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MöndoBrutal #06 Info e coisas..:

Não é que na MondoBrutal gostemos de bater no ceguinho, mas a questão que nas últimas semanas serviu de mote a uma fervorosa discussão entre tudo o que é músicos, fãs, e fórums nacionais relacionados com música não deixa de nos sair da cabeça - estamos a falar da infeliz afirmação do Vitorino (sim, esse senhor que mesmo que num estilo que nada tem a ver com esta webzine, tem o peso que tem na história da música nacional), que em entrevista a um jornal diz algo como: “quando um português canta em inglês fica tristemente ridículo”. Ora, nós na MondoBrutal, como já devem ter entendido, não fazemos distinções no que a isso diz respeito, e mesmo que uma banda portuguesa cante em tailandês, desde que a música seja relevante e nos diga algo, nós não a iremos ignorar de certeza. Neste momento muitos melómanos mais “agarrados” estarão a afirmar que todos os portugueses deveriam estar a cantar em português, mas a verdade é que temos a liberdade de nos expressar na língua que bem entendermos, e a língua serve exactamente para fazer passar uma mensagem; não importa se ela é passada a 100 portugueses, ou a 2 igleses, ou até vice-versa. O importante é fazer uso dessa liberdade, e de seguir com aquilo que se sente.

MÖNDOBRUTAL webzine mondobrutal@gmail.com

Nesta edição, por exemplo, temos os Smashed Head, com o seu metal banhado em hardcore e melodia, o rock expansivo e hipnótico dos Drill, assim como os roqueiors bonvivants Spiritual Way no artigo ‘As linhas com que se tecem a Malha’ (com a vibrante ‘Rock’n’Roll tonight’), que acabam por ser bandas que comunicam na língua inglesa e não têm complexos nem preocupações em partilhar a sua música com quem a quizer ouvir; e isso inclui além fronteiras se tal se suceder. Contudo também cá temos nesta edição o punk rock cheio de garra dos Asfixia, e o revisitar da memória de um grupo punk rock que foram os Krux da Pedra, ambos bons exemplos do cantar na língua de Camões, tal como uma banda como o power duo Quelle Dead Gazelle que comunicam bem apenas com os seus intrumentais - e aí até dificulta ainda mais os teimosismos, uma vez que não há língua por onde se lhes pegar. Essa - música instrumental - era, de resto, uma característica partilhada pela banda que é capa desta edição, que agora comunicam também na língua anglo-saxónica e inclusive já levaram as suas músicas a vários locais espalhados pela Europa. Os Lost Gorbachevs são um exemplo maior no que diz respeito à liberdade ao nosso alcance no que diz respeito à forma como podemos comunicar o rock e a música agressiva em geral da forma ‘como bem nos der na telha’. Fundir jazz com metal e ter algo de erudito e grindcore ao mesmo tempo é obra, e para dizer a verdade os seus elementos já não são novatos, contando mesmo com veteranos de renome no epicentro da banda

04 - Fora do Arquivo: Krux da Pedra

com passados distintos que procuraram uma nova forma de comunicar e transmitir as suas emoções através de uma fusão pouco convencional. Muito haverá a ser retido desta entrevista feita ao mentor do grupo.

22 - Drill

(Gustavo Costa e Luis Gonçalves são músicos ligados à lenda viva do death metal nacional que são os Genocide, por exemplo). Músicos

Tudo isto, pois a comunicação é feita por cada um da forma como se sente, independente de um qualquer mito (ou não..) vivo insultar quem bem entender, só porque não compreende o que os outros fazem, ou pretendem fazer. É caso para dizer que não é por um gato nascer todo de uma só cor que não pode ser pardo ;’)

http://www.facebook.com/pages/MöndoBrutal/118889448226960

A Seita: KaapaSessentainove (coisas variadas/ entrevistas) Maltês (design) Rui LX (tmbm design) Cátia Panda (recolha de info/ an.discos) Girh (revisão textos/ entrevistas) Lagartixa (an.discos) Hugo Cebolo (for.d’arquivo/ linhas c. q. s. t. a malha)

índice 02 - Editorial 03 - Notícias

06 - Asfixia

10 - Smashed Head

14 - Lost Gorbachevs

18 - Quelle Dead Gazelle

26 - A.l.c.q.s.t.M.: “Rock’n’Roll tonight” dos Spiritual Way

28 - Análises a discos 30 - Videoclube

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Not]cias .................. Um FDP de um Festival!

a música que reconhecem como válida, assim como outras formas de expressão. Uma das características da Hell Hot Hell (HHH) traduz-se através duma plataforma multimedia por si desenolvida a que apelidam de M.A.L., onde “através de um registo gratuito, os utilizadores do M.A.L. poderão aceder e descarregar música, e-books, audiobooks, filmes, séries e animações de forma gratuita e completamente legal“. Para saber mais: http://www.hellhothell.pt/pt/

Sopas de Cavalo Cansado iniciam projecto de crowdfunding Após a tão polémica questão de uma foto promocional à cidade invicta com a expressão “Rio és um FDP“, aparece agora um Festival dedicado à música, e não só, designado de Festival FDP 12. Segundo a organização, neste contexto a sigla FDP traduz-se “faz, discute, participa“. O festival esteve para acontecer na Azenha (S. Martinho do Campo, Valongo), entre dia 21 e 23 de Setembro, mas entretanto foi movido para Paredes, apenas para ser novamente posto à prova. Os responsáveis pela organização procuram neste momento por um local que albergue o festival, na cidade do Porto. Um local gerido por alguém que não tenha medo da influência do político (certamente Rui Rio) por trás de todos estes sucessivos cancelamentos. Bandas como Dead by Pregnancy, Motornoise, Lost Gorbachevs, Fina Flor do Entulho, Cabeça de Martelo, Desctruction Eve, Mad Dogs e Come Cacos, entre outras, estariam para subir ao palco, a par com actividades como o artesanato ou escalada que também estavam planeadas para acontecer. As receitas reverteriam a favor das duas pessoas condenadas na sequência dos confrontos de 19 de Abril, no Porto, entre a polícia e apoiantes do colectivo Es.Col.A que ocupara a escola abandonada da Fontinha. Quem tiver ou conhecer quem possa disponibilizar tal espaço, pode seguir o seguinte link e contactar a organização:

A banda de punk rock com laivos de industrial, Sopas de Cavalo Cansado, de Linda-a-Velha criou uma página no site massivemov com a intenção de desenvolver o processo de amealhar fundos para a distribuição do seu álbum O riso e a raiva. Segundo a banda “Temos tudo pronto, agora precisamos da tua ajuda para replicar o álbum e distribuí-lo. Caberte-á decidir se merecemos o teu apoio.“ Se assim o quizerem, podem fazê-lo seguindo: http://www.massivemov.com/projectDetail.php?idProjecto=138

Black Bombaim no RoadBurn ‘13

http://fdp2012.portolivre.net/

Nova Editora: ‘HHH’

Há mais uma nova editora independente entre nós. Uma editora que pretende desafiar os moldes convencionais e encontrar novas formas de promover

Trio de Barcelos que lançou este ano o aclamado Titans, os Black Bombaim são a primeira banda portuguesa a participar no já mítico festival holandês, estando confirmados para a edição de 2013. RoadBurn é considerado o mais importante festival underground de psicadelismo, e rock avantgarde, e irá realizar-se em Tilburg, entre 18 e 20 de Abril do próximo ano. http://www.facebook.com/blackbombaim

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F#ra do Arquivo

KRUX DA PEDRA

Se juntarmos as variáveis punk português no feminino e representativo dos anos 90, os Krux da Pedra são um nome que vem ao de cima de forma destacada. Não sendo uma banda amplamente reconhecida, são no entanto uma banda que se foi contruíndo aos poucos e ganhando uma personalidade que culminaria com a gravação do seu registo de apresentação, mas que deixaria marcas e incentivos para o futuro (mas não sem antes testar a idnignação normal de quem não espera a mudança, para seguir em direção à defesa de ideais pelos quais tocaram). Na zona de Lisboa conhecida como S. Domingos de Benfica, no início dos anos 90, a banda começa a ser idealizada pelos dois amigos de infância Ramone e Raio, que não se censuravam a ser adolescentes que davam nas vistas ao ponto de ainda hoje algumas pessoas se lembrarem deles como “cromos”. Cada um tratava do baixo e da guitarra, mas imediatamente viram-se a precisar de um elemento que marcasse o ritmo, e é aí que a eles se junta Júlio, também conhecido por Animal, na bateria. Com esta formação o grupo denominou-se inicialmente como Poluição Sonora. Após uns quantos ensaios verificaram que a próxima adição tinha de ser feita, e essa era a do vocalista Oculinhos, amigo de infância do Animal, que se caracterizava por ter “cabelo à Marco Paulo”, e por ter “a mania do metal”, como (...). Por esta altura a banda ensaiava, ou na casa de Ramone, ou no então célebre Estúdio Som, na Praça do Chile (São Jorge de Arroios). O nome da banda, Krux da Pedra, é uma adaptação em forma de homenagem do nome do apeadeiro de comboio - Cruz da Pedra - da zona onde habitavam, algo incentivado pelo facto de nessa altura a banda se restringir a tocar na zona de São Domingos de

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Benfica. Curiosamente o apeadeiro deixou de existir. De forma algo esperada - não fosse o nome de um dos membros principais indício disso - a inspiração da banda era primeiramente enraizada no legado dos Ramones. Temas como “Hard vaca”, “Anti-cristão”, “Dalila, tu és minha” (considerada uma dedicatória à “gaja mais boa da zona de Cruz de Pedra“), “Ku Klux Klan”, “Ruin is the law” e “Selva de pedra”, entre outras, foram surgindo nos ensaios, acabando algumas por se revelar malhas bastante intensas, capazes de atrair a atenção de um público e de o fazer seu fã. Entre dois a três anos depois, Raio, o outro elemento fundador da banda a par com Ramone, acaba por abandonar a banda devido a divergências musicais, acredita-se, uma vez que o fez para se dedicar ao punk hardcore. No entanto esta não seria a única baixa na banda, e outra se lhe seguiu que iria ser ainda mais definitiva para o som da banda: Oculinhos acabaria por sair, e ser substituído por Carla. Esta foi uma mudança que acabou por dividir as opiniões dos fãs da banda, com alguns a queixar-se que a voz do vocalista anterior era “inequivocamente melhor e mais interessante” que a da então recém chegada vocalista. A formação da banda só ficaria estabilizada com a entrada do baixista Oxis, amigo do Ramone. Em meados de 1996 os Krux da Pedra começam a acumular rodagem na zona de Lisboa, chegando mesmo a participar num evento dedicado à Semana da Juventude. Com a nova formação a banda deixou para trás um passado mais descontraído e abraçou um caminho mais interventivo, com temas dedicados a assuntos como o anti-capitalismo, a ETA, e até um assunto sério a nível das relações sociais (com base num eventual complexo acerca de decisões sexuais)


como a Sida, entre outros. Estes são momentos com os quais nos cruzamos ao ouvir a demo e único registo deixado pelos benfiquenses, um registo que acabou por chegar aos ouvidos de várias pessoas que se identificaram com a mensagem, mas também reconheciam as decentes actuações ao vivo que a banda foi dando, “exemplo de atitude punk pura e dura em plenos “late-nineties”, sem espinhas“, qual “tropa alcoólica [que] incendiava os palcos e as audiências“ como refere Henrique Cimento.blogspot. pt). A mudança na mensagem e nos ideais quando surgiu foi uma surpresa para os fãs mais antigos da banda já que, como defende uma ou outra voz “o Animal (baterista) sempre tinha simpatizado com cenas da direita..” No entanto, parece que Oxis (apesar do background aconchegado) se manifestava como anarquista, e provavelmente somou a sua opinião a um provável rastilho já existente na banda, já que o estilo que praticavam a isso convidava (e há que notar que a ideia que fica por trás de um tema antigo como “Ku Klux Klan“ não induz propriamente ao conformismo), e serviram malhas ideais para a vocalista Carla ter o pretexto perfeito para dar espaço e volume à sua voz. Pode-se mesmo dizer que os Krux da Pedra começaram como uma banda de amigos, que tinham apenas a intenção inicial de se divertir, mas com o tempo acabaram por se metamorfosear e assumir uma mensagem que acabou por se espalhar um pouco por todo o país, tendo mesmo chegado a “movimentar legiões de gente ávida de punk-rock e boa animação etílica de 95 a 98” como constata Cimento. Ainda hoje é relativamente fácil ouvir o nome da banda lisboeta numa conversa onde o punk português debitado pela voz feminina vem à baila, e recordar hinos como “Anti-cristão”, “Ruin is the law“, ou “Hard vaca”. Infelizmente, em 1998, mais ou menos um ano após o lançamento da demo a banda acabaria por se dissipar, provavelmente por uma questão de mudança de prioridades. Ex-mebros da banda chegaram a participar mais tarde em grupos como os FCC (Fodidos Comó Caralho) e Comandos Y, por exemplo. Alguns fãs mais antigos podem até chegar a argumentar que a separação pode ter sido fruto de uma evolução não tão natural quanto se possa imaginar, mas no entanto a música persiste, e a que eles nos deixaram ainda ecoa como só a de uns poucos o faz.

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MB

http://www.myspace.com/kruxdapedraoficial http://billy-news.blogspot.pt/2007/04/krux-da-pedra-no-myspace.html


Asfixia

”Quem corre por gosto...” é como os Asfixia. A banda lisboeta, formada por elementos que integram ou já integraram bandas como Simbiose, Crise Total, Albert Fish ou Rolls Rockers, surge no nosso panorama como uma lufada de ar fresco e com um punk rock cheio de garra. O baterista Jonhie ajuda-nos a desvendar o que está por trás desta dream team. Practicamente todos os elementos pertencem ou pertenceram a bandas que se tornaram icónicas no que ao punk e música de peso underground nacional diz respeito. Vêm-se como um super-grupo? Não, sinceramente esse não é o nosso objectivo. Neste momento o projecto está numa fase em que fez o seu primeiro disco, já com alguns concertos, mas praticamente está a começar agora... No entanto temos os objectivos bem delineados, e vamos tentar por tudo não cair nos

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mesmos erros do passado.

O que vos levou a juntarem-se para dar os primeiros acordes do que viriam a ser os Asfixia, numa garagem junto da linha de Sintra? Bem.. practicamente foi uma ideia minha e do Rui, que já vinha de longa data, mas nunca com tempo para o fazer. Eu toco com o Rui nos Crise Total, e já havia esta vontade de se fazer um projecto há algum tempo, pois a amizade já vem de longa data... até que um dia fomos com a idea para a frente e saiu os Asfixia.


Sentiram algo como um “quebrar da rotina” ao gravar os temas para o Basta, quando em comparação com o que têm feito, ou fizeram no passado noutros projectos? A ideia sinceramente era sair o som que temos [agora], desde inicío. Até tínhamos idealizado uma voz feminina desde inicio. É um projecto sem dúvida especial; de uma certa forma parecido com anteriores, mas diferente ao mesmo tempo.

É frequente cruzarmonos com exemplos da atitude e entrega genuína dos elementos da banda nos concertos que deram até agora. Cada um dos concertos que dão é encarado por vocês com uma boa dose de intensidade e sempre a dar tudo, ou depende dos dias?

eheheheh

Pá... tentamos dar o litro em todos os concertos; não tocamos para agradar ninguém, mas porque curtimos o que fazemos. Mas somos todos humanos - há dias bons e dias maus...

“Os cães ladram e a caravana passa”, lá canta a Inês em “Hipocrisia”. Quem diriam que são os cães, e quem identificariam ao leme da caravana? Os cães neste caso são todos aqueles que te podem “morder” só porque têm autoridade, porque são egoístas, etc... no leme da caravana vão os que sofrem essas opressões.

Como surgiu a ideia

para gravar “A Verdadeira História de Alcides Pinto”, para o álbum de tributo aos Peste & Sida? O que vos chamou mais à atenção neste tema, que não escutavam noutros? Pá, foi a letra... pegámos na música e fizemo-la à nossa maneira.

Em alguns momentos, durante a escuta do disco dá quase a sensação de que os Asfixia simpatizam com a fórmula rockeira dos Motorhead. Quais diriam que são as influências que vos fazem sintonizar na onda que origou os temas que ouvimos no Basta?


punk rock, rock... não te esqueças que o nosso guitarrista apanhou várias gerações e várias influências.

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Exactamente.. e tendo em conta que nenhum dos elementos da banda começou apenas “ontem” nestas andanças, é fácil continuar a manter o entusiasmo para fazer música com este nível de energia após tanta carga de trabalho que entre todos já acumulam ao longo de uma boa e respeitável dose de anos? É isto que curtimos e é isto que gostamos de fazer... então é tipo aquele ditado “quem corre por gosto não cansa”.

Após a participação numa compilação de importância considerável, do lançamento do primeiro álbum e de um número considerável de datas, qual diriam que é o passo que se segue para os Asfixia? A nossa guitarra é bem rockeira mas é muito mais além dos Motorhead. São uma boa influência, mas ouvimos também cenas muito mais underground, e é mais nessa escola que vamos buscar essas influências... escola do

O passo de momento é promover o álbum Basta. A seguir deverá ser uma pequena edição em vinil com temas novos...

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MB

http://www.facebook.com/asfixia.banda

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http://www.myspace.com/asfixiapunkrock


Smashed Head

Os Smashed Smashed Head Head são são um um bom bom exemplo exemplo de de como como as as aparências aparências iludem. iludem. Ainda Ainda são são novos, novos, Os mas já já fazem fazem canções canções de de metal metal musculado, musculado, banhado banhado tanto tanto na na força força do do thrash thrash como como no no groove groove mas melódico como como gente gente grande. grande. Não Não soam soam aa algo algo com com boa boa definição definição na na garagem garagem onde onde ensaiam, ensaiam, melódico mas em em disco disco conseguem conseguem revelar revelar um um potencial potencial invejável. invejável. A A palavra palavra éé deles deles nas nas próximas próximas linhas. linhas. mas Este vosso EP Until our breath is over tem uma sonoridade bem poderosa. Como conseguiram atingir este (que decerto que foi um vosso) objectivo? Nós desde que começámos a compôr os originais tivémos preocupações - uma delas foi sem dúvida o peso, queríamos sentir que estávamos a fazer algo com sonoridade melódica mas sempre acompanhada de grande peso.

Como iam reagindo enquanto iam ouvindo o resultado das gravações? Foi das melhores sensações que já tivémos. Nós ensaiamos numa garagem e nem sempre tem a melhor qualidade/definição, e ouvir tudo ali com a melhor definição é mesmo caso para dizer que nos veio uma lágrima ao canto do olho.

Tem havido uma boa recepção ao EP?

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Sem dúvida que este EP está a ser o nosso motor de arranque. Estamos a atingir o público desejado, e este retribui-nos com os melhores elogios, o que é muito bom; cada vez conhecemos mais pessoas que ouvem as nossas músicas.

Algo curioso é como, apesar de tudo, com a inversão do estilo adoptado pela banda do black metal para um metal alternativo de fusão, com groove - tenham optado por um novo nome que chega a ser ainda mais sugestivo de violência que Bloody Mary, que era o nome que tinham na fase inical, mais obscura. Como se processou a ponderação sobre esta escolha dentro do seio da banda? Smashed Head é aquilo que nos retracta - o que é que nós queremos? Partir cabeças. Fazemos som para partir cabeças. Chegamos a um acordo muito


rápido em relação ao nome. Para já, tivémos de mudar - já existia uma banda com o mesmo nome de Bloody Mary. E se virmos bem o nosso som apesar de não ser black metal tornou-se mais agressivo.

Entre a informação que partilham sobre o vosso percurso referem que “o primeiro concerto(...) correu tão bem que tivémos mais dois concertos na mesma semana”. Sem dúvida que um acontecimento assim deve ter funcionado como um grande motivador na altura, não é verdade? O que é que isso vos fez sentir? Foi brutal, fez-nos sentir os deuses do rock! É de referir que éramos todos muitos novos, todos com os seus 15, 16 anos. É claro que tínhamos noção que ainda estava a começar, mas sim, aumentou bastante o ego.

Trocar de vocalista, com a entrada de Marco Bones após a saída de Filipe, foi algo difícil para a banda, ou acham que de certa forma ainda vos ajudou a apurar mais a fórmula que hoje seguem como banda?

Talvez. O Filipe saiu porque não se identificava com o género musical que nós estávamos a seguir. O Bones foi uma mais valia; com ele, todos estávamos mais ou menos na mesma onda. Sim, resultou melhor como banda, mas na altura que o Filipe saiu foi difícil, ainda chegámos a dar um concerto só com 3 elementos, mas não resultou, faltava ali qualquer coisa.

Já chegaram a referir que o primeiro concerto com Bones surpreendeu os seguidores da banda, principalmente pela presença. Conseguem descrever algumas das diferenças que se pode presenciar no público quando o vocalista e a própria banda como um todo têm uma atitude mais evidente em palco? Grande prioridade da banda, o movimento em palco. Podem estar 10 pessoas a ver o concerto, nós fazemos com que pareçam 1000. Haver movimento no palco muda tudo, nota-se outro espírito; o público vibra com aquilo, acabando por se deixar levar e movimentando-se também. E no primeiro concerto do Bones, ver que ele tinha à vontade em palco foi uma surpresa tanto para o público como para nós, que nos deixou com um grande sorriso e, claro, esse concerto não nos vai sair da cabeça, pela destruição que houve pela parte do público.

A ligação da vossa sonoridade a um nome como os Trivium é uma associação que aceitariam como banda, ou parecevos algo redutor? Que outras referências acham importantes referir? Nada redutor, Trivium é uma grande banda com boa qualidade. Mas nenhum de nós ouve Trivium. Grandes referências


sem dúvida são os Pantera, Metallica, Iron maiden, Sepultura, ou S.O.A.D. Foram as bandas que nos inspiraram a ter uma banda, e são aquelas lendas que todos [na banda] ouvem.

que ser saboreado por muitas pessoas.. mas sim, já estamos a trabalhar, e é muito provável haver novo álbum em meados de Abril de 2013.

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MB

Quais diriam que são as bandas/ grupos/músicos da vossa eleição que muito pouca gente poderá perceber que acompanham após ouvir os Smashed Head? Hoje em dia muita coisa mudou. Nós gostamos e ouvimos de tudo, desde Fonzie a Job For a Cowboy. Mas as bandas mais ouvidas por nós [de momento] são sem dúvida Parkway Drive, Texas in July, Deez Nuts, More than a Thousand e Comeback kid, entre outras.

Acreditam mesmo que nos nossos dias ainda é possível fazer algo “pesado e único”? Pesado sim, único é complicado. Mas nós tentamos ser algo diferente - as pessoas ouvem e dizem, isto é Smashed Head. Queremos sobressair dentro do nosso género, daí dizermos único.

Until our breth is over ainda vai estar cá para ficar por mais um bom pedaço de tempo, ou já estão a preparar novidades? Queremos que este EP ainda viaje muito. Ele é o primeiro grande fruto colhido por nós, ainda tem

http://www.facebook.com/SmashedHead1 http://www.myspace.com/smashedhead

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s v e h c a b r o Lost.G

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Os Lost Gorbachevs já por cá andam há algum tempo, e são um daqueles grupos que dificilmente passam ao lado dos ouvintes mais atentos e que compreendem a música para além do superficialismo. Uma boa razão para o pouco reconhecimento tem a ver com um certo afastamento do grupo do que está associado à promoção musical, pela forma como tal atira a música e respectiva mensagem para um abandonado segundo plano. Neste número arriscamos ir contra uma das premissas que Gustavo Costa nos apresenta nesta entrevista, para vos dar a conhecer um grupo que tem bastante para transmitir e que pode ajudar a alargar os horizontes daqueles que mais hesitam e sabem que têm a curiosidade melódica e rítmica voraz dentro de si. Esta é a entrevista ao baterista e mentor da banda. Um músico que coloca a música, a história, e até uma certa dose de filosofia social, acima de qualquer glamour.

Donde partiu a ideia para formar um grupo como os Lost Gorbachevs onde misturam influências tão diversas quanto o free jazz e o death metal, entre outras? No final dos anos 80 e princípios dos anos 90 fui muito influenciado por bandas de grind e noisecore como os OLD, 7 Minutes of Nausea ou Napalm Death. Por esta altura, o objectivo era tocar o mais rápido e mais extremo, e rapidamente se esgotou a fórmula. Uma das formas de renovar esta abordagem foi a de misturar vários estilos musicais, e na altura, era certamente radical misturar jazz com grindcore, como o estavam a fazer os Doctor Nerve ou os Painkiller. A ideia para formar os Lost Gorbachevs não é, portanto, nova nem original.

Já vos passou pela cabeça incorporar mais algum estilo musical na vossa receita anarco-satanic jazz, ou neste momento consideram que já têm uma receita suficientemente complexa? Incorporamos vários estilos musicais, e algumas técnicas vão da música improvisada à música contemporânea. São linguagens vastas que


permitem muitas abordagens distintas. Mas, nos momentos em que compomos os temas, não estamos necessariamente preocupados em introduzir um ou outro estilo diferente, apenas tentamos dar alguma coerência às ideias que vão surgindo de uma forma mais ou menos espontânea.

Chegaram a fazer uma tournée por alguns países da Europa, nomeadamente Espanha, França, Itália, Eslovénia, Eslováquia, República Checa e Suiça. Qual é a impressão com que ficam da forma como a música que praticam é recebida lá fora, em relação ao nosso país? Costumamos tocar para um público especializado, dedicado ao underground, por isso há algo em comum que é partilhado em todos os locais onde tocamos. Julgo que a maior diferença tem a ver com a quantidade de oferta que um determinado tipo de público tem. Se tocamos numa cidade pequena na Eslováquia ou Portugal, notamos que as pessoas têm uma ânsia maior em assimilar os conteúdos, porque não há uma diversidade cultural muito grande nos meios mais underground. Nas cidades grandes passa-se muitas vezes o contrário, e as pessoas tendem a não reagir tão efusivamente. Isto também não significa que as pessoas estejam mais ou menos satisfeitas com a música que ouvem, são apenas padrões comportamentais, que depois de filtrados me têm permitido concluir que, no sentido mais abrangente do termo, as necessidades musicais são universais.

que já deve ter acontecido há bastante tempo, certamente). Podem-nos explicar um pouco como surgiu essa oportunidade, e descrever como foi a experiência? Esse concerto foi feito numa mini tour conjuntamente com os Trashbaile onde tocamos em alguns centros sociais e espaços autogeridos nacionais, como a Casa Viva, no Porto, a Kylakankra em Setúbal e o centro social da Mouraria, em Lisboa. São locais onde há uma mensagem libertária com a qual nos identificamos e gostamos de tocar. São espaços que têm um público informado e especializado, e onde sinto que a nossa mensagem é compreendida. O Centro Social da Mouraria tem uma longa história ligada ao fado. Durante muito tempo fomos ensinados a esquecer as raízes populares e subversivas do fado para o transformar numa imagem saloia e pitoresca do nosso país. Foi por isso muito gratificante tocar nesse espaço, porque nos ligamos a uma história mais real, contada pelas pessoas e não por deturpações políticas.

O reconhecimento é algo que consideram relevante, ou não vos faz grande diferença? Durante vários anos dediquei-me ao antireconhecimento, para tentar criar música que estivesse isolada dos tradicionais meios de divulgação e das tendências efémeras. Sempre tive uma certa aversão à imagem e ao marketing associado à música, principalmente no universo da música rock, onde muitas vezes a música passa para um patamar secundário. Ultimamente tenho feito alguns concertos onde utilizo alguns elementos visuais, mas tento sempre enquadrálos numa perspectiva estritamente musical. Continuo a pensar na música como uma forma bastante abstracta que existe maioritariamente na memória e na livre associação de cada um.

Ao passar os olhos pelo vosso arquivo de fotos é impossível não reparar no contraste de ver a figura dos elementos da banda sobre o cenário do Centro Social da Mouraria, em Lisboa (algo

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Passaram bastante tempo como um trio instrumental. Qual foi a vossa principal intenção ao integrar um novo elemento - Luís Gonçalves para a voz, dentro do grupo?

Por vezes sentia que o trio soava demasiado limpo, e que não tinha um território completamente definido (o que de certa forma sempre foi um objectivo nosso). Com a introdução da voz, fica tudo mais pesado, mais metálico. Agora temos mais atenção do público do metal, que é um público muito exigente em termos musicais, mas pouco em termos políticos. Temos assim uma dupla responsabilidade acrescida.

Qual diriam que é a reacção mais consensual da parte de quem assiste aos vossos concertos? Para muita gente ainda é uma novidade. Ainda continua a ser uma surpresa ver um contrabaixo eléctrico com distorção e um saxofone a tocar temas inspirados pelo grindcore. Mas repito que não fazemos nada de novo.

O vosso mais recente lançamento, em vinil 7”, ‘Jazz core for grind freaks’ tinha lançamento aquando da vossa participação no Festival Barroselas do ano passado. Que tal foi e tem sido a recepção ao mesmo?

O split 7” com Tinnitus (que não tem nome), apesar de já estar gravado e pronto há bastante tempo ainda não foi editado oficialmente, por isso apenas tenho a reacção de algumas pessoas a quem fui mostrando o trabalho. O disco foi gravado na nossa sala de ensaios, mas estou bastante contente com o resultado. Tinha uma imagem muito clara do som que queria para estes temas, e acho que algumas pessoas vão ficar surpreendidas positivamente. Os seguidores dos Lost Gorbachevs depois de saber que podem esperar o inesperado, ainda conseguem sair surpreendidos? De certeza que sim. Acho que entre nós os quatro temos bastantes linguagens que ainda não foram exploradas e que podem dar origem a resultados surpreendentes, mesmo para nós próprios. Aliás, todos nós gostamos de nos reinventar constantemente, embora nem sempre o façamos com Lost Gorbachevs.

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‘Jazz core for grind freaks’ é uma declaração acertada, tendo em conta a vossa sonoridade e o meio por onde se movem. Que tipo de reacções vocês próprios têm quando olham para a receptividade ao som que praticam e depois olham


para algumas modas que parecem começar a despontar com o rótulo de jazzcore/black jazz como no caso dos noruegueses Shinning, por exemplo, para os quais um bom núcleo pareceu começar a virar atenções no início deste ano, e aos quais aparentemente pouco resta de improvisação, na falta de uma melhor expressão?

Ouço o que agora chamam jazzcore há mais de 20 anos, por isso deves calcular que estas reacções não me impressionam muito. O lado bom de tudo isto é que aparecem novas bandas, algumas delas muito boas.

Será acertado dizer que já ensinaram alguns elementos mais distraídos, de entre os mais variados públicos para os quais tocaram, a alargar os seus horizontes? Há alguma intenção, nem que escondida algures em vocês, de cumprir um objectivo como este?

e juventude (Residents, Art Zoyd, Henry Cow) . Actualmente, estou particularmente interessad o em música estocástica e na obra de composito res como Xenakis, Lachenmann, Rihm, Ligeti ou Kaaija Saariaho. Continuo a ouvir também muita improvisação livre e bandas “rock” mais recen tes como White Hills, Khanate, Locust ou Earth. Fora do âmbito estritamente musical, a minha maio r influência são os fenómenos naturais em micro e macro escala, tais como estruturas celulares ou sistemas gravitacionais. Costumam fazer planos, no que a este projecto diz respeito? O que ainda está por improvisar? Alguns planos, dentro do tempo que temos disponível para esta banda. O próximo plano terá necessariamente que passar por novos temas e por um disco de longa duração. .. MB

Há um lado despreocupado nos Lost Gorbachevs que tem a ver com o prazer de tocar. Mas há um lado muito importante, muitas vezes disfarçado com um humor subtil, onde transmitimos várias mensagens. O próprio conceito de jazz anarco satânico é bem mais profundo do que aparenta ser. Cresci no meio underground, onde (quase) sempre é cultivada a subversão. Com os anos, fui-me apercebendo que quando a subversão é instituída, passa a ser conservadora. Daí termos necessidade de subverter e inverter os valores subversivos, de forma a dar-lhes novas leituras e forçar novas reflexões. Queremos manter uma mensagem libertária, mas que não se fique pelos velhinhos slogans “fuck the system”, “antifascist”, “no nazis”.

O que vos inspira? Podem dar alguns exemplos de referências artísticas ou outras - que tenham em conta quando chega a altura de compor nova música?

Musicalmente, continuo inevitavelmente influenciado por bandas que marcaram a minha infância (Led Zeppelin, Jethro Tull), adolescência (Godflesh, Crass, Naked City, Kreator)

http://www.myspace.com/lostgorbachevs http://www.lastfm.com.br/music/Lost+Gorbachevs


Quelle Dead Gazelle

Há o conceito de banda normal, e há mais algu ns que se referem a outros formatos one man band, power trio.. os Quelle Dead Gaz elle são um power duo dado ao instrumental. No entanto, ao contrário de muitos exemplos do género, eles sabem como salientar a parte do power. Mas sem esquecer algo importantíssimo: é preciso pôr toda a gente a dançar! O Miguel (bateria) explica... Nota-se algo de Adebisi Shank na vossa postura. É por um tipo de experimentação semelhante que a vossa exploração sónica passa? Na verdade, temos que admitir, que nunca tínhamos ouvido falar de Adebisi Shank antes desta entrevista. Contudo, acho que o som deles tem uma componente mais “math” que o nosso, isto é, mais experimental. A nossa exeperimentação passa por uma mistura de riffs pesados, à stoner, com ritmos dançáveis e efeitos alucinantes, mas sempre com estruturas bastante regulares. Apesar de termos bastantes mudanças de tempo e até de compasso, mantemos sempre uma estrutura regular e repetitiva. O objectivo é ser repetitivo, para dar espaço ao público para perceber que a música é dançável. No fundo, a nossa experimentação é uma procura pela reação do público, isto é, uma procura até atingir o som

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que fará o público dançar, mexer, e abanar o capacete.

Há momentos em que quase se nota alguma influência de música tradicional africana a pairar sobre as melodias da guitarra. Diriam que hoje em dia há uma maior abertura e procura por sons vindos do continente africano na música contemporânea? Há uns tempos o kuduro e a kizomba eram “mal vistos” pela maior parte das pessoas neste país. Mas acho que, graças a bandas como, por exemplo, os Buraka Som Sistema, os ritmos africanos passaram a ser melhor aceites na nossa cultura. Por isso, sim, hoje em dia há uma maior procura pela música tradicional africana. Neste caso em específico, a vertente africana parte mais


da bateria, pelo menos em termos de iniciativa. Achamos que depois de pôr o pessoal a abanar o capacete com riffs pesados, a melhor maneira de pôr o pessoal a mexer os pés é o afro-beat.

É inegável que há uma técnica e química surpreendentes entre vocês os dois, para um duo formado apenas no primeiro trimestre deste ano. Qual é o passado dos dois elementos da banda? Há bandas ou projectos de que já fizeram parte, ou chegaram mesmo a tocar juntos em alguma anteriormente?... Fizemos parte de um projecto entre 2007 e 2009 chamado The Codfish Dealers. Éramos uns putos que queriam fazer música alternativa e tal. Eu cantava e tocava guitarra ritmo, e o Pedro guitarra solo. Contudo, acho que a química e a facilidade que temos em tocar um com o outro formou-se desde que começamos os Quelle Dead Gazelle, talvez por partilharmos os mesmos gostos e termos muitas influências em comum. Acho que, de um modo geral, estamos em perfeita sintonia.

Querem revelar o que está na origem do nome Quelle Dead Gazelle? Não há nada na origem deste nome. Queríamos um nome, pensámos em Masamune, mas achamos mau. Navegamos na net à procura de palavras com uma sonoridade agradável. Procuramos, procuramos, até que encontramos a palavra Gazelle, que nos agradou bastante. Aí eu sugeri, que tal Dead Gazelle? E gostámos da ideia. Contudo, foi o Chouriço, um grande amigo nosso que foi mencionado no nosso primeiro concerto que, sendo da Damaia, nos sugeriu Kel Dead Gazelle. Como soava bem, rimava, não só entre as palavras do nome, mas também com Miguel, mudamos o Kel “chunga” para Quelle, em francês, para lhe dar um ar mais fino. Só desta forma conseguiríamos fazer a piada comum a todos os concertos: “Olá ele é o Pedro, eu sou o Miguel e nós somos os Quelle Dead Gazelle”. Há quem não goste da piada mas, sinceramente, só vou deixar de fazê-la quando tiver fãs suficientes para

fazerem a piada por mim.

“O Pedro [Guitarra e Dança da Morte] gosta de dormir virado para baixo e de guitarras velhas. O Miguel [Bateria e Gritos do Metal] parte pratos e cheira gatinhos.” Através destas descrições temos acesso a uma imagem do colectivo com mais profundidade, mas também a uma certa e agradável dose de humor. O quão importante é ter uma boa veia humorística ao fazer música hoje em dia? Acho que é muito importante falar sempre com uma dose de humor. Não só porque nos deixa a nós mais confortáveis, mas também porque acaba por criar uma ligação mais forte com o público. Isto é, se fizermos o público rir, ganhamos o dia.


E qual diriam que é a dose de verdade em cada uma das descrições atrás referidas? Se virem um concerto nosso ao vivo e tomarem atenção aos movimentos de pés do Pedro ficam a saber o que é a Dança da Morte. Se ele gosta de dormir virado para baixo, deve ser verdade, porque muita gente gosta. E é um facto que ele adora guitarras velhas. Quanto a mim, como diz o Jornal de Notícias, tenho a escola de tocar potente. Isto é, toco com bastante força, por isso os pratos partem-se mais facilmente. Os gritos do metal ainda não saíram dos ensaios, mas estão para vir. A parte de cheirar gatinhos, depende do ponto de vista. Mas não é o que vocês estão a pensar.

O “Duo instrumental de Lisboa [criou] uma atmosfera melódica no Hard Club. A fechar as semifinais, estes dois jovens conquistaram o público.” Assim reza a reportagem sobre as últimas etapas do concurso ‘JN bandas’. Qual é a sensação de, para além de conquistar um lugar num dos mais conhecidos festivais de verão do país, serem lisboetas a conquistar o Porto? A sensação é fantástica. Normalmente, em Lisboa, a fila da frente é composta pelos nossos amigos, que fazem naturalmente a festa. No Porto foi diferente. Pelos vistos o que dizem dos portuenses é verdade. Fomos bem recebidos e deixaramnos completamente à vontade. Foi altamente gratificante ver pessoas que não nos conheciam a gostar, a dançar e a aplaudir. Basicamente, foi uma boa experiência, para primeiro concerto no Porto. Esperamos voltar brevemente para um espectáculo mais longo e elaborado.

Graças a esse concurso tocaram dia

17 de Agosto no festival Paredes de Coura, no mesmo dia em que subiram ao palco os Dead Combo e Ornatos Violeta, que são grupos que envergam, respectivamente, uma boa técnica e descontracção em cima do palco, para além de terem rumado frente ao ‘alternativo’ na época em que surgiram. Sentiram que essa era uma boa oportunidade para tocar para um público que compreende a vossa ‘onda sonora’? Sim claro. Há dois festivais em Portugal que são um “must” para nós. Um deles é o Paredes de Coura, por ser o festival mais emblemático deste país. O outro é o Milhões de Festa, por ser um festival em ascenção com bastante futuro e que abraça o alternativo como mais nenhum festival faz. Não esperávamos começar um projecto em Janeiro de 2012, e em Agosto de 2012 estar em Paredes de Coura.. mas sim, se houve um festival que nos compreendeu, esse festival foi o Paredes de Coura. É o festival que mais apoia a música alternativa. É o festival que mais atrai fãs de música alternativa. Foi a nossa maior audiência de todos os tempos, e levantaram-se do chão para nos ouvir. Foi bom.

Quando poderemos ter acesso a algum material dos Quelle Dead Gazelle? Planeiam registar alguma música para breve? Planeamos gravar ainda antes do final deste ano. Provavelmente um EP de cinco ou seis músicas. Mas, se tudo correr bem, fazemos um lançamento à maneira no primeiro trimestre de 2013. Isto se não nos despacharmos antes, tendo em conta que somos só dois e trabalhamos rápido. Ainda não temos muito para adiantar a não ser que, vai ser forte, mexido, fluído e que vai ter convidados .. muito especiais. MB

http://www.facebook.com/pages/Quelle-Dead-Gazelle/198240753612668

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http://soundcloud.com/quelle-dead-gazelle


D rill

Os Drill surpreenderam há dois anos com o desenrolar de uma viagem em format o de álbum, chamada Free Ride, que foi sendo desvendada mês após mês. Alguém com boas ideias como esta certamente tem algo interessante para dizer, e foi isso que descob rímos com esta entrevista à banda que debita um rock clássico stonerizado de elevado valor. Quais são na vossa opinião, as vantagens de um power trio? No nosso caso um power trio não foi uma coisa pensada, foi uma consequência natural dos tempos em que a banda começou! Na altura éramos três a querer fazer coisas novas e três ficámos. Não sentímos a necessidade de ter mais instrumentos, mas se a necessidade aparecer, não teremos problema em passar a quarteto ou o que seja. As vantagens são mais logísticas: cabemos em carrinhas mais pequenas, o alojamento sai mais barato e são menos opiniões.

“Ir ao âmago da simplicidade roqueira, buscar os sentimentos que nos fazem sentir tão bem!”, já chegaram a referir. Em que acreditam que consiste essa simplicidade, que às vezes parece tão esquecida?

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A força que a música tem, nem sempre está na sua complexidade, aliás, raramente está. Essa simplicidade que referimos é apenas o acorde certo no sítio certo; é a batida a puxar; são três acordes numa sequência mágica. No fundo é o Rock’n’Roll.

Free ride soa mesmo a uma grande viagem. Experimentaram (converter e) ouvir o álbum em vinil, tal como o ritual clássico que se permitia aos discos mais expansivos? Não, ficou apenas em formato digital. Mas o Free Ride foi mesmo uma viagem.

O álbum foi sendo disponibilizado de uma forma muito curiosa, saíndo para cá para fora ao ritmo de um tema por mês, ao longo de 2010. Qual era a vossa ideia com esta forma de apresentação dos


temas do álbum? Houve várias razões para que o Free Ride fosse partilhado assim. Primeiro que tudo, chegámos à conclusão que a grande maioria das pessoas não compra discos, não os ouve todos, e ouve música principalmente pela internet. Logo, não víamos na altura necessidade em ter que ir para estúdio, se a qualidade que ia chegar ao ouvinte majoritário seria um mp3 manhoso. Decidimos gravá-lo nós. Depois, achámos que o consumo de música é muito rápido, quase instantâneo; o tempo de vida dum álbum são no máximo três meses. Então para contrariar isso, só púnhamos uma música cá para fora de mês em mês, para que as pessoas tivessem que voltar aos temas que tinham, antes de avançar para outro. Terem que perder tempo a digerir um tema até que houvesse outro. Usando os meios que a modernidade pôs ao nosso dispor - a internet e os computadores - tentámos contrariar o modo moderno de consumir música! Por fim, foi desafiar a nossa criatividade a fazer e gravar uma música por mês. Todas foram gravadas ao longo do ano, não havia nada em carteira pronto a entrar. Chegámos a gravar mesmo no limite do tempo!

dispor, está a ser encaminhado para ser um “homem dos sete instrumentos”? Sem dúvida, a exposição e o modo como uma banda se expõe é muito importante hoje em dia. Há que conhecer as ferramentas que estão ao nosso dispor e usá-las da melhor forma. Há um mundo louco de comunicação, e é preciso pôr a criatividade a funcionar e tentar que quem nos ouve ou vê se fixe em nós.

Houve reacções interessantes por parte das pessoas que iam tendo contacto com os temas? Chegou a haver um desenvolvimento de alguma ansiedade por parte daqueles que acompanham os Drill? Sim, houve quem acompanhasse de perto toda esta movimentação durante este ano. Se nos atrasássemos um pouco a pôr uma música cá fora, recebíamos logo mensagens.

Num dos vossos espaços virtuais referem que o que vos influencia são a “música e os sonhos”. Que música é essa, e que sonhos serão esses? Nem sei onde está isso escrito, mas se está já devíamos ter tirado...

Filmaram o videoclip para “The race” na íntegra com um telemóvel Nokia N8. Qual foi o ponto de partida para esta ideia? Acreditam que cada vez mais um artista, sabendo usar a tecnologia ao seu

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Vocês gostariam mesmo de tocar “em Lisboa, sala TMN, Madrid, sala El Sol e Barcelona, sala Bikini” para comemorar o 7º aniversário da banda? Estas salas dizem-vos algo em particular? Bom, nós gostamos de tocar em qualquer lado, desde que haja um mínimo de condições. A sala TMN é muito nova, ainda não tem muita história, mas as salas espanholas que aí estão mencionadas são sine qua non de qualquer banda de rock que se preze. Mas isso era apenas uma brincadeira...

Aquando da manifestação desse vosso desejo (em forma de partida do 1º de Abril), deixaram o ríspido apontamento “houve finalmente uma agência com tomates para apostar em nós”. Sentem

que o que se passa com o rock português é mais uma falta de coragem do que uma questão de ignorância musical? O que nós sentimos é que ninguém quer arriscar nada, fica tudo naquelas coisas que já se sabe que vão dar alguma coisa. Isto é transversal, não é só na música. Quem tem os conhecimentos, os meios e algum dinheiro não está disposto a apostar numa coisa que goste ou ache boa. Aposta numa coisa que talvez não seja tão boa, mas que garanta um mínimo [de retorno]. O que resulta daí é que a qualidade geral diminui, não há novidades, talvez até poderiam ganhar mais, mas como envolve risco, é melhor não. Não tem seguramente a ver com ignorância. No meio disto tudo há um ponto fulcral para que as coisas aconteçam e isso sim é um problema português, o público não aparece, prefere ficar na rua a beber uma cerveja em vez de entrar no bar ao lado, que tem uma banda fixe. Prefere ir a festivais sem conhecer o cartaz e pagar uma pipa de massa, do que ir na sexta-feira ver uma banda duns gajos com um ganda som por 5 euros com uma imperial. Não há muito a cultura de ir ver os pequenos, médios concertos em Portugal e isso é um problema que está logo na base de todo o processo.

De qualquer forma não baixam os braços e já há material novo a ser gravado, certo? Virá aí alguma nova, e mais uma vez interessante, forma de editar a música cá para fora? Estamos a pre-produzir um álbum, que esperamos que esteja pronto no inicio de 2013. Estamos muito entusiasmados com o que estamos a fazer e com os resultados que estão a aparecer. Serão, em principio, 9 temas de Rock, um pouco mais musculado do que o que foi feito até aqui. Ainda não pensamos como editar, o que deve querer dizer que será uma edição em modo clássico, CD e digital. Mas quem sabe se até lá não teremos alguma ideia!

..

MB

http://www.facebook.com/drillrock

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http://www.myspace.com/drillsound


As linhas com_ que se cosem a [“Rock’n’Roll tonight”, dos Spiritual Way]

MALHA

“Rock’n’Roll tonight“, dos lisboetas Spiritual Way, é (tal como o título deixa adivinhar) um hino ao rock, esse diabrete que se entranha por debaixo da pele dos aficcionados da música enérgica e cheia de ritmo, mas também um grande Fuck You! a todos os que não acreditam na música que é feita no underground português. Para dançar, fazer tremer as cordas vocais ao som dos viciantes coros ou simplesmente bater o pézinho, este é um tema que merece toda a nossa atenção, e aqui está a história por detrás da génese de um tema que quando executado só tem uma intenção em vista: salutar a boa disposição que o rock’n’roll tantas e tantas vezes é capaz de transmitir.

Segundo Ricardo Neto (Ás de Paus, voz/ baixo), “Rock’n’Roll tonight“ é sim, um tema de celebração, mas também um tema ”inspirado no clima generalizado que existe em Portugal sobre as as bandas tugas”, reflecte, dando exemplos de algumas pessoas que argumentam que “não somos bons”, ou que dizem mesmo que “as bandas tugas são muito fraquinhas. Ouço isto tantas vezes... a critica é normalmente negativa e na maioria das vezes deconhecem as bandas, o panorama musical tuga actual, real. Ao longo dos anos as orelhas ficaram demasiado quentes das opiniões de músicos frustrados e treinadores de bancada... os tais que nunca vão ver ou apoiar a malta “amiga”...”.

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A letra para a esta malha surgiu pela pena do vocalista/baixista em conjunto com o vocalista/guitarrista “Ás de Espadas (Bruno Martins)“, practicamente no mesmo momento em que a música ainda estava a ser composta “na nossa antiga sala de ensaio, em casa do Ás de Copas [ex baterista da banda, entretanto substituido pelo Joker (Ricardo Campos)], com a ajuda de todos os elementos”. “Surgiu logo em conjunto com um riff do Ás de Espadas - o riff principal do tema - tudo na mesma tarde e de forma natural “, tal a forma como as ideias relacionadas como aquilo em que a música se tornou já estavam entranhadas no grupo, de forma a que tudo fosse muito imediato e uma colaboração. “Somos muito democratas a compor”. Mesmo a construção da estrutura do próprio tema foi algo sem espinhas, nem grandes entraves. “Foi surgindo: um beat, o refrão, um final ‘à antiga’...”.


Contudo há ingredientes inerentes a esta música que lhe foram dando uma vida própria, e de entre os que mais se destacam estão os jogos de vozes durante os versos, e os coros já perto da recta final da música, que segundo nos revela Neto “é mais uma ideia do Ás de Espadas, que ao longo destes quatro anos e tal acabou por se tornar uma das imagens de marca dos Spiritual Way”. Quanto ao vistoso solo, esse é “do Ás de Ouros (Ricardo Baptista), que é sem dúvida o Ás que brilha neste baralho”. Para chegar ao resultado final, contrariando a fluidez quase imediata do resto da canção, o guitarrista acabou por deixar o tempo fluir e o dito solo “surgiu com mais calma, uns ensaios depois, tendo sido apurado nas gravações do nosso primeiro EP, com ajuda do mestre Paulão (Paulo Vieira) ‘produtor’ dos dois EPs da banda.”

Tentando ir um pouco mais fundo, e a arriscar resgatar um ou outro episódio que esteja relacionado com o sentimento colocado na letra, o grupo revela que até há uma associação com um “episódio passado uns anos antes”, em que durante a participação num concurso “com a primeira banda que tivemos - The Blizzard, (1997/2002), na qual estavam incluídos o Ás de Copas, o Ás de Espadas e o Ás Ouros - [...] uma banda de malta mais velha dedicou-nos uma versão de Death a que apelidou ‘Sound of ignorance’ [provavelmente um jogo de palavras com o título do álbum Sound of perseverance, da mesma banda].. Note-se que nós tínhamos 16/17 anos, e eles 26/27, e estávamos na mesma eliminatória. Seríamos assim tão ignorantes?”

““Rock’n’Roll Tonight” é sem dúvida um dos temas mais carismáticos e queridos tanto pela banda como pelos fans”, afirma, complementando que o tema é quase como um “pilar“ para a banda em termos de canções fora e em cima do palco. “Diz muito sobre atitude/maneira de estar na música de Spiritual Way”.

Em forma de conclusão, completam ainda: “a letra é simples e sentida... [...] não procuramos a riqueza ou a fama, mas sim o enorme prazer; a cura espiritual que para nós é tocar ‘pure fucking rock’n’roll’. Uma afirmação simples do tipo: “somos assim mas somos felizes”. É sem dúvida uma forma de libertação espiritual quando gritamos todos juntos “We dont give a fuck!” (Refrão). Mas acima de tudo é uma celebração, uma homenagem ao rock’n’roll!”. Por falar nessa parte da letra, é com alguma surpresa que ficamos a saber de uma “situação engraçada”, em que “alguns amigos da ‘família’ Spiritual Way criaram um grupo cultural com o nome do nosso Refrão”. Uma malha assim certamente funcionará bastante bem em palco, e a verdade é que para a banda esta é também “uma música festiva em forma de agradecimento aos fans. É um tema para cantarmos todos juntos!” Também nós podemos agora experimentar ouvir este tema, e cantar com os Spiritual Way, esquecer os problemas por um bocado e cantar “We don’t give a fuck!“. .. MB

http://www.spiritual-way.com http://www.facebook.com/SpiritualWay

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arrepiante de escutar nestes dias, diga-se. Dá mesmo vontade de puxar o volume mais e mais para cima a cada audição. Se passarem numa loja de discos nos próximos dias, não se esqueçam deste!

Hills Have Eyes Strangers (2012)

Faith No More é um nome que nos passa pela cabeça ao ouvir a introdução deste Strangers.. mas não sem antes nos debatermos com a estranheza inicial do som das teclas, à instrumental midi de um videojogo dos anos 80, ou início dos anos 90. Qualquer distracção fica, no entanto, resolvida logo desde que a bateria e a voz começam a rasgar a par com as guitarras, logo a partir de “Hold your breath”, e aí apercebemo-nos que estamos alistados para uma viagem onde a insuspeita fusão de influências de At the Gates com More Than a Thousand é evidente, quer pelos rasgos de ritmo e brutalidade sonora da banda escandinava(“The Broken”, “This is a war”), quer pelos refrões orelhudos, mas enérgicos da banda de Setúbal (de que ‘Hold your breath’ e a faixa título insistem em ser os melhores exemplos). Apesar de a fórmula se manter mais ou menos a mesma durante todo o álbum, há um sentido de união quanto-baste que faz com que tudo faça sentido, e as melodias se mantenham sempre frescas a cada audição. De cada vez que os versos “Time heals nothing at all, I swear I’m gonna break these fucking walls” de “All at once” ecoam pelas colunas, a identificação com uma das almas que canta no coro é imediata - algo

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Adryana Gold - Meet the eye (2012)

Há muito que a cena nacional underground vive sem uma artista que encarne a forma por vezes bela, por vezes disforme, de ver a realidade, o amor e a vida através dos olhos de uma mulher, sem que um certo delírio a mais venha ao de cima e retire toda e qualquer réstea de sobriedade e dor nas palavras. Adryana Gold pode agora ser a resposta a essa falha, representada aqui através deste primeiro trabalho, Meet the Eye. Nele encontramos algo como uma colisão frontal, e de bastante bom gosto, entre Cranberries e PJ Harvey, onde as ondulações de voz da vocalista (e também a percussão, já agora) dos primeiros se cruza com riffs de guitarra resgatados aos dias inspirados da segunda. A modesta produção das músicas que compõem este EP escondem um pouco o potencial que estas malhas serão capazes de exportar ao vivo, em cima de um palco, com os amplificadores bem acesos, mas “Once broken”, primeiro single, é sem dúvida um cartão de visita ideal, e bastante sentido.

Knives Out / Local Trap Split (2012) Foi com um misto de surpresa e agrado que soubemos que as duas bandas, uma do Porto (Local Trap) e

outra de Leiria (Knives Out) iriam colaborar uma com a outra, num lançamento conjunto, que é este split. A totalidade dos 5 temas não perfaz mais que 7 minutos, mas é o quante baste para deixar os ouvidos mais desprevenidos em ferida. O que temos aqui é hardcore do mais sujo, sombrio e rápido que se possa (ou não) esperar. Curiosamente o registo abre com um tema lento... ou melhor, cuja introdução é uma marcha lenta cuja inspiração poderia ser atribuída ao metal mais doom, à moda do que uns discípulos dos Black Sabbath, como os Earth, reinventaram e levaram para um novo patamar a roçar o drone. Ainda a meio desse mesmo tema (“Road 666”) a ignição liga para practicamente não mais parar até ao tema de encerramento - que surge após mais dois temas ultrarápidos dos leirienses (uma “Society” insuflada de crust, Napalm Death q/b, e alguns apontamentos do thrash primal dos Sepultura por alturas do Chaos AD; e uma “Sick” com algo de The Exploited misturado com hardcore nova yorkino) e o primeiro dos portuenses (“Colheita de sangue” que aproveita de forma excelente a passagem de testemunho vinda da última malha dos companheiros de estrada e evolui para algo que passa por vários andamentos - chegando a roçar o crust, e a ganhar um balanço contagiante para o final). “Days gone by”, o segundo e último tema dos Local Trap neste registo é um tema que promete habitar entre os mais sombrios da banda, tocando um pouco na experimentação obscura pela qual gente como os Converge também já arriscaram, e emergindo tal qual uma sombra ameaçadora, apenas para deixar a promessa de um eventual retorno. Este é um lançamento não só para os seguidores das duas bandas, como também para os seguidores do


estilo, e todos aqueles que não têm medo de uma roleta russa sónica. Ready, set, shoot!

Wistful - Wistful (2011)

Wistful é um dos vários projectos de Ishkur, músico que se tem destacado no underground black metal/industrial, com projectos como Sonneillon (por si fundado), o homónimo - Ishkur - a solo, e mais recentemente AktiveHate, que tem dado que falar um pouco por toda a Europa na imprensa especializada em música industrial. O que distingue Wistful de todos os outros projectos do dotado músico/ compositor é o sentimento. Nas 7 faixas que compõem o álbum de estréia de mais este alter-ego (que incluem uma inspirada versão de um original de Dead Can Dance para o final), o que encontramos são um punhado de boas canções, inspiradas no black metal melancólico e melódico na veia de Alcest, mas com a rispidez de uns Peste Noir. Na verdade, com este projecto Ishkur quase que presta uma homenagem ao que de mais isnpirado tem saído no arrastado e sujo underground francês nos anos recentes. Sempre

Identificas-te com a MöndoBrutal?

com a voz gritada (maioritáriamente na língua de Camões) e em eco, momentos de explosão ritmados por uma secção rítmica adequadamente shoegaze, não fazendo esquecer que há também algo de post rock por aqui, o músico recorre aqui em igual medida a momentos de dedilhada e cristalina melodia - que mais parecem o que Robert Smith se lembraria de criar caso ficasse fechado numa cave sozinho durante dois anos - e a uma controlada exposição ao negro sol do black metal. Com um carácter absolutamente romântico - no sentido fiel à definição original (e recorrendo a uns escassos apontamentos vocais melódicos) -, o disco encerra letras que são como que uma espécie de catarse, onde “Anagoge”, “Kenosis“ e “Ego“ atingem proporções de intensidade admiráveis. A entrada, com uma linha de piano, de “Neos“ é soberba. Uma rendida e enraivecida viagem através dos recantos mais obscuros da depressão, mas que acaba por render um honesto triunfo musical.

Low Torque - Low Torque (2012)

Engraçado que parte da fibra original por trás do stoner rock como o conhecemos tenha estado centrada no flow melódico e na soul de algumas das relíquias da chamada música da Motown (algo admitido pelos pioneiros do estilo), tal o sentimento enleado na melodia - o que dava a todos os hits dessa década dourada o chamado groove -, e acabou por deixar a sua marca bem vincada na geração fim dos anos 80, início de 90, mas bem poucos sejam os casos de bandas que colocaram essa faceta de forma tão descarada no (também apelidado de) rock sulista. Com os Low Torque essa rotunda deixa de existir, e é uma sensação tão curiosa quanto estranha, visto que não estamos habituados a este tipo de embate. Mas ao fim de algumas malhas e da maturação do seu som no ouvido começamos a perceber que sempre fez todo o sentido! Ouvir este registo de estréia é quase como ter o previlégio de escutar o que seriam a secção rítmica dos Down, com as guitarras de Kyuss - com algo de Zack Wilde à mistura - encabeçados por uma voz que encarna a soul à maneira de Chris Robertson (Black Stone Cherry), mas com a força de um Lajon Witherspoon (Sevendust). Tudo boas razões portanto para não fechar os ouvidos e experimentar a diversidade que nos apresentam, não menos pelo solo à classic hard rock em “Concrete rain”, ou pela inclusão de cítara em “Vampires!”, banjo em “Headstone”, e até pelos piscar de olhos a algo de Thin Lizzy (“Poisoned lips, dead tongue”, “I versus me”, por exemplo). É caso para perguntar: Onde é que estes senhores estavam escondidos durante todo este tempo?

..

MB

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Videoclube 8O7X6E

http://www.youtube.com/watch?v=b2DCQ

http://www.youtube.com/watch?v=m9IMA64WPT0

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STRAP 58 - “Dirty Wave”

VIRA LATA - “Contagem Decrescente”

STONE SLAVES - “Tear Down These Walls”

en” ADRYANA GOLD - “Once Brok

(clica e vê)

http://www.youtube.com/watch?v=P05X56076xQ

2ksbI

http://www.youtube.com/watch?v=0dhyHK


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MöndoBrutal #06  

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