MEIOMUNDO
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O CERNE DO SABER
A história de uma família de marceneiros e a experiência que passa de geração em geração
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E-SPORTS: ESPORTE OU DIVERSÃO
Como os profissionais driblam o preconceito com esportes eletrônicos e lotam arenas por onde passam
DRIBLES QUE CARREGAM HISTÓRIAS
Time de futebol feminino gaúcho supera o preconceito e cativa o país
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FORA DO MAINSTREAM: A BUSCA PELO PRÓPRIO SOM
Rompendo as fronteiras sonoras, o Rio Grande do Sul possui artistas e sons independentes que merecem ser ouvidos
À FLOR DA PELE
Tatuagem: onde a arte se eterniza em traços e histórias
OS DELÍRIOS DE CONSUMO DA GERAÇÃO Z
A relação dos millenials com a tecnologia e o consumo excessivo na era digital
A CULTURA DO CANCELAMENTO NAS REDES
O preço da exposição na internet e os impactos na saúde mental de pessoas públicas
AS MUDANÇAS DO MERCADO DE TRABALHO E A SAÚDE MENTAL DOS UNIVERSITÁRIOS
OS GAMES COMO FERRAMENTA SOCIAL
A IMPORTÂNCIA DE CULTIVAR A SÉTIMA ARTE
ano 12, número 12, outubro de 2023
Publicação laboratorial do Curso de Jornalismo, do Departamento de Ciências da Comunicação, da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), campus Frederico Westphalen, desenvolvida nas disciplinas de Reportagem Fotográfica, Reportagem em Jornalismo Impresso, Planejamento Gráfico e Laboratório de Produção Editorial
Professores responsáveis
Angela Zamin (MTB 9591)
Paulo Munhoz (MTB 1438)
Reges Schwaab (MTB 12575)
Editora geral
Julia Frizon Cechin
Editoras de texto / Revisão
Beatriz Oliveira Vieira
Melissa Sayuri da Silva Belarmino
Editora de arte / Ilustrações
Giovana Zago
Edição e pós-produção fotográfica Paulo Munhoz
Repórteres
Amanda Busnello, Andrei Sartori, Beatriz Vieira, Brenda Oliveira, Bruno Bianchi, Conrado Araujo, Christian Fonseca, Ellen Manfio, Emanuel Santos, Fernando Simonet, Gabrieli Ferla, Irênio Silva, Isadora Torres, Jonathas Grunheidt, Julia Cechin, Leda Evangelista, Lucas José Bortoluzzi, Luís Guilherme Schmitz, Maria Eduarda Brasil, Mariana Saldanha, Mauricio Mello, Melissa Sayuri, Teresa Vitória Valvassore Juvêncio, Thayssa Kruger
Diagramação / Arte final
Giovana Zago, Heloisa Gamero Marques, Ivan Rohrs, Josué Gris, Julia Cechin, Mauricio Mello
Capa
Foto: Melissa Sayuri | Ilustração: Giovana Zago
Docência Orientada (Texto)
Anna Júlia Carlos da Silva Felipe Boff
Chefia do Dep. de Ciências da Comunicação
Vera Sirlei Martins
Coordenação do Curso de Jornalismo
Mirian Redin de Quadros
Tiragem: 700 exemplares
Impressão: Imprensa Universitária
Universidade Federal de Santa Maria Campus Frederico Westphalen
Linha 7 de Setembro, s/n - BR 386 Km 40
Frederico Westphalen - RS - 98400-000
+55 (55) 3744-0600
Uma definição rápida diria que movimento é tudo aquilo que se move. Mas, nessa edição da revista Meio Mundo, queremos te convidar a pensar em muitas facetas desse conceito. Tentamos ir além dos tradicionais movimentos de parar e de correr, de abrir ou de fechar, e pensar como os movimentos nos marcam, nos formam, nos traduzem. Procuramos focalizar distintos moveres, incluindo os que, nem sempre, conseguimos enxergar. Começamos a edição 12 da MM falando sobre os movimentos de um saber que não nasceu dos livros, mas da prática, da lida humana do dia a dia. Em seguida, andamos pela tecnologia, pelo esporte, pela música independente e, ainda, pelos traços da tatuagem. Esse primeiro conjunto de histórias reflete muito dos jovens da atualidade, dos movimentos que, inclusive, fizeram parte da constituição de quem somos, nós, repórteres desse número. Somos aqueles que não conseguem ficar inertes por muito tempo, aqueles que vivem em um mundo com pressa. Por isso, também, nossa discussão vai para a saúde da “geração telas”, em abordagens sobre comportamento e cultura, consumo e identidade pessoal e profissional na internet. Ao final, a última reportagem mostra aspectos da história do cinema a partir de Frederico Westphalen.
Mover-se por entre as dez reportagens que compõem as páginas desta edição é adentrar em um universo que nos diz respeito, um mundo que nos desafiamos a explorar. Cada virada de página traz um território sobre o qual devemos falar. Entre palavras e percepções, algo que tínhamos nos dado conta, algo que nos mobiliza, algo que nos impacta consideravelmente, nos levando adiante.
Como em um efeito borboleta, qualquer mínimo movimento já muda os ângulos, permite abrir possibilidades. Um piscar de olhos e mudamos de lugar, de paisagem, de ambiente, olhamos o entorno de outra forma. A constância do movimento não significa ir somente em uma direção, mas traduz o convite de ir adiante, de experimentar, de caminhar bem, de desenhar a trajetória da melhor maneira.
É como pensar em uma essência que se encontra nos intervalos dessa fluidez ininterrupta, nos quais as experiências se desdobram e se entrelaçam como característica intrínseca da vida. E a vida, tão rara, não para. Clarice Lispector dizia: “O mais importante é a mudança, o movimento, o dinamismo, a energia. Só o que está morto não muda!”.
Boa leitura!
A história de uma família de marceneiros e a experiência que passa de geração em geraçãoBrenda Oliveira
Isadora
Torres Julia CechinTodos os dias, nas primeiras horas da manhã, o marceneiro Luiz Centenaro Argenta, 69 anos, e a esposa Clarinda Argenta, 68 anos, abrem as portas do estabelecimento número 1845 da Avenida Luís Milani em Frederico Westphalen (RS). No chão coberto de poeira da Marcenaria Argenta, o casal vai deixando o desenho dos passos por onde se movimentam. A trajetória dos pés leva a pedaços de madeira espalhados pelo chão, máquinas e móveis ainda inacabados. A cor predominante é o marrom. O lugar tem cheiro de madeira na maior parte do dia, só abrindo espaço para o aroma de café, ou do chimarrão, nos fins de tarde. A poucos metros de distância, o filho, também marceneiro, Cleomar Argenta, 40 anos, também marca o chão poeirento da A3 Móveis enquanto se prepara para mais um dia de trabalho. Todo dia, antes de começar o expediente, liga o rádio, sempre sintonizado na mesma estação. O costume vem dos pais, que, com o rádio ligado, já estão com as máquinas funcionando. O neto do casal, Henrique Argenta, cinco anos, ainda está dormindo. Quando acordar, o menino vai procurar os brinquedos de madeira que ele mesmo fez na marcenaria do avô. Henrique, assim como o pai, é acostumado com as ferramentas, máquinas e tábuas. As três gerações da família são marcadas por um saber que vem do dia a dia da lida com a madeira.
A experiência profissional de Cleomar Argenta, chamado de Dede pela família e amigos, começou no dia em que Luiz e Clarinda decidiram abrir a em-
presa. A Marcenaria Argenta foi a sala de aula não convencional de Dede. Para quem entra pela primeira vez na marcenaria é intrigante olhar para tantas máquinas, com diferentes formas, sem se perguntar como alguém pode saber manusear tantos equipamentos com a técnica necessária. Dede explica: “É a experiência, né?”. O lugar fez parte da história da família antes mesmo de abrir as portas pela primeira vez. “A gente ajudou a cavoucar tudo para ele [Luiz] colocar as máquinas”, relembra Dede. A expressão “a gente” na fala se refere ao pai, à mãe e ao irmão, sempre juntos nos primeiros anos da fábrica.
Dede, hoje dono da sua própria marcenaria, a A3, diz que o pai nunca o treinou formalmente para ser marceneiro. “Nós ficamos dentro da firma desde pequenos, então não é nem que ele ensinou, a gente foi aprendendo junto”, esclarece.
Onde acaba a escada de acesso para a antiga casa da família começam as paredes da Marcenaria Argenta. A infância de Dede é marcada por essa proximidade e, com o dia a dia, o marceneiro se acostumou com o barulho dos equipamentos e com a serragem espalhada pelos cantos. A repetição das tarefas dentro da marcenaria permitiu que Dede aprendesse por meio da prática como transformar peças de madeira em móveis e objetos.
Alguns trabalhos são simples, outros demandam mais tempo e tem alguns que ficam marcados na memória. “Quando eu estava trabalhando com o pai chegavam móveis de até 80 anos para restauração, entalhados à mão”, relembra Dede. “Em alguns casos, as pessoas sentem angústia no momento de entregar objetos antigos ou raros para recuperação”, revela ainda.
Quando surge alguma dúvida no processo da fabricação, Dede recorre aos marceneiros mais velhos, com mais
anos de experiência. Luiz Centenaro, o pai, é o primeiro contato nessa lista de assistência. “Bah, não deu certo isso, como é que eu faço? Daí ele [Luiz] me dá uma mão, se ele não sabe: fala com fulano de tal que ele vai te dar uma dica”, explicou o marceneiro. Quando era mais jovem, Dede tentou fazer um curso na área para adquirir mais conhecimento, mas acabou desistindo. A dificuldade foi que o marceneiro, às vezes, sabia mais que o professor. “No curso eu tinha que dizer para o professor “Olha isso aí não vai dar certo, faça diferente que é mais fácil e melhor”, relatou Dede. O marceneiro ressalta que conversar com os profissionais mais experientes é sempre a melhor opção. “Você aprende nas coisas antigas, você não aprende nas coisas novas, o novo já vem pronto”, ensinou. Dede coleciona mais de vinte anos de profissão, e diz: “Ainda tem muita coisa que eu não sei”. Ocasionalmente, o marceneiro tenta compreender alguma técnica desconhecida praticando até acertar ou discando o número do pai. O passado dos Argenta foi dentro de diferentes marcenarias. Luiz conta que quase toda a família trabalhou com a madeira e, na sua opinião, não existe serviço melhor do que ser marceneiro. “Hoje tu faz um serviço e amanhã tu faz outro diferente. Jamais faz o mesmo serviço”, diz o pai. A fábrica, além de local de trabalho, é espaço para risadas, brincadeiras e conversas com os netos e filhos. A mãe, Clarinda Argenta, costumeiramente com o chimarrão na mão, fala que criou os filhos dentro da marcenaria. “Toda a história da família tá aqui dentro”, conta entre uma cuia e outra. Essa história, que começou na marcenaria dos pais, se repete no dia a dia de Dede. As semelhanças vão do jeito de anotar pedidos até o ambiente de trabalho em si.
Ao conviver tanto com uma pessoa, fica claro que costumes e manias acabam passando de um para o outro. Isso aconteceu com seu Argenta e Dede, que dividem praticamente a mesma rotina de trabalho. A de Cleomar, mais intensa, clientes, encomendas e entregas acontecem o tempo todo independente de ser horário comercial ou não. Afinal “depois que a gente vira chefe perde totalmente a vida, não tem horário pra atender, nem pra ficar”, afirma Dede, sem horário para sair da empresa, mas com tempo reservado para ficar com o filho Henrique, no fim do dia.
A rotina de Argenta já foi muito parecida com a do filho, mesmo não utilizando nenhuma forma de comunicação, apenas no boca a boca pela cidade. Isso não ocorre mais hoje em dia. Por conta da idade, seu Argenta diminuiu em 80% suas encomendas. Como não são muitos os marceneiros na cidade, a procura pelo seu trabalho é recorrente. A entrevista com seu Argenta foi interrompida várias vezes pela chegada de clientes. Porém, trabalhando apenas com três ou quatro pedidos por vez, seu Argenta repassa
seus clientes ao filho, com a marcenaria a poucos metros de distância da sua, de fácil acesso às novas encomendas de Dede.
Independentemente de qual marcenaria recebe o pedido, a forma de organização é a mesma. Pai e filho organizam seus pedidos em seus cadernos, com as informações necessárias para a produção e o contato do cliente. Seu Argenta com os pedidos menores e a agenda de Dede lotada até o fim do ano. Utilizam a simplicidade do papel e caneta para não correr o risco, mas em ambas as mentes é onde são anotadas as informações importantes. Com anos de trabalho, marcas foram deixadas em toda a família Argenta. Nem mesmo Clarinda escapou das dores. “Fiz cirurgia nos dois braços, me arrebentou o tendão e agora tô com dor na coluna”, relata, após explicar que ajudava a carregar chapas junto com o marido na semana anterior. Já seu Luiz, teve a tampa do dedo decepada logo após a esposa dar à luz a filha, fato relatado com graça por Clarinda. Além da presença dessas marcas de trabalho, Argenta perdeu boa parte da audição, causado pelo barulho ensurdecedor das máquinas produzidas por ele.
Julia Cechin Isadora Torres Isadora TorresÀ direita, em sentido horário, Cleomar, Luiz Centenaro e Henrique Argenta. Na página ao lado, de cima para baixo, detalhe da mão de Luiz; as brincadeiras de Henrique na marcenaria e Cleomar e Luiz trabalhando. Na primeira página da reportagem, Luiz Centenaro Argenta
Toda essa rotina é acompanhada pelo mesmo som. O rádio ligado o tempo todo é algo marcante quando entramos em seus locais de trabalho. Música alta para tentar disfarçar o barulho da madeira sendo cortada, lixada e esculpida. Em ambas as marcenarias o rádio é antigo, coberto de poeira e sendo proibido trabalhar sem ligar o som. Na Marcenaria Argenta, o pó teve de ser contido por uma capa improvisada, para garantir o funcionamento ainda mais duradouro da relíquia. Essas características reforçam ainda mais o saber adquirido pela experiência dos dois, saber esse que não se restringe à relação familiar. Uma lista com outros marceneiros fica pendurada na parede da A3, fonte de pesquisa para quando Dede tem dificuldade em algum trabalho.
A identificação da família Argenta não se encerra e nem tem a pretensão de acabar com Luiz e Dede, estendendo as ligações entre pai, filho e neto.
Seu Luiz, quando pequeno, sonhava em tornar crianças mais felizes com brinquedos de madeira. Hoje, o neto Henrique alegra a família ao construir
seus próprios brinquedos. Em um primeiro instante, o filho de Dede, Henrique, se esconde atrás de uma porta. Mas ao perceber que o foco das pessoas estava em seus brinquedos de madeira, o menino aparece para explicar que ele fez tudo sozinho: “Eu pintei com todas as cores: azul, rosa, verde, branco [...]”. Em meio à entrevista, Henrique salta janelas e contorna as máquinas com maestria, como se soubesse exatamente onde pisar. O avô, Luiz, apesar de não repreender o neto, sempre está pronto para ajudá-lo caso caia. Esse amor e carinho visível entre os dois, mostra-se ainda mais evidente quando Henrique começa a falar sobre o que ele vive aprendendo na marcenaria. Quando questionado a respeito da afinidade de seu filho com a madeira, Cleomar conta: “Ele já tem cinco anos de idade, ele adora vir aqui, ele vem aqui e faz homenzinho, carrinho, ele deixa a gente assustado com as coisas que ele faz”. Henrique não aprendeu a construir uma cadeirinha de madeira na escola. Bem, isso se a “firma” de seu pai não for considerada como escola. Ao adentrar a marcenaria de Cleomar, no meio de toda serragem e poeira, é possível encontrar resquícios dos
trabalhos do pequeno. Quando questionado sobre o filho, Cleomar relata: “Hoje ele [Henrique] não veio de noite porque eu e ele brigamos, ele não quer estudar e eu disse que não vai para a firma”. O que para o mais velho é trabalho, uma obrigação, para o mais novo é algo a se esperar todo dia. A madeira foi a base de construções durante milhares de anos, desde pequenos casebres, até grandes portas entalhadas em palácios. Apesar de hoje ser considerado um material tratado “simples”, muitas moradias contam com móveis de madeira de anos. Sendo um dos últimos marceneiros da família Argenta, Cleomar expressa: “Eu sempre digo: acabou os marceneiros. Eu sou a última geração de marceneiro. O que trabalha com a madeira.” Assim como a madeira, algumas experiências podem se mostrar “comuns” para as pessoas, mas são elas que constituem a base do ser humano. O cerne é a única parte da madeira que resiste ao tempo. Assim como o conhecimento adquirido e marcado pela família Argenta perdura em cada peça feita por eles. O
FREDERICO WESTPHALEN, RS Isadora Torres
Como os profissionais driblam o preconceito com esportes eletrônicos e lotam arenas por onde passam
a realidade de viver de esporTes eleTrônicos é recente, mas hoje há atletas que rodam o mundo para seguir o sonho de dedicar a vida aos chamados eSports, ganhar grandes premiações e ter uma gama de seguidores pelas redes sociais. É o caso de Lucas Flores, 18 anos, mais conhecido por seu nickname, “Netuno”.
José Bortoluzzi
Jogador de League of Legends, Netuno iniciou sua carreira nos eSports no Flamengo Academy, grupo que funciona como “categoria de base” da equipe profissional. Ele começou profissionalmente aos 18 anos, porém joga League of Legends desde os 13 e, aos 15, alcançou o “elo” mais alto do jogo. Os primeiros games foram feitos para simular o tênis, com uma bola e um risco na tela. Em 1958, o Tennis for Two (tênis para dois) ganhava vida. Um tempo depois, aquilo que seria chamado de fliperama começava a surgir, em 1971, com o lançamento do Computer Space, logo depois, do Pac-Man, que saía “comendo bolinhas” e fugindo de fantasmas pela tela.
O primeiro campeonato de eSports oficial do qual se tem registro foi realizado em 1972, na Universidade de Stanford, nos Estados Unidos. O jogo em questão foi Spacewar!, em uma competição chamada Olimpíada Intergaláticas de Spacewar. A premiação foi um ano de assinatura da revista Rolling Stone
O campeonato foi criado e disputado pelos próprios alunos do laboratório de inteligência artificial da faculdade. Já em 1980, a produtora de jogos Atari criou o primeiro campeonato em larga escala de Space Invaders. O evento teve cerca de 10 mil participantes e grande repercussão na mídia, o que ajudou na popularização dos jogos e dos campeonatos.
A partir daí, foi surfar a onda dos games, que tomaram conta do mundo. Ter um console, com a oportunidade de se divertir e de competir, ganhou popularidade, ao ponto de fazer surgir empresas voltadas para esse universo que se estruturava.
A popularização do jogo League Of Legends, conhecido como LOL, por volta de 2013, com suas partidas intermináveis que não
deixavam os jovens saírem do computador, mostrou que a prática era mais do que competir. Ali se criava uma comunidade de jovens, adultos e idosos, todos online. A explosão do LOL foi tão grande que passou a se organizar de forma orgânica e natural. Logo as primeiras notícias de campeonatos estaduais e nacionais começaram a surgir. Conquistar o mundo não era mais um bordão do futebol.
As lan houses começaram a crescer, não só para o uso das redes sociais e jogos da época, mas também como espaço para competir. O desejo ascenção poderia surgir em um bairro qualquer, ao custo de algumas moedas por horas de internet, e que, pouco a pouco, dariam vazão a um sonho cada vez mais real para adolescentes de todo o mundo: viver do esporte eletrônico.
Se ficarmos nas entrelinhas ou no popular “em cima do muro”, não vamos desmistificar a realidade de um atleta de eSports, que vai além do desgaste físico e mental, envolvendo a sua vida pessoal e o seu cotidiano. Talvez ainda seja um esporte elitizado, mas os jogos eletrônicos atingem camadas que a nossa perspectiva social não alcança. Estar online permitiu aos jovens como Lucas sonharem com um mundo diferente. Saber chutar uma bola não é obrigação, mas pode te restringir de algumas experiências. No entanto, mesmo o maior esporte do mundo não tem o desejo de competir com as novidades. Não à toa, também dentro dos consoles há uma comunidade bem estruturada e dando vida aos desejos de jovens de alguma maneira entrar em campo. O processo de ascensão e mudança de um jogador casual a um jogador profissional é algo que exige uma rotina de treinamentos e busca por aprimoramento das habilidades dentro do jogo. É quando o atleta passa a tratar o game com seriedade.
Além disso, assim como no futebol, as equipes de eSports possuem olheiros, conhecidos como scouts. Esses olheiros trabalham observando as partidas dos jogadores bem
“ranqueados”. Lucas explica que, após uma análise de desempenho, o scout recruta o jogador para fazer testes na equipe.
A rotina desse tipo de profissional é igual a de um emprego formal, com local de trabalho e carga horária. As equipes possuem um escritório como centro de treinamento. Algumas equipes preferem a “gaming house” como local de trabalho e moradia para o time. Netuno conta que os treinos duram em média oito horas, porém sempre tem algumas horas extras. Conciliar a vida pessoal e profissional é um dos desafios dos pro-players, pois jogar está muito ligado ao lazer da vida pessoal. Esse momento de prazer é a porta de entrada da maioria dos jogadores de eSports. Lucas relata que sempre tenta fazer algo que gosta nos momentos livres e tenta ficar “fora do trabalho”, embora ele continue jogando LOL nas horas vagas como diversão e também para melhorar sua habilidade dentro do jogo. Os jogos virtuais permitem ao usuário criar um perfil dentro do jogo. Isso possibilita uma liberdade “artística” ao jogador de construir sua identida-
de virtual. Lucas disse: “Escolhi Netuno como nick porque gosto muito de mitologia greco-romana. Achei Poseidon feio, então peguei a parte Romana, que é Netuno”. No mundo digital, a criação desse tipo de identidade se tornou um fator relevante para pensar a sociedade atual, visto que hoje, famosos da internet são reconhecidos e chamados mais pelo seu “nickname” do que pelo seu nome verdadeiro, o que também reforça a privacidade de informações pessoais.
“Ao meu ver, esporte eletrônico é uma indústria de entretenimento”. A frase da atual ministra dos esportes, Ana Moser, desencadeou protestos de atletas de eSports pelo Brasil. A indústria, que hoje envolve negociações milionárias em patrocínios, transações de atletas e toda uma estrutura de psicólogos, nutricionistas e até motoristas, saiu não somente em defesa de si própria, mas também em defesa da profissão e do trabalho.
No Brasil, o cenário do eSports cres-
ce a cada ano. Não é à toa que no país se encontra o maior centro de treinamento de esportes eletrônicos do mundo. Hoje, existem mais de 800 equipes de esportes eletrônicos pelo planeta, e grande parte delas se encontra no Brasil ou possuem grupos formados por brasileiros. Os esportes eletrônicos se dividem em algumas modalidades: Moba, FPS, Battle Royale, Fighting Games, Cards e Simuladores. A maioria desses jogos são disputados em equipes, geralmente de cinco jogadores. O LOL se encaixa na categoria Moba, na qual entram jogos de batalhas em arena, em que o time deve destruir as bases inimigas. As modalidades FPS e Battle Royale são os famosos “jogos de tiro”, ou seja, o objetivo desses games é eliminar a equipe inimiga ou sobreviver a partida inteira. Essas categorias, juntamente com o Moba, são as mais populares entre os jogadores e fãs no Brasil. A equipe de Netuno, Los Grandes, é uma das maiores organizações (orgs) de eSports do país, com mais de 8 milhões de seguidores nas suas redes sociais. As orgs brasileiras já chegaram a arrecadar mais de 1 milhão de
dólares em premiações. Hoje a equipe com maior lucro é a Team Liquid, que ultrapassa os 44 milhões de dólares. O grande trunfo das organizações de eSports é ter diferentes times para cada modalidade de esportes eletrônicos, o que acaba interferindo na formação da equipe. Hoje, por exemplo, a Team Liquid possui uma equipe de Rainbow Six, formada por brasileiros, e uma equipe de CS:GO, formada por americanos e canadenses. Ter essa gama de times em diversas regiões do mundo possibilita às organizações ganharem mais fãs e disputarem mais campeonatos durante o ano.
Em média, hoje um pro-player recebe entre 2,5 e 30 mil reais mensais, valor que, geralmente, recebe acréscimos devido a patrocínios e o dinheiro ganho por meio das redes de streaming que o jogador possui.
Todo esse cenário criou uma cultura envolta nos eSports e ampliou a cultura digital. Assim como o futebol e o basquete, vários fãs possuem produtos, como camisetas, e além disso os times possuem itens dentro dos games. As “skins”, como são chamadas, são itens cosméticos dentro dos jogos que podem ser colocadas nos personagens, incluindo vestimentas e até pinturas nos equipamentos do game. Lucas acredita que esse cenário está bem inserido com a geração atual e vai prosperar para a próxima, porque o público que assiste os eSports é bastante jovem. Netuno vê positivamente essa cultura gamer, pois compreende que ela abre muitas portas, embora o esporte seja um pouco elitizado. Os eSports vieram para ficar. Não entraram para concorrer com o futebol ou outros esportes, que simbolizam o sonho de vários jovens de mudar de vida, mas para estar do lado deles. Com o passar do tempo, provavelmente veremos cada vez mais a ascensão desse movimento, a ponto de ser algo que não poderá mais ser ignorado ou refém de preconceitos. O
FREDERICO WESTPHALEN, RSPedi esse espaço para desabafar. Como um jovem que cresceu nos anos 2000 e 2010, também tive preconceito com os jogos eletrônicos. Vi meus amigos deixarem de habitar as ruas, durante o fim da tarde, para passar horas vendo bonecos em uma tela. Nunca me senti tão conectado com minha avó como nessa época, éramos uma dupla de velhos, que achava isso o fim dos tempos.
A frase “onde esse mundo vai parar?” é, possivelmente, a mais dita por pessoas do século passado. Para o meu alívio, não paramos em lugar nenhum. Meus amigos continuam normais e ainda sentam para uma partida ou outra, a diferença é a cerveja no lugar da água. Gosto de contar que durante o difícil ano, no qual o coronavírus nos prendeu em casa, eu me peguei acordando de madrugada para acompanhar os campeonatos de eSports. CS:GO, para ser mais específico. E me lembrei dos relatos de meus pais, que acordavam para assistir Ayrton Senna correr na Fórmula 1. Sim, eu não assisti, mas sei que ele era imbatível, mesmo na chuva.
Eu de fato me peguei vibrando, na frente de uma tela, sem saber jogar, apenas assistindo. Confesso para você: foi mais forte do que torcer pelo meu time do coração. A única dúvida que fica rondando meus pensamentos hoje, é se eu tivesse aceitado essa paixão ainda durante a ascensão dos eSports. Talvez tivesse mais um assunto na minha roda de amigos. Ainda assim, muito obrigado, esportes eletrônicos. Nostalgia e euforia são sentimentos melhores do que críticas vazias.
Time de futebol feminino gaúcho supera o preconceito e cativa o país
Andrei Sartori
Irênio Silva
Luís Guilherme Schmitz
em uma esquipe de fuTebol do interior gaúcho, 22 mulheres vestem um “manto” vermelho e preto, que não representa somente o time. O uniforme é uma identidade. Histórias individuais, mas um objetivo em comum: viver profissionalmente do futebol. No município de Tenente Portela (RS), com seus 13 mil habitantes, está o Esporte Clube Flamengo, equipe profissional fundada em 2021, mesmo ano em que conquistaram o Troféu do Interior, o primeiro título do clube.
O educador físico Tiago Rodrigues,
26 anos, foi um dos responsáveis pela conquista das Gurias do Yucumã. O atual treinador da equipe fazia sua estreia naquela competição. “Era o primeiro ano de projeto, passamos por muitas dificuldades. A emoção de conquistar o título não tem nem como descrever. Éramos uma equipe desacreditada, com poucos recursos. Vencer a competição foi algo único para nossa região”, destaca Tiago. No começo, o time feminino não teve grande apoio do município e da região. A grande virada de chave foi quando o programa Esporte Espetacular, da Rede Globo, veiculou, em maio de 2022, para todo o país, uma matéria sobre a equipe. Naquele momento, a comunidade e os patrocinadores começaram a conhecer e a apoiar o projeto. “Depois da reportagem, veio
a ascensão do Flamengo, crescemos nas redes sociais. Por causa do título naquele campeonato, conquistamos visibilidade. Mas faltou apoio no começo. Tinha algumas viagens que o Ildo [fundador do Flamengo] mesmo organizava o café da manhã. Parávamos num posto, e o café era do lado [de fora] do ônibus”, ressalta Tiago. O elenco das Gurias do Yucumã é diverso. Além da oportunidade para jogadoras da região, a equipe conta com integrantes de cinco diferentes estados do Brasil, de três aldeias do RS e da Argentina. Na temporada de 2023, as Gurias do Yucumã disputam pela terceira vez o Gauchão Feminino. Neste ano, o clube ficou na 80ª colocação no Ranking da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), que aponta os melhores clubes brasileiros.
Na página ao lado e à direita, jogadoras do time do Flamengo de Yucumã em seu treino. Abaixo, atletas do Flamengo reunidas para uma conversa antes do treinamento, em Derrubadas, RS
O futebol feminino no Brasil teve origem por volta de 1920, quando a reunião de mulheres para jogar era tratada como uma performance ou show, muitas vezes em circos. Só em 1983, surgem oficialmente dois clubes de futebol para mulheres, o Radar, no Rio de Janeiro, e o Saad, em São Paulo. A grande mudança dentro dos cenários nacional e estadual, em busca da valorização da categoria, foi em 2016, quando a Confederação Sul-Americana de Futebol (Conmebol) obrigou as equipes que disputavam suas competições a terem, até 2019, um time profissional de futebol feminino. Em 2017, dentro do cenário estadual, sur-
gia o Campeonato Gaúcho de Futebol Feminino, organizado pela Federação Gaúcha de Futebol (FGF). Impulsionado pelo campeonato gaúcho, Ildo Scapini, 62 anos, morador de Tenente Portela, decidiu criar um clube de futebol profissional na cidade. Ildo enfrentava uma complicada situação pessoal. “De 2007 a 2015, mantive uma escolinha de futebol masculino. Em 2015, tive uma temporada parado por conta de uma depressão. Retornei a pedido da minha médica. Ela disse que eu precisava voltar ao futebol. Então, tive a ideia de montar um time feminino”, conta Scapini. Mesmo com o projeto em mãos, Ildo demorou para concretizar o sonho. Foram cinco anos para, só em 2021, conseguir a re-
gularização na Federação de Futebol. O Flamengo pode, então, fazer a estreia no Campeonato Gaúcho Feminino Na primeira participação, o time foi afetado pelo pouco apoio de patrocinadores e da comunidade. “Tivemos grandes dificuldades para organizar os treinamentos, os materiais esportivos, as primeiras bolas para treinar. Tive que adquirir no Paraguai. Comprei 50 bolas, por 8 reais cada”, completa Ildo Scapini. Mesmo assim, as Gurias do Yucumã, na primeira participação no certame, já encantaram o Brasil com simplicidade e com talento. Foi quando a cidade começou a abraçar o clube, determinante para a conquista do Troféu do Interior no Gauchão e a vaga para o Brasileirão Série A3.
Andrei Sartori
Irênio Silva
Mesmo com a paixão compartilhada pelo futebol, a realidade das atletas do Flamengo é diferente. Muitas têm um trabalho além do esporte, e buscam conciliar de uma maneira produtiva as duas funções. A seriedade com os compromissos está dentro e fora de campo, no trabalho diário e na rotina de treinos, mas sempre com a ambição de chegar mais longe nos campos. Carla Dalla Cort, 31 anos, é uma das jogadoras mais longevas do elenco atual, tendo ingressado na equipe no começo do projeto. A volante das Gurias do Yucumã conheceu o time quando ainda jogava futsal em Erval Seco (RS). “Quando me mudei para Erval Seco, acabei jogando o estadual de futsal dois anos pelo Cometa e um ano pelo Guarani. Quando o projeto do Guarani acabou, meu namorado foi avisado por um amigo que o Flamengo precisava de jogadoras. Nisso, decidi fazer o teste e passei”, conta a jogadora. Mesmo sendo um dos pilares do plantel, Carla não esconde a admiração pela profissão que exerce fora dos gramados. Ela é cirurgiã dentista e tem sua própria clínica de odontologia na cidade onde mora. “Eu não vivo
do futebol, trabalho como dentista. Normalmente, consigo gerenciar bem as duas profissões já que a gente acaba treinando e jogando somente no fim de semana”, conclui Carla.
Renata de Oliveira, 26 anos, é natural de Santa Bárbara do Sul (RS), mas mora hoje em Panambi (RS). Seu amor pelo futebol é antigo. Ela conta que, desde antes de nascer, já estava envolvida com o esporte. “Meu amor pelo futebol surgiu na barriga da minha mãe. Ela jogava quando estava grávida de mim”, comenta Renata. O futebol não é sua principal fonte de renda, pois além de jogar, Renata trabalha em uma loja de suplementos e dedica-se a manter uma rotina disciplinada. Ela acorda cedo todos os dias para treinar na academia. Os finais de semana são momentos dos treinos com o time, conta Renata, que concilia diferentes áreas da vida e atua como uma verdadeira amante do futebol.
Algumas delas não exercem uma profissão extra, mas buscam hoje uma formação universitária. Andressa Kreski, 17 anos, chegou nesta temporada à equipe. A atleta já passou pelo Brasil de Farroupilha e Avaí Kindermann Hoje, faz faculdade de Educação Física e equilibra os estudos com os treina-
mentos. “Meu maior objetivo dentro do futebol é crescer, evoluir e poder representar clubes maiores. Mas caso isso não aconteça, estou cursando a faculdade para, pelo menos, poder estar dentro deste mundo. O futebol é algo muito importante para mim, não me vejo fora dele”, destaca. Andressa é uma das dez jogadoras que moram na casa das atletas, moradia mantida pelo time para jogadoras que não são da região e não teriam suporte financeiro para viver em Tenente Portela. “Morar na casa das atletas é uma experiência única porque podemos conviver com diferenças. Com isso, posso evoluir bastante. É uma verdadeira família, tem briga, discussão, mas sempre aquela conversa resolve os problemas”, completa. O Flamengo criou o projeto “Casa das Atletas”, que oferece hospedagem gratuita para as jogadoras. O fundador do clube, Ildo, é responsável pelo alojamento. As atletas que ocupam esse espaço são responsáveis por preparar suas próprias refeições, mas recebem suplementos alimentares fornecidos pelo clube. Além disso, elas têm acesso a uma academia em Tenente Portela, que é bancada pelo time e pode ser utilizada três vezes por semana.
A preparadora física da equipe, Mônica Botton, ocupa esta função desde a fundação do clube. Com a preparação sendo feita da melhor maneira, as expectativas e objetivos para esse ano são as melhores possíveis. “As atletas se preparam semanalmente. Mandam vídeos de treinos extracampo no grupo durante a semana. Estamos fazendo o melhor do nosso trabalho para poder conquistar novamente o Troféu do Interior”, afirma.
Sendo técnico do Flamengo de São Pedro, Tiago Rodrigues demonstra que tem sonhos altos com sua equipe para esta temporada. “Eu tenho o sonho de nós participarmos novamente do Brasileirão Série A3, este é o objetivo deste ano”, ressalta. Além de correr atrás dos títulos, a formação de atletas também é algo a ser trabalhado pelo clube, que serve como espaço de projeção de atletas. “Esse é um dos objetivos também do Flamengo, dar oportunidade para essas gurias alavancarem ainda mais o projeto, para
que elas consigam ir para um clube maior e realizar o sonho delas de profissional, com uma estrutura melhor”. Os sonhos de todos eles são possíveis graças ao grande desenvolvimento que a categoria teve nos últimos anos. Um relatório da Federação Internacional de Futebol (FIFA), demonstra que o crescimento de patrocinadores nas principais competições de futebol feminino aumentou de 11% para 77% após 2021. Atualmente, no cenário nacional, todos os grandes campeonatos na categoria têm transmissão em rede aberta. O Brasileirão tem transmissão
“Esse é um dos objetivos do Flamengo: dar oportunidade para essas gurias alavancarem ainda mais o projeto, para que elas consigam ir para um clube maior e realizar o sonho delas de profissional, com uma estrutura melhor”
na TV aberta a partir da fase de quartas de final, os jogos da primeira fase são por conta de um canal pago. Na TV aberta, a maior audiência de uma partida do futebol feminino foi com a Rede Globo, na transmissão de Estados Unidos e Holanda, na final da Copa do Mundo de 2019.
Ildo Scapini, tem muitos sonhos para realizar com o clube, o principal deles é conquistar novamente o título do interior e poder disputar o Brasileirão Série A3. “Queremos novamente conquistar essa competição para poder organizar melhor, ter melhores condições e o principal objetivo é não depender dos órgãos públicos, e ter nossa própria receita”, conta. O fundador do clube sabe que a principal função do Flamengo não é só formar atletas para o futebol e, sim, formar seres humanos melhores. “O nosso projeto não tem como principal objetivo somente ensinar a jogar futebol, mas retirar meninas da rua, formar o caráter delas dentro do clube”, finaliza Ildo. O
TENENTE PORTELA, RS
Andrei Sartori
Rompendo as fronteiras sonoras, o estado do Rio Grande do Sul possui artistas e sons independentes que merecem ser ouvidos
“ah, Todo mundo Tem sonho de viver da arTe, né?” é o que diz João Pedro Bassi, guitarrista da banda Ouija, sobre o desejo de se entregar e entrar de cabeça na carreira musical. “Daí a gente pensa no quanto é apegado ao conforto. E o quanto a gente quer arriscar.
Cada escolha é uma renúncia, infelizmente”, ele acrescenta, evidenciando o conflito entre o sonho e o inevitável risco que vem na bagagem da jornada artística.
Viver de música no interior do Rio Grande do Sul não é fácil. Mergulhar de cabeça em uma carreira musical, sem certeza de retorno, pode ser desafiador. Abrir mão do conforto de uma vida estável pela arte talvez seja um dilema para o artista independente. Atualmente, devido à maior acessibilidade que a tecnologia oferece para a produção de música, é mais comum encontrar artistas que apostam no cenário alternativo. No entanto, nem todos têm a oportunidade de dedicar-se integralmente a essa profissão.
Esse é o caso da banda Ouija. Composta por Isabela Vanzin (vocalista),
João Pedro Bassi (guitarrista), Rafael Dutra (baterista), Tiago Bach (baixista) e Álvaro Rajeneski (guitarrista), a banda busca se inserir nesse caminho. Espalhados pela região do Alto Uruguai, nas cidades de Frederico Westphalen, Ametista do Sul e Rodeio Bonito, um dos desafios é a logística para alinhar os dias de ensaio e das apresentações. Quando a dificuldade de encontrar espaços para tocar é somada à equação, fica ainda mais complexo. Para João Pedro, esse é um desafio constante. “Eu corro muito atrás de lugar, mas é muito difícil, quase não tem mais lugar porque não é lucrativo. O nosso nicho não é uma coisa que atrai multidões”, afirma o integrante Ouija. A banda, formada em 2020, nem sempre teve a sonoridade que possui hoje. O objetivo inicial era pegar músicas pop conhecidas e fazer uma versão rock, atraindo a atenção do público jovem. No mainstream, o som mais pesado não é sempre visto com bons olhos, ao mesmo tempo que é percebido como um gênero mais complexo e às vezes até “superior” aos demais.
“O rock foi elitizado por muito tempo, era visto como uma coisa erudita”, diz Isabela. “Isso é uma coisa que a gente tenta mudar também”, conta.
Um obstáculo que se mostra presente
tanto em bandas que estão na capital, como nas que se encontram no interior do estado, é a falta de visibilidade. Em contraste com os grandes centros urbanos, como São Paulo, onde seguir a cena independente é mais acessível, o RS enfrenta uma barreira geográfica que dificulta o alcance desses artistas. “É bem complicado. Atrapalha muito estar aqui no interior fazendo isso”, aponta o guitarrista João Pedro. Os membros comentam a falta de suporte da cidade. Ao produzir um festival, por exemplo, os organizadores de eventos priorizam artistas com sons mais populares, que trarão um lucro garantido. “O rock é sempre menos”, comenta Álvaro quanto à invisibilidade do gênero na sociedade. “Qualquer tipo de arte em uma cidade do interior é muitas vezes vista como coisa de pessoas às margens da sociedade”, completa a vocalista.
Apesar das dificuldades, a banda mantém a resiliência e traça planos para o futuro. Eles incluem o lançamento, primeiro, de um single, e depois, de um EP autoral. “A gente já começou a ir um pouquinho mais para o lado autoral, mais deprê, mais nosso”, diz João Pedro. É o que mostra a determinação de trilhar o caminho do rock ‘n roll e encontrar o próprio som.
Fazer barulho para ser ouvido
A transformação da indústria fonográfica nas últimas décadas trouxe consigo mudanças notáveis no cenário musical, abrindo caminho para a expansão da música independente. No artigo “A música independente no Brasil: uma reflexão”, o sociólogo e comunicador, Eduardo Vicente, fala sobre como, até o final dos anos 1970, o mercado fonográfico no país estava em crescimento. Graças aos incentivos fiscais à produção nacional, essa indústria se consolidava e se multiplicava. Nesse contexto, não havia muitos motivos para a formação de uma cena independente, já que as grandes indústrias dominavam o mercado. Na década de 1980, quando a crise econômica atingiu o país, esse quadro sofreu uma transformação completa. O mercado musical passou a ser mais seletivo e a racionalizar suas atividades, diminuindo o número de artistas e marginalizando aqueles que não se encaixavam, que não dariam lucro para a gravadora e nem atingiriam as massas. Foi quando nasceu o underground, como um espaço de resistência cultural e política à nova organização da indústria. O novo segmento se
tornou a única alternativa de acesso para diversos artistas.
A difusão da música indie foi uma resposta às transformações ocorridas durante a transição dos anos 1970 para 1980. Foi, também, o resultado da necessidade de criar um espaço de resistência e de expressão dos artistas que não se encaixavam nos moldes que o mainstream cobrava. O traço mais marcante da cena independente é o compromisso com a arte e com a criatividade, muito mais do que com o aspecto comercial. Esse compromisso está em não se deixar ser controlado e nem se colocar dentro de um molde apenas para atender aos padrões da indústria. É isso que mantém o indie vivo. “No underground, tu faz por ti o rolê, tu movimenta”, afirma Rafael, baterista da banda Ouija. “É tu que vai fazer a música, fazer o evento, fazer acontecer o negócio”, ele acrescenta. Esse é o atrativo que motiva a descoberta de novos sons e talentos.
No sul do Brasil, a cidade de Porto Alegre se destaca como um epicentro cultural e musical, abrigando uma
À esquerda, integrantes da banda
Ouija. Em pé: João Pedro, Tiago, Álvaro e Rafael.
Deitada: Isabela. À direita, bateirista
Rafael. Na página anterior, apresentação da banda
vibrante cena independente de rock. Além de ser a capital do estado do Rio Grande do Sul, é reconhecida por uma rica história e pela diversidade cultural, características que moldaram o cenário musical local.
Porto Alegre tem sido um berço para diversas bandas icônicas do rock nacional. Desde os anos 1980, grupos como Engenheiros do Hawaii, DeFalla e TNT emergiram das garagens e bares da cidade, conquistando público. Essas bandas pioneiras abriram caminho para uma geração de artistas que se seguiram, mantendo a chama do rock acesa na cidade. E ela continua abraçando bandas novas, em lugares emblemáticos, como o Bar Opinião, palco para inúmeras apresentações de bandas independentes ao longo dos seus 40 anos. O Agulha, espaço cultural e casa de shows, também desempenha um papel fundamental na cena, oferecendo uma plataforma para artistas emergentes e consagrados. Apesar do brilho e da vitalidade da cena independente de rock em Porto Alegre, a falta de apoio financeiro e de mais espaços dedicados à música autoral ainda existem. São desafios que fazem parte do cotidiano de bandas como a Bella e o Olmo da Bruxa, que vivem a experiência de produzir mú-
sica independente no sul.
Banda de rock alternativo, flerta com vários gêneros da música underground, como o “rock triste” e o emo. Formada por Felipe Pacheco, Julia Garcia e Pedro Acosta, o grupo tem cinco anos de história e um álbum autoral homônimo, lançado em 2020. O segundo deve sair ainda em 2023. “Não fazemos música para músicos, nem música para nós mesmos, e nem para porto-alegrenses. É música para todo mundo ouvir”, diz Pedro, um dos vocalistas da banda.
Parte da nova geração da música independente é linha de frente no entendimento de como as coisas estão funcionando no cenário musical underground. Pedro fala sobre as diferenças na divulgação entre a era física e a digital, explicando que, no passado, as pessoas costumavam dizer: “Essa é minha música”. “Mas ao mesmo tempo, tu tá ouvindo a música de três playboys”, diz o membro, salientando a democratização do acesso e divulgação de músicas.
Mesmo em uma cidade com maior projeção, ainda existe carência de visibilidade. “Se não tivesse o digital, o alcance nacional seria quase impossível para a gente”, comenta Felipe. A era digital abriu portas e possibilitou
que bandas independentes como a Bella e o Olmo da Bruxa alcançassem um público mais amplo, ultrapassando fronteiras geográficas e rompendo barreiras que antes limitavam a exposição e o reconhecimento de seus talentos ao entorno imediato. Da capital ao interior, o independente se alimenta da paixão que os artistas têm pela música. Para Isabela, vocalista da Ouija, a diversão é a maior recompensa, não o lucro. “Vale mais a pena por esses momentos de estar aqui, fazendo música com os amigos, tomando uma coca no intervalo, do que no show business”, diz Isabela. Para os membros da Bella e o Olmo da Bruxa, a graça está em ousar na hora da criação. “Entre nas suas loucuras, aceite as suas piras”, é o conselho de Felipe para os novos artistas. “A única coisa que vai te diferenciar dos outros é a tua pira”, complementa Pedro. Apesar de não ter uma fórmula para levar suas obras ao topo das paradas, o underground se forma pela combinação de vários fatores para tornar sua sonoridade marcante e, assim, cativar o público. A autenticidade pode ser o caminho para conquistar o mundo. O
FREDERICO WESTPHALEN, RS PORTO ALEGRE, RS
EP (Extended Play)
É uma gravação de música mais longa do que um single, mas com menos faixas do que um álbum.
Indie
Termo em inglês utilizado como abreviação de independente.
Mainstream
Do inglês “corrente principal” ou “fluxo principal”, a palavra mainstream tem a ver com aquilo que está na moda, uma tendência dominante.
Single Somente uma faixa.
Underground
“Subterrâneo”, em português. Usado para denominar uma cultura que está fora dos padrões convencionais da sociedade.
Tatuagem: onde a arte se eterniza em traços e histórias
Gabrieli Ferla
Essas palavras são usadas para definir a mesma prática: a tatuagem. Apesar de ser alvo de debates controversos, o ato de marcar a pele é tão antigo quanto a própria humanidade. Os primeiros registros datam de mais de 3000 a.C.
A tatuagem foi símbolo de diversas culturas, representando crenças, nacionalidades, crimes e, nos dias de hoje, estética. Embora tatuar seja visto como algo pertencente ao universo masculino, atualmente podemos encontrar muitas mulheres trabalhando na área da tatuação. No Brasil, segundo dados da Organização Internacional do Trabalho (OIT), em 2021, as mulheres ocupavam 45% das posições no setor de tattoo
A cidade de Frederico Westphalen, interior do Rio Grande do Sul, possui mais de 30 mil habitantes e entre eles quatro mulheres se destacam. Ketllyn Tavares, Luci Buzatto, Nicoly Silva e Valéria Pinheiro não apresentam muitas características em comum, elas têm idades e experiências diferentes, mas há algo que as une: o amor pela tatuagem.
A vontade de trabalhar com a arte na pele fez com que elas lutassem contra os preconceitos da sociedade e permanecessem na profissão. Com delicadeza e coragem, elas desafiam as convenções e transformam corpos em verdadeiras obras de arte. Em estúdios repletos de personalidade, essas artistas encontram seu espaço, criando narrativas que vão além do gênero.
Ao entrar em um estúdio de tatuagem, somos imediatamente envolvidos por um ambiente que respira criatividade. O som suave das agulhas dançando sobre a pele, a mistura de cores vibrantes e a intensidade dos desenhos compõem um cenário onde a imaginação ganha vida. Cada tatuador é um artista, transformando a epiderme em uma tela em branco pronta para receber sua poesia.
Amanda Busnello
Gabrieli Ferla
Thayssa Kruger
Para qualquer iniciante em uma profissão nada é fácil. Tudo se torna mais complicado quando se é mulher. A tatuadora Ketlyn Tavares, 26 anos, iniciou no ramo com pouco incentivo de sua família. A vontade de trabalhar com tatuagem surgiu aos 12, mas quando ouviu que não levava jeito para a profissão, resolveu deixar de lado.
Ketlyn sempre gostou muito de arte, “eu desenhava a pincel na unha, fazia uma cartelinha de adesivo para vender, [...] fazia caricatura em quadros para vender. Então, eu sempre quis tentar trabalhar no que eu gostava”, conta.
Ketlyn foi manicure por 12 anos e foi só quando conheceu Charles, seu atual marido, que na época “brincava de tatuar”, que a vontade em ser tatuadora foi despertada novamente. Charles iniciou a carreira primeiro e foi só um ano depois que ela deixou seu antigo emprego para viver 100% da tatuagem.
A mãe desaprovou quando Ketlyn tomou a decisão, dizia que trabalhar com desenho não dava dinheiro, “hoje em dia dá, porque a gente trabalha com o que ama”. Ela já tatua há cinco anos na cidade e conta que o começo não foi nada fácil. “Lembro que eu ganhava 80, 100 reais por semana. E aí, depois que ingressou clientela, eu pude parar de trabalhar no salão e passar a tatuar”, relembra.
Ketlyn demonstra seu amor pela profissão quando afirma que muitas de suas tatuagens foram feitas para testar a dor em algumas partes do corpo. “O cliente chegava e pedia se doía no dedo e eu dizia para o Charles fazer algo em mim no dedo,[...] eu fiz para falar para eles”. Nicolly Silva, de apenas 21, caiu de paraquedas nessa profissão. Nunca havia imaginado se tornar tatuadora. Foi sua mãe que a incentivou a entrar no ramo. Cabeleireira há 23 anos, independente profissionalmente e sem carteira assinada foi algo presente em sua vida.
Antes de deixar tudo para viver somente da tatuagem, ela foi secretária em um consultório por quatro anos. Conciliava o emprego com fazer micropigmentação no salão de sua mãe. Para ela, o início foi desafiador, o que a levou a pensar em desistir. “No início encontrei bastante dificuldade, porque tu já começa a pensar como que tu vai fazer teu nome aqui. [...] quando eu saí do consultório pensei ‘Meu Deus eu vou pedir para voltar’”. Nicolly descobriu seu talento para tatuar somente após um curso que fez. “Eu não sabia que eu conseguia fazer isso. Eu fiquei naquela coisa
assim, fui eu que fiz?”, conta. Hoje seu estúdio de tatuagem fica junto ao salão de sua mãe, a incentivadora de tudo isso. Há dois anos e meio ela deixou seu emprego no consultório para entrar de vez na profissão de tatuadora. “Foi assim, inesperado. Foi impulsivo. Um impulso que deu certo”. Para ela, a tatuagem é um amor, uma paixão. “Foi onde me encontrei”.
O preconceito com as pessoas tatuadas sempre esteve na cultura da sociedade. No livro Uma história da
Gabrieli FerlaNa abertura da reportagem, a tatuadora Luci Buzatto. À esquerda e à direita, ferramentas e detalhes do trabalho
tatuagem no Brasil, a autora Silvana Jeha cita que, no final do século XIX, pessoas tatuadas se apresentavam em circos por serem consideradas exóticas e, até a década de 1970, as pessoas associavam a tatuagem com a criminalidade. No Brasil, a prática da tatuagem só foi inserida na cultura popular na década de 1980, ao ser aderida pelos jovens surfistas e rockeiros, porém, ainda muito associada ao universo masculino. Mas a discriminação contra pessoas tatuadas não é coisa do século passado. Muitas pessoas perdem oportunidades de emprego, por exemplo, por possuírem tatuagem à mostra, principalmente em áreas de profissões consideradas tradicionais.
Para Luci Bozatto, tatuadora há seis anos, Frederico Westphalen ainda é muito preconceituosa a respeito de tatuagem. “Ontem eu tatuei uma menina e ela falou que queria tatuar uma florzinha no pescoço, atrás da orelha. E eu falei ‘pensa bem, né? Porque pescoço e mão não são lugares que tu esconde fácil.’ E ela disse: ‘ah é, eu tenho essa preocupação porque eu trabalho com vendas’”, relembra Buzatto. Mas houve transformações importantes para quem se interessa pela prática. Atualmente, as pessoas têm entendido a tatuagem como um tipo de arte. Valéria Pinheiro, tatuadora há 18 anos, acredita que isso tem a ver com a profissionalização da tatuagem. “A galera mais jovem que gosta do desenho está se apropriando muito, vendo como uma profissão”, diz Pinheiro.
Talvez essa seja a pergunta mais comum que pessoas tatuadas es-
cutam. A resposta é sim e não. Em muitas culturas ancestrais, como a dos povos indígenas e dos povos africanos, a tatuagem remete ao lugar de origem da pessoa, a sua situação conjugal ou à fé. Para os marinheiros do século XIX, a tatuagem era a lembrança permanente das suas aventuras, de seus amores e de suas saudades.
Jeha observa que atualmente a prática se afastou de ritos místicos para fertilidade e proteção contra o mau olhado, mas permanece sendo uma forma de fazer o corpo falar, de externalizar seus sentimentos e de marcar na pele sua história.
Para Valéria Pinheiro, a tatuadora mais antiga de Frederico Westphalen, a clientela feminina ainda enxerga a tatuagem como um meio de homenagear um ente querido. “A mulher é sempre mais sentimental. Ela tem um motivo mais específico,
tem uma história”, relata Pinheiro. Para Luci Buzzato, toda tatuagem possui um significado, mesmo que o tatuador o desconheça. “Pode ser que não signifique uma coisa filosófica, mas só de você achar bonito e querer fazer já é um significado”. A tatuagem é a fusão perfeita entre a arte e o corpo humano. Dança entre tinta e pele que transforma a vida em poesia. Cada marca é única, cada desenho uma história e cada pessoa é um livro aberto a ser lido por aqueles que têm olhos para enxergar além da superfície. A tatuagem expressa um desejo profundo de ser, pertencer e marcar o mundo com a própria existência. E assim, os tatuados seguem, carregando na pele a poesia da vida, se eternizando em traços que ecoarão através das gerações. O
Gabrieli Ferla
sabe aquela ansiedade em receber uma encomenda? Guilherme* abre o aplicativo para rastrear a entrega da sua compra mais recente. Liga e desliga a tela. Entra nas redes sociais para ver se o tempo passa. E durante a espera, que parece infinita, já vê posts de pessoas utilizando o mesmo produto que ele encomendou. A ansiedade aumenta. A campainha toca, afinal. Celular em mãos, quer logo mostrar aos amigos o novo produto. Na era digital, ao que parece, de que adianta ter se você não pode mostrar?
Só que, ao voltar para as redes, já se depara com um novo item que desperta seu interesse. Muito mais novo, muito melhor do que o que acabou de adquirir. Então pensa: como pode a ansiedade de duas semanas de espera se resumir a dois minutos de euforia? O ciclo se inicia novamente. Ele precisa de um novo produto.
O que acabamos de descrever é algo recorrente na vida de muitos jovens. Nosso personagem, o estudante uni-
versitário Guilherme, de 25 anos, é do noroeste do Rio Grande do Sul e tem relação intensa com a internet. Na verdade, ela começou quando ele tinha dez anos, idade na qual criou o primeiro perfil em rede social. Guilherme faz parte da chamada Geração Z, que compreende o grupo de pessoas nascidas entre os anos de 1997 e 2010, bombardeadas por telas, estímulos e infinitas possibilidades na palma da mão. Possibilidades que trouxeram também altas expectativas para a geração da tecnologia e da ansiedade. Na era da internet, parece que todo mundo “é alguém”. Mas há um preço para o pertencimento.
O fenômeno por trás disso já tem nome: Fear of Missing Out (F.o.M.O). O psicólogo Bruno Dani, de Frederico Westphalen (RS), explica que a nova psicopatologia está relacionada ao medo de ficar de fora de coisas que as pessoas ou a mídia dizem ser importantes. O caso é mais comum, principalmente, entre os millennials. Segundo um levantamento realizado pela Fundação Getúlio Vargas, em 2019, para 41% dos jovens brasileiros, as redes sociais causam sinto-
mas como tristeza, ansiedade ou depressão. Guilherme costuma passar a maior parte do dia online, acompanhando conteúdos sobre tecnologia. Por conta disso, gosta de comprar produtos relacionados, como periféricos*, skins de jogos e P2W.*
Todo mundo em pânico de ficar de fora
De acordo com um artigo publicado em 2021, na revista científica World Journal of Clinical Cases, o termo F.o.M.O surgiu em 2004 e está diretamente relacionado à saúde mental dos usuários da internet, sendo caracterizado por uma constante ansiedade. O psicólogo Bruno Dani também explica que o usuário acaba passando tempo excessivo em frente às telas, tentando fazer parte de uma comunidade fora de sua realidade, o que prejudica gravemente a autoestima, a socialização e a percepção da própria identidade. O F.o.M.O pode ser desenvolvido por meio de diversos fatores pré-existentes, como a depressão, a necessidade de validação, a vontade de compensação sobre a falta de algo na vida
real (na fase atual ou na infância), e a baixa-autoestima na era dos likes, que possui grande impacto no psicológico. Os alertas do psicólogo são recorrentes entre a comunidade científica.
O uso de redes sociais nos leva a um fator preocupante. A Royal Society for Public Health considerou o Instagram “a rede mais nociva aos jovens”, devido ao impacto na saúde mental.
Plataformas digitais como Instagram e TikTok desempenham um papel significativo na amplificação dos gatilhos que geram o consumismo desenfreado na era digital. “Os pesquisadores chamam de ‘produção de desejo’. Não necessariamente eu preciso daquele produto, mas a mídia diz pra mim que aquilo é importante, é útil, gera a sensação de pertencimento e faz com que eu compre”, diz o psicólogo.
Para Guilherme, que gosta de acompanhar influenciadores digitais que falam de moda, estilo de vida e principalmente tecnologia, estar sempre por dentro das tendências virou necessidade. O universo virtual, com
seus feeds infinitos, cheios de conteúdos patrocinados e usuários com vidas desejáveis, apresenta produtos que parecem imprescindíveis. Essas plataformas se tornaram espaços propícios para exposição e promoção de produtos, levando, principalmente as pessoas da Geração Z, a se sentirem constantemente tentadas a consumir. E consumir em 2023 é tão fácil. Em apenas dois cliques, um no aplicativo de compras e outro no aplicativo do banco, é possível ter a sensação de estar mais perto da vida daquele influenciador que está sempre tão feliz e realizado.
A psicóloga Karen Gomes, especialista em comportamento jovem e impacto das redes, explica que as mídias sociais têm grande influência no comportamento humano, de modo que ditam as “regras” de como se vestir, se comportar e o que consumir.
Entre as diversas compras online, Guilherme tem até um óculos de realidade virtual no valor de 4 mil reais. Também já chegou a comprar um aparelho de DJ, mas se arrependeu em seguida. Além de não ser DJ, diz que só comprou porque “viu na internet”.
A vida das pessoas acaba girando em torno das redes, e esse é o problema, completa a psicóloga Karen Gomes. E, como uma droga, elas geram vícios, pois afetam a mesma área do sistema dopaminérgico. A busca constante por se sentir aceito, a ilusão atrelada ao consumo, a compra como compensação pelas frustrações do dia a dia ou até mesmo algo relacionado à infância são fatores que se sobrepõem. Guilherme usa todo seu dinheiro em compras online. “É que eu não podia comprar as coisas quando eu era criança. E hoje que posso, compro tudo”, justifica, explicando que é uma satisfação interna. A psicóloga esclarece que se houve algum tipo de escassez na infância, a tendência é o subconsciente procurar suprir as necessidades quando houver condições. “Isso acaba ficando na memória afetiva, e quando você cresce já têm condições de satisfazer esses pequenos
desejos. Não há problema em fazer isso. O problema está no excesso”, explica. É como colocar um preço na sua satisfação: “Ah, eu quero estar bem, aí vou lá e compro”, conclui Karen. É aí que se cria um chamado “sistema psicológico”, em que somos estimulados por essa dopamina do ciclo de compra, a partir de uma necessidade do cérebro em suprir essa “carência”, cada vez mais intensa, em uma tendência que pode se tornar um vício. O psicólogo Bruno Dani fala que as pessoas tendem a entender a “falta” como não ter algo material, mas existem as faltas emocionais, e pode não ser suficiente supri-las via o consumo.
Tudo isso vêm de fora. Você se espelha no que vê. E as telas, nas quais os millennials têm passado a maior parte de suas vidas, viraram vitrines, de objetos, personalidades e corpos. A mudança não está fora, está dentro.
E ambos os psicólogos, Bruno Dani e Karen Gomes, acentuam a importância da autorreflexão e do autoconhecimento para a lidar com a realidade de forma saudável. E, se possível, com acompanhamento psicológico. Guilherme relata que é satisfatório comprar, mas que após cada compra já aparece um novo item, gerando um novo desejo e um comportamento ansioso. E é justamente esse comportamento, impulsionado pela sociedade de consumo, que gera os diversos distúrbios que acompanham os adultos e os futuros adultos.
Gui pode continuar comprando seus itens e conta que é realizador pagar para estar inserido no que ele mais ama: a tecnologia. Assim como para outros jovens é poder comprar roupas com que se sintam bem ou finalmente ter aquele brinquedo dos sonhos que seus pais não podiam dar nos anos 1990. A internet possibilita ter acesso a coisas que você não teria de outro modo. O problema é acabar se tornando refém disso.
As possibilidades da era digital podem ser fantásticas, mas perigosas. Quando falamos em pessoas, falamos de seres sociais buscando sentir algo, pertencer a algo. Em um mundo cheio de conexões digitais, essa é a conexão que nos torna mais humanos. A Geração Z cresceu imersa em telas de todos os tamanhos, com a sensação do mundo ao alcance dos dedos.
A tecnologia hoje é o que se faz mais presente nas vidas desses jovens, sendo uma ferramenta que favorece ao invés de desencadear transtornos. A chave está no equilíbrio e na maturidade com que abordamos essa nova era. Guilherme conta que hoje já não
Todos os intertítulos desta reportagem, assim como seu seu título, foram inspirados em filmes que marcaram a vida e infância da Geração Z, entre os anos 1990 e 2000.
compra mais com tanta frequência e que suas amizades foram fundamentais nesse processo de encontrar a harmonia entre o mundo digital e o mundo real. “Um amigo meu me fez não comprar esses tempos um pacote de skins. E… foi muito feliz, isso. Ia ser um dinheiro que, tipo, ia para o ralo”. E é esse tipo de processo que abre espaço para uma conexão muito mais
real, aquela que transcende as telas e permite compartilhar momentos, emoções e experiências autênticas além das redes. O
* Nome fictício
** Fotos ilustrativas: modelos Maria Mariana Silva e Kelvin Verdum
Teresa Vitória Valvassore Juvêncio
O preço da exposição na internet e os impactos na saúde mental de pessoas públicas
Ellen Manfio Maria Eduarda Brasilé provável que você já tenha presenciado alguém sendo alvo de “cancelamento” nas plataformas digitais, especialmente se for uma figura pública. Essa prática se tornou frequente e tem gerado questionamentos. A cultura do cancelamento foi criada como uma forma de responsabilização por comportamentos considerados inadequados. Esse padrão evoluiu para algo mais complexo e se tornou uma forma de bullying e linchamento virtual, capaz de impactar negativamente a saúde mental das pessoas envolvidas. É o caso de Larissa Ribeiro*, uma influenciadora digital do noroeste do Rio Grande do Sul. A influencer conta que virou alvo da prática do cancelamento ao postar seus treinos de academia no Instagram. Na época do ocorrido, um de seus vídeos viralizou na rede e foi motivo de diversas mensagens e comentários de cunho pejorativo, de homens e mulheres.
Ela explica que depois do episódio desenvolveu uma grande insegurança ao se expor e postar em suas redes sociais. “Depois desse evento, virei outra pessoa. Antes, eu postava bastante, não ligava, era bem tranquila. Agora, sou super insegura de postar qualquer coisa”, explica. Ela notou diversos prejuízos na sua saúde mental e começou a fazer psicoterapia. “Fiquei bem ansiosa, tive crise de ansiedade naqueles dias, foi bem difícil”, relata. As consequências chegaram a impactar sua carreira. Larissa precisou criar um perfil profissional no Instagram para divulgação do seu trabalho, mas acabou se limitando pela ansiedade e o medo ao se expor. “Me prejudicou muito, me prejudica ainda”. A influencer concluiu uma graduação há pouco, e tem tentado contornar o medo e a ansiedade para colocar em prática seus planos, apesar das dificuldades. “Estou deixando até de trabalhar por conta disso”, finaliza ela.
A psicóloga Adrian Bezerra Assunção, que atua na área clínica há três anos, conta que a prática do cancelamento ficou mais conhecida no país em 2020, após o programa televisivo Big Brother Brasil, da TV Globo, quando houve um maior índice de cancelamento. Foi um grande crescimento dessa cultura, o público decidiu falar e expor suas opiniões sobre o assunto.
Adrian comenta que, por meio dessa divergência de opiniões, os telespectadores acabaram cancelando uns aos outros, taxando e tentando prejudicar a imagem de terceiros, julgando muitas atitudes como forma de preconceito. “As pessoas acham que tudo que se opõe ao que elas concordam é uma forma de preconceito. Na realidade não é. As pessoas estão exercendo seu direito de opinião diferente, o que acontece muito nas mídias. Não é à toa que o maior índice de cancelamento é com famosos”, pontua.
Um exemplo de maior repercussão é o da rapper Karol Conká. A ex-participante do Big Brother Brasil 2021 foi fortemente atacada e chegou a perder cerca de cinco milhões de faturamento em shows e contratos encerrados. Além da popularidade e da carreira, o cancelamento também influenciou diretamente a saúde mental dela.
Foram necessários cerca de seis meses após o encerramento do programa para Conká conseguir retomar a vida normalmente e sair de casa. A cantora contou com ajuda profissional de psicólogos e psiquiatras para conseguir reverter os danos que sofreu. “Eu tinha perdido a vontade de viver ou de ser, a vontade de qualquer coisa. A última vez que eu tinha sentido isso foi na depressão pós-parto”, comentou, no podcast De Carona na Carreira. Segundo Adrian, a cultura do cancelamento seria a intencionalidade de tentar, de alguma forma, prejudicar a imagem do outro, difamá-lo e barrá-lo, limitando a sua liberdade de expressão. Em alguns
casos, a pessoa pode ver a prática de modo positivo, ressignificando a experiência, mudando suas perspectivas e assumindo outro ponto de vista. Não é o que acontece com a maioria das pessoas, isso depende de um processo de resiliência natural e, muitas vezes, acompanhamento psicológico e suporte familiar. Não foi o caso da cantora Karol Conká. O impacto negativo foi tanto a ponto dela ficar muito tempo fora de suas redes sociais. “De alguma forma aquilo ainda veste nela como impacto negativo. Até a forma dela debochar, pode ser uma estratégia de fugir dos impactos negativos do cancelamento”, comenta Adrian. A psicóloga conta que já foi cancelada em seu perfil profissional, ao falar sobre ética e se posicionar contra a exposição de casos e pacientes. No período em que falou abertamente de suas opiniões, foi cancelada por outro colega de profissão, que a chamou de antiquada. O posicionamento público acabou gerando comentários, alguns contrários e outros favoráveis à Adrian, que procurou superar a situação: “Para mim foi um processo tranquilo. Mas quando a gente se expõe em redes sociais, independentemente de ser um perfil de grande alcance ou de pequeno alcance, a gente corre o risco de receber ódio gratuito”, finaliza.
Ellen Manfio
A cultura do cancelamento surgiu em meio aos avanços da sociedade, um processo de desconstrução de práticas, que antes eram normalizadas, como o racismo, a homofobia, o machismo, a xenofobia, entre outros. O termo apareceu em 2017, com a repercussão do movimento feminista Me Too (do inglês, “eu também”), uma hashtag usada nas redes sociais com denúncias de assédio sexual que repercutiram no mundo inteiro.
O cancelamento ganhou vida por meio de manifestações contra tais atitudes condenatórias, criando um ambiente propício a discussões e debates em torno de causas sociais. As redes são um espaço para amplificar a voz de determinados grupos, no entanto, outras faces dessa cultura emergiram, como a destilação de ódio e o linchamento virtual. A estudante de Psicologia Fernanda Forte Prichula, estagiária da clínica escola da Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões (URI), acredita que o cancelamento é capaz de gerar uma dificuldade em se colocar diante dos outros, alimentando uma tendência das pessoas se isolarem do convívio social. “Dependendo do grau que for, isso pode vir a desencadear ou agravar alguns transtornos mentais, quadros mais depressivos e ansiosos”, explica.
Os episódios de cancelamento giram acerca do que é considerado “certo” e “errado” perante a sociedade, apesar da maioria dos episódios envolverem questões sérias e sociais, às vezes ocor-
rem por atitudes mais banais, uma escolha que vai contra a opinião popular do que é considerado moralmente correto. Pode ser desencadeado por meio de uma atitude ou fala tirada de contexto, sendo interpretada de maneira equivocada. A influenciadora digital do norte do estado, Alice Guimarães*, falou sobre a situação que passou ao expor uma cadelinha que aparentava estar em situação de rua. Na tentativa de ajudar, foi apedrejada pelos supostos donos do animal, sendo ameaçada até mesmo de processo. “Qualquer coisa que a gente possa colocar ali, com o poder de influência que a gente tem, é mal visto ou é visto de outra forma. Cada pessoa entende de uma forma, cada pessoa entende como quer. É realmente bem difícil. São várias situações que às vezes eu mesma me coloco, mas na inocência a gente não percebe”. De acordo com Adrian, as pessoas que se sentem encorajadas a postar e se posicionar, já romperam barreiras com a timidez e com a insegurança. No momento que são incompreendidas, e sofrem um episódio de cancelamento, acabam tendo um impacto significativo na autoestima, além de despertar uma crença de incapacidade. “A autoestima não é só na autoimagem, não é só a nível corporal. Autoestima é aquele processo cognitivo, de reconhecimento de si, de suas capacidades, de autoaceitação”, aponta a psicóloga.
Alice ressalta a dificuldade que passou ao enfrentar críticas e episódios de cancelamento. Por ser uma pessoa sensível e emotiva, acabou se frustrando e desenvolvendo alguns bloqueios, se afastando das
redes sociais e filtrando suas postagens. Segundo ela, é preciso ser forte e ter coragem para se expor diariamente. “Eu quase entrei em uma depressão, mas consegui passar por isso e aprendi que nas redes sociais, infelizmente, a gente não pode demonstrar muita fraqueza”, comenta.
Se pararmos para analisar, será que o cancelamento afeta outras pessoas além de seus alvos principais? Fernanda Prichula acredita que mesmo as pessoas que estão apenas assistindo acabam sendo atingidas com a situação. “É a mesma coisa do bullying nas escolas, por exemplo, às vezes a pessoa não é o agressor, mas ela tá ali observando e isso pode ser danoso também. Não é uma cultura legal, é uma cultura que propaga ódio, então isso é negativo para todo mundo, negativo para quem propaga, para quem assiste e para quem sofre o cancelamento”, destaca Fernanda.
O cancelamento e a saúde mental são dois tópicos que estão inter-relacionados. Para aqueles que são alvo e sofrem com ataques e críticas, pode ser extremamente angustiante lidar com a forma radicalizada de agir. Além de uma significativa perda de reputação, é possível notar consequências como o isolamento social e crises de ansiedade. Para os que estão apenas observando, há o medo de expressar-se quando sua opinião se diferencia da maioria e, assim, um dos principais problemas que o cancelamento gera nas pessoas: uma disputa em torno da liberdade de expressão.
A liberdade de expressão consiste em poder dizer, dentro dos limites da ética e do respeito, o que se pensa sobre algo ou alguém. De acordo com a professora Aline Roes Dalmolin, do Departamento de Ciências da Comunicação da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), a cultura do cancelamento seria a outra face da moeda do discurso de ódio.
“Essa pessoa pode ser alvo de quem discorda da posição dela, só que a forma de discordar não é apenas manifestando uma opinião, mas sim, atingindo essa pessoa de outro modo”, ressalta Aline. Embora exista o direito de expressar-se contra qualquer manifestação preconceituosa, também é necessário ter clareza ao julgar imediatamente um fato. Assim, o direito à liberdade de expressão não é justificativa para violação dos envolvidos. Ela não serve como argumento para propagar formas de discriminação e não autoriza o discurso de ódio.
A perda da liberdade de expressão impacta gradualmente os espectadores, as pessoas não querem receber ataques como os vistos nas redes, portanto, muitas vezes evitam falar sobre algo que acreditam e apoiam. Isso pode restringir o debate saudável e a diversidade de ideias, limitando o progresso social. O medo das consequências do
cancelamento leva à autocensura, calando suas opiniões, mesmo quando legítimas e construtivas. Segundo a psicóloga Adrian Bezerra, quando uma pessoa é cancelada ela se sente agredida de alguma forma, não fisicamente, mas verbalmente. Essa agressão acaba rompendo com o direito humano do indivíduo em se expressar. “Considera-se o cancelamento como uma agressão, porque na maioria das vezes ele não tem o intuito de orientar, mas de agredir”, explica. Além disso, Adrian comenta sobre as estratégias de enfrentamento, que vão além do acompanhamento psicológico e passam por uma questão de consciência humana.
O acompanhamento psicológico ajuda a questionar e a compreender a realidade dos fatos. Adrian, porém, alerta para a necessidade de buscar outras distrações. “Não no sentido de fugir, porque fugir não é efetivo, mas no sentido de ver que naquele momento talvez seja necessário dar uma pausa”, explica ela. Dar uma pausa nas redes sociais pode ajudar a amenizar o sofrimento vivenciado. É importante, também, priorizar momentos de prazer e bem estar, como férias, passar um tempo com a família, viajar com o filho, cuidar do animal de estimação ou fazer uma mudança positiva, se distanciando dos efeitos negativos da prática. Adrian enfatiza sobre a importância de filtrar os conteúdos que consumimos. “Escolher o que você quer ter acesso é uma forma de autocuidado e de favorecer a sua saúde mental”, comenta. Nas redes sociais existem alternativas de privacidade que ajudam a minimizar a repercussão negativa e os impactos da cultura do cancelamento.
Para Alice Guimarães, nenhum cancelamento é justificável. Por trás de um celular ou computador as pessoas se sentem livres para falar o que querem, sendo muito mais fácil fazer um comentário taxativo e ferir alguém com xingamentos. O contato físico, de alguma forma, evita alguns comportamentos agressivos. Favorecer processos que acentuam a fala, o respeito, o acolhimento e as opiniões diferentes, também pode ser uma estratégia. Prichula alerta para a relevância de manter diálogos e conversas, para que as pessoas que já foram alvos da prática tenham uma rede de apoio e acolhimento. “Porque é assim que a gente vai construir mais pontes, né? E não construir mais muros”, finaliza. O
* Nome fictício
** Fotos ilustrativas: modelo Mariana Saldanha
FREDERICO WESTPHALEN, RS
Já Te falaram que para ser “alguém na vida” é preciso ter um diploma universitário? Provavelmente sim. Mas o que ninguém conta é que o caminho para a chegada ao tão desejado diploma pode ser longo e cansativo. Além disso, uma das maiores preocupações é a entrada no mercado de trabalho, que está em constante movimento e isso pode ser assustador para o universitário.
Essa fase da vida do estudante é recheada de desafios e de novas sensações, ali acontece uma troca de papéis. O jovem, que antes era estudante, vai se tornar um profissional para entrar no mercado de trabalho, como comenta a psicóloga da Universidade Federal de Santa Maria, campus Frederico Westphalen, Laís Piovesan. Geralmente, este momento se caracteriza pelo surgimento de sentimentos ambivalentes/conflitantes, como as inseguranças e as expectativas sobre a vida profissional. “É muito frequente a sensação de não estar suficientemente preparado ou então de não ter aproveitado como poderia as oportunidades ao longo do curso”, comenta Piovesan.
Este é o caso de Barluta Sané, estudante do quinto semestre do curso de Biomedicina, na Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai (URI). Ba, como gosta de ser chamada, conta que uma de seus maiores medos é se formar sem ter conseguido aprender tudo. “Minha insegurança é justamente essa, de não atingir o que eu queria, de não ter o conhecimento necessário para fazer aquilo, sabe”, confessa a universitária. Ela também aponta sua preocupação de trabalhar em uma área em que não se identifica por não ter certeza sobre o seu emprego no futuro.
A pesquisadora e socióloga Marilis Almeida, professora da Universidade Federal de Pelotas, explica que o mercado de
trabalho vem se recuperando das consequências da pandemia de Covid-19, mas que ele ainda apresenta instabilidade. Por isso, as empresas têm procurado, cada vez mais, empregados que tenham mais experiência prática e teórica. A pesquisadora relembra que, no Brasil, existe uma grande dificuldade para jovens entrarem e permanecerem em um curso superior.
Mas quem são esses jovens? Segundo o site Planalto.gov, são considerados jovens as pessoas entre 15 e 29 anos, o que representa 49 milhões de pessoas dos 214,3 milhões de brasileiros. Cerca de 20% dos jovens no Brasil não estudam e não trabalham, estes são conhecidos como “nem-nem”. Isso acontece porque, de acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), muitos jovens abandonam os estudos ou nem chegam a frequentar uma escola. A principal justificativa é a necessidade de trabalhar. Contudo, Almeida pontua que, desde 2014, o mercado vem sofrendo com o desemprego. Ela alerta que outros fenômenos devem ser considerados, como aqueles que gostariam de trabalhar e não conseguem emprego por medo de tentar, pessoas com idade para trabalhar mas que não trabalham e o emprego informal. A socióloga também destaca que, nos últimos anos, a falta de investimento na educação e a desvalorização de algumas profissões acabou por afastar muitos jovens das universidades.
A indecisão é um fator que influencia na escolha de uma profissão ou de um curso. Como no caso de Ba, que começou a cursar Jornalismo, depois Estética e agora cursa Biomedicina, mas ainda não se achou em nenhuma dessas profissões. A psicóloga Laís explica que isso está ligado ao pensamento de que certas decisões que o jovem toma, em um determinado momento de sua vida, serão para sempre. “As nossas escolhas nem sempre são para a vida toda, elas podem ser escolhidas por um momento e depois não fazerem mais sentido, ele [o estudante] vai vivenciar aquilo como um grande fracasso e uma frustração”, ressalta. A especialista ainda conta que a construção da carreira é algo gradual e que leva tempo. Tanto no momento da gra-
Beatriz Vieira Leda EvangelistaA psicóloga Laís Piovesan explica que isso está ligado ao pensamento de que certas decisões que o jovem toma, em um determinado momento de sua vida, serão para sempre. “As nossas escolhas nem sempre são para a vida toda, elas podem ser escolhidas por um momento e depois não fazerem mais sentido, ele [o estudante] vai vivenciar aquilo como um grande fracasso e uma frustração”, ressalta. >>
duação, quanto no mercado de trabalho, é muito importante que o estudante/profissional mantenha expectativas realistas. Uma coisa muito comum de acontecer é a comparação com profissionais já formados, e uma forma de amenizar isso é se permitir explorar o seu lado pessoal e profissional, lembrando sempre que a construção de cada carreira é individual. Isso quer dizer que é interessante conhecer as possibilidades de atuação e de aperfeiçoamento em sua área.
Outra questão que pode afetar o jovem são as relações sociais, seja com a família, seja com os amigos ou seja com os professores. Alguns estudantes carregam a responsabilidade de dar uma vida melhor aos seus pais. Outros têm dificuldade de se desligar do espaço acadêmico. Esses exemplos demonstram que outros fatores psicológicos devem ser considerados durante a graduação. Por isso é muito importante que as instituições de ensino deem suporte psicológico aos seus alunos. A URI, universidade de Ba, criou um grupo de apoio para os seus estudantes, coordenado pelas professoras Janara Luzanin e Janaína Corso, do curso de Psicologia. O Programa de Apoio Psicológico ao Universitário (PAPU) abrange todas as demandas psicológicas que os estudantes podem ter, tanto para questões acadêmicas quanto para questões pessoais. “O objetivo dele é realmente, fazer um acolhimento com esse aluno aqui da universidade, promover reflexões, autoconhecimento e, conforme a demanda de cada um, a gente faz encaminhamentos externos”, conta Janara Luzanin, atual coordenadora do projeto.
Os acompanhamentos são feitos no próprio campus da universidade. Os atendimentos são realizados pelos estudantes do curso de Psicologia, a partir do 6º semestre. Integrar o corpo de atendimento do PAPU é uma forma de fazer estágio, o que pode ser uma forma de ganhar experiência para entrar no mercado de trabalho. Para Luzanine e Corso, a alta procura por ajuda é um sinal de que o projeto está funcionando. Além do PAPU, Corso coordena a Escola de Psicologia, que é aberta à comunidade.
Trabalhar em estágio é uma grande oportunidade de começar a adquirir experiência antes mesmo de terminar a graduação. A psicóloga Laís pontua que o estudante que realiza um estágio, seja ele obrigatório ou não, consegue ter expectativas mais realistas e uma noção maior sobre como o mercado de trabalho funciona. Da mesma forma, quando o estudante participa de atividades práticas do curso ele tem a oportunidade de encontrar mais possibilidades e alternativas para se encontrar na profissão escolhida. O
FREDERICO WESTPHALEN, RSFernando Simonet
Jonathas Grunheidt
Jogos eleTrônicos podem ser fundamentais na interação entre as pessoas e até a formar amizades. “Os jogos me ajudaram a expandir quem eu sou e como vejo as outras pessoas”, conta Leonel Nadal de Oliveira, 31 anos, natural de Passo Fundo, município com 200 mil habitantes, onde reside. Desde criança, foi incentivado pelos pais a ter contato com novas tecnologias. Ele faz parte dos 74,5% dos brasileiros que jogam, segundo levantamento da Pesquisa Game Brasil, de 2022. Nesse cenário, a plataforma mais popular é o celular, com 48,3% de usuários.
Leonel ganhou seu primeiro console de videogame em 1997: um TV Gaming, similar ao Atari 2600. Na época, era muito difícil ter acesso a aparelhos eletrônicos na cidade. Por isso, as pessoas encomendavam com alguém que pudesse trazer do exterior. Logo depois, teve contato com o Super Nintendo, o Playstation 2 e o Playstation 4. Foi perto da virada dos anos 2000, entretanto, que ganhou a plataforma que se tornaria a sua principal: o computador.
Pelo computador, Leonel teve mais acesso aos games e conheceu o Cabal Online, que joga desde 2008. No game, um grande número de jogadores pode realizar atividades em conjunto, criando comunidades online. Ele é caracterizado como um MMO (Massive Multiplayer Online ou “multijogador massivo online” em português). “Quem me mostrou o jogo foi um colega de escola que veio de Santa Catarina, acabei fazendo amizade com ele”, comenta. Cabal deu origem a um grupo de amigos na escola de Leonel. Eles, inclusive, marcavam compromissos externos como partidas de futebol, por meio do game.
formação e Comunicação em Saúde pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Marcelo de Vasconcellos, afirma que uma pessoa não se desconecta totalmente de quem é ao jogar. “O jogo é um artefato cultural”, avalia
É o tipo de interação que chama a atenção do pesquisador
Yago Nascimento. “A interação social motivada por um jogo não se limita ao momento de jogar em si”, avalia o mestrando em Comunicação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Nascimento explica que a maioria dos games incentiva o jogo coletivo e diferentes formas de contato entre jogadores, então jogar raramente é uma atividade solitária. Para Nascimento, os games podem influenciar na construção da identidade de uma pessoa do mesmo modo que filmes, séries de TV, telenovelas e músicas. Não só o Cabal, mas outros MMOs foram responsáveis por contribuir com a personalidade de Leonel. O doutor em In-
As pessoas que assistem Leonel o fazem recordar a lembrança de, quando criança, observar a mãe Lourdes jogar videogame. Hoje, ele é streamer, e, nesse universo, mais conhecido pelo apelido, “Rinno”. O streamer é alguém que constantemente transmite por meio de uma plataforma ao vivo o que está fazendo, enquanto permite que pessoas com acesso à essa plataforma assistam e comentem sobre o assunto. No caso dele, a conversa é sobre games. “Achava muito legal compartilhar com outras pessoas o que eu estava fazendo e isso gerava interação”, completa. O filho de Lourdes conta que coloca nomes de animais com frequência em seus personagens de MMOs. O jogo Need for Speed: Most Wanted deu vida ao “Rinno”. O nome vem de rinoceronte e se deve a existência de um veículo no game de corrida chamado Rhino. Com duas graduações no currículo, Engenharia Ambiental pela Universidade de Passo Fundo, e Engenharia Civil, pela Faculdade Meridional, diz ter bastante experiência com pesquisa para produção de conteúdo e isso o ajudou a dar base para a carreira de streamer. Quem iniciou o projeto não foi ele, mas uma amiga. Eliana Mendes, mais conhecida como “Ranna”, mora em Porto Alegre. Ela conheceu Leonel por meio do Cabal, em 2017, ano em que ingressou no game. Ambos tinham o desejo de compartilhar o que faziam com outras pessoas. A ideia, no entanto, de início não foi para frente.
“Tudo aconteceu por causa da pandemia”, revela a streamer Em 2020, início da pandemia de Covid-19, quando as pessoas não podiam sair para a rua sem máscara, e muitos estabelecimentos fecharam, a empresa em que Ranna trabalhava encerrou as atividades. Sem perspectiva de trabalho, e com tempo livre, ela diz que os games foram responsáveis por reinventar sua vida social e evitar o desenvolvimento de doenças psicológicas, como a depressão.
As pessoas diziam que Ranna tinha boa voz para comunicação e ela sabia que seu computador era bom, então resolveu colocar a ideia de ser streamer em prática. Assim que aprendeu o suficiente para o projeto, chamou Leonel para
ser sócio. Hoje, os dois detêm uma rádio virtual focada em games. Nas transmissões, Ranna joga MMOs. Por serem embaixadores do Cabal, são responsáveis por representar e promover o game. Mestre em Comunicação e Práticas de Consumo pela Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), o pesquisador Mike Mazurek explica que muitos MMOs podem se transformar de prazer em trabalho, muitas pessoas vivem disso e há um amplo mercado envolvendo essa categoria de games
Leonel é fascinado pela franquia de games Dark Souls, conhecida por uma história fragmentada e por puxar os limites de seus jogadores para superarem desafios “impossíveis”. O streamer pontua que aprecia ler a descrição de itens para conhecer profundamente a história dos jogos. Especialmente no caso dessa franquia, a história não ser entregue de forma fácil desperta a curiosidade de muitos no sentido de pesquisar e debater para desvendar seu significado. O pesquisador Marcelo de Vasconcellos aponta que games podem servir tanto para produção de conteúdo como para criação e ampliação de comunidades. Com amplo conhecimento na área da saúde e tecnologia, Vasconcellos denuncia o pânico moral com os games. “Há um grande interesse em associar jogos à violência, é uma lógica que a sociedade tenta transferir os problemas dela para algo que não conhece”. O especialista assegura que, até o momento, não existe pesquisa que prove a criação de sentimentos violentos por parte dos jogos.
Especializado em Psicologia Junguiana pelo Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa (IJEP), Mike Mazurek explica que games como Dark Souls estimulam o desenvolvimento de tempos de reação e a percepção de padrões. Ele também cita que o ato de jogar games no geral provoca a produção de dopamina e adrenalina. Enquanto a dopamina é um hormônio que traz sensação de compensação e prazer, a adrenalina atua em situações de estresse ou excitação aumentando atividade muscular e acelerando o raciocínio. Lançado em 2018, Monster Hunter ado em grinding, ou trabalho árduo. Nele, o jogador cria um personagem e precisa enfrentar múltiplas criaturas pelo caminho. Mazurek esclarece que a fundamentação do grin ding está relacionada ao ciclo de enfrentar um desafio, ser recompensado e usar essa recompensa para desafios mais
complexos. No caso de Monster Hunter, o desafio seriam as criaturas e a recompensa, utilizar tais bichos na construção de armas e armaduras mais resistentes e poderosas.
Melancólico, Leonel relembra: “Em 2019, acabei perdendo minha vó. Quando você perde um ente acaba ficando horas sem dormir direito. Um jogo que me ajudou muito a espairecer a cabeça foi Monster Hunter: World”. O streamer complementa que a questão do multiplayer (multijogador) foi fundamental, já que se reunia com Ranna e os espectadores para caçar criaturas em conjunto. Ele recorda do maior desafio que realizou no game, obter todas as conquistas. Com 600 horas de jogo, alcançou os troféus de caça das criaturas mais raras. Completou, assim, as 100 conquistas na plataforma Steam, que conta com milhares de jogos. O professor Marcelo de Vasconcellos alega que as conquistas de games, geralmente, não possuem valor real. “Elas funcionam no contexto do jogo, ao adicionar valor ao produto e à plataforma em que o compra”, reitera o pesquisador. Os jogos eletrônicos, como qualquer mídia, podem ajudar em situações difíceis. No momento em que joga, a pessoa se sente herói de uma história, sabe como é ser alguém que toma decisões e interfere no rumo de acontecimentos, argumenta. Ele explica que, ao jogar, uma pessoa não se limita ao game. O jogador produz conteúdo, cria comunidades e grupos em redes sociais.
Nem todo jogo produz heróis. O pesquisador da Fiocruz afirma que os games permitem a vivência de outras vidas e com isso se aprende algo. Para ilustrar, conta o caso do game That Dragon, Cancer, desenvolvido nos Estados Unidos pelo pai de um menino com câncer. Lançado em 2016, o game conta a história da família. Na época, o menino já havia falecido, mas uma comunidade cresceu ao redor do jogo, e estimulou pessoas a compartilharem os sentimentos diante da perda de entes queridos para a doença. “Os jogos têm o poder de dar outras vidas para a gente e nesse processo a gente entende como é o outro, tende a ser mais tolerante e compreensivo”, reflete Vasconcellos. O
FREDERICO WESTPHALEN, RS
Christian Fonseca
Mariana Saldanha
Mauricio Mello
as experiências das salas de cinema, que marcam vidas com momentos únicos, até hoje são relembradas. Wilson Ferigollo, 84 anos, morador de Frederico Westphalen é um admirador dos filmes de faroeste e durante muitos anos foi um cliente fiel do Cine Floresta e do Cine Jussara. Ele já ganhou prêmios por frequentar o lugar todos os dias e até ganhou um mês de entrada grátis para assistir aos filmes. Com o fim do Cine Jussara em 1989, ele passou 30 anos sem uma sala de cinema e sem apreciar as experiências cinematográficas que tanto amava. A chegada do Cine Globo em 2019 trouxe à tona um sentimento de nostalgia para Wilson e uma oportunidade para as novas gerações criarem um sentimento de paixão pela cultura do cinema, a qual foi perdida na cidade.
O frederiquense diz que a experiência da sala de cinema foi importante para toda a sua geração. Desde o cheiro da pipoca até a imersão na sala, o cinema tem o poder de transportar o telespectador para vários lugares diferentes, às vezes até mesmo para locais internos da própria mente. Essa é uma experiência capaz de fazer qualquer pessoa fugir completamente da realidade.
Wilson relembra uma história muito famosa em sua época,
que aconteceu em Seberi, uma cidade próxima de Frederico. Um senhor estava assistindo um filme de faroeste, e nele havia a cena de uma onça que estava correndo atrás de uma menina. O homem levantou no meio da projeção e falou: “Já que ninguém vai salvar essa menina, eu salvo”. Tirou o revólver do bolso e atirou na tela do cinema. É por causa de vivências como essas que a possível falta delas preocupa o professor do departamento de ciências da comunicação da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Cássio Tomaim, que estuda cinema com foco em documentários, em especial documentários brasileiros. Tomaim acredita que as pessoas estão perdendo a experiência do audiovisual que apenas as salas de cinema conseguem transmitir. “O que eu temo muito enquanto sociedade é que cada vez mais nós estamos abrindo mão, em termos culturais, de espaços coletivos de consumo cultural, como é o cinema e como era a locadora”, conta. Com o início do streaming no Brasil, em 2011, muitas empresas viam nessa nova ferramenta de distribuição de filmes e séries como uma ameaça. Porém, para o atual gerente administrativo do Cine Globo, Samuel Schuch, 28 anos, vê o cinema como meio cultural e acredita que os serviços de streaming não representam uma ameaça, mas sim uma ajuda. “O streaming até agora está ajudando, não é uma ameaça, ao contrário, na verdade é um incentivo”, comenta. Com valor mais acessível e o fácil acesso, a pandemia acelerou o crescimento das plataformas. Houve a possibilidade de alcançar muita audiência e, com isso, auxiliar as obras
do audiovisual a chegarem a um público maior. Porém, muitas pessoas acabaram abandonando as salas de cinema pois preferiram o aconchego do seu lar.
“O cinema tem a capacidade de nos despertar um sentimento diferente de qualquer outra coisa”, como o próprio Wilson relata. Ir à sala de cinema se tornou um sentimento nostálgico. Essa incrível ferramenta de contar histórias, de levar o telespectador para outro mundo não pode ser substituída pela tela da TV, do celular ou do computador.
O professor Cássio considera o cinema um objeto de cultura, capaz de envolver entretenimento, conhecimento, difusão de ideias e uma ferramenta que utiliza a capacidade do ser humano de contar histórias, diz que o cinema também pode ser visto como o produto de uma época. De acordo com Cássio, um filme diz muito sobre a época em que foi produzido, já que nos permite visualizar todo o contexto histórico e social do período, principalmente os filmes do gênero documentário que são baseados em fatos e pessoas reais.
Para ele, uma eficaz forma de combater essa ameaça, seria por meio de políticas públicas que reconhecesse mais o valor do cinema, a partir de iniciativas em escolas, levando mais vezes alunos ao cinema como forma de preservação cultural, ou a partir de uma dinâmica diferente de aulas em disciplinas como por exemplo história, para que usem filmes de época ou até documentários para uma melhor compreensão de estudo em sala.
Mediante a tantas informações e perspectivas diferentes do que é o cinema e de tudo o que ele pode oferecer e agregar para a sociedade, nota-se uma carência de investimentos e políticas governamentais. Recentemente, com a Lei Paulo Gustavo (lei complementar nº 195, 8 de julho de 2022), houve a destinação de R$ 3,862 bilhões a estados, municípios e o Distrito Federal para incentivar a produção no setor cultural. No Rio Grande do Sul, o valor aportado foi de 104,3 milhões de reais, para ser repassado entre as 497 cidades gaúchas. Desse total, 74,25 milhões de reais foram destinados a projetos audiovisuais.
Essa é uma esperança para que haja mais projetos de incentivo cultural que possam trazer maior visibilidade e investimentos para o cinema, pois também é uma forma de valorização da arte. De acordo com o Anuário Estatístico da Agência Nacional de Cinema (Ancine), em 2017 dentre os 20 filmes com maior público nas salas brasileiras, apenas um era nacional.
Nos anos de 1964 a 1989, como relembra Ferigollo, os filmes favoritos da época eram os mexicanos. A falta de visibilidade nos filmes nacionais prejudicou o crescimento do cinema brasileiro no cenário internacional. Isso explica porque as obras domésticas jamais ganharam um Óscar e tiveram poucas indicações, como o filme O Pagador de Promessas,
de Anselmo Duarte. Outro filme nacional só foi conseguir uma indicação, na mesma categoria, 33 anos depois, em 1996 com o filme O Quatrilho, de Fábio Barreto. A partir desse episódio, o Brasil começou a se fazer mais presente na premiação cinematográfica mais aclamada do mundo. Lançado em 30 de agosto de 2002, o filme brasileiro com maior número de indicações na história foi Cidade de Deus, de Fernando Meirelles, indicado a melhor diretor, melhor roteiro adaptado, melhor edição e melhor fotografia. Infelizmente não levou nenhum, mas é um dos filmes nacionais mais reverenciados, tanto no Brasil quanto no mundo. A indicação mais recente foi para o filme O Menino e o Mundo, de Alê Abreu, na categoria de melhor filme de animação.
O cinema vai muito além das telas, como pensa Ferigollo, é uma ferramenta de educação e manifestação da capacidade que as pessoas têm de contar histórias, de acordo com o professor Cássio. Como cultura, para Samuel Schuch, é uma forma de escapismo para as pessoas, permitindo que elas possam se desconectar da realidade e se envolver em mundos imaginários.
Ao se deparar com tantas perspectivas únicas sobre o que é o cinema e sua grande amplitude além de somente um meio de entretenimento, como é comumente visto pela maioria das pessoas, para os amantes das telas, o cinema faz trazer novas histórias e novas vivências, e aí fica a pergunta para o leitor: O que é cinema para você? O
FREDERICO WESTPHALEN, RS
Christian Fonseca
Wilson Ferigollo manuseia seu acervo de negativos fotográficos da história do cinema em Frederico Westphalen
SOCIOECÔNOMICO
O BSE é a “porta de entrada” da assistência estudantil da UFSM e destina-se aos estudantes com renda per capita familiar inferior ou igual a 1,5 salários mínimos.
MORADIA ESTUDANTIL (CEU)
A CEU da UFSM FW tem 72 vagas de moradia estudantil, distribuídas em dois blocos com 18 apartamentos cada. Há moradias adaptadas para estudantes com deficiência.
A UFSM mantém políticas de assistência estudantil voltadas à permanência dos estudantes. Dentre elas estão os auxílios para transporte e para a aquisição de material pedagógico.
O RU oferecem café da manhã, almoço e jantar de forma gratuita para os estudantes que possuem BSE. Aos demais, parte do valor das refeições é subsidiado.
Universidade pública, gratuita, de qualidade e socialmente referenciada
Bacharelado – presencial – em: Agronomia; Engenharia Ambiental e Sanitária; Engenharia Florestal; Jornalismo e Relações Públicas –todos turno integral; Sistemas de Informação – turno noturno. Licenciatura – EAD – em: Computação e Educação Indígena.
Mestrado em Agronomia: Agricultura e Ambiente; Mestrado em Ciência e Tecnologia Ambiental; Especialização em Gestão de Tecnologia de Informação.