamente, nos brindou com uma interessante pauta. Aos 35 anos, casado e pai da pequena Cora, Parteum, que nos recebeu no Trama Estúdios, em Pinheiros, vive seu ápice criativo e produtivo. Peça fundamental dentro da Trama Virtual, amante da música, do cinema, do skate, do vídeo e da tecnologia (quase sempre está armado com seus Ipad, Iphone, Macbook e outras parafernálias eletrônicas), Parteum está, sim, quilômetros a frente do seu tempo. Ainda mais se pensarmos nas cabeças que hoje conduzem o rap nacional. Uma entrevista com ele nunca é “apenas” uma entrevista: é uma aula. Seus comentários e respostas impreterivelmente desembocam em referências artísticas cabeludas. Jay-Z, Kennie West, César Camargo Mariano, Beto Villares, João Marcelo Bôscoli, Herbie Hancock, Pete Rock, James Yancey, Nigel Godrich, Stewart Copeland, James Yancey, Native Tongues, Descartes, Sartre, Freud, foram alguns dos nomes que ele citou durante nossa conversa. Um verdadeiro presente de ano novo. Que venha 2011!

Interesse por Filosofia

Na verdade tudo começou na faculdade, na Cásper Líbero, no curso de Publicidade e Propaganda. Entrei com 19 anos, justamente uma fase onde você está se conhecendo um pouco melhor, aprendendo a lidar com suas emoções e tal. Foi aí que comecei a ler o que a maioria das pessoas lê quando toma conhecimento com a área: Sartre, Descartes, Schopenhauer e por aí vai.

Vivo, logo existo

A experiência humana depende muito de você estar vivo. Você só consegue perceber a experiência de outras pessoas, o que te agrada ou não, partindo do seu banco de emoções e sensações. 34 | omenelick 2º ATO | afrobrasilidades & afins


Na verdade, ninguém conhece ninguém. O que acontece é que existem momentos em que as pessoas se conhecem. A compreensão é sempre baseada na sua própria experiência, e não na do outro. Você conhece o mundo a partir dos seus sentimentos.

A Origem

Assisti o (filme) Inception (A Origem) sozinho, em uma sexta-feira em uma sala de cinema de shopping. Eu, meu telefone e minha câmera. Após a exibição fiz um filme da minha experiência de ter assistido ao Inception com minha câmera. Este vídeo não esta em lugar nenhum, mas de vez em quando eu volto a ele para assistir. No caminho de volta pra casa eu coloquei no meu Ipod a música Força da Sugestão, gravada por mim em janeiro de 2007. Daí eu me perguntei, como pode ter tanto a ver uma música que eu fiz em 2007, com um filme que assisti três anos depois? Eu não quis achar muitas respostas para isso, mas acho que a dúvida é o estímulo para você dar o próximo passo.

A Interpretação dos Sonhos

Pessoas mais inteligentes que eu dizem que o sonho nada mais é do que a sua cabeça organizando e colocando nas gavetas certas as informações que você precisará acessar no resto da vida. Eu tinha um sonho recorrente onde apareciam todos os meus amigos. Sei que existe uma variante desse sonho que já apareceu em algum lugar, filme talvez, não sei. Não sei se foi daí que ele passou a aparecer para mim, mas já tive muito esse sonho, hoje não tenho mais. Ele inclusive virou rima. Eu estava dentro de uma piscina e todos meus amigos ao redor, e eu gritava que estava me afogando e pedia para que eles viessem me ajudar. Aí aparecia uma mulher, que eu não sei quem é e que também eu não conseguia ver o rosto. E ela dizia: “Não estou te entendendo. A piscina está vazia”. E sumiu. E a piscina realmente estava vazia. Depois de anos, quando eu aprendi a escrever rimas e tal eu compus: “Viver de vez em quando é se afogar em uma piscina vazia”. É preciso eu estar muito bem, com dias muito bons na seqüência para que eu acorde e fale “Isso aqui dá alguma coisa!” Vejo os sonhos muito mais como algo que pode abrir portas, do que respostas únicas e verdadeiras para que as dúvidas desapareçam. As dúvidas nunca desaparecem.

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Matemática

Dj Quik - que já produziu para Dr. Dre – e que é considerado uma lenda da costa oeste norte-americana, diz que só começou a fazer música boa quando começou a fazer músicas entre as notas. Isso vindo de um cara do jazz você vai falar: Pô arrojado. Você não espera ouvir isso, ou melhor, a grande mídia não espera ouvir isso de um cara do rap. E ter um cara do rap falando e mostrando isso, me dá essa idéia de que a matemática não precisa ser exata todo o tempo. Por produzir, estou fazendo conta o tempo inteiro.

Penso, logo existo

Na música, especialmente no Rap, estamos existindo primeiro. E eu me coloco nisso também porque, em tese, somos um corpo só. Digo isso porque a coisa mais difícil hoje em dia é você encontrar um cara que diga: “não, eu só compro e baixo discos de rap, vou aos shows. Sou fã de rap”. É muito difícil isso acontecer hoje em dia. As pessoas viram pra você e dizem eu tenho um blog, sou Dj, tiro umas fotos, ou agencio um artista e por aí vai. É muito difícil você encontrar uma pessoa e ela simplesmente dizer que gosta de rap, compra os discos, vai aos shows e acompanha a cena. Se tem, está muito escondido.

A erosão da atenção

Hoje as pessoas consomem muito mais quantidade do que qualidade. O cara chega pra você e diz, baixei não sei quantos álbuns essa semana. Daí eu pergunto: Mas qual você ouviu com profundidade? Parou mesmo e ouviu faixa por faixa? É meio como intitulou a escritora Maggie Jackson, que chamou esse fenômeno da erosão da atenção. A experiência de ouvir um álbum é bem parecida com a experiência de assistir um filme. Não que seja culpa do moleque que baixou 20, 30 álbuns na semana. Porque isso é bom. O lance é não ter tempo hábil de ouvi-los com profundidade. É uma corrida para ter toda a informação, mas não necessariamente para usála. Acho isso meio perigoso.

Privacidade

Estava ouvindo uma entrevista do Jonh Mayer, que encerrou a conta dele no Twitter para passar por um período de digital clean (limpeza digital). Porque a maioria das coisas que ele dividia no Twitter não eram para ser compartilhadas com os 4 milhões de seguidores que ele tinha. Mas sim com pai, mãe, irmão, namorada. E que agora ele tem algumas regras. 36 | omenelick 2º ATO | afrobrasilidades & afins


Autoridade da Razão

As pessoas podem ter acesso ao EP A Autoridade da Razão através do site parteum.com, onde tem um link. Quero lançar fisicamente este EP em março, mas estou adicionando novas músicas a esse trabalho. Junto eu quero lançar um dvd com as imagens que capturo no meu cotidiano. Uma vez que estou sempre gravando. Se eu vou andar de skate eu gravo, se eu vou à casa do meu sobrinho eu gravo, se eu vou ao sebo eu gravo, se eu vou a uma loja de informática comprar alguma coisa eu gravo, se eu vou à casa do meu amigo estudante de cinema que pegou filmes dos anos 50 pra gente assistir eu gravo também. Nesse meu um ano de retiro desde o nascimento da minha filha, gravei muita coisa e não mostrei pra ninguém. Nem pro Secreto, nem pro Suissac (integrantes do grupo Mzuri Sana), nem pro meu irmão, nem pra minha esposa, nem pra ninguém. É meu, um processo meu. Acho que isso acontece com todos os artistas. Minha idéia é ficar mais um tempo parado nos shows, criar mais coisas. Pretendo fazer apresentações lá pra março. Querem que o artista seja artista 24h por dia, e eu não sou. Sou ariano, tento ter o controle de tudo todo o tempo.

LEIA A ENTREVISTA NA ÍNTEGRA EM www.omenelicksegundoato.blogspot.com

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O novo já nasce velho Criolo Doido volta ao passado, resgata formato, música e parceiros. Mesmo assim, Subirusdoistiozin é atual.

Na contramão do mercado fonográfico e transgredindo as imposições dos avanços tecnológicos, o rapper paulistano Criolo Doido, autêntico beatnik do Grajaú, volta a aprontar das suas em seu mais recente álbum intitulado Subirusdoistiozin, lançado no último mês de dezembro em vinil 12 polegadas. Com quatro faixas (a nova versão de Grajauex, a inédita Subirusdoistiozin e as versões instrumentais de ambas as músicas) o trabalho, single do álbum completo previsto para ser lançado em março, traz uma levada firme e a produção generosa do parceiro de longa data Daniel Ganjaman e Marcelo Cabral, além de legitimar e municiar os DJ´s (e os amantes da cultura do vinil), que utilizam e acreditam na arte dos toca discos. Na canção que batiza o álbum, Criolo, entre

graves e agudos, brinca com a voz nos apresentando seu lado mais melódico e inventivo. Em oposição à letra, o trompete de Marcelo Guizado e os teclados de Ganjaman dão ritmo a música com solos jazzistas pra lá de **** Subirusdoistiozin inspirados. Mostrando Estúdio El Rocha, 2010 que a convergência de instrumentais, pick up e voz dentro do rap, se bem trabalhados, podem dar um excelente resultado. Destaque também para os scratches espertos dos dj´s Marco e Dan Dan, e para colagem da música Colarinho Branco, de Duck Jam e Nação Hip Hop, no final da música. Em Grajauex, o MC retoma as origens do seu rap mais raiz. Na faixa, a rima afiada, rápida e inteligente de Criolo dialogam em plena harmonia com o novo beat que a música ganhou, garantindo a energia do disco. Basta ouví-la e imaginar a mulecada com as mãos pra cima e cantando junto. Por ser “apenas” uma mostra do que ainda está por vir, o álbum é um cartão de visitas de respeito, bem arranjado e que apresenta um Criolo Doido mais amadurecido e ousado musicalmente, sem preconceitos para utilizar as infinitas possibilidades do rap. A música brasileira agradece. Criolo Doido (voz) Marcelo Cabral (baixo acústico e produção) Daniel Ganjaman (piano, programação e produção) Guilherme “Guizado (trompete) Marcelo Munari (guitarra) Dj Marco (scratches e colagens) Dj Dan Dan (scratches e colagens)

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foto: Célio Coscia

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