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um olhar consciente

Ano 5 - Nº 43 - Julho/Agosto 2011 - Distribuição Gratuita

Heróis

V e rdes Trágica ironia Código aprovado, casal assassinado

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Christina Carvalho Pinto

Julia Gillard

Práticas Sustentáveis

Heroína ou Vilã?

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Assista ao filme da campanha. Baixe o leitor de QR Code em seu celular e fotografe este código

Latas Papéis Plástico Vidro 4

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Restos de comida Cascas e ossos Pó de café e chá Galhos e podas


Garrafa PET vazia tem valor líquido e certo: reciclada, vira tecido, madeira sintética ou plástico novo de novo. Separar o lixo facilita o trabalho dos catadores e aumenta o material aproveitado. Principalmente se você limpar as embalagens por dentro, retirando toda a sujeira antes de descartá-las. Mude de atitude. Assim, você ajuda a gerar renda para quem mais precisa e poupa recursos naturais. Saiba mais no mm mmmmmmmm

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Você já sabe que um destes é um grande responsável pelo aquecimento global.

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Mas você sabia que o outro também é? De acordo com a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), a agricultura animal é uma das principais responsáveis pela mudanças climáticas. No Brasil, a indústria da pecuária é também uma das maiores responsáveis pelo desmatamento. Reduzir o seu consumo de carnes, laticínios e ovos é uma das formas mais eficazes de reduzir a sua contribuição para as mudanças climáticas. Procure saber mais sobre os impactos ambientais da criação industrial de animais, o comprometimento do bem-estar destes animais e o que você pode fazer para ajudar.

Proteção e respeito a todos os animais

hsi.org/mudancasclimaticas

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Seções Perfil 10 Fariborz Kamkari Uma voz fora do coro

Editorial Cultura, Lazer & Arte FLIP Nona edição, surpreendente

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24 Artigo – Terence Trennepohl Fim dos subsídios ao Etanol educação 28 Como restaurar a paz nas escolas Livro da editora Contexto

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Artigo – João Carlos Mucciacito A poluição do Ar animais 36 Borboleta-Monarca A incrível Jornada

animais 38 Morcegos Os verdadeiros Reis da Ilha

40 Artigo – Rosane Magaly Martins Autopercepção da Maturidade

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ESPECIAL - HERÓIS VERDES Trágica Ironia Até Quando? Coisas que eu vi 50 Humberto Mesquita Chico Mendes ESPECIAL - HERÓIS VERDES 52 Nestlé A Compensação Compensa Artigo – Dr. Marcos Lúcio Barreto Bons Exemplos parte II

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ESPECIAL - HERÓIS VERDES 57 Christina Carvalho Pinto Práticas Sustentáveis

Diretor de Redação: Gabriel Arcanjo Nogueira (MTB 16.586)

Reports in english 26 Article - Terence Trennepohl, Martin Booher and Peter Baumgaertner   Cut Ethanol Subsidies

Tradução: Efex Idiomas - Tel.: 55 11 8346-9437 Diretor de Relações Internacionais: Vinicius Zambrana Diretor Jurídico: Dr.Erick Rodrigues Ferreira de Melo e Silva Correspondência: Instituto Neo Mondo Rua Primo Bruno Pezzolo, 86 - Casa 1 Vila Floresta - Santo André – SP Cep: 09050-120

Estagiário: Bruno Molinero

Para anunciar: comercial@neomondo.org.br Tel. (11) 4994-1690

Diretora de Arte: Renata Ariane Rosa Projeto Gráfico: Instituto Neo Mondo

Oscar Lopes Luiz Presidente do Instituto Neo Mondo oscar@neomondo.org.br

Publicação

Conselho Editorial: Oscar Lopes Luiz, Marcio Thamos, Dr. Marcos Lúcio Barreto, Terence Trennepohl, João Carlos Mucciacito, Rafael Pimentel Lopes, Denise de La Corte Bacci, Dilma de Melo Silva, Natascha Trennepohl, Rosane Magaly Martins e Vinicius Zambrana Redação: Gabriel Arcanjo Nogueira (MTB 16.586), Rosane Araujo (MTB 38.300) e Antônio Marmo (MTB 10.585) Revisão: Instituto Neo Mondo

Tenha uma ótima leitura!

ESPECIAL - HERÓIS VERDES 60 Julia Gillard Heroína ou Vilã?

Expediente Diretor Responsável: Oscar Lopes Luiz

NEO MONDO, em sua fase Bimestral, torna-se ainda mais suculenta. Ao acompanhar os trâmites para aprovação do Código Florestal, não podemos deixar de notar a trágica ironia de que o texto-base do deputado Aldo Rebelo tenha passado pela Câmara, sob pressão da bancada ruralista, enquanto quase que simultaneamente o casal de extrativistas, Zé Cláudio e Maria do Espírito Santo, era assassinado no Pará. Os dois integram macabra lista de marcados para morrer, ligados a questões fundiárias, que a CPT apura desde o famigerado Massacre de Carajás, em 1996. Os dois estão entre nossos Heróis Verdes, tema central desta edição. Mas há outros, Chico Mendes, na coluna “Coisas que vi”; a publicitária Christina Carvalho Pinto, empresas como Nestlé, Braskem, Coca-Cola e AMBEV, entre outros, fazem parte deste seleto grupo e realmente contribuem para melhorar nosso planeta. Trazemos também matéria, inédita no País, direto de Roma, sobre o cineasta curdo Fariborz Kamkari, que entre outros filmes realizou o impactante, e belo, As flores de Kirkuk, cujo cartaz da versão italiana ilustra uma de nossas páginas. Mantendo a tradição de NEO MONDO, dedicamos a mais ampla cobertura a um dos eventos de maior relevância no que diz respeito à Literatura, no País e no exterior, com o relato do que foi a nona FLIP, em Paraty. Esta é uma pequena parte do que você vai encontrar em nossas páginas.

Para falar com a Neo Mondo: assinatura@neomondo.org.br redacao@neomondo.org.br trabalheconosco@neomondo.org.br

A Revista Neo Mondo é uma publicação do Instituto Neo Mondo, CNPJ 08.806.545/000100, reconhecido como Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIP), pelo Ministério da Justiça – processo MJ nº 08071.018087/2007-24. Tiragem mensal de 70 mil exemplares com distribuição nacional gratuita e assinaturas. Os artigos e informes publicitários não representam necessariamente a posição da revista e são de total responsabilidade de seus autores. Proibido reproduzir o conteúdo desta revista sem prévia autorização.

Presidente do Instituto Neo Mondo: oscar@neomondo.org.br Neo Mondo - Julho/Agosto 2011

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Perfil

U Uma voz fora do coro Cineasta curdo mostra os capítulos proibidos do Oriente Médio Camila Turriani Bertoldo (texto e fotos do cineasta) De Roma (Itália), Especial para NEO MONDO

Kamkari resolveu contar uma história ignorada: “curdos são como as mulheres, sempre as últimas da fila”

ma voz fora do coro. Um cinema engajado. Fariborz Kamkari, cineasta e escritor iraniano de etnia curda, não quer só entreter o público da grande tela, quer que ele pense, reaja. Sua grande batalha é pela causa curda, o drama de seu povo, a maior etnia sem um Estado no mundo. São cerca de 30 milhões de pessoas, divididas em cinco nações, cujos direitos fundamentais são frequentemente violados. Uma questão que permanece aberta desde o início do século passado. Dentre os Estados que abrangem o Curdistão – Turquia, Síria, Irã, Armênia (só uma pequeníssima parte) e Iraque – este último é o país mais evoluído em termos de tolerância, segundo Kamkari. Hoje os curdos iraquianos vivem dentro de uma região autônoma federalista, com presidente e parlamento próprios, de forma pacífica, apesar de ainda encontrarem, em algumas cidades, problemas com extremistas árabes. Não é o caso do Irã, onde jornalistas, intelectuais e exponentes curdos chegam a ser condenados à morte. Entidades internacionais que lutam pelos direitos humanos acusam o governo iraniano de recorrer à pena capital como isntrumento de controle politico. Como informa a Amnesty International, o Irã é um dos raros países que ainda prevê a pena de morte a menores delinquentes, algo estritamente proibido nas leis internacionais. Não espanta, portanto, que manifestações de uma minoria étnica e religiosa sejam reprimidas e até punidas com a vida naquele país. Na Turquia, onde existe um processo de abertura à etnia curda, a forte identidade nacionalista ainda dificulta a participação democrática dos curdos na vida política, social e cultural da nação. A atual força de governo, AKP (Partido da Justiça e Desenvolvimento), no poder desde 2002 e recentemente reeleita com 49,9% dos votos, prometeu, nos últimos anos, ações para a adequação aos parâmetros democráticos exigidos para o ingresso na União Europeia, mas a forte pressão dos partidos nacionalistas e a grande influência dos militares no sistema político, que procuram manter uma homogeneidade étnica e cultural no país, freiam tais avanços, reforçando o clima de instabilidade na região. Tensões entre manifestantes curdos e forças de segurança são uma constante. Um cenário complexo, que Kamkari tenta explicar na entrevista a seguir, exclusiva para NEO MONDO. E não só. Ele fala também de seu último trabalho, que deve estrear no Brasil neste ano (provavelmente entre outubro e novembro), e revela, como ele mesmo diz, coisas que a tevê não conta.


NEO MONDO: Primeiramente, vamos falar de seu último filme, As flores de Kirkuk (título original: Golakani Kirkuk), que narra o extermínio da minoria curda no Iraque por meio da história de um amor impossível entre uma médica iraquiana (a protagonista) e um médico curdo, durante o regime de Saddam Hussein. Kamkari: Comecei a pensar no projeto de As flores de Kirkuk três anos atrás. Queria contar a história do meu povo, a maior etnia no mundo sem um Estado. Nós fomos sempre perseguidos, como os armênios e os hebreus. Eles, no final, conseguiram obter a sua nação, nós não. Somos divididos em cinco países e em cada um deles há uma história muito sangrenta. Para mim era muito importante contar esta história, que foi sempre ignorada. Os curdos são como as mulheres, sempre as últimas da fila. Eis o motivo pelo qual eu quis uma protagonista mulher. Quando você conta a vida de uma mulher você conta tudo. Na história de uma curda tem tudo, porque ela não faz parte só de uma minoria étnica e religiosa com todas as suas problemáticas políticas. Os seus direitos são negados também dentro de casa. Estamos falando de uma cultura muito patriarcal e machista.

NEO MONDO: Como surgiu a ideia para o roteiro? Kamkari: Eu trabalhava na Cruz Vermelha, ajudava os refugiados de guerra. Foi ali que ouvi esta história, a lenda de uma mulher árabe que pertencia a uma família muito rica e ligada ao poder iraquiano, que abandonou tudo para ajudar as vítimas curdas. Eu sempre achei que fosse um bom exemplo e belo modo de contar a tragédia do meu povo. Meu interesse era contar que era tão desumano o que aconteceu aos curdos que até um árabe se sentia mal e sofria com isso. Deste modo, a questão deixa de ser o problema de uma etnia e torna-se um problema humano. É um assunto de responsabilidade individual. NEO MONDO: Além da questão curda, o filme aborda várias outras temáticas. Como você justifica cada uma delas? Kamkari: O tema principal é a responsabilidade individual de cada um. Como as pessoas reagem às tragédias e problemas sociais que ocorrem ao seu redor. O segundo tema do filme

é o amor em forma oriental. O amor para nós é sofrimento, é sacrifício. Nos filmes americanos, por exemplo, o amor é felicidade, está ligado ao sucesso sentimental. Para nós, o amor precisa de sofrimento, de sacrifício como prova de que você está realmente apaixonado. Este conceito é muito importante. O terceiro tema tratado é a mulher muçulmana, islâmica. Na mídia vemos sempre a mulher muçulmana toda coberta, com um monte de crianças, um marido que a maltrata, clichês. Existem muitas mulheres assim, mas também existem tantas mulheres corajosas, que tomam decisões, apaixonam-se, que lutam por seus direitos. Felizmente, nos últimos meses, houve uma grande revolução no mundo islâmico e boa parte dela foi provocada por mulheres. No mundo islâmico as mulheres representam uma grande força em busca de mudanças. E elas não têm qualquer direito. Por isso combatem, lutam para abrir a sociedade. Ainda hoje, faz-se a circuncisão das mulheres, privando-as de sensações sexuais. Desta maneira as controlam e as fazem ser apenas máquinas de fazer filhos, lavar pratos e limpar a casa. Najla, a protagonista do filme, rompe todas estas barreiras.

O flme, para o cineasta, é belo modo de contar a tragédia de seu povo, que vai além da etnia e se torna problema humano Neo Mondo - Julho/Agosto 2011

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Perfil

A Turquia, forte aliada da Europa, ignora o que fazem com os curdos; compra armas de Israel e as dá para a Síria

NEO MONDO: Como exatamente eram tratados os curdos naquele período? Kamkari: No Iraque, no período de Saddam Hussein, entravam nos vilarejos curdos e matavam todos os homens maiores de 15 anos. As mulheres eram levadas a campos de concentração onde tinham de trabalhar, e as mais jovens eram vendidas em países do Golfo. As crianças eram dadas a famílias árabes que as mantinham como filhos ou como escravos. Ainda hoje muitas mães procuram seus filhos. Existe um mercado negro (ilegal) onde as pessoas compram fitas VHS nas quais foram registradas as torturas na época de Saddam. São horas e horas de filmagem de pessoas torturadas

“Nos tempos de Saddam, curdos com mais de 15 anos eram mortos, e as mulheres levadas a campos de concentração”

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ferência da Liga Árabe, e em agosto do mesmo ano, durante visita do coronel no Bel Paese, festejaram o tratado de amizade entre Líbia e Itália).

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NEO MONDO: E quanto à escolha do período histórico? Kamkari: Meu objetivo era dar uma ideia justa do Iraque. Desde 2003 escutamos e vemos notícias do Iraque na mídia mundial, mas a história tem início muito antes. E sobre esta história ninguém fala, porque é embaraçante o que o mundo ocidental fez no Iraque antes de 2003. O filme trata justamente deste período histórico, no início dos anos 80. Nesta época, todo o Ocidente apoiava o governo de Saddam Hussein, mandavam-lhe armas e ignoravam o que era feito contra o seu povo. A mesma coisa está acontecendo na Turquia agora, e aconteceu na Líbia. É espetacular, não? Seis meses atrás, beijavam as mãos de Gaddafi e agora, de repente, ele se tornou o malvado. A mesma coisa aconteceu no Iraque. (N.R.: Em meados de 2010, Berlusconi beijou a mão de Gaddafi durante con-

e fuziladas, e as pessoas as compram para procurar os entes que perderam e nunca mais tiveram notícias. NEO MONDO: Como o público vem reagindo ao filme? Kamkari: O público europeu reagiu muito bem, sempre muito emocionado e caloroso. Também o mundo árabe na Itália e na Suíça reagiu muito bem. Era muito importante, para mim, fazer um filme dramático, que consegue se comunicar com o público. Isso é sensacional. Venho de uma parte do mundo em que não há uma tradição para o drama; a dramaturgia é algo que não nos pertence, somos muito bons na poesia, mas a arte dramática é algo que importamos nos últimos 70/80 anos, não pertence à nossa cultura. Para fazer um romance serve diálogo. No Oriente Médio, na cultura islâmica, o diálogo não existe, existem somente ordens: do pai, do marido, do chefe de Estado etc. Eles ordenam e você deve obedecer sem questionar. No mundo ocidental, ao contrário, sempre houve diálogo. Os dramas e tragédias gregas, por exemplo, nascem dos deuses que dialogavam, brigavam ou faziam alianças entre si.


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“A protagonista de As flores de Kirkuk decide seu destino: história de sacrifício, ciúme, coragem e idealismo”

Não é o caso da cultura árabe. Somos monoteístas, portanto, não há espaço para o diálogo. NEO MONDO: Kirkuk, a cidade onde se passa o filme, é prevalentemente povoada por curdos, mas não pertence à Região Autônoma do Curdistão Iraquiano. Por quê? Kamkari: Porque um terço do petróleo iraquiano vem de lá. No último recenseamento realizado em 1975, 95% da população em Kirkuk era curda. A partir daquela data, o governo de Saddam decidiu arabizar a região, levando as famílias curdas para o sul e os árabes para lá. Mas ainda hoje cerca de 70% da população local é curda. Na constituição iraquiana há uma lei, número 140, segundo a qual deve ser realizado um referendo para que a população possa decidir o destino da cidade: permanecer sob a tutela de Jalal Talabani (atual presidente do Iraque) ou pertencer à região autônoma curda. Este plebiscito era previsto em 2007, mas até hoje não foi feito porque temem o resultado. Alguns extremistas ainda explodem bombas contra curdos e cristãos em Kirkuk, para que, assustados, escapem da cidade, deixando a área livre para os árabes. E creio que isso provavelmente

será motivo de um grande problema no futuro. Hoje a cidade encontra-se abandonada, há pouca infraestrutura, não fazem investimentos enquanto seu destino não é bem definido. NEO MONDO: E quanto à Turquia, país com a maior concentração de curdos. O AKP, partido de matriz islâmica moderada, obteve o concenso de 21 milhões de pessoas nas eleições parlamentares no último dia 12 de junho. Que notícias você tem? Kamkari: O AKP é um partido islâmico que sonha reconstruir o Império Otomano. Um grande estado islâmico com muitos povos diferentes, entre eles os curdos. O AKP, após oito anos de governo, ainda nao fez nada para o povo curdo. O partido curdo oficial, o Partido da Paz e Democracia (BDP), é presente no Parlamento, mas seus deputados são frequentemente presos. Uma deputada curda – Leyla Zana – nos anos 90, foi mandada à prisão, com pena de 10 anos, por ter falado em língua curda no Parlamento. Outra coisa, a única tevê em língua curda transmitida na Europa, a Roj TV, foi fechada porque o governo turco fez uma pressão na União Europeia. A Turquia é um aliado muito importante para a Europa, por isso

ignoram o que fazem com os curdos. Além disso, a Turquia compra armas de Israel e as dá para a Síria. O interessante é que Síria e Israel são inimigos históricos. E agora a Síria está usando armas israelitas, presenteadas pela Turquia, contra os seus curdos. É curioso notar que Irã e Iraque estiveram em guerra por 10 anos, Irã e Turquia nunca tiveram um bom relacionamento, Turquia e Síria, idem, mas sobre um único argumento estão de acordo: os curdos. Contra os curdos, todos eles se unem. De qualquer modo, a situação na Turquia ainda é melhor do que na Síria e no Irã. NEO MONDO: Como vivem os curdos na Síria? Kamkari: Os curdos, cerca de cinco milhões de pessoas, não possuem carteira de identidade. Praticamente é como se não existissem. Ou dizem ser árabes, negando a própria identidade, ou para o Estado sírio não existem. Na Síria rege o BAATH, um partido nacional socialista, como era o partido de Saddam. Um partido fundado pelos nazistas na Segunda Guerra Mundial, cuja intenção era unir todos os países árabes contra os ingleses. Este conceito, de unir o mundo árabe, permanece até hoje dentro destes partidos. Neo Mondo - Julho/Agosto 2011

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Perfil Bio Fariborz Kamkari

Fariborz Kamkari é um cineasta, roteirista e escritor curdo. Nascido no Irã em 1971, estudou Teatro e Literatura Dramática em Teerã e Cinema em Amsterdã. Há três anos vive e trabalha na Itália, onde se associou à produtora FARoutFILMS. Produziu e dirigiu numerosos curtas-metragens e também criou roteiros para cinema e TV. Seu primeiro longa-metragem é Black Tape (2002), filme que entrou em competição no Festival de Cinema de Veneza naquele mesmo ano e venceu o prêmio de júri no americano Cinequest Film Festival em 2003. Em 2005 escreveu e dirigiu o thriller Capítulo Proibido, uma coprodução Itália-França-Irã, que lhe conferiu o prêmio de melhor diretor no Festival Internacional de Cinema Independente de Bruxelas, em 2006. Seu último filme, Golakani Kirkuk (2010), baseado no homônimo livro de sua autoria, deve estrear no Brasil neste ano. Atualmente está finalizando um documentário para a BBC sobre o recente suicídio de um príncipe iraniano. As filmagens de seu próximo filme – a comédia Pizza e Datteri – devem iniciar daqui a alguns meses, no final do verão europeu.

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A ideia é que nestes países existe uma só etnia, uma única raça: a árabe. Mas estamos falando de uma terra antiga, de um mosaico de tantas raças e sangues diferentes, a famosa Mesopotâmia. Estes partidos, entretanto, querem negar tudo isso. Por mais de 35 anos tentaram eliminar todas as vozes que não eram árabes. Os curdos têm uma identidade muito forte e isso incomoda muito. Na Síria ainda fazem a mesma coisa (N.R.: programa para arabizar as cidades), mas ninguém se importa. A realpolitik é uma coisa nojenta, que nega os direitos humanos e segue os interesses das grandes potências. Ninguém se intromete na Síria porque os americanos e israelenses não têm ideia do que irá acontecer se cair o governo de Bashar al Assad. Todo o Oriente mudará se o governo sírio cair. Em minha opinião, o Ocidente torce para que este governo permaneça em pé. Creio que eles têm medo da revolução, de quem poderá suceder este governo.

podemos vencer um exército maior e mais forte, aquele da União Europeia, da Nato, da Turquia. Nós somos uma minoria, estamos sozinhos e não temos amigos no mundo. Entendemos que para obter nossos direitos temos que procurar soluções não violentas. Acredito que o PKK tenha tentado negociar, muitas vezes, um processo de paz. Se os partidos curdos pudessem participar dos processos eleitorais, tentariam encontrar soluções democráticas, mas esta participação é sempre negada. No Irã, por exemplo, nenhum curdo pode participar das eleições. Na Síria, os curdos não possuem carteira de identidade, imagina se podem votar... Todos sabem que não se pode ter democracia com a luta armada, mas quando te paralisam, te bloqueiam, não há modo de dialogar, no fim você tem que se defender. Mas nós somos uma força pacifista pela democracia. Não queremos fazer guerra porque perderíamos, isto é lógico, somos uma minoria.

NEO MONDO: E quanto ao teu país de origem, o Irã? Kamkari: No Irã a situação é um pouco diferente. No Irã temos um regime teocrático, oficialmente o líder foi escolhido por Deus. Portanto, no Irã nós temos um problema a mais. Além da questão étnica, somos também uma minoria religiosa naquele país. No Iraque, Síria, Turquia, a grande maioria da população é sunita, como nós. Mas no Irã a grande maioria é xiita. E o partido do governo é xiita fundamentalista. É muito mais complicado.

NEO MONDO: Voltando à tua história pessoal, como era fazer cinema no Irã? Kamkari: Eu não conseguia fazer cinema no Irã, era impossível. Sou um imigrado cultural. Para fazer um filme no Irã, você deve mandar o roteiro para o governo que faz a revisão e te manda de volta com as mudanças que devem ser feitas, caso teu script tenha sido aprovado. No final, o que resta não tem nada a ver com a história original. Além disso, se você é um curdo, um sunita ou um cristão é quase impossível ter a permissão para as gravações, porque existe um apartheid cultural. Durante as filmagens, um representante do governo vem todos os dias no set para controlar que tudo seja feito segundo o roteiro estabelecido. Outra coisa, o único fornecedor de todo o material para a realização do filme é o governo, não existem empresas que vendem a película, por exemplo. E o governo só vende obviamente para quem tem a permissão. Por fim, outro controle é feito na fase de montagem do filme e um novo elenco de alterações deve ser respeitado: “essa atriz é muito sexy, tire-a!”, “esta rosa vermelha pode dar a ideia de comunismo, corte!” etc. A censura não termina aí. Uma última revisão é feita antes que o filme entre em cartaz nos cinemas. Do momento

NEO MONDO: A União Europeia, a Nato e a Turquia consideram o PKK (Partido dos Trabalhadores do Curdistão) – grupo armado que luta pela independência curda - uma organização terrorista. Você concorda? Kamkari: Eu fiz um filme, meu primeiro filme, com o qual tentei contar a história dos curdos. Era a estória de uma esposa curda cujo marido lhe negava todos os seus direitos, alterando inclusive seu nome. A única alternativa que lhe restou foi pegar uma arma e se defender, defender sua dignidade. Nós lutamos por 80 anos, fizemos luta armada contra os regimes que negam nossa identidade, a nossa existência; mas acabamos entendendo que não


NEO MONDO: E por isso você deixou o país... Kamkari: Eu fiz um filme sem permissão e em seguida tive de sair do país. Chama-se Capitulo Proibido. Se volto ao Irã me prendem, lá as pessoas são colocadas na prisão por muito menos, por um blog por exemplo. Tem um iraniano que começou a gravar um filme em sua casa sem permissão, o nome dele é Jafar Panahi. Ele foi condenado a seis anos de prisão e por 20 anos não poderá mais escrever ou fazer outros filmes. Acredito que mesmo assim ele tenha conseguido gravar secretamente, pois acabou de sair um novo filme. (N. R.: This is not a film, documentário recentemente apresentado no Festival de Cinema de Cannes, que mostra o cineasta iraniano e pessoas ligadas a ele, enquanto aguarda o veredito da Corte de Apelação). NEO MONDO: Conte mais sobre teu filme clandestino. Kamkari: No Irã, oito, dez anos atrás, acontece uma série de homicídios na cidade santa, chamada Mashhad. Um serial killer mata cerca de 20 prostitutas. Quando finalmente o prendem, o assassino diz ter muito orgulho do que fez, porque seguiu a sua ordem religiosa e fez uma limpeza na cidade. Ele se torna um herói nacional, com foto no jornal, e os extremistas o defendem como sendo um exemplo de um verdadeiro muçulmano. Entretanto, um advogado descobre que antes de matar estas mulheres, ele tinha relações sexuais com elas. A partir daí, a coisa muda de figura. Em uma semana o enforcam e ninguém mais fala sobre o assunto. Eu peguei esta ideia e fiz Capitulo Proibido, um filme noir. Para realizá-lo, escrevi um roteiro falso e tínhamos que terminar as gravações o mais rápido possível. Foi uma grande aventura, uma produção italiana com a mesma produtora de As flores de Kirkuk. A incrível história de gravar um filme clandestino no Irã e a história extraordinária de levar para fora do país 40 mil metros de negativo são os objetos do meu novo romance, Shooting in Iran.

NEO MONDO: O Brasil tem boas relações com Teerã. Colaboram na questão nuclear. Kamkari: O ex-presidente de vocês, Lula, era um querido amigo do nosso. Esta é a demagogia da esquerda. Infelizmente, para ser inimigo dos EUA, faz alianças com fundamentalistas islâmicos. As primeiras vítimas de guerra do governo iraniano eram comunistas. Por mais de 50 anos a esquerda lutou contra o Xá (Mohammad Reza Pahlevi), praticamente foram eles que o depuseram e deram poder ao aiatolá Khomeini, um homem religioso, um senhor de 80 anos que parecia ser um grande espírito. Quando Khomeini tomou posse, em menos de três meses, começou a matar todos aqueles que lhe haviam dado o poder. Primeiro os curdos e depois aqueles de esquerda. Os partidos de esquerda foram massacrados, os comunistas foram fuzilados. E pensar que estas pessoas seis meses antes estavam nas prisões do Xá, conseguiram ser liberadas graças à revolução islâmica. Ainda hoje estudantes da esquerda são expulsos das universidades, encarcerados e torturados. Isto é o que acontece no Irã. E os melhores amigos deste governo são os governos de esquerda da América do Sul. É uma coisa que eu não entendo. NEO MONDO:O que você conhece do cinema brasileiro? Kamkari: Assisti a filmes brasileiros muito bons. Um que gosto muito é Cidade de Deus. O diretor, Fernando Meirelles, é ótimo. Vi outros filmes dele. É o tipo de filme que gosto, que aprendi do cinema italiano, com o neorrealismo. Um cinema que dá uma imagem verdadeira da sociedade e tem a coragem de criticar. Um cinema que incomoda, que não é feito só para entreter, mas reflete a realidade e te faz pensar.

As flores de Kirkuk (Título original: Golakani Kirkuk) A limpeza étnica durante o regime de Saddam Hussein, contra os curdos, é o tema central de As flores de Kirkuk. O fio condutor é o amor proibido de dois jovens estudantes de medicina, em um cenário de guerra e rivalidades. A protagonista, a jovem Najla, proveniente de uma rica família árabe de Bagdá, abandona tudo e rompe as regras sociais para se juntar ao seu amado, o curdo Sherko, empenhado na cura de rebeldes em Kirkuk. Cada vez mais, Najla se envolve com a causa curda e, por amor a Sherko, põe em jogo a própria vida. O filme mostra as terríveis etapas do genocídio cultural cometido pelo ditador: luta, prisão, tortura e morte. Uma estória de sacrifício, ciúme, coragem e idealismo, ligada ao tema da responsabilidade individual diante de uma tragédia de massa. “Este filme”, explica Kamkari, “nasce do desejo de comunicar ao mundo o que aconteceu ao meu povo. E pela primeira vez se verá uma muçulmana que não responde a um estereótipo, mas decide livremente seu próprio destino”. Kirkuk, local onde é ambientado o filme, foi a cidade curda mais devastada pelo regime, bombardeada repetidamente nos anos 80.

NEO MONDO: Seu próximo filme? Kamkari: Uma comédia ambientada em Veneza. As gravações terão início no final deste verão, com atores imigrados e italianos também. Um filme que fala das duas culturas, sobre a relação entre os italianos e os estrangeiros que vivem na Itália. Chama-se Pizza e Datteri.

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que o filme foi finalizado ao momento que irá para a grande tela, alguma coisa pode ter mudado na política e serve um controle de segurança... É quase impossível fazer um filme independente.

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Cultura, Lazer & Arte

da boa! O homenageado da vez foi um dos ícones do modernismo tupiniquim, Oswald de Andrade. O escritor foi lembrado à altura pelo amigo Antonio Cândido, que provocou risos e foi muito aplaudido

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Gabriel Arcanjo Nogueira*

* Com informações da Assessoria de Imprensa A4 Comunicação, estadao.com.br/Blogs e Diário de S. Paulo/Gois na Flip.


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m sua nona edição, a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) foi marcada, como sempre, por celebridades, acrescida de boicote à italiana, causos e cachaça da boa para ajudar os desavisados autores estrangeiros a combater o frio intenso. A conferência de abertura serviu de aperitivo e tira-gosto dos mais saborosos para o que viria durante os cinco dias em que o público se deliciou com as participações de expositores e debatedores do País e do exterior. O professor e crítico literário Antonio Cândido, 93 anos, ao falar de “Mobilidade e devoração” lembrando o homenageado da vez, Oswald de Andrade, mais que uma palestra, fez o seu depoimento sobre o amigo. “Sobrevivente” da geração 30 anos mais jovem que a de Oswald, Cândido descreveu o amigo como alguém que era de fato “móvel” - constante nas ideias, mas diverso e volúvel nas opiniões do dia-a-dia - e queria mesmo “devorar o mundo”, ou seja, interessava-se por tudo e por todos. Muito aplaudido pela plateia, ao chegar e ao deixar o palco, Cândido contou inúmeras histórias da vida privada do escritor, descrevendo “traços da personalidade humana e literária” que, no mais das vezes, arrancaram boas gargalhadas do auditório lotado. Causos “Ele tinha o dom da expressão condensada”, definiu o conferencista. “Era capaz de concentrar significados em poucas palavras.” E contou um “causo” para ilustrar o dom. Nos anos 1940, quando se realizou em Belo Horizonte o II Congresso Brasileiro de Escritores, Oswald de Andrade não foi convidado. Ele fora excluído por Mário Neme, presidente da Sociedade Paulista de Escritores, que selecionara os membros da delegação paulista. Furioso, Oswald passou a atacar Neme publicamente – e por escrito. Pespegou-lhe o apelido de “grão-turco de Piracicaba”, o que ofendia triplamente a vítima: por ter nascido em Piracicaba, Neme era, portanto, “um caipira”; por ser descendente de libaneses, que odeiam os turcos, devia ser chamado de “turco”; e por ser o tirano que impedira Oswald de participar do Congresso, só podia ser o grão-turco, que é como a imprensa da época se referia ao grão-vizir turco, um notório déspota. Extraordinário poder de síntese. Cândido lembrou que até mesmo quando elogiava alguém, Oswald conseguia encaixar uma crítica a um desafeto – e os desafetos não eram poucos. Durante algum tempo, logo depois da publicação de “um ensaio muito severo sobre ele nos anos 40”,

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Wisnik e Cândido, duas autoridades em Literatura, destacaram o antropofagismo oswaldiano como algo dotado de muito humor

o próprio Antonio Cândido foi virulentamente agredido por Oswald. “Tempos depois, publiquei uma crítica favorável e ele me procurou”, recorda Cândido, “e me disse: ‘Ataquei você com violência e você manteve a serenidade. Vamos ser amigos’. E nos tornamos muito amigos mesmo.” Mas Oswald não teve a mesma sorte com Mário de Andrade, descoberto por ele. Brigaram, Oswald foi violento e Mário rompeu definitivamente: rechaçou todas as tentativas de aproximação do ex-amigo. “Quando Mário morreu, Oswald ficou desesperado, como me contou sua mulher, Maria Antonieta”, disse o professor. “Meses antes de morrer, em 1954, Oswald me chamou à sua casa. Estava um dia frio como hoje em Paraty e ele estava à porta da casa, tomando sol. Disse que precisava me dizer o seguinte: ‘Mário de Andrade foi a maior figura do modernismo brasileiro e Macunaíma é o melhor livro modernista. É o livro que eu gostaria de ter escrito’.” Cândido encerrou sua fala lembrando que Oswald “sempre viveu com alegria” e confirmou o título de um artigo de Ronald de Carvalho sobre o movimento modernista: “O claro riso dos modernos”. Era esse o riso de Oswald, que permanece, como observou Wisnik na palestra que se seguiu ao depoimento de Cândido (ler Vida ofuscou a obra), “extraordinariamente contemporâneo”. A “devoração” proposta por Oswald em seu Manifesto Antropófago “não pode ser diluída pela absorção cega de influências”. Ao contrário, disse Wisnik, “a antropofagia oswaldiana propõe a permeabilidade cultural seletiva e rigorosa”. Ou seja,

devorar, sim; mas com critério. E, de preferência, com muito humor. Afinal, como lembrou Antonio Cândido, “a literatura séria e alta não é incompatível com a alegria e com a brincadeira”. Rara entrevista Antonio Cândido é dessas pessoas raras, infelizmente, em nosso cotidiano. Às vésperas da Flip, permitiu-se dar uma entrevista (por entender que jornalista costuma não ser fiel ao que ele diz), que é possível encontrar em http://blogs.estadao.com.brflip/2011/07/06/ antonio-candido-fala-em-paraty/. Um dos comentários postados no blog fala mais sobre este sociólogo, que é considerado o mais importante crítico literário do País, do que qualquer análise especializada: “Vê-lo falar é um deleite. Impressionante, porque do jeito que conta nos leva para a atmosfera vivida naqueles tempos e dá uma aula, como sempre das boas. Certa vez tive o privilégio de conversar com ele, uma pessoa extremamente amável e solícita. Foi ao acaso, em um elevador em que ele pediume ajuda para segurar algumas coisas e saímos pelo corredor. “Segundos preciosos, pois é gostoso ouvi-lo falar, sempre com lucidez e clareza, qualquer que seja o assunto. Ele ia participar de um evento no Masp, com Chico Buarque de Holanda – uma homenagem a Sérgio Buarque de Holanda”. Um outro blogueiro avalia: “Cândido é o maior modelo de crítico e acadêmico. Os intelectuais podiam ter mais dessa mineirice, dessa serenidade criteriosa e dessas amizades”.

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Cultura, Lazer & Arte

André Conti

Ministra quer o Brasil mais lido lá fora

Ana de Hollanda: programa ousado para ser desenvolvido em parcerias

A ministra da Cultura, Ana de Hollanda, ao falar na Casa da Cultura de Paraty, explicou como vai funcionar o programa do Ministério que apoiará a tradução de obras brasileiras no exterior. A iniciativa prevê uma escala de investimentos ao longo de dez anos, começando com a cifra de US$ 635 mil em 2011 para totalizar US$ 7,6 milhões em 2020. As regras do programa ficam disponíveis no site da Biblioteca Nacional. Segundo a ministra, o momento é propício para um programa desse tipo. Ela acha que os europeus, sobretudo, demonstram um interesse especial pelo que acontece no Brasil, o que inclui a área cultural. “O português é um idioma muito falado, mas pouco conhecido”, ressaltou. Ana de Hollanda prevê que essa situação possa modificar-se, para melhor, em

Walter Craveiro

Para o angolano valter hugo mãe, a arte é condutor do que há de melhor nas pessoas

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decorrência de maior internacionalização de textos produzidos por literatos e pensadores brasileiros. A estratégia deverá contar, lá fora, com o apoio das embaixadas brasileiras, que serão incumbidas de contatar editoras e propor parcerias. Esta palavra, parceria, foi usada com frequência não apenas pela ministra, mas também pelos demais componentes da mesa. Entre eles, Mauro Munhoz, diretor-geral da Flip; José Carlos (“Zezé”) Porto Neto, prefeito de Paraty; o príncipe Dom João de Orleans e Bragança, cuja família tem laços antigos com a cidade; e Galeno Amorim, presidente da Fundação Biblioteca Nacional (FBN). Também presente no palco, mas sem fazer uso da palavra, a escritora Ana Maria Machado, secretária-geral da Academia Brasileira de Letras (ABL), que tem livros publicados em mais de 15 países. Drummond é o próximo Munhoz inovou, ao anunciar na coletiva de encerramento da Flip o nome do próximo escritor homenageado pelo evento: em 2012, será Carlos Drummond de Andrade. Como lembrou o curador Manuel da Costa Pinto, Drummond trabalhava no Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional

Diversidade Cultural A presença estrangeira confirma a Flip como acontecimento da maior relevância no que diz respeito à diversidade cultural. A exemplo do escritor angolano valter hugo mãe, que só assina com minúsculas e levou a plateia ao delírio. Solteiro, 39 anos, manifestou a vontade de ser pai. Esteve em Paraty acompanhado de um amigo português, que é eletricista. Sua Carta para a Flip fala por si: “Quando eu tinha 8 anos veio morar para a casa ao lado da dos meus pais um casal de brasileiros com duas filhas moças. Ao chegar, o casal ofereceu uma ambulância ao quartel de bombeiros da nossa vila e toda a vila se emocionou. Foram os primeiros brasileiros que eu vi fora da tv, fora das novelas. Eu e os meus amigos fomos ao quartel dos bombeiros apreciar a ambulância nova, bem pintada, que se

(Iphan) quando Paraty foi tombada. “Eu tinha pensado em Graciliano Ramos para a décima Flip, mas as pedras de Graciliano têm muitas arestas e as de Drummond, mais arredondadas, são certamente mais apropriadas para esta celebração”, disse. Munhoz também anunciou que a Associação Casa Azul, que organiza a Flip, prepara um livro comemorativo dos dez anos do evento. A cargo de Flávio Moura, que foi curador da Flip até o ano passado, a obra editará imagens captadas desde 2003. O diretor-geral do evento festejou, ainda, a iniciativa da Prefeitura de Paraty, pelas calçadas que construiu às margens do Rio Perequê-açú, ideia proposta pela Casa Azul há 12 anos. Neste ano, pela primeira vez, a Tenda dos Autores, a Livraria da Vila, a Tenda do Telão e um espaço novo, exclusivo para os parceiros e patrocinadores da Flip, foram alinhados ao longo do rio – e da nova calçada. “Gosto muito do novo espaço”, disse Liz Calder, a alma mater da Flip. Sem perder o aconchego do ano passado, acrescentou, a nova disposição das tendas ampliou substancialmente o espaço. A Flip 2011 teve entre 20 mil e 25 mil visitantes.

mostrava a todos como prova bonita da bondade de alguém. O meu pai tinha um carro pequeno, velho, difícil de levar a família inteira dentro. A ambulância era enorme, um luxo, como se fosse para transportar doentes felizes. Eu e os meus amigos ficamos estupefactamente felizes. Depois, algumas mulheres e alguns homens mais delicados reuniam-se diante da senhora e das moças brasileiras e faziam perguntas sobre as novelas. Naquele tempo, passavam com muito atraso em relação ao Brasil, e todos queriam saber avidamente quem casava com quem na Gabriela. A senhora e as suas duas filhas, porque sabiam o que ia acontecer nas novelas, eram aos olhos de todos como adivinhas, gente que via coisas do futuro, gente que viveu o futuro e que se juntou a nós para reviver o passado. Por causa disto, eram mágicas e as pessoas queriam a opinião delas para cada decisão.


A minha mãe pediu à nova vizinha a receita para fazer pizza, porque ainda não havia pizzarias e só víamos nas revistas como deviam ser bonitos e saborosos aqueles círculos de pão e queijo coloridos pousados nas mesas. Passámos a comer uma pizza de atum com muitas azeitonas pretas. Ainda hoje peço nos restaurantes pizza de atum com a esperança de que seja exactamente igual à da minha infância, mas nunca é. As moças brasileiras eram mais velhas do que eu e ficaram amigas das minhas irmãs. As minhas irmãs saíam com elas à rua inchadas de orgulho, porque as pessoas todas, sempre comovidas com a ambulância, faziam vénia e sorriam. Havia gente que dizia que as moças brasileiras eram as mais belas de todas. Elas eram, na verdade, sorridentes, e eu senti que também seriam muito felizes na nossa pequena vila. Um dia a minha imã mais velha fez anos e foi festejá-los com uma festa na garagem das brasileiras. Na noite desse dia, ali pelas oito horas, uma outra menina, filha de um vizinho português, mostrou-me tudo. Não foi a primeira vez, mas eu queria sempre ver, embora ela não quisesse sempre mostrar. Um amigo meu surpreendeunos e quis ver também, mas a menina respondeu que não. Ela disse que mostrava apenas a mim porque eu era amigo das brasileiras. Entendi que as brasileiras eram como um toque de Midas que me transformava num menino de ouro. Aos dezoito, aquele que é o meu amigo mais irmão chegou do Brasil e ingressou na minha escola. Eu instintivamente corri atrás dele. Queria ser amigo dele como se fosse vital para mim. Ele mostrou-me Titãs e Legião Urbana. Eu achava que o Renato Russo ia salvar a minha vida com aquela canção do Tempo perdido. Quando o Renato Russo morreu, chorei muito e passei só a chorar quando ouço o Tempo perdido. Eu não sei se a arte nos deve salvar, mas tenho a certeza de que pode conduzir ao melhor que há em nós, para que não nos desperdicemos na vida. O Alexandre, esse meu amigo brasileiro, mudou tudo em mim para melhor. Adorava viajar de comboio com ele quando entalávamos as meias mal cheirosas nas janelas para que arejassem durante a marcha. Nesse tempo, o Alexandre ensinou-me a perder aquela vergonha que só atrapalha. Porque os portugueses sempre foram meio envergonhados.

Hoje, temos quase quarenta anos, ele casou com uma portuguesa e tem filhos. Eu, não. Fiquei para tio a escrever romances, e os romances tornaram-se fundamentais na minha vida, como a máquina de fazer espanhóis. Sonhei sempre em vir ao Brasil e vim várias vezes, faltava vir como escritor, publicado e recebido. Pois aqui estou, a Flip fez isso, não esquecerei nunca, sinto que fazem de mim um homem de ouro, agradeço a todos muito por isso”. Entre crônica e ensaio Já o músico escocês David Byrne preferiu soltar o seu lado de cronista ou ensaísta, como autor de Diário de Bicicletas. A sua decisão anunciada, de não falar de música (e muito menos tocar) em Paraty pode ter desagradado alguns, a princípio, mas a Mesa 16 da Flip agradou a todos. E – surpresa – não só, ou talvez nem tanto, pela carismática presença do ex-líder da banda Talking Heads, mas antes pelo lúcido discurso de seu parceiro de palco. O engenheiro e sociólogo Eduardo Vasconcelos, um especialista em transportes, acabou por arrancar mais palmas da plateia. O Tour dos Trópicos, do qual participou, evocava o famoso Tour de France, cuja nonagésima edição ocorria simultânea à Flip. A alusão se justifica porque Byrne, além de ser um praticante há quase três décadas (desde antes das ciclovias) do ciclismo urbano, publicou no Brasil, no final de 2009, o seu livro pela Editora Amarilys. São textos que, na opinião do jornalista cultural Alexandre Agabiti Fernandez, mediador do encontro, situam-se entre a crônica e o ensaio, reunindo as observações de Byrne, como ciclista, em Berlim, Sydney, Londres, Buenos Aires e outros lugares do mundo.

“Claro que não componho canções quando ando de bicicleta”, disse, ao responder a uma pergunta do público. “Mas, por poder parar e observar as coisas de perto, tenho ideias inspiradoras.” Na opinião dele, Copenhague, Amsterdã e Berlim são as cidades mais amigáveis para o ciclista, mas ele prefere as menos organizadas, como Roma, Istambul e Salvador. Além de defender o uso urbano da bicicleta, Byrne criticou os modelos de cidades baseados em altas torres, condomínios fechados e grandes autopistas, que criam “zonas mortas” e isolam as pessoas. Na apresentação visual com que abriu a palestra, com imagens colhidas por ele próprio em diversos lugares do mundo, Byrne apresentou cenas impactantes do centro de cidades americanas. Em um desses casos, no início da tarde de um dia útil, não se via na rua mais do que duas ou três pessoas. “Provavelmente fumantes que desceram para fumar”, comentou. Vasconcelos, que fez pós-doutorado em urbanismo nos Estados Unidos e mora em São Paulo, com seu discurso calmo e articulado, criticou o modelo urbano vigente no Brasil, e triunfante em São Paulo, que privilegia o automóvel em detrimento do ciclista e do pedestre. Ele acha, no entanto, que é possível “virar o jogo no segundo tempo”, ou seja, criar uma consciência de cidadania que atenue o caos do trânsito, revertendo aos poucos o demasiado uso do carro das classes mais altas da sociedade. Walter Craveiro

“Lado B das cidades” Uma das grandes vantagens da bicicleta, segundo o músico, que também se dedica a temas como o transporte público e urbanismo sustentável, é que, com ela, pode-se descobrir o que ele chama de “o lado B das cidades”, numa referência às duas faces gravadas dos antigos discos de vinil. Isto significa, na prática, deter-se para ver de perto recantos, pessoas, ângulos novos da paisagem e pequenos eventos do dia-a-dia aos quais não prestaríamos atenção se estivéssemos andando mais rápido, dentro de um veículo motorizado.

O escocês David Byrne critica as altas torres, condomínios fechados e grandes autopistas que criam zonas mortas nas cidades

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Vida ofuscou a obra Ao depoimento de Cândido seguiuse uma apaixonada análise de Oswald por outro professor de Literatura, José Miguel Wisnik, este 30 anos mais jovem que o palestrante. Wisnik descreve Oswald como homem encantador e furioso, que “gostava de brigar e desbrigar”, cujo charme “desarmava as pessoas” e cujo humor sarcástico e ferino não conhecia limites. Para Wisnik, Oswald tinha uma personalidade tão poderosa que se falava mais dele do que de seus livros – os quais, aliás, eram muito difíceis de achar. “Pelo menos até 1954, quando ele morreu, eu, que sou um rato de sebos e livrarias, só consegui encontrar um único exemplar de Serafim Ponte Grande à venda”, recordou o professor. Nesse contexto, proliferavam as lendas sobre o homem e o escritor, entre elas a de que nomeara seu filho “Rolando Escada Abaixo” ou de que teria “sequestrado uma normalista no interior de Minas”. Além do que, como Oswald era extremamente suscetível a críticas e como o poder esmagador de seu sarcasmo era conhecido (e temido), ninguém ousava escrever sobre seu trabalho. O resultado de tudo isso foi que a vida de Oswald ofuscou sua obra. Foram necessários 30 anos para que a peça O rei da vela, um de seus textos mais importantes, criado em 1937, finalmente fosse montada, no Teatro Oficina, em São Paulo, por José Celso Martinez Corrêa Uzona.

O teatrólogo tornou ainda mais brilhante esta Flip, à frente do espetáculo Macumba Antropófaga, no encerramento em 10 de julho. A performance dos 22 atores do Teatro Oficina Uzyna, sob a direção de José Celso, foi na Tenda do Telão, de cujo interior, com parte das lonas laterais abertas, podia-se ver, ao longe, as montanhas da baía de Paraty. Aquele domingo cobriu-se de suave anoitecer e ofereceu uma variação de luz com certo efeito de encantamento sobre a movimentação intensa das moças e rapazes, quase todos seminus, que em suas idas e vindas arrastavam com eles um público que, empolgado, mas também indeciso, não sabia bem para onde devia olhar. Pira e bisteca No centro da tenda, um amplo quadrilátero de areia, como um terreiro de macumba, tinha ao centro uma pira que depois, acesa, transformou-se, por assim dizer, em uma churrasqueira. Dali surgiu a bisteca que, quase ao final do espetáculo, marcou o momento máximo do ritual antropofágico. O impacto sobre o público não poderia ser mais intenso. No telão, de início, foram projetadas imagens associadas ao ambiente cultural da antropofagia, como a tela Abaporu, de Tarsila do Amaral, e o rosto do escritor Oswald de Andrade, o homenageado na Flip deste ano. Numa segunda fase do espetáculo, entretanto, ali apareciam as cenas capta-

das pela câmara operada pelos próprios atores. Os espectadores, se quisessem, podiam acompanhar o que se passava dentro e fora da tenda. Não houve, em nenhum momento, a possibilidade de assistir ao espetáculo comodamente sentado, como num teatro convencional. Quando as pessoas sentavam, Zé Celso, que circulava na tenda vestido de branco, com uma túnica plástica, insistia para que elas levantassem. Em seguida, o contrário. As pessoas se agitavam, em pé, e aí era a vez dos atores fazê-las sentar e pedir silêncio. Essa alternância de ritmos marcou o espetáculo do início ao fim. No início da noite, muitos espectadores também tiraram a roupa e foram fazer companhia aos atores no centro do terreiro. O elenco distribuiu vinho e frutas. Já perto das 8 horas da noite, três autores que tomaram parte da Flip compareceram à Tenda do Telão, acompanhados do curador, Manuel da Costa Pinto, com seus livros de cabeceira. A argentina Pola Oloixarac leu um trecho de Fogo Pálido, de Vladimir Nabokov; o angolano valter hugo mãe recordou o início de Metamorfose, de Franz Kafka; e finalmente o poeta gaúcho Eduardo Sterzi recitou o poema Em “Creta com o Minotauro”, do português Jorge de Sena. Depois deles, vários dos atores do espetáculo subiram à mesma bancada, com o formato de uma bigorna, no centro do terreiro, para cantar ou apresentar trechos de outras obras literárias.

Walter Craveiro

José Celso, autores, atores e público celebram na Tenda do Telão espetáculo de impacto íntenso

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O italiano Antonio Tabucchi, convidado, não compareceu. Foi a sua forma de protestar contra a decisão da Justiça Brasileira de permitir a permanência do italiano Cesare Battisti no Brasil. No lugar dele, estiveram na Mesa 8 sobre “Ficções da crônica” o escritor Ignácio de Loyola Brandão e o psicanalista Contardo Calligaris. A mulher de Tabucchi, Maria José de Lancastre, autora de livro sobre Fernando Pessoa, faltou a um debate sobre o português na Casa da Cultura. O pernambucano José Paulo Cavalcanti, autor de Fernando Pessoa, uma autobiografia, falou sozinho e deu show. A constatação do colunista Ancelmo Gois, no Diário de S. Paulo, nos permite concluir que o italiano não fez falta, tamanha a diversidade de expositores e debatedores, entre eles, brasileiros notáveis. O escritor João Ubaldo Ribeiro, baiano na origem, relançou na Flip Um Brasileiro em Berlim e O Feitiço da Ilha do Pavão. Foi outro show à parte. Esclareça-se que Ubaldo não fala alemão e seu santo não bate com o de Guimarães Rosa, que não está entre seus afetos. Não é um desvairado a ponto de dizer que não gosta de Guimarães Rosa ou que Guimarães Rosa não tem importância na literatura brasileira. Só que o santo não bate. Por exemplo, ele tem ódio mortal da palavra “estória” e certa vez fechou um livro de Guimarães Rosa logo que leu a primeira frase: “A viagem fora planejada no feliz”. Não leu mais nunca. Nunca mais leu Guimarães Rosa. Mas vamos ao que interessa. O autor de Viva o Povo Brasileiro esteve na mesa sobre as “alegorias da ilha Brasil”, tema que desenvolveu com o jornalista Rodrigo Lacerda, em entrevista quase cronológica, abordando cada livro do romancista desde o primeiro sucesso, Sargento Getúlio, até o mais recente, Albatroz Azul. Vida de sargentos O sargento Getúlio do livro nunca existiu, mas a vida de Ubaldo esteve cheia de sargentos, o batalhão de sargentos do pai, que era chefe de Polícia em Sergipe ao tempo de Getúlio Vargas e, depois de

Dutra, foi secretário de Segurança. Havia até um sargento Getúlio sim, que era um cabra muito macho, tão macho que podia até ser asseadinho e pintar as unhas com um esmalte branquinho. Quando esse sargento abria a túnica, lá estavam uma sovaqueira, um coldre de cada lado, um punhalzinho aqui, outro acolá, a cartucheira atravessada... Era o favorito de Ubaldo porque sua mãe tinha medo dele. Já o pai tirava uma sesta sagrada todo dia depois do almoço. Até que um dia chegou o sargento Getúlio e disse para o filho acordá-lo: “pode acordar na minha conta”. Ubaldo foi acordar o pai. E a notícia era que seu padrinho, que era da UDN, tinha encomendado a morte do pai, que era PSD, e, se o matador não encontrasse o pai, a ordem era matar o filho mais velho – João Ubaldo! A partir de então, sargento Getúlio (o real, não o do livro) montava guarda ao lado da rede do pai. Um dia o pai estava na rede lendo o jornal comunista A verdade, e a manchete dizia que ele – o pai – era “um lacaio de Wall Street”. Furioso, o pai queixouse: “Dia desses mando queimar essa peste”. Ao seu lado, o sargento Getúlio anotou. Foi lá, desligou os hidrantes, bateu nos comunistas e quebrou tudo. “Vamos ter de botar a culpa nos integralistas”, lamentou o pai.

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Vida inteligente no País

Tabucchi: não veio e não fez falta

Produção intensa Dos anos 1970 aos 1980, Ubaldo produziu intensamente, como lembrou Rodrigo Lacerda, e por ali já andava escrevendo seu grande romance, o Viva o Povo Brasileiro. E aqui é preciso esclarecer mais uma coisa: o autor do best seller nunca quis reescrever a história do Brasil. A gênese de Viva o povo está num prosaico episódio. Ubaldo visitava o Rio, passou pela editora Nova Fronteira e encontrou Pedro Paulo Sena Madureira, que trabalhava lá e resolveu provocar o baiano: “Escritor brasileiro só escreve livrinho pequeno, para ler na ponte aérea!”. Walter Craveiro

Ubaldo: de bem com o povo brasileiro

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Cultura, Lazer & Arte

Donde Ubaldo ofendeu-se e começou a escrever o livro cujos originais, quando prontos, pesavam – sim, ele pesou – 6,7 quilos. Portanto, repetindo: Ubaldo nunca quis reescrever a história do Brasil, nem defender os oprimidos, nada disso... quis, sim, em primeiro lugar, escrever um romance bem grande. Bem escrito e sobretudo grosso, para esfregar na cara do Pedro Paulo. No mais, o grande problema de Ubaldo para escrever romances é que os personagens raramente fazem o que ele manda. Ele quer que o personagem morra, não morre... quer que case, não casa... Uma vez achava que o personagem – mais de 40 anos, rico, bonitão e solteiro – era um homossexual enrustido. Não era, o homossexual acabou sendo outro. Ossos do ofício. Inspiração “chequespeareana” E ainda tem mais um esclarecimento altamente necessário: Ubaldo está convencido de que encomenda gera livro e cheque gera inspiração. Um dia, recebeu um telefonema de Alfredo Gonçalves, da Editora Objetiva, dizendo que estavam preparando uma coleção de livros sobre os sete pecados capitais. Tinham escolhido a preguiça para Ubaldo, que ficou indignado: só por que é baiano?. Foi-lhe então facultado escolher seu pecado, e ele escolheu a luxúria, certo de que o projeto não passaria do telefonema, assim como o filme baseado no Viva o povo não passou de meia dúzia de almoços com meia dúzia de potenciais diretores que garantiam já ter tudo na mão para começar a filmar. Mas a fonte de inspiração para o Walter Craveiro

Loyola e Calligaris: aplausos moderados

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livro sobre a luxúria – A casa dos budas ditosos – chegou com o contrato: um vistoso cheque! Que João Ubaldo logo embolsou para que a inspiração não se esvaísse. Antes que chegasse ao fim o tempo previsto para a conversa, Rodrigo Lacerda fez uma última pergunta bem fácil: qual é o papel da literatura no cotidiano das pessoas? Ao que Ubaldo respondeu que, dados os longos anos de afeto que unem entrevistado e entrevistador, não poderia oferecer uma resposta adequada. E nada mais disse, nem lhe foi perguntado. Palco? Balcão de padaria Na Flip brilharam também as estrelas de Ignácio de Loyola Brandão e Contardo Calligaris. O escritor e o psicanalista conseguiram algo incomum, mas sempre bem-vindo numa feira literária: conversar sobre o palco, diante de centenas de pessoas, como se estivessem no balcão da padaria da esquina. Para deleite do público e na condução precisa do mediador Cadão Volpato, acostumado a criar essa atmosfera light, de bate-bola cultural, como apresentador do programa Metrópolis na TV Cultura. Calligaris e Loyola concordaram em dois pontos importantes ao percorrer, com humor e descompromisso, diversos assuntos ligados à vida, à literatura e à política. O primeiro deles, ao falar da decisão do escritor Tabucchi, já citada: sem entrar em detalhes, ambos manifestaram seu apoio ao italiano, afirmando que se estivessem na posição dele teriam feito a mesma coisa. Foram aplaudidos com moderação.

A referência a Tabucchi, por conta do caso Battisti, serviu de gancho para Loyola lembrar os meses passados junto a ele em Pisa, na Itália, na década de 1970. Ele acompanhava nessa época a tradução para o italiano de seu Zero, então proibido pela censura brasileira, e cuja estrutura multifacetada, integrando diferentes planos narrativos, baseou-se no revolucionário Oito e Meio, de Federico Fellini. Perguntado por Volpato, em tom de brincadeira, se era verdade que teria visto esse filme “53 vezes”, Loyola respondeu: “Não, foram 108”. Em diversas passagens de saborosa conversa de botequim, era difícil decidir se os dois convidados falavam a sério ou improvisavam para divertir a plateia. Jogo de luz e sombra O que vem ao encontro do segundo ponto de concordância entre eles: fato e ficção se misturam o tempo todo não apenas nos romances, mas também no que costumamos chamar de vida real. Nossas memórias pessoais, segundo a experiência de Calligaris como psicanalista, estão impregnadas de materiais fictícios que, por serem inverificáveis, na maior parte das vezes, tomamos como lembranças exatas do que vivemos ou presenciamos. Sobretudo no terreno sentimental, para ele, esse jogo de luz e sombra é a regra, não a exceção. “Os encontros amorosos são bailes de máscaras”, compara Calligaris. “E ninguém as tira. Quando as máscaras caem, é por acidente.” Apesar dessas coincidências de opinião e do clima de sintonia cortês que conseguiram estabelecer no palco, Calligaris e Loyola deixaram bem claro as diferenças entre eles no terreno da crônica, que ambos escrevem regularmente para os dois maiores jornais paulistanos. “Como cronista, tento escrever textos que estejam mais perto da ficção do que do ensaio”, explicou o psicanalista, com seu sotaque milanês quase imperceptível. Loyola, por sua vez, tem olhos voltados sobretudo para a cidade de São Paulo, na tentativa de capturar personagens anônimos e situações cotidianas. Ambos garantem que, no exercício da crônica, raras vezes escreveram textos negativos a respeito de outras pessoas e de suas obras. Mas Loyola, sempre em tom de blague, reconheceu ter aberto uma exceção para “Meia-noite em Paris”. Sentiu “ódio” por Woody Allen ter feito o filme que ele sempre quisera fazer. Isso desde quando, na década de 1960, começou no jornalismo como crítico de cinema em sua sempre lembrada Araraquara.


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Cachaça certificada entre as delícias sustentáveis

Produtos da agricultura familiar paratiense puseram a sustentabilidade à mesa nos restaurantes locais

Na Flip 2011 a sustentabilidade se fez presente de modo prazeroso, desde que se decidiu pensar os impactos ambientais da comida que consumimos e o princípio da gastronomia sustentável - ou “responsável” - ganhou forças em Paraty. O Movimento da Gastronomia Sustentável foi criado com o principal objetivo de estimular os restaurantes a usar produtos dos agricultores familiares e de pescadores artesanais, incentivando a produção paratiense. O uso de alimentos produzidos localmente diminui a emissão de poluentes, pois eles não precisam ser transportados por longas distâncias e favorecem a economia do município. Assim, ingredientes como peixe seco, aipim, banana-da-terra, cachaça certificada, pupunha e palmito imperial – todos orgânicos – passaram a fazer cada vez mais parte do cardápio dos restaurantes locais. Durante a Flip, os restaurantes participantes do Movimento serviram pratos especiais, em homenagem aos escritores convidados. O Bistrô Casa do Fogo criou o “Viva o Povo Brasileiro”, filé de peixe flambado ao molho de frutas, farofa de mandioca e pupunha e camarões salteados, em homenagem ao imortal João Ubaldo Ribeiro. Já o Voílà Bistrot, com seu “Paprikache da Pérola do Danúbio de Esterházy” (guisado de peixe fresco de Paraty ao molho de páprica e creme azedo, servido com palacsinta de banana-da-terra), homenageou o escritor húngaro Peter Esterházy.

Tudo sobre Garrincha Descendente de família aristocrática, que esteve ao redor do poder desde o século XVI e caiu em desgraça nos anos 1950, com a ascensão do comunismo na Hungria, Esterházy, que nasceu em 1950 e nunca se beneficiou dos privilégios do nome da família, descobriu com horror, já adulto, que seu pai fora informante da polícia secreta durante os anos de regime comunista. Esterházy lançou no Brasil seu livro sobre maremoto metafórico: sua mãe morreu e ele produziu Verbos auxiliares do coração. “A gente não consegue nem falar nem calar sobre a morte da própria mãe”, disse. “Talvez consiga escrever, o que também não ajuda.”

Um espectador perguntou-lhe a razão do título. A resposta imediata: “Porque é bonito”. A explicação mais longa: “Porque em húngaro não existem verbos auxiliares. O título significa que eu preciso do auxílio de palavras que nem sequer existem, o que combina bem com o tema do livro”. Esterházy explicou sua “relação com a realidade ou entre ficção e não-ficção. Nem sempre, mas geralmente escrevo na primeira pessoa. Mas nunca pensei nisso como algo pessoal. Às vezes acho as palavras mais fortes do que a realidade. Isso funcionou bem para mim até receber as quatro pastas da polícia secreta sobre mim – todas manuscritas e claramente com a letra de meu pai, que era inconfundível e inimitável. Posso escrever o que quiser, mas aquele dossiê era muito mais verdadeiro e tinha muito mais poder do que minhas palavras”. O húngaro, que fora visto no show de Elza Soares, guardou para o final do encontro uma outra revelação: nunca ouvira falar da cantora, mas sabe tudo sobre Garrincha – e foi por Garrincha que correu a ver o show, quando lhe contaram que ela fora sua mulher. Revelou, também, que na Hungria é conhecido como “irmão de meu irmão”, um jogador de futebol. “Vou dizer algo terrível agora”, avisou: o irmão marcou um dos três gols que derrotaram a seleção brasileira num amistoso em Budapeste, em 1985. Restou à plateia rir e aplaudir muito. Walter Craveiro

O húngaro Esterházy e sua relação com ficção e não-ficção: “palavras nem sempre mais fortes que a realidade”

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Senado dos EUA vota pelo fim dos

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indústria de etanol dos EUA e os mercados de combustíveis em breve estarão diante de um novo cenário de negócios e poderão sofrer alterações significativas nos próximos anos. Na quinta-feira, 16 de junho de 2011, o Senado norte-americano votou pela revogação de aproximadamente US$6 bilhões em subsídios anuais concedidos à indústria interna de etanol. Aprovada como uma emenda à S. 782, Lei de Revitalização do Desenvolvimento Econômico de 2011 (Economic Development Revitalization Act of 2011), a medida eliminaria o crédito tributário do etanol de US$0,45 por galão (Volumetric Ethanol Excise Tax Credit - VEE24

Neo Mondo - Julho/Agosto 2011

TC), também conhecido como “crédito de mistura”. Além de acabar com este subsídio direto, a medida também eliminaria a tarifa de importação sobre o etanol estrangeiro de US$ 0,54 por galão, que há muito tempo protege os produtores nacionais de etanol da concorrência de países como o Brasil. A emenda, de autoria da senadora Dianne Feinstein (D-CA) com o apoio do senador Tom Coburn (R-OK) e outros cinco coautores, passou com uma votação de 73 a 27. No entanto, apesar do apoio aparentemente forte no Senado, a Câmara dos Deputados dos EUA também deve aprovar o projeto de lei. Mesmo que aprovada pelo Congresso, permanece a questão se a legislação sobreviveria

ao veto da Casa Branca. A Administração de Barack Obama expressou apoio contínuo aos produtores de etanol nos Estados Unidos, e o voto desses produtores será importante para a sua reeleição como presidente em 2012. A eliminação do crédito tributário e da tarifa de importação sobre o etanol poderia causar um impacto significativo ao mercado de etanol nos Estados Unidos. Produtores e importadores de gasolina e outros combustíveis utilizados no transporte têm a obrigação, no âmbito do Programa de Combustíveis Renováveis da Agência de Proteção Ambiental norte-americana, de fornecer um determinado volume de combustível renovável ao mercado.


Terence Trennepohl

Correspondente Especial de Nova York – Estados Unidos

Martin Booher

Peter Baumgaertner  

Subsídios ao Etanol Por isso é razoável supor que a demanda por etanol nos Estados Unidos continue a crescer. Isso apoiaria os preços do etanol até certo ponto. No entanto, a eliminação da tarifa de importação, sem dúvida, torna o mercado de etanol dos EUA mais atrativo para os produtores de etanol de cana-de-açúcar do Brasil (que pressionaram durante muitos anos para a eliminação dessa tarifa). Além disso, a eliminação do crédito tributário, com um aumento das importações de etanol, poderia ter um impacto desproporcional sobre os pequenos produtores, provocando uma onda de fusões entre os fornecedores nacionais de etanol.

Embora as perspectivas para a aprovação da S. 782 permaneçam incertas, deve-se notar que tanto o crédito tributário quanto a tarifa de importação já estão definidas para expirar em 31 de dezembro de 2011. O crédito teria expirado no final do ano passado se o Congresso não o tivesse renovado na legislação de incentivo fiscal aprovada em meados de dezembro. Em face da renovação de última hora e sob protesto para 2011 e, ainda, à luz da mais recente votação do Senado, é possível supor que o crédito tributário e a tarifa de importação não permaneçam em 2012, mesmo que a S. 782 não consiga virar lei.

Terence Trennepohl Advogado em Dewey & LeBoeuf LLP Terence tem longa experiência em questões ambientais, projetos de infra-estrutura e investimentos no Brasil. Costuma trabalhar com o setor da energia, com ênfase em investimentos internacionais Martin Booher Socio de Dewey&LeBoeuf LLP Martin tem uma experiência significativa representando e assessorando clientes de energia em um amplo espectro de questões de desenvolvimento de projetos. Peter Baumgaertner   Socio de Dewey&LeBoeuf LLP Peter representa patrocinadores do projetos, investidores institucionais, bancos de investimento, bancos comerciais, corporativos e curadores em conexão com o financiamento de infra-estruturas públicas e privadas Neo Mondo - Julho/Agosto 2011

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U.S. Senate Votes to Cut

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he U.S. ethanol industry and fuel markets may soon face a new business landscape and may experience significant changes in the next few years. On Thursday, June 16, 2011, the U.S. Senate moved to repeal approximately $6 billion in annual subsidies to the domestic ethanol industry. Passed as an amendment to S. 782, the Economic Development Revitalization Act of 2011, the measure would eliminate the 45-cents-pergallon Volumetric Ethanol Excise Tax Credit (“VEETC”), also known as the “blender’s credit.” In addition to ending this direct 26

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subsidy, the measure also would eliminate the 54-cents-per-gallon import tariff on foreign fuel ethanol, which has long protected domestic fuel ethanol producers from competition from countries such as Brazil. The measure, sponsored by Sen. Dianne Feinstein (D-CA) with the support of Sen. Tom Coburn (R-OK) and five other co-sponsors, passed by a vote of 73-27. However, despite apparently strong support in the Senate, the U.S. House of Representatives also must approve the bill. Even if passed by the full Congress, a question remains whether the legislation would

survive a White House veto. The Obama Administration has expressed continued support for domestic ethanol producers, and the farm-state vote will be important to President Obama’s 2012 re-election bid. Eliminating the VEETC and the fuel ethanol tariff could have a significant impact on the ethanol markets in the United States. Producers and importers of gasoline and other transportation fuels have an obligation under the U.S. Environmental Protection Agency’s Renewable Fuels Program to supply a certain volume of renewable fuel into the marketplace so it is reasona-


Terence Trennepohl

Special Correspondent from New York – United States

Martin Booher

Peter Baumgaertner  

Ethanol Subsidies ble to expect that demand for ethanol in the United States will continue to rise. This would continue to support ethanol prices to a certain degree. However, the elimination of the import tariff would no doubt make the U.S. ethanol market more attractive to sugar cane ethanol producers in Brazil (who have pushed for the elimination of the tariff for many years). In addition, the elimination of the VEETC, coupled with an increase in ethanol imports could have a disproportionate impact on smaller producers, prompting a wave of consolidation among domestic ethanol suppliers.

Although the prospects for passage of S. 782 remain uncertain, it should be noted that both the VEETC and the import tariff are already set to expire on December 31, 2011. The credit would have expired at the end of last year had Congress not renewed it in the tax relief bill passed in mid- December. Given a contested, last-minute renewal for 2011 and in light of the Senate’s most recent vote, it is not unreasonable to expect that the VEETC and import tariff may lapse in 2012 even if S. 782 fails to become law.

Terence Trennepohl Terence has long-standing experience in environmental issues, infrastructure projects and investments in Brazil. He advises in relation to the energy sector, with an emphasis on international investments in the energy industry. Martin Booher  Partner at Dewey&LeBoeuf LLP Martin has significant experience representing and advising energy and manufacturing clients on a broad spectrum of complex compliance, transactional, remediation and project development matters. Peter Baumgaertner   Partner at Dewey&LeBoeuf LLP Peter represents project sponsors, institutional investors, investment bankers, commercial bankers, and corporate trustees in connection with the financing of public and private infrastructure projects.  Neo Mondo - July/August 2011

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Educação

ATENÇÃO

a crianças e adolescentes

Ozório entre crianças do Timor Leste: crença no valor do trabalho preventivo e desafio ao poder público 28

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Como restaurar a paz nas escolas, livro da Editora Contexto, oferece a educadores instrumentos para enfrentar e superar situações de indisciplina sem uso da repressão

Acervo Pessoal

Gabriel Arcanjo Nogueira

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roteção a crianças e adolescentes e dos direitos humanos sempre moveu o cidadão Antonio Carlos Ozório Nunes, característica que ganhou força a partir de 1994. “Era um sonho acalentado ao longo dos anos”, diz. Natural da histórica e turística São Luiz do Paraitinga, no Vale do Paraíba (SP), Ozório mantém numa boa a tranquilidade que caracteriza os nascidos e habitantes desse recanto paulista. Missão nada fácil para quem é educador e promotor de Justiça, mas vivência que o levou a achar tempo para escrever Como restaurar a paz nas escolas, que em boa hora a Editora Contexto coloca à disposição de educadores. “No início dos anos 80, a única opção de estudos para quem não tinha recursos financeiros, como eu, de família bastante humilde, era o Magistério. Formei-me, na época, no antigo magistério e fui trabalhar numa comunidade de Ubatuba, chamada Picinguaba. Lá passei a ter muito contato com toda a comunidade e passei a me interessar por trabalhos comunitários”, lembra. À custa de muito sacrifício pessoal e familiar, mas também por meio do crédito educativo, Ozório concluiu a Faculdade de Direito em São José dos Campos, em 1992, e dois anos depois ingressou no Ministério Público de São Paulo. E não parou mais. “De lá para cá trabalhei em várias áreas: infância e juventude, criminal, grupo de combate ao crime organizado etc. Hoje, voltei para a infância e juventude, área na qual muito acredito, em razão do trabalho preventivo que é possível de ser feito, como combater consumo de drogas - lícitas ou não - entre crianças e adolescentes; trabalhar com prevenção de violência; provocar o poder público para a realização de políticas públicas na área”, afirma.

Minicursos e eventos Durante um tempo, ele ainda conciliou suas atividades sociais com aulas numa universidade. “Parei no final do ano passado. Hoje organizo minicursos e eventos entre professores da rede pública de ensino, na área de prevenção à violência nas escolas. Tudo o que faço é voluntário.” Até mesmo no Timor Leste o trabalho desse brasileiro é conhecido. Foi num projeto da Organização das Nações Unidas (ONU), destinado ao fortalecimento da Justiça naquele país. “Fazia um trabalho voluntário, nas horas de folga, com crianças que haviam sido vítimas dos conflitos, resgatando brincadeiras folclóricas e de rua, daqui e de lá”, conta. Ozório não é de ligar para o que se chama de marketing pessoal. E a foto que mandou para NEO MONDO foi uma das poucas que achou. O que importa para ele é levar às pessoas a importância do seu trabalho: ”ser multiplicador da ideia das práticas restaurativas nas escolas mediante a capacitação de multiplicadores na comunidade”. A ideia de escrever Como restaurar a paz nas escolas amadureceu durante uma década, mais ou menos, teve um impulso inesperado e achou na Editora Contexto a parceira ideal. Ozório relata, sem firulas: “Eu já vinha escrevendo alguma coisa desde 2003. Mas eu tenho muito pouco tempo livre, em razão do meu trabalho e das minhas atividades comunitárias. Em 2010 sofri um acidente e tive de parar de trabalhar por um tempo. Fiquei licenciado em casa e foi aí que consegui concluir o livro, na minha primeira parceria com a Contexto. Eu procurei a editora e já tenho mais dois ou três trabalhos, na minha cabeça, também ligados à Educação. O difícil é arrumar tempo para concretizá-los”.

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Educação

O que são as práticas restaurativas Em sua primeira obra destinada a educadores – que ele entende serem “todos aqueles que trabalham com grupos de pessoas, seja escolas seja centros comunitários ou outros” -, Ozório enfatiza a importância das práticas restaurativas. Pena que o trabalho não se destina aos familiares, “embora eles sejam beneficiários das vantagens de se implantar as práticas restaurativas nas escolas”, ressalva. O educador e promotor de Justiça explica: “As práticas restaurativas nas escolas, grosso modo, refletem uma filosofia que abrange um conjunto de comportamentos, procedimentos e práticas pró-ativas que buscam desenvolver as boas relações no espaço escolar. Elas dão um destaque especial ao desenvolvimento de valores essenciais às crianças e aos jovens, tais como o respeito, a empatia, a responsabilidade social e a autodisciplina”. Tais práticas, prossegue, “poderão ser usadas em dois níveis: primário e secundário. O nível primário busca melhorar o relacionamento escola-família-comunidade, fortalecer o diálogo entre todos, promover a melhoria do ambiente escolar, a comunicação não-violenta, as atividades pedagógicas restaurativas ou, em suma, construir um trabalho pró-ativo de comunidade escolar segura, democrática e respeitável, numa cultura de paz. Destina-se a reafirmar as relações. O nível secundário é usado para a restauração e reparação das relações pelo diálogo, pela comunicação não-violenta e pelas reuniões restaurativas (mediações e círculos restaurativos). O foco do nível secundário está em reconectar, consertar e reconstruir relações”. Individualismo e fragmentação Ozório lamenta que a família seja pouco participativa na educação formal e informal de crianças e adolescentes, como que delegando toda a responsabilidade à escola. Mas, no seu modo de ver, “o maior problema está

na falta de participação dos pais na formação moral das crianças e adolescentes”. Para ele, “a família tem passado por transformações, que seriam inimagináveis há algum tempo. Aquela família tradicional, hierarquizada, com o pai tomando as decisões da casa e a mulher cuidando dos filhos, tem mudado muito. O que temos é uma família diferente, formada às vezes por uma única pessoa adulta; outras vezes sem vínculos biológicos com a criança, mas apenas vínculos afetivos ou legais; crianças e jovens cuidados apenas pela família extensa; já temos casos de família formada por casais homossexuais.  “Além dessas impressionantes transformações, quase todas as pessoas do grupo familiar trabalham fora, em muitas atividades diárias, sem o tempo necessário para trabalhar valores com essas crianças e jovens. Ademais, vivemos numa sociedade muito individualista e com relações sociais fragmentadas; as pessoas estão mais autocentradas e têm pouco tempo livre para conviver entre elas no dia-a-dia, seja no âmbito familiar seja no comunitário. Infelizmente a família não tem conseguido ajudar, como deveria, na formação moral e intelectual dos seus filhos. “Neste cenário,  acaba sobrando para a escola a missão de ajudar no ensino de valores para essas crianças e jovens, muitas delas com crises de identidade e de autoestima. A escola deverá fazê-lo de alguma forma, e os conceitos da Justiça Restaurativa, presentes no livro, são muito positivos nesse sentido”.  Violência entre pares Para o educador e promotor de Justiça, que reservou todo um capítulo do seu livro ao famigerado bullying, não se trata de simples modismo, mas sim estamos diante do que denomina “violência entre os pares”. É importante acompanhar o raciocínio de quem alia como poucos a teoria e a prática.

“Bullying sempre existiu em locais onde existem relações interpessoais, tais como prisões, orfanatos, Forças Armadas e nas escolas. Há uma nítida impressão de aumento do fenômeno em nossas escolas. Numa sociedade cheia de cobranças, disputas e individualismos, muitos jovens sentem a necessidade de se autoafirmarem, de se destacarem de alguma forma. Muitos acabam buscando conseguir se destacar de forma destrutiva, na violência. “Além disso, o fenômeno tem sido mais discutido porque, somente de um tempo para cá, tem chamado mais a atenção dos estudiosos e passou a ser mais considerado. O que ocorreu, sobretudo, quando pesquisas começaram a apontar danos psíquicos permanentes em vítimas de bullying e a mostrar uma relação direta entre bullying e ataques em escolas. Não que somente vítimas de bullying atacam escolas, pois há que se levar em conta outros problemas nessas pessoas, nesses atiradores, a exemplo de problemas mentais”. Ozório cita, de cabeça, uma pesquisa (ver Quadro), para concluir: “A existência de pesquisas feitas em diversos países passaram a contribuir para maior atenção ao problema, tendo em vista os efeitos deletérios que causa nas pessoas. Tanto autores como vítimas podem levar as consequências do bullying para o resto de suas vidas: estas carregando os traumas pela violência sofrida; aquelas perpetuando as ações em outros contextos, como nas relações familiares e em locais de trabalho. “Além disso, nos últimos anos, toda a sociedade tem dado mais atenção aos direitos humanos, combatendo as suas violações, e tem aumentado significativamente o respeito pela dignidade da pessoa humana.” “Nesse contexto”, acredita, “o fenômeno da violência em geral está cada vez mais estudado, denunciado e combatido. Imagine que hoje temos ONGs para denunciar o bullying, o que é muito bom.”

Violência X desArME-se Estudo realizado nos Estados Unidos revelou: • em 66 ataques ocorridos em escolas no mundo, entre 1966 e 2011, • 87% dos atiradores eram vítimas de bullying • e foram estimulados a cometer o crime por vingança. Sobre o apelo de NEO MONDO, publicado na página 11 da edição de Abril, Ozório avalia: “Eu gosto muito de campanhas, embora elas tenham efeitos mais a longo prazo. Mas são muito importantes para mudar

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a cultura de uma sociedade, principalmente a nossa cultura violenta. Entendo (e prego isso no meu livro) que essa cultura da paz e do respeito aos valores da convivência devem ser estimulados desde cedo nas escolas. “Por outro lado, o desarmamento deve ser uma questão prioritária no Brasil. Vemos mortes diárias de jovens que não ocorreriam se tivéssemos menos armas. Uma boa forma de combater o armamento é pela educação, desde cedo, das crianças e jovens”.


Vidas interrompidas Nem todas as crianças, adolescentes e jovens podem usufruir os benefícios de uma Educação à altura da que o País precisa. Centenas, ou quem sabe milhares deles, são “tirados violentamente do convívio familiar por agentes do Estado Brasileiro e/ou por Grupos de Extermínio”. A denúncia, gravíssima, está logo na apresentação do livro Do luto à luta, pensado, escrito e editado pelas Mães de Maio com o apoio do Fundo Brasil de Direitos Humanos e a participação de poetas populares, escritores e jornalistas. Estamos diante de uma obra literária escrita a sangue e lágrimas, dedicada a “todas as Vítimas Históricas do Estado Brasileiro, suas Mães, Familiares e Amig@s. Em especial @s Mort@s e Desparecid@s dos terríveis Crimes de Maio de 2006”. Débora Maria, uma das Mães de Maio e editora do livro, disse no lançamento no Auditório Vladimir Herzog, do Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo (SJPESP), que “o Estado é gigante, mas não é maior do que as Mães de Maio”. O filho dela, Rogério, foi morto em 15 de maio de 2006, logo em seguida ao Dia das Mães, pelo “crime” de estar na rua quando seria proibido sair por aí porque “quem estivesse na rua seria considerado inimigo da polícia”. O alerta fora dado a ela por um parente policial militar, com um detalhe: “Avise também para as pessoas de bem, não

para ‘lixo’. É assim que eles tratam os seres humanos...”, relata em Do luto à luta, em que lembra: “Nunca poderia imaginar que seria o último dia mais feliz da minha vida”. “Paz muito falsa” Um dos poetas, participante do livro, resume bem o quanto suas páginas são instigantes, um soco no estômago e um choque no cérebro: “A paz é muito falsa. A paz é uma senhora que nunca olhou na minha cara”. As Mães de Maio, assim como outros grupos de mães e familiares de vítimas da violência do Estado contra os pobres e pretos, não têm mesmo motivo para viver em paz, enquanto não forem solucionados os crimes de execução de que algum membro de suas famílias foi vítima fatal. Buscando Justiça e Liberdade, elas têm como uma das principais bandeiras o Desarquivamento e a Federalização, o devido Julgamento e a Punição dos responsáveis pelos Crimes de Maio de 2006 e de Abril de 2010 – cujas investigações, todas, foram simplesmente arquivadas. A Ouvidoria das polícias paulistas marcou presença no ato público realizado no SJPESP, representando um fio de esperança de que o terrorismo estatal não fique impune. A sociedade também precisa acordar e fazer a sua parte. Um bom começo é adquirir e divulgar o livro Do luto à luta.

André Freire/Unidade

Débora teve seu filho morto logo após o segundo domingo de maio de 2006: “o último dia mais feliz da minha vida” Neo Mondo - Julho/Agosto 2011

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Meio ambiente e pesquisa escolar Há outros lançamentos no mercado livreiro, dignos de nota. Dois deles, da Editora Rideel, nos ajudam a entender que meio ambiente se aprende também na escola: do Maternal à Universidade. É como se nos fosse dado um recado claro: é melhor começar pelo banco escolar para não cair no dos réus. A coleção Alfabetização Ecológica, dirigida a “tios” e “tias”, mamães, papais e petizada, compõe-se de 4 volumes, 27 cartazes e 2 CDs que falam de modo lúdico sobre água, animais, clima, desperdícios, energia, estações do ano, plantas e saúde. A autora, Mônica Ferreira, foi muito feliz na escolha dos temas e na elaboração do material que pretende despertar e formar a consciência sobre a conservação do meio ambiente desde os primeiros passos da Educação Infantil. Vade Mecum Além dessa ferramenta básica, a Editora Rideel oferece uma contribuição preciosa para universitários, professores e profissionais do Direito, ao reunir num só volume o que de mais importante temos no País em leis gerais e específicas: o Vade Mecum Ambiental. Em 877 páginas, a obra - organizada por Alexandre Mazza, que também a coordenou com André Luiz Paes de Almeida – traz a Constituição Federal, o Código de Processo Civil, o Estatuto da Advocacia e o Código de Ética, além dos Códigos de Água e o Florestal; o Estatuto da Cidade; a Lei dos Crimes Ambientais; a Lei da Política Nacional sobre Mudança do Clima. No total, são 67 Leis; 32 Decretos; 32 Resoluções; 8 Decretos-Leis. E ainda

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referências a 31 Súmulas Vinculantes do STF; 26 Súmulas do STF; 22 do STJ; e 12 do TFR. O cuidado editorial se completa na apresentação do livro com leiaute prático, moderno e impressão em duas cores; números dos artigos em tamanho diferenciado e colorido; notas remissivas a outros artigos e diplomas legais; índices sistemático, remissivo e por assuntos; atualizações de 2010 em destaque; e tarjas divisórias laterais. Assim fica mais fácil aprender a teoria e a prática ambientais, que se torna a cada dia mais urgente. Nota-se a preocupação dos editores dessas duas obras em contribuir para a formação de cidadãos responsáveis, desde o berço, e de profissionais qualificados: das bancas acadêmicas aos tribunais. Superestudante Quando, em 1986, Valter Alves Borges pensou em ser dono do próprio negócio, teve a consciência de que não estava para brincadeira, mesmo porque Educação é assunto muito sério. Com sua experiência de 10 anos na venda de livros, Valter criou a Espaço Editorial, pequena empresa de Diadema, no Grande ABC paulista, movida a grandes ideias, que incluem a criação das obras de seu catálogo exclusivo. O empresário lembra que começou com 3 vendedores; hoje são 40. Mais que isso, entre seus lançamentos está o Superestudante Sistema de Estudo e Pesquisa. Obra imprescindível para quem está no Ensino Fundamental ou no Médio, interessados em Concursos Públicos e Vestibulares.

Divulgação

Educação

Valter: pequena empresa pensa grande ao desenvolver um sistema de estudo voltado ao mercado de trabalho Em caprichada embalagem vêm 2 vídeos-aula; Guia do Novo Acordo Ortográfico; Suplemento Especial de Apoio sobre profissões de futuro com Orientação Vocacional, Guia de Profissões e Primeiro Emprego; e Encarte Especial sobre o governo Lula e sua sucessão; Atribuições dos cargos políticos; Censo 2010. No volume principal, 12 professores desfilam toda sua vivência pedagógica em 5 partes didáticas: • Línguas Portuguesa, Inglesa, Espanhola; Inteligência Múltipla e Informática. • História Geral e História do Brasil. • Geografia Geral e Geografia do Brasil. • Biologia, Drogas: uma reflexão especial e química. • Matemática e Física. Valter acredita no bom momento por que passa o País, para ele, favorecido por “uma visão diferente quanto à necessidade de aprimorar os estudos”.


Boa Notícia para o Leitor e o ANUNCIANTE NEO MONDO acaba de receber a chancela da Lei Rouanet Lei Federal de Incentivo à Cultura (Nº 8.313 de 23 de dezembro de 1991), conforme número Pronac 111052. A revista atinge um patamar de excelência sociocultural e quem ganha com isso é, principalmente, o leitor e o ANUNCIANTE. Este, na qualidade de patrocinador, poderá abater 4% de seu Imposto de Renda e deduzir até 70%. Você é um dos nossos convidados a participar de Reunião, na qual vamos detalhar o quão importante é usufurir desse instrumento legal que, ao instituir politicas públicas para a cultura nacional, permite a sua viabilização pelo Programa Nacional de Apoio à Cultura (Pronac). Seja um de nossos parceiros na promoção, proteção e valorização das expressões culturais nacionais. Além de se beneficiar dos incentivos fiscais, você fará parte do seleto grupo de empresas e cidadãos que investem em cultura, fomentando a cultura nacional e valorizando a sua marca junto ao público. Para confirmar presença, contate-nos: (11) 4994-1690 - Instituto Neo Mondo O INSTITUTO NEO MONDO É O 1º GRUPO MULTIMÍDIA SOCIOAMBIENTAL DO BRASIL! Produtos: Revista impressa (70 mil exemplares/mês), Revista eletrônica, Portal NEO MONDO (aprox. 400 mil acessos/mês), News Letter (100 mil e-mail mkt/mês), WEB TV (JORNALISMO) e Site NEO MONDO TV.

Atenciosamente,

Instituto

OSCAR LOPES LUIZ Presidente do Instituto Publisher da Revista

Neo Mondo

33 Um olhar consciente

Neo Mondo - Julho 2008


Fotolia

A poluição do ar e seus efeitos à saúde

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qualidade do ar é produto da interação de um complexo conjunto de fatores, dentre os quais destacam-se a magnitude das emissões das fontes móveis (veículos), das estacionárias industriais e das fontes aéreas (queimadas, postos de gasolina etc.), a topografia e as condições meteorológicas da região. Nas regiões metropolitanas brasileiras, o crescimento da frota de automóveis torna as fontes móveis o contribuinte principal. A este cenário pode-se somar a constatação dos últimos levantamentos demográficos, que tem indicado um aumento da população das regiões metropolitanas com mais receptores sujeitos aos deletérios efeitos da poluição do ar. A maior área metropolitana da América do Sul, a Região Metropolitana de São Paulo, engloba 39 municípios e 10 % da população do país. Apesar de claro processo de mudança de centro industrial para de 34

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serviços, como vem acontecendo na maioria das áreas metropolitanas do mundo, isto apenas induziu modificações no perfil do conjunto de poluentes atmosféricos. Os poluentes denominados Oxidantes Fotoquímicos (Ozônio Estratosférico) têm merecido maior destaque dado o incremento na sua ocorrência nas grandes metrópoles e áreas circunvizinhas. Nas três regiões metropolitanas do Estado (São Paulo, Campinas e Baixada Santista) vivem cerca de 20,8 milhões de habitantes na sua malha urbana, grande parte dos aproximadamente 7 milhões de veículos. Essa retirada de fontes móveis do centro da região metropolitana deve induzir melhoras na qualidade do ar dessas áreas, porém fica a questão, como retirar quantidade tão grande de veículos sem oferecer de fato um transporte público de boa qualidade. A poluição do ar pode afetar o homem e seu ambiente de diversas formas.

Quando a concentração dos poluentes do ar aumenta, este não é adequadamente disperso. Em cada caso, uma inversão térmica segurou os poluentes próximos da superfície da terra causando mais morbidade e mortalidade do que o usual, especialmente entre os mais velhos e naqueles já possuidores de condições cardiológicas e pulmonares deficitárias. Embora as estimativas de mortalidade devido à poluição do ar variem de 0,1% para 10%, mesmo o efeito de 0,1% da poluição do ar corresponderia a 15 mil mortes anuais. Estes dados são indicativos da poluição norte-americana e estimados pela Academia Nacional de Ciências do Estados Unidos. No Brasil tais informações não existem e principalmente nas grandes cidades deveriam ser levantadas. As pessoas que vivem nas áreas urbanas têm um maior risco por estarem expostas aos poluentes do ar que podem afetar o seu bem-estar.


João Carlos Mucciacito

O trato respiratório é afetado pela poluição do ar. A cilia do nariz e das superfícies internas que levam até os pulmões pode coletar as partículas maiores dos poluentes; entretanto, as partículas menores e os gases são capazes de entrar nos pulmões. Quando nós respiramos, os alvéolos transformam o oxigênio em dióxido de carbono. A poluição pode causar em alguns desses alvéolos o aumento de seu volume, alterando sua resiliência, de forma que a respiração fica mais difícil. Os poluentes do ar podem também diminuir ou até parar a ação das cílias, que normalmente carregam muco e os poluentes no trato respiratório. O muco pode engrossar ou aumentar e as vias respiratórias podem ficar entupidas. Os problemas de respiração podem aparecer por causa de uma ou mais dessas reações. Também os micro-organismos e outros materiais estranhos podem

ser suficientemente removidos, fazendo o trato respiratório suscetível a infecções. A poluição do ar tem sido associada com doenças respiratórias crônicas. Os poluentes do ar podem causar ataques de asma brônquica. Durante tais ataques, ocorre o estreitamento temporário das vias aéreas menores (bronquíolos) produzido por um espasmo do músculo, um aumento das secreções de mucos, ou encolhimento da membrana mucosa. Os poluentes do ar agravam tanto a bronquite crônica como o enfisema pulmonar. Na brônquite crônica, uma quantidade anormal de muco é produzida no brônquio, resultado de tosses contínuas. O enfisema pulmonar é caracterizado pela quebra das paredes do alvéolo. Durante essa doença, um dano irreversível aos tecidos ocorrerá. O alvéolo aumenta, perde a sua resiliência e se desintegra. Respiração curta é sintoma dessa doença. No câncer do pulmão, existe um crescimento anormal de células originando a membrana mucosa do brônquio. Embora improvável que câncer do pulmão seja produzido por uma só causa, os poluentes do ar podem paralisar a cília e permitir que substâncias carcinogênicas permaneçam em contato com as células do brônquio mais tempo que o normal. Alguns poluentes do ar têm sido identificados como substâncias capazes de causar câncer, por hidrocarbonetos aromáticos (benzeno, benzopireno). Existe uma associação próxima entre o sistema respiratório e circulatório. Se o sistema respiratório é afetado por uma doença e não pode trocar os gases no sangue completamente, o coração precisa trabalhar mais intensamente para bombear sangue suficiente para repor as perdas de oxigênio. Como resultado, o coração e os vasos saguineos estarão sob stress e poderão surgir algumas mudanças como aumento do tamanho do coração. Por que o monóxido de carbono pode reduzir o conteúdo de oxigênio no sangue, este poluente pode exigir

uma carga maior para pessoas com anemia ou doenças cardiorrespiratórias. Os poluentes do ar podem ter outros efeitos que incluem: ardimento e lacrimejamento dos olhos, visão embaçada, tontura, dor de cabeça, irritação na garganta, espirros alérgicos e tosse e diminuição de desempenho corporal. Os poluentes naturais que causam efeitos sobre a saúde humana são os aeroalérgicos. Os aeroalérgicos consistem principalmente de pólens mas também incluem bactérias, mofos, poros, poeira de casa, fibras vegetais etc. Acima de 10% da população exposta é afetada por aeroalérgicos. O principal efeito sobre a saúde: rinite alérgica e/ou asma brônquica com alteração do tecido reversível. Estes poluentes naturais, mediante complicações infecciosas, podem agravar os efeitos sobre a saúde, causados pelos poluentes gerados pelo homem. Os pólens das plantas, em particular alguns, produzem o mais importante dos alérgicos. Várias medições de pólens são realizadas diariamente nos Estados Unidos principalmente nas estações onde há maior ocorrência. Essas medições servem como um indicador das quantidades de alérgicos do ar. Os animais podem também ser afetados pelos poluentes do ar. No passado, quando episódios agudos da poluição do ar produziam doenças nos homens, vários animais também tornavam-se seriamente doentes e alguns morriam. Entretanto, os efeitos parecem ocorrer de forma variada, de acordo com a espécie do animal.

João Carlos Mucciacito Químico da CETESB, Mestre em Tecnologia Ambiental pelo Instituto de Pesquisas Tecnológicas da Universidade de São Paulo, professor no SENAC, no Centro Universitário Santo André - UNI-A e na FAENG Fundação Santo André E-mail: joaomucciacito@yahoo.com.br Neo Mondo - Julho/Agosto 2011

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Animais

A incrível jornada Com menos de 15 gramas, as borboletas-monarcas encaram dois meses de viagem Bruno Molinero

Tom Denham

S

ão 4.500 quilômetros. Dois meses de viagem. Três países. E, mesmo assim, os viajantes não demonstram nenhum sinal de cansaço. Não se engane, essa jornada não é percorrida por um grupo de mochileiros. Muito menos por pessoas endinheiradas e seus agentes de viagem. Uma das mais incríveis rotas conhecidas pelo homem é traçada por seres frágeis, que não pesam mais do que 15 gramas: as borboletas-monarcas. Religiosamente a cada mês de agosto, essa espécie deixa o frio inverno do Canadá e do norte do Estados Unidos, e vai em busca das temperaturas mais amenas do México. Um comportamento incomum para a maior parte dos insetos de clima temperado. A borboleta-monarca, porém, não sobrevive a temperaturas baixas, que podem beirar facilmente os – 15ºC. A pressão do clima gera uma nuvem de asas que colore o céu. A migração não encanta apenas pela beleza, pela distância ou então pelo inusitado da situação. Diferentemente do movimento anual das baleias e de certos tipos de pássaros, as monarcas só fazem o caminho da migração uma vez na vida. O tempo de vida de uma borboleta é curto. Dificilmente ultrapassa a marca de

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semanas. Isso quer dizer que a borboleta que vai ao México não regressa ao Canadá. São seus netos, bisnetos e muitas vezes os tataranetos os responsáveis pelo caminho de volta. Sem nunca terem pisado nas frias paisagens canadenses, as novas gerações retornam exatamente para onde seus antepassados habitavam. E não é só isso. Durante o movimento, essas borboletas sempre descansam nas mesmas árvores e sempre chegam ao mesmo lugar, mesmo nunca tendo estado lá. Ou seja, a cada ano, a jornada de ida e o regresso são feitos por marinheiros de primeira viagem. E esses marinheiros sabem exatamente onde parar, as árvores certas para descansar e o local exato do fim da viagem. Os cientistas não sabem explicar ao certo por que isso acontece. Algumas teorias dizem que elas se guiam pelo Sol. Outros acreditam que se direcionam pelo olfato. Mas a verdade é que ninguém sabe, a comunidade científica não tem ideia do porquê de as monarcas não se perderem pelo caminho. Durante esses dois meses, elas viajam cerca de 75 quilômetros por dia. Algumas alcançam a marca dos 130 quilômetros diários. Para aguentar o ritmo intenso, se alimentam exclusivamente do néctar

das flores que encontram pelo caminho. Com isso transformam-se em importantes agentes polinizadores. Um sem-número de plantas americanas e mexicanas só existe por conta da migração das monarcas. Quando finalmente chegam às montanhas mexicanas, já no mês de novembro, as borboletas se juntam em colônias. Ao olhar de longe, a sensação é de que as árvores estão com as folhas alaranjadas. Mas, na verdade, o que se vê não são folhas. São milhares de borboletas amontoadas. Segundo estimativas, nessa época do ano, amontoam-se 10 milhões de borboletas por metro quadrado. Contudo, esse número pode ser muito maior. Para proteger os animais, o governo mexicano criou a Borboleta-Monarca Biosphere Reserve – uma unidade de conservação que visa proteger a espécie. Com isso a fauna e a flora do local ficam intocadas. Árvores não podem ser derrubadas. Nada que interfira no comportamento das borboletas é autorizado. Assim, as monarcas geram um intenso turismo para o governo mexicano. Pessoas do mundo inteiro aproveitam o inverno para visitar as unidades de conservação. Nelas, é possível chegar perto das borboletas e vê-las amontoadas como se fossem folhas. Mas nada explica a sensação que é apreciar, sempre em silêncio, o momento em que todas se desgrudam e começam a voar em busca de comida. Quando acaba o inverno, e a primavera começa a despontar, as borboletas-monarcas preparam-se para partir. Nenhuma delas participou da viagem que as trouxe ao México. Mas pouco importa. De alguma maneira, elas sabem o caminho de volta.


Neo Mondo - Maio 2008

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Animais

Os verdadeiros

reis da ilha

Os morcegos são os animais que mais colaboram para o ecossistema cubano Bruno Molinero

O

s morcegos não são bonitos, não alegram as vitrines dos petshops e definitivamente não fazem parte dos animais mais queridos do mundo. Em Cuba, porém a situação deles consegue ser ainda mais dramática. “Os morcegos fumam e bebem rum. E até chupam sangue! Como podem ser bichos bons?”, me interrogou uma garotinha de seis anos enquanto visitava o Museu de História Natural de Cuba. Quer dizer, então, que eles são maus? “Claro!”, disse apontando para o fós-

sil de um desses bichos – como se nele estivesse a resposta para a minha estúpida pergunta. Não se engane, isso não é coisa de criança. A má fama dos morcegos é generalizada por toda a ilha. Isso acontece porque eles estão espalhados por todo o arquipélago cubano. Cuba é o país com o maior número de cavernas por metro quadrado. Logo, um paraíso para os morcegos viverem. Com o crescimento de algumas cidades e o grande número de morcegos, alguns chegam a habitar casas e edifícios – o

que deixa a fama desses animais ainda pior. Em San Antonio de los Baños, a cerca de 30 km de Havana, os morcegos chegam a viver em buracos na sala de casas. “É muito complicado, porque, quando anoitece, eles saem do buraco e começam a voar em círculos por dentro da minha casa. Até saírem pela janela”, conta Bernardo Alvarez. O homem, de cerca de quarenta anos, já tentou eliminá-los. Mas não conseguiu. “Eles venceram. O maior problema é que urinam em cima dos meus móveis.”

Reprodução

Com seus pelos cobertos de pozinho os onipresentes morcegos “têm papel fundamental na regulação do ecossistema”


Reprodução

Esses “fantásticos seres” ajudaram até mesmo os castristas: abatem insetos perigosos de cavernas inóspitas, onde se escondiam armas e objetos

Dispersão de sementes Na verdade, muito pelo contrário. Os morcegos hematófagos (que se alimentam de sangue) são a minoria dentro do mundo animal. E essas espécies sempre bebem o sangue de outros bichos, nunca o de humanos. Mas em Cuba, não há qualquer espécie hematófaga. “Aqui, a maior parte das espécies come insetos e frutos”, explica Gilberto. No total, sobrevoam os céus cubanos 26 espécies, com características e comportamentos completamente diferentes. E uma coisa em comum: os enormes benefícios ao ecossistema. Os morcegos são os grandes responsáveis pela dispersão de sementes. Eles saem à noite para se alimentar e espalham as sementes de diversos frutos caribenhos ao redor da ilha. Banana, abacate, jaca, manga, mamão e infinitas outras frutas não seriam tão abundantes, ou sequer existiriam, se não fossem esses animais.

Outro fator importante são os insetos. Os morcegos são os únicos animais que podem ingerir metade de seu peso em alimento. Isso significa que, a cada noite, toneladas de mosquitos, pernilongos e outros insetos perigosos simplesmente desaparecem. Além disso, alguns chegam a comer pequenas rãs e até pequenos peixes. “Os morcegos são seres fantásticos. Têm um papel fundamental na regulação do ecossistema”, diz Silva. Outro ponto importante é a polinização. Algumas espécies de morcego também procuram o pólen das flores. E, quando se aproximam delas, cobrem seus pelos do pozinho. Nesse sentido, fazem um trabalho parecido com o das abelhas. Mas mais efetivo, já que podem carregar mais pólen grudado em seu corpo. “Revolucionários” Os morcegos cubanos ainda tiveram uma importância fundamental na revolução pela qual a ilha passou em 1959. Soldados revolucionários utilizaram as infinitas cavernas para se esconder e guardar armas e objetos. Era estratégico. Chegar a uma caverna não é tarefa fácil. Grande parte delas fica

literalmente no meio do mato. O acesso é sempre por uma trilha fechada, onde os espinhos e o clima infernal do Caribe podem derrubar qualquer soldado. A caverna mesmo é um lugar de condições extremamente difíceis. É comum a temperatura ultrapassar os 45ºC. A umidade beira os 100%. Ficar dentro de uma delas é um teste para o corpo, que começa a suar e em poucos minutos parece que acabou de sair do banho. Isso sem falar na preocupação com a urina dos morcegos, que cai constantemente sobre as cabeças e pode transmitir leptospirose. Além desses pequenos mamíferos – os únicos voadores, diga-se de passagem –, trilhões de baratas cobrem o chão, aranhas caranguejeiras do tamanho da palma de uma mão andam pelas paredes e caranguejos gigantes caminham de um lado para o outro. A caverna e sua condição limite criam um ecossistema único e ímpar. Lindo, para quem está acostumado a ver o mundo de fora. Mas um pouco difícil para quem o vivencia lá dentro. Por isso foi tão efetiva na Revolução. Pois é, de Fidel Castro àquela bananinha no café da manhã, tudo tem os dedos (e asas) de um morcego. Bruno Molinero

Mesmo com cara e fama de maus, são os morcegos um dos maiores agentes ecológicos de Cuba. Não é exagero dizer que grande parte da biodiversidade do arquipélago se deve a esses bichinhos injustiçados. “Todo mundo tem certeza absoluta de que morcego fuma. Porque, quando você captura um, ele morde o que estiver pela frente. Se colocarmos um cigarro perto da sua boca, ele morde e não larga mais”, conta Gilberto Silva, 84, um dos maiores especialistas em mamíferos cubanos. “Aí, como ele fica muito agitado, respira pela boca e parece que está tragando o fumo.” Então, pode tirar a imagem de um grupo de morcegos fumando enquanto jogam pôquer. “Eles também não se alimentam de sangue humano. E muito menos bebem rum”, diz Gilberto.

Gilberto Silva é quem mais entende de mamíferos em Cuba: “morcego morde tudo o que vê pela frente, mas não bebe sangue humano e, muito menos, rum”

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Autopercepção da MATURIDADE

P

esquisar sobre autopercepção da maturidade e velhice é tarefa fantástica e nos apresenta um universo de preconceitos que envolvem o envelhecimento humano. Lembro quando o avô do meu marido, com seus 76 anos de idade, ficava sentado, calado e solitário em frente à sua casa de praia, dias e dias consecutivos “vendo o tempo passar”. Quando instigado a participar de algum grupo de atividades da terceira idade, retrucava irritado que “aquilo era coisa pra gente velha”. Ele não aceitava a idade que tinha e, por falta desta autopercepção, deixava de fazer coisas que eram importantes para uma pessoa que está com 76 anos de idade. Atualmente encontramos muitas pessoas nesta condição: não aceitar a idade que completam anualmente e que, em consequência, podem provocar perdas e danos

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incomensuráveis à sua qualidade de vida e saúde. A Organização Mundial de Saúde (OMS) desenvolveu um questionário  para aferir a qualidade de vida das pessoas, com duas versões validadas para o português. A mais completa apresenta 100 questões que investigam seis domínios do bem-estar humano: o físico, o psicológico, o do nível de independência, o das relações sociais, o do meio ambiente e o dos aspectos religiosos. Engana-se aquele que pensa que enganar a si mesmo irá enganar o tempo. Um trabalho desenvolvido pelos pesquisadores Santos e Santos (1) utilizou a escala de Flanagan para avaliar as condições de vida da pessoa idosa na Paraíba. Utilizaram as dimensões do desenvolvimento pessoal e realização; relações com familiares; participação social; bem-estar físico e material; amizade e aprendizagem. Apesar

das limitações encontradas na aplicação desta ferramenta aos idosos destacaram os resultados obtidos, com os quais seria possível a implementação de alternativas válidas de intervenção, tanto em programas gerontogeriátricos quanto em políticas sociais gerais, no intuito de promover o bem-estar das pessoas maduras e longevas. A idade não é a que a gente tem, mas a que a gente sente Gabriel García Márquez, em sua obra Memória de minhas putas tristes, escreve que “¿La edad no es la que uno tiene sino la que uno siente¿” e faz com que analisemos o envelhecimento sob dois prismas: daquele que olha a velhice de seu lugar jovem ou adulto e na perspectiva do próprio idoso, ou pessoa que se encontra acima dos 60 anos de idade. Percebemos que há divergência entre o que


Rosane Magaly Martins

se pensa da velhice e o que as pessoas idosas percebem acerca de seu próprio envelhecimento, que passam necessariamente pelas diferentes classes sociais, escolaridade e pela independência e autonomia da pessoa. Enquanto o Brasil é o recordista mundial em cirurgias plásticas (350 mil no ano 2000, segundo dados da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica), onde as pessoas buscam cada vez mais por uma medicina que evite ou prorrogue o envelhecimento, temos o Brasil que em 2050 terá a quinta maior população de idosos do mundo (hoje 11% da população). Estes dados merecem uma reflexão, para que entendamos que quase todos que estejam lendo este artigo deverão morrer idosos, mas não doentes, senis ou dependentes. Uma pesquisa espontânea realizada por profissionais das equipes de saúde da família de cidades do Rio de Janeiro1 em 1

maio último, com pessoas com idade superior a 60 anos, pode ilustrar o tema: dos 49 entrevistados (27 mulheres e 22 homens) 29 são pessoas idosas ativas socialmente, 20 apresentam algum grau de dependência de familiares com os quais convivem. Entre os entrevistados (considerados pela legislação brasileira como pessoas idosas aquelas com mais de 60 anos), 24 afirmam não se sentirem idosas porque são otimistas, independentes, animadas, produtivas, sonham, dançam e se desafiam em cursos e atividades inovadoras. As pessoas que se percebem idosas são aquelas que descrevem seu cansaço, tristeza, desânimo para a vida, dores no corpo ou simplesmente por constatarem no espelho seus cabelos brancos e rugas de expressão, e alguns se queixaram do preconceito e discriminação social por serem idosos. Sara Goldman (2) afirma que o envelhecimento ocorre em cada pessoa de forma individual, condicionado a fatores sociais, culturais e históricos. “Por seu caráter multifacetado o envelhecimento abarca muitas abordagens: físicas, emocionais, psicológicas, sociais, econômicas, políticas, ideológicas, culturais, históricas, entre outras”. Entende também a autora que há um diferencial que se refere à posição de classe social que os indivíduos ocupam. Na pesquisa citada encontramos uma idosa de 80 anos que é independente, autônoma, com renda superior a cinco salários, que vive sozinha, pratica aikidô e não se sente velha nem idosa, enquanto uma pessoa pobre, de apenas 61 anos e que vive na companhia da filha, é dependente, não mantém atividade social nem física e sente-se cansada, velha e no fim de sua vida. Por isso importante salientar, como escreve Guita Debert, que o entusiasmo com a terceira idade não pode impedir o reconhecimento da precariedade dos mecanismos que a sociedade brasileira dispõe para lidar com a velhice avançada, com as situações de abandono e de dependência, com a perda de habilidades cognitivas, físicas e emocionais que acompanham o avanço da idade.

A temporalidade é vivida, pelos homens, quer em termos cronológicos, quer em termos existenciais. Esta dupla experiência desdobra-se, frequentemente, no que podemos denominar de hiato entre a idade real e a idade concebida. No mais das vezes, a autopercepção da idade leva à subtração de anos de vida, sendo raros os casos em que a idade autoatribuída equivale à idade real ou é maior que esta. Por isso importante percebermos como atuamos com as nossas idades e como vivemos entre elas, felizes e em completude ou amargos, partidos e infelizes.

Referências

(1) SANTOS, Sérgio Ribeiro dos; SANTOS, Iolanda Beserra da Costa; FERNANDES, Maria das Graças M. e  HENRIQUES, Maria Emília Romero M.. Qualidade de vida do idoso na comunidade: aplicação da Escala de Flanagan. Rev. Latino-Am. Enfermagem [online]. 2002, vol.10, n.6, pp. 757-764. ISSN 0104-1169.  doi: 10.1590/S0104-11692002000600002.  (2) GOLDMAN, Sara. Universidade para a Terceira Idade: uma lição de cidadania. Elogicam 2003, p. 71. Rosane Magaly Martins, escritora, advogada pós-graduada em Direito Civil, com especialização em Mediação de Conflitos pelo Tribunal de Justiça de Santa Catarina. Pós-graduada em Gerontologia (FURB/2005) e Gerencia em Saúde para Adultos Maiores (OPS/ México) com formação docente em Gerontologia (Comlat/Colômbia). Fundadora e presidente da ONG Instituto AME SUAS RUGAS, participando desde 2007 na Europa e na América Latina de congressos, cursos e especialização que envolve o tema. Organiza a publicação da coleção de livros “Ame suas rugas” lançados no Brasil e em Portugal. E-mail: advogada@rosanemartins.com Site: www.rosanemartins.com

Alunos do curso de aperfeiçoamento em Envelhecimento e Saúde da Pessoa Idosa da Fiocruz/ENSP

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Heróis Verdes

Trágica ironia:

Código aprovado; casal assassinado.

ATÉ QUANDO? Na mesma semana em que a Câmara dos Deputados aprovou o texto-base do deputado Aldo Rebelo sobre o novo Código Florestal, o casal de extrativistas José Cláudio Ribeiro da Silva e Maria do Espírito Santo Silva foi assassinado, para deleite da bancada ruralista ABr

Gabriel Arcanjo Nogueira *

Plenário da Câmara Federal aprovou por ampla maioria o texto básico com emendas que pegaram o governo e a sociedade de surpresa (*) Com informações da Agência Brasil, EcoDebate, Diário de S. Paulo e Arquivo Neo Mondo.

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Vaia orquestrada Segundo relato do jornal Valor Econômico, quando a morte do casal de extrativistas foi anunciada na Câmara pelo líder do PV, José Sarney Filho, a bancada ruralista puxou uma vaia contra os ativistas recém-assassinados. A grotesca comemoração dos deputados ligados ao agronegócio não esconde o objetivo daquela votação e do novo Código elaborado por Aldo Rebelo: avançar não só sobre as florestas, mas também contra quem ousar se colocar contra o agronegócio, sobretudo os camponeses pobres. O deputado Ronaldo Caiado (DEM-GO), notório líder ruralista, bateu firme: “O governo quer baixar a convalidação de área consolidada por decreto. É um total desrespeito com o Legislativo. É um absurdo o governo a toda hora querer que sua versão seja aceita por todos nós sem a apresentação de emendas ou destaques. O governo está tentando confundir a base e dividir”, disse. Caiado tinha avisado que a redação final do relatório seria feita em plenário. E adiantou que os ruralistas iriam apresentar des-

taques ao texto que vem sendo negociado entre o governo e o relator do projeto. Além do problema das áreas consolidadas, Caiado apontou que o governo deveria aceitar que os estados, e não a União, definissem quais são as áreas que devem ser preservadas. Sinal para desmatamento O relatório original de Aldo já abria brecha para os latifundiários, flexibilizando as regras de conservação ambiental adotadas em 1965. O texto, por exemplo, isentava áreas de até 4 módulos fiscais de manterem a chamada área de reserva legal, uma área de preservação em que o proprietário é obrigado a manter a vegetação nativa. Módulo fiscal é uma medida definida pelo município e a área de reserva legal varia também de acordo com a região, podendo chegar de 20% a 80% da propriedade. O novo Código isenta os produtores dessas propriedades de manterem essa área de preservação, ou reflorestar o que tiver sido ilegalmente desmatado. Segundo o próprio Ministério do Meio Ambiente, só essa medida deixará 15 milhões de hectares sem reflorestamento. O relatório do deputado do PCdoB afrouxava ainda as Áreas de Preservação Permanente (APPs), aquelas áreas mais sensíveis, como as encostas dos rios. Após a votação do relatório, o PMDB, partido da base governista, ainda apresentou uma emenda anistiando os fazendeiros que tiverem desmatado até julho de 2008. A emenda ainda autoriza os estados a participarem da definição da regularização ambiental nas APPs, o centro da discórdia entre ruralistas e o governo Dilma, que queria a exclusividade dessa prerrogativa. Mesmo dividindo a base governista, a emenda foi aprovada por 273 votos contra 182. O líder do PMDB, Henrique Eduardo Alves, negou que a aprovação da emenda fosse uma derrota do governo.  ”Sou governo Dilma, a proposta é nossa”, declarou à imprensa.  Vítimas anunciadas Ao final da sessão da Câmara, a extinção do atual Código foi efusivamente comemorada pela bancada ruralista. Mesmo que o governo garanta sucessivas anistias de multas aos desmatadores, os latifundiários esperavam maior segurança jurídica para poder avançar sobre as florestas. As vítimas dele, porém, já podem ser vistas.  Primeiro, o avanço brutal do desmatamento. Antes mesmo da votação do relatório de Aldo Rebelo, o desmatamento mais que quintuplicou na área da Amazônia só

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estre Adoniran Barbosa, numa de suas geniais composições que retratam o dia-a-dia do brasileiro, cantava: “... a situação aqui está muito cínica”. Vivesse nesses dias turbulentos, nem ele próprio acreditaria a que ponto chega o cinismo de parte da classe política nacional, representante de setores ditos produtivos. Na mesma semana em que a Câmara dos Deputados se reuniu para aprovar o relatório de Aldo Rebelo (PCdoB), alterando o Código Florestal a favor dos ruralistas, o casal de assentados José Cláudio Ribeiro da Silva e Maria do Espírito Santo Silva era executado no interior do Pará. Os dois lutavam contra os madeireiros da região e já eram jurados de morte desde 2008. O casal, membros de um projeto de extrativismo sustentável na cidade de Nova Ipixuna, região sul do estado, morreu numa emboscada armada por pistoleiros na manhã de 25 de maio. Prova de morte encomendada: além dos disparos na cabeça, tiveram parte da orelha decepada. Enquanto isso, a cerca de 1.500 km dali, em Brasília, os deputados haviam terminado o imbróglio que marcou desde o início o processo de discussão do novo Código Florestal no Congresso e se preparavam para a sua votação. Por fim, o relatório de Aldo e dos ruralistas foi aprovado por esmagadora maioria, 410 contra apenas 63 votos contrários. 

Caiado antecipa: redação final só no plenário

nos meses de março e abril último. A única explicação para esse avanço foi a expectativa dos ruralistas pela aprovação do novo Código, assim como a confiança na cumplicidade do governo. E agora, sentindo-se fortalecidos, o agronegócio e os madeireiros mandam um recado na forma de balas na cabeça do casal de ativistas no Pará. Ao pressionarem o botão de votação da Câmara, os 410 deputados também apertavam o gatilho contra Zé Cláudio e Maria. Para o Greenpeace, no dia 25 de maio, o Brasil acordou de luto - duplo: “pela morte de Zé Cláudio e pelo fim da proteção das florestas”. Foi uma semana de derrotas em temas importantes: ambiental e de gênero. Derrotas dos novos movimentos sociais que têm protagonizado e postado nessa virada de século novas agendas e novas lutas sociais. Moeda de troca As derrotas do movimento social, segundo analistas, articulam-se com a crise política que envolve o governo Dilma. As derrotas na votação do Código Florestal (bem como no recuo do combate à homofobia) se deram em um contexto de crise tendo como epicentro as denúncias contra o ministro da Casa Civil Antonio Palocci. Setores conservadores como a bancada ruralista e a bancada evangélica usaram a crise envolvendo Palocci como “moeda de troca” para avançar em seus interesses corporativos. Em relação ao Código Florestal, a vitória dos ruralistas foi ainda maior, a julgar pela comemoração da senadora e presidente da Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária (CNA) Kátia Abreu. Segundo ela, “o texto traz avanços enormes”. Neo Mondo - Julho/Agosto 2011

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Heróis Verdes

Para Kátia Abreu, “texto traz avanços enormes”

Não é o que pensa Paulo Adário, diretor da Campanha Amazônia do Greenpeace, para quem “o texto é um desastre para o Brasil” porque, “numa visão geral, reduz a proteção ambiental no país todo”.

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Pegadinhas e retrocesso Já o advogado Raul Silva Telles do Valle, do Instituto Socioambiental (ISA), afirma que “o texto é recheado de ‘pegadinhas’, que tornam o novo Código, na verdade, um retrocesso. Seria, sob o ponto de vista do desenvolvimento sustentável, pior do que a legislação atual, de 1965”. Segundo ele, “nossas florestas vão estar menos protegidas do que em 1934, quando foi aprovado o primeiro código florestal brasileiro”. O advogado do ISA cita a inclusão da expressão “atividades agrossilvopastoris”, que permite, por exemplo, se plantar cana, eucalipto ou se criar gado nas chamadas

Presidente Dilma pode vetar “a vergonha” 44

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APPs, que são topos de morro, margens de rio e estão no centro da controvérsia sobre o Código. Raul Valle considera que, na prática, a emenda extingue as APPs no território brasileiro. Na opinião do movimento ambientalista Greenpeace, “o projeto que passou na Câmara produziu o milagre de transformar uma legislação escrita para defender as florestas brasileiras em lei de incentivo à expansão desenfreada da agricultura e da pecuária. Ele premia o desmatamento, propondo a anistia a desmatadores, e incentiva a expansão sobre o que resta ao Brasil de matas nativas, reduzindo as exigências para que fazendas mantenham um percentual de seus terrenos com vegetação original e enfraquecendo a capacidade do governo central de gerir o patrimônio ambiental brasileiro”. O Greenpeace chama a atenção ainda para o fato de que com a aprovação do novo Código Florestal, “compromissos internacionais do Brasil estão ameaçados”. Na análise da organização ambientalista, a reforma do Código “põe em dúvida a capacidade do Brasil de manter seus compromissos de redução de emissões de gases do efeito-estufa assumidos durante a conferência do clima de Copenhague, em dezembro de 2009”. País em xeque O Greenpeace alerta que a decisão dos deputados de atropelar os compromissos do governo federal coloca em questão a credibilidade do País para sediar, no ano que vem, a Rio + 20. “A capacidade do Brasil de liderar uma ação global contra o desmatamento e as mudanças climáticas está sob sérias dúvidas”, diz Paulo Adário. “Se Dilma não agir para influenciar as decisões do Congresso no sentido de manter a proteção à nossa biodiversidade, seu governo terá sucumbido aos interesses do agronegócio, comprometendo a posição internacional do país”. Não é sem motivo que Rubens Ricupero, ex-ministro do Meio Ambiente e ex-diretor-geral da Unctad, comentou: “Aprovar o texto dará um argumento extraordinário para países que defenderão que a nossa agricultura só é capaz de concorrer por uma razão desleal, por atentar contra a biodiversidade”. A péssima repercussão internacional da aprovação do Código Florestal somouse, na mesma semana, a notícias do assassinato do casal de extrativistas, que lutava contra a devastação florestal e a exploração ilegal de madeira no entorno da comunidade de Maçaranduba, Sudeste do Pará.

Agrobanditismo A Comissão Pastoral da Terra (CPT) - ler “Heróis Verdes à espera de Justiça”destaca que “esta é mais uma das ações do agrobanditismo e mais uma das mortes anunciadas. O casal já vinha recebendo ameaças de morte. O nome deles constava da lista de ameaçados de morte registrada e divulgada pela CPT”. O retalhamento do Código Florestal e o assassinato dos ambientalistas repercutiram internacionalmente. Segundo a jornalista Daniela Chiaretti, “a leitura da imprensa internacional é a pior possível. Jornais e sites noticiaram o assassinato do líder extrativista e de sua mulher e citaram a votação do Código Florestal. Alguns textos listam os ativistas, juízes, padres, freiras e trabalhadores rurais assassinados na Amazônia e relacionam os crimes aos agentes do desmatamento”. Retomando o debate sobre o Código Florestal, dentre os pontos que mais irritaram o movimento ambientalista e o próprio governo encontra-se a anistia aos desmatadores. Por 273 votos a favor, 182 contra e 2 abstenções foi aprovado - com o apoio de boa parte da base governista - a inclusão no Código de concessão de anistia aos produtores que desmataram APPs às margens dos rios e encostas até 2008. A presidente Dilma considera essa emenda uma vergonha para o Brasil e deve vetar se não for alterada pelo Senado. A irritação aumentou ainda mais na medida em que ficou evidente que o aumento no ritmo do desmatamento na Amazônia nas últimas semanas de maio se relaciona com as expectativas da reforma do Código Florestal. Ofício assinado pelo secretário do Meio Ambiente de Mato Grosso, Alexander Torres Maia, relata que o Código Florestal criou a expectativa entre proprietários de terra de que não seriam concedidas novas autorizações para desmatamento. Outra expectativa criada foi de que os responsáveis seriam anistiados. “Não há como negar a forte vinculação entre o desmatamento e os processos de discussão da legislação ambiental”, diz o ofício. A anistia a desmatadores e a flexibilização das regras para que os estados participem de regularização ambiental podem ser alteradas no Senado, onde o governo tem maioria mais sólida. É o que vem indicando o governo: “É evidente que não ficamos satisfeitos com a votação final do Código. Mas não jogamos a toalha”, disse o ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Gilberto Carvalho.


Nesta edição, cujo tema de capa são nossos Heróis Verdes, NEO MONDO relembra o que Zé Cláudio já havia previsto, ao classificar como “assassinato” a derrubada de árvores da região e ao dizer que ele próprio “vivia com a bala na cabeça” por causa das constantes denúncias contra madeireiros. “Vivo da floresta, protejo ela de todo jeito. Por isso, eu vivo com a bala na cabeça a qualquer hora, porque eu vou pra cima, eu denuncio os madeireiros, eu denuncio os carvoeiros e por isso eles acham que eu não posso existir”, denunciou. E disse mais: “A mesma coisa que fizeram no Acre com Chico Mendes querem fazer comigo. A mesma coisa que fizeram com a Irmã Dorothy querem fazer comigo. Eu estou aqui conversando com vocês, daqui um mês vocês podem saber a notícia que eu desapareci. Me perguntam: tenho medo? Tenho, sou ser humano, mas o meu medo não me cala. Enquanto eu tiver força pra andar, eu estarei denunciando aquele que prejudica a floresta”, afirmou. Não deu outra! O casal vivia há 24 anos em Nova Ipixuna, onde morava em uma área de aproximadamente 20 hectares, com 80% de área verde preservada. Lista macabra Zé Cláudio e Maria são como outras centenas de pessoas que estão numa lista elaborada pela CPT, da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), marcadas para morrer simplesmente porque querem viver da terra, preservando-a. A lista, elaborada a partir do famigerado Massacre de Eldorado dos Carajás (1996), traz também o volume de ocorrências gravíssimas na região, entre elas, quase 30 mil pessoas em regime de trabalho escravo e mais de 30 mil famílias despejadas. Os mortos, de 1996 a 2010 (não incluídas as vítimas do massacre), somam 212. De olho na apuração No dia em que se completaram dois meses do assassinato do casal de extrativistas, a CPT pede em nota oficial, com mais uma dezena de entidades, que seja afastado o juiz Murilo Lemos Simão da condução do processo; a continuidade das investigações; e a federalização do processo. Isto porque: ...”Ao negar a decretação da prisão dos acusados por duas vezes, o juiz contribuiu para que esses fugissem da região e, mesmo que sejam decretadas suas prisões agora, a prisão do grupo se torna ainda mais difícil. O mesmo juiz, decretou o sigilo das investigações sem que o delegado que presidia

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Heróis Verdes à espera de Justiça

Maria e Zé Cláudio, há 24 anos em Nova Ipixuna: 20 hectares com 80% de área verde preservada

o inquérito ou o Ministério Público tenha solicitado. Muitos outros crimes de grande repercussão já ocorreram no Estado do Pará (Gabriel Pimenta, Irmã Adelaide, massacre de Eldorado, José Dutra da Costa, Irmã Dorothy) e, em nenhum deles foi decretado segredo de Justiça. Entendemos que a decretação do segredo de justiça é uma forma de manter os familiares, as entidades e a sociedade distante das informações. As decisões do juiz Murilo Lemos é mais um passo em favor da impunidade que tem sido a marca da atuação do Judiciário paraense em relação aos crimes no campo no Estado. “Ao não decretar a prisão dos acusados a segurança das testemunhas fica comprometida, na medida em que a polícia já divulgou os nomes das pessoas que apontaram em depoimento os acusados como responsáveis pelos crimes. Soltos poderão atentar contra a vida das testemunhas. Com os criminosos em liberdade, nenhuma testemunha terá a segurança e a tranquilidade de se apresentar perante o juiz para prestarem novos depoimentos, comprometendo dessa forma a garantia da instrução processual”. A CPT tem marcado posição firme na apuração desse e de outros fatos. Como ao denunciar: “a polícia civil do Pará concluiu as investigações e apontou como mandante dos crimes o fazendeiro José Rodrigues Moreira e como executores, os pistoleiros Lindonjonhson Silva Rocha (irmão de José Rodrigues) e Alberto Lopes do Nascimento. Mesmo identificando os executores e um mandante do crime, nenhum deles foi preso, todos encontram-se livres em lugar não sabido, graças a decisões do juiz Murilo Lemos Simão da 4ª vara penal da comarca de Marabá”. Não é por falta de denúncias como esta que as autoridades se mostrem pouco ativas, na verdade deveriam ser pró-ativas, no combate a crimes dessa espécie e punição dos seus autores.

Em outra nota, a CPT lembra que dois dias depois da morte “encomendada” de Zé Cláudio e Maria, “foi encontrado ... o corpo do trabalhador HERENILTON PEREIRA DOS SANTOS, que estava desaparecido. “... O corpo foi encontrado por um grupo de assentados a 50 metros de uma das estradas vicinais, distante 7 km do local onde José Cláudio e Maria foram assassinados. “... Herenilton e um cunhado seu encontravam-se trabalhando em sua roça às margens de uma estrada vicinal a uns 5 km do local onde o casal de extrativistas foi assassinado por volta das 8 horas da manhã. Já por volta de 8:40h os dois presenciaram a passagem, a poucos metros deles, de dois homens em uma moto, modelo Bros de cor vermelha, vestidos de jaqueta e portando capacetes. Um deles carregava uma bolsa comprida no colo. As descrições da moto, e dos dois motoqueiros, coincide com informações prestadas à polícia por testemunhas que presenciaram a entrada, no assentamento, de dois pistoleiros horas antes do crime naquela manhã. “... Herenilton tinha 25 anos, era pai de 4 filhos e vivia no assentamento desde criança”. Rotas de fuga Ante a descrição das cenas de horror, a CPT conclui: “Até o momento não podemos afirmar que o caso tenha relação com a morte de José Cláudio e Maria, mas também não podemos descartar essa hipótese. A polícia precisa esclarecer as causas do crime. O assassinato é prova de que a polícia, depois de 5 dias das mortes dos extrativistas, sequer tinha investigado as principais rotas de fugas do assentamento que os pistoleiros possam ter usado para fugirem após cometerem os crimes. “Como explicar que um assassinato, com características de pistolagem, ocorra dois dias depois e nas proximidades do local onde os extrativistas foram mortos com todo o aparato das polícias civil e federal, ‘vasculhando a região’ conforme anunciam?”.

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Partir da estaca zero Sobre se corremos o risco de retrocesso em relação ao Código de 1965 ou ainda podemos esperar um avanço, um aperfeiçoamento ou, quem sabe, um complemento, Roberto avalia: “Toda essa discussão levada a cabo por esses conservadores vai tirar o Brasil do século XIX para levá-lo até a primeira metade do século XX. O século XXI nem existe para a maioria de nossos congressistas; afinal, a política que praticam nesse caso lembra muito aquela utilizada pelos oponentes da abolição da escravatura, quando diziam que sem os escravos o Brasil não teria mais agricultura. Agora, o discurso é o mesmo, ou seja, sem a flexibilização da lei ambiental e a anistia dos infratores não teremos mais condições de produzir alimentos”. Roberto não se arrisca a apontar pontos positivos ou negativos. “Não cabe aqui discutir ponto por ponto do projeto, visto que o que está errado é exatamente utilizar-se o texto proposto pelo deputado Aldo Rebelo para então promover correções e negociações. Em minha opinião, esse texto deveria ser descartado, e toda a discussão da modernização do atual Código Florestal deveria ser recomeçada do zero, sendo conduzida por economistas e cientistas não ligados a lado nenhum sob o comando direto do governo, com óbvia participação de todos os setores interessados e da sociedade em geral. ABr

Mudanças de rumo As reações dentro e fora do País nos permitem dizer que, se ainda há esperanças, estas ficam depositadas nos que consideramos Heróis Verdes pelo modo como veem, pensam e propõem mudanças de rumo. O presidente da SOS Mata Atlântica, Roberto Klabin, em entrevista a NEO MONDO, já havia ponderado: “O que posso dizer é que toda essa polêmica infelizmente não discute o papel da maior importância que o Brasil poderia assumir no concerto das nações como a maior potência ambiental planetária. Essa, em minha opinião, é a maior vantagem competitiva brasileira. Energia limpa, clima propício, terra e água doce em abundância, a maior floresta tropical do planeta, ocorrência de aproximadamente 20% de todas as espécies vivas do planeta e, finalmente, população proporcionalmente pequena em relação ao tamanho do território nacional. “Se hoje o país se transforma em uma potência agrícola, imagine o seu futuro brilhante caso tirasse proveito desse conceito de potência ambiental e desenvolvesse suas atividades no campo agrícola de forma mais eficiente e sustentável. “Infelizmente, o que se vê é que as propostas dos setores mais conservadores da sociedade brasileira em relação à mudança do atual Código Florestal não levam o país a esse aprimoramento”.

Estudantes protestam em Brasília para que esperanças de dias melhores se concretizem

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Gilberto Carvalho: “Não jogamos a toalha”

“Esta é uma tarefa para estadistas, não para políticos de olho na próxima eleição apenas.” Clamor internacional Há um clamor internacional, repercutido pela ONG Avaaz, para que as pessoas façam sua parte levando o governo a vetar o projeto aprovado pela Câmara em maio. Como o Senado, até o fechamento desta edição, ainda não havia votado o Código, NEO MONDO endossa a sugestão do abaixo-assinado, que se encontra em www.avaaz.org/po/save_our_forest/?cl= 1130847677&v=9447>. Para o Avaaz, as florestas brasileiras correm perigo e a Câmara dos Deputados, na verdade, o que fez foi promover o esvaziamento do Código Florestal. A ONG cita dados relevantes, ao lembrar, por exemplo: • O projeto de lei gerou revolta e protestos generalizados em todo o país, e a tensão tende a subir, como mostra o fato de ativistas ambientais respeitados terem sido assassinados, supostamente por matadores contratados por madeireiros ilegais. • 79% dos brasileiros querem que Dilma vete as mudanças no Código Florestal, mas nossas vozes estão sendo desafiadas por lobbies de madeireiros. • As florestas brasileiras são imensas e importantes. A Amazônia sozinha é vital para a vida no planeta por oferecer 20% do oxigênio e 60% da água doce do mundo.


O que muda com o novo Código Florestal O projeto de lei do novo Código Florestal (PL 1876/99), aprovado pela Câmara, altera a legislação ambiental em vigor desde 1965. Algumas das mudanças aprovadas podem ser modificadas durante a votação no Senado e, ainda, vetadas pelo governo. 1- Reserva Legal Como era A lei de 1965 previa a obrigação de reserva legal em todas as propriedades rurais. A reserva legal é um percentual mínimo de vegetação nativa que deve ser mantida nas propriedades. O percentual de preservação varia de acordo com o bioma: é de 80% na Amazônia, 35% no Cerrado e 20% nas outras regiões. O que mudou Os percentuais foram mantidos, mas o novo código dispensa propriedades com até quatro módulos fiscais (medida que varia de 20 a 400 hectares) de recompor a área de reserva legal desmatada. Para esses casos, não haverá obrigatoriedade de percentual mínimo de preservação, será válida para o cálculo qualquer quantidade de vegetação nativa existente até julho de 2008. Nos imóveis com mais de quatro módulos fiscais, o cálculo para reflorestamento pode descontar uma área equivalente a esse tamanho. O novo código também autoriza a recomposição em áreas fora da propriedade, desde que no mesmo bioma. Também autoriza o uso de espécies exóticas para reflorestamento dessas áreas.

2 - Plantações em áreas de preservação permanente (APP) de encostas e topos de morros Como era A legislação de 1965, ao proibir plantações em encostas e topos de morro, tornou irregular diversas propriedades.

em APPs, que podem ser consideradas de interesse social, utilidade pública ou de baixo impacto. O que mudou Pelo novo texto, estados, o Distrito Federal – por meio do Programa de Regularização Ambiental – e a União poderão decidir sobre atividades agropecuárias em APP. Uma nova lei vai regulamentar o uso do solo com base nos critérios de utilidade pública, interesse social e baixo impacto. O novo código ainda libera plantações, pastos e atividades de ecoturismo e turismo rural em áreas de preservação permanente (APPs) até julho de 2008.

O que mudou O novo código permite plantações de café, maçã, uva e fumo já consolidadas em encostas e topos de morros com inclinação de mais de 25 graus, que são consideradas áreas de preservação permanente (APPs), e também em locais com altitude superior a 1,8 mil metros. A medida não permite novos desmatamentos nessas áreas. Nas áreas de preservação em beira de rios, o texto manteve as mesmas faixas de proteção estabelecidas hoje: 30 a 500 metros em torno de rios. No caso de rios com até dez metros de largura e que já tenham sido desmatados, a faixa de recomposição será de 15 metros.

4 - Regularização Ambiental Como era Pelo Código Florestal de 1965, os proprietários que não respeitaram os limites de reserva legal e de cultivos em APPs estavam ilegais e sujeitos a multas por crimes ambientais e embargo das propriedades.

3 - Desmatamentos em APPs Como era O Código de 1965 diz que é do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) a prerrogativa de definir atividades

O que mudou Será criado o Cadastro Ambiental Rural (CAR), onde a reserva legal será registrada sem a necessidade da averbação (registro) em cartório.

Desmatamento em APPs Como era

Como ficou

Fonte: Texto do Código Florestal aprovado pela Câmara

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Depois de uma semana de intensas e extensas negociações com três tentativas de votação, entre 10 e 14 de maio, a Câmara dos Deputados aprovou, por 410 votos a favor, 63 contrários e 1 abstenção, o novo Código Florestal na noite de 24 de maio. Ficaram para ser votados alguns destaques que pretendiam alterar o texto do relator Aldo Rebelo (PCdoB-SP). Apenas o P-SOL e o PV recomendaram voto contrário à matéria. Aprovado o texto-base, os deputados rejeitaram, de uma só vez, os destaques apresentados pelos deputados que pretendiam alterar parte do relatório de Aldo Rebelo. Os destaques, propostos principalmente por deputados do PV, que tentavam suprimir partes do parecer, receberam do relator parecer pela rejeição. Em seguida foi iniciado o debate da emenda proposta pelo PMDB, de autoria do deputado Paulo Piau (PMDB-MG). Destacado pelo PMDB, ou seja, para ser votada nominalmente, o dispositivo dá aos estados e ao Distrito Federal (DF), assim como à União, o poder de legislar sobre a política ambiental.

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Intensas e extensas negociações

Vaccarezza: “emenda muda essência”

Esse ponto é considerado um dos mais polêmicos e altera o Artigo 8º do texto de Aldo Rebelo. O líder do governo na Casa, Cândido Vaccarezza (PT-SP), anunciou que, caso ele seja aprovado e não for retirado no Senado, a presidente Dilma Rousseff irá vetá-lo. O destaque foi defendido com veemência pelo líder do PMDB, Hen-

rique Eduardo Alves (RN). Ele afirmou que a aprovação do destaque não significa derrotar o governo, mas será uma vitória da agricultura e da produção brasileira. Vaccarezza rebateu dizendo que a própria presidente Dilma teria dito que a emenda é “uma vergonha para o Brasil”. “A emenda muda a essência do texto do deputado Aldo Rebelo”, disse.

SERVIÇO Para saber mais, acesse: Ativistas marcham contra novo Código Florestal no Rio e em SP http://bit.ly/mnmoGz Senado precisa modificar o Código Florestal http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20110619/not_imp734296,0.php Ministra vai recomendar veto caso Código Florestal seja aprovado no Senado sem mudanças http://oglobo.globo.com/pais/mat/2011/06/21/ministra-vai-recomendar-veto-caso-codigo-florestal-sejaaprovado-no-senado-sem-mudancas-924734864.asp Para senador, novo Código Florestal compromete a defesa do meio ambiente http://www.jb.com.br/pais/noticias/2011/06/16/para-senador-novo-codigo-florestal-compromete-a-defesa-domeio-ambiente/ Igreja Católica anuncia apoio contra o novo Código Florestal Brasileiro http://primeiraedicao.com.br/noticia/2011/06/22/igreja-catolica-anuncia-apoio-contra-o-novo-codigo-florestal-brasileiro

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Coisas que eu vi

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Meu herói verde é

CHICO MENDES

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ossa revista está homenageando os Heróis Verdes. Claro que meu artigo precisa também fazer essa abordagem, e eu me inclinei a buscar as figuras que mais se destacaram na tarefa de defender nossas águas, nossas florestas, nosso ar, nossa vida. E por mais que busque nomes, uma pessoa tornou-se o destaque maior no meu consciente. Não. Essa pessoa não é a Marina Silva. Evidente que ela representa uma parcela ponderável desse exército defensor da sustentabilidade, e nas últimas eleições presidenciais ela arrancou suspiros de uma legião muito grande que comunga com esse espírito preservacionista. Não. Não é ela meu herói verde. Eu pensei também no casal José Cláudio Ribeiro da Silva e Maria do Espírito Santo que denunciavam constantemente o desmatamento na Amazônia e que foram assassinados numa emboscada, e me recordei também de Batista, o presidente dos Seringueiros do Vale do Arari que tombou também vitima da sanha sanguinária dos “donos da mata”. E poderia repassar uma lista enorme de pessoas que lutaram, alguns morreram e outros permanecem denunciando o

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desmatamento desse pulmão verde plantado no Norte do Brasil. Poderia sim evocar muita gente, mas existe uma pessoa que foi o princípio de tudo, o baluarte de tudo e passou a ser o maior símbolo dessa luta: Chico Mendes, assassinado pela causa verde a 22 de dezembro de 1988. Esse é meu herói verde. Foi ele quem efetivamente começou a grande luta pela preservação do nosso pulmão verde. Foi ele quem lutou e morreu defendendo a causa ecológica. Chico Mendes praticamente nasceu no mato, foi criado e educado seguindo os preceitos sagrados da sustentabilidade. Ele começou seu oficio de seringueiro ainda criança, acompanhando o pai em excursões pela mata. Não foi à escola enquanto criança e só aprendeu a ler e escrever aos vinte anos de idade, pois na maioria dos seringais não tinha escolas e os proprietários de terras não tinham o menor interesse em criá-las em suas terras. Mas vivendo naquele ambiente e conhecendo a forma grosseira como esses latifundiários tratavam do problema, ele foi criando a consciência da importância da mata e em 1975 tornou-se líder sindical, sendo eleito secretário-geral do re-

cém-criado Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Brasiléia. E já no ano seguinte, colocou-se à frente das lutas dos seringueiros para impedir o desmatamento com os “empates”, que eram manifestações pacíficas onde os seringueiros protegem as árvores com seus próprios corpos. Paralelamente Chico Mendes começou a organizar com os nativos ações em defesa da posse da terra. Seu trabalho como líder sindical começou a prosperar e em 1977 fundou o Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Xapuri, ingressando no mesmo ano na política se elegendo vereador pelo MDB local, quando levantou como bandeira de luta a preservação das matas. E começou também a receber as primeiras ameaças de morte por parte dos fazendeiros. Suas posições passaram a representar um problema dentro do próprio partido, que não se identificava com sua luta. Mas ele não se deu por vencido e, mesmo enfrentando as barreiras da conservadora oposição agrária identificada com a ditadura, reuniu lideranças sindicais, populares e religiosas na Câmara Municipal abrindo assim um grande foro de debates.


Humberto Mesquita

Sua participação política incomodava as lideranças mais conservadoras que viam nele uma ameaça constante ao “seu trabalho”. Ele foi acusado de subversivo e foi submetido a interrogatórios acompanhados de tortura. Mas mesmo assim não esmoreceu, e mais do que isso aumentou seu contingente de seguidores com uma grande adesão de seringueiros, índios e quilombolas, todos presentes ao Segundo Encontro Nacional em Brasília. Em 1980 Chico Mendes se desligou do MDB e participou da fundação do Partido dos Trabalhadores tornandose um dos dirigentes no Acre. Participou de comícios com Lula e pela sua pregação política foi enquadrado na Lei de Segurança Nacional a pedido dos fazendeiros da região, aliados da ditadura e que tentaram envolvê-lo na morte de um capataz de fazenda que assassinara Wilson Souza Pereira, presidente do Sindicato dos Trabalhadores de Brasiléia. Em 1981 assumiu a direção do Sindicato de Xapuri, sendo presidente durante sete anos. Nesse período sofreu inúmeras acusações como a de incitar posseiros à violência e que o levou a ser julgado e absolvido por falta de provas pelo Tribunal Militar. Em 1985 liderou o Primeiro Encontro Nacional dos Seringueiros, oportunidade em que foi criado o Conselho Nacional dos Seringueiros. Seu nome ganhou projeção internacional com a proposta da União dos Povos da Floresta em defesa da Floresta Amazônica e que tinha como objetivos complementares unir os interesses dos indígenas, seringueiros, castanheiros, pequenos pescadores, quebradeiras de coco babaçu e populações ribeirinhas através da criação de reservas extrativistas que preservariam áreas indígenas e a floresta além de representar também um instrumento da reforma agrária pregada pelos seringueiros.

Em 1986 se juntou a Marina Silva formando uma dobradinha para a Câmara Federal e Assembleia do Acre, mas foram derrotados. Mas ele não desanimou e continuou sua luta e em 1987 convidou membros da ONU a visitarem Xapuri onde puderam ver de perto a devastação da floresta amazônica e a expulsão de seringueiros, motivos por projetos financiados por bancos estrangeiros. Nesse mesmo ano ele foi convidado a levar estas denúncias ao Senado Norte-americano e também à reunião do BID – Banco Interamericano do Desenvolvimento. Essas denúncias provocaram a suspensão dos financiamentos o que elevou o grau de ira dos fazendeiros contra Chico Mendes, acusado agora de “prejudicar o progresso” da região, o que não convenceu a opinião pública internacional que manteve a pressão sobre esses financiadores indesejáveis. Pela sua participação cada vez mais intensa na luta pela preservação do verde, Chico Mendes recebeu vários prêmios internacionais como o Global 500 oferecido pela ONU por causa da sua luta em defesa do meio ambiente. Com seu prestígio em alta ele participou da implantação das primeiras reservas extrativistas no Estado do Acre e em contraposição passou a receber cada vez mais ameaças agora também por parte de lideranças da UDR. Mas ele se manteve firme nos seus propósitos e iniciou uma caravana que deveria viajar pelo país participando de seminários, palestras e congressos sempre denunciando a ação nefasta e predatória de grupos de fazendeiros da região que praticavam toda espécie de violência contra os trabalhadores para impedir o crescimento do movimento. Chico Mendes não se intimidava com as barreiras e com as ameaças e seu crescimento estava indo “acima de todos os limites” na opinião desses ru-

ralistas, e a gota d’água deve ter sido a desapropriação do seringal Cachoeira, em Xapuri, cujo proprietário era Darley Alves da Silva, um dos mais agressivos fazendeiros da região. As ameaças se agravaram e eles pregavam abertamente a morte de Chico Mendes, que também denunciou várias vezes os nomes dos seus futuros algozes. Procurou proteção das autoridades policiais e governamentais, informando a todos que estava correndo o risco de perder a vida. E atribuiu à UDR a responsabilidade pela violência que estava para ser praticada. Uma voz que não foi ouvida. A impressão que se tinha era de que estava havendo uma complacência irresponsável por parte de quem deveria garantir a segurança de quem estava defendendo uma causa nobre. No Terceiro Congresso Nacional da CUT ele voltou a denunciar a violência. A tese que apresentou em nome do Sindicato do Xapuri “Em defesa dos Povos da Floresta” foi aprovada pela unanimidade dos seis mil delegados presentes e Chico Mendes foi eleito suplente da direção nacional da CUT assumindo ainda a presidência do Conselho Nacional dos Seringueiros. Foi a página derradeira desse mártir da causa verde. Em 22 de dezembro de 1988, logo depois de completar 44 anos de idade, Chico Mendes foi assassinado com tiros de escopeta no peito, na porta dos fundos da sua casa. Caiu um corpo fulminado pela ganância dos exploradores da Mata Amazônica. Morreu defendendo sua preservação. Morreu o homem, mas a ideia está viva. Esse é o meu HERÓI VERDE.

Jornalista, Escritor e Editorialista. Apresentador de TV e Rádio.

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Heróis Verdes

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A COMPENSAÇÃO

COMPENSA


O exercício da cidadania empresarial por parte de companhias de grande porte ou globalizadas gera resultados claros, mensuráveis. É o caso da Nestlé, onde o significativo aumento de desempenho ambiental das suas unidades nos últimos 12 anos evidencia a excelência de gestão. Antônio Marmo

Cadeia de US$ 6 bi Trata-se de uma cadeia que hoje soma US$ 6,2 bilhões em matéria-prima comprada em países em desenvolvimento e opera junto a 610 mil agricultores, beneficiados com assistência técnica gratuita. Assim, obrigatoriamente, a Nestlé marca forte presença com esses três programas:

plantas industriais um Sistema de Gestão Ambiental certificado na norma ISO 14001 e integrado aos sistemas de Gestão da Qualidade (ISO 9001), Segurança Alimentar (ISO 22000) e Segurança e Saúde do Trabalho (OHSAS 18001). Um coordenador ambiental está plantado em cada uma das suas unidades para fazer com que todos os aspectos ambientais das suas atividades e os requisitos legais ambientais e internos aplicáveis sejam levantados, avaliados e gerenciados continuamente. Resultados claros Assim, nos últimos 12 anos foram economizados 80,4% da água residual descartada e o próprio consumo foi reduzido em 80,4%. Os gases poluentes SOX (óxidos de enxofre) e refrigerantes, nocivos para a camada de ozônio, tiveram a emissão reduzida em 76,9% e 78,8%, respectivamente, e o CO2 em 64,5%. Também o consumo de energia caiu em 32,3% e a geração de resíduos sólidos em 53%. Trazendo para mais perto, os índices de consumo de água indexados pela produção da Nestlé no Brasil dos últimos três anos, em m³/tonelada de produto, registraram diminuição de uso de água de 22% em 2010 se comparados ao consumo de 2008, mesmo a empresa tendo elevado sua produção em 22% no período. A Nestlé é ainda uma das empresas fundadoras do Mandato dos Presidentes sobre a Água, do Pacto Global das Nações Unidas.

Ela monitora e busca melhorar a eficiência da água com o trabalho de especialistas em gerenciamento de recursos hídricos e com os especialistas ambientais alocados em suas fábricas, agindo em sintonia com o Sistema Nestlé de Gestão Ambiental. Com isso ela diz reconhecer o direito de todas as pessoas ao acesso à água limpa que atenda às suas necessidades básicas. Puro marketing? A Nestle foi patrocinadora máster do evento Fórum Internacional de Sustentabilidade em Manaus deste ano.  Um dos palestrantes alertou que a empresa que não priorizar hoje a sustentabilidade corre riscos econômicos e de imagem. Mas houve alertas para o fato de que algumas ações apenas maquiam investimentos ambientais como puro marketing social. Não parece ser este o caso da Nestlé. Ações exemplares e de resultados concretos para além do marketing são palpáveis. A empresa considera que o gerenciamento das questões relativas ao meio ambiente é uma responsabilidade compartilhada e requer a cooperação de todos os setores da sociedade. Um bom exemplo de ação é a parceria entre sua unidade de chocolates com a TerraCycle, líder global na coleta e reúso de resíduos pós-consumo. O programa, iniciado em outubro de 2010, visa recolher e transformar embalagens de chocolate em sacolas, bolsas e estojos. Até o momento, 130 mil embalagens de chocolates já foram coletadas. Divulgação

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lgumas empresas podem – e conseguem – esnobar em seus eventos. Para lançar, em 2009, seu programa de Criação do Valor Compartilhado, plataforma mundial de Responsabilidade Social, a Nestlé colocou entre os 400 convidados exclusivos hospedados no Copacabana Palace, do Rio de Janeiro, ninguém menos que Kofi Annan, um prêmio Nobel da Paz e sétimo secretáriogeral da ONU. Uma das mais relevantes vozes mundiais para temas como sustentabilidade e mudanças climáticas, Kofi Annan veio na ocasião ao Brasil para participar do seminário Nestlé Brasil Global. Ao lançar este ambicioso programa há dois anos, a empresa buscava aliar o desenvolvimento sustentável do negócio à geração de valor para as comunidades onde ela está presente. Assim, ela elegeu três temas-foco para direcionar a atuação de sua plataforma mundial de responsabilidade social corporativa: Nutrição, Água e Desenvolvimento Rural, que estão diretamente relacionados às operações da companhia em diferentes momentos da cadeia do negócio.

Nutrir: leva educação alimentar a crianças e adolescentes de baixa renda e já atendeu cerca de 1 milhão de crianças em todo o país; Cuidar: leva educação ambiental com foco na preservação da água; Saber: programa desenvolvido com foco especifico no desenvolvimento rural. Mas antes mesmo de uma plataforma de sustentabilidade, a empresa já havia implantado também uma Política Ambiental Integrada, mantendo em todas as suas

Parce­ria Nestlé com a TerraCycle, líder global na coleta e reúso, transforma embalagens usadas de chocolate em sacolas e bolsas Neo Mondo - Julho/Agosto 2011

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Heróis Verdes Divulgação

A Nestlé, em parceria com a Universidade Federal de Viçosa (UFV-MG), a Universidade Federal Goiânia (UFG-GO) e a Universidade Federal de Santa Maria (UFSM-RS), fornece assistência técnica a pequenos produtores familiares, com vistas ao crescimento da atividade leiteira e ao aumento da competitividade, por conta da melhor qualidade do leite captado, com impactos na qualidade de vida no meio rural. Conectada com a realidade

Pequenos produtores familiares recebem assistência técnica com vistas ao crescimento da atividade leiteira e ao aumento da competitividade

Outras ações a destacar são: • Programa Nestlé Faz Bem Nutrir: promove alimentação saudável por meio da capacitação de educadores da rede pública paulistana de ensino. Desde 1999, o Nutrir alcançou 12.390 educadores, 4.886 escolas e 1.413.514 crianças. • Programa Nestlé Faz Bem Cuidar: promove o cuidado com a água, meio ambiente e com a criança por meio da capacitação de educadores da rede pública municipal de ensino. Desde 2008, o Cuidar alcançou 3.066 professores, 1.238 escolas e 423.746 crianças. • Programa de voluntariado da Fundação Nestlé Brasil: colaboradores Nestlé de unidades da empresa que levam conceitos básicos de alimentação saudável e cuidado com a água, meio ambiente e criança diretamente a entidades sociais dos municípios. Em 2010, 234 voluntários de 22 unidades atenderam 1.258 crianças.

• Parceria Nestlé e Cempre (Compromisso Empresarial para Reciclagem): apoio ao projeto do Cempre de formação de cooperativas de catadores. A Nestlé é sócia-fundadora do Cempre. Desde 2006, foram formadas 17 cooperativas em 7 estados com o apoio da Nestlé que realizaram a triagem de 7.710 toneladas de materiais em cinco anos. Em 2010, a renda média mensal de cada cooperado foi de 433,64 reais. • Instituto Fernanda Keller: apoio ao programa de combate à obesidade infantil realizado pelo instituto em Niterói, RJ. Em 2010, foram atendidos 70 crianças e 63 adultos das famílias beneficiadas. • Programa de Desenvolvimento da Pecuária Leiteira (PDPL): teve início há mais de duas décadas na região de Viçosa, MG, estendendo-se posteriormente a Goiânia-GO e Palmeira das Missões-RS.

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Ao eleger como temas-focos para suas ações de responsabilidade social a Nutrição, a Água e o Desenvolvimento Rural, três itens de forte impacto na realidade brasileira, a companhia mostrou-se conectada com um Pais que ainda briga com a fome e a miséria e ainda não sabe como gerenciar direito tanta água, a multinacional da nutrição. Hoje a Nestlé vem redirecionando posicionamentos em relação a seus mercados tradicionais, acelerando processo de popularização, buscando, agora, atuar em favelas, atrás das classes C,D,E..., baixa renda. Como se deu essa guinada e por quê? A assessoria da empresa explica que o desenvolvimento de negócios voltados aos consumidores de baixa renda – mercado estimado em mais de 2,8 bilhões de pessoas no mundo, com rendimentos inferiores a US$ 10,00/dia – é uma plataforma estratégica para o crescimento do grupo e vem crescendo com foco na criação de produtos equilibrados nutricionalmente e devidamente adaptados. Além disso, há o lado da inclusão social que está alinhado ao conceito de Criação de Valor Compartilhado – plataforma mundial de responsabilidade social da Nestlé, que visa aliar o desenvolvimento sustentável do negócio à geração de valor para as comunidades em que está presente. A empresa vem estabelecendo estratégias para atingir consumidores de classes C, D e E em sua rotina por meio de diferentes pontos de contato. Um dos principais programas é o Nestlé Até Você, que conta com o modelo de venda porta-a-porta, realizado pela empresa desde 2006. Atualmente, o programa conta com mais de 270 microdistribuidores e 8.200 mil revendedores, e está presente em 19 estados do país. Microdistribuidores

Programa de Desenvolvimento da Pecuária Leiteira teve início há mais de duas décadas, levando qualidade de vida à zona rural 54

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Com este modelo 3,2 milhões de lares serão visitados neste ano. O sistema prevê microdistribuidores em bairros carentes que recrutam revendedores para trabalhar com


Cobranças passadas Claro, a Nestlé não é imune a críticas. Ela enfrentou, tempos atrás, acusações de estar desmineralizando água em São Lourenço por conveniências de mercado. Vieram, ainda, acusações de que estaria utilizando soja transgênica em seus produtos. À época a empresa creditou tais denúncias à concorrência, num mercado superdisputado. Hoje porta-vozes da companhia comentam que “a política de desenvolvimento industrial da Nestlé é praticada em consonância com a preservação do meio ambiente, mantendo, inclusive, discussões sobre o gerenciamento da água no Planeta, respaldadas em bases científicas”. “Dessa forma”, continuam, “a empresa conta com uma gestão responsável dos recursos hídricos e os utiliza de forma que sua disponibilidade não seja afetada, em conformidade com os princípios de gestão ambiental e desenvolvimento sustentável”. Afirmam que a empresa “segue rigorosamente as normas estabelecidas pela legisla-

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Ivan Zurita, presidente da Nestlé Brasil, com o prêmio Nobel da Paz e 7º secretário-geral da ONU, Kofi Annan, no lançamento da plataforma mundial de Responsabilidade Social da empresa, em 2009, no Rio

ção para a comercialização de seus produtos. Em todas as fontes da Nestlé, a captação de águas é sempre realizada em total acordo com as determinações das autoridades competentes, como o Departamento Nacional de Produção Mineral e a Agência Nacional de Vigilância Sanitária, além de organismos de controle ambiental, e a produção e a comercialização dos produtos tem, necessariamente, a aprovação e licença dos mesmos”. As informações dão conta de que “a Nestlé realiza controles diários de nível, vazão e qualidade da água em todas as fontes. Além disso, foi reconhecida com a Comenda Ambiental Estância Hidromineral de São Lourenço (em 20/03/2011) e com a Medalha da Inconfidência - MG (em 21/04/2011), face ao trabalho de destaque em prol da preservação do meio ambiente, particularmente dos recursos hídricos, com as melhorias realizadas no Parque das Águas de São Lourenço – mantido e administrado pela Neslté”. Em relação ao uso de soja transgênica, a Nestlé reitera o compromisso com os consu-

midores e o estrito cumprimento da legislação brasileira, especialmente o Decreto 4.680/2003. De acordo com essa legislação, produtos que contenham ou que sejam produzidos com mais do que 1% de organismos geneticamente modificados devem ser rotulados. A Nestlé ainda assegura que seus produtos são de alta qualidade e estão aptos para consumo, tanto no que diz respeito à segurança como do ponto de vista nutricional. Foco dos patrocínios A Nestlé tem focado seus patrocínios em eventos especiais como o Fórum Internacional de Sustentabilidade, realizado anualmente em Manaus, e em abril, como patrocinadora máster do Grande Prêmio São Paulo Indy 300. Neste último, realizado no Anhembi, em São Paulo, a empresa participou da ação Carbon Free, que prevê o plantio de 4 mil árvores em diversos parques e áreas verdes de São Paulo para neutralizar as emissões geradas pela realização da competição. Divulgação

a venda das diversas marcas de produtos da empresa. Com a atividade os revendedores obtêm renda complementar ao orçamento familiar, tornando-se, em alguns casos, a principal fonte de recursos para a família. Outra iniciativa importante é o Projeto de Regionalização, iniciado em 2000, quando a companhia deu início a pesquisas de mercado no Nordeste. Executivos da empresa foram a campo e visitaram os lares de famílias nordestinas para entender melhor os hábitos de consumo e a cultura dos 50 milhões de consumidores localizados nesta região. Como resultado, em 2004, a Nestlé criou a diretoria regional Norte/Nordeste, em Recife, para desenvolver um modelo que atendesse às necessidades desses consumidores. A estrutura permitiu desenvolver produtos e ações específicas para o público local. Entre as inovações, podemos citar o Produto lácteo IDEAL – enriquecido de Ferro, Cálcio e Vitaminas A, C e D, vendido em sache de 200 gramas, criado especialmente para atender as carências nutricionais da população destas regiões. Além disso, a companhia também realiza ações culturais, sociais e promoções durante festividades regionais, com o objetivo de estar cada vez mais próxima dos consumidores. Além de estar presente na festa de Caruaru, uma das mais tradicionais do País, a Nestlé também realiza ações em outras festas nas regiões Norte e Nordeste, como o São João em Campina Grande, Parintins, Círio de Nazaré, entre outras.

Foram eleitos 3 temas-foco para plataforma ambiental da Nestlé: nutrição, água e desenvolvimento rural Neo Mondo - Julho/Agosto 2011

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Heróis Verdes De acordo com dados passados pela assessoria da multinacional, os estudos feitos por uma consultoria especializada em compensação ambiental concluiu que seriam emitidos cerca de 760 toneladas de gases poluentes pela cadeia produtiva do evento, entre as fases de montagem, realização e desmontagem. O cálculo das emissões geradas pela realização da São Paulo Indy 300 considerou as atividades das cerca de cinco mil pessoas envolvidas na produção da prova – entre empregos diretos e indiretos -, o deslocamento (ida e volta) dos dois aviões cargueiros que transportam os carros e todo material das equipes desde os Estados Unidos, os veículos utilizados na construção do circuito e nas operações de pista. Os 26 carros de corrida, apesar de equipados com motores V8 de 3,5 litros e 650 cavalos de potência, são os que menos contribuem para as emissões, pois todos são movidos pelo etanol brasileiro. No ano passado, o programa de compensação ambiental da corrida promoveu o plantio de árvores ao longo das marginais do Tietê e Pinheiros. Agricultura sustentável A Nestlé Nespresso pretende oferecer cerca de 80% de seu café vindos de fazendas sustentáveis até 2013, sendo que 40% desse café já é oferecido desde fins de 2009, segundo o diretor-presidente da empresa, Richard Girardot. Ele fez essa afirmação no mesmo dia em que a Nestlé lançou a plataforma “Ecolaboration” (algo como ecolaboração, em português), que reúne os investidores chave em torno de um foco de sustentabilidade. “Não é nosso carro-chefe de crescimento a curto prazo, mas a longo prazo”, afirmou Girardot em referência aos objetivos de sustentabilidade da empresa.

O café da Nespresso se baseia no seu programa de qualidade e sustentabilidade, o que inclui grãos cultivados em propriedades com o selo Rainforest Alliance. O foco é na qualidade, balanceando a produção ambiental, econômica e social. As empresas e atitudes ambientais

Para conscientizar

Diversas empresas – entre elas, produtoras de água engarrafada – têm lançado iniciativas atreladas às suas atitudes ambientais, para reduzir seu volume de água utilizado em prol de melhor distribuição do recurso. Outros exemplos, além da Nestlé, vêm da Pepsico da América Latina, que ao seguir o seu conceito global Performance com Propósito reduziu 32% do consumo de água já em 2010 e, com isso, ultrapassou a meta de 25% para 2015. Essa redução equivale a 1,03 bilhão de litros. “Para atingir a meta estipulada pela matriz, com cinco anos de antecedência, a operação sulamericana atuou em uma série de frentes. Isso engloba o descobrimento de formas inovadoras para minimizar o impacto no meio ambiente, com ações que permeiem todo o negócio e visem à conservação de água”, explicou Jorge Tarasuk, vice-presidente de Operações da Divisão de Alimentos da Pepsico América do Sul. A Fundação Pepsico anunciou ainda a doação de US$ 5 milhões para o AquaFund, lançado pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) para potencializar o abastecimento de água e saneamento básico na América Latina. A Coca-Cola, por sua vez, anunciou a redução de 1,5% no volume de água utilizado no processo de fabricação de seus produtos em 2010. Em dez anos, o consumo total foi reduzido em 23%. Para a empresa, a água está no centro de suas atenções e figura como parte da plataforma de sustentabilidade da Coca-Cola Brasil, a Viva Positivamente. “A água é um re-

No Dia Mundial da Água, diversas ações foram desencadeadas por empresas com vistas à conscientização de seus públicos. Em São Paulo, o Planeta Sustentável, plataforma da Editora Abril, com apoio da CPFL, Bunge, Petrobrás, Camargo Corrêa e Caixa, promoveu uma caminhada pela água no Parque Ecológico do Tietê, com percurso de seis quilômetros, em homenagem à distância que muitos andam para ter acesso à água em algumas regiões do mundo. A Ambev, por meio do Movimento Cyan, lançado em março de 2010 e que promove o consumo consciente da água, lançou o Banco Cyan em parceria com a Sabesp. Pela ferramenta, é possível calcular o seu nível de consumo e estabelecer metas de redução. Ao cumprir os objetivos, são acumulados pontos que podem ser convertidos em créditos para compras na Blockbuster, Americanas.com e Submarino. Esta é uma maneira de incentivar e engajar o público em torno de sua atitude. Além do Banco Cyan, a Ambev promoveu também debate entre especialistas e convidados sobre o tema, na Oca do Parque Ibirapuera, em São Paulo, onde ficou em exposição a Água na Oca, mostra criada pela Ambev em parceria com o Instituto Sangari com instalações interativas, obras de arte, aquários e fotografias. A Nestlé promoveu atividades no Parque das Águas, em São Lourenço, Minas Gerais, que incluem oficinas de Educação Ambiental para mais de 600 crianças de escolas públicas e privadas do município. A ação integra a programação mundial da empresa para o Dia Mundial da Água.

Filipe Redondo

Exposição Água na Oca: pense diferente (movimento Cyan) 56

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curso finito, para o qual devem ser pensadas soluções de uso racional, não só pela sustentabilidade dos negócios, mas pela garantia de qualidade de vida das comunidades e pela manutenção dos ecossistemas”, afirmou o diretor de Meio Ambiente, José Mauro de Moraes.

Filipe Redondo

Exposição Água na Oca - Conta Gotas, da artista Márcia Xavier


Heróis Verdes

Práticas

sustentáveis Full Jazz cria ambiente de leveza, alegria e respeito sem nada a esconder atrás da cortina Bruno Molinero

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ão importa o que estão fazendo. A cada hora, uma sirene toca e todos os funcionários da agência de publicidade Full Jazz param suas atividades. Durante exato um minuto, eles simplesmente respiram. Nem a livre vazão de pensamentos está autorizada. “A mente precisa se aquietar a intervalos para eliminar o mais tóxico dos inimigos: o excesso de pensamentos”, explica Christina Carvalho Pinto, sócia-fundadora do Grupo Full Jazz e idealizadora da prática na empresa. A ideia surgiu a partir de uma campanha global, “Just a Minut”, que defende que a mente precisa se aquietar um pouco durante o dia. O que pode parecer uma grande esquisitice está no topo da lista de práticas sustentáveis e de melhora da qualidade de vida e trabalho elaborada pela agência. “Em nossas empresas, reciclamos tudo, evitamos desperdícios, neutralizamos carbono e buscamos estimular um ambiente de leveza, alegria e respeito”, conta Christina. Mas nada se compara à pausinha no meio do expediente. Christina faz parte de um grupo de empresários “naturebas”. Ela pratica tai chi chuan desde a adolescência, faz meditação há 15 anos e acredita que todos fazem parte de um

mesmo sistema: o meio ambiente. E que não há qualquer separação entre o ser humano e o meio em que ele vive. Mas o que muitas vezes acaba no discurso ecochato Christina transformou em modelo de negócio. Ela enxergou a tendência mundial de preocupação com o meio ambiente e com a sustentabilidade e resolveu ganhar dinheiro com isso. “A nova geração de líderes vem com uma nova consciência. Na comunicação, isso se dá através da conexão verdadeira com as audiências, sem manipulação, sem geração de falsos desejos e falsas necessidades. O modelo corporativo vigente, voraz como nunca, tem pouca ou nenhuma afinidade com a visão de um mundo sustentável”, conta. Em outras palavras, é a famosa tendência de comerciais de televisão, em que muitas empresas usam tons verdes e mostram crianças plantando árvores e reciclando garrafinhas pet. Mas, atrás da cortina, elas utilizam trabalho infantil em países do terceiro mundo para diminuir os custos. A coerência entre a imagem divulgada e a prática real da empresa não parece preocupar Christina e a Full Jazz. “A chave é o que exigimos de nós e não o que exigimos dos outros. Exigimos de nós o valor

da coerência, o que nos torna naturalmente atraentes para empresas que também estão nessa busca. Para nossa alegria, temos, queremos e estamos preparados para clientes assim. É superestimulante poder usar toda a criatividade para algo que beneficie as pessoas e a vida”, explica.

Christina acredita em nova geração de líderes com nova consciência, em que a coerência é o diferencial: vale “o que exigimos de nós, e não dos outros”

Mondo - Setembro 2011 2008 NeoNeo Mondo - Julho/Agosto

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BONS EXEMPLOS (PARTE 2)

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ublicamos na edição de abril de NEO MONDO artigo que destacava as boas iniciativas no meio empresarial voltadas às práticas sustentáveis. Já registrando naquela oportunidade que o espaço disponível nos privava de apontar diversos outros exemplos de destaque a respeito, deixamos para uma melhor oportunidade a complementação daquele trabalho, que o tema principal desta edição agora nos propicia. Assim, daremos início à segunda parte dessa exposição citando a empresa petroquímica Braskem, que desenvolveu o polietileno verde, resultante da obtenção do eteno produzido a partir da desidratação do etanol da cana-de-açúcar, totalmente reciclável e capaz de capturar até 2,5 toneladas de CO2 da atmosfera para cada tonelada de plástico verde produzida. Trata-se, ainda, de um produto certificado como sendo 100% de fonte renovável, pelo

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laboratório norte-americano Beta Analytic Inc., líder mundial na análise de isótopos de carbono. A TAM, por sua vez, em dezembro de 2010, realizou o primeiro voo experimental com bioquerosene de aviação da América Latina. O objetivo é criar uma cadeia de valor para a produção sustentável de combustível com o pinhão-manso. Estima-se que esse bioquerosene de aviação emita entre 65% e 80% menos gases de efeito estufa que o querosene produzido exclusivamente do petróleo. Já a Sabesp, no complexo Aquapolo que está construindo com o Polo Petroquímico do ABC, economizará cerca de 1,6 bilhão de litros de água dos mananciais paulistas por mês (volume suficiente para abastecer uma cidade de até 600 mil habitantes no período), com o fornecimento de mais de mil litros por segundo de água de reúso a sua parceira – tudo

isso dentro de uma política de incremento da utilização desse tipo de produto junto aos seus clientes. Também a Even Construtora e Incorporadora, disposta a reverter o alto nível de desperdício do setor da construção civil no País, implementou em todos os seus empreendimentos um amplo sistema de gestão ambiental, com um processo de auditoria que monitora, mede e define o destino da maior parte dos resíduos gerados em suas obras. Em 2009, esse sistema permitiu que 100% das sobras de material fossem corretamente descartados. Desse total, 55% foram destinados à reciclagem ou à reutilização na indústria. O restante foi encaminhado para aterros sanitários. Temos, ainda, a Ambev, que, por intermédio do Movimento Cyan, em parceria com a Sabesp, promove o uso consciente da água. Recompensando aqueles que conseguem diminuir a utilização desse


Dr. Dr. Marcos Marcos Lúcio Lúcio Barreto

recurso, com pontos que podem ser trocados por descontos nos portais Submarino, Americanas.com e Shoptime, dissemina práticas de racionalização do consumo de água, inclusive para condomínios, onde os benefícios vão para a administração. Está prevista expansão do projeto, mediante gências, asob pena de benefícios fiscais asuspensos diversificação dos parceiros que oferee multas altíssimas, que pocem descontos e das concessionárias de dem chegar a quase R$ 50 milhões, fiabastecimento de outros Estados. xadas pela lei estadual nº 13.577/2009. A EDP, quinta maior geradora de enerEsse recente diploma legal, a propósito, gia do País, igualmente, investe na instalaapós iniciativa da CETESB, tornou obrigação de uma ampla rede de postos de abastório o registro em cartório, na matrícula tecimento de veículos elétricos no Brasil. do imóvel, da existência de contaminação, Apesar de se tratar de iniciativa ainda incimesmo na hipótese de recuperação, que piente, com projetos pilotos de postos que também pode ser registrada, servindo como recarregam, hoje, apenas bicicletas elétrium alerta ao futuro comprador. Acrescentacas, diante da estimativa de que, até 2020, mos, inclusive, que, ainda que o titular da os carros elétricos e híbridos responderão área se omita no registro da contaminação, por 20% da frota mundial, o objetivo da a CETESB se encarrega de fazer a respectiva empresa é, até lá, estruturar uma robusta comunicação ao cartório. rede para satisfazer esses novos consumiVale lembrar, também, por oportuno, que o adquirente do imóvel passa a ser le-

dores. Em cerca de um ano e meio, já foram doadas 90 bicicletas e instalados 20 postos de abastecimento, em São Paulo e Espírito Santo. A Natura, da mesma maneira, orienta suas ações socioambientais em consulta aberta a seus colaboradores, consumidogalmente responsável solidário, civil e adres, fornecedores, consultoras e investiministrativo, pela descontaminação. dores. Entre reuniões virtuais e encontros Por outro lado, o que se verifica é que, presenciais, a empresa reuniu cerca de cada vez mais, antigas áreas industriais estão 1,4 mil pessoas que definiram os temas sendo reaproveitadas para uso residencial. prioritários da companhia na área da susRegiões que registram passado intentabilidade. Esses seus esforços já são dustrial na cidade de São Paulo, como a reconhecidos mundialmente. A Natura Mooca, Barra Funda e Vila Leopoldina, e é a única empresa brasileira a figurar no que agora despertam grande interesse do World’s Most Ethical (WME), como uma mercado imobiliário, por possuírem estadas empresas mais éticas do mundo. ções de metrô e imensos terrenos livres Finalmente, o Grupo Fleury, há mais ao longo da orla ferroviária, estão sendo de cinco anos, estipulou aos seus funcioespecialmente monitoradas pela CETESB, nários metas de sustentabilidade para que cobra da Prefeitura e das empresas determinar a remuneração variável que responsáveis um plano de despoluição. receberiam. Até o final desse ano, deverão O custo do trabalho de descontaminação do solo varia de R$ 300 a mais de

R$ 5 mil por tonelada de resíduo, dependendo do tipo de material contaminante e da tecnologia a ser empregada. A técnica mais utilizada é a dessorção térmica, que implica na incineração do solo contaminado, principalmente quando se trata de material de elevada toxidade, sendo que os equipamentos utilizados devem ser homologados pela CETESB. Empresas de grande porte normalmente possuem recursos suficientes para arcar com os custos da recuperação de uma área contaminada. O problema surge quando empresas de pequeno e médio porte não possuem esses recursos, transferindo à sociedade um perigoso passivo ambiental. Atento a essa questão, a lei estadual 13.577/2009, aqui já referida, passou a prever que os novos empreendimentos com potencial de gerar contaminação, como contrapartida, devem reservar uma parte do investimento para o Fundo Estadual para Prevenção e Remediação de Áreas Contaminadas, cuja destinação é a recuperação de espaços poluídos. Outra preocupação que existe é a captação eles incorporar nada menos que 200 prátide águas subterrâneas contaminadas pelos cas sustentáveis em diversos processos innovos empreendimentos imobiliários. ternos para poderem fazer jus a um bônus O uso contínuo de água com organomais polpudo. clorados para banho, por exemplo, pode Enfim, temos aí, então, resumidamencausar câncer e doenças neurológicas. te, mais um cartel de boas práticas emA descontaminação do lençol freático presariais sustentáveis, que está a revelar também é possível, apesar de se tratar de uma inescapável preocupação com o fuum processo longo. turo do nosso planeta, ainda que não nos Diante do quadro apresentado, entenpatamares desejados. demos que houve um significativo avanço Esperançosamente, aguardamos sedos mecanismos deiniciativas controle da questão jam também essas replicadas aqui tratada, no forma entanto, função mundo afora,que, como de em preservarda sua relevância, exigirá sempre renovamos o que ainda nos resta. das Ee alapidares providências, de um todos assim engajados,além renovamos acompanhamento particularmente atento. nossos agradecimentos. Esse, seguramente, é um assunto do qual não podemos nos descuidar... Dr. Marcos Lúcio Barreto Promotor deBarreto Justiça Dr. Marcos Lúcio do Meio Ambiente de São Paulo Promotor de Justiça E-mail: marcoslb@mp.sp.gov.br do Meio Ambiente de São Paulo

E-mail: marcoslb@mp.sp.gov.br Neo Mondo - Julho/Agosto 2011 Neo Mondo - Março 2011

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Julia Gillard

– Heroína do meio ambiente ou vilã da economia australiana? Primeira-ministra anuncia pacote para implantação de imposto sobre emissão de carbono – objetivo é barrar aquecimento global Rosane Araujo

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nquanto a situação econômica da Grécia preocupa a União Europeia e os Estados Unidos ainda lutam para recuperar suas finanças, na Austrália, o assunto da atualidade é ligado ao meio ambiente. Em 10 de julho, a primeira-ministra australiana, Julia Gillard, oficializou a proposta de adoção de um imposto sobre a emissão de carbono, a ser aplicado a partir de julho de 2012. O objetivo da medida, segundo a premier, é iniciar um processo de transição no país, cuja principal fonte de energia atual é o carvão, uma das mais poluidoras que existem. “Muitos australianos concordam que nosso clima está mudando e isso é causado pela poluição gerada pelo carbono, que causa efeitos nocivos em nosso meio ambiente e na economia. O governo tem que agir. Economistas concordam que o melhor caminho é fazer os poluidores pagarem pelo carbono”, explicou em seu discurso. Apesar de afirmar que acredita no entendimento popular, na prática, Gillard vem enfrentando uma verdadeira batalha para vender sua proposta. Setores estratégicos para a economia do país, como a mineração e a construção civil, vêm criticando duramente a primeira-ministra. Isso porque a cobrança de 23 dólares por tonelada de carbono emitida poderá implicar fortemente na rentabilidade dessas áreas.


“A indústria vem deixando bem claro que o imposto terá dois impactos significativos. O primeiro é que o futuro de pelo menos 18 minas de carvão as quais têm uma combinação de altos níveis de metano emitido e altos custos estruturais, estará ameaçado. O segundo é que, no futuro, o emprego nas minas terá uma queda de 37% a mais do que se não houvesse imposto sobre o carbono”, declarou Ralph Hillman, diretor-executivo da Associação Australiana de Carvão ACA, em comunicado à imprensa. Somente as minas de carvão, são responsáveis por cerca de 137 mil postos de trabalho – 37 mil diretos e 100 mil indiretos, segundo a (ACA). Entre 2008 e 2009, segundo a Associação, as minas movimentaram cerca de 50 bilhões de dólares australianos em exportações. “Nenhum grande exportador de carvão tem imposto sobre o carbono. Nenhum. Vamos cortar emissões, não empregos” é o que prega o anúncio de página inteira que a Associação tem divulgado nos principais jornais do país. E a opinião não é restrita aos produtores de carvão. “O pacote do imposto do carbono anunciado pelo governo é muito pobre em investimentos em nosso meio ambiente e no nosso futuro econômico. É um exercício de futilidade, não uma confiável e efetiva política para a mudança climática”, declarou Mitchell Hooke, executivochefe do Conselho Mineral da Austrália, que representa os setores da mineração e indústria de processamento de minerais. Segundo o executivo, com o pacote do imposto, as indústrias minerais encararão custos de 25 bilhões entre 2012 e 2020. Aproveitando a insatisfação da indústria, a oposição ao governo de Gillard vem batendo pesado contra o imposto. “Tenho visitado dezenas de shopping centers, fábricas e minas. Os australianos estão preocupados com seus empregos e com o custo de vida, que só aumenta. Agora o imposto sobre o carbono vem fazer uma situação difícil ficar ainda pior”, declarou o líder oposicionista Tony Abbot, membro do partido Liberal e adversário da primeira-ministra na última eleição parlamentar. No mesmo dia em que Gillard foi à imprensa para divulgar os detalhes de seu pacote, Abbot contatou executivos dos principais canais de televisão, solicitando igual tratamento.

O liberal colocou em dúvida a eficiência do plano no controle do aquecimento global e ainda defendeu que será desastroso para a economia. “Você não protege o meio ambiente tornando a vida mais cara e exportando empregos. Os australianos não usarão menos aço, alumínio e cimento – nós somente importaremos estes produtos de países que não tem imposto sobre o carbono”, declarou. A premier, porém, garante que o pacote de medidas a ser adotado com a cobrança da taxa implicará consequências mínimas na economia. “O impacto será modesto, mas eu sei que o orçamento familiar é sempre apertado. Por isso, decidi que a maior parte da arrecadação do carbono será usada para cobrir cortes de impostos, aumento de pensões e pagamentos familiares maiores”, anunciou. Sua previsão é que, por meio das medidas adotadas, o aumento do custo de vida poderá ser compensado com a redução de impostos e programas de suporte financeiro. Segundo a premier, para cerca de 4 milhões de chefes de família, incluindo todos os aposentados que dependam exclusivamente da pensão, os cortes serão 20% mais altos do que o aumento do custo de vida. “Eu também entendo que não há nada mais importante para as famílias do que o emprego. Por isso, tomaremos medidas especiais para apoiar o emprego e manter a Austrália competitiva. Bilhões de dólares serão usados para financiar investimentos em energias limpas”, garantiu. Algumas medidas anunciadas visam proteger determinados setores. A indústria do aço está sendo apontada como uma das mais beneficiadas. O setor receberá cerca de 300 milhões de dólares em concessões, de forma a compensar os custos gerados pelo imposto. Australianos divididos No meio do fogo cruzado, os australianos parecem divididos. A simples proposta de taxação é vista com desagrado por muitos, já que a promessa de campanha da primeira-ministra, eleita em junho de 2010, foi exatamente oposta: manter as emissões livres de qualquer imposto. Logo que assumiu o cargo, porém, Gillard mudou de posição e seu governo vem desenhando o plano Clear Energy Fu-

ture (Futuro com Energia Limpa), Mas o que leva a primeira-ministra a propor algo tão polêmico, pondo em risco sua sobrevivência política? Segundo ela, a urgência de dar o primeiro passo. “O primeiro governo australiano a anunciar um plano para taxação do carbono foi o de John Howard, em 2007. Muita coisa aconteceu desde então, o debate tem sido difícil e decisivo. Mas 2011 é o ano em que decidimos que, como nação, queremos um futuro de energia limpa”, declarou. Algumas estatísticas ajudam a entender o tamanho do problema. Segundo o IRESS, apesar da Austrália não figurar entre os principais emissores de carbono mundiais, os australianos têm a pior “pegada ecológica” per capita do planeta: geram 23,7 toneladas de carbono por ano.

Perfil Nome: Julia Eileen Gillard Nasceu em: 29 setembro 1961, em Barry, País de Gales Formação: Direito e Artes na Universidade de Adelaide Primeira eleição: Presidente da União dos Estudantes da Austrália em 1983 Eleita para o Parlamento pela primeira vez em: 1998 Outros cargos políticos: Vice Primeira-Ministra, Ministra do Trabalho, da Educação e da Inclusão Social no Governo de Kevin Rudds, entre dezembro de 2007 e junho de 2010 Fatos: Nascida no País de Gales, mudou-se para a Austrália, ainda criança, após contrair um infecção. Por recomendação médica, seus pais procuraram um clima mais quente e encontraram no país o ambiente ideal. Sem filhos, Gillard vive há quatro anos com seu parceiro, Tim Mathieson, um cabeleireiro. É a primeira mulher a ocupar o posto de primeira-ministra.

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Heróis Verdes

Plano Futuro de Energia Limpa Confira os principais pontos do plano anunciado pela Primeira-Ministra • Criação de um imposto sobre emissão de carbono Cerca de 500 dos maiores poluidores da Austrália terão que pagar 23 dólares por tonelada de carbono emitida. A cobrança iniciará em 1º de julho de 2012 e terá duração de três anos, com direito a reajuste de 2,5% ao ano. A partir de 2015, porém, o imposto será substituído pelo sistema de “cap-and-trade”, no qual são estabelecidos limites de emissão para cada setor ou grupo. • Suporte financeiro a indústrias expostas a prejuízos devido ao imposto, entre elas alimentação, exploração de metais e eletricidade. Investimento na proteção do emprego das industrias do aço e do carvão. • Assistência às famílias para minimizar os impactos do aumento do custo de vida. Corte de impostos, aumento de pensões e benefícios serão oferecidos. Cerca de 50% do imposto sera gasto com assitência. • Investimento de 10 bilhões de dólares no desenvolvimento de projetos de geração de energia limpa. Fonte: Clear Energy Future – Australian Government

Divulgação

Mais uma vez a eletricidade baseada no carvão é a principal vilã, responsável por 37% das emissões. E é por este motivo que, ao menos aos olhos das organizações de defesa do meio ambiente, o imposto do carbono pode ser um bom começo. “Este é um bom primeiro passo para um futuro de energia limpa. O pacote anunciado não vai longe o bastante para responder à mudança climática, agora, porém, temos uma estrutura e poderemos trabalhar para uma ação ainda mais forte contra a mudança climática”, declarou o Green Peace Austrália. Para Gillard, porém, o desfecho do plano ainda é incerto. Se vitoriosa, poderá colocar a Austrália entre os líderes globais da energia limpa. Entretanto, se fracassar, será vista como a responsável pela desestabilização de uma, até então, bem-sucedida economia. Em ambos os casos, seu nome estará marcado na história do país.

Primeira mulher a ocupar o posto de primeira-ministra da Austrália, Julia Gillard enfrenta críticas de vários setores devido à proposta de taxação do carbono

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