Trabalho Final de Graduação - Arquitetura e Urbanismo - mariana bastos
PARA ALÉM DO MODERNO: reuso adaptativo e ampliação de edifício na Rua Chile, Salvador. mariana bastos
Rua Chile em 2024. Fotografia pela autora.
FACULDADE DE ARQUITETURA E URBANISMO UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA orientador
Márcio Correia Campos
banca examinadora
Lídia Quiéto Viana
Mauricio de Almeida Chagas
Renata Becker
1.introdução
O desenvolvimento deste trabalho parte de uma postura da responsabilidade do ato de construir, tendo em vista a atual lógica de consumo do ramo da construção civil que opera com base em seu crescimento ilimitado. O reuso na arquitetura surge, portanto, como uma forma de romper essa lógica. O contraste entre o crescimento acelerado de novos objetos arquitetônicos sendo levantados nas cidades e da quantidade de edifícios existentes sendo esvaziados nos centros urbanos é a mais direta evidência da necessidade desta ruptura.
É esta a moldura que conduz um olhar para o centro da cidade de Salvador na busca de situações oportunas para a prática de uma proposta que opera com o reuso como possibilidade de transformação do tecido urbano por meio da relação do objeto construído com o lugar. Nesse contexto, o conjunto arquitetônico construído no século XX torna-se especialmente interessante, uma vez que a grande maioria das edificações se encontra em má conservação e em estado de subutilização.
Partindo desse cenário, o trabalho tem como objeto de intervenção o Edifício Martins Catharino, um exemplar da arquitetura moderna situado na Rua Chile, em Salvador, cujos elementos arquitetônicos atualmente se encontram em estado de degradação.
É assim que o projeto arquitetônico se desenvolve por meio da busca de articular o reaproveitamento e ampliação do objeto, explorando o potencial da proposta de implementação de um edifício híbrido que se insere num contexto urbano de transformação.
Faz parte do processo de projeto uma reflexão acerca das características da arquitetura moderna para o uso do edifício, assim como a necessidade de atualização de sua infraestrutura para adequação das normas vigentes, favorecida pela possibilidade de modificação da espacialidade da edificação por conta da tipologia de estrutura existente.
Devido ao crescimento demográfico e à expansão da cidade, Salvador passou por diversos processos de migração e rearticulação da rede de comércios e serviços da cidade. Até a década de 60, segundo Figueirêdo (2001, p.09), a Rua Chile foi um marco de sociabilidade amplamente aceito pela população, considerando que o comércio sempre foi um elemento de integração das relações sociais.
Após a inauguração do Shopping Iguatemi em 1975 e a construção do novo terminal rodoviário e do CAB, o comércio tradicional da Rua Chile e do Relógio São Pedro sofreu um impacto significativo, havendo portanto uma reestruturação urbana na cidade que concentrava e expandia a rede terciária
o esvaziamento
Por conta do deslocamento da concentração das atividades terciárias, o Centro Antigo de Salvador passou por um processo de esvaziamento resultando em uma infraestrutura urbana subutilizada. Com isso, os imóveis da região atingiram degradações críticas, incluindo o conjunto arquitetônico moderno.
Apesar de terem sido realizados alguns projetos e propostas de reabilitação do Centro e do bairro do Comércio, muitas não chegaram a ser executadas. Além disso, quando executadas, muitas se tratavam de projetos de redesenho de calçadas, vias e mobiliário urbano, pouco impactando na dinâmica social e econômica do local.
Registros fotográficos de edificações em estado de degradação no Centro
Antigo de Salvador. Fotografias: pela autora.
Partindo de um levantamento de 218 imóveis realizado em 2018 localizado num recorte espacial do Centro Antigo de Salvador (SANTIAGO, 2018), foi constatado que cerca de 21% dos imóveis estavam em condições de subutilização do solo, sendo alguns ocupados apenas no térreo com uso de comércio e serviços e outros totalmente esvaziados devido aos estados de ruínas.
No mapa (img.01 e img.02) é possível visualizar o recorte espacial do levantamento abrangendo parte de algumas edificações, estas que estão demarcadas em preto, na Rua Chile e suas adjacências.
img.01. Fonte: Retirada do Google maps com edição pela autora
BAÍADETODOS OSSANTOS
img.02. Fonte: SANTIAGO, 2018.
Desse modo, partindo das edificações analisadas, levantou-se:
PARA ALÉM DO MODERNO: reuso adaptativo de edifício na Rua Chile, Salvador
218 11 33
Total imóveis analisados
Desocupados e em ruínas
Parcialmente desocupados: Térreo ocupado por comércio e andares superiores desocupados
Considerando esses números é notável que, apesar de ser um espaço de extrema importância para a preservação histórica e cultural da cidade, o Centro vem perdendo cada vez mais sua vitalidade, carecendo de propostas que, de fato, possibilitem uma mudança de conjuntura.
RUACHILE
RUACHILE PRAÇA MUNICIPAL
o contexto atual
Fazendo um recorte para a Rua Chile, hoje é possível visualizar uma nova conjuntura de nicho econômico que vem sendo instaurada. Após a inauguração do Fera Palace Hotel em 2017 e, posteriormente em 2018, a inauguração do Hotel Fasano, a Rua Chile vem se tornando um ponto de atração para incorporação de redes de hotelaria de luxo.
Mesmo que a reocupação dos imóveis seja um fator positivo para o reaquecimento da região, é necessário fazer a reflexão acerca a ocupação de áreas e objetos arquitetônicos de importância histórica e cultural, sendo ocupados substancialmente por usos de hotelaria, elegendo o acesso para um público de uma classe social específica.
Um outro acontecimento recente que pode exemplificar este contexto é a transformação planejada do Palácio Rio Branco, antigo palácio do governo estadual, em um hotel da rede Rosewood, com 75 quartos ao total, 39 no interior do edifício que será restaurado e 36 quartos no edifício anexo ao palácio.
Porém, considerando o anúncio do próximo lançamento imobiliário na Rua Chile, o Edifício Sloper, é possível enxergar também outros desfechos para o contexto de ocupação da região. O projeto do lançamento propõe o reuso de um edifício comercial para implantação de um edifício residencial, contendo 39 estúdios. O nome do edifício é derivado do nome Casa Sloper, loja de departamentos que ocupava o conjunto arquitetônico.
A inserção de novos usos habitacionais em uma região ociosa favorece sua reestruturação na medida em que gera novas demandas de usos como serviços complementares à habitação. Nesse sentido, a proximidade com regiões que mantenham um caráter de multifuncionalidade, como os bairros da Barroquinha e Nazaré, podem vir a favorecer a reabilitação urbana, na medida em que a existência de uma rede de apoio próxima viabiliza, em parte, a manutenção de atividades diárias.
Edf. Martins Catharino
Rua Chile
Rua da Ajuda
Av. Carlos Gomes
Av. Sete de Setembro
Ponto de onibus
Estacionamento
Elevador Lacerda
Terminal Náutico
Terminal Rodoviário da Barroquinha
O sistema viário e de transporte coletivo é outro elemento essencial para o suporte à implementação de novos usos e regeneração do tecido urbano. Se tratando de uma região central, a proximidade com o terminal da Barroquinha e a estação da Lapa permite uma maior acessibilidade para locomoção. No mapa abaixo é possível visualizar a relação do Edifício Martins Catharino com a rede de transporte dentro de um raio de 500 metros. Um outro ponto a ser analisado quando se fala sobre a implementação de um novo uso é a necessidade ou não da colocação de um estacionamento. Nesse sentido, o acesso a diferentes modalidades de transporte a partir do centro antigo e a disponibilidade de estacionamentos próximo ao local de intervenção reforça a falta de necessidade de ocupar espaço do edifício para garagens.
PARA ALÉM
3.potencial de transformação
Apesar da renovação de alguns edifícios, o local ainda carece de infraestrutura e equipamentos urbanos que permitam a retomada da vitalidade da Rua Chile, rua esta que já foi um marco de atração e glamour na cidade.
Desse modo, a partir de um mapeamento do tecido urbano, é possível visualizar lotes e conjuntos arquitetônicos edificados com potencialidades de transforma-
ção do lugar por meio do aproveitamento do potencial construtivo e da complexificação de sua ocupação.
Dentre essas potencialidades, temos pontuados alguns edifícios ociosos e subutilizados que, porém, por conta de sua implantação e sua configuração formal têm a capacidade de abrigar diferentes usos permitindo multifuncionalidade e a construção de uma rede de serviços de apoio que são elementos essenciais para a proposição da reocupação da região.
Nesse contexto, a implementação de um edifício híbrido surge como um meio de articular as diferentes demandas existentes no lugar, sejam elas geradas o déficit de uso habitacional e de serviços complementares mencionados anteriormente.
A permeabilidade característica dos híbridos no que concerne à cidade, bem como a utilização pública e privada dos seus equipamentos leva a ampliar temporalmente a sua atividade, não regida unicamente, nem por ritmos privados nem públicos, mas sim pela comunhão dos dois mundos (NEVES, 2012, p.24). Sendo assim, o programa do edifício se torna um dos elementos essenciais para a proposição da rearticulação do edifício com a cidade, abrangendo funções vitais.
No caso de Seattle Central Library (1999-2004), porém, apesar de elencar o uso “principal” do edifício como a Biblioteca, a hibridação é incorporada na medida em que se flexibilizam os subprogramas propostos nas variações de níveis do edifício. O projeto desenvolvido por LMN e OMA é composto por um complexo de 38.300m² que articula diferentes níveis de andares genéricos, cujos usos são flexibilizados de acordo com as necessidades de ocupação dos usuários.
realizado na cobertura do Edifício Martins Catharino, 2024. Fotografia: pela autora.
PARA
4.o edifício
Situado na rua Rua Chile, o Edifício Martins Catharino se destaca na medida em que os elementos formais de sua arquitetura moderna e sua implantação se diferenciam dos demais edifícios ali dispostos. Ele foi projetado pelo arquiteto José Bina Fonyat e construído na década de 60 (1962-1964), período este em que a arquitetura moderna estava se consolidando em Salvador. Bina Fonyat foi responsável também pelo projeto de outros exemplares na cidade, como o Teatro Castro Alves (1958), o Edifício do Banco do Brasil (1968) entre outros.
Ocupando metade da quadra em que está implantado, ele foi projetado considerando que seria duplicado na outra metade da quadra, cujo lote seria incorporado posteriormente, assim como o Edifício Fundação Politécnica, formado por duas torres e uma base compartilhada. (ABA/CAB, 1968, p.36). O plano, porém, não foi executado e o lote que viria a ser incorporado ficou durante um longo período fechado, até que depois após a reforma da Rua das Vassouras, ele foi incorporado como espaço de calçada e rolamentos de pista.
Registro fotográfico de frontispício de Salvador.
Fonte: Manuel Sá, 2022.
caracterização formal
Formalmente, ele é caracterizado por 3 volumes que demonstram a segregação de alguns usos, considerando: o uso comercial no térreo, mezanino e subsolo; os demais pavimentos com usos de serviços; o vazio intermediário que deveria funcionar como um terraço. Atualmente o térreo se encontra vazio, assim como algumas salas de escritório nos demais pavimentos. O terraço, devido à falta de manutenção das esquadrias e do guarda-corpo, se encontra inacessível por questões de segurança.
estrutura
O edifício apresenta uma planta livre com um estrutura de concreto de lajes espessas sem vigas aparentes e pilares robustos afastados da fachada, elementos característicos da arquitetura moderna que permitem uma maior facilidade na adaptação do espaço para outros usos e layouts.
circulações
O eixo de circulação do edifício é centralizado de modo a aglutinar o eixo de escada com o eixo das duas caixas de elevadores conforme ilustração isométrica abaixo. O corredor de circulação de acesso à escada, porém, não apresenta a largura mínima necessária conforme a norma de acessibilidade a edificações (ABNT NBR 9050). Além disso, a escada do edifício e o dimensionamento da circulação caracterizada como rota de fuga no térreo também não atende à norma de saída de emergências (NBR 9077).
PARA
Sendo um edifício projetado e executado na década de 60 do século XX, é inevitável a incompatibilidade de alguns elementos com as normas técnicas vigentes e também intervenções realizadas pelos usuários do edifício no intuito de minimizar os impactos resultantes das fachadas de vidro.
A partir do estudo de insolejamento é possível fazer uma relação com as intervenções realizadas na fachada pelos usuários do edifício, como a colocação de películas e alumínio nos vidros das esquadrias com o intuito de criar uma barreira de proteção ao sol.
condicionantes climáticas
mapeamento de fachada
TravessadaAjuda RuadaAjuda RuadasVassouras
Uso de película na esquadria
Condensadoras de ar-condicionado
Ausencia de esquadria
Devido à ausência de áreas técnicas nas fachadas, fato condizente com o período que foi construído, muitos dos usuários do edifício optaram por colocar as condensadoras expostas e fixadas nas esquadrias, fator que contribui para a degradação da fachada da edificação. Em alguns pavimentos há esquadrias subtraídas, sendo resultado da redução da dimensão da sala de escritório criando um novo ambiente para área técnica entre a esquadria da fachada e a sala reduzida.
RuaChile RuadasVassouras
Registros fotográficos do Edifício Martins Catharino. Fotografias: pela autora.
5.incorporando o vazio
Inserido num contexto de esvaziamento do centro antigo, o edifício tinha como vizinhança imediata um lote que estava vazio por um longo período, que abrigava anteriormente um edifício que fora demolido (img.06) . Após uma reforma de algumas ruas no centro antigo, o lote foi incorporado como parte da calçada, e parte como pista de rolamento para carro, alargando a Rua das Vassouras.
Porém, apesar de aparentar haver uma “melhoria” com o asfaltamento e alargamento da via, a ausência de uma proposição de incorporação do espaço para reestruturação urbana manteve a condição de esvaziamento e subutilização do espaço.
Além disso, o alargamento da via, ao invés de qualificar a caminhabilidade do pedestre, gera um desconforto na medida em que aumenta consideravelmente a distância que o pedestre precisa percorrer para atravessar a Rua das Vassouras.
De acordo com a legislação do PDDU (2016) de Salvador, a tipologia da Rua das Vassouras como Via Coletora I necessita de 3,50m para faixa de rolamento, porém contém atualmente 6,80m para cada faixa em cada sentido, subvertendo o uso do espaço por pessoas para ocupar com automóveis.
Desse modo, uma das reflexões realizadas no processo concepção do partido é
O conceito de vazio é sobreposto em variadas dimensões de estudo do projeto, tanto na relação do contexto de esvaziamento do Centro Antigo de Salvador como no contexto de esvaziamento do edifício e do espaço a ser incorporado como parte do lote.
É possível incorporar o vazio enquanto partido tanto para a concepção formal como para a concepção do programa a ser implementado no vazio do edifício.
Dessa forma, o vazio foi incorporado por meio da elaboração de uma estrutura em grid no lote que foi acrescido; alguns vazios dentro dessa malha são preenchidos conforme a disposição dos diferentes usos ao longo dos níveis do edifício.
O preenchimento dessa malha em grid permite uma flexibilidade na composição formal, além de contribuir para a elaboração de vazios dentro do volume total construído existente e o novo a ser incorporado.
A proposição de vazios é realizada no intuito de manter conexões entre os diferentes pavimentos e, portanto, entre os diferentes usos.
configuração atual
malha em grid
volume potencial
composição formal
PARA ALÉM
7.o programa
Inserida na Rua Chile, local de grande movimentação cultural, a Residência Artística surge no intuito de contribuir para o reaquecimento da região articulando diferentes usos da instituição de acesso público e privado com usos comerciais e de serviços. A hibridização do edifício entra em contraste com o conceito de monofuncionalidade da arquitetura moderna, abrindo debate, portanto, para a necessidade de uma arquitetura mais contextual.
O programa se distribui de modo a criar uma atmosfera convidativa ao público externo à instituição com usos abertos à usuários externos à Residência, como áreas expositivas da galeria e terraços como extensão de espaço público, além de fornecer usos de apoio à região, como lavanderia, academia, restaurante e café.
São dispostos também outros usos mais específicos de apoio à Residência Artística, como espaços multiusos com flexibilidade para ocupação como salas de oficinas, salas de aula, estúdio de música, salas de dança, salas de ensaio, auditório e habitação para os residentes.
A relação da disposição programática da Residência foi desenvolvida de modo a permitir flexibilidade de ocupação dos usos, além de manter uma correlação entre os diferentes subprogramas. Além disso, são propostos espaços livres em terraços ao longo dos pavimentos, incorporando o elemento de terraço intermediário já existente no Edifício Martins Catharino e replicando-o em outro pavimento, permitindo espaços livres com flexibilidade de usos tanto para os usuários da Residência Artística, quanto para os usuários dos demais programas.
O espaço livre já existente no edifício, porém, mantinha uma finalidade de acesso mais restrito, sendo disponibilizado apenas para usuários do condomínio. Com a intervenção, é proposta a reocupação do terraço com uma “praça elevada”, havendo possibilidade de acesso ao público como uma extensão da rua.
É possível identificar a aplicação desse conceito no Edifício Sede do Instituto Moreira Salles situado na Avenida Paulista. O projeto realizado pelo escritório Andrade Morettin Arquitetos foi concebido de modo a abrigar um museu, contemplando espaços para exposição, auditório, salas com flexibilidade para aulas e espaços livres dentro do edifício. O terraço intermediário presente no edifício permite uma maior relação de escala entre os usuários do Instituto com o espaço da rua e se torna um elemento convidativo, chamando o público a adentrar os espaços internos.
Com o intuito de manter uma interseção entre os diferentes públicos do edifício, os espaços foram distribuídos de modo a se conectarem por circulações ou por relação de contato visual devido à proximidade de alocação. Desse modo, num mesmo pavimento pode haver usuários de diferentes públicos, ou um mesmo uso pode estar distribuído em pavimentos distintos incitando que fluxo dos usuários possibilite uma conexão.
Partindo dessa lógica, os usos foram dispostos nos pavimentos da seguinte maneira:
térreo
Considerando o nível do térreo como o primeiro contato da Residência Artística, foram alocados espaços expositivos da galeria como um meio de convidar o público externo a conhecer a produção da instituição. Além disso, mantendo o caráter comercial e de serviço do edifício, foi alocada uma Loja e uma Lavanderia, que se estendem também pelo pavimento do Mezanino.
1°
pavimento
Atendendo a mais demandas expositivas da Residência Artística, neste pavimento há também um grande salão de exposição que divide conexão de circulações com uma academia.
2° pavimento
Neste pavimento foram dispostas salas multiusos que podem atender à ocupação por aulas da residência artísticas e oficinas realizadas ao longo de eventos.
3° pavimento
Mantendo a relação de terraço já existente no edifício, este pavimento foi pensado como um espaço de livre ocupação pelos usuários do edifício. Nele foi disposto um café, atendendo às necessidades de rápidas refeições pelos usuários do edifícios e público externo, sendo este último favorecido pela sua proximidade com o nível da rua.
4°, 5°, 6° e 7° pavimentos
Nestes níveis foram dispostos espaços que atendem demandas da residência artística, como auditório, salas de aula, salas de dança, salas de ensaio e audição e estúdio de música. A administração da instituição foi posta no 6° pavimento, entrando em concordância com o caráter mais privativo do acesso técnico do auditório. No 7° pavimento foi considerado um espaço para a mediateca.
8°, 9°,10° e 11° pavimentos
Nestes pavimentos foram distribuídos os apartamentos/estúdios da residência artística.
12° pavimento
Considerando a possibilidade de mais de um pavimento com livre possibilidade de ocupação, este pavimento, antes ocupado por salas de escritório, agora se torna um outro terraço no edifício. Formalmente, o edifício passa a ter dois vazios que marcam a sua volumetria.
13° pavimento
Considerando
PARA ALÉM
diretrizes
01. sociabilidade
A coexistência de variados usos promove a interlocução da esfera pública e privada, quebrando paradigmas de ocupação.
02. flexibilidade
Promover espaços flexíveis de modo a atender a flexibilidade de usos proposta no programa do projeto.
03. permeabilidade
A manutenção de conexão entre os usuários dos diferentes usos do edifício e também do edifício com a cidade.
04. acessibilidade
Democratizar o acesso por meio de usos de acesso público.
funcionamento
Rede de usos de apoio
O edifício consta com disponibilidade de usos de rotina, no intuito de fornecer um maior apoio ao bairro. Desse modo, o projeto dispõe de uma Lavanderia e de uma Academia, além de Café no terraço intermediário e um Restaurante no último pavimento.
Devido a mesclagem da esfera pública e privada, as circulações do edifício foram pensadas de modo a manter conexões e barreiras de acordo com a necessidade de cada uso. Os elevadores contém o Sistema de Acesso Seguro, restringindo de acesso para os pavimentos de uso habitacional da Residência Artística por meio do controle por senhas.
No intuito de arrecadação de fundos para a disponibilização de bolsas para a residência artística, os estúdios podem ser disponibilizados também para aluguel por temporadas para público externo. A ocupação dos estúdios varia de acordo com a rotatividade de atividades desenvolvidas pela residência.
Estúdios Flexíveis
Sistema de Acesso Seguro
8.desenvolvimento
circulações
Tendo em vista a atual inadequação normativa da circulação existente do edifício, o desenho do projeto se inicia com a alocação de novos blocos de circulação. Para adequação com a norma de Saída de Emergência dos Edifícios (NBR 9077) conforme os novos usos e áreas, são dispostas duas escadas de saída de emergência do tipo enclausuradas à prova de fumaça.
No intuito de maximizar a flexibilidade dos espaços, são aglutinados ao blocos de circulação os blocos de usos de serviço do edifício, além dos usos de apoio como sanitários. Estes usos são subdivididos em 2 blocos de concreto que se repetem em todos os pavimentos e marcam as fachadas.
O bloco 01 é implantado de modo centralizado na planta do edifício, contendo os eixos de circulação com elevadores sociais de usos comum e um elevador de carga para uso de serviços do edifício e também carga e descarga de materiais e objetos relacionados itens de cenografia e materiais para abastecimento do restaurante, café e demais usos.
O bloco 02 contempla majoritariamente usos de apoio como sanitários. Tendo em vista sua ocupação com usos de pouco tempo de permanência, ele foi implantado na fachada poente do edifício, onde se encontrava o acesso principal. O novo acesso principal, porém, foi alocado na fachada voltada para a Rua das Vassouras, no lote novo incorporado, devido sua maior visibilidade.
soluções estruturais
No intuito de manter o contraste com a estrutura de concreto existente, na estrutura nova do lote de acréscimo foi utilizada uma estrutura metálica, acompanhando e replicando as mesmas dimensões de vãos existentes, conforme ilustração a seguir.
Devido às diferenças de altura da laje steel deck com a a laje de concreto existente, se tornou inviável fixar a estrutura nova nos pilares da estrutura existente, pois iria rebaixar muito o pé direito. Desse modo, ambas estruturas serão independentes, sendo apenas encostadas uma na outra.
Para o local de encontro das duas lajes será utilizada uma junta de dilatação Mestique, prevenindo impactos de movimentação de ambas estruturas e vedando o local de emenda das lajes.
pilar em perfil metálico tubular quadrado 40x40
viga primária perfil w460
laje existente
Mestique laje steel deck e = 14cm
laje de concreto existente e=40cm estrutura em balanço junta de dilatação
viga secundária perfil w310
Além da execução da estrutura metálica, os blocos de circulação e usos de apoio acrescidos no edifício também contém uma estrutura nova, sendo esta com paredes estruturais e lajes de concreto, sendo apoio, em parte, para algumas vigas metálicas que interseccionam com os mesmos.
demolir/contruir
Para permitir mais conexões entre os pavimentos e, portanto, entre os diferentes usos, serão realizados cortes pontuais nas lajes de concreto existentes em alguns pavimentos na área de circulação da nova proposta.
Considerando que a laje existente é uma laje espessa sem vigamento aparente, ao realizar esses cortes de demolição, possivelmente serão encontradas vigas chatas internas. Desse modo, essa estrutura interna, ao haver as demolições, ficará aparente dialogando com a linguagem de grid da estrutura metálica nova a ser executada.
É importante salientar que, devido a falta de informações de projeto do edifício existente encontradas, será necessário uma análise de um estruturalista para coletar e calcular com primor tais informações.
Na ilustração isométrica ao lado é possível visualizar os cortes e as adições de laje conforme novas necessidades de disposição de cada pavimento.
instalações
As instalações prediais foram distribuídas de modo a alocar as instalações mais ostensivas nos blocos de circulação e de apoio/serviço do edifício. Desse modo, esses blocos foram contemplados com shafts que permitem a passagem dessas instalações.
Como estes blocos foram dispostos de modo centralizado no edifício, foram distribuídos também shafts em escalas menores nas regiões mais periféricas próximas às fachadas, permitindo atender outros usos que demandem instalações nessas localidades.
Em alguns pavimentos, esses shafts de escalas menores fazem esforço para distribuir seus dutos para shafts mais próximos, reduzindo suas quantidades distribuídas ao chegar no nível do térreo.
Como acabam, por vezes, sendo elementos visíveis nas fachadas, eles serão revestidos com elementos em placas de aluzinco na cor preta, mantendo a linguagem estética do edifício sem serem confundidos com pilares metálicos novos ou pilares de concreto existente.
elementos de fachada
perfil corrediça apartamentos
chapas com dobradiças
Metal Screen Hunter Douglas jardineira
fachadas 01 e 03
chapas com dobradiças e perfil com corrediça
Metal Screen Hunter Douglas
Nas fachadas voltadas para Rua CHile e Rua da Ajuda há a junção visível das duas estruturas independentes. Com o intuito de ocultar o local de emenda, amabas as fachadas foram desenhadas com uma membrana composta por chapas de tela expandida que ocultam o o local de emenda de lajes, mas ainda mantém um permeabilidade.
Em pontos específicos da fachada , foram dispostos chapas do modelo corrediça, permitindo a abertura completa para a rua.
estrutura de chapas metálicas fixada na fachada
VAGA DISPONIBILIZADA PARA CARGA E DESCARGA DO EDIFÍCIO / ACESSO DE SERVIÇO
RUADAAJUDA
ACESSO PRINCIPAL
RUADAS VASSOURAS
RUACHILE
PONTO DE ÔNIBUS REALOCADO CONFORME NOVA DISPOSIÇÃO DE RUA
ACESSO SECUNDÁRIO
9.propostas
O acesso ao edifício se dá pelo nível térreo, havendo um hall de entrada com os eixos de circulação vertical. A partir deste nível, o usuário já se depara com um átrio central que conecta visualmente os primeiros pavimentos, além do subsolo.
O acesso de serviço se dá pela Rua das Vassouras, havendo espaço delimitado para vaga de carga de descarga. No hall de serviço há o elevador de carga, sendo este o elevador destinado ao uso de serviço, além de poder ser usado também para movimentação de materiais e objetos relacionados a cenários para a residência artística.
Além destes acessos, o térreo consta também uma loja e uma lavanderia, mantendo os usos comerciais. A loja está voltada para a Rua Chile e a lavanderia, considerando um uso mais de serviço, está voltada para a Rua da Ajuda, rua esta de menos fluxo de transeunte.
Devido a necessidade de fácil acesso e movimentação equipamentos de grande porte, os espaços de serviço do prédio como subestação e casa de lixo foram implantados na fachada voltada para a Travessa da Ajuda, espaço este mais reservado quando comparado com as demais fachadas.
PARA ALÉM
O subsolo que antes comportava apenas usos de serviço do edifício agora contempla um dos espaços expositivos da galeria da residência artística. Ele mantém uma conexão direta com o nível térreo, sendo acessado por uma escadaria com níveis de arquibancadas, além de poder ser acessado também pelos elevadores. A abertura de laje proposta permite que os pedestres no nível da calçada da rua visualizem a ocupação do espaço, se tornando um convite para que adentrem os ambientes internos do edifício.
No pavimento imediatamente acima do térreo, o mezanino, há outro espaço expositivo da galeria, além de espaços destinados aos funcionários do edifício, como vestiários de funcionários e copa.
pav. mezanino
2° pavimento
O 1° pavimento também contempla um outro espaço expositivo para galeria. Este, porém, é composto por um grande salão que contém 2 acessos, sendo estes dispostos de modo a flexibilizar a ocupação do ambiente, possibilitando subdividir em 2 ambientes separados, em caso de necessidade. Na outra extremidade do edifício, neste mesmo pavimento há o acesso à academia, havendo uma área de recepção, espaços para exercícios cardiovasculares e os vestiários e sanitários PCDs. Além desses usos, há disponível também os usos de serviço e banheiros do edifício que se repete em todos os pavimentos.
O segundo nível que comporta a academia é o 2° pavimento, sendo este ocupado por espaços para exercícios de musculação, sala de exercícios específicos e a sala disponível para o avaliador físico.
Neste nível há também a espaço acima da área expositiva que contém espaços flexíveis para disponibilidade de salas multiusos. O intuito desse espaço é para atividades de aulas e oficinas ofertadas pela residência artística que sejam mais abertas ao público externo. As salas multiuso são separadas por paineis corrediços, permitindo unir os dois ambientes se tornando uma sala maior que comporta mais pessoas. Ao lado das salas multiuso há uma sala de apoio para aulas pequenas com audiovisual, um laboratório fechado que pode ser usado para trabalhos de revelação de fotografia e uma sala de atelier.
3° pavimento
4° pavimento
O terraço já existente no 3° pavimento do edifício agora comporta um café, podendo ser um atrativo tanto para os usuários dos demais usos como também para o público externo. O espaço do café foi disposto próximo ao acesso da circulação de serviço, facilitando os fluxos de carga e descarga, além da saída de resíduos e materiais sujos do estabelecimento. Para auxiliar o espaço de atendimento, foi disposto um espaço para lavagem de utensílios separados, além de um pequeno depósito. Os demais espaços dispostos no pavimento são de livre ocupação, havendo jardineiras e bancos para uma melhor qualidade de permanência dos usuários.
Logo acima do terraço, no 4° pavimento, foram colocadas salas de dança, permitindo que, por meio da permeabilidade das esquadrias de vidro e dos vazios criados nas lajes, as pessoas que estejam usufruindo do café possam visualizar também a dinâmica de aulas. Se tratando de aulas com atividade física, há a necessidade de vestiários disponíveis, sendo estes colocados ao lado do auditório no intuito de absorver a demanda de camarins. Neste pavimento, portanto, há essa mudança de layout do bloco de apoio com sanitários para suprir a necessidade desses usos.
PARA
6° pavimento
O nível de acesso da plateia ao auditório é pelo 5° pavimento, havendo um espaço disponibilizado para o foyer. Em caso de desmontagem da arquibancada, há uma escada permanente dentro do auditório que conecta do 4° com o 5° pavimento.
Ainda sobre o 5° pavimento, estão dispostas salas de ensaio e audição com flexibilidade de usos para salas de aula, além de um espaço para o acervo técnico que funciona como um depósito de todos os usos apresentações da residência artística, possibilitando a guarda de cenários, figurinos e etc.
O auditório no 6° pavimento é restrito para o acesso técnico, havendo sala de projeção, central de climatização e as passarelas técnicas. Ao lado da passarela técnica estão dispostas salas da área administrativa do edifício. Ainda neste pavimento, há o estúdio de música para atender demandas da residência artística.
8°, 9°, 10° e 11° pavimentos
O espaço de mediateca no 7° pavimento abrange tanto os residentes quanto usuários externos. Este espaço de acesso mais público se conecta com salas de aulas dispostas no mesmo nível, sendo estas mais restritas ao uso da instituição. Essa mesclagem de público permite que haja uma comunicação entre os diferentes usuários.
Nos pavimentos seguintes são dispostos o apartamentos da residÊncia, havendo diferentes tipologias no intuito de abranger diferentes situações de moradores.
as chapas com dobradiças foram dispostas nas fachadas de pele de vidro e varandas com o inteuito de minimizar o insolejamento no apartamento e permitir maior pruvacidade
apartamento tipo 01
os ambientes de áreas molhadas (banheiro, cozinha e área de serviço) foram configurados de modo centralizado na planta, permitindo maior flexibilidade de ocupação dos demais espaços, além de minimizar deslocamento de instalações hidráulicas.
com o intuito de abranger também mais de uma pessoa num mesmo estúdio, como resistentes que tÊm família, o apartamento tipo 04 permite a ocupação dos espaços com 2 quartous ou mais.
apartamento tipo 04
neste tipo de apartamento foi realizado o acréscimo de varando para o interior do volume do apartamento com o intuido de permitir ventilação para os quartos e os usos de área molhada
cobertura
O acesso a cobertura se dá pela escada de emergencia, fazendo a conexão direta com a área técnica proposta. Nesta área técnica foram colocadas as condensadoras de ar condicionado. Foi adotado o sistema VRF com o intuito de suprimir a necessidade de áreas técnicas nas fachadas, cujas condensadoras podem ser dispostas em até 200 metros de distância da evaporadora.
A platibanda existente teve sua altura elevada em 60cm, de modo a ocultar na fachada a elevação do bloco de concreto com o reservatório. Além disso, a elevação da platibanda marca formalmente o volume diferenciado que compõe o 13°.
As telhas utilizadas na cobertura são metálicas sanduíche do tipo trapezoidal, sendo executadas com i = 5%, havendo a colocação de calhas e rufos metálicos galvanizados.
A partir da área técnica é possível acessar a casa de máquinas dos elevadores e o barrilete do reservatório. Para efeito de cálculo de dimensionamento do reservatório, foi considerado o abastecimento de água por dois dias ininterruptos de água potável, considerando a população de acordo com o layout do edifício totalizando 120.000L. De acordo com o enquadramento do edifício e seu uso, será necessário acrescer 12.000L de reserva técnica, totalizando 132.000L. Para contemplar este valor, no reservatório superior foi disposto 56. 800L e no reservatório inferior 72.480L, totalizando 130.180L.
acesso - área técnica
6°
7°
8°
9°
4°
1°
2°
3°
5°
JARDINEIRA
CHAPA METÁLICA DE TELA EXPANDIDA EM ALUZINCO
CONTRAPISO E REVESTIMENTO = 2%
LUMINÁRIA PENDENTE
JUNTA DE DILATAÇÃO MESTIQUE
LAJE METÁLICA EXISTENTE
VIGA METÁLICA W TIPO FORRO MODULAR COLMEIA FIXADO NA LAJE
VIGA METÁLICA W SECUNDÁRIA LAJE STEEL DECK
SEÇÃO - ACABAMENTO
ESCALA: 1/20
Em termos de acabamentos, foram utilizados alguns elementos para ocultar a visualização de “emenda” de estruturas, como chapas em tela expandoda na fachada e também forros prefurados em colmeia. Apesar de minimizarem a visualização, estes elementos não ocultam complemente, pois é intuito do projeto evidenciar a estrutura também como elemento estético.
CHAPA METÁLICA DE TELA EXPANDIDA EM ALUZINCO
CONTRAPISO E REVESTIMENTO
ESTRUTURA
VIGA
10.referências
ABA/CAB – Arquitetura Brasileira do Ano – Caderno de Arquitetura Brasileira. Rio de Janeiro, Supplementum III, pp. 36-39, 1968.
ARCHDAILY. Instituto Moreira Salles / Andrade Morettin Arquitetos Associados. ArchDaily Brasil, 08 Nov 2017. Disponível em: https://www.archdaily.com.br/br/883093/instituto-moreira-salles-andrade-morettin-arquitetos . Acesso em: 16 out. 2024.
ARCHDAILY. Seattle Central Library / OMA + LMN. ArchDaily Brasil, 10 fev. 2009. Disponível em: https://www.archdaily.com/11651/seattle-central-library-oma-lmn . Acesso em: 22 dez. 2024.
NEVES, Andreia Sofia Felisberto. O Edifício Híbrido Residencial: Temporali-da des distintas na vivência da cidade. 2012. 25 p. Dissertação (Mestrado em Ar quitetura)- Instituto Superior Técnico, Universidade Técnica de Lisboa, Lis-boa, 2012.e.
SANTIAGO. Habitação para o Centro Histórico de Salvador (CHS), vivo e plural: uma proposta para a ZEIS da 7a etapa/CHS. Ufba.br, 20 set. 2018.