PARA ALÉM DO MODERNO:
reuso adaptativo e ampliação de edifício
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reuso adaptativo e ampliação de edifício
Salvador.
O desenvolvimento deste trabalho parte de uma postura da responsabilidade do ato de construir, tendo em vista a atual lógica de consumo do ramo da construção civil que opera com base em seu crescimento ilimitado. O reuso na arquitetura surge, portanto, como uma forma de romper essa lógica. O contraste entre o crescimento acelerado de novos objetos arquitetônicos sendo levantados nas cidades e da quantidade de edifícios existentes sendo esvaziados nos centros urbanos é a mais direta evidência da necessidade desta ruptura.
É esta a moldura que conduz um olhar para o centro da cidade de Salvador na busca de situações oportunas para a prática de uma proposta que opera com o reuso como possibilidade de transformação do tecido urbano por meio da relação do objeto construído com o lugar. Nesse contexto, o conjunto arquitetônico construído no século XX torna-se especialmente interessante, uma vez que a grande maioria das edificações se encontra em má conservação e em estado de subutilização.
Partindo desse cenário, o trabalho tem como objeto de intervenção o Edifício Martins Catharino, um exemplar da arquitetura moderna situado na Rua Chile, em Salvador, cujos elementos arquitetônicos atualmente se encontram em estado de degradação.
É assim que o projeto arquitetônico se desenvolve por meio da busca de articular o reaproveitamento e ampliação do objeto, explorando o potencial da proposta de implementação de um edifício híbrido que se insere num contexto urbano de transformação.
Faz parte do processo de projeto uma reflexão acerca das características da arquitetura moderna para o uso do edifício, assim como a necessidade de atualização de sua infraestrutura para adequação das normas vigentes, favorecida pela possibilidade de modificação da espacialidade da edificação por conta da tipologia de estrutura existente.
Após o deslocamento da concentração das atividades terciárias, o Centro Antigo de Salvador passou por um processo de esvaziamento resultando em uma infraestrutura urbana subutilizada. Com isso, os imóveis da região atingiram degradações críticas, incluindo o conjunto arquitetônico moderno.
Fazendo um recorte para a Rua Chile, hoje é possível visualizar uma nova conjuntura de nicho econômico que vem sendo instaurada. Após a inauguração de hoteis, a Rua Chile vem se tornando um ponto de atração para incorporação de redes de hotelaria de luxo. Porém, mesmo que a reocupação dos imóveis seja um fator positivo para o reaquecimento da região, é necessário fazer a reflexão acerca a ocupação de áreas e objetos arquitetônicos de importância histórica e cultural, sendo ocupados substancialmente por usos de hotelaria, elegendo o acesso para um público de uma classe social específica.
Nesse contexto, a implementação de um edifício híbrido surge como um meio de articular as diferentes demandas existentes no lugar, sejam elas geradas o déficit de uso habitacional e de serviços complementares.
O sistema viário e de transporte coletivo é outro elemento essencial para o suporte à implementação de novos usos e regeneração do tecido urbano. Se tratando de uma região central, a proximidade com o terminal da Barroquinha e a estação da Lapa permite uma maior acessibilidade para locomoção.
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. lançamentos imobiliários recentes


. potenciais de transformação



Situado na rua Rua Chile, o Edifício Martins Catharino se destaca na medida em que os elementos formais de sua arquitetura moderna e sua implantação se diferenciam dos demais edifícios ali dispostos. Ele foi projetado pelo arquiteto José Bina Fonyat e construído na década de 60 (1962-1964), período este em que a arquitetura moderna estava se consolidando em Salvador.
implantação


RuadaAjudaRuadas Vassouras
RuaChile

Devido ao momento em que foi contruído, o eixo de circulação vertical do edifício atualmente possui uma única escada cujo seu dimensionamento não atende à norma de saída de emergências (NBR 9077). Além disso, o corredor de circulação de área comum não apresenta a largura mínima necessária conforme a norma de acessibilidade a edificações (ABNT NBR 9050). É notável as intervenções realizadas pelos usuários do edifício no intuito de minimizar os impactos resultantes das atuais fachadas de vidro.
POR UMA ARQUITETURA MAIS CONTEXTUAL
A Residência Artística surge no intuito de contribuir para o reaquecimento da região articulando diferentes usos da instituição de acesso público e privado com usos comerciais e de serviços. A hibridização do edifício entra em contraste com o conceito de monofuncionalidade da arquitetura moderna, abrindo debate, portanto, para a necessidade de uma arquitetura mais contextual.
O programa se distribui de modo a criar uma atmosfera convidativa ao público externo da instituição, com usos abertos à usuários externos à Residência, como áreas expositivas da galeria e terraços como extensão de espaço público, além de fornecer usos de apoio à região, como lavanderia, academia, restaurante e café.
A Residência Artística, enquanto uma instituição privada, é retroalimentada por meio dos usuários residentes e também por meio destes outros usuários externos que também podem usufruir dos espaços e dos serviços.
Considerando a proximidade com o acesso a diferentes modais de transporte, além do intuito de priorizar o pedestrianismo, o projeto dispensa estacionamento.
Serviços
Loja
Restaurante + Coworking
Salas de aula
Estúdio de música
Salas de ensaio

A. atual B. proposta
O projeto tem como premissa democratizar o acesso por meio a interlocução de usos de esfera pública e privada. Nesse sentido, o edifício mantém a conexão entre os diferentes usuários.
Lavanderia
Mediateca
Auditório
Galeria / Área expositiva
Salas multiuso
Administração
Habitação
Academia
O projeto também tem como intuito promover espaços flexíveis de modo a atender a variedade de usos proposta no programa do projeto. Desse modo, a estrutura utilizada é pensada para que possa ser modificada de acordo com as necessidades de usos que possam vir a surgir.
. sociabilidade
. permeabilidade . acessibilidade . flexibilidade
INCORPORANDO O VAZIO
O edifício tinha como vizinhança imediata um lote que estava vazio por um longo período, que abrigava anteriormente um edifício que fora demolido. Após uma reforma urbana, o lote foi incorporado como parte da calçada, e parte como pista de rolamento para carro, alargando a Rua das Vassouras. Porém, apesar de aparentar haver uma “melhoria” com o asfaltamento e alargamento da via, a ausência de uma proposição de incorporação do espaço para reestruturação urbana manteve a condição de esvaziamento e subutilização do espaço, além de modificar morfologicamente uma tipologia de rua que é característica do Centro Antigo de Salvador.
incorporando área

As circulações e espaços de serviços foram concentradas em dois blocos estruturais de concreto que cortam o edifício verticalmente, e trazem uma nova linguagem para as fachadas. É possível visualizar estes blocos no diagrama acima.


COMPATIBILIZAÇÃO DA ESTRUTURA





A partir do estudo de insolejamento é possível fazer uma relação com as intervenções realizadas na fachada pelos usuários do edifício atualmente, como a colocação de películas e alumínio nos vidros das esquadrias com o intuito de criar uma barreira de proteção ao sol.

EXISTENTE COM A NOVA PROPOSTA Para a adaptação e ampliação do edifício com a nova proposta, houve construção de uma nova estrutura e a demolição de pequenos recortes das lajes existentes. As demolições propostas ocorrem devido a necessidade de execução de shafts e também a abertura de um átrio que conecta o espaço de circulação e os diferentes usos em alguns pavimentos. Se tratando de uma laje espessa, sem vigamento aparente, foram considerados reforços estruturais nos locais de recortes de laje.
Uso de película na esquadria
Condensadoras de


O bloco 02 foi posicionado na fachada sudoeste, cuja qual tem a maior incidência do poente, de modo a alocar nela os usos de baixa permanencia como sanitários e escada. Além disso, o redesenho das circulações contempla a adequação as normas de saída de emergência e de circulações.
O edifício consta com disponibilidade de usos de rotina, no intuito de fornecer um maior apoio ao bairro. Desse modo, o projeto dispõe de uma Lavanderia e de uma Academia, além de Café no terraço intermediário e um Restaurante no último pavimento.



Rede de usos de apoio


Sistema de acesso seguro (andares de apt. com senha no elevador)










Estúdios/apartamentos de residentes flexíveis para aluguel





























Considerando que o projeto é uma adaptação de uma construção existente para usos que se adequam com a atualidade, é pertinente pensar que futuramente esse mesmo espaço adaptado pode necessitar de novas adequações. Desse modo, os espaços foram pensados buscando flexibilidade e diferentes possibilidades de ocupação. A exemplo disso, o projeto contempla um auditório com uma arquibancada retrátil que permite reconfigurações de usos.






A. arquibancada desmontável
No intuito de manter o contraste com a estrutura de concreto existente, a estrutura nova do lote de acréscimo é composta por uma estrutura metálica, acompanhando e replicando as mesmas dimensões de vãos existentes.
B. palco central C. salão central

No intuito de arrecadação de fundos para a disponibilização de bolsas para a residência artística e para os outros serviços da instituição, os estúdios podem ser disponibilizados também para aluguel por temporadas para público externo. A ocupação dos estúdios varia de acordo com a rotatividade de atividades desenvolvidas pela residência e o seu desenho de layout, portanto, também segue a lógica da flexibilidade de usos.
No projeto, foram desenvolvidos 04 tipos de apartamentos/estúdios, variando entre si suas dimensões de 46,10m² a 71m², podendo haver estúdios que possam contemplar uma ou mais pessoas.
Os ambientes de áreas molhadas (banheiro, cozinha e área de serviço) foram configurados de modo centralizado na planta, permitindo maior flexibilidade de ocupação dos demais espaços, além de minimizar deslocamento de instalações hidráulicas.





Centralização de banheiro e instalações hidráulicas, permitindo maior flexibilidade de ocupação dos demais espaços do apartamento
A conformação do espaço na ilustração demonstra um apartamento para uma pessoa. Porém, é possível reconfigurar o ambiente “aberto” para mais compartimentos de dormitórios

















Devido às diferenças de altura da laje steel deck com a laje de concreto existente, se tornou inviável fixar a estrutura nova nos pilares da estrutura existente, pois iria rebaixar muito o pé direito. Desse modo, ambas estruturas serão independentes, sendo apenas encostadas uma na outra.




ELEMENTOS DE FACHADA
laje de concreto existente e = 40cm
Algumas fachadas foram desenhadas com uma membrana composta por chapas metálicas de tela expandida que ocultam o local de emenda de lajes, mas ainda sim mantém uma permeabilidade para o interior do edifício. Além disso, elas fornecem um maior conforto térmico, na medida em que reduzem o insolejamento e permitem ventilação natural. Nos apartamentos também foram dipostas destas chapas, porém com possibildiade de correr, mantendo barreiras móveis para o sol e configurando também maior privacidade para os usuários.
jardineiras chapa metálica de tela expandida de correr estrutura de chapas metálicas fixada na fachada chapas com dobradiças e perfil com corrediça Metal Screen Hunter Douglas

