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MöndoBrutal #09

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Info e coisas..:

Objectivos. Toda a gente tem os seus. Na MöndoBrutal o objectivo é simples: dar a enteder ao pessoal das bandas que não estão caídos na ignorância, que a sua música é realmente ouvida e dá-la a mostrar a outros que com ela se podem identificar. Com sorte algumas bandas até poderão cruzar caminho pela primeira vez nas páginas desta webzine e mais tarde fazer alguns concertos juntos. Por vezes a distância faz com que uma banda de stoner rock do Porto nem saiba que existe uma que se identifica com as mesmas influências em Coimbra. É surpreendente a forma como todos os finsde-semana após mais uma ronda de concertos assistidos descobrimos (não mais uma, mas) mais meia dúzia de boas bandas que por aí andam no underground. Infelizmente o nosso esforço não pode ser multiplicado ao ponto de conseguirmos acompanhar tudo tudo o que se passa a este nível, mas vamos continuar a fazer um esforço para fazer o que consideramos o mínimo obrigatório conforme o nosso gosto e consciência ditam.

MÖNDOBRUTAL webzine mondobrutal@gmail.com

Um pouco dentro deste espírito e já bem intrincados dentro no ADN que compõe a essência da boa música rock portuguesa (onde ela encontra os seus limites e sabe que depois de determinada linha já não vale a pena) estão os músicos que compõem O Bisonte. Não há ilusões para O Bisonte, apenas concretizações, e com o poder sónico que têm debitado nos últimos anos - através de um rock inflamado com estilhaços de prog, stoner, ou até de algum espírito pós-hardcore -, são hoje um dos nomes mais inspiradores, no que ao melhor que o nosso underground tem para oferecer diz respeito. Na entrevista que nos cedem neste número poderão ter acesso à sua palavra em discurso bem directo!

02 - Editorial

Mas há ainda mais: o hardcore sem rede e sem medo dos The Skrotes, o metal vulcânico e cheio de groove dos Stampkase, o thrash metal decidido que chegou para fazer estragos dos Terror Empire, e o punk rock cheio de sangue novo dos Contra-Mão. Todos eles também em entrevista nestas páginas. Para além disso, arriscamos revelar com o artigo ‘Fora do Arquivo’ desta edição um pouco mais sobre a história de uma coisa chamada rock gótico em Portugal através da biografia dos (quase) desconhecidos Morituri, uma banda muito à frente para o seu tempo como poderão constatar os mais curiosos.

http://www.facebook.com/pages/MöndoBrutal/118889448226960

A Seita: KaapaSessentainove (coisas variadas/ entrevistas) Maltês (design) Rui LX (tmbm design) Cátia Panda (recolha de info/ an.discos) Girh (revisão textos/ entrevistas) Lagartixa (an.discos) Hugo Cebolo (for.d’arquivo/ linhas c. q. s. t. a malha)

índice 03 - Notícias 04 - Fora do Arquivo: Morituri

06 - Terror Empire

10 - O Bisonte

14 - Stampkase

E temos ainda o desfiar da viciante malha que é “Discordia Song” dos the Fuzz Drivers, algo que vale a pena constatar! ..e mais, como já sabem. Aliás, só não trazemos mais porque o limitado tempo não nos permite. Mas como o que há são, isso sim, razões para celebrar - uma vez que há um novo número - só temos mais uma coisa a acrescentar: Ao ataque!! \m/

18 - The Skrotes

22 - Contra-Mão

26 - A.l.c.q.s.t.M.: “Discordia Song” dos The Fuzz Drivers

28 - Análises a discos 32 - Videoclube pag.10


Not]cias .................. Malevolence, embaixadores com nova música de peso

seu sludge/groove metal, agora em gravações, mas entretanto sem baterista. No entanto têm já música nova disponível online, e essa chama-se “Stronger than you”.

Os leirienses Malevolence tornaram-se a primeira banda nacional a representar Portugal numa conferência internacional sobre heavy metal. A Heavy Metal And Popular Culture - assim se chamava - realizou-se a 4 e 7 de Abril na Bowling Green State University, em Ohio, nos Estados Unidos, para a qual os death metalers portugueses foram convidados por Brian Hickman, director da ISMMS (organizadora do evento). O mesmo evento teve cobertura por imprensa como a Blabbermouth e Wall Street Journal, assim como a participação de estudiosos e veteranos do metal, como Dan Spitz(exAnthrax). Recentemente, a banda lançou o segundo single do seu álbum Antithetical (com data prevista para a segunda metade deste ano) para download gratuito, “Devoured Unlimited”. Podem escutar o tema em:

Aos interessados, quer em ouvir a nova música, quer em contactar os Junkywax com vista a ocupar o kit de bateria, é clicar no seguinte link:

https://www.facebook.com/iMalevolence

Simbiose à volta da Europa

https://www.facebook.com/pages/Junkywax/121693457924471?fref=ts

RoqueFest 2013

Este ano irá decorrer a 3ª edição do festival açoriano Roquefest, 6 anos depois da sua segunda edição. Nas duas primeiras edições o festival realizado na ilha de São Miguel contou com nomes como Requiem Laus, Morbid Death, os vimaranenses The SymphOnyx, ou os lisboetas Sick Souls. Para a edição deste ano, que se irá realizar a 17 de Maio em Poço Velho (São Roque) Ponta Delgada, a organização confirmou já a presença dos Sanctus Nosferatu, Weparasites, Anomally, Summoned Hell, From Fire We Rise e Zimosis. Saibam mais em: http://www.facebook.com/pages/Roquefest/582006811824053

Os veteranos do grind/crust Simbiose anunciaram uma tour Europeia a começar em Toulouse (França) dia 9 de Maio, e que se irá prolongar até 5 de Julho, dia em que participarão no ínfame Obscene Extreme Festival na República Checa. Para já a banda lisboeta tem data marcada com os gigantes brasileiros Ratos de Porão no próximo dia 29 de Junho, no Tumulto Fest. Para mais, podem ir seguindo tudo passo a passo: https://www.facebook.com/SimbioseCrustBand

Junkywax com nova vida a caminho... baterista procura-se Os nortenhos Junkywax estão de novo dedicados ao

Os sons de outro continente, dos Quelle Dead Gazelle Os Os rorckers minados de shoeagaze instrumental Quelle Dead Gazelle lançaram muito recentemente o seu primeiro EP, que conta entre os seus 6 temas, com “Afrobrita“, tema de avanço que já recebeu aprovação por parte dos relómanos viciados em rock descomplexado mais atentos. O EP pode ser escutado em avanço no seguinte link: http://quelledeadgazelle.bandcamp.com/album/quelle-dead-gazelle-ep

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F#ra do Arquivo MORITURI

Morituri, assim se chamavam. O punk serviu-lhes de berço, mas viriam a tornar-se pioneiros na cena gótica portuguesa, tendo a sua sonoridade culminado num sedutor e surpreendente misto entre o estilo de onde partiram e aquele para onde decidiram seguir. Mudança é mesmo o substantivo que melhor lhes serviu, tendo em conta que a dinâmica dentro do grupo mudou ao sabor da saída e entrada de elementos que certamente contribuíu para a evolução da sonoridade que atingiram. Mesmo assim, a par com o facto de terem sempre mantido a voz feminina bem à frente, haveria uma coisa que não mudaria para a banda: o aparente anonimato. Esperemos que o relato da sua história sirva para ajudar a corrigir essa lacuna.

Os Morituri surgiram no inverno de 1984, e no início da sua breve mas influente carreira, eram mesmo uma banda punk. Através dos anos houve mesmo uma espécie de dança das cadeiras na formação, pela

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qual passou um rol surpreendente de músicos ligados ao mais imprescindível que se fez na música rock portuguesa (underground e não só) nos idos de 80. A primeira formação da banda contava com Elsa Didelet na voz, João Martins no baixo, Luís Moreno (que mais tarde faria parte dos Doutores e Engenheiros) na guitarra, João Pratz na bateria e Isabel Cardoso também na voz. A banda estreou-se ao vivo num recinto hoje considerado mítico, dada a forma como havia sido convertido num autêntico viveiro da cena punk de Lisboa, chamado Teia, na zona de Belém. Lá actuavam bandas punk com bastante frequência e terá sido um ponto comum importante, não só no estimular de uma cena então a fervilhar no underground nacional, mas também da comunicação entre bandas que haveria de ser importante para o prosseguir do percurso dos Morituri. Um ano depois da sua formação, em 1985, acabariam por participar na segunda edição do igualmente mítico concurso Rock Rendez Vous, onde também participaram bandas como Crise Total ou Pop Dell’Arte. Por esta altura a banda ia levando a cabo uma lenta metamorfose na sua sonoridade, a par com algumas alterações na formação. Numa determinada altura, por esta fase, a banda contou com Alexandre Gomes nas teclas e encarregue também da voz, Luis Lança ao trato das percussões, Mané, Orlando Cohen (que posteriormente faria parte dos Peste & Sida e Censurados) na guitarra e Luís Saraiva na bateria. A sombra e melancolia do gótico não atingiria os


Morituri apenas na forma sonora, mas também na vida real, com uma tragédia a abater-se sobre a banda a determinada altura, com o suicídio de Luís Saraiva. É após este infeliz capítulo que entra para a banda Luís San Payo, (irmão de João San Payo, dos Peste e Sida), que posteriormente viria a fazer parte de bandas como os Pop del’Arte, Rádio Macau ou UHF, que ficaria com a bateria ao seu cuidado. Algum tempo depois, no ano de 1987, a banda acabaria por voltar ao concurso Rock Rendez Vous, já na sua 4ª edição, onde começou por se destacar como uma das nove bandas finalistas, a par com grupos como Peste & Sida, Ena Pá 2000 ou Tranz It, e terminou em segundo lugar. Músicas como “Ascenção e queda”, com um vigor melancólico muito à frente do seu tempo em relação ao que até então era praticado nos recantos de Lisboa, mostrava uma banda que havia já dado o passo para fora da arena punk em direcção ao sedutor abismo do rock gótico, ou death rock, como já alguns apelidaram. Na música acima mencionada há até ambientes sonoros evocados - nomeadamente no que diz respeito a linhas de intrumental em que o teclado se evidencia - que nos parecem quase o delimitar de um mapa que seria muitas vezes passado a papel químico, tal a forma como serviria de inspiração a bandas como, por exemplo, os Moonspell, que principalmente no seu álbum Sin recorrem a melodias e efeitos semelhantes ao destes pioneiros. O culminar da metamorfose responsável por músicas como a já mencionada “Ascenção e queda”, “Sonho lento” ou “Tédio” (tema feito a partir de um poema de Florbela Espanca) chegou com uma nova renovação no grupo, com a integração na banda de Alexandre Fernandes na bateria (que mais tarde passaria as baquetas a Hippo) e Ricardo Carmo (irmão de Xana, dos Rádio Macau) na guitarra. Desta forma os Morituri estavam naquela que é considerada a sua terceira e derradeira formação, com a qual em 1988 gravaram a sua demo - primeira e único registo gravado pela banda. O que ouvimos neste registo é uma banda encabeçada por uma voz feminina completamente imersa nas ondas sonoras turvas da darkwave e do rock gótico que bebia ora

dos The Mission, ora dos Bauhaus, com um nervo que chegava a ser contemporâneo dos The Cure, mas, devido ao background punk chegavam a envergar uma atitude que lembrava em algo os The Cramps. Surpreendemente, (ou não, dado que estamos a falar de uma banda que surgiu nos “loucos anos 80”) a banda conseguia mesmo assim adicionar um ou outro toque da melancolia que nos é inata (há quem o diga), através de uma ou outra passagem que nos lembra aquele género de música tão português que é o fado (as explorações vocais no início de “Tédio” são bem claras nesse aspecto). Apesar de viverm abaixo da superfície do que foi considerado o boom de rock nacional nos anos 80, até porque o rock gótico que praticavam não se inseria muito nesse naipe, foram das bandas mais activas em termos de concertos na altura, tendo partilhado palco com bandas como Crise Total, Linha Geral, Pop Dell’Arte, Projecto Azul, Requiem Pelos Vivos, Essa Entente, Der Still, D.W.A.R.T., THC, URB, SMACH, Radar Kadafi, Ena Pá 2000 e Peste & Sida, entre muitas outras. No entanto um dos momentos mais altos da banda terá sido mesmo ter feito a abertura para o concerto dos The Lords of The New Church, banda de rock gótico com contornos glam liderada pelo carismático e mítico ex-vocalista dos rebeldes Dead Boys, banda norte americana que a par com os Ramones incendiou o rastilho de um género que viriam a chamar punk. Apesar dos feitos e da forma como souberam reinventar um som e trazer praticamente em primeira mão um novo género para os palcos nacionais, os Morituri pouco depois de dar a actividade como encerrada, dissolvendo a banda, caíram no esquecimento. Quando alguém pára para pensar onde estão as origens do rock gótico - e da música gótica e sombria em geral - em Portugal, muitas vezes fica a meio do caminho sem saber o que se estava a passar quando o mapa cronológico atinge a década onde as guitarras desafiavam leis e a morais. Os Morituri poderão ser a chave para resolver esse enigma.

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MB

http://underrrreview.blogspot.pt/2010/10/morituri.html http://www.myspace.com/morituri1986#!/morituri1986 http://www.facebook.com/MorituriPortugal

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Vocês baptizaram a banda tendo em conta um conceito muito interessante. Poderiam explicar um pouco aos leitores da webzine o que vos motivou? Bom, Terror Empire é um nome que se baseia numa forma que os manda-chuva decidiram implementar para controlar as populações. Neste caso, pelo medo; pelo terror. Desde o 11 de Setembro que existe uma histeria coletiva e um etnocentrismo (por parte de quem manda no mundo ocidental) que não é saudável. As pessoas perderam direitos e liberdades. É preciso escarafunchar a ferida para que nunca nos habituemos a isto.

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Parece-vos que esse mesmo conceito se estende em alguma medida ao nosso contexto social em Portugal? Em Portugal estamos de joelhos perante um bicho de três cabeças que se dá pelo nome de Troika. Estamos subjugados pelas leis da economia. Enfim, o nosso terror é puramente económico. Salvaram-se bancos e pessoas que não mereciam salvas. Iniciaram-se projetos que nunca deveriam ter sido iniciados. Torraram-se oceanos de dinheiro e agora estamos condenados a pagar uma fatura que vai castrar os sonhos dos nossos jovens e futuras gerações durante décadas. Mas quem fez a merda continua à solta, está rico e


De forma rápida, muito rápida, desde o lançamento do seu registo de estreia, os Terror Empire têm-se afirmado como uma intenção sériamente a ter em conta dentro do thrash metal nacional. Sem grandes preconceitos, e com uma clarividência que se estende a mais do que apenas música, conheçam vocês também um pouco mais sobre um grupo que - reserve o futuro o que reservar - sabe bem ter em conta o respeito pelo percurso dos veteranos. feliz.

A música pode servir como uma forma de escarafunchar nessas feridas.. No vosso caso com thrash metal “furioso, mas friamente calculado”, como descrevem. Podemos assumir que procuram seguir no sentido de um lado mais técnico dentro do género, ou essa frieza e calculismo vai noutro sentido? Bom, um gajo tem de meter uma frase pretensiosa no meio de um press-release, para parecer bem... haha. O que queremos dizer é que não queremos ser brutos apenas porque sim.

Em termos técnicos, haverá sempre alguém mais competente, ou mais brutal, etc. Assim, apenas queremos dar o nosso melhor e sermos iguais a nós mesmos. Não queremos imitar ninguém, apesar de nos inspirarmos em muita gente. De qualquer forma - sim, haverá sempre um riff difícil de tocar em qualquer uma das nossas músicas. Eu culpo o Dave Mustaine.

Que acaba por ser uma referência maior no thrash metal clássico, no qual se inspiram, mas vocês procuram também ter um pé na modernidade com o som que praticam. Como têm visto a vaga de

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thrash metal que por aí andou que bebia mais de Municipal Waste, do que de Megadeth ou Kreator, por exemplo? É rápido? Sim. É honesto? Sim. É divertido de tocar ou assistir? Sim. Siga, o que importa é que as pessoas estejam felizes, desde que não implique fazer outras infelizes. De resto, o thrash metal nunca morrerá. É demasiado inteligente para tal.

Cair e voltar a levantar, esse parece ser um ponto comum na gestação de várias novas bandas. Sentem que de alguma forma estão mais fortes enquanto Terror Empire, do que nos extintos Against? Sim, totalmente. Nos Against tínhamos uma postura pré-histórica, não tínhamos ideia alguma do que era ter uma banda. Apesar de querermos tudo, éramos aquilo a que se costuma chamar de “uma banda para os amigos”. É duro dizê-lo, mas a esta distância é a coisa mais honesta que poderei dizer. Nos Terror Empire queremos abraçar o mundo e estamos a fazer por isso, realmente. Lançámos um CD, conseguímos promovê-lo no mundo, estamos a dar muitos concertos, a fazer imensos amigos (em bandas ou no público), e queremos gravar mais álbums. Ir até onde der para ir. Gostaríamos de ser uma referência no thrash metal português; seria uma honra. Mas o caminho é longo, e temos a humildade para saber que há mais gente na fila e que respeitinho é muito lindo.

Para a gravação do eficaz registo de estreia, Face The Terror, recorreram aos serviços de um engenheiro de som português que apesar de ter trabalhado com nomes de alto calibre como Napalm Death, Robert Plant ou Blaze Bailey, se mantinha practicamente no desconhecimento. Como é que descobriram e entraram em contacto com o Miguel Seco? O Miguel Seco é nosso amigo desde os tempos da Secundária. Seguimos o seu percurso profissional desde sempre. Sabe muito mas é humilde que dói. Talvez seja esse o motivo do seu aparente estatuto de desconhecido. A verdade é que ele passa metade do mês a trabalhar em Inglaterra e a outra em Arganil, no estúdio do Marito Marques (baterista de Fingertips e dono dos GMP Recording Studios).

E que tal foi o decorrer das gravações no GMP Recording Studios? Algum imprevisto? Bom, foi relativamente penoso gravar 6 músicas em quase 4 ou 5 meses. Não foi fácil agendar os dias das gravações, e andávamos sempre com o tempo contado. Porém, também nos deu mais tempo para planear as coisas como deve ser, como o lançamento do álbum, onde fazer as réplicas, tratar da promoção e do concerto de lançamento, artwork, etc. O que importa é que


tivémos todas as condições para gravar um cd com um som que me parece irrepreensível do ponto de vista sónico (perdoem-me a imodéstia), e é isso que fica para a posteridade. A pressa é inimiga da perfeição, dizem os velhotes e com razão.

Mencionaram-no e, uma das coisas que se destacam de forma óbvia ao nos confrontarmos com a imagem da banda é a capa do Face the Terror, criada pela Márcia Gaudêncio. Vocês próprios frisam a eficácia deste trabalho como podem. De que forma transmitiram a vossa ideia Márcia? A Márcia é uma artista a sério. Nós dissemos-lhe o que queríamos e como o queríamos e ela teve o engenho de materializar aquilo que hoje é o artwork do nosso álbum. Ficou mesmo bacano e estou a pensar em tatuá-lo no meu braço... haha. Ela foi sempre mostrando o progresso do trabalho, e nós sempre tivemos 100% de confiança no trabalho dela. Queríamos algo que desse para espetar em t-shirts e posters, e temos muito orgulho em ter merch com aquele olhão medricas à venda.

Têm dado vários concertos e já tocaram com bandas com bastante rodagem no circuito metal nacional. Sentiram a diferença no antes e depois do lançamento deste registo? Sim, parece que a banda só começou quando lançou o álbum... e, se calhar, é assim que as coisas funcionam. Já temos 4 anos, mas parece que só existimos desde Junho de 2012, para o resto do mundo. Por isso é que digo às bandas que estão a começar para gravarem algo logo que possível, para terem material para divulgar e se darem a conhecer quanto antes. Ainda assim, sabemos que somos peixe pequeno. Ainda há muito quilómetro para bater, e isto ainda agora

começou!

O próximo trabalho será também um EP? Tecnicamente, o nosso álbum não é um EP, pois tem mais do que 25 minutos. Mas ninguém quis saber se o Reign in Blood tinha menos de meia hora - e foi o que foi. Quem me dera estar a dizer que o nosso álbum é tão bom quanto esse clássico; não é nada disso que estou a dizer. Estou apenas a clarificar uma questão algo confusa para quem descreve o Face The Terror. O próximo álbum vai ser um LP mais compridão, com 8 a 12 músicas, desde que haja guito para as gravar todas. Queremos lançar um álbum mais diverso, mas será sempre thrash.

Bom ponto de vista.. Alguma última palavra para quem vos está a seguir neste momento? Obrigado a todos os que nos têm apoiado e divulgado. Nós sabemos quem são. Se ainda não nos conheces, saca o nosso álbum de forma gratuita em www.terrorempire.net e faz like na nossa página de facebook. Obrigado, vemo-nos num palco perto de ti!

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MB

www.terrorempire.net www.facebook.com/terrorempire

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O BIS O NTE O Bisonte atropela. O Bisonte não quer saber. O Bisonte segue, e nele e só nele reside o poder de definir ou parar a sua motivação. Rock com muito nervo, ao ponto de deixar o mais distraído curioso, e o mais curioso entregue ao desconforto que arrasta através da descoberta. É isto que ouvir a banda do Porto nos deixa a pensar e a sentir. Depois desta entrevista saberão o que pensar também vocês sobre esta máquina de pisotear a aridez envolvente.

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Quão grande é a necessidade de “dizer as coisas às pessoas tal qual elas săo”, para O Bisonte? A importância centra-se no dizer a verdade e usar a honestidade como algo fundamental. As pessoas verem as coisas tal qual elas são é um desafio maior porque implica eliminar a interpretação de cada um. Não há aqui qualquer pretensão de ser uma coisa que não se é.

Pelo menos o vocalista da banda, Davide Lobão, já é conhecido por estas andanças, com incursőes em bandas como os Chemical Wire que também deram um pouco nos ouvidos do underground. Agora que O Bisonte começa a destacarse da manada há algum sentimento de que “desta é que é de vez”? Essa coisa do ser conhecido é na cabeça das pessoas. Chemical Wire era uma banda que cantava em inglês e tocava funk rock quando o emocore é que estava a dar. Depois as coisas evoluíram naturalmente para algo mais alternativo, menos dançável e começou a ser fixe cantar em português. Isto não tem a ver com “desta é que é de vez”, tem apenas a ver com fazer aquilo que se quer fazer e persistir. Tem a ver com dizer a verdade.

O Bisonte enquanto uma entidade, e não uma banda (quase como uma personagem), é um dos vossos pormenores de promoção d’O (lá está) Bisonte. Até que ponto estariam realmente dispostos a ser uma banda que faz a banda sonora para um totem? Nós fazemos a nossa música. Chamamos O Bisonte porque achamos que é gramaticalmente foleiro “Os Bisonte”. Então, e para que toda a gente entenda que isto é um grupo de pessoas com um objectivo comum, fazemos questão de sublinhar o “ele”, entidade. A música é nossa, d’O Bisonte.

Então não é de todo uma questão de levar as coisas na desportiva? Levamos tudo muito a sério. Não sabemos levar nada na desportiva. A ideia é nunca relaxar.

Tanto o primeiro álbum, Ala, como o mais recente Mundos & Fundos foram disponibilizados na íntegra pela banda para download

gratuito. Sentem isso como um risco que decidiram tomar, ou o risco é mesmo não ser ouvido por uma geração com cada vez mais escolha e cada vez mais selectiva? Um risco? Mas não é assim que toda a gente ouve música? A sacar da net? A geração somos nós, que estamos cá. Nós se fizermos coisas e tomarmos decisões de coisas que não nos aborreçam, se não decidirmos fazer vídeos enfadonhos ou fotos promocionais a mostrar uma coisa que não somos, se nos continuarmos a divertir, a decidir coisas, o único risco é divertirmo-nos demais. Mas o animal é sério e equilibra as coisas.

Gravaram o álbum Mundos & Fundos todos juntos, em simultâneo, tal como acontecia na era áurea do rock. Não recearam que a fasquia estivesse muito elevada e pudessem acabar por ter de se virar para o já típico método de


gravar à vez, corrigindo todos os ‘pregos’? Uma das coisas que falamos com o João Brandão, dos Estúdios Sá da Bandeira, foi que queríamos tomar as decisões antes de ir gravar, assumindo essas mesmas decisões. Foi uma escolha. Os pregos previnem-se com ensaios, dedicação e entrega. No fim é bom que se notem, porque ninguém é perfeito a tocar. Nós queremos que se ouçam as pessoas dentro da música. O animal a deitar coisas abaixo. Portanto a resposta é não. Nem sequer pensamos em edição.

Não só as letras, elogiosamente bem aplicadas num português que sabe ser inteligente mas ainda assim rudemente roqueiro, mas também os instrumentais e toda a composição é cuidada de uma forma que dá espaço para que as músicas cresçam a cada audição. O que vos move

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e faz investir tempo e pausar pela inspiração necessária para que tal aconteça? É a vontade de fazer alguma coisa realmente importante, que signifique alguma coisa para nós. A descrição feita na pergunta já é muito para além do que nós possamos pensar. Nós queremos sentir alguma coisa com a música que fazemos, que aquilo, enquanto música, funcione como um bloco que vai acertar em cheio em quem ouvir, no estômago, na cabeça, no coração. Esta merda é tudo energia, não é?

E resgatando um pouco mais dessa mesma energia editaram no ano passado um documentário de Mundos & Fundos. Como surgiu a ideia para o mesmo? O documentário do Mundos & Fundos realmente esteve para sair. Lançamos um trailer que funcionou muito mais como antevisão do disco, mas o filme documental é ainda um processo a decorrer, para um dia mais tarde. Temos muito material da gravação do disco e queríamos ter feito aquilo sair. Ainda não aconteceu e não sabemos se e quando irá acontecer. Essa ideia surge na sequência de querermos fazer um disco de take directo. Achamos por bem registar tudo em vídeo,


para qualquer eventualidade.

dormir, se assim fosse.

Ainda assim, em palco é que O Bisonte pisoteia, esmaga e convence em toda a sua força não é?

Na agenda preparavam uma digressão europeia. Como estão a correr os preparativos para a mesma?

É a fazer música e a tocar ao vivo que O Bisonte gosta de estar. A força vem da vontade e da necessidade de contar tudo a quem vê.

Pouco podemos dizer acerca disso até porque não pertencemos a nenhum circuito de nenhum estilo. Estamos a tentar. Somos nós e mais um gajo maluco como nós ajudar-nos. Temos levado umas quantas coisas à frente e contamos até ao Verão poder ter novidades acerca disso.

“Os [concertos] mais importantes são mesmo aqueles que correm mal porque são os que nos fazem repensar tudo e investir cada vez com mais força”. É uma afirmação audaz e nada comum. Parece-vos que o cenário musical é uma planície onde O Bisonte se destaca por ousar aprender com os erros? Mais uma vez isso é muito para além do que possamos pensar. Isto é como aprender a falar. Primeiro dizem-se umas palavras engraçadas, estimuladas pelos nossos pais e só depois começamos a articulálas. Passamos o resto da vida a tentar articular discurso para nos fazermos entender uns aos outros. Isto é factual. Daí pensamos apenas em fazer disto a melhor coisa possível. Seria mentira achar que o que fazemos é perfeito, em alguma instância. Já tínhamos posto O Bisonte a

Decreto que O Bisonte não fica parado a olhar para a paisagem e por esta altura já estão a preparar o próximo punhado de malhas. O que nos podem contar sobre o que aí vem? Há algumas ideias a serem montadas mais ainda não estão concretizadas. Só podemos garantir que, tal como o Mundos & Fundos é muito diferente do Ala, este também será muito diferente dos seus irmãos mais velhos. O Bisonte só se quer continuar a superar a ele próprio. Só.

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MB

https://www.facebook.com/obisonte http://www.obisonte.org/


STAMPKASE

Em contraste - ou em resposta - à tranquilidade de um local como Furnas, no concelho da Povoação (pertencente ao arquipélago dos Açores), os Stampkase emanciparam-se como um nome que quer erguer a sua fórmula bastante própria de groove metal acima de qualquer questão relacionada, quer com géneros, quer com mentalidades. Nas seguintes linhas é a eles que pertence a palavra.

A ameaça permanente dos vulcões adormecidos, na zona do Vale das Furnas, insufla de alguma forma aquilo que constitui a maquinaria de que os Stampkase são feitos? Curioso, não é? Supostamente uma banda como a nossa, vinda de um ambiente tão bucólico, falaria de tudo menos de máquinas. À partida, claro está, mas há aqui uma parte que faz sentido: para além da tal história de querermos agitar um pouco a calmaria, a verdade é que estamos rodeados de uma beleza e paz que escasseiam em muitos locais e, assim, acresce a nossa preocupação de defendê-las. Lamentamos a forma como as “máquinas” e a insensibilidade estão a tomar conta do ser humano. Para além disso, tocar num sítio onde os hábitos tradicionais ainda são muito rígidos, fazia-nos realmente sentir falta de uma banda pesada por estas redondezas.

Eram difíceis aqueles primeiros dias a ensaiar num pequeno espaço cheio de esferovite, ou até já têm saudades desses tempos? Não eram propriamente difíceis, tirando o calor, mas hoje em dia nem seria possível, pois aquele era um espaço incrivelmente pequeno e nós adquirimos mais algum material com o tempo. Arrisco dizer que o espaço talvez tivesse uns 3m2. Para além disso, não isolava assim tanto o som e numa terra tão tranquila não demorou muito até termos a polícia à porta - um clássico! Contudo, sem dúvida que, e ainda mais passados dez anos, há uma enorme saudade

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em relação à singularidade daqueles tempos, onde tudo era mais feito com o coração do que com a razão. Aquela idade marca-nos muito, mas é óbvio que tínhamos que olha em frente e ganhar mais algum juízo.

De que forma o nome da banda está associado a esses tempos? Está bastante ligado na medida em que, assim que o Ruben Bento se saiu com o nome, imediatamente o associámos ao facto de estarmos a ensaiar numa espécie de caixa. Se a memória não me falha, andávamos todos a atirar nomes ao ar e este soou-nos imediatamente bem. Sem grande demora, começámos a olhar à nossa volta e a achar que fazia todo o sentido, até porque “stamp” alude a marca e isso era algo que gostaríamos de deixar, pelo menos na nossa inocência.

Após terem vencido a edição de 2005 do Concurso Angra Rock, de que forma as coisas mudaram para vocês? Ficámos mais “ricos” e começámos a aparecer mais em revistas e jornais. Com isso, passámos inevitavelmente a ser um pouco mais respeitados, inclusive por aqueles que “há um dia atrás”, não nos davam qualquer crédito... esta é a parte triste da história e da nossa sociedade, em geral. De qualquer forma, começámos, de facto, a participar em festivais que nunca imaginávamos ser possível, sobretudo por serem dedicados às massas. Não me consigo esquecer de termos um outdoor enorme nas principais artérias da ilha com a nossa foto ao lado dos Blasted Mechanism! Qualquer coisa digna de uns rock stars! [risos] Enfim, foi mais ou menos isso que se passou na altura, mas, como em tudo na vida, nada dura sempre e este período passou. Passou porque hoje em dia o metal voltou a ser totalmente marginalizado, pelo menos aqui nos Açores. Os DJ’s e as bandas de covers são a única oferta cultural da noite açoriana, algo que chega a meter nojo de tão previsível que se tornou. Respeitamos as diferentes formas de arte, mas centrá-la num único foco é lamentável e retrógrado.

de tocar este estilo de música para um público tão diferente, e provavelmente desprevenido? Sinceramente, acho que é muito desafiante. Estamos ali a tocar praticamente para nós mas ao mesmo tempo fazendo questão de abanar a mentalidade das pessoas ou até mesmo irritálas, se quiserem. Elas precisam de perceber que a música é um mundo inesgotável e não é só o que vêem na televisão. Têm que perceber o quão fechadas estão na sua relação com as diferentes formas de arte. Tivemos todo o gosto em participar nessas festas, embora não estivéssemos no nosso ambiente. Claro que havia, de ano para ano, um grupinho que aumentava na frente do palco, mas a verdade é que a maioria estaria a desejar que acabasse rapidamente o nosso set. E quando falo de um grupinho ali à frente, se calhar refiro-me a 100 pessoas no meio de 4.000 ou 5.000, como é o caso da Festa do Chicharro! Mas a verdade é que me lembro que essa maioria também não dispersava. É uma situação muito curiosa. Mas creio que essas experiências foram óptimas, até mesmo para o próprio metal na região. É sempre bom o género marcar presença nessas grandes montras. Contudo, tenho que ser sincero e dizer que a situação inverteu-se novamente. Há já

Chegaram a actuar em festivais de respeito dentro da cena, como o Alta Tensão (organizado por António Freitas) e o próprio Angra Rock, no entanto também não se censuraram a subir ao palco de alguns eventos mais ligados à cultura popular, como o são as Festas de S. João da Vila, a Semana Cultural da Povoação ou até mesmo a “Festa do Chicharro”, por exemplo. Qual é a sensação

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alguns anos que estas festas se tornaram outra vez na coisa mais previsível e até demagógica que pode haver.

A vossa primeira demo foi gravada em conjunto com André Tavares, que hoje segue já um percurso de respeito dentro da cena nacional, tendo já gravado também nomes como Grog ou The Firstborn. Sentem que o facto de terem trabalhado juntos no passado foi de alguma forma o ponto de partida para o sucesso que, quer o André, quer os Stampkase, foram descobrindo ao longo destes anos? Definitivamente, acho que não, embora toda e qualquer experiência que se viva no nosso processo de aprendizagem nos influencie mais tarde. O André tinha já um talento natural naquela área mas estava muito no início, tal como nós. Entretanto, acho que acabámos por usufruir muita mais da experiência do que ele. Tirando o nosso guitarrista e baixista, os restantes ainda não tinham tido a experiência de gravar, logo, foi muito importante e marcante. E o André era um grande amigo nosso e talvez por isso nem tenha apertado muito connosco. Contudo, também nem era esse o objectivo. Queríamos, sobretudo, ter algo gravado para podermos ter outra análise do nosso trabalho. Se obtivéssemos um resultado fora do normal, certamente que haveríamos de divulgá-lo ao máximo, mas como isso não

aconteceu... A qualidade sonora estava bastante aceitável para uma demo na altura (ainda que hoje nos assustemos, em conjunto com o André, ao ouvi-la) mas a nossa execução era demasiado amadora para merecer uma exposição em massa. Porém, foi assim que nos começámos a projectar, sobretudo graças ao sucesso online do tema “Self Affliction”. O André tem um talento incrível para esta área e nunca seria por causa de nós que atingiria o patamar notável em que está hoje em dia! [risos] Fico completamente embasbacado quando as pessoas do continente me vêm falar coisas maravilhosas dele, nem sabendo que o conheço! Já o chamaram o “Beethoven” dos técnicos de som! Sinto uma alegria enorme por isso.

Lançaram há poucos meses o vosso álbum de estreia, Mechanorganism. Que tal tem sido a reação ao mesmo, quer por parte do público, quer da crítica? Sejamos muito francos: para uma banda vinda do nada com todos os handicaps de ser ilhéu, fazemos um balanço bastante positivo. Tem sido enaltecido o profissionalismo do lançamento (e ainda bem porque investimos bastante na gravação e no artwork) e em termos musicais há quem goste e quem goste menos. Acho natural. A parte verdadeiramente positiva foi termos conseguido sair em revistas como a Terrorizer, Legacy, Loud! e há a Zero Tolerance a caminho.


Costuma-se dizer: falem bem ou mal de nós, mas falem. É um pouco esse o nosso espírito, porque sabemos o quanto ainda temos que melhorar. Quanto ao público... esta é a parte triste. Gostávamos de dizer que temos feito uma grande promoção ao vivo, mas é mentira. Portanto, assim não conseguimos ter muito a noção da sua relação com o disco (tirando, claro, as pessoas mais próximas que sempre nos mandam uns “piropos”). Enquanto estivermos sedeados nos Açores, o peso da promoção ao vivo será praticamente nula. Tivemos até ao momento apenas o concerto de apresentação no Live Summer Fest, em Novembro, ao lado dos Ramp. Acabou por ser fantástico, mas sabe a pouco.

Com a concretização do álbum de estreia, renovam a intenção de não deixar o “velho sonho” fugir. Têm noção de que têm uma luta bastante renhida pela frente, certo (quer devido à oferta de bandas cada vez mais crescente, quer ao ritmo de vida que a divulgação do nome da banda via tours / concertos exige)? Temos essa perfeita noção. Apesar de sonharmos, mantemos a lógica de que o pior cego é aquele que não quer ver. Portanto, só os mais fortes e competentes prevalecem e nós tentaremos resistir até quando for possível. Acreditem que conseguir lançar um álbum nos moldes em que lançámos e depois de tantos reveses, seria pena não conseguirmos chegar um pouco mais além. Mas na vida tudo é muito volátil, quer pela própria natureza humana quer pelas questões pessoais e profissionais. Parto do princípio de que quando se tem saúde e um pouco de vontade para trabalhar, praticamente tudo é possível. Portanto, se todos trabalharem no duro, certamente que surpresas agradáveis vão surgir.

Com a aposta em gravar nos Ultrasound Studios uma das vossas principais intenções era aprender com quem tem algo a ensinar dentro deste mundo musical, cada vez maior, mais competitivo e profissional. Nesse sentido a experiência foi bem sucedida? Aprender era, de facto, um dos nossos objectivos. Claro que o resultado sonoro final é muito importante, mas para quem vive numa

ilha e tem pouco contacto com outras realidades, esta oportunidade tinha que ser valorizada. Gostava de esclarecer que apenas a bateria foi gravada em Braga e a mistura e masterização foi tratada à distância com o Daniel Cardoso. A parte da bateria espelha exactamente o que disse. Para além das dicas que lá foram dadas, a experiência de viajar para o desconhecido e ter um “cerco muito apertado” para gravar, obrigou-me a ter um grande sentido de responsabilidade e dar o máximo. Por tudo isso, creio que a experiência foi bem sucedida.

E qual está a ser o próximo grande passo preparado pela banda? Apesar de decepcionante, diria que a principal luta diária (para nós e para qualquer banda mais underground) é manter-nos vivos. Os planos e os sonhos existem em catadupa, mas daí até os concretizarmos vai uma grande distância. Podemos facilmente cair no absurdo se mencionarmos planos, mas como sonhar ainda não paga imposto diria que os nossos objectivos passam agora por tocar fora dos Açores. No entanto, a parte triste é que ainda não temos nada em concreto nesse aspecto. Num cenário socioeconómico tão adverso, tudo se torna ainda mais difícil e temos a noção de que com um primeiro álbum nem sempre é possível haver uma revolução. Nesta fase, as bandas normalmente têm que investir do seu bolso, mas como viver nos Açores é como estar na Idade da Pedra (estamos completamente alheados do mundo, nomeadamente em termos de transportes aéreos), só os realmente abastados têm capacidade para viajar. Assim sendo, estaremos atentos a estratégias e parcerias que nos possibilitem tocar noutros lugares e, enquanto isso, vamos tentando fazer algumas poupanças.

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MB

https://www.facebook.com/StampKase http://stampkase.bandcamp.com/

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THE

SKROTES

Num sótão, um grupo de vizinhos que gosta de música decidem formar uma banda com o nome do saco ‘dos tomates’.. quase parece o início perfeito de uma história de encantar (risos). Qual é a intenção dos The Skrotes neste cenário musical tuga underground actual? Não temos qualquer intenção de fazer ou ser nada em especial. Gostamos de tocar e de tocar rápido e é isso que vamos fazendo. Não temos ideias de ficar grandes, ou de “amadurecer”. No goals, just fun times.

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Já chegaram a afirmar que no início, quando começaram a banda, ninguém sabia tocar nada de jeito. Hoje já têm uma opinião diferente de certeza, ou ainda acham que há muito para evoluir? Tocar melhor, nem por isso. tocar mais rapido, sim! Não temos a melhor reputação no que toca a tocar bem, mas tocamos com pica, acho que isso interessa mais do que técnica mas verdade seja dita: o Pedro já tem uns toques engraçados (mariquices).

Todos vocês fazem skateboard, certo? Quando e como começaram?


de ver mas não tem nenhuma razão mais profunda por trás disso. É uma estética simples, que todos gostam, e que está associada ao skate desde sempre.

s u skate ordem O . s e t e ska ois. A ca dep importa Música i s ú m oe ue primeir ortante. O q r rápido, ca mp não é i Skrotes é to iéis a esse F e s aos Th mais rápido. r breve e s z m e a ber r, cada v ém sou eremos dize b m a t , dev lema, ras. Ou . v a l a p nto nas o assu a s o t c dire

Saírem-se com algo como “Sex Pistols... que se fodam os Sex Pistols!” numa entrevista é algo dito com sinceridade ou será mais uma reacção a quem critica o punk que praticam e, entre vocês, preferem ouvir? Era mais uma crítica a quem acha que tem que ouvir alguma banda em especial para ser punk ou o que quer que seja. Além dos Sex Pistols serem bananas e transmitirem uma ideia bastante errada do que é o punk.

...e quais são as vossas bandas de eleição? (O que vos influenciou em primeiro lugar, e apelou ao chamamento que vos fez juntar-se naquele sótão pela primeira vez?) As primeiras marcantes foram mesmo The Misfits, AFI e The Nerve Agents. Depois com isso veio toda a cultura de música barulhenta e rápida, incluindo umas poucas portuguesas. Sei lá: Minor Threat, Dead Kennedys, Black Flag, Infest, Rich Kids On LSD, Decreto 77, We Were Wolves, No Good Reason, Mr. Miyagi, Day Of The Dead, e mais algumas. Achamos que o pessoal devia prestar atenção (pralém dos nomes ja mencionados) aos Local Trap, Destruction Eve, Shitmouth, Mais Uma Queda, Desobediência Geral, Arson, Albert Fish, One Last Struggle, stevenseagal, Carlos Cruzt, Revengeance, Face Up To It!, Cold Ones, Reflections Of Internal Rain, Boredom, INU, This Routine Is Hell, Citizens Patrol, Boiling Point, etc. É pessoal fixe, sem manias. Praticamente todos, apenas o Nito (baixista e CEO da No Borders DIY Bookings) não anda, prefere as bicicletas (hipster). Começámos uns anos antes de nos formarmos e foi a partir do skate que nos conhecemos e mais tarde começámos a banda.

Skates e caveiras, parece ser esse o vosso mote, tanto em algumas das letras como nas vossas capas. Terá alguma coisa a ver com o facto de o skateboarding ser uma actividade de extremos, em que tanto se podem sentir bem, como a seguir podem colocar a vossa vida numa situação eventualmente grave? Népia. Caveiras, tripas, skates e tudo isso, é fixe

Partem a loiça toda por qualquer sítio onde passem, com a vossa actuação endiabrada? ..ou sentem que em alguns concertos têm muito mais a dever ao vossos fans mais chegados, que também não param quietos? Sinceramente, independentemente de ser um ensaio ou um concerto com 100 pessoas (coisa rara), a pica é sempre a mesma. Nós curtimos tocar e é fixe se o pessoal curtir, mas não faz diferença se o público se tiver a cagar ou não, nós curtimos sempre. Começámos esta banda por diversão, não para agradar ninguém. Depois de alguns EPs, estão a preparar agora um split com os Boiling Point, da Eslovaquia, que está aí quase para sair. De quem partiu a ideia?

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O split 7” já saiu em Dezembro e a ideia partiu dos Boiling Point. Há coisa de 1 ano recebemos um email do vocalista deles a dizer que curtiram a nossa demo e que curtiam fazer um disco connosco. Nós tínhamos acabado de gravar o nosso EP, então os rapazes tiveram que esperar um bom bocado porque somos uma lentidão a fazer músicas novas (basicamente não há música que passe se não estiverem todos de acordo, esquisitos do caralho). Coitados. Demorou mas saiu e estamos bem contentes com a edição.

O split vai sair em vinil 7 polegadas, não é mesmo? Ainda há fábricas de vinil

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a apostar o seu tempo em fabricar discos? Sim o disco saiu em 7 polegadas. É uma edição de 500 discos (brancos, pretos e rosa/roxo transparente) e foi uma colaboração entre várias editoras de DIY punk europeias: a nossa Destroy It Yourself em conjunto com a Farce Attack Records da França, Dzsukhell Rekords da Hungria, Totalitarianism Still Continues e Carpath Bears da Eslováquia, Black Trash Records da Hungria e a Yellow Dog Records da Alemanha. 50 dos discos são uma edição limitada e personalizada pelas bandas, cada banda personalizou 25. Ainda há bastantes fábricas de vinil, mas quem está a apostar nisso são as bandas/editoras. Ultimamente tem-se visto um crescimento na procura de vinil, não que seja essa a razão pela qual fizemos neste formato, mas sempre quisemos ter um disco nosso em 7”. Fizemos questão de lançar o disco com editoras que apostam na partilha de música, fazem trocas e preços acessíveis. A música é para todos, não só para quem pode.

E que mais aí vem? Há já mais música no baú pronta para planearem mais alguma edição? (Convosco a composição é sempre a abrir?) Pá, agora a cena é voltar aos ensaios para ver se saem músicas novas, mas normalmente somos bastante lentos a compor. Devemos ter uma média merdosa de 4 músicas por ano (risos).

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MB

http://theskrotes.bandcamp.com/ http://theskrotes.wordpress.com/


Contra-Ma~o

Foram durante mais de um ano uma banda de covers - Rock Never Ends - e hoje entregam-se aos originais como Contra-Mão. Quais diriam que são as principais diferenças dentro da banda e do seu processo desde essa altura? Fomos e ainda somos, uma banda de covers, a banda Rock Never Ends ainda continua. Mas a vontade de criar a nossa música, o nosso som, e fazer ouvir a nossa voz através das letras, foi maior. No que toca a Rock Never Ends, foi o nosso começo como banda e no mundo da música. A formação nem sempre foi a mesma, mas o percurso juntounos, assim como o amor pela música. Com Rock Never Ends tocamos covers, apesar de ser à nossa maneira, não tínhamos muito espaço de manobra para iniciar um novo projeto pois

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É com garra e um jovem entus surgem no panorama undergro com a sua interessante aborda mas interessante percurso a ca que começámos por falar, tend acerca dos jovens (e atentos) m

ainda não sabíamos o que queríamos, qual era o nosso estilo/som, tanto que temos alguns originais em RNE mas nota-se que são muito diferentes uns dos outros. Como já éramos mais conhecidos como banda de covers, apostámos mais tarde em fazer algo novo. O percurso de RNE até agora foi, e tem sido, bastante positivo e possibilitou-nos, com o passar do tempo, ganharmos mais experiência, tanto pessoal como profissional, possibilitou-nos de ganhar mais “estaleca”, apesar de termos ainda muito, mas mesmo muito para aprender. Foi daé e dessa vontade que referimos, que nasceu Contra-Mão, projeto esse a que nos entregamos de corpo e alma. As principais diferenças estão ai mesmo: em criarmos o nosso próprio som, escrevermos as nossas letras. Estamos mais convictos do que queremos agora como banda; a nível pessoal temos outro olhar em relação ao


usiasmo que os odemirenses Contra-Mã o round, entusiasmando-nos a nós também agem ao punk rock. Foi sobre o seu bre ve aminho do que agora são temas originai s, do entretanto acesso a bastante mais músicos.

protesto sobre o que se passa atualmente em Portugal, aliás as músicas de Contra-Mão, até agora falam das várias situações em que está o nosso País. Este refrão é mais uma forma de manifesto, recorda-nos as manifestações que têm decorrido pelo país, o refrão de “Vive-se assim” não só é entoado por Contra-Mão mas representa a voz do povo, que podia ser gritado/pronunciado mesmo pelo nosso povo português. Actualmente as pessoas têm mais noção do verdadeiro estado do país. Achamos que há algum tempo atrás as pessoas não tinham a perceção do que se estava passar. Algumas pessoas ainda fingem que nada se passa e precisam de ser relembradas, porque nunca é demais lembrar e é necessário tomar ações. Este refrão, e mesmo as músicas de Contra-Mão, não são só dirigidas para as pessoas que ainda fingem que não se passa nada, será mais dirigido áqueles que estão no poder, ao Estado que temos hoje. Contra-Mão não queria tornar-se muito repetitivo ao escrever e tocar só músicas de protesto, mas Portugal encontra-se de tal forma que é impossível ficar alheio face a esta situação e a melhor forma de expressarmos os nossos sentimentos é através da música. Como diz mais uma frase do tema “Vive-se assim”, “É a realidade do dia a dia/, é a verdade que nos consume“; as verdades têm de ser ditas e ainda podemos manifestar esse sentimento de revolta através da música. Ainda temos o direito à liberdade de expressão.

Começaram a dar nas vistas com a vossa participação no concurso de bandas “Abril Mira Fest”. Que experiências tiradas da participação no mesmo consideram de alguma forma importantes ao ponto de vos dar uma nova motivação? mundo da música. Evoluímos bastante desde Rock Never Ends, mas ainda existe um longo caminho a percorrer, pois Contra-Mão ainda é um “embrião” em constante processo, que nasceu em Outubro de 2012, mas é isso que queremos e pretendemos: um constante processo de evolução como banda.

“Não nos podemos calar, chega de opressão. Está na hora de gritar: revolução!” Esta é uma afirmação audaz, a que vocês entoam no refrão do tema “Vive-se assim”, um apelo que não é apenas manifestado por vocês; parecevos que as pessoas ainda fingem que não se passa nada e precisam que lhes lembrem o que se passa para tomar acções?

Cada concerto que damos é sempre uma experiência significativa, corra bem ou menos bem, pois para a próxima, os erros que cometemos tentamos corrigi-los. Em concurso é igual, é mais um concerto, pois o que nos interessa é tocar e divulgar o nosso som, é claro que não se esquece que estamos em concurso e de alguma forma estamos a ser avaliados e mesmo não ganhando, a motivação de certa forma não vai abaixo porque, há sempre pontos a favor, há sempre alguém que gosta de nós. E seja concurso ou não damos sempre tudo de nós. Os concursos, no nosso entender, tornam-se um pouco injusto, pois é impossível competir com arte, neste caso música, cada banda tem o seu estilo o seu som, ninguém é melhor que ninguém ali, em concurso nenhuma banda ganha por assim dizer, todos e todas as bandas ganham sempre

De fato é uma frase que pode ter impacto e é de

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algo de

recompensador, o que pode contar mais é a experiência de cada banda, pois cada uma tem experiências de percurso diferentes. Os concursos de certa forma pode ser sempre uma mais valia para divulgar o projeto e dá sempre motivação.

Uma das coisas pelas quais os concursos são bastante apreciados é pelo facto de os músicos das bandas encontrarem uns nos outros um certo encorajamento e companheirismo que ás vezes vem para ficar. Sentem esse tipo de acolhimento pelo circuito em que se inserem? Como referimos na resposta anterior fica se sempre a ganhar, e ai também entra a parte de fazer conhecimento, amigos. Nos concursos que participámos ate agora o acolhimento por parte das outras bandas foi espetacular. Para além de fazermos novos conhecimentos, existe uma troca de experiências brutais, a nível profissional e pessoal, no que diz respeito ao percurso na música de cada um. É muito bom para nós fazer novos conhecimentos, pois possibilita nos, novos contatos e possíveis concertos. Também é extremamente importante ouvir o estilo de música das outras bandas, apreciar o seu som, e aprendermos sempre algo de novo com isso. No geral, o acolhimento pelo circuito em estamos inseridos é e tem sido positivo, muito acessível, e no final existe uma cumplicidade que vem para ficar, laços que perduram, a nível musical e pessoal.

Antes o punk, cá dentro, era quase todo

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em masculino. Sentem que se começa a quebrar o molde agora também cá em Portugal e a surgir mais uma e outra banda punk encabeçada por uma voz feminina? A que acham que tal se deve? O punk rock sempre foi passando de geração em geração e pode ter adormecido um pouco durante algum tempo, mas não morreu e nem há de morrer, e ainda hoje temos inúmeras bandas punk ativas. De fato o punk cá dentro, era quase todo em masculino, temos os Peste e Sida, os Crise Toral, Censurados e por ai fora, mas as mudanças de mentalidade na sociedade também se fizeram sentir na musica, nomeadamente no punk e por isso, muitas das bandas punk aparecem com voz feminina…e porque não? Não deixa de ser punk, não muda espirito, e o seu real significado está lá. Deixou de haver preconceitos em relação á presença das mulheres no mundo da musica e neste caso no punk, como vocalistas de bandas punk. Temos já bandas punk em que a voz feminina dá uma certa pica, é muito bom ver e ouvir cada vez mais raparigas no punk, muitas delas muito boas e temos por exemplo o caso de Asfixia. No nosso caso queríamos fazer uma banda de originais, não tínhamos uma linha definida sobre o estilo de música, começamos a tocar e o punk foi o que mais se identificou com todos e com o que queríamos realmente, apesar de ouvirmos e gostarmos de outros géneros de música, o punk sobressaiu. O habitual é ouvir punk cantado com voz masculina e acredito que em Portugal logo de inicio a voz feminina neste estilo de música foi de alguma forma visto com alguma estranheza e até mesmo algo diferente, mas como se costuma dizer e como o nosso grande poeta Fernando Pessoa escreveu, “primeiro estranha-se, depois entranha-se” Para nós a voz feminina no punk é algo de diferente mas bom que veio para ficar. É uma lufada de ar fresco para o punk.

Tantas bandas em tantos estilos a fazer as letras noutras línguas, nomeadamente em inglês, e no que toca ao punk rock, parece haver cada vez mais uma tendência para o ouvirmos ser cantado na nossa


língua materna. Como vos parece que tudo isso começou? Como foi no vosso caso (o que vos motivou a fazer punk rock cantado em português)? A questão de bandas Portuguesas cantarem em inglês é muito pertinente. Pois depende muita coisa, cada banda tem as suas influências, o seu estilo, é a escolha da banda. Mas ainda bem que atualmente se vêm cada vez mais bandas portuguesas cantarem na nossa língua materna. Achamos que se está a dar mais importância ao que é nosso, ouvir e perceber o que esta a ser cantado é uma mais valia para a banda em si, e há tanto coisa para dizer em português, existe tanta palavra única e bonita para ser prenunciada que ficávamos a perder se não as usássemos. Normalmente as bandas, seja de que estilo for dentro do underground nacional, querem passar uma mensagem, expressar as suas ideias e sentimentos, e vai muito por ai, começarem a cantar em português, porque as suas mensagens tem que ser percetíveis para quem são dirigidas, e neste caso se somos portugueses, é cantar na nossa língua. Um compositor e cantor português uma vez disse, “é difícil cantar e escrever em português” , e é verdade, é bastante difícil, é a métrica, ou a letra que não soa bem, não se encontra o melhor termo o melhor modo. É difícil cantar porque as palavras têm de ser corretamente pronunciadas, para serem bem audíveis e percetíveis. Existe um conjunto de contratempos que por vezes leva certas bandas a cantarem em inglês porque para algumas acreditamos que seja bem mais fácil. É possível que algumas bandas toquem em inglês para ter reconhecimento a nível internacional e um publico mais vasto. Mas vê se muitas bandas de punk rock, português a atuarem fora do nosso país e divulgar e mostrar o que de bom se faz por cá e são reconhecidas, mas lá está depende de banda para banda essa escolha. Os Clã no tema “Problema de Expressão”, ao falar sobre a dificuldade de exprimir o amor, expressa dificuldade, referem “ Devia ser como no cinema, a língua inglesa fica sempre bem, e nunca atraiçoa ninguém”. Ao longo de décadas, as grandes músicas portuguesas e que ainda hoje perduram, são e foram escritas por grandes compositores, o Carlos Tê é um deles e escreveu letras para grandes nomes da música. De há uns anos para cá, há cada vez mais músicos a apostar

na nossa língua e a aceitação por parte do publico tem sido cada vez maior. Hoje já se ouve mais música portuguesa e as pessoas aderem com mais facilidade. Por isso aquele “rotulo” de bandas portuguesas cantarem mais inglês do que em português já esta a ficar mais ausente, por um lado ainda bem que assim é. Contra-Mão começou a ser em Português, pelas razões referidas, porque somos Portugueses, estamos em Portugal, com o nosso género e som o português era a melhor opção e até agora estamos a gostar dos resultados e o feedback é positivo. Foi a nossa escolha, é uma sensação incrível ver o publico a cantar as nossas músicas e saberem as letras. Não há explicação por ver a nossa língua materna a ser reconhecida e entoada. Não quer dizer que mais para a frente não possamos ter uma ou duas músicas em inglês, mas por agora é na nossa língua materna que ContraMão irá continuar a ser ouvida.

Algo curioso é que um dos guitarristas que integra a banda usa o pseudónimo de “Ribas”. Alguma associação ao fundador dos Censurados? (Se sim, qual?) Infelizmente não tem qualquer associação com o fundador dos censurados, esta alcunha começou quando eu (ribas) estava no meu 6º ano de escolaridade mais propriamente numa aula de história com amigo meu chamado João Nunes, e ele vira-se para mim e diz: -Oh André , tu és André ribeiro não és ? e eu : -sim sou, porque? E ele: ribeiro, ribeiro, a partir de agora vou- te começar a

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E nós sentimos isso, nos nossos concertos, as pessoas, amigos, cantam connosco e gostam das nossas músicas. A aceitação por cantarmos em português é muito boa. Confessamos que ate nós próprios no inicio não tínhamos a perceção que existia tantas bandas a nível underground nacional, foi um impacto positivo, foi muito bom saber isso, não estamos sozinhos. As bandas punks têm sempre reconhecimento por parte do público.

Para já quem quiser conhecer o vosso som não tem muito mais hipóteses do que ir a um concerto vosso, ou ver vídeos de um. Para quando podemos esperar o resultado de eventuais gravações das vossas músicas?

chamar “ribas” soa bem e tem a ver com “ribeiro”. O que posso dizer é que a moda pegou e hoje em dia todos me tratam por ribas.

Enumeram várias bandas portuguesas como vossas influências. Estamos (os portugueses apreciadores de música) a abrir os olhos para o que se faz de bom cá dentro? Entre o vosso circuito de amigos e conhecidos revêm esse tipo de apreciação pelo que os grupos portugueses fazem? Quem realmente é apreciador de música, tem noção da existência de muitas e grandes bandas portuguesas de punk rock ou até outro estilo e reconhece o seu trabalho e valor. Mas infelizmente ainda existe uma certa ignorância musical por parte de certas pessoas, e assim o que se faz de bom por cá passa totalmente ao lado e é desvalorizado. Não se recrimina ninguém de não gostar de punk, gostos são gostos. Contra-Mão vem de um meio social pequeno e com pouca, ou muita limitada, oferta cultural musical. Assim as pessoas no geral são influenciadas pelos círculos de amigos, pelo que passa nas rádios, na televisão e pela Internet. Uma pessoa tem de procurar e estar aberta a escutar vários estilos musicais. Entre os nossos círculos de amigos a música portuguesa, nos vários estilos, é apreciada por muitos.

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Para já quem quiser ver e ouvir Contra-Mão, só mesmo em concertos ou através de vídeos. Na pagina do facebook de Contra-Mão, há sempre atualizações constantes dos nossos concertos, pelo que as pessoas podem saber onde nos poderão ir ver. Quanto a gravações, a banda pensa fazê-lo brevemente, assim que estiverem reunidas todas as condições necessárias. Todas as informações sobre este processo, serão divulgadas atempadamente na nossa página, pelo que, quem quiser e estiver interessado, poderá ir passando por lá para ver as novidades. Estejam atentos!

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MB

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As linhas com_ que se cosem a [“Discordia Song”, dos The Fuzz Drivers]

MALHA

Num universo como é o do rock underground, repleto de muita experimentação, por vezes é complicado encontrar malhas que nos fiquem a ressoar na cabeça. Isso faz também com que, quando as encontramos não as queiramos largar. “Discordia song” é uma daquelas músicas com a capacidade de chegar a vários ouvidos e convencer, sem mesmo assim comprometer a qualidade daquilo que uma banda de rock que se exercita maioritariamente com alteres alugados na casa do rock clássico e do blues, como os The Fuzz Drivers.

“Discordia Song” é uma daquelas músicas que não se estranha, apenas se entranha. Felizmente, para os The Fuzz Drivers, e também tendo em conta o que ao bom rock’n’roll diz respeito, isso tem sido reconhecido e valorizado através de “um destaque importante” dado pela rádio SuperFM, e “mais de 4000 views em menos de 3 meses” do lyric vídeo que a banda produziu para a música, e tem tido bastante impacto online. “Portanto muita gente já conhece a música e a letra”, adianta-nos o vocalista Marcelo. Tal obviamente reflecte-se na “grande receptividade por parte do publico “ à mesma ao vivo. “Felizmente não há nenhum tema do álbum que possamos dizer que funciona menos bem ao vivo, aliás este álbum foi feito para ser executado ao vivo”, explica Marcelo. “Devido ao processo orgânico de composição dos temas, sem preocupações de atingir este ou aquele publico, ou agradar esta ou aquela vertente, libertou-nos para criar algo genuíno e com sentimento próprio. O que gravamos é o que sentimos e gostamos, e esta energia automaticamente é libertada ao vivo de uma forma avassaladora.” Para a composição da música a banda apenas se

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limitou a seguir o seu processo de sempre: “Temos sempre o computador no “REC” [em modo de gravação], que é um dos truques para não esquecer boas ideias, às vezes inesperadas, que vão surgindo. (...) Basicamente fizemos esta música como fazemos todas. Alguém tem o riff e todos vamos desenvolvendo a música ao longo do ensaio. Normalmente a única condicionante é a duração. A música vai sendo construída por partes sempre tendo em conta o espaço para a voz”. Duarte confirma ainda que esta música, na sua versão instrumental “ficou fechada assim logo na primeira sessão. Às vezes acontece irmos para casa amadurecer a ideia a ouvir as gravações e melhorar no ensaio seguinte, mas neste caso acho que ficou logo despachada numa só sessão!”

Desta feita, foram Duarte (bateria), Sérgio (guitarra) e João (baixo) quem começou por desenvolver o instrumental da canção, ainda antes da pré-produção começar. Duarte refere mesmo Sérgio como o responsável pela composição dos fortes riffs que ouvimos em “Discordia Song”. “Foi o Sérgio quem trouxe o riff e foi desenvolvida no ensaio por nós os 3. Penso que o Sérgio também trouxe o refrão”, completa o baterista. Sérgio entrega ao “fluxo de inspiração” colectiva os louros, mas há que referir “o riff e o refrão


provenientes de origens country blues” que o guitarrista soube domar e transpor “para uma afinação diferente e tocados com uma aproximação mais moderna”. Outro dos feitos do guitarrista que salta demasiado à vista para ser ignorado é o solo, que foge um pouco das tonalidades à Deep Purple/ Led Zeppelin que a banda parece homenagear, para nos levar para um som de guitarra à Rage Against the Machine durante uns deliciosos segundos. “Sem duvida que a técnica, a assinatura e a referência sonora do Tom Morello, estão intimamente ligados ao Whammy, efeito que foi usado no solo, mas a ideia para o uso do whammy nasceu de um reflexo artistíco, cuja abordagem foi: pegar em blues rock / delta/country blues licks, executá-las com uma aproximação e técnica moderna, juntando algo over the top, que neste caso foi o whammy”, remata o guitarrista. “O solo foi gravado em dois ou três takes e com muita improvisação pelo caminho.

Portanto, “Discordia Song” encerra em si um trabalho instrumental bem inspirado e inspirador, juntamente com uma linha vocal melódica que fez com que a banda tenha já ouvido “pessoal a comentar que passam o dia a assobiar a melodia sem se aperceber [entre as] várias pessoas tem o CD em loop no carro”, como nos conta o vocalista Marcelo. Ironicamente, Marcelo, cuja contribuição é um dos elementos chaves desta malha, ainda não estava na banda aquando o tema começou a ser construído. Como Duarte nos revela, aquando da composição do tema “não tínhamos sequer vocalista ainda.” Daí que seja ainda mais surpreendente o resultado final desta equação, onde vocalista e banda convergiram para o mesmo centro de energia musical literalmente à primeira. “Quando o Marcelo se juntou a nós esta foi uma das músicas que lhe enviámos sem nenhuma linha de voz para ele criar à vontade. Em menos de 24 horas devolveu-nos a música tal como a conhecem, já com coros e tudo!” “A inspiração para a criação da melodia e da letra foi imediata ao ouvir o riff na demo. São daquelas coisas difíceis de explicar, mas que nos trazem uma satisfação imensa”, explica o vocalista Marcelo em relação à parte vocal do tema, coros incluídos, e cuja letra foi inspirada “nos tempos conturbados de desassossego social em que vivemos”, daí o título “Discordia Song”. “A letra é um convite a quebrar a rigidez da monotonia diária do nosso dia a dia e experimentar algo

diferente”, continua o vocalista, revelando a intenção de inspirar as pessoas a “discordar das regras estabelecidas por nós mesmos, pelo nosso quotidiano, e nos rebelarmos contra nós próprios e o “status quo” a que nos submetemos diariamente como criaturas de hábitos que somos”.

Felizmente somos também capazes de, entre esses hábitos, ter alguns bons, como saber apreciar uma boa música. Em jeito de conclusão, o baterista dos The Fuzz Drivers despede-se com uma pequena história capaz de aguçar ainda mais a curiosidade a quem ainda possa estar a hesitar em ouvir estes potentes 3:26 minutos: “Uma das imagens que tenho desta música foi um primo meu de 6 anos que estava comigo enquanto estava a misturar a pré-produção e se fartou de dançar e cantar o riff! Se entra na cabeça de uma criança de 6 anos é bom sinal!”

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MB

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Gula - O Ano da Fome (2013)

A intro de “A Bruma” não engana. Há aqui inspiração buscada ao que o rock pesado mais alternativo tem trazido de mais progressivo e avant gard possível, algo que se manifesta logo nos primeiros acordes de “O Espectador”, que conforme se vai desenleando nos faz sentir as mais distintas influências a passar através da memória, sem que seja possível ignorar um nome como o dos norte americanos Tool, ou dos (também por estes influenciados) 10 Years, quer pelo timbre da voz dos Gula, quer pelos momentos de arranque enérgico que vão acontecendo ao longo dos minutos deste EP. “Luz matadora” também nos lembra algo de uma das outras bandas com o toque de midas de Maynard James Keenan, os A Perfect Circle, quer pelas distorções e acordes que, mesmo sendo originais, acabam por nos transportar para o universo criado pela influente banda americana. O nome do vocalista norte americano é algo que associamos também ao timbre que a voz do vocalista/guitarrista João Campos por vezes atinge, mesmo com o efeito Linda Martini, que as letras cantadas em português atribui, a pairar por cima. Em “Morte lenta” há muito de Mars Volta (a melodia da voz feminina ao fundo faz mesmo

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lembrar o efeito do trompete em “The Widow” dos MV) com algo de Muse na emoção da voz, tanto que deixa o mais céptico algo emocionado. O Tema de encerramento, “O que ficou ficou” também recorre a essa mesma referência que parece ser a dos ingleses Muse, até porque não há vergonha nenhuma em buscar inspiração no que uma das melhores bandas dos últimos anos fez antes de se ter entregado aos enganos da pop. Contudo o maior destaque tem de ser dado mesmo a “Portugal em chamas” pela eminência e urgência do tema em questão, com uma mão pesada a dar uma chapada no espírito resignado de uma boa maioria dos portugueses que baixa a cabeçe e se entrega à derrota, com muito em comum com a iniciativa dos Heróis do Mar nestas palavras (“Portugal, tão gigante e acanhado qual menino atrofiado / Não vês que o teu sol te ilumina as victórias, enquanto olhas pras derrotas”) e no sentimento geral que a música provoca. Aliás, todo o EP parece de alguma forma dedicado a essa mesma temática - basta reler o título do mesmo - nem que de uma forma subentendida. Se há EPs que não podem passar ao lado de quem gosta de melodias fortes, texturas e letras que dão que pensar, e de rock enérgico mas também envolvente, este é sem dúvida um desses a ter em conta e que terão de ouvir!

portuguesa, com demarcações que vão desde o sotaque carregado na letra incisiva, algo à Mata-Ratos, de “Capitalofos” até aos coros à Tara Perdida (dos primeiros discos) quer no tema título, quer em “Sociedade”. “Sociedade” é mesmo o tema que amealhará mais consenso de entre quem espera algo mais imediato e que fique no ouvido de entre o punk destes ovarenses, que fundem descaradamente um street punk, com oi e hardcore tudo num misto que chega a ser tão confuso quanto promissor, não houvesse no tema que encerra este EP/demo, “Quarta feira”, uma evidente influência de Black Flag a pairar sobre o que estes punks parecem representar. Se gostam de chafurdar em música que não esconde nada ao ponto de soar visceral, basta que leiam de novo o título e não tenham dúvidas, pois aqui é isso mesmo que encontram: um conjunto de temas “Sujo e barato”!

The Picasso Killer Chapter One (2013)

Come Cacos - Sujo e Barato (2013)

Apesar dos riffs, e instrumental no geral, à Discharge, há nos Come Cacos uma costela inevitavelmente

..aqui a voz é transportada para segundo plano. Com uma provavel intenção que fica entre o trabalho executado por uns Mogway ou Sigur Rós, quem sabe, obrigando-nos a concentrar a nossa atenção no instrumental... bem, a verdade é que a vontade era mesmo escrever ‘a pureza do instrumental’, tal a forma como lhe dedicam uma definição e espaço que quase nos deixa relaxar em pleno cenário de texturas distorcidas e por vezes massivas, apesar de sempre melódicas, ora mais desafiantes, ora mais familiares.


O post rock está aqui em toda a sua força, e por momentos até nos lembramos de bandas de uma recente geração de sublime rock intrumenal, como os Pelican. Tool também são uma influência bastante presente nestas duas faixas que compôem este EP de apresentação do trio de Ponte de Lima (basta ouvir o início de “For miles” por exemplo), no entanto sempre com um truque na manga e sem freio à vista os músicos conseguem mesmo subir a parada, injectando inclusivamente melodias que quase lembram algo de afro-beat, o que imediatamente nos lembra da fórmula dos lisboetas Quelle Dead Gazelle, banda com a qual poderão trocar algumas impressões no futuro, quem sabe. Para já, o que sabemos é que esta é sem dúvida uma agradável surpresa, a destes assassinos (dos maus cânones) da arte musical.

Mr. Miyagi - There’s no Destiny... Enjoy the ride (2013)

com uma força sónica que embate de forma significativa. A urgência thrash da faixa de abertura “200% M.T.”; a troca aos miolos do lema imortalizado pelos Metallica, “Nothing else matters”, agora adaptado a título de uma música original dos Vianenses, frenética, imbuída em hardcore que não podia ter um sentido emocional mais distante do clássico dos americanos; e a rotular toda a esquizofrenia, um tema que adequadamente cospe a pergunta que lhe dá título: “Am I schizophrenic?”. Apesar de estes serem à partida os temas que mais fazem estourar a massa cinzenta, não há margem para distração absolutamente nenhuma ao longo do disco (que totaliza 13 faixas em menos de 35 minutos!), sendo que praticamente até a meio do álbum a impressão que temos é que deve ter sido tudo infalívelmente gravado de rajada, num só take, como se de um concerto que misturasse thrash fulminante com punk tresloucado e rock’n’roll gingão, se tratasse. Ainda assim (sim há mais!) há razões para até quem já conhece a banda ficar surpreendido, como a incursão por algo se stoner rock em faixas como “Maria” e “Black seed”. Isto para não falar na bluesy e acústica faixa de encerramento. Enfim... é como o título diz, e aí há mesmo que tirar o chapéu aos Mr. Miyagi - não há destino nenhum à vista, mas que disfrutamos bastante desta viagem, disso não tenham dúvidas!

Bulota - 7 Vidas (2013) Rápidos e loucos! Quando nos passa pela cabeça que esta banda não pode vir a durar muito mais tempo (e sim, e passa muitas vezes) é apenas por uma razão: explosões tão frenéticas e potencialmente esquizofrénicas (questão reforçada pelo louco vocalista Ciso na 4ª faixa), agora em disco, mas já presente nas actuações ao vivo da banda, apenas nos deixam antever um grande potencial para a autodestruição. Mas não nos interpretem mal! Como acham que bandas como os Slayer ou os Testament começaram a dar os primeiros passos, senão como banda sonora de motins encapsulados em bares e alimentados a álcool?! Isto para não falar no potencial nihilista da primeira geração de black metal escandinavo! O que temos aqui é um bravo exemplo de “ou vai ou racha!” que ou nos deixa de boca aberta, ou, pelo menos com o sobrolho muito franzido. Não há forma de ignorar os Mr. Miyagi, e com este primeiro álbum(?) a coisa é-nos apresentada

Ouvir os Bulota obriga-nos a confrontar uma das indicações designatórias que quase nos faz tropeçar no caminho. Pop rock... uma das descrições que nos é apresentada para a música da banda é essa. No entanto não é nada disso que nós ouvimos. Não nós. Isto de certa forma lembra uma questão já com alguns anos que se acercou de uma das bandas que se tornaram

uma referência dentro do que nos parece ser o caminho por onde os Bulota pretendem trilhar - os Nine Inch Nails. Na altura alguém escreveu “será que os NIN viraram pop, ou a pop é que se converteu aos NIN?”, e esta é a questão sobre a qual voltamos a pensar quando nos deparamos com esta interrogação. A resposta é quase imediata: não interessa se hoje o uso de maquinaria e som bem tratado numa música rock com melodia qb é ou não considerado algo pop, pois o que temos aqui são boas malhas com bastante rock na veia. Pelo menos onde é preciso. É isso que podemos esperar dos Bulota e deste registo no formato longa duração, onde músicas como “7 vidas”, que dá título ao álbum, “Respiro fundo” ou “Ser melhor revelam potencial para convencer qualquer um de que aqui temos músicos que sabem como construir uma boa canção, independentemente da mistura de géneros que se arrisquem a meter dentro do pote. Neste caso é mesmo muito rock, com bastantes ideias retiradas das texturas industriais, mas onde a melodia é o que mais importa desde o primeiro minuto, muitas vezes apenas libertada no momento certo. O único momento em que a fasquia treme um pouco é na balada “18.000 km” que acaba por puxar mais a tal rebuscada veia pop, mas dentro do contexto do álbum como um todo até parace fazer sentido; enquanto o momento mais a ranger de maquinaria e influências industriais (apesar de que tal está presente em practicamente todo o álbum) é mesmo “Corte em V” que nos transporta através de cenários sujos que os Bulota pintam com as cores da nossa bandeira uma vez que a língua de Camões é a que elegeram desde sempre - com leves aproximações à entoação de Adolfo Luxúria Canibal, mas mas que ousa ser mais Marilyn Manson que Mão Morta, dando uma obscuridade inesperadamente abrangente a palavras do nosso quotidiano, o que se revela uma experiência interessante. Resumindo, 7 Vidas é um honesto manifesto onde os sentimentos são expostos à flor da pele, sem grandes artifícios da linguagem, mas onde as texturas sonoras e melodias contextualizam tudo de uma forma que nos faz ver o quão negras podem realmente ser as banalmente inocentes peças que formam a engrenagem dessa tão velha máquina chamada amor.

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Atentado - Paradox (2011)

Antes de mais que seja aqui desenhado o contexto: os Atentado foram uma das primeiras bandas de crust nacionais a surgir e também uma das que mais se destacaram, mesmo além fronteiras, chegando a determinada altura a partilhar de um estatuto underground equivalente ao de uns britânicos Doom, nos idos anos 90. Com este álbum, ‘Paradox’, a banda recupera não só o tempo perdido, mas uma garra que já se pensava esquecida. A força das guitarras é avassaladora em ‘Paradox’. Aqui não há espinhas; é crust do início ao fim,

do mais agressivo, sempre com a voz rasgada a denunciar uma raiva impossível de ignorar, e onde a bola (ou bolas!) da composição nunca se deixa(m) cair, apesar da fórmula aparentemente invariável. A produção deste álbum faz em muito lembrar o catálogo da editora Deathwish inc., onde se destacam nomes como Trap Them, Trash Talk, Disfear ou Converge, com um certa troca entre o habitual primeiro plano da voz e a distorção das guitarras, onde as últimas ficam a ganhar (ainda que a voz continue bem espalhada e audível!) de forma a que nenhuma faixa deixe de ser um murro bem assente na tromba de cada ouvinte, tal a força que album alberga. Sempre com o poderoso e infalível andamento do d-beat em rist, malhas como”Dust”, “Downfall” ou “Dogma destroyer” provam como a força do conjunto de cordas é eficaz, e abrem espaço para que congregações de afluentes aos concertos dos Atentado se converjam em autêntico corropio no mosh pit sem qualquer tipo de hesitação. A nível de golpes a marcar a

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diferença, temos arrepiantes teclados em “Sea of confusion”; em “Burn Hollywood burn” temos direito a micro-solos de muito bom gosto que injectam adrenalina extra ao tema; licks de guitarra viciantes e bem salientes em “Tragic kingdom”; e ainda o tema título que encerra o álbum que se revela o tema mais longo, arrastado, e experimental dentro daquilo a que somos habituados pelo grupo ao longo destes 33 minutos. Isto não é crust feito porque sim, mas crust que saíu da guelra de quem o fez porque não conseguia mais ignorar o chamamento. Um disco a não ignorar!

..

MB

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Videoclube iFM64

http://www.youtube.com/watch?v=sBikOK

THE QUARTET OF WOAH! - “U Turn”

http://www.youtube.com/watch?v=QnDPej57G68

ASH IS A ROBOT - “Ariadne”

DEMENTIA 13 -

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(clica e vê)

MR. MIYAGI - “Destruction Party”

http://www.youtube.com/watch?v=QZQ05uby3zE

“There Are Those Who

Kill Violently”

Xnc3C7b8tcc

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MöndoBrutal #09  

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