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Bordalo Contemporaneo ^ e Contemporaneos com Bordalo ^

galeria novaOgiva

` Obidos 2008

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Bordalo Contemporaneo ^ e Contemporaneos com Bordalo ^

galeria novaOgiva, Ă“bidos 2008 | 22 Novembro 2008 a 31 Janeiro 2009


página anterior JARRA BAILADO DE RÃS Faiança policromada, ornamentada ÍNDICE Telmo Henrique Correia Daniel Faria 03 Bordalo Contemporâneo Ana Maria Calçada 04 O Rumor dos Objectos Elsa Rebelo 05 Centenário da Fábrica Bordalo Pinheiro (1908-2008) Rodrigo de Freitas 06 Uma nova contemplação e descoberta do Universo de Rafael Bordalo Pinheiro Joaquim B. Serra 07 Modelar um país: o imaginário da nação na cerâmica de Rafael Bordalo Pinheiro Isabel Castanheira 16 O caso da jarra que antes de ser já o era, ou o “cotillon” batraquiano Isabel Xavier 19 A caricatura do Eu Elsa Rebelo 23 Modelos cerâmicos renascidos do esquecimento – sua monumentalidade e actualidade António Campos Leal 27 Bordalo com Alma – fotografias 31 Catálogo 60 Ficha Técnica




BORDALO CONTEMPORÂNEO

De entre a programação e produção da actividade cultural, Óbidos estabeleceu integrar no seu projecto uma exposição sobre a obra de Bordalo Pinheiro. Entendendo o valor patrimonial e criativo da Fábrica Bordalo, valorizando o esforço para recuperar e produzir todo o manancial da obra desenvolvida por Bordalo e por seu filho Manuel Gustavo o Município de Óbidos não pode deixar de se associar a esta marca do tempo – 100 anos de Fábrica (1908 – 2008). Importa referir que esta exposição enquanto desafio se tornou-se num projecto de parceria Município de Óbidos/Fábrica, quando se entendeu que mostrar o modo de produção, os riscos associados a um programa de trabalho e a uma metodologia – em que o factor humano continua a ser determinante, nomeadamente no que se refere a mostrar o processo produtivo, os moldes e as madres – se constituía como um esforço e demonstração, uma mais-valia para a valorização plástica e técnica destes artefactos. Neste território de Arte que é a vila de Óbidos, receber, divulgar e promover a arte dos Bordalos constitui-se como uma oportunidade de grande valor plástico e com enorme potencial de indústria criativa. A presença dos artistas plásticos Pedro Cabrita Reis e Joana Vasconcelos reforçam a convicção que é tempo de uma outra materialização e novas interpretações dessa obra. Estamos certos que este evento contribuirá para uma reflexão, para a promoção de ideias, estimulando criatividades e assim congregar expectativas e intervenções ancoradas na obra de Bordalo. Telmo Henrique Correia Daniel Faria Presidente da Câmara Municipal de Óbidos




Inspiradores de muitos artistas plásticos contemporâneos, os artefactos que neste contexto da galeria novaOgiva se deixam percorrer com o nosso olhar, são mote para sugerir desafios a novas gerações, diversas disciplinas e estimular artistas.

OS RUMORES DOS OBJECTOS

O conjunto de trabalhos agora apresentados não encerram nenhum ciclo do pensamento em torno da obra de Rafael Bordalo Pinheiro, apresenta-se antes como ponto de partida para um trabalho de partilha, encontro e reflexão que prenuncie novas interpretações. (re)Visitar a obra de Bordalo (re)Descobrir o fascínio que nos provoca, a inquietação que não se delimita (re)Pensar o tempo e o modo para perpetuar esta plasticidade já património feito (re)Interpretar estes artefactos (re)Expor com artistas contemporâneos, interpretações e leituras de outros que catapultem estes saberes são os propósitos a alcançar com esta iniciativa. Obra rica de elementos naturalistas e que facilmente se poderá ver associado às muitas correntes que envolvem todas as tensões ligadas à defesa do meio-ambiente, pode ser uma outra perspectiva ou abordagem. Neste espaço da galeria novaOgiva, de arte contemporânea em Óbidos, pretendemos celebrar e perpetuar esta obra de características peculiares e dar espaço aos artefactos para que mostrem a sua plasticidade, cor e simbolismo. A obra de Bordalo representa por si mesma início, ponto de partida, de um trajecto que esperamos possa atingir um cada vez maior número de criadores e apreciadores da obra cerâmica. Ponto de chegada com décadas de trabalho onde a obra de Rafael Bordalo Pinheiro nos mostra a expressão plástica do seu trabalho, a magnitude da sua inquietação, a provocação permanente com os seus bichos de escala inconsequente e esmagadora; aliada a uma capacidade de composição que transforma o naturalismo numa linguagem de modernidade de complexidade e expressão plástica, repleta de simplicidade, do emaranhado de sobreposições de ideias e representações sobre formas estilizadas e esteticamente modernas, os bichos, as plantas e toda uma criatividade com raízes na Terra. São pela força da representação “bordaliana” um desafio contemporâneo, que poderemos aproximar do actual discurso da estética ligada à conservação e protecção da natureza e por tal ao Homem ligada; a representação iconográfica dessa alma de Bordalo surge pelo trabalho fotográfico de António Campo Leal. A poética da partida consistirá em fazer desta Vila de Óbidos, deste espaço geográfico que está povoado de lendas, sonhos, memórias e história, o espaço de germinação de ideias, projectos e programas de trabalho que cruzem a criatividade, inovação e a tecnologia, num emaranhado de disciplinas e de áreas de conhecimento. Nesta exposição o mote foi dado por Bordalo. Joana Vasconcelos e Pedro Cabrita Reis comungando deste propósito revisitam Bordalo na igreja de São Tiago. Ana Calçada Rede de Museus e Galerias de Óbidos




CENTENÁRIO DA FÁBRICA BORDALO PINHEIRO (1908 – 2008)

“Estimaria muito que o Manuel se interessasse pela Fábrica das Caldas” disse Rafael Bordalo Pinheiro poucos dias antes da sua morte (1905). Manuel Gustavo abraçou o desejo e o projecto de seu pai e em Novembro de 1908 funda a Fábrica Bordalo Pinheiro, conhecida também por Fábrica San Rafael no terreno contíguo ao que seu pai edificara a Fábrica de Faianças das Caldas em 1884. Apoiado pelos colaboradores de seu pai, não houve sequer interregno na produção da faiança artística, pois embora trabalhando por oficinas emprestadas, enquanto o processo judicial da Fábrica mãe decorria, realiza logo em 1906 uma exposição em Lisboa onde apresenta já modelos de sua autoria. Outras lhe seguiram e em 1909 escreve num catálogo “Queria fazer mais, isto é, desenvolver a fabricação e tentar os mercados estrangeiros (…) Jurei a mim mesmo lutar até à última para continuar a sustentar esta industria (…) anima-me sempre a ideia de que talvez um dia encontre alguém, capaz de me proporcionar elementos para me alargar até aos grandes centros da Europa e América (…) É essa a esperança que me faz viver. (in catálogo da 3ª Exposição Modelos Novos de Manuel Gustavo, Junho 1909). É da força destes dois Homens (pai e filho) e posteriormente de alguns estimados caldenses de grande sensibilidade e a coragem de outros nomes que lhes seguiram que a Fábrica Bordalo Pinheiro chega aos nossos dias. É que, apesar dos tempos difíceis e das contrariedades conjunturais, (re)descobrimos a cada dia que passa a importância e a força latente na cerâmica dos Bordalos. “Faianças Artísticas Bordalo Pinheiro Lda”, após implementação nos mercados de que Manuel Gustavo tanto ansiava com produtos mais comerciais, lança-se na recuperação do seu património e, qual Fénix, renasce do legado de Rafael Bordalo Pinheiro, depois de cerca de mais de cem anos, modelos com uma actualidade capaz de despertar os sentidos de todos e a criatividade de artistas contemporâneos. Tal como os Bordalos, desejamos embelezar muitos espaços e abraçarmos projectos arrojados, divulgar e perpetuar a cerâmica dos Bordalos e sobretudo homenagear a natureza. Que, com este centenário, se comece a escrever uma página na História desta Fábrica com a luminosidade e a intensidade das cores com que Bordalo Pinheiro pintava as suas cerâmicas. Elsa Rebelo Técnica de Cerâmica das Fainças Rafael Bordalo Pinheiro




A alquimia que toda a arte comporta, recentra-se nos seus universos – oníricos, simbólicos, poéticos e satíricos. Universos que encontramos na subtileza do desenho que nos aproxima da materialidade, da forma e do modelo, no fascínio do movimento. Na firmeza de sulcar a matéria e a conjugação da cor. Na estilização vanguardista, nos gestos determinantes da audácia e vigor. No agir, dando asas à imaginação, ao invento, ao compromisso histórico. Na percepção de que… “A Terra é o único Planeta do Sistema Solar que nos pode dar abrigo” (Earth is the only Planet in Solar System that cane give us shelter)…, materializa-se um legado artístico da Terra e com a Terra, que expressa a matéria, a sua vida animal, vegetal e geognossista. E da mesologia chega-se à Ecologia, exemplarmente representada por uma obra inigualável. Obra multifacetada de Rafael Bordalo Pinheiro, de que é indissolúvel e inseparável a obra de seu filho Manuel Gustavo Bordalo Pinheiro. Nomes que balizam uma época de criação artística na área da Cerâmica que brotando da terra, toca no céu. É o fascínio que vivemos sempre que nos é propiciado um olhar renovado e de (re)descoberta, seja em que momento da vida suceda, daqueles pioneiros e obreiros duma arte que tornaram nobre, única, inventada porque inventável. Atravessando séculos, é-nos dado agora descobrir num espaço comum, um tempo e uma memória. Espaços em que a luz nos revela os ciclos tonais das cores da matéria e do fogo, a estrutura arquitectónica patenteia o todo harmónico de uma obra artística na sua compleição, grandeza e gradação. Lugares austeros abertos à mágica, que num rojo de imaginação, retomam a sensualidade e permitem novas leituras e achados dissipantes. Espaços e artefactos que desafiam novas gerações e estimula artistas de tempos actuais, a novas interpretações dessa obra ímpar e contemporânea afirmada numa perpetuidade incontestável. Estabelecido o ciclo do contínuo movimento, fruto de um imaginário responsável entre gerações, afirma-se o Homem na natureza com as suas legítimas aspirações, sonhos, clarividência, talentos, desassossego. É neste tempo, neste concubinato colectivo, neste saudável convívio, nesta assumpção de compromissos que surgem iniciativas como o actual e comovente evento, e outros que vão acontecer, como ainda o lançamento do livro - A Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha – De Bordalo Pinheiro à actualidade: sua história -, quando se completam cem anos da outorgação pública e renovação da Fábrica por Manuel Gustavo Bordalo Pinheiro. E se livros se escrevem, histórias se relatam e contam, eventos se concretizam e vivem, não é deixar de referir o universo empresarial e o generoso universo laboral que contribuíram para a catedral edificada, em permanente construção – mutação. Universos que não se podem dissociar no tempo presente, do tempo futuro. O caminho percorrido isso mostra, o caminho a percorrer assim o reclama e ordena. Num caminhar de eternas esperanças, de uma identidade ou identidades, devemos viver a festa do diálogo cultural, do reencontro colectivo, de constatar que a arte mesmo com os intensos silêncios da vida, a todos pertence, em todos reside, como melodia polifónica numa suave madrugada. E nos percursos de partida e chegada encontram-se as fontes comuns da arte e da criatividade, dos movimentos determinados, das imagens meteóricas, dos gestos medidos, dos desejos conseguidos. Assim se perpetua o princípio da distância, o sonho e a vida.

UMA NOVA CONTEMPLAÇÃO E DESCOBERTA DO UNIVERSO DE RAFAEL BORDALO PINHEIRO

Rodrigo de Freitas Arquitecto, crítico 


MODELAR UM PAÍS: O IMAGINÁRIO DA NAÇÃO NA CERÂMICA DE RAFAEL BORDALO PINHEIRO

1. Uma indústria nacional: a Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha Fundada em 1884, a Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha, com Rafael Bordalo Pinheiro na direcção técnicoartística e seu irmão Feliciano na direcção técnico-financeira, admitira desde o princípio, que as suas finalidades empresariais se não esgotavam em objectivos puramente económicos. Ramalho Ortigão - que reivindicou para si a paternidade do projecto - pretendia que nas Caldas “reflorescesse” uma forma plástica de “arte portuguesa” e de “expressão popular”. Achava possível abrir, assim, um novo ciclo das artes decorativas, e entendia que só um artista da estirpe de Bordalo lhe poderia dar vida. Esse novo ciclo, principiando pela cerâmica, sector julgado apropriado para uma experiência bem sucedida de “indústria de arte”, em “concorrência com as indústrias similares do resto da Europa”, em breve se ampliaria a outros domínios.

O programa nacionalista deixou marcas, desde o princípio, em toda a produção da empresa. Na área dos materiais de construção, onde a normalização impera, como é sabido, avessa a particularismos, elaborou Feliciano Bordalo Pinheiro um modelo original de telha, inspirada na telha portuguesa (por oposição à marselhesa), vidrada (com vidro do tipo “verde caldas”). Quanto aos azulejos, as primeiras produções tomam por modelo a azulejaria hispano-mourisca, de estilo mudéjar a renascentista, que revestem inúmeros exemplares da arquitectura portuguesa dos séculos XV e XVI. Na área da faiança utilitária branca – principiada, por motivos técnicos e financeiros, num momento posterior ao da inauguração - Bordalo, recusando liminarmente as decorações que reflectissem o gosto chinês, holandês, inglês (corrente,, não apenas na louça importada como na faiança produzida em Portugal) - adoptou no seu mostruário uma gramática decorativa de tipo “nacional” e “pitoresco”. Podendo o comprador incluir na encomenda uma referência personalizada (um monograma, uma gravura de hotel ou palácio, por exemplo), as peças de louça ostentavam como elementos básicos, aplicados pelo processo da decalcomania, a Torre de Belém, varinas, mariscos, etc. Mas é na composição das obras produzidas na área da louça artística e decorativa que Bordalo terá levado mais longe a inspiração folclórica, que reconheceu e reelaborou. Trabalhou aqui a partir da chamada “louça das Caldas”, cerâmica onde as formas oláricas são enriquecidas com aplicações em relevo, quando não transformadas graças a um processo de fusão da forma inicial com as próprias aplicações, estas frequentemente adaptadas de motivos naturalistas (animais e plantas, alimentos, etc.). Adiante, dela falaremos mais detidamente. Em Julho de 1891, no rescaldo de uma crise financeira que levou a empresa a suspender a laboração, Ramalho Ortigão veio em defesa da produção de louça artística da Fábrica, que não hesitou em qualificar, enquanto “documento do génio estético da nossa raça, e depois da poesia de Garrett”, como “a obra mais genuína, mais bela, mais comovente e mais expressiva da arte do nosso século”, estruturada sobre um “capítulo do folclore português”, e um “largo trecho 





da história popular da nossa terra, das nossas conquistas e descobrimentos”. Na mesma campanha em socorro de Bordalo, Joaquim de Vaconcelos (Fevereiro de 1891) privilegiou antes a produção de faiança utilitária, que a Fábrica das Caldas estaria elevando à categoria de “verdadeira louça nacional da família portuguesa, banindo os assuntos chineses, as caricaturas à inglesa, à holandesa e outras, que durante meio século tiranizaram o sentimento, o gosto e os nervos (sic) dos nossos pais e avós, e os nossos próprios”. Apesar da diferença de acento tónico dispensados por estes dois críticos de arte à produção da Fábrica de Faianças, concordavam ambos na oportunidade de o Estado se envolver na protecção de uma unidade nacionalmente relevante. Porque se tratava de uma “indústria de arte” portuguesa bem sucedida, num País carenciado desse tipo de produção, porque valorizava matérias primas e recursos humanos nacionais (menos, porventura, do se quis fazer crer, porquanto a empresa importou, como outras, tecnologias, matérias-primas e trabalho especializado do estrangeiro) e porque a sua actividade se revestia do valor estratégico, o qual resultava da inserção num processo de defesa do mercado nacional através da substituição de importações. 2. Teoria do pitoresco: a “louça das Caldas” Ao longo do terceiro quartel do século XIX, no centro cerâmico das Caldas da Rainha, assistiu-se a uma adopção (adptação, invenção?) da escola neo-Palissy que rapidamente despertou interesse e obteve largo favor dos mercados exteriores. Uma cerâmica naturalista, eminentemente decorativa, assente num notável aperfeiçoamento técnico e tecnológico, tornou-se literalmente numa marca das Caldas reconhecida fora da região. Ao escolher as Caldas para instalação da Fábrica, Bordalo contava com as virtualidades deste facto: uma grande difusão nacional (a até internacional) da louça, que a tornava facilmente reconhecível, um certo entusiasmo - em razão precisamente da sua feição exótica – que despertava junto das elites. Tratando-se talvez da mais cosmopolita produção local de cerâmica portuguesa do século XIX, comummente conhecida, aliás, por “Palissy das Caldas” (designação já consagrada no Inquérito Industrial de 1881), todos coincidiam em celebrar o seu pitoresco... Com origem no termo italiano “pittoresco” - surgindo pela primeira vez em Portugal, nos anos 1838, no título de uma obra dedicada a Sintra (neste caso, ainda na forma “pintoresco”), o pitoresco designa o folclore, o local e regional, as manifestações tradicionais da cultura popular. Tornar-se-ia, nas décadas de 80 e 90 do século XIX, tema recorrente dos primeiros passos do processo de mediatização cultural empreendido pela intelectualidade portuguesa. O pitoresco, isto é o conjunto de elementos característicos da paisagem natural e social de uma região, não só não devia ser recalcado e escondido, mas devia ser tomado como aspecto porventura dos mais genuínos de identificação nacional. A teoria do pitoresco, de que a cerâmica neo Palissy caldense é um ícone, conjugava-se perfeitamente com o naturalismo dominante no ambiente cultural em que Rafael Bordalo participava. E assim, ao propor uma transposição mimética da natureza no objecto artístico, o naturalismo não podia deixar de reconhecer uma oportunidade excepcional na “louça das Caldas”, com forte presença de elementos da fauna e da flora, compartilhando com ela, pois, afinidades e coincidências.




Assim, a louça decorativa bordaliana recuperou as tradições formais e narrativas da olaria caldense, os vidrados de reflexos fortes e a cerâmica de trompe l’oeil, à maneira “palissy”, que Manuel Mafra e outros ceramistas caldenses anteriores a Bordalo, tinham aprofundado e difundido. A busca do pitoresco é, aliás, particularmente sublinhada com esta contaminação pelo “palissy” de uma louça que se pretendia uma referência no relançamento das artes decorativas nacionais. O critério de “verdade” em que a confecção de “louça da Caldas” assentava era um critério comum aos naturalistas, no qual o nacionalismo encontrara afinidades e buscara legitimação. Tal como sucedia nos trabalhos de Manuel Mafra e seus contemporâneos, na louça de Bordalo o vocabulário da fauna e flora povoa pratos, travessas, jarras, vasos: peixes e couves, crustáceos e nabos, bivalves e caracóis, lagartos e alhos e cebolas, bacalhaus e enguias, batatas e escaravelhos, etc., etc. Embora por vezes esses elementos assumam o discreto papel de animar uma forma olárica bem definida, na maior parte dos casos ocupam a cena, como se de naturezas mortas em alto relevo se tratassem. Noutros casos, a peça zoomorfiza-se, como já víramos no “palissy” caldense, e os perus servem de terrinas e os burros de paliteiros, podendo no entanto descurar toda e qualquer funcionalidade, como no caso do gato assanhado ou do amigável cão.

As peças mais criativas deste conjunto são talvez aquelas em que a cerâmica como que assume a forma de outras modalidades de artesanato regional: redes, alcofas, cestos de vime. A ilusão é perfeita. A cerâmica representa um cesto pelo qual trepa um lagarto, uma alcofa onde se transporta o bacalhau com as batatas e as cebolas, um cabaz de peixe onde se acumulam ainda as redes de pesca. Esta é sem dúvida uma evolução da louça “palissy” das Caldas para um patamar inteiramente original e de grande efeito, sobretudo quando as peças se agigantam, em dimensões pouco usuais para o género. O temperamento artístico transgressor de Rafael Bordalo é aí que se manifesta de forma mais veemente. Enquanto o “palissy” buscava ludibriar o espectador com a verdade das coisas, Bordalo falsifica ostensivamente a realidade, fantasiando uma natureza que se anima para tomar protagonismo no meio dos homens ou para realçar a sua harmonia de cores e de formas. O naturalismo de Bordalo é, todo ele, subordinado ao efeito decorativo, pelo que os seus trabalhos mais preenchidos pela natureza não provocam o desconforto ou até a repulsa de alguns dos “palissys” franceses seus contemporâneos. Este “palissy” reformulado e reinterpretado surge também no azulejo, no que de facto constitui uma das áreas mais originais do trabalho de Rafael. Umas vezes são os motivos vegetais ou animais que animam o quadrado azulejar, em relevo, outras são a tradução em desenho do humor que o seu traço nos deixou. Os vidrados são apurados, mas a diferença está sobretudo na disposição dos elementos, conseguindo sempre um resultado inesperado, como se tivessem adquirido vida própria. Melhor, como se tivessem sido surpreendidos com a espontaneidade e aleatoriedade da situação natural e a sua disposição não resultasse de pose de atelier comandada pelo artista. De outro modo ainda: a pose de atelier a que Bordalo submete os seus animais e plantas é uma pose que supõe uma liberdade artística que efectivamente os oleiros caldenses, presos à convenção e aos limites do suporte olárico, não conheciam e não ousavam. 10


3. A nação no Quai d’Orsai: Bordalo na Exposição de 1889, em Paris Em 1889 celebrava-se o centenário da Revolução Francesa. Uma grandiosa Exposição Universal foi projectada para Maio, em Paris. O Comissariado português, chefiado por Mariano de Carvalho, decidiu em Março, entregar a decoração do Pavilhão, no Quai d’Orsay, a Rafael Bordalo Pinheiro. Esta escolha representava uma derrota parcial das teses do director da secção industrial, o Visconde de Melício, acusado pelos seus adversários de pretender arredar de Paris a representação nacional, quer da agricultura quer das colónias, ou seja no dizer dos seus críticos “justamente o que constitui a importância interna e externa da nossa terra”. Queixar-se-ia o artista da escassez de recursos e sobretudo da estreiteza do tempo. Ao edifício, cujo interior lhe coube decorar, preferiria uma réplica da Torre de Belém, em vez do imaginário palácio barroco que o arquitecto Hermant desenhara. Mas Rafael gostou do que fez, recebeu felicitações bastantes, e, no final do ano, publicou um suplemento à edição semanal de Pontos nos ii, onde apresenta, com indisfarçado orgulho, uma memória descritiva, acompanhada de fotogravuras, das salas que decorou no Pavilhão português. O sucesso obtido é aí interpretado como um aval ao entendimento “de que em Portugal se deve provocar uma corrente de opinião para fazer guerra à nossa desgraçada mania do estrangeirismo, que tanto nos avilta, e tão incaracterísticos nos torna”. Apontando a prática da imitação de tudo quanto se faz lá fora como “um rebaixamento do carácter nacional”, reclama para si o mérito de ter “lavrado no pavilhão do Quai d’Orsay um protesto contra o desdém e a desconfiança pelas coisas essencialmente portuguesas”. Justificando a aceitação do encargo de decorar as salas dedicadas à agricultura e colónias, observa que o fez consciente de “quantos recursos pitorescos o meu País possui, para se colocar dignamente ao lado dos países que têm um carácter seu e uma vigorosa tradição nacional”. A referência ao pitoresco surge amiúde no texto de Pontos nos ii. Apesar dos receios dos seus detractores, antecipando que as suas decorações transmitissem “uma ideia selvagem da nossa terra”, o resultado teria mostrado, ao invés, “uma ideia nacional e pitoresca”. A cerâmica pontua, como se depreende das fotogravuras publicadas, as diversas salas entregues à responsabilidade do decorador Rafael Bordalo Pinheiro (que ainda se lamenta de o arquitecto não ter projectado os ornatos exteriores do edifício com “o carácter da louça”): painéis de azulejos suspensos ou aplicados em balcões, potes contendo amostras ou compondo uma mesa, pratos alusivos a actividades e produtos agrícolas, jarrões ornamentais realçando um panejamento, estabelecendo uma continuidade, anunciando um item, um conjunto de peças decorativas preenchendo um vão de escada ou dando vida a uma sala quase vazia. Trata-se quase sempre de cerâmica produzida na Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha. Carregando com louça das Caldas para Paris, e distribuindo-a profusamente pela parte do Pavilhão a seu cargo, Bordalo não estava porém apenas a recorrer a um elemento decorativo a que podia aceder facilmente e ou lançar mão de um expediente de pura promoção de um produto da sua própria empresa. Nenhuma destas motivações - mesmo admitindo a sua ocorrência - se sobreporia à convicção de Bordalo de que a louça produzida na Fábrica das Caldas correspondia plenamente aos propósitos nacionalistas enunciados para a presença de Portugal na Exposição: a afirmação de que o País “ainda possui prodigiosos elementos dum carácter exclusivamente nacional, podendo competir 11


com o que há noutros países da Europa”, mau grado o “muito que as nossas indústrias têm perdido com a horrorosa mania da assimilação constante das indústrias estrangeiras”. 4. “Heróis do mar …” Cerâmica historicista Depois da “teoria” do pitoresco, surge o que talvez possamos designar por “teoria” do Neomanuelino. A visão da história de Portugal construída pela geração de Bordalo Pinheiro fez de Camões o herói português por excelência e símbolo do génio nacional (como tal consagrado no programa das comemorações de 1888) e das Descobertas, a “Idade de Ouro” de uma nacionalidade posteriormente corrompida. Esta linha de reinterpretação do passado, seleccionando e acentuando determinadas marcas de identidade, é, por outro lado, um dos elementos estruturantes do nacionalismo romântico a que o Partido Republicano procurou dar direcção e conteúdo políticos. Data de 1892 a primeira incursão do ceramista Rafael Bordalo Pinheiro pelos caminhos do Neomanuelino: uma peça de grandes dimensões, 240 cm. de altura, a que deu precisamente o nome de “Talha Manuelina”. A sua confecção cumpriria duas finalidades principais: chamar a atenção, pelo efeito de surpresa conseguido através do porte excepcional e do design igualmente inusitado, para a difícil situação económica e financeira da empresa, e obter, através da respectiva venda, recursos para pagar aos operários vencimentos atrasados. Por isso a “Talha Manuelina” ficou também conhecida por “Talha dos Operários”. Na peça, que o próprio Rei D. Carlos adquiriu, encontram-se as figuras de Camões e do Infante, por entre uma profusa invocação de elementos do período manuelino. Outro notável trabalho concebido com recurso a esta simbologia, é o “Perfumador Árabe”, onde a cerâmica acolhe o que de mais delicado o desenho pode conceber em matéria de ornatos arquitectónicos. Em finais do mesmo ano de 1892, realizava-se em Madrid, no Palácio da Biblioteca, a Exposição Colombiana, destinada a assinalar o centenário da viagem de Colombo. A direcção artística da secção portuguesa foi confiada a Rafael, que aproveitou a ocasião para desenvolver exaustivamente a sua “teoria” do Manuelino. Nos Pontos nos ii fez publicar uma reportagem do evento. Informa-nos aí que em Madrid estiveram réplicas de peças arquitectónicas do período Manuelino, integradas no cenário ou simplesmente expostas como peças de museu. E lá esteve, sobretudo, uma profusa decoração “subordinada aos ditames da arte manuelina”, segundo as próprias palavras do seu responsável, que ligou todo o espaço e mobiliário da exposição com uma mísula e baldaquino lembrando os da Batalha e suportando uma estatueta do Infante D. Henrique. Os temas dos Lusíadas, do mar e da gesta marítima, e a alusão aos elementos decorativos das artes do período do século XVI aparecem em mísulas, jarras, tinteiros, bilheteiras, etc. Mas é sobretudo no azulejo que o Neomanuelino se afirmou com mais vigor plástico. O padrão denominado “Granada”, com o emblema de D. Manuel, é o mais representativo deste modelo revivalista. 12


5. “Despertai hoje de novo …” Bordalo perante o Ultimatum O abalo político nacional que o “Ultimatum” britânico de 1890 provocou foi, porventura, o acontecimento político que mais se repercutiu no trabalho do ceramista. Sucede que ele ocorreu na altura em que se não tinham ainda calado os ecos do sucesso da participação portuguesa, protagonizada pelo próprio Bordalo Pinheiro, na Exposição de Paris.

Na primeira edição de Pontos nos ii de 1890, datada de 2 de Janeiro, Rafael, numa alusão ao novo ano, figura o Zé Povinho empunhando a bandeira portuguesa e pontapeando, sob o Arco do Triunfo, com a Torre Eifel em fundo, um John Bull caído por terra, espavorido perante um gato preto assanhado. De mãos dadas com o Zé, camponesa em atitude revolucionária, a Maria brande uma espada onde se lê “Viva Portugal”, em direcção a um “Punch” que, com o seu macaco ao colo, foge montado num leão. Ladeiam a página as inscrições “Exposição de Paris” e “Pavilhão do Quai d’Orsay”. Em baixo: “Tudo pela Pátria”. Oito dias depois, a Inglaterra exigirá que o Governo português ordene a “retirada” de “todas e quaisquer forças militares portuguesas actualmente no Shire e nos países dos Makololos e dos Machonas”, por outras palavras, que abandone o projecto de colocar sob o mesmo domínio a faixa Angola-Moçambique. A comoção popular que este “Ultimatum” arrastou percorreu todo o País e agitou, como nunca, as elites intelectuais. Num suplemento de 4 páginas de Pontos nos ii, inteiramente ocupado com o acontecimento, publicado a 16 de Janeiro, a última página é dedicada a Serpa Pinto “heróico explorador que atravessou África no meio de triunfos, (...) a verdadeira e única encarnação do espírito nacional, isento de toda e qualquer mácula partidária”. Na primeira página e nas centrais Bordalo sublinha o contraste entre a subserviência actual de um D. Carlos e a virilidade futura da Nação. A cerâmica é chamada a colaborar na exaltação patriótica, na crítica à Inglaterra e às suas ambições hegemónicas relativamente a Africa, na celebração das campanhas africanas. A figura de John Bull, símbolo da nação britânica, é satirizada e aviltada, como escarrador ou penico. A garra do imperialismo britânico saltou do desenho para a modelação em pasta cerâmica. O abutre inglês lançou-se sobre o peito aberto de Prometeu-Portugal para lhe arrancar as entranhas (as colónias). A temática nacionalista domina, enfim, a louça narrativa, um tipo de cerâmica que vive em função de uma história, de um acontecimento que pretende comentar, de uma figura que ilustra uma situação. Neste campo, as peças saídas do atelier de Bordalo, não se filiam em tradição barrista, pois estamos perante uma espécie de “cartoonismo” a três dimensões, e, como amplamente demonstrou José-Augusto França, a história do humorismo ilustrado anterior a Bordalo não se destaca da mediocridade. 13


6. Humor e costumes: o Zé Povinho Para cumprir a ideia nacional e pitoresca do nosso País, forçoso era trazer à cerâmica o próprio povo. Há um conjunto notável de tipos populares de Bordalo, confeccionados em escala miniatural e geralmente em terracota. Fixam trajes e atitudes regionais, concretizando esse efeito de identificação perseguido pela etnografia. Na sua obra gráfica, Bordalo construíra uma criatura, o “Zé Povinho”, por intermédio do qual escreveu uma “teoria” do carácter nacional. O “Zé Povinho foi depois convidado a contar a sua história em barro e a difundi-la por todas as casas portuguesas. Terá então perdido em mobilidade interpretativa o que ganhou em capacidade representativa. Entrou em todas as casas portuguesas para figurar o protesto possível de uma atávica submissão. Ficou como um tipo popular, ao lado de outras figuras com as quais Bordalo teceu um expressivo painel de humor e costumes. O “Zé Povinho” adquiriu movimento e, dessa forma, realismo cúmplice, chamando para junto de si uma galeria de que fazem também parte a “Velha Maria”, a “Ama das Caldas”, o “Abade tomando rapé”, o “Polícia”, a “Peixeira”, o “Sacristão”, o “Janota”, a “Elegante”.

A caricatura assoma discretamente nestes tipos. O “Zé Povinho” é ele próprio uma caricatura. O “Arola”, uma espécie de “Zé Povinho” emigrante no Brasil e entretanto regressado a Portugal, aparece na produção cerâmica já no princípio do século XX. A caricatura em cerâmica, outra variante do humor e costumes, surge sobretudo em objectos utilitários que figuram tipos como o usurário, o chinês ou janota. Há um jogo, como escreveu Paulo Henriques, entre o código funcional e simbólico dos objectos. O mealheiro é um agiota, o chinês é um bule, o usurário é um escarrador. Inevitavelmente, a louça de Bordalo acompanharia a política, comentaria os acontecimentos, defenderia um ponto de vista. Incidentalmente, a caricatura invade o território da política, apenas em dois casos: no “Barriga”, uma das mais notáveis e eficazes caricaturas em cerâmica, e no “Marquês de Franco”. 14


7. Conclusão Bordalo Pinheiro abordou a cerâmica, tecnicamente, a partir do desenho e da sua experiência de ilustrador e decorador. Do ponto de vista estético a partir do naturalismo, do ponto de vista conceptual a partir de um nacionalismo etnográfico e histórico. Na sua obra em barro, naturalismo e nacionalismo atraíram-se, fundiram-se. Animado pela ideia de revalorização de um artesanato que, apesar de profundamente implantado, se vinha repetindo e não dava mostras de se querer e poder revigorar, Rafael Bordalo aplicou-se, com uma tenacidade que poucos julgariam possível, em desdobrar um autêntico programa decorativo, que absorve e reelabora a partir de elementos de um certo imaginário nacional. Rafael Bordalo Pinheiro acreditava, como outros intelectuais do seu tempo, que o futuro de Portugal dependia em absoluto do destino da cultura nacional. O Estado devia comprometer-se com ela, protegendo-a e valorizando-a, do mesmo modo que os criadores. A geração de Bordalo aplicou-se em sobrepor ao Portugal descrente de si próprio, pessimista, esmagado pelo atraso em relação à Europa, um Portugal consciente dos seus valores, confiante nas suas capacidades de regeneração, orgulhoso da sua história e da vitalidade das suas manifestações culturais. 8. Post Scriptum: desafio contemporâneo Há quem caracterize a obra de Bordalo como uma expressão relativamente pacífica da feição cultural dominante no último quartel do século XIX. O reconhecimento que obteve nos meios intelectuais e a inegável popularidade dos seus trabalhos, tanto gráficos como cerâmicos, reflectiria sobretudo essa conformidade (de facto, um conformismo). A obra de Bordalo não representa, neste sentido, uma ruptura, mas uma confluência com as representações sociais e as ideologias conservadoras do seu tempo. Este fio de abordagem, se bem que possa revestir-se de alguma utilidade marginal para efeitos de caracterização do papel dos intelectuais nas mudanças socio-políticas de finais do século XIX, não permite perceber um dado essencial: a obra de Bordalo Pinheiro não é produto, é produtora, não é resultado, é constituinte. É produtora de uma ideologia estética e é constituinte de um imaginário. Com ambos se forjou uma expressão forte de identidade nacional que perdurou ao longo do século XX. O confronto com a obra de Bordalo Pinheiro é por isso um confronto com um dos mais significativos expoentes da invenção (no sentido em que Hobsbawm falou de “invenção da tradição” a propósito da emergência do nacionalismo moderno) da nação portuguesa, enquanto legado de personagens, histórias e mitos recebido e aceite por Portugal e pelos portugueses. Se a obra de Bordalo pode suscitar hoje novas leituras críticas, é porque estamos em condições de projectar mudanças entretanto ocorridas nesse processo de desconstrução e reconstrução identitária que atravessou Portugal nas últimas décadas. José-Augusto França lançou sobre Rafael o epíteto de “O Português Tal e Qual”. Poderia também dizer “O Portugal Tal e Qual”. Aceite o desafio – e que desafio! – é afinal com esse “Tal e Qual” que os artistas contemporâneos aqui presentes se confrontam e se expõem. João Bonifácio Serra Professor, historiador 15


O CASO DA JARRA QUE ANTES DE SER JÁ O ERA, OU O “COTILLON”1 BATRAQUIANO

Chiquérrimo, é o mínimo que se pode adjectivar. Um quimono de seda estampada, de um luminoso verde seco, contrastado por grandes crisântemos em plena floração, envolve-o. Elegantemente traçado, as pregas caem com suavidade em torno da sua bem acentuada rotundidade. Notáveis as suas socas, num discreto tom níveo e de uma altura a exigir um contínuo exercício de instável equilibrismo. E ainda não fizemos referência ao carrapito, apanhado no alto do cocuruto da cabeça e enfeitado com qualquer coisa de semelhante a um carapuço encimado por uma bolinha amarela de onde parte uma pequena e frágil pena. Repete-se: chiquérrimo, é o mínimo que se pode adjectivar. Um pormenor de não somenos importância: a fulgurante visão de uns tornozelos bem torneados, sob uma pequena prega do quimono que descai em jeito de cauda. Quem, senão ele, o grande senhor da sátira e da caricatura, Mestre Rafael Bordalo Pinheiro? Rafael apresenta-se distintíssimo, primoroso e elegantíssimo na capa do “Almanaque do António Maria para 1882/1883”. 1

Cotillon, dança muito em moda nos serões sociais do club das Caldas da Rainha, nos finais do séc. XIX.

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Não está sozinho; acompanha-o, de um lado, Guilherme de Azevedo2 que enverga um quimono em tons de vermelho e que num toque de grande distinção, se abanica com um colorido leque em forma de coração. Do outro lado, o seu filho Manuel Gustavo3, com um ar ligeiramente comprometido, observa-nos de revés. Alto e magro, veste o seu quimono com a elegância profissional de um manequim. A marcar o desenho, cortando-o diagonalmente, um grande pincel, a mais eficaz ferramenta de trabalho de Rafael. Constituem o grupo perfeito a convidar-nos a folhear sem pressas este Almanaque, cuidadosamente impresso na Tipografia da Empresa Literária Luso-Brasileira. Acedendo ao convite, viremos então as folhas amarelecidas pelo tempo, à descoberta de algo que nos surpreenda. Logo ali, na página de rosto, uma ilustração que nos apanharia em flagrante incredulidade, se não conhecêssemos Bordalo como já o conhecemos. Rafael, políticos e gatos; muitos gatos. Quais sombras chinesas os desenhos surgem a negro sobre um fundo incolor. Enquanto Bordalo empunha o seu terrível pincel, pronto a desenhar tudo e todos, as restantes figuras como que deslizam ao longo da página num enquadramento harmonioso. Nota-se um pequeno gato – será ele um Pires? – a saltar na ponta do pincel de Bordalo, numa atitude provocatória, como que a incentivá-lo a escrever, a ilustrar, a ridicularizar, a satirizar e a gracejar com o mundo que os rodeia. Mais umas páginas adiante, percorremos os diferentes meses do ano, ilustrados com desenhos alegóricos e eis-nos chegados ao mês de Julho. Eis a surpresa! Que mês este! O mês das Caldas! Ao centro, em traço ténue a silhueta de Augusto Maria Fernando Carlos Miguel Gabriel Rafael Agrícola Francisco de Assis Gonzaga Pedro de Alcântara Loyola, Sua Alteza o Infante D. Augusto que, no dizer de Rafael Rimuito4, “Nasceu, … É infante e General.”5 Habitual visitante das termas da moda, Rafael realça essa ligação caldense da real figura. Ao cima da página, a dança da bicharada: lagartos, lagartixas, rãs, sapos, frente a frente marcam o passo com acerto. À esquerda, um jarrão tipicamente caldense decorado com uma esguia cobra – espreguiçando-se ao longo do bojo - uma rã e uma parra; na tampa, em sono profundo e enroscada sobre si mesma, outra cobra. Em baixo, um prato musgado onde é visível mais uma cobra e outro lagarto. À direita, um grande vaso, de largo bocal, e em cujo bojo se encontram inscritos os diferentes dias do mês e respectivo padroeiro religioso. A finalizar, uma cobra move-se ao longo da página contornando o bocal e parando ante a palavra Caldas.

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Guilherme de Azevedo, jornalista e poeta, colaborador d’O António Maria (30 de Novembro de 1839, Santarém – 6 de Abril de 1882, Paris, França). Manuel Gustavo Bordalo Pinheiro, ilustrador, caricaturista, ceramista, industrial, professor, filho de RBP (20 de Julho de 1867 - 8 de Setembro de 1920). Pseudónimo utilizado por Rafael Bordalo Pinheiro na escrita de alguns textos do Álbum das Glórias. 5 Álbum das Glórias, Março de 1882; Infante D. Augusto (1847-1889), filho de D. Maria II e D. Fernando. 3

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Sentir-se-á fascinada pela importância da terra ou simplesmente cansada de tanto deslizar? À data em que este Almanaque é publicado, Bordalo faz a sua vida por Lisboa, publica “O António Maria”6, visita a Livraria Bertrand, mostra-se nas vernissages artísticas, passeia-se pelo Chiado, compra os seus charutos na Havaneza, almoça no Zé das Caldeiradas, frequenta os teatros, elogia “les silhoutes” elegantes das artistas, faz a corte às primadonas do belo canto e tem como particular “amigo” e manancial inspirativo, o todo poderoso Fontes Pereiro de Melo, que semanalmente caustica nas páginas do seu jornal.

Bordalo ainda não se tinha feito oleiro nas Caldas. No entanto faz cerâmica desenhada. Somos avassalados por uma tremenda dúvida; ter-se-á Bordalo inspirado nas formas cerâmicas já existentes, ou projectou as formas que mais tarde haveria de modelar no plástico barro caldense? Não nos interessam as explicações, sejam elas quais forem; interessa-nos sim que Rafael Bordalo Pinheiro, sempre “avant la letre”, lapisista exímio, oferece-nos, para nosso deleite e contentamento, o exemplar único de uma jarra bichada que antes de ser já o era.

Isabel Castanheira, na companhia de um forasteiro e do gato Pires, expressa a sua profunda admiração pela obra do Mestre. Livreira, “Bordaliana”, PH - Património Histórico

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O António Maria, 1.ª Série, publicado entre 12 de Junho de 1879 e 21 de Janeiro de 1885.

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A CARICATURA DO EU

Ao nível da autocaricatura, é particularmente significativo o desenho de Rafael Bordalo Pinheiro (R.B.P.) em que se representa jovem a dar-se lume a si mesmo, que é outro, mais velho. Ou, se preferirmos, representa-se envelhecido, de chapéu levantado, a pedir lume ao seu outro eu, mais novo. Este tema tratou-o Jorge Luís Borges num conto – O Outro – que relata um encontro do mesmo género, mas que nada tem de risível ou humorístico: faz-se com evidente desconforto dos protagonistas e numa atmosfera inquietante. O acontecimento é, evidentemente, narrado pelo mais velho que se espanta com aquela realidade impossível, enquanto o mais novo teima em considerá-lo um sonho. Aí se diz:

“Meio século não passa em vão. (…). Éramos demasiado diferentes e demasiado parecidos. Não podíamos enganar-nos, o que torna difícil o diálogo. Cada um dos dois era o arremedo caricato do outro. (…). Aconselhar ou discutir era inútil, porque o seu inevitável destino era aquele que sou.” (Obras Completas - vol. III, Lisboa, 1998, Editorial Teorema) No caso da caricatura de R.B.P., o jogo de espelhos entre o eu da juventude e o eu envelhecido é explorado até à exaustão. Tudo é contraste: arrogância, cores vivas, luz, dinamismo, por parte do caricaturado enquanto jovem; humildade, cores escuras, sombra, cansaço na sua versão mais velha. Os próprios gatos que os acompanham participam e contribuem para acentuar esse contraste. Estava em causa todo um percurso de vida, também representado pelos jornais que saem das respectivas indumentárias e são a causa próxima deste desenho. Entre o António Maria (1879) e a Paródia (1903) é uma vida, a sua, que se esgota: viria a falecer em Janeiro de 1905. Teria Bordalo Pinheiro essa consciência? Pressentiria a proximidade da morte? Não foi ele quem disse que a Paródia era para o filho, Manuel Gustavo? Tal como no conto de Jorge Luís Borges, também aqui só o mais velho parece ter consciência da situação e, simbolicamente, pede ao mais novo: “Dá-me do seu lume?” O jovem fá-lo, altivamente feliz, cheio de autoconfiança, sem se reconhecer no outro, sem sequer olhar para o seu interlocutor: ao fixar-se vaidosamente em si mesmo, desperdiça o inesperado ensejo de conhecer quem virá a ser no futuro. Deve realçar-se, no entanto, a ternura presente no conjunto.

A Caricatura do Eu em Cerâmica Idêntico balanço de vida está presente numa peça de cerâmica datada do ano anterior (1902). Trata-se de uma moldura destinada a conter um retrato de família: Rafael, a mulher, Elvira, e os filhos, Maria Helena e Manuel Gustavo; conteúdo que constitui, em si mesmo, uma das sínteses possíveis da vida de Bordalo, quanto a um dos seus aspectos mais relevantes, a família. Nessa bela peça de cerâmica, de inspiração palissy, Rafael representa-se do lado esquerdo, jovem, garboso, de pincel em riste, prestes a todos afrontar, olhando cheio de ânimo o futuro que o espera. Do lado direito, visivelmente envelhecido, dobrado (literalmente) pelo peso dos anos, mais volumoso e com os olhos baixos, Rafael retira-se de cena (da vida?), o pincel virado para baixo, aparentemente incapaz de afrontar seja quem for.

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Na verdade, à autoria de caricaturas nos jornais humorísticos, juntou Rafael, a partir dos 37 anos, a cerâmica. O modo como conjugou as duas actividades, transpondo para o barro as figuras que havia caricaturado em desenho, constitui uma das singularidades da sua obra. Podemos encontrá-lo, moldando-se agora em barro, em peças como a garrafa que dedicou ao Dr. Feijão, grato pelo desvelo com que este o tratou. É uma peça de rara qualidade estética, uma garrafa de proporções equilibradas, com decoração tridimensional altamente impressiva pelo realismo atingido na representação das vagens de feijoeiro, em óbvia alusão ao nome do médico. A benéfica acção de que este foi protagonista é simbolizada por duas mãos aladas, como se de um anjo se tratasse. Só essas mãos e a figura de Bordalo, agarrado a uma das asas da peça, não estão vidradas. Distingue desse modo o elemento humano, em evidente contraste com o intenso brilho que caracteriza o restante conjunto, essencialmente vegetalista. Há também um moringue semi-embrulhado em jornal, o António Maria, em que Bordalo se autocaricatura à conversa com Maria, em equilíbrio precário, num dos lados da peça; no outro lado, quase caindo, de mãos na cabeça, está António Luís Gonzaga Gomes, a quem a peça é dedicada. Alguém mais se lembraria de transpor para a cerâmica as vicissitudes da imprensa humorística da época? São os dois mundos de Bordalo que aqui se encontram e se cruzam, como na sua própria vida, de que a peça acaba por constituir alegoria. Ainda na área da cerâmica, Bordalo esculpiu-se como operário, verde, de acordo com a tradição caldense que escolheu integrar; as feições mais exageradas do que o habitual, há uma falta de nitidez muito peculiar nesta peça, como se o retratado estivesse mal acabado. A Caricatura do Eu e a Sociedade É próprio do caricaturista não alimentar ilusões, desvendar a cruel verdade das situações, personagens e acontecimentos, que põe a nu sem piedade. Assim procedeu sempre R.B.P, para com os outros e para consigo mesmo. Daí os desenhos que de si mesmo faz, tossindo, rindo, dormindo, sendo gentil ou zangando-se, com um lenço igual ao da Maria na cabeça, transfigurando-se em africano ou asiático, apontando para a própria barriga, exagerando os traços que o tempo marcara no seu rosto, fragilizando-se perante todos, ao mostrar-se tão inteiramente humano e vulgar. Muitas das circunstâncias de que se fez a sua atribulada existência foram outros tantos temas das suas caricaturas, principalmente na sua obra gráfica. Sem veleidades de tratamento exaustivo, podemos destacar algumas dessas situações: - atirando a seta que há-de atingir o Calcanhar de Aquiles ou por detrás da máquina de fazer imagens da Lanterna Mágica, nos frontispícios desses jornais humorísticos; - fazendo tratamentos respiratórios (inalações), tanto nas termas das Caldas da Rainha, onde residiu, como nas de Entre-os-Rios; - regressando das exposições internacionais em que participava, nomeadamente com o filho, com o aspecto orgulhoso e, por isso, algo ridículo, que a ocasião propiciava; - espreitando através das grades do Loreto, onde se encontrava de quarentena, no regresso da sua primeira viagem ao Brasil, devido ao perigo de contágio da febre amarela; - desenhando, em todas as circunstâncias, até mesmo instalado em banca montada junto ao Tribunal da Boa Hora para esse efeito, dada a frequência dos processos em que incorria devido à sua actividade jornalística; 20


- presidindo, no lugar normalmente reservado a Cristo, que antes fizera ocupar pelo Zé Povinho, à Última Ceia, renovando o motivo de confronto com as autoridades, que o primeiro desenho despoletara, enquanto este ainda decorria; - demarcando-se dos restantes jornalistas que incensam Fontes Pereira de Melo, enquanto este último, literalmente, sobe ao céu, ao virar-lhes ostensivamente as costas; - orando ao deputado Chagas, pedindo-lhe que livre as Caldas da Rainha da presença nefasta do Conselheiro Pimentel (o Pim) como provedor do hospital; - festejando quando o caminho-de-ferro chega às Caldas ou quando se dá a “despimentalização” (afastamento do conselheiro Pimentel) do Hospital Termal; - pedindo ajuda a políticos, em época eleitoral, para a resolução dos problemas da Fábrica de Faianças; - esculpindo uma peça diferente, enquanto todos à sua volta se ocupam a esculpir ou a destruir “repúblicas”, as figuras femininas de barrete frígio que a iconografia republicana nos legou, enquanto diz: “Não a faço nem a desfaço, antes pelo contrário”. São as “suas” circunstâncias e, simultaneamente, as circunstâncias gerais que a todos afectam que estão em causa: de carácter pessoal, familiar, profissional, social e político, na dimensão local ou nacional. A liberdade de expressão, os seus ódios de estimação, representados pelo Conselheiro Pimentel ou por Fontes Pereira de Melo, os atavismos próprios da sociedade portuguesa, a reflexão que faz de si mesmo quando a si mesmo se desenha, demonstram quanto se inclui e se considera parte desses fenómenos, ao proceder à sua denúncia, implacavelmente. A Caricatura do Eu e os Animais Tanto na vida real como na “vida desenhada”, Bordalo viveu rodeado de animais, com especial destaque para os gatos. Será também este o animal em que mais vezes se metamorfoseia, com cabeça de homem e corpo de felino, como se reconhecesse uma afinidade entre a sua própria natureza e a desses animais. Noutros desenhos aparece como insecto e como macaco, mas não de forma tão conseguida. Os gatos são presença obrigatória em todos (ou quase todos) os seus desenhos, muitas vezes junto de si, com mais ou menos evidência, mas lá. Destaca-se a vez em que R.B.P. se autocaricatura, espreguiçando-se, acompanhado nesse acto relaxante por um gato (o gato Pires) que se espreguiça como ele, isto é, na posição bípede e estendendo os braços para cima. Neste caso é o gato que se assemelha ou imita o homem. Doutra vez, é R.B.P. que se desenha no meio de dois gatos, de costas, no cimo de um telhado, fitando o horizonte: o homem assume a atitude do gato. Numa quinta-feira santa, quando é costume percorrer as igrejas, Bordalo Pinheiro representa-se a fazer esse percurso, com um conjunto de colaboradores seus e o gato Pires, de pé, trajando a preceito, de casaca e cartola, com um pincel na mão. Muitos outros animais podem ser encontrados na obra gráfica e na obra cerâmica de Bordalo: macacos, papagaios, insectos, cobras, lagartos, mexilhões, amêijoas, pássaros, crustáceos de vários tipos, peixes.

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A Caricatura do Eu e o Teatro Por tudo o que foi dito, é visível que R.B.P. se mostrava, nas caricaturas que de si mesmo fazia, essencialmente como actor. Já João Paulo Cotrim chamou a atenção para esse facto na fotobiografia que fez do artista. Integrava-se em conjuntos cenograficamente muito expressivos, denotando um invulgar sentido de teatro, que poderíamos considerar inesperado, se não soubéssemos que Bordalo Pinheiro era um apaixonado dessa arte. Daí que se colocasse em “cena” representando diferentes papeis e levando essa representação a tal ponto que, muitas vezes, surge perante nós fazendo uma vénia, igual à dos actores perante o seu público, acentuando o carácter jocoso da situação retratada. É o caso da Exposição da Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha na Sala de Comércio que, sendo um êxito, levou Bordalo a representar-se a si mesmo emergindo de uma jarra, com decoração palissy, enorme por comparação com o seu próprio tamanho (em alusão ao exagero de dimensões de muitas das suas peças?), e dobrando a parte visível do corpo numa grande vénia. Agradece desse modo os elogios recebidos, nomeadamente por parte da imprensa. O exagero do agradecimento é sarcasticamente acentuado pelo carácter simbólico e fantasista da situação. Mais interessante ainda é a rasgada vénia com que brinda os caldenses no seu regresso do Brasil (1899), face à manifestação de solidariedade e apreço com que estes o acolhem. A viagem destinara-se a tentar vender a Jarra Beethoven numa fase particularmente crítica da vida financeira da Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha. É notável que alguém vivendo uma situação aflitiva, tenha sentido de humor suficiente para o exercer sobre si mesmo, referindo-se a essa situação. Claro que, em simultâneo, e implicitamente, exerce-o sobre todos aqueles que, apreciando e elogiando a qualidade do seu trabalho, em nada contribuem, afinal, para o aliviar da situação difícil em que se encontra. A ironia que emana do conjunto que Bordalo forma com os papagaios, os macacos e os gatos que o rodeiam, para além de cómica, é quase feroz. Autocaricaturar-se é em si mesmo teatral. Dramaticamente, R.B.P. expõe-se perante o seu público - todos nós - neste teatro que é a vida, expondo-se ao veredicto alheio, tão demolidor quanto a sua pena. Usa e abusa da representação pictórica de determinados traços físicos (cabeleira revolta, bigode) e de adereços (monóculo, boina, pincel) que inequivocamente o identificam e distinguem. Estabelece assim a cumplicidade indispensável à descodificação da mensagem que reserva para o seu público, ao qual agradece no final de mais um acto, no final de mais uma peça. Ri-se de si e dos outros enquanto a todos convida a acompanharem-no nesse riso. Haverá algo de narcisista em tudo isto? Ao génio tudo se permite… Isabel Xavier PH - Património Histórico, grupo de estudos

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Modelos Cerâmicos renascido do esquecimento - sua monumentalidade e actualidade

Rafael Bordalo Pinheiro depois de um imenso legado de modelos cerâmicos deixa para os últimos anos da sua multifacetada vida, obras de complexa e delicada execução. Estou a referir-me aos fantásticos animais, na sua maioria, de enormes dimensões, onde a verdadeira grandeza era habilmente considerada, numa proporção que continha a escala natural e humana. Por volta do ano 1900 o artista junta à sua já enorme produção de pequenos animais, outros gigantescos como: o caranguejo, o sardão, o cavalo-marinho, o caracol, a cobra, o lobo e o grou, o golfinho, a cabeça de touro, a cabeça de cavalo, a cabeça de burro, o par de rãs enamoradas, a vespa e a lagosta. O artista utilizou-os para decorar o pavilhão de Portugal na Exposição Universal de Paris (1889), embelezou com eles muitos recantos das Caldas da Rainha, palacetes e jardins de Lisboa. A Fábrica Bordalo Pinheiro, ao longo dos anos, tem salvaguardado o património recuperando muitos modelos de Rafael Bordalo Pinheiro e de seu filho Manuel Gustavo Bordalo Pinheiro e, nos últimos 8 anos, partiu para a “aventura” da recuperação destes animais de grandes dimensões. Para produzir tais modelos é necessário um manancial de técnicas e procedimentos, que compõem as muitas etapas do processo cerâmico que lhes corresponde. Diria que alguns deles desafiam as próprias matérias e técnicas cerâmicas. Têm sido anos de grande labor, pesquisa técnica e algumas contrariedades próprias de quem faz cerâmica com estas características tão peculiares mas, que são também motivo de orgulho para a empresa e em particular para os colaboradores envolvidos. Existem contudo, peças cuja execução é ainda mais difícil porque os moldes se encontram muito deteriorados e também pela sua complexidade, obrigando a um trabalho continuado de vários meses. A vespa é um desses animais – o molde da vespa passou recentemente por essa fase de recuperação e encontra-se na fase da conformação. O outro animal, objecto de recuperação é a lagosta que renascerá com a dimensão de cerca de 1.50m. Os moldes de gesso destes bichos são centenários e têm já uma “longa história para contar”. Desde a criação do modelo, aos animais que produziram, à batalha judicial que Manuel Gustavo Bordalo Pinheiro travou nos tribunais para os reaver, após a morte de seu pai, quando a antiga Fábrica de Faianças das Caldas conheceu novo proprietário. Alguns destes moldes são autênticas obras de engenharia, e sobretudo, memória de saberes colectivos e testemunhos de identidade. Os moldes dos animais, por exemplo, são compostos por um conjunto de partes, algumas de grandes dimensões, estes são ainda constituídos por pequenos tacelos (pequenas partes que possibilitam a saída da peça do interior do molde). Alguns encontram-se degradados porque faltam alguns tacelos e ainda se verificam outras áreas onde os relevos estão muito gastos. Processo Cerâmico Recuperação do Modelo Numa primeira fase, limpa-se o molde antigo, fechando com barro as partes que lhe faltam e que aparecem no bloco de barro completamente lisas. Aqui o modelador terá que intervir mais a fundo modelando as formas e relevos inexistentes. Depois do molde cheio e já com película de barro formada reforça-se com gesso para que possa ser transportada e para que não contraia.

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No fim de desmoldadas e observadas todas as partes do bicho, parte-se para a pesquisa documental para sabermos, por exemplo, quantas patas tem a lagosta, em que posição se colocam as asas da vespa, como são os relevos e texturas do sardão ou do caracol, quantas partes faltam modelar à cabeça de cavalo etc. Embora existam algumas fotos antigas destes bichos e o desenho original de alguns, estes não são muito legíveis e não dão resposta a várias dúvidas. A pesquisa é contínua. Alguns moldes antigos já recuperados têm referências (numeração nos encaixes) gravadas no gesso do molde fornecendo dados sobre a montagem do bicho, e outros não. É chegada altura de reunir todas as partes existentes, retirar as costuras (partes imperfeitas originadas pela junção dos moldes) e recuperar com o auxílio de teques de buxo centímetro por centímetro todos os relevos e texturas dos vários elementos e modelar os que faltam. Este trabalho é muito moroso e somente executado por técnicos especializados. Do molde original à madre É altura de produzir o molde original (1º molde) para cada parte do modelo. Alguns são enormes exigindo grande esforço físico e quantidade de materiais. Tiram-se as primeiras partes, ensaia-se a melhor forma de encher e despejar os moldes com barbotina (pasta de barro diluído em água), rectificam-se alguns para evitar problemas na conformação etc. A partir dos moldes originais parte-se então para o fabrico da madre (a forma mãe) com a qual se pode fabricar outros moldes de gesso quando o original estiver gasto ou fracturado. Cria-se em todos eles uma parede de barro que fica entre o molde e o futuro corpo da madre, preenche-se esse espaço com silicone, por ser um produto que respeita todos os relevos e facilita a desmoldagem. Através destes blocos de gesso, com os vários elementos em silicone, salva-se todo o trabalho de recuperação e o modelo em questão. Os moldes terão que secar na estufa várias semanas para retirar a humidade ao gesso, só assim, farão o efeito de esponja absorvendo o excesso de água do barro quando for cheio de barbotina (barro diluído). Conformação, Montagem e Acabamento Já na mesa de enchimento, estuda-se o melhor processo de vazar a barbotina para o interior dos moldes. Estes ficam cheios durante um período até que no seu interior se forme uma parede com a forma do modelo. Esta pausa é determinada pela dimensão da peça. É vertido o excedente de barbotina do molde para que, no seu interior, o bicho fique oco. Esta etapa pode demorar vários dias até, por fim, separarmos do molde as várias partes da peça. Mais uma pausa… e serão retiradas as costuras (imperfeições deixadas pelos moldes). Fazer a junção de todas as partes do bicho não é fácil, temos que estudar amiúde cada procedimento e por vezes criam-se novas peças de cerâmica para servirem de suporte a estes bichos, ora no seu transporte, ora na cozedura. Forma-se, por fim a peça, riscando o barro nas zonas de junção, cobrindo essa área com lambugem (papa feita com barro e água) depois, unem-se as partes correspondentes pressionando e faz-se o reforço dessas áreas com barro macio. Para apoio das patas do caranguejo, asas e pernas da vespa etc., que ficam em suspenso são necessários paus com 24


esponjas atadas nas extremidades, parecendo autênticas construções com uma espécie de andaimes ao seu redor. Estes apoios acompanham o bicho em quase todo o seu processo de secagem. Secagem e Cozedura Segue-se mais uma pausa, e o bicho vai secar perto do forno, ou mesmo sobre uma vagona (parte móvel do forno onde se constrói a fornada) e aí fica vários meses até poder ser cozido. Durante a secagem a peça vai contraindo, daí a necessidade de um acompanhamento diário, ou ajustando os apoios, ou tapando a tempo com barro pequenas fissuras resultantes da contracção. Para que esta fase não seja fatal é necessário tapar a peça com plásticos para que seque muito lentamente e protege-la de variações de temperatura e correntes de ar. Durante o primeiro mês tem que ser diariamente destapada, “inspeccionada” e novamente coberta, só depois de estar meia seca se pode “deixar ao ar”, sem resguardo. Vão-se retirando a pouco e pouco alguns apoios que já cumpriram a sua função e o bicho fica assim, aproximadamente mais uns três longos meses, dependendo se estamos no Verão ou no Inverno. Por esta altura a fragilidade da peça é extrema e qualquer trepidar é o bastante para que as partes mais finas partam. O bicho é então transportado para o interior do forno com muito cuidado. O ciclo de cozedura destas peças é geralmente muito longo obedecendo a certas regras. A temperatura no interior do forno atinge os 1100ºc, e o barro entrará em fusão, sendo um autêntico teste para a equipa de trabalho. Se durante o processo, até a esta etapa, algum pormenor tiver falhado, quebrar-se-á ao cozer. Esta operação causa sempre ansiedade ao ceramista transformando o forno num palco onde acorrem os espectadores esperando ver o resultado do seu trabalho, qual espectáculo desejado. Mas um bom ceramista aprende a esperar e a respeitar criteriosamente o comportamento da matéria. Pintura e Última Cozedura O bicho está agora no seu estado de chacota (barro cozido) que é a superfície de aplicação ideal para a pintura com os vidrados cerâmicos. Os de dimensões mais arrojadas são transportados por várias pessoas até a uma boa almofada de esponja no atelier de pintura. Aí é analisado minuciosamente, lixam-se algumas imperfeições, preparando-o para receber o vidrado. O pintor vai efectuando a sua pesquisa documental, misturando os pigmentos cerâmicos com as várias bases fusíveis e realizando experiências. Seleccionam-se finalmente as cores mais puras e estes animais são pintados a pincel obedecendo aos critérios e técnicas naturalistas usadas pelo artista. A segunda cozedura tem também uma série de regras, pois estes animais têm que assentar em vários objectos refractários estudados para o efeito, a fim de evitar que a peça fique agarrada ao mobiliário do forno aquando da fusão dos vidrados que a decoram. O ciclo de cozedura é novamente estudado e programado para esta última cozedura. 25


Separar e Destacar Se tudo correr bem, a “metamorfose do bicho”, ou seja, o seu processo cerâmico, conhece por fim, a sua conclusão. Pelo caminho fica a recordação e a experiência de um não mais acabar de técnicas, intenções, gestos e sentimentos. Ao ver todos estes bichos renascidos do esquecimento, fica parte do sabor do heroísmo da cerâmica de Rafael Bordalo Pinheiro, a certeza de contribuir para a consolidação da memória dos Bordalos, e o ideal de futuros diálogos criativos. Elsa Rebelo Técnica de cerâmica da Faianças de Rafael Bordalo Pinheiro

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Bordalo com Alma ANTÓNIO CAMPOS LEAL Fotografia

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Catรกlogo

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Etapas do processo de produção

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SARDÃO GIGANTE Faiança com pintura policromada, com sobreposição de vidrados – pintura naturalista


CARACOL GIGANTE | COBRA Faiança com pintura policromada, com sobreposição de vidrados – pintura naturalista

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Molde

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CAVALO Faiança, pintura acrílica


Molde

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TOURO Faiança, pintura acrílica


GOLFINHO Faiança com pintura policromada, com sobreposição de vidrados – pintura naturalista

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desenho: estudos de Rafael Bordalo Pinheiro

CAVALO MARINHO Faiança com pintura policromada, com sobreposição de vidrados – pintura naturalista

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COGUMELO Faiança com pintura policromada, com sobreposição de vidrados – pintura naturalista

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LOBO E GROU Faiança com pintura policromada – pintura naturalista


RÃ GRANDE DEITADA Faiança policromada

AZULEJO COM RÃ Fainça policromada Molde de gesso, azulejo com rã

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RÃ GRANDE SOBRE FOLHA DE NENÚFAR Faiança policromada

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GATO ASSANHADO Faianรงa revestida a vidrado

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MACACO Faianรงa revestida a vidrado


ZÉ “TOMA” NA BARRICA / ZÉ POVINHO Faiança vidrada policromada, rostos com tinta a frio TINTEIRO ZÉ POVINHO E MARIA DA PACIÊNCIA Faiança vidrada policromada, rostos com tinta a frio CAIXA ZÉ POVINHO Faiança vidrada policromada

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FIGURAS DE MOVIMENTO Faiança vidrada policromada, rostos com tinta a frio Polícia Civil

Sacristão

Ama das Caldas

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Padre

O Janota

A Elegante

Zé Povinho

Maria da Paciência


ESCARRADOR. RÃ BIZANTINA ESCARRADOR. GATO BIZANTINO Pintura em policromia

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BULES / MORINGUE Faiança vidrada policromada Cabeça de Velha com trança

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Moringue, Cabeça de Chinês

Chinês

Cabeça de Janota


JARRA BALAÚSTRE COM FLOR DE MACIEIRA Faiança ornamentada, policromada, com técnica do lambujado JARRA AMACHUCADA COM ROSA Faiança ornamentada policromada, com técnica do areado JARRA BALÃO COM GINJAS Faiança ornamentada, policromada

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TUBO CARACテ的S Faianテァa policromada

TUBO TREVO COM SARDANISCA Faianテァa policromada


JARRテグ RAMO DE CASTANHEIRO Faianテァa ornamentada policromada, com tテゥcnica do musgado

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FOLHAS DE RÍCINO DE GRANDES DIMENSÕES, NERVURADAS E RECORTADAS Faiança policromada


JARRテグ COM GIRASSテ的S Faianテァa ornamentada, policromada Desenho: estudo de Rafael Bordalo Pinheiro

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PRATO CAÇA | GIRASSÓIS Faiança vidrada policromada e ornamentada


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ANDORINHAS Faiança policromada PRATO COM ANDORINHAS E NINHO Faiança policromada, com técnica do lambujado

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CARANGUEJO Faiança com pintura policromada, com sobreposição de vidrados – pintura naturalista

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MEDALHÃO COM FRUTOS Faiança policromada e ornamentada - pintura naturalista FICHA TÉCNICA Exposição - Comissariado: Ana Calçada e Elsa Rebelo Catálogo - Textos: Telmo Henrique Correia Daniel Faria, Ana Maria Calçada, Elsa Rebelo, Isabel Castanheira, Isabel Xavier, Joaquim B. Serra e Rodrigo de Freitas | Fotografia: António Campos Leal e Edgar Libório | Design Gráfico: Susana Santos | Impressão: Printmor Impressores, lda. | Tiragem: 1000 exemplares | Novembro 2008 | Edição: Óbidos Patrimonium, EM | Organização: Câmara Municipal de Óbidos, Faianças Artísticas Bordalo Pinheiro, Lda., Óbidos Patrimonium. EM. Agradecimento a António Campos Leal, Isabel Castanheira, Isabel Xavier, Joaquim B. Serra, Rodrigo de Freitas e a todos os colaboradores da Câmara Municipal de Óbidos, Faianças Artísticas Bordalo Pinheiro, Lda. e Óbidos Patrimonium, EM que estiveram envolvidos neste projecto.

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