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Assim que for editado, lhe envio projeto de Michel Z贸zimo


Assim que for editado, lhe envio projeto de Michel Z贸zimo

com Cristiano Lenhardt Fernanda Gassen Cristina Ribas Alessandra Giovanella Let铆cia Ramos Jonathas de Andrade Luiz Roque

Porto Alegre, 2013


Para Suzana Gruber


Sobre o nome do livro

!

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Sobre a coisa em si

!

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E sobre aqueles que escrevem aqui

!

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Cristiano Lenhardt

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Fernanda Gassen

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Cristina Ribas

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Alessandra Giovanella

!

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LetĂ­cia Ramos

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Jonathas de Andrade

! 117

Luiz Roque

! 127

Agradecimentos

! 141


Sobre o nome do livro

Em 2009, deparei-me com uma carta escrita por Kazímir Maliévitch, em 1919, endereçada a Mikhail Óssipovitch, na qual o artista russo falava de seu mais novo projeto editorial: Dos Novos Sistemas da Arte1. !"#$%#&'(()#*"+,)#-)./)0#)1+&)#-"%'+/)+&"#("2.'#/)*#*13."0#4)*1531/-6# )+7+-1)3)#)"#('7#)%1,"8#9!((1%#:7'#;".#'&1/)&"0#*6'#'+31"<=# Uma espécie de mantra enunciativo que prospecta, ao mundo, a vontade pública daqueles que escrevem. Anotei essa frase em um pedaço de papel branco. Passei a utilizá-la, em -)./)(#'#'>%)1*(0#('%?.'#:7)+&"#"#)((7+/"#,1.)3)#'%#/".+"#&'#?."@'/"(# ,.A$-"(#:7'#'+3"*31)%#*13."(#'#"7/.)(#?72*1-)BC'(=#Assim que for editado, lhe envio#?).'-1)>%'#('.#7%)#'D?.'((E"#-".1+,)0#&'#&"%F+1"#?G2*1-"0#)# :7)*#)7/".1H)#/"&"(#):7'*'(#:7'#$+)*1H)%#"(#('7(#?."@'/"(#'&1/".1)1(0# anunciando as#(7)(#;7/7.)(#&1(/.1271BC'(=#I"./)+/"0#/)*#'D?.'((E"#+E"#5# apenas, e tão somente, de Maliévitch. J*)#/)%25%#;)*)#&)#-"+(/.7BE"#&'#7%#*13."#:7'#?).'-'7>%'#7.,'+/'=# Que muito em breve estaria pronto. K","#:7'#"(#/'D/"(#;"(('%#),.7?)&"(=# Publicar-se-ia ao ar do tempo. Neste instante. !,".)=

1 J;'/13)%'+/'0#?72*1-)&"#'%#LMLM>LMNO0#)*,7+(#%'('(#)?P(#)#.'&)BE"#&)#-)./)0#/".+)+&"> ('#7%#%).-"#'&1/".1)*0#+"#:7'#('#.';'.'#Q#?72*1-)BC'(#&'#)./1(/)(0#Dos Novos Sistemas da Arte#-"+$,7.)>('#-"%"#7%#*13."#'%2.')+/'#&"#?'+()%'+/"#.)&1-)*#R7?.'%)/1(/)=

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Sobre a coisa em si

J%#-'./"(#-)("(0#?."(?'-/)&"(#?'*)#-1.-7+(/S+-1)#&'#7.,T+-1)0#)*,7+(# '(-.1/"(#&'#)./1(/)(#$,7.)%#?."@'/"(#'D?"(1/13"(0#&'-*).)BC'(#?G2*1-)(0# -)./)(0# )+"/)BC'(0# '(:7'%)(# ,.A$-"(0# %)/'.1)1(# &'# -)/A*","(0# .'*)/"(0# &'(-.1BC'(0#?72*1-)BC'(#-)('1.)(0#'+/.'#"7/.)(#;".%)(#/'D/7)1(=#471/)(# vezes, a loucura do verbo constroi-se antecipando os seus projetos. Em outros momentos, o texto brota lúcido do trabalho, como inço. !((1%0#)#1+3'+BE"#&)#'(-.1/)#/)%25%#'(/A#*1,)&)#Q#31&)0#?".:7'#5#'*)#:7'# ('%?.'#1%?"./)=#J%#)*,7+(#'(-.1/"(#&'#)./1(/)(#'+-"+/.)%"(#&1(/1+/)(# 3"H'(0#?."3)3'*%'+/'#&1.1,1&)(#)#&1;'.'+/'(#personas – outros artistas, -.F/1-"(0#?G2*1-"0#)%1,"(0#-"+6'-1&"(#'#1+(/1/71BC'(0#'+/.'#"7/.)(#$,7.)(# do campo. Ou não encontramos nada disso. Eles estão apenas escrevendo sobre outras coisas, aqueles detalhes que (E"# 1+31(F3'1(0# %71/"# ?':7'+"(0# 1+'D1(/'+/'(=# J+:7)+/"# )*,7+(# ;)H'%# $-BE"0# "7/."(# .'-7()%>('# '%# '(:7'-'.# &"# ?*)+"# .')*=# UA# /)%25%# ):7'*'(#:7'#'(-.'3'%#("2.'#"7/.)(#A.')(0#)?'().#&'#?"7-"#-"+6'-T>*)(= Em determinados contextos, para poder escrever sobre as coisas, os artistas não necessitam dominá-las. A invenção autoriza o equívoco, fazendo dele um ruído de certeza. Não entendendo de métrica, &'(-"+/."'%#)#?"'(1)=#V)*)+&"#&'#-1T+-1)0#?.";'.'%#)2(7.&"(0#/)*3'H# ?".:7'#1+/7)%#)#-1T+-1)#-"%"#*1/'.)/7.)=#W".+)%>('#(7@'1/"(#?"*F/1-"(# porque, naturalmente, pensam o mundo. Ao mesmo tempo, mostram('#&'(1+/'.'(()&"(#?".#'(/'#*7,).=#U)21/)%0#)((1%0#)(#$+)(#-)%)&)(#&'# 7%)#-"+(-1T+-1)#;".)#&"#?*)+"= 11


!#61(/P.1)#+"(#%"(/.)#:7'#)#-.F/1-)#?"&'#('.#-"+(/.7F&)#)((1%#/)%25%=# De um modo incerto e torto, em que a pesquisa deriva do falível, ?"&'%"(#'+-"+/.).#%)/'.1)1(#/'D/7)1(#:7'#.'X'/'%#("2.'#"#?.'('+/'0# ou que apontam a sua lança para o futuro. Desse modo, a ideia de pesquisa deve ser expandida, como uma extensão do pensamento, /".+)+&">('#)BE"#';'/13)#+"#?*)+"#&"(#?"((F3'1(=#W)*#-"+(/)/)BE"#?"&'# ('.31.#?).)#?'+().%"(#+)#;)*)#&"#)./1(/)0#'%#'(/)&"#&'#,.1/"#"7#'%#off. W".+)&)#*'/.)0#)#3"H#&"#)./1(/)#/.)+(;".%)>('#'%#%A:71+)#&'#,7'..)0# projétil e escudo. Não se trata, apenas, de observar os escritos de artistas como materiais de estudo ou como plataformas de análise de suas poéticas Y#/E"#-)."(#?).)#)#-.F/1-)#,'+5/1-)#Z"7#/E"#;.A,'1(#?).)#"7/.)(#'(;'.)(# &)#)./'[=#V.A,'1(#?".#+E"#?."31.'%#&'#7%)#G+1-)#;)%F*1)0#?".#('.'%# pessoais, por lidarem com afetos, por não terem compromisso, por +E"#?.'(/).'%#('.31B"(#Q#)*,75%0#?".#+E"#"-7?).'%#7%#G+1-"#*7,).0# por serem questionáveis e por tantas outras características do inexato. Estranhamente, estas parecem ser as mesmas qualidades que podem tornar potente todo o material escrito por um pensamento que nasce +"#1+/'.1".#&)#)./'=#W7&"#):71*"#:7'#?"&'#('.#;)+/A(/1-"0#%'(%"#+E"# sendo notável.

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E sobre aqueles que escrevem aqui

W".+)&"# *13."0# Assim que for editado, lhe envio# ),.7?)# ('/'# )./1(/)(# 2.)(1*'1."(#:7'0#):710#?72*1-)%#/'D/"(#&'#&1(/1+/)(#*1+6),'+(=# Cristiano Lenhardt# '(-.'3'# ("2.'# %71/)# -"1()=# \+3'+/)# 'D?.'((C'(0# '(:7'-'# &'# 3F.,7*)(=# J# :7)+&"# 5# 3'+/"0# ?'+()+&">('# -"%"# ).0# +E"# '+-"+/.)#*7,).#+)#)/%"(;'.)=#J*'#6)21/)#7%)#-)()#;".)#&"#%7+&"0#"+&'# "#('7#*1%1/'#+E"#5#):7'*'#&)#*1+,7),'%= Cristiano Lenhardt é artista plástico. Nasceu em 1975, no município de Itaara/RS. Vive e trabalha no Recife. Fernanda Gassen#1,+".)+&"#7%#*)?("#/'%?".)*#'(-.'3'#7%)#-)./)# ?).)#4"+'/0#()2'+&"#:7'#)#.'(?"(/)#+7+-)#-6',).A=#]%)#.'-'1/)#&'# 2"*"# '# -"+-'1/"(# "7# +"BC'(# /E"# -)."(# +)# .'*)BE"# '+/.'# ;"/",.)$)# '# pintura são colocados em um mesmo plano de importância. Fernanda Gassen é artista visual e professora. Nasceu em 1982, na -1&)&'#&'#RE"#^"E"#&"#I"*T(1+'_`R=#a13'#'#/.)2)*6)#'%#I"./"#!*',.'= Cristina Ribas publica textos que tinham estado de rascunho, .'(?"(/)(#:7'0#?".#7%#-'./"#/'%?"0#$-).)%#(1*'+-1)&)(=#J(()#1+/'.&1BE"# &'#;)*)#-"+;'.'#7%)#&1%'+(E"#?"5/1-)#Q(#(7)(#)+"/)BC'(=#!,".)0#)#;G.1)# &)#?)*)3.)#?"7-"#1+/'.'(()#?).)#:7'%0#".1,1+)*%'+/'0#;"1#'+&'.'B)&)= Cristina Ribas é artista, pesquisadora e arquivista. Nasceu em 1980, na cidade de São Borja/RS. Vive e trabalha em Londres.

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Alessandra Giovanella#.'%"+/)#)*,7%)(#&'#(7)(#'D?'.1T+-1)(#-"%#)# '&7-)BE"0#)/.)35(#&'#"7/.)(#3"H'(=#J*)#('#3T#+)#;)*)#&"#"7/."0#6)21/)+&"# "#('7#?.P?.1"#,'(/"0#"+&'#)#)?.''+(E"#&'#7%#-"+/'G&"#?"&'#('#';'/13).# pela partilha de afetos. Alessandra Giovanella é artista e educadora. Nasceu em 1973, na cidade de Santa Cruz do Sul/RS. Vive e trabalha em Santa Maria. Jonathas de Andrade relata uma corrida de carroças que aconteceu em Recife. A partir desse testemunho, prospecta pensamentos que :7'(/1"+)%#)#".,)+1H)BE"#7.2)+)#'#)#'(/.7/7.)#("-1)*#&'#7%)#-1&)&'0# .'X'/1+&"#)#?"/T+-1)#&'#(7)#1+;".%)*1&)&'= ^"+)/6)(#&'#!+&.)&'#5#)./1(/)=#b)(-'7#'%#LMcN0#+)#-1&)&'#&'#4)-'1P_ AL. Vive e trabalha no Recife. Letícia Ramos '(-.'3'# -"%# 1%),'%0# ?'+()+&"# *13."=# d'# 7%)# expedição ao Polo Norte, confabula com outros exploradores do (5-7*"#e\e0#'(-.'3'#-)./)(0#;"/",.);)#'%#?'*F-7*)0#-"+(/.71+&"#"#('7# )/'*1T#'%#7%#*7,).#&'#$-BE"#2.)+-)0#,'*)&)#'#1+P(?1/)= Letícia Ramos é artista. Nasceu em 1976, na cidade de Santo Antônio da Patrulha/RS. Vive e trabalha em São Paulo. Luiz Roque#?72*1-)#"#."/'1."#1+5&1/"#&'#7%#$*%'#&'#-7./)>&7.)BE"0#"# :7)*#31(*7%2.)#"#;7/7."#)+7+-1)&"#&"#%7+&"=#!(#)*/'.)BC'(#?"*F/1-)(0# '-"+f%1-)(#'#("-1)1(#.'X'/'%>('#)/.)35(#&'#.'-"+$,7.)BC'(#7/P?1-)(# &'#/'..1/P.1"(#,'",.A$-"(0#1&'"*P,1-"(#'#('D7)1(=# Luiz Roque é artista e cineasta. Nasceu em 1979, na cidade de Cachoeira do Sul/RS. Vive e trabalha em São Paulo.

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Com o livro editado, +"(#3"*/'%"(0#),".)0#?).)#"(#('7(#('/'#-)?F/7*"(= 41-6'*#gPH1%"

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Cristiano Lenhardt 17


Os escritos a seguir são borbulhas de pensamento cristalizadas na velocidade dos dedos, geralmente usados no desenvolvimento e criação de músicas, áudios em off, roteiros e/ou diálogos para pequenos filmes e vídeos que realizo.

Z===[ b'+67%)# 31./7&'0# +)&)# )*5%# &'# )2'+B").# )(# ?*)+/)(# -"%# A,7)=# RP# %)*&)&'(#'(-"+&1)#)/.A(#&)(#).%)BC'(#,."(()(0#(P#-"1()(#&'#,'+/'#%71/"# .71%#('#31)#?".#&'#/.A(#&):7'*)(#*A,.1%)(=#I".5%0#):7'*)#*F+,7)#:7)+&"# *)%21)#)#,'+/'#'.)#(P#;.'(-".0#(P#'+'.,1)#&'#;","=#bE"#('#'+-)+/)3)# com o que sabia que iriam inventar dele, pelo contrário queria mesmo '.)#&'1D).#)#1%),1+)BE"#("*/)#&'#(10#?).)#-)2'.#-"+;"./)3'*%'+/'#/"&"# dentro daquela imensa casa. Era uma fase verde pela qual passava, uma 1+(/S+-1)# &'# "731&"0# '.)# 2'%# :7)+&"# '(?'.)3)0# *","# )?P(# 7%# ;'1/"=# 4)(0#?".#'+:7)+/"#+E"#'.)#)((1%#:7'#'.)0#)#?"7-"(#&1)(#6)31)#-6',)&"# Q#-)()#+"3)#'#(7)#1%),1+)BE"#+E"#-)+()3)0#@A#6)31)#%"+/)&"#7%)#P?'.)# 1+/'1.)#-"%#):7'*'#3)H1"#/"&"0#+',"-1)&"#"#%7+&"#-"%#)#:7)+/1&)&'# &'# 1+('/"(# :7'# -")21/)3)%# ):7'*'# *7,).0# -"+/)&"# -"%# '+/7(1)(%"# )(# 1+-1&T+-1)(# *7%1+"()(# &'# /"&)(# )(# @)+'*)(# '# ?"./)(0# ).'@)&"# ('7(# pensamentos com o cheiro das paredes recém pintadas, alimentado seus medos na solidão noturna, inventado um tanto de vidas que ali viveria, calculado o quanto de poeira não deixaria ali se acumular. E nada de pessoas. Nada de conversas, nada de música, nada além dele. Pôs-se a escrever além de suas mãos, não sabia como pensar assim, pediu auxílio para ele mesmo à noite e bem baixinho, sussurrando no ?.P?.1"# "731&"0# +"/1$-"7# "# 1+-f%"&"# )"# 1%),1+).>('# %)1(# :7'# 7%0# 19


%)1(#:7'#&"1(0#%)1(#:7'#/.T(0#'#?".#)F#?)."70#%)1(#:7'#1(("#'.)#%7*/1&E"=# Era uma casa nova e ele não estava pronto para participar ao mundo se )1+&)#'%#-.1)BE"#'(/)3)#"#*7,).0#'#)1+&)0#?".#7%#2"%#/'%?"0#?.'/'+&1)# encaminhar sua vida em estado de levante, por isso um canto altar do nada era necessário para repousar seus orifícios abertos ao mundo. Era )#-)()#-"%"#"#&'?P(1/"#&'#(10#.'('.3)0#)-'.3"=#J#+'*)#+"3)%'+/'#"(# ?.',"(#3E"#('+&"#+)#?).'&'#(7?"./'#?).)#/7&"0#?).)#+)&)#$-).#+"#-6E"# "7#("2.'#)#%'()#"7#'(-"+&1&"#+)#,)3'/)0#/7&"#&'3'#$-).#?'+&7.)&"0# /7&"#&'3'#2)*)+B).#-"%#"#3'+/"0#/7&"#'%#'(/)&"#/.)+(1/P.1"=

== Eu comprei pares de luvas e contratei um assistente. Precisava ter )*,75%# ?).)# ('.# '7# ?".# )*,7+(# &1)(0# ?).)# -"./).# "# -)2'*"0# ?).)# &).# 2)+6"0#?).)#;)H'.#/7&"#"#:7'#'7#:71('(('=#!#G+1-)#.',.)#'.)#+E"#;)H'.# +)&)# :7'# "# &'(),.)&)(('=# b"# 1+F-1"0# %'# ?'.,7+/)3)# ('# 1(("# '.)# /).)0# %)(# &'?"1(# .'*)D'10# +)&)# :7'# &'(),.)&)(('# &'3'.1)# ('.31.# ?).)# %1%# /)%25%=# J+/E"0# )?'+)(# $H# ):71*"# :7'# ('+/1)# -"%"# "# -"..'/"# ),1.=# J+/E"0#)((1%#-"%'B)3)#"#&'*1-1"("#'+-"+/."#'+/.'#%1%0#'70#'*'#'#+P(=# Começava sempre no breu, aos poucos a luz ia se fazendo existir e '*'# +7+-)# ?'.-'21)# )# (7)# -6',)&)0# )# %1%# '.)# (7,'.1&"# .'*)D).# '# +P(# +"(#'+-"+/.A3)%"(#/"&)(#)(#+"1/'(=#d7.)3)#)*,"#'+/.'#7%#/'%?"#&'# 6".)#'#)*,7+(#(7(?1."(=#!?'+)(#"#"2('.3).#7%#)#?.'('+B)#&"#"7/."0#"# acompanhar dos pensamentos, a lucidez da perda, o ato de ser tempo, /'+&"#7%#(P#-".?"=#!#?.'('+B)#'.)#-"%?)./1*6)&)#-"%#"#?)(()&"#&'# si, o único comum à todos. E as leis eram quase que vencidas toda )# +"1/'=# h# )((1(/'+/'# ('.31)# -"%"# 7%# ?"+/"0# 7%)# S+-".)0# '# +P(0# "# desterro, a vazão, a entrada dos fundos.

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== K'3)+/'# &'# -".?"=# J# ?"/T+-1)(# '(:7'.&)(# &'# %E"(# &1.'1/)(0# )?'./).# "(# ,"%"(# &)# .)1H# '# &1*)/).# )# 3'1)# &)# .)HE"0# ?".# ('+/1.# &'# "+&'# 3'%0# por tentar decifrar as palavras da boca fechada, a dança dos dedos %1G&"(=#a'.#('#/'%#,'+/'#+)(#-)&'1.)(#&)#;.'+/'#)#"731.#%'7(#?)(("(0# minha respiração, minha dor de cabeça e meus suspiros. Saber estar '%#*7,).'(#('%#'(?)B"0#('%#%'1"(#/"+(0#('%#/'-1&"(#%"*'(0#('%#7%)# 2")#?)./'#&):71*"#:7'#;)H#)#?)1(),'%#&'#"*6"=# – Não! A atmosfera eu faço questão de manter. – Então, vamos esperar o amanhecer. – Esta está sendo sempre a solução, depois de tudo se dorme e na %)+6E#(',71+/'#('#'(/A#*"+,'#&)#&".#&'#"+/'%#'#?'./"#&)#&".#+"3)0# sempre nova a doer do mesmo jeito, um jeito sem permissão, um jeito &1(-1?*1+)&"0#7%#/)+/"#"731&"#'#/.A,1-"0#-"%#'+/.)&)(#'(/"+/')+/'(#'# .'-"./'(#-"%#2".&)(#&'#,'"%'/.1)#'D)/)0#'#"#-A*-7*"#('#/".+)+&"#7%# );),"0#H"+)#&'#-"+;"./"0#-"+/.A.1"#&'#%1+6)#-)%)= h#?'(-"B"#?f(>('#)#,1.).#?).)#"#*)&"#&'#3"H#'#'(/.)+6"7#"#()*/"#&'# ?)*6)#?)+/'.)#:7'#-"%#.A?1&)(#7+6)(#.)(,"7#"#-"./'#)"#'(/1%A>*"#)H7*# &'%)1(0# &'?"1(# &'# 7%# ?.1(%)# ?"+/"# &'# 21,".+)# '(?'."7>('#'%# .1(/'# em foz. Um pouco dentro das unhas, embaixo das folhas, no canto das coisas e no ar da hora mais cheia revirado atrás. Palcos viadutos 1+/'.*1,)%# ?'.+)(# 2)%2)(0# '(/1-)%# -"%# '*',S+-1)# &'# *7/)# )*"+,)&"(# ?).'+/'(-"(# -"%# )# *F+,7)0# ()*13)(# :7'# 2.1*6)%# &'+/'(# :7'# '(?'.)%# por bocas atrás da nuca. E eu, que em nada sou qualidade maior para "#)%".#&'#)*,7+(0#'(?'."#"#);),"#%'(%"#:7'#&1(/)+/'#&'#,'+/'(#&'# "*6"(# )%).'*"(# ?"7-"# -"+$A3'1(# '# &'# -)+'*)(# ,."(()(# %'/1&)(# &'# 3"*7+/).1"()(#'+-"%'+&)(0#'+/.',"#%1+6)#-"+$)+B)#&'#31&)#Q#/10#'#/7#

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%'#$(,)#&"#-6).-"#'#%'#)?.'('+/)#+"#?)*-"#-"%"#,.)+&'#'#?':7'+1+"# %1G&"#%),"0#-)-6".."#)%)&"#-.'(-1&"=#W"./7)+&"#%1+6)#'(%),)&)# *7H0# )-.'(-'+/"# ()*0# '(?1-6)+&"# "(# $"(# &)# -)2'B)0# %'# '*',)+/"# .)("0# &'-)+/"# ()*,)&"# '# )*',."# )# /.)+(?).T+-1)# &)# A.3".'# .)1"# .)1H0# /."+-"# 31,)#;"*6)#'#X)(6=#J*'#%'#-"..'(?"+&'#)"#;)/"0#&'(%'+/'#)#*'%2.)+B)# :7'# -"%?*'/)# '# '+-"+/.)# +"# ).,7%'+/"# "# '(/.)&"# *).,"# ?)*?A3'*# '# -.5&7*"=#d'(-).,)#&'#*7H#:7'#)-"%?)+6)#)#+'2*1+)#/".+)+&">)#/"&)# %)(()# -"%?)-/"# -*)."0# ("*1&'H# &'(%)1)&)0# /)+,'+/'# +',)/13)0# '(-.1/"# desenho em mente que projeta mundo broto, que compreende mundo laçado e solta de si no ultrapasso das densas árvores da montanha de &7.)(#?'&.)(#2)(A*/1-)(=#JD?'*1.#A,7)#2'21&)#'(-7.)#&'#*)%)#.)()#&"(# )B7&'(#?)./1-7*).'(0#61&.)/)#('%'+/'(0#'+,"*'#)#?"/T+-1)#'#('#*)+B)#'%# ?"+/"# &'# '(-"+&'.1@"# &".%'+/'# '# &"('(# &'# ,7).&)&)# ()21&)# 2'*'H)=# !?'+)(#+E"#()12)#1+-"*".0#-"%"#7%#@).&1%#,)G-6"#+"#("*#&"#%'1"#&1)0# bem atado no poste como um outro de patas e pernas fortes capazes &'#31.).#"#%7+&"0#&'#31.).#"#6"%'%#)/.A(#&'#A,7)=#]%#6"%'%0#:7'# não se olha como animal nem estrela, desperdiça o calor que emana, &'(-"+/.)1#)#".'*6)(#-"+-6)(0#'(?)1.'-'#'%#?)*%)(#(")+/'(#'#-"+(/.P1# no início do outono cabanas secas com cheiro de seiva. Empreitada de homem.

== J%# *"+,"# ?*)+"# '.,71# 7%# ?)*)+:7'0# '.)# ?).)# (721>*"# -"%"# :7'%# pousa pássaro mesmo, equilíbrio de ave marinha com as mãos unidas Q(#?)*%)(#+"#?'1/"=#d'#"*6"(#;'-6)&"(#'.)#&"+"#&)#?)1(),'%0#-"+/)3)0# junto com o tempo, os ventos que sentiu na cara, ditantes do seu novo

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3f"0# &1(/)+/'(# &"# ('7# +"3"# ?)(("# :7'# ),".)# 5# %'.,7*6"=# i"+/)# '%# braçadas, em respiros, em vista embaçada, sem ajuda de equipamentos 67%)+"(0#-"%"#('#)#;".B)#&'#7%#'(?1.."#;"(('#;"./'#"#(7$-1'+/'#?).)# impulsionar o projétil, como se a asa precisasse de mais músculo que )/.1/"=#i"%"#3"-T#:7'#.'(?1.)#*"+,'#&'#%1%#),".)=#J(('(#?)*)+:7'(# não se avistam, mas por eles estendo olho no mundo dono e percebe('0#&'#%71/"#*"+,'0#)#?.'('+B)#&'#(1#%'(%"0#)/5#?".#&'#/.A(#&)#+7-)0#)/5# ?'*"#.)2"=#W"&)#)#?)./'#&'#/.A(#&)#,'+/'#5#7%#%7+&"#?.'/"0#*1%?1+6"=

== Sacolejava de um jeito porque éramos humanos, se fôssemos tijolos, madeiras ou tantas outras coisas inanimadas, talvez, não aproveitássemos /)+/"0# ?"1(# /1+6)# 7%)# ?)1(),'%# ?).)# ('.# 31(/)0# '# &'# 7%# %"&"# 2'%# diferente, de uma outra perspectiva, um ponto em movimento, uma -)."+)#?'&1&)#('%#'(;".B"#'#)/'+&1&)#('%#&'(-"+$)+B)=#h#("+6"#&'# uma casa em uma cidade. 4'#'(?.'%"#'%#,'(/"(#?.'-1("(#'#&'(-)+("#+"(#)..'?1"(=#!?.'-1"#"(#3"-)1(# :7'#%'#)X".)%#,'+/'#'#)-'+&'%#)#*7H#&'#%1%=#I).)#1(("#/7&"#5#-".?)+B)0# 5#%71/"#)+&).0#(E"#'(/.)&)(#&'#-6E"#;'1/)(#+"#-570#-57#-"%?*'%'+/).=#IP# :7'#2.1*6)#+"#'(-7."#'#%'#-"2.'#1+/'1."=#bP(#%1(/7.)&"(#+"#).#X7/7)+&"# &'#%)+6E#'#'+/.)+&"#&'3),).#&'#+"3"#+"#?7*%E"=# J%#/'%?'(/)&'(0#'+-"+/.'1#'(?5-1'(#&'#+)&)(=#J7#3'+/"#%)1(#*"+,'#&'# cima da pedra. Em cima daquela pedra, eu posso cansar de nada ser '#1.#?).)#)#,7'..)0#&'?"1(#&'#3'+/).#?).)#&'+/."0#3'+/'1#)/.1/).#"7/."(# braços.

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Saí descalço e perdi meu plano, por onde eu ando eu ando. Numa tarde joelha me desatei verdanho na tempestura. Sutura o sol em /.T(#?".#"+&'0#'%#-'&"0#'%#("%=#J(?1+6)B"#2).&"#)*-)*1H)#'#%)+6E# enquanto verde. Neruda lenda Quintana andando Clarice lia Pessoa )%)&"=#d'(7%21,)+&"#'(:71+)(#*13.'(=#I).)#7%#("+6"#'%#:7)+&"#.')*# 1%),'%#%'+/)*#1*7%1+)&)#'#'%2)*)&)#&'#-)*=#W"..'(#)*/)(#@",)&)(#;".)# ao ponto de enlace futuror febril. Olhando pela vidrança esquentado de *E0#"#).27(/"#-.'(-1&"0#&'('+3"*/"#'#X".1&"0#'%#?"+/"#&'#)%".0#'%#X".0# '%#-6'1."0##-6',)+&"#)#%1%#-"%"#"#2'%#&'#1%),'%#'#-)*".#&'#-6A=# Respirada me descobre perto das pedras, foi mesmo pelo tato, senti que eram quentes e muito duras e estavam ali por bem mais tempo :7'#'70#%)(#-6',"7#"#/'%?"#&'#-"%?)./1*6).%"(#)#'D1(/T+-1)=#J.)#)# espera do rio, movimento contrário de submersão, estação de calor -"+(/)+/'0#&'#%71/"(#1+('/"(=#]%#&1)#,)+6'1#&'#?.'('+/'#7%)#+73'%# de muitos insetinhos, o sol estava se pondo e a nuvem me cobriu de ?1-)&)(=#4'7#-".?"#).&1)#'#'7#%'#)&".).)#313"=#U'."1-"(#-"%"#2.)3"(# %"./)+/'(#('#'(?.',71B)3)%#&1)+/'#&)#)*/7.)#)/1+,1&)#)"#$+)*#&'#(7)# G*/1%)#-)%1+6)&)=#I'*)#%)+6E0#,7).&).)#?).)#('%?.'#):7'*'#%"%'+/"# &'# )7,'# 67%)+"# -"%# %)1".# &1(?"(1BE"# &'# *'%2.)+B)# ?".:7'# '.)# 1%),'%#&'#2'*'H)#%)/1+)*0#'.)#)#*7H#&"7.)&)#-"%'B)&)0#"#2.)+-"#&7."# e fresco que arrepia e acorda, que lembra a imersão constante na vida /'..'+)=# J(/)+&"# )*10# '.)# -'./"# -"%"# ):7'*'(# ?5(# *)/'@)%0# "# ()+,7'# -1.-7*)#'#)*1%'+/)#"*6"(#/"-)&"(#&'#?)1(),'%=

== Acho que talvez eu saiba hoje e amanhã seja prata, bronze e cobre, fujo

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%"./"#'#/.)+(?1."#3'.&'0#%)(#'%#-6'1."#(P0#+E"#'%#-".#%'(%"0#'%# cheiro de verde, verdade de folha, não de folha em branco, de folha verde amassada no nervosismo da conversa. Conversas de amor raiva ou amor cuidado de si, amor pensamento de crescimento. Eu sei de )*,7%)(#-"1()(#6"@'#:7'#+E"#%'#-"+/).)%#)+/'(0#)(#?)*)3.)(#-"%#:7'# )?.'+&'%"(#)(#-"1()(#(E"#-.1)&)(#?).)#-)&)#7%#&'#+P(#1+&131&7)*%'+/'0# -)&)#7%#'(-7/)#)(#(7)(#?.P?.1)(#?)*)3.)(0#'#)((1%#)?.'+&'0#(P#-"%#'*)(=# Eu não falo aqui da beleza das palavras, isso é para os depois, eu falo &):7'*)(#:7'#-6',)%#)#%1%#:7)+&"#"#?'("#&'*)(#@A#5#%)1".#:7'#"(# meus ouvidos, me derrubam e pronto, eu novinho em folha verde, em broto, sentindo toda a dor no músculo novo, dor de exercício.

== bE"#)1+&)#?'+("#%)1(#'+:7)+/"#&'(%)+-6"#/"&"#"#$*/."-".#:7'#1+3)&'# pelo céuescurocolorido e elétrico de nuvens verticais bem iluminadas quase telas quase doces, cheias de vento, sem terra sem chão, com raios que saem das mãos, das pequenas sem pelo com pele de sapo '+,)1"*)&"#'(?'.)+&"#+)#2"-)#"#"3"0#"#?)70#"#&7."#.'&"+&7.'-1"#?'*)# %E"#2.1*6)+/'#;"(-)#&'#%)1(#1+/'+/"(#,.)3'(0#'#)(#?"+/'(#$+-)&)(#+"(# rios bem em cima deles, bem em seu leito, bem no desvio do olho -7.3"0#&"#"*6"#;"(;P.1-"0#&"#"*6"#"*6)&"=#4'7#:7'1D"#('#'(?1-6)#'%# ()2'.# ,"%)(# &"-'(0# '%# ,"(%)(# :7'+/'(0# '%# -"+(':7T+-1)(=# 41+6)(# -)%)(# '%2)*)%# ,)/"(0# '(?1..)%# +).1H'(0# )-"*6'%# ('1"(0# *)/'@)%# ()+,7'0# 3'..7,)%# )# /'(/)0# ,.7&)%# +"(# -)2'*"(0# '+/"?'%# "731&"(0# desmentem chatos, espreitam quartos, descansam cordas, novelam /.)+B)(0#'D?'*'%#/)%?)(0#'(/"7.)%#?P-)%#?'1&)%#?).1%=#d'(%'+/'%# "7.1B)%#'+/"?'%#?.'?).)%#-"+-'+/.)%#'+-"*6'%#%'+&1,)%#,"/'@)%#

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%'.,7*6)%# ,),7'@)%# -)%1+6)%# ('# 31.)%# '(:7'-'%# )*7,)%# *)/'@)%# *)&.1*6)%#'+,"*'%#-"(/7.)%#('#;7.)%#&'($*)%#'+,)/)%#%7.%7.)%# sacodem desmaiam explodem. Por cima, por baixo, de baixo, de cima, &'# *)&"0# %'# *1,)0# %'# ;)*)0# %'# -"+/)0# &'# -"+/)0# &'(?"+/)# &'(3'+&)# desmonta destrincha debulha. E em mim, a retranca de um mundo em tromba se avoluma e avalancha meu peito, meu braço, minha sina, meu vento aterrizo atalho e entrando me escondo em mim do desmim, do '%#/70#&"#+E"#'7#'%#+P(0#'7#'%#%1%0#/7#'%#/7#+P(0#'%#)3'(("#)3'(/.7H# avoé, ave, avoa, vou, avoei. d"1(#27,1"(#:7'#(E"#%)1(#7%0#%'1"#&'#7%#%'1"#&'#"7/."0#'#)(#%'/)&'(# @7+/)(0#&"1(#,7).A(#'#@),7)/1.1-)(0#-"+@7+/)%#/"&"(#"(#&1)%)+/'(#;)*("(0# "(# .721(# ;)*("(0# )(# '(%'.)*&)(# ;)*()(0# )(# ()$.)(# ;)*()(0# )(# /7.%)*1+)(# falsas, com armas de raio laser nas mãos descobrindo por onde ir, 1+/71+&"0# ('%# &'$+1BE"# ?.531)0# '*'/.1H)+&"# -"%"# ('# "# 6"%'%# ('# ).%)(('#"7#?."@'/)(('#?).)#'+;.'+/).#"#1+1%1,"#:7'#%)1(#)%)= a"-T#()2'#?".:7'#:7'#'7#"*6"#/)+/"#?).)#3"-Tj## i"..'(?"+&T+-1)(#1+1%1,)(= O correspondente assusta com minha pele, com meu pelo brilho. A atração se dá pelo som da mente. Eu escolho minhas pedras. Não vejo a todo momento quem eu sou, olhe meus dentes eu sou 1,7)*#)#3"-T= J(/"7#?."/',1&"#&"(#(1,+1$-)&"(0#?"&'#31.#-"%#('7#-".?"= I.1%'1."#'*'(#3E"#('#('?).).0#&'?"1(#('#'+D'.,).0#&'?"1(#7%#-"%'.#"# outro com a boca, depois de odiarem, e então se misturarem. Duelo dueto ]%#('+/1%'+/"#:7'#('#-6)%)#P&1"=

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Essa penumbra é de superfície. Não separa de mim. k7)+&"#3"-T#'(/A#*"+,'0#'(/A#&'+/."#&'#%1%= I).)#/"-).#'%#3"-T0#'7#(1,"#%71/)(#&1.'BC'(= I).)#3"-T#%'#3'.0#+E"#?.'-1()#&'#*7H= I).)#'+-"+/.).#'%#3"-T#"#%'7#+"%'0#'7#?."+7+-1"#%1*#3'H'(#'#+E"# )?.'+&"0#)#%1+6)#*F+,7)#+E"#('#&"2.)#'%#('7#(1,+1$-)&"= Eu desminto o que seus olhos suspeitam. JD1(/'%#&"1(#"-')+"(#'+/.'#%1%#'#3"-T= b"(("(#?5(#('#'+-"+/.)%#'#3"-T#%'#)..)+6)= I".:7'#3"-T#5#21-6"#'#'7#("7#3'+/"= I".:7'#3"-T#5#A,7)#'#'7#+"#%AD1%"#-"+(1,"#('.#+73'%= J#('#3"-T#.')*%'+/'#;".#"#%).#?)-F$-"#'#.'3"*/"0#'7#("7#?"'1.)#-P(%1-)# ).&'+&"#;","#'%#-"+/)/"#-"%#)#/'..)= a"-T#5#"#)%".#'#'7#("7#"#-6E"#:7'#3"-T#2."/)= Eu ofereço peixes vivos em sua boca. a"-T#5#A,7)#:7'#'*'(#.'(?1.)%=

== k7'."#&"1(#?'.("+),'+(#-6'1"(#&'#:7'.'.'(#'#?.',71B)=#J*'(#('.E"#%71/"# (1%?*'(0#7%#5#3'.&'#'#"#"7/."#3'.%'*6"=#J*'(#+E"#(',7'%#3'.&)&'(=# !#G+1-)#-"1()#:7'#"(#&'$+'#(E"#(7)(#-".'(0#?".#1(("#)#?.'&1*'BE"#?'*"(# daltônicos, o fundo do mar ou a escuridão da penumbra noturna que (P#5#'+-"+/.)&)#'%#*7,).'(#-"%#?"7-"(#-"+&7/".'(#&'#'+'.,1)#'*5/.1-)=# i"+/"#"#;)/"#:7'#&'7#1+F-1"#)#(7)#)%1H)&'#"7#*1,)BE"=#h#&1)#'%#:7'# eles se olharam e perderam um pouco de si mesmo no desejo do outro. Foi por causa de um desenho feito no mapa do Brasil. O Brasil é

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um país a ser descoberto por eles, assim como o mundo inteiro, pois +"#%7+&"#1+/'1."#6A#A.3".'(#'#6A#?)?51(=#h(#?)?51(#/T%#(7)#2'*'H)# '(/"+/')+/'#-)?)H#&'#)..'2)/A>*"(#+7%#,"*?'#(P0#;)H'+&">"(#'(?1..).# e usar seu tato no auxílio do olho que se nutre. E se houver linhas "7# ?)*)3.)(# "7# 1%),'+(# 1%?.'(()(# +'(('(# ?)?51(# &'# 7%# @'1/"# $+"# '# peculiar é deleite apenas e exaltação. Eles não sabem o que fazer com tantos papéis, porém os admiram e os amam em sua umidade, em seu estalar quando seco no som do atrito com os dedos que estimula os ouvidos em poesia crua de textura. O pulmão se arrebenta em árvores caídas. Sabe-se que vento forte, raios e cupins derrubam árvores ao espontâneo sem ajuda humana. Ao homem colorido cabe recuperar "#).#'%#3"*/)#)#.'(?1.)BE"=#V"/",.);).#-"%#:7)+/)(#-S%'.)(#?7&'.0#'# ,7).&).#"#%"%'+/"#?).)#)#)./'=#h#&'('+6"#'.)#'*)2".)&"#-"%#-)+'/)# sobre o mapa, mas era realizado com o corpo que ia percorrendo distâncias e unindo pontos. Nos pontos unidos eram acionados novos ."/'1."(=#J%#-)&)#?"+/"#'.)%#("*&)&)(#*'%2.)+B)(#&)#'D1(/T+-1)#&)# 31&)0#?".:7'#'.)#&'(;)H'.>('#&"#"2('.3)&".#'#('.#)#)BE"=#RP#&'?"1(#+)# lembrança se pode perceber a inteireza comunhão.

== I)*-"# )"# .'35(=# !"# ?'.&T>*"# &'# 31(/)# "7# )"# ?'.&'.>('# &'# -'+/."0# )"# ser absorvido por sua matéria, ao rebaixar-se além de seu nível, em "?'.)BE"#&'#1+3'.(E"#,'",.A$-)0#'%#('.#&'+/."#&"#'(/";"#'#+E"#("2.'# ele, como uma cabine/bunker submarinosa ou como vulcão ao erupto. Como estar na base, naquela que não sobe, que é achatada, que sofre todo o peso, que tem por isso seu corpo transformado, sua voz abafada. 4"3'.>('#+'(('#-"+/'D/"#/'%#-"+(':7T+-1)(#&'()(/."()(0#7%#-6E"#:7'#

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('#%"3'0#7%#-6E"#&'(,)(/)&"#('&1%'+/)&"0#7%#-6E"#?"7-"#(',7."0# -)%)&)(# &'# ."-6)(# &'(*1H)+/'(0# 7%# 2)1*'# (F(%1-"# ?).)# -"+(/.7BC'(# &'#+"3)(#31(7)*1H)BC'(#/"?"*P,1-)(#'#+"3)(#/.1*6)(#,'",.A$-)(#'#('7(# possíveis acampamentos na beira da estrada, esquecer para não se encher, esvaziar. O chão comprometido com tudo que sustenta, um chão pai, ou a Pacha Mama. Chão terra, alicerce, cancha, esteio. Piso onde piso. ]%# ?)*-"0# 7%# '*'3)&"# )-1%)# &"# -6E"0# ,'.)*%'+/'# -"%# ).# '%2)1D"0# -"%# "D1,T+1"0# ,'.)*%'+/'# ('%# *7H=# ]%# *7,).# ?."/',1&"# &)# *7H0# 7%# *7,).#?).)#,'+/'#%71/"#2.)+-)0#7%#*7,).#&'#+',."=

== h(#?.',"(#/.)+(1/)3)%#?'*)(#?).'&'(0#('.31)%#&'#)?"1"#?).)#:7)&."(0# roupas, pequenos animais e objetos dourados de brilho moderado. !*,7+(#+E"#),7'+/)3)%#"#?'("#'#."%?1)%#"#(1*T+-1"#&)#()*)#2.)+-)0# o som barulhoso rodopiava pela coluna localizada no meio do ()*E"# :7)('# .'&"+&"# &'# )?'+)(# &7)(# ,.)+&'(# @)+'*)(=# ]%)# 3'H# ?".# semana outros sons eram ouvidos, às vezes pela manhã, às vezes na %)&.7,)&)=#l)/1&)(#&'#%)./'*"#.1/%)3)%#'#)?)H1,7)3)%>%'#-"%#)(# ?).'&'(0#'*',1)%#-"%"#)%')B)#"#('+/1&"#'#&'(-)+()3)%#)(#?)+-)&)(# que eram sinais de novos moldes, novos desenhos. O noticiário apontava como um tempo de mudança lenta. As revistas de fofoca não %)+1;'(/)3)%#1+/'.'(('#)*,7%#'#"(#?*)+"(#&'#-"+&7/)#'*)2".)&"(#?".# %".)*1(/)(0#()*3"(#'%#)+"+1%)/"0#'.)%#(P#.',"H1@"=#h#2.)+-"#'.)#-)*#'# "(#?.',"(#/.)H1)%#-"+(1,"#7%)#,.)+&'#-).,)#(1%2P*1-)#:7'#)((',7.)3)# entendimento, obras na parede, era o que se via, espaços vazios, &1(/S+-1)#?).)#"#"*6"#;'1/)#?'*"#-".?"=#W7&"#+"#('7#&'31&"#*7,).=#h+&'#

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)#%E"#+E"#%)1(#)*-)+B)#5#:7'#"(#?"+/"(#&'3'%#('#$D).=#I).)#)#%1+6)# /'(/)# ()*3"# 7%# ,.1/"# '# :7)+/"# %)1(# '7# '+-"+/.).# :7'# ("2.'?"+6"# panos para esquentar, em torno de mim a música leve indica o novo rumo das peças e o apoio delas passa pela minha boca antes deixando ,"(/"#;'.."("0#"#("%#.'/7%2)#-"%"#,"%"(#&'#2"..)-6)#'%#(7?'.;F-1'# líquida, destramado incalculado. As dúvidas são o caldo da ação como "# (72(/.)/"# &)# .1,1&'H# :7'# )+1:71*)# )# ?"((121*1&)&'# &)# 31&)=# h# ;"-"# ('#)?.'('+/)#'#)#1%),'%#&"#?)*-"#)?).'-'#1*7%1+)&)#?".#1+/'1."0#('%# ?G2*1-"#+'%#)/".'(0#-"%"#7%)#,.)+&'#'(-7*/7.)=#J(()#'.)#)#1%),'%# que apresentava a ideia, era palco chão ação. Como se portar, como dizer as coisas, virar a vida pelo avesso, expectorar a fala, transpirar, /.)+(1/).#"(#2'+(0#'*",1).#)#'-"+"%1)0#%"+/).#+"#*"%2"#&)#)2(/.)BE"0# ('.# ?'&.)# :7'# ;)F(-)# %7+&"# '# 1+-'+&'1)# )# .'&'# )*%)=# J7# (P# &'..'/"# :7)+&"#'(:7'B"#:7'#("7#%)/5.1)0#)+/'(#%'(%"#'7#%'#(',7."#+"#("*#'# $+-"#"(#?5(#'%#:7'%#%'#"73'=

== J(?)B"# &'# )((7+/"# ?T+&7*"0# &'(%)1"# &'# -.1(?)# 3T+7(0# '+/.',)# &'# %7+&"#("+6"#%)+/"#)%".=#K)2".)/P.1"#&'#/'..)#'%#-)3'.+"()#.)%?)# -"+&7/13)#'#"+&7*)/P.1)#:7'#('#.'3'(/'#&'#("*0#"#-".?"#Q#?'*'0#)#?)7#'# -".&)=#R)+,7';)H#)#('+()BE"#:7'1%)+&"#).&'+&"= Parassonido em vez de voz distanciado pela mente. O homem queria &'1D).#&'#('.#%'+/'0#:7'.1)#('.#-".?"#&'#,)/"#&'#*),)./"0#('.#-"%?"(/"# polivalente, para assobiar, estribilhar nos ouvidos, para desmanchar nas cadenas, para hastear as chancelas, esquadriar as ventanas no )*7%1).#&)(#2).2)(#-.'(?)(0#,'.%1+)+&"#?1"*6"(#'%#;'+&)(#)2'./)(#)#

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$"#&'#-6'1."=#]%)#+73'%#?.'/)#)H7*)&)#-6',)#)#('.#%1+6)0#-6',)#)#('.# )#%)1".#-"1()#:7'#'7#/'+6"=#J7#?".#'*)#-6',"#)#('.#,.)+&'H)0#-6',"#)# ('.#("?)0#-6',"#)#('.#()*=#!,".)#)H7*"7#&'#+"3"#'#'7#%'#?'.-'2"#("*/"# &'(-"+/."*)&"0#,"/'@)+/'#'%#'(/)&"#&'#2.7/"#3'.2"0#?)3".#%)+("#&'1/)# o cabelo e estende a farpa. Raios inclinados repetem a direção da mão '#'*)#)((7%'#?".#-"%?*'/"#)#$,7.)BE"#'#;)*)#?".#%"31%'+/"(#"#:7)+/"# de amor pretende dar. k7)+&"#31.)#*'/.)#&'#%G(1-)0#'%#-)(/'**)+"0#$-)#)((1%8 Parasonido al reves distanciado de la mente. El hombre queria dejar de serpiente, queria ser cuerpo de gato lagarto. Ser compuesto polivalente, Para silvar

== V"*-*".F(/1-)0# /'*7%1+'-T+-1)# &'# 'D),'."0# )-G%7*"0# )-6)/)%'+/"# 6".1H"+/)*#'#;7."#&"#'(?)B"=#^)+'*)0#/'*)0#.'/S+,7*"0#?*)+"0#(7?'.;F-1'=# UA# 7%# ('+/1&"# &'# &1%'+(C'(# ?).)*'*)(# 1%?'.-'?/F3'1(# :7'# ("%"(# 6)21/7)&"(# )# 3),)%'+/'# "731.# -"%"# )*,"# -7.1"("# :7'# ;)H# ?)./'# &"(# )((7+/"(#&)#".&'%#&"#%1(/'.1"("=#b"BE"#&'#%1*),.'#:7'0#-"%"#+7%# ,"*?'0#'*'3)#)#-"+(-1T+-1)#)"#H'."=#V"-*".F(/1-)#)*31/.'#&'#'D?'.1T+-1)0# )3'+/7.)#'(/5/1-)0#?."@'BE"#;".%)*#&'#7%)#A.')#31(7)*#3'(,)=#W"%)%"(# 7%# .'/S+,7*"# -"%"# /'%)# )# ('.# &'(,)(/)&"0# -"%"# );'/"=# J# -"%# '*'# abrimos escala. Destacamos a disciplina da matemática como condutor .F/%1-"#&)#".,)+1-1&)&'=

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== !?)./)+&">('#&'#7%)#)?).T+-1)#'#&1(/S+-1)#)$+-)&)0#5#?".#7%#/)+/"# &'#/.)B"#:7'#('#),.7?)%#)(#%).-)BC'(#&'#-673)0#:7'#('#)?"+/)%#)(# -)3)(# ?).)# "# *'1/"# :7'# ('# &1(?C'# '%# ?'&.)(# *1()(# '# *)@'&"(# )*3"(# "(# ('&"("(#$*)%'+/"(#&'#7%#-".?"#)-'(("=#J(('#-".?"#:7'#5#?)((),'%# :7'# 5# %A:71+)# :7'# 5# ?).)# ('.# "?'.)&"# -"%# 2'+'3"*T+-1)# '# ,.)B)0# 5# peça de marcação pontada às beiras abertas e, ao revés de palco, para ?"&'.#'%#(F/1"#1,+P21*#*'3)+/).#)#-.1(/)#'#?f.>('#)#/"&)#?.")#'%21-)+&"# -"%"# *)+B)# -"+/.)-',)# -"%"# ;)-)# &'# ,7%'# ,"%)0# &'# *)+-'(# -*)."(# -"%"#"#2.1*6"#&"#)(;)*/"#:7'#5#%).-)#+"#*"%2"#/"(/)&"=#i6',)%"(# num ponto platinado, numa chapa, numa escaldante chapada, essa &'(-.'3'#-"%#?"7-"#%)1(#)$+-"#'(('#-".?"#/"*'.)+/'#'#1%'+("#:7'# tem como cume uma reta, um vinco permanente, terreno que vento *)%2'# :7'# -673)# -.1)0# '# '%# '(?'-1)*%'+/'# ('# %1.)# /'/"# ('%# $%=# m# nesse campo de manobras lunares que uma parcela da máquina se perde em comandos maiores ou maiores que sua capacidade de saber 'D)/1&C'(=#J#?)./'#?).)#('%?.'#)+&).#)"#+',.7%'#*)(/."#&)#1+'D1(/T+-1)# )2("*/)0# ?)./'# -"%# ?'.+)(# '*A(/1-)(# '# &'*,)&)(# -"%"# 7%# )(("21"# )"# ouvido de um cão. De todas as maneiras de se descrever este nada, )(# ?)*)3.)(# 1%),5/1-)(# )1+&)# -"+(',7'%# ?.''+-6'.# "# 3)H1"0# :7'# )"(# ?"7-"(#?C'>('#%7&"#'#('%#*7H#)*,7%)= J0#&'#)*,7%#*7,).#?).)&"0#('#?'()#:7)+&"#%)(()=##J0#:7'#&G31&)(#'7# /'.1)#('#3"-T#-6',)(('#-"%#/"&"#"#?.''+-61%'+/"j#R'.1)#?)/"#?).)*'/"# A.1&"#&'#*7D'+/"0#+1+,75%#%'#?',)#?'*"#?5#?".:7'#%'7#?5#5#&'#-"'*6"# ),7'."0# .'(?1+,)0# )..)+6)# '# ,)+6)# -)+-6)=# R)2'# ?".# "+&'# "# %7+&"# @",)#)#,'+/'#:7)+&"#)#,'+/'#&'1D)j#KA#&'?"1(#&"#%'&"0#*A#)"+&'#6A#)# 1+3'+BE"=#KA#+)#?"."."-)#,1,)+/'#&"#+'.3"#-"+/.)F&"#'#&1*)/)&"0#*A#+)# ?).)*1+&)#2'1.)&)#&"#"*6"#),7)&"=

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== Y#R'@)1(#;'*1Hn#Z3"H#&'#-.1)+B)#,.)3)&)[ Z?'((")(#2)/'+&"#?)*%)[ Z)?1/"#?."*"+,)&"[ Y#J7#'(/"7#),.)3)&"#6"@'0#+E"#?"&'.'1#)-'1/).#"#),.)&"0#/)*3'H#+7+-)= – Mesmo assim, venha até o palco, venha conhecer o que a palavra ?."?1-1"7#'#"#:7'#-"+(',71%"(#)*-)+B).= Y#J7#+E"#/'+6"#-"%"#;)H'.#1(("0#'(:7'-1#)#,"*)#:7'#"#27,1"#%'#&'7=# Quando ele souber, não irá me perdoar, ele demorou uma estação inteira de chuva para bordá-la, cada lantejoula era uma prece. Não tenho como me apresentar sem essa indumentária. – O senhor perdeu a cor, mas ainda trabalha muito, todas as manhãs eu o vejo sair e caminhar até a plantação, todavia sei que sente muitas dores neste trajeto. – Quando vos tirais pedras do leito barrento do rio quente para apenas cobrir o passeio diante de minha casa eu deixarei de sentir as dores. E ('#3"(#'+-"+/.'1(#%"/13"(#?).)#%'#%)/).#('%#?'.-'2'.0#(P#)((1%#'7#'1# de crer que estarei perdoado. – Vossa cor era parecida com a minha, vosso pensamento também. O :7'#)-"+/'-'7#-"%#"#("*#:7'#+"(#2)+6)3)j – Eu me traí, e antes fui odioso. Desde já, pronuncio apenas para ti palavras de amor índio. Minha aventura foi tirar a roupa e expor-me ao ?.)H'.#&'#('.#1%),'%0#;"1#)F#:7'#&'(2"/'1=#J#1(("#/7&"#;"1#+)#?)./'#&)# frente do meu corpo. – O senhor está como um papel pronto para ser amarrotado, me deixe levá-lo ao palco, pode ser que a luz dos holofotes o ajude a manter-se.

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– Vos não compreendeis, o seu rei abatumou-se e por mais que vos encontreis beleza nisso, isso será sempre de uma ordem menor. Por %)1(#:7'#3"(#;'-6'1(#"(#"*6"(#)#1%),'%#?'.%)+'-'.A#'%#(7)#%'+/'= –#o#3'+'.A3'*#?)?'*#?"&.'n#J7#3"(#&1,"=#b)&)#('.A#%'+"(#'(?)+/"("# que sua morte, nada será mais bonito que seu último suspiro, nada será %)1(#.)?1&)%'+/'#'(:7'-1&"#:7'#(7)#'D1(/T+-1)= –#`'(?'1/"()#?*)/'1)#:7'#%'#"73'#('%#&P0#/7&"#:7'#'%#('7(#"731&"(#'# olhos repousam perante mim é a âncora da minha ideia, o tecido do ("+6"#5#1,7)*#)"#&)#.')*1&)&'=

!31(/"# &'# *"+,'# 7%)# +73'+H1+6)# +"# ?5# &"# %".."# &"# -57=# J# ?'*)# (',7+&)# 3'H0# )# /'+/)/13)# &'# &'-)+/).# +E"# /'3'# TD1/"# &'31&"# )"# X7D"# de homens mulheres e pequenos animais que desviavam rapidamente ?'*)(#-)+'/)(#67%)+)(=#p).)+/"#:7'0#('#)#+73'%#('#)-6',)(('#%)1(#?).)# perto, teríamos um descanso. A pedra vizinha também tem saudade do *1%"#:7'#)#-"2.'0#&'#('#?".#'(3'.&')&)=#W)%25%#6A#"(#"7/."(#)+1%)1(# :7'#;)H'%#-"-',)(#'#-)()#'%#+P(=#J(/)%"(#):71#&'(&'#7%#/'%?"#('%# conta e de repente somos dados como belos e ao mesmo tempo nossa 'D1(/T+-1)#5#.'*)/"#&"#"*6"=#!#'(/.'*)#)%).'*)#;)H#%7&)+B)(#+"#+"(("# -".?"0#/"&"(#"(#&1)(#,1.)%"(#)"#('7#.'&".=#i"%"#?"&'#)#.)1H#)+1%)*# '3"*71.#)"#?"+/"#&"#"*6"j `)13)&1B"#'*'#?)./17#-"%#'+'.,1)#&'#&'(/.71BE"=#i.'(-1)#)#-)&)#3"*/)# :7'#"#()+,7'#&)3)#'%#('7#-".?"#1+/'1."0#&'#7%)#2)+&)#?).)#)#"7/.)# de uma cor para outra, distribuindo e coletando o que há de melhor '# &'# ?1".0# "# :7'# +7/.'# '# "# &'(-)./'=# d'+/."# &'# +P(0# ("%"(# &'# ;)/"# vermelhos. Um sistema interno veloz, uma bomba carne, combustão de arranque.

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== J*'# %'# ?',"7# ?'*"# .)2"0# '+-"+/.'1# %7*6'.'(# %)-1B)(0# (P# :7'.1)# &'%"+(/.).#(7)#;".B)0#'#'7#'.)#?'*"#(P=#d'%".'1#%)1(#:7'#%1+6)#31&)# para crer que elas eram massa e nada mais, depois eu desisti do que havia sido e pude ser ela, ela cresceu sobre mim, ela tombou ela me 1+3)&17#'#'7#)#'+,"*10#%"..10#'7#2'21#/"&)#)#A,7)#&"#%).0#%"..1#&'#+"3"# '#31.'1#7%#&'('./"#-6',7'1#&'#3"*/)#):71#-"%#.)2"#%)1(#7%)#3'H0#-"%1# verde para ter forca no campo, minha solidão era lendária, eu nunca fui uma pessoa, eu era deus, nada de mundo eu tinha em mim, apenas 7%)#*'+/)#313T+-1)#%A,1-)#-6'1)#&'#%1(/5.1"(0#%'(%"#-"%#/)+/"#?'*"# ()+,7'#:7'+/'#'#&'+/'(#?"+/7&"(0#'(-"*61#'(:7'-'.#&'#/7&"#'#&'(-'.#)# -"+(-1T+-1)#67%)+)#?).)#?"&'.#-.'(-'.#&'#+"3"=#R'#'*)(#/13'(('%#.)2"0# teriam mais poder.

== i"%# "(# ?'*"(# /"&"(# "7.1B)&"(# '*'# /'+/"7# -6',).# ?'./"# &"# +"./'# &'# A,7)#:7'#6)31)#'%#7%#&"(#-)+/"(#'#?'.-'2'7#:7'#'(/)3)#&'+/."#&'#7%)# '(;'.)0#&'(1(/17#&'#),)-6).>('#%)1(#?.)#?"&'.#&).#)#%E"#)"#*7%1+"("0# este era o objetivo principal desde que levantou-se e pôs-se de pé. Ele /1+6)#7%)#("*1&E"#&'#,)&"#+"#*"%2"=#J*'#?7+6)#7%#("./1&"#&'#?)+"(#+"# .1)-6"#?).)#-"*6'.#)*,)(#'#&'?"1(#1)#*A#?'&1.#)"#%'(/.'#:7'#'(/)3)#?'./"=# R'%?.'#6)31)#7%#%'(/.'0#Q(#3'H'(#&'#%)/5.1)0#Q(#3'H'(#7%#.','+/'0#Q(# 3'H'(# $*P(";"0# %)(# '.)# )((1%# :7'# '*'# -"(/7%)3)# -6',).# )"# ?.PD1%"# '(/A,1"#&'#?)1DE"=#J.)#+'-'((A.1"#7%#'(/)&"#&'#?)1DE"#('+E"#?).'-'.1)# :7'#"#)%".#+E"#'.)#("+6"0#'.)#(P#-"%"#7%)#-"%1&)#('%#,"(/"0#+E"# '.)#-"%"#A,7)0#A,7)#/'%#?7.'H)#'*)#5#%'&1/)BE"#'*)#5#'%#2.)+-"0#5#'%#

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H'."0#'*'#+E"#5#'*'#(P0#'*'#'+-"+/.)#-"%1,"#'#)F#;'-6)%"(#+7%#?"+/"0# &'?"1(#;'-6)%"(#'%#"7/."0#'#)((1%0#/.)B)+&"#.'/)0#+P(#&"1(#@7+/"(#+"(# &1(/.)F%"(0#?'.(',71%"(#"7/."(#?"(/"(0#'#3)%"(#;)H'+&"#-7.3)(#'#&'# :7)+&"#'%#3'H#"+&)(#3T%#'#)?),)%#'(()(#-7.3)(#'#:7)+&"#"*6)%"(# +"3)%'+/'#?).)#)/.A(#'.)%#.7,)(#'#+E"#-7.3)(#'#)F#5#:7'#-"%'B)%"(# )# ,7).&).# -"1()(# &'+/."# &'(()(# .7,)(0# ?".:7'# )+/'(# )# +"(()# 31&)# '.)# 1,7)*#2)+&'@)#&'#,).B"%#&'(31)+&"0#*'3)+&"#'#/.)H'+&"0#('%?.'#+7%# risco de esbarrar e ir pelos ares. Ele pediu ao mestre para ajudá-lo a .'-"*6'.#"(#?)+"(#.'&'(#'#"#%'(/.'#(P#;'H#/.)2)*6).#-"%#'*'#&7.)+/'# /.T(#-7.3)(#:7'#"#.1)-6"#;)H1)0#/1+6)#:7'#.'/1.).#"(#?)+"(#:7'#'(/)3)%# ?.'("(#'%#'(/)-)(0#.)(?).#)(#)*,)(#:7'#6)31)%#('#?.'+&1&"#+"#/'-1&"# linho e depois torcer o pano para não ser tão peso na caminhada. !(#)*,)(#'.)%#&'?"(1/)&)(#'%#7%#?"/'#&'#-"+('.3)#'#"(#?)+"(#'.)%# ,7).&)&"(#?.7%#.1"#&'#"7/.)#+)(-'+/'=#J%#7%#%"%'+/"#)?'+)(#?'*)# manhã, pensava que a vida se repetia e que éramos escravos do tempo, 313'+&"#7%)#'D1(/T+-1)#;)&)&)#Q#*7-1&'H=#b"(#"7/."(#%"%'+/"(0#?'*)# ?.P?.1)#*7-1&'H0#313F)%"(#7%#("..1("#2'1.)+&"#)#&'%T+-1)=# – Abra a porta! – Vá! J#+7+-)#%)1(#('#317#/)*#,'(/"0#/)*#'(?'-/."#'#("*7B"#&'#'(/7?1&'H=#i"%# /)+/"#)%".0#?7*3'.1H"7>('#?'*"(0#-"%"#313'.#+"#3A-7"j#W'%#,'+/'#:7'# ;7+&)=#W'%#,'+/'#:7'#.'-'2'0#)-'1/)#'#%)+/5%#7%)#/.)&1BE"=#i"%"# ser sem ser ou não estar estando ou sentir que não se está aqui e estar todo. Parece mentira de tão real, essa carne parece verde de tão vermelha essa frente. –#\+&F,'+"n#

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Ele disse em voz ríspida, raspando a barba que havia deixado crescer ?".#".&'+(#&)#%"&)0#?".#".&'+(#("-1)1(0#?".#".&'+)BC'(#-"+/'D/7)1(#'# -"+/),1"()(=#R'#.'3'*"70#'(?'."7#)#6".)#-'./)0#%)(#'+,)+"7>('=#h#"7/."# corpo com o qual sonhava estar já era tomado de dentro para fora e para os outros lados que cabem apenas na matemática desfacetada da %'+/'#"7#&)#+E"#%'+/'=#^A#'.)#'(-"..',)&1"#'#)..',)+6)&"#?."@'/)&"# e vibrante completamente sem matéria para evitar que a luz batesse +'*'# '# ;".%)(('# 1%),'%0# '.)# /"&"# +',.7%'# '.)# /"&"# ('-"# '.)# /"&"# +)&)=#J.)#1+&F,'+"0#'.)#/.)F.)0#'.)#)-".&'=#4)(0#-"+(',71)#('#;)H'.#('+/1.# pelos metais e andar por eles e podia também posicionar-se em corpo 67%)+"# ?).)# &'*'# &"2.).# )(# *F+,7)(# '# )/1+,1.# 1.)-7+&)(# /.)3'((7.)(=# !((1%#5=#!*1#)/.A(#&'#-)&)#-"*7+)#?"&'#(7.,1.#'%#(7(/"= –#U1#61#61#61#61nn# Z-"%#)#%E"#+)#2"-)#;)H'+&"#,'(/"#&'#'(-"+&'#.1("0#'#"*61+6"(#:7)('# fechados brilhantes). 4)(0# :7)+&"# '7# ?',"# 7%# ?)70# 7%)# ?'&.)# "7# ;)B"# :7'# 3"7# -"..'.# ?).)# ?',A>*"0# "(# "*6"(# .)?1&)%'+/'# 31.)%# 1%'+()(# 2"*1/)(# .'&"+&)(# )..',)*)&)(#'#A31&)(#)#?."-7.)#&)#."/)#&'#;7,)=#b"#%"%'+/"#(',71+/'0# estou eu no chão todo escabelado sem saber o que acontecia, sabendo (P0#:7'#;71#3'+-1&"#%)1(#7%)#3'H#'#:7'#&'(()#'.)#)#%1+6)#%)1".#3'H#'#&'# prazer era ali sentado lembrando como sou feliz, por ver o que nunca via, por ver o que inventava e por sentir que sempre iria acontecer ('+E"#-"%1,"#-"%#"7/."#?"2.'=#d):71#?).)#*A#&'?"1(#&):7'*)#*"%2)&)# 3-#?"&'#)31(/).#"+&'#5#)#%".)&)#&)#A,7)0#/'%#:7'#1%),1+).0#?".#:7'# ?".#):71#A,7)#+E"#'%?"(()0#)#,'+/'#(P#3T#:7)+&"#-)1#&"#-57#'#*","#5# -67?)&)#?'*)#/'..)#:7'#/'%#%)1(#('&'#:7'#)#,'+/'= Z===[

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Fernanda Gassen 39


Carta ao Sr. Monet

Caro Claude, U"@'# &'(?'./'1# &'# (G21/"# ?'+()+&"# +"(# )%1,"(# :7'# $,7.)%# (7)(# ?1+/7.)(0#?"1(#)+&"#%'#?'.,7+/)+&"#("2.'#"(#%'7(=#m#;)/"#.'1+-1&'+/'0# +"(# %'7(# ?."-'&1%'+/"(# )./F(/1-"(0# /'.# )# -"%?)+61)# &'# )%1,"(=# J(-"*6"# /.)2)*6).# -"%# '*'(# +)# -"%?"(1BE"# &'# %1+6)(# 1%),'+(=# R'1# que também fazias isso, constantemente. Nos últimos tempos, tenho feito piqueniques, em parques e praças públicas de diferentes cidades. Assim, senti uma enorme necessidade de olhar para o seu trabalho. Sei que seu Le déjeuner sur l´herbe teve a ?)./1-1?)BE"#&'#-"+313)(#%71/"#?.PD1%"(0#"#:7'#%'#?).'-'#?7+,'+/'# +)# %'&1&)# :7'0# '%# ?.1%'1.)# ".&'%0# "# )/"# &'# -"%'.# @7+/"# (7,'.'# "# %F+1%"#&'#1+/1%1&)&'=#b'%#(P#?".#1(("0#/)%25%#?".:7'#5#X),.)+/'# )# .'7+1E"# &'# )%1,"(# +)# ".,)+1H)BE"# &'# 7%# ?1:7'+1:7'0# ("2.'/7&"0# pensando no termo convescote0#('7#(1+f+1%"0#'%?.',)&"#?).)#+"%').# o meu trabalho. O termo convescote foi cunhado por Antônio de Castro K"?'(# )"# /.)&7H1.0# &)# *F+,7)# 1+,*'()0# )# 'D?.'((E"# picnic=# W)*# )7/".# associou convívio#Z)*1)&"#Q(#;'(/)(#;)%1*1).'([#'#escote#Z:71+6E"#&)&"#?".# cada um para a despesa) para construir uma nova palavra no século XIX, a qual caiu em desuso. \%),1+"#:7'#)#'+".%'#&1$-7*&)&'#?).)#$+)*1H).#"#?."@'/"#".1,1+)*#&'#Le déjeuner sur l´herbe o tenha tornado mais um fado do que propriamente 7%)# ()/1(;)BE"# ?)./1-7*).=# W"&"# "# /'%?"# '# '(;".B"# :7'# *6'# /"%"7# 41


/)*#'%?.'1/)&)0#/"&)#)#&1$-7*&)&'#?).)#/".+).#"#'(/7&"#7%)#"2.)#&'# ,.)+&'(#&1%'+(C'(0#)-)2"7#?".#+"(#&'(/1+).#)#3'.#"(#?'.-7.("(#&'(/'# *"+,"#?."-'(("=#h*6)+&"#?).)#"#%"&"#-"%"#/7&"#)-"+/'-'70#&'(&'#"# ?.1%'1."#'(2"B"0#)(#?)./'(#.'(/)+/'(#&)#,.)+&'#/'*)0#"#&'(-"+/'+/)%'+/"# -"%#('7#1+)*-)+BA3'*#.'(7*/)&"0#+E"#('.1)#?"((F3'*#)$.%).#:7'#):7'*'# evento ali retratado, nos moldes de um piquenique, tenha ocorrido efetivamente. Mas, é nisso que eu escolho acreditar, que antes de ser apenas uma composição para a pintura, ele tenha ocorrido como um '+-"+/."#'+/.'#)%1,"(=#`'3'+&"#"(#&1(/1+/"(#.',1(/."(#&'#('7#?."-'(("# de elaboração da pintura, me deparei com o fato de que a sua não $+)*1H)BE"# )&35%0# '%# ?)./'0# &"# )%21-1"("# &'('@"# &'# ?."&7H1.# 7%)# ?1+/7.)#'%#'(-)*)#61(/P.1-)=#I'+("#+"#'(;".B"#&'&1-)&"#)#7%#:7)&."# :7'#+7+-)#-6',"7#)#/"/)*1H).>('0#'0#+"(#%71/"(#'+-"+/."(#+'-'((A.1"(# ?).)#)#.')*1H)BE"#&'(/'#?."@'/"=#i"%"#-"%'+/'10#)+/'.1".%'+/'0#,"(/"# de pensar nos piqueniques que possivelmente aconteceram para dar -".?"#'#;".%)#)#1&'1)#&"#:7)&."#'#*'%2."#&'#)*,"#:7'#*1#("2.'#3"-T# '# `'+"1.=# !# +"/F-1)# .'*)/)3)# :7'# 3"-T(# &"1(# -.1)3)%# .'-'1/)(# ?).)# "(# ?)(('1"(#&'#-)%?"0#"(#:7)1(#?"&'.1)%#31.).#?1+/7.)(#"7#+E"=#W)*#;)/"# faz pensar na presença efetiva dos convivas e a sua devida importância. R)2'>('# :7'# )*,7%)(# &)(# $,7.)(0# '%# Le déjeuner sur l´herbe, são representadas por duas vezes, decorrendo disso a dúvida sobre estarem "7# +E"# @7+/)(0# )"# %'(%"# /'%?"# '# +"# %'(%"# *7,).=# 4)(0# ?.'$."# ?'+().#:7'#'*)(#%7&)3)%#&'#?"(1BE"#-"+;".%'#(7)(#1+(/.7BC'(=#J%# %'7#-)("0#6A#$,7.)(#:7'#('#.'?'/'%#+"#1+/'.1".#&"#?."-'&1%'+/"0#('# pudesses olhar para todos os meus piqueniques, poderias encontrar a mesma pessoa em diversos eventos, porque, de fato, isso nunca me preocupou. Nunca pensei que a repetição pudesse tornar minha ação falível. Gosto da ideia de que se perceba que eu não contratei atores, ?'.("+),'+(=#!(#%'(%)(#?'((")(#?"&'%#'(/).#):71#'#)*10#;)H'+&">('#

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notar minha escolha, a escolha por dar vida a um acontecimento que %'#3'1"#?".#7%)#1%),'%0#('7#Le déjeuner sur l´herbe. Retornando às receitas criadas para os encontros, inventei uma que se chama Bolo Convescote, os bolos me parecem indispensáveis à eventos deste tipo. Na verdade, se tornam indispensáveis através de sua pintura. Dali extraí os dados elementares para meus piqueniques, que chamo &'#-"+3'(-"/'(=#i)("#?"(()#1+/'.'(().0#&'1D"#-"%"#.',1(/."#)#.'-'1/)# *","#)2)1D"8

Bolo Convescote \+,.'&1'+/'(8 3 ovos inteiros 2 xícaras de farinha 1 e ½ xícaras de melado batido LqO#,.)%)(#&'#-)(/)+6)#&"#I).A#'%#*)(-)( r#DF-).)#&'#P*'"#&'#-)+"*) 1 colher de sopa de fermento químico 1 xícara de suco de laranja

Preparo: Bata separadamente as claras em neve. Misture, primeiramente, os ingredientes líquidos: as gemas, o suco, o melado e o óleo. Na sequência, acrescente a farinha e !"#$!"%!&'!"(#)*"%+,!&-.#/0)#!%1#2$!,#'.).34&0.5#6)#"03+*-!(#$.7.8+0#.#90,)0&%.5# Por último, agregue as claras batidas em neve, delicadamente, até formar uma

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massa aerada. Em uma forma untada com manteiga e farinha, despeje a massa e coloque em forno pré-aquecido, em temperatura média por mais ou menos 30 )*&+%."5#:0"0&9.,)0#0#2&!7*;0#<.7=*7'!&-.#!>?$!,#-0#$.&90*%0*,.#"./,0#.#/.7.5#

Não sei da sua parte, mas para mim é importante que o evento seja, em )*,7%)#%'&1&)0#.')*0#%'(%"#:7'#,71)&"#?".#7%)#(5.1'#&'#'*'%'+/"(# compositivos. Aquilo que chamamos elementos de cena, quando "*6)%"(#?).)#)#1%),'%#?."+/)0#+E"#"(#(E"#+"#%"%'+/"#&"#'3'+/"=# Em meu caso, os convidados executam pequenas pausas, diferente de seus quadros, obviamente pela distinção técnica entre a pintura e a ;"/",.)$)=# d'('@"0# ),".)0# 3"*/).# )"(# )%1,"(0# )"(# -"+313)(=# I'+("# :7'0# /)*3'H0# coincidamos em uma coisa, há um tipo de certeza anterior em contar com pessoas de nosso convívio para este tipo de tarefa. Certeza essa, não somente referida à efetividade do acontecimento, mas também, à 7%)#-'./)#*12'.&)&'#'%#/.)+(%1/1.>*6'(#)(#1+(/.7BC'(#?).)#)#1%),'%0# ?".# ):7'*'# %"%'+/"# .A?1&"# &)# /"%)&)# &)# -'+)=# J0# +)# (':7T+-1)0# +7%#%"%'+/"#?P(#;"/",.)$)0#-"%?)./1*6).#-"%#"(#)%1,"(#)#.'7+1E"# /'%?".A.1)#&"#?1:7'+1:7'=#]%#'(/G&1"#?."31(P.1"#:7'#/'.%1+)#('+&"# um espaço de troca, de tempo, de falas, de escutas. Não sei como isso .')*%'+/'#;)H#&1;'.'+B)#+"#'+;.'+/)%'+/"#-"%#"#/.)2)*6"#$+)*1H)&"0# +"# %"%'+/"# &'# (7)# )?.'('+/)BE"0# ('@)# +)# ?1+/7.)# "7# +)# ;"/",.)$)=# Entretanto, a presença efetiva de afetos é de suma importância no âmbito do meu processo, e, que se torna evidente no seu, dado que (7)#'(?"()#i)%1**'#'#('7#)%1,"#l)H1**'#$,7.)%#'%#)*,7%)(#&'#(7)(# pinturas. 44


Ainda é difícil explicar tal presença, de modo absolutamente racional, "#;)/"#5#:7'#+E"#1%),1+"#%1+6)#?."?"(1BE"#-"%#/"/)1(#&'(-"+6'-1&"(0# "231)%'+/'#6A#-)("(#'%#:7'#"(#)%1,"(#-"+31&)%#/'.-'1."(0#%)(#'(()# rede me parece se articular com a ordem da proximidade, elemento ?"+/7)*#&'#%'7(#6A21/"(#&'#".,)+1H)BE"=#J%#-'./)#%'&1&)0#"#/.)2)*6"# 5# ?'+()&"# '%# .)HE"# &)(# .'7+1C'(0# '%# /".+"# &"(# -"+31&)&"(=# \+1-1"# todo o processo pelo convite, pensando naqueles que por mim serão -"+31&)&"(=#\(/"#1+-*71#)#-"+(-1T+-1)#&'#:7'#6)3'.A#)#?)./1-1?)BE"#'%# um foto-evento, que haverá um piquenique e uma pausa para uma ;"/",.)$)=# Uma parte de meus piqueniques foi realizada, diferentemente dos demais, partindo de novos vínculos que se estabeleceram, em um exercício interessante de deslocamento. Nestes casos, eu estava em 7%#*7,).#+"3"=#V"1#("%'+/'#)?P(#)#1+(/)7.)BE"#&'#/)1(#3F+-7*"(#:7'# "# /.)2)*6"0# ';'/13)%'+/'0# ?"&'# )-"+/'-'.=# W)*3'H0# 1(("# /'+6)# '(/.'1/)# relação com um dado muito preciso de minha poética: o convite. Estabeleci, desde o princípio, que seriam assim, como em sua pintura, )?.'('+/)+&"#+"(#-"+3'(-"/'(#7%)#:7)+/1&)&'#&'#?'((")(#?.PD1%)(0# &131&1&)(#'%#&"1(#"7#%)1(#?*)+"(#&'#1%),'%0#'%#?"('(#.'*)D)&)(0#'%# /".+"# &'# 7%)# /")*6)0# -"%# '+:7)&.)%'+/"# ;."+/)*# ?).)# )# ;"/",.)$)=# Sempre há vinho e bolos, pães e queijos, uma espécie de comida ?"./A/1*0#-"%?)/F3'*#-"%#"#?1:7'+1:7'0#7%#/1?"#&'#'3'+/"#/.)+(1/P.1"=# UA# ):71# 7%)# &131(E"# &"# ?."-'&1%'+/"# '%# &7)(# ?)./'(0# %71/"# 2'%# %).-)&)(# ?'*"# ;.),%'+/"# &"# &1(?)."0# "+&'# )# ;"/",.)$)# &'*1%1/)# )# "-)(1E"=# h(# -"+31&)&"(# 3E"# -6',)+&"0# )"(# ?"7-"(0# 7%)# ?.1%'1.)# )?."D1%)BE"=#K","#)#-'+)#5#%"+/)&)0#"#:7'#+E"#1%?'&'#:7'#/"&"(# "(#?)./1-1?)+/'(#&1(;.7/'%#&"#%"%'+/"=#i"+(/1/71>('#)#?"('#,'.)*0#)# ?)7()0#)#;"/"=#i"%"#+):7'*'#@","#&)#'(/A/7)0#'0#'%#(',71&)0#3"*/)%"(# )"#/'%?"#+".%)*0#):7'*'#&"#.'*P,1"0#'#Q#?)./1*6)=## 45


J+/'+&"#Ks,1)#:7)+&"#'*)#;)*)#:7'#"#)./1(/)#5#7%#("*1/A.1"=#i*).)%'+/'# +E"# ('# /.)/)# &'# 7%)# )2".&),'%# 31+-7*)&)# Q# &1(/S+-1)# &)(# .'*)BC'(# sociais, dos encontros, mas remetida à ordem da criação. Penso que ela tinha a clara noção dessa espécie de isolamento dado no momento &'#'*)2".)BE"#&'#7%)#1&'1)#:7'#/E"#*","#31.A#)#('.#1%),'%0#"2@'/"#"7# proposição. Eu, entretanto, procuro estar sempre acompanhada nestes momentos, busco encontrar parcerias como a sua, seja por meio de 7%)#-)./)0#-"%"#'(/)#:7'#/'#'(-.'3"#6"@'#?).)#&131&1.#1+&),)BC'(0#('@)# ?".# 1%),'+(0# /'D/"(0# /.)B"(# :7'# 27(-"# '%# %'7(# ?'.-7.("(=# \+/7"# "# )./1(/)#-"%"#7%#),*7/1+)&".#&'#.';'.T+-1)(0#)&31+&)(#&"#'(?)B"#("-1)*0# &)(#?'(:71()(#'#&"#1%),1+A.1"0#"#:7)*#)(#/.)+(;".%)0#)(#/.)&7H#"7#)(# convoca por distintas perspectivas, mesmo que minimamente, na companhia de outros. !,".)0#;)*"#'(?'-1$-)%'+/'#&"(#*7,).'(#'(-"*61&"(#?).)#"(#?1:7'+1:7'(0# os parques, jardins ou praças, espaços construídos no urbano, como que para dar conta de uma ideia de natureza, a qual já se afastou, há muito tempo, das cidades em que vivemos. Nem todas na verdade. Cresci em uma cidade sem parques, porque não era necessário. Os espaços verdes tinham muito mais presença que o concreto, uma presença de horizonte desenhado, permanecendo assim até os dias de hoje. \%),1+"# :7'# !.,'+/'71*# '# p13'.+s# /1+6)%# '(('# %'(%"# /1?"# &'# 6".1H"+/'#?).)#3"-T=#R'1#&"#('7#)?.'B"#?'*)#+)/7.'H)#"7#%'(%"#?".# aquela construída, como seu jardim aquático. Enquanto pensava nos convidados e no evento do piquenique em si, buscava encontrar os espaços verdes da cidade, onde os mesmos seriam realizados. Nem todos os piqueniques aconteceram em Porto

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!*',.'0# )((1%# ;"1# +'-'((A.1"# '+-"+/.).# ?).:7'(# ?."?F-1"(# Q# ?)./1*6)# com os convivas em novas e momentâneas cidades. Conforme já mencionado, os onze foto-eventos, realizados até o ?.'('+/'# %"%'+/"0# /13'.)%# ".1,'%# '%# ('7# Le déjeuner sur l´herbe. Por esse motivo, lhe escrevo. Foi a partir dessa pintura que tudo -"%'B"70#)((1%#?).'-'7>%'#1%?"./)+/'#-"%?)./1*6).#)*,7+(#&'#%'7(# ?'+()%'+/"(#-"%#3"-T=# i)("#"#)((7+/"#*6'#&'(?'./'#%)1".#1+/'.'(('0#$-"#+"#),7).&"#&'#(7)(# -"+(1&'.)BC'(=

R)7&)BC'(# Fernanda Gassen

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Cristina Ribas 49


Eu não sei avaliar jóias

a"-T#:7'.#'(-.'3'.#7%#/'D/"#("2.'#"#+E"#/'.#-".?"#&'#um texto. Escrever ser 7%#/'D/"#('%#.';'.T+-1)(#%'&1&)#*7,).#Y#?).)#('.#7%#/'D/"#:7'#)2.)#"7/."(# /'D/"(#Zj[=#Zh7#'+-)?(7*).j#b',).#)#?"((121*1&)&'#&'#-"+'-/).#-"%#"7/."(j0# -"%"#('#;"(('#+',).#:7)*:7'.#*1+').1&)&'=[#`'&7H1.#-)&)#(72(/)+/13"#)#(1,+"=# a"-T#:7'.#+',).#)#(7)#+)/7.'H)#texto#'#-6)%A>*"#&1),.)%)#Z&1),.)%)#1+1-1)*0# &1),.)%)#;7+-1"+)*[=#a"-T#:7'.#3"*/).#?).)#'*'0#?).)#"#&1),.)%)0#'#-"./).#7%# pedaço. Abrir um ;..)=#a"-T#.'-"+6'-'#:7'#(E"#?."-'(("(#&'#&'(/.71BE"# que recolhe, que transforma. O nem tão novo, e acolhe o novo, e já não pode '%#('7#/'%?"#7.,'+/'#-"+(1&'.).#/7&"0#"7#"#/"&"=#Zi"%?*'D1&)&'(===[#h# ?'&)B"#&"#/"&"#&"#:7'#('#?)(()#Z)"#*).,"0#?"./)+/"[0#5#)((7%1&"#-"%"#" -"+/1+,'+/'0#5#7%#/"&"#:7'#)2.'#2.'-6)(#'#)((1%#('#;)H=#!#%'/A;".)#&)# ?)((),'%0#7%#%7+&"#'%#:7'#("%"(#+P(#%'(%"(#"(#-)./P,.);"(0#'(()( liberdades te dão mais de mundo. Não o mundo mas uns outros aos quais 3"-T#'+/.',7'#;)H#?'&)B"=# a"-T#)2.'#7%#?"7-"#%)1(#"#&1),.)%)0#:7'#)*5%#&'#?'.-'BC'(#'#1+/71BC'(# *'3)#3"-T#)*67.'(#&'#3"*/)#?).)#)#('+()BE"#&'#'+$).#"#?5#+7%#*7,).=#!((1%# 3"-T#?'.-'2'#%7+&"(#-"+'-/13"(#-"+'-/)&"(#?"((F3'1(=#UA#'(?)B"(#:7'#('# fecham perceptivamente como bolhas há espaços rompidos tornados intersticiais, de porosidade, como aquela ruptura que desmaterializa ou &'(1+/',.)=#a"-T#('+/'#7%)#&'(1+/',.)BE"#&'#%7+&"#"#?.)H'.#*"-)*1H)&"#+)# ,).,)+/)#'#:7'#:7'.#()1.=#R)1#-"%"#,.1/"#%7+1&"#&'#%'+/'(#67%)+)(0#/"&)(# elas são possíveis de amar.

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Z===[ J(/'#/'D/"#5#)#(7)#?.P?.1)#?".+",.)$)=#J(/'#/'D/"#+E"#/'%#?'.+)(#+'%#@'1/"= bE"#('#()2'#&'#"+&'#('#*T=#R'#3"-T#:71('.0#'*'#?"&'#+E"#('.#)./'=#J(('#/'D/"0# &'#:7)*:7'.#;".%)0#+E"#5#('7=#4)(#),".)#'*'#5#('7=# Zt[ a"-T#+E"#%)(/1,)#"#:7'#'7#/'#&'1=#J#'7#?',"#/7&"#-"%#)#%E"=#W'#;)*'1#&'# -"1()(#2.'3'(=#W'#;)*'1#"#:7'#'7#?'+()3)=#I.)#"+&'#1(("#%'#*'3)j#k7)+&"#'7# &1,"#@A#+E"#('1#:7'%#3)1=#m#"#:7'#'7#&1,"=#J#"#-)*".0#'+/."?1)0#"70#-"%27(/E"# :7'#:7'1%)#&1)+/'#&'#3"-T0#'#3"-T#*'3)=#I.)#"+&'#3"-T#*'3)j#J7#/'+/"#()2'.# &'%)1(=#h#:7'#'7#/'#&"7#@A#+E"#5#%)1(#Z%['7=#k7)+&"#'7#&1,"#9'+/E"<#'7#@A#/'# dou. EntĂŁo, what I gave to you becomes your doll for a while. (But itâ&#x20AC;&#x2122;s my visceras now. Can you see it?)#m#?".#1(("#:7'#'7#%)(/1,"#?.A#%"(/.).#?.)# 3"-T=#i"%"#5#:7'#('#-"%'#)(#?.P?.1)(#3F(-'.)(=

Z===[ Zh7/."#&1)[#)*,75%#%'#-6)%"7=#ZbE"#"#3'*6"#+)#.7)[#J*'#%'#-6)%"7#-"%"# :7'#&'(-"2'./"0#)((7(/)&"#&)#(7)#?.P?.1)#-"1()0#:7'#/.)H1)#?).)#%1%0#&"#('7# passado. Queria por que queria. Meu jeito seria ser enredo. Disse que me leu. Encontrou palavras corretas. Interpretou brevemente e disse-me a que 3'1"=#4"(/."7>%'#)#*F+,7)#?"7-)=#h;'.'-'7>%'#7%#-);5=#V7%)3)#%71/"(# -1,).."(=#]%#)/.A(#&"#"7/."0#%)1(#.A?1&"#&"#:7'#'7#?"&'.1)#&1H'.#:7)*:7'.# -"1()#("2.'#('7(#61'.P,*1;"(=#b'%#('%#*A?1&'0#+)&)#3'*6"#+'%#/E"#3'*6"0#'.)# &'(-"2'./)#;.'(-7.)0#&'#7%#,'(/"#:7'#+E"#('1=#p'(/"(#("2.'#7%)#%)/5.1)# ?.)/')&)0#-"%"#('#;"(('#,.1;"#'%#-6)?)#&'#)*7%F+1"0#-6)?)#3'*6)#-)?/7.)&)# +"#%'1"#&)#%)&.7,)&)=#J+/.'#7%#2"/'-"#'#)#(7)#-)()>)/'*1'.=#bE"#@7*,"=#

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I."-7.'1#"(#(',.'&"(0#)+/'(=#J*'#?."-7.)3)#)#(7)#.'*'3S+-1)=##!#%'%P.1)# &'3'.1)#('.#;'1/)0#'7#&1(('0#?".#):7'*'#-7@"#(',.'&"#'*'#%'(%"#+E"# ()21)#('#'D1(/1)=#d)F#5#:7'#@A#+E"#('#()2'#('#/'%#;7+&"#'(('#(',.'&"=# J7#+E"#('1#)3)*1).#@P1)(=#d1(('>*6'=# Zt[ U"@'#'7#*1#7%#/'D/"#-6'1"#&'#9-.F/1-)(<=#J*)(#@"..)3)%#?.)#/"&"#*)&"#'# 7()3)%#?)*)3.)(#'(-"..',)&1)(0#;)*)3)#&'#1+-"%?*'/7&'#?).)#+E"#?.'-1().# &'$+1.>('0#)*',)3)#7%)#1+&'?'+&T+-1)#&):7'*)#?."&7BE"#&"(#)+"(#uO=# W'+/)3)#-"+(/.71.#7%)#1+&'?'+&T+-1)#)"#&'(?.',).>('#&'#/7&"#'#:7)*:7'.# coisa. Queria criar a sua importância pelo decurso de um começo 'D?'.1%'+/)*#:7'#+)&)#/1+6)#&'#.)&1-)*#'#(1%#('#-"+(/.7F)#'%#(1,+"(#2).)/"(# e vazios de uma tradição há um século questionada. Poderia sim existir `"/6v"0#d'#w""+1+,0#h7/."(0#%)(#+E"#):71*"#:7'#&';'+&1)#?".#/'.%"(#&'# simulacro. E outros conceitos. Erro de Baudrillard. A sopa de palavras &'(,)(/)3)#7%#&1(-7.("#('%#+"./'#Z("./'[=#`)&1-)3)#-"+-'1/"(=#d1H1)#('.'%# seus. Abria um terreno de exclusividade. E exclusão. Mídia por mídia trocava-se como se fosse tudo uma coisa qualquer, eu via, e derretia o plástico mas não era como Alphonsus. Zt[ Não falo de palavra controlada. Nem de palavra medida. Eu queria evitar o @".."#:7'#('#&1(;).B)#&'#*"7-7.)0#&'#("*/7.)0#&'#Z################[#0#'7#:7'.1)# encontrar o texto que fosse ele mesmo feito de trama de encadeado sentido, todo ele aberto como buceta solta, todo ele em pé como poste. Por isso recorri a textos meus mesmo – e recorri a seus buracos que eu não lembrava. R'#'7#"(#'+-"+/."#&'?"1(#&'#1+P-7"(#+E"#5#:7'#+)(-'%#&'#+"3"=#m#:7'#+7+-)# /13'.)%#31&)=#ZW'%#31&)#"#+E"#*1&"j[

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Zt[ R'#)#61(/P.1)#/.)2)*6).1)#;".%)(#Y#'#+E"#5#1(("#:7'#1+/'.'(()#–, o que o -"+-'1/"#&'#61(/P.1)#?"/'+-1)*1H)j#Zt[#`'&'(#&'#1+/'+(1&)&'(=#4)?)#&'# ?"/'+-1)*1&)&'(0#-"%"#(7.,1%'+/"(#);'/13"(0#%"&"(#&'#-"+/)%1+)BE"=#4'# ;)H#?'+().8#61(/".1",.)$)#:7'#+E"#9-)?/7.)<0#:7'#"?'.)0#)+/'(0#)#?.P?.1)# %A:71+)#)2(/.)/)=#U1(/P.1)#)2(/.)/)=#U1(/P.1)#.')*=#

Z===[ J7#31.'1#7%)#RF+/'('=#J(/.1/)#'D?.'((E"#'%#1+,*T(#'#pragmatism===#a"-T#%'# exprimiu o que quer que fosse de interessante. Sem eu saber. Eu não tinha /'%?"#&'#&1A*","=#bE"#/1+6)#3'H=#d'#()2'.#&'#3"-T=#^A#'70#'7#%'#3'@"#&'# &'+/."=#("7#7%#Z################[#%'#3'@"#&1),.)%)#_#-"%?*'D"#&'#?)*)3.)(# ('+()BC'(=#i"1()=#a"-T#%'#?'&1)#'#'7#31.'1#7%)#(F+/'('=#b)#(7)#2"-)=# a"-T#'D/1.?"7#&'#%1%#?'&)B"#&"#:7'#'7#()21)=#J#$H=#h#:7'#5#%)1(#:7'#3"-T# ?"&'#%'#&).j#4'#&1(('=#!,".)#'7#('1#&'#/"&)(#)(#;)*/)(=#k7'#+E"#(E"#%1+6)(=# Claro que também são – people called me to do something. Don’t know if they know about me. A mim, não me chamaram para nada. Poderia nem ser eu. Poderia ser qualquer um. Poderia ser um que soubesse inclusive mais. 4)(#'#)#("*1&'H0#:7'%#('.1)j J7#+E"#/13'#+'+67%)=#J#;71#)/.)3'(()&".#'(/G?1&"=#bE"#("72'#@",).=# J(/13)&".#&"#?"./"#@",)#()-"#&'#).."H#'#.'-'2'#7%#/."-)&"=#J7#;71#(P#'# /"/)*%'+/'#'D/1.?)&)=#!,".)#-.1'1#7%#?'.("+),'%=#Z!#J-"+"%1(/)=[#J7#&1," :7'#'(('#5#"#%'7#/.)2)*6"=#J7#&1,"#:7)+/"#'*'#-7(/)=#J7#/'+6"#:7'#)?.'+&'. com as prostitutas. Eu virei toda uma economia. De discurso, de sentido. R'#3"-T#%'#)-'(().0#'+-"+/.).A#several layers. Previsíveis, contudo. Meu vocabulário se tornou a estriteza necessária, como requistos mínimos para se

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%"3'.=#R'%#&1H'.=#`'(/.1/"0#+E"#&1,"0#-*)."=#!$+)*0#'-"+"%1)#;'1/)0#.'&7BE"# &)#-"%?*'D1&)&'=#k7)*#)#(7)#-6)3'#&'#)-'(("j#k7)*#<,.270#3"-T#?."-7.)j# @#:.#A#277#+<#%'0#<,.270#B.+#!,0#7..C*&3#9.,D#@#E.,,B5 Zt[ !#*'%2.)+B)#&"#/'D/"#Z&)#-"+3'.()[ A lembrança da usurpação O poder de conservação O desejo do inédito Sou força contra essas forças Eu nem capturo a mim Zt[ A caneta resiste e vai para o lado da direita. Eu sou Perec lendo em Paris. 4)(#'7#*'1"#'%#1+,*T(=#\%?.'+()#a'+'H)#1%?.'+()#U)%27.,"#1%?.'+() K"+&.'(=#J7#("7#%)1(#I'.'-=#\%?.'+()#I).1(=#J7#/'+6"#:7'#1.#%)1(#*"+,'=# I'.'-#:7'.1)#()1.#&"#*7,).=#k7'.1)#)%)(().#/"&)(#)(#2"*)(#&'#?)?'*=#k7'.1)# transumar todas as folhas em uma montanha rudanesa, Cinthia e a encomenda do texto. Cinthia amassou as bolas, quer dizer, papel virou rampa/montanha. Sentada no canto do mundo fez pequenas dobras. Como :7'%#?',)#)*,"#?'*"#-)+/"#'#.'%"3'#)#-"1()#:7'#'+-"2.'#)#3'.&)&'=#b)# 3'.&)&'#'+-"2.'#"#.')*=#RP#/'%#.')*=#W1.)#-)&)#'(2"B"#'#&'3"*3'#"#"(("=#!# ,)*'.1)#5#?':7'+)0#&'%)(1)&"#?':7'+)0#'#'*)#%"(/.)#'(('#)2(7.&"=#!# -.7'*&)&'#&):7'*)#-)?/7.)0#?."+/)0#-)1D)0#)#*12'.&)&'#&)#(1,+1$-)BE"0 /"?",.A$-)0#);7+&A$-)0#;7,)#'%#(1=#b'%#?"&'%"(#'+/.).0#&'#/E"#?':7'+)# :7'#$-)#'(()#?)./1-1?)BE"#1+-*7(13)#Z1."+1)#%1+6)[#&'+/."#&)#,)*'.1)= W)%?"7-"#?"&'%"(#(721.#+)#.)%?)=#bE"#*'%2."=#W)*3'H#+'%#-)2T(('%"(0# nem com pés de ponta, nem com pés de palhaço.

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Folha de papel não existe. Escreve em cima, sobre ou... Z===[ h#?.";'((".#@",)#"#*13."#("2.'#"#"7/."0#-"%"#('#;"(('%#-".?"(#%"*'(=#i"%" se fossem rapidamente desfolháveis, tipo, destrutíveis. Conhecimento passante, absorto, ele abdica, ao menos da matéria formada, porque se forma %1(-1,'+S+-1)#1%)+'+/'#'%#)/7)*#?.'('+B)=#k7)+&"#)2'./"(0#'*'#3)(-7*6)# -"%"#('#+E"#;"(('%#?A,1+)(=#J*'#()2'#"#*7,).#&'#-)&)#'D?.'((E"0#%"*5-7*)0# .)1H0#'+-)1D'#&'#"(("=#J*'#%'(%"#5#%),."#'#)-)+6)&"#-".?"#.'-"(/)&"0#)# ?)./'#(7?'.1".#&)(#-"(/)(=#bE"#/'%#)2&f%'#+E"#/'%#*"%2).=#W'%#?5(#'#7%# pouco de quadríceps. Os livros são todos os seus corpos. Na verdade eu não conheço ele. Fiquei olhando o tamanho da sua cabeça e tentando ver como é :7'#5#/'.#'%#(1#'(('#".,)+1(%"0#/1?"#&'#".,)(%"0#*1&"#%)(#'+/E"#'*'#;)*6)=#!# ;)*6)0#+'%#3'%"(#('%?.'0#%'*6".#&"#:7'#"#(',.'&"#&"#(A21"=#R)2'.#:7'#"# ?':7'+"#*A21"#'(-"..',"7#'#?'.&'7#7%)#%)/5.1)#&'#'D?.'((E"=#bP(#("%"(# +)&)=#4'+/1.)0#+'%#'*'#&1(('=#!#;)*6)#&"#'(/.)21(%"#&13'.,'+/'0#"#(A21"#('%# (',.'&"0#+)#-).+'#:7'#$-"7#&1(?"+F3'*#'#+E"#'+-"+/."7#/":7'0#+'%#&'+/'(0# seca como pele áspera, interrupção do pensamento. A falha abandona mais "(#-".?"(#&"(#"7/."(#+)#-)&'1.)0#-)&)#7%=#!+/'(#'%#/"&"(#+7%)#(P0#7%)# /.'?)&)#&'#('+()BC'(0#.')*=## W'%"(#)(#-)&'1.)(#&7.)(0#('#'7#+E"#('1#&)#(7)#.1()0 laughter together?, melhor abrir para um café, disse ele. Sem rir. `71%0#-);5#+)#-)+/1+)0#:7'#/'%#("*#-"./)+&"#"#?'+()%'+/"=#h*6"#;"/";P21-"# $-"7#:7'.'+&"#-"%'.#"#-)%1+6"#&):7'*'#-".?"#('%#P.,E"(=#i"%'(#-"%"# )+/'(#-"%'(#-"%"#:7'.1)#-"%'.#)+/'(=#i6',)%"(#)"#?."2*'%)#('%#+"%'0# dessabido, trapaça, do saber, a hora do café. No trânsito, concatenção .'-7?'.)&)0#-)&)#7%#+"#('7#)(;)*/"0#A.1&"#&1A*","#1%?.'-1("0#1+/'.+"=#

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Zh#:7'#'.)#%'(%"#:7'===[ !#;)*6)0#&"#(A21"0#5#)#(7)#?.P?.1)#'%"BE"0#'+,)(,)&)0#)X1BE"0# desentendimento mostrado na hora tardia, na hora última, respiro, eu. Volta para a sala, o ar condicionado vem bem em cima de mim. Mortandade. Z===[ !*1#+)&)#('#.'("*3'=#m#"#@)+/).#&)(#*'2.'(=#4'#&1(('.)%#:7'#"(#+"2.'(# representavam a comida como se fosse pele de onça. Os nobres ainda existem. Eles me atacaram o ano passado. Eu urrava porque tinha força. Eu ('+/1)#?".:7'#/1+6)#'(/f%),"=#h#+"2.'#+E"#/'%#+)&)=#h#+"2.'#@",)#?).)#"# outro o que não sabe cuidar em si. Veja como ele é vazio. Como não expressa. Como ele come. Consome. Zt[ Z-"%'B"j[#m#('%?.'#('&7/".#-"%'B).#7%#/'D/"#'%#?.1%'1.)#?'((")=#J7#/1+6)# )*,"#?).)#-"%?)./1*6).#-"%#3"-T#:7'#3"-T#?".#2"%#*'1/".#:7'.'.1)=#i"1()(# :7'#31.1)%#&'?"1(#&)#?.1%'1.)#-6)%)&)=#d"#/1?"8#9J70#\.'+'0#/1+6)# '+-"+/.)&"#7%)#;".%)#&'#;)HT>*"=#V1+)*%'+/'=<#V1+)*%'+/'#&'%).-).1)#:7'# '+$%0#9-"%#&'*'1/'0#'7#/1+6)#'+-"+/.)&"<=# J7#9&'(-"2.10#&'(-"./1+'10#'(/.)B)*6'1<0#'#93"-T#*'1/".<0#'+$%0#'+-"+/."7>('# -"%#)*,"#&'#.'*'3)&)#1%?"./S+-1)#:7'#'70#+)#?.1%'1.)#?'((")0#9/.),"#?).)# 3"-T<=#J7#'+-"+/.'1#7%)#%)+'1.)#&'#-"%'B).=#i"*"-)+&">%'#)#%1%0#'(()# :7'#*6'#;)*)0#'#:7'#/'%#(7)#'(-.1/)0#(7)#21",.)$)#'#('7(#1+/'(/1+"(0#(7)# .'(?1.)BE"#Z?"7-)[#'#(7)#)+(1'&)&'=#9bE"#6A#"7/.)#%)+'1.)#&'#-"%'B).<0#'#('# não for dessa maneira, ela estará lá, e aparecerá, inevitavelmente, fatalmente, no meio do texto.

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9a"-T<0#)$+)*0#9+E"#%'#?'.,7+/"7#("2.'#"#:7'#('.1)#"#%'7#/'D/"<=#\(("#%'# )2)+&"+"7=#J7#3'@"#:7'#3"-T#/1/72'1)=#i"B)#)#("2.)+-'*6)0#)#'(('#?"+/"#'(('# /'D/"#@A#+E"#5#+)&)0#'#('#3"-T#&731&"7#&'#+"3"#&"#-"+/'G&"#:7'#'7#1)#*6'# 9?)(().<0#/'#&1,"#&"7/.)#%)+'1.)#:7'#+E"#/'+6"0#:7'#&'(-"+6'B"0#:7'# unknowledge0#:7'#,),7'@"0#'#post pone. k7'#&'(-)%1+6"0#&'#7%)#-"+(/.7BE"#&'#('+/1&"#('%#%'&"#&'#),)..)*6).0# -"%"#('#;"(('%#,)*6"(0#'(()(#/.)?)(#&'#?'+()%'+/"=#R'%#&'()((7%1.#:7'# /'%#7%)#-'+/'*6)#&'#-'+/F%'/."%'/."#Z-'%#%'/."(0#"7#%)1([#&'#7%)# 'D?'.1T+-1)#)2'./)0#/.)1B"1'1.)0#&'#-"+/).#?).)#3"-T0#'#?).)#)*,7+(#:7'# &'(-"+6'B"0#"#:7'#5#:7'#('#?)(()0#):710#?".#):71=#]%#&1),.)%)#?"./A/1*0# pequeno Duchamp, não fazido por ele, mas aberto como possibilidade Zt#@A#:7'#+"13)#?"&'%"(#('.[=#b"131+6)(#&)#R7'*s0#-)()+&"#-"%1,"= Zt[ Acordo sentindo o demasiado esforço. O deslocamento que isso me provoca, que eu forçosa e naturalmente vejo como tendão saudável que de vez em :7)+&"#'.,).B)=#i)+()=#J#)((7%'#(7)#&"2.)0#&'(&"2.)#-"%"#&'%)(1)&"# &'(31"=#i"%"#5#)#*F+,7)#:7)+&"#.'?"7()#+"#('7#?.P?.1"#/'..'+"j#(Even with endless slippages...)#i"%"#5#)#*F+,7)#:7)+&"#5#"7/.)#'#/'%#()F&)(#?"7-)(j# R)F&)(#'+-'..)&)(#+7+(#(1,+"(=#J7#?.'-1("#&'#(G21/"#7%#'(?)B"#&'#X71&'H0# '%#:7'#)#?)*)3.)#3)&1)#3A#)*5%#&"#(1,+"#;'-6)&"#&)#/.)&7BE"=#J7#?.'-1("# separar antes * a sensação * a tradução W'.#%)1(#('+()BE"0#%'(%"#:7'#/"%'#%)1(#/'%?"0#&'(-.'3'+&"#-"%"#('# fosse um scribble=#U7%0#'+-"+/.).#"#(1,+"#/.)+(;".%)/13"0#&'/'-/).#"+&'#'*'#

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"-"..'0#-"%"#'*'#"-"..'===#`'*'1"#"7/."(#/'D/"(0#.''+-"+/."#%'7#?.P?.1"# '+/'+&1%'+/"0#-"%"#("*/7.)#'#-"%"#X71&'H0#/7&"#"#:7'#('#?"&'#*'.#("2.'# 1(("0#1%),1+"0#/7&"#"#:7'#@A#'+-"+/.'10#l*)+-6"/0#"#:7'#('#&'3'#?."&7H1.# sobre Zt[ W6'#"2@'-/#&'(/.7-/1"+ destructed --------------perversion -------------##################)./#$'*& Zt[ d).#'(?)B"#?).)#"#+"3"=#k7)*1$-).#"#+"3"=#J+-"+/.).#&1A*","#+)#%1+6)# ,'.)BE"= Zt[ J*'#/."-"7#&'#."7?)#'#)((1%#$-"7=#i"+:71(/"7#Z+E"#&1.1)#:7'#*6'#&'.)%[#"# /'.+"#'#)#,.)3)/)#Y#'#'+/E"#+E"#?.'-1("7#%)1(#/."-).#&'#."7?)=#b7+-)#%)1(=# !((1%#?"&'.1)#('#&'&1-).#)?'+)(#?).)#"(#*13."(=#Z9k7)+/"#/'%?"#*'3)#?).)# -6',).#)#7%#*13."j#a"-T#?"&'#&).#"#)H).#&'#'*'#&'%".).#&'%)1(#)#-6',).#)# 3"-T===<[#W'%#?)*)3.)(#2"+1/)(=#l'%#2"+1/)(=#J#$-)#'(()#1+-1/)BE"#&'#-"%"#'# ?".#:7'#5#:7'#'*'#;)H#/"-).#%'7#-".?"#'#"#-".?"#&"(#"7/."(=#Zk7)('#-"%"#('# '7#:71('(('#:7'(/1"+).#)#(7)#)7/".1&)&'0#1+;.1+,1+&"#'%#%1%0#@A#:7'#"#(1,+"# :7'#'*'#1+/'.-)%21)0#2'%0#'7#.'?'+("=#4)(#/'%#(1,+"0#(1+/"=[#bE"#;"(('#"# autor eu não saberia dizer que isso é atualização de sensação, de que a

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verdade não é a dele, mas essa que se faz aqui no meu corpo; que não se pode dizer que se refaz porque não é sensação dele, mas essa que é )7/'+/1-)%'+/'#%1+6)=#h#:7'#5#Y#'7#?'.,7+/"#'+/E"#Y#1(("#:7'#3")#&)#2"-)# &"#"7/."#'#-6',)#+"#%'7#"731&"#'#;)H#312.).j## Z===[ Sempre tem um tipo de doença no meio da arte. Uma sickness que lhe dá '+@f"#'#:7'#3'%#&'#3"-T#%'(%"=#k7)+&"#&1,"#+"#%'1"#&)#)./'0#+E"#&1,"#+"# %'1"#&):7'*)#)./'0#+)#(7)#;.'+/'0#-"%"#1%),'%#Y#?."&7BE"#-7*/7.)*=#d1,"#+"# ('7#?.P?.1"#?.)/"#+):7'*)#%'(%)#-"1()#:7'#3"-T#-"H1+6"7=#R'%?.'#)*1#7%)# &"'+B)0#7%#&'*F.1"0#7%#(7)3'#&'(,"(/"=#V'2.'#7%)#1+;'-BE"#-"%#;'2.'#'#7%# (7)3'0#/)*3'H0#)*B)3f"=#d'*F.1"=#Vf*',"j#h*6)#2'%#-"%"#'(()#&"'+B)#/'# -"+(/.1+,'#-"+(/.)+,'#)#2)..1,)0#/'#&A#"*6"(#&'#A-1&"#&'(-"+6'-1&"0#/'# %"21*1H)=#h*6)#/'7(0#:7'#'7#"*6"#-"%#3"-T0#'#'7#/)%25%#(1+/"=#J(/)%"(#+"# %'(%"#?.)/"#Z/".+"7>('#?':7'+"[=#`'&7H1&"(#)"#/)%)+6"#&)#%"*5(/1)0#"#%)*# estar arrasta o vôo para o nível porcelana. Uma rachadura prenhe um prato velho. Zt[# J*'(#(E"#/E"#(7@"(=#bE"#:7'.'%#?)./1-1?).=#bE"#:7'.'%#?".:7'#/T%# 3'.,"+6)0#%)(#?".:7'#/'%#7%)#+)/7.'H)#313)#-6'1)#&'#.')?."3'1/)%'+/"(#'# -"+(/.P'%#(7)(#?.P?.1)(#$-BC'(#?'*"#&'*F.1"#&)#%)/5.1)#%"./'0#&"#"7/."=# d'()?',"#/'%#(E"#'*'(0#:7'#31#-"%#-)+"(#)..)(/)&"(#&'(&'#7%)(#-1+-"# '(:71+)(#?).)#2)1D"0#:7'#-6',)3)%#)"#-)+/"#&)#?.)B)#-"%#)#-)-6)B)#'#-"%# "#-"+6):7'=#Z\(("#7%#?"7-"#&'#"7."n[#J#+)#-)/)*",)BE"#.A?1&)#&):7'*'(# 2)/7:7'(#-"+$,7.)+&"#1+(/.7%'+/"(#'#/)%2".'(0#/)%2".'/'(#'#3)H1"(#Z/'%# :7'#/'.#3)H1"0#&'+/."0#)$+)*0#?).)#.'((").[=#J#'7#+)#%1+6)#2)..1,)#+):7'*'# %'(%"#-.7H)%'+/"0#-"+3'.,1+&"#&)(#*7H'(#&"#/.A;',"0#1*7%1+)&"(#('%#()2'.#

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?'*"#2)/)*6E"0#%)1(#?'./"#&"#-6E"#:7'#:7)*:7'.#-"1()#Z%'(%"#):7'*)#-"1()# esvoaçante que parece que roça como nada o preto da rua), sentindo a .)+67.)#'+/.'#"(#?'&)B"(#&"#,.)+1/"0#"#("%#("2'#?.)#)+/'(#&'+/."0#'#&'?"1(# ?.)#;".)=#W'%#dread, tem furo na camiseta, tem símbolo, anarcopunk, tem (1,+"#:7'#'7#+E"#('1=#`7F&"=#!..)+6)&"=#R'+/1=#J7#('+/1#+)#2)..1,)#"#"*6).# ('%#'(?'/A-7*"0#317j Zt[ b):7'*'#&'2)/'#'.)#7%)#.'-7?'.)BE"#('%#?."?P(1/"0#?).)#)*,7+(0#&"#:7'# )-"+/'-'7#+"(#)+"(#cO=#a1%"(#7%#3F&'"0#('#+E"#;".#-"+(/.)+,'&".#%"(/.).0# )$+)*#/'%#/)+/"(#&'#2).2)#%)*;'1/)0#%"(/.)+&"#(7)#.',7*).1&)&'#-"%#)#-7.3)# e a textura da pedra, ritmo de bebida, sol na tela de mentirinha, não tem ?1+/7.)#+)#3'.&)&'=#I',).)%#)#2).-)0#?).)#):7'*)#1*6)0#*'3).)%#)#,*"2"#&'# $*%'0#1%),1+)0#&'#$*%'n#h#2)/"%#3'.%'*6"#+E"#'.)#(P#&'*)=#J.)#/7&"#%'1"# ,.1/)+/'0#1..1/)/13"0#+E"#;"(('#)#"7()&1)#*'+/)0#?".:7'#)$+)*0#'(/)%"(#+"(# "7/."(#/'%?"(0#'#+):7'*'(#/'%?"(0#"*6)#)#&'%".)0#&"#&1A*","n#d1;'.'+/'(# ?"+/"(#&'#31(/)=#!#31(E"#&)#;.),%'+/)BE"#5#'(()#:7'#.'-"+6'-'#"(#&1;'.'+/'(=# bE"#/'%#-"%"#)((7%1.#%)(#('#?"&'#)((7%1.#Z('#()2'[0#5#)*,"#1+1-1)*0# ?.'-A.1"0#%)(#6A#"7/.)#)$.%)BE"0#&"#?.),%A/1-"0#:7'#5#.'-"+6'-'.#)(# diferenças. And stake for them?#4)(#'#&)Fj#!7/".1&)&'#&)#.'((1,+1$-)BE"=# I).)#"7/."#'.)#7%)#?"(1BE"#61(/P.1-)=#R7)#(7+,)=#d1(-7.("#&'#:7'2.).#1(("#'# ):71*"=#!,".)#'*'#/'%#"#%'(%"#/'".0#/'%j#d'3".).=#k7'#;.'(-".#'(()# %'%P.1)#&)#(7)#?.P?.1)#&'(%'(7.)n#k7'#;.'(-".===#4)(0#/)%25%0#)7/".1&)&'# de construir um discurso a partir de uma produção, da sua produção, ou ;)H'.#(7)#)#?."&7BE"0#/)%25%0#?'*"#&1(-7.("=#a"+/)&'#,.',A.1)=#!*',.1)0# 1+;)+/1*1(%"=#d'#:7)*:7'.#%)+'1.)0#)$+)*0#"#?.)H'.#95#Z'.)[#1%?'.)/13"#&"# /.)2)*6"<= Z===[

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Eu sou uma indústria. Veja como eu produzo um sem número, um vulcão de manifestos. Extratos, cortes, processos. Análises. O outro, do outro. Fizeram, disseram, ou não disseram. Chamaria-me a mim de indústria cultural, não ;"(('#"#:7'#@A#$H'.)%#-"%#1(("0#/'.%"=#i""?/)&"=#J..)&"0#1+@7(/"0#)+/1>5/1-"=# Não pessoa, nem coletividade. Produtividade, produtivismo, performatividade, reprodutivismo, performativismo, culturalismo, culture class0#-)?1/)*1(%"0#-",+1/131(%"0#-)?1/)*1(%"#-",+1/131(/)0#t#h#:7'#'7# sempre quis, na verdade, foi construir uma força contra os conservadorismos. Fiz uma linha incerta entre nuvens, conservação – experimentação; reprodução - diferenciação; autoria, identidade – dispersão. d'(&'#"#-"%'B"=#J3'+/"(#&'#.7?/7.)=#W1+6)#'%#%'+/'0#%)(#+E"#'.)#/E"# -*)."=#]%)#'(/.)/5,1)#&1;7()#'#?"."()0#?"((F3'*#'#1%?"((F3'*0#%A:71+)# &'('+-"+/.A3'*0#+)#3'.&)&'0#7%#-".?"#&1),.)%A/1-"#'%#'..S+-1)0#7%)#&G31&)# ;)/)*#("2.'#7%)#?)./1-1?)BE"=#I'.-'2'.#'#,.1/).0#+)#.'(?"(/)#-7./)#'#;.A,1*0# ?.",.)%)#:7'#);)(/)#?).)#;".)#&'#(1#"#:7'#-.1)#7%#/'..'+"#&'#'D-*7(131&)&'0# &'#?."?.1'&)&'0#&'#7+1-1&)&'=#i"+/."*'#&"#(1,+"j#d'-"&1$-)BE"=#471/"# :7'.1)#'7#'D/1.?).0#'#-"%"#%1((E"#&'#,7'..)0#+"#%'1"#&"#-)%?"#&'#2)/)*6)0# eu poderia retirar aqueles poderes bélicos e injetar um modo de trincheiras, apenas de trincheiras, de fazer pensar por baixo da terra, das lutas intensivas, das maneiras de defender outra coisa, matéria: expressão. Zt[ !+"/)BC'(#_#-"%'+/A.1"(#i'+(7.)#^)-"2s x#?."&7BE"#'#-)?/7.)#Z)"#.'35([ x#/')/."#'(:71H";.T+1-"#_#/')/."#&'#.'?.'('+/)BC'( x#-"+&7BE"#&'#7%)#*'1/7.)#*1%1/)&)#Z-'+(7.)[ x#?."3"7>('#+E"#?"&'.#('.#7%#%'."#/')/."#&)(#.'?.'('+/)BC'(#?"*F/1-)(# ##Z-"%"#31+6)#('+&"#)/5#'+/E"0#"7#-"%"#?"&'.1)#-"+(/1/71.>('[

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x#&'()$"#&'#)*1).#)#)./'#Q#?"*F/1-)#5#%)1(#;"./'#&"#:7'#"#21+f%1"# conceitual, apartado x#/".+"7>('#7%#/'..1/P.1"#?"((F3'*#&)#)./'#-"%"#?"*F/1-) x#(72%1((E"#&)(#"2.)(#)#7%#&1(-7.("#y#+',)/131&)&' x#(',.'&"#&'#7%#-"+/."*'0#&1/)&7.)#&)#'-"+"%1) x#/')/."#&'%),P,1-"#&)(#.'*)BC'(#1+(/1/7-1"+)1( x#).1&'H0#?".#+E"#/'.#)*%)0#('#/".+)#?G2*1-)#Z)#1+(/1/71BE">21'+)*#/'%#)*%)j[ x#)%)-1).0#)?)H1,7).0#;)H'.#'(:7'-'.#zz#)/.127/"(#'(/.)+6"( x#/')/."#&)(#%)+1;'(/)BC'(#&'(.',7*)&)(0#1+X)%)&)(0#)?)1D"+)&)(0# ##&'*1/)+/'(#Z/".+"7>('[ * revisar zaya + pontuação x#Z1+('.1.#("2.'#"#)./1(/)_:7'#'*'#()2'[ * Zt[# k7'%#5#3"-T#:7'#('#-"*"-"7#&1)+/'#&)#-"1()#1+/'1.)j#d"#%"%'+/"#'D/'+(13"# )"#('7#-".?"0#P.,E"(#'%#.'-'?BE"0#&'()%?).)&"#+'(('#*7,).#('%#(7@'1/"#+'%# "2@'/"=#k7'%j k7'%#5#3"-T#:7'#)/7)0#:7'#.':71(1/)#7%#"*6).#)?."D1%)&"#'#?C'>('#-"%"# (A21"#/)*#-"%"#"#"7/."#:7'#'*)2"."7#)#?.1%'1.)#-"+-)/'+)BE"j#k7'%#('# /".+)#3"-T0#)%?).)&"#?'*)#/'".1)0#:7'#('.1)#7%#).:7131(/)#+)#poiese do !.:713"j# !&"/"7#)#;".%)#&'#7%)#%"+/),'%0#)&"/"7#7%#?."2*'%)#'%#)2'./"=#d'1D"7> se diante dessa coisa incompleta, por que não sabe das outras formas. Formalizadas. I."-7."#+E"#'(,"/).#.'*)BC'(#?"((F3'1(#'+/.'#"(#tempos, o que pode ser

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também sujeitos de análise. Uma década recortada para elaborar as dúvidas ZLMuO[=#4)1(##61?P/'('(#("2.'#)#&1+S%1-)#&'#7%#-)%?"#)./F(/1-"#+"#l.)(1*# Z6"@'[=#l.)(1*#-"1()#,.)+&'=#I"&1)#.'-"./).#&'#"7/."#%"&"=#I."?"+6"# 9)((1+)*).<=#Zi"1()#:7'#+7+-)#+1+,75%#'+/'+&'7=[#Z41+6)#1.%E#&1(('#:7'#'7# ,"(/"#&'#&1H'.#9'+/'+&'.<=[#!?."D1%).0#)((1+)*).0#);'/"(#'(/.)+6"(#?).)#7%)# )BE"#'+/.'#)#%)/5.1)#'D?.'(()&)0#"#:7'#'7#9&'3'.1)<#;)H'.0#'#)#61(/".1",.)$)# :7'#"(#'3'+/"(#1+-1/)%=#!?"+/'1#:7'#+E"#(E"#'+:7)&.A3'1(#+):7'*)#9-.F/1-)# 1+(/1/7-1"+)*<#ZV.)('.[0#-"%?.''+(E"#:7'#&'1D).1)#&'#;".)#)#6'/'.",'+'1&)&'# de uma produção que atua, de outra forma, em um campo feito político. J3'+/"(#)+)*1()&"(=#!.:713"#&'#'%'.,T+-1)=#JD?'.1T+-1)#&)#"2.)=#I."&7BE"0# 9';'/7)BE"<0#)-"+/'-1%'+/"=#\+3'(/1,)BE"0#-"+&1BC'(0#'?1(/'%"*",1)#Z&)# arte). Zt[ {6)/#6)??'+(#1+#)+#)./#-*)((j#|"7#})1/#/"#*1(/'+#/"#1/#)**0#}6)/#/6'#"/6'.# /')-6'.(#()s=#\/(#)#V".7%=#`)&1-)*#J&7-)/1"+#V".7%=#W6's#6)3'#)#-"%%"+# 2)-v,."7+&0#)+&#/6'+#%)s2'#%'#/""=#l7/#6'.'===#\#6)3'#/"#$+&#),)1+#/61(# -"%%"+#"/6'.0#-"%%"+#,."7+&0#)+&#/61+v#)2"7/#^".,'#)+&#K'+6)#1+#)#-*)((# .""%=#{6)/#&"#/6's#&"#/"#?'"?*'j#U"}#/6's#2'-)%'#%".'#,'+'."7(0#/6's# ).'#%7-6#%".'#,'+'."7(0#/6'+#/6'#,'+'.)*#.'(').-6'.=#W6'#('3'.'#.'(').-6'.0# /6'#)+)*s/1-)*#.'(').-6'.0#1(#1/('*; #/6'#).-6131(/#)-/1+,#)+&#%)+7;)-/7.1+,0# +"%1+)/1+,#$'*&(0#27/#.)/6'.0#}1/61+#/6'#?)./1-1?)+/(#)+&#1+/'.*"-7/".(#"; # /6'1.#"}+#Z?)./(0#?).-'*(0#(/.)/)[=#:0"!2.=#\#})+/#/"#*1(/'+#/"=#{'0#%'#)+&# s"70#}'#%)v'#"7.('*3'(#)./1(/(=#Então você pensa em tudo o que já pensou em desconstruir sobre ser artista para dar suporte a esse território. /'..1/".s#~#%')+1+,#

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Zt[ Demorei tanto para perceber que tantos textos são em si os projetos de arte que eu queria fazer. Me despedi sem querer. Fiquei com medo de achar que %'7#?."-'(("#&'#&'()?',"#;"(('#7%)#&'(?'&1&)0#?).)#('%?.'0#&):71*"#:7'# eu atravessei correndo, sem dedicar um tempo sano para cada lata cortada. V1H#/)+/)#1%),'%=#!+)*1('1#/)+/"#?."-'&1%'+/"=#h*6'1#/)+/"#:7)&.)&"=# V"/",.)%)=#I).'&'#2.)+-)=#d'#+"3"0#%'#-"*"-"#)#.'-"%'B).=#a"7#;)H'.#&'# "7/.)#;".%)=#4"+/).#"#:7'#+E"#('1#-"%"=#!,.',).#"#:7'#)1+&)#+E"#3'1"=# J(:7'-'.#"#:7'#@A#$H=#R'#3'%#7%)#1%),'%#.'-"./"=#J#("2.'/7&"#@","#;".)# /"&)#1%),'%#3'*6)=#a'*6)#3'*6)#+"3'*6)=#V)H'.#)*,"#+"3"=#\(/"#+E"#/'%# passado. Me despedi sem querer. Assim, no sentido de ser sem saber que era. No sentido de sem querer fazer 8+0#9!;*!=#i"%"#)*,"#:7'#('#-"%'#.A?1&"# quando se tem muita fome. W'+6"#7%#/'D/"#'(-.1/"#?".#%1%#:7'#'.)#(P#7%)#;.)('#:7'#&1H1)#&'#&).#)# 3"*/)#)"#%7+&"#?.)#'(-.'3'.#7%#*13."=#d1H1)#&'#'(/).#313)0#),".)#'7#3'@"0#'# de desfazer qualquer dureza de crítica. Porque o desejo é maior que o /'..1/P.1"#&)#-.F/1-)=#I".:7'#)#-.F/1-)#5#?':7'+)#'#"#/'..1/P.1"#'%#(1#5# necessário. Porque eu vejo no futuro uma linha dando a volta. Pensei então que escrever requer uma paixão que seja como uma trança de W'.'()#%'#&'1D'#)/).#?"+/'(#?.)#*7,).'(#:7'#'7#+E"#?"(("#?7*).=#]%)#'(-.1/)# :7'#%'#*'3'#/E"#*"+,'#:7'#'7#%'#'(:7'B)#&"#1%'&1)/)%'+/'#)+/'.1".#'#(P# ?"(()#3"*/).#)"#?)(()&"#&'();'/)&)#&)#%'%P.1)#&):71*"0#%)(#.'+"3)&)#?".# (7)#A,7)0#('%?.'#,'*)&)=# Senti que a escrita não descolada do corpo me leva pra construir outras

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1%),'+(=#J#:7'#5#1+@7(/"#&).#)"#"7/."#7%#?'&)B"#&'#(1#&)#;".%)#-"%"#'*'#()1# quando eu arranco. Mas eu arranco. E eu exponho. Eu vacilo, e penso que ?'-"#'%#&).#"#?'&)B"#1+/'1."#?".:7'#'*'#);",)#7%#).#"+&'#'7#%'(%)#+E"#('1# +)&).=#4).#&'#%1%0#%'7#1+/'(/1+"=#ZUA#&G31&)#&'#)*,"#:7'#+7+-)#('#()2'#('# :7'.#;)H'.#(P=[ Zt[ Ser artista é arriscar. Não saber o que se está fazendo. Não saber se o sentido do saber se aplica a isso. Saber sim que é risco. Que é uma linha de indeterminação. Arriscar. E como arrisquei menos desde que comecei a ?'+().#'(-.'3'.#&):7'*'#@'1/"=#Z]%)#3'.&)&'0#("2.'#(1(/'%)(=[#d'3'.1) esquecer. Isso. Deveria inventar menos deveria. Dito, disse, sentei para escrever manuscritos. Sem ser isso ou aquilo. Sem capturar a si. Sem querer ser um corpo. Amar a (1#Z/)%25%[= Zt[

i.1(/1+)#`12)(#'(-.'3'7#'#.''&1/"7#'(('(#?).A,.);"(#&1),.)%A/1-"(#)#?)./1.#&'#)+"/)BC'(# coletadas entre 2009-2013 entre Rio de Janeiro, Londres e outros alhures. Dedica o /'D/"#)#7+(#)%".'(#1+(?1.)&".'(0#)*,7+(#-1/)&"(#+"#-".?"#&"(#?).A,.);"(#'#"7/."(#):718# R7'*s# `"*+1v0# ^"(5# R).)%),"0# ^7*1"# V*".'+-1"# i"./AH).0# `."('# R5*)3s0# !# 4".'+1+6)0# )# Arquivista e A Economista. E a um amor secreto. O texto sobre a obra censurada de `"2'./"#^)-"2s#;"1#?72*1-)&"#("2#"#/F/7*"#9a1*%)nn#a'+-'%"(0#'+$%n#4)(#:7'%#:7'.# ()2'.j<0#'(-.1/"#?).)#)#`'31(/)#p*"2)*#l.)(1*#'#&1;7+&1&"#'%#3A.1"(#(1/'(#-"%"#VP.7%# I'.%)+'+/'# '# i"%?"(1BC'(# I"*F/1-)(=# !(# 1%),'+(# (E"# &)# %"+/),'%# &)# (7)# ?.1%'1.)# 'D?"(1BE"#1+&131&7)*#Z(5.1)[#9a1(1/'#"#)?)./)%'+/"#&'-".)&"<#+)#i)()#&'#i7*/7.)#4).1"# k71+/)+)0#'%#I"./"#!*',.'0#NOON=

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Alessandra Giovanella 71


Reinvenções de escrituras

d'(*1H)%'+/"#&'#%'7#()+,7'#'%#;'.37.)#+)(#*1+6)(#3'.%'*6)(#&"#%'7# -".?"=#J(-.'3'.#5#/.)B).#*1+6)(#&'#;7,)=#RE"#%'(%"#?"+/"(#:7'#+E"#/T%# ?.',71B)=#J#)(#*1+6)(#'%#3A.1)(#&1.'BC'(0#1&)(#'#31+&)(0#('#-.7H)%#'%# 7%#%'(%"#*7,).=#I"/T+-1)=#b"(#?P."(0#+)(#/.)%)(0#+"#-".?"=#b"#-"?"# de café. Na residência no e-mail0#%".)&)(#/'%?".A.1)(0#-"..'(?"+&T+-1)(# trocadas com selos de cidades invisíveis. Relembranças. Recomeço. Esquecimento. Alumbramento. !#;'-7+&)#*1+6)#('%#?.',71B)#&'#7%)#*'/.)#@7(/)?"(/)#Q#"7/.)= d'('+6"#+"3)%'+/'0#'%#-1%)#&'#?)?51(#'#1(("#%'#.'&'('+6)=#m#2"%=# Apenas. E tanto. UA#7%)#-".7@)#:7'#%".)#+"#%'7#/'/"0#'7#+7+-)#)#31#&1.'1/"0#%)(#(7)(# )()(# '(3")B)+/'(# %'# .',)*)%# 7%# (7(/"# +"/7.+"# :7)+&"# '%# .)()+/'# 3f"# ?).'-'# :7'# 3)1# '+/.).# +)# %1+6)# @)+'*)=# !# $,7.)# &)# -".7@)# %'# )-"%?)+6)#+';)(/)#'#?.";)+)0#31,1)#&'#)-"+/'-1%'+/"(8 A Grande Coruja Branca A Professora A Artista A Mulher Z#j#[ Z#j#[ Z#j#[

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b)(# .'X'DC'(# :7'# (',7'%0# )1+&)# ('+&"# )*1%'+/)&)(# )/.)35(# &'# -"+(/.7BC'(#'#.'*)BC'(#-"%#"7/."(#/'D/"(0#.'3'*">%'#?)./'#1+/',.)+/'# '#/.)+(;".%)&".)#&'#7%)#/'1)#-"%?*'D)#&'#.'*)BC'(#3131&)(=#a13T+-1)# estética: sobretudo, quando entendida como invenção, relacionada diretamente com a ética e a política. Entendendo o mundo como feito e não como dado, como em construção e não como pronto, em criação constante de novas realidades vivas e inter-relacionadas, onde a preocupação ética se constitui na preocupação com o outro, re-espacializando afetos cotidianamente. Aceitação do outro como *',F/1%"#"7/."=# Sentir com. Aprendedora de si, mais que ensinante. Meus campos de atuação me levam a pensar constantemente os locais de escolarização, implicando cada vez mais em pensar o fora com força, ?"1(# "# ?."-'(("# '(-"*).1H)&".# -"%# ;.':7T+-1)# "?C'>('# )"# ?."-'(("# &'# )?.'+&1H),'%# 3"*/)&)# ?).)# "# -)%?"# )./F(/1-"=# I."2*'%)/1H).# )# educação que aí está posta em seus diferentes níveis, e encará-la como acolhedora de encontros possíveis trazendo como centro a produção de subjetividades, é um exercício constante em direção à abertura de possibilidades para um fazer comum potencialmente ativo. Nos interstícios de meus caminhos percebo que falar desses processos é reinventar-me através dos encontros, e contá-los faz-se necessário também com as palavras do outro, misturando-se às minhas, como -)./P,.);)#:7'#)"#.'%"+/).0#.'31.)>('#'%#/'%?'(/)&'= As tempestades reviram as coisas, os olhares e os corpos, seus ventos

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fortes podem unir destruição e produção ao mesmo tempo, pois &'(".,)+1H)+&"0#"2.1,)>+"(#)#7%)#+"3)#".,)+1H)BE"=#b)#-)./",.)$)0#"# mundo recriado, não é outro somente porque reinventado, mas porque ?'+'/.)#"#1+&13F&7"#?"&'+&"#%"&1$-A>*"= Gosto de contar das coisas dos dias aqueles em que me deparava -"%#%1+6)(#?.1%'1.)(#313T+-1)(#'%#7%)#()*)#&'#)7*)=#m#:7'#)?.'+&1# a contar causos enredada por abraços de uma serpente/bruxa, que -"%#?)*)3.)(#:7'+/'(#)-"+-6',)3)#Q#/"&"(#+)#(7)#3"*/)0#'#?'+('1#:7'# vivenciar arte fosse só isso, louco compromisso. ===•#,.72'.#€===

::: Os que inventam morros, ou caminhos em movimento Caminho perdendo a cor. Pedaços brancos de plástico-lixo ladeando )#-"2.)#&'#/'..)=#J(/.)&)#3'.%'*6)=#!*,75%#"*6)+&"#)/'+/"#&'#7%)# janela-solidão, cabeça descansada na mão. Uma criança correndo. Outra criança correndo. Uma carroça de lixo. Uma criança, puxando "#(7(/'+/"=#]%#/.1*6"=#]%#/.'%=#]%#3'*6"#?).:7'0#7%)#."&)#,1,)+/'# enferrujada. Tudo aquilo que é velho, independente de sua origem sacra, é suscetível de virar brinquedo ===•#),)%2'+#€===#

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]%)#-1&)&'#;"1#$-)+&"#?).)#/.A(0#'+:7)+/"#"7/.)#(7.,1)=#J(/)#;"1# )#?.1%'1.)#3'H#:7'#$H#"#-)%1+6"0#"(#?.1%'1."(#&'('+6"(#&"#%)?)=# h#&'?P(1/"#&'#*1D"0#"7#9"#K1DE"<#5#2'%#);)(/)&"0#$-)#+)#?'.1;'.1)# &)#-1&)&'#-'.-)&)#?".#%".."(0#'#)#'(-"*)#$-)#)"#?5#&"#94".."#&)# !+/'+)<0#"#%)1(#)*/"=#41+6)#-6',)&)#Q#'(-"*)#%1(/7."7#'%"BE"#'# %'&"0#'(/'(#.'(?"+(A3'1(#?'*"#9;.1"H1+6"#+)#2)..1,)<#:7'#('#('+/'# antes de entrar em cena e que é fator relevante para que ator e platéia (1+/)%>('#'+3"*31&"(#'#?)./1-1?)+/'(=#\(("#/7&"0#&'#)*,7%)#;".%)0# transforma-se em força e esta era minha esperança, para tentar, )"#%'+"(0#/.)+(%1/1.#-'./)#(',7.)+B)#?).)#):7'*'(#"*6"(#:7'#%'# 1+/'..",)3)%#?.";7+&)%'+/'=# ::: Gosto também de contar do dia em que parei a aula para ensinar um dos meninos a dançar e a aula virou dança de todos os corpos, do dia em que eles plantaram bananeira e colocaram os pés na nuca numa demonstração de suas habilidades corporais, dos dias em que o riso corria em catarse e envolvimento ao lerem suas poesias, dos dias que me contavam seus passos em seus caminhos refeitos redescobrindo (7)(#%".)&)(0#(7)(#?)((),'+(0#(7)(#?)1(),'+(=# \(("#+E"#5#-7..F-7*"=#m#1+3'+BE"=# J(/.)/5,1)(#:7'#/.)H'%#"#313"#'#&'(%'&1&"#?).)#"#&'+/."=#I"1(#"#&'+/."# -"%#;.':7T+-1)#/'+/)#/.)+(;".%).#"(#-".?"(#'%#)7/f%)/"(0#%A:71+)(# úteis e controláveis, adestradas e manipuláveis, corpos dóceis ===•#;"7-)7*/#€===#

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m#&P-1*#7%#-".?"#:7'#?"&'#('.#(72%'/1&"0#7/1*1H)&"0#)?'.;'1B")&"= !#*'1/7.)#:7'#"#1+&13F&7"#;)H#&"#%7+&"0#'+3"*3'#)(#(1/7)BC'(#-"%#)(# quais seu corpo se depara constantemente no meio social. Colocá-lo '%#7%)#()*)#&'#)7*)#'#"2.1,A>*"#Q#&1(-1?*1+)0#?).)#-"+6'-'.#'#&'(3'+&).# "#%7+&"0#/.)H#'%#(1#)*,"#&'#"?.'((".#'#?"&'#31.#)#);)(/A>*"#&"#-).A/'.# inventivo, o qual não se dá individualmente, mas é construído no embate das forças. Pois experimentar é abrir brechas do corpo disciplinado, é ;7,1.=#R)1.#&"#*7,).#&'.13)#)*,"#+"3"0#1%?'+()&"#'(/.)+6"=

::: Os que inventam toques com o olhar !#-)&)#&1)#'%#:7'#%'#&1.1,1)#)"#?5#&"#%".."0#"#?.''+-61%'+/"#&'# meu olhar ia acontecendo à medida que os entrecruzamentos com outros olhares iam se dando. Desde o caminho do ônibus, lotado &'#-.1)+B)(#)/5#)#-6',)&)#'%#()*)#&'#)7*)0#@A#%'#('+/1)#.'?*'/)#&'(('(# acúmulos oculares, parecia que brotavam em mim novos sentidos, sempre atentos. Um corpo de olhos. Estado de um corpo sofrendo a ação de outro. Olhos fechados, na ponta dos dedos o toque que desenhava o rosto. d'('+6"#-',"=#d'('+6"#+"#'(-7."= Depois de doze anos, um reencontro: (...) tenho 20 anos e me lembro como se fosse hoje de +)!#1<.$!#"*3&*2$!%*=!#&.#)0+#9+%+,.#<,0"0&%0 (...) $.).#+)!#=0;#8+0#07!#&."#-0+#+)#<!<07#0)#/,!&$.#0#+)#7F<*"#0#&."#)!&-.+#

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fecharmos os nossos .7'."#0#$.)0>!,#!#-0"0&'!,#!73.#&.#<!<075 São coisas assim que marcam nossa vida que devem ser relembradas e isso foi de extrema *)<.,%G&$*!#&.#)0+#-*!#!#-*!(#8+0#1#$.)#.,3+7'.#8+0#-0$*-*#"03+*,#!#<,.2""H.#8+0# ela e tantas .+%,!"#<,.90"".,!"#)0#2;0,!)#,0"<0*%!,# ===•#()2.1+)#€=== ::: Falo do que não é visível aos olhos. Das invisibilidades e sensibilidades +E"#&'-*).)&)(0#%)(#?'.-'21&)(#'%#-)&)#1%),'%#:7'#)#?)*)3.)#?"(()# +"(# .'%'/'.=# `'(()*/"# :7'# "# 1+31(F3'*# ):71# +E"# (1,+1$-)# "-7*/"0# '# (1%# .'?*'/"# &'# 1+/'+(1&)&'(=# !((1%0# )# -)./",.)$)# )-"%?)+6)# '(()# %7*/1?*1-1&)&'# &'# X7D"(# 1+-"+/."*A3'1(0# '(('(# %"31%'+/"(# 1+31(F3'1(0# que se mostram intempestivamente como movimentos do desejo. J(('# 1+31(F3'*# +E"# 5# &)# ".&'%# &)# *1+,7),'%0# +'%# &)# 1%),'%# "7# &"# 1%),1+A.1"0# 5# (1%# ?)./'# &)# .')*1&)&'=# p.A31&"# &'# ?"((121*1&)&'(=# J(-7/)&"# +"# (1*T+-1"0# +)(# &'.13)BC'(# :7'0# &)# ?)7()0# )2.'%>('# '%# %"31%'+/)BC'(0#7+13'.("(#1+5&1/"(0#&'(%'%2.)%'+/"(0#'#:7'#/T%#)#3'.# -"%#"#(1+,7*).#'#"#-"*'/13"0#)"#%'(%"#/'%?"=#I'+("#"#1+31(F3'*#-"%"# possibilidade, através de um distanciamento que permita reinventá-lo, reinventando politicamente sua união às máquinas sociais. ::: Os que sujam as mãos para criarem outras I"/'(#&'#/1+/)(#%71/"#3'*6"(0#&'#-"+(1(/T+-1)#?'()&)0#1%?"((F3'*#&'#

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?',).#-"%#"#?1+-'*0#)#%'+1+)#'+/E"#&1(('#:7'#6)31)#/1&"#7%)#1&'1)8# ?',).#&1.'/"#-"%#)(#%E"(=#J(/)3)#'*)#'D/.'%)%'+/'#'%?"*,)&)#'%# seu trabalho criando volumes, enquanto eu ajudava outro menino '%#(7)(#-"*),'+(=#V"%"(#1+/'.."%?1&"(#)"(#2'.."(#?".#7%)#$,7.)# )7/".1/A.1)#:7'#('#(1/7)#+"#/"?"#&)#61'.).:71)#'(-"*).8#9h#:7T#:7'#/7# /A#;)H'+&"0#('#(7@)+&"#/"&)0#"#:7'#5#1(("#+)(#%E"(jnj< !#%'+1+)#$-"7#?).)*1()&)0#)1+&)#?"(("#3'.#)#-'+)8#)(#%E"(0#:7'# '(/)3)%#?.'(/'(#)#/".+).'%>('#%71/)(0#,.7&).)%>('#1%'&1)/)%'+/'0# .'X'D"#&"#(7(/"=#J#('7#"*6).#*)+B"7>('#?).)#%1%8#-7%?*1-1&)&'=# Eu a tranquilizei com o meu. Ela respirou. Expliquei que, como nossas tintas não estavam muito boas, tentava um jeito de resolver o ?."2*'%)#-.1)/13)%'+/'0#'#:7'#1(("#;)H1)#?)./'#&)(#'D?'.1%'+/)BC'(0#'# :7)+/"#Q#(7@'1.)#/'.F)%"(#/"&"#"#-71&)&"#?).)#*1%?).#&'?"1(=#!#$,7.)# autoritária aparentemente entendeu e retirou-se. O menino que eu ajudava, olhou para mim e disse: ela não entende nada de arte, né sora? •#===#31+F-17(#===€ Como instaurar uma vontade de encantamento, desprendimento e '..S+-1)#+)#'(-"*)#1+(/1/7F&)j Infernais desconcertos. ::: Entre o estar inserida naquela comunidade e o hoje, desenha-se outro espaço, um rompimento com a linearidade do tempo, que corresponde ao inesperado, ao inusitado, rompendo com todas as certezas, 1+(/)7.)+&"#)#;'-7+&)#&G31&)0#-"'D1(/T+-1)#'+/.'#"#"+/'%0#"#6"@'#'#"# amanhã. Acontecimento.

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Artista Professora Mulher !#3"+/)&'#&'#('.#&'()?).'-'#-"%"#"#+)&)0#"#(1*T+-1"#5#&'+/."#&"(# "731&"(===#)*,"#('%#*1,)BE"#-"%#"#%7+&"0#.1.#('%#3"+/)&'0#3'.#('%# 3"+/)&'0#3'.#('%#3'.=#h#(1*T+-1"#'%#-F.-7*"#('%#-"%'B"#'#?.PD1%"# &"#$%=#b)#-)/'&.)*#3)H1)#"#:7'#%'#%"3'#)#'+/.).#*A0#+E"#?.''+-6'=# \%),'+(#'#(1*T+-1"=#]%#-);50#7%#.1"0#7%#/'%?"#(P=#i"%?."#7%# courvex para as molduras molhadas de meu olhar triste de mulher. Outra mulher me faz parar e escutar o que sai junto com pedaços de 21(-"1/"#Y#/'+/)/13)#&'#?.''+-61%'+/"#&"#3)H1"#&"#'(/f%),"=#h#3)H1"# '+/.'#"(#&'+/'(#-6".)#"#"*6).#3)H1"#&'#*A,.1%)(#:7)+&"#3"%1/)8#("7# ;'1)#'#("7#2)+,7'*)0#+E"#?"(("#+'%#%'#?."(/1/71.=#!(#%E"(#/.'%'%=# Meus cílios molhados se enchem até o rio. R1*T+-1"(#p7).&)&"(=# Frases de Rua. ::: !#,'+/'#-"%'B)#)#('#?.'"-7?).#%71/"#-"%#)(#2".&)(#&"#(".3'/'# derretendo na casquinha pra não se lambuzar, e acaba comendo mais rápido do que quando era criança e essa era a melhor parte. J(-7*/7.)#&'(%)+-6)&)#?'*)#*F+,7)= Artista Professora Artista Mulher Artista

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Professor: 1.#!:7'*'#:7'#?.";'(()#"7#'+(1+)#7%)#-1T+-1)0#7%)#)./'0#7%)# /5-+1-)0#7%)#&1(-1?*1+)=#N=#U"%'%#?'.1/"#"7#)&'(/.)&"=#•=#!:7'*'#:7'# ?.";'((".)#?72*1-)%'+/'#)(#3'.&)&'(#.'*1,1"()(= Professora. Bras. N.E.pop: prostituta com quem adolescentes se iniciam na vida sexual. Artista: 1. Pessoa que se dedica as belas artes, e/ou que delas faz ?."$((E"‚# N=# I'((")# :7'# .'3'*)# '+,'+6"# "7# /)*'+/"# +"# &'('%?'+6"# de suas tarefas; 3. Pessoa que revela sentimento artístico; 4. Ator; q=!./F$-'‚# ƒ=?'((")# :7'# ?".# (7)(# 6)21*1&)&'(# '(?'-1)1(# ('# 'D12'# '%# -1.-"(0# ;'1.)(0# '/-‚# u=# k7'# .'3'*)# ('+/1%'+/"# '# ,T+1"# )./F(/1-"‚# c=# Astucioso, manhoso, arteiro. NãoArtista NãoProfessora NãoMulher d'31.'(#5#:7'#%'#),.)&)%===

::: O Desenho, outros caminhos RE"# -)%1+6"(# &"# /G+'*# &'# !*1-'0# 3'1)(# '# .)%1$-)BC'(# '%# ?'*'(# :7'# %7*/1?*1-)%#)1+&)#%)1(#"#-"+6'-1%'+/"#-"%?)./1*6)&"=#J#),".)#27(-"# "#(1,+1$-)&"#&)#?)*)3.)#)./1(/)=#V".%).#)./1(/)(=#d'()$)&".#%"%'+/"# de incentivar a formação de olhares questionadores, posturas &1;'.'+-1)&)(0#'+-"+/."#-"%#1+/'+(1&)&'(#&1;'.'+/'(#Y#&13'.,T+-1)(#Y# dissonâncias – mundos adversos. Indivíduos que ao se projetarem na 1%),'%0#-"%?)-/7)%#?).)#)#,'.)BE"#&'#+"3"(#/'..1/P.1"(#'D1(/'+-1)1(0# através dos novos contatos que se estabelecem com seus universos de .';'.T+-1)=#UA#7%)#)?."?.1)BE"#&"#.')*#&'#%)+'1.)#)#*'3A>*"#)#7%)#.'>

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criação de si. Re-inventando o que já existe sob a perspectiva do olhar 1+3'+/13"0#:7'#(";.'#/.)+(;".%)BC'(#'#('#.'%"&'*)#)#-)&)#1+(/)+/'=#!"# %'(%"#/'%?"#'%#:7'#-"+;'.'#%)/'.1)*1&)&'#Q#(7)(#1%),'+(#)/.)35(#&'# -".'(0#3"*7%'(#'#,.)$(%"(0#.'&1.'-1"+)#7%#+"3"#"*6).#Z/.)+(;".%)&"# /)%25%#?".#(7)(#)BC'([#)"#:7'#;"1#;'1/"#?".#'*'#%'(%"=# d'?).)+&">('# -"%# 1%),'+(# :7'# ;".)%# 3131&)(0# "(# '+3"*31&"(# (E"# vistos aqui também como fazedores, afetados, produtores de sentido. - “é preciso que vocês tenham olhos atentos, atentos a tudo que vêem, a todas !"#)+-!&>!"555I#6,!#.#<0-*-.#-0#+)#.7'!,#$+,*.".#"./,0#!#=*-!(#0#0+(#JF#&H.# lembrava qual tinha sido meu café da manhã. :0<.*"#-0""0#-*!(#%.-."#"0)#0K$0>H.#"H.#-*!"#-0#L.7'!,#0#=0,I#0#)!*"#-.#8+0#*"".(# %.-."#"H.#-*!"#-0#.7'!,(#=0,(#%.$!,(#8+0"%*.&!,(#).-*2$!,(#"0&%*,(#*&8+*0%!,(#!,-0,5 (...) O desenho, que para mim não era nada, naquele momento se mostrava como %+-.(#0,!#!7*#8+0#0+#8+0,*!#0"%!,(#9!;0&-.#0K!%!)0&%0#!8+*7.(#"M#8+0#)!*"#0#)!*"# e mais. (...) eu deixava de ser um tarefeiro e passava a ser um investigador de mim mesmo, sanando com responsabilidade os quesitos institucionais (o que me daria respaldo) e sendo todo o além que eu pudesse. (...) Realmente hoje penso que está tudo aqui dentro, penso que arte se ensina, existe o domínio de técnicas, de materiais, mas também acredito que Alma não se 0&"*&!(#.+#=.$4#%0)#.+#&H.(#!*&-!#8+0#07!#".;*&'!#&H.#9+&$*.&05#N!/0#!.#-0-.# "0&"*=07)0&%0#0-+$!-.,(#%.$!,#&0""!#!7)!#!#<.&%.#-0#9!;4@7!#*&8+*0%!&%0)0&%0# produtiva. Meu eu artista é cria de tanto. De tantas vivências minhas, de tantas L.,*0&%!>O0"I(#-0#%!&%.#0"%+-.(#-0#%+-.#8+0#)0#9!;#0+(# (...)

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fundamental pra que eu pudesse reconhecer em mim um dia, um possível inquietador do universo. •#===#&)+1'*#===€ ::: `'((1,+1$-)BE"#&"#'(?)B"#7.2)+"#Y#&'#:7'#;".%)#"#&'('+6"#"-7?)# *7,).'(# +)# -1&)&'_# -"%?"./)%'+/)*_-"*'/13"_1+&131&7)*# Y# %)?)# -"+-'1/7)*_?."-'(("# &1+S%1-"# &'# (1,+1$-)BE"_;'..)%'+/)(# ,.A$-)(# :7'# 31()%# ".,)+1H).# "# -"+6'-1%'+/"_# &1),.)%)(_# .'?.'('+/)BE"# ,.A$-)# &'# 7%# -"+@7+/"# &'# -"+-'1/"(# -"+(/.7F&"(# :7'# '31&'+-1'# )(# .'*)BC'(#'+/.'#'*'(#Y#-)%1+6"_?"+/"#&'#?)./1&)_%)?)#&)#-1&)&'= i"+-'?BE"#1+&131&7)*#'#.'*)/13)#&"#/'%?"_#,'(/"_#';'%'.1&)&'_#*1+6)(# &'# /'%?"# Y# ("%2.)_/.)+(?).T+-1)(_# ("2.'?"(1BC'(_# "?)-1&)&'_# tonalidades/ nitidez/ ritmos/ luminosidade/ textura. Desenho expandido/ ampliação do que é desenho através de 'D?'.1T+-1)(#?."-'((7)1(_#?'.-'?BE"#Y#27(-).#%).-)(#'#(1+)1(#&'#'3'+/"(# +"#/'%?"#'#+"#'(?)B"#>#'*'+-).#'*'%'+/"(#1%),5/1-"(#.';'.'+-1)1(#'%# potencial que proporcionem motivação para execução de exercícios 31(7)1(#Y#-"+-'1/"(_'*'%'+/"(#,'.)&"(#'#%)/5.1)(#&1;'.'+-1)&"(#?).)# Z&'([-"+(/.7BC'(#;".%)1(= ::: O desenho como meio, para além do lápis e papel, o desenho como forma desejante, linha que percorre outro tempo, outro espaço. O desenho de um mapa feito pelos pés ao descobrir a cidade, feito pela -673)#+"#31&."#&"#f+127(0#?'*"#'%).)+6)&"#&"(#$"(#+"(#?"(/'(0#?'*)(# -7.3)(# &)(# .7)(0# ?'*)(# /),(# &"(# ?1D"(0# ?'*"# %"31%'+/"# &"(# -).."(0#

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?'*"#3'+/"#+"#-)2'*"=#h#&'('+6"#:7'#)/.)3'(()#;."+/'1.)(#,'",.A$-)(# '#?"&'#('.#%".."(#'#+73'%0#?'.;".%)+-'0#3F&'"0#-"+-'1/"0#.'X'DE"=# Procedimento que se apropria de outros domínios. Entrelinhas '(?)B)&)(# &'# 3)H1"(# :7'# ('# '%?)+/7..)%# -"%# 7%# 1+$+1/"# &'# possibilidades. Um devir artista que se descobre humano e múltiplo, &'(-"2.1+&"# :7'# '(()# %7*/1?*1-1&)&'# /.)H# )*,"# &'# 1+&1HF3'*0# +E"# ?'.-'?/F3'*#)"#%)-.">"*6).0#%)(#:7'#*)/'+/'#(P#'(?'.)3)#7%)#2.'-6)# para explodir o corpo inteiro em caminhos de não saber onde se está indo, mas saber que se vai e a volta nunca é a mesma. (...) juntei um acervo de vários utensílios como, ventilador, livros, roupas, brinquedos, !-0,0>."#-0#-0$.,!>H.#<!,!#&!%!7(#$!7>!-."(#0&%,0#.+%,."(#8+0#<.-0,*!)#"0, usados por outras pessoas que tivessem uma renda mais baixa. Então foi aí 8+0#,0".7=*#).&%!,#+)#LP,0$'MI#$.)#"+!#).0-!#0"<0$Q2$!#0#"+!"#"*)/.7.3*!"5 Ao parar para analisar minha pesquisa, percebi que eu estava invertendo conceitos, estava tirando algo que iria fora, e supostamente =0&-0,*!#0"%0"#)!%0,*!*"5#R!;0&-.#*"".#$.&"03+*#$.&$,0%*;!,#)*&'!#*-0*!#-0 9!;0,#$.)#8+0#.#7*K.#<!""!""0#-0#-0"<0,$0/*-.#<!,!#!73.#!#"0,#=*"%.#&H. !<0&!"#$.).#./J0%.#-0#-0"$!,%0#0#"*)#$.).#./J0%.#-0#!8+*"*>H.5 S<M"#.#%1,)*&.#-0"%0#%,!/!7'.(#)0+"#"0&%*-."#2$!,!)#)+*%.#)!*" !3+>!-."(#%!&%.#<!,!#=*-!#$.).#&!#!,%05#T".#0""0"#)!%1,*!"#!7%0,&!%*=."#8+0 coleto dos contêineres até hoje para desenvolver minha pesquisa dentro do curso, e dando uma repaginada, também usufruo destes objetos para compor meu apartamento. Todo o objeto tem um potencial artístico e utilitário, mas isso depende do !,%*"%!#9!;0,#$.)#8+0#.#)0").#%0&'!#0""0#<.%0&$*!75 •#===#."&.1,"#===€ :::

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p"(/"#&'#+E"#()2'.#"#:7'#;)*).#&'#7%)#'D?'.1T+-1)#.'-'+/'#:7'0#&'#/E"# 313)0#(P#%'#&'1D)#('+/1.0#'#1(("#5#%71/"=#p"(/"#&'#*)+B).#-"+31/'(#:7'#('# tornem desejos incontroláveis, imensuráveis no contato com o outro e toda sua dimensão. Construção mútua de sentidos. Pequenos detalhes, um traço, um toque, um bilhete, uma besteira, uma risada, estar inteira e com fome. Apresentar-me como dispositivo que faz voar e que voa junto. Desejo de asas. Gosto de me desenhar nas palavras do outro. Naquele espetáculo para os sentidos, não imaginávamos a dimensão "*3&*2$!%*=!#-0#%.-!#!8+07!#0K<0,*4&$*!5 Imagine uma sala, circulando em um ambiente de forte visualidade, cheia -0#!7+&."#-0#!,%0(#%.-."#&+)#,*%).#-0#<,.-+>H.(#%.-."#$.)#!&"0*."#0#,0U0KO0" 0&%,03+0"#!#+)!#*&=0"%*3!>H.#$.&"%!&%0#&!#/+"$!#-0#-0"/,!=!,#&.=."#"0&%*-."5 Naquelas manhãs de sextas-feiras de inverno, porém calorosas, tínhamos !+7!(#!#!+7!#8+0#0+#)0#"0&%*!#)!*"#7*=,0(#0K*"%*!#!8+07!#"0&"!>H.#-.#<.""Q=07(#-. !,,*"$!,#"0)#)0-.5#:."#!&"0*."#0#*&$0,%0;!"#&!#).$'*7!5#V!"#0,!#*)<.""Q=07 -0"*"%*,5#N!-!#!+7!(#+)#-0"!2.#-*90,0&%05#W.3.#)0#=0)#X#$!/0>!#)0+"#%,!/!7'." de memória, desenho expandido, todo o processo, toda aquela trajetória, -0"$./0,%!"(#%.-.#$.&J+&%.#-0#0K<0,*4&$*!"(#%.-!#,*8+0;!#-!#*)!3*&!>H.5#6,!#+) -0"!2.(#)!"#0,!#+)#<,!;0,#,0".7=4@7.5 (...) Lembro-me da primeira experiência fantástica de tirar os desenhos do papel, das minhas descobertas nos trabalhos 30"%+!*"(#&!"#$.,0"(#-!#$.&"%,+>H.#-.#.7'!,(#070)0&%."#-.#"0&"Q=07(#-!" $.&=0,"!"#"./,0#!,%0(#-.#".,,*".#X#0).>H.5 (...) Dessas sextas-feiras, das conversas fora da sala de aula, resultaram no -0"0&=.7=*)0&%.#-!#)*&'!#<0"8+*"!#8+0#9!>.#'.J0(#8+0#&.#*&Q$*.#-.#$+,".#<!,0$*! impossível poder relacionar um gosto extremamente pessoal, com minha <,.-+>H.5

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(...) Síntese: YG&*$.#-0#7+;0"#.9+"$!&%0"(#09+"*=!"5#:0"0&'!&-.#X#9.,)!#7*=,05#Z+-.#%0) "0&%*-.5#N.&'0$*#-0;#<,.90%!"#,0"*"%0&%0"(#%*=0#-*=!3!>O0"#"./,0#27!"#-0 reatividade, entendi a sensibilidade de pintores, visitei peregrinos e percebi como é fácil ser um poeta romântico. T)!#$.)<70%!#"Q&%0"0#-0#%+-.#8+0#!$.&%0$0+(#$.).#+)#27)0#7.&3.#.+ +)!#-!&>!#,0<70%!#-0#"*&0"%0"*!"#7+K+."!"(#0&=.7=*-!"#-0#"0&%*)0&%.#0)#$.,0"5 E.+#!#<!,%0#"0,0&!#&!#)+7%*-H.(#+)#3,H.(#0)#9.,)!#-0#)!>H"5#E*&%.#"0-0 de provar o banido e contrário. É tudo questão de ser subentendido. Sou uma mera espectadora. A parte do contra. •#===#;'.+)+&)#===€ ::: O redesenho de cada envolvido nesse processo denota, sobremaneira, um envolvimento visceral com a produção de sentido para além dos espaços institucionalizados. Desarrumando caminhos para criar outros, destruindo conceitos pré-estabelecidos e trazendo à tona a capacidade de intervenção no espaço/meio em que vive permitindo-se ser tocado ?'*)#;".B)#&"#:7'#3T#'#('+/'=#J%#-"+(/)+/'#'(/)&"#&'#)*'./)#'#'..S+-1)# por caminhos que nos levem à tortuosas descobertas. Monstruosas ?".:7'#/.)+(;".%)&".)(=#R1,+1$-)/13)(#?".:7'#:7'(/1"+)&".)(= Z.-."#."#-*!"#.90,0>.#,!>H.#!.#)0+#$!$'.,,.#<.,8+0#%.-.#)+&-.#9!;#*"".5#:+,!&%0# +)!#)!&'H#&.%0*#8+0#)0+#$!$'.,,.#,0"*"%*!#0)#$.)0,#!#,!>H.#8+0#0+#7'0#-0,!(# )!"#-+,!&%0#!#%!,-0#=*#8+0#"0+#<,!%.#0"%!=!#8+!"0#=!;*.(#0+#-*""0#8+!"05#[."# 2&!*"#-0#"0)!&!(#<.,1)#-0<.*"#-0#+)#/07.#$'+,,!"$.(#-0*#!"#"./,!"#0#."#.""."#!.# LP+-.I(#)0+#$H.5#R.*#)0+#27'.#8+0)#7'0#-0+#0"%0#&.)05#[."#2&!*"#-0#"0)!&!#

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quando ganha osso, o Budo vira outro cachorro, tem que ver a faceirice do cusco. 6&%H.#<0&"0*\#Y.,#8+4D#]+!7#!#&!%+,0;!#-."#$H0"D#Y!,!#8+0#"0,=0)#."#$!&*&."# "0#0"%.+#$.&-*$*.&!&-.#)0+#$H.#!#$.)0,#,!>H.D#6"%!"#<0,3+&%!"#)0#*&-+;*,!)# !#.+%,!#,0U0KH.\#6#)*&'!#&!%+,0;!D#^#8+0#0"%.+#$.&-*$*.&!-.#!#9!;0,(#$.)0,(# <0&"!,(#,0U0%*,(#"0&%*,(#.+=*,#.+#=0,D#6#!#)*&'!#&!%+,0;!#'+)!&!D#Z0&'.#0+# $.)*-.#,!>H.D V0+#27'.#%0)#,!;H.5#]+0)#-*""0#8+0#LP+-.I#&H.#1#&.)0#-0#$H.D :!)."#&.)0"#X"#$.*"!"#"0)#!&%0"#-0*K!,)."#07!"#.#"0,0)5 •#===#&1',"#===€ ::: Desenho refazendo-se em seu caráter de esboço, provisoriedade )&:71.1&)# ?".# ('7# ;)/".# &'# .'((1,+1$-)BE"# -"+(/)+/'=# i"+/".+"(# sem preenchimentos previsíveis e com permissão de pintar fora das *1+6)(=# h(# -)%1+6"(# (',7'%# ('7(# '+-"+/."(0# );'/)%'+/"(0# /."?'B"(0# )(("%2."(=#\+$+1/"(#(1,+1$-)&"(#?).)#:7'%#"(#&'3".).=

`'1+3'+BC'(#&'#'(-.1/7.)(#Y#-"%#R7H)+)#p.72'.0#p1".,1"#!,)%2'+0#41-6'*#V"7-)7*/0# a1+F-17(0# R)2.1+)# i=# i"%).'//"0# d)+1'*# !1.'(0# V'.+)+&)# 4)-6)&"# p.1("*1)0# `"&.1,"# W)&1'*"#V'v()0#d1',"#W"..1-"=

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LetĂ­cia Ramos 91


K"+,21'.2s'+0#OL#&'#"7/.72."#&'#NOLN= Querido Michel, Amanhã pela manhã parto em direção ao Polo Norte. No momento, "*6).#?).)#"#%'(%"#*7,).#?).'-'#('.#7%)#"?BE"=#!#%"+/)+6)#*A#)/.A(# -"+,'*)&)0#)#/"..'#&'#%)&'1.)#-"%#)#3'.%'*6)#-"*7+)#+"#;7+&"#:7'# ),".)#5#2.)+-)0#"#2).-"#)"#*)&"#&)#-)()0#"#%'/'".1/"=# J7#?.'-1("#;)H'.#%71/"#)#%'(%)#-"1()#?).)#:7'#'(/)#?)1(),'%#('#/".+'# +".%)*0#?).)#);)(/).#"#'(?'/)-7*).#&1)+/'#&"(#%'7(#"*6"(#'0#(P#)((1%0# começar a entender o que se passa. h#IhKh#+"./'#-"+/1+7)#('+&"#7%)#1%),'%#'%#2.)+-"#'#?.'/"0#'(/A# -'./"0#'(/"7#+)#2)('#I"*).#"+&'#)(#+',.)(#."-6)(#'(/E"#?".#/"&)#?)./'=# m# -"+(/.)+,'&".# '(/).# '%# ;.'+/'# )# 7%)# ?)1(),'%# '# /'.# :7'# ;)H'.# )*,7%)#-"1()#-"%#'*)=# J(/'(#&1)(#)+/'(#&'#?)./1.#'(/E"#('+&"#;7+&)%'+/)1(#'#?'+("#),".)#'%# 7%#."%)+-'#,'",.A$-"=# d'(-"2.1# 7%# $*%'# &)# ;7+&)BE"# &)# 2)('# I"*).# '# 6A# )*,7%)# 61(/P.1)# ."+&)+&"#?".#):71#=#I".#6".)0#&'1D"#&'#*)&"=#!%)+6E#$+)*%'+/'#?)./"# ao meu destino que é o Polo Norte. W'+/"#,"(/).#&"#)+1(#&)#2'21&)#*"-)*#Y#Aquavit#Y#+"#.P/7*"#"#&'('+6"# de um barco veleiro e a frase: “This renowened norwegian aquavit is famos for its unique voyage around the _.,7-I# Até... KJW„i\!

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Longybierbyen 78º14’ N DIA 1 É difícil manter-se em pé no barco.

!"#$%&'(")*+,"-(.(/0123(.(4(5"(.(56789(.(4(5"

`F#+)!#70&%!#&."%!73*!(#+)#=!;*.(#+)!#!+"4&$*!#*&0K<7*$F=075#

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Cara Holmen, - 1º C DIA 2 Lá fora a neve cobre os objetos mais simples, aglutinando tudo em +)#3,!&-0#/7.$.#-0#307.5#T)!#0&.,)0#<!*"!30)5# O capitão sentou à minha mesa. Subimos à sua cabine e decidimos que "#2).f%'/."#xx#('.1)#+"(("#,71)=#h*6).#"#4).0#"*6).# para a bandeira, ver na bússola a direção que a bandeira está indo.

!9:;6<8("=>0?9-((/0123(.(4(@(56789(.(4.A

Olhar a bandeira Olhar o mar Sentir o vento

*aparelho que mede a pressão atmosférica.

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Trygghamna: Harrietbreen (78º 15’N 13º 45’E ) - 1ºC DIA 3 Estar ali no meio do branco era um pouco assustador.

Qualquer registro era menor que estar ali.

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!9:;6<8("=>0?9-((/6<171B(.(A.C(5"(@(57B28(.(A.C(5"

b"3)%'+/'#)#1%?"/T+-1)#'#)#?"/T+-1)#?"5/1-)#&"#*7,).#-"+,'*)3)%= J.)#1%?"((F3'*#'(/).#)*1#'#+E"#:7'.'.#.',1(/.).=#


Magdalene Fjorden - 3ºC DIA 4 Preciso abandonar a câmera na banquisa como uma relíquia deixada ?).)# /.A(# ?".# 7%)# 'D?'&1-E"=# J7# :7'."# )(# 1%),'+(# :7'# ('.E"# encontradas dentro dela no futuro.

!9:;6<8("=>0?9-((D70(E(@(56789(E

Eu exploradora do ano 4000.

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Magdalene Fjorden: Glaciar Harrietbren (78ยบ 16 N / 13ยบ 37E) DIA 5

!9:;6<8("=>0?9-((D70(C(@(56789(E

Onde estรก a imensa massa branca e solitรกria?

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Ilha Moffen. DIA 6 Novamente começamos a velejar, os ventos fortes não permitiram :7'#&'(-T(('%"(#+)#1*6)=# Começamos a andar na vertical, na direção contrária do vento.

!9:;6<8("=>0?9-((D70(E(@(56789(E

O vento solar está em toda parte.

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Raudjfordem -8ºC DIA 7 I)(()%"(#"#&1)#+)#l)61)=#d7)(#&)(#W`…R#-S%'.)(#?).).)%#&'#;7+># -1"+).=#m#-"%"#/.)2)*6).#-"%#"#%"/".#)#Nq†=#UA#&'#/'.#%)1(#-71># &)&"# -"%# )(# 1%),'+(# '# /'+/).# ('-A>*)(# &'# )*,7%)# ;".%)=# !# '(/)+/'# funcionou para colocar as fotos e limpar, o problema é transportá-la até a banquisa. Imagine um bote de borracha no meio do gelo, na ponta do mundo e você lá.

Estamos partindo em direção ao norte. Ao mais norte da nossa 31),'%=#!"#+"./'#&"#+"(("#?"*"#)"#?"*"#&"#+"(("#+"./'=# S#A7'!#V.990&#1#+)!#7*&'!#&!#<0,"<0$%*=!#-.#'.,*;.&%05

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!9:;6<8("=>0?9-((D70(4)(@(56789(4)

W"&)#)#?)1(),'%#?).'-'#7%#-'+A.1"#:7'#)#:7)*:7'.#1+(/)+/'#('.A# desvendado. A qualquer momento a luz será acessa e verei que estou em uma imensa piscina.


Hornbaekpollen ( -4ยบC ) DIA 8 \+(/)*'1#%'7#9R/7&1"<#+)#?)./'#&'#-1%)#&)#-)%)#'#5#+'(/'#'(?)B"# 'DF,7"# :7'# ?.'/'+&"# '+-"+/.).# 7%)# *1+6)# ?).)# /7&"=# !-6"# :7'# 3"7# 3"*/).#?).)#)#61(/P.1)#&"#!+&.'5#'#(7)#31),'%#&'#2)*E"=#

!9:;6<8("=>0?9-((D70(C(@(56789(C

S#$G)0,!#0#!#2$>H.#"0#!<,.K*)!)#!#$!-!#-*!5#

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Hornbaekpollen e monacobreen ( -10C ) DIA 9 Balão Ornen A%#*"#&.%#!#7*%%70#"%,!&30#%.#/0#U.!%*&3#'0,0#!/.=0#%'0#Y.7!,#E0!5#Z.#/0#%'0#2,"%#%'!%# '!=0#U.!%0-#'0,0#*&#!#/!77..&5#`._#"..&(#A#_.&-0,(#"'!77#_0#'!=0#"+$$0"".,"D#E'!7# we be thought mad or will our example be followed? I cannot deny that all three of us are dominated by a feeling of pride. We think we can well face death, having done what we have done. Isn’t it all, perhaps, the expression of an extremely strong sense of individuality which cannot bear the thought of living and dying like a man in the ranks, forgotten by the coming generations? Is this ambition? **

** Diário de bordo da expedição de Andrée - entrada de 12 de Julho de 1897.

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DERIVA – kviøya

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Jonathas de Andrade 117


O Levante

A ideia era fazer toda articulação necessária para tornar possível a 1a N.,,*-!#-0#N!,,.>!"#&.#N0&%,.#-!#N*-!-0#-.#a0$*905

Como animais rurais são proibidos no Recife, todos aqueles que se movimentam a cavalo pela cidade são invisibilizados, do ponto de vista &)#*'1=#R"%'+/'#/.)/)+&"#)#-"..1&)#-"%"#7%)#-'+)#?).)#7%#$*%'#Y# ?"&'+&"0#?"./)+/"0#('.#-"+(1&'.)&)#'%#-'./)#%'&1&)#9$-BE"<#Y#5#:7'# "# '3'+/"# ('# /".+).1)# 31A3'*# '# ?"&'.1)# /'.# )(# )7/".1H)BC'(# +'-'((A.1)(# ?).)#)-"+/'-'.#&"#?"+/"#&'#31(/)#"$-1)*=

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Duas coisas sobre a presença dos carroceiros e cavalos em todas as partes da cidade: 1. !"#%'(%"#/'%?"#:7'#'*'(#'(/E"#Q#?)./'#&)#*P,1-)#&'('+3"*31%'+/1(/)# &)#-1&)&'#Z'#&"#I)F([0#"#-"+(/.)(/'#&'#(7)#?.'('+B)#-"%#"#/.S+(1/"0#"# asfalto, as torres de 40 andares e todo um projeto de civilização que vai na sua contramão, os carroceiros e seus cavalos são ecos fortíssimos de .7.)*1&)&'#:7'#)?"+/)%#?).)#)(#".1,'+(#&'(/)#.',1E"=#I"7-"#)#?"7-"0# fui me dando conta que os carroceiros são apenas mais um lastro de um circuito de ruralidade muito maior, que atravessa toda a cidade e :7'# -)..',)# 7%# ?."@'/"# -131*1H)/P.1"# )?"1)&"# '%# "7/."# ?).)&1,%)# Y# ?.P?.1"0#+E">6','%f+1-"0#7%)#?).)>-131*1H)BE"#.7.)*#:7'#-"'D1(/'#+"# `'-1;'#?."/">7.2)+"#&"#l.)(1*#+'"?"/T+-1)#(72&'('+3"*31%'+/1(/)=#RE"# -).."-'1."(#:7'#-)..',)%#.'(/"(#&'#-"%1&)#'#3'.&7.)(#&"(#%'.-)&"(# para os vários pequenos currais em quintais de suas casas em diversos *7,).'(#&)#-1&)&'‚#,'+/'#:7'#('#%"31%'+/)#)#-)3)*"#?'*)#-1&)&'‚#;'1.)(# de cavalo que acontecem durante toda a semana em vários bairros '# -1&)&'(# 31H1+6)(‚# (E"# )(# -"..1&)(# -"%?'/1/13)(# &'# ).,"*1+6)0# )(# -)3)*,)&)(0#'#"#Ramo0#)#,.)+&'#?."-1((E"#&'#-)3)*'1."(#'#-).."-'1."(# :7'#)-"+/'-'#/"&"#$%#&'#)+"=

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2. !"# *)&"# &'(/'# ?)+".)%)0# &"# ?"+/"# &'# 31(/)# &)# *',)*1&)&'0# +)"# 5# ?"((F3'*#/'.#)+1%)1(#.7.)1(#'%#?'.F%'/."#7.2)+"=#`'-1;'0#"$-1)*%'+/'0# é entendida como uma cidade inteiramente urbana, ao contrário de várias outras que combinam trechos rurais com trechos urbanos.

b'(/'#('+/1&"0#/"&"#'(/'#-1.-71/"#.7.)*#5#1*',)*8#)(#-).."B)(0#"(#-)3)*"(0# as feiras, tudo tem de ser invisível aos olhos do poder público e, como )2("*7/)%'+/'#-"+-.'/"0#'D1(/'#+)#%).,1+)*1&)&'#'#("2#-'./"#?)-/"#&'# cinismo.

Sempre achei essa contradição uma loucura bem reveladora das forças '# 1&'"*",1)(# ?.'('+/'(# +)# -1&)&'=# h7# ('@)0# '+/'+&'>('# (1*'-1"()%'+/'# que as leis não precisam ser exatamente cumpridas, mas estão ali para *'%2.).#:7'%#5#"#3'.&)&'1."#&"+"#&)#/'..)#'0#-"%#;)*()#*',1/1%1&)&'#'# democracia de fachada, retirar quem incomode quando bem convier.

121


!#1&'1)#'.)#&).#'D1(/T+-1)#-'*'2.)/P.1)#Q(#-).."B)(#'#)"(#-)3)*'1."(#+7%)# ,.)+&'#/"%)&)#&)#-1&)&'#)/.)35(#&'#7%)#-"..1&)#&'#-).."B)(#+"#-'+/."# &"#`'-1;'=#h#:7'#('.1)#1%?"((F3'*0#&"#?"+/"#&'#31(/)#&)#"$-1)*1&)&'0# /".+)3)>('#?"((F3'*#?".#('.#7%#$*%'#)#('.#,.)3)&"=#h7#('@)0#)#-"..1&)# 'D1(/1.1)#'%#/'.%"(#;F*%1-"(#'#$--1"+)1(#'#?".#1(("#?"&1)#('.#)7/".1H)&)# pela administração da cidade/poder público. Para os carroceiros, ?".# (7)# 3'H0# "# $*%'# ?"7-"# 1%?"./)3)0# "# :7'# 'D1(/1)# -"+-.'/)%'+/'# '.)# )# -"..1&)# '# "(# ?.T%1"(=# !# -"..1&)# ;"1# &137*,)&)0# 'D-*7(13)%'+/'0# )/.)35(#&'#7%#?)+X'/"#+)(#;'1.)(#&'#-)3)*"#'#+)#-.'&121*1&)&'#&"#2"-)# a boca de colaboradores cavaleiros e entusiastas das feiras de cavalo. O ?)+X'/"#)+7+-1)3)#)#&)/)0#"(#?.T%1"(0#"#*"-)*#&'#-"+-'+/.)BE"#'#7%)# +"/)#:7'#"#$*%'#9h#K'3)+/'<#('.1)#,.)3)&"#)*1=

!:710#)#)./'#'.)#"#:7'#/".+)3)#?"((F3'*#"#+P#:7'#)./1-7*)3)#-"+-.'/7&'# '# 1+31(121*1&)&'0# %).,1+)*1&)&'# '# -'*'2.)BE"0# 1%?"((121*1&)&'# '# 1+(7..'1BE"0# 1*',)*1&)&'# '# $-BE"=# J.)# )# )./'# :7'# *)+B)3)# 7%)# ;)F(-)# absolutamente incerta e bastante arriscada que trazia os carroceiros e cavalos para uma corrida pela cidade. E aconteceu.

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d'?"1(#&'#%71/"#)/.)("#'#7%#%'&"#&)+)&"#&'#+E"#)?).'-'.#+1+,75%0# 31'.)%# ‡O# -).."B)(# '# 3A.1"(# -)3)*'1."(# '# /7&"# ,)+6"7# ?."?".BC'(# %)((13)(0#&1;F-1*#&'#-"+/."*).=#i"%#&1$-7*&)&'#&'#%)+'@"#'#".,)+1H)BE"0# )# -"..1&)# )-"+/'-'7# -"%# LO# -).."B)(# :7'# ,)+6).)%# 2"&'(# -"%"# ?.T%1"(=# J# )+/'(# &)# ?.'%1)BE"0# ;"1# ?7D)&"# 7%# -"./'@"# ?'*)# -1&)&'# -"%#/"&"(#"(#?.'('+/'(=#b7%#,.)+&'#2"*"#&'#,'+/'0#-)3)*"0#-).."B)0# todo mundo foi se misturando, subindo nas carroças, nas calçadas, e "#-"./'@"#;"1#,)+6)+&"#-".?"#&'#%)(()#'#)BE"=#!#-)3)*,)&)#-"%'B"7# +"#-)%1+6"#?.'31(/"0#&'?"1(#7%#,)*"?'0#7%)#,.1/).1)0#7%)#)+).:71)0#'# :7)+&"#-6',"7#)#.'/)#&)#)3'+1&)#p7).).)?'(0#,)+6"7#7%#&'('%2'(/"# :7'#;"1#.)(,)+&"#"#-'+/."#+7%)#;'(/)0#;7.)+&"#"#?'.-7.("#".1,1+)*#'# saindo do controle, de uma maneira maravilhosamente autônoma.

h#.1/"#)2'+B")3)#1+31(121*1&)&'#'%#'D1(/T+-1)#-'*'2.)/P.1)=#

h#$*%'#?"7-"#1%?"./)3)#?).)#"(#-).."-'1."(0#'#"#?."@'/"#31."7#?.'/'D/"# &'#,)(/"#&'#31&)#'#/"%)&)#&)#-1&)&'#+7%#,"*?'#'#,)*"?'=#`1(-"7>('# "#-6E"#Y#)#?)/)0#)#;'..)&7.)0#)#2"(/)=#\+-".?".).)%>('#?'.("+),'+(=# !?),"7>('# :7):7'.# ?."/),"+1(%"# &)# ':71?'# '# &1(("*3'.)%>('# '%# %)(()=#W"%"7#Q#;.'+/'#"#-)3)*'1."0#"#)2"1)&".0#)#-).."B)#'%#&1(?).)&)=# V".B)(#31'.)%#Q#/"+)#'%#.'/"%)&)#&'#.5&')(0#.1/%"0#'%2)*"#Y#TD/)('# '# &'("2'&1T+-1)=# h# 2).7*6"# &)(# ?)/)(# &"(# -)3)*"(0# ("2.'# "# )(;)*/"0# %7*/1?*1-)3)%>('#'-")+&"#+"(#?).'&C'(#&"(#?.5&1"(#'#'(?)*6)+&">('# pela cidade. O som silenciava e demarcava o terreiro. Atmosfera de transe em curso. Presença de espírito, incorporação de desejo – Puro Candomblé. O levante passou a ser mais do atravessamento sensorial '#-".?P.'"#:7'#(P#&)#;".%7*)BE"#?"*F/1-)0#'#"#?."@'/"#,)+6"7#+"3"#

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('+/1&"#)#?)./1.#&'#(7)#?.P?.1)#.'1+3'+BE"=# J#+'(/'#&'(,"3'.+"#/"&"0#"#%)/'.1)*#$*%)&"#3'1"#%).-)&"#-"%#/"&)# ("./'#&'#1%?.'31(121*1&)&'0#:7'#),".)#'&1/"#'%#7%)#31&'"1+(/)*)BE"#'# um dossie-fotodocumentação.

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Luiz Roque 127


!

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Clube Amarelo

Roteiro de vídeo de curta duração 2o11-2o13

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Mapa da América do Sul, 2075 Ilustração do editor

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CLUBE AMARELO | CONTEXTO HISTÓRICO | ANO 2075

2014# !?P(# (7-'((13)(# /'+/)/13)(0# ('%# (7-'(("0# &'# .'-7?'.)BE"# &'# economias de países membros como Grécia e Espanha, a União Européia se desfaz causando a extinção da moeda Euro. A iniciativa ?."3"-)# '+".%'# -.1('# +"# -"+/1+'+/'0# *'3)+&"# ,.)+&'# ?)./'# &)(# +)BC'(#?'./'+-'+/'(#)"#)+/1,"#2*"-"#)#.'-"..'.'%#)#7%#'%?.5(/1%"# bilionário, e à altas taxas de juros, ao recém criado BRICS BANK, ".,E"#%"+'/A.1"#1+/'.+)-1"+)*#-.1)&"#'#,'.1&"#?'*"(#;7+&)&".'(#l.)(1*0# `G((1)0#„+&1)0#i61+)#'#ˆ;.1-)#&"#R7*= 2016#`''*'1/"#?'*)#(',7+&)#3'H0#)?P(#)?."3)BE"#&'#*'1#:7'#?'.%1/'#)# um presidente a possibilidade de um terceiro mandato consecutivo, l).)v#h2)%)#5#)(()((1+)&"#+"#W'D)(=#i'.-)#&'#‡O†#&"(#/'(/'(#antidoping#&"(#)/*'/)(#?)./1-1?)+/'(#&)#•L)=#J&1BE"#&"(##^","(#h*F%?1-"(0# ('&1)&"(#+)#-1&)&'#&"#`1"#&'#^)+'1."0#)-7().)%#)*,7%#/1?"#&'#&.",)# '(/1%7*)+/'=#h#;)/"#)/.)("7#)#.')*1H)BE"#&"(#^","(#'%#•#%'('(#'%#7%)# &'-1(E"#1+5&1/)#&"#i"%1/T#h*F%?1-"#\+/'.+)-1"+)*#Zih\[=

2020#b)#.'7+1E"#)+7)*#&"#puy`G((1)0#'(/.)/',1-)%'+/'#".,)+1H)&)# na cidade russa de Omsk, os BRICS, convidados especiais da reunião, &1(("*3'%# "# ,.7?"# ?".# '+/'+&'.'%# :7'# '(()(# '-"+"%1)(# '(/E"0# '%# ,.)+&'#?)./'0#&'?'+&'+/'(#&)#+"3)#(1,*)=#94"+)#K1()<0#&'#K'"+).&"#&)# a1+-10#&'1D)#"#K"73.'#'#?)(()#)#1+/',.).#"#)-'.3"#&"#47('7#U'.%1/),'# '%#RE"#I'/'.(27.,"#+)#`G((1)=#h#3)*".#&)#/.)+()BE"#,1."7#'%#/".+"# &'#]‰#ƒ0q#21*6C'(=#

2024#!#i61+)#5#)#%)1".#'-"+"%1)#&"#%7+&"#(',71&)#?'*"(#J(/)&"(# ]+1&"(0# ^)?E"# '# ?'*)(# *'/.)(# l0# `# '# \# &)# (1,*)# l`\iR=# h# J(/)&"# &)# Palestina é reconhecido por 192 dos 193 países membros da ONU. h#-)()%'+/"#'+/.'#?'((")(#&"#%'(%"#('D"#5#?'.%1/1&"#'%#uL†#&"(# ?)F('(#&"#,*"2"#-"%#'D-'BE"#&)#ˆ;.1-)=

131


2033# b"3)(# &.",)(0# /.)/)%'+/"(# ?.'3'+/13"(# '# "# &"%F+1"# &)# %)+1?7*)BE"#&)(#-5*7*)(>/."+-"#)7%'+/)%#'%#-'.-)#&'#•O†#"#+G%'."# de pessoas centenárias em relação ao início do século. O Brasil entra ?).)#)#hIJI#Zh.,)+1H)BE"#&"(#I)F('(#JD?"./)&".'(#&'#I'/.P*'"[=

2041#m#&'(-"2'./"#7%#+"3"#3F.7(#:7'#-)7()#1%7+"&'$-1T+-1)#'#:7'# é passível de transmissão através da saliva humana. A cidade de Meca, +)#!.A21)#R)7&1/)0#/".+)>('#.';'.T+-1)#6".A.1)#%7+&1)*0#(72(/1/71+&"#"# (1(/'%)#*"+&.1+"#p4W#'#.'-"+$,7.)+&"#/"&"#"#;7("#6".A.1"#/'..'(/.'=

2050#J(/)&"(#]+1&"(#'#45D1-"#('#7+1$-)%#'%#7%#(P#?)F(#?)(()+&"# a se chamar América. No mesmo ano, e com forte apoio militar )%'.1-)+"0#)#i".51)#&"#R7*#1+3)&'#)#?".BE"#+"./'>-".')+)#'#.'7+1$-)# "(#?)F('(#:7'#),".)#('#-6)%)#W6'#]+1/'&#w".')=#!#-1&)&'#&'#I"./"# !*',.'0#)"#(7*#&"#l.)(1*0#?)(()#)#.',1(/.).#/'%?'.)/7.)(#%5&1)(#)-1%)# dos 50o C no verão.

2065 América, juntamente com a mineradora indiana Guhpka, funda a primeira colônia extra-terrestre na Lua. A companhia aérea Fly Emirates# '# )# b!R!# *)+B)%# 7%)# ;."/)# )5.')# -"%'.-1)*# ?).)# 31),'+(# '(?)-1)1(=#!#V7+&)BE"#p7,,'+6'1%#)2.'#7%#+"3"#%7('7#&'&1-)&"#Q# )./'#-"+/'%?".S+')#+)#)+/1,)#-)?1/)*#+"./'>-".')+)#Is"+,s)+,=

2070# h# *)2".)/P.1"# I$H'.# *)+B)# 9g<0# 7%# -"%?"+'+/'# :7F%1-"# )*7-1+P,'+"#:7'#(1%7*)#)#('+()BE"#&'#('D"=#!#&.",)#5#?."121&)#N#)+"(# %)1(#/).&'#?'*)#h.,)+1H)BE"#47+&1)*#&'#R)G&'#Zh4R[#("2#)#)*',)BE"# &'# -)7().# &'?'+&T+-1)# :7F%1-)=# d'(&'# '+/E"0# %1*6).'(# &'# ?'((")(# (',7'%#-"+(7%1+&"#)#&.",)#&'#;".%)#1*',)*=

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CLUBE AMARELO  vídeo | p&b e cor | 6 min.| roteiro Luiz Roque CENA 1 – EXTERNA – NOITE ­ AÉREA – PRETO&BRANCO  – 16mm  Fumaça  branca  em  movimento  descortina  uma  grande  cidade  em  visão  aérea  noturna.  Não  é  !"##$%&'()&*+,-(!-.),"#("/(-/0#(1"2(+,3,)&45( apenas pontos de luz que desenham uma planta  arquitetônica. Em off5(6"/%&7#&(/20(%"4(16,0)0( vinda  da  cabine  do  piloto  informando  que  a  cidade  é  São  Paulo  e  que  a  temperatura  no  momento é de 43ºC.  Sobre  a  imagem  da  imensa  cidade  em  preto  &  branco  lê­se  o  título  do  vídeo  em  letras  amarelas: “Clube Amarelo”.  CENA 2 – ANIMAÇÃO – COR – Vídeo 8"9-&( /20( ,20:&2( :-;*10( )"( 20!0( )"#( <#30)"#( Unidos  onde  vemos  uma  grande  quantidade  de  aviõezinhos  aglomerados  em  círculos  em  0':/+#( !"+3"#( )"( 20!05( "/%&7#&( /2( #"2( off:    “Directamente  de  la  ciudad  independiente  de  =/&%0( >"-?( !0-0( 3")"( &'( 2/+)"5( =&@#( )&'( AB( C/&+"#(),0#5(6"D(&#(EF()&()&1,&29-&()&(EFGHIJ( Toda esta sequência é ilustrada por imagens que 

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remetem ao visual dos games dos anos oitenta  e sonorizada pela locução de um apresentador  que  narra  as  notícias  em  espanhol.  Na  parte  ,+K&-,"-()"(L/0)-"5(0#(+"3$1,0#(#M"(3-0)/4,)0#( rapidamente em uma barra de rolagem horizontal  !0-0("#(,),"20#(,+:'N#5(-/##"(&(20+)0-,2J

Som

Imagem

Local: Uma  sequência  de  desastres  aéreos  assola  os  E.U.A  devido  ao  intenso  3-;*1"J( O( L/0-3"( 0&-"!"-3"( )&( ="%0( >"-?5( MOIA﴾Michele  Obama International Airport﴿5( 1"+#3-/$)"( &2( EFHH( P;( #"20( 20,#( )&( HFF( %$3,20#( &2( Q( meses; 

Mapa dos E.U.A ilustrando o  1"+:&#3,"+0)"(3-;*1"(0.-&"J( Centenas de aeronaves formam  grandes espirais sobre alguns  pontos  do  mapa.  A  imagem  #&( 0##&2&'60( 0"#( :-;*1"#( ilustrativos  de  furacões  e  tornados. 

R/'3/-0S( <2( 0'/#M"( 0"#( EH( 0+"#()0(/+,*10TM"()"#(<JUJV( &(W.X,1"5("(MoMa realiza uma  polêmica exposição ﴾“A map is  a joke”﴿ com a participação  de um artista porto­riquenho  que  apresenta  uma  animação  em  vídeo  onde  mostra  como  0( 1"2/+,)0)&( :0D( &X!/'#"/( tradicionais  etnias  da  ilha  de  Manhatann  ao  logo  dos  Y'3,2"#(ZFF(0+"#J(

Mapa da  ilha  de  Manhattan  ilustrando  o  “domínio”  da  1"2/+,)0)&( :0D( +0( -&:,M"J( Uma  bandeira  arco­íris  vai  ocupando  o  lugar  de  bandeiras  de  outros  países  em  determinadas  regiões  da  ilha.  Manhattan  está  quase  toda ocupada por bandeirinhas  arco­íris.  

Mundo: Após  extenso  leilão  Mapa  da  América  do  Sul  !-"2"%,)"( !&'0( [-0+T05( &( ,'/#3-0+)"( 0( 1"+*:/-0TM"( 2&),0)"( !&'0( O=U5( "( C-0#,'( 3&--,3"-,0'J(\%&-(!;:J(Z]F^J consegue anexar o território  da Guiana Francesa. 

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Comerciais

_":"3,!"()"(R0+0'(AJ

Comercial: “En comemoración a  '"#(ZEH(0`"#()&(#/(1-&0)"-05( la  Versace  hará  un  special  tourB Donatella  Versace  estará  en  vivo para el lanzamiento de  la nueva colección. Solamente  en la región del BRICS”.

8"9-&( /2( K/+)"( !-&3"5( Donatella Versace  aparece  3-0P0+)"(/20(-"/!0(9-,'6"#0( e sentada em uma cadeira de  rodas  dourada  (colagens  de  ,20:&+#^J( V( !0'0%0( CabR8( é  ilustrada  por  pesadas  '&3-0#(:0--0K0,#J(O#()&#*'&#( exclusivos  da  marca  irão  passar  pelas  cidades  de  8M"( c0/'"5( W"#1"/5( W/290,5( Xangai e Cidade do Cabo. 

Trilha musical suave.

Previsão do  tempo:  Sobre  a  imagem  do  Louvre    vemos  o  letreiro  “Paris”  e  a  3&2!&-03/-0S7EAdRJ(<2(#&:/,)0( vemos  o  Museu  Guggenheim  espanhol. “Bilbao”: ­ 19ºC.  Logo após a versão americana  )"(2/#&/J(e=&@(>"-?IS(7(]QdRJ( c"-( *2( #"9-&( 0( ,20:&2( )"( WV8c5(e80"(c0/'"IS(f]dRJ

CENA 3 ­ INTERNA – DIA ­ CLUBE AMARELO – COR  ­ Vídeo O(-"#3"()&(/20(2/'6&-J(<'0(.(P"%&2(\1"2(,)0)&( &+3-&(EH(&(]F(0+"#^(&(&#3;()&,30)0(#"9-&(/20( cadeira  tipo  espreguiçadeira.  Um  homem  negro  135


&#3;(0P"&'60)"(g(#/0(K-&+3&(1"2(0(109&T0(&+3-&( #/0#( !&-+0#J( h,#,%&'2&+3&5( 0( 2/'6&-( #&+3&( muito prazer.  Ela  usa  algo  semelhante  a  um  3-0P&()&(+030TM"S(top e óculos.  O  “Clube  Amarelo”  é  uma  espécie  de  sauna  banhada por uma intensa e uniforme luz amarela.  a&30+:/'0-5( +M"( 3&2( +&+6/20( P0+&'05( 1"+30+)"( 0!&+0#(1"2(/2(P0-),2()&(,+%&-+"(0"(K/+)"(&(/2( corredor de acesso na face oposta. O ambiente  !"##/,( !"/1"#( &'&2&+3"#5( )&( /2( '0)"( &#3M"( ),#!"#30#5(&2(#.-,&5(%;-,0#(&#!-&:/,T0)&,-0#(&( +0(!0-&)&("!"#30(6;(#"2&+3&(/20(*+0(&(1"2!-,)0( superfície  branca  encardida  que  serve  de  !-03&'&,-0J(V1,20()&#30(90#&5(',+60#()&(+."+( amarelo  desenham  uma  montanha  e  um  sol  com  três  arcos  crescentes  que  alternam  sua  luz  simulando movimento. O rosto da mulher se contrai de prazer. CENA 4 ­ INTERNA – DIA ­ CLUBE AMARELO – COR  ­ Vídeo Uma densa fumaça branca toma conta de toda a  imagem.  A névoa diminui bruscamente nos mostrando um  6"2&2( 1"2( ,)0)&( &+3-&( EH( &( ]F( 0+"#J( O( 6"2&2( &#3;(1"2("(!&,3"(+/(&(%&#3&(/2(10'TM"()&(*9-0( sintética  monocromática  acompanhado  de  uma  pequena bolsa. 

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Ele caminha pelo corredor de acesso ao “Clube  Amarelo”.  <2( /2( !&L/&+0( 3&'0( _Ri( '"10',40)0( +"( *2( )"( 1"--&)"-(%&2"#(0#(!-&%,#j&#()"(3&2!"()"(*+0'( da cena 2.  No  espaço  banhado  de  luz  amarela  repousa  a  2/'6&-(\1&+0(]^(#"4,+60(&(0)"-2&1,)0J O homem chega ao clube e dá uma rápida conferida  na  presença  da  mulher.  Ele  se  aproxima  da  !-03&'&,-05(1"'"10+)"(#/0(9"'#0(0',J(V!k#(9-&%&( 0'"+:02&+3"5("(6"2&2(-&3,-0(/2(&#3"P"(&(/2(!0-( de  óculos  de  mergulho  de  dentro  da  bolsa.  O  &#3"P"( 1"+3.2( 3029.2( /20( &#!.1,&( )&( 10+&305( em  que  é  possível  notar  um  logotipo  com  a  ,+#1-,TM"(elI5(1"2(/20(*+0(0:/'60(&29/3,)0(&2( uma das extremidades. Enquanto ele manuseia o  "9P&3"5("'60(/20(#&:/+)0(%&4(!0-0(0(2/'6&-(g#( suas costas. A luz do néon amarelo ilumina seu  1"-!"(&+L/0+3"(&'&(0!',10("("9P&3"(&2(/2()"#( 9-0T"#J(O(6"2&2(:/0-)0("(/3&+#$',"(+0(9"'#05( coloca seus óculos e se dirige ao assento mais  distante ao da mulher. Ele deita e observa o  lento movimento dos arcos crescentes em néon  na parede oposta. R<=V(H(m(<no<a=V(m(ibV(m(caVbV(m(ROa(7(ZQ22 O homem desperta em uma linda praia deserta.  Ele  conserva  a  mesma  posição  que  o  vimos  da 

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Y'3,20( %&4J( V"( #&/( '0)"5( /2( 1016"--"( !&'/)"( arfa sob  o  sol  forte.  A  paisagem  é  divida  entre o azul do mar e o tom dourado da areia.  V"('"+:&("9#&-%02"#(/2(#&:/+)"(6"2&2(\P"%&25( 1"-!"(03'.3,1"^(L/&(#0,()"(20-(1"2(3-0P&#()&( banho.  <'&( #&( 0!-"X,20( )&( +"##"( !&-#"+0:&25( "( L/0'( está deitado como se tomasse banho de sol. Ao  !&-1&9&-("(2"%,2&+3"(&2(#/0(),-&TM"5("(6"2&2( #&( !j&( &2( !.5( *10+)"( K-&+3&( 0( K-&+3&( 1"2( "( outro. V!k#(/20(3&+#0("9#&-%0TM"(2Y3/0()"#(1"-!"#5("#( rostos quase se tocam. 8/9,302&+3&5("(#&:/+)"(6"2&2(1"#!&(+0(10-0()"( outro.  A saliva escorre entre o nariz e a boca. W/,3"( !-kX,2"( &( &2( 1p2&-0( '&+305( %&2"#( /2( pênis ereto prestes a gozar.  <P01/'0TM"J                                                            FIM

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!,.)&'B"#)#/"&"(#):7'*'(#)./1(/)(#:7'#'(/13'.)%#'+3"*31&"(#&1.'/)%'+/'# na construção deste livro, em especial, aos autores: Alessandra Giovanella, Cristina Ribas, Cristiano Lenhardt, Fernanda Gassen, Jonathas de Andrade, Letícia Ramos e Luiz Roque. i"%#)#%'(%)#1+/'+(1&)&'0#("7#,.)/"8 ... Q#4).1+)#I"*1&"."0#?'*"#-71&)&"#+"#?."@'/"#,.A$-"#&'(/'#*13."= ... à Rita Cavalcante, pela primeira leitura de meu texto. ... à Fernanda, por todos os dias.

Este projeto foi contemplado pelo Edital Conexão Artes Visuais Minc/Funarte/Petrobras 2012, por meio da Lei de Incentivo à Cultura, o qual tornou possível a sua plena .')*1H)BE"#)"#*"+,"#&"#?.1%'1."#('%'(/.'#&'#NOL•=


i"?s.1,6/#Š#41-6'*#gPH1%"0#!*'(()+&.)#p1"3)+'**)0#i.1(/1+)#`12)(0#i.1(/1)+"# Lenhardt, Fernanda Gassen, Jonathas de Andrade, Letícia Ramos e Luiz Roque, 2013. Editores: Camila Cornutti e Marco de Menezes I."@'/"#p.A$-"8#4).1+)#I"*1&"."#'#41-6'*#gPH1%"0#-"%#"(#)./1(/)( `'31(E"8#41-6'*#gPH1%" 2013 Impresso no Brasil Y,*&%0-#*&#P,!;*7

##d)&"(#\+/'.+)-1"+)1(#&'#i)/)*",)BE"#+)#V"+/'#Zi\I[ ##`ƒuN)######`"-6)0#41-6'*#gPH1%"#&) # #####!((1%#:7'#;".#'&1/)&"0#*6'#'+31"#_#h.,)+1H)BE"#&'#41-6'*### ##################gPH1%"#&)#`"-6)=‹I"./"#!*',.'#8##4"&'*"#&'#b73'%0#NOL•= 144 p. : il. ISBN: 978-85-63057-21-1 ########################L=#!./'#i"+/'%?".S+')=#\=#WF/7*" 13/25 1. Arte Contemporânea 7.036 ##i)/)*",)BE"#'*)2".)&)#?'*)#212*1"/'-A.1) Maria Nair Sodré Monteiro da Cruz CRB10/904

Editora Modelo de Nuvem Ltda. Rua Martins de Lima, 25/602 - 91520-00 I"./"#!*',.'#Œ#`R }}}=%"&'*"&'+73'%=-"%=2. d1(/.1271BE"#,.)/71/)0#?."121&)#)#3'+&)=

CDU: 7.036


Este livro foi composto em Garamond e Myriad Pro '#1%?.'(("#'%#?)?'*#I"*'+#l"*&#MO,_%2 ?'*)#p.A$-)#I)**"//1= 700 exemplares I"./"#!*',.' outono de 2013


Michel Z贸zimo

茅 artista, pesquisador e professor. Nasceu em Santa Maria, em 1977. Vive e trabalha em Porto Alegre. ideiasquenaoderamcerto@gmail.com


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LIvro de escritos de artistas organizado por Michel Zozimo. Participam, Leticia Ramos, Luiz Roque, Cristiano Lenhart , Jonathas de Andrade ,...

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