MEIOMUNDO REVISTA LABORATÓRIO DO CURSO DE JORNALISMO • UFSM FW • ANO 10 • Nº 10
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Conteúdo
Editorial
3 Não basta contar até dez
8 O peso da nota dez
12 Por entre os saberes da vida
16 Homo Musicus
19 A vida perfeita no Instagram
22 A mística da camisa 10
28 A vida e seus ciclos
33 (dez)compasso das horas
37 1 e 0, o DNA da máquina
39 Quilometros para a graduação
43 Dez letras que marcam
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O número, a década, a dezena, a soma dos dedos das mãos. Platão dizia que o dez expressa perfeição. Pitágoras falava no esplendor do universo. O filósofo e matemático representou a dezena com o triângulo denominado Tetraktys, formado por dez pontos, além de ter proposto a numerologia pitagórica, em que 1 + 9 = 10. O dez pode ter muitos significados na nossa cultura: o máximo, a plenitude, um ciclo, uma cobrança, uma mística. Além disso, é o primeiro número em conjunto, com duas partes. Na divisão, traz o tudo e o nada, o um e o zero. Partido ao meio, ou juntando as metades, temos nele um infinito de elementos a ver e a dizer. Nesta edição, enchemos as mãos para contar que a Meio Mundo chega ao seu décimo número. Vale frisar, não temos apenas uma década, nem fizemos aqui dez reportagens. Até porque os números não tem um horizonte fechado, o caminho é contínuo. Nos dedicamos, entretanto, a pensar sentidos singulares, inusitados ou desafiadores do número dez, positivos ou preocupantes, abstratos ou pragmáticos, ritmados, descarrilhados ou (simples/sutil) mente programados. Para nós, a edição dez é um marco a celebrar. Mais do que isso, é a renovação da oportunidade de experimentar, de propor e de reafirmar o espaço de criação dentro do curso de graduação, sabendo que nosso laboratório é uma grande oportunidade coletiva de construir. Novamente três disciplinas trabalharam conjuntamente para desenvolver a revista do curso de Jornalismo da UFSM Frederico Westphalen, fazendo chegar até você o fruto de um semestre de movimento e aprendizado. E cumprida a jornada, encerramos essa etapa dizendo, sem medo do clichê, que o mundo da reportagem é dez. Aproveite também para conhecer o Portal Meio Mundo, que nasce junto com a edição dez. Lá estão todas as reportagens em formato digital e nosso acervo: Boa leitura! www.ufsm.br/midias/experimental/meio-mundo Equipe Meio Mundo
Fotos: Douglas Cavalini | Arte: Victor Raimann
Não basta contar até dez A ansiedade é tão vital quanto perigosa para a nossa sobrevivência
Douglas Cavalini Foto | Texto
Respiração ofegante, suor, falta de concentração, tudo isso no momento em que precisava manter o foco em uma prova. Foi o que aconteceu com o estudante Rafael Oliveira*, 18 anos, ao tentar ingressar na oficina de cinema “É Nóis na Fita”, de São Paulo, que, na época, era o grande objetivo dele. A consequência não poderia ter sido diferente. Reprovado, experimentou a decepção com a nota e viu frustra-
Lorena Lobo Texto
Maria Eduarda Fortes Foto | Texto
do o sonho de pertencer a um projeto que tanto admirava. O nível de ansiedade cresceu. “E agora?”, perguntou a si mesmo. Ainda no caminho de casa, ele não conseguia pensar em outra coisa a não ser o resultado. Não havia ninguém para dizer “respire e conte até dez”. Assim que chegou em casa, Rafael não exitou em tomar 15 comprimidos de um analgésico e relaxante muscular de uma só vez.
“Eu vomitei a madrugada toda, perdi a consciência”, relembra. A atitude extrema não havia sido a primeira. Desde a infância, Rafael sofre com crises de ansiedade, mas só foi entender o que acontecia após a procura por ajuda. A solução que encontrou foi manter-se ocupado com os estudos de forma que, até mesmo, deixava de comer para continuar estudando. “Eu tive anorexia e foi bem pesado”, relata.
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Rafael começou a se automedicar aos 11 anos, quando descobriu que, para ele, o remédio causava uma sensação de anestesia. “Esse remédio não serve pra nada em relação à ansiedade, mas ele me deixava calmo e apático”, revela. À medida que as crises se tornavam fortes, ele tomava uma superdosagem de medicamentos, fazendo com que se sentisse mal algumas vezes. Contudo, na noite em que recebeu o resultado da prova, era justamente essa a sua intenção. Outra consequência da ansiedade, no caso de Rafael, foi a automutilação. “Comecei a me cortar quando era muito novo. Eu tinha 13 anos, nem sabia o que era, só fazia aquilo pra me aliviar”, explica. Apesar das atitudes extremas, em momento algum ele cogitou que seu quadro era, na verdade, o de um transtorno psiquiátrico. A frequência dos cortes aumentou, os amigos começaram a desconfiar e as desculpas já não faziam mais sentido. “Depois de um tempo, as pessoas começaram a perceber. Eu sempre fui meio desastrado, então, levava pra esse lado. Eram cortes bem menores no começo e, conforme foram aumentando, minha mãe e meu pai decidiram conversar e me levaram ao psicólogo”. “Eu só fui perceber depois que fui diagnosticado. Antes, eu nem parei pra pensar se era ou não ansiedade”, conta. É o que acontece na maioria dos casos: a doença passa despercebida, como é apontado por psicólogos e psiquiatras. Problemas familiares, episódios traumáticos, cobranças acadêmicas e até fatores genéticos explicam o recente aumento nos casos de transtornos psicológicos que, mesmo sendo sérios, muitas vezes são encarados como “drama” por amigos, familiares e até mesmo por quem sofre com a doença. Dados de 2019, da Organização Mundial da Saúde (OMS), mostram que o Brasil é o país com o maior número de pessoas com transtorno de ansiedade no mundo, e ainda revelam que falta seriedade e sensibilidade na hora
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“Estamos inseridos em uma sociedade que é muito rápida, muito ansiosa. Tudo é para ontem”, diz Maristela Mantovani.
de encarar esse problema. Mesmo que nem sempre as marcas da doença sejam visíveis, a ajuda profissional deve ser levada em consideração. No caso da ansiedade, tudo se intensifica quando surgem as crises, que podem aumentar de frequência. “É a pior coisa”, revela Rafael. “Ano passado eu tive algumas crises, a pior foi uma em que eu não conseguia levantar, fiquei travado, não conseguia fazer nada”. Para aliviar a tensão, muitas pessoas acabam descontando em algo: apetite elevado, insônia, alcoolismo e, até mesmo, “excesso” de estudo são alguns dos quadros que podem ser desencadeados. Nesses casos, só o acompanhamento psiquiátrico auxilia. Meditação, yoga, controle da respiração e medicação podem ser formas complementares de tratamento. Os fármacos, porém, acabaram por se tornar um tabu nos tratamentos dos transtornos psiquiátricos. Muitos pacientes se recusam a aceitar a necessidade de medicamentos ou acabam abandonando o tratamento por conta dos efeitos colaterais. “Eu tomava cloridrato de sertralina e ele inibia os sentimentos, eu não conseguia sentir nada, não sentia raiva, tristeza, felicidade, nada”, explica Rafael. “Eu não queria aquilo para minha vida, não queria ‘não sentir’ pelo resto da minha vida, então parei por conta própria”. Mesmo tendo, temporariamente, abandonado a medicação, Rafael continuou com o acompanhamento psiquiátrico, o que foi fundamental, comenta. “Eu acho que a psicoterapia vai muito além do tentar achar o problema, ela tenta entender você mesmo”. E completa: “O psicólogo sempre tentou trabalhar o que acontecia comigo, quem eu era, porque eu nunca tinha entendido muito bem quem eu sou e o que eu tinha vindo fazer”. O tratamento ajudou Rafael a compreender qual era o verdadeiro problema e como conviver com seus próprios dilemas. “O conhecimento sobre mim mesmo começou a mudar”, explica. Outro fator importante para a
melhora foi a escrita: “Como eu gosto muito de escrever, o psicólogo acabou me ajudando a criar um pseudônimo para meus textos, que eu uso até hoje: ‘Estranho Útil’. Porque, ao mesmo tempo que eu me sentia estranho, os textos eram úteis para as pessoas. E as iniciais formam ‘EU’”.
Estranha e útil Assim como a alegria, a tristeza, a euforia e o medo, a ansiedade tem um papel fundamental, como explica a professora Helena Christ, do curso de Psicologia da Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões (URI). “A ansiedade em si não é um transtorno. O que nos mantém vivos é a nossa ansiedade. É o que faz, por exemplo, a gente sair correndo quando um carro em alta velocidade ou um cachorro bravo vêm em nossa direção, e nos protegermos, esse é o papel que a ansiedade desempenha”. Definitivamente, toda pessoa já se questionou sobre a existência dela no mundo, pensou sobre a vastidão de sentimentos e de ideias que marcam o desafio de viver em sociedade. “Ansiedade é mais uma emoção, nós temos várias emoções, tristeza, alegria, a ansiedade é uma delas”, complementa. O papel da ansiedade é circunstancial, pode gerar reações positivas ou negativas. O que acontece, às vezes, é que os questionamentos e as incertezas são tantas que acabamos nos perdendo nesse emaranhado de inseguranças internas, o que pode tirar a verdadeira função da ansiedade. “Estamos inseridos, todos nós, sem sombra de dúvidas, em uma sociedade que é muito rápida, que é muito ansiosa, é urgente, ou seja, tudo o que se faz, faz-se para ontem”, explica a professora de yoga Maristela Mantovani. A tentativa de aliviar o estresse da rotina cansativa de professora universitária foi o que levou Maristela até o yoga. “Uma colega me falou do yoga e
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eu disse que não tinha tempo de praticar com a quantidade de coisas que eu tinha pra fazer. Só que um dia eu me senti muito mal dando aula. Foi um divisor de águas para mim. Fui atrás, então, de uma professora. Eu não encontrei, mas essa amiga encontrou uma e me matriculou”, conta. Cética, Maristela não acreditava que o yoga seria a solução dos seus problemas. “Eu tive uma certa resistência no início, mas depois eu fui conhecer. Fiz uma aula e já não conseguia sair da sala, porque, pra mim, aquilo foi uma das coisas mais maravilhosas que aconteceu na minha vida. Fiquei pensando em como é que uma hora de aula, que eu nunca tinha visto antes, podia ter me trazido tanta paz, tanta tranquilidade e bem estar”. Ao perceber todos os benefícios que a prática oferecia, Maristela decidiu fazer cursos de especialização na área. A paixão só aumentou, até que ela resolveu se dedicar integralmente, ajudando pessoas que buscam o autocontrole. “Fui fazer a formação, aí eu vim embora e comecei a praticar, porque eu realmente não achei na cidade modo igual ao que eu praticava lá. Já tinha formação, experiência e prática. Aí as coisas foram acontecendo e eu fui fazendo vários cursos. Foram surgindo cada vez mais oportunidades para trabalhar com o yoga”. O estresse de Maristela ao lidar com uma sala de aula cheia, assim como ao falar em público ou antes de uma prova importante, pode despertar a ansiedade em qualquer pessoa. Esses momentos específicos que tendem a nos deixar mais aflitos possuem um nome, como explica a professora Helena. “Existem situações que a gente chama de ‘situações ansiogênicas’, em que qualquer pessoa ficaria ansiosa”. É por isso que nem todo mundo que sente ansiedade sofre de um transtorno psiquiátrico. “A ansiedade passa a se tornar um transtorno quando ela começa a causar um sofrimento, que a gente chama de sofrimento clínico. A pessoa deixa de fazer coisas
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ou tem sintomas que atrapalham a rotina da vida dela”, afirma. “São vários sintomas físicos que uma pessoa com o transtorno pode ter, como insônia, sudorese, sensação de sufocamento, taquicardia e tremor”, exemplifica. A ansiedade, normalmente, é associada a pontos extremos, como quando a pessoa é diagnosticada e precisa de medicamentos. Mas esse sentimento é necessário, auxilia no funcionamento corporal, em momentos de aflição, além de servir como impulso para reações em situações inesperadas. Segundo a psicóloga Laís Piovesan, que atua na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), em Frederico Westphalen - RS, “a ansiedade nos tira da nossa zona de conforto para que a gente se motive a fazer algo. Quando é excessiva, porém, pode fazer o efeito contrário, que é paralisar a pessoa”, explica. “Tudo que a gente tem biologicamente, cognitivamente, emocionalmente, tem uma função. Assim como a ansiedade”, afirma. “De certa forma, de maneira bem geral, ela nos prepara para situações que podem vir. É um sinal de alerta para um perigo que pode estar na nossa frente. Sem ela, a gente não vai antecipar que aquilo tem uma importância e, consequentemente, um risco”. Encarar as situações com a devida importância é tão relevante quanto a preparação.
Mas e o contar até dez? A respiração ofegante e a falta de ar são dois dos principais sintomas de uma crise de ansiedade. Muitas vezes, a frase “conte até dez” é dita para que a pessoa possa retomar a calma, mas a ação vai muito além disso. Segundo a professora de yoga Maristela Mantovani, essa contagem seria um parâmetro para fazer com que a mente, que estava operando somente pelo emocional, no impulso, possa desacelerar. “A mente racional assume o controle, então”, explica.
Maria Eduarda Fortes
Yoga e meditação podem ser associadas a outros processos no tratamento de problemas cardíacos, respiratórios e questões psiquiátricas.
Os questionamentos e as incertezas são tantas que nos perdemos no emaranhado de inseguranças internas, o que tira a verdadeira função da ansiedade.
Essa contagem de respirações é importante, visto que ajuda a conscientizar novamente seu fôlego, proporcionando a normalização da oxigenação do cérebro. Com a regularização, torna-se possível retomar o equilíbrio emocional e mental diante da situação em que se encontra. Dessa forma, percebe-se o quão direta é a ligação entre a respiração e a ansiedade, pois a mesma é um transtorno causado pela condição do nosso estado mental. “A qualidade da sua respiração é a qualidade do seu estado mental”, explica Maristela. A simbologia da contagem até dez atua, portanto, de maneira preventiva para um possível caso de inten-
sificação da crise de ansiedade. Dos ataques mais leves aos mais fortes, o primeiro sintoma visível é a respiração ofegante e falha. A professora de psicologia Helena Christ deixa isso claro ao dizer que esse exercício de respiração, ou seja, a contagem, é o que faz com que o indivíduo consiga voltar a sentir-se melhor durante uma crise de ansiedade e que, muitas vezes, pode levar a um número maior do que dez. “A pessoa tem que contar a respiração até ela ficar bem”, ensina. Por isso, inspire, expire e lembre: não basta contar até dez.
*nome fictício
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O peso da nota dez Faz silêncio. Escuta. Escreve. Decora. Lê. Relê. É dia de prova. Responde. Erra. Acerta. Resultado: aprende? Caroline Kostuchenko Isadora Pazuch Foto | Texto
Existe um ditado que diz que se trouxéssemos um médico de cem anos atrás de volta à vida, e o colocássemos em uma sala de cirurgia, ele não teria ideia do que deve fazer. Se fizéssemos o mesmo com um professor que viveu há um século, todavia, a única coisa que talvez estranhasse é que, em algumas salas, os quadros mudaram de cor e agora são brancos. No Brasil, assim como em grande parte do mundo, a educação se mantém como uma das instituições que ainda preserva suas práticas mais tradicionais. Encontrar pessoas determinadas a mudar isso é um desafio. “O nosso sistema educacional é bem complexo, o que impede muitas coisas”, comenta a psicopedagoga Emanuelle Barreta, 39 anos: “Às vezes, o professor tem
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Gustavo Miranda Colaboração
uma iniciativa legal, mas o sistema faz com que ele não dê continuidade”. Existem diversos métodos de ensino e de avaliação, todos com objetivos semelhantes, porém, por caminhos diferentes. O modo tradicional, baseado em notas numéricas e em provas escritas, fortalece uma ideia de necessidade de padronização dos alunos. Para estudiosos da pedagogia, como Jussara Hoffmann, esse modelo prioriza a quantidade ao invés da qualidade e, sobretudo, é um sistema engessado, por vezes autoritário, pois não leva em conta que a aprendizagem é um processo de natureza individual. “É necessário avaliar a aprendizagem para que se tenha um diagnóstico do que precisa ser melhorado, mas se sabe que a avaliação não dá conta de
Isadora Pazuch
65% dos alunos de graduação pesquisados dizem se sentir, algumas vezes, pressionados a tirar nota måxima.
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dizer o quanto uma pessoa aprendeu ou não, a avaliação é limitada”, destaca a psicóloga e servidora pública Laís Piovesan, 32 anos, que também reforça que atribuir um significado a uma nota é supervalorizado. Para a docente e química industrial Eliane Pereira dos Santos, 43 anos, o ideal seria “poder avaliar um aluno por um semestre, dizendo tudo o que ele fez, o quanto foi proativo e se dedicou”, pois as pessoas não podem ser descartadas, precisam ser “lapidadas naquilo que elas têm maior facilidade de trabalho”, enfatiza. Para Juarez Prates Filho, 18 anos, estudante de Sistemas de Informação na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), em Frederico Westphalen RS, o sistema tradicional nem sempre agrada, pois não tem métodos para todos os tipos de alunos: “Ele não é justo, é eficiente para alguns. O ensino no Brasil é conteudista, o estudante precisa se adaptar para não acabar ‘ficando para trás’”. Quando se trata do método tradicional de ensino, muitas vezes, a ação dos alunos é no “modo automático”, fazendo com que o processo de criar e de exercitar o cérebro torne-se cada vez mais cansativo. “Até tem um aluno que fala ‘lá vem o professor Sandro de novo’ quando eu estou ditando um assunto. Pra eles, é muito fácil e cômodo, abrem o caderno, mas não vão trabalhar, só vão escrever mecanicamente”, conta Sandro Bottene, 38 anos, professor de Artes no ensino fundamental e médio. Construir uma aula criativa e envolvente pode, muitas vezes, ser um desafio por conta de algumas barreiras que são colocadas. Uma grande dificuldade, para muitos professores, é acompanhar as mudanças e, mesmo assim, percorrer todo o conteúdo previsto. “A criatividade não tem que ter limite, a gente precisa inovar. Acho que a tecnologia é uma ferramenta que precisa de ser usada a nosso favor”, reflete Eliane.
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“A nota 10 é muito relativa” Se o estudante só receber a informação, será que vai conseguir passá-la adiante? O que realmente é importante na hora de avaliar um aluno? “O que mais importa é a dedicação, a verdade, a seriedade no trabalho, o amor pela profissão. Gostar é muito importante, aí tu sempre vai fazer com amor, com vontade, sempre vai dar o seu melhor”, afirma Eliane. “O que eu percebo é que, com o passar dos anos, eles estão cada vez menos interessados pela teoria”, conta Sandro. Assim, a sociedade molda o aluno segundo padrões que o levam a se acostumar e a manter o mesmo pensamento, sendo apenas o receptor. “Cada vez mais o docente precisa ser criativo. Não podemos mais pensar como antigamente, as coisas estão muito diferentes”, reflete Eliane. Dentro da avaliação tradicional, o
termo “aluno nota 10” é muito conhecido. O engenheiro florestal e professor Jonathan Von Below, 29 anos, considera que essa expressão define o estudante além das notas: “Não acreditamos que alguém tenha essa capacidade na parte formal mas, no ponto de vista das trajetórias da aprendizagem, sim. Nós cremos que é possível ser um aluno nota 10, que se dedica ao estudo e a participação”. Contudo, podemos pensar: até onde é saudável classificar um estudante dessa maneira? “Toda a expectativa muito distante ou idealizada pode ser causa de sofrimento na medida em que aquilo que se espera é algo que dificilmente vai se alcançar”, responde Laís Piovesan. No decorrer desta reportagem, fizemos uma pesquisa com 72 estudantes de graduação, em que perguntávamos sobre o peso da nota 10 na faculdade e como isso pode afetar sua vida. Para 82% dos alunos pesquisados, a pressão para obter um desempenho elevado pode ser um agravante para distúrbios psicológicos, como depressão e ansiedade. Na infância, muitas vezes, os pais pressionam a criança para atingir a dita excelência mas, de acordo com a psicopedagoga Emanuelle Barreta, não consideram que a nota máxima nem sempre significa melhor aprendizado e desenvolvimento. Atualmente, a psicologia vem sendo uma grande aliada dos alunos. A busca por terapia tem aumentado em todas as faixas etárias, inclusive na infância. “Tem sido mais frequente ver crianças e adolescentes em consultórios de psicologia procurando tratamento, não apenas adultos” analisa Emanuelle. Dentro das universidades, Laís complementa: “A sensação de rendimento insatisfatório costuma ser um motivo comum de procura de terapia”. O papel da família, desde a infância, é indispensável na vida escolar e acadêmica. “Às vezes, a criança e o adolescente querem que o pai e a mãe se importem com eles, que perguntem como foi a aula, que vejam os cader-
“Outras coisas vão pesar mais que isso [as notas]”, pondera a psicóloga Laís: “Acho que essa pessoa realmente estaria deixando de viver outras coisas importantes na vida, que também fazem parte”. Dúvidas e erros são normais na aprendizagem e é função do professor estimular essas questões. “Corrigir não é avaliar, interpretar é avaliar”, explica Jussara Hoffmann, que não acredita que uma nota, seja ela qual for, possa resumir o aprendizado de um aluno. Buscar alternativas para reverter a situação é um grande desafio para os professores, assim como é um desafio para os alunos alcançar a famosa “nota 10”, cujas consequências precisam ser pesadas.
45% dos universitários participantes da pesquisa têm dificuldade em atingir a nota dez na graduação.
Caroline Kostuchenko
nos”, afirma Emanuelle. Apesar disso ser mais desafiador na faculdade, ainda é valioso quando a família demonstra interesse e apoio emocional. Rotinas cansativas, horas de estudo e, muitas vezes, isolamento da vida social. Tudo isso contribui para que a rotina escolar ou universitária se torne exaustiva e prejudique o estudante fora desses ambientes. “O aluno não é unidisciplinar, desempenho excelente em todas as matérias. Talvez não seja saudável para os outros campos, como o social. Tem pessoas que sacrificam o sono e a saúde”, comenta o estudante Juarez de Prates Filho. Não necessariamente quem tira notas altas na universidade terá carreiras de maior destaque do que os demais.
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Por entre os saberes da vida A fé no conhecimento molda histórias de quem teve ou não acesso à educação formal
Tereza Pereira Sampalo, 87 anos, nunca entrou em uma sala de aula. Por outro lado, a professora Angela Paloschi Mazzonetto, 56 anos, além de contribuir com a educação, teve o total acesso. No Brasil, o desequilíbrio da oferta de oportunidades no ensino formal atinge uma maioria, que é vítima de um poder que faz do descaso, vantagem. A divisão da população entre dois opostos, como é o exemplo das personagens, pode ser relacionada à dezena, que, ao ser desconstruída em duas unidades, representa o contraste entre o tudo (1) e o nada (0). Assumindo a décima posição entre todos os estados do Brasil, o Rio Grande do Sul recebe nota 4,7 no Índice de Oportunidades da Educação Brasileira (IOEB). Na rede pública, o estado atende aproximadamente 480 mil estudantes no Ensino Fundamental, 300 mil no Ensino Médio, 35 mil na Educação Profissional e 85 mil na Educação de Jovens e Adultos, de acordo com informações do governo do Estado. O IOEB dita as colocações a partir das notas dos municípios, estas, dependentes de resultados, de insumos e de processos educacionais. A taxa pode variar de zero a dez. Com nota 4,9 e a posição de número 1140 entre os mais de cinco mil municípios brasileiros, em Frederico Westphalen – RS, também encontramos exemplos da divisão entre aqueles que têm tudo e aqueles que nada têm em relação às oportunidades de ensino. Aproximadamente 117 mil professores contribuem na educação do país, contudo, de acordo com pesquisas efetuadas pelo Ministério da Educação (MEC), esse quadro tem apresentado queda nos últimos anos. Contrariando algumas estatísticas e comprovando outras, Tereza Pereira Sampalo, com um sorriso espirituoso, pele negra e algumas marcas ocasionadas pelo tempo, revela o que gostaria de fazer caso tivesse mais oportunidades: “O que eu queria ser? Eu queria ser professora”. Natural de Erval Seco, conta que as dificuldades da época e a necessidade de trabalhar desde a infância restringiram seu acesso à educação. “Dizem que não fui na aula porque não quis”, explica, revoltada. A estimativa nacional é de 11,5 milhões de analfabetos maiores de 15 anos de idade e, nesse grupo, o percentual entre negros é duas vezes maior que o de brancos. Tereza faz parte das estatísticas. A aposentada não identifica letras e números. A maior parte de seu tempo é dedicado a tarefas domésticas básicas e a momentos de lazer. Entre as dificuldades, a que mais impacta é a dependência de amigos e familiares para ir ao médico, ao supermercado, e até para realizar ligações telefônicas. “Como tu vê, eu tenho telefone ali mas, se eu preciso telefonar pra você, eu não sei, porque não conheço número, então preciso pedir pra alguém”. Tereza reflete que gostaria de ter obtido acesso ao ensino formal: “Poder estudar, não só trabalhar, né? Porque eu fiz de todos os serviços no tempo antigo. Eu queria que tivesse tido colégio. E eu acho uma falta, fia, saber ler, ih, demais! A coisa que mais faz falta é saber ler”. No segundo encontro com a entrevistada, em sua residência, havia um papel sobre um dos móveis da sala, escrito a lápis: “Te-re-za”. Esse detalhe expressa que, após recordar o seu passado e refletir sobre o seu presente, a vontade de aprender ainda existe. Contente, indica que entende a sua construção pessoal a partir da grande carga que carrega quanto às experiências de vida: “Eu tenho muita educação, graças à Deus!”.
Anna Júlia Carlos Foto | Texto
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Tereza Sampalo gostaria de ter sido alfabetizada para poder ensinar.
O tudo é minoria Com magistério integrado ao ensino médio, graduação em Letras – Licenciatura em Português-Inglês e duas pós-graduações: Literatura Infantil e Psicopedagogia, Angela Paloschi Mazzonetto recorda, satisfeita, ter tido alcance a tudo o que almejou. “Desde que iniciei minha vida estudantil frequentei o Colégio Nossa Senhora Auxiliadora, que é particular, mas tinha bolsa de estudos. Quando iniciei o magistério já não tinha mais bolsa, então, dependíamos dos deputados com a ajuda de investimento. Portanto, a cada semestre, escrevíamos cartas. Quando ingressei no ensino superior, também particular, já trabalhava, então eu mesma pagava”, explica. “Eu sempre fui envolvida com a educação, comecei a ser professora aos 18 anos. Em 1985, eu e minha irmã (Leoni Maria Egert), que também é professora, resolvemos abrir uma escola particular (Escola Infantil Pingo de Gente), por conta das poucas horas de trabalho na rede pública estadual. Traba-
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lhamos por 22 anos com a escola e ela existe até hoje, mas não é mais nossa”. “O ‘nada’ é maioria”, reflete. Natural de Frederico Westphalen, Angela reconhece que as distinções de oportunidades são presentes e visíveis. Como exemplo, cita o Índice de Desenvolvimento de Educação Básica, cuja política é a de que a quantidade de verba destinada a uma escola é proporcional a sua nota qualitativa e, em função disso, algumas instituições passam a selecionar os alunos, dando preferência àqueles de determinadas localidades, independente da lei federal de zoneamento escolar. Além disso, aponta a falta de acesso daqueles que precisam trabalhar e realizar atividades domésticas, mostrando que o problema pode vir tanto de uma questão externa, quanto interna ao que está no alcance do indivíduo. Por fim, após descrever a sua trajetória, a professora identifica as suas conquistas como a maior motivação para continuar lutando por uma educação para todos, e destaca: “O acesso ao conhecimento transforma!”.
Agentes da educação Com oito escolas de educação infantil e dez de ensino fundamental, Frederico Westphalen conta com um total de 296 professores e 2.125 alunos, de acordo com a prefeitura. A Secretaria Municipal da Educação e Cultura (SMEC) tem como responsabilidade gerir e manter a educação infantil e fundamental, com o dever de promover inclusão e qualidade. Liamar Pereira Della Méa, 45 anos, coordenadora pedagógica da educação infantil na rede municipal, conta: “Nós temos uma equipe multidisciplinar em processo. Há uma assistente social, que oferece todo tipo de apoio, uma fonoaudióloga, que presta sessões semanalmente, monitores para alunos especiais e capacitação para professores a partir de profissionais que podem auxiliar na área da inclusão: neurocientistas, médicos e psicólogos. Além da educação, a gente também se preocupa com a parte social em si”. Acerca da falta de acesso causada por questões financeiras, Liamar julga que, tanto na parte estrutural, como na parte material, o financiamento é muito importante, e é o que faz movimentar a “máquina da educação”. Segundo ela, se não o tivermos em conjunto com as iniciativas e políticas educacionais, o ensino com certeza irá perder. Além disso, adiciona: “Todo mundo opina na educação, todo mundo manda na educação, menos os verdadeiros atores: os educadores. Quem tem modificado a educação não está caminhando com ela”. Além da SMEC, outras associações também se dispõem a colaborar com o desenvolvimento do tema, como é o caso do segundo maior sindicato da América Latina, o Centro dos Professores do Estado do Rio Grande do Sul (CPERS). Representando mais de 80 mil professores, funcionários de escolas e especialistas da rede estadual, o sindicato tem entre suas finalidades
a valorização profissional e a defesa de uma educação pública, universal, laica e de qualidade. Integrante da Direção Central, Sandra Severo Regio, 62 anos, declara, via e-mail: “É muito diferente a realidade dos estudantes da periferia de uma cidade e daqueles que residem em bairros nobres. É incomparável também a estrutura das escolas públicas e das privadas. Nas públicas, é preciso conviver com a falta de recursos e de docentes, pois o governo não cumpre com o seu dever de propiciar as condições necessárias para o trabalho dos educadores”. Professora aposentada, Sandra é graduada em Educação Física pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Sobre a desigualdade, comenta: “Vários fatores influenciam na distinção e hierarquização da educação. Os indicadores sociais revelam que as oportunidades educacionais, no Brasil, não são iguais para todos os grupos sociais e étnico-raciais. Há uma diferença bastante expressiva entre ricos e pobres, brancos e negros no acesso à educação formal no país”. Um problema pois, para o sindicato, o ensino é a grande mola propulsora de tudo que acontece em sociedade. Ser um agente da educação é atuar sobre ela. Além de grandes programas como os da SMEC e do CPERS, pessoas de diferentes contextos podem contribuir, tanto com a conscientização da existência alarmante do “nada”, como mostra a experiência de Tereza Sampalo, quanto com o poder de participação prática e ideológica daqueles que se aproximam do “tudo”, como Angela Paloschi. Ultrapassar a realidade da falta e chegar ao pleno acesso à educação tem a ver com o simbolismo próprio do número dez, o primeiro número a existir em conjunto, na união.
Ângela Paloschi Mazzonetto movimenta a luta pela educação.
*Colaborou na apuração Yasmim Castanho
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Homo Musicus Os acordes de um universo inteiro se abrem na união do ser humano com a música
Victor Raimann Yasmin Vilanova Foto
Para a numerologia, o dez significa completude, perfeição e integralidade. Dentre todas as formas de arte, a música é a que mais se relaciona ao número da totalidade, pois age de maneira privilegiada no cérebro humano. As melodias causam diversas sensações e podem trazer um sentimento de plenitude. Conforme a musicoterapeuta Gabriela Pelozi, 33 anos, que atua em Nova Iorque, a música ativa diversas partes do cérebro e faz com que elas se integrem, como se fosse uma grande vitamina. Somos Homo Musicus. Mas o que isso significa? O termo é utilizado para caracterizar o homem que ouve, performa e cria música. Isso se deve ao fato de que as melodias sempre estiveram presentes na vida dos seres humanos, desde os primórdios, dos desenhos pré-históricos, da agricultura e, claro, da escrita. Cientistas acreditam que a música era utilizada como meio de perpetuar a espécie. Além disso, nossa estrutura corporal é, por si só, melódica. Temos ritmo nos nossos passos, na maneira como respiramos, na batida do coração e na sonoridade da voz. Por isso, não só consumimos, também somos música. Para o bacharel em música Everton Drechsler, 26 anos, graduado pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), a música tem o poder de fortalecer os anseios e a sensibilidade humana. Por consequência, as melodias são capazes de gerar autoco16
Aline Petry Zylda Bengochea Texto
nhecimento acerca de quem somos e porque somos assim. “Com a música, me sinto eu mesmo”, relata. Piano, teclado, acordeom, cravo, violino, violoncelo, baixo, guitarra e bateria são alguns dos instrumentos musicais que o acompanham nessa descoberta. O musicista possui uma longa história com as sonâncias, companheiras desde seus cinco anos. Foi quando o pai comprou um teclado para os irmãos, que acabaram não se interessando. “Fiz apresentações com seis anos de idade. Autodidata, aprendi violão vendo o pessoal tocando na igreja. Depois, trabalhei dos 12 aos 15 anos tocando teclado e acordeom. Aprendi a tocar guitarra e a cantar com minhas primeiras bandas de rock, com amigos do ensino médio, dos 14 até os 17 anos. Participei de meu primeiro festival de música aos 17”. Everton Drechsler tem uma relação profissional e artística com a música e acredita que ela ainda não é valorizada o suficiente: “Existem pessoas que tratam a profissão de músico de maneira superficial ou inexistente”, lamenta. O infeliz cenário dos profissionais da área é pouco debatido. “Os custos para formação, aquisição e manutenção de instrumentos são altos em comparação à remuneração e ao reconhecimento dos verdadeiros profissionais”, reflete Drechsler. Mas o multi-instrumentista está honrado por sua carreira, pois sabe o quão efetivo é o papel social da música: “Ela busca nossos
sentimentos mais profundos, faz com que nos sintamos completos”. Segundo a psicóloga Samia Prá, 56 anos, de Frederico Westphalen-RS, as melodias colaboram para que o ser humano se sinta relaxado devido à liberação de hormônios como endorfina, serotonina, dopamina e oxitocina, também conhecidos como hormônios da felicidade. A música não só é capaz de intensificar os sentimentos, mas também de tranquilizá-los, algo que o estudante de música Juliano Maciel, 32 anos, da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS), já experimentou em momentos de angústia, principalmente na adolescência, quando se refugiava no quarto para tocar: “Na juventude, a gente se desanima, está com raiva de tudo, de todos, então a música, muitas vezes, me trouxe esse acalanto”, comenta. Maciel, assim como Drechsler, encantou-se pela música muito cedo. Desde pequeno, acompanhava a mãe no coral da catedral Santo Antônio. Começou a cantar aos seis anos, nessa mesma igreja, motivado pela família: “Meus tios tocavam violão, fui criado nesse meio musical. O gosto pela música foi despertado cedo”, revela. Aos 17 anos, decidiu que gostaria de fazer mais do que apenas cantar em rodas de amigos na escola: “Eu precisava fazer alguma coisa diferente, montar um grupo, alguma coisa forte para me motivar na parte do canto”. Hoje, Maciel vive apenas da música
De cima para baixo, da esquerda para a direira, fotos 1, 4, 5 e 7 Yasmin Vilanova, fotos 2, 3 e 6 Victor Raimann
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e se sente completamente realizado. Administra 11 corais, além de ministrar oficinas de violão, teclado e flauta. Atua em oito municípios e afirma que, mesmo com algumas dificuldades, não seria feliz trabalhando com outra coisa. “A música me realiza financeiramente, espiritualmente e como pessoa. A música me completa”.
Onde estaríamos sem a música? O médico e psicólogo Caio Biotto, 26 anos, que vive em Rosário, na Argentina, explica que a música tem diferentes significados individuais e coletivos, como, por exemplo, em momentos históricos e conflitos. Para ele, as melodias servem como um equipamento humano de extrema importância social: “É uma ferramenta usada de várias formas, mas a principal é a expressão, pois é arte, cultura e religião, movimento e rebelião”. Gabriela Pelozi concorda: “A música vai desde as mais alegres, para dançar, para celebrar, até as mais introspectivas, que te remetem a paisagens, memórias e sentimentos. Ela é tão ampla quanto a própria vida emocional do ser humano, um espectro infinito. “Na história, a música já foi usada de várias formas, como gatilho para o início e fim de guerras mas, principalmente, como maneira de comunicar algo. Suas possibilidades são enormes. É uma das ferramentas mais poderosas se bem utilizada”, comenta Biotto. Sendo um apreciador de música clássica, como Bach, e do velho e bom rock n’ roll, o médico tem sua própria ideologia sobre o impacto da musicalidade na vida humana: “Sem a música, não somos nada, ela define nossa sociedade, sem música, só há vazio”. A sonoridade não é tangível, é intocável, mas pode ser sentida e percebida. A musicoterapeuta Gabriela compre-
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ende que as melodias são uma expressão da própria vida. “Existem padrões na natureza, no universo, no corpo, padrões biológicos. A eufonia é muito parecida com esse tipo de padrão. É como se expressasse a essência da vida”. Já Drechsler, considera a música parte de uma evolução ou motor dela: “Segundo a neurociência, o som desenvolve o sistema motor de coordenação, dissociação de membros, agregação e desenvolvimento da memória, tanto física quanto psíquica”. A ação da música no cérebro ainda é uma questão complicada de ser compreendida, até mesmo pela ciência, como afirma Gabriela. “A gente está engatinhando em termos de entender como o cérebro humano funciona. Ele é muito complexo e, mesmo que exames de imagem ajudem muito, eles acabam sendo apenas um mapa geral do que acontece”. A ciência, no entanto, já sabe que a musicalidade engaja integralmente a atividade cerebral. Ao fazermos música, estamos usando os centros da fala, da coordenação motora, da memória, do emocional e do cognitivo, tudo ao mesmo tempo. “É um exercício incrível. Então, acho que, de uma forma geral, uma das coisas mais importantes do fazer musical, na reabilitação neurológica, por exemplo, é o fato da música integrar todas essas áreas do cérebro”, ressalta a musicoterapeuta. Acredita-se que a dança é uma forma de demonstrar o que o corpo, a mente e a música são capazes de fazer quando se unem. Para George Balanchine, famoso coreógrafo russo, a dança é a música feita de maneira visível. Ela pode ser vista como a expressão corporal quando se ouvem as melodias, os compassos e os ritmos, uma resposta do cérebro. Como cita a professora de dança Eloisa Sampaio, 22 anos, que atua em Frederico Westphalen, a dança está ligada à música do corpo: “Acredito que o movimento, por
si só, tem algo de musical, na medida em que a respiração dita ou acompanha o ritmo do corpo. Mesmo quando a música não está audível, parece que acontece uma melodia interna que nos acompanha enquanto dançamos. Um está intrinsecamente ligado ao outro”. Portanto, a dança é tão importante quanto os instrumentos musicais. É a biologia envolvendo a musicalidade. O corpo sendo inspirado, correspondendo de maneiras incríveis à sincronia das batidas, vozes e tons. A sincronia entre a sonância e o indivíduo que performa, sente e se manifesta. “Todos nós temos a necessidade de nos expressar através de sons, da música, porque ela está dentro de nós”, expressa Gabriela Pelozi. A música é como uma carência humana. “Você dar a oportunidade para que as pessoas expressem aquilo com o qual elas são feitas é muito importante. Nesse sentido, eu gosto dessa ideia da música completar e de ser uma necessidade básica”, complementa. “Sem a música, estaríamos onde estamos?”, esse é o questionamento de Caio. Em seu ponto de vista, acredita que ainda há muitas questões inquietantes relacionadas à importância do som na vida humana. “É o mesmo que se perguntar: comunicar é uma forma de completar o homem? Sem esse recurso, não seríamos o que somos”. Na vida do universitário Juliano Maciel, a música é tudo. Para ele, ver as pessoas aprendendo a cantar e a tocar vai além de entretenimento ou profissão. Everton Drechsler descreve a música como uma forma de viver e de se desenvolver como pessoa. Nas leituras de Sigmund Freud, pai da psicanálise, percebe-se que ele via a música como algo complexo para explicar, mas de importância indiscutível na experiência humana, tal mostram os depoimentos aqui. “Não sei se ela nos completa ou nos faz completos. Deve ser um pouco dos dois”, afirma Caio Biotto.
A vida perfeita no Instagram A felicidade simulada nas redes sociais acaba por impulsionar transtornos psicológicos
Letícia Gazola Apuração Caroline Aroldi Foto Pamela Galdino Texto
Felicidade infinita, cabelos esvoaçantes, sorrisos, viagens, produtos milimetricamente “espalhados” por uma bancada de banheiro digna de filme, um corpo incrível, o look planejadamente despojado, dias agitados e muita alegria para compartilhar. Um ângulo que valorize, milhões de selfies, fotos espontâneas previamente calculadas, iluminação perfeita. Apenas o lado bonito da vida estampa o feed de milhares de jovens que compartilham a sua rotina no Instagram, rede social que tem como foco a postagem de fotos e vídeos. Para isso, constroem uma existência fictícia que representa apenas uma fração de suas vidas, enquanto, por outro lado, sonham em ter a realidade que veem em outros perfis. O desejo de satisfazer a expectativa do outro sempre esteve presente no ser hu-
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mano. O Instagram mostra claramente esse querer, sendo uma rede social composta por imagens, destinada a uma geração que supervaloriza as aparências. O resultado da publicação da foto é medido pela quantidade de curtidas que ela recebe: se tiver muitas, atingiu a expectativa; se tiver poucas, é melhor apagar, pois não foi aprovada. Todos os usuários julgam e são julgados ao mesmo tempo, assim, o desejo de ser aprovado pelo outro, que perdura desde que existimos, está condensado hoje na palma das mãos, e é possível acessar com um simples toque na tela do celular. Tanto a busca por curtidas e por aceitação, como a simulação de uma vida perfeita, podem trazer problemas aos usuários. A Royal Society for Public Health, instituição britânica para saúde pública, em parceria com o Movimento de Saúde Jovem, aponta o Instagram como a rede social mais nociva para a saúde mental. O estudo cita que o uso excessivo do aplicativo pode influenciar negativamente na autoimagem, causar insônia e FOMO, sigla para “fear of missing out”, o medo de se sentir fora dos acontecimentos. Além disso, é capaz de desencadear isolamento, depressão e ansiedade. Mas como uma mera rede social pode causar tantos problemas? Segundo a psicóloga Mônica Marcon, de Frederico Westphalen-RS, o Instagram é um universo paralelo a nossa realidade. Nele, tudo é perfeito, as viagens são incríveis e todos são a representação de felicidade e de beleza. Com isso, cresce um desejo desenfreado de possuir uma vida que não existe, além de uma insatisfação com a própria: “Os jovens estão com o cérebro se formando biologicamente, e ele vai se desenvolver até os vinte e poucos anos. Eles perdem três horas ou mais com uma tela de celular na mão, comparando a sua vida [com a dos outros]. Esse é o problema. Como é que eles vão desenvolver o cérebro adequadamente se perdem o tempo com esse tipo de coisa? Geralmente é uma ex-
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periência negativa, porque seguem uma pessoa que tem uma vida totalmente diferente da deles, sendo que, às vezes, nem é a vida da pessoa”. O estudo da Royal Society for Public Health sugere que as plataformas alertem, através de um pop-up, toda vez que houver uso exagerado, que auxiliem a identificar sinais de que os usuários estão passando por problemas de saúde mental, através do conteúdo publicado, e que ofereçam algum tipo de assistência emocional a essas pessoas. Em resposta, o Instagram passou a oferecer suporte para quem pesquisa pelos termos “ansiedade”, “depressão” ou “suicídio”. Ao digitar uma dessas palavras, a rede social abre um aviso: “Publicações com as palavras ou tags que você está procurando muitas vezes incentivam um comportamento que pode fazer mal a uma pessoa e até levá-la à morte. Se você está passando por uma situação difícil, gostaríamos de ajudar”. Caso o usuário aceite a ajuda, ele tem três alternativas: falar com um amigo, falar com um voluntário da linha de apoio (Centro de Valorização da Vida – CVV) ou receber dicas sobre saúde mental. Além disso, foi desenvolvido um mecanismo que mostra o tempo que o usuário usa o aplicativo por dia, tendo a possibilidade de acionar um alarme de uso excessivo, configurado pelo próprio usuário. Para o estudante de Relações Públicas Renan Rodrigues, 19 anos, da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), a relação com o Instagram estava sendo tóxica. Muitas vezes, ele desistiu de postar fotos, pois não sentia que atingia os padrões de outros perfis. Ao analisar a situação, passou a gerenciar o tempo no aplicativo, tendo como meta passar dez minutos por dia na plataforma e dedicar esse tempo para ver fotos de bailarinos, de roupas e perfis de alguns amigos, conteúdos em que possui interesse. Mas como Renan consegue acessar apenas o que seja benéfico para a sua saúde mental? O aplicativo desenvol-
veu um método de algoritmos com o objetivo de que as publicações mais relevantes para a experiência de cada usuário apareçam em seus feeds. A rede leva em consideração três fatores: a temporalidade, pois pesquisadores analisaram que os usuários querem ver conteúdo novo e recente a cada vez que usam o aplicativo; os relacionamentos, de modo que o Instagram analisa os perfis com os quais você se relaciona mais para entender a relevância das postagens feitas para a sua experiência; e o engajamento, tendo maior chance de publicações com muitas curtidas e comentários serem exibidos para mais usuários.
Musas fitness São comuns os perfis de homens e mulheres que seguem um dito padrão de beleza, em que a imagem de um estilo de vida saudável é facilmente vendida para o público. Dietas que antes eram muito conhecidas em grupos de apologia à anorexia e à bulimia, tais como low food (pouca comida) e no food (sem comida), passaram a se popularizar como um estilo de vida saudável no Instagram. Além da maioria das musas fitness não possuírem bagagem profissional para indicarem dietas e exercícios, elas passam a imagem de resultados milagrosos. Foi o que aconteceu com a estudante universitária Nicole Ramos*, 19 anos, que percebeu que estava sendo influenciada de forma negativa nesses temas e, a partir disso, decidiu filtrar suas redes sociais e deixar de seguir nelas perfis que lhe causassem frustrações com o corpo. Um exemplo recente é o de Mirian Bottan, 32 anos, que há alguns anos compartilhava sua rotina de dietas e exercícios, incentivando seus seguidores a optarem por uma vida saudável. Entretanto, ninguém imaginava que, por trás da imagem de corpo saudável, havia uma mente doente. Pelo Instagram, ela contou sobre a experi-
ência: “Eu postava a minha rotina fitness, mas escondia que era bulímica. Fui percebendo que aquilo não estava me levando a lugar nenhum, porque todos meus problemas continuavam ali”. Além disso, Mirian desenvolveu ortorexia, uma obsessão por alimentos saudáveis. Percebendo a situação, a influenciadora digital tomou uma medida drástica. Em agosto de 2017, decidiu apagar o passado de blogueira fitness da rede social e começou a dar unfollow em perfis semelhantes, em que os conteúdos eram pretensiosos. Após a “desintoxicação”, ela conta que passou a postar no Instagram sua caminhada de autodescobrimento, de uma “Mirian” além do corpo. Agora, ela alerta também sobre o perigo de seguir dietas de blogueiras e suas opiniões sobre alimentação e saúde. A influenciadora faz parte de uma comunidade no Instagram que luta contra a glamourização de transtornos alimentares na rede social. “Não é que você não pode mais querer emagrecer, não é que agora você é obrigada a se amar do jeito que é, não é nem que você não possa ter um ‘tanquinho’ como seu principal objetivo. Você precisa existir dentro desse corpo, senão, nada fará sentido”, escreve em seu perfil do Instagram. Esse tipo de movimento vem inspirando outras mulheres a verem além da imagem. A realidade perfeita não existe. É necessário atentar-se para os motivos que fizeram com que a postagem no aplicativo se tornasse algo mais atrativo do que vivenciar momentos e compartilhá-los de modo saudável. Não há sentido em dedicar grande parte do tempo desejando ter e ser o que não se é, de fato. Pensando nisso, Renan, Nicole e Mirian colocaram em prática medidas para cuidar do bem estar, tanto reduzindo o tempo nas redes sociais, quanto aproveitando melhor o convívio social, afinal, a vida é muito mais do que um clique. Modelo: Mariana Bueno *Nome fictício
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A mística da camisa
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A magia do número que virou símbolo de excelência dentro e fora dos gramados
Fabrício Lemos Marco Antonio Pereira Foto | Texto
“Eu nunca tive a oportunidade de jogar com a 10 mas, para mim, seria muito legal. A 10 representa a felicidade, muitos gols e habilidade”, conta o atleta mirim Lorenzo Folle. Ainda faltam sete anos para que Lorenzo alcance a idade em que um dos mais famosos jogadores da seleção brasileira vestiu, pela primeira vez, a amarelinha. Pelé completava 17 anos na época em que a escolha dos números era feita aleatoriamente. A 10 coube a ele, em 1958, após um sorteio para a Copa do Mundo, um acaso que o tornou responsável por abrir a mística da numerologia dessa camisa. Aos 10 anos, Lorenzo Folle nunca viu Edson Arantes do Nascimento, o Rei Pelé, atuando. Embora entenda a representatividade em seu senso comum, pouco sabe sobre toda história da mística do número dez no futebol. Atualmente, atleta das categorias de base do Polo da Chapecoense de Frederico Westphalen, o pequeno já jogou com a 99 e usa hoje a 62. Do primeiro grito de gol ao último suspiro antes de uma cobrança decisiva, o futebol mexe com muitas emoções. A descoberta do time de coração, o crescimento dessa paixão, a identidade da equipe, a imagem do estádio, a
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Andre Santos Yuri Martins Texto
vivência, o povo nas ruas, o prazer da vitória. Por mais fortes que sejam esses quadros, apesar de determinarem comportamentos, angústias e esperanças, são apenas parte daquilo que conseguimos expressar. Dentre os jogadores em campo, normalmente quem proporciona uma profusão de sentimentos é quem veste a 10, figura presente na poesia de Jorge Ben Jor, na rima da Turma do Pagode, na letra de Charlie Brown Junior e entre tantos outros enredos. A camisa 10 é usada pelo maestro que antecipa a música, assim como fez Pelé, que recebeu a bola na área, antecipou a marcação, dominou no peito, chapelou o zagueiro, finalizou no canto direito e, com muita maestria, marcou o gol que serviu para consolidar o primeiro título mundial da Seleção Brasileira em 1958. Lorenzo, em dias de chuva, arreda o sofá da sala e joga bola dentro de casa. As nuvens negras que encobrem o céu e não deixam que ele brinque com a bola no campo do Itapagé, em Frederico Westphalen - RS. Nuvens carregadas, no entanto, foram responsáveis por permitir que um garoto, nos anos 1980, pudesse realizar o sonho de ser jogador de futebol.
Marco Antonio Pereira
Dos pingos de chuva aos temporais Ainda criança, Paulo César esperava a chuva. Jogar futebol na lama era o auge da liberdade em tempos de privações. Seus pais trabalhavam no campo e o menino açoitava a terra com uma enxada. Sol era sinônimo de trabalho e o suor em seu corpo era de cansaço. Mas, assim que as nuvens escuras apareciam no interior de Ijuí, o garoto trocava a enxada pela bola. Era quando as gotas de chuva começavam a cair que a meninada aparecia. Em meio a traves improvisadas, crianças jogavam futebol e almejavam um dia vestirem a camisa de algum clube profissional. Apesar das muitas dificuldades, Paulo sonhava em ser atleta. “Eu sai do interior de Ijuí, então, para chegar onde eu cheguei, foi com muita luta, muita determinação e vontade. Eu morava a 28 quilômetros da cidade, então, ou vinha de carona, ou de ônibus. Foi complicado, mas o desejo supera qualquer dificuldade”. O tempo foi passando, as chuvas eram corriqueiras. Aos 17, Paulo não teve o acaso de receber a camisa 10 para disputar um mundial, mas ganhou a oportunidade de participar dos treinos na base do São Luiz, de Ijuí - RS.
Destaque entre os garotos, não demorou para que o menino da Linha 11 fosse convocado para o elenco profissional. Jogando pelas laterais, conquistou os olhares de dirigentes do Criciúma e foi contratado. Disputou algumas partidas, mas acabou sendo emprestado para outros clubes. Retornou a Santa Catarina em 2002 e, na volta, havia outro Paulo César no elenco do tigre. Com dois atletas de mesmo nome no plantel, a imprensa pediu para que o clube encontrasse uma solução. Foi então que “nasceu” Paulo Baier. “Ali eu surgi de novo, joguei todos esses anos como Paulo César e, depois, iniciou a era Paulo Baier. Daí as coisas aconteceram. O Paulo César era meia boca, o Paulo Baier era bom”, ressalta, com bom humor. Ainda em 2002, ele foi campeão da Série B com a equipe catarinense. Tornou-se uma peça indispensável no Criciúma. No ano seguinte, Baier disputou o primeiro Brasileirão. Marcou nove gols e despertou o interesse do Goiás, clube no qual foi atuar em 2004. “Eu joguei até os 27 anos lá, atuando como lateral. Já no Goiás, eu comecei a jogar com a 10”.
De 2004 a 2005, no clube goiano, Paulo marcou 23 gols. Foi vendido para o Palmeiras em 2006, e lá marcou dez gols no campeonato nacional, mas saiu da equipe paulista por conta de salários atrasados. Voltou para Goiânia em 2007 e ficou até 2008, marcando 27 gols. Em 2009, Paulo Baier chegou ao Athletico Paranaense, vestiu a camisa 10 e criou um temporal de gols. Ídolo da torcida, chegou a tornar-se o maior artilheiro da história dos pontos corridos na época, com 106 gols. “Eu acho que a 10 foi muito importante para mim, principalmente depois que eu cheguei no Athletico Paranaense, onde eu fiquei por 5 anos vestindo a camisa. Acho que a 10 é realmente uma camisa muito pesada e não é qualquer um que a veste”. Sem nunca ter jogado com a camisa da Seleção Brasileira, Paulo Baier sempre dedicou-se aos clubes pelos quais passou. Em junho de 2016, fez a sua última partida como jogador profissional. Aos 41 anos, com 233 gols e seis títulos em sua trajetória, pisou nos gramados da segunda divisão do Gauchão, pelo São Luiz de Ijuí, clube em que começou a carreira.
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Atual camisa 10 da seleção, venceu a Copa das Confederações de 2013 e o inédito Ouro Olímpico nas Olimpíadas do Rio em 2016.
Último brasileiro vencedor da Bola de Ouro (2007). Jogou em três Copas do Mundo e foi o dez em 2010.
Neymar da Silva Santos Junior | Jogos: 96 | Gols: 60
Ricardo Izecson dos Santos Leite “Kaká” | Jogos: 78 | Gols: 5
2014-2018
2006
Ganhador de duas Bolas de Ouro (2004 e 2005), fez parte do título em 2002. Foi o 10 na Copa do Mundo de 2006.
Ronaldo de Assis Moreira “Ronaldinho” | Jogos: 87 | Gols: 32
2010 Ídolo do Barcelona, fez 5 gols em 7 jogos na campanha do Penta do Brasil, em 2002.
Rivaldo Vitor Borba Ferreira Jogos: 74 | Gols: 32
1998-2002
O 10, desde a sua primeira convocação, ganhou a Copa de 1994 nos EUA, além de duas libertadores pelo São Paulo.
Raí Souza Vieira de Oliveira Jogos: 49 | Gols: 15
1994
1990 Paulo Silas do Prado Pereira Jogos: 34 | Gols: 1 Silas teve grande destaque jogando no São Paulo - SP. Jogou duas Copas em um meio-campo formado por ele, Dunga, Alemão e Valdo.
1982-1986 Arthur Antunes Coimbra“Zico” | Jogos: 87 | Gols: 64 O ídolo flamenguista foi o dez do Brasil em três Copas do Mundo, além de ser tetracampeão Brasileiro.
1974-1978 Roberto Rivellino Jogos: 121 | Gols: 43 Rivellino herdou a 10 de Pelé na seleção. Foi o destaque no título mundial de 1970.
1958-1970 Edson Arantes do Nascimento “Pelé” |Jogos: 92 | Gols: 77 Para muitos, o melhor da história. Fez com que a camisa de número 10 ganhasse a sua mística.
1950-1954 José Lázaro Robes “Pinga” |Jogos: 17 | Gols: 10 Atacante com passagem destacada pelo Vasco da Gama - RJ. Foi nosso primeiro camisa 10.
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A espera pela camisa 10
Quem foi 10: A camisa é reservada ao melhor da equipe. Na Seleção Brasileira, já pertenceu a jogadores com diferentes estilos.
Figurando entre os maiores jogadores que vestiram a 10 no cenário nacional, Paulo Baier já havia enfrentado o União Frederiquense em 2015, ano negativo na história do tricolor de Frederico Westphalen - RS, mas que ficou marcado por ser o ano da participação na divisão principal do Campeonato Gaúcho. Justamente naquele ano, o melhor meia e maior camisa 10 do Clube, Diego Miranda, natural de Sertão RS, atuou pelo Leão da Colina. “Ele é um cara bem diferenciado de todos os camisas 10 do União. Eu acho que o camisa 10, ou qualquer jogador, numa equipe, é aquele que você olha e sente uma diferença. Ele era um cara que fez o União, na época, sempre jogar direitinho”, enfatiza Elirio da Silva, torcedor assíduo do União Frederiquense desde a fundação. Aos 47 anos, Elirio, que já jogou em times de futebol amador, entende que a camisa 10 é destinada para o jogador que é canhoto [atleta que obtém domínio de bola e chute com a perna esquerda] e, no universo do futebol, essa camisa, e todo o “peso” que ela tem, é destinada ao jogador de meio campo e ao “craque” do time. Diego Miranda, no contexto futebolístico, pensa que reuniu as duas qualidades. Com apenas 23 anos, em 2014, comandou a equipe frederiquense, destacando-se e sendo um dos artilheiros da competição. “Tive uma passagem muito bonita pelo União Frederiquense, cheguei emprestado pelo
Passo Fundo e consegui marcar minha passagem pelo clube com a conquista do acesso para a elite do campeonato Gaúcho. Também fui um dos artilheiros. Na minha opinião, acredito que fui um dos melhores meias que passaram pelo clube”, comenta Miranda, atualmente no Caxias - RS. O atleta cravou a sua referência como 10 no, até então, Estádio Vermelhão da Colina, local onde o time mandava seus jogos. Na atualidade, a equipe e a sua torcida almejam um “craque” como Diego para comandar a equipe em seu novo local, inaugurado em 2019: a Arena União. O União Frederiquense de Futebol foi fundado em três de agosto de 2010. Prestes a completar 10 anos, o clube, até então, não conquistou outro acesso à primeira Divisão do Campeonato Gaúcho, talvez, devido à falta de um camisa 10 diferenciado, como foi Diego Miranda. O camisa 10 é, sem dúvida, o jogador que pode surpreender e desequilibrar uma partida, e até definir o status de um time. Elirio, como um exemplo de torcedor ferrenho, acredita muito na potencialidade dessa camisa. “O 10 é o suporte de todo o time, dá estrutura para toda a equipe. É o cérebro de um time. Eu acho que toda a equipe tem que começar com um camisa 10 que a represente com força”, enfatiza Elirio. “Quem veste a camisa 10 tem um papel principal dentro do time, é mais visado, é um jogador diferente”, finaliza Diego Miranda.
Arte: João Marcelino
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O sonho arde no peito
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A mística em torno da camisa 10 serve de inspiração para muitos. E não é diferente com Lorenzo Folle Sabino da Silva. O pai, Giovane Sabino da Silva, motiva o pequeno e sempre mantém vivo o sonho dele de ser jogador. “Ele é o meu maior incentivador. A gente joga bastante bola, mas ele não entende muita coisa. Às vezes sou eu quem explico”, conta Lorenzo. Foi apresentado ao futebol aos quatro anos. Sempre que podia, o pai o levava para jogar no campo do Itapagé, ou nos fundo do prédio em que se criou, em Frederico Westphalen. Uma das referências do garoto é Ronaldinho Gaúcho, tido como o maior camisa 10 das últimas duas décadas. O jogador fez brilhar os olhos do menino na partida contra o Grêmio, seu time do coração, quando ainda atuava pelo Atlético Mineiro. “Vendo lance de falta, de gol, habilidade, toque, passe, ele era muito bom”, conta, com admiração. A paixão pelo clube foi herança do pai. Ainda pequeno, Lorenzo lembra com carinho a experiência de ir a uma partida do Grêmio, pela primeira vez, na Arena, atual estádio do clube gaúcho. “Eu lembro que era Grêmio x São Paulo. O Grêmio perdeu e eu chorei um monte. Meu pai me consolou e disse que um dia eu iria novamente, quando fosse mais velho”. A cada ano, um novo time é montado para as disputas que estão no calendário do clube do coração. Algumas dessas construções de elenco Lorenzo já pode acompanhar. Quando perguntado sobre quem foi o maior 10 que ele viu jogar na equipe gremista, respondeu: “Zé Roberto [Meio campista que atuou de 2012 a 2014]. Eu acho ele muito bom. Ele bate falta bem, toca bem, é um jogador muito habilidoso”, argumenta. Com sete anos, Lorenzo entrou para uma escolinha de futebol para aprender sobre como pensar o esporte e desenvolver seus talentos. “Fiquei no Baixinho [treinador de escolinhas de futsal] por um tempo. Aí fui convidado para jogar no polo da Chape [Chapecoense, em FW]. Depois, deixei de
jogar futsal e comecei a jogar campo”, diz ele, contando sobre seus primeiros passos em busca do sonho. Ser um atleta profissional é um caminho longo e que exige perseverança. Muitos dos maiores camisas 10 do cenário nacional começaram a se destacar cedo. Lorenzo também almeja ser o melhor jogador do mundo. Sabendo da responsabilidade de vestir a camisa, ressalta que o dez tem de ser habilidoso e roubar as atenções para si: “A 10 representa muito”. O esporte pode ser algo simples, mas tem o poder de marcar vidas. Lorenzo tem duas partidas que jura não esquecer, ambas pela principal competição de futebol do continente, a Libertadores da América. Os confrontos disputados pelo Grêmio recentemente são destaque nas lembranças do garoto. “Grêmio x River, em 2018, e Grêmio x Lanus, em que o Grêmio foi campeão da Libertadores. Eu me recordo daquele golaço do Luan, muita habilidade, e tornou o Luan ‘Rei da América’ [nome que se dá para o jogador que é eleito o melhor da Libertadores]”. Buscando aprender, o menino assiste a muitos jogos: “até do filho do Cristiano Ronaldo, que joga na base da Juventus”, explica. Os pais o apoiam, mas não o deixam livre das responsabilidades nos estudos. Para praticar o esporte é necessário ter boas notas na escola. Quando o “não” para ir jogar bola na rua chega, uma mistura de sentimentos surge. “Ah, é muito ruim ter que depender da nota da prova para poder jogar. É para o meu bem, mas eu sinto a falta porque penso que meus amigos estão lá jogando, e eu em casa estudando pra prova”. O sonho arde no peito do garoto que, com os pés no chão, sabe das dificuldades da carreira. A vida é movida por vontades e histórias e, assim, também é o futebol. Paixões e esperanças em um emaranhado de sentimentos. O real peso de uma camisa 10, entretanto, só é sentido por quem a veste. Não é um peso físico, mas um peso simbólico, que faz muitos ainda sonharem com o seu momento nos gramados.
Fabrício Lemos Marco Antonio Pereira
Em Ijuí - RS, o camisa 10 Paulo Baier volta ao lugar onde tudo começou.
Lorenzo Folle sonha vestir a camisa 10 de um grande clube. 27
A vida em seus ciclos
Luísa Haas
As marcas do tempo nas etapas da existência humana
Clodomira Ferigollo, 100, tem a fé como alicerce de toda a sua história
Luísa Haas Sabrina Lermen Foto | Texto Mariane Brandão Texto
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Aos cem anos, Clodomira Maria Rizzatti Ferigollo reside na casa que construiu há oito décadas, ao lado do marido, na pequena Frederico Westphalen - RS. Natural de Santa Maria, veio ainda moça explorar uma cidade que “era puro mato”, afirma. Dona Mira, como é chamada pelos amigos e familiares, fez a própria casa com a madeira das árvores de canela que havia no terreno. Desde então, a casa passou a ser local de um grande encontro entre gerações, um lugar repleto de pessoas que buscam uma conversa, um aconchego ou um conselho da centenária moradora, que facilmente partilha histórias sobre diferentes desafios da vida.
A concepção de ciclos de vida tem a ver com inícios e fins, reviravoltas, mudanças inesperadas, fatos marcantes e evolução. O número dez traz em si a ideia de completude e de totalidade, uma simbologia de periodicidade em determinado espaço de tempo, capaz de definir etapas. Foi durante os preparativos das comemorações de dez décadas de vida que Dona Mira fez, para a Meio Mundo, um resgate de histórias desse tempo. Mira e o marido, Casemiro Ferigollo, tiveram oito filhos e, como resultado, foram avós de 18 netos e tiveram 21 bisnetos. O nascimento do primeiro filho, há oitenta anos, mudou totalmente a trajetória de dona Mira e a fez permanecer na cidade em que reside até hoje. “O nascimento do Wilson foi a minha felicidade, a minha graça de estar nesta cidade, porque eu ia voltar embora, mas quando ele nasceu, virou o meu companheiro e eu me esqueci de ir”, conta. Dona Mira, mesmo que tenha tornado-se mãe pela primeira vez em uma época totalmente distinta da que vivemos hoje, representa e compartilha do mesmo sentimento de Lucilaine Saleti Guarnieri Marcolan, 50, que deu à luz recentemente. Após 15 anos da primeira gestação, Lucilaine traça um recomeço para sua vida, por meio do início de um novo ciclo: o nascimento. Mesmo tendo passado por um aborto espontâneo, a vitalidade e a fé permitiram que ela não se abalasse, ainda que com poucas chances de realizar o grande sonho. A mulher que, no dia de seu aniversário, deu à luz a pequena Estela, atribui a gravidez à Nossa Senhora da Salete, que carrega também em seu nome. Para realizar o sonho de gerar uma menina, Lucilaine teve que passar por duas inseminações artificiais, que despertavam incertezas do bom resultado. O primeiro procedimento, que acabou em um aborto aos três meses de gravidez, poderia dificultar uma nova tentativa. “Mas eu não fiquei triste, porque eu sabia que o que estava programado iria acontecer”,
assegura. E aconteceu. Pouco tempo após a perda do bebê, o corpo dela havia se recuperado e já estava pronto para os materiais genéticos outra vez. Nessa oportunidade, a gestação evoluiu e deu origem à pequena Estela.
Fases e escolhas A infância é uma fase em que, como afirma Eduardo Zuffo Manfrim, 8 anos, a pior parte é “precisar comer feijão”. Eduardo e a irmã, Ana Clara Zuffo Manfrim, 6 anos, mostram a leveza de ser criança. Ele, o filho mais velho, tem o sonho de ser jogador de futebol. Sendo um grande torcedor do Grêmio, passa boa parte do tempo pensando e falando sobre o esporte predileto. Sua maior inspiração é o jogador Éverton, da equipe gaúcha. Ana Clara, a caçula da família, nunca quer deixar de ser criança. Fica triste em imaginar uma vida longe da mãe. Além da dedicação ao taekwondo, ela adora brincar com beyblade e fazer bagunça na companhia do pai. Apesar do temperamento semelhante, Eduardo gosta de Matemática, enquanto Ana prefere ler e escrever. Em comum, eles têm a grande animação em brincar de apocalipse zumbi. Assim como para Eduardo e Ana, para Dona Mira, as brincadeiras com os irmãos foram momentos marcantes na infância: “A gente brincava com o pai, a gente ia à sala de aula dele correr entre as classes”, relata. Clodomira, a terceira filha da família, sempre gostou de aprender, pois ouvia tudo o que seu pai, que era professor, ensinava em sala de aula. Apesar de não lembrar muito da infância, Dona Mira demonstra que, mesmo com o passar dos anos, a inocência e o entusiasmo de ser criança permanecem. Crescer nem sempre é fácil. Laura Brand Fabrizio e Isadora Brand Fabrizio estão passando por inquietudes da adolescência. Elas cursam o ano de conclusão do ensino técnico de Informática integrado ao Ensino Médio, no Instituto Federal Farroupilha (IFFAR-
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Etapas e desafios Em um instante, por força do acaso ou não, a vida entende que chegou a hora de não mais caminhar sozinho. Foi nesse propósito que o elo entre Talita Bueno da Silva, 18 anos, e Paulo José Frizon, 20, fortificou-se. Mesmo sendo um momento inesperado, Talita, aos 10 anos, encontrou pela primeira vez aquele que mais tarde se tornaria o seu marido. A distância de mais de 400 km os separou durante quatro anos. No entanto, nada parecia maior do que a vontade de estar perto. A inquietude gerada pelas longas ausências só dava trégua quando Paulo visitava a cidade em que Talita residia. A fase de perguntas deu lugar à certeza do casamento, além de grandes planos futuros, como uma casa maior, viagens e um casal de filhos. No caso de Miro e Mira, Casemiro e Clodomira, bastaram três anos até
Sabrina Lermen
Por fotos, Patrícia Machado, 42, rememora sua história. A base familiar foi a força para superar desafios.
-FW) e, com apenas 17 anos, já devem definir o futuro profissional. As irmãs ainda estão indecisas em relação à futura profissão, mas sentem afinidade com a área de Ciências Sociais e Direito. “Está chegando a hora de fazer o ENEM, eu vou ter que dar tudo de mim ali, porque o meu futuro está em um único dia de prova”, diz Isadora. Elas desejam viver em uma nova cidade, juntas e realizadas com as escolhas acadêmicas e profissionais. As possibilidades vivenciadas por Isadora e Laura não são as mesmas pelas quais Dona Mira se deparou na adolescência. Apesar de não ter feito curso superior, uma opção não muito viável durante as décadas de 1930 e 40, ela acabou tendo diversas profissões ao longo da vida. “Eu me fiz de colona [trabalhadora rural], costureira, tricoteira, me fiz de crocheteira, cozinheira... e o que eu não fiz eu não sei, era só trabalhar, só trabalhar”.
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Luísa Haas
Lucilaine Marcolan não pensou em limites do tempo e realizou o sonho da maternidade aos 50 anos.
que ele fizesse o pedido de noivado à companheira. Ela, aos 18 anos, resistiu um pouco antes de entregar-se, mas não havia muito tempo para pensar na resposta. “Ele me disse, ‘se eu não caso contigo, caso com outra’”. E, logo no dia seguinte, a resposta foi “sim”. Mais tarde, Dona Mira precisou conciliar o cuidado dos filhos com o acompanhamento do esposo em uma enfermidade de 40 anos. Após colocar uma grama de jardim em sua boca, um costume comum no interior, Casemiro contraiu uma doença chamada blastomicose, transmitida por fungos. Entre as características da doença, Dona Mira relembra o sofrimento de alimentar o esposo, que teve a boca e o nariz corroídos pelas feridas. “Elas cicatrizavam. Era preciso cortar para abrir os lábios e poder comer. Ele ficou dois anos de cama tomando só mamadeira, eu colocava todas as batidas na mamadeira”. Cassemiro não resistiu, vindo a falecer aos 85 anos. Ao descobrir uma doença, por vezes,
perdemos o rumo. Ao superar uma doença, ganha-se, sobretudo, a vontade de viver. “Eu gosto de viver o hoje. Eu gosto de pessoa que a gente diz ‘Vamos? Vamos’, porque a gente não sabe o dia de amanhã”, revela Patrícia Dazzi Machado, que venceu o câncer aos quarenta anos. Já no quinto mês de gestação, Patrícia procurou um médico devido à intensa falta de ar. E foi ali que o pesadelo começou. Diagnosticada, aos 39 anos, com um tumor linfoma mediastino raro, de 29 centímetros, que ficava entre o coração e o pulmão, Patrícia teve de optar entre o tratamento contra o câncer ou a gravidez. Impossibilitada de deitar devido às condições da doença, a mãe decidiu por realizar a cesárea no sétimo mês de gestação. E foi após esse acontecimento que Patrícia vivenciou o pior momento de sua vida: o filho, Miguel, faleceu enquanto ela continuava internada em Passo Fundo. Com menos de 1% de chance de vida, 20kg a menos, careca devido à 45 qui-
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Luísa Haas
Eduardo, 10, e Ana Clara, 8, demonstram o afeto entre irmãos. Confidenciam que adoram fazer bagunça na companhia do pai.
mioterapias e 23 radioterapias, Patrícia sempre contou com o carinho e com a presença e as palavras de força do esposo para conseguir superar o ciclo da doença. Em meio a idas e vindas entre o hospital e a casa, relata, o apoio e incentivo não cessavam: “Ele sempre me dizia que um dia a mais era um dia a menos”, recorda. Assim como Casemiro sempre teve o suporte da Dona Mira, Patrícia também encontrou a base de apoio na família e, principalmente, no marido. Foi por meio desse incentivo que Patrícia ganhou mais forças para seguir e, hoje, leva consigo os ensinamentos que a vida oportunizou. “Eu sempre digo: vivam! Não é passar pela vida, é viver”. Ciclos são experiências. Assim como
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Patrícia, depois da trajetória pessoal agitada, Dona Mira experimenta os dias de forma mais tranquila. Essa senhora que adora estar sempre bem arrumada, ocupa o tempo com orações, assistindo aos programas favoritos na televisão e cuidando das plantas que enfeitam seu jardim. Preza por uma rotina regrada e com horários demarcados. Clodomira conta que sua a festa de cem anos movimentou toda a família, parentes que moram longe deslocaram-se muitos quilômetros para ficarem próximos dela. Isso foi o mais especial na ocasião: “estar ao lado da família”. Nesse sentimento de celebração, ao relembrar os seus ciclos, Dona Mira sentencia: “A vida foi um grande aprendizado”.
Yasmin Vilanova
(dez) compasso das horas Cada intervalo do relógio faz do tempo uma história João Marcelino Foto | Texto Yasmin Vilanova Foto | Texto Nicole Ketlen Texto
Cada manhã marca o início de um novo ciclo. É como um momento mágico do dia. Seja numa rotina acelerada ou na calmaria, nunca sabemos exatamente o que cada novo amanhecer nos reserva, apesar de nos programarmos para aproveitar cada minuto. A cidade acorda e, com ela, acordam os sonhos das crianças que vão para escola, a vontade de ajudar dos que trabalham no hospital, a atenção de quem cuida do comércio, as surpresas da trajetória do ônibus, a rotina já enraizada dos antigos ofícios. Independente de sol ou de chuva, o dia precisa começar e, nele, certos horários são espe-
ciais para marcar o tempo de algumas pessoas e atividades. As 10 horas da manhã, por exemplo, podem definir o início de uma tarefa, uma pausa no trabalho e até o fim de um expediente. Para o relojoeiro Ivanir Bordignon, 66 anos, todos estamos entrelaçados no tic-tac de um relógio. Ele e a esposa, Janete, 64 anos, cuidam do estabelecimento com o mesmo apreço que dedicam aos clientes. Ao mesmo tempo em que a água para o chimarrão vai esquentando no pequeno fogareiro ao canto do balcão, eles já deixam tudo pronto para iniciar o trabalho. Pelas mãos do profissional, passam relógios
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Escola Estadual Cardeal Roncalli, de Frederico Westphalen, ninguém circula no pátio externo além de Adão Moreira, 65 anos, que monitora as entradas e as saídas. Para ele, a função é tranquila, já que os estudantes respeitam as regras gerais e a escola é vigiada por câmeras. Há 33 anos no posto, tem orgulho de ter acompanhado o sucesso de muitas pessoas que por lá passaram. Viu crianças que chegaram nas séries da pré-escola formarem-se no ensino médio, como é o caso do próprio filho, Cleomar Moreira, hoje com 40 anos. No hall de entrada, as funcionárias da coordenação e da direção estão de prontidão para diferentes tarefas: organização de documentos, alunos solicitando impressões, visitantes externos pedindo informações no balcão. O Diretor atua como um protetor da escola. Apesar de sério e ocupado, ele cumpre, simpaticamente, o papel de reger a instituição. O pátio pode estar vazio por hora. No refeitório, no entanto, o frenesi já começa antes das 10h. Os menores aproveitam a merenda e, quando o sinal toca, podem viver aventuras imaginárias em diferentes brincadeiras no pátio. Para os adolescentes, é a oportunidade de reunir-se em grupos para jogar conversa fora e para comprar comida na cantina da escola: “Um pirulito não pode faltar!”, declara um grupo de meninas do Ensino Médio. Dentro desse programa de tempo estão Ana Amélia Della Mea, 8, Vitória Costa, 9, e Maria Manuela Almeida, 9. As colegas do terceiro ano do Ensino Fundamental são fãs de Matemática e respondem, em uníssono, que é a disciplina que mais gostam. Por vezes, preferem ficar na sala de aula do que ir ao recreio. Quando conversamos, estavam estudando a Lei do 10.
João Marcelino
de inúmeros estilos que, depois, marcarão o ritmo de lugares distintos. Ele atua em Frederico Westphalen - RS há 46 anos, mas o ofício de relojoeiro já não é mais tão prestigiado como antigamente. Há uma desesperança no futuro da profissão: “ Não se vê um menino, um jovem, querendo aprender ou vindo pedir emprego. Então, é um futuro que, olha... sei não o que vai acontecer daqui a 10, 15 anos. É uma profissão em extinção”, diz. Mas isso não o desmotiva a continuar, está sempre bem humorado e com um sorriso no rosto. A expressão fica séria somente quando está mexendo nas peças minúsculas que compõem um relógio. Bordignon estudou até a oitava série na cidade natal, Francisco Beltrão - PR, e, para conseguir sustentar-se, teve de aprender o ofício. A Relojoaria TIC-TAC está na sua quinta localização na cidade e, além dos pedidos individuais, ainda atende a cinco empresas da região. Apesar de não ser o ramo mais seguro, por trabalhar com objetos de valor e a loja já ter sofrido um assalto, o relojoeiro adora o que faz. Deixa o ocorrido para trás e aposta em segurança para prevenir futuras infelicidades. Mesmo com os relógios digitais, a maior procura continua sendo pelo relógio quartzo, conhecido pela precisão. É em meio a troca de pilhas e baterias, pedidos para remover riscos, desamassar tampas e também alguns óculos, que Ivanir Bordignon domina a rotina com muita leveza. Os relógios estão por toda parte e nos orientam todos os dias. Em uma escola, por exemplo, os períodos são estipulados por intervalos de tempo, sendo divididos pela pausa do recreio. Antes que toque o sinal para esse momento tão esperado, quem olha de fora pode achar o local deserto. Na
A noção de dezenas e unidades é estruturada nos primórdios da educação escolar. A professora Gilseia Prestes, 41 anos, adotou o termo “Lei do 10” para designar o uso do Material Dourado, um instrumento para a aprendizagem de matemática. Por escolha do plano de ensino da professora, a construção das dezenas está presente na vida dos alunos desde a sala de aula até as atividades de Educação Física. “Na verdade, é tudo sobre a construção do dez, das dezenas. Eles fazem contas, desenhos, dinâmicas em grupos de dez”, explica Gilseia. Às dez da manhã, o ritmo acelerado do recreio vai, aos poucos, também chegando ao comércio. Nesse tempo, as portas já estão todas abertas à espera dos clientes e da agitação. Gabriel Steil, 19 anos, chega no trabalho às nove horas e já começa a servir as pessoas que vem para o café da manhã. No Vitrola Café, onde trabalha,
é comum ver pessoas chegando para tomarem um expresso enquanto escrevem em algum bloquinho de notas ou comem algo no tempo que resta antes de irem para o trabalho. Em outra parte da cidade, às dez da manhã, o Hospital Divina Providência vive o turno de consultas especializadas. Mesmo assim, não há folga nos demais serviços do hospital. Infelizmente, ninguém escolhe quando ficará doente. Aline Karpinski, 25 anos, e o colega Jonathan Damo, 23, já estão acostumados com essa realidade. O pronto socorro fica em total funcionamento e a recepção é o rosto do hospital. “O dia a dia as vezes é meio estressante por causa das pessoas, o emocional. A pessoa chega desestabilizada, já chega com algum problema”, comenta Jonathan, que trabalha há dois anos no hospital. Aline, há sete anos no local, complementa: “Tem que ter paciência, tem que ter força de
João Marcelino
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vontade”. Mesmo no início do dia, não há folga, a correria é sempre presente, pois, nesse ambiente, cada décimo de segundo é vital. Enquanto, para alguns, a metade da manhã é ainda um princípio das atividades, para a cobradora de ônibus Sirlei da Silva, 37 anos, é o encerramento do primeiro turno de trabalho. Começando às seis da manhã, ela chega na garagem da empresa para a retirada do ônibus, quando iniciam as idas e vindas do percurso entre a universidade e o centro da cidade. Sirlei interrompe o expediente para uma pausa. Isso faz parte de seus horários pré-estabelecidos que, para ela, são muito bons por dinamizarem o dia, com tempo para outros afazeres. Ivanir Bordignon segue usando seu próprio tempo para ajustar o tempo de outras pessoas. O período de distração das crianças vai encerrando e é hora de voltar para a aula. Seu Adão observa o pátio já vazio outra vez. Gabriel recolhe as taças de café e Aline e Jonathan ingressam em um novo atendimento no hospital. Enquanto isso, Sirlei caminha para casa em busca do cumprimento de atividades diárias. É um momento de liberdade, diz ela: “Eu não me preocupo muito com ter que fazer ‘tal coisa’, eu posso ir em banco, ir em mercado, ir aonde eu quiser nesse horário”. Quando o relógio marca seis horas, Sirlei inicia seu turno noturno de trabalho. O relojoeiro Ivanir prepara-se para encerrar as atividades. As portas da loja são fechadas e a bancada de trabalho é organizada para o dia seguinte. A escola Roncalli está quase vazia, na espera do turno da noite. Gabriel permanece em seu horário de trabalho e, a todo instante, atende a mais um pedido de café, organiza as mesas ou serve um pedaço de bolo aos clientes que saem do expediante diário. Às seis da tarde, ainda há muito trabalho para ser concluído. No Hospital Divina Providência, o atendi-
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mento continua. Entre idas e vindas, o hospital é preenchido e esvaziado de acordo com os laudos médicos. Na recepção, as dúvidas são atendidas, seguem as conversas sobre o dia a dia e, em alguns momentos, sobra tempo para o compartilhamento de um chimarrão. Mas nessa hora, Aline e Jonathan já preparam-se para encerrar o turno e dar espaço para que o de outra pessoa inicie. No ônibus, em meios a risadas e uma contagiante alegria, Sirlei explica como é a rotina de trabalhar, também, à noite. Há pouco tempo morando em Frederico Westphalen, a busca por emprego levou ela a atuar como cobradora, mesmo sem experiência. Por volta das 10 horas da noite, o ponto, na universidade, preenche-se em segundos. O silêncio é engolido pelas conversas entre amigos no tempo de espera. No emaranhado de pessoas querendo subir no último trajeto do ônibus, que chega às 10h10, Sirlei é rápida e ágil. Mesmo que todos já estejam acomodados, nada para. Aquele tempo coletivo é preenchido de histórias, conversas paralelas, sonecas e reclamações. Sirlei continua ativa, observando os pontos e trocando orientações com o motorista. Todos anseiam pelo momento em que chegarão em casa, marca do fechamento de mais um ciclo. De pulso, digital ou analógico, preso na parede da cozinha, no consultório do médico ou no galpão de uma fábrica, o relógio compõe o nosso tempo particular, vivido entrelaçado ao tempo do mundo. O tempo traça caminhos. E seu ritmo sempre será relativo, conforme anda o ponteiro e o ponto de vista de cada um. Mesmo quando parados, ainda estamos viajando pelo espaço rumo ao futuro. Um futuro indefinido, coexistindo no intervalo inaugurado e abocanhado pelo tic-tac, seja no hoje, na virada para o amanhã, daqui a dez horas ou neste exato instante que já se foi.
1 e 0, o DNA da máquina Existem 10 tipos de pessoas: as que conhecem linguagem binária e as que não conhecem
No mundo nerd, os geeks fazem usam piada acima em referência ao código binário, e ela merece atenção especial para ser interpretada. Explicá-la seria o mesmo que dividir a população mundial em dois grupos de pessoas, representados pelos números 1 e 0. No primeiro grupo, estariam as pessoas que entendem linguagem binária e, no segundo, as que não entendem. A lógica da piada é saber que o número decimal 2 é representado, na linguagem binária, pelo número 10. De modo contrário, o número binário 10, no sistema decimal, é 2. A linguagem é um mecanismo de recursos utilizado para comunicar algo, contudo, não é uma exclusividade do ser humano. Falada ou escrita, ela pode aparecer em formato de textos verbais ou não-verbais. Se há comunicação é porque existe linguagem. O código está diretamente ligado às atividades do homem, e as máquinas não escapam dele. Por exemplo, a linguagem binária é usada nos computadores tanto para processar informações, como para armazená-las e, nessa relação, linguagem e código, bem como homem e máquina, comunicam-se. Adriana Soares, professora do Departamento de Sistemas de Informação da Universidade Federal de Santa Maria - Campus Frederico Westphalen, comenta que a linguagem binária não é, propriamente, uma invenção da informática e, muito menos, da contemporaneidade: “A primeira contagem binária de que se tem registro é do século 3 a.C., feita pelo matemático indiano Srinivasa Ramanujan”. Segundo a doutora em computação, depois desse período, o sistema binário nun-
ca mais parou de ser estudado. Nos circuitos digitais, passou a ser usado somente em 1937. Professor no Departamento de Computação Aplicada da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Joaquim Vinícius Carvalho explica que a matemática binária é antiga, mas que o percurso dessa linguagem conta com alguns registros históricos que ajudam a compreender o processo. “O sistema binário moderno pode ser atribuído ao filósofo Gottfried Wilhelm Leibniz, do século 17”, esclarece. Entretanto, Carvalho pondera que há registros de contribuições bem mais antigas nesse campo, conservadas no Museu Britânico, como a do matemático algebrista e astrônomo inglês Thomas Harriot. Pesquisador e cientista do Departamento de Antropologia de Harvard, Gary Urton mostra que a civilização inca já praticava um tipo de comunicação não-verbal, codificada entre 1200 e 1532. No livro Signs of the Inca Khipu, de 2003, o estadunidense defende que os incas usavam o khipu, ou quipu, como ferramenta para processar informações. O khipu é um cordão de algodão no qual se amarram outros cordões e, com vários nós, era usado para organizar as informações contábeis da civilização. Esse esquema de controladoria tributária desenvolvido e praticado durante o Império Inca é visto pelos especialistas como um sistema binário, lógico e numérico.
Inácio de Paula Texto
Ligado e desligado Discutido em diversas áreas do conhecimento, o sistema de numeração
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binário funciona e ganha ressignificação no modo como as pessoas comunicam e relacionam-se socialmente, isto é, não se restringe ao computador. “A linguagem binária é utilizada para diversas tecnologias. De base eletrônica, a calculadora utiliza o sistema binário para os números digitados nela”, explica Adriana Soares. Já Joaquim Vinícius Carvalho generaliza ao afirmar que a linguagem binária serve para qualquer máquina digital: “A exceção são dispositivos analógicos, como alguns relógios de ponteiro”, exemplifica. O termo “binário” não é por acaso. A informação codificada assume apenas dois estados – de um e de zero – e o computador tem uma característica peculiar para distingui-los. “Associamos o valor 0 para desligado e 1 para ligado, promovendo uma maneira de diferenciar um estado de outro”, aclara a doutora em computação. Segundo ela, o funcionamento binário produz um sistema denominado biestável. Falar assim parece ser algo limitado, mas isso não é um resultado, pelo contrário. Na relação 1 e 0, não necessariamente nesta sequência, começam as infinitas possibilidades. Os computadores funcionam baseados em sistemas biestáveis e utilizam os símbolos 1 e 0, chamados de dígitos binários ou bits. “Da mesma forma como seres vivos são codificados por DNA, os computadores são por zero e um (dois dígitos, bi). Nessa analogia, o binário é o DNA de uma máquina”, compara Carvalho. O bit, a menor partícula da linguagem binária, é como se fosse o átomo. Um conjunto de oito bits formam um byte. Quando você solicita uma informação no computador, ele processa os dados realizando a análise do bit. A máquina identifica se é 1 ou 0, até que seja formado um conjunto de oito deles. Uma vez processados, eles produzem caracteres que, somados, geram a informação desejada. Uma das características que diferencia a linguagem binária da civilização inca da lingua-
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gem binária do computador é exatamente as suas composições de bytes. Enquanto o khipu possuía um código binário com sete bits, a segunda amplia esse conjunto para a quantidade de oito bits.
Como representa A sequência binária depende do que se quer representar. Uma das formas de conversão de um número decimal em binário é dividi-lo por dois. Basta que se lembre sempre da ideia de binariedade: “[Ela] indica algo que tem duas unidades ou algo que é composto por dois elementos de informação, duplo ou dobrado”, ressalta a professora Adriana. Quando o resultado da divisão do coeficiente for igual a 1, ou seja, menor do que o número pelo qual está sendo dividido – por 2 –, acontece a conversão de número decimal para binário. O número binário é o resultado das divisões. Quando o número decimal convertido for ímpar, o resultado final da sequência binária sempre vai ser 1, por exemplo, o 15 transformado em número binário é 1111. E o final sempre será 0 quando se tratar de uma conversão de um número par, como o número 2 que, convertido em binário, é 10. Depois disso, é só agrupar os coeficientes do último para o primeiro. Um conjunto de oito bits, ou seja, um byte, é um caractere qualquer que pode aparecer como número, símbolo, letra, cor e tantas outras possibilidades. Metaforicamente, seus estados podem ser entendidos como o ligado ou o desligado, o verdadeiro ou o falso, o preto ou o branco.
A internet das coisas Você não precisa saber fazer uma codificação binária para ser do grupo que entende essa linguagem, até porque existem cursos técnicos e universitários específicos que ensinam e que formam esses profissionais. Mas, com
certeza, a qualquer momento você pode se tornar um deles, como é o caso do acadêmico do curso de Sistemas de Informação da UFSM, Ueliton Brezolin. O funcionamento da linguagem de computadores é um dos temas de estudo desde que ele ingressou na universidade. Ueliton participa de um projeto que trabalha na criação de um sistema para automoção e controle de uma chocadeira comercial, de baixo custo, para pequenos produtores, coordenado pelos professores Ricardo Tombesi Macedo e Teresinha Letícia da Silva. O desenvolvimento caminha para aquilo que se tem como “internet das coisas”. O acadêmico conta que, com a evolução da tecnologia digital, existem softwares que realizam linguagem de programação mais completa. Segundo ele, a linguagem binária, hoje em dia, constitui um conjunto de outras linguagens de programação, usadas para realizar projetos, que permitem o desenvolvimento de outros softwares. A linguagem de programação é tratada como um modelo de alto nível, enquanto a linguagem binária, primária, é de baixo nível. Contudo, tanto a primeira quanto a segunda não podem ser vistas de modo indissociável, mas uma em função da outra, além de serem usadas nos circuitos do hardware, ou seja, nas peças do computador. O que a linguagem de programação faz é a conversão de uma linguagem mais cotidiana para uma linguagem binária, que é comum na máquina. O percurso histórico da linguagem binária à linguagem de programação parece apresentar uma autonomia por parte da tecnologia, mas, como pondera o acadêmico, elas não se encontram soltas e dependem da atuação humana. “A base de uma programação é um programador, sem ele, nada seria possível. Se existe automação, atualmente, tem um programador por trás. No dia em que a programação for auto programável, não existirão programadores, tornando a inteligência artificial um risco”, finaliza Ueliton.
Quilômetros para a graduação Cuscuz, família e calor são algumas das saudades de dez universitários da UFSM que deixaram suas cidades em busca da formação
“Fui criada sabendo que tudo gira em torno do dinheiro, do petróleo e da escravidão. Quero fazer a diferença”, relata a estudante Rafaela Rodrigues da Silva, 21 anos, sobre suas motivações. Ela cursa Engenharia Florestal e é natural de Piripá, Bahia. Os desafios em seu percurso são diários, principalmente diante da distância de 2.394 km da família e amigos. Assim como ela, diversos outros estudantes da Universidade Federal de Santa Maria - Campus Frederico Westphalen, vindos de longe, tiveram que se adaptar à sensação de estarem “perdidos”. Em 2017, O Brasil possuía aproximadamente oito milhões de estudantes matriculados no ensino superior, contando, nos últimos tempos, com um aumento de 56,4% no número de universitários, além de um crescimento anual de 4,6%, segundo o Ministério da Educação (MEC). Assim, a vida universitária passou a fazer parte do desenvolvimento das cidades, muitas vezes, trazendo estudantes de diversas regiões, como é o caso de Frederico Westphalen - RS, município que conta com várias outras instituições, além do campus da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Rafaela sempre sonhou em ter a palavra “doutora” em frente ao nome. De família simples, revela que também encontra dificuldades em sua cidade natal, visto que a falta de empresas dificulta as oportunidades de emprego: “O máximo que a gente pode fazer lá é trabalhar na padaria do Tio Zé ou limpar a casa de alguém. Minha vó tem sessenta e poucos anos e, desde que eu me conheço por gente, trabalha em casa de família, cuidando de idosos. Minha família está nessa situação, sem conseguir nem se sustentar”. A estudante sonha em mudar o mundo a partir da sua formação acadêmica: “Eu quero conseguir conversar com as pessoas, mostrar o lado da história que nunca foi mostrado. Sou uma mulher preta, nordestina, que não condiz com o estereótipo que um cidadão brasileiro e trabalhador deveria ter”. A universitária depende do Benefício Socioeconômico concedido pela UFSM. Também conhecido como BSE, ele é ofertado a aproximadamente 30% dos alunos do campus, auxiliando na moradia, na alimentação e na permanência dos estudantes dentro da universidade. Por outro lado, quem ainda não possui o auxílio, como Taiane Centenaro Borges, 20 anos, de Bom Jesus do Sul, precisa encontrar outra solução. Amparada pelos familiares, muitas vezes, tem o apoio financeiro vindo do irmão. Com a rotina acadêmica, as dificuldades para conciliar um emprego são grandes. Quanto a isso, a estudante procura uma renda extra através de “bicos” como, por exemplo, cuidando de crianças e auxiliando no adestramento de cães.
Jeferson Matielo Paola Sturzbcher Foto | Texto
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A saudade é outra grande dificuldade, conforme conta
Paola Sturzbcher
A interiorização e as políticas de acesso às universidades trouxeram novos fluxos para estudantes e cidades
Willame Tiago da Silva, 30 anos, que está a aproximadamente 1800 km de casa. Natural de Brasília - DF, fala sobre a importância dos pais, irmãos e sobrinhos: “Sem eles, eu não conseguiria continuar a caminhada em direção ao diploma”. Quando se sente desamparado, busca paz e tranquilidade em meio à natureza. Alice Rodrigues, 21 anos, estudante do primeiro semestre de Jornalismo, que deixou Fortaleza - CE para construir uma vida acadêmica e profissional, explica que, ao mesmo tempo que
sente saudade, pensa que está se estabelecendo: “não vou desistir agora.” A quase 4.000 km de casa, ela acredita que, mesmo longe, sempre terá apoio. “Eu sei que eles vão me entender, e vejo que, cada vez mais, eles irão me esperar. A amizade e o amor não vão acabar por causa da distância”. Outra consequência para quem vem de longe é o choque cultural. No sul, o traço tradicionalista forte, por vezes, afasta aqueles que não são da região: “Talvez role um preconceito, isso tem em todo o lugar”. Para Alice, no entanto, as pessoas foram muito receptivas, o que desmente a dita rixa entre nordestinos e sulistas. “Os gaúchos são muito tradicionalis-
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tas, até estudam sobre sua própria cultura. É algo muito forte no Sul”, comenta Bruna Pinheiro de Moraes, 17 anos, estudante de Engenharia Florestal. Natural de Manaus - AM, 4.050 km distante, define em uma palavra o que mais sente saudade: “A cidade. Simplesmente porque aqui é um lugar pequeno e lá era muito grande”. Acostumada a morar com a família, mudar-se para um lugar com pessoas desconhecidas foi um enorme teste. “Existe falta de privacidade. Tem coisas que eu me limito em fazer por conta da privacidade delas [das companheiras de apartamento]. Penso nelas, então fico mais quieta”. Essa falta de comodidade também é
sentida pelo estudante de Jornalismo Felipe Gomes Machado, 17 anos, que vem de Santa Bárbara D’Oeste - SP (a 1.020 km). Ele mora com outras duas estudantes e sente falta de estar com a família. Já para Natália Pires de Oliveira, 22 anos, que cursa Engenharia Ambiental e Sanitária, o calor e as temperaturas altas da cidade natal, Paracatu - MG, a 1.700 km, é o que mais causa estranhamento. O clima instável do Rio Grande do Sul surpreende muitos estudantes que não estão acostumados com as trocas, por vezes imprevistas, de temperatura e acabam nem trazendo roupas adequadas para enfrentar o período de frio intenso.
Se, para muitos, a saudade de casa é o
principal problema, Josias Junior, 25 anos, estudante de Engenharia Ambiental e Sanitária, sente falta mesmo é da comida típica do estado de Pernambuco, distante 3.440 km de FW. “É uma luta diária viver sem cuscuz”, brinca. O propósito de vida dele, no entanto, é conhecer diferentes culturas e costumes. Junto com a graduação, Josias decidiu realizar o sonho de conhecer vários estados do Brasil, passando um período em cada lugar. “Eu já estudei em três universidades, faço um período em uma, um período em outra, e assim vou conhecendo as culturas e as regiões”. Josias desistiu do emprego numa multinacional para seguir essa ideia. “O país é muito vasto e rico culturalmente”, justifica. Mudar de uma instituição particular para uma pública é algo que acontece frequentemente entre os alunos que não possuem grandes condições financeiras. Na maioria das vezes, o processo acontece próximo à conclusão do curso, como é o caso da aluna Ana Beatriz Salles Ramos, 21 anos, de Sistemas da Informação. Natural
do Rio de Janeiro - RJ, a 1.430 km, estudava em uma universidade privada, com mensalidades muito altas. Quando conseguiu ingressar na UFSM, viu outra perspectiva de futuro. Beatriz, que já fez técnico em informática, diz que ter o conhecimento que a faculdade disponibiliza diferencia as pessoas no mercado de trabalho. Segundo o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP), quase 56% dos alunos que entraram na faculdade não se formaram com os colegas do curso de graduação no qual se matricularam, ou por abandono, ou por troca de instituição de ensino. É o caso de Rodrigo Ferreira Belo, 28 anos, de Goiânia - GO, que viajou 1.605 km para estudar na UFSM, em Frederico Westphalen. Na capital goiana, cursava Ciências da Computação. Com o decorrer do tempo, viu que o curso não era o que ele almejava. Algumas complicações pessoais o impulsionaram a fazer cursinhos preparatórios para vestibulares e a começar uma nova jornada de estudos, até conseguir entrar no curso desejado: agronomia. “Trabalhar no que gosta é essencial para uma boa qualidade de vida”, afirma Rodrigo.
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Jeferson Matielo
Estudantes buscam alternativas de renda para a manutenção da vida universitária
Todos os anos, milhares de candidatos buscam a melhor universidade para se graduar por meio do Sistema de Seleção Unificada (Sisu), programa do Ministério da Educação (MEC). Ele oferece vagas para as instituições de ensino sem a necessidade de prestar um vestibular para cada universidade. Assim, o sistema utiliza as notas do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) para selecionar os alunos para instituições públicas. A graduação desejada, todavia, pode estar longe da cidade natal dos estudantes e, por isso, a persistência é certamente uma das palavras-chave que passam a acompanhar a nova rotina acadêmica e pessoal depois da mudança para a nova realidade. “Mesmo que você se sinta mal em sair, deixar família e amigos, isso é por uma causa maior. E vai fazer uma
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grande diferença tanto para você mesmo como para as pessoas a sua volta”, pontua Alice. As oportunidades que se encontram ao estudar em uma instituição fora do seu estado são inúmeras e, segundo Taiane, vale muito a pena: “Independentemente do curso, tem professores muito qualificados. A universidade federal te dá oportunidade de conhecer novas coisas, pessoas e até culturas, tem gente de todo lugar. Te dá uma base boa, uma carga de experiência de vida imensa”. Assim, esses dez estudantes seguem suas jornadas, entre idas e vindas pelas distâncias múltiplas que os separam de casa e também dos objetivos profissionais. A cada viagem, porém, a certeza de que o sonho está mais próximo é o que os mantém firmes na jornada, muitas vezes quilométrica, da vida universitária. *Colaborou na apuração Kethelyn Pazini Petter.
Jornalismo: dez letras que marcam
Pe. Mauro Luiz Argenton
Ofício e histórias pessoais são entrelaçados por quem abraça a profissão
Todas as manhãs, na cidade gaúcha de Iraí, um televisor está ligado no programa Bom Dia Santa Catarina, de Florianópolis. Já acomodada, com o chimarrão em mãos, a auxiliar de enfermagem e massoterapeuta Susete Konig, 53 anos, acompanha o programa (foto). Mas a atenção não é necessariamente nas notícias do estado vizinho. Os olhos estão na apresentadora, a jornalista Eveline Poncio, 31 anos, a filha mais velha de Susete. Formada pela primeira turma de Jornalismo da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), em Frederico Westphalen RS, Eveline hoje atua no telejornal matutino da NSC TV. Susete conta, com orgulho, a história da filha, intimamente ligada ao campo da comunicação: “Desde criança, foi extrovertida. O pai fazia programas de rádio e ela ia junto”. Com 14 anos, escreveu para a revista Zerou, do Zero Hora. Foi a primeira vez que teve algo publicado. O começo, no entanto, não foi fácil. Ainda antes de iniciar a graduação, Eveline foi até uma emissora de rádio da cidade natal, propondo um estágio voluntário. Ouviu um sonoro “não”: deveria voltar depois de formada. A primeira decepção. Mas isso não a desanimou, pelo contrário, motivou a busca pelo aperfeiçoamento. Superando dificuldades, conseguiu iniciar a graduação na UFSM, intercalando o estudo com o trabalho de telefonista na prefeitura e, depois, atuando como repórter no jornal O Alto Uruguai, de FW.
Flávio Pettenon Pe. Mauro Luiz Argenton Foto | Texto Leonardo Datsch Luis Kaufmann Texto
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Flávio Pettenon
Adriana Folle, 42, chefia a redação do jornal O Alto Uruguai, em Frederico Westphalen.
Após a conclusão do curso, Eveline continuou trabalhando no jornal local, entretanto, como lembra Susete, ela não queria seguir no impresso. “Queria muito mais, Frederico ainda era pouco”. Seu sonho sempre foi trabalhar em televisão. A jornalista atuou em vários municípios em busca de qualificação. Contudo, ainda havia barreiras quanto às questões financeiras: “A mídia era grande, mas o salário era pequeno”, salienta a mãe. Sobre o início da carreira da filha em TV, Susete conta: “Ela só conseguiu alugar um apartamento embaixo do trem, de três peças. Era um local seguro, mas bem ‘barrulhentinho’”. A convicção de Eveline em relação ao jornalismo foi maior do que os empecilhos. “Queria ser uma grande profissional, reconhecida por isso, e acho que foi uma consequência da minha batalha. Cheguei aonde cheguei com muito esforço e respeito pela profissão”. Histórias semelhantes surgem no relato de outras jornalistas. Gherusa Cassol, 43 anos, é assessora de comunicação na Universidade Regional Integrada (URI), em Erechim. Essa mesma função ela desempenhou,
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desde março de 2016, no campus de Frederico Westphalen. Formada em 2000 pela Unijuí/RS, iniciou na RBS TV enquanto ainda cursava o quarto semestre da graduação. Além disso, atuou em rádio, jornal impresso e digital, além do meio político, como assessora de imprensa na Câmara de Vereadores de FW, em 2018. Para ela, ser jornalista é motivo de muitas alegrias, recordando que o início da relação com o campo profissional foi um tanto mágico: “Era algo muito distante, fora da minha realidade de adolescente. Eu escolhi a profissão em decorrência do elogio de uma professora”. Gherusa guarda na lembrança o carinho das pessoas: “Quando me encontram na rua, me abraçam e agradecem por ter ajudado, com o meu trabalho, a resolver problemas”. Adriana Folle, 42 anos, também é formada pela Unijuí (em 2002). Muito antes da graduação, já atuava, tendo iniciado, aos 12 anos, na rádio Chiru de Palmitinho - RS, sua cidade natal, permanecendo na emissora até 2003. Além de atuar como sonoplasta, produzindo e apresentando programas, também ocupou a função de coorde-
nadora de jornalismo durante um ano. Na mesma época, Adriana transferiu-se para o jornal O Alto Uruguai. Nessa empresa, exerce a função de editora-chefe, coordenando o trabalho de jornalistas, estagiários e revisores, além de produzir conteúdos. Presente em várias editorias, teve maior reconhecimento após produzir o caderno Região. “Fica como referência, as pessoas me conhecem como a Adriana do O Alto Uruguai”. Outro marco da profissão foi a produção da revista do cinquentenário do jornal. O machismo foi testemunhado. Gherusa relembra o preconceito sofrido ao atuar em jornadas esportivas dentro de campo nos jogos em Ijuí: “Sofria assédio e era xingada pela própria torcida”. Mas, quando o conteúdo das reportagens ia ao ar na TV, acabavam as críticas: “Eu posso dizer que conquistei o respeito de muita gente pelo resultado do meu esforço”. Além disso, situações ainda mais severas cruzaram o seu caminho, como por exemplo, ameaças e agressões físicas em manifestações. Adriana Folle também teve que superar desafios na trajetória. Algumas dificuldades foram marcantes, como a relação alguns os colegas de trabalho. “Mal me cumprimentavam e, durante um ano, trabalhei nesse clima, que se tornou bastante difícil e hostil. Essa condição foi decisiva para a minha vinda, em turno integral, para o jornal”. Além disso, algumas recordações são extremamente impactantes: “Eu estava em um sobreaviso de plantão, era uma noite de muita chuva e, em dois acidentes, morreram cinco pessoas”, relembra.
O nosso meio O suporte da família é essencial para o começo de qualquer profissão. Eveline Poncio recebeu incentivo em sua jornada desde os 18 anos. Adriana, da mesma forma, sempre obteve apoio de sua base familiar, em Palmitinho-RS. Durante a faculdade, dividia-se
entre a cidade de Ijuí e a casa dos pais. Depois que se formou, casou-se com Giovane Sabino da Silva, que sempre trabalhou na área da comunicação. Atualmente, ele é diretor da rádio Fortaleza, de Seberi-RS. A jornalista destaca que o apoio do esposo foi importante, mas relembra a insatisfação do filho, Lorenzo Folle Sabino da Silva, 10 anos: “Por muitas vezes, meu filho reclamava por não ter a presença constante dos pais nos fins de semana. Isso me fez rever os horários de trabalho para ficarmos sempre juntos”. Gherusa, por outro lado, teve que abdicar algumas questões de seu casamento. “No início, foi difícil. Logo que me formei, eu também acabei casando. Tive uma filha e precisei largar o jornalismo, fiquei dois anos sem atuar, depois acabei me divorciando e priorizei a profissão”. No caso de Angelo Lorine, da Rádio Luz e Alegria, dificuldades financeiras impediam o ingresso em um curso superior. Ele viu na UFSM uma oportunidade: “Quando surgiu o curso de Jornalismo eu nem pensei duas vezes”. Durante o curso, na falta de condições para pagar o aluguel, se hospedou na casa de seus familiares. “Eu morei com uma tia, no bairro São Cristóvão (em FW), durante os quatro anos da faculdade”. Dessa forma, o anseio pela formação acadêmica tornou-se realidade. Já para Heloise Chierentin Santi, 31 anos, jornalista na rádio Chiru, a história é outra. “Eu não queria fazer jornalismo”, confessa. Natural de Jaboticaba-RS, ela conta que fez a prova do vestibular apenas para incentivar o irmão, que iria concorrer ao curso de Engenharia Florestal, uma vez que já havia sido aprovada em outra universidade. Essa foi a época em que sua mãe interveio na sua futura caminhada profissional, após escutar na rádio o listão dos aprovados no vestibular e não permitir que Heloise fosse para longe. Ela acredita que os fatores de idade e de distância foram os responsáveis pela decisão da mãe, que pre-
feriu obrigá-la a cursar Jornalismo na UFSM em Frederico Westphalen. “Eu era uma menina de 16 anos. No final das contas, acabei gostando da comunicação”, explica. Para Angelo Lorini, Heloise Santi e Philipe Gustavo Portela Pires, formados na primeira turma do curso, em 2010, receber apoio familiar, formar parcerias e criar laços de amizade ao longo da trajetória acadêmica são circunstâncias que possuem importância e, além disso, auxiliam em momentos difíceis. Angelo rememora que, na universidade, dividia as salas de aula com outras turmas, assim como acontecia com os equipamentos: “Tínhamos apenas duas câmeras para toda a turma de Jornalismo”. Com tantas dificuldades no caminho, a força para continuar essa jornada era uma busca compartilhada. “Quando fazíamos uma festinha, todos se reuniam”, descreve Philipe, afinal, na época, contando com poucos alunos, a união passava a ser um ponto forte dentro do campus. Não havendo acesso ao transporte público, o retorno depois das aulas aparentava ser mais curto quando contava com as conversas e brincadeiras em grupo. “Havia uma senhora que nós chamávamos de Maria, sempre parávamos na casa dela para beber água, era algo normal”, menciona. O jornalista também relata que não era apenas nos momentos de confraternização e de alegria que os amigos apareciam, reforçando, assim, o conforto gerado pelos laços afetivos.
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O nosso mundo
Flávio Pettenon
Philipe (E), Heloise e Angelo, egressos da primeira turma de Jornalismo da UFSM-FW, entrelaçam as experiências de formação e de atuação profissional.
“Acho que eu sou uma pessoa muito melhor desde que descobri o meu papel. Ser jornalista significa ser a voz das pessoas, dando importância a tudo o que muda a vida delas”, conta Eveline. Dessa forma, a apresentadora mostra como o jornalismo marca não somente o profissional, mas, principalmente, o público que o acompanha. A realização vivida por Eveline fica claramente refletida na satisfação de sua mãe: “A primeira vez que apareceu apenas mão e a voz dela, pra nós, foi a maior felicidade do mundo. Ela ainda não podia se mostrar [o rosto], mas apareceu na TV. Para nós foi assim... cada acontecimento na vida dela a gente vibra”. Já para Adriana Folle, ser jornalista é “ser útil para a sociedade em todos os sentidos. É ser importante na vida das pessoas”. Se-
gundo Gherusa, o jornalismo significa a realização de um sonho. Eveline não desistiu ao ouvir um não quando procurou seu primeiro estágio em uma rádio. Adriana demonstrou resistência ao se tornar chefe de redação. Gherusa, por conta de um relacionamento difícil, precisou interromper seu trabalho por dois anos. Heloise e os colegas enfrentaram grandes dificuldades para conseguir a formação que almejavam, como caminhar seis quilômetros diariamente para poder estudar, conforme contam Angelo e Felipe. Tudo isso foi significativo na vida desses jornalistas. A profissão, que toma forma ao entrelaçar uma infinidade de histórias, registradas em páginas, sons e imagens, também se revela valiosa nas experiências que marcam cada relato. Das dez letras é possível abrir uma coleção de incontáveis realizações.
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Quem somos Meio Mundo é uma publicação laboratorial do Curso de Jornalismo, do Departamento de Ciências da Comunicação, da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Campus Frederico Westphalen, desenvolvida nas disciplinas de Reportagem em Jornalismo Impresso, Reportagem Fotográfica e Planejamento Gráfico.
PROFESSORES RESPONSÁVEIS
Angela Zamin (MTB 9591) Paulo Munhoz (MTB1438) Reges Schwaab (MTB12575)
EDITORES DE ARTE
Isadora Pazuch João Marcelino Maria Eduarda Fortes
EDITORES DE FOTOGRAFIA
Caroline Kostuchenko Yasmin Vilanova
EDITORES DE TEXTO
Anna Júlia Carlos Douglas Cavalini Isadora Pazuch Zylda Bengochea
REPÓRTERES
Aline Petry Andre Santos Anna Júlia Carlos Caroline Aroldi Caroline Kostuchenko Douglas Cavalini Fabrício Lemos Flávio Pettenon Inácio de Paula Isadora Pazuch Jeferson Matielo João Marcelino Leonardo Datsch Letícia Gazola Luísa Haas Luis Kaufmann Lorena Lobo Maria Eduarda Fortes Mariane Brandão Marco Antonio Pereira Nicole Ketlen Pamela Galdino Paola Sturzbcher Pe. Mauro Luiz Argenton Sabrina Lermen Victor Raimann Yasmin Vilanova Yuri Martins Zylda Bengochea
CAPA E ILUSTRAÇÕES REVISÃO
Anna Júlia Carlos Laura Bucholz
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Meio Mundo, ano 10 número 10, julho de 2019. Chefia do Departamento de Ciências da Comunicação: Cláudia Herte de Moraes Coordenação do Curso de Jornalismo: Márcia Elisa Vanzin Boabaid Tiragem: 700 exemplares Impressão: Imprensa Universitária Universidade Federal de Santa Maria Campus Frederico Westphalen Linha 7 de Setembro, s/n BR 386 Km 40 Frederico Westphalen - RS CEP: 98400-000 +55 (55) 3744-0600 Caixa Postal: 54
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