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Na Metrópole Na Metrópole

Ano 1, Edição I 12 de junho de 2012

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Prefeitura elabora projeto

de revitalização urbana na Luz

Ocupação Cultural na Avenida São João

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Na Metrópole Diretor de Conteúdo: Clovis Furlanetto Editora-chefe: Aline Oliveira Revisão, Edição e Diagramação: Ludimila Honorato Equipe de Reportagem: Alexandre Nunes Aline Oliveira Guilherme Corrêa Ludimila Honorato Maday Florencio Talita Alessandra

Na Metrópole Avenida Melo de Freitas, 436 — 5º andar www.nametropole.com.br Telefone: (11) 3725-2210

Nas redes sociais: @_NaMetropole facebook.com/nametropole

Carta ao Leitor Iniciamos a publicação de Na Metrópole com grande prazer e com o sentimento de dever cumprido. Chega até você, caro leitor, nosso primeiro número com a materialização de um projeto editorial desenvolvido com o intuito de levar informações pertinentes ao nosso público, defendendo e priorizando uma abordagem mais analítica dos fatos, assim como atuar como uma publicação pautada na ética. Nesta primeira edição, Na Metrópole aborda as questões sociais e urbanísticas da cidade de São Paulo, com um aprofundamento dos fatos que estão na pauta cotidiana e por vezes passam despercebidos de uma maior discussão. Assim, trazemos em nosso primeiro número a história da cidade de São Paulo, mostrando os resquícios que ainda podem ser visitados. Falando dessa grande metrópole, não podemos deixar de lado o caótico trânsito que complica a vida de todo cidadão, inclusive de universitários que dependem de fretados. Há também uma discussão sobre o Projeto Nova Luz, que pretende revitalizar o bairro da Luz, e as dificuldades dos moradores que esperam pelo tombamento de seus imóveis na região do Brás. Nossa reportagem de capa traz uma análise mais aprofundada a respeito da situação na Cracolândia, tanto do lugar quanto das condições de vida dos usuários. E não menos importante que tudo isso, apresentamos também os projetos culturais desenvolvidos na Avenida São João com a Ocupação Cultural. Com tais assuntos e outros textos, pretendemos oferecer a você, nosso leitor, o melhor em qualidade de informação sobre tudo que acontece na cidade de São Paulo. Antes de tudo, nosso compromisso é com você.

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Sumário

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O incansável trânsito para os fretados em São Paulo

Ocupação Cultural desenvolve a autonomia dos moradores do Centro

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A realidade que entristece o coração da capital paulista

História da cidade

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Demora no processo de tombamento leva patrimônios históricos à deterioração

Entre o público e o privado: limites de uma proposta de revitalização urbana

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Reflexão sobre a Reflexão

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Acontece

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O incansável trânsito para os fretados em São Paulo Por Guilherme Corrêa

Estudantes das Universidades São Judas Tadeu e Anhembi Morumbi que, talvez, tenham que ir de fretado para a faculdade relatam pontos negativos desses transportes. Nesses veículos existem regras para serem cumpridas como, por exemplo, hora certa para estar no portão de casa, pela manhã, e no carro, na

Por questão de organização, os fretados são proibidos no Centro e motoristas dos transportes universitários optam por outras vias da cidade

volta. Tais horários são determinados pela empresa do fretado e propostos no contrato que é comum para todos. Algumas pessoas precisam pegar ônibus e/ou metrô para ir e voltar da faculdade, o que implica em questões de desconforto e riscos de segurança, a qual depende de cada um. Os fretados nem sempre

são confortáveis, pois, assim como os transportes públicos, ficam lotados, às vezes, e quando chove ou faz muito calor alguns alunos passam mal e sentem-se desconfortáveis. A Prefeitura de São Paulo anunciou no dia 29 de abril que 1.300 ônibus fretados estarão proibidos de circular em ruas e avenidas

do Centro expandido da capital a partir de 27 de julho. Cerca de 50 mil pessoas devem ser afetadas, segundo o estudo da Secretaria Municipal de Transportes. A proibição vale de segunda à sexta-feira, das 5h às 21h, e deve incluir 650 fretados de manhã e outros 650 no fim do dia. Os usuários desses ônibus terão que

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Acontece

Trânsito em São Paulo não é novidade para os motoristas

desembarcar em pontos específicos fora da zona de restrição para fazerem integração com outros meios de transporte - ônibus públicos, metrô, trens e linhas especiais. Após o anúncio desta lei, mais um problema surgiu aos motoristas de fretados: eles deverão rever seus trajetos, procurando caminhos alternativos a fim de se adequarem a essa nova realidade. Muito comum em dias de intensa chuva ou calor é o trânsito congestionado, o que preocupa os motoristas dos fretados, pois precisam cumprir com o horário de entrada dos alunos. Outro problema são os acidentes de trânsito que

surgem pelo caminho, fazendo com que o cuidado com a segurança dos usuários seja redobrado. Quanto aos problemas de trânsito, como congestionamentos ou acidentes, a maioria dos alunos se preocupam com o horário de entrada na universidade. Beatriz Fanny Braz da Silva, estudante de Medicina Veterinária, afirmou que “chegar atrasada na faculdade é mais preocupante ainda nas épocas de provas semestrais”. Rodrigo Henrique Lopes Ferreira, que cursa Administração, concorda: “Minha única preocupação é o horário a ser cumprido em quaisquer ocasiões, o que também

é preocupante na época de provas, porque geralmente os horários diferem dos dias normais”. Ambos os alunos relataram que outras pessoas os consideram privilegiados por terem condições de pagar um fretado. No entanto, trata-se de uma necessidade, pois esses transportes universitários existem para facilitar e assegurar o caminho de quem mora muito longe de onde estuda. Segundo os estudantes, não se trata de uma questão de privilégio, mas de precaução por parte dos pais que transferem aos motoristas de fretados, todos os dias, uma responsabilidade grande que é a

segurança de todos que estão no veículo, inclusive deles próprios. Uma vez que o uso dos fretados pode implicar em atrasos, o que, eventualmente, não ocorre ao usar o transporte público, os alunos arriscariam tudo por essa prioridade acima das suas responsabilidades em relação ao horário? A melhor maneira de responder tal pergunta depende de cada indivíduo a partir de suas vivências com esses tipos de problemas que envolvem responsabilidades pessoais, sociais e profissionais muito significativas.

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Sociedade

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Ocupação Cultural desenvolve a autonomia dos moradores do Centro Por Maday Florencio

Projeto organizado por ativistas e jornalistas da região central oferece cultura aos cidadãos

A Avenida São João, além de cartão postal do centro de São Paulo, é também centro de grandes manifestações de cidadania. Surgiu – a partir de vários encontros entre jornalistas, ativistas e moradores da região – o Projeto Ocupação Cultural que busca trazer um ambiente onde se estimule a produção e consumo de cultura pelos moradores ocupantes.

Segundo a organizadora do projeto, Fernanda Mendes, estudante de Letras na USP, o que todos têm em comum é a ideia de promover um centro de ações culturais e educacionais que leve em consideração o contexto social em que os moradores estão envolvidos. O centro da cidade é uma região com um grande número de atrações culturais, mas

que não são acessíveis à população de baixa renda. Por conta disto, as atividades praticadas na ocupação propõem uma discussão política mais aprofundada sobre fatos da realidade dos moradores acerca de seu cotidiano, levantando questões sociais recorrentes do dia-dia deles, como a falta de moradia. “A ocupação tenta promover, ainda, um trabalho que desenvolva

a autonomia das pessoas e não simplesmente um apoio assistencial”, declara a organizadora. Buscando desenvolver esta autonomia, os moradores participam de várias atividades, dentro e fora do prédio ocupado. Atrações como o Cineclube – em que há exibição de filmes e atividades – e o Sarau da Ocupação são abertas também para o público em geral.

Atividade Cineclube na Ocupação Cultutral

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Sociedade

Na Ocupação Cultural, o sarau é uma das atividades desenvolvidas

O sarau ocorre quinzenalmente, conta com a participação de alguns moradores e recebe pessoas de outras regiões. Há também oficinas de teatro, pintura e música. O Projeto também oferece aos moradores oficinas semanais de artes, cultura e lazer, que são divulgadas dentro das mediações do prédio. “As atividades desenvolvidas são pensadas para os moradores, explorando o contexto social que eles estão envolvidos” disse Fernanda. Outras duas localizações oferecem as mesmas atividades da Ocupação Cultural: na Avenida Prestes Maia e na Consolação, abertos a toda comunidade destes locais.

A ideia é desenvolver centros culturais em várias outras ocupações da cidade,

em um acampamento armado pelos moradores despejados na própria Avenida São João.

A ideia é desenvolver centros culturais em várias outras ocupações da cidade mas, segundo Fernanda, não há pessoas o suficiente para dar conta desses locais Até então, os projetos eram bancados exclusivamente pelos organizadores e moradores da região. Quanto às intervenções do governo, Fernanda diz que ele é completamente omisso às questões de habitação. Ela explica que houve, recentemente, uma onda de reintegrações de posse no centro da cidade que resultou

Depois de uma semana dormindo na rua e sofrendo intimidações da Guarda Civil Metropolitana (GCM), essas famílias foram encaminhadas para um alojamento no bairro do Bom Retiro, zona oeste da capital paulista. “A prefeitura prometeu atendimento a todos em questão de um mês, no entanto o prazo não foi cumprido”, declarou Fernanda Mendes. Essas famílias continuam morando em

alojamentos, dividindo banheiro, quartos e repartições, numa situação que deveria ser provisória. Contudo, o Projeto Ocupação Cultural foi contemplado recentemente por um Edital da Prefeitura, o VAI – Valorização de Iniciativas Culturais. “Receberemos uma verba para a realização de atividades no período de seis meses na Ocupação da São João”, disse a organizadora do projeto. A Avenida São João está em processo de reintegração de posse e não se sabe ainda o destino das famílias e do prédio. Sobre a postura da Prefeitura como um todo diante desta situação das famílias desabrigadas, a organizadora afirma que é bem contraditória. 11

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A realidade que entristece o coração da capital paulista

Foto: Divulgação

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Operação intervém contra as drogas e gera polêmica entre questões de saúde e segurança

Por Talita Alessandra

A região central de São Paulo, que compreende as imediações das ruas Guaianases, Vitória, Mauá, e as avenidas Duque de Caxias, Ipiranga, Cásper Líbero e Rio Branco, é popularmente conhecida como Cracolândia por concentrar o maior número de consumidores e traficantes de crack no Brasil. Há décadas o uso de entorpecentes ocorre nas calçadas em qualquer hora do dia. Desde 2005, a prefeitura promove variadas ações para coibir a movimentação ilegal. Lacrar bares e hotéis, retirar mendigos das ruas, reforçar o policiamento e desapropriar imóveis, passando a declará-los de utilidade pública, foram algumas das atitudes. Surge uma questão polêmica com a dúvida sobre o objetivo da

mobilização que tende a deixar a área atrativa, favorecendo o mercado imobiliário. Em janeiro deste ano iniciou-se, na Cracolândia, uma intervenção de combate ao tráfico e uso de entorpecentes chamada Operação Centro Legal, que foi questionada pela truculência policial que resultou em muitas pessoas feridas. Grupos de defesa dos direitos humanos, como a Pastoral do Povo de Rua, se posicionaram contra essa forma de abordagem, ressaltando que a violência contra vulneráveis compara-se a uma epidemia. A relação de convívio entre os usuários e os comerciantes da região é pacífica, conforme relata Sidnéia Maria de Jesus, proprietária de um bar na Rua Guaianases. “Eles não

mexem com ninguém, a única coisa que querem é sustentar o vício, não têm intenção de mexer nem roubar ninguém. A cavalaria passa, eles dão a volta no quarteirão e retornam ao mesmo lugar. As brigas são entre eles, não fazem nada na área. Eles são doentes”. A comerciante criticou a investida policial ocorrida nas proximidades de seu bar. “Existem

diferentes tipos de policiais: alguns esculacham, arrancam dinheiro, fazem do ser humano um lixo. Não adianta fazer limpeza sem dar assistência necessária. Muitos não conseguem sair dessa vida por falta de apoio. A ação acabou não ajudando em nada”, declara Sidnéia. Atualmente, houve, na Justiça, a proibição da abordagem da Polícia

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Militar (PM) ao morador de rua Carlos Eduardo de Albuquerque Maranhão, que sofreu constrangimento ilegal durante a ação realizada no início do ano. O jovem foi abordado em 3 diferentes ocasiões, sem justificativa e passou por humilhações e ameaças. Maranhão, que não possui antecedentes criminais, comunicou a Defensoria Pública.

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O pedido feito à Justiça menciona que o morador pode “circular e permanecer em locais públicos de uso comum do povo a qualquer hora do dia, não podendo ser removido contra a sua vontade, salvo se em flagrante delito ou por ordem judicial”. Os defensores públicos pretendem estender essa norma às demais

pessoas em situação de rua na região central. Na Metrópole entrevistou o psicólogo Daniel Américo de Chiara, do Serviço Especializado em Abordagem Social (SEAS), organização que acolhe pessoas em situação de rua. Chiara, que lida diretamente com esse público, no qual muitos provém do conflito central, falou sobre a si-

tuação da Cracolândia e salientou que ela apenas dispersou os usuários para outras regiões. O especialista evidenciou que a ação teve um caráter ‘higienista’, relacionando-se ao ano eleitoral e ao impacto que estas questões estão ganhando na mídia. Informou, também, que foi uma ação precipitada e desarticulada do governo, o que dificultou o 15

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Foto: Divulgação

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Consumo de crack e movimentação dos usuários é intensa a qualquer hora do dia

Ação policial na Cracolândia teve caráter “higienista” trabalho de setores da assistência social e da saúde com esse público. “Já se sabe que o Centro Velho de São Paulo está sendo revitalizado e ganhará condomínios de alto padrão e grandes escritórios nesta região”, mencionou o psicólogo. Chiara falou sobre o papel prestado pelos núcleos sociais na inclusão dos dependentes químicos. Segundo ele, as

organizações atuam como prestadoras de serviços: a Prefeitura repassa a verba para que as instituições executem as tarefas da Assistência Social que o governo não conseguiu. Existem equipes de abordagem de rua em quase todas as regiões da cidade que acolhem os usuários que migram da região central. Porém, ainda não há vagas suficientes, principalmente para públicos

específicos, como mulheres com crianças, idosos e deficientes físicos. Uma medida adequada para o problema instalado no Centro foi a criação do Complexo Prates, local onde existe articulação das áreas de assistência social e da saúde para o atendimento dos viciados. Já o Centro é de lei opta por intervir diretamente nas ruas com o programa de redução de danos que consiste em proporcionar condições higiênicas para o uso do crack, evitando danos maiores à saúde. Assim, cada usuário tem seu kit individual composto por

cachimbo, camisinha e material explicativo a fim de evitar a propagação de DST’s e hepatite. Na opinião de Chiara, deve existir políticas integradas entre as secretarias, principalmente de assistência social e saúde. Há a necessidade de um repasse maior de verbas para o serviço social. “É uma vergonha que uma cidade rica como São Paulo invista apenas 3% da quantia pública arrecadada na área, o que acaba dificultando o serviço que já é precário e falho em muitas regiões”, finaliza Daniel Chiara.

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Foto: Divulga莽茫o

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Foto: Ludimila Honorato

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Prédios e avenidas dominam a vista da cidade

História da cidade

A Terra da Garoa cresceu, está no auge de seu desenvolvimento e não pretende parar. Apesar dos problemas que a população enfrenta no dia a dia, sua história diz que o futuro é promissor Por Ludimila Honorato

Em janeiro deste ano a cidade de São Paulo completou seu 458° aniversário. Ao longo desses mais de quatro séculos, a metrópole foi palco de momentos marcantes e presenças ilustres. Porém, por questões ideológicas advindas da Proclamação da República, em 1889, muitas características se perderam. Atualmente, resta pouco dos três primeiros séculos de sua existência; a memória que se tem é

recente, basicamente do século XIX, mas como a marchinha carnavalesca já diz que Recordar é Viver, há muito para conhecer do que foi a São Paulo colonial. O começo Aos 25 de janeiro de 1554, os padres jesuítas Manuel da Nóbrega e José de Anchieta fundaram o Colégio de São Paulo a fim de catequizar os índios. A construção de taipa foi erguida no planalto do Piratininga, entre os rios

Anhangabaú e Tamanduateí, nomes que significam, respectivamente, rio endemoniado e rio de muitas voltas. Era o início da cidade dedicada ao apóstolo Paulo na mesma data de sua conversão ao cristianismo. Ali, São Paulo nasceu em um local de formato triangular cujos pontos eram as Igrejas do Pátio do Colégio, do Largo de São Bento e, por fim, a de São Francisco, a mais nova das três. Essa região era cercada por uma paliçada

de madeira que servia de proteção contra os hostis índios tamoios e, eventualmente, homens brancos rivais da cidade. A transformação Em 1711, São Paulo deixou de ser um burgo simples, pacato e pobre para ganhar a condição de cidade. Ainda assim, permaneceu na quietude por um pouco mais de um século até o momento de seu despertar. Moacir Assunção, Jornalista e Sociólogo,

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Na Metrópole atribui o desenvolvimento da cidade à vinda da Faculdade de Direito, em 1821, que trouxe, finalmente, o cosmopolitismo para a região. Mesmo sob fortes críticas da Coroa Portuguesa, a Faculdade se instalou e permitiu a presença de muitos jovens, professores, estrangeiros e brasileiros cultos vindos de cidades mais desenvolvidas como Recife, Rio de Janeiro e Olinda, onde também foi fundada uma Faculdade de Direito. Esse foi o fator de ordem cultural que contribuiu para o crescimento da região. Assunção considera o dinheiro do café o segundo fator que impulsionou o desenvolvi-

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mento da cidade. “Com o dinheiro do café, os fazendeiros enriquecidos fizeram uma pequena Paris dos trópicos e essa cidade se tornou importante”. O dinheiro dos cafeicultores gerou, na sequência, a industrialização nascida no bairro do Brás que, exceto o século XIX, foi a primeira grande experiência de industrialização. Vestígios da antiga São Paulo Mais de quatro séculos de história e a maior cidade da América Latina não se desfez completamente de suas raízes. São Paulo pode ser considerada uma cidade autofágica, ou seja, a cada 25 anos

ela se autoconsome para dar lugar a uma nova cidade. Contudo, ainda é possível ver o que foi preservado da parede de taipa do Colégio São Paulo, onde hoje é o Museu Anchieta. Do burgo estudantil (século XIX) há o Solar da Marquesa de Santos, que atualmente é aberto à visitação pública, e o Chalé nº1, a casa mais antiga da cidade. Outros vestígios estão na arquitetura com influências europeias. A região do Pátio do Colégio é a recriação de uma típica praça espanhola ou portuguesa; andando pela Rua Boa Vista, notam-se aspectos ingleses e próximo ao Largo de São Bento há traços franceses.

Um futuro promissor São Paulo cresceu e não pretende parar. Os problemas sociais e urbanos impedem uma qualidade de vida melhor, porém Moacir Assunção acredita que São Paulo tem potencial para ser fantástica. De acordo com o Sociólogo, a cidade teria que se dividir, ou seja, “deixaria de ser um lugar só de atração e teria várias cidades em volta onde as pessoas poderiam morar e trabalhar sem precisar se deslocar para o centro”. A Corte Portuguesa duvidou e até mesmo os padres jesuítas não imaginavam, na maior fé e esperança, que São Paulo pudesse ser o que é hoje. De uma vila

Parada 7 de setembro no Pátio do Colégio no início do século XX

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Foto: Ludimila Honorato

pacata e sem qualquer atrativo, ela se transformou numa megalópole que atrai olhares de nativos e estrangeiros. Aqui estão reunidos intensos contrastes étnicos e culturais. É, praticamente, o mundo numa cidade.

Solar da Marquesa de Santos depois da restauração em 2011

Nome: Francisco de Paula Ramos de Azevedo (08/12/1851 – 01/06/1928) Nacionalidade: Brasileiro Profissão: Arquiteto Estudou com os melhores arquitetos europeus graças aos ricos mecenas que bancaram sua estada na Europa. Trouxe de lá um modo de ver a cidade muito peculiar e projetou os mais importantes edifícios de São Paulo como o Theatro Municipal, os prédios da Secretaria da Justiça, o prédio da Pinacoteca, além do Viaduto do Chá. 20

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Demora no processo de tombamento leva patrimônios históricos à deterioração Moradores do bairro do Brás, que residem nos imóveis em fase de tombamento, passam dificuldades com reformas e incentivos

Por Alexandre Nunes

Para a história da cidade de São Paulo, o bairro do Brás tem uma grande influência e as ruas e imóveis fazem parte dessa representação. O tombamento dessas edificações sugere preservar um bem cultural, em pleno bom estado de conservação, propiciando o uso deles. A problemática está do lado dos proprietários que não sabem se sua propriedade será tombada nem têm respostas e incentivo no meio desse processo. Além disso,

existe a parte burocrática que impede qualquer reforma sem consultoria da Prefeitura. O princípio do tombamento é melhorar a qualidade de vida da população, pois preservar a memória é uma demanda social tão importante quanto qualquer outra atendida pelo serviço público. Preservar a história é relevante, porém as condições de vida da sociedade estão acima disso; moradores de imóveis no processo de tombamento sofrem e

são prejudicados em aspectos burocráticos. Esses imóveis fazem parte de um patrimônio limbo. O Brás tem um conjunto de 41 casas e galpões industriais cujos proprietários esperam o tombamento definitivo pelo Conselho de Preservação do PatrimônioHistórico de São Paulo (Conpresp). Alguns estão nessa situação há mais de 20 anos e não existe prazo para que um prédio seja tombado. Assim, os proprietários ficam de mãos atadas e sem

incentivo da Prefeitura para manter o imóvel. Os primeiros registros do bairro do Brás remontam ao início do século XIX. Já foi um bairro típico italiano, mas hoje dá lugar ao comércio nordestino e fábricas de tecidos. “Nosso bairro tem uma grande importância histórica para São Paulo, porém há demora e burocracia para que essas construções sejam definitivamente tombadas. Nós, moradores, e a cidade somos Foto: Divulgação

Bairro do Brás no início do século XIX

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Foto: Alexandre Nunes

Nos dias de hoje, Brás dá lugar ao comércio nordestino e fábricas têxteis

os maiores prejudicados”, diz o jornalista e morador do bairro do Brás, Éder Navarro. O processo de tombamento foi aberto em 1990, dois anos após o Conpresp iniciar suas atividades. Vinte e dois anos se passaram e o Conselho ainda não decidiu se vai tombar essas casas, hoje em péssimos estado de conservação.

Outro problema que pode acontecer, também, é do imóvel ficar “congelado” e depois não ser tombado. Exemplo mais recente foi quando 15 casas nas Ruas Piauí e Mato Grosso, no bairro de Higienópolis, foram consideradas sem valor significativo de caráter cultural depois de oito anos do início do processo.

Sem respostas, moradores esperam pelo tombamento “Não temos ordem cronológica, priorizamos os imóveis que sofrem pressão por uma modificação mais

rápida, isso quando há grande mobilização de interessados na preservação e maior risco de perda do bem que se pretende tombar. No caso de abertura de tombamento, o processo pode ou não ser deliberado na primeira reunião em que foi pautado”. Esta é a resposta da Secretaria de Cultura de São Paulo. 23

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discussão

Entre o público e o privado: limites de uma proposta de revitalização urbana Por Aline Oliveira

Iniciado em 17 de junho de 2010 e em andamento até o presente momento, o Projeto Nova Luz desperta diferentes opiniões por abrigar em seu cerne algumas questões que ultrapassam a simples atuação de um projeto de revitalização urbana. Trata-se de um conjunto de mudanças que impactarão política e socialmente o espaço da região da Luz, no centro de São Paulo. Destinado a revitalizar uma área de 45

Projeto Nova Luz provoca distintos posicionamentos quanto às suas implicações sociais, políticas e urbanas na cidade de São Paulo

quadras – que compreende o espaço delimitado pelas Avenidas Ipiranga, São João, Duque de Caxias, Rua Mauá e Avenida Cásper Líbero – numa extensão de aproximadamente 500 mil metros quadrados, o projeto se propõe a melhorar o centro da cidade, de modo que haja também uma diversificação dos perfis sociais ali existentes – o que faz parte, segundo a Prefeitura, de um plano de melhoria urbana da região.

Além de um projeto de revitalização urbana, o intuito em sua totalidade é promover uma valorização imobiliária para alterar o perfil urbano e social do espaço envolvido. E o que poderia representar uma iniciativa que respondesse às disputas envolvendo a atual falta de moradia na capital paulista, pode ser entendido muito mais como causa de exclusão. “Existiram já várias políticas urbanas para a reforma da área

da Luz; esse projeto da Nova Luz é uma delas. O fato é que a disputa pelas moradias no centro é uma disputa histórica [...] e esse projeto não vem responder esta questão básica. O propósito fundamental do projeto Nova Luz é buscar uma requalificação urbana [...]”, afirma Carolina Heldt, Mestranda do Instituto de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (IAU USP) e Pesquisadora do Laboratório de Estudos do Ambiente Foto: Divulgação

Acima, vista da Rua General Osório atualmente. Abaixo, a projeção de como ficará com a revitalização 26

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Fonte: Google Maps

discussão

Mapa com a delimitação da área a ser revitalizada com a aplicação do projeto

Urbano Contemporâneo (LEAUC/ IAU USP). Na medida em que o objetivo se mostra distinto das reais necessidades da população, desde seu início, o projeto tem provocado intensos debates na intenção de ampliar e promover uma alteração nas medidas pré-definidas pelos Conselhos formadores do Projeto Urbanístico em questão. Tanto que sua conclusão estava prevista para abril de 2011, e mais de um ano depois,

as discussões e entraves a seu andamento não estão em vias de acabar. Sobre as implicações do projeto, Carolina explica que haverá um melhoramento urbano com a revitalização proposta, no entanto, o foco maior recai sobre a tentativa de uma requalificação urbana baseada na valorização imobiliária, que por sua vez, trará um melhoramento à cidade, mas que se destinará em sua base aos futuros moradores do espaço, e não aos já ali residentes. Com a aplicação do Projeto Nova Luz nos moldes em que foi estabelecido, haverá uma modificação significativa na realidade social do espaço envolvido. “A gente

está lidando com um projeto que trabalha com a ideologia de você ter uma transformação do espaço urbano, e que essa transformação seja motivada pelo financiamento público; [...] que vai causar uma valorização imobiliária e que todo esse processo vai ser gerido muito mais por determinações, interesses e processos privados, privativos [...]”, expõe a arquiteta. Desta forma, mesmo sendo financiado, em sua maior parte, por investimentos do setor público, as diretrizes passam a ser dadas pelo setor privado. Isso ocasiona uma menor participação e devida atenção às demandas habitacionais de São Paulo, o que acarreta também no que se pode

chamar de um empresariamento da cidade, visto que se trata de uma gestão empresarial da cidade para fins empresariais. Assim a infraestrutura a ser implementada se destina especialmente ao desenvolvimento dos setores de serviço e comércio na região da Luz; colocando a questão da moradia em segundo, terceiro plano. Agrupando interesses públicos, privados, sociais e políticos, cujas implicações se assemelham à sua significativa dimensão, o Projeto Nova Luz anuncia gerar maiores discussões. “Quando os problemas vierem [...] eles serão discutidos em algum momento: irá surgir debates - quer seja antes, quer seja depois”, finaliza Carolina Heldt. 27

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Reflexão sobre a Reflexão Millôr Fernandes

Terrível é o pensar Eu penso tanto E me canso tanto com meu pensamento Que às vezes penso em não pensar jamais. Mas isto requer ser bem pensado, Pois se penso demais Acabo despensando tudo que pensava antes E se não penso Fico pensando nisso o tempo todo.

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Foto: Ludimila Honorato

dica

Dia 25 de janeiro de 1554, Páteo do Collegio. Nasce a cidade de São Paulo. Fruto de uma missão jesuítica, e contando com a presença dos padres José de Anchieta e Manoel da Nóbrega, a mais conhecida como Terrwa da Garoa se implantou no alto do Piratininga onde hoje podemos visitar o Museu Anchieta. Aberto ao público para visitação, o espaço acolhe na Pinacoteca telas com representações de personagens e acontecimentos que marcaram a passagem da Companhia de Jesus pela cidade. Agregado à ela, há o símbolo da missão jesuítica: a pia batismal. Além disso, é possível situar-se histórica e geograficamente a partir de uma maquete que retoma onde tudo começou. Ainda no Museu, existe uma área reservada à alimentação: um café e um restaurante cujas mesas estão dispostas em um jardim ornamentado com arbustos e cafeeiros. Mas a atração principal é um pedaço da parede de taipa de pilão, resquício da arquitetura colonial seiscentista. Seu processo de construção consistia na mistura de terra umedecida, areia, estrume, fibras vegetais e sangue de boi. É uma visita enriquecedora.Vale a pena conhcer um pouco mais dessa cidade que não é o Rio de Janeiro, mas também é maravilhosa. Ludimila Honorato

Foto: Ludimila Honorato

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Revista Na Metrópole - 1ª edição  

Trabalho realizado para composição parcial de nota da disciplina Processo de Captação e Edição em Jornalismo sob a orientação do Professor C...

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