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MORFEMA | CASAS DO POVO

MORFEMA

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revista de ensaios sobre o espaço

CASAS DO POVO

Casa há muitas, povos também. Talvez existam tantas casas quanto povos, ou tantos povos quanto casas. Talvez existam casas que contém demasiados povos, povos que habitem casas a menos. Entre uns e outros não sabemos qual a balança que define os equilíbrios. Muito menos o porquê da relação entre casas e povos: se a primeira é pele, caverna, devir ou conforto do segundo, ou apenas coisa, que se usa e gasta, deixa-se ruir, fazse outra. Qual a relação entre estes elementos, não partimos de certezas, a não ser a de que existem relações, juntas num molho, forte de imanências. Começamos por desatar o molho. Acção de dispersão, cada pau contar-nos-á da sua história. Dos povos, pessoas, comunidades, grupos, sociedades, nações, deuses. Riscos na terra, plantas, fachadas, movimentos, aglomerados, monumentos, cidades ou viadutos e autoestradas. Entre uns e outros, como o trapezista, se revelará fio que surge de um universo de intimidades tensionadas, entre carne e pedra, entre credo e planta. Deste universo vamos tirar as linhas com que atar o molho de novo, entre casas e povos, povos e casas. 1


MORFEMA Casas do Povo

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Uma Caminhada Pela Ravina Luís Gomes

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Cantagallo, uma Ilha Urbana Paulo Afonso

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O Melhor Lugar: evolução da hierarquização social nos cineamas Joana Alves

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Diversidade à Prova de Crise: o projecto de arquitectura como alternativa Miguel Roque

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Cores Rui Aristides

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Breve História de Um Museu em Festa João Gonçalo Lopes

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Do outro lado da Janela Ricardo Ibrahim

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Centro Cívico em Milão Rui Santos


Uma Caminhada Pela Ravina Luís Gomes

“Verdadeiros gurus da mantinha, mentores da religião das pernas cansadas, do vem para fora cá dentro. Vasco da Gama e Agrimensor, por sua vez, aventuramse terra e mar fora nessa exasperada procura de um Mundo melhor, já feito e refeito pela Mãe natureza. Nutrem o pavor dessa infame raça, o Homem. Homem esse que da caverna protectora saíra, malfadado dia, em que a Mãe não mais conseguiu contelos lá dentro...” in Delirium - Caminhadas pela Ravina, Pequeno Irmão Tropidélico

Lançado este desafio de deambular sobre o tema “Casas do Povo”, a primeira conclusão retirada, após uma pequena pesquisa e reflexão, foi a de que iria abordar o tema tal como o devaneio inicial. Embora pouco inteligível para os demais, este foi retirado do pequeno “baú” de referências que possuo, fruto das experiências, das partilhas, das reflexões e das interligações criadas e recriadas. Tal como muitas vezes fazemos na criação plástica, como exercício/necessidade, criando uma imagem somente referenciada pelo que conseguimos imaginar. Sei que deveria centrar-me em questões do espaço, pois isso devo a esta publicação, embora seja bom relembrar que a arquitectura não é só matéria, é também intenção. Subjaz à mesma uma ideia de ser e estar, algumas vezes esta é simplesmente consequência disso mesmo, pois o exercício não é de fácil aproximação, mas quando bem feito/idealizado, é capaz de se revelar motriz de mudança. 4


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Posto isto, foquemo-nos agora no tema em questão. Casas do Povo, em Portugal, nascem sobretudo na década de 1930, sendo o elemento primário da organização corporativa do trabalho agrícola, durante a fase corporativista do regime do Estado Novo. Hoje em dia funcionam sobretudo como associações locais de carácter social e cultural, assumindo um papel importante, particularmente em meios de baixa densidade, periurbanos e rurais, enquanto centros de apoio a uma população cada vez mais envelhecida. Contudo, Casa do Povo tem, no meu entender, uma génese mais profunda, que abarca não só fundamentos da organização do espaço, como da estrutura social e da forma como esta evoluíu ao longo do tempo, à medida que a humanidade se foi estabelecendo neste planeta. A necessidade de protecção contra predadores é intrínseca à existência humana. Inicialmente, sobretudo pela facilidade de apropriação, as cavernas e abrigos naturais surgiram como locais privilegiados para os pequenos grupos/tribos nómadas, que se organizariam numa estrutura familiar de base ampla. Viveriam com propósitos pouco mais amplos que a sobrevivência e reprodução, ainda que nos tenham deixado vestígios de práticas culturais e artísticas, primeiros sinais de um ser que começava a expressar-se e a transmitir conhecimentos. O fogo será porventura o primeiro sítio arquitectónico, o primeiro elemento que estruturou o espaço do homem primitivo, expressão maior de protecção e calor. Era em seu torno e por sua via que o ser humano organizaria o seu espaço, necessariamente comunitário, onde todos contribuiriam para a sobrevivência do grupo, dividindo-se as tarefas essencialmente em função do género e idade. O fogo, que protege dos predadores, que aquece os corpos e cozinha os alimentos, é o mesmo que ilumina esse espaço efémero e móvel, primórdio do que se pode entender como “Casa do Povo,” centro nevrálgico da organização das pequenas comunidades que, na pré-história, paulatinamente se iriam consagrando.

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Concomitantemente com os desenvolvimentos da comunicação verbal, a maior qualidade técnica e diversidade dos utensílios ao seu dispor reflectiu-se na construção de abrigos de raiz - amplas estruturas de divisão única, que teriam em atenção os fumos libertados pela combustão. O tempo de permanência nestes abrigos temporários estaria sobretudo associado à “especialização técnica” de quem os habitava, pois era a sua eficiência nas matérias da sobrevivência, designadamente no aproveitamento dos recursos envolventes, que o determinaria.

Os grupos/tribos tenderiam a reunir-se numa estrutura ampla, numa “Casa do Povo”, porventura com mais estruturas anexas, que começariam a generalizar-se à medida que as sociedades evoluíam para uma economia agrícolapastoril de subsistência. Com essa evolução, também os abrigos/habitações passaram de efémeros a sazonais, ou seja, o nomadismo ainda característico das tribos de então começava a ser mais controlado e circunstancial. A área explorada tenderia a aumentar, necessariamente, à medida que a população da comunidade crescia, estendendo-se de zonas próximas circundantes, para áreas mais vastas, perto dos terrenos de aluvião das vazantes dos rios - terras já fertilizadas de forma natural -, bem como para zonas florestais, através da técnica da derrubada-queimada. A “Casa do Povo” seria a estrutura central de um aglomerado deste tipo, lugar onde, para além das tradicionais funções de decisão e convívio da comunidade, passou a albergar as importantes alfaias agrícolas de uso comunitário, à medida que se incorporava a força animal nos trabalhos. Este é um daqueles momentos que, não fazendo pleno jus ao paulatino desenrolar dos tempos, poderíamos assinalar como decisivo, pois a partir de então o excedente agrícola tornouse possível e mais frequente. Assim sendo, juntamente com a melhoria generalizada das técnicas agrícolas, a permanência indefinida ou por largos períodos de tempo tornou-se viável. 6


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É precisamente o excedente agrícola que começa a despoletar, aqui e acolá, permanências efectivas, com estruturas cada vez mais perenes, numa matriz de ocupação mais ou menos pensada, nalguns locais já de tipo urbano. Nasce o conceito de propriedade, da riqueza cunhada em metal e intensifica-se a especialização laboral, dando origem a uma hierarquização social e política mais profunda. A actividade comercial aumenta o ritmo da urbanidade, das trocas, dos móveis e imóveis, de ideias. Das CidadesEstado aos Reinos e Impérios, as comunidades, em maior ou menor grau e com diferentes ritmos, foram sendo submetidas à centralização das decisões e à asfixiante burocracia. Impera ainda um forte sentido comunitário e local, embora cada vez mais subjugado a uma ideia maior, a uma rede administrativa que se iria fazendo e refazendo, palimpsestos contínuos, demonstrativos dessa nossa vontade de nos conectar. O conceito de “Casa do Povo,” cada vez mais restrito e volátil, foi-se diluindo pelos inúmeros equipamentos urbanos de carácter público-administrativo que da cidade brotaram. Era nesses locais de “reunião” da comunidade, tais como os mercados, os edifícios de administração municipal, os espaços públicos de Igrejas ou outros edifícios de carácter religioso, que, entre outros, se decidiam alianças e negócios, políticas e futuros. A tribo de outrora, de organização social simples e essencialmente preocupada com a sua subsistência e sobrevivência, dava agora lugar a uma sociedade complexa, fortemente estratificada, politica e socialmente, reunida em aglomerados cada vez maiores e cada vez mais conectados entre si. Embora a noção da interdependência de esforços para o sucesso comum nunca se perca, a verdade é que a consciência disso mesmo começa a dissolver-se num renovado conceito de “eu,” o qual, ao se desprender do “corporativismo de sobrevivência” dos seus antepassados, encontra mais espaço e fulgor para se manifestar. Tal como 7


o conceito de “casa,” que surge já não só enquanto abrigo e protecção, mas também como local de retiro e conforto, local para o “eu,” embora o vejamos como “eu” alargado, dos “nossos,” da “família.” A urbanização foi-se desenvolvendo paulatinamente, com os seus altos e baixos, com distintos ritmos e conjunturas associadas, não que a ruralidade simplesmente tenha perdido necessidade ou sentido, simplesmente era nas cidades que as ideias fluíam e circulavam, que as inovações tecnológicas surgiam e daí se espalhavam. Essas mesmas que contribuiriam para o crescente desafogo e progresso civilizacional e, com isso, também para a crescente dualidade entre “colectividade” e “individualidade.” Se o progresso permitiu chegarmos a esta civilização global, fortemente interconectada e interdependente, também é verdade que é esse mesmo progresso que “libertou” tempo para o “eu” usufruir, para o ego (ísmo) se manifestar, força essa cada vez mais consciente do “bem maior pessoal” em detrimento do “bem maior colectivo,” opondo-se frequentemente ao mesmo. Hoje, apesar de vivermos crescentemente conscientes de que somos uma inteligência colectiva, que o nosso sucesso e desenvolvimento depende desse anónimo esforço conjunto, o nosso foco é, sobretudo, e desde muito cedo, no nosso sucesso, na nossa “felicidade” pessoal. Neste mundo tendencialmente liberal e tecnocrático, a vida apresentase como um conjunto de etapas, as quais nos cabe vencer e ultrapassar, amiudamente em grupo, embora mais em contexto competitivo, do que propriamente cooperativo. Paradoxalmente distantes de elos e vontades comuns, voltamo-nos para abstractos símbolos, como bandeiras e fronteiras, hinos e moedas - nacionalismos –, para afirmarmos, quando necessário, a nossa pertença a algo, ainda que na maioria das vezes nos fechemos em casulos, cada vez menos preocupados com o que à comunidade concerne. Para além de ocupados com as exigentes “etapas” a

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que estamos sujeitos, os próprios colectivos, regiões, nações e federações, não se debatem por um discurso apelativo ao esforço comum, optando, por outro lado, por se libertar de rumos e encargos. Além do mais, com o desenvolvimento das telecomunicações, nomeadamente a internet, as novas dimensões da nossa interacção põem-nos à distância de um clique de uma vasta rede de contactos espalhada pelo Mundo, com os quais temos oportunidade de partilhar ideias e informações, sendo que a mesma que nos une é também aquela que contribui muitas vezes para a nossa alienação em relação ao que mais directamente nos rodeia; que nos separa de relações físicas com o meio e com as pessoas, que homogeniza culturas perigosamente. “Casa do Povo” é para mim hoje, no sentido lato em que a assumi, manifestação pontual de colectividade, ou colectividades pontuais, momentos de cooperação, associações, fundações em prol de algo. Já não reside em espaço físico, é mais ideia ou ideias, revelações desse nosso ancestral desejo de nos envolver. Os “Optimistas Racionais” diriam que, apesar de aparentemente rumarmos em direcções opostas, mais importados com as nossas individualidades do que propriamente com o rumo do colectivo, o Mundo rebola e avança. Eu, por sua vez, creio que me poderia enquadrar em algo como “Utopista Racional,” pois se é verdade e evidente que no meio de tanta energia anulada e desperdiçada, ultrapassando inúmeros obstáculos e previsões negativistas, a humanidade progride, imaginemos se redescobríssemos aquele forte sentido comunitário do outrora, aquele conceito de “Casa do Povo” dos nossos antepassados nómadas, o sentido daquele fogo em torno do qual nos reuníamos, aquele fogo que já não sabemos recriar.

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Cantagallo uma Ilha Urbana

Paulo Afonso

Durante o último século a população urbana sofreu um aumento sem precedentes. Segundo os últimos dados da ONU, 54% da população mundial vive hoje em áreas urbanas, esperando que esse número aumente até 66% em 2050. Ou seja, a população urbana mundial é hoje de aproximadamente 3,9 mil milhões, contrastando com 746 milhões em 1950. Paralelamente, existem hoje 28 megacidades (cidades com 10 milhões de habitantes ou mais), a maior parte delas nos chamados países emergentes. Infelizmente, este boom demográfico urbano não foi acompanhado de uma planificação urbana que dote as cidades das necessárias infraestruturas e condições básicas para acomodar a nova população. Todas as fotografias apresentadas neste artigo são da autoria do seu autor.

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Em grande parte destas cidades assistimos a fenómenos como altos índices de criminalidade, pobreza, falta de saneamento básico, poluição, violência urbana e congestionamento, entre outros. Se bem que nem todos estes factores estejam diretamente ligados à planificação urbana, podemos afirmar que a qualidade do ambiente urbano pode, e deve, ser uma das chaves para resolver grande parte destes problemas. No entanto, a grande velocidade a que este fenómeno se deu tornou praticamente impossível aos governos centrais e locais, em muitos casos, conseguirem lidar com o grande crescimento demográfico e migração populacional nestes grandes centros urbanos. O resultado é de que, em grande parte dos casos, o crescimento urbano dáse de maneira espontânea e autónoma, com esse crescimento a cargo dos povoadores e não das entidades locais, através de uma simples ocupação territorial, em muitos casos em “bolsas” de vazios urbanos no interior do já existente tecido urbano; mas também através de uma expansão territorial na periferia e entorno desses tecidos. Assistimos a cidades que se reformam e crescem espontaneamente, na qual grande parte do tecido edificado é construído pelas mesmas pessoas que os habitam segundo as necessidades e poder económico das mesmas. Segundo o informe “Room for Development: Housing Markets in Latin America and the Caribbean: Summary”, publicado pelo Inter-American Development Bank (IDB) em Março de 2012, uma em cada três famílias da América Latina e do Caribe – um total de 59 milhões de pessoas – habita numa vivenda inadequada ou construída com materiais precários, e carente de serviços básicos. De acordo com os mesmos dados o Perú é o terceiro país em que esse problema tem uma maior percentagem, com 72% da população nessa situação. Estima-se que cerca de 60% das vivendas no Perú é autoconstruída, usualmente de maneira informal.

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A cidade de Lima, capital do Perú, assiste a um boom demográfico no século XX, passando de cerca de 662 000 habitantes em 1940 para impressionantes 9 160 000 em 2010.Este crescimento demográfico sem precedentes foi obviamente acompanhado por um rápido crescimento urbano, essencialmente espontâneo e não planificado, maiormente através de um tipo de ocupação territorial conhecido como barriada. Também: “entendida como a organização de povoadores carentes de vivenda que ocupam um terreno e atuam colectivamente para auto-resolver os requerimentos de habilitação urbana e vida social, enfrentando-se de esta maneira ante o Estado e outros sectores da sociedade.”1 Ou seja, grande parte da ocupação do território urbano deu-se através de invasões, umas hostis outras controladas ou mesmo propostas pelas autoridades, assistindo-se de esta maneira a um processo subvertido na formação urbana, na qual o território é ocupado antes que as infraestruturas urbanas sejam dispostas para receber essa ocupação. 1 José Matos Mar: “Perú: Estado desbordado y sociedad nacional emergente”, 2012 12


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De maneira a tentar controlar o problema e regulamentar o crescimento ordenado da cidade, os governos concederam amnistias às urbanizações informais, maiormente através da atribuição, aos moradores, dos títulos de propriedade dos terrenos ocupados, de maneira a poder dotar essas novas zonas urbanas da infraestrutura necessária, nomeadamente o acesso a saneamento básico e água, entre outros. Assim, em 1961, através da Lei nº13517, o Estado cria a primeira definição oficial de barriada e permite transformar essas zonas em “Urbanizações Populares de Interesse Social.”2 Este processo deu início à legalização municipal das barriadas, ou seja, a conversão das mesmas em distritos oficiais. No entanto, a Lei 13517 reconhece as barriadas então formadas, ao mesmo tempo que proíbe novas invasões. Mas as invasões continuam devido ao grande exôdo rural e novas invasões vão acontecendo, dando origem a uma ordem jurídica que oscila entre normas proibitivas e outras de indulto (novas leis que oferecem amnistia às invasões intercaladas com proibições de novas invasões), dando origem à cidade de Lima como 2 UPIS – urbanizaciones populares de interés social

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a conhecemos hoje, um conjunto de 49 distritos com uma superfície de aproximadamente 2 811 000 km2. Entre as décadas de 1990 a 2000, um grupo de indígenas da etnia Shipibo-Konibo, provenientes da região de Ucayali, na Amazónia peruana, migram para a cidade de Lima, assentando-se na chamada Ilha Cantagallo, no distrito de Rímac. Uma zona de aterro nas margens do rio Rímac, bastante contaminada e rodeada de bairros de má reputação com alta percentagem de crime. A eleição da margem do rio, não obstante a sua poluição, deve-se ao facto de lembrar-lhes a sua “casa”, o lugar de onde provêm. Em 2001, a Comissária PNP de Rímac outorga-lhes uma constância de posse do imóvel denominado Ilha Cantagallo, e, em Julho de 2007, a Municipalidad Distrital del Rímac outorga aos povoadores da Comunidade Nativa de Cantagallo um certificado de posse, iniciando o pagamento dos arbítrios municipais respectivos. Não obstante a localização, a comunidade de Cantagallo, uma das únicas comunidades nativas a residir na capital, tem sido um exemplo de desenvolvimento em difíceis condições e numa envolvente tão degradada e violenta, mantendo-se

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um bairro pacífico e mantendo as suas tradições, integrandose, tanto quanto possível, na vida urbana da cidade de Lima. Possuem a única escola pública bilingue da cidade (com aulas de Shipibo obrigatórias) e celebram cada ano um festival intercultural bastante popular denominado “Shipibo Soy”, um evento que atrai gente de toda Lima. A comunidade vive essencialmente do artesanato que produzem e do turismo, à semelhança de muitas comunidades indígenas espalhadas pelo país, e mantêm a vida em comunidade bastante similar à que teriam na sua terra nativa, preservando a sua cultura ancestral, a sua linguagem e a sua identidade nativa. A arte está sempre presente na comunidade. Considerando-se artistas invés de artesãos, a arte tem sido uma atividade fulcral na vida dos Shipibos há séculos. Mais que um trabalho, é uma forma de vida. Sendo que são maioritariamente as mulheres que se dedicam à arte, esta é abstracta e largamente inspirada em alucinações derivadas do consumo de ayahuasca. Em 2013, a municipalidade de Lima outorga-lhes o estatuto de Comunidade Indígena Urbana, possibilitando o acesso a recursos para a preservação cultural.

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Em 2009, é projetada uma via rápida que unirá o centro histórico com distritos limítrofes, denominada Via Parque Rímac, via esta que passa exatamente nos terrenos ocupados pela comunidade em Cantagallo. Grande parte das casas existentes e mesmo a Instituição Educativa Comunidad Shipiba, construída pelos moradores, já foram demolidas para dar lugar a esta nova autoestrada. Aproveitando esta oportunidade, os membros da comunidade pediram às autoridades a sua relocalização numa nova zona da cidade. Em 2011, a municipalidade de Lima inicia um processo de diálogo intercultural com o objectivo de relocalizar a população e, em 2013, procede-se à criação de um fideicomisso para a realização de um projeto urbano ecológico, denominado Rio Verde, como um projeto adicional ao da Vía Parque Rímac, dentro do qual se localizariam os novos terrenos e vivendas para a comunidade Shipibo-Conibo. Uma visita a Cantagallo da Defensoría del Pueblo de Lima adverte que a construção de Vía Parque Rímac afecta tremendamente a comunidade de Cantagallo, nomeadamente através do corte de serviços básicos de água e saneamento, ruídos 24 horas por dia, ou 20


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mesmo infecções respiratórias devido ao pó excessivo que se produz pelas obras, pelo qual adverte para a celeridade necessária na relocalização. No entanto, em 2015, e após eleições na cidade de Lima, a nova administração suspende o projeto de Rio Verde e consequente relocalização da comunidade Shipibo-Conibo residente em Cantagallo, utilizando os fundos destinados ao projeto para a construção de um bypass rodoviário noutra zona da cidade, um processo muito contestado e mesmo opaco. Após vários protestos tanto da comunidade como de grupos de cidadãos, ainda não se vislumbra uma nova relocalização da comunidade Shipibo-Conibo, residente em Cantagallo. Espera-se com esperança que a situação se regularize e a comunidade possa ser relocalizada quanto antes possível. Para já, a comunidade segue habitando Cantagallo, olhando através das grades o avançar dos muros de betão da autoestrada que, a rápida velocidade, consomem o terreno, e vivendo paredes meias com o “progresso”, esperando melhores dias e o espaço e a qualidade de vida a que, como cidadãos e seres humanos, têm direito.

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O Melhor Lugar evolução da hierarquização social nos cinemas Joana Alves

O cinema surge no início do século XX como um programa sem precedentes, obrigado a uma evolução rápida da sua configuração ramificada em diversas tipologias: cinema de bairro, sala de cinema, cinema de actualidades ou cineteatro. De barraca de feira popular a teatro do povo, a evolução da hierarquização social do espaço, porventura associada a diferentes abordagens comerciais, tornou-se um dos aspectos mais curiosos da concepção arquitectónica das salas de cinema tanto mais que foi influenciada pelos próprios filmes. Poucos cinemas resistem hoje. Os filmes não perderam a sua popularidade, vemos filmes quotidianamente, e o Cinema continua a ser indiscutivelmente uma arte. Como, em poucas décadas, se passa de um lugar extremamente popular, uma instituição democrática, a um abandono definhado das salas? Para evitar confusão quero que fique claro que, neste texto, cinema é um termo genérico para edifícios cuja única função é a organização de sessões de Cinema. Cinema é a arte e filme a obra, como se poderia dizer poesia e poema. As salas de cinema são os espaços em edifícios com outras funções, ou não, onde se realiza a projecção de filmes e os cineteatros são os edifícios dedicados principalmente ao cinema com capacidade para outro tipo de apresentação teatral ou musical. Sessão ou sessão de cinema é um momento único em que decorre a projecção e não se refere explicitamente ao filme nem à sala, nem à arte, mas àquela experiência que conjuga num preciso momento: sala (ou espaço que pode ser ao ar livre), filme, Cinema e, claro, público.

Fotografia nas pp. 24, 25: “Um aspecto da assistência à matiné organizada pelo cinéfilo no cinema palácio,” Jornal O Século, 22 de Abril de 1933, (C) Arquivo Nacional da Torre do Tombo.

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Tendencialmente, a invenção do Cinema é atribuída a Thomas A. Edison (1947-1931) pelos Americanos,1 aos irmãos Lumière pelos franceses e grande parte dos Europeus e aos irmãos Skladanowsky por alguns alemães.2 De facto, os Lumière foram talvez pioneiros a fazer das sessões de cinema um próspero negócio com a organização e distribuição de exibições. Sabiam que Thomas Alva Edison já explorava comercialmente as imagens animadas, em curtas sequências vistas em pequenas máquinas e previam que rapidamente, como se verificou logo em 1896, iria conseguir fazer a sua projecção em grande ecrã.3 O tempo seria curto até aparecer a concorrência, por isso, numa primeira fase não vendiam máquinas, vendiam espectáculos. Constituída uma equipa de projeccionistas ambulantes, o Cinema viaja por lugares escusos, distantes, aqueles onde mais nenhum outro espectáculo chegava. Desde cedo se percebeu que era a mais democrática das instituições, capaz de atrair pessoas provenientes de estratos sociais e com graus de formação muito diferentes. “The motion picture theatre, however, is a democratic institution. Opportunity is afforded the inhabitants of the smallest towns to see on the silver screen, for ten, twenty and thirty cents, the very same pictures which patrons in the metropolitan districts pay as high as two dollars to witness.”4 As imagens animadas tornaram-se armas de propaganda que chegavam aos que não sabiam ler, aos mais pobres e mais distantes. Capaz de atrair pessoas com graus de formação muito diferentes, com muito ou pouco dinheiro. Mallet-Stevens, por exemplo, sabia que o cinema podia ser veículo das ideias do Movimento Moderno, de uma ideia de gosto nova, de reformas que se faziam com filmes de ficção e não apenas documentários.5 1 Charles Musser The Emergence of Cinema: The American Screen to 1907, Volume 1 (University of California Press, 1994). 2 De acordo com os textos que acompanham da exposição permanente do Filmmuseum em Berlim (visita em Novembro de 2013) que defende a importância dos irmãos Emil Skladanowsky (1866-1945) and Max Skladanowsky (1863-1939) que em simultaneo desenvolveram um outro equipamento de projecção de imagens animadas. 3 Apesar do equipamento ter sido atribuído e vendido como sendo de Edison, o inventor terá sido o seu assistente William Dickson (1860-1935). 4 Randolph Williams Sexton, American Theaters of Today, vol. 2, (New York City: Architectural Book Publishing Co. Inc., 1930), p.5. 5 Robert Mallet-Stevens, “Le Cinéma et Les Arts: Architecture,” Cahiers Du Mois (Paris, 1925). 27


Em teatros, em cafés, em casas do povo, em lugares de feira o espectáculo monta-se rapidamente assim haja capacidade para gerar a energia necessária. Veja-se a anedota da primeira exibição de cinema em Portugal, cuja antestreia para a imprensa foi um rotundo fracasso por falta de capacidade dos geradores.6 O cinema viajava, com geradores ambulantes, de terra em terra.7 O sucesso do cinema justifica a sua sedentarização como actividade urbana permanente no final da primeira década do século XX. Sendo que os primeiros cinemas, projectados devidamente para o efeito, são concebidos com elementos arquitectónicos do teatro clássico, constituindo assim o principal modelo, e elementos que eram típicos dos pavilhões de feira (e.g. fachada principal muito mais guarnecida que as outras, elementos publicitários de sedução, bilheteira-cabine). De facto o cinema começa nos EUA como o teatro do povo, um teatro de segunda, a baixo custo, como o próprio nome reflete: Nickelodeon, nickel a pequena moeda que dava acesso a um espectáculo. Com o intuito de atrair os mais ricos ao espetáculo, repensa-se o cinema reconfigurando-se a casa. Os primeiros cineteatros americanos são inspirados em teatros europeus e outras obras emblemáticas da história da arquitetura europeia e para agradar aos gostos exóticos do início do século criam salas atmosféricas também inspiradas em motivos egípcios e chineses. A primeira guerra mundial atrasa consideravelmente a construção de cineteatros com capacidade para milhares de espectadores na Europa, mas não trava a popularidade do cinema. Muito pelo contrário, as ‘actualidades’ - noticiários encenados em frentes de guerra com montagens criativas- eram esperadas com expectativa por aqueles que tinham queridos na guerra, e os outros filmes distraíam das apreensões que as notícias traziam. Entre 1918 e 1928, Hollywood cresce no mundo como sede da principal indústria cinematográfica.8 Com os filmes exporta-se um estilo de vida americano com um impacto que dificilmente hoje, dada a presença constante de imagens em movimento, 6 Felix Ribeiro. 7 Jean-Jacques Meusy, Cinémas de France, 1894-1918: Une Histoire En Images (Paris: Arcadia, 2009). 8 Georges Sadoul, Histoire Du Cinéma Mondiale [1949], 9th ed. (Paris: Flammarion, éditeur, 1974), p.207-208. 28


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1 Hall de entrada 2 Auditório 3 Pórtico de entrada 4 Poço de luz e ventilação 5 Arrumos

Secção longitudinal e planta do piso térreo do Louxor (cinema, 3 ecrãs), Paris, desenhado por Henry André Zipcy, 1921.

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1 Foyer 2 Auditório 3 Vestiários 4 Palco 5 Lojas 6 Bilheteira

Secção longitudinal e planta do piso térreo do Rex (multiplex - 6 ecrãs, discoteca, sala de concertos), Paris, desenhado por A. Bluysen e J. Eberson, 1932.

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conseguimos entender: moda, electrodomésticos, veículos automóveis, as ruas, as casas, as cidades, os bens de consumo, a mulher de família, a femme fatale, os hábitos da classe média, as estrelas. Acresce a ausência de um formalismo no trato que estava tão enraizado na Europa. De certa forma, o progresso dos ideais igualitários estimulados com o cinema irá contribuir para uma alteração da concepção arquitectónica das salas de cinema, abolindo a hierarquização social. No teatro clássico os estratos sociais mais elevados sentavamse nos camarotes e na plateia nos melhores lugares à frente. Na galeria mais elevada, por vezes designada depreciativamente como o galinheiro, ou nos EUA ‘negro heaven’, estavam disponíveis lugares para os estratos sociais mais baixos. Toda esta hierarquização dos lugares sentados nos teatros irá inverter-se nos cinemas. A vista picada e lateral sobre um palco implica uma mudança de perspectiva sobre a cena mas não uma distorção da imagem. No cinema, a vista picada e lateral implica deixar de conseguir ver a imagem. Os melhores lugares numa sala de cinema são, portanto, lugares centrais na plateia. Por estas razões, a planta da sala de cinema, ao contrário da do teatro clássico em leque ou ferradura, vai tender para o rectangular ou um leque pouco aberto e as filas de cadeiras com uma ligeiríssima curvatura ou rectas.9 Assim, a distinção entre lugares a preços mais elevados e lugares baratos irá tendencialmente desaparecer ao longo dos anos trinta na Europa central. Os cineteatros tornam-se espaços não hierarquizados em que a audiência é uma só, o povo uniforme e sem estratos. E este modelo irá ser repercutido noutras salas de espectáculos, nomeadamente com o aparecimento de novas tipologias de teatro. Este carácter popular e igualitário das salas talvez tenha contribuído para a construção de uma imagem do cinema como o espaço do sonho, um mundo ideal que não passava exclusivamente pelo que era apresentado no filme. Além disso, o cinema enquanto programa arquitectónico, para ser funcional, tem de servir o lazer, a recriação e a fantasia. As salas de cinema devem permitir a visualização de filmes e criar as condições ambientais necessárias para que o espectador se distancie o mais 9 . Vergnes, Cinémas: Vues Extérieures et Intérieures - Détails - Plans; Avec Notices Sur La Construction et L’aménagement Des Cinémas. ed. Gaston Lefol, first (Paris: CH. Massin, 1925), p.6. 31


possível da rua de onde veio para entrar no espaço do filme com profundidade e abstracção. A sala de cinema é sempre decorada, seja a sua expressão a de um teatro barroco ou de superfícies lisas ou curvadas, trabalhadas com reentrâncias e frisos enfatizadas com luz indirecta. A sala de cinema é um programa de caprichos. A sala tenta responder ao suposto desejo do espectador, mas quanto tempo se mantém o desejo do homem Moderno, habituado à renovação sazonal, à mudança regular dos objectos que consome? O primeiro ataque às salas de cinema foi o aparecimento do Cinema sonoro. Obrigou a alterações em várias salas embora, nas muitas salas providas de palco, a instalação das colunas por trás do ecrã não teve impacto. O segundo ataque, este com consequências bem mais graves, foi o da alteração do ecrã para imagem panorâmica, o que obrigou à alteração da ‘frente de ecrã’, a moldura ou aquilo que o enquadra, por ser impossível estender a parede do ecrã. Esse sim, obrigou ao fecho e remodelações profundas de muitas salas. As emissões públicas de televisão, e posteriormente a propagação de televisões e o VHS acabaram primeiramente com os cinemas de actualidades e posteriormente com os cinemas de bairro, um por um. O público deixou de ir ao cinema não só porque tinha televisão em casa, vídeo e DVD, mas porque o acesso ao filme deixou de ter uma janela temporal limitada. Houve imensos filmes do início do cinema que se perderam irremediavelmente e a sensação era que se uma pessoa perdesse a exibição de um filme nunca mais o iria ver. Hoje, se não virmos no cinema, o filme sai noutros formatos e estará disponível para sempre. Porém, a sessão de cinema que continua a ter um carácter de sessão única, por exemplo com a presença ao vivo de convidados ou inserida num ciclo de cinema

10 Sadoul, Histoire Du Cinéma Mondiale [1949], p.536. 11 Dados do European Audiovisual Observatory Focus disponiveis em: http://www.obs.coe.int/industry/film [acedido a 27/02/2014]

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ou festival, continua a ter público. Os multiplex, que começaram a ser construídos nos anos sessenta, mas com maior proeminência nos anos oitenta, foram uma resposta à constatação de que a maioria das pessoas vai esporadicamente ao cinema, mas existe uma parcela minoritária da população, um grupo fiel, que vai devotamente ao cinema. Um conjunto de salas com menos espectadores, mas mais sessões, para responder de forma flexível ao vício dos cinéfilos. Porém, se olharmos para os números, vemos que a quantidade de bilhetes vendidos em meados do século XX é incrivelmente superior ao que se vende hoje. Assim, como antes nas feiras populares, o cinema hoje encontra-se predominantemente em espaços comerciais.

Por ser casa para uma máquina e por ser casa de consumo, o cinema durou apenas umas décadas até ser abandonado (aproximadamente entre 1910-1970), uma longevidade muito curta quando comparada com outros programas arquitectónicos. Não há nada de extraordinário nisto. O que há de extraordinário é a quantidade de pessoas que se mobiliza em torno de um programa arquitectónico, embora as salas de cinema tenham fechado por falta de público. A mobilização vê-se em websites, manifestações, notícias de jornal, associações e movimentos a insurgir-se contra o fecho de salas de cinema. Vimos recentemente as manifestações em plena Lisboa contra a reconversão do cinema Londres, na Avenida de Roma, em loja de roupa e outras utilidades.12 A tese que defendo é precisamente essa: a casa do Cinema é uma casa para uma máquina e não para o homem. Como a máquina se supera muito mais rapidamente do que o homem, num curto espaço de tempo a casa deixa de servir a máquina. Incapaz de responder à tecnologia, a arquitectura torna-se obsoleta, inapta, desnecessária, vazia de uso e consequentemente aberta à reconversão.

12 Inês Pedrosa, “O histórico Cinema Londres, em Lisboa, vai transformar-se numa loja de produtos chineses”, Jornal Público (Lisboa, 8 de Janeiro de 2014) disponível em http://www.publico.pt/local/noticia/o-historico-cinema-londresem-lisboa-vai-ser-transformado-numa-loja-de-produtos-chineses-1618900 [acedido a 01/09/2015].

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“Só há liberdade a sério quando houver A paz, o pão, habitação, saúde, educação, Só há liberdade a sério quando houver Liberdade de mudar e decidir, Quando pertencer ao povo o que o povo produzir.” Liberdade, Sérgio Godinho

Todas as fotografias apresentadas neste artigo são da autoria do seu autor.

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Diversidade À Prova de Crise o projecto de arquitectura como alternativa Miguel Roque

TMG, uma Cronologia do PREC Junho de 1974, Presidência do Conselho de Ministros O Primeiro-Ministro Vasco Gonçalves assina a resolução DD1493 onde decide a suspensão dos órgãos sociais da empresa Têxtil Manuel Gonçalves (TMG) e nomeia uma nova comissão administrativa eleita pelos trabalhadores daquela empresa, que a partir da revolução de 25 de Abril se haviam organizado através de uma Comissão Sindical. Na base daquela decisão estão os resultados de um inquérito mandado elaborar pelo Ministério do Trabalho onde se detectaram desvios de contabilidade, vendas ilícitas de participações financeiras por administradores à própria empresa e bens da empresa usados exclusivamente para fins particulares dos administradores. Dando seguimento a esta resolução, a Comissão Administrativa (CA) nomeada pelos trabalhadores toma posse dos órgãos sociais da empresa e o antigo dono da empresa, o senhor Manuel Gonçalves, foge para Espanha. 31 de Julho e 1 de Agosto de 1975, Largo da Câmara Municipal de V.N. de Famalicão Várias centenas de pessoas aglomeram-se junto aos escritórios da TMG com as palavras de ordem: “patrão amigo, o Povo está contigo”, “Fora a Comissão Sindical”, “Fora a Comissão Administrativa” e “Morte aos Comunistas.”1 Após alguns discursos de ocasião, alguns manifestantes invadem e pilham os escritórios da TMG. 1 AAVV (1976) pp.46 35


Tarde e noite de 1 para 2 de Agosto de 1975, Rua Adriano Pinto Basto, V.N. de Famalicão Trabalhadores da TMG concentram-se em frente ao edifício dos escritórios da empresa onde já os esperavam cidadãos mobilizados pelo anticomunismo reinante no distrito de Braga. Entre discursos e palavras de ordem contra “os comunistas” que estavam por detrás dos actos que “quase destruíram a TMG”, os manifestantes sobem a rua e iniciam um assalto à sede do Partido Comunista. O exército que entretanto fora chamado para as eventualidades coloca-se entre os manifestantes e o portão da sede do PC, impedindo os primeiros intentos de assalto que não tardam a transformar-se em desafios não só aos comunistas mas também aos militares que os protegiam. Não tardou para que o assalto se consumasse, o edifício ficasse em chamas e que um assaltante morresse baleado. Nos dias seguintes, actos semelhantes ocorreram por todo o país, particularmente no norte, numa onda de assaltos às sedes do Partido Comunista que foi decisiva para o novo equilíbrio de forças políticas remanescentes do Período Revolucionário em Curso (PREC) e dos acontecimentos que lhe puseram fim no dia 25 de Novembro de 1975. 25 de Agosto de 1975, Cineteatro Augusto Correia, V.N. de Famalicão Trabalhadores vindos de todas as unidades da TMG concentram-se no cineteatro da cidade exigindo a destituição da CA e o regresso da antiga administração liderada pelo senhor Manuel Gonçalves. No último mês haviam circulado boatos sobre dificuldades de pagamentos de salários, falta de encomendas e falta de abastecimentos nos armazéns. Sendo a TMG um colosso industrial, que empregava famílias inteiras que dependiam do seu salário para sobreviver, o medo de que tais boatos pudessem ser verdadeiros provocou cisões profundas entre os trabalhadores. A Comissão Administrativa ainda tentou desmentir estes boatos, alegando que eram notícias postas a circular pela cadeia de comando do senhor Manuel Gonçalves com o auxílio da comunicação social e de outros empresários da 36


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região,1 para este poder regressar à chefia da sua empresa. Era, no entanto, presumido por um número crescente de trabalhadores que os fornecedores e os clientes da TMG estavam a sabotar os negócios com a empresa, movidos pela necessidade de pôr termo ao efeito de contágio que a nomeação da CA tinha provocado na região norte. Segundo esta tese, os empresários deixaram de negociar com a TMG porque se hoje eram os trabalhadores a administrar a TMG, amanhã seriam os seus trabalhadores a administrar o que julgavam ser seu. Ao fim de pouco mais de uma hora é aprovada uma moção onde se destituía a CA e se clamava pelo regresso do senhor Manuel Gonçalves ao comando da TMG. A moção aprovou ainda a suspensão dos dezassete trabalhadores que encabeçavam a CA.2 25 de Novembro de 1975, Lisboa Fracassa um golpe de estado levado a cabo por sectores de esquerda do exército, descontentes com o rumo que o processo revolucionário seguia. Os sectores mais moderados do exército executam um contragolpe e anunciam o fim do PREC e o início do Período Constitucional em Curso (PCEC), durante o qual se elaborou a Constituição da República Portuguesa.

1 AAVV (1976) pp.43 2 AAVV (1976) pp.46

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Arquitectura como alternativa: o Edifício das Lameiras

Não muito longe dos lugares onde os factos relatados anteriormente se deram, existe desde 1980 um edifício de habitação colectiva que nos permite perspectivar uma alternativa ao processo de construção democrática que emanou do 25 de Novembro. Este edifício representa de certo modo uma das infinitas possibilidades de urbanização de Portugal, caso não se tivesse dado à iniciativa privada e desregulada, a construção do território: se por um lado, o edifício foi construído no período de consolidação de modelo económico e social dito de “economia de mercado” em que vivemos, por outro, foi projectado e construído utilizando ferramentas fundadas durante o PREC. Ainda em 1974, o então Secretário de Estado da Habitação e Urbanismo, Nuno Portas, lança o Serviço Ambulatório de Apoio Local (SAAL), que propõe um modelo de construção de habitação social assente na autoconstrução (foram os futuros habitantes quem construiu grande parte das casas), na participação das populações nos projectos de arquitectura através de assembleias e no conceito de habitação evolutiva (tipologias adaptáveis ao longo do tempo). Com o fim do PREC, o programa SAAL é suspenso e volta à tutela do Fundo de Fomento à Habitação (FFH), mais próximo da lógica liberal que marcou o modo de fazer as nossas cidades a partir do PCEC. O FFH lançou em 1977 uma empreitada de 256 fogos, de T1 a T4 duplex no limite urbano nascente da cidade de Vila Nova de Famalicão, para albergar o grande número de famílias carenciadas do concelho. O projecto do arquitecto Noé Diniz propõe um edifício-quarteirão de 230x70 metros com um grande pátio central à volta do qual se debruçam as galerias de acesso às casas, lembrando modelos já então experimentados na Grã-Bretanha e no leste da Europa. Há no entanto uma forte presença do “espírito SAAL” em todo o processo: os futuros habitantes foram chamados a assembleias para exprimiram os seus anseios junto da equipa projectista; foram utilizados sistemas construtivos 38


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estandardizados para embaratecer a construção; e o mobiliário de cada apartamento foi autoconstruído a partir de um kit de mobiliário faça-você-mesmo que fazia parte do projecto de arquitectura. Cresci ao mesmo tempo que “as Lameiras”, num bairrojardim do outro lado da cidade, onde a classe média-alta foi realizar o sonho de possuir uma moradia. Sempre ouvi chamar-lhe de mamarracho, gueto, fora-de-escala, e sempre me aconselharam a não entrar no grande pátio do edifício. Só mais tarde, por causa da arquitectura, é que lá entrei e constatei que as Lameiras são o único bairro da cidade onde os miúdos ainda brincam nos espaços públicos do grande pátio, que medeia a cidade e as casas; que as tipologias duplex permitiriam, com pouco esforço, a adaptação à vida contemporânea; e que os serviços sociais prestados pela Associação de Moradores no edifício são a solução para muitos dos problemas quotidianos do resto da sociedade. A escala do edifício, que tantas vezes foi apontada como o seu grande defeito, tem sido, pelo contrário, a sua grande virtude: só aquela quantidade de famílias permitiu fundar uma associação de moradores tão influente na cidade, instalar um berçário, um jardim-de-infância, uma escola, um lar para a terceira idade e um pavilhão desportivo.

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Diversidade é superação O processo revolucionário que se seguiu ao 25 de Abril abriu a possibilidade do país encontrar um novo denominador comum quanto à organização do estado e quanto às aspirações dos seus habitantes. Como vimos, a superação deste período foi marcada por acontecimentos que mais ou menos legitimamente reequilibraram as forças políticas e sociais em combate. A par da manutenção na NATO (a paz), da universalização do Sistema de Segurança Social (o pão), da construção do Serviço Nacional de Saúde (a saúde) e da universalização do acesso ao ensino público (a educação), uma das marcas desse reequilíbrio emanado do 25 de Novembro foi a entrega da construção civil (a habitação) à iniciativa privada pouco regulada, moldando decisivamente o modo como construímos e usamos as nossas cidades. O Edifício das Lameiras representa a materialização de uma hipótese alternativa de cidade, de edifício e até de sociedade a este projecto liberal, sobre o qual podemos reflectir para encontrarmos modos de superação das crises actuais. Este modo de reflexão é útil não só para superar as crises das nossas cidades, mas também para que a paz, o pão, a saúde e a educação - usando a formulação de Sérgio Godinho - não cumpram o projecto ultraliberal que os tempos que correm tentam violentamente consumar. A tarefa de construir e manter alternativas - e a diversidade que elas corporizam - é quase sempre inglória, como o caso da queda da Comissão de Trabalhadores da TMG comprova. No entanto, a inexistência de diversidade - e portanto de alternativas - sabemo-lo desde Darwin, é a principal causa da não superação de uma crise. Temos portanto uma permanente obrigação moral – enquanto espécie, sociedade, classe profissional, etc. - de garantir a existência de alternativas aos processos dominantes sob pena de não possuirmos em todos os momentos de crise as ferramentas necessárias para a superarmos.

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Bibliografia: AAVV (2003) Habitação Contemporânea, Formas de Habitar. Asa Editores, Porto. AAVV (1976) O Caso dos 17 da Têxtil Manuel Gonçalves: um documento para a história da luta dos trabalhadores. Tipografia do Carvalhido, Porto. Resolução DD1493. Diário do Governo - 1.ª Serie, Nº 194, Pág. 1224.

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Cores Rui Aristides

“A paisagem é cenário vivo duma luta continuada e sem heróis vistosos” Escreveram Nuno Teotónio Pereira, Francisco Pires e Silva Dias há mais de cinquenta anos. Pouco mudou desde então, embora muito tenha mudado. O que não mudou foram algumas cores em que nos habituámos a ver a vida portuguesa, essa matéria sem pátria, apesar dos muitos esforços e ânsias de pertencer.

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Desde a idade média, costumariamente chamada das trevas, que o branco e preto formam a comum dia-cromia entre escuro e claro, luz e escuridão, bem e mal. Claro que desde o antigo testamento, o Deus, tanto o judaico, o cristão, bem como mais tarde o islâmico, é associado à luz. Todo ele é luz e masculino, muito masculino. Mas luz nem é branca, nem preta, nem verde, nem de nenhuma outra cor. É uma força natural incolor que apenas através da refracção se transforma nas cores que entretanto vão recebendo nomes e significados. Claro que a cor não existe apenas para olhos humanos, mas através deles. Para nós, bípedes Descartianos, cor existe com o ordenar do espaço. A cor é socialmente agregada, dão-lhe nomes e chamam-lhes cores aqueles e aquelas que fazem parte disso da sociedade e para melhor se orientarem no que, de outra forma, seriam claros/escuros de perigos. Pois o branco e preto são talvez os casos mais antigos e populares deste processo de agregação humano. Os homens santos da idade média tiveram disputas acesas acerca da melhor cor para que fim. Foi então que o preto passou a associar-se de forma mais direta e massificada a aspectos sérios, tristes e negativos da existência, como a doença, a morte e a burocracia. Tornava-se mais comum para um funeral, uma ordem religiosa devota à austeridade, uma pequena burguesia ao serviço dos embriónicos estados modernos, vestir hábitos pretos. Ao mesmo tempo, o branco revestia-se de sinónimos de pureza e clarividência. Alguns frades assim proclamavam na sua devoção quotidiana, vestindo hábitos o mais próximos possível do imaculado. Mas era na roupa interior que esta pureza melhor se manifestava. As camisas interiores da época das trevas eram, quando havia, brancas e muito brancas. Não só porque o corpo nunca deveria estar diretamente em contacto com uma cor considerada menos clara ou de alguma forma pecaminosa, como o preto, o verde, o castanho ou o vermelho, entre todas as outras; como também a roupa interior, cuequinha e camisinha, era continuamente fervida - a única forma, então, de matar a maioria dos bichos 43


microscópicos maléficos. Como resultado, qualquer cor que uma peça de roupa interior tivesse originalmente, em poucas lavagens se transformaria em branco. Assim o branco e preto eram constituídos como a dualidade universal do mundo conhecido por brancos: a luz e as trevas, a pureza e o pecado, mas também e simultaneamente, a ingenuidade e a seriedade. Chegando à época dita das luzes que na realidade era bem fumeguenta, escura e cinza, repleta de fuligem dos primitivos fornos industriais, o branco e preto passam a ser habitados de uma outra forma. Graças à corte Filipina de Espanha e ao seu estético fundamentalismo clerical, o preto passa a ser uma das principais cores da realeza. Aparecem os fidalgos, nobres e os aspirantes tingidos de preto, formando vastos aglomerados noctívagos em plena luz do dia. Paralelamente, e especialmente a partir da renascença, a cor preta no vestuário torna-se também comum a funcionários de estado. Os burocratas modernos que nos atormentam até à eternidade, tiveram aqui o seu derradeiro ventre. A polícia da altura, que na realidade era apenas um pedaço do exército em atividade civil, passa também a ser preta. Os banqueiros aderem à moda. Mas são os concelheiros de estado e os piratas que tornam o preto realmente famoso. Lembrai-vos do Marquês de Pombal e do Sinbad (apenas em reproduções recentes este pirata possui outras cores, ou seja, depois da Disney a cores). O preto era então, como os americanos dizem, “the new black,” mas era também obscuro, terrível, infernal. Chegando às ditas Luzes, o preto continuava a ser a cor de Belzebú e de toda a impureza moral no mundo, especialmente nas peles mais escuras, isto é, mais escuras do que o branco da realeza nortenha europeia: a dos escravos que desde 1400 e pouco se raptavam aos milhões para a escravatura moderna; dos árabes que comerciavam no mediterrâneo; mesmo até daqueles que, ora por via de herança genética, ora por herança laboral, possuíam tezes bronzeadas. O escurecer, o aproximar do preto era, e desde aí ficou, um negativo absoluto: corpos da ameaça. Como se pode adivinhar, o branco, em contrapartida, construía-se ainda de forma mais acérrima como “a” cor da pureza: pureza aristocrática, quanto mais brancas as peles

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mais nobres; pureza interior, quanto mais branco o hábito mais limpa a moral; pureza material, o branco das fachadas de igrejas renascentistas e barrocas cobertas a reboco e cal, afastavam certos parasitas e outros animais que nada tinham a ver com doença mas que eram moralmente questionáveis, como as aranhas. Além disso, o branco das fachadas exaltava a luminosidade da luz do criador, produzindo luminosos e brilhantes ambientes. O branco ganhava uma conotação profilática, aproximando-se de uma medicina do espaço público. As batas brancas dos nossos médicos de hoje em dia ainda transpiram esta vontade de limpeza pública, mas também intima, moral, psicológica e, claro, física: pensem em cuecas renascentistas. Nas Luzes, o branco e o preto expandiam os significados da dicotomia original entre bem e mal em vários, e por vezes, contraditórios modos. Nenhum caso é melhor do que o de Portugal, na vanguarda do mercado esclavagista internacional e, simultaneamente, criador do luso-tropicalismo.1 Portugal nas Luzes era, deveras, um conjunto de lugares muito pretos com algum branco. Nomeadamente na baixa pombalina após o terramoto, mas também nas igrejas, conventos, nas escolas que se apoderavam dos jesuítas e nos solares de alguns fidalgos, o branco afincava-se berrantemente imaculado, como a razão universal do nosso senhor, e arisco como a fé inquisitória. 1 Luso-tropicalismo é um conceito desenhado pelo sociólogo Brasileiro Gilberto Freyre nos anos 30 do século passado e num momento de redefinição nacionalista do Brasil. Para um país composto por várias culturas e modos-de-ser, resultado de séculos de escravatura, emigração e miscigenação, colocava-se a questão de quem incluir na definição de cidadania nacional. Freyre surgiu então com o conceito de lusotropicalismo que pretendia imbuir o imperialismo colonial português com uma natureza multicultural: segundo ele, a colonização portuguesa teria sempre sido culturalmente integradora, por esta razão a cidadania brasileira argumentava-se historicamente como uma cidadania multicolorida. À ditadura de Salazar muito agradou esta ideia que, nos anos 50, foi rebuscada pelos seus sábios para defender a manutenção das colónias portuguesas face às pressões internacionais, nomeadamente NorteAmericanas, para as abandonar; diziam estes sábios a Kennedy: “Estás a ver? Isto não são colónias mas, partes de Portugal, porque o nosso império sempre foi multicultural, aliás, isto nem é um império mas uma nação indivisível e espiritual, é lindo!” 45


Era nas igrejas e universidades que então se tornava um padrão de elevação social, moral: de governo iluminado. Era também uma tradição já bem instalada, basta lembrar as fantásticas igrejas matriciais de Goa, muitas delas construídas entre os séculos XV e XVI, de branco imaculado e imponente, em erupção do verde vivo e encarniçado da selva tropical indiana, dominando-a ou tentando dominar. Sem dúvida uma herança da arquitetura renascentista italiana e dos seus usos de reboco, mas também uma cromia que ganhava o seu sentido autóctone na inesperada combinação de fundamentalismo católico, expansionismo capitalista e uma certa abundância de calcário. É importante ter em conta, no entanto, que fora a nova baixa lisboeta, as igrejas, os colégios e academias, a maioria da paisagem construída do império português era de todas as cores menos branco. Especificamente de tons de castanho e cinza, da bosta e barro que se usava como reboco barato para alvenarias igualmente baratas; da pedra granítica, entre outros tipos, que abundavam em certas paisagens; da madeira pouco tratada e abusada para todo o tipo de funções e estéticas; dos telhados de colmo, palha e de telha de barro. Por outras palavras, como na selva indiana, o branco dominava sobre uma vivacidade de cores não muito claras e nobres: castanhos, cinzas, amarelos, esverdeados. Entretanto esta dicotomia tornava-se mais colorida com o avanço do século da indústria moderna. O século XIX e suas tecnologias permitiu o uso massificado de cores até então restringidas à nobreza ou àqueles com mais posses. Na mesma medida que se tornava possível e permissível usar uma cuequinha vermelha ou escarlate, mesmo até preta, também nas cidades, aos poucos, se podiam aplicar várias cores: rosas, azuis, vermelhos, outras variantes de castanhos, alguns verdes. Os azulejos ajudavam na conquista das novas cromias, ora baços, ora brilhantes. Algumas cidades com uma burguesia mais forte e instalada, ora agrícola, ora comercial, como o Porto, Ovar e Aveiro, chegavam mesmo a competir pela vivacidade dos azulejos que protegiam os seus lares. Se por estas hoje nos passearmos, podemos ainda ser testemunhas dessa rejeição da cromofobia a que o branco e preto por vezes davam azo. 46


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Se, por um lado, todas a cores faziam uma nova estreia no vestuário e na casa, por outro, o preto e seus vários tons escuros, era afirmado oficialmente como a cor da seriedade, do espírito rigoroso, moral e intelectualmente; como a cor dos que rejeitam a cor como distração das essências, das verdades, e da compreensão das estruturas que governam a existência. Já foi dito, o Marquês vestia tons escuros, mas o século XIX deu lugar ao burguês de tons escuros, o burguês protestante, rigoroso, trabalhador, utilitário. Não eram apenas os funcionários de estado e banqueiros que envergavam o hábito da seriedade, também se multiplicavam as demonstrações públicas de austeridade de mente e presença, demarcando uma rejeição do mundano, sempre tão sufragado em tempos modernos. O preto era tornado comum como face pública, por exemplo, nos corpos dos que se passeavam pelas novas avenidas, as grandes avenidas burguesas do século XX. Charles Baudelaire chamou-lhe, ao froque preto, o hábito oficial da modernidade, como que celebrando um perpétuo funeral. Também os artistas modernos, tão devotos ao existencialismo nas suas várias contorções, passavam a envergar o preto como um eterno luto pela espécie, ou então como a marca-de-água de uma tristeza interior e profunda, concedendo uma deliciosa dor à manifestação da arte vivida. Mas também os filósofos apareciam vestidos de preto, especificamente Platão que, apesar de falecido, era feito vestido de um lençol preto, para contrastar com a falta de seriedade dum Sócrates e mesmo dum Aristóteles. Por esta altura, o branco servia, no vestuário, para realçar o preto e outros tons escuros. No edificado continuava a constituir exceção, cobrindo apenas aquelas máquinas de espaço que pretendiam significar uma governação clara e elevada como, por exemplo, certas prisões modernas. Mas a fábrica que então nascia com a sua linha de montagem era toda técnica e tectónica, suja e brilhante a diferentes tempos na “verdade” dos seus materiais: o aço, o ferro, o tijolo, a pedra, o vidro. Enquanto a monocromia se refazia e desfazia, os lares burgueses convidavam a alegria do arco-íris, animados pelo relaxar dos fundamentalismos religiosos, pelo exotismo

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imperial, pelo romantismo e a importância da expressão emocional para a personalidade individual. As cores eram luxo e luxúria, emoção e divagação, ligação a outras vontades e culturas, emancipação e sonho mas, acima de tudo, eram a palete daqueles que conseguiam distinguir, no seu diaa-dia, entre o cinzento da fuligem permanente que cobria toda a cidade e a maioria dos seus lares, dos coloridos salões, teatros e óperas da res publica. A maioria continuaria a viver em tons de castanho e cinza, mesmo no Campo. Apesar desta afluência de cor promovida pelo século das revoluções técnicas, o branco e o preto fariam uma retorno implacável. Do preto já foi dito como se afincou com garras à aparência de seriedade, profundidade moral e existencial, e à austeridade, claro. Basta recordar que Henry Ford, o barão do automóvel, fez a sua carreira e a do seu império industrial com um carro preto, o modelo T. O preto agarrou-se bem à história e lá ficou com toda essa seriedade e nobreza. O branco, no entanto, andou na mó de baixo algum tempo com tanta fuligem industrial, vestes pretas e salões coloridos, mas voltou com vingança, pelo menos em Portugal.

Os nossos primeiros republicanos, governando o império lusotropical durante uns breves 15 anos, mais um, menos um mês, deram um novo começo ao branco como cor pública, cor do público, significado colectivo e nacional. Quando conseguiram erigir parte do sistema escolar nacional, construindo ainda um número significativo de escolas, a cor escolhida para dar face à velha máxima “saber é poder” foi o branco, e não qualquer branco: não foi um branco sujo, nem um gema de ovo, nem de outras derivações, mas o branco puro do reboco feito com cal, brilhante e luminoso. O mesmo se sucedeu quando se apropriaram dos conventos e mosteiros, expropriando a Igreja portuguesa de bens conseguidos ao longo de séculos de rendas sobre a exploração da miséria. Se até então não eram brancos imaculados, esses conventos e mosteiros passaram então a sê-lo. Surgia assim a agora tão habitual e habitualmente bela combinação de branco com pedra, seja esta calcária ou granítica: quão mais belo é o arco neo-gótico em fundo branco! 48


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Nessa breve década republicana a indústria da construção também se lançava de forma mais séria e estruturada, formando as grandes empresas de construção, consolidadas durante a ditadura. Assim, o processo de decomposição térmica do calcário tornava-se mais rentável e massificado, fazendo a cal e a caiação, uma técnica mais acessível, embora ainda dispendiosa para a maioria. Por isso, aquela ideia que se veio a instalar de que em toda ou quase toda a arquitetura tradicional portuguesa ou popular, o branco da cal está presente, é bastante incompleta. Apenas entre aquelas e aqueles com algum conforto produtivo como, por exemplo, agricultores minhotos de média propriedade ou agricultores das zonas baixas do Vouga ou, outro exemplo, do estuário do Tejo, a caiação era uma escolha profilática, feita com boa vontade, animada de bons meios. Mas para todos os outros cidadãos nacionais, esta escolha não era tão leve. Nomeadamente entre o operariado Alentejano, que se supõe ter acordado colectivamente, algures lá para trás na história, caiar todo o Alentejo de branco. Pois não foi o sucedido e muitas vezes a caiação acontecia porque os patrões cediam da sua cal em excesso. O Alentejo, até meados do século XX, não era todo branco como a virgem. Apesar disto, existiam sub-regiões onde a caiação era mais habitual devido à abundância do calcário e à acessibilidade de métodos tradicionais de decomposição desta pedra. Seja como foi, os nossos breves republicanos reinstauram o branco como cor colectiva, pelo menos naqueles espaços supostos dedicarem-se à educação nacional. Assim o branco fazia a sua reaparição como cromia de um novo estado, nova nação, novo povo. Esta ideia parece ter agradado a Salazar e seus técnicos do corpo nacional, pois tomaram o branco republicano como seu e melhoraram a sua abrangência social. Ajudou bastante já existir o trabalho de Raul Lino, no qual a procura de “uma casa portuguesa” se misturava com a utilização comum do branco nas fachadas e interiores; bem como o aparelho de propaganda de António Ferro, que investiu fortemente nas Lições de Salazar e seu retrato de uma típica casa e aldeia portuguesas como entidades brancas e imaculadas. São as cores ribatejanas e a dos seus estabelecidos agricultores que

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vingam nestes quadros estruturantes do portuguesismo. Lá está o branco da cal entre as pilastras simuladas, pintadas a amarelo, azul e vermelho. Com Salazar, o branco e preto voltavam em força, significando a seriedade, austeridade de ser, presença de espírito de um governo e nação unidos: ministros, artistas, polícias vestidos de preto, em carros pretos, em frente a edifícios brancos e resplandecentes. Escolas, tribunais, juntas regionais, entre muitas outras máquinas de espaço faziamse unos e brancos. Era ma cromia bem desenhada, bem pensada, tanto para a foto, bem como para a performance diária do poder. A partir dos anos 50, também ajudaram, nesta cromia nacionalista, grupos de arquitetos ambiciosos e críticos, que pretendiam reinventar a arquitetura moderna e a nacionalista, imbricando as duas à experiência; como alguns antes deles já tinham experimentado e vencido. A casa portuguesa era herança dos primeiros e breves republicanos e de um país forjado pelos conflitos de uma nacionalidade desencantada, soberania em cheque e um não perder de face lá fora. Daqui surgiram os produtores da moderna casa portuguesa, encabeçados por Raul Lino. Pois, os desencantados que se manifestavam no segundo pós-guerra, pegavam justamente por aqui: pela necessidade, civilizacional à francesa, de reinventar o habitar em português. E lá se voltou a olhar para o branco como uma magia silenciosa sobre o ser português, uma espécie de canto profundo e misterioso que nos levava de volta às dominantes igrejas goesas, à potência pombalina, à grandeza austera das academias jesuítas (que em realidade não eram de todo austeras); à beleza não declarada mas corporalmente suspirada do simples contraste entre branco brilhante e torradas pradarias, que tantos pintores da corte haviam experimentado ao fazer a travessia para o Algarve. A ligação imortal com um mediterrâneo enquanto império de espírito, grande imaginada sociedade latina, feita das trocas de milénios mas, sempre resplandecente na sua luminosidade e expansividade, sentia-se como véu leve que nem sopro entre dedos ansiosos de sentido.

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Os arquitetos que destes anos 50 venceram, vieram a abraçar o branco como a cromia por defeito de uma clareza sonhada; como a base para uma duradoura síntese das várias desintegrações modernas. Em hábitos brancos, assim se compôs a fama de Távora, de Siza e Souto de Moura, entre muitos outros. Claro está que isto não significa que as suas arquiteturas sejam exclusivamente vestidas em branco. Apenas que, com a hegemonia da doutrina modernista, que dita que a verdade dos materiais sempre vencerá sobre a futilidade da decoração, moral e esteticamente, o branco veio a assumir um papel especial: uma verdade material feita verdadeira pela interpretação da caiação como algo essencialmente português e, por causa de Camões e D. Sebastião, simultaneamente universal e intemporal. Não por acaso o branco era também a cor predileta dos modernistas do norte da Europa, também eles senhores de um puritanismo muito especifico. Por estas e outras, encontramos na obra dos três acima nomeados, o granito, o betão aparente, o aço e madeira aparentes, e depois o reboco branco, não gema de ovo, não cinza, não suja, mas branco como a virgem; branco como a cuequinha da Idade Média; como a “sempre-noiva” alentejana.2 Este argumento colorífico parece forçado quando atentamos que muitas das casas modernas, escolas, mercados, edifícios de habitação colectiva, entre outros, construídos entre 1950 e 1970 eram, e alguns ainda são, bastante coloridos. É caso das obras de muitos arquitetos saídos da escola de belas artes do Porto nestas décadas, abusando de pastéis, violetas e vermelhos, amarelos e azuis, para além das então já muito recalcadas cores básicas de Le Corbusier. A arquitectura moderna portuguesa, tanto a sua primeira, bem como a sua segunda fase fez-se de muitas cores, não vingava apenas a “verdade” dos materiais e sua estética moral.3 2 Expressão usada para a pedra superior de uma lareira que, em alguns sítios no Alentejo, era caiada diariamente de forma a limpar a fuligem gerada no cozinhar de alimentos e aquecer do lar, daí o nome dado de “sempre-noiva.” 3 Distinção tornada comum na historiografia da arquitectura moderna portuguesa, a primeira fase moderna correspondendo ao anos finais da primeira Républica e ao “reinado” do Ministro Duarte Pacheco, ou seja, de 1920 a 1943 (ano da morte do último); a segunda correspondendo ao pós51


Não deixa, no entanto, de ser curioso o contínuo enfâse no branco como cor primária para além da cor, como tonalidade por defeito da arquitetura portuguesa moderna. Enfâse este, é importante dizer, raramente referido ou debatido em si. Isto não apenas nas obras dos mais famosos como Siza, Aires Mateus - os direitos, mas também os esquerdos -, ou João Mendes Ribeiro. Também nos famosos de segundo grau, compilados em anuários de arquitetura, e nos imensos invisíveis que, de dívida em dívida, nos fornecem uma e outra nova fachada branca, novos interiores imaculados, mais impecáveis que quartos de hospital; e claro, nos vários aspirantes e ainda estudantes de arquitetura que na maioria das vezes se contentam em encher folhas brancas de linhas pretas, ocasionalmente juntando o verde do relvado e o azul do espelho de água, o qual apesar de tudo ainda não saiu de moda. Basta passear por qualquer uma das dezenas de escolas de arquitetura do país para assistir ao espetáculo das plotagens monocromáticas, das apresentações a preto e branco, dos esquissos que se desejam iguais aos do Siza, que tanto nos fazem portugueses. Claro que cores, até por vezes muito garridas, vão aparecendo, não só em escolas, como também no dia-a-dia da grande urbanização. Mas, sejamos francos, o preto e branco é uma espécie de zona de conforto, ou não é? Com essas não se falha, mesmo que se falhe, pelo menos assim parece suceder com o nosso parque automóvel, invariavelmente preenchido de veículos brancos e pretos.

Voltando ao início, se a paisagem é cenário de uma luta continuada e as cores são também heróis não vistosos, que lutas silenciosas se têm por aqui passado entre o branco/ preto e todas as outras cores? E que significados têm essas lutas sem heróis? Que se quer que o branco faça dos nossos hábitos espaciais e corpos? Que seriedade e pureza anda para aí a sugerir condições, de alguma forma a desvirtuar a festa permanente de uma sociedade de produção e desejo? guerra, de 1945/50 até 1960/70. Ver, por exemplo, Ana Tostões, Os Verdes Anos na Arquitectura Portuguesa dos Anos 50, FAUP, 1997, a qual se tornou uma obra de canónica desta distinção. 52


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Se há um século pintámos igrejas de branco, porque assim se achavam mais verdadeiras, será que faremos o mesmo, não só a igrejas, mas a cidades inteiras, para que fiquem portuguesas? Já foi dito, o Alentejo não era branco como a virgem. Por outro lado, se quisermos realmente meditar no branco e na sua verdade puritana, luminosa e esclarecida, e com ela iluminar algum contexto menos que perfeito, então talvez seja conveniente pensar na lição que inadvertidamente contém a “sempre-noiva.” A seguinte: o trabalho de purificação e limpeza, tanto de sujidade física como das mazelas diárias, deixadas pelo uso do corpo, principalmente para riqueza alheia, é um ritual diário, contínuo, mecânico, simultaneamente disciplinado e libertador mas, sempre constrangido. Contido num espaço de gestos, ritmos, texturas frias, que se olham e apreciam, respiram e fazem corpo, no início e no fim, todos os dias, todos os santos dias. Não se pode esperar grandes conclusões de um ensaio de disposição, por isso, a única reflexão que me parece prenhe desta combinação de gostos, nações e éticas em cores, é a seguinte: o branco e a cromia branco/preto são práticas que têm vindo a ser apropriadas com o fim de demilitar o colectivo português, de o tornar um objecto representável, significante. Preenchendo corpos que aglomeram nação, cultura e verdade com um único movimento do píncel. O branco imaculado do tão agraciado Alentejo, agraciado hoje em dia, foi desenhado como uma tela identitária, como o grau zero de uma ética cultural portuguesa. O branco tem sido feito cobrir corpos e conceitos, que se querem verdadeiros, belos e úteis. A sujidade do uso, o gasto dos dias, o refazer do corpo, apesar do desejo de branco, cá está, lembrando ao imaculado as práticas que não consegue conter e disciplinar. Entre ou- tras, talvez também esta seja uma importante aprendizagem do inquérito à arquitectura popular, conduzido em 1956 por arquitectos que queriam encontrar um país verdadeiro. Não sei se econtraram verdade mas, os mais sensíveis ao que se lhes entrava pelos olhos, narinas, boca e pele, encontraram uma luta continuada, enquanto outros uma palete de cores portuguesas. Destas também nos fazemos.

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Breve Histรณria de Um Museu em Festa Joรฃo Gonรงalo Lopes

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Prefácio Da breve história que quero contar talvez grande parte seja inventada talvez grande parte seja idealizada, mas talvez seja assim com todas as histórias, todos os ensaios, talvez mesmo como todos os relatórios científicos. A sua verdade não terá que ser total desde que fale de um vislumbre de verdade e de uma possibilidade de futuro, desde que trace um caminho por onde uma conversa possa prosseguir. Furtando-me assim a uma mera descrição imparcial dos factos, posso então começar. Museum Nos primeiros dias de Agosto de 2015 teve lugar a terceira edição do festival Museum Festum, localizado longe das grandes cidades, na pequena vila de Monte Redondo, sede da União de Freguesias de Monte Redondo e Carreira pertencente ao distrito de Leiria. A Vila é atravessada no eixo Este-Oeste pela estrada nacional 109 que liga Leiria a Vila Nova de Gaia. Estrada essa onde esperamos longos minutos por um semáforo que parece estar sempre teimosa e caprichosamente vermelho, para logo virarmos à direita pela Rua da Bajouca onde, uns metros mais à frente, uma fiel réplica de 10 metros da Torre Eiffel pontua o largo empoeirado do Museu do Casal de Monte Redondo, a casa do festival. Foi neste museu que tudo começou. Estava-se nos primeiros anos da década de oitenta quando o novo edifício acabava de nascer pela mão da associação de defesa do património de Monte Redondo, formada por João Moital, Mário Moutinho e Jorge Arroteia. Depois terem estudado nas grandes cidades do país, os três jovens coincidiram na sua pequena terra natal com a intenção revolucionária de 55


mostrar e documentar o seu passado rural e compreender as recentes transformações que a afectavam. Ao material etnográfico que foi recolhido ao longo dos anos 70 nas casas das famílias da região, juntaram-se os estudos sobre o fenómeno da emigração, uma biblioteca dedicada à história local e a vontade de fazer do museu um núcleo central que promovesse a vida cultural da região. O edifício que aí sobrevive, desenhado ao modo da arquitectura popular estremenha, é hoje um pequeno tesouro testemunho da vida quotidiana local: nas suas salas antigos documentos e registos, alfaias, ferramentas e livros preservam a memória viva e intacta. Festum Hoje atravessamos o largo do museu para entrar no recinto de pinhal que se estende nas suas costas e vemos um grupo de pessoas com motivações semelhantes. Criado para a conservação e dinamização do museu, o Museum Festum é o resultado do trabalho da nova geração que voltou a este edifício e ao seu património e os viu como elementos de renovação cultural. O carácter do festival está algures entre a festa popular e o festival de verão, ou melhor, é um festival popular que inclui um povo de agora, cosmopolita, diverso, disperso, cibernético, académico, mas ainda gente daqui, que se sente daqui. Durante três dias reúnem-se artes como a música, teatro, dança, fotografia, pintura, dão-se workshops, vendem-se productos alimentares, fala-se de agricultura, juntam-se gerações, misturam-se vontades e projectos. A cinco dias da abertura vêem-se já os pequenos inícios de construções, casas de banho secas já acabadas em madeira, um início de palco feito de troncos, baloiços pendurados nas árvores, o típico borbulhar do stress nas faces de quem quer ter tudo pronto na hora marcada. O stress entende-se sobretudo quando se sabe que tudo está a ser feito com o mínimo de dinheiro; baseando-se sobretudo na participação voluntária e no apoio logistico das autoridades e da população local. Aqui acredita-se que não é preciso muito dinheiro para as coisas acontecerem. 56


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O terreno é cedido pelo super-activo João Moital, um dos fundadores do museu e hoje centro nevrálgico do novo projecto – a sua figura é marcada por uma boina preta pousada ligeiramente enviesada na cabeça e motivação e entusiasmo espelhados na cara. Mafalda Garcia, uma das organizadoras, fez deste festival tema para a sua futura tese de mestrado em educação artistica e imprime ao festival o seu lado ideológico e utópico. Quer acreditar na capacidade festival de envolver todas gerações e atravessar diferenças, testar modelos de organização social e produtiva e recuperar a união local em volta da cultura. Falamos nas pessoas que estão desempregadas em casa, das gerações mais velhas, e sobretudo da vontade de renovação integrada na estrutura local, que englobe as juntas de freguesia e as câmaras. Contanos que as pessoas estão disponíveis para participarem activamente e que precisam do desafio, apesar da dificuldade de gestão que tudo implica. O modelo participativo deste festival será sem dúvida espaço propício a discussões e tentativas de transformar mentalidades gravadas na pedra dos anos, será essencial saber trabalhar com o que existe e moldar o caminho às circunstâncias. E a construção e a organização do espaço são parte e reflexo disso. A maquete de esferovite pintada que está dentro da sala do museu ilustra o planeamento das diferentes zonas do festival e para cada uma há uma resolução diferente. As construções adquirem a imagem de um sistema colaborativo: o palco multidanças tem como cobertura um pára-quedas cedido pelo senhor Fernando Barca que foi paraquedista, o palco principal tem a altura de 7 metros mas foi construído com a técnica froi sartage que se aprende nos escoteiros (não há entre nós quem não tenha sido escoteiro ou tenha um amigo escoteiro e afinal aquilo até foi útil), as madeiras do bar estão de passagem cedidas antes da sua trituragem para a industria de papel e a tenda de exposições vem do festival medieval de Leiria. Ao mesmo tempo há espaço para propostas de projectos como o “love hotel” com almofadas de roupa cosida ou a túnica branca que cobrirá a Torre Eiffel. Pouco foi possível planear, a coisas não funcionam bem segundo um método rígido, mas o prazer de construir parece mais vivo do que nunca.

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Esconder a Torre Eiffel Chegámos ao festival para a recta final como voluntários carregando o nosso interesse na arte da construção mas deixamo-nos envolver com tudo o que o festival tem para além disso. O nosso olhar eventualmente estancou na imponente Torre Eiffel: pousada no largo do museu sob quatro pés de cimento, acabada de restaurar, é um símbolo de identidade local e do festival por excelência. A sua presença deve-se ao evento que em 2007 reuniu no campo de futebol os principais monumentos das cidades para onde grande parte dos habitantes da vila emigraram. A torre construída e proposta pelo Tonicho, “serralheiro de profissão e artista de coração”, é impressionante pelo seu peso e escala, construída em ferro, respeitando a qualidade e proporção do seu original. O festival deu-nos a oportunidade rara de imaginar algo e ter a possibilidade de, com a ajuda de todos e dos materiais disponíveis, o materializar em poucos dias. A ideia era cobrir a torre com um tecido branco semi-transparente, marcando assim a existência do evento durante os três dias. Na segunda noite uma performance idealizada pelo João Moital levantaria o pano revelando e homenageando a torre e os seus criadores. Os materiais disponíveis foram o bambu, que usámos como estrutura, e uma tela branca finíssima que encontrámos na loja de materiais de construção ao fim da rua. Com os materiais encontrados e uma pequena maquete de estudo, a imagem clarificou-se nas nossas cabeças: um paralelipípedo suspenso feito de pano branco e agarrado nos dois topos por uma moldura quadrangular de bambu. Durante a performance as cordas localizadas nos quatro cantos levantariam o pano progressivamente revelando a torre, enquanto que no resto dos dias o vento, os reflexos da luz do sol intenso do dia e da luz interior à noite, fariam da instalação um objecto vivo e dinâmico. O processo comprovou como as coisas se complicam quando se acrescenta o peso e o tempo às ideias abstractas. Durante dois dias estivemos a coser as intermináveis pontas 58


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do pano e a estabilizar a estrutura de bambu. Ao terceiro dia a construção atingiu o seu momento apoteótico, quando uma grua elevou todo o conjunto, qual papagaio, até ao topo da torre onde poisou relutantemente ameaçando partir. Sob a tensão dos ventos fortes que varriam a poeira naquele dia, o pano caiu como uma vela solta. A forma cresceu, insuflou e transformou-se até que a pudéssemos amarrar à base, deixando enfim a torre elegantemente vestida de noiva para o festival. Mesmo que a performance tenha sido dificultada por uma corda solta, a presença dinâmica do sólido iluminado tornou-se um chamamento irresistível para os automobilistas da estrada da Bajouca. Os visitantes chegaram em grande número ao recinto para se juntar à festa. Posfácio A pequena experiência do Museum Festum já é parte de Monte Redondo e parece que só poderia existir neste sítio. Aqui onde se conhece os cantos à casa, onde as matérias primas existem e as pessoas estão presentes, a acção pode ser começada hoje. Com o mínimo de dinheiro tem que se contar com a ajuda de toda a gente, trabalho de voluntários, materiais emprestados, mas não é assim que as festas populares sempre funcionaram? O trabalho é feito pelo bem comum, pelo património histórico da região e pela festa de todos. A iniciativa faz-nos pensar sobre o carácter das centenas de pequenas localidades como esta ao longo de todo o país e questionarmos qual pode ser o papel da arquitectura no seu contexto. Quando vivemos nas grandes metrópoles, movidas por mecânicas complexas, o papel social de cada um torna-se vago e imperceptível. Enquanto arquitectos muitas vezes a trabalhar para concursos ou grandes investidores, o nosso papel distancia-se de quem realmente usufrui do espaço e das suas motivações. Mas nas pequenas terras a participação social parece ser mais clara e mais concreta. Em todo o País o poder local incorporado pelas juntas de freguesias, clubes recreativos, 60


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associações, mantém um papel de constante proximidade e diálogo com as pessoas. O seu âmbito de intervenção é enorme e a sua presença fundamental na vida da comunidade. Talvez esta vertente do mundo tenha sido escondida/ esquecida pela valorização e foco que se tem dado ao modelo “cidade”. É como se a civilização e o progresso não existissem fora dos seus limites. Será que ainda podemos ter a ambição de estar perto, viver e promover a cultura em pequenos povoamentos de governo local? Não será essa uma oportunidade cheia de potencial? Se sim, então o que queremos mudar, como é que a nossa experiência, em muitos casos deslocalizada, fluída, vertida em corpos e rotas internacionais vai hoje afectar o sítio de onde viemos? A história do museu de Monte Redondo e do Museum Festum dá-nos algumas luzes sobre o esforço e frustração que tudo isto acarreta (basta ver como correm os organizadores e como às vezes se desesperam por as coisas não correrem bem). Os seus impulsionadores desenvolveram a cultura pelo contacto directo e os seus resultados parecem criar raízes. Criam-se laços profundos entre as pessoas, entre as pessoas e o seu lugar - aquele sítio a que teimamos em sentir como casa.

Este projecto para a torre Eiffel do Sr. Tonicho foi uma colaboração com Guilherme Rodrigues, Li Wang, Diogo Monteiro, João Gonçalo Lopes e toda a gente que organizou e se juntou ao festum. Todas as fotografias apresentadas neste artigo são da autoria de Carolina Sepúlveda, à excepção da primeira fotografia, a qual foi tirada do site do museum festum em: https://www.facebook.com/museumfestum.mr/

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Do outro lado da Janela Ricardo Ibrahim

“O espaço é a «prisão original», o terrirório é a prisão a que os homens se dão.”1

Procurarei neste texto abordar o tema da intenção inerente a cada acção sobre o espaço, o qual tentarei associar com o conceito de “casa do povo”. Para tal, procederei necessariamente a uma ligeira desconstrução da ideia convencional de “casa do povo”, pelo menos ao longo das últimas décadas ou par de séculos, que se materializa normalmente numa espécie de centro cívico onde as pessoas da comunidade envolvente se reúnem, desenvolvendo o mais variado tipo de actividades, desde as culturais, às sociais, políticas ou desportivas. A primeira ideia que me proponho estabelecer – naturalmente ajustando-a ao intuito deste texto – é a de que ao conceito de casa do povo é intrínseca a capacidade de assumir diversas formas de materialização, diversas dinâmicas sociais, diversas constelações respeitantes ao resultado do imbricamento das relações dos mais variados actores da vida em sociedade. O que quero com isto dizer é que a ideia da casa do povo não tem que se limitar à forma estanque de um edifício onde as pessoas se encontram, mas antes se deve abrir a todas as possibilidades que a vida em comunidade permite, já que é através da organicidade dessas possibilidades e relações que a ideia da casa do povo se torna completa. Fazendo a analogia com uma casa no sentido convencional, se quisermos, um lar, este não é composto apenas pelas suas paredes, janelas, lavatórios, candeeiros, varandas e afins. Duma casa fazem também parte os livros, os cheiros, as pessoas, a luz e a sombra, a humidade, as suas estórias, o silêncio e o ruído… O significado de casa extrapola de sobremaneira a sua materialidade, por duas razões principais: uma casa sem pessoas não é mais do que um aglomerado de materiais dispostos de uma ou de outra forma; o modo como as pessoas se apropriam e vivem o seu espaço de habitar é que define o verdadeiro significado de casa. 1 Claude Raffestin, Pour une géographie du pouvoir, Paris, LITEC, 1980, tradução livre. 64


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Contudo, e voltando à desconstrução que mencionei no início, a noção da casa não tem que terminar no seu perímetro físico e psicológico. Se a casa não existe sem pessoas, poder-se-ia imaginar que qualquer espaço vivido por pessoas poderá integrar-se na esfera do conceito de casa. Num tom mais poético ou utópico, seria interessante sentirmos o mesmo bemestar do nosso lar quando estivéssemos numa praça, num comboio, na casa de banho dum cinema, num mercado; potenciando assim a experiência da esfera da casa. Por outro lado, tal como a casa convencional é muito mais do que o conjunto dos seus artefactos, todo o espaço colectivo vivido por pessoas se define não só através da sua materialidade, mas igualmente pela sua história, pela sua cultura e identidade, pelos seus temperamentos, pelo seu clima. Estabelecida então esta ideia de que qualquer espaço, vivido por um povo ou comunidade, se pode assumir como a sua casa colectiva, discorrerei sobre o processo de agir sobre todo esse espaço, cujo potencial é o de se representar como a “casa do povo”. Mais concretamente, e porque a arquitectura e o espaço se assumem como o pano de fundo desta publicação, procurarei reflectir sobre a relevância da intenção no “processo de agir” - assim como do “não agir” - sobre o espaço; seja o espaço de habitar, o espaço urbano, o espaço público ou o território, e seja essa acção individual ou colectiva. Utilizo os termos “intenção” e “agir” porque a sua distinção me parece um factor central na caracterização do espaço que constitui cada bairro, cada praça ou avenida, cada cidade ou cada região. Primeiramente, há que distinguir a acção sobre o espaço da não acção sobre o espaço. A acção acarretará sempre mais riscos no sentido de que, sem a acção humana sobre o espaço, este permanecerá no seu estado natural, normalmente dotado de uma harmonia que custa cada vez mais encontrar no espaço trabalhado. Assim, é sobre a “acção” e não sobre a “não acção” sobre o espaço que me interessa aprofundar. E é dentro do espectro da acção que a intenção assume o seu papel fundamental.

Não creio que por natureza procuremos de forma deliberada agir sobre o espaço de forma a torná-lo desconfortante, limitador, caótico, constrangedor. Creio que esse tipo de conjuntura é normalmente resultado de vários padrões de negligência relativamente ao espaço que nos rodeia. Aqui interessa fazer um desvio apenas para atentar sobre o fenómeno de as pessoas geralmente se preocuparem fundamentalmente com o carácter e representação do seu espaço de habitar, da sua casa no sentido convencional, do seu refúgio privado, do seu reduto de “segurança” e conforto; ainda que ocupando e vivendo esse espaço muitas das vezes nem metade do seu 65


dia-a-dia. Bem sei que o tratamento do nosso espaço pessoal de habitar é deveras mais simples e pacífico do que a negociação constante que é intervir sobre o espaço colectivo da comunidade. Mas é também verdade que a passividade e a negligência originam dois fenómenos, ambos nefastos: não temos controlo/autoridade sobre o espaço comum, deixando a sua gestão apenas aos agentes que sobre ele têm determinados interesses, organizando-o consoante esses mesmos interesses; ou então abrimos a porta à aleatoriedade per se da organização do espaço resultante da intervenção humana, sendo que essa não programação do espaço tende a ter resultados manifestamente nefastos, especialmente nos nossos dias, dada a complexidade da sociedade contemporânea em termos de relações, funcionamento e infra-estruturas. Mais, as consequências dessa aleatoriedade manifestam-se muito para além da índole espacial em si, já que a organização do espaço influí explicitamente no carácter social e económico de cada comunidade, na sua saúde, física e psicológica, na sua sustentabilidade ambiental, etc. Poder-se-ia denominar este fenómeno da não programação como uma arriscada atitude laxista relativa ao espaço colectivo. Enumerados que estão estes dois tipos de “não intenção na acção” sobre o espaço, bem como o risco da passividade quanto ao desenrolar da sua programação, interessa diferenciar a questão da intenção na acção sobre o espaço. Colocando a questão de forma simples – e para salvaguarda da extensão deste texto – podemos atentar sobre a questão da intenção dividindo-a em dois pólos, com todos os riscos que esta simplificação possa acarretar: há por um lado um tipo de intenções perniciosas ou destrutivas; e há por outro lado um tipo de intenções pró-activas ou construtivas. Quanto às intenções perniciosas, e como aflorei anteriormente, existem em muitos, muitos casos, acções prejudiciais ao espaço comum. Estas acções visam normalmente satisfazer interesses muito específicos e isolados, cujas maisvalias favorecem não raramente apenas um grupo restrito de pessoas, sejam essas mais-valias de cariz espacial, social ou económico, e que se caracterizam nas mais das vezes por uma completa descoordenação e até ruptura com os que seriam os interesses da comunidade. Só para enumerar alguns exemplos, posso aludir ao tema dos grandes centros comerciais, monopolizando e guiando de forma unidireccional os hábitos de comunidades mais vulneráveis ou menos esclarecidas; da privatização temporária ou permanente de ruas que anteriormente eram públicas; a segregação social através da criação de “guetos urbanos” normalmente desprovidos de boas conexões de transportes colectivos, bem como uma fraca qualidade e cadência dos seus estabelecimentos de ensino ou de saúde; em termos territoriais e agrícolas, há

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o fenómeno sobejamente conhecido do estabelecimento de monoculturas agrícolas que visam geralmente atingir um fim muito específico, como seja a produção de biodiesel ou de um determinado tipo de cereal com vista a fins meramente comerciais, sendo que essas monoculturas originam muitas vezes desequilíbrios na sustentabilidade e diversidade da produção alimentar da população, bem como uma deterioração da qualidade dos solos; a segregação territorial através de hierarquizações promíscuas das acessibilidades, deixando partes da população sem ligações decentes às zonas mais desenvolvidas do território; no seguimento do ponto anterior, o planeamento vertical e assimétrico do território, ao invés do planeamento polar e horizontal, conectado em rede, no qual, através de determinados modelos de descentralização, aldeias, vilas e cidades “secundárias” deveriam estar integradas na vida e economia nacionais;2 e por aí adiante… Ou seja, este tipo de acções sobre a organização do espaço são intencionais – porque elas não se estabelecem por si só – e ao obedecerem a determinadas premissas no mínimo dúbias quanto à pertinência dos seus objectivos, põem em causa a segurança e o equilíbrio ecológicos de espaços que deveriam ser programados com vista ao bem-estar de todos os membros da comunidade, porque esses são também espaços que todos habitamos, ou cuja funcionalidade deveria servir para proporcionar a qualidade dos espaços que habitamos quotidianamente.

Deverá haver no entanto sempre alternativas para contrariar qualquer tipo de fenómeno, qualquer tipo de conduta. Importa assim considerar certos mecanismos ou comportamentos que podem contribuir para a sedimentação de intenções positivas na acção sobre o espaço, no sentido de que respondam às necessidades da comunidade. É contudo importante fazer a ressalva de que não se trata de defender um qualquer modelo específico e mecanizado, no sentido de uma programação totalitária do espaço, com vista a uma espécie de homogeneização da sociedade. Bem pelo contrário, trata-se de potenciar a diversidade, de estabelecer as condições de acção sobre o espaço adequadas às conjunturas de cada comunidade, através de formas de programação localizadas e contextuais, para que estas possam acudir às premências locais, já que, como referi anteriormente, cada comunidade é caracterizada por uma cultura distinta, por uma história particular, por formas diversas de encarar 2 Por exemplo os casos da França, Suíça ou Alemanha, cuja materialização de tal modelo territorial é aliás visível quando sobrevoamos estes países, seja durante o dia, seja durante a noite, através do “desenho” da iluminação.

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a vida colectiva. Essas condições passam sobretudo por proporcionar e incrementar níveis de esclarecimento elevados relativamente às intenções de cada projecto, os quais deverão ser desenvolvidos numa base democrática em termos de processos de decisão. Um dos elementos essenciais com vista a uma crítica construtiva e responsável da comunidade relativamente às intenções sobre o espaço que habita, tem que ver com os índices de informação e decência na transparência sobre as decisões que lhe dizem respeito. Esses índices de informação, bem como a criação de plataformas de debate, terão por um lado que resultar de um esforço das instituições de governança, já que deverão ser essas as primeiras a representar os interesses da comunidade – aqui é quase obrigatório notar o potencial da internet para tais propósitos, já que, através desta ferramenta, a informação pode chegar de forma directa e disseminada a cada membro da comunidade, bastando para isso as instituições tornarem a informação acessível a partir das suas estruturas. Mas, antes disso, terá também que haver uma exigência cívica por parte da comunidade, em ter acesso à informação, predispondo-se ao envolvimento e interesse pelas decisões relativas ao seu redor, interiorizando a noção de que a importância da caracterização desse “redor” é complementar à do seu próprio lar. Não se trata de protagonizar uma abordagem bipolar Estado/ cidadãos no que respeita às decisões sobre o espaço colectivo, uma vez que os agentes privados são parte totalmente integrante e salutar do processo; trata-se apenas de aludir para a relevância das esferas de decisão públicas e colectivas (Estado/cidadãos) como garante do arbítrio e da defesa dos interesses comuns. Daqui decorre o tema da cultura do interesse e consciencialização sobre o espaço comum. Este aspecto, o interesse da comunidade, é particularmente interessante e por vezes paradoxal, já que não obedece a um “pedigree” social ou cultural específico. Em todos os países, em todos os continentes se encontram aldeias, cidades ou regiões onde o decoro e a elevação do espaço colectivo deixam antever níveis de conforto, justiça e organização assinaláveis.3 Este aspecto em particular vem de encontro à ideia de que a virtuosidade da vida em colectividade não obedece necessariamente a padrões culturais ou determinados modelos de organização. Parece sim obedecer a um sentido de pertença e de responsabilidade de certas comunidades relativamente ao espaço onde vivem. Contudo, é também verdade que é nas sociedades mais desenvolvidas que encontramos, comparativa e quantitativamente – e apesar das suas 3 Desde determinadas regiões um pouco por toda a Europa, até algumas zonas rurais da China ou da Índia, passando por aldeias e medinas de Marrocos.

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inúmeras incongruências e assimetrias – uma maior disseminação de regiões bem como de zonas urbanas nas quais é mais visível a preocupação com determinadas directivas que determinam uma ecologia mais equilibrada da planificação do espaço, seja ao nível da definição do que são zonas rurais e urbanas, seja ao nível das acessibilidades, do desenho urbano quanto às suas volumetrias e densidades de ocupação, etc. Naturalmente, e como abordei anteriormente, tal atitude para com a organização do espaço colectivo não é de todo exclusiva às sociedades mais desenvolvidas; apenas se entrevê que a cadência da informação bem como a operacionalidade dos mecanismos que a veiculam, sendo mais estabelecidos nessas sociedades, parecem assegurar uma consciência colectiva crítica e como consequência uma maior transparência e ponderação nas decisões.

Não querendo forçar a ideia de que de alguma forma ou em algum momento a casa convencional e todos os espaços vividos por pessoas se podem imiscuir de tal forma que não se distinguirão – nem isso seria desejável, para bem da individualidade intrínseca ao ser humano – pareceme no entanto pertinente, para uma reflexão sobre esse conceito tão significante e proeminente que é “casa do povo”, precisamente a negação da divisão e fractura drásticas entre o que é o nosso espaço de habitar privado e todos os espaços colectivos que usamos e vivemos no nosso quotidiano. É essencial a tomada de consciência de que as intenções relativas ao espaço da comunidade carecem sempre de tomadas de posição transparentes e de decisões esclarecidas e discutidas, não só para que essas intenções sejam mais ponderadas e assertivas sobre o espaço da comunidade, mas sobretudo para que traduzam a defesa dos interesses comuns. É também fundamental a noção de que a programação, a formalização e o funcionamento do espaço deverão ser fruto de um trabalho de análise e de projecto exaustivos, já que, um espaço não projectado material e intelectualmente, tornar-se-á apenas num receptáculo da vacuidade colectiva, do seu lixo material e estético, em última análise, da sua ética alienada. Não se trata contudo de ter uma visão da organização do espaço semelhante à de uma “máquina” em que todas as peças têm que encaixar na perfeição e funcionar de forma autoritária e acrítica, sendo que o conflito e confronto de ideias são duas das premissas mais sadias dos sistemas democráticos; muito menos se trata de apelar ao fim da espontaneidade. Apenas reforço a percepção de que nos nossos dias, para que a espécie humana proteja o espaço de si mesma, até as florestas virgens carecem de um plano para assim se manterem. 69


Um Concurso de Arquitectura:

Centro Cívico em Milão

OAC Arquitectos Rui Santos1

Sitío

Em Milão emerge uma nova zona da cidade localizada no Centro Direzionale de Milano, de carácter essencialmente terciário, a qual está a ser alvo de uma vasta intervenção arquitectónica e urbanística inserida no projecto Puorta Nova. Aqui, mais especificamente no quarteirão IsolaGaribaldi, nasce a proposta a concurso público de um Centro Cívico que possa responder às necessidades quotidianas dos seus habitantes. A encomenda pressuponha a criação de um edifício que respondesse às necessidades de associação inerentes ao estilo de vida italiano e à maneira como se vive o bairro e a comunidade. Este edifício estaria localizado no coração do Parque Degli Alberi, o qual está inserido na nova zona de expansão da cidade de Milão, que se assume como uma nova centralidade, rodeada por arranha-céus de uso administrativo e comercial. Esta intervenção constitui uma oportunidade para voltar a encontrar o equilíbrio de uma área urbana em conflito, e cuja história remonta à época da muralha medieval da cidade de Milão. No contacto entre a cidade consolidada e o novo parque foi prevista a instalação do Padiglione Infanzia, Casa della Memoria e a Incubatore per l’Arte que, articulados com o presente projecto, virão reforçar o direito dos cidadãos de participarem na vida da cidade, a raison d’etre de um Centro Cívico.

1 Co-director dos OAC Arquitectos, atelier de arquitectura e construção em actividade desde 2012, com sede no Porto, e no seguinte website: http://www.oacarquitectos.com/ 70


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Perspetiva e Implantação do Parque Degli Alberi e localização do Centro Cívico

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Proposta

A visão implementada foi uma que expresasse e, acima de tudo, catalizasse de forma clara e informal a fluência entre cidadão e espaço público, um espaço onde os limites entre público/privado se diluissem ao ponto de o próprio edifício se tornar espaço público na sua essência.

Forma

Devido ao lugar que ocupará na transição entre o parque e a cidade, procurou-se manter uma integridade monolítica no edifício através de formas geométricas simples, desenhando atravessamentos e pátios que extendessem o edifício para o parque e permitissem que o parque invadisse o edifício. O edifício parte da fragmentação que os espaços públicos causam, sendo eles os geradores dos diferentes blocos em que se subdivide o bloco inicial. Estes espaços que resultam da fragmentação deste bloco em três aproveitam as diferentes qualidades espaciais para albergarem diferentes aproximações ao programa público. Assim, existe na paisagem como monolito, e é aquando da sua vivência interior que se desmultiplica, conferindo uma dinâmica que tenta responder à muiltiplicidade de usos de um centro cívico. Flexibilidade: as variações volumétricas aliadas à continuidade espacial do piso térreo e às zonas de atravessamentos permitem múltiplos modos e carácteres de apropriação do espaço que conferem uma flexibilidade programática capaz de melhor responder às múltiplas necessidades de associação por parte da comunidade. Circulação: o edifício é atravessado por um percurso exterior com inicio no átrio de entrada e interliga os 3 volumes. Acessos independentes ao longo deste permitem a utilização do edifício por vários tipos de público a qualquer hora do dia. Solar Passivo: a composição volumetrica, através da introdução de pátios e atravessamentos, permite optimizar a exposição do edifício à luz natural, preferencialmente a Sul. Continuidade Visual: a continuidade visual entre os diversos equipamentos para potênciar a interrelação entre os vários públicos do edifício.

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Planta do piso tĂŠrreo e corte transversal

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Programa

A proposta ocupa um lote de 720m2 e tem 852m2 de área útil, a qual está dividida em três programas principais: Artes e Cultura [auditório, espaço intergeracional e sala das artes], Educação [foyer, salas de exposição, biblioteca, mediateca e auditório panorâmico] e Cidadania [salas de associações, cafetaria, administração], os quais estão repartidos por três volumes.

Artes e Cultura a) auditório: alberga 80 pessoas distribuidas pela plateia e pela galeria. Destinase a acolher concertos, peças de teatro, conferências e eventos relacionados, e é expansível para o pátio e para o exterior do edifício, multiplicando as possibilidades de uso. b) espaço intergeracional: sala polivalente, divisível em 3 salas. Destinase a receber actividades culturais e recreativas das diferentes gerações de utilizadores. c) sala das artes: sala para as actividades artísticas da população jovenil, aulas e ensaios de musica, teatro, dança ou cinema. Expansível para o pátio contíguo. Educação a) foyer e galeria: ponto central do edifício, de onde partem os principais percursos. Franca relação visual à quota do piso térreo. Destinado ao acolhimento e encaminhamento dos visitantes, pode albergar exposições e eventos efémeros. b) leitura e multimédia: desenvolve-se em 2 pisos e destina-se às actividades e- ducativas e culturais quotidianas. Alberga o espaço internet, o espaço multimédia e a área expositiva no piso terreo e o espaço de leitura no piso superior. É expansível para os atravessamentos contíguos e para o parque. c) auditório exterior: localizado na cobertura do edifício, aproveita a relação privilegiada com a paisagem envolvente. Destina-se a pequenos espectáculos ao ar livre que procurem experimentar novas formas de apresentação. Cidadania a) administração: open-space destinado à gestão do edifício e prestação de serviços ao público. b) cafetaria: a zona de cafetaria e bar são expansíveis para a esplanada que articula o edifício com a praça verde, prevista no projecto do parque envolvente. Articulam-se também com o atravessamento pedonal, o qual se assume de carácter mais público. c) espaço institucional: área destinada ao encontro entre a sociedade civil e as instituições públicas. Composto por 4 salas expansíveis para dois pátios. Podem acolher reuniões de associações cívicas e prestação de serviços públicos. Acesso autónomo para permitir a utilização em diferentes horários.

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Editor: Rui Aristides Textos: João G. Lopes Joana Alves Luís Gomes Miguel Roque Paulo Afonso Ricardo Ibrahim Rui Aristides Rui Santos

MORFEMA Nº2 | Casas do Povo | DEZ. 2015

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