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SET / OUT / NOV 2011 ANO II # 07 DISTRIBUIÇÃO GRATUITA

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“...Só penso na liberdade de palmares, ainda há senzalas por todos os lados. Não se trata somente viver livre, mas sim de libertar os ainda escravos”.

Trecho da música O Rei Zumbi, presente no álbum “Antigamente Quilombos,

ilustração MARCELO D'SALETE (dsalete.art.br)

Hoje Periferia” (2003) do grupo Z´África Brasil.

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Luciane RAMOS SILVA

Alexandre Bispo

Roberta Estrela D'ALVA

Nabor Jr.

ilustração JOÃO PAULO CRUZ ( flickr.com/photos/51483018@N04)

QUILOMBO

Cristiane Gomes

Danielle ALMEIDA

Renata Felinto

ARTISTAS CONVIDADOS

JOÃO PAULO CRUZ

KIKO DINUCCI

VICTORONE

MARCELO D’SALETE

A revista O MENELICK 2º ATO é uma publicação COMERCIAL trimestral da MANDELACREW COMUNICAÇÃO E Maria Cecília Braga FOTOGRAFIA omenelick2ato@gmail.com Rua Roma, 80 – Sala 144. São Caetano do Sul/ SP FALE CONOSCO CEP: 09571-220 • Tel. (11) 9651 8199 omenelick2ato@gmail.com DIRETOR Nabor Jr. l MTB 41.678 CAPA omenelick2ato@gmail.com Daniel Melim • fotolog.com.br/danielmelim 4 | omenelick 2º ATO | afrobrasilidades & afins

música

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DANIEL MELIM

PROJETO GRÁFICO Gil Fuser DISTRIBUIÇÃO GRATUITA em centros culturais, galerias de arte, shows, festas, feiras, festivais, casas noturnas, lojas e zonas de conflito. TIRAGEM • 2 mil exemplares

especial

06 23

ZUMBI

memória

MÃE PRETA

CANTO AFROPERUANO poesia

11 28

teatro

DECLAMA-TE OU TE DEVORO

fotografia

SER, REPRESENTAR E RECONHECER

16 34

DEMOCRACIA MOÇAMBICANA

rádio

BEM ME QUER, MAL ME QUER afrobrasilidades & afins | omenelick 2º ATO | 5


ilustração KIKO DINUCCI (kikodinucci.com.br)

Homem guerreiro mito

ZUMBI Por Renata Felinto

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Zumbi dos Palmares é o nome que vêm à cabeça de qualquer brasileiro quando se pensa em população negra e na luta contra a opressão pautada na questão racial. Tornou-se sinônimo de liberdade, união e solidariedade. No imaginário popular ele foi uma espécie de Robin Hood brasileiro e negro: tirava dos senhores de engenho para dar aos irmãos negros ex-cativos. Como se seu papel à frente do quilombo mais importante das Américas, Palmares, fundado em 1590 na Serra da Barriga, fosse o de garantir que todos os bens fossem igualmente repartidos; de ser benevolente e justo com todos e, ao mesmo tempo, demonstrar uma atitude guerreira; ou que se sacrificava pelos demais, quase tendo a sua figura relacionada à de Cristo neste sentido do altruísmo. Ou seja, o grande salvador dos irmãos negros. Pois bem, a pessoa física Zumbi dos Palmares difere, em alguns aspectos, da do mito fortalecido pela oralidade. Por exemplo, ele teve escravos e foi coroinha! Calma, tudo pode ser contextualizado... Ele é reconhecido mundialmente como herói e comparado aos maiores estrategistas bélicos da História (Napoleão Bonaparte e Alexandre, “O Grande”, dentre outros). Mas, talvez este mito tenha se sedimentado desta forma também porque, como população marginalizada, negligenciada e desprestigiada pelos poderes públicos, há pouquíssimas figuras negras registradas pela historiografia oficial brasileira que sejam referenciais para a construção de autoestimas positivas de crianças e jovens negros, futuros adultos, cidadãos. Não que elas não tenham existido, sabemos que existiram e que a escolha dos saberes que se ensinam é realizada com o objetivo de se manter a hegemonia de certo segmento étnico e socioeconômico dentro da sociedade brasileira a partir de pressupostos ideológicos e políticos. Para citar um exemplo, o líder da Revolta da Chibata (1910), João Candido (1880 - 1969), nem aparece citado na maioria dos livros escolares. Mas, voltando a Zumbi, quem terá sido este homem? afrobrasilidades & afins | omenelick 2º ATO | 7


FRANCISCO: A EDUCAÇÃO DO HOMEM Era descendente de guerreiros imbangalas ou jagas, de Angola. Nasceu livre no ano de 1655 em um dos mocambos do Quilombo de Palmares que, estima-se, tenha tido 30 mil habitantes! Era a Confederação de Palmares, constituída por vários mocambos menores no atual Estado de Alagoas, então capitania de Pernambuco. Mantinha relações econômicas com as comunidades de seu entorno pautadas no escambo de sua produção de forma organizada. Tal capacidade de autogestão, autonomia e de estruturação socioeconômica, abalou as autoridades coloniais motivando, ao longo de sua existência, o envio de 66 expedições militares que objetivaram destruir a Confederação, entre os anos de 1596 e 1716. Os pais de Zumbi são desconhecidos, porém, ainda criança foi capturado por soldados e entregue ao Padre Antonio Melo, com quem aprendeu a língua portuguesa, o latim e os preceitos do Catolicismo chegando, inclusive, a atuar como coroinha em algumas missas. Foi batizado com o nome católico de Francisco.

líder por mais de uma década contando com o apoio da maioria dos quilombolas. Alguns historiadores especulam que Ganga Zumba teria sido assassinado por envenenamento. Em 1694, a expedição militar liderada pelo bandeirante paulista Domingos Jorge Velho (1641 – 1705), formada por dois mil homens, consegue dar início ao processo de destruição de Palmares. A corajosa resistência de Palmares durou 22 dias até o momento em que Zumbi se viu obrigado a recuar e se esconder. Foi capturado e morto em 20 de novembro de 1695, devido à traição de alguns companheiros quilombolas. Seu corpo foi mutilado e a cabeça enviada para o Recife, onde ficou exposta em praça pública.

IMBANGALAS OU JAGAS

Nome que os Portugueses deram, no final do sec. XVI e durante o sec. XVII, a grupos de nativos africanos originários do Norte e, mais tarde, do Centro e Sul de Angola.

O SURGIMENTO DO GUERREIRO Com 15 anos de idade, fugiu e retornou a Palmares, adotando o nome de Zumbi (Zambi, do termo nzumbe, do idioma africano quimbundo que significa fantasma, espectro, alma de pessoa falecida). Passou a trabalhar na liderança dos quilombolas. Palmares teve vários líderes, porém, os nomes que chegaram até a atualidade são o de Zumbi e de seu tio Ganga Zumba, cujas datas de nascimento e de morte deste último são desconhecidas. Foi seu tio que reconheceu seu talento bélico ao vê-lo em combate contra portugueses que tentavam dizimar o quilombo. Zumbi tinha então 20 anos de idade. É neste momento que sua figura destaca-se como a de um provável sucessor na liderança do quilombo. Em 1675, Zumbi não aceita o acordo feito entre Ganga Zumba e Pedro de Almeida, então Governador Geral, no qual Palmares se submeteria à colônia e todos seus habitantes seriam alforriados. Zumbi não admitia que se tornassem livres somente os negros habitantes da Confederação, desejava a liberdade para todos. Neste impasse, Zumbi rompe com Ganga Zumba e assume a posição de

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O MITO

MOCAMBO

Moradia construída artesanalmente e muitas vezes de frágil constituição.

Zumbi • Antônio Parreiras (1890 - 1967)

O dia 20 de novembro é reivindicado como dia da Consciência Negra, em contraponto à data de 13 de maio, dia da assinatura da Lei Aurea pela Princesa Isabel. Para o historiador Flávio Gomes, do Departamento de História da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a escolha do 20 de novembro foi muito mais do que uma simples oposição ao 13 de maio: “os movimentos sociais escolheram essa data para mostrar o quanto o país está marcado por diferenças e discriminações raciais. Foi também uma luta pela visibilidade do problema. Isso não é pouca coisa, pois o tema do racismo sempre foi negado, dentro e fora do Brasil. Como se não existisse”. O episódio histórico de Palmares e a biografia singular de Zumbi, reforçados pela oralidade popular vêm sendo rememorados e reverenciados pelas mais diversas expressões artísticas. As homenagens vão desde tema de música até nome de faculdade. Nas artes visuais, em 1917, o artista nascido no Estado do Rio de Janeiro, Antônio Parreiras (1890 – 1967), pinta um retrato de Zumbi dos Palmares como um sujeito altivo, como se estivesse em estado de vigilância, a observar o entorno. O pintor formado pela Academia Imperial de Belas Artes tinha visível interesse pelos temas históricos, e em 1914, pintou também a prisão de Tiradentes. A obra de Parreiras traz claras influências impressionistas a partir de suas largas e coloridas pinceladas por meio das quais, fica nítida a intenção do artista em destacar a figura de Zumbi, devido ao contraste afrobrasilidades & afins | omenelick 2º ATO | 9


DECLAMA-TE

entre as cores quentes na representação do personagem e oposição às frias para composição do fundo.

PARA LER

Homens de Ferro: os ferreiros da África central no século XIX Juliana Ribeiro da Silva Editora Alameda São Paulo, 2011

Renata Felinto é mestre em artes visuais pela UNESP, pesquisadora, artista plástica e educadora.

No cinema pode ser citado o filme Quilombo (1984), uma co-produção Brasil e França, dirigido por Cacá Diegues e baseado nos livros Ganga Zumba, de João Felício dos Santos e Palmares, de Décio de Freitas. O filme tenta narrar como seria o cotidiano no Quilombo de Palmares e a relação entre Ganga Zumba e seu sobrinho Zumbi até o rompimento de ambos. Uma questão muito controversa é que as gravuras do artista francês Jean-Baptiste Debret (1768- 1848), foram uma das principais bases para a composição deste dia a dia (vestimentas, construções etc.). Entretanto, é sabido que as mesmas foram produzidas na primeira metade do século 19, na cidade do Rio de Janeiro. Ou seja, o contexto visualizado é bem diferente do que seria o real. Nas artes cênicas, o espetáculo Arena conta Zumbi, (1965), montado em São Paulo e idealizado por Augusto Boal (1931 - 2009) e por Gianfrancesco Guarnieri (1934 - 2006) objetivava tratar da recente história do Brasil pós-golpe militar de 1964 e rememorar os heróis da nação. Nesta montagem eram oito atores em cena se revezando em vários papéis. A saga foi idealizada como uma narrativa, deste modo, mais de um ator interpretou a figura de Zumbi dos Palmares, exibindo uma técnica inovadora e eficaz. Edu Lobo (1943) assinou a trilha sonora do espetáculo. Na literatura, Zumbi dos Palmares é uma referência muito presente no que diz respeito à evocação de um antepassado que representa o espírito da luta que é ainda travada cotidianamente por seus descendentes. Tanto ele quanto a ideia de África, ainda que idealizada, são basilares na construção de uma poética que localize e identifique o indivíduo negro, periférico e urbano. Não foram poucos os poetas que tiveram referência em seus feitos como o modernista Solano Trindade (1908 – 1974) com o poema Sou Negro (1961). Na música, as referências ao líder são inúmeras. De Gilberto Gil ao nome da Banda que acompanhou Chico Science, Nação Zumbi. O MC Gaspar (grupo Z’África Brasil) compôs O Rei Zumbi, reverenciando este guerreiro. Gaspar que é galego, porém, periférico, traz em sua música a ideia do Zumbi Redentor que duela contra o conflito identitário e pela luta de classes e de cores na paulicéia desvairada. Abaixo seguem alguns versos desta música. Lembrando que como já diziam nossos ancestrais africanos, “a palavra tem poder”: E com a morte de zumbi, poriam fim as lutas, mas não a escravidão. Negros e brancos se perderam por entre o vermelho do sangue derramado em Palmares (...) O deus negro não pode estar morto, ele é eterno. Rezaremos pela sua salvação, pela sua ressurreição. Zumbi vive, ele é eterno, e pro bem da nação, o rei de palmares irá voltar. Salve o rei zumbi, salve...salve!

OU TE DEVORO Imagine uma semana em Paris, na França, na companhia dos 15 melhores slammers do mundo, no maior evento de poetry slam da Europa, a Coupe du Mounde de Poesie Slam? Poetry slam? slammers? Coupe du Mounde? Nunca ouviu falar? Ok! Vamos do começo. Basicamente, slams, ou poetry slams são encontros de poesia falada (spoken word) e performática, geralmente em forma de competição, onde um júri popular, escolhido espontaneamente entre o público, dá nota aos slammers (os poetas), levando em consideração principalmente dois critérios: a poesia e a desempenho. Resumindo: o slam é o “esporte” da poesia falada.

O Poetry Slam e a celebração urbana da poesia falada Por Roberta Estrela D´Alva

Até aí não há tanta novidade, uma vez que a ideia de competição entre poetas é “mais velha que andar pra frente” e, de maneiras diferentes, sempre esteve presente em vários contextos culturais, desde a Grécia antiga, passando pelos cantadores medievais, chegando ao repente brasileiro e ao ritmo e poesia das batalhas de MCs, só pra citar alguns exemplos. Mas além de seu aspecto competitivo, o poetry slam vem ganhando espaço e popularidade mundial e tem conquistando cada vez mais adeptos por conta de seu caráter comunitário e inclusivo. Idealizado nos anos 80, em Chicago, Estados Unidos, por Marc Kelly Smith, um trabalhador da construção civil e poeta, o poetry slam trouxe uma renovação para os maçantes encontros de leitura de poesia, popularizando-se rapidamente pelo país e logo se propagando por todo o mundo. Estima-se hoje que existam pelo menos 500 comunidades de slam em países como Irlanda, Inglaterra, Austrália, Zimbábue, Madagascar, Israel, Singapura, Polônia, Itália e até mesmo no Pólo Sul e no Havaí, sendo que as maiores comunidades fora dos Estados Unidos estão na França e na Alemanha. A diversidade é característica marcante em um encontro de poetry slam, onde pessoas das mais diferentes idades, crenças, orientações políticas e filosóficas reúnem-se em comunhão para ouvir e falar afrobrasilidades & afins | omenelick 2º ATO | 11


organização e enviado meu material para ser avaliado, eu era a representante do Brasil na Copa do Mundo de Slam! E então minha aventura começou...

FLYERS DE SLAMS AO REDOR DO MUNDO

NÚCLEO BARTOLOMEU DE DEPOIMENTOS

Grupo criado em 1999, tem como foco de sua pesquisa de linguagem o diálogo entre a cultura hip-hop e o teatro épico. nucleobartolomeu.com.br

poesia. Uma grande celebração coletiva, uma verdadeira “zona autônoma da palavra”, onde o sagrado direito à expressão é exercido e o tempo cronológico é suspenso e substituído por um “tempo poético”. Zona Autônoma da Palavra, aliás, é o nome do primeiro slam do Brasil, que acontece em São Paulo promovido pelo coletivo Núcleo Bartolomeu de Depoimentos. Apelidado de ZAP!, esse slam acontece toda segunda quinta-feira do mês e não há limitação de tema, nem critério seletivo para participar. As únicas regras são as mesmas dos slams internacionais: os poemas devem ser de autoria própria, com no máximo três minutos, e não pode haver acompanhamento musical, figurinos ou adereços. E onde entra Paris, os 15 melhores slammers do mundo e a “Coupe du Monde de Poesie Slam nisso tudo?

ZAP! ZONA AUTÔNOMA DA PALAVRA

zapslam.blogspot.com

Desde que soube da existência do poetry slam comecei a pesquisar sobre o assunto e quando tive conhecimento da existência de campeonatos internacionais quis muito participar. Um dos mais importantes desses campeonatos gringos é a Copa do Mundo de Poesia Slam, que acontece em Paris, promovido pela Federação Francesa de Poesia Slam (sim, uma federação! eles realmente levam isso bem a sério por lá). Através de um toque sobre o evento, dado por uma amiga slammer que mora na Bélgica, minha participação começou a ficar concreta e uma semana depois de ter entrado em contato com a

O evento acontece juntamente com o Grande Slam Nacional, sempre durante o mês de junho. A esquina da Rua Julien Lacroix, no bairro de Belleville, onde fica o Culture Rapide, um dos mais tradicionais bares de slam de Paris e “QG” do festival, foi o ponto de encontro dos poetas onde a língua falada era a poesia 24 horas por dia. Além dos 64 (!) slammers dos “times” franceses que desembarcam para campeonato nacional, 16 slammers internacionais também circularam por ali. Brasil, França, Inglaterra, Gabão, Ilhas Maurício, Dinamarca, Suécia, Portugal, Finlândia, EUA, Holanda, Bélgica, Rússia, Escócia e Canadá foram os países participantes da edição deste ano. Durante os cinco dias de duração do evento, quando não estávamos assistindo (e competindo) nos torneios, invariavelmente estávamos: 1) falando sobre poesia, ou 2) declamando poesia, ou 3) assistindo alguém declamar poesia. O bar, o parque, a rua, a lanchonete, a praça do centro cultural Pompidou, as escadarias da basílica Sacré Coeur, o metrô... qualquer espaço se transformava em arena para os slammers em questão de segundos. Deu pra imaginar agora?

PARA ASSISTIR

vídeo da Copa do Mundo de Poesia Slam 2011 omenelicksegundoato.blogspot.com

No primeiro dia do campeonato fui só pra assistir, pois fazia parte da chave do dia seguinte. Eu esperava que os caras fossem bons, mas fiquei chocada com o altíssimo nível das performances e das poesias (que o público acompanhava com traduções em inglês e francês numa legenda que ia sendo projetada ao vivo atrás dos poetas). Logo vi que não iria ser fácil. E de fato não foi. Na verdade, no meio de tanta energia, de tanta pressão e de tanta poesia posso dizer que essa foi uma das coisas mais difíceis e mais emocionantes que já fiz na vida. Passei pelos primeiros quatro monstrões, por mais quatro na semifinal e chegamos à grande final! No último dia, o tradicional “Le Marroquinerie” estava lotado e eu tinha uma torcida grande. O público gritava “Robertááá” cada vez que eu era chamada. Eu era a favorita! Mas, enfim, jogo é jogo. Por um triz acabei ficando em terceiro lugar, atrás do Chris Tse, do Canadá, segundo colocado, e do David Goudreault (também do Canadá, mas representando Quebéc – o lado francês), que foi o campeão. Um resultado prá lá de bom, considerando que não temos tradição de slams por aqui e que, embora eu tivesse experiência como slammaster (apresentador e organizador dos slams) esse foi afrobrasilidades & afins | omenelick 2º ATO | 13


ilustração LÍBERO MALAVOGLIA

o primeiro campeonato do qual participei na vida como slammer de fato (ou seja, estreei direto numa copa do mundo!). Enfim, cheguei à final e estou – o Brasil está! – entre os quatro melhores slammers do mundo, pelo menos neste ano. E tirando o slam em si e a competição, o mais incrível dessa experiência toda foi o encontro e a troca com todas aquelas pessoas inacreditáveis, com todos aqueles contadores de história urbanos, vindos cada um de um país totalmente diferente, com culturas diferentes, com ideias e experiências tão diversas. Depois ainda segui para Londres, onde fizemos, em parceria com o coletivo Braziality, um ZAP! London (nos moldes do que o Núcleo Bartolomeu promove no Brasil), e pro Festival Silêncio em Portugal, onde me apresentei com um slammer português e outros vindos da Alemanha, Espanha e Itália. Encontros. Muitos encontros poéticos e diversos. É o que fica dessa incrível experiência.

Roberta Estrela D’Alva Atriz- MC, diretora, cantora, pesquisadora e slammer, é também membro-fundadora do Núcleo Bartolomeu de Depoimentos, da Frente 3 de Fevereiro e idealizadora e apresentadora do ZAP!. Atualmente desenvolve projeto de mestrado sobre voz, oralidade e performance na PUC-SP.

Sinto que muito ainda há para ser desbravado, e num país que é tão rico no campo das oralidades como o Brasil, o poetry slam tem muito a crescer. Por tudo que vi e conheci (e por tudo que ainda quero conhecer e ver), sou cada vez mais uma entusiasta e divulgadora do slam, pois realmente vejo nessa modalidade uma maneira eficaz para que o livre pensamento e a livre expressão tenham mais um espaço garantido. Vislumbro nesse “esporte” uma maneira potente de se relacionar, e posso afirmar por experiência própria que, num mundo onde cada vez mais nos é exigido jogo de cintura, o slam tem me ensinado a jogar.


Por Cristiane Gomes

Lucrécia Paco e o teatro como ferramenta de transformação social

GUERRA CIVIL MOÇAMBICANA

Conflito armado que opôs o exército de Moçambique ao movimento Resistência Nacional Moçambicana (RENAMO), entre os anos de 1976 e 1992, tendo terminado com a assinatura do Acordo Geral de Paz, a 4 de Outubro de 1992.

O Menelick 2ºAto – Como nasceu à artista Lucrécia Paco? Lucrécia Paco – Sempre gostei muito de acompanhar as

Quando criança, ela gostava de cantar e dançar as músicas características de

festas e os ritos de minha aldeia. Quando entrei para escola,

sua aldeia, o que era severamente reprimido na época. A língua a ser fala-

tive um choque muito grande. O que era a minha vida, lá, era

da, as músicas a serem cantadas e dançadas deveriam ser as do colonizador

proibido. Nesta época meu país ainda não tinha conquistado a

português. Estamos no começo dos anos 70, em Moçambique, África. Desde

independência e o sistema educacional era muito repressivo.

então, muita água passou por baixo dessa ponte. Em 1975, o país conquistou

A palmatória era usada constantemente e eu apanhava muito

a independência, se libertando do domínio de Portugal. Foi aí que a arte se

por usar o meu verdadeiro nome, ou seja, o nome dado em

transformou em ferramenta, usada pelo novo governo socialista, para unificar

minha aldeia. Quando o país conquista a independência, em

uma nação que falava 24 línguas diferentes, fora os dialetos. A menina podia,

1975, o novo governo adota o conceito de homem novo; a cria-

enfim, ser livre para ser o que era.

ção de uma consciência nacional através da cultura. É quando

FOTO WOLFGANG SCHMIDT

Democracia Moçambicana

começam a surgir grupos artísticos polivalentes. E eu, que anMas isso durou pouco. Em 1976, as disputas internas levaram o país a uma

tes tinha sido repreendida por cantar e dançar as minhas can-

sangrenta guerra civil que, além de arrasar o país, deixou mais de 900 mil

ções, também entrei nesse movimento. E foi neste momento

mortos. O conflito se estendeu até 1992. Foram anos difíceis. Mas a arte se-

que voltei a cultivar minha cultura sem medo. Grupos artís-

guia sendo instrumento de conscientização e conhecimento para o povo mo-

ticos se criavam nos bairros e a idéia de unificação do povo

çambicano. E a menina que gostava de celebrar sua cultura através da dança

moçambicano através da cultura fez com que houvesse um in-

e da música, escolheu o teatro como forma de ação política e de descoberta

tenso intercâmbio entre as práticas culturais do norte e do sul

da vida que iria seguir.

do país. Daí comecei a cantar, a dançar, a declamar poemas. Entretanto, logo após a independência tivemos mais uma

A história do teatro contemporâneo em Moçambique se mistura com a história

guerra que durou anos. Voltamos à estaca zero. Nessa fase a

de vida de Lucrécia Paco. Em meio à guerra civil, a linguagem teatral se desen-

gente não cantava, não dançava, a comida era escassa.

volvia para criar um teatro genuinamente moçambicano. Para isso, Lucrécia foi uma das fundadoras do grupo Mutumbela Gogo, em 1986, primeiro grupo profissional de teatro de Moçambique e que segue em plena atividade até hoje.

OM2ºATO – Houve então um retrocesso. Como você lidou com isso, no momento em que sua liberdade artística estava brotando?

Uma das mais conhecidas atrizes moçambicanas, Lucrécia já percorreu mun-

LP – Assistia a muitos filmes soviéticos. Havia uma grande

do afora apresentando seu trabalho. No Brasil, esteve pela primeira vez em

importação de filmes socialistas. De tanto ir ao cinema ver

2009, quando a convite do Instituto Itaú Cultural participou do projeto Antído-

esses filmes, me despertou ainda mais a vontade de ser atriz.

to - Seminário Internacional de Ações Culturais em Zonas de Conflito, com a

Nessa época tinha uns 12 anos e ficava muito entusiasma-

peça Mulher Asfalto. De volta ao país em 2011 para novas apresentações do

da com o cinema. A gente, ou melhor, esses movimentos de

mesmo espetáculo, Lucrécia, em passagem por São Paulo, recebeu O Mene-

exaltação da independência, tinham uma necessidade de criar

lick 2ºAto para uma troca de idéias. Na conversa, permeada por diferentes

também uma imagem, uma figura de um anti-herói. Esse per-

sotaques da língua portuguesa, falamos sobre a força social do teatro em

sonagem, que era representado em pequenas esquetes tea-

Moçambique, suas características, a influência da oralidade e o trabalho de-

trais, se chamava Chico Nhoca. Algo que pode ter uma simila-

senvolvido em parceria com autores moçambicanos como Mia Couto.

ridade no Brasil com o Macunaíma. Então, fazíamos pequenas

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peças sobre o que era ser moçambicano. Esses grupos, nos anos 80, trabalhavam nas fábricas, nas empresas. Claro que antes disso havia teatro no país, mas era um teatro que não falava da realidade, que não contava as nossas histórias. A primeira vez que tive acesso a um teatro próximo a mim optei por entrar para a vida teatral. Isso foi em 1984, quando Manuela Soeiro me convida para integrar o grupo Mutumbela Gogo, onde estou até hoje.

António Emílio Leite Couto (1955)

ou simplesmente Mia Couto, é biólogo e um dos principais escritores moçambicanos da contemporaneidade. Seu romance Terra Sonâmbula (1992) foi considerado um dos dez melhores livros africanos do século XX.

OM2ºATO – Nós aqui no Brasil temos pouca informação sobre a cena cultural africana. Fale um pouco da realidade do teatro em Moçambique. LP – Com a independência em Moçambique, o teatro ganhou essa função (que continua tendo até hoje) de fazer a crítica social, de conscientizar o povo. Como já contei, surgem então os grupos nas empresas, nos bairros. Entretanto a Manuela Soeiro tinha a preocupação de que esses grupos tivessem uma continuidade. Como eram amadores, acabavam caindo no esquecimento. O maior desafio então era fazer um teatro profissional. Para isso, criamos uma padaria para sustentar nossa arte. Havia momentos em que, ao mesmo tempo em que estávamos ensaiando uma peça, havia gente trabalhando fazendo pão. OM2ºATO – Como assim, fazendo pão? LP – Manuela Soeiro, diretora do Mutumbela Gogo, teve a idéia de montarmos uma padaria, no momento em que vivíamos um contexto de guerra e de muita carência de comida. Daí surgiu essa fusão do pão com o teatro: poder fazer nossa arte de maneira contínua, ao mesmo tempo em que alimentávamos nossos artistas. A padaria foi então construída no balcão do teatro. E era sempre muito bom ensaiar sentindo o cheiro de pão todos os dias. E os padeiros cantavam enquanto amassavam a massa.

Manuela Soeiro (1945)

Nascida no Ibo, uma ilha na província de Cabo Delgado, em Moçambique, é diretora e fundadora do grupo de teatro Mutumbela Gogo

OM2ºATO – Voltando ao teatro que você desenvolve no grupo Mutumbela Gogo, conte mais sobre as características desse trabalho. LP - Nosso teatro não é de escrita, porque a tradição africana é baseada na oralidade. Nosso grupo opta por fazer adaptações de obras, contos, crônicas. Trabalhamos muito com Mia Couto, por exemplo. Buscamos e adotamos um processo de retextualização, passando esses textos escritos, para o teatro. Trabalhamos também com improvisação e, mais tarde, com a dramatização. Quando ainda havia guerra, fizemos uma adaptação de Lisístrata que, em seu texto original, conta a história de mulheres que fazem greve de sexo para aca-

bar com a guerra. Mas sempre que nós abordamos um tema, mesmo que ele seja uma adaptação, é preciso que ele toque a sensibilidade do público. Por isso, saímos a campo para pesquisar. Nesse caso, conversamos com as mulheres que trabalhavam nos mercados. As opiniões ficaram divididas, mas no fim a gente viu que foi geral a opinião de que não se fizesse uma greve de sexo. Nossa peça então teve outro final. Fizemos as adaptações necessárias de acordo com a realidade de nosso país, porque estamos contando nossas histórias. Foi um trabalho muito interessante. Chamamos essa peça de Amor Vem e coincidentemente fizemos nos bairros e mercados no momento em que se iniciavam as discussões para os acordos de paz. OM2ºATO – Você contou da proximidade que seu grupo teatral tem com Mia Couto e outros escritores nacionais. Como é transpor estes textos literários para o palco? LP - Estes autores sempre se inspiram em uma determinada realidade e acompanham essa história. Então, a escolha ou não de um autor, de um tema, de um texto, tem muito a ver com isso. A primeira obra de Mia Couto que nós adaptamos era uma forte crítica ao sistema burocrático e à corrupção em Moçambique. Nossos políticos foram ver essa peça e riram muito (era uma sátira) e ali estava uma forma que o Mia tem de falar dos problemas com arte. Outro texto dele, adaptado por mim, foi o Vôo dos Flamingos, que também traz esse tema da corrupção, escândalos, crimes. É preciso dar vida ao livro, tornar visível o que autor quis dizer ali, tornar público. OM2ºATO – O teatro está fortemente ligado à escrita. Ao mesmo tempo, a oralidade é uma característica intrínseca das culturas africanas. Como você vê essa relação? LP - Nós vamos buscar outras formas de representação, seja baseada na oralidade, em nossas danças, no nosso gestual, na nossa tradição. Também buscamos esses elementos tradicionais. Temos uma dança, o Mapiko que é puro teatro. Nós nos apropriamos dele para usar em cena. Tudo que é linguagem teatral a gente busca. OM2ºATO – Do que viu aqui na área do teatro o que mais te chamou a atenção?

CRISTIANE GOMES Jornalista de formação e dançarina por paixão, é mestra em Comunicação e Cultura pela USP, é coordenadora da área de dança do grupo Ilú Obá de Min e, se pudesse, só dançava nessa vida.

LP – Fiz um intercâmbio com as meninas da Cia As Capulanas. Gostei muito da proposta que vi e essa vivência me deixou bastante inspirada. Tenho um projeto que chama Palco Aberto, que é levar o teatro para lugares onde as pessoas não tem acesso a ele. E o projeto delas o Pé no Quintal, pra mim foi uma importante fonte de inspiração. afrobrasilidades & afins | omenelick 2º ATO | 19


canto afroperuano Por Danielle Almeida

Maria Lando. Lembro como se tivesse acontecido agora. Foi no final de uma manhã com sol ainda tímido que ouvi os versos dessa canção pela primeira vez: “Maria no tiene tiempo (Maria Lando) de alzar los ojos Maria de alzar los ojos (Maria Lando) rotos de sueño Maria rotos de sueño (Maria Lando) de andar sufriendo Maria de andar sufriendo (Maria Lando) sólo trabaja...”. Ainda não entendia bem esses sonidos e “pescava” os sentidos das palavras que não eram familiares. Contudo, o que me arrebatou verdadeiramente foi aquela voz que entrou pelos meus poros junto com o som da guitarra que a acompanhava. Um tanto confusa e excitada pela novidade, mesmo sem entender o que dizia boa parte da letra, me chega a segunda canção, ainda mais avassaladora, ainda mais penetrante, ainda mais... “Negra, negra que te quiero, Goza, negra presuntuosa, Mira, que me estoy muriendo, Dame, vida de tu boca...”

Guitarra Denominação que se dá ao violão nos países de língua espanhola.

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Eu nunca tinha ouvido nada igual. Aqueles ritmos e melodias me tomaram e me levaram ao encontro da obra de Susana Baca, a grande cantora afro-peruana. Susana Esther Baca de La Colina nasceu em 1944, em Chorrilos, bairro negro situado no entorno da capital Lima. De família pobre, desde muito cedo Susana Baca foi rodeada por artistas. Filha de um violonista e de uma bailarina, com ambos aprendeu seus primeiros versos de canção e seus primeiros passos de dança, fatores determinantes para a construção da artista que é. Herdeira da tradição de uma das mais importantes famílias negras do Peru, os de la Colina (conhecidos por dar à cultura nacional excelentes músicos e bailarinos, como o grande percussionista Caitro

Soto, entre outros), desde o início da carreira Susana optou por interpretar um repertório marginalizado e em processo de invisibilidade e esquecimento, indo totalmente contra a corrente do mercado fonográfico peruano. Sobre essa escolha, em entrevistas concedidas a diversos meios de comunicação nacionais e internacionais, Susana relembra a quantidade de oportunidades que lhe foram negadas: “Ninguém me abria uma só porta. Eu batia nelas e sempre me respondiam que poesia não vendia”. As gravadoras diziam que não havia público para as suas canções e que a ninguém interessaria aquele repertório baseado em temas afro e em poesias musicadas. Entretanto, precisamente o poema Maria Lando, de César Calvo, musicado por Chabuca Granda, foi a válvula propulsora de sua brilhante carreira. Em 1986, foi apresentado ao músico britânico David Byrne, dono do selo Lauka Bop, filiado a Warner Bros, o vídeo de um concerto em que uma das principais atrações era Susana Baca interpretando Maria Lando. Byrne se encantou tanto por aquela voz tão singular, que alguns anos depois, Susana foi surpreendida pela visita de David, nascendo assim uma profícua parceria. Em 1992, após 11 anos de trabalho investigativo com seu companheiro e empresário, o sociólogo Ricardo Pereira, Susana Baca lança o disco/livro Del Fuego y Água, resultado da coleta de canções e testemunhos encontrados nas cidades costeiras do Peru, região onde permanecem o maior contingente de afrodescendentes e as mais antigas famílias negras do país que, segundo censos demográficos, correspondem a 3% da população total. Ainda como resultado desse trabalho, em 1995, funda o Instituto Negro Continuo, um centro de pesquisa e manutenção da memória afro-peruana, voltado para o ensino de música e outros saberes às crianças e aos jovens da comunidade de Lima. Ironicamente e apesar de todos os trabalhos desenvolvidos por Susana em prol de um povo e de sua história, o reconhecimento de seus compatriotas só chegou com a conquista do Grammy, na categoria The Best Folk Album, por seu disco Lamento Negro. Muito embora o prêmio tenha chegado no ano de 2002, segundo consta na imprensa nacional peruana, o disco foi editado em 1986 sem autorização da cantora, após ter sido gravado em Havana (Cuba), curiosamente, no mesmo estúdio onde foram reunidos os músicos do projeto Buena Vista Social Club. Passados mais de 26 anos, o brilhantismo do trabalho continua o mesmo, Lamento Negro nos apresenta música e poesia, nos apresenta história e arte. É uma reunião de poemas musicados de grandes nomes como Pablo Neruda (Chile), César Calvo e Chabuca Granda (Peru), entre outros. Para a felicidade dos apreciadores de sua obra, Susana Baca acaba de lançar o disco Afrodiaspora, sugestivamente no ano decretado pela ONU (Organização das Nações Unidas) como o Ano Internacional dos Afrodescendentes.


ilustração victorone (v-um.com)

Nesse disco o repertório escolhido presta homenagens à herança musical afroamericana, onde, entre outras homenageadas estão as cantoras Celia Cruz (Cuba) e Amparo Ochoa (México). Nós brasileiros também fomos contemplados e temos a oportunidade de ouvir um pout-pourri de canções nordestinas, denominado Coco y Forro. Uma das canções é a No balanço da Canoa, do compositor Toinho de Alagoas, difundidas na voz de Alceu Valença e do Trio Sabiá. Assim, já se vão mais de dez anos desde que ouvi Susana Baca pela primeira vez. Como cantora, me impressiono com a delicadeza e qualidade técnica do repertório apresentado a cada disco. Todavia a admiro para além de uma exímia artista, compositora e dona de uma voz de cores e calores incomparáveis. A admiro pelo grande esforço de pesquisa ao qual tem se dedicado e pelo compromisso que assumiu com a herança negra em seu país, compromisso esse reconhecido pela mais alta esfera da política peruana. No dia 28 de julho deste ano, Susana Baca foi nomeada ministra da cultura pelo recém-eleito presidente Ollanta Humala. Susana Baca é a primeira ministra negra do Peru desde sua independência em 1821. Emocionada, em entrevista após os atos de nomeação, Susana Baca declarou que os afro-peruanos têm que participar da política e que trabalhará para que a cultura não seja somente para aqueles que possuem meios econômicos para adquiri-la, mas que seja democrática. Graças ao trabalho de Susana Baca e outros grandes nomes da cultura afro-peruana, como os Santa Cruz e os de La Colina, nós, outros filhos da diáspora, temos podido compartilhar e apreender com um dos mais ricos resultados da produção músico-cultural e histórico-social do negro nas Américas. 22 | omenelick 2º ATO | afrobrasilidades & afins

MÃE PRETA Por Alexandre Bispo

susana baca, figura chave na revitalização da música afroperuana e primeira ministra negra do peru desde a independência do país, em 1821

Danielle Almeida Graduada em música pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel), é tutora do Curso de Aperfeiçoamento UNIAFRO IV e membro do Núcleo de Apoio Pedagógico da Casa das Áfricas (SP). afrobrasilidades & afins | omenelick 2º ATO | 23


de reconhecimento e visibilidade política, social e cutural. Curiosamente, ao mesmo tempo em que o samba tornava-se um símbolo nacional, casas de candomblé sofriam com a repressão policial, e os capoeiristas não raro eram vistos também como malandros, desempregados e perigosos na visão das elites. Segundo a historiadora Maria Aparecida de Oliveira Lopes que Na cidade de São Paulo não são muitos os monumentos que ho-

menageiam personalidades, eventos e datas históricas relativas à

Alguns dos trabalhos da artista plástica Rosana Paulino retratam a mulher negra, em especial as amas de leite e o modo como são representadas. rosanapaulino.blogspot.com

presença dos negros. Talvez o monumento mais antigo seja o busto de Luiz Gama, no Largo do Arouche, feito em 1931 por Yolando Mallozzi e que foi encomendado por uma comissão de intelectuais negros liderados por José Benedito Correia Leite (1900-1989). Essa

PARA VER

estudou a atuação da imprensa negra em São Paulo, “Os negros paulistas que escreviam nos jornais alternativos, entre 1940 e 1960, escolheram como figura central da história do negro brasileiro uma representante da ala feminina: a mãe negra”. As muitas mães negras foram mulheres compradas, ainda moças entre 13 e 15 anos de idade para desempenhar serviços domésticos: lavar,

quantidade diminuta de monumentos reflete assim, a forma pela

passar, arrumar a casa e ser a mãe das crianças ricas. Em 1953,

qual a participação dos negros e afrodescendentes na formação

ainda, segundo Lopes, a Folha da Noite informou que o Clube 220,

do país por pouco passaria invisível não fossem os esforços de

entidade que reunia a “família de cor” de São Paulo, por meio de

antigos militantes negros, que já nas primeiras décadas do século

seu presidente o Sr. Frederico Penteado Junior, sugeriu à Câmara

20 intentaram convencer o Estado a reconhecer publicamente, por

Municipal a ereção do busto da Mãe Preta em uma das praças públicas da cidade. Novamente como nos anos 20 houve resis-

meio da construção de uma escultura, a importância de seus antepassados para a construção da nação.

tência do prefeito, mas depois de apelações seguidas e a reunião

Em meados dos anos 1920 alguns militantes negros, dentre os

para abrigar a escultura foi o Largo do Paissandu, local já bem

de mais de 500 assinaturas o pedido foi aceito. O lugar escolhido conhecido à época por sua igreja dos negros que ali se instalou

quais vários jornalistas e intelectuais, tiveram a idéia de fazer

em 1903, após a irmandade do Rosário de Nossa Senhora dos

uma escultura representando a Mãe Preta. O objetivo era chamar

Homens Pretos ser obrigada a desapropriar o terreno no Largo

a atenção para a importância dos negros na formação do país.

do Rosário ocupado desde o século 18, onde hoje é a BMF. A pre-

Tratava-se de justa homenagem à imagem da mulher negra que

sença dessa igreja na zona central nunca foi algo tranquilo, sua

conheceu e geriu como ninguém o mundo doméstico, que deu a

inauguração em 22 de abril de 1908 ocorreu, embora os mora-

vida por bebê alheio, que ensinou as primeiras palavras, cantou

dores protestassem que com a construção a praça perderia sua

para dormir as moças apaixonadas, tirou piolhos e deixou dengo-

beleza original. Mais tarde, em 1940, a igreja sofreria ameaças de

so os futuros donos do poder.

demolição, especialmente com o desenvolvimento da Cinelândia cujo público dos cinemas eram as elites. O prefeito Prestes Maia

Essas mulheres seriam a representação do trabalho, do amor e da

intencionou substituir a igreja por um monumento a Duque de

negação de si próprias e, estavam eternizadas na memória de mui-

Caxias, mas sem sucesso. A igreja foi e é um templo modesto com

tos brasileiros negros e brancos naquele inicio de século. Embora

dificuldades de se manter, de alocar recursos para restauração do

não faltassem, desde a idéia inicial, os contrários a esse elogio a

seu edifício e da praça como um todo.

um passado que para alguns devia ser esquecido. O plano daqueles militantes era que a escultura fosse erigida no Rio de Janeiro, então capital federal, mas houve recusas e com o

IV CENTENÁRIO

advento da Revolução de 1930 a idéia foi abortada. Os anos 1930

Em 1954 São Paulo comemorava seu IV aniversário. Esse evento

no Brasil foram marcados pela eleição de alguns símbolos nacio-

foi muito importante na história da cidade que tinha em torno de

nais como o samba, a mulata, a feijoada o culto a Nossa Senhora Aparecida. Essa foi uma estratégia populista do governo Getúlio Vargas para conter a pressão que muitos negros faziam em favor

LUIZ GAMA YOLANDO MALLOZI 1931

três milhões de habitantes. Grande parte dessa população morava nos subúrbios e as ruas da zona central concentravam o comércio e os serviços, educação e cultura. As celebrações dura-


mavam a atenção para o fato de que a Mãe era um agente, um sujeito histórico e biográfico não apenas a empregada submissa e passiva, cuidando da elite desde a mais tenra infância.

TRANSFORMAÇÕES DE SIGNIFICADO E NOVAS FORMAS DE MONUMENTO Os significados de um monumento se modificam ao longo dos anos e, nem sempre as intenções que lhe deram origem permanecem, pelo contrário, o que ocorre é uma sobreposição de sentidos. Isso acontece com o monumento à Mãe Preta que tanto simbolizou a Ama de Leite, quanto a Preta Velha, tanto a mãe de todos quanto a

PARA LER

Artigo: As representações sociais da Mãe Negra na cidade de São Paulo Maria Aparecida De Oliveira Lopes, 2007 Disponível em: www.assis.unesp.br

doadora de vida para as elites. Nos dias atuais a praça que abriga esses dois símbolos (Estátua e Igreja) da história dos negros em São Paulo está entregue pelo poder público à sujeira e, longe do perfume das flores que poderiam ser depositadas aos pés da estátua predomina o cheiro forte de urina e miséria que deteriora tanto as paredes da igreja quanto a base do monumento. A escultura foi reconhecida como patrimônio histórico em 2004, lá se vão sete anos e, pouco ainda foi feito para garantir a permaMãe Preta Julio Guerra 1955

nência e integridade dessa escultura que faz parte dos esforços de

A partir de 1960 o Clube 220 com auxilio de fiéis do

Atualmente há outras formas de chamar a atenção para a impor-

espera desde os anos 20.

candomblé começou a comemorar o Dia da Mãe Preta

tância da memória de acontecimentos marcantes relacionados à

em 13 de maio, realizando festividades em torno da

memória negra e afro-brasileira. O grupo Frente 3 de Fevereiro por

Inaugurada em 1955, no fim das celebrações do ani-

estátua. Em 1970 tanto o prefeito de São Paulo quan-

exemplo, fez uma ação monumentalizante para relembrar a memó-

versário da cidade, após concurso venceu o escultor

to o arcebispo assistiram ao evento anual e, em 1972,

ria do jovem dentista Flavio Santana, negro, 28 anos, morto pela

Ibirapuera, pseudônimo de Julio Guerra (1912-2001),

o 220 conseguiu trazer à capital paulista o presidente

polícia de São Paulo por racismo em 3 de fevereiro de 2004. A atitu-

artista descendente de família nobre de Santo Amaro,

Médici. Durante a festividade, que reuniu em torno de

de do grupo sofreu represálias como a destruição da obra, espécie

formado na Escola de Belas Artes. A aparência de estilo

10 mil pessoas, o presidente, em gesto que também

de lápide que fizeram em homenagem ao jovem assassinado, no

moderno da escultura desagradou militantes, como o

foi acompanhado pelo então Governador de São Pau-

local mesmo da tragédia. Conto este episódio para mostrar que a

jornalista e escritor negro José Benedito Correia Leite.

lo, Laudo Natel, depositou flores aos pés da estátua.

memória dos eventos deve ser construída e que se não for registra-

Em sua opinião a escultura não representava a mulher

Essa atitude ocorre ainda hoje, e diante ou em cima da

da ou preservada de alguma forma se perderá na noite escura do

negra bonita, educada e arrumada que foram as amas

estátua são feitas oferendas de flores, cigarros, bilhe-

tempo que a tudo encobre.

de leite. O que desagradou Correia Leite foram os exa-

tes com pedidos, o que tornou a imagem uma evoca-

Fica um desafio para todos nós, que é erigir outros monumentos

geros comuns ao traço modernista: os pés e as mãos

ção da Preta Velha do imaginário popular.

que lembrem a memória afro-brasileira: nomes de ruas, templos re-

enormes como símbolos da atividade produtiva da

Mas foi ainda nos anos 1970, com o fortalecimen-

ligiosos, casas de antigos moradores de bairros periféricos, lugares

Mãe. Basta lembrarmos que A negra da artista Tarsila

to da militância negra na forma de um expressivo

de realização de saraus literários, que daqui a alguns anos se torna-

do Amaral tem a boca e o seio enormes e figuras negras

movimento social, que a figura da Mãe Preta sofreu

rão referências para os jovens do futuro, e mesmo os registros da

como o homem da tela Café, de Candido Portinari tem

críticas contundentes. Para alguns militantes essa

memória oral, porque a cidade é também a memória sentimental

seus pés e mãos arranjadamente desproporcionais.

imagem só servia para a elite. Certos ativistas cha-

que temos dela. O hoje um dia será lembrado como algo antigo.

ram um ano e com ela não só o monumento a Mãe Preta foi inaugurado, mas também o Monumento às Bandeiras de Victor Brecheret, que estava na fila de

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FLORES

militantes negros por reconhecimento e participação da população negra nos destinos da cidade.

Alexandre Araujo Bispo Graduado em ciências sociais e mestrando em antropologia social, ambos pela USP, atua como educador em museus e em curadoria de exposições desde 1998, entre as quais destacam-se É nóis na fita (2010) e Negro Imaginário (2008). Atualmente é pesquisador e educador do projeto Artistas Viajantes da Nossa Goma.


NOMONDE MBUSI BEREA / Johannesburg 2007

SER, REPRESENTAR E RECONHECER Ativismo visual na África do Sul pós Apartheid Por Luciane Ramos Silva

Queer Termo originalmente pejorativo usado para ofender homossexuais nos Estados Unidos. Na década de 80 ganha outros sentidos desmistificando a homossexualidade e rompendo com percepções homogêneas do masculino e feminino reivindicando a multiplicidade de identidades de gênero.

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Em setembro de 2010, mês de abertura da 29ª Bienal de Artes de São Paulo, a fotógrafa Zanele Muholi (1972) acompanhada do artista nigeriano Andrew Esiebo (1978), compartilharam um pouco de suas motivações e percepções artísticas, num bate papo na Casa das Áfricas, espaço cultural e de estudos sobre sociedades do continente africano. Apesar das múltiplas identidades e estéticas africanas, há caminhos que se cruzam na experiência de ser negro/negra e africano/ africana no mundo atual. Essas confluências são refletidas em práticas artísticas evidentemente políticas, que engolem, mastigam e vertem novas realidades. A trajetória da sul africana Zanele Muholi nos mostra isso. Nascida na Township de Umlazi, Durban, durante o Apartheid (regime de segregação racial que perdurou de 1948 a 1994), a artista traz na retina críticas a marginalidades e exclusões compulsórias legitimadas por políticas de estado que pregavam um eufemístico “desenvolvimento em separado”. Tal separação, concretizada em precárias reservas territoriais para a população negra nas áreas urbanas, valia não apenas para a terra, mas também para educação, saúde e direitos civis – desigualdades oficiais que privilegiavam a minoria branca. Zanele traz em sua trajetória artística uma maneira afiada de abordar questões complexas. Gênero, raça e sexualidade se entrecruzam e transbordam em imagens poderosas. Sua produção visual, entre fotografia e documentário, revela universos duramente discriminados pela sociedade contemporânea. Atuando no campo da militância queer (grupos LGBT – Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transgêneros – que questionam a ordem homogênea das relações de gênero), seu bravo ativismo visual documenta traços de uma África do Sul pós-apartheid que ainda tem à frente o desafio de graves desigualdades e expressões de intolerância, entre elas, a homofobia. afrobrasilidades & afins | omenelick 2º ATO | 29


BAKHAMBILE SKHOSANA NATALSPRUIT 2010

A conversa com Zanele nos transporta diretamente a contextos africanos - petrificados no imaginário ocidental como espaços da barbárie. Mas vale lembrar que aqui mesmo na terra brasilis testemunhamos manifestações, oficiais inclusive, de hostilidade e ódio, a gays, lésbicas e outras identidades que destoam dos modelos hegemônicos. Aqui as políticas públicas em prol da diversidade de gênero ainda caminham a passos lentos. No Brasil e nas sociedades africanas que buscam consolidar suas jovens democracias a real igualdade de direitos ainda é uma ilha distante do olhar.

Ngiyabonga Significa obrigado, em zulu, uma das 11 línguas oficiais da África do Sul.

Vencedora de prêmios como o Casa África de melhor fotógrafa (2009) e Fundação Blachère no 8º Encontro Bienal de Fotografia Africana em Bamako, Zanele tem frente à sua lente a proposta desafiadora de documentar o que foi historicamente invisibilizado ou retratado por enquadros coloniais eurocentristas. Seus trabalhos nos mostram “Faces e Fases” de pessoas - sujeitos de seus destinos. Invertendo a chave da representação, Zanele realiza a intenção de muitos artistas africanos – a de contar suas próprias histórias. Que a África fale por ela mesma. Ngiyabonga, Zanele! OMENELICK2ºATO - Como artista africana, o que você quer no Brasil? ZANELE MUHOLI - Estar nesta 29ª Bienal é excitante por um lado e decepcionante de outro. Porque torna-se algo mais sério quando não vemos muitas pessoas da tua cor de pele.( Referência à entrevistadora). Meu trabalho interroga a presença de lésbicas negras, transgêneros e gays na África do Sul e o espaço para o qual olho é o das townships, que podem ser percebidos ou definidos como “guetos” em termos comuns. O que estou procurando no Brasil é reunir mulheres, que não precisam necessariamente se identificarem como lésbicas, mas como mulheres negras. Meu mote é a negritude e a ausência de mulheres artistas. Quando falo de artistas ou ativistas, refiro- me as que estão fazendo trabalhos relacionados aos universos queer ou fazendo trabalhos políticos - ocupando espaços que nunca foram concebidos para nós. Assim, para mim, estar neste espaço significa muito porque tenho a oportunidade de apresentar, representar, reescrever e projetar imagens que podem aparecer em espaços específicos. Eu falo também sobre a necessidade de termos colaborações entre artistas de raça negra para entendermos nossas existências. Quem estava aqui antes de nós. O que significa que nós somos gerações que irão informar futuras gerações a partir de nossas existências neste espaço. Os livros que 30 | omenelick 2º ATO | afrobrasilidades & afins

Townships Sharpeville e Soweto são outros exemplos de townships (áreas urbanas criadas com o propósito de manter a população negra afastada dos brancos) fortemente noticiadas por terem sido palco de protestos e rebeliões durante o Apartheid.


são escritos sobre pessoas negras não foram escritos por nós. Os filmes que foram feitos sobre pessoas e comunidades negras foram explorados por etnógrafos e antropólogos europeus e nunca feitos por nós. É nossa geração que pode provocar mudanças e mostrar o que veio antes de nós e ter oportunidade de processar e consumir o que tem sido feito por nós, pessoas negras, e especialmente mulheres. Sei da felicidade de ser um ser que sangra, que tem sangue e menstruação. Sei o que isso representa e provoca.

nós dividiremos existências que não sabemos, porque as pessoas se deslocaram. Nós somos um só povo, nós somos uma nação.

FACES AND PHASES

Os retratos dispostos pela entrevista integram o projeto Faces and Phases, nome da série, iniciada em 2006 e ainda em curso, de retratos em preto e branco produzidos pela fotógrafa Zanele Muholi. As imagens concentram-se na comemoração e na celebração da vida de mulheres negras lésbicas e apresentam imagens de mulheres habitantes das townships, na África do Sul. Em 2008, após os ataques xenófobos e homofóbicos que levou ao deslocamento em massa de pessoas naquele país, Muholi decidiu expandir a série para incluir fotografias de mulheres de diferentes países.

ZANELE zanelemuholi.com

OM2ºATO - O que é artificial? ZM - Em primeiro lugar nós não conhecemos o Brasil. Eu conheço o hotel e a avenida da exposição. E esta é minha primeira vez no país. Acredito fortemente na necessidade de dividir, de compartilhar, de dar acesso aos que estão marginalizados, os que não têm oportunidades. Nós também sabemos que nem todos tem acesso à internet, nós sabemos sobre as burocracias. Podemos, como fotógrafos vindos de fora, dar workshops em comunidades, em espaços particulares e então propor trabalhos, agregar e produzir com as pessoas para que eles tenham acesso.

Pessoas transgêneros, especialmente mulheres trans, tornaram-se alvos de crimes de ódio no Brasil. E na África do Sul, as mulheres lésbicas viraram alvo de estupros corretivos, onde pessoas tem a idéia de que se você estupra uma lésbica ela se tornará uma mulher hetero. Assim, falando como uma pessoa lésbica por identidade, eu sei a dor de perder amigos, de testemunhar e ver que crimes de ódio acontecem dentro de minha comunidade.

OM2ºATO - A realidade da África do sul é imprescindível em seu trabalho? ZM - Falando de onde eu venho, dos últimos anos, pessoas de outros países tem testemunhado ações xenofóbicas, lesbianfóbicas e queerfóbicas. O que é importante para nós, para projetar África para pessoas de outros espaços é sustentar encontros que falam sobre as ideias falsas de nós mesmos nesses espaços que distorcem a história. É realmente importante captar o que nós conhecemos porque isso é imediato e vem de nós. E depois vem de fora. Isto é o numero um. Relatar historias que fazem sentido para nós. E elementos para as pessoas entenderem o que é Africa. Não importa para nós criar mais barreiras. África nunca teve fronteiras. As fronteiras foram impostas contra nós em contextos de diferentes línguas e diferentes tipos de significado do que somos nós. (...) Quando vemos pessoas negras ficamos instigados porque assumimos nosso passado de África mesmo diante de diferenças de língua. Há diversas relações que falam de todos os lugares. Interessa-me particularmente perguntar de onde você é, de onde você vem. Talvez 32 | omenelick 2º ATO | afrobrasilidades & afins

OM2ºATO - Estar no Brasil, na bienal e não ver pessoas negras. Como você sente isso? ZM - Há inda muito trabalho, muita coisa a ser feita. Eu acho que pessoas como nós têm a oportunidade de estar nessa bienal para dizer “não é isso que queremos ver”. Nós queremos ver mais pessoas negras presentes, nós queremos ter convergências com os locais. Coisas que tragam educação para as escolas. Nós queremos ter oportunidade de ver as comunidades porque os trabalhos que nós produzimos estão muito relacionados com as realidades de nossas vidas. Então, isso é, de certa maneira artificial.

AGRADECIMENTO ESPECIAL STEVENSON GALLERY www.stevenson.info

LUCIANE RAMOS SILVA Doutoranda em artes da cena pela UNICAMP, mestre em antropologia também pela UNICAMP, atua na área de estudos africanos, educação e artes do corpo. É antropóloga da Casa das Áfricas, professora de estudos africanos na FACAMP e de dança afro na Sala Crisantempo (SP).

Eu quero ter conversas com outras mulheres, que podem saber sobre o país de onde eu venho para além das informações pela internet que estão aí. Também vou ouvir mais vozes de mulheres brasileiras e temos que falar sobre possibilidades de como essas mulheres, vindo de outros espaços, podem a partir de alianças, enriquecer, trazer colaborações e trocas que nos possibilitem comandar. Eu quero ver mulheres reais. Eu não estou falando do tipo de mulher “Porshe cinco estrelas” . Não estou falando de sofisticação. Estou falando de mulheres reais. Mulheres reais artistas, mulheres reais que não têm medo de falar sobre política, políticas de exclusão, políticas de exploração, políticas de auto representação, políticas de todas as formas.

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BEM ME QUER, MAL ME QUER UM PEQUENO CAPÍTULO DA HISTÓRIA DO NEGRO E O RÁDIO EM SÃO PAULO POR NABOR JR

BEM ME QUER “OOOO SAMMMBA PEDE PASSAGEM! Dispara com entusiasmo o simpático e ainda jovem locutor Moisés da Rocha (1942), pontualmente ao meio-dia, no comando dos microfones da Rádio USP. A frase, que mais tarde viria tornar-se tradicional no rádio paulistano, naqueles anos de 1978, ecoava como um canhão pelas bordas, subúrbios e comunidades negras da cidade. Não por menos. Foram necessários mais de 50 anos (a primeira transmissão radiofônica do país ocorreu em 1922, durante as comemorações do Centenário da Independência) para que o ainda então principal veículo de massa do Brasil (já ao lado da TV), enfim dedicasse um dos quadros da sua programação às tradições culturais verdadeiramente de origem periféricas e afrobrasileiras. Apesar do momento político turbulento, o país vivia sobre o fardo e as sangrentas consequências das intolerâncias do regime militar (1964 – 1985), que refletiam em uma repressão ainda mais rígida sobre as manifestações artísticas - como poeticamente retrata o samba Delegado Chico Palha (1938) de Nilton Campolino e Tio Hélio - surge na Rádio USP O Samba Pede Passagem. Pela primeira vez, de fato, uma emissora em FM (Frequência Modulada) buscava estreitar a relação dos negros e suburbanos com o rádio, mas não somente através da música, seu carro chefe. Informações, entrevistas, notícias e produções das beiras da cidade eram o diferencial do programa, apontado como o pioneiro no rádio brasileiro em FM especificamente dedicado ao samba.

só. Fazia a seleção das músicas e dava para o narrador falar. Aí o Fanucchi me deu uma oportunidade como locutor. Quando eu começo a falar o programa estoura!”, lembra Moisés da Rocha. Produtor, pesquisador e locutor (oriundo de uma das primeiras, se não a primeira, geração de locutores negros do país), Moisés da Rocha, nascido em Ourinhos, interior de São Paulo, é a voz por trás do programa. “O Samba Pede Passagem surgiu em 1978, já com este nome. Antes era um programa de samba qualquer, que tocava músicas e ponto. Mas quando eu entro aí é que vira o verdadeiro O Samba Pede Passagem. Porque eu começo a falar com a periferia, tocar os sambas da periferia. O programa nunca foi só ouvir por ouvir”, conta Moisés, que iniciou sua carreira de radialista em 1967, na Rádio Cometa, em São Paulo, tendo passado mais tarde pelos microfones das rádios Jovem Pan, Gazeta, Cultura, Carioca, entre outras. Até então vistos e representados por periódicos próprios ou, no máximo, em escassos, quando não também pejorativos e negativos, “flashes” em emissoras de rádio e TV da época, os negros viam no programa a possibilidade de ressurgimento da Imprensa Negra Paulista (movimento iniciado em 1915, com o surgimento do jornal O Menelick e interrompido em 1964, pelo regime militar, que censurou os órgãos de imprensa em todo o país, fechando assim o jornal Correio d´Ébano, última tentativa de dar voz as manifestações negras). Foi somente em 1978, mesmo ano da criação do O Samba Pede Passagem, com o ressurgimento do Movimento Negro Unificado Contra a Discriminação Racial (MNU), que mais tarde deu origem a veículos de comunicação próprios, que a Imprensa Negra Paulista retomou suas atividades. “O Samba Pede Passagem nunca foi meramente um vitrolão pra tocar música. Tocar música o cara bota em casa! Nós falamos com a periferia. Anteriormente ao Samba Pede Passagem não existia um programa com o qual a comunidade negra se identificasse, muito pelo contrário. Até com a conivência de atores negros sem consciência, o rádio serviu muito até para mostrar a inferioridade do negro diante as demais etnias, com piadas preconceituosas, tipos caricatos”, diz Moisés, referindo-se ao humorista e compositor carioca Dorival Silva (1923 – 1989), conhecido como Chocolate, comediante que ao longo das décadas de 1950 e 1960 teve muito sucesso em emissoras de rádio e televisão do Rio de Janeiro e de

“O Leonardo de Castro é que me levou para a Rádio USP. Ele era locutor da Rádio Bandeirantes e também responsável pela narração do Samba Pede Passagem. Não demorou muito e ele saiu. Pro lugar dele foi pra lá um ex-parceiro meu da Rádio Jovem Pan, o diretor de criação Mário Fanucchi. Na época eu era tipo um “bam bam bam” na Jovem Pan como locutor, mas na rádio USP eu havia sido convidado para fazer a programação de samba, e 34 | omenelick 2º ATO | afrobrasilidades & afins

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FOTO MANDELACREW

São Paulo. Chocolate foi muito criticado pala militância negra do período pelo modo como se comportava, fazendo piadas com os negros. “Uma coisa é certa. O que essa molecada de hoje não faz na FM, nós fazíamos no AM”, relembra Moisés, fazendo-nos lembrar dos áureos tempos do programa, vivido nos anos 80 e início dos anos 90, quando foi diretamente responsável pelo sucesso do samba e do pagode em São Paulo ao apresentar, em muitos casos pela primeira vez aos ouvintes da capital, nomes como Zeca Pagodinho, Jovelina Pérola Negra, Fundo de Quintal, Oswaldinho da Cuíca, Geraldo Filme, Talismã, Zeca da Casa Verde, Germano Mathias, Eduardo Gudin, grupo Redenção, Dona Inah, grupo Pé de Moleque. “Esse pessoal não tinha espaço na rádio, no máximo a coluna do Plínio Marcos no jornal. Com o samba Pede passagem os nêgo veio também começam a aparecer”. O Samba Pede Passagem alcançou tamanha influência e prestígio entre seus ouvintes, que Moisés da Rocha acabou sendo convidado para ser programador na Rádio Carioca, onde fez as seleções do primeiro programa exclusivamente de samba de uma rádio no Rio de Janeiro. “A história da veiculação do samba nas emissoras de rádio paulista, não pode ser contada sem o pioneirismo do Samba Pede Passagem e nem do radialista Moisés da Rocha. Todos os principais sambistas dos Brasil devem muito ao programa. Sua ajuda em divulgar os projetos, os artistas, as músicas. Gostaria que eles se lembrassem disto”, afirma a professora aposentada Clarice Pereira, de 75 anos, ouvinte do programa desde os anos 80. Símbolo da resistência cultural afrobrasileira, O Samba Pede Passagem pode ser conferido aos sábados e domingos, nas rádios USP e Capital. MOISÉS DA ROCHA

PRÊMIOS

O Samba Pede Passagem recebeu nos anos de 1990 e 2005 o prêmio de Melhor Programa de Rádio Musical concedido pela APCA (Associação Paulista dos Críticos de Arte). 36 | omenelick 2º ATO | afrobrasilidades & afins

MAL ME QUER Se nos dias atuais, apesar das mudanças e transformações dos meios, já é possível observar algumas dezenas de programas e projetos de rádio dedicados a cultura afrobrasileira e suburbana, bem como radialistas e locutores negros (em sua maioria concentrados na mídia digital), no início da radiodifusão no Brasil o cenário era outro. É o que revelou o pioneiro estudo Cor, Profissão e Mobilidade: O Negro e o Rádio de São Paulo, publicado em 1977, pelo antropólogo e professor emérito da Universidade de São Paulo, João Baptista Borges Pereira (1929). A pesquisa, realizada entre os anos de 1959 e 1964, apresenta a inserção profissional do negro no mundo empresarial do rádio em São Paulo nos primeiros 40 anos de sua existência. Segundo Borges foi, indiretamente, apenas após a chegada da publicidade no rádio, em 1932, depois de um decreto estabelecido durante o governo Getúlio Vargas, que o negro passou a ter espaço no rádio. “Num primeiro momento, os criadores do rádio no Brasil o idealizaram com a expectativa de que ele modernizasse o país através da educação. O rádio seria o mestre dos que não sabiam ler. Esse modelo de rádio, contudo, se mostrou erudito. Depois veio a publicidade que tomou conta do rádio, somente aí o rádio se abriu para o público em geral e incorporou definitivamente a música popular”, diz. Com a mudança, a música negra, até então observada como lazer e praticada apenas em espaços específicos, como ao redor das casas de mãe de santo em manifestações que eram uma espécie de sociabilidade banhada a música, acaba sendo incorporada aos novos tempos e passa a ter vez nas rádios brasileiras. Por outro lado, o negro como profissional, continuou sendo excluído das cadeiras da estrutura empresarial do rádio. “No meu trabalho isso está muito claro (a não presença do negro no corpo de funcionários da rádio) o negro nunca está na cúpula. Cortando de cabo

“Atualmente de 87.5 a 107.9, eu ouço Seu Jorge, Marvin Gaye, Areta Franklin, Exaltasamba, Barry White. O que falta são mais programas específicos no dial, mas pra isso temos que ou captar patrocinadores ou acreditar mais em nossos planos para assim incluirmos mais musica negra nas rádios que se simpatizam timidamente pela gente”. Fábio Rogério, apresentador dos programas Espaço Rap, Festa da 105 e repórter do programa Balanço Rap. Leia a entrevista com o apresentador em omenelicksegundoato.blogspot.com

PARA LER

Cor, profissão e mobilidade: O negro e o rádio em São Paulo. João Baptista Borges Pereira Editora: EDUSP 2001 (segunda edição) afrobrasilidades & afins | omenelick 2º ATO | 37


a rabo o rádio, de maneira verticalizada, tem o setor administrativo, o setor artístico, onde está o setor musical. O negro estava dentro do rádio segregado dentro do musical só. Ele não tinha nenhuma credibilidade fora daí”, conta Borges. De acordo com Baptista, o rádio era, e continua sendo, um reflexo da sociedade brasileira: “Digamos que o rádio era excepcional a medida que incorporava o negro dentro de um lócus de trabalho . Mas ao mesmo tempo, esse lócus, que aparentemente era favorável ao negro, não era tão favorável assim. Em linhas gerais ele refletia como estava a sociedade. Assim como acontece hoje”. As conclusões do estudo Cor, profissão e mobilidade, mesmo após mais de 40 anos da sua publicação, infelizmente seguem atuais. A intensa e constante produção cultural afrobrasileira apesar de hoje já encontrar espaços em algumas das rádios do país, continua reprimida. Os negros oriundos das cadeiras de comunicação das universidades brasileiras ainda sofrem com as poucas possibilidades nas grandes (e muitas vezes nas pequenas também) emissoras. Mas se o samba pede passagem, o negro, por outro lado, aos poucos aprendeu a impor a sua, criando novas oportunidades radiofônicas e dando voz à rica produção artística afrobrasileira, a revelia de uma elite que, mesmo se apropriando desta mesma produção, insiste em ignorar a fundamental importância da contribuição negra na construção da identidade cultural do Brasil.

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PARA OUVIR

O SAMBA PEDE PASSAGEM Rádio USP FM 93,7 MHz Sábados e domingos das 12h às 14h Rádio Capital AM 1040 MHz Sábado, das 23h às 6h da manhã de domingo EDIÇÕES TORÓ: NAS RUAS DA LITERATURA edicoestoro.net RÁDIO HELIÓPOLIS 87,5 FM heliopolisfm.com.br

NABOR JR. Jornalista, fotógrafo e editor da revista O Menelick 2 o Ato

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OMENELICK2ATO ED. 07  

JORNALISMO CULTURAL, AFRO, POPULAR E URBANO.

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