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CAVALEIRO DO PRAZER MARGARET MALLORY Série Todos os homens do Rei livro 02 Capítulo 01 Northumberland, Inglaterra Setembro de 1417

O frio do chão se filtrou através dos joelhos de Isobel. Casa osso e cada músculo lhe doíam devido a isso. Não foi o frio, no entanto, o que fez com que ela fizesse uma pausa nas orações. Mais uma vez, olhou para o corpo coberto por uma túnica, rodeado por velas altas e oscilantes. Quando o olhar chegou ao ventre, alto e largo debaixo do tecido, um pequeno suspiro lhe escapou. O corpo era, sem dúvida, de Lorde Hume. Essa necessidade de se certificar era infantil. Castigando-se pelo erro cometido, Isobel voltou às orações. Estava cumprindo com o último dever para com o marido. E então estaria livre dele. Quando abriu os olhos mais tarde, deu de cara com o rosto franzido do capelão do castelo, inclinando-se sobre ela. — Preciso falar com a senhora – disse sem se desculpar. ela assentiu com a cabeça e conteve o fôlego até que ele endireitou o corpo. Será que ele nunca tomava banho? Fedia tanto quanto Hume. Fosse o que fosse que o sacerdote tinha para lhe dizer devia ser importante. Como confessor do marido, tinha motivos para saber que a alma de Hume precisava de cada oração. Todavia, não queria deixar que os servos o velassem sem ela. Apesar das moedas extras que havia lhes dado, suspenderiam as orações assim que a porta se fechasse atrás dela. Hume não havia sido um senhor muito querido.


Quando foi se levantar, as pernas fraquejaram e o sacerdote teve que segurar seu braço para que ela não caísse. Ela permitiu que ele a levasse para fora da torre onde ficava a pequena capela do castelo. Ao pisar no pátio perto do muro externo do castelo, uma lufada de vento atravessou seu xale e vestido. Esperou, tremendo, enquanto o Padre Dunne lutava com o vento para fechar a pesada porta de madeira. Assim que chegou junto dela, perguntou: — O que há, Padre Dunne? O padre puxou o capuz sobre o rosto, pegou-lhe o braço e começou a andar para a torre. — Por favor, vamos conversar lá dentro. — É claro. O solo congelado rangeu sob seus pés. Pensando no resplandecente fogo da lareira no vestíbulo, Isobel acelerou os passos. Um pouco de comida lhe faria bem também. Havia perdido a refeição do meio-dia. Enquanto iam subindo os degraus do torreão, notou que dois deles estavam rachados. Acrescentou esse reparo à lista mental. O castelo era seu agora. Não mais teria que pedir permissão a Hume para se encarregar do que precisava ser feito. Quando entrou no vestíbulo, viu seu vizinho mais próximo esquentando as mãos no fogo da lareira. Dirigiu ao Padre Dunne um olhar agudo. O sacerdote estava extremamente enganado se pensava que a chegada de Bartholomew Graham fosse motivo suficiente para tirá-la do velório. — Isobel! Ela apertou os dentes ao ouvir Graham chamá-la pelo nome, apesar dos repetidos pedidos para que não o fizesse. — Meus mais sinceros pêsames pelo falecimento de Lorde Hume – disse Graham, lançando-se sobre ela com os braços estendidos. Ela estendeu a mão para impedir que ele se aproximasse. Olhando-a com lindos olhos cinza, ele pressionou os lábios nela. E demorou mais do que o necessário. Como sempre fazia. Ela não devia ter se escandalizado quando Graham a perseguiu enquanto estava casada. Afinal de contas, ele já era mentiroso e trapaceiro desde criança. Mas como ele ainda não havia entendido que toda aquela boa aparência e fácil encanto eram desperdiçados com ela..., isso era um mistério. — Grata pela preocupação, mas preciso falar com o Padre Dunne agora – disse, soltando-se do aperto de Graham. Apertou com força os dentes para não mordê-lo. Normalmente lidava com as atenções de Graham com mais graciosidade, mas estava cansada e sem paciência. Os últimos dias da doença de Hume não haviam sido fáceis. — Se quiser esperar, – obrigou-se a dizer – posso mandar que lhe sirvam alguma coisa. O Padre Dunne pigarreou. — Perdoe-me, Lady Hume, mas devo pedir que ele se junte a nós. – O rosto dela devia ter mostrado irritação, porque o padre se apressou a acrescentar. – É por uma boa causa, como a senhora logo verá. Ela não podia discutir com o capelão do castelo, no vestíbulo, diante dos servos. Contendo o temperamento, deu a volta e conduziu os dois homens lá para cima, pela escadaria circular, até os aposentos privados da família no andar superior. Acrescentou à lista a substituição do capelão. Assim que chegaram à privacidade do solar familiar, não se incomodou em esconder a irritação no tom da voz.


— Então, Padre Dunne, o que é tão importante para o senhor ter me tirado das minhas orações pela alma do meu marido? O capelão se irritou. — Eu me vi obrigado a informar Grahamsobre um documento que seu marido confiou aos meus cuidados. — Um documento...? – Sentiu uma pontada de ansiedade na boca do estômago. – Que tipo de documento? — É sobre a transferência de certas propriedades. Que grande quantia exatamente Hume havia entregado aos monges de MelroseAbbey para rezarem missas por ele? Ela não invejava os monges, mas esperava que tivessem ficado fundos suficientes para fazer os reparos esquecidos fazia muito tempo no castelo. — Está falando do testamento dele? – perguntou. — Um testamento não serviria para este propósito. – disse o padre com voz poderosa. Um homem pode entregar seu ouro, o cavalo e a armadura para quem ele escolher deixar em testamento, mas as terras não. Com a morte dele, as terras passam para os herdeiros. O padre tossiu, parecendo inquieto pela primeira vez. — Para entregar as terras para outra pessoa, – disse, tirando um pergaminho enrolado de dentro da túnica – um homem deve fazê-lo antes de morrer. Isobel tentara convencer o marido durante meses para que deixasse Jamieson comprar a pequena parcela onde trabalhara para que pudesse se casar com a filha do moleiro. Com a morte batendo à porta, Hume finalmente devia tê-lo feito. As boas obras, bem como as orações, podiam reduzir o tempo dele no purgatório. Decerto era sobre isso que o sacerdote estava falando. Sorriu e estendeu a mão. — Deixe-me vê-lo, então. O padre deu um passo atrás, estreitando o documento contra o peito. — Sugiro que se sente primeiro, Lady Hume. Isobel cruzou os braços e bateu ligeiramente com o pé. — Prefiro ficar de pé. – Sinceramente, o homem conseguia tirar o pior dela. O sacerdote apertou a boca e começou a desenrolar o pergaminho. — Este é um documento simples – disse, ainda sem entregá-lo a ela. – Na essência, concede todas as terras de Lorde Hume, incluindo este castelo, a Bartholomew Graham. O sacerdote só podia estar enganado. Ou mentindo. No entanto, o olhar orgulhoso no rosto dele provocou nela uma onda de medo. Ela arrancou o pergaminho das mãos dele e esquadrinhou as palavras. Leu uma segunda vez, mais lentamente. E depois, uma terceira vez. Levantou o olhar, sem ver, e tentou assimilar a enormidade do que o marido havia feito a ela. Sem dúvida alguma, ele não faria isso. Não poderia fazê-lo. Não depois de tudo o que ela havia lhe entregado, tudo o que havia feito por ele. Durante oito longos anos esteve às ordens de um velho glutão que a cansava com choramingos e constantes demandas. Dia após dia. Escutando aquela tediosa conversa. Tentando não ver a comida e a bebida gotejando pelo queixo e em cima da fina roupa dele. E depois chegava a noite. Pôs a mão no peito, combatendo a sensação de sufoco. De novo o viu resfolegando e ofegando em cima dela, o rosto vermelho e suando. Misericórdia de Deus! Como ela temeu que ele desabasse sem vida em cima dela e a prendesse com aquele enorme peso. Depois de anos sem conceber, finalmente o convenceu de que o risco para a saúde dele era grande demais. Ressentia-se de cada dia, de cada hora daquele casamento. No entanto, havia cumprido com o dever pelo marido.


— Deve ser uma falsificação – murmurou, baixando o olhar para o pergaminho outra vez. Reconheceu a letra como sendo a do sacerdote, mas isso não significava nada. Com mãos trêmulas, desenrolou o documento até o final. Percorreu o selo familiar com a ponta dos dedos intumescidos. Notou que o pergaminho caiu das suas mãos e revoluteou até o chão. O piso se inclinou debaixo dos seus pés. Enquanto estendia a mão para amenizar a queda, o aposento ficou preto. Isobel voltou a si com a visão do pesadelo de Graham e aquele sacerdote alcoviteiro gravitando sobre ela. Antes que pudesse recuperar a compostura, Graham a colocou no banco, tocando-acom as mãos em mais lugares do que os necessários para tanto. Quando ela baixou o olhar, uma gota carmesim bateu no corpete do vestido. Desconcertada, tocou-a com os dedos. — Você bateu com a cabeça no banco quando caiu – disse o padre, dando-lhe um lenço. – Eu lhe adverti que se sentasse. — Deixe-nos a sós, Padre Dunne – disse Graham, como se já fosse o senhor do castelo. Os olhos do sacerdote dispararam de um para o outro enquanto saía do solar. Isobel desconfiava que ele não iria mais longe do que do outro lado da porta. Ela olhou furiosamente para Graham enquanto tocava ligeiramente o corte na testa. — Como você obrigou Hume a fazer isto? Graham se sentou pesadamente no banco ao seu lado, sentando-se tão perto que a coxa tocou a dela. — Hume chegou a acreditar que eu era filho dele – disse Graham, sorrindo. – Você sabe o quanto ele queria um. — Então você lhe mentiu! — Bom, certamente isso poderia ser verdade – disse ele com indiferença. – Felizmente, a transferência não depende disso. A mãe de Graham havia sido uma rica viúva, famosa naquela parte da fronteira. Quando ficou grávida, mais de um se adiantou, garantindo ser o pai da criança e se oferecendo para se casar com ela. Ela os decepcionou ao conservar a propriedade – e o segredo da paternidade do filho que esperava – para ela mesma. — Não dei ao meu marido nenhum motivo para me castigar – murmurou Isobel para si mesma. Não conseguia acreditar que Hume a deixasse na rua. — Na verdade, o velho estava mais que preocupado com o seu bem-estar. – Graham esticou as pernas e cruzou os braços na nuca. – Deu-lhe grande consolo saber que eu me casaria com você depois da morte dele. — Que você faria o quê?! – Certamente ela havia escutado mal. — Finalmente você vai ter um homem que possa lhe satisfazer. – O hálito quente de Graham estava no seu ouvido, mas estava também aturdida demais para se mexer. – Eu lhe desejei desde criança, ainda brincando de espada e lutando com os meninos. Voltando a si ela bateu na mão que avançava pela sua coxa acima. — E o que lhe faz acreditar que eu concordaria em me casar com você? — Você iria preferir, então, – disse em tom divertido – voltar para a casa do seu pai? O sangue sumiu da cabeça dela. Isso era verdade. Se não pudesse ficar em Hume Castle, não tinha outro lugar para ir. Afundou-se contra a parede de pedra atrás dela e fechou os olhos. — Não tenha pressa, seu pai não vai ficar com você por muito tempo – disse Graham dando uma palmadinha no joelho dela. – Embora você já não seja virgem, ele não terá nenhum problema para arranjar outro velho que o pague para ter semelhante beleza na cama. Ela levou o braço para esbofeteá-lo, mas ele prendeu seu punho.


— É sempre excitante estar com você, Isobel. – Com os olhos ardentes nos dela, forçou-a a abrir o punho e percorreu-lhe a palma com a língua, fazendo com que um estremecimento de repulsa a percorresse. Durante todos aqueles anos ela o julgara mal. Havia considerado aquele asqueroso como um mero incômodo. Como havia sido tola! Só agora via que ele não só era superficial e egoísta, mas também, astuto e cruel. O rosto atraente e os modos refinados eram um disfarce para um homem sem honra. Um homem que tomaria para si o que bem quisesse. — Voltarei dentro de alguns dias para tomar posse do meu lugar aqui – disse. As extremidades de Isobel enfraqueceram de alívio enquanto ele se levantava para sair. Já à porta, deu meia volta. — Envie-me uma mensagem – disse, piscando-lhe o olho – se não conseguir esperar tanto tempo.


Capítulo 02 Assim que Graham saiu pela porta, correu até lá e correu a barra para trancá-la. A ira latejava nela, atravessando-a e desfocando sua visão. Caminhou pelo aposento e apertou os punhos até que as unhas se cravaram nas palmas. O que podia fazer agora? Certamente haveria alguma maneira de impugnar o roubo de uma propriedade que era dela por direito. Mas, como faria isso? Quem poderia ajudá-la? A única pessoa em quem confiava era no próprio irmão. Mas Geoffrey estava na Normandia com o exército do rei. Cobriu o rosto com as mãos, não queria pensar agora no quanto estava preocupada com ele. Seu doce e sonhador irmão não era soldado. Enviá-lo para lutar era mais uma coisa que não perdoaria ao seu pai. Seu pai. Somente ele seria seu aliado naquela situação. Seria do interesse dele se ela perdesse a propriedade. Finalmente enviou-lhe uma mensagem chamando-o, porque não tinha mais ninguém para recorrer. Uma hora mais tarde, a criada assomou a cabeça pela porta do solário. — Milady, sir Edward lhe espera no salão. Seu pai devia ter saído assim que recebeu a mensagem que lhe enviara. Isobel se apressou a descer a escadaria até o salão. Parou na entrada, surpreendida pela onda de perda que bateu nela diante da visão do otimista quadro familiar. Seu pai estava virado de lado para ela, contemplando o imponente salão com um sorriso de satisfação no rosto. Depois de todos aqueles anos, vê-lo não deveria doer tanto. Com uma crescente opressão no peito, lembrou-se de quando costumava pensar que era ele o responsável por fazer o sol brilhar. Era a filha favorita, a filha adorada que levava com ele para onde fosse. Se tivesse sido de outro modo, não teria se sentido tão traída. Como havia sido tola! Acreditou que o próprio pai havia retardado o momento de dá-la em compromisso porque não conseguia encontrar um homem que considerasse digno dela. Os Galahad eram difíceis de se conseguir. Então ele a vendeu como se fosse gado. E logo para um homem como Hume. Lembrou-se de como tremiam suas pernas e respirava ofegante quando desceu da cama alta de Hume para se lavar naquela primeira noite. Atrás do biombo, acendeu uma vela e derramou água em uma tina. Enquanto limpava a mancha de sangue na parte inferior das coxas foi que se deu conta: seu pai sabia o que Hume lhe faria. Sabia, e no entanto, entregou-a àquele homem, de qualquer forma. — Isobel, que bom lhe ver! – A estrondosa voz do pai a trouxe de volta ao presente. Quando se aproximou como se fosse abraçá-la, parou, levantando a mão. — É uma pena – disse ele – que foi preciso seu marido morrer para que você me recebesse na sua casa. Isobel ficou incomodada, tanto pela crítica quanto pela dor na voz dele. — Venha, precisamos conversar em particular. Sem mais aquela, virou-se e o levou pela escadaria até o solar. Ali, ele também olhou tudo em torno com ar de proprietário, admirando as ricas tapeçarias e os caros vitrais da janela.


— Quem teria pensado que o velho fosse viver tanto tempo...? – disse com o bom humor restaurado. – Mas agora, este belo castelo e todas as terras de Hume são todos seus! Eu lhe disse que o casamento era o caminho de uma mulher até o poder! Antes que Isobel pudesse dar um passo atrás, ele pegou-a pelos braços. — Com o que Hume lhe deixou... – disse com os olhos acesos. – Quem sabe o quão alto você poderá chegar na próxima vez? Isobel só conseguia olhá-lo com horror. Será que seu pai acreditava realmente que lhe permitiria planejar um segundo casamento para ela?! — Sei que não foi fácil – disse ele, com a voz mais suave. – Mas agora você vai colher a recompensa pelo seu sacrifício. — Meu sacrifício, como você o chama, foi para nada...! Pelo menos, nada para mim! – Isobel estava sufocada pela emoção, e devido a isso, mal conseguia pronunciar as palavras. – Hume lhe deu o que você queria no dia no qual o casamento foi consumado, mas ele me deixou sem nada! — Ele..., o quê?! Enquanto olhava para o rosto do pai, a raiva voltou com toda a força. — O senhor meu marido presenteou as terras que eu ia herdar. – Queria bater com os punhos contra o peito do pai como a obstinada criança que fora uma vez. – Você me prometeu que eu teria minha independência assim que ele morresse. Você me prometeu! Seus dedos se cravaram dolorosamente nos braços. — Você está enganada. Hume não tinha filhos; as terras dele têm que ter passado para você. — Ele deixou tudo para Bartholomew Graham! – ela gritou. – Minha casa! Minhas terras! Até o último pedaço de terra! — Que o diabo o carregue! – explodiu seu pai. – Mas que motivo Hume poderia ter para tanto? Isobel cobriu o rosto com as mãos. — Graham enganou aquele velho tolo fazendo-o acreditar que era filho dele. — Mas isso eu não vou tolerar! – Seu pai entrava e saía do solário feito uma fúria, com os olhos quase saltados das órbitas e agitando as mãos no ar. – Levaremos este caso até o bispo Beaufort. Então veremos! Certamente o tio do rei poderá resolver esta fraude. Eu juro, Isobel, veremos o jovem Graham atrás das grades por ter feito isto! Antes que a última pá de terra cobrisse o corpo de Hume, Isobel e seu pai partiram para o castelo Alnwick. O bispo Beaufort se encontrava no castelo a negócios em nome do rei. Isobel sofreou o cavalo sobre a ponte e observou a extensa fortaleza de pedra sobre ela. Quando criança, havia ido amiúde ali. Mas isso foi na época na qual Alnwick era o lar do conde de Northumberland, e antes que Northumberland tentasse arrebatar a coroa de Henrique Lancaster. Northumberland escapou à Escócia. O mais importante dos compinchas foi decapitado; os demais, perderam todas as posses. Homens estúpidos, todos eles, por enfrentarem os Lancaster. Seu pai, sem prestar atenção, como sempre, esporeou o cavalo sobre o rio que servia como primeira linha de defesa do Castelo Alnwick. Isobel o seguiu mais devagar. O bispo Beaufort era o mais astuto de todos os Lancaster. — Ouvi dizer que Beaufort é o homem mais rico de toda Inglaterra – disse seu pai enquanto se aproximavam do portão. – Pelas barbas de Deus, ele emprestou à coroa enormes quantias, para a expedição do rei à Normandia. — Cale-se! – sussurrou ela. – Não se esqueça de que ele era meio-irmão do nosso último rei. – O rei a quem você traiu. — Consegui o perdão do jovem rei Henrique – disse, mas não estava tão seguro quanto pretendia. Gotas de suor brotavam-lhe da testa enquanto cavalgavam através dos troncos, no estreito caminho construído para prender o inimigo dentro do portão principal.


Foram escoltados até o interior da torre e colocados em uma pequena ante-sala à espera da complacência do bispo. Quase que ao mesmo tempo, um servo impecavelmente vestido chegou para conduzir seu pai até o grande salão de audiências. Isobel estava um feixe de nervos, enquanto dois homens discutiam seu destino. Surpreendeu-se quando o servo voltou sozinho pouco depois. — Sua Graça o bispo deseja vê-la agora, milady. – Decerto ela foi muita lenta para se pôr de pé, porque ele arqueou uma sobrancelha e disse. – Sua Excelência é um homem muito ocupado. Cruzou uma porta de madeira maciça que mantinha aberta para ela e entrou em um enorme salão com teto alto que atraía o olhar para cima, como em uma igreja. Não havia dúvida de quem era o homem sentado atrás da pesada mesa de madeira, perto da lareira. Teria sabido que era o bispo Beaufort pelo poder que dele emanava, mesmo que não estivesse usando as vestimentas inerentes ao cargo que ocupava; uma casula dourada sobre uma alva de linho branco como a neve, e aplicações em seda e ouro nos punhos. O bispo não levantou a vista dos papéis enquanto ela cruzava o aposento. Quando se sentou em frente à mesa, junto ao seu pai, viu que o pergaminho nas mãos do bispo era a cópia dela do título de propriedade de Hume. Seu pai lhe cutucou o braço com o cotovelo e piscou um olho. A conversa com o bispo devia ter dado certo. Graças a Deus! — Não creio – disse o bispo, com os olhos ainda no documento – que a transferência da propriedade de Hume possa ser impugnada. Aturdida pelo rápido desfecho da sua causa por parte do bispo, lançou um olhar para seu pai. O gesto dele não a tranquilizou. — Seu pai sugeriu uma solução razoável – disse o bispo; subitamente sua atenção se voltou para ele. – Dadas as circunstâncias, o único caminho honroso e acessível a Graham, é ele se casar com a senhora. O bispo pegou uma pilha de outros papéis, descartando tanto ela quanto o problema que ela enfrentava. — Mas eu já o recusei. – Sua voz parecia ressoar no corredor cavernoso. – Não quero ser ingrata pela sua amável colaboração, excelência, – acrescentou apressadamente – mas eu não poderia me casar com o homem que roubou minha propriedade. Ele é completamente desonesto. O bispo colocou de lado os papéis e realmente a olhou pela primeira vez. Poderoso como era, não conseguiu causar-lhe impacto, então ela o olhou nos olhos para que ele soubesse disso. Em vez de irritação, viu um grande interesse no agudo olhar que nivelou com o dela. — Deixe-me conversar a sós com a sua filha – disse, sem afastar os olhos dela. Embora tivesse falado com bastante cortesia, não era um pedido. Quando a porta se fechou atrás dele, o bispo fez um sinal para que ela se sentasse. Ela obedeceu, com as mãos no regaço, e se obrigou a manter a calma enquanto o bispo a examinava. — Vamos revisar suas opções, Lady Hume – disse, juntando as polpas dos dedos em forma de V invertido debaixo do queixo. – Em primeiro lugar, pode aceitar Graham. Com ele, conserva sua casa e manterá sua posição. Ela abriu a boca para protestar, mas subitamente a fechou de novo. — Em segundo lugar, pode voltar para debaixo dos cuidados do seu pai. Com o generoso dote que seu pai lhe proporcionará, – o olhar mordaz que ele lhe dirigiu, deixou claro que ele conhecia os termos humilhantes do seu primeiro casamento – espero que o próximo marido que ele arrumar para a senhora seja tão conveniente quanto o último. Fez uma pausa, como se lhe desse tempo para considerar tudo. O tempo, no entanto, não poderia melhorar nenhuma escolha.


Por favor, Deus, não há escapatória para mim? Nenhuma, em absoluto?! — No entanto, posso lhe oferecer uma terceira opção – disse o bispo, com voz lenta e intencional. Estendeu a mão e apoiou os dedos longos e afilados sobre um pergaminho enrolado ao lado da mesa. – Acabei de receber uma carta do meu sobrinho. Ele tomou Caen. — Que Deus o proteja! – murmurou. Desesperada, tentou pensar que motivo ele poderia ter para lhe contar sobre o progresso do rei Henrique na reclamação de terras inglesas na Normandia. O bispo não parecia ser o tipo de homem que falava sem um propósito definido. — O rei está ansioso para fortalecer os laços entre Inglaterra e Normandia. Ao chegar a primavera, o parlamento oferecerá incentivos aos comerciantes ingleses para que se estabeleçam lá. Comerciantes...? Mas o que isso tinha a ver com ela?! — As alianças entre a nobreza são ainda mais importantes. – Tocou o pergaminho enrolado com o dedo indicador. – O rei pediu a minha ajuda para fazer tais..., arranjos. Os pensamentos de Isobel pareciam espessos e atrasados enquanto se esforçava para entender o significado de tudo aquilo. — Eu lhe ofereço a oportunidade de arranjar um casamento vantajoso para a senhora – disse. – E para a Inglaterra. Ela conteve a respiração. — Na Normandia? — A senhora deve se casar com alguém – disse o bispo, colocando a palma da mão sobre a mesa. Inclinou-se à frente uma fração e semicerrou os olhos. – Creio que talvez a senhora seja o tipo de mulher que preferiria o mais vale o diabo conhecido do que o diabo por conhecer. Saber que um mestre estava jogando com ela não lhe ajudava nem um bocadinho. O bispo tamborilou os dedos suavemente na mesa. Tentou não pensar nele. Um estranho não podia ser pior do que Graham. E se estivesse na Normandia, poderia zelar pelo irmão. Mas, como é que ia aceitar se casar com um homem do qual nada sabia? O bispo tamborilou os dedos de novo. — O senhor me permite conhecer o diabo francês primeiro, antes de me comprometer em matrimônio com ele? Um sorriso agradecido tocou brevemente os lábios do bispo, mas ele negou com a cabeça. — Inclusive se a senhora partir antes que possa ser arranjado o compromisso, estaria obrigada pela sua promessa ao rei. – Arqueou uma das finas sobrancelhas. – A senhora tem algum..., pedido..., que queira transmitir ao rei? Um cavaleiro, valente e autêntico, bom e amável. Inexplicavelmente, a descrição de um cavaleiro de Camelot lhe veio à cabeça. Ruborizando, negou com a cabeça. — Depois dos erros de julgamento..., do seu pai..., no passado, – disse o bispo, resfolegando ligeiramente – tal casamento seria muito útil para devolver à sua família as boas graças do rei. — Posso ter algum tempo para considerar sua proposta, Sua Excelência? — É claro que sim – disse ele com um brilho nos olhos. – Em breve a travessia será impossível até a primavera, mas tenho certeza de que a senhora vai querer passar os longos meses de inverno aqui, com o seu pai. Oh, ele era inteligente! O bispo se pôs de pé. — Saio para Westminster dentro de três dias. Até então, pode me enviar uma mensagem, para cá. Sem dizer mais nada, saiu do salão.


Capítulo 03 Ducado daNormandia Outubro de 1417

Sir Stephen Carleton acordou com uma dor de cabeça de matar. Ainda estava derrubado na cama, escutando o som do vento e da chuva à distância e tentando se lembrar de onde estava. Deus, estava com o exército do rei Henrique na Normandia. Na torre de Caen, de fato. Mas onde, exatamente? Sem se levantar, semicerrou um olho sentindo dor pela fraca luz ambiente. Um pouco de luz entrou por uma fresta. Então estava em alguma parte do castelo. Mas não estava na própria cama. E o que é que ainda estava fazendo na cama quando o dia estava claro...? Gemeu. Cautelosamente, virou a cabeça para confirmar. Quando viu aquele ombro nu e o despenteado cabelo louro, fechou os olhos com força. Marie de Lisieux. Que Deus o ajudasse, ela era mulher demais para ser esquecida. Lentamente, puxou o braço de debaixo dela, tendo todo o cuidado para não acordá-la. Satisfeito com o êxito, sentou-se e balançou as pernas do lado de fora da cama..., muito, muito devagar. Descansando a cabeça entre as mãos para se recuperar, olhou para baixo, para seu flácido membro e se perguntou se ele voltaria a se erguer de novo. Aquela mulher era insaciável. Não se perguntou por que o marido dela fazia vista grossa para tais infidelidades; o homem devia estar agradecido pelo descanso. Como é que ele havia terminado na cama com ela, de novo?! Uma onda de aversão por si mesmo se abateu sobre ele, fazendo com que ansiasse por um gole desesperadamente. Irônico, já que havia sido justamente a bebida que o colocara naquela outra vez. Mas beber amortecia as visões que o acossavam. Havia muitos homens bebendo em uma torre infestada de soldados. E para ele, sempre havia mulheres bem dispostas; qual, pouco importava. Tinha menos expectativas ainda de encontrar uma mulher que pudesse fazê-lo feliz, o que o fazia guardar suas glórias cavalheirescas naquela guerra miserável. Perguntou-se como seria estar com uma mulher que fosse forte, valente e inteligente. Uma mulher que não se conformasse em ser menos do que um homem podia chegar a ser. Será que tal mulher poderia salvá-lo? Mas será que valia a pena salvá-lo? Só conhecia uma mulher assim, e não esperava conhecer nenhuma outra. Ainda assim, usufruía das mulheres. Falar com elas, flertar com elas, dormir com elas... Não tinha que estar completamente sóbrio, no entanto, desta vez, conhecer aquela que dormia ali ao lado havia sido um erro. Mantendo um olho sobre o corpo de Marie, escorregou facilmente para fora da cama. Ela dormia que nem uma pedra, os santos fossem louvados. Quando se inclinou para recolher as roupas, a cabeça latejou tão violentamente que temeu estar doente. Esperou o estômago se


assentar antes de vestir a camisa e a túnica pela cabeça. Equilibrando-se sobre um pé, quase caiu enquanto lutava para vestir as calças de malha. Pegou as botas com uma das mãos, o cinturão e a espada com a outra e empreendeu fuga. Deus bendito, o corredor estava gelado! Agora pôde ver em qual parte do castelo se encontrava. Mas, que quarto era aquele? Era como se Marie o tivesse enfiado na cama de outro amante. Aquela mulher era um poço de problemas. O castelo de Caen era enorme, com inúmeros prédios dispostos ao longo da muralha interna. A caminhada até a porta principal foi quase que suficientemente longa para lhe desanuviar a cabeça. Quando finalmente cruzou a ponte até a velha torre, entrou na primeira taberna que encontrou. Ele continuava ali após algumas horas, bebendo com um barulhento grupo de soldados, quando sentiu dois olhos sobre ele. A silhueta familiar do meio-irmão, Lorde William FitzAlan, preenchia a porta. Quando os outros homens viram o grande comandante, balbuciaram algo para os próprios pés e se dispuseram a abandonar o salão. William manteve o olhar cravado em Stephen. Stephen serviu mais vinho no copo e ignorou o irmão. Quando um dos soldados gritou Deus nos traga mais vitórias! Ele não levantou o copo junto com eles, mas bebeu junto. Encheu o copo de novo e decidiu fazer o próprio brinde. — Que Deus nos conceda a vitória, – disse, segurando a borda da mesa – mesmo que tenhamos que matar de fome mulheres e crianças para consegui-la. Antes que pudesse ver William se mexer, o irmão o agarrou pelo braço e, com mão de ferro, arrastou-o até a porta. Lá fora, jogou-o contra a parede. William colocou a mão sobre o queixo e a mandíbula de Stephen e apertou. Estava com o rosto tão perto que os dois narizes quase se tocavam. — Por Deus, Stephen, o que vou fazer com você?! Bêbado ou sóbrio, Stephen jamais deixaria homem algum colocar a mão nele. Mas aquele ali era William. — Já se passou muito tempo desde que estive sob sua responsabilidade, irmão. — Não lhe servi de pai e irmão por tantos anos para permitir que você faça isso consigo mesmo! William o soltou e se postou ao lado de Stephen, contra a parede. Com voz muito baixa, disse: — Fizemos o que pudemos. Você deveria tentar deixar isso para trás. Stephen não queria falar sobre o que aconteceu no dia do ataque ao castelo de Caen e como o exército inglês pululava pela cidade. Quando William e ele chegaram à praça do mercado, os soldados ingleses já haviam massacrado uma multidão de mulheres, crianças e idosos, todos reunidos ali. Ele e William cavalgaram através do tumulto, sacudindo as espadas no ar, gritando e empurrando, até que a última ordem de Alto fosse ouvida e obedecida. As imagens daquele dia jamais o deixariam. Quando tudo terminou, Stephen andou através da carnificina da praça. Os lamentos das mulheres lhe enchiam os ouvidos, e o cheiro do sangue o sufocava enquanto passava por cima dos corpos dilacerados de crianças e velhos. Quando olhou para baixo, o braço cortado de uma criança estava estendido sobre sua bota ensanguentada. Ele se apoiou contra um muro e vomitou até que os joelhos se dobraram. — Não era esse o caminho da glória que eu esperava quando fomos lutar contra os franceses – disse. — O exército do rei Henrique sacrificou velhos, mulheres e crianças! – disse William, a voz dura e cheia de ira. – Nunca pensei que fosse ver aquilo. — Você já devia saber disso. Por que deu ordens a Jaime para permanecer fora dos muros da cidade naquele dia? – Apesar do tom acusador na voz, Stephen estava imensamente agradecido pelo fato de que o sobrinho não tivesse sido testemunha daquela matança na praça.


— O rapaz tem apenas quinze anos – objetou William. – É verdade que eu esperava problemas, mas nada tão repugnante quanto aquilo. Os homens estavam sedentos de sangue depois que nosso cavaleiro foi queimado até morrer. Os defensores da cidade haviam jogados fardos de palha queimada em cima de um cavaleiro, que jazia ferido em uma vala na base do muro. Incapaz de chegar até o homem, todos eles ficaram escutando seus gritos, e os ingleses se sentaram diante da fogueira com frustrada ira. — E o rei? – perguntou Stephen, embora já soubesse a resposta. — Ele acredita que aquelas pessoas trouxeram a ira de Deus sobre eles mesmos – disse William com voz sombria. – Só tinham que se submeter a ele como seu legítimo soberano para escapar de destino pior. — As mulheres e as crianças não tomaram parte da decisão da cidade de resistir a nós. — Aquela matança foi contra as ordens do rei, e ele não vai permitir que isso volte a acontecer – William puxou uma respiração profunda e a soltou. – As outras cidades cairão rapidamente. — Então o massacre tinha um propósito – disse Stephen com voz tensa. – Nosso rei não faz nada que não seja estratégico. — Você é muito imprudente com essas opiniões – disse William, embora sem muita ênfase. – Se as pessoas daqui têm o senso comum que Deus lhes deu, vão nos dar as boas-vindas. A nobreza francesa é uma praga sobre a terra. As duas partes, Borgonha e Armagnac, saqueavam o campo visando o próprio enriquecimento. — É uma pena que os exércitos franceses não lutem conosco. Eu tinha a esperança de ganhar grandes batalhas para a Inglaterra. – Envergonhado, Stephen deu uma cotovelada em William e, tentando um tom mais leve, disse: – Assim como meu famoso irmão. — Por Deus, jamais pensei que perderia para os escoceses – disse William enquanto se afastava da parede. – Venha, vamos caminhar até o castelo. Você precisa dormir..., porque tem um encontro com o rei amanhã cedo. Stephen sentiu que os restos do efeito da bebida se esfumar. — Uma chamada em favor do seu inútil irmão mais novo, é? — Inútil talvez, mas só um pouco. – William lhe deu uma palmada nas costas. – E eu não chamaria isso de favor. Só Deus sabe por que, mas o rei viu algo especial em você desde que você era apenas um rapazinho. Disse que quer lhe incumbir de uma missão. — Que é...? William encolheu os ombros. — Ele não me disse. Caminharam em amigável silêncio até o portão e pelos terrenos do castelo. Durante o dia o pátio estava cheio de soldados, mas era tranquilo àquela hora da noite. Estavam perto do velho palácio, onde Stephen compartilhava um aposento com o sobrinho, quando William começou a falar. — Você devia pedir permissão ao rei para voltar para Northumberland. Já está na hora de você reclamar as terras de Carleton. — Não sou idiota para fazer isso! Mamãe e Catherine seriam implacáveis. Assim que eu estiver de posse da propriedade, elas vão me arrumar um bom partido. Por que sua solteirice era um espinho nas costelas dos outros? — Elas querem lhe ver bem estabelecido antes que você se meta em sérios problemas com alguma mulher. – William sacudiu a cabeça. – E elas têm razão. Poderia ter acontecido já. Stephen ignorou o comentário; já o ouvira antes. Após um instante, William disse:


— Há muito a ser dito sobre a vida com esposa e filhos, nas próprias terras. Deus sabe que Catherine é a fonte de toda a minha felicidade. — É como eu sempre digo – disse Stephen forçando um sorriso. – Se eu encontrar uma mulher que nem ela, eu me caso assim que os avisos forem publicados. Catherine era linda, inteligente, cheia de opiniões e risos. Ele a adorava desde os doze anos, quando sua mãe o enviou para viver com William e a nova esposa. — Eu queria que Catherine estivesse aqui agora – disse William com tom acre. – Você não se comportaria assim se ela estivesse aqui para lhe ver. Stephen deu de ombros, reconhecendo que era verdade. Na juventude, sempre havia sido mais fácil encarar a ira de William do que a decepção de Catherine. Até mesmo agora, ele faria qualquer coisa para satisfazê-la. Bom, quase tudo. Pelo menos ali, na Normandia, estava livre das tentativas dela de comprometê-lo com alguma manejável e excessivamente tediosa dama de boa família e fortuna. Sim, ele sabia que tinha que se casar, mas tinha apenas vinte e cinco anos, caramba! Com sorte, isso o deixaria fora do jogo por muitos anos. Stephen se sentou no grande Salão do Tesouro, tamborilando com os dedos. Inferno. Tinha que ter subido mais cedo para se juntar ao rei para a missa na capela. Ao ouvir o som de botas, pôs-se de pé, O rei Henrique entrou no salão,seguido por vários soldados que serviam como sua guarda pessoal. Com um gesto brusco, o rei dispensou Stephen da reverência. Stephen suspirou intimamente quando o rei o esquadrinhou durante o longo silêncio que se seguiu. Apesar de ter tido cuidado ao se vestir para o ímpio e matutino encontro, não havia nada que pudesse fazer quanto aos olhos injetados de sangue. O rei Henrique não era partidário de farras com mulheres ou bebidas, e tinha pouca tolerância com aqueles que o eram. — Como posso lhe servir, senhor? – Stephensorriu e assentiu com deferência para suavizar o atrevimento por falar primeiro. — Talvez você possa me explicar uma coisa – disse o rei, juntando as mãos às costas. – Por que um homem que pode se divertir tão facilmente precisa procurar pela diversão com tanto afinco? O sorriso de Stephen murchou. Será que ele havia sido tão indiscreto que a notícia do seu comportamento havia chegado até os ouvidos do rei? — Tenho um melhor uso para os seus talentos, Stephen Carleton. Stephen não detectou nenhum indício de sarcasmo no tom do rei. Um bom sinal..., talvez. —Estou, como sempre, à sua disposição, senhor. Perguntou-se de novo que tipo de incumbência o rei tinha para ele. Queria desesperadamente um comando militar, mas ficaria satisfeito com um pelotão de renegados. Qualquer coisa, contanto que fosse perigoso e divertido. — Meus assuntos aqui devem ser vistos como se eu tivesse vindo não para conquistar, mas para governar como soberano legítimo. Já está na hora de estabelecer a ordem e o bom governo nas terras que reclamamos. Para tal fim, nomeei Sir John Popham como oficial real de Caen. E quero que você faça parte disso. Stephen não conseguia acreditar no que estava ouvindo. — O senhor quer que eu seja..., que eu seja... – parecia tatear no escuro procurando as palavras, e sentiu um desagradável sabor na boca quando as encontrou. – Administrador?! Mas eu sou um hábil cavaleiro, senhor. — Você seria um bom comandante, também – disse o rei com voz neutra. – Mas até que o exército francês esteja disposto a nos enfrentar em uma batalha, tenho mais comandantes do que se faz necessário.


Dois anos atrás, o exército inglês dizimou a fina-flor da cavalaria francesa na batalha de Agincour, em uma derrota tão contundente que seria lembrada através dos séculos. Os comandantes franceses haviam evitado cuidadosamente a luta corpo a corpo contra o jovem rei inglês desde então. — O que eu preciso é de um homem hábil e encantador que possa ganhar a confiança das pessoas – disse o rei. – Seu cargo é para ouvir queixas, resolver disputas de forma justa e convencêlos de que estão bem melhor sob o comando do governo inglês. Doce cordeiro de Deus! — Sinto-me honrado de estar ao seu serviço, senhor. — Saiam todos – anunciou o rei. Quando as pesadas portas se fecharam após a saída dos soldados que guardavam a entrada, o rei disse: – Eu sabia que havia escolhido o homem adequado. Ninguém poderia adivinhar que por trás dessa expressão você está furioso. O sorriso no rosto do rei lhe trouxe à mente um gato com um pássaro ferido nas garras. ― Esse encanto enganador – continuou o rei – e esse seu talento tão elogiado para descobrir segredos serão inestimáveis para a segunda incumbência que tenho para você, também. Era uma brincadeira familiar que nenhum segredo estava a salvo dele. Stephen tentou adivinhar qual dos seus amados seres queridos teve a amabilidade de compartilhar isso com o rei. Tais reflexões foram detidas de chofre quando um painel atrás do rei se abriu. Quando um homem alto, elegantemente vestido e com um chamativo cabelo louro platinado saiu pela abertura, Stephen recolocou a espada na bainha. ― Robert! – gritou Stephen. – O que está fazendo na Normandia? William já está sabendo que você está aqui? Ambos deram palmadas nas costas um do outro, depois recuaram um passo para se olharem melhor. Embora o rosto de Robert mostrasse poucas linhas a mais de riso, Stephen não duvidou que as mulheres caíssem aos pés – e na cama – dele com a mesma regularidade. ― Sir Robert, agora – disse o rei. – Depois de vinte anos, nosso amigo se rendeu à desculpa do disfarce de músico. Voltou para reclamar seu legítimo lugar como nobre da Normandia. ― Está cheio de surpresas – disse Stephen, rindo. Robert devolveu o sorriso. ― Como meu tio iria chorar se soubesse que herdei as terras dele! Precisei me esconder porque ele estava decidido a me matar. – Robert se aproximou de Stephen e sussurrou: – A segunda esposa dele me favoreceu um pouco. ― Apesar da mudança nas circunstâncias, – disse o rei – Robert concordou em continuar ao meu serviço. Stephen sabia muito bem qual era esse serviço. Como trovador, Robert viajava longas distâncias e era recebido em todos os lugares. Isso o transformara em um útil espião nos anos nos quais a Inglaterra esteve envolvida em uma rebelião e o rei Henrique ainda era o príncipe Henrique. ― Foram incontáveis as noites nas quais minha família passou especulando sobre quem você era realmente – disse Stephen. Os olhos de Robert se enrugaram pelo bom humor. ― Poderemos falar sobre isso em outra ocasião. Agora precisamos discutir os planos do rei para você. Vamos trabalhar juntos, meu amigo.


Quando o rei despediu Stephen e lhe fez um sinal para que ficasse, Robert não sentiu nenhuma sensação de alarme, nenhuma apreensão. Embora fossem homens de temperamento e personalidade diferentes, a relação entre eles vinha de muitos anos de respeito mútuo. ― Ordem e bom governo não serão suficientes para submeter a Normandia à Inglaterra – começou Henrique. – Precisamos ter alianças matrimoniais entre a nobreza, também. A apreensão tomou conta das costas de Robert. Alianças matrimoniais? Será que o rei estava se referindo...? Santo Deus, que os céus me protejam! ― Recebi hoje uma carta do meu tio, o bispo de Beaufort, que diz respeito a uma jovem dama. Se o tempo continuar bom, ela deve chegar qualquer dia desses. Uma gota de suor escorreu pelas costas de Robert. ― Uma jovem dama, senhor? Quão jovem? Por favor, meu Deus. Que não seja muito jovem nem inocente. Ele já estava velho demais para tanto. ― Ela é uma jovem viúva de vinte e dois anos. Melhor do que quinze ou dezesseis. Mas só um pouco. Precisava pensar em uma desculpa, mas qual? Maldição, se ele ainda fosse trovador o rei nunca lhe pediria tal coisa. ― Quero seu conselho – disse Henrique, tocando o queixo com as pontas dos afilados dedos. – Com qual dos nobres franceses que me prometeram lealdade devo consolidar os vínculos através de uma aliança matrimonial? Graças Deus! O alívio percorreu o corpo de Robert. Só esperava que não se notasse no seu rosto. ― A única cidade que está entre o meu exército e Paris é Rouen – disse o rei. – Quero um homem com influência nessa cidade. Um homem que possa convencê-los a se renderem facilmente. Robert respirou profundamente para se manter concentrado e prestou atenção na pergunta do rei. ― Philippe De Roché – disse, contente porque a resposta fora tão fácil. – Ele é um homem poderoso em Rouen. E como membro da fração de Borgonha, é nosso aliado por enquanto. Pelo que ouvi, a verdadeira lealdade dele é para consigo mesmo. ― Então não é diferente da maioria desses nobres franceses – disse o rei, com um forte tom de desaprovação na voz. ― De Roché não vai querer se unir a uma dama inglesa – disse Robert. – Não até que esteja seguro de qual direção sopra o vento. ― Como a maioria das terras dele está sob nosso controle, vai concordar com o casamento – disse o rei com um sorriso. – Mas, será que ele manterá a lealdade? Robert encolheu os ombros. ― Impedi-lo-á, pelo menos, de fazer uma aliança matrimonial desfavorável para nós. ― Tenho motivos para esperar mais – disse o rei. – Meu tio disse que essa dama em particular foi abençoada tanto com uma forte personalidade quanto com uma grande beleza. Robert não estava interessado nos atributos da jovem viúva. ― Talvez você a tenha conhecido em uma das suas viagens – disse o rei. – O nome dela é Lady Isobel Hume..., o pai dela é Sir Edward Dobson. Robert sentiu o sangue sumir da cabeça tão rápido que ficou até tonto. A filha de Margaret. O rei estava falando da filha de Margaret! E ela estava vindo para cá. Para Caen.


― Faz muitos anos que não viajo para o norte – disse Robert, lutando para manter uma expressão equânime. –Mas acho que a minha companhia se apresentou na casa do pai dela uma ou duas vezes. A pequena e preciosa Isobel, exatamente como sua mãe. Ela se sentava aos pés dele durante horas escutando-o cantar baladas e recitar poesias. Seus favoritos eram os do rei Artur. ― Ela era uma criança muito linda – disse, e lamentou pelo tom melancólico que lhe permeou a voz. ― Bom, ela já não mais nenhuma criança – replicou o rei. – Não sei o que fazer com ela até que o casamento possa ser arranjado. Não há mulheres da nobreza aqui com quem eu possa contar para tomar conta dela. Ela tem um irmão no exército de Gloucester, mas vai ser preciso algum tempo para trazê-lo até Caen. ― Deixe-a aos meus cuidados até que chegue o irmão dela. – As palavras saíram da boca de Robert antes que ele pudesse sequer pensar. ― Uma jovem dama? Aos seus cuidados?! Você me toma por idiota!? ― Acredite, não quero essa carga – disse Robert, levantando as mãos. – Se tivesse alguém para cuidar dela, eu não me imporia essa obrigação. ― Obrigação? – perguntou o rei. – Qual obrigação? Obrigações. Consequências. Que rapaz de dezesseis anos considera tais coisas quando acredita no amor? Naquele verão em Flanders, ele e Margaret se encontraram às escondidas todas as vezes que tiveram oportunidade. ― Temos um parentesco distante, através das nossas famílias em Flanders – disse Robert, sabendo que pedacinhos de verdade sempre melhoram uma mentira. – Se duvida, pergunte para Lady Hume se ela tem um avô espanhol. O rei semicerrou os olhos, considerando. ― Ora, ela é viúva, não é nenhuma criança – lembrou Robert. – Não precisa de guardião. ― Mesmo assim, preciso fazer algo com ela. – Queixou-se o rei. ― Eu lhe dou a minha palavra de que ela estará a salvo comigo. O rei assentiu com a cabeça. Henrique sempre havia gostado de promessas. ― Você deve zelar por ela, – disse o rei, sacudindo o dedo na cara de Robert – como um pai zela pela própria filha. A garganta de Robert se apertou. Só Deus sabia. Estava bastante atrasado para aquela tarefa. E completamente inadequado. Mas se esforçaria e daria o melhor de si.


Capítulo 04 Novembro, 1417

Stephen atravessou o jardim externo, seus pensamentos amargurados depois de passar a manhã inteira resolvendo uma disputa entre dois comerciantes queixosos. Abençoado seja Deus, tinha a tarde livre para treinar com William e Jamie. Precisava brandir uma espada até sentir os músculos doerem e o suor brotar da pele. Essa noite, como todas as noites atualmente, pertenciam a Robert. Que Deus o ajudasse, o rei o valorizava pelos segredos que conseguia arrancar das pessoas. Que honra havia nisso? O rei ficava satisfeito por saber que Stephen estava usando seus talentos especiais. E até agora, não havia um só homem que não quisesse beber com ele nem mulheres que não quisessem se deitar com ele. ― Stephen! Não viu Marie de Lisieux até que teve que segurá-la para evitar que ela caísse no chão. Deus do céu, aquela mulher estava sempre aos seus pés. Ela o perseguia com uma persistência que, fazia tempo já, havia deixado de ser lisonjeira. Marie pressionou a mão dele contra seus seios fartos. ― Você tem que vir se sentar comigo, enquanto eu me recupero. O brilho naquele olhar lhe fez ver que não era bem isso o que essa senhora tinha em mente. Manter os votos matrimoniais era um princípio que a voluptuosa Marie não possuía. Essa mulher era um problema. Mas quem era ele para se negar a obedecer à ordem do rei de se insinuar dentre a nobreza local? ― Agora eu não posso. – Por cima do ombro, viu William e Jamie no jardim. Robert estava com eles. Marie deu-lhe um puxão no braço. ― Quando, então? ― Sábado – disse, e acenou para os outros. ― Mas ainda faltam muitos dias! O perfume dela era tão forte que seus olhos lacrimejaram. Estranho que não tivesse notado isso antes. ― Esta noite – ela insistiu. – Eu preciso lhe ver esta noite. ― Depois – disse, soltando os dedos dela da sua túnica. Piscou-lhe um olho e correu para se juntar aos outros. Seu estado de ânimo melhorou quando os outros foram na direção do Old Palace. Entre este e a Hacienda havia um espaço aberto onde costumavam praticar. ― Fico satisfeito por você se juntar a nós – disse, apertando o ombro de Robert. – Depois de tudo o que fez por mim, eu vou cumprir minha obrigação pessoal de lhe manter em forma para a luta. Robert riu. ― Agrada-me o desafio, mas hoje eu não posso. Vim aqui para lhe pedir um favor. Stephen lhe lançou um olhar sombrio. ― E o que é?


― Uma dama da nobreza de Northumberland chegou de navio esta manhã – disse Robert, virando-se também na direção de William e Jamie. – O rei a colocou aos meus cuidados. Como ela está aqui sem amigos ou família, seria muito gentil da sua parte se falasse com ela. A nuca de Stephen se eriçou. Só conseguia pensar em uma explicação para a chegada de uma solitária dama inglesa em Caen. ― Se for uma daquelas moças tolas que minha mãe e Catherine mandaram, vou enviá-la de volta. Sem me importar com as consequências. – A desconfiança se transformou rapidamente em indignação. – Robert, como pôde tomar parte nesse plano?! ― Por Deus, sou inocente! – disse Robert, pondo a mão sobre o coração e rindo. – Essa dama está aqui para contrair matrimônio de cunho político. Acredite, vou ter que responder diante do rei se algo mais que além de uma conversa amistosa acontecer entre vocês. O bom humor de Stephen voltou no ato. ― O que é que o rei estava pensando quando a colocou aos seus cuidados? ― Acontece que, por acaso, a mãe dela é minha prima distante. ― E o rei acreditou nisso? – disse Stephen sorrindo. – E quanto ao noivo? Certamente ele não sabe, senão não permitiria. ― A dama está a salvo nas minhas mãos – disse Robert. – Quanto ao noivo, está em Rouen..., e ainda tem que ficar sabendo desse iminente compromisso.

Isobel tratou de ignorar a inquietude da criada enquanto procurava Sir Robert. Desde o banco onde estava sentada em frente ao Old Palace podia ver a maioria dos prédios dentro dos muros do castelo. O Salão do Tesouro, onde Sir Robert dissera que o Rei Henrique tinha sua corte, ficava à direita. Se ela se inclinasse à frente e olhasse para o outro lado, poderia ver mais além da parede do torreão até a porta oriental, Porte desChamps. Os soldados estavam em todos os lugares para onde quer que se olhasse. ― Há muitos homens aqui – disse a criada. – Estamos a salvo, milady? – os olhos da mulher revoluteavam de um lado para o outro, como se esperasse que fossem atacadas a qualquer momento. ― Silêncio! – Isobel já estava exasperada com as constantes perguntas da mulher. Como não tinha por enquanto servos próprios, viu-se forçada a trazer aquela tola mulher da casa do seu pai. – Os homens que nos escoltaram estavam vestidos com a libré do rei. Não podíamos estar mais a salvo do que isso. O desconforto que lhe corroía o estômago nada tinha a ver com se ver rodeada de centenas de homens armados. A ansiedade que sentia estava concentrada em um só homem. ― Mas onde está o seu noivo? – perguntou a criada. – Quando ele virá lhe procurar? ― Você sabe muito bem que Sir Robert foi procurá-lo. – Contanto que seu francês não estivesse ali, pouco lhe importava onde estivesse. Por favor, Deus, não permita que ele venha. ― A senhora já viu homem mais atraente?


Isobel sabia que a criada não estava falando do seu noivo, mas de Sir Robert. A mulher havia ficado tão emocionada quando o viu no navio que teve que dar-lhe um firme empurrão para que ela descesse a rampa. ― Ele é mais bonito do que atraente, – disse Isobel, mais para si mesma do que para a criada – como o anjo Gabriel. ― Isso mesmo, milady! Ele também havia sido tão amável quanto um anjo. Depois de se certificar de que ela estava comodamente instalada em uma câmara na torre do castelo, dedicou o resto da manhã a passear com ela pelos terrenos do mesmo. Foi estranho, no entanto. Fragmentos de músicas chegaram à sua mente quando ele falou. À medida que pensava nele, olhava para a linda capela de SaintGeorges, a meio caminho entre o banco e a entrada principal, Porte Saint-Pierre. Sua boca se abriu quando viu Robert se dirigir até ela com outros três homens. Como as águas do Mar Vermelho, a multidão de soldados se abriu para eles, deixando-lhe uma visão clara. Os quatro altos, formidáveis e bem formados homens pareciam que tinham saído diretamente dos contos de fadas da sua infância. Um deles era da mesma idade de Sir Robert e parecia precisamente como ela sempre imaginou o Rei Artur: dourado escuro, dominante e sério. Ao lado dele estava um jovem de cabelo escuro de uns dezesseis anos. Ela olhou para o último homem, que estava falando animadamente. E a julgar pela maneira como os outros viravam as cabeças para ouvir, era uma boa história aquela que ele estava contando. Os quatro homens eram atraentes, mas havia algo naquele último que chamou sua atenção. O abundante cabelo castanho que lhe chegava aos ombros devia ser motivo de inveja de qualquer mulher que o visse. Ela gostou do corpo longo e esbelto, e da maneira como ele caminhava com graça, apesar dos gestos selvagens que fazia. ― Milady, será que é um daqueles bons homens o seu noivo? Isobel se virou para olhar a criada. Será que era? Será que ele já havia chegado? O pânico correu pelas suas pernas e se instalou com um nó no ventre. ― Um deles tem a idade adequada, não? – insistiu a criada. Sir Robert lhe dissera que seu francês era poucos anos mais velho do que ela. Quando ela se virou para olhar de novo para os homens, sua garganta se fechou devido ao pânico. Eles estavam quase em cima dela! ― Olhe, milady, esse que está bem na ponta, que tem um belo cabelo... Pelo rabo do olho ela viu o braço da criada começando a se levantar e o pegou antes que a mulher pudesse apontar. Ela não estava pronta para se encontrar com ele, não estava, não estava! Deu um tempo a si mesma passando a mão pelo vestido, tentando se acalmar. Com uma gargalhada masculina, o grupo a rodeou. Robert a cumprimentou com um sorriso cálido enquanto a ajudava a se pôr de pé. Inclinando a cabeça para o homem que se parecia com o Rei Artur, disse: —Lady Hume, permita-me lhe apresentar Lorde William FitzAlan. FitzAlan tinha o aspecto de quem matava dragões para o desjejum. Mas quando a cumprimentou, viu bondade nos olhos dele. ― E este é o filho de FitzAlan, Jamie Rayburn – disse Robert, virando-se para o jovem de cabelos escuros.


O jovem Jamie Rayburn parecia incapaz de afastar os olhos dela, percorrendo-a da cabeça aos pés, apesar do fato de que isso a fez ruborizar furiosamente. Ela mal teve tempo de se perguntar como era possível que pai e filho tivessem sobrenomes diferentes antes que o terceiro homem acalmasse o jovem. Tudo o mais desapareceu quando olhou para o rosto do homem com o qual ia se casar. Será que era verdade? Será que esse homem de olhos risonhos é que seria seu novo marido? Havia rezado para que fosse um homem que não lhe desagradasse. Nunca se atreveu a esperar por isso. O homem era tão atraente que lhe tirou o fôlego. Cada traço era agradável: as negras sobrancelhas, os fortes rasgos das faces, mandíbula e queixo, o forte e reto nariz e a larga e volúvel boca. Mas os olhos seriam sempre sua parte favorita. Era incrível como a cor quase combinava com a do cabelo, apenas alguns tons mais escuros, e era mais um marrom profundo do que castanhos. E a voz... Tão melódica! Enquanto o escutava, imaginou uma fila de lindas crianças com cálidos olhos marrons como de cachorrinhos. E quase que perdeu o que ele dizia. ― ...um prazer lhe conhecer. Sou Sir Stephen Carleton. Ela pestanejou. ― Mas o seu nome é inglês. ― Sim, é – disse com um sorriso que se espalhou desde o olhar até os dentes brancos. – Sou de Northumberland, assim como a senhora. Northumberland? Mas... Meu Deus! Sentiu que ruborizava até a raiz dos cabelos, mortificada por tamanho erro. O que o homem iria pensar?! ― A última vez que estive em Northumberland eu tinha doze anos – continuou Carleton, suave como a seda. – Ainda assim, espero que tenhamos alguns conhecidos em comum. Ela captou o brilho diabólico daqueles olhos, e a humilhação foi completa. Será que ele desconfiara que ela o confundira com o noivo francês? Ou estava simplesmente se divertindo por causa do seu olhar de surpresa? O que é que havia dado nela?! Pensou que já havia renunciado àqueles sonhos infantis sobre os Cavaleiros da Távola Redonda fazia muito tempo. Na verdade, Stephen Carleton era tão atraente quanto qualquer cavaleiro da lenda. Estava bastante segura, no entanto, de que nenhum dos cavaleiros de Camelot tinha a picardia que viu nos olhos do homem que lhe sorria. Inesperadamente, a imagem de Bartholomew Graham surgiu na sua mente. Uma recordação de que a beleza e o fácil encanto podiam esconder um coração sombrio.

Stephen notou, divertido, que Jamie, boquiaberto, estava sem reação diante daquela beleza de cabelos escuros. Seu sobrinho parecia incapaz de falar. Antes que o pobre rapaz pudesse se envergonhar ainda mais, Stephen deu um passo à frente para se apresentar.


Não antecipou o efeito que aqueles olhos verdes teriam nele quando a dama olhou-o nos olhos. Deus de todos os céus, ela estava olhando-o como se pensasse que ele era a resposta a todas as suas preces! O que fez com que ele quase desejasse sê-lo mesmo. O anseio mal disfarçado nos olhos dela enviou um raio de ardente desejo através dele. Mas aquele olhar se foi tão rápido que ele pensou ter imaginado. Só que sabia que não. Na esperança de conseguir de novo aquela chispa, brindou-a com um sorriso com o qual, geralmente, ele conseguia o que queria. Fria como o gelo, ela se virou e começou a conversar com Robert. E ele se flagrou se comportando tão mal quanto Jamie, olhando-a da cabeça aos pés. As tranças, enroladas em uma malha dourada unida ao toucado, eram escuras. Tinha a pele clara, e adoráveis e delicados traços que faziam com que ela parecesse frágil. Mas havia algo na postura daquela mulher que lhe dizia que ela própria não se considerava fraca,e que nem precisava de proteção. Ele continuou descendo o olhar pela elegante linha do pescoço. Respirando com dificuldade, deslizou-o pela esbelta e definida forma de Isobel. Agradeceu ao clima incomumente quente, o qual fizera com que ela tirasse o abrigo. Muito grato, de fato. Aquele lento e cuidadoso exame foi interrompido por uma forte cotovelada nas costelas. Quando olhou inquisitivamente para o homem ao seu lado, William fez um movimento quase imperceptível com a cabeça e articulou sem som: — Não. Stephen quase que caiu na gargalhada. Sim, havia muitos motivos pelos quais ele não devia olhar para Lady Hume daquela forma. O fato de ela estar em vias de contrair um matrimônio de cunho político em nome do rei era motivo suficiente para que um homem sábio mantivesse distância. Então reprimiu um sorriso, considerando os perigos. Catherine sempre disse que ele era atraído pelos problemas como um urso pelo mel. E é claro que ela tinha razão.


Capítulo 05 —Trate de se lembrar, – disse Robert, enquanto caminhavam por uma rua escura até uma mais movimentada– que você pretende fazer com que os homens bebam até ficarem suficientemente bêbados para soltarem a língua e falarem livremente, enquanto que você apenas finge que está bêbado. Stephen havia bebido vinho aguado a noite inteira como uma mulher mais velha do que ele, mas não se deu ao trabalho de se defender. Sentia-se inquieto, apesar da hora tardia. — Fale-me sobre essa Lady Isobel Hume. – Manteve a voz em tom casual, muito embora tivesse passado o dia inteiro pensando nela. — Ela é virtuosa e solteira, – disse Robert – mas não é para o seu bico. Stephen riu. — Ora, vamos, Robert, um homem pode ser curioso, não é? — Contanto que você não tente satisfazer essa..., curiosidade..., com essa dama em particular. Algum francês é que teria esse prazer. E por algum motivo, isso irritou Stephen ao extremo. — Falando em mulheres... – disse Robert. – Por todos os santos, Stephen, você não pode mostrar um pouco de discrição com relação às mulheres com as quais você se deita? Isso, justamente depois de tê-lo defendido da exuberante e oh-muito-disposta filha do seu último anfitrião. — Como é que pode você, dentre todos os homens, fazer-me um sermão sobre mulheres? — E quem melhor? – disse Robert. – Não estou sugerindo que você vire celibatário, Deus não o permita. Só estou lhe dizendo para tentar avaliar melhor suas companhias femininas. — Foi William quem lhe pediu para falar comigo sobre isso? A risada de Robert ressoou pela rua vazia. — William lhe prenderia com correntes para resolver esse assunto, em vez de me pedir para lhe aconselhar sobre mulheres! Stephen suspirou. — Não que seja da sua conta, mas eu terminei com Marie. – É claro que Marie ainda não sabia disso. Marie. Meu Deus, ele havia se esquecido do encontro com ela nessa mesma noite. Marie não era uma mulher fácil de ser dissuadida. E se não comparecesse ao local do encontro, ela iria procurá-lo. Nem que tivesse que ir até o quarto dele. — Pelas barbas de Saint Wilgefort! – Largou Robert no meio da escura rua e saiu correndo. Felizmente, os homens da guarda à porta estava bebendo junto com os demais. Com alguns gritos obscenos, acenaram para ele. Correu através da interminável extensão do Old Palace. Respirando com dificuldade, subiu os degraus de dois em dois até o segundo andar e atravessou correndo o corredor fracamente iluminado, até o dormitório que compartilhava com Jamie. Se fosse tarde demais, William ia cortar sua cabeça, tinha certeza disso. Quando entrou no quarto, duas cabeças se viraram desde a cama. Marie estava deitada sobre Jamie, a parte de cima do vestido arriada até abaixo dos seios. Mas Deus estava do lado dele, o lençol da cama ainda estava entre Marie e Jamie. Jamie se sentou abruptamente, o que fez com que Marie rodasse para um lado. Com um dramático suspiro ela se apoiou em um cotovelo e olhou para Stephen. Sequer se deu ao trabalho de se cobrir.


— Ele é um tanto jovem para você, Marie – disse Stephen, mantendo o tom calmo. – Você deve ter o dobro da idade dele. Um sorriso contraiu-lhe o rosto. — Eu lhe juro, Stephen, – disse, arregalando os olhos – que ele deu todos os sinais de que tinha idade suficiente. Ele fechou os olhos por um instante. Será que aquela noite não terminaria nunca? — Hora de ir, Marie. Ela levou algum tempo ajeitando os seios de volta para dentro do ajustado espartilho, processo esse que Jamie seguiu com muita atenção. Quando escorregou para fora da grande cama, certificou-se de que o vestido subisse até o alto das coxas. Stephen pegou o manto dela do chão, colocou-o de volta sobre os ombros e levou-a até a porta. — Nós três...? – sussurrou no ouvido dele. Ele negou firmemente com a cabeça. — Como é que seu marido lhe controla? — Nem de perto tão bem quanto você o faz – disse-lhe, enquanto ele a empurrava porta afora. Ele fechou a porta assim que ela saiu e se virou para o sobrinho, que estava sentado na cama todo despenteado e envergonhado. — Fique longe dessa mulher. — Eu estava dormindo, e só me dei conta quando ela já estava em cima de mim – disse Jamie, hesitante. – No início ela pensou que era você. Não foi minha intenção... Eu..., eu sei que ela é sua... — Não, ela não é minha, graças a Deus! Marie tem marido. – Sentou-se em um tamborete perto. Cansado, ele tirou as botas e tratou de pensar nas palavras corretas. – Você tem apenas quinze anos... — Quase dezesseis – interrompeu-o Jamie. – Certamente você não vai me dizer que sou jovem demais. Saiba que ela não seria a primeira... Stephen levantou os olhos para o céu pedindo uma ajuda que não veio. — Acredite em mim, você é jovem demais para a cama dessa mulher em particular – disse. – E também é um homem muito bom. Ele olhou para o sobrinho, procurando ver o jovem homem que era agora, e sem ver também o rapazinho que costumava andar atrás dele. Os profundos olhos azuis, o cabelo escuro. Atraente demais para seu próprio bem. — Muitas mulheres vão querer se deitar com você – disse finalmente. – Mas isso não significa que você deva se deitar com todas elas. — Mas você se deita... Stephen esfregou as têmporas. — Não, com todas não. Deus do céu, havia sido um idiota ao pensar que Jamie não sabia! Não podia se esquecer da ira de William, e Catherine o esfolaria vivo. Quantas vezes ela o advertira que Jamie o admirava? Ultimamente, ele não acreditara que fosse possível que seu sobrinho ainda o admirasse tanto. — Sim, houve um monte de mulheres ultimamente – admitiu, exalando um longo suspiro. – E posso lhe dizer que não há satisfação duradoura nos romances com mulheres frívolas. É muito melhor procurar o que os seus pais têm. — Então, por que você não procura isso? O rosto de Jamie estava tão sério que Stephen teve que lutar para não rir. Deus, como ele amava aquele garoto! — Pela mulher certa, – disse ele, olhando o sobrinho nos olhos – eu renunciaria a todas as outras sem remorso algum. – E pensou que até que podia ser verdade.


— Então, enquanto um homem espera pela mulher certa, ele é livre para perder tempo com as frívolas – disse Jamie com um sorriso. – Então eu digo, não se apresse, mulher certa! Leve o tempo que precisar! Jamie se abaixou quando a bota de Stephen passou voando por cima da sua cabeça. — Sai para lá, seu patife! – disse Stephen, enfiando-se na cama. Muito tempo depois que a respiração de Jamie ficou regular, Stephen continuava acordado, pensando. Quando Catherine lhe veio à mente, ele sorriu. A mulher perfeita. Ele sentia falta dela. Com uma enorme sensação de alívio se deu conta de que fazia anos que não se imaginava indo para a cama com a cunhada. Não desde que tinha a idade de Jamie, e todo mundo sabe como são os jovens nessa idade! Talvez não fosse tão ruim quanto pensava. Sua mente então se voltou para a dama de Northumberland..., e para aquele olhar que ela lhe deu no instante no qual se conheceram... Um homem podia fazer qualquer coisa para ver tal olhar de novo...


Capítulo 06 Stephen praguejou contra Sir John Popham enquanto andava pelo trilheiro ao longo da muralha do castelo da residência do homem. Com o nevoeiro se formando sobre a terra, o pátio da muralha estava estranho àquela hora. Será que Popham tinha consciência de que marcava encontros cada vez mais cedo só para provocá-lo? Tratou de voltar os pensamentos para os assuntos do dia, mas voltou mesmo para outro assunto mais interessante que era Lady Isobel Hume. Quanto mais sabia sobre ela, mais intrigado ficava. Ele a via com frequência, havia se certificado quanto a isso. O flerte parecia não fazer parte do seu repertório social. Incomum, especialmente para uma mulher tão bonita. O sorriso dela raras vezes lhe chegava aos olhos. Ele ainda não a ouvira rir. Assim como com o flerte, seus esforços não chegaram a nada. Tentou imaginar como seria o som do riso dela. Um tilintar? Um luminoso gorjeio? Sim, estava intrigado. Quase tanto quanto o atraía. Não só por ela ser formosa, o que ela era mesmo. Queria conhecê-la. E saber dos seus segredos. A curiosidade sempre havia sido sua fraqueza. Um som peculiar interrompeu tais reflexões. Peculiar, pelo menos, por vir de um dos armazéns junto à muralha. Foi até a porta baixa de madeira e colou a orelha nela. Whish! Whish! Whish! O som era inconfundível. Tirando a espada, abriu a porta para dar uma olhada. — Lady Hume. Ela parecia tão surpresa quanto ele por encontrá-la sozinha em um armazém atacando um saco de grãos com uma espada. — Essa pobre coisa está indefesa – disse, inclinando a cabeça na direção do saco. Os grãos escoavam pelos vários buracos para o chão de terra. — Feche a porta! – sussurrou ela. – Ninguém pode me ver aqui. E que espetáculo ela estava, com as faces acaloradas e mechas de cabelo escuro grudados no rosto e no pescoço. Deus que me livre! Ele entrou e fechou firmemente a porta atrás de si. — Eu quis dizer para você ficar lá fora ao fechar a porta. Embora ela desse um passo atrás enquanto falava, mantinha a mão firme sobre a espada. Tal como deveria mesmo. Com o brilhante cabelo escuro em uma trança solta por cima do ombro, parecia mais linda ainda do que imaginava. E ele havia passado horas imaginando... Nenhum homem podia ver uma mulher adulta com o cabelo descoberto, a menos que fosse um membro próximo à família. Ou um amante. A conotação dessa intimidade acelerou seu pulso. Sim, a senhora tinha toda a razão para se sentir tão nervosa por se ver a sós com um homem naquele lugar afastado. — Esse saco não pode lhe proporcionar um grande desafio – disse, tratando de tranquilizá-la. — Está zombando de mim. – Havia ressentimento no tom de voz dela, mas se alegrou ao ver que seus ombros relaxavam. — Creio que eu seria um parceiro melhor, embora deva lhe advertir – fez uma pausa para olhar significativamente para o saco de grãos. – Não vou ficar parado enquanto me ataca.


O repentino sorriso que ela deu se derramou sobre ele como uma explosão de luz do sol. — Porém eu me pergunto, – disse ela, levantando a espada na direção dele – se você vai gritar como um porco quando eu lhe atingir. Ele riu às gargalhadas. — Estou envergonhado por ter que admitir que esta é a primeira vez que pratico luta de espadas com uma mulher, então, por favor, seja gentil. Ela mal lhe deu tempo de se por em posição antes de atacar. — A senhora tem habilidade natural – garantiu ele depois de alguns ataques e paradas. – Só precisa praticar mais. — Mas o senhor é surpreendente mesmo – disse ela, quase sem fôlego. – É absolutamente o melhor que já vi. O peito de Stephen inchou como se fosse um garoto de doze anos. — E eu que pensei que o senhor só se sobressaía nos jogos de bebidas. Touché! — Então a senhora esteve me observando... Sinto-me lisonjeado. O profundo rubor daquelas faces lhe agradou muito. Stephen desviou de um golpe direcionado ao seu coração. Ele praticou com ela como fazia com os escudeiros mais jovens – forte o suficiente para desafiar, mas não tão difícil para desanimar. No entanto, quando ela subiu a saia tirando-a do caminho com a mão livre, perdeu o equilíbrio e quase deixou a espada cair. Ele recuou um passo, com o cenho franzido. — Mostrar os tornozelos foi um movimento muito inteligente – disse ele, fazendo uma profunda reverência. – Um truque que eu ainda não havia visto antes. — Não foi minha intenção usar qualquer coisa que não seja a minha habilidade. – O tom era tão rígido quanto a coluna vertebral. – Eu não sou tão pouco honrada para me rebaixar e lançar mão de truques. Meu Deus! — Se o seu oponente for mais forte e mais hábil do que a senhora, – disse, mantendo o tom – então a senhora deve lançar mão de qualquer vantagem que puder conseguir. Estendendo o braço com a espada, fez um gesto com a outra mão incentivando-a a continuar. Reprimiu um sorriso quando ela pegou a espada e se aproximou dele. — Então, assim que a senhora conseguir uma vantagem, deve utilizá-la – disse. – Nunca desperdice uma oportunidade, como a senhora acabou de fazer. Não duvide disso. E lembre-se, seu oponente não vai lhe dar uma segunda chance. — Quer dizer então, que não importa como se ganha, senhor, contanto que ganhe? – O tom dela era mordaz. Ele suspirou intimamente. Como é que ela podia ser tão ingênua? — Use as regras que preferir quando estiver praticando, Isobel. Mas se um homem menos honrado lhe encontrar a sós, como eu lhe encontrei agora, a senhora pode querer saber como lutar sem regras. Ela semicerrou os olhos, mas não disse nada. — Seria preferível, é claro, que a senhora não andasse sozinha por aí. A senhora se esquece de que está em um país perigoso. — Não é o senhor quem vai me dar lição de moral. Pois alguém deveria sim.


— Então, quer continuar praticando luta com espada? – perguntou, hostilizando-a deliberadamente. – Ou quer aprender como se proteger de alguém que tem a intenção de lhe causar dano? Os olhos verdes chisparam fogo, mas ela ergueu a espada e disse: — Então me ensine. Oh, ele ficaria encantado por ensiná-la! E que Deus o ajudasse, ela estava impressionante assim. — A senhora precisa carregar uma lâmina curta, também – disse ele ao se esquivar do ataque dela. — Por quê? Acha que pode tirar a espada da minha mão? — Posso. Ele viu um saco meio vazio no chão atrás dela. — Mas não vou fazer isso. A senhora vai cair. Ela lutava melhor quando irritada, uma boa qualidade em um lutador. Ainda assim, era melhor. Muito melhor. Obrigou-a a dar um passo para trás, e mais um, e outro de novo. Mais um passo e seus calcanhares tropeçaram no saco. Ela levantou as mãos e a espada voou, batendo ruidosamente na parede enquanto ela caía sentada. Um instante depois, ela estava apoiada sobre os cotovelos, com o cabelo solto sobre os ombros, as saias retorcidas e o peito agitado. Quanto a ele, não conseguia se mexer, mal conseguia respirar. Ela parecia uma deusa. Uma lasciva Vênus, estendida no chão de terra aos seus pés. Então ela jogou a cabeça para trás e riu. Não um brilhante gorjeio, mas a plenos pulmões, uma risada alegre que fez o coração dele disparar. O que ele não daria para ouvir aquela risada mais vezes! — Receio que o senhor está em vantagem em relação a mim – disse, com os olhos dançando. Esticou a mão para que a ajudasse a se levantar. Ele a pegou e se pôs de joelhos ao lado dela. — Não é verdade, Isobel – disse ele com um sussurro áspero. – Sou eu quem está à sua mercê. Seus olhos se fixaram nos lábios dela, cheios e entreabertos. Sem sequer pensar, cedeu à atração inexorável entre eles. No instante no qual os lábios de ambos se tocaram, o fogo queimou através dele. Tentou se aferrar ao finíssimo fio de prudência puxado da consciência. Mas ela lhe devolveu o beijo com a boca aberta, a língua procurando a sua. Seus ouvidos rugiram quando ela colocou os braços em volta do seu pescoço e o puxou para baixo. Stephen protegeu a parte de trás da cabeça dela com a mão antes que ela tocasse o chão de terra. Inclinando-se sobre ela, entregou-se completamente ao beijo. Enfiou as mãos dentro do cabelo dela e espalhou beijos ao longo do queixo e da garganta, depois voltou à boca de novo. Aquele doce sabor, o cheiro dela, encheu seus sentidos. Não estava consciente de nada, exceto daquela boca, do cabelo, da própria necessidade ardente de tocá-la. Passou-lhe a mão pela curva do quadril. Quando ela gemeu, soube que tinha que senti-la debaixo dele. Debaixo dele e apertada contra ele. Pele com pele. Lentamente, baixou o corpo até sentir a suave plenitude dos seios dela contra o peito. Oh, paraíso! Oh, Deus, os pequenos sons que ela estava fazendo... Ajeitou-se mais e gemeu em voz alta quando o membro duro e inchado pressionou seu quadril. Havia uma razão pela qual não devia fazer o que queria fazer, mas não conseguia se lembrar de qual era esse motivo. E nem queria tentar se lembrar. Afundou o rosto naquela massa de cabelos, que tinha o perfume das flores do verão e de mel. — Isobel, eu lhe desejo demais...


A respiração dela saiu com um assobio quando ele colocou a mão em concha em torno de um seio, à qual se ajustou perfeitamente. E era tão maravilhoso que teve que fechar os olhos com força. Ele ficou imóvel no instante em que sentiu a picada de uma arma branca no pescoço. Todas as razões pelas quais não deveria rolar pelo chão de um armazém vazio o inundaram. — Você tem toda a razão – disse ela tão perto da sua orelha que pôde sentir-lhe a respiração. – É aconselhável mesmo carregar uma lâmina curta. — Perdoe-me. – Ele respirou o cheiro da pele dela mais uma vez. Depois a ajudou a se levantar. Assim que ele a colocou de pé, ela começou a sacudir a roupa vigorosamente. Estava evidentemente envergonha, mas, será que lamentava pelos beijos? Ele queria que ela falasse algo. — Isobel? – Aproximou-se e tocou-lhe o braço, mas ela não o olhou. – Não posso dizer que estou arrependido por lhe beijar, – beijar não parecia o suficiente para descrever tudo, mas pensou que era melhor deixar as coisas assim – mas peço-lhe desculpas se lhe importunei. — A culpa não é só sua, – disse ela, com o rosto vermelho e os olhos baixos – apesar de que eu gostaria de fingir o contrário. Ah, uma mulher honesta. E um ser justo, também. — Você sabe que vou me casar em breve. — Eu me esqueci disso por um instante – disse, esperando em vão arrancar-lhe um sorriso. — Foi muito errado da minha parte, – disse – então, dê-me um último beijo antes de ir embora. — Foi muito errado da minha parte – disse ela, levantando o queixo. – Não vai acontecer de novo. — Se nunca mais voltará a acontecer, – disse ele – então, dê-me um último beijo antes de nos separarmos. Pensou que tal pedido tão escandaloso a fizesse rir ou gritar com ele. Quando ela não fez nem uma coisa nem outra, pôs a mão naquela face macia. Inclinou-se até que seus lábios tocaram os dela. Dessa vez, manteve o beijo suave e casto. Não queria importuná-la de novo. Mas quando ela se apoiou nele, perdeu-se de novo em beijos profundos, sem sentido. Quando finalmente se afastaram um do outro, olharam-se sem fôlego. — Preciso ir agora – disse ela, retrocedendo. Stephen segurou-a pelo braço. — Essas são coisas que acontecem entre homens e mulheres – disse ele, muito embora nunca tivesse acontecido com ele nada parecido antes. – Por favor, Isobel, não deve se sentir mal nem se culpar por isso. Os enormes olhos dela se voltaram para ele e lhe disseram que aquelas palavras não tinham conseguido tranquilizá-la. — Venha, vai querer colocar isto – disse ele, pegando do chão uma touca simples. Ela lhe arrebatou das mãos, colocou-a bruscamente na cabeça e começou a enfiar o cabelo dentro da mesma. — É um pecado cobrir um cabelo tão lindo. – Não conseguiu manter as mãos longe dela, então a ajudou a empurrar as madeixas soltas para dentro da touca. Deixou que os dedos roçassem sua pele enquanto fazia isso e tentou não suspirar em voz alta. — Deixe-me sair primeiro para me certificar de que não há ninguém por perto – disse ele. – Esteja atenta ao meu sinal. Sentiu-a muito próxima e atrás dele quando abriu a porta. — Ficarei feliz por praticar com você sempre que quiser – disse enquanto olhava para o pátio. – Luta com espada ou com beijos. Virou-se e lhe deu um beijo rápido, duro, olhando-a diretamente nos olhos abertos.


Isobel tocou os lábios com os dedos enquanto o olhava sair. Seus seios doíam, e o corpo inteiro vibrava com a sensação. Mas o que havia acontecido com ela? Surpreendeu-se pela resposta do próprio corpo ao toque dele e pela forma como sua mente havia ficado como que amortecida. O juízo – na verdade, qualquer pensamento – abandonou-a no mesmo instante no qual aqueles lábios tocaram os seus. Graças a Deus, o susto que levou quando ele pôs a mão no seu seio lhe devolveu a sensatez. Não podia enganar a si mesma, sabia qual caminho estiveram percorrendo até a queda. E que Deus a ajudasse, mas ela estivera ao lado dele, passo a passo. Lá fora, já no pátio, Stephen fez um sinal para que ela o seguisse. Como se fosse uma brincadeira! Ela saiu pela porta de cabeça baixa, e se foi tão rápido quanto pôde na direção oposta. Quer dizer então que decerto é isso que se sente ao ter uma aventura... Olhando furtivamente em torno, deu-se ao trabalho de se certificar de que ninguém a visse sair de um local no qual não deveria estar, com alguém com quem não deveria estar. Engoliu saliva. Stephen era muito prático acerca de tudo. Recuperar sua touca, enfiar seu cabelo dentro, vigiar para ela. Muito prático. E praticado. Ela apressou o passo. Não era nenhum consolo saber que ela era uma daquelas muitas mulheres suficientemente estúpidas para cair sob os encantos de Stephen Carleton. Não era confortável em absoluto saber que outras haviam caído ainda mais. Caído?! Não, pulado! Levou a mão ao peito. Ao menos ele havia lhe atendido quando ela lhe disse que parasse. Sim, ela pediu com a ponta de um punhal no seu pescoço. Mas ambos sabiam que ele podia tê-lo tirado dela com a maior facilidade. Outro homem teria se sentido no direito de tomá-la. Por ter sido descarada, abrindo a boca para ele, puxando-o para baixo, para cima dela. Por Deus, agira como uma mulher possuída! Inclusive quando ele a cobriu com o próprio corpo – e como estava bom aquilo! – apertou-se contra ele, incapaz de se aproximar tanto quanto ela queria. Sua respiração se acelerou ao se lembrar da sensação daquelas mãos se movimentando sobre ela. Sem sombra de dúvida, fazer amor com Stephen Carleton seria uma experiência totalmente diferente da que teve com Hume, suando e grunhindo em cima dela. Só os beijos dele já lhe diziam isso. Aqueles beijos! Lembrando-se de como suas línguas haviam se movimentado uma contra a outra, quase que podia imaginar... — Isobel. Ela saltou ao som da voz de Carleton ao seu lado. — O que está fazendo aqui? Meu Deus, ela havia acabado de imaginar esse homem nu e... Oh, não pensaria mais nele! — Pode ir mais devagar. Ninguém nos viu sair do armazém – disse ele. – Permita que eu lhe acompanhe de volta à torre. — Deixe-me. Posso encontrar o caminho por mim mesma. — Isobel..., está indo pelo caminho errado. Ela olhou em torno e descobriu que estava perto da Porte Saint-Pierre, a entrada principal da cidade. — Obrigada – disse com voz tensa, e girou sobre os calcanhares. — Na verdade, não é seguro para você andar por aí sem escolta – disse ele, pondo-se ao lado dela. – Prometa-me que não voltará a fazer isso. Promete? Promessas? Ele ainda tinha a ousadia de pensar que podia pedir que ela lhe prometesse algo?! Manteve os olhos fixos na torre enquanto atravessava o pátio e se adiantou, deixando-o para trás.


Sabia exatamente que tipo de homem era Stephen Carleton. Será que ele pensou que ela não havia se dado conta de como as mulheres o bajulavam? Ela não era cega. Mesmo quando estivesse tão bêbado que, tinha certeza, mal conseguia diferenciar uma mulher da outra, elas o olhavam como se ele fosse um presente enviado pelos anjos. São coisas que acontecem entre um homem e uma mulher... Era tão bom quanto dizer que não era nada em absoluto. Talvez essas coisas acontecessem com Sir Stephen Carleton o tempo todo, mas nada como isso havia acontecido com ela antes. Pelo amor de Deus, decerto esse homem pensava que ela era uma daquelas viúvas que permitiam liberdades a um homem simplesmente por ele ser agradável à vista. Ela nunca se rebaixaria a ser uma das muitas mulheres dele. Alguém que ele esquecia assim que se vestisse e saísse do quarto. Nunca. Nunca. Nunca. Carleton tentou entabular conversa, mas ela não lhe fez caso. Conversa ociosa estava muito além dela naquele momento. Passaram pelo posto de comando, ao lado da fortaleza. Escapar estava ao seu alcance. — Bom dia, Robert – gritou Carleton ao seu lado. Isobel se virou e viu Robert saltando os degraus. Inferno! A sobrancelha de Robert subiu uma fração enquanto olhava dela para Carleton e vice-versa. Foi um ato de vontade não olhar para ver se estava com a roupa suja de terra e com fiapos de palha. — Eu estava justamente lhe procurando, Isobel – disse. – O rei quer falar com você. O rei? Apesar de ver o Rei Henrique diariamente no salão, ainda não tivera uma audiência particular com ele. — E quando tenho que ir? – Por favor, por favor, hoje não! — Ele lhe espera agora. — Agora?! E dessa vez sim, baixou o olhar para analisar o próprio aspecto. Sua capa estava limpa, mas só Deus sabia como estava o vestido debaixo da mesma. — Não há tempo para você trocar de roupa, – disse Robert, interrompendo seus pensamentos atropelados – e está tão formosa como sempre. Ela ruborizou, certa de que Robert havia adivinhado a causa do seu desalinho. No entanto, os olhos dele não mostravam outra coisa além de uma amável preocupação, já que se aproximou e lhe deu um puxão firme no lado esquerdo do toucado. — Agora sim, perfeito. Robert, é claro, tinha tanta prática quanto Carleton em ajudar uma senhora a ajeitar a touca. — Gostei muito do nosso passeio – disse Carleton, e se virou para que Robert não visse a piscada de olho. – Espero a próxima vez. Se Robert não estivesse ali, ela teria lhe dado um chute na canela. — O rei quer lhe ver a sós – disse Robert. — A sós? Mas eu pensei que seria... — Acredite, isto não será mais fácil do que aquele encontro com o bispo de Beaufort. – Robert pegou-a pelo braço e a virou para a escadaria. – Sabia que Beaufort foi tutor do rei? Não havia nenhum consolo nisso! Ela quis protestar, mas não podia dizer para Robert que ainda não havia se recuperado de um ataque de loucura logo cedo pela manhã. — Melhor não deixar o rei esperando – disse Robert, com a mão pousada na espada. No andar de cima, um guarda abriu a porta. Respirou fundo e subiu os degraus para enfrentar o leão. Antes de cruzar a porta, olhou para trás justamente quando Carleton estava se virando para


sair. Ficou boquiaberta quando Robert agarrou com força o braço de Carleton e o fez se virar. Sem rastro algum da habitual amabilidade, Robert calcou um dedo no peito de Carleton. — Lady Hume? Ela desviou o olhar da cena lá embaixo e assentiu com a cabeça para o guarda. Que Deus a ajudasse, mas esperava que Stephen Carleton fosse um bom mentiroso. Provavelmente muito bom, até mesmo excepcional. Mas agora não tinha tempo para pensar nele. Depois de passar por mais algumas portas, chegou à sala onde o Rei Henrique tinha sua corte na Normandia. Um homem com uma simples capa marrom estava olhando por uma das altas janelas que davam para o Velho Palácio. Um monge? Ela esperava encontrar uma sala cheia de gente, com o rei sobre um estrado, vestido com rutilante ouro, vermelho e azul, e a túnica enfeitada com fileiras e mais fileiras de leões e flores de lis. Olhou de um lado para o outro do enorme salão. Não havia vivalma ali, exceto ela e o monge. Subitamente, ela ficou sem fôlego. Não era um monge, era o próprio rei! Suas mãos tremiam enquanto ela se inclinava em uma reverência. Ele tinha apenas trinta anos e já era uma lenda. Aos treze anos comandou seus homens à batalha. Aos dezesseis anos comandou exércitos inteiros. Depois de ser coroado aos vinte e seis anos, unificou os nobres e pôs fim a anos de caos e rebeliões. Criou ainda um vínculo comum entre as classes, fazendo do inglês o idioma da corte na Inglaterra. Pela primeira vez, desde antes d’O Conquistador, editos reais estavam na linguagem das pessoas comuns. A Inglaterra inteira elogiava Henrique pela sua habilidade para governar, e o admirava pela piedade que demonstrava. Mas o que eles queriam dele eram as vitórias. Ele era o jovem rei guerreiro do seu povo. A Inglaterra estava forte outra vez, e pronta para enfrentar qualquer inimigo. — Pode se levantar – disse o rei. Seu semblante alegre a tranquilizou. — O castelo Caen foi a residência favorita do meu antecessor, Guilhermo, o Conquistador – disse, deixando os olhos vagarem ao longo das vigas do teto. – Ele o construiu faz mais de três séculos e meio, pouco antes de cruzar o canal para conquistar a Inglaterra. — Posso ver então por que fez deste castelo a sua sede, senhor – aventurou. Ele a recompensou com um sorriso. — Ricardo Coração de Leão se reuniu aqui com seus barões antes de partir para as Cruzadas. Isobel se virou junto com ele para olhar ao longo do corredor. Imaginou a sala cheia de cavaleiros que se preparavam para partir para a Terra Santa. Homens com rostos sérios e cruzes cor de carmesim no peito. O estrondo de vozes graves, o som do metal... — O homem que escolhi para a senhora é Philippe De Roché. As palavras do rei a trouxeram de volta com um sobressalto. É claro, o rei não a chamara para falar sobre história. Como fora tola ao se esquecer disso. — Convoquei De Roché para vir de Rouen até aqui – disse o rei, e todo o rastro de alegria que sentira se foi. Ela lutou contra o impulso de sair correndo do salão. Quanto tempo lhe restava ainda? Nunca poderia ser suficiente... — De Roché respondeu que virá assim que as estradas estejam seguras para viajar – disse o rei, mordendo cada palavra. – E que ele duvida que estejam seguras durante algumas semanas. Se o rei estava criticando a desculpa dada por De Roché como mentiroso ou covarde, ela não conseguiu definir. Mas, mentiroso ou covarde, o rei estava irritado. Que o Céu a ajudasse!


— É o que diz um homem que cavalga com uma escolta de vinte homens! – O rei respirou profundamente e depois falou com mais calma. – Espero que essa espera não seja uma prova para a senhora. — Em absoluto, senhor. Que ele fique em Rouen para sempre! — O que foi que Sir Robert lhe contou sobre Philippe De Roché? — Só falou que é um homem importante em Rouen. Isobel queria que o rei falasse mais. Algo para tranquilizá-la. — Diga-me, Lady Hume, – disse o rei – sabe o motivo pelo qual o seu pai se tornou um traidor? As palavras do rei a atingiram como uma bofetada, e suas palmas ficaram molhadas de suor. — Eu ainda era criança na época... Mas o rei não ia lhe dar nenhuma folga. Inclinou-se à frente, esperando uma resposta. — Eu..., suponho que ele ficou do lado dos rebeldes por que..., por que... – Ela lambeu os lábios. Será que ele esperava que ela defendesse ou culpasse o próprio pai? — Por que...? – Pressionou-a o rei. O que ela podia dizer? Havia alguma resposta segura? Não conseguia pensar com a cabeça latejando e o rei olhando-a fixamente. — Ele fez isso porque pensou que os rebeldes ganhariam, – respondeu ela, dizendo a verdade – e não porque pensava que devia. O rei assentiu com a cabeça vigorosamente. A resposta certa, graças a Deus! Engoliu em seco e secou as mãos no manto. — Foi uma decisão prática a que ele tomou, – disse, e se apressou a acrescentar – embora tremendamente errada, é lógico. — Então a senhora há de entender Plilippe De Roché, porque ele é um homem assim – na voz do rei havia tal aprovação entusiasta que Isobel quase cambaleou de alívio — Tenho motivos para desconfiar que a lealdade dele é como a do seu pai, – disse, ladeando a cabeça – baseia-se no interesse próprio, em vez de no da honra e do dever. Isobel estava tonta devido às inesperadas reviravoltas na conversa do rei. Por que falar com ela sobre os motivos da lealdade dos homens? — Se o povo de Rouen me aceita como seu senhor soberano, vou lhe dar as boas-vindas de todo coração – disse, cruzando as mãos sobre o coração. – Mas é meu dever governar a Normandia. Se eles não abrirem as portas para mim, vou matá-los de fome até que se submetam. Qualquer um que visse o fogo nos olhos do Rei Henrique seria muito estúpido para não acreditar que ele faria isso mesmo. — Philippe De Roché pode salvar o povo de Rouen de muito sofrimento se for capaz de persuadi-los a tanto para evitar o ataque – disse. – Mas, para que De Roché possa fazer o próprio jogo, precisa se manter leal. Ela havia aceitado aquele casamento como o menor dos males. Só agora compreendia o tamanho da responsabilidade que vinha por ter sido escolhida para tal. — Seu trabalho é fazer com que ele se una a nós – disse o rei, apontando-lhe o dedo indicador. – Não se deixe enganar por De Roché, centralize seu interesse. — Vou dar o melhor de mim, senhor – disse, muito embora estivesse desesperada para saber como ia conseguir tal feito. — No entanto, há que se levar em conta que ele pode trabalhar contra nós – disse o rei. – Se a senhora descobrir algo nesse sentido, preciso saber imediatamente. Mas então, o que é que ele esperava dela?! Isobel passou a língua pelos lábios ressequidos de novo.


— Quer dizer então, senhor, que eu devo tratar de conhecer a verdadeira lealdade dele antes do casamento? — Se a lealdade de De Roché mudar, a senhora deverá me enviar uma mensagem – disse o rei, com os olhos cravados nela. – Seja antes ou depois do seu casamento.


Capítulo 07 Pelo rabo do olho, Isobel viu Stephen Carleton rindo e conversando com os cavaleiros ingleses, soldados comuns e nobres locais, enquanto ziguezagueava abrindo caminho pelo salão cheio de gente. As pessoas se viravam para ele como limalhas de ferro atraídas por um ímã, quando passava. Ele passou ao lado da voluptuosa Madame de Lisieux, e a mulher o seguiu como um cão de caça. Logo depois, ele já estava envolvido em uma conversa particular em um canto com outra mulher loura. Pelas frequentes explosões de riso, era evidente que os dois usufruíam da companhia um do outro, e se conheciam bem. Muito bem, aliás. — Quem é aquela? – sussurrou ela para Robert. Robert se virou para seguir sua linha de visão. — Quem? A mulher que está com Stephen Carleton? — Essa mesma. – Isobel bebeu um gole de vinho. – É muito formosa. – Na verdade, a mulher era belíssima. Robert pegou um punhado de nozes açucaradas de uma tigela sobre a mesa. — Sim, Claudete é tão bonita quanto a famosa prima dela. — Ela tem uma prima famosa? — Odette de Champdivers, a amante do Rei da França. Isobel sacudiu a cabeça. — Nunca ouvi falar dela. — Sabia que o Rei Charles está louco? – disse ele, os olhos cintilando. – Bom. Odete foi amante dele durante vinte anos sem que ele mesmo soubesse. Ela riu; podia escutar Robert contar casos a noite toda. — Odette foi a primeira amante do irmão do rei, Louis d’Orleans. Quando a rainha tomou o galante Orleans como amante, ambos mandaram Odette à cama do rei no lugar da própria..., vestida com as roupas da rainha. — O rei foi enganado?! — Todas as noites, durante vinte anos! – Robert meneou a cabeça. – Dizem que ele nunca desconfiou de nada, e ninguém se arriscará à ira da rainha contando isso para ele. — E quanto a Claudete? – perguntou Isobel, trazendo a conversa de volta à mulher cuja mão descansava no braço de Carleton. — Claudete é mais inteligente do que a prima. Ela guardou dinheiro e manteve a própria independência. – Robert deu um sorriso arrependido. – Mas eu me esqueço dos meus modos falando tão livremente com a senhora. — Pois me agrada muito que possa – disse ela. – Não gosto de ser tratada como uma menina. — Então eu vou lhe dizer – disse Robert, olhando de novo para Carleton – que um homem pode usufruir da companhia de uma cortesã em público sem que utilize os serviços dela em particular. Como é que Robert sempre adivinhava o que ela estava pensando? — No entanto, – disse, com um sorriso que ergueu os cantos da sua boca – Stephen não é o tipo de homem que tenha medo de brincar com fogo. Brincar com fogo. Que o céu a ajudasse! Cada vez que o via, o incidente no armazém voltava à sua mente. Quase que podia sentir a boca dele sobre a sua de novo, o corpo pressionado contra o seu, e aquelas mãos...


Que Deus tivesse piedade dela, pois podia imaginar um pouco mais. Será que o novo marido poderia fazer com que ela se sentisse da mesma forma? Será que era pecado esperar tão fervorosamente que pudesse ser assim? Ela pegou de novo o copo e inclinou a cabeça para trás para tomar um gole. — A família de Stephen está ansiosa para que ele se acomode, – disse Robert – antes que algum marido o mate. Ela engasgou, quase cuspindo o vinho por cima da mesa. Entre acessos de tosse, perguntou: — Ele teve casos com mulheres casadas? — Eu lhe deixei alterada de novo – disse Robert, batendo nas costas dela. – Mas que bom acompanhante eu estou sendo. Não foi surpresa nenhuma saber que Carleton tinha aventuras. O que a fizera engasgar foi a repentina imagem dele beijando outra mulher do mesmo modo com o qual havia beijado a ela! — Para um homem que quer evitar o casamento a todo custo, – explicou Robert – as mulheres casadas são a opção mais segura. — Ele poderia se abster. A súbita gargalhada de Robert fez com todas as cabeças se voltassem na direção deles, incluindo a de Carleton. — Isso jamais teria me ocorrido, mas é claro que você tem razão. – Pegou a mão dela e a beijou quando seus olhos e os de Carleton se encontraram através do salão. – Espero estar junto quando você lhe sugerir isso. Como que em resposta ao desafio, Stephen Carleton deixou a belíssima Claudette e atravessou o salão com grandes passadas na direção deles. Suas palavras de saudação foram corteses, mas o diabólico sorriso que ele lhe dirigiu fez com que fosse impossível para Isobel pronunciar sequer uma palavra. Sentou-se do outro lado de Robert e entrou facilmente na conversa com ele. — Já no verão controlaremos a maior parte da Normandia, incluindo seu lar ancestral. — Será estranho voltar depois de tantos anos, – disse Robert – e quanto a você, Stephen? Quando é que você vai para Northumberland1, para reclamar as terras da sua família? Isobel não pôde evitar, inclinou-se à frente e perguntou: — Sua família perdeu as terras? As sobrancelhas de Carleton se ergueram. — Não sabia? Meu pai se uniu aos rebeldes do norte, igual fez seu pai. Então ele sabia sobre seu pai. — Mas seu irmão é próximo do rei, não é? — Felizmente para mim, William lutou pelos Lancaster – disse Stephen, sorrindo. – William é meu meio-irmão. Posto que era o único parente honesto, nossa mãe me colocou sob os cuidados dele quando eu tinha doze anos. — Mas as terras do seu pai foram confiscadas? — É claro que sim. – Ele encolheu os ombros como se isso não o preocupasse. — Você só tem que pedi-las de volta, – disse Robert – e o rei vai lhe conceder de novo essas terras. O Rei Enrique estava permitindo que a maioria dos antigos rebeldes, ou as respectivas famílias, voltassem a comprar terras do reino. Ela havia pagado o preço pelo retorno das terras da família. Qual seria o preço que pagara Stephen? O que faria com que o rei perdoasse uma dívida como aquela? 1

Condado cerimonial e autoridade unitária da Inglaterra.


— Temos mais em comum do que pensei – disse Stephen, erguendo o copo para ela. – Ambos nascemos de pais insensatos e traidores. A traição do próprio pai não era uma carga para ele? E quanto à mãe dele? Isobel ansiava por perguntar... A pessoa sentada do outro lado dela puxou-a pelo cotovelo. Ela se virou e viu o agradável e redondo rosto de Sir John Popham, o homem mais tedioso da terra, se é que alguma vez houve um. — Tem alguma idéia de quantos comerciantes ingleses virão para Caen2 para se instalar na primavera? Quando ela negou com a cabeça, o homem começou a falar com detalhes sobre o comércio. Dado que tudo o que Popham requeria dela era um ocasional assentimento, ela podia concentrar a maior parte da atenção na conversa entre Robert e Stephen. — William disse que está pensando em voltar à Inglaterra na primavera – escutou Robert dizer. — Sim – disse Stephen – ele não fica longe de Catherine mais tempo do que deve. — E quem é que pode culpá-lo? Seu irmão é um homem afortunado. Robert estava dizendo isso?! — É verdade, – Stephen concordou – ele é. Mas quem era essa mulher que tinha todos os mulherengos aos seus pés suspirando e invejando-lhe o marido? Isobel se lembrou de dar outro assentimento a Popham e se aproximou mais de Robert. — William disse que você está demorando porque tem medo de Catherine. A risada de Stephen ressoou. — Eu não tenho medo de Catherine, eu a adoro! Mas ela está decidida a me ver casado..., e você sabe como ela é. — Catherine tem uma vontade de ferro – disse Robert – e vai acabar lhe conduzindo a isso. Os homens riram de novo. Apesar das palavras de menosprezo, não havia nada disso, apenas afeto e admiração nas vozes dos dois. — Minha única esperança é que William a impeça com outro filho. – Isobel ouviu o sorriso na voz de Stephen. – Um novo bebê poderia mantê-la ocupada. — Reze para que sejam gêmeos – disse Robert, rindo. – Reze para que sejam gêmeos! A próxima coisa que Isobel viu, foi Carleton parado atrás dela. Ficou sem fôlego quando inclinou a cabeça para olhá-lo. Por que ele tinha que ser tão bonito? — Popham, você está matando esta dama de tédio – disse Carleton. – Se precisa mesmo falar a tarde inteira sobre barris de vinho e fardos de lã, vamos para outro canto e deixemos os outros em paz. Isobel estava aturdida pela franqueza de Carleton, mas Popham riu. — Você tem razão, é claro. – Popham se pôs de pé e disse para Isobel: – Não sei o que eu faria sem ele. Ela não tinha idéia do que Popham estava falando. Inesperadamente, Stephen se inclinou para ela. O cabelo dele roçou sua face, fazendo seu coração acelerar. Ela sentiu a respiração dele no ouvido quando sussurrou: — Você me deve esta. Antes que ela pudesse se recompor, ele pegou sua mão. Ela olhou para aqueles longos e fortes dedos e se lembrou deles no seu cabelo. Nos seus seios. Engoliu e olhou para o rosto de Carleton,

2

A capital e maior cidade da região da Baixa Normandia.


cujos olhos escureceram; ele sequer estava tentando disfarçar que estava pensando o mesmo que ela. O calor ardeu através do seu corpo quando ele pressionou os lábios sobre seus dedos. Segurou sua mão uma fração a mais de tempo do que mandava a cortesia, mas ela não o afastou.

Robert se recostou e ficou olhando para o casal. Stephen, que normalmente era muito bom em manter a expressão neutra, não estava se saindo melhor do que Isobel. Nunca havia visto Stephen assim por causa de uma mulher. Ambos estavam brincando com fogo. Mesmo com o apreço que rei tinha por Stephen, o soberano não faria vista grossa se este colocasse em risco seus planos. Stephen descobriria que um marido cornudo não era nada comparado a um rei irritado. Robert desconfiava que as coisas não tinham chegado muito longe..., ainda. No entanto, eles estavam cortejando o desastre. Os dois tolos também poderiam ter gritado de cima do telhado..., o efeito seria o mesmo! Claudette o viu, é claro. Aquela extraordinária mulher perdia pouca coisa. E Marie de Lisieux, que não tinha nada da sutileza nem da discrição de Claudette, estava observando o casal como um falcão vigia a presa. Não pela primeira vez ele se perguntou para qual divisão Marie estava espionando. Nessa noite, no entanto, um motivo mais vil ainda do que a política movia Marie. Era assombroso que Isobel não sentisse aqueles olhos abrasadores sobre a pele. Graças a Deus, William não era mais perspicaz do que o rei em tais assuntos. A situação era delicada demais para envolver William. Era necessária uma mão sutil, e não um arrombador de portas. Ele poderia precisar da ajuda de William. Mas ainda não.


Capítulo 08

Isobel soltou o bordado no colo, irritada porque seus pensamentos haviam vagueado do novo para aquele maldito Stephen Carleton! Não era de estranhar, realmente. Ela tinha muito pouco para se manter ocupada. Onde será que estava De Roché? Ela ficou olhando para fora pela estreita janela, tentando não imaginá-lo entrando pela porta do castelo com vinte homens atrás dele. Cada dia que passava e ele não chegava, ela se dividia entre a dor e o alívio. Ela era filha de um traidor; não queria ser a esposa de um traidor. O que ela faria se De Roché mudasse de lado depois do casamento? Presa entre o dever ao marido e ao rei, qual deles ela escolheria? Qualquer opção seria perigosa para ela. Subitamente, sua atenção foi capturada por um cavaleiro solitário, cujo cavalo trotava na parte interna da muralha externa do pátio lá embaixo. Havia algo familiar na forma com a qual ele estava montado na sela... — Geoffrey! – largou o bordado no chão e saiu voando porta afora. Na pressa, por pouco cai escada abaixo, cujos degraus foram construídos em alturas desiguais justamente para servir de obstáculo aos atacantes. Um instante depois, estava fora do castelo e correndo pelo pátio até o irmão. — Estou sujo – avisou Geoffrey, quando ela pulou nos seus braços. Ele a abraçou com força e disse contra o cabelo dela: – Eu vim o mais rápido que pude. — Graças a Deus você está a salvo! – disse, com os olhos marejados. – Fiquei tão preocupada! — Você não devia se preocupar tanto comigo, Issie, já sou homem feito agora. – Ele a colocou no chão e pegou-lhe as mãos. – Será possível que minha irmã tenha ficado mais linda ainda? — Você me condenaria se eu lhe dissesse que a morte do meu marido foi muito boa para a minha saúde? — Eu até poderia, – disse ele – mas sei o que você passou na mão dele. Enquanto homem, Geoffrey nunca poderia entender o tanto que ela sofreu com ele. Só que ela também não queria que ele entendesse. — Venha, – disse ela, pegando-lhe o braço – vou lhe mostrar o caminho para os estábulos. Depois quero que conheça Sir Robert, um homem muito amável que está cuidando de mim. Ela parou para apoiar a cabeça no ombro dele e sorriu. — Estou muito contente por você estar aqui. — Certamente ele levou tempo demais para vir. A inesperada voz veio de trás deles. Isobel se virou e viu Stephen Carleton para a poucos metros com as mãos nos quadris, aparentando qualquer coisa, menos o habitual bom humor. — O que foi que lhe atrasou? – exigiu saber Carleton, cujos olhos severos estavam fixos em Geoffrey. – Essa demora da sua parte foi um grave insulto para essa dama. Ela nunca havia visto Carleton irritado, antes. Com o mau humor cintilando nos olhos, ele parecia diferente. Perigoso. Ele virou o olhar abrasador para ela. — Nunca imaginei que a senhora fosse uma mulher tão indulgente! — Lamento se lhes ofendi de alguma forma – disse Geoffrey, atraindo a atenção de Carleton de volta para ele. – Vim assim que recebi a notícia que minha irmã estava aqui.


— Sua..., irmã?! – a expressão do rosto de Carleton mostrou primeiro surpresa, depois, deleite. – Pensei que era aquele francês indigno dela – disse, aproximando-se e dando palmadas nas costas de Geoffrey. – Bem-vindo a Caen! Sou Stephen Carleton, amigo da sua irmã. — O senhor pensou que ele era... – ela engasgou com as próprias palavras quando a ira, quente e obscura, cresceu no seu peito. – Você pensou que eu abraçaria um homem a quem não conheço no meio do pátio?! — Melhor em um pátio concorrido do que em um lugar isolado – disse Carleton piscando um olho. – Felizmente, eu não lhe vi abraçando-o, ou seu irmão estaria agora tirando o pó do traseiro..., se é que ele teria conseguido se levantar. Ela queria esbofeteá-lo. — E o quê é que o senhor tem com isso?! Geoffrey, pacificador como sempre, disse com voz tranquilizadora: — Ele só estava sendo cavalheiro, tentando lhe proteger. – Pegou-a pelo braço e começou a afastá-la dali. – Venha, Issie, foi uma dura cavalgada, e faz horas que não como nada. Quando ela olhou para Carleton por sobre o ombro, ele lhe mandou um beijo. O homem era exasperante.

Que tipo de loucura, perguntou-se Stephen, havia se apoderado dele?! Quando cruzou a porta do castelo e a viu agarrando o braço de um estranho com o rosto iluminado por um raro e radiante sorriso, atravessou furioso o pátio, decidido a dar uma tremenda surra naquele homem. Oh, bom Deus, ele mal conseguia acreditar! Não. Ele sabia de sobra o que havia dado nele. Absurdos e furiosos ciúmes! Pensou que aquele homem era De Roché e que Isobel estava olhando para ele da mesma forma com a qual olhou para Stephen no dia em que se conheceram. E ele simplesmente não conseguiu suportar! Ele não quis considerar o que isso significava. De qualquer forma, pretendia conhecer o irmão dela.

Isobel se aconchegou mais ao manto por causa do frio das primeiras horas da manhã. — Temi que você tivesse se esquecido de praticar comigo antes do desjejum – disse, apertando o braço de Geoffrey. — E me arriscar à ira da minha irmã mais velha?


Caminharam em um confortável silêncio, os pés de ambos fazendo barulho no solo congelado. Quando Geoffrey falou de novo, seu tom estava sério. — Você esteve andando sozinha por aí, Isobel? Somente uma pessoa poderia ter contado isso para ele. — Aquele Stephen Carleton lhe disse algo? — Sim, Sir Stephen Carleton me fez um belo sermão sobre os riscos – disse – e sobre os deveres de um irmão. — Mas como ele se atreveu...! — Não havia segundas intenções da parte dele, pois foi bastante gentil – disse Geoffrey. –Ele é um sujeito interessante. Ele e o sobrinho parecem ser bons homens. Ela grunhiu em desacordo. — Stephen Carleton carece de qualquer tipo de seriedade de propósitos. — Parecia bastante sério quanto a querer me matar, ontem – disse Geoffrey, lutando para conter o riso. Ela se lembrou do quão perigoso Stephen havia parecido. Perigoso e incrivelmente atraente. — Um vil temperamento não produz melhoras em um homem frívolo. – Ela soava insofrível, mas não conseguia parar. – É igual a todos os outros, um incorrigível adúltero e bêbado. Com toda a sua devoção, estou muito surpresa que você esteja disposto a ignorar os pecados dele. — Você não devia acreditar em tudo que escuta – disse Geoffrey. – E você e eu não somos ninguém para julgar. Aquele que não tiver pecado algum, que atire a primeira pedra! Ela decidiu não pôr à prova as boas graças do irmão lhe contando que o homem a quem ele estava defendendo já havia se deitado sobre ela e a beijara até deixá-la sem fôlego. Esse era o tipo de segredo que seria melhor não compartilhar. — O que é que lhe faz sorrir, Issie? — Nada... – Que Deus a ajudasse, mas ela não se arrependia daqueles beijos tanto quanto deveria. – Não vamos mais falar de Stephen Carleton. — Mas ele... Ela levantou a mão. — Por favor, Geoffrey, não. Quando chegaram ao armazém, ela se abaixou para passar pela entrada baixa e tirou o manto. Quando se virou para encontrar um lugar para colocá-lo, surpreendeu-se tanto que gritou. Stephen Carleton estava sentado em cima de uma pilha de sacos de grãos. — Bom dia, Lady Hume – ele a saudou, como se estivesse acostumado a ver mulheres gritando ao vê-lo. – Lembra-se do meu sobrinho, Jamie Rayburn? Dando-se conta então da presença do rapaz, ela assentiu rigidamente com a cabeça. — Eu queria lhe dizer que Sir Stephen se ofereceu amavelmente para praticar conosco hoje. – Ignorando o olhar dela, Geoffrey acrescentou: – Somos afortunados, pois ele é bastante conhecido pela habilidade. — Por favor, chame-me apenas Stephen – disse Carleton, pulando para o chão. – Sua irmã me chama assim. Ela ia retrucar, mas essa pequena falsidade era o menor dos seus crimes. Quando Geoffrey foi conversar com Jamie, Carleton parou junto dela. — Pare de franzir o cenho – disse em voz baixa, tratando-a com intimidade. – Você está a salvo com Jamie e seu irmão aqui. Eu lhe garanto, você vai gostar. Ela estava tensa e distraída no começo, mas depois de um tempo se concentrou no treino. Trocaram de parceiro várias vezes, então ela teve a oportunidade de praticar com cada um deles.


Stephen – para seu pesar, agora ela pensava nele como Stephen, e não como Sir Carleton – era de longe o melhor espadachim e mestre. — Estou faminto! Faz muito que passou a hora do desjejum. O comentário de Jamie a pegou de surpresa. O tempo havia passado rápido demais. Jamie embainhou a espada e recolheu o manto de cima dos sacos. — Vamos nos encontrar de novo aqui, amanhã? Geoffrey deu uma olhada de rabo de olho para a irmã e esperou. Ela sorriu e assentiu. Desde que Geoffrey e Jamie estivessem presentes, qual seria o problema?


Capítulo 09 Novembro de 1417

Enquanto Robert a ajudava colocar o manto sobre os ombros, Isobel escutou os sinos de L’Abbaye-Aux-Homes, a grande abadia que Guilhermo, o Conquistador, construiu do lado oeste da cidade, convidando os monges a entrarem para as Completas. Geoffrey estava lá naquela noite, rezando com os monges. Ele se levantaria com eles duas vezes durante a noite, para os Maitines e para as Laudes, e de novo ao amanhecer para a Prima, antes de voltar ao castelo. — Como é que você conseguiu me persuadir a ir com você esta noite a uma das suas reuniões sociais no povoado? – disse ela. – Tenho certeza de que vou odiar. — Quem sabe? Algumas horas com os ricos e dissolutos pode proporcionar algumas surpresas – disse Robert, abrindo a porta para ela passar. – O que acha de caminharmos? A noite está clara e agradável. Ela usufruiu da caminhada através do Velho Povoado. Quando cruzaram a ponte no Novo Povoado, no entanto, seus pés estavam congelados. Estavam quase no muro, longe da cidade, quando Robert parou diante do portão de uma enorme casa. — Cheguei a mencionar – perguntou Robert sem olhá-la – que nossos anfitriões são Lorde e Lady de Lisieux? — Marie de Lisieux! Você sabe muito bem que eu não teria vindo se tivesse me dito. — Ora, vamos, você deve admitir que tem um pouco de curiosidade – disse Robert, piscandolhe o olho. – Prometo que será divertido. Assim que entraram na casa, Isobel notou com satisfação que estava decorada de forma berrante, com custosos tapetes, mas pouco atraentes, e tinha móveis demais. — Horrível, não é? – sussurrou-lhe Roberto no ouvido. – Espere até conhecer o marido. Isobel teve que lutar para não rir. — Você é um homem malvado, Robert. A refeição servida era como provisão: abundante, porém insípida. O pão não estava muito fresco, as frutas estavam verdes, as carnes mal cozidas e carregadas com um pesado e incomum molho cinza jogado sobre ela. Isobel estava tão faminta quando se levantou quanto quando se sentou à mesa. Depois da ceia, os convidados debandaram em grupinhos e se espalharam pelas salas da casa. Robert se sentou com Isobel em um banco atrás do salão grande e começou a lhe contar mexericos indecorosos sobre as pessoas que estavam ali. — Baixe a voz! – ela o admoestou. O riso morreu na garganta dela quando se virou e viu um convidado retardatário entrando na sala. — Você não me disse que Stephen viria. Robert arqueou as sobrancelhas. — E você precisava ser avisada? —Claro que não.


No entanto, a última coisa que queria era ver Marie de Lisieux pendurada em Stephen a noite inteira. Só que a mulher já tinha posto as mãos sobre ele. — Você parece tensa, querida – disse Robert. — Está enganado. Durante semanas ela havia se acostumado à companhia de Stephen..., e a ignorar a atração entre eles. É claro, não havia sido tão tola a ponto de se arriscar e ficar sozinha com ele outra vez. Geoffrey e Jamie ficaram com ela para treinar com a espada todas as manhãs, regular como a chuva. Stephen ela via com menos frequência – não havia dúvida que era difícil se levantar cedo depois de passar a noite na esbórnia, bebendo..., e Deus sabia o quê mais. Apesar de toda a cautela, ela se flagrou se emocionando todas as vezes que ele se juntava ao grupo. Era um mestre paciente e tinha encanto e engenhosidade pelos dois. Como é que um homem com semelhante talento podia gastar tão mal o tempo com os membros mais degenerados da nobreza local? Era um desperdício! E sempre havia mulheres disponíveis, rindo das anedotas dele e dirigindo-lhe olhares significativos. Robert ergueu o braço e gritou. — Stephen, venha para cá! Stephen distraiu Marie de Lisieux com um sorriso de cegar qualquer uma, enquanto tirava a mão dela do seu ombro e a apertava depois. Isobel inspirou profundamente para se fortalecer. Será que foi para perturbar Isobel ou para provocar Marie, o fato de ele ter se sentado entre ela e Robert no sofá em vez de se sentar em frente a eles? Com certeza ele estava se divertindo. — Fico satisfeito que esteja aqui – disse-lhe Robert. – Preciso sair um pouquinho, e não gostaria de deixar Isobel sozinha. Você sabe como podem ser essas pessoas. — Surpreende-me o fato de você tê-la trazido aqui. – O tom de Stephen foi brusco. — Parem de falar de mim como se eu não estivesse aqui – disse Isobel bruscamente. – Não sou criança para passar de babá em babá. Estava tão irritada que quase poderia se esquecer do calor da coxa de Stephen contra a dela. Quase. — Aonde você vai? – ela perguntou para Robert. Ele piscou um olho verde da cor do mar. — Eu preferiria não dizer. Um encontro. Será que ele não estava ficando velho demais para isso? Ah, claro, homens que nem ele..., e Stephen, nunca paravam. Os dois homens se puseram de pé e conversaram em voz baixa. Enquanto falavam, Isobel notou que a bela cortesã Claudette entrou no salão e chamou a atenção de Robert, que se despediu então, e Stephen se sentou na cadeira diante de Isobel e cruzou os braços sobre o peito. Para puxar conversa, disse: — Sir John Popham mencionou outra vez o quanto aprecia sua ajuda com a administração do povoado. –Ela havia se surpreendido pelos efusivos elogios de Popham. Aparentemente, Stephen fazia mais com seu tempo do que encantar as mulheres e beber em demasia. Stephen encolheu os ombros e esquadrinhou o salão. Obviamente, o trabalho que realizava com Popham não era algo que queria compartilhar com ela. Ele, no entanto, não precisava ser grosseiro. Mas o que é que estava acontecendo com ele nessa noite?! Não era culpa sua por ele ter ficado com ela. Muito a contragosto, sentiu-se magoada. Pensava que haviam ficado amigos durante as últimas semanas.


Uma atraente mulher mais velha toda enfeitada com joias e seda carmim apareceu ao lado de Stephen. A mulher se inclinou e sussurrou algo ao ouvido dele, apertou-lhe a mão e assentiu com a cabeça. — Não saia daqui- disse ele para Isobel, enquanto se levantava. – Não demoro, mas há alguém com devo falar. Falar?! Ha! Ela viu Stephen sair com a mulher para fora do salão com andar descontraído. Aqueles homens pensavam que eram quem para lhe dizer que ficasse ali enquanto namoravam mulheres de todos os tipos? Ela se sentiu incômoda sentada sozinha. Tinha pouca experiência com reuniões como aquela. As visitas em Hume Castle haviam sido escassas, e seu marido raras vezes a levou a qualquer outro lugar. Ficou imensamente agradecida, então, quando Monsieur de Lisieux se apressou a ir se juntar a ela. — Mas como!... Abandonar uma dama tão bela! – disse de Lisieux, levantando os braços. – Verdadeiramente, seus amigos não a merecem. As veias arrebentadas e a cor manchada do rosto mostravam os sinais do excesso de bebida. Mas quem poderia culpar o pobre homem, se estava casado com aquela miserável Marie? — A senhora permitiria que eu lhe mostrasse a casa enquanto eles estão ausentes? – sugeriu de Lisieux. — O senhor é muito gentil. – Ela tomou o braço que de Lisieux lhe oferecia e sorriu ao pensar em Stephen voltando e vendo que ela não estava. De Lisieux parou junto a uma mesa auxiliar para servir um grande copo de vinho para si mesmo. Ele o encheu tanto que teve que beber vários goles grandes com receio de derramá-lo. Enquanto andavam pelos aposentos sobrecarregados de adornos, de Lisieux falou sobre as diversas características da casa. Isobel fez sons educados de apreciação. Stephen certamente estava passando o tempo muito bem. Fez um assentimento de reconhecimento ao ver alguns convidados visitantes do castelo. De Lisieux, é claro, conhecia todo mundo. Eles avançavam lentamente, pois volta e meia paravam para conversar com alguns convidados que se amontoavam por ali. Mais adiante, de Lisieux pegou uma jarra de vinho, e ela permitiu que ele enchesse o copo que ela tinha na mão. Como nem Stephen nem Robert haviam voltado até o momento no qual ela e de Lisieux regressaram à frente da casa, ela estava muito zangada, a ponto de ter um ataque. Onde é que estavam aqueles dois? Ela estava mais do que pronta para ir embora. Se tivesse que dizer mais um Oh e Ah diante de mais um feio retrato de família, ela iria gritar. — A senhora devia ver o novo vitral que mandei colocar no solário – disse de Lisieux enquanto a conduzia até a escadaria. – O artesanato é refinado. Melhor uma janela do que outro retrato. Decerto de Lisieux devia ter enchido o copo de novo, pois teve que beber de um só gole a metade de novo, para não derramar vinho nos degraus. Ao menos o vinho do anfitrião era melhor do que a comida. Tirou-lhe um pouco a fome. Ela parou no alto da escadaria, virou-se para olhar as pessoas perambulando lá embaixo. Não viu Stephen..., nem a mulher vestida de seda carmim. — O solário é aqui – disse de Lisieux, abrindo a porta. Dentro do solário, almofadas de cor escarlate com pesadas borlas douradas estavam espalhadas pelo chão. Que estranho, com convidados chegando... Não estava quente demais ali...? Ela se abanou com a mão. Os criados deviam ter deixado o braseiro quente demais. — Desculpe-me pelo orgulho, mas não é lindo? – disse de Lisieux, guiando-a através das almofadas até a janela.


— Agradável, muito agradável – murmurou, embora não houvesse nada especial naquele vidro, exceto o tamanho. Ah! Não ocorreria a Stephen procurá-la ali, no solário. Se é que ele estivesse procurando-a. Aquele porco. Estreitou os olhos, pensando no que provavelmente ele estaria fazendo com a mulher de seda carmim. Engoliu o resto do vinho. Sem se virar, estendeu o copo para ser servida de novo. O que é que de Lisieux estava dizendo? Algo sobre tapetes? Havia deixado de escutar aquela conversa sem sentido fazia já algum tempo. — O próximo aposento é mais incomum ainda – disse, puxando-a para outra entrada. – Precisa vê-la. A cabeça de Isobel começou a dar voltas. — Gostaria de me sentar, Monsieur de Lisieux. – Estava envergonhada porque o nome dele soou como Me-xiê-de-lixiê, mas ele não pareceu ter notado. Santo céu, será que estava bêbada? Hume bebia tanto que ela se sentia enojada, mas nunca bebia demais. Como... — É claro. – A voz de de Lisieux foi solícita. É claro o que? Havia se esquecido do que havia lhe perguntado. — Mas primeiro, olhe o desenho deste belo tapete. Era difícil discernir o padrão à obscura luz das velas do aposento, mas Isobel, obedientemente, avançou e aproximou o nariz, semicerrando os olhos. Um rosto fazendo uma careta, a anca de um cavalo, seios de mulher... Repentinamente, ela o viu como um todo e o que era. Horrorizada demais para falar, ofegou diante da obscena cena mitológica de sátiros tendo relações íntimas com mulheres humanas. Com uma sensação de desalento, olhou por cima do ombro. Estava, como havia temido, em um quarto. Ela não havia ouvido ele fechar a porta quando entraram. Mas estava fechada. Como é que ela havia se metido por si só naquela situação? — Não devia ter me trazido aqui – disse e começou a caminhar até a porta. De Lisieux apertou o braço dela, sacudindo-a para trás. Ela engoliu o pânico que surgia. Sem dúvida alguma ele não se atreveria..., a casa estava cheia de pessoas. E Stephen estava ali também. Em algum lugar... — Solte-me – disse, o mais calmamente que pôde. – Lorde Stephen está me esperando. — Acredite, Carleton está ocupado em algum outro lugar, querida. Antes que ela se desse conta, de Lisieux estava sobre ela. Ela sentiu lábios úmidos contra o pescoço e mãos rudes puxando seu vestido. Isobel gritou contra a mão posta sobre sua boca. Enquanto lutava para enfiar a mão por dentro do corpete do vestido para alcançar o punhal escondido, lembrou-se que o havia deixado sobre o baú no quarto que ocupava no castelo. Inferno! Esperneou e arranhou enquanto ele a arrastava até a cama. Por fim conseguiu fincar os dentes na mão dele. Teve apenas um instante para saborear o uivo de dor que ele soltou. A bofetada foi tão forte que seus ouvidos zuniram e viu brilhantes pontinhos como estrelas. Enquanto seus joelhos cediam, de Lisieux soltou-a e ela caiu com força contra o chão. Lutou para ficar de quatro e engatinhou pelo quarto freneticamente, procurando escapar. Um som rítmico de palmadas atrás dela fez que que olhasse por cima do ombro. Stephen estava ali! Ele havia prensado de Lixieux contra a lateral da alta cama e estava batendo nele com os punhos. A cabeça de deLisieux caiu como se fosse uma boneca de trapo depois de tanto soco. — Stephen, pare! – gritou. – Já chega!


Stephen sacudiu a cabeça, como que para se livrar do aturdimento. Afastou-se e de Lisieux escorregou para o chão. Isobel ficou de joelhos e pressionou as mãos contra a boca. Ouvia fracamente lamentos agudos, e mal se deu conta que tais sons vinham dela. Stephen se ajoelhou diante dela e segurou-a pelos ombros. — Ele machucou você? Ela negou com a cabeça, incapaz de falar. Stephen puxou-a com força contra si. — Tem certeza? – perguntou contra o seu cabelo. Ela fechou os olhos e assentiu com a cabeça. Abruptamente, Stephen a empurrou à distância dos braços e fixou os olhos ardentes nela. — Doce Cordeiro de Deus, – disse, com a voz trêmula – o que é que você estava fazendo aqui com ele?! — Por que está gritando comigo? – Para sua consternação, estava muito perto das lágrimas. – E não precisa blashfemar. – Frustrada, ela fez outra tentativa. – Blashfemar. Blashfemar. — Você está bêbada? – perguntou, com os olhos muito abertos. — Você se atreve a me criticar – ela bateu com a mão aberta no próprio peito ao dizer a palavra me, para enfatizar a ofensa dele – por beber demais?! Só que a culpa não é minha! Cada vez que eu virava a cabeça, de Lisieux punha mais vinho no meu copo e... — Venha – disse Stephen, levantando-a. – Não aguento ficar nem mais um minuto neste quarto com esse homem horroroso. Enquanto ele meio que a carregava para fora do quarto, percorreu com o olhar o corpo de deLisieux caído no chão. — Ele está...? — Não, ele não está morto – disse Stephen, com voz dura. Ele a conduziu até um assento junto à janela no solário. Depois de trancar a porta externa, sentou-se junto a ela e pegou sua mão. — Lamento ter me zangado com você, mas você me deixou muitíssimo assustado. – Ficou olhando fixamente à frente, com os músculos da mandíbula tensos, apertando os dentes. Apesar do esforço óbvio para se acalmar, sua voz se elevou quando falou de novo. — O que é que você estava pensando, embriagando-se e vindo para o quarto desse de Lisieux com ele?! — Ele estava me mostrando a casa. — Meu Deus, Isobel, você não tem quinze anos mais! Como pôde ser tão estúpida? — Isso tudo é tão injusto! – Ela limpou o nariz na manga do vestido e fungou. Os ombros dele caíram. — Você tem razão. Eu nunca devia ter lhe deixado sozinha. Só que eu precisava tratar de um assunto, mas isso não é desculpa. — A culpa não é sua. – Mesmo que fosse, qual mulher perdoaria Stephen quando ele olhava com aqueles líquidos olhos marrom-café para ela? Era como chutar um cão. Ele a estreitou nos braços e descansou o queixo levemente no alto da sua cabeça. Rodeou-a com os braços, a face dela descansando sobre seu forte peito, e ela se sentiu segura. Protegida. — Por que você ficou tão irritado quando Robert me deixou com você? — Porque você e eu não deveríamos ficar sozinhos. – O peito dele se levantou e baixou contra sua face enquanto ele inspirava profundamente. – Você sabe, não tenho capacidade para resistir à tentação.


Ela se inclinou para trás para olhá-lo. Verdadeiramente, ele tinha um belo rosto – a boca larga, expressiva, os traços fortes da face e da mandíbula. Pôs a mão nela, querendo sentir a textura áspera da barba incipiente contra a palma. Por um longo instante, ele a olhou com olhos atormentados. Então sussurrou: — Doce, doce tentação. – Enquanto descia a boca até a dela. Dessa vez não se beijaram com a paixão selvagem das vezes anteriores, mas com um derretimento lento que fez com que suas entranhas parecessem mel quente. Quando ele parou e colocou a cabeça dela debaixo do queijo de novo, ela ouviu o coração de Stephen batendo forte. — Deveríamos voltar para o castelo agora – disse ele. — Ainda não. – Ela se aconchegou mais apertado nele para sentir o calor daquele corpo através da roupa. – Ainda não. Stephen resvalou os braços até a cintura dela e beijou a parte superior da sua cabeça. — É errado eu me aproveitar de você quando está tão abalada e bebeu demais... Ela inclinou a cabeça para trás, esperando outro beijo. — Mas eu mal estou sentindo os efeitos do vinho... — Está mentindo, Isobel – disse ele com um largo sorriso. – Está tão bêbada quanto um soldado depois de uma noite na cidade. Venha, preciso levá-la de volta antes que eu me esqueça de todo sentido de honra. Stephen ergueu Isobel para cima do cavalo e a segurou ali enquanto montava atrás dela. Meu Deus, ela estava ébria. Ia se sentir miserável pela manhã. Quando se apoiou de novo contra ele, sentiu-a tão mole e flexível que teve rezar para Saint Peter para que lhe desse forças. — E quanto a Robert? – perguntou ela sem abrir os olhos. — Ao diabo com Robert! Stephen ia estrangulá-lo. Se Robert sabia que tinha que ir a uma daquelas reuniões clandestinas com o rei, por que, em nome de Deus, levou Isobel com ele nessa noite?! E logo na casa dos Lisieux! A única explicação era que Robert pensou em deixar Isobel com Stephen o tempo todo. Agora, isso era curioso. É claro que Robert não previu que de Lisieux, aquele imbecil, atacaria Isobel debaixo do próprio teto. Mas ele sabia que Stephen se veria forçado a escoltar Isobel de volta ao castelo, somente os dois, e altas horas da noite. Nada escapava a Robert. O homem tinha olhos nas costas. Apesar das negativas de Stephen, Robert sabia condenadamente bem que algo havia acontecido entre Stephen e Isobel naquela manhã na qual os viu pouco depois de..., bom, pouco depois de eles terem rolado pelo chão do armazém. Mas então, Robert estava pondo a tentação deliberadamente no seu caminho?! Em nome de Deus, Stephen não conseguia imaginar por que! Tentou se sentir virtuoso para resistir à tentação. Mas, o que mais podia fazer, com Isobel bêbada?! Mesmo assim, não era fácil, sentindo o perfume do seu cabelo no nariz e seu traseiro se chocando contra ele a cada passo do cavalo. Estava tão duro quanto uma rocha..., e desesperado por alguma distração. — Quando eu era pequena, costumava cavalgar assim com o meu pai. – A voz de Isobel tinha um tom lastimoso, melancólico. – Ele me levava a todos os lugares com ele. Stephen examinou a própria consciência. Aproveitar-se da bebedeira para descobrir seus segredos não o incomodava em absoluto. Ele aproveitou a deixa que ela mesma havia lhe dado.


— Foi por isso que seu pai lhe decepcionou – perguntou suavemente. – Conte-me sua história, Isobel, eu quero ouvi-la. Ela ficou quieta por tanto tempo que ele pensou que ela havia adormecido. Quando finalmente falou de novo, parecia ter se esquecido da presença de Stephen completamente. — Meu pai me disse que eu devia salvar a família... Isobel falou distraidamente, como que dando voz a uma parte dos próprios pensamentos. Enquanto Isobel contava sua história, Stephen viu o quadro, claro como o dia: Uma adolescente à beira da feminilidade, de pé no alto capim com uma espada de madeira na mão e o riso nos olhos. Uma mocinha travessa, acostumada a conseguir o que queria. O velho Hume deveria ter o membro cortado e jogado aos porcos por ter cobiçado semelhante mocinha. Decerto ele era mais velho que o próprio avô dela. Quando a voz dela foi sumindo no silêncio, Stephen a apertou. — Seu pai deve ter tido lá as razões dele para aceitar esse casamento. — Hume lhe deu dinheiro para que meu pai comprasse de volta as nossas terras – disse ela. Então Isobel foi o sacrifício da família – teve a virgindade vendida para satisfazer a luxuria de um velho lúbrico; a felicidade dela havia sido trocada pela terra. A cabeça de Isobel se mexia suavemente contra o peito de Stephen. Já que ele não conseguiria mais nada dela nessa noite, virou o cavalo para os portões do castelo. Isobel mal se mexeu enquanto ele subia com ela pela escada de serviço até sua câmara na torre. Aquela criada inútil não ia abrir nunca aquela maldita porta?! Bateu pela segunda vez, e mais uma ainda. Quando finalmente o deixou entrar, ela soltou uma risadinha ao ver Isobel completamente largada nos braços dele. — Nem uma só palavra sobre isto para ninguém! – disse ele à criada enquanto levava Isobel até a cama. Ele não gostava de intimidar os servos, mas tinha que garantir a discrição da mulher. – Se você abrir a boca, eu juro que vou mandar aquele arqueiro de quem você tanto gosta para se juntar ao exército de Gloucester! Olhou para Isobel e sentiu uma onde de ternura pela mocinha que ela havia sido um dia, a menina cujo pai dilacerou seu coração. Quando roçou os nós dos dedos contra sua face, Isobel sorriu dormindo. Como queria se deitar ao lado dela! Envolvê-la com os braços e dormir com o rosto no seu cabelo. Acordar com aquele sorriso pela manhã e fazer amor com ela. E depois ficar na cama com ela pelo resto do dia... A criada sairia dali se ele lhe dissesse para sair... Deixou escapar um profundo suspiro. Ela não era sua. E não poderia sê-lo.


Capítulo 10 Dezembro, 1417

Geoffrey mandou dizer que não podia se juntar a eles para o treino, então seriam somente ela e Jamie. Stephen não viera nem uma só vez desde... Isobel sacudiu a cabeça para se desfazer da lembrança daquela noite de bebedeira desenfreada. Mandou de volta a criada quando chegou ao armazém, embora não fosse precisamente apropriado ficar a sós com Jamie que, em sua opinião, continuava sendo um rapazola. Assim que entrou pela pequena e baixa entrada, deu-se conta do erro cometido. Stephen estava de pé, completamente só, no centro do armazém, com a espada na mão. Devia ter chegado bem cedo para treinar por contra própria. Baforadas de vapor saíam da sua boca quando a respiração entrava em contato com o ar frio. A camisa branca estava grudada no corpo. Isobel ficou de pé à porta, com os pés enraizados no chão. — O seu irmão não vem? – perguntou Stephen. Ela negou com a cabeça. — O quê..., onde está Jamie? — Ele também não pôde vir – disse Stephen. – Isobel, pare de me olhar como se eu fosse o Cavaleiro Verde que veio cortar sua cabeça. Eu não sabia que seu irmão não estaria aqui. A esta altura você já deve saber que eu jamais lhe causaria dano. Ela não sabia de nada disso. Parecia perigoso, girando casualmente a espada. O olhar dele capturou cada centímetro dela. — Venha, vamos começar – disse, e foi pegar a espada dela no esconderijo. Quando ela titubeou para pegar a espada, ele perguntou: – Está com medo de que, sem os outros aqui, não consiga manter as mãos longe de mim? Nem uma só vez Stephen havia dito algo para envergonhá-la acerca do que aconteceu naquela noite na casa dos Lisieux. Nem uma palavra, nem um só comentário velado. Nada em absoluto que a fizesse se lembrar da bebedeira. Ou pela estupidez de ter seguido de Lisieux até o quarto dele. Ou de como implorou a Stephen que a beijasse. Verdadeiramente, estava agradecida que ele tivesse esperado até agora, quando estavam a sós, para zombar dela. Isso não significava que lhe agradasse. — Você já tem mulheres suficientes se jogando em cima de você, Stephen Carleton. – Tirou a espada da mão dele, estendida, empunhou-a no ar e apontou para o coração dele. – É com a minha espada, não com as minhas mãos, que você devia se preocupar. Treinaram duramente. Mais uma vez ela ficou impressionada pela graça e beleza dele com uma espada. Seus movimentos eram fluídos e sem esforço quando a trouxe até ele, deixando-a atacar, mas sempre controlado. — Quantas mulheres são suficientes? – perguntou ele. — O quê...? — Você disse mulheres suficientes que se jogam em cima de mim – disse com fingida inocência. – Suponho que você deve ter contado quantas são. Stephen não parecia minimamente sem fôlego, o que só aumentou sua irritação para com ele.


— Alguém pode também tentar contar as estrelas – disse ela, atacando mais uma vez. – Prefiro me dedicar a um propósito útil. Talvez você devesse tentar fazer o mesmo. Ele aparou o golpe para bloqueá-la. Por um longo instante ficaram a apenas centímetros de distância um do outro, a tensão de espada contra espada pressionada entre eles. — E em qual propósito você preferiria me colocar, bela Isobel? – perguntou Stephen, depois movimentou as sobrancelhas com malícia. Ela riu e deu um passo para trás. — Você é impossível! — E você devia rir mais amiúde. – Ele secou o suor da testa com a manga da camisa. – Descansemos um pouco. Estendeu a capa sobre o chão de terra, onde poderiam se sentar e deixar as espadas apoiadas nos sacos de grão empilhados contra a parede. — Então, – disse ele, esticando as pernas – vai me contar o resto da história ou vou ter que lhe motivar com vinho forte para conseguir? Isobel fechou os olhos. — Esperava realmente que eu não tivesse lhe contado todas essas coisas. Ele pegou uma palha solta do chão e a girou entre o polegar e o indicador. — E quanto à sua mãe? Ela não se opôs ao seu casamento? — Minha mãe não podia ser incomodada para não deixar de lado as orações por tempo suficiente para interceder por mim. – Ao ouvir a amargura na própria voz, Isobel apertou os lábios. Stephen tocou seu braço. — Pode lhe fazer bem desabafar, falar sobre isso. Será que faria mesmo? Ela nunca tivera ninguém a quem pudesse contar tudo. Havia tantas coisas que não podia compartilhar com Geoffrey, ainda mais agora que ele já era homem feito. Por que sentia que podia contar tudo agora, e logo para Stephen? Não entendia o motivo, mas fez. — Foi por ela que eu fiz o que fiz – disse em um sussurro. Isobel viu nuvens de pó flutuando no ar enquanto tentava se lembrar da mãe risonha da época da infância. — Depois que perdemos nossas terras, minha mãe quis escapar desta vida. Dedicou-se à oração, desde o amanhecer até o anoitecer, até que pareceu se esquecer de nós completamente. Após algum tempo, Stephen perguntou: — Seu pai pensou que recuperando as terras e a posição ela se recuperaria? — Eu sabia que não, mas ele não quis me ouvir. –Muito frustrada, ela gritou que ele poderia aumentar as terras cem vezes, e mesmo assim, ela não mudaria. — Sua mãe não falou com você sobre o casamento? A recordação de tudo ficava sempre logo abaixo da superfície, restos vindo até ela inesperadamente e pegando-a desprevenida. Pela primeira vez, tentou recuperá-la totalmente. Lembrou-se que seu coração latejava nos ouvidos enquanto corria pelo campo e embarafustou porta adentro. — Eu a encontrei de joelhos na capela do castelo. – Com o peito agitado por ter corrido tão depressa, ficou esperando que sua mãe a reconhecesse, até que não conseguiu aguentar mais. — Você vai deixar que façam isso comigo? – perguntou, a voz saindo aguda e trêmula. Quando os lábios de sua mãe continuaram se mexendo em uma reza silenciosa, Isobel apertou os punhos para não pegar a mãe pelos ombros e sacudi-la. Finalmente, sua mãe levantou a cabeça e olhou para Isobel. Salvo pela falta de expressão, o rosto dela estava tão encantador como sempre, debaixo daquele toucado simples.


— Eu pedi ao seu pai – disse a mãe em voz baixa – para adiar o casamento até o seu próximo aniversário. — Ele faria qualquer coisa, qualquer coisa que você lhe pedisse – disse Isobel, cravando as unhas nas palmas das mãos – e tudo o que você pôde pedir para mim foram três meses! — Seu pai me disse que Lorde Hume vai lhe deixar uma viúva rica. É mais do que uma mulher pode desejar neste mundo. — Você poderia me salvar disso, mãe! – As palavras de Isobel ressoaram nas paredes de pedra da pequena capela. Sua mãe permaneceu serena, com as mãos cruzadas no regaço. — Você não pode me ajudar apenas desta vez? – suplicou Isobel. Sua mãe virou a cabeça e o olhar dela ficou desfocado. — Lamento que você tenha que pagar pelos meus pecados. Quais pecados supunha sua piedosa mãe que havia cometido? — Isobel. – A voz de Stephen atravessou o véu das recordações. – Pegue isto – disse ele, colocando um lenço na mão dela. Só então se deu conta que as lágrimas corriam sem controle pelas faces. — Eu não devia ter lhe pressionado. – Stephen esfregou a mão para cima e para baixo pelas costas dela, acalmando-a como se ela fosse uma menina. Mas ela estava decidida a ir até o fim agora. — Quer ouvir as últimas palavras que minha mãe me disse neste mundo? — Só se você quiser me contar. — Ela disse: Nós, mulheres, nascemos para sofrer. Depois voltou a rezar. Isobel se lembrou que engolira os soluços que ameaçavam escapar e deu as costas para a mãe. A respiração se transformou em soluços enquanto saía com as pernas rígidas e atravessava o pátio da muralha externa. A cada passo queria endurecer o coração. — Eu não tinha opção, é claro – disse Isobel. – Mas eu disse para mim mesma que faria aquilo pelo meu irmão, e não por aquela inútil e patética mulher que é a minha mãe. Stephen a envolveu nos braços. Após algum tempo, perguntou: — O casamento foi muito difícil? Ela assentiu contra o peito dele, que apertou o abraço. Os braços em torno dela lhe faziam muito bem. — Você não perdoou o seu pai. — Eu me neguei inclusive a vê-lo. – Nisso pelo menos seu marido havia consentido. A única vez na qual viu o pai durante os anos de casamento com Hume foi no funeral da mãe. Não devia deixar que Stephen a consolasse daquele modo. Mas depois da história íntima que havia compartilhado com ele, parecia ridículo se preocupar por ser familiar demais. Até o cheiro de cavalo e de couro em Stephen a consolavam. — Você merece ser feliz – disse ele. — O que vai acontecer se De Roché for um homem horrível? – exclamou. – Ele não me quer, nem quer este casamento, senão já teria vindo. Por que, depois de manter à margem a autocompaixão durante tanto tempo, havia cedido a ela agora? — Aquele tolo não sabe o prêmio que o espera – disse Stephen com voz macia. – Assim que ele lhe conhecer, vai lamentar cada segundo que desperdiçou. Ela suspirou e descansou a cabeça contra o peito dele de novo. — Meu pai me disse para não acreditar em contos de fadas. Stephen afastou uma mecha de cabelo do rosto dela e beijou sua testa.


— Não há nada de errado em esperar algo pouco comum. Ela sentiu a respiração dele no cabelo enquanto a segurava. Uma emoção sem freios se aglomerou dentro dela. Ouviu a mudança na respiração dele e sentiu a tensão crescer entre ambos. E esperou, ansiosa. Esfregou a cabeça contra o ombro dele, esperando que lhe beijasse os cabelos outra vez. Quando ele o fez, suspirou e levantou o rosto para ele. Os olhos dele se cravaram nos seus, mas ele não fez nenhum movimento para beijá-la. Ela deslizou as mãos sobre o peito dele e as apoiou na nuca. Ele sacudiu a cabeça. — Isso não é sensato, Isobel. Tampouco era justo que pudesse passar o resto da vida casada com um homem cujo beijo e cada carícia fossem odiosos para ela. — É apenas um beijo, Stephen. — Creio que somente um beijo não seja possível entre nós. Desde o dia no qual sua infância chegara ao fim de forma estrepitosa, havia feito o que devia e o que tinha que fazer. Mas já estava farta disso. Puxou Stephen contra si e pressionou a boca contra a dele. O beijo foi, ao mesmo tempo, calor e paixão, línguas duelando, corpos se esfregando, mãos procurando... Quando a mão dele cobriu seu seio, ela jogou a cabeça para trás e fechou os olhos. Sentiu a suavidade daqueles lábios, o calor da respiração na pele, enquanto eles desciam pela garganta e voltavam à boca novamente. — O que é que me faz lhe desejar tanto? – Sussurrou no ouvido dela. – É saber que não posso lhe ter? Mas ele podia tê-la. Não tinha vontade de detê-lo. Não, ela não o deixaria parar. Quando ela passou a língua pelo lábio inferior de Stephen e deslizou as mãos debaixo da camisa, ele entendeu o convite. Deitou-a de costas no chão. Ela amava sentir as mãos dele no cabelo, a urgência daqueles beijos. Ela passou os dedos pelas costas de Stephen, deleitando-se com a sensação dos músculos tensos debaixo do tecido. Quando chegou às nádegas, gemeu e pressionou os quadris com força contra ele, que segurou seu rosto e a cobriu de beijos: na boca, nas faces, na testa, nas pálpebras, nas têmporas... Tudo o que queria era que ele continuasse beijando-a, tocando-a. Ela merecia isso. Precisava disso. Rolaram e se beijaram cobertos pela cortina dos cabelos dela. E depois rolaram novamente. A língua dele estava na sua orelha. A sensação inesperada expulsou o último fiapo de incômoda culpa que lhe rondava a mente. Cada um dos seus músculos ficou tenso enquanto ele avançava, chupando e beijando, descendo pelo lado da sua garganta e ao longo da beirada do vestido. Ela arqueou as costas, esperando sem saber bem o quê. Quando a boca dele encontrou seu seio através do tecido, teve a resposta. Ela parecia bêbada, fora de si. Quando Stephen levou a boca para o outro seio, ela puxou o corpete para baixo. Ele soltou um gemido do mais profundo do seu ser. Enquanto acariciava e beijava-lhe os seios nus, as sensações derrubaram os últimos resquícios de pudor. Entrelaçou os dedos nos cabelos dele e envolveu as pernas em volta da sua cintura. Gritou enquanto ele sugava seu seio, provocando sensações incríveis até a ponta dos dedos dos pés. Logo, sua boca estava sobre a dela com beijos profundos e desesperados. Aferrou-se enquanto ele se mexia contra ela, com os braços e as pernas em volta dele como uma porca em torno do parafuso. De repente, ele se afastou. Levantou o corpo e ficou de quatro sobre ela, olhando-a com olhos escuros e selvagens. Sua respiração estava tão forte quanto a dela.


— Eu sinto muito – disse ele. – Não podemos fazer isto. Ela se aferrou a ele mesmo quando a pôs de pé. Por vontade própria, seus braços contornaramlhe a cintura, e gemeu ao sentir o áspero tecido da camisa contra seus seios sensíveis. Deixou as mãos caírem até os duros músculos das nádegas e puxou-o pelos quadris contra ela. Sentiu a dureza do seu membro. E a respiração entrecortada lhe disse que ele não conseguia resistir a ela. De repente, aquela boca forte estava sobre a sua outra vez, quente, faminta, exigente. Seus joelhos enfraqueceram ao sentir a onda de sensações que latejavam pelo seu corpo. As mãos de Stephen estavam sobre seus seios, quadris, coxas... Apertando, acariciando, massageando... Quando seus pés saíram do chão, envolveu as pernas em torno dele. Sem afastar a boca da sua, ele a levou para trás até sentir a parede contra as costas. Profundos, profundos beijos. Ela estava tonta com eles, bêbada por causa deles... E ainda queria mais..., mais... Enquanto enfiava as mãos debaixo das suas saias, ao longo da pele nua das coxas, uma dolorosa necessidade ia crescendo dentro dela. Sentiu que o desespero dele aumentava junto com o seu, enquanto ambos movimentavam freneticamente as mãos um sobre o outro. Stephen meteu a mão entre eles e a tocou no centro. As sensações a sacudiram e a fizeram gritar. Mesmo através do tecido, o lugar onde ele esfregou estava tão sensível que era quase mais do que podia aguentar. E no entanto, ela suplicava. — Por favor, por favor, por favor! A respiração dele estava áspera contra sua orelha. — Eu preciso estar dentro de você! Aquela crua necessidade lhe provocou um espasmo receptivo por dentro. Ele puxou suas saias para cima. Por favor, Stephen. Por favor. Por favor! Ela pegou um punhado de tecido preso entre os dois corpos e puxou-o, tentando ajudá-lo. Tomada de frustração, ela lhe mordeu o ombro. De repente, abriu os olhos quando a porta do armazém se abriu de chofre e bateu forte contra a parede. Um homem enorme entrou. Ela estava assustada demais para se mexer. Mas, com os reflexos velozes de um guerreiro, Stephen se virou, pegou a espada do chão e sacou o punhal do cinturão. Ao mesmo tempo, manteve o corpo entre ela e o intruso. Porém, quase que imediatamente, Stephen relaxou a postura e apoiou a ponta da espada no chão. — Olá, William. Como conseguiu Stephen aquele tom plano e uniforme, não conseguia imaginar. Lorde FitzAlan fechou a porta e entrou. Embora não tivesse dito sequer uma palavra ainda, vibrava com muita ira. — Vá buscar sua armadura, Stephen. O exército sai dentro de uma hora. Lady Hume, eu vou lhe acompanhar até seu quarto. Por cima do ombro, Stephen perguntou em voz baixa: — Está coberta? Tardiamente, ela puxou o corpete para cima e começou a ajeitar o cabelo. Jamais estivera tão envergonhada em toda a sua vida. Stephen colocou seu toucado com mãos trêmulas, pôs a capa sobre seus ombros e levantou o capuz. Levantou-lhe o queixo com o dedo, obrigando-a a olhá-lo nos olhos.


— Não gosto de lhe ver envergonhada – disse em voz baixa. — Stephen, os homens estão se reunindo. A voz autoritária atrás deles fez Isobel pular, mas Stephen não deu nenhum sinal de que ouvira. — Que sorte William ter chegado neste preciso instante – sussurrou, tocando-lhe a face. Esboçou um sorriso diabólico que apertou o coração de Isobel. – Mas, ao mesmo tempo, gostaria de pedir a Deus que ele não tivesse chegado justo agora. Como eu lhe desejo, Isobel! Antes que ela pudesse recuperar o fôlego, ela a beijou na face e se foi. FitzAlan fez uma seca inclinação de cabeça e lhe ofereceu o braço. Sem olhar à esquerda nem à direita, caminhou com ela debaixo de um sol brilhante, um homem seguro de si mesmo e da própria virtude. Humilhação, perda e ansiedade combatiam dentro dela enquanto caminhava ao lado dele. A fortaleza parecia a quilômetros de distância. — Mantenha a cabeça erguida – ordenou FitzAlan. Ela fez o que ele disse. FitzAlan não rompeu o silêncio de novo até depois que passaram pela capela de Saint George. — Eu lhe peço desculpas pelo comportamento do meu irmão – disse, olhando à frente. – Não é próprio dele impor suas atenções. Ela se obrigou a dizer. — Ele não impôs suas atenções. FitzAlan inclinou levemente a cabeça, ainda sem olhar para ela. — O rei tem outros planos para a senhora, Lady Hume. Mas, se as coisas foram..., longe demais..., com meu irmão, bem, Stephen teria que se casar com a senhora. — Não, as coisas não foram..., longe demais – ela retrucou, surpresa pela repentina cólera de William. E não estava adiantando nada para lhe acalmar o temperamento que as suspeitas de FitzAlan fossem razoáveis, levando-se em conta o que ele havia visto. – E nem precisaria obrigar Sir Stephen a se casar comigo, ou forçá-lo, se tivesse acontecido. O canto da boca de FitzAlan se ergueu brevemente, no que parecia suspeitosamente um sorriso. Era a primeira vez que ela via uma mínima semelhança entre os dois irmãos, e isso não lhe agradou. — Meu irmão faria o que lhe mandasse a honra, sem se importar com os meus desejos – disse FitzAlan. – Ou os seus, Lady Hume. Isso soou como uma advertência.

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— or todos os santos, Stephen, enlouqueceu?! – recriminou-o William, assim que cruzaram os portões da cidade. O grupo principal estava cento e cinquenta metros à frente. William, no entanto, cavalgava em um ritmo que indicava que não tinha pressa para alcançá-lo.


— Possuído ou louco – respondeu Stephen. – Não havia outra explicação. — Você já não tem mulheres o suficiente?! – gritou William. – Justamente com essa você não pode se casar. O rei já escolheu marido para ela! — Eu não fiz nada que pudesse ser forçado a me casar. – Mais um pouquinho, e muito provavelmente ele seria... Bom Deus! Havia sido arrastado por uma furiosa onda de luxuria que não lhe deu espaço para pensar nas consequências. — Ela disse a mesma coisa – disse William com a voz mais tranquila. — Você não devia tê-la envergonhado perguntando sobre isso – replicou Stephen. – Eu gostaria que você não se intrometesse nos meus assuntos. — Sou inadequado para a tarefa, – disse William – mas Catherine e nossa mãe ficariam muito desgostosas se eu não fizesse alguma tentativa para guiar sua vida amorosa no lugar delas. Stephen não achou graça nenhuma. Manteve-se em silêncio por um bom tempo. Mas, como sempre, era impossível ficar em silêncio com William por muito tempo. — Estamos indo para Falaise? – perguntou. Sabia há algum tempo já que o rei romperia a tradição e a campanha durante o inverno, mas ninguém sabia onde Henrique atacaria primeiro. — Sim – respondeu William. – O rei decidiu ontem à noite. — As pessoas lá acreditam que os muros da cidade de Falaise são intransponíveis – disse Stephen. – A cidade vai resistir. — Sim, será um longo cerco – concordou William. A perspectiva de passar semanas acampados ao ar livre em pleno inverno somou-se ao tedioso, tolo e úmido estado de espírito de Stephan. — Talvez possamos ficar ausentes tempo suficiente para que você possa recuperar o pouco juízo que algum dia já teve – disse William. – Mas vou torcer para que o novo marido dela a leve embora antes do nosso regresso. Isobel, ir embora de Caen?! Stephen precisava vê-la pelo menos mais uma vez. Prensá-la contra a parede e estar prestes a violá-la, dificilmente era a despedida apropriada. Adequada ou não, o suor brotou na sua testa pensando nela. Contudo, ainda podia sentir o perfume dos seus cabelos, o cheiro da pele dela. Como poderia imaginá-la longe? Ou, pior ainda, com o novo marido? Isso ele podia imaginar. Sua mandíbula começou a doer de tanto apertá-la. No entanto, o francês parecia não ter pressa para reclamá-la. Talvez ela ainda estivesse lá quando voltasse. Talvez aquele idiota nunca chegasse... — De Roché virá – disse William, interrompendo os pensamentos do irmão. – Henrique o deixou em um beco sem saída.


Capítulo 11 Janeiro, 1418

Isobel conseguia controlar os pensamentos durante o dia. Mas os sonhos a traíam. Algumas noites ela sonhava com Stephen contando-lhe histórias, e acordava sorrindo. Outras vezes, ela acordava quente e ofegante com a lembrança daqueles lábios na sua boca, as mãos fortes percorrendo seu corpo. Na noite anterior ela teve um daqueles sonhos que a tiraram da cama. Ficara olhando a escuridão pela janela e havia se imaginado em um rio, a água escura correndo através dela, até que o desejo de tê-lo tocando-a diminuiu o suficiente para voltar a dormir. Pela manhã, a espiral de sono ainda flutuava na sua cabeça. Um vago anseio e algo pesado ficaram no seu coração. Olhando pela janela para a penetrante luz do dia, passou em si mesma um sermão sobre o quanto era afortunada por Stephen ter saído de Caen. Rezou para se recuperar da própria loucura antes que ele voltasse. Porque era loucura. Loucura por se arriscar a enfurecer o rei. Loucura por se arriscar a ser enviada de volta para casa, na Inglaterra, em desgraça. E para onde teria que ir a não ser para a casa do seu pai? Humilhada, dependente, completamente submetida à vontade do pai, que sequer permitiria que ela escapasse para se refugiar em um convento. Ele consideraria isso uma perda de recursos, embora de valor reduzido. Depois de manchar a própria reputação e ganhar a má vontade do rei, que tipo de casamento seu pai negociaria para ela dessa vez? Era uma relação passada. A traição do seu pai já lhes trouxera desonra suficiente; ela não podia acrescentar mais vergonha à família. Para ela, arriscar tanto, e por um homem!, estava muito além da insensatez. Mesmo que fosse uma viúva endinheirada que pudesse escolher um homem para se satisfazer, seria inteligente se afastar das preferências de Stephen Carleton. Ela não esperava um homem a quem pudesse amar. De fato, o amor daria a um homem poder demais sobre ela. Tudo o que queria era um homem que pudesse respeitar. Um homem dedicado à honra e ao dever. Não alguém que desperdiçasse talentos com frívolos passatempos..., especialmente o passatempo com mulheres formosas. Ha! Stephen não perseguia mulheres..., ele as atraía como moscas por um peixe morto. Ela ficou mal-humorada. Sim, e ela era mais uma mosca zumbindo, não era melhor do que o resto... E se FitzAlan tivesse chegado ao armazém alguns minutos depois? Ela levou a mão ao peito. Sem se importar com o que FitzAlan teria dito, Stephen e ela seriam forçados a se casar. Stephan não parecia mais consciente das consequências naquele instante do que ela. Mas casamento para ele era como a peste. Porque ele havia ido muito longe e demoravapara reclamar as terras da família para evitar se casar. Como ele ficaria zangado com isso! Chegaria a odiá-la! E sempre haveria as outras mulheres, voejando em torno dele. Sabia que a infidelidade era comum entre os homens da classe dele. Por que, então, imaginar Stephen com uma dama ou outra a deixava tão furiosa? Mas o que é que ela estava fazendo?! Perdendo tempo pensando em Stephen e se irritando? Pegou a costura de cima da mesa e se pôs a trabalhar.


Estava costurando com esmero quando Robert bateu à porta. — Onde está sua serva? – perguntou quando ela abriu a porta para ele entrar. Ela encolheu os ombros. — Não sei onde ela está a metade do tempo. — Vamos cuidar disso mais tarde – disse, pegando as mãos dela. – Isobel, ele está aqui. Stephen estava de volta! O sorriso congelou no seu rosto. Robert não iria procurá-la para lhe dizer que Stephen Carleton havia regressado de Caen. Não, Robert não sabia – não podia saber – que ela esperava a cada dia, cada hora, pela volta de Stephen. Mulher tola e estúpida que ela era. Se não era Stephen, quem era então? De repente seu ânimo caiu mais ainda quando se deu conta da resposta. — De Roché? A boca de Robert virou uma linha quando ele a apertou, e assentiu. —O rei acabou de chegar de Falaise para se encontrar com ele. Você vai se juntar a eles no salão daHacienda3. Isobel baixou os olhos para esconder o crescente pânico e fingiu se preocupar com o vestido. Quando Robert levantou o queixo com os dedos, ela viu tristeza no rosto dele. — Ele é..., é tão terrível assim? – perguntou ela. Robert apertou as mãos dela e respondeu: — É que por um instante eu me esqueci de que no fim você não vai estar mais sob os meus cuidados. As lágrimas fizeram seus olhos arderem. — Com vou sentir sua falta! – disse ela, surpresa pela força dos sentimentos. –Certamente vai levar muito tempo para firmar o contrato de casamento. E depois precisaremos esperar que os proclamas sejam publicados. Ele tocou-lhe a face. — Se o rei quiser que isso seja feito rapidamente, assim será. — Mas, suponhamos que esse homem não goste de mim...? E se ele for um homem odioso? – As palavras saíam atropeladamente. – E se ele for um traidor? O rei ainda iria querer que eu...? — Quietinha, acalme-se – disse Robert, envolvendo-a nos braços. – Vamos nos encontrar com o homem primeiro. Ela apoiou a cabeça contra o peito de Robert, enrugando o veludo da sua bela túnica, mas ele pareceu não se importar. Com Robert amparando-a dessa maneira, ela se lembrou de como seu pai costumava consolá-la quando era pequena. Seu estômago se contraiu de repente, com saudade do pai da sua infância. — Fico contente que você esteja comigo – sussurrou. Robert se reclinou e olhou-a. — Seu novo marido não poderá evitar lhe adorar – disse, os olhos enrugando nos cantos. – Prevejo que sua nova vida será de amor e uma grande aventura. Pouco tempo depois, foram conduzidos ao grande salão da Fazenda. Isobel se aferrou ao braço de Robert quando ele a guiou até o extremo do salão, onde o Rei Henrique estava sentado em uma cadeira elevada. Ninguém confundiria o rei com um monge agora. Nessa ocasião, ele usava uma toga de arminho sobre uma túnica bordada com a heráldica real, o leão e a flor de lis, em dourado, vermelho e azul. Eles pararam a poucos passos, atrás de um homem com quem o rei estava conversando. Enquanto esperavam que o rei os reconhecesse, Robert apertou-lhe os dedos que descansavam no 3

No original (Exchequer) traduzido sería Échiquier, ouFazenda, é um departamento do governo do Reino Unido responsável pelo manejo e arrecadação de impostos e outrosrecebimentos do governo.


seu braço. Quando ela arqueou uma sobrancelha, Robert inclinou levemente a cabeça para o homem e assentiu. Então, era esse o homem que seria seu marido pelo resto da vida. Mesmo com ele de costas ela podia dizer que ele era jovem e de forte compleição física. Estava bem vestido, desde a colorida túnica de seda brocada combinando com as calças de malha, até as magníficas botas altas e pretas. Debaixo do elaborado chapéu liripipe4, o cabelo era quase preto. Ele o usava longo, amarrado com uma fita vermelho sangue. Ela se inclinou para um lado e esticou o pescoço, tentando dar uma olhada no rosto dele. Verrugas. Furúnculos5. Varíola. Dentes enegrecidos. Ela tratou de se preparar. Não era possível que ele pudesse ser rico, bem relacionado, jovem e bonito. As próximas palavras do rei a tiraram daquelas observações. — Estamos satisfeitos, Lorde De Roché, – disse o rei, soando menos satisfeito – que tenha considerado conveniente comparecer ao nosso encontro. Finalmente. — Peço-lhe desculpas pelo atraso, senhor. De Roché não soava mais contrito do que o rei satisfeito. Isso não era um bom presságio. — Eu lhe garanto, utilizei esse tempo em seu nome – De Roché continuou. – Estive ocupado persuadindo os homens de Rouen sobre a sabedoria de lhe reconhecer como nosso soberano, senhor. — Eles não deviam precisar de tanta persuasão – disse o rei com um olhar duro, e acrescentou: – Você deve dizer aos seus compatriotas que não coloquem à prova a minha paciência..., ou a de Deus. — É claro, senhor. A resposta satisfeita de De Roché não soou como se levasse tão a sério a advertência do rei quanto Isobel pensava que deveria. — Presumo – disse o rei, ainda em tom cortante – que está preparado para se comprometer em um contrato pré-nupcial, estou certo? Isobel inclinou-se em uma reverência quando o rei desviou o olhar para ela. — Lady Hume – disse o rei, fazendo sinais para que ela se levantasse. – Eu lhe apresento Lorde Philippe De Roché. Quando o homem se virou, Isobel perdeu o fôlego. Misericórdia de Deus! Ele era uma visão de beleza masculina! Um adônis..., um adônis com bigode e barba recortada e fechada, que combinava com o cabelo escuro. Ela fechou a boca de chofre e se obrigou a baixar os olhos. — É muito bom lhe conhecer, finalmente – disse De Roché com voz profunda e ressoante ao se aproximar para cumprimentá-la. Corando furiosamente, arriscou outro olhar enquanto estendia a mão para ele. Olhos frios e cinzas a percorreram da cabeça aos pés antes de se fixar no rosto. — Uma rosa inglesa – disse, inclinando-se sobre sua mão. Uma corrente nervosa a percorreu quando sentiu o calor da respiração e as cócegas do bigode dele no dorso da sua mão. Oh, meu Deus! — Você é mais formosa do que eu esperava – disse em voz baixa, destinada apenas aos seus ouvidos. – E eu lhe garanto, Lady Hume, que minhas esperanças eram bem altas. Embora fosse pleno inverno, ela de repente se sentiu tão quente que desejou ter um leque à mão. Aquele homem estava olhando-a com a intensidade de um lobo faminto. Um bom sinal, sem

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Um capuz de cauda longa. Tumor inflamatório que se forma na pele e termina emsupuração e desprendimento de um núcleo em forma de

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raíz.


dúvida, em um futuro marido. Sim, ela estava lisonjeada. E satisfeita. E um pouco sem fôlego, também. Isobel se esforçou para murmurar algum tipo de saudação. — Já que o pai de Lady Hume não pode estar aqui para negociar o contrato pré-nupcial... Ao ouvir o som da voz do rei, Isobel arrastou o olhar para longe do rosto de De Roché. — ...essa responsabilidade recai sobre o irmão dela. No entanto, já que ele é bastante jovem, pedi a Sir Robert que seja o responsável. O rei se pôs de pé. — Agora tenho outros assuntos para atender. Apesar do inconfundível sinal do rei de que a entrevista havia terminado, De Roché falou novamente. — Meu rei, sou-lhe muito grato pela oportunidade de lhe servir. Faço-o pela profunda preocupação que tenho com o bem-estar do povo de Rouen..., e na verdade, de toda Normandia. Nenhuma divisão francesa é capaz de nos trazer paz e prosperidade. Louvo a Deus que o senhor tenha ido nos salvar. — Eu faço apenas a vontade de Deus – disse o rei. Cabeças se inclinaram quando o rei saiu rapidamente do salão. Isobel deu uma olhada nervosa para De Roché. Nem a irritação do rei nem conhecer a futura esposa pareceram alterá-lo. Um homem confiante, e parecia muito seguro de si. Um pouco arrogante, talvez. Aquela inegável declaração de lealdade para com o Rei Henrique deixou Isobel aliviada. Embora o discurso carecesse de sutileza, ele soou sincero. E ela rezou para que fosse mesmo. Isobel aceitou o braço que De Roché lhe ofereceu. Enquanto caminhavam juntos ao longo da enorme sala, ela escutava as rítmicas batidas dos próprios pés no piso de pedra. Ela estava profundamente consciente de que essa era a primeira das muitas vezes que caminharia ao lado daquele homem. Quantas vezes faria isso durante a vida? Mil? Dez mil? Quantas vezes faria isso antes que De Roché parecesse um estranho para ela? Quantas vezes antes que Stephen não cruzasse mais pela sua mente, como o fazia?


Capítulo 12 Fevereiro, 1418

Stephen se encolheu mais debaixo do manto e praguejou. Não tinha ninguém, exceto a si mesmo, para jogar a culpa por estar ali, congelando o traseiro. Aquele cerco em pleno inverno era tão miserável quanto havia pensado que seria. Era o inverno mais frio do qual se lembrava. Tão frio, de fato, que o rei ordenou que fossem construídos refúgios para que o exército não morresse congelado antes que a cidade sucumbisse. Pior que a chuva gelada fora do refúgio era o odor fétido de homens de se amontoavam lá dentro. Nada limpos, e mais ainda, usando as mesmas roupas com as quais chegaram fazia mais de dois meses. Se não tivesse certeza de que seria um cadáver congelado pela manhã, Stephen dormiria ao relento para escapar daquele fedor. No entanto, ele havia escolhido estar ali. Nas cartas semanais, Sir John Popham rogava ao rei que mandasse Stephen de volta para Caen. O rei, não obstante, cedeu à solicitação de Stephen de ficar ali até que a cidade se rendesse. Cada vez que Stephen pensava em voltar, o massacre em Caen lhe voltava à mente: os gritos das mulheres, velhos e crianças mutilados, o sangue dos inocentes salpicado nas suas botas. Não, ele não podia sair dali. Devia ficar e fazer o que pudesse para impedir uma repetição daquele horror quando Falaise caísse. Como ansiava que aquele cerco terminasse! O tédio quase o deixava louco. O bombardeio dia e noite contra os muros da cidade lhe dava uma constante dor de cabeça. A abstinência o deixava mais irritado ainda. Sob tais condições, o acampamento das mulheres virou um comércio rápido. Mas Stephen nunca havia usado prostitutas. Mesmo se ele fosse estúpido o suficiente para se arriscar a pegar sífilis, só a visão daquelas lamentáveis mulheres o deprimia. Com tanto tempo nas mãos, não era de estranhar que pensasse tão amiúde em Isobel. Mas por que não outra mulher? Até mesmo todos os sonhos eram com ela. Ele se deitava no catre e tentava imaginar outra mulher, mas os traços da mesma sempre se perdiam nos dela. Sérios olhos verdes eram os únicos que ele via. Ele sentia muita falta dela. Mas o que era isso? Ele se sentou no catre e escutou o estranho silêncio. O bombardeio havia parado. Jogando a coberta de lado, colocou a capa e saiu do refúgio. Viu William esquentando as mãos em uma das fogueiras que eram mantidas acesas dia e noite. — Abrimos uma brecha nos muros – disse William a guisa de saudação. – O povoado decidiu se render ao amanhecer. — O rei vai falar com os homens? William sabia o que ele estava perguntando. — O rei vai fazê-los se lembrar de que não vai tolerar nenhuma violação nemmatança – disse William. – No entanto, sempre tem alguns que vão fazer isso.


Uma hora depois do amanhecer, o rei guiou o exército através dos portões abertos da cidade. Stephen estava aliviado porque os soldados pareciam ter levado a sério a advertência do rei, porque continuavam organizados. Talvez os homens estivessem alegres demais com a perspectiva de dormirem nas casas quentes do povoado para perpetrar violências. Os soldados esquadrinharam a cidade procurando objetos de valor, o legítimo espólio de guerra. Embora a parte do leão fosse da coroa, os descobridores tinham uma porcentagem sobre o valor. Enquanto William e ele continuavam fazendo a ronda pelas ruas para impedir que incidentes acontecessem, Stephen começou a relaxar. Os homens estavam bebendo, brandindo as espadas e batendo nas portas, mas não havia nenhum dano real nisso. William e ele fizeram os cavalos girarem na direção de uma silenciosa rua de casas e lojas bem conservadas. Stephen escutou um som amortecido; não saberia dizer se era o uivo de um cão ou de um humano. William freou o cavalo ao lado do de Stephen. — O que foi isso? – perguntou, ladeando a cabeça e apurando o ouvido. Quando o choro agudo soou de novo, apearam rapidamente. William abriu a porta da casa com um violento pontapé e Stephen entrou a toda pressa. O aposento estava vazio. Ouvindo as fortes pisadas de botas logo acima da cabeça, Stephen se aproximouda escada, silenciosa e sigilosamente, com William nos calcanhares. Assim que sua cabeça assomou as tábuas do andar de cima, fez sinal para William que havia três homens, os três com espadas nas mãos. A atenção deles estava nas presas que eles haviam encurralado em um canto, um menino e uma menina de onze ou doze anos, tão extraordinariamente parecidos que tinham que ser gêmeos. O menino estava de pé em frente à irmã, segurando uma espada longa demais para ele. — Alto! – a voz de William encheu o aposento. Os homens, soldados da infantaria de aspecto rude, viraram-se com as espadas em riste nas mãos. — Não ouviram a ordem do seu rei? – gritou William. Os homens não deram nenhum sinal de quererem fugir ou de pedirem perdão. — Já que o castigo do rei por transgressão é a morte – disse Stephen – vocês deveriam estar agradecidos por Lorde FitzAlan e eu termos chegado a tempo de salvar suas miseráveis vidas. Ele usou o nome do irmão deliberadamente. Ao ouvi-lo, os três homens trocaram olhares nervosos. — No entanto, parece-me que a simples intenção de cometer o delito já merece castigo – disse Stephen. – Deveríamos pelo menos lhes dar uma boa sova, não acha? Pelo olhar de soslaio que William lhe deu, Stephen não acreditava que a surra fosse estritamente necessária, mas concordou: — Sejamos rápidos, então. Stephen disse aos gêmeos que se mantivessem afastados, quando o primeiro homem investiu contra ele. Dando um passo para o lado, ele bateu na mão do homem e a espada caiu, então ele o agarrou pelo pescoço e jogou-o contra a janela. Ficou satisfeito ao ouvir o ranger da folha externa da janela quebrando quando o homem caiu lá embaixo. Virou-se a tempo de ver William despachar os outros dois aos trambolhões escada abaixo. — Mas que inferno, você sempre me supera – disse ele. – Não podia ter deixado o terceiro para mim? Antes que terminasse de falar, duas manchas de cabelos louros passaram disparadas por ele. Ele pegou as crianças em plena corrida e os segurou, um debaixo de cada braço. Quando eles espernearam e o morderam, ele gritou em francês que não lhes causaria dano algum.


Levantou o olhar e viu William observando-o, com um brilho divertido nos olhos. — Maldição, pegue um deles antes que eu deixe os dois cair! William pegou o menino, segurou-o firmemente pelos ombros e se inclinou até que os dois ficaram da mesma altura. — Não queremos machucar ninguém, filho – disse ele. – Onde estão os seus pais? Pelo que Stephen viu nos olhos do menino antes de baixar o olhar, bem podia adivinhar a resposta. — Tem alguém que cuida de vocês? – perguntou William. — Eu cuido da minha irmã. — E eu cuido dele. – A menina falou pela primeira vez, cuja voz soou igualmente desafiante. William se endireitou e suspirou. Eles estavam falando francês normando com as crianças, a língua da nobreza inglesa compartilhada com a Normandia, mas mudaram para o inglês para que as crianças não os entendessem. — Você já deu uma olhada nessa menina? – perguntou Stephen. – Ela é bonita demais para estar segura aqui com apenas um menino para protegê-la. — O menino é tão bonito quanto a irmã – disse William, sacudindo a cabeça. – Ora, vamos, Stephen, não me olhe assim. Acha que aqueles homens não pretendiam tê-lo depois da menina? Seu irmão havia convivido com exércitos por muito mais tempo do que ele, então Stephen não duvidou. No entanto, estava profundamente impactado. — O que sugere que façamos com eles? –perguntou William. — Podemos levar o menino para uma igreja ou para um mosteiro. — E você acha que um menino com essa delicada aparência estará a salvo com os sacerdotes? Stephen apertou a boca enquanto absorvia esse último comentário. — Vou levá-los comigo para Caen – disse depois de um instante de reflexão. – O menino pode servir como meu escudeiro. — E quanto à menina? – perguntou William, arqueando uma sobrancelha. – Você não pode mantê-la. As pessoas pensarão o pior. Stephen franziu o cenho à idéia de que alguém pudesse pensar que ele fosse tão depravado assim. A menina tinha o quê, doze anos? — Suponho que podemos encontrar alguém que a tome como ajudante de cozinha – disse William, soando cético. — Conheço uma dama que precisa de uma nova criada –disse Stephen, animando-se com a idéia. – E ela será gentil com a menina. Foi só quando a menina voltou os olhos assombrosamente azuis para Stephen que ele se deu conta que ela havia parado de se retorcer fazia tempo já. — Quem é a dama? – perguntou ela em inglês, mas com forte sotaque francês. Stephen riu. — Então você fala inglês, hein, pirralha? — Mas é claro. – A menina não acrescentou a palavra idiota, mas estava implícito no tom de voz dela. – Qual é o nome da dama, s’ilvousplaît? — Lady Isobel Hume – respondeu ele, sorrindo. Escutou William praguejar baixinho, mas o ignorou.


Capítulo 13 Fevereiro, 1418

Isobel se sentia como Jó. Depois de tantos anos de sofrimento, Deus a estava recompensando. De Roché era jovem e bom moço. Respeitoso e atento. Um homem honrado, inclinado a fazer o bem no mundo. Havia se apegado a Isobel, compartilhava o prato com ela em todas as refeições e passeava com ela todas as tardes, sempre que o tempo permitia. Quando estava úmido demais para passear, como hoje, ele se sentava com ela em frente à grande lareira do torreão e conversavam enquanto ela cosia. De Roché era um homem sério, que falava de coisas sérias. Isobel reprimiu um bocejo quando ele voltou a se referir à própria responsabilidade, como homem de posição e fortuna, para trazer paz e prosperidade à Normandia. Ela concordava, de todo coração. A determinação dele era admirável. No entanto, achava que repetição era..., bem, um bocadinho tediosa. Maldito fosse aquele Stephen Carleton! Se não fosse por ele, Isobel jamais teria notado o pouco senso de humor que tinha De Roché. Tinha todos os motivos para estar resignada. Deveria estar resignada. Mas era verdade, De Roché jamais a fazia rir. O dever, porém, pesava muito sobre ele. Tinha uma função muito importante para exercer a serviço do seu país. Deveria ser gratificante para ela apoiá-lo nisso. — Agora, quanto ao Rei Henrique..., eis aí um homem nascido para liderar exércitos, – dizia De Roché – um homem nascido para comandar. De Roché tecia elogios e louvores ao rei tão amiúde que a mente de Isobel começava a divagar. Quando é que ele a beijaria? Será que o beijo dele faria com que se sentisse da mesma forma que com o beijo de Stephen? Ela olhou para a boca dele enquanto ele falava. Perguntando-se, desejando saber. Talvez depois que ele a beijasse ela poderia parar de pensar em Stephen. Já havia transcorrido um mês desde que havia chegado e De Roché não a havia beijado nem uma só vez. Frequentemente ele a olhava como se quisesse beijá-la. Em mais de uma ocasião, Isobel pensou que ele tentaria afastá-la do seu guardião. No entanto, Robert levava as próprias responsabilidades mais a sério do que antes, porque o encontrava em todos os corredores. Irritavaa pensar que De Roché poderia ter encontrado uma maneira de escapulir de Robert se realmente quisesse. Stephen teria feito isso. Um repentino clamor de vozes provenientes do lado de fora a levou a olhar para a entrada do salão. Enquanto olhava, um homem irrompeu porta a dentro gritando: — O exército voltou! Falaise caiu! Falaise caiu! Estavam de volta. Louvado seja Deus! Uma risada de alívio escapou-lhe da garganta quando se virou e deu de cara com De Roché. O homem havia ficado mais pálido do que um cadáver. — Você está pálido – disse ela. – O que f...? — Preciso ver o que foi que aconteceu – ele a cortou. Sem olhar para trás, deixou-a e se apressou a sair do salão, que de repente ficou inundado de soldados. Depois da tranquilidade das


últimas semanas, parecia caótico e abarrotado demais. Os servos iam de um lado para o outro, arrumando as mesas e carregando grandes jarras de cerveja, vinho e pratos cheios até o topo de carne assada. Isobel se pôs de pé, esticando o pescoço. Muito a seu pesar, revistava o salão à procura do brilho de cabelos cor de mogno. Ouviu o próprio nome por cima do estrépito, virou-se e viu Geoffrey avançando em direção a ela entre a multidão. Quando é que seu irmão havia crescido a ponto de se transformar naquele homem de torso musculoso, tão parecido ao pai? Ele a alcançou com três longas passadas e a levantou em um abraço de urso. — Você parece tão saudável! – disse ela, afastando-se um pouco para observá-lo detidamente. A pele dele parecia tão bronzeada como se fosse verão. No fim das contas, talvez não fosse verdade que não tivesse vocação para a vida de soldado. — Você precisa me contar suas aventuras – disse ela, puxando para se sentar no banco. — Tive tempo para escrever grandes poemas durante o cerco. Para sua surpresa, ele tirou um rolo de pergaminho do cinturão e começou a recitar em voz alta. Geoffrey não era um poeta ruim, mas, por que tinha que escrever aqueles sombrios poemas sobre os santos mártires? Após ouvir dois ou três, Isobel flagrou-se percorrendo o salão novamente com os olhos. — Geralmente você se sai melhor fingindo interesse pela minha poesia – repreendeu-a Geoffrey com o costumeiro bom humor. — É claro que quero ouvir seus poemas – mentiu ela. — Issie, quem é que você está procurando? — De Roché, – mentiu novamente – quero apresentá-lo a você. — Ele está aqui, em Caen?! Por que não me disse logo? – Geoffrey se inclinou à frente, com o rosto sério, e pegou as mãos da irmã. – Ele é um bom homem? Você conseguirá ser feliz com ele? Isobel mordeu o lábio, tentando pensar no que poderia dizer ao irmão que correspondesse à verdade. De Roché era muito mais do que ela havia se atrevido a esperar. Mas às vezes..., bom, não tinha importância. E depois de Hume, ela ficaria contente mesmo que estivesse casada com um sapo. — De Roché é um bom homem, com sérias intenções – respondeu finalmente. Quando viu que a preocupação não havia sumido do rosto de Geoffrey, ela o obsequiou com um brilhante sorriso. — Além do mais, ele é o homem mais bonito que já vi! De Roché era agradável aos olhos, mas, de qualquer forma, já era a terceira mentira... — Agora, vá comer – disse ela, dando um leve empurrão em Geoffrey. – Você deve estar tão faminto quanto os demais. Seus ombros foram caindo enquanto olhava as largas costas de Geoffrey desaparecendo entre a multidão. Pelo pecado de ter mentido ao irmão, podia pelo menos alegar boa intenção. Pelos pensamentos pecaminosos em relação a Stephen, em troca, não havia desculpa. Sequer podia alegar arrependimento.


Stephen tinha nas mãos as rédeas do cavalo onde estavam montados os gêmeos enquanto avançavam pelas ruas de Caen.Com o brilhante cabelo louro e rostos quase idênticos, as duas crianças atrairiam olhares onde quer que fossem. A visão dos dois sobre o lombo de um cavalo no centro de uma coluna de cavaleiros armados fez com que os aldeões parassem para olhá-los de boca aberta. Stephen não pretendia se arriscar com aquela astuta duplinha. Depois de fingir por alguns instantes que podiam ser dóceis, haviam tentado escapar. Várias vezes. Ele teria ficado encantado em deixá-los fugir se soubesse que estariam a salvo. Mas nenhum parente os procurara antes de saírem de Falaise. Se tivesse alguém, em toda a Normandia,disposto a se encarregar deles os gêmeos não diriam. Sequer quiseram lhe dizer o próprio nome. Já dentro dos portões do castelo, Stephen se afastou do resto dos homens e foi até o torreão com os gêmeos nos calcanhares. Tinha que encontrar alguém que tomasse conta da menina. Ele riu de si mesmo, encantado por saber que tinha uma boa desculpa para procurar Isobel imediatamente. Agora, só precisava encontrar uma maneira de encontrá-la sem perder nenhum daqueles dois pequenos agitadores. Apeou do cavalo e segurou a menina mal pôs os pés no chão e, com ela segura, o menino o seguiu facilmente. — Está me machucando! – choramingou a menina enquanto ele a arrastava pelas escadas até o torreão. — Se você parar de resistir, vai parar de doer – disse ele sem alterar a voz. – Agora, eu gostaria que você fingisse ser uma boa menina, assim Lady Hume aceitará lhe ter sob os cuidados dela. Acredite, ela é muito mais agradável do que eu. A menina bufou com força, para que ele soubesse o que ela pensava daquele pedido. Com certa nostalgia, Stephen pensou no bando de sobrinhos e sobrinhas que tinha. Podiam ser difíceis, mas jamais havia tido tantos problemas com eles. Parou na entrada do concorrido salão com um gêmeo em cada mão e esquadrinhou a multidãoà procura de Isobel. Viu-a quase que de imediato, do outro lado do salão, perto da lareira. Quando ela levantou o olhar e encontrou os olhos dele, sentiu a garganta secar. O rosto dela se iluminou, como se estivesse genuinamente feliz por vê-lo. De repente, Stephen teve uma visão dela, tal como estava na última vez que a vira. O cabelo despenteado, os lábios inchados pelos seus beijos... Atravessou o salão sem ver ninguém, sem ver nada, somente ela. Um forte puxão na mão o salvou de tomá-la nos braços, ali, à vista de todos. Olhou para baixo, surpreso ao notar que ainda estava com os gêmeos, um em cada mão. Lembrando-se do seu propósito, voltou a atenção para Isobel. E no ato se esqueceu do que devia dizer. Como era possível que ela parecesse ainda mais adorável? O veludo verde do vestido dela fazia com que seus olhos parecessem um bosque, escuro e profundo. — Alegro-me pelo seu retorno, são e salvo, Sir Stephen. O estômago dele apertou ao ouvir a saudação formal de Isobel. Sir Stephen. Então era assim que ia ser... — E quem é essa adorável menina? – perguntou Isobel, tocando o braço da menina. Para seu assombro, a diabinha se inclinou em uma graciosa reverência e olhou para Isobel com um sorriso angelical. — Meu nome é Linnet. A senhora é Lady Hume, porque Sir Stephen nos disse que Lady Hume é boa e formosa.


Isobel soltou uma gargalhada musical, o que fez com que o coração de Stephen desse um estranho salto no peito. Embora duvidasse que a menina, Linnet, pudesse manter aquela pretensa boa conduta, piscou-lhe um olho para lhe mostrar que apoiava seu esforço. Parecia pouco apropriado mencionar a situação das crianças na frente deles. Sem pensar, aproximou-se de Isobel para sussurrar-lhe ao ouvido, mas o perfume do cabelo dela o fez titubear. Quando se lembrou de como falar, disse: — São órfãos que precisam de proteção. Vou tomar o menino para ser meu pajem, mas a menina... E perdeu a noção do que estava dizendo... Sentia-se tentado a lamber aquele lóbulo e depositar um beijo no vão que havia exatamente ali debaixo. Isobel afastou a cabeça antes que ele pudesse dizer ou fazer algo mais. — Mas é claro que vou me encarregar disso – disse ela, olhando-o com aqueles grandes e sérios olhos. Virou-se para a menina e pegou-lhe a mão. — Mas isso é que é sorte! Minha criada me pediu para sair porque vai se casar com um dos arqueiros do Rei. Eu ficaria encantada se você aceitasse ocupar o lugar dela. Linnet observou as finas roupas de Isobel e o sorriso se ampliou. — Eu arrumaria seu cabelo e a ajudaria a por belos vestidos? Isobel assentiu. — E poderia também ler para a senhora todos os poemas de amor que os homens lhe mandam – disse Linnet, com os olhinhos brilhando. – Com certeza a senhora tem muitos! Muitos poemas ou muitos homens enviando-os? De qualquer forma, isso não agradou nada a Stephen. — Você sabe ler? – perguntou-lhe Isobel, com a surpresa refletida na voz. — É claro que sim – respondeu Linnet, apontando para o irmão. – François também sabe ler. Stephen observou com simpatia como o menino se derretia todo com o cálido sorriso de Isobel. Ele mesmo sentia como que suavizar ao ouvi-la falar. — Você tem muita sorte por servir um cavaleiro tão hábil quanto Sir Stephen. Preste atenção e aprenderá muito com ele – disse ela. François assentiu solenemente. Como é que Isobel havia conseguido?! Ela já estava com os dois pequenos vândalos na palma da mão! Stephen escutou um homem pigarrear ao lado, virou-se e deu de cara com frios olhos cinza que o esquadrinhavam fixamente. O homem de cabelo escuro a quem os mesmos pertenciam se intrometeu entre Isobel e ele, pegou a mão dela e a colocou na curva do seu braço. Ah... Então, esse devia ser o delinquente francês de Isobel. Stephen deixou que seus olhos vagassem lentamente pela figura do outro homem. Já sabia exatamente como o venceria. Os anos e anos de prática haviam-no ensinado. William havia concluído que um jovem com agudo senso de humor e uma boca grande devia aprender como se sair bem em uma luta tanto quanto no campo de batalha. Todos os dias, seu irmão havia lhe designado um homem diferente para lutar com ele. As lições não pararam até que Stephen aprendeu como avaliar os pontos fortes e os pontos fracos de um homem com apenas um olhar. O homem diante dele era vaidoso e arrogante. Stephen pensou alegremente que esse homem tinha uma estrutura poderosa, do tipo que engordaria quando ficasse mais velho. Era forte, mas não rápido o suficiente. Stephen primeiro o pegaria pelo... Esses alegres pensamentos foram interrompidos por Isobel. — Sir Stephen Carleton, eu lhe apresento Lorde Philippe De Roché.


Stephen aguardou, deixando o silêncio cair deliberadamente sobre eles. Se fosse um gato, seu rabo teria sacudido. — Ele é de Rouen – acrescentou Isobel com voz tensa. Stephen sabia muito bem de onde era o homem. Já que ela não o havia apresentado como noivo, talvez ainda não estivesse irrevogavelmente unida a esse homem de olhos gelados. Os traços perfeitos demais faziam com que ele parecesse desalmado. Ah, sim, talvez um nariz torcido acrescentasse um pouco de caráter ao rosto do francês. — O senhor se aproveita do terno coração da minha noiva – disse De Roché para Stephen, e depois se virou para Isobel. – Você não tem a obrigação de tomar sob seus cuidados nenhuma desconhecida que esse homem tenha recolhido na rua. Isobel passou o braço em torno dos ombros da menina. — Mas onde vou encontrar outra criada que possa ler poesias para mim? Stephen quis beijá-la. De Roché apertou a mandíbula, mas colocou a mão sobre a de Isobel. — Conserve-a se isso lhe faz feliz, querida. A expressão de carinho fez Stephen se lembrar do que esse homem poderia ser para ela. Marido dela. Seu companheiro de cama. O peito começou a lhe doer. — Venha, vou lhe mostrar meus aposentos – disse Isobel para Linnet. Isobel se despediu de François, mas o sorriso lhe fugiu do rosto quando se virou para se despedir de Stephen. Vê-la olhando-o com aqueles enormes olhos tão sérios, fez com que a dor no peito aumentasse até que pensou que poderia explodir. Isobel pareceu se sobressaltar quando De Roché tocou-lhe o braço. Com uma rápida reverência ela se afastou. Ele e François ainda as observavam quando Linnet se virou e lhes piscou um olho por cima do ombro. Linnet era aliada agora, graças à De Roché. Do jeito como eram as meninas de doze anos, era uma boa coisa que assim o fosse. Aliada para que? Stephen respirou fundo e sacudiu a cabeça. O que faria se ganhasse o prêmio? Queria afastar Isobel para longe de De Roché e que fosse ele a lhe oferecer o braço. E definitivamente ele a queria na sua cama. Mas, já que não queria uma esposa, essa era uma batalha à qual não tinha sentido lutar. Sentiu um leve toque no braço, virou-se e viu Claudette ao seu lado. — Não seja tolo! – sussurrou-lhe. – Pare de olhar para ela. Quer que todos percebam? – pegouo pelo braço e fez com que ele olhasse para François. –Já que é melhor que acreditem que você vai atrás de toda mulher bonita, tente olhar para mim como me olha esse menino. Stephen baixou os olhos e viu o menino de queixo caído e, rindo, revolveu-lhe o cabelo. O pobre menino estava tendo um dia terrível. — Quer que o rei lhe varra dos bosques da Irlanda? – perguntou Claudette entre dentes. Ato contínuo, sorriu e bateu os cílios. – Você não faz nenhum bem a Lady Hume chamando a atenção sobre ela. Dando-se conta, tardiamente, de que Claudette estava certa, pegou-lhe a mão e a beijou. Em seguida, passeou o olhar sobre o corpo dela. — Obrigado – sussurrou ele. – Você é uma mulher sábia. — Mas é claro que você sentiu minha falta! – exclamou ela em tom suficientemente alto para que a ouvissem. – E você me faz sentir muito vaidosa com tantos elogios! — Eu não lhe mereço, Claudette. — Não merece mesmo – concordou ela, e começou a caminhar com ele até a saída. Baixando a voz de novo, disse:


— Lá está aquela horrorosa da Marie de Lisieux, perto da porta,morrendo de vontade de falar com você. — Suponho que eu deveria lançar um olhar luxurioso na direção dela – sussurrou ele de novo, para provocá-la. — Eu sei que é difícil para você, Stephen. Ele piscou um olho para Marie e foi virando a cabeça conforme iam passando. Claudette lhe deu uma forte cotovelada pelos esforços exagerados. — Eu não disse que era para você ficar olhando para o decote dela. Ele riu, genuinamente divertido, dessa vez. — Marie ia pensar que havia algo errado se eu não tivesse agido assim. — Só de olhar para ela já me dá dor nas costas – disse Claudette, arqueando uma delicada sobrancelha em sinal de desdém. – Não importa qual seja a moda, os homens sempre vão gostar de seios grandes. — Nem todas as mulheres podem ter as suas perfeitas proporções, – respondeu ele, do jeito que sabia que ela esperava – mas, para ser honesto, jamais vi um par de seios dos quais eu não gostasse. — Os homens são muito simplórios – Claudette suspirou com fingido fastio que fez com que Stephen risse novamente. Quando estavam a salvo do lado de fora da porta, ela se virou para ele sacudindo um dedo na cara dele. — Agora vamos falar sério. Você tem que me prometer que vai usar essa cabeça inteligente que tem para não entrar numa briga de galo por causa de Lady Hume. Stephen abriu a boca para protestar, mas Claudette levantou a mão. — É melhor que você se lembre – advertiu ela – que o Rei já apostou no outro galo.


Capítulo 14 Graças a Deus pela menina! Se Linnet não ficasse importunando De Roché com aquela constante tagarelice, ele poderia ter notado que suas mãos tremiam. Isobel tentou prestar atenção no que Linnet estava dizendo, mas falhou redondamente. Como é que Stephen podia voltar agora, justamente quando havia conseguido deixar para trás todos os pensamentos sobre ele?! Bom, isso não era de todo verdade. Não estava nem perto de ser. Mas, tê-lo ali, em Caen, quando poderia vê-lo todos os dias, só piorava as coisas. Ouviu Linnet mencionar Stephen e perdeu o passo. — O que foi que você disse? — Que meu irmão e eu fomos muito travessos com Sir Stephen. Como era fácil ser travessa com Stephen! Quando o viu andando e vindo até ela pelo meio salão com um sorriso como um raio de sol, o coração lhe saltou no peito. Ele também parecia feliz ao vê-la. Por um instante acreditou que ele a tomaria nos braços. E meio que esperava que ele fizesse isso mesmo. Talvez mais que meio... Mas claro, Stephen podia tomá-la por tola sem que ela notasse. Enquanto ela saía do salão, virou-se para ver quem Marie de Lisieux estava observando com tanta atenção. E era Stephen obviamente. Ele já estava rindo e sussurrando para aquela esplêndida cortesã. Enquanto isobel estava comovida até a alma por voltar a vê-lo, ele a esqueceu no instante mesmo no qual a perdeu de vista. Decerto ele estava dando voltas pelo salão agora, indo de uma bela mulher a outra. E fazendo com que cada uma delas acreditasse que era especial. Não que Isobel se importasse com o que ele fazia. Melhor pensar no futuro. De Roché era um homem atraente, tanto quanto Stephen Carleton. Certamente ela acharia os beijos daquele tão sedutores quanto os deste. Ela faria isso. Estava decidida a tanto. E pela primeira vez, Robert não estava ali para interferir. Estavam à porta dos seus aposentos quando se deu conta de que não havia dito nem uma só palavra a De Roché desde que haviam saído do salão. — Espere-me lá dentro – sussurrou para a menina, dando-lhe um suave empurrão para dentro. Pegou a mão de De Roché e a levou à face, olhando-o nos olhos. Vendo o quão rápido a irritação por parte dele se transformava em luxuria, sorriu, segura de si. Havia sido muito fácil, no fim das contas. Conseguiria um beijo dele agora. Quando ele a beijou na face, ficou decepcionada. Não, irritada. Mas então ele começou a beijála no pescoço. Isobel fechou os olhos e tentou se concentrar naqueles lábios suaves e na respiração quente contra sua pele. No entanto, viu-se pensando naquela teimosa insistência dele, tentando fazê-la mudar de ideia a respeito de Linnet. E na falta de sentimento da parte dele quanto às tristes circunstâncias da pobre menina. Ela havia se surpreendido por Stephen ter tomado para si a responsabilidade dos órfãos. E no entanto, ele tomou. Mesmo folgazão, mulherengo e beberrão, Stephen tinha um coração gentil. Ela havia se esquecido de De Roché quando, de repente, viu-se jogada contra a porta, com o ferrolho fincando dolorosamente nas suas costas. A boca dele estava sobre a sua, machucando-a.


Com a língua na sua garganta, sufocando-a, sem lhe permitir respirar. O pânico a atravessou enquanto tentava em vão afastá-lo. De repente caiu para trás com um grito enquanto a porta se abria atrás dela. De Roché a segurou e dirigiu dois olhos cinza furiosos para a causa da interrupção. — Milady quer que eu limpe isto? – Linnet ficou firme no vão da porta, segurando um par de botas na mão. Nela não havia nada condizente com uma modesta criada. — Obrigada por me escoltar. – Disse Isobel antes que ele pudesse gritar com a menina Endireitou-se e lhe estendeu a mão. — Até logo mais à noite – respondeu ele com voz tensa. O olhar que se demorou nela enquanto levava sua mão aos lábios estava carregado de raiva e desejo. Isobel combateu a urgência de retirar a mão quando sentiu a língua dele na pele. Enquanto o olhava se retirar, limpou a mão na saia.

Aplácida expressão de Claudette não revelava nada, mas Robert notou o brilho de fastio nos cristalinos olhos azuis enquanto a olhava cruzar o salão na sua direção. — Obrigado – murmurou no ouvido dela enquanto a ajudava a se sentar na cadeira ao lado dele – era necessário o toque de uma mulher. — É Stephen quem precisa do toque de uma mulher – ciciou ela – e esse é precisamente o problema. Ela sorriu e acenou com dedos delicados para um conhecido que passava. — Tentei argumentar com ele, mas a razão não funciona com um homem que está pensando com o... — ...coração? Em vez de rir,Claudettesuspirou levemente.. — Esperemos que não. Robert pegou uma tigela com frutas açucaradas de cima da mesa e lhe ofereceu. — Preciso averiguar por que De Roché está demorando tanto para voltar, ele foi acompanhar Isobel até os aposentos dela. — Não se dê ao trabalho, – disse Claudette, olhando para a entrada – a serpente voltou. Ele não havia gostado de De Roché desde o preciso instante no qual o viu pela primeira vez. Pela forma com a qual ele atravessava o salão, feito uma fúria, Isobel havia se defendido muito bem. De Roché se juntou de imediato a um pequeno grupo a um canto, que incluía Marie de Lisieux. — Você sabia que eles são amantes? – perguntou-lhe Claudette. — É uma verdadeira lástima – respondeu ele, colocando uma fruta na boca – que matá-lo possa nos acarretar problemas políticos. Desta vez ela riu, um belo e borbulhante som que sempre atraía os olhares dos homens. Como ele gostaria de flagrar De Roché em alguma traição contra o Rei! Ele tamborilou os dedos no joelho.


— Diga-me, acha que ele é inteligente e valente o suficiente para trabalhar para os dois lados? Ela se virou para ele, arqueando uma sobrancelha perfeitamente delineada. — Com certeza, vaidade e arrogância também caberiam, não é? Claudette tinha razão, é claro. Ela sempre tinha quando se tratava de homens. — Esta noite, no entanto, – disse ela – ele está absorto demais olhando para a parte da frente do vestido de Marie para conspirar qualquer coisa. Robert tomou um longo gole de vinho. Inferno, era muito esperar que pudesse apanhá-lo a tempo em alguma traição. Mas de que outra maneira poderia salvar Isobel daquele casamento? Semicerrou os olhos, considerando as coisas. Tudo o que tinha que fazer era remexer no vespeiro um pouco. Mas os riscos eram muito grandes. Demais, para eles. Reprimiu uma gargalhada. Mas também, o que era a vida sem um pouco de perigo?


Capítulo 15 V

— ocê é um demônio elegante, – murmurou Stephen – o mais rápido de todos, uma maravilha inigualável! Relâmpago relinchou, concordando. — Creio que ele gostou de mim – disse François, acariciando o cavalo com longos e firmes movimentos, exatamente como Stephen havia lhe ensinado. – Tentou me escoicear apenas duas vezes hoje. Stephen acariciou o nariz de Relâmpago e o alimentou com outra cenoura. Suspirando, apoiou a testa contra a do cavalo. — Eu sei que ela vai se casar. E, honestamente, tentei me manter afastado. Mas vai pensar que é grosseria da minha parte se eu não a vir. Relâmpago continuou mastigando a cenoura, não muito convencido. Não eram apenas as boas intenções que mantinham Stephen longe. Ele odiava vê-la com De Roché. Não queria ver Isobel sofrendo com um segundo marido do qual não gostasse, mas, aquele francês tinha que ser tão bonito?! Stephen pensou em como Isobel ficava sem ar quando ele a tocava. Como sua cabeça se inclinava para trás enquanto ele a beijava na garganta. Oh, Deus, como fez quando havia se inclinado sobre ela. Será que ela fazia o mesmo com De Roché? Relâmpago levantou a cabeça rapidamente quando passos ligeiros se aproximaram. — Linnet, não corra nem faça movimentos repentinos perto de um cavalo como Relâmpago – disse Stephen enquanto dava palmadinhas no pescoço do cavalo para tranquilizá-lo. Assim que Stephen deu um passo, afastando-se do cavalo, Linnet pulou nos braços dele e o beijou em ambas as faces. — Obrigada, muito obrigada! – gritou. – Adoro Lady Hume! Ela é tão gentil e bela quanto o senhor havia dito. François saiu do outro lado do cavalo, e ela correu para abraçá-lo e beijá-lo também. Stephen se interpôs entre ela e o cavalo e a arrastou de novo até uma distância segura. — Lady Hume sabe onde você está? — Ela não se importa que eu venha visitar o meu irmão. Então ela não havia dito nada para Isobel. — Se eu apanhá-la de novo saindo sozinha,vou açoitá-la até que implore por misericórdia. Linnet arregalou os olhos. — Não seja tolo! Criadas não precisam de acompanhantes. De qualquer forma, ele falaria com Isobel a respeito. — Eu lhe trouxe um presente da cozinha – disse Linnet, enfiando a mão na sacola de tecido pendurada no ombro. – Sir Robert me disse que estas eram as suas favoritas. O cheiro das tortas de maçã quentes o distraiu do sermão, tal qual ela pretendia. Stephen pegou François pelo ombro e apontou para o balde com água limpa. — As tortas terão melhor sabor depois que você lavar as mãos para tirar o cheiro de cavalo. Os três se sentaram sobre uma pilha de palha limpa para comer as tortas. — Eu gosto de Sir Robert, – disse Linnet, lambendo os dedos a cada bocado – mas quem é aquele tal de... De Roché? – E enrugou o nariz como se sentisse o fedor de esterco.


Stephen estava gostando cada vez mais da menina. — De Roché é o homem com quem sua senhora vai se casar. Ele é de Rouen. Com a boca cheia de torta, François murmurou a própria especulação de que De Roché vinha do inferno. Aquelas crianças estavam ficando cada vez mais sábias com o passar do tempo. Linnet franziu as sobrancelhas do bonito semblante. — Não posso ir para Rouen e deixar François. Quando será o casamento? — Não sei. – Stephen reprimiu um suspiro. – Mas não vamos nos preocupar com isso ainda. — Não podemos ficar esperando até que seja tarde demais – objetou Linnet. — E se você se casasse com ela no lugar daquele francês? – perguntou François. Stephen riu e sacudiu a cabeça. — Querem que eu me case só para satisfazer vocês? — Ela é muito bonita – disse François – e sei o quanto o senhor gosta dela. – O rapazinho se inclinou à frente, com a boca aberta como um idiota, e Stephen percebeu que ele estava imitandoo. Linnet jogou a cabeça para trás e uivou de tanto rir. Stephen esfregou as têmporas. O que é que havia feito para merecer aqueles dois demônios?! — Eu teria preferido um marido melhor para Lady Hume, mas De Roché é o homem que o próprio Rei Enrique escolheu para ela. Linnet desdenhou os desejos do rei com uma elevação muito francesa do pequeno ombro. — Vamos – disse Stephen. – Devo levá-la de volta. Stephen esperou uma discussão, mas Linnet se pôs de pé. Depois de se despedir de François e de Relâmpago, que aguentou firme aquela exuberância toda com muita calma, estava pronta para ir. Ao chegar à câmara de Isobel no torreão, Linnet abriu a porta e correu para dentro. Stephen a seguiu, decidido a falar com Isobel a respeito de Linnet. Ao fechar a porta, viu Isobel. Ela estava de pé diante de uma tina sobre uma mesa encostada à parede, como se fosse lavar o rosto. Seu longo e escuro cabelo estava emaranhado e vestia apenas uma camisola. A visão deixou Stephen com a boca seca. Quando Isobel se virou e o olhou nos olhos, o calor ardeu entre eles como um incêndio. Ele já havia visto incontáveis mulheres se levantarem da cama usando bem menos que isso, mas nenhuma o deixou tão agitado quanto ela, coberta do pescoço até os tornozelos com uma camisola branca. O pensamento veio até ele, proibido e indesejável: poderia vê-la assim todas as manhãs, e nunca se cansaria. Lembrou-se da textura sedosa daquele cabelo nas mãos. Seus dedos morriam de vontade de tocá-lo, mas os pés estavam fixos como pedra no chão. Seus olhos escorregaram pela adorável curva do pescoço dela. Ansiava passar a língua ao longo daquela delicada clavícula justamente acima da borda da camisola. Então, como o homem semvergonha que era, deixou que o olhar caísse precipitadamente sobre os seios. Eram redondos e cheios, cujas pontas pressionavam contra o tecido. Stephen não estava conseguindo respirar direito. Mesmo assim, seguiu com o olhar as dobras do tecido branco até embaixo, pensando nos doces mistérios debaixo daquela roupa. Era um homem se afogando. O olhar continuou descendo, descendo, e descendo, até que chegou aos finos tornozelos e aos pés nus. Queria segurar na mão aquele pé delicado e beijar cada dedinho. E depois subir pela perna.


Arrastou o olhar até em cima, saboreando cada centímetro no sentido contrário. Quando chegou de novo ao rosto, pensou que o coração ia parar. Os olhos dela tinham o mesmo olhar de ansiedade que se lembrava da primeira vez se viram. O sangue latejava nos seus ouvidos. Desejava-a tanto que podia saborear o sal da pele dela. Com todo aquele fogo soltando chispas entre eles, a primeira vez devia ser quente e rápida. Mas depois ele a levaria para trás das cortinas da cama e passaria o resto do dia fazendo amor com ela lentamente. Passaria a língua sobre cada... — Lady Hume, precisa vestir isto! A voz penetrou na sua terra de sonhos. Vagamente se deu conta de que estava ouvindo a voz de Linnet já fazia um tempo. O que é que a menina estava fazendo ali? — Lady Hume! – A menina estava puxando com força o braço de Isobel. – Isobel! Dessa vez, Isobel a escutou. Antes que Stephen pudesse gritar um protesto, Isobel pegou o roupão da mão de Linnet e o colocou em volta dos ombros. Estava tão linda com as faces ruborizadas e o cabelo todo sobre um ombro que Stephen quase que podia perdoar Linnet pelo roupão. Quase. Mas a menina precisava sair. Agora. Linnet tinha que sair para que Stephen pudesse tomar Isobel nos braços e levá-la para trás das cortinas daquela cama e... Mas o que é que Isobel estava fazendo na cama até àquelas horas? Despenteada e de camisola no meio da tarde? Será que havia um homem atrás das cortinas da cama? De Roché? Não, ela não faria isso. Não podia. O ciúme se instalou no seu ventre como um veneno corrosivo. — Você está doente? – perguntou, mantendo a voz calma com um considerável esforço. – É por isso que você está na cama a esta hora? — Não tenho dormido muito bem ultimamente. Depois que Linnet saiu, decidi descansar um pouco – disse, afastando o cabelo do rosto. – Mas, por que está aqui, Stephen? — Vim acompanhar Linnet de volta. — De volta de onde? – perguntou. – Ela só foi até a cozinha. — Você estava sozinha aqui, dormindo, sem segurança à porta? – Stephen não conseguiu controlar o temperamento com tantas emoções girando dentre dele. – E você não devia deixar essa menina vagar por todo o castelo por conta própria. Pelo amor de Deus, Isobel, este lugar está cheio de soldados rudes! Isobel pegou a mão de Linnet e falou com ela em tom suave. — Sir Stephen tem razão; você precisa ter cuidado quando sair sozinha. A maior parte do castelo é segura, mas você deve evitar os lugares onde os soldados e outras mulheres não muito agradáveis se reúnem. Ele ficou aliviado por ver Isobel dar ordens à menina, só que eram ordens muito gentis e não estava sendo tão restritiva quanto ele gostaria. — Apenas uma área – continuou Isobel – é ainda mais perigosa. — Como os armazéns ao longo do muro externo. – Ele não conseguiu evitar a intervenção. Com os companheiros de treino em Falaise, Isobel havia aceitado ir sozinha ao armazém? Pegou-a pelo braço e a afastou para um lado para perguntar. Assim que sentiu o calor daquela pele através do fino tecido a luxuria ardeu através dele de novo. O que queria lhe dizer havia sumido da cabeça. A única coisa que lhe ocorria era dizer que queria vê-la nua. Isobel sacudiu o braço como se o toque dele também a queimasse.


— É claro que o lugar mais perigoso para ser apanhada por um homem é um quarto – disse com os dentes apertados. – Stephen, você precisa sair. Mesmo parecendo ridículo, estava contente por ela tê-lo chamado simplesmente Stephen de novo. Ele adorava ouvi-la dizer seu nome. Stephen fez uma reverência e se foi, desconcertado pela própria falta de controle. Se Linnet não estivesse lá, teria tomado Isobel naquela cama antes que uma só palavra soasse entre eles. Não, nunca teria chegado à cama. Teria sido ali mesmo, no chão, ou contra a parede... Que os santos o ajudassem, estava até tonto de tanto respirar fundo. Estaria melhor se perdido de tanto beber do que se perder na luxuria por uma mulher que não podia ter. Mas isso não era totalmente verdade. Isobel era uma mulher que ele não devia ter. Talvez ela não soubesse, mas ele não podia tê-la. Não podia confundir o olhar que ela tinha nos olhos. Isso tornava tudo mais perigoso. Agora é que ele devia se afastar dela. E que Deus ajudasse ambos se não conseguisse!


Capítulo 16 Março, 1418

Stephen fez de tudo para evitar Isobel durante uma semana, embora às vezes parecesse que o mundo conspirava contra ele. Como Robert o encontrou na sala de armas era algo que não conseguia adivinhar. — Você vai ter que pedir para outra pessoa – disse Stephen sem levantar o olhar do sabre que estava afiando. – Estou ocupado. — Não há tempo – disse Robert. – Tudo que lhe peço é que vá dizer a Isobel que fui chamado, para que ela não fique sentada esperando por mim a tarde inteira. — Ela pode esperar. Robert olhou para os homens martelando metais no outro extremo da sala de armas e baixou a voz. — O Rei precisa de mim imediatamente, e não posso deixá-la lá. — Vejo que terei que lhe dizer a verdade – disse Stephen, e colocou a espada sobre o banco ao lado. – É pela própria proteção dela, por isso não posso ir lá. Aquela senhora não está a salvo comigo. A boca de Robert torceu, divertida, o que incomodou Stephen mais do que ele pensava ser possível. — Certamente posso confiar que você não vai atacar Isobel em plena luz do dia em uma das áreas comuns do castelo, não é? – disse Robert, arregalando os olhos com uma expressão de horror. Ele se inclinou e sussurrou. – O Rei quer que eu fique ouvindo atrás da porta secreta enquanto ele se reúne com De Roché. Agora ele conseguiu. Stephen limpou a lâmina e devolveu a espada ao cinturão. Quando olhou para cima, Robert estava a meio caminho da porta. — Você vai encontrá-la – disse Robert por cima do ombro – no pequeno jardim atrás do Old Palace. O pequeno jardim! Com altas sebes nos três lados e uma parede na quarta lateral, o jardim era propício às relações clandestinas. Stephen devia saber disso. Abriu a boca para chamar Robert de volta, mas o amigo já havia ido fazia tempo. Demônios, demônios, DEMÔNIOS! Isso já era demais para as suas boas intenções! Um sorriso puxou os cantos da sua boca. Stephen lutou, mas não conseguiu evitar que a boca se expandisse em um belo e amplo sorriso. Um homem podia lutar contra o destino só por algum tempo... Isobel. Ele mal podia esperar para vê-la.


Uma ratazanacorreu ao longo da passagem secreta atrás de Robert. Pelas barbas de Deus, como estava sujo ali atrás! Trezentos e cinquenta anos de espiões reais e amantes percorrendo aquela passagem através dele, e duvidava que algum dia tivesse visto uma vassoura. Robert pressionou a orelha no buraco de novo. — Persuadi meu primo, Georges de laTrèmoille, para que faça tudo o que puder para manter a Borgonha do seu lado. Robert se lembrou de Georges da época de infância, olhos esbugalhados, traseiro pomposo, se é que alguma vez ele teve um, mas muito astuto. Se Georges estava passando para o lado inglês, tinha lá suas próprias razões. De Roché continuou falando sobre vários membros da parte da Borgonha, em todos os quais, segundo ele, poderia exercer influência. Nem uma só palavra saiu dos lábios de De Roché que Robert pudesse usar contra ele. Maldito fosse aquele homem! Por fim, o Rei despediu De Roché e seus guardas. — Você tinha razão ao sugerir que eu usasse um simples soldado como guarda hoje – disse o rei quando Robert surgiu pelo painel camuflado. – De Roché assumiu que ele não entendia francês e podíamos falar livremente. Os soldados, de fato, não podiam acompanhar a conversa. Esse era o trabalho de Robert. — Ele não disse nada que já não soubéssemos – disse Robert, tirando uma teia de aranha da túnica. – Ele é escorregadio. Não temos como saber qual lado ele vai tomar partido. O rei bateu o punho fechado contra a palma da outra mão. — Então chegou o momento de dar uma forcinha quanto ao compromisso. Robert não acreditava que fosse tão fácil assim tirar De Roché da jogada. Esperaria para compartilhar essa visão, no entanto, até que o rei estivesse pronto para ouvi-lo. — No ritmo que você e De Roché estão negociando esse contrato nupcial – queixou-se o rei – posso pedir também aos advogados que o façam bem antes. Robert estava muito orgulhoso porque havia conseguido esticar o tempo. Teve que reprimir um sorriso, até que captou o brilho de aço dos olhos do rei. — Quero esse compromisso pronto – disse o rei, apontando o dedo para Robert – dentro de uma semana. Sete dias. Isso não lhe dava muito tempo para frustrar os planos do rei. Além do mais, não dava muito tempo para Stephen. Só podia esperar que os assuntos no jardim progredissem...

Isobel apoiou a cabeça contra a parede atrás dela. Parecia milagre estar sozinha naquele aprazível jardim, sabendo que De Roché não viria procurá-la. Deus abençoasse o Rei Henrique por chamá-lo para uma audiência particular nesse dia! Ela precisou fazer verdadeiros malabarismos para evitar se ver a sós com De Roché novamente. Stephen, por outro lado, ela mal o vira desde que o havia expulsado dos seus aposentos. Quão perto estivera de cair em tentação naquele dia! Ela devia ter se sentido insultada pela maneira com


a qual os olhos de Stephen passearam pelo seu corpo. Em troca, aquela fome escancarada a seduziu, fez com que suas entranhas esquentassem e umedecessem. Sem um só toque, ela era dele. Ou teria sido, se não fosse por Linnet. Deus a castigaria por ser uma mulher tão pecadora. Stephen a evitara desde então. Quando ela tinha oportunidade de vê-lo, ele estava sempre ocupado. Falando com comerciantes da cidade, ou bebendo com os nobres do lugar. E sempre havia uma mulher perto dele, tocando seu braço, rindo das piadas dele, seguindo-o com o olhar. Era como se Stephen quisesse lhe demonstrar o quão pouco se importava... Algumas vezes, no entanto, sentia os olhos dele sobre ela. Mas, quando se virava para olhá-lo, o olhar dele já estava virado para outro lado. — Isobel. Ela olhou, e ali estava ele, tão bonito que lhe roubou o fôlego. — Robert não pôde vir, então me enviou para encontrá-la. — Não quer se sentar um pouco? – perguntou ela, acariciando o banco ao seu lado. – Com o aparecimento do sol, quase que parece verão aqui neste jardim. Stephen pressionou os lábios juntos e negou com a cabeça. — Você está zangado comigo? – Estava envergonhada pelo tremor na voz, mas continuou. – Você quase que sai correndo quando me vê, como se não pudesse suportar olhar para mim. Para seu assombro, Stephen jogou a cabeça para trás e caiu na risada. Ele tinha um riso maravilhoso e contagiante, que preencheu o pequeno jardim e aliviou seu coração. Ele se sentou ao lado dela. Sorrindo com o sorriso mais perverso que tinha, inclinou-se mais para perto e perguntou. — Vai fingir que não sabe por que mantenho distância de você? Isobel engoliu em seco e sacudiu a cabeça. — Eu não sei. — Está mentindo, Isobel, mas eu vou lhe dizer, de qualquer forma. Ela não conseguia respirar com ele tão perto. — Mantenho-me longe de você porque quando lhe vejo... – manteve os olhos fixos nos dela, enquanto passava um dedo lentamente pelo seu antebraço - ...o que eu mais quero é lhe arrastar para a cama e ficar com você lá por uma semana. Uma semana... Oh, Deus! Sua boca secou e ela molhou os lábios com a língua. O estômago se contraiu pelo desejo ardente que viu naqueles olhos. — Não posso estar no mesmo quarto com você – disse Stephen, com a voz rouca e grossa – sem imaginar o que seria tirar sua roupa. Sentir sua pele, quente e macia sob minhas mãos, contra o meu peito... Cheirar seu cabelo, provar... Parou abruptamente e fechou os olhos. Isobel tratou de acalmar a respiração, mas não havia nada que pudesse fazer quanto ao pulso acelerado. Stephen apoiou a testa na dela e sussurrou: — Diga-me, o que é isto entre nós? Ela não tinha resposta, pelo menos, nenhuma que pudesse lhe dar. Stephen voltou a se apoiar contra a parede e sacudiu a cabeça de um lado para o outro. — Isto tudo é muito mais perigoso para você do que para mim. É por isso que tratei de me manter longe de você. – Esfregou as mãos no rosto e murmurou entre elas. – O quê eu faço com ela?! Beije-me, beije-me, beije-me! Isobel apertou os punhos para evitar dizer isso em voz alta. Stephen deixou cair as mãos e perguntou.


— Você quer se casar com ele? Ela pestanejou, surpreendida pela pergunta. — Agora que você já passou algum tempo com De Roché, – insistiu – está feliz em ser esposa dele? — Não importa o que eu quero – disse, embora nem precisasse dizer. Ela endireitou as costas. – Tenho que ficar contente com o destino que Deus me designou. — Isso não é resposta – disse Stephen. E tampouco muito justa quanto ao futuro marido. Sentiu uma onda de culpa pela deslealdade. — Honestamente, o rei escolheu bem para mim – disse. – Philippe De Roché está bem acima de mim, tanto em riqueza quanto à posição. O acordo supera toda esperança razoável que eu pudesse ter. Certamente, De Roché seria um marido melhor do que o último. Estremeceu ao pensar que tipo de homem teria lhe dado seu pai desta vez. E que Deus a perdoasse por não ser tão agradecida quanto devia. Por querer mais. Stephen pegou a mão dela e a apertou. — Você merece ser feliz desta vez. Isobel nem se deu ao trabalho de lhe dizer que o que uma mulher merece tem muito pouco a ver com o que ela obtém. Nesta vida, pelo menos.


Capítulo 17 O estrepitoso barulho e a conversa na sala da tesouraria pararam abruptamente. Isobel mal teve tempo de se levantar com um pulo antes que o rei e seus comandantes se levantassem dos respectivos assentos à mesa principal e saíssem da sala. Enquanto voltava a se sentar, Isobel se arriscou a dar uma olhada ao longo da mesa. Não havia nenhuma mulher sentada ao lado de Stephen nessa noite. E também poderia nevar em julho. O que será que Stephen queria dizer ao lhe fazer aquelas perguntas naquela tarde? Em um momento ele zombava dela, e no próximo a torturava. — Isobel? Ela se sobressaltou com o som da voz de De Roché junto a ela. — Tive que dizer seu nome três vezes – disse De Roché. – Você estava pensando em quem? — No meu irmão – disse, aliviada por ter já uma desculpa preparada. – Fico preocupara porque ele passa tempo demais naquela Abadie-aux-Hommes. Isso era verdade. Preocupava-a que Geoffrey fosse tão amiúde fazer vigília com os monges. E ele estava desesperado para lhe contar sobre uma relíquia sagrada de alguma outra abadia. O que é que ele havia dito que era a relíquia? O nó do dedo de um santo? Ela havia prometido se encontrar com ele em breve. Que o céu a ajudasse, provavelmente ele havia escrito um poema sobre o tal dedo murcho. — Você não pode colocar defeito na devoção do seu irmão – disse De Roché, interrompendo novamente os pensamentos dela. Isobel não confundiu essa declaração com um convite para que explicasse tal preocupação. De Roché nunca lhe fazia perguntas de caráter pessoal quanto à sua família. Sentiu-se aliviada e, no entanto... Quanta diferença de Stephen! Stephen não ficaria satisfeito enquanto não arrancasse até o último sombrio segredo da família dela! Subitamente, foi arrancada de chofre dos próprios pensamentos por algo quente e forte contra sua perna. — Pela primeira vez, seu atento guardião não está à vista. – De Roché estava olhando à frente, mas os cantos dos seus lábios se curvaram para cima. Ela olhou de uma ponta à outra da mesa. Tanto Robert quanto Stephen haviam desaparecido. À procura de diversão no povoado, sem dúvida. Pegou a mão de De Roché para deter o avanço até sua coxa. — Você está cansada, querida – disse De Roché. – Quer que eu lhe acompanhe até seus aposentos? – Sem esperar resposta, segurou-a firme pelo cotovelo e a pôs de pé. — Já estava me perguntando se Sir Robert nunca se afastaria do seu lado – disse De Roché no seu ouvido enquanto a tirava da sala. – O homem lhe protege como se você fosse uma inocente virgem. Ela se sentia incômoda e quase sem fôlego enquanto ele a fazia avançar decididamente pelos degraus do salão e ao longo do caminho até a fortaleza. O ar da noite estava frio. Através da espessa capa, podia sentir o calor do corpo de De Roché. Será que ele não podia falar algo para acalmá-la?


Ele manteve tanto o silêncio quanto o ritmo decidido dos passos por todo o caminho até a fortaleza. Quando chegaram ao corredor que dava acesso aos seus aposentos, o coração de Isobel batia com força dentro do peito. Os dentes dele brilharam à tênue luz das velas enquanto a virava para ele. Ficou tensa quando De Roché escorregou os dedos pela sua garganta. Quando chegou à sensível pelo logo acima do corpete, ela segurou-lhe o pulso. — Alguém vai nos ver! — Não há ninguém aqui. – Enfiou o dedo no vale entre seus seios. – Além do mais, estamos quase noivos. Esse homem seria seu marido. Em breve compartilhariam a mesma cama tanto quanto ele a desejava. Parecia tolice protestar por essa pequena intimidade. A velha esperança voltou. Aquela esperança de que o novo marido pudesse fazê-la se sentir da mesma forma quando Stephen a beijou. Esperança que ele pudesse lhe provocar aquela sensação de estar devastada, como se nada mais importasse quando a tocasse. Seria possível isso? Ela precisava saber. — Beije-me – disse ela, levantando o rosto para ele. Dessa vez seria diferente. Esse beijo foi diferente. Mais suave. Nada espantoso, como da primeira vez. Nem desagradável, como o de Hume. Sua mente estava fria e clara, enquanto esperava que a emoção a apanhasse. E esperou. O beijo lhe pareceu..., agradável. Mas nada mais do que isso... Não conseguia encontrar nenhuma explicação. De Roché era bonito, jovem e saudável. Era verdade que o forte perfume que usava lhe dava um pouco de dor de cabeça. Mas os lábios dele eram suaves e cálidos. A cócega que lhe fazia o bigode dele não a incomodava. De Roché passou as mãos pelas laterais do seu corpo, que começou a responder às caricias. Mas, onde estava a paixão sem sentido? O que sentia era como se fosse uma tênue chama em relação ao fogo ardente que a atravessava quando Stephen a tocava. Ela tentaria com mais empenho. Decidida, tirou as mãos da nuca dele, segurou-o pelo pescoço e o beijou de novo. Abriu a boca e deslizou a língua sobre a dele da mesma forma da qual se lembrava que havia feito Stephen gemer. Antes que pudesse perceber, estava esmagada contra ele. Sentia-se presa, incapaz de se mexer. Estava tão surpresa pela rapidez do assalto que demorou um pouco para se dar conta que a mão de De Roché parecia uma garra de ferro em torno do seu pulso. Soltou alguns leves e frenéticos gritos contra a boca masculina, enquanto ele forçava sua mão para baixo. Ele era forte demais! Sentiu a dureza do membro dele contra a palma da mão. Para cima e para baixo, para cima e para baixo, esfregou a mão dela contra ele. Ela mordeu o lábio e sentiu gosto de sangue. Apesar de ele ter afastado a boca, não soltou sua mão. A respiração de De Roché lhe chegava aos ouvidos em forma de horríveis arquejos. Foi inundada então pelas lembranças das náuseas provocadas pelo odor pútrido de Hume em meio à escuridão. Com renovada força ela conseguiu soltar o outro braço e se virou para ele, que pegou sua mão em pleno ar. Ficaram a centímetros de distância, olhando um para o outro. Ambos respiravam com dificuldade, embora ela contivesse as lágrimas. — Pare, por favor – disse em voz baixa, apenas um sussurro. Os olhos dele estavam pretos pela ira. — Depois da forma como me beijou, vai fingir que não me quer na sua cama esta noite? — Eu queria apenas um beijo – balbuciou, sentindo-se confusa e envergonhada. — Ah, pretende zombar de mim – a voz dele era ainda mais ameaçadora devido à suavidade. – Não é um jogo agradável para se fazer.


Olhando-a diretamente nos olhos, colocou as mãos sobre os seios de Isobel, que estava surpresa e assustada demais para se mexer. — Quando eu lhe levar para a cama, – disse, esfregando os polegares em círculos nos mamilos dela através do tecido – você terá que aprender quais são os jogos que me entretêm lá.

Houve um tempo no qual Stephen teria ficado satisfeito por ser incluído na reunião do rei com seus comandantes. Mas não nessa noite. Embora o Rei Henrique outorgasse considerável importância à justa administração dos novos territórios, os outros homens pareciam aborrecidos enquanto Stephen apresentava o relatório. E por que não? O próprio Stephen estava aborrecido. Na verdade, não estava tão aborrecido quanto ansioso para sair dali. No mesmo instante no qual o Rei o liberou, ele escapuliu. Fingiu não ver os sinais de William, que o esperava. Enquanto se apressava pelo escuro caminho até a fortaleza, perguntava-se por que estava indo atrás de Isobel. Mas o que diria para ela quando a encontrasse? Não tinha ideia. Aquilo era uma loucura, até mesmo para ele. Se quisesse se esquecer de toda honra e seduzi-la, poderia tê-lo feito já. Lembrou-se do instante no qual soube que ela seria sua..., bastava ter lhe pedido..., e quase se esqueceu de respirar. O que ela havia feito com ele! Sentia-se melhor consigo mesmo quando estava com ela. Mais interessante. Mais inteligente. E, certamente, mais orgulhoso! Queria protegê-la e banir a tristeza daqueles olhos. Agora não conseguia parar de pensar no que isso significava. Entrou na fortaleza e subiu correndo a escadaria dos fundos, de dois em dois degraus. Enquanto subia, pensou na última vez que havia ido ali. Quando ela se levantou da cama de camisola, seu coração bateu tão forte que pensou que lhe arrebentaria o peito. Disparou pelo corredor e deu uma olhada à frente. E parou em seco. Apesar da escassa luz, não tinha como se enganar ao pensar que a mulher não era outra senão Isobel. Havia passado muitas horas observando aquele perfil. E aquela ridícula barba de bode não podia pertencer a ninguém mais senão àquele idiota do De Roché. Quando Isobel deslizou a mão pela nuca de De Roché e puxou-o para um profundo beijo, poderia também ter alcançado o peito de Stephen com a mesma e arrancado seu coração. Como podia? Como é que ela podia ter feito isso com ele?! Então viu a mão de Isobel, coberta pela de De Roché, deslocando-se para baixo. Bom Deus, ele não queria ver aquilo. Isso não. Quando ela começou a acariciar a entreperna de De Roché, Stephen apoiou o corpo contra a parede e fechou os olhos com força. Ainda podia ouvir os pequenos sons que ela fazia. Tinha que sair dali. Agora. E no entanto, voltou a olhar. Não conseguiu evitar.


Agora os amantes estavam afastados, olhando-se fixamente. Stephen observava, paralisado, De Roché cobrir-lhe os seios com as mãos e esfregar os polegares sobre os mamilos. Era uma descarada demonstração de domínio sexual ao qual Stephen não mais conseguiu aguentar. Virou-se e fugiu dali sem fazer o mínimo barulho.

Stephen estava bebendo com um propósito. Embora sentisse os lábios, e até mesmo os dedos, intumescidos, o doce esquecimento escapava dele. A bebida ainda não havia afrouxado o nó do ciúme no seu estômago. Tampouco havia mitigado a perda que sobrecarregava cada músculo. A mulher pesava no seu colo, mas não fazia a mínima ideia de quem ela era nem de como havia chegado ali. Queria que ela fosse embora, mas precisaria fazer muito esforço para se mexer. A insuportável misturade perfume enjoado, suor e sexo lhe revolvia o estômago. Mas nem de olhos fechados conseguia fingir que era Isobel. De repente, seu colo ficou leve. Ouviu uma forte discussão de vozes femininas, mas não estava curioso o suficiente para abrir os olhos. — Você deve estar bêbado demais para deixar que alguém assim se aproxime de você! Vai ver que até já pegou sífilis, seu estúpido! — Claudette? – Ele abriu os olhos e viu-a observando-o, com as mãos na cintura. – É você... Estava tão contente por vê-la que se apoiou nela e pôs os braços em torno da sua cintura. Embora estivesse vagamente consciente de que não devia estar com a cara enfiada entre aqueles seios, sentiu-se consolado por estar envolto por tanta maciez. Alguém o puxou pelos ombros e ele ouviu uma voz familiar atrás de si. Relutante, soltou Claudette e caiu para trás. Tanto movimento fez sua cabeça girar. — Jamie?! O que é que você está fazendo neste antro de perdição? – perguntou. – William vai ter um ataque... — Foi ele que me mandou vir aqui. — William mandou um rapazinho de quinze anos bancar a minha babá?! – A voz de Stephen soava distante aos próprios ouvidos. — Sim, foi exatamente o que ele fez, – disse Jamie com um sorriso – exceto que já tenho quase dezesseis. William enviou Jamie com Claudette? Outra prova de que todo mundo carecia de sentido. De nenhum sentido, em absoluto. — Como é que ela pôde preferir De Roché? – perguntou. Jamie o olhou, desconcertado, mas Claudette – a querida, querida Claudette – entendeu. — Ela seria muito tola se o preferisse a você – disse ela, e tocou-lhe a face. — Mas eu a vi! – As palavras saíram da sua boca por vontade própria, sem conseguir detê-las. – Ela estava beijando-o. Tocando-o, pelo amor de Deus! E... — Mas é lógico que ela fez isso. Ela tem que se casar com aquele homem – interrompeu-o Claudette. – As mulheres precisam ser práticas.


Práticas? As mulheres realmente pensavam dessa maneira? — Beijar-me não foi praticidade. — É claro que não – concordouClaudette. – Para nenhum de vocês dois. A próxima coisa que soube era que estava em um coche que pulava sobre o caminho de pedras, e sua cabeça batia contra a lateral. O ar frio o acordou e o pôs de pé. Fragmentos de conversa chegavam até ele, como se viessem de muito longe: Jamie dizendo que podia lidar com ele sozinho; a zombaria dos guardas; e a própria voz pedindo que procurassem Isobel. Quando voltou a abrir os olhos, viu seus pés sendo arrastados pelo chão. Em seguida, alguma alma caridosa o levantou até a cama. Ele estava afundando, afundando, afundando... A voz de Jamie o trouxe da terra dos mortos. — O que será que Claudette quis dizer com as mulheres precisavam ser práticas? — Ela se referiu..., ao fato de que uma mulher se deita com um homem... – Suspirou pelo esforço que fez para responder, mas Jamie sacudiu o ombro dele de novo - ...porque faz sentido para ela..., embora não tenha sentimentos verdadeiros por ele. Todas são desalmadas..., desalmadas... — Uma mulher virtuosa não faria isso. — Pois as virtuosas são as piores! Deus do céu, até mesmo Catherine levou um estranho para a cama. Será que ele havia dito a última parte em voz alta? Não, ele nunca diria isso. — Você está bêbado. Ela nunca faria isso. Mulher alguma seria esposa mais fiel. — Elllllllanunnnnncca faria isso com William. Nunca, nunca, nunca. Mas até Catherine..., inclusive ela..., foi prática uma vez. Levou um estranho para a cama. Um desconhecido. — O que foi que você disse?! – A voz parecia vir de dentro da sua cabeça. Mas Jamie era condenadamente insistente. – Levou quem? O que aconteceu? Stephen só queria que as perguntas parassem para poder dormir. — Ela não conseguia engravidar. Do outro marido. Aquele maldito primeiro marido. Então ela permitiu que alguém fizesse o trabalho por ele. Ffffoientttttão que ela tttteve o ppppequeno Jamie. Mas isso é um ennnnormesegrrrrrredo. Shhhhh...


Capítulo 18 Stephen acordou com uma péssima sensação que não nada tinha a ver com ressaca. Uma sensação muito ruim mesmo. Por trás daquela latejante dor de cabeça, do estômago revolto e da boca ressecada, algo mais sinistro espreitava. Estava com a incômoda sensação de que havia cruzado uma linha. Cometido algum grave erro, imperdoável. Será que ele havia se deitado com alguém com quem não deveria? Virou a cabeça com cuidado para não ir rápido demais, e soltou a respiração com força. Se fosse isso que ele havia feito, pelo menos ela já tinha ido embora. Mas não acreditou que fosse isso. Saiu da cama se arrastando, derramou água fria da jarra em uma tina e jogou no rosto. O que foi que...? Tentou puxar a memória para o que aconteceu depois que... A imagem de De Roché com as mãos sobre Isobel foi clara demais. Sentiu a pressão sanguínea subir, o que fez com que sua cabeça latejasse violentamente. Inclinou-se sobre a tina e derramou o resto da jarra sobre a cabeça. Primeiro ele havia ido à taberna mais perto da entrada do castelo. Depois, àquela que ficava perto da velha igreja. Em algum momento mais tarde, havia terminado na parte mais sórdida do povoado. Lembrou-se de um perfume enjoativo. E então apareceu Claudette, parecendo um anjo de misericórdia. E Jamie. Um passeio de coche. Jamie arrastando-o até a cama. Alguém fazendo perguntas intermináveis... Sobre mulheres sendo práticas... Fechou os olhos com força. Que Deus se apiedasse dele, será que havia dito aquelas coisas sobre Catherine em voz alta? E logo para Jamie?! Não, ele não poderia ter feito isso! Havia arrancado o segredo persuasivamente de um velho servo anos atrás, e nunca o havia dito para nenhum ser vivente. Nunca! Virou-se e olhou em torno do quarto vazio. Onde será que estava Jamie agora? Tentando não entrar em pânico, vestiu-se rapidamente, pegou a capa e a espada e saiu do quarto impetuosamente Tinha que encontrar Jamie. Que Deus o ajudasse se ele havia contado o segredo de Catherine logo para o filho dela na noite passada. Se ele havia contado, teria que se explicar com Jamie, tentar fazê-lo entender. E então teria que contar para William o que havia feito.

Isobel procurou pelo irmão por todos os cantos. Quando não conseguiu encontrá-lo, começou a se preocupar. Na noite passada ele disse que tinha algo importante para lhe dizer. Por que nãoo


havia feito contar naquele instante mesmo? É claro, não esperava que De Roché a agarrasse tão repentinamente. E, bom, depois do que havia acontecido..., mas não pensaria nisso agora, e esqueceu-se completamente do irmão. O cabelo liso de Linnet açoitou-lhe o rosto enquanto corriam velozmente pelo pátio do muro externo do castelo. — Não procuramos nos estábulos ainda – gritou contra o vento. – Se o cavalo dele estiver lá, você saberá que ele não está longe. — Você é brilhante – disse Isobel, forçando um sorriso. Não sabia dizer por que se preocupava tanto. A meio caminho dos estábulos viram François correndo na direção delas. — Lady Hume, eu estava lhe procurando – gritou enquanto se aproximava. Estava tão ofegante quanto ela. – Seu irmão me pediu que eu lhe desse um recado. — Um recado? O que é? François torceu a boca como se estivesse concentrado para ter certeza de que ela entenderia direito. — Ele e Jamie Rayburn foram até uma abadia que fica a duas horas daqui, a cavalo, para ver uma relíquia sagrada. — Você viu Geoffrey sair? – perguntou, lutando para soar calma. – Com Jamie? — Ele ia sozinho – disse François. – Mas eu lhe disse que era perigoso demais, com todos aqueles bandoleiros e renegados vagando pelos campos. Mas ele disse, Deus me protegerá. Eu juro, foi exatamente isso o que ele disse. Deus meu, ela o mataria por se expor a semelhante risco! Até esse rapazinho sabia que era estupidez viajar sozinho por aqueles caminhos. — Então Jamie chegou chorando ao estábulo em um estado de dar dó – disse o menino, com os olhos muito abertos. – Seu irmão o levou para um canto onde ninguém pudesse ouvi-los. Só sei que depois seu irmão me pediu que lhe entregasse esse recado..., e depois se foram! — Há quanto tempo foi isso? François encolheu os ombros. — Acho que..., uma hora? Eu procurei a senhora durante muito tempo. Ela precisava encontrar alguém rapidamente para que fosse atrás deles e os trouxesse de volta. Àquelas horas, as pessoas estariam reunidas no vestíbulo para o desjejum. Ela correu até a torre com os gêmeos nos calcanhares. — Jamie é um bom combatente – anunciou François em voz alta, em uma valente tentativa de reconfortá-la. Iria procurar De Roché. Ele havia chegado a Caen com um grande contingente de homens armados. Sem dúvida alguma ele poderia reunir rapidamente um número suficiente deles para ir atrás de Geoffrey e Jamie. Mal desacelerou para caminhar enquanto entrava na torre. — Esperem aqui – disse aos gêmeos enquanto passava por baixo da grande entrada em arco até o vestíbulo da torre. Avistou De Roché imediatamente, e foi direto até ele. — Philippe, ajude-me! – Disse, quando chegou perto o suficiente para ser ouvida. Ignorou a desaprovação no rosto dele; mas ele entenderia quando ouvisse o que estava acontecendo. Ele levantou a mão no alto. Com uma risadinha, disse para o homem ao lado dele: — Minha noiva está ansiosa para me ver. — Geoffrey se foi! – exclamou ela. – Você precisa ir atrás dele e trazê-lo de volta. — Acalme-se, meu amor. Diga-me que não veio correndo, porque você realmente está sem fôlego.


— Meu irmão se foi – disse ofegante. – Você deve ir imediatamente, ou vai acontecer algo muito ruim com ele, eu sei. — Se nos der licença – disse para o homem. Pegou-lhe o braço com um aperto para machucar e a conduziu até um canto. — Você devia ter pedido para falar comigo em particular – disse, os olhos chamejando com grande irritação. – Como se atreve a se aproximar de mim em público, dando-me ordens, dizendome que eu devo fazer isto, que eu devo fazer aquilo!? — Sinto muito, mas é que meu irmão... — Olha aqui, seu irmão é um homem adulto. Ele pode tomar as próprias decisões e viver com as consequências. — Mas você pode ir atrás dele? Ele não entende... — Meu Deus, Isobel! Acha mesmo que não tenho nada melhor para fazer do que sair por aí atrás do tolo do seu irmão? — E você tem? – Até onde podia dizer, ele não tinha nada para fazer em Caen, exceto negociar o contrato nupcial com Robert..., e isso estava indo tão devagar que ele não tinha como dedicar muito tempo ao assunto. — Eu não preciso lhe prestar contas do que faço – disse. – Seu irmão é que tem que pensar melhor sobre os próprios atos e voltar. Sugiro que você volte para os seus aposentos e espere por ele lá. Mas que tipo de homem era ele?! E como é que ele podia lhe recusar ajuda?! Mas ela não tinha tempo para discutir. De qualquer forma, ele não iria se mexer. Levantou-se nas pontas dos pés para olhar por cima do ombro dele, procurando alguém a quem pudesse pedir ajuda. Quando viu Lorde FitzAlan, gritou o nome dele e agitou os braços. — Pare com isso imediatamente! – disse De Roché. – Está dando um espetáculo. FitzAlan já estava caminhando a passos largos na direção dela. Louvado seja Deus! E logo atrás dele, vinha Stephen. — Lorde FitzAlan, Sir Stephen – De Roché os saudou à medida que os dois iam se aproximando. FitzAlan o ignorou. — O que há, Lady Hume? A senhora parece aflita. — François me disse que meu irmão e Jamie saíram sozinhos da cidade, a cavalo – disse ela tentando manter a voz controlada. Stephen segurou-lhe o braço. — François sabe para onde eles foram? Ou em qual direção eles foram? — Até uma abadia na direção leste, a duas horas daqui. – O fragmento de um dos poemas de Geoffrey lhe veio à mente. Algo sobre o dedo de um santo mártir e... – L’Abbaye do Canônico Michel, poderia ser essa? — Eu lhe encontro nos estábulos – disse FitzAlan para Stephen. – Preciso deixar um recado para o Rei que eu saí. — Nós vamos encontrá-los – disse Stephen, e apertou seu braço rapidamente enquanto começavam a caminhar. — Esperem – ela chamou. – Eu vou com vocês. — Não seja estúpida... – De Roché começou, mas FitzAlan o interrompeu. — Mantenha-a aqui – ordenou FitzAlan, apontando o braço estendido para De Roché. E se foram os dois. Baixando o olhar para o chão, Isobel disse: — Vou esperar nos meus aposentos, como você me sugeriu. – Dobrou os joelhos fazendo uma rápida reverência e saiu antes que ele pudesse dizer uma só palavra.


Linnet a alcançou na escadaria. Assim que chegaram aos seus aposentos, Isobel abriu o baú e tirou a roupa de Geoffrey que ela estivera remendando. — Corte seis polegadas das mangas e das malhas, e me ajude a me trocar – disse para Linnet. – E faça isso rápido. Ela rechaçou as objeções de Linnet. A voz na cabeça dela lhe dizia que o que iria fazer era estupidez, mas ela ignorou essa também. Geoffrey era tudo o que ela tinha no mundo, não podia ficar sentada ali, esperando. Desde que Geoffrey era criança, era ela quem o protegia..., das críticas do pai, da indiferença da mãe, da própria cegueira quanto ao mundo que o rodeava. — Se alguém procurar por mim, diga que estou dormindo – disse, enquanto embainhava a espada. – Diga que estou indisposta, com dor de cabeça. Graças a Deus que seu manto era simples. Disse a Linnet que o trouxesse enquanto empurrava o cabelo para debaixo de um gorro. Depois de dar em Linnet um brusco beijo na face, colocou o capuz sobre a cabeça e saiu apressadamente. Chegou aos estábulos justamente quando Stephen e FitzAlan estavam saindo, montados nos respectivos cavalos. Abaixou a cabeça quando eles passaram ao seu lado, então se virou e viu que os dois estavam indo na direção do portão leste: Porte desChamps. Quando encontrou François dentro do estábulo, ele não estava mais entusiasmado com o seu plano do que a irmã, Linnet. Ainda assim, fez com que ele a ajudasse a encilhar o cavalo e o fez jurar que ia guardar silêncio. Ele parecia tão inquieto que ela se esqueceu do disfarce e tocou-lhe a face. — Vou alcançá-los logo – assegurou ela. – E eles me manterão a salvo. — Tenha muito cuidado, milady – disse François. – Eles ficarão muito zangados. Ela quase riu— François estava bem mais preocupado pelo que Stephen e FitzAlan fariam com ela do que pelos bandoleiros e renegados. Porte desChamps a levou diretamente para os campos a leste do castelo. Bem mais adiante já conseguiu ver os dois cavaleiros. Parou o cavalo, sem querer encurtar demais a distância tão cedo. O plano era esperar para revelar sua presença até que já estivessem a meio caminho da abadia, assim seria muito mais fácil levá-la à abadia do que de volta a Caen. Cedo, porém, descartou o medo de ser descoberta. Ela montava bem, mas a cada subida, os dois homens se afastavam cada vez mais. Logo os perdeu de vista completamente em meio às depressões do caminho. Quando contornou o cume da próxima colina, já não conseguia vê-los em absoluto. Uma onda de medo a trespassou enquanto compreendia o quão só e vulnerável estava. Vasculhou com o olhar de um lado para outro e atrás de si. Deveria regressar? Com o coração disparado, esticou o pescoço e esquadrinhou o horizonte vazio. Subitamente, dois cavaleiros saíram precipitadamente de trás das árvores, um de cada lado dela. Os berros de ambos encheram o ar, enquanto iam à carga sobre ela. No último minuto, os dois cavaleiros frearam as montarias. Os cavalos encabritaram, erguendo os cascos no ar. O cavalo de Isobel tratou de se esquivar deles, quase a derrubando de tanto medo. Quando Isobel viu quem eram os cavaleiros, pensou que poderia desmaiar de tanto alívio. Apertou a mão sobre seu retumbante coração. — Louvado seja Deus, sois vós! Pensei que eram bandoleiros! — Isobel?! – disse Stephen, com os olhos esbugalhados. – Isobel! Ela quis se jogar sobre eles e abraçá-los, porém, os dois não estavam nem de perto contentes por vê-la. Na verdade, olhavam-na como se quisessem matá-la.


— Enlouqueceu?! – gritou Stephen. – Pensou mesmo que não notaríamos alguém atrás de nós? Se seus gritos não fossem tão..., tão..., tão femininos, poderíamos ter atravessado seu corpo de um lado ao outro com a espada! Ele soava como se quisesse mesmo ter feito isso. — Você foi muito tola vindo atrás de nós – disse FitzAlan. – E aquele De Roché é um tolo maior ainda por não ter lhe segurado lá para que não viesse. — Mas agora estou aqui – disse ela rapidamente. – Geoffrey e Jamie não podem estar muito longe agora. Devemos continuar. Quando viu o olhar que ambos trocaram entre si, soube que vencera. Mas eles não estavam nada satisfeitos com isso. — Vamos lhe levar até a abadia e lhe deixaremos lá – disse FitzAlan. – Acorrentada, se preciso for. Dito isso, virou o cavalo e saiu a galope. — Fique perto de mim – ordenou Stephen. – Vamos cavalgar um pouco atrás até que a raiva que ele está sentindo esfrie. Fincaram as esporas nos cavalos e cavalgaram lado a lado. Stephen não podia deixar o assunto de lado ainda. — Realmente, Isobel, o que você fez foi uma estupidez sem tamanho. — Mas qualquer um que me visse pensaria que sou homem – disse, embora tivesse se sentido pior por instantes. – E certamente é mais seguro viajarmos como três homens armados do que dois. — Mais seguro? Com você?! – disse ele, virando-se e arqueando a sobrancelha. – Vestida assim só serve para me distrair. Posso ver o formato da sua perna até em cima, até... — Tenha compostura, Stephen. Ela olhou à frente, envergonhada. Pelo menos a cólera já não estava presente na voz de Stephen. A julgar pela rigidez das costas de FitzAlan, ele não a perdoaria tão facilmente. Stephen pareceu ler seus pensamentos. — Nunca vi mulher alguma, à exceção da esposa de William, deixá-lo tão irritado. — Ele se irrita com ela amiúde? Pobre mulher. — Pobre Catherine?! – Stephen riu. – Acredite, ela leva o grande comandante pendurado no dedo mindinho, isso sim! Ele ficou em silêncio por um instante. — Não há nada que ele não faça por ela – disse, com voz triste. – Ou ela por ele. Quem teria imaginado que o severo comandante abrigasse amor tão grande no peito? Inexplicavelmente, esse pensamento fez com que os olhos de Isobel ardessem. — Não se preocupe com William – disse Stephen. – Ele está tão irritado comigo que pode ter restado pouco para você. — O que aconteceu? — Foi por minha causa – disse, com o olhar fixo à frente – que Jamie fugiu. Isobel desviou o olhar para não ver a crua e nua dor estampadas no rosto Stephen e tentou pensar em algo que pudesse dizer para consolá-lo. — William! – rugiu Stephen. Ela sacudiu com força a cabeça para cima. O tempo parou enquanto tentava dar sentido à cena diante dela: FitzAlan caiu do cavalo e uma chuva de flechas voaram em torno dele. Será que ele estava ferido? Como isso era possível? Os gritos de Stephen a devolverem à realidade.


— Vá para o bosque, Isobel! Agora! – Ele apontou na direção que queria que ela fosse e em seguida o cavalo saiu disparado. Ela virou o cavalo e galopou pelo campo na direção do bosque um pouco além. Quando arriscou um olhar sobre o ombro, o coração lhe subiu à garganta. Stephen havia se posicionado entre o irmão ferido e o grupo de árvores de onde vinham as flechas. Enquanto ela olhava, ele se inclinou à frente, agarrou as rédeas do cavalo de FizAlan e se levantou outra vez. Louvado seja Deus! Antes de entrar no bosque, ela o procurou outra vez. Stephen galopava, com FitzAlan logo atrás, fazendo um largo arco para ir até o bosque, porém um pouco mais adiante. Ela entrou de vez no bosque e galopou tão rápido quanto se atreveu para ir ao encontro deles. Por fim viu movimento adiante, através das árvores. Quando topou com os dois cavalos, o pânico a invadiu. As selas estavam vazias. Então viu Stephen ao lado de um tronco caído, curvado sobre o irmão. Ela apeou do cavalo com um pulo e se ajoelhou ao lado dele. — O que posso fazer? – Pegou no braço de Stephen e olhou para FitzAlan com atenção. Oh, meu Deus!FitzAlan estava ensopado de sangue. Uma flecha sobressaía do pescoço dele logo acima da camisa de cota de malha. — Deveríamos ter colocado a armadura completa – disse Stephen, enquanto olhava a flecha no pescoço de FitzAlan. – Encontre algo para cobrir o ferimento. Rápido. Isobel tirou a trouxa de comida que havia guardado dentro da camisola. Deixou que o pão e o queijo caíssem no chão, sacudiu o pano e o dobrou em quatro. — Estou pronta. Stephen puxou a flecha, tirando-a do pescoço do irmão, e ela pressionou o pano dobrado contra o sangue que brotava abundantemente do ferimento. Que Deus os ajudasse, FitzAlan estava inconsciente e branco como o papel. Stephen manteve a pressão sobre o ferimento enquanto ela cortava uma longa tira da barra do próprio manto. Então, trabalhando juntos, envolveram a tira sobre o pano dobrado que cobria o ferimento, depois em volta das costas e por baixo do braço. Stephen amarrou forte a atadura sobre o peito do irmão. Assim que terminaram, Stephen pegou Isobel pelos braços e olhou-a no rosto. — Aqueles homens ainda estão aí por perto. Devo distraí-los antes que consigam entrar no bosque. — Você vai voltar lá?! – Bom Deus, não. Por favor, não! — Eu volto para cá assim que puder. – Desembainhou a espada e a pequena espada do cinturão de FitzAlan e as entregou para ela. – Mas você deve estar preparada caso algum deles consiga passar. Oh, Deus; oh, Deus; oh, Deus! — Você consegue, Isobel – disse, fixando os olhos nos dela. – Se algum homem vier, vai pensar que você é uma mulher desprotegida. Essa é a sua vantagem. Ela baixou o olhar e viu que seu cabelo havia se soltado e estava caído sobre os ombros. Onde estava o gorro? Decerto havia caído durante o galope. Stephen segurou-lhe o queixo e fez com que ela o olhasse nos olhos. — Use a ignorância dele contra ele mesmo. Use a espada. Mate-o, Isobel. Mate-o! Será que conseguiria? Poderia? Os olhos dele fixaram-se nos dela até que ela assentiu com a cabeça. Ele tomou seu rosto entre as mãos e lhe deu um beijo duro. — Não lhe dê uma segunda oportunidade.


Enquanto Stephen atravessava o mato a galope, ela olhou para baixo, para o homem que estava sob seus cuidados. O famoso comandante do Rei Henrique. O amor de Catherine. Por culpa dela ele jazia ali, gravemente ferido. Ela os havia distraído do perigo real. Inspirou profundamente e foi até os cavalos pegar uma manta e um cantil. Depois de envolver a manta em torno de FitzAlan, afugentou os cavalos para que estes não delatassem o esconderijo. Recolheu então braçadas de folhas e as amontoou ao redor de FitzAlan. Quando ficou satisfeita ao ver que FitzAlan estava bem escondido, sentou-se ao lado dele atrás do tronco caído. O odor de madeira podre e de folhas encheu seu nariz, enquanto ela vertia cerveja da garrafa na boca dele, que engoliu mesmo dormindo. Ela alternava entre cuidar de FitzAlan e olhar às furtadelas por cima do tronco. Embora Stephen não pudesse ter ido há tanto tempo assim, cada instante lhe parecia um dia. Não se permitia pensar no que faria se ele não voltasse. Meu Deus, por favor, mantenha-o seguro. Proteja-o! Ouviu o som de um galho ao ser quebrado. Empunhou a espada em uma das mãos e a espada pequena na outra e foi se levantando aos poucos até que conseguiu ver por cima do tronco. Nada. Conteve a respiração e apurou o ouvido. E então ouviu o som outra vez. Ela se virou na direção do som, procurando. Foi então que o viu. Um homem, a alguns metros de distância e vindo diretamente na direção dela. Soltou a espada para limpar o suor da mão. Minha Nossa Senhora! Ela rezou em voz baixa, porque a presença daquele homem não significava que Stephen estava morto. O homem estava se aproximando. Tinha que pensar, pensar num plano. Ele não estava de armadura, então tinha uma oportunidade. A voz de Stephen soou na sua cabeça, dizendo: Isobel, você consegue! Ela esperou que o homem estivesse a três metros. Pôs-se de pé abruptamente, mantendo as mãos atrás do corpo. — Senhor! Por favor, ajude-me! Os olhos do homem se arregalaram. — Ora, ora, o que é que temos aqui – disse o homem, relaxando o braço cuja mão segurava a espada e a boca se abrindo num amplo sorriso. – Ninguém me falou que haveria uma mulher. Pelo sotaque e pela tosca roupa, podia dizer que se tratava de um francês, e não era nobre. — Os soldados ingleses me tiraram da minha casa – gritou, fingindo chorar. – O senhor precisa me ajudar, por favor! O homem se aproximou dela lentamente, como se ela fosse um cavalo que se assustasse facilmente. E se ele não fosse um dos assaltantes? E se ele simplesmente fosse algum camponês que tinha apenas a intenção de ajudá-la? Sim, ele tinha uma espada, mas... O homem passou os olhos sobre ela, que soube, com certeza absoluta, que ele pretendia lhe fazer mal. E quando tivesse acabado com ela, mataria FitzAlan. Pôs-se de pé quietamente e esperou. Mais um passo. Um passo mais. Quando ele estava justamente do outro lado do tronco, nem a um metro e meio de distância, ele se lançou sobre ela. O impacto da resistência quando a ponta da espada que ela segurava penetrou no corpo do homem fez com que seu braço sacudisse. Apertou os dentes e pressionou à frente usando todo o peso do corpo. Por um longo e atroz instante, ele cambaleou, olhando-a fixamente com os olhos arregalados pela surpresa. Então caiu para trás, arrancando a espada das mãos dela. Ela saltou sobre o tronco e ficou de pé sobre ele, com o coração trovejando no peito. A espada. Ela precisava recuperar a espada!


Contendo a náusea, ela segurou no cabo da espada com ambas as mãos e puxou com força, mas não conseguia tirá-la. Suas mãos estavam frias, úmidas e pegajosas. O suor gotejava pelas suas costas, mas precisava recuperar a espada. Pôs o pé sobre o peito do homem e puxou, pondo todo o peso do corpo para trás. Por fim a espada cedeu com um som úmido de sucção. Ela cambaleou para trás, mas continuou segurando a espada. A lâmina gotejava com o sangue do homem, e ela não conseguia tirar os olhos de cima dele. Ouvindo o som de um forte grunhido atrás dela, virou-se e viu FitzAlan, com um braço sobre o tronco, tentando se apoiar. Um calafrio a atravessou ao se dar conta de que os olhos dele não estavam nela, mas fixos em algo atrás dela. O braço livre de FitzAlan se movimentou em um borrão e algo passou zumbindo pelo seu ouvido. Quando se virou para olhar, viu outro homem a um metro e meio dela. Com o punhal de FitzAlan cravado no peito. Ela estava atrás do tronco antes mesmo de se dar conta que havia se mexido. — Minha vista não está boa – disse FitzAlan com voz rouca. O rosto do pobre homem estava molhado de suor, e a atadura do pescoço estava gotejando sangue. – Mas acho que há um ou dois mais no bosque. Mais um ou dois? Ela engoliu saliva. — Estarei pronta desta vez. — Boa menina. Isobel segurou a manga de FitzAlan para aliviar-lhe a queda quando ele escorregou para o chão.


Capítulo 19 Isobel estava vigilante como antes. A cor de FitzAlan não estava nada boa. Nada boa, em absoluto. Ela se inclinou e pôs o ouvido no peito dele de novo. Bum, bum, bum. A força das batidas do coração dele tranquilizou-a. Ouviu um rangido, abriu os olhos e viu um homem a pé puxando um cavalo, através das árvores. Era inútil se esconder. O esconderijo não os protegia por aquele lado e o homem já os havia visto. Ela se pôs de pé e se posicionou diante de FitzAlan. O homem parou a vários metros de distância, dando-lhe tempo para notar o brilho da prata na sela do cavalo e das finas roupas. Esse era nobre. Um nobre francês. — Lorde FitzAlan, o grande comandante do rei inglês, reduzido à proteção de uma simples mulher. – Meneou a cabeça e esboçou um grande sorriso perplexo. – A senhora é absolutamente esplêndida, querida senhora, mas sem esperanças, no entanto. Então não se tratava de um ataque aleatório?! Esses homens sabiam onde estavam Stephen e FitzAlan. De alguma forma ficaram sabendo que FitzAlan havia saído sem seus homens nesse dia. Mas, como era possível?! Quem podia tê-los delatado? E como é que ficaram sabendo tão depressa desse fato? O homem deu um passo à frente e ela gritou: — Alto! — Não vou lhe machucar – disse o homem com voz calma. – Eu vim atrás de FitzAlan. — O que vai fazer com ele? — Levá-lo para pedir resgate. – E deu mais um passo adiante. – FitzAlan é um grande prêmio, sabe. Isobel não acreditou nele nem por um instante. Aqueles homens haviam tentado matar FitzAlan desde o começo. — Alto! – Ela gritou outra vez quando o homem avançou mais um passo, e continuou apontando a espada para ele. — Vou ter que lhe levar comigo, do contrário, ninguém vai acreditar em mim – disse, soando divertido. –Sou capaz de apostar que seu marido vai pagar uma bela soma para lhe ter de volta. Uma calma fria se apoderou dela quando se deu conta de que teria que lutar com ele. Sentiu uma onda de gratidão por Stephen. O treino diário havia melhorado em muito sua técnica. Mas, será que seria suficientemente boa? Olhou para o homem outra vez para avaliá-lo, como Stephen havia lhe ensinado. Nada nele a tranquilizava. Era mais alto e mais forte do que ela. O que mais a preocupava era que ele caminhava com uma graça natural que lhe sugeria que seria rápido e leve com os pés. Maldição, que inferno, que inferno! O que é que Stephen havia lhe dito que fizesse? Veja onde está sua vantagem e use-a. Vestida de homem, era uma verdadeira lástima que não pudesse levantar as saias para mostrar os tornozelos... Lembrou-se reação de Stephen com as malhas e desabotoou a capa com uma das mãos. Quando ela encolheu os ombros para que a mesma caísse, o homem deixou cair a ponta da espada e ficou olhando para suas pernas, boquiaberto. Antes que pudesse superar a surpresa por ter funcionado tão bem, ele foi levantando o olhar até se encontrar com os seus olhos.


— Sou capaz de apostar que seu marido enche as mãos com você. O tom de voz dele ainda era divertido, mas tinha nos olhos um brilho que a fez retroceder. — Eu adoraria estar perto quando a senhora fosse explicar para ele como acabou viajando sozinha com FitzAlan e o irmão dele..., vestida de homem... Recuando, ela bateu com o calcanhar no indefesso FitzAlan. Não dava para retroceder nem mais um passo. Com o homem a apenas um metro mais ou menos do alcance da sua espada, ela não podia adiar mais para começar a farsa. Fez um giro torpe na direção dele com a espada. Dessa vez, ela não perdeu a chance. Quando o homem jogou a cabeça para trás, às gargalhadas, ela se lançou sobre ele com a espada apontando-lhe diretamente ao coração. No último instante, ele saltou para trás e se salvou. — Ora, ora, ora..., você é cheia de surpresas! – Estava sorrindo, mas com a espada preparada agora. Ela já não tinha mais truque algum. Não lhe restava mais nada a fazer a não ser lutar o melhor que pudesse. Ele arremeteu contra ela, forte e rápido, que se esquivou do primeiro ataque. Depois do segundo, e do terceiro. Mas ele era rápido e forte, e mais hábil do que ela. — Vejo que é verdade que o cavalheirismo morreu entre a nobreza francesa – zombou ela. – O senhor é o pior tipo de covarde por atacar um homem gravemente ferido e uma mulher indefesa. — Você dificilmente está indefesa, querida. – Estava dando voltas, esperando que ela afrouxasse a guarda. – Preciso lhe perguntar, quem foi seu mestre? Será que tinha uma pequena vantagem, apesar de tudo? Pela forma com a qual ele estava lutando, só estava tentando desarmá-la. Ela lutava sem essa restrição. Matá-lo-ia se ele lhe desse a mínima chance. À medida que avançavam e recuavam, as espadas se chocavam, mas ele não demonstrava nenhuma preocupação por perder. Na verdade, parecia que o homem estava se deliciandocom tudo aquilo. Ela girou em círculo, virando-se a tempo para bloquear mais um ataque. Santo céu, aquele idiota estava se exibindo! No próximo giro ela estava preparada. Lançou-se sobre ele de repente, pondo no ato todo o peso do corpo. Só que, de alguma forma, ele deu um jeito de se agachar e ficou abaixo da sua espada, e ela caiu, estatelando-se à frente, e ficou sem fôlego quando ele a pegou pela cintura. — Você tentou me matar! – disse o homem. E bateu no pulso dela com o canto da mão. A dor aguda entumeceu-lhe a mão, e ela soltou a espada. — Por causa disto, farei com que veja FitzAlan morrer – disse. – Ele deve significar muito para a senhora para que arrisque a vida por ele assim. Ela gritou, esperneou e mordeu enquanto ele a arrastava com apenas um braço até onde FitzAlan jazia imóvel ao lado do tronco. Segurando-a contra a lateral do próprio corpo com um braço, levantou o outro com a espada sobre FitzAlan. A atadura em torno do pescoço de FitzAlan parecia um alvo sangrento. — Não, não! – gritou ela. Ele ergueu a espada mais alto. Desesperada para detê-lo, puxou para um lado, pegou o braço que estava erguido e se aferrou a ele. O homem a jogou no chão. A cabeça de Isobel bateu contra algo duro, deixando-a tonta. Quando a visão clareou, viu-o levantar a espada de novo. Arrastando-se pelo áspero chão de gatinhas, Isobel jogou-se em cima de FitzAlan. O homem acima dela lhe gritava uma ladainha de maldições, mas Isobel lhe devolvia aos gritos todas elas. De repente, ele a colocou de joelhos agarrando-a pelo cabelo. Ela levantou o olhar para o rosto do homem, transfigurado pela raiva, e se preparou para apanhar na cara.


Quando ele virou o braço para trás para lhe bater, ouviu um rugido. O homem se virou, com o braço congelado no ar. Pelo rabo do olho ela viu um borrão se movimentando, através das árvores. Thunk! Isobel ficou olhando a ponta de uma lâmina que sobressaía do oco do olho esquerdo do homem, por onde o sangue brotava aos borbotões, salpicando-a. Inclusive quando o aperto no seu cabelo se soltou e ele caiu no chão, sua mente ainda não conseguia compreender o que havia acontecido. Sentiu o corpo balançar justamente antes que braços fortes a amparassem. Stephen estava abraçando-a. Estava deixando-a sem fôlego, mas ela não se importava. Enquanto ele cobria seu rosto de beijos, ela respirava sofregamente, de boca aberta, e sua respiração saía como soluços sufocados. Ele murmurava palavras no seu cabelo, palavras que ela não conseguia entender, mas a voz dele acalmou-a. Ela não sabia dizer por quanto tempo ele a segurou assim. Poderia ter sido uma eternidade, mas nunca seria suficiente. Assim que o coração parou de bater violentamente, voltando ao ritmo normal, e os soluços diminuíram, uma densa onda de esgotamento caiu sobre ela. O chão coberto de folhas do bosque se amontoava debaixo dela. — Obrigada – sussurrou, e fechou os olhos.

Stephen entrou com a montaria no bosque, arriscando o cavalo, praguejando contra si mesmo por ter demorado tanto. Mas também, que inferno, havia muitos deles. Ele foi à carga contra eles, movimentando a espada de um lado para o outro. Matou os dois na primeira incursão, mas com os outros dois demorou mais tempo. Enquanto lutava contra eles, os demais se dispersaram. Alguns se foram para o outro lado do campo, mas lhe pareceu ver que pelo menos dois estavam indo para o bosque. Por isso ele estava cavalgando como um louco dentre as árvores. Direcionou o cavalo diretamente para o tronco onde havia deixado Isobel e William. Quando os viu, sentiu o coração como que parar no peito por alguns instantes. O corpo de Isobel estava estendido sobre o de William. Um homem estava de pé sobre eles, segurando uma espada. Oh Deus, não! Eles estavam mortos! Era tarde demais! Com o som do cavalo batendo contra as árvores, ouviu os gritos de Isobel quando o filho de Satanás a ergueu pelo cabelo. Stephen era muito bom com a faca, – havia aprendido com William, afinal de contas, – mas, será que conseguiria se arriscar a atirar, com Isobel tão perto? Quando o homem levantou o braço de novo para bater nela, um grito de raiva e loucura brotou da garganta de Stephen. Enquanto ia à carga com um grande estrondo contra o homem, atirou a faca por entre as árvores. Em seguida, em um só movimento, saltou do cavalo ainda galopando e puxou Isobel para os seus braços. Nada em sua vida voltaria a ser tão bom quanto segurá-la contra si naquele instante.


Stephen queria chorar de alívio. Deus do céu, que mulher! Lutou como uma loba, gritando maldições para aquele homem. Que Deus a abençoasse, pois ela usou o próprio corpo para proteger William! Quando os joelhos dela cederam, levou-a até o tronco e abraçou-a, enquanto esquadrinhava o bosque. Podia ter mais um ou dois no bosque ainda. Quando viu os dois corpos que jaziam no chão, expulsou o ar com um assobio. Graças a Deus! Virou-se para ver como William estava. Oh, Deus, como William estava pálido! Movimentandose com rapidez, tirou o odre de dentro da roupa e segurou-o contra a boca de Isobel até que ela bebeu. Assim que ela conseguiu se sentar por conta própria, caiu de joelhos ao lado do irmão. O pulso de William estava forte, mas ele havia perdido muito sangue. Se conseguisse levá-lo para um lugar seguro, breve ele poderia estar a salvo. Ao substituir a atadura ensanguentada por um pedaço do tecido da própria camisa, olhou para Isobel, que estava quase tão pálida quanto William. — Precisamos agir rápido, – disse ele – onde estão os cavalos? A pergunta pareceu tirá-la daquele aturdimento. Levantou-se no ato, dizendo: — Vou buscá-los. Enquanto segurava a cabeça de William e lhe derramava cerveja garganta abaixo, William abriu os olhos. — Um pouco lento, não? – disse William em um fraco sussurro. Bom Deus, William estava se divertindo à custa dele! — Vou ter que amarrá-lo no cavalo – disse Stephen. William tentou assentir e fez uma careta de dor. Stephen levantou os olhos e viu Isobel se aproximando dentre as árvores, trazendo os cavalos. — Pronto? – perguntou para William. – Um, dois, três! William arquejou quando Stephen o levantou e o colocou sobre o tronco. Diante do assentimento de Stephen, Isobel colocou o cavalo de William ao lado deles e o segurou firme. — Vamos lá, um, dois, três! – disse ele de novo para advertir William, e em seguida o levantou e colocou-o montado na sela sobre o cavalo. William colocou os pés nos estribos antes de cair à frente sobre o pescoço do cavalo. Menos mal que William estava inconsciente para perceber as coisas. Enquanto amarrava seu irmão à sela, olhou para Isobel por cima do ombro. Ela já estava montada e à espera do sinal dele, com o rosto sério e atento. — A abadia fica mais perto daqui – disse ele, mantendo a voz calma. – Não quero lhe assustar, mas precisamos chegar lá o mais rápido possível. Os monges saberão o que fazer para ajudar William. Só que ele não lhe disse o outro motivo para se apressarem. Se aquele não havia sido um ataque aleatório, e ele desconfiava que não..., aqueles homens não se dariam por vencidos tão facilmente, e passariam a caçar outra presa. Também poderiam fazer parte de um contingente maior. Stephen montou e saiu na frente, porque estava puxando o cavalo de William. Por duas vezes Isobel precisou chamá-lo para que ele parasse, pois William estava escorregando do cavalo, e tiveram que parar. Ele pediu a Isobel para que ela continuasse montada e com o olhar no horizonte enquanto amarrava as cordas de novo. Quando a abadia finalmente surgiu à vista, fez uma prece silenciosa de agradecimento. Deus estava com eles, com certeza.


Quando estavam se aproximando, as portas se abriram e Jamie e Geoffrey saíram correndo. Jamie foi imediatamente até William. — Qual a gravidade dos ferimentos dele? – Jamie já estava com uma faca na mão, preparado para cortar as cordas. — É melhor deixá-lo sobre o cavalo até estarmos lá dentro – disse Stephen enquanto jogava as rédeas para Jamie. Jamie montou e se posicionou atrás do pai. Inclinando-se protetoramente sobre William, esporeou o cavalo e passou pelas portas, cruzou uma estreita ponte e subiu um breve aclive até o pátio externo da igreja. Com os monges atrás deles, virou o cavalo ao longo da lateral da igreja e passou por uma porta em arco. Stephen abaixou a cabeça para passar por baixo do arco, enquanto seguia Jamie. Com uma pontada de inquietude, deu-se conta de que estavam no claustro dos monges. Deus poderia perdoá-los por levar cavalos àquele tranquilo lugar, mas os monges não. — A enfermaria fica lá – disse Jamie, apontando para uma porta no lado oposto do pequeno pátio. Juntos cortaram as cordas e tiraram William da sela. Jamie ficou pálido quando a cabeça de William caiu para trás, expondo a atadura ensanguentada em torno do pescoço. Stephen olhou para os olhos assustados do sobrinho. — Não há ninguém mais forte do que o seu pai. Ele vai conseguir. – Stephen precisava acreditar nisso, também. — Com a ajuda de Deus. Stephen se virou para ver quem havia falado. Era um monge bem idoso, com as costas curvadas e o cabelo branquíssimo, com tonsura. O monge apontou com a mão a porta baixa, para Jamie,e os seguiu para dentro. Quando puseram William sobre uma cama a um canto, ele gemeu. Não acordou, mas estava vivo. — Tragam-me a lamparina – disse o monge,sentando-se em um banquinho junto à cama. Enquanto Jamie ia buscar a lamparina do outro lado do quarto, o idoso monge colocou o ouvido sobre o peito de William. — O coração dele é forte, e consegue puxar o ar – disse o monge se endireitando. – Tirem a atadura. Stephen se ajoelhou ao lado da cama. Assim que cortou a atadura ensopada de sangue, o monge limpou o ferimento usando uma tigela de água que pareceu tirar do ar. O monge estalou os dedos para Jamie e apontou vários vasos com plantas em uma estante. Mais rápido do que parecia possível, misturou os ingredientes e fez uma pasta fedorenta. — Mais algum ferimento? – perguntou o monge enquanto passava a pasta com os polegares, inclinando-se sobre o ferimento, que ressumava. — Só esse, – disse Stephen – por onde entrou a flecha. — Ele acordou desde então? — Uma vez, brevemente, faz mais de uma hora. — Essa foi a segunda vez – disse Isobel atrás dele. Ao ouvir a voz dela, Stephen não havia se dado conta que ela os seguira até lá dentro. Estava grato pela presença dela. Consolava-o tê-la perto. — Havia um homem, a quem eu não havia visto – disse ela, com a voz trêmula. – Lorde FitzAlan atirou uma adaga que se cravou no coração do homem. Stephen pegou sua mão e a apertou, depois beijou seus dedos gelados. — Assim é William, acordando só quando é necessário para salvar o dia. Ele é o melhor homem que conheço.


Stephen ouviu um som sufocado atrás de si, pôs-se de pé e passou um braço pelos ombros de Jamie. — Foi por minha causa que ele foi ferido – disse Jamie com voz cansada. — Não, a culpa é minha, não sua – disse Stephen, sentindo todo o peso dos próprios erros. – Eu sinto muito. Os ouvidos do velho monge ainda eram apurados. — Foi pela vontade de Deus que este homem foi ferido – disse sem se virar. – E com a ajuda de Deus, ele vai sobreviver. Ele se virou no banquinho e esticou o pescoço para olhá-los. — Todos vós sois grandes companheiros, não é mesmo? Vai levar algum tempo para que ele recupere a antiga força, mas vai se curar. — Ele vai se recuperar? – perguntou Jamie. — Ainda não está fora de perigo. Mas sim, creio que vai. – O monge fez um movimento, como que os espantando com a mão, para Stephen e Isobel. — Leva a mulher daqui e deixe o jovem comigo. Preciso de somente um par de mãos para me ajudar. Stephen assentiu com a cabeça, mas disse: — Primeiro preciso falar com o meu sobrinho. – O melhor era acabar logo com aquilo. – Eu sei que lhe dói o que lhe contei – disse, quando foi com Jamie para o canto mais afastado do quarto. – Tudo aconteceu faz muito tempo, quando sua mãe era não muito mais velha do que você agora. Não sou eu quem vai lhe contar tudo, mas você tampouco pode julgá-la. Ela fez o que tinha que fazer para sobreviver. Jamie manteve o olhar fixo no chão e os lábios apertados, mas estava ouvindo. — William foi um pai para você desde que você era uma criancinha de três anos – disse. – Ele sempre soube que vocês dois não têm o mesmo sangue, mas para ele, você é o filho do coração. – Jamie assentiu e limpou o nariz com a manga. — Ele é o melhor pai que existe. — Mas, e quanto à sua mãe? — Eu gostaria que ela estivesse aqui. – Sussurrou Jamie. – O resto já não parece importante agora. Stephen apertou fortemente o ombro de Jamie e o levou de volta até a cama onde William estava deitado. Devido aos cuidados do velho monge, a cor de William já estava muito melhor. Parecia que estava descansando comodamente. — Seu pai está em boas mãos – disse Stephen. – Ele vai ficar bem, tenho certeza disso. Dessa vez, quando o velho monge os expulsou, Stephen agradeceu-lhe por tudo e se foi com Isobel. Lá fora, no claustro, eles se encontraram com Geoffrey, que os esperava. Com ele estava um homem alto, com aspecto diferente dele, que só podia ser o abade. — Estamos muito gratos pela sua hospitalidade – disse Stephen depois que Geoffrey os apresentou. O abade pegou Stephen pelo braço e caminhou um pouco com ele pelo corredor. — Damos as boas-vindas aos viajantes, é claro, mas estes são tempos muito difíceis – disse ele em voz baixa e meneando a cabeça. – E nós somos apenas uma pequena abadia. É..., difícil..., para nós..., alojar hóspedes femininas..., comodamente... Stephen desconfiou que o abade não estava tão preocupado com a comodidade de Isobel quanto com a paz dos irmãos da abadia. Ter uma bela mulher, – vestindo nada menos que calças justas – dentro dos limites da pequena abadia, era um interrupção que o abade não queria.


— Não vamos ficar aqui por muito tempo – assegurou-lhe Stephen. – Pretendo viajar de volta para Caen me valendo da escuridão da noite para me proteger e voltar no dia seguinte com um grande contingente de soldados. O abade arregalou os olhos, alarmado. — Só temos dois pequenos quartos para hóspedes... – começou o abade com voz queixosa. — Se for seguro mover meu irmão – Stephen interrompeu-o – nós todos vamos partir ao meiodia de amanhã. O abade soltou um suspiro de alívio. — Um dos nossos irmãos foi criado no povoado aqui ao lado. Ele pode lhe ajudar na primeira parte do caminho em meio à escuridão. O abade queria mesmo que eles se fossem. — Vou trazer comida da hospedaria para vocês – disse o abade. — O senhor é muito gentil – disse Stephen. – Será que depois de comermos eu poderia levar Lady Hume para dar um passeio? — Um passeio seria justamente o que ela precisa para se acalmar – disse o abade, animando-se diante da perspectiva de ter Isobel fora durante a tarde. – Há uma trilha muito bonita que margeia o rio e fica à altura da nossa horta. O terreno fica dentro dos muros da abadia, por isso é bastante seguro. Stephen almoçou com Geoffrey e Isobel na pequena mesa no quarto dela. Enquanto comiam, perguntou a Isobel o que havia acontecido depois que ele os deixou no bosque. Stephen sentiu o estômago tenso quando ela contou. Quão perto ele estivera de perder os dois! E ficou sem fôlego ao pensar nisso. Esperava que Isobel não se desse conta de que aqueles homens iriam violá-la primeiro, e desejou não saber disso ele mesmo. A imagem do corpo dela sobre o de William, quando pensou que os dois estavam mortos, ficaria gravado na sua memória para sempre. Pegou a mão de Isobel, sem se importar com o que o irmão dela pudesse pensar. — Um passeio ajudaria a afastar da mente de todos nós tudo o que aconteceu – disse. – O abade me disse que há uma trilha pela qual se pode caminhar ao longo do rio. — Se vamos embora amanhã, – disse Geoffrey, pondo-se de pé – eu gostaria de passar esse tempo rezando diante da relíquia sagrada da abadia. Isobel lhe sorriu levemente. — Foi para isso que você veio até aqui. — Mas, por favor, leve Isobel – insistiu Geoffrey. – Esse passeio vai fazer muito bem para ela. O irmão de Isobel era ingênuo às raias da loucura. Stephen sabia muito bem o que aconteceria se os dois saíssem sozinhos naquela tarde. Depois daquele encontro com a morte, nenhum deles tinha qualquer probabilidade de tomar cuidado desta vez. Stephen se pôs de pé quando Geoffrey se dirigiu à porta. — Vou rezar pela recuperação de Lorde FitzAlan – disse Geoffrey. — Obrigado – disse Stephen. E acrescentou, olhando para Isobel: – Todos nós estamos precisando das suas orações hoje, Geoffrey. Quando os passos de Geoffrey fizeram eco no chão de pedra fora do quarto, Stephen estendeu a mão para Isobel. Agora sabia o que queria. Se ela estivesse disposta, poderia tê-la. Isobel o olhou nos olhos, sem fingir que não estava entendendo. Então ela pegou a mão dele.


Capítulo 20 Isobelviu a fomenua e crua nos olhos de Stephen. Se fosse rechaçá-lo, deveria fazê-lo agora. Pegou a mão dele. Hoje ela pouco estava se importando com o que era certo ou errado, sábio ou temerário. Dessa vez ela tomaria o homem que queria, não o homem que devia. Dar-se-ia o gosto daquele presente, e sem pensar no que viria depois. Não havia falsidade entre eles. Nenhum fingimento quanto ao que pretendiam fazer. Sem uma palavra entre eles, Stephen pegou as cobertas de lã do catre, dobrou-as e colocou-as debaixo da capa. Seguiram pelo corredor de pedra, passando pela cozinha. Mais além da horta, encontraram a entrada que conduzia à trilha do rio. Felizmente, não estava na época da colheita de maçãs no pomar, nem era a hora do dia na qual recolhiam as linhas de pesca para a ceia dos monges. Não havia vivalma , nem rastro, na trilha do rio. Assim que saíram de vista dentre as árvores, Stephen colocou o braço em torno dos ombros dela, que suspirou e se apoiou nele. Parecia-lhe correto caminharem assim. Depois dos angustiosos acontecimentos daquela manhã, o canto dos pássaros e o gorgolejar do rio a apaziguaram. O sol havia saído e o ar não tinha nada do frio de março ao qual ela estava acostumada em Northumberland. A primavera se antecipava ali. As árvores estavam cheias de brotos, e os açafrões assomavam a cabeça brilhante fora do solo. Uma paz inesperada a inundou. Nenhum dos dois falou até que chegaram a uma bifurcação no caminho. — Continuamos ao longo do rio, ou vamos até o pomar? – perguntou Stephen, agitando o braço primeiro numa direção, depois na outra. O sorriso assimétrico de Stephen fez com que ele parecesse tão atraente que, impulsivamente, esticou-se até tocar-lhe o rosto. Assim que seus dedos tocaram aquela face barbeada, o sorriso sumiu do rosto dele. Os olhos escureceram, provocando uma corrente de desejo através dela que quase enroscou os dedos dos seus pés. — Venha – disse ele, e a levou pala mão ao longo da trilha do pomar. Caminhavam com uma sensação de urgência agora. Como a trilha ia encosta acima, as folhas das árvores que cresciam perto do rio ficaram para trás. Entraram em um campo que em breve seria semeado com trigo ou centeio. Além do campo ficava o pomar de maçãs. Tinha uma velha granja no meio dos dois, cuja porta de madeira estava pendurada em ângulo. — Este lugar é tão bonito – disse ela, olhando em torno. – O que será que faria um morador abandonar esta granja? — Provavelmente ele teve que ir embora daqui, – disse Stephen, levantando a porta para abrila – quando seu senhor deu estas terras para a abadia. Enquanto Isobel passava por cima do batente, viu que a granja havia sido abandonada fazia muito tempo. O sol entrava profusamente através dos buracos no teto de palha, mas as paredes ainda não haviam começado a desmoronar. Havia montes de folhas nos cantos para onde o vento as havia soprado. Seu coração subiu até a garganta observando Stephen afastar os escombros do piso de terra com a bota e estender uma das mantas ali. Sabendo o que aconteceria a seguir, repentinamente ficou nervosa. Stephen se virou e pegou suas mãos.


— Tem certeza de que é isso que você quer? – perguntou ele com voz tranquila. – Ainda podemos voltar. — Eu quero ficar. – Respondeu como ele gostaria de ouvir. Com Stephen, nunca poderia fingir que era seduzida contra a própria vontade. Viu o pomo de Adão de Stephen subir e descer enquanto ele engolia em seco. Afastou um fio de cabelo dele do rosto, seguindo-o com os olhos. — Não quero que você sinta remorso – disse ele. — Não vou sentir remorso algum. Quando isso não pareceu suficiente para reconfortá-lo, ela disse: — Se eu tivesse morrido hoje... – Ela passou a língua sobre os lábios secos e fez outra tentativa.O que eu nunca lamentaria é saber como é se deitar com um homem que eu quero que me toque. Nunca teria conseguido ser tão atrevida assim para dizer isso para outro homem. De alguma forma, sabia que Stephen não a julgaria nem a faria se sentir mal por isso. Quando ele não fez nenhum movimento na direção dela, ficou nas pontas dos pés e tocou os lábios dele com os seus. Os lábios de Stephen eram muito macios e quentes, e o beijo, insuportavelmente doce. Havia esperado luxúria, não aquela ternura que brotava no seu peito até que pensou que poderia explodir por isso. Quando pousou os calcanhares no chão, ele segurou seu rosto com as duas mãos e passou um polegar ao longo da sua face. — Se você mudar de ideia, é só me dizer – disse ele. Mas ele não queria isso tanto quanto ela? — Mas espero que não faça isso – acrescentou, antes que um sentimento ruim pudesse se fixar. Então, levantou-a nos braços e a segurou contra o peito. Os olhares de ambos estavam unidos enquanto ele se ajoelhava e a colocava sobre a cama improvisada. Quando sua boca encontrou a dela, sentiu como se continuasse afundando. O beijo era quente e profundo, cujas línguas se esfregavam uma contra a outra. Quando ele se afastou, ela quase se queixou..., exceto que os beijos que lhe dava ao longo da lateral do rosto lhe faziam muito bem. Um profundo suspiro escapou dela, que se entregou à próxima incursão daqueles lábios. Ele pressionou beijos ao longo da mandíbula e atrás da orelha de Isobel. E enquanto descia pelo pescoço, ele desabotoou sua capa e a empurrou para fora dos ombros. — Amo este local, exatamente aqui – disse, e passou a língua ao longo da depressão acima da sua clavícula. Ela havia se esquecido de que ainda estava com a roupa do irmão, até que sentiu o calor da respiração de Stephen através do tecido, na garganta. Querendo sentir a boca dele contra a pele, começou a tirar a túnica e a camisa que se interpunham entre os dois. — Permita-me – disse ele, segurando-lhe as mãos. – Por favor. Sorrindo, ele se apoiou nos joelhos, desabotoou a própria capa e jogou-a em um canto. Ergueulhe a túnica e começou a puxar a camisa de dentro das malhas muito devagar. O tecido de linho macio fez atrito com a sua pele, seguido por uma corrente de ar fresco. Ela nunca teria adivinhado que os lábios, a língua e o cabelo solto dele produzissem um contato tão gostoso contra a pele nua do seu ventre. Enquanto ele avançava pouco a pouco e lentamente até em cima, expondo mais pele enquanto o fazia, sentiu uma pressão no próprio ventre. Oh, meu Deus! Ela estremeceu pelas sensações que percorriam o seu corpo. Quando ele parou abruptamente e puxou de novo a camisa acima do estômago, ela abriu os olhos. Stephen estava de quatro sobre ela, com uma expressão de preocupação no rosto. — Você está com frio.


— Não, não estou – disse ela. O brocado da túnica de Stephen era áspero debaixo dos seus dedos enquanto ela o segurava e o puxava para baixo. Apesar do beijo profundo e lento que ela lhe deu, ele continuou com o corpo afastado do dela. — Quero sentir você contra mim – sussurrou ela. — Oh, Isobel, – disse ele, escorregando para o lado dela e enterrando o rosto no seu pescoço – você ainda acaba comigo. Segurou-a apertado contra o próprio corpo para que ela pudesse sentir seu calor, da cabeça aos pés. Ela pressionou o rosto contra o dele, bloqueando o fraco odor de maçãs podres do pomar e o odor mais pesado do teto de palha mofado. Ela queria sentir o cheiro dele. Somente o cheiro dele. Cheiro de cavalo, de suor limpo, de lã e de couro. E, simplesmente, o cheiro de Stephen. Quando a beijou de novo, não conseguiu se conter. A paixão explodiu entre eles. Ela envolveu os braços nele e pressionou o corpo contra ele até que nem uma folhinha de grama pudesse caber entre eles. E mesmo assim, ela ainda não estava perto o suficiente. Quando ele rodou e se posicionou sobre ela, a sensação foi tão boa que ela afastou a boca para dizer-lhe isso. Mas, antes que pudesse sequer formar as palavras, ele foi deslizando para baixo do seu corpo, beijando-a através do tecido até que, mais uma vez, encontrou sua pele nua. A boca de Stephen lhe provocava coisas tão boas no seu ventre quanto da primeira vez. Enquanto ele subia, ela sussurrou: — Só não pare desta vez. Ele foi subindo tão devagar que seus seios ansiavam pelo toque dele muito antes de Stephen chegar a eles. Mal tinha consciência do que estava fazendo, pois passou as próprias mãos sobre eles. Ouviu Stephen gemer e sentiu duas mãos, grandes e quentes, cobrirem as dela. — Céus, Isobel, – sussurrou – você não consegue esperar que eu vá devagar? — E você precisa ir tão devagar? Ele fez um som meio estrangulado e levantou a mão para pressionar a palma contra a sua boca. Quando passou a língua em círculos sobre ela, sentiu o mamilo endurecer através do tecido debaixo da outra mão. Ela inspirou bruscamente enquanto ele passava o polegar ao longo da parte inferior do seu seio. — Mmmm – saiu da sua garganta quando ele arrastou a língua ao longo da linha na qual o polegar acabara de passar. Ela arqueou as costas, levantando os seios até ele. — Sim... – suspirou quando a outra mão deslizou por baixo da camisa – sim, isso – quando ele finalmente cobriu seu seio. A pele áspera do polegar sobre seu mamilo provocou ondas de sensações nas profundezas do seu ventre. Ela pensou em lhe dizer algo para incentivá-lo, mas então ele girou seu mamilo entre os dedos e os sons que chegaram aos seus lábios não se transformaram em palavras. Sentiu a morna sensação de umidade de uma boca no mamilo e se perdeu em um redemoinho de sensações. Como é que ele sabia como queria ser tocada antes mesmo que ela soubesse? Quanto mais a tocava, maior era a sua necessidade. Nunca, jamais teria imaginado que fosse assim. Ele a sentou e se apoiaram um contra o outro, ambos respirando com força. — Stephen, isto se parece com... – ela tentou, mas não conseguiu encontrar as palavras certas para descrevê-lo. — Podemos tirar isto? – perguntou, tateando a borda inferior da sua túnica. — Você primeiro – surpreendeu-se ela ao dizer.


Ele a recompensou com um amplo sorriso que lhe iluminou os olhos. Antes que ela percebesse, despojou-se da túnica e da camisa juntas com um rápido movimento, e se sentou diante dela com o peito nu. Ela soltou um longo suspiro quando passeou o olhar sobre os fortes e duros músculos do peito dele. Quantas mulheres já haviam olhado assim para ele, e o consideraram tão belo a ponto de lhes provocar dor? Não se permitiria pensar nas outras mulheres agora. Hoje ele era seu, e de ninguém mais. Ela estendeu as mãos e percorreu possessivamente seu peito, sentindo a aspereza dos pelos sobre músculos e nervos, e a pele quente. Assim, de perto, podia ver que no peito dele, os pelos estavam intercalados com uma ondulação de pelos castanhos avermelhados. Ela seguiu esses pelos até o ventre plano. Será que ele gostaria que ela o beijasse ali? Quando ela abaixou a cabeça para beijá-lo, ele segurou seus ombros e a puxou para cima do peito. Ela temeu ter feito algo errado, até que ele esmagou a boca contra a dela. — Agora é a sua vez de tirar a roupa. Todas elas, fora – ofegou contra seu ouvido. – Preciso lhe sentir nua, colada em mim. Ela ergueu os braços sem uma palavra e deixou que ele tirasse a camisa e a túnica pela cabeça. — Meu Deus, como você é bela! Uma vozinha no fundo da sua mente perguntava como é que um homem que já havia visto os seios de tantas mulheres conseguia soar impressionado. Quando ele levantou o olhar até o seu rosto, no entanto, ela viu que Stephen havia falado sério. Fosse lá o que fosse que ele pudesse pensar mais tarde, naquele preciso instante não queria mais ninguém, a não ser ela. Era suficiente. E quando Stephen a pegou nos braços outra vez, ela entendeu. Pele com pele, precisava ser assim. O torso dele era tão bom colado aos seus seios que ela teve que fechar os olhos para aguentar. O beijo que lhe deu foi tão terno e tão cheio de desejo que lhe pareceu que ele apertou seu coração com as mãos. Stephen, Stephen, Stephen... Nenhum homem poderia beijá-la assim, tinha certeza. A onda de luxuria que a percorrer fez com que ela se esfregasse contra ele como um gato. Sem parar de beijá-la, fê-la girar até que ela sentiu as fibras da manta de lã debaixo das costas. Ela deslizou as mãos sobre ele, celebrando a sensação da pele e dos músculos tensos debaixo dos dedos. Ele beijou sua garganta, então foi descendo até sugar um seio, depois o outro. Sensações alucinantes a percorreram até que ela arqueou o corpo contra ele, implorando por algo que não sabia bem o que era. Quando ele começou a tirar a parte superior das suas malhas, ela sentiu um instante de pânico. Era um pecado sério o que estava a ponto de cometer. Pelo menos não estava quebrando nenhum voto naquele breve intervalo entre casamentos. Era bem possível que ela ficasse grávida de Stephen. Porém, quais as probabilidades de acontecer se fizesse apenas uma vez? Nem uma vez ela concebeu em todos aqueles anos de casamento com Hume. Certamente o risco era pequeno. Em todo caso, casar-se-ia muito em breve. Stephen passou a língua ao longo do seu ventre, apagando todos esses pensamentos e temores da sua mente. Mesmo que nunca mais sentisse alegria e paixão tão temerárias quanto as que ela estava sentindo, tê-las-ia agora. Ergueu os quadris para ajudá-lo a escorregar as malhas até embaixo. Enquanto tirava primeiro uma perna, depois a outra, ele beijava suas coxas, joelhos, panturrilha. Chupou um dos dedos do pé enquanto deslizava a mão até em cima, na parte interna das coxas. Um tremor a sacudiu.


Ela estava completamente nua agora, e viu que o peito de Stephen subia e descia com força enquanto ele passava os olhos sobre ela. Aquele lento exame fez com que seu pulso batesse tão forte que pensou que ele poderia ouvir. Quando Isobel tremeu de novo, ele se deitou ao lado dela e estendeu a outra manta sobre eles. — Está suficientemente quente, meu bem? – perguntou ele, e beijou seu ombro. Ela assentiu com a cabeça e tentou se concentrar na sensação daquela mão calosa acariciando seu costado para cima e para baixo. Só não queria pensar naquele meu bem e amor que saíram da boca de Stephen. — O que há, Isobel? Ele era tão correto que não queria estragar tudo. Descansou a mão sobre o ombro dele e encontrou aqueles preocupados olhos cor de café. — Eu não sabia que isto seria tão bom – disse, e sentiu os rígidos músculos relaxaram debaixo dos seus dedos. Acariciou sua nuca com o nariz e, brincalhão, mordeu o lóbulo da sua orelha. Só que não era isso que ela queria agora. Quando ele deslocou a mão até seu seio, ela se virou para Stephen e lhe deu um beijo com a boca aberta. A brincadeira desapareceu. Com uma ferocidade que combinou com a dela, beijou-a em resposta. Agarrou seus quadris e ela gostou daquela sensação forte, possessiva, da mão dele ali. Quando ele foi deslizando a outra mão até embaixo, na parte interna das suas coxas, seu corpo inteiro ficou tenso pela antecipação. Sem dúvida não demoraria muito até que cometessem o ato final do pecado. O pensamento de tê-lo dentro de si provocou um espasmo que a percorreu inteira antes mesmo que os dedos dele alcançassem seu centro. Assim que a tocou, os dedos dele se movimentaram de forma que fizeram coisas mágicas com ela. — O que está fazendo? – perguntou, um tanto ofegante. — Se você não sabe, então seu marido era realmente um porco – murmurou. – Quer que eu pare? – Pelo tom de voz dele podia dizer que ele tinha certeza da resposta. — Mas..., mas... – Ela tentou falar, mas não conseguia se concentrar o bastante. – Eu nunca..., isto é tão..., tão..., tão... Ela esfregou as costas da mão contra o duro estômago de Stephen. Quando roçou o áspero tecido das malhas, segurou-lhe o antebraço para deter a mão dele. — Você não vai tirar as malhas, também? — O que é que você quer, Isobel? – A voz dele era suave, mas ouviu tensão nela. — Eu..., eu..., – Calou-se, envergonhada pelo que estivera a ponto de dizer. — Você precisa sentir que tem liberdade para me dizer seja lá o que for, meu amor – disse, tocando sua face. – Especialmente quando estamos na cama. Se ela iria ter aquilo apenas uma vez com ele, queria que fosse perfeito. Não saberia explicar por que não aguentava nem pensar nele tirando as malhas para tomá-la. Embora esse pensamento fizesse com que suas faces esquentassem, ela disse: — Quero você tão nu quanto eu quando nos unirmos. — Posso lhe dar prazer, meu bem, sem colocar meu pau dentro de você. A franqueza crua dessas palavras a sobressaltou. Era difícil pensar em passar de dar-lhe prazer e meu pau dentro de você. — Se vamos evitar o risco de você engravidar, é melhor que eu deixe minhas malhas onde estão. – Ele passou um dedo ao longo da lateral do seu rosto e disse: – Acredite, será mais difícil para nós pararmos a tempo se elas não estiverem no meu corpo. Ela olhou diretamente naqueles ternos olhos cor de café e se ouviu perguntar: — E precisamos parar?


Ele tossiu, então disse com um sussurro sufocado: — Quero que você tenha certeza. É uma escolha séria a que temos aqui. Pelo que ela entendeu, era uma escolha que ele fazia o tempo todo. Sentiu o coração apertar. — Você não quer? Os olhos dele brilharam, e a boca se abriu em um sorriso matreiro. — Ah, sim, sem dúvida alguma, eu quero – disse. – Na verdade, não consigo pensar em mais nada a não ser estar dentro de você. Essas palavras provocaram uma sacudida de desejo no corpo dela. — Faço todo o possível – disse, traçando seu lábio inferior com o dedo – para me abster de usar cada argumento que tenho para lhe convencer. Com voz pouco mais alta do que um sussurro, ela perguntou: — E quais argumentos são esses? — Não do tipo que você ouve. – Deu outro daqueles sorrisos malvados que quase faziam seu coração parar. Então ele a beijou até deixá-la sem fôlego. Quando levou a mão até os prendedores das malhas, ela sentiu uma fisgada na consciência quando seus dedos tocaram a dureza do membro de Stephen através do tecido. Esfregou a palma da mão pela longitude, deleitando-se com o gemido que ele soltou. Ela sugou-lhe a língua enquanto esfregava para baixo e para cima, arrancando novos sons do fundo da garganta dele. — Você vai fazer com que eu derrame meu sêmen como um rapazinho – disse ele, segurandolhe o pulso. Ela sorriu, satisfeita pelo desespero na voz dele. — Você disse que ia tirar as malhas. Ele se sentou de repente. Depois de alguns movimentos rápidos debaixo da manta, ergueu o braço no alto segurando as malhas e as fez voar pelo quarto. Dessa vez, quando a tomou nos braços e a beijou, estava completamente nu colado ao corpo dela. E, céus, como isso era bom! A sensação do membro dele empurrando contra o seu ventre provocou-lhe um estremecimento no corpo que foi direto ao seu centro. Ela mordeu-lhe o ombro enquanto percorria com as mãos abaixo da cintura, nas costas, sobre os músculos firmes e arredondados das nádegas masculinas. Ele deslizou a mão entre suas pernas. Enquanto os dedos dele davam voltas e mais voltas ali, ele engoliu seus gemidos com beijos profundamente líquidos. A respiração de Stephen chegava quente à sua orelha. — E isto, como é? — Eu..., eu... – O que foi mesmo que ele perguntou?! Não conseguia se concentrar em nada que não fosse o que ele estava fazendo com a mão. – Só não pare. Por favor! — Não vou parar, – disse ele com voz rouca – não até que você grite meu nome de tanto prazer. Ela não compreendia aquelas sensações brotando dentro dela. — Confie em mim. E ela confiou. Ele abaixou a cabeça e colocou a boca em um mamilo, sem parar de movimentar a mão lá embaixo. A tensão ia aumentando cada vez mais dentro dela. Podia senti-la nele, também. Na tensão dos músculos, no membro latejante contra sua coxa, o calor vibrando fora da pele. Enquanto sugava mais forte seu mamilo, ela pressionou o corpo contra a mão dele, querendo ainda mais.


Quando pensou que não suportaria mais, seu corpo estremeceu em ondas e mais ondas de prazer que sacudiram até sua alma. Oh Deus... Oh Deus... Oh, Deus! Depois, suas extremidades pareciam fracas e frouxas. A cabeça de Stephen descansava sobre o seu peito, e o coração dele batia selvagemente contra o estômago dela. Fazendo um esforço, ergueu a mão e acariciou suavemente o cabelo dele. Sentiu um pequeno aperto por dentro quando sentiu o membro ainda duro encostado à sua perna. Justamente quando a cabeça dele começava a pesar sobre seu peito, girou com ela para que ficassem deitados lado a lado, cara a cara. — Nunca senti isso antes – disse ela. Ele pegou seu rosto entre as mãos e lhe deu um beijo lento e profundo. Quando passou uma perna em torno dela, Isobel passou a mão sobre o músculo tenso da coxa e do glúteo. Beijaram-se por muito tempo, as línguas se esfregando uma contra a outra. Ela queria tocá-lo. Quando escorregou para baixo e passou o dedo ao longo do seu pau, ele inspirou fundo abruptamente. — Você poderia...? – Ele perguntou com voz tensa. Pegou a mão dela, colocou-a em volta do membro e movimentou as mãos juntas para lhe mostrar o que queria. Até mesmo ela compreendeu aonde isso ia chegar. Ela parou a mão. — Você disse que queria estar dentro de mim. Ele se afastou para trás para olhá-la no rosto. — Você não se entregou para nenhum homem além do seu marido. – Fez uma pausa, então perguntou: – Por que você me escolheu, Isobel? Por que eu? E o que lhe importava o motivo? — Você chegou longe demais no meu pecado. Agora quero saber tudo – disse. Certo, essa era apenas uma parte, mas estava longe de ser tudo. Havia decepção nos olhos dele? Dor? O que ele queria que ela dissesse? Que sabia que nenhum outro homem poderia fazê-la se sentir dessa maneira? — Você é o único a quem eu aceitaria. – Seu orgulho só lhe permitia confessar isso. – O único a quem eu desejo. Sentindo-se insegura, ela beijou-lhe a face e guiou a mão dele até onde ele a havia tocado antes. Perguntou-se com inquietude se ele iria sacudir a mão quando sentisse o quanto ela estava molhada. Em vez disso, ele gemeu, e esse som soou quase como que um prazer doloroso. Logo ela estava perdida naqueles beijos, no toque dele, no ardente calor entre eles. Ela mal notou quando ele a deitou de costas. Quando sentiu a ponta do membro contra sua abertura, tudo o que pôde pensar foi finalmente, finalmente, finalmente! Talvez ela tivesse gemido essas palavras em voz alta. Ambos ficaram sem fôlego quando ele empurrou dentro dela. Ela o envolveu com braços e pernas. Aferrou-se a ele enquanto se movimentava dentro dela, lentamente no começo, e depois, mais rápido. — Sinto muito. Não consigo..., aguentar muito..., desta vez – disse, ofegante. – Eu..., não consigo... Estava investindo contra ela, mais forte e mais rápido a cada empurrão. Mais forte, mais forte, mais duro, ela o incitava. Uma explosão de prazer varreu seu corpo, mais forte ainda do que antes, e ela gritou. Ele estava tentando se afastar dela, mas Isobel se agarrou a ele com toda força, recusando-se a soltá-lo. E então ele continuou investindo dentro dela, que gritou, chamando-o pelo nome vezes sem conta. Ele gritou com ela, que sentiu o sêmen de Stephen derramando dentro do seu corpo.


Quando ele finalmente ficou imóvel nos seus braços, ela o abraçou, dizendo o nome dele várias vezes, e beijando-o no rosto e no cabelo. — Meu Deus – murmurou ele sem levantar a cabeça. Rodou para um lado, levando-a com ele e colocando a cabeça dela debaixo do próprio queixo. Com voz amortecida, disse: – Isobel, meu amor, meu... Ela ouviu a respiração dele ficar constante. Será que ele havia adormecido? Nada maior do que um javali poderia tê-lo obrigado a se mexer, mas ela também estava emocionada demais para dormir. Inúmeras perguntas davam voltas pela sua cabeça enquanto tentava descobrir o que havia acontecido entre eles, e com ela. Ela se afastou um pouco, aproveitando para estudá-lo enquanto ele dormia. Um raio de sol incidia sobre o cabelo dele, e ela viu que o que parecia castanho avermelhado de longe, na verdade era vários tons de vermelho e dourado. O rosto era quase perfeito, para seu gosto. Ela gostava das retas sobrancelhas escuras, das maçãs do rosto, da mandíbula forte, do nariz afilado, da barba incipiente de um dia. A boca era generosa. Mesmo em repouso, os cantos da boca pareciam se erguer. Ela sentiu uma ternura angustiante por ele. Era apenas a gratidão pelos prazeres inesperados que ele havia lhe dado? Ou era outra coisa? Algo mais...? Afastou uma mecha de cabelo do rosto dele e suspirou. E que importância tinha isso? Lembrouse das últimas palavras da mãe para ela: Nós mulheres nascemos para sofrer. Sim, ela sofreria por causa disso. Mas não lamentaria jamais.

Stephen manteve os olhos fechados, não queria acordar para não descobrir que tudo que acontecera havia sido um sonho. Um sorriso se espalhou pelo seu rosto. Não, não podia ter sido um sonho. Sempre soubera que Isobel tinha uma natureza apaixonada debaixo daquele exterior sério, mas agora, Deus do céu, ele era um homem afortunado! Sim, devia admitir uma decepção. Ele não era tão estúpido a ponto de esperar que ela lhe professasse amor total. Porém, ela sequer admitia um apego particular por ele. Ela o desejava simplesmente? Certamente que só isso não era suficiente para uma mulher como Isobel cruzar a linha e se comprometer. Inclusive no final, quando ele tentou sair dela para preservar pelo menos alguma possibilidade de que ela pudesse mudar de ideia e evitar o casamento. Só Deus sabia o quão difícil havia sido isso! Sem dúvida alguma ela sabia por que o fazia. A resposta dela foi inconfundível: passou as pernas em torno dele como uma prensa. Havia sido o céu! Outros homens poderiam lhe dar prazer. Então poderia não ser essa a única razão pela qual ela o escolheu. Já que o único outro homem com quem ela estivera havia sido aquele velho marido, provavelmente não soubesse disso. Bom, agora, nunca saberia. Nenhum outro homem, exceto ele, iria tocá-la outra vez. Teria que cortar as mãos daquele De Roché se tentasse.


O forte desejo mútuo não era um mau começo para o casamento; era bem mais do que muitos tinham. Ela desfrutava da sua companhia. No entanto, esperava que visse nele mais do que um bufão encantador que a satisfazia na cama. Não, ele queria ser um homem melhor para ela. Ele abriu os olhos. A visão dela foi como uma punhalada afiada no coração. Ela estava inenarravelmente bela, com o cabelo despenteado, a suave pele clara e os sérios olhos verdes. — Dormi demais? – perguntou. Seus olhos ficaram suaves, e o indício de um sorriso levantou os cantos da sua boca. Sacudiu a cabeça ligeiramente. — Sou um estúpido por lhe deixar passar frio – disse, envolvendo-a nos braços. – Meu Deus, você está com o corpo todo arrepiado! Esfregou-lhe as costas e os braços até que ela riu e implorou para que ele parasse. Enquanto a abraçava, olhou para o teto para avaliar as horas pela luz que entrava pelos buracos. Decerto ela o ouviu suspirar, pois perguntou: — O que foi? — Precisamos voltar à abadia dentro de uma hora – disse. – Os monges jantam cedo. Se não voltarmos nesse meio tempo, alguém vai notar que continuamos ausentes. Ela encolheu um ombro de finos ossos. — Certamente você não quer ser a causa de mais pensamentos pecaminosos entre aqueles monges, não é? – Ralhou ele com um sorriso. – Você vai fazer com que eles façam penitência meses a fio. Quando ela riu da brincadeira, ele teve que beijá-la. E então, sem mais nem menos, estava duro outra vez. Pela maneira como os olhos dela se ampliaram quando ele se inclinou para olhá-la, ela notou, e os cantos dos seus lábios se levantaram. Era um sinal muito bom. — Você não precisa fazer mais nada além de olhar para mim, e eu lhe desejo. – Ele inalou o perfume estival das flores silvestres no cabelo dela e sentiu os mamilos endurecerem contra seu peito. Dessa vez ele pretendia tomá-la lentamente. Não sabia quando poderiam ter a chance de escapulir outra vez, então queria se certificar de que ela não o esqueceria tão rápido. Enquanto a beijava, perguntou-se vagamente se o rei iria bani-lo realmente para a Irlanda por causa disso. Se acontecesse isso, a próxima vez dos dois juntos poderia ser em um navio. — Você sente enjoo no mar? – perguntou entre mordidinhas no lóbulo da sua orelha. — Mmmmm? – perguntou ela, mas quando ele enfiou a língua na sua orelha e pressionou o membro na sua coxa, soube que ela já havia se esquecido da pergunta. Quando ela levou a mão para baixo e o agarrou, e ele também se se esqueceu. Ele era um homem que sabia como satisfazer uma mulher, e geralmente levava isso a cabo com deliberação. Mas isso..., isso era diferente. Com ela, era instinto e emoção. De toque em toque, ele acompanhava seus suspiros. Tratava de se apoderar de cada centímetro dela. Não havia necessidade de cautela dessa vez. Quando finalmente a penetrou, entrou com tudo. Ela lhe deu as boas-vindas e se movimentou no mesmo ritmo que ele. Dessa vez ele fez o ato durar. — Você é minha – disse ele, enquanto se movimentava dentro dela. – Só minha. Ela era dele. Agora e sempre. Mais tarde, foi invadido por tal ternura por ela que não conseguia encontrar palavras para lhe dizer. Não conseguia falar em absoluto, exceto para sussurrar contra seu cabelo: — Isobel, meu amor, meu amor... Enquanto voltavam de mãos dadas para a abadia, ele se sentia relaxado, feliz. Surpreendente o quão se sentia contente ante a perspectiva de se amarrar pelo resto da vida. Abandonar todas as


demais não lhe dava pontadas de remorso. Verdade seja dita, estava aliviado por ter posto um ponto final naquela parte da sua vida. Isobel era tudo o que ele queria. Stephen começou a traçar um plano. Para conseguir as bênçãos do Rei, devia organizar muito bem as coisas. Seria sábio ter William do seu lado quando fosse ter com o Rei. Uma pena que Catherine não estivesse ali para se valer da amizade de infância com o Rei Henrique. Mas Robert falaria por ele, também. O Rei insistiria para falar com Isobel. Isso não tinha como ser evitado, mas iria prepará-la. Tudo ficaria bem. Ele se encarregaria disso.


Capítulo 21 Isobel estava deitada na cama tosca e pobre do pequeno aposento sem janelas da abadia. A noite se alongava diante dela. À meia-noite, Stephen foi para Caen, prometendo voltar com vinte homens armados duas horas depois do alvorecer. Ela não o havia visto a sós depois de voltarem da horta. Quando foram ver FitzAlan, pôde ouvilo discutindo com o velho monge do lado de fora da porta da enfermaria. Assim que Stephen se acalmou, Isobel deixou-o para passar as horas restantes ao lado da cama do irmão dele. Estava tão esgotada que chegava a sentir enjoo. Mas, como iria conseguir dormir quando a áspera manta ainda tinha o cheiro dele? Segurou a manta contra o nariz e respirou fundo. Queria se lembrar de cada momento daquela tarde que passaram juntos. Cada carícia, cada olhar, cada palavra. A forma como seu estômago se revolveu quando o viu estender a manta no chão. A ansiedade e o desejo beligerantes nos olhos dele quando lhe perguntou se ela tinha certeza mesmo. Só que, depois daquele primeiro beijo suave, não havia nenhuma possibilidade de que ela sequer cogitasse mudar de ideia. Isobel passou os dedos sobre os lábios, recordando... Embora vívidas, as lembranças posteriores lhe provocavam um revolteio de sensações e emoções. Não tinha a mínima ideia que estar com um homem pudesse ser assim. Eram raros os casais que tinham esse tipo de paixão entre eles e que mal saíam da cama. Talvez porque fosse tão raro é que era tão perfeito. Independentemente do que os outros pudessem ter, tudo o que ela tinha era apenas uma tarde. A tarde da sua vida! Apertou os punhos e bateu na fina esteira debaixo dela. Depois da explosão de frustração, a desolação quanto ao próprio futuro se apoderou de Isobel como a carga mais pesada. As lágrimas correram pelas laterais do seu rosto até os cabelos. Talvez amanhã pudesse ser otimista sobre sua vida com De Roché, mas nessa noite não. Não quando o cheiro de Stephen ainda estava naquela manta e sua pele ainda ardia à lembrança do toque dele. Será que teria sido melhor não ter ido com ele até a horta? Seria melhor para ela não saber como era? Stephen não poderia ter sido mais gentil nem apaixonado. Deu-lhe tanto prazer que pensou que poderia até morrer por causa dele. Felizmente... Não, não podia desejar não ter feito... Era uma pecadora. E uma pecadora que não se arrependia de nada. Stephen fê-la se sentir como se fosse especial. Talvez esse fosse o segredo dele, a razão pela qual as mulheres se sentiam tão atraídas por ele. Fazia com que cada uma acreditasse nisso. Por um instante apenas, sentiu simpatia por Marie de Lisieux. Entendeu por que Marie não conseguia liberá-lo, mesmo quando era evidente para todos que ele já havia terminado com ela. Isobel tinha orgulho demais para tanto. E tinha um dever a cumprir. Mesmo que tivesse opção, coisa que não tinha, estava amarrada à promessa que fizera ao Rei. Ela não era como o próprio pai. Não deixaria de lado a lealdade e a honra a cada mudança do vento. Breve faria seus votos para De Roché. Votos sagrados. Somente por um instante se permitiu, em vez disso, imaginar que estava unindo suas mãos com as de Stephen. Espontaneamente, uma lembrança da infância lhe veio à mente. Uma lembrança do seu pai olhando para sua mãe com uma expressão de melancolia e dor insuportáveis. Sua mãe nunca se


preocupou com ele. Isobel sempre soubera, tanto quanto uma criança sabe, mas não entende. Seu pai amava a esposa com uma paixão sem esperança e desamparada. Ela mantinha uma indiferença cordial. Depois de perderem as terras, essa indiferença passou para uma completa inconsciência. Isso quase o matou. Pela primeira vez, Isobel viu o pai com olhos de adulta. Os grandes erros que cometeu foram atos desesperados. Ele sacrificou tanto a honra quantoa própria filha na vã esperança de que a riqueza e a posição pudessem finalmente trazer de volta o amor da esposa. Como seria infeliz se se casasse com Stephen! Diferente da sua mãe, que dedicou a vida a Deus, Stephen compartilharia os afetos com uma mulher atrás da outra. Certamente isso seria muito pior. Stephen era o tipo de homem que cedia facilmente à tentação. E tentação era só o que caía sobre o colo de Stephen a cada passo. Se ele fosse seu marido, como iria suportar compartilhá-lo com outras mulheres?! Não, não poderia. Não iria conseguir suportar. Mas como era ridícula! Estava ali, deitada na cama, furiosa com Stephen por traições imaginárias de um futuro imaginário! Ele não era seu marido, não havia lhe feito nenhum voto, nenhuma promessa. Apesar de ter lhe mostrado cálido afeto, havia sido levado pelo momento. Ele nunca lhe disse que a amava. Nem uma só vez. Em todo caso, seu futuro já estava determinado. Traçado, pronto e amarrado. Pela manhã, Stephen a levaria de volta a Caen. Para De Roché. Deitou-se de lado e se abraçou, encolhendo-se em uma apertada bola. E chorou, por tudo o que queria e não podia ter. Isobel acordou com o som de vozes e passos apressados do lado de fora da porta. Instante depois, seu irmão bateu e entrou, vestido e com uma espada na mão. — Uma dúzia de homens a cavalo está se aproximando rapidamente daqui – disse Geoffrey apressadamente. – E não são soldados ingleses. Isobel se sentou, com o coração acelerado, e viu Jamie à porta, atrás de Geoffrey. Ela se pôs de pé e segurou a espada enquanto Jamie entrava no quarto. — Temo que possam ser os homens que atacaram vocês três ontem, – disse Jamie – e agora voltaram porque querem o meu pai. Geoffrey tirou a capa dela do gancho atrás da porta, entregou-lhe e saíram correndo atrás de Jamie. Enquanto corriam cruzando o claustro, Isobel agarrou o braço de Geoffrey. — Será que eles teriam coragem de tirar FitzAlan à força de um lugar sagrado? O lúgubre aperto da mandíbula de Geoffrey lhe disse que era justamente o que pretendiam fazer. E pior. — E você acha mesmo que uma abadia possa detê-los? Geoffrey sacudiu a cabeça e passou à frente dela pelo arco e ao longo do caminho. Quando Isobel chegou diante da igreja, viu o abade superior e vários monges reunidos junto ao canal aberto que atravessava a parte interna do muro do perímetro. Do outro lado da estreita ponte sobre o canal, dois irmãos leigos estavam levantando a pesada barra que trancava a porta. — Não abram essa porta! O abade superior olhou sobre o ombro para eles enquanto fazia sinal para que os homens continuassem. — Leve FitzAlan para dentro da igreja. – Geoffrey gritou para ela enquanto corria colina abaixo atrás de Jamie. Isobel viu o sentido daquilo no ato. Até mesmos os ímpios hesitariam em tirar um homem de um santuário. Correu até a enfermaria, perguntando-se como levaria FitzAlan até a igreja. Quando


contornou uma esquina, quase se chocou com dois monges que carregavam FitzAlan em uma liteira. O velho monge, que coxeava ao lado da liteira, admoestou os dois homens para que se apressassem. Louvado seja Deus, o velho monge havia pressentido o perigo! Isobel o pegou pelo braço e o ajudou nos dois últimos degraus. Ele se sacudiu assim que entraram na igreja. — Cubra os cabelos, mulher! Embora parecesse pouco provável que Deus fosse se importar com isso no momento, ela engoliu o pânico e puxou o capuz do manto sobre a cabeça. — Como está o paciente? – perguntou. — Não queria ficar na cama. – Queixou-se o monge, meneando a cabeça. – Então eu lhe dei um sonífero. Ao ouvir uma explosão de gritos, Isobel se virou e viu alguns monges entrando na igreja. Segurando o capuz no lugar, abriu caminho entre eles e foi até os degraus diante da igreja. E o que viu lhe tirou o fôlego. Do outro lado da ponte, entre o canal e a porta principal, havia pelo menos uma dúzia de homens armados. Geoffrey e Jamie estavam do lado de cá, com as espadas embainhadas, parecendo homens das antigas Termópilas, contendo as hordas persas. Atrás deles estava o abade superior, com uma flecha de um metro cravada no centro do peito. Diante do temor de ver seu irmão e Jamie sofrerem o mesmo destino, juntou as mãos e começou a rezar em voz alta. — Maria, Mãe de Jesus... Uma voz retumbou como um trovão ao longo do terreno. — Violaram este lugar santo correndo o próprio risco! A princípio Isobel não reconheceu aquela voz como a do seu irmão. Mas era ele. — Deus pôs Sua força nas nossas espadas – gritou Geoffrey. – Somos os instrumentos da Sua ira! Isobel podia jurar que sentira o chão tremer. Os homens do outro lado da ponte decerto sentiram também, porque pararam em seco. Na parte de trás, o único homem com armadura completa, levantou a viseira do elmo e gritou para eles. Os homens ainda hesitaram, trocando olhares nervosos entre si. Só quando o líder os chamou pelo nome, os primeiros começaram a cruzar a ponte. Para completa surpresa de Isobel, Geoffrey e Jamie os abateram com tanta rapidez que seus olhos não conseguiram acompanhar os movimentosdas duas espadas. Ela desviou os olhos para o líder. O cabelo escuro açoitava-lhe o rosto enquanto gritava maldições para os homens. Dessa vez, três homens cruzaram a ponte. A espada de Geoffrey voava como se a ira de Deus realmente agisse atravésdo braço dele. Isobel nunca havia visto o irmão lutar assim, sequer sabia que ele podia. Despachou mais dois, e mais rápido do que ela pensava ser possível. Enquanto Jamie lutava com o terceiro, Geoffrey foi atrás do outro homem, levantou-o pelo pescoço e o atirou no canal. Pingando água e gritando de terror, o homem subiu pelo outro lado para se pôr a salvo. — Deus já viu o que vocês têm dentro do coração! – gritou seu irmão. – Ele sabe que vocês pretendem matar estes homens santos. Deem meia volta e vão embora, ou Ele os abaterá onde estão agora! Seu irmão agia como um verdadeiro anjo furioso de Deus. E apesar dos gritos furiosos do líder, os homens se viraram um a um e fugiram correndo para além dos portões.


O homem montado no corcel negro segurou o cavalo no lugar. Sem pressa, passou os olhos sobre as terras da abadia e pararam onde estava Isobel, diante da igreja. Um calafrio de medo subiu pelas costas dela quando os olhos de ambos se encontraram e ele susteve o olhar, mesmo à distância. Ele não conseguiria lhe causar dano agora. E, no entanto, não conseguia respirar, até que ele virou o cavalo e saiu trotando portão afora. Isobel correu colina abaixo tão rápido que quase caiu de cabeça. Quando seu irmão viu que ela estava chegando perto dele, abriu os braços, pegou-a e a ergueu no ar. — Você esteve magnífico! – disse Isobel, enterrando o rosto no pescoço dele. Quando a colocou no chão, ela perguntou: – Como lhe ocorreu dizer todas aquelas coisas?! — Eu apenas disse a verdade – disse Geoffrey. – A verdade de Deus. Isobel se surpreendeu. Todo mundo falava com Deus nas orações. Poucos, no entanto, afirmavam que Deus falava com eles, pelo menos, não com tanta clareza. Não sabia muito bem o que fazer com isso. Geoffrey sorriu, mostrando que tanto compreendia quanto perdoava as dúvidas que a assaltavam. Quando o fogo da justiça diminuiu nele, voltou a ser seu doce irmão mais uma vez. Ambos caminharam de mãos dadas pela encosta até a igreja. Jamie os alcançou, com os olhos brilhando. — Trabalhamos bem, não é? — Sim – respondeu Isobel. – Seu pai ficaria orgulhoso. — Aqueles homens podem se encorajar de novo. – Jamie olhou para o sol matutino, ainda baixo no horizonte. – Ainda falta pelo menos uma hora para amanhecer. Espero em Deus que Stephen volte antes que eles ataquem de novo. — Vou rezar para isso – disse Geoffrey. — Pois então reze mesmo – disse Jamie, dando algumas palmadas nas costas de Geoffrey. – Parece que Ele escuta as suas orações. Os três entraram na igreja e se amontoaram em torno de FitzAlan, que estava acordado e cuja cor havia melhorado muito. Quando olhou para Jamie, a ferocidade do amor naqueles olhos fez Isobel inspirar profundamente. Olhou para o outro lado, pois se sentia como uma intrusa observando aquele momento entre eles. O santuário estava cheio com todos os monges reunidos lá dentro. Com os desvelos de Jamie e os cuidados do monge, FitzAlan não mais precisaria dela ali. Geoffrey estava de joelhos em um dos aposentos. E como não tinha mais nada para fazer, disse a Jamie que ficaria na torre de vigilância. Subiu pelos estreitos degraus que levavam à pequena galeria de onde tinha ampla visão do lugar. Dali, teve que abaixar a cabeça para subir outro lance de escada ainda mais estreito até em cima. Empurrou a porta de madeira e se deparou com uma saliência na cumeeira do teto da igreja. Quando saiu, seu estômago se encheu de mariposas e as palmas das mãos ficaram suadas. Olhou para as tabuinhas que levavam à torre acima dela e quase desmaiou. A saliência era bastante alta. Dali tinha uma visão mais do que clara dos campos e bosques em torno de toda a abadia. Seus olhos seguiram o rio sinuoso e a trilha que levava à horta. Suspirou, lembrando-se do canto dos pássaros e do braço de Stephen sobre ela. Semicerrando os olhos, procurou a granja abandonada. Se pudesse voltar lá com Stephen mais uma vez... Só mais uma vez... Mas isso era pura bobagem! Pouco importava quantas vezes voltasse lá, ela sempre ia querer mais. E que boa vigia ela era! Irritada consigo mesma, deu as costas à granja e olhou o horizonte, para o oeste.


Mas, o que era aquilo? Em um aglomerado de árvores ela pensou ter visto um brilho metálico. Fixou o olhar até conseguir visualizar a forma de cavalos e homens, pequenos que nem formigas, dentre as árvores. O grupo de atacantes não havia fugido para muito longe. Mas, eles estavam indo embora ou voltando para um segundo ataque? Era impossível saber. Decidiu não alertar os outros até ter certeza. Isobel ficou fria e rígida enquanto vigiava e esperava. Certamente era um bom sinal o fato de eles demorarem tanto. Imaginou o líder de cabelos pretos vociferando com os homens lá embaixo, entre as árvores. Por favor, Deus, permita que os homens daqui resistam até que Stephen volte! Então ela se arriscou a desviar os olhos do bosque para olhar para noroeste, na direção de Caen. Duas horas depois do amanhecer ele viria. Há quanto tempo estava de vigia? Uma hora? Certamente Stephen chegaria em breve. Foi então que ela viu, primeiro um cavaleiro, depois outro, saindo da cobertura das árvores. — Oh Deus, não, por favor, não! Estavam a cavalo e vindo diretamente para a abadia. Esperou, com os músculos tensos, para contar quantos eram. ...quatro, cinco, seis... A conta ia crescendo e o espaço aumentando a cada cavalo que saía de entre as árvores. Isobel viu reticência naquele trote lento. No entanto, eles estavam vindo, e se aproximando. ...dez, onze, doze. Devia advertir os homens lá embaixo. Antes de descer, deu uma última olhada para onde Stephen devia surgir, desejando que ele estivesse lá. Louvado seja Deus! Stephen estava vindo! O brasão dos cavaleiros já podia ser visto mais além da colina como pequenos pontos no horizonte. Eles estavam o dobro de distância da abadia em relação aos atacantes, mas vinham colina abaixo, cavalgando mais rápido. Isobel voou escada abaixo. — Eles estão vindo! Estão vindo! –gritou,correndo pelo santuário até Jamie e FitzAlan. – Os homens que nos atacaram estão voltando – disse quando os alcançou. – Mas Stephen está vindo rapidamente atrás deles. FitzAlan levantou o torso e se apoiou sobre um cotovelo com uma careta, e começou a fazer perguntas. — Qual é a distância entre eles? Quantos homens há em cada grupo? Sentindo-se como um dos soldados dele, ela fez o relato. Foi recompensada com um gesto de aprovação. — Stephen vai expulsá-los, - disse FitzAlan – mas é melhor irmos até a porta, caso ele precise de ajuda. Apesar dos esforços de Jamie para segurá-lo, ele foi tolo o bastante para tentar se levantar. — Lorde FitzAlan, deite-se imediatamente! – disse Isobel, de pé ao lado dele, com as mãos nos quadris. – Não vou lhe perdoar se esse ferimento abrir de novo e você sangrar até morrer, depois de tudo o que passamos! — Geoffrey e eu podemos ficar à porta para contê-los até Stephen chegar – disse Jamie, com voz calma e segura. FitzAlan e Jamie fixaram os olhares um no outro. Depois FitzAlan assentiu tensamente para o filho. Enquanto Jamie passava correndo por ela, ele apertou seu braço em agradecimento. — Levem-me até lá fora onde eu possa ver – gritou FitzAlan para alguns monges ali perto.


Quatro deles hesitaram para cumprir a ordem. Mas, diante da insistência dele, levaram-no na liteira até a porta e o apoiaram contra a parede. Os monges quase colidiram com Isobel no afã de entrar na igreja para se protegerem. Isobel se sentou ao lado de FitzAlan. Da posição no alto onde estava, podia ver por sobre o muro da abadia a primeira colina mais além. Olhando para fora, Isobel lhe disse: — Há sangue fresco nas ataduras. — Já lutei em piores condições. A espada de FitzAlan descansava ao lado da liteira, cuja mão estava no cabo. Se preciso fosse, FitzAlan encontraria forças para correr colina abaixo, brandindo a espada. Não tinha dúvida disso. Se a refrega chegasse às vias de fato, ela iria com ele. Acima do canto das orações dos monges dentro da igreja, ouviu ao longe o som de gritos e de cavalos a galope. Isobel se pôs de pé. À medida que o som ficava mais forte, ficou nas pontas dos pés, tentando ver algo. Um grupo de cavaleiros vinha pela colina. Depois passaram a toda pressa, contornando o muro da abadia e indo para dentro do bosque. Ato contínuo, um segundo grupo, bem maior, veio galopando pela colina. Enquanto passavam em frente à abadia, o líder se afastou do grupo e saudou os demais com a mão. Era Stephen, ela soube antes que ele cruzasse o portão. Ele tirou o elmo e olhou colina acima, procurando com os olhos até que a encontrou. Agora que o perigo havia passado, Isobel sentiu as lágrimas brotando. Lembrou-se de como Stephen a consolou naquele dia, depois da matança no bosque. Como ansiava por aquele consolo agora! Sentir os braços dele tão apertados em torno dela que não conseguisse nem respirar. E ouvilo murmurar palavras sem sentido e de consolo contra o seu cabelo. Apertou os punhos até que as unhas se cravaram nas palmas, para não correr para ele. Stephen jogou as rédeas do cavalo para Jamie. Com uma rapidez imprópria depois da longa viagem e da pesada armadura, ele quase que correu colina acima. Por Deus, ele era um homem belo demais, com o sol brilhando sobre a armadura e o cabelo. Porém, ele estava vindo diretamente até ela. O pânico se apoderou de Isobel quando viu a intenção nos olhos dele. Com certeza Stephen sabia que não devia abraçá-la ali, na frente de todos..., não é? Será que ele não se importava que todos ficassem sabendo? À medida que ele ia se aproximando, ela deu um passo atrás e disse com voz alta demais: — Seu irmão já consegue se sentar, como pode ver, Sir Stephen! Ela tinha realmente dito isso?! Depois de ele ter cavalgado a noite inteira e voltado para salválos?! — Obrigada. Muito obrigada. – Isobel sentiu as incômodas palavras nos próprios lábios, mostrando-lhe o quanto era idiota. Stephen arqueou uma sobrancelha, mas não se aproximou mais. Agora que ela sabia que ele não ia fazer nada estúpido, queria dizer algo mais para reconhecerlhe a façanha. — Eu..., eu o vi chegando, lá do telhado da igreja. — Agora você anda esperando por mim? Isobel olhou para FitzAlan. Ele não podia salvá-la de mais vergonhas e dizer uma palavra de saudação? Quando notou o brilho de suor na testa de FitzAlan, ela se ajoelhou ao lado dele. Mas onde é que estava o velho monge?! Isobel olhou em volta, mas não o viu. — Como você está, William? – A voz de Stephen acima dela era suave, preocupada. FitzAlan foi salvo de responder com a chegada de Jamie e Geoffrey.


— Antes tarde do que nunca – disse Jamie, dando palmadas nas costas de Stephen. Stephen lhe lançou um olhar perplexo. — Tarde?! — Aqueles homens nos atacaram ao amanhecer – disse Jamie. – Geoffrey e eu os colocamos para correr como coelhos assustados. — Aquilo foi obra de Deus, não nossa – disse Geoffrey. Stephen olhou de um para o outro. O brilho sumiu dos seus olhos ao se dar conta de que eles não estavam brincando. — Perdoem-me, vim o mais rápido que pude. — Você chegou justamente quando mais precisávamos – disse Jamie. – Nós não conseguiríamos detê-los pela segunda vez. Stephen não parecia nada feliz. — Um dos homens viveu o suficiente para confessar – disse Jamie. – Pretendiam saquear a abadia, matar todos os monges e botar a culpa no exército inglês. FitzAlan já havia adormecido antes que Jamie terminasse de fazer o relatório para Stephen. — Ele está sangrando e ensopando a atadura de novo – disse Isobel, olhando para Stephen. Stephen mandou Jamie e Geoffrey procurarem o velho monge e se ajoelhou ao lado dela. — Está tão mal assim? — Ele perdeu muito sangue – disse ela. – Está mais fraco do que nos fez acreditar.


Capítulo 22 Os homens de Stephen desistiram da busca e voltaram pouco tempo depois. A missão deles era levar FitzAlan de volta para Caen o mais rápido possível. Uma hora depois, os cavalos já estavam hidratados e alimentados, os homens também já haviam comido e o ferimento emFitzAlan havia recebido atadura nova. Isobel viu Stephen supervisionando os quatro homens que estavam colocando a liteira com FitzAlan sobre uma carroça. Para seu alívio, FitzAlan estava acordado e reclamando muito, dizendo que podia montar e se manter sobre a sela. No entanto, a palidez dele deixou Isobel um tanto ansiosa. Quando tocou o braço de Stephen, ele se virou e fixou os olhos preocupados nela, que parecia cansada. Perguntou-se se ela tivera tempo para dormir um pouco. — Obrigada pelo vestido – disse. – Foi muita gentileza sua tê-lo trazido para mim. Com tudo o que tinha a fazer no curto espaço de tempo que ficou em Caen durante a noite, como é que lhe ocorrera pegar um vestido para ela? Ele a salvara de uma boa dose de vergonha. Os monges tentariam desviar os olhos, mas os soldados eram outra coisa. Teria sido uma longa viagem de volta com todos os homens olhando fixamente para as suas pernas. Stephen aceitou o agradecimento com aprovação. — Quero que você vá na carroça com William – disse ele em voz baixa. – Ele não vai brigar com você como o faria com Jamie ou comigo. — É claro, eu vou sim. Ela ficou sem fôlego quando Stephen colocou as mãos na sua cintura. Quando hesitou, ela sentiu que o que ele queria mesmo era puxá-la contra si tanto quanto ela queria que o fizesse. Então seus pés perderam o contato com o chão e logo estava ao lado de FitzAlan na carroça. A viagem de volta para Caen parecia que não teria fim. Embora FitzAlan não se queixasse de dor, ela se sobressaltava cada vez que os desníveis da estrada sacudiam a carroça e eles. Tentou fazer com que ele descansasse. Ele era um homem comumente taciturno, no entanto, estava empenhado em passar o tempo conversando com ela. Já que isso parecia distrai-lo, ela cedeu. Ele a crivou de perguntas até que ela lhe contou cada detalhe do que havia acontecido no dia anterior, depois que ele fora atingido pela flecha. FitzAlan fechou os olhos com um sorriso no rosto. — Não há homem algum que eu prefira ter na retaguarda em uma luta do que Stephen. — Sim, – disse ela – foi maravilhoso vê-lo. FitzAlan abriu os olhos, apenas uma fresta. — Meu irmão tem coração de herói, sempre teve – disse com voz áspera. – Ele só que ter a chance de demonstrá-lo. Ela se perguntou por que era tão importante para FitzAlan que ela compreendesse isso. Falar lhe custava um esforço considerável. — Um homem não poderia fazer melhor as coisas por um irmão ou por um amigo – disse, ignorando suas tentativas de fazê-lo se calar para poupar as forças. Apesar da dor que sentia por dentro, ela não acreditou que aquela conversa fosse apenas divagações de uma mente confusa. O discurso de FitzAlan parecia te um objetivo, mas qual?


Pensou que FitzAlan finalmente estava ficando sonolento e iria adormecer quando ele falou outra vez. — Ele será um bom marido para alguma mulher um dia. Enquanto ela lhe secava a testa, resmungou em voz baixa e falando rápido: — Se essa mulher não se importar de compartilhar. Mas ele tinha ouvidos mais apurados do que ela pensava. Quando a gargalhada que ele soltou se transformou em um gemido de dor, ela se arrependeu de ter feito o comentário. Enquanto ela se inclinava sobre ele para verificar a atadura, ele abriu os olhos de novo. Eram olhos honestos, da cor do âmbar dourado. — São apenas as ações insensatas dos jovens – disse entre respirações entrecortadas. – Stephen precisa de... — Lorde FitzAlan, por favor, precisa ficar quieto. – O ferimento estava sangrando de novo e ela estava preocupada de verdade. – Não vamos mais falar por enquanto. Precisa ficar em silêncio e descansar. Ele fechou os olhos, tinha um leve sorriso nos lábios. — Catherine..., ela ia gostar de você. Eu prometi a... Catherine..., que iria para casa... Então era verdade. O grande comandante amava a esposa. Isobel podia perceber isso na voz dele. Catherine era a grande alegria da sua vida. A razão pela qual ele queria voltar para casa. As lágrimas arderam no fundo dos olhos de Isobel. Talvez fossem todas as emoções dos últimos dias que bateram fundo nela. Parecia uma vida inteira desde que havia saído de Caen..., tanta coisa havia acontecido. E ela estava cansada demais! E preocupada demais com FitzAlan. — Isobel. – Era a voz de Stephen. Ela enxugou as lágrimas e se virou para onde ele havia posicionado o cavalo, junto à carroça. — Já estamos perto de Caen? – perguntou com voz alquebrada. – Receio que ele esteja piorando, e não tenho recurso algum para cuidar dele aqui. O rosto de Stephen estava sério ao olhar para o irmão. — Não temos alternativa a não ser seguir em frente, e não podemos ir mais depressa com a carroça. Isobel sentiu a tensão por baixo da calma da voz dele. — Vá na frente com Jamie e mais alguns homens – exclamou Stephen para o homem mais próximo. – Providencie um médico e mande preparar um quarto no castelo para Lorde FitzAlan. Ela entendeu o propósito de Stephen. Não queria que Jamie visse o quão grave era o estado de FitzAlanantes que o mesmo estivesse a salvo dentro das muralhas da cidade. Stephen, montado no cavalo, acompanhou a carroça pelo resto da viagem, mas pouco falaram. Quando finalmente alcançaram a cidade, o próprio médico do rei estava esperando à entrada. O homem, elegantemente vestido, fez sinal ao condutor para que não parasse e saltou para a carroça em movimento. — Para a torre! – Gritou o médico, começando já a tratar do paciente. Jamie estava esperando nos degraus da torre. Antes que percebesse, ele e Stephen ergueram a liteira de FitzAlan e o levaram para dentro. O médico ia trotando no fim da fila. Subitamente, Isobel se viu sozinha, aliviada daquela responsabilidade. Apoiou-se e soltou um longo suspiro. Agora que a provação havia terminado, começou a se sentir muito cansada! Não conseguia convencer a si mesma a se levantar e descer da carroça. —Lady Hume. Ela abriu os olhos e se deparou com o Rei Henrique em pessoa, e Robert de pé, ao lado da carroça. Havia sido o Rei que falara.


— Obrigado por cuidar tão bem do meu bom amigo – disse o Rei Henrique, estendendo a mão para ela. Ela olhou para as próprias mãos, cujas unhas estavam sujas de sangue. Quando ela hesitou, o rei a constrangeu por completo ao erguê-la e tirá-la da carroça. Era fácil se esquecer que o Rei era um jovem forte e atlético. — Graças a Deus você está a salvo! – disse Robert, cumprimentando-a com um beijo em cada face. As linhas do seu atraente rosto haviam se aprofundado desde a última vez que o vira. – Até Stephen voltar ontem à noite, só pude supor o que lhe aconteceu. O coração de Isobel se apertou ao se dar conta de que era ela o motivo pelo qual ele parecia tão abatido. — Lamento ter lhe preocupado. — Aquela pequena Linnet, eu queria estrangulá-la – disse Robert. – Não consegui tirar uma palavra sequer daquela diabinha. Apesar das palavras, Robert parecia impressionado. — Posso ver que você está cansada pela dura experiência pela qual passou – disse o Rei, e estendeu o braço para que ela caminhasse com ele. – Mas assim que tiver descansado, precisa nos contar tudo o que aconteceu. — Como queira, senhor. – O que é que o rei queria saber dela que Jamie ou Stephen não poderiam lhe dizer? — As mulheres, frequentemente, notam coisas que os homens não notam – disse o rei. – Trate de se lembrar de cada detalhe que puder sobre os homens que atacaram vocês – cavalos, roupas, armas. Uma joia incomum. Qualquer coisa que possa nos revelar quem eram aqueles demônios. — Farei o melhor que puder, Sua Alteza – disse ela. — Precisamos descobrir quem são aqueles homens – disse, mordaz em cada palavra. – Aqueles covardes que armaram uma emboscada para matar o meu comandante e pretendiam cometer sacrilégio em meu nome. Ela podia sentir a fúria nele vibrando através dos dedos que descansavam sobre seu braço. — Cabeças vão rolar. – E mais serenamente, acrescentou: – Conte para o Robert tudo o que conseguir se lembrar. Mais tarde, pode ser que eu precise lhe interrogar de novo. Exausta como estava, não pôde evitar notar que o Rei e Robert estavam se relacionando de forma mais amigável do que ela pensava. Era estranho, também, que o Rei dependesse de Robert para que o ajudasse a descobrir a identidade dos atacantes. Qual função, exatamente, exercia Robert em relação ao Rei? Talvez tivesse subestimado Robert, tal como havia feito com Stephen. Havia mais nesses dois homens do que se via.


Capítulo 23 Isobel

acordou com o peso da culpa torturando-a. Parecia que não havia fim para as consequências daquela decisão precipitada que havia tomado. FitzAlan havia sido ferido, os sentimentos de Robert foram feridos, Linnet mal falava com ele... Não sabia nem por onde começar a apaziguar os ânimos. Já que Linnet estava mais próxima, começaria por ela. Justo quando Isobel abriu a cortina da cama, Linnet entrou pela porta com uma corrente de ar frio e uma bandeja carregada com comida. O cheiro do pão quente fez com o que o estômago de Isobel grunhisse. Havia dormido na hora do jantar na noite anterior. — Obrigada, Linnet, isso foi providencial da sua parte. Linnet manteve os olhos na bandeja e não pronunciou uma palavra sequer. Isobel suspirou e vestiu o roupão. — Você deve ter sentido medo quando eu não voltei ao anoitecer – começou. – Desculpe-me. Linnet levantou os olhos inundados de lágrimas não derramadas. — Você não precisava ir – disse, com um tom de acusação na voz. – Sir Stephen e Lorde FitzAlan poderiam ter trazido os dois de volta. — Tive medo demais pelo meu irmão para pensar com clareza. Linnet apertou os lábios. Depois de um longo instante, assentiu com a cabeça. — Eu teria feito o mesmo por François. Linnet se esqueceu da zanga enquanto Isobel relatava a história do primeiro ataque. Com os olhos muito abertos, Linnet disse: — É algo digno de ver Sir Stephen e Lorde FitzAlan lutando, não é? — Eu me esqueci de que você os viu lutar em Falaise... Alguém bateu tão forte à porta que esta sacudiu, sobressaltando as duas. A porta se abriu e De Roché estava de pé à entrada, com os olhos negros furiosos. — Que tipo de mulher tola me rebaixou perante aquele rei inglês? Linnet voou para o lado de Isobel e agarrou com força sua mão. De Roché fechou a porta com uma pancada tão forte que fez as duas pularem de novo. — Tola e desobediente – disse. – Eu não lhe disse que esperasse nos seus aposentos pela volta do seu irmão? Ele atravessou o quarto com longas passadas. Quando parou a menos de trinta centímetros dela, perguntou outra vez: — Eu não lhe disse? Quando menina, Isobel havia brincado com meninos. Conhecia os fanfarrões. Acovardar-se fazia com que eles se tornassem valentões. — Sim, você disse – disse com voz clara, sem tom de desculpas. A cólera brotou nela, rápida e forte. Abriu a boca para chamá-lo de covarde por não ter ido atrás de Geoffrey ele mesmo. Mas, bem a tempo, lembrou-se de que De Roché seria seu marido, e mordeu a língua. Homem algum perdoaria por ser chamado de covarde, especialmente se as palavras correspondessem à verdade. Se tivesse alguma esperança de uma relação cordial com o marido, não devia chamá-lo assim.


De Roché cravou os olhos nos seus lábios apertados. Então, subitamente, a cólera sumiu do rosto dele, e ela relaxou os ombros. O terrível momento havia passado, graças a Deus! — Estou começando a perceber o quão atraente pode ser uma mulher com personalidade – disse De Roché, passeando o olhar sobre ela. Ele afastou Linnet bruscamente e puxou Isobel contra ele, cuja boca caiu faminta sobre a dela, apertando os quadris contra os dela, o membro ereto pressionado contra o seu ventre. Ao lado deles, Linnet estava gritando e puxando o braço de Isobel. De Roché a soltou de repente também. — Talvez você valha a pena, depois de tudo – disse, sorrindo. Beliscou forte sua face, então se virou e saiu do quarto. Assim que a porta se fechou, Linnet a levou até o banco debaixo da janela, sentou-se ao seu lado e segurou sua mão. Isobel não conseguia parar de tremer. — Você precisa se casar com ele? – perguntou Linnet em voz baixa. — Sim, é a ordem do Rei – disse Isobel o mais tranquila que pôde. – Você não deve julgá-lo por um momento de fúria. Ele tinha motivos para estar desgostoso comigo, e terminou bastante rápido. Isobel amaldiçoou o marido morto em voz baixa. Será que ela devia sofrer pelo resto da vida por causa da insensatez de Hume? Ela poderia ser a senhora da própria casa, vivendo em paz em Northumberland. — Ajude-me a me vestir – disse, dando uma palmadinha na mão de Linnet. – Preciso ver como está Lorde FitzAlan. Pouco mais tarde, estava parada do lado de fora do quarto de FitzAlan. Levantou a mão para bater, esperando e temendo encontrar Stephen lá dentro. A porta estava entreaberta, e ouviu vozes. Uma delas era a de Stephen. Depois de respirar profundamente, bateu de leve. As pessoas lá dentro falavam tão alto que parecia que ninguém a ouvira. Quando desataram a rir, um grande alívio a percorreu. FitzAlan devia estar fora de perigo. Sorrindo, assomou a cabeça pelo vão da porta para pedir permissão para entrar. Ficou paralisada enquanto assimilava a cena diante dela. Em um tamborete ao lado da cama de FitzAlan estava sentada uma mulher impressionantemente bela. Estava inclinada para o ferido, segurando a mão dele entre as suas. Lady Catherine FitzAlan. Era uma mulher incrivelmente bela, e parecia jovem demais para ser a mãe de Jamie. No entanto, Isobel não teve dúvida de quem era a dama. Os três homens no quarto estavam meio inclinados para ela como girassóis virados para o sol. O habitualmente severo FitzAlan estava radiante como um menino com o primeiro amor da adolescência. Jamie estava atrás, uma das mãos descansando sobre o ombro da mãe. Completando o círculo, Stephen estava sentado ao lado, com a mão no outro ombro dela. Não foi a mão de Stephen no ombro da mulher o que fez com que Isobel respirasse com dificuldade – embora isso não adiantasse nada. Foi o que viu no rosto dele enquanto olhava para a mulher. Fragmentos do que ouvira Stephen dizer sobre a esposa do irmão deram voltas na sua cabeça. Mas eu adoro Catherine. Não há mulher que nem ela. Pior ainda, lembrou-se do tom melancólico na voz dele quando falava dela. De repente, tudo fez sentido. O porquê Stephen evitava compromisso matrimonial. Por que ele perdia tempo com mulheres sem valor como Marie de Lisieux. E engoliu a dor que surgiu no seu peito.


Stephen estava apaixonado pela esposa do próprio irmão. Embora Lady Catherine fosse mais velha do que Stephen, ainda ostentava uma grande beleza. O coração de Isobel sofreria menos se pudesse acreditar que beleza física era tudo pelo qual ele se sentia atraído. Mas quando Stephen falava dela, não era da beleza. Não, ele amava essa mulher por ela mesma. Lady FitzAlan devia ter sentido o olhar de Isobel, pois se virou e olhou-a, com olhos tão azuis quanto os de Jamie. — Entre – disse ela. Pôs-se de pé e estendeu as mãos para Isobel, dizendo: – A senhora deve ser Lady Hume. Presa como uma ratinha em uma armadilha, Isobel entrou no quarto e pegou as mãos da mulher, pois não lhe restava outra coisa a fazer. — Meu nome é Catherine – disse a mulher, beijando as faces de Isobel. – Perdoe-me pela intimidade, mas acabei de ouvir como você salvou a vida do meu marido. Deus lhe abençoe! Ela surpreendeu Isobel ainda mais, puxando-a para abraçá-la por completo. Isobel não se lembrava da última vez que havia sido abraçada por outra mulher. Não teve irmãs, nenhuma tia próxima, nem prima. Decerto ela devia ser muito pequena ainda, quando sua mãe havia perdido o calor e o riso. Isobel se deixou envolver por aquela suavidade e inspirou o perfume leve e feminino de Lady FitzAlan. Por mais que pudesse querer, não conseguia odiar essa mulher agora. Lady FitzAlan levou-a para dentro do quarto e a fez se sentar sobre o tamborete que Stephen lhe cedeu. Embora Isobel sentisse os olhos de Stephen sobre ela, não conseguia olhá-lo. Sentou-se, muda e aturdida por aquela descoberta. Ele a ama. Sempre a amou. Essas palavras davam voltas pela sua cabeça. Lutou para acompanhar a vivaz conversa no quarto, mas não conseguiu. Ela tentou de novo escutar, determinada a sair na primeira pausa na conversa. Lady FitzAlan estava contando que havia tido uma premonição tão forte que mandou os filhos para a casa da sogra. Pagou então uma quantia exorbitante em ouro para o dono de um barco de pesca para que a levasse através do canal, em meio às tormentas do inverno. — Foi tolice se arriscar assim – disse FitzAlan. Não havia tirado os olhos de cima da mulher desde que Isobel se sentara ali. — Foi muito bom ela ter vindo – disse Stephen atrás dela. – Catherine é o melhor medicamento. Isobel não conseguia suportar ouvir a voz dele. Quando Stephen começou a dizer algo sobre os FitzAlan se mudarem para uma casa no povoado, ela se pôs de pé. Precisava sair. Agora. Já! Murmurou uma desculpa esfarrapada – mal soube o que disse – e saiu antes que alguém pudesse detê-la. Apertando a mão sobre a boca para não chorar em voz alta, arrepanhou as saias e correu ao longo do corredor. Não foi muito longe, pois Stephen a pegou pelo braço. — Isobel, preciso falar com você – disse, fazendo-a girar em cheio. – Lamento que esteja decepcionada comigo por não ter falado com o Rei, ainda. Mas eu não podia deixar o meu irmão, e depois Catherine chegou. Mas vou falar com ele, agora, se o Rei me receber. — O Rei? – Mas do que é que ele estava falando?! — Se o Rei insistir em falar com você em separado, – disse – eu vou pedir a Catherine que lhe acompanhe. — Por que você precisa falar com o Rei? – Precisava ouvi-lo dizer para ter certeza.


— Por causa do..., De Ro... – uma expressão de desgosto passou pelo rosto dele, que começou de novo. – Como o Rei tinha outros planos para você, é melhor eu conseguir a permissão dele antes de nos casarmos. — Sei que você se sente obrigado pela honra a fazer isso, – disse – mas eu não vou permitir. Ele foi suficientemente cavalheiresco para não demonstrar alívio. Mas talvez sequer acreditasse que ela estava falando sério. — Não se preocupe – disse, apertando-lhe o braço. – O Rei vai responsabilizar a mim, não a você. Não vou lhe mentir, ele vai ficar zangado. Muito zangado, por algum tempo. Mas no final tudo ficará bem, eu lhe prometo. — Você não vai falar com o Rei sobre mim. Stephen franziu as sobrancelhas. — Isobel, sem dúvida alguma você sabe que nós devemos nos casar. Ele não disse que a amava, naquele instante. — Eu não sei nada sobre isso – respondeu, com voz tensa. – Se deitar-se com uma mulher significa que você tem que se casar com ela, então você teria um número enorme de esposas a esta altura. Assim que essas palavras saíram da sua boca, o Stephen tranquilo e amistoso desapareceu. O homem que estava olhando-a tão furioso era outro Stephen – era o Stephen perigoso, aquele que cavalgava disparando flechas ou atirando uma adaga no olho de um homem. — Nós vamos nos casar assim que... Stephen parou ao ouvir alguém chamá-lo pelo nome. Isobel se virou e viu François vir correndo na direção deles, pelo corredor. — Stephen – disse, com a respiração ofegante – Madame de Champdivers mandou dizer que você precisa vir imediatamente. Ela tem algo que você quer. O sangue de Isobel congelou. Seria muito tola se arriscasse tudo para se casar com esse homem. Entre o amor desesperado pela esposa do próprio irmão e as constantes aventuras, haveria um número infinito de sofrimento. Ele esmagaria seu coração, pior do que havia feito seu pai. — Vou lhe procurar quando voltar e conversaremos – disse Stephen, com o tom tão duro quanto o granito. – E depois vou procurar o Rei. Ela sacudiu os braços e o olhou furiosa. — Faremos o que for certo, Isobel.


Capítulo 24 P

— ensei que vocês não viriam nunca. – Linnet ralhou com Stephen para que ele e François entrassem no quarto de Isobel. – Vocês precisam salvá-la daquele homem horrível. Stephen suspirou. Pelo menos os gêmeos estavam do lado dele. Isobel estava muito zangada quando ele tentou se desculpar por não ter falado com o Rei. Maldição, devia ter ficado e falado com ela em vez de sair naquela procura inútil. Claudette havia mandado François procurar Stephen depois de ouvir casualmente a furiosa discussão entre De Roché e Marie de Lisieux. Claudette estava passando por uma janela no Antigo Palácio – Stephen nem perguntou a Claudette o que ela estava fazendo lá – notou De Roché e Marie no jardim logo abaixo. Claudette entendeu apenas algumas palavras da discussão, mas ela ouviu Marie dizer o nome de Stephen e algo sobre a abadia. Stephen tratou de dizer a Claudette que, àquela altura, todos no castelo sabiam do ataque. Mas Claudette tinha certeza de que Marie sabia algo. Assim como tinha certeza também que Stephen era o único que podia arrancar dela essa informação. Quando finalmente seguiu Marie até lá embaixo, ela ficou muito contente por vê-lo. Contente demais. Não acreditava que Marie estivesse envolvida no planejamento do ataque, mas ela sabia de algo. No entanto, não estava disposto a ir para a cama com ela para averiguar o que era. Afinal de contas, era um homem quase casado. Quer soubesse sua futura esposa ou não. Mas, onde diabo estava Isobel?! Estava tarde, não tinham tempo a perder. A cabeça dele latejava demais, até que ouviu vozes à porta e os gêmeos correram até lá para se encontrar com Isobel. — François, é muito bom lhe ver – disse Isobel, entrando. Sua voz soava cansada. — Preciso ir com François – disse Linnet, enquanto ela e o irmão escapuliam para longe de Isobel. —Linnet! – chamou Isobel, enquanto a porta se fechava atrás deles. Isobel caiu sentada em uma cadeira e enterrou o rosto nas mãos. Stephen sentiu o ânimo fraquejar, mas combateu a sensação. Devia ser firme com ela. Quando entrou no círculo de luz da lamparina de mesa ao seu lado, ela levantou o olhar, surpresa. Parecia tão linda que ele não conseguia falar. — Você conseguiu o que queria de Madame de Champdivers? – Isobel fechou a boca de chofre, como se as palavras tivessem escapado antes que pudesse detê-las. Será que ela estava com ciúme? De Claudette? Embora fosse ridículo, poderia ser essa a razão de tê-lo rejeitado? Essa ideia o animou. Era muito melhor que ela estivesse com ciúmes em vez de indiferente. — Claudette é uma amiga, só isso. Isobel bufou desdenhosamente e olhou para o outro lado. — Deveríamos falar com William e Catherine sobre a melhor maneira de se aproximar do Rei. Está tarde, e meu irmão precisa descansar, por isso não devemos demorar. – Estendeu a mão para ela. Ela se levantou, mas não a pegou, e ficou cara a cara com ele. — Eu não vou fazer isso – disse ela categoricamente.


Ele prendeu a respiração bruscamente para se acalmar e conseguir falar. — Devemos aceitar as consequências dos nossos atos. Preferiria que você entrasse neste casamento de boa vontade. De qualquer forma, vou tentar ser um bom marido para você. Espero que, com o tempo, eu possa lhe fazer feliz. — Vou desmentir qualquer coisa que tenha acontecido entre nós. Ele a fitou, atônito. — Mas, por quê?! Ela apertou os lábios e se negou a responder. — Você não pode querer ter De Roché como marido...! Já era bastante ruim que ela não estivesse entusiasmada com o fato de se casar com ele. Mas, certamente ela não podia preferir aquele francês adulador em vez de ele, não é? — Eu fiz uma promessa ao Rei, – disse ela, cruzando os braços – e vou cumpri-la. — E quanto à promessa que fizemos um ao outro? – perguntou ele. – Fizemos uma promessa depois do que fizemos naquela antiga granja abandonada perto da abadia. — Pelo que sei, Stephen Carleton, você faz essas promessas às mulheres o tempo todo. — Aquelas mulheres eram diferentes. — Diferentes como? – perguntou ela, com o olhar duro. Por que precisava explicar isso para ela? — Aquelas mulheres me levaram para a cama apenas por prazer. Era o acordo feito entre mim e elas. Não enganei nenhuma delas. A maioria sequer era livre para se casar. — Então eu não sou diferente – disse ela. – Eu lhe tomei por prazer, e não estou livre para me casar. Essas palavras foram como uma faca cravada no coração dele. Ela realmente o usara dessa maneira? Será que ele havia se enganado tanto ao acreditar que o que aconteceu entre eles teve o mesmo significado tanto para ela quanto para ele?! Pelo menos agora sabia como jogar. Esse era um jogo no qual ele era bom. Acataria o próprio conselho. Em uma luta pela vida, você deve se aproveitar da vantagem que tiver, não da que queria ter. Atraiu-a bruscamente para si e, lenta e deliberadamente, passou o polegar por cima do seu lábio inferior. — De Roché vai lhe decepcionar. Ela o olhou com aqueles grandes olhos verdes e pestanejou..., uma..., duas vezes. Sua respiração já havia mudado. — Quero você nua. – Sustentou seu olhar e deixou que ela visse o quanto ele estava falando sério. Ele a queria dessa forma sim, só que o que mais queria era o seu coração. Os lábios dela se separaram e o olhar dele caiu sobre sua boca. — Eu..., eu... – Ela tentou falar, mas as palavras se perderam quando ele passou os dedos ao longo da lateral do seu pescoço e continuou garganta abaixo. Quando chegou à parte superior do vestido, sua respiração parou. Quase podia ouvir seus pensamentos, muito claros no seu rosto. Ela estava dizendo a si mesma que devia retroceder, mas queria mais o toque dele do que ouvir a própria consciência. Ele se certificaria disso. Passou um dedo muito lentamente ao longo da delicada pele da borda do corpete, sentindo os seios subindo e descendo. Tal qual cera quente, ela se derreteu contra ele. — Você quer que eu lhe beije? – Tratou de se aferrar a uma frieza calculista, mas estava difícil com ela olhando-o daquela forma.


Quando se levantou nas pontas dos pés, seu coração saltou no peito. Que tipo de tolo era ele? Quem é que estava seduzindo quem?! E quem seria derrotado? Temeu que fosse ele..., de novo. Stephen nunca havia sofrido de falta de coragem. A bem da verdade, lançava-se ao perigo sem sequer pensar. Mas seus joelhos tremiam enquanto se inclinava para aceitar o desafio. No instante no qual seus lábios tocaram os dela, o fogo brotou. Como acontecia cada vez que se beijavam. Deixou que o envolvesse, que o lambesse em todos os lugares enquanto se fundia nela. Queria tocar todos os lugares os quais amava..., o rosto, a tentadora curva do traseiro, a longa linha da coxa... O cabelo..., ele tinha que enfiar as mãos nele! Sem levantar a boca da dela, começou a tirar os prendedores que mantinham o toucado no lugar. — Eu faço isso – disse ela, ofegante, interrompendo o beijo. Enquanto as mãos dela estavam ocupadas com prendedores e cachos, ele se abaixou. Pressionou os lábios contra a pele macia acima do corpete, depois ficou de joelhos para beijar seus seios através do tecido do vestido. Quando o cabelo dela lhe caiu nas mãos, suspirou de prazer e apoiou a cabeça contra ela. Porém, não podia se dar ao luxo de deixá-la recuperar o fôlego e reconsiderar a situação. Pôs-se de pé e virou-a para desabotoar seu vestido. — Não deveríamos... – começou a dizer, mas a voz sumiu quando ele a envolveu nos braços e pegou nos seus seios. Macios e cheios, encaixavam-se perfeitamente nas mãos de Stephen, e ela recostou a cabeça contra o seu ombro, soltando pequenos suspiros e gemidos. Ele a beijou no pescoço, logo sussurrou ao seu ouvido: — Quero sentir sua pele contra a minha de novo. Dessa vez ela não se opôs. Assim que ele desabotoou o vestido, ela o empurrou pelos ombros e deixou-o cair em um amontoado aos seus pés. Quando se virou, ele tirou a túnica e a camisa pela cabeça. Soltou um agudo suspiro quando ela pôs os braços em torno da sua cintura e sentiu os seios contra seu torso. Isobel o olhou com os olhos escurecidos e sérios. — Sei que isto está errado, mas não consigo evitar... – disse ela. — Não há nada de errado nisso, se vamos nos casar. — Prefiro pecar do que sofrer todos os dias... – sua voz falhou com um soluço. Ele não conseguiu entendê-la. Ela estava se referindo a que? — Só haverá felicidade entre nós, não consegue ver isso? Com o momento de paixão interrompido, podia senti-la escorregando para longe dele. Antes que ela pudesse mudar de ideia, levantou-a nos braços e a levou para a cama. Aquele não era o momento para uma luta limpa. Começou a beijá-la até deixá-la sem conseguir pensar. Quando ela enfiou a mão na parte superior das malhas, ele agarrou-lhe o pulso. Segurando ambas as mãos dela acima da cabeça, mordiscou a orelha e passou a língua pela clavícula. No instante em que chegou aos seios, ela se retorceu e arqueou as costas. Lentamente, contornou os mamilos com a língua. Uma, duas vezes, depois titilou com a língua até que ela deu um soco na cama. Ótimo. Passou os dedos pela parte interna das suas coxas, centímetro a centímetro, enquanto a língua continuava brincando com o mamilo. Quando chegou ao seu centro, ela estava quente, molhada, e ele a desejou tanto que quase se esqueceu do propósito que tinha em mente. Com renovada determinação de se controlar, enfiou o seio na boca e lhe deu prazer com as mãos. Cada suspiro, cada gemido fazia com que ele a desejasse mais e mais. Ela abriu os olhos quando ele parou de percorrer a parte superior das suas coxas com a mão.


— As coisas boas se fazem desejar – disse ele, sorrindo. Começou a provocá-la, passando os dedos em círculos cada vez mais perto do seu centro até tocá-lo a cada giro com um toque levíssimo. Que Deus o amparasse, como os seios dela eram belos! Beijou o que estava mais perto. Isobel emitiu um som agudo quando ele pegou o mamilo entre os dentes. Enquanto incrementava o prazer dela entre as pernas, sua respiração ficou entrecortada. — Stephen, não pare – disse com urgência na voz enquanto tentava puxá-lo para cima dela. Quando ela gritou, envolveu-a nos braços e enterrou a cabeça no seu pescoço. Estava angustiado pelas emoções tão fortes que estava sentindo que não sabia o que fazer com elas. Fechou os olhos quando ela passou os dedos pela lateral do seu rosto. Ele estava tenso como uma corda de arco. Quando se virou para beijá-lo, a ponta dos seios dela tocou seu torso. Esse era o caminho da ruína. Permitiu-se saborear um beijo dolorosamente lânguido antes que ele se afastasse. — De bruços – disse ele, e se sentou. Olhando-o, insegura, virou-se. Juntou a massa de cabelo escuro e a colocou de lado. Enquanto beijava seu pescoço, os lábios dele se curvaram para cima. Recuou um pouco o corpo e passeou os olhos pela linha elegante da sua coluna vertebral. Para que ela soubesse o quanto a desejava, esfregou o pênis contra suas nádegas. Na verdade, isso era só para ele. Chamou sua atenção. Olhou-o por cima do ombro com os olhos muito abertos e os lábios entreabertos. Ela estava tão formosa que precisou lutar contra o impulso de afastar as pernas dela e penetrá-la naquele instante mesmo. Não! Ele sacudiu a cabeça. Deu pequenas mordidas nas suas nádegas que a fizeram rir, mesmo quando isso a excitava. Depois a virou de novo para beijar seus seios. Como é que ela podia cheirar tão bem? Brincou com seus mamilos enquanto a boca ia trabalhando até embaixo. Fez uma pausa para enfiar a língua no seu umbigo. Enquanto descia sentiu que ela ficou tensa. Subiu para beijá-la por muito tempo, com as mãos entre suas pernas. — Você vai gostar, prometo – disse junto à sua orelha antes de descer de novo para demonstrar. E ele demonstrou. Sua liberação foi tão emocionante que ele pensou que teria a própria contra os lençóis. Doce céu, isso ia matá-lo. Algum tempo depois, ele a levou novamente até a borda, exatamente onde a queria. Ela se grudava nele como cera quente. Ele pairou sobre ela, provocando-a..., e torturando a si mesmo. Precisou de toda a força de vontade para não mergulhar dentro dela. — Agora! – Ela o envolveu com as pernas com mais força, a voz estava mais urgente. – Quero você dentro de mim! Já! — Primeiro diga que vai se casar comigo. Ela fez um som indecifrável. — Você precisa me dizer, Isobel – insistiu ele. – Não voltarei a correr o risco de fazer um filho em você, a menos que eu tenha a sua palavra. — Mas eu não posso! – Ela meio gemeu, meio chorou. – Não me obrigue, Stephen. Por favor. Por favor! Não me obrigue... Mesmo em meio à paixão, não cederia a ele.


Um homem tem um limite daquilo que pode aguentar. Quando ela levantou os quadris para ele, deixou que seu membro deslizasse sobre ela. Fechou os olhos e se esfregou nela, várias vezes, até que o sêmen saiu em jorros sobre o ventre de Isobel. Afastou-se e se deitou de costas com os braços cruzados sobre o rosto. Jamais havia se sentido pior na vida. Aquela humilhação podia matá-lo. Mas isso não era nada comparado ao buraco que tinha no peito, onde estivera seu coração. Queria se enfiar em um canto, escondido, como um animal ferido. Mas não conseguia se mexer com aquela enorme tristeza sobre ele, como um grande peso. Apesar de não se tocarem, sentia o calor do corpo dela contra o seu e ouvia cada respiração entrecortada que ela soltava. Mas ele tinha um objetivo a atingir. Apesar de que ela havia ganhado em tudo o mais, estava determinado a conseguir o que pretendia. Reuniu forças e o pouco orgulho que lhe restava e disse: — Não vou permitir que outro homem crie um filho meu. Deixou que o silêncio persistisse para lhe dar tempo para assimilar isso antes de lhe dizer como seria. — É bem pouco provável – disse ela em um sussurro. – Eu nunca concebi. Pode..., pode ser que eu seja estéril. Ele estava decidido, e faria com que ela soubesse disso. Fixando os olhos no teto, deixou que o frio que sentia por dentro aparecesse na voz. — Você vai encontrar uma forma de atrasar o casamento com De Roché até que saiba disso com certeza – disse ele. – Se você estiver grávida, vou lhe dar duas opções. Uma, você pode se casar comigo, ou, pode ter a criança e segredo e entregá-la a mim, para que eu a crie. Levantou-se da cama. Enquanto se vestia, a dor e a decepção se transformaram em algo frio e duro dentro do peito. O silêncio era denso entre eles enquanto se sentava e metodicamente calçava uma bota e depois a outra. Ele não ia escapulir do quarto de Isobel vestido pela metade. Já não era esse tipo de homem. Havia tentado fazer o que era certo. E ainda queria fazer. Apertando os dentes, amarrou o cinturão com a espada. Só então a olhou. Ela estava sentada com a roupa de cama grudada no peito, com os olhos vazios fixos nele. — Entenda. Não vou permitir que você crie um filho meu como se fosse de De Roché – disse ele. – Eu o mataria com minhas próprias mãos antes de deixar que aquele pedaço de merda coloque a mão em algum filho meu. Ela assentiu com a cabeça. Foi o suficiente. Ele deu meia volta e se foi.


Capítulo 25 Stephen fez um gesto com a mão para que os guardas retirassem as

barreiras e saiu

cavalgando pelos portões do castelo. Ao diabo com os bandoleiros e renegados. Relâmpago gostava de galopar na escuridão. Stephen apoiou a cabeça sobre o cavalo, apesar de, com isso, arriscar o pescoço de ambos. O frio o ajudava a clarear a mente. Quando Relâmpago reduziu o passo, olhou para o céu cheio de estrelas e tentou encontrar ali alguma esperança. Depois de deixar Isobel, estava em tal estado de confusão que acordou Catherine para que ela o aconselhasse. Ela não mostrou surpresa alguma ao saber da sua intenção de se casar com Isobel. Santo Deus, estava tão evidente assim?! Catherine exigiu que ele lhe contasse tudo. Ele não estava disposto a confessar que só havia tentado seduzir Isobel para que ela aceitasse se casar com ele. Havia tentado e fracassado. Finalmente, acabou que tudo o que Catherine queria saber era o que Isobel havia lhe dito. — Disse a ela que você devia se casar?! – perguntou Catherine em um tom mais exasperado. – Não disse que queria se casar com ela? Que a ama? Que não pode viver sem ela? Pelo amor de Deus, Stephen, no que você estava pensando?! Evidentemente, ele não havia abordado o assunto da melhor maneira possível. Devia ter mencionado o quanto se preocupava com ela. Mas, como é que Isobel não sabia disso? Aqueles horríveis comentários que fez sobre outras mulheres foram insultantes. Mas não havia ido para a cama com outra mulher desde que a conhecera, pelo amor de Deus! E não havia sido por falta de convite! A mais pura verdade é que ele não queria mulher nenhuma, só Isobel. Ele já havia lhe dito que não tinha nada mais a ver com outras mulheres..., não é? Sem dúvida, a resolução de se casar com ela tinha que significar alguma coisa, certo? Stephen e Relâmpago cavalgaram a maior parte da noite. Não voltou até ter certeza de que poderia falar com Isobel sem se irritar de novo, pouco importasse a loucura que ela pudesse lhe dizer. Uma tormenta caiu de madrugada, ensopando-o até os ossos antes que conseguisse chegar aos portões do castelo. Ainda montado, foi diretamente até a torre principal, na esperança de encontrar o Rei tomando o desjejum no salão. Dessa vez, pretendia falar primeiro com o Rei. Depois, quando fosse falar com Isobel, podia lhe garantir que o Rei estava disposto a liberá-la da promessa que havia feito. O Rei não ia gostar nada daquilo, claro, mas aprovaria o casamento. Sendo um homem piedoso, o que mais poderia fazer quando Stephen lhe contasse o que haviam feito?


Na noite anterior, Linnet havia encontrado Isobel nua e chorando no chão. A menina a envolveu nas mantas e desesperadamente a pressionou com perguntas. Angustiada como estava, Isobel cometeu o erro de contar para Linnet que Stephen queria se casar com ela. Linnet ainda estava furiosa com ela naquela manhã pela sua total e absoluta loucura ao recusálo. Será que estava sendo estúpida? O que deveria ter dito a Stephen? Que ela o amava tanto que seu coração doía a cada segundo do dia? E que isso, além do mais, assustava-a? Que ela queria, de todo o coração, que ele correspondesse? Nem mesmo isso seria suficiente. Ela queria o impossível. A menos que ele a amasse para sempre, ser sua esposa lhe causaria dor demais. Isobel sentiu náuseas de tanto chorar. Se pudesse, ficaria na cama dias a fio com as cortinas fechadas. No entanto, o Rei havia lhe mandado uma mensagem convidando-a para se juntar a ele para o desjejum. Vagamente, lembrou-se que ele queria saber sobre a emboscada. Tentou fazer a mente se concentrar nisso, mas a tristeza a envolvia, deixando seus pensamentos desconexos e dispersos. Linnet manteve um silêncio sepulcral enquanto ajudava Isobel a se vestir. Por despeito, a menina escolheu o vestido de veludo verde que Isobel usava no dia em que Stephen voltara de Falaise. Contendo as lágrimas, passou os dedos pelo tecido macio. Quando Robert chegou para acompanhá-la, ela forçou um sorriso. Tomando-lhe o braço, disse: — Você está com bom aspecto hoje. — Deveria. De alguma maneira dei um jeito para dormir o dia inteiro ontem. – Ele franziu o cenho. – Mas posso ver que você ainda não se recuperou daquela provação. Está pálida, querida. — Lamento ter lhe causado tanta preocupação – disse ela. – Foi muita desconsideração da minha parte não ter lhe deixado uma mensagem. Robert riu. — Uma mensagem não teria adiantado nada, a menos que você tivesse o bom senso de mentir para mim. — O Rei me convocou para me perguntar sobre os atacantes? — Não consigo pensar em nenhum outro motivo – disse Robert, encolhendo os ombros. – Supunha-se que eu devia lhe interrogar ontem, então, a impaciência nele deve ter aumentado. Quando entraram no salão, Isobel deu uma olhada nas mesas, de uma ponta à outra. Stephen não estava ali, graças a Deus. Precisava de tempo para pensar. Porém, havia algo estranho ali: De Roché estava sentado no lugar de honra à direita do Rei. Geoffrey, seu irmão, estava sentado no outro extremo da mesa principal, e parecia ansioso. Ao vê-los, o Rei fez um gesto para que se sentassem ao lado de De Roché. Isobel se sentou sem olhar De Roché nos olhos. Depois daquele comportamento instável e ofensivo dos últimos tempos, a possibilidade de partilhar o mesmo prato com ele lhe provocava enjoo. Isobel não conseguia pensar em uma só palavra para lhe dizer. Ficou aliviada quando o Rei se levantou para falar. — Esta é uma ocasião feliz – disse o Rei, com os braços estendidos. – Hoje celebramos a união simbólica entre Inglaterra e Normandia... Isobel mal ouvia o que o Rei estava dizendo. Sobressaltou-se e entendeu, no entanto, quando Robert se pôs de pé, ao seu lado.


— Mas, meu bom senhor, eu lhe rogo que adie este compromisso um pouco mais – disse Robert, com voz tensa. – Ainda não concluímos a negociação dos termos do contrato de casamento. — Como você foi incapaz de cumprir essa simples tarefa, eu mesmo me encarreguei de ajudar o irmão dela. – disse o Rei. – Nós três nos reunimos faz uma hora e chegamos facilmente a um acordo. — Com a sua boa orientação, tenho certeza de que fez isso rapidamente – disse Robert com voz cortante. — Lorde De Roché foi extremamente generoso – respondeu o Rei em tom calmo. – Eu lhe garanto que Lady Hume não terá nada do que se queixar. Isobel sentia como se estivesse observando os acontecimentos que se desenrolavam ali como se estivesse a uma grande distância. Sem dúvida, aquilo não estava acontecendo. Agora não. Estava vagamente consciente de Robert amaldiçoando entre dentes enquanto se sentava. Com a mão no braço dela, sussurrou: — Eu não fazia ideia de que o Rei queria fazer isso hoje. — Lorde De Roché deseja que a cerimônia de casamento tenha lugar na sua cidade natal, Rouen – anunciou o Rei. – Os proclamas serão publicados lá. — Merde! – ciciou Robert junto a ela. Isobel manteve os olhos fixos na comida diante dela sem tocá-la, quanto o Rei falava e falava. Ela estremecia cada vez que ouvia a palavra compromisso, mas não tomou conhecimento de nada mais. Que Deus a ajudasse! Era tarde demais. Quando o Rei terminou de falar, De Roché se pôs de pé e começou a falar. As palavras saíam como mel espesso, falando sobre a união dos dois reinos, a vontade de Deus, o destino do Rei... Isobel se sobressaltou com o peso repentino de uma mão no seu ombro, e levantou o olhar para dois olhos cinza e duros. — Está na hora de assinar o contrato nupcial e os esponsais – disse De Roché. Ao som de aplausos pouco entusiastas, ele a ajudou a se levantar. Geoffrey se aproximou dela vindo do outro extremo da mesa. — Lamento se tudo isto lhe pegou de surpresa – sussurrou, enquanto colocava o contrato de casamento diante dela. – O Rei não vai tolerar nenhum atraso. Ela pegou a pluma e assinou sem ler. De Roché assinou com um floreio e, em seguida, pegousua mão. Com voz profunda, encheu o salão enquanto fazia a promessa formal diante dela. Todos os olhos no recinto se voltaram para ela. O pânico se apoderou de Isobel. Não podia fazer isso. Agora não. Ainda não. Nem nunca. Deu um passo atrás, com os olhos na porta. O Rei Henrique se pôs diante dela, bloqueando-lhe o caminho. Ela abriu a boca para dizer... Para dizer o que? Que não podia fazer isso agora? Certamente o Rei exigiria que ela lhe apresentasse um motivo. Tenho que esperar até saber se estou grávida ou não. Cometi o pecado da fornicação com um homem diferente daquele com quem aceitei me casar. Só que não podia lhe dizer isso. Não diante de todas aquelas testemunhas. O Rei pigarreou. Quando ela olhou naqueles olhos magnéticos cor de avelã, Isobel sentiu toda a força de vontade do Rei pela primeira vez. Diante dela estava o Rei que uniu a Inglaterra, o comandante que os homens seguiam com toda boa vontade para a guerra. Todos os seus traços exsudavam a certeza absoluta de que ele sabia o que era certo.


O Rei Henrique era implacável perseguindo o destino que Deus havia disposto para ele. Todos os dias ele cumpria com o seu dever com todo seu ser. Com o olhar fixo, estava lhe dizendo que hoje esperava que ela cumprisse com o dela. O Rei a incentivou, dizendo-lhe o que deveria dizer. Ela fez como ele havia mandado. Voltou a repetir as palavras simples da promessa de casamento. E pronto, estava feito. Um sopro de vento passou pelo salão, fazendo as lamparinas e as velas piscarem. Isobel se virou e viu uma escura figura à entrada, a chuva gotejando da capa sobre seus ombros. O coração de Isobel ficou preso na garganta. Antes mesmo que puxasse o capuz para trás e afastasse o cabelo molhado do rosto, sabia que era ele — Sir Stephen – chamou o Rei, um sorriso iluminava o seu rosto. – Venha, tem espaço aqui para você. Stephen se aproximou da mesa principal e fez uma reverência ao Rei. Porém, quando levantou a cabeça, seus olhos escuros estavam fixos em Isobel. — Chegou bem a tempo de ouvir as boas novas – disse o Rei, fazendo um gesto na direção de Isobel e De Roché. – Lorde De Roché e Lady Isobel Hume selaram o compromisso de casamento. Partem hoje mesmo para Rouen. Isobel se sentiu desfalecer com o olhar de Stephen. Mesmo com o rosto inexpressivo, ela viu os músculos da mandíbula dele se mexendo. Como ele devia estar zangado com ela! Fazia apenas algumas horas que ele havia lhe exigido que adiasse o casamento, e ela havia se comprometido a isso. Apenas algumas horas desde que estivera deitada nua com ele, e agora estava de pé ao lado do homem que ia ser seu marido. Queria gritar que não tinha culpa alguma naquilo; que o Rei não havia lhe dado opção. Mas nada disso importava. O fato, era fato consumado. Sem dizer uma palavra, ele girou nos calcanhares. Isobel viu as gotas escuras de chuva caindo da capa e batendo no chão de pedra cinza enquanto ele caminhava. Bem depois de ele ter saído, ainda se ouvia o eco das botas de Stephen no silencioso salão. Isobel se sentou no banco dos seus aposentos olhando sem ver para fora, pela fresta da janela ,enquanto Linnet lhe ajustava o corpete. Olhando para baixo, viu que estava vestida com roupa de viagem. Não se lembrava de ter trocado de roupa. De vez em quando, Linnet fazia uma pergunta sobre a bagagem, mas Isobel não tinha forças para responder. Quando viu Linnet abraçar a espada, no entanto, obrigou-se a falar. — Vou ter que renunciar a isso. – Sua voz saiu com um grasnido. – Meu novo marido não vai aprovar. Linnet a olhou por cima do ombro enquanto colocava a espada na bainha. Depois se aproximou de Isobel e cochichou. — Vamos usar nossas adagas. Linnet subiu a saia do vestido de Isobel e amarrou uma adaga na sua panturrilha. — Mas vamos viajar com vinte homens de De Roché... — Consegui duas extras para nós duas. – Linnet bateu na mão de Isobeluma segunda adaga. – Encontre um lugar para escondê-la. Era mais fácil enfiar a adaga debaixo do xale do vestido e prendê-la por baixo do cinturão do que discutir. — Você não tem que vir comigo – disse Isobel, embora a ideia de perder também a menina a levasse à beira das lágrimas outra vez. – Você pode querer ficar com François. — Nós dois vamos – disse Linnet. – Sir Stephen disse que não vai precisar de nós.


Isobel pegou a mão de Linnet e a apertou, incapaz de encontrar as palavras para lhe dizer o quão agradecida estava. Linnet afastou a mão, ainda furiosa com ela por permitir que tudo aquilo acontecesse. Isobel apoiou a cabeça contra a parede de pedra e deixou que as lágrimas corressem livremente pelas faces. Não conseguia parar de chorar. Talvez, se não estivesse muito, muito cansada... Linnet lhe trouxe um pano frio e úmido para ela limpar o rosto. Enquanto Isobel respirava lenta e profundamente através do pano, disse para si mesma que, se conseguiu sobreviver a oito anos de casamento com Hume, conseguiria sobreviver a qualquer coisa. Inclusive àquela situação. Respirou fundo mais uma vez e colocou o pano de lado. — Obrigada, Linnet. – E se pôs de pé, com os olhos secos, por fim. – Estou pronta. A chuva continuava a cair, então se despediu no interior do torreão. De alguma forma ela deu um jeito de fazer os gestos e murmúrios esperados enquanto ia de um grupo ao outro com De Roché. Só hesitou duas vezes. A primeira foi quando viu Lady Catherine FitzAlan. Isobel não conseguia parar de pensar que Stephen tampouco seria feliz apaixonado como estava pela mulher do próprio irmão. Embora Lady Catherine tivesse sido a gentileza e amabilidade em pessoa quando se conheceram, não lhe desejou bons augúrios agora. Estava com os olhos azuis fixos nela, como que fazendo uma pergunta candente. Isobel cambaleou de novo quando se despediu do irmão e de Robert. Como sentiria falta deles! Só o que a impedia de desmoronar era a promessa de Robert de visitá-la em breve. — Não diga nada a De Roché, mas estou saindo secretamente para Paris agora – disse Robert em voz baixa quando De Roché se virou para falar com outra pessoa. – E vou lhe visitar quando voltar. Isobel tinha certeza de que Robert sabia o que havia entre ela e Stephen, embora nunca tivessem tocadono assunto. Quando a abraçou pela última vez, ela não aguentou e sussurrou-lhe ao ouvido: Não veio. Não veio. — Você será feliz no final, Isobel, eu sei. Apesar dos esforços de Robert para disfarçar a preocupação atrás de um sorriso, ela viu nos olhos dele ao se despedir. Tinham dois dias de viagem pela frente, e De Roché estava ansioso para partir. Com um gêmeo de cada lado, Isobel incitou o cavalo à frente para se juntar ao resto do grupo. Enquanto cruzavam o pátio da muralha externa, virou-se para dar uma última olhada ao galpão junto à mesma, onde havia passado tantas horas felizes treinando. Onde ela e Stephen deram o primeiro beijo. Um movimento na parte superior da muralha atraiu seu olhar para cima. Uma figura escura e encapuzada estava de pé contra o céu cinza, a capa preta ondulando ao vento. Stephen viera se despedir dela, depois de tudo. Embora não pudesse ver-lhe o rosto, sentiu seus olhos queimando-a depois que saiu pelos portões. Que Deus se apiedasse dela, pois o amava! Sua vida estava arruinada.


Capítulo 26 Mesmocom uma escolta de vinte homens, o caminho para Rouen era perigoso. Cavalgavam pesado, raras vezes paravam, salvo para acampar por algumas horas à noite às margens do Sena. Isobel estava além do esgotamento quando viu no horizonte as torres e as colinas da igreja de Rouen, ao entardecer do segundo dia. Uma cidade formidável. As muralhas pareciam não terminar nunca, e tinham mais torres do que conseguia contar. Esgotada como estava, não dava para evitar se perguntar como o Rei Henrique esperava tomar uma cidade assim. Os demais também deviam estar cansados. O grupo todo reduziu o passo para um ritmo mais lento, agora que Rouen estava à vista. Quando passaram pelos sólidos portões da cidade já era noite fechada. De Roché ficou para trás para cavalgar ao lado dela. — Continue perto e atrás de mim – disse ele. – A casa não está longe agora. Isobel lutou para se manter acordada enquanto seguia o cavalo de De Roché pelas ruas estreitas e sinuosas. A cada poucos metros Isobel se virava para olhar os gêmeos que, montados e cabeceando, vinham bem atrás dela. Por fim chegaram à parte alta, diante da porta de uma enorme casa murada. De Roché a ajudou a apear. Suas pernas, rígidas de tanto montar o dia inteiro, cederam quando ele a colocou no chão. Braços fortes a levantaram. O homem fedia, mas ela não tinha forças nem para abrir os olhos. Ouviu sussurros em volta. Logo se acalmou pelo movimento oscilante ao ser carregada. Isobel se endireitou, com o coração acelerado, sem saber onde estava. Quando viu Linnet ao seu lado, em meio à roupa de cama emaranhada, ela levou a mão ao peito. Graças a Deus. Respirou profundamente para se acalmar. Porém, os acontecimentos dos últimos dias voltaram em cheio. Lentamente, recostou-se na cama. A lembrança de Stephen passou pela sua cabeça. Stephen, falando com frieza sobre o que ela devia e o que não devia fazer. Corpulento, com o cinturão e a espada, zangado demais para olhá-la. E o rosto dele, quando caiu em si quanto ao que havia acontecido. O eco daquelas botas enquanto ele saía do salão... E a última vez que o vira, e que nunca mais voltaria a ver: aquela figura escura de pé sobre a muralha, com a capa ondulando ao vento... Que Deus lhe desse forças. Chorava em silêncio, tentando não acordar Linnet, mas os soluços sacudiam a cama. Obrigou-se a respirar lenta e profundamente. Não ia ganhar nada se continuasse chorando. Pestanejando para conter as lágrimas, sentou-se e empurrou o pesado dossel da cama para o lado. Era tarde, a julgar pela luz. Apesar de estar grata a De Roché por tê-la salvado de conhecer a mãe dele na noite anterior, não devia demorar demais para conhecer a sogra. A mulher poderia pensar mal dela. Isobel ficou de pé no chão frio, abraçando a si mesma, e olhou em volta do quarto. Era escuro e austero, e os únicos móveis eram a cama, um banco e uma mesa com uma jarra e uma bacia. A luz vinha de um aposento contíguo. Isobel cruzou a porta até um acolhedor solário. Tinha um braseiro a carvão para aquecer o ambiente e estava confortavelmente mobiliado com uma pequena mesa, uma cadeira e


tamboretes. A melhor coisa do local era a grande janela dupla que banhava o local com a luz da manhã que ia a meio. Debaixo da mesma havia um assento de janela com almofadas coloridas. Isobel subiu no assento da janela para olhar. Viu que seus aposentos ficavam no terceiro andar com vista para um pátio interno. Havia apenas uma árvore no pátio, cujos ramos eram mais altos que a janela. Uma fileira de pequenos pássaros marrons estava pousada no galho fino mais próximo, e suas cabeças balançavam para frente e para trás à medida que gorjeavam. Ao ouvir uma leve batida, Isobel desceu com um pulo justo quando uma bonita criada abria a porta. — O senhor a espera no salão, milady – disse ela, fazendo uma reverência. – Estou aqui para lhe ajudar a se vestir. Isobel resolveu deixar Linnet dormir. Pouco depois, desceu com a jovem, e depois de vários lances de escada e de outros tantos quartos, chegaram ao salão. Ali ela encontrou De Roché sentado sozinho diante de uma longa mesa disposta à frente da enorme lareira do salão. Ele se levantou e a saudou com um beijo em cada face. — Seus aposentos são satisfatórios? – perguntou, enquanto a ajudava a se sentar. — São encantadores, obrigada, principalmente o solário. Várias bandejas, abarrotadas de comida, estavam sobre a mesa. De Roché empurrou o prato até ela e assentiu com a cabeça para incentivá-la. Toda aquela comida só para os dois? Decerto o resto da casa já devia ter tomado o desjejum fazia muito tempo. Ela mordiscou um pedaço de pão. — Lamento não ter visto a sua mãe. Quando vou conhecê-la? — No momento, minha mãe não está aqui. De Roché espetou um pedaço de presunto com a ponta da faca e o colocou na boca. Não estava ali? Provavelmente a mãe dele devia estar fora, visitando amigos na cidade. — Receio que você não poderá me ver muito durante a próxima, ou as próximas duas semanas – disse De Roché, mastigando. Ele olhou para a bandeja de pão fumegante, pegou uma grossa fatia e a molhou na tigela de mel. Fios de mel pegajoso corriam-lhe pela barba e dedos, fazendo com que ela tivesse uma inquietante lembrança de Hume. Entre bocados de pão e fios de mel escorrendo pela mão dele, disse: — Estarei ocupado persuadindo os homens da cidade a apoiarem o Rei Henrique nesta luta. Essas, pelo menos, eram boas notícias. — Fico satisfeita por você falar com eles pelo nosso rei – disse. – Pode lhes garantir que ele é um governante justo que cuida de todo o seu povo. De Roché bufou. — Esse não é o tipo de argumento que vai persuadir os homens que realmente importam. — Não entendo essa resistência ao Rei Henrique – disse ela. – Não pode haver nenhum conflito sincero a respeito do direito dele de governar a Normandia. O direito de Henrique governar toda a França não estava muito claro, então ela não tocou no assunto. De Roché deu uma palmadinha na mão dela. — Não se preocupe com essas questões. — Mas eu quero ser sua companheira em tudo – protestou. — Deixe a política comigo – disse ele. – Você tem outros deveres que vão ocupar todo o seu tempo mais do que de sobra.


Fez um sinal e um dos criados trouxe um pequeno recipiente com água para que ele enxaguasse os dedos. De Roché manteve os olhos nela enquanto secava os dedos no pano que o criado lhe estendia. Incômoda com a intensidade daquele olhar, Isobel soltou a fatia de pão. — Venha – disse De Roché, levantando-se da mesa. – Vou lhe mostrar a casa. Tenho uma hora livre antes de sair. O cheiro apetitoso do presunto e do pão quente estava grudado no seu nariz. O estômago rugia, mas ela se levantou e pegou-lhe o braço. Ele era um homem importante, com deveres a cumprir; não devia fazê-lo esperar. De Roché foi caminhando com ela e passando diante de vários aposentos sem lhe dar a chance de olhar lá dentro. Devia haver alguma parte da casa da qual ele estivesse particularmente orgulhoso, um conjunto de aposentos que queria lhe mostrar primeiro. — Vou conhecer a sua mãe durante o jantar, então? – perguntou Isobel enquanto ele fazia com que ela passasse apressadamente para outro aposento. — Creio que não. Ela está em Paris. — Paris? A sua mãe está em Paris?! — É..., é mais seguro que ela fique lá, enquanto a Normandia estiver agitada do jeito que está. Sem dúvida, De Roché não iria trazê-la para ficar na casa sem um membro feminino da família presente. — Se a sua mãe não está em casa, quem está então? – Quando ele não respondeu de imediato, disse: – Você sabe que não posso ficar aqui se não tiver alguém que sirva de acompanhante para mim. — A casa é enorme – disse ele, pondo o braço em torno da cintura dela e levando-a adiante. – E com todos esses criados, não se pode dizer que estamos a sós. Como é que ele podia colocá-la naquela posição? Ela se esforçou para não gritar com ele. Não que isso adiantasse agora. Depois de passar uma noite debaixo do teto dele, o dano já estava feito. As pessoas pensariam o que quisessem. — Venha, quero lhe mostrar a nova ala da casa, onde ficam os meus aposentos. Abriu uma pesada porta de madeira e fez um gesto para que o precedesse. Ela cruzou os braços e se virou para ele. — Você devia ter me dito que sua mãe não estava aqui. — Nós estamos noivos – disse, inclinando-se até que ela sentiu o hálito quente contra a orelha. – É como se estivéssemos casados já. Antes que pudesse dizer algo para se opor, ele a levantou nos braços e a levou até a porta com estrutura de madeira. — Solte-me! Por favor! De Roché a levou através de um grande solário luxuosamente mobiliado até um aposento contíguo. Centralizada contra a parede estava uma cama enorme, com um marco de madeira escura e pesadas cortinas na cor bordeaux, amarradas com cordões dourados. Aquele, evidentemente, era o quarto de De Roché. E a cama dele. Ele a colocou no chão e a fez retroceder até que sentiu a grande cama atrás de si. Arqueou o corpo para trás para não tocar nele; o perfume que ele usava era doentiamente doce, agredindo seu nariz. Sentando-se na cama, deu algumas palmadinhas no colchão atrás dela. — Seu dever mais importante está aqui. O coração de Isobel retumbava no peito. Ela não queria isso. Quando virou a cabeça para fugir de um beijo, ele desceu a boca até a garganta dela. Então, de repente, estava por inteiro em cima


dela: as mãos apertando-lhe os seios, o joelho empurrando entre suas pernas, a boca chupando seu pescoço... — Pare, está me machucando! – gritou, enquanto tentava em vão afastá-lo. Ele estava puxando seu vestido, levantando-o. — Você precisa me ouvir! – gritou ela. Jogou o corpo para trás, respirando com dificuldade. — Eu lhe rogo, serei breve – disse ele. — Estou me sentindo febril. Ele sorriu. — Por estranho que pareça, eu também me sinto febril. — Estou no meu período. – A mentira escapuliu da sua boca antes que ela sequer pensasse. – Corando, acrescentou: – Começou esta manhã. — Entendo. – De Roché deu um passo atrás e ajeitou a túnica. – Bom, então podemos esperar alguns dias. — Sim, – disse ela, cuja voz mal passava de um sussurro – devemos esperar. Hume havia seguido a advertência da igreja de se abster de relações sexuais durante a menstruação. Ela havia usado essa desculpa tão amiúde e por tanto tempo quanto se atreveu. Pela expressão de desgosto no rosto dele, desconfiava que tal adiamento se devia a uma perversa repugnância mais do que o desejo de evitar o pecado. De Roché mandou-a de volta para seus aposentos, sem se incomodar em disfarçar a contrariedade. Como se ela pudesse evitar ficar menstruada! Havia mentido, mas ele não sabia disso. Bom, ela também estava zangada com ele. E tinha um bom motivo para tanto! Desagradável sim, no entanto, não seria nada bom para ela a longo prazo. Aquele homem podia tornar a vida dela impossível de mil maneiras, se assim o quisesse. Então, por que mentiu para dissuadi-lo da ideia? Se estivesse grávida, então, deitar-se com De Roché agora seria o caminho mais seguro e mais inteligente. O único caminho sensato. Se o marido suspeitasse que a criança não era dele... Fechou os olhos. Nada poderia ser pior. No entanto, não podia obrigar a si mesma. Ainda não podia dar o passo final. Compromisso mais consumação significava casamento, independente das formalidades. Honraria o pedido de Stephen o melhor que pudesse. Apesar de não ser capaz de retardar o compromisso, adiaria a consumação do casamento até que soubesse se ia ter um filho ou não. O filho de Stephen. Isso era uma estupidez, pois Stephen não podia salvá-la agora. Mesmo que quisesse, não poderia.


Capítulo 27 Como se fosse um castigo por ter mentido, Isobel acordou na manhã seguinte com uma viscosidade úmida entre as pernas. Não! Não podia ser! Fechou os olhos e tentou fingir que não havia percebido. No entanto, não podia significar outra coisa. Deitou-se de lado e abraçou os joelhos contra o peito. Não havia bebê nenhum. Só que agora podia admitir para si mesma o quanto havia desejado aquele bebê. Se estivesse grávida, não havia como Stephen saber, não teria como conseguir falar com ele. No entanto, abrigava a esperança de que, de alguma maneira, ele soubesse. E viesse procurá-la. Pouco importava se ele se casasse com ela pelo bem da criança. Nem que ela fosse uma mulher patética, sempre com a esperança de que ele a amasse. Secretamente, lá no fundo do coração, queria ser forçada a correr esse risco com ele. Apesar de tudo, queria aquele bebê. O filho de Stephen. Uma parte dele que poderia amar e conservar. Linnet se mexeu na cama ao seu lado, trazendo-a bruscamente de volta ao presente. Não haveria escapatória do compromisso agora. Sua vida estava ali, na Normandia. Com De Roché. Isobel estivera tão perdida naquele desespero que os dias e as noites se juntavam em um só borrão. Não havia saído dos seus aposentos, havia se negado a se vestir e só comia porque Linnet a obrigava. Embora dissesse para si mesma que devia se recompor e encarar o futuro de frente, simplesmente não conseguia. Custou-lhe muita força de vontade se arrastar da cama e se sentar no solário. Passava a maior parte do tempo ali, olhando pela janela para a árvore do pátio interno, que agora estava toda florida. Ignorou o puxão no braço. Quando insistiram, tirou os olhos da árvore e foi virando lentamente até ver Linnet ao seu lado. — Estava tentando lhe dizer! – Era a voz de Linnet, urgente, irritada. Isobel tentou fazer um esforço, pelo amor que sentia pela menina. — O que? — Eu disse a todos que você estava com febre, mas já se passou uma semana e De Roché está perguntando por você. Como é que Linnet podia pensar que isso lhe importasse? — Ouça-me! – Linnet pôs as mãos nos quadris e bateu o pé no chão com força. – Eu juro, vou bater em você se não parar de olhar para essa maldita árvore! François e eu precisamos da sua ajuda. Antes que Isobel caísse no sono de novo, Linnet colocou um copo de vinho na sua boca e o manteve ali até que ela bebeu. Isobel sentiu o vinho bater no estômago e se espalhar pelo corpo. Como tinha muito pouco no estômago, sentiu-se enjoada, e Linnet a arrastou para fora do banco. Por que a menina não a deixava em paz? Com nostalgia, olhou sobre o ombro para a árvore. A forte bofetada na face a sobressaltou. —Linnet! — Eu lhe avisei – disse Linnet sem a menor sombra de arrependimento. – Agora você vai comer a comida que eu lhe trouxe, depois vai se lavar e se vestir. Não prometeu ao Rei que iria vigiar De


Roché? Eu lhe digo que ele está tramando algo. Precisamos averiguar o que é antes que seja tarde demais. Tarde demais? Já era tarde demais para ela. Mas Linnet tinha razão. Estava se descuidando do seu dever. Se De Roché estava trocando de lado, devia tratar de fazê-lo mudar de ideia. Estava cansada até a medula, no entanto, e não sabia como ia fazer isso. — Vou me vestir e cumprir com o meu dever – disse para Linnet. Seu futuro parecia negro, e ser a esposa de um traidor era um item que ela não queria acrescentar à lista de cargas que já tinha. Como se fosse um sinal, alguém bateu à porta no instante no qual acabou de se vestir. Ouviu sussurros e, em seguida, François apareceu diante dela. Ele devia ter crescido um palmo desde que Stephen o trouxera de Falaise naquele dia. Da noite para o dia, ele havia passado de criança a jovem beirando a idade adulta. — É muito bom lhe ver de pé, Lady Hume – disse com voz nova e profunda. – Sente-se melhor? — Estou bem, obrigada. – Sentia-se um pouco melhor depois de ter comido. – Linnet me disse que você tem notícias que preciso ouvir. — São sobre Lorde De Roché – disse François. – Linnet e eu acreditamos que ele está conspirando contra o Rei Henrique. Bem tarde da noite, ele se reúne com os homens na saleta, onde nenhum dos criados pode ouvi-los. — Isso não significa nada – protestou Isobel. — No entanto, nós dois estávamos nos arbustos do lado de fora da janela e ouvimos – disse Linnet. Por Deus, o que é que aqueles dois andaram fazendo?! Isobel sentiu uma onda de culpa por ter sido tão negligente. — Não ouvimos muito, – admitiu François – mas eles falaram sobre o Rei Henrique e... — Sobre Borgonha e o Delfim – terminou Linnet por ele. — Então eles estavam falando sobre política? Atualmente os homens não falam de outra coisa. Tenho certeza que De Roché está fazendo o que prometeu. Persuadir os homens a apoiarem o Rei Henrique. Os gêmeos sacudiram a cabeça ao mesmo tempo. — De Roché falava como se quisesse cuspir cada vez que dizia o nome do Rei – disse François, como se com isso resolvesse o assunto. Embora Isobel não tivesse nenhum motivo para desconfiar daquelas reuniões noturnas, a certeza demonstrada pelos gêmeos a inquietou. Será que De Roché havia mudado de lado? Para saber, teria que se encontrar com ele no salão e perguntar quem eram os convidados dele. A simples ideia de vê-lo fazia suas mãos suarem e a garganta secar. Não obteria nenhum benefício, no entanto, com o adiamento do inevitável. Pôs-se de pé. — Vou falar com ele, agora. — Tem mais uma coisa que a senhora precisa saber – disse François. Ele não tinha acabado ainda? Quase que falou bruscamente com ele, mas notou que o rapazinho estava olhando para o chão e arrastando os pés. — O que é? Pode dizer – disse, tocando-lhe o braço. A voz de François soou tão baixa que ela teve que se inclinar para ouvi-lo. — Ninguém na cidade sabe do seu noivado. — Não pode ser – disse ela. – A esta alturaos avisos já devem ter sido lidos na igreja pelo menos uma vez. François negou com a cabeça, depois olhou de novo de soslaio para a porta, como que ansiando escapar.


Qual a finalidade daquela demora por parte de De Roché? As notícias viajavam lentamente entre as partes inglesas e as francesas da Normandia, mas viajavam. Não podiam ser escondidas para sempre. Isobel encontrou De Roché sentado atrás de uma mesa cheia de pergaminhos no salão particular. Quando a viu à porta, pôs-se de pé e cruzou o aposento. — Fico contente por ver que você está bem! – disse, pegando-lhe a mão e beijando-a na face. Parecia realmente satisfeito por vê-la. – Você está linda, embora um pouco magra. Venha, sente-se aqui. Passou o braço em volta dela e a guiou até a cadeira mais próxima do braseiro. Tal solicitude fez com que ela se sentisse culpada por se deixar levar pelas loucas especulações dos gêmeos. — Lamento interromper seu trabalho – disse ela. — Fico satisfeito por lhe ver antes de partir. É uma pena, mas preciso lhe deixar justo agora que está melhor, mas não posso mais adiar a visita que preciso fazer à minha mãe. – De Roché desviou o olhar e puxou a orelha. – Não posso permitir que ela fique sabendo do nosso compromisso por terceiros. Sabe, ela me adora. Então esse era o motivo pelo qual os avisos estavam demorando para serem lidos! Nenhuma desculpa adequada, tinha certeza. No entanto, ficou aliviada porque o motivo não era mais sinistro do que a consideração que ele tinha pela mãe. — Você é um bom filho – disse Isobel, satisfeita por saber a verdade. – Mas eu não devia ir com você? — Não seja tola! Acabou de se levantar, esteve doente, de cama – disse ele. – Em todo caso, você não deve correr o risco de viajar por aquelas estradas agora. Então foram interrompidos por um dos homens da guarda. — Lorde De Roché, – disse o homem à porta – os homens estão prontos e aguardando lá fora. — Vou ter com eles em seguida – disse De Roché, despedindo o homem com uma inclinação de cabeça. Isobel suspirou de alívio, podia retardar um pouco mais a desagradável tarefa de lhe fazer perguntas sobre política, — Posso lhe acompanhar até os seus aposentos antes de partir – disse De Roché, pondo-se de pé. À porta ele parou bruscamente, como se tivesse se esquecido de algo, e entrou de novo. Estava de costas para ela, mas Isobel viu que ele pegou um dos pergaminhos sobre a mesa, enfiou-o na gaveta e trancou-a a chave. Levou-a diretamente até os seus aposentos, cujos passos rápidos lhe transmitiram a pressa que tinha agora. Parado em frente à porta aberta, beijou sua mão e lhe deu um adeus precipitado. Quando se virou para sair, algo dentro do quarto chamou a atenção dele. Uma onda de inquietação atravessou Isobel enquanto seguia a direção do olhar dele. O que lhe chamou a atenção, e ainda retinha a atenção de De Roché, era Linnet. A menina estava sentada no assento da janela com a cabeça inclinada sobre a costura, a luz do sol brilhando no cabelo louro. Como é que Isobel não havia se dado conta?! Linnet, assim como o irmão, estava crescendo. Sua figura florescente estava muito evidente naquele vestido pequeno demais para ela. Isobel soltou um profundo suspiro quando Linnet levantou a cabeça e fixou os olhos azuis neles. Que o céu ajudasse aquela criança. Uma menina, tão sozinha no mundo, não devia ser tão encantadora. Como senhora de Linnet e senhora da casa, Isobel podia protegê-la da maioria dos homens. Mas não de De Roché. Se ele tivesse suficiente falha no código de honra a ponto de se aproveitar


da vantagem que tinha sobre uma pessoa sob sua responsabilidade, Isobel seria impotente para detê-lo. Bom, talvez não fosse completamente impotente. — Philippe – disse, enfatizando o uso do primeiro nome. Ele parou de olhar para Linnet e olhou para ela. Forçando um sorriso, ela deu um pequeno passo adiante e, aproximando-se mais dele, apoiou a palma da mão contra seu peito. Agora ela tinha atenção dele. O flerte não era fácil para ela. Inclinou a cabeça e o olhou através dos cílios. — Você precisa mesmo ir? De Roché envolveu a mão dela com as suas e levou-a lentamente aos lábios. — Receio que devo ir sim – disse, lamentando-se. – Não posso demorar mais. Isobel respirou fundo e soltou o ar com uma só palavra. — Certo. De Roché passou a língua pelos lábios enquanto olhava para os seios dela. Por um longo instante, temeu que o estratagema tivesse funcionado bem demais. Quando ele sacudiu a cabeça e se afastou, fez uma silenciosa oração de agradecimento a todos os santos que lhe ocorreram. — Volto dentro de uma semana – disse, passando os olhos sobre ela. Quando Isobel viu que ele desapareceu escada abaixo, pensou no que havia visto nos olhos dele quando olhou para Linnet. Não havia apenas luxuria, mas posse também. De Roché achava que tinha o direito de tomar Linnet. Isobel não era ingênua, sabia como ia acontecer. O Lorde podia dar à criança algumas bugigangas ou algumas moedas, mas não permitiria que ela o recusasse. Isobel só conseguiria adiar o inevitável, nada mais. Não iria protestar quanto ao fato de que os avisos deviam ser lidos três vezes. Quando De Roché voltasse, ela iria para a cama com ele. Não era tão vaidosa a ponto de acreditar que podia entreter De Roché para sempre. Com o tempo, ela conseguiria fazer com que a menina se fosse daquela casa. Poderia ganhar tempo. Quando Robert viesse visitá-la, faria com que levasse Linnet com ele para longe dali. Quanto tempo faltava para a visita de Robert? Algumas semanas? Ela poderia distrair De Roché durante esse tempo, se se empenhasse. Isobel não tinha como salvar a si mesma. Mas, por todos os santos, salvaria Linnet!


Capítulo 28 Abril 1418

Rouen era um prêmio,superada apenas por Paris. Desde La Chartreuse de NotreDame de le Rose, omonastériocartuxoficava em uma colina aleste da cidade, e Stephen podia olhar por cima das muralhas de Rouen e ver obulício daquela próspera cidade de 70. 000 almas. As defesas da cidade haviam sido reforçadas desde que as tropas inglesas tentaram tomá-la, mais ou menos trinta anos atrás. Stephen examinou a longa linha da muralha, que tinha sessenta torres. Para sitiar a cidade o Rei Henrique teria que trazer um exército grande o suficiente para cercar totalmente a cidade e custodiar os seis portões. Teria também que bloquear as provisões que chegavam à cidade vindas do norte e do sul através do Sena, o rio que corria ao lado da mesma. O cerco a Rouen seria umaárdua tarefa. De qualquer modo, a cidade cairia. No entanto, Stephen não tinha muita esperança de que conseguiria convencer os homens de Rouen quanto a essa verdade. Como enviado do Rei, ele era o encarregado de lhes fazer apenas uma pergunta: Rouen iria se render voluntariamente ou o povo teria que morrer de fome antes? Stephen voltou a se perguntar por que o Rei o escolheu para essa missão. Sentiu a mão do irmão no assunto. Talvez fosse Robert. Stephen havia tido tempo de sobra para analisar todo o quebra-cabeça durante a viagem de dois dias até Rouen. Em vez disso, a única coisa que conseguiu foi pensar em Isobel, e no que ia fazer com ela quando tudo aquilo terminasse. Duas semanas haviam se passado. Duas semanas desde que ela esteve nua debaixo dele. Duas semanas depois de ter sido rejeitado por ela. Duas semanas desde que ela se comprometera com outro. Peça enésima vez se perguntou por que ela havia feito isso. Como pôde?! Como pôde fazer isso justamente depois de ele ter lhe pedido para não fazer? Mas fez, pouco depois que ele havia saído da cama dela, seu cheiro devia estar impregnado ainda na pele de Isobel quando ela se comprometeu com De Roché. De alguma forma o Rei havia desconfiado das intenções de Stephen em relação à Isobel, pelo menos era isso que Robert achava. O Rei não era o único a fazer suposições. Ao que parecia, Robert, William e Catherine pretendiam falar com o Rei em nome de Stephen naquele mesmo dia. O Rei Henrique, porém, agiu com rapidez, antes que os amigos de Stephen pudessem se aproximar dele. Robert insistiu dizendo que o Rei o surpreendera, também. Mas, mesmo assim, foi ela quem se comprometeu no casamento. O único consolo de Stephen era que Isobel não parecia uma noiva feliz naquela manhã, estava com os olhos inchados e a pele tão pálida quanto à morte. Um compromisso matrimonial entre um homem e uma mulher maiores de idade era quase irreversível. Porém, sem dúvida que, se a mulher estivesse grávida de outro homem, esse sim, seria um motivo válido para rompê-lo.


Se Isobel estivesse grávida seria um assunto simples. Stephen iria levá-la e enfrentaria as consequências mais tarde. Se ela não aceitasse se casar com ele no início, convencê-la-ia durante o tempo que faltava para o nascimento da criança. O que faria se ela ainda não soubesse se ia ou não ter o seu filho? Ou, pior ainda, e se ela não estivesse grávida? Não podia se permitir sequer pensar nisso. —Stephen! Ele se virou e viu Jamie e Geoffrey correndo até ele. — A cidade respondeu à mensagem enviada – disse Jamie, segurando um pergaminho enrolado. Stephen examinou a missiva longa e no estilo floreado. — A cidade dará as boas-vindas amavelmente ao enviado do Rei Henrique amanhã – resumiu para Jamie e Geoffrey. – Mas convida a minha escolta de cavaleiros ingleses a permanecerem aqui no monastério enquanto eu negocio na cidade. — Você não pode concordar em ir sozinho – protestou Jamie. – Pelo menos pode levar Jamie e eu com você. — Não vou permitir isso – disse ele. – E não precisa, já que garantiram minha segurança. — Garantiram... – debochou Jamie. – Aqueles assassinos franceses ainda passam os aliados e os parentes mais próximos no fio da espada! — Se eles quiserem violar a garantia dada, – disse Stephen – um ou dois homens não poderão me salvar. Entraria em Rouen apenas pela manhã. Em um dia ou dois saberia o destino da cidade. E o dele próprio.

Linnet entrou precipitadamente no salão e fechou a porta. —De Rochévoltou! Isobel segurou o estômago, seu indulto havia terminado. — Os criados estão revoltados, porque nem bem entrou em casa, saiu de novo – disse Linnet, com as faces rosadas pela excitação. – Você não vai acreditar! É até mesmo pior do que eu pensava! — Acalme-se, Linnet. O que é que não vou acreditar? — François ouviu os homens conversando enquanto ajudava com os cavalos – disse Linnet. – De Roché esteve em Troyes, não em Paris! Isobel tentou dar sentido à notícia. — Troyes? Não é onde vive o Duque de Borgonha e a Rainha francesa? Linnet assentiu com a cabeça vigorosamente, andando de lá para cá. — Essa é a prova de que De Roché está traindo o Rei! Haviam ido à cidade onde Borgonha havia capturado a Rainha e implantado um governo traidor. Todo mundo esperava que Borgonha rompesse a aliança com o Rei Henrique a qualquer momento.


— François ouviu os homens dizerem que Borgonha se uniria a Armagnac, propondo-lhe condições para unirem forças contra o Rei Henrique. — E o que é que François estava fazendo, escondido na palha? Eu gostaria que ele não se arriscasse tanto. Onde ele está agora? — Seguindo De Roché, é claro – disse Linnet. – Eu lhe disse que... — Você quer a morte do seu irmão?! Pela enésima vez se perguntou sobre os antecedentes dos gêmeos. Eles haviam se negado e não lhe disseram nem uma palavram, exceto que ficaram órfãos. Uma coisa era certa. Linnet não havia sido educada para ser serva de ninguém, pois era tão voluntariosa quanto Isobel quando tinha a mesma idade que ela. Passava da meia-noite e elas se sentaram para costurar, ou pretendendo costurar, enquanto esperavam François. Justamente antes de Isobel ouvir uma leve batida à porta, Linnet deixou a costura de lado e correu para abrir. — Aonde foi De Roché? – perguntou Linnet para François assim que fechou a porta. – Você viu com quem ele se encontrou? — Eu o segui até uma casa onde ele se encontrou com os partidários de Armagnac. — Você não deve fazer tudo o que sua irmã lhe diz – ralhou Isobel. – Esses homens são poderosos, e há muita coisa em jogo. Isso os torna muito perigosos. — De Roché não me viu – disse François com um sorriso arrogante. Por que De Roché havia se encontrado com os parceiros de Armagnac? Estava se organizando com as duas facções contra o Rei? — Pode ser que De Roché estivesse tentando persuadi-los sobre a retidão da causa do Rei Henrique – disse em voz alta. Linnet bufou de forma imprópria para uma menina. — Ele nunca foi leal ao Rei – disse François. O Rei Henrique não era amado ali como o era na Inglaterra, por isso, às vezes ela se perguntava quanto ao motivo daquela lealdade fervorosa por parte dos gêmeos. Mas isso, bem como a origem deles, era algo que eles não compartilhavam com ela. — O Rei precisa ser avisado – insistiu Linnet. — E sobre o que devemos avisar o Rei? – Perguntou Isobel, tentando argumentar com eles. – Mesmo que tivéssemos algo que valesse a pena, como eu conseguiria mandar uma mensagem para o Rei? — Há uma maneira – disse François, radiante. – O Rei Henrique enviou um emissário a Rouen. — O enviado do Rei está na cidade? François negou com a cabeça. — Não, ele está fora da cidade, esperando permissão para entrar. O comandante da guarnição e os líderes da cidade passaram o dia todo discutindo sobre o que fazer com ele. — Como é que você fica sabendo dessas coisas?! – espantou-se Isobel. – Você não pode ficar andando pela cidade toda desse jeito. — Alguém tem que nos trazer notícias, e François não permite que eu vá – disse Linnet. – Então, como vamos fazer para mandar uma mensagem para o enviado? — Mas não temos nenhuma prova das ações de De Roché contra o Rei – argumentou Isobel. – Espera mesmo que o entreguemos com tão pouco? Linnet levantou o queixo. — Se encontrarmos uma prova, você fará isso? Isobel olhou de um par de brilhantes olhos azuis para o outro.


Trair seu Rei ou trair De RochĂŠ? Antes que pudesse responder a isso, deveria encontrar a verdade. Mas, como? Na cama. Sim, essa seria a melhor ocasiĂŁo para perguntar-lhe. E seria naquela mesma noite, depois da primeira vez juntos.


Capítulo 29 Pela manhã, Stephen vestiu a roupa que trouxera para interpretar o enviado do Rei. O elaborado chapéu de aba larga, a túnica de veludo até os joelhos e os anéis e broches para ostentar. Inclusive, que Deus o ajudasse, aquelas malhas multicoloridas. Quando estava prendendo o cinturão de ouro maciço em torno dos quadris, escutou um assobio. Ergueu a vista e viu Jamie sorrindo, parado à porta. — Com isso certamente eles vão lhe notar, tio. — Estou apenas cumprindo com o meu dever – disse Stephen com uma piscada. – Agora, certifique-se de sair o mais rápido que puder se houver problemas. — Problemas? – perguntou Jamie. – Quer dizer, quando as senhoritas começarem a brigar por você? Stephen riu e pôs a mão sobre o ombro de Jamie. — A pior coisa que eles fariam seria me reter lá para pedir resgate – disse em voz baixa enquanto caminhavam juntos para sair. – Se eu não voltar nem mandar alguma mensagem antes do anoitecer de amanhã, pegue seu cavalo e voe para Caen. Não espere nenhum segundo, porque eles podem vir até o monastério e pegar você também. — Farei o que tiver que fazer – disse Jamie. — Eu sei. Você sempre me enche de orgulho. Stephen não acreditava que os bons cidadãos de Rouen os jogariam por cima do muro e ateassem fogo neles. Mas poderiam. Já que estava pronto, montou Relâmpago e se dirigiu à entrada principal da cidade. Chegou exatamente quando os sinos da igreja da cidade batiam seis badaladas, a hora acordada. Uma escolta de doze cavaleiros se encontrou com ele no portão principal e o acompanharam pelo curto percurso até o Palácio da Justiça. No Palácio, foi recebido com todo aquele tedioso protocolo destinado ao representante do Rei inglês. Porém, isso era melhor do que jogarem seu corpo sem vida por cima do muro. Mas sempre que podiam fazer isso mais tarde. Depois das boas-vindas, foi levado até um quarto do Palácio e deixado lá para descansar da viagem. E como a viagem do monastério até a cidade era pouco mais de um quilômetro, isso queria dizer que os homens importantes da cidade ainda não haviam decidido o que fazer com ele. A notícia sobre a chegada do enviado do Rei Henrique já devia ter se espalhado pelos quatro cantos da cidade àquela altura. Se De Roché era ainda um homem do Rei, deveria procurar uma forma de falar em particular com Stephen. Só que Stephen não esperava que ele fizesse isso. Já que De Roché era um homem de influência ali, Stephen precisava resolver os assuntos do Rei por conta própria. De Roché não devia suspeitar que Isobel iria embora com Stephen antes que a cidade desse uma resposta formal. Seria melhor ainda se De Roché não ficasse sabendo da partida dela antes que estivessem a um dia e meio de distância dali. Mas havia pouca coisa que Stephen pudesse fazer no momento. Depois de uma ou duas horas, um criado apareceu à porta para lhe comunicar que haveria uma recepção em sua honra naquela noite.


De Roché era obrigado a comparecer com as demais personalidades locais, o que significava que Isobel estaria lá também. Stephen precisava encontrar um meio de conversar a sós com ela, assim poderiam levar a cabo seu plano.

Isobel parou no alto da escadaria, vestida com um traje de seda verde e debruns prateados, com sapatilhas combinando. Acariciou a saia mais uma vez. Depois, com o coração cheio de medo, desceu aos degraus. Na noite anterior ela estava tão certa que De Roché iria procurá-la que havia despachado Linnet para dormir com as criadas da cozinha. Isobel ficou deitada e acordada durante horas esperando ouvir o rangido da porta. Perto do amanhecer, ouviu vozes no andar de baixo. Quando a casa voltou a ficar em silêncio, finalmente adormeceu. Naquela manhã, Linnet acordou-a com a notícia que De Roché havia saído de casa para cometer mais traições.François veio mais tarde para lhes dizer que a cidade estava inundada com o rumor de que o enviado do Rei estava preso ou morto, no Palácio. O dia inteiro ela havia passado tensa, esperando que De Roché voltasse para casa. Finalmente, depois de uma hora, De Roché havia mandado um servo lhe dizer para se vestir que haveria uma grande recepção no Palácio. O que significava que o enviado do Rei estava no Palácio e que estava vivo e bem. A recepção poderia ser a melhor, talvez a única, chance que teria de entregar uma mensagem ao enviado do Rei. Se De Roché estava envolvido em alguma traição contra o Rei Enrique, ela devia tratar de descobrir o que era antes de chegarem ao Palácio. De Roché estava esperando por ela na entrada principal. Seus olhos se arregalaram quando a viu. — Eu preferia ficam em casa esta noite com você – disse, pegando-lhe o braço. – Mas essa recepção é para o enviado do Rei Enrique, e ele vai querer lhe ver. — Quem é o enviado? – perguntou ela. – Eu o conheço? Ele deu de ombros. — Não sei o nome dele. Vamos, a carruagem está esperando. Estamos atrasados. Isobel tinha tão pouco tempo! Qual seria a melhor abordagem? Elogiar? Lisonjear? Fazer biquinho? Ela treinava com espadas enquanto as outras meninas aprendiam essas úteis habilidades. — Realmente, isso é uma lástima, – assim que se acomodaram na carruagem – você sequer pôde ir me cumprimentar depois de ficar uma semana fora. Os dentes de De Roché brilharam na penumbra. — Você sentiu a minha falta. Isobel olhou para ele através dos cílios e assentiu. Na verdade, essa quase que constante ausência dele era o que lhe dava esperança de sobreviver àquele casamento. Virou o rosto para o lado e bufou levemente. — Espero que tenha um bom motivo para não ter ido me ver. De Roché colocou a mão na coxa dela.


— Eu lhe disse que os homens daqui são uns cabeças-duras – disse ele, inclinando-se para ela. – Requer muito esforço persuadi-los a trilhar o caminho certo. Ele começou beijando-lhe o pescoço. Quando a mão dele chegou a um dos seios, Isobel entrou em pânico e disse bruscamente: — Você está com os Armagnac agora? De Roché recuou abruptamente. Com uma voz tão fria que lhe provocou calafrios pelo corpo, perguntou: — O que é que você acha que sabe, Isobel? — Nada, não sei de nada – disse apressadamente. – Eu só estou preocupada com você. São tempos perigosos estes. De Roché continuou em silêncio, examinando-a com os olhos semicerrados. — Você não pode pensar que o Delfim possa ser um rei apropriado! – Embora uma parte dela soubesse que devia se calar, esses argumentos saíram vomitados da sua boca por conta própria. – Pelo que dizem por aí, o Delfim é um jovem fraco e indigno. E depois de todos os romances da rainha, muitos duvidam que ele seja o verdadeiro herdeiro do rei louco. Que Deus a ajudasse, o que é que ela havia dito!? Mas agora era tarde demais para fingir. — Se você está planejando romper com o Rei Henrique, eu lhe imploro que não faça isso, – rogou Isobel – pelo seu próprio bem e pelo meu, e também pelos nossos futuros filhos. — Qual dos servos está lhe contando todas essas mentiras? – exigiu. – Eu lhe prometo, ele vai lamentar quando perder a língua. — Por favor, Philippe, você precisa me dizer se sua lealdademudou de lado. — Eu não preciso lhe contar nada. – A voz dele estava tensa pela ira controlada. – Só há uma coisa que um homem deve fazer com sua esposa. Com uma que o frustrou, mas não por muito tempo. — Temo pela sua segurança se você se indispuser com o Rei Henrique. – Tentou de novo. – Ele vai prevalecer no final. — Você pretende contar histórias sobre o seu marido esta noite? – Os perdigotos bateram no rosto dela enquanto ele falava. – Tenho uma espiã dentro da minha própria casa, é isso?! — Não! – A voz dela soou aguda, presa do pânico. – Eu nunca serei desleal a você! Quero ser uma boa esposa. — Então é pouco aconselhável que me contrarie. – Ele agarrou-lhe o pulso e apertou. – Eu lhe advirto, Isobel, não se afaste de mim esta noite.


Capítulo 30 Stephen ficou de pé diante da multidão de comerciantes e nobres bem vestidos, no grande salão do Palácio. A cerimônia da recepção estava para começar com o discurso formal defendendo a causa do Rei Henrique. O próprio Rei o havia redigido, acatando apenas duas sugestões feitas por Stephen. Enquanto Stephen desenrolava o pergaminho, olhou de novo para os presentes no recinto. De Roché e Isobel ainda não haviam chegado. — O Rei Henrique não vem como conquistador nem para saquear a cidade, nem para arrasar com a terra, mas como seu legítimo soberano. – Começou a ler em voz alta. – Todos aqueles que jurarem lealdade a ele, o Rei vai lhes dar as boas-vindas com grande alegria e generosidade no peito. — Mas, tenham cuidado! Se o desafiarem, ele os destruirá sem misericórdia. Ele apenas está reclamando o que é dele por direito legítimo. A vitória de Agincourt está sendo levada a cabo na Normandia, e ninguém pode detê-lo. Deus está com ele. E ele prevalecerá. Stephen inspirou fundo, contente porque o discurso formal havia terminado. Direto da boca de Henrique para os ouvidos da audiência: Destruídos sem misericórdia. Esperava que as pessoas presentes no salão naquela noite soubessem que o Rei Enrique estava falando sério cada palavra. Durante as duas horas seguintes, Stephen ficou em um extremo do salão enquanto os nobres da cidade faziam fila para lhe apresentar seus respeitos. Mas, onde é que estava Isobel? Obrigou a si mesmo a prestar atenção às trivialidades inúteis de cada pessoa, ouvindo à procura de pistas do que havia por baixo de cada palavra. Até agora, pareciam um amontoado de pessoas confiantes. Desconcertava-o ver como eles podiam acreditar que as muralhas da cidade poderiam resistir aos canhões ingleses, quando as famosas muralhas inexpugnáveis de Falaise não conseguiram. Stephen os ouviu se jactarem entre si. Burgundy virá em nossa defesa. Os Armagnac nunca permitiriam que a grande cidade de Rouen caísse. O que é que fazia aqueles homens acreditarem que duas facções trariam seus exércitos para salvar Rouen? Durante meses os dois exércitos estiveram em todas as cidades que caíram, na Normandia. Stephen viu as expressões de desconforto nos rostos das esposas deles. Ah se a decisão estivesse apenas nas mãos das pragmáticas mulheres, em vez de nas mãos daqueles galos se pavoneando... Onde estava Isobel? A multidão já estava diminuindo, e ela e De Roché ainda não haviam chegado. E então ele a viu. Política, guerra, deveres oficiais, tudo saiu voando da sua cabeça quando Isobel e De Roché entraram no salão por uma das portas laterais. Stephen se obrigou a olhar além deles. Eventualmente, De Roché teria que vir até ele. De Roché não se fez esperar e foi diretamente até onde ele estava. E então Isobel parou diante dele, tão perto que poderia tocá-la se esticasse o braço. Depois de tanto tempo longe dela, recorreu a todas as suas forças para não tomá-la entre os braços. Quase que podia saboreá-la.


Como era possível que ela fosse tão bela? Sua pele estava pálida, pensou, e parecia ter emagrecido. — Você este doente? – perguntou ele. — Estou bem agora, obrigada. E o senhor, Sir Stephen, como está? Aquela voz... Queria apenas ouvi-la, e a de ninguém mais. Mas De Roché estava tagarelando algo para ele, como um mosquito zumbindo na sua cabeça. — O que?! – disse bruscamente. Deixou que seus olhos queimassem De Roché, para que ele visse que Stephen o considerava menos do que um saco de esterco sem valor. – O Rei vai ficar muito desgostoso ao saber do pouco progresso que você fez com os líderes da cidade. Seu fracasso trará sofrimento ao povo de Rouen. O rosto de De Roché se tingiu de um vermelho intenso. Quando abriu a boca para falar, Stephen o interrompeu. — Lady Hume, todos sentem muito a sua falta em Caen – disse enquanto pegava a mão dela e a levava aos lábios. Os dedos de Isobel estavam trêmulos e gelados como o gelo. – O Rei lhe envia suas mais cálidas saudações. Mantendo os olhos nos dela, Stephen disse em francês: — Espero que Lorde De Roché me permita falar com a senhora em particular antes de eu partir da cidade, tenho notícias do seu irmão. – E mudando para o inglês, acrescentou: – E tenho uma pergunta a lhe fazer. Isobel olhou furtivamente para De Roché, que olhava fixamente a parede acima da cabeça de Stephen. Então negou com a cabeça, com um movimento quase que imperceptível. Esse pequeno movimento impactou Stephen como um duro golpe, tirando-lhe o fôlego e fazendo-o recuar um passo. — É claro que você pode falar com ela, se o tempo assim o permitir – disse De Roché, sem saber que Isobel já havia dado a Stephen a única resposta que lhe importava. Não havia bebê nenhum. Stephen viu como que em sonho De Roché pegando Isobel pelo braço e afastando-a dali. Não havia bebê nenhum. Nenhum bebê. E ele tinha tanta certeza! De alguma maneira arrumou um jeito de fingir que o mundo não havia explodido perto dos seus ouvidos. Ele cumpriu seu dever para com o Rei. Porém, foi a noite mais longa de toda a sua vida. Quando a recepção finalmente terminou, ele se retirou para os seus aposentos, desabou na cama e ficou olhando para o teto. Vê-la e não poder tocá-la. Falar com ela e não conseguir lhe dizer o que precisava lhe dizer. Isso quase o havia matado. Ele tinha tanta certeza de que ela estava esperando um filho seu. Porque precisava que ela estivesse. Era uma pena que quisesse usar uma criança para forçá-la a se casar com ele, em vez de com De Roché. Com o tempo, ela veria que era melhor assim... Stephen soltou um suspiro. E agora, faria o quê? Não podia ir embora sem lhe dizer o que tinha no coração. Se ela o amava, ele encontraria uma maneira. Como, não sabia. Mas faria isso. Ouviu uma batida à porta. Por favor, Deus, faça com que vão embora! Quando a batida persistiu, levantou-se da cama. Stephen abriu a porta e ficou olhando para dois olhos azuis debaixo de uma mata emaranhada de cabelo louro. — François! – Puxou o menino para dentro do quarto e fechou a porta. – Como é bom lhe ver! Sou capaz de jurar que você cresceu mais desde que saiu de Caen. E como está a sua irmã? — Para ser franco, ela é uma constante preocupação para mim. — Nada de novo nisso – disse Stephen, batendo nas costas do menino. – Você é justamente o homem que preciso. Onde Isobel está hospedada? Preciso falar com ela.


François ruborizou todo e olhou para o chão. O desconforto invadiu Stephen. Em voz baixa, o rapazinho disse: — Ela está na casa de De Roché. Às cegas, Stephen encontrou o caminho até a cadeira mais próxima e caiu sentado. Isobel estava morando na casa daquele homem?! Ele nunca havia esperado tal coisa. Como é que ela havia concordado com isso?! Um compromisso já era difícil de ser rompido, mas um noivado, mais a consumação, já eram considerados um casamento. — É uma casa muito grande – disse François, estendendo as mãos abertas e falando rapidamente, com voz nervosa. – Os quartos de ambos ficam em alas bem afastadas, e Linnet está sempre com ela. — Mas a família dele deve estar lá, alguma mulher casada responsável para guardar a virtude de Isobel. Quando o menino olhou para o chão de novo, Stephen ficou de repente com tanta raiva que queria dar um soco na parede de pedra. Bom Deus, não podia ser pior! — Mas o que é que ela estava pensando ao aceitar esse..., esse..., acordo?! – explodiu ele erguendo as mãos. Será que ela estava tentando torturá-lo? Será que ela havia feito...? Isobel havia se deitado com aquele homem?! Dessa vez Stephen deu um belo soco na parede. Pelas barbas de Deus, e como doeu! Os olhos de François se arregalaram enquanto Stephen sacudia a mão e murmurava imprecações. — Preciso falar com Isobel a sós. Quais as horas que De Roché se ausenta de casa? — Frequentemente, e não aparece senão bem tarde – disse François, encolhendo os ombros. – Raras vezes aparece na sala de refeições para o almoço. — E Isobel, – perguntou Stephen – ela também se levanta tarde? — Não, a senhora sempre se levanta cedo. Ele estava perdido, se fosse ter esperanças por tão pouco. Embora no momento parecesse causa perdida, iria vê-la. Tinha que vê-la. — Diga-me o que sabe sobre as atividades de De Roché – disse ele, para mudar de assunto. — Ele sempre comparece a reuniões secretas – disse François. – Algumas vezes com os simpatizantes de Armagnac, e em outras com os homens de Burgundy. — E o que ele está fazendo? – perguntou Stephen. François encolheu os ombros de novo. — Lady Hume diz que não temos provas, mas Linnet e eu..., nós acreditamos que ele está envolvido em alguma traição contra o Rei Henrique. Pobre Isobel, casada com um homem como o próprio pai, cujo juramento de lealdade não significava nada. Um homem sem honra.


Isobel fechou os olhos, agradecida pela escuridão da carruagem. Suas mãos não paravam de tremer. Stephen. Como seu coração se confrangeu só de vê-lo! Estava grata por De Roché ter lhe tirado do Palácio sem apresentá-la a ninguém. — Havia um rumor em Caen sobre você e esse tal de Carleton. – A voz de De Roché estava baixa e ameaçadora. – Na época não acreditei, mas agora estou considerando essa possibilidade. De Roché pegou-a pelo queixo e a virou de cara para ele. — Você andou se deitando com ele, enquanto bancava a dama virtuosa comigo? Você fez isso, Isobel? — Está me insultando gravemente e sem motivo – disse, obrigando-se a falar com voz firme. – Não me deitei com homem nenhum, exceto com Hume, meu falecido marido. De Roché soltou seu queixo e se reclinou no encosto do assento. — Na verdade, eu não pude acreditar que você arriscaria o casamento comigo por um flerte com aquele idiota. Juro que não sei o que as mulheres veem nele. Nós, mulheres, vemos que ele é dez vezes mais homem do que você. Pelo menos, a raiva que sentia a impedia de chorar no momento. De Roché não voltou a falar até que a carruagem parou diante da porta principal da casa. — Tenho que voltar ao Palácio para mais alguns debates – disse ele, em tom distraído. Os debates sobre a resposta da cidade para o Rei Henrique. Para que lado iria pender De Roché? Isso pouco lhe importava, desde que ele ficasse longe dela. Já estava com o pé no degrau para descer da carruagem quando a voz dele a deteve. — Deixe a porta aberta esta noite. Isobel pegou a vela da mão do sonolento servo que lhe abriu a porta da frente e lhe garantiu que podia encontrarsozinha o caminho para seus aposentos. Enquanto passava pelo salão particular de De Roché, lembrou-se de quando estivera ali, conversando com ele. Ela estacou. Na sua mente, visualizou os papéis espalhados sobre a mesa... De Roché voltando para trancar os pergaminhos na gaveta... A gaveta trancada à chave. Se ele tivesse algo a esconder, estaria ali. Talvez pudesse encontrar uma pista sobre a verdadeira lealdade dele. Tinha o direito de saber o que afetaria o próprio futuro de maneira significativa. E agora, devia olhar a gaveta ou não? De Roché não estava, os servos já estavam deitados. Com o coração palpitando, parou e apurou o ouvido. Nenhum som de ninguém se movimentando pela casa. Isobel entreabriu a porta da sala e se esgueirou para dentro. Caminhou através da sala escura até a janela que dava para o pátio. Olhando para fora, não viu luz em nenhum dos quartos, exceto no seu, onde Linnet esperava por ela. Era seguro, então, acender a lamparina. Isobel acendeu a lamparina da mesa com a vela que tinha na mão, depois experimentou a gaveta. Fechada. Enquanto olhava em volta procurando algo para usar como alavanca para abrir a gaveta, uma pequena floreira no canto da mesa chamou sua atenção. Será que De Roché poderia ser tão óbvio assim? Virou a floreira sobre a mão e sorriu quando a chave caiu nela. Aquele homem era totalmente carente de sutileza. A chave fez um agradável clique enquanto girava na fechadura. Ahá! Apenas uma folha de pergaminho estava ali dentro. Quando começou a ler, porém, o sentimento de satisfação desapareceu. Sentou-se na cadeira e alisou o pergaminho com mãos trêmulas para lê-lo de novo:


Primo, já está tudo arranjado. Temos certeza de que o piedoso H irá comparecer à missa nessa ocasião. Portanto, o grande H morrerá de joelhos. Estarei lá para ver isso. A cumplicidade dos outros tem um alto custo. Tenha a sua parte do ouro pronta para quando eu chegar aí. T.

Assassinato! Era isso que o primo deDe Roché havia destinado para H. E quem era esse H? Isobel prendeu a respiração. Rei Henrique, é claro! Ele era grande e piedoso, e sabiam disso. E era sabido por todos também que ele sempre comparecia à missa sempre que possível. E quanto ao primo T? Só podia ser aquele astuto e poderoso primo de De Roché, Georges de laTrémoille. Mas, qual era a tal ocasião na qual pretendiam matar o rei? Ela tinha uma vaga lembrança de Robert se queixando de como Caen seria aborrecida com o tempo gasto pelo Rei durante o jejum da Quaresma e as orações. No entanto, na Páscoa, teria um grande evento no qual dezenas de homens seriam nomeados cavaleiros. A missa era a parte principal da cerimônia de nomeação dos cavaleiros. Um determinado número de nobres que seguiam Borgonha, suposto aliado de Henrique, seria convidado para esse importante evento. Trémoille podia comparecer tranquilamente sem despertar suspeitas. Um estremecimento percorreu Isobel com o pensamento de Henrique sendo assassinado de joelhos, na igreja. O maior Rei da Inglaterra jamais havia visto em gerações, abatido pela espada de um covarde. Se fosse o destino dele morrer jovem, um rei desse calibre deveria cair na glória do campo de batalha. Tinha que avisar Stephen com urgência sobre essa conspiração para que ele pudesse advertir o Rei. Mas, como? Com todo cuidado, colocou a carta de volta na gaveta do mesmo jeito que a encontrou e devolveu a chave à floreira. Apagou a lamparina e ficou sentada no escuro, tentando pensar em como iria agir. Stephen havia pedido permissão a De Roché para visitá-la. Se ele viesse, poderia falar para ele então. Isobel mordeu o lábio com frustração, De Roché nunca iria permitir que ela se encontrasse a sós com Stephen. Se pudesse encontrar François, poderia enviar uma mensagem através dele... Porém, François já estava correndo perigo. De Roché estava muito raivoso à procura do criado que andou falando sobre as reuniões secretas. Devia manter os gêmeos a salvo. Mas, como?! Não lhe ocorria nenhuma maneira de conseguir tudo o que precisava. Uma sensação de falta de esperança se apossou dela. Enfiou a cabeça entre os braços sobre a mesa e se permitiu chorar. Pelo seu Rei. Pelos gêmeos. Pela miséria que era sua vida. Por Stephen. Quanta vontade sentia de vê-lo, escutar aquela risada de novo, ter os braços dele em torno de si mais uma vez. Quanto tempo estivera chorando até ouvir vozes? Isobel limpou o rosto com a manga e se pôs de pé. O que estava pensando, ao ficar na sala de De Roché? Enquanto se dirigia à porta, ouviu vozes de novo. Foi até a janela e apurou o ouvido. Um grito ressoou no pátio. O sangue de Isobel congelou nas veias. Linnet! Isobel correu porta afora em direção às escadas. Por favor, Deus, não permita que seja tarde demais! De Roché era o único que podia entrar nos aposentos de Isobel à noite sem permissão. A lembrança de Hume tomando-a pela primeira vez acudiu aguda e claramente à sua mente enquanto corria escadaria acima. Não havia nada que Isobel não fizesse para salvar Linnet de tal infortúnio. Não havia nada que não fizesse para salvar aquela menina de ser obrigada a perder a inocência com um homem a quem odiava.


O coração batia selvagemente no peito ao chegar à parte superior da escadaria e abriu a porta do quarto. De Roché estava com Linnet imobilizada contra a parede, segurando seus pulsos juntos acima da cabeça com uma das mãos. — Pare! Pare! – gritou Isobel. Linnet olhou para Isobel com olhos arregalados de pavor. Havia uma estudada despreocupação na expressão dele quando se virou para ela. — Um homem deve se conformar quando não consegue encontrar a própria noiva. – Ele falou com uma calma tão fria que era mais atemorizante do que se tivesse elevado o tom de voz. – Onde você estava, Isobel? — Eu..., eu estava no pátio – gaguejou Isobel. – Solte-a, Philippe. Por favor, eu lhe rogo, deixe que ela se vá. — Esperar pelos avisos, todas essas formalidades..., tudo me parece..., tão..., desnecessário para mim... – disse De Roché. – Não lhe parece, doçura? — Solte Linnet e eu farei tudo o que você quiser. — O que eu quiser... – Dentes brancos brilharam à luz das velas. – Era isso que eu esperava que você dissesse. No instante no qual ele soltou Linnet, a menina correu para Isobel e lançou os braços em volta da sua cintura. De Roché tirou um lenço e limpou o sangue dos arranhões na face. — Essa menina deve ser açoitada. — Não, Philippe. — Você vai ver – disse ele, limpando as mãos no lenço – que posso ser tão agradável quanto você. Isobel afastou os cabelos de Linnet para trás e beijou a testa da menina. — Vá agora. — Não vou lhe deixar. – Gemeu Linnet. — Eu vou ficar bem – disse Isobel com voz firme. Levou Linnet até a porta e tirou os braços da menina da sua cintura. Enquanto a empurrava porta afora, sussurrou: – Vá ficar com o seu irmão e não volte até amanhã de manhã. A barra da porta soou com umabatida seca quando Isobel a fechou. Ela fechou os olhos e apoiou a testa contra a porta. Nada podia salvá-la agora. Seria a esposa daquele homem sombrio e traiçoeiro até o dia da sua morte. No entanto, conseguiria tirar Linnet de Rouen. Isobel se recompôs e se virou para enfrentar o marido. De Roché já estava soltando o cinturão.


Capítulo 31 Quando as batidas continuaram, Isobel se virou. — Pare, Linnet! – disse com voz suficientemente alta para ser ouvida através da porta. – Você tem que ir agora. Uma voz masculina respondeu. — Lorde De Roché está aí com a senhora, milady? De Roché foi abotoando o cinturão à medida que se dirigia à porta. Depois, afastando Isobel para o lado, correu a tranca e abriu uma fresta da porta. Um velho servo estava do outro lado, esfregando as ossudas mãos e piscando nervosamente. — O que é? – exigiu saber De Roché. Com voz alta e trêmula o servo disse: — O visitante que o senhor esperava pela manhã, milorde..., ele..., ele acabou de chegar e..., e está perguntando pelo senhor. Isobel se surpreendeu pela repentina mudança em De Roché. A furiosa impaciência foi substituída por um medo palpável. De Roché voltou os duros olhos cinza para ela. — Não saia dos seus aposentos esta noite. Sem dizer mais nada, saiu e fechou a porta. Isobel ficou acordada a maior parte da noite, temendo o momento da volta de De Roché. Finalmente, ela devia ter adormecido, porque estava em sono profundo quando Linnet voltou pela manhã. Linnet olhou rapidamente em volta com os olhos semicerrados. — Onde ele está? — De Roché recebeu um visitante pouco depois que você saiu – disse. – E não voltou. A tensão no rosto de Linnet suavizou. — François também não voltou. — Venha, não sei quanto tempo temos – disse Isobel, conduzindo Linnet até o banco da janela. – Preciso lhe explicar meu plano. Como Isobel esperava, no início Linnet se opôs. — Precisamos salvar o Rei – disse Isobel. – Quero que me prometa que vai fazer a sua parte, não há outra maneira. Elas passaram o resto da manhã segurando as mãos uma da outra e conversando em voz baixa sobre coisas pequenas e insignificantes. Não ganhavam nada falando mais ainda sobre dificuldades por antecipação. Isobel rezou para que De Roché não viesse até os seus aposentos antes da visita de Stephen. Não queria ter a lembrança de De Roché tocando-a quando Stephen viesse pela última vez. E se De Roché não viesse hoje? E se ele não viesse nunca?! A tarde ia pelo meio quando um criado foi comunicar Isobel que Sir Stephen Carleton estava aguardando-a no salão, para vê-la. De Roché também havia sido avisado. Se ela conseguisse chegar ao salão antes, poderia ter um instante a sós com Stephen. — Apresse-se, por favor – disse com urgência para Linnet. Isobel tentou ajudá-la com o toucado, mas suas mãos tremiam tanto que Linnet as afastou.


Isobel olhou fixamente, sem ver, para o fino espelho de latão enquanto Linnet trabalhava. Estava tão envolvida em planejar como daria a notícia da conspiração do assassinato para Stephen que não havia pensando nem por um instante no por que ele queria vê-la. Qual motivo ele podia ter? Qualquer notícia sobre Geoffrey ele podia ter lhe dito na recepção. Será que ele estava ali para lhe perguntar se ela estava grávida? Fechou os olhos e engoliu em seco. Tinha certeza de que Stephen havia entendido aquela silenciosa mensagem. — Se eu não conseguir falar com Stephen a sós, Linnet, diga-lhe que... – ela estava falando com os olhos fechados – diga-lhe..., que não há bebê algum. Isso a machucou de novo. Não havia bebê algum. Isobel abriu os olhos. Na imagem do espelho, viu o próprio punho contra o peito, e lentamente o desceu até o colo. Será que isso importava para Stephen? Será que ele sofreria tanto quanto ela estava sofrendo? Não, ela não iria querer essa dor para ele. Linnet tocou seu ombro. — Terminei. Os olhos de Isobel se encontraram com os de Linnet no espelho. — Espere do lado de fora da porta até que eu lhe chame. Linnet assentiu. — Confie em mim. – Isobel se pôs de pé e pegou o xale que Linnet segurava para ela. Respirou profundamente, e saiu. Estava a poucos passos da entrada do salão quando uma voz atrás dela a deteve. — Estava justamente lhe procurando, querida – disse De Roché, pegando-lhe o braço e apertando-o com força. – Devemos dar as boas-vindas juntos ao nosso convidado. Ela não teria sequer um instante a sós com Stephen. Antes que pudesse se preparar, De Roché guiou-a até dentro do salão. O coração parou ao ver Stephen. Na noite passada, ele parecia um príncipe incrivelmente bonito, engalanado de joias e adornos de ouro. Hoje ele estava com as mesmas roupas que usava habitualmente. Essa familiaridade fazia com que ela ansiasse passar os dedos ao longo do pescoço dele, pela manga da túnica... No entanto, o bom humor e a malícia costumeiros estavam ausentes da sua expressão. O rosto estava emaciado, o riso havia sumido daqueles profundos olhos marrons. Como podia ter encontrado defeitos no descontraído e alegre Stephen de antes? O homem que a fazia rir. Ela sentia a falta dele agora mais do que podia imaginar. Era evidente que o propósito de Stephen era falar com ela a sós. E ficou igualmente claro que De Roché não permitiria. Depois de forçar uma breve conversa por alguns minutos, Stephen se pôs de pé. — Estou indo embora da cidade hoje, – disse Stephen – então devo me despedir da senhora agora, Lady Hume. — Espere! Ela falou mais alto do que pretendia. Os dois homens a olharam, expectantes. Os olhos de De Roché estavam semicerrados, receosos; a mão de Stephen já estava no cabo da espada. — Sir Stephen, devo lhe pedir que leve de volta os dois pequenos servos que me emprestou – disse com uma voz tão fria quanto pôde. Ergueu o queixo. – Meu novo marido tem servos mais do que suficientes para satisfazer todas as minhas necessidades. Stephen franziu o cenho. — Sinta-se livre para ficar com Linnet e François, de qualquer forma. Tenho certeza de que eles são uma comodidade para a senhora no seu novo ambiente.


— Meu marido provê minha comodidade – disse. – Não quero ter aquela menina aqui. Ela é teimosa e difícil, e tem um comportamento que é uma vergonha para mim. Stephen ficou visivelmente tenso. O estupefato desagrado no rosto dele quase a fez hesitar. Porém, manteve a expressão dura e gritou: —Linnet! No mesmo instante, Linnet entrou discretamente no salão. A menina fez sua parte à perfeição. Ela ficou de pé, com os olhos baixos e as lágrimas rolando pelas faces. — Você e seu irmão virão comigo – disse Stephen. Com os lábios apertados, ele a agarrou pelo punho e saiu. À porta, virou-se para lançar um abrasador olhar para Isobel, que quase a derrubou. O salão estava em silêncio, salvo pelo som amortecido de pisadas se afastando. De Roché estava de pé, boquiaberto, olhando fixamente para onde eles haviam saído. Tudo aconteceu tão rápido que ele sequer teve tempo de se opor..., ou de falar qualquer coisa. Ela havia conseguido! Havia salvado Linnet e François. Eles estavam nas mãos de Stephen agora, e ele os protegeria. E ela havia descoberto a conspiração do assassinato do Rei Henrique. Os gêmeos poriam Stephen a par de tudo, e ele iria advertir o Rei. Isso era suficiente.

Depois de pegar François, Stephen avançou a passos largos, mas estava consciente dos gêmeos que se arrastavam nos seus calcanhares. De vez em quando, o choro de Linnet penetrava nos seus atormentados pensamentos, e ele se irritava de novo. Como é que ela pôde despachar Linnet tão friamente? Logo a pequena Linnet, que era completamente leal a ela. O que ela havia dito sobre Linnet certamente era verdade, mas Isobel era paciente e tolerante com a menina antes. O quê havia acontecido? Seria possível uma mulher mudar tanto em tão pouco tempo? Seu novo marido lhe provê toda a comodidade da qual ela precisa! Comodidade, certamente. Se tal comentário havia sido feito com a intenção de feri-lo o mais fundo possível, ela havia conseguido. Ele só se deu conta que Linnet e François haviam ficado para trás quando chegou ao Palácio. — Sinto muito, não conseguimos seguir o seu ritmo – disse François, quando os dois o alcançaram na escadaria. Só que não era François, cujas pernas já estavam quase que tão longas quanto as de Stephen que não havia conseguido acompanhar seu ritmo. O sangue de Stephen ainda estava latejando nos ouvidos. Respirou profundamente, na tentativa de se acalmar. — Peço-lhe desculpas, Linnet. Venha, vamos para os meus aposentos agora. Linnet assoou o nariz fazendo muito barulho e meio que tossiu, meio que chorou. Stephen semicerrou os olhos..., alguma coisa não estava certa ali. Decidiu não pressioná-la à entrada, onde qualquer um podia vê-los, então os conduziu até seus aposentos.


O servo designado para vigiá-lo estava frenético. — Aonde foi, senhor? Deveria ter me dito... — Vá embora e só volte aqui amanhã, – disse Stephen, empurrando o homem para fora do quarto – ou vou contar para eles o quanto foi fácil lhe despistar. Assim que ele fechou a porta com uma pancada, Linnet jogou os braços para cima e dançou pelo quarto. — Não foi maravilhoso? Stephen não desconfiou de nada! François você devia ter visto a cara dele! E a de De Roché então! Stephen apertou os punhos para evitar estrangular a menina. — Como pôde pensar que Isobel se desfaria de mim, assim?! – perguntou Linnet, arregalando os olhos. — Diga-me qual o motivo para toda esta farsa – exigiu ele. Com um abrir e fechar de olhos, o rosto de Linnet passou de encantado e feliz para angustiado. — Isobel me afastou de lá para que eu pudesse lhe dizer que De Roché e o primo dele estão conspirando para matar o Rei Henrique. O quê?! A cabeça lhe dava voltas. — E como é que ela soube disso? — Espionando De Roché, é claro – disse Linnet. Stephen se sentou e fechou os olhos. Sozinha, sem um amigo na cidade, Isobel estava espionando De Roché enquanto vivia na casa do próprio?! Stephen sacudiu a cabeça. — Mas no que é que ela estava pensando?! — Ela só está cumprindo com o seu dever – disse Linnet. — Isobel tem certeza absoluta desse complô? Linnet assentiu. — Sim. Ela encontrou uma carta do primo dele em uma gaveta trancada à chave. Meu Deus, ela estava se arriscando demais! — O primo dele escreveu que estava tudo preparado para matarem o Rei na igreja, durante uma celebração. Matar o Rei! Ele parou para pensar. — Será que eles pretendem fazer isso durante a nomeação de Páscoa...? — É isso que Isobel acredita – disse Linnet. – E ela acha que o primo de De Roché é Georges de laTrémoille, porque a carta está assinada com um T. Stephen assentiu, com o pensamento em Isobel. — Mas por que Isobel planejou esse ardil para afastar vocês de lá? Certamente ela poderia ter encontrado outra forma de me enviar uma mensagem. A pele clara de Linnet ficou vermelha, e ela desviou os olhos. Stephen se virou para François e arqueou uma sobrancelha. Ruborizando tão ferozmente quanto a irmã, François ficou de lado e sussurrou: — Quando estávamos vindo para cá, Linnet me contou que De Roché estava..., que ele estava..., atrás dela. E Linnet acredita que Lady Hume usou a mensagem como uma desculpa para afastá-la dele. Meu Deus! Stephen queria matar aquele homem com as próprias mãos! François endireitou o corpo e disse: — E ela tem razão ao confiar no senhor para proteger a minha irmã. Mas e quem protegeria Isobel quando De Roché descobrisse o que ela estava fazendo? E o quê Stephen podia fazer, se agora ela estava vivendo com aquele homem?! Nada! Absolutamente nada! Agora ela era a esposa de De Roché, portanto, além do seu alcance.


Ele devia ir rapidamente advertir o Rei. Faltavam poucas semanas para a Páscoa, mas os homens começariam a chegar em breve. Os conspiradores podiam chegar a Caen a qualquer dia, prontos para agir. Engoliu em seco à ideia de deixar Isobel ali, que talvez nunca mais fosse vê-la. No entanto, ele tinha que ir. Não podia deixar que seu Rei fosse assassinado. Mas como conseguiria deixá-la?! Seus pensamentos foram interrompidos por uma batida à porta. Era um dos guardas do Palácio. — Esta jovem disse que o senhor marcou um..., encontro..., com ela. – O homem agitou as sobrancelhas e fez sinal com o polegar atrás dele. Antes que Stephen pudesse protestar, uma impressionante mulher com vivazes olhos escuros apareceu atrás do guarda. Com uma voz rica de silenciosas promessas, disse: —Claudette me mandou. Stephen piscou o olho para o guarda. —Claudette conhece as melhores. Colocou o braço em volta da mulher e escorregou a mão até embaixo para apertar aquele traseiro agradavelmente redondo enquanto a empurrava para dentro do quarto. Com outra piscada e um sorriso, jogou uma moeda de ouro para o guarda e fechou a porta com uma pancada. Ele levou a mão para o braço da mulher e a levou até uma cadeira, onde, com lânguida facilidade, ela se sentou. Linnet estava franzindo o cenho furiosamente. — Meu nome é Sybille – disse a mulher com voz sensual. — Você é amiga de Claudette? Ela assentiu. — Acabei de chegar de Paris, onde estive com ela, que me pediu que lhe transmitisse algumas notícias. Algo que ela pensou que o senhor deveria saber. Uma hora depois, Stephen a acompanhou até a porta. — Obrigado, Sybille – disse. – Espero que vir aqui não lhe tenha posto em risco. A mulher encolheu os ombros e sorriu despreocupada. — Os guardas me conhecem. Visito sempre os convidados importantes do Palácio. Stephen levou a mão até a bolsa presa no cinturão, perguntando-se quanto custava uma mulher daquelas. Mas Sybille pôs a mão sobre a dele e negou com a cabeça. — Eu devo um favor a Claudette. Ela passou a língua pelo lábio superior e se inclinou à frente até que os seios ficaram a um fio de cabelo de distância do torso dele. Ela cheirava divinamente. — Como o favor que devo a ela é muito grande, eu poderia... — Aprecio e agradeço a oferta, e você é impressionante, – disse, pondo a mão sobre o coração dela – mas não posso. Ela soltou uma risada suave. — Você me fez perder a aposta que fiz com Claudette. Com uma maliciosa piscada para François, o que fez com que o menino ruborizasse até as orelhas, Sybille saiu porta afora, rebolando os quadris. Stephen se sentou e ficou pensando. O que a cortesã havia lhe dito mudava tudo.


Capítulo 32 Stephen vestiu outra vez aquelas roupas vistosas (o pesado cinturão de ouro, as malhas multicoloridas e tudo o mais), para sua grande saída. Não havia mais jeito senão sair da cidade. Doze homens fortemente armados esperavam do lado de fora para se certificar de que ele ia embora mesmo. Guy Le Bouteiller, o comandante da guarnição, cavalgouao lado de Stephen, acompanhando-o até os portões. Stephen havia simpatizado com Le Bouteiller, e ficou contente pela oportunidade de poder trocar algumas palavras com ele. — Sinto-me lisonjeado pela escolta, – disse Stephen, olhando para a coluna de homens armados até os dentes – mas, que tipo de problema acha que estas crianças e eu poderíamos causar a caminho dos portões? — Não é isso o que me preocupa – disse Le Bouteiller, sorrindo de volta. – Digamos que há homens em Rouen que poderiam querer responder ao Rei da Inglaterra lhe devolvendo seu enviado sem a cabeça. — Pois eu lhe digo, – disse Stephen – que um homem honrado com o senhor seria mais feliz servindo ao Rei Henrique. Le Bouteiller não questionou. Antes de se separarem ao chegar aos portões, Stephen disse: — Os homens desta cidade cometem um grave erro ao desprezar a oferta de paz do Rei. — Volte daqui a alguns meses – disse Le Bouteiller em voz baixa. – Muita coisa poderá ter mudado então. — A cidade deve aceitar as generosas condições que o Rei oferece agora – disse Stephen, sem se incomodar em baixar o tom de voz. – Da próxima vez, o próprio Rei Henrique virá, e trará seu exército. Com essa última advertência, Stephen virou o cavalo. Fez um sinal para os gêmeos que o seguiam e saíram pelos portões da cidade, galopando.

Isobel sentiu a falta de Linnet nos seus aposentos de um modo tão profundo que simplesmente teve que sair um pouco. Esgueirou-se pela escadaria, pretendendo chegar ao pátio oculto. Talvez tudo não parecesse tão desesperador à luz do sol. Ver Stephen de novo e depois vê-lo partir tão furioso com ela deixara-a dilacerada e estremecida. A perda dos gêmeos ao mesmo tempo era mais do que Deus devia lhe pedir. O enorme buraco que tinha no coração nunca iria se curar.


Depois que Stephen e Linnet se foram, De Roché havia tomado sua mão e lhe dissera que tudo estava arranjado. Como se ainda se importasse com isso. Não lhe serviu de consolo saber que De Roché agora estava disposto a concluir os trâmites para concretizar o casamento. Acelerou o passo quando passou pela porta do salão particular de De Roché. Justo quando pensou que era seguro, a porta do salão se abriu atrás dela. Fechou os olhos e ficou imóvel, torcendo para que não fosse ele. Será que Deus a odiava tanto que ia lhe negar até mesmo uma hora de consolo no pátio? Agora teria que ouvir o sermão de De Roché sobre o fato de não obedecer à ordem de esperá-lo nos seus aposentos. Teve uma visão da própria vida constantemente alternando entre o terror e o tédio. O orgulho a havia levado a isso. Estaria melhor sob os cuidados do seu pai que debaixo do jugo desse tirano. Alguém pigarreou atrás dela. Aos poucos ela se virou. Se conseguisse respirar, teria gritado. Não podia ser! O homem diante dela não era De Roché, mas aquele homem de cabelos pretos que havia comandado o ataque à abadia. Sabia que não estava enganada. A distância entre porta da igreja e o local onde ele estivera não era longe da abadia, e aqueles penetrantes olhos e a expressão agressiva desse homem estavam gravados a fogo na sua memória. Com uma leve inclinação de cabeça, ele disse: — Parece que lhe assustei, senhora. Ele não a reconheceu. — Eu..., eu pensei que fosse Lorde De Roché – disse. Aqueles olhos negros pareceram trespassá-la. O pânico fechou sua garganta enquanto esperava que ele a reconhecesse. Então se lembrou: ela estava usando as roupas do irmão naquele dia, na abadia. Não tinha motivos para supor que a senhora bem vestida diante dele fosse a mesma pessoa. — Meu nome é LeFèvre – disse. Ela se obrigou a estender a mão àquele assassino de monges. Quando a tocou com os lábios, ela se controlou e engoliu a bílis que lhe subiu no fundo da garganta. — E a senhora é...? — Lady Hume – respondeu ela. – Noiva de Lorde De Roché. Ele arregalou os olhos. — Noiva de Philippe?! – Fez uma pausa, como se esperasse que ela o contradissesse, então disse: – Vou castigar Philippe por não compartilhar comigo as boas novas. Não conseguiria continuar na presença dele nem por um instante mais. Consciente de que estava fazendo uma torpe saída, fez um gesto rígido e se virou para voltar por onde tinha vindo. O pátio não lhe serviria agora. Queria uma porta com muitas barras como trancas entre ela e aquele homem de cabelos pretos. Com os olhos dele queimando suas costas, lutou para não desatar a correr antes de dobrar a esquina. Ela se sentou no banco da janela, tremendo e cruzando os braços sobre o ventre até que se acalmou o suficiente para conseguir pensar. LeFèvre. LeFèvre. Onde havia escutado esse nome antes? E então se lembrou. Um dia ouviu Robert e Stephen conversando em voz baixa sobre os homens associados ao Delfin e aos Armagnac. Haviam mencionado vários nomes antes que se dessem conta da presença dela, então mudaram bruscamente de assunto. LeFèvre havia sido um daqueles nomes mencionados. Então eram os Armagnac que estavam por trás do ataque a FitzAlan e à abadia. E o que é que ela estava fazendo, sentada ali? O Rei Henrique se mostrou inflexível sobre o quanto era importante para ele ter essa informação. De alguma maneira tinha que chegar ao Palácio antes que


Stephen fosse embora da cidade. Estava para pegar a capa quando ouviu vozes zangadas fazendo eco pelo pátio. Uma das vozes pertencia a De Roché. Quem estava discutindo com ele não podia ser um servo, porque ambos estavam gritando. Mas que inferno! Não podia correr o risco de tentar sair de casa com De Roché lá embaixo. Quando os gritos cessaram, ajoelhou-se no assento e assomou à janela. Eles haviam ido para outra parte da casa? Ou simplesmente estavam falando em voz baixa demais para que os ouvisse? Teria que aproveitar a oportunidade. Assim que seus pés tocaram o piso, a porta do solário se abriu de chofre com um estrépito. De Roché preencheu a porta. — Milorde – disse Isobel, baixando a cabeça. E agora, como é que faria para chegar ao Palácio com ele se interpondo no seu caminho? De Roché ficou olhando-a com olhos furiosos e duros. — Pensei que gostaria de saber – disse, com voz lenta e zombeteira. – Carleton foi embora. Apesar de tentar encobrir sua reação, sentiu que empalidecia. Ele me deixou, ele me deixou, ele me deixou, a frase repetia na sua cabeça como uma ladainha. Queria cair de joelhos e cobrir o rosto com as mãos. — Devo lhe dizer que Carleton parecia bastante sombrio durante a visita que fez à nossa cidade. – De Roché andava pelo solário, pegando coisas e mudando-as de lugar, como se o que estava dizendo tivesse pouco interesse para ele. – No entanto, creio que ele não vai demorar muito para lhe esquecer. Ele estalou a língua. — Na verdade, tempo nenhum. De fato, disseram-me que ele parecia bem mais alegre quando cruzou os portões esta tarde ao sair. Por outro lado, recém havia passado uma hora com a cortesã mais cara da cidade. – Soltou um forte suspiro. – Sybille animaria qualquer homem. Uma cortesã? Sem pensar, repetiu o que Robert havia lhe dito uma vez: — Um homem pode usufruir da companhia de uma cortesã em público sem usar seus serviços em particular. De Roché riu em voz alta, parecendo realmente divertido. — Mas ele usufruiu da companhia delaem particular sim. A hora que passaram juntos foi nos aposentos dele, no Palácio. — Sir Stephen não é casado nem comprometido, – disse ela entre dentes – portanto, livre para fazer o que quiser. De Roché voltou a rir. — Você está muito enganada se pensa que noivado e casamento fazem com que um homem renuncie a outros prazeres. Uma cortesã. Stephen esteve com uma cortesã justamente depois de deixá-la. De Roché tocou sua face, obrigando-a a prestar atenção nele. — Meu compromisso não vai me impedir de lhe tomar. Essas palavras não tinham sentido para ela. Ele passou as mãos pelos seus braços e segurou-lhe os pulsos. — Você parece confusa, Isobel. O calor nos olhos dele lhe disse o quê queria dela. Com Linnet em lugar seguro, poderia tentar dissuadi-lo. — Os avisos ainda não foram lidos três vezes – disse. Ele a obrigou a retroceder até que seus calcanhares bateram na parede. Segurando seus pulsos contra a parede de cada lado da cabeça, inclinou-se até que os dois narizes quase se tocaram.


— Os avisos? Os avisos?! – Ela sentiu os perdigotos no rosto enquanto ele cuspia as palavras. – Você acredita mesmo que eu me casaria com uma mulher tão abaixo de mim?! – Ele a soltou e se afastou. – Eu, um De Roché! Sou parente das famílias mais importantes da França! Minha fortuna é dez vezes maior do que a do seu pai. Isobel esfregou os pulsos enquanto ele percorria o quarto com longas passadas, para cima e para baixo, protestando e debochando. Agora ela estava definitivamente assustada. — O casamento com você não me traria títulos, nem terras. Uma miséria de dote. E no entanto, o Rei pensou que eu deveria estar agradecido... – Estava tão irritado que engasgou com a palavra. – Agradecido porque você é uma mulher da nobreza inglesa. Ele estacou de repente. Uma fria quietude se apoderou dele, o que a assustou mais ainda do que a explosão anterior. Quando foi até ela, um calafrio percorreu sua espinha dorsal. — Farei com que seu pai pague um resgate três vezes maior do que a soma miserável que ele oferece como dote – disse, cravando a ponta do indicador contra seu peito. – E enquanto espero que ele pague, vou fazer de você minha puta particular. — Mas estamos noivos. – Sua voz tremia, apesar do esforço para mantê-la firme. – Não posso ser sua..., sua... — Minha puta inglesa. Por que ele estava falando de resgate e lhe dizendo essas coisas horríveis? — Você sabe muito bem que se me levar para a cama serei sua esposa aos olhos da igreja e da lei. — Isso seria verdade, – disse ele, falando lentamente – se eu já não tivesse esposa. — Outra esposa? Você já tem esposa?! – Ela sacudiu a cabeça de um lado para o outro, incapaz de assimilar aquilo. – Você não pode... Não é possível... — Pois eu lhe garanto que é. Fiz um casamento muito vantajoso com uma jovem cuja família é íntima do Delfin. Já que o pai dela não estava totalmente..., de acordo com o..., casamento, nós nos casamos em segredo pouco antes de eu ir para Caen. — Então, por que você foi para Caen? — Que maneira melhor de convencer Henrique sobre a minha lealdade do que concordar com uma aliança matrimonial? – disse De Roché, encolhendo os ombros. – Nunca pretendi concretizar nada. Ela estava abalada demais para falar. — Seu amigo Robert não estava tão ansioso quanto eu para selar o contrato de casamento quanto eu, então foi fácil dissuadir Henrique. – Respirou fundo e sacudiu a cabeça. – Eu precisava de apenas algumas poucas semanas mais. — Mas você fez um compromisso formal comigo – disse. – Diante de testemunhas. Diante do Rei! — Admito que Henrique me surpreendeu – disse ele. – Encurralou-me antes que eu tivesse a chance de sair de Caen. Não tive alternativa a não ser passar pela farsa do compromisso. Como é que um homem podia ser tão totalmente carente de honra? E ela, o que havia feito? — Isso não é bigamia? – Era..., não era? Será que ela era culpada desse pecado, também? – E quanto à outra dama? Não cabe na minha cabeça que ela ou a família dela estejam encantadas com a notícia de um segundo compromisso. —Tive muito trabalho para garantir que eles não ficassem sabendo – disse. – É uma verdadeira lástima você ter contado isso para o meu primo. — Seu primo...? — Sim, você conheceu Thomas hoje, no andar de baixo. – Ele sacudiu o indicador. – Meu primo é um homem muito perigoso. Você devia ter ficado nos seus aposentos, como eu lhe disse.


— Thomas? Você está se referindo a LeFèvre? LeFèvre é seu primo? – Ela conteve o fôlego. Será que o T da carta era de Thomas? Então ela havia advertido o Rei sobre o homem errado?! — Quantas perguntas, Isobel. Felizmente, Thomas tem tanto interesse quanto eu para guardar este segredo. – Inclinou a cabeça e disse. – Mesmo assim, ele está muito zangado comigo. Sabe, ele é meio-irmão da minha esposa. Ela estava tonta com todas aquelas revelações. Mas um pensamento se destacou acima de todos os outros que se amontoavam na sua cabeça. Se De Roché já era casado e o compromisso entre eles era uma farsa, ela não estava unida a ele. De Roché levantou seu queixo com o indicador. — Pouco importa o que Thomas diga, não pretendo renunciar a você tão rápido assim. Ela lhe deu uma bofetada com toda força. Ele a olhou com gelados olhos cinza enquanto tocava a marca vermelha que ela lhe deixou na face. — Seu Rei tem noções muito pitorescas sobre cavalheirismo. Ele havia me dito que ia enviar um emissário – e ainda não podia me arriscar a ofendê-lo, – pois eu precisava antes cuidar de você. Ele pegou seus pulsos e os segurou com uma das mãos com um apero de ferro. Ato contínuo, com expressão fria, esticou o outro braço, recuou-o e a esbofeteou com tanta violência que seus ouvidos zumbiram. — Mas agora, – disse – agora não há nada que me impeça de fazer o que eu quiser com você. Ele a beijou com força, machucando seus lábios e apertando os quadris contra ela. Ainda aturdida pela pancada, não lutou contra ele. Quando a soltou, ela bateu com as costas na parede. Concentrou-se no exíguo espaço entre eles e colou o corpo à parede. — Não poderei voltar a lhe ver até bem tarde. – Esfregou a polpa dos dedos contra a face que latejava. – Eu lhe recomendo que use esse tempo para pensar nas diversas formas de me satisfazer. Deu-lhe então um beliscão tão forte na face que seus olhos arderam, antes de finalmente sair porta afora. Ouviu o barulho da chave virando na fechadura enquanto escorregava para o chão. Por quanto tempo ela ficou ali, abraçando os joelhos e se sacudindo com tanta força que seus dentes batiam uns contra os outros? O quarto já estava às escuras e ainda não conseguia se obrigar a se levantar dali. Como ia conseguir suportar tudo aquilo? Como ia viver até que seu pai enviasse o pagamento do resgate? E seu pai, iria pagar? Ou iria deixá-la ali para sempre? Se ela voltasse para casa seria uma vergonha, talvez com um filho de De Roché no ventre. A mancha na sua virtude não seria menor, mesmo que não fosse culpa dela. Bateu com os punhos no chão. Como podia ter confundido a natureza fechada de De Roché com um caráter honrado? Aquela arrogância toda, com a seriedade de um propósito? O homem era um violador de juramentos da pior espécie. E ele estava relacionado, pelo sangue e pelo matrimônio, com aquele assassino de monges. Mal conseguia respirar, pensando que LeFèvre estava debaixo do mesmo teto que ela. Enquanto estava ali, largada no chão, no escuro, trechos do que De Roché lhe disse flutuavam na sua cabeça. Ato contínuo, as peças começaram a se encaixar. Será que De Roché sabia do ataque do primo à abadia? Que Deus tivesse piedade dela! De Roché era o traidor que enviou aqueles homens para emboscarem FitzAlan naquele dia? Isobel cobriu o rosto e bateu a cabeça contra o chão. Se fosse assim, então De Roché era o mais vil dos homens. Tão vil quanto o primo dele. De repente, lembrou-se de Linnet, olhos brilhantes de fúria, colocando uma adaga na sua mão com uma batida seca. Isobel se sentou. Tiraria sangue de De Roché antes de permitir que a tocasse outra vez!


Os pensamentos voltaram para LeFrève enquanto se apressava a acender as lamparinas. Se Thomas LeFrève era o T que assinou a carta, então ele era o primo implicado no complô para matar o Rei, e não Trèmoille. Será que ela colocara em risco a cabeça de Trèmoille devido à falsa acusação que havia feito? Ficou imóvel. Se havia se enganado quanto ao homem, poderia ter se enganado também com tudo o mais. Pensou que o assassinato estava planejado para a cerimônia de nomeação de cavaleiros só por causa de Trèmoille. Armagnac, no entanto, escolheria outra ocasião..., e o Rei não receberia aviso algum. Para ter alguma esperança de salvar o Rei, primeiro tinha que salvar a si mesma. De alguma forma tinha que sair daquela casa e roubar um cavalo. Uma vez fora, encontraria uma maneira de chegar a Caen. Depois de experimentar a porta trancada, pulou sobre o banco da janela e assomou a cabeça. Conseguiria chegar aos galhos da parte de cima e descer pela árvore. Se não quebrasse o pescoço, escaparia da casa através do pátio. Precisava das armas. Correu até o baú e jogou botas e sapatilhas no chão, até que encontrou as adagas. Depois, tateando o forro do fundo, seus dedos tocaram a bainha da sua espada. Quando se abaixou para amarrar um punhal à panturrilha, viu algo na cor café apagado em meio às sedas e veludos coloridos empilhados no chão. A túnica de Geoffrey! Chamaria bem menos a atenção viajando como homem do que como mulher nobre vestida de seda. Enfiou a espada no estreito espaço entre o colchão e o estradoda cama para mantê-la em segurança enquanto trocava de roupa. Estava escondida, mas fácil de alcançar se De Roché voltasse antes que ela estivesse pronta. A lâmina da adaga serviria de sua guardiã. Em questão de segundos ficou nua, o suor frio do medo esfriando-lhe a pele. Movimentando-se rapidamente, vestiu a camisa do irmão, as malhas, a túnica. Em seguida calçou as botas e enganchou uma adaga no cinturão. Quando enfiou a outra adaga na bota, ouviu vozes do lado de fora da porta. Não havia tempo a perder! Com o coração na garganta, precipitou-se para o solário e pulou no banco da janela. Ouviu o som surdo das chaves enquanto subia no parapeito da janela. Estava com uma perna pendurada do lado de fora quando se lembrou que havia se esquecido da espada. Maldição, maldição, maldição! Ouviu o clique da chave girando na fechadura. Com o coração acelerado, passou a outra perna por cima do parapeito. Olhou através da escuridão, tentando desesperadamente calcular a distância do galho mais próximo. Parecia muito mais longe do que antes. A porta raspou contra o chão. — Pelos pregos de Cristo! A voz de De Roché soou atrás dela quando pulou com os braços estendidos. Agarrou-se às folhas e galhos quando caiu, estatelando-se contra a árvore. Por um instante ficou pendurada, suspensa no ar, agarrada a um fino galho com os dedos de uma das mãos. O galho quebrou e ela caiu de novo. — Ui! – Ficou sem fôlego quando aterrissou de bruços sobre um grosso galho mais abaixo. De Roché estava gritando acima dela, chamando ajuda. Como a maioria dos servos já estava na cama, ainda poderia ter tempo para escapar. Envolvendo o galho com os braços, escorregou de lado, na esperança de conseguir cair de forma segura. Suas mãos ardiam pelos arranhões. Antes que estivesse preparada, suas mãos se soltaram. Agitando braços e pernas ela caiu os últimos metros e bateu no chão e sentiu gosto de sangue e terra. Fechando os olhos com força por causa da dor aguda nas costelas, arrastou-se pelo chão. De repente sentiu os pés soltos no ar.


— Não consigo respirar – gritou para o homem que a segurava pelo pescoço. — Lady Hume? – disse o homem, com surpresa na voz. – Pensei que era um intruso. Um calafrio de medo percorreu seu corpo inteiro. O homem que a segurava era Thomas LeFèvre. Ele pousou-a no chão, mas não soltou a presa. — Mande os servos voltarem para a cama e que fiquem lá – gritou ele para De Roché. – Vou levar para você o que caiu pela janela. Virou-se para ela e lhe disse: — Suponho que ficou tão angustiada quanto eu ao saber da duplicidade do meu primo. Decerto ele pensava que ela saltou porque ficou sabendo que De Roché já era casado. Graças a Deus, nenhum deles tinha razões para desconfiar que ela sabia sobre o complô contra o Rei! Embora cansada e machucada, não tinha nenhum ferimento grave. Devia tratar de se afastar dali antes que LeFèvre a levasse para o andar de cima. Não obstante as fracas possibilidades que tinha, eram melhores com um homem do que com dois. Precisava escolher cuidadosamente o melhor momento. LeFèvre estava logo atrás dela, tranquilo, mas alerta, cujas mãos descansavam sobre seus ombros como se fosse um amigo, ou um amante. Era estranho aquilo, ambos esperando e escutando. Os sons das vozes e das pessoas que andavam pela casa foram sumindo gradualmente. Um a um, os aposentos, cujas janelas davam para o pátio, ficaram às escuras, exceto pelo solário. LeFèvre colocou uma das mãos sobre sua boca e a empurrou rudemente até a porta. Isobel agarrou os batentes da porta com as duas mãos e tentou gritar. Mal interrompendo os passos, ele soltou suas mãos. Ela lutou contra ele, esperneando e mordendo enquanto era arrastada inexoravelmente pela escadaria. Quando chegaram ao solário, LeFÈvre abriu a porta com um pontapé. Arrastando-a, empurroua até o quarto e ela caiu, esparramada no chão. Quando olhou para trás, o alarme latejou através dela. LeFèvre e De Roché estavam olhando-a. — Nunca vi uma mulher vestida com malhas de homem antes – disse De Roché, examinando-a dos pés à cabeça. – Vou ter que lhe pedir que as use para mim. Ela não conseguiria se defender dos dois. Mas se esperasse até o último minuto para puxar a adaga, poderia ter êxito e matar o primeiro que tentasse tocá-la. De Roché fez menção de ir até ela. Ótimo. Seria ele o primeiro a sentir a lâmina da sua adaga. Ele merecia morrer pelas mãos dela. — Espere um pouco! – LeFÈvre deteve De Roché com um braço. Não havia luxuria nos olhos de LeFèvre. No entanto, aquele olhar penetrante a assustava ainda mais do que o de De Roché. — Coloque o capuz na cabeça e enfie o cabelo dentro dele – ordenou-lhe LeFèvre. – Faça isso agora, ou eu mesmo o farei. Se ele a agarrasse, ela poderia perder a oportunidade de puxar a faca. Então ela obedeceu. LeFèvre semicerrou os olhos. Depois sua expressão se abriu, como se ele tivesse encontrado a resposta a uma pergunta que havia sido desconcertante para ele. — É isso! Ela estava com FitzAlan na abadia! – disse LeFèvre. — O quê?! – espantou-se De Roché. – Como poderia...? — Ela estava lá, vestida tal qual está agora – disse LeFèvre em tom neutro. – E me viu. De Roché começou a falar, mas LeFèvre o interrompeu. — Você me reconheceu desde o início, quando nos encontramos à porta do salão – disse LeFèvre para Isobel. – Cometi um erro ao descartar o medo que vi nos seus olhos.


— E o que vamos fazer agora? – perguntou De Roché, com um traço de pânico na voz. – Não podemos permitir que fiquem sabendo da nossa participação no ataque à abadia. O Delfin se afastaria de nós sem pensar duas vezes. Os olhos negros de LeFèvrenão se desviaram do rosto de Isobel. — Teremos que matá-la, é claro.


Capítulo 33 Q

— uando é que vamos buscarIsobel? —perguntou Linnet. Stephen se sentou com os gêmeos e Jamie em uma mesa simples de madeira na casa de hóspedes da abadia. Enquanto os outros homens se preparavam para montar, ele fez um breve relato para Jamie sobre os acontecimentos e o advertiu sobre o plano que tinha. —Você não vai, Linnet. – Tampouco queria ter que levar François, mas precisava da ajuda do rapazinho para entrar na casa de De Roché. Inferno, inferno, mas que inferno! Ignorando o cenho franzido de Linnet, disse para Jamie: — Devemos entrar na cidade depois que escurecer. — Quantos de nós você quer que vão com você? – perguntou Jamie. — François e eu iremos sozinhos. Preciso que você leve os homens de volta a Caen. Quando Jamie começou a protestar, Stephen levantou a mão. — É uma ordem, Jamie. O Rei precisa ser avisado sem demora sobre o complô para matá-lo. Ele precisa saber sobre a traição dos borgonheses. Vou até lá assim que puder. Como é que ele faria para chegar em Caen com Isobel e François? Ainda não sabia. Preocuparse-ia com isso depois de tirar Isobel da casa daquele De Roché. Jamie parecia resignado. Menos de quinze minutos depois, os homens já estavam montados e prontos para partir. Linnet já era outra história. Com os lábios apertados, inclusive se negou a se despedir de Stephen e de François, antes de montar para partir com os homens. Stephen tirou aquela roupa espalhafatosa, vestiu a que usava normalmente e passou barro nas botas e nas de François, para dar a impressão de uma longa viagem. Ao anoitecer, montaram e se dirigiram à cidade. O vento frio que se intensificou com o anoitecer lhes deu a desculpa para baixar o capuz e se envolverem nas capas enquanto se aproximavam dos portões. Se os homens do portão pensaram que o comerciante montado em um cavalo de raça era imprudente o suficiente para sair da cidade acompanhado apenas por um servo, não se deram ao trabalho de dizer nada. — Assim que eu estiver dentro da casa, você volta e espere por mim perto dos portões – disse Stephen para François. – Precisamos combinar o que você deve fazer caso eu não volte. Stephen passou a mão pelo rosto e deu tratos à bola. Inferno, inferno, inferno! — Eu gostaria de conhecer uma alma nesta maldita cidade na qual eu pudesse confiar – murmurou a meia voz. — E quanto à madame..., hmmm, Sybille? Stephen arregalou os olhos. Deus do céu, seria prudente? A cortesã tinha algo mais em mente quando sussurrou seu endereço no ouvido de Stephen. Mesmo assim, ele ainda se lembrava. — Se eu não voltar pela madrugada, a casa dela fica na Rue Saint Romain, ao lado da pequena igreja – disse. – Sybille pode enviar uma mensagem para Robert e ele vai decidir como lhe levar de volta para Caen. Tomaram uma rota secundária até o estreito caminho que passava pela parte dos fundos da casa de De Roché e dos estábulos. Em seguida Stephen se escondeu nas sombras com os cavalos, enquanto François batia no portão. — Já estava na hora de você dar as caras, rapaz.


A brusca saudação foi seguida pelo rangido do portão. A sorte estava do lado deles..., o homem não havia sido informado que François já não estava mais a serviço de Lorde De Roché. Stephen relaxou a mão no cabo da espada. — Estava vagabundeando pela cidade outra vez, quando devia supostamente trabalhar? – continuou o homem com voz rouca. — Claro! – disse François. – Senão, como eu conseguiria histórias para lhe contar? E lhe trouxe uma garrafa de vinho, também. A risada do homem soou na escuridão. — Entre, então, seu malandrinho. – As vozes foram sumindo quando o portão fez um barulho metálico ao ser fechado. François estava dentro. Stephen andava de um lado para o outro pelo escuro caminho, perguntando-se quanto tempo teria que esperar. François havia dito que o homem estaria bebendo àquela altura. A espera parecia interminável. Será que encontraria Isobel sozinha? Deus, por favor, não quero encontrá-la na cama com De Roché! Certamente que matar De Roché o deixaria satisfeito. Mas não diante de Isobel. Ela sofreria tanto ou mais, quando ele lhe contasse sobre a notícia que Sybille havia lhe trazido. Depois de ouvir rumores em Paris sobre o casamento secreto de De Roché, Claudette confirmou, entre outros, com a própria mãe de De Roché. Stephen sabia que teria que contar para Isobel para convencê-la a ir embora com ele. Quando o portão rangeu de novo, todos os músculos do corpo de Stephen ficaram tensos. O contorno de uma figura apareceu, assomando o portão. — Stephen! – François o chamou baixinho na escuridão. Quando Stephen se encontrou com ele no portão, François disse: – Está tudo bem. Ele está tão bêbado quanto um bispo. Só vai acordar amanhã. — Bom trabalho. – Stephen apertou o ombro de François enquanto se esgueirava pelo portão para entrar. – Apressemo-nos. — A porta do pátio que dá para os estábulos e que dá acesso ao interior da casa fica trancada – disse François em voz baixa, enquanto caminhavam apressadamente, cruzando o pátio. – E os aposentos de Isobel ficam na parte superior da casa. Posso lhe mostrar lá do pátio. Stephen apalpou a corda enrolada em volta da cintura. Seria mais seguro descê-la pela janela, e em menos tempo do que os dois gastariam se atravessassem a casa andando. — Não fale nem uma só palavra quando chegarmos ao pátio – advertiu Stephen quando chegaram à porta. – Assim que você me mostrar qual é a janela dela, vá para os portões da cidade. Stephen mal ouviu o leve estalido da fechadura e o ranger da porta. François tinha talento para a coisa! Uma vez dentro, François levou Stephen por um estreito corredor e viraram uma esquina. Ele parou diante de uma grande janela e a abriu, afrouxando um postigo, e viu um pátio quadrado de mais ou menos uns cinco metros quadrados. Uma árvore solitária enchia o pequeno espaço. De repente ele ouviu um grito vindo da janela iluminada em cima, e algo como que caindo e se estatelando contra a árvore. — Saia daqui agora! – disse ele para François. Quando o rapazinho não se mexeu, Stephen pegou a parte de trás da capa dele e o fez se virar. – Vá! – disse, dando um empurrão nas costas de François. Meu Deus, eram os gritos de Isobel fazendo eco nas paredes do pátio!


Stephen deu a volta. Estava na metade do caminho quando viu um homem de pé entre as sombras. Outro homem estava com a cabeça do lado de fora da janela no andar de cima, gritando. Tudo o que Stephen podia fazer era esperar. Quando o homem no pátio arrastou Isobel brutalmente, Stephen apertou a mandíbula com tanta força que seus dentes doeram. Decidiu que ia matar aquele homem antes de sair daquela casa nessa noite. — Mande os servos voltarem para a cama e que fiquem lá – exclamou o homem. – Vou levar para você o que caiu pela janela. Ótimo. Era melhor que os servos estivessem na cama quando ele e Isobel fugissem. Quando o homem à janela virou a cabeça para ladrar ordens para alguém atrás dele, Stephen reconheceu a ridícula barba de bode de De Roché. Mas, quem era o homem no pátio? Não era um servo. A voz era culta, acostumada a mandar. Pensou que já a ouvira antes, mas, onde? O homem era experiente, não perdeu a paciência nem se movimentava depressa. Em troca, aquele fruto do diabo esperou até que a casa ficasse às escuras e as vozes cessassem, só então arrastou Isobel para dentro. Pelo menos Isobel não estava gravemente ferida por causa da queda. Mesmo arrastada, esperneava feito louca. Que mulher! Pular da janela! Decerto ela já estava sabendo sobre a esposa de De Roché. Stephen os seguiu enquanto eles subiam a escadaria. Com Isobel lutando a cada passo, o homem não olhava para trás. Lá em cima, o homem abriu uma porta com um pontapé e arrastou Isobel para dentro. A porta se fechou atrás deles. Diabo! Stephen subiu os dois últimos degraus e colou a orelha à porta. Os dois homens estavam conversando. Não conseguia distinguir as palavras, mas algo no tom deles fez com que os cabelos da sua nuca se eriçassem. Stephen desembainhou a espada. Embora De Roché fosse um hábil espadachim, não era tão bom quanto pensava. A arrogância o levaria a cometer um erro. Era o outro homem que mais preocupava Stephen. Se pudesse, Stephen o abateria primeiro. Tendo traçado um plano, por mais simples que fosse, Stephen empurrou levemente a porta com a bota. Nada aconteceu. Empurrou mais alguns centímetros. Agora conseguiu ver o aposento, um pequeno solário, que estava vazio. As vozes vinham do aposento ao lado. Stephen cruzou silenciosamente o aposento e se espremeu contra a parede junto à porta aberta. Agora conseguiu escutar claramente. De Roché estava dizendo algo acerca de um ataque a uma abadia... Abadia? Será que De Roché...?! Quando o outro homem falou, as especulações de Stephen pararam de chofre. As palavras do homem gelaram o sangue de Stephen. — Teremos que matá-la, é claro. Stephen irrompeu pela porta. No primeiro instante, viu onde estava cada pessoa naquele quarto em relação a ele e aos demais. Isobel estava mais afastada, de costas para a cama. Embora tivesse o rosto arranhado, o fogo nos olhos lhe dizia que ela continuava lúcida. Graças a Deus! De Roché estava a dois passos de Isobel. A sorte colocou o outro homem mais perto de Stephen. O homem de cabelos negros. —Stephen, —gritou Isobel— foi ele que atacou a abadia!


— Seu porco herege, matou homens santos e desarmados! – cuspiu Stephen enquanto as duas espadas se chocavam entre si. – Vou lhe mandar para o inferno! Stephen deu uma estocada na direção do coração do homem. Mas, no último instante, o homem saltou para um lado. Ele estava certo ao se preocupar mais com esse do que com De Roché. Mesmo assim, ele mataria esse homem. Pelo rabo do olho viu De Roché dar um passo à frente para se juntar à luta. O tolo deu as costas para Isobel, que estava pronta para puxar a adaga. Stephen queria gritar para ela não se arriscar, mas esse aviso chamaria a atenção de De Roché sobre ela. Stephen se virou e deu as costas para ele. Enquanto realizava tão descabida manobra, conseguiu manter os olhos dos dois homens sobre ele, e a espada do homem de cabelos negros quase o atingiu. Stephen sentiu a lâmina rasgar a parte de trás da túnica enquanto girava para ficar fora do alcance do outro. De Roché gritou e levantou os braços, arqueando as costas. Com os olhos quase saltando das órbitas e a boca aberta, se viu preso entre o choque, a ira e a agonia. Sangue de Deus, Stephen esperava que fosse um golpe mortal, do contrário, o homem viraria contra Isobel com gana de vingança. Diabo, precisava acabar com aquele assassino de monges e ajudá-la. Mas o homem era hábil. Hábil demais. O grito que De Roché soltou, ressoou no pequeno quarto, mas não o distraiu. O homem nem se alterou. As duas espadas voavam de forma a se esquivarem, empurrando para frente e para trás. Stephen abriu caminho, aproximando-se de Isobel. Quando De Roché se virou e cambaleou na direção de Isobel, Stephen lhe deu um pontapé que o fez cair aos pés dela. — Isobel, pegue! – Jogou o punhal sobre a cama e gritou; – Mate-o agora! Enquanto ele ainda está caído no chão! Stephen caiu no chão. Enquanto rolava, sentiu o deslocamento de ar da lâmina passando sobre sua cabeça. Não adiantaria nada Isobel matar De Roché se Stephen permitisse que esse outro filho de Satanás o vencesse. Ela não teria chance alguma contra um homem tão hábil quanto esse. Com Stephen no chão, o oponente comprometeu por completo a arremetida, pensando ser a última. Stephen se pôs de pé, com a espada em riste. Antes que seu oponente pudesse se recuperar e se afastar, Stephen cortou o braço armado do homem. O homem não pôde evitar olhar o sangue que lhe ensopava a manga. O ferimento não era mortal, mas os olhos do homem tinham uma fúria que também poderia servir. A ira podia nublar o juízo de um homem e levá-lo a cometer uma imprudência. Não era assim com Stephen, cuja ira era dura e fria. Aguçava-lhe os sentidos e fazia sua mente focar no objetivo. Pressionou o escória sem valor, atacando-o várias vezes sem descanso, até que o encurralou em um canto. Seu oponente não tinha espaço para manobrar, nem meios para escapar da espada de Stephen, que viu ali uma oportunidade ímpar. Com uma rápida estocada, atravessaria completamente o coração do homem de cabelos negros. Justo quando estava a ponto de dar o penetrante golpe Isobel gritou atrás dele. Stephen recuou meio passo e deu uma olhada por cima do ombro. Doce cordeiro de Deus! O peito de Isobel estava coberto de sangue! A respiração dele trancou. De Roché estava escorregando pelo corpo dela até o chão, deixando uma trilha de sangue. Isobel, de pé, levantou com a adaga ensanguentada na mão. Era o sangue de De Roché. No mesmo instante percebeu que não era dela, graças a Deus! Porém, foi o tempo suficiente para que seu oponente tirasse a espada da sua mão com um golpe.


Stephen retrocedeu lentamente, um passo de cada vez. Com certeza, não conseguiria se salvar. O que ele devia fazer, era viver o suficiente depois do primeiro ataque para levar aquele homem com ele. — Você não vai conseguir salvá-la – disse o homem com um leve sorriso, adivinhando a intenção de Stephen. – Homem algum é tão hábil assim. O homem avançou um passo, fazendo Stephen recuar, aproximando-o da cama e de Isobel. — É uma pena que não possa prescindir dela, já que me poupou o incômodo de matar De Roché – disse o homem. – Cheguei a me arrepender de ajudá-lo a se casar com a minha meia-irmã. — É estranho que se ofenda com a bigamia, e com o assassinato não. — O que são alguns monges a mais ou a menos? – disse o homem, levantando uma sobrancelha. – Só tenho uma irmã, e não vou permitir que a envergonhem. Stephen decidiu como o faria. Desviaria a espada do próprio coração com o braço esquerdo, e pegaria a adaga do cinturão do homem com a mão direita. No instante no qual o homem levasse o braço para trás para atacar com a espada, Stephen enfiaria o punhal debaixo do externo do homem. Ele também não viveria, mas Isobel poderia escapar. Stephen deu um passo atrás, afastando-se da ponta da espada do homem. Sentiu Isobel logo atrás dele. O momento havia chegado. — Sua mão – sussurrou ela. Com cautela, baixou o braço até a lateral do corpo. Quando sua mão roçou a dela, sentiu uma onda de gratidão. Uma última carícia antes de morrer. Conteve o fôlego e se preparou para agir.


Capítulo 34 Com a atenção de LeFèvre fixa em Stephen, Isobel tirou o pé para não bater na cama o mais rápido que conseguiu. Meio passo. Depois outro. E mais outro. LeFèvre se aproximava lentamente, como se estivesse cercando um animal encurralado que podia ser perigoso e imprevisível. O final daquela dança mortal estava perto, e ambos sabiam disso. Isobel esgueirou o braço por baixo das dobras da cortina da cama. Tateou entre o colchão e a armação da cama até que sentiu. Aço frio, bem-vindo e familiar. O colchão manteve a bainha no lugar quando ela puxou a espada para soltá-la. Protegida pela cortina, colocou a espada contra a lateral do corpo. Nesse instante, Stephen estava tão perto que sentia o calor do corpo dele, e também a tensão que o atravessava. Foi então que intuiu, tão claro como se ele tivesse lhe dito em voz alta. Stephen estava prestes a se sacrificar para salvá-la! — Sua mão – sussurrou ela. Quando a lateral da mão dele roçou a sua, empurrou contra esta o cabo da espada. Então, Stephen agiu tão rápido que ela sequer viu o ataque. Mas LeFèvre estava caindo, com a boca aberta devido ao espanto e à surpresa, com uma mancha delatora de sangue sobre o coração. A cabeça dele deu uma batida seca ao se chocar contra o chão. Stephen se virou e a atraiu para si. Igual a um rio caudaloso, o terror que havia mantido à margem a inundou. Enterrou o rosto no ombro dele. — Pensei que você havia ido embora – sussurrou ela. Os braços dele envolveram-na. — Eu não podia lhe deixar aqui. Respirou profundamente. Aquela essência familiar a reconfortou, e ela se acomodou na força daqueles braços, onde se sentia segura pela primeira vez desde que saiu de Caen. Segura. Finalmente estava a salvo. Rápido demais, ele se afastou. O rosto de Stephen estava tenso, mas ele deu um leve sorriso. — Você precisa ser valente um pouco mais. Alguém pode nos ouvir. Precisamos ir. Ela endireitou o corpo e assentiu. Não era hora para fraquezas. Quando sentiu o frio da umidade no peito e olhou para baixo, hesitou. Estava com a roupa ensopada com o sangue de De Roché. — Vou lhe dar uma roupa limpa quando estivermos lá fora. – Pegando a cortina rasgada, Stephen limpou o sangue do rosto e do pescoço dela. Depois a beijou na testa e apertou sua mão. — Tenho cavalos nos esperando lá fora – disse Stephen, e lhe devolveu a espada. — Esse é..., era..., primo de De Roché, Thomas LeFèvre – disse ela, apontando para o outro corpo no chão. – A carta era dele, não era de Trémoille. Stephen limpou a adaga com o sangue de De Roché e a enfiou no cinturão. — Precisamos avisar o Rei – disse ela, enquanto iam até o solário. – Os outros podem levar o plano adiante. São Armagnac, então pode ser que eles não executem o plano durante a nomeação de cavaleiros na Páscoa, como eu havia pensado.


Enquanto isso, Stephen desenrolou a corda da cintura e fixou uma das pontas no banco debaixo da janela. Entregou para ela outra adaga limpa, sem sangue. — Conversaremos mais tarde – disse ele, e a colocou em cima do banco. Isobel se agarrou a Stephen, como ele a instruiu. Lentamente, ele desceu com ela pela corda até o chão. Assim que seus pés tocaram o chão, pegou-a pela mão e a conduziu pelo pátio até dentro da casa, cujo interior estava escuro como o carvão. O alívio a invadiu quando cruzou a porta e saiu no pátio que dava para o estábulo. Haviam conseguido! Ela viu a silhueta dos cavalos no escuro, ao lado da porta. Mas, espere um pouco! Era um cavaleiro ao lado de um dos cavalos? E apertou a mão de Stephen. Ele praguejou em voz baixa, mas não diminuiu o passo. Quando chegaram onde estavam os cavalos, disse com um áspero sussurro: — Eu não lhe disse para me esperar nos portões da cidade?! — Ouvi gritos, e achei que ia precisar de mim. François! Ela queria chorar de alegria ao ouvir a voz do menino. Antes que pudesse correr até ele, Stephen a levantou sobre um dos cavalos. Imediatamente, os três saíram pelo portão e trotaram pelo estreito caminho, afastando-se da casa. — Precisamos parar na casa da Rue St. Romain – disse Stephen para François. – É caminho. Ela viu em meio à escuridão o brilho dos dentes de François e se perguntou o quê, sobre a face da terra, podia fazê-lo sorrir naquela noite. E por que Stephen correria o risco de parar em algum lugar? Cavalgaram pelos becos, com François à frente e Stephen à retaguarda, vigiando para que ninguém os seguisse. Quando se aproximaram do portão de uma elegante casa, François falou: — Deixe que eu vou chamá-la para você. Mas Stephen disse: — Não. Fiquem aqui e em silêncio. Stephen falou em voz baixa com a serva que abriu a porta. Pouco depois apareceu uma mulher. Tinha o cabelo longo e louro, que caía solto pelas costas, sobre um robe de seda vermelha. Enquanto puxava Stephen para dentro, uma risada áspera flutuou no ar da noite. — Quem é aquela? – sussurrou Isobel para François. — Uma amiga de madame Champdivers. Amiga de Marie! Apesar de todas as mentiras, será que De Roché havia dito a verdade sobre Stephen e a bela cortesã? O que é que aquela mulher havia reservado para Stephen, para que ele viesse até ali, naquele instante, em meio à fuga? — Ela é muito, muito bonita – disse François com um suspiro. A porta se abriu de novo, lançando uma réstia de luz sobre a rua estreita. Enquanto Stephen beijava a mulher na face, Isobel viu que ela enfiou uma sacolinha na mão dele. Sem uma palavra a guisa de explicação, ele montou no cavalo e disse para François que fosse na frente. Isobel esperava que os portões da cidade estivessem fechados àquela hora, pois era bem tarde. No entanto, suas entranhas se encolheram quando os guardas saíram da torre da entrada, com as espadas desembainhadas. — Meus alegres companheiros! – gritou Stephen, levantando a mão com um gesto tranquilizador enquanto desmontava. Depois de uma breve troca de palavras, Stephen segurou a sacolinha que a mulher havia lhe dado e estendeu o braço para os outros homens que o rodeavam. Então ele sacudiu a sacolinha sobre a mão estendida de um dos guardas. Moedas reluzentes saíram da sacolinha, amontoaram-se sobre a mão do homem e transbordaram para o chão.


Quando o guarda colocou a mão sobre o ombro de Stephen, Isobel começou a suar. O quê?! Eles estavam rindo?! O guarda bateu nas costas de Stephen como se fossem velhos amigos compartilhando uma anedota muito engraçada. Logo os outros guardas também estavam rindo e bufando. A voz de Stephen ficou mais forte e ela captou algumas palavras: — ...então o inglês disse: Por que acha que criamos tantas ovelhas? Por causa da lã? Meu Deus, Stephen estava contando anedotas! E anedotas obscenas, pelo visto. Depois de mais uma rodada de anedotas e risadas, Stephen voltou a montar no cavalo e os homens abriram os portões o suficiente para que pudessem cruzá-lo um atrás do outro. Saíram da cidade em meio aos gritos de bééé, bééé, e uma onda de alegres obscenidades. Stephen se virou e acenou com a mão, enquanto tomava a frente pelo escuro caminho. — Como é que você conseguiu isso?! – perguntou Isobel. — Montar guarda à noite é um trabalho tedioso e aborrecido, e os homens sempre agradecem uma ou duas anedotas – disse Stephen. – Mas foram as moedas que abriram os portões para nós. O trabalho dos guardas é manter os atacantes fora da cidade; eles não veem nada de errado em receber algumas moedas para permitir que alguém saia. Isobel desconfiava que Stephen não tinha tanta certeza assim que os guardas os deixariam passar quanto pretendia. — Agora eles vão ficar repetindo aquelas horríveis anedotas horas a fio – disse ele. – Com sorte, isso irá distraí-los até que estejamos bem longe. — Quando aqueles guardas saíram, imaginei sua cabeça na ponta de um poste – disse ela. – E sou capaz de apostar que você imaginou isso também — Sim – disse ele. – E você, encarcerada e vigiada por um corcunda horrível, olhando-a com olhos lascivos. François desatou a rir, mas Isobel ficou pensativa. — Vamos acampar naquele bosque pelo resto da noite – disse Stephen, apontando para a escuridão diante deles. — Mas, onde está Linnet? – perguntou Isobel, assolada pela culpa de não ter pensado na menina bem antes. — Eu a mandei da volta para Caen com os homens que vieram comigo. Até aquele instante, não havia pensado na viagem de volta a Caen. Tinham um longo e perigoso caminho pela frente. Mas Stephen estava ali. Ele os manteria a salvo.


Capítulo 35 Pelas barbas de SaintWinifred, quão perto estavam os portões! Isobel pensou que ele estava brincando quando disse que a imaginou cativa e nas mãos de um corcunda. A imagem foi tão real que ela quase se esqueceu do final daquela absurda anedota das ovelhas. Já que a vida deles dependia disso, ele levou adiante a fachada de tranquila camaradagem. No entanto, o suor escorria pelas suas costas. E agora? Passou a mão pelo rosto e praguejou contra si mesmo. Cavalgar em campo aberto sem mais um homem armado era convite aberto para problemas da pior espécie. Sentiu-se melhor ao se aproximar do bosque. Pelo menos estariam seguros durante a noite. Pela manhã ficaria vigilante à procura de um grupo grande ao qual pudessem se juntar. Seria uma longa noite, montando guarda sozinho. Poderia ter contado para si mesmo aquela estúpida anedota das ovelhas para se manter acordado. O que foi isso?! Parecia um cavalo bufando, cujo som vinha do bosque. Esticou o braço, indicando aos outros dois para que parassem. Louvado seja Deus, os dois tiveram o bom senso de ficar em silêncio. A cabeça dele estava doendo pelo esforço de apurar o ouvido detidamente. E lá estava o som, de novo. Um sussurro das folhas? Uma pisada? Desembainhou a espada sem fazer barulho e incitou o cavalo à frente. —Stephen? É você? — veio uma voz da escuridão. No momento o sobrinho deveria estar no meio do caminho para Caen. No entanto, era a voz dele que ouviu em meio ao capim alto à beira do caminho. — Jamie?! Jamie se levantou no meio do capim, tão maravilhoso para Stephen como se fosse Vênus saindo da água. Jamie gritou por cima do ombro: — É o meu tio! Várias figuras escuras emergiram do meio das árvores, gritando saudações. A tensão em torno do coração de Stephen afrouxou, e ele sorriu. — Vejo que você ignorou minhas ordens – disse, desmontando. Pôs o braço em volta dos ombros do sobrinho. – Graças a Deus você as ignorou! — A bem da verdade, nunca pretendi segui-las – disse Jamie. – E se você não chegasse até amanhã de manhã, eu iria galopar até Rouen para lhe procurar! —François! Isobel! Stephen! Stephen ouviu os gritos de Linnet que corria até eles, com o cabelo louro brilhando na escuridão. A viagem de volta a Caen foi um pesadelo. A todo instante, Stephen teve que sopesar o esgotamento dos cavalos com o peso deles em cima contra a necessidade de chegar logo a Caen antes que o Rei saísse para Chartres. Foram os homens de Armagnac, que controlavam o louco rei francês, que propuseram uma reunião secreta entre os dois monarcas, em Chartres, dali a poucos dias. Rei Henrique concordou, já que dita reunião poderia levar à uma negociação para o fim do conflito. Para manter em segredo


essa reunião, o Rei Henrique deixaria seu exército para trás e viajaria para Chartres com apenas uma pequena escolta. Se os Armagnac estavam planejando matar o Rei Henrique, o encontro em Chartres lhes proporcionaria a oportunidade perfeita. Stephen permitiu que o grupo descansasse por apenas duas ou três horas no bosque nos arredores de Rouen. Naquela manhã se levantarem muito cedo e cavalgaram duro o dia todo. Fizeram uma parada naquela noite, porque a escuridão era perigosa demais para os cavalos. Encontrou Isobel sentada diante da fogueira, com a cabeça de Linnet no colo. Ela levantou o olhar quando ele se aproximou e lhe deu um sorriso cansado. — Odeio ter que acordá-la para que termine de jantar – disse. — Vou providenciar para que ela receba uma porção extra pela manhã. – Ficou de joelhos para pegar a menina no colo. – Você também devia dormir. Vamos levantar acampamento ao amanhecer. Doía-lhe ver o quanto o rosto de Isobel estava emaciado. — Nunca me senti tão cansada – disse ela, afastando o cabelo do rosto. – De qualquer forma, não consigo dormir. Os braços e as pernas de Linnet pendiam dos braços dele, enquanto a carregava até a manta que compartilharia com Isobel. Quando voltou, Isobel não mais estava ali. Olhou para o outro lado da fogueira onde Geoffrey, Jamie e François haviam estendido as mantas. — Ela foi até o riacho para se lavar – disse Geoffrey. — Cuide de Linnet – ordenou Stephen, irritado por que eles deixaram que Isobel saísse sozinha. Àpouca claridade da lua, seguiu a margem do riacho, afastando-se do acampamento. Ele havia passado o dia todo querendo falar com ela. Mas a viagem era esgotante demais para uma conversa séria, e precisava manter vigilância constante. Agora que finalmente tinha uma chance, não sabia como abordar o assunto com ela. Ouviu um barulho na água e viu uma figura escura de cócoras à margem do riacho. Correu até ela e a ajudou a se pôr de pé. — Isobel, assim você vai congelar até morrer! – Envolveu-a com a própria capa e a segurou até que ela parou de tremer. Inclinou o corpo para trás para olhar seu rosto, mas a luz da lua estava muito fraca para ele conseguir decifrar sua expressão. Será que ela sabia o que ele queria lhe dizer? Pegou as mãos dela e aguardou, na esperança que ela pudesse lhe dizer algo para animá-lo. Finalmente, ele simplesmente disse o que queria: — Assim que chegarmos, quero pedir permissão ao Rei para nos casarmos. Ouviu-a inspirar bruscamente. — Precisamos agir rapidamente, antes que o Rei escolha outro marido para você. – Ele estava decido a impedir que o Rei o surpreendesse de novo. — Pensei que você havia entendido – disse ela com a voz entrecortada. – Não estou carregando um filho seu. Essas palavras foram como uma punhalada no seu coração. — E você acha que esse é o único motivo para nos casarmos? – A dor soava na sua voz, mas não conseguiu evitar. Quando ela não negou, ele engoliu o orgulho. — Mas você ainda precisa de um marido. De Roché pode ter plantado uma semente em você – ele manteve a voz suave, embora a ideia das mãos daquele vilão sobre ela lhe arrancasse as entranhas.


— Você não precisa me salvar disso também – a voz dela soou aguda, tensa. – Não corro o perigo de ter um filho dele. Stephen sentiu o corpo afrouxar de tanto alívio. Louvado seja Deus, aquele vil bastardo não havia feito nada com ela! No entanto, a conversa não estava indo como ele esperava. — Quero que você seja minha esposa – disse, lembrando-se tardiamente do conselho de Catherine – porque eu lhe amo. — Se isso for verdade, – disse ela bruscamente – lamento muito. As esperanças dele eram como poeira na boca. Lutando para manter a calma, perguntou: — Você não se importa comigo nem um pouquinho? — Se eu não me importo?! – Isobel passou as mãos pelo cabelo emaranhado. – Oxalá eu não me importasse com você! Quem me dera eu não lhe amasse! Toda tensão e cansaço sumiram do corpo dele. Sentia-se leve e feliz. Tudo acabaria bem. Isobel o amava! Mas, quando tentou puxá-la para os seus braços, ela levantou as mãos. — É justamente porque lhe amo que não consigo suportar a traição – disse ela, retrocedendo. — Como pode pensar que vou lhe trair? – disse, estendendo a mão para ela. – Eu lhe amo. — E você acha que não sei sobre todas as suas mulheres? – disse, levantando a voz. – Eu estava lá. Eu vi você em Caen! — Eu vou honrar meus votos matrimoniais – disse, com voz irritada. Será que ela não entendia como isso o insultava? — Um dia em Rouen, e já havia cortesãs aos seus pés, dando-lhe dinheiro e lhe fazendo favores! — Posso lhe explicar sobre aquelas mulheres... — Se não forem as mulheres, será outra coisa. – Quando ele tentou falar de novo, ela tampou os ouvidos e gritou: – Já não sofri o suficiente? Ele pegou uma das mãos dela e a apertou contra o próprio coração. — Por você, eu serei o melhor homem que puder ser. Quero que se sinta orgulhosa de mim, para que eu possa me orgulhar de mim mesmo. Serei um bom marido, um bom pai. Isobel, por favor. Acredite em mim. — Não posso, não posso! – Soltou a mão dele e saiu correndo em meio à escuridão. Quando saiu correndo atrás dela, Geoffrey saiu do nada, bloqueando seu caminho. — Deixe-a, dê-lhe um tempo – disse Geoffrey, pressionando o peito de Stephen com a mão. — Mas eu preciso dizer para ela... — Agora não, – disse Geoffrey, impedindo-o ainda. – Não esta noite. Não consegue ver o quanto ela está cansada? Mas ele precisava lhe dizer sobre a espionagem, para que ela entendesse o porquê daquelas mulheres. — Ela está magoada, eu... — Pelo amor de Deus, Stephen! Ela ainda está com o sangue daquele homem no corpo! Stephen estremeceu ao se lembrar do instante no qual ela se virou e ele viu o peito dela banhado de sangue. — Ela estava tentando se livrar daquele sangue todo – disse Geoffrey. Stephen sabia o que era estar coberto com tanto sangue. Apesar de ter lhe dado uma muda de roupa limpa e uma tina com água na noite anterior, nada se comparava a uma completa esfregação em uma tina de água quente para que o vapor amolecesse e tirasse o sangue de todas as fendas e rachaduras. Geoffrey pegou o braço de Stephen e o fez se virar.


— Você tem que dar um tempo para que ela se recupere. — Você tem razão, é claro – concordou Stephen, sentindo-se miserável. Menos de um dia depois de escapar de uma violação e de ter matado o último noivo, ele estava pressionando-a para se casar. — Creio que minha irmã vai me agradecer por isto – disse Geoffrey. – Sente-se, vou tentar lhe ajudar. Stephen se sentou ao lado de Geoffrey, sobre o gramado alto e úmido devido ao riacho. — Você não acredita que eu a amo? – perguntou, com o desespero subindo pela garganta. — Você está se preocupando em fazer a pergunta errada. – Geoffrey pegou uma pedra e a jogou na água. – O que Isobel quer saber é: ela pode confiar em você? Você estará lá quando ela precisar? Ou você vai sacrificar isso por algo que quiser mais do que tudo? Stephen ficou olhando para a água escura, em movimento. Ouviu o chapinhar de outra pedra e ficou olhando as ondas concêntricas sob o reflexo da luz da lua. — Eu era jovem demais para me lembrar da nossa mãe antes de a nossa família cair em desgraça – disse Geoffrey. – Mas, para Isobel foi diferente. Tanto ela quanto nosso pai se sentiram abandonados. — Isobel me falou algo sobre isso. — Essa perda fez com que o vínculo entre eles ficasse mais estreito ainda – disse ele. – Usufruíram da mútua companhia e o prazer de fazerem as mesmas coisas..., lutas com espadas e galopes a cavalo. Ela se transformou em ambas as coisas, na companhia e no tipo de filho que ele gostaria de ter. Felizmente Isobel tem bom coração, porque nosso pai não conseguia dizer não para ela. Ele a adorava. — Mesmo assim, – disse Stephen – negociou com a felicidade dela pela oportunidade de ter de volta as próprias terras. — Isso a devastou – disse Geoffrey, meneando a cabeça. – Eu me preocupo com a alma dela, porque Isobel ainda precisa perdoar nosso pai. — Então, quer dizer que pouco importa que eu a ame, ela acredita que eu também vou traí-la? — Pior do que isso. — Pior?! — Sim. Ela lhe ama. — E como é que isso pode ser pior? – Se essa era a única coisa que dava esperanças a Stephen. — É justamente por isso que ela está tão decidida a não se casar com você – disse Geoffrey, batendo no ombro de Stephen. – Ela sabe que quanto mais se entregar, mais você pode magoá-la. — Isobel não rechaçaria a felicidade por falta de coragem – argumentou Stephen. Ou sim? — Ela tem coragem de sobra – disse Geoffrey, pondo-se de pé. – O problema é que ela é tão obstinada quanto. Diabos! Stephen inclinou o corpo para trás, apoiou-se nas mãos e ficou olhando fixamente para a lua. Ele teria que encontrar alguma forma de convencê-la de que podia confiar nele. Mas, como? — Sugiro que reze – disse Geoffrey, acima dele. Stephen ouviu Geoffrey caminhar entre o capim na direção do acampamento. — Reze sem parar – disse Geoffrey, em meio à escuridão. – É o melhor caminho.


Capítulo 36 O castelo de Caen era uma visão gloriosa, a pedra diferenciada das altas muralhas brilhava à luz do pôr do sol. Finalmente! Quando Stephen finalmente conduziu o cansado grupo através dos portões, um dos guardas do Rei estava lá, esperando-o. — O Rei nos ordenou que ficássemos de vigia na torre, atentos à chegada dos senhores – disse o homem. – Precisam vir comigo imediatamente. Quando chegaram à Fazenda, Stephen ajudou Isobel a desmontar. Mas ela estava tão exausta que caiu nos braços dele. — Não posso ir me encontrar com o Rei assim – declarou Isobel. Pobre Isobel, ainda estava vestindo roupas de homem. Apesar das tentativas de se lavar, estava tão suja quanto os demais. — Eu sinto muito, mas o Rei vai querer ouvir sobre o complô da sua própria boca – disse Stephen. – E não vai tolerar nenhum atraso. Ela tinha círculos escuros debaixo dos olhos e parecia tão cansada que ele ficou tentado a carregá-la nos braços. Em vez disso, abotoou a capa e puxou o capuz para tampar um pouco o rosto dela. — Agora ninguém vai ver o que você está usando, – disse ele – só o Rei, mas ele nem vai notar. Foram conduzidos à sala particular do Rei, atrás do grande salão. Para alívio de Stephen, o Rei estava apenas na companhia de Robert, William e Catherine. — Louvado seja Deus por vocês estarem a salvo! – disse o Rei, antes que Stephen pudesse cumprimentar os presentes. – Assim que ficamos sabendo que De Roché estava envolvido no ataque à abadia, tememos por vocês dois. — Como é que o senhor ficou sabendo sobre De Roché? – perguntou Stephen. O Rei sorriu para Catherine. — Sua cunhada conseguiu arrancar essa informação de Marie de Lisieux. Catherine lhe devolveu o sorriso. — Eu não podia permitir que os homens arriscassem a própria virtude interrogando-a, não é? Stephen fez um breve resumo dos acontecimentos em Rouen. O Rei parecia mais intrigado do que perturbado ao ouvir a notícia do plano de assassinato contra ele. Depois de crivar Stephen com perguntas, ele se virou para Isobel. Stephen estava preocupado. O corpo dela balançava de tanto cansaço, e o Rei teve que lhe perguntar várias vezes para obter resposta. Depois que ele relatou sobre o caso da letra T, o Rei semicerrou os olhos e olhou ao longe. — O Delfin está por trás disso – disse o Rei, esfregando o queixo. – Ele tem muito a perder, e esse é exatamente o tipo de ato covarde que ele aprovaria. — Ele não agiria sem a orientação dos Armagnac por trás dele – disse William. — Talvez não, – disse o Rei. – Mas eu duvido que o Rei Carlos, ou aquela depravada rainha dele, tiveram algum papel nesse plano. — Isso tornaria as coisas bastante incômodas se se casasse com a filha dele – retrucou Robert. O Rei desatou a rir. — É verdade! A expressão do Rei se tornou séria quando voltou a atenção de novo para Stephen e Isobel.


— Estou muito grado por este serviço e quero lhes recompensar. Stephen se inclinou. — É uma honra lhe servir. — Lady Hume, – disse o Rei – eu lhe devo um marido. Mas que inferno! Será que Henrique não lhe daria um dia sequer para tratar daquele assunto com Isobel? Stephen se surpreendeu com a piscada de olho de Robert e olhou para o irmão. A boa expressão de William confirmou. Eles já haviam falado com o Rei em nome dele. Isobel era sua. — Eu lhe peço desculpas pela primeira escolha que fiz para seu marido, – disse o Rei – porém, creio que minha próxima escolha vai lhe deixar feliz. As sobrancelhas do Rei se arquearam quando Isobel caiu aos seus pés, no chão. — Por favor, eu lhe rogo, senhor – disse Isobel. – Não me obrigue a isso. Se o senhor está tão grato assim pelos meus serviços, libere-me da promessa que lhe fiz. O Rei olhou para William e Robert. — Vós me dissestes que ela ficaria contente. Robert fez um sinal para o Rei, instando-o a continuar. — Por favor, senhor, não faça isso comigo – gemeu Isobel, e bateu o punho fechado no chão. – Por que não posso ficar sozinha?! — Lady Hume está além do esgotamento – disse Stephen, fazendo caso omisso de William para que ficasse calado. – Por favor, senhor, pode esperar até amanhã, quando ela estiver descansada? O Rei assentiu bruscamente para Stephen. — Obrigado, senhor – disse Stephen. Fez então uma rápida reverência e ajudou Isobel a se pôr de pé. Enquanto a tirava da sala meio carregada, tentou falar com ela, que não respondeu aos seus rogos. William se encontrou com eles na parte de baixo da escadaria. — Lady Hume – disse ele com voz suave, segurando-lhe o braço. – Minha esposa e eu queremos que fique conosco, na nossa casa na cidade. Catherine apareceu atrás deles, empurrou Stephen para um lado e segurou o outro braço de Isobel. Sem uma palavra para ele, marido e mulher levaram Isobel, agora tranquila, entre eles. William se virou para lançar a Stephen um olhar exasperado por cima do ombro. Como se a cena lá dentro tivesse sido culpa dele! Stephen fechou os punhos em sinal de frustração. Sentiu uma forte palmada nas costas, virou-se e viu Robert de pé ao seu lado nos degraus. — A coisa não foi tão bem quanto esperávamos – disse Robert. – Você se dá conta de que o Rei lhe escolheu para ser o marido dela? — Foi o que supus. – Stephen se sentou no último degrau e apoiou a cabeça nos braços. Tudo aquilo era demais. Estava cansado até os ossos. – Mas eu não posso aceitá-la assim. — Ora, vamos – disse Robert, acomodando-se ao lado dele. – Isobel pensou que o Rei ia casá-la com outra escória como Hume ou De Roché. E quem é que poderia culpá-la por se opor a isso? — Ela não quer se casar comigo. — Isobel vai reconsiderar assim que se der conta do quanto se preocupa com você. — Ela disse que me ama – disse Stephen sem levantar a cabeça. – Só que isso não adianta nada no meu caso.


Capítulo 37 Isobel no conseguia respirar! As mãos de De Roché estavam em torno do seu pescoço, apertando com uma força feroz enquanto a inclinava para trás sobre a cama. — Você! Você! – grasnava ele com voz rouca, olhos saltados. O pânico tomou conta dela, dando-lhe força para fazer o que devia ter feito antes. Com um movimento do braço, ela enterrou a lâmina de fio duplo na garganta do homem. Por um horrível instante, De Roché ficou parado sobre ela, jorrando sangue como uma fonte. O sangue salpicou-lhe o rosto, ensopando a camisola e deixando riachos de sangue pelas laterais do pescoço. Em seguida De Roché caiu em cima dela, prendendo-a contra a cama. Ele era tão pesado! A náusea lhe provocou convulsões enquanto lutava para empurrá-lo. Isobel se sentou na cama de chofre, o coração estava acelerado. Ela estava sonhando. Dessa vez, era sonho mesmo. Cautelosamente, passou os dedos no peito para se certificar. O tecido estava seco. Olhou para baixo e soltou o ar com um sopro ao ver que a camisola branca estava limpa. De Roche e LeFèvre estavam mortos. E ela estava a salvo. Ouviu uma batida à porta e levou a mão à garganta. — Lady Hume? – Gritou alegremente uma voz. – Está acordada? Isobel puxou a colcha da cama para se cobrir quando uma mulher gorducha, mais velha, entrou no quarto carregando uma bandeja fumegante. — Então, está se sentindo melhor hoje? – perguntou a mulher por cima do ombro e colocando a bandeja sobre uma mesa perto da porta. — Sim, obrigada – respondeu Isobel. – Dormi por muito tempo? — Uma noite e um dia inteiros, milady – disse a mulher com um sorriso. Franziu o cenho, aproximou-se da cama e estalou a língua. – Esses ferimentos são bastante desagradáveis. Isobel tirou a mão da garganta. — A senhora estava esgotada demais! Pregou-me um belo susto quando dormiu dentro da banheira. — A senhora tirou o sangue dos meus dedos – disse Isobel, lembrando-se. Estava tão grata que poderia ter beijado a mulher. Durante os dois dias de viagem, cada vez que ela olhava para as próprias mãos segurando as rédeas, via crostas de sangue debaixo das unhas..., o sangue de De Roché. Não havia conseguido tirá-las se lavando sem sabão e no escuro. Como é que Stephen e o Rei podiam lha falar sobre casamento quando ainda tinha osangue de De Roché nas botas, nas meias, e grudado no cabelo?! — Eu teria deixado a senhora descansar mais um pouco, – disse a serva – mas seu irmão está aí para lhe levar, o Rei quer lhe ver. — O Rei quer me ver? – Parecia que ela havia acabado de vê-lo. Fechou os olhos. Maldito fosse aquele velho idiota do Hume! Se ele não tivesse sido enganado pelas mentiras de Bartholomew Graham, nada disso teria acontecido. Ela nunca teria conhecido De Roché, não teria que matar ninguém e não teria hematomas no pescoço. Estaria vivendo em paz em Northumberland, administrando o próprio lar.


Qual seria seu destino agora? O fato de uma aliança matrimonial não ter garantido a lealdade de De Roché, não dissuadiria o Rei de tentar de novo. A qual nobre francês o Rei queria uni-la agora? Ou seria com Stephen? Será que ele havia conseguido convencer o Rei? Se fosse ele, o que ela faria? Ela concordaria. É claro que concordaria. Quanto tempo passaria antes que ele partisse seu coração? Algumas semanas?Seis meses? Um ano? De qualquer forma, preferia ser infeliz com ele a estar com outro homem. Se Deus fosse bom, ela teria filhos para consolá-la. Uma hora mais tarde, entrou no salão da Fazenda. O coração lhe caiu aos pés quando viu que Stephen não estava ali. Ficou de pé diante do Rei, outra vez, à espera para conhecer seu destino. Geoffrey e Robert estavam um de cada lado dela. Onde estava Stephen? Se ele quisesse reclamá-la, certamente estaria ali. Talvez já tivesse falado com o Rei e tudo estivesse resolvido. — Espero que a senhora tenha se recuperado o suficiente para falar sobre o seu futuro – disse o Rei, bastante amável. Isobel corou, lembrando-se de como havia se jogado aos pés dele, implorando-lhe. Ela quase havia dito ao Rei que ele tinha uma dívida de serviço com ela e como devia pagá-la. Ela jamais teria feito isso se não estivesse tão esgotada. — Parto de Caen ao amanhecer e quero resolver este assunto antes de ir embora – disse o Rei, desenrolando um pergaminho. Ela voltou a cabeça para ver se Stephen havia chegado. — Tenho em mãos uma carta do meu tio, o Bispo Beaufot. O Bispo Beaufort! Ele já não havia lhe causado dor o suficiente? — Ele falou com o seu pai sobre o aumento do seu dote. Por quê? No que estavam pensando agora? Quantas vezes teria que sofrer devido às decisões dos homens que tinham poder sobre ela? Já estava farta das decisões que os outros tomavam em seu nome. — O bispo convenceu o seu pai a aumentar seu dote até uma bela soma. Até podia imaginar o bispo Beaufort convencendo seu recalcitrante pai. Se não estivesse tão tensa, poderia até se divertir com isso. — Sua Alteza, permite-me? – disse Geoffrey. Quando o Rei assentiu, Geoffrey disse: – Nosso pai vai incrementar o seu dote ainda mais quando ficar sabendo que estou me unindo à ordem cisterciense. Isobel tentou sorrir para o irmão. Apesar de ser essa uma opção insólita para um filho único, ela estava feliz por ele. — Admiro a devoção dos cistercienses pela pobreza, oração e trabalho árduo – disse o Rei. – Seu pai deve estar orgulhoso. Ha! O Rei talvez pudesse ouvir os gritos do seu pai até o final de Northumberland quando soubesse da notícia. — É uma pena que o dote não seja necessário – disse o Rei, sacudindo a cabeça. – Eu libero a senhora da promessa de se casar com um homem da minha escolha. — Sua Alteza...?! – Isobel estava aturdida demais para ter certeza de que havia escutado corretamente. — Se não vai ter marido, precisa ter uma renda – disse o Rei. – Portanto vou lhe conceder a propriedade Hume, também.


Ela pestanejou. — Mas as terras Hume pertencem a Bartholomew Graham agora. — Graham foi flagrado confraternizando com os rebeldes escoceses – disse o Rei. – Então o bispo confiscou as terras para a Coroa. Ela o olhou fixamente. Seria possível? — Eu pretendia dar essa propriedade ao seu novo marido como presente de casamento – disse o Rei, com o cenho franzido. Isobel se sentiu tonta. As terras Hume eram dela agora, finalmente! Era aquilo pelo qual havia esperado durante todos aqueles anos. Nunca mais voltaria a sofrer a humilhação de ser vendida como gado em troca de terra ou por necessidade política. Podia agora administrar o próprio lar sem depender de homem algum. De repente ela compreendeu a solidão que seria sua vida dali por diante. A vida pela qual havia rezado desde que era apenas uma menina de treze anos. — Sem dúvida, essa notícia é das melhores – disse Geoffrey, conduzindo-a para fora da sala. — Sim, a melhor – murmurou ela. Não conseguia se lembrar se havia agradecido ao Rei. Ou se havia feito a devida reverência antes da se retirar da presença dele. — Você está pálida – disse Robert, do outro lado dela. – Está se sentindo mal? Ela se virou para olhá-lo. — Acha que os gêmeos iriam para a Inglaterra comigo? Robert fez uma careta e sacudiu a cabeça. — É melhor que eles fiquem aqui. Mais cedo ou mais tarde vai aparecer um parente e reclamálos-á. Até então, eu mesmo vou me encarregar deles. Não se deu conta de que haviam saído dos jardins do castelo até que pararam diante da porta da casa dos FitzAlan. — Eu gostaria de ficar sozinha agora – disse ela. —Mas os FitzAlan estão esperando para ouvir as notícias – disse Robert. — Eles têm sido muito amáveis, – acrescentou Geoffrey – certamente você pode lhes fazer uma visita, não é? Ela assentiu com a cabeça, sabendo que o irmão tinha razão. — A família está esperando-os – disse o servo à porta. – Estão no solário. — Obrigado – disse Robert. – Não precisa nos acompanhar. — O Rei me disse para eu lhe acompanhar até a sua casa, em Northumberland – disse Geoffrey enquanto subiam as escadas. – Em breve você terá que se despedir dos FitzAlan. Isobel sentiu a ardência das lágrimas no fundo dos olhos. Ela havia se afeiçoado aos FitzAlan, especialmente Jamie. — Vocês têm visitas! – gritou Robert ao chegar à parte superior da escadaria. Pôs-se de lado para que Isobel entrasse no solário primeiro. Ela parou em seco no umbral. Apoiado à parede em frente, com os braços cruzados sobre o peito, estava Stephen Carleton. Alto, esbelto e perfeito. Quando se virou e a olhou nos olhos, ficou sem fôlego. O triste e doce sorriso que lhe deu quando foi cumprimentá-la o suavizou por dentro. Quando seus lábios tocaram o dorso da mão de Isobel, precisou fechar os olhos ao sentir a onda de pura emoção que o invadiu. — Precisamos deixar que Robert e Geoffrey entrem – disse ele em voz baixa. Isobel se movimentou com as pernas rígidas, afastando-se da porta. O calor da mão dele no seu braço era muito reconfortante, e ela ansiava descansar a cabeça naquele ombro.


Permaneceu em absoluto silêncio enquanto Robert e Geoffrey contavam aos demais sobre a sua boa sorte. Ninguém se mostrou surpreso pela notícia. — Então agora será uma rica proprietária de terras por direito próprio – disse Lorde FitzAlan com falsa cordialidade. Apesar das palavras de felicitações, o olhar que lhe dirigiu estava cheio de pena. — Vai voltar para a Inglaterra em breve? – A voz de Lady Catherine, diferente da do marido, estava fria, e os olhos demonstravam irritação. — Sim, em breve – respondeu Geoffrey por ela. — Nós também vamos voltar para casa – disse FitzAlan. – Talvez possamos viajar juntos até Londres. — Eu estou de partida, também – disse Stephen ao seu lado. A tensão que apertava o coração de Isobel como um torno, diminuiu um pouco. Não teria que dizer adeus a Stephen até chegarem a Londres, e isso levaria pelo menos uma semana. — Vai para a Inglaterra? – O tom de Robert foi casual, como se se tratasse de um assunto de pouco importância. – Vai para Northumberland, reclamar as terras Carleton? Northumberland! Poderiam viajar juntos durante duas ou três semanas. Se Stephen ficasse em Northumberland, poderia até vê-lo nas reuniões, de vez em quando. — Vou ficar para lutar com o Rei – disse Stephen. – Vou assumir o comando dos homens de William. Isobel sentiu um buraco no estômago. — Tenho que me despedir de todos agora – disse Stephen. – Vamos partir ao amanhecer. Partir? Ao amanhecer? Isobel sentiu que cambaleava. Quando Stephen se afastou do seu lado, sentiu uma onda de frio onde a mão dele havia descansado sobre o seu braço. Stephen e FitzAlan deram palmadas nas costas um do outro. — Sei que você vai cuidar de Jamie por nós – disse FitzAlan, puxando Stephen para um feroz abraço de urso. Jamie ia partir também? E ela não teria nenhuma chance de se despedir dele? Lady Catherine se jogou nos braços de Stephen, chorando abertamente. — Prometa-me que vai voltar. Prometa! — Diga às crianças que eu os amo – disse Stephen, e beijou-a na face. Depois de se despedir de Robert e Geoffrey, Stephen voltou a ficar frente a frente com Isobel. Seus olhos estavam suaves enquanto pegava as mãos dela. — Isobel, eu lhe desejo toda a felicidade do mundo. — Você conseguiu um comando, como tanto queria – disse ela, com voz alquebrada. — Eu já lhe disse o que quero. – Ele tentou sorrir, mas o coração não deixou. Ele deu um último aperto nas mãos dela e se foi.


Isobel atirou a jarra de água contra a parede, que ricocheteou em vez de quebrar, mas isso não lhe deu satisfação alguma. Agora que finalmente tinha o que queria, por que não estava feliz?! Ela começou a percorrer a pequena alcova de cima a baixo até que sentiu dor nas pernas. Finalmente, arrastou-se até a cama e se deitou de costas. As cortinas da cama, fechadas, davam a impressão de um túmulo. Lágrimas de frustração escorreram pelas laterais do seu rosto até os cabelos, fazendo com que sua cabeça coçasse. Se não fosse por Stephen, ela estaria muito contente. Não, estaria encantada! Mas ele havia lhe tirado isso também. O que é que ele quis dizer, falando que a amava e depois indo embora? Bateu na cama com os punhos. E depois gritou..., gritou tão forte que sentiu dor de cabeça e a garganta seca. A porta se abriu de chofre, sem uma batida sequer. Um instante depois, alguém puxou a cortina da cama com um estalo e enfiou uma vela na frente do seu rosto. — Como é que você pode ser tão estúpida, hein?! Lady Catherine. Mas será que essa mulher não podia deixá-la como estava, afundada na própria miséria?! Isobel cobriu os olhos com os braços. O colchão afundou quando Lady Catherine se sentou na cama. — Por favor, vá embora – gemeu Isobel. — Se fosse só você que estivesse sofrendo, eu iria sim. – A voz de Catherine era brusca. – Você não tem ideia do que está fazendo com Stephen, não é? Temo que ele não vá sobreviver à primeira batalha. Isobel se sentou. — Mas ele é um perito na luta. Ela se sentiu ridícula. A confiança que tinha na capacidade de Stephen era tal que não lhe ocorreu até o momento que ele poderia ser morto. — É perigoso demais – disse Catherine – mandar um homem para a guerra quando ele não se importa se vai sair dela vivo ou morto! Isobel sentiu como que uma garra esmagando seu coração. — Você acha mesmo que… — Sim, acredito nisso sim. – disse Catherine. — Mas então ele não pode ir – disse Isobel, retorcendo-se para sair de baixo dos lençóis. Quando ela tentou sair da cama, Catherine pegou-lhe o braço e a segurou. — Stephen não vai aceitar se você quer apenas salvá-lo. Ele me disse que tentou forçar o casamento com você antes, mas não voltará a fazer isso de novo. —Então você sabe que ele só queria se casar comigo porque pensou que eu poderia estar grávida dele. Catherine soltou um longo suspiro. — É claro que Stephen quis agir como o homem honrado que é. Mas você é tão idiota assim que não consegue ver que ele lhe ama?! Isobel sacudiu violentamente a cabeça de um lado para o outro, apesar de acreditar agora que Stephen a amava. — Stephen é um homem muito bom, generoso e gentil – disse Catherine, cuja voz ia ficando cada vez mais suave. – Você não poderia pedir um pai melhor para os seus filhos. É raro um homem que seja tão bom com crianças. O coração de Isobel doeu, porque tudo o que Catherine estava lhe dizendo era verdade. — Posso ver que você o ama também – disse Catherine.


— Mas é claro que eu o amo! Não poderia me sentir tão miserável se não o amasse. – Isobel olhou Catherine fixamente, querendo que ela entendesse. – Jurei a mim mesma que nunca mais permitiria que homem algum tivesse o poder de me causar qualquer dano tanto quanto o meu pai. — É tarde demais para isso –Catherine afastou o cabelo do rosto de Isobel. – Vamos, diga-me do que é que você tem medo. — Que ele me falte quando eu mais precisar dele – deixou escapar Isobel. Soltou um suspiro trêmulo e acrescentou em voz baixa: – Que me abandone, tal qual fizeram os meus pais... — Estou vendo que vou ter que lhe contar, – disse Catherine, sacudindo a cabeça – embora Stephen me tenha feito jurar que não lhe diria nada. Isobel se inclinou à frente. — Contar-me o quê? — Sabia que Stephen estava espionando para o Rei? Espião? Stephen estava espionando para o Rei? — O Rei está sumamente agradecido a Stephen pelos serviços prestados – disse Catherine. – Ele até ofereceu as terras Hume para Stephen..., e queria muito que ele as aceitasse. Como ela havia sido ingênua! O Castelo Hume era um castelo fronteiriço, é claro que o Rei iria querer um homem forte para resguardá-lo! — O Rei decidiu colocar você na negociação, como os homens soem fazer, quando lhe dissemos que Stephen queria se casar com você. — O Rei escolheu Stephen para ser meu marido?! Catherine assentiu. — Porém, Stephen pediu ao Rei que a liberasse da promessa feita e que lhe desse as terras Hume. — Mas por quê?! Por que Stephen fez isso? Ele me disse que queria se casar comigo. — Porque o que ele quer acima de tudo é a sua felicidade – disse Catherine, agarrando os braços de Isobel – Stephen quer que você o escolha por livre e espontânea vontade, não que o Rei o imponha para você. Stephen havia sacrificado algo que seria benéfico para ele, a própria felicidade inclusive, só para que ela pudesse ter a sua. Ele tinha o coração de Galahad, forte e verdadeiro. Ele havia demonstrado isso, vezes sem conta. Na devoção à família, na bondade para com os gêmeos órfãos, na disposição de arriscar a vida por aqueles a quem amava..., inclusive ela. A honra sempre significaria mais para ele do que posição ou poder. Sua lealdade era profunda. Não hesitava. Ele não falharia com ela. — O amanhecer está próximo? – O alarme havia feito com que Isobel pulasse da cama. Com mãos impacientes, ajeitou o vestido. Graças a Deus não havia se dado ao trabalho de tirá-lo! — Esperei tanto quanto pude – disse Catherine, ajoelhando-se para ajudar Isobel a calçar as sapatilhas. – Ainda falta uma hora para amanhecer. Robert está esperando para lhe acompanhar até o castelo. — Robert está me esperando? — Robert sempre acreditou em você – disse Catherine. – Vamos, dê-me o outro pé para que possamos colocá-la a caminho. Enquanto corria pela escadaria, Isobel gritou: — Os anjos devem cantar louvores para você, Lady Catherine! Robert a apertou nos braços. — Eu sabia que, no fim, você ia escolher a felicidade, mas precisou levar tanto tempo assim?!


Os cavalos já estavam encilhados e prontos, à porta. Robert a levantou sobre a sela de um, montou no outro e saíram a galope pelas ruas vazias. Quando chegaram aos portões do castelo os guardas os deixaram passar. Isobel apeou do cavalo já na escadaria da entrada do Palácio Velho. — Stephen está nos seus antigos aposentos – disse Robert, puxando-a pela mão enquanto corriam pelo corredor. Chegaram a patinar ao parar diante da porta de Stephen. — Diga a Stephen para não se preocupar com os homens – disse Robert, sem fôlego. – William deu ordens para colocar outra pessoa no comando. Depois daquela corrida desenfreada para chegar até ali, Isobel ficou olhando para a porta fechada. O que diria para Stephen? Ele continuava amando-a mesmo depois de tudo que ela o fizera passar? Será que ele poderia perdoá-la? — Não faça esse pobre homem esperar mais, vá! – Robert abriu a porta e a empurrou para dentro. A porta se fechou atrás dela com uma pancada. Stephen estava sentado à mesinha junto à janela. Pelo estado da roupa, ele nem havia se deitado. Apenas uma vela ardia sobre a mesa, cujo recipiente estava sobre uma poça de cera derretida. Com uma onda de pesar, deu-se conta de que era uma vela que marcava as horas. Stephen devia tê-la usado para contar as horas até a partida e as horas que restavam para que ela viesse até ele. Restava apenas um pedaço. Ele se pôs de pé e colocou a mão no respaldo da cadeira, como se temesse perder o equilíbrio. Apesar de não ter tirado os olhos de cima dela, não se aproximou. Aquele rosto atraente tinha linhas de tensão e fadiga bastante marcadas. — O que está fazendo aqui, Isobel? E pensar que nunca mais poderia ter ouvido essa voz que tanto amava. Um soluço foi interrompido na sua garganta quando ela tentou falar. Mesmo assim, ele esperou. Ela engoliu em seco e tentou de novo. — Eu lhe amo faz muito tempo, mas tive medo de confiar no seu amor por mim. Tive medo que você me traísse e me abandonasse. — Eu nunca faria isso com você – disse Stephen. No entanto, não fez movimento algum na direção dela. — Eu entendo isso agora. — Isobel, diga-me por que está aqui. Ela deu um passo à frente. — Estou aqui porque quero que você, Stephen Carleton, seja meu marido. – Ela deu mais um passo. – Eu escolho você porque trouxe a alegria e o amor de volta à minha vida, e não quero perder isso outra vez. A cada passo que dava, sua voz ia ficando mais forte e mais firme. — Quero dormir ao seu lado todas as noites e, ao acordar a cada manhã, ver o seu rosto. Quero conhecer a sua mãe. Ela viu os olhos dele se enrugarem nos cantos. — Quero conhecer as sobrinhas eos sobrinhos dos quais você fala com tanto carinho. Quero ir para casa com você, em Northumberland. Quero criar nossos filhos lá. Ela deu um último passo e se pôs diante dele. — Não quero perder mais tempo nem passar nem mais um dia separados.


— Eu amo a minha mãe, mas acho que devemos nos casar antes que você a conheça – disse Stephen com o rosto iluminado por aquele sorriso que ela tanto amava. – Não posso me arriscar a que ela se assuste. No instante seguinte, ela estava nos seus braços. — Tentei manter a esperança – disse ele no cabelo dela, abraçando-a com força. – Mas estava muito difícil. Ele a levantou do chão e girou com ela nos braços. Com os olhos cálidos nos dela, disse: — Todos os dias da minha vida eu vou dar graças a Deus por você ter me escolhido. Então a beijou. Um beijo suave e cálido que fez com que o mundo girasse ao seu redor. Apertou-se contra ele, deliciando-se com a alegria e a comodidade de estar nos braços dele outra vez. Stephen era seu! Sempre, e para sempre! Ela se inclinou para trás e brincou com o colarinho da túnica dele. — É difícil ver por que deveríamos esperar pela cerimônia, visto que nós já... – Sua voz foi se apagando, mas ela não duvidava de que ele entendia o que lhe propunha. — Não vou correr nenhum risco com você – disse Stephen, rindo. – Vamos selar nosso compromisso diante de testemunhas, mas quero ouvir seus votos agora, antes de qualquer coisa.

Stephen já havia assistido inúmeros esponsais em todos aqueles anos, mas nunca havia prestado a menor atenção. Mesmo assim, estava bastante seguro de que para fazer aquilo direito era essencial a promessa, para estabelecer o vínculo. —Lady Isobel Hume, eu lhe dou a minha palavra de matrimônio e lhe recebo como minha esposa. Isobel levantou uma sobrancelha, apreciando, na sua opinião, a admirável simplicidade. — Sir Stephen Carleton, – disse ela por sua vez – eu lhe dou a minha palavra de matrimônio e lhe recebo como meu marido. — Agora você não me escapa mais! – Com grande satisfação, ele a tomou nos braços. Ele se sentia inundado pelo amor que sentia por ela. E sorriu, pensando em crianças cabeçasduras, com inquietos cachos escuros e sérios olhos verdes. E, que Deus não o quisesse, espadas de madeira nas mãozinhas gorduchas. Meninas assim precisavam de irmãos para mantê-las longe de encrencas. Isobel apertou os lábios e deu uma batidinha com o dedo na face. — Não há algo mais que devemos fazer para que o vínculo da promessa se cumpra? Algo quetorne esse vínculo..., irrevogável? Irrevogável. — Creio – disse ele, cuja voz ia ficando rouca enquanto se inclinava para pousar os lábios sobre os dela – que é a consumação depois da promessa o que torna o vínculo irrevogável.


Beijaram-se por um longo e terno instante. Quando ela abriu a boca e se apertou contra ele, o desejo dele se transformou em uma necessidade urgente e latejante. Levantou-a nos braços para levá-la para a cama. — Venha, esposa, vamos para a cama. – Ele sorriu. Havia esperado muito tempo para dizer isso. Acordou horas mais tarde, inundado de alegria. Nada nem ninguém iria lhe arrebatar Isobel agora. Com ela ao seu lado, estava pronto para ocupar o lugar que lhe era devido no mundo. Ele reclamaria as terras às quais tinha direito, serviria ao seu Rei, seria marido e pai. A vida estava repleta de promessas douradas.


Epílogo Northumberland, Inglaterra, 1422

— Ai! – Isobel chupou o dedo espetado e deixou a costura de lado. Ele já devia ter chegado, não? Ela começou a andar pela sala vazia, olhando para a entrada outra vez. Mas onde é que ele estava? A luz do sol tocou seu rosto quando ela passou diante de uma das largas janelas, lembrando-se do quanto amava aquela casa. Stephen e ela a construíram nas terras Carleton. Ali tinha apenas boas lembranças. Só um último vestígio de descontentamento da antiga vida ainda persistia. Tanto Stephen quanto Robert incentivavam-na a deixar aquilo para trás. Quando se virou de novo, lá estava ele, de pé na entrada. — Pai! – E sentiu o coração encolher. Quando é que ele havia se transformado num velho? Fez um gesto para a mesa preparada junto à lareira. – Tenho vinho doce e tortas para você. — Você ainda se lembra do quanto eu gosto de doces. – Tirou um lenço de dentro da túnica e assoou o nariz. Depois de lhe servir um copo de vinho, Isobel serviu também uma fatia de torta e colocou o prato entre eles. Havia muita coisa por dizer entre eles e não sabia nem por onde começar. — Sou muito grato ao seu marido –disse ele – por levar as crianças para me visitar de vez em quando. O bocado de torta que Isobel estava engolindo entalou na garganta. — Sir Stephen é muito respeitado nos dois lados da fronteira – disse ele. – Parece ser um homem honrado. A palavra honrado ficou flutuando entre eles, como uma acusação. — Os olhos dele brilham quando fala de você – disse seu pai, com voz alquebrada. – Preciso saber se você é feliz, Issie. Diga-me se é feliz. Ele se importava com a felicidade dela, afinal! Ela assentiu com a cabeça. Quando conseguiu falar, perguntou: — Por que você fez...? Mesmo depois de todo aquele tempo, ela queria saber. Ele passou a mão pelo cabelo totalmente branco. — Nós havíamos perdido tudo. Tudo. E eu ainda era responsável por vocês três. Geoffrey era jovem demais, e sua mãe..., ela não era forte como você, que era a única que podia restaurar a família. Não me ocorreu nenhuma outra coisa mais. Respirou fundo e sacudiu a cabeça. — Eu achava que Hume não sobreviveria ao inverno e você ficaria livre logo. Isobel cruzou as mãos sobre a mesa e fixou o olhar nelas. — Eu sei que os homens casam as filhas por esses motivos o tempo todo – disse, mantendo a voz firme. – Mas você não me criou como as outras meninas. Você me fez acreditar que eu era especial.


— Você foi especial desde o dia em que nasceu – disse ele, envolvendo as grandes e quentes mãos nas dela. – Deus sabe que extrapolei a cota de erros à qual tinha direito, mas a única coisa boa que fiz foi lhe assumir como filha. Os olhos de Isobel desviaram dos dele. Então ele sabia da verdade? — Sua mãe deu à luz seis meses depois que nos casamos. – Isobel lhe deu um sorriso agridoce e encolheu os ombros. – Pelas minhas contas, percebi que você não era minha, mas, o que mais eu podia fazer? Repudiá-la? Ele nunca sequer havia cogitado tal coisa, Isobel tinha certeza. — Ela parecia muito feliz nos primeiros anos – disse ele. – Mas, quando tomaram nossas terras, viu nisso como que um castigo de Deus pelos pecados cometidos. Pensei que se conseguisse reavêlas, ela... – Ele suspirou e meneou a cabeça pelos pesares de antanho. — O nome dele é Robert – disse Isobel em voz baixa. – Eu o conheci na Normandia. As sobrancelhas dele se arquearam, mas sabia a quem ela estava se referindo. — Ele tampouco ateriafeito minha mãe feliz – disse ela. Depois de um quarto de século de viagens e de ser um notório mulherengo, Robert se estabeleceu definitivamente. Graças a deus havia encontrado Claudette. — Ele é um bom amigo agora. Mas, na minha infância, ele não teria sido tão bom pai para mim quanto você. Assim que ela disse isso, soube que era verdade. Durante os primeiros treze anos de vida ele foi o melhor pai que ela poderia ter tido. Ele a olhava com tanta esperança, com tanto amor, que ela sentiu que as faixas de ira que amarravam seu coração se afrouxaram. Ela se inclinou e depositou um beijo nos ásperos nós dos dedos dele. Quando levantou os olhos, as lágrimas estavam escorrendo livremente pelos sulcos daquelas faces gastas pelo tempo. Uma risada muito alta e aguda afastou a atenção dele e fez com que olhasse para o arco de entrada da sala. — Eles fugiram da babá de novo – gritou Stephen, entrando pela porta com uma criança debaixo do braço e segurando a outra pela mão. — Encontrei este danadinho lá fora comendo terra – disse, inclinando a cabeça para olhar o menino que ria debaixo do braço do pai. – A irmã, que é mais velha, foi quem lhe disse para fazer isso. A menina, Kate, deu um sorriso malicioso para o pai, e tão parecido ao de Stephen que Isobel sentiu o coração inchar. Que o Senhor a ajudasse, criar aquela menina seria uma verdadeira prova de fogo. Stephen cumprimentou o sogro com uma saudação cautelosa. Kate, no entanto, correu para o avô, os cabelos vermelhos como fogo voando atrás dela. Num instante, ela já estava arrastando-o pela sala, apontando para a janela porque queria ver algo. — Voltou cedo, amor – disse Isobel, enquanto Stephen se sentava no banco ao lado dela. — Estava preocupado – disse ele, e a beijou na face. – Porém, suponho que correu tudo bem, já que não encontrei seu pai com a sua espada no coração. Ela sorriu. — Fale-me sobre o seu dia. Enquanto passava a mão sobre a cabeça do filho, ele relatou: — Não perdemos mais gado nas incursões, e os campos estão bons depois da chuva de ontem. — Quem diria que meu jovem selvagem seria um feliz agricultor? – Ela apertou o músculo duro do costado dele. – Espero que engorde rápido. Ele se inclinou até que ela sentiu a quente respiração dele no ouvido.


— Nós dois ficaremos contentes, assim que você estiver a sós comigo. Isobel se virou ao ouvir o som dos gritos felizes de Kate ressoando pela sala. Enquanto olhava para o pai jogando a sorridente menina para cima, o último dos ressentimentos que tinha no coração, quebrou e evaporou. O perdão fazia com que ela se sentisse mais leve, feliz. Sorrindo, ela se virou para Stephen. Ele lhe deu uma daquelas piscadas de olho, lenta, cheia de malícia. — Assim que o seu pai for embora, vamos trancar esses selvagens pagãos com a pobre babá, e... Isobel jogou a cabeça para trás e soltou uma gargalhada, pelo puro prazer de rir.

Fim…


Ficha do livro Autora: Margaret Mallory Série: Todos Os Homens do Rei 02 Título original: Knight ofPleasure Ano da primeira edição original: 2009 Gênero: Novela Romântica, Histórica-Medieval Argumento A paixão maior. Lady Isobel Humeé uma espadachim que sabe escolher suas batalhas. Quando o rei lhe pede que se case com um nobre francês para formar uma aliança política, ela concorda. Mas isso antes que o diabolicamente encantador Sir Stephen Carleton lhe roube o coração e a faça ficar tentada a trair o noivo, o seu rei e o seu país. Vale o perigo maior. Sir Stephen Carletonse delicia comsas muitas admiradoras que tem… até que ele se dedica a conquistar a encantadora Isobel. Então, quando uma ameaça contra o rei põe Isobel em perigo de morte, Stephen tem a chance de demonstrar que é mais do que um cavaleiro do prazer..., e que o amor tudo pode conquistar.

Biografía da escritora Margaret Mallory cresceu no Meio Oeste; exceto pelos dois anos que passou na África, o restante, viveu em pequenas cidades do norte de Michigan devido ao trabalho do pai. Assim que se formou na Universidade do Estado de Michigan, na Faculdade de Direito da mesma cidade, mudou-se para Washington, de onde queria salvar o mundo. Ao confirmar que a salvação do mundo não estava nas mãos dela, empacotou suas coisas e foi para o Noroeste do Pacífico, pois era um lugar muito bonito e longe o suficiente dos trabalhos anteriores e dosex namorados. Admite que se lembra vagamente de ter se encontrado com um guarda florestal e um cão. Havia sido que tal homem não era guarda florestal, mas estava disposto a ficar com o cachorro. O casamento e os filhos vieram logo depois. Margaret passou muitos anos trabalhando para melhorar os serviços para crianças que sofriam maus tratos e o cuidado de idosos. Foi uma surpresa para todos quando decidiu deixar um trabalho estável para escrever romances. Reconhece que fica encantada por passar dias inteiros escrevendo histórias de amor em vez de ter que comparecer a reuniões intermináveis. Afinal de contas, ela sempre adorou histórias românticas, façanhas históricas e finais felizes. E por fim, consegue satisfazer a paixão que tem pela justiça: castigando os maus e recompensando os bons nas páginas dos romances que escreve. Até agora publicou duas séries. A Trilogia AlltheKing’sMen (Todos os Homens do Rei), que foi indicada para numerosos prêmios, e que inclusive chegou a ser finalista do RITA, e ganhou vários


e prestigiosos prêmios. Esta trilogia é medieval, onde se misturam membros da realeza, rebeldes carismáticos e traidores, aos quais o cavaleiro protagonista e sua dama terão que enfrentar. A mulher não será uma personagem passiva, já que será uma mulher disposta a espionar para o seu Rei, atrair o inimigo para salvar um amigo, ou usar uma adaga que esconde dentro do espartilho.

Nota histórica O mapa da Europa poderia ser diferente hoje se Henrique V não tivesse morrido na flor da idade, com trinta e cinco anos. Quando morreu, em 1422, controlava toda a Normandia e estava prestes a se tornar o governante da França. Para fazer as pazes com Henrique, o rei francês concordou em casar a filha com ele, deserdando o próprio filho, o Delfin, e nomeando Henrique como seu herdeiro. À luz desse arranjo, Henrique permitiu que o Rei Carlos, doente, continuasse reinando apenas no nome durante a vida toda. Essa teria sido uma manobra politicamente astuta se Henrique tivesse sobrevivido ao sogro e fosse coroado Rei da França. Os longos anos de luta, no entanto, fizeram estragos na saúde de Henrique. Durante o prolongado cerco a Meux, no inverno, de 1421 a 1422, caiu doente, provavelmente de disenteria. Em julho, já estava tão doente que teve que ser levado em uma liteira até o campo. Estava morrendo quando foi levado para o castelo, em Vincennes, nos arredores de Paris, onde sua princesa francesa o esperava. Morreu no dia 31 de agosto de 1422, precedendo o sogro em dois meses. Henrique deixou um filho de nove meses como herdeiro de dois reinos. Os homens que governaram representando seu filho foram, na sua maioria, bons homens que se esmeraram para realizar os planos de Henrique. No entanto, ninguém foi como ele. Se tivesse vivido, poderia ter obtido êxito em garantir a ordem em toda a França. Por outro lado, poderia ter reduzido perdas e se estabelecido na Normandia, quando Joana D’Arc chegou lá também. Parece sumamente improvável que tivesse perdido tudo isso, como eventualmente fez o filho dele. Deveria ser mencionado que há alguma disputa entre historiadores quanto à dúvida se houve ou não um massacre quando os ingleses conquistaram Caen. Assumi que houve um massacre porque serviu para o enredo do meu livro. Se tivesse realmente acontecido um massacre, teria sido contrário às ordens do rei. Henrique V foi apresentado como o ideal ao qual os reis posteriores deveriam aspirar. Durante muitos anos depois da morte dele, os homens trataram de preservar seu legado e concretizar sua vontade. Continuaram sendo Os Homens do Rei. A série Todos os Homens do Rei, de Margaret Mallory, continua no próximo apaixonado romance medieval!

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Série todos os homens do rei 02 cavaleiro do prazer(3)  

Série todos os homens do rei 02 cavaleiro do prazer(3)  

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