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TrAnsformAção Junho/2012 • Ano XXI

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Revista Transformação Jornalista Responsável Nilza Valeria Zacarias mTB 40653/sP Coordenação do Projeto Nilza Valeria Zacarias Gidália Santana Olga Loureiro fotos Arquivo Visão Mundial Projeto Gráfico e Arte Máquina Voadora DG

A sociedade sust entá ve l é

Atendimento ao leitor fale conosco, dê suas sugestões e faça suas críticas. e-mail: transformacao_vmb@wvi.org Os artigos assinados são de responsabilidade de seus autores e não representam necessariamente a opinião da Visão Mundial. Reprodução permitida mediante autorização e posterior envio do material ao editor. Visão Mundial rua da Concórdia,677 – 2º andar são José – recife/PE CEP 50020-050 Tel.: (81) 3081-5600 Presidente Ariovaldo Ramos Vice-presidente Carlos Roberto Teixeira 1º secretário Valeria Trigueiro 2º secretário Valdir Steuernagel 1º Tesoureiro Dídimo de Freitas 2º Tesoureiro Roberto Chenk Conselho fiscal Linaldo de Souza Guerra Eude Martins Sidney Lage Nogueira Diretor nacional Eduardo Nunes Nossa Missão seguir a Jesus Cristo, nosso senhor e salvador. Trabalhar com os pobres e oprimidos para promover a transformação humana. Buscar a justiça e testificar das boas novas do reino de Deus.

www.visaomundial.org.br Apadrinhe uma criança 0800 312 320

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A revista Transformação é uma publicação da onG Visão mundial. Ela é um meio de divulgação das idéias, experiências e desafios relacionados à sensibilização e ao engajamento da sociedade na busca para os graves problemas sociais que atingem o Brasil. A Visão mundial está presente em mais de 100 países e atua no Brasil desde 1975 na erradicação da pobreza, tendo como foco de atuação as crianças e os adolescentes empobrecidos, suas famílias e comunidades.

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e ditor i a l A Visão Mundial, conforme divulgado nesta revista, causou estranheza há 20 anos, quando pediu para participar da Eco 92. O que lá fazia uma organização que trabalhava com crianças e desenvolvimento comunitário? Há 20 anos fazíamos o que fazemos agora – dedicando esforços e recursos para contribuir com o alcance do bem-estar de crianças, adolescentes e jovens que vivem nas comunidades mais pobres do país. Nosso compromisso com a transformação da sociedade nos faz trabalhar para mudar estruturas sociais e sistemas injustos que oprimem as pessoas e reduzem as possibilidades de desenvolvimento nas comunidades, em especial na vida das crianças, adolescentes e jovens.

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04| A Visão mundial e o Desenvolvimento do Planeta 06| Da rio92 à rio+20: avanços, desafios, promessas 12| Economia verde, uma nova aposta 14| um futuro sustentável para o planeta e para nós 17| Consciência 18| 3 perguntas para marina silva 20| Populacão Jovem: o futuro é o presente da par ticipação política cidadã 24| Depoimentos 27| Igrejas Eco Cidadãs 28| Produção mundial de alimentos e nutrição infantil 30| Produção de alimentos, desperdício e fome

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Sabemos que não há desenvolvimento sem sustentabilidade. E há valores e princípios, imprescindíveis para a Visão Mundial, que são também imprescindíveis para um mundo sustentável. Um deles é a participação. Para nós, é essencial garantir uma participação equânime, mesmo num mundo desigual. As pessoas precisam ser escutadas, sendo necessário ouvir o que dizem crianças, adolescentes e jovens sobre um planeta sustentável. Sabemos que crianças, adolescentes e jovens pobres representam 52% da população mundial. Outro dado importante é que sete em cada dez pessoas pobres têm menos de 25 anos. Os jovens e os pobres necessitam ser ouvidos.

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Queremos uma sociedade sustentável em que todos sejam escutados, respeitados e protegidos. A sociedade sustentável é a que admite a necessidade de se transformar – isso começa com relações de equidade, passando pela recuperação do bioma e novos paradigmas de consumo. Outro valor importante para a Visão Mundial é a responsabilidade. Administrar com responsabilidade é um imperativo para a construção de um mundo melhor. Se toda a sociedade é responsável, geramos capacidades e oportunidades para todos. Nós, da Visão Mundial, acreditamos na administração compartilhada, queremos a preservação da natureza e a preservação de pessoas. Acreditamos que a administra-

ção dos recursos naturais deve ter como pêndulo o valor da vida, da pessoa. Combatemos o consumo que gera a morte. Qualquer padrão exploratório da natureza que gera morte contraria o valor da pessoa. Impulsionados por sermos cristãos, não acreditamos na separação entre o local e o global. Fazemos as pequenas e as grandes coisas ao mesmo tempo. Quarenta mil crianças, de acordo com uma pesquisa da UFRJ, morrem por ano por causa da poluição. É necessário ter coerência para que vivamos num mundo sustentavel; é necessário ter equilíbrio entre as pessoas e os recursos que elas administram. Não existe ganho na sociedade, se não existir ganho na vida. 

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A Visão mundial Brasil (VmB) causou estranheza entre os organizadores da rio92 quando inscreveu uma delegação de 12 pessoas no evento, há 20 anos. Afinal, como uma organização focada em crianças, adolescentes e jovens poderia contribuir em uma reunião sobre o meio ambiente e desenvolvimento econômico? naquela época, o conceito de desenvolvimento sustentável ainda estava sendo consolidado e meio ambiente era considerado sinônimo de recursos naturais. no entanto, a ideia de que um sistema sustentável é imprescindível para que haja um futuro justo para todo o planeta foi adotada pela VmB ainda na década de 80, quando instituiu seu marco de Desenvolvimento Comunitário. A organização entendeu que seria impossível focar sua atuação na infância sem ter como ponto de partida a sustentabilidade, já que os impactos de ações insustentáveis do homem – como os padrões de consumo atuais, a má distribuição de riquezas, a degradação do meio ambiente – serão muito mais sentidos no futuro. não haverá futuro se não houver sustentabilidade para as crianças.

o desenvolvimento sustentável, além de falar sobre a criança como o futuro, implica principalmente em falar da criança no presente. A insustentabilidade do momento tem um impacto negativo no bem-estar da infância, e as crianças precisam ter garantidos uma alimentação saudável, o acesso à água de qualidade, uma moradia adequada, uma saúde e educação de qualidade, entre outros elementos que melhoram as oportunidades e condições de vida, além de ter também direito à voz. “A criança está muito ausente do debate e ela tem o direito de ser envolvida, não apenas por esses impactos interferirem na sua realidade, mas também porque ela é parte da resposta para o desenvolvimento sustentável. Além disso, um componente reconhecido para essa resposta é a mudança cultural. Isso é algo que toma tempo e que só será efetivado se trabalharmos com as crianças desde já. Portanto, nossas ações – independentemente dos rótulos – são de desenvolvimento sustentável”, mostra o atual Diretor nacional da VmB, Eduardo nunes.

segundo Eduardo, poderíamos citar pelo menos duas linhas de projetos que têm contribuição marcante para o desenvolvimento sustentável. uma delas nasce de experiências antigas da organização com comunidades que viviam da agricultura, percebendo a necessidade de desenvolver usos sustentáveis dos recursos nos vários biomas onde essas comunidades estavam presentes, como a caatinga, a mata atlântica e o serrado. Ainda hoje há projetos nesse sentido. Entretanto, nessa linha de projetos relacionados à agricultura, duas experiências que foram bastante emblemáticas são aquelas desenvolvidas em parceria (com duração de mais de 10 anos) com as onGs Caatinga, em ouricuri (PE), e Cooperafloresta, na região do Vale do ribeira, que envolve parte de são Paulo e Paraná. Para Paulo Pedro de Carvalho, atual coordenador geral da Caatinga, essa parceria foi “extremamente estratégica para a região do sertão de Araripe”. Paulo Pedro, por intermédio da parceria com a Visão mundial Brasil, foi professor de educação ambiental e agroecologia para famílias e

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filhos de agricultores do sertão que, hoje, são professores no tema ou agricultores bastante avançados na convivência com o semiárido. “Vivenciei essa parceria. hoje, vejo como essas famílias não apenas têm condições dignas de vida e também como preparam as condições para as gerações futuras. Estamos, por exemplo, passando este ano pela pior seca dos últimos 40 anos, e eles estão conseguindo produzir alimentos para consumo próprio e comercialização local com a água e alimento de animais estocados e sistemas de produção agroecológicos”. na mesma linha, ocorria o trabalho com a Cooperafloresta que, a partir da prática da agrofloresta, viabilizava (e continua viabilizando) melhores condições de vida para as famílias do Vale do ribeira – produzindo de maneira sustentável e comercializando solidária e coletivamente. “Dezenas de milhares de agricultores foram formados a partir desses dois projetos por meio de intercâmbios. hoje, todas as cooperativas de agricultores são filhas ou netas desse movimento. outro dia encontrei um pessoal de santa Catarina treinado pela Cooperafloresta”, conta Eduardo.

Discutir desde o acesso à terra e fixação nela (incluindo desde o direito fundiário, passando por tecnologias de produção ecologicamente apropriadas) até o fomento para comercialização dos produtos em bases mais satisfatórias para o pequeno produtor e, principalmente, reproduzir esses conhecimentos em larga escala caracteriza a maneira de atuar da Visão mundial Brasil. A outra linha de projetos que contribuem de maneira relevante para o desenvolvimento sustentável que o Diretor nacional cita é a de fortalecimento da capacidade de organização e incidência política das comunidades empobrecidas, as que mais sofrem com o desequilíbrio no desenvolvimento. os projetos de ação política de cooperativas, associações, bancos comunitários, grupos de mulheres e de jovens (em projetos como o monitoramento Jovem de Políticas Públicas – mJPoP) busca garantir que esse público faça parte das tomadas de decisão do governo. “A sociedade precisa ser menos desigual para que ocorra a sustentabilidade do desenvolvimento. As pessoas – mesmo com as

desigualdades inerentes ao sistema capitalista, mesmo havendo ricos e pobres – têm que ser ouvidas e levadas em consideração de maneira igual. só poderemos ser sustentáveis futuramente se escutarmos todas as partes interessadas, incluindo as comunidades empobrecidas e principalmente as crianças, os adolescentes e os jovens”, argumenta Eduardo. nesse sentido, a organização também já apresenta avanços alcançados ao longo desses anos como, por exemplo, ter conseguido a universalização da cisterna para a captação de água da chuva, um esforço em parceria com a Articulação do semiárido (AsA). outro exemplo é ter jovens de comunidades de vários estados do Brasil, por intermédio do projeto mJPoP, articulados e preparados para discutir sobre suas realidades em reuniões internacionais como esta: a rio+20. “Pode até haver ‘crescimento’. sem sustentabilidade, no entanto, não haverá ‘desenvolvimento’. É nisso que a Visão mundial acredita, e a Visão mundial trabalha para garantir o desenvolvimento de crianças, adolescentes e jovens do Brasil e do mundo”, finaliza Eduardo. 

“Pode até haver ‘crescimento’. Sem sustentabilidade, no entanto, não haverá ‘desenvolvimento’.

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Da rio92 à rio+20: avanços, desafios, promessas

Claudio moreira

Despertar de uma consciência

A dona de casa que vai até o supermercado e leva para casa um frango congelado provavelmente ignora que para se produzir um quilo desse alimento sejam necessários 2 litros de água – um recurso escasso e, em algumas partes do mundo, ameaçado pelo desmatamento em áreas de nascentes ou pela contaminação de lençóis freáticos. Tecnicamente, chama-se a isso de “água virtual” – conceito que vem ganhando atenção desde os anos 1990 e significa a quantidade de água por unidade de alimento empregada no processo de produção. Esse é um exemplo da interdependência entre consumo e meio ambiente. há outros. se, por um lado, a população desconhece esses aspectos da questão ambiental, ela , por outro lado, começa a dar claros sinais de que está atenta aos impactos que mudanças no comportamento podem ter na preservação do meio ambiente.Tome-se o caso da reciclagem do lixo doméstico, prática que começa a se disseminar como resultado de uma maior conscientização das pessoas.“Acredito que isso possa diminuir a poluição tanto do ar como da água, pois todo esse lixo jogado afeta diretamente nossos lençóis freáticos, contaminando nossa água; isso contribuirá também de alguma forma para diminuir o volume de lixo”, afirma a maranhense silvia Cardoso Diniz. A livreira, que mora na capital são Luís, acredita que “as discussões a respeito da preservação ambiental aparecem muito mais [hoje], e as escolas já trabalham esse assunto com as crianças”. outro exemplo do despertar de uma consciência ecológica é a eliminação das sacolas dos supermercados brasileiros, objeto de uma recente campanha da Associação

Paulista de supermercados (APAs). Embora haja quem se oponha à medida, a maioria dos consumidores parece que vai se adaptando, e as sacolas retornáveis pouco a pouco vão sendo incorporadas ao dia a dia das pessoas. “sou contra [acabar com as sacolinhas]”, diz a dona de casa miriam nunes, 63 anos. “o problema não é esse. o que fazemos com as embalagens de plástico dos produtos que compramos? Temos que reduzir o tamanho delas”, argumenta miriam. Eis aí outro sinal de como a sociedade lida com a questão ambiental e de que sua visão pode ser mais pragmática, mesmo que às vezes pareça ambivalente. nesse processo, digno de nota também é a questão ambiental vista como intimamente ligada a temas como equidade e educação. o aposentado hélio magalhães, 74, acredita que “precisa haver uma distribuição mais justas de renda [no país]” e mais “investimentos em educação”. Para magalhães, não resolveremos nossos problemas ambientais sem eliminar as injustiças sociais. É pouco? Talvez. mas, o longo caminho que ainda temos de percorrer para resolver os problemas ambientais já foi ainda mais longo – e mais cheio de obstáculos.

o espírito da rio 92 e seu legado

o ano de 1992 assistiu a uma das maiores conferências sobre o meio ambiente da história. A Cúpula da Terra ou rio 92 , na cidade do rio de Janeiro, reuniu mais de 35 mil pessoas, entre militantes do meio ambiente, chefes de governo nacionais e estaduais, di-

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“Construir um futuro ambientalmente sustentável requer nada menos do que uma Revolução, reestruturando a Economia Mundial, modificando dramaticamente o comportamento reprodutivo humano e alterando valores e estilos de vida.” L e s te r Brown ,

Presidente do WorldWatch International

plomatas, líderes empresariais, cientistas, estudantes e mesmo religiosos como o Dalai Lama, que organizou uma vigília durante o evento. A esse número juntou-se um batalhão de 9 mil jornalistas. Durante doze dias, homens e mulheres se debruçaram sobre as ameaças que pendiam – e ainda pendem – sobre nossas cabeças e das futuras gerações: o homem havia criado uma armadilha para si mesmo ao ignorar os limites da natureza e ao explorar seus recursos como se fossem infinitos. A Conferência das nações unidas sobre meio Ambiente e Desenvolvimento era nossa oportunidade de consertar as coisas. Ao final do encontro, convenções e tratados foram assinados. havia razões para preocupação – o buraco na camada de ozônio aumentara, espécies desapareciam mais rapidamente, florestas eram derrubadas numa velocidade maior, as emissões de dióxido de carbono cresciam em todo mundo, e os mares e rios estavam cada vez mais poluídos –, mas também era possível ter esperança e acreditar que seríamos capazes de pagar a conta do meio ambiente, uma conta que a natureza estava cobrando com as alarmantes mudanças climáticas – aumento da temperatura da Terra, elevação do nível dos oceanos, secas e enchentes incomuns. Em Estocolmo, vinte anos antes da rio 92, o mundo já havia sido alertado sobre o impacto das suas ações no meio ambiente e o desequilíbrio que isso causava. Compareceram à Conferência das nações unidas sobre meio Ambiente humano representantes de 113 países, além de um número considerável de agências e organizações intergovernamentais. As organizações não governamentais tiveram participação nula durante o encontro. Estocolmo 72 marcou a passagem da indiferença para a conscientização – governos e sociedade sabiam que não podiam mais ignorar a questão ambiental. mas Estocolmo 72 foi uma iniciativa dos países industrializados, e os países do então chamado de Terceiro mundo tiveram pouca influência nos debates e nas decisões ali tomadas. Estocolmo 72 produziu o Programa das nações unidas para o meio Ambiente, o sistema Global de monitoramento do meio Ambiente, a Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies Ameaçadas e o Programa da reserva da herança da Biosfera mundial. uma curiosidade sobre Estocolmo 72: rené Dubos e Barbara Ward escreveram, especialmente para a conferência, Only One Earth – The Care and Maintenance of a Small Planet [uma Terra apenas – o cuidado e a preservação de um pequeno planeta], uma espécie de livro-manifesto com uma visão bastante pessimista do futuro, prefaciado por ninguém menos que maurice strong, o homem por trás tanto da Estocolmo 72 quanto da rio 92, con-

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Entre a Rio 92 e a Rio+20, o mundo assistiu a uma piora considerável em vários dos indicadores que medem a degradação do meio ambiente. O aumento da desertificação em países da África e do desmatamento na Amazônia são exemplos dessa piora.

siderado o responsável por “globalizar” a causa ambientalista. strong também foi o primeiro Diretor executivo do Programa das nações unidas para o meio Ambiente. uma década se passou desde Estocolmo 72, e os avanços foram tímidos. À época, a onu criou uma comissão para repensar tudo e propor caminhos e estratégias para enfrentar os cada vez mais urgentes desafios colocados pelo meio ambiente. Após quatro anos de trabalho, a comissão publicou o relatório “nosso futuro Comum”, um verdadeiro divisor de águas na questão ambiental. ficara patente que a destruição do meio ambiente afetava mais os países pobres do que os ricos. Também foi no relatório que apareceu, pela primeira vez, o termo “desenvolvimento sustentável”. “nosso futuro Comum” também apontava para algo ignorado naquela época: a questão ambiental não podia ser vista sem seu vínculo com os problemas sociais – como a fome – e sua forte relação com os sistemas econômicos. Estava preparado o terreno para a rio 92. maurice strong foi outra vez recrutado para organizar a Cúpula da Terra. Durante os

encontros preparatórios para a rio 92, foram relacionados 21 temas de interesse que seriam o foco dos debates na conferência. os mais importantes eram: biodiversidade, mudança climática, saúde ambiental, recursos marinhos, a camada de ozônio, pobreza, resíduos tóxicos e meio ambiente urbano. observadores notaram a fraca referência à crise populacional – já se sabia, àquela altura, que tínhamos pela frente um problema do tamanho de 7 bilhões de seres humanos dividindo um planeta de recursos finitos e em acelerado declínio; em 2050, serão 9 bilhões de habitantes, e, para alimentar toda essa população, será necessário dobrar a produção atual de alimentos. A rio 92 produziu uma série de documentos, entre os quais estão tratados e acordos multilaterais sobre diversidade biológica, mudança climática e florestas e a Carta da Terra – uma espécie de declaração de princípios (basicamente de natureza ética), que serviria como bússola para nos guiar em nossa relação com o meio ambiente e na construção de uma sociedade “global justa,

sustentável e pacífica”. o mais importante e controverso dos documentos produzidos pela rio 92, porém, talvez seja a caudalosa e complexa Agenda 21 – um plano de ação que cobre uma lista enorme de atividades humanas – desde uso do solo e das fontes de água à reciclagem de resíduos, da produção de alimentos à gestão da biodiversidade, do transporte nas cidades às políticas de saúde pública etc. na época da rio 92, seu presidente estimou em $125 bilhões anuais o tamanho da ajuda que os países mais pobres deveriam receber para proteger e preservar seu meu ambiente. nem é necessário mencionar que foi grande a oposição a essa proposta por parte dos países ricos – principalmente os EuA. Também se opuseram à ideia de “estabilizar” a emissão de gases-estufa aos níveis de 1990 até o ano de 2000. os americanos se negaram a assinar o tratado sobre a biodiversidade e a convenção sobre a proteção das florestas, assim como o acordo para que o país destinasse 0.7% de seu PIB para financiar programas ambientais em países pobres. A

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explicação da delegação americana para não ter assinado vários dos tratados negociados na rio 92 era que eles eram prejudiciais às empresas americanas. Ao final da conferência, os americanos e a administração Bush foram retratados como intransigentes e o principal obstáculo para que se chegasse a um consenso sobre uma agenda global para o meio ambiente.

mudança?

Para as novas gerações, a preocupação com o meio ambiente pode, às vezes, ganhar contornos de um pessimismo desconcertante. “É uma grande ilusão [a eliminação das sacolas plásticas]; é uma ação local para um problema global”, pondera Tiago Genoveze. formado em letras, o auxiliar de atendimento na Biblioteca são Paulo (são Paulo) é uma dessas vozes que veem com desconfiança encontros como a rio+20. “não sei nada sobre essa conferência”. mas Genoveze admite, por outro lado, que “os problemas [ambientais] estão cada vez mais visíveis”. Essa maior visibilidade da questão ambiental pode ser medida por um conjunto de sinais que apontam para uma mudança de mentalidade – e, espera-se, de atitude. Tal mudança – lenta, mas constante e, com sorte, duradoura – pode ser vista, por exemplo, nas ruas e avenidas das cidades – grandes ou pequenas. As quase ubíquas lixeiras coloridas para “reciclar” lixo se incorporaram à paisagem e são encontradas hoje em parques, escolas, shopping centers, prédios públicos, edifícios comerciais e condomínios. outro sinal de que a preocupação com a preservação do meio ambiente já não é uma bandeira exclusiva de ecologistas paranoicos e cientistas alarmistas é o crescente espaço que ela vem ganhando na agenda de governos, empresas, onGs, sindicatos, agricultores e até movimentos religiosos. Pode ser ainda tímido e incipiente, mas é um progresso em relação ao passado de indiferença. Quem abre um jornal ou assiste ao noticiário na televisão tem hoje mais chances de ler ou ouvir palavras como “efeito estufa”, “camada de ozônio”, “biodiversidade”, “sustentabilidade”, “tecnologias de baixo carbono” e “energia limpa”, só para citar alguns dos termos e expressões ligados à questão ambiental que pouco a pouco vêm sendo incorporados ao nosso dia-a-dia. Do mesmo modo, nas escolas, crianças e adolescentes se envolvem em projetos e ações ecológicas como parte integral das atividades curriculares. nas empresas, são criados programas de educação ambiental, que incentivam – e premiam – a participação dos empregados. Ainda não são práticas disseminadas em larga escala pela sociedade e, só com uma dose grande de ingenuidade,

é possível acreditar que as pessoas estejam assim tão conscientes a ponto de ter como prioridade, por exemplo, o destino que dão aos resíduos que produzem diariamente. onde esse progresso talvez seja mais evidente – e consistente – é na visibilidade e importância que onGs dedicadas a causas ambientais passaram a gozar. os projetos Tamar e mata Atlântica, por exemplo, recebem apoio de governos e empresas, envolvem centenas de pessoas e têm o status de preservacionistas mais antigos como o Greenpeace e o WWf.

Agenda 21. Entre utopia e realidade

É consenso entre especialistas, governantes, observadores e preservacionistas que o progresso alcançado nas últimas duas décadas para retardar as piores consequências de uma população em crescimento num mundo de recursos limitados e em declínio acelerado tem sido insuficiente. É preciso fazer mais. Por exemplo, dizem especialistas, é preciso reformar tanto o Programa das nações unidas para o meio Ambiente (PnumA) quanto o Programa das nações unidas para o Desenvolvimento (PnuD). Além disso, é preciso colocar ordem no cipoal de tratados e acordos multilaterais existentes atualmente – hoje são mais de 500! Em comparação a Estocolmo 72, a rio 92 avançou muito – e em várias direções. um desses avanços foi o fato de que, pela primeira vez na história das cúpulas da onu, a participação não se restringir a chefes de Estado e governo – explica-se: cúpula é reservada para conversas entre os representantes máximos de cada país. A Cúpula da Terra teve a participação de várias onGs, que se reuniram no fórum Global. Dos seus debates, nasceu a Declaração do rio, que ficou conhecida como Carta da Terra. mas poucos discordarão que – pelo menos em termos de ideais –, a maior contribuição da rio 92 para a equacionar crescimento econômico com respeito ao meio ambiente foi a Agenda 21. A rio 92 significou também a passagem do idealismo de Estocolmo 72 – na época, vigorava a ideia ingênua de que “a capacidade do homem melhorar o meio ambiente cresce a cada dia” – para um uma visão mais realista e pragmática sobre a questão ambiental. A abundância de propostas e documentos – entre elas, as Convenções do Clima e da Biodiversidade, a Comissão para o Crescimento sustentável, os Princípios das florestas e a abrangente Agenda 21 eram um claro sinal de que a conversa agora era para valer. De forma simplificada, a Agenda 21 é um plano – ambicioso, sem dúvida – para repensar

o crescimento econômico, promover a equidade social e assegurar a proteção ambiental. Qualquer um envolvido, mesmo que marginalmente, com a causa ambientalista sabe que a humanidade atingiu um ponto crítico em sua evolução enquanto espécie dominante: sua sobrevivência depende de encontrar uma maneira de compatibilizar seu padrão de consumo com os limites da natureza. Em outras palavras, nosso futuro está inextrincavelmente ligado ao futuro do meio ambiente. E a Agenda 21 é nosso mapa para esse duplo futuro – ou, pelo menos, deveria ser, segundo seu proponentes. Esse documento, longo e complexo, é uma defesa dos ideais e benefícios do desenvolvimento sustentável. A Agenda 21 cobre praticamente todos os aspectos da vida moderna e pode servir tanto como uma ferramenta de planejamento como de aferição. É composta de 115 diferentes programas – alguns bastante específicos – e cobre oito áreas: Agricultura, Biodiversidade e Gestão do Ecosistema, Educação, Energia e habitação, População, saúde Pública, recursos e reciclagem e Transporte e Desenvolvimento Econômico sustentável. A Agenda 21 catalisou a atenção de todos não só porque oferecia caminhos para se resolver os urgentes problemas de então (década de 1990) mas também porque, de forma presciente, antecipava os desafios que a humanidade enfrentaria no século seguinte. houve progressos desde sua promulgação, mas não na intensidade nem na velocidade que todos desejavam menos ainda com a urgência que exigia – e exige – a condição ambiental. Cabia – e cabe –, em primeiro lugar, aos governos a implementação da Agenda 21. o próprio documento fala de Agenda 21 Local, o que implica trazer para o processo governos locais e a sociedade. Para quem conhece a onu, essa chamada à participação de atores fora da esfera governamental – sociedades civis, sindicatos, grupos locais, cientistas, onGs –, é particularmente comum quando se trata da questão ambiental. Isso, por um lado, aumenta enormemente as vozes a serem ouvidas e torna complexo o processo de construção de consenso; por outro, impede, pelo menos em tese, que as decisões beneficiam os grupos de interesse com maior poder de fogo. mas, se a Agenda 21 é um marco na história, algo recente, das iniciativas globais para mitigar os danos ao meio ambiente e assegurar o crescimento econômico sustentável com equidade e tenha se tornado nossa maior – e melhor – aposta para garantir o futuro do planeta, é justo perguntar quanto dessa agenda se tornou realidade – em que áreas os progressos foram mais significativos e em quais houve piora desde a sua divulgação. o debate sobre as mudanças climáticas é hoje praticamente o mais visível dos problemas ambientais e tem recebido quase que toda a atenção dos governos e da mídia.

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A poluição de fontes de água potável e ecosistemas marinhos, a acumulação de produtos tóxicos e a redução da biodiversidade, por exemplo, passaram, nos últimos anos, a meros coadjuvantes. Por outro lado, mesmo a Conferência Climática Copenhagen 2009 (ou CoP-15) não avançou muito além da retórica diplomática e dos usuais alarmes emitidos pela comunidade científica de que o apocalipse está virando a esquina, e não há coletes para todos. Desde a rio 92, várias instituições ligadas às questões ambientais como o PnumA estão sob pressão para ser reformadas. Do mesmo modo, certos marcos institucionais como a Convenção-Quadro das nações unidas sobre a mudança do Clima também vêm sendo alvo de críticas. A Cúpula da Terra de Johannesburgo, em 2002, a última a ser realizada, foi um fracasso completo. Quase nenhum dos países que contavam – e contam – para se chegar a qualquer consenso em torno de planos de ação e desembolso estava presente. A maioria dos países ali representados evitaram comprometer-se com acordos multilaterais, preferindo o modelo das “parcerias público-privadas” e o estabelecimento de objetivos de menor escopo. Contou ainda o fato de que acordos recém-assinados no âmbito da organização mundial do Comércio tornou difícil – se não impossível – para a maioria dos países comprometerem-se com ajuda para os vários fundos que financiam os projetos e programas da onu. no ano da CoP-15, especialistas e observadores já detectavam uma considerável piora em todos os indicadores ambientais e previam um futuro ainda mais sombrio para a humanidade. Andrew Deutz, diretor de relações governamentais internacionais da nature Conservancy e um dos organizadores da Cúpula de Johannesburgo, foi um desses observadores a desenhar um cenário futuro nada animador: “Vamos nos perguntar como será o mundo em 2050: nove bilhões de pessoas, uma economia três vezes maior e uma maior escassez de terra e água. Como administramos isso?” Do lado positivo, o maior avanço desde a rio 92 foi sem dúvida o papel que os BrICs passaram a desempenhar. Brasil, rússia, Índia, China e África do sul hoje são atores de peso na economia mundial. Do ponto de vista geopolítico, esses países são líderes regionais, e todas as negociações importantes no âmbito das organizações multilaterais – fmI, Banco mundial, onu e outros – não avançam sem seu apoio. foi-se o tempo que falávamos apenas em G7 ou G8. o G20 é hoje uma instância com poder e representatividade em todos os fóruns de relevo – mas principalmente os econômicos. Que a cidade do rio tenha sido outra vez escolhida para sediar uma conferência sobre

meio ambiente e desenvolvimento é mais do que uma demonstração de “cortesia”. Em 1992, a cidade era útil como estratégia de marketing, e os organizadores da rio 92 capitalizaram em cima dos inegáveis atrativos do local. mas em 2012, a razão é outra: o crescente protagonismo – regional e internacional – do Brasil. mas os emergentes também entram na equação por outro motivo: suas emissões de gases de efeito estufa cresceram – hoje eles são responsáveis por 35% das emissões mundiais. Isso os obriga a assumir uma maior responsabilidade, inclusive no que diz respeito a desembolsos. É uma mudança considerável. Aliás, equação é mesmo o termo apropriado para se referir à pletora de problemas que a Agenda 21 tenta solucionar. Controlar as emissões de dióxido de carbono, trocar matrizes energéticas poluidoras por fontes de energia limpa, rever o padrão de consumo dos países industrializados, acabar com a pobreza, reduzir a perda diária de biodiversidade, parar o avançado processo de desertificação em países da África, proteger as fontes de água potável, garantir relações de trabalho justas. Como um roteiro para um futuro sustentável, a Agenda 21 tem estado sob ataque nos últimos anos. Alguns, seguindo a teoria da

conspiração, veem nela uma ameaça à soberania dos Estados-nação e um ataque à propriedade privada e ao direito à livre iniciativa etc. obviamente é um exagero. Desde a rio 92, vários países e mesmo cidades têm se esforçado para implantar as políticas para tornar o desenvolvimento sustentável em algo mais do que uma palavra de ordem. E a Agenda 21 é a visão por trás dessas iniciativas, inspirando muitos em buscas de soluções que tornem possível crescer sem destruir o planeta, compatibilizar as demandas sociais com os imperativos econômicos. Vinte anos depois, a Agenda 21 talvez permaneça mesmo aquilo que ela é: uma fonte de inspiração mais do que um manual de instruções. milhares de cidades ao redor do globo já criaram suas versões locais da Agenda 21 com o objetivo de orientá-las a planejar seu próprio “futuro sustentável”. A cada ano cresce também os países com versões nacionais da agenda, quase sempre no âmbito de pastas ligadas ao meio ambiente ou de conselhos nacionais para o desenvolvimento sustentável. Grandes corporações assim como empresas de médio porte adotaram o “triplo pilar” – econômico, social e ambiental –, que toma a forma de programas de responsabilidade socioambiental. 

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Embora seja difícil quantificar e avaliar todas as iniciativas inspiradas na Agenda 21 – seja na esfera das políticas públicas criadas pelas nações, seja no âmbito dos programas e projetos financiados por empresas, seja ainda no campo das ações da sociedade civil –, uma passada de olhos sobre o conjunto de tratados, acordos, protocolos e convenções emanados da Rio 92 permite ter uma ideia da sua variedade e escopo.

Aprovado em 1997, o Protocolo de Kyoto é – a despeito do boicote que tem recebido de países como os EUA e de seu até aqui fraco impacto – um marco no controle da emissão de gases efeito estufa. A meta era que essas emissões caíssem abaixo dos níveis de 1990 – mais especificamente, 5% menor que esses níveis. Atualmente, essa meta está sendo revisada. A Convenção sobre a Diversidade Biológica foi outra novidade bem-vinda. Ela obriga os países a proteger plantas e espécies animais por meio da preservação do seu habitat. O Protocolo de Cartagena sobre Biossegurança, adotado em 2000 e ratificado por mais de 20 países, tem como objetivo reduzir os riscos de deslocamento de espécies vivas entre as fronteiras nacionais, mesmo que seja para fins de pesquisa – não é segredo que a biopirataria é um sério problema. A Convenção de Combate à Desertificação entrou em vigor em 1996. O acelerado e assustador processo de desertificação – a degradação de terras cultiváveis em regiões áridas e semiáridas do planeta – ameaça a vida de mais de 1 bilhão de pessoas. Apesar do apoio que recebeu – mais de 179 países a subscreveram –, a convenção ressente-se de financiamento. O Acordo sobre Estoques de Peixes foi adotada em 1995 e entrou em vigor em 2000. A meta é impedir que os estoques mundiais de peixe sejam reduzidos a níveis perigosos devido à pesca intensiva ou ilegal. Sabemos que 80% da poluição marinha se origina em fontes na terra – estima-se em mais de 1 bilhão o número de habitantes em regiões costeiras cujas atividades são uma constante ameaça à vida marinha. A luta para evitar a destruição das florestas tropicais é uma das principais bandeiras da causa ambientalistas – talvez até a face mais conhecida dessa luta. os chamados Princípios das Florestas abrangem mais de cem propostas de ação para impedir os desmatamentos e, ao mesmo tempo, gerar recursos para proteger as florestas. 11

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Economia verde , uma nova aposta fonte: radar rio+20 http://www.radarrio20.org.br

Economia Verde é uma expressão de significados e implicações ainda controversos, relacionada ao conceito mais abrangente de Desenvolvimento sustentável, consagrado pelo relatório Brundtland de 1987, e assumido oficialmente pela comunidade internacional na rio-92, gradualmente tomando o lugar do termo “ecodesenvolvimento” nos debates, discursos e formulação de políticas envolvendo ambiente e desenvolvimento. A ideia central da Economia Verde é que o conjunto de processos produtivos da sociedade e as transações deles decorrentes contribua cada vez mais para o Desenvolvimento sustentável, tanto em seus aspectos sociais quanto ambientais. Para isso, propõe como essencial que, além das tecnologias produtivas e sociais, sejam criados meios pelos quais fatores essenciais ligados à sustentabilidade socioambiental, hoje ignorada nas análises e decisões econômicas, passem a ser considerados. o ecodesenvolvimento foi mencionado inicialmente pelo canadense maurice strong, primeiro diretor executivo do Pnuma (Programa das nações unidas para o meio Ambiente) e secretário-geral da Conferência de Estocolmo (1972) e da rio-92. foi strong quem pediu ao economista e sociólogo polonês Ignacy sachs que desenvolvesse o conceito para inspirar documentos e projetos do Pnuma, criado na conferência. sachs escreveu vários livros e artigos sobre o ecodesenvolvimento, que compreende cinco dimensões da sustentabilidade: social, econômica, ecológica, espacial e cultural. Em sua autobiografia intitulada A Terceira margem, sachs conta que o termo caiu em desgraça em consequência da repercussão negativa que teve no governo dos Estados unidos a Declaração de Cocoyoc, aprovada em outubro de 1974, na cidade mexicana de mesmo nome e que tratava de Educação Ambiental. Embora não haja consenso teórico sobre uma definição universal do Desenvolvimento

sustentável, a expressão popularizou-se no mundo a partir da rio-92. Depois da conferência, a expressão foi sendo pouco a pouco absorvida por governos, corporações e entidades da sociedade civil, geralmente relacionada à formulação e execução tanto de políticas públicas quanto de iniciativas privadas ligadas à responsabilidade socioambiental. uma parcela dos movimentos sociais e ambientalistas e pesquisadores das áreas de meio ambiente e desenvolvimento têm questionado o que consideram a banalização, ou esvaziamento, do conceito de Desenvolvimento sustentável, erroneamente apresentado como objetivo de práticas superficiais e de pouca relevância. É o que se tornou conhecido como greenwashing ou maquiagem verde, em português. Em outras palavras, avaliam que, para muitos a expressão transformou-se em artifício para melhorar a imagem pública de governos e empresas, sem que seu uso traduza mudanças efetivas na sua gestão e práticas, sintonizadas com os princípios e diretrizes emanados da rio-92 por meio de seus principais documentos. há, também, movimentos sociais que veem no Desenvolvimento sustentável uma nova roupagem para o sistema econômico, que até implicaria melhorias em áreas como eficiência energética e gerenciamento da água, mas que não modificaria o capitalismo contemporâneo em seus fundamentos, sobretudo o da maximização do lucro, o rebaixamento dos custos de produção e – especialmente – a mercantilização da vida e da natureza. Ainda que essa nunca tenha sido a proposta original de Desenvolvimento sustentável. A diminuição de restrições ambientais, característica do neoliberalismo dos anos 1980 e 1990, e a falta de internalização das externalidades (ou seja, a não valoração e não contabilização dos impactos socioambientais negativos nos preços de bens e serviços) reforçam a equação básica da maximi-

zação do lucro e rebaixamento dos custos de produção. Do mesmo modo, a transformação de bens comuns em mercadorias – por exemplo, a compra e venda de espaço na atmosfera por meio do mercado de emissões de carbono – é vista por alguns desses movimentos não como a forma de gestão de um patrimônio natural, mas como meio de criação de novos mercados e mercadorias, passíveis de especulação e de apropriação privada, e assim capazes de servir à contínua acumulação capitalista. segundo estudiosos e ambientalistas, uma solução para os dilemas teóricos com a formulação do Desenvolvimento sustentável seria substituí-lo ou, ao menos, subordiná-lo a outro ainda mais abrangente, o de sociedades sustentáveis. De alguma maneira, a ideia da sociedade sustentável resgata a pioneira formulação do ecodesenvolvimento por ser composta de várias dimensões da sustentabilidade (característica de uma situação que pode manter-se em equilíbrio ao longo do tempo), incluindo a cultural. “sociedade sustentável” soa, ainda, compatível com a noção de sustentabilidade, que geralmente é utilizada para ampliar o escopo do “Desenvolvimento sustentável”, questionado por alguns que o entendem como um termo que traz implicitamente a noção de crescimento contínuo, e também mais associado à dimensão econômica do que ao modelo de sociedade como um todo, com seus múltiplos aspectos culturais e materiais. Ecodesenvolvimento, sustentabilidade, sociedade sustentável, economia de baixo carbono, economia sustentável, economia inclusiva e economia solidária. Esses jargões – e muitos outros no campo do Desenvolvimento sustentável – possuem definições várias, muitas vezes ambíguas e imprecisas. Assim, mais importante que a definição precisa de cada termo é a noção de que todos eles sintetizam ideias para chamar a atenção da opinião pública e dos especialistas quan-

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to à necessidade de tornar os processos de desenvolvimento e os instrumentos econômicos ferramentas de promoção da igualdade social e erradicação da pobreza, com respeito aos direitos humanos e sociais e conservação e uso sustentável dos recursos naturais. o mesmo ocorre com a expressão Economia Verde, mas com uma importante diferença: ao ser colocada no centro dos debates da rio+20, passou a ser vista como um grande guarda-chuva, sob o qual, espera-se, poderão se abrigar e articular as várias propostas de alcance mais específico. Por exemplo, a Economia Verde é mais abrangente

do que a economia de baixo carbono, visto que não se limita a processos econômicos com baixa ou nenhuma emissão de gases de efeito estufa. Ela inclui processos relacionados ao combate às mudanças climáticas de origem antrópica, mas também trata de reverter outras tendências insustentáveis, quer sociais – como o consumismo e a crescente desigualdade – quer ambientais – como a vasta contaminação dos ecossistemas e do próprio corpo humano por substâncias químicas. Pode-se afirmar que a economia de baixo carbono está geralmente contemplada pela Economia Verde, mas esta vai além, pois implica promover processos limpos de

produção e consumo que não agravem as tendências atuais de rompimento dos limites dos sistemas naturais que garantem a manutenção de nossas condições de vida no planeta. Como elemento do Desenvolvimento sustentável, a Economia Verde também deve ser necessariamente inclusiva, demandando a erradicação da pobreza, a redução das iniquidades e a promoção dos direitos humanos e sociais, segundo preconizam seus principais defensores junto a fóruns internacionais e agências multilaterais, como o Pnuma, o Banco mundial e a organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (oCDE). 

Visão mundial, Banco Inter amer icano de Desenvolvimento e sebr ae – Juntos produzindo sustentabilidade O projeto Redes de Desenvolvimento – Redução da Pobreza através da Integração Regional das Capacidades Locais de Negócios – desenvolve e implementa um modelo de intervenção em larga escala, eficiente e integrado, que contribui para a redução da pobreza, e o aumento da renda das famílias participantes. Com oito filhos para criar e viúva, Jeane precisou de muita força e garra para vencer: "A minha história tem por nome superação, tive uma vida difícil, mas graças à fé em Deus e minha determinação consegui realizar o sonho de sustentar meus filhos", conta a co-

merciante. Economia é palavra-chave na vida de Jeane, que como participante do Redes, entendeu que é possível reproduzir para outras pessoas um novo modo de viver, desenvolvendo a comunidade em que vive, respeitando o ambiente e garantindo dessa integração o sustento e equilíbrio necessários para uma vida de qualidade. O ponto de venda de materiais de construção, aberto por Jeane, contribuiu para o fortalecimento da economia local por meio do empreendedorismo e do fortalecimento socioeconômico comunitário.

Conhecimento compartilhado – Para o Redes funcionar são realizadas reuniões semanais, e a cada encontro são tratados temas como democracia, organização social, igualdade e transparência, questões ambientais e sustentabilidade. Cada participante passa por um processo de desenvolvimento humano e cidadania, comunitário e local. É um processo que valoriza a potencializa as capacidades locais já existentes, empoderando as pessoas. A pessoa, grupo ou instituição empoderada é aquela que realiza – por si mesma – as mudanças e ações que levam a evoluir e se fortalecer, como dizia o educador Paulo Freire.

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um futuro sustentável para o planeta e para nós A rio+20 pode ser nossa última chance de encontrar soluções para os prementes problemas ambientais. Governos, multinacionais, comunidades locais, o cidadão comum – todos têm algo a ganhar (ou perder) com a Conferência. Da taxa de carbono à destinação correta de resíduos, da mudança de padrões de consumo à redução de emissão de poluentes, da produção de energia limpa à preservação das nascentes, da moratória do desmatamento à despoluição dos mares, da erradicação da pobreza à criação de empregos justos, da taxação dos ricos às ações para reduzir a mortalidade infantil na África subsaariana, da segurança alimentar a controles sobre o uso da energia nuclear: a pletora de questões na mesa de negociação na rio+20 tem essa abrangência. Empolga, mas também assusta – quem se habilita a construir um consenso em torno de solução viáveis? o conceito de futuro sustentável e seu correlato, desenvolvimento sustentável, são hoje moeda corrente nos encontros, cúpulas e conferências sobre o meio ambiente. A Comissão Brundtland definiu o segundo como: “Desenvolvimento que assegura a satisfação das necessidades do presente sem comprometer a capacidade das futuras gerações de satisfazer as suas”. Implícita nessa definição, está a ideia de que desenvolvimento sustentável deve levar em conta tanto a dimensão econômica do desenvolvimento quanto suas consequências sociais e ambientais — vivemos num mundo de recursos finitos e em declínio. “sustentabilidade” implica, por um lado, compatibilizar objetivos diferentes e garantir que a conquista de uns não inviabilize a realização de outros. E aí é inevitável que questões de cunho ético e político intervenham. Por exemplo, existe 1.3 bilhão de pessoas sem acesso a água potável e limpa, 2 bilhões para quem não chega a eletricidade, quase 3.5 bilhão que não contam com esgoto tratado, perto disso vive com menos de 2 dólares por dia e os famintos já se contam em 1.4 bilhão.

Quem colocou essas pessoas nessa condição? mesmo que o leitor se posicione mais à direita no espectro político e veja com desdém as ideias de esquerda sobre justiça social e equidade, é perturbador saber que, numa época de superabundância de riqueza, a desigualdade no consumo penaliza tantas pessoas. Em 1998, a onu publicou o relatório sobre o Desenvolvimento, que estimava: “20% das pessoas dos países com a renda mais alta respondem por 86% do total das despesas com consumo — os 20% dos países mais pobres respondem por minúsculo 1.3%”. É impossível ficar indiferente a tamanha disparidade. Em tempo: maior consumo significa maior uso dos recursos do planeta e, logicamente, maior responsabilidade pelos danos que isso causa ao meio ambiente. no começo dos anos 2000, já ficara evidente que os dez anos passados desde a rio 92 foram uma “década perdida”. Em parte, isso se deveu à falta de vontade política; em parte, porque, desde a Cúpula da Terra, disseminou-se a ideia de que implementar a Agenda 21 e criar um futuro sustentável custa caro, muito caro. Essa visão das coisas é compartilhada tanto pelas nações ricas quanto pelos países em desenvolvimento. Dez anos atrás, a onG Panos London indiciava: Em muitos países – ricos e pobres – isso é comum devido à percepção de que sustentabilidade custa caro para implantar e, em última instância, seria um impedimento ao desenvolvimento. os países pobres, por sua parte, em geral sofrem com a falta de infraestrutura, ideias e capacidade humana para integrar sustentabilidade em seus planejamentos para desenvolvimento. Além disso, eles são céticos quanto ao real compromisso dos países ricos com um desenvolvimento sustentável e demandam uma divisão mais equitativa dos custos e responsabilidades ambientais. muita gente também acredita que os problemas ambientais podem esperar até que os países em desenvolvimento se tornem ricos. [...]

Em um estudo publicado em 2005 e financiado pelo Banco mundial, a onu e a Global Environment facility, o milennium Ecosytem Assesment [Avaliação Ecossistêmica do milênio], ficou claro que salvar o planeta requer inteligência e vontade, mas principalmente consenso sobre a urgência dessa missão. o documento, que pode ser lido na íntegra em http://news.bbc.co.uk/2/shared/bsp/hi/ pdfs/30_03_05_boardstatement.pdf) adverte: • Todo mundo depende da natureza e dos seus serviços ambientais para ter condições decentes, saudáveis e seguras de vida. • os seres humanos fizeram alterações sem precedentes no meio ambiente em décadas recentes com o fim satisfazer sua crescente demanda por comida, água potável, fibras e energia, e isso têm ajudado a melhorar a vida de bilhões, mas, ao mesmo tempo, enfraqueceu a capacidade da natureza de prover serviços-chave como a purificação do ar e da água, proteção contra desastres, provisão de medicamentos. • As atividades humanas conduziram o planeta à fronteira da extinção massiva de espécies, ameaçando ainda mais nosso bem-estar. • A perda de serviços derivados dos ecosistemas é uma barreira significativa à realização das metas do milênio para reduzir a pobreza, a fome e a doença. • As pressões sobre os ecosistemas crescerão globalmente nas décadas futuras a menos que atitudes e ações humanas mudem. • medidas para conservar os recursos naturais têm maiores chances de serem bem-sucedidas se forem dadas às comunidades locais sua titularidade, a partilha dos benefícios e se estiverem envolvidas diretamente nas decisões tomadas. • mesmo as tecnologias e o conhecimento de que dispomos hoje podem redu-

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zir consideravelmente o impacto humano nos ecosistemas. • uma melhor proteção dos ativos naturais requer esforços coordenados de todos os setores do governo, empresas e instituições internacionais. A produtividade dos ecosistemas depende das opções de políticas sobre investimentos, comércio, subsídios, taxação e regulação, entre outros. Está evidenteque um futuro sustentável é nossa única opção. mas o tempo está se esgotando – como estão os recursos do planeta. Pouco a pouco, no entanto, uma ideia começa a se tornar difundida: a de que, se atribuirmos um valor econômico aos recursos naturais, talvez mudemos nossa atitude em relação ao uso dos serviços ambientais que a natureza nos fornece e passemos a medir os custos ambientais na produção de riqueza. A civilização ocidental sempre colocou grande valor na produção de riqueza. As economias de capitalismo avançado (união Européia, Estados unidos, Canadá e Japão, por exemplo) tornaram-se opulentas nos últimos

200 anos graças à exploração máxima de seus recursos naturais e de outras partes do globo. mas as crises financeiras que têm se abatido com relativa frequência sobre essas economias nos últimos dez anos — talvez num perído superior a duas décadas, se incluírmos a crise dos anos 1980, conhecida como a década perdida — nos ensinaram uma dura lição: precisamos mudar nossa mentalidade e rever a maneira como produzimos riqueza. numa época de recursos escassos e crescente demanda, essa mudança pode significar buscar maneiras mais eficientes de produzir ou simplesmente reduzir o consumo. ou tomar a forma de uma nova economia. no capitalismo, por exemplo, existe um mecanismo conhecido como “signal de preço” – característica atribuída aos preços de indicarem que um recurso está se tornando escasso. Em tais circunstâncias o mercado age para reduzir os custos. Em geral, busca-se o uso mais eficiência dos recursos ou substitutos mais baratos. mas um equívoco está embutido nesse raciocínio: preços, em geral, não levam em consideração os custos ambientais – e sociais – da produção de um bem ou serviço.

É ingênuo, no entanto, apostar todas as fichas numa a solução meramente econômica para o dilema crescimento econômico e preservação ambiental. Primeiro, porque criar um futuro sustentável exige, antes de tudo, superar diferenças, vencer resistências e contornar interesses localizados. Essa é uma tarefa para governantes, diplomatas e sociedade civil – e ela é eminentemente política, porque se trata de construir consensos. segundo, porque as dimensões econômica, social e tecnológica do crescimento sustentável subordinam-se a uma visão holística – ou seja, não existe “uma” solução global para o problema, mas estratégias e ações coordenadas que atravessam essas várias dimensões. Terceiro, porque quantificar os “custos ambientais” envolvidos na produção de riqueza é apenas uma parte da tarefa. nosso futuro comum, portanto, depende de reconhecermos que a humanidade sobreviverá apenas na medida em que ela for capaz de colocar limites à sua exploração dos recursos naturais e compatibilizar seus padrões de consumo com a finitude desses recursos. Amanhã – como hoje – nosso futuro é o futuro do planeta. 

Desenvolvimento sustentável é desenvolvimento que assegura a satisfação das necessidades do presente sem comprometer a capacidade das futuras gerações de satisfazer as suas.

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De volta à presidência da Visão mundial Brasil, posição que ocupou de 2002 a 2008, Ariovaldo ramos é pastor e professor. foi membro do Conselho de segurança Alimentar da Presidência da república, no governo Lula, onde defendeu a adaptação das políticas publicas ao direito a alimentação adequada. Em seus textos e sermões, está sempre presente o compromisso de que, como cristãos, cabe a defesa e a promoção da vida, da criação, da justiça, da equidade, e a valorização e oportunidades para os pobres e os vulneráveis. Ariovaldo também defende a responsabilidade ambiental: “Somos chamados para administrar o planeta, esta é nossa responsabilidade. Há uma relação estreita entre cuidar do planeta e seguir os ensinamentos de Jesus. Inclusive, Jesus veio para o resgate da criação”. Jesus e a Terra – “Jesus era atento à atividade da terra, haja visto as parábolas utilizando a vida do agricultor. Ele era totalmente submisso a lei judaica, lei que prevê o descanso para a terra, para que seja revitalizada.” Igreja – “A igreja pode ser uma embaixadora da reconciliação socioambiental por meio do cuidado, do ensino, da educação pró meio ambiente. Da conscientização de que somos responsáveis pelo planeta e podemos desenvolver projetos nessa direção.” Consumo – “o ser humano não pode consumir num padrão que exauri a capacidade da terra. o desequilíbrio consiste basicamente na exploração, na famosa mais valia e acumulação por parte dos proprietários dos meios de produção de todos os bens. Isso força o surgimento de uma massa de pobres, que terão muitas dificuldades em trabalhar sua subsistência, saúde e a qualidade de vida. Isso também é ecossistema. A situação do pobre o obriga ter com o meio ambiente uma relação inadequada, por força da pobreza, é obrigado a comprometer o bioma onde vive. Além do que, esse desequilíbrio no consumo dá ocasião ao luxo e ao supérfluo que acontece as custas da qualidade, da manutenção do planeta.”

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C o n s ciênc i a

Ariovaldo ramos

“E Deus os abençoou e lhes disse: sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra e sujeitai-a; dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus e sobre todo animal que rasteja pela terra” (Gênesis 1,28) Esse verso, conhecido como o mandato cultural – a ordem de Deus para que a raça humana se expanda e assuma o planeta – geralmente tem sido interpretado como uma permissão para que a humanidade exerça total domínio sobre a criação, multiplicando-se de forma indistinta. no entanto, é simplesmente o contrário. Essa fala divina, na verdade, está inserida no contexto mais amplo da responsabilidade e do relacionamento. o que Deus fez foi entregar o mundo aos cuidados da raça humana, quando ainda éramos seus parceiros, antes de nossa queda por desobediência. Portanto, ver o mandato cultural numa perspectiva predatória, que é uma das marcas da rebelião da raça humana contra o Criador, é um contrassenso. não combina com o caráter de Deus, com o estado da humanidade na ocasião e, muito menos, com a conclusão divina sobre a sua criação: “Viu Deus tudo quanto fizera, e eis que era muito bom” (Gênesis 1,31). o problema é que adotamos parâmetros totalmente equivocados ao seguir a indicação de Deus, quando Ele diz ‘dominai’. Entre as muitas formas de exercer domínio, escolhemos o modelo anti-ecológico que praticamos atualmente, com os resultados nefastos conhecidos por todos. Entretanto, o contexto das Escrituras sagradas fala de um modelo divino inequívoco: “Tomou, pois, o senhor Deus ao homem e o colocou no jardim do Éden para o cultivar e o guardar” (Gênesis 2,15). ou seja, Deus propôs que o planeta fosse um grande jardim. um jardim cuja essência é comunitária e no qual a be-

leza reside no conjunto: pressupõe harmonia e partilha de recursos, numa engenharia em que a sobrevivência e a necessidade de crescimento de todos os seres sejam garantidas. Em outras palavras, desenvolvimento sustentado. no projeto de Deus, o homem é um jardineiro, com a peculiaridade, impor tante, de ser par te do jardim. E a restrição prescrita a todas as espécies – de não ameaçar a existência das demais – recai, por excelência, sobre o jardineiro: somos nós os responsáveis por administrar o relacionamento do planeta com os seus ocupantes, e destes entre si. não temos, por tanto, o direito de ocupar de modo ilimitado os espaços do planeta, ou de canalizar todos os recursos para nós, ou de qualquer movimento que ponha em risco a sobrevivência do planeta. fazemos par te e somos dependentes do equilíbrio ecológico. Estabelecer limites para a nossa expansão sobre o planeta é um imperativo. se, desde o princípio, tivéssemos sido o jardineiro consciente que o Criador desejou, a experiência do jardim comunitário, da vida solidária, tornaria natural a busca por um desenvolvimento sustentado. Bem, não o fomos. Ao contrário, tornamo-nos a antítese do jardineiro. Logo, duas questões, imbricadas entre si, foram tornadas urgentes: a racionalização do consumo e a consequente recuperação do bioma. Assim, todos os meios salutares devem ser usados para que nossa existência não seja a causa da falência do planeta. não é tarde para apreendermos a perfeição do jardim de Deus. 

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3 p e r gu n t a s p a r a

M ari na Si l va O que a senhora acha que mudou no Brasil quanto às questões socioambientais desde a Rio 92? Avançamos nesse quesito? Evoluiu a consciência das pessoas. Basta considerar que, mais de 20 anos atrás, Chico mendes foi assassinado, e apenas meia dúzia de pessoas estavam envolvidas com a causa da Amazônia. hoje há toda a polêmica em torno do Código florestal e pesquisas de opinião mostram que 80% dos brasileiros preferem pagar mais pelos alimentos para proteger a floresta. Creio que são os maiores indicadores de que a consciência é outra. Isso ainda não se traduz em mudança de atitude, mas há muitos passos nessa direção. nas duas décadas passadas, evoluiu também a base legal para a proteção de nossos ativos ambientais. Temos agora uma lei de crimes contra a natureza, o mapa dos biomas brasileiros e das zonas prioritárias para conservação da biodiversidade, uma lei nacional das águas e um sistema nacional de unidades de conservação, com 70 milhões de hectares de áreas preservadas. orgulho-me de saber que, desse total, 24 milhões de hectares foram criados durante a minha gestão como ministra do meio Ambiente, de 2003 a 2008. se não houvesse essa evolução de consciência, sequer

teria sido possível implementar o Plano de Combate ao Desmatamento, que levou à redução de 80% da derrubada da floresta graças à inibição de 1,5 mil propriedades ilegais e à aplicação de 4 bilhões de reais em multas.

Tal consciência despontou nos políticos ou nos cidadãos? sobretudo nos cidadãos. Apesar disso existe um retrocesso, em que a maioria dos políticos quer alterar o Código florestal e a legislação de criação de terras indígenas no Brasil. Também removeram as competências do Ibama para fiscalizar o desmatamento, e, no primeiro ano da presidente Dilma, nenhum hectare de unidade de conservação sequer foi criado. Vejo, então, um paradoxo: enquanto aumenta a consciência ambiental das pessoas, notamos um recuo da representação política, pautada por grupos – ainda que minoritários – mais conservadores, na questão socioambiental. É um fenômeno que acontece no mundo inteiro. há um lobby pesado contra qualquer medida nos Estados unidos em relação à Convenção do Clima. mas, em boa par te da sociedade mundial, cresceu a consciência socioambiental.

Como pretende promover essa mudança? Com mobilização e educação para que as atitudes sustentáveis não se transformem em um peso na hora de economizar energia, separar o lixo ou decidir quem será seu representante na política. A sustentabilidade deve ser entendida como um ideal de vida que precisa estar na popa – como um motor a nos impulsionar – e não na proa, apenas como uma bandeira para exibir. não basta conhecer o jogo, é preciso saber jogar. mas, entre o conhecimento e o saber, há um longo caminho. E essa é uma mudança civilizatória, que deve ser de todo mundo ao mesmo tempo e agora. Também não é apenas uma questão de se adaptar; acho até que, em alguns pontos, teremos de nos desadaptar. uma desadaptação criativa, uma descontinuidade produtiva. mesmo que não saibamos ainda como é a mudança que desejamos, podemos descontinuar a realidade que não queremos ver prosperando. A humanidade já consome 50% mais recursos naturais renováveis do que o planeta é capaz de regenerar. Isso acontece quando apenas 16% da população mundial é responsável por 78% do consumo total. se todo o mundo consumisse como os habitantes mais ricos do planeta, seriam necessários quase cinco planetas para suprir esse consumo. 

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Em quase 30 anos de vida pública, Marina Silva ganhou reconhecimento dentro e fora do país pela defesa da ética, da valorização dos recursos naturais e do desenvolvimento sustentável. Foi ministra do Meio Ambiente no governo Lula. 19

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População jovem: o futuro é o presente da par ticipação política cidadã

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te

Portanto, ouvir e considerar a perspectiva de Que o jovem é o futuro do planeta, disso todo mundo já ouviu falar: seja jovem, seja adulto, crianças e jovens não apenas leva a resultados seja idoso. É claro que eles serão os políticos, pro- melhores no desenvolvimento, como também fessores, médicos, motoristas, jornalistas, enfim, os garante que gerações futuras sejam mais saudácidadãos que tomarão conta do mundo amanhã. veis, mais educadas, empoderadas e resilientes. A Entretanto, é bem verdade também que crianças, participação significativa desse grupo pode levar adolescentes e jovens fazem parte da geração a bons resultados em longo prazo para a própria atual de cidadãos globais e representam aproxi- criança – à medida que ela se torna mais conmadamente metade da população de países em fiante, adquire habilidades de liderança e valores desenvolvimento. Entendendo que a participação democráticos – e para as comunidades onde ela desse público é crucial para o desenvolvimento vive – melhorando o relacionamento entre adulsustentável do planeta. Diversas organizações e tos e crianças que será fundamental em socieredes mundiais trabalham para garantir o proces- dades com taxas de violência urbana crescentes. Investir em crianças e jovens no presente é so de inclusão dessa fatia da sociedade nas deciimportante inclusive por razões macroeconômicas, sões políticas. Para o secretário executivo da redlamyc*, pois garante que o desenvolvimento seja progresJorge freire, a participação de crianças e jovens é sivo e multiplicado, em vez de desfeito. uma pesum direito que precisa ser garantido pelos países quisa realizada pelo Overseas Development Institute e Save the Children* mosque assinaram a Contra que “uma melhoria de venção sobre os Direitos 5% na sobrevivência de da Criança das nações Uma coisa é estarmos aqui crianças eleva o cresciunidas. “Aqueles Estados falando, pensando e fazendo econômico em 1% que assumiram o comprojetos por eles, outra coisa mento ao ano durante a década promisso com a Conseguinte”**. venção e com o Comitê é quando eles estão Assim, como garandos Direitos da Criança construindo conosco, tir que essa participação do mesmo órgão têm aconteça de forma efetiva? a responsabilidade de a partir de suas realidades. Primeiramente, é impresadequar seus estatutos para que esse grupo seja escutado e para que cindível ressaltar que a participação deve ser signiseus aportes sejam levados em conta nas tomadas ficativa e isso ocorre “quando a informação pública de decisão em temas relativos a eles. Já há alguns está amplamente disponível e fácil para crianças avanços nesse sentido na América Latina e Cari- e jovens compreenderem, quando se desenha a be, porém, lamentavelmente, esta ainda não é uma partir de uma gama de pontos de vista, usa uma variedade de métodos e quando as decisões são prática comum”, argumenta. Crianças e jovens desempenham um papel na tomadas de forma cooperativa”***. Ela deve acontecer continuamente, sem ficar sociedade em geral tanto de usuários dos serviços públicos quanto de consumidores e contri- restrita a eventos periódicos, como, por exemplo, buintes para a economia doméstica e, cada vez o período de eleições. A participação deve darmais, estão ativamente envolvidos em redes so- -se em processos contínuos formais e informais ciais online e mídias sociais. Eles são afetados não que variam desde a escala de decisões familiares, apenas pelas políticas voltadas para a infância e passando por projetos comunitários até uma pojuventude, como pelas políticas destinadas a seus lítica de governo. mesmo que decisões informais pais e ao mundo ao redor deles. os meninos e não sejam políticas públicas, elas, por si só, são meninas têm também, por natureza, a capacidade uma maneira de cultivar a cultura da participação, de serem agentes fundamentais na mudança de principalmente na esfera local. nesse caso, a concultura e inovação, sendo público-chave na trans- tribuição local de crianças e de jovens pode ser utilizada por organizações de defesa da infância formação do mundo. “A inclusão desse grupo na discussão polí- para influenciar políticas públicas nas esferas natica é ainda um desafio, principalmente para os cional e global. “A participação significativa começa quando, adultos. mas a experiência tem mostrado que os resultados são muito mais próximos do que desde o primeiro contato com o adolescente, melhor se adéqua a realidade deles sendo, por nós nos aproximamos para saber o que eles esconsequência, mais sustentáveis. uma coisa é es- tão discutindo entre si, descobrir os temas que tarmos aqui falando, pensando e fazendo projetos interessam a eles – as mídias sociais, o corpo, enpor eles, outra coisa é quando eles estão cons- tre outros – e, aos poucos, agregarmos a questão truindo conosco, a partir de suas realidades. Ainda do controle social, do funcionamento das políticas temos muito que aprender sobre como fazer essa públicas, etc. Este não é um processo rápido, e inclusão, mas já há alguns bons resultados nesse exige paciência para que possa ser efetivo. Assim sentido”, opina a secretária nacional do fórum eles vão sendo preparados para ter os argumennacional de Defesa dos Direitos da Criança e do tos necessários para discutir seu ponto de vista”, explica Irismar. Adolescente (fnDCA), Irismar santana.

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A participação significativa deles em formação de políticas, monitoramento e avaliação de sua implementação pode ainda ser fortalecida por meio da legislação e políticas de apoio que garantam e protejam esse direito, o que requer uma vontade política e compromisso consideráveis. A capacitação de pessoas-chave dentro da sociedade que lidam diretamente com as crianças (pais, professores, profissionais da saúde) também desempenha um papel fundamental para que a participação significativa aconteça. Por fim, a capacitação das próprias crianças e jo-

vens deve ser fortalecida antes de engajá-los no processo de formação política. finalmente, deve-se notar que nem todos os meninos e meninas se interessarão em participar nos processos políticos. seus dons e interesses devem ser respeitados, e as formas que eles querem participar – em atividades culturais, recreativas ou sociais – precisam igualmente ser consideradas oportunidades e contribuições importantes, fruto da expressão deles. 

* redlamyc: rede Latinoamericana e Caribenha pela Defesa dos Direitos de Crianças e Adolescentes. ** Anderson, E. and hague, s., 2007,The impact of investing in children: assessing the cross-country econometric evidence, overseas Development Institute and save The Children,Working Paper 280, London. *** World Vision International. hearing their voices, valuing their perspectives: the role of children and youth in citizen participation.

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Crianças e jovens: A Visão mundial concorda com a definição legal das nações unidas de crianças como pessoas menores de 18 anos. no entanto, na realidade, participar das decisões políticas com a mesma oportunidade de um adulto não começa até que o indivíduo esteja com 20 anos ou mais. A percepção de idade e maturidade pode variar em diferentes contextos. Portanto, para a participação política, a Visão mundial refere-se a “crianças e jovens” como um grupo com participantes com menos de 26 anos.

monitor amento Jovem de Políticas Públicas e rio+20

SAIBA MAIS http://visaomundial.org.br/ http://www.mjpop.com.br/ http://www.redlamyc.info/ http://www.forumdca.org.br/

há três anos, a Visão mundial vem desenvolvendo o projeto monitoramento Jovem de Políticas Públicas (mJPoP) junto com jovens de comunidades de diversos estados no Brasil, como Ceará, rio de Janeiro, Bahia, Amazonas, Pernambuco, Paraíba entre outros. Por intermédio dessa metodologia, os meninos e meninas interessados em participar são capacitados em serviços e políticas públicas, com o objetivo de monitorar serviços públicos de sua comunidade, sendo ponte entre os moradores e os governos locais. no ano passado, os participantes do mJPoP e jovens de comunidades de outros países da América Latina onde a Visão mundial atua representaram suas comunidades na Conferência mundial dos Determinantes sociais em saúde, evento da organização mundial de saúde. Diante da fala de uma adolescente em uma das mesas do evento, o atual Diretor Geral da ouvidoria do sus, Luiz Carlos Bolzan, disse estar “encantado” com a iniciativa e procurou a organização para agregar esse processo ao processo de escuta do sus. “nosso entendimento, na saúde, é que a participação de crianças e adolescentes é muito mais que importante: é o desejável. Chamou a minha atenção o fato de que aquela jovem não estava naquela conferência para pedir assistência, mas falava como participante da discussão dos determinantes e na elaboração de políticas de saúde. o encontro com a Visão mundial e juventude naquele evento foi, para nós, o marco inicial de um trabalho direto com esse público”, relatou o diretor. os jovens do mJPoP estão participando de eventos paralelos e do principal desta

Conferência sobre Desenvolvimento sustentável das nações unidas, a rio+20. uma delegação – formada por 20 jovens de estados como Ceará, Bahia, Pernambuco, rio de Janeiro, Amazonas e minas Gerais – apresentará o documento feito por eles, com o apoio da Visão mundial, e realizado por meio de uma consulta realizada entre jovens do país em temas relacionados ao desenvolvimento sustentável como a segurança alimentar, estrutura, saúde, educação, participação e mudanças climáticas. na opinião de Jorge freyre, “para um evento tão importante sobre o desenvolvimento, onde haverá muitas consultas, dinâmicas, as crianças e jovens não foram envolvidos de forma séria e respeitosa ao compromisso com a Convenção sobre os Direitos da Criança. há uma invisibilidade de temas da infância e adolescência nesse evento. Essa falha é de responsabilidade, principalmente, do governo, que é o setor, por excelência, de garantia dos direitos”, diz ele mostrando que, de fato, o mundo ainda tem muito que desenvolver em relação a este tema em nome de um desenvolvimento sustentável.Crianças e jovens: A Visão mundial concorda com a definição legal das nações unidas de crianças como pessoas menores de 18 anos. no entanto, na realidade, participar das decisões políticas com a mesma oportunidade de um adulto não começa até que o indivíduo esteja entre os seus 20 anos. A percepção de idade e maturidade pode variar em diferentes contextos. Portanto, para a participação política, a Visão mundial refere-se a “crianças e jovens” como um grupo definido entre seus 26 anos abaixo. 

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felipe Augusto, 18 anos, sítio serra do mel, rn

depoimentos

“Hoje em dia, os próprios governantes falam que a base é a educação. Se eles investissem realmente na educação, acho que não teríamos tanta degradação, pois as crianças que vão nascendo agora cresceriam com outra ideia sobre o mundo, preservando o meio ambiente com a ideia de ajudar uns aos outros. As pessoas seriam mais felizes, e o mundo também ganharia com isso”.

“Eu quero viver num mundo parecido com a praça aqui de frente de casa. Limpinha, cheia de árvores e de espaço pra gente brincar. E sempre tem gente e bichos. Tem lugar pra todo mundo. Éimportante saber usar a água porque a água do planeta tá acabando e todo mundo, até os bichos, precisam dela pra viver. Eu uso só o que preciso pra lavar a mão, tomar banho e pentear o cabelo. E pra beber também. Não escovo os dentes com torneira ligada. E sou o guardião das torneiras. Não deixo meu pai ficar com ela aberta muito tempo e fecho quando tá pingando”. Thiago, 7 anos, vive em são José dos Campos, sP

“O planeta está piorando, estão desmatando, matando animais, jogam sujeiras nas ruas e nos rios. Se continuar assim, não vai ter um mundo melhor. No Japão despoluiram um rio. Então é possível aprender fazer coisas boas e parar de destruir. Precisa acabar com a corrupção. Os políticos pegam dinheiro publico, que é de todo mundo, para eles. Minha irmã deixa as torneiras abertas, não pode, tem que lembrar sempre que não podemos desperdiçar. Por que sou responsável por cuidar do planeta? Porque vivo nele.” José, 11 anos, Capão redondo, sP

“Para o mundo ser melhor, tem que ser limpo. As pessoas não podem poluir muito não. Não podem sair matando os animais e as plantas, um futuro melhor tem crianças brincando nas ruas, tem que arvores. A agua vai ser um problema, as pessoas precisam aprender a economizar agua, e os políticos precisam ser melhores, temos que cobrar mais deles. Quando eu estiver com 30 anos, quero ser fotografa”. Andreina, 11 anos, Capão redondo, sP

“Eu brinco na rua e tenho muitos amigos. Quero ser bonita e trabalhar quando eu crescer, quero viver num lugar cheio de amigos.” Gabriela, 7 anos, Capão redondo, sP

“Um mundo melhor é um lugar de paz, de sossego, com menos violência. Com plantações, para ninguém morrer de fome, com políticos melhores. Eu nunca estudei, minha filha estuda e aprende, o mundo dela vai ser melhor que o meu.” 24

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marilene, 29 anos, mãe da Gabriela e de um menino de dois anos.

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“O governo devia melhorar o transporte público, e as pessoas voltarem a andar mais a pé, como antigamente, ou usar meios alternativos de transporte, por exemplo a bicicleta. Quanto mais carros, mais ruas têm que ser construídas e aumenta a cidade, aumentando também a poluição e o desmatamento. O mundo seria muito melhor se as pessoas não usassem meios de transporte como carros, motocicletas, aviões, que poluem o meio ambiente. O povo e os políticos precisam mudar sua maneira de viver no mundo.Ter a consciência de que o que você faz vai mudar o futuro do planeta e afetar quem vem depois de você”. Ludmira, 23 anos, sítio Trapiá (rn)

“Um futuro ideal para todos engloba muita coisa, inclusive a politicagem no Brasil. Eu sei que cada pessoa contribui com alguma coisa de formas diferentes, também somos responsáveis pelo futuro. Mas a vontade política e até das grandes empresas influencia muito. O futuro seria muito melhor se os políticos tivessem mais compromisso não apenas conosco, mas com eles mesmos e com o país deles”. Pedro henrique, 25 anos, sítio Trapiá, rn

Quando eu crescer eu quero que tudo esteja lindo e fofo, que as coisas estejam boas. Quero que tenha muitas árvores e bichos. Muitas árvores para a gente respirar. As árvores dão papel e fazem a gente respirar. E que tenha coração no nosso coração e coração nas árvores. Clara, 4 anos, são Paulo, sP

“Quero viver num mundo mais limpo, em que haja muitas crianças. Crianças que não precisem trabalhar, que possam estudar, comer, assistir TV, ter água para tomar banho, espaço para brincar. Os adultos devem trabalhar. Quero um mundo que tenha florestas, e, para as florestas existirem, só depende de nós”. Carla, 9 anos, Capão redondo, sP

Quero viver num mundo saudável, sem guerra, sem fome, sem pobreza. Um mundo em que todos se ajudem e sejam iguais. Os políticos devem entender que estão no poder para representar o povo e não para desviar dinheiro público. Nós devemos fiscalizar e protestar contra os políticos, devemos conhecer as propostas e votar nos que vão contribuir para melhorar a sociedade e o país em que vivemos. Eu quero participar da vida política do Brasil, e quero viver num mundo melhor, em que não falte água, e a criação de Deus seja respeitada. Lethicia mariah, 14 anos, são Paulo, sP

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murilo Jansen, 15 anos, recife, PE

depoimentos

“Acho que o lixo é um dos piores problemas hoje aqui na minha comunidade e em vários lugares do mundo. Os canais estão poluídos, os esgotos entupidos de lixo e quando chove as ruas enchem de água contaminada causando doenças. É papel nosso e dos políticos contribuir para que no futuro o lixo seja destinado para os locais adequados”.

Eu espero que o futuro seja igual aos filmes, com carros voadores, casas modernas e também com mais árvores. Quero ter uma esposa, filhos e um bom emprego. Mas acho que no futuro não vai ter tantas árvores assim. Eu gostaria que a gente preservasse a água, pois sem água agente não poderia viver. Ah, e gostaria que meus filhos se ligassem em vídeo game, mas na natureza e em brincar também. Pra ajudar eu não gastaria água, nem muita energia. Eu não destruiria arvores só pra construir mais coisas. Só poderia arrancar arvores com uma razão e não a toa. E plantaria duas outras no lugar da que foi arrancada. Eu também não poluiria o ar. E pra não gastar água, não devemos tomar banhos demorados e não deixar a torneira aberta enquanto escovamos os dentes. Os políticos poderiam fazer o mesmo que a gente e também não jogar lixo. Eu acho que se eles não ficassem tão mandões e fizessem mais leis para cuidar do meio ambiente seria bom. Gostaria que cada pessoa tivesse uma casa e que não tivessem pessoas vivendo na rua, não é legal. E eu gostaria que as crianças tivessem um lugar pra ficar. Porque toda criança tem que ser tratada com carinho. Pedro, 8 anos, são Paulo, sP

Eu espero que no futuro tenham naves e não carros, que eu seja cientista e que os prédios sejam diferentes. Acho que o mundo vai estar cheio de pessoas e robôs que ajudem a gente. Eu queria que o mundo ficasse muito bonito, sem lixo e sem barcos de pesca grande, sem pesca de baleias. Acho que quando eu for grande o mundo vai estar melhor. Também acho errado que as crianças não possam brincar com brinquedos de meninos e meninas. Acho que as meninas deveriam poder jogar futebol na televisão. Para ajudar o mundo eu vou dar comida pra todo mundo e cuidar de mim. Quero ter uma loja que tenha muitas besteiras e coisas saudáveis, tudo de graça. Eu quero que a casa de todo mundo seja bonita e sejam incríveis. Que todos tenham uma casa pra morar. Eu vou abrir um negócio pra fazer casas pra quem é pobre. Eu vou ajudar a limpar o planeta, vou pegar um aspirador de pó grande e pegar todas as bactérias. Tem que ter leis boas para ajudar o planeta. Os políticos tem que fazer uma boa saúde para todos e também roupas muito quentes para os dias que são frios. O trabalho do prefeito é proteger todo mundo, ele pode inventar muitas coisas que ajudem a gente e que salve a natureza. Eu lavo e coloco água nas plantas e queria que só existisse gente boa. Queria que tivesse um monte de arvores perto da represa, ficar na represa é bom e é muito legal árvores. Gabriel, 6 anos, são Paulo, sP

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O que é

Igrejas Ecocidadãs são pessoas e organizações cristãs que se uniram para incentivar o envolvimento da igreja evangélica na temática socioambiental. Esta união foi impulsionada pela Conferência das nações unidas sobre Desenvolvimento sustentável (também conhecida como rio+20) que ocorrerá em junho no rio de Janeiro (rJ). Cremos que Deus é o sustentador da vida, criador do universo e a nós confiou o cuidado e o cultivo do seu jardim (Gn 2.15). Por meio de Cristo, cremos também que Deus reconciliou consigo mesmo todas as coisas, estabelecendo a paz – incluindo a relação do ser humano com o meio ambiente (Cl 1. 19 e 20).

Objetivo

nosso objetivo é informar e envolver a igreja evangélica nas discussões socioambientais e assim, contribuir para que este tema seja também parte da agenda da igreja. Este processo de informação e envolvimento compreenderá o período anterior a rio+20 (janeiro a

junho) e também após, por meio de materiais informativos e atividades.

Como começou

Em novembro de 2011, várias organizações se reuniram em são Paulo (sP) para iniciar o processo de mobilização e participação da igreja evangélica na Conferência das nações unidas sobre Desenvolvimento sustentável (rio+20), e do processo paralelo organizado pela sociedade civil, a Cúpula dos Povos.

Organizações participantes

As organizações que compõem este coletivo são: ACEV e ACEV social, Associação de Líderes Evangélicos de felipe Camarão – ALEf, Aliança Bíblica universitária do Brasil – ABuB, Aliança Evangélica Brasileira, A rocha Brasil, Asas de socorro, Conselho Latino Americano de Igrejas - CLAI, Diaconia, Editora ultimato, Evangélicos pela Justiça – EPJ, ImosP-CmsP (Igreja missionária de sP – Comunidade missionária de sP), Instituto marina silva – ImAs, ministério Ecoliber da Igreja Batista da Liberdade, missão Base, rádio Trans mundial (rTm), rede fale, rede Evangélica nacional de Ação social – rEnAs,Tearfund e Visão mundial.  27

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João Evangelista J. santos, Engenheiro agrônomo, mestrando em ciências do solo pela universidade federal rural do semiárido

Produção mundial de alimentos e

nutr ição infantil João Evangelista J. santos,

nunca se produziu tanto alimento no mundo, desde que o homem nômade se fixou a uma determinada região do planeta e começou a cultivar o solo e a domesticar animais criando a agricultura e a pecuária. no entanto a fome e a miséria assolam mais de um terço da população mundial, fazendo vitimas em todos os continentes com maior ou menor grau de intensidade e abrangência. segundo dados da fAo, a cada ano são produzidos alimentos suficientes para abastecer 12 bilhões de seres humanos. Esse dado nos remete ao seguinte questionamento. Como se explica a existência de tantos famintos na população mundial se há no mundo apenas sete bilhões de pessoas a ser alimentada? A agricultura mundial em seu processo de modernização tem refletido o equivocado modelo de desenvolvimento civilizatório adotado pela humanidade. o movimento de modernização da agricultura – chamado de revolução verde iniciado nos anos 60 e que prometia acabar com a fome no mundo, a partir do aumento da produtividade e da produção agrícola por meio do uso da mecanização, da ampla utilização de fertilizantes químicos e de métodos eficazes de controle da irrigação – não tem conseguido dar resposta à questão do acesso aos alimentos. Ao contrário, onde o modelo se implantou, o que ocorreu foi aumento da concentração da renda e dos meios de produção, com reflexos

significativos na ampliação da insegurança alimentar e nutricional da população pobre. A revolução se concentrou majoritariamente em grandes estabelecimentos agrícolas ao redor do mundo, gerando desigualdades entre aqueles que ponderam adquirir equipamentos e insumos, e os pequenos agricultores de países em desenvolvimento desprovido de tal capacidade. Dessa forma, o movimen-

A desnutrição infantil ainda presente, principalmente no hemisfério sul, surge como uma consequência das profundas desigualdades sociais provenientes do modelo de sociedade por nós adotado. to que pretendia erradicar a fome no mundo acabou contribuindo para o aumento da pobreza no campo, levando à falência milhares de unidades familiares por submetê-las a concorrência com empreendimentos com grande capacidade de investimento. os impactos econômicos, sociais e ambientais desse modelo não podiam ser piores: abandono do campo por milhares de família e migração para as grandes cidades, resultando no aumento do

contingente de desempregados na periferia das metrópoles, no aumento da concentração da terra, na substituição das florestas por monocultivos, na erosão dos solos e no assoreamento de rios e lagos, na contaminação de águas e alimentos com agroquímicos, no empobrecimento dos pequenos produtores e das comunidades que vivem da agricultura familiar. o fato é que, mesmo nas regiões que assimilaram com voracidade revolução verde, muitos camponeses nunca puderam adquirir os novos meios de produção e progredir em rendimento e em produtividade. Eles, portanto, também foram empobrecidos pela falta de competitividade e baixa dos preços agrícolas, e ainda sofreram as consequências da degradação ambiental resultantes desse movimento. De todo modo, embora de forma altamente insustentável, é inegável o aumento da produção mundial de alimentos nos últimos 50 anos. Esse aumento de produção, no entanto, não tem se traduzido em disponibilidade dos alimentos e acesso à boa alimentação para as populações mais pobres do planeta, demonstrando que o acesso à alimentação não é meramente uma questão de aumento de produção – vale a pena destacar que a fome é um fenômeno mais social e econômico do que alimentar e revela um modelo de desenvolvimento que privilegia

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agrupamentos sociais e marginaliza e exclui crianças, mulheres, negros e grupos historicamente alijados do processo de desenvolvimento. Entre esses grupos excluídos, as crianças são sem dúvida as mais vulneráveis pela condição de total dependência de seus cuidadores. A desnutrição infantil ainda presente, principalmente no hemisfério sul, surge como uma consequência das profundas desigualdades sociais provenientes do modelo de sociedade por nós adotado. Considerando que a infância não está dissociada do seu contexto familiar e do seu ambiente sócio político, o bem-estar das crianças e a melhoria da sua condição alimentar e nutricional está diretamente relacionada com a capacidade de suas famílias de prover e de melhorar sua condição de sustento. Estar bem alimentada e nutrida depende muito da capacidade da sua família de adquirir e fornecer os alimentos necessários para seu desenvolvimento integral. nesse contexto é pouco provável que se consiga progressos no combate à fome e à miséria sem que haja um forte processo de descentralização de tecnologias de produção, dotando os países da América Latina, África e Ásia com capacidade técnica e com financiamento para o desenvolvimento de aditividades agropecuárias e de beneficiamento da produção. necessitamos de uma nova revolução no mundo atual, um novo movimento que amplie a produção sustentável e a diversidade dos alimentos, ao mesmo tempo em que facilite o acesso a esses alimentos pela população pobre. A agricultura continua sendo fundamental para o crescimento da economia mesmo em países ditos desenvolvidos e urbanizados, e a agricultura familiar já demonstrou que tem grande potencial para responder de forma satisfatória a essa demanda.

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Produção de alimentos,

desperdício e fome Paulo César martins

Na sua opinião, como produzir mais alimento sem ameaçar a preservação do meio ambiente? A sociedade sempre busca soluções, à medida que os problemas aparecem. muitas vezes com atraso, mas, de alguma forma, o problema é resolvido. nem sempre no nível ótimo, mas quase sempre num nível dito “satisfatório”. no setor da agropecuária não é diferente. É necessário aparecer um problema – e isso aparece todos os dias – para então sairmos em busca de uma solução. Antes era necessário condições adequadas de solo, umidade, períodos de sol, latitude, altitude, para a produção de determinado tipo de grão. Exemplo: até 40 anos atrás a latitude obrigatória era do paralelo 30° ao 40° (sul ou norte) para produção de milho, trigo. hoje, com as variedades de sementes desenvolvidas pela EmBrAPA, produzimos soja, milho, trigo, arroz, na faixa da linha do equador. Portanto, podemos hoje produzir grãos sobre terrenos até há pouco tempo tidos como inférteis ou de baixa qualidade para a produção agrícola de alta produtividade. A elevadíssima produção do cerrado brasileiro é uma prova de que estávamos errados. sem avançar um quilômetro na floresta amazônica ou regiões de proteção ambiental, podemos produzir o dobro preservando o meio ambiente. outro ponto importante é a irrigação. Existe tecnologia e linhas de financiamento para a irrigação racional das lavouras, sem desperdício de água. Em outras palavras, poderíamos irrigar adequadamente uma determinada lavoura – como, por exemplo, a de arroz – com apenas um décimo do que gastamos com métodos tradicionais de produção de arroz em alagados. mas falta extensão rural no Brasil para divulgar estas tecnologias. Temos técnicos e técnicas de qualidade. falta

quantidade de material humano. o ministério da Agricultura, na minha opinião, trabalha com um centésimo das verbas que necessitaria para um país das dimensões do Brasil e com a importância mundial que possui na produção de alimentos. E esta atividade corresponde a 1/3 do nosso PIB. o Brasil é líder mundial numa forma de produção agrícola denominado “plantio direto”, ou seja, plantar sem arrancar a lavoura anterior, incorporando o rico material vegetal da lavoura anterior ao solo, sem escavá-lo, sem sulcá-lo, sem empobrecê-lo. Podemos exportar esta tecnologia para o mundo, possibilitando a melhor conservação do solo. Devemos ampliar as áreas de plantio ou investir em tecnologia para aumentar a produtividade das áreas já usadas e garantir comida para todos? não há necessidade de ampliar a área. se antes produzíamos 2.000 kg de milho/ha, hoje, com variedades selecionadas, preparo da terra e adubação adequados, podemos chegar a 6.000 até 8.000 kg/ha. A tecnologia está 100% disponível. Basta aplicá-la. Por que o Brasil, um dos maiores produtores e exportadores de alimento do mundo, ainda tem tantos famintos? O IBGE calcula em 14 milhões o número de pessoas que passam fome no país. não tenho a estatística. mas uma parte dos famintos no Brasil é exatamente aqueles que vivem isolados no meio do mato, produzindo seu próprio alimento para sobreviver, sem extensão rural, sem orientação, sem escola, posto de saúde. Isso é a agricultura familiar. há outro agravante. o Brasil é um dos únicos países do planeta que cobra impostos sobre os alimentos, entre 30 a 35%. A presidenta re-

duz os impostos sobre os carros, linha branca, móveis, [isso] aparece na mídia, mas mantém os absurdos impostos sobre os alimentos. no reino unido, país rico, a alíquota de impostos sobre os alimentos é “zero”. Aqui é 35%. Por que se desperdiça tanto alimento no Brasil? Segundo o IBGE, 64% do que produzimos vai para o lixo. o desperdício de alimentos é devido, em parte, a infraestrutura de armazenagem e transporte. Estamos 100 anos atrasados em relação ao transporte utilizado nos EuA ou união Europeia. o que é pior: estamos ficando 20 anos atrasados em relação à China. não temos ferrovias ou hidrovias para escoar os grãos a baixo custo. “morremos” na mão do transporte rodoviário onde mais de 10% da produção é perdida. o lobby da indústria automotiva nos rouba nas benesses dos impostos e na conta dos combustíveis. somos escravos deles. mas nem o Presidente nem a Presidenta rompe com a indústria automotiva e subsidia – a fundo perdido – o transporte ferroviário ou fluvial. ficaria dezena de vezes mais barato que multiplicar as estradas. Transporte ferroviário mão é para dar lucro. Tem que ser subsidiado. Por outro lado, nos falta extensão rural para criar, financiar, estruturar a irrigação e/ou armazenagem adequada de grãos nas propriedades. o “pequeno agricultor” tem que produzir e vender na mesma hora, a qualquer custo, pois não tem como armazenar o seu trabalho (produção) adequadamente para vender quando ele quiser, e não ficar na mão somente dos atravessadores. Para piorar, quando os grãos chegam nos silos oficiais de armazenamento, os roedores comem parte da produção, e os “ratos” da administração fazem desaparecer outra parte do produto. Assim perdemos uma boa parte da produção.

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no reino unido, país rico, a alíquota de impostos sobre os alimentos é “zero”. Aqui é 35%.

Paulo César Martins, médico veterinário e especialista em produção animal, trabalha no Lohmann Animal health e integra o corpo técnico da facta – fundação Apinco de Ciência e Tecnologia Avícolas.

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criança dignidade formação ética oportunidade comunidade mobilização oração sustentabilidade protagonismo cidadania vida cuidado sonho transformação desenvolvimento solidariedade participação justiça futuro equidade empoderamento reabilitação compromisso responsabilidade parceria educação esperança valores www.visaomundial.org.br 0800 70 70 374 Especial Rio+20 ok.indd 32

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Revista Transformação Rio+20  

número especial da Transformação – Visão Mundial

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