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ABI

SE EXPLICANDO EXPLICANDO-SE

A Associação Brasileira de Imprensa, fundada em 7 de abril de 1908, é considerada organização de utilidade pública, nos termos dos decretos 3297,de11/07/1917,daUnião,e1897,de10/11/1917, do Distrito Federal. Funciona em sede própria, no Edifício Herbert Moses, prédio tombado em 29/05/1984 pelo Instituto do Patrimônio Histórico Nacional, na rua Araújo Porto Alegre, 71(Castelo), Rio de Janeiro (RJ) - CEP 20030-010, telefone (021) 282-1292 e fax (021) 262-3893. Inscrição no CGC 34.058.917/0001-69. Internet: www.abi.org.br E-mail: diretoria@abi.org.br Mesa do conselho administrativo: presidente, Fernando Segismundo;1º secretário, Arthur Ferreira de Souza Filho; 2ª secretária, Maria Lúcia Amaral. Diretoria: presidente, Barbosa Lima Sobrinho, 1º vice-presidente, José Chamilete; 2º vice-presidente, José Gomes Talarico; secretário Cícero Sandroni; 1ª subsecretária, Ana Arruda Callado ; 2º subsecretário, Paulo Motta Lima; tesoureiro, José Teixeira Peroba; subtesoureiro, Alcino Soeiro; diretor da biblioteca, Oliveiros Litrento; diretor da sede, Henrique Miranda; diretor de atividades culturais,Ary Vasconcelos. Representante em São Paulo: José Marques de Melo tel: (011) 883-6591. Representante em Brasília: Carlos Chagas - tel: (061)248-0604.

EDIÇÃO ESPECIAL DE ANIVERSÁRIO 1999 Concepção e coordenação geral de projeto, André Motta Lima (Departamento de Intecâmbio e Divulgação da ABI); diretor responsável, Barbosa Lima Sobrinho; editor, André Motta Lima ; produtor, Anísio Félix; assistente de produção, Pedro Motta Lima; revisora, Adriana Matos Andrade Pires; programação visual e editoração, Cecília Castro; apoio administrativo,Queli Cristina, Tharcisio Pires e Janderson Jetto; estagiários (Convênio ABI-Universidade), Denise Rugani Töpke (relações públicas-UERJ) e Maria Cristina Martins (jornalismo-UFRJ); colaboradores, Ana Lúcia Borges e Rafael Porto; comercialização, Vilarde Comunicações - tel: (021) 567-0874 e-mail: vilarde@uol.com.br e Casa do Vídeo tel: (021) 262-3011 / 282-1292 r:217 - e-mail: casadovideo@mandic.com.br Crédito de fotos: como a maior parte das fotos nos foram enviadas sem autoria explicitada, temos apenas as de Leonardo Aversa, para Luiz Carlos Cascon e Luiz Garcia; Guga Melgar, para Bemvindo Sequeira; Marco Terranova, para Claudio Bojunga, e Marcos Zamenhof, para Ricardo Freitas. Esta edição especial comemorativa do aniversário da ABI é enviada gratuitamente, em mala direta, a todos os sócios da ABI e a deputados, senadores, ministros de estado e à Presidência da República. Também é enviado a escolas e professores de comunicação social, a bibliotecas, a sindicatos e associações de jornalistas, a assessorias de imprensa, a embaixadas brasileiras e a órgãos de imprensa em geral. Tiragem desta edição especial: 10.000 exemplares. Fotolitos e impressão: Imprensa Oficial do Estado do Rio de Janeiro - Rua Marquês de Olinda, 29 - Niterói. CEP 24.030170. Tel: (021) 620-1122.

Ficou a idéia para 1999 - um ano de tantos noves e novidades no mercado de comunicação, às vésperas do novo milênio. Para marcar a entrada da instituição na Internet, ampliamos as fronteiras dos convites a novatos e veteranos, restringindo a opinião da Casa do Jornalista aos presidentes da Diretoria e Conselho Administrativo.

Explica-se, pela norma culta, ou se explica, no popular, das mais variadas maneiras esse jogo de palavras e ideologia, num momento de “choque semântico” (como diz Eli Diniz), onde privilegiados de sempre - os donos da riqueza - transformamse em apologistas de uma reforma que caracteriza como privilegiados de momento os desprivilegiados funcionários públicos ou os trabalhadores organizados.

JORNAL DA ABI

sobre a edição do ano passado, comemorativa dos 90 anos da ABI, elaboramos - Ana Arruda Callado, José Augusto Ribeiro e eu - nove questões para confrontar, num vídeo, novatos e veteranos profissionais.

A busca da comunicação eficaz muitas vezes leva veículos e jornalistas a abandonar regras e normas, gerando novos conceitos, não necessariamente corretos, mas capazes de adquirir solidez e até substituírem os valores anteriores.

Queríamos provar como anda o exercício da comunicação a partir de nove questões, deixando a checagem do resultado final como contribuição para uma discussão nos locais de trabalho e de estudo. Afinal de contas, a prova dos noves existe para conferir resultados e apontar falhas. E, quem sabe, ajude também a explicar algumas questões bem mais difíceis de mensurar.

Como diz um dos colaboradores desta quinta edição especial - e, desde logo, fica o agradecimento a todos - nesta época em que informação passa a ser chamada de produto, tudo pode acontecer, desde jornais mal escritos a deslizes éticos e falhas no processo de produção da notícia. Sem falar no abandono da função social do jornalista.

André Motta Lima

Com a preocupação no futuro, durante um almoço de discussão

Departamento de Intercâmbio e Divulgação Associação Brasileira de Imprensa

OS JORNALISTAS DE SÃO PAULO, BRASÍLIA, BELO HORIZONTE, RECIFE E PORTO ALEGRE RECEBEM A EDIÇÃO ESPECIAL DO JORNAL DA ABI COM O APOIO OPERACIONAL DA VARIG.

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ELEITA PELA QUINTA VEZ CONSECUTIVA A MELHOR TRANSPORTADORA DE CARGA AÉREA DO BRASIL.

Jornal da ABI


“O QUE HÁ DE MELHOR NA PROFISSÃO É PERMITIR A SINCERIDADE” Barbosa Lima Sobrinho 1

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Você acredita em notícia de jornal?

Temos sempre que fazer um balanço nas notícias que recebemos, porque depende das tradições de cada veículo. Existem alguns que merecem uma confiança total, mas outros merecem uma confiança relativa. A gente tem que examinar a fonte em que ele se baseou para acreditar ou não na notícia que está recebendo. O critério adequado é estudar a tradição do veículo e o interesse do jornalista, porque o interesse está sempre presente também. Por isso, deve-se sempre considerar a atitude do jornalista.

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Eu sou favorável à divulgação da vida privada das pessoas públicas. Naturalmente os leitores julgarão de acordo com seu critério pessoal. Podem se impressionar e podem achar que há excesso. Eu acho que o leitor é a autoridade suprema da atividade dos veículos jornalísticos.

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O que há de melhor na profissão é permitir a sinceridade, o que nem sempre acontece, porque às vezes o jornalista pode informar até contra seu próprio interesse. O que eu admiro é quando o jornalista pode realmente informar de acordo com as suas idéias, com o seu sentimento e seu ponto de vista. Eu tive que recorrer aos artigos assinados, porque neles eu expresso sempre a minha opinião, não a opinião do jornal. A opinião do jornal ficava nos artigos editoriais. A minha opinião pessoal, eu fiz sempre questão de manifestar nos artigos assinados. Foi por isso que os iniciei em 1927 e os mantenho até hoje. Só interrompi numa fase em que fui anticandidato à presidência da República, como vice de Ulisses Guimarães, porque nessa fase o próprio Jornal do Brasil achou que, de certa maneira, eu me tornava suspeito como candidato à vice presidência da República.

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Mas eu acho que a lei de imprensa visa sempre a coibir, dividir e enfraquecer o veículo de comunicação. Não há lei de imprensa que não tenha na sua intenção a idéia de dificultar a função do jornalista. Essa é posição que sempre defendi. É só consultar o que escrevi no livro “O problema da imprensa”, que saiu pela primeira vez em 1923.

Os cursos melhoraram aqualidadedojornalismo?

Eu acho que os cursos melhoraram a qualidade do jornalismo, não tenho dúvida. Você nota sempre um progresso na formação jornalística ao comparar a atividade de hoje com a atividade antiga. Por sinal, nós, na Associação Brasileira de Imprensa, sempre defendemos os cursos de jornalismo. Inclusive, a primeira vez que se falou em cursos de jornalismo foi num congresso promovido pela entidade, em 1918.

Assessor de imprensa é jornalistaoumarqueteiro?

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Todos os crimes possíveis de serem cometidos com o uso da imprensa estão previstos no Código Penal e podem ter remédio legal. No livro de 1923 cheguei a defender a instalação de júri popular para julgamento de crimes cometidos contra o cidadão, com o uso do veículo de imprensa, porque não há ninguém melhor que a própria opinião pública para julgar ofensas que, de certa forma, foram expostas ao julgamento público a partir da divulgação feita pelo veículo.

O que determina que um fato vire notícia?

O que determina que um fato se transforme em notícia é a existência de um interesse público, porque se não há o interesse público o jornalista comete uma infidelidade.

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O direito de resposta justifica uma lei de imprensa?

Sou favorável ao direito de resposta, naturalmente dentro de determinados termos. Se é para restabelecer a verdade dos fatos e não para ofender o agressor, eu sou inteiramente favorável. Eu mesmo praticamente iniciei minha carreira ao utilizar as páginas de jornal para escrever artigos em defesa de meu tio Barbosa Lima, que havia sido injustamente atacado em artigos da imprensa do Recife.

A prática do jornalismo é sempre igual ou depende do veículo?

O jornalista depende sempre de onde ele exerce a função. Se, de certa maneira, ele defende o interesse da empresa jornalística, está muito bem. Mas se defende o interesse de quem o constituiu, aí ele está a serviço de um partido ou de uma pessoa e deixa de ser jornalista. É o caso do assessor de imprensa, se ele procura defender o interesse da instituição que representa.

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Microfone escondido é ético?

Acho muito complicado o uso de câmeras ou microfones escondidos. Acho que é excesso, porque eu fiz muita entrevista no começo da minha vida de jornalista e me baseava apenas na minha memória, não precisava de auxílio de nenhum instrumento. Se o entrevistado sabe que está sendo registrado, é uma coisa; se ele ignora, de certa maneira, isso é uma perfídia.

Cada veículo defende o interesse do seu próprio público. Mas não se pode imaginar veículos agindo em nome só do interesse público, todos eles agem em nome do interesse particular das suas empresas. Temos que admitir isso, dar o desconto natural a tudo isso e acreditar naquilo que, no nosso entender, representa realmente a verdade.

O que a profissão tem lhe dado de bom?

PROVA DOS NOVES

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Figuras públicas têm direito à privacidade


Houve época em que um "Cid Moreira disse..." ou um "deu no jornal..." eram suficientes para conferir veracidade aos fatos. Acreditar ou não nas notícias difundidas é dilema que ainda hoje divide

os próprios profissionais. Mas se, felizmente, a visão crítica aumenta na sociedade, ainda resta a lamentável constatação da crescente perda de credibilidade na missão de informar.

NOTÍCIAS? NO MÍNIMO DESCONFIEM SEMPRE primeiro detectou o fenômeno foi mestre Alberto Dines, que completou o raciocínio com outra preciosidade: já repararam, também, que todo empresário bem sucedido de múltiplas atividades acaba comprando um jornal, uma estação de rádio ou de televisão? Sendo assim, enquanto a notícia continuar constituindo valor de troca ou mercadoria negociada nos refrigerados gabinetes dos patrões, ainda mais quando substituídos pelos seus pimpolhos folgazões, como acreditar nelas? É essa realidade, ironicamente conhecida de todos por força do próprio avanço tecnológico da imprensa, que acabou levando a sociedade a raciocinar como nós: notícias? No mínimo desconfiem. Estão bombardeando a Iugoslávia por motivos humanitários? Mas como acreditar se nas telinhas de televisão aparecem civis estraçalhados, igrejas destruídas e hospitais e escolas nos escombros? Motivos humanitários talvez para os fabricantes de bombas. Por certo que não se trata das notícias óbvias: “choveu ontem”, publica o jornal, e não haverá porque duvidar, especialmente quando ficamos molhados ou ilhados em via pública. Já no “choverá amanhã”, é melhor não acreditar piamente, porque o proprietário do jornal pode muito bem ter adquirido uma fábrica de guardachuvas ou importado vasto lote de capas impermeáveis...

Carlos Chagas

"Há prova da queda de credibilidade da imprensa, sem esquecer o governo e os políticos. Disputam, esses três segmentos sociais, o troféu Pinóquio"

Quem acredita em notícia de jornal? Até algum tempo atrás, todo mundo. Menos, é claro, os jornalistas. Porque conhecendo, como conhecemos, os bastidores de nossa imprensa, o mínimo a fazer será desconfiar da informação que nós mesmos publicamos e divulgamos. Trata-se de prática salutar, pois em nosso universo de trabalho inexistem verdades absolutas e, muito menos, teorias prontas e arrumadas, com respostas para todas as perguntas. Se um governante proclama o início de campanha nacional contra o desemprego, reportaremos, mas já prevendo que mais postos de trabalho serão extintos. Em paralelo, se outro anuncia que a moeda não será des-valorizada, escreveremos, mas certos de que no dia seguinte o dólar estará valendo um pouquinho mais. Este banqueiro jura estar inocente de acusações de manipulação especulativa? É por isso que jamais faríamos parte do grupo de seus investidores, ainda que nossos salários permitissem comprar ações. Aquele alto funcionário público nega relações incestuosas entre o seu cargo e um ex-sócio de atividades privadas? Melhor será prestar atenção às remessas de recursos para o exterior feitas pela financeira que ambos dirigiam no passado. A diretoria de um determinado clube de futebol assegura estar o seu técnico prestigiado? Importa começar a procurar quem será o próximo treinador. Nesses tempos bicudos, em que a globalização deixou de ser um fato para se tornar uma ideologia, quando a gente flagra a mídia quase inteira tecendo loas e entoando evoés e alvíssaras ao modelo econômico responsável pela redenção financeira de

muitos jornais e jornalistas, mesmo assim, é bom saber que até eles desconfiam. O problema está em que, se até pouco verificava-se na opinião pública razoável surto de credibilidade diante do noticiário da imprensa, fosse ela escrita ou eletrônica, de uns tempos para cá a situação mudou. A globalização tem dessas coisas: aperfeiçoou materialmente a mídia, permitindo que o cidadão comum tenha acesso a uma infinidade de veículos, muitos até on-line, a pior praga para os nossos especuladores, não os financeiros, mas os jornalísticos mesmo. Chegou a tal ponto a comprovação da sucessão de contradições entre os fatos e as versões que o José da Silva começou a compartir e a questionar. Afinal, essa prática não é privilégio de jornalistas. Dizem que as pesquisas não falham, apesar de também duvidarmos delas. E como duvidamos, sabendo como são feitas, sempre encomendadas por um cliente, ou

seja, pelo seu dinheiro. Mas são as pesquisas que revelam permanente queda na credibilidade da imprensa, sem esquecer o governo e os políticos. Disputam esses três segmentos sociais o troféu Pinóquio. E assim continuará, fora as exceções de sempre, enquanto as empresas jornalísticas continuarem empresas comerciais e, especialmente, familiares. Antes que o leitor proteste, é bom precaver o outro lado: ficam ainda piores as empresas jornalísticas que pertencem ao poder público, ao estado, aos governos, aos partidos políticos ou grupos de qualquer espécie, religiosos ou corporativos. Como estamos num mundo capitalista globalizado, cada vez mais exposto, para má sorte dos globalizantes, vale ficar com as nossas mazelas, não as dos outros. Já repararam como qualquer dono de jornal bem sucedido torna-se logo empresário bem sucedido de outras atividades? Quem

Carlos Chagas, jornalista há 40 anos, é representante da ABI em Brasília, tem 40 anos de profissão, na maior parte do tempo como repórter e comentarista político, e dá aulas de jornalismo na UNB.

SABEMOS COMO É DIFÍCIL DIZER A VERDADE publicamos o primeiro artigo que o Carlos tinha escrito no jornal, no distante ano de 1949. Pois não é que, para nossa surpresa, o censor passou a caneta em mais da metade do que Lacerda tinha escrito? Hoje não existe mais censura, mas a busca da verdade continua muito complicada. Os meios de comunicação se tornaram grandes negócios em que os interesses dos acionistas, na maioria das vezes, falam muito mais alto do que qualquer compromisso com a verdade ou com os leitores que se possa ter. Além disso, a democracia e a transparência parecem não ter chegado ainda aos nossos governantes, que tratam a imprensa sempre como um inimigo

Helio Fernandes Filho Quem conviveu com a censura sabe como é difícil dizer a verdade. Nos anos negros da ditadura militar, muitas vezes era impossível chegar, ao menos, perto dela. Não que não tentássemos, mas as garras da censura eram tão fortes que, na maioria das vezes, o jornal saía com enormes espaços em branco, dilacerado pelos censores boçais. Enumerar casos de barbaridades da censura seria enfadonho e repetitivo, mas um é interessante contar. No dia em que morreu Carlos Lacerda, fundador da Tribuna da Imprensa, resolvemos fazer uma edição especial dedicada a ele e, como homenagem, ○

PROVA DOS NOVES

"E o que dizer das afirmações plantadas pelas autoridades e que os jornais reproduzem no dia seguinte. Verificam-se ser a mais deslavada mentira" ○

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potencial, do qual deve ser escondida toda a verdade, quando o compromisso deveria ser o inverso. Os recentes escândalos financeiros dão uma boa medida disso, pois, apesar da vigilância de todo sistema ser responsabilidade do governo e caber - pelo menos em tese - a ele divulgar as informações, tudo foi feito sem a colaboração deste. Nada do que foi

levantado - venda de informações privilegiadas, lucros excessivos de bancos, razões da troca de comando tão rápida no Banco Central - teve a colaboração de quem deveria dar as explicações sobre esses assuntos. E o que dizer das afirmações plantadas pelas autoridades e que os jornais reproduzem no dia seguinte. Verificam-se ser a mais deslavada mentira, como foi o

caso da desvalorização do Real, que até a véspera era desmentida veementemente. Por essas razões, é difícil acreditar em tudo que se lê na imprensa. Não que ela minta, mas as dificuldades para se apurar a verdade são tão grandes que, às vezes, nos dá nostalgia do tempo da censura, quando recebíamos aviso do Departamento de Censura da Polícia

Federal comunicando: é proibido divulgar que o jornalista Vladimir Herzog morreu sob tortura no QG do II Exército. E nós nem sabíamos ainda que Vlado estava preso. Helio Fernandes Filho, 27 anos de profissão, é o editor responsável do jornal Tribuna da Imprensa.

O PIOR DE TUDO É QUE TEM QUE ACREDITAR Nilson Lage Claro que acredito em jornal. Se não acreditasse, duvidaria até hoje de histórias sobrenaturais, como a clonagem de plantas e bichos, o traque com que terminou o sonho soviético ou a cura da úlcera de estômago por meia dúzia de pílulas de antibiótico. Informação de jornal – incluindo televisão, rádio, Internet, revistas e assemelhados – é hoje produto de primeira necessidade, essencial até mesmo para suprir as outras necessidades. Sem a informação superficial e imediata que o jornalismo proporciona, não se vai longe. Não se arruma emprego, não se tem conversa nem com a namorada, não se sabe sequer se vai chover logo mais. No entanto, não por ser jornalista, mas por ser leitor (e espectador, ouvinte, usuário), aprendi a separar o que é fato do que é versão. Fatos são observáveis e indiscutíveis – deslocamentos, transformações e enunciados; verdade ou mentira. Versão é tudo mais, o que se discute, o que pode ser ou não: quando o jornal diz que alguma coisa “causou” outra, que duas coisas “se parecem”, que uma coisa “significa” ou “simboliza” outra, ponho as barbas de molho. Fatos podem ser inventados – afinal, nenhum navio americano foi atacado por cruzadores chineses no Golfo de Tonkin, e isso foi alegado para prolongar por dez anos a guerra do Vietnã – mas, geralmente, a falsidade está nas versões. E, em matéria de versões, nada mais ficcional do que um noticiário. No mundo moderno, em que a cultura se transformou em entretenimento e as mensagens dirigem-se à criança que existe em nós, as versões difundidas pelos jornais refletem o espírito de época – são rigorosamente babacas. É assim que se diz que os mocinhos americanos fazem bombardeios humanitários e se dizia há pouco tempo que o presidente Saddam Hussein, com seu exército de Terceiro Mundo, era o Anticristo das profecias de Nostradamus. Até que ponto se pode acusar o jornalismo por isso? Afinal, os autores das versões que povoam o imaginário contemporâneo são profissionais do poder: advogados, militares, políticos, clérigos, assessores ... E foi sempre assim. Muito antes de existir qualquer coisa

"Na ótica dessas versões impositivas, o desemprego é um estímulo à criatividade, o rapaz que namora uma moça de 16 anos comete abuso de menores, é mais importante salvar as baleias do que os africanos..." semelhante a jornal, Cícero conclamou os romanos a penosa empreitada militar para destruir a distante Cartago, competidora dos comerciantes do império nas rotas do Mediterrâneo. E a Igreja medieval convenceu centenas de milhares de camponeses a deixar suas terras, caminhar por meses e anos, para reaver dos árabes o Santo Graal. Só que essas campanhas eram custosas, raras e demoravam anos ou décadas. Os discursos de Cícero tiveram que ser reproduzidos para pequenos auditórios por toda Roma. As conclamações pelas cruzadas foram feitas em púlpitos e conversas durante décadas. Os males do mundo e os azares de cada dia foram atribuídos ao domínio da cidade santa pelos infiéis. E tome boas intenções, imagens heróicas, promessas de redenção e glória ...

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A novidade é que, agora, as ondas são rápidas e estão ao alcance de qualquer entidade com alguns recursos e competência para fabricar a verdade que lhe convenha. Não apenas governos e grandes empresas, mas também organizações supostamente altruístas recebem dinheiro de governos e grandes empresas para convencer as pessoas. Seu objetivo: atrair os idealistas, para que eles não tenham idéias revolucionárias, e emprestar ao mundo sem caráter uma ilusão de dignidade. Os jornalistas reproduzem as versões produzidas em laboratórios oficiais ou oficiosos, às vezes citando, às vezes assumindo o discurso. Sobre eles desaba uma pressão terrível de convencimento, a partir das fontes, dos patrões, da mídia seletiva. Em jogo o salário, a carreira, o espaço, o sucesso, o reconhecimento ... E não há, visível, qualquer divergência. Até mesmo as estruturas concebidas para contrapor-se ao poder – sindicatos, por exemplo – ficam prisioneiras do discurso impositivo. É que ele é dotado de tal força, possui tal apoio na realidade (o desemprego, a crise são reais, fazem parte do cenário) que os sindicalistas que quiserem manter-se em suas posições têm que aceitá-lo e reproduzi-lo. Assim, o retreinamento e a sopa dos pobres ocupam o lugar da luta de classes e vê-se um dirigente como Vicentinho, da CUT, aceitar a absurda imposição ao empregado de comprovar a contribuição para o INSS, num país em que quase metade da força de trabalho é informal e grande número de empresas sonega os recolhimentos da previdência. A principal herança do fascismo, incorporada com incontido entusiasmo pelos regimes neoliberais, foi a concepção de que todo sistema deve ser gerido a partir de uma perspectiva de relações públicas. Alguém já definiu o fascismo como o regime em que não se promovem campanhas de opinião para realizar obras, mas realizam-se obras para alimentar campanhas de opinião. Isso se aplica perfeitamente às democracias modernas. Assim, o Dr. Goebbels é hoje o patrono de estruturas de poder, empenhadas em convencer o mundo de idéias simples e emocionais porque, como dizia Hitler, a multidão é estúpida e feminina (o preconceito contra a mulher, por favor, é dele).

comete abuso de menores, é mais importante salvar as baleias do que os africanos, a aposentadoria aos 65 anos é justa num país em que a duração média da vida é de 64 – em suma, vale qualquer besteira. No caso brasileiro, pode-se identificar a ligação íntima e histórica entre a imprensa e o setor comercial de exportação e importação, o que explica o caráter entreguista que a mídia mais poderosa sempre ostentou – um Globo, um Estado de São Paulo, apaixonados e corajosos militantes das causas antinacionais. Podese criticar a orientação recente dessa meia dúzia de organizações, que se encalacraram acreditando nas fantasias que apregoam (como a estabilidade da moeda) e tornando menos confiável sua independência editorial. Mas isso já não é o mais importante. Só no primeiro trimestre deste ano ocorreram, em todo o mundo, 449 gigantescas fusões e aquisições de empresas, movimentando US$ 643 bilhões. Mais da metade deste valor foi de transações entre firmas da área das comunicações: 37 transações no setor de telecomunicações (US$ 171 bilhões), 23 no setor de mídia (US$ 130 bilhões) e 26 fusões e aquisições no segmento da Internet (US$ 37 bilhões). Diante desses números, nossas maiores companhias são empreendimentos modestos. Mais cedo ou mais tarde, quer por força de acordos operacionais ou venda de patrimônio (o impedimento constitucional nada significa, porque a Constituição brasileira muda o quanto e quando os burocratas do FMI determinarem), a grande imprensa brasileira estará multinacionalizada e fugirá aos controles informais que sempre marcaram suas relações com o poder econômico e político. Não é por acaso que a Justiça e o Legislativo produzem sentenças e projetos que tendem a estabelecer mecanismos de censura e controle – ações indenizatórias por danos morais, dispositivo no Código Penal impedindo denúncias ... Não haveria problema se a informação jornalística fosse coisa dispensável, como o uísque ou o pão de queijo. Mas ela se parece mais com a água ou a eletricidade: se ruim, racionada ou disforme, teremos que consumi-la assim mesmo.

Na ótica dessas versões impositivas, o desemprego é um estímulo à criatividade, o rapaz que namora uma moça de 16 anos

Nilson Lage, jornalista há 43 anos, é professor titular de Técnicas de Jornalismo da Univesidade Federal de Santa Catarina.

Jornal da ABI


TEMOS O JORNALISMO QUE MERECEMOS qualidade do nosso jornalismo, que está cada vez menos investigativo e cada vez mais espetaculoso, cada vez mais comprometido e cada vez menos realmente informativo. Os jornais ainda guardam a arrogância do tempo em que, efetivamente, eram guardiães da sociedade. Um tempo em que, pelo menos quando começavam, os jornalistas achavam que estavam dando sua contribuição para a mudança do mundo. Um tempo em que se encontravam velhos mestres incorruptíveis (em todos os sentidos, não apenas no de não aceitar gorjetas). Mas tanto quanto nós, todos já são suspeitos pelo simples fato de estarem nas ruas, terem anúncios de estatais, deverem a bancos e pertencerem a organizações gigantescas, que participam de concorrências, possuem monopólios e, de uma forma ou de outra, podem se inviabilizar se um burocrata tiver um ataque de antipatia por suas posições. O Brasil tem o Congresso que escolheu, a polícia, os políticos e a violência que merece. Os jornais são exatamente aqueles que os brasileiros gostam. Em outras palavras: eu não acredito em notícia de jornal. Mas alguém quer mesmo saber a verdade?

imprecisa, descuidada. Muitas vezes até irresponsável. Mas a culpa não é exclusivamente dos jornais. A culpa é do leitor, que cada vez menos se preocupa em saber de verdade o que está acontecendo à sua volta, que não usa a informação como um instrumento de exercício de cidadania. A culpa é de todos nós que, anestesiados pelo excesso de violência, corrupção, tristeza e dor deste mundo, exigimos que as notícias sejam cada vez mais grandiloqüentes para vencer nossa indiferença. A pequena corrupção não nos causa a menor indignação. A violência do dia-a-dia não nos traz mais nenhuma revolta. Então, os estupros precisam ser épicos, as corrupções ciclópicas e os massacres monumentais para sairmos de nossas vidinhas e nos inteirarmos de uma notícia. E os jornais se sentem obrigados a, se não inventar, adaptar a realidade aos nossos desejos de sangue, suor e lágrimas.

Lula Vieira Grande pergunta! Você acredita em notícia de jornal? Claro que não! Evidentemente não. O primeiro ponto é que os jornais ultimamente descobriram não sei onde que são prestadores de serviços. Disputam o mercado com listas telefônicas, catálogos, revistas e deixaram de depender somente da saudável relação leitor-jornal, onde um entrava com a fidelidade e o dinheiro e o outro com notícias quentes, verdadeiras, apuradas. Hoje, desde a burocrática captação da notícia, geralmente feita por jovens despreparados, desmotivados, muitas vezes através de telefone, até a busca desesperada do lado espetáculo da notícia, tudo leva à informação falha,

" A pequena corrupção não nos causa a menor indignação. A violência do dia-a-dia não nos traz mais nenhuma revolta. Então, os estupros precisam ser épicos, as corrupções ciclópicas e os massacres monumentais para sairmos de nossas vidinhas e nos inteirarmos de uma notícia"

É bem verdade que o mundo também está cada vez mais inacreditável O que se descobre nos desvãos de nossa sociedade é de lascar. O que há de calhordice em quase todos os poderes, o que os quepes, togas e smokings escondem de escrotidão não está nem nos gibis nem inteiramente nos jornais. Tudo isso desculpa um pouco. Mas não justifica a falta de

Lula Vieira, publicitário, diretor de criação da agência V&S , é professor da Escola Superior de Propaganda e Marketing.

HÁ, PELO MENOS, A VERDADE DE QUEM FEZ Tal característica, entretanto, não implica uma falsificação ou distanciamento da realidade. Trata-se, apenas, de constatar que escrever consiste em um gesto humano e, portanto, impregnado dos valores, concepções e idéias do autor, que poderá obter maior ou menor aproximação com a realidade. Mas jamais será a realidade. Afinal, como diz o filósofo Karel Kosik, os fatos não existem. Os fatos são um recorte artificial e, mais ou menos, arbitrário da realidade exercitado pela consciência. Ao caracterizar a “faticidade” do real, o autor não reproduz a realidade, apenas recorta o seu “continuum”.

Daniel Herz

"Todo cidadão deve ter o direito de perceber que entre ele e os fatos jornalísticos está um processo editorial e que este é sujeito a uma série de injunções. Diante de um artigo de jornal, poderemos estar mais próximos ou mais distantes, mas jamais se estará diante da realidade"

Ao ler um artigo de jornal, precisamos reconhecer que sempre encontraremos alguma verdade, mesmo que seja a da máfé de quem o escreveu. O problema, portanto, é aprender a ler qualquer artigo além da sua acepção literal. É necessário desenvolver aptidão para perceber o contexto, para identificar motivações nas entrelinhas e para visualizar formulações implícitas ou subentendidas. Partimos do princípio de que todo processo editorial é intrínseca e inevitavelmente interpretativo. A seleção das unidades informativas, a ordem de apresentação das informações e a angulação da matéria são elementos constitutivos de sentido que transcendem a objetividade dos fatos. Isto é, mesmo que as unidades informativas utilizadas sejam objetivas, a sua seleção e articulação estará inevitavelmente impregnada da subjetividade do redator.

PROVA DOS NOVES

Os fatos, assim encarados, entretanto, constituem a imprescindível matéria-prima dos jornalistas, estes “retalhistas” da realidade que necessitam de muito esforço e talento para estabelecer uma correspondência razoável entre os “retalhos” que produzem e a realidade de onde estes são

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tirados. Os leitores devem perceber que nem sempre isto é conseguido. Outras vezes, isto sequer é tentado, pois o profissional ou o veículo para o qual trabalha, ou os interesses que estes todos representam, podem estar querendo produzir apenas uma imagem desta realidade, uma versão correspondente aos seus próprios interesses.

a realidade a partir das informações jornalísticas. E todos, cada vez mais, são obrigados, em alguma medida, a fazê-lo. Porque o jornalismo, como dizia Adelmo Genro Filho, tem este extraordinário papel de conectar os indivíduos com a realidade e a atualidade, como forma essencial de conhecimento, antecipando aquilo que a arte e a ciência só mais tarde conseguirão fazer.

Assim, entre o sucesso e o fracasso do esforço do profissional de boa-fé e entre o compromisso ético com a cidadania e a má-fé meramente indutora de versões, há um largo espaço para a geração de contradições entre os artigos jornalísticos e a realidade. Quem não perceber isto não está habilitado a pensar

Não estamos aqui sustentando que só um indivíduo com pós-doutorado poderá decifrar, com complexas elocubrações, o sentido produzido por um texto. Estamos ressaltando que, assim como aprender a ler é uma questão imprescindível para a cidadania, aprender a decifrar sentidos é uma

conquista de exercício de cidadania. Isto é, todo cidadão deve ter o direito de perceber que entre ele e os fatos jornalísticos está um processo editorial e que este é sujeito a uma série de injunções. Diante de um artigo de jornal, poderemos estar mais próximos ou mais distantes, mas jamais se estará diante da realidade.

indivíduo poderá até ser um crédulo, mas jamais será um cidadão. Para alcançar esta condição é preciso um processo civilizatório próprio. Um processo no qual os setores organizados da sociedade ajudem a formar cidadãos críticos e intelectualmente autônomos. Pois só estes perceberão que qualquer artigo de jornal carrega uma verdade, mesmo que seja a da má-fé do seu autor. Basta saber ler.

Caso o indivíduo passe da condição de consumidor de informação a um cidadão que se perceba diante de um processo social atravessado por idiossincrasias, então poderá começar a considerar-se um verdadeiro leitor. Sem esta condição de exercício elementar de autonomia intelectual – que deve ser facultada a todo e qualquer cidadão – o

Daniel Herz, jornalista há 23 anos , é diretor da Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ) e Coordenador do Instituto de Estudos e Pesquisas em Comunicação (EPCOM).

POR DENTRO DAS NOVE "Muitos jornais cultivam sensacionalismo só para conseguir vender papel "

Ricardo Noblat Confio nas notícias de jornal porque as escrevo e porque conheço centenas de jornalistas que as escrevem – todos eles movidos pelo propósito sincero e honesto de contar os fatos como os fatos se passaram. Isso não quer dizer que tudo o que os jornais publicam mereça fé. Erramos, sim, e erramos muito por despreparo, pressa e desinformação. Mas erramos muito também porque as fontes que nos abastecem cominformaçõesnosinduzemfreqüentemente ao erro. E não raras vezes de propósito. Nas diversas esferas do poder, tenha a natureza que tiver o poder, manipulam-se cada vez mais as informações. Não é fácil distinguir o joio do trigo. E os jornais estão cheios do primeiro. Só existe um meio de evitar o joio: os jornais se tornarem cada vez menos reféns dos fatos do dia. Os jornalistas, com isso, terão mais tempo para apurar bem e escrever bem.

Jean-Jacques Sevilla Acredito globalmente nas notícias publicadas no Le Monde, jornal que pertence ainda aos jornalistas e para o qual trabalho. Isso não impede erros, manchetes e matérias tendenciosas, que os leitores se encarregam sempre de assinalar, mandando cartas para o ombudsman (chamado no Le Monde de “mediateur” - “mediador”). O próprio enfoque escolhido pelo articulista para tratar de um assunto qualquer comprova, por si só, que a isenção não passa de um conceito utópico. Porém, a despeito dessas limitações, a credibilidade de um profissional depende fundamentalmente de sua honestidade em relatar os acontecimentos. A independência do jornalista em relação tanto aos poderes públicos quanto aos l o b b i e s econômicos‚ uma condição sine qua non da honestidade profissional. Existem, todo mundo sabe, muitos jornais que cultivam o sensacionalismo escancarado para “vender papel” e outros que fazem propaganda a favor do governo por interesses financeiros ou políticos. A imprensa reflete a diversidade do gênero humano.

"Não tenho mais o direito de acreditar: a imprensa virou empresa"

Villas-Bôas Corrêa, jornalista há 51 anos, é repórter político do Jornal do Brasil e da TV Manchete.

"Às vezes meu faro de repórter cheira mentira ou má apuração"

Ricardo Noblat, jornalista há 32 anos, é diretor de redação do jornal Correio Braziliense e o mais novo condômino dos Diários Associados.

Sebastião Nery

"O jornalista busca sempre a verdade, por sobrevivência, brio e vergonha na cara"

Como jornalista, em geral, acredito no que é noticiado. Mas, também como jornalista, por vezes fico desconfiado de uma notícia, meu faro de repórter cheirando mentira ou má apuração. O que está acontecendo é que, devido à pressa com que os jornais vêm sendo preparados, muitas vezes os repórteres não têm tempo necessário para averiguar o fato devidamente.

Se não acreditasse em notícia de jornal, de revista, de rádio e de TV, porque estaria batucando nas teclas das velhas máquinas de escrever ou catando milho com dois dedos no computador por mais de 75 anos?

Agora mesmo, o Governo, através do BNDES, está armando, nas ilhas Cayman (logo lá, onde o diabo tem suas contas), uma filial financeira que vai assumir 22,5 bilhões de dívidas externas, em dólar, de 90 grupos empresariais, uns estrangeiros, outros nacionais, inclusive mais de 30 bancos. Quem encabeça a lista? As organizações Globo, com 1,2 bilhão de dólares. E a Editora Abril, com mais de 400 milhões. E o Estado de S. Paulo, com mais de 350 milhões. E outros. Como essa gente vai dar notícia confiável?

Mário de Moraes

Villas-Bôas Corrêa

Jean-Jacques Sevilla, jornalista com 20 anos de profissão, é correspondente no Brasil, há 15 anos, dos jornais franceses Libération e Le Monde.

Mario de Moraes, primeiro Prêmio Esso de Reportagem no Brasil, em 1955, é jornalista desde os 16 anos e continua, ainda hoje, aos 74 anos, fazendo reportagens e entrevistas para jornais e revistas.

Cuidados, ressalvas, o olho vivo para identificar o engano do repórter na apuração ajudam a peneirar o joio e aproveitar o trigo. Nos casos de má fé evidente, a saída é memorizar o nome que assina a empulhação e atirá-lo no lixo do desprezo. Em princípio, o jornalista busca a verdade, que é a única imposição ética que jamais pode ser posta de lado. Uma questão de sobrevivência, de honestidade, de brio profissional, de vergonha na cara.

" As fontes nos induzem freqüentemente – e de propósito – ao erro"

8 ○

Sebastião Nery, jornalista há 47 anos, faz colunismo político para jornais de 16 estados brasileiros.

Jornal da ABI


e na França, por exemplo), mostram-nos que os leitores reais e potenciais se mostram cada vez mais céticos sobre a exatidão dos relatos jornalísticos. Esse acréscimo de ceticismo tem um lado negativo, quando é observado na ó t i c a d o enraizamento da imprensa na sociedade, mas possui aspectos positivos na perspectiva da cidadania. Se o ceticismo não afastar os leitores da imprensa, pode ser um bom princípio.

"Com raras exceções - e elas existem - ninguém inventa uma notícia"

"Pelo menos 90% do publicado é verdade" Luiz Carlos Cascon

"Não acredito é nos critérios de escolha. Basta ver o exemplo dos EUA na Iugoslávia"

Carlos Magno Araújo Mesmo com os avanços tecnológicos, que ampliaram os canais de informação, como as televisões por assinatura e a Internet, entre outros, penso que ainda é no jornal impresso que o público que procura notícias consegue encontrá-las melhor apuradas, melhor investigadas e melhor abordadas. Acredito que os jornais devem investir no seu papel de ser mais abrangente que os noticiários de TV e rádio.

Vladimir Reznichenko

"Trabalhamos, na maioria das vezes, apenas com meias verdades"

Geralmente, acredito nas notícias como tais, mas não acredito nos critérios utilizados na escolha das notícias para serem divulgadas. O exemplo mais recente e mais triste é a descarada guerra psicológica desencadeada pelos Estados Unidos em torno de acontecimentos na Iugoslávia. Os agressores, auto programados novos donos do nosso planeta, fornecem ao público leitor e espectador a informação tergiversada e parcial do que acontece na Iugoslávia. E muitos meios de comunicação internacionais seguem obedientemente essa política. Eu, que sempre me empenhei na defesa dos chamados “valores cristãos e ocidentais”, sinto-me agora confundido e desiludido. Será o futuro mundo unipolar, o mundo da informação unilateral, manipulada pelo Tio Sam? É isso que se denomina como “globalização”?

Sou um leitor crítico da imprensa. Contudo, a dúvida metódica não é sinônimo de desconfiança sistemática. Os estudos sobre a credibilidade de imprensa, nos países onde são efetuados (nos Estados Unidos ○

"Ainda é no jornal impresso que o público que procura notícias consegue encontrá-las"

Carla Baptista, jornalista há sete anos nos jornais portugueses Diário de Notícias e 24 Horas, trabalha atualmente como free-lancer.

Mário Mesquita

"Ninguém deve ler jornal de uma maneira acrítica ou crédula" Depende do jornal e depende da notícia. Sempre que o assunto é mais complexo ou vem eivado de opiniões, mantenho sempre uma certa reserva e espírito crítico. Mas eu acho que os jornais, além de informar, também servem para interpelar e, portanto, não devem suscitar uma leitura acrítica e crédula.

"Em todo o mundo os leitores se mostram cada vez mais céticos"

Daniel Barbará, publicitário, é diretor comercial da agência DPZ, presidente do Grupo de Mídia de São Paulo e conselheiro do Instituto Verificador de Circulação - IVC.

Carla Baptista

Tarcísio Holanda, jornalista há 47 anos, foi repórter e redator no Rio de Janeiro até se transferir, em 1975, para Brasília, onde passou a trabalhar na cobertura política, especialmente como comentarista político da TVE-RJ. Atualmente faz entrevistas na TV Câmara.

Se eu não acreditasse não faria muita diferença, pois apenas para utilizar o exemplo de Rio de Janeiro e São Paulo, dos estudos do Marplan (já no seu 40º ano) e do Instituto Verificador de Circulação – IVC, instituto da maior credibilidade, que audita a circulação dos principais jornais do Brasil por mais de 38 anos, temos que no Rio de Janeiro a média em dias úteis é de 93 exemplares de jornais por mil habitantes e em São Paulo 43 por mil. Aos domingos esses números sobem para respectivamente 158 e 54. Isso quer dizer que é o jornal um produto de grande credibilidade e aceitação pela população, o que me faz acreditar, e muito, na sua eficácia como meio de comunicação.

Luiz Carlos Cascon, jornalista há 25 anos, é subchefe de reportagem e líder da equipe de polícia e justiça da editoria Rio do jornal O Globo.

Tarcísio Holanda

PROVA DOS NOVES

Daniel Barbará

Acredito que pelo menos 90% do que um jornal ou revista publica é verdade. Pode haver um fato ou outro oculto na notícia, por falha na apuração ou por algum interesse que esteja em jogo. O conflito nos Bálcãs pode ser citado como exemplo. Que há uma guerra absurda naquela região, que está morrendo gente inocente, ninguém pode negar. O drama do conflito está nas páginas. Mas tenho certeza de que parte do que acontece por lá não chega ao nosso conhecimento – por dificuldade de apuração e por interesses políticos e econômicos.

Mário Mesquita, jornalista há 28 anos, ajudou a criar o primeiro curso de jornalismo em Portugal e foi também o primeiro ombudsman de imprensa no país. Foi diretor do Diário de Notícias e do Diário de Lisboa e, atualmente, é colunista semanal do diário O Público, de Lisboa

Sou um homem temente a Deus, mas, não tenho tanta boa fé em relação à notícia de jornal. Como qualquer veterano jornalista, sempre que leio uma notícia, um comentário, uma análise, enfim, sempre que me deparo com uma afirmação, recorro à minha experiência e procuro usar o bom senso para saber se aquilo tem procedência. Nada do que sai em jornal é verdade ou inverdade, em termos absolutos. Até porque, com raras exceções – e há algumas histórias famosas no jornalismo político, por exemplo – ninguém inventa uma notícia. No Rio, um repórter político publicou toda uma entrevista do marechal Odilio Dennys, que não fora concedida; em Brasília, um repórter político publicou uma entrevista, toda ela inventada, com o ex-ministro do Planejamento do Governo Figueiredo, o saudoso economista Mário Henrique Simonsen. Todos que fazem jornal sabem que participam de um milagre, que se repete a cada 24 horas. É natural, é humano, que ocorram erros. Qualquer leitor instruído deve exercer esse senso crítico quando lê jornal. É evidente que a maior parte do que sai publicado é verdade - ou quase toda a verdade.

"O jornal é um produto de grande credibilidade e aceitação pela população"

Juan Gargurevich Acredito parcialmente. Nós, jornalistas, sabemos que trabalhamos, na maioria das vezes, apenas com meias verdades, pelo menos nas notícias iniciais, aquelas sem muita investigação. Pela própria profissão, temos que ter uma atitude de desconfiança perante as notícias.

"Toda notícia é apenas um fragmento da realidade, um pedaço de ponto de vista"

Juan Gargurevich, jornalista e historiador da comunicação, com atividades nos principais jornais peruanos, inclusive no mítico jornal alternativo Marca (uma espécie de Opinião ou Movimento peruano), é o atual coordenador do Curso de Jornalismo da Pontifícia Universidade Católica do Peru.

Vladimir Reznichenko, jornalista e tradutor de Camões e Bocage para a língua russa, é chefe de representação da agência noticiosa Novosti no Brasil. ○

Carlos Magno Araújo, jornalista há 9 anos, é chefe de redação do Diário de Natal/O Poti, de Natal, Rio Grande do Norte.

9 ○

Erick Torrico Villanueva A notícia jornalística é, de alguma maneira, um relato sobre um fato efetivamente ocorrido na realidade. Neste


sentido, ao ter uma referência concreta como base, merece credibilidade. Deve-se ter em conta que toda notícia é sempre uma apresentação parcial de um fragmento da realidade e que, portanto, só oferece um ponto de vista sobre algo maior. De toda forma, na prática do jornalismo, a credibilidade da notícia pode ser questionada em dois casos: quando a informação carece de fonte identificada e verificável e quando as opiniões substituem os fatos em seu conteúdo.

o diretor de uma certa publicação recebe muita publicidade e espaços de notícias para um prêmio que ele ganhou. Mas há algumas informações em que eu nunca acreditarei. Eu cobri o caso de Josef Mengele em São Paulo e ainda não estou convencido de que os ossos do assassino nazista foram achados em Embu. O médico legista que tratou do caso foi o mesmo que investigou a morte de PC Farias e os EUA enviaram representantes que trabalharam no assassinato de Kennedy.

Erick Torrico Villanueva, jornalista h á 16 anos, dirige o mestrado em Comunicação e Desenvolvimento da Universidade Andina Simón Bolívar.

Harold Emert, jornalista americano, com 30 anos de profissão, está há 25 anos no Brasil e trabalha como correspondente dos jornais Daily Express, Express on Sunday e Daily Star.

"Há informações que eu nunca acreditarei que foram verdadeiras"

apura e escreve deixa muito a desejar. Marcelo Auler, jornalista há 26 anos, é repórter do jornal O Dia.

"A princípio acredito, mas sempre é bom examinar muito bem" A princípio, sim. Mas com a indispensável atenção aos detalhes da notícia, no que se refere a texto, dados, fontes, perguntas e respostas.

"Depende sempre do veículo, do tema e do jornalista que assina"

Raimundo Filho, jornalista com 30 anos de profissão, é o editor de primeira página do Diário de Pernambuco.

"A coisa já foi pior. O leitor ficou mais exigente, mais crítico"

Marcelo Auler

Acredito na maioria das notícias que leio nos jornais. Mas já que eu leio pelos menos seis jornais por dia, eu posso cruzar as informações para conferir qualquer assunto que estiver lendo. Eu estou cansado, porém, de sempre ter que conferir se o veículo que noticia o fato não está promovendo a mensagem da sua empresa, e fico freqüentemente aborrecido quando

Saulo Moreira, jornalista há 2 anos, é repórter do Diário de Pernambuco.

Raimundo Filho

"Se não acreditasse não estava nesta profissão, mas leio interpretando"

HaroldEmert

junto ao leitor. Há situações, entretanto, em que é possível perceber um lado falso ou distorcido de uma notícia. A distorção pode ser criada por várias razões: questões políticas, má-fé, interesse, erro de abordagem ou, simplesmente, por um erro do profissional. De qualquer forma, é inegável que atualmente os jornais transmitem bem mais confiança. A coisa já foi pior. O leitor ficou mais exigente, mais crítico. Os veículos, conseqüentemente, se tornaram mais criteriosos.

Claro que acredito em notícia de jornal, afinal se não acreditasse não estaria nessa profissão. Mas entendo que, ao se ler um jornal, seja ele qual for, é preciso interpretar o que ele noticia. Não dá para acreditar piamente no que está escrito, principalmente hoje em dia, quando o nível de quem

Jorge Luis Bernetti Depende de que veículo, de que tema e de que jornalista (se encontro a assinatura). Não existe uma regra geral. A especialização temática, a competência profissional, a orientação ideológica são valores que cruzo para obter uma certeza quanto à veracidade da notícia.

Saulo Moreira Se não acreditasse no que é publicado, não trabalharia num jornal. Os jornais se sustentam na credibilidade que têm

Jorge Luis Bernetti, jornalista durante

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Jornal da ABI


28 anos, passou a se dedicar ao ensino da comunicação e hoje é professor titular de jornalismo na Universidade Nacional de La Plata e na Universidade de Buenos Aires.

versão. É preciso ter em mente que não existe verdade absoluta. E que uma notícia traz implicações em sua construção, ou seja, parte de uma série de premissas para chegar a uma versão do fato. Fábio Grijó, jornalista há 2 anos, é repórter da editoria de esportes do Jornal do Brasil.

"Desde que o veículo preze a credibilidade, aí dá para acreditar"

É claro que acredito nos jornais, desde que estejamos falando daqueles que têm credibilidade, responsabilidade com a notícia, respeito ao leitor. É claro que, mesmo esses jornais, têm formas diferentes de interpretar os fatos, de analisá-los, de discuti-los com os seus leitores. Sem, é claro, distorcê-los ou, digamos, recriá-los à luz dos seus próprios interesses ou de grupos. Credibilidade é a alma do negócio no produto jornal. Eu acredito em notícia de jornal que preza esse requisito mínimo (e até óbvio) do bom jornalismo.

Sandra Ney, jornalista há 25 anos, é chefe de reportagem da TVE-RJ.

Talita Figueiredo

"Aquela máxima 'deu no jornal' não vai ser superada tão cedo"

Cabe ao leitor ter discernimento na hora de avaliar se a linha editorial do jornal influenciou na edição. Talita Figueiredo, com 22 anos, formada em jornalismo pela Faculdade de Comunicação Social da UERJ, em dezembro de 1998, é repórter do jornal O Dia.

"Qualquer notícia de jornal tem sempre que ser lida criticamente"

Laurindo Ferreira

redação quer colocar no jornal.

"O leitor deve sempre avaliar se a linha do jornal influenciou"

Décio Sá Apesar da rapidez da televisão, do rádio e da Internet, percebe-se que os jornais têm procurado aprofundar os temas abordados, dando interpretação e incluindo análises em seu noticiário - aliás essa é a única saída que esses meios têm para fugir daqueles. Aí, acredito eu, está a notícia do jornal. A máxima “deu no jornal” não será superada tão cedo e isso é um ponto que ainda vai fazer a mídia impressa resistir por mais algum tempo. Os maiores jornais do país já estão investindo no jornalismo interpretativo e têm jornalistas especializados em determinados assuntos, apesar de atuarem em outras áreas. Serão eles que darão (ou estão dando) as notícias de jornal.

Eric Brücher Camara

"Às vezes forçam a barra para a notícia ficar como quer a redação"

Em princípio eu acredito nas notícias publicadas. Caso contrário, seria hipocrisia trabalhar em um jornal. No entanto, acredito que qualquer notícia de jornal tenha que ser lida criticamente, já que: 1) notícias costumam ser baseadas em fatos, e fatos podem ser vistos e analisados por vários ângulos; 2) jornalistas e proprietários de meios de comunicação são humanos, com todas as imperfeições que vêm a reboque.

Laurindo Ferreira, jornalista há 8 anos, é chefe-geral de reportagem do Jornal do Commercio, do Recife.

Sandra Ney Geralmente acredito nas notícias que leio nos jornais, mas como tenho vivência de jornalismo, acho que muitas delas são sensacionalistas e em outras forçaram a barra para a notícia corresponder ao que a

Eric Brücher Camara, jornalista há 4 anos, é repórter do jornal O Globo.

Décio Sá, com 5 anos de jornalismo, é editor especial de O Imparcial (MA).

Reportagem: M. Cristina Martins Fotos: Rafael Porto

O POVO FALA

"Toda notícia cuja fonte seja assessoria de imprensa é suspeita"

Você acredita em notícia de jornal?

Marco Aurélio Guimarães (Jangada) Depende da notícia, da fonte e do jornal. Em princípio, toda notícia cuja fonte seja assessoria de imprensa é suspeita, mesmo quando solicitada. Marco Aurélio Guimarães (Jangada), jornalista há 40 anos, é coordenador de redação do Jornal do Commercio do Rio de Janeiro.

Gilberto Barreto Mesquita 33 anos, policial

Dilson Lapa 63 anos, aposentado

“Algumas sim, outras não, porque depende da finalidade da notícia.”

“Sim, porque tem que ter alguma credibilidade, senão o jornal acaba falindo.”

"Notícia é sempre uma versão do fato e a verdade não é absoluta" Fábio Grijó É preciso ter consciência de que notícia de jornal é uma versão de um fato. E isso não significa que um jornal esteja certo ou errado diante de outro jornal. O que há é uma diferença de enfoque, seguindo uma linha de construção dos fatos. Um único fato pode render diferentes interpretações e isso, quase sempre, é notado em diferentes jornais. O importante não é se deve-se acreditar ou não em notícia de jornal, mas sim saber que aquilo é uma ○

PROVA DOS NOVES

Vera Lúcia Araújo de Freitas 40 anos, ajudante de cozinha

Arnaldo Paraíba Marques 49 anos, portuário

“Poucas vezes, porque na maioria das vezes eu acho que eles aumentam a notícia.”

“Algumas, porque algumas são verdadeiras, outras não.”

Paulo Trindade deAlcântara 52 anos, eletricista

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“Acredito, mas não sei nem dizer por que.”


Pelos salários, certamente ninguém escolheu essa profissão. O ofício de informar ganha sempre inúmeras explicações para justificar uma relação muito estreita com a própria maneira de

ser de seus praticantes. Idealismo, vocação social, vontade de mudar o mundo - as formulações mudam, mas permanece o mesmo conteúdo de preocupação com o coletivo, de integração com a realidade que se deve,sempre, retratar.

O MAIOR BENEFÍCIO É PRODUZIR PERGUNTAS esconde-se a resposta. Porque o jornalismo é condicionado pela intermitência e periodicidade das edições ou emissões, a satisfação plena raramente é conseguida. Em compensação, justamente pela interrupção contínua, nossa missão pode ser permanentemente retomada. Isso não é uma dádiva? O recomeçar constante e distendido não é um privilégio? Aprendizado ininterrupto não é bênção? O Jornal da ABI pediu-me uma resposta e eu ofereço interrogações. Este, aliás, o benefício maior do ofício: produzir perguntas.

Alberto Dines

"Se nos consideramos artesãos fica mais fácil entender: o artesão entrega-se ao trabalho qualquer que seja sua importância - pelos ganhos, mas também pelo prazer que este trabalho lhe dá"

Para mim, é mais do que uma profissão. Estado de espírito, paixão, segunda natureza, devoção – as opções são ilimitadas. O jornalismo, no meu entender, transcende ao ofício, mas é como ofício que precisa ser primeiramente encarado. A relação ofício-“oficial” é mais do que uma relação de trabalho porque se processa também no plano superestrutural, das emoções e do espírito. Se nos consideramos artesãos fica mais fácil entender: o artesão entrega-se ao trabalho – qualquer que seja sua importância – pelos ganhos, mas também pelo prazer que este trabalho lhe dá. Esmera-se porque é o esmero, em si, que lhe dá satisfação. Neste intercâmbio

Alberto Dines, 47 anos de profissão, é editor e apresentador do programa de televisão “Observatório da Imprensa” da TVE-RJ.

PATRÕES E EMPREGADOS, VÍTIMAS IMPOTENTES esperanças e frustrações. Uns sonhamos, iludimo-nos, teimamos em perseguir utopias. Outros ignoram o próximo, que esmagam, e triunfam. Morrerão sem a ventura da confraternidade. A mim importou o combate, o recurso aos argumentos para neutralizar a adversidade, a expectativa de vitória sobre tudo que fosse prejudicial à comunidade. Após tantos anos de lutas e malogros, de surpresas e decepções, viajo ao passado, recomponho projetos e derrotas e concluo pela inutilidade dos esforços e ilusões embalados. Atente-se: desprezo o exibicionismo, abomino a autoglorificação, os réquiens enfaram-me e não me arrogo autoridade para tudo condenar, numa explosão de esgotamento ou de pessimismo. Desiludido, mas não exausto ou indiferente. Considere-se o desabafo, a franqueza, e só. Quimera é imaginar que o jornalismo pago seja profissão liberal e que nossa maneira de considerar os fatos mereça a aceitação do empregador. A realidade é produzir segundo a diretriz de outrem. Do equívoco geram-se o inconformismo e a imposição. Cumpre ao profissional trilhar os rumos patronais, confundindo-se com os seus objetivos. Ele é remunerado para isso, para ser “um simples penteador de frases”, conforme observou José Veríssimo. Quem aspire à disseminação de idéias filantrópicas, pacifistas, igualitárias; quem procure combater as injustiças sociais, bater-se pela infância, pela velhice, pela instrução pública, pelo emprego, pelos semteto e sem-terra e contra a violência generalizada estacionará na retórica dos veículos de comunicação, poupadores das

Fernando Segismundo. O profissionalismo da comunicação por mim praticado durante 40 anos foi procedimento consciente, espontâneo. Enquanto o cumpri, faltando-me o tempo de avaliação, entendi estar ao benéfico serviço da sociedade. Pela imprensa, acabei sacrificando inclinações para a advocacia e a literatura; salvou-se o magistério. Com modéstia mantive-me à custa dos salários obtidos pela categoria, negociados com o patrono em regateadas reuniões. Jamais me aproveitei do cargo para lograr vantagens ou privilégios, subir na vida --como se diz e muitos exercitam. Entregueime ao trabalho que, na juventude e na maturidade, repito, me transmitia a impressão de estar contribuindo para o conforto coletivo. Preocupação absoluta foi a de produzir, desprezando possibilidades de êxito e de fortuna em outras ocupações. Também me dediquei ao sindicato classista e a entidades congêneres, a exemplo da Associação Brasileira de Imprensa. Por meio delas poderia reivindicar os interesses da confraria e as conveniências nacionais. Tal foi a minha fantasia. Há meio século participo de atividades específicas do jornalismo, sem outro proveito que a satisfação de servir. Percorri estados brasileiros e países da Europa e da América em favor da classe. Tomei parte em congressos, bati-me por idéias e princípios, escrevi livros, fui preso em virtude do ofício, decepcionei familiares e suscitei invejas no meio, tendo ainda hoje de enfrentar incompreensões e mesquinharias. É compreensível que assim decorra a existência de muitos de nós, repleta de ○

"Mesmo que os veículos revelem e até acentuem as diferenças sociais, a soberania nacional ameaçada pelo neoliberalismo, ainda assim os modernos caudilhos não se comoverão e tudo continuará como até aqui"

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autoridades e dos poderosos. A luta dos idealistas não passa, aos olhos de muitos empresários, de moldura para o inflamado quadro dos escândalos, das negociatas, dos golpes de banqueiros, do desperdício das finanças, da alienação do patrimônio público. Assim foi outrora e assim continua a ser na imprensa atual; ressalvadas raríssimas exceções. E quando ao profissional honrado não abate o domínio patronal, são os políticos e os governantes que o prostram com o descumprimento das leis e da Constituição. Mesmo que os veículos revelem e até acentuem as diferenças sociais, a não prevalência dos direitos humanos, o banditismo policial e dos marginais, a supressão dos “vencimentos irredutíveis” do funcionalismo, o confisco das aposentadorias, a soberania nacional ameaçada pelo neoliberalismo, decantado por supremos usufrutuários da República, ainda assim os modernos caudilhos não se comoverão e tudocontinuará como até aqui. As vítimas impotentes serão os antagonistas iniciais – empregados e empregadores. Os primeiros anseiam e não são atendidos; os outros pensam que mandam, mas acabam curvando-se a quem de fato pode; ou se agacham presto. Perdem a Nação e a humanidade. Quem se importa? E persistirão a fraqueza e as mágoas dos quixotes, sem o conforto de ninguém... Razão assiste à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, CNBB: “O sonho acabou”.

Fernando Segismundo, jornalista profissional durante 43 anos, é o presidente do Conselho Administrativo da ABI. ○

Jornal da ABI


A.GOIS,OPAI: "MELHOR PROFISSÃO DO MUNDO" Esses 35 anos de jornalismo me deram muito mais do que casa, comida e roupa lavada. Possibilitaram a um sergipano do interior, vindo de uma família de classe média baixa, conquistar o mundo. Fui contaminado pelo vírus do jornalismo através da política. Ou foi o contrário? É um pouco daquela coisa recorrente e irrelevante de quem nasceu primeiro: o ovo ou a galinha?! Na década de 60, meu pai era atuante no antigo Partido Republicano, que em Sergipe era uma extensão do PSD. Chegou a ser vereador em minha cidade natal, Frei Paulo. Foi quando ganhei dele, aos 12 anos, um broche da campanha presidencial do Marechal Teixeira Lott. Era uma miniatura da famosa “espada de ouro”. Fiz política estudantil desde cedo. No ginásio, presidi o grêmio do Senac, onde estudei por alguns anos. No antigo “clássico”, participei ativamente da rebelião estudantil de 1968, em Aracaju. Terminei preso no quartel local do Exército uma semana depois do AI 5. Nesse tempo eu já trabalhava na Gazeta de Sergipe, um jornal fundado por um grupo de idealistas do antigo Partido Socialista. Fui levado ao jornal quando tinha 15 anos. É difícil de acreditar, mas é verdade. Quando disse, numa entrevista à revista Imprensa que havia começado tão cedo, recebi de um leitor uma carta cheia de ironia. Ele não acreditava que alguém pudesse ser

profissão de jornalista. Ao contrário, acho que em outros setores é ainda pior. Sobram médicos no país, só para citar a profissão que na minha juventude era sinônimo de prestígio, dinheiro e poder. Há muitos deles desempregados ou ganhando salários indignos. Estou convencido de que a imprensa brasileira – falo de um modo geral, é claro – ainda produz luz suficiente para evitar a treva. Não há nenhuma notícia relevante e bem apurada que seja escondida debaixo do tapete, mesmo que envolva ricos ou poderosos. A imprensa exerce ainda hoje um papel progressista. Ela tem aberto uma boa janela para o debate dos temas sociais. A janela poderia ser ainda maior diante das chagas sociais brasileiras. A seca no Nordeste invadiu as telas de TV com imagens de doer o coração e de amaldiçoar aqueles que nada ou pouco fazem para enfrentar de uma vez por todas este problema secular. Com a liberdade que tem, a imprensa colabora para dissolver preconceitos e tabus. Ajuda a sociedade brasileira a avançar. Tem sido assim com temas considerados polêmicos. Na área da sexualidade, o aborto é o melhor exemplo. No comportamento social, há o racismo, o papel das minorias, só para citar alguns casos. É a melhor profissão do mundo.

repórter aos 15 anos. Mas aquele era outro tempo. De lá para cá, a contribuição que a profissão trouxe para a minha vida foi definitiva. Tenho hoje 50 anos. É claro que durante esta longa trajetória apanhei muito. Mas o saldo é positivo. Faria tudo outra vez. Digo sempre lá em casa: quando eu crescer quero ser jornalista. Na outra encarnação quero ser jornalista também. Eu tenho sincero orgulho da profissão. O melhor de abrir um crediário nas Casas Bahia é preencher o campo “profissão” na ficha de crédito. Poucas profissões permitem conhecer tão bem a alma humana como o jornalismo. Pela manhã você fala com “Deus” e, à tarde, conversa com o “diabo”. Você está sempre conversando com velhos e moços, ricos e pobres, mulheres e homens, gordos e magros, negros e brancos etc, etc. E tem ainda uma pequena vaidade cotidiana: o gostinho especial de, no dia seguinte, conversar com um vizinho no elevador sobre o jantar de que você participou na véspera, com Fidel Castro. A profissão me levou a conhecer muitos lugares distantes daquele meu Sergipe. É comum ouvir jornalista satanizar a profissão. É claro que dificuldades existem – e não são poucas. Há desemprego e muita gente atua no “desvio”, fazendo coisas muito aquém do seu potencial. No caso do Rio há um agravante. Praticamente só existe um empregador – as organizações Globo. Só que esta situação de dificuldade não é particular na

Ancelmo Gois

"A imprensa exerce um papel progressista. Ela tem aberto uma boa janela para o debate dos temas sociais"

Ancelmo Gois, jornalista há 35 anos, é editor executivo da revista Veja

A. GOIS, O FILHO: ORGULHO DE SER JORNALISTA glamour que ela trazia. Via no jornalista aquele sujeito que, ao entrar em um restaurante, era cumprimentado por um artista ou autoridade. Acho que hoje ainda há quem veja o jornalista dessa maneira. No meu caso, graças a Deus, essa visão ficou mesmo para a minha infância. Mais tarde, quando já tinha colocado na minha cabeça que ia ser jornalista, senti que a profissão poderia me trazer algo mais consistente do que o glamour. Eu via no jornalismo um instrumento concreto para tentar consertar as coisas que achava que estavam erradas no Brasil. É óbvio que boa parte dessa visão romântica podia ser creditada à minha idade (16 ou 17 anos, na época). Mesmo assim, continuo acreditando que ainda há espaço para se tentar mudar – para melhor – a vida das pessoas. Não dá para salvar o mundo, mas

Antonio Gois Suponho que quando perguntam a um jornalista qual a maior contribuição que a profissão lhe trouxe, antes mesmo de especular sobre um possível motivo de orgulho, ele vai logo descartando o que a profissão não lhe trouxe: o salário. Realmente, essa não é uma profissão para alguém que sonhe ter casa de praia em Angra dos Reis. Paciência. Esse nunca foi mesmo meu objetivo e, tendo um pai jornalista, acho que tive menos esse devaneio do que outros colegas de minha geração. No entanto, há algo em nosso trabalho que fascina qualquer um. Não fosse assim, a relação candidato/vaga nos cursos de Comunicação não cresceria tanto a cada ano. O jornalismo trouxe-me mais de uma contribuição. Acho que a primeira delas eu a gozei antes mesmo de colocar o pé em uma redação como profissional. Para que eu não ficasse sozinho em casa, meu pai sempre me levou aos plantões que ele dava, aos domingos, no Jornal do Brasil. Eu tinha dez anos, quando comecei a freqüentar o ambiente em que, hoje em dia, passo a maior parte da minha vida. Eu confesso que adorava a redação. Só que o que mais me enchia de orgulho era o dia seguinte, no colégio. Poder dizer aos colegas que tinha visto o João Saldanha bater a crônica dele sobre o Fla-Flu no Maracanã me fazia ser, às segundas-feiras, o centro da atenção do colégio. Em outras palavras, o que eu mais gostava da profissão do meu pai era o

PROVA DOS NOVES

(talvez por ainda ter 24 anos) continuo me emocionando quando sei que uma matéria minha, além de ter virado embrulho para peixe no dia seguinte, ajudou a melhorar a vida de alguém. Apesar da pouca experiência, a profissão já me deu, mais de uma vez, a oportunidade de sentir que para alguma coisa serviu o meu esforço. Como, por exemplo, no dia em que fiquei plantado na porta do Hospital Getúlio Vargas (HGV), esperando que uma senhora, em coma, pudesse ser transportada para um hospital em melhores condições. O elevador do HGV estava quebrado e, por isso, os médicos se negavam a transportar a paciente. A família da mulher ligou para o jornal depois de ter tentado reclamar com todos os órgãos públicos. A simples chegada de um jornalista ao local fez com que os médicos

agilizassem a busca de uma solução para o problema. Como a família da paciente não me deixou ir embora antes que tudo estivesse solucionado, perdi meu sábado à noite na porta do hospital. A matéria nem saiu com destaque no dia seguinte, mas, pelo menos, me senti útil, de alguma forma, àquelas pessoas. Trabalhando no caderno de Educação de O Dia, também tive experiências que me fizeram sentir um pouco melhor. Uma matéria de serviço sobre cursos prévestibulares gratuitos para a população carente, por mais banal que seja, tenho a certeza de que estará contribuindo, positivamente, para melhorar a vida de várias pessoas. Dos 100 mil leitores que leram a matéria, 50 podem ter se interessado e conseguido a vaga em um desses cursos. Desses 50, me parece sensato supor que pelo menos um deles, daqui a quatro anos, vai estar se formando em alguma universidade por causa daquela notícia que ele leu enquanto voltava para casa de ônibus. Ele pode até não lembrar (e provavelmente não vai), mas a sensação de que ajudamos não é menor por causa disso. Por último, e mais importante, acho que a maior contribuição que o jornalismo me trouxe foi a diversidade. Melhor explicando, quando ainda estava no colégio e na faculdade, meu mundo se resumia a encontrar pessoas que, com raríssimas exceções, eram parecidas comigo, ou tinham uma história de vida semelhante. Mesmo na universidade pública (me formei

"O que eu mais gostava da profissão do meu pai era o glamour que ela trazia. Ainda há quem veja o jornalista assim. No meu caso, essa visão ficou mesmo para a minha infância" ○

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pela UFRJ), apesar de encontrar pessoas de diferentes pontos da cidade, a história de vida de cada estudante era muito parecida. Tenho a certeza de que a experiência em um jornal alarga a visão de qualquer profissional recém-chegado a uma redação. Em um mesmo plantão, por exemplo, você pode ser escalado para cobrir desde um enterro de um jovem que morreu assassinado em Padre Miguel até

uma festa no Jockey Clube para a filha de um ex-presidente. Ao mesmo tempo em que você almoça com reitores de universidades e secretários de estado, é obrigado também a ouvir o choro de uma mãe que não conseguiu escola para os filhos. Em outras palavras, me considero privilegiado por poder, na minha profissão, ter contato com todo tipo de gente em todas as situações: do cidadão que acaba de ver a casa destruída por uma enchente até o

pedreiro que, aos 73 anos, se sente o homem mais feliz do mundo porque, finalmente, aprendeu a ler e escrever. O jornalismo me ensina, diariamente, o quanto é limitador ver apenas seus problemas pessoais. Além disso, ele me mostra que há sempre várias formas de ver o mundo. Em resumo, as vidas sobre as quais escrevemos diariamente nos jornais são, também, lições de vida para mim. E isso – sem querer desdenhar demais de

engenheiros, economistas e arquitetos – é quase um privilégio nosso. São poucas as profissões que nos dão essa oportunidade. Acho que é por isso que, apesar de todos os males do nosso ofício – e eles são vários –, eu sinto orgulho em dizer que sou jornalista. Antônio Gois, jornalista há 2 anos, é subeditor do caderno de educação do jornal O Dia.

40 ANOS DE JORNALISMO: DA PRÁXIS À TEORIA ufanismo municipal. Provoquei polêmicas coletivas e suscitei ressentimentos pessoais. Fiel às lições de Rui Barbosa, logo aprendia que a verdade incomoda muita gente. E se o jornalista não for honesto, humilde e persistente, pode ser tentado a fazer da profissão uma escada para o sucesso fácil ou decidir pela renúncia precoce. Sertanejo calejado, agüentei firme os primeiros dissabores. Pressões, ameaças, ironias, achincalhes. Mas também tive compensações. Incentivo, apoio, reconhecimento. Um ano depois da minha estréia, fui convidado a trabalhar no maior diário estadual – Jornal de Alagoas, pertencente à cadeia de Assis Chateaubriand. Ali ganhei meu primeiro prêmio, com uma série de reportagens sobre as bandas de música do interior. Recebi também as primeiras aulas de jornalismo, aprendendo noções utilitárias, ancoradas no sábio pragmatismo do meu editor, jornalista Carvalho Veras. Rapidamente dominei as ferramentas da profissão, sentindo-me inconformado. Eu sabia "como" fazer jornalismo, mas ignorava o "porquê". Decidi que não queria ser jornalista pela metade. Mudei-me para Recife, a metrópole nordestina, onde ingressei na primeira turma do Curso de Jornalismo da Universidade Católica de Jornalismo. Foi uma experiência muito rica. Melhorei meus conhecimentos teóricos sobre jornalismo, estudando com profissionais competentes como Luiz Beltrão, Costa Porto ou Sanelva de Vasconcelos. Ampliei minha bagagem cultural, aprendendo com mestres eruditos como Amaro Quintas, Manoel Correia de Andrade ou João Alexandre Barbosa. Enquanto freqüentava a universidade, eu prosseguia no batente jornalístico. Tive o privilégio de integrar a equipe que implantou o moderno jornalismo no nordeste brasileiro. Refiro-me ao projeto do jornal Última Hora-Nordeste, que deu sustentação ao primeiro governo de Miguel Arraes. Foi minha prova de fogo na profissão. Muito devo aos conselhos sensatos de Múcio Borges e à “pedagogia do grito” de Milton Coelho da Graça. Mas a experiência durou pouco. O golpe militar de 1964 fechou aquele jornal e desmantelou toda a cadeia fundada por Samuel Wainer. Esse episódio, efêmero e palpitante, me serviu para reavaliar os conflitos entre independência jornalística e militância política. Comprovei que são dimensões inconciliáveis. Decidi optar conscientemente pela primeira. Jornalista testado pela prática e diplomado pela universidade, busquei

José Marques de Melo Desde 1959, quando iniciei minha trajetória jornalística, venho desfrutando uma relação privilegiada com a sociedade. Nenhuma profissão enseja oportunidades de gratificação intelectual de modo mais intenso e constante do que o jornalismo. Refiro-me à sensação de participar da vida cotidiana, não como mero espectador, mas como artífice de um processo em construção. Os jornalistas não apenas contemplam e registram os fatos, mas tecem a malha através da qual eles se configuram socialmente. Ou melhor, são os responsáveis pelas versões dos acontecimentos que as pessoas comuns incorporam ao seu acervo cognitivo como se fossem a própria realidade. Daí o compromisso ético que assumimos com o nosso tempo e a nossa gente no sentido de reproduzir, com fidelidade e espírito crítico, o que observamos. E de ajudar os nossos interlocutores a discernir com autonomia o panorama que apreendem através dos relatos jornalísticos. No meu caso particular, tenho procurando ser coerente e vigilante com essa responsabilidade. Justamente por ocupar duplo papel no âmbito profissional. Tenho atuado não apenas na vanguarda noticiosa, como repórter ou comentarista, mas principalmente na sua retaguarda. Como pesquisador dos fenômenos jornalísticos, venho embasando a formação dos futuros agentes da informação de atualidades. Vale a pena fazer a “prova dos noves”, como me pede o editor desta edição especial do Jornal da ABI. Quando nada, para servir de referência aos que ingressam na profissão. Vou me limitar à primeira década de atuação. Como descobri minha vocação jornalística? Lendo jornais e livros sobre jornalismo, na biblioteca pública da cidade onde desfrutei minha infância e adolescência (Santana do Ipanema, Alagoas). Minha principal inspiração foi a famosa conferência de Rui Barbosa - “A imprensa e o dever da verdade” (Salvador, 1920). Depois dessa leitura germinadora, quis passar da reflexão à ação. Comecei a escrever artigos e a editar jornais estudantis em Maceió, capital do meu estado. Mas, afoito e ambicioso, eu queria dar um passo adiante. E me propus a atuar como “correspondente do interior”, escrevendo matérias para a Gazeta de Alagoas sobre os acontecimentos da minha comunidade. Meus primeiros textos jornalísticos eram um misto de jornalismo denúncia e

"Os jornalistas tecem a malha através da qual os fatos se configuram socialmente" abrigo na empresa da família Pessoa de Queiroz. Foi uma experiência meteórica, mas reveladora. Trabalhei como repórter nos dois jornais da empresa – Jornal do Commercio e Diário da Noite. Reportagem publicada no jornal matutino me garantiu lugar na galeria dos jornalistas contemplados com o Prêmio Esso. Era um relato irônico sobre o neoliberalismo precoce do governo Castelo Branco. Seu título: “Revolução cassa no São Francisco Maria Fumaça”. Contudo, o trabalho mais gratificante que ali realizei foi uma pesquisa junto ao público consumidor do jornal, no sentido de conhecer seus hábitos de leitura e sua imagem institucional. Eu punha em prática os métodos de estudo científico do jornalismo que havia aprendido durante o curso de pós-graduação em Ciências da Informação Coletiva (CIESPAL, 1966). E oferecia aos administradores do jornal elementos confiáveis para embasar um projeto de reestruturação editorial em processo. Não obstante os avanços profissionais que amealhava, eu me sentia oprimido pelo ambiente ameaçador instaurado no Nordeste pela ditadura militar. Como jornalista, aspirava preservar minha independência. Isso era difícil, senão impossível, no Recife, naquela conjuntura. Emigrei para São Paulo, engrossando a diáspora nordestina, composta não apenas por refugiados políticos, mas sobretudo por exilados econômicos. Tive chances imediatas de trabalho na indústria

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jornalística, atuando como repórter. Mas optei pelo segmento investigativo. A pesquisa jornalística começava a me fascinar. Tive chance de atuar no INESE, agência prestadora de serviços às empresas jornalísticas. Dirigi pesquisas que orientaram projetos editoriais da Editora Abril, Folha de S. Paulo, apoiando decisões estratégicas de anunciantes ou empresas publicitárias. Concomitantemente, escrevia artigos para o jornal A Gazeta , a convite de Múcio Borges, meu antigo chefe no Recife. Mas eu queria muito mais. Desejava compreender integralmente os fenômenos jornalísticos. O paradigma do “dever da verdade” (Rui Barbosa) continuava a me desafiar. Mas a rotina profissional não permitia o distanciamento crítico necessário para atingir essa meta. Resisti até 1968... o ano que não terminou (?). Já então eu começara a lecionar jornalismo na universidade. Primeiro na Católica de Pernambuco. Depois na Faculdade Cásper Líbero em São Paulo. Finalmente na recém criada Escola de Comunicações da Universidade de São Paulo. Em 1969 eu assumia efetivamente a chefia do Departamento de Jornalismo da ECA-USP. Vi-me na contingência de priorizar o trabalho acadêmico. Não apenas por exigência legal (regime de dedicação exclusiva à docência e à pesquisa), mas pela impossibilidade de conciliar a rotina acadêmica com o imponderável da ação jornalística. Procurei de qualquer maneira preservar o espaço da práxis. Sentia necessidade de uma espécie de retroalimentação profissional para evitar o distanciamento do ritmo das redações. Tornei-me articulista e colunista, publicando regularmente matérias opinativas em jornais e revistas de grande circulação. Começava uma nova etapa na minha vida como jornalista. Eu passara a capitalizar a experiência acumulada na práxis, transformando-a em teoria. Tornava-me produtor de matéria-prima para formar novas gerações de jornalistas. Os frutos dessa jornada estão reunidos nos vários livros e ensaios que publiquei no país e no exterior. Mas essa já é uma outra história. Ela pode ensejar outra “prova dos noves”...

José Marques de Melo, jornalista há 40 anos, é professor de Jornalismo (USP e UMESP), titular da Cátedra UNESCO/ UMESP de Comunicação para o Desenvolvimento Regional e representante da ABI em São Paulo.

Jornal da ABI


POR DENTRO DAS NOVE "Exerço um direito que deveria ser de todos"

"É como freqüentar a escola diariamente"

politicamente. Falar em salário acima de R$ 2 mil mensais para o empresariado local chega a ser uma briga. Décio Sá, com 5 anos de jornalismo, é editor especial de O Imparcial (MA).

Marco Aurélio Guimarães (Jangada)

"Ouvir o outro lado é aprendizado de vida" Laurindo Ferreira Entre outras coisas, a possibilidade de ver o mundo sob vários ângulos. Isso possibilita uma maior reflexão crítica, capaz de barrar maniqueísmos, partidarismos. Essa máxima do bom jornalismo de “sempre ouvir o outro lado” parece simples demais, mas é, na verdade, uma coisa fantástica, um aprendizado. Desde quando comecei na profissão, há oito anos, tenho tirado bom proveito disso, inclusive para minha vida pessoal, intelectual, como cidadão e como profissional.

Mário Mesquita Atualmente, sou colunista semanal. Tenho a possibilidade de exercer um direito de expressão que a democracia, em teoria, dá a todos os cidadãos, mas que, na prática, só alguns, muito poucos, exercem eficazmente. É como na Bíblia: há os chamados e os escolhidos. Mas, ao longo de quase 20 anos de exercício da profissão, a tempo inteiro, o jornalismo deu-me muito mais do que isso: concedeu-me a possibilidade de desenvolver o gosto pela escrita, integrou-me numa comunidade profissional vasta e diversificada, com valores e códigos próprios, levou-me a aprofundar muitos assuntos, permitiu-me conhecer pessoas e lugares a que, noutras circunstâncias, dificilmente teria acesso...

"Acho que contribuo para mudar o mundo"

Marco Aurélio Guimarães (Jangada), jornalista há 40 anos, é coordenador de redação do Jornal do Commercio do Rio de Janeiro.

Carla Baptista, jornalista há sete anos nos jornais portugueses Diário de Notícias e 24 Horas, trabalha atualmente como free-lancer.

"Um bom jornalista está melhor preparado para compreender e tolerar"

"Sempre ganhei mal. Mas não me arrependo"

Villas-Bôas Corrêa Do ponto de vista dos ganhos materiais, minha profissão me deu bem pouco. Praticamente o salário para a sobrevivência na faixa de classe média. Por sina ou incompetência em negociar salário, sempre ganhei mal. Em curtos períodos, apenas razoavelmente. Para escorar as despesas com a família cheguei a acumular dois, três e até quatro empregos em jornais, revista, rádio e televisão. Mas, desde o instante em que pisei na redação da velha A Notícia, nos longínquos 1948, lá se vão 50 anos e picos, nunca quis ser outra coisa na vida. Arrependimentos? Melhor não pensar nisso. Deixa para lá.

Juan Gargurevich, jornalista e historiador da comunicação, com atividades nos principais jornais peruanos, inclusive no mítico jornal alternativo Marca (uma espécie de Opinião ou Movimento peruano), é o atual coordenador do Curso de Jornalismo da Pontifícia Universidade Católica do Peru.

Ricardo Noblat

Villas-Bôas Corrêa, jornalista há 51 anos, é repórter político do Jornal do Brasil e da TV Manchete.

São 35 anos de profissão, portanto é difícil resumir o que foi bom, mas eu destacaria a possibilidade de conhecimento de pessoas, de aspectos os mais variados e diferentes mercados em que nossos clientes atuam, que vão, por exemplo, desde vários produtos que vendem mais de 1 milhão de unidades por dia, até produtos que vão vender durante 50, 100 anos. Essa diversidade de produtos e mercados tem sido fascinante ao longo de tanto tempo.

Carlos Magno Araújo A profissão tem dado a mim a oportunidade de viver mais de perto o cotidiano da minha cidade e de contribuir da forma que é possível, e que cabe a um jornalista, para o bem-estar da comunidade, apontando os problemas e cobrando soluções.

Daniel Barbará, publicitário, é diretor comercial da agência DPZ, presidente do Grupo de Mídia de São Paulo e conselheiro do Instituto Verificador de Circulação - IVC.

Ricardo Noblat, jornalista há 32 anos, é diretor de redação do jornal Correio Braziliense e o mais novo condômino dos Diários Associados. ○

"Contribuo para o bem-estar da comunidade"

Daniel Barbará

Muitas coisas. A mais importante delas talvez seja a sensação, por vezes enganosa, de que contribuo de alguma forma para melhorar o mundo em que vivo. O jornalismo permitiu-me conhecer pessoas e lugares interessantes, e me aprofundar numa variedade de temas que não me interessariam caso eu não tivesse escolhido essa profissão. Pude acompanhar de perto alguns fatos marcantes da história do meu tempo e até escrever sobre eles. Gosto disso.

Até agora só tapinhas nas costas e cumprimentos. Porque o salário, ó! Não é nada fácil resistir às tentações das assessorias com o salário que se ganha no Norte/Nordeste. Os jornais e empresários da região, com raríssimas exceções, ainda não tratam a informação como um negócio. Até eles acordarem a gente ainda vai sofrer muito. Por aqui jornal ainda é um bico, um complemento de outra atividade para o “profissional”. Pior. Muita gente usa a profissão simplesmente para se projetar, até ○

Tem-me permitido fazer aquilo que eu mais gosto: escrever. Tem ajudado a cimentar o meu ceticismo (não sei se isso é bom). Tem possibilitado o encontro com pessoas e situações interessantes. Tem-me ajudado a crescer como ser humano.

"Tanta diversidade é o aspecto fascinante"

Décio Sá

A possibilidade de, há 40 anos, acompanhar dia-a-dia a evolução dos acontecimentos mundiais, em todos os campos do conhecimento humano. Para quem tem memória, o exercício da profissão é como freqüentar a escola, diariamente.

O jornalismo contribui para a tolerância na medida em que busca o equilíbrio, pergunta pela verdade do que ocorreu, pelas razões do fato. Por isso, um bom jornalista estará melhor preparado para compreender e tolerar.

Laurindo Ferreira, jornalista há 8 anos, é chefe-geral de reportagem do Jornal do Commercio, do Recife.

"Só ganhei elogios. Porque o salário, ó!"

Carla Baptista

Juan Gargurevich

Mário Mesquita, jornalista há 28 anos, ajudou a criar o primeiro curso de jornalismo em Portugal e foi também o primeiro ombudsman de imprensa no país. Foi diretor do Diário de Notícias e do Diário de Lisboa e, atualmente, é colunista semanal do diário O Público, de Lisboa.

PROVA DOS NOVES

"Me ajuda a crescer como ser humano"

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Carlos Magno Araújo, jornalista há 9 anos, é chefe de redação do Diário de Natal/O Poti, de Natal, Rio Grande do Norte. ○


países, que tive do mundo (quase todos os países e todo o meu país). Mas para isso foi preciso fazer a escolha radical e pagar o preço: chegar aos 67 anos sem emprego público, sem aposentadoria (nem mesmo a de jornalista ou de anistiado com anos de prisão, clandestinidade, semilegalidade) e pagando aluguel. Mas valeu demais a pena.

"Me faz mais tolerante e bem menos preconceituosa"

profissão também incentiva a melhor formação. O repórter se sente na obrigação de estar bem informado, de responder todas as perguntas.

"Se não fosse jornalista não teria vivido o que fui capaz de viver"

"Notícia é sempre uma apresentação parcial de um fragmento da realidade"

"Um dia, ao lado do poder. No outro, ao lado dos excluídos"

HaroldEmert A profissão de jornalismo abriu meus olhos e ouvidos para novas pessoas, lugares e situações que eu nunca teria encontrado como uma pessoa comum. Ele me fez pensar sobre diversos tipos de assunto, como crises econômicas, assassinato de crianças de rua, crime e punição, o que é uma boa comida, e a motivação por trás do comportamento de uma pessoa. Eu sou o filho de um detetive policial aposentado de Nova Iorque e me tornei amigo, aqui no Rio, do ex-ladrão de trem Ronnie Biggs, conheci a namorada brasileira de Mick Jagger, Luciana Gimenez, consegui me aproximar de diversas personalidades da vida política brasileira, como Brizola, Maluf, FHC, Tancredo,

Erick Torrico Villanueva

Apesar de trabalhar em jornal há apenas um ano e de estar formada há três meses, posso dizer que a profissão tem me levado à realização pessoal e me encaminhado, espero eu, à realização profissional. Quando escolhi jornalismo, aos 14 anos, sabia exatamente que queria ser repórter, mas só hoje, vivendo a profissão, posso garantir: sou repórter e não há nada diferente que gostaria de fazer na vida. Ser um profissional de comunicação tem me tornado mais tolerante e menos preconceituosa com o que é diferente da realidade que sempre vivi e me mostrado todas essas diferenças.

Harold Emert, jornalista americano, com 30 anos de profissão, está há 25 anos no Brasil e trabalha como correspondente dos jornais Daily Express, Express on Sunday e Daily Star.

Saulo Moreira, jornalista há 2 anos, é repórter do Diário de Pernambuco.

Sebastião Nery, jornalista há 47 anos, faz colunismo político para jornais de 16 estados brasileiros.

Talita Figueiredo

Ulysses, César Maia e outros. A profissão tem sido um constante “abrir os olhos” para o mundo.

A notícia jornalística é, de alguma maneira, um relato sobre um fato efetivamente ocorrido na realidade. Neste sentido, ao ter uma referência concreta como base, merece credibilidade. Deve-se ter em conta que toda notícia é sempre uma apresentação parcial de um fragmento da realidade e que, portanto, só oferece um ponto de vista sobre algo maior. De toda forma, na prática do jornalismo, a credibilidade da notícia pode ser questionada em dois casos: quando a informação carece de fonte identificada e verificável e quando as opiniões substituem os fatos em seu conteúdo.

Luiz Carlos Cascon Acho que o mais interessante na profissão de jornalista é a possibilidade que ela oferece ao profissional de ter contato com os mais variados segmentos da sociedade. Um dia você está com os donos do poder. No dia seguinte, com os excluídos. Os repórteres têm esse contato direto. Os demais profissionais da redação, de uma forma indireta. Seja como for, é uma experiência muito rica. Luiz Carlos Cascon, jornalista há 25 anos, é subchefe de reportagem e líder da equipe de polícia e justiça da editoria Rio do jornal O Globo.

Erick Torrico Villanueva, jornalista há 16 anos, dirige o mestrado em Comunicação e Desenvolvimento da Universidade Andina Simón Bolívar

Talita Figueiredo, com 22 anos, formada em jornalismo pela Faculdade de Comunicação Social da UERJ, em dezembro de 1998, é repórter do jornal O Dia.

ANUNCIO 1/4

"O pensamento passa a funcionar de uma maneira mais analítica"

"Abriu-me os olhos para a injustiça social"

Saulo Moreira Sebastião Nery A profissão estimula o senso crítico, a capacidade de questionamento. Ao trabalhar como repórter, percebe-se logo que nem sempre é fácil descobrir a verdade dos fatos. Isso acaba sendo muito positivo, porque o pensamento passa a funcionar de uma maneira mais analítica. Dentro ou fora de uma redação, o repórter aprende a questionar, analisar e interligar os fatos. Há sempre algo por trás daquilo que lhe contam. A profissão também garante a possibilidade de se conversar diretamente com pessoas a que, normalmente, não se teria acesso. O repórter se torna uma testemunha privilegiada dos fatos. Fica sabendo tudo antes da maioria das pessoas. A

Deu-me minha vida. Aos 18 anos, saindo do seminário, fui ser professor e estudar Filosofia. Imaginei-me um dia um filósofo, professor de filosofia. De repente, na universidade, abri os olhos para a imensidão da injustiça social de meu país e do mundo. Fundei um jornal de briga, entrei para um jornal grande e nunca fiz outra coisa. Exatamente há 47 anos faço jornalismo, mesmo durante os três mandatos, de vereador, deputado estadual e deputado federal (só completei um). E quanto mais o tempo passa mais me convenço da correta opção dos 20 anos. Só o jornalismo me daria o conhecimento direto, pessoal, às vezes vivendo nos

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Jornal da ABI


"Ser jornalista é estar disposto a aprender sempre, todo dia"

"Deu para colocar os dois filhos na universidade e carro na residência própria"

Fábio Grijó

Raimundo Filho

Jornalista não tem horário para nada, é verdade. Jornalista, de uma certa maneira, tem sua vida particular “invadida” pelo trabalho, é verdade. Isso, para mim, no entanto, não quer dizer que a profissão só tem seu lado negativo. A profissão permite um contato com um “mundo” diferente. Dá a possibilidade de descobrir coisas novas. Numa única palavra, isso significa aprender. Acredito que ser jornalista é estar disposto a aprender sempre. Aprender todo dia - e isso não é conversa fiada. Diariamente você se vê em situações em que tem certeza de que pouco sabe, mesmo naquele assunto que você está acostumado a c o b r i r. Isso não significa desconhecimento, fraqueza, inaptidão para ser jornalista. Significa que você deve estar preparado para aprender, não t e r m e d o d e p e rg u n t a r. E e s s e aprendizado é o melhor que a profissão pode dar.

Não muito. Trabalha-se muito e ganha-se pouco e isso causa muito desgaste. Mas como gosto da profissão, procuro ver o lado positivo. É uma profissão que permite uma visão mais ampla da vida, ver sempre os vários ângulos de qualquer questão, além de ser pouco repetitiva. Nela nunca os dias são iguais. Há dias calmos, outros tensos, bom para as cabeças inquietas como costumam ser as dos jornalistas.

A profissão me deu de bom o conhecimento da realidade de meu país, a Argentina, e do México,países em queexerci a profissão. O conhecimento das pessoas e das organizações, o desenvolvimento da ação e o movimento da sociedade, a necessidade de conceituar e sintetizar a visão da realidade são dons do jornalismo a que agradeço profundamente,assimcomoa possibilidadede participar como testemunha da história contemporânea. Jorge Luis Bernetti, jornalista durante 28 anos, passou a se dedicar ao ensino da comunicação e hoje é professor titular de jornalismo na Universidade Nacional de La Plata e na Universidade de Buenos Aires.

Vladimir Reznichenko A profissão jornalística que exerço já durante 35 anos não me deu riqueza nem alta posição social. Mas pude ver o mundo, conhecer gente e, o que é o mais importante, exprimir-me (naturalmente, com as restrições impostas pelos regimes dominantes) como ser humano e escritor.

"A chance de conviver prazerosamente com realidades complexas"

"Estou safisfeito, embora preocupado com o futuro"

Vladimir Reznichenko, jornalista e tradutor de Camões e Bocage para a língua russa, é chefe de representação da agência noticiosa Novosti no Brasil.

Marcelo Auler

Jean-Jacques Sevilla Durante quinze anos como correspondente no Brasil (do Libération, e depois do Le Monde), tive a oportunidade de realizar reportagens tratando dos mais variados assuntos (política, economia, futebol, religião, Amazônia, índios, violência, etc), que me levaram a encontrar brasileiros oriundos de todas as camadas sociais e de todas as regiões do país. Minha profissão me tem permitido conhecer, ainda que superficialmente, mas sempre com prazer, uma realidade tão complexa.

Mario de Moraes, primeiro Prêmio Esso de Reportagem no Brasil, em 1955, é jornalista desde os 16 anos e continua, ainda hoje, aos 74 anos, fazendo reportagens e entrevistas para jornais e revistas. ○

Jorge Luis Bernetti

"Pude ver o mundo, exprimir-me"

Sandra Ney, jornalista há 25 anos, é chefe de reportagem da TVE-RJ.

PROVA DOS NOVES

"Conceituar e sintetizar a visão da realidade são dons do jornalismo"

Tarcísio Holanda, jornalista há 47 anos, foi repórter e redator no Rio de Janeiro até se transferir, em 1975, para Brasília, onde passou a trabalhar na cobertura política, especialmente como comentarista político da TVE-RJ. Atualmente faz entrevistas na TV Câmara.

Sandra Ney

A profissão de jornalista me deu tudo. Nela labuto desde os 16 anos e estou com 74, ainda na ativa, felizmente. Tive, no decorrer desse tempo, bons e maus momentos, mas no cômputo geral, os primeiros ganham de goleada. Graças ao jornalismo viajei por quase todo o mundo, conheci países e gentes. Tive grandes alegrias, como quando assisti o Brasil, na Suécia e no Chile, sagrar-se bicampeão mundial de futebol. Ou quando ganhei, com o saudoso Ubiratan de Lemos, o Prêmio Esso de Reportagem (hoje de Jornalismo), em 1955, outorgado pela primeira vez. Mas meus olhos também se encheram de lágrimas, quando fiz algumas coberturas dramáticas, como o incêndio de um circo em Niterói ou a morte de soldados portugueses na Guerra de Angola.

A profissão me ensinou muito. Em primeiro lugar, enriqueceu minha visão do mundo e das pessoas. Como repórter, testemunhei alguns dos mais importantes acontecimentos da nossa história contemporânea. Como repórter político, em mais de 30 anos de atividade, conheci heróis e vilões, e também algumas das maiores expressões de nossa vida pública, que me ajudaram a formar a opinião que tenho sobre o Brasil, sua elite e seu povo.

"Os dias nunca são iguais. Bom para cabeças irrequietas"

Mario de Moraes

Eric Brücher Camara, jornalista há 4 anos, é repórter do jornal O Globo.

Tarcísio Holanda

Raimundo Filho, jornalista com 30 anos de profissão, é o editor de primeira página do Diário de Pernambuco.

"No cômputo geral, os bons momentos ganham de goleada"

"Pude conhecer os heróis e os vilões"

O prazer de exercer o que gosto de fazer, a chance de descobrir algo novo em cada dia de rotina, de saber que posso ser útil à comunidade e de levar a ela o que é do seu interesse. No campo material, consegui fazer com que meus dois filhos chegassem à universidade, adquiri casa, carro e o reconhecimento salarial e profissional do mercado.

Fábio Grijó, jornalista há 2 anos, é repórter da editoria de esportes do Jornal do Brasil.

que o ar e, por isso, são absorvidas com a respiração. Outra v a n t a g e m e n r i quecedora da profissão é a oportunidade de conhecer realidades, situações e pessoas que, de outra forma, jamais fariam parte do meu cotidiano. O velho chavão e principal atrativo para estudantes de jornalismo - denunciar e informar a população - também continua valendo para mim. Já tive a satisfação de ver a conseqüência de algumas notícias em fatos que atingiram diretamente a vida

Jean-Jacques Sevilla, jornalista com 20 anos de profissão, é correspondente no Brasil, há 15 anos, dos jornais franceses Libération e Le Monde.

Antes de mais nada tem me dado satisfação profissional. Apesar de achar que ainda tem muito chão pela frente – e a incerteza do futuro ainda assusta muito – posso dizer que me sinto realizado e satisfeito com o que fiz até agora. A profissão já me permitiu muitas coisas, principalmente conhecer gente e locais diferentes, viver e presenciar situações – boas e ruins – e, até mesmo, participar de processos “históricos” que marcaram um período da vida do país.

"Denunciar e informar velho chavão continua valendo para mim" Eric Brücher Camara Sinto-me privilegiado por estar sempre no olho do furacão, onde informações estão presentes na mesma medida

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Marcelo Auler, jornalista há 26 anos, é repórter do jornal O Dia ○


Superexposição no episódio ClintonMonica, discrição sobre a segunda família de Miterrand. A vida íntima de pessoas famosas pode até ter tratamento diferente, conforme a cultura e a visão

ética dos veículos. Mas também é certo que existe um mercado expressivo de publicações onde a divulgação de intimidades realimenta a idéia de que vale tudo para conseguir aparecer - e vender.

TODO MUNDO TEM O DIREITO À PRIVACIDADE que ela se encontra, certamente, não é um comportamento civilizado. E os políticos, como ficam? Acho que o mesmo critério deve ser obedecido: tudo o que for relevante para sua atuação pública deve ser revelado. O fato de um político ter um filho fora do casamento é notícia caso ele seja um bastião da moralidade, por exemplo. Ou se sua mulher pedir o divórcio por causa da descoberta e isso afetar sua atividade. Nesse caso, o fato terá reflexos na sua atuação como homem público. Toda vez, portanto, que um fato íntimo tenha relação com a atividade pública da autoridade deve ser revelado. Caso contrário, a revelação não passa de fofoca. E existem publicações dedicadas a fofocas. Como existem pessoas que gostam de ler fofocas. Não sou contra a publicação de fofocas em colunas ou órgãos especializados, sou contra a distorção dos fatos, a invencionice, a “cascata”.

Merval Pereira Todo mundo tem direito à privacidade. Acho que quanto mais largamente esse conceito for utilizado pela imprensa, mais fácil será separar as situações. Existem figuras públicas, no entanto, que vivem de se expor. E existem órgãos de imprensa, e programas de televisão e de rádio, que vivem de expor a intimidade dessas figuras públicas. Tudo vai muito bem enquanto está todo mundo de acordo. Caras, por exemplo, vive de mostrar os ricos e famosos na intimidade. E todos os ricos e famosos que aparecem em suas páginas o fazem por livre e espontânea vontade, porque querem se exibir, ou exibir suas casas, seus palácios. Ou porque querem parecer que são o que não são. Ou porque querem revelar ao mundo o quão ricos ficaram. E quem lê esse tipo de publicação, que faz sucesso em várias partes do mundo, gosta desse tipo de voyeurismo. Nada contra. A confusão começa quando revistas, ou jornais, ou programas de televisão, passam a revelar intimidades que não são de agrado do ator, ou atriz, ou cantor, etc. Aí esse tipo de jornalismo, que é muito apreciado quando é a favor, passa a ser “imprensa marrom”, quando revela coisas

"Só deve ser revelado o fato íntimo que tenha relação com a atividade pública da pessoa em questão" não combinadas, ou que não pegam bem para o personagem citado. Essa é a primeira questão: se existem pessoas que gostam de aparecer e estimulam esse tipo de jornalismo, e se existe público para tal, então está aberta uma imensa clareira para a exploração sensacionalista, para a revelação de podres, etc. Sem olhar para aspectos específicos, acho que uma boa técnica é a de definir, caso a caso, quando é relevante a publicação de cada tipo de notícia. Se a Madonna está grávida, essa é uma notícia relevante para o público que acompanha a cantora. Quem é o pai também vira uma notícia importante. Se a Vera Fischer está

internada para desintoxicação, esta é uma notícia relevante sobre sua carreira, tão ou mais do que sua escalação em uma nova novela da Globo. Mas tirar fotos por cima de um muro da clínica não é recomendável para um jornal que se queira sério. Já um jornal popular terá sempre um comportamento mais flexível diante da mesma situação. Acompanhar a Lady Di em suas perambulações pelo mundo faz parte desse tipo de jornalismo. Mas abalroar o carro em

Merval Pereira, jornalista há 31 anos, é publisher e diretor de jornalismo de O Globo, tendo sido ainda editor nacional, editor-chefe e diretor da sucursal de Brasília. Trabalhou também na revista Veja e no Jornal do Brasil.

IMPRENSA DEVERIA SER O EXEMPLO DE CUIDADO Todas as pessoas têm direito à privacidade. Não é por ser uma figura pública que um cidadão perde esse direito. A privacidade é mais que um direito. É um dos valores básicos de nossa civilização. Como tal, deve ser cultivada e respeitada. Dito isto, podemos reformular a pergunta. Figuras públicas têm o mesmo direito à privacidade que pessoas nãopúblicas? Não. Por se destacarem dos demais, voluntária ou involuntariamente, as figuras públicas perdem parte de sua privacidade. Muitas vezes, são elas, ao se lançarem à luz dos holofotes, que dão os primeiros passos no sentido desta perda. Outras vezes, isso ocorre à revelia delas, devido ao interesse ou à curiosidade dos cidadãos em saber mais sobre essas pessoas que, por algum motivo, se destacaram ou foram destacadas da multidão. Dois pesos e duas medidas? Sim. Mais de dois. Muitos pesos e muitas medidas. Depende do caso, do contexto, das implicações. Não há regras claras e é muito difícil estabelecê-las, apesar de um ○

PROVA DOS NOVES

ou associações profissionais e patronais podem ser de grande ajuda, ao estabelecer princípios que podem nortear decisões editoriais. No fundo, o mais importante é uma boa dose de reflexão por parte dos jornalistas encarregados de decidir se a matéria a ser publicada sobre a vida privada de uma figura pública ultrapassa limites éticos. Reflexão demanda tempo, ingrediente de enorme escassez no cotidiano do jornalismo. Mas é fundamental para que se avalie previamente a real importância, o verdadeiro interesse público e as conseqüências de revelações obtidas através da investigação da vida privada de qualquer pessoa. Em vez de agirmos mecanicamente, como máquinas caçadoras de notícia, bem que poderíamos procurar atuar sempre de forma ética e responsável. Principalmente quando nosso trabalho pode ser visto como invasão à privacidade das pessoas. Uma reportagem é capaz de destruir uma carreira, uma reputação, uma família. Mas, ainda assim, sua publicação justifica-se plenamente por tratar de fatos relevantes, cuja revelação resulta benéfica para a sociedade, para o bem comum. Sentimos

crescente sentimento no sentido de que seja traçada alguma linha divisória. Episódios recentes, como a morte da princesa Diana e o caso Monica-Clinton, amplificaram esse clamor por uma autoregulamentação ou mesmo por uma legislação específica. A tradição jurídica e jornalística, tanto na Grã-Bretanha quanto nos Estados Unidos, é no sentido de que a imprensa tem o direito de saciar a curiosidade de seus leitores sobre a vida privada de figuras públicas. Há numerosas sentenças de tribunais de todos os níveis garantindo esse direito. A jurisprudência e os princípios do bom jornalismo, no entanto, não significam uma carta branca para a invasão da privacidade das figuras públicas. Limites estabelecidos pela ética e pelo bom senso devem estar sempre presentes. Infelizmente, as tentativas de legislar sobre esses limites acabam levando ao cerceamento da liberdade de imprensa. Uma auto-regulamentação com regras claras também se torna difícil, devido à enorme diversidade de casos e a situações imprevisíveis. Os códigos de ética estabelecidos pelas empresas jornalísticas

Rosental Calmon Alves

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"A imprensa deveria ser uma das primeiras instituições a se levantar contra a sociedade orwelliana que estamos vendo nascer" ○


EM MITERRAND, UM GRANDE EXEMPLO

muito pelos danos pessoais causados, mas, numa sociedade democrática, cabe à imprensa apurar a verdade sobre fatos relevantes para a sociedade e publicá-la. Mas não tem sentido destruir por destruir. Se não existe essa conexão entre a vida privada de uma figura pública e sua atuação pública, não haverá como justificar eticamente essa invasão. É mais fácil entender essa situação quando se trata de uma autoridade ou qualquer ocupante de cargo público. Há uma natural perda de privacidade ao assumir funções públicas, pois a sociedade tem o direito de saber quem são essas pessoas que foram eleitas ou nomeadas para cuidar dos seus interesses. Fatos da vida pessoal desses funcionários podem ser incompatíveis com os cargos que eles ocupam. No caso de celebridades, como astros da televisão ou dos esportes, o interessante é que muitos deles são os primeiros a expor sua vida privada para a imprensa, quando estão tentando construir sua reputação como figuras públicas. Mais tarde, quando já estão no apogeu de suas carreiras, reclamam da falta da privacidade de que eles mesmos abriram mão. Em ambos os casos citados, contudo, é preciso reconhecer que muitos são autênticas vítimas da ferocidade de jornalistas que não vêem limites para a invasão de vidas privadas. Pior ainda é o caso de cidadãos comuns, acidentalmente jogados à implacável luz dos holofotes da imprensa. Principalmente os mais pobres e humildes, que às vezes têm detalhes de sua vida privada publicados injustificada e impiedosamente. Mais do que reflexão, precisamos também de uma boa dose de compaixão ao decidir se vale a pena romper a privacidade das pessoas. Estamos entrando numa era em que a questão do respeito à privacidade estará mais e mais no centro dos debates. Não apenas pelas tradicionais incursões jornalísticas à vida privada de figuras públicas, mas pelas possibilidades tecnológicas de se invadir constantemente a privacidade de todos os cidadãos. O “1984” de George Orwell está chegando atrasado, mas está aí. Nos bancos de dados, nas câmeras de vídeo usadas para segurança ou controle de tráfego, na Internet, nos computadores dos cartões de crédito, dos bancos e até dos supermercados. Como um dos pilares da democracia, a imprensa deveria ser uma das primeiras instituições a se levantar contra a sociedade orwelliana que estamos vendo nascer. Para isso, deve começar por dar o exemplo, ao ser mais cuidadosa do que nunca ao lidar com a vida privada das pessoas. Sejam elas figuras públicas ou não.

Durante o natal de 1995, a opinião pública francesa se viu exposta ao desafio de uma cena ao mesmo tempo incomum e altamente patética. O presidente François Miterrand, vítima de um câncer violento, já praticamente em estado terminal, decidira celebrar seu último natal num hotel de luxo, do Egito, na companhia de uma senhora da qual tivera uma filha. Descrita assim, em estilo de fait divers, a cena tomaria aspectos de um caso banal a mais na vida de um político. Ocorre que o caso de Miterrand era muito mais complicado e, de banal, não tinha mesmo realmente nada. Ele amava realmente esta mulher e passara praticamente a última metade de sua vida tentando uma impossível conciliação entre aquele amor proibido, que sempre cercara do maior respeito e dignidade, e o próprio matrimônio oficial, que ele procurara defender por todos os meios de qualquer vulgaridade. Quanto à filha que os códigos antigos qualificariam de adulterina, o pai lhe dera sempre todo o carinho e a atenção possível, procurando lhe poupar qualquer vexame, além de lhe garantir todos os direitos assegurados por lei. O detalhe do carinho contínuo e da delicada atenção é revelado pela própria moça, que se confessa orgulhosa do pai e se recusa a emitir qualquer julgamento de valor. Uma nota importante: aquela cerimônia de adeus não tinha absolutamente nada de clandestino; estava sendo celebrada às claras, com o conhecimento da família soidisant oficial e das mais altas autoridades da nação, e dela participavam alguns amigos íntimos. A sombra da morte acentuava mais ainda o patético da situação. O presidente iria falecer cerca de duas semanas depois, exatamente no dia 8 de janeiro de 1996, em seu apartamento de Paris. A família do Egito participou de todas as cerimônias das exéquias, ao lado das personalidades mais importantes do

"Todas as tentativas de levantar qualquer tipo de escândalo foram liminarmente abortadas" eventual baixaria, voltaram às suas redações com as mãos abanando, porque a reação dos franceses foi uma só: ninguém tinha o direito de penetrar na intimidade da vida privada do presidente morto, e sua família merecia o mais profundo respeito, contando para tanto com as garantias formais do direito francês. Acrescente-se a isto a atitude de alta dignidade da própria família de Miterrand, que enfrentara tudo com a maior naturalidade do mundo. A atitude dos franceses suscitou polêmicas. Muito mais fora da França do que no próprio país de Miterrand, diga-se de passagem. Houve quem invocasse argumentos moralistas baseados em princípios corriqueiros, como a obrigação do bom exemplo, houve quem buscasse apoio na condenação formal da bigamia pelo Direito Ocidental...A opinião francesa não se abalou: a vida particular do cidadão francês é absolutamente intocável.

Irineu Guimarães, jornalista aposentado após 35 anos de trabalho, morou em Paris 9 anos, para se formar em Filosofia e Letras, e foi, durante 13 anos, correspondente do Le Monde no Brasil.

LIMITES À LIBERDADE DE IMPRENSA norte-americana, a mídia francesa não dá importância à vida sexual privada dos políticos. Todos sabem que os reis tiveram inúmeras amantes, que tiveram um papel mais ou menos importante na história. Ninguém desconhece o caso do presidente Félix Faure, que faleceu, em 1899, entre os braços amorosos de uma mulher, nem o destino do cardeal Daniélou, que há vinte e cinco anos mais ou menos teve um infarto depois de transar com uma prostituta nos bas fonds de Paris. São fatos que nunca abalaram as convicções ideológicas ou religiosas de ninguém na França. Afinal, a vida privada de cada um é sagrada, conquanto que os dirigentes do país, especialmente o chefe de Estado e o primeiro ministro, sejam honestos e sérios no seu modo de cuidar dos interesses superiores da Nação. Daí, o espanto dos franceses quando a mídia dos Estados Unidos – imprensa

EdouardBailby Alguns semanários na França vasculham a vida privada de artistas ou princesas na Côte d’Azur. Com uma tiragem relativamente alta, esses jornais são lidos nas salas de espera de médicos e dentistas ou folheados por mãos femininas nos salões de cabeleireiros. Paixões secretas, divórcios inesperados e doenças incuráveis de personalidades populares empolgam o público, à semelhança do que ocorre em outros países. No entanto, ao contrário da imprensa

Rosental Calmon Alves, jornalista há 30 anos, foi correspondente na Espanha, México, Argentina e Estados Unidos, onde atualmente leciona na Universidade do Texas, com especial atenção na Internet, não fosse ele, como diretor do Jornal do Brasil, onde trabalhou 23 anos, o responsável pela criação do primeiro site de jornal brasileiro. ○

Ninguém tem o direito de violar sua privacidade. O que o cidadão comum tem o direito de exigir de um presidente é que governe bem, o que se pode cobrar de um político é que desempenhe bem seu papel. Quanto à sua vida particular, contanto que respeite os direitos de seus concidadãos, ninguém tem absolutamente nenhuma competência para nela penetrar. Saber qual a opinião do professor de moral, depois de analisar um caso como este em todos os seus desdobramentos, é realmente um tanto delicado. Das inúmeras consultas feitas a representantes da opinião francesa em diferentes níveis, ficam algumas observações no mínimo curiosas. Mesmo para quem não tem opinião firmada, valem algumas comparações. A opinião da imprensa francesa ficou realmente chocada com as leviandades sexuais recentes da Casa Branca, porque acha que ali houve mau gosto, falta de cultura e, principalmente, vulgaridade. Afinal de contas, a cultura do “amor cortês” não pode aceitar certos tipos de concessões ao feio e ao vulgar. Como é que uma moça de classe consegue guardar, por mais de um ano, um vestido sujo de esperma para fins de eventual prova em juízo? As verdadeiras cascatas de notícias que saíam diariamente da chamada “mídia” americana não tiveram repercussão na imprensa da França. Os franceses achavam aquilo um assunto idiota, coisa de mau gosto. E, sempre segundo o depoimento do mesmo jornalista, a última prova deste desprezo francês pela vulgaridade americana está no total fiasco que foi a recente noite de autógrafos de Monica Lewinski em Paris. A conclusão é dura: a jogada comercial que aparece por trás deste suposto assédio chega a ser asquerosa.

mundo. Apareceu em todas as fotografias oficiais e teve direito às condolências de estilo. O comportamento do povo da França e de sua imprensa, diante daquele episódio totalmente incomum, foi marcado por uma admirável dose de civilidade e de bom gosto. Todas as tentativas de levantar qualquer tipo de escândalo foram liminarmente abortadas. Os inevitáveis chacais da imprensa marrom do mundo inteiro, que se deslocaram a Paris em busca de uma

Irineu Guimarães

"Ao contrário da imprensa norte-americana, a mídia francesa não dá importância à vida sexual dos políticos. Os reis tinham muitas amantes" ○

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Jornal da ABI


puritanismo? Hipocrisia? O sentimento geral foi de que a democracia norteamericana estava indo mal. Neste particular há uma diferença fundamental entre o conceito norte-americano das liberdades e o conceito francês da ética jornalística. Entendemos aqui que as relações sexuais extra-conjugais, sobretudo de um presidente da República, somente dizem respeito ao marido e à esposa. Ninguém tem o direito de intervir. É uma questão de respeito pela privacidade. Todos lembram o caso do presidente François Mitterrand, ainda no Palácio do Eliseu, quando Paris-Match publicou uma fotografia de sua filha Mazarine, fruto de

escrita, rádio e televisão – começou a tratar o caso do presidente Clinton com Monica. No princípio a opinião pública achou tudo divertido, mas no decorrer das semanas a irritação foi crescendo. Como podia o presidente da maior potência do mundo se submeter ao vexame de pedir perdão publicamente, dando detalhes sobre momentos íntimos vividos por ele dentro da Casa Branca? Ninguém entendeu, tampouco, como a própria Monica foi obrigada a explicar o que fazia debaixo da mesa do escritório do Clinton e, menos ainda, o sadismo maquiavélico tanto da imprensa como dos juízes. Falso

uma relação secreta. Recentemente Roger Thérond, diretor da revista francesa, confirmou na televisão que apresentou ao chefe de Estado o documento inédito que pretendia publicar. A resposta foi evasiva: "Faça o que você achar melhor!". De certo modo, a opinião pública francesa ficou chocada com a revelação de um fato íntimo do presidente. Não passou disso, porque, na hora das exéquias, a própria Danièle Mitterrand, que há tempo não tinha relações íntimas com o marido, apesar da admiração mútua, mostrou dignidade em aceitar ao seu lado a presença de Mazarine e de sua mãe. Durante muito tempo, sobretudo a partir dos anos 60, a imprensa dos Estados

Unidos foi dada como exemplo de objetividade. No L’Express, onde trabalhei durante quinze anos, até 1979, The New York Times, Newsweek e Times eram referências obrigatórias. Hoje a mídia norteamericana chegou a tais extremos, inclusive na guerra da Iugoslávia, que os jornalistas franceses e europeus perderam os seus complexos. A honestidade e a ética devem ser os fundamentos da imprensa. Edouard Bailby, jornalista francês, com passagens pelo L’Express, Le Monde Diplomatic e assessoria de imprensa da UNESCO, morou 15 anos no Brasil, onde se formou em filosofia e trabalhou como repórter na Última Hora, de 1956 a 1961.

NOS EUA NÃO FALTAM CONTROVÉRSIAS JURÍDICAS quando uma reportagem for publicada ou divulgada. A publicação de informações verídicas a respeito da vida particular de uma pessoa que pudessem ser, ao mesmo tempo, altamente ofensivas e sem o menor interesse para o público, é uma invasão de privacidade. A corte de justiça pode determinar a responsabilização do repórter ou da fonte através da qual a notícia foi obtida, bem como que se justifique a validade da notícia. Revelar aspectos particulares e sensacionalistas da vida sexual, da saúde ou da vida financeira de alguém pode constituir invasão de privacidade. Entretanto, relatar acontecimentos que ocorram em um lugar público geralmente não é considerado invasão de privacidade. Até o mais íntimo momento de um casal em público, captado por uma fotografia, não pode ser levado à instância jurídica, já que ningu é m v e r i a a situação como “privada”. A justiça geralmente crê que as pessoas não têm direito a “expectativas legítimas de privacidade” quando estão em público. Se uma informação vem de um registro público, como uma certidão de nascimento, um boletim de ocorrência policial ou um procedimento jurídico, os meios de comunicação não podem ser responsa-bilizados por usá-los. Um jornal pode publicar uma lista de pessoas que se divorciaram, quando, por exemplo, esta informação vem de registros de tribunais, não importa o quão constrangedor isto seja para os envolvidos. Entretanto, nem toda informação arquivada por agências públicas é considerada parte de um registro público. Alguns estados chegam a restringir a divulgação de certas informações, ainda que elas sejam parte de um registro oficial, ao lacrar arquivos ou restringir o acesso do público ou da mídia a alguns procedimentos. Porém, se a imprensa obtém legalmente informações verídicas sobre um tema de interesse geral, através de uma fonte do governo, o Estado não pode punir ninguém, nem mesmo baseado na Constituição, pela publicação da informação, a não ser em caso de necessidade de enriquecer um assunto de interesse público. Os repórteres devem ter cuidado ao se apoiarem em documentos semipúblicos. Se um documento em que um repórter se baseou for considerado somente semipúblico, o repórter pode

Saul Gefter Quase todos os estados nos Estados Unidos reconhecem algum tipo de privacidade, seja por estatutos ou por leis comuns. A maioria das leis tenta equilibrar o direito dos indivíduos à privacidade e o interesse público na liberdade da imprensa. Entretanto, estes direitos freqüentemente entram em conflito um com o outro. Personalidades públicas têm um direito limitado à privacidade. Governantes atuais ou do passado, candidatos políticos, apresentadores de TV e grandes nomes do esporte são geralmente considerados figuras públicas. Diz-se que eles se expuseram voluntariamente ao interesse alheio e que renunciaram ao direito de privacidade, ao menos em assuntos que por ventura afetem a capacidade de exercer seus deveres públicos. Embora qualquer indivíduo possa fazer uso do direito de ser deixado em paz, este direito não é absoluto. Por exemplo, se uma pessoa que normalmente não é considerada uma personalidade pública é colocada em evidência por causa de seu envolvimento em um evento de relevância jornalística, seu direito à privacidade pode ser limitado. Um direito à privacidade pode ser violado por qualquer meio de comunicação, incluindo a imprensa falada. Esta agressão é dividida em quatro categorias: intromissão, publicação de fatos particulares, falsas suposições ou apropriação indevida de informações. A privacidade é violada quando alguém invade intencional, fisicamente ou de outra forma, a intimidade de uma pessoa ou seus assuntos particulares. Reclamações de intromissão contra a mídia normalmente remontam a algum aspecto do processo de apuração. Este desrespeito pode envolver o uso inapropriado de gravadores, câmeras ou qualquer outro equipamento invasivo. Entrar em propriedade alheia sem permissão também pode ser uma forma de invasão. Além da responsabilização por invasões agressivas de privacidade, leis antipaparazzi podem levar a implicações legais, às vezes simultaneamente civis e criminais, pela invasão de propriedade ou assédio durante o processo de apuração da notícia. O estado da Califórnia aprovou uma lei como esta em 1998, e leis similares estão sendo estudadas em diversos estados e no Congresso Federal. Uma ação judicial contra a intrusão/intromissão poderá surgir ○

PROVA DOS NOVES

"Pela legislação dos EUA, personalidades públicas têm um direito limitado à privacidade" não conseguir permissão de publicar a informação nele contida. A justiça pode levar diversos fatores em consideração para determinar se uma informação publicada tem relevância jornalística: o valor social dos fatos publicados, o quão profundamente o artigo in v a d i u a s s u n t o s p a r t i c u l a r e s e a extensão de notoriedade pública assumida voluntariamente pela pessoa envolvida. A relevância jornalística de um fato privado pode ser afetada pela passagem do tempo. Problemas ocorrem quando indivíduos que um dia já foram notórios, mais tarde, acabam se tornando tema de comentários históricos que se referem a antigos crimes cometidos por eles ou a indiscrições sobre suas vidas. Fatos particulares publicados em um artigo como uma coluna de “Há 25 anos atrás” podem ser considerados uma invasão de privacidade se o envolvido não é considerado uma figura pública ou se aparentemente perdeu este status de figura pública. Fatos divulgados sobre autoridades ou figuras públicas não estão sujeitos à regra da passagem do tempo. As particularidades de uma comunidade também devem ser levadas em consideração quando se determina se um fato particular deve ser relatado ou não. A

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lei não é destinada a proteger pessoas excessivamente sensíveis a determinados tipos de informações. Entretanto, se a informação pode ser considerada indecente ou obscena pelos padrões de uma comunidade e não é relevante à reportagem, é mais seguro que ela seja descartada. Alguns estados reconhecem um direito de publicidade, que protege o interesse comercial de uma celebridade na exploração de seu nome ou imagem. Em algumas jurisdições, este direito pode ser estendido aos herdeiros ou ser passado a outros após a morte da pessoa. Embora o uso do nome ou imagem de uma pessoa famosa para vender um produto, sem consentimento, seja normalmente uma invasão de privacidade, outras infrações talvez não sejam tão claras. Quando uma TV de Ohio filmou integralmente a performance de 15 segundos de um artista para usar em seu noticiário da noite, a Suprema Corte dos Estados Unidos achou que o filme ameaçava substancialmente o valor econômico daquela performance. Assim, a Corte considerou que o uso do filme era uma “apropriação nociva do material de propriedade do profissional”. Trinta estados e o distrito de Colúmbia adotaram “leis-escudo” para garantir aos meios de comunicação graus variados de proteção contra intimações. Algumas leis protegem repórteres da revelação forçada de suas fontes confidenciais, mas não do material ainda não publicado. Outras leis oferecem proteção integral ou relativa, de acordo com o tipo de procedimento legal envolvido (civil ou criminal) ou com o papel do jornalista no processo. Em muitos estados sem estas “leis-escudo”, tribunais já reconheceram alguma forma de privilégio limitado aos jornalistas. Em outros, constituições estaduais podem até incluir cláusulas de “imprensa livre”, que são semelhantes às proteções existentes na Primeira Emenda à Constituição Americana, e que oferecem algum grau de proteção. Há muitos estados, entretanto, como o Hawai e Wyoming, onde nenhum privilégio para proteger informações ainda não publicadas foi reconhecido por leis ou por tribunais. A questão de a Primeira Emenda criar um privilégio para reter informações confidenciais apareceu antes de uma trilogia de casos decididos em conjunto na Suprema Corte dos Estados Unidos, em


1972. A Corte decidiu que os repórteres não têm o direito — garantido pela Primeira Emenda — de se recusar a testemunhar e responder todas as perguntas diante de júris, se eles realmente foram testemunhas de um crime. Desde então, quase todos os tribunais federais e estaduais se deram conta de que existe alguma forma de privilégio restrito. Eles geralmente fazem uma avaliação para descobrir se a informação intimada é claramente relevante ao caso, se ela tem importância fundamental e se pode ser obtida através de outras fontes sem ser a mídia. Esta decisão é normalmente aplicada a qualquer jornalista intimado a testemunhar diante de um júri, especialmente se o repórter for testemunha de um crime. Desde 1931, a Suprema Corte dos Estados Unidos tem afirmado, repetidamente, que as tentativas do governo de censurar os meios de comunicação são consideradas inconstitucionais. A Corte disse que raramente apoiaria ordens para não publicar ou estatutos que ameaçassem a publicação de informações com punição. Mas a Suprema Corte dos Estados Unidos reconheceu que, teoricamente, a publicação de algumas informações pode ser censurada para proteger a segurança nacional. Entretanto, certa vez o Washington Post e o New York Times começaram a publicar documentos do Pentágono e o governo tentou impedir a publicação. Mas a Corte negou o apoio à censura das informações, pois o governo não conseguiu mostrar, suficientemente, os danos que seriam impostos à segurança nacional.

Na questão da privacidade, pessoas públicas ocasionalmente tentam convencer repórteres a evitarem publicar informações que sejam embaraçosas. Às vezes, estas pessoas até procuram conseguir ordens judiciais para impedir a publicação. Em um caso célebre, Frank Sinatra entrou com uma ação para impedir Kitty Kelley de continuar fazendo entrevistas e de publicar uma biografia não autorizada sobre o cantor. Mais tarde, ele desistiu da ação. Geralmente, os tribunais relutam em permitir quaisquer ordens de restrições a conteúdos ainda não publicados,

questionava a credibilidade de Paula, além de o assunto ser de interesse público. Em outro caso envolvendo uma celebridade, um juiz recusou-se a impedir a produção de uma minissérie sobre Elizabeth Taylor. “A atriz não pode considerar seu nome uma marca registrada, nem pode impedir a NBC de veicular a minissérie baseada em sua vida”, decretou um juiz de Los Angeles, não garantindo a apelação de Elizabeth Taylor contra a produção da emissora. De acordo com o Wall Street Journal, Taylor entrou com a apelação após ter lido, em junho, uma “descrição parcial de trechos” da biografia não autorizada de sua vida, escrita por David Heymann. Ela disse à corte que seu direito à privacidade e à publicidade de seu nome, imagem e marca registrada superava qualquer direito da Primeira Emenda que garantisse à emissora seguir adiante com sua produção. Ela sustentou ainda que a veiculação da minissérie mancharia sua imagem, a marca registrada de perfumes e colônias, enquanto traria lucros para a NBC por ser um “produto comercial”. Mas a NBC argumentou que a Corte não pode determinar uma restrição que impediria um autor de escrever um livro ou um produtor de realizar um filme. A emissora alegou ainda que Elizabeth Taylor somente conseguia ver prejuízos com a futura publicação do livro e a exibição do filme. O juiz concordou com a NBC, considerando que uma apelação resultaria em uma restrição inconstitucional à liberdade de expressão, apesar do fato de a NBC retirar lucros da minissérie. Embora Taylor possa, certamente,

"Frank Sinatra, Liz Taylor e o presidente Clinton tiveram questões judiciais tentando limitar publicações" particularmente, quando a justificativa para tal é meramente a de que o material pode ser difamatório ou pode invadir a privacidade de alguém. Em dezembro de 1994, a Corte Federal do Distrito de Nova Iorque decretou uma ordem de restrição temporária e negou a Paula Jones, que havia acusado o presidente Clinton de assédio sexual, uma ação preliminar contra a revista Penthouse, que imprimiu fotos dela nua no número de janeiro de 1995. A Corte alegou que as fotos tinham uma relação com um editorial que

entrar com uma ação contra uma atividade comercial — tendo como base o uso inapropriado de sua marca registrada —, ela não pode apelar contra programas de televisão, por exemplo, que têm sua liberdade de expressão protegida constitucionalmente. Em outro caso recente, tratado pela Corte Federal no Estado do Arkansas, a Corte decretou que a imprensa e o público não têm direito constitucional de fazer cópias em vídeo do testemunho do presidente Clinton em um julgamento de fraude criminal e conspiração. A Corte achou que o direito de acesso a informações, que aparece na Primeira Emenda, foi satisfeito ao se possibilitar que a imprensa e o público estivessem presentes no julgamento enquanto o vídeo do testemunho era exibido para todos, permitindo, então, que a mídia se referisse ao testemunho como parte dos procedimentos do julgamento. A Corte tomou conhecimento da preocupação causada nos procuradores do presidente: eles temiam que trechos do vídeo pudessem ser usados contra Clinton na eleição presidencial ou com propósitos comerciais, “comprometendo a dignidade do presidente”. “A Corte não acredita que a imprensa tenha interesses impróprios em obter o videoteipe ou vá distorcê-lo ou usálo incorretamente”, escreveu o juiz. “Apesar disto, uma vez que as imagens sejam divulgadas ou veiculadas, a imprensa não pode manter o controle sobre indivíduos que talvez copiem as imagens e editem-nas para adequá-las a seus propósitos”. O grupo que estimulou esta decisão formado pelo Comitê de Repórteres pela

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Liberdade de Imprensa, pela Associação de Diretores de Notícias de Rádio e Televisão, pelo Capital Cities/ABC, pelo Turner Broadcasting System e também pelas redes NBC e CBS – ainda declarou que não havia base para negar o acesso aos registros do julgamento se “nenhum risco foi mostrado aos interesses da segurança nacional, a interesses particulares, ou aos direitos de um julgamento justo”. Em respeito ao pedido do interventor Dow Jones & Co., Inc., o juiz ordenou que uma transcrição integral, sem edições, do depoimento fizesse parte do registro oficial e fosse divulgada ao público, como havia sido decidido em conjunto por todas as partes. Somente uma versão editada do vídeo foi mostrada no tribunal durante o julgamento. Em 1997, após a trágica morte da princesa Diana, uma legislação antipaparazzi apareceu nos níveis municipal, estadual e federal. Diversas propostas para uma nova legislação, feitas por políticos

locais, estaduais e nacionais, tiveram como objetivo bloquear as atividades invasivas dos paparazzi. O deputado americano Sonny Bono, da Califórnia, apresentou o projeto de lei de “proteção contra a invasão de privacidade”, que aplicaria multas e/ou penas de prisão àqueles que assediassem cidadãos americanos em todo o mundo ou outros cidadãos dentro dos EUA, ao insistir em fotografá-los ou entrevistá-los.

legislação sobre os paparazzi. Em maio, o comitê da Câmara dos Deputados no Judiciário organizou uma audiência sobre duas leis pendentes que transformariam a perseguição a uma pessoa, para tirar uma foto ou fazer um vídeo, em um crime federal, sob determinadas circunstâncias. Na audiência, um deputado indicou que estava considerando introduzir um adendo à legislação, para proibir fotografias, “espionagem” e grampos hi-tech. Um dos dois projetos de lei apresentados por Bono, em setembro de 1997, tornaria ilegal a perseguição insistente de alguém somente para fotografá-lo ou filmá-lo com fins comerciais, principalmente, se a pessoa perseguida tomou precauções para garantir sua privacidade. A condenação por tal “assédio” poderia levar a uma sentença de mais de 20 anos de cadeia se a pessoa tivesse morrido em conseqüência da perseguição, e de mais de cinco anos se ficasse seriamente ferida, ou até um ano se ninguém se machucasse.

"Com a morte de Lady Di, surgiram várias tentativas de leis antipaparazzi" Em junho de 1998, celebridades e representantes dos meios de comunicação depuseram em audiências para discutir a

A nova lei também permitiria ações contra os que a violassem, embora proteja aqueles que solicitam, compram, usam ou vendem materiais obtidos pelo “assédio” contra acusações e ações criminais, a não ser que eles também tivessem participado da perseguição. O autor faz questão de reconhecer a assistência recebida, para desenvolver este artigo, dos arquivos do Comitê de Repórteres pela Liberdade de Imprensa, uma organização sem fins lucrativos que se dedica a conceder auxílio legal gratuito a repórteres e a veículos de comunicação (Arlington, Virginia, EUA), e do Centro de Privacidade Eletrônica da Informação, Washington, D.C. Saul Gefter trabalhou durante anos na programação da "Voz da América", foi ex-cônsul dos Estados Unidos no Rio de Janeiro e ficou morando no Brasil, onde trabalha como consultor jurídico internacional.

FALTA DE ÉTICA NA MANIPULAÇÃO DAS IMAGENS como um princípio absoluto. A prática do fotojornalismo não se resume a “apertar um botão”. A sociedade exige desses profissionais um compromisso político e social. O argumento de que a fotografia “não mente” é aceito em defesa da câmera, não do homem. Mesmo em nome do pseudo direito de informar, não se pode invadir a privacidade. Há que se ter bom senso e equilíbrio para perceber os limites, uma vez que essa liberdade é garantida, por lei, a todos os cidadãos, indistintamente. À luz do direito, vale lembrar, a freqüência com que os segredos são revelados, invasões são consumadas e as vítimas sequer recorrem ao Poder Judiciário. Geralmente, os famosos não consumam o pedido de reparação e absorvem os danos materiais e morais como se fossem inerentes à fama, mas o povo comum sequer sabe deste direito. No fotojornalismo, à medida que se intensifica a discussão da questão ética, é oportuno realçar que, face aos avanços tecnológicos, cada vez torna-se mais freqüente a manipulação de imagens digitalizadas sem que o autor e o leitor sejam informados. Esta é uma violência que se soma a outras cometidas diariamente como a sonegação de crédito ao autor – a maioria dos veículos credita suas fotografias a “arquivo”, “agências” e “departamento de arte”, como se fossem esses os verdadeiros autores. A fotografia não é, portanto, produto inocente e isento; ao contrário, sofre influências e manipulação crescentes. E o profissional é envolvido em nome da “sobrevivência”, a ponto de sair da redação com a fotografia “concebida”e editada pela linha editorial de cada veículo.

Adalberto Diniz “A fotografia abriu uma janela para o mundo. Os rostos dos personagens públicos, os acontecimentos que têm lugar no mesmo país e além fronteiras se tornam familiares.” Gisele Freund. Desde a sua descoberta a fotografia teve dificuldades de aceitação imediata, face ao seu elevado custo operacional e problemas técnicos – os filmes eram pouco sensíveis e as objetivas pouco luminosas. Mas o maior entrave foi a má vontade dos editores – acreditavam que apenas os textos eram capazes de “passar” toda carga de informações necessárias. Transpostos esses obstáculos, a “lua-de-mel” é duradoura e ninguém hoje tem dúvidas: fotografia e jornalismo nasceram um para o outro. O bom senso e a evolução tecnológica foram fundamentais na superação das dificuldades. Com o desenvolvimento econômico, os meios de comunicação deixaram de ser projetos ideológicos defensores de campanhas e se tornaram um “negócio”, onde, na busca incessante de “vender mais”, apelam para copiar o que surge de novo, adotam as cores e conteúdos muito semelhantes e rígidos horários de “fechamento”. Transformando-se em em verdadeiros “super-mercados da informação”, apoiados por tecnologia altamente desenvolvida, criaram novos produtos que são distribuídos, através de suas “agências-da-casa”, para veículos do interior, empresas em geral e governos federal e estaduais. Nesta competição acelerada, ficam muito tênues os limites éticos, tanto dos profissionais como dos empresários. Antes da implantação da era da informação automatizada, o quadro jurídico obedecia a um princípio de liberdade da informação. Princípio esse que nunca foi entendido

PROVA DOS NOVES

por a confidencialidade do que já foi publicado. Mas proporciona ao ofendido uma satisfação compensatória pelo sofrimento que experimentou. Desde a sua descoberta, aprimoramento e adoção definitiva como componente de

A utilidade da informação deve ser o parâmetro para legitimá-la e justificar a revelação de aspectos da intimidade de alguém. Considerando que toda informação

Adalberto Diniz, repórter fotográfico há 33 anos, é diretor do Departamento de Mobilização dos Jornalistas de Produção em Imagem da Federação Nacional do Jornalistas - FENAJ.

"O argumento de que a fotografia 'não mente' é aceito em defesa da câmera, não do homem"

ODIREITODAINFORMAÇÃO

forte expressão visual, a fotografia tem seu desenvolvimento sempre acrescido do interesse generalizado da sociedade, que a consome cada vez mais e de diversas maneiras. Na oportunidade em que se discutem as “perseguições” movidas por fotojornalistas a personalidades famosas, é oportuno lembrar que a divulgação dos fatos ocorridos é estimulada para aumentar tiragens, portanto, é a informação tratada como mercadoria – se “vender mais”, naturalmente deixa maior lucro. A proteção da intimidade é um dos fundamentos da confidencialidade e da proteção à vida privada. Esta é geralmente definida como um direito de personalidade, que se aplica ao indivíduo enquanto tal, o qual não poderá fazer dele outra utilização que não seja exercê-lo pessoalmente.

tem utilidade na medida em que contribui para conhecermos melhor a realidade e o padrão ético de nossa sociedade, ela deve ser publicada sem perder de vista os limites da ética. A utilidade pública da informação não pode se confundir com simples curiosidade do público em saber da vida privada dos seus ídolos ou de certos aspectos pitorescos da vida de alguém; portanto, não é admissível uma imprensa que expõe, como criminosos, suspeitos sem culpa formada e invade casas e vidas. Os atentados contra a intimidade da vida acarretam prejuízo de ordem econômica, por abalar o conceito social do ofendido e restringir, como conseqüência, as suas possibilidades de trabalho ou realização de negócios. O prejuízo econômico decorrente é aferido segundo o que se perdeu e o que se deixou de ganhar em virtude de tais ocorrências. A reparação do prejuízo econômico, na maioria das vezes, não faz reverter o abalo psíquico experimentado pela revelação indevida de aspectos íntimos da vida das pessoas. Não é possível reverter o sofrimento que já consumou, nem recom-

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QUEM FALA DOS FAMOSOS QUER FICAR FAMOSO públicas não usufruem deste direito? Por razões que dizem respeito à própria individualidade pública, em relação à sociedade em que vivem. Por alto, é fácil lembrar escândalos que, há muito, ocorreram por denúncias de personalidades públicas por invasão de sua vida privada. Desde os famosos fotógrafos papparazzi, que sempre vasculham de maneira abusiva a vida dos notáveis, sejam eles artistas, cientistas, políticos ou empresários, até o hábito atual de, em troca da fama, o jornalista ou qualquer pessoa que circule em certos ambientes, para a curiosidade de toda uma sociedade, vasculhar e se intrometer em questões privadas. É já conhecida a técnica da intimidade pelo convívio, que leva o interlocutor a pedir, em off, ou mais simplesmente, “este assunto fica entre nós”, ou mais ingenuamente ainda, “vou compartilhar com você um segredo”, e no dia seguinte o ambiente comum, seja ele de uma roda de familiares, amigos, colegas de trabalho, ou toda a sociedade, ter conhecimento deste assunto particular. É absolutamente conhecido este fato e também absolutamente clara a razão do mesmo: a curiosidade humana. Porém, e aí estão as leis para proteger os indivíduos, sejam eles públicos ou não, há restrições evidentes à tentação de se compartilhar a curiosidade com terceiros. Também outra característica do homem o faz vítima de sua defesa à privacidade, principalmente quando ele é público. É natural a busca da notoriedade, quando a atividade do indivíduo precisa ser conhecida e reconhecida por outros, notadamente em vários setores das relações sociais isto ocorre: na política,

Bete Mendes As figuras públicas têm direito à privacidade? Evidente. Têm. Mas, por absoluta contradição, não têm. Por quê? Têm, como qualquer indivíduo. E respaldadas pela Declaração Universal dos Direitos Humanos, que determina em seu artigo XII: “Ninguém será sujeito a interferência na sua vida privada, na sua família, no seu lar, ou na sua correspondência, nem a ataques, à sua honra e reputação. Todo homem tem direito à proteção da lei contra violências ou ataques.” Têm, como qualquer indivíduo, também respaldadas pela Constituição da República Federativa do Brasil, que determina, em seu ‘’ Título II – Dos direitos e garantias fundamentais – Capítulo I – Dos direitos e deveres individuais e coletivos – Artigo 5º - itens X – são invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas, assegurado o direito a indenização pelo dano material ou moral inerente de sua violação; e XI – é inviolável o sigilo da correspondência e das comunicações telegráficas, de dados e das comunicações telefônicas, salvo, no último caso, por ordem judicial, nas hipóteses e na forma que a lei estabelecer para fins de investigação criminal ou instrução processual penal”. Como se pode observar, tanto na Declaração Universal dos Direitos Humanos, quanto na Constituição brasileira, é inviolável a privacidade do indivíduo, seja qual for sua inserção na sociedade. Porém, por que afirmo que as figuras

artes, esportes, ciências, etc, ele precisa de notoriedade. E isso, concomitante ao relacionamento que ele conquista sobre seu ser especial, leva seu interlocutor a querer conhecê-lo mais, ficar íntimo e poder se gabar desta intimidade perante os demais. O resultado é a violência à privacidade. Hoje, com a velocidade da comunicação, além do amplo equipamento que a instrumentaliza, fica difícil o respeito à privacidade, principalmente das figuras

públicas. Há pouco tempo, a trágica morte da Princesa Diana foi um exemplo evidente desta invasão. O mais interessante nesta invasão à privacidade é que os invasores se sentem cumprindo um dever público e, na maioria das vezes, se justificam pela procura de reconhecimento a seu trabalho, ou seja, a notoriedade que os fará públicos também. E, especialmente, não admitem a possibilidade de sofrer a mesma violência. Mas, se perguntados sobre a legitimidade do direito, concordarão com entusiasmo. Outras características acompanham a discussão sobre ter ou não direito à privacidade. Tão logo se exemplifica uma figura pública vítima da invasão à sua, o comentário quase imediato é de que ela tem que pagar um ônus, porque é notável, seguida de dúvidas sobre se invasor não contribuiu para “desmistificar” a imagem perfeita da referida vítima e, se o debate se estender um pouco mais, chega-se ao veredito: a justiça não se exerce, é lenta, não pune quem descumpriu a lei, etc. Mas, nesta habitual discussão, não entra em nenhum momento a expectativa de cada debatedor sofrer a mesma situação. A conclusão que mais entristece é o hábito cultural da sociedade humana de, ao mesmo tempo em que estabelece normas para proteger e defender seus valores, ser mestre em desrespeitá-las, tirando de si a capacidade de respeito próprio.

"Eles se justificam pela procura de reconhecimento a seu trabalho, ou seja, a notoriedade que os fará públicos também"

Bete Mendes, atriz e deputada federal por duas vezes, foi secretária de cultura de São Paulo e é presidente da Fundação de Artes do Estado do Rio de Janeiro (FUNARJ).

TEMOS QUE PRESERVAR AS NOSSAS INTIMIDADES Bemvindo Sequeira Primeiro vamos ver literalmente o significado de privacidade: intimidade, familiaridade. Ora, o homem público é aquele que é publicado, tornado público, mas o que é tornado público? Aquilo exatamente que ele possui de domínio público: sua imagem, seus conceitos, seu trabalho, suas posições políticas, religiosas e sociais, suas alegrias e dores, suas relações pessoais e amorosas expressas por ele primeiramente, e publicamente. Mas deve sempre lhe ser reservado o direito ao que considera sua intimidade, seu direito aos limites que impõe ao público e ao publicado. Publica-se tudo na imprensa? Muitas coisas são impublicáveis. Assim também deve ser a vida do chamado homem público, compete a ele determinar o que é publicável ou não em sua vida privada. Se me perguntam – para publicar – como é minha relação íntima com minha esposa, posso me recusar a tornar isto público, e isto deve ser respeitado como intimidade e privacidade minha.

"Todos querem ser cada vez mais públicos e menos privados, ao contrário do que ocorre na nossa economia neoliberal..." ○

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Internet, todos querem ser cada vez mais públicos e menos privados, ao contrário do que ocorre na nossa economia neoliberal...todos desejam ardentemente seus 15 minutos de fama...nem que seja reencarnados como uma cadela vira-latas que morde um pit bull!!! Contanto que se seja público e os faça famosos... Eu, pessoalmente, como muitos colegas, faço reservas absolutas de certos cantinhos da minha vida. Temos que ter estes cantinhos só nossos. Todo ser humano, público ou não, tem seus cantinhos íntimos. De pai pra filho; de cônjuge para cônjuge; de mestre para discípulo e viceversa, todos temos nossas reservas. Todos temos nosso quarto fechado a chaves, para nossa própria saúde. Nosso cofre, nossos segredos – na maioria das vezes bobagens, como um botão, um fio de cabelo, um poema – impublicáveis!!!! (Publique-se este artigo) Hahahahaahahaha!!!

Hoje publica-se o diabo, até como forma de sensacionalismo e muito menos de informação. Que me interessa saber que Elizabeth Tayllor tem dois joanetes como duas ameixas, como foi publicado há pouco tempo? Interessa a quem? Nem ao ortopedista dela interessa esta publicação...o que faço com esta informação? O homem público somos todos nós, todos os seres humanos, somos todos públicos, já que de alguma forma toda a humanidade se “publiciza”. Existe sim – mais que o homem público de todos nós, o cidadão com compromissos públicos, sejam estes compromissos artísticos, religiosos, políticos, etc. Estes compromissos devem sempre estar publicados, e sempre sendo checados publicamente, lembrando sempre à sociedade e ao nosso cidadão público seu comprometimento com o que publicou. Quando John Lennon publica sua cama com Yoko Ono para todo o mundo, está dizendo que abre mão da sua intimidade sexual e a torna pública. Portanto, publicável. E o mais curioso é que, hoje, com a

Bemvindo Sequeira, é ator e diretor teatral, com 34 anos de profissão.

Jornal da ABI


POR DENTRO DAS NOVE "O político não tem o direito de esconder-se atrás do tabique da privacidade" À privacidade pessoal, familiar, sim. Mas à privacidade funcional, não. Todo político, funcionário público, dirigente público de qualquer nível, devia ter automaticamente abertas as contas bancárias, patrimônios e impostos de renda, ao público que lhe paga e o mantém. As figuras públicas também não podem ter direito à privacidade (uma falsa privacidade) diante da lei, do dever, do exercício da função. Um exemplo: um presidente da República não tem o direito de esconder-se atrás do tabique da privacidade para não reconhecer um filho e negar-lhe nome e identidade. Toda a imprensa brasileira sabe que o presidente Fernando Henrique tem um filho, fora do casamento, com uma bela e brilhante jornalista (os dois são os últimos exilados brasileiros). Nada contra filho fora do casamento, até porque o tenho, e é ótimo. Não reconhecê-lo, em nome da privacidade, é que é um crime público.

Quem exerce bem a função não precisa se esconder. Se a autoridade está no seu recesso pessoal e um fato exige a sua intervenção para pôr as coisas nos devidos lugares, é o que ela deve fazer. Se for preciso uma aparição para atender à expectativa da comunidade, que seja feita em pessoa ou através de nota, assessoria competente, etc.

Carlos Magno Araújo Considero que a figura pública tem o direito à privacidade. Entendo, porém, que, em alguns casos, quando atos praticados por estas mesmas personalidades públicas, em sua vida privada, interfiram e comprometam o poder ou a instituição que representam e, mais ainda, o cidadão comum, devem ser denunciados, não para prejuízo dela, autoridade, mas em benefício do cidadão.

JuanGargurevich

Juan Gargurevich, jornalista e historiador da comunicação, com atividades nos principais jornais peruanos, inclusive no mítico jornal alternativo Marca (uma espécie de Opinião ou Movimento peruano), é o atual coordenador do Curso de Jornalismo da Pontifícia Universidade Católica do Peru.

"Há que se distinguir o privado do íntimo" Mário Mesquita As figuras públicas são, indiscutivelmente, titulares do direito à proteção da intimidade da vida privada. No entanto, admito que, em circunstâncias excepcionais, justificadas por uma definição rigorosa de interesse público (tenha-se presente a contribuição dada, nesta matéria, pelas sucessivas revisões do código da britânica Press Complaints Comission), o âmbito de proteção da vida privada de certas personalidades - em especial dos governantes e dos políticos - possa ser objeto de “compressão”. O “privado” é, no entanto, mais vasto do que o “íntimo”. Alguns teóricos distinguem, dentro do campo do privado, a “esfera do íntimo”, composta por um núcleo decisivo cuja defesa e inviolabilidade está ligada à própria dignidade da pessoa humana (a vida sexual, por exemplo). Não há interesse público (ou “interesse do

"O limite deve estar no interesse público" Daniel Barbará

HaroldEmert

É uma questão que depende muito do lado de que se olha, pois várias personalidades são capazes de dar um de seus dedos por uma entrevista em seu início de carreira e, depois, se acham no direito de falar quando e sobre o que querem. Por outro lado, o jornalista, obedecendo as instruções de suas empresas, naturalmente marca demasiado sob pressão algumas figuras, criando, por excesso, um quadro às vezes até de um certo constrangimento. O público é quem deve decidir o limite

Eu não acredito que figuras públicas têm direito total à privacidade. Eu mudei de opinião depois de cobrir a morte por Aids do amante brasileiro de uma famosa estrela do rock britânico, aqui no Estado do Rio. Sensacionalismo? Sim e não - a estrela de rock famosa pode estar infectando fãs no mundo inteiro e a imprensa tem o dever de investigar tal história! Eu não gostei, porém, do espaço que a imprensa americana desperdiçou no caso amoroso de Clinton e Monica!

Jean-Jacques Sevilla, jornalista com 20 anos de profissão, é correspondente no Brasil, há 15 anos, dos jornais franceses Libération e Le Monde. ○

Tarcísio Holanda, jornalista há 47 anos, foi repórter e redator no Rio de Janeiro até se transferir, em 1975, para Brasília, onde passou a trabalhar na cobertura política, especialmente como comentarista político da TVE-RJ. Atualmente faz entrevistas na TV Câmara.

Claro que as figuras públicas têm direito a conservar espaços de privacidade. Existe uma máxima que diz que “mais evidência, menos privacidade”. É uma premissa falsa cultivada pelo jornalismo sensacionalista para justificar a invasão de privacidade.

Jean-Jacques Sevilla

Em termos relativos, creio. Lembro-me do deputado José Bonifácio de Andrade, o Zezinho, que procurava mostrar a impossibilidade de separar uma autoridade pública do cidadão comum dizendo: “Se alguém flagrar o Papa em bordel, não estará vendo, apenas, o cidadão Karol Wojtyla entregue a uma doce vilegiatura. Lá estará vendo o Papa, que é indissociável do cidadão”. O homem público tem direito à privacidade, mas não pode usar seu poder para se aproveitar sexualmente de uma estagiária, e no próprio local de trabalho, como fez o presidente Bill Clinton. Em outras palavras, a vida privada não pertence a um homem público. Ela pode ser devassada em nome do interesse público.

"Mais evidência, menos privacidade, premissa do sensacionalismo"

Carlos Magno Araújo, jornalista há 9 anos, é chefe de redação do Diário de Natal/O Poti, de Natal, Rio Grande do Norte.

Todo ser humano tem direito à privacidade. Mas faço duas ressalvas em relação às figuras públicas: 1) Tratando-se de membros do governo, o respeito à privacidade não pode prevalecer sobre o interesse maior da população: se um ministro freqüenta, por exemplo, mafiosos notórios, acho melhor denunciar essas ligações perigosas. 2) A respeito das estrelas do show business em geral, é difícil defender o respeito à privacidade para certas pessoas que vivem para a mídia e pela mídia. O destino trágico da princesa Diana ilustra de maneira emblemática essas relações incestuosas e neuróticas: ela morreu por onde pecou. Existia como pessoa famosa por causa da mídia, que acabou lhe tirando a vida.

Tarcísio Holanda

Raimundo Filho, jornalista com 30 anos de profissão, é o editor de primeira página do Diário de Pernambuco.

"Qual a privacidade de quem vive para a mídia "Direito de privacidade não pode ser total" e pela mídia?"

"O Papa num bordel será sempre o Papa e não o Karol Wojtyla"

Raimundo Filho

Sebastião Nery, jornalista há 47 anos, faz colunismo político para jornais de 16 estados brasileiros.

Daniel Barbará, publicitário, é diretor comercial da agência DPZ, presidente do Grupo de Mídia de São Paulo e conselheiro do Instituto Verificador de Circulação - IVC.

"Quem exerce bem a função não precisa se esconder"

Sebastião Nery

PROVA DOS NOVES

dessa questão, do que é privado ou não, manifestando-se através de sua leitura, audiência, etc.

Harold Emert, jornalista americano, com 30 anos de profissão, está há 25 anos no Brasil e trabalha como correspondente dos jornais Daily Express, Express on Sunday e Daily Star.

"Privacidade sim, desde que os atos não interfiram no interesse público"

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uma autoridade pode ter reflexos no seu trabalho e, conseqüentemente, na comunidade a ela diretamente ligada. Um exemplo: se se descobrisse um relacionamento extra-conjugal do presidente Fernando Henrique Cardoso às vésperas da eleição, é claro que este fato terá enorme repercussão diante do eleitorado. O comportamento privado de uma autoridade ou figura pública pode determinar muitas coisas em sua atuação, inclusive, que ela não tem condição de estar naquele posto.

público”, conceito diferente) que justifique a violação da intimidade da pessoa. Em qualquer caso, o que parece inaceitável, mas sucede, na prática, “dia sim, dia sim”, é a exploração da privacidade das figuras públicas para efeitos comerciais ou políticos, nuns casos em função de estratégias de autopromoção, noutros devido ao interesse comercial dos veículos. O interesse pela vida das figuras públicas é cada vez maior. Transformadas em personagens pelo “discurso” jornalístico, constituem o principal pólo de identificação e investimento afetivo dos leitores...

Qualquer pessoa tem direito à privacidade. A atividade pública pede transparência total dos atos, mas não pode ser sinônimo de vida particular devassada. No entanto, há ocasiões em que o público e o particular se confundem de tal forma, que fica difícil traçar o limite. É neste momento que a ética de cada profissional é posta à prova, e em cada situação, só a análise renovada e a discussão com outros jornalistas pode levar à decisão certa.

Claro que sim! Mesmo quando convidam os fotógrafos para os seus casamentos, nascimentos e funerais, continuam a ter esse direito. Se elas não têm juízo, os jornalistas devem ter por elas. Não confundir direito à privacidade com direito a fazer o que lhe apetece sem ser publicamente confrontado com isso.

Ricardo Noblat É claro que privacidade é direito de qualquer homem. Fundamental, entretanto, é definir o que se possa entender como privacidade de homem público. Noticiar que tal ou qual homem público mantêm uma amante, é fofoca barata, na qual esmera-se a imprensa britânica, com sobras para a americana, como foi visto no caso Clinton/ Monica. Há casos, entretanto, em que a manutenção de amante pode ser de interesse público e aí cai a privacidade. Temos como exemplo o vereador de São Paulo, que associou a amante às próprias falcatruas. É importante, também, afirmar que homem público não pode ter privacidade em termos de movimentação de bens móveis e imóveis.

Vladimir Reznichenko Cada profissão tem as suas faculdades próprias. Umas requerem o uso obrigatório do smoking; outras, a nudez total. As personalidades públicas têm que aceitar as regras do jogo em que entraram voluntariamente. No fim das contas, eles são como figuras no tabuleiro de xadrez: sempre devem estar palpáveis e à vista.

Marcelo Auler Figuras públicas têm direito à privacidade, desde que a privacidade delas não afete o trabalho que elas devem, por obrigação, cumprir. Na medida em que as duas coisas se confundem, acabou o direito à privacidade. Marcelo Auler, jornalista há 26 anos, é repórter do jornal O Dia.

Vladimir Reznichenko, jornalista e tradutor de Camões e Bocage para a língua russa, é chefe de representação da agência noticiosa Novosti no Brasil.

"Quem opta pelo público tem que arcar com as conseqüências"

"Nos artistas, a vida privada faz parte da vida pública"

Claro que não. Todo fato ligado a pessoa ou órgão público tem de ser tornado público. No momento em que a pessoa opta por uma vida pública, ela terá de arcar com as conseqüências. Uma atitude privada de

"Deve prevalecer o bom senso na invasão"

Ricardo Noblat, jornalista há 32 anos, é diretor de redação do jornal Correio Braziliense e o mais novo condômino dos Diários Associados.

Talita Figueiredo Uma pessoa pública deve entender o interesse que os outros sentem ao redor de sua figura. No entanto, acredito que deva existir um bom senso na hora de “invadir” a privacidade de alguém. Há “plantões” e perseguições exageradas e, muitas vezes, sem cabimento.

As figuras públicas têm direito à privacidade na sua vida privada, enquanto essa não afeta o compromisso público que elas assumiram nas suas atividades de

Depende. Sou contra, por exemplo, a publicação de uma foto da primeira-dama em trajes de banho se assim ela estava vestida dentro da casa onde mora. E se a foto foi obtida sem o consentimento dela. De outra parte, sou a favor de se publicar a história de uma alta autoridade que teve um filho fora do casamento e não o reconheceu. Quando o espaço privado de uma figura pública invade o espaço do interesse da sociedade, deixa de ser privado. O norteamericano tinha o direito de saber que seu presidente enganava ingênuas estagiárias dentro da Casa Branca. As brigas entre Clinton e Hillary só deveriam interessar ao próprio casal. Uma figura pública não deve ser julgada apenas por seus atos políticos e administrativos, mas também por seu comportamento. Se os brasileiros tivessem conhecido, antes das eleições de 1989, a vida pregressa do ex-presidente Collor, certamente não teriam votado nele.

Marco Aurélio Guimarães (Jangada), jornalista há 40 anos, é coordenador de redação do Jornal do Commercio, do Rio de Janeiro.

Jorge Luis Bernetti

Décio Sá

Luiz Carlos Cascon, jornalista há 25 anos, é subchefe de reportagem e líder da equipe de polícia e justiça da editoria Rio do jornal O Globo.

Marco Aurélio Guimarães (Jangada)

"Personalidades públicas devem estar palpáveis e à vista"

"Desde que não afete a obrigação, o trabalho"

Em tese sim. Mas na prática essas pessoas estão sempre mais expostas. Há um fascínio muito grande da opinião pública em relação às figuras públicas de projeção. Especialmente, quando essas figuras se envolvem em alguma notícia, seja positiva, seja negativa. Isso pode ser comprovado pelo alto índice de leitura de matérias que tratam disso. O sucesso, o dinheiro, a fama, tudo isso tem seu preço.

"O povo tinha direito de saber que o presidente enganava uma estagiária"

Eric Brücher Camara, jornalista há 4 anos, é repórter do jornal O Globo.

Carla Baptista, jornalista há sete anos nos jornais portugueses Diário de Notícias e 24 Horas, trabalha atualmente como free-lancer.

Luiz Carlos Cascon

Eric Brücher Camara

Carla Baptista

"Fama e dinheiro, tudo tem seu preço"

"Há casos em que a amante pode ser de interesse público"

"'E difícil tomar a decisão certa na hora da divulgação"

"Se famosos não têm juízo, os jornalistas devem ter por eles"

zembro de 1998, é repórter do jornal O Dia.

Jorge Luis Bernetti, jornalista durante 28 anos, passou a se dedicar ao ensino da comunicação e hoje é professor titular de jornalismo na Universidade Nacional de La Plata e na Universidade de Buenos Aires.

Décio Sá, com 5 anos de jornalismo, é editor especial de O Imparcial (MA).

Mário Mesquita, jornalista há 28 anos, ajudou a criar o primeiro curso de jornalismo em Portugal e foi também o primeiro ombudsman de imprensa no país. Foi diretor do Diário de Notícias e do Diário de Lisboa e, atualmente, é colunista semanal do diário O Público, de Lisboa.

governantes, legisladores e juízes. No caso de quem utiliza a vida privada como parte da atividade pública - eventualmente artistas e esportistas -, sua vida privada passa a fazer parte da sua vida pública. Ou seja: se o divórcio de um juiz afeta as causas em que ele trabalha, essa informação deve ser pública.

Sandra Ney Acho que têm todo direito. Há limites para cobertura da imprensa. Num momento de descanso, de encontros puramente familiares, por exemplo,achoqueimprensadeveseafastar.

Talita Figueiredo, com 22 anos, formada em jornalismo pela Faculdade de Comunicação Social da UERJ, em de-

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"Alguns não resistem a usar um microfone"

Jornal da ABI


que todos têm direito à privacidade. Mas, na virada da apuração, o repórter necessita avaliar até onde pode ir e em que ponto tem que parar. Por exemplo: escuta telefônica é crime. Mas, se o repórter ouve uma conversa, sem que a fonte perceba e daí extrai uma informação, é claro que pode e deve utilizá-la. Nunca decorei código de ética e poucas vezes balancei na corda bamba da dúvida. E sempre resolvi meus problemas de consciência, ouvindo-a. E apelando para o bom senso. Não carrego remorsos na bagagem da vida.

No entanto, acho que o chamado assédio insistente da imprensa tem dois lados: o das redações, inseguras de serem furadas pelos concorrentes, e o das figuras públicas, que não resistem a um microfone e, elas próprias, deixam a “invasão” acontecer. Sandra Ney, jornalista há 25 anos, é chefe de reportagem da TVE-RJ.

"O nome já diz tudo: figuras públicas"

sacional. Esta, constantemente, suscita escândalo, por vezes com graves conseqüências. Penso que, na sua função pública, essas figuras não têm direito à privacidade; na vida privada, sim. Mario de Moraes, primeiro Prêmio Esso de Reportagem no Brasil, em 1955, é jornalista desde os 16 anos e continua, ainda hoje, aos 74 anos, fazendo reportagens e entrevistas para jornais e revistas.

O próprio nome já diz: figuras públicas. Público quer dizer pertencente à coletividade. Isso, porém, não significa que as pessoas públicas devam ter sua vida pessoal invadida. Acredito que não - a menos que algum fato da vida pessoal seja relevante para o papel público que essa pessoa desempenha. Exemplo: um político, suspeito de corrupção, começa a ter seus bens particulares investigados pela imprensa. Isso é normal. Esses bens podem comprovar a riqueza excessiva do eventual suspeito. Na minha opinião, o problema é quando os jornais entram no caminho da fofoca gratuita: tal atriz está saindo com tal cantor, aquela socialite foi vista com um amante. Até que ponto isso seria relevante? Para mim, não muito.

Erick Torrico Villanueva, jornalista h á 16 anos, dirige o mestrado em Comunicação e Desenvolvimento da Universidade Andina Simón Bolívar

"Quem entra na cena pública perde o controle do privado"

Villas-Bôas Corrêa, jornalista há 51 anos, é repórter político do Jornal do Brasil e da TV Manchete.

Fábio Grijó

Mas isso não significa que os veículos tenham o direito de intervir em sua intimidade. As pessoas são “noticiáveis” enquanto desempenham seus papéis públicos e, por isso, as coberturas informativas não devem imiscuir-se em suas vidas privadas.

"Ao lado das 'invasões', também julgamentos" Laurindo Ferreira

Erick Torrico Villanueva Desde o momento em que uma pessoa ingressa na cena pública – por sua atividade na política, na economia, no esporte, na cultura ou no espetáculo – deixa de ter pleno controle sobre seu espaço privado e familiar. O fato de que saíram do anonimato e se transformaram num foco de atenção relativamente permanente para um determinado setor da população leva, em conseqüência, a que os veículos fiquem pendentes de suas condutas e deslizes, de sua ação, suas palavras e suas relações.

"Às vezes os repórteres exageram no afã da busca do sensacional" Mario de Moraes Acredito que sim, mas não tanto como elas desejam. Por vezes os repórteres exageram no seu afã de obter alguma declaração exclusiva ou uma foto sen-

Fábio Grijó, jornalista há 2 anos, é repórter da editoria de esportes do Jornal do Brasil.

É um direito de todos, não somente das figuras públicas. É claro que no caso das tais figuras públicas é um pouco mais complicado, porque elas, por serem públicas, têm, necessariamente, de prestar contas dos seus atos. O que não dá o direito à imprensa de invadir a privacidade dessas mesmas pessoas. Até porque, comumente, essas “invasões” vêm, quase sempre, com julgamentos precipitados, conclusões apressadas. Laurindo Ferreira, jornalista há 8 anos, é chefe-geral de reportagem do Jornal do Commercio, do Recife. Reportagem: M. Cristina Martins Fotos: Rafael Porto

O POVO FALA As pessoas famosas têm direito à privacidade?

"Absurdos em nome da liberdade de imprensa" Saulo Moreira Homem público não tem vida privada. É importante, porém, saber filtrar notícias sensacionalistas daquilo que realmente interessa ao leitor, sob pena de se perder credibilidade. O compromisso do jornal deve ser com o leitor, com a população. Os detalhes da vida privada de um político podem interferir decisivamente na sua vida pública e, conseqüentemente, atingir milhões de pessoas. É preciso, entretanto, respeitar os limites previstos pela Justiça. A menos que se tenha certeza de que outras pessoas podem ser atingidas, não se deve, deliberadamente, invadir a privacidade de um homem, mesmo que seja uma figura pública. Muitos absurdos já foram cometidos em nome da liberdade de imprensa.

Maguidiel Tavares 22 anos, auxiliar de almoxarifado

Ubiraci Barbosa Lima 52 anos, advogado

“Acho que sim, porque é um direito de cada um, ninguém se sente bem quando não tem sua privacidade.”

“Claro, todo mundo tem direito, está na Constituição.”

Saulo Moreira, jornalista há 2 anos, é repórter do Diário de Pernambuco.

"Ouvir a consciência na hora da dúvida"

Mauro dos Santos 60 anos, funcionário público

Villas-Bôas Corrêa

“Acho que sim, porque eu acho que é um direito que elas têm.”

Não há como responder a perguntas como esta na singeleza do sim ou não. Claro ○

PROVA DOS NOVES

Roberta dos Santos Ferraz 24 anos, auxiliar administrativo

Sebastiana dos Santos 37 anos, copeira

“Têm, porque são seres humanos como qualquer um, não pode também os fãs ficarem muito em cima.”

“Eu acho que sim. Só porque é famosa não vai ter direito à privacidade?”

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A função social de informar deveria ser sempre a mesma, independentemente dos meios e da composição acionária dos veículos. Mas certamente não é o que ocorre, ressalvadas as diferenças de

estilo e formatação da notícia. A própria função, às vezes, fica prejudicada por outros interesses que nada têm a ver com a prática do jornalismo que é ensinado e aprendido nas escolas e nas redações.

PRÁTICA DO JORNALISMO DEPENDE DO VEÍCULO tos que se deseje examinar. Começa pelo que signifique “prática”. No sentido mais amplo, é a maneira geral de captar informação, processá-la (empacotá-la, para usar a palavra da moda) e apresentá-la ao público. Como essa apresentação final se faz por muitos meios, fico nos três principais – jornal, rádio e televisão, em sua ordem histórica. Para cada um desses três tipos básicos de veículo, há um ritmo e uma linguagem diferentes dos demais. O processamento, portanto, atende necessariamente a esses diferentes formatos: texto elaborado, preciso e exaustivo (no sentido de esgotar o assunto em pauta) para o jornal; loquaz, improvisador e repetitivo para o rádio; sucinto, simples e o mais entrosado possível com a imagem, para a televisão. Mas não está aí o principal. O busílis está na identidade de cada veículo em particular. Por mais que os órgãos de comunicação estejam em convergência para satisfazer as exigências do público, são muitos os vícios persistentes na prática do

Evandro Carlos de Andrade É das nove questões propostas a que me coube: a prática do jornalismo é sempre igual ou depende do veículo? A resposta é: depende do veículo, em todos os aspec-

jornalismo em nosso país. Uma arrogância histórica, que cede muito a custo, ainda nos apresenta editoriais de primeira página pretendendo ditar a política de câmbio, ou “analistas políticos” insinuando torpezas contra homens públicos sem apresentar provas, ou comentaristas que indagam do chefe imediato como devem fazer seus comentários, ou repórteres que saem da redação não para apurar um fato, mas para comprovar de qualquer modo aquilo que a chefia deseja que seja verdade, ou repórteres mais preocupados em se fazer admirar fisicamente pelo telespectador do que com o conteúdo de suas reportagens.

Ora, até que o público desses veículos se dê conta das deformações institucionais a que está exposta a informação procurada, muito tempo se passará. Sobretudo porque nem sempre esse público percebe, no tiroteio freqüentemente travado entre tais veículos, os procedimentos sujos provocados apenas pelo jamais confessado espírito de competição. A prática do jornalismo, apesar de tudo, melhora a cada dia, os profissionais de espírito independente se sentem cada vez mais livres para cumprir com dignidade as suas tarefas. Se hoje se observa a tendência para a concentração da mídia (ou seja, para a decadência e o fechamento de empresas jornalísticas) isso se deve pura e simplesmente à seleção natural em favor de uma informação isenta, imparcial, abrangente, exata – enfim, honesta.

"Até que o público se dê conta das deformações na informação, muito tempo se passará"

Evandro Carlos de Andrade, jornalista há 46 anos, foi diretor de redação de O Globo, de 1971 a 1995, quando se transferiu para a TV Globo, onde é diretor da Central Globo de Jornalismo.

A HISTÓRIA DE ADÃO E EVA EM VÁRIAS VERSÕES mídia, nos dias de hoje? Em primeiro lugar, temos de admitir: é bem possível que o assunto fosse noticiado. Afinal, Deus e seus seguidores continuam rendendo manchetes, embora disputem espaço na mídia com o Diabo e seus representantes, como os vestidos de Monica, as explosões de Bill, o sobe-e-desce do real, os informantes do Banco Central, os fiscais da máfia. Se o tal Jardim do Éden ficasse numa área importante, em termos geopolíticos – no Kosovo, por exemplo – minutos depois estaria por lá uma equipe da CNN. E dois dias mais tarde, outra da TV Globo, o correspondente da Folha, do Globo, da Veja, da Época e da IstoÉ. Não seria muito mais do que isso, por causa da contenção de despesas, vocês sabem como é. Conhecendo a filosofia das emissoras, a cobertura ao vivo da expulsão de Adão e Eva teria uma reconstituição meio desfocada, imagens exclusivas (feitas por um cinegrafista amador) da tal serpente, larga sonora do Senhor e, quem sabe, uma entrevistinha com o próprio Lúcifer. Tudo devidamente dosado de maneira a garantir a imparcialidade jornalística, sem ofender ao Todo-Poderoso, é claro. Se o caso se arrastasse, nos intervalos comerciais da cobertura – quatro cotas de patrocínio exclusivo, com 20 chamadas ao longo da

Paulo Markun É talvez a notícia mais antiga da história. Ou, pelo menos, a primeira a envolver diretamente um parente nosso. E todo mundo sabe, inclusive os jornalistas, que quando a notícia tem a ver com alguém muito próximo, ela adquire um relevo diferente. Nos quatro cantos do mundo, o caso acabou registrado da mesma forma. Começa assim: “E tomou o Senhor Deus o homem e o pôs no jardim do Éden, para o lavrar e o guardar. ‘De toda árvore comerás livremente. Mas a árvore da ciência do bem e do mal, dela não comerás, porque no dia em que dela comeres, morrerás... E da costela que o Senhor Deus tomou do homem formou uma mulher e trouxe-a a Adão...” Daí em diante, os fatos são tão conhecidos que vou pular esta parte. Estão em Gênesis 4,5 ( não, não é o conjunto de rock). É bom lembrar que a única versão da história que chegou até nós é, evidentemente, a oficial. Ou seja, não é de hoje que a informação é um privilégio de quem está no poder, por ele utilizada como forma de se manter no controle da situação ou de propagar sua visão de mundo. Mas como o caso seria tratado pela

PROVA DOS NOVES

programação e cobertura assegurada no telejornal de maior audiência – ainda poderíamos ter anúncios criados pelo Washington Olivetto ou pelo Nizan Guanaes na seguinte linha: “Maçã. Pecado é não comer”. Ou: “Reze, Adão. A costela você não

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recupera. O Paraíso, só Deus sabe”. Mas e os jornais, como cobririam o caso? Porque é disso que o artigo deveria tratar, da diferença que existe entre trabalhar para um ou outro veículo, se bem me lembro... Vamos lá:


mostra o mapa. Os dois teriam sido expulsos de lá depois de um desentendimento com Deus. O casal contava a mesma história – a de que tinham sido levados a desobedecer uma determinação divina por causa da serpente. O porta-voz de Deus, arcanjo São Gabriel, um milhão de anos, explicou que o Senhor estava muito ocupado analisando as conseqüências do incidente para seu projeto edênico e não poderia falar com a imprensa. Mas deixou claro que a Justiça Divina continuará sendo implacável e que os pedidos de anistia ou mesmo de revisão da pena não serão levados em conta. Até o fechamento desta edição, a serpente não foi encontrada em nenhuma árvore. Não se sabe ainda quais as conseqüências do caso para o futuro da humanidade. A Folha apurou que Deus, desanimado, está disposto a eleger os golfinhos como herdeiros do reino deste mundo.

O EST ADO DO ÉDEN ESTADO CASAL EXPULSO DO PARAÍSO Adão e Eva postos para fora por desrespeitarem regras do condomínio fechado Éden, do enviado especial Moisés O casal Adão e Eva foi expulso do Éden depois que a mulher comeu o fruto proibido – uma suculenta maçã vermelha – levando em seguida seu companheiro – eles não eram casados – a cometer o mesmo crime. Adão havia sido contratado como único vigia do jardim, mas, sentindo-se solitário, pediu a Deus que lhe desse uma companheira. Ambos foram expressamente advertidos por ele sobre a proibição de comerem o fruto da árvore do bem e do mal. Veja o editorial O preço da ousadia na página 3.

FOLHA DO ÉDEN CASAL EXPULSO DO PARAÍSO QUERIA FORMAR FAMÍLIA Golfinhos podem substituir a dupla no projeto divino

O casal de humanos diz que a experiência foi inesquecível e pensa em constituir família. Veja no infográfico abaixo o que acontecerá com o mundo se os golfinhos forem realmente promovidos. Mas e se no nosso hipotético mundo da comunicação houvesse um jornal identificado com o outro lado? A coisa seria mais ou menos assim:

A VOZ DA SERPENTE AUTORITARISMO DE DEUS FAZ MAIS DUAS VÍTIMAS Insegurança de quem se apresenta como “o Senhor de todas as coisas” mostra a face cruel do “Todo-Poderoso” e deixa casal humano sem ter onde morar.

Como se vê, cada veículo trata as notícias à sua maneira. E nós que pulamos entre eles, como macacos de galho em galho, só não podemos esquecer uma lição. Apesar das diferenças, da orientação de cada publicação, existe um caminho a ser perseguido, que é o de buscar a verdade, sempre inalcançável. Mas, como diz a Bíblia, não é fácil o caminho do Paraíso.

O casal de humanos Adão e Eva vive dias de amargura, depois de ter sido posto para fora do Jardim do Éden, sem apelação. O autor desta violência neoliberal foi nada mais, nada menos do que deus, que faz questão de grafar seu nome em letras maiúsculas. O verdadeiro motivo da expulsão foi o temor da concorrência. Consta ainda que ele estaria interessado em erguer no Paraíso um condomínio de luxo e precisava se livrar

"Não é de hoje que a informação é um privilégio de quem está no poder"

Da sucursal do Éden O primeiro casal humano, Adão e Eva, idades não confirmadas, foi encontrado hoje perambulando em trajes menores em volta do Jardim do Éden – a 1500 quilômetros de São Paulo, como

da dupla. Quem informou a dupla sobre as vantagens de comer o fruto, injustamente proibido, foi nossa companheira, a serpente, que agora corre o risco de ser responsabilizada por aquilo que o pessoal do Céu insiste em chamar de crime – a informação isenta, correta e independente como a que publicamos aqui, diariamente. Adão e Eva ainda não sabem o que fazer. Receberam uma proposta de Lúcifer para assumirem o cargo de relações públicas do inferno e estudam a possibilidade de apresentar um talkshow erótico chamado “O Sabor do Fruto Proibido”, logo depois do programa do Ratinho. O MSP – Movimento dos Sem Paraíso – convocou uma manifestação diante da Porta do Céu. Todos os companheiros estão desde já convocados.

Paulo Markun, jornalista há 29 anos, é apresentador do “Roda Viva” da TV Cultura.

ANÚNCIO

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Jornal da ABI


O “MORDE-ASSOPRA” DAS VERDADES DE CADA UM postura diuturna de mostrar um país envergonhado com as práticas políticas corruptoras e corruptas, o jornalismo contemporâneo estabelece uma relação que o populacho resolveu, sabiamente, denominar de “morde-assopra”, para mostrar-se independente de dia e não tão, quando chega a noite. A ombudsman da Folha, Renata Lo Prete, avalia em sua coluna semanal do domingo 10/4/99 as ocorrências do seu jornal diante de uma bela matéria anterior, que mostrava o novo Quixote da justiça brasileira, o senador Antonio Carlos Magalhães, como grande empregador de netos, irmãos e parentes num dia e, no outro, dava-lhe destaque soberbo na defesa da sua postura em favor da CPI contra o Judiciário. Este país meio “jeca-tatu”, que se constrói do Arroio ao Chuí, tem estas mazelas do fazer jornalístico realçadas quando nos debruçamos para conhecer as realidades mesorregionais. A nossa história da imprensa está repleta de fatos e ações onde imprensa local e prefeitos foram aliados e adversários ao sabor das conveniências. E por conveniências entendamos com todas as letras as cifras dos cheques pagos para a “prestação do serviço público” de difusão de informações pró ou contra os mandatários do momento. Ao construírem patrimônios formidáveis – do valor do título do próprio jornal, aos prédios, equipamentos e recursos humanos – os empresários do jornalismo contemporâneo escreveram nas últimas páginas de suas bíblias pessoais

Adolpho Queiroz As concepções do jornalismo transcendem uma sala de redação. Elas se originam nelas, são filtradas pelos vários níveis de hierarquia na empresa e são consolidadas atrás de mesas e paredes envidraçadas que enxergam a notícia “como um produto à venda”, conforme concepção da profª. Cremilda Medina, num livro interessante já escrito há algum tempo. Desde que o ex-presidente Campos Salles, no princípio do século, iniciou o processo de sedução e aliciamento formal da imprensa aos interesses governamentais – com as concessões de empréstimos para a compra de equipamentos, insumos ou mesmo fomentando práticas empregatícias pouco usuais aos jornalistas/funcionários públicos - passando pelos episódios de resistência da imprensa aos momentos ditatoriais vividos pelo país, até mais recentemente quando o governo brasileiro investiu quase meio bilhão de dólares em anúncios para a imprensa, no período préeleitoral de 1998, que cultiva-se no país uma dialética hipócrita: batemos, mas levamos! Os estudos de jornalismo comparado estão aí para indicar que temas do dia-a-dia estão à venda nas bancas com nuances e conveniências peculiares destes dias. Ácidos nos editoriais, nos artigos opinativos, nas charges – especialmente – e vez por outras nas fotografias inoportunas, os nossos diários – jornalões ou prestige- papers ou jornais regionais – avançaram em muito rumo à independência

"Aos leitores tem restado aguçar sensibilidades e discernimentos para ler além das críticas e elogios" administrativa e financeira do poder público formal. Contudo, das recentes privatizações e do engajamento da imprensa ao processo, em função das alianças empresariais estabelecidas, passando pela

que “Deus é bom... mas o diabo não é tão ruim assim!”. Aos leitores, tem restado, nos últimos anos, aguçar sensibilidades e discernimentos para lerem além das críticas e elogios. A prática do jornalismo, infelizmente, tem-se pautado nos últimos anos – apesar dos esforços de parcelas da imprensa para se independenciarem dos poderes constituídos – na ditadura dos cheques, investimentos, concessões, regalias e mazelas que emanam dos centros de poder (público ou privado, não importa tanto, embora no caso brasileiro, o governo brasileiro aja como milagreiro em certas ocasiões). Campos Sales iniciou. Outros aprimoraram. FHC seduziu-a com a modernidade. Os prefeitos do interior a aperfeiçoaram. Por isso as pesquisas realizadas para aferir a credibilidade de jornais, telejornais e radiojornais, dão conta da baixa credibilidade de produtos e produtores. E jogam a auto-estima profissional lá embaixo. Preservando-se, evidentemente, as honrosas exceções de sempre. Adolfo Queiroz, jornalista e publicitário, com doutorado em ciências da comunicação, é professor do programa de pósgraduação em comunicação na UMESP e dos cursos de jornalismo e publicidade na UNIMEP (Piracicaba), além de assessor de marketing político da Prefeitura Municipal de Santa Bárbara d´ Oeste

ALGUMAS REFLEXÕES SOBRE JORNALISMO PÚBLICO contratada pelo setor público, em contrato de gestão, para cumprir o objetivo estratégico de “fornecer informação responsável e de qualidade com a função didática de formar cidadãos mais conscientes e livres”. Ganhou agilidade empresarial, livrou-se da atmosfera de repartição, pode garimpar recursos no mercado dentro de certos parâmetros, dispensa licitação. Mas sua missão é de tal responsabilidade que julgou-se necessário criar um Conselho Editorial, composto de jornalistas experientes e conceituados, que, embora tenham a maior parte de suas carreiras transcorrida em órgãos da grande imprensa, já demonstraram “estar preocupados com o jornalismo ético, crítico, analítico e construtivo”. Seus primeiros integrantes são: Alberto Dines, Alexandre Machado, Ancelmo Góes, Fernando Barbosa Lima, Jorge Guilherme Pontes e Matinas Suzuki, tendo Claudio Bojunga, diretor de jornalismo da emissora, como diretor-executivo. Como espírito público não deve ser monopólio de emissoras públicas, o secretário de Direitos Humanos, José Gregori, pediu às emissoras comerciais que apresentassem um código ético de conduta, da lavra delas, em forma de autoregulamentação. Evita-se, assim, a indesejada intervenção estatal, mas também dá-se satisfação ao clamor social contra as

Claudio Bojunga Pode-se definir pragmaticamente o jornalismo público como sendo o jornalismo próprio das emissoras não comerciais (ou apropriado a elas), emissoras não orientadas pela lógica do mercado – mas também não submetidas ao oficialismo que, entre nós, é a marca da administração pública direta. Julgo que um jornalismo público conseqüente é possível apenas em entidades públicas de direito privado, emissoras não estatais, com Conselho de Administração ou Conselho Curador, com participação do setor público, federal ou estadual, mas também composto de segmentos da sociedade civil. É o caso, no Brasil, dos integrantes da Associação de Emissoras Públicas Educativas e Culturais – Abepec – embrião da Rede Pública de Televisão, com afiliadas em praticamente todos os estados brasileiros. Rede capitaneada pela Associação de Comunicação Educativa Roquette-Pinto, a Acerp – da qual fazem parte a TVE e a Rádio Ministério da Educação, com sede no Rio – e pela TV Cultura, controlada pela Fundação Anchieta, com sede em São Paulo. A TV Cultura é há muito entidade pública de direito privado, enquanto a Acerp somente há pouco mais de um ano passou a ser organização social, entidade ○

PROVA DOS NOVES

vulgaridades e baixarias, criando, de comum acordo, um padrão ético mínimo exigido pelo órgão concedente dos canais às empresas privadas. Ainda que não solicitadas nesse sentido, porque julgadas satisfatórias sob este aspecto, as TV’s públicas, em recente encontro no Rio, fixaram alguns mandamentos que deverão nortear sua ação: 1) Defender a TV pública em sua independência e viabilidade técnica e educativa, cultural e informativa, a serviço da sociedade brasileira. 2) Defender a TV pública como fator de integração, inclusão social e canal de acesso à informação livre e igual para todos. 3) Defender a pluralidade, a diversidade

“O jornalismo público tem como tarefa politizar a nação. Politizar não é doutrinar, praticar proselitismo político ou religioso, mas possibilitar que a cidadania floresça. É preciso traçar os limites para o viés oficialista e para a indevida intromissão comercial”

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e os direitos das minorias, valorizando as culturas regionais e a identidade nacional. 4) Defender o entretenimento saudável e enriquecedor, que demonstre respeito à inteligência e à sensibilidade do telespectador, sobretudo das crianças. 5) Defender os direitos humanos e da informação como instrumentos da cidadania. 6) Valorizar programas como complemento à ação educadora da escola e formadora da família, e a condenação a atos que incitem a sexualidade precoce na programação. 7) Valorizar a criatividade e inovação da produção de programas educativos e culturais. 8) Valorizar a análise, o espírito crítico e questionador, estimulando a busca de fontes alternativas de conhecimento e informação. 9) Repudiar todas as formas de violência e condenação à exploração que conduza à humilhação do ser humano na programação. Especificamente no que diz respeito ao jornalismo público, gostaria de fazer algumas observações como diretor de jornalismo da Acerp. 1) A transição de empresa estatal para organização social, em seu segundo ano, ainda configura um modelo algo híbrido de gerenciamento e medição de desempenho, com um mix de conceitos originários da administração pública e com aqueles consagrados na área privada. Reflexo do

desafio de conciliar o compromisso público com o dinamismo empresarial antenado ao mercado. Para isso, é preciso traçar os limites para o viés oficialista e para a indevida intromissão comercial ou para o oportunismo cultural. 2) O jornalismo público tem como tarefa politizar a nação. Politizar não é doutrinar, praticar proselitismo político ou religioso, mas possibilitar que a cidadania floresça. 3) O interesse público é mais amplo do que as políticas públicas, mas estas podem e devem ser objeto de um jornalismo sério, capaz de aprofundar pautas não cobertas pela mídia comercial. 4) A TVE, que um preconceito muito difundido apontava como elitista, descobriu, em pesquisa de opinião, que atinge preferencialmente as classes C, D e E. Descoberta que pede atitude cautelosa: as classes populares optaram pela emissora pública por sua marca cultural e pelo respeito com que tratam seu público, e não pelo viés populista. A classificação sócioeconômica, que norteia as emissoras comerciais, é enganosa: para ela, bicheiro é classe A, professores e médicos da rede pública podem ser das classes C e D. 5) Decorre daí que em todas as faixas de renda existem elites intelectuais, aspiração por biscoitos finos, exigência de respeito, apreço pela conduta ética e aspiração à qualificação e mobilidade social. Portanto, não devemos num jornalismo público adotar o foco da massificação, mas trabalhar com respeito pela segmentação

do público. 6) Devemos ter como prioridade os documentários nos campos da cultura, da cidadania, da história antiga e contemporânea, das artes, da educação, dos esportes, dos direitos civis, da inserção do Brasil no Mercosul e no mundo globalizado. Poderíamos pensar uma brasiliana visual. 7) Alberto Dines caracterizou o processo que ora se desenvolve no jornalismo das emissoras públicas de direito privado como um learning process, sistema inclinado para o aprendizado, em constante estado de reexame, preparação e experimentação. Para atender aos objetivos do interesse público, sua cobertura deve visar à contextualização, à referência e à localização dos acontecimentos para o correto entendimento por sua audiência. Uma televisão para o povo não é o mesmo que uma televisão popularesca. 8) Fernando Barbosa Lima disse que uma emissora pública não deve se interessar em audiência, mas no sucesso. A possibilidade de trabalhar com patrocínio abre a oportunidade de um jornalismo diferenciado, didático, de aprofundamento, um jornalismo de serviço, programas segmentados, com música instrumental, cinema, informática, ecologia, literatura, etc. Celebrar a criatividade brasileira, trabalhar nossas referências. 9) Jorge Guilherme Pontes observou que a preocupação com o país é justificável,

pois estamos em mais de cinco mil parabólicas. Ou seja, somos um sinal aberto, com maior penetração do que todas as tevês a cabo do país. Nosso “Rede Brasil Revista”, que vai ao ar às 22hs, está presente ainda na Net-SP (canal 8), TVASP, Direct TV, Sky, TV Nacional, Brasília e, meia-noite, na TV Cultura. 10) Alexandre Machado acentuou a necessidade de estimular o debate sobre a apropriação privada do espaço público, definindo no dia-a-dia os limites das esferas pública e privada e denunciando o tratamento do espaço público como terra de ninguém, ou espaço privilegiado da autoridade prepotente. Acrescento que a preocupação com esse tipo de jornalismo, muito bem praticado pela BBC inglesa e pela PBS americana, tem sido objeto de seminários e workshops na TV Cultura, que servirão de inspiração para trabalho semelhante a ser desenvolvido na TVE do Rio e de Brasília. Em resumo, trata-se de situar na prática cotidiana do jornalista das emissoras públicas a preocupação com a educação, a cultura e a cidadania.

Cláudio Bojunga, jornalista há mais de 30 anos, com passagens em várias redações de jornais e revistas, é o diretor de jornalismo da Associação de Comunicação Educativa Roquette Pinto, da qual fazem parte a TVE e a Rádio MEC.

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Jornal da ABI


POR DENTRO DAS NOVE "Há princípios que valem para todos os veículos"

boa parte dos nossos jornais. Uns poucos ainda trabalham com quase total liberdade. Total, mesmo, nenhum. Porque a liberdade de imprensa termina onde começam os interesses do patrão.

JorgeLuisBernetti

Mario de Moraes, primeiro Prêmio Esso de Reportagem no Brasil, em 1955, é jornalista desde os 16 anos e continua, ainda hoje, aos 74 anos, fazendo reportagens e entrevistas para jornais e revistas.

É evidente que as técnicas de jornalismo devem adaptar-se, em seu formato, aos veículos. Porém, não existe nenhuma alternativa para a verdade, tanto em jornais como em rádios, televisões ou redes informáticas. Os princípios de buscar fatos e interpretações em fontes diversas – citando adequadamente e identificando, sempre que possível, as fontes – são princípios que valem para todos os veículos.

Carla Baptista Depende muito para quem se escreve e em que mídia se escreve. Diferentes mídia têm diferentes linguagens; diferentes públicos condicionam a forma e o conteúdo do trabalho. Mas há traços comuns: rigor, objetividade, espírito crítico, curiosidade e competência são sempre imprescindíveis.

Depende muito dos veículos. É normal que haja diferenças nas abordagens das notícias. Um jornal opta pelo popular, outro prefere divulgar de uma forma mais oficial. Um terceiro explora a notícia de uma maneira mais analítica. O problema é que, em nome desta heterogeneidade editorial, alguns veículos passam a colocar em segundo plano a essência do jornalismo: a imparcialidade. Esta não deveria mudar.

Marco Aurélio Guimarães (Jangada), jornalista há 40 anos, é coordenador de redação do Jornal do Commercio do Rio de Janeiro.

Saulo Moreira, jornalista há 2 anos, é repórter do Diário de Pernambuco.

Daniel Barbará, publicitário, é diretor comercial da agência DPZ, presidente do Grupo de Mídia de São Paulo e conselheiro do Instituto Verificador de Circulação - IVC.

"Há diferenças na linha editorial e no tipo de público que o veículo busca atingir" Talita Figueiredo A prática de reportagem deve ser igual, o que difere é a importância que se dá a um fato e a maneira de cobrir um evento, que obedece à linha editorial de um jornal e do público que esse jornal se propõe a atingir.

"O prestígio do veículo pode ajudar muito o trabalho do repórter"

Talita Figueiredo, com 22 anos, formada em jornalismo pela Faculdade de Comunicação Social da UERJ, em dezembro de 1998, é repórter do jornal O Dia.

Tarcísio Holanda Depende de várias coisas. O prestígio do veículo é dado precioso de avaliação e pode facilitar muito o trabalho do repórter. As fontes de informações conferem grande importância à circulação ou à audiência e prestígio do veículo de comunicação. Claro que um profissional experiente e conceituado pode trabalhar, competitivamente, em um veículo menos importante e superar essas dificuldades. O prestígio de um profissional e a confiança que ele consegue conquistar junto às fontes de informação são seu maior capital. Mas, como ajudam o conceito e o prestígio do veículo!

Juan Gargurevich, jornalista e historiador da comunicação, com atividades nos principais jornais peruanos, inclusive no mítico jornal alternativo Marca (uma espécie de Opinião ou Movimento peruano), é o atual coordenador do Curso de Jornalismo da Pontifícia Universidade Católica do Peru.

Depende do veículo. Quanto mais endividado ele estiver, dependendo de verbas publicitárias do governo ou de empresas privadas, menos liberdade de expressão terão os seus jornalistas. É, infelizmente, o que está acontecendo com

A imprensa tem três tipos de ética: 1) a do repórter, de estreito respeito à fonte, de reproduzir no texto exatamente tudo o que apurou, sem qualquer sentimento próprio; 2) a do editor, de obedecer às linhas editoriais determinadas pelos superiores; 3) a do jornal, de garantir a própria sobrevivência. Dentro destes limites, cada qual deve movimentar-se de acordo com a ética geral.

Os velhos tratados nos ensinaram que as bases do jornalismo são sempre as mesmas (coletar informação, processar/ editar e distribuí-la), mas, na prática, estas três fases são manipuladas com técnicas diferentes, impostas pela tecnologia de cada veículo.

Mario de Moraes

Saulo Moreira

Juan Gargurevich

"A liberdade termina onde começam os interesses do patrão"

O jornalismo, no seu sentido mais amplo, tem sempre a tarefa de informar, formar, educar e, nesse sentido, somos muito sujeitos a situações de momento que, às vezes, tendem a desrespeitar essa função. Na base, respeitando as características de cada meio de comunicação, não deveriam existir grandes diferenças.

"A base é a mesma, mas as técnicas mudam conforme o veículo"

Carla Baptista, jornalista há sete anos nos jornais portugueses Diário de Notícias e 24 Horas, trabalha atualmente como free-lancer.

Daniel Barbará

Marco Aurélio Guimarães (Jangada)

"Rigor, objetividade, espírito crítico, curiosidade e competência..."

"Situações de momento podem mudar a função de informar"

"São três éticas: a do repórter, a do editor e a do patrão"

Jorge Luis Bernetti, jornalista durante 28 anos, passou a se dedicar ao ensino da comunicação e hoje é professor titular de jornalismo na Universidade Nacional de La Plata e na Universidade de Buenos Aires.

PROVA DOS NOVES

comentarista político da TVE-RJ. Atualmente faz entrevistas na TV Câmara .

"O problema é quando a imparcialidade é que fica diferente"

"O que muda são os valores éticos adotados por cada veículo" Ricardo Noblat A maioria das práticas é comum. As rotinas são quase sempre as mesmas. O que pode diferenciar a prática de veículo para veículo são os valores cultivados pelo veículo. A revista Veja, por exemplo, não viu nada demais em infiltrar uma jornalista na equipe de advogados do rapaz acusado

Tarcísio Holanda, jornalista há 47 anos, foi repórter e redator no Rio de Janeiro até se transferir, em 1975, para Brasília, onde passou a trabalhar na cobertura política, especialmente como

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pelas sucessivas mortes de mulheres no Parque do Estado na capital paulista. A jornalista ouviu a confissão dele sem que ele soubesse que confessava os crimes diante de uma jornalista. Um repórter do Correio Braziliense seria obrigado pelo Código de Ética do jornal a se identificar previamente como jornalista.

"O Globo e Extra usam o mesmo material mas são bem diferentes"

A prática do jornalismo varia de veículo para veículo. Mesmo veículos aparentemente iguais, como jornais diários, têm enfoques diferentes, formas de abordagem dos assuntos distintas e isso acaba provocando diferenças, desde a forma de apuração do noticiário até a maneira como ela acaba sendo apresentada ao leitor.

"Fora dos grandes centros, a dependência econômica é que define o veículo"

Mário Mesquita

Na essência, é ou pelo menos deveria ser igual. Mas a forma de abordagem depende, varia conforme o veículo. A parceria que existe hoje entre O Globo e o Extra é um exemplo disso. Um aproveita matéria do outro e são dois jornais totalmente diferentes. Quanto à questão ética, tenho observado que as publicações mais populares são menos cuidadosas.

Considero que a prática do jornalismo deve ser uma só: apurar, com imparcialidade, os assuntos e temas de interesse da comunidade, ouvindo ambos os lados envolvidos e situando o assunto para o leitor. Essa prática deve valer para qualquer veículo. Há, contudo, jornais cujo direcionamento editorial destaca os assuntos que lhe convenham com algum sensacionalismo. Acho que, antes de tudo, deve prevalecer a informação, a busca pela verdade. Carlos Magno Araújo, jornalista há 9 anos, é chefe de redação do Diário de Natal/O Poti, de Natal, Rio Grande do Norte.

Erick Torrico Villanueva, jornalista há 16 anos, dirige o mestrado em Comunicação e Desenvolvimento da Universidade Andina Simón Bolíva.

Carlos Magno Araújo

"Não escrevo para o Le Monde da mesma forma que escrevia para o Libération"

"No JC do Recife não publicamos fotos de suspeitos de crimes"

Jean-Jacques Sevilla Não escrevo para o Le Monde do mesmo jeito que costumava escrever para o Libération. O Le Monde é sabida e nitidamente alérgico às gírias e às palavras inglesas. Mas são apenas detalhes de redação. O produto (a escolha e o tratamento da matéria) fica basicamente o mesmo. Só muda a embalagem.

Laurindo Ferreira Há algumas regras básicas no bom jornalismo, como boa apuração, responsabilidade com a notícia veiculada, credibilidade da informação. Mas a forma como a apuração é feita, o momento certo de publicar aquela informação e como apresentá-la ao leitor é que fazem, algumas vezes, a diferença. Aqui no Jornal do Commercio, em Recife, por exemplo, estamos colocando em prática não publicar a imagem

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Mário Mesquita, jornalista há 28 anos, ajudou a criar o primeiro curso de jornalismo em Portugal e foi também o primeiro ombudsman de imprensa no país. Foi diretor do Diário de Notícias e do Diário de Lisboa e, atualmente, é colunista semanal do diário O Público, de Lisboa.

Fábio Grijó, jornalista há 2 anos, é repórter da editoria de esportes do Jornal do Brasil.

Erick Torrico Villanueva Há uma definição e uns princípios profissionais que fazem com que o jornalismo seja o mesmo em todos os casos. Trata-se de oferecer ao público informação e elementos de juízo sobre assuntos que lhe competem e interessam – e fazer isso com suficiente rigor e responsabilidade. A partir dessa função jornalística mais geral, a colocação em prática desta atividade adquire peculiaridades que dependem das características e possibilidades técnicas e lingüísticas, bem como das rotinas de trabalho, das estruturas de conteúdo e outros aspectos próprios de cada um dos veículos. Daí surgirão as diferenças, mas na forma e não necessariamente na substância do jornalismo.

O dia-a-dia é igual. Sair à rua, apurar o fato, voltar para a redação e escrever a reportagem – isso é igual em qualquer veículo. Há diferenças, claro, na linha editorial e isso se reflete na construção do jornal. Um jornal de linha popular é feito de maneira diferente de um jornal cujo públicoalvo são as classes A e B. Isso se reflete na priorização dos fatos, na hora de construir uma reportagem. Para um jornal popular, é muito mais importante valorizar uma notícia sobre prestação de casa própria do que um escândalo na Bolsa de Valores. O leitor desse jornal popular não investe em bolsa, aquilo não afetará sua vida.

"Diferenças deveriam ser sempre na forma e não no conteúdo"

"Há jornais que buscam os assuntos que tenham maior sensacionalismo"

Fábio Grijó

Luiz Carlos Cascon, jornalista há 25 anos, é subchefe de reportagem e líder da equipe de polícia e justiça da editoria Rio do jornal O Globo.

Décio Sá, com 5 anos de jornalismo, é editor especial de O Imparcial (MA).

Estudar e analisar as práticas jornalísticas é sempre um trabalho intercultural, seja no plano da produção como no da recepção. A prática do jornalismo varia consoante os meios (escrito, radiofônico, televisivo, on line...), consoante as tradições e as práticas, nacionais, regionais ou locais. O tipo de empresa midiática também influencia o “produto jornalístico”. Existem empresas exclusivamente ligadas à indústria dos “mídia”, enquanto outras se integram em grandes conglomerados ligados a outras áreas de negócio. Todos esses aspectos se podem refletir na prática do jornalismo e no grau de autonomia dos jornalistas.

"Num jornal popular, a prestação da casa própria importa mais que a crise na Bolsa"

Luiz Carlos Cascon

Depende do veículo e principalmente de seus dirigentes. Não vai se querer comparar um jornal do interior do Maranhão com o da capital e desta com um do Sul do país. A prática do jornalismo vai ser alterada de acordo com a dependência econômica deste jornal em relação aos governos, que ainda mantêm os órgãos nas regiões menos desenvolvidas. A participação dos dirigentes vem na medida em que eles sabem segurar essa interferência a um nível ético que não comprometa sua própria empresa diante do leitor. A importância do veículo – aí sem questionar a sua situação econômica – vem em decorrência do verdadeiro objetivo da empresa.

"São muitos os aspectos a refletir no grau de autonomia dos jornalistas"

Marcelo Auler, jornalista há 26 anos, é repórter do jornal O Dia.

Décio Sá

Laurindo Ferreira, jornalista há 8 anos, é chefe-geral de reportagem do Jornal do Commercio, do Recife.

Marcelo Auler

Ricardo Noblat, jornalista há 32 anos, é diretor de redação do jornal Correio Braziliense e o mais novo condômino dos Diários Associados.

de suspeitos de crimes, a não ser quando autorizada pelo próprio suspeito ou pelos advogados. Muitos outros grandes jornais não têm essa preocupação.

"Enfoque do veículo acaba influindo até na maneira de apurar"

Jean-Jacques Sevilla, jornalista com 20 anos de profissão, é correspondente no Brasil, há 15 anos, dos jornais franceses Libération e Le Monde.

Jornal da ABI


"É difícil trabalhar num veículo sem concordar com as posições dele"

"Veículo pequeno pode noticiar fatos que os grandes perdem"

Sebastião Nery

HaroldEmert

Depende, infelizmente cada dia mais, do veículo. Se você escreve em um jornal seu, ele é você. Se escreve em jornal, revista, ou trabalha em televisão de cuja linha e opiniões você compartilha, seu jornalismo mistura-se com você. Quando você é obrigado a trabalhar em um veículo de cujas posições discorda, só há duas saídas: ou tentar driblar e ir semeando suas razões e posições, ou sair. Por melhor que seja o salário, a alma sempre vale mais. Nem a inocência dos anjos nem a esperteza dos diabos. É a velha luta do homem.

Vladimir Reznichenko

Eu tenho aconselhado pessoas jovens que estão começando no jornalismo a agarrar qualquer trabalho de jornal ou mídia que eles conseguirem, porque estão disputando ombro a ombro com grandes jornalistas, com aqueles que são conhecidos como “os melhores” representantes do jornalismo. E, freqüentemente, um veículo de comunicação pequeno pode noticiar fatos que os “peixes grandes” perdem. Em 1998 eu fui enviado a Brasília por um jornal britânico para fazer uma reportagem sobre uma entrevista exclusiva com Lúcia Flecha de Lima, conduzida pelo jornalista Marcone Formiga, da revista semanal Brasília em Dia. Esta foi a primeira entrevista com a amiga da princesa Diana, Lúcia Flecha, desde a morte trágica de Diana e a sindicância mundial feita.

Sebastião Nery, jornalista há 47 anos, faz colunismo político para jornais de 16 estados brasileiros.

independentemente do veículo em que trabalha. Evidentemente, meios e publicações diferentes têm rotinas, valores, projetos, objetivos e posições políticas diferentes, que podem levar a modificações no trabalho do profissional. No entanto, em se tratando do jornalismo objetivo que atualmente norteia a maior parte dos veículos brasileiros, acredito que a prática jornalística varie muito pouco.

"Como qualquer atividade humana, depende de muitas coisas,até dos veículos" Por desgraça, a prática do jornalismo, como qualquer atividade humana, nunca é igual e depende de muitas coisas, entre elas os veículos (inclusive automotores).

Eric Brücher Camara, jornalista há 4 anos, é repórter do jornal O Globo.

Vladimir Reznichenko, jornalista e tradutor de Camões e Bocage para a língua russa, é chefe de representação da agência noticiosa Novosti no Brasil.

"Um jornalista de TV vê a notícia de maneira diferente dos outros"

"O bom profissional tem sua forma de trabalhar sempre igual"

Sandra Ney Há o básico de uma profissão, no caso, o senso de notícia. O resto é diferente, um jornalista de TV vê a notícia de um jeito bem diferente da visão de um jornalista de jornal ou de revista.

Eric Brücher Camara Harold Emert, jornalista americano, com 30 anos de profissão, está há 25 anos no Brasil e trabalha como correspondente dos jornais Daily Express, Express on Sunday e Daily Star.

"Importa tentar exercer a profissão corretamente"

Na minha opinião, apesar da minha pequena experiência em outros veículos, o bom profissional tem sua forma de trabalhar, seu código de ética e suas convicções,

Sandra Ney, jornalista há 25 anos, é chefe de reportagem da TVE-RJ. Reportagem: M. Cristina Martins Fotos: Rafael Porto

O POVO FALA

Raimundo Filho O profissional deve exercê-la corretamente, independente de onde estiver. Do contrário, não compensa e não dignifica a função.

As notícias são sempre iguais no jornal, no rádio e na TV?

Raimundo Filho, jornalista com 30 anos de profissão, é o editor de primeira página do Diário de Pernambuco.

Jorge Ferreira Sorriso 46 anos, ator

Sandra Valéria Dias 33 anos, professora

"O profissional tem que buscar ajustar-se ao estilo do veículo. Artigo assinado é outra coisa"

“Sim, porque a notícia é tendenciosa, sempre de acordo com o interesse governamental em todas as instâncias.”

“Sim, porque só muda o jeito de falar, a notícia é a mesma.”

Villas-Bôas Corrêa Não há regra fixa. Uma parte do que você acumula no exercício da profissão é o seu patrimônio intocável. Claro que, em cada novo emprego, enfrenta-se o desafio da adaptação. Cada empresa tem suas manhas e manias. As marcas que a identificam. E o profissional não tem por que se recusar a ajustar-se ao estilo da casa. Preservando a sua identidade. O que também vai depender muito da sua cotação, da tarefaquevaiexercer.Escreverartigosassinados nãoéamesmacoisaqueredigirtextosderotina.

José da Silva Tenório 45 anos, médico Antônio Rodrigues 65 anos, professor

“Em média não, porque depende da agência de propaganda. E também porque a TV é mais dinâmica e o jornal tem uma certa lentidão.”

Villas-Bôas Corrêa, jornalista há 51 anos, é repórter político do Jornal do Brasil e da TV Manchete. ○

PROVA DOS NOVES

“A maioria sim, porque eu acho que o fato é o mesmo; as fontes são diferentes, mas vai tudo coincidir para a mesma notícia. Pode mudar o aspecto de como cada um vê, mas o fato em si é o mesmo.”

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Alexandra Madeira 25 anos, desempregada

“Sim, sempre, é só notícia ruim, desgraça, mais nada.”


As assessorias de imprensa floresceram na ditadura e serviam mais para impedir do que para facilitar o acesso às informações. Hoje a função se transformou num mercado de trabalho

amplo e diversificado. Ao ponto de, muitas vezes, misturar funções e causar confusões e conflitos,com o uso de denominações preconceituosas que descaracterizam a atividade do assessor.

JORNALISTA OU MARQUETEIRO, A OPÇÃO CLARA presso, o jornal. Esse problema de marketing-versusnotícia ou opinião também ocorre no relacionamento entre assessorias e redações. No fundo, a a s sessoria sempre tenta vender um “produto”, que tanto pode ser a divulgação do nome de um diretor executivo quanto um resultado de balanço, o nome de um político emergente, etc. Quando a assessoria de imprensa deixa de trabalhar apenas como imprensa e passa a ser puro marketing? A muralha chinesa que é possível estabelecer no caso dos “anabolizantes” é de difícil visualização no caso das assessorias. A assessoria também “vende”, porém sem um preço explícito. Creio que o tradicional press-release sobre, digamos, o lucro de uma empresa

Noenio Spinola Quando cheguei a Washington em setembro de 1976 para trabalhar como correspondente do JB, fiquei muito surpreso com a grande quantidade de coupons que o Post oferecia aos seus leitores. Quem entrasse na fila de um supermercado inevitavelmente veria algumas pessoas com aqueles coupons reivindicando descontos nos preços de produtos. O Washington Post nunca deixou de ser um grande jornal por causa daquele tipo de “anabolizante” da circulação. Mais tarde percebi que a prática era comum nos grandes jornais norteamericanos. Todos eles, porém, sempre colocavam uma espécie de muralha chinesa entre o espaço ocupado pelo marketing que ajudava a aumentar a circulação e o espaço das redações. É difícil imaginar um gerente de marketing tentando “pautar” a redação de um New York Times, um Le Monde, um Figaro ou um Financial Times. A fronteira entre o marketing e a redação será cada vez mais discutida no Brasil, se o “anabolizante” ameaçar tornar-se mais importante que o próprio produto im-

"O pior na profissão é o uso de muitos chapéus por uma só cabeça"

ou o lançamento de um novo produto, deve ser visto como simples jornalismo (embora tenha um interesse embutido). Esse tipo de atividade até pode prestar bons serviços às redações. Seus responsáveis, portanto, continuam jornalistas. Não se confundem com marqueteiros. Outra coisa é o trabalho que mistura relações públicas (tentar fazer o build up de uma figura pública) com jornalismo (divulgar um discurso) ou articular lobbies para que determinada figura monopolize as atenções na mídia. Nesse nível, o jornalista passa a ser marketeiro ou RP. Cada um deve decidir o que, de fato, quer ser. O pior na profissão é o uso de muitos chapéus por uma só cabeça. Principalmente quando aquele que muda de chapéus tentar atropelar o princípio primordial para a sobrevivência do jornalismo e dos jornalistas: nunca vender nada que não seja, de fato, notícia. Noenio Spinola, jornalista há 33 anos, trabalhou como correspondente em Washington, Londres e Moscou e foi diretor de relações institucionais da Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) antes de assumir a função de editor chefe do Jornal do Brasil.

QUALIDADE DOS ASSESSORES MELHOROU MUITO trabalhador contra uma empresa, a assessoria recusa-se a fornecer um curioso texto da defesa judicial da própria companhia (ele acabou sendo fornecido pelo trabalhador). No outro caso, uma grande empresa multinacional, metida numa enrrascada, recusou-se a confirmar o nome de seu presidente (dois dias depois uma empresa especializada assumiu o

Elio Gaspari Está acontecendo uma coisa muito boa. Melhorou, e muito, a qualidade profissional dos jornalistas que trabalham em assessorias de imprensa. Essa melhoria se deu em três níveis: 1) Extraordinária, nas empresas. 2) Boa, nas empresas que prestam serviços de assessoria. 3) Média, no serviço público. Como já houve época em que trabalhar em assessoria era algo próximo do degredo, esse progresso é uma ótima notícia para a garotada que está entrando na profissão. Trabalhar em assessoria não desqualifica um profissional. Em alguns casos, resulta no contrário, pois o trabalho pode se transformar num precioso instrumento de qualificação. Há empresas privadas com cujas assessorias dá gosto falar. Do outro lado estão profissionais competentes, aptos a responder, livres do ranço empulhador que dominava o gênero. Aqui e ali reencontrase o velho estilo, mas hoje isso se torna cada vez mais raro. Dois exemplos ruins, sem nome: havendo um processo de um ○

PROVA DOS NOVES

"Houve época em que trabalhar em assessoria era algo próximo do degredo. Esse progresso é uma ótima notícia para a garotada que está entrando na profissão" ○

impertinência passível de demissão por justa causa. Com o único intuito de estimular as boas relações entre as assessorias e os jornalistas (e vice-versa), pode-se arriscar algumas sugestões, a uns e outros: 1) Nunca brigue com assessor de imprensa. Se ele não resolve seu problema sem brigar, não há hipótese depois de brigar. 2) Procure evitar que o assessor de imprensa entre em fria dentro da empresa onde ele trabalha. Exemplo: O repórter liga e pergunta uma coisa ao assessor. Ele vai ao chefe (talvez ao patrão) e lhe conta o que o jornalista está perguntando. Como o sujeito é patrão do assessor, desmente. O assessor liga de volta e diz que a informação é falsa. O jornalista, por sua vez, sabe que ela é verdadeira. Custa pouco avisar ao colega que o fato do patrão ter desmentido não significa que a notícia será jogada no lixo. Talvez valha a pena o patrão saber disso. Há casos surpreendentes de patrões que mudam de idéia. No fim, todo mundo ganha. 3) O serviço do assessor de imprensa é um e o do jornalista que o procura é outro. Ele não é obrigado a contar tudo o que

controle de suas comunicações). No sentido oposto, hoje são comuns os assessores que, mesmo antevendo uma notícia desagradável, fornecem os números com lisura, argumentam com competência e, provavelmente, torcem para que isso adiante alguma coisa (em geral adianta). Nas empresas especializadas sucede o mesmo que com as padarias. Há algumas boas, outras ruins. Em geral, identifica-se a ruim quando, em vez de levar notícias ao jornalista, procura trazer o diretor da empresa que tem por cliente. A marca infalível da ruindade aparece quando o jornalista vê que já foi procurado pela empresa três vezes, sempre para apagar incêndios. Para dar notícia, que é bom, nem pensar. No serviço público as coisas são diversas. Há craques e há desgraças. Em geral, os assessores que passaram (direito) pela profissão são competentes. Em muitos casos, pode-se trabalhar direito com eles, mesmo em situações antagônicas. A praga persiste quando o assessor do ministro acha que a simples idéia de buscar notícias que podem resultar numa crítica à sua divindade empregadora constitui

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sabe, muito menos a responder de maneira correta a perguntas do tipo “o que é que há de novo?”. 4) A menos que exista um vínculo pessoal anterior, é sempre conveniente manter as relações com os assessores de imprensa numa variante do pedido de Pinheiro Machado ao seu motorista: “Nem tão próximo que pareçamos amigos, nem tão distantes que pareçamos adversários” 5) Assessor bom é o que dá notícias

para serem publicadas. Quando ele fala muito em off, cuidado. Pode se tratar de um gênio da raça, mas em geral é um estorvo. Nesse caso, vale a pena lembrar um ensinamento do bilionário americano Warren Buffett: “Sempre que você está num negócio onde acredita que haja um otário, mas não consegue saber direito quem é, esteja certo: é você.” Finalmente, mais um, aos assessores de imprensa:

Faz tempo que o jornalista brasileiro ganha o suficiente para prover sua alimentação. Quando um dignatário está insatisfeito com algum tipo de cobertura, uma das piores idéias é armar um almoço entre ele e o repórter que está cuidando do assunto. O sujeito acha que vai apagar o incêndio, não resolve coisa nenhuma, fica com mais raiva do jornalista e acaba suspeitando que o assessor não tem prestígio. (Nada contra o mesmo encontro,

sem incêndio. Mas, nesse caso, os assessores podem argumentar, com toda razão, que em condições normais de temperatura e pressão os seus chefes não têm vontade, interesse ou motivo para perder tempo com essa escumalha, os jornalistas.) Elio Gaspari, jornalista há 36 anos, tem coluna nos jornais Folha de S. Paulo e O Globo.

NÃO PODE É SER DUAS COISAS AO MESMO TEMPO quando era mais novo e estava numa recepção ouvindo uma conversa entre jornalistas, alguns veteranos, sobre o estreitamento do mercado de trabalho. Entre eles estava o Villas-Bôas Corrêa, que fez uma apreciação sobre como estava o mercado diante do fechamento de alguns jornais da época – estou falando dos anos 70, e note que de lá para cá mais jornais desapareceram. Quando ele terminou eu disse: “mas, Villas, também tem o mercado de assessores de imprensa”. Ele teve uma reação meio irritada comigo e disse: “assessor de imprensa não é jornalista”. Eu fiquei muito envergonhado por ter dito uma bobagem, mas com o passar do tempo descobri que a bobagem foi do Villas. É claro que num mercado que foi se estreitando pelo desaparecimento de alguns veículos, enquanto foram aumentando as faculdades que jogam jornalistas na rua, o perfil teria que mudar. O mercado tinha que encontrar uma forma de acomodar estes profissionais e, além disso, passou a existir a necessidade da função. Volto a dizer que a sociedade brasileira se tornou muito mais complexa. Com isso, não quero dizer que nenhum jornalista se forma em uma faculdade sonhando em ser assessor de imprensa. Tenho a impressão de que a mística da profissão ainda é desbravar o desconhecido atrás de notícias, de grandes furos. É claro que um assessor de imprensa tem limitações determinadas pelo interesse

Ricardo Boechat O assessor de imprensa ser jornalista ou marqueteiro depende muito. Depende do que ele estiver fazendo e de como vai estar lidando com sua tarefa diária. Mas uma coisa é certa: faz-se jornalismo nesta função. Nós podemos dividir assessor de imprensa em duas categorias: o assessor propriamente dito e o chamado divulgador, que surgiu de uns tempos para cá. O assessor é um profissional fixo de uma empresa ou órgão público e trata das relações desta estrutura com a imprensa. Já o divulgador faz serviços eventuais para um cliente que tem um determinado produto num dado momento. Neste caso, a relação do jornalista com este tipo de profissional fica extremamente dependente do produto. Confesso que normalmente tenho uma relação melhor com os assessores de imprensa, porque eles estão institucionalizados numa relação com o seu empregador. Os divulgadores são muito pressionados pela ocasião e pelo cliente, que muitas vezes é quem determina se uma coisa deve ser notícia ou não, passando por cima do profissional que trabalha para ele. Isto leva o divulgador a exercer um cerco inconveniente, improdutivo e desgastante, principalmente no caso das colunas. Tudo isto é fruto de um mercado diversificado e complexo. Eu me lembro de

consciência jornalística vai zelar pela qualidade da notícia. Esta visão de que jornalista é exclusivamente aquele que faz jornal só leva em consideração a alma da profissão, o sonho do profissional, o romantismo. No entanto, ela não é absolutamente verdadeira no que diz respeito à complexidade que o mercado alcançou.

"Uma coisa é certa: se faz jornalismo em assessorias de imprensa" do contratante, mas sem dúvida é mercado de trabalho e é possível fazer bom jornalismo atuando nesta área. Mas como se pode fazer isso? Para começar, zelando pela qualidade da notícia - e a verdade é a qualidade essencial de uma notícia. Além disso, pode agilizar a procura de notícia por um órgão de imprensa ou até mesmo perceber uma notícia na empresa ou na instituição onde trabalha e torná-la pública. O que o assessor e o divulgador não fazem é jornal, não são os elaboradores finais da notícia. O que eles fazem ali é dar forma a uma das versões. Ele é uma fonte, trabalha em função da fonte. Mas a sua

O que eu acho complicado é atuar como assessor e no jornal. Haverá um momento em que o conflito poderá se estabelecer. O distanciamento e a isenção podem se perder. O importante em todas as funções é sempre lembrar: “sou jornalista e a boa notícia e a informação são os fatores que movem o mercado”.(Depoimento a Pedro Motta Lima) Ricardo Boechat, colunista do jornal O Globo, tem 28 anos de profissão e já foi assessor de imprensa.

MARQUETEIRO: ASSESSOR DE QUEM NÃO É NOTÍCIA para preservar a imagem da nossa categoria). Só mesmo a distorção do trabalho de assessor de imprensa, nos últimos anos, pode explicar a necessidade de resposta a essa pergunta. Obviamente, o trabalho de um assessor de imprensa - que inclui

Oscar Valporto Marqueteiro é a mãe. Assessor de imprensa deveria ser sempre jornalista e, se hoje alguns querem se confundir com marqueteiros, devemos atribuir a mais uma distorção do nosso trabalho. Nos últimos anos, esse neologismo de gosto duvidoso vem servindo para classificar supostos sábios do marketing político e de outras especialidades, teoricamente especializados em formar a imagem das pessoas públicas ou de empresas. Aliás, se eu fosse um profissional de marketing e me perguntassem se sou um marqueteiro, minha resposta seria igual à minha resposta de jornalista: marqueteiro é a mãe (a pergunta merece um palavrão, mas devemos manter a linha

"Seria bom que os jornalistas entendessem os limites do trabalho de assessoria para não correrem o risco de se tornarem apenas marqueteiros baratos"

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informar os órgãos de comunicação sobre as atividades dos assessorados, intermediar os contatos com jornalistas e dar divulgação aos aspectos mais importantes dessas atividades – contribui para a formação da imagem pública do seu empregador, seja ele

Jornal da ABI


notícia precisou de profissionais de imprensa para atender a outros profissionais de imprensa. Desde a década passada, porém, as assessorias passaram a ser utilizadas também por empresas e pessoas que não eram notícia (ou que eram notícia esporadicamente e desejavam ser sempre). Dessa deformação profissional para a próxima – a do marqueteiro – foi um pulo fácil. Os jornalistas são especialistas, por força das próprias características da profissão, em dar palpites em quase tudo. Os assessorados – principalmente, esses que não são

pessoa física ou jurídica. Reais e sérios trabalhos de marketing levam em conta essa imagem formada nos meios de comunicação, mas, na maioria das vezes, assessores e assessorados não entendem nada de marketing e ignoram os limites do trabalho da assessoria de imprensa. Na verdade, as assessorias começaram a sofrer de uma deformação profissional quando passaram a trabalhar para quem não era notícia. Elas foram criadas quando empresas e órgãos públicos começaram a não dar conta das sempre crescentes solicitações da mídia. Quem era

notícias – resolvem usar seus jornalistas contratados em outras funções, e estes começam a achar que entendem de propaganda, de marketing, de relações públicas, do diabo. Esses jornalistas metidos a marqueteiros saem, geralmente, barato para seus clientes. Sua especialidade é plantar notícia em jornal ou planejar ações que sejam notícia: tudo mais barato do que verdadeiras campanhas de marketing. O neologismo marqueteiro vem servindo mais a supostos gênios da propaganda do que a assessores de imprensa. Ao menos, estes gênios são,

na maioria dos casos, verdadeiros estudiosos do marketing e ganham muito bem pelo trabalho que fazem. Seria bom que os jornalistas entendessem os limites do trabalho de assessoria para não correrem o risco de se tornarem apenas marqueteiros baratos.

Oscar Valporto , 17 anos de profissão, é subsecretário de imprensa do governo do Estado do Rio de Janeiro, após passagens por chefias de reportagem e editorias dos jornais O Globo e Jornal do Brasil.

DEPENDE SEMPRE DO QUE SE QUER ALCANÇAR dos profissionais que a compõem, a assessoria de imprensa permite englobar diferentes atividades da comunicação social ou simplesmente ser um órgão de captação de espaço na mídia. Entre esses dois ângulos, existe uma série de variações que podem fazer da assessoria um lugar dos recursos humanos, ou do marketing ou mesmo de uma diretoria administrativa. Falar do planejamento ideal nessa área é, portanto, sempre uma questão relativa à filosofia de comunicação que se pretenda estabelecer na empresa. Nesse quadro, o perfil do profissional que irá liderar este setor deve estar de acordo com o que é pretendido na dita filosofia de comunicação. Jornalismo, relações públicas, marketing e publicidade são as carreiras mais freqüentemente procuradas como prérequisitos ao gerente em questão. Porém, independente da formação do líder, sua

Ricardo Freitas Nos últimos anos, o termo “assessoria de imprensa” tem remetido, objetivamente falando as estratégias das relações de uma instituição com a mídia. Subjetivamente, essa expressão conjuga as mais diversas apropriações e defesas. Dependendo do ponto de vista do cliente ou empregador e

cotidiano. De toda maneira, na maioria dos casos, o ideal é que se possam conjugar as mais diversas técnicas da comunicação social, incluindo nesse rol a programação visual. Assim, qualquer iniciativa na área de assessoria que não passe pela reflexão da filosofia e da política de comunicação do cliente será fadada ao fracasso. Por isso, devem ser repudiadas as denominações que, em vez de considerarem essa importância, acabam batizando o setor com nomes sem sentido somente para garantir uma reserva de mercado, a qual, evidentemente, não tem mais lugar nos dias de hoje.

"Qualquer iniciativa sem a reflexão da filosofia e da política de comunicação do cliente será fadada ao fracasso" equipe deve ser multidisciplinar. Fundamentalmente, nenhum setor de comunicação funcionará bem sem um quadro interdisciplinar de profissionais; em alguns casos, essa necessidade é substituída por empresas terceirizadas que preenchem as necessidades técnicas de algumas ações da comunicação no

Ricardo F. Freitas, relações públicas, com mestrado em comunicação e doutorado em sociologia pela Université Paris V/Sorbonne, é o atual diretor da Faculdade de Comunicação Social da UERJ.

MUNDO DE HOJE QUER PROFISSIONAL INTEGRAL soluções estratégicas. Os marqueteiros, por exemplo, impõem caminhos fundamentados no princípio do mercadejar.Afirmam eles que seu marketing apresenta resultados objetivos. As últimas eleições mostraram mais derrotas que vitórias eleitorais aos defensores dessas teses. Já os jornalistas acreditam que o simplório ato de noticiar ações e realizações pessoais e/ou corporativas é suficiente para modificar ou mesmo formar conceitos públicos. Não é consistente também essa visão. Incluo ainda nesse debate os relações públicas - mesmo possuindo um perfil mais consistente na formação acadêmica, não se encontram plenamente capacitados para o exercício no cenário atual. O exercício de assessor de imprensa – ou, preferencialmente, de analista de comunicação - exige muito mais do profissional que veicular notícias ou “embalar” um produto de consumo rápido. Está faltando, portanto, à grande maioria daqueles que se lançam nesse campo de atividade, competência e capacitação técnica mais apurada para competir profissionalmente. Assim, explica-se por que uma massa de aventureiros episódicos invade esse espaço de trabalho e se fixa com alguma ou nenhuma competência. Essa discussão, de quem nasceu

Sérgio Gramático Inicialmente, ressalto que essa discussão é sem sentido, desqualificada, falecida, paradoxal. O mundo de hoje privilegia o profissional universal, a competência inteligente, a qualificação integral, o agir no tempo real, a capacidade de produzir excelência nos resultados. Discussões sobre um corporativismo arcaico encontram-se fora do tempo. Porém, em relação ao debate sobre um corporativismo inteligente e que venha ao encontro da garantia de melhoria do bemestar do cidadão e da preservação do direito ao trabalho profissional, tendo como limite a ética, manifesto-me inteiramente favorável. E dele nunca me afastei em momento algum. Diante desse cenário preliminar, o debate sobre quem apresenta a qualificação mais adequada para desempenhar a função de assessor de imprensa descredencia o jornalista e o marqueteiro. Ambos não apresentam credenciais suficientemente sólidas em suas formações acadêmicas para esse exercício num mundo de globalizações. A esse tempero pode-se adicionar ainda a reflexão sobre a amplitude que a comunicação social assume no mundo atual e futuro, amparada em novas tecnologias e ○

PROVA DOS NOVES

"Exige-se muito mais do profissional que veicular notícias ou 'embalar' um produto de consumo rápido" ○

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primeiro, se o ovo ou a galinha, apresenta um sentido esdrúxulo. Não cabe mais se fixar nesse tipo de debate enfadonho. O sentido inteligente desse agito está em estabelecer uma comunhão de interesses que abriguem os vários especialistas, propiciando-lhes instrumentos e conhecimentos mais apropriados. O sentido dessa parceria visa construir, para que relações públicas, jornalistas e marqueteiros melhor se capacitem a vencer os desafios que essa função (de assessor de imprensa) exige de cada um de seus praticantes. Um campo de trabalho promissor, certamente. A conjuntura do cenário profissional está a apontar na direção da necessidade de se construir um especialista de assessoria e de consultoria detentor de um perfil profissional de analista de informações. Para isso, esse especialista deve desenvolver um senso crítico apurado, bem como ser capaz de interpretar tendências sobre os cenários culturais, econômicos, políticos e sociais, na condução de suas ações comunicacionais. Como destaca Daniel Burrus, em “Technotrends”, “as mudanças tecnológicas e organizacionais que estão ocorrendo causam um impacto sobre todos nós. Cada indivíduo, cada empresa, tem que aprender a dominar o jogo. Não há outra ○


opção... Os concorrentes têm aversão à mudança e resistem a ela enquanto podem; os inovadores procuram continuar adaptáveis e dominar a mudança...”. Essa percepção sugere aos comunicadores um amadurecimento na postura profissional do assessor de comunicação. O cenário de trabalho nesse campo, portanto, não mais comporta pessoas sem uma qualificação universal apropriada, sem incorporar o perfil de intérprete do conjunto de informações produzidas nos novos cenários da sociedade atual. Por favor, minha gente, vamos elaborar um discurso.

completo, qualificado. Não basta ser um mero divulgador de notícias, um marqueteiro de teses simplórias, ou um relações públicas que não domine versões de conhecimento mais substanciais. O mundo está a exigir um profissional pronto para ousar, interpretar cenários, contribuir para mudar a sociedade, tendo na ética o seu padrão de referência. Por outro lado, se se fosse discutir a presente questão a partir da competência legal de exercício profissional, caberia ao relações públicas a prática, uma vez que a

E muito rapidamente. Isso significa ter o direito a usufruir desse importante setor de trabalho profissional. “Os Toffler compreenderam, corretamente, que o desenvolvimento e a distribuição de informação tornaram-se a atividade produtiva central e a capacidade da raça humana... praticamente em todas as frentes vemos a revolução da informação mudar o tecido, o ritmo e a substância de nossas vidas”(Alvin e Heidi Toffler, em “Criando uma Nova Civilização”). Para que essa assertiva se consubstancie, no entanto, é necessário forjar um especialista

Lei 5.377, de 11/12/67, lhe atribui essa reserva: “a informação de caráter institucional entre a entidade e o público, através dos meios de comunicação”. Porém, isso se encontra tão envelhecido pelo tempo que, nos dias atuais, se busca uma postura mais equilibrada, mais positiva, mais inteligente de se preservar o espaço de trabalho. Sérgio Gramático, jornalista, publicitário, relações públicas e cientista social, é presidente do Conselho Regional de Relações Públicas

ASSESSOR DE IMPRENSA BUSCA SUA IDENTIDADE A missão da imprensa (teórica, e declarada em prosa e verso) é democratizar a informação, representar os interesses da sociedade, fiscalizar o Estado e proteger os cidadãos contra o arbítrio, a opressão e as injustiças praticadas pelo Estado, autoridades públicas, instituições, grupos econômicos e interesses privados. O principal objetivo da comunicação empresarial é defender os interesses da companhia ou instituição e zelar por sua boa imagem. Em miúdos: o primeiro compromisso da imprensa é (ou, ao menos, deveria ser) com o leitor; o do assessor, com o cliente. Por esse raciocínio, pode-se dizer que há uma razoável diferença (e, aqui, insisto na teórica) entre assessor de imprensa e jornalista, pois os dois exercem atividades diferentes e que têm objetivos diferentes. Numa boa imagem de um colega jornalista, os dois exercícios profissionais são como dois trilhos paralelos, que nunca se juntam (embora, muitas vezes, cheguem a estar bem perto um do outro, principalmente pela perda de rumo de um grande número de jornalistas e de veículos de comunicação). Sem dúvida, o jornalista profissional com boa formação, razoável experiência e aptidões específicas da profissão é bastante talhado para exercer com competência e qualidade uma função em assessoria de imprensa. Exatamente por isso, empresas brasileiras e de países avançados sempre recrutaram jornalistas para essa atividade. Jornalista e assessor falam a mesma

Miguel Jorge “Assessor de imprensa: jornalista ou marqueteiro?”. Essa questão, tipicamente brasileira, resulta de uma soma de equívocos conceituais, legais, culturais e corporativos. Por isso mesmo, profissionais de comunicação de outros países, onde jornalista é jornalista, assessor de imprensa é assessor de imprensa, marqueteiro é marqueteiro, não entendem bem o que se passa por aqui. No Brasil, legalizou-se a confusão com a exigência do diploma de jornalismo para se exercer a profissão e com a equiparação, também por lei, das assessorias de imprensa às empresas jornalísticas. Com isso, assessores de imprensa ganharam status de jornalistas, com as mesmas prerrogativas legais e direitos trabalhistas, inclusive uma esdrúxula jornada de cinco horas de trabalho, outro desses muitos e inexplicáveis ineditismos nacionais. A reunião dos dois tipos de profissionais numa mesma categoria sindical sacramentou a confusão. Justiça seja feita: a junta militar que baixou o decreto 972 apenas legitimou o que já fazia parte da cultura do país, onde assessores de imprensa sempre foram jornalistas, se consideraram jornalistas e funcionaram como jornalistas. Há componentes psicológicos nessa discussão. Recrutados para as assessorias, os jornalistas mantinham as conquistas legais e o título, numa justa tentativa de conferir prestígio a uma atividade até pouco tempo considerada menos nobre por muitos jornalistas militantes nos meios tradicionais de comunicação - assessor de imprensa chegava a ser mal visto por alguns “coleguinhas” das redações. Essa discussão é oportuna. No acórdão 261.412, de abril do ano passado, o Tribunal Superior do Trabalho sentenciou que “assessor de imprensa não exerce atividades típicas de jornalismo, pois o desempenho dessa função não compreende a busca de informações para redação de notícias e artigos, organização, orientação e direção de trabalhos jornalísticos”, segundo a legislação trabalhista. A sentença acrescenta que o assessor de imprensa “atua como simples divulgador de notícia e mero repassador de informações aos jornalistas, servindo apenas de ○

"Pode-se dizer que

há uma razoável diferença entre assessor de imprensa e jornalista, pois os dois exercem atividades diferentes e que têm objetivos diferentes"

Umpaíséfeitodehomens, delivrosedeumjornalqueajuda esseshomensacomprá-los.

intermediário entre o seu empregador e a imprensa”. Curiosidade: com a sentença, o TST indeferia ação de uma assessora de imprensa que pleiteava o direito à jornada de cinco horas. Goste-se ou não, aquela decisão – que, estranhamente, não teve a menor repercussão na categoria – remete ao verdadeiro centro da questão: assessoria de imprensa é atividade jornalística? Imprensa e comunicação empresarial, incluindo assessoria de imprensa, têm natureza, objetivos e interesses diversos. ○

AFolhaDirigidaémaisqueumjornaldeconcursos,vestibularese recursoshumanos.Éumjornalcompleto,voltadoparaa educação,paraotrabalhoe,principalmente,paraoleitor.Por isso,aFolhaDirigidaélídernoseusegmento.Porqueacreditaque semeducaçãoetrabalhonãoseconstróinada. FOLHA DIRIGIDA. LÍDER POR UMA QUESTÃO DE EDUCAÇÃO. Toda semana você encontra a Folha Dirigida nas bancas

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linguagem, dominam o mesmo jargão, conhecem as boas técnicas jornalísticas e sabem o que o leitor quer. Um dos princípios da ética jornalística, o de que se deve ouvir as duas ou as várias partes envolvidas num conflito, estabelece com clareza a diferença entre as funções, pois o assessor de imprensa, como representante da empresa, seria apenas uma das partes. Além disso, como advogado do cliente – por mais bemintencionado, ético e transparente, profissionalmente -, não se pode exigir do assessor de imprensa a mesma isenção que se exige do jornalista (embora haja muitas dúvidas sobre se existe essa isenção). Pela experiência de outros países, o assessor de imprensa não precisa ser necessariamente um jornalista. Alguém com amplos conhecimentos de marketing, promoção de vendas e relações públicas, por exemplo, poderia preencher o perfil do profissional de comunicação empresarial -a assessoria de imprensa junta informações de todas essas áreas. (Aqui, sinto-me eticamente obrigado a colocar um pouco mais de lenha na fogueira: não deveria ter o direito de ser jornalista, como acontece hoje, apenas o profissional formado em escolas de comunicação. Essa obrigatoriedade, um dos últimos entulhos autoritários ainda incólumes neste país, mantém-se apenas pela força do lobby dos jornalistas. Exatamente como um assessor de imprensa, o jornalista poderia ser qualquer profissional com amplos

Jornal da ABI


conhecimentos de marketing, promoções de vendas, relações públicas, direito, medicina, etc). Voltando ao tema, lembre-se que, até recentemente, assessores de imprensa relutavam, por exemplo, em aceitar que seu trabalho visava, entre outras coisas, vender produtos e serviços da companhia. Hoje, a assessoria de imprensa é um importante apoio ao marketing e à promoção de vendas - e não há nenhum demérito nisso, claro. Ou haveria demérito, por exemplo, para um jornalista, na verdadeira acepção do termo, que faz aquelas duas páginas publicadas em duas outras revistinhas locais (para SP e Rio), de uma famosa publicação semanal? Ou seriam jornalistas aqueles que recolhem informações para um roteiro de

seus profissionais ganham cada vez mais credibilidade, respeito e nova identidade e sendo provocador, mais uma vez: essa credibilidade e respeito estão sendo ganhas num espaço de tempo muito menor do que os jornalistas levaram para serem reconhecidos por essas mesmas qualidades. Num país viciado em regulamentar e estabelecer reservas de mercados para tudo quanto é tipo de profissão, é até de se estranhar que ainda não se tenha tentado criar uma habilitação para formação de bacharéis em Comunicação Empresarial (ao que se seguiria, claro, uma regulamentação da profissão, a exigir que só poderiam ser assessores de imprensa aqueles com canudos com essas habilitações e, se possível, de quebra, com uma carga máxima

restaurantes, com nome de pratos, tipos de cartão de crédito, preços e se têm ou não têm estacionamento? Embora possa parecer simples mostrar a diferença entre os dois profissionais, também parece bastante simples mostrar suas semelhanças. Talvez, antigamente, certo apego dos assessores de imprensa ao título de jornalista - ao invés de adotarem o nome de sua profissão, digna e honrada como qualquer outra - se ligasse a certa desconfiança em relação à atividade. Mas, hoje, está totalmente superada a herança do tempo em que assessoria de imprensa era mero “bico” para o profissional de redação. Com a profissionalização dos dois lados do balcão, a comunicação empresarial e

de trabalho diário). Como diz um velho amigo, que militou mais de 20 anos em redações e há 10 trabalha com comunicação empresarial, assessor de imprensa é um jornalista no exílio – disfarce de quem não quer perder o título e considera assessoria uma atividade transitória. Ou, como ocorre na maioria das vezes, é um lugar para quem perdeu a ilusão com a profissão de jornalista, muito bonita no nome, esplêndida nos conceitos e, geralmente, ligada muito mais fortemente aos interesses do veículo que aos do leitor. Miguel Jorge, jornalista, é vicepresidente de Assuntos Corporativos da Volkswagen do Brasil

TEM QUE SER TAMBÉM UM BOM MARQUETEIRO marqueteiros e assessores de imprensa, que cumpriram duplamente sua função: chamou a atenção da imprensa e do público para o evento a ser divulgado – no caso, o GP Rio de Fórmula Indy - e conseguiu expor na mídia a marca Hollywood. Este foi, sem dúvida, o nosso caso de assessoria de imprensa de maior sucesso, que comprova a tese do profissional híbrido. Não basta ser jornalista, tem que ser também um bom marqueteiro.

divulgar os eventos. Com a enorme evolução dos meios de comunicação, o próprio público ganhou opções e passou a ser mais especializado e exigente. Os veículos de comunicação, os departamentos de marketing das empresas e, conseqüentemente, as assessorias de imprensa, ganharam um nível de sofisticação muito maior. Os eventos hoje são infinitamente mais caros - e, por isso mesmo, formatados para a mídia, visando à exposição dos patrocinadores que os viabilizam. A visão dos meios de comunicação em relação aos esportes também mudou. Há breaks criados para os comerciais, merchandising de toda sorte, e tanto jornalistas quanto assessores de de imprensa acabam fazendo parte do jogo. Nos anos 70 Hollywood estava presente na Fórmula-1, mas seria inconcebível pensar que poderíamos içar nosso carro no bondinho do Pão de Açúcar, até o alto do morro, como fizemos com o carro da Fórmula Indy, em 1997. Este evento, concebido numa reunião entre o marketing da Souza Cruz e a In Press, assessoria de imprensa que presta serviços à Hollywood, interferiu num cartão postal do Rio e saiu na capa de 11 jornais das principais capitais brasileiras - e até no Los Angeles Times. Foi uma notícia criada por

Flávio Andrade Um bom assessor de imprensa deve ser um profissional híbrido. Nunca deve deixar de ser jornalista, ter o faro de jornalista, até para saber o que seus colegas que estão “do outro lado do balcão” querem publicar. Ao mesmo tempo, deve ter uma perfeita noção de marketing, porque não é suficiente estar na mídia, mas levar à mídia uma imagem adequada do produto ou empresa para que ele trabalha. Me sinto à vontade para falar sobre este assunto porque sou um homem de marketing (fui diretor de marketing antes de chegar à presidência da Souza Cruz) que sempre trabalhei em parceria com assessoria de imprensa. Podemos tomar como exemplo a evolução paralela do nosso trabalho de marketing com assessoria de imprensa, seguindo a trajetória da equipe de Hollywood de automobilismo. Hollywood foi a primeira marca a patrocinar profissionalmente uma equipe de automobilismo, no início da década de 70, e também a primeira a ter uma assessoria de imprensa profissional. O esporte hoje está muito mais ligado ao marketing do que naquela época, quando o máximo que se pretendia era

Flávio Andrade, profissional de marketing, ocupou vários cargos nas áreas de vendas e marketing da Souza Cruz, até assumir a presidência da empresa, em janeiro de 1996.

"Sem nunca deixar de ser jornalista, o profissional precisa ter noções de marketing. Porque não é suficiente estar na mídia, mas levar à mídia uma imagem adequada do produto ou da empresa para que ele trabalha"

POR DENTRO DAS NOVE "O pior é não ser nem uma coisa nem outra"

"Pode ser as duas coisas, sem burlar as regras " Raimundo Filho

Marcelo Auler

PROVA DOS NOVES

Depende do assessor de imprensa. Creio que assessor de imprensa tem um papel bem definido, e marqueteiro outro, bastante diverso daquele. Há muitos assessores de imprensa que se comportam como marqueteiro: procuram criar uma imagem do assessorado que não

Raimundo Filho, jornalista com 30 anos de profissão, é o editor de primeira página do Diário de Pernambuco.

Marcelo Auler, jornalista há 26 anos, é repórter do jornal O Dia. ○

corresponde à realidade. Este é o tipo de trabalho que se alicerça em bases falsas e, portanto, não tem condições de se impor. Quando o assessor de imprensa “planta” notícias em colunas de jornais não está sendo fiel ao papel que deve desempenhar. O assessor de imprensa deve se portar como um intermediário entre o político e a imprensa, facilitando o trabalho dos jornalistas, quando é possível, sem comprometer sua fidelidade ao assessorado.

Tarcísio Holanda

Pode ser uma coisa ou outra, a depender da sua capacidade e das necessidades do assessoramento. Desde que não comprometa as regras profissionais.

Depende dele. Tanto existe assessor de imprensa jornalista como existem aqueles que não passam de marqueteiros e, ainda, os que não conseguem ser nenhuma das duas coisas.

"Apenas um intermediário da notícia"

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Tarcísio Holanda, jornalista há 47 anos, foi repórter e redator no Rio de


ajuda de um assessor de imprensa para nada.

"Virou assessor, deixa de ser um jornalista. Uma boa reportagem nunca precisou dele"

Carla Baptista, jornalista há sete anos nos jornais portugueses Diário de Notícias e 24 Horas, trabalha atualmente como free-lancer.

"Assessor pensa como jornalista, mas age como marqueteiro"

Um assessor de imprensa deixa de ser jornalista. Isso é ponto assente. Se voltar ao jornalismo, deve procurar trabalhar em áreas afastadas dos interesses que defendeu enquanto assessor de imprensa. Em Portugal, a maioria dos assessores só serve para bloquear a informação e não para a tornar mais acessível. É mesmo muito irritante ver ex-jornalistas agindo como guardiões do templo. Mas uma boa reportagem ou artigo nunca precisou da

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Luiz Carlos Cascon

Pode ser ou pode não ser. Pode até ser os dois. Explica-se: em determinados casos - e eles são a maioria - o assessor age como lojista, e aí ele não passa de marqueteiro em favor da empresa ou instituição para a qual trabalha. Mas em outros casos - e eles não são raros - ele pode atuar dando uma notícia que se transforma em pauta muito bem utilizada pelo jornal. Um exemplo: a assessoria do TCU em Brasília tem passado informações sobre julgamentos e condenações contra prefeitos aqui do Maranhão, como faz com outros estados. Com a divulgação do acórdão no site do TCU na Internet é fácil produzirmos um boa reportagem. Existem até aqueles assessores

Carla Baptista

Laurindo Ferreira, jornalista há 8 anos, é chefe-geral de reportagem do Jornal do Commercio, do Recife.

"O conflito é natural, mas é um importante mercado de trabalho"

Décio Sá

É sempre melhor que seja jornalista de formação, mas, por razões óbvias, o assessor tem compromissos assumidos com o cliente e não com os leitores. Essa é a principal e irremediável diferença. Não está preocupado com os fatos, a maneira crítica de apresentá-los, a polêmica (só quando interessa ao chefe). E aqui não se trata de emitir juízo de valor. Não é isso. A assessoria de imprensa é uma possibilidade na profissão. Se exercida com seriedade, merece respeito. Pode (e deve) ser uma ponte entre as redações e os centros decisórios, sejam públicos ou privados.

Décio Sá, com 5 anos de jornalismo, é editor especial de O Imparcial (MA).

"Se bem utilizado, esse profissional pode ser de grande utilidade para o jornalismo"

Laurindo Ferreira

que dão notas exclusivas - principalmente para colunistas - sobre o patrão que só mesmo quem vive seu dia-a-dia poderia saber. Quer dizer, bem explorado, o assessor pode ser de grande utilidade.

É um jornalista que assume o compromisso de trabalhar, de forma positiva, a imagem de quem o contratou. Muitas vezes, acontecem situações conflitantes entre o assessor e o jornalista de redação. E é natural que aconteçam, dependendo do que esteja em jogo. Mas é interessante registrar que as assessorias de imprensa empregam hoje uma parcela significativa dos jornalistas profissionais. Luiz Carlos Cascon, jornalista há 25 anos, é subchefe de reportagem e líder da equipe de polícia e justiça da editoria Rio do jornal O Globo.

Jornal da ABI


"Jornalista assessor será sempre jornalista" Juan Gargurevich Um jornalista assessor de imprensa é sempre um jornalista. Juan Gargurevich, jornalista e historiador da comunicação, com atividades nos principais jornais peruanos, inclusive no mítico jornal alternativo Marca (uma espécie de Opinião ou Movimento peruano), é o atual coordenador do Curso de Jornalismo da Pontifícia Universidade Católica do Peru.

Pode ser uma ou outra coisa. Geralmente, isso não depende dele, mas do seu chefe ou patrão. Numa hora de crise como a que estamos atravessando, bons jornalistas vêm fazendo esse tipo de assessoria. Não só porque emprego está escasso, como porque ganham mais. Acontece, porém, que os donos ou diretores das empresas onde eles trabalham, não raramente, os obrigam a atitudes menos profissionais, como tentar “empurrar” releases idiotas aos colunistas ou secretários de redação. E quando as tolices não são publicadas, o assessor é que paga o pato.

Não sei com exatidão o que significa “assessor de imprensa”. Às vezes, nas altas horas da noite (quando as tarifas telefônicas são reduzidas), me despertam algumas “assessorias” para transmitir com urgência, por fax, as informações sobre a colheita de maracujá no ano passado em algum estado periférico do Brasil. Espero que ganhem muito dinheiro por tal empenho. Para responder, algum dia (ou seja, alguma noite) lhe mando a premente notícia sobre a produção de batatas na península de Chukotka, extremo nordeste da Federação Russa, no século XIX.

"Do marqueteiro não sei nem o que faz. E nem quero saber"

Sebastião Nery

"Fazer a propaganda de seu 'produto' faz parte da função" Talita Figueiredo O assessor é um porta-voz, um elo de ligação entre uma empresa (ou uma pessoa) e a imprensa, fazendo muitas vezes o trabalho de um jornalista. Entretanto, fazer o marketing dessa empresa/pessoa, mostrar as qualidades e fazer a propaganda de seu “produto” faz parte do cargo.

Mário Mesquita, jornalista há 28 anos, ajudou a criar o primeiro curso de jornalismo em Portugal e foi também o primeiro ombudsman de imprensa no país. Foi diretor do Diário de Notícias e do Diário de Lisboa e, atualmente, é colunista semanal do diário O Público, de Lisboa. ○

Daniel Barbará, publicitário, é diretor comercial da agência DPZ, presidente do Grupo de Mídia de São Paulo e conselheiro do Instituto Verificador de Circulação - IVC.

"É um profissional de comunicação que, quando assume a função, deixa de ser um jornalista"

Jean-Jacques Sevilla, jornalista com 20 anos de profissão, é correspondente no Brasil, há 15 anos, dos jornais franceses Libération e Le Monde.

Jornalista não é, com certeza, porque a lógica do jornalismo baseia-se no distanciamento e no recuo crítico perante as fontes.

A assessoria de imprensa, como todas as assessorias, deveria ser uma ponte, um elo de ligação entre a fonte e a imprensa. Com o passar dos tempos, houve alguns desvios nessa função, e o marketing, sob seus vários aspectos, acabou imperando nessa função, o que causou uma possibilidade de alguns momentos delicados, como por exemplo, a facilidade com que se reproduzem os press releases, sem nem mesmo modificar uma vírgula. É natural que essa e outras situações sejam percebidas e rejeitadas pelos leitores e isso prejudique a relação. Os jornalistas precisam das assessorias e vice-versa, o que se pode é otimizar a relação em proveito dos dois lados.

Erick Torrico Villanueva, jornalista há 16 anos, dirige o mestrado em Comunicação e Desenvolvimento da Universidade Andina Simón Bolívar

Marqueteiro, quem duvida? Para ser jornalista, falta-lhe a independência mínima necessária ao exercício da profissão.

Mário Mesquita

Daniel Barbará

Jean-Jacques Sevilla

"Impossível ser jornalista sem recuo crítico e distanciamento"

A assessoria de imprensa não existe na Bolívia com essa denominação nem com as características que ela pode ter no Brasil. Na Bolívia trabalha-se melhor com a idéia do “relacionador público” ou do departamento de comunicação institucional. Esta atividade está mais desenvolvida nas instituições públicas – governamentais, especialmente – do que nas do setor privado, mas ainda não consegue alcançar um perfil profissional claro. Há ainda uma predominância do sentido propagandístico, o que faz a atividade f i c a r mais próxima do sentido de marqueteiro do que de um profissional orientado a definir estratégias e ações concretas de informação verossímil e a produzir e administrar os meios e mensagens correspondentes.

"Falta-lhe a independência mínima para ser jornalista"

Vladimir Reznichenko, jornalista e tradutor de Camões e Bocage para a língua russa, é chefe de representação da agência noticiosa Novosti no Brasil.

Erick Torrico Villanueva

Mario de Moraes, primeiro Prêmio Esso de Reportagem no Brasil, em 1955, é jornalista desde os 16 anos e continua, ainda hoje, aos 74 anos, fazendo reportagens e entrevistas para jornais e revistas.

Vladimir Reznichenko

"Pode-se culpar a facilidade com que se publicam, na íntegra, os releases"

"Na Bolívia não existe assessoria de imprensa com este nome. Falta definir ainda um perfil mais profissional"

Mario de Moraes

"Às vezes me despertam para informar sobre colheita de maracujá. Um dia mando de volta a produção de batatas da Chukotka"

PROVA DOS NOVES

formada em jornalismo pela Faculdade de Comunicação Social da UERJ, em dezembro de 1998, é repórter do jornal O Dia.

"Quem contrata é que tenta 'empurrar' releases idiotas para redações e colunistas. E se não sai, o assessor é que paga o pato"

Talita Figueiredo, com 22 anos,

Os três são coisas próximas, mas diferentes. O laço funcional do jornalista é direto entre ele e o público. O assessor de imprensa é uma ponte entre a entidade ou a autoridade que ele assessora e o público. O marqueteiro, mesmo sendo jornalista, quando assume o marketing, é um profissional de comunicação que, naquela função, deixa de ser jornalista. O compromisso não é com o público. É com o cliente, que ele quer “vender” ao público.

No caso, as imposições éticas são muito claras. As três atividades são legítimas e podem ser honradamente exercidas. O que se proíbe é a acumulação. Assessor não pode ser, ao mesmo tempo, jornalista. Nem marqueteiro. Aliás, de marqueteiro não entendo nada. Nem bem o que é e o que faz. E não quero saber.

Sebastião Nery, jornalista há 47 anos, faz colunismo político para jornais de 16 estados brasileiros.

Villas-Bôas Corrêa, jornalista há 51 anos, é repórter político do Jornal do Brasil e da TV Manchete.

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Villas-Bôas Corrêa


for desfavorável ao seu assessorado. Ele trabalha para emplacar matérias positivas, para defender e orientar uma pessoa ou uma instituição. Há, entretanto, assessores que podem ser considerados jornalistas. Sabem o que pode virar notícia, conhecem a forma de funcionamento de uma redação, realmente ajudam o repórter. Mas é uma relação que a qualquer momento pode ser afetada. Afinal, um é pago para divulgar todas as versões e o outro, via de regra, para apresentar apenas uma.

"A maioria dos assessores se comporta corretamente no trato com a notícia" Sandra Ney Ele é, ou deveria ser, essencialmente jornalista. Notícia é notícia e marketing é marketing, por isso são profissões diferentes. O fato de serem próximas pode causar alguma confusão, mas, pela minha experiência profissional em chefia de reportagem, sinto que a maioria dos assessores de imprensa se comporta corretamente como jornalistas intermediários entre a origem e o fim da notícia.

"Deveria ser apenas uma função de ponte, sem se meter com o setor de marketing" Carlos Magno Araújo A figura do assessor de imprensa deve ser, na minha opinião, a figura do jornalista de empresa. Aquele a quem cabe fazer a ponte entre o jornalista interessado na informação e a empresa. Essa dualidade de atribuições acontece, principalmente, na minha opinião, p o r culpa do próprio assessor de imprensa, que faz questão, quase sempre, de ir além de suas atribuições, interferindo em outros setores, como o de marketing.

Saulo Moreira, jornalista há 2 anos, é repórter do Diário de Pernambuco.

"O assessor de imprensa pode omitir informações para não prejudicar o cliente. O jornalista não"

Sandra Ney, jornalista há 25 anos, é chefe de reportagem da TVE-RJ.

Assessor de imprensa, regra geral, é divulgador. A escola de samba Mangueira tem excelente divulgador, que talvez nem tenha freqüentado faculdade. O mesmo não deve ser dito da maioria dos órgãos governamentais, cujos divulgadores são escolhidos por apadrinhamento. Somente será possível acreditar que assessor (barreira erguida entre fonte e jornalista) de imprensa é jornalista no dia em que se puder imaginar que um deles exerceu condição essencial da profissão: a crítica, em qualquer circunstância.

Saulo Moreira

Jorge Luis Bernetti, jornalista durante 28 anos, passou a se dedicar ao ensino da comunicação e hoje é professor titular de jornalismo na Universidade Nacional de La Plata e na Universidade de Buenos Aires.

Muito mais marqueteiro que jornalista. Ele defende os interesses de um pessoa que lhe paga para isso. Geralmente não tem compromisso com a verdade, se a verdade

O assessor é jornalista que, na maioria das vezes, tem experiência em redação, sabe os meandros de um jornal e pode auxiliar seu cliente na relação com a mídia. É um profissional cada vez mais presente, uma vez que cada vez mais pessoas estão tendo espaço na mídia. Ao mesmo tempo que serve como ponte entre o entrevistado e o jornalista, o assessor tem acesso a informações - muitas vezes - privilegiadas. É lógico que tudo depende de uma ética, mas pode haver o erro de distribuir informações privilegiadas a um veículo e a outro não. Isso não é incomum no jornalismo atual. É um erro que precisa ser consertado.

Harold Emert, jornalista americano, com 30 anos de profissão, está há 25 anos no Brasil e trabalha como correspondente dos jornais Daily Express, Express on Sunday e Daily Star.

Fábio Grijó, jornalista há 2 anos, é repórter da editoria de esportes do Jornal do Brasil

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Fábio Grijó

Um assessor de imprensa para mim não é um jornalista, mas alguém com h a b i l i d a d e s jornalísticas que tenta convencer a mídia de que o seu “chefe” é uma pessoa correta. Este tipo de assessor geralmente sabe todos os truques para se livrar de jornalistas que são “problemáticos”. Como eu normalmente faço perguntas “problemáticas” ou “inconvenientes”, eu nunca me dou bem com este tipo de assessor.

Jorge Luis Bernetti

"Sem compromisso com a verdade, se a verdade for desfavorável ao seu assessorado"

"Um erro comum: distribuir informações privilegiadas a um veículo e a outro não"

HaroldEmert

"Será sempre melhor trabalhar com a verdade do que tentar fabricar uma imagem" O comunicador social sempre deve sujeitar-se a princípios éticos e técnicos. O jornalista que, ocasional ou permanentemente, trabalha para uma fonte privada tem que buscar uma boa imagem para a empresa. Será sempre melhor trabalhar com a verdade do que tentar fabricar uma imagem. De forma geral, quando isso acontece, acaba funcionando contraaimagem que se quer criar.

Eric Brücher Camara, jornalista há 4 anos, é repórter do jornal O Globo.

"Alguém com habilidades jornalísticas que tenta convencer a mídia de que o seu 'chefe' é uma pessoa correta"

Ricardo Noblat, jornalista há 32 anos, é diretor de redação do jornal Correio Braziliense e o mais novo condômino dos Diários Associados.

Marco Aurélio Guimarães (Jangada), jornalista há 40 anos, é coordenador de redação do Jornal do Commercio do Rio de Janeiro.

Vejo duas respostas possíveis: o BOM assessor de imprensa é jornalista, e necessariamente já praticou jornalismo antes de passar para assessoria. Isso significa entender o timing das redações, entender o que é pauta, saber apurar e alguns outros pré-requisitos indispensáveis, tanto para o bom jornalista quanto para o bom assessor de imprensa. Encontrar ganchos jornalísticos para divulgar informações é o marketing essencial para o bom profissional. Já o MAU assessor, na maioria das vezes, ignora o interesse jornalístico e tenta “empurrar” para as redações aquilo que interessa a si, ou à sua empresa, no momento. Costuma dar errado.

Carlos Magno Araújo, jornalista há 9 anos, é chefe de redação do Diário de Natal/O Poti, de Natal, Rio Grande do Norte.

É jornalista. Pode usar técnicas de marketing. Mas não é igual a um jornalista que trabalha para jornal, rádio ou televisão. O que diferencia um do outro é o patrão. O do assessor de imprensa é quem paga o salário dele – a empresa, o órgão público, o governante. O patrão do jornalista que trabalha em veículos de comunicação de massa é o público. O assessor de imprensa pode omitir informações para não prejudicar o cliente. O jornalista está obrigado a revelar todas as informações que julgar relevantes para não prejudicar o público.

Marco Aurélio Guimarães (Jangada)

Eric Brücher Camara

Ricardo Noblat

"A Mangueira também tem um excelente divulgador que não deve ter freqüentado uma faculdade"

"Costuma dar errado 'empurrar' para as redações aquilo que interessa a si ou à sua empresa"

Jornal da ABI


escondidos remete para a velha questão dos fins justificarem os meios. Aspectos éticos que acompanham a postura do repórter como profissional e cidadão. E ainda dividem - e muito - as opiniões.

Foi uma câmera escondida que permitiu desbaratar e punir o grupo de policiais criminosos da favela de Diadema . Com o apoio geral da nação. Mas o uso constante de minicâmeras ou microfones

DIANTE DE UMA NOVA ERA DE DISCUSSÃO ÉTICA resistir ou não à ditadura. De um lado, do “nosso” lado, estava o bem; do outro, as trevas. Como eram mais simples os problemas de então! Saudades do maniqueísmo? Não, Deus nos livre. Outro dia, lendo uns textos de época, não encontrei nem uma vez a palavra ética, nem a palavra liberdade (no sentido político), muito menos ditadura e tortura. O que se discutia era como “passar” a informação de que um líder operário estava sendo torturado, ou se o repórter devia ou não deixar sua carteira de identidade com o coronel que ele havia acabado de entrevistar e que, pelo visto, não gostara da entrevista, mesmo antes de publicada. Ou então, como falar da ditadura de Portugal para que os nossos leitores, por inferência ou analogia, descobrissem que o mesmo acontecia aqui. Não há dúvida de que é melhor discutir se posso ou não usar microfone escondido. Uma das diferenças entre aquela época e agora é que não existem mais dogmas, verdades prévias e certezas a priori. Tudo tem que ser permanentemente discutido – a ética, a técnica e a estética, nossas dúvidas e perplexidades.

do Brasil? E se a descoberta do atentado depende da revelação da identidade do maníaco? Em nome da preservação da fonte tenho o direito de deixar milhares de pessoas morrerem? Como todo mundo, o jornalista é hoje um profissional cheio de dúvidas conceituais e morais. Também vivemos a chamada Era da Incerteza, em que todas as

Zuenir Ventura Como princípio de conduta não - não é ético usar microfone, ou gravador, ou câmeras, qualquer coisa escondida, para obter informações. Jornalista não tem direito de invadir a privacidade dos outros, principalmente se estes não sabem que isto está sendo feito. Portanto, esse expediente não pode se transformar numa prática regular e ordinária, acima de qualquer controle ético e em nome da liberdade de expressão. Em tese é assim. Mas e se eu vejo policiais espancando cidadãos indefesos - mais ou menos como aconteceu nas favelas de Diadema, em São Paulo, e Cidade de Deus, no Rio, para só citar dois exemplos recentes - não devo registrar a agressão e o crime com a câmera que tenho escondida? E se eu sei que policiais vão extorquir um comerciante e marcaram data e local, não posso usar uma câmera para obter o flagrante? Se tenho uma câmera e vejo aquele grupo de vândalos destruindo um bem público, não tenho direito de registrar? Acho que essa nova e delicada questão ética deve ser tratada com bom senso e relatividade, muita relatividade. Cada caso deve ser um caso, já que não existe um código ou manual, e nem poderia haver, informando previamente quando posso ou não usar: “nesses casos, usa-se, nesses outros é proibido e naqueles é facultativo”.

"Cada caso deve ser um caso e o uso de câmara escondida é uma nova e delicada questão ética a ser tratada com bom senso" É um pouco como a informação em off; só que essa é mais antiga e sobre ela já temos maior domínio. É ponto pacífico na ética jornalística que estou impedido até legalmente de revelar a fonte quando ela solicita anonimato. Qualquer jovem repórter sabe disso: nós sabemos, a fonte sabe e até o juiz sabe. Mas e se se trata de um terrorista que está anunciando com exclusividade para mim a colocação de uma bomba na Central

referências, as boas e as ruins, as ideológicas e as tecnológicas, caíram por terra. Isso pode nos deixar inseguros, mas apesar das dificuldades, é um tempo melhor do que a “era das certezas”, dos anos de chumbo, quando o censor de plantão dizia o que se devia ou não publicar. Era um tempo mais heróico e mais sofrido, porém mais cômodo. A ética, uma palavra que praticamente não existia na época, se resumia à coragem cívica de

Zuenir Ventura, jornalista e professor universitário há mais de 40 anos, autor, entre outros, dos livros “1968, o ano que não terminou” e “Inveja - Mal secreto”. É também colunista de O Globo.

DENUNCISMO, DOENÇA INFANTIL DO JORNALISMO mais grave, melhor. Do ponto de vista do repórter, e é nessa condição que me pronuncio, conseguir uma boa denúncia e vê-la publicada é um gol. É furo. Fazer denúncias, escarafunchar administrações públicas em busca de falcatruas, vasculhar cidades à cata de mazelas, tudo isso é do jogo. É função da imprensa denunciar. Não fosse assim, não teria sentido ter imprensa livre. E não teria graça nenhuma. Mas é preciso ter critério para denunciar. Não vale aqui a máxima sinistra de que os fins justificam os meios. A onda mais ou menos recente de “denuncismo” tem um encadeamento lógico. A imprensa foi censurada durante a ditadura militar e tentou driblar isso de todas as formas. De acordo com relatos de alguns jornalistas que viveram sob toda aquela angústia, o pior era saber que havia centenas de denúncias a fazer e que elas não podiam ser feitas. Algum tecnocrata

Alexandre Medeiros Há um fenômeno mais ou menos recente na imprensa brasileira e a ele podemos chamar de “denuncismo”. A palavra não está no Aurélio nem em qualquer outro dicionário respeitável da língua portuguesa, mas pode ser definida como a busca destrambelhada por uma denúncia. Nada contra a busca, muito menos contra a denúncia. Implico mesmo é com a destrambelhada. Por causa dela estamos nós aqui a debater o uso do microfone escondido, se é ético ou não, se é condenável, se é admissível, se é justo. Prefiro meter minha colher nesse debate falando do “denuncismo” e de suas formas de manifestação. Talvez assim chegue ao microfone escondido. Denúncias sempre atraem interesse do leitor ou do telespectador. Elas vendem jornais, revistas, noticiários de TV. Quanto ○

PROVA DOS NOVES

"Qualquer carregador de malas do Galeão que oferece um câmbio de ocasião a turistas incautos pode ser alvo de uma câmera escondida e aparecer no Jornal Nacional como se fosse um criminoso top de linha"

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dos fatos, reportagens que tentam trazer luz. Só que a tal demanda reprimida veio dar no tal “denuncismo”. Há hoje uma banalização da denúncia. Qualquer carregador de malas do Galeão que oferece um câmbio de ocasião a turistas incautos pode ser alvo de uma câmera escondida e aparecer no “Jornal Nacional” como se fosse um criminoso top de linha. Fica a sensação de que os métodos são a notícia: a notícia é a imagem da câmera escondida, é a suposta gravação clandestina que “denuncia” um esquema de corrupção mambembe em uma câmara de vereadores do sertão baiano. E aqui se comete a falha mortal. De posse da tal imagem ou da tal gravação o repórter considera seu dever cumprido. Basta exibir as imagens e os sons e pronto, está feita a denúncia, está consumado o jornalismo. Erro em cima de erro. Freqüentemente

de nossos dias pode chamar isso de demanda reprimida. De um lado, a imprensa amordaçada querendo denunciar. De outro, um leitor surrupiado em seu direito de ser informado. Não durou para sempre a censura. Pode até ser encontrada hoje em outros formatos, mas não naquele da época da ditadura. Livre para denunciar, a imprensa cumpriu seu papel. Até hoje tenta revisitar a história obscura, como se quisesse reescrever com as teclas brancas dos computadores tudo aquilo que não conseguiu escrever com as velhas “pretinhas”. Reabrimos as chagas da Guerrilha do Araguaia, tentamos tirar do lodo a farsa do inquérito que apurou o atentado do Riocentro, voltamos a remexer as mortes de Rubens Paiva e Carlos Lamarca. São denúncias sim, feitas, às vezes, décadas depois do acontecimento

idéia viver algum tempo como um deles. Para saber como é a vida de um mendigo nas grandes cidades brasileiras, é plausível dormir debaixo de marquises algumas noites. Mas o melhor jeito de fazer jornalismo continua sendo o de se apresentar como jornalista e levar um bloco e uma caneta nos bolsos, um gravador que se ponha sobre a mesa quando se fizer necessário, com a anuência do interlocutor. É o jeito mais honesto, mais ético. Pode até ser mais difícil conseguir a denúncia, mas jornalismo não é mesmo fácil, nunca foi. E um microfone escondido jamais vai substituir a inteligência. Ainda bem.

as denúncias não se sustentam, não são checadas, não é dado ao alvo da câmera ou do microfone escondidos o direito à defesa, ao menos a uma tentativa de explicação. O caso é abandonado no dia seguinte, não é acompanhado, até porque novas pérolas da safra do denuncismo estão a caminho. É só despejar na rua repórteres equipados com o que há de mais moderno em microcâmeras ou gravadores de lapela. Abandona-se a boa e velha pauta, na presunção de que há podres em qualquer repartição pública, no saguão do aeroporto, nas ante-salas dos gabinetes dos três poderes. Às vezes, para conseguir uma boa denúncia, o jornalista precisa se fazer passar por pipoqueiro, vendedor de seguros, operário de obra. Para relatar o sofrimento em um acampamento de trabalhadores sem-terra, pode ser uma boa

Alexandre Medeiros, jornalista há 18 anos, com dois prêmios Esso de Jornalismo, já passou pelas redações do Jornal do Brasil, O Globo e O Dia, e atualmente é repórter da revista Época.

RECURSOS DE UM VEÍCULO ESCRAVO DA IMAGEM Duas palavras podem, muito bem, fundamentar a discussão – elas se relacionam, se completam e balizam, de certa forma, o sentido da utilização desse recurso essencial ao jornalismo investigativo de televisão: a captação da verdade através de câmeras e microfones escondidos. Uma, a própria: palavra. A palavra malbaratada que se fala, que se escreve, que se transmite e da qual se desconfia, inevitavelmente. Outra, a tal: ética. A ética violentada que nem sempre ampara e sustenta toda palavra dita, escrita e transmitida. “A tecnologia não tem ética; nossas normas tentam garantir que ela seja com ética” - Dick Wald, do programa ABC News. A crítica escrita estabelece uma condenação prévia, inapelável. Não importa a finalidade, não importa o resultado; é antiético e ponto. Bobagem. Não se pode sentenciar, assim, a curiosidade, a saudável curiosidade do bom repórter. Ou estaremos condenando a nós mesmos quando, em busca de uma boa história no papel (não falo em TV), escamoteamos nossas funções jornalísticas – quem ousa, por exemplo, acusar Eugênia Moreyra de atropelar a ética por ter se internado num asilo, nos anos 10, só para checar – e confirmar, em “ARua” – denúncias de maus tratos? Ou, em tempos mais recentes, transferir a acusação para Caco Barcelos que, travestido de operário, produziu uma bela reportagem para Repórter na usina de Angra? “A única razão pela qual usaria uma câmera oculta seria para verificar alguma informação ou alegação para a qual eu só tenho sua palavra” – Robbie Jordon, Post-Newsweek Stations. Inconfidências ao pé do ouvido rendem extensas reportagens que, completadas por dois, três telefonemas e uma foto de arquivo, chegam à primeira página. Fácil. Difícil – quase impossível – é transportar,

dentro do Detran para “clonar” táxis. cena 5 Um médico do serviço público, já denunciado em processo por assédio, se aproveita da intimidade do consultório para abusar de uma mulher que anuncia dores na coluna. Cinco histórias, cinco personagens flagrados em ação pelas lentes de uma câmera escondida violando, acintosamen-

ou construir, a mesma história para um veículo escravo da imagem. O jornal imprime o fato, a televisão mostra o fato, expõe a cara de quem não tem cara no papel; exige ação, provoca reações, movimentos, flagrantes reais que, às vezes, só são possíveis através do olhar discreto de uma câmera oculta. “A função de qualquer organização jornalística com credibilidade é perseguir uma boa história, da maneira que for necessária para consegui-la” Richard Moore, WSOC-TV. A presença de uma câmera visível – e todo aquele aparato barulhento que cerca uma gravação – não só torna impossível o registro de determinadas histórias; às vezes, é agressiva, ostensiva e espaçosa, interfere e altera a realidade e pode modificar o comportamento de um entrevistado; transtornar, intimidar, inibir e também despertar vaidades, determinar performances. Um idiota bem falante vai parecer mais convincente que um intelectual tímido; um bom desempenho diante da câmera pode ser absolutamente natural, absolutamente falso. “Imagine o que é ser escorraçado diante de milhões de pessoas...Você é julgado, condenado, sentenciado, sem direito de recorrer” - Neville Jonhson, advogado, em processo contra a ABC. Veja, por exemplo: cena 1 Um senhor idoso, estelionatário foragido da justiça, vende ouro falso na rodoviária de São Paulo. cena 2 Uma cartomante charlatã (o que é uma redundância) toma dinheiro de incautos prometendo solução para qualquer tipo de desespero. cena 3 Um ladrão arromba o carro, faz uma ligação direta e tenta fugir. cena 4 Um malandro desvia documentos de

Luiz Nascimento

"O jornal imprime o fato, a televisão mostra o fato, expõe a cara de quem não tem cara no papel; exige ação, provoca reações, movimentos, flagrantes reais que, às vezes, só são possíveis através do olhar discreto de uma câmera oculta"

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te, o direito dos outros. Houve quem preferisse defini-los, apenas, como “pessoas desprotegidas, pobres, que não têm como se defender”. As imagens, realmente, não permitiram, sequer, uma justificativa esfarrapada. E, certamente, apontam em sentido contrário ao daqueles que defendem, como fundamento do jornalismo, respeitar e proteger até mesmo quem fere o interesse público. “...enganosamente invadiu uma parte da vida profissional à qual o público não tem acesso, ou seja, a relação confidencial do profissional com seus clientes” – Joel Rachmiel, advogado, em processo contra a CBS. É palavra contra palavra e, sem o olhar curioso da câmera, teríamos toda a isenção do mundo, mas não chegaríamos a lugar algum. E o médico, o médico tarado da cena 5, “desprotegido, pobre e indefeso”, continuaria assediando mulheres no consultório do serviço público. É evidente que toda essa tecnologia miniaturizada não pode ser usada aleatoriamente, em “pegadinhas” que exponham pessoas ao ridículo, em investigações que mais parecem operações policiais, em armações que induzam algum tipo de sofrimento ou em gravações que configurem uma séria invasão de privacidade. “Gravar alguém com uma câmera escondida deixa implícito que há algo errado; o simples fato de obter informações desse jeito levanta uma questão ética” – Bob Steele, Instituto Poynter de Estudos dos Meios de Comunicação. Algo pode estar errado também quando preservamos fontes nem sempre sinceras e desinteressadas ou nos protegemos sob o pano preto do anonimato. De qualquer forma, um telejornalismo com ética recomenda que as microcâmeras só sejam usadas em reportagens de extrema importância,

Jornal da ABI


assuntos de interesse público, quando não haja outro meio de conseguir a informação, e quando a informação tiver mais peso do que o prejuízo que vier a ser causado pela gravação em segredo. Simples? Nem tanto. As considerações éticas e filosóficas variam de história para

história e de emissora para emissora – ligue a TV agora e, “zapeando”, você vai reparar o tratamento diferenciado dado a certos assuntos por certas emissoras. Mas as considerações jornalísticas – principalmente a capacidade de denunciar irregularidades, trapaças, falcatruas, descasos e

desrespeitos em geral – vão justificar a utilização desse instrumento essencial na busca da verdade, este sim, fundamento básico do jornalismo. Palavra, palavra que por si só já se encerra ética. * Os trechos em negrito foram extraídos de

um artigo de Robert Lissit para o American Jornalism Review, fonte de leitura e refelexão na Central Globo de Jornalismo. Luiz Nascimento, jornalista há 30 anos, é diretor geral do programa “Fantástico”, da TV Globo.

MÉDICO CONTESTA ACUSAÇÕES DO "FANTÁSTICO" joelho) do terapeuta ou, como neste último exemplo, fica entre as coxas do médico sentado, que abraça sua pelve. A segunda questão é a forma como foi tratado pela imprensa um exame de rotina realizado num ambulatório público de grande movimento no Rio de Janeiro. Quem conhece o ambulatório de ortopedia do antigo PAM São Francisco Xavier sabe que suas salas são divididas por meias paredes de eucatex. Ali os sons das salas se confundem e os médicos são freqüentemente solicitados pela enfermagem. Foi nesse ambiente que a repórter realizou a filmagem com uma câmera oculta. Mas o que se viu na televisão foi uma fita editada, onde o som local foi retirado

João Américo Alvim Muito há que se falar do caso em que fui envolvido pelo programa “Fantástico” da TV Globo. Desde o incomensurável sofrimento provocado na minha família e mesmo entre os amigos até o enorme prejuízo profissional que o fato trouxe. Mas no momento gostaria de tocar em duas questões. A primeira, o fato de que todos os procedimentos por mim adotados foram adquiridos durante vários anos de prática médica e têm respaldo na literatura ortopédica clássica, nas de fisioterapia, quiropraxia, osteopatia e manipulação vertebral, também tratada como medicina ortopédica. Especificamente em relação ao procedimento que a imprensa tratou como “colocar a paciente no colo”, veja o texto do livro “Bases Elementares Técnicas de Terapia Manual e Osteopatia” de Marcel Bienfat, pág. 102: “...paciente sentado em frente a uma mesa sobre um tamborete ou, melhor ainda, sobre a ponta dos joelhos do terapeuta...”. No clássico livro “Manipulação Vertebral” de Maitland, pág. 33: “... o paciente solta o corpo em flexão repetidas vezes e com bastante suavidade ... ao puxá-lo, o fisioterapeuta curva-se para trás forçando sua pelve direita contra o sacro do paciente”. No livro “Osteopatia Manipulações práticas da coluna vertebral” de Bernard Quef e Philippe Pailhous, pág. 84: “... paciente - em pé, os membros inferiores ligeiramente abertos lateralmente...terapeuta - em pé, atrás do paciente os membros inferiores abertos de frente para trás de modo a que um ou outro se intercale entre os membros inferiores do paciente...”. Do livro “Escoliosis Concepto y Tratamíento” do Dr. Stanley Hoppenfeld (capitão do corpo médico da armada dos Estados Unidos e cirurgião ortopédico em Nova Yorque), pag.53: “...sentado atrás del paciente se halla en posicion de flexion (flexionado a nivel de las caderas). Sujetar firmemente la pelvis...”. Há, portanto, vários procedimentos em que o paciente é apoiado sobre a coxa (ou o

"O que se viu na televisão foi uma fita editada, onde o som local foi retirado em quase sua completa totalidade e substituído por uma música de fundo e uma narrativa tendenciosa"

Nota da redação O médico João Américo Alvim atende, por convênio, há 19 anos, os associados da ABI. Um motivo a mais para nossa iniciativa de solicitar a ele artigo sobre a reportagem que o envolveu e foi citada no artigo pedido a Luiz Nascimento, diretor geral do "Fantástico". Sobre as acusações

PROVA DOS NOVES

Antônio Carlos na Rádio Globo (esta foi a única oportunidade que o sistema Globo me deu de falar ao vivo e em que eu tive verdadeiramente a chance de me defender). Mostrei livros que esclareciam todos os procedimentos, o que mudou a opinião do radialista sobre o caso. Denunciei que a mulher que se apresentara no “Fantástico” como uma ex-paciente assediada, na verdade era uma pessoa com quem eu havia tido um caso anos atrás e que, inconformada e obsessiva, se dedicava há algum tempo a perturbar minha vida no meu trabalho e mesmo na minha casa pelo telefone (as minhas filhas pré-adolescentes e minha mulher, que assistiram ao “Fantástico” ao meu lado, de pronto reconheceram a voz daquela mulher que ligava com freqüência para nossa casa perturbando a paz da família).

A história, portanto, era bem diferente daquela apresentada pelo “Fantástico”. No dia seguinte, o jornal O Globo publicou uma notícia em que dizia que a TV Globo distribuíra nota afirmando que tinha uma fita de 55 minutos à disposição das autoridades; fita essa que incriminava mais ainda o médico. Era um blefe. Solicitada a fita na íntegra, foi ela negada ao Conselho Regional de Medicina, ao Ministério da Saúde, ao Sindicato dos Médicos e à Justiça, com a alegação de que havia sido destruída logo após a edição. E então, o que fazer? Será que as nossas leis realmente permitem um absurdo destes? Como fica a partir de então um profissional médico (ou qualquer outro cidadão) na sua atividade, sem garantia de privacidade? Será que teremos de viver sob a tutela desse tipo de imprensa?

em quase sua completa totalidade e substituído por uma música de fundo e uma narrativa tendenciosa. O que era mostrado na televisão era um exame de coluna da paciente, mas a narrativa do locutor insistia “...aquela da dor no joelho...”. Veio a cena em que a paciente se curva para a frente e depois aparece apoiada no joelho do médico sem nenhum gesto brusco, sem nenhuma reação, sem nada que a impedisse de se levantar. Mas o locutor afirma: “...vejam, o médico puxa a repórter para o colo”. Daí a uns dias, a falsa paciente volta ao posto queixando-se de que a dor na coluna havia piorado e sem os exames radiológicos solicitados na primeira consulta. Durante o novo exame o médico sorri. O locutor decreta: “Olha o sorriso de satisfação do

médico”. Do que teria o médico sorrido? De uma piada da sala ao lado? De alguma coisa que a falsa paciente falou? De algum gesto estranho que ela teria feito? Sem o som ambiente, a versão ficava a critério do programa sensacionalista. O exame mostrado estava descontextualizado. Na narrativa havia um claro propósito de apresentar aquelas imagens, que a rigor nada continham, de forma totalmente deturpada. Estava criado um clima para uma verdadeira histeria coletiva. No dia seguinte, pacientes antigas foram ao consultório pegar suas fichas e exames. Outras, que haviam estado diversas vezes no consultório, agora reclamavam de constrangimento na primeira consulta. Dois dias depois, no meio de toda confusão criada, compareci ao programa do

João Américo Alvim é médico ortopedista e traumatologista, formado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. É membro da Sociedade Brasileira de Acupuntura e da Associação Nacional de Quiropatia.

do médico, consultamos o jornalista, que nos enumerou os cuidados éticos do programa: - a reportagem mandou um cliente do sexo masculino com os mesmos sintomas e o médico não fez os mesmos exames; - o material foi mostrado para outros médicos antes de se transformar em

matéria de denúncia; - o médico não era primário, pois existia uma reclamação de assédio contra ele; - as fitas originais, depois de editadas, são normalmente apagadas para serem reutilizadas. Como na época da reportagem Luiz Nascimento estava viajando, não tomou

conhecimento de nenhum pedido de fita por parte do médico ou de autoridades. Neste sentido, recebemos da Central Globo de Comunicação a explicação de que as solicitações citadas foram feitas após as fitas originais terem sido apagadas, razão pela qual foram fornecidas cópias do material editado.

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OS ESBARRÕES NA ÉTICA PODEM VIRAR INJUSTIÇA em local público, ou ainda que um dos interlocutores tenha conhecimento da gravação. Porém, nos casos de repórter e entrevistado, em que o microfone está escondido na pasta de um deles, ou de um telefonema gravado pelo jornalista sem o conhecimento do entrevistado, a lei nada prevê. Nessas circunstâncias, as garantias da privacidade levam a questões que não são tratadas pela lei, mas pertencem ao campo da ética. É importante percorrer uma linha de raciocínio para entender os motivos pelos quais não seria ético fazer gravação às escondidas, sem que o entrevistado saiba ou que tenha ampla possibilidade de defesa. A Ética, área da Filosofia que estuda os valores morais, debruça-se, há séculos, sobre se os fins justificam os meios. Aos profissionais de comunicação cabe refletir se, com meios que preservem a privacidade e com uma estratégia bem planejada, não é possível obter informações que gerem reportagens livres de problemas éticos. A premissa muito utilizada para os torcedores de um clube de futebol, de que vale a vitória a qualquer custo, não se aplica para o leitor, ouvinte ou telespectador. Além da vitória, que significa a reportagem completa, eles querem que o time jogue limpo, que atue lisamente. Ou seja, notícias exatas, corretas, interpretativas, sem vícios de origem. No jornalismo, a vitória é completa quando as normas éticas são seguidas para a obtenção da reportagem. Os princípios éticos, da moral, não devem ser comparados aos princípios jurídicos, da lei. Uma reportagem pode ser legal, mas ferir normas éticas. O “denuncismo” de fatos não apurados corretamente constitui-se em derrota para o jornalismo e para a ética da categoria, podendo ainda ferir a legislação vigente. Quando as regras do jornalismo não são observadas ou o repórter extrapola a sua função e confunde jornalismo investigativo com investigação policial, pode ocorrer injustiça. Convém lembrar os casos da Escola de Base, da Rua Cubas e de tantos outros em que os acusados foram posteriormente absolvidos. Nada foi provado contra eles. Porém, a vida de muitos destes injustiçados, segundo eles, sofreu danos irrecuperáveis. Irrecuperáveis pela falta de uma reportagem isenta, que oferecesse à outra parte a possibilidade de apresentar a sua versão, e pelo julgamento antecipado. A liberdade de bem informar o público é informar com correção, com exatidão, com ética. Quando uma reportagem vai ao ar ou é lida no jornal, é fundamental que todas a s partes tenham sido ouvidas adequadamente antes de sua divulgação. Conforme Ricardo Setti, outras questões devem ser objeto de análise dos profissionais, como: “Os jornalistas estão verificando efetivamente, antes de publicálas, todas as informações que atingem a honra alheia? Estão utilizando corretamente o off - a informação que é apresentada sem a menção da fonte?”.

Luciano Klöckner As redações dos jornais, emissoras de rádio e televisão recebem, freqüentemente, telefonemas com denúncias de todos os tipos envolvendo os mais diferentes setores da sociedade. Por descrença ou por não saberem a quem recorrer, muitos brasileiros têm depositado na imprensa a confiança para encaminhar essas reivindicações. E muitas delas, transformadas em reportagens, têm desempenhado importante papel na luta pela credibilidade nas instituições que se trava em diversos setores, através do combate à corrupção. Mas, para a imprensa, e para os jornalistas, sempre se coloca a questão de como acolher, dar encaminhamento, investigar e comprovar tais denúncias, levando mesmo a uma reflexão sobre o papel da imprensa e de seus profissionais. Na ânsia de acolher e comprovar as denúncias do público, muitos profissionais esbarram diversas vezes em dúvidas que dizem respeito à ética na comunicação. O tema tem sido preocupação constante dos profissionais da área e também de ouvintes, telespectadores e leitores. Cláudio Abramo, Alberto Dines, Adelmo Genro, Caio Túlio Costa, Gilberto Dimenstein, Carlos Alberto Di Franco e muitos outros têm escrito sobre o assunto. Um dos métodos de comprovação usados de forma mais freqüente é o gravador ou câmera ocultos. Fazer uso d o microfone escondido para obter declarações comprometedoras ou incriminatórias é uma discussão recorrente dentro das redações de rádio, jornal e TV. A polêmica em torno do assunto poderia ser ampliada para abarcar também as gravações realizadas por telefone sem conhecimento da outra parte. Os questionamentos em torno do tema provocam mais do que uma simples resposta, induzem a uma reflexão de maior amplitude que, entre outros itens, remete a uma breve consulta às leis vigentes, a uma ponderação sobre as diferenças entre norma ética e lei, e a uma análise dos casos concretos do uso do microfone oculto para a obtenção de declarações incriminadoras. O artigo 5º, inciso XII da Constituição Federal, considera “inviolável o sigilo das comunicações telefônicas”, excetuando-se por ordem judicial ou investigação criminal ou instrução processual penal. Também a Lei das Telecomunicações, de nº 9.996, de 1996, ocupa-se do tema. A definição constitucional garante a privacidade das conversas telefônicas e, para o que nos propomos a examinar, ainda é vaga. A Constituição trataria, em tese, apenas “do grampo”, isto é, quando as duas pessoas envolvidas em uma conversação não têm conhecimento da gravação. Algumas decisões de Tribunais Regionais admitem, como prova judicial, a gravação de conversa telefônica entre vítima e acusado, desde que um dos interlocutores tenha autorização judicial, ou a gravação seja feita

"Alguns profissionais sentem-se donos da informação. Agindo sob efeito do contagioso complexo de Clark Kent, que lhe confere superpoderes, o repórter encarna o detetive infalível, o delegado durão, o promotor que só acusa e o juiz que condena" Em vários países, a imprensa tem sentado no banco dos réus. Muitas vezes, jornalistas e veículos foram condenados pela sociedade. A falta de apuração adequada da informação, ouvindo todas as partes envolvidas de forma legítima, também é condenada pelos próprios profissionais. Isto porque a maneira de obter as informações é tão importante quanto o resultado. Um dos estudiosos da ética na comunicação no Brasil, o professor Pedro Gilberto Gomes, é categórico ao defender que “a vitória para o jornalista

"Os fins não justificam os meios; os meios precisam ser lícitos para obter informação. O público já está consciente disso" não pode vir de maneira escusa, a qualquer preço e atropelando até mesmo a própria consciência”. Em síntese, os fins não justificam os meios; os meios precisam ser lícitos para obter informação. O público já está consciente disso. Não quer que se joguem simplesmente os possíveis culpados aos leões sem que seja dada ampla possibilidade de defesa. Inclusive, pespegou ao jornalista o rótulo de exagerado, “sensacionalista”, por aumentar a dimensão dos fatos sem justificativa. Mas este rótulo, sem dúvida, não se aplica ao trabalho sério, íntegro e responsável da imprensa, como instituição, nem da maioria de

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profissionais e empresas que nela atuam. No caso do microfone escondido, alguns profissionais e estudiosos do tema não têm dúvida de que há o rompimento da confiança entre as partes (jornalistaentrevistado), se um deles não deixa a situação explícita. Para essa corrente de pensamento, o indivíduo fica sem defesa, é invadido em sua privacidade e, em vista disso, o método de obtenção da reportagem não seria ético. Partir do princípio de que tais meios são necessários é partir do entendimento de que o entrevistado é culpado, mesmo ainda sem provas, e de que não falará a verdade se questionado diretamente. Seria preferível, então, antes de se utilizar do microfone escondido, que o jornalista analisasse a necessidade de usar tal meio evitando ferir a privacidade do entrevistado. No livro “A Ética do Jornalismo”, Philip Meyer cita que, em vários estados norteamericanos, é perfeitamente legal gravar sua própria conversação sem notificar a outra pessoa. Somente é considerada ilegal a gravação feita sem o conhecimento de nenhuma das partes, “o grampo”. Particularmente, ele entende que a gravação não faz nada para mudar a função do repórter e que o entrevistado sabe, quando conversa com um jornalista, que as declarações estão sendo registradas - ou no bloco de anotações, no computador ou em fita. Sobre a gravação oculta, Philip Meyer diz que a maioria dos editores é contra o seu uso como princípio geral de obtenção de provas. Os profissionais da imprensa dividemse também ao responder a outra pergunta: cabe ao jornalista se utilizar de técnicas de investigação policial, ou incorporar um personagem para conseguir informações do entrevistado? Não seria possível realizar a reportagem em conjunto com a autoridade policial ou o Ministério Público? O repórter estaria extrapolando a sua função ao confundir jornalismo investigativo com investigação policial? Em certas situações, sem dúvida. Alguns profissionais sentem-se donos da informação. Ou, ainda, agindo sob efeito do contagioso complexo de Clark Kent, que lhe confere superpoderes, o repórter encarna o detetive infalível, o delegado durão, o promotor que só acusa e o juiz que condena. Para alguns especialistas em direito da comunicação, as declarações gravadas secretamente podem ser admitidas dependendo da natureza da matéria, mas dois tipos de análise devem ser feitos: 1) nos casos em que a declaração em off é obtida sem qualquer justificativa plausível, denotando má-fé do jornalista e, portanto, gerando condenação ética do autor da reportagem; 2) no caso de alguma denúncia - como, por exemplo, a venda de medicamentos falsos por uma farmácia que origina uma reportagem investigativa. Não é ético, mas teria o intuito de obter provas suficientes para a reportagem,

Jornal da ABI


atendendo a assunto de interesse público; estaria descartada a má-fé. Em resumo, mesmo com o aval dos departamentos jurídicos das empresas, o segundo caso de reportagem constitui-se exceção às normas e - em tese - poderia justificar a derrapagem ética, que, entretanto, permanece. Os advogados consideram fundamental ainda que o jornalista cumpra as demais regras do jornalismo, dentre as quais a de oferecer amplo espaço para que o entrevistado, acusado ou suspeito, se pronuncie sobre as questões a ele imputadas. Há outra circunstância a considerar na reportagem dos medicamentos falsificados: a forma como a gravação foi editada. Houve a oportunidade de manifestação da outra parte em opinar ou se defender da acusação feita? Se houve, a reportagem inclusive é juridicamente lícita. Agora, se além de esconder o gravador é feita uma edição “viciada”, intencionalmente preocupada em apenas comprometer o entrevistado, há dupla falta de ética. A publicação de normas editoriais e éticas de parte dos veículos e o cumprimento das normas éticas dos jornalistas têm contribuído para reacender o debate nas redações. Mas fica evidente que o conjunto de normas éticas da empresa e da categoria de pouco adianta se não prevalecer a ética do indivíduo, isto é, que tipo de valores o jornalista cultiva. O respeito à pessoa é o valor máximo que deve prevalecer? O uso do poder da imprensa pelo jornalista exige cautela e respeito, “pois não é surpresa que os profissionais de maior credibilidade sejam os que seguem os princípios éticos em sua conduta diária”, como observa o professor Pedro Gilberto Gomes. No entanto, também aí o jornalista não pode se precipitar, confundindo respeito às normas com o medo de fazer perguntas embaraçosas para os entrevistados e nem deixar de fazer perguntas desagradáveis para si mesmo. Dentre elas, se está agindo corretamente. Se não está se colocando acima do bem e do mal. Se não está simplesmente perseguindo a fama e deixando o interesse público de lado. A oportunidade de escrever este artigo obrigou-me a um pensar mais profundo sobre essa questão, como teórico da área da comunicação e como profissional de rádio que lida diariamente com situações semelhantes. Percebo tanto na universidade quanto nas redações que o assunto cativa estudantes e profissionais que, apesar do atribulado dia-a-dia, onde a velocidade na execução do trabalho é fundamental, preocupam-se em obter as informações de maneira lisa, oferecendo aos interlocutores espaço para que defendam suas posições e levando em conta o interesse público, bem prioritário do jornalismo.

POR DENTRO DAS NOVE "No Peru, arma política dos serviços secretos contra adversários"

Juan Gargurevich, jornalista e historiador da comunicação, com atividades nos principais jornais peruanos, inclusive no mítico jornal alternativo Marca (uma espécie de Opinião ou Movimento peruano), é o atual coordenador do Curso de Jornalismo da Pontifícia Universidade Católica do Peru.

"Se for para denunciar crime é válido"

Volta-se aqui à questão da privacidade. É preciso respeitar a individualidade alheia, mas é necessário também considerar que há fatos que não seriam revelados, caso artifícios como o do microfone ou da câmera escondidos não fossem utilizados. É uma questão delicada, que deve ser trabalhada com muita prudência. Da mesma forma que uma pessoa tem direito à privacidade, outras milhares também devem saber o que acontece, ou poderá vir a acontecer, quando os microfones, gravadores e câmeras estão desligados. Inúmeras denúncias vieram à tona graças ao microfone escondido. Portanto, não deve ser considerado um instrumento antiético.

Décio Sá, com 5 anos de jornalismo, é editor especial de O Imparcial (MA).

Saulo Moreira, jornalista há 2 anos, é repórter do Diário de Pernambuco.

Mario de Moraes, primeiro Prêmio Esso de Reportagem no Brasil, em 1955, é jornalista desde os 16 anos e continua, ainda hoje, aos 74 anos, fazendo reportagens e entrevistas para jornais e revistas.

"Na Argentina, até a justiça já apoiou" Jorge Luis Bernetti É ético quando se torna o único meio de alcançar uma verdade significativa para a sociedade. Em março deste ano, uma instância federal da justiça argentina proclamou como legal a utilização de uma câmera escondida por uma estação de televisão. A prática do uso de câmeras escondidas tem sido muito útil nos últimos tempos, na Argentina, para os casos de ligações entre os traficantes de drogas e policiais, e também nos casos de suborno a funcionários públicos. Porém, sempre alguém poderá perguntar por que a justiça não utiliza esses procedimentos de maneira sistemática, ao invés de usar o jornalismo como investigador de primeira instância.

"Inúmeras denúncias vieram à tona graças ao microfone escondido"

Tão ético quanto matar durante uma guerra para se conseguir uma informação que irá livrar milhares de pessoas da morte. O microfone sem fio é um recurso que deve ser utilizado para se flagrar uma situação que, de forma natural, não se conseguiria. O que não se pode é sair por aí xeretando a vida alheia. Mas se for para denunciar um crime, uma situação que deva ser de conhecimento público, é perfeitamente válido. Graças ao microfone sem fio tem-se tido conhecimento de fatos que até hoje estariam no anonimato. Agora, é um recurso que só deve ser usado nos casos de extrema necessidade. Acredito que o microfone sem fio, assim como a câmera escondida, são recursos, apesar dos questionamentos contra, que devem continuar existindo no jornalismo saudável.

Não, não é ético usar microfone escondido, principalmente quando o entrevistado confia naquele que o ouve. Existem alguns casos, no entanto, que embora não sejam éticos, a meu ver são perdoáveis. É quando a escuta clandestina permite que se revele alguma corrupção ou outro fato desabonador. Aí, o fim justifica os meios.

Tarcísio Holanda, jornalista há 47 anos, foi repórter e redator no Rio de Janeiro até se transferir, em 1975, para Brasília, onde passou a trabalhar na cobertura política, especialmente como comentarista político da TVE-RJ. Atualmente faz entrevistas na TV Câmara.

Décio Sá

Mario de Moraes

Não creio que seja ético esconder microfone e gravador para ouvir uma pessoa. É um desrespeito à fé de ofício do profissional. Nunca trabalhei com gravador, a não ser, excepcionalmente, quando grandes entrevistas obrigavam seu uso. No dia-a-dia, o gravador é dispensado. Um repórter político experiente grava de memória o que interessa numa conversa, por mais longa e complexa. Como repórter, assisti a alguns comportamentos bizarros e insólitos. Como o de um repórter e um fotógrafo de uma revista de circulação nacional, que roubaram o texto da proposta da emenda constitucional que complementava a chamada abertura política (anistia e outras coisas), em 1980. O documento foi “roubado” do gabinete do então ministro da justiça do Governo Figueiredo, senador Petrônio Portela, mas, com o seu consentimento. Como o próprio Petrônio deu por falta do papel, sugeri que todos que estavam no gabinete fossem corrigidos. O ministro, claro, não topou. Esse foi um expediente ilegítimo e desleal de concorrência de alguns repórteres contra seus companheiros.

Não concordo com a idéia e a prática de usar microfones e câmeras escondidas para realizar jornalismo investigativo. Creio que é avançar em excesso. Mas, no espaço do consumo, a utilização de câmaras ocultas serviu, nos Estados Unidos, para revelar maus-tratos aos consumidores. Na prática peruana, muitas gravações de imagens ou vozes foram disponibilizadas pelos serviços secretos de inteligência, que usaram assim os jornalistas para seus problemas internos ou para desqualificar adversários com revelações de intimidades.

"Não é ético, mas pode ser perdoável em alguns casos"

Tarcísio Holanda

Juan Gargurevich

Luciano Klöckner, jornalista há 19 anos, é professor de radiojornalismo na PUC/RS e Unisinos e coordenador de jornalismo da Rádio Gaúcha.

PROVA DOS NOVES

"Não costumo usar gravador no trabalho"

Jorge Luis Bernetti, jornalista durante 28 anos, passou a se dedicar ao ensino da comunicação e hoje é professor titular de jornalismo na Universidade Nacional de La Plata e na Universidade de Buenos Aires.

Saulo Moreira

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"Há reportagens em que somente entrevista não resolve" Fábio Grijó Uma entrevista é uma relação de confiança. O jornalista confia no entrevistado e o entrevistado confia no jornalista. A princípio, microfone escondido não deve ser usado - no meu entender, essa relação de confiança estaria sendo


quebrada. Mas cada caso é um caso. Existem as reportagens investigativas, que demandam essa prática. Há reportagens em que somente entrevista não resolve. Perguntar ao entrevistado, suspeito de irregularidade, se ele cometeu algum delito é ineficaz - a resposta será provavelmente um “não”. Há, no entanto, outros meios de se correr atrás da notícia. Ao investigar os fatos suspeitos, pode haver necessidade de usar expedientes como o microfone escondido.

fugindo, está procurando se camuflar para esconder um crime, seja de que natureza for, acho que é um recurso necessário.

crime contra a sociedade. O segundo, contra uma pessoa. Não importa se criminosa.

Luiz Carlos Cascon, jornalista há 25 anos, é subchefe de reportagem e líder da equipe de polícia e justiça da editoria Rio do jornal O Globo.

Ricardo Noblat, jornalista há 32 anos, é diretor de redação do jornal Correio Braziliense e o mais novo condômino dos Diários Associados.

"Cuidado contra o uso exagerado"

"Nada deve substituir o faro e a persistência. Está havendo um deslumbramento com a tecnologia na TV"

Fábio Grijó, jornalista há 2 anos, é repórter da editoria de esportes do Jornal do Brasil.

Carlos Magno Araújo Acredito que o microfone escondido deve ser usado, sem prejuízo da ética, quando o encaminhamento da matéria apontar para a sua necessidade. Depois que a matéria estiver apurada, e seu desfecho depender de uma informação que só pode ser confirmada por meio do uso do microfone, do gravador ou da câmera, esta tecnologia deve ser usada. Há de se ter muito cuidado, porém, para que não haja distorção sobre a necessidade e a importância de se usar esse tipo de tecnologia. Condeno seu uso exagerado.

"Só no trabalho investigativo" HaroldEmert Eu acredito que o uso do microfone deve ser comunicado à pessoa que está sendo entrevistada. Por outro lado, muitas vezes há trabalhos investigativos em que o microfone tem que ser escondido. Harold Emert, jornalista americano, com 30 anos de profissão, está há 25 anos no Brasil e trabalha como correspondente dos jornais Daily Express, Express on Sunday e Daily Star.

"A entrevista é propriedade de quem a concede"

Carlos Magno Araújo, jornalista há 9 anos, é chefe de redação do Diário de Natal/O Poti, de Natal, Rio Grande do Norte.

Sandra Ney, jornalista há 25 anos, é chefe de reportagem da TVE-RJ.

"Às vezes, o fim justifica o meio"

"Sempre com o conhecimento de quem está sofrendo a ação"

Erick Torrico Villanueva, jornalista há 16 anos, dirige o mestrado em Comunicação e Desenvolvimento da Universidade Andina Simón Bolívar.

"Jornalismo não é polícia, embora venham se misturando"

Daniel Barbará A questão da ética às vezes tem sido considerada um pouco relativa, mas, na minha opinião, uma gravação de som ou imagem deve ser feita com o conhecimento de quem está sofrendo a ação.

Marco Aurélio Guimarães (Jangada), jornalista há 40 anos, é coordenador de redação do Jornal do Commercio do Rio de Janeiro.

Sebastião Nery Microfone escondido não é ético. Jornalismo não é polícia. Embora venham se misturando demais.

Daniel Barbará, publicitário, é diretor comercial da agência DPZ, presidente do Grupo de Mídia de São Paulo e conselheiro do Instituto Verificador de Circulação - IVC.

"É um crime contra uma pessoa. E jornalista não é cidadão acima da lei"

Laurindo Ferreira, jornalista há 8 anos, é chefe-geral de reportagem do Jornal do Commercio, do Recife.

Para enfrentar esta questão, como todas as similares que envolvem problemas de ordem ética, deve-se começar por deixar estabelecida a natureza da profissão jornalística: é um serviço que busca proporcionar a seus usuários, basicamente, informação noticiosa verídica e obtida de modo honesto. Em outras palavras, jornalismo não é igual a espionagem e, portanto, não pode empregar os recursos e técnicas desta última, cujo objetivo prioritário é a eficácia, ainda que sua realização deixe de lado todas as considerações éticas.

Não é nada ético. E todos deveriam saber que não é. Atualmente, no jornalismo de televisão, há um certo deslumbramento pela tecnologia, que deve ser colocada no lugar certo. Ela é apenas uma forma de facilitar a compreensão da notícia, mas nunca deve substituir o faro e a persistência de um bom repórter.

Depende da finalidade do microfone escondido. Para comprovar que uma autoridade assaltou cofres públicos, é mais que válido. Neste caso, os fins justificam o meio.

Acho, em princípio, que a entrevista é propriedade de quem a concede, e não do jornalista. A gravação escondida nem sequer é considerada como prova no processo judicial. É uma questão polêmica e que deveria ser muito bem discutida antes mesmo da opção por esse tipo de recurso. Por questão de princípio, acho que não é ético, porque o entrevistado não foi informado sobre com quem e para que ele está falando.

Erick Torrico Villanueva

Sandra Ney

Marco Aurélio Guimarães (Jangada)

Laurindo Ferreira

"Jornalismo não é igual a espionagem"

Sebastião Nery, jornalista há 47 anos, faz colunismo político para jornais de 16 estados brasileiros.

"Contra qualquer estratagema para sacar informação"

"Só não podemos trair a garantia do off""

Ricardo Noblat Marcelo Auler

"Recurso necessário para apurar crime"

O jornalista não é um cidadão acima da lei ou de qualquer suspeita. Ele não tem mandato divino. Nem mesmo popular. A busca da informação não justifica o uso de recursos espúrios. Não se sustenta a desculpa de que posso transgredir a lei ou ferir o senso comum das pessoas para denunciar a prática de um crime. É tão criminoso vender drogas quanto esconder um microfone para gravar a conversa de um vendedor de drogas. O primeiro é um

Luiz Carlos Cascon Depende da situação. Se você assume o compromisso com o entrevistado, estabelecendo as regras da entrevista, acho que esse artifício é antiético. Agora, se o personagem da entrevista está

Essa é uma questão bastante discutível, mas, a princípio, eu considero ético, já que o que se fala a uma pessoa deve sempre poder ser dito a todos. Só não é ético, numa análise superficial, quando se trata de uma fonte que está falando debaixo da garantia do off.

Sou absolutamente contra qualquer prática de microfone escondido, disfarce de identidade, camuflagem dos objetivos do trabalho ou outros estratagemas para sacar informação de forma desonesta. Carla Baptista, jornalista há sete anos nos jornais portugueses Diário de Notícias e 24 Horas, trabalha atualmente como free-lancer.

Marcelo Auler, jornalista há 26 anos, é repórter do jornal O Dia.

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Carla Baptista

Jornal da ABI


"A identificação como "Existe uma lista "É um recurso cruel, de jornalista é a regra e interminável de exemplos última instância" outros processos só em que a edição falseia Raimundo Filho podem justificar-se por o conteúdo de É um recurso cruel. De última instância, razões de incontestável cujo extremo resultado só deverá ser levado gravações" a público após passar por uma profunda interesse público" avaliação ética, se é que isso pode ser

"O que não se admite é enganar a fonte de boa-fé. Não é decente" Villas-Bôas Corrêa

Eric Brücher Camara

Nunca trabalhei com esse material. Mas, não custa avançar palpites. Se o repórter, numa entrevista, esconde o microfone para não intimidar o entrevistado e obedece às suas ressalvas explícitas, nada a criticar. Na apuração de escândalo, roubalheira, safadeza, o microfone oculto pode ser um recurso legítimo. O que não se admite é enganar a fonte de boa-fé, transformando a conversa em confiança em entrevista. Decência e compostura não fazem mal a ninguém.

Mário Mesquita

Acredito que todos têm direito à privacidade. Em princípio, é preciso ter cuidado com este expediente, que pode ser uma muleta fácil para apuração mal executada, se as informações conseguidas de forma velada não forem confrontadas com a versão oficial da fonte. Há casos em que a quebra da privacidade pode fazer a diferença entre a divulgação - e prova cabal - de um escândalo e a perpetuação de farsas. Mais uma vez, o código de ética do profissional será o melhor juiz. Em cada caso, antes de utilizar um microfone escondido e, mais ainda, antes de divulgar as gravações, o jornalista tem de medir as conseqüências desse ato. Existe uma lista interminável de exemplos em que a edição falseia o conteúdo de gravações, ou em que desabafos pessoais tomam caráter oficial.

Não. Permita-me que cite o Código Deontológico do Jornalista do Sindicato dos Jornalistas portugueses: “O jornalista deve utilizar meios leais para obter informações, imagens ou documentos e proibir-se de abusar da boa-fé de quem quer que seja. A identificação como jornalista é a regra e outros processos só podem justificar-se por razões de incontestável interesse público”. As exceções só poderiam ser admissíveis em casos muito raros, em nome de um conceito rigoroso de “interesse público”.

Villas-Bôas Corrêa, jornalista há 51 anos, é repórter político do Jornal do Brasil e da TV Manchete

Mário Mesquita, jornalista há 28 anos, ajudou a criar o primeiro curso de jornalismo em Portugal e foi também o primeiro ombudsman de imprensa no país. Foi diretor do Diário de Notícias e do Diário de Lisboa e, atualmente, é colunista semanal do diário O Público, de Lisboa.

"Válido na hora de desmascarar funcionários corruptos"

“Não, porque eu acho que tem que entrevistar as pessoas sem nada escondido, tem que ser à vista.”

“Não, isso é um absurdo, viola totalmente não só a intimidade pessoal como os direitos humanos. Isso é realmente uma abominação, é erradíssimo.”

“É o trabalho dele, eu acho que cada um tem que procurar melhorar na sua atividade. Lógico que a privacidade é algo que deve ser sempre mantido em todas as atividades, mas desde que não seja prejudicial, apenas para uma matéria ou um trabalho do repórter, eu acho que vale a pena, de acordo com a necessidade do assunto.”

Débora Alves 21 anos, estudante

“Depende da entrevista. Eu acho que até tem uma lei que não proíbe isso, a lei da imprensa. Então, dependendo da necessidade da entrevista, eu acho que é cabível sim. Por exemplo, em denúncias.

Talita Figueiredo, com 22 anos, formada em jornalismo pela Faculdade de Comunicação Social da UERJ, em dezembro de 1998, é repórter do jornal O Dia. ○

Reportagem: M. Cristina Martins Fotos: Rafael Porto

Benedito Monteiro 55 anos, representante comercial – livreiro

O microfone escondido é muitas vezes a única garantia que um repórter terá da veracidade de uma denúncia, quando ele normalmente lida com pessoas sem escrúpulos. Como desmascarar os “zangões” e agiotas sem o recurso?

Vladimir Reznichenko, jornalista e tradutor de Camões e Bocage para a língua russa, é chefe de representação da agência noticiosa Novosti no Brasil.

Edvaldo Ferreira Farias 73 anos, eletricitário

Talita Figueiredo

O repórter não é espião nem detetive privado. Façam favor de nos trazer a informação nas mãos, bem limpinhas.

Alberto Batista 33 anos, servente

"Pode ser a única garantia da veracidade da notícia"

Vladimir Reznichenko

É certo o réporter esconder microfone ou câmera para entrevistar as pessoas?

Jean-Jacques Sevilla, jornalista com 20 anos de profissão, é correspondente no Brasil, há 15 anos, dos jornais franceses Libération e Le Monde.

"Façam favor de nos trazer a informação nas mãos, bem limpinhas"

O POVO FALA

O uso do microfone escondido deixa supor que é impossível obter certas informações agindo às claras. Microfone escondido é ético quando é a única maneira de desmascarar, por exemplo, funcionários corruptos, uma praga para qualquer sociedade organizada. A pergunta planteia o dilema de sempre entre o fim e os meios.

Raimundo Filho, jornalista com 30 anos de profissão, é o editor de primeira página do Diário de Pernambuco.

Eric Brücher Camara, jornalista há 4 anos, é repórter do jornal O Globo.

Jean-Jacques Sevilla

PROVA DOS NOVES

possível.

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Sérgio Barroso Lima 25 anos, analista de sistemas

“Não, em nenhum caso, porque a pessoa não tem consciência de que está sendo entrevistada e isso é importante.”


São 50 anos de cursos e 30 de obrigação do diploma para exercício do jornalismo. A contestação à exigência legal vem de longe. No presente, aumenta a discussão sobre as diretrizes que devem tomar os

cursos de formação. A qualidade do jornalismo praticado hoje serve de argumento para desqualificar ou defender os cursos. Entre prós e contras, uma certeza: é preciso melhorar o ensino.

DECEPÇÃO COM PERDA DE QUALIDADE DOS CURSOS muito mais para o lado empresarial do que para a função social específica que o jornalismo exige. Isso também daria lugar para um outro artigo. Voltemos à nova realidade da necessidade de profissionais nas redações. Surgiram condições novas. E, se havia condições novas, havia também, claro, novo desafio a ser enfrentado. Como formar profissionais do novo ramo? A formação universitária parecia um caminho razoável. Suas metas, entretanto,

Marcos de Castro Tenho de começar falando da decepção que sinto. Porque sempre defendi – para o caso específico de um país com grave problema de defasagem cultural – a necessidade de cursos de jornalismo no Brasil. Pelo menos durante um período, que seria necessariamente longo, até que o país, saindo do subdesenvolvimento geral, alcançasse um nível de cultura que lhe permitisse a adoção de um sistema como o da Inglaterra, por exemplo, para a formação de seus profissionais de imprensa. Como não é o caso, aqui, de me demorar num comentário sobre o fato de que, agora, com o atual neoliberalismo globalizante, o país jamais superará suas defasagens em relação às grandes nações industriais, pois tal neoliberalismo é feito exatamente para tornar os ricos cada vez mais ricos e para manter os pobres em situação de eternos dependentes do grande capital – o que seria assunto para um artigo, provavelmente muito mais extenso – como o caso não é esse, eu dizia, de minha decepção é que tenho de falar logo. Da primeira para a segunda metade do século que ora se encerra, o jornalismo passou de uma ocupação romântica e boêmia de literatos disponíveis para o estágio da profissionalização. Os jornais cresceram como empresas, passaram a depender de profissionais para o exercício de sua atividade básica: cresceram como empresas nos anos mais recentes a ponto de se voltarem, hoje, lamentavelmente,

nunca foram concretizadas. Primeiro, porque era preciso um intercâmbio largo e fundamental entre as empresas e os cursos, coisa que nunca houve. Segundo, porque os cursos surgidos nunca fixaram com clareza os caminhos que deviam percorrer. Pior ainda, cedo degeneraram. Hoje não é exagero dizer que há um curso em cada esquina e que, na absoluta maioria deles, tira diploma quem quer. Basta freqüentar – e nem há necessidade de rigorosa regularidade na freqüência. É impressionante ver como nas bibocas mais impressentidas há uma faculdade com curso de jornalismo à disposição do freguês. Nem mesmo nas faculdades mais exigentes esses cursos correspondem ao que se poderia esperar deles. Na Universidade Federal do Rio de Janeiro, por exemplo, a seriedade do diretor do departamento de jornalismo (não sei se o nome é exatamente esse, mas isso é o que menos importa), Muniz Sodré, é uma garantia de que lá pelo menos se faz o possível. Há, sabe-se, uma pós-graduação dando frutos os mais vistosos. Mas ainda há uma grande carência em matéria de professores mais capazes ou, no mínimo, mais interessados. Os bons mesmo ainda são exceções. E as exceções só servem, como sempre, para confirmar a regra. Lembro-me de um bom aluno da UFRJ, de ali pelo meado dos anos 80, que me dizia sempre: “Só respeito o Nilson Lage. Com ele tem de estudar mesmo, senão toma bomba. Com os outros a gente vai levando....” Pois é, Nilson Lage aposentou-

"Defendi a necessidade dos cursos, mas tenho que admitir que eles sequer levaram os alunos a ler mais"

se no Rio e hoje empresta seu brilhantismo, que o recente livro “Controle da Opinião Pública” (Vozes/Iperj) só faz confirmar, à Universidade Federal de Santa Catarina. Com todos esses problemas, os profissionais que esses cursos estão formando não melhoraram a qualidade do nosso jornalismo. Vou encerrar falando num único tipo de problema dentre os muitos que contribuem para a decepção de que falei inicialmente: os cursos de jornalismo nem sequer levaram nosso novo profissional a ler mais. Muito pelo contrário. Se o leitor percorrer hoje as principais redações do Brasil, poderá contar nos dedos de uma só mão quem conheça, com razoável intimidade, mais do que meia-dúzia de livros entre todos os dos bons autores da literatura brasileira ou portuguesa. Ora, quem não lê não pode escrever bem, estou chovendo no molhado ao dizê-lo. Então, ficar nesse único dado já é suficiente para reafirmar a grande decepção. Nas redações de hoje, o profissional que lá está esquentou por quatro anos as carteiras dos cursos de jornalismo e escreve pior do que o jornalista de ontem. Os cursos não lhe despertaram nem mesmo o amor à língua. Pode ser que, reavivados, os cursos venham a ser uma solução. Por enquanto, são apenas uma decepção. Marcos de Castro, jornalista há 41 anos, é editor de opinião do Jornal do Brasil e autor de “A Imprensa e o Caos na Ortografia” (Record).

UMA TENTATIVA DE ACOMPANHAR A ATUALIDADE Não tenho dúvidas de que o ensino universitário pode colaborar em muito para a melhoria da qualidade do jornalismo desenvolvido no nosso e em qualquer país. Óbvio que a qualidade jornalística não depende apenas da formação universitária de seus profissionais, mas de um conjunto de fatores que, contemplados, podem assegurar a excelência do jornalismo. Dentre eles, podem ser destacados: os patamares de democracia, liberdade e justiça social existentes na sociedade, o nível de autonomia da imprensa em relação ao Estado e às empresas, o grau de independência e as condições de trabalho e de salário dos jornalistas, a tradição jornalística do país, a organização dos jornalistas e, enfim, a formação éticopolítico-cultural e a criatividade dos profissionais de imprensa. ○

PROVA DOS NOVES

ter sistemático e abrangente do ensino acadêmico e da capacidade da universidade de, através da investigação e da experimentação, criar novas reflexões e práticas em comunicação e jornalismo. Para a realização satisfatória destas tarefas, a instituição universitária deve ser qualificada, possuir um bom cor-

Não parece improvável supor que esta formação tenha na universidade um ambiente adequado para o seu desenvolvimento em plenitude, sem, no entanto, menosprezar e desconsiderar outros ambientes também necessários e mesmo indispensáveis para permitir ao jornalismo uma formação complexa, como o mundo contemporâneo exige. Um rico ambiente profissional, uma interação plural e contínua com fontes e realidades, um multifacetado intercâmbio político-cultural com os segmentos mais diversos da sociedade e da imprensa, certamente contribuem cotidianamente para essa formação e seu aprimoramento. Mas a universidade tem, sem dúvida, um lugar relevante como momento de formação e, inclusive, de educação continuada dos jornalistas profissionais; por conseguinte, de qualificação da imprensa. Tal relevância decorre principalmente do cará-

Antonio Albino Canelas Rubim

"Em uma área de mutabilidade acelerada, é importante uma intensa interação entre os cursos e as empresas presentes na sociedade"

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prática da comunicação e do jornalismo como fenômenos impregnados de poder; a teórico-conceitual, que possibilita um trabalho com conceitos e teorias indispensáveis para a interpretação e tradução rigorosas da realidade; a tecno-midiática, voltada às linguagens, técnicas e tecnologias, assegurando o domínio dos modelos operativos vigentes e a experimentação de novos procedimentos profissionais; e uma relativa ao saber informativo e analítico da atualidade. Todas estas dimensões, em suas peculiaridades, trazem desafios formidáveis para a formação jornalística. A atualização nas linguagens, técnicas e sóciotecnologias da comunicação e do jornalismo exige da universidade uma permanente atenção com as inovações “gramaticais” e tecnológicas das mídias, em uma área de mutabilidade acelerada. Daí a importância de uma intensa interação entre o curso e as instituições de comunicação e

em profundidade o exercício profissional e o pensar/fazer jornalístico, redefinindo e, inclusive, inaugurando suportes comunicacionais e jornalísticos; técnicas e linguagens do jornalismo; modos de apreensão, interpretação e tradução da realidade, com forte impacto sobre as possibilidades de trabalho. De outro lado, o jornalismo, concebido como modo específico e necessário de conhecimento da atualidade, e o jornalista, entendido como o profissional da mediação que produz este conhecimento do contemporâneo, requerem e exigem uma atenção permanente e um complexo saber sobre a atualidade para tornar possível um exercício profissional cada vez mais competente, ético, responsável e comprometido com a sociedade. Esta necessária interação do jornalismo com a atualidade obriga a universidade a formar o jornalista em quatro dimensões essenciais: a ético-política, que permite uma compreensão e uma

po de professores e pesquisadores, realizar atividades de ensino, pesquisa e extensão com competência e interagir de modo intenso e contínuo com a sociedade e, em especial, com o mundo do trabalho. Ainda mais, o papel formador da universidade não pode restringir-se ao curso de graduação, pois ele, mesmo qualificado, já não consegue abarcar as variadas demandas de educação continuada – atualização, aperfeiçoamento, especialização, mestrado, doutorado, etc – características de uma sociedade em acentuado processo de mudança sócio-tecnológica e cada vez mais pertinentes à comunicação e ao jornalismo. A interação com a atualidade (e suas repercussões) é, em verdade, especialmente intensa no campo da comunicação e, em particular, do jornalismo. Ela, aliás, apresenta-se como um dos grandes desafios para a formação de profissionais nessa área. De um lado, a comunicação e o jornalismo na atualidade passam por uma impressionante revolução sócio-tecnológica, que afeta

jornalismo presentes no mercado de trabalho da sociedade. O saber informativo e analítico da atualidade, por seu turno, obriga que o curso não tenha o tradicional recorte disciplinar, como acontece ainda hoje na maioria das áreas de formação universitária. A formação em jornalismo retém uma peculiaridade essencial. Ela exige não só um curso multidisciplinar, porque requisita vários saberes disciplinares, mas uma interdisciplinariedade, tecida por esta fundamental noção: a atualidade. Trabalhar a atualidade em modalidade analítico-informativa e sócio-tecnológica mais atualizada, eis o desafio maior da formação em jornalismo hoje. Antonio Albino Canelas Rubim, formado em jornalismo, com mestrado e doutorado em ciências sociais, é professor do Departamento de Comunicação da UFBA e atual presidente da Associação Nacional dos Programas de PósGraduação em Comunicação – COMPÓS.

NÃO É BEM ESSE O CURSO DE QUE PRECISAMOS o diploma. É mais do que disseminada a idéia de que o curso é apenas uma passagem obrigatória, que fornece alguns conhecimentos básicos do jornalismo. O aprendizado real, acreditam, se dá na prática das redações, a partir dos estágios e nos

Hélio Doyle Os cursos de Jornalismo – ou melhor, de Comunicação, habilitação em Jornalismo – certamente melhoraram nos últimos anos. Pelo menos o da Universidade de Brasília melhorou e temos notícias de vários outros na mesma situação. Ainda estão muito longe de serem ótimos e há muita picaretagem, mas houve algum avanço, em algumas universidades, nos últimos anos. A questão principal neste momento, porém, não é bem essa. Para mim, a discussão que tem de ser feita é se é esse tipo de curso que precisamos para formar jornalistas. A legislação brasileira exige que o jornalista seja bacharel em Comunicação com habilitação em Jornalismo. Não adianta ser mestre em Jornalismo, ou mesmo doutor em Jornalismo (sim, há alguns). Se não tiver a graduação em Comunicação (e com a habilitação em Jornalismo), não consegue o registro profissional. Pode ter feito excelente graduação em História, ou Economia, ter talento para escrever e cursar um mestrado em Jornalismo na Inglaterra ou nos Estados Unidos. Nada feito, porém, se não for bacharel em Comunicação. Com habilitação em Jornalismo. Os cursos funcionam a partir dessa premissa legal. Têm um público cativo: todos os que pensam em ser jornalistas. Como as universidades públicas não atendem à grande procura, o jeito é pagar caro pelo curso em uma faculdade particular. Não é à toa que vem dessas faculdades a maior oposição quando se fala em acabar com a exigência legal para o exercício do jornalismo. Diante da lei, os cursos preocupam-se apenas – generalizando – em dar o diploma que permite o acesso à profissão. E os alunos preocupam-se principalmente em ter

"Não haver ainda no país maturidade para conviver com a falta de regulamentos não significa manter normas que se mostram defasadas. Deve-se pensar em mudanças"

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consideram importante para o exercício de profissões como jornalismo, publicidade, relações públicas e outras que têm surgido mais recentemente. Mas sem qualquer obrigatoriedade. Os alunos estariam ali por decisão própria, não para conseguir um diploma obrigatório para o exercício profissional. Os jornalistas poderiam ser formados em cursos mais rápidos, de um a dois anos, com nível de pós-graduação. Poderiam ter feito qualquer curso e buscar uma especialização no jornalismo. Um geólogo com gosto pelo jornalismo, por exemplo, não seria obrigado a cursar quatro anos de Comunicação (com habilitação em Jornalismo) para poder ser repórter. É claro que há muitas outras alternativas e essa é, talvez, a mais conservadora. Há quem fale em adotar o sistema do Itamaraty para formar diplomatas: o aluno começa qualquer curso superior e termina no Instituto Rio Branco. Depois, pode concluir o curso original. Há também os defensores do sistema mais em voga na Europa, em que há cursos não necessariamente universitários e os interessados em exercer o jornalismo passam por estágios e exames de conselho. Enfim, há propostas, o que falta é abertura para discussão. O modelo atual – mesmo que os cursos de Comunicação (com habilitação em Jornalismo) estejam melhorando – não atende mais aos alunos, às boas faculdades e ao mercado. É preciso, pelo menos, discutir isso.

cursinhos organizados pelos veículos. A exigência de um curso de comunicação de quatro anos também provoca uma esquizofrenia nos currículos, ainda não resolvida. Uns querem estudar a comunicação de massa, seus fundamentos científicos e teorias, o processo, as políticas, e irritam-se com as disciplinas tidas como práticas – as de reportagem, redação, edição. Com outros, é o contrário, abominam as “teorias”. O resultado é que os cursos não formam bem nem pesquisadores e estudiosos da comunicação de massa, nem jornalistas. Claro que isso é uma generalização, pois há exceções entre os cursos e entre alunos que se valem mais de seu interesse e esforço pessoal. Não se trata de defender a pura e simples desregulamentação, como querem alguns. A experiência mostra, com toda clareza, que a falta de regulamentos e controles em uma sociedade profundamente desigual sempre beneficia os mais fortes, os que têm condições de impor suas vontades. Não é gratuito o gosto com que os empresários, aqueles que têm o maior poder – o econômico – e mandam e desmandam, defendem tanto a desregulamentação. Mas pode-se pensar em uma nova regulamentação, mais adequada ao momento em que vivemos. Não haver ainda no país maturidade para conviver com a falta de regulamentos não significa manter normas que se mostram defasadas. A lei que obriga a ter o diploma em Comunicação (com habilitação em Jornalismo) é de 1969 e não há quem possa negar que 30 anos é muito tempo, principalmente diante da velocidade com que as mudanças ocorrem. Uma alternativa é manter os cursos de comunicação, reformulados, para os que realmente se interessam pela disciplina. Porque querem ser professores, pesquisadores ou consultores, ou porque a

Hélio Doyle, jornalista há 29 anos, presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do DF, de 1980 a 1986, é professor de jornalismo na Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília e editor de mundo do Correio Braziliense.

Jornal da ABI


MERCADO FAZ O QUE A ESCOLA DEVERIA FAZER Nilson de Oliveira

formação, como o estímulo à reciclagem cultural dos demais integrantes das redações, a intensificação do processo interno de crítica sobre o trabalho desenvolvido e o gerenciamento sistemático de padrões de qualidade editorial (erros de escrita e de informação, furos, etc). Diante desse quadro, cabe a pergunta: para que servem essas escolas de jornalismo, já que as empresas chamaram para si a responsabilidade de formar sua mão-de-obra? Se a academia rapidamente não buscar se adequar à dinâmica do mercado, a resposta será que essas instituições se tornarão obsoletas, superadas. Não há alternativa para aqueles envolvidos com esse processo educacional. É preciso abandonar o comportamento, às vezes burocrático, e enfrentar o debate sobre uma ampla reformulação do conceito de ensino jornalístico. É necessário aprender com o que se passa fora dos muros universitários, onde a vida existe.

"Quem está no banco da universidade sabe que se quiser conseguir um lugar ao sol terá de participar de um programa de treinamento"

O jornalismo brasileiro sobrevive com as realidades contraditórias dos formadores de mão-de-obra e dos empregadores. No mundo do mercado, observa-se a busca de sintonia com a modernidade. São encontradas empresas com capacidade tecnológica, organização do trabalho, qualidade editorial dos produtos e preocupações sobre os rumos da imprensa e de seu papel social que nada destoam do que se vê nos países de tradição democrática do primeiro mundo. Do lado das escolas de jornalismo, o quadro é de fossilização (o mesmo vivido pelo sistema universitário brasileiro): currículos desatualizados, instalações deficientes, falta de debate, preconceito em relação àquilo que é desenvolvido fora das paredes da universidade, produção acadêmica inexpressiva e, como conseqüência, a oferta de profissionais com capacitação discutível. Há um fosso abismal entre a qualidade do ensino praticado nos EUA, por exemplo, e no Brasil. Para enfrentar esses processos opostos, as empresas de comunicação viram a necessidade de investir na formação daqueles que iniciam a carreira de jornalista. Estão aí os exemplos da Folha, da Abril, de O Estado de S. Paulo e de O Globo, que foram obrigados a fazer aquilo que seria o papel das escolas - preparar os universitários para atender às expectativas

de um mercado altamente competitivo. Hoje, quem está no banco da universidade sabe que se quiser conseguir um lugar ao sol terá de participar de um programa de treinamento, o que torna acirrada a disputa por uma vaga. A Folha, por exemplo, para realizar em novembro de 1997 seu 26º programa, teve 723 inscrições para 20 vagas. Para este ano, no 28º, foram 1.992 inscritos para 27 vagas. Um crescimento de 175,5%. Essa é a saída empresarial para conseguir agregar às redações jovens profissionais que possam responder à exigência de qualidade jornalística dos consumidores. É aí que o estudante ou recém-formado terá, em alguns meses, aquilo que a faculdade não ofereceu ou ofereceu

insuficientemente - da reciclagem de conhecimentos gramaticais, passando pela exposição ao tempo real de funcionamento de uma redação, até o aprendizado de técnicas de investigação por computador. Essa experiência revela outra face da ineficiência do ensino de jornalismo no país. É possível treinar pessoas com outra formação (especialmente as de ciências humanas) para exercer a profissão tão bem ou melhor do que aquelas que cursaram uma escola de comunicação. Os “nãojornalistas’’, por exemplo, em geral, têm maior bagagem cultural (dada pela maior oferta de conhecimento nos cursos realizados). É importante observar que a excelência da comunicação só poderá ser alcançada com ações articuladas a esse programa de

Nilson de Oliveira, formado em ciências sociais pela USP, trabalha na Folha de S. Paulo, desde 1988, onde foi editor-assistente de política, editoradjunto de cidades e editor-adjunto de Brasil. A partir de 1997 passou a coordenar o Programa de Qualidade do jornal.

OS CURSOS DEVERIAM SER DE ESPECIALIZAÇÃO nem um bilhete à namorada; que redigem mal; que desconhecem a língua; que são desinformados; que têm pouco ou nenhum interesse em investir na própria formação. Assim, não se pode esperar deles um texto redigido com clareza, com precisão na coleta dos dados, com a consistência sem a qual não existe a informação jornalística. E por que isso? Porque, a meu ver, o grande mal que se comete e que contribui para a má qualidade do jornalismo que hoje se pratica no país começa por uma legislação obtusa e extemporânea, que garante reserva de mercado para os formados em comunicação, vedando a presença, nas redações, de profissionais com outra formação. Essa pretensa garantia de emprego para os portadores de diploma acomoda, apequena e amesquinha.

Ivanildo Sampaio Não vai, aqui, qualquer ranço ou preconceito contra os cursos de comunicação que proliferam no país, até mesmo porque esse locutor que vos fala é oriundo de um deles – mas há, indiscutivelmente, uma constatação quase unânime de que é capenga e limitada a formação dos bacharéis d e s s a área. Por conseguinte, nas redações onde chega, essa mão-de-obra tende a produz i r u m j o r n a l i s m o capenga e limitado. Dir-se-ia que não se trata de um problema l o c a l i z a d o , q u e o e n s i n o n o Brasil, desde o básico até a universidade, passa por uma profunda crise de qualidade – que é preciso discutir com a sociedade e buscar, o quanto antes, um novo modelo educacional, capaz de suprir as necessidades e aspirações de um país cujo perfil mudou e continua em processo de transformação. Os cursos de comunicação – ou de jornalismo, como se queira – estariam inseridos dentro dessa realidade. Tudo isso é verdade: as redações recebem para triagem centenas de jovens carentes de um mínimo de cultura geral, sem a qual não se escreve

PROVA DOS NOVES

de e as necessidades do mercado, mas que fossem igualmente rigorosos na sua seletividade. Aí, sim, poderíamos ter nas redações bacharéis de várias formações, que, especializados em jornalismo, poderiam melhorar muito a qualidade da informação que hoje se oferece aos leitores.

Concluindo: não, os cursos de comunicação não melhoraram a qualidade do jornalismo. Ivanildo Sampaio, jornalista há 33 anos, há 12 exerce o cargo de editorgeral do Jornal do Commercio do Recife.

"O grande mal que se comete e que contribui para a má qualidade do jornalismo que hoje se pratica no país começa por uma legislação obtusa e extemporânea, que garante reserva de mercado para os formados em comunicação"

Exemplos disso estão nas páginas de opinião dos principais jornais nacionais: os melhores e mais consistentes textos quase sempre não são de autoria de jornalistas ditos “do batente”, mas de colaboradores das mais variadas formações intelectuais. Cursos de jornalismo, na universidade, deveriam ser de especialização – e não de formação: rápidos, densos, voltados para a realida-

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ESCOLA AJUDA, MAS É NECESSÁRIO MELHORÁ-LA especialista em idéias gerais. Sei alguns minutos de muitos assuntos. E não sei nada”, brincava Otto Lara Resende – e detém uma habilidade técnica específica, a de expressar o real e suas interpretações ou comentá-los segundo um modelo de compreensão mediano e codificado. Ora, se nenhuma universidade no mundo vai ensinar os “minutos” de tudo, resta a ela treinar seus alunos como simples mediadores de linguagens. Pode-se argumentar que, no fundo, é isso mesmo: você ensina o sujeito a montar o lead e ele que corra atrás do que vai ser o “recheio” desse modelo oco. O que é uma platitude, pois sem interesse pessoal nenhum aluno de especialidade nenhuma vai em frente. Resta saber, e aí é o ponto que considero fundamental, se deve-se abrir mão de

Paulo Roberto Pires É vago perguntar se os cursos de comunicação melhoraram a qualidade do jornalismo. Há, embutida na questão, uma certa suspeita que paira sobre as redações e que se ouve em conversas aqui e ali: a garotada chega despreparada, as faculdades são uma porcaria, a maioria dos focas é mal informada, há um tempo atrás não era preciso diploma e os profissionais tinham um nível muito melhor. Se todas estas afirmações podem ser, em diferentes níveis e sob determinadas condições, verdadeiras, creio também que elas apontam para um equívoco muito mais amplo do que possa supor o exercício diário do erro que, como alguém definiu, é uma das marcas desta nossa profissão. Em discussão, creio, deveria estar não a “eficácia” do curso de jornalismo, mas a visão conflitante que se tem sobre o papel da universidade e, às vezes, até mesmo sobre o próprio conceito de universidade. Defender que a universidade tenha, essencialmente, elevado o nível do jornalismo é uma posição ingenuamente corporativa e arrogante, que coloca em dúvida a longa tradição da profissão, que prescindia da mediação acadêmica. Por outro lado, fazer o elogio puro, simples e idealizado do feeling, do faro e da vocação inata do jornalista é dourar a pílula (via espontaneísmo) e ostentar o antiintelectualismo como uma bandeira de gosto e finalidades duvidosas. É preciso, portanto, perguntar: de que curso de jornalismo se fala quando se pergunta por sua validade? Daquele que, vendendo (caro, caríssimo) o fetiche tecnológico de uma “escola bem equipada”, se contenta em adestrar profissionais que se querem tecnicamente perfeitos? Dos que se proliferam e chegam ao cúmulo de, numa conclusão perfeita da lógica do adestramento, “preparar” seus alunos para o Provão (para transformar o conceito A num slogan publicitário)? Dos que entopem os jornais com anúncios-manifesto contra a universidade pública que, coitada, não tem sequer um computadorzinho funcionando e não cumpre bem os padrões de eficácia mais up to date? Longe de mim fazer a apologia da pobreza, da falta de condições mínimas e da precariedade, efetiva, em que se (sobre)vive numa universidade federal. Não é numa síndrome de “A raposa e as uvas” que sustenta o meu argumento. Tenho, no entanto, motivos suficientes para crer que há um mal-entendido, cada vez mais complexo, sobre o que seria uma escola de jornalismo. Na raiz desta confusão, a imagem de que o jornalista é tão simplesmente um “especialista em generalidades” – “Sou jornalista,

mas que sabemos não ser possível ressuscitar, era nutrida por uma proximidade muito maior entre os produtores da cultura e seus divulgadores, ou seja, o jornalista fazia parte efetiva de um círculo intelectual, o entrevistador muitas vezes era um real interlocutor de seu entrevistado e não simplesmente um perguntador. A do presente, tão maltratado, que todos desprezamos uma vez ou outra, viu crescer um enorme abismo com os círculos produtores de cultura e, num determinado momento, passou a tratar o profissionalismo como um uniforme que despe, aliviado, ao sair da redação depois de mais um dia de pauleira. Ou seja, vamos investir no imediato, no efeito, no escândalo, na polêmica e danem-se os projetos profissionais a longo prazo. É claro que, por uma

pedante quanto daquele que se apaixona por um outro fascinante. Antes de mais nada, a universidade é um ambiente de inquietação intelectual, que reúne – ou pelo menos deveria reunir – pessoas tão apaixonadas pelo que fazem, em relação tão intensa com o conhecimento que possibilitasse o entusiasmo de quem está ali para aprender, entusiasmo que Steiner chama de “contaminação cumulativa e implosiva”. Uma vez tendo experimentado esta curiosidade, independentemente dos rumos que as vidas destes estudantes tomarem, afirma Steiner, “estes homens e mulheres estarão equipados com alguma salvaguarda contra o vazio”. Não deduzo daí uma fórmula mágica para pensar a universidade brasileira e, obviamente, não pretendo, com a alusão a George Steiner, propor um caminho. Mas trata-se, sem dúvida, de imagens poderosas – e idealistas, é claro – que têm um correspondente direto quando, despidos de preconceitos, nos pomos a ouvir essa “garotada”. Em muitos casos, pode não estar ali o repórter que sonhamos, bem preparado e ágil, especialista tanto no esqueleto quanto no “recheio”. Mas, infelizmente, em freqüência muito menor, nosso precário coleguinha pode ser pleno da “salvaguarda contra o vazio”, ou seja, ter o equipamento necessário para decolar – e, admitamos, às vezes voar mais alto do que o experiente profissional que o interpela. A universidade pode, sim, melhorar a qualidade dos cursos de jornalismo, desde que não se difunda a idéia de que qualquer meia dúzia de computadores e monitores com uma placa na porta seja uma escola de comunicação – não bastando também que meia dúzia de pósdoutores seja suficiente para formar um jornalista. Há que se cultivar, no entanto, este ambiente de curiosidade, esta inquietação, que não perde de vista o mercado, mas que também não alimente o mais rastaqüera dos antiintelectualismos e o ressentimento – que, como explicou Augusto Nunes em recente artigo na Época, é mesmo o oitavo pecado capital. A universidade melhorou a qualidade do jornalismo? Sim, pelo que fez e continua fazendo pelo debate. Não, porque não adianta transformar a formação superior num curso técnico espichado. Fazer samba, como defendia Noel Rosa, é um privilégio que não se aprende no colégio. Eu diria que, a rigor, apesar de não ser privilégio, jornalismo também não. Mas que o colégio ajuda um muito, isso ajuda.

"A solução proposta pelo Ministério da Educação – fácil, à beira da indigência – transforma o jornalismo num curso seqüencial, ou seja, numa disciplina técnica de luxo" facilidade retórica, estas gerações estão aqui caricaturadas. Mas o espírito é este mesmo e aí entra o papel possível da universidade para melhorar alguma coisa nessa paisagem que muitos insistem em ver, de forma simplista, como uma terra devastada. Em “Errata: an examined life”, seu livro de memórias, o crítico literário George Steiner, um modelo de erudição em suas aventuras intelectuais em lingüística e filosofia, lembra, emocionado, o que encontrou na Universidade de Chicago na virada da década de 40 para a de 50. “Uma universidade ou escola que valem a pena”, escreve ele, “é tão somente aquela em que o estudante é colocado em contato pessoal com ou tornado vulnerável à aura e à ameaça da primeira aula. Em termos mais diretos, trata-se de proximidade, visão e audição”. Ou seja, trata-se antes de mais nada de uma experiência, que mostra como aquele saber tido como sagrado é admirável, mas também desprezível, incita a curiosidade e mexe com os brios tanto de quem não aceita aquele professor

cultivar o “recheio” ou sair pela solução proposta pelo Ministério da Educação – fácil, à beira da indigência – e transformar o jornalismo num curso seqüencial, ou seja, numa disciplina técnica de luxo.

"A universidade melhorou a qualidade do jornalismo? Sim, pelo que fez e continua fazendo pelo debate" O grande problema, me parece, é o desenvestimento em todos os níveis na formação de uma cultura humanística – e talvez esteja aí a diferença tão fundamental entre as gerações de jornalistas. A do passado idealizado, que todos respeitamos e muito admiramos,

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Paulo Roberto Pires, jornalista há 12 anos, é professor da Escola da Comunicação da UFRJ e repórter de O Globo.

Jornal da ABI


POR DENTRO DAS NOVE melhorem. O problema é que esta é uma questão de longo prazo e nós cobramos resultados no curto prazo. O jornalismo tem se beneficiado com as opções e novos formatos, graças ao interesse, que é dos maiores, que as escolas têm despertado nos candidatos aos vestibulares. Uma das mais altas taxas de procura. É claro que isso vai beneficiar a indústria do jornalismo a médio e longo prazo.

"Ainda trabalhei em redações onde o repórter não sabia escrever nada" Sandra Ney É claro que sim. Eu ainda trabalhei em redações onde o repórter não sabia escrever nada, eram aqueles antigos repórteres policiais, que ditavam textos crivados de lugares comuns para os redatores. Os saudosistas falam sempre dos grandes textos, dos expoentes do jornalismo, para lembrar os bons tempos. Mas sempre se esquecem da média da profissão. O repórter de hoje é muito melhor. Só despreparados e falsamente ingênuos podem achar que autodidatismo leva a algum lugar. Uma profissão como a de jornalista exige bons cursos superiores de comunicação.Se eles não são bons, a luta deve ser pela sua melhoria.

HaroldEmert Os cursos realmente ajudam, mas o que eu não consigo entender, particularmente no Brasil, é por que os jornalistas não lêem o seu próprio jornal e os jornais dos seus concorrentes. Eu tenho freqüentemente ligado para um jornal local para fazer uma apuração e o jornalista que responde não lê o seu próprio jornal. Quando eu era um adolescente, passei dois verões como “boy” (na época chamado de “copy boy”) e acredito que aprendi mais nas incumbências diárias na redação do que em muitas escolas. Eu sempre ia para a biblioteca do jornal pesquisar o que havia sido escrito sobre um assunto qualquer – o conhecimento é essencial quando a pessoa vai para uma conferência de imprensa. Muitos repórteres brasileiros iniciantes, em uma conferência de imprensa com uma pessoa internacionalmente famosa, não sabem quem eles estão entrevistando e perguntam “Você gosta do Brasil?”. Eu estava na redação em Nova Iorque quando Marilyn Monroe cometeu suicídio e nunca esquecerei as tensões daquele momento. Eu também aceitei muitos dos convites enviados aos jornalistas e comecei a entrar em mundos diferentes do meu. As escolas estão ensinando o uso do computador, técnicas de jornalismo, mas não podem transmitir a paixão por uma profissão; isso a experiência e a própria vida é que propiciam.

Daniel Barbará, publicitário, é diretor comercial da agência DPZ, presidente do Grupo de Mídia de São Paulo e conselheiro do Instituto Verificador de Circulação - IVC.

"É preciso aproximar cursos e veículos para melhorar a formação"

Sandra Ney, jornalista há 25 anos, é chefe de reportagem da TVE-RJ.

"Faculdade é que dá as noções de ética" Carlos Magno Araújo Apesar de mal equipados e da crise por que passa a universidade pública, considero fundamental ao jornalista passar por uma faculdade de jornalismo. Lá, muito embora faltem equipamentos e estrutura, há, em geral, profissionais com larga experiência na área de jornalismo. Só o contato com estes profissionais estimula o ingresso na profissão. Logicamente, há exceções, como professores/profissionais que não se dedicam e são apenas cumpridores de horário. É na faculdade, também, que, em geral, o aprendiz de jornalista tem a idéia do que é ou do que não é ético na profissão.

Os cursos ainda estão numa fase de amadurecimento, ainda estão tentando encontrar seu “caminho”. Ou seja, como o curso de jornalismo é relativamente recente, ainda está se aprimorando. E está melhorando aos poucos, com mais disciplinas práticas. É preciso fazer o aluno entender o porquê do trabalho jornalístico, a amplitude que pode ter. Muitos deixam a faculdade sem ter essa noção. Por outro lado, acho que os cursos não melhoram a qualidade do jornalismo, porque esses cursos ainda são distantes da profissão ainda permanece um vácuo entre faculdade e trabalho. Existe uma “disputa” não oficializada entre curso e trabalho. Na faculdade, pouco se pensa em termos de mercado de trabalho. No trabalho, pouco se pensa em aprimoramento curricular. É necessário estreitar essas relações.

"A grande procura pelos cursos acaba ajudando o jornalismo"

PROVA DOS NOVES

Sempre há necessidade de aprender. Inclusive, os jornalistas deveriam passar por cursos permanentes de atualização, seja técnica ou acadêmica. Juan Gargurevich, jornalista e historiador da comunicação, com atividades nos principais jornais peruanos, inclusive no mítico jornal alternativo Marca (uma espécie de Opinião ou Movimento peruano), é o atual coordenador do Curso de Jornalismo da Pontifícia Universidade Católica do Peru.

parcela de estagiários e novatos que aparecem nas redações atualmente, muita gente tem se demonstrado capaz e até têm surgido bons jornalistas. Se são resultados dos cursos ou se são capazes por capacidade própria, fica difícil definir.

Pouco, muito pouco. Os jornais eram mais bem escritos quando não havia cursos de jornalismo. Hoje são mal escritos porque a obrigatoriedade do diploma para o exercício da profissão criou uma reserva de mercado que se revelou nociva. Sou

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Juan Gargurevich

Ricardo Noblat

Fábio Grijó, jornalista há 2 anos, é repórter da editoria de esportes do Jornal do Brasil.

"Os jornalistas deveriam passar por cursos permanentes de atualização"

"Fica difícil definir se os novos são bons por si mesmos ou por causa das escolas" "Sou contra a exigência Marcelo Auler do diploma, mas a favor da existência dos Realmente não me sinto capacitado para analisar os cursos de jornalismo. O cursos de formação" que devo reconhecer é que, da pequena

Daniel Barbará Todo e qualquer curso ou forma de ensino sempre vai fazer com que as coisas

Ricardo Noblat, jornalista há 32 anos, é diretor de redação do jornal Correio Braziliense e o mais novo condômino dos Diários Associados.

Harold Emert, jornalista americano, com 30 anos de profissão, está há 25 anos no Brasil e trabalha como correspondente dos jornais Daily Express, Express on Sunday e Daily Star.

Fábio Grijó

Carlos Magno Araújo, jornalista há 9 anos, é chefe de redação do Diário de Natal/O Poti, de Natal, Rio Grande do Norte.

favorável à existência dos cursos de jornalismo. E penso que eles, ou quaisquer outros cursos universitários, são importantes para a formação de bons profissionais. Sou contra a necessidade do diploma para que alguém possa exercer o jornalismo. Um dos melhores jornalistas que trabalha hoje no Correio não tem diploma. Nunca assistiu a uma aula sequer de jornalismo. E não nasceu no Brasil – nasceu no Líbano.

"Aprendi mais nas redações do que nas escolas. E paixão pela função não se ensina"

Marcelo Auler, jornalista há 26 anos, é repórter do jornal O Dia.


"Ao entendermos o que estamos fazendo, produzimos notícia de melhor qualidade"

"Os jovens de hoje, sem comparação, estão mais bem preparados. Cabe aproveitá-los"

"Os cursos têm culpa pela queda de qualidade"

"Focas de hoje são mais preparados" Talita Figueiredo Os cursos melhoraram a qualidade do jornalismo. A teoria dos primeiros anos e a técnica de reportagem, hoje bastante definida, são fundamentais na formação de um bom profissional. Acredito que os f o c a s de hoje são mais preparados tecnicamente do que antes da criação do curso de jornalismo. A formação dada pela faculdade, no entanto, não é suficiente. Cabe ao jornalista, durante o curso e depois dele, se aperfeiçoar constantemente.

Décio Sá

Mário Mesquita

Com certeza. Os cursos dão a teoria, o que dificilmente se conseguiria na prática diária do jornal. Com a teoria, a gente consegue, muitas das vezes, saber o porquê de determinados fatos jornalísticos. Mas a teoria também pode ser aprendida sem a escola. E daí? Ao entendermos o que estamos fazendo e o seu porquê, produziremos uma notícia de melhor qualidade. Não fica aquela coisa mecânica de lide, corpo e fechamento da matéria. Não se pode - ou não se deve - pensar nessa profissão sem os cursos. Os defensores do fim dos cursos com certeza ainda não o freqüentaram, ou se o freqüentaram, não o aproveitaram como deveriam.

Sou professor de jornalismo há mais de uma década. Se respondesse de forma afirmativa, seria, obviamente, suspeito. Se dissesse que não, estaria a negar a utilidade do meu próprio trabalho. Quando iniciei a profissão, no jornal República, de Lisboa, em 1971, havia censura prévia, mas não existiam escolas de comunicação ou de jornalismo. Os jovens de hoje, saídos dos cursos especializados, possuem um leque de conhecimentos que não sofre comparação com o que sucedia no meu tempo. As empresas jornalísticas podem utilizar essa competência e energia para melhorar o jornalismo. Mário Mesquita, jornalista há 28 anos, ajudou a criar o primeiro curso de jornalismo em Portugal e foi também o primeiro ombudsman de imprensa no país. Foi diretor do Diário de Notícias e do Diário de Lisboa e, atualmente, é colunista semanal do diário O Público, de Lisboa.

Laurindo Ferreira Os cursos de jornalismo, de uma maneira geral, não formam profissionais qualificados para o mercado. São limitados, tecnologicamente defasados e intelectualmente pobres. A obrigatoriedade do diploma de jornalismo tem sido, a meu ver, um dos principais responsáveis pela queda da qualidade dos profissionais que chegam hoje às redações. O curso deveria existir, no máximo, como uma pós-graduação. Falta aos cursos embasamento em questões importantes, como política, economia, sociologia, filosofia, semiologia, tecnologia, indispensáveis para possibilitar uma reflexão mais depurada deste conturbado fim de século.

Décio Sá, com 5 anos de jornalismo, é editor especial de O Imparcial (MA).

"Universidade continua uma boa escola de vida para todos"

Talita Figueiredo, com 22 anos, formada em jornalismo pela Faculdade de Comunicação Social da UERJ, em dezembro de 1998, é repórter do jornal O Dia.

"Escola ajuda, mas a verdadeira é a redação" Saulo Moreira A escola de todo jornalista é a redação, o batente. Mas não há como negar que os cursos de jornalismo contribuem hoje para uma postura mais profissional do jornalista.

Laurindo Ferreira, jornalista há 8 anos, é chefe-geral de reportagem do Jornal do Commercio, do Recife.

Carla Baptista

"Na Bolívia, jornalismo é apenas uma disciplina e empresários relutam em contratar os formados nos cursos"

Acho que sim. A universidade continua a ser uma boa escola de vida, de experiências e de saberes. É evidente que há ótimos jornalistas sem curso universitário, mas é porque são pessoas excepcionalmente inteligentes, determinadas e criativas. Um ser humano mais normal precisa de ir à escola para aprender. Carla Baptista, jornalista há sete anos nos jornais portugueses Diário de Notícias e 24 Horas, trabalha atualmente como free-lancer

Erick Torrico Villanueva A eficácia dos cursos na melhoria da qualidade do jornalismo é relativa. Há duas razões principais para que isso ocorra: 1) as carreiras universitárias na Bolívia – que nasceram em 1969 – são de ciências da comunicação e, nelas, o jornalismo é somente uma disciplina e não uma especialidade; 2) os proprietários dos veículos resistem a montar suas equipes exclusivamente com formados, pois duvidam – e em muitos casos têm razão – da capacitação profissional oferecida pelos cursos. Apesar disso, existem destacados exemplos de bom desempenho de jornalistas provenientes de universidades nos meios de comunicação de massa privados, governamentais e confessionais, principalmente.

"Preferia outra formação, com especialização depois" Eric Brücher Camara Não tenho condições de avaliar uma evolução histórica, mas, baseado na minha formação, acredito que cursos universitários de jornalismo não sejam sinônimo de melhora dos profissionais. Pessoalmente, acredito que teria sido muito mais enriquecedor se eu tivesse cursado outra faculdade e, mais tarde, me especializado em jornalismo (cerca de um ano seria suficiente).

Erick Torrico Villanueva, jornalista há 16 anos, dirige o mestrado em Comunicação e Desenvolvimento da Universidade Andina Simón Bolívar.

ANUNCIO 1/4

Eric Brücher Camara, jornalista há 4 anos, é repórter do jornal O Globo.

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Jornal da ABI


Nas universidades se discutem questões como ética, invasão de privacidade, liberdade de imprensa, tecnologia na profissão. Nas universidades, o estudante aprende as teorias, que também são importantes. Assim, passa a ter uma visão ampla da profissão. Quando chega às redações, não é um leigo. Ele conhece, ainda que no conjunto das teorias, aquilo que vai lhe acompanhar no lado prático.

"Ninguém pode ser "Tendência atual é pela contra a formação. Mas especialização do obrigação de diploma jornalista" é ato violento" Luiz Carlos Cascon Villas-Bôas Corrêa

"Maior problema é a inexistência de mercado para os formados"

Tarcísio Holanda

Tarcísio Holanda, jornalista há 47 anos, foi repórter e redator no Rio de Janeiro até se transferir, em 1975, para Brasília, onde passou a trabalhar na cobertura política, especialmente como comentarista político da TVE-RJ. Atualmente faz entrevistas na TV Câmara.

Sebastião Nery Quanto mais curso melhor. Até para jornalistas não pensarem que o bloco baiano “Os Filhos de Ghandi” foi fundado por um africano que veio para Bahia como escravo e se chamava Ghadin (como contou a imprensa). Mas uma coisa é curso e outra é a exigência do diploma para trabalhar na imprensa, imposta pelos “três patetas” da junta militar, em 1969, exatamente para a ditadura mais facilmente controlar as redações. Em um país que não tem escola de comunicação em vários estados - e só quase apenas nas capitais - e onde a grande maioria dos que trabalham nos milhares de jornais, rádios e televisões de todo o território nacional não consegue fazer o curso de comunicação, não consegue diploma e, por isso, trabalha como jornalista recebendo salário de auxiliar, de boy, de bagrinho, é um escárnio elitista do centrosul do país exigir diploma para trabalhar. E o pior. De instrumento da ditadura, o diploma acabou virando um cabo eleitoral de certo peleguismo sindical.

A pergunta para mim é um tanto difícil. Nunca assisti a cursos, nem tive outra preparação especial para fazer jornalismo. Fui graduado na Universidade de Moscou como licenciado em letras. Editei o meu primeiro periódico, destinado ao uso caseiro (familiar), quando tinha nove anos. Depois fui redator de um mural escolar. A primeira nota na “grande imprensa” publiquei sendo estudante. O pai, a mãe e o tio também eram jornalistas. Acho que para ser um bom jornalista o essencial é ter cultura geral, o dom de escrever e, acima de tudo, os olhos abertos ao mundo que nos rodeia. E, sine qua non, ser uma pessoa decente e honesta, porque como prova a experiência, um charlatão nunca é capaz de escrever nada que tenha valor.

Sem dúvida, cursos contribuem para elevar o nível intelectual e de instrução dos jornalistas. Há muitos cursos deficientes, mas, ainda assim, temos de reconhecer que eles melhoraram a qualidade intelectual dos jornalistas e do jornalismo. Há uma deficiência inegável: a falta de ensino prático nesses cursos. Algumas faculdades de comunicação conseguem criar espaços para a prática - um jornalzinho, uma estação de rádio ou de TV. Porém, a grande maioria não tem condições de oferecer experiência, que é fundamental na formação do jornalismo.

Jorge Luis Bernetti, jornalista durante 28 anos, passou a se dedicar ao ensino da comunicação e hoje é professor titular de jornalismo na Universidade Nacional de La Plata e na Universidade de Buenos Aires. ○

"Curso é bom, mas diploma obrigatório é elitismo"

"Essencial é ter cultura geral, dom de escrever e olhos abertos ao "Falta de ensino prático mundo que nos rodeia" é a grande falha" Vladimir Reznichenko

Será que os cursos de pós-graduação melhoram a qualidade dos médicos que buscam o diploma? Depende dos cursos e dos professores. Para a profissão de jornalista, como para qualquer outra de formação básica, a capacitação permanente faz parte do instrumental básico. São sempre bem vindos os cursos de graduação, mestrado, doutorado ou mesmo cursos de capacitação. Deve ser estimulado o intercâmbio entre universidade e empresas para a capacitação.

Raimundo Filho, jornalista com 30 anos de profissão, é o editor de primeira página do Diário de Pernambuco.

Jean-Jacques Sevilla, jornalista com 20 anos de profissão, é correspondente no Brasil, há 15 anos, dos jornais franceses Libération e Le Monde.

Jorge Luis Bernetti

Marco Aurélio Guimarães (Jangada), jornalista há 40 anos, é coordenador de redação do Jornal do Commercio do Rio de Janeiro.

Democratizaram o acesso às redações e a chance de exercício profissional. Mas são também ilusórias fábricas de bacharéis.

No que me consta, fiz um curso de jornalismo antes de ingressar na profissão. O curso me ajudou bastante no que se refere à construção de uma matéria e ao modo de conduzir uma entrevista.

"Depende dos cursos e dos professores"

Raimundo Filho

Jean-Jacques Sevilla

Mario de Moraes, primeiro Prêmio Esso de Reportagem no Brasil, em 1955, é jornalista desde os 16 anos e continua, ainda hoje, aos 74 anos, fazendo reportagens e entrevistas para jornais e revistas.

A maioria dos professores de jornalismo é gente expulsa do mercado profissional por notória incompetência. Jornalismo, da mesma forma que samba, não se aprende na escola. O que alicerça o jornalista? Sensibilidade, que vem de útero. Dominar o texto, o que só é possível alcançar com muita leitura. As duas condições não podem ser ensinadas. A faculdade, entretanto, apresenta uma vantagem: os formados não têm como justificar os próprios analfabetismo e desinformação. É do que se trata uma jovem escrever univercidade, com C (e por erro, mesmo, nada a ver com a UniverCidade). Ou ignorar que o chocolate é um subproduto do cacau. Ou afirmar que avestruz dá à luz. Ou grafar alcance com C cedilha. Paro por aqui, para não ocupar todo o espaço da edição.

"São também ilusórias fábricas de bacharéis"

"O curso me ajudou bastante a enfrentar a profissão"

Hoje, os bons alunos (vejam bem: os bons alunos!) dos cursos de comunicação chegam às redações melhor preparados culturalmente do que antes. Quando eu comecei, a seleção era feita no dia-a-dia da reportagem. Os que não passavam no teste eram mandados embora. Atualmente, a meu ver, o maior problema dos recém-formados é um quase inexistente mercado. A falta do estágio também é culpada pela pouca prática com que eles iniciam a profissão. Só teoria não basta.

MarcoAurélioGuimarães(Jangada)

Luiz Carlos Cascon, jornalista há 25 anos, é subchefe de reportagem e líder da equipe de polícia e justiça da editoria Rio do jornal O Globo.

Villas-Bôas Corrêa, jornalista há 51 anos, é repórter político do Jornal do Brasil e da TV Manchete.

Mario de Moraes

PROVA DOS NOVES

O jornalismo é uma atividade que trabalha essencialmente com a informação, a troca de experiência e a ampliação do conhecimento. Os cursos ministrados pelas faculdades de jornalismo não têm contribuído muito nesse sentido. Mas há cursos de especialização que contribuem para melhorar a qualidade dos jornalistas, especialmente nesse momento em que há uma tendência forte para a especialização.

Sinceramente, não tenho opinião conclusiva. Ninguém pode ser contra o aprendizado regular em curso de reputação. Conheço excelentes profissionais que abriram seu caminho com o diploma. Mas, os mestres da minha geração formaram-se no batente. Resisto a aceitar a obrigatoriedade do diploma para o exercício profissional. Obrigar é sempre um ato de violência.

Saulo Moreira, jornalista há 2 anos, é repórter do Diário de Pernambuco.

"A maioria dos professores de jornalismo é gente expulsa do mercado profissional por notória incompetência"

Vladimir Reznichenko, jornalista e tradutor de Camões e Bocage para a língua russa, é chefe de representação da agência noticiosa Novosti no Brasil.

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Sebastião Nery, jornalista há 47 anos, faz colunismo político para jornais de 16 estados brasileiros. ○


Justificativas, existem muitas, tentando explicar a manipulação inevitável que transforma os fatos da realidade em notícia. Nesta época em que muitas vezes a informação é tratada como produto

de uma estratégia de venda, a visão crítica dos próprios comunicadores expõe os problemas em busca de soluções que resgatem a função social da missão de informar, propiciando a formação de opiniões.

PERIGO É TRANSFORMAR A NOTÍCIA EM VERSÃO O problema, aqui, não é a transformação do fato na notícia. Claro que não. O erro, lamentavelmente não tão raro assim, é transformar a notícia (o esquecimento de pagar a cota do Leão) em mera versão (a intenção de sonegar o imposto). Quando a imprensa age assim, está abrindo as portas para a condenação de quem não foi julgado (quem não se lembra da Escola Base, de São Paulo?). Está retirando, do leitor e da sociedade, parâmetros que contribuiriam, por que não, para a formação da consciência moral de cada um de nós.

especial). E nunca mais ele se preocupou com o assunto. Como esse cidadão, milhares de brasileiros, todos os anos, enfrentam problemas parecidos. São fatos corriqueiros, sem maior relevância. Nada de grave, nada de incriminador ou delituoso, às vezes um esquecimento, às vezes um mês em que a grana está curta mesmo e o cidadão resolve rolar sua dívida. Com certeza, nada que apareça nas páginas dos jornais, nada que seja notícia. Mas, e se o cidadão dessa história, amanhã, se envolvesse num caso policialesco qualquer, denunciando, por exemplo, uma máfia de fiscais ou uma tentativa de suborno que sofrera? Teria sua vida revirada ao avesso. E o fato, que poderia ter acontecido comigo ou com você, leitor, que não seria notícia, ganharia na hora ares de denúncia. Fulano de tal sonegou imposto há três anos anunciariam as manchetes. Informação relevante? Sem dúvida. Afinal, ele teria se tornado uma figura pública. E pior, uma figura pública sob suspeita.

Luiz Fernando Gomes A cada novo lote de restituição do Imposto de Renda, estava ali o cidadão, à frente da tela do computador, roendo as unhas. E nada. Seu dinheiro não era liberado pelo Leão. Irritado, xingava o presidente, atacava o Governo e, pior, perdia-se na teia de e-mails e telefones da Receita Federal, tentando descobrir o que acontecera com seu dinheiro. Tudo em vão. Até que, num daqueles envelopes de extrato bancário, a resposta. Sim!!! Ele caíra na malha fina. Mas como? Nunca sonegara nada, sempre cumprira com suas obrigações... A explicação estava ali há três anos, por distração - mera distração, não duvidem - o cidadão esquecera de quitar a quarta das cinco parcelas do imposto que tinha a pagar. Na carta, o Leão informava que a quantia devida - e obviamente corrigida - seria descontada da restituição deste ano. E que, por isso, a liberação do dinheiro só sairia em um dos lotes complementares. Isso foi feito (e seu único prejuízo foi ter que pagar algum juro a mais na conta do cheque

Luiz Fernando Gomes, jornalista há 18 anos, é editor-geral do jornal O Dia.

"Quando a imprensa age assim, está abrindo as portas para a condenação de quem não foi julgado (quem não se lembra da Escola Base, de São Paulo?)"

OS CONDICIONANTES DO FATO QUE VIRA NOTÍCIA tambores, sinais de fumaça, já o foi e continua sendo por meio de cartas, telegramas, telefonemas, radioamadores, jornais, emissoras de rádio e TV, hodiernamente da Internet e de todos os outros sistemas que o homem já criou para se comunicar com os seus semelhantes. Para que exista uma notícia é preciso que haja alguém interessado em transmitir a ocorrência de um fato, e que na outra ponta haja ouvidos predispostos a recebê-la. A notícia pode ser de interesse apenas individual - “seu filho matou a aula” - ou de interesse coletivo, indo de pequenas comunidades à opinião pública mundial. Como se pode concluir, a notícia nem sempre foi uma mercadoria, um produto de consumo que necessitasse de processamento, horas de trabalho e hoje de equipamentos industriais sofisticados para ser colocada à disposição do público. A imprensa escrita é relativamente recente - surgiu no início do século XVII em algumas cidades da Alemanha e rapidamente se espalhou para outros países. E é deste tipo de notícia que vamos tratar, da notícia como produto. Não há, efetivamente, regras objetivas para se determinar se um fato merece ou não se tornar notícia em um meio de comunicação.

Márcio Bueno Antes de mais nada é preciso afinar os conceitos. Fato é o episódio, o acontecimento em si, e notícia é a transmissão do conhecimento do fato a quem não o presenciou. A notícia é, portanto, muito mais velha do que a imprensa e até mesmo do que a palavra escrita. A notícia pode ser transmitida bocaa-boca ou, mais propriamente, boca-aorelha; já o foi por meio de sons de

PROVA DOS NOVES

órgãos de imprensa, menos para a TV que é controlada por esta igreja. Outro condicionante é o tipo de veículo - publicação impressa, rádio, TV, Internet cada um com sua linguagem própria e suas peculiaridades. Recentemente, foi notícia no principal telejornal de uma emissora de TV, o gritinho e o pulinho de uma senhora que se assustou com o barulho de um trovão, no momento em que dava uma entrevista. O que dizia nem foi traduzido ela só apareceu por causa da reação à trovoada. Este fato é incapaz de alimentar até mesmo a falta de assunto de um casal durante o café da manhã, quanto mais de se tornar notícia em uma publicação impressa. Para a TV, talvez exagerando o valor do flagrante, o gritinho, com o pulinho, mereceu ganhar espaço nobre e ser veiculado para dezenas de milhões de telespectadores de todo o país. Da mesma maneira, um fato importante para um jornal impresso, como as resoluções de um seminário, deixa de ser veiculado numa TV porque os seminários são abominados pelas redações das emissoras por serem maçantes e não renderem imagens televisivas. Temos de considerar também que no interior de cada meio de comunicação há subdivisões. Entre as

O jornalista iniciante jamais disporá de um catálogo de normas que possa ser consultado no momento da dúvida e o presente artigo não tem a pretensão de preencher esta lacuna, de resto impreenchível. O fato, para conquistar espaço na mídia, depende de inúmeras variantes. Em primeiro lugar, e acima de todas as considerações, estão as concepções de quem controla o veículo, do ponto de vista político, ideológico, econômico, moral, religioso, artístico, esportivo e suas conexões com o mundo empresarial, incluindo os anunciantes. Um meio de comunicação exprime as convicções e interesses de segmentos determinados da sociedade e os fatos são selecionados e trabalhados respeitando o seu ângulo de visão. Se várias pessoas forem instadas a descrever uma mesma mulher, teremos relatos distintos e alguns nem se darão ao trabalho de redigi-lo. Para um, ela é a mãe, para outro, a filha, ou então a esposa, a amiga querida, a vizinha distante, a amante, a inimiga, a freguesa. Cada veículo enxerga um fato de uma determinada ótica e em função desta ótica decide se deve ou não se tornar notícia. Se o bispo de uma igreja chuta a imagem da santa, o fato é notícia para quase todos os

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publicações impressas, temos os jornais, as revistas semanais de informação, e outras, cada qual com sua identidade própria, selecionando fatos de acordo com o interesse presumido de seus leitores. Há também as publicações segmentadas, que tratam de assuntos específicos e se pretendem dirigidas a públicos específicos, como são os jornais de economia, os de esportes, os rurais, culturais, etc. A final do campeonato brasileiro não encontrará abrigo nas páginas de um jornal de economia, assim como nenhum jornalista de um jornal de esportes será louco o suficiente para propor na reunião de pauta a cobertura da quebra, por maior que seja, da safra da laranja. O mesmo tipo de divisão acontece em outros veículos. Há as TV’s abertas, que cobrem assuntos genéricos e também as TV’s a cabo, cada uma dirigida a um segmento da população ou especializada em um tipo de tema. Há muitos outros fatores condicionando o que é ou não um fato noticiável. Por exemplo, a questão geográfica. O que é importante para um local (cidade, estado, país) não o é para outro. A questão temporal, ou conjuntural, também é balizadora das decisões. O que é uma notícia importante hoje, em um determinado jornal, merecedora de manchetes de capa, não o será no futuro, ou pode não ter sido no passado. Basta que mude a conjuntura política, que se modifiquem os interesses. Há um caso que pode se tornar tema de tese em qualquer curso de mestrado. Atualmente, vem ganhando páginas e mais páginas dos jornais, alguns considerando um grave crime ambiental, o despejo de esgotos in natura em algumas praias do Rio, para que seja executado o reparo no emissário submarino de Ipanema. Em 92, para efetuar o mesmo tipo de reparo, o tempo de despejo de esgotos foi 3 vezes maior, a quantidade lançada ao mar foi 9 vezes maior (900 mil toneladas agora contra 8,2 milhões de toneladas antes) e incluiu a enseada de Botafogo, onde o tempo de dispersão é infinitamente maior. No entanto,

disputar leitores, incluindo em suas páginas horóscopos, xadrez, palavras cruzadas, tiras ou quadrinhos, publicando folhetins (histórias em série, como as novelas televisivas de hoje) para prender o leitor, chegando aos nossos dias com os sorteios e promoções. Aos poucos, em boa parte da imprensa, especialmente nas TV’s, a própria notícia passa a ser selecionada em função de sua capacidade de atrair o público, de vender cada vez mais, cumprindo o mesmo papel do horóscopo e das palavras cruzadas. A parte do noticiário que seria pretensamente de interesse público, na visão de cada órgão, passa a ter um espaço muito reduzido. Uma das máximas do jornalismo, de Amus Cummings, diz que “se um cachorro morde um homem não é notícia; mas se um homem morde o cachorro, aí, então, a notícia é sensacional”. Isto, claro, é do tempo em que os cachorros ainda não tinham sido transformados em feras capazes de arrancar nacos de carne, de dilacerar e até de matar suas vítimas. Mesmo naquela época, do ponto de vista do interesse público, seria muito mais importante noticiar que havia cachorros à solta mordendo homens, para que todos se prevenissem, do que informar que um maluco cravou os dentes em um animal. A rigor, isto deveria interessar apenas a um jornal de cachorros. Mas o que importa, para este tipo de concepção que contaminou em maior ou menor grau a maioria dos veículos, é divulgar o singular, o inusitado, o excepcional, porque presume-se que o leitor não queira saber do rotineiro. Esta disputa cada vez mais acirrada pelo sensacional acaba levando a equívocos graves, como foram os casos da Escola Base e do bar Bodega, em São Paulo, em que inocentes foram condenados pela imprensa sem uma apuração mais rigorosa, sem o direito de defesa e sem a condenação pela justiça. A briga pelo emocionante e o medo de ser vencido pelo concorrente causou uma cegueira geral, criando-se um fato sensacional onde nada havia. Este tipo de situação não é privilégio da imprensa

"A notícia nem sempre foi uma mercadoria, um produto de consumo que necessitasse de processamento para chegar ao público " há sete anos, a imprensa praticamente não falou no assunto. Um dos grandes jornais do Rio publicou ao longo do período de despejo, de 16 dias no total, apenas duas notinhas de meia lauda cada uma. E sem qualquer crítica. Militantes de entidades ecológicas reclamam que não conseguiram divulgar suas denúncias na época e até hoje não sabem os motivos. Há algumas pistas: em 92, o conserto foi feito no mês de fevereiro e o Rio se preparava para receber, quatro meses depois, dezenas de chefes de estado para a Conferência Mundial do Meio Ambiente, a Eco-92, e a divulgação do fato poderia se tornar um empecilho. Hoje, sete anos depois, o que existe é o interesse do governo federal em privatizar as companhias de saneamento, incluindo a do Rio de Janeiro, cumprindo compromisso assumido recentemente, por escrito, com o FMI. Enfim, isto é apenas para mostrar que a questão conjuntural também é importante. A partir do século passado, os jornais deixam de ser artesanais, feitos por duas ou três pessoas, e passam a depender de altos investimentos em maquinário pesado. Entra em cena um novo ator: o anunciante, cujas verbas se tornam parte substancial das receitas das publicações. Os jornais começam a trabalhar para atingir o maior público possível, objetivando atrair anunciantes e aumentar o preço dos anúncios. As publicações começam a

brasileira. Alguns filmes americanos têm retratado situações semelhantes. Em “O Quarto Poder”, de Costa Gavras, o repórter de TV Max Brackett (Dustin Hoffman), quando presencia o guarda recém-demitido Sam Baily (John Travolta) apontando um revólver para a diretora do museu onde trabalhava, passa a interferir na história. Ele orienta as ações de Baily e transforma a situação em um seqüestro, porque sabe que a notícia vai crescer de importância e que isso o ajudará a recuperar prestígio na emissora. O caso acaba em tragédia, com a morte do ex-guarda que, angustiado, pretendia apenas protestar contra a demissão. Outro filme, “A Montanha dos Sete Abutres”, de Billy Wilder, de 1951, é baseado numa história real e mostra um jornalista interferindo no fato para torná-lo não só noticiável como sensacional. Um homem se vê preso nos escombros de uma mina no estado do Novo México e um repórter, a pretexto de ajudá-lo, mantém-no preso ali até a morte. O objetivo era obter seu emprego de volta em um grande jornal e a razão da atitude é exatamente saber que a empresa tinha muito interesse em notícias espetaculares. A interferência no fato - que significa na verdade a criação de fatos novos - não é tão incomum e talvez seja o último degrau desta escalada em busca do sensacional. Se poucos casos são divulgados é porque poucos terminam tragicamente. A questão, complexa, é saber o que determina que um fato se torne notícia e não descobrir que tipo de fato é noticiável em um veículo e sair disposto a fabricá-lo. Porque aí estaremos saindo do campo do jornalismo e entrando no domínio da ficção. Márcio Bueno, jornalista há 22 anos, foi chefe das sucursais-Rio dos jornais Movimento e Retrato do Brasil, editorchefe de telejornais e diretor de programas da Rede Manchete, editor nacional dos jornais “Hoje” e “Jornal da Globo”, da Rede Globo, e superintendente de jornalismo da TVE-RJ.

INTERESSE PÚBLICO OU INTERESSE DO PÚBLICO? Levando a extremos, essa definição aproxima o jornal do sabonete: nove entre dez mulheres de Curitiba preferem sabonete branco, com cheiro de pêssego, em embalagem verde. Quem fabrica o produto dentro dessas especificações vende sabão como pipoca em porta de

Luiz Garcia Em tempos mais ideológicos, fazia sucesso a definição de notícia como sendo o registro de um conflito. Sem conflito, o fato não era relevante e não valia gastar papel e tinta com ele. Saiu de moda, mas é preciso reconhecer que funciona na maioria dos casos. Às vezes, ficava meio complicado justificá-la. Como no caso da notícia do casamento de alguém, pelo menos na frente da mulher de alguém.

"Num lado a notícia que o jornal considera importante. Do outro, os fatos que dão prazer ao leitor. A imprensa bem sucedida escolhe os fatos que transformará em notícia procurando ser, ao mesmo tempo, respeitada e interessante. Dá muito trabalho, mas é possível"

A definição mais moderna é a marquetológica, que faz muito sucesso com o pessoal que chama jornal de “produto”. Ela diz que tudo que o leitor gosta de ler é notícia, o que exige o emprego de métodos sofisticados de pesquisa de opinião. ○

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circo. No caso do jornal, as pesquisas diriam, por exemplo, que nove entre dez senhores do Rio querem saber tudo sobre Vera Fischer, torcem pelo Flamengo ou pelo Vasco e estão encalacrados no cheque especial. E o resultado seria editar um jornal que teria quase todo dia

Jornal da ABI


uma foto da senhora Fischer - ou o similar da semana - na primeira página, mais uma diária sobre Romário e/ou Luizão; o noticiário sério seria sobre juros de cheques especiais e de cartões de crédito. E venderia como pipoca.

importante levar ao leitor, para ajudá-lo a funcionar como cidadão, e à sociedade, para ajudá-la a funcionar como coletividade organizada. Isso inclui desde a informação útil, chamada nas redações de “serviço”, até a revelação de desmando de homens públicos e a cobertura de discussões sobre as grandes questões políticas, econômicas e sociais.

Muito engraçado, mas será tolice ridicularizar os marqueteiros pelos seus exageros - porque eles têm um pedaço de razão. O jornal é uma espécie de quimera, aqueles bichos mitológicos com cara de águia e corpo de leão: tem seu lado de serviço público, seu lado de produto. Um não sobrevive sem o outro, e o ofício do jornalista inclui fazê-los conviver pacificamente.

sendo relevante e verdadeira, a sua não publicação só se justifica em casos muito especiais. Para ficar só num exemplo, entende-se a omissão deliberada de notícias que ponham em risco a vida de pessoas. A notícia interessante divulgada não por sua importância, mas porque ajuda a vender jornal - sofre mais restrições, quase todas associadas ao risco de invasão de privacidade de alguém.

No outro lado está a notícia de interesse do público. São os fatos que entretêm e dão prazer ao leitor, porque o divertem, emocionam ou excitam.

Um jornal que é só importante e nada divertido é chato - o que é grave, porque a chatura impede que os fatos importantes cheguem ao conhecimento dos leitores. Já o jornal que é apenas excitante e divertido não merece o respeito do leitor. A imprensa bem sucedida escolhe os fatos que transformará em notícia procurando ser, ao mesmo tempo, respeitada e interessante. Dá muito trabalho, mas é possível.

É fácil que haja invasão de privacidade quando se noticia, apenas pelo amor à sensação, que uma pessoa notória tem vida sexual irregular. E não há invasão - porque entra em jogo a prioridade de interesse público -, quando a mesma informação é completada

Fatos viram notícias quando se encaixam numa dessas duas categorias. Na primeira delas, a única exigência essencial é a verdade. A informação,

Num lado está a notícia de interesse público, que o jornal considera

pelo fato de que a tal vida sexual é financiada com o dinheiro do Governo.

Luiz Garcia, jornalista há 40 anos, é editor de opinião do jornal O Globo.

É O JORNALISTA QUEM FAZ A NOTÍCIA ACONTECER pouco variem de um órgão de imprensa para outro, quem realmente constrói uma notícia, dá a ela o seu valor e importância, dá o necessário destaque ou relega a uma nota de rodapé para ser esquecida na edição seguinte, é o jornalista. E ao fazer isso, ele define se está fazendo o bom ou o mau jornalismo.

Ana Carolina Pessoa Temer Quem determina que um fato vire notícia é o jornalista. Tive essa resposta na ponta da língua no momento em que recebi a incumbência de fazer um artigo sobre o que determina que um fato vire notícia. Nessa nossa vida corrida de jornalista - que hoje divido com as atividades de professora de comunicação - só num segundo momento percebi que havia um erro na minha resposta. Perguntaram-me o quê e eu respondi quem. Para justificar minha resposta, creio que a primeira coisa a fazer é dar a resposta certa. O que define se o fato vira notícia são os chamados critérios de noticiabilidade (ou valores-notícia); um conjunto de atributos que se exige de um fato para que ele adquira uma existência pública. De uma forma geral, são valores-notícia: a importância dos indivíduos envolvidos nos acontecimentos, o impacto do fato sobre a Nação e o interesse nacional, a quantidade de pessoas que envolve o acontecimento e a sua possível evolução para um fato mais grave.

Assim, ainda que os critérios de noticiabilidade sejam delimitados o bastante para que as principais manchetes

PROVA DOS NOVES

Numa sociedade livre, o jornalismo é responsável pela livre difusão das idéias, pelo acesso de todas as camadas da população à informação no seu aspecto mais amplo – que abrange desde as condições reais do dia-adia da população, a escolha dos caminhos políticopartidários do país, até informações sobre a vanguarda da pesquisa científica e as análises sobre o que o futuro nos reserva.

"Quem constrói uma notícia, dá a ela o seu valor e importância, dá o necessário destaque ou relega a uma nota de rodapé para ser esquecida na edição seguinte, é o jornalista. E ao fazer isso, ele define se está fazendo o bom ou o mau jornalismo"

Falei de uma forma geral porque a notícia é um produto organizado, elaborado (construído?) a partir de uma perspectiva prática dos acontecimentos. É o jornalista que transforma a teoria em prática, e que faz o jornalismo ideal transformar-se no jornalismo real. Dessa forma, a noticiabilidade de cada fato está sempre sujeita às condições de produção, avaliação (incluindo aí interesses e necessidades) e interpretação do jornalista, esteja ele exercendo o papel de repórter, colhendo o fato no local onde ele acontece, ou na edição ou até na direção do órgão de imprensa que produz essa notícia.

"Navegando num mar de possibilidades, cada jornalista faz as suas escolhas diárias baseando-se numa infinidade de variantes" produção (não adianta ter acesso a uma informação exclusiva e não ter um carro para chegar até o entrevistado); o tempo (que certamente é o menor possível, porque jornalismo é rapidez) que ele tem para dedicar a cada assunto, um certo grau de criatividade, de bom humor e, é claro, um pouco de sorte. Sobre cada um desses itens – sem falar nos que podem ter sido esquecidos, pois todo jornalista sabe que a memória é traiçoeira - é possível falar muito mais.

Navegando neste mar de possibilidades, cada jornalista faz as suas escolhas diárias baseando-se numa infinidade de variantes. Em primeiro lugar, está a questão da formação individual e profissional de cada um. A forma como cada jornalista vê a profissão, como encara a sua responsabilidade social e como foi preparado para exercer suas funções determina a atuação profissional de cada um. Em seguida, como seres sociáveis que somos, conta muito a opinião dos colegas, o que a concorrência está fazendo.

Como isso não é possível, uma maneira de explicar é dizer que, como um juiz, o jornalista relembra conselhos e conceitos, julga os aspectos políticofilosófico-econômicos de cada fato, analisa interesses e benefícios, compara com outras notícias, pesa seus pontos de vista, os dos colegas, os do seu chefe, do dono do jornal e, algumas vezes, até mesmo a opinião do dono da banca de revista da esquina. E aí decreta sua vida ou morte, pensando, sem tempo de pensar, que está também decretando vida ou morte de muitas possibilidades futuras.

Não menos importante é o espaço que o veículo oferece para o jornalismo, que quase sempre é determinado pelo espaço que “não foi comprado” pelos anunciantes; conhecer as pessoas certas no lugar certo (e isso tanto pode significar conhecer o patrão quanto conhecer o porteiro); as condições de

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Ana Carolina Pessoa Temer, jornalista há 19 anos, é coordenadora do curso de graduação em jornalismo do Centro Universitário do Triângulo, em Uberlândia.


POR DENTRO DAS NOVE "Campanha contra pit bulls resgata regra do homem que morde o cachorro"

"História do cachorro é "Aquilo que o jornalista absurdo a que se acredita ser o interesse costuma recorrer para da comunidade" ilustrar o que seria Jorge Luis Bernetti notícia"

Vladimir Reznichenko

Que ele desperte interesse, seja de uma comunidade inteira, de um país e até do mundo. Seja a agressão de um deputado a um colega, no plenário da Câmara, seja uma declaração agressiva contra o governo, seja um ato de corrupção praticado em repartição pública, como o esquema de propinas na prefeitura de São Paulo ou no Detran do Rio de Janeiro. Tanta coisa pode virar notícia! Existe a velha história de que a notícia aparece quando o dono morde o cachorro, mas isso é o absurdo a que se costuma recorrer para ilustrar o que, afinal, seria notícia.

Vladimir Reznichenko, jornalista e tradutor de Camões e Bocage para a língua russa, é chefe de representação da agência noticiosa Novosti no Brasil.

"Ou o interesse de pessoas influentes..."

Luiz Carlos Cascon Em linhas gerais, um fato vira notícia quando foge do comum, do esperado, do previsto. E a notícia ganha ainda mais força quando atinge ou desperta o interesse de muita gente.

Harold Emert Como eu trabalho para a imprensa britânica, meu ponto de vista é diferente do de muitos outros jornalistas. Algumas pessoas têm me dito que eu “pense britânico” (embora eu seja um americano!). Não que eu deseje e reze por isto, mas o roubo, a morte ou seqüestro de um cidadão britânico no Brasil, o envolvimento amoroso de uma celebridade britânica com um brasileiro ou qualquer coisa ligada à família real no Brasil, isto é notícia! Eu nunca esquecerei quando a princesa Diana nadou na piscina do Copacabana Palace. Eu providenciei um apartamento onde os fotógrafos puderam ficar “plantados”, desde as 5 horas da manhã, esperando por ela. E a foto e o artigo fizeram as primeiras páginas dos jornais de Londres. Ricardo Boechat, de O Globo, em sua coluna diária, é um dos poucos jornalistas brasileiros conscientes de que uma nota espetacular pode ter mais repercussão do que muitas notícias internacionais. Eu devo acrescentar que não apenas a morte de um presidente, o assassinato de crianças de rua ou os grandes gols de um jogador de futebol são notícias. Há alguns anos, este repórter estava buscando uma novidade para os meus jornais de Londres e assistiu a uma leilão na Gávea onde estava sendo oferecido um quadro do Pelé nu com Beckenbauer no vestiário. Eu levantei minha mão para ajudar a “encerrar” o leilão e acabei fazendo o lance mais alto do leilão. O Globo me deu a página inteira do Segundo Caderno, o Jornal do Brasil, des-

Fábio Grijó, jornalista há 2 anos, é repórter da editoria de esportes do Jornal do Brasil.

"Cabe aos jornais criar as condições para o debate dos temas de interesse geral" Laurindo Ferreira Sua importância enquanto fato social relevante e sua repercussão na vida dos leitores. Isso é que faz, por exemplo, que um fato aparentemente isolado, como o assassinato de um estudante num trote universitário, se transforme num grande debate sobre a questão. Cabe aos jornais criar as condições para o amplo debate dos temas de interesse geral, do trote à CPI dos Bancos ou do Judiciário, das ações do Governo, do Legislativo. De forma que o leitor entenda que tudo isso tem a ver com ele, com seu dia-a-dia.

Mario de Moraes, primeiro Prêmio Esso de Reportagem no Brasil, em 1955, é jornalista desde os 16 anos e continua, ainda hoje, aos 74 anos, fazendo reportagens e entrevistas para jornais e revistas.

Luiz Carlos Cascon, jornalista há 25 anos, é subchefe de reportagem e líder da equipe de polícia e justiça da editoria Rio do jornal O Globo.

É importante que esse fato provoque interesse nas pessoas, que atinja um grande número de pessoas, que interfira na vida das pessoas. Indo um pouco mais longe, você começa a avaliar a importância das notícias - o que deve ser mais valorizado numa edição.

Eu poderia começar contando aquela velha história de que se um cão morde um homem, não é notícia, mas se um homem morde um cão, é. Durante meus muitos anos de reportagem, eu vi pequenos e corriqueiros fatos tornarem-se boas notícias e certos acontecimentos, aparentemente de maior importância, morrerem no nascedouro. Poderia dar inúmeros exemplos, mas, como não há espaço, dou apenas um. Certa vez encontrei um mendigo e catador de papel na rua e resolvi conversar com ele. Era um ex-campeão sulamericano de boxe. Escrevi a reportagem e tentei recuperá-lo para a vida. O assunto ganhou as páginas esportivas dos jornais e levou tempo nelas.

"O incomum, inesperado, imprevisto, atingindo muita gente"

"Se até eu já vivi 15 minutos de fama, por um engano, o que seria notícia?"

Fábio Grijó

Mario de Moraes

Eric Brücher Camara, jornalista há 4 anos, é repórter do jornal O Globo.

Talita Figueiredo, com 22 anos, formada em jornalismo pela Faculdade de Comunicação Social da UERJ, em dezembro de 1998, é repórter do jornal O Dia.

"Você começa a avaliar a importância das notícias"

"Um exemplo no caso do mendigo que era ex-campeão sulamericano de boxe"

Basicamente, a relevância do assunto para a sociedade, a singularidade ou qualidade extraordinária do fato, a curiosidade da sociedade sobre o assunto. Ou os interesses de pessoas influentes...

A importância que esse fato refletirá na vida de uma comunidade. A notícia, matéria-prima do jornalismo, deve ser sempre um fato novo.

Jorge Luis Bernetti, jornalista durante 28 anos, passou a se dedicar ao ensino da comunicação e hoje é professor titular de jornalismo na Universidade Nacional de La Plata e na Universidade de Buenos Aires.

Tarcísio Holanda, jornalista há 47 anos, foi repórter e redator no Rio de Janeiro até se transferir, em 1975, para Brasília, onde passou a trabalhar na cobertura política, especialmente como comentarista político da TVE-RJ. Atualmente faz entrevistas na TV Câmara.

Eric Brücher Camara

Talita Figueiredo

O que determina que um fato vire notícia é aquilo que desperta - ou o jornalista acredita que desperta - o interesse social da comunidade.

Tarcísio Holanda

O interesse público. Existe um antigo tópico quando um cachorro morde um homem, não é notícia, mas quando um homem morde um cachorro, é. Claro que a atual campanha da imprensa brasileira contra os ferozes pit bulls representa uma expressão que só confirma a regra geral .

"A notícia, matériaprima do jornalismo, deve ser sempre um fato novo"

Laurindo Ferreira, jornalista há 8 anos, é chefe-geral de reportagem do Jornal do Commercio, do Recife.

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taque na coluna "Pessoas" e eu estive no noticiário da noite de sábado da TV Globo, assim como fizeram a cobertura a revista Manchete, as rádios brasileiras e a mídia internacional. Hoje eu estou esquecido, mas eu vivi aos meus 15 minutos de fama ao lado de outros como o Beijoqueiro, a mulher que lançou um foguete na partida de futebol, etc. Em função desta experiência, eu me pergunto freqüentemente o que são notícias?

"O verdadeiro repórter sabe quando o fato é notícia reparando o jeito dele"

"Mas cabe ao jornalista "O interesse do público encontrar os fios que que lê aquela tecem as ligações entre publicação" as coisas" Marcelo Auler Carla Baptista Qualquer fato se pode tornar notícia. Se tiver determinadas qualidades atualidade, interesse público, proximidade - será mais fácil. Mas cabe ao jornalista encontrar os fios que tecem as ligações entre as coisas. Isso é das poucas competências que ainda é exclusividade da nossa profissão.

Harold Emert, jornalista americano, com 30 anos de profissão, está há 25 anos no Brasil e trabalha como correspondente dos jornais Daily Express, Express on Sunday e Daily Star.

Uma veneranda anedota merece ser lembrada para a resposta exata. É o caso do aluno prestando exame oral de botânica. O professor exibe um bicho empalhado e pede que o examinando o classifique. O jovem olha, hesita, pensa e arrisca: é um inseto, professor. O mestre desconfia e insiste: como é que você sabe que é um inseto? A resposta vem pronta: olha só o jeito dele, professor. Notícia é assim. O verdadeiro repórter sabe quando o fato é notícia reparando o jeito dele.

Carlos Magno Araújo No meu entender, um fato deve virar notícia quando afetar ou interferir, direta ou indiretamente, na vida da sociedade ou de um determinado segmento. O destaque deve ser tanto maior quanto mais pessoas atingir. Carlos Magno Araújo, jornalista há 9 anos, é chefe de redação do Diário de Natal/O Poti, de Natal, Rio Grande do Norte

Décio Sá, com 5 anos de jornalismo, é editor especial de O Imparcial (MA).

Há naturalmente toda uma formatação na criação de notícias, que os jornalistas conhecem bastante, e que faz parte da essência da sua profissão. Na minha opinião, está acima de tudo o interesse do público, a necessidade da notícia, o momento adequado e a capacidade de seleção do que publicar, de como abordar, etc. Considero, basicamente, que todos os veículos de comunicação trabalham como verdadeiras usinas produzindo notícias e que da capacidade de acerto no conteúdo e na velocidade de exibição do mesmo vai depender o sucesso do próprio veículo. A concorrência é outro fator que deve ser levado em conta, pois vivemos num mercado cada vez mais competitivo, onde alguns minutos na dianteira podem fazer a grande diferença.

O contexto é que determina o que é notícia. A notícia se redefine cada dia, junto com a atualidade. O não usual como notícia é um conceito já envelhecido e raro, pois o surpreendente é cada vez mais difícil. A maior parte do jornalismo de hoje é de notícias previamente anunciadas ou agendadas.

Ricardo Noblat Duas coisas: o interesse público e o interesse do jornalista de que aquele fato seja levado ao conhecimento do público. Não acho que os jornalistas devam oferecer ao público apenas aquilo que eles sabem que o público quer receber. Acho que devem também chamar a atenção do público para tudo que julguem socialmente relevante. Tal coisa faz parte do papel do jornalista.

Juan Gargurevich, jornalista e historiador da comunicação, com atividades nos principais jornais peruanos, inclusive no mítico jornal alternativo Marca (uma espécie de Opinião ou Movimento peruano), é o atual coordenador do Curso de Jornalismo da Pontifícia Universidade Católica do Peru.

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"Jornalistas devem também chamar a atenção do público para tudo que julguem socialmente relevante"

Juan Gargurevich

Daniel Barbará, publicitário, é diretor comercial da agência DPZ, presidente do Grupo de Mídia de São Paulo e conselheiro do Instituto Verificador de Circulação - IVC. ○

Marco Aurélio Guimarães (Jangada),jornalista há 40 anos, é coordenador de redação do Jornal do Commercio do Rio de Janeiro.

"A maior parte do jornalismo de hoje é de notícias previamente anunciadas ou agendadas"

Daniel Barbará

O interesse que tenha para o público, considerada a camada social que o jornal pretenda atingir. A melhor forma de comprovar que o interesse é determinado pelo leitor está nos jornais de hoje, que já não noticiam assaltos à mão armada, enquanto, no começo da década de 60, a prisão de um assaltante movimentava toda a imprensa, era até notícia de primeira página, assaltos a bancos nem existiam. O mesmo pode ser lembrado em função de suicídios, desastres com morte, etc.

Em primeiro lugar, sua amplitude e seu imediatismo. O imediatismo é a própria essência da notícia. Mas existem fatores que também devem ser levados em conta, como o ineditismo e a veracidade.

Erick Torrico Villanueva

Erick Torrico Villanueva, jornalista h á 16 anos, dirige o mestrado em Comunicação e Desenvolvimento da Universidade Andina Simón Bolívar.

Marco Aurélio Guimarães (Jangada)

Décio Sá

"Alguns minutos na dianteira podem fazer a grande diferença"

Potencialmente, todo fato é possível de ser convertido em notícia. Na prática, o que guia cada vez mais a seleção dos assuntos e dos ângulos que são matéria dos veículos é uma espécie de “lógica do impacto”, muito próxima do sensacional, do que comova. Nisso há a interferência de, pelo menos, quatro elementos: a intensa competição de muitos veículos (30 jornais e revistas, 104 estações de TV e umas 650 emissoras de rádio) pelo reduzido mercado; a cobertura concentrada na esfera política e econômica nacional (sobretudo de La Paz, cidade sede do governo) ou estrangeira; a tendência “espetacularizadora” da apresentação formal das notícias pelos meios impressos e radiofônicos, à semelhança do que é feito pela TV, e a ausência de análise e acompanhamento dos fatos, assim como de investigação rigorosa e confiável.

"Interesse do público mudou e assaltos à mão armada nem são mais notícia"

"O imediatismo é a própria essência da notícia"

Villas-Bôas Corrêa, jornalista há 51 anos, é repórter político do Jornal do Brasil e da TV Manchete.

"Todo fato é possível de ser convertido em notícia"

Marcelo Auler, jornalista há 26 anos, é repórter do jornal O Dia.

Carla Baptista, jornalista há sete anos nos jornais portugueses Diário de Notícias e 24 Horas, trabalha atualmente como free-lancer.

Villas-Bôas Corrêa

"Maior destaque quanto atinge muitas pessoas"

PROVA DOS NOVES

Quando o fato é do interesse do público que lê aquela publicação, desde que respeitado o direito à privacidade dos envolvidos; quando esses direitos não colidem com direitos coletivos de maior força.

Ricardo Noblat, jornalista há 32 anos, é diretor de redação do jornal Correio Braziliense e o mais novo condômino dos Diários Associados. ○


"Varia de cultura para cultura, mas a notícia deve ser sempre uma boa história"

dia-a-dia setorial, algo simples, mas que toque no senso do profissional e desperte o interesse público, deve ser notícia.

"Percepção do jornalístico se baseia na lei da oferta e da procura"

Raimundo Filho, jornalista com 30 anos de profissão, é o editor de primeira página do Diário de Pernambuco.

"A notícia não nasce do fato. Nasce do olho (e da alma) do jornalista"

Mário Mesquita

Jean-Jacques Sevilla Um fato vira notícia quando o jornalista sente que um assunto merece espaço no seu meio de comunicação. Essa percepção se baseia na lei da oferta e da procura.

A transformação de eventos em notícias envolve motivações organizacionais, ideológicas e culturais. Os critérios variam de cultura para cultura (não apenas cultura nacional ou regional, mas também cultura organizacional). Sabe-se que, na televisão, a existência de imagens é decisiva para justificar o acesso ao telejornal. Na imprensa, a imagem fotográfica também ajuda a promover o evento. A “narrativização” é essencial, em todos os meios. A notícia deve ser boa história. Esse componente “narrativo” está inscrito, de há muito, na história do jornalismo...

"Notícia tem uma razão de ser, não deve ser publicada unicamente para preencher um espaço na página"

Jean-Jacques Sevilla, jornalista com 20 anos de profissão, é correspondente no Brasil, há 15 anos, dos jornais franceses Libération e Le Monde.

Saulo Moreira

"O senso do profissional e o interesse do público pelo fato"

A condição que ele tem de atingir as pessoas, de chamar a atenção, de despertar a curiosidade, de estimular a polêmica e incentivar o debate. A notícia tem uma razão de ser, não deve ser publicada unicamente para preencher um espaço na página.

Raimundo Filho Além do convencional ou do especial, das reuniões de pauta e dos destaques do

Sebastião Nery Todo fato é notícia: uma bomba bêbada da Otan ou o pulo de um grilo. Todo ser é notícia. O presidente dos Estados Unidos ou um refugiado de Kosovo. A notícia não nasce do fato. Nasce do olho (e da alma) do jornalista. Sebastião Nery, jornalista há 47 anos, faz colunismo político para jornais de 16 estados brasileiros.

"Que o fato interesse a muita gente"

Mário Mesquita, jornalista há 28 anos, ajudou a criar o primeiro curso de jornalismo em Portugal e foi também o primeiro ombudsman de imprensa no país. Foi diretor do Diário de Notícias e do Diário de Lisboa e, atualmente, é colunista semanal do diário O Público, de Lisboa.

Saulo Moreira, jornalista há 2 anos, é repórter do Diário de Pernambuco.

Sandra Ney Que o fato interesse a muita gente. Sandra Ney, jornalista há 25 anos, é chefe de reportagem da TVE-RJ.

Reportagem: M. Cristina Martins Fotos: Rafael Porto

O POVO FALA O que você acha que vale a pena ser divulgado no jornal, no rádio e na TV?

Sílvio de Almeida 43 anos, militar

“De uma forma geral, o momento político.”

Nilson dos Santos Gomes 19 anos, auxiliar de escritório Elizabeth Laureano Lima 47 anos, dona-de-casa

“Uma ajuda para nossa juventude de hoje, porque estão precisando mesmo de um incentivo, devido a haver vários tipos de jovens se entregando ao vício, às drogas; precisam de um incentivo melhor, para poderem pensar melhor no futuro, no caso, a educação.”

“O que acontece no dia-a-dia, coisas graves, o que está acontecendo no país. Informações sobre o salário, informações para o povo, para ajudar o povo, sobre educação, saúde.”

Luciano Cardoso 26 anos, aeroviário

“O escândalo da CPI dos bancos, por exemplo. Agora eu não consigo pensar em outra coisa.”

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Fernando Rodrigues 38 anos, agente de viagens

“Informação de todo tipo, economia, esporte, lazer.”

Jornal da ABI


O parlamento discute projetos de lei de imprensa, com a participação de políticos vinculados, de uma forma ou outra, à profissão. É clara a divisão entre os jornalistas, especialmente no aspecto da

garantia efetiva do direito de resposta, que para muitos justifica a criação de uma lei de imprensa. Mas existem pontos de concordância: sem ampla liberdade não há democracia e o direito de resposta é essencial.

CONSTITUIÇÃO JÁ GARANTE DIREITO DE DEFESA José Sarney O inciso V do Art. 5º da Constituição assegura “o direito de resposta, proporcional ao agravo, além da indenização por dano material, moral ou à imagem”. Não se justifica, portanto, votar uma lei de imprensa para assegurar um direito que já foi garantido pela Constituição. Também não creio que seja necessário votar uma lei específica para reprimir os chamados crimes de imprensa, ou seja, injúria, calúnia e difamação. Esses crimes já estão previstos no Código Penal. Qualquer cidadão que se considerar injuriado, caluniado ou difamado, poderá processar o agressor nos termos do Código Penal, que está em pleno vigor. Quando ocupei a Presidência da República, semeei o exemplo de respeitar, até o limite dos exageros, a liberdade de imprensa, do rádio e da televisão, porque entendo que a prática da liberdade corrige os excessos. Não apenas nos veículos de

comunicação, mas em todo o processo de circulação de informações da sociedade. Como veterano jornalista, sempre defendi a liberdade de imprensa. Como político, continuei com o mesmo entendimento do jornalista. Por isso mesmo, nunca usei do direito legal de medidas judiciárias. A Presidência tem um poder que não pode ser usado como força inibidora da crítica, nem para intimidar, promover a auto-censura, policiar consciências, discriminar veículos. Sempre acreditei na profunda lição que encerra a famosa frase de Washington: “A liberdade, quando começa a criar raízes, é uma planta de crescimento rápido”. Quando presidente da República, semeei a conciliação e a tolerância política na busca da mais ampla convivência democrática. Ciente dos desafios do processo de transição do autoritarismo para a democracia, que nos cabia conduzir, contivemos os poderes da Presidência para que maiores fossem os poderes do povo. Foi assim que a sociedade libertou-se

"Quando presidente, preferi ser injustiçado a cometer injustiças. Silenciar a fazer silenciar"

do medo para exercitar seu direito de opinião e de crença. Entendo que, sem liberdade de imprensa, não há democracia. Ela é a mãe de todas as liberdades. A liberdade de imprensa é criativa e constitui o ponto fundamental através do qual aparecem ou se manifestam as demais formas de liberdade. Acho que não se deve estabelecer qualquer tipo de restrição à liberdade de imprensa. Quando presidente, preferi ser injustiçado a cometer injustiças. Silenciar a fazer silenciar. E hoje eu me orgulho de ter contribuído, através do meu comportamento pessoal, para que o país reencontrasse na paz o caminho da reconciliação de uma sociedade dividida pelo ódio, pelo ressentimento, pela amargura e pela prepotência. José Sarney, ex-presidente e atual senador da República, é jornalista desde 1947 – seu primeiro cargo eletivo foi em 56 – e fundou o jornal Estado do Maranhão.

BASTA REVOGAR LEI ATUAL, QUE É EXCRESCÊNCIA e com o vezo de certas reportagens de tomar o indício como sintoma; o sintoma como fato; o fato como julgamento; o julgamento como condenação e a condenação como linchamento. Sinceramente não concordo e, embora o acima exposto felizmente não configure a maioria das matérias jornalísticas, sem dúvida, tem causado males irreparáveis, tanto à privacidade como à reputação de algumas pessoas. Por isso rejeito a idéia de uma lei de imprensa. Para os deslizes e os crimes eventualmente cometidos pela imprensa, os remédios já existem no Código Penal, ao cominar penas para os crimes de infâmia, calúnia e difamação. Aqui, cada caso é um caso e deve ficar ao arbítrio do juiz segundo a pe-

Artur da Távola Uma nova lei de imprensa só se justifica se tiver um único artigo, revogando a lei anterior que ainda está em vigor, e é uma excrescência. Nada mais. Não vejo necessidade de uma lei de imprensa pelas seguintes razões: 1) Não funciona. 2) O fenômeno é amplo demais para ser codificado em lei. Hoje, o que é imprensa? 3) É caminho para a censura. Isso não significa concordar com grande parte dos rumos atuais de setores da imprensa, principalmente no que tange ao uso da notícia como espetáculo em vez de notícia como informação. Tampouco concordo com certas invasões de privacidade

"Para os deslizes da imprensa, os remédios já existem no Código Penal" culiaridade, jamais a uma lei com generalidades. Lei de imprensa começa com boas intenções e acaba na censura política. Este filme, já vimos. E não teve final feliz. Paulo Alberto Artur da Távola, 42 anos de jornalismo, é senador da República (PSDB-RJ).

UMA LEI PARA PROTEGER OS INTERESSES DO POVO Esta concepção positivista da notícia não consegue se sustentar, quando vemos o mundo à nossa volta e como a grande imprensa, ao interpretar os fatos, constrói verdades que favorecem a determinados interesses. A tese de Althusser dos “aparelhos ideológicos de estado” mantém todo seu vigor, principalmente, quando lembramos do papel que a imprensa, de uma forma geral,

Milton Temer Esta questão deve ser inserida num contexto de reflexão maior. Vivemos numa sociedade organizada e dividida em classes. As instituições sociais e relações sociais são norteadas por ideologias e interesses de classe. Feita esta primeira ressalva, acredito que não exista uma imprensa que paire acima desses interesses. ○

PROVA DOS NOVES

afirmações, esteja desconsiderando algumas iniciativas e fissuras que podem acontecer. Que não existam jornalistas fazendo ou se preocupando em fazer um jornalismo investigativo. Mas tais iniciativas não ameaçam a hegemonia que as elites conseguem impor na grande imprensa, elite associada aos interesses dos agiotas internacionais, dos latifundiários e dos grandes capitalistas, e que têm no governo FHC a expressão

cumpre na reprodução de uma ordem social baseada na desigualdade, na exclusão e na sustentação das oligarquias. Por exemplo, O Estado do Maranhão. Este jornal, o maior do estado do Maranhão, não é nada mais que o órgão oficial da oligarquia Sarney. Na Bahia, ai de quem se opuser aos interesses de ACM. Uma cadeia de repetidoras da TV Globo lhe cai na cabeça. É importante destacar que, ao fazer tais

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política dos interesses econômicos desses segmentos. Tal hegemonia é tão assustadora que parece vivermos num país sem conflito e concepções de mundo divergentes. A imprensa constrói e sustenta a ficção do consenso social, do pensamento único, tão fundamental para os interesses do neoliberalismo. Entendo, portanto, que se a lei de imprensa (e o direito de resposta aí está incluído) vier no sentido de a transformar

em instrumento que possibilite, ao menos em tese, aos trabalhadores terem maior capacidade de interferir na produção e interpretação da notícia, ela é boa para a sociedade e deve ser defendida. Mas é difícil imaginarmos que isso venha a suceder, nos termos da representatividade do atual Congresso Nacional.

"A hegemonia que as elites conseguem impor é tão grande que parece vivermos num país sem conflito e concepções de mundo divergentes"

Milton Temer, deputado federal (PTRJ), é jornalista profissional desde 1966.

CONFLITO SOCIAL NÃO ACABA A GOLPES DE LEI fizeram as codificações posteriores (a Lei 5.250/67 é bom exemplo), a construção do temor e do risco necessário para os trabalhos com a informação. As leis especiais sobre imprensa, apesar de acenarem com equilíbrio entre defesa de direitos e limitações exigíveis, terminam sempre no mutilar a liberdade de expressão, a aventura do pensamento. Outra reflexão será sobre a impossibilidade de se realizar a qualidade e a autenticidade da informação mediante uma lei especial de imprensa. Virá dela – por mais que se afaste do autoritarismo - o acesso à informação e a efetividade recompensadora (direito de resposta, por exemplo) quando o divulgado afeta direito alheio? Existe, na prática, a correlação entre a maior eficácia do direito de resposta (que seria garantido pela lei especial de imprensa) e a menor alternativa de práticas lesivas e, conseqüentemente, menores penalizações para jornalistas? Ora, os conflitos sociais não se resolvem a golpes de leis. O fato é que a linguagem prejudica mais (Roland Barthes ajudou muito a esclarecer este ponto) pelo que cala do que pelo que enuncia. Que tipo de lei poderá regular, por exemplo, o poder especulativo propiciado por um sistema econômico não escolhido, coincidentemente, pelo povo? Essas questões foram levantadas no debate promovido pela ABI e IAB em 1998, sob presidência de Barbosa Lima Sobrinho. Um dado desconcertante: a linguagem não é o pensamento. E a linguagem faz essa separação. Ou como observou Barthes, o pensamento se revela mais pelas palavras evitadas do que pelas palavras empregadas. Qual lei, por mais específica que pudesse

João Luiz Duboc Pinaud Sabemos que os meios de comunicação “criam” necessidades para as pessoas enquanto “excluem” as possibilidades concretas de se conhecer o socialmente necessário. E liberdade, na compreensão marxista, é conhecimento da própria necessidade. Partindo dessa reflexão podemos emprestar sentido ao observado pelo escritor Karl Kraus: “a missão da imprensa é espalhar o espírito e, ao mesmo tempo, impedir a capacidade de absorvêlo”. O debate em torno do cabimento ou não de uma lei especial para controlar a comunicação, afirmando ou negando a possibilidade de lei ordinária resolver problemas específicos, envolve esta e outras questões. Afinal, lei especial – autoritária ou não – serve para coibir a liberdade de expressão e proteger cidadãos, regular equilibradamente tais conflitos ou apenas censurar, sem efetivamente proteger direito algum? Uma exaustiva pesquisa histórica ajudaria a esclarecer. De fato nascemos medievais e, por isso, aceitamos bem a censura e os limites que o poder hegemônico, para manter-se como poder (assentimento popular), sempre coloca. O Ratio Studiorum – estatuto jesuítico para o exercício do conhecimento e do ensino impedindo, entre outras coisas, a livre pesquisa e a crítica, garrote no conhecimento dos fatos e sua difusão, demarcava, previamente, o que se poderia conhecer e difundir. O Index Librorum Prohibitorum – elenco dos textos que poderiam ser lidos pelas pessoas autorizadas – completou a censura necessária à dominação. Definia-se, como

ser, mergulharia nesse intervalo do não dito, do não articulado, nem sugerido, ou seja, do silenciado? E, não alcançando tais dimensões, ela somente serviria para alcançar os autores do que foi comunicado? Não se trata de postular a liberdade plena para os empresários da comunicação, como

e penais para os comunicadores que ferem direitos alheios, ou excluindo-os da responsabilidade. Nessa linha, o comunicador responde pelos seus atos como qualquer outro sujeito de direito, sem ter sob sua atividade (que é necessariamente investigativa, reflexiva, crítica e

"Sentenças atribuem conseqüências civis e penais para os comunicadores que ferem direitos alheios" fez, como responsável pelo Tribunal Eleitoral durante a disputa eleitoral (Collor/ Lula), o então Juiz Rezek: o controle fica ao prudente arbítrio do comunicador. Por outro lado, qual a eficiência de leis especiais em relação ao ocultamento das realidades sociais? Como controlar as distorções e interdições em relação aos fatos que deveriam – ou não – ser divulgados? Como impedir, mediante leis específicas, a falsificação das opções políticas? É justamente tal espaço da mídia que ficará inteiramente fora do alcance de qualquer regulação formal. Embora seja, socialmente, o próprio espaço da nocividade. Advogar vigência de lei de imprensa é recolocar em pauta a remota e atualíssima colocação platônica sobre a rede legal, que prende pequenos peixes mas é rompida pelos grandes e fortes. As práticas judiciais mostram inúmeras sentenças atribuindo conseqüências civis

desmitificadora) a espada da punição especial, ou seja, lei de imprensa que melhor serve ao poder de amordaçar e intimidar para melhor manter suas pautas de opressão, seja ela através da violência que se assume como tal (como no caso das ditaduras) ou que é sofisticadamente exercida, com arrogância, sorrisos e distâncias (como no atual governo neoliberal), garantida pelo silêncio murado que logra manter. João Luiz Duboc Pinaud, advogado, é professor de Direito Constitucional e presidente do Instituto dos Advogados Brasileiros - IAB.

POR DENTRO DAS NOVE ge de acontecer. Tem havido uma grande evolução nessa área, mas as próprias pessoas que lidam com a imprensa ainda têm que se preparar melhor para esse tratamento e, quando passar o medo de falar com a imprensa, acredito que na mesma época estará sendo equilibrada a relação e, portanto, a necessidade de uma lei de imprensa.

"Resposta com mesmo destaque da notícia" Daniel Barbará O termo direito de resposta não expressa na verdade a situação que é pretendida por aqueles que o pleiteiam. Na verdade, na minha opinião, a resposta, quando baseada em fatos reais, deveria ter não o direito de resposta, mas o destaque em que a notícia foi veiculada, fato este que está lon-

Laurindo Ferreira O direito de resposta deve ser uma garantia do cidadão. Filosoficamente, os jornais são feitos para os cidadãos, para estimular a cidadania com o direito à informação. Mas os cidadãos ficam sempre muito pequenos diante da mídia, principalmente quando ousam questioná-

Daniel Barbará, publicitário, é diretor comercial da agência DPZ, presidente do Grupo de Mídia de São Paulo e conselheiro do Instituto Verificador de Circulação - IVC. ○

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la por razões diversas. É evidente que o pouco caso que a imprensa faz do direito de resposta tem sido usado como um dos principais motivos pelos quais se defende uma lei de imprensa. Sob esse aspecto, seria até justificável. O importante é que, aqui, não se substitua um casuísmo por outro igual ou pior. A meu ver, a Constituição oferece regras básicas que dispensariam uma lei específica de imprensa.

"Lei pode garantir direito do cidadão"

Laurindo Ferreira, jornalista há 8 anos, é chefe-geral de reportagem do Jornal do Commercio, do Recife. ○

Jornal da ABI


lançada por O Globo em abril, o jornal publicou uma foto-flagrante: um cachorro, conduzido pelo dono, fazia cocô na calçada. Estava ali um fato ilegal, registrado no ato. Agora, o dono do cachorro ameaça entrar na justiça contra o jornal por “uso indevido de imagem”. Parece piada, mas é o que está acontecendo.

"Nada justifica uma lei de imprensa" Villas-Bôas Corrêa Nada justifica uma lei de imprensa, cacoete da ditadura. Como não há lei para a medicina, para a engenharia, para nenhuma profissão. A lei é uma para todos. O resto é conversa de quem suspira de saudades da “Redentora”.

O jornalista, como qualquer cidadão, deveria plena e simplesmente responder pelas afirmações que faz. Aliás, regra única, deveria valer para todo e qualquer cidadão, fosse ele presidente da República ou lixeiro, profissional que, de resto, é o mais importante na urbe, pois sem ele a vida não resiste ao acúmulo de lixo. Lei especial para a imprensa fede a privilégio, da mesma forma que foro especial para parlamentares, juízes, militares, etc. Justiça não admite adjetivação.

Por falta de tempo, não tenho acompanhado muito a discussão sobre a lei de imprensa. Mas acho que está havendo exageros. É necessário que se estabeleçam regras de conduta baseadas na ética e no bom senso. Mas estão tentando aprisionar o jornalista numa camisa de força. Cito um exemplo recente. Na primeira de uma série de reportagens sobre a “cultura da bandalha”, campanha

Acho que sim. Se é um direito, deve estar regulamentado. Porque há sempre quem se lembre de ofender os direitos dos outros. Carla Baptista, jornalista há sete anos nos jornais portugueses Diário de Notícias e 24 Horas, trabalha atualmente como free-lancer.

"Que sejam ouvidas as duas partes"

"Muitos abusos em nome da liberdade"

Vladimir Reznichenko

Saulo Moreira

Na minha opinião, o direito da resposta é próprio e natural de cada cidadão. A verdade divina é única e absoluta, mas as verdades humanas têm, como moedas, as duas caras. Portanto, a regra postulada pelo velho Sêneca mantém-se inquebrantável Audiatur et altera pars (que sejam ouvidas as duas partes) – o que diz respeito também à crise nos Balcãs, com o que comecei a responder a primeira pergunta. Desculpem a insistência, mas no momento em que escrevo essas linhas é a minha maior preocupação pública e dor íntima.

É preciso realmente que haja uma legislação que regulamente a profissão, afinal, muitos abusos já foram cometidos em nome da liberdade de expressão. Acho, entretanto, que o direito de resposta é apenas uma parte da discussão. O que justifica uma lei de imprensa é a necessidade de se evitar injustiças. A lei deve existir para garantir o direito do cidadão de uma maneira geral, não apenas para garantir o direito de resposta. O direito de resposta deve existir independente de uma legislação específica que regulamente a atividade.

Mario de Moraes, primeiro Prêmio Esso de Reportagem no Brasil, em 1955, é jornalista desde os 16 anos e continua, ainda hoje, aos 74 anos, fazendo reportagens e entrevistas para jornais e revistas. ○

Carla Baptista

Eric Brücher Camara, jornalista há 4 anos, é repórter do jornal O Globo.

Embora seja contrário a toda e qualquer censura – fui vítima dela, nas ditaduras de Getúlio e militares –, acho que devia haver um código de ética para conter os jornalistas irresponsáveis. Lembrar que qualquer crime de imprensa está previsto no Código Penal não é um bom argumento, pois são raríssimos os casos de jornalistas que foram parar atrás das grades por causa disso. Os irresponsáveis, por exemplo, que divulgaram que a esposa do compositor Wellington Camargo estava envolvida no seqüestro do marido, mereciam um corretivo. E nós sabemos que isso não acontecerá.

Luiz Carlos Cascon

Em um mundo perfeito, o código de ética seria suficiente para garantir retratações dos meios de comunicação em caso de erros. Infelizmente, a realidade mostra que bons valores não são suficientes para coibir os abusos, até porque as noções de ética variam entre extremos. A comparação entre o programa do Ratinho e um diário como O Globo ou a Folha de S.Paulo ilustra perfeitamente essas diferenças.

Mario de Moraes

"Estão tentando aprisionar o jornalista"

"Há sempre quem se lembre de ofender direitos dos outros"

Eric Brücher Camara

"Código Penal não é bom argumento: qual jornalista já foi preso?"

Marcelo Auler, jornalista há 26 anos, é repórter do jornal O Dia.

Tarcísio Holanda, jornalista há 47 anos, foi repórter e redator no Rio de Janeiro até se transferir, em 1975, para Brasília, onde passou a trabalhar na cobertura política, especialmente como comentarista político da TVE-RJ. Atualmente faz entrevistas na TV Câmara.

"Bons valores não estão sendo suficientes"

Marco Aurélio Guimarães (Jangada), jornalista há 40 anos, é coordenador de redação do Jornal do Commercio do Rio de Janeiro.

Não sei se é necessária uma lei específica. Mas acho que, por conta da pouca prática das empresas jornalísticas aceitarem os erros que acontecem, intencionalmente ou não, acho que em algum tipo de legislação deve estar garantido o direito de resposta. O que não pode haver, em contrapartida, é a “indústria da indenização”, que vejo como a nova forma de se tentar exercer a censura.

PROVA DOS NOVES

Talita Figueiredo, com 22 anos, formada em jornalismo pela Faculdade de Comunicação Social da UERJ, em dezembro de 1998, é repórter do jornal O Dia.

Marco Aurélio Guimarães (Jangada)

Marcelo Auler

A Constituição brasileira garante o direito de resposta a qualquer cidadão (inciso V, artigo 5º). Essa paranóia por uma lei de imprensa é injustificável. Uma lei de imprensa não vai melhorar a imagem pública do Congresso, do Judiciário e de outras instituições, mas, sim, o desempenho delas e o comportamento moral de cada um de seus integrantes. Já existe o Código Penal, que oferece ao caluniado o direito de recorrer à justiça para reparação de direito ferido.

Medo de censura talvez seja o motivo da resistência da maioria dos jornalistas, o que é compreendido historicamente. Um código de ética, através de uma lei, pode controlar e punir o mau profissional (existente em todas as profissões). O direito de resposta deve ser respeitado, mas as multas abusivas no novo projeto, entretanto, precisam ser revistas, já que podem prejudicar e até mesmo inviabilizar o trabalho do jornalista.

"Lei especial para a imprensa fede a privilégio"

"Pela prática é melhor ter lei para garantir direito de defesa"

Tarcísio Holanda

Talita Figueiredo

Luiz Carlos Cascon, jornalista há 25 anos, é subchefe de reportagem e líder da equipe de polícia e justiça da editoria Rio do jornal O Globo.

Villas-Bôas Corrêa, jornalista há 51 anos, é repórter político do Jornal do Brasil e da TV Manchete.

"Paranóia por uma lei de imprensa é injustificável"

"Proponho um código de ética, através de uma lei específica"

Vladimir Reznichenko, jornalista e tradutor de Camões e Bocage para a língua russa, é chefe de representação da agência noticiosa Novosti no Brasil.

Saulo Moreira, jornalista há 2 anos, é repórter do Diário de Pernambuco

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comandado por elites desalmadas, discricionárias, autoritárias, totalitárias (cito a definição da professora Marilena Chauí, em recente “Roda Viva” da TV Cultura), não se pode deixar 160 milhões dependendo da boa vontade e da “consciência moral” dos donos dos veículos. Acaba ficando o direito de resposta só para presidente da República, diretor do Banco Central (ou para seqüestrador).

"Em Portugal, direito de resposta está na lei" Mário Mesquita Presumo que a pergunta se refere ao contextobrasileiro,quenãoconheçosuficientemente bem para responder. No caso português, o “direito de resposta” está consignado na Lei de Imprensa,quenãoselimitaaregulamentaresse aspecto, mas também muitos outros relacionados com a empresa jornalística, a participação dos profissionais e a responsabilidade das empresas e dos jornalistas. O direito de resposta pode ser uma justificação, entre outras, para a adoção de uma lei de imprensa, mas não creio que possa existir uma resposta universal para este tipo de questão, abstraindo do contexto histórico, social, político e cultural do país.

atividades nos principais jornais peruanos, inclusive no mítico jornal alternativo Marca (uma espécie de Opinião ou Movimento peruano), é o atual coordenador do Curso de Jornalismo da Pontifícia Universidade Católica do Peru.

Erick Torrico Villanueva, jornalista há 16 anos, dirige o mestrado em Comunicação e Desenvolvimento da Universidade Andina Simón Bolívar.

"Direito de resposta nem sempre é respeitado no Brasil"

"Na Bolívia, condicionado à boa vontade do jornalista"

Sebastião Nery, jornalista há 47 anos, faz colunismo político para jornais de 16 estados brasileiros.

Erick Torrico Villanueva No caso boliviano se conta com uma Lei de Imprensa (1925) que tipifica três tipos de delitos: contra a Constituição, contra a sociedade e contra a pessoa. Além disso temos um Estatuto Orgânico do Jornalista (1984), que exige equanimidade no desempenho profissional. Somente o código de ética da Federación de Trabajadores de la Prensa de Bolivia(1991) recomenda ao jornalista retificar “espontânea e voluntariamente as informações inexatas ou errôneas” e “conceder” o direito de resposta a “toda pessoa ou instituição que solicite”. Com se vê, a possibilidade de direito de resposta está sujeita à boa vontade do jornalista mas, seguramente, mais que à dele, à do empresário – e isso deveria ser formalmente estabelecido nas garantias gerais do cidadão.

"Exemplo do Peru: auto-regulamentação empresarial não funciona"

Mário Mesquita, jornalista há 28 anos, ajudou a criar o primeiro curso de jornalismo em Portugal e foi também o primeiro ombudsman de imprensa no país. Foi diretor do Diário de Notícias e do Diário de Lisboa e, atualmente, é colunista semanal do diário O Público, de Lisboa.

Juan Gargurevich Sou partidário de impor o direito de resposta, porque nossa experiência é de que a auto-regulamentação empresarial não funciona. Se os donos e editores atendessem às queixas com normalidade, não faria falta uma lei. Mas esse não é o caso no Peru.

"Lei necessária no país comandado por elites" Sebastião Nery

Juan Gargurevich, jornalista e historiador da comunicação, com

No Brasil, justifica. Neste país

Raimundo Filho Num país de contradições, de interesses os mais diversos e de preconceitos vários, como o Brasil, o direito de resposta nem sempre é respeitado. O de defesa então... É assunto para muito aprimoramento de cidadania. Raimundo Filho, jornalista com 30 anos de profissão, é o editor de primeira página do Diário de Pernambuco.

ANUNCIO 1/2

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Jornal da ABI


to de resposta não basta para coibir a má-fé.

"Arrogância da imprensa justifica lei"

"Temo por lei vinda dos nossos parlamentares"

Jean-Jacques Sevilla, jornalista com 20 anos de profissão, é correspondente no Brasil, há 15 anos, dos jornais franceses Libération e Le Monde.

Ricardo Noblat Osmeiosdecomunicaçãodeveriamsesentir naturalmente obrigados a abrir espaço para que pessoas ou instituições possam se defender de críticas ou expor suas opiniões em relação a temas. Infelizmente, isso não ocorre de forma desejável. Nós, jornalistas, somos arrogantes, nos julgamos donos da verdade e, na maioria das vezes, só admitimos o erro quando obrigados a isso. É legítimo que a sociedade busqueformasdeexerceralgumtipodecontrole sobre a imprensa. O que não se pode é restringir a liberdade da imprensa. Isso se viraria contra os interesses da própria sociedade.

Décio Sá

Carlos Magno Araújo, jornalista há 9 anos, é chefe de redação do Diário de Natal/O Poti, de Natal, Rio Grande do Norte.

Leis neste país estão aí aos montes e nem por isso se vê que elas estejam sendo cumpridas. O direito de resposta deve ser um compromisso de cada profissional e das empresas. Não deixa de ser temeroso os nossos parlamentares estarem querendo aprovar uma lei de imprensa. O melhor seria se esses casos fossem resolvidos pela justiça comum. Nos próprios órgãos poderia haver algum meio para que os ofendidos não tivessem de recorrer à justiça para obter o direito de resposta. Aí vai depender da consciência dos profissionais e dos donos dos veículos.

"Não entendo a falta de ombudsmans" HaroldEmert Eu não acredito em uma lei de imprensa, mas acredito que a imprensa brasileira deveriater diretrizes para manter as coisas “no caminho certo”. AFolha de S. Paulocom sua coluna semanal de ombudsman está,emminha opinião, muito à frente nessa questão. Por que os outros jornais brasileiros não seguem o exemplo deste jornal (O Globo tem seu próprio ombudsman)? Eu não entendo.

Ricardo Noblat, jornalista há 32 anos, é diretor de redação do jornal Correio Braziliense e o mais novo condômino dos Diários Associados.

reportagem em que está envolvido. Quando isso acontece, o jornal deve ter a obrigação de dar-lhe voz, mesmo que ele não ingresse com um pedido de resposta.

"Pelo exemplo da Argentina, é difícil sem existir a lei" Jorge Luis Bernetti Questão difícil, resposta ainda mais difícil. Se somente os donos dos veículos fossem fechados e sectários e os titulares do poder público e da sociedade, pluralistas e democráticos, uma lei equilibraria a situação. Mas na Argentina - e temo que na América Latina e em tantas outras partes do mundo - é possível crer que um governo tirânico ou hegemonista e uma sociedade com tendências totalitárias possam impor à imprensa crítica um fim de suas páginas. Seria preferível a vigência de um costume enraizado, com força de lei, que permitisse ao público conhecer todos os elementos e dados para analisar uma situação.

Décio Sá, com 5 anos de jornalismo, é editor especial de O Imparcial (MA).

Harold Emert, jornalista americano, com 30 anos de profissão, está há 25 anos no Brasil e trabalha como correspondente dos jornais DailyExpress,ExpressonSundayeDailyStar.

"Garantir resposta é obrigação dos veículos, "É preciso fazer cumprir sem necessidade de lei" o que a lei já garante"

"Já temos leis demais que não funcionam" Fábio Grijó

Carlos Magno Araújo

Existe um código de ética que deve ser levado em consideração sempre. Esse código pode - e deve - ser aplicado no diaa-dia dos jornalistas. Ter ética no cotidiano da profissão implica o direito de resposta quando o entrevistado não concordar com o que lhe foi imputado. É o que se fala nas redações: ouvir o outro lado. O acusado, por estar na condição de suspeito, merece o direito de se defender. A imprensa não deve julgar, deve contar os fatos. Julgar é tarefa da justiça, não da imprensa. Quando a imprensa resolve julgar, erra, na maior parte das vezes (vide o caso da Escola Base, em São Paulo). Não concordo que seja necessária uma lei específica para a imprensa. O Brasil está cheio de leis e muitas não funcionam na plenitude. A lei de imprensa poderia cair nesse erro - e, além disso, existem regras legislando a profissão.

Sandra Ney

O jornalista, no exercício diário de sua profissão, deve cercar-se de todas as condições para ouvir todos os lados de uma matéria, de modo que todos os envolvidos opinem e comentem. Um lado prejudicado não pode sofrer o ônus da acusação sem ter o direito de participar da

As leis de imprensa dão conta perfeitamente dos casos de direito de resposta. Elas precisam é ser cumpridas. Sandra Ney, jornalista há 25 anos, é chefe de reportagem da TVE-RJ.

Jorge Luis Bernetti, jornalista durante 28 anos, passou a se dedicar ao ensino da comunicação e hoje é professor titular de jornalismo na Universidade Nacional de La Plata e na Universidade de Buenos Aires.

Reportagem: M. Cristina Martins Fotos: Rafael Porto

O POVO FALA As pessoas que são atacadas pela imprensa conseguem se defender ou a imprensa é muito poderosa?

Fábio Grijó,jornalistahá2anos,é repórter da editoria de esportes do Jornal do Brasil.

"Direito de resposta não coibe a má-fé"

Cristina Melo 46 anos, advogada

Patrícia Moreira 29 anos, analista de marketing

“Acho que não, porque o poder da imprensa é sempre muito maior do que uma pessoa sozinha”.

“Acredito que sim, acho que ela pode voltar à imprensa, recorrer e se justificar, dizer que a imprensa abusou de algum fato que não seja real.”

Jean-Jacques Sevilla Como quarto poder, a imprensa desempenha um papel fundamental na sociedade de hoje. A liberdade de criticar e de denunciar constitui, por certo, um dos pilares da democracia. Mas, infelizmente, o exercício abusivo desse direito fere, às vezes, os princípios éticos básicos. Lembro-me a esse respeito do “linchamento” ao qual foi submetido pela imprensa brasileira o ex-ministro da saúde do governo Collor, AlceniGuerra, impotente diante da campanha de falsas acusações orquestrada contra ele. O direi○

PROVA DOS NOVES

Honório Teixeira 98 anos, enfermeiro militar

“Conseguem, por que não? A imprensa não é só para condenar, ela também alivia. A prova está aí, as grandes figuras estão sendo aliviadas. Até agora você ainda não viu nenhum deles responder por aquilo que fizeram e estão fazendo.

Luís Ferreira 61 anos, contabilista

“Se a pessoa tem poder, sim; se não tiver poder vai ser atacada a vida toda e não vai conseguir se defender.”

71 ○

Vidalmir Melo da Silva 29 anos, comerciante

“Não, por causa da força da imprensa, por causa da mídia.”


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ÓRGÃO OFICIAL DA ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE IMPRENSA EDIÇÃO

ESPECIAL

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ANO

5

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NÚMERO

5

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1999

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JORNAIS (Classif. ECT - DR/RJ)

A ABI, que sempre lutou em defesa da liberdade de imprensa e dos direitos humanos, entra na rede mundial de comunicação com um ousado projeto de participação popular. No endereço www.abi.org.br, o povo vai encontrar um espaço para fiscalizar criticamente a atuação dos veículos de comunicação e praticar a defesa dos valores democráticos. Canal liberdade: um fórum de debates para a defesa permanente da liberdade de imprensa e direitos humanos, com espaço de acolhimento de denúncias. Tribuna livre: um jornal virtual onde qualquer cidadão pode emitir opiniões e colocar artigos com sugestões e críticas à atuação de veículos e profissionais, com a garantia de que todos os lados serão ouvidos. Papo em pauta: um chat para conversas com comunicadores. Jornalistas na berlinda: usuários encaminham perguntas para serem respondidas pelos jornalistas escolhidos. Links e notícias: acesso direto aos sites de

todos os veículos de comunicação do Brasil e do mundo e notícias atualizadas diariamente sobre comunicação. Bolsa de Empregos: espaço gratuito de oferta e procura de trabalho, divulgando ainda concursos de seleção de estagiários e de professores na área de comunicação. Linha direta: contato da ABI com os sócios, possibilitando acesso a serviços. História viva: a história da ABI e da imprensa, inclusive o Projeto Memória do Jornalismo Brasileiro. Biblioteca virtual: consultas ao acervo especializado em comunicação. Galeria da imagem: exposição com as melhores imagens dos repórteres fotográficos, cartunistas e artistas gráficos brasileiros. Contato total: na sede da entidade, 12 pontos de acesso, inclusive um somente para os sócios, integrados em rede e ligados 24 horas na rede mundial de comunicação.

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Jornal da ABI

Jornal da ABI - Prova dos 9  

Órgão Oficial da Associação Brasileira de Imprensa Edição Especial de Aniversário - Ano 5 - Número 5 - 1999

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