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Exemplar de Assinante Venda Proibida R$8,00

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Neo Mondo - Maio 2008


www.eletronorte.gov.br

Neo Mondo - Maio 2008

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Alga capaz de reverter completamente a calvície.

Crustáceo que produz enzima capaz de reduzir a obesidade em até 80%.

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Neo Mondo - Maio 2008


Serpente marinha cujo veneno pode ser modificado para rejuvenescer a pele.

Ajude a preservar os oceanos. Nem que seja por egoísmo. 22 de Março. Dia Mundial da Água. Neo Mondo - Maio 2008

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32 páginas | 20,5 x 27,5 cm

Crianças criam! | ISBN: 9788566251005

Em um mundo marcado por brinquedos eletrônicos que funcionam a partir do botão power, que tal dar à criança o poder para construir seus próprios brinquedos? Imaginação acionada, materiais fáceis e disponíveis, fotos grandes mostrando o passo a passo e lá vem um divertido índio cara de pet, um charmoso robô que movimenta a boca, um teatro e suas marionetes e...diversão garantida! Do mesmo autor do consagrado livro FÁBRICA DE BRINQUEDOS, essa obra, além da proposta lúdica e divertida de criar brinquedos a partir de embalagens, tampinhas e outros materiais descartados no dia a dia, é uma excelente oportunidade para a criança experimentar a autonomia e o prazer de imaginar, criar, construir e brincar.

Os mais recentes lançamentos da Editora Caramujo já estão fazendo sucesso nas escolas. E vem muito mais por aí! 6

Neo Mondo - Maio 2008


Crianças brincam! 32 páginas | 20,5 x 27 ,5 cm | ISBN:

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9788566251012

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As crianças vão se encantar com essa história bem-humorada sobre um reino distante onde há um castelo, um rei e um espelho. Mas diferentemente das outras histórias, esse espelho não é mágico - ele mostra apenas a realidade. E a realidade é que, um dia, o rei desse reino distante olhou-se no espelho e viu que seu belo umbigo havia desaparecido de sua barriga. Quem teria roubado o umbigo? Um grande mistério a ser descoberto pelos leitores. As alegres e coloridas ilustrações de Ricardo Girotto dão o toque mágico a essa história escrita por Márcio Thamos em que umbigos escondidos sob grandes barrigas e umbigos à mostra em barrigas que roncam de fome apresentam uma trama delicada sobre compreensão, respeito e solidariedade.

Informações: 11

2669-0945 | 98234-4344 97987-1335

Neo Mondo Neo Mondo - Maio 2008 Um olhar consciente

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Neo Mondo - Julho 2008


Editorial

Seções

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Perfil Ana Mansoldo Educadora Incansável

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ESPECIAL - DIA MUNDIAL DA ÁGUA Velho Chico Transposição Parcial 19 Artigo: Márcio Thamos Mitologia clássica: Júpiter e Calisto

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ESPECIAL - DIA MUNDIAL DA ÁGUA Hidropirataria Tráfico de água doce na foz do Rio Amazonas

ESPECIAL - DIA MUNDIAL DA ÁGUA 26 Artigo: Denise de La Corte Bacci Origem e ciclo da Água no Planeta

28 Veneza Sob o signo da água

32 Artigo: Ilma de C. P. Barcellos Água virtual

34 Artigo: Paulo Arkot A Insustentabilidade do Desenvolvimento Sustentável

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ESPECIAL - DIA MUNDIAL DA ÁGUA Artigo: João Carlos Mucciacito Água - Essência da vida Artigo: Dilma de Melo Silva A importância da água em diversas Culturas

40 ESPECIAL - DIA MUNDIAL DA ÁGUA

ESPECIAL - DIA MUNDIAL DA ÁGUA 42 Humberto Mesquita As “Lenda das Águas”

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Expediente Diretor de Redação: Gabriel Arcanjo Nogueira (MTB 16.586) Conselho Editorial: Oscar Lopes Luiz, Marcio Thamos, Dr. Marcos Lúcio Barreto, Terence Trennepohl, João Carlos Mucciacito, Rafael Pimentel Lopes, Denise de La Corte Bacci, Dilma de Melo Silva, Natascha Trennepohl, Rosane Magaly Martins, Pedro Henrique Passos e Vinicius Zambrana Redação: Gabriel Arcanjo Nogueira (MTB 16.586), Rosane Araujo (MTB 38.300) e Antônio Marmo (MTB 10.585) Revisão: Instituto Neo Mondo Diretora de Arte: Renata Ariane Rosa Projeto Gráfico: Instituto Neo Mondo

Boa leitura a todos!

44 Podemos sim produzir água Facilitando a reposição das águas nos aquíferos e preservando as florestas

El Niño O lado bom do menino

Diretor Responsável: Oscar Lopes Luiz

A dualidade da água A água do dilúvio pode ser a água que batiza. E – não importa a crença – todos somos chamados e cultuar a água como esperança de vida. A natureza é sábia, assim como sábio é quem entende a natureza e a preserva. Exemplo é Kaká Werá, para quem “a água é mãe, e como tal é respeitada nas comunidades indígenas”. Ele é citado no mais recente livro de Ana Mansoldo, Perfil desta edição, educadora que nos convida à simplicidade das pessoas do campo, ao reconhecer que a água está no cerne da questão ambiental. O sociólogo Narciso Cechinel, 40 anos de vivência nos problemas do Nordeste brasileiro, nos alerta para os perigos de se mexer de modo equivocado com a natureza sem cuidar das pessoas que dela dependem e nela interagem. Tal e qual, no seu entender, acontece com o ambicioso projeto de transposição parcial de águas do Rio São Francisco. Narciso é apenas um dos especialistas que estão nesta edição na primeira abordagem que fazemos do polêmico tema, e já não era sem tempo. Para esses estudiosos da realidade regional no contexto nacional, o Velho Chico agoniza, e melhor seria cuidar de sua recuperação do que gastar fortunas em projetos mirabolantes. Queremos que os leitores se sintam batizados ao mergulhar nas páginas de NEO MONDO, cujo foco é o Dia Mundial da Água, e dela saiam mais conscientes do que cabe a cada um fazer para que se alcance a desejada Ecologia Integral, preconizada por Ana Mansoldo.

Oscar Lopes Luiz Presidente do Instituto Neo Mondo oscar@neomondo.org.br

Publicação Tradução: Efex Idiomas – Tel.: 55 11 8346-9437 A Revista Neo Mondo é uma publicação do Diretor de Relações Internacionais: Vinicius Zambrana Instituto Neo Mondo, CNPJ 08.806.545/0001Diretor Jurídico: Dr.Erick Rodrigues Ferreira de Melo e Silva 00, reconhecido como Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIP), Correspondência: Instituto Neo Mondo pelo Ministério da Justiça – processo MJ nº Rua Antônio Cardoso Franco nº 250, 08071.018087/2007-24. Casa Branca – Santo André – SP Cep: 09015-530 Tiragem mensal de 70 mil exemplares com Para falar com a Neo Mondo: assinatura@neomondo.org.br redacao@neomondo.org.br trabalheconosco@neomondo.org.br Para anunciar: comercial@neomondo.org.br Tel. (11) 2669-0945 / 8234-4344 / 7987-1331 Presidente do Instituto Neo Mondo: oscar@neomondo.org.br

distribuição nacional gratuita e assinaturas. Os artigos e informes publicitários não representam necessariamente a posição da revista e são de total responsabilidade de seus autores. Proibido reproduzir o conteúdo desta revista sem prévia autorização.

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Perfil

EDUCADORA Graduada em psicologia com especialização em educação ambiental, Ana Mansoldo defende a ecologia integral em cursos, palestras e livros Leticia Castro

Gabriel Arcanjo Nogueira

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Ana enfatiza: “a água com certeza é o cerne de toda a vida na Terra... e o problema é complexo, pois não se trata só de empreendimentos, mas de justiça, de considerar o uso social da água”

sabido que vida de professoras e professores não é fácil, ainda mais em países como o Brasil, em que o déficit educacional é ainda expressivo. O que dizer então de quem se dedica a disseminar conhecimento e práticas ambientais de acordo com os princípios da ecologia integral. Incansável nessa missão, Ana Mansoldo coordena e ministra cursos e palestras como colaboradora do Centro de Ecologia Integral (CEI), com sede em Belo Horizonte (MG). Entre seus livros destacam-se Educação ambiental na perspectiva da ecologia integral (autenticaeditora.com.br 2012) e Educação ambiental urbana: reflexão e ação (publicação independente 2005), além de ser coautora do Manual do Educador Ambiental (2001-2002). Nesta entrevista concedida por e mail a NEO MONDO, Ana fala de sua proposta de “ampliar a percepção e a consciência ambiental, provocando novas maneiras de ver, sentir, pensar e agir, comprometidas com a transformação da realidade, tendo em vista a preservação, e não o desfalque da Terra para as futuras gerações” a partir do conceito de ecologia integral. Ana explica: “O termo vem do grego oikos, que quer dizer casa, ou seja, a casa planetária, a Terra com toda a vida ali existente”. Só é possível assimilar o que seja ecologia integral pela compreensão de suas três dimensões integradas: a ecologia pessoal, a ecologia social e a ecologia da natureza. “Somos todos interdependentes, o ser humano, a sociedade e a natureza”, define a educadora. Nesta edição dedicada à “Água esperança de vida”, esta entrevista – que se insere entre as imperdíveis - é mais um presente de NEO MONDO a seus leitores.

NEO MONDO - Seus livros, sobretudo o mais recente, foram escritos pensando em educadores e educandos, mas não só neles. É isso? Ana Mansoldo - Considero, como Paulo Freire, que educar é um ato de amor, um encontro entre sujeitos que ensinando aprendem e aprendendo ensinam. Assim, somos todos educadores e aprendizes, sempre.

etc.”. Claro, isso também é importante, mas o enfoque que integra o sujeito, a cultura e a natureza desperta uma nova consciência ambiental e uma visão crítica em relação a toda a vida na Terra. Temos desenvolvido com escolas, empresas e comunidades uma formação em Ecologia Integral com resultados muito bons.

NEO MONDO - Qual a aceitação que essa literatura tão qualificada e objetiva tem recebido das instituições de ensino brasileiras? Ana Mansoldo - A educação ambiental institucional normalmente se pauta em datas comemorativas ou em discursos pontuais, tais como “economizar água, reciclar o lixo

NEO MONDO - O capítulo “A água nossa de toda vida” está praticamente no miolo do livro, como se fosse o cerne, o âmago da questão ambiental. Foi algo pensado em vista da “importância da água, simplesmente vida” com tudo o que isso implica de responsabilidade e compromisso das pessoas?

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Ana Mansoldo: Essa colocação do texto não foi assim planejada, mas é interessante a sua visão, pois a água com certeza é o cerne de toda a vida na Terra e hoje, sem dúvida, a transversal de toda preocupação ambiental. NEO MONDO: No Brasil há obras gigantescas em andamento, que ganham manchetes na mídia (a exemplo da construção das hidrelétricas e da transposição parcial do rio São Francisco), ao lado de iniciativas bem mais modestas, como a de indígenas que visam utilizar água de igarapés em microturbinas. Como a educação ambiental se insere nesse quadro? A solução do macroproblema da água pode vir de empreendimentos menores?


INCANSÁVEL Ana Mansoldo : O problema da água é muito mais complexo, pois não se trata só de empreendimentos, mas de justiça, de considerar o uso social da água. Sabemos que mais de 90% da água doce é consumida na agropecuária e na indústria, enquanto quase 1 bilhão de pessoas no mundo (ONU/2012) carecem do mínimo necessário à sua sobrevivência. NEO MONDO: A simplicidade me parece constante no livro, como sugere o capítulo que trata da sabedoria da gente do campo ou o que versa sobre a tolerância como ética para a paz. Como se daria isso na prática? Ana Mansoldo: Na verdade, ser simples nessa sociedade individualista, competitiva e consumista dá trabalho... Pois simplicidade é se importar com o outro e com a vida; é priorizar o necessário para sobreviver e ser feliz; é praticar cotidianamente os valores essenciais de responsabilidade, tolerância, solidariedade, respeito, amor e compaixão. NEO MONDO: A senhora é otimista, realista ou pessimista com a educação ambiental que se faz no país? Ana Mansoldo: Para mim a vida só se justifica se houver esperança, do verbo esperançar, estimular, fazer acontecer. E essa é a função do educador: provocar novas maneiras de ver, sentir, pensar e agir para

transformação do mundo, e não ser um mero reprodutor da ideologia dominante. Talvez muitas perdas ambientais já sejam irreversíveis, mas sempre é possível encontrar pequenos focos de esperança e coragem. NEO MONDO: Como e quando surgiu a ideia de se criar o Centro de Ecologia Integral (CEI). Qual o alcance de suas iniciativas e realizações no território brasileiro? Ana Mansoldo: O CEI foi criado pelo casal Ana Maria Vidigal Ribeiro e José Luiz Ribeiro de Carvalho, em 2001, com base nos princípios da Universidade Internacional da Paz (Unipaz). É uma associação sem fins econômicos, sediada em Belo Horizonte, que tem como principal finalidade trabalhar por uma cultura de paz e pela ecologia integral, apoiando e desenvolvendo ações para a defesa, elevação e manutenção da qualidade de vida do ser humano, da sociedade e da natureza. Nossas atividades são principalmente educativas, seja na educação formal, não formal e informal, tanto em Belo Horizonte como outras cidades de Minas Gerais. NEO MONDO: O CEI atua em parcerias ou repassa seu know how a instituições públicas ou privadas, nos mais diversos segmentos? Em quais estados isso ocorre? Pode citar exemplos bem-sucedidos dessa atuação?

Ana Mansoldo: As atividades presenciais do CEI são cursos, seminários, palestras, oficinas, caminhadas ecológicas, dentre outras, tanto pagas quanto gratuitas, para o público em geral. Também atendemos demandas para atividades em parceria com instituições públicas ou privadas. Atualmente, nossa grande atuação é o Grupo Consciência e Consumo. Além disso, o CEI publica, desde 2001, a Revista Ecologia Integral, distribuída gratuitamente para vários estados do Brasil, e a partir de 2010, ela passou a ser eletrônica, podendo ser baixada gratuitamente pelo site www.ecologiaintegral.org.br. NEO MONDO: A senhora se diz encantada com uma expressão que encontrou na internet. Seria a que o cineasta James Cameron (de Avatar) usou em uma de suas visitas ao Brasil, ao sugerir que devemos nos preocupar com que crianças deixaremos para o mundo, e não que mundo elas herdarão de nós? Ou seja, a salvação do planeta está nas novíssimas gerações? Ana Mansoldo: Não acredito em salvação do planeta, acredito em transformação, em evolução, na capacidade que o ser humano tem de tornar o mundo cada vez melhor, a cada geração. Nessa caminhada valem a experiência do velho e a ousadia do novo, com todos os acertos e erros, mas sempre investigando, corrigindo, transformando.

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Perfil NEO MONDO: Há quem diga - e isso me parece ser o mais correto - que é a civilização, tal e qual a temos, que corre riscos de sumir, e não o planeta, porque a natureza é sábia e se renova, podendo demorar mais ou menos tempo. Qual o papel da educação nessa perspectiva e o que fazer para torná-la mais eficaz no Brasil? Ana Mansoldo: Também penso assim... Afinal, somos apenas uma das espécies no Planeta e quando significarmos um risco à teia da vida (parece que estamos bem perto disso), a natureza nos colocará no devido lugar e seguirá o seu ciclo. O papel da educação ambiental é nos alertar sobre os efeitos da nossa arrogância, nos achando uma espécie superior, com direito de nos apropriar de todas as outras. Começamos a entender que vivemos numa comunidade planetária, num ecossistema formado de elementos interconectados, interdependentes, organizados em ciclos coerentes, onde milhões de espécies diversificadas (não superiores ou inferiores) executam suas funções específicas, perpetuando a vida.

NEO MONDO: A seu ver, a reciclagem seria apenas paliativo, e não solução. Por quê? Ana Mansoldo: Estima-se que menos de 20% dos resíduos produzidos no mundo sejam reciclados, tanto pelo custo muito alto quanto por não serem recicláveis. Reciclagem de verdade é a perpetuação do ciclo da vida, como ensina a natureza: O gafanhoto come a folha, a codorna come o gafanhoto, a raposa come a codorna, o corvo come a raposa

Desiree Ruas

NEO MONDO: A senhora defende, entre outros aspectos, o choque anticonsumista. Há avanços nesse sentido, em experiências aqui ou acolá, e em que grau isso acontece?

Ana Mansoldo: Somos seres divididos, incompletos, carentes de significado, e a economia capitalista, astutamente, se apropriou de nossa angústia existencial com o canto da sereia, preenchendo nossa falta com coisas descartáveis: drogas, comidas, roupas, diversão. Um canto belo e sedutor, porém destruidor da vida. É um desafio enorme manter uma posição subjetiva na contracorrente, quando a maioria segue a multidão ingênua, acrítica, mas felizmente já existem muitas atuações nesse sentido. O Grupo Consciência e Consumo no CEI, por exemplo, tem tido uma demanda crescente de palestras, oficinas, feiras para públicos diversos, abordando a urgência na mudança dos hábitos de consumo atuais.

Educadora lembra: “Reciclagem de verdade é a perpetuação do ciclo da vida, como ensina a natureza”

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que depois devolve os nutrientes à terra, que vai sustentar a folha, que é comida pelo gafanhoto e o ciclo de vida recomeça. Nossas cadeias produtivas, ao contrário, extorquem recursos naturais para além dos seus limites de recarga, e os resíduos gerados nem de longe se prestam novamente ao ciclo da vida. NEO MONDO: A senhora é também crítica da responsabilidade social. Por que: tudo não passaria de fraude, hipocrisia ou teria apenas efeito anestésico sobre provável sentimento de culpa? Ana Mansoldo: Absolutamente não critico a responsabilidade social verdadeira e indispensável, mas a demagogia de instituições, empresas, indústrias (não preciso citar exemplos) que se enriquecem com a destruição de patrimônios culturais e naturais, não compartilham seu lucro com a sociedade, ambientalizam seus discursos sem alterar suas práticas e, em contrapartida, repartem algumas migalhas aos mais impactados, posando de “empresas cidadãs”, cheias de “generosidade social”. NEO MONDO: Seu livro propõe, na primeira parte, refletir sobre conceitos, ideias, aspectos relevantes da questão ambiental; e na segunda, práticas socioambientais. Fale-nos um pouco mais sobre quais seriam e como tornar efetivas essas práticas.  Ana Mansoldo: A educação ambiental na perspectiva da ecologia integral propõe a ampliação da percepção ambiental, visando o despertar de uma consciência crítica para transformação do mundo. Esse é o principal objetivo das práticas sugeridas no livro. São exercícios para reflexão e ação no ambiente cotidiano. NEO MONDO: Um último recado aos leitores de NEO MONDO... Ana Mansoldo: Gostaria de insistir que a transformação do mundo começa dentro de cada um. As mudanças de atitudes necessárias à construção de um mundo melhor dependem de nossas escolhas, de sermos responsáveis pela nossa subjetividade e pelas nossas relações com a sociedade e com a natureza.


Para as comunidades indígenas, a água é mãe, e como tal é respeitada (Kaká Werá, citado no livro) “A água nossa de toda vida” A preocupação de Ana no livro Educação ambiental na perspectiva da ecologia integral está expressa logo na capa: “Como educar neste mundo em desequilíbrio?”. Desafio que a autora pretende vencer com sua proposta educativa transformadora e consistente. Exemplo é o capítulo dedicado à água, do qual transcrevemos trechos esclarecedores: “A afirmação de que toda a vida na Terra provém da água já era feita pelos antigos filósofos, e cada vez mais a ciência tem confirmado este fato: a vida tem origem na água e constitui a matéria predominante em todos os seres vivos. Seu estado líquido encontrado na Terra é o responsável por toda forma de vida que hoje conhecemos. Apesar disso, pouca atenção lhe dedicamos. Já paramos para pensar em quantos

milhões de litros de água consumimos durante a vida?”. Ana enumera a onipresença hídrica em nossas vidas desde “o líquido amniótico, água quentinha e confortável que nos abrigou por tanto tempo no útero materno”. Depois vêm, entre outros, “as toneladas de frutas, raízes e folhas que nos alimentam e que são constituídas de 70% de líquidos”; “todas as células do nosso corpo constituídas de 70% de líquido”; “toda a excreção dos produtos tóxicos de nosso corpo é feita por via hídrica – urina, suor”. São milhões de litros de água consumidos numa só existência humana, e nem sempre “paramos para pensar” nisso. Estão aí: • “a energia elétrica que movimenta nossos aparelhos elétricos e eletrônicos e ilumina nossa casa e nossa cidade, proveniente das usinas hidroelétricas”;

• “a água utilizada nos processos industriais que constroem nossos veículos, aparelhos domésticos, alimentos, roupas, calçados etc.”; • “a água consumida na agricultura que produz nossos alimentos do dia a dia”. Não podemos ignorar: • “o confortável banho diário, o prazeroso banho em mares e cachoeiras, os sucos, refrigerantes... o cafezinho da manhã, aquele copo de água fresquinha”.

Mundo sem água X compromisso Ante esse quadro, Ana alerta: “... água é igual a vida, ‘não água’ é igual a ‘não vida’, e isso chamou nossa atenção para o futuro que estamos deixando para os nossos filhos, um mundo sem água, um mundo sem vida”. E, depois do alerta, vem o chamado da educadora “à responsabilidade e ao compromisso individual para: • reduzir a produção de lixos e, sobretudo, não jogá-los nas ruas e nos rios; • evitar o consumismo e o desperdício (os processos agrícola e industrial utilizam muita água);

• exigir das autoridades sanitárias o tratamento dos esgotos domésticos e industriais; • reduzir o consumo de água e energia elétrica em nossas atividades diárias; • conhecer a história dos rios e participar dos projetos de revitalização de bacias hidrográficas”.

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ESPECIAL - Dia Mundial da Água

Mitos e realidade na transposição parcial do

Prevista para estar concluída em dezembro de 2012, o grande trunfo social da obra seria garantir água a 12 milhões de pessoas em 390 municípios do semiárido brasileiro Gabriel Arcanjo Nogueira

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ma obra gigantesca, que ainda pode entrar para a história do Brasil como redentora de uma dívida social do País para com seus habitantes em estados da região Nordeste, é também uma das que sofre críticas mais severas de brasileiras e brasileiros que vivem por lá. Até greve de fome de bispo já marcou a polêmica em torno do ambicioso projeto, que, segundo a Agência Brasil, da Empresa Brasil de Comunicação EBC), é “uma das prioridades do Programa de Aceleração do Crescimento. A previsão era que a obra estaria pronta até o fim de 2012. O projeto ligará as águas do rio às bacias hidrográficas do Nordeste Setentrional, a fim de garantir água para cerca de 12 milhões de habitantes de 390 municípios do Agreste e do Sertão de Pernambuco, do Ceará, da Paraíba e do Rio Grande do Norte. “A obra está dividida em duas partes. O Eixo Leste, com 220 km, prevê a construção de canal, estações de bombeamento, reservatórios, túneis e aquedutos entre os mu-

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nicípios de Monteiro e Floresta, ambos na Paraíba. No Eixo Norte, que tem 402 km, o trabalho será realizado entre as cidades de São José de Piranhas (PB) e Cabrobó (PE)”. Em meados de fevereiro de 2013, ainda de acordo com a Agência Brasil, o Ministério da Integração Nacional (MI) estava “concluindo um processo que levanta suspeitas de inconformidade em medições feitas em cinco dos 14 trechos de obras de integração do Rio São Francisco. Neste momento, quatro desses processos iniciados em maio de 2012 - estão em fase de conclusão na consultoria jurídica do ministério. Um já foi concluído. “A previsão é que, até abril, todos os processos tenham sido encaminhados ao Ministério Público Federal e ao Tribunal de Contas da União. De acordo com o ministério, foram encontradas até o momento inconsistências em medições nos contratos de obras e serviços nos trechos 1, 2, 9, 10 e 11. Para cada lote foi aberto um processo no ministério.

“Os indícios de irregularidades foram identificados durante levantamento feito pelas empresas supervisoras. Os cinco processos abertos têm por base a lista de retificações apresentadas a partir desses trabalhos”. Estudiosos e especialistas de vários setores apontaram, entre os principais equívocos do ambicioso empreendimento (que leva o pomposo nome de Projeto de Integração do Rio São Francisco com Bacias Hidrográficas do Nordeste Setentrional), o alto custo (R$ 8,5 bilhões, em valores corrigidos) e a baixa abrangência territorial e populacional: apenas 5% do território e 0,3% da população do semiárido brasileiro. Mais grave ainda, estragos ao ecossistema regional já se fizeram sentir, entre eles, perda da biodiversidade, assoreamento, salinização. Para esses críticos, mais correto teria sido investir na recuperação do Velho Chico, que vem num processo de anos de degradação.


Comunidades X multinacionais Narciso tenta ser sucinto ao falar da transposição: “Para começar o custo é astronômico, e com esse dinheiro daria para resolver uma infinidade de pequenas necessidades: cisterna, pequenos açudes, reflorestamento, assistência técnica e creditícia, entre outras. O projeto da transposição corta inúmeras aldeias indígenas e quilombolas, destruindo a vida dessas comunidades. As multinacionais já compraram as melho-

res terras nas imediações da passagem das águas... Claro, muita gente terá trabalho temporário nas obras da transposição, e haverá certo progresso por onde ela passa”. A dura constatação de Narciso, em 2013, é que o cenário não mudou para melhor no

Nordeste, antes pelo contrário: “Estamos, mais uma vez, em plena seca. Então, não dá para plantar árvores, mas para plantar ideias. Ou resolvemos o problema da seca ou animais continuarão morrendo, pessoas sofrendo fome/doenças e alimentos escasseando”. ABr

O catarinense Narciso Cechinel já viajou por esse mundo de Deus, aí incluídos estudos superiores na Europa, e vive no Nordeste brasileiro há 40 anos. Nessa região o sociólogo e professor de cidadania é conhecido por trabalhos em ONGs. Não por acaso um de seus filhos se chama Vandré, homenagem ao poeta e cantador que melhor do que ninguém soube cantar com todo vigor o quanto o nordestino é potencialmente rico de cultura, de princípios e ao mesmo tempo pobre ao ser explorado por potências internas.

Comunidades quilombolas, segundo sociólogo, também estariam ameaçadas pelo projeto da transposição

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Acervo MI

ESPECIAL - Dia Mundial da Água

Narciso, sociólogo com 40 anos de vivência nos problemas nordestinos, avalia que a contratação de mão de obra temporária é um dos poucos ganhos da gigantesca obra

É desse jeito que ele procura chamar a atenção e despertar a consciência de brasileiras e brasileiros ao redigir o trabalho “Plantando Árvores e Ideias ou a Volta da Asa Branca”,escrito no Sertão de Pajeú. Para Narciso, “o semiárido é viável”, desde que respeitados os direitos básicos de sua população. Ele explica: “O sertão/semiárido com seu sol, sua poeira, sua sede, sua fome, suas mortes, suas lágrimas, suas doenças, suas saudades, sua fé, sua esperança é viável. Essa é a ideia que precisamos plantar, começando pela cabeça das pessoas que vivem no semiárido. Não é verdade que as ideias movem e transformam o mundo? Já era sonho de Dom Fragoso (Crateús– CE): ‘Conscientizar o povo do campo para que descubra sua dignidade, se organize e ande com seus próprios pés... para que lute pela justiça e pelos seus direitos’. “As pessoas do semiárido, pelo simples motivo de cidadania, têm direito à terra, à água, ao trabalho, à segurança alimentar e outros direitos. Quem mora nas brenhas do sertão não deve ser lembrado (a) só em época de eleição para comprar seu voto ou no tempo da seca para receber esmolas. É preciso formar a consciência crítica/política da gente sertaneja, combatendo assim o tráfico de votos, fruto de quem vende, e o banditismo eleitoral, fruto de quem compra o voto. Que tal uma CPI sobre o tráfico de votos? Os políticos não vão dar um tiro no próprio pé. Sobraria pouco político com ficha limpa...”

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Em seu trabalho Narciso cita Eça de Queiroz: “Os políticos e as fraldas devem ser trocados frequentemente e pela mesma razão”. Bicicleta sem roda Pesquisadores apontam a “extinção inexorável” do rio São Francisco. É o caso do professor José Alves Siqueira, da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf), em Petrolina, Pernambuco, que reuniu 100 especialistas e publicou o livro Flora das caatingas do Rio São Francisco: história natural e conservação (Andrea Jakobsson Estúdio). A obra, recém-lançada (fevereiro de 2013), é citada no blogspot “Meu Velho Chico um rio pede socorro”, de João Carlos Figueiredo. Figueiredo se define “poeta, pensador, espeleólogo, montanhista, mergulhador, fotógrafo amador, amante da Natureza, e agora canoísta, gosto da vida como ela é, repleta de surpresas e relacionamentos, às vezes complexos, outras, deliciosamente simples e diretos, como devem ser o amor e a amizade. Navegar é preciso... nas águas do velho Chico! Quero percorrer seus caminhos, reviver suas lendas... proteger o seu povo... defender suas águas...”. Vale a pena conferir como ele descreve o intenso e extenso trabalho desses pesquisadores: “É equivalente a dar oito voltas na Terra - ou a andar 344 mil quilômetros -

a distância percorrida por pesquisadores durante 212 expedições ao longo e no entorno do Rio São Francisco, entre julho de 2008 e abril de 2012. O trabalho mapeia a flora do entorno do Velho Chico enquanto ocorrem as obras de transposição de suas águas, que deverão trazer profundas mudanças na paisagem. Mais do que fazer relatórios exigidos pelos órgãos ambientais que licenciam a obra... “Em 556 páginas e quase três quilos de textos, mapas e muitas fotos, a publicação é o mais completo retrato da Caatinga, único bioma exclusivo do Brasil e extremamente ameaçado. O título do primeiro dos 13 capítulos, assinado por Siqueira, é um alerta: “A extinção inexorável do Rio São Francisco”. “- Mostro os elementos de fauna e da flora que já foram perdidos. É como uma bicicleta sem corrente, como anda? E se ela estiver sem pneu? E se na roda estiver faltando um raio, e quando a quantidade de raios perdidos é tão grande que inviabiliza a bicicleta? Não sobrou nada no Rio São Francisco. Sinceramente, não sei o que vai acontecer comigo depois do livro, mas precisava dizer isso - desabafa o professor da Univasf. - Queremos que o livro sirva como um marco teórico para as próximas décadas. Vou provar daqui a dez anos o que está acontecendo. “Ao registrar o estado atual do Rio São Francisco, o pesquisador estabelece pontos de comparação para uma nova pesquisa, a


Adalberto Marques MI

Um dos trechos concluídos em 2012 é o do canal e barragem em Cabrobó (PE) com as obras executadas pelo Exército

ser feita no futuro, medindo os impactos dos usos do rio. Além do desvio das águas, há intenso uso para o abastecimento humano, agricultura, criação de animais, recreação, indústrias e muitos outros. Desaguam no Velho Chico milhares de litros de esgoto sem qualquer tratamento. Barramentos - sendo pelo menos cinco de grande porte em Três Marias, Sobradinho, Itaparica, Paulo Afonso e Xingó - criam reservatórios para usinas hidrelétricas. Elas produzem 15% da energia brasileira, mas têm grande impacto. Alteraram o fluxo de peixes do rio e a qualidade das águas, acabaram com lagoas temporárias e deixaram debaixo d’água cidades ou povoados inteiros, como Remanso, Casa Nova, Sento Sé, Pilão Arcado e Sobradinho. “Com o fim da piracema, uma vez que os peixes não conseguiam mais subir o rio para se reproduzir, o declínio do número de cardumes e da variedade de espécies foi intenso. Entre as mais afetadas, as chamadas espécies migradoras, entre elas curimatá-pacu, curimatá-pioa, dourado, matrinxã, piau-verdadeiro, pirá e surubim. “Não foram as barragens as únicas culpadas pelo esgotamento de estoques pesqueiros do Velho Chico. Programas de incentivo da pesca, que não levaram em consideração a capacidade de recuperação dos cardumes, aceleraram a derrocada da atividade. Espécies exóticas, introduzidas no rio com o objetivo de aumentar sua produtividade, entre elas o bagre-africano, a

carpa e o tucunaré, se tornaram verdadeiras pragas, sem oferecer lucro aos pescadores. “A região do São Francisco, que já foi considerado um dos rios mais abundantes em relação a pescado no país, precisa lidar com a importação em larga escala de peixes, sobretudo os amazônicos, para suprir o que não consegue mais fornecer. Uma das espécies mais comercializadas na Praça do Peixe, a 700 metros do rio, é o cachara (surubim) do Maranhão ou do Pará. Nos restaurantes instalados nas margens do Rio São Francisco, o cardápio oferece tilápias cultivadas ou tambaquis importados da Argentina. A mudança provocada pelo homem tanto nas águas do Velho Chico quanto na vegetação que o circunda foi drástica e rápida. Tendo como base documentos históricos disponíveis, entre eles ilustrações de expedições de naturalistas importantes, como as do alemão Carl Friedrich Philipp von Martius, é possível ver a exuberância do passado. Um desenho feito há 195 anos mostra os especialistas da época deslumbrados com árvores de grande porte, lagoas temporárias, pássaros em abundância. Ou seja, uma enorme biodiversidade, que hoje não existe mais. “Menos de dois séculos depois, restam apenas 4% da vegetação das margens do Rio São Francisco. Desprovidas de cobertura verde, elas sofrem mais com a erosão, que assoreia o rio em ritmo acelerado. Os solos apresentam altos índices de saliniza-

ção e os açudes ficam com a água salobra. Aumentam as áreas de desertificação. O Velho Chico está praticamente inviável como como hidrovia. Espécies foram extintas e ecossistemas estão profundamente alterados. “Diante da expectativa da ‘extinção inexorável do Rio São Francisco’, o livro ressalta a importância de gerar conhecimento científico. Não apenas os pesquisadores precisam se debruçar mais sobre o bioma como também o senso comum criado sobre a Caatinga a empobrece. Por isso o título do livro optou por «Caatingas», no plural, chamando a atenção para sua enorme diversidade. “- O processo que levará ao fim do Rio São Francisco não começou hoje. Basta olhar a ilustração para ver o que aconteceu em tão pouco tempo, menos de 200 anos. A imagem nos mostra um bioma surpreendente: o tamanho das árvores, a diversidade de animais, a exuberância - ressalta Siqueira. -Observamos que ocorre um efeito em cascata. Tanto que, se algo não for feito agora, de forma veemente, o impacto do aquecimento global na Caatinga, que é o local mais ameaçado pelas mudanças climáticas, será dramático”. Vandré, o cantador, fez “versos com certeza... não separa dor de amor”. É dele uma verdade que nos parece absoluta: “... a vida não muda mudando só de lugar”. Que esse verso não seja profético em relação ao Velho Chico.

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ESPECIAL - Dia Mundial da Água

Cada pessoa pode plantar árvores e ideias NEO MONDO, coerente com seu slogan “Um olhar consciente”, selecionou trechos do trabalho de Narciso pelo que representam de prático no cotidiano nordestino. Confira a seguir: “Todas as pessoas que amam o semiárido são responsáveis pelo plantio dessas ideias. Mais de perto as associações rurais, os sindicatos, as cooperativas, etc. Também as escolas, as emissoras de rádio, publicações locais, etc. A religião pela sua ligação entre os fieis e Deus que pode plantar ideias com facilidade total, já que às vezes Ele não manda a chuva...

Cobertura Vegetal Um módulo rural deve ter uma área de mata permanente, outra para o cultivo, outra para o pastoreio. Qual seria então a área ideal para um módulo rural? O que diriam os (as) agricultores (as), o MST, o INCRA? Temos aqui um probleminha: o minifúndio. Mas no sertão também há o latifúndio... O fantasma da desertificação ameaça o semiárido. É preciso convencer o (a) agricultor (a) a evitar qualquer tipo de queimada. Queimar é crime. A mata está sendo usada para a cozinha, para a cerca, para a churrascaria, para a padaria, etc.. Andando pelas estradas encontra-se vários caminhões com lenha, estacas, carvão, etc. Alô poderes legislativos (municipal, estadual e federal) é preciso leis severas para evitar o desmatamento.

Reflorestamento/arborização. Alô agricultores (as) prefeituras, estados e governo federal: não basta cessar o desmatamento. É urgente reflorestar/arborizar. É preciso plantar árvores em cada palmo de terra do campo e da cidade. Onde há arborização sente-se a diferença de temperatura. O clima é agradável porque tem árvores, arbustos, etc. Pessoas, animais e o planeta ganharão com isto. Existem muitas organizações, departamentos, projetos, institutos, universidades, etc Temos capacidade para esse trabalho junto com os (as) agricultores (as) e com experiências exitosas, (ASA, Centro Sabiá, Caatinga, etc.) Mas é preciso reconhecer: é um pingo d’agua num oceano de sêca. “Os (as) agricultores (as) conhecem bem as diversas árvores que suportam a estiagem e fornecem alimento para o gado. É preciso juntar o saber empírico com a visão científica que órgãos de pesquisa podem fornecer, facilitando a preparação de sementes/mudas. Cada município ou pelo menos cada região do sertão precisa ter um campo de fornecimento de sementes/mudas e acompanhamento técnico. Plante essa ideia e as árvores, para salvar o sertão”. ABr

Guardar água (cisterna, barragem, açude, etc.). Sempre ouvi dizer que o problema não é bem falta de água. Ela “chove” abundante durante alguns meses e vai quase toda embora. O certo então é guardá-la . Deixá-la ir embora e depois trazê-la de volta é insensatez, para não dizer burrice./ transposição. Pelo que cada módulo rural/ familiar deve ter uma cisterna com pelo menos 50 mil litros. Essas de plástico, de 15 mil litros é piada ou enrolação... Um

módulo rural deve ter também um pequeno açude ou barreiro, barragem subterrânea, etc. Enfim deve ser retida a água que cai numa propriedade, para não ter que ir buscá-la depois!

“... o semiárido é viável”, desde que sejam respeitados os direitos básicos de sua população, entre eles o acesso a terras férteis

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Júpiter e Calisto de Jacopo Amigoni

Marcio Thamos

Mitologia clássica:

V

ivia na região da Arcádia uma ninfa muito bela chamada Calisto. Embora fosse uma princesa, não ficava enfiada dentro de casa cardando a lã ou penteando-se o dia todo, como em geral faziam as boas moças naquele tempo. Não gostava de se embonecar e vestia-se com muita simplicidade. Sua paixão era percorrer os montes atrás das feras, munida de um dardo ou carregando a tiracolo a aljava cheia de flechas. Diana, a virgem deusa da caça, acostumada à companhia das ninfas, dentre todas preferia Calisto. Mas não perduram sempre as boas graças – sem culpa a moça em breve sofreria. Júpiter, não era de hoje, havia notado aquela jovem e andava fascinado com sua beleza. Mas, receoso do amargo ciúme da esposa, o deus todo-poderoso refreava seus impulsos, adiando assim a tragédia de Calisto. Certa vez, a ninfa adentra um bosque jamais pisado por nenhum caçador. Ali, no meio da tarde ensolarada, em sombra fresca sobre a relva, ela deita, recostando a cabeça na aljava. Diante de tal oportunidade, Júpiter já não se contém: — Minha esposa não vai descobrir nada – diz consigo. — Mas também se descobrir, deixo que ela xingue um pouco, pois valerá a pena, e como valerá! Sabendo que a virgem fugia à primeira aproximação de qualquer homem, ele assume a aparência de Diana e em seguida com voz doce à ninfa se dirige: — Por onde andou caçando, minha querida?

Júpiter e Calisto

Ao vê-la assim chegar, Calisto se levanta: — Salve, ó deusa a quem adoro mais que ao próprio Júpiter! O deus sorri, achando graça num dizer tão inocente, e beija a moça exagerando no carinho. Antes que ela possa perceber alguma coisa, ele a detém nos braços com violência, revelando ao mesmo tempo seu desejo e sua face verdadeira. A ninfa tenta se esquivar e resiste o quanto pode, mas é inútil seu esforço – o pudor enfim cede ao poder. Satisfeito, Júpiter sobe ao Olimpo e descansa de seu triunfo leviano. Calisto, envergonhada, corre sem rumo pelos montes, mas não consegue deixar para trás a humilhação que agora a persegue por toda a parte. Eis que um dia ao encontrar Diana, foge pensando que fosse Júpiter, e só se junta à deusa depois de ver as ninfas que a acompanham. Mesmo assim, já não se põe à frente do séquito como de costume e, sentindo-se culpada, caminha cabisbaixa. Passam-se os meses, e Calisto se torna cada vez mais amuada e arredia. Certo dia, encontrando uma fonte fresquíssima depois de uma caçada extenuante, Diana convida as ninfas a se banharem: — Vamos, meninas, não há ninguém por perto, podemos ficar bem à vontade! Enquanto todas já se despiram, só Calisto hesita e se mantém à parte. As colegas então vêm puxá-la para junto das outras e brincando tiram-lhe a roupa. A moça infeliz cora e se apavora e procura cobrir o ventre com as mãos. Mas não pode esconder o que o corpo claramente denuncia (como algumas já suspeitavam).

— Suma já daqui e não se atreva a macular estas águas sagradas! – foi a sentença que a deusa dardejou de pronto. Quando a criança nasceu, Juno, que já sabia de tudo, sentiu-se aviltada, e sua cólera foi terrível: — Não ficará sem castigo essa beleza que enfeitiçou meu marido! – disse e cruelmente transformou a rival em uma ursa peluda. Calisto, no entanto, mantinha no corpo disforme sua mente humana e sentia o quanto Júpiter era ingrato. Enquanto ela vivia amedrontada entre as feras, Árcade, seu filho, crescia e se tornava um exímio caçador. O destino não tardou a colocá-los frente a frente. Ao reconhecer o menino, agora quase um rapaz, a mãe emocionada quer falar e solta grunhidos horrendos. Assustado mas corajoso, ele está pronto para desferir a lança que traz à mão. Porém Júpiter, que a tudo acompanhava, não permite um desfecho tão atroz: no último instante, arrebata mãe e filho e os transforma em estrelas vizinhas, para sempre a brilhar no céu. Doutor em Estudos Literários. Professor de Língua e Literatura Latinas junto ao Departamento de Linguística da UNESP-FCL/CAr, credenciado no Programa de Pós-Graduação em Estudos Literários da mesma instituição. Coordenador do Grupo de Pesquisa LINCEU – Visões da Antiguidade Clássica. E-mail: marciothamos@uol.com.br Neo Mondo - Março/Abril 2013

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ESPECIAL - Dia Mundial da Água

HIDROPIRATARIA

Denúncias recorrentes sobre tráfico de água doce na foz do rio Amazonas levam a crer que não são parte do imaginário fantástico dos que buscam defender a área. Artigo sobre hidropirataria em revista jurídica cobra as autoridades Antônio Marmo

A

Amazônia ainda fica tão, tão longe do Sul Maravilha que as notícias sobre ela aqui ainda ganham contornos fantasiosos no imaginário comum. Pois não é que agora retomam-se denúncias recorrentes de que há um bom tempo vem ocorrendo o tráfico de... -suspense...sim, tráfico de água doce a partir da foz do rio Amazonas? Pois isso saiu nos jornais de lá e corre a Internet há 2 meses depois que uma Agência de Notícias da região mas com sede em Brasília resolveu repercutir a denúncia veiculada em um insuspeito veículo especializado em temas forenses, a revista Consulex, nº 310, de dezembro último. 20

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Em artigo intitulado “A Organização Mundial de Comércio e o mercado internacional de água”, a advogada capixaba Ilma de Camargo Pereira Barcellos (ler “Não é fantasia”, na página 12), de forma clara e sem juridiquês, fala em navios-tanque fazendo a captação no ponto em que o rio Amazonas deságua no Oceano Atlântico. Estima-se que cada embarcação seja abastecida com 250 milhões de litros de água doce, para engarrafamento na Europa e Oriente Médio. Diz a revista ser grande o interesse pela água farta do Brasil, considerando que é mais barato tratar águas usurpadas (US$ 0,80 o metro cúbico) do que realizar a dessalinização das águas oceânicas (US$ 1,50).

Notícia recorrente A Agência Amazônia, com sede em Brasília, dirigida por um amigo acreano, o jornalista Chico Araújo, também denunciou a prática há três anos, utilizando o termo “hidropirataria”. Agora Chico retoma o tema, reproduzindo o artigo da advogada, logo acatado pelos assinantes da agência entre os jornais amazônicos e também muito replicado na Internet. Para a revista Consulex, essa prática ilegal, no entanto, não pode ser negligenciada pelas autoridades brasileiras, uma vez que são considerados bens da União os lagos, os rios e quaisquer correntes de água em terrenos de seu domínio (CF, art. 20, III).


O MERCADO INTERNACIONAL DE ÁGUA Organização Mundial do Comércio, em declarações específicas, busca forçar a privatização internacional dos serviços ambientais, aí incluindo a venda de água, segundo especialista O trabalho divulgado pela revista Consulex não é centrado na denúncia da hidropirataria em si. Ele começa chamando a atenção para o fato de que “a Organização Mundial do Comércio (OMC) tem tratado a água como mercadoria que merece regulamentação internacional. Elevar a água à categoria de mercadoria e submetê-la às regras do comércio internacional é expressão da realidade com que se trata o assunto”. Ilma entende que, desde a reunião realizada no Catar, em 2001, a Declaração de Doha incluiu nas leis do comércio todos os chamados “serviços ambientais”, os quais abrangem o fornecimento de água, o que pode significar mais uma iniciativa, no entender de Ilma, para forçar a privatização desses serviços. Assim, diz ela, “não é de se estranhar que a OMC tenha como pauta de discussões o comércio mundial de águas, pois se trata de um serviço essencial à Vida e altamente lucrativo nos últimos anos”.

Outro dispositivo, a Lei nº 9.984, de 17 de julho de 2000, atribui à Agência Nacional de Águas (ANA), entre outros órgãos federais, a fiscalização dos recursos hídricos de domínio da União. A lei ainda prevê os mecanismos de outorga de utilização desse direito. A Agência, consultada por NEOMONDO nem respondeu ao mail. Para a advogada Ilma de Camargo Pereira Barcellos, a água é um bem ambiental de uso comum da humanidade. É recurso vital. Dela depende a vida no planeta. Por isso mesmo impõe-se salvaguardar os recursos hídricos do País de interesses econômicos ou políticos internacionais.

Controlar os controles A Organização Mundial do Comércio administra regras comerciais internacionais, aí incluído o Acordo Geral de Tarifas e Comércio (GATT), que define as águas naturais, artificiais ou gasosas como sendo uma mercadoria negociável. Assim, o artigo XI do acordo proíbe especificamente o uso de controle de exportação para qualquer fim e elimina as restrições quantitativas sobre importação e exportações. De forma didática, Ilma explica que “se um País rico em água, como o Brasil, impusesse uma proibição ou até mesmo uma cota sobre as exportações do produto em grande volume por razões ambientais, essa decisão poderia ser questionada sob a ótica da OMC como uma medida comercialmente restritiva e uma violação das regras do comércio internacional”. A Associação Norte-americana de Livre Comércio (Nafta) também já declara a água como uma “mercadoria negociável”, classificando-a como um bem comercial, um serviço e um investimento.

Bolsões de água Só após essas premissas jurídicas sobre comércio exterior é que o artigo de Ilma passa então a informar especificamente sobre o transporte internacional de água, realizado através de grandes petroleiros que saem do pais de origem com petróleo e voltam com tanques especiais cheios de água doce. O líquido nos tanques petroleiros, claro, pode funcionar como lastro mas ele seria reaproveitado depois, ou como ela diz na entrevista abaixo, “uniu-se o útil ao agradável”. O primeiro país a permitir a exportação de água doce, com destino à China e ao Oriente Médio, é o Alasca, na informação da advogada. Dali saem navios-tanque carregando milhões de litros. Uma nova tecnologia já foi introduzida nesse transporte interoceânico: são os bolsões-de-água, water-bags, técnica já utilizada na Inglaterra, Noruega e EUA (Califórnia). O tamanho dessas bolsas, segundo Ilma, excede o de muitos navios juntos, com capacidade muito superior ao dos superpetroleiros. Tais bolsões podem ser projetados de acordo com a necessidade e quantidade de água, puxadas por embarcações rebocadoras convencionais. NEOMONDO pesquisou alguns sites sobre o tema e lá estão informações adicionais em inglês e com fotos. Perdidas no oceano As gigantescas waterbags, segundo os sites, não seriam, ainda, um método comum, usual de transporte de água mas um sistema que começa a chamar a atenção, comparando-se com os custos, digamos, de transportá-la por foguetes. Mais de uma companhia está começando a desenvolver o método, alegando que elas podem ser úteis em situações de desastres naturais (os recentes terremotos no Haiti e Chile, por exemplo), levando água fresca até as zonas sinistradas ou então em áreas sob forte estiagem. Essas bolsas são descritas como muito “semelhantes às usadas por fazendeiros americanos para estocar grãos.

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ESPECIAL - Dia Mundial da Água

Medem cerca de 200 metros ou 2 campos de futebol e podem carregar até 35 mil toneladas do líquido (35 milhões de litros). São feitas de poliéster, costuradas com linha plástica, resistente.” Uma das companhias que teriam usado tais bolsões é a Nordic Water Supply, da Noruega. Comentando sobre a segurança destes equipamentos, um dos executivos da empresa comparou o sistema com os cintos-de-segurança dos carros ou seja, eles salvam vidas mas também têm seus riscos. Bolsões deste tipo desgarraram-se dos rebocadores em pleno oceano. Então elas foram equipadas com alarmes ou balizas eletrônicas luminosas -“homing beacon”para evitar colisões com navios e possibilitar sua localização. Nota da redação: Aparentemente o negócio do transporte de água só deu prejuízos pelo menos à empresa citada na

matéria. Na mesma pesquisa via Internet verificamos que a Nordic Water Supply teria decretado falência (banckruptcy) por volta de 2003, quando planejava desenvolver water-bags para até 100 mil toneladas. Ela ficou nesse mercado só cinco anos, tendo saído da lista de companhias ligadas à “Oslo Stock Exchange”. Não confirmamos se ela retomou as atividades posteriormente. Há outras empresas no ramo.

IMAGINÁRIO AMAZÔNICO? A notícia de que existiria um tráfico internacional de águas amazônicas surpreende mesmo jornalista escolado na região. Mas o histórico local sempre foi de predação. A primeira reação de quem já conhece a Amazônia é perguntar se uma informação tão esdrúxula -tráfico de água doce, hidro-pirataria- não estaria entre os surtos do imaginário sulista sobre a região, sempre abordada –há trabalhos acadêmicos sobre isto- como um mundo fantástico, de imensidões despovoadas e ainda fornecedora de notícias e documentários sobre o exótico. A denúncia-base, no entanto, não saiu em nenhuma publicação engajada na defesa daquela região. Com periodicidade quinzenal, a revista Consulex, instalada num daqueles endereços complicados de Brasília, busca destacar-se no cenário das publicações jurídicas pela análise de temas relevantes mas sem a aridez própria da linguagem técnica inerente ao Direito, isto é, sem juridiquês. De leitura agradável, a publicação se propõe a abordar assuntos nacionais e internacionais que implicam em análise jurídica, bem como da evolução doutrinária e jurisprudencial. Provocando a Marinha Mas a denúncia não encontrou guarida na grande imprensa do Sudeste. Por isso busquei contato com o Ministério da Marinha, em Brasília. A Marinha, através de sua asses22

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soria de Comunicação, informou que sim, já tinha tomado conhecimento de tal noticiário. A tenente que me atendeu disse que a Instituição nunca foi “provocada” diretamente, e que eu teria sido o primeiro jornalista a contatar quem de direito. Mostrava-me com um pé atrás quanto à história. Ela teria encaminhado as questões ao Comando de Operações Navais e ainda aguardava uma resposta até o fechamento desta matéria. Mas pela Internet verifica-se que eu não fui o único a “provocar”, vale dizer, a entrar em contato com a instituição. No dia 3 de março último um internauta preocupado com o tema, Eduardo Fróes, também cobrava posição da Marinha. Ele teve uma resposta formal de um oficial da Inteligência, Marcelo Palma, dizendo que “o assunto constante de sua denúncia já foi informado aos órgãos competentes e que providências estão sendo tomadas, a fim de apurar a responsabilidade e coibir práticas ilícitas como as mencionadas na carta” Palma termina agradecendo “em nome de comandante e em meu nome a preocupação nacionalista de nos informar a respeito de tão importante assunto. Respeitosamente, CF(FN) Palma (Oficial de Inteligência).”

Marcelo Palma é do 1º Comando Naval, que fica no Rio de Janeiro. O problema ocorre 6 mil km longe, na foz do Amazonas. A “Amazônia azul” Em artigo especial publicado no site do Yahoo em 11 de março último, assinado por Danilo Almeida, a manchete dizia que “Marinha tenta superar defasagem para vigiar a Amazônia Azul”. Em contraste com a Amazônia verde, das matas, a azul estaria esparramada por 4,5 milhões de quilômetros quadrados da superfície marítima brasileira, uma riqueza incalculável; nos 55 mil quilômetros quadrados de bacias, a capacidade hídrica é pujante e a reserva de água doce é a maior do planeta. Enfim, um patrimônio inestimável para se tomar conta, uma vastidão a ser vigiada”, dizia o artigo. E prosseguia lembrando que “para quem almeja protagonismo entre as grandes potências, exercer soberania nesse terreno é lei. É o fator determinante por trás da retomada dos investimentos e dos planos de modernização da Marinha”. O artigo falava do reaparelhamento da Força, aí incluindo um caro submarino nuclear esperado para o longinquo 2.024, ao custo total de R$ 15 bilhões, dentro de um pacote frances que inclui mais 4 submarinos convencionais.


HIDRO OU BIOPIRATARIA? Há quem questione a viabilidade econômica do tráfico de água pela água. Pesquisadores acreditam que o interesse maior está em organismos aquáticos que vão com o líquido, peixes ou plantas Chico Araújo, da agência Amazônia, lembra que um artigo do jornalista Erick Von Farfan já tocava no tema da hidro-pirataria há seis anos atrás. Numa reportagem no site Eco21 Fartan lembrava que, depois de sofrer com a biopirataria, com o roubo de minérios e madeiras nobres, agora a Amazônia está enfrentando o tráfico de água doce. Farfan ouviu Ivo Brasil, à época Diretor de Outorga, Cobrança e Fiscalização da Agência Nacional de Águas -ANA. O dirigente disse saber desta ação ilegal. Contudo, como a Marinha, ele aguardava -lembre-se, 6 anos atrás- uma denúncia oficial chegar à entidade para poder tomar as providências necessárias. Ivo Brasil insistia que “são necessários amparos legais para mobilizar tanto a Marinha como a Polícia Federal, que necessitam de comprovação do ato criminoso para promover uma operação na foz dos rios de toda a região amazônica próxima ao Oceano Atlântico. “Tenho ouvido comentários neste sentido, mas ainda nada foi formalizado”, insistiu. Pela NEOMONDO, voltei a cobrar isso da agência dias atrás, perguntando se a “denúncia oficial” deveria chegar através do bispo do Amapá, do Comando da Marinha ou de quem? O mail não foi respondido. Claro, a mobilização fiscalizadora no local seria dispendiosa. A captação seria feita por petroleiros na foz do rio Amazonas ou já dentro do curso de água doce. Somente o local do deságüe do Amazonas no Atlântico

tem 320 km de extensão e fica dentro do território do Amapá. Neste lugar, a profundidade média é em torno de 50 m, o que suportaria o trânsito de um grande navio cargueiro. O contrabando é facilitado pela ausência de fiscalização na área. Essa água, apesar de conter resíduos pesados, a maior parte de origem mineral, pode ser facilmente tratada. Para empresas engarrafadoras, tanto da Europa como do Oriente Médio, trabalhar com essa água mesmo no estado bruto representaria uma grande economia. O custo por litro tratado seria muito inferior aos processos de dessalinizar águas subterrâneas ou oceânicas. Além de livrar-se do pagamento das altas taxas de utilização das águas de superfície existentes, principalmente, dos rios europeus Um processo de baixo custo para países com grandes dificuldades em obter água potável. Assim levar água para se tratar no processo convencional é muito mais barato que o tratamento por osmose reversa A cola do Gurijuba Erick von Farfan, citando pesquisadores brasileiros, questionava também se sob o tal tráfico de água doce não se esconderia, na verdade, a prática de bio-pirataria, ou tráfico de organismos vivos aquáticos, a linha de raciocínio usada pelo professor do Departamento de Hidráulica da Uniersidde Federal do Paraná, Ary Haro para quem “o simples roubo de água doce está longe de ser vantajoso economicamente”.

Um navio petroleiro, segundo ele, armazenaria o equivalente a meio dia de água utilizada pela cidade de Manaus, de 1,5 milhão de habitantes. “Desconheço esse caso, mas podemos estar diante de outros interesses além de se levar apenas água doce”, comentou. Um outro colega de jornadas amazônicas, o jornalista Elson Martins, que morou longo tempo no Amapá, também mostra-se surpreso com a denúncia de tráfico de água doce mas confirma a biopirataria. Ele diz que “a pirataria ali na foz do grande rio corre solta há seculos! Nem parece mais pirataria, mas sim prática legal”. “Eu não sabia do lance da água doce, mas não me surpreendo com o saque”, enfatiza Élson. O choramingão do Ludwig levou fortunas em madeiras do sul do Amapá, enquanto alegava prejuízo com seus dólares investidos numa fábrica de celulose. E pergunta: “já ouviu falar da cola do peixe Gurijuba? Japoneses e norte-americanos a exploram há décadas recolhendo toda a produção de pescadores da costa do Amapá. Ela contém uma cola poderosa que já sai pronta de uma bolsa na barriga do peixe. É usada em produtos com tecnologia de ponta, instrumentos farmacêuticos sofisticado e até em astronaves”. Exótico?. Para o Élson não há nada de exótico. Élson explica que é Belém a sede do saque e não no Amapá. Tudo ali é permitido e nossos caboclos não resmungam. Bah! Essa da água dói no saco!”. E aconselhava a procurar fontes em Belém pois no Amapá ninguém iria falar.

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ESPECIAL - Dia Mundial da Água

“NÃO É FANTASIA” Em entrevista a advogada Ilma Barcellos diz que a hidro-pirataria no Brasil não é novidade nem é notícia fantasiosa. O que ocorre é só omissão das autoridades.

A advogada Ilma de Camargo Pereira Barcellos A revista encaminhou algumas perguntas à advogada Ilma Barcellos questionando justamente se não há algo fantasioso na denúncia. Veja abaixo as respostas: NEOMONDO: “tomamos conhecimento de seu artigo na revista Consulex (“A OMC e o mercado internacional de água”) e gostaríamos que nos brindasse com algumas considerações extras sobre o tema, seguindo as perguntas abaixo: O que a rodada Doha classifica, exatamente, como serviços ambientais e onde entra a água aí? ILMA: Tais serviços ambientais são classificados pela Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE) e da Cooperação Econômica Ásia-Pacífico (APEC, sigla em inglês), basicamente em três gru-

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pos: manejo de poluição; tecnologias e produtos mais limpos (bens mais eficientes no uso de recursos do que as alternativas já existentes); bens que contribuem para o manejo sustentável de recursos florestais, pesqueiros ou agrícolas. Resumidamente são aqueles provenientes da natureza, o ciclo hidrológico, abastecimento de água, aí incluindo tratamento de águas residuais industriais e urbanas, a diversidade biológica, as funções do solo, descontaminação e recuperação de áreas degradadas; transporte e gestão de resíduos sólidos e perigosos; resumindo: são águas residuais, eliminação de lixo e dejetos e saneamento e a proteção da biodiversidade. Porém a OMC apenas indica os tipos de serviços acima citados não definindo uma lista de tais serviços. Pelo que tenho lido, no meu ponto de vista, a finalidade da OMC em 2001 quando incluiu os serviços de água na rodada de Doha,na realidade a intenção era forçar a privatização dos serviços de água, que já era uma iniciativa altamente lucrativa em vários países. Até mesmo porque a água é matéria prima básica para praticamente tudo, carro, geladeira, computador, plástico, alumínio, móveis, roupas, indispensável para qualquer agricultura, lazer, e enfim, a própria vida. Sem mencionar a quantidade de “água virtual” incorporada na produção e comércio de alimentos e produtos de consumo que são exportados. Somando-se a estes fatores podemos citar os países ricos em petróleo e extremamente carentes de água potável. Se hoje, nós que vivemos num país com abundancia de água já pagamos no litro de água quase o mesmo valor de um litro de gasolina ou álcool, o que você acha, qual é a sua conclusão?

NEOMONDO: Segundo o artigo, a comercialização da água é negócio corrente no Mundo. Mas a novidade em seu trabalho é a denúncia de que águas brasileiras estão sendo “furtadas”, milhões de litros são levados sorrateiramente em navios-tanques para a Europa e Oriente Médio. A notícia não é um tanto fantasiosa como muitas envolvendo a Amazônia? ILMA: Desculpe Antônio, mas a hidropirataria em nosso país não é uma novidade, nem tampouco se trata de uma notícia fantasiosa. O que ocorre é o silencio e a omissão das nossas autoridades. No site onde busquei tais informações eu vi o que o jornalista Erik von Farfan publicou (ver citações dele acima). Também o recentemente quando da publicação do meu artigo na Consulex o jornalista Chico Araujo, assim como você, também ficou curioso e contactou um funcionário da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) no Amazonas. Ele também foi contactado por uma advogada de São Paulo que após ler o artigo lhe informou que, há 5 anos, fez sua tese de mestrado exatamente sobre o tema. Chico Araujo fora informado ainda que, o Departamento de Estado dos Estados Unidos encomendou em 2004 um relatório a uma consultoria independente, afirmando que em decorrência de a água ser o motivo de guerras regionais futuramente, o Rio Amazonas evidentemente faz parte deste cenário. NEOMONDO: No caso dos petroleiros, a água não funcionaria como “lastro”? Porque até agora autoridades policiais (Marinha, principalmente) não denunciaram ou coibiram? As tais bolsas transportadoras parecem bem fáceis de serem detectadas, são visíveis... ILMA: A água de lastro serve para manter a estabilidade e integridade


estrutural do navio em alto mar. Eles sempre foram carregados com água do mar. No entanto agora estão carregando tais navios com água doce, ou seja, uniram o útil ao agradável, por tais motivos já esclarecidos no artigo da Consulex. Conforme dito acima, acredito que muitas autoridades já têm conhecimento de tais fatos, no entanto, nossas autoridades em muitos casos preferem se omitir. Na época o dirigente da ANA alegou que para tomar providências junto à Marinha e Policia Federal precisava de amparos legais. Como, se ele era um dos diretores da ANA ( Agencia Nacional de Água), sendo ele responsável pela “outorga”, “cobrança” e “fiscalização”, de assuntos relacionados à água? Pelo pouco que entendo, para fiscalizar algo não precisa de nenhum tipo de denúncia. E se tais embarcações não tinham as devidas autorizações para tal,

pois sabemos que “a água é um recurso limitado, dotado de valor econômico”, porque não houve nenhum tipo de providencia? Com relação as bolsas para transporte de água, não tenho conhecimento do seu uso em nosso país. NEOMONDO: Se ainda não há legislação a criar mecanismos específicos para reprimir esse, digamos, “tráfico”, essa dita “usurpação” não é legal? E quem deve criar essas leis, o Brasil ou a OMC? ILMA: Conforme publicado no artigo, existem sim leis que proíbem tais atos e elas estão tanto na Constituição Federal, no art. 21, inciso XIX, que indica a competência da União para “instituir sistema nacional de gerenciamento de recursos hídricos e definir critérios de outorga de direitos de seu uso”. No que tange à competência formal, o art. 22, inciso IV, deter-

minou a competência privativa da União para legislar sobre água, já na Lei 9.984 de 17 de julho de 2000, estão definidas as atribuições da ANA, que são de supervisionar, controlar e avaliar as ações e atividades decorrentes do cumprimento da legislação federal pertinente aos recursos hídricos, compete à ANA dentre outros, a fiscalização da água, controlando o mecanismo de gerenciamento das águas incluindo a outorga e cobrança. Existe também a Lei nº 9.433, de 8 de janeiro de 1997, que regulamentou parcialmente o art. 21, inciso XIX, através da criação do Sistema Nacional de Gerenciamento de Recursos Hídricos, e outras, ou seja, leis existem, e muitas. Deus nos livre e guarde de algum dia a OMC legislar sobre tal bem ambiental.

A misteriosa Equa Water A Agência Amazônia, em outro artigo de Chico Araújo, conta a saga do empresário americano Jeff Moats. Ele também descobriu que vender água é um negócio lucrativo. Ele Investiu US$ 12 milhões para lançar uma nova marca de água mineral, a Equa Water. E adivinhem da onde vem essa água, pergunta Chico? A fábrica está sendo construída uma área de 1.500 hectares nos arredores de Manaus, no coração da Amazônia. Jeff quer extrair a água de um aquífero muito antigo situado 200 metros abaixo da superfície. A água desse aquífero tem o maior grau de pureza do mundo. O motivo está envolto por quartzo rosa, que atua como um guardião da pureza da água. A idéia é posicionar a marca como a mais pura dentre as águas da terra e explorar na comunicação

justamente o mistério que envolve a Amazônia. Jeff irá construir sua marca com base em três pilares: pureza da água, design da garrafa (minimalista) e no branding, este último fundamental. Competirá com marcas já bem estabelecidas no mercado, entre as quais a Evian , a Tynant, a Fiji e a Vittel . Contudo, acredita-se, Jeff não terá muitos problemas para emplacar seu produto. A primeira vantagem é o exotismo da origem da água. Americanos adoram a Amazônia e, pelo menos na terra do Tio Sam, as chances de sucesso são boas. O mercado de água mineral cresce a uma taxa de 25% ao ano e já é um mercado que movimenta US$ 60 bilhões no mundo. Que tal você tomar a água mais pura, mais cristalina e mais misteriosa do mundo, conclui o amigo Chico Araújo?

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Origem e

Ciclo da Água

no Planeta

C

onsiderando a importância da água em todos os sentidos, acredito ser importante entendermos a sua origem, o ciclo que ela percorre e sua participação nos processos modeladores da superfície terrestre. A água tem sua distribuição na atmosfera e até uma profundidade de cerca de 10 km na crosta terrestre. Forma reservatórios como rios, lagos, oceanos, geleiras, aqüíferos subterrâneos, atmosfera e biosfera, compondo o que se denomina hidrosfera. Mas, qual a origem da água no nosso planeta? A quantidade que temos hoje disponível é a mesma desde sua formação? Essa quantidade foi aumentando ou tudo se formou de uma só vez? A água no planeta vai acabar? A água existe também em outros planetas do Sistema Solar, não é um privilégio da Terra. No entanto a Terra é o único planeta no qual encontramos água em seu estado líquido. Uma das teorias diz que a origem da água está relacionada à formação da atmosfera terrestre num processo de liberação de gases por um sólido ou líquido quando aquecido ou resfriado, principalmente vapor de água e gás carbônico. Originalmente a água estava aprisionada em certos minerais. Quando a Terra se

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aqueceu e seus materiais se fundiram parcialmente, o vapor de água e outros gases foram liberados e levados para a superfície pelo magma, sendo lançados na atmosfera pela atividade vulcânica. Esse processo pode ser observado hoje nas erupções vulcânicas, que forma a denominada água

juvenil, ou seja, dão origem à água da mesma maneira desde a sua formação original. Outra teoria aponta que a maior parte da água da Terra atual veio de fora do sistema solar por meio do impacto de corpos ricos em voláteis após a formação do planeta. A água está presente em vários meteoritos e

Ciclo da Água

Fonte: Decifrando a Terra: Teixeria, Toledo, Fairchild e Taioli, Oficina de Textos.2000.


Denise de La Corte Bacci

Grand Canyon nos Estados Unidos é um dos exemplos mais famosos de erosão fluvial

Os vales da Serra Nevada nos Estados Unidos mostram a força da erosão das geleiras

cometas. Incontáveis cometas bombardearam a Terra nos primórdios de sua formação, fornecendo água e gases que posteriormente deram origem aos oceanos e à atmosfera primitiva, o que indica que a hidrosfera e atmosfera são secundárias O volume de água gerado desde então sofreu pequenas alterações, mantendo-se praticamente o mesmo de hoje e a atmosfera terrestre formou-se de uma só vez num certo momento da história do planeta. Isso indica que a quantidade de água pouco se alterou em bilhões de anos, e que é pouco provável que a água do planeta acabe. A água, então, a partir da precipitação meteórica, que representa a condensação de gotículas a partir do vapor de água, passou a se acumular formando os reservatórios e a circular entre eles, originando o ciclo hidrológico como conhecemos atualmente. A água passa por todas as esferas terrestres. O movimento cíclico da água vai dos oceanos e plantas para a atmosfera por evaporação e evapotranspiração, de volta para a superfície por meio da precipitação e, então para os rios e aquíferos pelo escoamento superficial e infiltração, retornando aos oceanos. Esse caminho da água forma o ciclo hidrológico (Figura 1),

fundamental para o abastecimento dos reservatórios naturais, em termos de transferência da água entre eles e transformação entre os estados sólido, líquido e gasoso. O ciclo hidrológico tem importância essencial na gestão dos recursos hídricos e também na transformação das paisagens terrestres, pois a água é um importante agente modelador da superfície. Muitas paisagens que vemos hoje foram esculpidas pelos processos fluviais (rios), lacustres (lagos) e pelas geleiras além de reações químicas que envolvem a presença da água (intemperismo), que altera os minerais e ajuda a destruir as rochas da superfície. O Grand Canyon nos Estados Unidos é um dos exemplos mais famosos de erosão fluvial e, no Brasil, Vila Velha no Paraná também sofreu a ação da água, além da erosão pelo vento, esculpindo formas únicas, sendo considerados patrimônios naturais. Vales esculpidos pelo gelo mostram a força de erosão das geleiras. Os vales da Serra Nevada também nos Estados Unidos e muitas feições no Sul no Brasil mostram a força desse agente erosivo. Os processos dinâmicos da Terra agem constantemente modelando as formas da

paisagem que vemos hoje, as quais não são estáticas, mas se modificam ao longo do tempo geológico. Compreender a importância da água em seu ciclo natural e os processos em que ela atua faz-se importante para que entendamos como a ação do homem pode interferir na natureza modificando ou intensificando os processos naturais e quais ações e cuidados devemos tomar para que nossas ações não sejam mais fortes e desequilibrem os ciclos e as paisagens naturais. Referência Bibliográfica: Teixeira, W., Fairchild. T.R., Toledo, C.M.M.de, Taioli, F. Decifrando a Terra. 2ª. Edição. Companhia Editora Nacional, 2009. Denise de La Corte Bacci Graduada em Geologia pela UNESP, Campus de Rio Claro, mestrado em Geociências e Meio Ambiente pela UNESP e doutorado em Geociências e Meio Ambiente pela UNESP. Estágios na Università di Milano e University of Missouri_Rolla. Pós-doutorado em Engenharia Mineral pela POLI-USP. Atualmente é docente do Instituto de Geociências da USP. E-mail: bacci@igc.usp.br Neo Mondo - Março/Abril 2013

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ESPECIAL - Dia Mundial da Água

signo

Misteriosa e única no mundo por sua peculiaridade urbanística, Veneza conserva em suas águas a razão de existir, suas alegrias e suas dores também

Até Missa do Galo já teve seu horário antecipado por força do avanço das águas na Praça San Marco

Serviço de Videocomunicaçao/Prefeitura de Veneza

Sob o Camila Turriani, De Viareggio (Itália), Especial para NEO MONDO

A

cidade parece flutuar sobre a laguna. Sereníssima, como era chamada no período em que era uma das mais influentes repúblicas marítimas da Itália. Sobre suas águas navegaram grandes marinheiros, mercadores e exploradores, como um de seus

mais ilustres filhos, Marco Polo. Shakspeare relembra a tradição mercantil da cidade em sua instigante obra O Mercador de Veneza, que nos remete a um passado de glória e poder. E quem, ao ouvir falar de Veneza, não pensa logo em um passeio de gôn-

dola por entre seus cerca de 180 canais? A água para os venezianos foi sempre fonte de prazer, luxo e riqueza. Sem ela, a cidade perderia sentido. A incrível laguna é, certamente, seu órgão vital, o seu coração.


da

Marés preocupam Para que a população não seja pega de surpresa, a Prefeitura criou, em 1980, um centro de controle e previsão das marés – Centro Maree. Ele fornece online informações sobre o nível das águas e também oferece dois sistemas de alarme em caso de acqua alta. Um deles é por meio de SMS, enviados aos assinantes deste serviço. Outro é por meio de um moderno sistema de sirenes. Neste ano, porém, na primeira noite de alta da laguna, o sistema apresentou falhas. Causa: falta de verbas para a manutenção. Nunca como em 2010 a sequência de alta das marés foi tão dura em Veneza. A quantidade expressiva superou todos os recordes de maré acima dos 80 cm, até então. E não foi o único recorde do ano. O número de ligações ao centro de previsão superou a marca de 500 mil chamadas; foram 2,5 milhões de visitas à internet, mais de 1 milhão de SMS, e as sirenes de alerta acionadas 31 vezes. O principal ícone de Veneza, a Praça San Marco, é um dos pontos que mais

sofrem. A água invade o local cerca de 200 vezes ao ano e tem provocado sérios danos à pavimentação. A Prefeitura promete providenciar a realização de obras de elevação e impermeabilização da praça, com um custo na ordem de 50 milhões de euros. Mas terá de esperar pelo financiamento do Estado italiano. Enquanto isso, já abriu as portas a empresas privadas para o patrocínio de obras de restauração dos monumentos. Além das fortes chuvas e do vento que empurra as águas do mar Adriático para dentro de Veneza, a elevação desmedida da laguna nos últimos tempos, segundo especialistas, tem ligação direta com o aumento do nível do mar, um reflexo do global warming. Em uma conferência da Organização das Nações Unidas para a Ciência, Educação e Cultura (Unesco), organizada no final do ano passado em Veneza, o cientista italiano Paolo Pirazzoli disse que recentes estudos revelam que o mar poderá elevar-se de 1,40 m até 2100, com um mínimo de

50 cm e uma média de 80 cm - dado visto com maior probabilidade. Cenário bem diferente do previsto, anos atrás, pelos especialistas do Ministério de Pesquisa Cientifica italiano, cujos dados reportavam um aumento em torno de 22 cm e até 31,5 cm como o número mais alarmante. Tais estudos foram efetuados para avaliação do sistema Mose. Trata-se do projeto gigantesco promovido pela capital italiana, hoje já em fase de construção, que prevê a realização de uma megaestrutura para barrar a entrada da água na laguna, em casos de maré alta. Entretanto, Pirazzoli ressaltou a inadequação deste sistema em termos de longevidade e funcionalidade. “O projeto foi pensado para um aumento previsto do nível do mar entre 20 cm e 30 cm, marca hoje superada pelas previsões atuais. As barragens deverão estar sempre fechadas, e a água continuará a passar do mesmo jeito. O Mose poderá ser insuficiente para defender Veneza”, disse na ocasião.

Consórcio Veneza Nova

Hoje, porém, a história recente de Veneza deixa no pretérito os requintes. Como dizem os italianos, nem tudo é rose e fiori. Problemas relacionados à água interferem nos negócios de turismo da cidade e afetam, principalmente, seus habitantes. São constantes os contratempos causados pela alta da maré, que em 2010 não deu trégua. Os mais evidentes estão relacionados aos danos às estruturas, à mobilidade interna e ao tráfego aquático. No último Natal, por exemplo, o sacerdote da Basílica de San Marco chegou a adiantar o horário da missa, sugerindo aos fiéis calçarem botas de borracha. Isso porque bastam 80 cm de maré alta para alagar a catedral e, naquela noite, era previsto um aumento de 130 cm a partir da meia-noite - horário em que tradicionalmente é celebrada a Missa do Galo.

A operacionalidade do porto será garantida por uma eclusa para grandes embarcações

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Ghetti, do Planejamento Estratégico: manutenção permanente Falta autonomia Outra pedra no sapato dos venezianos é a falta de autonomia sobre o seu território. Dá para imaginar a onda de preocupação e perplexidade que atingiu a cidade, quando no início do ano uma voz anunciou a revogação de um decreto de 1904, o qual passava os po-

deres dos canais de Veneza da Prefeitura para o Estado. Mas tudo foi prontamente desmentido pelo ministro da Simplificação Normativa Roberto Calderoli, que assegurou que o Canal Grande, a principal via d’água e cartão-postal de Veneza, era e continuaria a ser uma jurisdição municipal. Meno male, porque a questão repropunha com força a delicada matéria das competências sobre as águas internas da laguna - uma questão polêmica em Ca’ Farsetti, sede do governo municipal. Para se ter uma ideia, o jornal local La Nuova anunciou recentemente que o prefeito Giorgio Orsoni teria descoberto a existência de um projeto sobre as águas de San Marco lendo a notícia em suas páginas. “Se quisermos manter a cidade viva, devemos dar à Prefeitura plena autonomia sobre o seu território e capacidade de decidir o seu futuro. É também uma questão psicológica. Sobre grande parte das águas, nós não temos autoridade alguma”, declarou o prefeito. O projeto em questão prevê a construção de um píer de 54 metros na baía

Prefeitura de Veneza

Prefeitura de Veneza

ESPECIAL - Dia Mundial da Água

Giorgio Orsoni: cidade viva, só com autonomia da Prefeitura de San Marco, com um espelho d’água de 2,5 mil metros quadrados destinados, ao menos até o momento, a dois iates de luxo. A proposta foi feita por uma sociedade privada à Autoridade Portual - entidade que decide sobre a concessão de utilização daquelas águas.

Projeto Mose é pioneiro no mundo As discussões sobre como salvar Veneza dos alagamentos provocados pela maré alta começaram em 1966. Neste ano, a maré subiu quase 2 metros, provocando verdadeiro desastre. De lá para cá, o problema assumiu maiores dimensões, tornando-se mais intenso e frequente. Com o intuito de proteger a cidade desse fenômeno, que em 2010 sofreu grande intensificação, o governo italiano constrói gigantescas barragens móveis. Serão quatro no total, posicionadas nas três “bocas” de entrada da laguna: Lido, Malamocco e  Chioggia. Este sistema, conhecido como Mose, é uma das maiores obras hidráulicas italianas dos últimos anos, e sua técnica não tem precedentes no mundo todo, nem mesmo tendo sido testada antes. Inseridas no fundo do mar, as barragens entram em ação por meio de um sistema pneumático, desfrutando assim o princípio de Arquimedes. O ar é insuflado dentro de cada uma delas, fazendo com que a água que as mantém abaixadas seja expelida e, por consequência, elas se levantem. O que deverá acontecer todas as vezes que a maré atingir o marco de 1,10 metro.

“Veneza é uma cidade frágil, que necessita de manutenção constante”, diz o assessor municipal de Planejamento Estratégico, Pier Francesco Ghetti. A água salgada que invade a cidade causa danos à sua estabilidade, uma vez que possui efeito corrosivo sobre suas estruturas e alicerces. Além disso, provoca distúrbios de mobilidade interna que impedem os cidadãos de realizarem suas atividades normais. “Tivemos um número crescente de maré alta que leva a cidade a uma situação particularmente danosa e até folclórica. Os turistas ficam encantados com esse evento, pois lhes dá a sensação de que a cidade está saindo da água. Para eles é um fato único e se divertem caminhando com grandes botas de borracha sobre a água”, conta o assessor. Mas a brincadeira é só para os turistas. Em base ao nível médio do mar, a água pode subir até 1 metro sem que invada as margens da cidade. Qualquer centímetro a mais, a água aparecerá sobre as estradas. Há mais um porém: nem todas as margens de Veneza têm a mesma altura. A Praça San Marco, por exemplo, fica embaixo d’água já aos 80 centímetros. Para resolver o problema, está em andamento um proces-

O projeto em números • 4 complexos de barragens móveis serão inseridas nas “bocas” de entrada da laguna: duas em Lido, uma em Malamocco e uma em Chioggia. Cada uma delas é composta por um determinado número de comportas - 78 no total. • 1 eclusa para grandes embarcações na “boca” de Malamocco garantirá a operacionalidade do porto, mesmo com as barragens em funcionamento. • 3 eclusas menores (duas em Chioggia e uma em Lido) garantirão o trânsito de barcos pesqueiros, iates e lanchas de resgate.

• 3 metros é a maré máxima que o sistema poderá barrar (a maior até hoje foi de 1,94 metro). • 60 centímetros em 100 anos é o aumento do nível do mar que o Mose poderá suportar. • 46 quilômetros de litoral estão sendo reforçados. • 65% da obra já foi completada. • 3.000 pessoas envolvidas direta ou indiretamente. • 9.000 metros de recifes artificiais criados dos 9.850 necessários para amenizar a intensidade das correntes marítimas.

Fonte: www.salve.it (site do Ministério de Infraestrutura e Transportes italiano para a proteçao de Veneza e sua laguna) 30

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Não são somente iates que entram no golfo de Veneza. Petroleiros, porta-contêineres, balsas e navios de cruzeiro são visitantes assíduos de suas águas, já bem frequentadas por gôndolas, barcos-táxi, vaporetos e ferryboats. Em 2010, mais de 2 milhões de turistas entraram na cidade via mar. O mercado está em contínua expansão e levou o porto de Veneza a ser classificado como o primeiro home port do Mediterrâneo. Mas será que essa geração de riqueza justifica alguma coisa? Grupos engajados na preservação da laguna dizem que não. Segundo fontes locais, toda essa movimentação provoca efeitos danosos. As grandes embarcações movem

milhares de toneladas de água e, sobretudo, sugam água dos canais, aumentando a erosão e danificando as suas margens. É uma questão difícil. Mas as autoridades estão trabalhando em medidas que mantenham um equilíbrio entre as atividades produtivas e a conservação ambiental. De acordo com a entidade que realiza as obras do Mose, as barragens não defendem somente a cidade de Veneza, mas um ecossistema grande de 550 km quadrados - uma das zonas úmidas mais importantes do Mediterrâneo. E muitas ações para recuperar a morfologia e a biodiversidade da laguna já estão sendo efetivadas.

Os maiores picos de maré Data

Altura (cm)

16 de abril de 1936

+ 147

12 de novembro de 1951

+ 151

15 de outubro de 1960

+ 145

4 de novembro de 1966

+ 194

3 de novembro de 1968

+ 144

22 de dezembro de 1979

+ 166

1° de fevereiro de 1986

+ 158

8 de dezembro de 1992

+ 142

Percentuais de alagamento de acordo com a quota de maré

6 de novembro de 2000

+ 144

+ 100 cm: 5% + 110 cm: 14% + 120 cm: 29% + 130 cm: 43% A partir de 140 cm, mais de 54% do território de Veneza é alagado

16 de novembro de 2002

+ 147

1° de dezembro de 2008

+ 156

25 de dezembro de 2009

+ 145

24 de dezembro de 2010

+ 144

Fonte: Prefeitura de Veneza (www.comune.venezia.it)

efetiva funcionalidade e durabilidade. Há a preocupação da parte de cientistas e grupos da comunidade civil quanto aos riscos de um mecanismo que permanece no fundo do mar - dando poucas possibilidades de correção e manutenção – e à sua capacidade de bloquear as marés, caso as previsões mais catastróficas se confirmem. Mas o governo tranquiliza esses setores. Um verniz especial será utilizado para proteger as barragens das agressões do ambiente marinho. Além disso, garante que o Mose é capaz de proteger Veneza das marés de até 3 metros e foi projetado para enfrentar as mudanças climáticas que preveem aumento de até 60 centímetros do nível do mar nos próximos 100 anos. O problema, segundo o cientista italiano Paolo Pirazzoli, é que os últimos estudos revelam dados mais alarmistas, como a possibilidade de o aumento do nível do mar chegar a 1,40 metro. Caso em que o Mose não seria suficiente. Posição que reacende o debate sobre a grande obra: o Mose é irreversível, e as incertezas são muitas. Fotos: Consórcio Veneza Nova

so de elevação de todas as margens de Veneza à quota 100 centímetros (1 metro). Uma vez nivelada, o Mose fará o resto do trabalho. O sistema já se encontra em fase avançada de construção (65% concluídos) e custará aos cofres públicos cerca de 4,5 bilhões de euros. Esta fortuna vai para o Consórcio Veneza Nova, concessionário único para a realização do projeto formado pelas principais construtoras da Itália. Veneza goza de uma lei especial, que lhe garante uma elevada verba do governo italiano para a manutenção do seu patrimônio. Entretanto, devido aos altos custos do projeto, parte desse dinheiro não chega mais, e áreas como a cultura ficam “a ver navios”. Motivo que gerou grande contestação nas esferas política e social na época de sua implementação. Iniciado em 2003, o sistema torna-se indispensável para a segurança da cidade e deve ficar pronto em 2014. Com as previsões de mudança climática, a obra faz-se mais urgente. Mas o fato de ser uma iniciativa inédita no mundo levanta algumas questões sobre sua

Fonte: Prefeitura de Veneza (www.comune.venezia.it)

Projeto Mose, mais de 60% concluídos, ainda causa polêmicas e gera incertezas

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Água Virtual A

água é imprescindível à existência dos seres vivos, mas também ao exercício de atividades industriais, comerciais, agrícolas e à prestação de serviços. ARJEN HOEKSTRA, Professor de Gestão das Águas na Faculdade de Tecnologia e Engenharia da Universidade de Twente (Holanda), denominou de “água virtual” a quantidade de água doce incorporada, direta ou indiretamente, ao processo produtivo de qualquer bem, mercadoria ou serviço, destinados ao consumo humano, estabelecendo uma relação entre a gestão da água e o comércio.

No âmbito do comércio internacional, diz-se recordista na utilização da “água virtual” todo país que se destaca em atividades relacionadas à exportação. É o caso do Brasil, que figura no ranking dos maiores exportadores de grãos, carne bovina, aço, etanol, alumínio e derivados etc., dentre outros produtos. Para ilustrar, cite-se que, em 2005, o País exportou o equivalente a 50 bilhões de m³ de “água virtual” somente com o processamento da soja para exportação, e que, no ano anterior, aproximadamente 20 trilhões de litros de água doce foram incorporados à industrialização de carne bovina e de frango destinadas ao ex-

terior, segundo dados do Instituto de Economia Agrícola da Secretaria da Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo. Para tornar compreensível o conceito de “água virtual”, listamos a quantidade de água utilizada no processamento e industrialização de alguns produtos. Em 2003, o País já ocupava o 10º lugar entre os exportadores de “água virtual” do mundo, acrescentando CORTEZ que “O volume de água exportado pelo agronegócio é mais do que significativo, mas a ‘água virtual’ também tem peso em outros setores. No Brasil, nossa geração de energia elétrica é essencialmente hidrelétrica (...).

QUANTIDADE DE LITROS DE ÁGUA POR QUILO DE ALIMENTO PRODUZIDO PRODUTO

“ÁGUA VIRTUAL” (l/km)

PRODUTO

“ÁGUA VIRTUAL” (l/km)

1.400 a 3.600

Laranja e outros cítricos

378

Arroz Aveia

2.374

Leite

560 a 865

Aves

2.800 a 4.500

Manteiga

18.000

Azeite de oliva

11.350

Milho

450 a 1.600

Azeitona

2.500

Óleo de soja

5.405

Banana

499

Ovos

2.700 a 4.700

Batata

105 a 160

Queijo

5.280

193

Soja

2.300 a 2.750

Beterraba Cana-de-açucar Carne de boi

318

Tomate

105

13.500 a 20.700

Trigo

1.150 a 2.000

4.600 a 5.900

Uva

455

Carne de porco

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Ilma de Camargos Pereira Barcellos

Isto é muito claro na indústria eletrointensiva (alumínio, siderúrgica, ferro ligas, papel e celulose, e petroquímica)”.2 Tomemos como exemplo a produção brasileira de uma tonelada de aço, em que são utilizados 15 mil litros de água, sem falar no consumo de energia elétrica, o que também envolve a água, já que gerada por usina hidrelétrica. Assinale-se, ademais, que 28,8% da energia elétrica são consumidos por 408 indústrias eletrointensivas, sendo que 41% do custo final do alumínio corresponde à energia elétrica. Sobre o tema, afirma CORTEZ que “[...] É por isso que o Japão produzia 1,1 milhão de toneladas de alumínio por ano e baixou a produção para apenas 41 mil toneladas/ano, passando a importar o restante. Neste caso, a indústria eletrointensiva é ‘competitiva’ porque, como toda exportação de bens primários, de baixo valor agregado, soma mão de obra barata, energia elétrica subsidiada e gigantescas quantidades de ‘água virtual’”. E conclui: “[...] se não compreendermos a importância de se implementar políticas públicas de proteção aos mananciais e ao acesso à água, estaremos subsidiando o poder econômico e político de quem controlar os estoques de água”.3 JOHN ANTHONY ALLAN, cientista britânico que descobriu a fórmula matemática para se aferir a quantidade de água utilizada na produção de um bem (“água virtual”) e que, por isso mesmo, em 2008, foi agraciado com o “Stockholm Water Prize”, uma espécie de Prêmio Nobel concedido pelo Instituto

Internacional da Água de Estocolmo, afirma que atualmente o Brasil é o maior “exportador de água virtual” do mundo. EXTERNALIDADES NEGATIVAS Diante do excessivo consumo mundial de “água virtual” e da imprescindibilidade da água para se assegurar as diferentes formas de vida no Planeta Terra, leciona CALDERONI: “[...] Surge então a necessidade de se encontrar um mecanismo que torne possível a internacionalização das externalidades, de modo que as empresas e os indivíduos compreendam claramente que existem custos e benefícios sociais, ou seja, é necessário levar em consideração seus efeitos positivos e negativos na implantação de uma atividade econômica”.4 Considerando-se que para a produção de um litro de álcool, gasta-se 13 litros de água, e que cada litro de etanol produz aproximadamente 10 a 13 litros de vinhoto, que contamina os rios e a água subterrânea5, há que se atentar para esse fator de degradação ambiental cujos custos, também denominados “externalidades negativas ambientais”, devem ser suportados pelo explorador da atividade econômica, cumprindo-lhe, ademais, reparar eventuais prejuízos causados ao meio ambiente. Urge, portanto, uma conscientização global visando ao consumo racional da água que, embora sabido tratar-se de um recurso natural finito, pouca ou nenhuma atenção tem merecido a sua preservação e correta utilização.

NOTAS 1. Disponível em: < http://www.sabesp. com.br/CalandraWeb/CalandraRedirect/?t emp=4&proj=sabesp& pub=T&db=&doci d=01DA58C98B0A62D7832571CA0046F 76C> Acesso em: 18.07.07. 2. In: CORTEZ, Henrique. O Século do Hidronegócio. Disponível em: . Acesso em: 04.07.07. 3. Idem,ibidem. 4. CALDERONI, Sabetaí. Economia Ambiental. In: Curso de Gestão Ambiental, da autoria de Arlindo Philippi Jr., Marcelo de Andrade Roméros e Gilda Collet Bruna. Barueri: Manole, 2004, p. 571-616. 5. Disponível em: http://www.midiaindependente.org/pt/blue/2007/03/374894. shtml. Acesso em: 28.08.07.

Ilma de Camargos Pereira Barcellos Graduada em Administração pela Faculdade Cândido Mendes (VitóriaES) e em Direito pelo Centro Universitário Vila Velha (UVV). Presidente da Comissão Estadual de Advogados em Início de Carreira (CEAIC) e Membro da Comissão de Meio Ambiente da Ordem dos Advogados do Brasil – Seccional do Espírito Santo. Advogada militante.

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A Insustentabilidade do Desenvolvimento Sustentável

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s eventos mais significativos, que subsidiam a compreensão da evolução da questão ambiental e a sua relação com a Terra, são materializados pelas reuniões do Clube de Roma, em 1968, e, posteriormente, pela Convenção das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento – Estocolmo 72, sem deixar de considerar encontros importantes que ocorreram como decorrência da necessidade de controle do uso de armas nucleares no Japão, ao final da Segunda Guerra Mundial. A contribuição do Clube de Roma se deu por meio de um relatório intitulado “Os Limites do Crescimento”, produzido por cientistas do Massachusetts Institute of Technology, que se caracterizou como a primeira iniciativa global voltada a avaliar a

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severidade de problemas cruciais para o desenvolvimento da humanidade, no que tange ao uso dos recursos naturais e energia, com o consequente aumento da poluição, a falta de alimentos e saneamento básico e suas implicações para a saúde, o desenvolvimento tecnológico e os riscos associados ao aumento da população na Terra. Posteriormente, em 1972, tendo como referência os resultados do Clube de Roma, realizou-se, em Estocolmo, a Conferência de Meio Ambiente e Desenvolvimento (CNUMAD), que se colocou como a grande referência e marco conceitual para a abordagem da temática ambiental e a necessidade de sua inclusão no rol das políticas públicas. No caso do Brasil, a Política Nacional de Meio Ambiente (PNMA), instituída em

1981, resultou, em grande parte, das discussões e acordos realizados nessa CNUMAD. Naquele momento, a população da Terra era de pouco mais de 3 bilhões de habitantes. A superfície dos continentes apresentava grandes áreas para expansão das atividades humanas, o papel dos oceanos na regulagem do clima era ainda desconhecido, e os complexos processos associados aos grandes biomas não pareciam ter papel mais importante. O cenário, portanto, era outro e muito mais simplificado. Em um contexto no qual as alterações e impactos ambientais causados pelos seres humanos eram, ainda, relativamente simples ao se considerar as vastas fronteiras e áreas ainda inexploradas da Terra.


Paulo F.Garreta Harkot

Não eram conhecidas, tampouco, as intrínsecas e sensíveis relações existentes entre as espécies, ecossistemas e conjuntos de ecossistemas. Nem o papel que essas relações apresentavam para os serviços naturais, uma vez que as informações existentes ainda não possibilitavam o entendimento das importantes funções desempenhadas pelos ecossistemas e pela associação deles, que se mostram como que basilares para a manutenção da vida na Terra, de maneira geral, e da espécie humana, em termos específicos. Pressão crescente No presente, com a população da Terra tendo já ultrapassado os 7 bilhões de pessoas, com os biomas já bastante diminuídos e simplificados e já quase que inexistente presença de fronteiras a serem ocupadas, com exceção de algumas áreas ocupadas por florestas tropicais, tem-se claro que os sistemas que regem e suportam a vida na Terra encontram-se abalados e sob intensa e crescente pressão. Adicionalmente, e a despeito do grande incremento e quase infinda quantidade de informações existentes, ainda não se dispõe de informações precisas para a tomada de decisões que contribuam, efetivamente, para a sustentabilidade da vida na Terra. Ao se considerar as áreas de conhecimento que buscam avaliar o impacto causado pelas ações antrópicas sobre os ecossistemas e serviços gerados por eles, constata-se gritante falta de informações no que tange ao entendimento das consequências das ações humanas sobre os processos que ocorrem entre os compartimentos dos ecossistemas. A apreciação, avaliação e aprovação de instrumentos legais voltados para a temática ambiental são, como todos os demais, discutidos e votados em plenários nas câmaras e assembleias estaduais e federal. Nesse processo, considerado como que democrático, muitas vezes, não são aprovados instrumentos que se mostram capazes de ferir interesses de grupos organizados que atuam em prol daqueles mesmos grupos que representam.

Como, geralmente, tais interesses são de ordem pecuniária, as preocupações acabam se focando no curto prazo e no atendimento de objetivos sectários, muito pouco contribuindo para a manutenção dos serviços naturais assegurados pelos ecossistemas. O aumento da pressão sobre os processos que asseguram a ocorrência dos serviços naturais, decorrente do aumento da população humana e da maior necessidade de recursos como resultado do desenvolvimento tecnológico, coloca em risco essas unidades funcionais e pode resultar na simplificação das suas características com perda dos processos e serviços naturais. O desconhecimento generalizado da população acerca da unicidade, características e fragilidades dos serviços ecossistêmicos, bem como a fragilidade e a leniência da legislação e os interesses econômicos e pecuniários no curto prazo dos grupos dominantes, permitem vislumbrar um cenário preocupante no que respeita às opções de uso dos espaços e ecossistemas naturais.

têmica do Milênio e os cenários relativos à oferta dos serviços naturais em 2050. Assim, falar em economia verde, azul, verde-azulada ou azul-esverdeada, sem considerar os processos que respondem pela existência das espécies, ecossistemas e biomas, é, literalmente, esperar que das correias saia o couro. Algo que se mostra inverossímil de ocorrer. Nesse quadro, as perspectivas de insustentabilidade do alardeado desenvolvimento sustentável demonstram desconhecimento e, em alguns casos, má-fé daqueles que fazem uso e divulgam essa temática, em um caso de grande descaso governamental nos seus diferentes níveis. Longe de pretender ser pessimista, temos que, a partir dos dados, informações e tendências vislumbradas no presente, colocarmo-nos como realistas, já que, à luz da ciência, tanto maior a chance de cura do doente quanto mais preciso, e realista, se mostrar o diagnóstico realizado. E, ao se tratar de diagnósticos, lembrar que não existe otimismo ou pessimismo.

A base da pirâmide Ao mesmo tempo, e tendo em conta o elevado contingente populacional que apresenta baixos indicadores de qualidade de vida, torna-se possível antever as sérias ameaças à qualidade ambiental que decorrerá das atividades que buscam atender aos interesses da população na base da pirâmide, em uma economia voltada ao consumo e balizada pela obsolescência programada e uso abusivo de matéria-prima oriunda de petróleo. Como amálgama desse grande movimento, os veículos de comunicação aparentam não ter condições de cumprir um papel relevante no que tange à divulgação de informações de interesse público voltadas para o médio e longo prazo. Nesse contexto, é de se esperar que as ameaças, pressões e impactos junto aos ecossistemas tornem-se cada vez mais intensos e prejudiciais à sua manutenção, como alertam as projeções da Avaliação Ecossis-

Paulo F. Garreta Harkot Oceanógrafo, mestre em saúde pública/epidemiologia Professor de cursos de graduação e pós-graduação Diretor da Sinergética Estudos e Projetos Atuou em todos os estados litorâneos brasileiros com atividades relacionadas ao Programa Nacional de Gerenciamento Costeiro (PNGC), participou da implantação do Projeto Peixe-Boi Marinho, na Paraíba, além de outras atividades com unidades de conservação. Atua também na área de controle da erosão costeira, qualidade das águas e planos de gestão costeira na esfera pública e na iniciativa privada. Foi consultor do PNUD para fins de avaliação do PNGC para subsidiar a participação brasileira na Rio 1992 e, posteriormente, na Rio + 20, em 2012. Neo Mondo - Março/Abril 2013

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Fotolia

ÁGUA –

Essência da vida Só depende de nós

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e toda a água existente no planeta, apenas 0,008% é potável e está disponível para o consumo humano. Só isso já deveria ser o suficiente para mudarmos nosso comportamento. Mas, por mais óbvio que pareça, não há uma consciência generalizada de que simplesmente não há vida sem água. Pelas características privilegiadas de água farta, morar no Brasil faz parecer que a escassez é uma realidade muito distante, o que não é verdade. Muitos países já sofrem com o racionamento do mais precioso dos líquidos - até mesmo alguns em franco desenvolvimento, como a China. Na Região Metropolitana de São Paulo, onde está situado o Grande ABC, o problema é ainda mais grave. Pode não parecer, mas temos quase tanta água disponível quanto o árido Nordeste brasileiro. Preciosa, ESCASSA e Vital A água é um bem essencial à vida. Um ser humano não sobrevive mais do

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que dois dias sem ingeri-la. A natureza foi generosa e forneceu abundantes reservatórios em todo o mundo. São aproximadamente 1,39 bilhão de km³ de água - ou 70% da massa do planeta. Esse total está distribuído em mares, lagos, rios, aquíferos, gelo, neve e vapor. Não à toa, por muitos séculos acreditava-se que estávamos diante de um recurso infinito. De toda água do mundo, 97,5% é salgada, imprópria para o consumo e até mesmo para utilização em indústrias. Dessa forma, só há 2,5% de água doce potável disponível, cerca de 34,6 milhões de km³. Essa água doce não está totalmente apropriada para consumo imediato. Parte dela está fora do alcance humano em calotas polares, geleiras e subsolos congelados. O que sobra para ser utilizado pela vida animal e vegetal está em lagos, rios e na umidade do ar e do solo. Isso representa cerca de 0,008% do total existente na Terra. O problema é que na idade moderna a população cresceu consideravelmente.

Para se ter uma ideia, há 2.000 anos, o número de pessoas no mundo correspondia a 3% do contingente atual. Em contrapartida, a quantidade de água disponível não se alterou - e nem irá.

Dia Mundial da Água Foi criado pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 1993. É comemorado em 22 de Março. Em 2003, o Congresso Nacional oficializou o Dia Nacional da Água na mesma data.

O que é água potável? É aquela que pode ser consumida sem riscos à saúde. Isso não significa que ela está livre de impurezas, mas sim que não causará mal algum se ingerida.


NO BRASIL O nosso país possui aproximadamente 12% de toda a água do mundo. A princípio esta situação parece cômoda, mas não é. Exatamente por esse motivo é muito difícil conscientizar a população a respeito da economia de água. Tem-se a ideia de que, uma vez que temos tanta água, o recurso nunca irá acabar. A Nação ainda sofre com péssimas condições de saneamento básico, poluição e consumo exagerado.

João Carlos Mucciacito

Aquífero Guarani

Uma questão de distribuição A má distribuição da água e o crescimento da população são os principais vilões da escassez no mundo. Para se ter uma ideia, por ano chove cerca de 7.000 m³ de água doce na Terra para cada pessoa. Se fosse distribuído de maneira uniforme, o volume seria suficiente para a maior parte das necessidades, já o consumo anual do mundo é de 4.000 km³ por pessoa, diariamente. A maior parte dessa água é utilizada na agricultura. O consumo doméstico, em média, é de apenas 170 litros por pessoa/dia. O problema é que a água não chega a alguns países de regiões mais secas da África e da Ásia - e seus habitantes não têm condições de se mudar para locais com abundância. Em países como a Índia, a quantidade de água já é preocupante.

Wikipédia

Aquífero GUARANI A exploração excessiva atinge até mesmo os reservatórios subterrâneos, possíveis alternativas ao esgotamento da água potável no mundo. Aquíferas são rochas permeáveis que conseguem armazenar e transmitir através de seus poros as águas que penetram na terra, boa parte vinda de chuvas. O Aquífero Guarani é o maior reservatório subterrâneo de água doce da América e um dos maiores do mundo. Atinge 29 milhões de pessoas, e cerca de 70% de seu total (1,2 milhão de km²) estão em território brasileiro. A principal preocupação é a possível contaminação das águas subterrâneas por despejos sanitários, industriais, agrotóxicos, fertilizantes e outras substâncias tóxicas provenientes de vazamentos como de tanque de combustível. O reservatório causa polêmica entre especialistas. Boa parte o considera um respiro extra para o mundo: o Guarani conteria água suficiente para suprir as necessidades do planeta por 200 anos. Do outro lado, alguns o classificam como um engodo, uma vez que a sua correta exploração implicaria custos iguais ou maiores aos de tecnologias como a dessalinização das águas do mar.

Abundância Angola

Suficiência Relativa

Austrália

Argentina

Bolívia

Áustria

Brasil

EUA

Canadá

Estônia

Chile

Grécia

Indonésia

Japão

Noruega

Lituânia

Peru

México

Rússia

Portugal

Suécia

Tailândia

Água no Limite

Água Insuficiente

Água Escassa

África do Sul Afeganistão Alemanha Bulgária China Coreia do Sul Espanha Índia França Moldávia Irã Polônia Itália Romênia Nigéria Ucrânia Reino Unido Zimbábue Turquia

Argélia Arábia Saudita Hungria Bélgica Ruanda Somália Síria Jordânia Cingapura

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No Brasil a situação também é problemática. Apesar da grande quantidade de água que dispomos, a distribuição do recurso ainda é muito precária. Para se ter uma ideia, a Região Norte conta com apenas 7% da população brasileira, mas dispõe de mais da metade da água.

De onde vem a água no Grande ABC?

Reúso: simples e barato A reutilização da água já é uma realidade em muitos lugares. Vista como uma boa alternativa de economia, é muito mais barata que a potável. Seu funcionamento é relativamente simples. Seja doméstico, industrial ou pluvial, o esgoto é coletado e enviado para uma estação de tratamento. Esse tratamento retira diversas impurezas da água, mas não a torna potável. No Estado de São Paulo, quem faz este serviço é a Sabesp. Em larga escala, a água de reúso pode ter diversas aplicações. Por exemplo, geração de energia, refrigeração de equipamentos ou em processos industriais que não necessitem de um nível alto de pureza, como é o caso da criação de componentes eletrônicos.

Dentro das residências, a utilidade também é grande. A água de reúso pode servir em todas as operações diárias que não necessitem de potabilidade, como lavar calçadas e carros, regar plantas e até mesmo vasos sanitários. De acordo com a Sabesp, 780 milhões de litros são aproveitados por mês atualmente. Se fosse potável, essa quantidade será suficiente para abastecer uma cidade do tamanho de Taubaté, no Vale do Paraíba. Para o professor da Faculdade de Saúde Pública da USP, Pedro Caetano Mancuso, um dos maiores obstáculos da água de reúso ainda é o preconceito. “Em se tratando das indústrias não há preconceito, mas, em residências, sim”, diz. Ou seja, ainda é difícil se conscientizar de que não existem riscos em utilizar esse tipo de água. “Esses problemas devem ser vencidos com educação sanitária.” Uma boa explicação é que o ciclo da água no mundo, desde sempre, é o mesmo. “A água evapora, chove e evapora de novo”, frisa. “Não existe água que não tenha sido reutilizada. Teoricamente, toda água é de reúso.” SÃO BERNARDO 100% Rio Grande SANTO ANDRÉ 69% Rio Claro 25% Rio Grande 6% Pedroso

iStockphoto

Não é possível analisar as condições das sete cidades da região isoladamente, pois o sistema de distribuição do Estado é interligado. Comparada a outras regiões metropolitanas espalhadas pelo mundo, a primeira diferença é a localização. A maioria das outras grandes cidades está situada na foz dos rios, onde o volume de água é menor. “Isso já nos cria um déficit de água logo de saída”, lamenta a coordenadora de agência ambiental da Universidade Metodista, Waverli Maia Neuberger. Os números são preocupantes. Na bacia Alto Tietê, que abrange a Grande São Paulo, a disponibilidade de água é de 201 m³ por habitante/ano, o que, segundo a classificação da ONU, é crítico. “Estamos muito abaixo do nível estipulado, que é 1.500 m³ por habitante/ ano”, diz Waverli. Os moradores da região não parecem notar a escassez. Definitivamente, o consumo de água não é regrado. “As pessoas

não têm preocupação em utilizar a água de forma racional”, aponta Waverli. O crescimento desordenado é outro problema. Mais população sempre demandará mais água. Além disso, a ocupação irregular sobre as áreas de mananciais prejudica a produção de água. Os vazamentos também complicam a vida da população. De acordo com o professor Maurício Waldman, doutor em Recursos Hídricos, existe um levantamento - surrealista, segundo ele - de que pelo menos 60% da água retirada dos aquíferos existentes nos subterrâneos da Região Metropolitana têm como fonte os vazamentos em adutoras e tubulações da Sabesp.

Sistema de Água de Reúso: de acordo com a Sabesp, 780 milhões de litros são reaproveitados por mês

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Divulgação

RIO GRANDE DA SERRA 100% Ribeirão da Estiva

DIADEMA 100% Rio Grande

MAUÁ 72% Rio Claro 28% Alto Tietê

RIBEIRÃO PIRES 100% Ribeirão da Estiva

SÃO CAETANO 100% Cantareira

Teoricamente, as soluções podem vir de ações bem simples. “O quintal das pessoas, por exemplo. Não é necessário cimentá-lo por inteiro, mas só na faixa por onde passam os pneus”, afirma Waverli. “Veja quantas áreas poderíamos transformar. Isso iria ajudar na produção de água e na contenção das enchentes.” Para Waldman, as administrações municipais são as responsáveis por boa parte da solução. A troca da tubulação é necessária para impedir a perda no momento da distribuição, assim como tratar o esgoto de cada cidade. “Mas ainda creio que o fundamental deva vir do cidadão comum. Ele é o principal responsável pela transformação social.” Billings: tesouro ameaçado O maior reservatório do Grande ABC é o Sistema Billings. Com 127,5 km² de área inundada, pode armazenar até 123 bilhões de litros de água potável. Com tanta água perto de nós, como é possível que os especialistas falem em escassez? Simples, porém triste: o reservatório sofre com poluição e contaminação - o que, conse-

Represa Billings está com a sua capacidade reduzida e sofre de ocupação irregular

quentemente, prejudica sua capacidade de abastecimento. Entre os principais problemas há a eutrofização da água (alto nível de nutrientes, que provocam o aumento de matéria orgânica em decomposição), a contaminação por metais pesados e a proliferação de micro-organismos e de algas tóxicas, que esgotam o oxigênio da água. O depósito de sedimentos no sistema também é agravante, além dos resíduos trazidos pelas chuvas que atrapalham a circulação das águas, explica Waldman. “Dessa forma, a capacidade da Billings caiu, nos últimos anos, de 1,23 bilhão de m³ para algo em torno de 1,16 bilhão de m³”, revela. A ocupação irregular é outro grande vilão. A floresta nativa é fundamental para a produção de água em quantidade e qualidade adequadas. É necessária uma maior área descoberta no solo para abastecer as nascentes. Em regiões muito urbanizadas, como a do Grande ABC, o solo está muito impermeabilizado, o que atrapalha a produção da água. Para garantir um fácil acesso ao reservatório, as áreas de mananciais têm

sofrido muito com as ocupações desordenadas, que destroem a mata nativa. A Lei de Proteção dos Mananciais precisa, efetivamente, protegê-los. “Uma saída seria transformar as áreas ainda não invadidas em parques ecológicos e recuperar as nascentes dos rios”, diz Waverli. Para Waldman, é aí que entra o papel do cidadão, que deve cobrar um maior envolvimento do governo com o meio ambiente. “É da sua conscientização e mobilização que a engrenagem política pode ser movida em favor do meio ambiente”, afirma.

João Carlos Mucciacito Químico da CETESB, Mestre em Tecnologia Ambiental pelo Instituto de Pesquisas Tecnológicas da Universidade de São Paulo, professor no SENAC, no Centro Universitário Santo André - UNI-A e na FAENG Fundação Santo André E-mail: joaomucciacito@yahoo.com.br Neo Mondo - Março/Abril 2013

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A importância da água em diversas culturas

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m todas as culturas, encontramos referências aos elementos da natureza que possibilitam a vida em nosso planeta: fogo, ar, terra e água. Em comunidades antigas, como a dos Celtas, na Europa Ocidental, encontramos referências à realização de rituais propiciatórios ligados especificamente à água, considerada elemento imprescindível para a sobrevivência. No mundo oriental, na China e Japão, o xintoísmo caracteriza-se pelo culto à natureza, tendo como uma de suas práticas mais importante celebrar a existência de kami, que pode ser definido como “energia”, “espírito”, “essência” e é materializado em múltiplos formatos. Em alguns casos, apresentam uma forma humana; em outros, animística, e em outros é associado às forças mais abstratas e presentes na natureza : rios, vento, ondas, montanhas, rochas ,árvores. Em Quioto, no Japão, há um templo dedicado à água: Kiyomizu-dera, o templo da água pura. Há mais de mil anos, peregrinos de todos os lugares para ali se dirigem a fim de purificarem em suas fontes. Em todas as religiões, encontramos referências à agua como elemento sacralizado, tendo lugar especial nas celebrações. No Batismo, por aspersão, a água é borrifada, espalhada ou chuviscada sobre o batizando, ou seja, procura-se derramar a

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água com a mão sem o uso de algum utensílio, ela acaba se espalhando. A intenção é aplicar a água sobre o batizando. Esta forma é adotada por algumas igrejas cristãs, em especial a Igreja Católica e os primeiros movimentos protestantes surgidos a partir da Reforma, tais como o Luterismo, o Anglicanismo, o Presbiteranismo, o Congregacionalismo e a Igreja Metodista do Brasil. Existe ainda o batismo por imersão, em que o batizando é submergido e emergido. Aquilo que era considerado pecado em sua vida fica para trás, surgindo desse ato um ser humanos novo, renovado.

Nas religiões de matriz africana, encontradas no Brasil e em todas as Américas,a água se faz presente em várias instâncias, reverenciada como entidade, associada à fertilidade feminina e presente em todos os rituais: omi (água em língua ioruba) é imprescindível para a existência. Dada à sua importância, os adeptos desses cultos atribuem características diferentes, de acordo com sua origem. O uso em rituais obedece a diferentes procedências em dez campos, considerados sagrados, tendo diferentes qualidades:

Rocha - Água detida em saliências nas rochas. Ligada ao orixá Xangô – entre suas funções, traz força física, disposição, boa-vontade, sabedoria. Mar - Ligada ao orixá Iemanjá – imã de energias, antisséptico e cicatrizante, fertilidade, calma. Mina - Ligada aos orixás Oxum e Nana – força, vitalidade – é a mais indicada para se utilizar nas quartinhas e em assentamentos de protetores. Mar Doce- Encontro de rio e mar. Ligada a Ewá – trato do corpo sentimental, humor, bom senso e independência. Chuva - Ligada aos orixás Nana e Oxum – excelente função de limpeza. Cachoeira - Ligada a Oxum e Xangô – sentimentos, afeto, força de pensamente, alegria, jovialidade. Rio - Ligada a Oxum (na correnteza) e a Obá (nas margens) – determinação, bons pensamentos. Poço - Ligada a Nanã – resistência, sabedoria. Lagos e Lagoas - Ligada a Oxumarê – inventividade, imaginação. Orvalho - Recolhido das folhas, ao alvorecer do dia. – Ligado a Oxalá – calma, paciência, fecundidade.


Dilma de Melo Silva

Como vemos, a água aparece em dimensões sacralizadas, devido à sua importância para a existência humana. Em 22 de março de 1992, as Nações Unidas instituíram o Dia Mundial da Água, destinado a uma reflexão sobre a mesma. Nessa ocasião, foi promulgada também a:

Art. 4º - O equilíbrio e o futuro do nosso planeta dependem da preservação da água e de seus ciclos. Estes devem permanecer intactos e funcionando normalmente para garantir a continuidade da vida sobre a Terra. Este equilíbrio depende, em particular, da preservação dos mares e oceanos, por onde os ciclos começam.

ou grupo social que a utiliza. Esta questão não deve ser ignorada nem pelo homem nem pelo Estado.

Declaração Universal dos Direitos da Água

Art. 5º - A água não é somente uma herança dos nossos predecessores; ela é, sobretudo, um empréstimo aos nossos sucessores. Sua proteção constitui uma necessidade vital, assim como uma obrigação moral do homem para com as gerações presentes e futuras.

Art. 10º - O planejamento da gestão da água deve levar em conta a solidariedade e o consenso em razão de sua distribuição desigual sobre a Terra.

Art. 1º - A água faz parte do patrimônio do planeta. Cada continente, cada povo, cada nação, cada região, cada cidade, cada cidadão é plenamente responsável aos olhos de todos. Art. 2º - A água é a seiva do nosso planeta.Ela é a condição essencial de vida de todo ser vegetal, animal ou humano. Sem ela, não poderíamos conceber como são a atmosfera, o clima, a vegetação, a cultura ou a agricultura. O direito à água é um dos direitos fundamentais do ser humano: o direito à vida, tal qual é estipulado do Art. 3 º da Declaração dos Direitos do Homem. Art. 3º - Os recursos naturais de transformação da água em água potável são lentos, frágeis e muito limitados. Assim sendo, a água deve ser manipulada com racionalidade, precaução e parcimônia. 

Art. 9º - A gestão da água impõe um equilíbrio entre os imperativos de sua proteção e as necessidades de ordem econômica, sanitária e social.

Cabe a nós a tarefa de colaborarmos para a implementação desses Direitos.

Art. 6º - A água não é uma doação gratuita da natureza; ela tem um valor econômico: precisa-se saber que ela é, algumas vezes, rara e dispendiosa e que pode muito bem escassear em qualquer região do mundo. Art. 7º - A água não deve ser desperdiçada, nem poluída, nem envenenada. De maneira geral, sua utilização deve ser feita com consciência e discernimento para que não se chegue a uma situação de esgotamento ou de deterioração da qualidade das reservas atualmente disponíveis.  Art. 8º - A utilização da água implica no respeito à lei. Sua proteção constitui uma obrigação jurídica para todo homem

Professora doutora da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, socióloga pela FFLCH\USP, mestre pela Universidade de Uppsala, Suécia, e Professora convidada para ministrar aulas sobre Cultura Brasileira na Universidade de Estudos Estrangeiros, no Japão, em Kyoto. E-mail: disil@usp.br

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ESPECIAL - Dia Mundial da Água

As “Lendas das Águas” U

ma das coisas mais fantásticas que aconteceu na minha vida de jornalista foi ter a oportunidade de conhecer o Brasil de norte a sul, de leste a oeste. Visitei e produzi programas do Monte Caburaí em Roraima ao Arroio Chuí no Rio Grande do Sul e da nascente do rio Moa no Acre até a Ponta do Seixas na Paraíba. Produzi e apresentei mais de cem programas “Isto é Brasil” e nesse espaço vi coisas e conheci muita gente. Entrevistei o caiçara e o caipira, o homem urbano e o suburbano, sertanejos e matutos e aprendi muito. O povo é sábio no seu dizer e sabe narrar com precisão os fatos verdadeiros ou as lendas que criou ao longo do tempo e que se eternizaram no saber popular. Como esta edição de NEO MONDO é voltada para as águas, eu vou aqui localizar duas histórias cujos personagens da mitologia indígena vivem no fundo dos rios e se envolvem em situações com o homem comum das cidades. Estava eu em São Félix do Araguaia fazendo entrevistas com pessoas que costumavam apanhar e vender tartarugas centenárias contribuindo também para a extinção desse réptil. Passava um pito em dois meninos que vendiam esses quelônios nas ruas de São Félix quando apareceu um homem de baixa estatura de nome Valdomiro, que fez questão de me dizer que

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ele deixou de utilizar essa prática quando quase foi mordido por uma Boiuna, uma cobra d’água, segundo ele, com mais de cinqüenta metros de comprimento. A par dos exageros quis saber o que aconteceu, e ele me convidou para conhecer uma área ribeirinha ao rio que leva o nome da cidade. E aí o senhor Valdomiro deitou falação: “Olhe aqui moço. Eu estava aqui na beira do rio para pegar tartarugas, mas de repente ouvi um barulho muito forte, e do meio do rio vindo em minha direção uma coisa que parecia ter nos olhos bola de fogo. Ela se enroscava toda e estava furiosa. Ela se enroscava e se transformava. Eu pensei primeiro que fosse um barco, mas depois que aquele bicho veio para a beira do rio eu saí correndo e só parei quando entrei na minha casa. Depois eu fiquei sabendo que era a Boiuna, uma cobra muito grande que devora animais e devora também as pessoas. Ela mora no fundo do rio, mas às vezes ela vem para terra para ter o que comer”. A narrativa do senhor Valdomiro me levou a obter mais informações de outros moradores e também de figuras mais abalizadas que conhecem a história: a Boiuna seria uma cobra descomunal que vive no fundo dos grandes lagos e rios num lugar que é conhecido pelo povo como “Boiaçuquara” ou “Morada de cobra grande”. Seu corpo seria brilhante, emanando uma forte

luz, e seus olhos brilham no escuro como se fossem archotes, iludindo pescadores incautos que são atraídos pelo perverso réptil. E quando a Boiuna resolve sair do rio e andar pela mata provoca no seu caminhar um som que lembra o tamborilar da chuva caindo. Conta a lenda que numa tribo indígena da Amazônia uma índia ficou grávida de um encantado da Boiuna e deu à luz duas crianças, sendo um menino que recebeu o nome de Honorato e uma menina com o nome de Maria. Para se livrar dos filhos, a mãe jogou as crianças num rio, e ali elas cresceram e passaram a viver. Honorato não fazia mal, mas sua irmã era perversa e atacava bichos e pessoas, levando Honorato a matá-la para resolver o problema. Honorato, em noites de luar, deixava de ser cobra, saía do fundo do rio e se transformava em um belo e elegante rapaz. Ao amanhecer ele voltava para o rio. Para “quebrar seu encanto” e ele voltar a ser gente era preciso que alguém tivesse coragem de derramar leite na boca da enorme cobra e fazer um ferimento na sua cabeça até sair sangue. Um dia um soldado, a pedido de moças apaixonadas pelo Honorato, resolveu enfrentar a cobra e conseguiu libertar Honorato do terrível encanto. Essas histórias são repassadas de pais para filhos e percorrem séculos nessas regiões do Norte do Brasil. O povo acredita na fi-


Humberto Mesquita

delidade dos fatos, e todo mundo se assombra e se preocupa com a presença da Boiuna. A outra lenda eu vi contada em Belém do Pará. É a história do boto-cor-de-rosa. Um peixe que se transforma em homem para atrair moças em eventos juninos ou até mesmo em festas caseiras. Essa lenda faz parte da mitologia amazônica. É um peixe que tem o poder mágico de sair à noite do fundo dos rios e se transformar num homem, para seduzir as moças que se sentem atraídas por esse estranho ser. A falta de dados mais concretos nos leva a crer que a lenda seja baseada em origem branca e mestiça com projeções nas culturas indígenas e ribeirinhas. A lenda do Boto é muito difundida na região Norte do Brasil, e está intimamente ligada aos folguedos que acontecem na região onde as moças se reúnem para conhecer novos parceiros de namoro. Nessas noites, geralmente de luar, o Boto aparece em forma de gente para conquistar corações despedaçados. E as moças com seus trajes atraentes se encantam com os galanteios projetados por este ser misterioso, gentil, afável e ao mesmo tempo estranho. As moças se encantam com a figura, mas ele escolhe com muita sutileza a sua presa que precisa ser bonita e ingênua. Ao primeiro descuido dos pais ele a leva para a beira do rio. E o amor se expande cheio de encanto e

magia. Depois, o rapaz desaparece e não é mais visto nas redondezas, enquanto que a garota leva no ventre o produto de uma noite de encantamento. E nascerá, em nove meses, o filho do Boto ou na verdade o filho de um fanfarrão que se veste de Boto para seduzir a incauta donzela. A verdade é que no Norte eu conheci muitos filhos de Boto e conheci até um poeta de nome Antonio Juraci Siqueira, que escreveu um poema ao Boto: “Eu venho de um mundo que tu não conheces do onde, do quando do nunca talvez Eu venho de um rio perdido Perdido em seus sonhos Um rio insondável Que corre em silencio Entre o ser e o não ser Sou filho das ondas Que gemem na PRAIA Sou feito de sombras De luz, de luar. E trago em meu rosto Mandinga e mistério E guardo em meus olhos Funduras de um rio Cuidado cabocla Cuidado comigo Que eu sou sempre tudo Que anseias que eu seja Teus ais, teus segredos Tua febre e teu cio Se em noites de lua Sentires insônia E a fome de sexo Queimar tuas entranhas A sede de beijos Tua boca secar E em brasa teu corpo Meu corpo exigir Contigo estarei Na rede de encanto Cativo, nas malhas Da teia do amor”.

O Boto, produto dessa inspiração mitológica, é um cetáceo exclusivamente Aquático que habita rios do Norte brasileiro, principalmente a Amazônia. Tem uma cabeça grande, um bico dentado e corpo afilado, quase desprovido de pelos, com grandes nadadeiras na frente e duas mamas em posição posterior e uma cauda que termina na nadadeira longa e horizontal; tem também um sistema de sonar sofisticado que se localiza na cabeça, de onde emite ondas sonoras. Pesa 7 quilos quando nasce e 150 quilos quando adulto. O Boto no Norte do Brasil é símbolo de sedução e energia, porque seus órgãos sexuais se assemelham aos dos humanos. O Boto está em extinção por culpa do homem que tenta buscar nele dotes mágicos e usa seus atributos para fabricação de remédios, amuletos e rituais. Mamiraná, que fica a 530 quilômetros de Manaus, é o lugar com a maior concentração de boto-cor-de-rosa, e a cada ano se registra uma queda de 10% na população desses animais. Isso se deve também à construção de hidrelétricas na Bacia do Amazonas que isolam esses mamíferos dificultando a reprodução. Os botos existem há mais de 5 milhões de anos e chegaram ao rio Amazonas nadando pelo oceano Atlântico.

Jornalista, Escritor e Editorialista. Apresentador de TV e Rádio. Neo Mondo - Março/Abril 2013

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El Niño

- o lado bom do menino

Apontado por muitos como causador de catástrofes naturais, o fenômeno El Niño também tem consequências positivas que vão desde contribuir com determinados cultivos até ajudar na manutenção dos mananciais em alta Rosane Araujo

“F

úria Natural - Fenômeno climático mais assustador do mundo, o El Niño prepara um novo ataque”. A manchete da revista Veja de 8 de outubro de 1997 não deixava qualquer dúvida sobre a má reputação do fenômeno caracterizado pelo aquecimento anormal das águas do oceano Pacífico. A fama não veio à toa. A versão 19971998 do El Niño foi a pior registrada até hoje, produzindo condições meteorológicas extremas e destruição por todo o hemisfério sul e partes do norte. Suas tempestades afetaram a costa e cidades do oeste da América Latina, matando centenas de pessoas ali e em outras partes do planeta, além de causar bilhões de dólares em prejuízos na Ásia e Austrália. No Brasil, os efeitos foram igualmente fortes. A cidade de São Luiz do Paraitinga, que no início deste ano sofreu com enchentes fortíssimas, também foi alvo de inundações em 1997, porém em menor escala.

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A experiência foi suficiente para a cidade organizar sua Defesa Civil que, em 2010, já estruturada e experiente, teve papel fundamental no socorro às vítimas das inundações e, agora, ajuda na reconstrução do município. No final, o El Niño ajudou. Na mesma matéria de Veja, iniciada com descrição apocalíptica, os efeitos do evento foram minimizados. “Cinco meses depois do início do El Niño, que, esperava-se, traria um rastro de desgraças em sua passagem, o balanço não tem sido ruim. Porque choveu em maio, os agricultores plantaram sua safrinha de inverno em ótimas condições. Trigo, aveia, centeio, milho, cana-de-açúcar e mandioca cresceram rapidamente.” Pelo que parece, os benefícios a esses cultivos não foram exceção daquele ano. Estudo realizado por pesquisadores do Centro de Ciências Rurais da Universidade Federal de Santa Maria, no Rio Grande do Sul, simulou o conteúdo de

água disponível no solo e o rendimento das culturas de trigo, soja e milho, associando-os ao fenômeno. O trabalho constatou que a menor disponibilidade hídrica no solo está relacionada a anos neutros, ou seja, sem a ocorrência de fenômenos, enquanto a maior disponibilidade está ligada a eventos do El Niño, favorável ao rendimento de grãos de soja e milho. “Ficou evidente que os anos classificados como neutros são os de maior risco de perda de rendimento de grãos destas duas culturas de verão, em consequência da menor disponibilidade hídrica no solo, o que é uma informação importante no planejamento de estratégias para o agronegócio”, concluiu o trabalho que considerou o período de 1969 a 2003 e foi divulgado pela Embrapa em 2006. Isso quer dizer que durante todos esses anos, o fenômeno foi injustiçado? Nem tanto. “O El Niño não é vilão nem bonzinho. Mesmo dentro do país, pode ser


bom ou ruim, dependendo da região”, explicou a professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Denise Cybis Fontana. Especialista em Agrometeorologia, a professora explica que, no Sul do país, em geral os efeitos são benéficos. “Aqui a maior parte dos cultivos é de primavera / verão, não contam com irrigação. Por isso, ele acaba sendo benéfico: tem mais chuva, mais água, logo, maior produção”, revelou. Já no caso de culturas irrigadas, como o arroz, segundo a professora, os efeitos são ruins. “Menos sol significa menos produção de arroz. Mas, claro, tudo depende da intensidade do fenômeno”, disse. Em uma análise rápida, a professora classifica o El Niño da temporada 2009/2010 como moderado. Ainda assim, enquanto o Sul beneficiou-se com as chuvas, o Espírito Santo e o norte de Minas Gerais registraram seca, prejudicando a produção de café e a pecuária destas regiões.

Nem bandido nem mocinho Outra demonstração de que o El Niño tem aspectos negativos, mas também positivos, são as cheias das represas que abastecem a região metropolitana de São Paulo. As recentes chuvas, intensificadas pelo fenômeno, fizeram com que os reservatórios de água atingissem níveis altíssimos. O Sistema Cantareira, por exemplo, o mais importante da região e responsável pelo abastecimento de cerca de 13 milhões de pessoas, operava com 95,2% de sua capacidade, em março. Com a situação favorável, a Sabesp prevê que o abastecimento da região está garantido até 2012. O lado negativo ficou com as comunidades no entorno das represas e rios que compõem o sistema. Já em janeiro, devido às cheias, as comportas das represas foram abertas, o que colaborou para o transbordamento do rio Atibaia. Bairros da cidade, que leva o nome do rio, sofreram com enchentes e registraram centenas de desabrigados.

Até o início de março, muitos deles ainda habitavam contêineres improvisados como moradias. Versão atualizada e revista Ainda não existe consenso na comunidade científica, mas alguns pesquisadores acreditam que as mudanças climáticas já estão influenciando os efeitos do fenômeno. A ascensão do chamado El Niño Modoki (palavra japonesa que significa “parecido, mas diferente”) foi prevista em simulações de computador e detalhadas em artigo na revista científica Nature divulgado em setembro do ano passado. Nele, o pesquisador Sang-Wook Yeh e uma equipe do Instituto de Pesquisa e Desenvolvimento Oceânico da Coreia do Sul usaram o histórico do El Nino, de 1850 até hoje, juntamente com projeções sobre o aquecimento para avaliar como será o fenômeno neste século.

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A conclusão é de que sua forma mais atípica pode se tornar cinco vezes mais comum, trazendo consequências como secas no Sudeste e no Sul do Brasil, ou seja, uma inversão dos efeitos registrados pela versão tradicional do evento. “Essa definição - El Nino Modoki - continua sendo um aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacifico Equatorial, todavia, um aquecimento na parte central do Oceano, ligeiramente diferente do padrão comumente observado que é aquecimento próximo a costa oeste da América do Sul”, explicou o metereologista Lincoln Muniz Alves, do Centro de Previsão do Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC) do INPE. Segundo a pesquisa coreana, caso os estudos futuros confirmem uma maior frequencia de El Nino Modoki isso mudaria os efeitos habituais do fenômeno porque alteraria também parte da circulação  atmosférica. Nos últimos 150 anos, entretanto, os registros da forma Modoki foram bem

inferiores à forma normal do evento apenas sete casos da primeira, contra 32 da segunda. Apesar de não haver comprovação científica da maior incidência desse tipo alterado, Alves afirma que um planeta mais quente favorece o fenômeno, mesmo em sua forma habitual. “Há bastante incerteza nessas projeções, por isso é prematuro afirmar que, no futuro, teremos uma frequência maior de El Nino Modoki. No momento, podemos falar que num planeta mais aquecido as projeções indicam uma frequência maior de El Nino e isto é resultado somente de alguns modelos. Outros, porém, não indicam nenhuma mudança tanto na frequência como na  intensidade”, afirmou. Na hipótese que considera maior incidência do fenômeno, o pesquisador afirma que ela “estaria, sim, relacionada ao aquecimento global”.

El Niño Representa o aquecimento anormal das águas superficiais e sub-superficiais do Oceano Pacífico Equatorial. Os pescadores do Peru e Equador chamaram a esta presença de águas mais quentes de Corriente de El Niño, em referência ao Niño Jesus ou Menino Jesus, já que se manifesta próximo ao Natal. Na atualidade, os fenômenos El Niño e La Niña representam uma alteração do sistema oceano-atmosfera no Oceano Pacífico tropical, e que tem conseqüências no tempo e no clima em todo o planeta.

A opinião é semelhante ao ponto de vista do climatologista Carlos Nobre, também pesquisador do INPE e chefe do Centro de Ciência do Sistema Terrestre (CST). Na última edição de NEO MONDO, Nobre opinou sobre as últimas manifestações naturais: “Fenômenos climáticos e meteorológicos extremos – que provocam chuvas torrenciais e nevascas, por exemplo - acontecem regularmente e fazem parte da variabilidade natural do planeta. Porém, como resultado do aquecimento global antropogênico, espera-se um aumento da variabilidade do clima e eventos como os citados poderão ser mais frequentes”. Por enquanto, as previsões do CPTEC indicam que o El Niño atual já se encontra entre a fase madura e de decaimento. Segundo o órgão, no segundo semestre de 2010, os modelos numéricos apontam para a formação da La Niña. Depois do menino, é a vez da menina agitar o clima, para azar de alguns e sorte de outros.

Condições de El Niño

Condições de La Niña

La Niña O termo (“a menina”, em espanhol) surgiu pois o fenômeno se caracteriza por ser oposto ao El Niño. Pode ser chamado também de episódio frio, ou ainda El Viejo (“o velho”, em espanhol). Corresponde ao resfriamento anômalo das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial Central e Oriental formando uma “piscina de águas frias” nesse oceano. Observações: Os eventos El Niño e La Niña tendem a se alternar a cada três e sete anos. Porém, de um evento ao outro, o intervalo pode mudar de 1 a 10 anos. As intensidades dos eventos variam bastante em cada caso. O El Niño mais intenso desde a existência de “observações” ocorreu em 1982-83 e 1997-98. Já os episódios recentes do La Niña ocorreram nos anos de 1988/89 (que foi um dos mais intensos), em 1995/96 e em 1998/99. Fonte: CPTEC / INPE

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Condições de Normais


Espaço Gourmet Villa Natural

Alexandra Midori Morita Zanoli

Tofu assado com pasta de Lentilha e Macadâmia

Ingredientes • • • • • • • • • • •

1 unidade de Tofu 100 ml de Shoyu 1 pitada de Gengibre em pó 150 g de Lentilha cozida 100 ml de Água 1 Cebola média refogada 1 dente de Alho refogado 30 gramas de Tofu defumado Sal a gosto Salsinha a gosto Macadâmia a gosto

Modo de fazer: Preparo: Corte o tofu no formato retangular e passe no shoyu com o gengibre em pó e leve ao forno pré-aquecido para assar por 20 minutos e reserve. Para a pasta de lentilha bata no liquidificador a lentilha com a água, cebola, alho, tofu defumado e o sal até formar um patê, retire do liquidificador e junte a salsinha. Montagem: distribua sobre cada retangulo do tofu um pouco da pasta de lentilha e decore com a macadâmia..

TOFU Rico em proteínas e poderoso na prevenção ao câncer de mama, o tofu alimentou valentes samurais e sábios monges budistas no Oriente. No Ocidente, ele é um dos ingredientes mais versáteis na culinária vegetariana. Por ser um derivado da soja, o tofu contém as mesmas propriedades da leguminosa. Em 100 g encontram-se 85% de água, 7,5 g de proteína e apenas 70 Kcal. É uma fonte excelente de proteínas, além de ser rico em minerais como cálcio, fósforo e magnésio. O tofu é uma das mais importantes fontes protéicas na dieta vegetariana. Ele possui digestibilidade melhor que o grão de soja ou a PVT (proteína texturizada de soja) e complementa a dieta com outros alimentos ricos em proteínas como as demais leguminosas, castanhas e sementes.

Villa Natural Restaurante Rua Cel. Ortiz, 726 - V. Assunção - Santo André (11) 2896-0065 - www.villanatural.com.br 51

Neo Mondo - Outubro 2008

Formada em Educação Física Pós-graduada em Nutrição Desportiva Pós-graduada em Ginástica Postural Corretiva Professora de Yoga Chef do Villa Natural e Sócia do Villa Natural


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Revista Neo Mondo - Edição 53  
Revista Neo Mondo - Edição 53  
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