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Revista Meio Mundo | ano 9, n.9 | ed. digital e impressa| 2018.1

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MEIOMUNDO REVISTA LABORATÓRIO DO CURSO DE JORNALISMO • UFSM FW • ANO 9 • Nº 9

PODEMOS FAZER MELHOR A sustentabilidade ambiental em nossas mãos


Sumário Viver em Frederico Westphalen 3 Cuidar do rio 6 A caminho do saneamento como prioridade 9 Poluidor em potencial ou fertilizante adequado? 12 Um cenário difícil na agricultura frederiquense 14 Desafios à expansão da agroecologia 17 A permacultura como alternativa 20 Plantar e colher para a subsistência 22 Na rota do tráfico e no mapa da urbanização 25 Onde foram parar as árvores? 29 Visão para redução de impacto 33 Uma relação autodestrutiva 36 Crescimento vertical urbano 40 Proliferação e combate 43 Conquistas da educação ambiental 46 Expediente 51

Editorial Essa edição da Revista Meio Mundo é dedicada à temática ambiental, tendo em conta que se trata de um dos principais desafios da humanidade em todas as escalas. Precisamos de ações sustentáveis do campo à cidade, da escola à universidade, de pessoas, comunidades e governos. Não é uma tarefa fácil. Por isso, a Organização das Nações Unidas (ONU) lançou os chamados Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS). Trata-se de um conjunto de ideias sustentáveis para uma agenda de mudança ampla em direção a um futuro melhor. As reportagens que trazemos aos nossos leitores surgiram dos contextos locais, porém com esse pensamento global. O que estamos fazendo pela melhoria da qualidade de vida em nossa cidade? Qual o papel de autoridades e comunidades neste sentido? Que iniciativas apontam para novas formas de viver e conviver entre homens, natureza, animais? Como cuidamos de nossos bens comuns como água, solo, árvores? Os jornalistas em formação do Curso de Jornalismo da UFSM foram bem recebidos pela comunidade regional, a qual agradecemos imensamente. Que nosso trabalho seja, de fato, uma contribuição ao debate. Não há respostas simples ou ações fáceis para a mudança que, em grande medida, deve acontecer em nossa cultura consumista, predatória e embebida dos preceitos do progresso a qualquer custo. Por isso, sabemos, não existem modelos prontos. Ao relatar dificuldades, problemas e soluções desta área, Meio Mundo busca colaborar para a transformação socioambiental necessária em direção a um futuro sustentável para todos. Boa leitura!


Pesquisa

Viver em Frederico Westphalen Como a população considera o meio ambiente e a qualidade de vida no município

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cidade que um dia se chamou simplesmente Barril hoje é Frederico Westphalen, um dos maiores municípios do Médio Alto Uruguai. Sua população é estimada em quase 30 mil habitantes, segundo dados do IBGE de 2010. Destes, 23.333 habitam a zona urbana e 5.510 a zona rural. Frederico está se tornando um grande polo de educação universitária, o que contribui para o desenvolvimento municipal. Práticas nas áreas metalúrgica e agropecuária também são destaques. Mas, além disso, muitas mudanças interferem no cotidiano do frederiquense que aqui reside. A qualidade de vida é uma discussão muito presente na atualidade, já que as pessoas passaram a se preocupar mais com o cuidado de seus lares e o bem-estar de seus familiares. Mas e você, como considera a qualidade de vida em Frederico Westphalen?

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Camila Wesner Texto Denise Fontana Texto | Foto Julia Rebelatto Texto Vicente Hollas Texto


As águas e o abastecimento As águas do Rio Pardo são as responsáveis pelo abastecimento da zona urbana e, em tempos de estiagem, o Rio Fortaleza também é utilizado para o fornecimento do recurso. Frederico está localizado no alto de uma região de morros, portanto várias nascentes que alimentam outros rios estão no município. Segundo a doutora em Hidrogeologia pela Universidade de São Paulo (USP) e professora da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Malva Andrea Mancuso, nos encontramos em uma zona de recarga, e qualquer contaminação que acontecer nas águas de Frederico vai escoar para os rios do município, que alimentam a Bacia do Rio da Várzea. A distribuição de água para as residências é responsabilidade da Companhia Riograndense

de Saneamento (Corsan), que abastece 100% da área urbana e algumas comunidades rurais. Uma pesquisa realizada pela equipe Meio Mundo mostrou que 45% dos moradores da zona urbana consideram regular a qualidade da água que consomem. No último mês de janeiro, a Escola de Saúde Pública da Secretaria Estadual da Saúde divulgou que no segundo semestre de 2016 havia um índice elevado de agrotóxicos nas análises de água do município. Chefe da unidade da Corsan de Frederico Westphalen, Daniel Piovesan Uliana diz que as análises foram realizadas em águas brutas, retiradas diretamente dos rios, sem passar pelas estações de tratamento da companhia. Ele garante que a qualidade da água distribuída pela Corsan está dentro dos padrões

exigidos. No interior, 65% dos moradores consideram boa a qualidade da água que consomem, obtida através de poços artesianos monitorados pela prefeitura. De acordo com a professora Mancuso, “as águas de aquíferos, que são águas de poços, podem ter uma qualidade excelente, estando muito mais protegidas em relação às águas dos rios, mas também podem estar contaminadas e possuírem problemas causados por determinados elementos”. Ainda segundo Mancuso, o maior problema de contaminação das águas da região é por flúor. A 19ª Coordenadoria da Secretaria da Saúde do RS é o órgão responsável pelo controle de qualidade desses poços e a maior dificuldade no tratamento é o fato dele ser individual, poço por poço, já que cada comunidade possui um.

No ano de 2017, um novo passo foi dado com o estabelecimento da coleta seletiva, abrangendo o bairro centro como rota piloto. Dessa forma, nota-se que a população que reside em bairros mais afastados, somando 47,5% do total de entrevistados, é mais crítica quanto à qualidade da coleta do lixo em sua região. Destes, 27,5% consideram o serviço prestado regular, ruim ou péssimo. Um número bastante elevado em comparação com a opinião dos residentes do centro, em que apenas 17,5% dos moradores demonstram descontentamento com a eficiência da coleta de lixo. Ou seja, os bairros que ainda não são contemplados pelo Recicla Frederico notam essa carência do atendimento, enquanto que a comunidade que já

usufrui o classifica como bom, apesar de ainda ver falhas nos serviços. Já em relação à qualidade do ar, constatamos que na zona urbana 43% das pessoas a julgam boa enquanto que no interior 65% da população entrevistada pensa de maneira semelhante. Na cidade, contudo, também há moradores que reclamaram do aumento do número de veículos em Frederico, o que pode aumentar a poluição e alterar a opinião pública em longo prazo. Nesse mesmo sentido, no espaço urbano, 56% dos entrevistados consideram a qualidade do ambiente sonoro regular, ruim ou péssimo. Já no interior, 90% dizem que ela é ótima ou boa, 10% a consideram regular e as opções ruim ou péssimo sequer apareceram na pesquisa.

Ar e coleta seletiva Também buscamos compreender de que forma a população julga a coleta de lixo em Frederico Westphalen, perguntando às pessoas como elas classificam a coleta em sua região. O licenciador ambiental da prefeitura, Carlos Minuzzi Rossato, diz que “o município se responsabiliza pelos resíduos domiciliares, que são aqueles coletados nas casas e, também, resíduos de podas e limpezas de jardins. O resto, a responsabilidade é do gerador”. Para assegurar uma coleta de qualidade e visando à preservação do meio ambiente, a prefeitura em parceria com instituições locais iniciou um novo projeto, o “Recicla Frederico”, que visa auxiliar na gestão dos resíduos sólidos, assim como motivar outras ações de conscientização ambiental.

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Crescimento e urbanização O aumento do perímetro urbano gera também um crescimento vertical, que, se não ocorrer de forma controlada, pode diminuir a qualidade de vida dos cidadãos. A professora Mancuso, que também é especialista em engenharia civil pelo Laboratório Nacional, relata que algumas mudanças no município estão ocorrendo. “Você vê que determinadas ruas em Frederico, as quais antigamente tinham zonas verdes, já não têm mais, é só cimento”. A professora afirma que a prática de colocar cimento nos pátios e destruir as áreas verdes acontece muito mais no centro, mas não exclusivamente. O número de zonas verdes e onde elas devem estar é determinado pelo Plano Diretor do município, principal instrumento da política urbana brasileira responsável por definir e fiscalizar os padrões de urbanização. Um dos maiores problemas relacionados ao crescimento vertical é a impermeabilização do solo, que dificulta a infiltração da água, criando zonas de alagamento na cidade. A falta de áreas verdes também gera problemas relacionados à temperatura: “existem ilhas de calor, isso se sente quando saímos do centro, que é só cimento, e vamos para bairros que contém árvores, sentimos que é mais fresco. Verificamos variações térmicas, o conforto térmico é diferente”, diz Mancuso. Segundo a maioria dos entrevistados da área urbana e rural, o saneamento básico do município é prestado de forma adequada. A partir da pesquisa, constatou-se que 52,5% dos moradores da cidade e 60% dos moradores da zona rural consideram este serviço bom. A pesquisa ainda identificou que 20% classificam-no como regular e 16% como ótimo. Diferente da zona urbana, onde o nível de criticidade sobre as prestações municipais é maior, a comunidade rural relatou, nas entrevistas, que a qualidade de vida melhorou devido à prestação de serviços como saneamento básico, coleta de lixo semanal, água tratada, manutenção de poços artesianos e tantos outros aspectos levantados em nossa pesquisa. Apesar disso, a população total

de entrevistados também sabe que em muitos aspectos o atendimento pode melhorar e cobra isso do serviço público. Frederico Westphalen é um município que vem crescendo ao longo dos anos e isso traz diferentes mudanças para o estilo de vida dos cidadãos. A qualidade dos serviços prestados à população e as ações de

cada habitante para manter preservado o ambiente em que vivem é algo que está diretamente relacionado com a qualidade de vida das pessoas. É importante que haja preocupação com o bem-estar da comunidade e que todos estejam conscientes que viver bem em um lugar bom é fundamental para se ter uma vida feliz.

Catedral Diocesana Paróquia Santo Antônio, no centro de Frederico Westphalen; o município tem 63 anos e sua área urbana é dividida em dezesseis bairros

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Bem comum

Cuidar do rio Cidade enfrenta dificuldades de saneamento básico e uso inadequado da água

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onforme descemos a rua de paralelepípedos tortos, rimos juntos de uma piada qualquer numa tentativa de amenizar o calor abusivo que sentimos. Entretanto, subitamente os sorrisos são substituídos por uma cara muito mais fechada e que evita abrir a boca; resultado do cheiro de esgoto que advém da propriedade à frente. É a casa de Ademar*, que ali reside há cerca de nove anos. Ele é um senhor magro que nos mostra o local sem usar camisa, mas com pequenos óculos redondos e um olhar de desconfiança, enquanto relata como sua vida se tornou cada vez mais difícil. “Tem horas que não dá pra aguentar o cheiro”. Ele não mente: em frente à sua casa, cercada por um gramado verdejante e bem cuidado, está uma das maiores nascentes do Lajeado Pardo, um dos rios mais importantes para Frederico Westphalen, no qual estão despejando diretamente o esgoto. *Ademar é um nome fictício pois a fonte não quis se identificar.

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Gabriel Reinehr Texto / Foto Nícolas Rahmeier Texto


O município de Frederico Westphalen é abastecido pelo Rio Lajeado Pardo e a empresa contratada para realizar o tratamento dessa água é a Companhia Riograndense de Saneamento (Corsan). Eventualmente, quando existem problemas de abastecimento causados por assoreamento, estiagem, entre outros, obtém-se água da bacia do Rio Fortaleza. Ademar reclama das autoridades, “já vieram aqui três vezes e não fizeram nada”, diz em tom de indignação, “e agora que ‘tão’ construindo aqui, só ‘tá’ piorando.” Não podemos fazer nada além de assentir: um prédio novo na esquina da quadra canaliza todo seu esgoto para a nascente da qual Ademar é vizinho. Por um imenso encanamento de concreto, que se localiza em cima da nascente, deveria sair apenas água da chuva, entretanto, sai um líquido fétido. A grande questão envolvida é que por mais

que essa água contaminada seja tratada adiante nas estações da Corsan, os rastros deixados pelo caminho que ela percorre são de devastação e até mesmo morte. “Teve uma manhã que eu acordei e fui nos ‘fundos’ pra dar uma olhada e tinha mais de 30 peixes mortos”, relata Ademar. Seguimos na estrada interiorana até uma casa de cor alaranjada no topo de uma elevação e encontramos Paulo Roberto Marion. Sua casa é abastecida através de um poço artesiano, também utilizado pela comunidade. A água do poço está suja e Paulo precisa de dois conjuntos de filtros por mês para garantir água limpa à sua família. Perguntamos sobre os ocasionais lixos que se encontram nas margens e dentro do rio e ele fala com tristeza: “A prefeitura passa toda semana recolhendo o lixo do cesto. Mas quem vem almoçar ou se divertir no rio às vezes deixa coisas”.

CÓDIGO FLORESTAL BRASILEIRO Criado em 1965, alterado em 2012, nele são estabelecidos limites de uso da propriedade, que deve respeitar a vegetação existente na terra, considerada bem de interesse comum a todos os habitantes do Brasil.

Questões geográficas

APP Área protegida, coberta ou não por vegetação nativa, com a função ambiental de preservar os recursos hídricos, a paisagem, a estabilidade geológica e a biodiversidade, facilitar o fluxo gênico de fauna e flora, proteger o solo e assegurar o bem-estar das populações humanas.

Aos olhos da professora doutora em Hidrogeologia pela Universidade de São Paulo (USP), Malva Mancuso, o município de Frederico Westphalen vem de um grande crescimento urbano e, por consequência, crescem também as áreas impermeáveis. A professora discorre que as zonas verdes não estão mais tão presentes e só o que se avista é cimento. Essas áreas se tornam um problema para a água, pois ela não penetra no solo, fazendo com que as reservas de águas subterrâneas fiquem sem abastecimento e gerem pontos de alagamento causados pelo acúmulo hídrico na superfície, o que resulta no escoamento de dejetos que desembocam diretamente nos rios. Mancuso destaca que o solo da região em que a cidade se encontra é propícia para práticas agrícolas, tornando-se a maior fonte de renda

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do município. No entanto, para que essas práticas sejam exercidas com o máximo de aproveitamento possível, os produtores utilizam variados tipos de agrotóxicos para manter o controle de pragas nos alimentos. O professor, doutor em Ciências Florestais e ministrante da disciplina de Legislação Florestal da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Rafaelo Balbinot, afirma que “a legislação diz uma coisa, mas na realidade é bem diferente”. Segundo o Código Florestal Brasileiro, aprovado em 2012, uma área de 50 metros ao redor das margens de cursos d’água e nascentes são obrigatoriamente Áreas de Preservação Permanente (APP). Atualmente, rios de até 10 metros de largura, que são encontrados majoritariamente em Frederico Westphalen, necessitam de uma faixa de APP de 30 metros.


Qualidade da água Questionamos a Prefeitura Municipal e a Corsan sobre as questões hídricas de caráter público. O encarregado pela Estação de Tratamento de Água (ETA), Gelson Luís Perlin, discorreu sobre as condições em que a água que abastece o município de Frederico Westphalen se encontra no seu local mais bruto: o ponto de captação. Ele nos relatou que as condições atuais não são tão preocupantes e que também não comprometem a qualidade final da água que é ingerida. Para se obter um melhor controle acerca da qualidade da água, a companhia emite relatórios de controle da situação da água pré e pós tratamento mensal e semestralmente, nos quais são descritas todas as informações sobre a água captada, como substâncias orgânicas, turbidez, pH e substâncias inorgânicas, todas de acordo com a Portaria nº 2.914 de dezembro de 2011 – responsável pelos procedimentos de controle e vigilância da qualidade da água.

Em um dos relatórios foi identificada a presença de Atrazina, um poderoso herbicida aplicado nas plantações para evitar o desenvolvimento de ervas daninhas. Tal descoberta repercutiu negativamente na comunidade frederiquense, afirmou Gelson. O que se descobriu é que no ponto de captação bruta, a água de fato estava contaminada pelo agrotóxico, porém em quantidades aceitáveis pela portaria. Outro problema relacionado à água é a falta de sistema de saneamento básico como, por exemplo, controle e tratamento do esgoto, que desemboca diretamente nas nascentes e riachos que rodeiam a cidade. Um desses afluentes é o Rio Chiquinha, onde a maior parte desse líquido contaminado é despejado, prejudicando todo o ecossistema ali existente. A água não possui tratamento, ou seja, para se degradar tal líquido, o Chiquinha depende única e exclusivamente de sua capacidade de autodepuração

– condição de restaurar suas características naturais, devido à composição de poluentes. Perlin defende que a Corsan já se manifestou ao poder público para, em conjunto, trabalharem na criação de um novo projeto de estação de tratamento de esgoto especificamente, uma vez que existem “mini” estações de tratamento que não estão em funcionamento. O representante diz que para existir melhorias é preciso pensar em uma estrutura tripé: poder público, empresa e população, pois ao juntar as duas instituições responsáveis por modelar uma estratégia eficaz, não será possível a mudança prática se a sociedade não colaborar também. Contudo, a resposta que obtivemos do Poder Público foi “qualquer questionamento envolvendo abastecimento de água e esgotamento sanitário, na área urbana e áreas contínuas, não são de responsabilidade de Administração Municipal e sim da prestadora de serviços.”

Paulo Roberto Marion faz manutenção mensal da caixa d’água de sua propriedade

Informação e Educação Além de uma estação de tratamento de esgoto e de responsabilizar as autoridades, precisa-se de algo também básico: educação ambiental. Ademar não possui conhecimento da legislação sobre o importante local que avizinha, logo, não tem noção que atitudes como entrar no córrego para “limpá-lo” e plantar grama e capim-elefante ao redor da nascente são prejudiciais ao ambiente.

O professor Balbinot acredita que a educação ambiental é a única forma de solução dos problemas, especialmente em longo prazo. “Não adianta a prefeitura investir milhões em encanamento e tratamento se as pessoas não souberem utilizar a água de forma adequada. É mais do que só poupá-la, pois quando você joga soda cáustica no ralo, usa um detergente, utiliza defensivos ou adubos de forma incorreta, afeta todo um sistema”.

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Enquanto a população não for instruída, o contraste entre legislação e realidade torna-se cada vez mais difuso. Ademar não vive conforme a legislação, não obedece as normas pensadas e estabelecidas. Contudo, tenta viver da melhor maneira possível e luta para manter seu pequeno tesouro hídrico o mais brilhante possível, mesmo que para isso precise encarar a sujeira que os moradores próximos o enviam.


Investimento

A caminho do saneamento como prioridade Itapiranga busca finalizar a construção da Estação de Tratamento de Esgoto

Amanda Giehl Foto / Texto Wagner Stan Texto

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município de Itapiranga está localizado no extremo oeste de Santa Catarina e possui, de acordo com o censo de 2010, mais de 16 mil habitantes. Segundo informações obtidas no site mantido pela prefeitura, em nível nacional, a cidade é reconhecida como Berço Nacional da Oktoberfest, pelo fato de a primeira festa realizada no Brasil ter acontecido no local, em 1978. A economia do município gira em torno da agropecuária, além da existência de pequenas, médias e grandes indústrias. O turismo também é presente na região que margeia o Rio Uruguai.

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Problema crônico No final dos anos 1970, o município apresentava problemas relacionados à área urbana, já que o esgoto era tratado de forma individual, como mandava a lei naquela época. Entretanto, a geografia do município não permite que a terra absorva o líquido por conta do solo formado por basalto. Nessa condição, o tratamento de esgoto praticado começou a gerar problemas acarretando no vazamento de esgoto pela cidade. Diante desse contexto, a administração municipal teve de interferir, e a solução encontrada foi de extinguir o tratamento individual, passando assim para um sistema coletivo. Na época, a administração buscou recursos na extinta Fundação Serviço Especial de Saúde Pública (SESP), para implementar um sistema de esgotamento sanitário, em funcionamento até hoje. Com o tempo, a legislação ambiental e sanitária foi se modificando, e a cidade passou a responder por não atender às novas leis. O município teve de procurar recursos para manter a rede de estação elevatória, mas interceptar a entrada de esgoto no rio e encaminhar para tratamento.

Primeira estação elevatória, onde iniciará o processo de bombeamento do esgoto para o sistema de tratamento, em substituição ao descarte direto no Rio Uruguai

Criação da Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) A construção da Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) foi iniciada em 2014 e a previsão é de implementação no ano de 2019. Segundo o Secretário da Administração, Lauro Schlickmann, a ideia é trabalhar junto à sociedade, colocando em prática a ideia de economizar. “A educação ambiental é de suma importância, e através das escolas é importante ensinar desde cedo a economizar e a cuidar do meio ambiente”, afirma. O sistema de tratamento é basicamente físico-biológico, não contém nada químico. É físico pois no gradeamento só será retido o material sólido, onde ocorrerá a retirada manual de alguns rejeitos. E biológico pois se utiliza de microrganismos vivos para decompor as matérias presentes nos efluentes.

Terceira elevatória do sistema de tratamento de esgoto de Itapiranga/SC

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Depois dessa fase, existe a concentração do esgoto em uma caixa. Ele corre por cima de uma rampa chamada talude. Na estrutura da ETE se apresentam novamente duas lagoas, porém maiores, do tamanho de um campo de futebol. Esse é um par de lagoas facultativas, aonde na parte superior se tem microrganismos aeróbios, na parte intermediária microrganismos facultativos e na parte

inferior microrganismos anaeróbios. Diferente das duas primeiras lagoas que tem como fase principal a via anaeróbia, nas lagoas seguintes a via principal de tratamento é aeróbia, ou seja, microrganismos que utilizam o oxigênio para digerir a matéria orgânica. Nessa fase existe a proliferação em grande quantidade de algas que fazem fotossíntese, que introduzem oxigênio no líquido para que os

aeróbios possam capturar esse oxigênio e estabilizar essa matéria orgânica. Depois desse par de lagoas, o esgoto vai para as lagoas de maturação, onde se tem por objetivo a desinfecção final do efluente. Assim, todos os microrganismos que estão presentes no líquido serão desconstruídos pelos raios ultravioletas. Depois dessa fase final de tratamento, o fluído será despejado para o Rio Uruguai.

Visão geral das seis lagoas de estabilização que compõem o sistema da Estação de Tratamento de Esgoto da cidade de Itapiranga, SC

Desafios na busca do método adequado O engenheiro sanitarista residente em Itapiranga, Maciel Welter, destacou que uma das maiores dificuldades em manter o saneamento básico é a consciência dos moradores para efetuar o descarte de forma correta, isto é, para que seja praticada a separação e destinação correta dos resíduos para o tratamento final. Geralmente, os resíduos sólidos são descartados no esgoto, gerando problemas sanitários e acarretando na obstrução da rede de esgoto e em problemas futuros. Exigências legais e a pressão do marketing ambiental induzem empresas por resultados sustentáveis para o descarte de seus materiais, conforme

relata o professor da UFSM, doutor em Engenharia Hidráulica e Saneamento pela Universidade de São Paulo (USP), Raphael Corrêa Medeiros. Também é necessário que não apenas as instituições, mas que a população esteja ciente das leis ambientais, e procure sempre estar atenta caso necessite usufruir delas. É um trabalho conjunto, em que todos fazem uma parte importante no controle e no cumprimento dessas leis. Schlickmann afirma que Itapiranga não dispõe de um trabalho muito eficiente em questões de saneamento básico, sendo feito o descarte dos efluentes domésticos diretamente no rio Uruguai, assim como

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acontece na maioria das cidades da região. A finalização do projeto da ETE depende ainda da dinamização de alguns trâmites burocráticos. A Fundação Nacional de Saúde (Funasa), responsável pela liberação dos recursos para construção da estação, repassa o dinheiro para o projeto em uma divisão de quatro parcelas. As obras estão no terceiro estágio, aguardando pela liberação da quarta verba, que depende de aprovação de um comitê em Brasília, DF. Ao todo, os procedimentos se estenderam por 19 meses, retardando a inauguração da estação. A estimativa é finalizar até o primeiro semestre de 2019.ww


Pecuária

Poluidor em potencial ou fertilizante adequado? A importância do manejo correto dos dejetos na suinocultura Eliége Gomes Texto

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região Noroeste do Rio Grande do Sul é uma das maiores produtoras de suínos e possui o desafio do manejo dos dejetos, que representam grande potencial poluidor. O manejo adotado determina se será uma alternativa energética ou fertilizante, pois são compostos por diversos nutrientes como nitrogênio, fósforo e potássio. Sem o controle adequado, podem gerar grandes impactos ambientais, como improdutividade do solo, contaminação das águas e até mesmo a poluição do ar com a liberação de gases. Mas, quando bem conduzidos, permitem um grande aproveitamento na adubação, dispensando a utilização de fertilizantes químicos. A Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater/ RS) realiza a assistência agropecuária a 42 cidades na região. Dessas, 33 atuam na suinocultura, sendo as três principais, Rodeio Bonito, Palmitinho

Francelen Soares Texto | Foto

e Rondinha. Em 2017 foram abatidos 1.401.000 suínos na região, o que contribui para a renda das famílias e para o município, com a geração do Imposto Sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS). O manejo dos dejetos é uma grande preocupação na atividade, pois apesar de serem uma oportunidade na adubação e produção de pastagens, podem causar danos ao meio ambiente. Segundo o Engenheiro Agrônomo da Emater/RS e assistente técnico regional de Sistemas de Produção Animal, Valdir Sangaletti, “nenhuma atividade agropecuária atualmente acontece sem agressão alguma ao meio ambiente, mas isso pode ser revertido”. Pensando em melhorar o manejo do solo e da água na região, a Emater/ RS estabeleceu um Contrato de Cooperação Técnica de três anos com a Empresa Brasileira de

Pesquisa Agropecuária (Embrapa), no município de Concórdia, SC. O objetivo do projeto é trazer a pesquisa para a região e instruir o produtor na utilização correta dos dejetos. A partir da coleta do solo e da água nas propriedades participantes, Unidades de Referência Técnica (URT), é feita uma avaliação para construir um conjunto de indicadores, usado no dia a dia como exemplo e recomendado para outros produtores. De acordo com a Fundação Estadual de Proteção Ambiental (FEPAM), as lagoas devem ser feitas com um material de lona e um sistema de drenagem, que auxilia no carregamento dos dejetos desde o alojamento dos suínos até as esterqueiras. Lá, ficam armazenados em um período de cerca de 120 dias, para que ocorra o processo de fermentação possibilitando que seja utilizado como fertilizante.

Modelo de esterqueira implantada para a fermentação dos dejetos suínos

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Pocilga onde os lotes de suínos ficam alojados até que o ciclo de crescimento desejado esteja completo

Palmitinho como referência no ramo A propriedade rural localizada em Lago Leão, interior de Palmitinho, RS, é uma das URT sobre o manejo adequado dos dejetos animais na suinocultura. O proprietário Valderlei Magnus Vargas possui uma criação de cerca de mil suínos. Apesar de ser uma pequena propriedade, a quantidade de dejetos representa um grande volume. Uma das questões que necessita atenção é a utilização de água na prática de cuidados com os animais. Segundo o técnico em agropecuária da Emater/RS, Alex Mello Rubin, são gastos cerca de sete litros por dia de água por animal. Caso o número seja mais alto, o esterco pode ficar comprometido perdendo nutrientes. Sobre a utilização dos dejetos animais, Rubin declara que “o destino mais viável ambientalmente e economicamente é usar diretamente no

solo”. Na propriedade de Vanderlei, foi recebida ajuda da prefeitura de Palmitinho com o ganho de máquinas para o manejo correto. Os suinocultores e a Emater/RS recomendam seguir o Manual de Adubação e Calagem, para os estados de Santa Catarina e Rio Grande do Sul, para obter um padrão na quantidade indicada no uso dos adubos. Além disso, é necessário que todo o suinocultor faça uma análise do seu solo, para saber o quanto de nutrientes cada terreno suporta. Na propriedade de Vanderlei, o sistema convencional que conduz os estercos para o processo de fermentação utiliza somente a água que cai dos bebedouros dos porcos. Em seguida, são colocados nas plantações da propriedade. O proprietário destaca a importância de usar os dejetos suínos como fertilizantes, pois assim, conseguiu

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descartar o uso de fertilizantes químicos, o que é um grande avanço para a renda familiar e o para o ambiente. A distribuição no solo varia, pois nem sempre é possível utilizar um grande volume. Dessa forma, os dejetos são compartilhados com outros suinocultores, “o que importa é a qualidade, não quantidade”, enfatiza Vanderlei. A cidade de Palmitinho é a segunda maior produtora de suínos na região, sendo assim, a segunda maior geradora de dejetos. O aumento da poluição preocupa a prefeitura, que investe para o manejo adequado, segundo declara o prefeito Luiz Carlos Panosso: “vamos continuar dando assistência para que a qualidade do meio ambiente melhore”. O ICMS municipal corresponde a 65% ao ano, ou seja, mais da metade da arrecadação vem da suinocultura.


Agricultura

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ituado no Médio Alto Uruguai do Rio Grande do Sul, Frederico Westphalen está inserido numa região predominantemente agrícola, compreendida por famílias que historicamente estão ligadas à agricultura e que chegaram até a região em busca de terras cultiváveis. No interior do município é comum encontrar paisagens que se revezam principalmente entre os verdes das plantações de soja, milho e trigo. Conforme dados do Sindicato dos Trabalhadores Rurais (STR), cada produtor rural tem, em média, 18 hectares para cultivar suas produções. Nesse cenário, a relação dos agricultores com os agrotóxicos apresenta resultados funcionais. O presidente do STR, Nadir José Buzatto, afirma que o retorno financeiro e o curso beneficio dos venenos é extraordinário. Cauteloso, porém, Buzatto imediatamente adverte: “o custo da vida, da saúde, há de ser questionado bastante. De que adianta o dinheiro se ele não cura minha saúde?”. O desejo de um retorno financeiro dignamente maior coloca em segundo plano a preocupação monetária em detrimento da qualidade de vida da sociedade.

Um uso justificado

Difícil cenário frederiquense A realidade de produtores e consumidores na lida diária com os agrotóxicos João Victor Cassol Texto / Foto

Samuel Agazzi Texto / Foto

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Ao olhar a paisagem é trivial uma plantação saltar ao olhar e dominar todo o acidentado relevo da cidade. Isso tem uma explicação óbvia. A agricultura é um dos mais importantes motores da economia regional. E ela é fomentada, também, pelo uso de agrotóxicos. Eles possuem duas importantes funções dentro da economia: o aumento da produtividade e economia do tempo. O enxugamento das propriedades agrícolas, consequência do êxodo rural, inviabiliza ou dificulta a manutenção das lavouras somente com o manejo humano. Poucas pessoas seguiram trabalhando na agricultura e agora o maquinário e as tecnologias são a alternativa. Nesse aspecto, os agrotóxicos surgem para compensar a lacuna sociocultural que se instaurou em toda a região. Exemplificando, o Metsuram 600 WG, herbicida de fácil acesso, é vendido em uma embalagem de 10 gramas aparentemente pequena, mas tem o poder de cobrir uma área de dois campos de futebol. Apesar de Frederico Westphalen possuir apenas três agropecuárias que revendem os produtos, não há nenhum empecilho para a aquisição dos mesmos. É só chegar, pedir, pagar. Como afirma o professor da Universidade Federal de Santa Maria, Marcelo Silveira de Farias: “de certa forma, através de técnicas persuasivas de marketing, estimula-se a aplicação de uma série de produtos para alavancar seus lucros.” Ao juntar esses três vetores principais – produtividade, tempo e facilidade – a aplicação do agrotóxico se torna não apenas um caso necessário, mas também cultural.


Preço baixo e rentabilidade grande: pacote de Herbicida Metsuram (10g) custa aproximadamente R$10 e pode ser aplicado numa área equivalente a dois campos de futebol

Saúde, ambiente e sociedade No outro lado da moeda está o custo social. Em paralelo à questão econômica estão as vidas humanas. O oncologista clínico do Centro de Tratamento do Câncer de Passo Fundo, RS, Alvaro Machado, ressalta, em fala a um jornal local, que num contexto majoritariamente rural, o câncer é associável ao manuseio e à convivência com produtos químicos. Em solo frederiquense, dos 185 óbitos totais, 45 foram em decorrência de algum câncer, o que destaca o surto desses tumores que aumentaram suas mortes em 90% em 20 anos, conforme os dados do DataSUS (2015). Tendo em vista que o Brasil se tornou o maior consumidor de agrotóxicos do mundo nos últimos anos, é necessário entender que estamos indo contra a correnteza, ou melhor, contra um dos Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Organização das Nações Unidas, que visa reduzir substancialmente o número de mortes e doenças por produtos químicos perigosos, contaminação e poluição do ar e água do solo até 2030. Um estudo publicado em 2007 pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) fez um levantamento das eventuais substâncias químicas que alteram a regulação hormonal

das pessoas, gerando problemas endócrinos, que envolvem diretamente o crescimento e, principalmente, a reprodução humana. Na lista divulgada pela UFRJ aparece o nome do herbicida Atrazina, o mesmo componente encontrado na água frederiquense pela Secretaria Estadual da Saúde no início de 2018. O agrotóxico é amplamente aplicado em plantações de milho de toda região e ocupa a quarta colocação entre os herbicidas mais comercializados no país. Em 2012, conforme o IBGE, 25 mil toneladas do insumo foram vendidas no Brasil. (Veja mais sobre o “caso atrazina” na reportagem Cuidar do rio, página 8). A intensificação do uso de químicos é decorrente ainda de um forte sistema mercadológico. A indústria que desenvolve esses produtos é a mesma que cria a semente, que revende a cultivar, que “remedia” as pragas e, numa instância maior, é a mesma que comercializa os remédios para o tratamento das doenças causadas. Outra problemática é a resistência das pragas aos agrotóxicos ocasionada pelo excesso de aplicações dos químicos. Pragas que eram facilmente controladas com doses menores de insumos acabaram se tornando

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super-resistentes, fruto do uso indevido e excessivo dos produtos. Esse panorama ocorre, por exemplo, com as plantas Conyza sumatrensis, popularmente conhecidas como buva. Ano após ano a espécie parece resistir cada vez mais às aplicações e atrapalha a produtividade das lavouras. Já foram relatados outros 45 casos de resistência de plantas daninhas a herbicidas no Brasil. O que os produtores e a sociedade poderiam fazer para modificar esse embaraçoso cenário? Uma alternativa testada pela Emater/RS foi a implementação de controle biológico de pragas, projeto desenvolvido no município e que envolvia a dispersão de ovos da vespa Trichogramma spp. pelas plantações de milho. Estatisticamente eficaz até mesmo em grandes extensões de cultivo da espécie, a iniciativa acabou por morrer, sem explicações para os agricultores, e não há previsão de retorno. O encerramento desse projeto, assim como a maioria das alternativas ao modo tradicional de manejo, representa a dificuldade em implementar um sistema que facilite ao produtor o acesso a novas formas de controlar pestes nas lavouras e manter a produtividade alta.


Terreno acidentado É comum acreditarmos que a causa dos problemas que nos cercam é a ausência de uma legislação eficiente sobre a questão. Por vezes a ausência do poder público, de fato, é a principal causa de uma série de entraves. Nesse caso, porém, há uma regulamentação ativa, conhecida como Lei dos Agrotóxicos (7.802). Arquitetada no ano 1989, ela apresenta meios de regulamentação e controle da

produção, distribuição e aplicação dos produtos, mas esbarra na falta de atualização, nas ações da Bancada Ruralista e na ausência de fiscalização. Tanto o professor Marcelo Farias quanto o agricultor Nadir Buzatto argumentam que não existem instrumentos ou autoridades ativas de inspeção a quem aplica agrotóxicos. Essa realidade gera uma liberdade no manejo dos agroquímicos por

parte de empresas e também de agricultores, que, por sua vez, até mesmo combinam dois insumos distintos com a pretensão de potencializar os agrotóxicos, gerando as denominadas misturas. A falta de informação e fiscalização pode ser prejudicial tanto para os plantios, quanto para os seres humanos, que ficam expostos a produtos com poder químico desconhecido e com um alcance inestimável.

Bancada Ruralista é o nome atribuído ao grupo político de deputados e senadores articulado por grandes latifundiários do país. O último projeto de ação dos ruralistas é a implementação de uma nova legislação em substituição à Lei 7.802. Esses novos termos seriam responsáveis por, dentre outras coisas, acelerar o processo de aprovação para novos químicos e adotar oficialmente a nomenclatura “pesticida” em substituição ao termo “agrotóxico”.

A questão é ainda mais complicada quando consideramos a tradição das famílias com o tratamento das pragas. Historicamente, na região, o manejo é ensinado de pai para filho e a dificuldade em superar a questão cultural legitima o uso indevido e danoso. Mesmo que hajam ações do STR e da Emater para reeducar produtores, muitas vezes o emprego convencional dos químicos acaba prevalecendo em contraste com os outros aspectos já citados. Das plantações que nos rodeiam, brota o sustento de boa parte das famílias do interior frederiquense e a comida dos pratos na cidade, culminando na movimentação econômica local. Dependemos do campo e de sua produtividade para alimentar a economia familiar dos agricultores e as mesas na cidade. Movidos pela reflexão da sanitarista e especialista na relação saúde humana e agrotóxicos, Vanda Garibotti, podemos resumir pontualmente a complexa paisagem: “a nossa riqueza pode ser o nosso algoz? ”. wwW

A comercialização dos agrotóxicos é regulada pelo Governo Federal; em Frederico apenas três estabelecimentos estão autorizados à venda desses insumos

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Agricultura

Desafios à expansão da agroecologia Investimentos no modelo produtivo que mais cresce nos últimos anos

A

preocupação com a saúde física e mental faz com que grande parcela da população mundial altere sua rotina, procurando desenvolver hábitos que melhorem sua qualidade de vida. Um dos principais receios desse grupo está relacionado com a produção e consumo de alimentos, justificando o crescimento da agroecologia e a busca por orgânicos. Contudo, no Brasil, o número de agricultores que possuem certificado orgânico para determinado produto ainda é extremamente menor em comparação com aqueles que continuam seguindo os métodos convencionais de agricultura. Até maio de 2018, o país contava com 17.219 produtores orgânicos cadastrados no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa). Segundo dados do Instituto de Pesquisa de Agricultura Orgânica (FiBL), de 2016, o Brasil é o quinto país com maior extensão

de terras dedicadas a esse modo de produção. Atualmente contamos com 950 mil hectares utilizados para a prática da agroecologia. Em contrapartida, a produção convencional ocupa 240 milhões de hectares do território nacional, de acordo com o Sistema Nacional de Cadastro Rural (SNCR). Apesar da desproporção entre os números, o cultivo ecológico está aumentando nos últimos anos. Conforme dados da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex) e do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), o crescimento do setor de orgânicos em terras brasileiras entre 2011 e 2015 foi o maior do mundo, registrando um aumento anual de 30% nesse intervalo, tal índice é quase sete vezes maior que a média mundial. Em Frederico Westphalen, Rio Grande do Sul, também há o esforço para possibilitar o cultivo de orgânicos.

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Vicente Hollas Texto / Foto Josué Bueno Texto


Caminho para a certificação Apesar de não existirem produtores no município que possuam a licença para comercializar produtos orgânicos, alguns agricultores já manifestaram interesse no modelo agroecológico e iniciaram as atividades necessárias para obterem a certificação em dezembro de 2017, quando foi fundado o Grupo de Produtores Orgânicos Barril. Com o intuito de abrir espaço e incentivar uma agricultura mais saudável na região, a ação foi organizada pelo Escritório Regional da Emater/RS-Ascar, pela Unidade de Cooperativismo (UCP) e pelo Centro de Apoio e Promoção da Agroecologia (Capa). Ao final do encontro, nove famílias optaram por integrar o grupo e dar início ao processo de transição da agricultura convencional para a agroecológica. Na ocasião, os participantes optaram por obter a certificação através

do Sistema Participativo de Garantia (conforme o box abaixo demonstra), fornecida pela Rede Ecovida de Agroecologia. Nesse sistema, o controle da produção é realizado pelos próprios agricultores, em um método solidário de avaliação, no qual os agricultores participantes do grupo auxiliam e avaliam uns aos outros. Caso seja identificada alguma irregularidade pelos fiscais do Mapa, o agricultor perde a liberdade de uso do selo. Para o Coordenador do Núcleo do Vale do Rio Uruguai da Rede Ecovida, Ivo Severino Macagnan, os consumidores locais também têm a liberdade de fiscalizar se a produção está seguindo os padrões exigidos pela legislação. Segundo ele, é uma oportunidade para os agricultores orgânicos passarem confiança à população. A primeira de uma série de reuniões previstas nas unidades de produção

dos membros do grupo foi realizada em junho de 2018, na Linha Mazzonetto – interior de FW – com a presença de assessores da Emater/RS, da Emater Municipal e de técnicos do Capa. O objetivo do encontro, na propriedade do agricultor Ademar do Prado Junior, foi discutir questões relativas à produção agroecológica e ao processo necessário para obtenção da certificação, assim como a realização de uma análise da unidade de produção, dirigida pelo representante da Rede Ecovida. Para facilitar esse trabalho, o órgão entrega um modelo composto por várias perguntas que auxiliam os produtores a mapear o local e definir os produtos a serem cultivados. Com base nesse modelo são fornecidas as instruções e sugestões sobre o modo de manejo de sua unidade de produção.

Como funciona o Sistema Participativo de Garantia? 1 – Agricultores criam um grupo de interessados (no mínimo quatro famílias). 2 – A certificação chega 18 meses depois da criação do grupo (Por meio de Rede Ecovida). 3 – Durante esse período todos os participantes devem seguir as exigências do órgão certificador e auxiliar os outros participantes do grupo. 4 – Caso algum dos produtores não seguir as exigências, só os agricultores regularizados receberão a certificação.

Desistências e resistências Atualmente, o grupo está contando com a participação de apenas cinco famílias. O assistente técnico regional de recursos naturais da Emater/RS, Carlos Roberto Olczevski, acredita que a queda no número de integrantes seja pela dificuldade em realizar a transição do modo de agricultura, uma vez que o processo é lento e deve seguir uma série de exigências. Como exemplo, citou as técnicas que já estão sendo empregadas por Ademar em sua unidade de produção.

O agricultor utiliza métodos agroecológicos na produção de alimentos desde antes da formação do grupo, estando em um processo já avançado na transição da agricultura convencional para a orgânica. Apesar de ele não ter feito uso de agroquímicos desde junho de 2017, quando implementou estufas de produção de morangos, a certificação somente será possível em 2019, caso tenha atendido às normas exigidas pelo Mapa. Sobre esses desafios, Ademar diz não possuir

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dificuldades em escoar sua produção, porém enfrenta alguns problemas no processo produtivo em si. Como ele e sua esposa, Maiara Hening, não contam com a utilização de maquinários, além de possuírem somente uma estufa e uma horta com tela de sombreamento, a quantidade produzida é pequena. Em contrapartida, Ademar afirma que o gasto com a produção é mínimo, pois, além de fazer compostagem com alguns resíduos orgânicos, a maior parte dos insumos que utiliza


é preparado em sua propriedade através do uso de materiais ali disponíveis, como esterco de animais e leite. Adilce Cargnin, também participante do Grupo de Produtores Orgânicos Barril, despertou seu interesse pelos orgânicos trabalhando no “resgate” de sementes crioulas, um processo que visa aumentar a produção e manter a continuidade das espécies de sementes, que são aquelas produzidas e selecionadas durante toda a história da agricultura, ricas em diversidade, resistência e qualidades específicas. Com a plantação das sementes em sua unidade de produção, a agricultora produziu mudas de árvores e colocou algumas à venda. No entanto, a maioria delas está plantada em sua propriedade, formando

uma agrofloresta, com diversas e variadas árvores frutíferas inseridas no mesmo espaço que outras espécies. A produtora também iniciou o cultivo de uma horta, contando com a assessoria do Centro de Tecnologias Alternativas Populares (Cetap), porém não conseguiu encontrar meios de comercializar a produção e, assim, desistiu da ideia. Adilce procura produzir de modo sustentável há cerca de 20 anos e agora integra o grupo para obter o certificado de comercialização orgânica. A produtora salientou a importância da formação desse grupo, para que os agricultores possam ajudar um ao outro, haja maior divulgação dos produtos e a conquista de espaços para a venda dos alimentos seja facilitada.

Estufa de morangos na unidade de produção de Ademar do Prado Junior, Linha Mazzoneto, interior de Frederico Westphalen

Aula de sustentabilidade Um caso interessante entre os membros do grupo é o de Ambrósio Kempka e sua esposa, Solange Busanello Kempka. Ambos trabalham na área urbana durante os dias úteis. Atuam como professores da rede pública estadual, obtendo suas rendas mensais através de tal atividade. O casal dedica-se à agricultura, sobretudo, nos finais de semana, planejando empregar maior tempo e obter melhores resultados a médio e longo prazo. Apesar de estarem empregados na área urbana, os produtores afirmam que, por terem suas origens no meio rural, procuraram nunca perder o contato com o campo, sempre acompanhando as mudanças e desafios na produção de alimentos. No momento, a atenção deles está voltada à produção de subsistência familiar, contando com a produção de feijão, milho verde e batata doce, além de legumes, verduras e frutas diversas, basicamente para consumo

Morangos produzidos a partir da transição da agricultura convencional para a orgânica

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próprio. Contudo, a família já iniciou a implementação de um pomar de frutas cítricas, o qual passará a integrar suas fontes de renda no futuro. Ambrósio afirma que, além da preocupação com a qualidade dos alimentos, optaram pela agroecologia por acreditarem que o modelo de produção atual é insustentável do ponto de vista social, ambiental e econômico. O desenvolvimento da agricultura de base orgânica não é simples e requer esforço por parte dos agricultores e grupos de assessoria técnica. Contudo, é um modo de produção que assegura uma vida saudável, tanto para o produtor como para o consumidor, além de ser realizada em harmonia com a natureza. Na época em que os olhares da população mundial estão voltados aos problemas ambientais e à saúde física e mental dos seres humanos, a agroecologia ganha espaço e demonstra ser a agricultura do futuro.WW


Bem viver

A permacultura como alternativa Longe do meio urbano, a bioconstrução é opção para quem procura a tranquilidade Lívia de Mello Trindade Texto

Renata Dornelles Texto/Foto

S

air da cidade rumo ao interior em busca de uma nova realidade, é uma das motivações que leva inúmeras pessoas a procurarem as ecovilas. Refúgio contra a urbanização e o consumismo exacerbado, a vila Dom José está localizada a 18km do centro de Alpestre, RS. Devido às enchentes de 2014, o assentamento sustentável, nas proximidades do rio Uruguai, tornou-se praticamente desabitado. A permacultura é uma prática que une os princípios agrícolas aliados ao design e recria os padrões da sociedade da forma mais natural possível. Foi utilizada na reestruturação do local, como guia no planejamento do espaço e escolha das técnicas. Dessa forma, transformou o vilarejo em um centro de atuação coletiva, em que adaptar e coabitar são as palavras de ordem. Toda essa revolução pode ser vinculada ao designer e permacultor Marcos “Ninguém”, que iniciou a estruturação em 2015 junto com seu irmão, o arquiteto Clairton “Jappa”. Após viagens pelo Brasil e outros países, Marcos teve a ideia de levar sua experiência de permacultor para sua cidade natal, “minha ideia era pegar uma vila que ninguém conhecesse, e torná-la um ponto nacional e internacional na área de permacultura”, relata. O novo projeto atraiu novamente antigos moradores e valorizou os terrenos – que triplicaram de preço depois da implantação da ecovila. “Com as altas taxas de desemprego e a oferta de qualidade de vida, muitos viram que paz não tem preço. Perceberam que Dom José era possibilidade de ganhar dinheiro com plantio de alimentos, e que era uma fonte de negócio e rendas”, afirma Clairton. A ecovila iniciou com seis casas, e desde então,

Arquiteto Clairton “Jappa”, idealizador do projeto de permacultura em Alpestre, RS

muito foi executado. Na época os irmãos compraram o terreno e ofertaram a planta, a partir da promessa de entregar duas casas por ano, tempo recorde comparado às outras no país. O apoio dos voluntários auxilia na rapidez para erguer as casas durante as vivências, oferecidas pela Universidade de Permacultura ou Unipermacultura, que surgiu juntamente com a ecovila para disponibilizar o conhecimento a quem quisesse aprender. Assim, em determinadas semanas do ano, é promovida a experiência de aprendizado das técnicas de construção. O conhecimento das técnicas de permacultura e bioconstrução é disponibilizado em uma plataforma online, para quem não consegue se deslocar até o local. A

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Universidade de Permacultura, juntamente com a ecovila, é referência no Brasil e no mundo. Já ficou entre os 40 lugares mais procurados no mundo para Turismo Colaborativo pela Worldpackers e conquistou o prêmio LatinoAmerica Verde. Atualmente, a comunidade Dom José e a ecovila possuem 23 famílias, de várias localidades, inclusive do exterior. A tranquilidade predomina no assentamento, “para as pessoas que estão cansadas da correria das cidades, aqui é uma possibilidade”, afirma Marcos. A lotação da vila varia durante o ano, principalmente pela questão climática pois há muitos moradores do Rio de Janeiro, São Paulo e Brasília, não acostumados ao clima que voltam para seus estados para fugir do frio.


A transição para um recomeço

A bioconstrução é possível na cidade? A prática da bioconstrução analisa o que existe em abundância no local para que se possa definir a técnica utilizada. Em Dom José, por exemplo, as casas são feitas com a terra que sai da escavação para a fossa ecológica. A técnica é “um resgate dos métodos antigos de construção mesclados com algumas técnicas modernas”, afirma Clairton. Dessa forma, se extingue a necessidade de transporte e diminui a necessidade do uso de materiais processados, como o tijolo e o cimento. Arquiteto há 13 anos, Diego Bertoletti da Rocha argumenta que

uma boa construção deve ter técnicas referentes à bioconstrução. No meio urbano, esse tipo de moradia é impraticável, devido ao princípio básico de utilizar os recursos locais disponíveis. Diego afirma que apesar de não conseguir construir uma casa que respeite 100% as normas da bioconstrução, tenta sempre adaptar para uma melhor disposição de materiais. Além disso, o arquiteto ressalta que, “o público para esse tipo de construção é muito específico”, o que torna mais difícil a implementação de ideias que se preocupem com o meio ambiente.

Casa construída com a técnica Superadobe, onde a terra é principal insumo

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Por causa da agitação nos grandes centros, a psicóloga Karla Ariani está na transição da vida urbana para a rural. Optou por uma casa simples na ecovila Dom José, “pela libertação do sistema que vivemos, onde a urbanização nos rodeia e não temos qualidade de vida”. Karla revela que o baixo custo também é uma das vantagens de se ter uma forma mais simples de viver. Porém, a vida desvinculada da pressa dos grandes centros, bem como a implantação do modo sustentável, é uma tarefa difícil que leva um determinado tempo de adaptação e que necessita de suporte. Ao decidir mudar-se para o vilarejo, a psicóloga recebeu o apoio de seus familiares. “O princípio da liberdade precisa estar nas nossas atitudes, e eles me apoiaram nessa decisão, ainda mais por eu estar na transição, me desvinculando aos poucos do sistema, que pode ser uma jornada de anos, mas é muito prazeroso”.ww


Bem viver

Plantar e colher para a subsistência Kern, semeando o futuro através de culturas sustentáveis

“P

lantar para alimentar-se”. Essa frase contempla quase por completo a definição da agricultura de subsistência. Arroz, feijão, milho, mandioca, hortaliças, frutas e outros são os principais produtos cultivados em propriedades deste tipo. Desenvolvida geralmente por pequenas famílias que utilizam métodos tradicionais para a produção e colheita, tem como principal finalidade suprir as próprias necessidades. Além dessa característica, a utilização de ferramentas mais simples como foices, enxadas, rastelos e outros é mais comum. Além disso, usam a rotação de culturas, abrigando numa mesma área diferentes espécies de alimentos de acordo com a época do ano ou necessidade do produtor.

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Bruna A. Tomaselli Texto

Daniel Ribeiro Texto / Foto


Com simplicidade e orgulho a família Kern recebe os visitantes e interessados nas técnicas que desenvolvem na propriedade

Família Kern: um modelo de vida sustentável “O meio ambiente é tudo”, palavras simples vindas da mãe Zuleica Lauschner Kern, 40, resumem o jeito sustentável vivido pela Família Kern. Na Comunidade de Alto São Pedro, na cidade de São Carlos, no oeste de Santa Catarina, eles carregam a paixão e os benefícios do cultivo da terra. O sobrenome Kern traz consigo uma significação que envolve esse estilo de vida. Núcleo e semente são algumas traduções deste sobrenome de origem alemã, que justificam a escolha pelo campo. Dependentes da natureza, cultivam e usufruem o melhor que a terra lhes oferece. O marido de Zuleica, Valdemir Kern, 46, cansado de ver a mulher que sempre sofria de doenças como hepatite B, enxaquecas e baixa imunidade, resolveu dar um fim à essa situação e decidiu mudar a condição de vida de sua família. “Chega de viver assim, vamos viver diferente”. O ano era 2002, e a partir daí a família aderiu à agricultura de subsistência. Zuleica tomou a iniciativa de dedicar seu tempo a uma causa que melhoraria a vida de sua

família. Participou de vários cursos de especialização, como produção de pomadas e remédios, além de construir e pôr em prática projetos do governo que ajudariam a aprimorar o sítio da família para os novos objetivos de vida. Um dos projetos mais valiosos é uma horta agroecológica projetada em formato circular, onde se abrigam também animais, como galinhas e coelhos. Segundo Davi Kern, 18, filho mais velho de Zuleica e Valdemir, a horta funciona como um ecossistema que impede pragas de se alastrarem. Outro exemplo de comprometimento familiar com a terra, é Luiza Kern, 11, filha mais nova do casal. A menina nunca precisou ir a um hospital ou farmácia, sempre tratou de algum mal-estar com chás e ervas cultivadas no “Horto, vida&saúde”, como é chamado o local onde está plantado o cultivo. Dona Zuleica mantêm plantas que servem como adoçantes naturais a aliviadoras de enxaqueca. Dentre uma variedade de ervas, a família possui uma farmácia natural em seu quintal. Orgulhosos, contam sobre a

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mínima quantidade de produtos que compram no mercado quando vão à cidade. Além de itens pessoais, apenas três pacotes de farinha, erva de chimarrão, um quilo de açúcar e outro de café. Os gastos mensais, incluindo luz, água e moradia raramente ultrapassam 500 reais. Além da economia, acreditam contribuir para a transformação de um mundo sem fome, em direção à agricultura sustentável. Essas ações cotidianas da família constroem a sua representação na sociedade, enquanto agentes de práticas que modificam a relação do agricultor com o meio ambiente. O homem do campo torna-se, então, peça-chave em meio às modificações globais. É nesse processo que o Sindicato dos Trabalhadores Rurais (STR) toma importância, aponta o presidente da entidade, Nadir Buzatto. Para ele, a instituição foi fundamental no processo de conquista de direitos e no reconhecimento social do agricultor. “Antes da atuação do STR os produtores rurais nem eram considerados como trabalhadores”, afirma.


Educação no meio rural A formação aliada à necessidade de não se perder as raízes do campo movimentam as Casas Familiares Rurais (CFR). A instituição auxilia na permanência do jovem rural no meio, pois, atualmente, as evoluções tecnológicas induzem ao êxodo rural. “A agricultura de subsistência é um fator trabalhado com os estudantes na CFR, pois cerca de 90% deles não são de grandes produtores, mas sim de famílias pequenas”, conta o presidente da Associação Casa Rural, Ari Stival. A Associação mantém a CFR de Frederico Westphalen, RS. O estabelecimento de ensino se estrutura através da pedagogia da alternância, explica a diretora da CFR Elisandra Zonta, na qual “o estudante passa uma semana em estudos teóricos, aplicando os conhecimentos nas suas residências nas duas semanas posteriores”. Essa troca de conhecimentos origina o “projeto de vida”, equivalente a um trabalho de conclusão no qual são desenvolvidas ações práticas a serem tomadas em sua propriedade. Esse trabalho é auxiliado por orientadores como Mateus Stival, que atua como monitor das ciências agrárias, na busca por táticas para auxiliar os alunos em seus “projetos de vida”. Assim como a família Kern vê em seu sítio no interior de Santa Catarina uma possibilidade e oportunidade de vida sustentável, há diversas outras formas e instituições que promovem o desenvolvimento da agricultura em equilíbrio com o ecossistema em que vive. Sejam pelas técnicas antigas ou pelas atuais, a busca é pela harmonia com a natureza, no desenvolvimento de um mundo justo e sustentável. Assim como há pessoas que saem do meio rural para o meio urbano, o contrário também ocorre. Escolher viver plantando e colhendo seus próprios produtos sem agrotóxicos é uma via sustentável. Ao mesmo tempo que se está mais próximo da natureza se aproxima a um estilo de vida menos consumista. ww

Valdemir Kern, foi responsável por implantar a agricultura de subsistência na propriedade

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Animais

Soldada Juliana Lahr mostra as armadilhas confiscadas durante as operações de busca e apreensão

Na rota do tráfico e no mapa da urbanização Descuido com diversidade de espécies silvestres e domésticas preocupa autoridades e população

M

uitas vezes consideramos normal olhar o passarinho na gaiola, e até mesmo ter um parente que tenha um papagaio. Esses animais são quase 100% oriundos de captura ilegal ou do tráfico de animais. “Quem não captura na natureza e põe na própria gaiola, compra de alguém e isso é tráfico de animais”, relata o jornalista especializado em meio ambiente com atenção para a fauna silvestre e tráfico de animais e ainda responsável pelo site Fauna News, Dimas Marques. Seja nas florestas, onde os animais silvestres sofrem com o avanço das construções, caça e tráfico, ou nos ambientes urbanos, onde os maus-tratos e o abandono de animais domésticos são recorrentes, a preocupação com a diversidade e com o cuidado das espécies é tema de debate na cidade.

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André Luís dos Santos Texto / Foto Cristiele Braga Texto Helena Knob Texto Thaane Otero Texto


No município Frederico Westphalen, a Patrulha Ambiental da Brigada Militar (Patram) é responsável por atender denúncias de crimes ambientais, contra fauna ou flora, combatendo principalmente dois tipos de crimes: o tráfico de animais silvestres e os maus-tratos a animais domésticos. O órgão conta com apenas cinco policiais que atendem 24 municípios da região. Conforme o sargento da Patram, Pedro Silva, “as principais denúncias da região

são a rinha de galo, os maus-tratos a cães e gatos e a pesca indevida. Quando a operação é de extremo risco contamos com ajuda da Polícia Civil e da própria Brigada Militar”. Segundo a soldada Juliana Celita Lahr, da Patram, o tráfico de animais silvestres é o terceiro maior comércio ilícito do mundo, perdendo apenas para o tráfico de narcóticos e de armas. Devido as suas cores e cantos, as aves acabam despertando um grande interesse nos seres humanos,

e tornam-se alvos da comercialização. “Na nossa região tem bastante compra e venda de pássaros silvestres e muita captura de pássaros somente para venda”, afirma a soldada Lahr. Na maior parte das vezes, eles são levados para o litoral e região metropolitana. Grande parte dos animais morrem ainda durante o caminho de seu destino, devido às condições de locomoção, à falta de água e de comida, e ao confinamento precário em gaiolas abarrotadas.

Canarinho-da-terra, Sicalis Flaveola, é uma das espécies silvestres mais caçadas para comercialização

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Avanço da cidade, recuo do habitat O plano de crescimento da cidade de Frederico Westphalen projeta a urbanização da Linha Faguense. O local tem vários fragmentos de matas que estão sendo derrubados para construção de condomínios e empreendimentos, causando impacto direto na fauna e flora local. Segundo o biólogo da Prefeitura do município, Carlos Rossato, “as áreas que estão sendo derrubadas estão sendo compensadas”, no entanto, o Sargento Silva diz “que a compensação de qualquer área derrubada não é suficiente para recuperar o dano geral causado pela devastação”. Além do mais, uma mesma espécie retirada com frequência da natureza pode ser extinta. Conforme Rossato, com a expansão da cidade, muitos animais estão perdendo seu habitat para o avanço das construções urbanas. “Eles transitam pela cidade em busca de alimentos, porém não permanecem no ambiente por serem animais ariscos”. Não só o tráfico e o desmatamento influenciam no desaparecimento das espécies de animais nativos do Brasil, mas também as queimadas, poluição, construção de

Empreendimentos imobiliários ocupam a Linha Faguense

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hidrelétricas, entre outros. O último relatório que mostra os animais em extinção no país, feito pelo Ministério do Meio Ambiente (MMA) e pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), mostrou que existem mais de 1000 espécies com alto risco de desaparecerem, o que causa efeitos irreparáveis na natureza. A fauna silvestre tem um papel fundamental na preservação e na manutenção da biodiversidade, atuando em diversas partes do ciclo natural como a vegetação dispersando sementes, e a cadeia alimentar para tirar seu sustento e controlar o número de animais de forma natural. O biólogo Caio Bagnolo destaca que o processo de extinção de espécies é natural, porém, são milhares de anos para esse fato ocorrer e o ser humano está acelerando o processo de uma forma desproporcional e assustadora. Para Bagnolo, apesar de alguns animais silvestres como o macaco-prego, araçari, lagarto teiú, gambá e raposa do mato ainda serem encontrados no município, as poucas espécies restantes correm sério risco de extinção, devido à caça, ao desmatamento e à urbanização mal desenvolvida.


Tico-tico-rei, Coryphospingus Cucullatos, vítima da cultura de caça e aprisionamento

Animais domésticos também sofrem Os animais domésticos são aqueles que vivem em um lar na companhia de seus donos, podendo desempenhar alguma função, como é o caso de cães de guarda. Quando se fala em animais domésticos, logo se associa a cães e gatos, mas dentre eles também existem os porquinhos da índia, chinchilas, hamsters, calopsitas, periquitos, peixes, tartarugas e coelhos. O comércio destes animais é presente em Frederico. Em uma agropecuária da cidade, a venda é regularizada e todos os animais vivem em boas condições. “Todos os animais são autorizados e acompanhados por um médico veterinário mensalmente”, ressalta Leandro

Bisello que é um dos donos do estabelecimento. Outro problema é o drama vivido por cães e gatos abandonados tanto no meio urbano, como em beiras de estradas do interior e rodovias. Em meados de 2010, haviam muitos animais vivendo nas ruas frederiquenses, então a atual vice-presidente da Associação Melhores Amigos dos Animais (AMAA), Sônia Salete Paim Menegusso tomou a iniciativa de entrar em contato com alguns vereadores da época para marcar uma reunião que foi divulgada nos jornais e aberta ao público. Na reunião do dia 15 de abril de 2010, surgiu a associação que até hoje cuida dos animais

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abandonados da cidade. Na casa de Sônia, encontram-se 122 cães e 40 gatos, mantidos pela sua própria renda e auxílio de voluntárias e instituições. O descaso com os animais, tanto silvestres quanto domésticos, é motivo de preocupação. Os que vivem nas matas são de suma importância para que exista a continuidade do ciclo de vida nas florestas. Já os domésticos são animais que depositam fielmente seu amor aos tutores, e muitas vezes são traídos em sua confiança. Nenhum animal merece estar na rota da extinção ou dos maus-tratos. Por isso, se você identificar qualquer indício de crueldade animal, faça denúncia à Patram.W


Áreas verdes

Onde foram parar as árvores? Vegetação na área urbana de Frederico Westphalen cai drasticamente Débora Franke Texto

Natália Menuzzi Texto / Foto

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ra uma tarde de sol intenso. Caminhar pelo Centro de Frederico Westphalen e encontrar uma sombra para fugir das altas temperaturas era uma missão muito difícil, obrigando a população a abrigar-se em marquises, por exemplo, já que não há tantas árvores assim para que se possa desfrutar de uma sombra nesta área da velha Barril. Por sinal, a sombra é apenas uma das diversas vantagens que as árvores trazem para a população da área urbana. Além de também ter a função de diminuir a força dos ventos e absorver os compostos tóxicos do ambiente, elas aumentam a fauna – especificamente, as aves – e proporcionam bem-estar psicológico, redução do impacto da água da chuva e diminuição da poluição sonora. Entretanto, para ter a capacidade de realizar todas estas funções e cumprir o seu papel por completo, é preciso que as árvores sejam tratadas da forma correta e um de seus tratamentos envolve a poda. Este é um fator muito importante, afinal, fazê-la de maneira incorreta por várias vezes seguidas diminui a vida de uma árvore. Bastam alguns passeios pela cidade para constatar que a poda incorreta influenciou diretamente na diminuição da quantidade da área arborizada. Mas para chegar a esta conclusão, foi necessário o auxílio dos alunos de Engenharia Florestal, da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Na disciplina Paisagismo e Arborização Urbana, os estudantes fizeram uma análise da quantidade de árvores no município. Realizada desde que o curso foi implementado na universidade, o estudo tem como objetivo colocar em prática os conhecimentos adquiridos em aula. Sob a tutela do professor doutor em Botânica pela Universidade Federal de Viçosa (UFV), Nilton Mantovani, responsável por ministrar a disciplina, os estudantes constataram que grande parte das árvores no município “sumiram”. “Comparando os projetos de 2008 e 2018 pude perceber que, antes, várias ruas do município possuíam árvores e, atualmente, houve uma drástica diminuição. Na análise quantitativa, é nítida a queda, e um dos motivos é a poda incorreta. A comunidade não sabe como tratá-las corretamente e acaba danificando a planta, por isso este trabalho deveria ser realizado pela prefeitura” – ressalta.

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As árvores da Praça da Matriz em Frederico Westphalen foram catalogadas pelo grupo PET Engenharia Florestal em parceria com a Secretaria de Meio Ambiente municipal

Em Frederico Westphalen foi criada, em 1989, uma legislação que regulamenta a arborização no município, a lei Nº 1.346, citando proibições da “poda ou supressão total ou parcial de espécies por particulares nas vias ou logradouros públicos. Em caso de necessidade o interessado deverá solicitar a poda à Prefeitura Municipal”. Porém, em 2017 esta legislação foi reformulada, delimitando as políticas ambientais no município.Hoje, consta na lei Nº 4.467/2017 que “a poda de qualquer árvore em qualquer local no território do município, quando autorizada pelo Órgão Ambiental Municipal (OAM), deverá obedecer a

critérios técnicos específicos ao caso, observando a espécie, tipo de poda, ornamentação e época adequada”. Conforme a legislação antiga a poda dependia de licença, iniciativa e mão de obra da prefeitura, enquanto que hoje basta apenas uma autorização do OAM para que as modificações na árvore sejam feitas. Esse pode ser um motivo pela alteração na arborização do município. O imbróglio sobre o plano de arborização só aumenta, afinal, a legislação mais atual também prevê que “o plantio, replantio, manutenção, preservação de árvores de qualquer espécie localizadas em área pública de domínio do Município de

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Frederico Westphalen é de exclusiva competência e responsabilidade do poder público municipal”. Conforme o fiscal ambiental do município, Flávio Laureano, com a nova legislação e o aumento de funcionários da equipe da Secretaria de Meio Ambiente, a fiscalização em Frederico Westphalen também cresceu. Entretanto, o servidor não soube precisar a quantidade de fiscalizações realizadas. Ainda segundo Laureano, a equipe da Secretaria de Meio Ambiente também procura orientar a comunidade quanto à poda e à manutenção das árvores, com o objetivo de manter a saúde das mesmas e prolongar seu tempo de vida.


Dando nome aos galhos Outro projeto da UFSM vem contribuindo na valorização da importância de ter um município arborizado. É por meio do projeto de extensão do Programa de Educação Tutorial (PET), também do curso de Engenharia Florestal, que todas as árvores da Praça da Matriz foram demarcadas e identificadas. Em parceria com a Secretaria Municipal de Meio Ambiente, os alunos, sob a orientação do professor doutor em Engenharia Florestal pela UFSM, Edison Cantarelli, realizaram a catalogação do local no primeiro

semestre de 2018 e distribuíram placas nas árvores, contendo o nome científico da espécie e a sua nomenclatura popular. Ao todo foram colocadas cerca de 70 placas em 11 espécies diferentes na Praça da Matriz. O projeto tem um cunho educativo e visa incentivar a população a conhecer melhor as árvores da cidade e, dessa forma, valorizar as áreas públicas. Segundo o professor Cantarelli, as placas geram um interesse maior na população. “Quando colocamos as placas as pessoas começam a olhar mais

para as árvores, e, assim, acontece uma aproximação da comunidade om o meio ambiente”, afirma. Além de Frederico Westphalen, municípios próximos como Novo Tiradentes, Palmitinho, Taquaruçu do Sul e Iraí também receberam a identificação das árvores em áreas públicas. No município frederiquense, a catalogação será expandida, como explica Cantarelli. “Já fizemos uma reunião com a Prefeitura e o próximo passo da nossa parceria é identificar as árvores das Praças da Corsan e da URI”, frisa.

Guilherme Bordignon Ceolin (esq.), Renato Souza e Samantha Lamparti, professor e acadêmicos do curso de Engenharia Florestal da UFSM, observam as características das árvores na praça da URI, próxima área a receber o projeto

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Tem uma sombra aí? Em 2010, o Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) identificou as áreas arborizadas de 5.566 cidades brasileiras e, com base neste estudo, criou um ranking, em que o primeiro lugar é ocupado pelo município com mais árvores plantadas, e o último é a cidade mais carente de áreas arborizadas. No Brasil, um terço dos domicílios em áreas urbanas não têm árvores em seu entorno. Mas onde entra Frederico Westphalen nessa história? A velha Barril está na posição 1.801, com 87,5% de arborização no município, enquanto que Seberi e Taquaruçu do Sul estão abaixo no ranking oficial, com 86,6% e 60,1%, respectivamente. Porém, outras cidades da região são exemplos positivos, como Palmitinho, que mantém uma taxa de 93,3%, e Caiçara com 95,5%. Na região, Iraí é o principal destaque, ocupando a 67ª posição no ranking nacional, com 99,9% de arborização nos entornos dos domicílios. Estes números mostram que, apesar haver um alto índice de arborização nas áreas urbanas frederiquenses, o cenário ideal ainda está distante, o que aumenta a preocupação quanto ao tema. Enquanto os dados mostram uma cidade bem arborizada, outras avaliações, feitas de forma mais local, questionam a diminuição no número de árvores. Para que o assunto permaneça em pauta, é necessário que a própria população se engaje para que o município não vire um bloco de cimento.

As placas, colocadas no primeiro semestre de 2018, tem como intuito instigar a população a olhar para as árvores e aprender mais sobre elas

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Tendência

Visão para redução de impacto Práticas de gestão ambiental em Frederico Westphalen

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Daiana Hilgemann Texto / Foto

Daiane Pereira Texto

Egenara Padilha Texto

Isabela Rocha Texto / Foto

Jéssica Vieira Texto

Luiz Sérgio Lima Texto

ara pensarmos em avanço e crescimento consideráveis e buscar soluções que possam melhorar os inúmeros problemas ambientais do Brasil é importante analisarmos a gestão ambiental. Segundo o Ministério do Meio Ambiente (MMA), o termo consiste em fazer o planejamento e aplicabilidade de ações ambientalmente corretas em conjunto com as pessoas e empresas. O objetivo é pesquisar, pensar, idealizar e pôr em prática atividades humanas e empresariais, e faz com que os recursos naturais sejam usados de maneira correta. O professor pós-doutor em Ecofisiologia Vegetal pelo Instituto Nacional de Pesquisa Agronômica (INRA -França), Alexandre C. Rodrigues, do curso de Engenharia Ambiental e Sanitária, na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) conta que os assuntos ambientais são bastante debatidos, mas

ainda falta sensibilização das pessoas. Segundo ele, na UFSM, apesar de ainda não ter um sistema de gestão ambiental totalmente desenvolvido, os alunos e professores implantam projetos nessa área na comunidade frederiquense. A acadêmica de Engenharia Ambiental e Sanitária, Alissana Foss, conta que ela e seus colegas realizaram um projeto sobre resíduos sólidos na UFSM, elaborado e posto em prática por três grupos de alunos. Dois dos grupos trabalharam com a Casa do Estudante (CEU). Ela explica que no primeiro instante fizeram uma visita nos apartamentos para saber quais dos moradores separavam ou não os resíduos sólidos, o porquê de não separar e o que era feito com o óleo de cozinha. Através dessa abordagem eles constataram que a grande maioria dos moradores não separava os resíduos por não ter condições financeiras de adquirir mais que uma

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coletora. Com o auxílio dos professores, o grupo distribuiu coletoras para os moradores que tinham apenas uma e na entrada do prédio da CEU foi colocado um cartaz informativo, falando do dia da coleta seletiva e o que vai na coletora de resíduo seco/reciclável e orgânico. A acadêmica explica que os moradores despejavam o óleo de cozinha na pia, por não saberem qual era o destino correto, portanto foram entregues garrafas pets, para que fosse destinado corretamente. Atitudes como a distribuição de interruptores de luz nos corredores de cada andar e plaquinhas para economizar energia elétrica foram realizadas pelos integrantes do grupo. “Todas essas ações que realizamos fazem parte de um sistema de gestão ambiental e podem ser feitas por qualquer empresa e dentro da nossa própria casa, para reduzir ao máximo os impactos ambientais”, complementa Alissana.


Gestão ambiental empresarial

Laércio Pirolli, gerente industrial corporativo da Bakof Tec, relata que os processos de descarte de resíduos químicos cumprem as normas dos orgãos ambientais

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Com ênfase na sustentabilidade, a gestão ambiental empresarial visa reduzir ao máximo o impacto causado por atividades econômicas ao meio ambiente. As práticas realizadas se destacam na manutenção da biodiversidade, tratamento e reutilização da água, adoção de sistemas de reciclagem de resíduos sólidos e a criação de produtos que provoquem o mínimo possível de dano ao ecossistema. Em Frederico Westphalen, a empresa Bakof Tec é conhecida por se destacar no ramo da fabricação de produtos à base de polietileno e fibra de vidro. Segundo o Gerente Industrial Corporativo, Laércio Pirolli, a empresa é gerida de forma que se procure seguir à risca as normas dos órgãos ambientais. Testes anuais são realizados para verificar se as emissões de gases, contaminação do solo e a saúde dos colaboradores estão nos níveis permitidos. O descarte dos resíduos da empresa acontece a partir do padrão ambiental exigido, “nós, na área industrial, nos preocupamos mais com as rotinas operacionais”, afirma Pirolli. Além disso, a água utilizada no processo de produção passa por um filtro, o qual separa os resíduos sólidos para que essa seja reaproveitada, “precisamos garantir que os resíduos não cheguem no meio ambiente, assim são separados da água e recolhidos a cada 15 dias”, explica Pirolli. Para provar que não há problemas no solo, a Bakof Tec, em parceria com a Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), fez uma pesquisa em que os professores do Departamento de Engenharia e Tecnologia Ambiental constataram, por meio de análise do solo, que não há nenhum tipo de contaminação pela empresa.


Coleta seletiva na área da saúde Materiais biológicos contaminados com sangue ou patógenos, peças anatômicas, seringas, substâncias tóxicas, inflamáveis e radioativas, além de uma grande variedade de materiais como plástico e algodão são classificados como resíduos hospitalares. Tecnicamente provém de qualquer estabelecimento ou unidade de saúde voltados ao atendimento humano e animal, como centros farmacológicos destinados à pesquisa, postos de saúde e hospitais. Existem políticas públicas que visam contribuir para o bom funcionamento do descarte de lixo hospitalar. A Secretária de Saúde do município, Marta Helena Chielle Roani, comenta que a política de descarte de lixo hospitalar prima pela separação

dos resíduos contaminados em local adequado com supervisão de profissionais qualificados. A minimização e controle para a dispersão de resíduos hospitalares em níveis aceitáveis são fundamentais como forma de frear o processo de contaminação ambiental e dispersão de doenças infecciosas para a população. Afinal, o simples contato com uma água contaminada ou com o próprio lixo pode transmitir doenças por meio de bactérias ou vírus mais agressivos como vírus da imunodeficiência humana (HIV) e hepatites. A responsável pela administração da separação dos resíduos hospitalares no Posto de Saúde Central, Adriane Lutz, e a governanta do Hospital Divina Providência (HDP), Caroline

Lixeiras destinadas à separação de dejetos contaminados

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Ross, pontuam que, caso os resíduos hospitalares forem para o Consórcio Intermunicipal de Gestão de Resíduos Sólidos (Cigres), o ambiente é contaminado e a população corre o risco de também se contaminar. O cidadão consumidor de medicamentos deve fazer sua parte. Comprimidos e remédios não mais utilizados ou vencidos, assim como seringas descartáveis, devem ser encaminhados aos postos de coleta de medicamentos que se encontram em unidades de saúde, farmácias e, até mesmo, em supermercados. Desse modo, esses resíduos não são direcionados ao descarte em lixos comuns e a integridade física de muitas pessoas, assim como o meio ambiente ficam resguardados por um simples gesto de separação e cuidado.


Resíduos sólidos

Uma relação autodestrutiva Consumo e intensa produção de lixo exigem mudanças em ações públicas e individuais Ariel Stival Texto | Foto

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studos feitos pela Organização das Nações Unidas (ONU) e pelo Banco Mundial apontam que sete bilhões de pessoas produzem anualmente cerca de 1,4 bilhões de lixo, em média 1,2 kg per capita por dia. A Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe), divulgou em 2016 que os brasileiros produzem cerca de 78,3 toneladas, sendo 60% de resíduos orgânicos. Em Frederico Westphalen, a produção per capita gira em torno de 700 gramas por dia. A relação do homem com o lixo, segundo o filósofo Humberto

Adriana Bernardi Texto

Eliége Gomes Texto

Calloni, é “uma relação voltada à morte de todos os ecossistemas e também, do próprio ser humano”. As comunidades desde muito tempo são educadas para o consumo e não à preservação ambiental. Em uma sociedade gananciosa, a importância se baseia nos lucros obtidos, sem pensar na destruição causada ao planeta. “Cinicamente, grandes produtores fazem campanhas publicitárias a favor do meio ambiente, mas se defendem da culpa da destruição deliberada”, ressalta Calloni. A rotina de cada cidadão implica diretamente nessa relação, devido ao

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Francelen Soares Texto | Foto

consumo de produtos e descarte de suas embalagens. “Um dos passos mais importantes é a separação adequada dos resíduos, não descartando no ambiente e não misturando os diferentes tipos de lixos”, afirma o Fiscal Ambiental de Frederico Westphalen, Flávio Cunha da Silva. É importante lembrar que muitas vezes aquilo que não julgamos ser útil, pode servir para outra pessoa. Cunha ressalta que é preciso “ter uma mudança de rotina, pois a separação de lixo é uma questão cultural e aos poucos entra na vida dos cidadãos e muda o dia a dia de cada um”.


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Consórcio Intermunicipal de Gestão de Resíduos Sólidos (Cigres) atende 31 municípios

A importância do Cigres para a região As Políticas Nacionais de Resíduos Sólidos (PNRS) estabelecem a criação de um plano de gestão municipal ou intermunicipal. Na região do Médio Alto Uruguai está inserido o Consórcio Intermunicipal de Gestão de Resíduos Sólidos (Cigres), composto por 31 municípios. O consórcio tem como objetivo principal a gestão integrada e o gerenciamento ambiental adequado. Atualmente é administrado pelo prefeito da cidade de Seberi, Cleiton Bonadiman e se localiza no km 43, desse mesmo local. Possibilita também convênios com o Estado através de repasses de recursos, em que a divisão é feita proporcionalmente ao tamanho da produção de cada localidade.

A partir do controle individual de cada município, os resíduos são descarregados nas balanças onde são pesados na chegada e na saída, para em seguida serem comercializados. Após a pesagem, são encaminhados para uma esteira de triagem, em que são prensados e separados conforme o material. Os compostos orgânicos caem em um rolo e são armazenados em um local separado até irem para o pátio de compostagem para serem reaproveitados.Tudo o que não é possível aproveitar com a reutilização, é colocado em uma escavação no solo e revestida por uma camada de terra argilosa, em que o lixo é compactado e coberto diariamente. Resíduos

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eletrônicos e hospitalares não são recebidos pelo consórcio, pois o local não é autorizado. De acordo com a PNRS, a responsabilidade do ciclo de vida dos produtos deve ser compartilhada com os fabricantes. O maior produtor e contribuinte da manutenção do Cigres é Frederico Westphalen, pois não pré-seleciona o lixo antes de transportá-lo. Os demais municípios que pré-selecionam, mandam os resíduos de baixo valor e baixo reaproveitamento, o que causa prejuízo ao consórcio e aos outros investidores. Frederico por ser o maior investidor, paga uma conta que não é somente dele, além disso, o Cigres recebe um valor menor que o devido.


Conscientização da Comunidade O recolhimento de resíduos sólidos é responsabilidade da prefeitura municipal, mas a coleta de lixos domiciliares, como podas de árvores e entulhos de construção civil, é dever do gerador. Segundo o Coordenador da Divisão de Qualidade e Licenciamento Ambiental, Carlos Minuzzi Rossato, uma das dificuldades encontradas é o descaso das pessoas diante da coleta seletiva, “mesmo com os projetos incentivados pela prefeitura, a comunidade tem participado pouco”. Um dos principais projetos municipais é o Recicla Frederico,

parceiro da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), que auxilia na gestão dos resíduos sólidos. Coordenado pela professora do Departamento de Engenharia e Tecnologia Ambiental, Aline Ferrão Passini, as atividades iniciaram em junho de 2017 e desde então, são elaboradas práticas de conscientização para a população frederiquense. Outro projeto é o Cidade Limpa que deu início ao programa Entulho Zero, esse possui o propósito de recolher prioritariamente os resíduos de construções civis e podas de

árvores, além de esclarecer para a comunidade suas responsabilidades diante do descarte correto. As questões ambientais estão ganhando mais espaço atualmente, porém a produção individual, a importância da coleta seletiva, o processo de segregação dos materiais e a destinação adequada dos diferentes tipos de resíduos sólidos, ainda são pouco debatidos. Rossato chama a atenção para o processo de conscientização da comunidade: “uma mudança cultural não acontece em um ou dois anos, é um caminho longo a ser percorrido”.

Diego Vicente, que trabalha há 4 anos no CIGRES, é operário responsável por encaminhar os resíduos para o processo de triagem

Foto: Ed Andreick Wisniewski

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Aline Severo Texto / Foto

Selva de pedra

Ana Kuntz Texto Luiz SĂŠrgio Lima Texto

Crescimento vertical urbano ExpansĂŁo da cidade sem planejamento apresenta sua conta ambiental 40


“N

asci e fui criado aqui. Eu lembro que havia apenas casas… os prédios surgiram nos últimos 30 anos...”, relata nostalgicamente o ex-sócio proprietário e atual administrador da Estação Rodoviária de Frederico Westphalen, Jonas Locatelli. O município, como conta a história local, não foi planejado. Os primeiros carreteiros surgiram na região no ano de 1918, com o transporte de produtos manufaturados e da produção agrícola. Em 1927, em uma assembleia de moradores, foi decidido prestar uma homenagem ao engenheiro Frederico Westphalen, responsável por conduzir o projeto do governo do Estado para construir as estradas da região por onde esses primeiros carreteiros passaram. A cidade progrediu e povoou os arredores da pequena capela, em que os moradores criavam seus próprios caminhos, a cada visita ao comércio que prosperava. Ao longo dos anos, esses caminhos se tornaram as ruas que hoje evidenciam a falta de planejamento,

com cruzamentos incompatíveis, responsáveis em parte, pela desordem no trânsito. O Secretário de Obras, Viação e Serviços Urbanos do município, Valmor Pavan, conta que somente a partir de 1960 as ruas passaram a ter quatro entradas: “O desarranjo característico da maioria das ruas traz alguns transtornos relacionados à mobilidade urbana. Infelizmente, a cidade é assim, não existindo culpados, mas conseguimos administrá-la dessa maneira”, esclarece. Uma das discussões mais pertinentes associada ao fenômeno de expansão, se refere ao impacto ambiental. Isso porque o modelo de construção civil atual utiliza amplamente matéria-prima não renovável e consome grandes quantidades de energia na produção e transporte de insumos. Além disso, o analista ambiental, Jussan Cezaro, alerta para a massiva degradação do solo causada pela urbanização. No município, as edificações são proeminentes devido ao solo rochoso da região, propício para esse tipo de construção,

em virtude de seu papel coadjuvante na sustentação de grandes estruturas. Esse é outro fator desfavorável para a preservação ambiental, visto que o número de pessoas morando e ocasionando gastos em um prédio, supera o de residentes em uma casa. A negligência de habitantes e autoridades com as nascentes fluviais de Frederico Westphalen, também preocupa. Em localidades periféricas e até mesmo no centro, é comum que construções sejam erguidas sob nascentes potencialmente aptas para fornecer água de qualidade para a população. No bairro São Francisco de Paula, núcleo 6, a Assistente Social, Simone Stefanello, conta que algumas nascentes foram cobertas após a ocupação de famílias carentes, ocasionando alagamentos. “O número de famílias que invadem terrenos municipais chega a mais de 50 famílias em um único bairro. Por causa disso, muitas residências são construídas de forma incorreta, prejudicando parte do ecossistema daquela área”, explica.

Novas obras em Frederico Westphalen, em sua maioria prédios residenciais, atendem demandas da população de estudantes

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O progresso populacional Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), no ano de 2010 a cidade possuía aproximadamente 30 mil habitantes e, atualmente, de acordo com o Secretário de Planejamento, Alexandre Martinazzo, já ultrapassa 35 mil habitantes. Parte desse crescimento está relacionado à chamada população flutuante, composta em grande parte por estudantes que ingressam em uma das cinco universidades da região. Devido à vinda dessas universidades, o ramo imobiliário passou a investir mais no desenvolvimento vertical da estruturação urbana, ou seja, na construção de prédios. Esse aumento no número de edifícios produz danos

ao meio ambiente, desde o consumo exagerado de energia elétrica até a produção excessiva de lixo. “Houve um crescimento muito grande da construção civil, nós vemos a cidade crescer”, diz a comerciante e proprietária da loja Imperatriz Móveis e Decoração, Jane Halbert Saraiva. O crescimento urbano se reflete na expansão das regiões. Exemplo disso é o projeto Faguense Village, que tem como objetivo a descentralização da cidade. A empresa Marcos Lima Imóveis, responsável pela obra, iniciou o projeto com quatro complexos, sendo três residenciais e um comercial, além da construção de ciclovia, área de passeio e sinalização

adequada. O engenheiro responsável, José Ricardo de Lima, acredita que a imagem da cidade em constante expansão atrai para Frederico a atenção de possíveis investidores, “pessoas que visitam a cidade, pensam que ela é muito maior do que realmente é, isso chama a atenção de investidores da região”. Ao lado desse crescimento, é preciso observar as leis ambientais, sendo a Fundação Estadual de Proteção Ambiental (FEPAM), o órgão responsável pela regulamentação ambiental. Por lei, 35% das construções devem ser destinadas a áreas verdes, parques e praças, estendendo também às áreas de preservação, além dos projetos de compensação.

Exigências ambientais e do Plano Diretor

Foto: Denise Nunes Fontana

Concentração de carros e diminuição da área verde caracterizam a paisagem urbana

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Um instrumento básico da política de desenvolvimento e de expansão urbana é o projeto regulamentado pela Lei Federal n.º10.257/01, o Plano Diretor. O Estatuto da Cidade obriga a criação de um plano para cidade com mais de 20 mil habitantes, possuidoras de áreas de interesse turístico ou inseridas na área de influência de empreendimentos com significativo impacto ambiental. No Estatuto da Cidade o Plano Diretor deve ser revisto a cada 10 anos, assim como a lei municipal referente a ele. Além disso, é necessário englobar o território do município como um todo, definido as exigências a serem cumpridas para que se tenha assegurada a função social da propriedade no local. No Plano Diretor está inserida a compensação ambiental, responsável por suprir uma área verde que tenha sido removida por alguma construção. Essa prática pode ser feita no mesmo local ou mais afastado, ou ainda pode ser necessário “limitar o uso de toda a sua propriedade ou parte dela, para preservar, conservar ou recuperar os recursos ambientais”, ressalta o analista ambiental Cezaro.ww


Endemias

Proliferação e combate A invasão dos mosquitos na região do Médio Alto Uruguai

A Ananda Rivero Zouain Foto / Texto

maior parte da população frederiquense e dos municípios próximos sente incômodo devido à grande incidência de pernilongos. Esses pequenos seres nos incomodam com seu zumbido e, principalmente, com suas picadas que podem causar inflamações e muita coceira. Além do pernilongo mais comum, o Culex, existe também o Aedes Aegypti, que é o responsável por transmitir doenças como a dengue, o Zika e o Chikungunya. Os profissionais da área da saúde concluíram que a causa principal para a proliferação dos vetores nos meses de março, abril e maio de 2018 ocorre pelo alto índice de calor e umidade que se concentraram no país no período. Por todos esses fatores, informações sobre estes insetos são de importância pública pois têm a fama de serem os mais mortíferos vetores de doenças conhecidos pelo homem. De acordo com o médico veterinário da 19ª Coordenadoria Regional de Saúde

(CRS) de Frederico Westphalen, Mauro Lorda Dornelles, atuante no setor da Vigilância Ambiental, diversas cidades relatam o aumento do Culex. Diferente do Aedes, o mosquito comum é antropofílico, ou seja, tem um afeto maior pelo sangue de humanos. O Culex prefere águas estagnadas, principalmente cidades com riachos e fossas sépticas. Locais com grande concentração de matéria orgânica, como os currais e pocilgas são ambientes propícios para uma melhor reprodução. A fêmea faz a deposição dos ovos nas lâminas d’água em formas de jangadas aglutinadas. O alto calor encurta o ciclo, e acelera o processo de transição da larva para a fase adulta. Já o Aedes deposita os ovos individualmente e procuram por águas limpas em ambientes naturais, principalmente em plantas, como a bromélia, por exemplo. Ambos já nascem e buscam por um local escuro, para que possam permanecer durante a luz do dia, pois são sensíveis à luz solar. Identificação das larvas de mosquito é feita em laboratório com auxílio de microscópio

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Águas sujas são meio de proliferação do pernilongo Culex

Papel do clima e do tempo De acordo com o professor encarregado da estação meteorológica da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e doutor em Agronomia pela UFSM, Braulio Otomar Caron, o tempo é um estado momentâneo da atmosfera, enquanto o clima é a configuração mais permanente, ou referente a um período maior. Contudo, as intensas atividades humanas no município são consideradas modificadoras do clima, devido ao grande número de veículos em circulação e à presença de indústrias. As partículas emitidas pelos veículos automotores

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e pelas fábricas produzem o aumento da quantidade de nuvens e, consequentemente, das chuvas. No entanto, Braulio salienta que essas atividades são muito graduais e que, na verdade, a intensa proliferação de mosquitos que ocorreu no início de 2018 provavelmente foi resultado da grande concentração de calor e umidade proveniente da massa de ar vinda da Amazônia, que possui características que elevam as temperaturas no Sul. Outro fator muito provável é o Veranico de Maio, que chega com a presença dessa massa de ar conduzindo muito calor.


Ações de combate Em Frederico Westphalen e região, a CRS, juntamente com a administração municipal, indicam ações para monitorar a incidência nos municípios, que são executadas pelos órgãos da Dedetização e Agentes de Combate a Endemias. De acordo com o gestor da empresa de dedetização, Ezias Júnior, as práticas visam controlar o surgimento descontrolado de mosquitos transmissores de doenças, Aedes Aegypti e Culex, nas bocas de lobo dos bairros do município, para manter o bem-estar da população. É usado um sistema totalmente independente, no qual são realizados os processos de nebulização e fumacê matando os mosquitos adultos. Os produtos são específicos para empresas especializadas, e são registrados no Ministério da Saúde e na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Ezias conta que moradores de alguns bairros relataram que, após o primeiro dia da execução dos serviços, reduziu-se muito a quantidade

dos insetos. Ressalta que este trabalho tem como objetivo combater o mosquito da dengue adulto, mas o importante é que a população se conscientize na eliminação do foco do Aedes Aegypti. “Por isso é fundamental que os moradores não deixem recipientes que possam acumular água, assim evitando criadouros para novos mosquitos. O trabalho do fumacê é uma ação momentânea, mas a preservação de locais sem água parada é mais eficaz para evitar a proliferação dos mosquitos”, afirma o gestor. De outro lado, também atuam os agentes de combate a endemias. Os profissionais visitam casas e locais que podem ser atingidos por qualquer tipo de endemia. No dia a dia, são feitos levantamentos que indicam os lugares com problemas para que sejam tomadas as devidas precauções. Cláudia Aparecida e Mariza Fernandes são agentes pela Secretaria de Saúde Municipal e fazem esta ação. Quando encontram recipientes que têm

água parada, despejam um produto biológico, evitando que a larva evolua. O laboratorista, Edis Veloso, que trabalha para o Levantamento Rápido do Índice de Infestação por Aedes Aegypti (LIRAa), mostra dados sobre a quantidade de pernilongos Culex e Aedes, que são recontados a cada quatro meses. Com isso, é feito um levantamento de baixo, médio e alto risco para cada município dos 26 da Microrregião de Frederico. No primeiro levantamento do ano, apenas Vicente Dutra e Liberato Salzano não apresentaram contaminações. O médico Dornelles orienta a população comunicar a Secretaria de seu município ao ver esgoto ao ar livre e caixas d’água mal vedadas para evitar a proliferação. Usar telas nas janelas de suas residências, manga comprida e repelente são ações indicadas para prevenir o contato com os vetores das doenças e promover a saúde e o bem-estar dos moradores.ww

Claudia Aparecida, agente de combate a endemias, verifica as Bromélias que acumulam água da chuva em sua estrutura, o que favorece a proliferação de mosquitos Aedes Aegypti

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Cultura

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feito estufa, reciclagem, desmatamento e compostagem estão entre os termos cada vez mais discutidos em sala de aula na medida em que as sociedades tomam consciência do impacto de suas ações na natureza. A educação ambiental já não é uma novidade, mas ainda está longe de ser considerada algo natural e rotineiro nas escolas. Promover a educação ambiental, segundo o Ministério da Educação (MEC), em todos os níveis de ensino e a conscientização pública para a preservação do meio ambiente é um dever atribuído ao Estado pela Constituição Federal. Além disso, o MEC trabalha sob os preceitos da Política Nacional de Educação Ambiental, que afirma que a educação ambiental é um componente essencial e permanente da educação nacional, devendo estar presente em todos os níveis e modalidades do processo educativo. A educação ambiental é estimulada a entrar como componente curricular, não na forma de disciplina, mas como tema transversal, trabalhado também fora da sala de aula.

Raquel M. da Costa Texto Taiane Borges Texto / Foto

Conquistas da educação ambiental Ações sobre o tema são incentivadas mas ainda faltam recursos 46


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No caminho certo De acordo com as coordenadoras pedagógicas que atuam na Secretaria de Educação de Frederico Westphalen, Janaíne Souza Gazzola e Rosane da Rosa, a Secretaria não desenvolve muitos projetos referentes a essa questão, porém tenta ao máximo suprir as demandas específicas de cada instituição do município. “Estamos amadurecendo uma ideia referente ao descarte consciente dos livros didáticos, mas nós não temos ainda nenhum

projeto acontecendo”. Na Escola Estadual de Ensino Médio Cardeal Roncalli, a temática parece bastante ativa entre a direção, professores e funcionários. Diretora do colégio desde 2012, Roze Lara Grassi afirma que são realizadas palestras sobre uso de lixeiras coloridas para a separação correta do lixo e distribuídas mudas de árvores em datas comemorativas. A escola também coleta a água das chuvas e a utiliza para lavar calçadas

e banheiros. “Nossa preocupação com o meio ambiente vem de longa data, procuramos incentivar nossos alunos a cuidarem e serem atenciosos com a natureza”, destaca. A coordenadora pedagógica da instituição, Vera Inês Freo Stanga, mãe de uma aluna da escola, ressalta a cobrança dos estudantes em casa. “Um exemplo é minha filha, ela sempre me corrige para que eu faça corretamente tudo o que ela aprendeu e põe em prática”.

Alunos da sétima série plantando mudas de alface americana na horta no colégio EMEF Rui Barbosa

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Esforços em toda a parte No município, ações de educação ambiental também estão espalhadas pelas instituições da zona rural. Atividades como o plantio de mudas de espécies nativas da região e a produção de alimentos típicos em hortas comunitárias têm a função de valorizar o espaço e história desses locais. Na Escola Municipal de Ensino Fundamental Vinte e Um de Abril, os debates sobre meio ambiente estão sendo incluídos na vida dos estudantes. Porém, conforme a diretora Neli de Fátima da Silva, a escola sofre com a falta de recursos financeiros e de mão-de-obra e depende de doações, prestações de serviços e da solidariedade dos pais dos alunos. Na linha Getúlio Vargas, interior de Frederico, os professores da Escola Municipal de Ensino Fundamental (EMEF) Rui Barbosa desenvolvem atividades sobre o assunto durante o ano letivo. A diretora, Eliéte Teresa Sehorek Teixeira, reconhece que seu interesse em valorizar e cuidar da natureza vem desde sua primeira graduação, em Ciências Biológicas. No primeiro ano como gestora,

Eliéte pediu que os alunos mais velhos, junto com alguns professores, retirassem as pedras britas do pátio escolar para plantar mudas de gramas, que foram doadas pelos pais. “Agora os professores podem levar os alunos na grama debaixo das árvores, para realizar diversas atividades sem a preocupação de que se machuquem”. Em parceria com a Cooperativa de Distribuição de Energia (Creluz), a Escola Rui Barbosa começou o plantio de mudas de árvores nativas no entorno do Rio Chiquinha, na Linha Faguense. Eliéte conta que os alunos auxiliaram nessa tarefa e acabaram encontrando muito lixo dentro e fora do rio e decidiram organizar a retirada dos materiais que poluíam o ambiente. Os pneus recolhidos do rio foram usados na confecção de pula-pulas, vasos de flores e puffs para os momentos de lazer dos estudantes. Outra atividade desenvolvida pela escola engloba o uso consciente de energia elétrica. A coordenação do colégio disponibilizou luminárias de LED para os alunos que trouxessem lâmpadas incandescentes, as amarelas,

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de suas casas. “Eu trouxe a lâmpada comum e levei para casa a lâmpada que economiza luz, ela é bem clara e melhor para enxergar”, afirma a aluna Ana Clara Souza Secretti, de 8 anos. O colégio também elabora diversas atividades para subsistência, como a horta. Eliéte revela que os alunos gostam muito das tarefas promovidas. A diretora complementa que o lixo orgânico gerado pela escola é usado para fazer adubo destinado ao cultivo das hortaliças. O aluno Lucas Blascziskievicz, de 13 anos, aprova essas ações. “É bom a gente mesmo poder plantar, a gente sabe o que plantou, sabe que é saudável. Gosto muito de participar dessas atividades para ajudar a natureza e a escola”. Uma das grandes dificuldades na EMEF Rui Barbosa é o recolhimento do lixo, que acontece somente uma vez ao mês na escola. A quantidade de lixo produzida é bastante significativa, porém o grande número de resíduos acumulados durante o mês é motivo de uma luta diária da parte de direção para tentar solucionar o problema.


Projeto de reutilização de materiais para a confecção de puffs, bancos e mesas, desenvolvidos pela ONG Engenheiros Sem Fronteira de Frederico Westphalen

Preocupação também na universidade Mas não é somente nas escolas que a educação ambiental está presente, na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) há uma organização particularmente interessada nas questões de educação ambiental: os Engenheiros Sem Fronteiras (ESF). Um dos principais objetivos do grupo é o incentivo ao cuidado e preservação do meio ambiente. “Nós, do ESF, acreditamos que a educação ambiental é fundamental nas instituições de ensino, pois os alunos geralmente são crianças, jovens ainda formando seu intelecto e seus ideais’, ressalta o diretor da unidade da ONG em Frederico Westphalen, Ubiratan Bones. O envolvimento da comunidade escolar, universitária e da população em geral está acontecendo e aumentando gradativamente. Porém o comprometimento de toda a sociedade está distante do necessário. Neste momento, cresce a importância do trabalho diário das pessoas envolvidas com a educação ambiental, na esperança de resultados em favor da natureza.ww

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Expediente Meio Mundo é uma publicação laboratorial do Curso de Jornalismo, do Departamento de Ciências da Comunicação, da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Campus Frederico Westphalen, desenvolvida pelos/ as acadêmicos/as das disciplinas de Reportagem em Jornalismo Impresso, Reportagem Fotográfica e Planejamento Gráfico. PROFESSORES RESPONSÁVEIS

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